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SAMIZDAT

www.revistasamizdat.com

14
março
2009
ano II

ficina

Oscar Wilde
um gênio da escrita e
da polêmica
SAMIZDAT 14
março de 2009

Edição, Capa e Diagramação: Obra Licenciada pela Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada


Henry Alfred Bugalho a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil Creative Commons.
Todas as imagens publicadas são de domínio público ou
Revisão Geral royalty free.
Joaquim Bispo As idéias expressas são de inteira ­responsabilidade de seus
autores.
Autores
Caio Rudá
Carlos Alberto Barros Editorial
Dênis Moura
Giselle Natsu Sato
Esta edição de março apresenta algumas novidades para a
Revista SAMIZDAT.
Guilherme Rodrigues
Primeiro, temos uma mudança importante no quesito re-
Henry Alfred Bugalho visão. Nas edições anteriores, a revisão dos textos da revista
Joaquim Bispo ficava a cargo dos próprios autores, num esforço coletivo que
Léo Borges muitas vezes não dava certo e que permitia que muitos erros
Marcia Szajnbok
de digitação acabassem passando na versão final.
No entanto, desde de janeiro, Joaquim Bispo assumiu este
Maristela Scheuer Deves
papel e tem realizado um trabalho extraordinário de revisão,
Pedro Faria na intenção de lhes trazermos o melhor resultado possível.
Volmar Camargo Junior Outra mudança é na equipe de colaboradores da
Zulmar Lopes ­SAMIZDAT. Infelizmente, Zulmar Lopes não poderá mais
continuar conosco na revista, por outro lado, recebemos o re-
forço de Léo Borges, que já havia participado da SAMIZDAT
Autores Convidados
em edições anteriores como autor convidado.
Mariana Valle
Aos poucos, vamos nos adequando a algumas mudanças,
sempre nos esforçando para apresentar literatura de qualida-
Textos de: de, para todos, e sem custo. Não é algo fácil e muitas vezes
Julio Cort[azar nos questionamos se vale a pena.
Mário de Andade Mas Fernando Pessoa nos fornece uma resposta direta e
provocadora: “Tudo vale a pena / Se a alma não é pequena.”
Oscar Wilde
Por isto, continuamos insistindo e empreendendo a bata-
Qorpo Santo
lha diária e interminável das Letras.

Imagem da capa: Henry Alfred Bugalho


http://www.rarebookreview.com/wp-
content/uploads/2008/11/oscar_wilde.
jpg

www.revistasamizdat.com
Sumário
Por que Samizdat? 6
Henry Alfred Bugalho

COMUNICADO
SAMIZDAT Especial - Humor 8

ENTREVISTA
Marcelo Duarte 10

MICROCONTOS
Henry Alfred Bugalho 14
Marcia Szajnbok 14
Joaquim Bispo 14
Volmar Camargo Junior 15

RECOMENDAÇÕES DE LEITURA
A Insuportável Competência dum Escritor 16
Henry Alfred Bugalho

O Mundo Bizarro de Chuck 17


Henry Alfred Bugalho

AUTOR EM LÍNGUA PORTUGUESA


Será o Benedito! 20
Mário de Andrade

Hoje sou um; amanhã outro 24


Qorpo Santo

CONTOS
O Malandro e a Princesa 28
Carlos Alberto Barros

O Copo Esmaltado 30
Volmar Camargo Junior
Sem Abrigo 33
Joaquim Bispo
A Biblioteca de Livros Esquecidos 36
Henry Alfred Bugalho
Sentir 38
Guilherme Rodrigues
A Filha da Capa 40
Zulmar Lopes
O Grande Salão 42
Pedro Faria
Fissuras Íntimas 46
Léo Borges
Crônicas Íntimas I: Bolhas 50
Marcia Szajnbok
O Sacana 52
Giselle Natsu Sato
Temporada de Caça 54
Maristela Deves

Autor Convidado
Menina de Família 56
Mariana Valle
Poemas 58
Renato Wegner de Souza

TRADUÇÃO
O Milionário Modelo 60
Oscar Wilde
O Discípulo 65
Oscar Wilde
Aforismos 66
Oscar Wilde
A Página dos Contos 70
Julio Cortázar

TEORIA LITERÁRIA
Os Livros Mais Vendidos: Esperança e
Hegemonia 74
Henry Alfred Bugalho
O Conto e a Crônica 80
Volmar Camargo Junior
Três, oito e o que não se mede em números:
sobre o Poetrix e o Indriso 82
Volmar Camargo Junior

CRÔNICA
O Ano Bissexto 84
Joaquim Bispo
Livin’ in America: O Futuro já chegou 86
Henry Alfred Bugalho

POESIA
Laboratório Poético: Soneto 88
Volmar Camargo Junior
Brancura 90
Caio Rudá de Oliveira
Aguiar ConDor 91
Dênis Moura

SOBRE OS AUTORES DA SAMIZDAT 93

SEÇÃO DO LEITOR
Agora o leitor da SAMIZDAT também pode colaborar com a elaboração da revista.
Envie-nos suas sugestões, críticas e comentários.
Você também pode propor ou enviar textos para as seguintes seções da revista: Rese-
nha Literária, Teoria Literária, Autores em Língua Portuguesa, Tradução e Autor Convi-
dado.
Escreva-nos para:
revistasamizdat@hotmail.com
Por que Samizdat?
“Eu mesmo crio, edito, censuro, publico,
­distribuo e posso ser preso por causa disto”
Vladimir Bukovsky

Henry Alfred Bugalho Inclusão e Exclusão se converte em uma ditadu-


henrybugalho@hotmail.com ra como qualquer outra. É a
microfísica do poder.
Nas relações humanas,
sempre há uma dinâmica de Em reação, aqueles que
inclusão e exclusão. se acreditavam como livres-
pensadores, que não que-
O grupo dominante, pela
riam, ou não conseguiram,
própria natureza restritiva
fazer parte da máquina
do poder, costuma excluir ou
­administrativa - que esti-
ignorar tudo aquilo que não
pulava como deveria ser a
pertença a seu projeto, ou
cultura, a informação, a voz
que esteja contra seus prin-
do povo -, encontraram na
cípios.
autopublicação clandestina
Em regimes autoritários, um meio de expressão.
esta exclusão é muito eviden-
Datilografando, mimeo-
te, sob forma de perseguição,
grafando, ou simplesmente
censura, exílio. Qualquer um
manuscrevendo, tais autores
que se interponha no cami-
russos disseminavam suas
nho dos dirigentes é afastado
idéias. E ao leitor era incum-
e ostracizado.
bida a tarefa de continuar
As razões disto são muito esta cadeia, reproduzindo tais
simples de se compreender: obras e também as p ­ assando
o diferente, o dissidente é adiante. Este processo foi
perigoso, pois apresenta designado "samizdat", que
alternativas, às vezes, muito nada mais significa do que
melhores do que o estabe- "autopublicado", em oposição
lecido. Por isto, é necessário às publicações oficiais do
suprimir, esconder, banir. regime soviético.

A União Soviética não


foi muito diferente de de-
mais regimes autocráticos.
­Origina-se como uma forma
de governo humanitária,
igualitária, mas
Foto: exemplo dum samizdat. Corte- logo
sia do Gulag Museum em Perm-36.

6
6
E por que Samizdat? revistas, jornais - onde ele des tiragens que substitua
possa divulgar seu trabalho. o prazer de ouvir o respal-
O único aspecto que conta é do de leitores sinceros, que
A indústria cultural - e o
o prazer que a obra causa no não estão atrás de grandes
mercado literário faz parte
leitor. autores populares, que não
dela - também realiza um
perseguem ansiosos os 10
processo de exclusão, base- Enquanto que este é um mais vendidos.
ado no que se julga não ter trabalho difícil, por outro
valor mercadológico. Inex- lado, concede ao criador uma Os autores que compõem
plicavelmente, estabeleceu-se liberdade e uma autonomia este projeto não fazem parte
que contos, poemas, autores total: ele é dono de sua pala- de nenhum ­movimento
desconhecidos não podem vra, é o responsável pelo que literário organizado, não
ser comercializados, que não diz, o culpado por seus erros, são modernistas, pós-
vale a pena investir neles, é quem recebe os louros por ­modernistas, vanguardistas
pois os gastos seriam maio- seus acertos. ou q­ ualquer outra definição
res do que o lucro. que vise rotular e definir a
E, com a internet, os au- orientação dum grupo. São
A indústria deseja o pro- tores possuem acesso direto apenas escritores ­interessados
duto pronto e com consumi- e imediato a seus leitores. A em trocar experiências e
dores. Não basta qualidade, repercussão do que escreve sofisticarem suas escritas. A
não basta competência; se (quando há) surge em ques- qualidade deles não é uma
houver quem compre, mes- tão de minutos. orientação de estilo, mas sim
mo o lixo possui prioridades
a heterogeneidade.
na hora de ser absorvido A serem obrigados a
pelo mercado. burlar a indústria cultural, Enfim, “Samizdat” porque a
os autores conquistaram algo internet é um meio de auto-
E a autopublicação, como que jamais conseguiriam de publicação, mas “Samizdat”
em qualquer regime exclu- outro modo, o contato qua- porque também é um modo
dente, torna-se a via para se pessoal com os leitores, de contornar um processo
produtores culturais atingi- od­ iálogo capaz de tornar a de exclusão e de atingir o
rem o público. obra melhor, a rede de conta- ­objetivo fundamental da
tos que, se não é tão influen- ­escrita: ser lido por alguém.
Este é um processo soli-
te quanto a da ­grande mídia,
tário e gradativo. O autor
faz do leitor um colaborador,
precisa conquistar leitor a
um co-autor da obra que lê.
leitor. Não há grandes apa-
Não há sucesso, não há gran-
ratos midiáticos - como TV,

SAMIZDAT é uma revista eletrônica


­ ensal, escrita, editada e publicada pelos
m
­integrantes da Oficina de Escritores e Teoria
Literária. Diariamente são incluídos novos
textos de autores consagrados e de jovens
­escritores amadores, entusiastas e profis-
sionais. Contos, crônicas, poemas, resenhas
literárias e muito mais.

www.revistasamizdat.com

www.revistaamizdat.com 7
Comunicado

SAMIZDAT Especial

Humor
8 SAMIZDAT março de 2009
8
O lugar onde

Estamos preparan- tos mais extensos do que a boa Literatura


do a quarta edição do umas 2500 palavras.
­SAMIZDAT Especial, é fabricada
contemplando o gênero 5 - Por se tratar duma
­Humor. obra de divulgação, não
serão pagos direitos
1 - Todos os colabora- autorais. A publicação e
dores fixos do E-Zine po- a distribuição do E-Zine
dem participar e sugerir não acarretará, tampouco,
autores colaboradores; em custos para os autores
participantes.
2 - Também serão
aceitos textos enviado vo- 6 - A SAMIZDAT
luntariamente por autores ­ special - Humor será
E
externos, para as seguin- publicada durante o mês
tes seções do E-Zine: de maio no blog, e na
edição em .PDF em 1 de
a - Resenha de Livros; junho. Por isto, solicita-se
aos autores interessados

http://www.flickr.com/photos/ooocha/2630360492/sizes/l/
b - Teoria Literária ou que entrem em contato
do Humor; até o final de abril, atra-
vés do e-mail
c - Autor convidado
(prosa ou poesia); revistasamizdat@hotmail.com

d - Traduções; Indicando, no assunto


do e-mail, SAMIZDAT
e - Crônicas; Especial 4, e em qual se-
ção o texto se enquadra
f - caricaturas ou char-
(ver item 2).
ges.

3 - Serão seleciona-
dos, ao todo, entre 3 e Abraços a todos,
http://www.flickr.com/photos/billselak/1043526089/sizes/l/

5 textos para cada uma


das seções acima, mas a Equipe da SAMIZDAT
edição do E-Zine possui o
direito de selecionar mais www.revistasamizdat.com
ou menos obras.

4 - Não há limites
de palavras, mas como
se trata duma publica-
ção voltada para o meio
digital, solicita-se que ficina
não sejam enviados tex-
www.oficinaeditora.org

9
Entrevista

Marcelo Duarte
Marcelo Duarte nasceu em
São Paulo no dia 31 de Outubro de
1964.
É formado em Jornalismo pela
Escola de Comunicações e Artes
da Universidade de São Paulo em
1985.
Carreira jornalística:R evista
PLACAR, Revista PLAYBOY,
Revista VEJA SÃO PAULO,
Revista PLACAR, foi o criador da
revista AÇÃO GAMES e cola-
borou em diversas revistas, como
Próxima Viagem, Sexy e Set,
desenvolveu projetos de jogos para
a Grow: Tira-Teima, Trailer, Zôo
Lógico da Mônica, O Guia dos
Curiosos, Capricho 1 e 2, Corin-
thians - História e Glória, Master
Junior, Perfil 3,
Carreira empresarial: Em
setembro de 1999, Marcelo Duarte
criou a Panda Books, especializada
em livros de referência. A Panda
tem uma série de livros editados.
No início de 2002, a Panda Books
criou um novo selo de livros mo- Duarte assina a página “Curioci- SAMIZDAT – Como
tivacionais, a Editora Original. O dade” no Jornal da Tarde, de São funciona a pesquisa
catálogo de ambas está disponível Paulo.
para um livro como
no site www.pandabooks.com.br. Na TV, Marcelo Duarte apre- “O Guia dos Curiosos”?
Um mundo de curiosidades: senta o programa “Loucos por Tais informações po-
Marcelo Duarte apresenta o pro- Futebol” na ESPN Brasil ao lado dem ser encontradas
grama “Você é Curioso?” todos de Paulo Vinícius Coelho, Celso apenas em livros, ou
os sábados, das 10h às 11h30 na Unzelte e Roberto Porto. Ele é você teve de recorrer
Rádio Bandeirantes, de São Paulo veiculado sábado sim, sábado não. a outras fontes, como
(AM 840 e FM 90,9). De segunda Reprises: segunda, 20h. internet, fontes orais,
a sexta, ele comanda o “Fanáticos Marcelo Duarte apresenta tam- jornais, etc? E qual será
por Futebol”, transmitido das 22h bém o “TV Curioso” no portal IG o próximo “Guia”?
às 22h30. Os programas podem (www.megaplayer.com.br).
ser ouvidos também pela internet MARCELO – Quando
(www.radiobandeirantes.com.br). currículo de Marcelo Duarte lancei o primeiro “O
retirado do site: http://guiadoscu- Guia dos Curiosos”, em
Também aos sábados, Marcelo riosos.ig.com.br 1995, ninguém sonhava

10 SAMIZDAT março de 2009


10
ainda com a internet. Pes- a livros de referência um romance?
quisei em livros, arqui- foi uma decisão empre- MARCELO – Esquecer
vos de jornais e revistas, sarial, tendo em vista do meu tempo de “Ve-
e fiz muitas entrevistas. que não-ficção costuma jinha”? Jamais! Foi uma
Hoje em dia, a internet e, vender mais do que experiência incrível.
principalmente, o e-mail ficção, ou houve influ- Conheço a Cidade de
me ajudam a encontrar ência de algum outro São Paulo como poucos!
as fontes mais facilmente. fator? Existe a possibi- Foi nos tempos de Veji-
Acabei de lançar o oitavo lidade de, no futuro, a nha que criei o projeto
livro da coleção, “O Guia Panda Books expandir dos “Endereços Curiosos”.
das Curiosas”, em parce- seu catálogo para ou- Escrevi o guia “1075 En-
ria com a jornalista Inês tras áreas? dereços Curiosos de São
de Castro. Nem deu tem- MARCELO – A Panda já Paulo”, um sucesso es-
po de pensar ainda no lançou livros de humor, trondoso, e que serviu de
próximo. Este ano, acho de culinária, de ficção, de inspiração para outros 13
que irei lançar apenas crônicas. Não há restri- autores que escreveram
dois infantis. ção de linha editorial. O guias de cidades, como
que temos é uma vocação Nova York, Paris, Londres,
Você tem uma equi- maior para livros de re- Barcelona, Amsterdam,
pe de apoio, como os ferência. Está no DNA da Salvador, Porto Alegre,
dicionaristas, para es- editora e eu acho que é Buenos Aires.
crever os guias? Ou o isso que fazemos melhor.
trabalho hercúleo (e Depois de ter trabalha-
os louros) são só para Qual foi a motivação do em tantas revistas,
você? para você abrir sua voltadas para públicos
MARCELO – Sim, hoje própria editora? Em que tão diversos, para quem
conto com uma equipe momento você sentiu a você escreve hoje?
de apoio nos trabalhos necessidade de passar Quem é o seu “leitor
que faço no site (www. de autor a editor? ideal”?
guiadoscuriosos.com.br), MARCELO – Eu tinha MARCELO – Gosto de
na rádio (Bandeirantes três ou quatro projetos escrever para a família.
AM) e no jornal (Jornal de livros que foram recu- Gosto de escrever algo
da Tarde). Para os livros, sados por outras editoras. que será divertido para o
prefiro cuidar dos textos Eu acreditava muito neles garoto de 7 anos, a meni-
sozinho. Já dividi a au- e queria lançá-los. Foi na de 13 anos, a mãe, o
toria algumas vezes. Fiz por isso que resolvi virar pai e a avó. O que mais
o “O Guia dos Curiosos editor. Os projetos de- gosto é misturar a diver-
– Sexo”, com o doutor ram certo! Tanto que, este são com o conhecimento.
Jairo Bouer, e o “O Guia ano, a Panda completa 10
das Curiosas”, com a Inês. anos e deve alcançar a
Nem é questão de ficar marca de 300 títulos. É mais difícil manter-se
com os louros. É uma como editor de livros
questão de ordem prática ou de periódicos? Dá
mesmo. Prefiro escrever Você foi editor da ”Ve- para viver disso?
sozinho em casa, à noite, jinha” entre 91 e 94. O MARCELO – Como tudo
quando o telefone não que você viu, leu, escre- na vida, se você acerta,
toca mais. veu, editou ou quer se sim. Mas o mercado é
esquecer desse tempo muito cruel. Você precisa
que, se ainda não é, po- acertar mais do que errar.
Restringir a linha edi- deria ser assunto para
torial da Panda Books

www.revistaamizdat.com 11
Há uma frase sobre a “cultura inútil”. Como eu contrário, a produção
Panda Books que diz: disse, a graça é misturar cultural deixará de exis-
“Nosso grande desafio é a diversão com o conhe- tir.
lançar livros que con- cimento. Assim, as pesso-
tribuam para a forma- as vão aprendendo sem
ção de seres humanos perceber. Por estar nos dois lados
mais felizes e conscien- da relação escritor-
tes”. O livro da Bruna editor, você poderia nos
Surfistinha não foi Baseado em sua expe- dizer qual é o erro mais
antes uma concessão ao riência como jornalista comum cometido pelos
mercado? e editor, você consegui- aspirantes a escritores
ria traçar um perfil do na tentativa de se inse-
MARCELO – “O Doce leitor brasileiro? Quais rirem no mercado?
Veneno do Escorpião”, da temas o atraem? O que
Bruna Surfistinha, deve MARCELO – Confiar
ele procura quando ad- demais na opinião – nem
ser o nosso livro que quire um livro?
mais se encaixa nessa sempre imparcial – do
definição. Quem não leu MARCELO – Se eu sou- pai, da mãe e dos amigos.
pensa que é um livro besse isso, jamais contaria
sobre sexo. Não é. O que numa entrevista. Lançaria
os livros e ficaria rico. Ficamos muito agrade-
está ali é a história de cidos por sua participa-
uma menina, que estuda- Infelizmente, não existe
uma fórmula. Dizem que ção, Marcelo, e te dese-
va num colégio classe A jamos muito sucesso!
e acabou se prostituindo auto-ajuda vende mais.
durante 3 anos por causa Mas nem todos os livros
de uma série de fato- de auto-ajuda vendem
res que atingem muitos bem.
adolescentes hoje em dia. Coordenação da entrevista:
É um livro que os pais Em tempos onde se Carlos Alberto Barros
deveriam incentivar os encontra praticamente
filhos adolescentes a ler. tudo sobre praticamen-
Tanto que outras editoras te tudo na internet, Perguntas feitas por:
lançaram outros livros continua grande a pro-
com “confissões de ga- Henry Alfred Bugalho
cura por seus guias? E
rotas de programa”, na as novas tecnologias de Joaquim Bispo
cola da Bruna Surfistinha, edição, como os livros
e não tiveram o mesmo Maristela Deves
digitais ou a impressão
sucesso. sob demanda, represen- Volmar Camargo Junior
tam, atualmente, algu-
Como você classificaria ma ameaça ao mercado
as informações de seus editorial?
guias, sobretudo as que MARCELO – A tecnolo-
servem exclusivamente gia vai mudar o formato
para sanar curiosidades dos livros, sim. Mas os
do leitor? Podem ser autores continuarão exis-
chamadas de cultura tindo. Não vejo ameaça.
geral, arte, ou o quê? Acho até que haverá um
MARCELO – Cultura aumento de demanda. O
geral, sim. Mas algumas que vai mudar é o con-
podem ser enquadra- trole sobre os direitos
das simplesmente como autorais na internet. Do

12 SAMIZDAT março de 2009


12
O lugar onde
a boa Literatura
é fabricada
http://www.flickr.com/photos/32912172@N00/2959583359/sizes/o/

ficina
www.samizdat-pt.blogspot.com
www.revistaamizdat.com 13

www.oficinaeditora.org
Microcontos

Máscaras
Henry Alfred Bugalho
De dia, era uma carola, ajoelhada na primeira fila da
igreja; à noite, dominatrix num bordel do Centro.

Cena Paulistana
Marcia Szajnbok
1. Na esquina mal iluminada, dois meninos se atrapa-
lham, derrubando ao chão os malabares improvisados.
Fingindo que não é com eles, os motoristas olham fixo
para a luz vermelha. Não se sabe ao certo se é por medo,
por avareza ou culpa. Sentada no degrau de um edifício,
a mulher emagrecida e cinzenta olha para o vazio. Junto
ao meio fio, um garotinho menor transforma em carro de
corrida uma caixa de fósforos vazia. Na redoma da fanta-
sia, a infância segue, alheia aos absurdos.

toda. A semana

http://www.flickr.com/photos/artsilva/2496570890/
Joaquim Bispo

tava uma perna de um tanque de lavar roupa, em cimento.


Na Segunda-feira, estava um carro estacionado mesmo em cima da passadeira de peões que
dá acesso à minha casa. Incomodado, afixei-lhe a meio do pára-brisas um pequeno autoco-
lante amarelo, que trago sempre comigo, que diz: Estacione bem – Respeite os outros.
Na Terça-feira, deparei com o mesmo carro estacionado na passadeira. Indignado, apliquei-
lhe, desta vez, um outro pequeno autocolante vermelho, que diz: Mal estacionado – Sujeito a
reboque.
Na Quarta-feira, o carro estava outra vez na passadeira. Irritado por a minha acção pedagó-
gica não resultar, levantei-lhe os limpa pára-brisas.
Na Quinta-feira, lá estava o carro na passadeira. Exasperado com tanta falta de respeito pelos
outros, coloquei-lhe um pauzinho na válvula do pneu dianteiro direito. O ar ficou a vazar.
Na Sexta-feira, o carro estava, uma vez mais, na passadeira. Furibundo, puxei da chave de
casa e apliquei um risco profundo a todo o comprimento do carro.
No Sábado, o carro já não estava na passadeira, finalmente. «Há pessoas que só entendem a
linguagem da violência» – pensei.
No Domingo, verifiquei, com horror, que o pára-brisas do meu carro, bem estacionado, estava
estilhaçado. No lugar do condutor, esprei

14 SAMIZDAT março de 2009


14
Sobre cascas de banana
(Bananalidades)
O caroço
Volmar Camargo Junior

- Mãe, já comi essa... como é mesmo o


nome?
- Banana, meu amorzinho. Agora que você

Sintonia
já comeu, põe a casca no lixo, põe.

http://www.flickr.com/photos/sotto1/1600066214/
- Que casca? Só sobrou esse caroço mo-
lengo...
Volmar Camargo Junior

- Pode me explicar por que aquela casca


de banana está pendurada na antena?
- Não te mete com o que tu não entente.

Humildade
Só consigo ouvir a Rádio Gaúcha desse jeito.
- Mas eu já não te disse que ela tem que
ficar em cima do contador de luz? Depois tu
Volmar Camargo Junior reclama que a gente não economiza...

- O homem verdadeiramente humilde é


aquele que consegue passar sete dias ape-
nas com uma casca de banana e dois copos
d’água.
- Mestre... veja bem. Ninguém consegue
sobreviver consumindo tão pouca coisa.
Puxa, prende e
- Que consumir, rapaz? A água é para
tomar banho. passa
- E a casca de banana?
Volmar Camargo Junior
- Para se esfregar, ué.
- Meu! Dá uma tragada nisso aqui.
- [tragando] Que treco é esse, véio?
- Casca de banana torrada!
- [cuspindo] Tá doido? Tu me deu casca de
banana pra fumar?
- É, mas é coisa fina, véio... Cem por cento
orgânica.

15
Recomendações de Leitura

A Insuportável
Competência dum Escritor
Henry Alfred Bugalho

http://g.zebra.lt/SCANPIX/AFP/Milan_Kundera_afp.jpg
A Insustentável Leveva
do Ser

Autor: Milan Kundera

Editora: Harper Perennial

A primeira vez que ouvi Leveza do Ser” na internet. É disto que trata o livro
falar sobre “A Insustentável Neste capítulo, o narrador de Milan Kundera, da vida
Leveza do Ser” foi da boca analisa o conceito de eter- de cinco personagens - To-
de minha mãe, que havia no retorno proposta por mas, Tereza, Sabine, Franz e
ido ao cinema e voltou Nietzsche, e o relacionado à do cachorro Karenin - e das
dizendo: vida humana. Para o nar- escolhas feitas por eles.
rador, este retorno é um
- Nossa, que filme chato! ideal irrealizável, pois nossa A estrutrura do roman-
vida é em linha reta, não há ce lembra a dos romances
E esta foi a impres- retornos, não há como vol- polifônicos de Dostoiesvsky;
são que ficou gravada em tar atrás e testar diferentes somos conduzidos, através
minha mente por anos, até possibilidades: toda escolha dos capítulos, pelas óticas
que, por acaso, li a tradução que fazemos é única; para de cada um deles, tentando
do primeiro capítulo do a vida, não há ensaios, é compreender suas decisões
romance “A Insustentável sempre realização. e seus arrependimentos.

16 SAMIZDAT março de 2009


16
Recomendações de Leitura
O contexto histórico
principal é a invasão rus-
sa na Tchecoslováquia, em
1968, época de perseguição
política, repressão e vários
intelectuais tendo de se
exilarem.

Tomas é um mulherengo
incorrigível e que, mesmo
após se apaixonar por Te-
reza, não consegue abando-
nar suas aventuras sexuais;
Tereza, por outro lado, com-
preende que, para conti-
nuar ao lado do homem
que ama, terá de aceitar o
comportamento dele, mas
sem desistir de torná-lo
totalmente seu.

“A Insustentável Leveza
do Ser” é uma obra perme-
ada de reflexões filosóficas,
de conjeturas políticas com
fortes críticas ao comunis- O Mundo Bizarro
mo, e até de meditações

de Chuck
sobre o ofício da escrita.

Milan Kundera possui


uma escrita limpa, com-
petente e direta, que por
vezes assemelha-se ao Este é o mesmo uni-
Henry Alfred Bugalho verso retratado na obra
domínio literário de Kafka,
seu compatriota. Várias "­Assombro" (Haunted), publi-
O escritor norte-ameri-
das hipóteses levantadas cada em 2005.
cano Chuck Palahniuk se
pelo narrador são dum tornou mundialmente conhe- Apesar de ser classifi-
brilhantismo surpreendente, cada como um romance,
cido após a adaptação para
apresentando suas conclu- "Assombro" nada mais é do
o cinema de seu romance "O
sões sem dogmatismo nem que uma coletânea de con-
Clube da Luta".
sectarismo. tos unida por um enredo
Os personagens de Pa-
comum: um grupo de es-
É o tipo de obra que es- lahniuk são, na maioria das
quisitões se reúne para um
panta, a ponto de se tornar vezes, renegados e vivem
retiro literário. A proposta é
insuportável por tamanha num submundo, bem longe
que eles fiquem isolados pelo
perfeição. da vista das pessoas comuns.
prazo de três meses, tempo

www.revistaamizdat.com 17
no qual eles poderão, quem maios passaram a acontecer.
sabe, escrever suas obras- Realmente, "Guts" é um
primas. conto bastante impressionan-
No entanto, o retiro se te e é uma grande abertura
mostra ser uma armadilha para o livro, mas, aos pou-
doentia. Encerrados num te- cos, o impacto dos contos
atro abandonado, à prova de diminui e vamos nos acos-
fuga, estes escritores acabam tumando com vísceras, com
se sabotando uns aos ou- bizarrices, com nojeiras, com
tros numa terrível luta pela comportamentos anômalos,
sobrevivência e, mais do que com o submundo, a ponto de
isto, tendo em vista a fama nos cansarmos da repetição,
para aqueles que restarem no dum estilo que se torna tão
final. previsível que não surpreen-
Assombro
Neste intervalo de três de mais.
Autor: Chuck Palahniuk
meses, os personagens con- Enquanto Chuck Palah- Editora: Rocco
tam suas histórias uns aos niuk acaba reproduzindo
outros, tal qual uma versão uma estrutura clássica -
bizarra de Sherazade ou de como dissemos, de Boccaccio
"Decamerão". rentemente, todo o empenho
ou dos narradores árabes -,
do autor foi em prol de
O primeiro conto da ele peca por um detalhe cru-
reproduzir o efeito de "Guts",
obra, "Guts" (que poderia ser cial. Em "Decamerão" e em
sem sucesso.
traduzido como vísceras, ou "As mil e uma noites", as his-
entranhas), é sem dúvida o tórias são narradas em ter- Por outro lado, "Assom-
motor do livro. Há toda uma ceira pessoa, ou são narradas bro" é uma crítica brutal à
mitologia em torno deste por um único personagem, sociedade norte-americana,
conto, que narra a história por isto, a homogeneidade puritana e consumista. Palah-
dum adolescente que gosta estilística é aceitável, até es- niuk encontra sua inspiração
de se masturbar no fundo perada. Mas em "Assombro", em histórias reais, mas que
da piscina de casa, enquanto cada conto é narrado por um são escondidas para preser-
o dreno da piscina succiona personagem diferente, então, varem a estabilidade social.
seu cu. O conto foi escrito o estilo semelhante, se não A busca do autor é pelo
alguns anos antes do livro idêntico, acaba atrapalhando louco escondido no porão,
"Assombro", e se tornou fa- e suscitando a pergunta: "por pelo pai que molesta a filha,
moso por causa das leituras que pessoas tão diferentes pelos medos que ninguém
públicas dele realizadas por escrevem, ou contam suas tem coragem de assumir.
Chuck Palahniuk. histórias, de maneiras tão Apesar do estilo por vezes
parecidas?" cansativo, vale a pena ler um
Muitos ouvintes desmaia-
vam durante a leitura do Faltou um esforço do ou dois contos de Chuck,
conto, por causa do forte autor em encontrar vozes e rir e chorar com a nossa
conteúdo e do desfecho gro- individuais para seus per- condição humana.
tesco. Multidões se reuniam sonagens, em tentar contar
para ouvirem a leitura do as histórias deles do modo
conto, e mais e mais des- como eles contariam. Apa-

18 SAMIZDAT março de 2009


18
ficina

A Oficina Editora é uma utopia, um não-


lugar. Apenas no século XXI uma ­vintena
de autores, que jamais se ­encontraram
­fisicamente, poderia conceber um projeto
semelhante.
O livro, sempre tido em conta como umas
das principais fontes de cultura, ­tornou-se
apenas um bem de ­consumo, ­tornou-se um
elemento de exclusão c­ ultural.
A proposta da Oficina Editora é ­resgatar o
valor natural e primeiro da ­Literatura: de bem
cultural. ­Disponibilizando ­gratuitamente
­e-books e com o ­custo ­mínimo para ­livros
impressos, nossos ­autores ­apresentam
http://oficinaeditora.org/ a ­demonstração ­máxima de respeito à
­Literatura e aos ­leitores.

www.revistaamizdat.com 19
Autor em Língua Portuguesa

Mário de Andrade

Será o Benedito!
http://www.flickr.com/photos/blackheritage/2145735890/sizes/o/in/set-72157602299163015/

20 SAMIZDAT março de 2009


20
A primeira vez que me nas, nem sei quantas, até nar o laço, fabriquei um
encontrei com Benedito, desaparecer por detrás desajeitamento muito
foi no dia mesmo da mi- das mangueiras grossas grande, e assim princi-
nha chegada na Fazenda do pomar. piou uma camaradagem
Larga, que tirava o nome que durou meu mês de
***
das suas enormes pas- férias.
tagens. O negrinho era Nos primeiros dias
***
quase só pernas, nos seus Benedito fugiu de mim.
treze anos de carreiras Só lá pelas horas da Pouco aprendi com
livres pelo campo, e tarde, quando eu me o Benedito, embora ele
enquanto eu conversava deixava ficar na varanda fosse muito sabido das
com os campeiros, ficara da casa-grande, gozando coisas rurais. O que
ali, de lado, imóvel, me essa tristeza sem motivo guardei mais dele foi
olhando com admira- das nossas tardes paulis- essa curiosa exclamação,
ção. Achando graça nele, tas, o negrinho trepava “Será o Benedito!”, com
de repente o encarei na cerca do mangueirão que ele arrematava todas
fixamente, voltando-me que defrontava o terraço, as suas surpresas diante
para o lado em que ele uns trinta passos além, do que eu lhe conta-
se guardava do excesso e ficava, só pernas, me va da cidade. Porque o
de minha presença. Isso, olhando sempre, deco- negrinho não me deixava
Benedito estremeceu, rando os meus gestos, aprender com ele, ele
ainda quis me olhar, às vezes sorrindo para é que aprendia comigo
mas não pôde agüentar mim. Uma feita, em todas as coisas da cida-
a comoção. Mistura de que eu me esforçava de, a cidade que era a
malícia e de entusiasmo por prender a rédea do única obsessão da sua
no olhar, ainda levou a meu cavalo numa das vida. Tamanho entusias-
mão à boca, na esperan- argolas do mangueirão mo, tamanho ardor ele
ça talvez de esconder as com o laço tradicional, punha em devorar meus
palavras que lhe escapa- o negrinho saiu não sei contos, que às vezes eu
vam sem querer: de onde, me olhou nas me surpreendia exage-
minhas ignorâncias de rando um bocado, para
— O hôme da cidade,
praceano, e não se con- não dizer que mentindo.
chi!...
teve: Então eu me envergo-
Deu uma risada qua- nhava de mim, voltava às
— Mas será o Benedi-
se histérica, estalada mais perfeitas realidades,
to! Não é assim, moço!
insopitavelmente dos e metia a boca na cidade,
seus sonhos insatisfeitos, Pegou na rédea e deu mostrava o quanto ela
desatou a correr pelo o laço com uma preste- era ruim e devorava os
caminho, macaco-aranha, za serelepe. Depois me homens. “Qual, Benedito,
num mexe-mexe aflito olhou irônico e superior. a cidade não presta, não.
de pernas, seis, oito per- Pedi para ele me ensi- E depois tem a tubercu-

www.revistaamizdat.com 21
lose que...” maço de papéis velhos. ca. Desistiu da cidade e
Eram cartões postais eu parti. Uns quinze dias
— O que é isso?...
usados, recortes de jor- depois, na obrigatória
— É uma doença, nais, tudo fotografias de carta de resposta à mi-
Benedito, uma doença São Paulo e do Rio, que nha obrigatória carta de
horrível, que vai comen- ele colecionava. Pela su- agradecimentos, o dono
do o peito da gente por jeira e amassado em que da fazenda me conta-
dentro, a gente não pode estavam, era fácil perce- va que Benedito tinha
mais respirar e morre ber que aquelas imagens morrido de um coice de
em três tempos. eram a única Bíblia, a burro bravo que o pega-
exclusiva cartilha do ra pela nuca. Não pude
— Será o Benedito... negrinho. Então ele me me conter: “Mas será o
E ele recuava um pou- pediu que o levasse Benedito!...”. E é o remor-
co, talvez imaginando comigo para a enorme so comovido que me faz
que eu fosse a própria cidade. Lembrei-lhe os celebrá-lo aqui.
tuberculose que o ia ma- pais, não se amolou;
tar. Mas logo se esquecia lembrei-lhe as brincadei-
da tuberculose, só alguns ras livres da roça, não São Paulo, 2ª. quinze-
minutos de mutismo se amolou; lembrei-lhe a na de outubro de 1939.
e melancolia, e voltava tuberculose, ficou muito (n°145)
a perguntar coisas so- sério. Ele que reparasse,
bre os arranha-céus, os era forte mas magrinho
“chauffeurs” (queria ser e a tuberculose se metia Texto extraído do livro
“chauffeur”...), os canto- principalmente com os “Será o Benedito!”, Editora
res de rádio (queria ser meninos magrinhos. Ele da PUC-SP, Editora Giorda-
cantor de rádio...), e o precisava ficar no campo, no Ltda. e Agência Estado
presidente da Repúbli- que assim a tuberculose Ltda.- São Paulo, 1992,
ca (não sei se queria ser não o mataria. Benedito pág. 66, uma colaboração
presidente da República). pensou, pensou. Murmu- de João Antônio Bührer
Em troca disso, Benedito rou muito baixinho: e seus “Arquivos Impagá-
me mostrava os dentes — Morrer não quero, veis”.
do seu riso extasiado, não sinhô... Eu fico.
uns dentes escandalosos,
grandes e perfeitos, onde E seus olhos enevoados Fonte: Releituras
as violentas nuvens de numa profunda melan-
setembro se refletiam, colia se estenderam pelo
numa brancura sem par. plano aberto dos pastos,
foram dizer um adeus à
Nas vésperas de mi- cidade invisível, lá longe,
nha partida, Benedito com seus “chauffeurs”,
veio numa corrida e me seus cantores de rádio, e
pôs nas mãos um chu- o presidente da Repúbli-

22 SAMIZDAT março de 2009


22
de, Oswald de Andrade, Tarsila
do Amaral, Fernando Sabino e
Augusto Meyer, e veio a falecer Um detetive...
em 1945 na mesma cidade em que
nasceu, após três décadas de tra- Uma loira gostosa...
balho que desempenhou em estilo
vanguarda. Um assassinato...
Considerado o escritor mais
nacionalista e múltiplo dos
brasileiros, Mário construiu um
caráter revolucionário na lite-
E o pau comendo entre
ratura brasileira, que se iniciou as máfias italiana e
com Paulicéia Desvairada, onde chinesa.
­
analisa a cidade de São Paulo e
todos seus elementos (provincia-
nismo, aristocracia, burguesia, rio
Tietê, Avenida Paulista). Mário
também é considerado um dos
Mário Raul de Morais Andrade
(São Paulo, 9 de outubro de 1893
primeiros musicólogos do país, e
seu maior interesse era, particula-
O Covil
http://1.bp.blogspot.com/_zfycQnCrSoA/R5lIq1fS3VI/AAAAAAAAA8A/mkWmGS3sN2g/s400/mario.jpg

mente, os ritmos nordestinos, aos


— São Paulo, 25 de fevereiro de
1945) foi um poeta, romancista, quais tentou pesquisar e valorizar,
assim como fez com a Missão de
dos
crítico de arte, musicólogo, profes-

Inocentes
sor universitário e ensaísta, con- Pesquisas Folclóricas, tentando
siderado unanimidade nacional e criar um estudo e uma descoberta
reconhecido por críticos como o das raízes culturais do Brasil. Isso
mais importante intelectual brasi- também ocorreu com seu romance
mais famoso, Macunaíma, consi- www.covildosinocentes.blogspot.com
leiro do século XX. Notável polí-
mata, Mário de Andrade liderou o derada uma das obras capitais da
movimento modernista no Brasil narrativa brasileira no século XX.
e produziu um grande impacto na A importância de Mário de An-
renovação literária e artística do drade continua sendo ativamente
país, participando ativamente da expressa nos dias atuais, e ainda
Semana de Arte Moderna de 22, se fala sobre sua obra seja para
além de se envolver (de 1934 a 37) estudo ou para a investigação do
com a cultura nacional trabalhan- Brasil: o filósofo Leandro Konder
do como diretor do Departamento considera que talvez essa atuali-
Municipal de Cultura de São dade seja resultado do destaque
Paulo. que Mário tinha sobre os outros
Mário nasceu em São Paulo e nomes do modernismo, "pela
construiu praticamente toda a sua amplitude de sua cultura, pela
vida na metrópole. Na cidade, vastidão dos seus conhecimentos
estudou e também lecionou por [...] [porque] tinha uma visão pa-
muitos anos, desde cedo demons- norâmica abrangente [e] dispunha
trando sua paixão pela cidade. de um quadro de referências muito
Durante seu tempo de vida, Mário mais rico do que todos os outros."
criou vínculos fortes com outros
nomes do país, se corresponden- Fonte: Wikipedia
do freqüentemente com grandes do
artistas brasileiros, dentre quais w
gr nl
se destacam Manuel Bandeira,
át
oa
Carlos Drummond de Andra- is d

23
Autor em Língua Portuguesa

Qorpo Santo

Hoje sou um;


amanhã outro
24 SAMIZDAT março de 2009
24
ATO PRIMEIRO va tão acima de Vossa Majes-
O REI (muito admirado) Oh! tade, porque sentia em mim
Cena Primeira Dizei; falai! Que descobriram o dever de cumprir uma
- é erro!? missão Divina, que me era
O REI - (para o Ministro) impossível cumprir ordens
Já deste as providências que MINISTRO - É cousa tão humanas. Podeis fazer agora
te recomendei ontem sobre simples, quanto verdadeira: o que quiserdes!
os indigitados para a nova
conspiração que contra mim 1.ª - Que os nossos corpos O REI - Estou pasmo - com a
se forja!? não são mais que os invólu- revelação que acabo de ouvir.
cros de espíritos, ora de uns, Se isto se verifica, estou per-
MINISTRO - Não me foi ora de outros; que o que hoje dido!
possível, Senhor, pôr em prá- é Rei como V. M. ontem não
ticas vossas ordens. passava de um criado, ou MINISTRO - Não temais,
vassalo meu, mesmo porque Senhor... Todo o Povo vos
O REI - Ludibrias das ordens senti em meu corpo o vos- ama, e a Nação vos estima;
de teu Rei? Não sabes que te so espírito, e convenci-me, mas desejo que aprendais a
posso punir, com uma de- por esse fato, ser então eu o conhecer-vos, e aos outros
missão, com baixa das hon- verdadeiro Rei, e vós o meu homens. E o que é o corpo e
ras, e até com a prisão!? Ministro! Pelo procedimen- a alma de um ente qualquer
to do Povo, e desses a quem da espécie humana: isto é,
MINISTRO - Se eu referir a V. M. chama conspiradores que os corpos são verdadei-
V. M. as razões ponderosas persuadi-me do que acabo de ramente habitações daque-
que tive para assim proceder, ponderar a V.M. las almas que a Deus apraz
estou certo, e mais que certo fazer habitá-los, e que por
que V. M. não hesitará em 2.ª - Que pelas observações isso mesmo todos são iguais
perdoar-me essa que julga filosóficas, este fato é tão perante Deus!
http://www.nevadaobserver.com/TNO%20Reference%20Page%20File/Maximilan,%20Emperor%20of%20Mexico.jpg

uma grave falta; mas em verídico, que milhares de


verdade não passa de ilusão vezes vemos uma criança O REI - Mas quem foi no
em V. M. falar como um general; e este Império do Brasil o autor da
como uma criança. Vemos descoberta, que tanto ilustra,
O REI - Ilusão! Quando por exemplo um indivíduo moraliza e felicita - honran-
deixas de cumprir ordens colocado no cargo de pre- do!?
minhas? sidente de uma Província;
velho, carregado de serviços; MINISTRO - Um homem,
MINISTRO - Pois bem, já com títulos, dignidades; e Senhor, predestinado sem
que V.M. o ignora, eu lhe vou mesmo exercendo outros dúvida pelo Onipotente para
cientificar das cousas, que me empregos de alta importân- derramar esta luz divina por
obrigaram a assim proceder. cia ter medo, Senhor: não todos os habitantes do Globo
poder abrir a boca diante que habitamos.
O REI - Pois bem: refere-as; e de um homem considerado
muito estimarei que me con- talvez pelo Povo, sem um O REI - Mas quais os seus
vençam e persuadam de que emprego pessoal, sem mu- princípios, ou os de sua vida?
assim devemos proceder. lher, talvez mesmo sem o
necessário para todas as suas MINISTRO - É filho de um
MINISTRO - Primeiramente, despesas, finalmente um cor- professor de primeiras letras;
saiba V . M. de uma grande po habitado por uma alma. seguiu por algum tempo o
descoberta no Império do Que quer dizer isto, Senhor? comércio; estudou depois,
Brasil, e que se tem espalha- Que esse sobrecarregado de e seguiu por alguns anos a
do por todo o mundo cristão, cargo e dignidades humanas profissão de seu Pai, rouba-
e mesmo não cristão! Direi é zero perante este protegido do-lhe pela morte, quando
mesmo por todos os entes da ou bafejado das dignas leis contava apenas de 9 a 10
espécie humana! Divinas. Eu, pois, ontem esta- anos de idade. Durante o

www.revistaamizdat.com 25
tempo do seu magistério, em- ências, compondo uma obra bem se pode dizer - que é
pregou-se sempre no estudo de mais de 400 páginas em um desses raros talentos que
da História Universal; da Ge- quarto, a que denomina E... só se admiram de séculos em
ografia; da Filosofia, da Retó- ou E... de. .. E aí acrescentam séculos!
rica - e de todas as outras ci- que tomou o titulo de Dr.
ências e artes que o podiam C... s.... - por não poder usar O REI - Poderíamos obter
ilustrar. Estudou também um o nome de que usava - Q... um retrato desse ente a meu
pouco de Francês, e do Inglês; L..., ou J... J... de Q. .. L..., ao ver tão grande ou maior que
não tendo podido estudar interpretar diversos tópicos o próprio Jesus Cristo!?
também - Latim, conquan- do Novo Testamento de N. s.
to a isso desse começo, por Jesus Cristo, que até aos pró- MINISTRO - Eu não possuo
causa de uma enfermidade prios Padres ou sacerdotes algum; mas pode se enco-
que em seus princípios o pareciam contraditórios! mendar ao nosso Cônsul na
assaltou. Lia constantemente cidade de Porto Alegre, capi-
as melhores produções dos O REI - Estou espantado de tal da Província de São Pedro
Poetas mais célebres de todos tão importante revelação! do Sul, em que tem habitado,
os tempos; dos Oradores e creio que ainda vive.
mais profundos; dos Filósofos MINISTRO - Ainda não é
mais sábios e dos Retóricos tudo, Senhor: Esse homem era O REI - Pois serás já quem
mais brilhantes ou distintos durante esse tempo de jejum, fará essa encomenda!
pela escolha de suas belezas, estudo, e oração - alimen-
de suas figuras oratórias! Foi tado pelos Reis do Universo, MINISTRO - Aqui mesmo na
esta a sua vida até a idade de com exceção dos de palha! presença de V . M. o farei.
trinta anos. A sua cabeça era como um (Chega-se a uma mesa, pega
centro, donde saíam pensa- em uma pena e papel, e
O REI - E nessa idade o que mentos, que voavam às dos escreve:)
aconteceu? Pelo que dizes Reis de que se alimentava,
reconheço que não é um e destes recebia outros. Era “Sr. Cônsul de...
homem vulgar. como o coração do mundo,
espalhando sangue por todas De ordem de Nosso Monar-
MINISTRO - Nessa idade, in- as suas veias, e assim alimen- ca, tenho a determinar a V.
formam-me... isto é, deixou o tando-o e fortificando-o, e Sa. que no primeiro correio
exercício do Magistério para refluindo quando necessário envie a esta Corte um retra-
começar a produzir de todos a seu centro! Assim como to do Dr. Q... S..., do maior
os modos; e a profetizar! acontece a respeito do cora- tamanho, e mais perfeito que
ção humano, e do corpo em houver.
O REI - Então também foi ou que se acha. Assim é que tem
é profeta!? podido levar a todo o mundo Sendo indiferente o preço.
habitado sem auxílio de tipo
MINISTRO - Sim, Senhor. - tudo quanto há querido! O Primeiro Ministro
Tudo quanto disse que havia
acontecer, tem acontecido; e O REI - Cada vez fico mais DOUTOR SÁ E BRITO”
se espera que acontecerá! espantado com o que ouço
de teus lábios! Corte de..., maio 9 de 1866.
O REI - Como se chama esse
homem!? MINISTRO - É verdade (Fechou, depois de haver
quanto vos refiro! Não vos lido em voz alta; chama um
MINISTRO - Ainda não vos minto! E ainda não é tudo: criado; e manda por no cor-
disse, Senhor, - que esse ho- esse homem tem composto, reio - para seguir com toda a
mem viveu em um retiro por e continua a compor, nume- brevidade, recomendando.)
espaço de um ano ou mais, rosas obras: Tragédias; Co-
onde produziu numerosos médias; poesias sobre todo e
trabalhos sobre todas as ci- qualquer assunto; finalmente,

26 SAMIZDAT março de 2009


26
Natural da vila do Triunfo, Obras (teatro)
interior do Rio Grande do Sul,
José Joaquim Leão vai para § Certa identidade em busca de
Porto Alegre em 1840, já órfão outra
de pai, para estudar gramática § Eu sou vida eu não sou morte
e conseguir emprego na capital,
habilitando-se ao exercício do § Um credor da Fazenda Nacio-
magistério público, que pas- nal
sou a exercer a partir de 1851.
§ As relações naturais
Casa-se em 1855 e, em 1857,
muda-se com a família para § Hoje sou um; e amanhã sou
Alegrete, cidade na qual funda outro
um colégio, adquirindo respei-
tabilidade como figura pública, § Um assovio
escrevendo para jornais locais
§ Um parto
e ocupando ainda cargos pú-
blicos de delegado de polícia e § Hóspede atrevido ou O bri-
vereador. Em 1861, de volta a lhante escondido
Porto Alegre, segue a carreira
de professor e começa a escrever § A impossibilidade da santifica-
sua “Ensiqlopédia ou seis mezes ção ou A santificação transfor-
José Joaquim de Campos Leão,
de huma enfermidade”. Parecem mada
o Qorpo Santo
manifestar-se, neste momento, os
§ Dois irmãos
Foram necessários quase cem primeiros sinais de seus trans-
anos, a partir da publicação ori- tornos psíquicos, rotulados então § A separação de dois esposos
ginal dos textos de autor gaúcho sob o diagnóstico de “monoma-
do século XIX, José Joaquim de nia”, sendo afastado do ensino § La
Campos Leão, nome ao qual o e interditado judicialmente a pe- § Lanterna de fogo
próprio autor acrescentou a al- dido da própria família. Qorpo-
cunha de Qorpo-Santo, para que Santo não aceita pacificamente § Marinheiro escritor
sua obra conquistasse reconhe- este seu enquadramento psi-
cimento devido aos esforços de quiátrico, recorrendo ao Rio de § Marido extremoso
muitos intelectuais que assim o Janeiro, sendo examinado então § Mateus e Mateusa
quiseram e para tal trabalharam, por médicos daquela capital, que
na década de 1960. Alguns críti- diferem do diagnóstico inicial e § Elias e sua loucura bíblica
cos datando desta republicação, não endossam sua interdição ju-
destacando-se o editor de seu dicial. Todavia, o estigma estava
teatro completo, Guilhermino posto, e o autor se vê cada vez Fontes:
César, buscaram situá-lo como mais isolado. Este isolamento
precursor de modernas tendên- social parece incitá-lo a escrever http://www.biblio.com.br/con-
cias da arte teatral, a princípio febrilmente, e o leva ademais a teudo/qorposanto/molduraobras.
o teatro do absurdo -na época, constituir sua própria gráfica, na htm
pretendendo atribuir-lhe a pater- qual viabiliza e edita sua produ-
nidade desta moderna corrente ção textual.
teatral- e mais tarde querendo http://pt.wikipedia.org/wiki/Qor-
situa-lo como antecessor do po_Santo
movimento surrealista.

www.revistaamizdat.com 27
Contos

O Malandro e
a Princesa Carlos Alberto Barros

http://www.flickr.com/photos/julianasantos/2201245665/sizes/l/

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28
Uísque com gelo. Bebo, lado. Tento ignorá-la, mas vida.
enquanto a observo no insiste: – Vou, mas se a situa-
outro extremo do bar. Está – E aí, malandrão... ção piorar, a culpa é sua,
linda: vestido justo, salto Quantas noites mais nesta malandrão!
alto, cabelos soltos, batom bobagem? – debocha.
intenso. Finge não me ver, Tento reforçar minha
mas pouco importa. De- – Não quero pensar amargura e olho o lado
pois de semanas, acho até nisto. oposto do bar. Lá está
engraçado. Observo suas – Então, por que está minha princesa e suas
pernas feito um adoles- aqui? Você sabe que ela pernas: divinas e distan-
cente, desejando cada sempre vem. tes. A noite se estende
centímetro como se nunca e, após horas sem rumo,
– E quem disse que es- Tristeza acaba achando
as houvesse explorado. tou aqui por causa dela?
Cruzam-se e descruzam-se, uma abertura. Na verdade,
infinitas, conhecedoras das – Tudo bem, não falo uma abertura concedida
fraquezas deste malandro. mais nada. Estou saindo. por um olhar disfarçado,
– Não, não, fique! Se ela seguido por sorrisos de
Brigamos há um mês. compaixão.
Desde então, nos fazemos te ver ao meu lado, pode
de desconhecidos. Meu abrir o coração. E, na ver- – Acho que já posso
amigo, Uísque, diz que eu dade, não consigo te dei- ir embora. Vou deixá-los
não devia tê-la maltratado. xar ir. Estou sozinho... mais à vontade... – ouço
E dou-lhe razão enquan- – Está sozinho porque Tristeza dizer sem ter
to a contemplo. Os goles é um idiota! Está na cara certeza se a devo deixar ir,
no Martini realçam seus que ela te quer. Vai lá. mas não consigo impedi-
lábios carnudos, convidan- la.
– Não tem jeito. É orgu-
do-me a reencontrá-los. lhosa demais, eu conheço! Maravilhosa, minha
Ela sabe que a admiro, e musa se aproxima. Cami-
– Nem parece que é nha imponente, majesto-
provoca. Tento disfarçar o
malandro... Vai lá! Você sa. Sigo em sua direção
olhar e ouço uma voz:
consegue dobrar a mal- sorrindo, com o coração
– Que belo malandro vada. E olha ela com as
você me saiu! Deixar sua batendo forte, os braços
pernas lá de novo. Des- abertos. Uma lágrima se
princesa por aí, às moscas? cruzou... Cruzou... Está te
– mas, não é ela quem fala, desfaz quando, de súbito,
chamando, rapaz! recebo o que creio ser o
é Uísque.
– Você podia ir adiantar mais violento tapa que já
As luzes fracas esboçam a conversa... Falar que é levei. Em instantes, nossos
uma silhueta de Tristeza minha única companhia... lábios colam-se libertan-
no chão. Palavras dispersas Quando ela te ver, vai sen- do todo o fogo do desejo
me vêm aos ouvidos: tir compaixão. Diga que reprimido. Entre beijos e
– Malandrão... noites... não agüento mais sofrer, carícias infinitas, ela repe-
bobagem... que sem ela eu não vivo! te-me o alerta que tanto já
Penso ser Uísque nova- – E ela vai cair nessa? ouvi:
mente. Chacoalho a cabe- – É a verdade! Ela é – Se você me fizer
ça, mando-o se calar. No minha princesa. Só não chorar de novo, pode me
entanto, as palavras con- consigo ir eu mesmo falar. esquecer, seu cafajeste!
tinuam. Não havia perce- Faça isso por mim. Diga – Nunca mais, princesa.
bido: é Tristeza já ao meu que ela é tudo na minha Chega de saudade!

www.revistaamizdat.com 29
Contos

O copo esmaltado
Volmar Camargo Junior
v.camargo.junior@gmail.com

http://www.flickr.com/photos/visualdensity/316305712/sizes/l/

30 SAMIZDAT março de 2009


30
A cada ano, ele dorme Eu cresci à volta desse A mãe tinha uma
menos. É muito raro que fogão. A mãe, evocando a resistência ao sono de
o sol se levante antes sabedoria popular, dizia causar espanto, um tan-
do velho. O ritual é o que “criança que brinca to naturalmente, outro
mesmo desde antes do com fogo acaba mijando tanto devido ao hábito de
Dilúvio, como ele mesmo na cama”. Mas era para tomar café. Ela gostava de
sente prazer em repetir. mim a coisa mais interes- passá-lo diretamente num
Enquanto a água aque- sante do mundo até certa copo de metal esmaltado.
ce, ceva o mate com o idade ver as coisas sendo Tinha um coador que
buraco no meio da erva, consumidas naquele fogo. cabia perfeitamente nele,
a bomba inclinada um Bem mais interessante e não se adaptava à boca
pouco para a esquerda. A era o que se cozinha- de nenhum bule. A mar-
erva tem que ser moída va sobre aquela chapa ca de café que ela gostava
grossa, amarga, porque de ferro. Não há como muito, hoje nem ven-
não admite outra, dessas descrever o feijão fei- dem mais. Era diferente
misturadas com açúcar. to assim, cozido muito o sabor daquele café. O
Não gosta de lavar a cuia; lentamente. É certo que esmalte do copo já havia
raspa bem a erva usada a mãe descobriu a pane- descascado em algumas
com uma colher, embru- la de pressão, mas ainda partes, e era muito per-
lha-a numa folha de jor- assim, parece-me que não ceptível um gosto ferroso
nal e joga fora. Quando existe, e talvez não exista no meio do gosto do café.
a chaleira chia, segura-a mesmo, coisa melhor do Era engraçado, e nessa
pela alça, pressionando que comida feita devagar. época eu tinha tempo
para baixo com a palma para observar essas coi-
da mão, os dedos um Eternamente ao lado
desse fogão existia uma sas, que algumas vezes a
pouco curvados, o que mãe ia se deitar alguns
ele diz que é para a água cadeira de vime, cober-
ta com um pelego. Essa minutos antes da hora do
não ferver. É meio assus- velho levantar. Fosse hoje,
tador assisti-lo fazendo cadeira era, de modo
tudo isso no escuro, com geral, o lugar onde a mãe eu teria entendido que o
a luz meio fantasmagóri- permanecia a maior parte pai, dia após dia, tentava
das horas do dia. Apren- encontrá-la ainda acor-
ca vinda da chama azul
da boca do fogão. Esse deu tarde a bordar, e des- dada. Ela reconhecia cada
cobriu nisso um prazer rangido da cama, como
instrumento, o fogão a eu também conhecia,
gás, o velho só aprendeu inconcebível. Acompa-
nhava, bordando sentada e quando ele virava-se
a usar por causa de um para a direita, sentava-se
bendito copo de café. naquela cadeira, o vaga-
roso cozimento das coisas na cama em busca das
Antes, a cozinha era que não exigiam mais de chinelas, a mãe já estava
quente o ano todo. O sua atenção que o olfato. deitada.
fogão a lenha estava Tinha uma alegria pecu- Uma noite eu consegui
sempre aceso, e não é liar quando concluía seus acordar antes do velho,
um exagero dizer sem- trabalhos. Permanecia e encontrar a mãe ainda
pre, porque, pela manhã, absorta, tocando com as em sua cadeira de vime,
o pai costumava acender pontas dos dedos lenta- com o copo de café no
os cavacos nas brasas que mente as figuras borda- canto da chapa. A co-
sobravam da noite ante- das, como se revisasse os zinha era iluminada só
rior. A água para o mate pontos um a um. pela luz do fogo vindo da
estava sempre aquecida.

www.revistaamizdat.com 31
portinhola do fogão. Até Na manhã seguinte, o
aquele momento, eu achei velho apareceu em casa
aquilo tudo muito, muito com o fogão a gás. Dei-
engraçado: era a primeira tou o machado na cadei-
vez que tinha visto a mãe ra de vime, pôs o pelego
cochilando. Havia na co- do lado de fora da porta,
zinha um cheiro de café para onde se mudou uns
fervido, e quando cheguei dias depois uma gata
mais perto dela, pé-por- que nos adotou, e de-
pé, vi que o conteúdo mos o nome de Baia. No
do copo estava fervendo. copo esmaltado o velho
Como a mãe sempre plantou uma muda de
teve uns sentidos felinos, comigo-ninguém-pode.
assim que uma das tábu- Daquele dia em diante,
as do soalho rangeu, num o café ficou proibido em
rompante, assustou-se e casa. E até o dia em que a
deu um pulo da cadeira. mãe morreu, e isso levou
Com o solavanco, o copo uns bons trinta anos, os
de café fervente saltou da dois – juntos – iam para
chapa do fogão por cima a cama no mesmo horá-
das pernas da mãe. Eu rio, e acordavam – jun-
só lembro de eu pedindo tos – antes do sol nascer
desculpas, e a mãe gritan- para tomar chimarrão.
do como eu nunca tinha A velha se foi e fiquei
ouvido, e o pai vindo eu. Não tem mais fogão
pelo corredor fazendo a lenha – e isso nem
tanto barulho que fiquei caberia aqui em casa.
ainda mais assustado. De- Acordo todo dia cedinho
pois, eu lembro de muito pra tomar mate com o
pouca coisa além das velho. Mas, uma vez ou
cintadas que o pai desfe- outra, não livre de algum
ria em mim, e de a mãe, sentimento de culpa, uma
chorando e mandando sensação de que estou fa-
que ele parasse. zendo algo errado, tiro de
Não foi nada de muito seu esconderijo o copo
grave com as pernas dela. esmaltado, que salvei de
Levantaram umas bolhas ser vaso de planta assim
vermelhas, mas a minha que o pai esqueceu-se
avó recomendou lavar dele. E o café, além do
com sálvia e vinagre para gosto de ferro, mesmo
que não arrebentassem. depois de tanto tempo,
As cintadas que eu levei parece que guardou um
passaram, e no outro dia pouquinho do gosto de
nem lembrava mais delas. terra.
Estava mais preocupado
que a mãe fosse ficar
doente, ou morrer.

32 SAMIZDAT março de 2009


32
Contos

Sem abrigo
Joaquim Bispo

O dia começou-me mal. Não ouvi o


despertador e cheguei atrasado ao em-
prego. Isto numa sexta-feira, o dia em
que saio mais cedo para ir à consulta

http://www.flickr.com/photos/vaitu/3075851092/sizes/l/
do psicanalista a Lisboa. Parti de Cas-
telo Branco às quatro da tarde e às seis
já estava a chegar ao Aeroporto mas, a
partir daí, o trânsito estava complicado.
Perto das sete, a hora da consulta, tele-
fonei do Campo Grande ao Dr. a pedir
desculpa pelo atraso. Às sete e vinte, já
desvairado, encostei o carro como pude,
a meio da 5 de Outubro, e apressei o
passo para o consultório, que é junto
ao Saldanha.
A consulta foi pouco produtiva. Não
consegui soltar-me e verbalizar todas
as queixas que tenho da vida desde que
a Noémia me deixou. Quando ia para
pagar, dei-me conta que tinha deixado a
carteira no compartimento da porta do
carro, onde a meti ao pagar a portagem.
Fiquei a dever a consulta.
Voltei ao carro mas não o encontrei.
No café em frente, confirmaram-me
que tinha sido rebocado. Na pressa,
tinha-o posto num espaço reservado a
deficientes.
De repente, vi-me numa situação

33
muito desconfortável: só em caixas de cartão. Um sobre os joelhos, com o
tinha um porta-moedas indivíduo de barba hir- rosto apoiado nas mãos
com 4 euros e 40, eram suta veio pedir-me «uma abertas, enquanto o frio
nove da noite, estava a ajuda». Apeteceu-me se espalhava por todo o
duzentos quilómetros de dizer-lhe «hoje não pode corpo. Apesar de estar
casa e não tinha onde ser», mas acabei por lhe cheio de sono, só con-
dormir. Enquanto pensa- dar vinte e cinco cên- seguia adormecer por
va o que havia de fazer, timos. Deambulei pela curtos períodos, devido
comi uma sandes de Baixa a ver as ilumina- ao frio e à posição. Ape-
queijo com uma imperial ções de Natal. Era minha tecia esticar-me. A meio
e um café. Fiquei com 1 intenção continuar a da noite, reclinei-me de
euro e 70. andar até que amanhe- lado nos degraus, mas
Lembrei-me dum ami- cesse mas, ao contrário as arestas magoavam.
go da tropa, o Marques, do que esperava, comecei Fui mudando amiúde de
que, quando me encontra, a sentir-me cansado. Subi posição. Tiritava. Os pés
insiste para o ir visitar a Almirante Reis e toquei estavam gelados. Ansiava
a Campo de Ourique. em três pensões. Uma pela manhã.
Liguei-lhe, mas, assim estava cheia e as outras De repente, meio estre-
que começou a chamar, duas não me aceitaram munhado, ouvi ruídos de
acabou-se a bateria do sem identificação ou sem passos a descer as esca-
telemóvel. Numa lista te- pagar adiantado. das. Em poucos segundos,
lefónica, por exclusão de Pela primeira vez, não estava confrontado com
partes, encontrei a mo- tinha onde dormir. Para um cão grande a ladrar
rada. Meti-me no Metro piorar as coisas, começou furiosamente e a fazer
até ao Rato e depois fui a chuviscar. Estive um avanços para me morder.
a pé. Quando dei com a bocado debaixo do toldo O que me valeu foi o
rua Tomás da Anuncia- duma montra de mó- dono e a trela com que o
ção, eram já quase onze veis. Depois, encostado segurava. Envergonhado,
da noite. Toquei, toquei à às paredes, meti por uma saí.
campainha, mas ninguém transversal da Morais Tinha parado de cho-
respondeu. Se calhar Soares e entrei na porta ver. Subi a rua até ao alto
tinham saído de fim-de- dum prédio que estava da Penha de França. O
semana. encostada. casario acinzentado co-
Voltei para trás, meio Fiquei parado na pe- meçava a ganhar cor. Do
acabrunhado. Sem sa- numbra, atento a todos os lado de Xabregas, o céu
ber para onde ir, segui a ruídos. Do alto das esca- tingia-se de fortes tons
linha do eléctrico por S. das ouvia-se, de vez em de vermelho. Em breve, a
Bento até ao Chiado. Já quando, um ruído inde- enorme bola solar fez a
não cirandava pela cida- finido. Cheirava a mofo. sua entrada triunfal. Há
de desde os tempos de Sentei-me nos degraus de quanto tempo não via
tropa, há uns vinte e tal madeira e aos poucos a um nascer de sol! Fiquei
anos. Aqui e ali, vi pes- fadiga invadiu-me. Estive um bocado a saborear
soas a dormir enroladas ali muito tempo de per- essa extraordinária visão
em cobertores e metidas nas encolhidas, dobrado e a sentir o corpo a delei-

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34
tar-se com o pouco calor
que o sol transmitia.
Depois, comecei a
encaminhar-me para o
parque de carros reboca-
dos de Sete Rios. Na Du-
que de Ávila, encontrei
um café aberto. Perguntei
quanto custava um galão.
– Oitenta!
– E se for setenta? –
murmurei eu, de porta-
moedas aberto.
O homem mirou-me e
começou a preparar o ga-
lão. Deve ter reparado na
barba por fazer, nos olhos
remelados, na roupa
amarrotada e empoeirada
de roçar nas escadas. Fui
à casa de banho, aliviei
a bexiga, lavei os olhos e
passei as mãos molhadas
pelo cabelo. Daí a pouco,
com o calor do galão a
inundar-me o estômago,
sentia-me pronto para
outra. Salvo seja! Espero
que nunca mais volte
a não ter onde dormir.
Nem imagino pelo que
passa quem vive anos
sem abrigo.
Ao resgatar o carro,
fiquei a saber que passei
uma noite desagradável
sem necessidade: afinal, o
parque de rebocados só
fecha à meia-noite.

http://www.flickr.com/photos/browserd/909272034/sizes/l/

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Contos

A Biblioteca
de Livros Esquecidos
Henry Alfred Bugalho
henrybugalho@gmail.com

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http://www.flickr.com/photos/tscarlisle/175131998/sizes/o/
Cruzei o umbral e soltei perada do autor em narrar Num ato de fúria, arran-
um espirro. cada instante, cada detalhe quei-os de suas estantes,
O cheiro de mofo esta- da vida daquelas criaturas. chutei-os, pisoteei-os, virei
va por todo lado, a poeira Recoloquei-o em seu lu- as mesas e as cadeiras do
recobria cada centímetro, gar e apanhei o livro adja- salão, gritei e me deliciei
cada mesa, cada prateleira. cente. Também não o havia com os ecos da minha
lido, mas teve sobre mim o violência. Por fim, exau-
Há quantos anos? Há rido, deixei-me cair entre
quantas décadas ninguém mesmo efeito. Vislumbrei a
trama, a vida dum homem os livros abertos e páginas
entrava ali? rasgadas e chorei, oprimido
predestinado, mas imerso
O salão de leitura era num mundo que não o por minha inaptidão.
ovalado, circunscrito pelas compreendia. A cada escolha que fiz,
prateleiras e por seus in- várias outras tive de aban-
contáveis exemplares. Um Apanhei uma terceira
obra. Foi então que compre- donar. Para cada livro que
feixe de luz atravessava a consegui pôr um ponto-
clarabóia, banhando apenas endi onde realmente estava.
final, que me consumiu me-
um segmento do salão. E foi Aquele era o acervo ses ou anos, outros vários
para esta ala iluminada que de todos os livros que já deixaram de ser escritos. E
me dirigi. concebi; que tentei escre- remoí o temor de ter feito
Corri os dedos por sobre ver; que me venceram; que as escolhas erradas, de ha-
as lombadas de couro dos comecei, mas não conclui; ver gastado minhas energias
livros e, aleatoriamente, que rascunhei; para os quais num projeto fracassado, de
retirei um deles da pratelei- elaborei projetos; para os ter trilhado os caminhos
ra. Detive-me com ele em quais imaginei personagens; que levaram a lugares ne-
mãos, tomado por um re- que seriam obras revolucio- nhuns.
ceio sem propósito. Acari- nárias da Literatura mun-
dial e que, justamente por Ateei fogo aos livros e
ciei-o, cuidei seu formato e incendiei o templo que os
espessura. Abri o volume e isto, estavam muito além da
minha capacidade; porque sepultava, porque o que não
li o título. foi, jamais será.
eram idéias geniais, mas
E mesmo que eu nunca o que no papel se revelaram Antes de dormir, sentei-
houvesse lido, todo seu en- pobres; que não me cativa- me e escrevi este desabafo,
redo e estrutura surgiram ram; para as quais eu ainda que, se não substitui os
em minha mente. A vintena não estava preparado. Uma livros que deixei de escre-
de personagens que vivia infinidade deles: milhares, ver, pelo menos os justifica,
em suas quinhentas e tantas centenas de milhares. que os mantêm vivos como
páginas, a tentativa deses- o nada que são.

O lugar onde http://www.flickr.com/photos/hidden_treasure/2474163220/sizes/l/

a boa Literatura
é fabricada

ficina
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www.oficinaeditora.org
Contos

Sentir Guilherme Rodrigues

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38
O lugar onde
Era sábado de manhã e re- na sanduicheira. Terminado a boa Literatura
solvi fazer uma surpresa a tudo, apareceu ele.
Fernando e fui até o aparta- é fabricada
– Você está animada hoje.
mento dele. Depois de uns Que beleza de café da ma-
dez minutos de ter chegado, nhã.
ele me atendeu com cara
– Eu também não tomei
amassada de sono e cabelo
café e achei que deveria
mais revolto do que antes.
preparar – disse sorrindo.
– Bom dia, dorminhoco!
Tomamos o café e saímos.
Vim buscá-lo para irmos ao
parque. Está um lindo dia e – Você tem ótimos livros.
não podemos perder. Fiquei fascinada.
– Que surpresa – disse – A arte me dá uma outra
ainda sonolento –, não forma de ver o mundo.
esperava por isso. Por favor, Uma percepção mais agu-
entre e fique à vontade. Vou çada. Apalpar com mais
tomar banho, me despertar suavidade e destreza isso
para irmos – parecia que me completa e me faz cres-

http://www.flickr.com/photos/ooocha/2630360492/sizes/l/
falava automaticamente cer. E a cultura brasileira é
embriagado de sono. fantástica!
Fiquei na sala. Era a pri- Puxa, nunca tinha visto
meira vez que vinha na ninguém sintetizar tão bem
casa dele. Um ambiente o que é a arte e reconhecer
peculiar e muito interes- com tanta vivacidade o que
sante: poucos móveis, uma é nosso. A cultura brasileira
pequena e antiga televisão é fantástica!
que nem devia funcionar, e Caminhamos em silêncio
no canto uma estante, não pelo parque. Andamos pelo
muito grande, com bastan- gramado. Inalamos o aro-
tes livros. Tinha os grandes ma fresquinho da natureza.
filósofos alemães Nietzsche, Demo-nos as mãos e sentí-
Schoppenhauer, Marx. Uma amos um no outro. Um só
porção de escritores brasi- ser. Nos Beijamos.
http://www.flickr.com/photos/nagzi/2819247641/sizes/l/

leiros: José de Alencar, Ma-


chado de Assis, Álvares de
Azevedo, Monteiro Lobato, Este texto teve início na
Cecília Meireles e muitos SAMIZDAT de outubro
outros. Uns CDs de música de 2008 com o primeiro
erudita e clássicos da MPB capítulo intitulado “Re-
espalhados pelo chão em encontro” e não tem fim
um canto. previsto. Aguardem na

Fui para a cozinha e tive


vontade de fazer um café
próxima edição!
ficina
e pãezinhos com manteiga
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Contos

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Zulmar Lopes
da Capa
A Filha

http://www.flickr.com/photos/meredithfarmer/416220883/sizes/l/
— Gerusa, você viu esta — E quem pagou por — E desde quando você
pouca vergonha? isto? entende marketing, mu-
lher?
— Benza Deus! Olha — O padrinho dela. Um
como nossa filhinha ficou senhor que ajuda ela na — Desde que vejo pro-
bonita na revista! carreira. Ele é o empresá- grama de fofocas na TV.
rio. Ela precisava depilar a... a
— Bonita? Ela está pela- perseguida para as fotos.
dona da Silva! Meu Deus, — Nunca mais boto Então eu sugeri que ela
que vergonha! A gente cria minha cara na rua... fizesse um “R” lá para, se
uma filha com tanto cari- perguntassem, ela dissesse
nho para ela acabar assim, — Relaxe, Adalberto.
São só umas fotinhas. Hoje que era uma homenagem
como veio ao mundo em ao namorado.
uma revista de tarados? os tempos são outros.
Eu virei motivo de cha- — Sou do tempo em que — E quem é este otário
cota lá no ponto de táxi, uma costa nua já provoca- que está namorando esta
todos os colegas me apon- va um escândalo. Não isto aprendiz de Messalina?
taram. Apontavam para aqui. A gente quase con-
esta revista, para mim e — Bonito este nome,
segue ver o interior da... Adalberto. Nossa filha
diziam: “Olhem como a eu vou sair Gerusa! Vou
filha do Adalberto é gosto- podia usar como nome
comprar todas as revista artístico. Não tem na-
sa”. Tinham a safadeza no da cidade! Não quero meu
timbre da voz. morado, seu bocó. Fica o
nome emporcalhado por mistério de quem seria o
— Deixa de besteira, uma safadeza destas! “R”. Tem muito jogador de
homem. Nossa filha agora — Vai comprar todas as futebol que começa com a
é famosa. revistas do Rio de Janeiro? letra “R”.

— Eu imagino a fama — E esta tatuagem inde- — Não quero ouvir mais


dela. Sabia que quando ela cente no traseiro? “Made nada... Aliás, não quero
veio com esta história de In Brazil”. Quem iria tatu- também ver mais nada!
que iria morar fora pra ter ar um “Made in Brazil” nas Joga esta revista pecami-
“o seu espaço” era nisso ancas se não estivesse à nosa no lixo, Gerusa!
que ia acabar. venda? — Isto nunca. Vou guar-
— Acabar em quê? — Você é muito careta, dar de recordação. Minha
Adalberto. Estou tão orgu- filha agora é uma artista!
— Nossa filha é uma Já vejo os próximos pas-
perdida Gerusa! Será que lhosa da nossa filhinha...
sos. Ela vai para o Bigue
você não percebeu? — Jesus! E este “R” aqui Bródi e depois, capa da
— Ninguém se perde na perseguida? Prei bói! Adalberto... Adal-
mais homem. Ela se achou, berto, você tá bem? Meu
— Foi ideia minha.
isto sim, achou uma car- Deus, você tá ficando roxo!
reira. — Sua? Quer dizer que Vou ligar para o seu car-
você sabia? Traído dentro diologista! Adalberto! Fala
— Nossa Senhora! Ela de minha própria casa... comigo, Adalberto!
quando saiu daqui de casa
não tinha estes peitões! — Deixa eu te explicar,
homem. Foi uma jogada de
— Silicone, Adalberto. marketing.

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Contos

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O Grande Salão
Pedro Faria
http://www.flickr.com/photos/27453039@N08/2737701046/sizes/l/
Parte 1 – Na Trilha da que lembrava a voz de - Ah sim. Você tem
Marmota James Earl Jones, porém alguma comida aí?
Vitor tinha apenas 12 - Espere até chegarmos
anos, e isso ele não sabia. ao Grande Salão, lá terá
Vitor acordou com a
cabeça doendo. Sua pri- Assustado com a apa- muita comida para você.
meira sensação foi a de rente irritação do Furão Isso era mentira. Por
fome, uma fome que nun- (e era assim que Vitor algum motivo, Vitor
ca sentira antes. Rolou pensava nele agora, com soube disso na hora, mas
um pouco até acordar de um “F” maiúsculo), Vitor não se importou. Não
verdade, e ao fazer isso, engatinhou timidamente sabia por quê.
ouviu barulhos estra- até o animal.
Continuou seguindo a
nhos. Sentando-se ereto, - Atrasado para o quê? Trilha da Marmota, atrás
olhou ao redor e viu que -, perguntou ele. do Darth Furão. E com
os barulhos tinham sido - Ora bolas, para a sua fome.
feitos por folhas sendo festa, no Grande Salão.
amassadas por seu corpo.
Vitor ficou sem palavras Ainda confuso, além de Parte 2 – A Folha Que
ao notar que estava no faminto, Vitor não pro- Fala
meio de um bosque, tão testou. Sua cabeça doía,
denso que não dava para sua garganta ardia e seu
ver o céu. estômago implorava por Depois de algum tem-
comida. Ele simplesmente po de caminhada (Vitor
Estava pronto para se levantou. “Vamos en- achou que foram horas,
gritar, quando viu um tão”, disse ele. mas poderiam ter sido
animal, uns dois metros à dias que ele não saberia,
sua frente, lhe observando O Furão assentiu e
apontou para um espaço sem ver o céu), o Furão
calmamente. parou e correu para a
entre duas árvores, mar-
Vitor, apesar de ser cado com uma pedra. lateral da Trilha.
novo, sabia que aquilo Vitor o viu pegar uma
era um furão. Esse olha- - Vamos lá.
folha no meio de um
va para Vitor com o que Vitor seguiu o Furão aglomerado de outras
parecia ser o maior dos pela trilha. folhas após algum tempo
interesses. - Que lugar é esse? -, de procura. Vitor tam-
- Bom dia –, disse Vi- perguntou Vitor, após bém o viu bradar uma
tor, mas depois se arre- alguns minutos de cami- exclamação de triunfo ao
pendeu. Sua garganta es- nhada. encontrar aquela folha
tava seca, e falar a fizera - É a Trilha da Marmo- em especial (que para
doer. Além disso, sua dor ta -, respondeu a voz de Vitor parecia como to-
de cabeça havia piorado. Darth Vader sem a más- das as outras folhas do
- Mas que “bom dia” cara. bosque), a qual ele olhava
coisa nenhuma! -, excla- fixamente.
- Certo. E por que cha-
mou o furão, com uma mam de “Trilha da Mar- - Furão -, chamou
voz comicamente grave, mota”? Vitor depois de alguns
que lembrou a Vitor a minutos.
voz do Darth Vader, só - Ora, por que um dia
uma marmota passou por O Furão nada fez.
que sem a máscara. Tal-
vez fosse melhor dizer aqui. Que pergunta! - Furão! – Daquela vez
tinha sido um grito.

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O Furão saiu de seu Vitor batia como ondas Parte 4 – O Urso. O
transe, aparentemente em seu estômago, sua voz ­riacho.
alarmado. rouca pela sede.
- Temos que ir, temos O Furão parou, ofegan- O Urso surgiu à frente
que ir – disse ele, a voz do. deles, rugindo um som
ligeiramente mais aguda. - É um bom lugar. Sim, que Vitor nunca havia
- Ok. Mas era você acho que essa é uma boa escutado na vida. Ele de-
quem estava nos fazendo descrição. É um bom veria ter uns três metros
perder tempo olhando lugar, e quanto mais e meio de altura, e era
para aquela folha. rápido você se apressar, negro. Seus dentes pare-
O Furão, que já tinha mais cedo chegaremos lá. ciam lâminas. O Furão o
recomeçado a andar, Além do mais, não esta- encarou com uma ex-
parou. mos seguros. pressão séria.
- Não era apenas uma E continuaram pela - Você não deveria
folha, era uma Folha que Trilha. estar aqui.
Fala, e ela nos disse para “Não estamos seguros”. A isso, o Urso respon-
nos apressarmos. Aquilo havia ficado na deu rugindo mais alto e
Espantado, Vitor disse mente de Vitor. Uma fra- mais próximo do Furão,
ao Furão que não ouvira se pequena, porém sufi- fazendo os pêlos desse
nada. ciente para dar-lhe forças último se arrepiar.
para se apressar. - Vamos, garoto, vamos
- Mas é claro que não
ouviu, estava tentando Suando, Vitor pergun- embora.
não ouvir. Existem muitas tou ao Furão o que ele E caminhou, passando
Folhas que Falam pelos quis dizer com “não esta- ao lado do Urso, e paran-
bosques, mas por algum mos seguros”. do às suas costas.
motivo as pessoas não - Espero que não te- Vitor estava congela-
querem ouvi-las. Acho nhamos que descobrir do. Olhou para o Urso, e
que é por que as pessoas – respondeu o Furão, sem tremeu.
em geral são burras. parar nem se virar para
trás. - Eu... eu não posso. -,
Vitor o olhou, sem en- gaguejou ele.
tender muito. - O que isso quer... -,
começou Vitor, quando - Sim garoto, você
E com isso, continua- pode. Venha até mim, de-
ram. um barulho tão alto que
parecia vir de todas as vagar. E não encoste nele,
direções o fez parar. por tudo que você consi-
Parte 3 – Mais um pou- dera sagrado, não encoste
- Bem, mas que droga nele!
co sobre o Grande Sa- -, disse o Furão, fazendo
lão. O alerta do Furão. um movimento cômico Cansado, com medo e
com as patas dianteiras. faminto, Vitor fechou os
olhos e pôs-se a andar.
- Como é esse Grande O barulho ecoou no- Lágrimas caíam de seus
Salão? vamente e pela primeira olhos quando ele passou
Tinham andado mais vez desde que acordara, pelo Urso, e nos anos que
uns vinte minutos depois Vitor ficou verdadeira- se seguiram, brotaram do
de terem encontrado a mente apavorado. lugar onde elas caíram
Folha que Fala. A fome de duas Árvores, que espa-

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lhariam muitas Folhas te com o Urso. O médico deu uma
que Falam por todo aque- - Vamos lá então. última olhada para o pe-
le bosque. queno Vitor, deitado em
E pulou no arbusto, sua gaveta.
- Isso, bom garoto. Siga para dentro da escuridão.
minha voz. - Pobre garoto -, disse
Ao passar pelo Urso, ele, e fechou a gaveta.
que agora rugia para o Parte 5 – Do Lado de
espaço vazio onde esta- Fora
Epílogo – O Grande
va segundos atrás, Vitor Salão
abriu os olhos e correu A mulher chorando
para o Furão, que assen- olhou para a gaveta aber-
tiu com a cabeça e come- ta pelo médico. Ele acordou no meio
çou a correr também. de uma escuridão total.
- Sim, é ele. – E explo- Estava assustado
O Urso, como que se diu num choro, menos
acordasse de um transe, decoroso do que estava - Não tenha medo -,
soltou o maior de seus chorando antes. disse o Furão, que agora
rugidos, se virou, e os não era mais o Furão.
seguiu. O médico a encarou, e
a seu marido, um homem Chorando, ele pergunta
- Vamos garoto, corra! sério, de terno preto, que o que tinha acontecido
Vitor correu, como tentava conter seus senti- com o Urso.
nunca havia corrido. Os mentos. - Ele era mau, mas não
passos do Urso ecoavam - Ele... sofreu? -, per- vai mais nos incomodar
de trás deles, e seu rugido guntou o homem. -, respondeu o Ser ilumi-
praticamente os cercava. nado, que era como um
- Eu não sei dizer, se- farol naquela escuridão.
Correndo de olhos fe- nhor.
chados, Vitor quase trom- Ele assentiu.
bou com o Furão, parado Aquilo, claro, era men-
tira. O garoto tinha sido O Ser apontou para
diante de um riacho. um ponto brilhante, mais
encontrado sob um ar-
Sobre as águas, o céu busto. O resgate o ha- brilhante que si mesmo,
era visível, e Vitor viu via encontrado depois um pouco distante deles.
que era noite. de quatro dias perdido - Preparado para a sua
Os sons do Urso se naquele bosque. Ele havia festa?
aproximaram. morrido de fome, e foi Ele disse que sim. E
- Corra, e pule ali! -, uma sorte que isso tenha naquele momento, não
disse o Furão, apontando acontecido próximo ao tinha mais fome.
para um arbusto, próxi- riacho, já que o bosque é
muito denso, e existia a - Então vamos lá.
mo à margem do riacho.
chance de nunca o en- E foram juntos, em di-
- Mas, e você? contrarem. reção a luz, para o Gran-
- Vá, que eu te encon- Então sim, ele havia de Salão.
trarei. sofrido. Rio de Janeiro
Vitor correu na dire- Um psicólogo acom- Janeiro de 2008
ção do arbusto. Antes de panhou o casal até uma
pular, olhou para trás, e sala ao lado do necroté-
viu o Furão frente a fren- rio.

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Contos

Fissuras íntimas
Léo Borges

46 SAMIZDAT março de 2009


46
Necessária e suficiente. as rachaduras não fossem forma num amanhecer
Pensava no que Verônica sanadas – vidro, fêmur e dourado. Notei que aquela
havia significado enquan- coração – meus instantes vista estava agora muito
to admirava o mar, tão de contemplação através mais real, distante de um
precioso para mim quan- daquele oráculo ainda sonho apaixonado. Re-
to o que ela fora. Ainda teriam boa sobrevida. solvi contrariar a suges-
que da clarabóia quebrada tão médica de repouso e
do corredor do edifício eu Era interessante como decidi que iria abastecer
só conseguisse enxergar a paisagem praiana ga- meu corpo com a energia
uma pequena parte da nhava contornos distin- litorânea. No elevador só-
praia, aquela visão criava tos, variando conforme brio encontrei no espelho
vibrações gostosas, con- o estado de espírito de um homem compreensivo
forto que eu precisava e cada admirador. Mas sob com sua angústia, dispos-
que me bastava. Percebia qualquer desses ângulos to a buscar novos portos
a água oscilando ao longe, sua fidelidade era integral. onde alguma alegria pu-
desafiando a inércia do No sereno da noite eu, desse estar ancorada.
céu e a estagnação dos vez por outra, percebia
sentimentos. Mas aqui- vultos solitários peram- A praia é um caso
lo me deixava intrigado: bulando pela areia fria, raro de amor perfeito,
como o mar poderia ser talvez tentando se livrar sem engano, diferente dos
tão alegre se tudo ao re- de lembranças tristes nossos, que são meramen-
dor era quietude? como a minha, feridas te imprevisíveis. Nestes, a
que eram suturadas pela traição caminha próxima
Naquele período de parceria entre a lua e seu às declarações de amor
convalescença física e brilho prateado no mar. infinito, as mesmas cujo
emocional essa brecha E aquele mesmo mar era inocente mar é cúmplice
marota era meu refúgio também o confidente dos todas as noites. Verônica
visual, segredo íntimo casais enamorados que confirmou essa teoria.
criado por alguém que, desfilavam molhando seus Num blefe ocasional de
sem saber, provou gostar pés enquanto juravam um verão, furtivo como uma
muito de mim. Como amor eterno sabidamente miragem na areia, acredi-
das janelas do meu apar- impossível. tou que nada seria per-
http://www.flickr.com/photos/mikemcd/495499526/sizes/l/

tamento só era possível cebido e que tudo conti-


visualizar o emaranhado Impossível? O sol ma- nuaria como sempre foi.
de sacadas interpostas, tinal vinha me desmentir. Bem que Helena, amiga
salpicadas por condicio- Sua força majestosa me e vizinha do oitocentos
nadores de ar, por ali eu fazia crer que a felicidade e dois, alertara num ar-
podia contemplar algum não está na continuida- gumento que, se não era
azul e ainda ter acesso à de e sim nos ciclos, nas de ciúme, margeava o
brisa fresca que driblava intermitências, como uma interesse: “não entre nes-
os labirintos de concreto noite gélida que num sa com tudo”. Uma pena
de Copacabana. Enquanto truque honesto se trans- que nos relacionamentos

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o nada e o tudo sejam Balancei a cabeça po- surfistas sangrarem suas
tão semelhantes, como o sitivamente com um ondas.
sempre e o nunca e suas semblante opaco. Coisa
extremidades incoerentes. covarde e traiçoeira essa Por certo um banho ali
benfeitoria! Sem aquele finalizaria todas as dores,
De fato, Verônica agiu buraco feito por algum entretanto o que me resta-
com a incoerência que mestre visionário eu esta- va era invejar a ave caça-
é pertinente a nós, seres ria fadado a sentir apenas dora flechando o horizon-
racionais. Atitude avulsa a claridade disforme do te. Aqueles seres tinham
que para ela foi necessária sol e os ruídos dos carros, não só uma visão pano-
e para mim o bastante; tão afoitos quanto indife- râmica do paraíso como
premissa nefasta, mas não rentes. Será que os condô- sabiam usufruí-lo com
menos lógica que meu minos não entendiam que grande sagacidade. Agi-
flerte com a praia e seus mofo e infiltração eram, lidade e beleza presentes
atributos singulares. Se na verdade, prejuízos também em Helena que,
essa incoerência era uni- menores que a clausura e de súbito, surgiu fagueira
versal, o sofrimento resul- a solidão? A vida é isso, por trás de um quiosque.
tante era só meu, legítimo! mera inversão de valores, Num diálogo frugal sua
e eu reclamando que meu voz doce acabou contando
Passando pela porta- egoísmo estava sendo uma novidade inesperada,
ria, cumprimentei o seu violado. a revelação do segredo
Belarmino, que comentou que se tornaria nosso có-
sobre o dia límpido. Por Mas, nem a violência digo de união.
pouco não sugeriu um urbana inibia a opulên-
mergulho, sem levar em cia da Siqueira Campos, - E não é que o novo
conta minha perna direita que pulsava sua voca- síndico disse que eu vou
fartamente envolta por ção cosmopolita, típica ter que ressarcir a clara-
material imobilizador. de Princesinha do Mar, bóia lá do nosso andar?
com um sem número Aquela que quebrei no
- Acho que vou entrar de pessoas desfilando a maior descuido com meu
na água mesmo. O mar elegância que o bairro guarda-sol...
pra mim é um apoio exige. A perna tentou
melhor que essa muleta – doer quando atravessei a A confissão gerou risos
rimos enquanto eu fazia Avenida Atlântica, mas a incontidos e evidenciou
graça com o objeto. eloqüência do cenário já desejos claros como a
suprimia qualquer sen- manhã naquela praia.
- Léo, sabe aquela cla- Praia em que fui procurar
sação lúgubre. Aliviado,
rabóia quebrada lá do seu acalanto, mas que foi onde
pude vislumbrar de perto
andar? Pois é, vai ser con- encontrei recomeço.
o mosaico multicor sobre
sertada semana que vem.
a areia disputando a cena
O novo síndico chegou
com o gigante anil que
querendo mostrar serviço,
servia como pátio para os
não é uma boa notícia?

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Contos

Crônicas Íntimas I:

Bolhas Marcia Szajnbok

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O dia era cinzento e a cinzentos.
Henry Alfred Bugalho
menina estava emburra- A
GUI
Nova York
da. Chuvisco e vento frio ***
eram sinônimos de não
Muitos anos mais tar-
ir à praia. Os adultos,
entretidos consigo mes-
de... para Mãos-de-VAca
mos, não davam atenção Uma mulher está só,
àquele amuo sentado triste e cinza como o dia O Guia do Viajante Inteligente
junto à terraça, os olhi- que atravessou décadas. www.maosdevaca.com
nhos lacrimosos postos A avó, em matéria, já
no mar, lá em baixo. A não há. Mas vive - tão
avó, sempre sutil em querida! - no coração de
seus movimentos, chegou menina que, dentro do
perto, de mansinho. Tra- peito, a mulher carrega.
zia na mão uma caneca Num desses momentos
com estranho conteúdo em que a vida parece que
aquoso. Com duas pági- está prestes a se desfazer
nas arrancadas de uma em pequenas partículas
revista antiga, produziu de nada, a memória lhe
em instantes dois canu- traz de presente a cena
dos improvisados, um de infância. Sem medo do
para si própria, o outro ridículo, pois quem está
para a pequena. Passou só não corre o risco dos
o canudo pela caneca e julgamentos, providencia
assoprou, lançando no o aparelhinho de soprar
ar uma constelação de água e sabão. Vista de
pequenas bolhas colo- longe, seria difícil dizer-
ridas. A menina sorriu. lhe a idade. A menina
http://www.flickr.com/photos/chrisirmo/155752852/sizes/l/

A avó repetiu o gesto, a grande lança ao ar as bo-


menina o fez também. lhas coloridas em plena
Minutos depois, esta- avenida da cidade par-
vam as duas ali, rindo, dacenta. A solidão resta,
suas almas voando, livres mas a tristeza atenua na
como as bolhas de sabão, mesma medida em que,
que ganhavam o espaço brilhantes, as pequenas
indiferentes á garoa, ao esferas se espalham, sem
frio e aos demais adultos rumo nem limite.

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Contos

O sacana

Giselle Natsu Sato - Escrever sobre sexo é de martelar as teclas e não


difícil. escrever nada diferente.
- Concordo. - Que eu saiba: mão ali,
- O trivial fica parecendo boca aqui, língua, gemido,
receita de bolo. E se dou gozos desenfreados... É tudo
uma valorizada, dizem que igual, só mudam os adere-
está mirabolante. Surreal. ços.

- Tudo bem, pior é escu- - Não seja debochado. O


tar que são ‘’pornô -chic’’. pior são os nomes. Eu fico
pensando; Algumas vezes,
- E isto existe ou foi in-
um nome mal colocado
ventado?
mata a credibilidade.
- Sei lá, ando cansado
- Esta é boa! Um nome de

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quê? pinguço. Aquela conversa e uma revista masculina.
- Do órgão. Oras! Que o chope geladíssimo, es- Pagou muito bem.
mania de colocar apelidos. tavam o fino!. Sem contar, - Então qual o motivo do
que tínhamos acabado de drama? Aliás, porque esta
Confesso. Até esta frase,
participar de uma reunião discussão começou? Esque-
vinha conseguindo contro-
chatíssima: ci...
lar o riso. A questão eram
os nomes dos ditos cujos. - Vamos fazer uma par- - É a bebida, rapaz. Aca-
Agenor é escritor das anti- ceria. Temos estilos dife- bamos de sair da editora.
gas e gosta de tudo sugeri- rentes, precisamos encon- Querem um erótico perfu-
do. trar uma forma de fazer o mado, sem as suas baixarias
trabalho. e sem minhas firulas. No
Meus amigos são en-
graçadíssimos, mas este - Claro, o que sugere? jeito, entendeu?
é especial: Escreve contos - O que acha de: xana, - Não sei, não. Vou beber
eróticos, mas segue regras xavasca, rachinha, gorduchi- mais cinco, depois resolvo.
severas. Vale a pena escu- nha... - Olha só, batizaram os
http://www.flickr.com/photos/luciano_meirelles/2256452238/sizes/o/

tar a explicação para suas - Onde anda buscando ‘’chopinhos’’: tem mulata,
composições: estas inspirações? Nem a morena, lourinha... Pegou a
- Tem que colocar moral minha avó fala assim! idéia?
na coisa, senão deslancha - A nomenclatura correta - Quer chamar as femini-
para o pornô baixo-nível. soa pedante: ‘’ ele introdu- nas de mulatinha, moreni-
Nada entre familiares, me- ziu o pênis rijo na vagina nha e por aí vai...
nores, estupros, violência úmida....” Olhei para a cara do
e algumas taras nojentas.
- Mais dois na pressão!!! Agenor e fiquei imaginan-
Meus contos primam pelo
Criatura, escreva “buceta”. do: “O homem pelado e de
bom gosto.
Não é o que todo mundo meias pretas, a barriguinha
- Tudo bem. Mas criatu- diz por aí? de cerveja bem redondinha
ra, e se a revista pede um e a carinha de pidão. A
- É vulgar, não assino
conto ‘’sado’’ leve? mulher, uma puta daquelas!
conto com este termo.
- Não faço. Eu não estou Estilo cais do porto. Age-
- Agenor, meu velho.
aqui para incitar maluco. nor, todo tímido pedindo:
O que escolher está bom.
- Mas voltando para os “- Vai filha, abre a lourinha
Abro mão das minhas bu-
nomes, o que está te aborre- pro papai.’’... Não sei se ele
cetinhas.
cendo? intuiu ou teve algum surto
- E ainda tem o mascu- inspirador.
Ele ficou meio desconfia- lino.
do. Achou que era sacana- Quando consegui parar
- Sinceramente: “aríete de rir, estava sozinho na
gem e amarrou a cara.
em riste”, monumento ereto, mesa e o malandro nem ra-
Acertou em cheio! Sou membro túrgido... chou a conta. A única coisa
um descarado nato. Nas-
- Vai começar a impli- que tenho certeza: Perdi o
ci assim: Safado, sacana e
car? Era um conto para contrato!

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Contos

Temporada de caça
Maristela Scheuer Deves

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Tudo começou certo dia – vangloriava-se Luizinho, então elas são minhas –
quando, durante o mo- contando as moedas co- defendia-se Carlinhos.
mento cívico, o professor mercializadas com a venda O professor teve de
hasteava a bandeira e uma dos bichinhos. apartar a briga, e, como já
vespa picou-lhe a cabeça. – E eu, 12 – completava tinha pagado pelos inse-
Indignado com a audácia Adão, que não podia ficar tos e não iria pagar duas
do inseto, o mestre decla- para trás. vezes, apenas aconselhou
rou guerra a esses peque- Carlinhos a não caçar
A concorrência era
nos “bandidos”. mais nas terras da família
grande, e foi se tornando
– A partir de hoje, pago cada vez mais acirrada. do outro menino. Adão
um cruzeiro a quem me Com o tempo, as crianças não gostou, mas confor-
trouxer 100 vespas, abe- foram ficando mais es- mou-se.
lhas ou marimbondos pertas – e malandrinhas, A temporada de caça
mortos – declarou aos também. Percebendo que seguiu aberta por várias
alunos, fazendo a alegria o mestre não contava as semanas. Numa segunda-
da garotada. vespas ou abelhas ao rece- feira, Luizinho ia para a
Querendo incluir na bê-las, começaram a juntar escola quando, no cami-
lista outros animais que apenas 80 ou 90 em cada nho, levou um susto: quase
considerava peçonhentos, pacote, pois assim rendia pisou numa cobra. Acabou
o mestre decidiu que pelo mais. vendo que não era vene-
mesmo valor compraria As aranhas também nosa – os meninos maiores
também 10 aranhas ou eram muito procuradas, e é que a tinham matado
um rabo de cobra vene- os alunos desenvolveram e colocado no meio da
nosa. Foi um alvoroço na até mesmo uma técnica estrada, para assustar as
escola da pequena comu- especial para pega-las: meninas. Aproveitando a
nidade rural de Rincão colocavam uma bolinha “sorte” de ela já estar mor-
Vermelho! de cera na ponta de um ta, Luizinho cortou o rabi-
Daquele dia em diante, barbante e a desciam nos nho do réptil, vendendo-o
os meninos das redonde- buracos do quintal, como ao mestre como se fosse
zas começaram a passar isca. Deu até briga quan- animal peçonhento.
http://www.flickr.com/photos/chausinho/1490690947/sizes/o/

todo o tempo livre à cata do Adão descobriu que Tendo visto o que o co-
dos “produtos”. Se al- Carlinhos, outro colega da lega fizera, outros o delata-
guém destruía um ninho terceira série, havia “pesca- ram. Foi a gota d’água, e o
de vespas, lá estavam os do” umas aranhas atrás de professor decidiu encerrar
pequenos, contando os 100 uma mata da propriedade sua guerra aos insetos e
insetos para montar mais do seu pai. animais peçonhentos. Até
um pacotinho e levar ao – Se foi no terreno do porque, provavelmente,
professor, que pagava por meu pai, as aranhas são boa parte do seu salário
eles e enterrava no quintal minhas – defendia Adão, devia estar sendo compro-
da escola. mostrando os punhos. metida com a aquisição
– Já ganhei 10 cruzeiros dos “troféus”...
– Eu é que as peguei,

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Autor Convidado

Menina de família
Mariana Valle

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Juliana é a típica meni- Quase tiraram a roupa cobrar nada pelo serviço
na de família. ali mesmo, na varanda, não, sua vadia?
mas ao perceberem os
Meiga, inteligente, olhos curiosos a observá- E levou um baita susto
delicada. Boa amiga, filha los, resolveram procurar ao perceber a reação de
zelosa, dedicada. um lugar mais reservado. Juliana, que respondeu,
entre maliciosos sorrisos:
Mas naquele dia, em Foram parar na escada
plena festa, estava com o do prédio dele. Ali perti- - Hoje é de graça. Mas
diabo no corpo. E conhe- nho. eu quero bis.
cer Gustavo veio a calhar.
O sexo foi forte, ani-
Após trocarem meia mal. Ágil, instintivo.
dúzia de palavras, já se
atracavam na varanda. E o orgasmo de Gusta-
Mariana Valle
vo não tardou a chegar.
Beijos na boca, no pes- Escrevendo desde os 12 anos,
essa carioca frequentou oficina
coço, nos seios... Uma vez já saciado,
literária e traduziu sua adolescên-
finalmente falou aquilo cia em poesia, mas, ao entrar no
Sussurros no ouvido, que estava com vontade mercado de trabalho, abandonou
mãos na cintura, nos qua- de dizer desde que botara a escrita. Foi apenas em 2007, aos
dris, por toda a parte. 33 anos, quando largou o empre-
as mãos naquele corpo. go como jornalista da TV Globo,
que Mariana se reencontrou com
Juliana estava quase Só não tinha dito por a literatura e lançou o blog www.
pegando fogo. medo de afastar a menina marianavalle.com, com seus po-
emas, contos, artigos e crônicas,
antes de conseguir o que
Gustavo não acredi- como a irônica série “Sorria, você
queria. está na Barra”, que dá nome a seu
tava: “Hoje vou me dar primeiro livro, lançado em 2008.
bem”. - Prostituta! Não vai

O lugar onde http://www.flickr.com/photos/hidden_treasure/2474163220/sizes/l/

a boa Literatura
http://www.flickr.com/photos/jfa/22124067/sizes/l/

é fabricada

ficina
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www.oficinaeditora.org
Autor Convidado

Poemas Renato Wegner de Souza

Por que dos versos? Ah, não é ela!


Porque nos meus poemas É ela! é ela! meu amor, minh’alma,
Se poetisa apenas A Laura, a Beatriz que o céu revela...
Quem não é poesia. É ela! é ela!. - murmurei tremendo,
Como o próprio poeta: E o eco ao longe suspirou - é ela!
Bobo, burro e pateta. (Álvares de Azevedo)

Me sorriu com doçura...


mas aqueles dentes
Hai-Kai do condicionamento Não eram dela!
Amar é bom, odiar é ruim
Ter paz é bom, lutar é ruim Seu cabelo ao vento...
Grana é bom, comunismo é ruim porém aqueles fios
Não eram dela!

O rebolar das nádegas...


que pena! elas também
Não eram dela!

Os seis durinhos e grandes...


meudeus!!
Não eram dela!

Renato Wegner de Souza nasceu em Ah, mas quando olhei em seus olhos
Curitiba-PR, morou em várias cidades Pensei que poderia conquistar sua alma.
do sul do Brasil e atualmente reside em
Enganei-me!
Pelotas-RS. Para ele não existe nada além
da poesia. Seus versos são carregados de Porque a alma
otimismo mascarado e sua criação é um Não estava nela.
processo picaresco.

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58
ficina

No mês de novembro, foi lançado o A­ udiobook com


­contos de membros da Oficina da E-TL.

O CD foi produzido por Alian Moroz.

Conteúdo

1 - "Vovô Caneco", de Alian Moroz

2 - "O Menino Binário", de Carlos Barros

3 - "Coleção de Botões", de Giselle Sato

4 - "Noite Estrelada", de Guilherme Rodrigues

5 - "A Vingança de Bento Julião", de Henry


­Alfred B
­ ugalho

6 - "Os Ratos", de Joaquim Bispo

7 - "Esmeralda, Jade e Rubi", de José Espírito


Santo

8 - "Fissuras Íntimas", de Leo Borges

9 - "A Palhinha", de Maria de Fátima Santos

10 - "A Última Revolta de Jesus Cristo", de


­Rogers Silva

11 - "Com Carinho, Isolda", de Volmar Camargo Junior

As faixas do audiobook podem ser baixadas


­gratuitamente no endereço abaixo:

http://oficinaeditora.org/2008/11/29/audiobook-da-oficina/

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Tradução

http://pds73.cafe.daum.net/image/4/cafe/2008/06/09/21/23/484d20a1bde6e

Oscar Wilde
tradução: Henry Alfred Bugalho

O Milionário Modelo

60 SAMIZDAT março de 2009


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Uma nota de admiração ano que uma velha tia Uma manhã, ele esta-
lhe dispunha. Ele havia va em seu caminho ao
tentado de tudo. Havia Holland Park, onde os
1 ido à Bolsa de Valores Mertons moravam, quan-
A não ser que se seja por seis meses; mas o que do parou para ver um
rico, é inútil ser um podia fazer uma borbo- grande amigo, Alan Tre-
sujeito encantador. Ro- leta entre touros e ursos? vor, Trevor era um pintor.
mance é privilégio do Ele havia sido um merca- Na verdade, poucas pes-
rico, não uma profissão dor de chá por um pou- soas fogem desta defini-
do desempregado. O co mais de tempo, mas ção, hoje em dia. Mas ele
pobre deveria ser prático logo se cansou de pekoe também era um artista, e
e prosaico. É melhor ter e souchong. Então, ele artistas são relativamente
uma renda permanente tentou vender xerez seco. raros. Pessoalmente, ele
do que ser fascinante. Isto não surtiu efeito; o era um estranho sujeito
Todas estas são grandes xerez era um tanto seco impetuoso, com rosto
verdades da vida moder- demais. Por fim, ele se sardento e uma barba
na que Hughie Erskine tornou nada, um jovem ruiva desgrenhada. Entre-
nunca apercebeu. Pobre agradável, inútil, com um tanto, quando pegava o
Hughie! Intelectualmen- perfil perfeito e nenhuma pincel, ele era um mestre
te, devemos admitir, ele profissão. verdadeiro e seus qua-
não era de muita impor- Para piorar, ele estava dros eram avidamente
tância. Ele nunca disse apaixonado. A garota que procurados. A princípio,
uma coisa brilhante, ele amava era Laura Mer- devemos reconhecer, que
nem mesmo maliciosa, ton, a filha dum coronel ele havia se atraído in-
em sua vida. Mas, em da reserva que havia teiramente por conta do
compensação, ele era perdido a paciência e a charme pessoal de Hu-
maravilhosamente bem- digestão na Índia, e que ghie.
apessoado, com cabelos nunca encontrou nenhum — As únicas pessoas
castanhos aparados, per- dos dois de novo. Laura que um pintor deve co-
fil irreprochável e olhos adorava Hugh, e este es- nhecer — ele costumava
acinzentados. Ele era tava pronto para beijar os dizer — são pessoas que
popular entre os homens cadarços dela. Eles eram sejam estúpidas e belas,
tanto quanto entre as o mais belo casal de Lon- pessoas que são um pra-
mulheres, e tinha todas dres e não tinham um zer artístico para serem
as qualidades com exce- único centavo. O coronel observadas e uma tran-
ção daquela de ganhar gostava muito de Hughie, quilidade intelectual para
dinheiro. Havia herdado mas não podia sequer se conversar. Homens
de seu pai uma espada ouvir a palavra noivado. que são dândis e mu-
da cavalaria e a História lheres que são dondocas
da Guerra Peninsular em — Venha a mim, meu
rapaz, quando você tiver dominam o mundo, pelo
quinze volumes. Hughie menos, deveriam. Contu-
dependurou a primeira suas dez mil libras, então,
veremos — ele costuma- do, depois que passou a
sobre seu espelho, pôs a conhecer melhor Hughie,
segunda numa prateleira va dizer; e Hughie ficava
muito chateado nestes ele gostou ainda mais
entre o Guia do Ruff e dele pelo brilhante ânimo
a Magazine do Bailey, e dias e tinha de ir até Lau-
ra para consolo. bon-vivant e sua descui-
vivia com os duzentos ao

www.revistaamizdat.com 61
dada natureza generosa, e com ele! fique quieto.
lhe concedeu entrée per- — Pobre coitado! — Depois de algum tem-
manente a seu estúdio. disse Hughie — que apa- po, um servo entrou e
rência miserável ele tem! disse a Trevor que o
2 Mas, acredito que, para emoldurador queria falar
vocês pintores, o rosto é com ele.
Quando Hughie en- a fortuna dele?
trou, encontrou Trevor — Não fuja, Hughie —
dando os toques finais — Com certeza — res- ele disse, enquanto saía —
num maravilhoso retrato pondeu Trevor — você voltarei num instante.
em tamanho real dum não quer que o mendigo O velho mendigo
mendigo. O próprio men- pareça estar feliz, quer? aproveitou da ausência
digo estava de pé numa — Quanto um modelo de Trevor para descansar
plataforma elevada num ganha para posar? — per- um pouco num banco
canto do ateliê. Ele era guntou Hughie, assim que de madeira que estava
um velho homem enru- ele se viu confortavel- atrás dele. Ele parecia tão
gado, o rosto como um mente sentado num divã. desgastado e miserável
pergaminho envelhecido — Um xelim por hora. que Hughie não conse-
e com uma expressão guiu evitar de sentir pena
de causar pena. Sobre — E quanto você ganha dele, e procurou em seus
seus ombros pendia um pela pintura, Alan? bolsos para ver quanto
grosseiro casaco marrom, — Oh, por esta, ganho dinheiro tinha. Tudo que
todo rasgado e em fran- dois mil! conseguiu encontrar foi
galhos; as espessas botas — Libras? um soberano e alguns
dele estavam remendadas trocados.
— Guinéus. Pintores,
e mal-costuradas, e ele — Pobre coitado — ele
poetas e médicos sempre
se apoiava com uma das pensou consigo — ele
ganham guinéus.
mãos num bastão rugo- quer isto mais do que
so, enquanto que, com a — Bem, penso que o
eu, mas isto representa
outra, ele segurava seu modelo deveria ganhar
ficar sem coche por duas
castigado chapéu para as um percentual — excla-
semanas — e ele atraves-
esmolas. mou Hughie, rindo —
sou o ateliê e deslizou o
eles trabalham tão duro
— Que modelo fantás- soberano para a mão do
quanto você.
tico! — sussurrou Hughie, mendigo.
enquanto cumprimentava — Absurdo, absurdo!
seu amigo. Pois, veja a dificuldade de
aplicar a tinta e ficar o 3
— Um modelo fantás-
dia inteiro diante do ca- O velho homem se
tico? — gritou Trevor, o
valete. É muito fácil para exaltou e um fugidio sor-
mais alto que pôde — eu
você falar, Hughie, mas riso se delineou em seus
deveria pensar assim!
eu lhe asseguro que há lábios enrugados.
Mendigos como ele não
momentos em que a arte — Obrigado, senhor —
se encontram todos os
quase alcança a dignida- ele disse — obrigado.
dias. Un trouvaille, mort
de do trabalho manual.
cher, um Velasquez vivo! Então Trevor chegou e
Mas você não deve taga-
Minha nossa! Que água- Hughie se foi, um pou-
relar; estou muito ocu-
forte Rembrandt faria co ruborizado por causa
pado. Fume um cigarro e

62 SAMIZDAT março de 2009


62
do que havia feito. Ele estavam em frangalhos. como você o chama, é
passou o dia com Laura, — Mas ele fica esplên- um dos homens mais
recebeu dela uma encan- dido neles — disse Tre- ricos da Europa. Ele
tadora reprimenda por vor — Eu não o pintaria poderia comprar Lon-
sua extravagância e teve num fraque por nada dres inteira amanhã sem
de ir a pé para casa. neste mundo. O que você entrar no vermelho no
Naquela noite, ele chama de trapos, eu cha- banco. Ele tem uma casa
adentrou o Palette Club mo de romance. O que em cada capital, janta
por volta das onze horas, lhe parece pobreza, para num prato de ouro e
e encontrou Trevor senta- mim é pitoresco. Contu- pode impedir a Rússia de
do sozinho no fumatório do, eu direi a ele sobre ir à guerra quando quiser.
bebendo hock e soda. sua oferta.
— Bem, Alan, você — Alan — Hughie disse 4
conseguiu acabar bem com seriedade — vocês, — O que diabos que
a pintura? — ele disse, pintores, são bastante você quer dizer? — excla-
enquanto acendia seu desalmados. mou Hughie.
cigarro. — O coração dum — O que estou dizendo
— Concluída e emol- artista está na cabeça — disse Trevor — O ve-
durada, meu rapaz! — dele — retrucou Trevor lho que você viu hoje no
respondeu Trevor — e, — e, além disto, nosso ateliê era o Barão Haus-
falando no assunto, você trabalho é mostrar o berg. Ele é um grande
conseguiu uma vitória. mundo como o vemos, amigo meu, compra todas
Aquele velho modelo que não mudá-lo como o co- minhas pinturas e coisas
você viu o está idolatran- nhecemos. A chacun son do tipo, e me deu uma
do. Tive de contar a ele metier. E agora me diga comissão um mês atrás
tudo sobre você — quem como está Laura. O velho para retratá-lo como um
você é, onde vive, qual é modelo estava bastante mendigo. Que voulez-
sua renda, quais são suas interessado nela. vous? La fantaisie d’un
pretensões... — Você não quer dizer millionaire! E devo dizer
— Caro, Alan — excla- que falou dela para ele? que ele ficou uma figura
mou Hughie — prova- — disse Hughie. magnífica em seus trapos,
velmente, quando chegar — Claro que sim. Ele ou talvez, devo dizer, em
em casa, eu o encontrarei sabe tudo sobre o incan- meus trapos; eles são um
esperando por mim. Mas sável coronel, a adorável velho traje que comprei
é claro que você está Laura e sobre as dez mil na Espanha.
apenas brincando. Pobre libras. — Barão Hausberg! —
velho miserável! Eu gos- exclamou Hughie — Deus
taria de poder fazer algo — Você contou ao
mendigo todos meus do Céu! Eu dei a ele um
por ele. Acho terrível que soberano! — e ele, a figu-
qualquer um possa ser assuntos privados? — ex-
clamou Hughie, muito ra da decepção, afundou
tão miserável. Eu tenho numa poltrona.
pilhas de roupas velhas inflamado e nervoso.
em casa — você acha que — Meu caro rapaz — — Deu a ele um sobe-
ele gostaria de algumas disse Trevor, sorrindo rano! — gritou Trevor, e
delas? Pois as roupas dele — aquele velho mendigo, explodiu numa sonora
gargalhada.

www.revistaamizdat.com 63
— Meu caro rapaz, meses, e terá uma baita na sala e disse, com um
você nunca mais o verá história para contar de- ligeiro sotaque francês:
novamente. Son affaire pois do jantar. — Tenho a honra de
c’est l’argent des autres.’ — Sou um coitado sem me endereçar ao Mon-
— Acho que você deve- sorte — resmungou Hu- sieur Erskine?
ria ter me contado, Alan ghie — a melhor coisa Hughie aquiesceu.
— disse Hughie, entriste- que posso fazer é ir para
cido — e me impedido de a cama; e, meu caro Alan, — Venho da parte do
fazer este papel de tolo. você não deve contar isto Barão Hausberg — ele
para ninguém. Não ou- prosseguiu — o Barão...
— Bem, para começar,
Hughie — disse Trevor — sarei em dar as caras no — Eu imploro, senhor,
nunca passou pela minha Row. que você leve a ele as
cabeça que você sairia — Absurdo! Isto repre- minhas mais sinceras
distribuindo esmolas des- senta o mais alto crédito desculpas — gaguejou
te modo descuidado. Eu em seu espírito filan- Hughie.
posso entender se você trópico, Hughie. E não — O Barão — disse o
beijasse um belo modelo, fuja. Fume outro cigarro velho cavalheiro, com um
mas dar um soberano e você pode falar sobre sorriso — incumbiu-me
para um feio — por Deus, Laura quanto quiser. de trazer-lhe esta carta —
não! Aliás, o fato é que Contudo, Hughie não e estendeu um envelope
eu não estava recebendo ficaria, mas caminhou selado.
ninguém em casa hoje; e para casa, sentindo-se Por fora, estava escrito:
quando você chegou, eu muito infeliz e deixando “Um presente de casa-
não sabia se Hausberg Alan Trevor em meio a mento para Hugh Erskine
gostaria que o nome dele uma crise de riso. e Laura Merton, de um
fosse mencionado. Você velho mendigo” e dentro
sabe, ele não estava para- havia um cheque de dez
mentado de acordo. 5 mil libras.
— Ele deve achar que Na manhã seguinte, Quando eles se casa-
sou um desajeitado — enquanto ele tomava ram, Alan Trevor foi o
disse Hughie. café-da-manhã, o servo padrinho e o Barão fez
— De modo algum. trouxe-lhe um cartão, no um discurso no café-da-
Ele estava com um óti- qual estava escrito: Mon- manhã do casamento.
mo humor depois que sieur Gustave Naudin, de
la part de M. le Baron — Modelos milionários
você partiu; ficou rindo — comentou Alan — são
sozinho e esfregando as Hausberg.
bastante raros; mas, por
velhas mãos enrugadas. — Suponho que ele Deus, milionários mode-
Eu não conseguia des- tenha vindo para receber los ainda mais raros!
cobrir o porquê de ele minhas desculpas — dis-
estar tão interessado em se Hughie para si; e ele
saber tudo sobre você; disse ao servo para trazer fonte: http://www.eastof-
mas agora eu entendo. o visitante para cima. theweb.com/short-stories/
Ele investirá seu soberano Um velho cavalheiro UBooks/ModMil.shtml
para você, Hughie, e lhe com pincenê de ouro e
pagará juros a cada seis cabelo grisalho entrou

64 SAMIZDAT março de 2009


64
Tradução

O Discípulo
Oscar Wilde
tradução: Henry Alfred Bugalho

Quando Narciso morreu, o lago de seu


prazer, de um cálice de águas doces, trans-
formou-se num cálice de lágrimas salgadas,
e as Oreades vieram se lamentando, através
da floresta, para que pudessem cantar para o
lago e confortá-lo.
E quando elas viram que o lago havia se
transformado dum cálice de águas doces
para um cálice de águas salgadas, elas solta-
ram as verdes tranças, choraram para o lago
e disseram:
— Não nos surpreende que você pranteie
Narciso desta maneira, de tão belo que ele
era.
— Mas Narciso era belo? — perguntou o
lago.
— Quem saberia melhor do que você? —
responderam as Oreades. Por nós ele sempre
passou ao largo, mas por você ele procurava,
e se debruçava às suas margens e fitava-o,
e, no espelho de suas águas, ele espelhava a
própria beleza.
http://www.junginla.org/pubprograms/Narcissus.jpg

E o lago respondeu: — Mas eu amava


Narciso porque, enquanto ele se debruçava
às minhas margens e fitava-me, no espelho
dos olhos dele eu via minha própria beleza
espelhada.

fonte: http://www.oscarwildecollection.com/

www.revistaamizdat.com 65
Aforismos Oscar Wilde
tradução: Henry Alfred Bugalho

Um cínico é um homem que sabe o preço de tudo e o valor de nada.

Um pouco de sinceridade é uma coisa


perigosa; mas muito é absolutamente fatal.

O rosto de um homem é sua autobiografia.


O rosto de uma mulher é sua obra de ficção.
Não existe tal coisa como um livro
moral ou imoral. Livros são bem
escritos, ou mal escritos.

Um verdadeiro amigo o apunhala pela frente.

Você realmente pensa que é fraqueza entregar-se à tentação?


Eu lhe digo que há terríveis tentações que requerem força,
força e coragem para se entregar a elas.

Mulheres foram feitas para serem amadas,


não compreendidas. Uma ideia que não é perigosa não
merece ser chamada de ideia.

Perguntas nunca são indiscretas, as respostas, às vezes, o são.

Todos nós estamos na sarjeta, mas


alguns de nós miram as estrelas.

O público é incrivelmente tolerante. Perdoa tudo, excetuando um gênio.

66 SAMIZDAT março de 2009


66
Quando eu era jovem, pensava que dinheiro era a coisa mais importante
na vida; agora que sou velho, eu sei que é.

Sempre perdoe seus inimigos – nada os irrita mais do que isto.

Algo não é necessariamente verdadeiro Posso resistir qualquer a coisa,


porque um homem morre por ele.
­exceto à tentação.

Experiência é apenas o nome que damos aos nossos erros.

As crianças começam amando seus pais; depois de um


­tempo, elas os julgam; raramente, quiçá nunca, elas os perdoam.

Sou tão inteligente que, às vezes, não entendo


uma única palavra do que digo.

O homem pode acreditar no impossível, mas um


homem jamais acredita no improvável.

A vida imita a arte muito mais do que a arte imita a vida.

Escolho meus amigos pela boa aparência, meus c


­ onhecidos pelo bom caráter
e meus inimigos pelo intelecto. Um homem não pode ser cuidadoso demais
na escolha de seus inimigos.

O velho acredita em tudo, o adulto


­suspeita de tudo, o jovem sabe de tudo.

Há apenas uma única coisa pior na vida do que


falarem de você, e isto é não falarem de você.

fonte: http://www.brainyquote.com/quotes/authors/o/oscar_wilde.html

www.revistaamizdat.com 67
68 SAMIZDAT março de 2009
68
Oscar Wilde (Oscar Fingal Lloyd, rico conselheiro da rainha. escreveu “The Ballad of Reading
O’Flahertie Wills Wilde) nasceu Eles tiveram dois filhos, Cyril Gaol”, relevando sua preocupa-
em Dublin em 16 de outubro de (1885) e Vyvyan (1886). Para sus- ção com as condições subumanas
1854, filho de Sir William Wilde tentar sua família, Oscar aceitou da prisão. Ele passou o resto da
e Jane Wilde. A mãe de Oscar, o emprego de editor da revista vida vagando pela Europa, ficando
Lady Jane Francesca Wilde (1820- Woman’s World, onde ele traba- com amigos e vivendo em hotéis
1896), foi uma poetisa e jorna- lhou de 1887 a 1889. Em 1888, baratos. Ele morreu de meningite
lista bem-sucedida. Ela escreveu ele publicou “O Príncipe Feliz e cerebral em 30 de novembro de
versos patrióticos à Irlanda sob o outras histórias”, contos de fadas 1900, sem um tostão, num hotel
pseudônimo “Speranza”. O pai de escritos para seus dois filhos. barato em Paris.
Oscar, Sir William Wilde (1815- Seu primeiro e único romance,
1879), foi um importante cirurgião “O Retrato de Dorian Gray”, foi
de ouvidos e olhos, um renomado publicado em 1891 e foi recebido fonte: http://www.wilde-online.
filantropista e dotado escritor que negativamente. Isto se deveu muito info/oscar-wilde-biography.htm
escreveu livros sobre arqueologia ao tom homo-erótico do roman-
e folclore. Oscar tinha um irmão ce, que causou comoção entre
mais velho, Willie, e uma irmã os críticos vitorianos. Em 1891,
mais nova, Isola Francesca, que Wilde se envolveu com Lord Alfred
morreu precocemente aos 10 anos. Douglas, apelidado “Bosie”, que
se tornou tanto o amor de sua vida
Oscar Wilde estudou na Portora quanto a causa de sua decadência.
Royal School, Enniskillen, Con- O casamento de Wilde acabou em
dado de Fermanagh (1864-71), 1893.
Trinity College, Dublin (1871-
74) e Magdalen College, Oxford O maior talento de Wilde era para
(1874-78). Em Oxford, ele se a dramaturgia, sua primeira peça,
envolveu no movimento estético e “O Leque de Lady Windermere”,
se tornou um defensor de “a Arte estreou em fevereiro de 1892. Ele
pela Arte” (L’art pour l’art). Em produziu uma série de comédias
Magdalen, ele ganhou, em 1878, o extremamente populares, incluin-
Prêmio Newdigate por seu poema do “Uma Mulher sem Importân-
Ravenna. cia” (1893), “Um Marido Ideal”
(1895), e “A Importância de ser
Depois que se graduou, ele se severo” (1895). Estas peças foram
mudou para Chelsea, em Londres muito aclamadas e estabeleceram
(1879), para estabelecer uma car- Oscar como um dramaturgo.
reira literária. Em 1881, ele pu-
blicou sua primeira coletânea de Em abril de 1895, Oscar proces-
poesia – “Poemas”, que recebeu sou o pai de Bosie por difamação
críticas contraditórias. Ele traba- quando o Marquês de Queensber-
lhou como crítico de arte (1881), ry o acusou de homossexualidade.
palestrou nos Estados Unidos e O caso de Oscar foi mal-sucedido
Canadá (1882), e viveu em Paris e ele próprio acabou preso e con-
(1883). Ele também palestrou na denado por comportamento inde-
Inglaterra e Irlanda (1883-1884). cente. Foi condenado a dois anos
Desde meados de 1880, ele con- de trabalho forçado pelo crime de
tribuiu regularmente para a Pall sodomia. Durante este tempo na
Mall Gazette e a Dramatic View. prisão, ele escreveu De Profundis,
um monólogo dramático e auto-
Em 29 de maio de 1884, Oscar se biográfico, que foi endereçado a
casou com Constance Lloyd (fa- Bosie.
lecida em 1898), filha de Horace
Ao ser libertado em 1897, ele

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Tradução

A Página dos Contos


Julio Cortázar
tradução: Henry Alfred Bugalho

http://www.flickr.com/photos/7933170@N03/2327559620/sizes/o/

70 SAMIZDAT março de 2009


70
Havia começado a disputa entre os heróis, Sem se encararem
ler o romance uns dias deixando-se ir até as ima- mais, atados rigidamente
antes. Abandonou-o por gens que se combinavam à tarefa que os aguardava,
negócios urgentes, voltou e adquiriam cor e mo- separaram-se na porta da
a abri-lo quando regres- vimento, foi testemunha cabana. Ela devia seguir
sava de trem à quinta; do último encontro no pela trilha que ia ao nor-
deixava-se interessar casebre do monte. Pri- te. Desde a trilha oposta,
lentamente pela trama, meiro, entrava a mulher, ele se voltou um instante
pelo esboço dos perso- receosa; agora, chegava o para vê-la correr com o
nagens. Esta tarde, depois amante, a cara castigada cabelo solto. Correu tam-
de escrever uma carta a pelo açoite de um galho. bém, parapeitando-se nas
seu mandatário e discutir Admiravelmente, ela es- árvores e cercas, até dis-
com o mordomo uma talava o sangue com seus tinguir na bruma malva
questão de arrendamento, beijos, mas ele rechaçava do crepúsculo a alameda
voltou ao livro na tran- as carícias, não havia vin- que conduzia à casa. Os
quilidade do estúdio, de do para repetir as ceri- cachorros não deviam
frente ao parque dos car- mônias de uma paixão ladrar, e não ladraram.
valhos. Confortável em secreta, protegida por um O mordomo não estaria
sua poltrona favorita, de mundo de folhas secas e a esta hora, e não estava.
costas para a porta que o caminhos furtivos. O pu- Subiu os três degraus do
havia perturbado como nhal se amornava contra alpendre e entrou. Atra-
uma irritante possibili- seu peito e dentro latia a vés do sangue galopando
dade de intrusões, deixou liberdade encolhida. Um em seus ouvidos lhe che-
que sua mão esquerda ávido diálogo corria pelas gavam as palavras da mu-
acariciasse uma vez ou páginas como um regato lher: Primeiro, uma sala
outra o terciopelo verde de serpentes, e sentia-se azul, depois, um corredor,
e se pôs a ler os últimos que tudo estava decidido uma escada acarpetada.
capítulos. Sua memória desde sempre. Até estas No alto, duas portas. Nin-
retinha sem esforço os carícias que enreda- guém no primeiro quarto,
nomes e as imagens dos vam o corpo do amante ninguém no segundo. A
protagonistas; a ilusão ro- como querendo retê-lo e porta do salão, e então o
manesca o venceu quase dissuadi-lo, desenhando punhal em mãos. A luz
em seguida. Gozava do abominavelmente a figura das vidraças, e alto res-
prazer quase perverso de outro corpo que era paldo duma poltrona de
de se desgarrar, linha a necessário destruir. Nada terciopelo verde, a cabeça
linha, do que o rodeava e havia sido esquecido: do homem na poltrona
sentir, ao mesmo tempo, Álibis, azares, possíveis lendo um romance.
que sua cabeça descan- erros. A partir desta hora,
sava comodamente no cada instante tinha seu
terciopelo de alto respal- emprego minuciosamen- Extraído da obra “Final
do, que os cigarros con- te atribuído. O duplo de Juego”.
tinuavam ao alcance da repasse impiedoso se fonte: http://www4.
mão, que para mais além interrompia apenas para loscuentos.net/cuentos/
das vidraças dançava o que uma mão acariciasse other/1/2/4/
ar do entardecer sobre os uma face. Começava a
carvalhos. Palavra a pala- anoitecer.
vra, absorto pela sórdida

www.revistaamizdat.com 71
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72
Julio Cortázar múltiplas formulações. É assim
que sua narrativa constitui um
(Bruxelas, 1914 - Paris, 1984)
questionamento permanente da
Escritor argentino. Nascido em
razão e dos esquemas convencio-
Bruxelas, filho de pais argen-
nais de pensamento.
tinos, aos quatro anos, Julio
Cortázar se mudou com eles O instinto, o azar, o gozo dos
para a Argentina, para morar na sentidos, o humor e o jogo
província andina de Mendoza. terminam por se identificar com
a escrita, que é, por sua vez, a
Depois de completar seus estu-
formulação do existir no mundo.
dos primários, cursou magistério
As rupturas de ordem cronoló-
e letras e durante cinco anos foi
gica e especial tiram o leitor de
professor rural. Posteriormen-
seu ponto de vista convencional,
te, foi para Buenos Aires e, em
propondo-lhe diferentes possibi-
1951, viajou a Paris com uma
lidades de participação, de modo
bolsa. Ao término dela, seu tra-
que o ato de leitura é convocado
balho como tradutor da Unesco
a completar o universo narrati-
o permitiu permanecer definiti-
vo.
vamente na capital francesa.
Tais propostas alcançaram suas
Nesta época, Julio Cortázar já
mais perfeitas expressões nos ro-
havia publicado em Buenos Aires
mances, especialmente em “Jogo
o livro de poemas “Presencia” cerimônia de posse como pre-
da Amarelinha”, considerada
com o pseudônimo de Julio sidente de Salvador Allende e,
uma das obras fundamentais da
Denis, o poema dramático “Los mais tarde, foi a Nicarágua para
literatura em castelhano, e em
reyes” e a primeira de suas nar- apoiar o movimento sandinis-
seus contos, entre eles “Casa
rativas breves, “Bestiário”, nas ta. Como personagem público,
tomada” e “A baba do diabo”,
quais admite a profunda influên- interveio com firmeza em defesa
ambos adaptados ao cinema, e
cia de Jorge Luis Borges. dos direitos humanos e foi um
“O perseguidor”, cujo protago-
A literatura de Cortázar parte nista evoca a figura do saxofo- dos promotores e membros mais
do questionamento essencial, nista negro Charlie Parker. ativos do Tribunal Russell.
aproximando-se de reflexões Como parte deste compromisso,
Rapidamente, Julio Cortázar se
existencialistas, em obras de escreveu inúmeros artigos e li-
converteu numa das principais
marcado caráter experimental, vros, entre eles “Dossiê Chile: O
figuras do chamado “boom” da
que o tornam um dos maio- livro negro”, sobre os excessos
literatura hispano-americana e
http://www.archipelagobooks.org/archimages/julio%5B1%5D.jpg

res inovadores da língua e da do regime do general Pinochet,


desfrutou de reconhecimento in-
narrativa em língua castelhana. e “Nicarágua, tão violentamente
ternacional. À sua sensibilidade
Como em Borges, suas narra- doce”, testemunho da luta sandi-
artística somou-se sua preocu-
tivas mergulham no fantástico, nista contra a ditadura de Somo-
pação social: identificou-se com
mesmo sem abandonar de todo a za, no qual está o conto “Apoca-
os povos marginalizados e esteve
referência à realidade cotidiana, lipse em Solentiname” e o poema
muito próximo dos movimentos
fato que faz com que suas obras “Notícia aos viajantes”. Três
de esquerda.
sempre tenham uma dívida em anos antes de morrer, adotou a
aberto com o surrealismo. Neste sentido, a viagem a Cuba, nacionalidade francesa, mas sem
em 1962, significou uma expe- renunciar a argentina.
Para Cortázar, a realidade
riência decisiva em sua vida.
imediata significa uma via de
Graças a sua conscientização
acesso a outros registros do real,
política e social, em 1970 se
onde a plenitude da vida alcança
deslocou ao Chile para assistir à

www.revistaamizdat.com 73
Teoria Literária

Os livros mais vendidos:


esperança e hegemonia
Henry Alfred Bugalho
henrybugalho@gmail.com

http://www.flickr.com/photos/dmason/5368716/sizes/l/

74 SAMIZDAT março de 2009


74
Quando o Google libe- fonte, é o livro mais ven- talmente desconhecidos no
rou para a Feira de Frank- dido de todos, entre 2,5 e Ocidente, como “A Tripla
furt, em 2006, uma lista- 6 bilhões de cópias. Não Representatividade” do
gem com os livros mais é algo que surpreenda, ao chinês Jiang Zenin ou “O
procurados pelos internau- levarmos em conta que Sonho da Câmara Verme-
tas, a reação das editoras existem bilhões de cristãos lha” de Cao Xueqin, entre
não poderia ser pior. ao redor do mundo e que, outros bastante conhecidos
numa única residência, há como o “Corão”, “Senhor
O motivo era óbvio: a possibilidade de haver dos Anéis” de Tolkien, “Um
na lista constavam obras uma ou mais Bíblias. Eu Conto de duas Cidades”
como o “Corão”, um guia mesmo já tive uma meia de Dickens, entre outras
sobre flores tropicais, um dúzia. obras menos conhecidas,
manual sobre construção todos com vendas supe-
de robôs e vários outros Em segundo lugar está riores a 100 milhões de
livros que, nem de longe, o “Livro Vermelho” de Mao exemplares.
estavam presentes entre Tse-Tung, numa faixa de
os mais vendidos do New 800 milhões a 6,5 bilhões E se prosseguirmos um
York Times (1). de exemplares vendidos. pouco mais, para os livros
Outra estatística que não entre 50 milhões e 100

http://www.flickr.com/photos/buehlerphoto/156438669/sizes/l/
Era atrás desta indeco- surpreende — o que sur- milhões de exemplares
rosa listagem do Google preende é a incerteza en- vendidos, então ela se
que eu estava quando aca- tre o maior e menor valor torna ainda mais confusa,
bei caindo, acidentalmente, — se considerarmos que com textos de Paulo Coe-
numa outra listagem, da apenas na China vivem lho, Salinger, Saint-Exupéry,
enciclopédia virtual Wi- mais de um bilhão de pes- Haggard, Dan Brown, entre
kipédia, que apresentava soas e que este livro cer- outros autores que muitos
os livros mais vendidos da tamente é leitura obriga- de nós, brasileiros, jamais
História (2). Quer dizer, tória no país, além de que
não era apenas o que os também se tornou uma Estima-se que a Bíblia tenha
internautas mais busca- das referências clássicas vendido até 6,5 bilhões de exem-
vam, mas sim os livros do comunismo, ao lado de plares, pondo-a em primeiro lugar
que mais haviam vendido dos livros mais vendidos
Marx, Engels, Rosa Luxem-
em todos os tempos do burgo, Trotsky e Lênin, ou
mercado editorial! seja, um livro que deve
Por dias me deparei, ter passado pelas mãos de
assombrado, diante desta praticamente todo mundo
catalogação de livros. que vive num país comu-
nista ou se interessa pelo
Os dois primeiros colo- assunto.
cados, muito à frente dos
demais livros, eram óbvios. No entanto, o restante
da lista me intrigou, pois
A Bíblia, segundo esta nela havia livros quase to-

1 bilhão de cópias (estimativa)


1 - Bíblia Visão tradicional judai- Hebrai- 70 a.C – De 2.5 a 6 bi-
co-cristã: revelação ou co, grego 105 d.C lhões
inspiração de Deus a koiné,
vários autores aramaico
2 - Citações do Presidente Citações de Mao Tse- Chinês e 1964 De 800 milhões a
Mao (O Livro Vermelho) Tung. Coletadas pelo 50 línguas 6.5 bilhões
Diário do ESP, do Exército
de Salvação Popular, e www.revistaamizdat.com 75
assinado por Lin Biao
ouvimos falar. para crianças. Então nosso
primeiro esforço é tentar-
Encontrar um princípio mos perceber o que elas
unificador, algo que nos têm em comum.
permita determinar um
elo entre tais livros e com- Antes de tudo, existem
preender o segredo destes dois grandes grupos: 1
sucessos absolutos parece – obras escritas original-
nos escapar, transcender mente em inglês (Dickens,
qualquer explicação. Pois Baden-Powell, Tolkien,
qual é a semelhança entre Joseph Smith, Agatha
Paulo Coelho e o Livro Christie); 2 – obras escritas
dos Mórmons? Ou de originalmente em chinês
Tolkien e “Escotismo para (Mao Tse-Tung, o dicioná-
rapazes” de Baden-Powell? rio Xinhua, Zemin, Xue-
Ou entre Dickens e Mao qin).
Tse-Tung? Mao Tse-Tung. Graças a uma
As duas únicas exce-
combinação de poder e conjuntu-
Temos livros de ficção e ções entre os 15 primeiros
ra histórica, tornou-se o indivíduo
não-ficção, obras religiosas livros mais vendidos são a com as maiores marcas de vendas
e laicas, textos políticos e Bíblia e o Corão. de todos os tempos.

Entre 100 milhões e 1 bilhão de cópias (estimativa)


3 - Xinhua Zidian (Dicio- Editor-chefe: Wei Jiangong chinês 1957 400 milhões
nário Xinhua)
4 - Poemas do Presidente Mao Tse-Tung chinês 1966 400 milhões
Mao
5 - Seleção de artigos de Mao Tse-Tung chinês 1966 252.5 milhões
Mao Tse-Tung
6 - O Corão Visão tradicional islâ- Árabe Visão 200 milhões
mica: revelação de Alá clássico tradicional
através do anjo Gabriel a islâmica:
Maomé ~610 - ~632
7 - Um Conto de Duas Charles Dickens Inglês 1859 200 milhões
Cidades
8 - Escotismo para Rapa- Robert Baden-Powell Inglês 1908 150 milhões
zes
9 - O Senhor dos Anéis J. R. R. Tolkien Inglês 1954–1955 150 milhões
10 - Livro de Mórmon Visão tradicional dos Inglês 1830 130 milhões
Santos-dos-Últimos-Dias:
compilação pelo profe-
ta Mórmon, relevada a
Joseph Smith Jr.
11 - A Verdade que leva à Testemunhas de Jeová Inglês 1968 107 milhões
vida eterna (Sociedade Torre de Vigia
de Nova York)
12 - Sobre a Tripla Repre- Jiang Zemin Chinês 2001 100 milhões
sentatividade
13 - O Caso dos Dez Ne- Agatha Christie Inglês 1939 100 milhões
grinhos
14 - O Hobbit J. R. R. Tolkien Inglês 1937 100 milhões
76 SAMIZDAT março
15 - O Sonho da Câmara de
Cao 2009
Xueqin Chinês Século XVIII 100 milhões
76
Vermelha
Imediatamente, vislum- próprio papel que a Ingla- globalmente é determinada
bramos o fio condutor terra desempenhou duran- pela importância política,
para desvendarmos o te a Revolução Industrial cultural e/ou econômica
segredo dos mais vendi- e dada a importância do país no qual é falada.
dos. No entanto, somente política e cultural dos Es-
ao observarmos a listagem tados Unidos, acabou por A venda de livros de-
do décimo-sexto livro em se tornar a língua mais pende da hegemonia
diante que obtemos a cer- influente do mundo. É a linguística.
teza. Entre as posições 16 terceira língua mais falada Isto explica porque as
e 26, encontramos 8 obras no mundo, se nos ativer- obras de Dickens e Mao
em inglês (de Haggard, mos aos falantes nativos, Tse-Tung possuem mar-
Salinger, Napoleon Hill, apenas atrás do chinês e gens de vendas tão assom-
Dan Brown, dicionário do espanhol; mas se conta- brosas. No primeiro caso,
Merriam-Webster, Dr. Ben- bilizarmos todos os falan- supomos que Dickens
jamin Spock, Lucy Maud tes de inglês ao redor do seja leitura obrigatória
Montgomery e Anna planeta, incluindo os que a
Sewell) e apenas 3 em têm como segunda língua
outros idiomas (de Antoi- ou como língua estran-
ne de Saint-Exupéry, Paulo geira, podemos facilmente
Coelho e Johana Spyri, ou atingir a marca de 1,5
seja, francês, português e bilhões de falantes, logo
alemão). atrás do chinês, com 1,51
bilhões.
A listagem prossegue e
não é difícil constatar que Portanto, esboçamos
o idioma predominante é uma primeira explicação:
o inglês. o número de exemplares
vendidos está relacionado
A primeira conclusão diretamente ao número de
que obtemos é que existe falantes de determinado
uma relação entre idioma idioma. E, mais do que isto,
e vendas. O inglês, pelo a relevância de um idioma

Entre 50 milhões e 100 milhões de cópias (estimativa)


16 - She H. Rider Haggard Inglês 1887 83 milhões
17 - Le Petit Prince (O Antoine de Saint-Exupéry Francês 1943 80 milhões
Pequeno Príncipe)
18 - O Apanhador no J. D. Salinger Inglês 1951 65 milhões
Campo de Centeio
19 - O Alquimista Paulo Coelho Português 1988 65 milhões
20 - Pense e enriqueça Napoleon Hill Inglês 1937 60 milhões
21 - O Código Da Vinci Dan Brown Inglês 2003 57 milhões
22 - Merriam-Webster’s Merriam-Webster Inglês 1898 55 milhões
Collegiate Dictionary
23 - Heidis Lehr- und Johanna Spyri Alemão 1880 50 milhões
Wanderjahre (Heidi)
24 - Meu Filho Meu Te- Dr. Benjamin Spock Inglês 1946 50 milhões
souro
25 - Anne de Frontões Lucy Maud Montgomery Inglês 1908 50 milhões
Verdes
26 - Beleza Negra, memó- Anna Sewell Inglês www.revistaamizdat.com
1877 50 milhões 77
rias de um cavalo
em escolas e universida- dos Mórmons”. Por outro uma essência escondida e
des ao redor do mundo, lado, as semelhanças entre da procura por um senti-
dos EUA à Nova Zelândia, “O Pequeno Príncipe” e “O do para nossa existência.
onde quer que haja um Alquimista” são gritantes, e
falante de inglês, e mais Paulo Coelho é o primeiro Encontramos, então, o
do que isto, através de suas a admitir que a obra de segundo elemento subja-
inúmeras traduções. No Saint-Exupéry foi uma de cente a esta listagem: as
segundo caso, temos uma suas principais inspira- pessoas procuram obras
profunda influência esta- ções. que lhes dão esperança,
tal, uma imposição feita que lhes revelem que a
pelo governo da República Mas todas estas obras vida possui algum sentido,
Popular da China. O livro também possuem uma que a morte e as dificul-
de Mao Tse-Tung é quase mensagem comum, todas dades não prevalecerão no
um livro doutrinário, com elas transmitem uma cen- final.
os preceitos revolucioná- telha de esperança a seus
leitores. As obras religio- É óbvio que seríamos
rios duma nova China. muito simplórios em
Todo chinês pós-revolução sas possuem esta função,
por sua própria natureza acreditar que se enquadrar
tem o dever de lê-lo. Im- numa destas duas classi-
ponha uma obrigatorieda- espiritual.
ficações — obras escritas
de de quase 50 anos sobre As religiões surgiram, em línguas hegemônicas,
uma população imensa e originalmente, para tentar ou que insuflam esperança
podemos conceber porque explicar os mistérios da — seria instantaneamente
“O Livro Vermelho” vendeu existência e, mais do que uma fórmula de sucesso
tanto. tudo, dar um sentido e literário. Isto não é verda-
No entanto, esta explica- aplacar o medo da morte. de, pois algo como uma
ção não esclarece o por- As religiões proporcio- fórmula para vender bem
quê de a Bíblia, o Corão, nam a esperança de que inexiste.
o Livro dos Mórmons, esta vida não será em vão
e que haverá uma re- Quase todas estas obras
“O Pequeno Príncipe”, “O foram concebidas e publi-
Alquimista” ou “O Diário compensa na vida após a
morte. cadas num contexto que as
de Anne Frank” também permitiram ser acolhidas
pertencerem a esta lista. As obras de Paulo por seu público e possuem
Como dissemos ante- Coelho e Saint-Exupéry uma mensagem que trans-
riormente, a presença da também parecem se en- cende a própria época,
Bíblia não surpreende, caminhar nesta direção. mesmo que esta transcen-
tampouco do Corão, se O pequeno príncipe é um dência seja fundada em
pensarmos que o isla- menino que cruza o Uni- equívocos. Além disto, não
mismo é a religião que verso e vem para a terra podemos menosprezar o
mais tem atraído novos em busca por respostas, o crucial papel da Indústria
seguidores nos últimos protagonista do “O Al- Cultural neste processo,
tempos. Mas não existem quimista” é alguém que que através duma intrinca-
tantos mórmons no mun- mergulha no deserto atrás da engrenagem de publici-
do (estima-se em torno de de respostas para sua vida. dade, merchandising, dis-
13 milhões) para justificar Há um quê de religiosida- tribuição e expansão para
os 130 milhões de exem- de em ambas as obras, em outras mídias conseguem
plares vendidos do “Livro forma de um contato com tornar em sucesso absolu-

78 SAMIZDAT março de 2009


78
to livros como “O Código tação que se auto-alimenta,
Da Vinci”, “O Nome da num círculo virtuoso que
Rosa” ou “Harry Potter”. faz as pessoas desejarem
os mais vendidos pelo
Por detrás desta lista- simples fato de serem mais
gem de obras mais vendi- vendidos.
das da História, encontra-
mos toda uma trajetória Fontes:
de poder, dominação,
religiosidade e busca por (1) InfoOnline: http://
sentido. Muitas destas info.abril.com.br/aberto/
obras já fazem parte do in- news/102006/05102006-8.
consciente coletivo, outras shl
são fenômenos absolutos (2) Wikipédia: http://
“O Nome da Rosa”, do semiólogo
Umberto Eco, tornou-se um dos de cultura de massa, mas en.wikipedia.org/wiki/List_
grandes romances italianos con- todas elas atingiram um of_best-selling_books
temporâneos e foi adaptado para patamar de sucesso e acei-
o cinema.

Entre 30 milhões e 50 milhões de cópias (estimativa)


27 - Il Nome della Rosa Umberto Eco Italiano 1980 50 milhões
(O Nome da Rosa)
28- Relatório Hite sobre Shere Hite Inglês 1976 48 milhões
sexualidade feminina
29 - A Teia de Charlotte E.B. White: ilustrada por Inglês 1952 45 milhões
Garth Williams
30 - The Tale of Peter Beatrix Potter Inglês 1902 45 milhões
Rabbit
31 - Harry Potter e as Re- J. K. Rowling Inglês 2007 44 milhões
líquias da Morte
32 - Fernão Capelo Gai- Richard Bach Inglês 1970 40 milhões
vota
33 - Uma Carta para Gar- Elbert Hubbard Inglês 1899 40 milhões
cia
34 - Roget’s Thesaurus Peter Mark Roget Inglês 1852 40 milhões
35 - Better Homes and Vários autores Inglês 1930 38 milhões
Gardens New Cook Book
36 - Pode Curar a sua Louise Hay Inglês 1984 35 milhões
Vida
37 - Het Achterhuis (O Anne Frank Holandês 1947 30 milhões
Diário de Anne Frank)
38 - Em seus passos o que Charles M. Sheldon Inglês 1896 30 milhões
Jesus faria?
39 - Oxford Advanced A.S. Hornby Inglês 1948 30 milhões
Learner’s Dictionary
40 - O Sol é para Todos Harper Lee Inglês 1960 30 milhões
41 - Vale de Bonecas Jacqueline Susann Inglês 1966 30 milhões
42 - E o Vento Levou… Margaret Mitchell Inglês 1936 30 milhões
43 - Cien Años de Soledad Gabriel García Márquez 1967 30 milhões
(Cem Anos de Solidão)
44 - Uma Vida com Pro- Rick Warren Inglês 2002 30 milhões
pósitos www.revistaamizdat.com 79
Teoria Literária

Enchendo Linguística:
O conto e a crônica
Volmar Camargo Junior
v.camargo.junior@gmail.com

80 SAMIZDAT março de 2009


80
Penso que há uma nica de Luís Fernando
questão que diferencia Veríssimo defendendo o
o conto da crônica: o machismo através de seu
compromisso. O conto personagem O analista
compromete-se com a de Bagé), ele está sendo
ficção - e aí entra a ve- irônico. Não que não
rossimilhança, que aciona haja contos irônicos, ou
os nossos “mecanismos que se queira fazer uma
mentais” para crer como crítica a um fenômeno
possível o que é contado. real. A diferença, talvez,
Já a crônica está vincu- seja o foco: na crônica,
lada à verdade - e, para o fenômeno é tomado
dar-lhe credibilidade, como fato - e o cronista
calca-se na veracidade corre o risco de cair em
do que é dito. No conto, descrédito se abordar
o que há é a criação; na um fato sendo ou parcial
crônica, a opinião. demais, ou pior, criando
fatos que não existem.
No conto quem fala é
o narrador; na crônica, A vantagem do autor
é o próprio autor. Ainda de um conto, nesse que-
que no conto a voz do sito, é que sua “matéria-
narrador seja indistinta prima” pode ser um fato,
da do autor, ele não tem enquanto fenômeno do
compromisso em expres- real, quanto é livre para
sar suas opiniões. Muitas distorcer, recriar, negar e
vezes, especialmente em até criar uma nova reali-
bons autores, é possível dade, ainda que incrível.
que o narrador consiga
Tanto o conto quanto
expressar-se contraria-
a crônica são formas de
mente ao que pensa o
o autor se expressar, de
autor. Especialmente se
se revelar e dar cabo ao
o autor não deseja ser
seu modo de ver o mun-
panfletário.
do. A diferença entre os
Na crônica não há a dois gêneros é que um
entidade literária que está mais próximo dessa
narra; e, ainda que uma visão, e o outro, empe-
crônica expresse uma nha-se em falseá-la tanto
opinião contrária ao que quanto possível.
http://www.flickr.com/photos/athena/325752626/

já se conhece do autor
(por exemplo, uma crô-

www.revistaamizdat.com 81
Teoria Literária

Três, oito e o que não se mede em números:

sobre o poetrix e o indriso


Volmar Camargo Junior
v.camargo.junior@gmail.com

82 SAMIZDAT março de 2009


82
Há uns meses, numa quatro estrofes, é possível Mas e os versos soli-
dessas situações de que a criar algumas variantes tários? Bem, essa é uma
gente nunca lembra exa- como 3-1-3-1 ou 1-3-3-1. oportunidade mais que
tamente como, conheci o Mais livre quanto ao que interessante de condensar
poetrix. Trata-se de uma se chama linguagem poé- as ideias, de explorar no
fôrma poética muito sim- tica (ritmo, rima...) que o poema, nesses dois terce-
ples, e, por isso mesmo, seu ascendente, o indriso tos, o que não foi dito, ou
dificultosa: são apenas evidencia algo que mui- ainda, tornar o indefinido
três versos admitindo um to me agrada em poesia: ainda mais difuso. Di-
máximo de trinta sílabas a dualidade, o conflito zer, teoricamente, se são
poéticas. Parece pouco ou ainda a aproximação estrofes ou versos, não di-
– e é – para construir intrínseca entre coisas mensiona a riqueza desse
uma metáfora, empregar opostas. recurso.
um ritmo e estabelecer
Não que isso seja uma Contudo, a poesia não
um padrão de rimas, e
determinação acadê- se expressa pela quan-
ainda, modalizar a língua
mica dos criadores das tidade de versos. Se há
de modo a fazê-la dizer
duas fôrmas (os poetas algum tipo de qualidade
mais do que diz. Precisa
Goulart Gomes e Isidro num poema, e se isso é
braço para domar um
Iturat, pais do poetrix e mensurável, certamente
poetrix, e paciência para
do indriso, respectiva- não é pela quantidade de
domar a própria vontade
mente) mas assim que me versos, de sílabas, de rigor
de dizer: nesses três ver-
enveredei a fazer poesia ou constância no metro.
sos cabe uma gota, uma
com alguma seriedade, Nem se a fôrma em que
gotícula do Universo.
se isso é possível, percebi o poeta tenta se expres-
Ainda quando tentava no indriso uma forma de sar tem nome.
enviesar-me pelas três co- poetrix estendido. Dife-
Se há algo mensurá-
lunas do poetrix, e duma rente do duplix, que é
http://www.flickr.com/photos/christinielsen/137564034/sizes/l/

vel, porque visível, é o


forma que lembro ainda um conceito criado pelos
trabalho. Poesia é traba-
menos que no primeiro próprios poetrixtas (sim,
lho de criação. Antes de
caso, tive contato com o o termo existe), que é um
mais nada, Isidro Iturat e
indriso. É um filho, um par de poemas escrito
Goulart Gomes, mais que
derivado, um fruto do por um par de poetas, os
poetas, são trabalhadores.
soneto. Como o soneto, dois tercetos do indriso
E é gratificante saber que
são quatro estrofes: dois funcionam muito bem
há quem trabalhe para,
tercetos e, um misté- como um poetrix diante
pela e através da poesia,
rio, duas estrofes de um do espelho; ou ainda, dois
ainda agora.
único verso. Com essas deles dialogando.

www.revistaamizdat.com 83
Crônica

O ano bissexto
Joaquim Bispo

84 SAMIZDAT março de 2009


84
O lugar onde

De vez em quando, mente maior que o da a boa Literatura


Fevereiro tem 29 dias, em duração real (365,2422
vez dos habituais 28. É o dias). Ao longo dos sé- é fabricada
resultado das repetidas culos, o desfasamento foi
tentativas que os Homens aumentando, tanto que,
têm feito para adaptar o em 1582, quando, sob
tamanho do ano à dura- o Papa Gregório XIII, se
ção da translação da Ter- adoptou o calendário
ra, coisa nada fácil, por- actual – o gregoriano –
que esta dura 365,2422 houve que saltar 10 dias,
dias. para que o equinócio da
Muitos dos povos da Primavera coincidisse
Antiguidade – Mesopo- com o dia 21 de Março
tâmicos, Egípcios, Persas do calendário. O ajuste
–, usavam um ano de foi feito no Outono. As
360 dias ao qual, de uma pessoas adormeceram
forma ou outra, acrescen- no dia 4 de Outubro e
tavam 5 dias. Os Babiló- acordaram no dia 15.
nios, após os regulares Foram 10 dias que nunca
12x30 dias, entravam existiram em Portugal,
num tempo incerto de Espanha, Itália e Polónia.
5 dias, em que o mundo Os outros países foram,
podia acabar. Era preciso posteriormente, aderindo
o rei consumar um acto a este calendário.
sexual ritual com a sacer- O que estipula o calen-
dotisa principal, no alto dário gregoriano para o
da zigurate, a culminar tamanho do ano?:
uma cerimónia públi- – O ano tem 365 dias;
ca, para que o tempo se
renovasse e um novo ano – Se o ano for divisível
pudesse nascer. por 4, e não for fim de
século, acrescenta-se um
O calendário de Júlio dia ao mês de Fevereiro
César, que vigorou no (ex. 1996 – ano bissexto);
Ocidente por séculos,
estipulava um ano de 365 – Se o ano for fim
dias, excepto que, a cada de século (divisível por
4 anos, se inseria um dia 100): se for divisível por
400 (ex. 2000), o ano é
http://www.flickr.com/photos/admiretime/2887405649/sizes/l/

extra junto ao sexto dia


das calendas de Março, bissexto; caso contrário,
isto é, 6 dias antes do mantém os 365 dias (ex.
dia 1 de Março. A cada 1700, 1800, 1900, 2100).
4 anos, havia, assim, a Assim, o tamanho mé-
repetição de um sexto dio do ano de calendário
dia das calendas de Mar- é igual a: [(300 x 365) +
ço (bissexto). De calendas (96 x 366) + (3 x 365) +
derivou calendário. 366] / 400 = 365,2425.
O rigor era razoável, Mesmo com todo este
mas, como se percebe, o
ano médio de calendário
(365,25 dias) era ligeira-
«contorcionismo», ainda
há que saltar um dia a
cada 3000 (e tal) anos!
ficina
www.oficinaeditora.org

85
Crônica

http://www.flickr.com/photos/good_day/220281557/sizes/l/
Livin’ in America

O futuro já chegou!
Henry Alfred Bugalho Sempre adorei cinema. apesar de nunca entender
esta divisão, já que ame-
Eu era do tipo que ricano é estrangeiro para
assistia de tudo e o tem- nós brasileiros...
po todo. Sabia os nomes
dos atores, diretores e Por isto, uma das pri-
roteiristas, quem eram meiras coisas que fizemos
os indicados ao Oscar assim que chegamos a
do ano e quem havia Nova York foi procurar
ganhado nas principais uma locadora de filmes,
categorias nos anos ante- pois além de ser mais ba-
riores. Já escrevi críticas rato do que ir ao cinema,
de cinema (e fui muito era uma maneira para
xingado por causa de- ficar antenado no que
las). Gostava de cinema estava acontecendo.
americano e estrangeiro,

86 SAMIZDAT março de 2009


86
No entanto, esta pri- Oscar e eu ainda não vi mos direito, quando, esta
meira locadora acabou nenhum dos indicados semana, ele foi ressuscita-
indo à falência, então nem sei do que tratam. do. Então descobrimos a
mudamos para uma Blo- Ou seja, na fila da Netflix novidade: agora era pos-
ckbuster, que está espa- vão se acumulando fil- sível assistir a filmes da
lhada por toda a cidade. mes essenciais, e simples- Netflix através do video-
Alugamos com eles por mente não haverá tempo game. Bastava que nós o
uns dois meses, mas todo hábil para assisti-los. ligássemos à internet que
mundo nos dizia: “Sai podíamos acessar parte
dessa! A Netflix é me- Sou duma geração que do acervo desta locado-
lhor!” conviveu com o advento ra virtual, e o controle
dos primeiros videoga- remoto era o joystick.
Foi quando decidimos mes. Tive um Atari, um
descobrir o que era este Nintendo, meus ami- Nesse momento, senti-
diabo de Netflix, e tive- gos tiveram um Master me quase como minha
mos a primeira grande System e o Megadrive, mãe, que não sabia como
surpresa: esta locadora depois da escola eu ia ligar o videocassete, ou
não possui lojas físicas, até uma locadora de que levou semanas para
tudo é feito pela internet. jogos para jogar Super- aprender a mandar um
Você entra no site deles Nintendo (foi a época da e-mail; passar o filme
(www.netflix.com, e não febre do Street Fighter adiante ou pausar era um
estamos sendo pagos pra e a piazada se aglome- enigma. E assim como já
fazer propaganda!), es- rava diante da TV para não consigo mais acom-
colhe o filme que quer ver o Dhalsim, o Guile, panhar os filmes que
assistir dentre uma lista a Chun-Li, ou Blanka passam no cinema, fiquei
interminável, e você rece- quebrando pau) e acom- imaginando o dia em que
be o filme em casa, pelo panhei o surgimento do não mais acompanharei
correio. Quando você Playstation. Depois, meio as mudanças da tecno-
houver assistido ao filme, que entrei num limbo do logia. Por enquanto, ain-
bastar pôr no correio de que estava ocorrendo nes- da consigo, capengando,
volta, que eles mandam te universo, até que, ano lentamente, mas ainda me
o próximo da lista, ad passado, minha esposa ponho a par das revolu-
infinitum. pediu para comprarmos ções que a internet tem
um videogame para o provocado. No entanto,
Ficamos tão empol- aniversário dela. Fizemos sem dúvida, chegará um
gados que começamos uma pesquisa e optamos tempo em que eu terei
a pôr um filme atrás do pelo X-Box 360. de pedir a meus filhos
outro na fila. Hoje, deve (não os tenho, mas digo
haver uns 400 filmes em Os primeiros dias hipoteticamente) para me
espera e, mesmo que eu foram de euforia. Horas ensinarem algo que, para
reencarne umas 3 vezes, e mais horas jogando eles, é inacreditavelmente
não conseguirei assistir aqueles jogos incríveis! óbvio.
a todos. E também já Compramos até a guitar-
não sou mais o cinéfilo rinha para o Guitar Hero O futuro já chegou e,
que era e me surpreendo III e um tapetinho de aos poucos, nós vamos
muitas vezes ao ver um dança. Mas depois dum nos tornando parte do
filme do qual não sei tempo, o videogame ficou passado, obsoletos. Este é
quem são os atores, ou encostado. Fazia alguns o ciclo da vida.
quando chega a época do meses que nem o ligáva-

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Poesia

Laboratório Poético:
Soneto Volmar Camargo Junior
v.camargo.junior@gmail.com

Origem

ergui com tijolos vermelhos


paredes duras e um telhado
pintei-os inteiramente de branco
com o resto da cal que me foi legado

durante quarenta noites e dias


choveu a chuva da poesia
dessas que levam toda uma vida
como essa mesma que levou a minha

dissolveu as telhas e os tijolos


quatro paredes, telhado, tudo
tornou a ser um rubor embarrado

viver ao léu agora é o que me resta


contar com o dia que ela a mim dissolva
acostumar-me à lama que me espera

88 SAMIZDAT março de 2009


88

http://www.flickr.com/photos/balakov/1119046500/sizes/o/
Marasmo

galopa a superficie ainda


ondeando de um ponto distante
irrompe no branco da areia
a espuma que na praia avança

a trote o mar devora as dunas


e aos poucos todo o continente
e ainda mais pacientemente
engole a neve das montanhas

não existe mais praia nem rocha


princípio nem fim, tudo inteiro
um tudo mesmo interminável

ocultos sob o infinito


repousam em profundo marasmo
um coração e um mundo vasto

Um bom andar

Vi um passante com belo par


De bons sapatos envernizados
Passo macio, um bom andar
Mal se notava que eram calçados

Era o chão vago, subliminar


Tal vão caminho pouco pisado
Passo macio, um bom andar
E esse passante despreocupado

Já eu fiquei no meu lugar


É-me bastante observar
Aonde os passos têm levado
Esse passante que é passado

Quisera eu ter um belo par


De bons sapatos envernizados

www.revistaamizdat.com 89
Poesia

Brancura
Caio Rudá de Oliveira

saltando do mar celeste,


um navio que percorre
suave

um pirata que avista


a torre em cima do monte,
a proteger
o jardim de flores
da rainha distante
no trono, mandante

sem vontade,
seu povo
ao capricho do vento
que esculpe com talento
feições
e canções
http://www.flickr.com/photos/swamibu/1407809687/sizes/o/

ao crepúsculo,
partiu o navio ao horizonte
e com ele o pirata

também a torre ruiu


e lá se foi
o império da rainha

eram apenas nuvens.

90 SAMIZDAT março de 2009


90
Poesia

Aguiar ConDor
Dênis Moura

Uma Águia invadindo o céu de um Condor,


Com dor não lhe querendo ver jamais,
A guiar seu retorno à paz após a dor.

Seu carinho entre nossas mãos que brincam,


Sua boca querendo errar meu rosto em minha boca,

http://www.flickr.com/photos/wvs/2976729717/sizes/o/
Olhos infindáveis de fraterno e não incestuoso amor.

Condor a sonhar distante e forte corvo,


Enlaça os braços na frágil e pura águia,
Transferindo-lhe sua dor, desejos e mágoas.

Depois a amizade e o coração transpirando,


Os hormônios nossos corpos ricocheteando,
Num beijo louco ao estrondar das águas.

Mas nem aquela areia e brisa em nossa pele,


Estrelas, lua e néons na praia de nossas poesias,
Fez-me esquecer que eu só te quero amiga,
E a distante amiga não consigo esquecer.

Voa distante e perto, águia pequenina.


Só entrega tua vida a quem vida te dá;
Só ames o pássaro que te quer amar.

www.revistaamizdat.com 91
O lugar onde
a boa Literatura
é fabricada
http://www.flickr.com/photos/32912172@N00/2959583359/sizes/o/

ficina
92 SAMIZDAT março de 2009 www.samizdat-pt.blogspot.com 92
92
www.oficinaeditora.org
IZ
E SA OS
M
BR
SO
E O S AU TO R E S D A
SOBR

SA M I Z D AT
SOBRE OS AUT
ORES DA
Edição, diagramação e capa
SAMIZDAT Henry Alfred Bugalho
Formado em Filosofia pela UFP
R, com ênfase
em Estética. Especialista em Lite
SOBRE OS AUTORES DA Autor de quatro romances e de
ratura e História.

SAMIZDAT
duas coletâneas
de contos. Editor da Revista SAM
IZDAT e um dos
fundadores da Oficina Editora.
Autor do livro best-
selling “Guia Nova York para Mã
os-de-Vaca”. Mora,
atualmente, em Nova York, com
sua esposa Denise
e Bia, sua cachorrinha.
henrybugalho@gmail.com

Revisão www.maosdevaca.com

Joaquim Bispo
Ex-técnico de televisão,
xadrezista e pintor amador,
licenciado recente em His-
tória da Arte, experimenta
agora o prazer da escrita,
ista
Coordenação de entrev
em Lisboa.

s
erto Barro senhis-
Carlos Alb e n o r d e stinos, de
, filho d ,
Paulistano co formado
p r e , a r t i sta plásti n a l c o mo
em rofissi o
ta desde s u a v i d a p
ras-
Começou s deixou seu
escritor. n t ã o , j á
urais,
, desde e ntros Cult
educador e o l a s e C e
agógi-
G’s, Esc icos e ped
tro por ON o s a r t í s t
ência
trabalh forte influ
através de q u e t ê m za
riências te, organi
cos – expe r i t o s . Atualmen e s tuda
e s c crianç a s ,
sobre seus o p a r a
ilustr a ç ã escreve
oficinas de H i s t ó r i a da Arte e
aduação em
pós-grwww.revistaamizdat.com internet. 93
a r a p u b l i cações na
p
il.com
ador@hotma
carloseduc pot.com
http://bonfireblaze.files.wordpress.com/2007/12/grafiti_wall.jpg
t t p : / / d e s nome.blogs
h
Colaboração

Volmar Camargo Junior é gaúcho. Formado


em Letras pela Universidade de Cruz Alta, não
leciona por sua própria vontade. Entrou na ECT
em 2004, e desde então já morou em meia dúzia
de “Pereirópolis” pelo Rio Grande. Atualmente
vive com a esposa Natascha em Canela, na Serra
Gaúcha. Dividem o apartamento com Marie,
uma gata voluntariosa e cínica.

v.camargo.junior@gmail.com
http://recantodasletras.uol.com.br/autores/vcj

Marcia Szajnbok
Médica formada pela Faculdade
de
Medicina da Universidade de São
Paulo,
trabalha como psiquiatra e psi
canalista.
Apaixonada por literatura e líng
uas es-
trangeiras, lê sempre que pode
e brinca
de escrever de vez em quando.
Paulista-
na convicta, vive desde sempre
em São
Paulo.

marciasz@hotmail.com

Caio Rudá
hoje mora
Bahiano do interior,
icologia na
na capital. Estuda Ps
da Bahia e es-
Universidade Federal
r o ser huma-
pera um dia entende
o acontece, vai
no. Enquanto isso nã
codificando
escrevendo a vida, de
cia. Não tem
o enigma da existên
io, reconhe-
livro publicado, prêm
as décadas de
cimento e sequer du
olo, um poten-
vida. Mas como cons
mãe.
cial asseverado pela

Dênis Moura é paulistano de pia, cearence de


mar e poeta de amar. Viaja tanto o céu estrelado quanto
o ciberespaço, mais com bits de imaginação que com
telescópios. Pensa que tudo se recria a cada Big Bang, seja
ele micro, macro ou social. Luta pela justiça, a paz e a
igualdade, com um giz na mão e uma pistola na outra. É
Tecnólogo a sonhar com Telemática social, com a demo-
cracia participativa eletrônica, onde o povo eleja menos
e decida mais. Publica estes dias sua primeira obra, um
Romance de Ficção Científica, e deixa engavetadas suas
apunhaladas poesias. É feito de bits, links e teia pra que
94 SAMIZDAT março não desmaterialize, o clique, o blogue e o leia!
de 2009
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Giselle Sato
Giselle Sato é autora de Meninas Malvadas, A pequena
bailarina e Contos de Terror Selecionados. Se autodefine
apenas como uma contadora de histórias carioca. Estudou
Belas Artes, Psicologia e foi comissária de bordo. Gosta
de retratar a realidade, dedicando-se a textos fortes que
chegam a chocar pelos detalhes, funcionando como um
eficiente panorama da sociedade em que vivemos.

gisellenatsusato@gmail.com

Guilherme Rodrigues
Estudante de Letras na
Universidade do Sagrado
Coração, em Bauru, onde
sempre morou. Nutre
grande paixão por Línguas,
Literatura e Lingüística,
áreas em que se dedica
cada vez mais.

Pedro Faria
Léo Borges nasceu em Estuda Matemática na Univer-
setembro de 1974, é carioca, sidade Estadual do Rio de Janeiro,
servidor público e amante da músico amador e escritor quando
literatura. Formado em Co- dá na telha. Nascido e criado no
municação Social pela FA- Rio.
CHA - Faculdades Integradas
Hélio Alonso, participou da
punksterbass@hotmail.com
antologia de crônicas “Retra-
http://civilizadoselvagem.blogspot.com/
tos Urbanos” em 2008 pela
Editora Andross.

Maristela Scheuer Deves


Gaúcha nascida na pequena ci-
dade de Pirapó, começou a sonhar
em ser escritora tão logo aprendeu
a ler. Escreve, principalmente, con-
tos nos gêneros mistério, suspense
e terror, além de crônicas.

Zulmar Lopes
Zulmar Lopes é carioca. Forma
do em jorna-
lismo pela Universidade Gama
Filho, trabalha
como assessor de imprensa. Alm
a provinciana e
coração suburbano, encontra-s
e provisoriamen-
te exilado na cosmopolita Copac
abana, bairro
fonte de inspiração de personage
ns e situações
que compõem seus contos. Esc
reve para fugir
www.revistaamizdat.com 95
do marasmo.
Também nesta edição,
textos de

Caio Rudá Léo Borges

Carlos Alberto Barros Marcia Szajnbok

Dênis Moura Maristela Scheuer Deves

Giselle Natsu Sato Pedro Faria

Guilherme Rodrigues Volmar Camargo Junior

Henry Alfred Bugalho Zulmar Lopes

Joaquim Bispo

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