Vous êtes sur la page 1sur 198

UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PETRÓPOLIS FACULDADE DE EDUCAÇÃO MESTRADO EM EDUCAÇÃO

COM GIZ E LAPTOP:

O PROJETO CONEXÃO PROFESSOR E A PRÁTICA PEDAGÓGICA

ADRIANO VARGAS FREITAS

Petrópolis, RJ - setembro de 2009

UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PETRÓPOLIS FACULDADE DE EDUCAÇÃO MESTRADO EM EDUCAÇÃO

COM GIZ E LAPTOP:

O PROJETO CONEXÃO PROFESSOR E A PRÁTICA PEDAGÓGICA

Dissertação apresentada ao curso de Mestrado

em Educação da Universidade Católica de

Petrópolis como requisito parcial para

obtenção do título de Mestre.

Mestrando Adriano Vargas Freitas

Orientadora:

Prof. a Dr. a Lígia Silva Leite

Petrópolis

2009

F866c

Freitas, Adriano Vargas. Com giz e laptop : o projeto Conexão Professor e prática pedagógica. / Adriano Vargas Freitas. Petrópolis : Universidade Católica de Petrópolis, Mestrado em Educação, 2009.

194p.

Orientadora : Lígia Silva Leite.

Dissertação apresentada ao curso de Mestrado em Educação da Universidade Católica de Petrópolis como requisito parcial da obtenção do título de Mestre, 2009.

1. Tecnologias da informação. 2. Comunicação. 3. Alfabetização tecnológica do professor. 4. Projeto Conexão Professor. I. Leite, Lígia Silva. II. Com giz e laptop.

CDD 370

Bibliotecária Responsável : Antonieta Chinelli Souto.

UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PETRÓPOLIS

Faculdade de Educação Curso de Mestrado em Educação

COM GIZ E LAPTOP:

O PROJETO CONEXÃO PROFESSOR E A PRÁTICA PEDAGÓGICA

Mestrando: Adriano Vargas Freitas Orientadora: Prof. a Dr. a Lígia Silva Leite

Petrópolis, 28 de setembro de 2009

Banca Examinadora:

Prof. a Dr. a Lígia Silva Leite

Prof. a Dr. a Maria Celi Chaves Vasconcelos

Prof. a Dr. a Lia Ciomar Macedo de Faria

DEDICATÓRIA

Por todo o apoio nas muitas horas em que estive envolvido nesta pesquisa, pela presença (ou lembrança) que conforta, pelo incentivo incessante, este trabalho dedico a vocês:

Aos meus pais Abel José Vargas Freitas e Isis Vargas Freitas (in memoriam). Uma singela homenagem como forma de retribuir o amor incondicional com que me cercaram. Obrigado pela educação, pelo incentivo e carinho.

A Sidnei Percia da Penha pelo companheirismo e cumplicidade constante. Mais uma vez me fez acreditar que era possível.

À minha mestra e orientadora, Dra. Lígia Silva Leite que desde o primeiro instante acreditou na viabilidade desta empreitada. Mesmo nos momentos em que tudo parecia incerto, transmitiu-me força, paciência e determinação. Obrigado por tudo que me ensinou e por todo o convívio afetivo.

AGRADECIMENTOS

Agradeço a Dra. Maria Celi Chaves Vasconcelos pelas contribuições imprescindíveis para a construção desta pesquisa. Obrigado pelas valiosas sugestões bibliográficas e pelas ideias relacionadas à pesquisa nos meandros das políticas públicas.

Agradeço a Marcelo Monteiro Bandeira por toda a demonstração de amizade e companheirismo. Obrigado pelas leituras, sugestões e pelo inestimável apoio em todas as etapas de construção deste trabalho.

Agradeço

a

Dra.

Vera

Qualificação desta pesquisa.

Rudge

Werneck

pela

participação

no

Exame

de

Agradeço ao Dr. Antônio Flávio Barbosa Moreira e aos demais professores do curso de Mestrado em Educação da Universidade Católica de Petrópolis, pelo carinhoso acolhimento.

Agradeço a Ana Paula de Oliveira Brito e Daise das Neves Mussel por proporcionarem valiosos subsídios relacionados à nossa pesquisa documental. Obrigado por todo o apoio.

Agradeço ao professores Rodrigo Ventura e Guilherme Hartung, cujas entrevistas nos serviram para conhecer pioneiros projetos petropolitanos relacionados ao uso de novas tecnologias no ambiente escolar.

Agradeço ao demais professores que participaram desta pesquisa, respondendo a questionários, concedendo entrevistas e oferecendo sugestões.

Agradeço aos meus colegas de curso pelo companheirismo e incentivo: Alberto Alvarães, Lenise Souza, Arcanjo Delguel, Ana Cecília, Vanildes Vieira, Valéria Regina e tantos outros que se fizeram presentes em diversos momentos desta caminhada.

RESUMO

COM GIZ E LAPTOP:

O PROJETO CONEXÃO PROFESSOR E A PRÁTICA PEDAGÓGICA

O presente estudo trata da análise sobre a prática pedagógica dos professores da rede estadual de ensino do Rio de Janeiro a partir da implementação do projeto Conexão Professor. Tal projeto, desenvolvido e implementado pela Secretaria de Educação deste estado, consistiu na entrega inicial de 31000 laptops em regime de comodato aos docentes da rede. Através de ampla análise documental, foi possível acompanhar o caminho percorrido pelo projeto e os debates que o envolveram, realizados na Alerj e no Sindicato dos professores. A base teórica utilizada na análise de alguns elementos que influenciam diretamente a prática pedagógica dos profissionais da educação encontra-se nos trabalhos de Sampaio e Leite, Sancho e Hernández, Lévy, Freire dentre outros autores. Para a pesquisa de campo, selecionamos uma escola situada na cidade de Petrópolis-RJ, na qual desenvolvemos um levantamento de campo (survey) através da aplicação de questionários a vinte e sete professores que receberam o laptop. Os dados obtidos nesses questionários nos serviram de base para a seleção de dois informantes-chave que foram entrevistados. São apresentadas ainda mais quatro entrevistas com outros profissionais da Educação cujos posicionamentos e ideias auxiliaram no entendimento de pontos relacionados ao uso das novas tecnologias no ambiente escolar. Uma das conclusões possíveis é a crescente percepção de que o uso de novas tecnologias pode facilitar e ampliar o trabalho docente, tornando-o mais colaborativo; mas é imprescindível que seja oferecida a esse docente uma capacitação para a utilização de forma crítica e autônoma desses recursos.

Palavras-chave: Tecnologias da Informação e Comunicação, Alfabetização Tecnológica do Professor, Projeto Conexão Professor.

ABSTRACT

USING CHALK AND LAPTOP: THE PROJECT “CONEXÃO PROFESSOR” AND THE PEDAGOGICAL PRACTICE

This study presents an analysis of the pedagogical practice of teachers from public school in the state of Rio de Janeiro since the project “Conexão Professor” was implemented. This project, developed and carried out by the Rio de Janeiro Board of Education, consisted of initially delivering 31000 laptops to their teachers, through a lending scheme. By a thorough analysis of documents, it was possible to observe the development of the project and the debates on it, which took place at Allerj and the Union of teachers. In order to analyse some elements that have a direct influence on the professional’s pedagogical practice, we based our study on Sampaio and Leite, Sancho and Hernández, Levi, Freire’s Works, among other author’s. A public school in Petrópolis was selected for the field survey and twenty-seven of their teachers who received the laptop were selected to reply to a questionnaire. The data obtained from the survey provided us with means to select two important informers, who were chosen to be interviewed. This study also includes four more interviews with educators whose ideas and opinions helped us understand aspects involving the use of technology at school. It was possible to conclude the there is a growing awareness of how technology can facilitate and enrich the teacher’s work, also making it more collaborative; however, it is essential that these teachers be given systematic training so that they will be prepared to use these resources in an independent and critical way.

Key words: Information and Communication Technologies, Technology Literacy of Teachers, Project “Conexão Professor”.

LISTA DE SIGLAS

ABE - Associação Brasileira de Educação ABI - Associação Brasileira de Imprensa ABL - Academia Brasileira de Letras ABMES - Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior ABT - Associação Brasileira de Tecnologia Educacional ALERJ - Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro ANDHEP - Associação nacional de Direitos Humanos, Pesquisas e Pós-Graduação ANFOPE - Associação Nacional pela Formação de Profissionais da Educação APE - Associação Petropolitana de Estudantes APERJ - Associação dos Professores do Estado do Rio de Janeiro CAPES - Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior CdTE - Coordenação de Tecnologia Educacional CEDERJ - Centro de Educação a Distância do Estado do Rio de Janeiro CEE - Conselho Estadual de Educação do Rio de Janeiro CEP - Centro de Professores do Rio de Janeiro CNE - Conselho Nacional de Educação CNTE - Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação CPI - Comissão Parlamentar de Inquérito CTI - Ciência, Tecnologia e Inovação DOM-RJ - Diário Oficial do Município do Rio de Janeiro ENEM - Exame Nacional do Ensino Médio ETIC - Encontro de Educação e Tecnologias da Informação e Comunicação FUNDEB - Fundo de manutenção e Desenvolvimento da Economia Básica GESAC - Governo Eletrônico e Serviço de Atendimento ao Cidadão GLP - Gratificação por Lotação Prioritária GSM - Sistema de padrão Móvel Global GT - Grupo Temático

ICMS - Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IDH - Índice de Desenvolvimento Humano

INEP - Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa Educacionais Anísio Teixeira LDB - Lei de Diretrizes e Bases da Educação MEC - Ministério da Educação e Cultura MERLIN - Monitoring and Evaluation of Research in Learning Innovations

MSN

ONG - Organização não Governamental PCI - Projeto Computadores para Inclusão PDE - Programa de Desenvolvimento da Educação PNUD - Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento PRODERJ - Centro de Tecnologia da Informação e Comunicação do Est. Rio de Janeiro PROINFO - Programa Nacional de Informática na Educação SAEB - Sistema de Avaliação da Educação Básica SEEDUC - Secretaria de Estado de Educação do Rio de Janeiro SEP - Sociedade Estadual dos Professores SEPE-RJ - Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação do Rio de Janeiro SMS - Short Message Service TIC - Tecnologias de Informação e Comunicação UBES - União Brasileira de Estudantes UDIME-RJ - União dos Dirigentes Municipais de Educação do Rio de Janeiro UNESCO - Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura UPERJ - União dos Professores do Rio de Janeiro UPPES - União dos Professores Públicos do Estado

- Microsoft Network

LISTA DE FIGURAS

 

Pág.

Figura 1

- Número e percentual de matrículas em toda a rede de Ensino Médio do Estado do Rio de Janeiro, por dependência administrativa

62

Figura 2

- Funções docentes de acordo com a abrangência administrativa

66

Figura 3

- Distribuição das idades dos professores que participaram da pesquisa

99

Figura 4

- Número de anos trabalhados na rede estadual de ensino

101

Figura 5

- Carga horária semanal dos professores em sala de aula

102

Figura 6

- Opinião dos professores sobre a eficácia dos cursos de capacitação para o uso do computador oferecidos pela SEE-RJ

104

LISTA DE TABELAS

 

Pág.

Tabela 1

- Proporção de professores, segundo a frequencia de realização de outras atividades

45

Tabela 2

- Proporção de professores, por renda familiar mensal, segundo a existência de computador em casa

46

Tabela 3

- Proporção de professores, por dependência administrativa da escola, segundo opinião sobre temas a serem tratados na escola

46

Tabela 4

- Proporção de professores, por renda familiar mensal, segundo opinião sobre os efeitos das novas tecnologias de informação sobre a educação

47

Tabela 5

- Estabelecimentos com Ensino Médio - Ano 2006

63

Tabela 6

- administrativa, segundo a região geográfica e a unidade da Federação, em 29/03/2006

exercício, por dependência

Número

de

funções

docentes

em

65

Tabela 7

- Número de funções docentes por níveis de ensino

66

Tabela 8

- Funções docentes / níveis de formação

 

67

Tabela 9

- Disciplinas ministradas pelos docentes

99

Tabela 10

- Distribuição dos docentes por áreas de conhecimento

100

Tabela 11

- Indicações dos professores sobre o que é necessário para que haja a inclusão de novas tecnologias em sua prática pedagógica

106

Tabela 12

- Indicações dos professores sobre os motivos de nunca utilizar o laptop nas tarefas docentes em sala de aula

108

Tabela 13

- Indicações dos professores sobre as principais atividades realizadas em sala de aula em que utilizam o laptop

109

Tabela 14

- Indicações dos professores sobre vantagens que tem verificado em seu trabalho pedagógico a partir do uso do laptop com acesso à internet

110

Tabela 15

- Indicações dos professores sobre vantagens que tem verificado em seu trabalho pedagógico a partir do uso do laptop com acesso à internet - Respostas agregadas

111

Tabela 16

- Indicações dos professores sobre o grau de importância do uso do laptop no desenvolvimento das atividades pedagógicas

112

Tabela 17

- Indicações dos professores sobre o quanto costuma utilizar o laptop em suas tarefas docentes fora de sala de aula

113

Tabela 18

- Indicações dos professores sobre as principais atividades docentes

- Indicações dos professores sobre as principais atividades não docentes

Tabela 19

realizadas fora de sala de aula em que utilizam o laptop

em que utilizam o laptop

113

114

Tabela 20

- Dados da questão 21 do questionário, Afirmativa 1

115

Tabela 21

- Dados da questão 21 do questionário, Afirmativa 2

116

Tabela 22

- Dados da questão 21 do questionário, Afirmativa 3

116

Tabela 23

- Dados da questão 21 do questionário, Afirmativa 4

117

Tabela 24

- Dados da questão 21 do questionário, Afirmativas 5 a 8

118

Tabela 25

- Dados da questão 21 do questionário, Afirmativa 9

118

Tabela 26

- Dados da questão 21 do questionário, Afirmativa 10

119

Tabela 27

- Dados da questão 21 do questionário, Afirmativas 11 e 12

120

Tabela 28

- Dados da questão 21 do questionário, Afirmativa 13

120

Tabela 29

- Dados da questão 21 do questionário, Afirmativa 14

121

Tabela 30

- Dados da questão 21 do questionário, Afirmativas 15 e 16

121

SUMÁRIO

CAPÍTULO 1 - INTRODUÇÃO

1.1 Considerações iniciais

-

1.2 A sociedade tecnológica

-

1.3 Objetivos, metodologia e justificativa de nossa pesquisa

-

Pág.

18

21

24

CAPÍTULO 2 - A EDUCAÇÃO E A ESCOLA NA SOCIEDADE TECNOLÓGICA

2.1 Formar o cidadão globalizado e incluído na sociedade tecnológica

-

2.2 Novos currículos para escolas interativas

-

2.3 Projetando uma escola onde caiba o mundo

-

2.4 O professor brasileiro e a sociedade tecnológica

-

2.5 Homo Sapiens, Homo Faber ou Homo Zappiens?

-

2.6 As políticas públicas e os novos papéis do professor

-

30

34

38

44

50

53

CAPÍTULO 3 - O PROJETO CONEXÃO PROFESSOR

3.1 Breve panorama das escolas e dos professores da rede estadual de ensino do Rio de Janeiro

-

3.2 Conexão Professor: implementação do projeto, história e embates

-

3.3 A reação do Sindicato Estadual dos Profissionais da Educação do Rio de Janeiro ao projeto Conexão Professor

-

3.4 Algumas vozes, no Plenário e no Governo

-

3.5 A voz do Professor

-

60

71

80

84

88

CAPÍTULO 4 - PESQUISA DE CAMPO

4.1

-

Características da Escola selecionada

95

4.2

-

Primeira parte da pesquisa de campo: Questionários

96

4.3

-

Análise dos dados colhidos nos questionários

98

4.4

-

Segunda parte da pesquisa de campo: Entrevistas

123

4.4.1

-

Entrevista: Professor 13

125

4.4.2

-

Entrevista: Professor 6

129

4.4.3

-

Entrevista: Professor que não recebeu o laptop seguindo determinação do SEPE

132

4.4.4

-

Entrevista: Diretora da unidade escolar

138

4.4.5

-

Entrevista extra: Professor Rodrigo e o projeto “Quadro Digital”

141

4.4.6

-

Entrevista extra: professor Guilherme e o projeto “Fractais Multimídia”

145

4.5

-

Considerações a respeito das entrevistas

149

CAPÍTULO 5 - CONCLUSÕES E ALGUMAS RECOMENDAÇÕES

152

5.1 Quais foram os objetivos traçados pela SEEDUC-RJ ao desenhar o projeto de entrega de laptops aos professores de sua rede?

-

154

5.2 Qual o caminho percorrido pelo projeto, quanto à origem dos recursos e debates realizados?

-

155

5.3 Quais as habilidades e competências necessárias ao professor para que inclua novas tecnologias em sua prática pedagógica?

-

156

5.4 Que apoio está sendo oferecido pela SEEDUC-RJ aos seus professores para que estes possam incluir esta nova tecnologia em seu trabalho?

-

158

5.5 Que modificações ocorreram na prática pedagógica docente a partir deste projeto?

-

159

5.6 Considerações finais

-

162

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

165

APÊNDICE A - QUESTIONÁRIO

173

APÊNDICE B - ROTEIRO BASE DA ENTREVISTA

178

ANEXO I - DOCUMENTOS

Documento 1 - Diário Oficial: Projeto Conexão Professor

179

Documento 2 - Termo de recebimento, guarda e responsabilidade do laptop.

181

Documento 3 - Carta do Governador aos Professores

182

Documento 4 - Carta do SEPE-RJ

183

Documento 5 - Circular SEEDUC-RJ

185

Documento 6 - Panfleto distribuído à população fluminense pelo SEPE-RJ

186

Documento 7 - Nota Fiscal de compra do laptop e seus acessórios enviada à unidade escolar

188

Documento 8 - Resolução SEEDUC-RJ dispondo sobre a inclusão de professores docentes II, diretores e coordenadores regionais no projeto Conexão Professor

189

ANEXO II - TELAS DE APRESENTAÇÃO

TELA 1 - Imagem inicial do curso oferecido através de CD-Rom

193

TELA 2 - Página da SEEC-RJ que apresenta o serviço “tira dúvidas”

194

TELA 3 - Página no Portal da Coordenação de Tecnologia Educacional

195

TELA 4 - Página principal do Portal Conexão Professor

196

TELA 5 - Página principal da Fractais Multimídia

197

TELA 6 - Página principal do Portal Conexão Aluno

198

1.1 - Considerações iniciais

CAPÍTULO 1 INTRODUÇÃO

“Onde estão as fronteiras, senão nos limites de nossa própria visão?” Frei Betto, 1997

De acordo com Perrenoud (1999, p.15), “a evolução do mundo, das fronteiras, das

tecnologias, dos estilos de vida requer uma flexibilidade e criatividade crescentes dos seres

humanos”, características consideradas fundamentais ao indivíduo incluso em uma

sociedade marcada pela aceleração na troca de informações, no fluxo de pessoas e

comércio, dentre outras. A missão de proporcionar um ambiente favorável ao

desenvolvimento de tais características, além do diálogo, da reflexão e da descoberta,

destinada em geral à escola, não deve necessariamente ser encarada como uma utopia, mas

como uma possibilidade real e prioritária onde se possa trabalhar o “desenvolvimento da

inteligência como capacidade multiforme de adaptação às diferenças e às mudanças”

(PERRENOUD, 1999, p.15). Essas mudanças de um mundo em constante avanço

tecnológico exigem, cada vez mais, que os professores se tornem profissionais capazes de

“lidar com inúmeros desafios suscitados pela escolarização de massa em todos os níveis de

ensino” (TARDIF, 2007, p.114). E o professor, profissional da Educação, vem lidando

diretamente com as tensões e problemas de nossa época, ao mesmo tempo em que sua

categoria profissional vem sendo socialmente desvalorizada e perdendo prestígio

(FERREIRA & BITTAR, 2006, p. 1162), embora ainda ocupe uma posição estratégica em

um mundo onde a informação 1 é cada vez mais de fácil acesso. Vivemos em um mundo

1 Utilizamos o conceito de Informação como sendo o “esclarecimento, explicação, indicação ou informe” e ainda, “acontecimento ou fato de interesse geral tornado do conhecimento público pelos meios de comunicação, notícia” (Houaiss, 2009).

globalizado, onde as barreiras físicas das escolas, das bibliotecas e de qualquer outro prédio que abrigue formalmente os saberes, caem de forma a derramar para quem se dispuser a coletar todo o conhecimento 2 acumulado pelo ser humano, em todas as áreas do conhecimento. Hoje, o local onde é fácil encontrar toda essa gama de informação vem sendo chamado por alguns autores de ciberespaço.

O

ciberespaço, interconexão dos computadores do planeta, tende a tornar-

se

a maior infraestrutura da produção, da gestão, da transação econômica.

Em breve, constituirá o principal equipamento coletivo internacional da

memória, do pensamento e da comunicação. (LÉVY, 2008).

Esta facilidade ao acesso e produção da informação, que é hoje uma das características mais dominantes neste novo mundo, interfere diretamente na necessidade de uma análise sobre o papel da escola, do currículo e, em especial, do profissional que irá atuar nesta escola. A formação recebida por este profissional terá sido suficiente para que ele se sinta à vontade para lidar com estas novas formas de comunicação? É necessário e urgente que se busquem formas consistentes de inclusão digital deste professor, e consequentemente de seu aluno, e que esta nova tecnologia não seja vista apenas como um modismo moderno, ou mesmo como uma solução para todos os males, pois como afirma Buckingham (2008, p. 9), os meios digitais têm “enorme potencial para o ensino, mas é difícil realizar este potencial se eles são considerados apenas tecnologias, e não formas de comunicação”. Possibilitar inclusão digital mais abrangente parece de fato ser mais um dos grandes desafios que o sistema educacional brasileiro deve transpor e que nenhuma equipe que desenvolve políticas educacionais deve ignorar, pois são muitos os contrastes e desníveis a serem vencidos nesta área. Na tentativa de entendermos de que forma os elementos e atores envolvidos direta ou indiretamente no processo de ensino-aprendizagem podem ser afetados a partir da utilização das novas tecnologias, em especial o computador e a internet, desenvolvemos a pesquisa que ora apresentamos. Este trabalho tem como objetivo analisar as possíveis mudanças na prática pedagógica dos professores da rede estadual de ensino do Rio de Janeiro que receberam em 2008 um laptop da Secretaria Estadual de Educação (SEEDUC-

2 Utilizamos o conceito de Conhecimento proposto por Houaiss (2009) em nosso estudo: “ato ou atividade de conhecer, realizado por meio da razão e/ou da experiência”. Segundo Winch e Gingell (2007), “o conhecimento tem um a ligação necessária com a verdade, e por causa disso, atingir o conhecimento é, essencialmente, uma atividade teórica” (p. 51), ou seja, uma aquisição de mais e mais verdades.

RJ) em regime de comodato, para uso na sala de aula e fora dela. Este projeto foi denominado pela SEEDUC-RJ de Conexão Professor. De modo a possibilitar as respostas às questões de estudo que posteriormente serão apresentadas e consequentemente atingir o objetivo exposto, organizamos o presente trabalho da seguinte maneira:

No Capítulo 1, após a apresentação de um breve panorama histórico das tecnologias, trataremos dos objetivos, da metodologia e da justificativa de nossa pesquisa. O capítulo 2 é destinado a análises de alguns elementos e atores envolvidos na pesquisa, tais como a formação do cidadão globalizado e incluído na sociedade tecnológica, currículos para a nova escola, formação do professor e a influência das políticas públicas sobre a Educação escolar. O capítulo 3 inicia-se com um panorama da situação das escolas estaduais do Rio de Janeiro e dos professores que atuam nestas escolas, para reconhecermos o ambiente e os atores, alvos diretos do Projeto Conexão Professor. Pelo fato de este projeto - a entrega de um laptop ao professor da rede estadual de ensino - ter gerado calorosas discussões, incluímos neste capítulo algumas falas de Deputados Estaduais, além de posicionamentos do Sindicato Estadual dos Profissionais da Educação e de alguns professores que se utilizaram do ambiente virtual para divulgarem suas opiniões sobre tal projeto. No capítulo 4 é apresentada a pesquisa de campo, as entrevistas com professores e direção de escola pertencente à rede estadual de ensino e as análises sobre os dados colhidos. Por fim, encontramos no capítulo 5 algumas conclusões possíveis, tendo por base o material coletado e os referenciais teóricos selecionados, além de algumas recomendações que julgamos convenientes para que projetos semelhantes ao Conexão Professor alcancem seus objetivos.

1.2 - A sociedade tecnológica

Pelo fato de nossa pesquisa se orientar por objetivos diretamente ligados à revolução tecnológica e à influência desta revolução no ambiente escolar e na prática pedagógica do professor, apresentaremos um breve panorama das importantes descobertas científicas e a acelerada escalada de invenções e inovações neste campo, pois, tão antigas quanto a espécie humana, as tecnologias têm garantido ao homem um processo crescente de inovações nos diversos campos do conhecimento, possibilitando aumento na qualidade de vida e trabalho, autossuficiência e a supremacia sobre outros animais. Kenski (2008) nos lembra que “tecnologia é poder”, pois, desde o início dos tempos, o domínio de determinados tipos de tecnologias, assim como o domínio de certas informações, distingue os seres humanos entre si. Da Idade da Pedra aos nossos dias, os vínculos entre conhecimento, poder e tecnologias sempre estiveram presentes. Porém, adaptar-se ao complexo movimento do mundo atual requer uma agilidade maior que em tempos passados. Analisando tal situação, Filé argumenta que:

Talvez, uma das grandes diferenças entre os passos da humanidade é que, em outros tempos, as transformações eram quase imperceptíveis, mais

A tecnologia de hoje não é só o resultado da inteligência

lentas. (

moderna. Ela é como um eco dos tempos: reverbera hoje como resultado daquilo que veio sendo gritado, desde sempre (2008, p. 33).

)

As ideias de Filé são corroboradas por outros analistas, tais como Bauman (2008). Este afirma que “é ponto pacífico que nada ou quase nada na história humana é totalmente novo no sentido de não ter antecedentes no passado” (p. 39), por outro lado, é inquestionável também que o que “faz a diferença” são as peculiaridades as quais devem ser observadas nos fenômenos reconfigurados a cada novo ciclo da sociedade. Concordamos com Castells (2007, p.43), quando afirma que “a tecnologia não determina a sociedade”, mas que ela é parte integrante dessa sociedade, a qual “não pode ser entendida ou representada sem suas ferramentas tecnológicas”. O rádio, o jornal, o cinema, a televisão e agora os equipamentos da chamada era digital, assim como tantos outros que poderiam ser aqui citados, impuseram (e ainda impõem) grandes transformações sociais e já foram acusados de disseminarem exclusão ou desigualdades e quase sempre

estão no centro de grandes debates sobre a inclusão social, possibilidades de uso, seus malefícios e/ou benefícios à sociedade e em especial à Educação. Para não tendermos à demonização ou a panaceia, não podemos esquecer que qualquer tecnologia não é apenas fruto da inteligência do homem, mas parte também de um processo histórico-evolutivo, político e econômico constante da sociedade na qual este homem está incluso. Casttels (2008, p.69) nos oferece algumas características da evolução contemporânea das tecnologias:

O que caracteriza a atual revolução tecnológica não é a centralidade de conhecimentos e informação, mas a aplicação desses conhecimentos e dessa informação para a geração de conhecimentos e de dispositivos de processamento/comunicação da informação, em um ciclo de realimentação cumulativo entre a inovação e seu uso. ( ) consequentemente, a difusão da tecnologia amplifica seu poder de forma infinita, à medida que os usuários apropriam-se dela e a redefinem.

Para termos uma ideia da amplitude e densidade desta evolução histórica e consequentes mudanças tecnológicas, podemos considerar alguns dados oferecidos por Sevcenko (2007) referentes ao século XX. Para mostrar-nos a tendência contínua e acelerada de inovações tecnológicas, é apresentada a taxa de crescimento dos conhecimentos técnicos, que desde o começo do século XX era de 13% ao ano. Segundo este autor, vem dobrando a cada cinco anos. Estamos diante de um “surto dramático de transformações” (p. 23), pois a escala das mudanças desencadeadas a partir da revolução da microeletrônica faz os momentos históricos anteriores parecerem projeções em câmara lenta. Diante destas análises, ainda de acordo com o autor, alguns teóricos calculam que, nestes primeiros anos do século XXI, a taxa de crescimento das inovações tecnológicas tenderá a ser da ordem de mais de 40% ao ano, “chegando praticamente a dobrar a cada período de doze meses” (p. 24). O fato é que, embora as mudanças tecnológicas causem vários desequilíbrios nas sociedades mais desenvolvidas, oferecem também os maiores benefícios. As demais sociedades “são arrastadas de roldão nesta torrente, ao custo da desestabilização de suas estruturas e instituições, da exploração predatória de seus recursos naturais e do aprofundamento drástico de suas já graves desigualdades e injustiças” (p. 21). De acordo com Kenski (2008), através da utilização de inovações tecnológicas, os homens buscaram ampliar seus domínios e acumular cada vez mais riquezas. Essa relação não mudou até hoje, pois “os vínculos entre conhecimento, poder e tecnologias estão

presentes em todas as épocas e em todos os tipos de relações sociais” (p. 17). A chance que o homem tem para conseguir acompanhar o movimento do mundo é adaptar-se à “complexidade que os avanços tecnológicos impõem a todos, indistintamente” (p. 18). O que nos leva a verificar que se forma aí um duplo desafio para a Educação: ela também se orientar por estes avanços ao mesmo tempo em que ofereça orientações de caminhos para que seu trabalho seja de fato inclusivo e amplo. Segundo Cavalcanti e Nepomuceno (2007, p.14), no final do século XX, três processos independentes se uniram, culminando em uma nova estrutura social baseada sobretudo em redes de longa distância. São eles:

- As exigências da economia por flexibilidade administrativa, e pela

globalização do capital, da produção e do comércio.

- As demandas da sociedade, em que valores da liberdade individual e da comunicação aberta ganharam supremacia.

- E os avanços extraordinários na computação e nas telecomunicações, possibilitados pela revolução microeletrônica.

Dentre as possibilidades provenientes desta nova estrutura social, podemos destacar:

o acesso à base de dados a distância; publicação de produções intelectuais ou ideias, por quaisquer pessoas em tempo real, a baixo custo e à longa distância e a troca de mensagens também à longa distância e a baixo custo. Tais possibilidades tem gerado “novos paradigmas de comunicação” (ibid., p. 15) e novas formas de gerar conhecimento. Nas análises de Leite (2008, p. 61), o momento sociocultural em que vivemos “certamente é distinto de momentos anteriores da nossa civilização”, pois cada etapa da nossa construção cultural apresenta características específicas. É certo que as mudanças tecnológicas têm ocasionado mudanças em praticamente todas as esferas de nossas vidas, e, estando o processo pedagógico inserido nesta dinâmica de transformações sociotécnicas, é importante inseri-lo nas reflexões que envolvam mudanças na sociedade. Na análise de tais mudanças, a autora destaca da seguinte forma o importante papel do professor:

a primeira grande etapa para que a aproximação da educação e da

comunicação se efetive com sucesso constitui na compreensão desta ideia, ou seja, de ver e ouvir, interagir com a mídia sem cobrança educativa e, a partir da sua adequação à proposta pedagógica em questão, integrá-la ao processo educativo em consonância com a abordagem da Tecnologia Educacional. Para isso, um dos grandes desafios reside no papel do professor, uma vez que essa iniciativa só vai ter sucesso se ele, a partir desta compreensão, e imerso em um contínuo processo de alfabetização

) (

tecnológica, que lhe permita conhecer mais e melhor a cada dia as mídias, irá fazer individualmente e com seus alunos uma leitura crítica das mesmas e do entretenimento da contemporaneidade (LEITE, 2008, p. 70).

O que pode nos levar a concluir e concordar com diversos analistas educacionais

que: “Educação, Ciência e Tecnologia são as três chaves da nova era” (SEVCENKO, 2007). E por isso consideramos necessário que tais elementos estivessem presentes na construção dos objetivos de nossa pesquisa, o que é apresentado em seguida.

1.3 - Objetivos, metodologia e justificativa de nossa pesquisa

De acordo com Del Priori (2008, p. 63), estamos diante do nascimento de um “sétimo continente”, um ciberespaço feito de redes de comunicação, capazes de “gerar e diminuir as desigualdades de informação e conhecimento”. Um mundo virtual que já existe e se expande em uma velocidade assustadora, pois

com a Internet criou-se uma grande nação cibernética, sem bandeira

ou território físico definido, onde a barreira de espaço e tempo não leva

mais do que alguns milésimos de segundo para ser superada. (NETTO, 2005, p. 20).

) (

A tentativa de entender a possibilidade de gerar e diminuir (ao mesmo tempo)

desigualdades, inerentes ao ciberespaço e às novas tecnologias e suas consequências na sociedade brasileira através da escola, foram os motes iniciais de nossa pesquisa. Diante da percepção da importância da análise das políticas públicas neste campo de estudo, resolvemos focar em um projeto específico que tivesse seus objetivos voltados de alguma forma para a tarefa de melhorar o sistema educacional vigente. Chegamos assim ao projeto “Conexão Professor” implementado pela Secretaria Estadual de Educação do Rio de Janeiro, a partir de fevereiro de 2008, e que está, até os nossos dias, de acordo com a equipe responsável, sendo reelaborado.

A análise sobre as possíveis mudanças nas práticas pedagógicas dos docentes que atuam em escolas estaduais do Rio de Janeiro e que receberam em regime de comodato o laptop foi desmembrada nas seguintes questões:

1) Quais foram os objetivos traçados pela SEEDUC-RJ ao desenhar o projeto de entrega de laptops aos professores de sua rede?; 2) Qual o caminho percorrido pelo projeto, quanto à origem dos recursos e debates realizados para sua aprovação?; 3) Quais as habilidades e competências necessárias ao professor para que inclua novas tecnologias em sua prática pedagógica?; 4) Que apoio está sendo oferecido pela SEEDUC-RJ aos seus professores para que estes possam incluir esta nova tecnologia em seu trabalho?; 5) Que modificações ocorreram na prática pedagógica docente a partir deste projeto?

De acordo com os autores Bogdan e Biklen em sua obra intitulada “Investigação qualitativa em Educação” (1991), é possível a utilização conjunta das abordagens qualitativa e quantitativa em pesquisas educacionais, embora ressaltem que pelo fato de as duas abordagens apresentarem pressupostos diferentes, o pesquisador pode deparar-se com algumas dificuldades. Argumentam que alguns autores utilizam-nas conjuntamente e tal prática é comum quando “se constroem questionários para entrevistas abertas” (p. 63). Para que se obtenha êxito na pesquisa, estes mesmos autores listam alguns conselhos ao pesquisador, dentre eles, que seja prático em suas escolhas, a fim de conduzir e concluir sua pesquisa dentro do prazo previsto e de acordo com suas possibilidades. A localização das fontes do pesquisador também é considerada como determinante. E, por fim, que o pesquisador não se prenda de forma rígida a planos preestabelecidos, estando sempre “preparado para modificar as suas expectativas ou o seu plano” (p. 87). Com base nestas propostas, apresentamos a metodologia de trabalho desta dissertação, que é composta de pesquisa bibliográfica e documental, com vistas a compreender parte dos problemas identificados neste estudo e fundamentar a pesquisa de campo que foi dividida em duas fases como veremos a seguir.

Na primeira fase utilizamos o levantamento de campo (survey), que se caracteriza, de acordo com Gil (2008), pela interrogação direta das pessoas cujo comportamento se deseja conhecer. Desta forma, solicitamos informações a um grupo de professores de uma escola pública da rede estadual, utilizando questionários com perguntas semiabertas relacionadas à utilização de novas tecnologias dentro e fora do ambiente escolar e suas percepções sobre o projeto Conexão Professor. Tais perguntas foram direcionadas para buscarmos respostas às questões de nossa pesquisa, apresentadas anteriormente, objetivando conhecer as possíveis mudanças nas práticas educativas dos profissionais que lecionam em uma escola da rede estadual e que receberam o laptop; e se estes profissionais necessitam de algum tipo de preparação para efetivarem o que a lei que criou o Projeto Conexão Professor os obriga: utilizar o laptop em sala de aula para que haja melhoria da qualidade de seu trabalho docente. Após recolhermos esses questionários, utilizamos análises quantitativa e qualitativa,

para obter as conclusões correspondentes aos dados coletados. Foram utilizadas análises estatísticas descritivas (média e porcentagem) dos dados quantitativos e a técnica da análise do conteúdo para os dados qualitativos.

A busca de informações junto a uma ampla gama de integrantes do universo

pesquisado nos proporcionou um censo com informações gerais acerca da população estudada, “indispensáveis em boa parte das investigações sociais” (GIL, 2008, p. 55). Dentre as principais vantagens listadas por Gil (2008, p.56) a respeito do levantamento de campo, destacamos:

a) O conhecimento direto da realidade: como são as próprias pessoas que informam acerca de seu comportamento. A investigação torna-se mais livre de interpretações subjetivas. b) Quantificação: os dados obtidos mediante levantamentos podem ser organizados de forma a propiciar análises estatísticas e correlações entre variáveis.

A partir dos dados coletados nesta primeira fase, passamos à segunda em que

abordamos, através de entrevistas individuais, dois professores que foram selecionados com

base em suas respostas aos questionários. Entrevistamos também a Diretora desta unidade escolar e um docente cuja postura foi a de não receber o laptop da SEEDUC-RJ. Para estas entrevistas elaboramos perguntas do tipo abertas que foram feitas oralmente, sendo as respostas registradas pelo entrevistador. Esta parte da pesquisa de campo nos permitiu um

estudo sobre as características que podem oferecer um entendimento das posturas dos docentes e seus trabalhos pedagógicos com relação ao uso de novas tecnologias, assim como possíveis comparações referentes a atitudes, conceitos e formas de utilização de novas tecnologias por parte destes docentes. Gil (2008, p.58) argumenta que para a exploração de “situações da vida real cujos limites não estão claramente definidos”, tanto o questionário quanto a entrevista são muito utilizados por pesquisadores que pretendem entender comportamentos de seus entrevistados. Nossa pesquisa de campo foi realizada em uma escola situada no bairro de Itaipava,

3 0 Distrito 3 da cidade de Petrópolis, que faz parte, de acordo com a forma organizativa da Secretaria de Educação do Estado do Rio de Janeiro, da região Serrana III, Coordenadoria Regional 11. De acordo com informações coletadas junto à Direção desta unidade escolar, seu funcionamento acontece em três turnos, atendendo a aproximadamente 1350 estudantes do ensino fundamental (7 0 ao 9 0 ano) e ensino médio regular, oriundos de diversos bairros de Petrópolis e cidades próximas, distribuídos em um total de 34 turmas. Para que seja possível atender a esse grande contingente de alunos, a escola conta com uma grande equipe de professores regentes e funcionários extraclasse. A escolha desta unidade escolar se deve à combinação de algumas características que a tornam, sob nosso julgamento, um local propício à implementação de projetos pedagógicos inovadores, ressaltando aqueles referentes à utilização de novas tecnologias. Tendo uma boa parte de seus docentes recebido o laptop, o mencionado colégio ampliou e modernizou recentemente seu laboratório de informática e fez a aquisição de equipamentos que facilitam a utilização destas máquinas inclusive em sala de aula. Aliado a essas características, podemos perceber em nosso acompanhamento que diversos projetos interdisciplinares são elaborados neste ambiente escolar, propiciando aos seus estudantes o contato frequente com a informação e, por consequencia, a geração de conhecimento. Como nossa pesquisa possui foco sobre a prática pedagógica do professor, a possibilidade de acesso a um bom número de docentes que tenham participado do Projeto Conexão Professor tornou-se outra característica primordial para nossa escolha. Desta forma, objetivamos encontrar o que Bogdan e Biklen (1991, p.95) denominam de

3 De acordo com a página oficial da Prefeitura de Petrópolis, o 3 0 Distrito possui uma área de 121 km 2 e uma população aproximada de 19.000 habitantes.

“informantes-chave”, que são aqueles entrevistados que apresentam maior disponibilidade de falar e participar da pesquisa. Consideramos também a facilitação ao acesso e diminuição da necessidade de longas viagens, o que torna possível “entrar e sair, rapidamente, do campo de observação” (BOGDAN e BIKLEN, 1991, p. 86), e propicia conhecer direta e profundamente os aspectos abordados na região em que o pesquisador trabalha. Ao obtermos o acesso aos nomes de todos os docentes dessa unidade escolar incluídos no projeto “Conexão Professor”, optamos por utilizar o procedimento de amostragem de estágio único, que, segundo Creswell (2007, p.164), é aquele no qual “o pesquisador tem acesso aos nomes da população e pode testar as pessoas diretamente” por meio de um questionário que combinou perguntas fechadas com perguntas abertas, a fim de se obter “um levantamento mais amplo e exaustivo a respeito do assunto pesquisado” (BARROS e LEHFELD, 1990, p. 75). Durante a realização dos trabalhos nesse estágio de nossa pesquisa, tivemos contato com outros dois docentes de diferentes unidades escolares da cidade de Petrópolis que elaboraram e colocaram em prática projetos diferenciados de utilização de novas tecnologias em sala de aula. Por consideramos que agregar essas experiências nesta dissertação a tornaria mais rica, apresentamos como fechamento desta parte as entrevistas realizadas via internet, utilizando o programa Windows Live Messenger, em perguntas do tipo abertas em que foram narradas as experiências profissionais, com destaque para os projetos que envolvem o laptop recebido da SEEDUC-RJ. Tal pesquisa se justifica pela percepção de que ainda é a escola, e em especial a escola pública, um local privilegiado para a democratização do acesso a um mundo globalizado, dinâmico e tecnológico. Daí a importância no investimento da formação permanente do docente que trabalhará nessa escola; como consequência, nos é possível constatar a importância de pesquisas que possam nortear possíveis caminhos para que isso aconteça. Ao mesmo tempo em que podemos verificar que as Novas Tecnologias de Informação e Comunicação oferecem bons resultados na difusão e obtenção de conhecimento em todas as áreas, é perceptível também um certo distanciamento do ambiente escolar. A relevância desta dissertação está então no fato de podermos contribuir

para a reflexão sobre as causas da dificuldade de inserção de tais tecnologias nesse ambiente a partir da implementação de uma política pública específica, e quais as possíveis maneiras de inserção dessas tecnologias de modo que venham a agregar mudanças significativas que resultem em inclusão do professor e de seu aluno em uma nova sociedade que lida permanentemente com o conhecimento.

CAPÍTULO 2 A EDUCAÇÃO E A ESCOLA NA SOCIEDADE TECNOLÓGICA

Neste capítulo apresentamos alguns elementos e atores envolvidos em nossa pesquisa, tais como as características do cidadão globalizado e incluído na sociedade tecnológica e a necessária (boa) formação do professor para atuar em escolas interativas onde caiba o mundo. São apresentados em seguida reflexões sobre a importância de novos currículos, assim como sobre políticas públicas que influenciam diretamente o fazer pedagógico. Por fim, abordaremos o desafio da profissionalização docente no Brasil através de pesquisas que indicam, entre outras coisas, que a exclusão socioeconômica do docente está intimamente ligada à exclusão digital.

2.1 - Formar o cidadão globalizado e incluído na sociedade tecnológica

Com vistas a desenvolver projetos que envolvam Educação, Ciência e Tecnologia, o Ministério da Ciência e Tecnologia elaborou o Livro Branco 4 (BRASIL, 2002), que propõe uma série de políticas de longo prazo que possam incluir o Brasil nesse contexto de rápidas e profundas transformações, imensos desafios e demandas por que passa o mundo.

4 A publicação do Livro Branco caracterizou a conclusão de um ciclo de conferências sobre Ciência, Tecnologia e Inovação (CTI) iniciado com a preparação do Livro Verde (BRASIL, 2000) em setembro de 2001. A elaboração desse livro teve o envolvimento de mais de 150 especialistas, entre professores universitários, empresários, políticos, administradores públicos e representantes de ONGs, divididos em 12 grupos temáticos (GT). A proposta dessa etapa foi a de realizar consultas públicas para ouvir a população sobre o tema em questão e, a partir daí, iniciar a execução do programa de construção do Livro Branco, como definidor das políticas públicas em CTI. Dentre estas políticas destacamos a pretensão de atingir a universalização do acesso das tecnologias de informação e comunicação para as populações de baixa renda.

De acordo com o documento, não é aleatória a ênfase conferida nos últimos anos à inovação, “nesta virada do século XXI, em que emergem as chamadas Economia do Conhecimento e Sociedade da Informação, levantamos a bandeira da Inovação ( ) procurando superar barreiras históricas que obstruem o processo inovativo no País” (p. 11). Em uma era marcada pelo impacto das TIC, torna-se cada vez mais estratégia de manutenção da soberania nacional produzir conhecimentos e transformar tais conhecimentos em inovações nas esferas econômica e social. Desse documento destacamos ainda:

Na sociedade do conhecimento, é particularmente relevante acompanhar a revolução provocada pelas chamadas Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC). Entre os desafios dessa área, salienta-se o de direcionar os benefícios presentes e potenciais das TIC a todos os brasileiros, para evitar o aprofundamento das desigualdades sociais e do hiato digital. É imprescindível avançar na universalização do acesso, na alfabetização digital, no desenvolvimento e implantação da infraestrutura e dos sistemas de comunicações de mais altas velocidades, no comércio e serviços eletrônicos, no governo eletrônico e na indústria de equipamentos eletrônicos e de software. (BRASIL, 2002, p. 69).

Formar um cidadão de um mundo cada vez mais dinâmico e globalizado, que possa se apropriar de forma crítica e autônoma desses novos meios de comunicação tornou-se um dos grandes desafios para a Educação em uma sociedade dita da informação e do conhecimento. Sobre tais ideias, kenski (2008, p.41) argumenta que

Um saber ampliado e mutante caracteriza o estágio do conhecimento na atualidade. Essas alterações refletem-se sobre as tradicionais formas de pensar e fazer educação. Abrir-se para novas educações, resultantes de mudanças estruturais nas formas de ensinar e aprender possibilitadas pela atualidade tecnológica é o desafio a ser assumido por toda a sociedade.

De acordo com Sampaio e Leite (1999, p.32), tais desafios se apresentam como uma necessidade contínua e atual.

A preocupação revelada pela maioria dos estudiosos da área, em relação à democratização do acesso aos benefícios das novas tecnologias, fundamenta-se na constatação da exclusão como característica inerente ao sistema capitalista. Esta característica leva à necessidade de reflexão a respeito da intervenção da escola e do professor no sentido de formar um homem que não assimile passivamente uma conformação social em que haja divisão entre os que pensam e os que executam, os que produzem e os que usufruem, os que têm uma relação ativa e participativa com o conhecimento e a informação e os que lidam passivamente com eles.

Aproveitar então os benefícios oferecidos pelas tecnologias e a democratização do acesso a elas tem sido uma das metas incluídas na agenda social de diversos países, inclusive do Brasil, como a que poderemos encontrar na área de Educação do Governo Federal (BRASIL, 2008). No documento denominado de Agenda Social do Governo Federal, encontramos a descrição de iniciativas que pretendem promover o resgate da cidadania e a transformação social através da criação de ambientes informatizados nas escolas públicas. Nesse mesmo documento são informados investimentos 5 na atualização do professor (na área de novas tecnologias), principalmente daqueles que atuem nessas escolas públicas. Este País, em que se quer promover a transformação social e o resgate da cidadania, acaba se apresentando como um lugar de grandes contrastes, inclusive no que se refere à inclusão digital. De acordo com recentes reportagens, vivíamos em um país que possuía dois milhões de computadores com acesso à internet em 1998, e, apenas dez anos depois, este número salta para 22,7 milhões (LEAL, 2008, p.92), ao mesmo tempo em que nos deparamos com os números das pesquisas realizadas pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO, 2008), que revelam o quanto o Brasil ainda utiliza métodos considerados “primários e mecânicos” nas escolas, tais como repetição de frases e utilização frequente de cópias de textos. Um país que detém o título de campeão de acessos a sites de relacionamento do tipo Orkut amarga, ao mesmo tempo, um índice ainda bastante elevado de pessoas sem qualquer tipo de acesso a novas tecnologias. Este é mais um dos grandes desafios que devem ser enfrentados pelas equipes governamentais que desenvolvem políticas de Educação em nosso País: possibilitar uma inclusão digital mais abrangente. Concordamos com NETTO (2005, p.16) quando afirma que só é possível o desenvolvimento de uma nação “a partir do amadurecimento de uma política que vise à Educação como agente modificador da sociedade”. E para atingir tais objetivos, de acordo

5 Neste documento (BRASIL, 2008, p.6), encontramos a informação de que o Governo Federal pretende investir até o ano de 2011 R$ 15 bilhões para combater o analfabetismo, promover a melhoria do sistema de ensino e universalizar o ensino público. O Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (FUNDEB) contará com investimentos de R$ 4,5 bilhões para a educação em 2009. Estas são iniciativas que, de acordo com o documento, atenderão a mais de 47 milhões de estudantes brasileiros, pois “pelo menos 60% dos recursos vão para investimentos na remuneração e na valorização dos professores de escolas públicas”.

com CASTELLS (1999), não poderemos ignorar a penetrabilidade cada vez maior das tecnologias nesta sociedade em todas as esferas da atividade humana. Novos recursos tecnológicos, tais como o computador e a internet, não são mais ficção científica e impuseram sua presença na sociedade moderna e em uma boa quantidade de escolas. Eles já estão lá e invocam reformas pedagógicas nem sempre fáceis ou rápidas, pois, sendo a Educação escolar composta por um conjunto consistente de componentes que se afetam mutuamente, é necessário tempo, mecanismos de reajustes e a fundamental intenção de mudar. Sobre esta dificuldade de mudança no ambiente escolar, o representante da UNESCO no Brasil, Jorge Werthein, argumenta que

A educação escolar é um todo solidário, apoiado nos seus pilares

tradicionais. Dessa forma, a tecnologia não é um adorno ou um adendo superficial que se possa incrustar no velho prédio sem que as outras partes sejam afetadas. Voltada para a continuidade das gerações, não por acaso a educação escolar apresenta consistente unidade e intensas forças coesivas,

em que um componente afeta o outro (WERTHEIN, 2004, p.8).

De acordo com Sancho e Hernandéz (2006), a análise sobre a história da escola ao longo dos tempos comprova a afirmação de que não existe o milagre de uma mudança rápida, que ao mesmo tempo seja ampla e indolor, quando se trata de transformar os componentes e atores envolvidos na Educação para que se possa atualizar critérios, conteúdos e formas de atuação. Como exemplo desta afirmação, podemos recorrer justamente às novas tecnologias a que estamos nos referindo. Elas já estão lá, mas embora se verifique uma aparente facilidade de aceitação, muitas vezes são usadas para reforçar crenças existentes sobre os ambientes de ensino, o que pode significar a manutenção de estruturas pedagógicas presas a ultrapassados currículos e relações de poder. Justificando tais análises, os autores ainda argumentam:

O que mostra essa facilidade de adaptação das TIC às diferentes

perspectivas sobre o ensino e a aprendizagem é que, em si mesmas, não

representam um novo paradigma ou modelo pedagógico. Assim, professores e especialistas em educação tendem a adaptá-las às suas crenças sobre como acontece a aprendizagem. O desafio é que os profissionais da educação mudem de imediato sua forma de conceber e

pôr em prática o ensino ao descobrir uma nova ferramenta (ibid

p.22).

2006,

,

O desafio consiste, então, no fato de que, justamente em momentos de propagada crise escolar, como a que vivenciamos em nossos dias, possamos fugir da paralisia pedagógica, aquela que leva o profissional da Educação, e em especial o professor, a enveredar-se por caminhos de puro lamento e saudosismo de uma época de ouro da escola, época esta que talvez nunca tenha existido. Caberá a esse profissional construir “uma rede e não uma rota” (SILVA, 2007, p.73), desenvolver currículos que se apresentem como territórios a serem explorados, sem abrir mão de indispensáveis conteúdos. No próximo item passamos a abordar a importância da análise sobre a organização de currículos que estejam relacionados à escolha de procedimentos e seleção de conteúdos imprescindíveis ao novo cidadão, e de que forma as novas tecnologias podem facilitar a implementação de novos currículos.

2.2 - Novos currículos para escolas interativas

Tendo em vista a íntima relação do objeto de estudo do presente trabalho - as possíveis mudanças na prática pedagógica do professor a partir do uso das novas tecnologias - com o currículo escolar, passamos a analisar a necessidade de reelaboração do currículo para que a escola possa cumprir o papel de proporcionar um ambiente democrático e inclusivo em uma nova sociedade tecnológica. Partindo da premissa de que existe uma “relação intrínseca entre educação e cultura(s)” (CANDAU, 2008, p.13), nos é possível perceber que parte da propagada crise escolar deve-se ao fato de termos currículos usados ainda como moldadores de cidadãos para uma sociedade fabril, quando deveriam ter como objetivo proporcionar meios de tornar esse cidadão incluído de fato em uma nova sociedade, a do conhecimento. Para tentarmos justificar tais ideias, apresentaremos argumentos para o uso reflexivo de novas tecnologias no ambiente escolar, porém sem a ingênua pretensão de encará-las como remédio para todos os males, ou mesmo como uma simples tecnologização dos fazeres tradicionais verificados em muitas de nossas escolas. Tais reflexões podem nos afastar de algumas idéias pré-concebidas, tais como as de que no ambiente escolar não cabe o uso de

novos recursos comunicacionais, tais como o telefone celular, o MP3, a internet

estão lá, porém na maioria das vezes sem uso educacional, e quase sempre como forma de lazer.

Outra análise possível consiste em aceitar que as possibilidades embutidas nessas novas Tecnologias de Informação e Comunicação são mais do que simplesmente se adequar à moda, ou a tendências de mercado nacional e internacional para ressignificar “velhas” coisas como o diálogo ou modelos de transmissão de conhecimentos. Acreditamos que os argumentos utilizados sobre as estratégias de marketing - relatando que tais estratégias sejam capazes de criar a adesão em um cidadão que compra passivamente o mais recente lançamento tecnológico - podem ser refutados; basta verificarmos as modificações na forma de comunicação desta nossa “sociedade em rede” 6 . Os “novos meios de comunicação que estão surgindo, sem exceção, já têm inerentes à sua constituição a capacidade de interação entre o produtor de conteúdo e o público a quem se destinam suas mensagens” (AMORA, 2008, p.21). Já é possível falar de um “novo espectador” 7 acostumado cada vez mais com a interação, com a participação e com a criação de novos conteúdos. Desta forma, devemos considerar a necessidade de que nossas escolas não descartem a possibilidade de formar alunos conhecedores dos meios de comunicação a ponto de poderem interferir nos produtos oferecidos por esses meios. Sobre tais ideias Amora argumenta:

Eles já

A esperança, talvez a única, para uma profunda transformação na produção dos meios de comunicação de massa que temos nos dias de hoje é a escola. É no processo de formação que a escola deve assumir como motor do conjunto indivíduo-família-sociedade, que está a real chance de produzirmos pessoas conscientes da importância dos meios de comunicação, de como usá-los em benefício deles e de como não se deixar usar por estes veículos quando isso lhes for nocivo. (2008, p. 27).

A transformação neste caso só é possível se dispusermos de professores qualificados para esse trabalho e de um currículo que ofereça possibilidades de interação com as TIC, o

6 “Sociedade em rede” é um termo apresentado por Castells (2007) em sua obra homônima, em que defende que devemos “localizar o processo de transformação tecnológica revolucionária no contexto social em que ele ocorre e pelo qual está sendo moldado”(p. 43).

7 Silva (2007, p.14) apresenta o termo “novo espectador” como aquele que está cada vez menos passivo diante da emissão, citando como exemplos o uso do joystick, do controle remoto e da internet. O novo espectador “faz por si mesmo uma vez que não se submete a emissões separadas da sua participação”, tendo a seu favor as tecnologias hipertextuais.

que não deve significar simplesmente aumentar a carga horária de uma determinada disciplina criada para esse fim, ou agregar ao currículo escolar uma disciplina com aulas em ambiente específico, tais como laboratórios informatizados. Silva (2007, p.11) argumenta que um dos principais objetivos de nossas escolas sejam elas “info-ricas” ou “info-pobres” 8 , deveria ser a busca constante de uma interatividade que não seja “apenas fruto de uma tecnicidade informática, mas um processo em curso de reconfiguração das comunicações humanas em toda sua amplitude”, o que possibilitaria uma renovação da relação do usuário com a imagem, com o texto, com o conhecimento. A sala de aula interativa seria então um ambiente onde o professor deixa de lado a tradição do falar/ditar, assim como deixa de ser um mero “contador de histórias”. E Silva ainda completa, apresentando novas formas de atuar para o professor:

Ele constrói um conjunto de territórios a serem explorados pelos alunos e disponibiliza coautoria e múltiplas conexões, permitindo que o aluno também faça por si mesmo. Isto significa muito mais do que ser um

conselheiro, uma ponte entre a informação e o entendimento (

por sua vez, passa de espectador passivo a ator situado num jogo de preferências, de opções, de desejos, de amores, de ódios e de estratégias, podendo ser emissor e receptor no processo de intercompreensão (p. 73).

). O aluno,

Dessa forma, ainda de acordo com Silva (2007), a Educação poderia deixar de ser tratada como um produto, passando a se tornar um processo de troca de ações que criam conhecimento e não apenas o reproduzem, buscando utilizar as novas tecnologias como aliadas ao combate a uma sociedade desigual e excludente. Desenvolver um currículo que permita tais mudanças torna-se primordial em uma escola que deseje ser interativa. Mas, qual é o papel do currículo? Para tentarmos responder a essa pergunta, precisamos inicialmente defini-lo. E para isso, recorremos aos dicionários, onde encontramos diversos significados para a palavra currículo: “as matérias constantes de um curso” (FERREIRA, 2004, p. 214), “curso, carreira” (LUFT, 2006, p. 252). Atalho, corte, ato de correr, são também expressões comumente empregadas para definir currículo. Outra definição é encontrada em Marinho (2006, p.7):

8 O autor se refere a tais conceitos de acordo com as possibilidades de uso ou não do computador e outras tecnologias no ambiente da sala de aula (SILVA, 2007, p. 74). Dessa forma, a que oferece computadores para seus alunos poderia ser classificada como info-rica.

Currículo viria do latim curriculum, que significa corrida, carreira, lugar onde se corre, campo, liça, hipódromo, picadeiro. Liça era o espaço cercado por paliçada de madeira que rodeava os castelos medievais e onde ocorriam torneios, justas e combates. Era também a paliçada que impedia o acesso às fortalezas.

A descrição apresentada por Marinho é recheada de significados que podem ser interpretados de acordo com visões e intencionalidades diferenciadas. É o currículo um “espaço de grandes embates onde duelam os atores da escola” (ibid., p. 7) ou um impeditivo a acessos? O currículo entendido como ato de correr, ou local onde se corre, nos chega como uma metáfora de uma pista de corrida, cujas marcações (incluindo seus pontos de partida e chegada) geram a previsibilidade de um conjunto de disciplinas que devem ser cumpridas em um determinado tempo, com uma determinada segurança e aproveitamento. Após a apresentação dos significados para a palavra currículo, Marinho (2006, p. 10) afirma que “precisamos ver a questão do currículo numa dimensão mais contemporânea” que pode significar repensar a escola para uma nova Educação, focada na sua função social numa sociedade globalizada e mergulhada na informação, mas que continua excludente e discriminatória. De acordo com Moreira (2007, p. 287), “há que se voltar a considerar mais rigorosamente os processos de selecionar, organizar e sistematizar os conhecimentos a serem ensinados e aprendidos na escola”, buscando uma coerência conceitual que estimule a promoção na sala de aula de uma evolução coerente e contínua da aprendizagem de conceitos. Para que tal promoção seja de fato alcançada, é primordial, de acordo com esse autor, uma postura diferenciada do profissional da Educação, que nos é apresentada da seguinte forma:

Os significados e os padrões culturais do cotidiano não são suficientes para garantir o aprendizado do aluno e ampliar seus horizontes. Precisamos, além da imersão nos padrões do cotidiano, da imersão nos padrões da disciplina escolar. Para isso, há absoluta necessidade de um professor capaz de uma instrução explícita, planejada e efetiva. Há a necessidade de um professor que, além de bem conhecer o aluno e a comunidade da escola, conheça os conceitos a serem dominados e seja bem sucedido ao orientar o aluno na consecução das metas definidas (p.

287).

Não podemos abrir mão de bons professores, “capazes de bem selecionar procedimentos e conteúdos” (ibid., p. 288), atentos às transformações de uma sociedade que se transforma em uma velocidade espantosa, ao mesmo tempo em que mantém cristalizados alguns pontos que devem ser combatidos para que tenhamos de fato uma sociedade mais justa e igualitária. É perceptível que a informação e o conhecimento possibilitados pelas novas tecnologias constituem hoje um fator-chave para a competitividade econômica e o comportamento dos cidadãos. A incorporação dessas tecnologias pela Educação torna-se então obrigatoriamente parte de “uma estratégia global de política educativa” (TEDESCO, 2004, p. 11) e um elemento essencial para o caráter democrático das sociedades do futuro, futuro este construído também (e talvez principalmente) no ambiente escolar, pelas mãos de professores, que necessitam urgente de claros caminhos e currículos que permitam que a aprendizagem aconteça dentro de um contexto reflexivo e exploratório, proporcionando então um ambiente escolar democrático, inclusivo e interativo. Sobre esse novo ambiente escolar trataremos a seguir.

2.3 - Projetando uma escola onde caiba o mundo

No projeto de uma escola nova, democrática e inclusiva, além de flexíveis currículos e ambientes propícios à interação, é imprescindível a previsão de investimentos em capacitação de professores para o domínio técnico e crítico de projetos educacionais que proporcionem não apenas bons índices estatísticos, mas que resultem de fato em aprendizagens relevantes para o seu corpo docente e discente. Kenski (2008, p. 106) afirma que “não é possível impor aos professores a continuidade da autoformação, sem lhes dar a remuneração, o tempo e as tecnologias necessárias para sua realização”. Na defesa de ideias semelhantes, Lucena (2003) argumenta que, nos últimos tempos, a tarefa de melhorar nosso sistema educacional tem exigido decisões fundamentais e criativas que possam propor mudanças efetivas na

Educação. Dentre tais decisões, ainda de acordo com esse autor, a de inserir as TICs na Educação com ênfase no computador conectado à internet, torna-se a cada dia mais fundamental, uma vez que os alunos já são exploradores no cotidiano das “inúmeras possibilidades disponibilizadas pelas novas tecnologias e tudo o que elas representam em termos de potenciais para a produção e veiculação de conhecimento” (ibid., 2009, p. 237), bem como de outras facilidades relacionadas à vida e ao trabalho. Sobre essas novas gerações de estudantes, Rivoltella (2007, p.16) aponta que elas estão chegando às escolas completamente ligadas à tecnologia e aos meios de comunicação. Por isso educar para os meios de comunicação, para a vida contemporânea significa também educar para a cidadania. Sintonizar o processo ensino-aprendizagem com a vida contemporânea, proporcionando aos atores envolvidos nesse processo novas formas de comunicação, favorece o que Lévy (2008) denomina de “inteligência coletiva” 9 . De acordo com Kesnki (2008), não basta o treinamento técnico intensivo dos professores para o uso das novas formas de comunicação, apesar da necessidade de uma formação pedagógica e crítica “para o desenvolvimento de projetos educacionais de acordo com os mais novos paradigmas e teorias educacionais”(p. 125). É indispensável uma nova mentalidade, um novo olhar sobre a Educação em uma nova realidade tecnológica. Com relação a essa reflexão, e com vistas a projetos desenvolvidos anteriormente que envolveram as TIC mas que se descuidaram da preparação dos profissionais que trabalhariam com elas no ambiente escolar, Lucena (2003, p. 241) analisa que

Já está suficientemente claro que não basta ter computadores nas escolas

se os professores não estiverem preparados para trabalhar com eles. Não é

a presença das TICs nas escolas que resolverá os problemas de evasão, de

repetência e de baixo índice de aprendizagem.

Este mesmo autor ainda salienta que informatizar escolas para reproduzir a velha educação, tradicional, linear, centrada no ditar/falar do professor, não torna a Educação atualizada, e completa:

A integração das TICs na escola vai além da implantação dos laboratórios

de informática. É preciso que elas façam parte do projeto político-

9 Inteligência coletiva é conceituado por Lévy (2008, p. 2) como a valorização, a utilização otimizada e a colocação em sinergia das competências, imaginações e energias intelectuais, independentemente de sua diversidade qualitativa e de sua localização .

pedagógico da escola, para que sejam utilizadas como potencializadoras na construção do conhecimento e não como instrumento ou ferramenta de uma velha educação travestida de uma roupagem nova. Discutir uma educação onde haja uma integração com as TICs exige necessariamente uma discussão sobre o acesso a esta tecnologia principalmente nas escolas públicas, que poderiam se constituir em espaços de inserção da população menos favorecida economicamente (chamados por alguns de excluídos informáticos) a esta modalidade comunicacional (p. 247).

Dessa forma seria possível criar uma escola criativa e interativa onde “caiba o mundo” e apta a melhor receber as novas gerações de estudantes, chamados por Veen e Vrakking (2009) de pensadores digitais. Estes autores defendem mudanças significativas no ambiente escolar utilizando-se dos benefícios proporcionados pelas TIC com relação à facilidade de fluxos de informação da mesma forma que as novas gerações vêm se apropriando. Vejamos, por exemplo, seu posicionamento no destaque a seguir:

Queremos deixar claro que devemos perceber que usar as tecnologias da informação e da comunicação como as crianças fazem pode ajudar nossa educação a ter um melhor desempenho. Os pensadores digitais, como são as nossas crianças, podem fazer muito mais do que se espera delas nas escolas (p. 70).

Ainda na defesa pelas mudanças no ambiente escolar, Veen e Vrakking apresentam o argumento de que a sociedade continuará a educar seus jovens, mas não necessariamente por meio das instituições tradicionais ou do Governo. Na mesma linha de pensamento encontraremos as análises de Vasconcelos (2005, 2006), que revela sua percepção de que talvez esteja próximo o dia em que acontecerá a quebra da “supremacia inquestionável” da instituição escolar, ocasionando um possível retorno à Educação doméstica. Isso deverá ocorrer porque

com as informações sendo levadas a qualquer ponto e não havendo

mais necessidade de espaços que concentrem essas informações fisicamente, com a virtualidade do conhecimento e a possibilidade de se apropriar dele a qualquer momento, não poderá a Casa reabilitar seu lugar de educação? Não poderão os mestres entrar nas Casas novamente através da tecnologia já disponível? (ibid., 2005, p. 225).

) (

Tais questionamentos têm sido gerados em parte pela percepção de que encaixar novas tecnologias em velhos e obsoletos modelos de Educação tem demonstrado ser uma luta inglória. Podem, porém, ser encarados como novos desafios, uma busca para uma

possível saída a fim de atenuar alguns problemas relacionados à fórmula educacional vigente. De acordo com Antonio (2008), ao analisarmos a escola que temos hoje, perceberemos um descompasso entre o ritmo da evolução tecnológica e o da evolução de nossos processos educacionais. Antonio argumenta ainda que essa constatação não deve ser uma novidade para ninguém, pois é perceptível que a escola implementa mudanças de uma forma lenta ainda que, paradoxalmente, seja uma instituição que deveria se propor a ser um constante fator de mudanças. Segundo Silva (2000, 2003), a pedagogia da transmissão agoniza, e a sala de aula está cada vez mais sem atrativos e os alunos cada vez mais desinteressados pelo seu modelo clássico, baseado na transmissão de conhecimentos. O autor ressalta que “a obsolência do modelo tradicional de ensino escolar vem agravando-se na cibercultura” (SILVA, 2003, p. 13), e do quanto é emergencial para o professor dar-se conta das mudanças paradigmáticas em informação e comunicação que se operam em nosso tempo, ou seja, do como é importante buscarem a alfabetização tecnológica, para “lançar mão do que há de oportuno em cibercultura a fim de favorecer o salto de qualidade necessário em Educação” (ibid., p. 14). Ao utilizar-se da cibercultura, o professor passa, de acordo com Silva, a poder atuar de outras formas em seu trabalho pedagógico:

A par da cibercultura, de suas implicações e possibilidades, o professor estará tentado ser mais que instrutor, treinador, parceiro, conselheiro, guia, facilitador, colaborador. Ele procurará ser um formulador de problemas, provocador de situações, arquiteto de percursos, mobilizador das inteligências múltiplas e coletivas na experiência do conhecimento. (ibid., p. 7).

Agregar esses novos papéis ao trabalho docente passa obrigatoriamente pela implementação de novas políticas educacionais que possibilitem que o computador deixe de ser visto como um bem de consumo e seja encarado como um instrumento fundamental de trabalho do professor, uma porta para o mundo do ciberespaço, que, de acordo com Lévy (2008, p.9), é a interconexão dos computadores do planeta, tendendo a tornar-se a maior infraestrutura da produção, da gestão e da transação econômica, e “em breve constituirá o principal equipamento coletivo internacional da memória, do pensamento e da comunicação”.

Proporcionar subsídios ao docente a fim de que este se sinta capacitado para lidar com essas novas tecnologias vem sendo denominado de alfabetização tecnológica. Essa capacitação consiste no desenvolvimento de novas formas de atuar e no acesso ao domínio técnico, pedagógico e crítico das novas “ferramentas”, em especial às relacionadas ao uso do computador e da internet. O destaque no termo “ferramentas” deve-se ao fato de que, mesmo sendo utilizado por inúmeros teóricos educacionais, ainda gera discordâncias na sua interpretação e utilização. Segundo Santos (2008) 10 , o computador é muito mais do que uma ferramenta; é uma interface, pois a ferramenta necessita de energia física do ser humano para ser usada. O computador estende nossa capacidade cognitiva; “ele é mais que ferramenta, é máquina, uma máquina cerebral”. E é através dessa máquina que temos acesso como “imigrantes” ao mundo virtual proporcionado pela internet. “Dizer que não é importante para o professor ter computador é excluir este indivíduo da sociedade”. Em consonância com tais ideias, Casttels (2008, p.69) afirma que “as novas tecnologias da informação não são simplesmente ferramentas a serem aplicadas, mas processos a serem desenvolvidos”, pois usuários e criadores podem se tornar a mesma coisa. O autor acrescenta que

Desta forma, os usuários podem assumir o controle da tecnologia como no caso da internet. Há, por conseguinte, uma relação muito próxima entre os processos sociais de criação e manipulação de símbolos (a cultura da sociedade) e a capacidade de produzir e distribuir bens e serviços (as forças produtivas). Pela primeira vez na história, a mente humana é uma força direta de produção, não apenas um elemento decisivo no sistema produtivo. (p. 69).

Por sua vez, tais ideias são corroboradas pelo filósofo italiano Rivoltella (2007), que defende que o professor precisa saber fazer análises críticas e organizar atividades de produção usando essas tecnologias. Rivoltella nos lembra de que “há cinco anos, éramos apenas consumidores de conteúdos prontos” (p. 16), e nos apresenta uma breve comparação entre a utilização das novas tecnologias pelos professores italianos e brasileiros, ressaltando que, de acordo com suas pesquisas, nos dois países o professor parece não compartilhar com os alunos a mesma cultura, pois afirma que

10 Palestra proferida durante o 40 0 Seminário Brasileiro de Tecnologia Educacional, organizado pela Associação Brasileira de Tecnologia Educacional (ABT) em 18 de junho de 2008 no Rio de Janeiro.

Aqui, na Europa, é comum o professor ver os meios de comunicação como uma cultura popular e de baixo nível, em oposição aos livros, que são a alta cultura. No Brasil, me parece, a questão é outra: muitos educadores não têm sequer acesso a elas. Nesse caso, a situação é ainda pior (p. 15).

As afirmações de Santos e Rivoltella sobre a necessidade de criar formas de propiciar o acesso às novas tecnologias ao docente brasileiro encontram respaldo em pesquisa realizada pela UNESCO (2004) com professores nos 26 estados brasileiros e no Distrito Federal, que, de acordo com analistas, comprova que a exclusão digital é consequência direta da situação econômica em que vivem os professores. Medeiros (2004, p.1), ao analisar os dados desta pesquisa da UNESCO, afirma que

O mundo digital está muito distante do cotidiano do professor brasileiro.

Pesquisa realizada pela UNESCO (

ensino fundamental e médio do país e revela dados inquietantes para a formação das futuras gerações: mais da metade dos professores não tem

computador em casa, não navega na internet e sequer usa o correio eletrônico.

traçou um perfil dos docentes do

)

De acordo com Kenski (2008, p.63), é importante que se desenvolva nos professores, e consequentemente em seus alunos, uma relação cíclica com a informação:

“quanto maior o acesso à informação, mais necessidade se tem de atualização para ficar em dia com as mais novas informações”, e é a escola, segundo a autora, o espaço social fundamental para alimentar essa relação. A facilitação ao acesso e à produção da informação é hoje uma das características dominantes neste novo mundo, e interfere diretamente na necessidade de uma análise sobre o papel da escola, e em especial do profissional que irá atuar nesta escola. Com relação a tais mudanças, poderíamos indagar: O que os professores brasileiros fazem, pensam e almejam? Título por sinal da pesquisa desenvolvida pela UNESCO (2004), que nos servirá de base para importantes análises sobre o próximo subtema deste capítulo.

2.4 - O professor brasileiro e a sociedade tecnológica

O que os professores brasileiros fazem, pensam e almejam com relação às novas tecnologias? Na tentativa de buscar respostas para tais questionamentos, utilizaremos parte de uma importante e abrangente pesquisa realizada pela UNESCO do Brasil (2004) em que foram abordados 5.000 docentes de escolas públicas e privadas atuantes no ensino fundamental ou médio das 27 unidades da Federação, que, dentre outros, investigou também o tema: Novas Tecnologias da Informação e Comunicação. Conforme demonstram os organizadores da pesquisa, aprofundar o conhecimento sobre quem são esses professores “constitui condição essencial para que se possam tornar efetivas as iniciativas voltadas à sua valorização e à possibilidade real de que venham corresponder às expectativas neles depositadas” (ibid., p.19). Dentre diversas informações imprescindíveis para o entendimento desse profissional, apresentadas nos relatórios publicados, destacaremos algumas que nos servem diretamente como possíveis respostas às perguntas apresentadas anteriormente. Os dados apresentados nas Tabelas 1 e 2 nos revelam que dos 5.000 profissionais consultados, 74,3% assistem TV diariamente; 50,5% não possuem computador em casa; 59,6% nunca usaram correio eletrônico; 89,3% nunca participaram de qualquer lista de discussão no ambiente virtual; 58,4% não costumam navegar na internet. Diante de números tão alarmantes, a esperança de possíveis mudanças na postura desse profissional e no ambiente escolar em que ele atua pode se transformar rapidamente em profundo desânimo. Mas nem tudo está perdido: existe um dado que desponta reluzente na pesquisa e pode reacender a esperança de que mudanças geradas com o apoio das TIC podem ser bem vindas: 86,9% na escola pública e 88,2% na escola privada desses professores consultados, de acordo com os dados da tabela 3, concordam que a análise dos meios de comunicação deve ser tratada na escola. Infelizmente, só não sabem de que forma fazê-lo, e não se sentem preparados para tal tarefa. Sobre esses índices destacados os analistas da pesquisa indicam que

Em geral, pode-se constatar que a maioria dos professores concordam

Essa postura

pode estar relacionada tanto à sua identificação com concepções mais

com a introdução de temas da atualidade no currículo (

).

atuais da função docente quanto às situações potencialmente problemáticas que enfrentam cotidianamente na escola. (ibid., p. 16).

Para apreciação e verificação do leitor dos dados comentados anteriormente,

apresentamos as Tabelas 1, 2 e 3.

Tabela 1 - Proporção de professores, segundo a frequencia de realização de outras atividades

Tipo de atividade

 

Frequência de outras atividades

   

Diariamente

3 ou 4 vezes por semana

1 ou 2 vezes por semana

A cada 15 dias

Nunca

Total

Vê TV

74,3

13,7

10,1

1,2

0,6

100,0

Ouve rádio

52,0

17,1

17,4

6,4

7,2

100,0

Ouve música em sua casa

55,1

18,6

19,0

5,2

2,0

100,0

Estuda ou toca algum instrumento musical

8,3

4,6

4,6

5,2

77,3

100,0

Lê jornal

40,8

22,6

23,5

9,5

3,7

100,0

Lê revistas

31,6

24,8

25,9

14,3

3,3

100,0

Faz ginástica, esportes ou alguma atividade física

17,8

15,3

18,7

13,7

34,5

100,0

Participa de listas de discussão através do correio eletrônico

1,5

1,6

2,6

4,9

89,3

100,0

Usa o correio eletrônico

9,1

8,4

10,5

12,4

59,6

100,0

Navega

7,3

8,9

12,6

12,7

58,4

100,0

na internet

Diverte-se com seu computador

9,9

9,3

14,6

12,4

53,9

100,0

Fonte: UNESCO, Pesquisa de Professores, 2002 (p.98). Nota dos organizadores da pesquisa: Foi perguntado aos professores: Indique com que frequência o(a) sr.(a) realiza as seguintes atividades:

Tabela 2 - Proporção de professores, por renda familiar mensal, segundo a existência de computador em casa.

Tem computador

 

Renda familiar mensal

   

em casa

Até 2 salários mínimos

Mais de 2 a 5 salários

Mais de 5 a 10 salários

Mais de 10 a 20 salários

Mais de 20 salários

Total

Sim

2,8

22,1

52,5

76,2

91,7

49,5

Não

97,2

77,9

47,5

23,8

8,3

50,5

Total

100,0

100,0

100,0

100,0

100,0

100,0

Fonte: UNESCO, Pesquisa de Professores, 2002 (p.122). Nota dos organizadores da pesquisa: Foi perguntado aos professores: Na sua casa existe computador?

Tabela 3 - Proporção de professores, por dependência administrativa da escola, segundo opinião sobre temas a serem tratados na escola.

Temas a serem tratados na escola

Opinião

Dependência administrativa

Total

Pública

Privada

 

Concorda

97,9

98,5

97,9

A educação sexual e saúde reprodutiva

Não concorda

2,1

1,5

2,1

Total

100,0

100,0

100,0

 

Concorda

66,2

55,1

65,7

Religião

Não concorda

33,8

44,9

34,3

Total

100,0

100,0

100,0

Análise de situações políticas e sociais atuais

Concorda

92,5

94,9

93,0

Não concorda

7,5

5,1

7,0

 

Total

100,0

100,0

100,0

 

Concorda

86,1

86,7

86,4

Música

Não concorda

13,9

13,3

13,6

Total

100,0

100,0

100,0

Análise da televisão e outros meios de comunicação de massa

Concorda

86,9

88,2

87,4

Não concorda

13,1

11,8

12,6

Total

100,0

100,0

100,0

 

Concorda

98,9

99,7

99,0

Prevenção do uso de drogas

Não concorda

1,1

0,3

1,0

Total

100,0

100,0

100,0

 

Concorda

96,1

97,8

96,5

Violência

Não concorda

3,9

2,2

3,5

Total

100,0

100,0

100,0

Fonte: UNESCO, Pesquisa de Professores, 2002 (p. 115).

Notas dos organizadores da pesquisa:

1) Foi perguntado aos professores: O(a) sr.(a) concorda ou não concorda que estes temas sejam tratados nas escolas? 2) As escolas privadas religiosas foram retiradas da análise.

De acordo ainda com esta pesquisa da UNESCO, poderemos verificar que, em

geral, os professores têm uma visão positiva a respeito dos efeitos das novas tecnologias de

informação sobre o seu trabalho pedagógico (ver Tabela 4). Dos professores consultados,

85% indicam que as TIC permitem melhorar a qualidade da Educação e da aprendizagem;

a mesma porcentagem responde que essas novas tecnologias ampliam o acesso ao

conhecimento por parte dos alunos.

Tabela 4 - Proporção de professores, por renda familiar mensal, segundo opinião sobre os efeitos das novas tecnologias de informação sobre a Educação.

Efeitos das novas tecnologias de informação sobre a educação

 

Renda familiar mensal

   

Até 2 salários mínimos

Mais de 2 a 5 salários

Mais de 5 a 10 salários

Mais de 10 a 20 salários

Mais de 20 salários

Total

Vão substituir parcialmente o trabalho dos professores nas aulas

29,8

24,3

23,9

20,3

17,9

23,1

Vão promover uma desumanização do ensino e das instituições pedagógicas

19,5

17,3

17,7

14,9

13,1

16,7

Vão criar facilidades para os alunos

86,0

84,6

86,4

88,0

90,3

86,5

São recursos que facilitarão o trabalho dos professores nas aulas

88,4

89,9

91,6

91,3

90,3

90,8

Permitirão melhorar a qualidade da educação e da aprendizagem

81,4

84,4

84,9

86,4

85,5

85,0

Vão ampliar as oportunidades de acesso ao conhecimento por parte dos alunos

81,4

84,4

84,9

86,4

85,5

85,0

Fonte: UNESCO, Pesquisa de Professores, 2002 (p.123).

Nota dos organizadores da pesquisa:

Foi perguntado aos professores: Em relação aos efeitos que teriam as novas tecnologias de informação (computadores, internet, ensino programado, ensino à distância, etc.) sobre o trabalho docente, o(a) sr.(a) concorda ou não concorda com as seguintes afirmações?

O grau de concordância com os efeitos indesejáveis das TIC sobre o trabalho

docente verificado nesta pesquisa está, de acordo com os analistas, fortemente relacionado

com a renda familiar mensal, como se pode perceber a seguir

O percentual de professores que concordam que as novas tecnologias de informação vão substituir parcialmente o trabalho dos professores nas aulas cai de 29,8%, assinalados pelos professores com renda familiar de até 2 salários mínimos, para 17,9%, entre aqueles com renda familiar superior a 20 salários mínimos. O percentual dos que concordam que as novas tecnologias de informação vão promover a desumanização do ensino e das instituições pedagógicas cai de 19,5%, entre os professores com renda familiar de até 2 salários mínimos, para 13,1%, entre aqueles com renda familiar superior a 20 salários mínimos. O maior grau de concordância dos professores localizados nos estratos econômicos mais baixos com os efeitos indesejáveis das novas tecnologias de informação sobre o trabalho docente pode ser atribuído, entre outros motivos, ao fato de poucos deles possuírem computador em casa e, muito provavelmente, estarem pouco familiarizados com a utilização do recurso. (ibid.,p. 122).

A partir de tais dados, segundo os analistas da pesquisa, pode-se concluir que os professores brasileiros acreditam que a introdução de novas tecnologias de informação ocasionará impactos positivos na Educação, mas não substituirá o fator humano no processo de ensino e aprendizagem. Mesmo nos estratos econômicos de menor renda, os novos meios de comunicação e informação vêm assumindo um papel significativo como agente de instrução nos últimos anos. O debate sobre as possíveis vantagens e desvantagens da utilização do computador como instrumento facilitador da aprendizagem mobiliza, de forma significativa, a literatura especializada e as discussões sobre políticas públicas no Brasil e no mundo. Ressaltando as perceptíveis diferenças que ocorrem neste debate de acordo com o país onde se realiza, os analistas destacam que

Nos países onde a infraestrutura das escolas de ensino médio e fundamental já não mais exige grandes dispêndios com a aquisição de computadores, e a conexão à internet é muito difundida, o debate está centrado sobre os efeitos pedagógicos e sobre os resultados acadêmicos da utilização da nova tecnologia. (ibid., p. 124).

Analisando ainda os relatórios da UNESCO (2004), encontramos reflexões indicadores de que um número cada vez maior de pesquisas sobre a influência das TIC na aprendizagem vem sendo realizado, e que tais estudos 11 têm mostrado “o papel estratégico desempenhado pelos professores para que as novas tecnologias possam realizar suas

11 Um exemplo desta literatura é o relatório final do projeto MERLIN (Monitoring and evaluation of research in learning innovations) aplicado em países da Comunidade Européia e concluído em agosto de 2002. Texto disponível em: <http://www.ub.edu/euelearning/merlin/docs/finalreprt.pdf> Acesso em 07/03/09.

promessas com relação ao ensino-aprendizagem” (p.124). Porém, como argumenta Antonio (2008) 12 , já não basta o docente perder o medo do computador, é preciso mais. Para que possam fazer bom uso pedagógico das máquinas e da internet e acompanhar o ritmo das novas gerações, é precisa a elaboração de oficinas de capacitação desses docentes. Conforme nos mostram as pesquisas realizadas por Win e Vrakking (2009, p. 29), as novas gerações acostumadas com o uso constante das novas tecnologias sabem processar informações de forma descontínua numa velocidade três ou mais vezes superior à de um adulto. Esta espantosa habilidade foi se desenvolvendo a partir do volume imenso de informações disponíveis que precisam ser descartadas ou aproveitadas, de acordo com sua vontade ou seus objetivos. Essa geração foi denominada pelos autores de homo zappiens e expressam sua impaciência com relação à forma tradicional do fazer pedagógico indicando que “os professores são extremamente lentos em suas explicações e em suas respostas, desejando explicar tudo em detalhes” (p. 63). Passaremos então a analisar um pouco mais essa nova geração de estudantes e sua relação com o conhecimento.

12 Segundo os dados biográficos apresentados pelo próprio professor José Carlos Antonio em sua página pessoal na internet, desde 1998 escreve sobre a importância do uso dos computadores como ferramenta de ensino-aprendizagem e dá palestras sobre o assunto. É autor de um teste para verificar se o professor pode se considerar um professor digital, apresentando dez habilidades necessárias para que seja considerado como tal. Quanto maior for o número de habilidades, mais perto se chega ao perfil de um professor digital. As habilidades são as seguintes: 1) Possuir um endereço de e-mail e utilizá-lo pelo menos duas vezes por semana (o ideal seria fazê-lo diariamente); 2) Possuir um blog, um site ou uma página atualizável na Internet onde regularmente se produz, socializa e se confronta seu conhecimento com outras pessoas; 3) Participar ativamente de um ou mais “grupos de discussão”, fórum ou comunidade virtual ligada à sua atividade educacional; 4) Possuir algum programa de troca de mensagens on-line, como o MSN, com, no mínimo, dois colegas de profissão em sua “lista de contatos” e usá-lo para fins profissionais pelo menos uma vez por semana, em média; 5) Assinar algum periódico on-line (mesmo que gratuito) sobre notícias e novidades relacionadas à educação ou à sua disciplina específica, e lê-lo regularmente; 6) Preparar rotineiramente provas, resumos, tabelas, roteiros e materiais didáticos diversos usando um processador de textos (como o Word, por exemplo), uma planilha eletrônica (como o Excel) ou um programa de apresentações multimídia (como o Power Point); 7) Fazer pesquisa na Internet regularmente com vistas à preparação de suas aulas (no mínimo) e, preferencialmente, manter um banco de dados de sites úteis para sua disciplina e para a educação em geral. Melhor ainda seria compartilhar esse banco de dados com colegas e alunos; 8) Preparar pelo menos uma aula por bimestre sobre um tema de sua disciplina onde os alunos usarão os computadores e a sala de informática de forma produtiva e não apenas para “matar o tempo”; 9) Manter contato com o computador por, pelo menos, uma hora diária, em média, e 10) Manter-se atento para as novas possibilidades de uso pedagógico das novas tecnologias que surgem continuamente e tentar implementar novas metodologias em suas aulas. Vale destacar que na lista desenvolvida pelo professor não consta a necessidade de se possuir um computador, porque “não é preciso possuir algum para ser um professor digital, ou mesmo para incluir-se digitalmente”. Disponível em: <http://professordigital.wordpress.com/2008/06/30/voce-e-um-professor- digital/>, Acesso em 13.03.09.

2.5 - Homo Sapiens, Homo Faber ou Homo Zappiens?

Apenas o ser humano trabalha e educa (Saviani, 2007). Partiremos desta afirmação para resgatar ideias imprescindíveis a reflexões sobre o fato de que a existência humana não é garantida pela natureza, mas sim um produto do trabalho dos próprios homens, o que “significa que o homem não nasce homem, ele forma-se homem” (ibid., p.154). Este autor, analisando os fundamentos histórico-ontológicos da relação trabalho-educação chega a propor que buscássemos nos despir de todo orgulho para verificarmos que a história nos apresenta características constantes do homem e da inteligência que poderiam culminar em uma mudança de denominações: talvez não devêssemos ser o Homo Sapiens 13 , mas sim Homo Faber 14 , e argumenta que

Se a existência humana não é garantida pela natureza, não é uma dádiva natural, mas tem de ser produzida pelos próprios homens, sendo, pois, um produto do trabalho. Isso significa que o homem não nasce homem. ( ) Portanto, a produção do homem é, ao mesmo tempo, a formação do homem, isto é, um processo educativo. A origem da Educação coincide, então, com a origem do homem mesmo. (ibid., p. 154).

Quais seriam então os pré-requisitos para que esse homem compreenda e atue neste mundo em que vive atualmente? Talvez aprender a ler, escrever e contar, dominar princípios das ciências naturais e sociais, e poder interagir de forma autônoma e reflexiva com tecnologias cada vez mais poderosas e abrangentes que o cercam. E é a escola o local

13 Segundo o site de Educação Brasil Escola, o ser humano é um membro da espécie de primata bípede Homo sapiens (do latim: homem sábio). Os membros dessa espécie têm um cérebro altamente desenvolvido, com inúmeras capacidades como o raciocínio abstrato, a linguagem, e a resolução de problemas. Esta capacidade mental, associada a um corpo ereto, possibilitaram o uso dos braços para manipular objetos, fator que permitiu aos humanos a criação e a utilização de ferramentas para alterar o ambiente a sua volta mais do que qualquer outra espécie de ser vivo. O fóssil mais representativo e estudado de Homo sapiens foi o Homem de Neanderthal, cuja provável existência compreendeu o período entre 70.000 e 40.000 anos atrás, habitando a Europa e a Ásia. Os Neanderthais demonstravam habilidades na fabricação de instrumentos de pedras, utilizados para furar peles e confeccionar roupas e também produziam lanças de madeira usadas para abater animais de grande porte. Endereço: <http://www.brasilescola.com/biologia/a-nossa-especie-homo-sapiens.htm> Acesso em: 24.07.09. 14 Destacamos o conceito de homo faber apresentado por Libâneo (2008), para quem o ser humano que maneja a técnica nasceu com o homo sapiens, o ser humano dotado de inteligência. O autor destaca que o “o animal que seguia unicamente os instintos chegou a aprimorá-los por casualidades da natureza” e ainda que “quando brota a inteligência, surge a percepção do fim que se escolhe”, em vista deste fim o ser humano dispõem de instrumentos, e aí o homo faber atuará com sua técnica. O homo faber é então o homem que cria técnicas para domar e modificar a natureza a sua volta. Libâneo defende que hoje em dia assistimos ao crescimento de poder do homo faber, pois ele “não organiza meios inocentes para fins de pequeno alcance, ambiciona lançar-se por mares nunca dantes navegados”.

privilegiado, não o único, onde pode o indivíduo ter contato com trabalhos pedagógicos que visem desenvolver essas e outras habilidades e competências. De acordo com Perrenoud (2000, p. 168), “a evolução da escola transforma o ofício de professor década após década, por um duplo movimento: ambições crescentes e condições de exercício cada vez mais difíceis”, o que poderíamos completar com a afirmativa de que “uma cultura tecnológica de base também é necessária para pensar as relações entre a evolução dos instrumentos (informática e hipermídia), as competências intelectuais e a relação com o saber que a escola pretende formar” (ibid., 2008 p. 138). Ao profissional ligado à Educação, tal cultura torna-se ainda mais emergencial, pois

é este o profissional que necessitará ampliar suas competências e habilidades para lidar com

o novo mundo, a cada instante, dentro e fora de sala de aula. Com a evolução constante deste novo mundo, poderemos acompanhar a evolução de um novo homem, o nativo digital ou Homo Zappiens 15 (VRAKKING e VEEN, 2008), uma geração de seres humanos que cresceu em meio às tecnologias digitais e que aprendeu desde muito cedo que tais tecnologias lhes permitem acessar de forma rápida uma gama imensa de informações e se comunicar com pessoas. Eles “zapeiam” 16 entre as diversas informações que julgam interessantes ou úteis, da mesma forma como ficam mudando de canal no aparelho de televisão, ou seja,

O modo como elas assistem à televisão é um processo ativo de busca por indicadores e pontos importantes mais do que deixar-se levar pelo fluxo de eventos, conversas e sequências de imagens. Esta habilidade tornou-se tão natural para elas que também a aplicam em suas próprias comunicações nas salas de bate papo e no MSN 17 . Mesmo em suas

15 Segundo Veen e Vrakking (2009), homo zappiens é a denominação dada a uma nova geração de seres humanos que desde a infância utiliza recursos tecnológicos que lhes permitem ter controle sobre o fluxo de informações, “lidar com informações descontinuadas e com a sobrecarga de informações, mesclar comunidades virtuais e reais, comunicar-se e colaborarem em rede, de acordo com suas necessidades” (p.12). Desta forma, este ser é um processador ativo de informações, resolvendo problemas de maneira muito hábil, usando estratégias de jogos e sabendo se comunicar muito bem.

16 Zapear é um neologismo geralmente utilizado para designar o ato de mudar constantemente o canal da televisão utilizando-se de um controle remoto. Segundo a enciclopédia on-line Wikipédia, “o termo talvez tenha se originado da onomatopeia zap! que remete a algo feito rapidamente”. Disponível em:

<http://pt.wikipedia.org/wiki/zapear> Acesso em 07/01/09.

17 Microsoft Network ou simplesmente MSN é um portal e uma rede de serviços oferecidos pela Microsoft em suas estratégias envolvendo tecnologias da internet. A sigla atualmente é mais conhecida como programa mensageiro, pois o MSN Messenger permite conversar on-line e em tempo real. (Fontes: Wikipédia, Disponível em < http://pt.wikipedia.org/wiki/MSN> e MSN Messenger, Disponível em:

< http://webmessenger.msn.com/?mkt=pt-br> Acesso em 12.03.09).

conversas elas usam a linguagem das mensagens SMS 18 ou MSN. Pode-se notar que as crianças ficam impacientes enquanto ouvem você dar uma resposta às suas perguntas: “por favor, vá direto ao assunto, está demorando demais”. (ibid., p. 63).

Essa possibilidade de mudar rapidamente o foco da atenção de acordo com os interesses, segundo os autores, pode ser observada também no ambiente escolar, onde é cada vez mais difícil despertar-lhes a atenção. Os professores que irão trabalhar com esses alunos precisam ter ciência dessas características de uma nova geração que aprendeu a “cooperar em redes e negociar sobre as informações e confiança” (ibid., p. 62). As novas gerações aceitam as novas tecnologias sem medo, porém ainda necessitam de que lhes indiquem caminhos para que tais benefícios sejam utilizados de forma reflexiva e autônoma. Estes autores destacam diferenças significativas dessas gerações que nasceram com uma série de novas tecnologias em pleno funcionamento, e as anteriores, que acompanharam a evolução nem sempre tranquila.

Os Homo Zappiens vieram conhecer as oportunidades que a tecnologia oferece, sem todos os problemas que ela nos trouxe quando ainda estávamos desenvolvendo-a. Para eles, um telefone celular é um telefone celular, não um aparelho que pode ser muito prático, mas na metade do tempo não funciona. Um computador é apenas uma tela, um mouse e um teclado que permite a conexão com pessoas e coisas legais, não um equipamento especial caro que nos custa muito adquirir. Em suma, eles vivem sem medo da tecnologia, o que lhes permite utilizá-la. (ibid., p. 60).

Ao reconhecer as habilidades e as estratégias de aprendizagem que as novas gerações digitais estão desenvolvendo (principalmente fora do ambiente escolar), nossas instituições de ensino poderiam responder de acordo com as necessidades desses novos estudantes. Este é o grande desafio da Educação de hoje: encontrar formas de fazer mesclar o poder de reflexão, inteligência, construção e destreza com a tecnologia dessa nova geração; em outras palavras, mesclar o Homo Sapiens com o Homo Faber e estes dois com o Homo Zappiens. As reestruturações de currículos, os investimentos na formação do professor e na aquisição de tecnologias, para que os ambientes educacionais estejam aptos a receber

18 SMS é o serviço de mensagens curtas (Short Message Service). Disponível em telefones celulares digitais que permitem o envio de mensagens. O SMS foi projetado originalmente como parte do GSM (Sistema de Padrão Móvel Global), mas está agora disponível num vasto leque de redes, incluindo as do tipo 3G. (Fonte:

Wikipédia, Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Sms> Acesso em 12.03.09).

gerações de alunos acostumados com as TIC, e facilitar o acesso aos que se encontram à margem da revolução tecnológica, muitas vezes são bloqueados por políticas públicas confusas e pouco abrangentes. Há casos também de políticas relacionadas à inclusão digital e ao livre acesso à informação, elaboradas de forma que no papel se apresentem como grandes obras de literatura, mas vazias de prática e realismo. Como exigir do docente que esteja preparado para os grandes desafios da Educação sem que as políticas públicas que interferem diretamente no seu fazer pedagógico proporcionem meios para isso acontecer? Este é o foco da próxima subseção deste capítulo.

2.6 - As políticas públicas e os novos papéis do professor

Segundo Lévy (2008), toda e qualquer política de Educação deverá levar em consideração os novos suportes de informação e comunicação e proporcionar aos atores envolvidos no processo educacional uma formação que lhes permita evitar posicionamentos extremistas com relação ao uso das novas tecnologias, pois eles podem proporcionar mudanças na forma de trabalho do professor no novo mundo da cibercultura, onde o docente deixa de ser apenas um dispensador de conhecimentos, e passa a ser um animador da inteligência coletiva. Com relação ao trabalho do professor, este autor ainda destaca que

A função-mor do docente não pode mais ser uma difusão dos conhecimentos, executada doravante com uma eficácia maior por outros meios. Sua competência deve deslocar-se para o lado do incentivo para aprender e pensar. O docente torna-se um animador da inteligência coletiva dos grupos dos quais se encarregou. Sua atividade terá como centro o acompanhamento e o gerenciamento dos aprendizados: incitação ao intercâmbio dos saberes, mediação relacional e simbólica, pilotagem personalizada dos percursos de aprendizado, etc. (p. 11).

Ainda de acordo com Lévy, com o desenvolvimento da internet e consequentemente, do ciberespaço, torna-se cada vez mais perceptível que a maioria das competências adquiridas por uma pessoa, no começo de sua carreira, poderão tornar-se obsoletas no fim de seu percurso profissional, se este não se atualizar constantemente. A mesma opinião podemos encontrar nos trabalhos desenvolvidos por Sennet (2007), que argumenta que o mercado globalizado e o uso de novas tecnologias são as características do

capitalismo de nossa época. Estas novas características criam a sensação de fracasso e incerteza constantes. As mudanças rápidas corroem não só o trabalhador, mas o seu caráter, a família e mesmo suas perspectivas de vida. É importante a adaptação a outras formas de organizar o tempo e, sobretudo, o tempo de trabalho, pois, segundo este autor

O sinal mais tangível dessa mudança talvez seja o lema “Não há longo prazo”. No trabalho, a carreira tradicional, que avança passo a passo pelos corredores de uma ou duas instituições, está fenecendo; e também a utilização de um único conjunto de qualificações no decorrer de uma vida de trabalho (p. 22).

A exigência do mercado de trabalho de que o trabalhador se atualize e esteja em constante adaptação a novas realidades é analisado por Sennet como um novo paradigma mercadológico. De acordo com este autor, numa sociedade cada vez mais dinâmica como a que vem se descortinando, as pessoas passivas “murcham”, e no presente, cada vez mais “flexível e fragmentado, talvez pareça possível criar narrativas apenas sobre o que foi, e não mais narrativas precisas sobre o que será”(ibid., p. 161). Essa mudança nos paradigmas mercadológicos não deverá ser sentida apenas pelos profissionais liberais, ou por aqueles ligados a grandes instituições, mas sim, e de forma significativa, pelo profissional da Educação, o que, nas palavras de Paulo Freire (1996), é um ser na busca constante de ser mais, uma busca de caráter permanente por conhecimentos que possibilitem análises críticas do seu comprometimento com a Educação, verificando a validade do novo (novas formas de atuar) e livrando-se de preconceitos, inclusive sobre a utilização das novas tecnologias, pois “o homem é um ser inacabado e por isso se educa” (FREIRE, 1977, p. 27). Capacitar-se profissionalmente é também, segundo Freire, buscar desenvolver (ou aprimorar) a consciência crítica, que tem como características: anseio de profundidade na análise de problemas, amor ao diálogo e reconhecimento de que a realidade é mutável. Ele nos lembra também que o papel do professor é muito mais que puramente treinar, ao afirmar que

transformar a experiência educativa em puro treinamento técnico é amesquinhar o que há de fundamentalmente humano no exercício

educativo: o seu caráter formador. (

Divinizar ou diabolizar a tecnologia ou a ciência é uma forma altamente

negativa e perigosa de pensar errado. (1996, p. 33).

Educar é substancialmente formar.

(

)

)

O desafio da profissionalização docente no Brasil tem sido amplamente abordado por diversos autores, tais como Sampaio e Leite (1999); Rodrigues (2001); Cury (2002); Weber (2003); Campos (2007); Silva (2007), entre outros, nas suas diferentes concepções e campos de estudo. De uma forma geral, tais estudos convergem para a constatação da importância de que políticas públicas criem possibilidades de um desenvolvimento contínuo das competências necessárias para que esse profissional se sinta de fato à vontade e fortalecido na sua tarefa diária de mediação do conhecimento. Campos (2007, p.17), ao apresentar novas perspectivas e desafios para esse profissional, oferece-nos as seguintes análises

O que significa a profissão docente hoje? Ter profissionalismo e compromisso social, o que implica (1) pensar e pensar-se como docentes não só ocupados com tarefas didáticas, mas numa dimensão maior que inclui a gestão escolar e as políticas estratégicas educacionais; (2) ser protagonista das mudanças e capaz de participar e intervir nas decisões da escola e em espaços técnico-políticos mais amplos; (3) desenvolver capacidades e competências para trabalhar em cenários diversos, interculturais e em permanente mudança; (4) atuar com gerações que têm estilos e códigos de comunicação e aprendizagens diversos, com novas exigências e desafios à competência dos docentes.

Tais reflexões podem ser complementadas pelos comentários de Helena Freitas, presidente da Associação Nacional pela Formação de Profissionais da Educação (Anfope) 19 , em documento elaborado pela UNESCO em 2007 20 . Segundo Freitas (2007, p. 18), o movimento dos educadores vem defendendo há décadas a “necessidade de uma política global de formação e valorização do magistério que contemple igualmente a formação inicial e continuada, condições de trabalho, salários dignos e uma carreira com critérios justos”. Para a completa formação do professor, é fundamental, segundo Fischer (1997, p. 296) que sejam incluídas em seus estudos as “imagens, os processos de produção, de materiais audiovisuais, as diferentes formas de recepção e uso das informações, narrativas e interpelações de programas de televisão, filmes, vídeos e jogos”. De acordo com Sampaio e Leite (1999, p. 15), torna-se necessário preparar o professor “para utilizar pedagogicamente

19 Endereço na internet: http://lite.fae.unicamp.br/anfope/

20 O desafio da profissionalização docente no Brasil e na América Latina. Publicação elaborada pelo Conselho Nacional de Secretários de Educação em parceria com UNESCO do Brasil. Março de 2007.

as tecnologias na formação de cidadãos que deverão produzir e interpretar as novas linguagens do mundo atual e futuro”. Nas palavras de Perrenoud (2008), todo professor que se preocupa com o reinvestimento dos conhecimentos escolares na vida deveria ter interesse em adquirir uma cultura básica no domínio das tecnologias. Lutar contra a evasão e o fracasso escolar, segundo o autor, são também grandes motivos que poderiam servir de inspiração para a busca em desenvolver suas habilidades e competências na utilização de novas tecnologias no ambiente escolar. Formar o docente para a utilização das novas tecnologias, de acordo com este autor, pode ser entendido da seguinte maneira

Formar para as novas tecnologias é formar o julgamento, o senso crítico, o pensamento hipotético e dedutivo, as faculdades de observação e de pesquisa, a imaginação, a capacidade de memorizar e classificar, a leitura

e a análise de textos e de imagens, a representação de redes, de procedimentos e de estratégias de comunicação. (p. 128).

A importância de uma formação que desenvolva tais habilidades, a alfabetização tecnológica do professor, pode ser percebida de forma mais clara quando deparamos com alguns dados extraídos do estudo Tecnologia, Informação e Inclusão organizados pela UNESCO (2008) sobre o uso domiciliar das TIC. De acordo com esse estudo, até o ano de 2006, 90% das casas possuíam rádio e quase a totalidade, 97% das casas, possuía ao menos um aparelho de televisão. Menos de 20% dos brasileiros não tinham computador em casa, e, dos que tinham, apenas 14,5% estavam ligados à internet. Mais da metade dos brasileiros, 67%, nunca tinha navegado na internet. A mesma pesquisa ressalta aumento significativo nos números que indicam a presença do computador nos domicílios, pois poderemos verificar que em 2005 era de 16,6%, passando para 19,6% no ano seguinte, com a indicação de que as regiões Sul e Sudeste ficaram bem acima da média nacional, com 25% de brasileiros tendo o equipamento em suas casas. Nas regiões Norte e Nordeste, verifica-se o oposto, pois no período ainda se encontravam bem abaixo disso, na faixa de 9%. Estes e outros dados nos permitem delinear o perfil do indivíduo incluído na sociedade de informação no Brasil, de acordo com a UNESCO:

A maioria dos brasileiros computadorizados, (65%), tem curso superior

completo e se situa entre as classes A e B (61 e 65%), C (51,2%),

deixando um índice bem abaixo para as classes D-E (30%). A faixa etária predominante entre esses mesmos usuários vai de 16 a 24 anos (23%); apenas 8% são pessoas acima de 60 anos. Os dados permitem delinear o perfil do indivíduo incluído na sociedade da informação no Brasil: ele é jovem, pertence às classes mais abastadas, vive num lar com TV, rádio, celular e videogame, sabe usar a tecnologia e utiliza conexão rápida à internet. (p. 2)

Outras conclusões possíveis a partir da análise dos dados desta importante pesquisa são: 1) No Distrito Federal, um em cada três habitantes possui computador. A região é a campeã no país neste quesito, seguida de São Paulo, Curitiba, Rio de Janeiro e Porto Alegre, nessa ordem; 2) As classes D e E utilizam mais o computador e a internet nas escolas e centros de acesso pagos (lan houses); 3) A escola é um dos importantes locais de acesso ao computador e à internet para os mais jovens, de 10 a 15 anos, assim como os centros de acesso pagos; 4) A população na faixa de 16 a 34 anos costuma recorrer aos cursos de informática para aprender a usar o computador, enquanto os menores de 16 estão encontrando na escola as primeiras “letras tecnológicas” (principalmente os da classe D-E). De acordo com Melo (2008, p. 3), a “exclusão digital é uma mera projeção da exclusão cultural e tem seu fundamento na exclusão socioeconômica”. A diferença de possibilidades de acesso de pobres e ricos ao ciberespaço recebe a denominação do autor de “muralha digital” e, em uma perspectiva histórica, completa:

Ela (a exclusão) se impõe desde o aparecimento da imprensa, projeta-se com o rádio, continua com a televisão e persiste com a cibermídia. Qualquer sociedade que possua excluídos do bem estar social, evidentemente, conta com um grande número de excluídos midiáticos.

A internet brasileira ainda é um canal de comunicação das elites, das

classes mais favorecidas e de segmentos específicos das classes médias”.

(p. 3).

) (

Poderemos concluir, a partir dos dados deste estudo que ainda é a escola, e de forma especial a pública, o principal local de democratização do acesso à rede. O principal local de acesso ao computador das classes D e E está nas escolas públicas do país. Cabe a esta escola o papel importante de garantir que a técnica, a ciência e a cultura não sejam conhecimentos relegados apenas a elites. Estará o professor desta escola preparado para proporcionar essa democratização? Conforme Sampaio e Leite (1999, p. 46), o educador deve sempre estar atento às características e necessidades do mundo atual, tendo como objetivo “contribuir

significativamente para a concretização desse papel fundamental da Educação e da escola”, que é a de formar cidadãos que atuem de forma crítica na sociedade, pois, de acordo com as autoras:

Precisamos pensar em uma escola que forme cidadãos capazes de lidar com o avanço tecnológico, participando dele e de suas consequências. Esta capacidade se forja não só através do conhecimento das tecnologias existentes, mas também, e talvez principalmente, através do contato com elas e da análise crítica de sua utilização e de suas linguagens. (ibid., p.

15).

Estas autoras defendem a necessidade de uma alfabetização tecnológica do professor, como forma de capacitar o profissional para novas formas pedagógicas de atuar utilizando-se de novas tecnologias disponíveis. A alfabetização tecnológica pode ser entendida também como uma democratização digital e possibilidade de acesso ao domínio técnico, pedagógico e crítico dessas novas tecnologias, pois como nos mostra as mesmas autoras:

O conceito de alfabetização tecnológica do professor envolve o domínio

contínuo e crescente das tecnologias que estão na escola e na sociedade, mediante o relacionamento crítico com elas. Este domínio se traduz em uma percepção do papel das tecnologias na organização do mundo atual - no que se refere a aspectos locais e globais - e na capacidade do professor em lidar com essas diversas tecnologias, interpretando sua linguagem e criando novas formas de expressão, além de distinguir como, quando e por que são importantes e devem ser utilizadas no processo educativo. (ibid., p. 100).

Assim, o desenvolvimento crítico desse profissional não pode estar ligado simplesmente a acompanhar o progresso das novas tecnologias (FISCHER, 1997, p.65), mas sim a estudá-lo na complexidade de todas as relações em jogo. Tal pensamento encontramos também em Lucena (2008, p. 242), que argumenta:

O professor precisa estar aberto para interagir com esta tecnologia no

sentido de formar um cidadão atuante na sociedade e que tenha condições

de fazer uma leitura crítica da mesma sociedade. Para preparar esse novo

cidadão, é fundamental a aquisição de equipamentos tecnológicos e clareza de uma ação pedagógica em consonância com essas mudanças, onde o professor possa interagir com as tecnologias, desenvolvendo práticas pedagógicas não lineares, e sim estruturadas de forma hipertextual 21 .

21 O hipertexto é, para Silva (2007, p. 14), uma teia de conexões de um texto com inúmeros outros textos.

Kellner (2008, p. 1) afirma que as formas de desenvolver essas competências que capacitem as pessoas a participar de forma autônoma de um mundo cada vez mais complexo e mutante é uma das discussões mais presentes em nossos dias, pois “deveríamos considerar seriamente a tese de que estamos passando agora pela revolução tecnológica mais significativa na Educação, desde a mudança do ensino, baseada na oralidade para o ensino baseado na imprensa e no livro”. Este autor defende ainda que, pelo fato de vivermos em uma sociedade multicultural, precisamos de múltiplas modalidades de alfabetizações. Com relação a essa análise, nos apresenta o seguinte argumento:

Teorizar uma reconstrução multicultural e democrática da educação força- nos, assim, a enfrentarmos a barreira digital e a reconhecermos que há divisões entre a informação e tecnologia dos que tudo têm e dos que nada têm, assim como existem divisões de classe, gênero e raça em todas as esferas das constelações existentes na sociedade e na cultura. As últimas pesquisas da divisão social, no entanto, indicam que as questões-chave desta barreira são a classe social e Educação, e não raça e gênero, o que traz elementos para questionar também o argumento tão disseminado de que as novas tecnologias apenas reforçam a hegemonia dos machos brancos da classe superior. (ibid., p. 2)

Com a mesma ênfase, Kellner nos chama a atenção para o desenvolvimento e implementação de programas de alfabetização tecnológica propostos aos professores resultantes de decisões de “cima para baixo”, como o projeto desenvolvido pela SEEDUC- RJ na entrega de laptops para os professores da rede estadual de ensino, o polêmico “Conexão Professor”, do qual trataremos no capítulo 3 desta pesquisa.

CAPÍTULO 3 O PROJETO CONEXÃO PROFESSOR

Neste capítulo apresentamos o projeto desenvolvido pela Secretaria de Educação do Rio de Janeiro de entrega de laptops aos professores da rede de ensino, denominado “Conexão Professor”, que nos servirá de base para a pesquisa de campo e análises das possíveis mudanças nas práticas pedagógicas dos professores a partir da utilização de novas tecnologias de informação e comunicação. Iniciamos com um breve panorama da rede estadual de ensino do Rio de Janeiro, suas escolas e seus professores, as propostas do projeto Conexão Professor sobre esses dois elementos e diversas vozes que se manifestaram a favor e contra sua implementação. Por fim, algumas reflexões sobre por que, de uma forma geral, não é permitido ao professor que se manifeste sobre tais projetos, uma vez que tem justamente sua prática pedagógica como foco de atenção, e quais as formas utilizadas por alguns professores para superar tais barreiras.

3.1 - Breve panorama das Escolas e dos Professores da Rede Estadual de Ensino do Rio de Janeiro

No ano de 2007, a Secretaria de Estado de Educação do Rio de Janeiro (SEEDUC- RJ), em parceria com a União dos Dirigentes Municipais de Educação do Rio de Janeiro (UDIME-RJ), elaborou um documento norteador de discussões para construção de um Plano Estadual de Educação para o Estado. O intuito deste documento, de acordo com seus organizadores, era oferecer subsídios para discussões em amplos segmentos da sociedade civil em torno da construção desse Plano. O documento, denominado também de Tese Guia, foi elaborado com o apoio de inúmeros representantes de importantes instituições

ligadas à Educação 22 . Os dados apresentados neste e em outros documentos nos serve para tomada de consciência do panorama em que se encontrava a Rede de Ensino no momento em que o projeto Conexão Professor ainda estava sendo elaborado. O documento norteador de discussões para a construção de um Plano Estadual de Educação (SEEDUC-RJ, 2007), torna-se, então, uma rica fonte de dados que nos ajudam a compreender a abrangência e a complexidade de qualquer implantação de políticas públicas na área da Educação fluminense, pois nele encontraremos diagnósticos e diretrizes elaboradas a partir da análise destes diagnósticos, e são revelados objetivos e metas a serem alcançados a “fim de tornar o conjunto do Sistema de Ensino mais equânime, democrático e qualificado” (p. 5). A importância da elaboração de tal documento foi ressaltada por seus criadores logo nas primeiras páginas, de onde destacamos:

A Educação fluminense ressente-se da ausência de ferramentas que propiciem que as ações dos gestores sejam planejadas e referenciadas,

movidas por um projeto educacional que ultrapasse a duração de governos

e estabeleça-se como uma política de Estado. O Plano Estadual de

Educação deve ser esta ferramenta, a qual permite que a gestão desse bem tão caro à sociedade brasileira - a Educação - firme-se em propósitos

balizadores e propulsores de valores éticos, culturais e sociais sólidos capazes de promoverem a construção de um Sistema estadual articulado

de Educação 23 (p. 5).

No sentido de alcançar estas intenções, a proposta de Minuta do Plano Estadual de Educação prioriza a gestão democrática e a qualidade social da Educação, defendendo sempre a promoção da garantia da Educação para todos, de acordo com um dos princípios

22 Neste documento encontramos uma lista com mais de sessenta instituições representativas de diversos segmentos da sociedade que foram convidadas a enviar delegações e observadores para os fóruns regionais e para o II Congresso Estadual de Educação. Para oferecer uma ideia da perceptível busca intencionada pelos organizadores por uma maior amplitude das discussões, destacaremos algumas das entidades convidadas:

ABE (Associação Brasileira de Educação); ABI (Associação Brasileira de Imprensa); ABL (Academia Brasileira de Letras); ABMES (Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior); ANDHEP (Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisas e Pós-Graduação); ANFOPE (Associação Nacional pela Formação dos Profissionais da Educação); CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior); CEE (Conselho Estadual de Educação do Rio de Janeiro); CNE (Conselho Nacional de Educação); CNTE (Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação); Comissão dos Direitos Humanos da ALERJ (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro); Comissão de Educação da ALERJ; SEPE (Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação); UPPES (União dos Professores Públicos no Estado), etc.

23 Por Sistema Estadual articulado de Educação entende-se a promoção de políticas que incentivem o regime de colaboração entre os Sistemas de Ensino, tendo como um dos instrumentos o financiamento da Educação. (SEEDUC-RJ, 2007, p. 5).

da Constituição Federal de 1988, assim como a preocupação com os temas ligados à inclusão e à diversidade, e o combate aos problemas que geram a evasão escolar. De acordo com esse documento (SEEDUC-RJ, 2007), o Ensino Médio no Estado fluminense é oferecido pela rede pública (composta de instituições federais, estaduais e municipais) e instituições particulares, perfazendo um total de aproximadamente 732.000 alunos. A rede pública atende a aproximadamente 84% dos alunos nesse nível de ensino, enquanto que a rede particular atende a aproximadamente 16% das matrículas (Figura 1).

Figura 1 - Número e percentual de matrículas em toda a rede de Ensino Médio do Estado do Rio de Janeiro, por dependência administrativa.

Estado do Rio de Janeiro, por dependência administrativa. Estadual (80,87%) Federal (1,72%) Municipal (1,42%)

Estadual (80,87%)Federal (1,72%) Municipal (1,42%) Particular (15,99%)

Federal (1,72%)Estadual (80,87%) Municipal (1,42%) Particular (15,99%)

Municipal (1,42%)Estadual (80,87%) Federal (1,72%) Particular (15,99%)

ParticularEstadual (80,87%) Federal (1,72%) Municipal (1,42%) (15,99%)

(15,99%)

Fonte: MEC/INEP/2006 - RIO DE JANEIRO, Secretaria de Educação do Estado do Rio de Janeiro -Tese Guia, Documento norteador das discussões sobre a construção do Plano Estadual de Educação do Rio de Janeiro, SEEDUC-RJ, 2007. (p. 20).

Este documento nos mostra que do total de alunos matriculados no Ensino Médio, aproximadamente 60% (434.834 estudantes) cursam o turno da manhã e 40% (296.920 estudantes), o turno da noite (SEEDUC-RJ, 2007, p. 20). A rede privada de ensino possui 42% das unidades escolares do Ensino Médio, mas somente 16% do total de alunos estão matriculados nela, enquanto que a rede pública conta com 58% das escolas e matricula cerca de 84% dos alunos (Ver Tabela 5).

Tabela 5 - Estabelecimentos com Ensino Médio - Ano 2006

Dependência Administrativa

Total de Escolas

%

Federal

22

1

Estadual

1038

55

Municipal

38

2

Privada

805

42

Total

1903

100

Fonte: MEC/INEP - RIO DE JANEIRO, Secretaria de Educação do Estado do Rio de Janeiro -Tese Guia, Documento norteador das discussões sobre a construção do Plano Estadual de Educação do Rio de Janeiro, SEEDUC-RJ, 2007 (p. 21).

A taxa líquida de escolarização no estado do Rio de Janeiro é de aproximadamente

44%, fazendo supor, de acordo com a equipe que elaborou o documento, que muitos jovens, com idade entre 15 e 17 anos, estão ainda no Ensino Fundamental. A taxa bruta de escolarização, em torno de 100%, sugere que “aqueles que abandonaram os estudos ou que se evadiram retornaram à escola, seja na Educação de Jovens e Adultos, seja no Ensino Médio” (p. 21), o que reflete diretamente na taxa de defasagem idade/série no Ensino Médio.

É interessante verificar, no documento em análise, que a taxa de aprovação no

Estado é inferior à do Sudeste, apresentando por consequência taxas de reprovação e

abandono superiores.

Comparando os anos de 2000 e 2004, tanto no Sudeste, quanto no Rio de Janeiro, houve uma diminuição nas taxas de aprovação e um aumento nas de reprovação. Já a taxa de abandono diminuiu na região, porém aumentou no Estado. Constata-se que o índice de aprovação no estado do Rio de Janeiro é baixo, ocorrendo-se ainda altos índices de reprovação e abandono (p. 22).

Em uma análise comparativa entre a região Sudeste e o estado do Rio de Janeiro, no período compreendido entre 2000 a 2004, os analistas da SEEDUC-RJ verificaram que:

1) O tempo médio de permanência no Ensino Médio não se altera no período, porém o Estado apresenta um tempo de permanência maior;

2) O tempo médio de conclusão é menor na região Sudeste. No Estado, este tempo vem aumentando anualmente; 3) A taxa média de conclusão é maior na região na região Sudeste e a diferença fica mais acentuada em 2004. A análise destes e de outros índices levou os organizadores do documento a

enumerar alguns objetivos e metas a serem atingidos. Dentre estes objetivos, destacamos:

- Reduzir em 5% ao ano a repetência e a evasão (para aumentar a taxa líquida de

escolarização);

- Elevar em 5% ao ano os índices de desempenho dos alunos de Ensino Médio nos exames

nacionais (SAEB e ENEM) e avaliação externa estadual;

- Igualar, em dois anos, a mesma taxa de conclusão da região Sudeste;

- Assegurar a gestão democrática e a autonomia das escolas;

- Estabelecer estratégias para a redução da carência de professores nas diferentes áreas do

conhecimento;

- Definir padrões mínimos de infraestrutura para as escolas, prevendo espaço para a prática

da Educação Física, biblioteca, laboratórios de informática e tecnologia digital 24 , etc.

- Oferecer cursos de qualificação aos professores 25 e estabelecer estratégias que permitam

a promoção de encontros de professores para uma reflexão conjunta sobre a escola, sua finalidade, seus problemas e possíveis propostas de melhorias. No mesmo documento, encontramos informações sobre o Censo Escolar de 2006 (p. 61) relacionados à formação inicial e continuada dos profissionais de Educação, condições de trabalho, salário e carreira. De acordo com os autores,

Há um certo consenso de que o sucesso da Educação depende do perfil do professor e de suas condições de trabalho; entretanto, o sistema de ensino nem sempre fornece os meios pedagógicos necessários à realização de suas tarefas, cada vez mais complexas. Os professores são compelidos a buscar, então, por seus próprios meios, formas de requalificação que muitas vezes se traduzem em aumento não reconhecido e não remunerado da jornada de trabalho. (p. 61).

No Brasil, no ano de 2006, existiam 2.647.414 funções docentes 26 , exercendo atividades nos diversos níveis de modalidades de ensino da Educação Básica. As escolas

24 Grifo nosso

25 Grifo nosso

públicas reuniam aproximadamente 85% do total, ou seja, 2.119.923 funções docentes, e a

região Sudeste contava com o maior percentual de professores atuando no sistema público

de ensino, 1.104.534 docentes (Tabela 6).

Tabela 6 - Número de funções docentes em exercício, por dependência administrativa, segundo a região geográfica e a unidade da Federação, em 29/03/2006

Unidade da federação

Funções Docentes exercendo atividades em sala de aula

   

Dependência administrativa

Total

Federal

Estadual

Municipal

Privado

Brasil

2.647.414

14.825

958.593

1.146.505

527.491

Sudeste

1.104.534

5.531

442.773

390.822

265.408

Minas Gerais

284.972

1.780

117.415

110.712

55.065

Espírito Santo

48.107

501

12.906

25.012

9.688

Rio de Janeiro

238.415

3.116

79.061

92.100

64.138

São Paulo

533.040

134

233.391

162.998

136.517

Fonte: MEC/INEP - RIO DE JANEIRO, Secretaria de Educação do Estado do Rio de Janeiro -Tese Guia, Documento norteador das discussões sobre a construção do Plano Estadual de Educação do Rio de Janeiro, SEEDUC-RJ, 2007. (p. 62).

A partir dos dados da Tabela 6, foi elaborado o gráfico apresentado na Figura 2,

onde foram destacados, para facilitar a comparação, apenas os valores relacionados ao

Brasil, a região Sudeste e ao Rio de Janeiro.

26 Tendo como foco o diagnóstico do quantitativo dos professores em atuação no sistema de ensino, colocam- se questões em relação às dificuldades de apresentar este dimensionamento. De acordo com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), o Censo Escolar se baseia em informações prestadas pela escola quanto ao número de professores em exercício. Entretanto, esses professores podem atuar em outras escolas. Da mesma forma, em uma escola, o mesmo professor pode atuar em mais de um nível/modalidade de ensino. Por essa razão, foi adotado o uso do termo “função docente” nas estatísticas do INEP. Fonte: Tese Guia, Rio de Janeiro, 2007 (p. 61).

Figura 2 - Funções docentes de acordo com a abrangência administrativa

3.000.000 2.500.000 2.000.000 1.500.000 1.000.000 500.000 0 Federal Estadual Municipal Privado Total
3.000.000
2.500.000
2.000.000
1.500.000
1.000.000
500.000
0
Federal
Estadual
Municipal
Privado
Total
Brasil Sudeste Rio de Janeiro
Brasil
Sudeste
Rio de Janeiro

Fonte: RIO DE JANEIRO, Secretaria de Educação do Estado do Rio de Janeiro -Tese Guia, Documento norteador das discussões sobre a construção do Plano Estadual de Educação do Rio de Janeiro, SEEDUC-RJ, 2007. (p. 62).

Os dados da Tabela 6 nos permitem observar que o estado do Rio de Janeiro reunia,

em 2006, um total de 238.415 funções docentes, sendo 174.277 na rede pública e 64.138 no

ensino privado. Desse total, de acordo com a Tabela 7, pode-se verificar que 47,10%

funções docentes estavam nas creches, Educação Infantil e nos anos iniciais do Ensino

Fundamental. No Ensino Fundamental de 6 0 ao 9 0 anos (antigas 5 a a 8 a séries), havia um

total de 30,49% de funções docentes e no Ensino Médio, o total de 22,41%.

Tabela 7 - Número de funções docentes por níveis de ensino

Funções Docentes / níveis de ensino

Brasil

Sudeste

Rio de

Janeiro

Creche

94.038

42.691

6.907

Educação Infantil (pré-escola)

309.881

125.005

22.627

Ensino Fundamental (anos iniciais)

1.665.341

670.160

137.465

Ensino Fundamental (5 a a 8 a série)

865.655

360.797

75.688

Ensino Médio

519.935

243.317

55.634

Fonte: RIO DE JANEIRO, Secretaria de Educação do Estado do Rio de Janeiro -Tese Guia, Documento norteador das discussões sobre a construção do Plano Estadual de Educação do Rio de Janeiro, SEEDUC-RJ, 2007 (p. 63).

Tabela 8 - Funções docentes / níveis de formação

Área de atuação

Superior

Nível Médio

Ens. Fund.

Ens. Fund.

completo

incompleto

Educação Infantil creche

34,89

61,96

2,64

0,49

Educação Infantil pré-escola

43,81

54,73

1,32

0,12

Ensino Fundamental séries iniciais

50,61

49,35

0,45

0,03

Ensino Fundamental (5 a a 8 a séries)

99,43

0,56

   

Ensino Médio

99,81

0,18

   

Educação Profissional

96,33

3,58

   

Fonte: RIO DE JANEIRO, Secretaria de Educação do Estado do Rio de Janeiro - Tese Guia, Documento norteador das discussões sobre a construção do Plano Estadual de Educação do Rio de Janeiro, SEEDUC-RJ, 2007 (p. 64).

Na proposta de um Plano Estadual de Educação para o Rio de Janeiro, elaborada e

divulgada por Maranhão (2007), nos são apresentadas reflexões sobre o fato de o estado do

Rio de Janeiro apresentar alguns dos indicadores 27 mais elevados do País, mas também ter

sofrido nas últimas décadas os reflexos da falta de investimentos no ensino público. Por

isso, de acordo com este autor, precisamos trabalhar de forma ainda mais intensa para

melhorar o desempenho de nossos estudantes e a formação continuada de nossos docentes.

Sobre isso ele argumenta que

Está provado que o desempenho do corpo discente está estreitamente relacionado à qualificação do corpo docente. Assim, estamos nos

esforçando para agir em coerência com a LDB, que trata o professor como peça-chave do processo ensino-aprendizagem, de quem dependemos para o sucesso da implementação das reformas do ensino determinadas pela Lei e sugeridas pelas Diretrizes Curriculares Nacionais. É preciso, portanto, que nossos docentes se tornem também pesquisadores, sintonizando as necessidades educacionais específicas da clientela que

) Assim, é

atendem e adaptando o processo de ensino à sua realidade. (

imprescindível que, além de uma boa formação inicial nos cursos de preparação do magistério, eles possam contar com meios permanentes de autoaprimoramento. Infelizmente, temos dois problemas: a formação

27 Dentre outros indicadores, destacamos o fato de que o Estado do Rio de Janeiro possui aproximadamente 96% de seus habitantes residindo em áreas urbanas, com um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH, medido pelo Pnud, Programa das Nações Unidas para o desenvolvimento, que leva em conta como indicadores a Educação, a expectativa de vida e a renda da população) de 0,802, que é superior ao IDH nacional, de 0777. Vale destacar também que o estado tem a segunda maior economia do país e é um dos maiores polos nacionais de investimentos. (MARANHÃO, 2007, p. 9).

deficiente de parte do corpo docente fluminense e a falta de oportunidades para a formação continuada. (p. 12).

Os dados apresentados na Tabela 8, elaborada a partir dos dados quantitativos disponíveis na Tese Guia da SEEDUC-RJ (2007, p. 64), nos oferecem uma visão sobre os níveis de formação dos professores de acordo com o nível escolar em que atuam. Dessa tabela destacamos o fato de aproximadamente 50% dos professores que atuam nas séries iniciais do ensino fundamental possuírem apenas o nível médio de escolaridade. Como possíveis soluções para amenizar esse quadro, Maranhão apresenta algumas medidas que estão sendo tomadas a fim de melhorar a formação do quadro de docentes do Estado, tais como parcerias com o Ministério da Educação para a promoção de cursos para professores nas áreas de Biologia, Física, Química e Matemática que estejam atuando no Ensino Médio da rede pública estadual. Destaca também os cursos de licenciatura oferecidos através do consórcio do Centro de Educação a Distância do Estado do Rio de Janeiro (CEDERJ) 28 , composto por universidades públicas. Julgamos que os cenários apresentados são suficientes para nos servir de subsídios a fim de abalizar e entender políticas públicas que estão sendo implementadas ou que surgirão a partir de novos fóruns e debates, como, por exemplo, o projeto Conexão Professor, que será apresentado posteriormente neste trabalho. Mas, concordamos com os autores desses documentos, que nos serviram para a apresentação de panoramas da rede estadual de ensino do Rio de Janeiro, quando afirmam que, para uma reflexão mais completa, outros indicadores necessitam de avaliação detalhada, tais como a evolução das funções docentes e matrículas por níveis de ensino dentro de uma série histórica; a proporção de alunos por funções docentes; o grau de formação mais elevado dos docentes nas disciplinas em que atuam e vínculo institucional e contratual dessas funções. Com relação à valorização dos profissionais da Educação, destacamos:

28 O primeiro vestibular do Consórcio Cederj aconteceu em 2001. Os cursos oferecidos até o ano de 2009 são licenciaturas nas áreas de Ciências Biológicas, Física, História, Matemática, Pedagogia, Química e Turismo, além da graduação em Administração. Com relação a cursos de extensão, são oferecidos: Biologia, Informática Educativa, Educação em Ciências, Química, Física, Geografia, Matemática e Governança. São 33 pólos de estudo espalhados por todo o Estado. Dados obtidos no endereço:

<http://www.cederj.edu.br/fundacaocecierj/index.php> Acesso em 14.03.09.

O Plano Estadual de Educação, atendendo a orientações originadas do MEC e àquelas já existentes no sistema público estadual, defende a necessidade de valorização dos profissionais da Educação como ponto de partida para a melhoria da qualidade de ensino. Para que isso se efetive, o Plano deverá propor políticas públicas que favoreçam não só a qualificação e a atualização dos profissionais, como a melhoria de suas condições salariais e de trabalho (SEEDUC-RJ, 2007, p. 64).

Isso nos permite verificar que o Plano Estadual de Educação tem como referência a Lei de Diretrizes e Bases, de onde podemos destacar as indicações de favorecer o desenvolvimento profissional do docente:

Art. 67 - Os sistemas de ensino promoverão a valorização dos profissionais da Educação, assegurando-lhes, inclusive nos termos dos estatutos e dos planos de carreira do magistério público.

II- aperfeiçoamento profissional continuado, inclusive com

licenciamento periódico para esse fim.

) (

IV - progressão funcional baseada na titulação ou habilitação, e na avaliação do desempenho. (BRASIL, 1996)

(

)

Com base nos parâmetros educacionais traçados pelas leis, e análise sobre os cenários apresentados nos números indicados nos gráficos e tabelas, foram desenvolvidos pelos seus analistas alguns objetivos e metas para que seja efetivada a valorização do profissional da Educação no estado do Rio de Janeiro. Dentre outros, destacamos:

Implantar políticas de formação continuada que permitam ao professor o domínio sobre a cultura letrada, dentro de uma visão crítica e da perspectiva de um novo humanismo; desenvolver programas de formação continuada, de modo que os professores possam recorrer a eles frequentemente, especialmente através de tecnologias de comunicação adequadas; salário condigno, competitivo no mercado de trabalho, com outras ocupações que requerem nível equivalente de formação; ampliar as condições de acesso dos profissionais da Educação aos cursos de mestrado e doutorado; desenvolver políticas de incentivo e valorização da formação docente, que contribuam para a formação de um quadro de profissionais comprometidos com a melhoria da qualidade de ensino.(SEEDUC-RJ, 2007, p. 66).

Ainda destacamos que, dentre os objetivos definidos, a utilização das TIC aparece como uma possibilidade real de melhoria da qualificação do docente. O que poderemos verificar que está de acordo também com as metas apresentadas pela Agenda Social do Governo Federal (BRASIL, 2008), onde podemos constatar que a Educação no Brasil receberá R$ 15 bilhões até o ano de 2011 para combater o analfabetismo, promover a

melhoria do sistema e universalizar o ensino público brasileiro, através do Programa de Desenvolvimento, que é apresentado da seguinte forma

No ano de 2007 o Governo Federal lançou o Programa de

Desenvolvimento da Educação (PDE). (

pela Educação”, traçando as metas de o País ter, em 2022 - ano do Bicentenário da Independência do Brasil -, toda criança e jovem de 4 a 17 anos na escola; toda criança plenamente alfabetizada até os oitos anos;

todo aluno com aprendizado adequado á sua série; e todo jovem com o Ensino Médio concluído até os 19 anos. Esses objetivos serão alcançados com a adoção de uma gestão adequada e moderna dos recursos (p. 6).

O lema do Programa é “Todos

)

No mesmo documento, encontramos esclarecimentos a respeito de como parte dos valores envolvidos neste projeto serão distribuídos.

Em seu segundo ano de existência, o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de valorização dos profissionais da Educação (Fundeb) conta com investimentos de R$ 3,2 bilhões na educação do País. Para o próximo ano, os valores deverão subir para R$ 4,5 bilhões, uma iniciativa que atenderá a mais de 47 milhões de estudantes brasileiros. Pelo menos 60% dos recursos do Fundeb vão para investimentos na remuneração e na valorização dos professores de escolas públicas. (p. 6).

Neste documento, encontramos a seguir uma série de descrições de iniciativas do Governo Federal que pretendem promover “o resgate da cidadania e a transformação social”. Dentre estas, destaca-se a iniciativa de criação de ambientes informatizados nas escolas públicas, com a estimativa de “35 mil laboratórios de informática instalados em 2009 e outros 45 mil em 2010” (p.6). O apoio da União em projetos que promovam ações de inclusão digital pode ser acompanhado também através da implementação de diversos outros programas, tais como:

Projeto Computadores para Inclusão (PCI); Projeto Computador para Todos; Governo Eletrônico e Serviço de Atendimento ao Cidadão (GESAC), e o Programa Nacional de Informática na Educação (PROINFO). Podemos verificar também, através de entrevistas diversas concedidas pelo Presidente da República de nosso País, que o Governo Federal apoiou integralmente a implementação do Projeto Conexão Professor no estado do Rio de Janeiro, que culminou com a entrega de 31 mil laptops para os professores de Ensino Médio da rede estadual de

ensino. Nas palavras do Presidente, a ampliação do acesso da população à internet e a crescente demanda interna por artigos de informática são conquistas do cidadão brasileiro.

É uma conquista superior do ser humano. É uma conquista de cidadania importante para que as pessoas possam utilizar o computador como um instrumento de melhorar a sua vida, de prestar serviço, de receber informações, de estudar. (FOLHA ONLINE, Edição de 14 de abril de 2008, Disponível em:<http://www1.folha.uol.com.br/folha/informatica/ult 124u391862.shtml> Acesso em 29/08/09).

A criação de Portais como Software Livre 29 e Governo Eletrônico 30 , assim como o desenvolvimento de programas de inclusão digital destinados a toda a população brasileira citados anteriormente, podem servir de indicadores de que de fato os indivíduos responsáveis em dirigir um país em transformação parecem estar cientes do relevante papel que as novas formas de comunicação e informação exercem sobre a sociedade. Convém ressaltar o que nos lembram alguns teóricos educacionais, tais como Xavier (2008), que a inclusão digital (inclusive a do professor) tem um tripé que compreende o acesso à Educação, renda e tecnologias. A ausência de qualquer um desses significa deixar uma grande parcela da população brasileira permanecendo na condição de mera aspirante à inclusão digital.

3.2 - Conexão Professor: implementação do projeto, história e embates

Para a elaboração desta parte de nossa pesquisa, contamos com vasto material recolhido em escolas públicas estaduais que nos foram gentilmente cedidos. Desta forma tivemos acesso a publicações, comunicados e normas enviados pela SEEDUC-RJ às unidades de ensino e aos professores, assim como jornais e panfletos distribuídos por sindicatos. A reprodução de discursos de autoridades no plenário da ALERJ, e diversas reportagens de jornais disponíveis, inclusive na internet, compõem outras fontes que

29 Endereço da página: <http://www.softwarelivre.gov.br/> Acesso em 15.03.09

30 Endereço da página: <https://www.governoeletronico.gov.br/> Acesso em 15.03.09

propiciaram análises sobre um momento histórico e político da implementação de um projeto ao mesmo tempo pioneiro e polêmico: Conexão Professor. Embora este trabalho não tenha a intenção de se tornar denunciativo, julgamos que alguns fatos relacionados ao desenvolvimento deste projeto que podem ajudar a entender medidas públicas, discursos e posicionamentos adotados, devem aqui ser mencionados. Nas palavras da Secretária de Educação do Estado do Rio de Janeiro, Tereza Porto, o projeto Conexão Professor pode ser definido da seguinte maneira:

Foi o primeiro passo para a implementação de um projeto maior denominado Educação para a Sociedade do Conhecimento, que além de entregar 31.000 laptops aos professores, trabalhará também na qualificação destes profissionais para usar essa tecnologia. Em um segundo momento será implementado o Conexão Escola, que consistirá na criação de um laboratório de informática em todas as 1.591 escolas estaduais com internet em banda larga (PORTO, 2008, p.1).

Podemos perceber a partir desta fala da Secretária que as políticas públicas a serem implementadas por parte do Governo Estadual, voltadas para a criação de ambientes informatizados nas escolas, estão em conformidade com projetos traçados pelo Governo Federal, tais como os indicados no Livro Branco desenvolvido pelo Ministério da Ciência e Tecnologia e já comentado anteriormente. De acordo com Evaldo Bittencourt (2008), Superintendente de Planejamento da Secretaria de Educação do Estado do Rio de Janeiro, órgão responsável pela implementação do projeto, a derrubada do medo das novas tecnologias foi um dos principais objetivos traçados para o Conexão Professor, e a rotineira utilização destas novas tecnologias pode facilitar a geração da confiança, e posteriormente o uso do computador em sala de aula.

Em carta entregue junto ao equipamento aos professores da rede estadual de ensino, em março de 2008, o Governador do Estado do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, relata sua percepção de que novas tecnologias podem gerar mudanças na Educação 31 :

Vivemos em mundo novo, que muda cada vez mais rapidamente. O computador e a internet aproximam as pessoas e aceleram o crescimento econômico. Como porta de entrada para essa nova sociedade do

31 A íntegra da carta do Governador aos professores se encontra no Anexo I.

conhecimento, o Governo do Rio de Janeiro escolheu como prioridades a escola e o professor (CABRAL, 2008, p.1).

E logo adiante, justifica esta escolha:

O professor sempre foi e continuará a ser um elemento essencial na evolução da nossa sociedade. É papel do Estado incentivar a inclusão digital predominantemente dentro das escolas, com a sua participação ativa, na sala de aula e fora dela.

Em uma iniciativa inédita, de acordo com Cabral, o investimento em tecnologia e treinamento para os professores da rede estadual de ensino realiza-se como parte de um programa que visa formar com urgência “uma geração de jovens capazes de aproveitar as oportunidades geradas pelo avanço da tecnologia (CABRAL, 2008, p.1), o que só será possível com a imprescindível inclusão dos responsáveis diretos pelo estímulo à pesquisa, à informação e ao conhecimento: os professores. O processo administrativo para a compra de 31 mil laptops foi aberto em 26 de novembro de 2007, quando a Secretaria de Educação ainda estava sob o comando de Nelson Maculan. De acordo com reportagem publicada no Jornal O Globo (edição de 18 de fevereiro de 2009), nove dias úteis depois, o pregão eletrônico 32 foi iniciado pelo Centro de Tecnologia da Informação e Comunicação do Estado do Rio de Janeiro (Proderj), presidido por Tereza Porto, que em 18 de fevereiro de 2008 passa a assumir a pasta da Educação 33 . Em comunicado público 34 , o ex-secretário de Educação do Rio de Janeiro informa que encontrou fortes resistências em sua gestão e não conseguiu avançar em questões importantes para uma verdadeira transformação da qualidade de ensino no Estado. Entre as ações desenvolvidas ao longo dos quatorze meses que esteve à frente da pasta, Maculan

32 Desta mesma reportagem do jornal O Globo, destaca-se que este pregão contou com oito empresas inscritas para disputar a venda. Três destas empresas foram desabilitadas por apresentarem preços maiores que o teto anunciado no edital, e das cinco que sobraram, três deram apenas um lance na disputa e as outras duas se associaram à Investiplan, que venceu a disputa.

33 De acordo com diversas reportagens publicadas à época, funcionários do Governo garantiram que questões políticas foram determinantes para a exoneração de Maculan, pois apesar de uma crise pela constante falta de professores na rede, a decisão pela troca de secretários deu-se pela tentativa de o governador tentar apaziguar o PMDB, e em especial o deputado Jorge Picciani. Ao efetuar a troca de secretários e suas respectivas equipes, Picciani passaria a apoiar a candidatura do então secretário de Turismo, Eduardo Paes, à Prefeitura do Rio, como era o desejo do governador. (Fontes: O Dia Online (Edição de 19 de março de 2008), OGLOBO Online (edição de 18 de fevereiro de 2008).

34 Este documento é apresentado na íntegra no anexo I.

(2008) destacou a elaboração do Plano Estadual de Educação, que contou com um intenso e participativo debate para a definição de políticas públicas educacionais para o Estado, e a aquisição dos 31 mil laptops para os docentes da rede. Em sua declaração, argumenta que acreditava que seria possível realizar outras propostas.

Foi com a consciência de enfrentar um grande desafio que assumi a incumbência de dirigir a Secretaria de Educação do Estado do Rio de Janeiro, responsabilidade que aceitei pela importância que sempre conferi à Educação e pela experiência acumulada durante minha vida profissional. Desempenhando à época o cargo de Secretário de Educação Superior do Ministério da Educação, aceitei o convite do então recém-eleito Governador Sérgio Cabral, atraído por suas propostas de valorização do magistério e de melhoria da qualidade do ensino, com as quais sempre me identifiquei. (ibid., 2008, p. 1).

Porém, poucas linhas abaixo deste mesmo comunicado, nos apresenta sua frustração por não ter conseguido atingir algumas metas importantes, tais como a recuperação dos salários dos professores, a implantação do plano de carreira do magistério e a democratização da gestão escolar. A conclusão do documento apresenta o argumento de que é necessário que haja vontade política para que verdadeiras transformações da qualidade de ensino aconteçam.

A Educação deve ser um projeto de longo prazo, com políticas marcadas pela continuidade. Não há milagre possível, o que deve haver é vontade política. Sem valorizar o professor, sem capacitá-lo e sem remunerá-lo dignamente, jamais conseguiremos atingir uma Educação de qualidade e que transforme verdadeiramente o nosso País. (p.1).

Ao tomar posse no Palácio Guanabara, Tereza Porto concedeu entrevistas 35 em que discordava de seu antecessor, garantindo a disposição do Governo em resolver os grandes problemas da rede em um curto espaço de tempo, fazendo em seguida o anúncio da entrega dos laptops aos professores como sendo o primeiro grande ato de sua gestão. A publicação em Diário Oficial do projeto Conexão Professor aconteceu em 31 de janeiro de 2008. Tal documento prevê a “disponibilização de computadores para uso pessoal dos professores docentes I da rede pública Estadual 36 em suas atividades de ensino

35 Entre os jornais que publicaram esta entrevista, destacamos O Globo Online (Edição de 18 de fevereiro de 2008), O Dia Online (Edição de 19 de fevereiro de 2008) e o Diário de Teresópolis Online (Edição de 19 de fevereiro de 2009).

36 A indicação Professor I refere-se ao profissional que possui habilitação para lecionar no 2 0 segmento do Ensino Fundamental e Ensino Médio.

e pesquisa”, considerando a “necessidade premente de dar subsídios e equipamentos de trabalho ao corpo docente do Ensino Médio e do segundo segmento do Ensino Fundamental, visando ao aprimoramento do exercício de suas funções” (RIO DE JANEIRO, 2008 p. 16). Deste documento destacamos 37 :

Parágrafo Único - Cada professor será beneficiado pela cessão de um único computador, mesmo que possua mais de uma matrícula.

) (

Artigo. 3 0 - Os professores beneficiados deverão se comprometer a introduzir e intensificar o uso do computador em sala de aula e em laboratórios de informática educativa, como instrumentos de melhoria de seus cursos e da formação de seus alunos.

Artigo. 4 0 - Os computadores a que se refere a presente Resolução serão obrigatoriamente inventariados pelo Agente Responsável pela guarda, conservação e controle dos bens imóveis no Inventário de Bens Patrimoniais na Unidade Escolar na qual cada professor beneficiado estiver lotado, conforme as normas e padrões estabelecidos na legislação pertinente.

Artigo. 5 0 - Cada professor beneficiado com o computador, por sua vez, assinará um Termo de Responsabilidade no ato do recebimento do computador, no qual se comprometerá a manter o equipamento em boas condições e a devolvê-lo à Unidade Escolar nos casos de remoção, remanejamento ou desvinculação da Unidade Escolar em que estiver lotado, ou de cessação de suas atividades de regência de turma, de afastamentos, exoneração ou aposentadoria, conforme o modelo constante no Anexo desta resolução 38 .

) (

Artigo. 7 0 - A Secretaria Estadual de Educação oferecerá um programa de treinamento visando ao aperfeiçoamento de seus professores no uso de software básico, dos recursos da internet e das tecnologias da informação e da comunicação.

( )

É importante destacar no artigo 3 0 o comprometimento que cada professor fará ao aceitar o laptop em regime de comodato, que diz respeito à introdução e intensificação do uso do computador em sala de aula e fora dela. Ao assinar o Termo de Responsabilidade 39 ,

37 Apresentação do documento na íntegra encontra-se em anexo I. 38 Para que fosse feita a entrega, o professor deveria assinar o Termo de Recebimento, Guarda e Responsabilidade, que, entre outras indicações, proíbe a instalação de softwares que não tinham sido disponibilizados pela SEEDUC-RJ, além de informar que, no caso da ocorrência de furto, roubo, destruição ou outra qualquer circunstância que acarrete perda ou extravio do equipamento, deverá ser feito o Registro de Ocorrência na Delegacia mais próxima, e a comunicação imediata, por escrito, à Direção da Unidade Escolar. 39 A reprodução do Termo de Responsabilidade encontra-se no anexo I.

o docente declara estar ciente desse comprometimento. Em contrapartida, o

comprometimento feito pela Secretaria Estadual de Educação aparece no 7 0 artigo, restringindo-se apenas a oferecer programas de capacitação para o uso de softwares básicos. A entrega das máquinas aos professores obedeceu a um calendário que teve início

em fevereiro de 2008 na comunidade da Mangueira, zona norte do Rio de Janeiro, onde em

clima de comício estiveram presentes ao Ciep Governador Leonel de Moura Brizola, o Governador, a Secretária de Educação, representantes do Governo Federal, Deputados Estaduais e diversas outras autoridades, embaladas por muita festa, música e discursos

empolgados, como nos mostra a seguinte reportagem:

Em seu discurso, o governador garantiu que o programa Conexão Professor vai distribuir todos os computadores no mês de março. Ele garantiu também que irá montar laboratórios de informática nas escolas estaduais para incluir os alunos nos mesmos benefícios do programa. Os professores recebem os computadores em regime de comodato por tempo indeterminado. Disse ainda que o programa custará cerca de R$ 70 milhões e que a manutenção e a garantia das máquinas é de responsabilidade da Investiplan, empresa fornecedora dos equipamentos escolhida via pregão eletrônico, que deu garantia de um ano ao laptop, além de fornecer manutenção em todo o estado (Jornal A Voz da Cidade, Edição de 01 de março de 2008, Disponível em: < http://www.avozdaci dade.com/portal/c/c20090310.asp>. Acesso em 20/06/09).

A entrega nas demais cidades, embora menos festiva, seguiu o mesmo modelo de comício, sempre contando com um palco armado e plateia calorosa 40 . Após os discursos

das

autoridades presentes, a solenidade seguia com a entrega de um laptop a um professor

da

escola sede da festa previamente escolhido, que também teria o direito de proferir

algumas palavras, quase sempre de agradecimento e alegria. Os demais professores da mesma cidade só receberiam suas máquinas alguns dias após essa comemoração, às vezes

meses.

40 Conforme informações obtidas na página da União Brasileira de Estudantes (UBES), cerca de mil estudantes da cidade de Petrópolis aproveitaram a visita do Governador para a solenidade de entrega dos laptops (ocorrido no dia 04 de março de 2008), organizando uma grande passeata pelas ruas próximas ao colégio Pedro II, onde se realizaria a cerimônia. Nessa tentativa de passeata, impedida em parte pelo grande esquema de segurança montado pela Prefeitura, os estudantes fizeram cobranças relacionadas às promessas de campanha do Governador. Dentre essas promessas, a instalação de uma universidade pública na cidade. Fonte: UBES/APE (Associação Petropolitana de Estudantes). Disponível no endereço:

<http://www.une.org.br/home3/movimento_estudantil/movimento_estudantil_2007/m_11869.html> Acesso em 14.03.09.

Em meio a uma sucessão de festas por diversas cidades do interior do estado, tivemos notícia do primeiro caso registrado de roubo das máquinas. O fato aconteceu na Escola Estadual Herbert de Souza, situada no bairro da Tijuca, na qual 20 laptops que estavam estocados na sala da Direção foram roubados no dia 21 de março de 2008. Conforme reportagens de jornais, os bandidos renderam o vigia da escola e avisaram que só queriam os notebooks.

De acordo com a Direção da Herbert de Souza, a Secretaria Estadual de Educação autorizou a escola a ficar com os 20 laptops que sobraram. A instituição recebeu 107 computadores, mas alguns professores não quiseram levá-los “por terem um melhor” ou por que não quiseram se responsabilizar pelo modelo portátil. (O Dia Online, Edição do dia 22 de março de 2008. Disponível em: < http://franco2008.wordpress.com/2008/ 04/15/bandidos-roubam-20-laptops-de-escola> Acesso em 20/06/09).

Em seguida, a matéria desse jornal dá destaque ao receio relatado por alguns professores em receber o laptop:

O receio de assalto tem levado docentes a recusar os notebooks ou deixá- los em casa. A professora de religião Rosilene Ramos, 46 anos, pega dois ônibus de casa, em São Gonçalo, para o Colégio Estadual Guilherme Briggs, em Niterói, onde dá aula no turno da noite: “Já fui assaltada algumas vezes no ônibus, levaram dinheiro e o celular novinho. Imagina um computador na bolsa. Não vou correr este risco (ibid.).

Depois do roubo ocorrido na escola Herbert de Souza, ainda de acordo com a reportagem do jornal, a entrega deixou de ser avisada com antecedência, numa tentativa de chamar menos a atenção para o fato. Na mesma matéria, o Diretor do Sindicato dos Profissionais da Educação (SEPE-RJ), Bruno Deusdará, afirmava que a propaganda do Governo Estadual ao entregar as máquinas acabava expondo os professores aos criminosos, pois “agora eles sabem que o professor não tem dinheiro no bolso, mas está com um laptop na mochila”. Questionada a respeito desse receio por parte dos professores, a Secretária Tereza Porto respondeu:

Isso impede que você use seu notebook, já que é uma ferramenta de trabalho? Por que para um professor isso é algo que atrapalha a vida e não atrapalha no caso de um operador da Embratel, ou um técnico da Light fazendo uma vistoria? Que profissional deixa de usar o notebook por causa disso? Considero isso um preconceito por parte do professor. (O GLOBO ONLINE, Edição de 23 de abril de 2008. Disponível em:

<http://oglobo.globo.com/tecnologia/mat/2008/04/23/laptop_nas_es

colas_do_rio_nao_vou_distribuir_papel_com_os_cds_diz_secretaria_tere za_porto-427020263.asp>.Acesso em: 20/06/09).

E na mesma entrevista relata suas percepções com relação ao treinamento oferecido

pelo CD-Rom entregue junto com o laptop ao professor.

Várias pesquisas internacionais demonstram que laboratórios de informática na escola não necessariamente equivalem a uma melhoria no ensino. E eles não devem servir para aprender informática, mas para aprimorar o ensino das disciplinas existentes. Um professor de matemática não deve usar a tecnologia como ferramenta para a sua aula, não como um fim em si. A introdução à informática está no CD que veio com o computador.

Talvez percebendo uma certa falta de clareza nas ideias apresentadas, o jornalista ainda insiste no assunto, relatando que alguns professores teriam achado o CD extenso demais e ao mesmo tempo superficial no que se refere ao uso pedagógico da máquina. Em seguida indaga: “Não seria o caso de ter uma apostila junto?”

Estamos focando em tecnologia; não vou distribuir papel. E o acompanhamento do CD será feito não pelos Núcleos de Tecnologias Educacionais, mas pelo suporte técnico especializado nisso, por telefone ou por e-mail. É um conceito de ensino à distância mesmo. Até porque o professor não tem tempo para o treinamento. Ele tem que dar várias horas de aula por dia e ainda preparar as aulas. Preferimos dar a ele flexibilidade de horário para estudar o CD.

O CD-Rom a que a Secretária de Educação se refere é composto de quatro unidades:

1) Abertura; 2) O curso; 3) Avaliações e 4) Atendimento. A segunda unidade 41 abrange quatro módulos: I) Introdução à informática; II) Ferramentas básicas; III) Interatividade na Internet e IV) Desenvolvimento de competências dos Docentes & Didática para Multiplicadores. Logo nas primeiras semanas de implementação do projeto, a SEEDUC-RJ criou um

serviço “tira-dúvidas” pelo telefone 42 . Alguns meses depois foram oferecidos alguns cursos presenciais e a distância 43 de capacitação aos softwares básicos (utilização de editores de texto, trabalho com planilhas, etc.). Um dos cursos oferecidos pela Coordenação de

41 Ver: Tela de Apresentação 1, Anexo II.

42 Ver: Tela de Apresentação 2, Anexo II.

43 Ver: Tela de Apresentação 3, Anexo II.

Tecnologia Educacional (CdTE), denominado de Mídias na Educação, é descrito pela própria entidade da seguinte forma:

Mídias na Educação é um programa de formação a distância, modular, dedicado ao uso pedagógico das tecnologias da informação e da comunicação e principais mídias contemporâneas TV e vídeo, informática, rádio e material impresso de modo integrado ao projeto pedagógico da escola, colaborando para a formação de cidadãos críticos e criativos, capazes de produzir nas diversas mídias. (Disponível em:

<http://www.cted.educacao.rj.gov.br/publico/midias/midias_2007.asp>

Acesso em 14.03.09).

Posteriormente, foi lançado o Portal Conexão Professor 44 , oferecendo notícias

relacionadas à Educação, informações sobre congressos e seminários, entrevistas com reconhecidos teóricos educacionais, links para outros sites importantes e uma página dedicada a debates virtuais. Nesse espaço, por sinal, há diversos fóruns em andamento sobre assuntos relacionados à nossa pesquisa, tais como: tecnologias na Educação, professor Web 2.0, laptop para o professor, etc. Posteriormente apresentaremos algumas considerações sobre essas postagens. Conforme relatamos anteriormente, pretendemos com nossa pesquisa, entre outros questionamentos, verificar se tais medidas têm sido suficientes para que o professor se sinta confortável na utilização de novas tecnologias em sala de aula. Ao analisarmos o CR-Rom, as ementas dos cursos básicos oferecidos, o Portal Conexão Professor e o funcionamento do serviço de tira-dúvidas pelo telefone, ainda não nos foi possível encontrar as formas

adequadas para a “introdução e intensificação do computador em sala de aula (

como

instrumento de melhoria” (RIO DE JANEIRO, 2008) dos cursos oferecidos pelos docentes da rede estadual de ensino do Rio de Janeiro, como consta na forma da Lei que originou o projeto. Essa falta tem sido uma dentre várias características do projeto que o torna tão polêmico, e tem gerado tantos embates. Trataremos a seguir desses embates.

)

44 Ver: Tela de Apresentação 4, Anexo II.

3.3 - A reação do Sindicato Estadual dos Profissionais da Educação do Rio de Janeiro ao projeto Conexão Professor

A simples leitura do título da carta redigida pela direção do Sindicato Estadual dos

Profissionais da Educação do Rio de Janeiro (SEPE-RJ) e disponibilizada no site da

entidade 45 já revela seu posicionamento: “Troco meu laptop pela verdadeira valorização do

profissional da Educação e por uma escola pública de qualidade” 46 . Dessa carta

destacamos:

A assembléia da rede estadual do dia 15 de março deliberou que os diretores do Sepe em todas as suas instâncias (Sepe Central, Núcleos e Regionais) não deverão aceitar os laptops concedidos pelo governo estadual. A recusa de receber os laptops é um protesto contra essa “doação” que consideramos demagógica e que tenta maquiar os

A

princípio, parece tratar-se de intolerância de nossa parte diante dessa

gravíssimos problemas das escolas públicas em nossa rede. (

)

iniciativa do governo estadual na suposta intenção de “valorizar o professor”, mas vejamos: a carta compromisso com as promessas não cumpridas do então candidato Sérgio Cabral Filho viraram cinzas, assim como as expectativas de uma grande parcela da categoria que ainda acreditava nelas (SEPE, 2008-A).

Dentre os motivos listados nessa carta para o posicionamento político de

recusa, podemos destacar:

O fato é que hoje praticamente todos os laboratórios de informática estão fechados ou subutilizados, privando milhares de alunos do acesso. Como podemos justificar aos estudantes, aos pais e mães essa contradição? Tivesse Sérgio Cabral investido parte dos R$ 77 milhões usados para comprar os laptops em garantir o funcionamento desses laboratórios e melhorado substancialmente o programa de mídia educativa, todos da comunidade escolar teriam em maior quantidade o que há de melhor da tecnologia aplicada à Educação. Temos o dever de denunciar mais essa FARSA de Sérgio Cabral.

A apresentação dos motivos segue indicando que a verba investida no

projeto seria suficiente para pagar todos os profissionais que não estariam recebendo a

45 Endereço do site do SEPE: <http://www.seperj.org.br/site> Acesso em 14.03.09 46 Ver: Anexo I, Documento 4, onde reproduzimos a carta na íntegra.

gratificação denominada de Nova Escola 47 , criada pela ex-governadora Rosinha Garotinho. Outro motivo apresentado refere-se a um ponto bastante polêmico e que tem gerado muita discussão: o valor pago pelas máquinas.

Aliás, por que o governo paga cerca de R$ 1.900 por cada laptop? No

comércio local custa bem menos 48 . Não aceitamos essa nova versão de “propaganda enganosa”, uma nova “carta”, agora modernizada (os laptops), com o pretexto de montar palanque para apoiar os seus

candidatos, nas eleições municipais deste ano. (

recebimento destes laptops, TROCAMOS a hipocrisia dessa “política

eleitoreira” pela verdadeira valorização dos Profissionais da Educação.

Enfim, repudiamos essa “pegadinha” do governador Sérgio Cabral

Assim, ao negar o

)

) (

que tem a intenção de nos desviar do verdadeiro foco que é a luta pela nossa pauta de reinvidicações (ibid.).

A história desse Sindicato tem início no ano de 1977, com a criação da Sociedade Estadual dos Professores (SEP), que em 1979 se fundiu com a União dos Professores do Rio de Janeiro (UPERJ) e com a Associação dos Professores do Estado do Rio de Janeiro (APERJ), criando o Centro de Professores do Rio de Janeiro (CEP), que de acordo com o histórico obtido no site do SEPE-RJ, é “uma entidade que se tornou referencial de luta e organização dos educadores fluminenses” (SEPE, 2008-B).

47 Nova Escola é a denominação de um projeto criado no governo de Anthony Garotinho em 1999, que avaliava as escolas estaduais por meio de alguns índices estatísticos, tais como quantidade de reprovações e evasões de alunos, e outros de cunho administrativo, tais como prestação de contas. Esta avaliação atribuía um nível que poderia variar de 1 a 5 à escola, e de acordo com o nível, os professores recebiam gratificações que poderiam variar de R$ 100,00 a R$ 435,10 mensais. O processo de avaliação, classificado como obscuro pelo professorado, sempre gerou grandes reclamações. A última avaliação foi realizada em 2005 e, desde então, uma série de promessas têm sido feitas no sentido de que a gratificação seria incorporada aos salários em um valor que fosse igual a todos da rede. Informações obtidas nas páginas: O Globo - Online, Edição de 3 de outubro de 2008 endereço:<http://oglobo.globo.com/educacao/mat/2008/10/03/estado_vai_incorporar_100 _do_nova_escola_ao_salario_de_professores_estaduais-548547489.asp>, e na página: G1 Globo.com, endereço: <http://g1.globo.com/Noticias/Rio/0,,MUL92874-5606,00-RJ+PAGA+GRATIFICACAO+A+PRO FESSORES+LICENCIADOS.Html>. Acesso em: 29.07.2009.

48 Na tentativa de verificar se tais argumentos apresentados pelo Sindicato estavam corretos, reunimos panfletos de propaganda de três grandes lojas distribuídos aos seus clientes no período em que as máquinas foram adquiridas pelo Estado (fevereiro/março de 2008). As três empresas são consideradas “populares” pelo fato de possuírem diversas lojas espalhadas por todo o Estado e estarem sempre com seus preços em promoção. Buscamos nesses panfletos laptops que apresentassem características similares aos oferecidos pelos professores e verificamos que no período da compra dos laptops os preços variavam de R$ 1.299,90 a 1.599,00 a unidade. Conforme conseguimos apurar em nossa pesquisa, a nota fiscal enviada às unidades escolares apresenta o valor de R$ 1.903,49 pago a cada laptop, mais R$ 300,00 referente ao mini modem, R$ 33,00 pela bolsa com logotipo do Estado e R$ 5,00 pagos pelo CD-Rom com um curso básico de capacitação. Em resumo, o valor total pago por cada laptop e seus acessórios descritos foi de R$ 2.241,49. Ver anexo 1, documento de número 7.

O ano de 1979 foi um marco na história do SEPE, quando conseguiu conquistar um piso salarial equivalente a cinco salários mínimos, numa greve considerada histórica para o movimento. Neste período, o governador Chagas Freitas mandou fechar a entidade, mas não conseguiu calar nossa voz nem frear nossa ação (ibid.).

Acreditamos que a breve apresentação da história do SEPE-RJ é relevante para auxiliar o entendimento de posicionamentos políticos apresentados, assim como as indicações de paralisações que foram propostas após a divulgação da carta analisada anteriormente. No Boletim do SEPE-RJ, edição de março de 2008, a Direção convoca a categoria para uma manifestação no dia 1 0 de abril de 2008 “contra as mentiras de Cabral” e “sua prática demagógica da doação de laptops”, as quais tiveram início, segundo o Sindicato, quando o governador, antes das eleições, elaborou uma carta compromisso para todos os professores da rede estadual.

Nesta carta, como todos os profissionais se lembram, Cabral prometeu a reposição das perdas salariais dos últimos dez anos e a incorporação da gratificação do programa Nova Escola, piso salarial, entre outras

Essa prática demagógica do governador tem um exemplo

na recente compra pelo governo, no valor de R$ 77 milhões (

governador distribuiu esses computadores, juntamente com a secretária Tereza Porto, em diversas escolas, tentando aparecer na imprensa graças à

Educação. A verdade, no entanto, é outra: esses laptops em quase nada vão melhorar a situação dos professores estaduais, à volta com problemas gravíssimos em suas escolas e sem reajuste salarial digno há mais de 10 anos (SEPE, 2008-C).

promessas. (

O

)

)

Posteriormente, em maio, uma nova convocação é feita pelo sindicato. Dessa vez, os profissionais das escolas estaduais são chamados a paralisar suas atividades escolares por 24 horas, no dia 07 de maio de 2008 (SEPE, 2008-D). Às 14 horas desse mesmo dia, ficou definido que aconteceria uma Assembleia geral no Clube Municipal da Tijuca, a fim de que os profissionais pudessem definir estratégias para a campanha salarial de 2008. De acordo com entrevistas de representantes da SEEDUC-RJ publicadas no dia seguinte, apenas três escolas aderiram parcialmente a essa convocação. Nas poucas reportagens que cobriram o movimento, encontramos vestígios que indicariam para uma adesão pífia do corpo docente estadual e que, ou os professores teriam ignorado o apelo do Sindicato, ou simplesmente não ficaram sabendo do chamado. Como exemplo da cobertura dada ao

movimento, selecionamos a reportagem do jornal O Globo Online: “De acordo com a secretaria, os colégios estão funcionando normalmente e apenas alguns professores não compareceram para às aulas. A secretaria estima que menos de 1% dos professores tenha aderido à paralisação” (O Globo Online. Edição de 07 de maio de 2008. Disponível em:

<http://oglobo.com/educaco/mat/2008/05/07/menos_de_1_dos_professores_aderiu>Acesso

em: 20/06/09). No Boletim do Sindicato, edição de março de 2009 (SEPE, 2009-A), encontramos novas denúncias relacionadas ao projeto Conexão Professor, citando matéria publicada no dia 13 de fevereiro de 2009 no Jornal O Globo. De acordo com o Boletim, a Investiplan, empresa vencedora do contrato de venda de 31 mil laptops, vem sendo seguidamente vitoriosa em outros contratos vultosos, tais como a garantia de um “contrato de aluguel de 21.939 computadores para as salas de aula por R$ 35,7 milhões”. Esta empresa, ainda de acordo com o documento, vem sendo favorecida pelo Governo Estadual por pertencer ao Deputado Estadual Jorge Picciani 49 , Presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro e “um dos principais apoiadores do Governador Sérgio Cabral”. Desse boletim destacamos:

A necessidade de informatização das escolas é um fato, mas também é

verdade que o governador não investe na infra-estrutura das unidades. Grande parte dos prédios nem sequer tem salas próprias para a instalação

de computadores, por exemplo.

Na citada reportagem do Jornal O Globo, edição de 13 de fevereiro de 2009, o Deputado Estadual Rodrigo Dantas, durante discurso em plenário, pediu a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar a veracidade do fato de a empresa vencedora do pregão eletrônico, a Investiplan, pertencer a um sócio do Deputado Jorge Picciani. Já Comte Bittencourt, presidente da Comissão de Educação, afirmou em seu discurso, na mesma sessão, que iria pedir à Secretaria de Educação a relação de todos os

49 Nesta edição do jornal O Globo foi publicada também uma nota elaborada pelo deputado estadual Picciani criticando a reportagem que informava que ele era sócio do dono da Investiplan, Paulo Trindade, conhecido como o “Rei do Computador”. De acordo com o deputado, o jornal quis “confundir a opinião pública”, porém, na mesma reportagem, foram apresentados dados apurados que indicavam que existe de fato sociedades entre o deputado e Paulo Trindade, e que tais empresas somaram desde 2005 até 2008 o faturamento de aproximadamente R$ 4,3 milhões.

participantes de pregões eletrônicos que a empresa pertencente ao deputado Picciani teria ganho entre 2007 e 2008. Em abril de 2009 mais uma movimentação desse Sindicato, no sentido de cobrar do Governador transparência nas ações e resolução de problemas nas escolas estaduais, começava a despontar. Milhares de panfletos 50 foram distribuídos nas ruas e escolas da rede com o título: “O governo estadual tem anunciado a distribuição de computadores para professores e alunos, bem como a informatização das escolas. Enfim, anuncia uma nova era na Educação pública do Estado. Mas será que isto é verdade?” (SEPE, 2009-B). Desse documento, destacamos os argumentos do Sindicato de que pelo fato dos investimentos relacionados à aquisição dos computadores estarem concentrados em uma única empresa, a Investiplan, torna tais aquisições nebulosas e com grandes indícios de superfaturamento. Passaremos então, no próximo item desta pesquisa, a “ouvir” as vozes de deputados que se posicionaram contra ou a favor do projeto Conexão Professor, assim como de outras autoridades relacionadas à sua implementação.

3.4 - Algumas vozes, no Plenário e no Governo

Em nossas pesquisas, verificamos que uma das vozes na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (ALERJ) que mais se pronunciou com relação ao projeto Conexão Professor é o professor e Presidente da Comissão de Educação, Deputado Comte. Bittencourt. Em sua página pessoal 51 , chegou a manter durante alguns meses uma enquete da qual qualquer visitante poderia participar, respondendo a perguntas um tanto quanto tendenciosas: “Você acha certo o Governo comprar 31 mil laptops para dar aos professores do Estado, enquanto as escolas públicas estão com seus laboratórios de informática fechados 52 ?”.

50 Ver anexo I, Documento 6. 51 Endereço da página: <http://www.comte.com.br/index.php>.

52 Até a data de 06 de julho de 2009 a pesquisa apontava que: 44% responderam SIM e 56% responderam NÃO. A página não informava o total de votos contabilizados. Esses números não puderam ser atualizados pelo fato de atualmente a pesquisa não estar mais disponível.

De acordo com o perfil de Bittencourt disponível em sua página na internet, seu nome está sempre associado às principais decisões legislativas “em favor do desenvolvimento econômico e sustentável e do ensino público”. Destacamos em um de seus discursos:

Eu fiz diversos pronunciamentos, ano passado, desta tribuna, sobre o

drama pelo qual a rede estadual de Educação passou com relação à inclusão digital. Trouxe, ao longo de todo o ano, dados para debate em Plenário, bem como para debate junto aos meus pares na Comissão de

O Último senso do IBGE e do Comitê Gestor de

Informática, em dados de 2005, apontam para uma completa situação de exclusão digital da população das classes D e E. Seguramente, mais de 60% dessa camada econômica do país é formada por excluídos digitais. Na classe C, chega a 40% o número de excluídos na população brasileira (BITTENCOURT, 2008 -A).

Educação.

(

)

Em seu discurso pronunciado em sessão ordinária na ALERJ no dia 14 de fevereiro de 2008, Bittencourt, argumenta que a escola pública é o principal local de democratização e acesso à internet. Fez críticas ao ex-Secretário de Educação do Estado, Nelson Maculam, por ter retirado todos os orientadores tecnológicos dos laboratórios de informática que estavam em funcionamento e mandado que eles retornassem às salas de aula, e conclamou os outros deputados a auxiliar na busca de uma inclusão digital para todos os alunos da rede. Ainda em seu discurso, embora levante discreto elogio ao projeto Conexão Professor, critica o fato de a Secretaria de Estado de Educação não criar um programa de capacitação dos professores para o adequado uso das máquinas, e ter retirado o dinheiro para a aquisição das máquinas do Fundo Estadual de Combate à Pobreza. Desse pronunciamento destacamos:

(…) Mas houve uma situação mais preocupante, Sr. Deputado L.P., que, junto com o Sr. Deputado P.R., combatemos aqui. A questão do uso indevido dos recursos do Fundo Estadual de Combate à Pobreza. Este

fundo, (

ações suplementares não regulares para a educação. Ações complementares, não regulares. O governador Sérgio Cabral retirou, em dezembro, 60 milhões do Fundo estadual de Combate à Pobreza para

comprar 31 mil laptops, (

achando que essa é uma ferramenta, Sr.

no seu artigo 3 0 , parágrafo 1 0 , diz que ele poderá ser usado em

)

)

Deputado A.C., para auxiliar os programas complementares de combate e

erradicação da pobreza e da miséria (ibid., 2008 -A).

O discurso segue com a indicação de que o posicionamento não é radicalmente contrário ao do Governador, mas que acredita que esse projeto só serviu para criar um fato:

“gerar no ouvido da população um ar de inclusão digital”. Em outro discurso, pronunciado no dia 19 de fevereiro de 2008, o Deputado Bittencourt retorna ao tema:

) (

entrarmos hoje no site da Secretaria de Estado de Educação, verá que as

Esse mesmo governo

que sequer consegue atualizar o site da sua Secretaria cria um merchandising com o Fundo Estadual de Combate à Pobreza pra dar laptop para professor, que neste momento precisa mesmo é de salário digno, de remuneração que lhe dê alguma condição para poder comprar um livro, poder se deslocar. Estamos em um estado em que professor em início de carreira ganha 428 reais por mês. Este é o Estado do Rio de Janeiro (ibid., 2008 - B).

informações todas são do ano letivo de 2007. (

o governo se preocupa em comprar laptop para o professor, mas se

)

Em nossas pesquisas obtivemos também outros pronunciamentos de deputados que usaram a tribuna para elogiar ou criticar o projeto. Dentre esses, citaremos o do deputado Domingos Brazão:

Permito-me discordar em relação aos laptops. Eu acho que precisamos de

que o

bom é inimigo do ótimo. Na falta do ótimo, se faz o bom. Então é importante que os professores contem com mais esta ferramenta, o laptop. O que não é possível é que, em função do laptop, haja prejuízo das outras demandas, que reconhecemos como sendo urgentes (BRAZÃO, 2008).

muita estrutura, mas o laptop também é bem-vindo. Aprendi (

)

Durante palestra organizada pela Associação Brasileira de Tecnologia Educacional (ABT) 53 , foram apresentadas algumas justificativas por parte do Superintendente de Planejamento da SEDUC-RJ, Evaldo Bittencourt, para a implementação do projeto Conexão Professor. O simples fato de o “laptop gerar a ruptura de paradigmas” na Educação já torna o projeto válido. Evaldo Bittencourt ressaltou em sua fala que, quando assumiu a Superintendência, em fevereiro de 2008, a implementação do projeto já estava em plena “ebulição” e que, mais do que discutir qual é a tecnologia disponível, deveríamos desenvolver uma filosofia, uma proposta que afete, que desconstrua o fazer Educação na forma tradicional. E acrescentou:

Então nós precisamos de uma filosofia que possa dar conta de quem

está lá na escola. Hoje são 1591 escolas, 1,5 milhão de alunos na rede

) (

estadual do Rio de Janeiro. Precisamos pensar um paradigma de gestão,

53 Palestra proferida durante o 40 0 Seminário Brasileiro de tecnologia Educacional, organizado pela Associação Brasileira de tecnologia Educacional (ABT) em 18 de junho de 2008 no Rio de janeiro.

um paradigma pedagógico e um paradigma de formação dos professores para o uso da tecnologia. E a Secretaria está preocupada com isso, com esse rompimento da verticalização do conhecimento, não só de instruir, mas sim, do professor ser o mediador do processo. (BITTENCOURT,

2008).

E relata em seguida sua percepção com relação às políticas públicas que estavam em

andamento:

O que nós estamos entendendo como política pública neste momento é que, além de melhorar os equipamentos, universalizar os laboratórios de informática, colocar orientadores tecnológicos (nestes laboratórios) e chegar ao desafio maior para a política do Estado: a formação de uma

nova postura do professor para este enfrentamento. (

Uma forma de

impactar este professor, essa apropriação do laptop está gerando uma ruptura do paradigma, e é justamente o que nós queremos, que é a possibilidade de primeiro o professor possa se familiarizar com o uso da tecnologia, para depois utilizá-la com segurança no espaço escolar (ibid.).

)

Paralelamente ao andamento das discussões referentes ao projeto Conexão Professor, outros projetos (e outras vozes) de outros estados e municípios despontaram em

nossas pesquisas em defesa de projetos similares. Dentre eles, destacaremos dois, um da prefeitura de uma cidade do interior do Estado e outro da própria cidade do Rio de Janeiro.

O primeiro foi desenvolvido por Celso Jacob, prefeito da cidade de Três Rios até o

ano de 2008. Apresentados em palestra 54 , seus projetos de inclusão digital dos professores

da rede municipal de ensino da cidade de Três Rios consistiam, dentre outras ações, de propiciar o acesso a novas tecnologias facilitando a compra de um laptop pelo docente. A “Prefeitura entra com 70% do investimento e o profissional com apenas 30%, que ainda poderá ser financiado”(JACOB 2008). De acordo com Jacob, com o laptop devidamente equipado, será possível o acesso a informações importantes. Com isso, os alunos ganham em qualidade de ensino, pois passam a contar com profissionais antenados com o mundo da tecnologia da informação. O segundo projeto surge a partir da resolução publicada pela Secretaria Municipal de Educação do Rio de janeiro em 2 de outubro de 2008, apresentando similaridades com relação ao Conexão Professor, pois foram entregues cerca de 26.000 computadores portáteis aos seus professores para “aprimorar a ação pedagógica junto aos alunos da rede

54 Palestra proferida na Universidade Católica de Petrópolis, em julho de 2008, como parte das atividades desenvolvidas na disciplina “A política educacional como objeto de pesquisa” no curso de Mestrado em Educação desta Universidade.

municipal” (RIO DE JANEIRO, 2008). A compra fez parte de um programa municipal que teve como objetivo ampliar o acesso dos professores às modernas tecnologias da informação e da comunicação. Chegamos então ao momento de nos questionarmos: Qual é a opinião do professor com relação a esses projetos? Existe um local onde seja possível esse professor expor sua opinião sobre tais projetos? Para responder a esses questionamentos, passaremos ao próximo ponto de estudo.

3.5 - A voz do professor

Em nosso estudo sobre a atuação do SEPE-RJ, verificamos que houve uma reduzida participação dos professores em algumas atividades convocadas pelo seu sindicato no ano de 2008. Tal fenômeno pode ser interpretado de diversas formas e sob diversos aspectos. Um deles é a possível descrença em processos de representações políticas. Outro, a não percepção de que ele - o professor - deve ser o protagonista de projetos como o Conexão Professor. Poderemos, então, lançar as questões: A voz do professor foi ouvida pelas autoridades políticas que traçaram o projeto? A voz do professor foi ouvida pelo Sindicato que se anuncia como seu representante?

O historiador marxista Eric Hobsbawm (2007) nos apresenta algumas contribuições para alimentar reflexões sobre a não escuta das autoridades aos professores. Ele afirma que “a vontade do povo, ainda que expressa, não pode determinar as tarefas efetivas e

a vontade do povo não julga os projetos, e sim o resultado

específicas do governo,( deles” (p. 110).

),

Boa parte das decisões políticas é negociada nos bastidores. Isso aumentará a desconfiança dos cidadãos com relação aos governos e o mau conceito que eles têm dos políticos. Os governos se emprenharão em uma guerra de guerrilha permanente contra a coalizão formada entre a imprensa e os interesses de campanha, minoritários e bem organizados. A imprensa verá cada vez mais como sua função à publicação daquilo que os governos preferiram manter em silêncio, ao mesmo tempo em que

depende dos propagandistas das instituições que ela deve criticar para preencher suas telas e páginas. Aí está a ironia de uma sociedade baseada em um fluxo ilimitado de informações e lazer. (ibid., p. 113).

O historiador ainda nos apresenta a sua opinião relacionada ao fato de que continuaremos a viver em um mundo populista “em que os governos têm de levar em conta o povo, e o povo não pode viver sem os governos” (ibid., p. 114), nos levando em seguida a verificar que as eleições democráticas continuarão a dar legitimidade aos governos, sendo um modo conveniente de consultar o povo sem necessariamente assumir qualquer compromisso concreto. Referindo-se ao desenvolvimento de projetos educacionais elaborados e implementados na ordem vertical (de cima para baixo) sem necessariamente obedecer a promessas de campanha, consultar a população, ou a parcelas específicas dela, Lucena (2008, p. 244) argumenta:

É importante a iniciativa do governo em disponibilizar as TIC para as

escolas públicas. Contudo, (

propostas, sempre obedecendo a uma ordem vertical, sem que sejam

consultadas as partes interessadas - a comunidade escolar.

o que temos visto até o momento são

)

O economista, e também Presidente do Fundo Brasil de Direitos Humanos, Sérgio Haddad, apresenta em artigo intitulado “é preciso ouvir a voz do professorado” descrições sobre a imagem atual do docente da escola pública, alvo de nossas análises nesta pesquisa. Segundo Haddad (2008, p.2), uma vez ao ano, no Dia do Professor, este profissional é apresentado quase como um sacerdote, ou um herói, uma pessoa boa e comprometida. Após esse dia, aparece quase sempre na mídia de forma negativa.

Quase sempre a ele é imputada a responsabilidade por todos os males do ensino: ou é mal formado, ou sem interesse, ou falta muito às aulas, ou é incompetente, ou é corporativo - só pensa no salário e na carreira e não nos alunos - ou ainda, é um coitado, vítima da violência dos próprios alunos.

Após essa apresentação da imagem propagada do docente, em especial da escola pública, o autor passa a problematizar o fato de a voz dos professores não ser ouvida pelos chamados especialistas ou dirigentes, e que quase sempre a voz que aparece nos meios de comunicação é a dos empresários, que elaboram novos projetos para a implementação de

uma nova Educação para o desenvolvimento e para a economia, criticam o modelo de gestão, falam em produtividade e como obter melhores respostas, e acabam tratando os docentes como seres automatizados. O mesmo autor afirma:

As soluções apresentadas para a melhoria da qualidade quase sempre são definidas independentemente dos professores, por cima deles, considerando que eles são pacientes das reformas - e não agentes. Afinal, se são culpados por todos os males, por que então tomá-los em consideração? (ibid., p. 3).

Dois fenômenos que se complementam são apresentados como possíveis causas para o silêncio dos professores: “de um lado, a desvalorização do trabalho do docente; por outro, a existência de mecanismos repressivos que impedem o seu livre expressar” (ibid., p. 2). Esta segunda causa, por sinal, foi motivo de uma denúncia apresentada pelo SEPE-RJ em seu boletim de 29 de julho de 2008 (SEPE, 2008-E) sobre a circular de n 0 001/2008 da SEEDUC-RJ 55 , proibindo todos os seus funcionários de conceder entrevistas à imprensa sem antes consultar a Secretaria de Comunicação da pasta. De acordo com o Sindicato, tal proibição mereceria uma ação na Justiça contra o Governo Estadual. Na tentativa de romper essas barreiras e expor suas reflexões sobre projetos de inclusão das novas tecnologias na sala de aula e a entrega do laptop, alguns professores saíram em busca de espaços alternativos onde pudessem ser escutados. Encontramos, então, análises dos professores relacionadas ao projeto Conexão Professor nas seções destinadas à voz do leitor nos jornais, em cartas publicadas no site do Sindicato e em especial no ambiente da internet, em debates travados em tribunas virtuais 56 . Um bom exemplo dessas democráticas tribunas virtuais poderemos encontrar no portal “Educação Pública” 57 , na seção “sua opinião”. Nesse espaço foram postadas críticas e elogios de diversos docentes a partir do questionamento: “A distribuição de laptops para os professores aumenta sua eficiência pedagógica?” Esse tema 58 no fórum foi criado em 4 de março de 2008, e até o dia 14 de março de 2009 contava com aproximadamente 42

55 Ver: Documento 5, no anexo I.

56 Utilizamos o termo como forma de criar uma analogia com os espaços formais onde falam oradores.

Consideramos que os fóruns abertos no ciberespaço proporcionaram formas democráticas de exposição de ideias, críticas, elogios e sugestões sobre os mais diversos assuntos, independente da hora e do local físico em que o participante se encontra.

57 Endereço: <http://www.educacaopublica.rj.gov.br/> Acesso em: 14.03.09.

58 Endereço: <http://www.educacaopublica.rj.gov.br/discutindo/discutindo.asp?cod_per=94> Acesso em:

14.03.09.

postagens. Uma boa parcela dessas postagens ressalta que apenas o empréstimo dessa ferramenta não significa valorização do profissional, e que se ressentem do esquecimento, por parte das autoridades, das outras carências da categoria. Como exemplos dessas postagens destacamos:

Na minha opinião, é uma medida extremamente demagógica! O gasto com a aquisição e manutenção desses laptops deveria ser poupado, para o reajuste salarial dos professores, que (sobre)vivem com salário aviltante, vergonhoso! Além do fato de que o laptop não se conecta à internet em qualquer lugar. O que acontece é que estão sendo utilizados muito mais para exibição de vídeos em CD-ROM, ou como editores de texto, de que como “computador de verdade”! (Prof a . Érika, postagem feita em

10/09/08).

Eficiência pedagógica engloba mais (muito mais) do que portar um laptop. Para o docente alcançar seus objetivos profissionais, ele precisa estar em paz consigo mesmo. E para tal, ele precisa estar em paz com seus credores. Como ser eficiente em sala de aula, quando o tempo necessário para planejar seu curso é gasto em dois, três estabelecimentos de ensino em pólos diferentes? (Prof. Marcos, postagem feita em 18/03/08).

Algumas postagens elogiam o projeto, listando algumas possibilidades de uso na sala de aula:

Aumenta a eficiência, sim, se o usarmos com fins de aprimoramento buscando leituras, cursos de aperfeiçoamento e grupos de estudos que existem na rede. E, na prática, os recursos em sala de aula aumentam consideravelmente. Mas vejo como principal ganho nesta distribuição a

possibilidade de compartilhar ideias, sugestões de atividade e materiais de

(Prof a . Tânia, postagem feita em

estudo com outros educadores.(

26/01/09).

)

Na minha opinião, qualquer instrumento de informática é útil na melhoria da qualidade de ensino. Como nossos alunos estão cada vez mais informatizados, nós, professores, devemos estar atualizados e um benefício como esse, com certeza, irá ajudar a melhorar ainda mais o nosso trabalho. (Prof a . Silvaneide, postagem feita em 04/03/08).

Outras postagens indicam a necessidade de investimentos em aperfeiçoamento do professor e aquisição de outras tecnologias:

Sozinho, realmente fica difícil. Precisa de capacitação do professor, ambientes preparados no que diz respeito às instalações, projetores, ventiladores, tomadas e principalmente que esta internet funcione, o que

realmente não acontece nos laps que foram distribuídos. ( postagem feita em 25/03/08).

)

(Prof a . Vânia,

A verdade é que o laptop é apenas mais uma ferramenta para uso do docente. Não implica, de forma alguma, em aumento de eficiência pedagógica se não for utilizada de forma produtiva. E para que isto ocorra, se faz necessária toda uma estruturação da rede condizente com o potencial tecnológico da ferramenta. Numa analogia, é como ter uma guitarra e não possuir o equipamento de amplificação para se fazer ouvir. (Prof. Alexandre, postagem feita em 13/03/08).

Diversas postagens convergem para a percepção da importância de se atualizarem com relação a tecnologias que muitos de seus alunos dominam e já incluíram de forma natural ao seu dia a dia, mas ressaltam que não sabem de que forma farão essas tecnologias possibilitar experiência, inovações e pesquisas no ambiente escolar. Destacaremos a seguir algumas postagens feitas no fórum do portal Conexão Professor, seção “hora do cafezinho” 59 . Esse fórum foi iniciado em 5 de dezembro de 2008 e em 14 de março de 2009 contava com 11 postagens relacionadas ao tema: entrega dos laptops aos professores da rede estadual de ensino do Rio de Janeiro. Dentre essas postagens também encontramos uma razoável quantidade de docentes apresentando críticas ao investimento feito no laptop, aos baixos salários, à falta de preparação do professor para trabalhar com as novas tecnologias e à falta de oferta de cursos que possam indicar caminhos para que esse trabalho pedagógico possa ser feito de forma eficiente. Dentre diversas postagens, destacamos:

A valorização profissional passa longe da realidade do Estado do Rio de Janeiro, mas o fazer bem feito, mesmo não sendo valorizado ou remunerado por isso decentemente, tem um prazer diferente. Você concorda que numa escola sem recursos os alunos pobres recebam uma educação POBRE pois há escassez de recursos? Assim estaríamos dando a eles um recado bem explícito: “Vocês não merecem mais do que isto pois eu não ganho o suficiente para me superar e dar o melhor de mim”. As TICs são um agente transformador e socializador da informação que é hoje o grande diferencial no mercado de trabalho. Fazer com que esses alunos tenham uma educação popular de QUALIDADE para que eles rompam os limites da marginalização e se transformem em agentes de mudança social, pessoal comunitária. (Prof. Robson, postagem feita em

24/02/09).