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Projeto

PERGUNTE
E
RESPONDEREMOS
ON-LINE

Apostolado Veritatis Spiendor


com autorizacao de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
(in memoriam)
APRESEISTTAQÁO
DA EDigÁO ON-LINE
Diz Sao Pedro que devemos
estar preparados para dar a razáo da
nossa esperanca a todo aquele que no-la
pedir (1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos


conta da nossa esperanga e da nossa fé
hoje é mais premente do que outrora,
visto que somos bombardeados por
numerosas correntes filosóficas e
religiosas contrarias á fé católica. Somos
assim incitados a procurar consolidar
nossa crenca católica mediante um
aprofundamento do nosso estudo.

Eis o que neste site Pergunte e


Responderemos propóe aos seus leitores:
aborda questóes da atualidade
controvertidas, elucidando-as do ponto de
W_ vista cristao a fim de que as dúvidas se
dissipem e a vivencia católica se fortalega
no Brasil e no mundo. Queira Deus
abencoar este trabal no assim como a
equipe de Veritatis Splendor que se
encarrega do respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.

Pe. Estevao Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Estevao Bettencourt e


passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicagáo.
A d. Estéváo Bettencourt agradecemos a confiaca
depositada em nosso trabalho, bem como pela generosidade e
zelo pastoral assim demonstrados.
w

índice

DIVORCIO EM PLEBISCITO 221

Aínda hoje:
"QUEM DIZEM OS HOMENS QUE É O FILHO DO HOMEM ?" 223

Tema do dia:
POSSESSAO DIABÓLICA? 246
"Cruz dos intérpretes" : ;
OS PORCOS POSSESSOS PRECIPITADOS NO MAR (Me 5,1-20) .. 258

A TÉRRA DE ISRAEL EM FOCO :


II. JERUSALÉM, A VISAO DA PAZ 268

DIVORCIO EM PRATICA 270

COM APROVACAO ECLESIÁSTICA

NO PRÓXIMO NÚMERO:

A "Ostpolitik" do Vaticano. — Ainda a Confissáo sacra


mental ou reconciliacáb : como ficou? — Ano Santo: o "Santo"
na Biblia. — Viagem a Jerusalém.

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS»

Assinatura anual Cr$ 40,00


Número avulso de qualquer mes Cr$ 5,00
Volumes encadernados de 1958 e 1959 (prego unitario) ... Cr$ 35,00
índice Geral de 1957 a 1964 Cr$ 10,00

EDITORA LAUDES S. A.
BEDAQAO DE FB ADMINISTRAgAO
Caixa Postal 2.666 Búa Sao Rafael, 38, ZC-09
ZC00 20000 Rio de Janeiro (GB)
20.000 Bio de Janeiro (GB) Tels.: 268-9981 e 268-2796

Na GB, a Búa Beal Grandeza 108, a Ir. María. Bosa Porto


tem um depósito de PB e recebe pedidos de assinatura da
revista. Tel.: 226-1822.
DIVORCIO EM PLEBISCITO
Encerrou-se oficialmente no dia 12 de maio pp. a luta em
torno do divorcio na Italia, O plebiscito deu ganho de causa
á legislagáo divorcista — o que vem a ser acontecimento de
importancia nacional e internacional.

O fato sugere algumas reflexóes :

1) A formulagáo da pergunta feita ao povo italiano


prestava-se (intencionalmente ?) a mal-entendidos. Com efeito,
responder Nao equivalía a abonar o divorcio, ao passo que
responder Sim significava rejeitá-lo. Pode-se perguntar: será
que todos os que votaram entáo, estavam conscientes da suti
leza de tal formulasáo? Nao terá havido exploragáo dos mais
iletrados por parte dos «sabidos», que nunca faltam em tais
ocasióes? Caso isto se tenha dado, a vantagem numérica dos
divorcistas sobre os antidivorcistas terá sido devida, em parte
ao menos, á simploridade e ignorancia de gente que inadver
tidamente se prestou á causa divorcista.

2) Dentre aqueles que votaram conscientemente em favor


da legislagáo divorcista na Italia, muitos nao o fizeram porque
quisessem desdizer á sua profissáo de fé católica. Mas deixa-
ram-se levar pela consideragáo de que o pluralismo (de filo
sofías) da sociedade contemporánea nao permite que a urna
nagáo se imponha urna tese católica ; reconheceriam, pois, o
direito de divorcio a quem o quísesse.

Ora é a respeito desta atitude que desejamos propor urna


palavra de reflexáo, no intuito de que nao venha a ser padráo
para outros países.

!É mister sublinhar que, se a Igreja se opóe ao divorcio,


Ela nao o faz apenas por motivos de teología católica. Ela se
baseia também no direito natural, do qual o Cristianismo é
forte baluarte nesta época de positivismo jurídico e de ética
da situagáo. Na verdade, a familia é a célula-base da socie
dade. Esta e a vida pública sao aquilo que a familia é. Ora
o divorcio, por mais que pareca resolver casos pessoais ou par
ticulares, solapa e destrói a familia e a sociedade como tais.
Sim; é obvio que a possibilidade do divorcio gera o próprio
divorcio e até a «necessidade» do divorcio ou da dissolucáo da
familia onde um tal desfecho seria evitável se nao se oferecesse
de antemáo aos cónjuges a porta aberta para a destruigáo do
lar. Com outras palavras: a existencia do divorcio cria um
» •.

— 221 —
clima de divorcio, ou seja, de desistencia de esforgo em pro!
da conservagáo do lar; qualquer pequeña divergencia pode-se
tornar logo grande problema, para o qual nao se vé outra solu-
gáo senáo o «descasamento». As conseqüéncias desse clima sao
incalculáveis: nao somente os cónjuges sao prejudicados, mas
muito mais aínda — os respectivos filhos, ou seja, a gera-
cáo de amanhá.

Nao há dúvida, lembrar tais verdades é pouco simpático...


Imediatamente vém á baila os tristes casos de A, B, C...,
que mereceriam ser contemplados, cada qual, com urna exce-
cao e um divorcio... Dizer Nao a tal proposta de solugáo é
duro (também para quem o diz), mas é penhor de preserva-
gáo do bem comum. De excecáo em excecáo, os legisladores e
interessados nao teriam mais limite: quais seriam, afinal, as
condicóes para que se pudesse falar de excecáo ? — Os males
incoercivelmente desencadeados pela lei do divorcio, a conse-
qüente prevaléncia dos interesses materiais sobre valores ge-
nuinamente humanos sao retratados com vivas cores no ar
tigo do «Jornal do Brasil» que transcrevemos as pp. 50, 51 e-
52 deste fascículo.

É, pois, em vista do bem natural da familia e da sociedade


que a Igreja (apoiada também em razóes teológicas) contraria,
ao divorcie. Neste ponto — como em outros — Ela é máe,...
máe sabia e prudente, que nao olha apenas para efeitos ime-
diatos, mas leva em conta o conjunto e a perenidade dos valo
res humanos. O homem é essencialmente feito para o Infinito;
e é somente quando ele se volta para o Infinito, saindo de si,,
sem querer fazer-se criterio dos valores, que ele encentra a
sua auténtica felicidade. Este sair de si para centrar-se no
Absoluto — em Deus, que é o Sumo Amor — custa esforco-
e arranco; todavia é o arranco inerente a todo crescimento!

E que solucáo teria a Igreja para os problemas concer-


nentes ao casamento ?

— Em vez da falsa pista do divorcio, Ela propóe, entre


outras, urna medida mais radical: que se esmere a preparagáo-
dos jovens para a vida conjugal medante auténtica formagáo.
Ajudemos a nossa mocidade contemporánea a fazer genuina-
mente a sua escala de valores. Saibam os jovens dizer Nao aos-
impulsos da natureza sempre que o Sim for mais instintivo do
que racional (ou cristáo) !

É tempo de comecarmos o que ainda nao tenha sido feito,.


e de ativarmos o que já foi iniciado neste setor!
E. B.

— 222 —
«PERPUNTE E RESPONDEREMOS»
Ano XV — N« 174 — Junho de 1974

Ainda Hoje:

"quem dizem os homens que é o filho


do homem?" ont 10,13)
Em sínlese: A figura e a mensagem de Cristo estao, hoje em día,
multo em foco nao somente entre jovens, mas também entre teólogos. Estes,
nem sempre satisfeitos com as clássicas fórmulas da Cristologia, tém pro
curado penetrar o assunto com o auxilio de dados da filosofía contempo
ránea, visando a tornar-se mais compreendidos pelo homem de hoje.

Em conseqüéncla, podem-se asslnalar sete orientacdes cristológlcas


em nossos días, a maloria das quals surgiu em ambientes protestantes:

a) a sínlese teándrica (que é fiel ao Concilio de Calcedonia, 451) e


corresponde até hoja ao pensamento oficial da Igreja Católica;
b) a Cristologia teocéntrlca de Karl Barth e Emll Brunner;
c) a Cristologia exlstenclallsta de Paúl Tllllch e Rudolf Bultmann;
d) a Cristologia secularista de Dletrlch Bonhoeffer, Jotin Robinson,
Paúl van Burén, Piet Schoonenberg;
e) a Cristologia histórica de Osear Cullmann, Wolfhart Pannenberg;
f) a Cristologia escatológlca de J urgen Moltmann e Karl Braaten;
g) a Crlslologta política de Johannes Baptlsta Metz e Richard Schaull.

A raíz desta diversldade de orlentacdes é o problema gnoseológico:


deve-se Ilustrar o misterio de Cristo somente com a razio ou somente com
a fé ? Quem adota o primeiro alvitre, cal no neo-positivismo e se detém
quase exclusivamente sobre o aspecto humano de Jesús Cristo. Quem opta
pelo outro alvitre, Incide no fideísmo e nao leva em conta suficiente o as
pecto humano de Cristo.

Na verdade, somente a slntese entre razao (Instrumento de base, Indls-


pensável) e documentos da fé (que tém valor decisivo) pode permitir a ela-
boracáo de auténtica Crlstologla. É o que faz ainda hoje a slntese teándrica
recenseada neste artigo.

Comentario: A figura de Jesús Cristo está hoje em día


muito em foco nao somente entre os jovens, mas também entre

— 223 —
4 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS> 174/1974

os teólogos católicos e protestantes. Estes, incitados pelo espi


rito crítico e as correntes filosóficas atuais, procuram exprimir
para o mundo a figura de Cristo da maneira que o homem
moderno melhor compreenda. Em conseqüéncia, os fiéis cató
licos se véem diante de livros ou dizeres novos a respeito de
Jesús Cristo, sem saber como se orientar. Eis por que parece
útil oferecer ao leitor urna visáo de conjunto das diversas posi-
cóes dos teólogos contemporáneos concernentes a Jesús Cristo.
É principalmente nos ambientes protestantes que as sentengas
se multiplicam ; todavía elas nao deixam de influir ora mais,
ora menos sensivelmente sobre o pensamento católico. Foi pre
cisamente este fato que motivou a Declaragáo «Mysterium Filii
Deb da Congregagáo para a Doutrina da Fé a respeito da
SS. Trindade e da Encamacáo, com data de 21 de fevereiro
de 1972.

Distinguiremos sete posigóes cristológicas que encontram


seus arautos entre os estudiosos do século XX: 1) a teándrica;
2) a teocéntrica ; 3) a existencialista ; 4) a secularista ; 5) a
histórica; 6) a escatológica ; 7) a política.

Estamos conscientes de que toda esquematizacáo corre


o risco de ser rígida demais. Dado o estilo geral de PR, as
páginas que se seguem, teráo que se limitar ao essencial. Pro
curaremos evitar vocábulos demasiado técnicos — o que toda-
via nao será de todo possível.

1. Cristologia teándrica

1. Esta é a posigáo católica tradicional, definida pelo


Concilio de Calcedonia (451), após quase 150 anos de disputas
teológicas, em que o arianísmo, o apolinarismo, o nestoria-
nismo e o monofisismo langavam teses erróneas a respeito de
Jesús Cristo. O Concilio de Calcedonia afirmou que Jesús Cristo
é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, nao porque em Cristo
haja dois Eu ou duas pessoas, mas, sim, porque a segunda Pes-
soa da SS. Trindade (Deus Filho), sem perder a natureza di
vina, se uniu á natureza humana : deu-se assim um tipo de
uniáo dita «hipostática» (ou uniáo de duas naturezas em urna
só pessoa, hypóstasis, em grego), uniáo também chamada
«teándrica» (Theós = Deus; anér, andrós = homem, em
grego).

2. Entre os teólogos católicos modernos, que mais se tém


dedicado a Cristologia, assinala-se o Cardeal Pedro Párente,

— 224 —
QUEM DIZEM QUE É JESÚS CRISTO ?

autor de livros como «L'io di Cristo», Brescia 1951; «Itinerario


teológico ieri e oggi», Florenga 1968; «Teología di Cristo», 2
vols., Roma 1970/71.

Adotando a fórmula de Calcedonia («duas naturezas e urna


só pessoa» em Cristo), o Cardeal Párente afirma que nao se
pode ilustrar satisfatoriamente o misterio da Encarnacáo se
se utiliza apenas o conceito psicológico de pessoa, muito comum
na filosofía contemporánea (a pessoa reduzir-se-ia á consciéncia
de si mesma ou á liberdade de arbitrio). Por isto recorre á nogáo
ontológica de pessoa, proposta pelos escolásticos. Esta incluí
entre os seus elementos constitutivos : natureza específica e
subsistencia.

Em síntese, eis o pensamento de Párente:

"Absolutamente um é o sujelto, o Eu, que fala e age em Cristo, ora


como Deus, ora como homem. Esse Eu misterioso, sem solucáo de conti-
nuldade, passa do divino ao humano, do humano ao divino, atribuindo a si
as acóes próprias do divino e do humano; Ele mostrava estar em casa
própria tanto na esfera do Divino como na esfera do humano. Nada há no
Evangelho que leve a admitir em Cristo um sujelto * humano, subsistente
em si, autónomo, no qual viva um sujeito divino como Hospede invisfvel...
Por conseguinte, Cristo, segundo o Evangelho, é um Ser Teündrico, no qual
a dualidade da natureza divina e da humana conflui na unidade de urna só
Pessoa, que só pode ser a divina pessoa do Verbo" ("Teología di Cristo".
Roma 1970, vol. I, p. 224).

Entre os outros teólogos ocidentais que adequadamente ex-


planaram o teandrismo de Cristo, citam-se ainda Romano Guar-
dini2 e Marie D. Chenu.a

Entre os orientáis ortodoxos (separados de Roma), merece


destaque Georges Florovski, que toma como base de seus esta
dos a fórmula de Calcedonia. Insiste em que a humanidade de
Cristo nao tinha sua personalidade própria, mas subsistía pela
segunda Pessoa da SS. Trindade; em Cristo, portante, havia
um só Eu (divino), que se exprimía ora como Deus, ora como
homem. Por conseguinte, pode-se dizer que Deus morreu na
cruz, nao como Deus, mas mediante a natureza humana por
Ele assumida. Mais : a morte de cruz nao foi imposta a Jesús,

1 Sujeito = Eu. — A nota é do re dato r destas páginas.

sEm tradujo Italiana: "II Sígnore" (Der Herr), Mlláo 1949, e "La fi
gura di Gesü Cristo nel Novo Testamento" (Das Bild Jesu ¡m Neuen Tes-
tament), Brescia 1950.
3 "La parole de Dieu", Paris 1946.

— 225 —
6 tPERGUNTE E RESPONDEREMOS* 174/1974

nem pela traigáo de um discípulo, nem pela furia da plebe, nem


pela covardia de Pilatos, mas veio a ser simplesmente a conse-
qüéncia de urna decisáo livremente tomada por Jesús.

Eis, porém, que muitos estudiosos contemporáneos julgam


que a Unguagem do Concilio de Calcedonia é estranha e incom-
preensível ao homem de hoje. Por isto procuram exprimir o
misterio de Cristo a partir de novos enfoques filosóficos e teo
lógicos.

Vejamos, pois, as sentencas ditas «de Cristologia teocén-


trica».

2. A, Cristologia teocéntrica

Sao assim chamadas as posigóes que em Cristo acentuam


com énfase preponderante a Divindade. Karl Barth e Emil
Brunner, protestantes, chegaram a conceber tais sentengas em
reagáo contra o protestantismo liberal do sáculo XIX, que,
detendo-se demasiadamente na humanidade de Jesús, tendía a
reduzir a figura de Cristo á de um personagem religioso excep
cional ou á de um grande moralista. •

2.1. A posicáo de Karl Barth (f 1968) *

Este pensador calvinista suigo esmerou-se, através de seus


escritos, em realgar a transcendencia e soberanía absoluta de
Deus. O homem, afirma Barth, nao pode conhecer o Criador
através da razáo natural ou pelo espelho das criaturas. Da
mesma forma, nao pode perceber a Divindade de Cristo me
diante a consideracáo da humanidade de Jesús. Adotando o
conceito pessimista que Lutero e Calvino tinham da natureza
humana, Barth concluí que esta é pecadora ou mesmo «peca
do» ; também em Cristo a natureza humana era «carne» ou
«pecado». Por conseguinte, deve-se dizer que Deus, em Cristo,
se revelou velando-se; a Palavra de Deus se manifestou ocul-
tando-se. Donde se segué que ninguém reconhece a Divindade
de Cristo a nao ser por gratuito dom do Pai celeste ou pela fé.

Postas estas premissas, Barth aceita tranquilamente tudo


o que a S. Escritura refere a propósito de Cristo : nascimento
virginal, milagres, ressurreigáo. O nascimento virginal, diz ele,

i "Roemerbrief", Mullique* 1922. "Kirchlíche Dogmatik", Zürich 1938.

— 226 —
QUEM DI2EM QUE fe JESÚS CRISTO ?

significa, para nos homens, que Deus se revela gratuita e libe-


ralmente, sem que o homem se possa vangloriar de haver con
corrido para tanto.

2.2. Emil Brunner (• 1889- )

Este teólogo protestante alemáo, em sua obra «Mittler»


(Mediador), Zürich 1928, afirma que, para conhecer Cristo, é
preciso, antes do mais, reconhecer a sua Divindade, pois cons-
titui o segredo da sua personalidade: «É tese capital da fé
crista que o eterno Filho de Deus assumiu a natureza humana,
e nao que o homem Jesús recebeu a Divindade» («Mittler»,
p. 281). Por conseguinte, Brunner expóe primeiramente a dou-
trina relativa á Divindade de Cristo ; a seguir, trata da Encar-
nagáo e, por fim, da humanidade do Filho de Deus. Quem se
decide em favor de Cristo, só o faz movido pela fé, assevera
Brunner.

Todavía o pensamento deste autor evoluiu, chegando


mesmo a se exprimir em termos radicalmente opostos. Cf.
«Dogmatik», vol. II: «Die christliche Lehre von Schopfung und
Erlosung», Zürich 1950.

3. Cristologias existencialisfas

A primeira Guerra Mundial (1914-1918) concorreu para


lancar descrédito sobre os sistemas filosóficos dos últimos sé-
culos : idealismo, voluntarismo, positivismo, intuicionismo, espi-
ritualismo, pragmatismo... Em lugar destes, o existencialismo
veio a ser a etitude filosófica mais comum, atitude que bem
exprimía a angustia em que se debatiam os povos acabrunha-
dos pela guerra. O existencialismo rejeita elevadas considera-
cóes metafísicas, assim como a tendencia a construir sistemas
de pensamento ; concebe, antes, a filosofía como minuciosa
análise da experiencia de cada día em todos os seus aspectos
(individuáis e sociais, teóricos e práticos...).

Em breve, alguns teólogos julgaram que nao podiam ficar


a margena da nova atitude filosófica. Se quisessem continuar
a exprimir a mensagem crista mediante categorías de pensa
mento idealista, realista, historicísta,... arriscar-se-iam a nao
ser entendidos em futuro próximo. Eis por que surgiram ñas
escolas protestantes alguns novos ensaios de Cristologia inspi
rados por posicóes filosóficas existencialistas.

Examinemos, para comecar,

— 227 —
8 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 174/1974

3.1. O pensamento de Rudolf Bultmann (M884...)1

Bultmann propós a si mesmo a tarefa de descobrir o núcleo


central da Cristologia e reexprimi-lo em categorías de filosofía
moderna existencialista.

Quanto ao primeiro ponto, concluí que pouco ou nada


podemos dizer a respeito da personalidade e da vida de Jesús
de Nazaré, pois os antigos cristáos nao se interessaram por
narrajóes objetivas, históricas e dignas de crédito, mas expri-
miram o seu pensamento concernente a Jesús em linguagem
popular, pré-cientifica ou mesmo mítica. Essa linguagem, o
homem do séc. XX nao a aceita; ademáis ela encobre ou se
pulta a auténtica imagem de Cristo. É preciso, portante, pro
ceder a urna demitizacáo.

E qual o resultado desse processo de demitizagáo ?

— Para Bultmann, tal processo nao leva a reconstituir um


núcleo histórico que corresponda ao que Jesús foi, disse e fez.
Mas, fiel as suas premissas existencialistas, Bultmann exprime
esse resultado nos seguintes termos : as múltiplas narragóes
que lemos nos Evangeíhos, nao querem senáo incutir um
veemente apelo de Deus a que os homens passem de urna vida
náo-auténtica (nao desabrochada, nao traduzida em atos livres)
para urna vida auténtica (vida que responda ás interpelagóes
do momento). A resposta do homem ao apelo que o Evangelho
assim formula, nao é o Credo ou o conjunto dos doze artigos
de fé, mas decisao, ou seja, um género de vida que decidida
mente assuma as suas responsabilidades e procure exercer as
possibilidades que lhe tocam. Diz Bultmann :

"O significado mais profundo da pregacSo mitológicas de Jesús é o


segulnte : estarmos abertos ao futuro de Deus, futuro que, para cada um
de nos, é imánente; estarmos preparados para recebar esse futuro, que
pode sobrevir como um ladrSo durante a noite, no momento em que
menos o esperamos; estarmos prontos, porque esse futuro será o julga-
mento de todos os homens que estáo apegados ao mundo e nao estao nem
livres nem abertos ao futuro de Deus" ("Jésus". París 1968, pp. 201 s).

Em suma, Bultmann reconhece como algo de inegável a


existencia histórica de Jesús Cristo. Nega, porém, o seu nas-

1 "Jesús" 1929. "Offenbarung und Hellsgeschltíhte" 1941. "Theologle


des Neuen Testamentes" 1948. "Glaube und Verstehen" 1952.
2 "Mitológica" quer dizer para Bultmann : ... expressa em linguagem
figurada e arcaica.

— 228 —
QUEM DIZEM QUE É JESÚS CRISTO ? 9

cimento virginal, os seus milagres, a sua ressurreigáo e aseen-


sao... O que de Jesús fica inabalável para nos, é um apelo
á decisáo em favor de urna vida nova e auténtica, apelo a que
o cristáo deve responder por um comportamento vivendal, ca
paz de o desprender das sedugóes deste mundo. O existendalis-
mo de Bultmann leva-o a esvaziar o Evangelho de sua densi-
dade ontológica e histórica, para fazer dele a proclamagáo de
um novo estilo de vida, novo estilo de vida que consiste em
desapego e se há de definir e configurar segundo as situacoes
por que passe cada cristáo.

3.2. Paúl Tillich (| 1965) i

Tillich tem em comum com Bultmann o ceticismo em re-


lagáo á historia, a preocupagáo de demitizar e o recurso ao
existencialismo. Todavia, em vez de seguir o existendalismo de
Heidegger (que Bultmann adota), constrói a sua modalidade
de existendalismo, recorrendo as categorías de «Fundamento
do Ser» e «Novo Ser» ; a primeira, segundo Tillich, designa
Deus, e a segunda Jesús Cristo.

Tillich parte da consideraeáo de que o homem é um ser


vitimado pela hybris (soberba), pela libido (concupiscencia) e
pela incredulidade. Em tal situacáo, ele experimenta angustia
e desespero. Ora, por si mesmo, o homem nao pode sair desse
estado. Tal possibilidade, porém, lhe é oferecida por Jesús
Cristo.

Jesús é o homem no qual as forgas desagregadoras da


existencia — a soberba, a angustia, a cupidez e o desespero —
foram vencidas. Precisamente por causa desta Vitoria tornou-se
Ele o Cristo. Segundo Tillich, nao se deve dizer, como habi-
tualmente, que Cristo é Deus que se fez homem, mas, sim, que
é um homem que se tornou Deas ou, melhor, um homem no
qual Deus se tornou visível, manifestó. Esta manifestacáo de
Deus em Cristo tem um poder salvífico universal: Cristo salva,
regenera, justifica e santifica todos os homens.

Estas idéias que, para Tillich, constituem o núcleo essen-


dal da mensagem crista, perderam grande parte da sua credi-
bilidade, segundo o mesmo pensador, porque nao sao expressas

i Obra principal: "Systematic Theoiogy", em tres volumes, Chicaqo


1951, 1957 e 1963 respectivamente, é no 29 volume ("Exlstence and the
Chrlst") que THlich exp5e explícitamente a sua poslc&o crlstológlca.

— 229 —
10 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 174/1974

de maneira acessível ao homem moderno. Este recusa-se a crer


em seres divinos que desgana sobre a térra. Por isto nao se lhe
deve, de modo nenhum, falar de Jesús como sendo Filho de
Deus, Deus Verbo Encarnado, Homem-Deus, mas de «Novo
Ser» ; este conceito, sim, é válido também para o homem de
nosso sáculo.

Sao palavras de Tillich :

"Se me pedissem que' resuma a mensagem crista em duas palavras


para os nossos tempos, eu diría com Sao Paulo: é a mensagem de urna
'nova crlacSo1... O Cristianismo é a mensagem da Nova Crlaeao, do Novo
Ser (New Belng), da Nova Realidade, que se manlfestou em Jesús. Por
este motivo — e so por este —, Jesús é chamado o Cristo. Porque o
Cristo, o Messias, o Pré-escolhido, o Ungido é aquele que traz a nova
ordem de coisas" ("Systematic Theology", p. 15).

Em suma, o pensamento de Tillich no tocante a Cristo fíca


sendo ambiguo. Tenham-se em vista ainda os seguintes dizeres:

"Há símbolos que permanecem, como o do reí, que é central na


Biblia. Cristo foi o representante de Deus na térra. Era o fllho do rei, o
soberano: Deus. Ele nasceu e recebeu a uncao. O símbolo do reí é multo
antlgo. Os egipcios tlnham um Deus-rei" (transcrito de "Les ttiéologlens de
la mort de Dieu". París 1969, p. 65).

A reviravolta efetuada por Bultmann nos estudos cristo-


lógicos mediante a tese da demitizagáo marcou profundamente
os estudos posteriores. Em continuidade com Bultmann, desen-
volveu-se a linha secutarista, que ñas suas expressóes mais ex
tremadas nega explícitamente a Divindade de Cristo,1 ao passo
que, em reapáo a Bultmann, foi sendo cultivada a linha histó
rica, que reivindica o caráter histórico dos episodios salvíficos
narrados pelos Evangelhos (caráter histórico, que vem a ter
repercussáo pública, social e política) e aceita a Divindade de
Jesús.
Examinaremos sucessivamente urna e outra dessas orien-
tagóes, comegando pela primeira.

4. Cristologias secularistas

Após a segunda Guerra Mundial (1939-1945), o fenómeno


do ateísmo assumiu proporgóes extraordinariamente vultosas,
de modo que houve quem afirmasse estarmos vivendo urna era
pós-cristá.

1 Alias, o próprlo Bultmann, conseqüente consigo mesmo, nao pode


aceitar a Divindade de Jesús. A encarnacSo de Deus, para ele, há de ser mito.

— 230 —
QUEM DIZEM QUE fi JESÚS CRISTO ? 11

Em tais circunstancias, alguns pensadores protestantes jul-


garam inútil continuar a falar de Cristo nos termos tradicionais
(Cristo = Deus e Homem), visto que Deus nada mais parecía
significar ao homem de hoje. Eis por que resolveram empreen-
der de maneira radical e coerente a secularizacáo da figura de
Cristo: haveriam de silenciar os aspectos transcendental de
Jesús para por em relevo táo somente o significado secular,
isto é, ético e social da figura e das palavras de Cristo. Assim
— pensavam — Cristo poderia continuar a despertar o inte-
resse dos nossos contemporáneos.

Vejamos os principáis expoentes desse modo de pensar.

4.1. Dietrich Bonhoeffer (t 1945)

Pastor luterano encarcerado pelos nacional-socialistas em


1944, Bonhoeffer morreu em campo de concentracáo aos 9 de
abril de 1945.

Ñas suas «Cartas de Prisáo», publicadas com o titulo «Re


sistencia e Submissáo» (em traducáo brasileira), Bonhoeffer
desenvolve o seu pensamento nos seguintes termos:

O homem moderno julga-se adulto e autónomo em relacáo


a Deus : a filosofía, a ciencia, a política, o direito sao cultivados
sem a mínima referencia a Deus (etsi Deas non daretur, como
se Deus nao existisse); Deus, que era o «tapa-buraco» da igno
rancia e da insuficiencia dos homens, já nao é necessário ao
cidadáo evoluído da era tecnológica.

Conseqüentemente, a linguagem teológica e piedosa já nao


tem audiencia junto aos homens de hoje. Passou-se o tempo
da religiáo em geral; caminhamos para urna época totalmente
irreligiosa. Nao podemos mais supor, como outrora supúnha-
mos, que os nossos ouvintes tenham senso religioso.

Urna vez postas estas premissas, Bonhoeffer pretende cons


truir urna Cristologia secular ou sem referencia a Deus, a qual
se pode compreender em duas proposigóes :

1) Quem é Cristo ? — Haveremos de apresentá-lo como


o «homem-para-os-outros» por excelencia. A fé em Cristo será
entáo participagáo desse «ser-para-os-outros» de Cristo. Os va
lores «transcendentais» nao seráo senáo aqueles que o próximo
nos apresenta.

— 231 —
12 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 174/1974

2) Os conceitos bíblicos háo de ser interpretados de ma-


neira radicalmente diversa da clássica, ou seja, em fungáo da
vida do homem sobre a térra. Assim a ressurreicáo nao será
errtedida como um acontecimento «ultra-mundano», mas como
«libertacáo do homem em relagáo las preocupares, á miseria,
as angustias, ao pecado e á morte». A redeneáo crista deve
resolver os problemas do homem aquém, e nao além, dos limi
tes da morte.

É de notar que, embora assim falasse, Bonhoeffer nao


intencionava negar a Divindade de Cristo ; apenas julgava que
a devia silenciar, a fim de exprimir a mensagem de Cristo em
termos acessíveis e aceitáveis para o cidadáo de hoje. Como
luterano, Bonhoeffer era um homem de fé (entendida no sen
tido fiducial ou de fe-confianza de Lutero).

Os escritos de Bonhoeffer tiveram ampia repercussáo e


exerceram notável influencia nao somente sobre pensadores
protestantes, mas também sobre católicos. Todavía devem-se
fazer a respeito serias observagóes :

A afirmagáo de que o homem de hoje é irreligioso, é su


maria demais. Se no setor das ciencias, o homem julga poder
dispensar os conceitos religiosos, no setor da psicología ele se
manifesta cada vez mais sequioso do Eterno, do Absoluto, ou
seja, de Deus. A inquietagáo e a angustia que acompanham o
cidadáo beneficiado pela mais esmerada técnica, sao sinais de
que o homem senté a carencia do Infinito que ele julgou poder
eliminar de suas cogitagóes. Por conseguinte, silenciar o nome
de Deus e os valores transcendentais (Encarnagáo, vitória sobre
a morte, perspectiva de vida eterna), que o Cristianismo ensina
e que Bonhoeffer aceitava em seu íntimo, vem a ser, em mui-
tos casos, urna traigáo ou um desservigo ao homem moderno.
É possível e necessário dizer-lhe explícitamente tudo o que a
fé crista ensina; apenas se requer que o teólogo o faga de
modo a mostrar o significado concreto que tais verdades tém
para o cidadáo do séc. XX.

4.2. John A. T. Robinson (contemporáneo)1

Robinson, por sua vez, também julga defasada a nogáo de


Encarnagáo «segundo a qual Deus, em seu Filho, veio á térra,

i "Honest to God", Londres 1963. Em tradugáo portuguesa, "Um Deus


diferente", Lisboa 1967.

— 232 —
QUEM DIZEM QUE £ JESÚS CRISTO ? 13

nasceu, viveu e morreu neste mundo como homem... Por


grasa divina, teria entrado no cenário desta térra alguém que
nao Ihe pertencia e que, nao obstante, viveu a auténtica vida
dos homens» («Um Deus diferente», p. 82).

Robinson, portante, prefere dizer que, segundo a exegese


do Novo Testamento, Jesús nao é Deus, mas o homem através
de quem, de modo exclusivo, «Deus falava e agia; um encontró
com ele era encontró com Deus — com o Deus que julga e
salva... Na vida, na morte e na ressurreigáo desse homem os
Apostólos experimentaran! a obra de Deus; e na linguagem de
seu tempo confessaram como o centuriáo diante da cruz: 'Real
mente este homem era Filho de Deus !' Era, sim, mais do que
um simples homem; era urna janela aberta para Deus, me
diante o seu agir» (ib. 90s).

«Em Jesús, e somente em Jesús, nao se vé nada mais de


próprio, mas apenas o extremo e incondicionado amor de Deus.
No momento em que ele se esvaziou de si mesmo até o fundo,
ele se tornou o portador do 'nome que está ácima de todo nome',
o Revelador da gloria do Pai, porque aquele nome e aquela
gloria sao simplesmente Amor... Ao anular-se e ao subme-
ter-se totalmente aos outros no amor, Jesús abre e revela o
fundamento mesmo do ser do homem, isto é, o Amor» (ib.
pp. 94s).

O livro «Honest to God» provocou veemente celeuma na


Inglaterra. Mas marcou a fundo, embora por vezes com mati-
zes, a mentalidade de grande número dos estudiosos posterio
res. Paúl van Burén desenvolveu e radicalizou mais ainda as
idéias de Robinson. Este, posteriormente, chegou a lamentar
nao ter sido suficientemente radical.

4.3. Paúl van Burén (contemporáneo)1

Pastor da Igreja Episcopal norte-americana e professor


da Universidade de Temple de Filadélfia, van Burén adota as
premissas do neopositivismo inglés. Isto implica, para ele, que
a Cristologia deve ser formulada de tal modo que possa resistir
aos testes da filosofía analítica. Para tanto, deve despojar-se
de toda expressáo do sobrenatural e ocüpar-se exclusivamente
com a humanidade de Cristo.

"The secular Meaning of the Gospel", New York 1S63.

— 233 —
14 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS> 174/1974

Da figura humana de Jesús, van Burén aponta, como ca


racterística principal, a liberdade: «Cristo era livre da ansie-
dade,... era livre principalmente para o próximo... Era um
homem livre para dar-se aos outros, quem quer que fosse. Para
isto viveu ele e foi por isto condenado á morte» («The secular
Meaning of the Gospel». London 1963, p. 102).

A fé em Cristo consiste, pois, em que nos tornemos livres


com Ele. Na Páscoa, a ljberdade de Jesús se tornou «conta
giosa» para os discípulos e os transformou, tornando-os livres.
Eles sairam pelo mundo a pregar a mesma liberdade a todos
os homens, ... também aos do sáculo XX.

O pensamento de van Burén se exprime com grande cla


reza no diálogo que teve com Ved Metha, abaixo reproduzido :

Van Burén: "Estou a trabalhar sobre um assunto importante: in


vestigar se o Cristianismo é, essencialmente, algo que concerne a Deus ou
que concerne ao homem. Com outras palavras, e de forma mais abrupta,
estou tentando mostrar que, essencialmente, o Cristianismo concerne ao
homem,... que a sua linguagem a respeito de Deus é apenas um meio, e
um meio históricamente datado, entre outros, de dizer o que o Cristianismo
tem a nos dizer sobre o homem, sobre a vida humana e sobre a historia
humana. Na medida em que eu for compreendendo a natureza e a evolucSo
da Cristologla na 'historia do Cristianismo, eu quisera mostrar que o que o
Cristianismo fundamentalmente tem em mira, é urna certa forma de vida, um
modelo de existencia humana, urna norma para as atitudes, as disposiedes
e o comportamento moral do homem.

Ved Metha: Mas um crlstao nao diria que Deus é indispensável á


forma de vida de que o Sr. fala ?

Van Burén: Nao, pcls eu poderia dizer a mesma coísa colocando-me


do ponto de vista humanista.

Ved Melha : Mas entSo por que, afinal, se tem necessidade do edificio
do Cristianismo ?

Van Burén : Para mim, nao vejo o que há a perder ou a ganhar quando
se diz que urna resposta ó crista ou nao crista. O que eu quero dizer, é
que o Cristianismo, a partir da figura de Cristo (figura, alias, notoriamente
reinterpretada pelas geracSes), elaborou urna certa imagem do homem e
das relagoes humanas. Tudo Isso poderia ter sido tao bem elaborado, e fol
realmente elaborado, na tradicSo do humanismo ocidental. Se, e em que
medida, esse humanismo fol influenciado pelo Cristianismo, é talvez questao
secundaria. Mas, se o Sr. quer realmente encostar-me á parede, eu teria
provavelmente que dizer que eu nao me preocupo com o essencial do
Cristianismo mais do que com o nome que Ihe dáo. Se alguém quisesse
discutir a respeito desse nome, entüo creio que eu deverla admitir que eu
nSo sou propriamente cristao" ("Les tnéologiens de la mort de Dieu".
Paris 1969, p. 83s).

— 234 —
QUEM DIZEM QUE É JESÚS CRISTO ? 15

Estas declaragóes dispensam comentario, pois o autor


mesmo professa já nao se importar com o ámago da mensa-
gem crista.

Este é o expoente extremo do secularismo; so vé as re-


percussóes humanas que a mensagem de Cristo possa ter.

Entre os teólogos católicos, as idéias do secularismo nao


tiveram a mesma veeméncia; contudo alguns ensaios de Cris-
tologia em escolas católicas procuraram levar em conta a mente
secularizada ou mesmo secularista do homem contemporáneo.
Urna das tentativas mais relevantes nessa linha é a do teólogo
holandés

4.4. Píet Schoonenberg S. J. (contemporáneo)

Schoonenberg julga que, para se fazer entender pelo


homem de hoje, tem de renunciar a fórmula do Concilio de
Calcedonia e raciocinar nos seguintes termos :

Em Cristo há urna só pessoa (um só En), que é humana.


A originalidade de Cristo em relagáo aos outros homens con
siste no fato de que Deus lhe está presente de maneira singular
e mconfundível; em Cristo, pois, nao existe atividade alguma
que nao seja, de certo modo, influenciada pela presenga de
Deus. Este fato confere a Cristo urna transcendencia que deve
ser dita «escatológica». Em suma, diz Schoonenberg: «Deus
está em Cristo inteiramente, e se manifesta nele como amor
por nos. O trago mais significativo desse amor é que ele nao
conhece limitagáo alguma» («Un Dio di uomini». Brescia 1971,
p. 113).

Ao propor tais idéias, o Pe. Schoonenberg tenciona apenas


exprimir a fé constante e perene da Igreja em termos novos.
Deve-se dizer, porém, que a formulagáo é ambigua e sujeita
a equívocos; nao realga suficientemente o fato de que Jesús
é táo Deus quanto é homem; na verdade, Jesús nao é apenas
um homem «divinizado» ou um homem acidentalmente unido a
Deus, mas é Deus eterno que assumiu tudo o que é do homem,
sem perder o que é próprio da Divindade.

Vém agora em consideragáo as teses que realgam o valor


histórico dos episodios concernentes a Jesús, em oposigáo á
linha de Bultmann e discípulos.

— 235 —
16 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS> 174/1974

5. As Cristologias históricas

Recensearemos as sínteses de Cullmann e Pannenberg.

5.1. Osear Cullmann (contemporáneo)1

Como dito, este teólogo protestante suígo desenvolve o seu


pensamento em oposicáo a Bultmann, afirmando que a Reve-
lagáo de Deus aos homens se fez por acontecimentos reais e
históricos.

Com efeito, afirma Cullmann, a Revelagáo é o resultado


de dois elementos convergentes : 1) os fatos históricos, de que
nos falam os livros do Antigo e do Novo Testamento, 2) a in-
terpretagáo desses fatos históricos dada pela própria Sagrada
Escritura. Em outros termos : Deus quis falar aos homens nao
por manifestagóes particulares ou secretas, nem pela luz da
razáo apenas, mas, sim, por acontecimentos reais, que o povo
de Deus presenciou e dos quais deduziu, sob a guia do próprio
Deus, a mensagem respectiva. Fatos e significado dos fatos
acham-se consignados ñas páginas da Biblia.

O acontecimento central da Revelagáo é Jesús Cristo mes-


mo. Isto quer dizer que todos os acontecimentos do passado
tendiam para Cristo e que em funcáo deste se realizam o pre
sente e o futuro da historia. Cristo obteve, em principio, a vitó-
ria sobre as foreas do mal; esta Vitoria deve consumar-se pau
latina e progressivamente até o fim dos sáculos.
Longe de recorrer á filosofía para penetrar no misterio
de Cristo, Cullmann examina os varios títulos que o Novo Tes
tamento atribuí a Jesús (Profeta, Servidor Padecente, Sumo
Sacerdote, Lógos, Filho de Deus, Deus...) para fazer urna
síntese objetiva e fidedigna. Cristo aparece assim como o Re
velador do Pai aos homens e o Salvador de todos através da
sucessáo dos sáculos.

Como se vé, a síntese cristológica de Cullmann procura


ser essencialmente bíblica. Embora nao dispense os criterios e
as conclusóes da exegese científica, Cullmann nao faz da filo
sofía e de preconceitos racionalistas as premissas da sua pro-
sicáo cristológica. Em conseqüencia, nos escritos de Cullmann
o pensamento católico encontra numerosos elementos da au
téntica fé crista.

1 Em tradugio italiana temos: "Cristo e il tempo", Bolonha 1S65. "La


Cristologla del Nuovo Testamento", Bolonha 1970.

— 236 —
QUEM DIZEM QUE É JESÚS CRISTO ? 17

5.2. Wolfhart Pannenberg (contemporáneo)1

Também este autor afirma que Deus se revelou por fatos


históricos e objetivos, que nao podem ser rejeitados como pro-
dutos da imaginacáo de almas piedosas. Esta conclusáo, para
Pannenberg, nao decorre somente dos estudos da crítica his
tórica, mas é também urna profunda exigencia da própria fé.
Com efeito, se a historia da salvacáo nao tivesse valor objetivo,
mas fosse ficgáo, a fé se apoiaria apenas na vontade e no ca
pricho dos homens. Os sucessivos acontecimentos da historia
da salvagáo só podem ser entendidos á luz do fim ou da con-
sumagáo dos sáculos.

Quanto a figura de Cristo, Pannenberg tenta, também ele,


deixar de lado a fórmula de Calcedonia, para recorrer ao con-
ceito hegeliano de pessoa ; esta seria «o abandono de si mesmo
a outrem». Em Jesús, o «ser pessoa» consistía em entregar-se
de modo perfeito ao Pai pela obediencia. Eis as palavras mes-
mas do autor:

"No abandono (Hingabe) ao Pal, Jesús vive a sua pessoa de Fllho.


Se esta aflrmacSo é verídica, a Divlndade de Jesús nio é urna segunda
substancia em Jesús homem, acrescentada á sua humanldade. Por isto,
precisamente na medida em que é este homem, Jesús é Filho de Oeus e
Deus mesmo. Em conseqüéncia, ele deve ser entendido nao como urna sfn-
tese do divino e do humano; nele a unláo de homem e Deus é algo de
multo mais profundo do que aqullo que o concelto de ahílese exprime.
Dessa uniSo n3o resulta algo de novo ou urna terceira realidade, nem se
segué que a humanidade seja absorvida pela Divindade a ponto de desa
parecer. Ao contrario, é precisamente na sua humanldade peculiar que
Jesús é o Filho de Deus" ("Grundzüge der Chrlstologle", p. 334).

Faz-se mister agora registrar a posicáo da

6. Cristologia escatoiógica

Partindo do pressuposto — muito generalizado — de que


hoje em dia nao se podem mais apresentar a figura e a mensa-
gem de Cristo nos moldes tradicionais, alguns teólogos alemáes,
desde 1960, procuraram apresentar urna Cristologia de espe-
ranca e de escatologia ou consumacáo. A diferenca dos secu-
laristas, afirmam que Deus faz parte integrante da figura de

1 "Grundzüge der Christologie", Gütersloh 1964. Em traducio Italiana:


"Rlvelazione come storia", Bologna 1969. "La teología e il regno di Dio",
Roma-Brescia 1971.

— 237 —
18 «PERGUNTE K RESPONDEREMOS» 174/1974

Cristo; nao deve, pois, ser silenciado o conceito de Deus numa


auténtica elaboracáo cristológica. Mas é preciso encontrar urna
fórmula aceitável ao homem moderno, que está profundamente
embebido da visáo marxista do mundo, da sociedade e da his
toria. Ora o homem marxista professa otimismo e esperanoa
em relagáo ao futuro, pois alimenta o sonho de construir urna
sociedade perfeita constituida pelo homem novo, libertado.
— Essa visáo otimista, dizem os teólogos da esperanza, pode
ser tomada como ponto de referencia para se elaborar um
novo ensaio de Cristologia.

0 principal representante deste modo de pensar é

Jürgen Moltmann (contemporáneo)1

Moltmann, teólogo protestante, desenvolve a sua Cristo-


logia enfatizando nao o que já aconteceu, mas o que aínda deve
acontecer. Isto quer dizer: Cristo veio confirmar e revalidar
as promessas feitas por Deus aos Patriarcas bíblicos, mas essas
promessas ainda aguardam o seu cumprimento... Cumpri-
mentó, isto é, realizagáo plena e consumada, e nao apenas re-
velagáo ou queda de véus (como se tudo já estivesse cumprido,
mas ainda se achasse em estado latente ou encuberto). A reali-
dade nova que os cristáos esperam, é a ressurreigáo dos mortos,
a plena senhoria do Crucificado e a restauragáo da ordem e da
harmonía no conjunto das criaturas.

Assumindo a escatologia (ou a consumagáo da historia)


como principio de hermenéutica (ou de interpretagáo da men-
sagem bíblica), Moltmann assim entende o fato histórico da
ressurreifiáo de Cristo:

"A revelagáo de Cristo ressuscltado nao é uma forma de epifanía


(manlfestagao) do eterno presente; ela exige, antes, que a revelado seja
compreendida como apocalipse do futuro prometido pela verdade" ("Teolo
gía della speranza". Brescia, p. 81).

De resto, o pensamento de Moltmann será ulteriormente


exposto sob o título 7 deste artigo.

A Cristologia esoatológica ou da esperanca e consumagáo


também é proposta por Karl Braaten, jovem teólogo luterano
dos Estados Unidos, e Wolfhart Pannenberg, de quem já fa-
lamos á p. 237 [17] deste artigo.

1 "Theologle der Hoffnung", München 1966. Em tradufSo brasileira,


"A teología da esperanza".

— 238 —
QUEM DI2EM QUE ± JESÚS CRISTO ? tó

Em poucas palavras, pode-se dizer a respeito que nao se


deve enfatizar demais a distingáo entre presente e futuro na
visáo crista da historia. A eternidade e seus valores já estáo
presentes entre nos sob forma de sementé. Feita esta observa-
gáo, reconhega-se que é realmente oportuno acentuar a espe-
ranca e a tendencia para a plenitude ou consumacáo como notas
características do Cristianismo. A cultura do homem de hoje
está toda voltada para o amanhá,... amanhá cheio de pro-
messas e esperanzas. Ora é certo que o Cristianismo tem um
significado e urna mensagem grandiosa para tal atitude de
espirito.

Resta agora examinar urna corrente cristológica assaz pró


xima a escatológica :

7. Crisfologias políticas

O fenómeno social e político, que no século XIX muito in-


teressou aos dentistas e filósofos, nos últimos decenios mereceu
cada vez mais a atencáo dos teólogos. Estes, em consecuencia,
claboraram um conjunto de sínteses novas como a teología do
desenvolvimento, a teología da libertacáo, a teología da paz, a
teología da revolugáo, a teología política... Em tais sínteses,
os pensadores tém procurado na figura e na mensagem de
Cristo os elementos inspiradores de urna nova ordem social e
política. Daí o surto das chamadas «Cristologias políticas», cujos
principáis arautos sao Metz, Schaull, Cox, Moltmann, Peukert,
Rendtorff, Rubem Alves, brasileiro, de confissáo religiosa pres
biteriana, Gutiérrez... Abaixo proporemos apenas o pensa-
mento de Cox, Moltmann e Metz, os fundadores da teología po
lítica, e o de Schaull, o expoente máximo da teología da re-
volucjio.

7.1. Harvey Cox, Jürgen Moltmann e Johann&s Bapllsta


Metz (contemporáneos)

a) Harvey Cox é um pastor batista, professor da Harvard


University (U. S. A.), que se tornou famoso por ssu livro «The
Secular City» (London 1965), traduzido para o portugués com
o título «A Cidade do Homem» (Rio de Janeiro 1968). É Harvey
Cox quem póe as bases de urna teología política, sublinhando
o caráter público e social da mensagem crista.

— 239 —
20 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 174/1974

Com efeito, diz Cox, já está ultrapassado o tempo de apre-


sentar a mensagem crista em categorías metafísicas ou em
categorías existenciais e personalistas: «Pois que o mundo su-
perou o pátíios e o narcisismo do existencialismo, os esforgos
teológicos feitos para atualizar a mensagem bíblica, como os
de Bultmann, já nao merecem atencáo. A sua falencia nao é
devida ao fato de que sao radicáis demais, mas ao fato de que
o sao pouco demais. Dáq urna resposta do sáculo XIX a um
dilema do século XX» («the Secular City», p. 252). Por con-
seguinte, em lugar da metafísica clássica e do existencialismo
moderno, Cox propóe que se adote a linguagem política, pois
«na sociedade moderna a política tomou o lugar da metafísica.
Ela dá unidade e significado á vida e ao pensamento dos ho-
mens» (ib. 254).

Conseqüentemente, segundo Cox, os cristáos devem hoje


em dia renunciar a professar publicamente a sua fé. Será opor
tuno mesmo que renunciem a pronunciar o nome de Deus; tai-
vez a evolugáo dos tempos lhes sugira outro vocábulo que nao
Deas, para designar o Ser Supremo. A missáo do cristáo há de
ser exatamente a mesma que a dos demais homens: construir
a Cidade do Homem neste mundo j os valores ditos «transcen-
dentais» se acham ñas criaturas mesmas. O mundo presente,
com suas iniciativas e realizacóes, satisfaz plenamente aos inte-
resses do homem secularizado.

Na base de tais premissas, Cox interpreta a Biblia, con-


cluindo que

— o relato da criacáo em Gen 1-3 significa a «seculariza-


cáo da natureza». A Biblia ensina que nao há foreas ocultas
nem mágicas neste mundo, nem existem semi-deuses identifi
cados com as forcas da natureza; Deus é o único Criador de
todos os seres que vemos;

— o livro do Éxodo (7,1-14,31), narrando a libertagáo de


Israel cativo no Egito, dá a ver que nao há monarcas ou gover-
nantes divinos (tais eram os Faraós egipcios, na concepgáo
de seus súditos). A Biblia preconizou assim a «dessacraiizagáo
da política» ;

— o livro do Éxodo (13,35-24,8), narrando a libertagáo de


Israel cativo, a entrega da Lei a Israel ao pé do monte Sinai,
e prescrevendo, entre outras coisas, a destruigáo dos ídolos,
propóe a «desconsagragáo dos valores». Nao há valores abso-

— 240 —
QUEM DI2EM QUE & JESÚS CRISTO ? 21

lutos neste mundo ; todos sao «obra da máo do homem». Como


se depreende do desenrolar geral da tese, Cox tem em vista
principalmente os valores religiosos...

— finalmente, o Reino de Deus, táo apregoado pelos Evan-


gelhos, nao será senáo urna nova ordem de coisas na térra, em
que o homem se emancipará de «tabus» das épocas anteriores
(no tocante tanto á ciencia como á moral). «O equivalente mo
derno do arrependimento é o uso responsável do poder» («A
Cidade do Homem», p. 137); a vinda do Reino de Deus signi
fica «transformagáo social» (ib. 135). Já nao tem sentido en
tender o Evangelho como apelo á uniáo com Deus e á vida
interior.

b) Jürgen Moltmann, na sua «Teología da Esperanga»,


afirma que o relacionamento da Igreja com a sociedade tem
índole essencialmente política: a Igreja deve anunciar e pre
parar o Reino de Deus, que nao diz respeito apenas aos indivi
duos tomados isoladamente, mas envolve a sociedade global-
mente. A fé crista, fortemente marcada por sua tendencia es-
catológica, é chamada a exercer urna acáo política, isto é, deve
transformar a polis, a cidade, a sociedade. O Reino de Deus,
com sua mensagem de salvacáo, póe em xeque as instituigóes
presentes ainda contaminadas pelo pecado e exige que os cris-
táos as transformen! em vista do futuro. Tenha-se em vista
principalmente o último capitulo do livro «Theologie der Hoff-
nung» (Teología da Esperanga).

c) Johannes B. Metz, teólogo católico, rejeita quaJquer


interpretagáo do Evangelho que se confine apenas ao foro pes-
soal e particular de cada cristáo, sem levar em conta os deveres
deste na esfera sócio-política. Urna fé destituida de .dinamismo
social, diz o autor, vem a ser puro .iogo de palavras e nao
corresponde ao teor da mensagem bíblica. Esta nao nos apre-
senta Jesús como personagem particular a anunciar urna sal-
vagáo particular: «A proclamagáo "dessa salvacáo arrastou
Jesús para um confuto mortal com os poderes públicos do seu
tempo. A cruz de Jesús nao foi erguida no privatissimum do
espago individual, nem no sanctissimum do espago únicamente
religioso, mas... ela foi colocada fora do recinto do puramente
religioso,... fora segundo a fórmula da Carta aos Hebreus
(13,12). O véu do Templo se rasgou para sempre (cf. Mt 27,51)»
(«Teología del rinnovamento». Assis 1989, pp. 268s).-

Em conseqiiéncia, diz Metz, a teología deve despertar as


consciéncias para a tarefa que a Palavra de Jesús há de exe-

— 241 —
22 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 174/1974

cutar em meio as realidades sócio-políticas. A Igreja está pre


sente iao mundo como urna instituigáo crítica: «Ela se ergue
contra qualquer tentativa de considerar a pessoa humana em
funcáo apenas de urna evolugáo social dirigida pela técnica»
(ib. 277).

A posigáo de Metz suscitou reagóes, por vezes, contradl-


tórias.

Foi aplaudida por aqueles que a entenderam como a pro-


clamacáo de que nao pode haver auténtica transformacáo polí
tica sem participagáo decisiva do Cristianismo. Mas sofreu crí
tica da parte dos estudiosos que julgam que os termos-chaves
da teoría («teologia política, instituigáo crítica, fim da meta
física, praxe...») tém sentido abstrato e indeterminado nos
escritos de Metz. Os opositores reconhecem que a mensagem
crista tem, sem dúvida, dimensóes sociais, mas que nem por
isto se podem derivar da política os principios de interpretagáo
da mensagem bíblica e da Cristologia; a imagem do Messias
político, táo acalentada pelos judeus, foi definitivamente supe
rada por Jesús Cristo.

7.2. Richard Schaull (contemporáneo)

Este teólogo protestante americano tornou-se o pioneiro


da modalidade de teologia politica dita «teologia da revolugáo».

Schaull julga que, ñas atuais circunstancias de injustiga e


opressáo acarretadas pelo capitalismo burgués, só se pode apre-
goar devidamente a Palavra de Deus, proclamando a revolugáo.
Para levar adíante a revolugáo, afirma ele, o cristáo encontra
inspiragáo na sua própria fé. «Na verdade, os símbolos e as
imagens bíblicas acentuam a descontinuidade, a condenacáo,
o fim do mundo e a irrupgáo de algo absolutamente novo» B.

Mais ainda : a revolugáo é a mais certa expressáo da auto-


-revelagáo de Deus na historia, pois o Deus que faz saltar as
velhas estruturas para criar as condigóes de urna existencia
mais humana, está Ele mesmo em meio á luta.

1 Em traducSo Italiana: "Oltre le rególe del gloco. Trasformazlone


sociale e llberazione umana", Torlno 1972.
2 "Dibattito sulla teologia della rivoluzlone: La fede cristiana come
scandalo In un mondo tecnológico", Brescia 1970, p. 53.

— 242 —
QUEM DIZEM QUE É JESÚS CRISTO ? 23

É evidente que a posicáo de Schaull é extremada e, por


isto, insustentável. E isto, por mais de um motivo : dá ao con-
ceito bíblico de «novidade» e «renovagáo» um sentido exagera
damente político e sociológico; certo interesse político (que
associava o Reino de Deus e a restaurado da monarquía do
rei Davi) estava em foco direto ñas concepsóes do Antigo Tes
tamento ; mas esta perspectiva foi focalizada de novo modo
pelo Evangelho, de sorte que o próprio Cristo pode dizer: «O
meu reino nao é deste mundo» (Jo 18,36) e «Dai a César o que
é de César, e dai a Deus o que é de Deus» (Mt 22,21). A poli-
tica interessa certamente ao cristáo e ao Reino de Deus, mas
subordinadamente a outros valores.

Mais : é ilusorio crer que a revolucao violenta seja o único


remedio para os males do sistema sócio-político vigente, como
se a revolucáo nao fosse também ela causa de opressoes e como
se o odio nao gerasse odio. Por fim, a tese de Schaull nao leva
em conta suficiente o lugar central e definitivo que Cristo
ocupa na historia da salvagáo, pois o autor parece aguardar
para o futuro novos acontecimentos salvificos de valor decisivo.

8. Conclusoo

1. Outros nomes de pensadores, com seus matizes doutri-


nários, poderiam ser acrescentados á panorámica ácima pro
posta ; recenseá-los todos nos levaría muito longe. Como quer
que seja, as páginas antecedentes já oferecem urna visáo que
pode ser tida como suficientemente fiel á realidade das corren-
tes crístológicas contemporáneas.

Perguntamo-nos : que dizer a propósito ? Como julgar táo


ampia escala de posigóes teológicas ?

a) Em termos positivos, reconhecamos que os novos en-


saios de penetracáo do misterio de Cristo produziram seus re
sultados de interesse e valor. Com efeito, concorreram para
que se evíflenciasse mais aínda a fungáo central e fundamental
da Cristologia em relacáo aos outros tratados da teología;
deram ocasiáo a que se aprofundasse o significado da missáo
de Cristo em relacáo a todos os homens, á sociedade e á his
toria dos povos em geral; simultáneamente explanaram-se
questóes de psicología humana, a fim de aplicá-las ao misterio
de Cristo.

b) Todavía a variedade de tantas posicóes cristológícas


exige ulterior reflexáo.

— 243 —
24 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 174/1974

Examinando mais a fundo o quadro das Cristologias con


temporáneas, verificamos que, em última análise, a raiz da di-
versidade das mesmas vem a ser a posigáo gnoseológica que
cada um dos respectivos autores assume. — Com outras pala-
vras: a questáo fundamental, na Cristologia de hoje, é saber
se se deve penetrar na figura de Cristo com a luz da razao
apenas ou se, a razáo sendo incapaz para tanto, somente a fé
ilustra o misterio de Cristo. No primeiro caso, tem-se o que se
poderia chamar o neo-positivismo como base da Cristologia ;
no outro caso, professa-se o fideísmo. O neo-positivismo leva
ao secularismo dos chamados «cristáos ateus» ou ás teses pró
ximas do secularismo (linhas 3 e 4 do panorama atrás propos-
to) ; provoca também as reagóes contra tais posigóes (linhas
5, 6 e 7). O fideísmo leva ao sobrenaturalismo de Barth (Ii-
nha 2), o qual desvaloriza o papel da razáo e do estudo cien
tífico na penetragáo da mensagem de Cristo.

Diante da situagáo assim configurada, trata-se, pois, de


formular com clareza os meios de que dispomos hoje para com-
preender e ilustrar a figura de Jesús Cristo. É o que vamos
tentar fazer agora.

2. Antes do mais, leve-se em conta que Jesús foi um per-


sonagem histórico, que viveu em determinada época e realizou
feitos históricos (nenhum crítico consciencioso o nega hoje em
dia). Por conseguinte, a primeira etapa que o estudioso, diante
da realidade «Jesús Cristo», deve percorrer, há de ser o estudo
científico dos documentos antigos — bíblicos e nao bíblicos —
que abordam o tema Jesús Cristo e concorrem para ilustrá-lo.
Entre os instrumentos de trabalho, citem-se os recursos da lin
güística, da paleografía, da arqueología e das disciplinas afins,
que deveráo ser utilizadas, a fim de proporcionar ao estudioso
clareza científica e racional a respeito da figura e da mensa
gem de Cristo.

A segunda etapa mobiliza a fé. Se o estudioso é cristáo


(como o querem ser quase todos os autores recenseados ñas
páginas precedentes), compete-lhe consultar os outros documen
tos da fé atinentes a Jesús Cristo, isto é, as obras dos antigos
escritores cristáos e as declaragóes do Magisterio da Igreja.
E — diga-se de passagem — só existe urna Igreja instituida por
Cristo : aquela que foi confiada a Pedro e ao colegio dos Apos
tólos, aos quais Jesús prometeu assisténcia infalível até o fim
dos tempos ; cf. Mt 28, 18-20.

— 244 —
QUEM DIZEM QUE É JESÚS CRISTO ? 25

Os documentos da fé — principalmente os que provém do


magisterio da Igreja — tém importancia decisiva para se jul-
garem os resultados do estudo científico concernente a Cristo.
Nao pode haver conflito real entre uns e outros; dado, porém,
que haja discrepancia aparente, faga-se a revisáo da pesquisa
em foco. Os assuntos de fé se esclarecem, em última instancia,
pelos documentos da fé que a Igreja, assistida por Cristo,
promulga.

Assim, pois, nao há dilema entre razáo e fé no estudo da


Cristologia. Tanto aquela como esta devem esmerar-se por pe
netrar no tema. É o que faz que a linha 1 do panorama atrás
apresentado seja a linha certa. É ela que corresponde ao pen-
samento oficial da Igreja e á genuína doutrina da fé em Cristo.

Na confecgSo deste artigo, multo nos valemos da obra de Battlsta


Mondln: "Le Cristologie Moderno. Un panorama", Roma 1973.

«CONHEC.O PRETENSOS ATEUS, QUE FUGIRAM APA

RENTEMENTE DE DEUS SÓ PARA TROCAREM DE PAl. ORA

CHEGO A PENSAR QUE ELES. PERDERAM BASTANTE NA

TROCA, E DE MANEIRA CONSTERNADORA.»

(Frangote Jeanson, incréu, em


"La'fol d'un Incroyant" p. 106)

— 245
Tema do Día:

possessáo diabólica?

Em síntese: O fenómeno da possessao diabólica supñe a existencia


do demOnio, já abordada em PR 166/1973, pp. 435-450.

A possessao diabólica implica presenca do demdnio em determinado


corpo, de sorte que o Maligno o domina e indiretamente move as faculda-
des psíquicas do paciente: convulsóes, blasfemias, expressSes de odio sao
síntomas característicos de tal estado.

A realidade da possessao diabólica é nítidamente atestada pelo com-


portamento de Jesús nos Evangelhos. O Senhor procedeu como se, de fato,
enfrontasse o Maligno em certos pacientes. Dizer que Jesús, assim proce-
dendo, apenas quis acomodar-se ao modo de pensar dos seus contemporá
neos ignorantes, seria atribuir a Cristo a conflrmacSo de um erro; ora
isto contrariaría frontalmente á mlssSo de Cristo, que foi a de dar testemunho
da verdade (cf. Jo 18, 37; 14,6).

A tradlcfio Judeo-crista e a Igreja sempre admitiram a realidade da


possessio diabólica. NSo há dúvida, porém, devem-se notar exageras no
decorrer dos séculos ; a credulidade popular levou muitas vezes a atribuir
estados patológicos naturais á Intervengüo do Maligno. Por isto a Igreja
recomenda aos sacerdotes, sejam cautelosos antes de admitir algum caso
de possessao diabólica. Esta nao se denuncia apenas por fenómenos mór
bidos, mas está freqüentemente acompanhada de expressOes blasfemas e
sacrilegas pelas quais Deus é dlretamente ofendido.

Nao se podem assinalar os motivos pelos quais o Senhor permita a


possessao diabólica. É certo que Oeus nao comete injustlca e em todas
as suas manifestares é Amor e Misericordia.

Em sfntese, recomenda-se aos fiéis, nao se preocupem com possessSo


diabólica. O que importa a um crlstao, é guardar fidelidade á sua vocagSo
crista; quem o faz, nada tem a recear.

Comentario: Está na ordem do dia o tema «possessáo dia


bólica», que vem interessando tanto as pessoas religiosas (pelas
numerosas implicagóes que tem) como os eruditos dedicados
á medicina e á psiquiatría.

Já abordamos o assunto em PR 23/1959, pp. 447-456 e


PR 160/1973, pp. 156-171. Visto, porém, que os nossos leitores

— 246 —
POSSESSAO DIABÓLICA? 27

solicitam voltemos á questáo, trataremos abaixo da possessáo


diabólica após nova consulta, serena e objetiva, as fontes ca-
pazes de esclarecer o delicado assunto.

Quanto ao fato mesmo da existencia de demonio — su-


posto por quem queira afirmar a possessáo diabólica —, foi
considerado em PR 166/1973, pp. 435-450. A S. Escritura
afirma a realidade de anjos e demonios com tal énfase que
esses elementos nao podem ser nela cancelados sem se fazer
violencia ao texto sagrado.

1. Possessáo diabólica : sim ou nao ?

1. Por ««possessáo diabólica» entende-se a presenta do


demonio em determinado corpo, presenga em virtude da qual
o Maligno domina esse corpo e, mediante o corpo, as faculda-
des psíquicas do possesso. O demonio nao se une ao corpo
como a alma se une a este, ou seja (segundo a linguagem téc
nica), em uniáo substancial. Em relagáo a alma, ele é apenas
um movente extrínseco; só age sobre a alma na medida em
que ela depende do corpo. O possesso apresenta síntomas muito
semelhantes aos da histeria (convulsóes, clamores, linguagem
estranha, ímpetos de furor...); estes síntomas sao geralmente
acompanhados de evidente revolta contra Deus, desafio ao
Senhor, blasfemia, imoralidade fortemente obscena, falsas
crensas...

Oá possessos também sao ditos «energúmenos», palavra


que, derivada do grego, significa «individuo agitado, influen
ciado poderosamente por um principio intrínseco».

Sao Boaventura (f 1274) assim explica o fenómeno da


possessáo :

"Em virtude da sua sutileza ou espiritualidade, o demonio pode pene


trar nos corpos e ai flxar sede ; em virtude da sua forca, pode move-los e
agitá-Jos. O demonio, portanto, dada a sua sutileza e energía, pode intro-
duzir-se no corpo do homem e atormentá-lo, a menos que o impeca um
agente superior, é o que se chama tornar possesso... Penetrar, porém, no
intimo da alma fica reservado a substancia divina" (In II Sent., dlst. VIII,
part. II, a. 1. qu. 1 et 2).

Julgam bons autores que os possessos, nos momentos de


crise, nao tém consciéncia de seu estado anormal.

O depoimento de S. Boaventura (ácima transcrito), assim


como os de outros filósofos e teólogos medievais e modernos,

— 247 —
28 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 174/1974

dáo a ver que a possessáo diabólica nao é algo de impossivel ou


absurdo aos olhos da filosofía ou da psicología racional. A ve-
rificacáo da náo-impossibilidade vem a ser importante neste
momento em que alguns asseveram a inviabilidade mesma da
possessáo diabólica.

Da possessáo distingue-se a «obsessáo diabólica», que con


siste em ataques mais brandos de Satanás, o qual, no caso,
nao chega a fixar mansáo no corpo da vítima. Foi o que se
verificou na vida de S. Joáo Vianney, o cura d'Ars.

2. A tradigáo judeo-cristá, que a Igreja tem reafirmado


através dos sáculos, sempre acreditou na realidade da possessáo
diabólica.

Últimamente, porém, os progressos da psicología e da me


dicina levam varios estudiosos a duvidar da realidade da pos
sessáo como tal. Nao se reduziriam os fenómenos respectivos
a estados mórbidos, explicáveis por perturbagóes psicossomá-
ticas do paciente ?

— Nao se pode negar que os antigos eram demasiado pro


pensos a admitir intervengóes do demonio sempre que alguém
se manifestasse gravemente enfermo. Tal atitude era simplona
e insustentável. Daí, porém, nao se ségue que todo e qualquer
caso dito «de possessáo diabólica» seja meramente psicopato-
lógico. Para julgar o assunto, nao bastam criterios de psiquia
tría e medicina, mas, em última análise, devem-se levar em
conta também criterios de fé, pois os temas «demonio» e «pos
sessáo diabólica» estáo intimamente relacionados com o depó
sito da fé.

Ora o magisterio da Igreja, fazendo eco as afirmagoes da


S. Escritura e da Tradigáo judeo-cristá, tem ensinado repeti
damente a existencia do demonio; cf. PR 166/1973, pp. 435-445.

Quanto tá realidade da possessáo diabólica, ela decorre


igualmente dos dizeres dos Evangelhos e da Tradigáo.

3. Examinemos, pois, de perto os Evangelhos:

a) Encontra-se no texto sagrado a men;áo de daimoni-


zómenoi, endemoniados ou demoníacos, que constituem um
grupo claramente distinto dos doentes, tanto em descrigóes de
caráter geral como também em narragóes promenorizadas.
Tenham-se em vista

— 248 —
POSSESSAO DIABÓLICA r 29

Me 1, 32-34: "A tarde, quando o sol já tfiavia desaparecido, comeca-


ram a trazer-lhe todos os doentes e possessos do demonio, e a cfdade In-
teira aglomerou-se junto á porta. Ele curou muitos que se viam atormenta
dos por diversas doencas e expulsou muitos demonios ; mas nao permitía
aos demonios que falassem, pols eles o conheclam".

Le 6,17s: "Desceu com eles... grande multidáo de povo... que tinha


vindo para o ouvir e para ser curados de suas doencas. Os que estavam
atormentados pelos espfritos imundos, flcavam curados".

Le 7,21 : "Jesús curou muitas pessoas, vítimas de doencas e acha


ques e atormentadas por espíriios maus, e restltuiu a vista a muitos cegos".

b) Jesús atribuiu a Si o poder de expulsar demonios e


o distinguiu nítidamente da capacidade de curar doentes :

Le 13,32: "Eis que hoje e amanha expulso demonios e realizo curas;


ao terceiro dia está tudo consumado para mim".

c) O próprio Cristo mandou aos apostólos e aos discípu


los, expulsassem demonios :

Mt 10,8: "Curai os enfermos, ressuscitai os mortos, purifica! os le


prosos, expulsa! os demonios. Dai gratuitamente o que de graga rece-
bestes".

Me 16,17s: "Eis os prodigios que acompanharao aqueles que crerem:


em meu nome expulsarao os demonios, falaráo línguas novas, tomarSo ñas
máos as serpentes, se beberem aigum veneno mortífero, nao Ihes fará mal;
imporSo as máos sobre os doentes e estes ficaráo curados".

d) Jesús apresenta o poder de expulsar demonios como


sinal da sua missáo messiánica; Ele veio para expulsar o «Prín
cipe deste mundo» :

Jo 12,31: "é agora o julgamento deste mundo. Agora o Príncipe


deste mundo será largado fora".

Jo 14,30: "Já nao falarei muito con vosco, pols val chegar o Principe
deste mundo. Ele nada pode contra mim".l

1 Notem-se aínda os seguintes trechos, tirados das cartas dos Apostólos:

2 Cor 4,4: "... os infiéis, nos quais o deus deste século obscureceu
os espfritos, a fim de que nao vejam brilhar a luz do Evangelho da gloria
de Cristo..."

Ef 2,13: "Vos estáveis mortos por causa de vossos delitos e pecados,


nos quais andáveis outrora, segundo as máximas deste mundo, segundo
o principe do imperio do ar, espirito este que domina agora sobre os filhos
da desobediencia".

Hebr 2,14: "Ele se revestiu da carne e do sangue, a fim de destruir,


por sua morte, aquele que tinha o Imperio da morte, Isto é, o demonio".

— 249 —
30 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 174/1974

Pelo pecado Satanás desordenou a historia do homem e das


suas relacóes com Deus. Cristo veio justamente para restaurar
a paz e a amizade entre o homem e Deus — o que significava
o combate á influencia de Satanás. Considere-se a seguinte
passagem do Evangelho:

Le 11,20: "Se é peto dedo de Deus que expulso os demonios, entfio


é corto que chegou a vos o reino de Deus".

4. Todavia poderia alguém julgar que Jesús e os Evan


gelistas, ao falar de possessáo, se acomodaram aos conceitos
simplórios do povo de sua época, que atribuía as doencas á
intervencáo diabólica.

a) Observe-se, porém, que essa acomodagáo equivaleria


a confirmar um erro — e erro importante. Ora Jesús veio pre
cisamente para dar testemunho da Verdade: «Nasci e vim a
este mundo, para dar testemunho da verdade. Todo aquele
que é da verdade, ouve a minha voz» (Jo 18,37; cf. 14,6).

Jesús se encarregava de dissipar as ilusóes de seus discí


pulos nao só no tocante as expectativas messianicas, mas tam-
bém em outros setores. Tenha-se em vista de modo especial o
caso do cegó de nascenca: os discípulos perguntaram ao Senhor
se ele ou os país dele haviam pecado, de modo a explicar a
cegueira em foco; Jesús entáo dissipou o erro comum segundo
o qual toda doenca era conseqüéncia de um pecado pessoal ou
da familia do enfermo; cf. Jo 9,1-3. Ora Cristo, que em tal caso
assim procedeu, nao teria confirmado sistemáticamente urna
crenca popular errónea concernente á possessáo diabólica.

b) Mais aínda: quando os fariseus acusaram o Senhor


de expulsar demonios em nome de Beelzebul, Jesús, longe de
replicar que a crenca em exorcismos era coisa vá ou destituida
de fundamento real, muito ao contrario reivindicou para si o
poder decisivo e absoluto de exorcizar; em suas palavras, nada
transpareceu que fosse atenuacáo do estrito conceito de exor
cismo e, conseqüentemente, de possessáo diabólica (cf. Le
11,17-22; Me 3, 23-27; Mt 12, 25-29).

c) Observe-se também que Jesús procede muito diversa


mente em presenca de um doente e em presenta de um pos
sesso, mesmo quando doentes e possessos apresentam os mes-
mos síntomas : tenha-se em vista, por exemplo, a cura do surdo-
-mudo em Me 7,32-35 e o exorcismo aplicado ao possesso mudo
em Me 9,17-29. Ao doente o Senhor se apresenta como médico
compassivo, que lhe dirige a palavra e pratica gestos simbóli-

— 250 —
POSSESSAO DIABÓLICA? 31

eos sobre o mesmo (coloca-lhe os dedos nos ouvidos e toca a


lingua do enfermo); vejam-se também o caso do cegó de
Betsaida em Me 8,22-26 e o do servo paralítico do centuriáo de
Cafarnaum em Mt 8,5-13. Ao contrario, diante do possesso
Jesús se volta contra um ser malfazejo oculto, que é claramente
designado como causador do estado patológico (cf. Me 9,25s).
Em outros casos de possessáo, Jesús é interrogado pelo Maligno
(cf. Me 1,24; 5,6-8) e finalmente expulsa-o (cf. Me 1,26 ; 5,13).
As vítimas sofrem, pela última vez, toda a furia impotente da-
quele que as possui (cf. Me 1,26; 9,26), mas este tem que ceder
á poderosa e definitiva ordem do Senhor.

Eis por que nao se poderia, sem trair as normas da exe-


gese serena e objetiva, negar a realidade da possessáo diabó
lica nos Evangelhos: «Todas essas afirmacóes dos Evangelhos
tornam impossível ao exegeta, e mesmo ao historiador cons-
ciencioso, por em dúvida a realidade da possessáo diabólica»
(J. B. Bauer, «Dicionário de Teología Bíblica», II, Sao Paulo
1973, verbete «Possessáo», p. 874).

Parece oportuno transcrever também a posigáo de De


Fraine no verbete «Possessos» de «Dicionário Enciclopédico da
Biblia» de A. van den Born, Petrópolis 1971, col. 1204 :

"Os exegetas racionalistas tentaram dar urna explicado natural da


possessSo e dos exorcismos (como histeria ou epilepsia). Contra tal posicSo
estabelecemos o segulnte:

As narrativas evangélicas sobre possessSes e exorcismos nlo sao re


ligiosamente neutras; tém, pelo contrario, um significado Importante na
soterlologla do Novo Testamento, conforme o próprio Jesús Indica na perl-
cope sobre Beelzebu (Mt 12,22-30). Acusado de magia, cono se expulsasse
os espfrltos maus por urna allanga com Satanás (cf. também Jo 8,48; 10,20),
Jesús declara que os espfritos maus formam um Reino organizado sob
Satanás, contra Deus, mas que na sua pessoa apareceu o Reino de Deus.
Ele é mais poderoso do que Satanás e pSe termo a seu dominio Impertur-
bado. As expulsfies de demonios Inauguran), portante, o triunfo de Jesús
sobre o 'Principe deste mundo'. Essas idéias pertencem, como hoje é uní-
versalmente admitido, ás carnadas mals antigás da tradigio sinótica".

É de grande peso também o testemunho do teólogo alemáo


Michael Schmaus, que em 1969 publicou um compendio de
teología sistemática intitulado «Der Glaube der Kirche» (A fé
da Igreja) em dois volumes. Nesta notável obra, lé-se o se-
guinte:

"Alguns quiseram entender o comportamento de Cristo (exorcfsta)


como adaptacio ás opinioes do povo ou como sinal de falta de conhecl-
mentos médicos. Na verdade, a possessSo diabólica em muitos casos se

— 251 —
32 «tPERGUNTE E RESPONDEREMOS» 174/1974

manifesta como certas doencas. Nio é posslvel constatar com certeza a


possessáo apenas mediante recurso a criterios naturafs. Todavía, para o
fiel cristáo, Cristo é o ponto de referencia do seu modo de pensar e jutgar.
Por muito estranhos que, á primeira vista, Ihe paregam os exorcismos, o
cristáo submete seu jufzo ao jufzo de Cristo, que é o fundamento do seu
modo sobrenatural de ser, pensar e vlver... Está fora de propósito tentar
entender o comportamento de Jesús como acomodacáo á mitología dos
demonios da época, pois a luta contra o demonio está Intimamente entrela
zada com a missao de Jesús. Cristo afirma freqüentemente que ele velo
nao apenas ensinar uma nova doutrina, mostrar um caminho, trazer nova
vida, mas veio também quebrar uma Potencia pessoal má, que é contraria'
a Deus. Nao se deve esquecer que Jesús nSo apllcou prátlcas de magia,
mas imperou ao Maligno com urnas simples palavras" (vol. I, 1a. ed., p. 428).

5. Observe-se aínda o seguinte: ainda que num ou noutro


caso o Evangelho apresentasse fenómenos psicopatológicos
como sendo de possessáo diabólica, justificar-se-ia tal lingua-
gem pelo fato de que, conforme as Escrituras, a morte e seus
precursores (doengas, sofrimentos, miserias...) entraram no
mundo em conseqüéncia do primeiro pecado, instigado por
Satanás. A realidade do homem de hoje, sujeito á dor e á morte,
nao é simplesmente uma realidade natural ou biológica, segundo
a Biblia, mas tem um fundo religioso, em que Satanás é ator
importante. .

O fato, assim atestado pelo Evangelho, reproduziu-se no


decorrer dos sáculos, embora militas vezes os homens tenham
com demasiada facilidade admitido a possessáo diabólica. Bons
documentamos sobre a possessáo no decorrer da historia da
Igreja encontram-se em livros de renome tais como : «Satán.
Études Carmélitaines», Paris 1948 ; Zsolt Aradi, «O livro dos
milagres», Sao Paulo 1967.

Pergunta-se agora:

2. Como reconhecer a possessáo diabólica ?

1. Os criterios que servem ás autoridades competentes


para reconhecer a possessáo diabólica, sao, sem dúvida, severos.
A fé crista nao é propensa a admitir a intervencáo de forgas
ocultas e estranhas todas as vezes que um fato surpreendente
chame a atengáo do público. A Igreja só admite a hipótese de
agáo preternatural ou sobrenatural, caso nao haja explicacjio
natural possível para o fenómeno analisádo; as manifestacóes
de telepatía, clarividencia, percepgáo extra-sensorial, desdobra-
mento da personalidade, que até o presente sáculo eram tidas
como efeitos de espíritos superiores ao homem e, por conse-
guinte, como sinais de possessáo diabólica, sao hoje em dia

— 252 —
POSSESSAO DIABÓLICA? 33

consideradas como fenómenos meramente naturais, estudados


pela parapsicología; nao podem, pois, ser aduzidas como indi
cios de agáo demoníaca num paciente.

Ern geral, a Igreja recomenda aos sacerdotes, «nao creiam


com facilidade que alguém esteja possuido pelo demonio, mas
levem devidamente em conta os sinais pelos quais o possesso
se distingue dos que sofrem de... alguma doenca» (Ritual Ro
mano, «De exorcizandis a daemonio» n' 3). Em presenga de um
pretenso possesso, portanto, o cristáo •aplicará o chamado «prin
cipio de economía» (economía de explicagóes preternaturais),
isto é, primeiramente procurará elucidar o caso segundo os
mais modernos conhecimentos da psicología e da medicina, pro
porcionando ao paciente o tratamento que estas ciencias lhe
possam eventualmente indicar. Somente se tal terapéutica se
mostrar de todo vá, será plausivel psnsar em intervencáo pre
ternatural. E, para que se possa falar propriamente de posses-
sáo diabólica, tornar-se-á necessário outrossim que o paciente
dé sinais de evidente revolta contra Deus ou de impiedade,
imoraüdade, falsas arengas, etc. Ás vezes, dizem os teólogos,
sao somente estes sinais de oposigáo a Deus que caracterizam
o estado de possessáo diabólica; os síntomas concomitantes de
neurastenia podem nao se diferenciar, em absoluto, dos que
acompanham a epilepsia ou a histeria. Verifica-se, pois, que há
estados patológicos (histéricos, epilépticos, neuróticos...) cau
sados por possessáo diabólica, assim como há os que nada tém
que ver com tal intervencáo do Maligno: por vezes é difícil, ¡a
primeira vista, distinguir entre uns e outros. O demonio parece
mesmo servir-se de certas propensóes patológicas da vítima
para manifestar a sua presenca no corpo da mesma.
A propósito, citamos o testemunho do famoso médico fran
cés Jean Lhermitte, membro da Academia Nacional de Medi
cina de Franga, o qual se especializou no diagnóstico de verda-
deiros e falsos possessos :
"O Maligno pode, com a permissSo de Deus, aproveltar-se da desor-
dem que urna doenca mental tenha introduzldo no composto humano, para
provocar ou Intensificar urna perturbacSo funcional, perturbacSo que assim
vem a ser síntoma da presenca do Maligno no corpo do paciente.
Disto se segué, segundo a teologia católica, que... possessáo dia
bólica é quase necessarlamente .. .acompanhada de disturbios mentáis e
nervosos, que a influencia do espirito mau intensifica ou ás vezes mesmo
chega a produzir diretamento.
O médico que queira ser completo em sua profissáo, nSo pode excluir
de antemSo a possibilidade de urna causa transcendente na producSo de
certas psiconeuroses cuja origem natural escape ao estudioso" ("Vrals et
faux possédés". Paris 1956, p. 31).

— 253 —
34 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 174/1974

Muito semelhante a esse é o depoimento de Zsolt Aradi,


estudioso húngaro que se consagrou a tais assuntos :

"Quem é realmente possesso, aprésenla tais deficiencias psicológicas


e somáticas que o demonio se aprovelta délas com facllldade... Em outras
palavras: do caso de psiquiatría ao de verdadeira possessáo, pode nSo
haver mais do que um passo de distancia. Urna pessoa obcecada pelo iso-
lamento, pelo complexo de culpa, pela soberba ou pelo complexo de Infe
rior¡dade. .. pode ser fácilmente levada ao estado de possessfio almejado
pela malicia do demonio (a pessoa aflita, poróm, nño chegará a tal estado,
ser consultar o sacerdote e o' médico)" ("El libro de los Milagros", p. 73s).

Nao obstante a intima associagáo de doenga e possessáo,


o Ritual proibe aos sacerdotes, receitem ou apliquem medica
mentos ou drogas farmacéuticas a quem se aprésente para o
exorcismo ; o uso de remedios naturais ficará em tais casos
estntamente reservado aos cuidados dos médicos, a fim de que
se evite todo aspecto de «curandeirismo religioso» na Igreja:
«Caveat exorcista ne ullam medicinam infirmo vel obsesso
praebeat aut suadeat, sed hanc curam medicis relinquat» (Ri
tual Romano, «De exorcizandis a daemonio»).

Ainda urna advertencia : afirmam os teólogos que nao po-


dem, sem mais, ser considerados casos de possessáo diabólica
as situagóes de obsessáo, impulsionamento ou inibigáo que con-
trariam o temperamento habitual do paciente, embora este
esteja convencido de ser vítima de forga estranha e maligna.

Há, por exemplo, pessoas que, em teoría, repudiam veemen-


temente atos desonestos, mas se entregam a eles com sur-
preendente facilidade, como se fossem movidas por cegó poder
extrínseco. Outras pessoas dizem ter imenso desejo de orar,
mas, ao entrarem numa igreja, sentem misteriosa angustia;
as pernas Ihes desfalecem, experimentam vertigem, os labios
lhes ficam cerrados, etc. Basta que se queiram recolher para
ser assaltadas pelos pensamentos mais obscenos a respeito de
Deus, de Cristo, da Vireem SS., ou para que sejam impelidas a
negar proposigóes de fé e blasfemar, etc.; ao procuraran a
S. Comurrháo, a garganta se lhes fecha e nao podem engolir...
Sao, em suma, situagóes em que a pessoa age como que irre-
sistivelmente em desacordó com o que desejaria.

Diante desses casos, o vulgo muitas vezes eré que o demo


nio está de posse do paciente, quando na verdade nao há ele
mento algum preternatural, mas apenas funcionamento psico
lógico anormal, que pode ser saneado mediante psicoterapia
congrua, sem recurso a exorcismo.

— 254 —
POSSESSAO DIABÓLICA? 35

Após quanto acabamos de observar, entende-se que a Igreja


tenha repetidas vezes no decorrer da historia admoestado os
cristáos a nao darem fácil crédito a apregoados casos de pos-
sessáo.

A título de ilustragáo, aínda vai aquí citada urna exortagáo


do Concilio regional reunido em Reims no ano de 1583 :

"Antes que o sacerdote empreenda algum exorcismo, deve diligente


mente Informar-se a respeito da vida do paciente, da sua condlgáo, da sua
fama, da sua saúde e de outras circunstancias. Oeve deliberar a respeito
com pessoas sabias, prudentes e de alvitre sensato, pois muitas vezes quem
é demasiado crédulo se engaña e nSo raro pessoas melancólicas, lunáticas
ou dadas á bruxaria iludem o exorcista, dizendo que estáo possessas e
atormentadas pelo demonio. Na verdade, tais pacientes mais preclsam dos
remedios do médico do que do ministerio dos exorcistas" (documento citado
por F. X. Maquart, em "Satán" p. 330).

Ainda nos últimos tempos, ou seja, em 1953, a sabedoria


da S. Igreja se reafirmava pela palavra do Arcebispo Mons.
Afonso Carinci, entáo Secretario da S. Congregagáo dos Ritos :

"Mullos católicos Julgam servir aos Interesses de Deus e da Igreja,


uns negando o sobrenatural, outros atribuindo quase todos os fenómenos
a urna acSo sobrenatural.

A Igreja, sociedade sobrenatural, admite necessariamente a possibill-


dade e a existencia de fatos sobrenaturais, mas Ela exige, para os mesmos,
provas seguras, que palrem ácima de qualquer dúvida. Ela quer a verdade,
nao a probabilidade, por maior que esta seja.

... A Igreja é amiga da Verdade; recorre a todos os melos para


chegar a ela, e nao tem escrúpulos em nSo admitir como milagre um fato
que dé ocaslao á mínima suspeita de ter sido produzldo por um agente
natural" (transcrito de "La Documentation Cathollque" t. LVI, 7/VI/1959.
col. 718).

Estas declarares diferencian! nítidamente o pensamento


católico do modo de pensar mítico, simplório e obscurantista.
Se a Igreja admite a possessáo diabólica em casos seriamente
investigados, Ela só o faz porque julga que a Verdade do Evan-
gelho a leva a isso.

3. Por que a possessáo diabólica ?

Quanto ao motivo pelo qual Deus permite a possessáo dia


bólica, ensina S. Boaventura que o Senhor a permite «ora para
manifestar a sua gloria (obrigando o demonio, pela boca do
possesso, a confessar, por exemplo, a Divindade de Cristo), ora

— 255 —
36 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 174/1974

para punir o pecado, ora para corrigir o pecador, ora para nos
instruir. Mas qual seja precisamente a causa por que Deus deixa
o demonio agir, é coisa que escapa & sagacidade humana ; os
juízos de Deus nos ficam velados. O que há de certo, porém, é
que nao sao injustos» (In II Sent, dist. Vm, part. II, qu. 1,
art. unic).

Muito sabia é a advertencia final do S. Doutor: desista o


homem de sondar as causas precisas dos casos reais de posses-
sáo diabólica; baste-lhe saber que o Pai do céu nao comete
injustica ao dispor os caminhos dos homens. O cristáo tem cer
teza de que nada pode prevalecer sobre um coragáo sincera
mente contrito e humilde a clamar pela misericordia do Pai.

Em conclusa©, diremos : dentro das reservas que a pru


dencia impóe, a S. Igreja admite casos de possessáo diabólica,
os quais em geral ocorrem associados a doencas nervosas mais
ou menos declaradas. A mesma S. Igreja reconhece que, em
épocas passadas, houve quem, com demasiada facilidade, ape-
lasse para intervencóes demoniacas a fim de explicar fenóme
nos extraordinarios (tenham-se em vista principalmente as
«historias de bruxas», muito em voga nos fins da Idade Media).
Em nossos dias o demonio nao é menos ativo no mundo do
que outrora ; somente sua agáo é mais dissimulada... Um de
seus maiores triunfos é justamente o de fazer crer que ele
nao existe; em conseqüincia, ele age de maneira mais livre e
mais natural!
Estas reflexóes levam-nos a ver que os fiéis cristáos nao
se devem preocupar tanto com manifestagóes extraordinarias
do psiquismo humano, como se tivessem caráter sobrenatural
ou teológico; geralmente tais manifestagóes sao fenómenos pa-
rapsicológicos ou psicopatológicos. O que ao cristáo deve im
portar, é o curso cotidiano da vida pessoal e social em nossos
dias; certas iniciativas e realizagóes que se váo tornando cada
vez mais naturais, tém, na verdade, um cunho satánico ou dia
bólico: tenham-se em vista, por exemp!o, a tendencia a relati-
vizar e mesmo confundir o bem e o mal, a honestidade e a
desonestidade, o respeito e o deboche; o processo de lavagem
de cránio, os regimes dos campos de concentra^áo, o desafio
do homem a Deus e aos valores mais arraigados na natureza
do homem (familia, fidelidade conjugal, amor entre pais e
filhos, etc.). Se a onda de satanismo que hoje atormenta muitas
pessoas, tivesse por efeito alertar os cristáos para a necessidade
de maior vigilancia no setor da moral e dos bons costumes,
essa onda seria um mal que teria redundado para o bem !

— 256 —
POSSESSAO DIABÓLICA? 37

Bibliografía:

J. H. Bauer, "DIcionárlo de Teología Bíblica" II. SSo Paulo 1973, ver-


beta "Possessao", pp. 873-876

A. van den Born, "DIcionárlo Enciclopédico da Biblia". Petrópolls 1971,


verbete "Possessos", cois. 1203s.

X. Léon-Dufour, "Vocabulario de Teología Bíblica". Petrópolls 1972,


verbete "Demonios", pp. 209-212.

Varios, "Satán. Études Carmélitalnes". París 1948.

Z. Arad!, "O livro dos mllagres". Sao Paulo 1967.

J. Lhermltte, "Vrais et faux possédés". París 1956.

M. Schmaus, "Der Glaube der Klrche". Band I. Münshen 19691.


pp. 422-41.

Revista "Realidade", feverelro 1974, pp. 42-45 (depoimentos do Ir.


José e do P. Osear Quevedo).

«Que as fórmulas gordas nao nos engonetn ! É fácil


dizer, por exemplo: Caridade para com os que erram, e
nao para com o erro. Isto seria evidente se apenas hou-
vesse erros desencamadbs. Mas o erro está mesclado de
verdades. O erro só é poderoso por causa da vertkide que
nele se encentra. E reciprocamente a verdade só é deficiente
e estéril por causa dos resquicios do erro com que ela se
estorva e de que nao soube despojar-se.

... Irrrpóe-se, pois, dialogar com o erro concreto, se


parar as verdades que ele contém (como luzes e armadilhas)
do veneno que impede estas verdades de desabrocharen!.

Mas, em contrapartida, é preciso dialogar com a ver


dade concreta que trazemos, purificá-la cada vez mais, por
um trabalho doloroso, dos erros ocultos que a paralisam.»

(Jean Guitton, «Diálogos com Paulo VI», p. 207)

— 257 —
"Cruz dos intérpretes":

os porcos possessos precipitados no mar


(m< 5,1-20)

Em sfntese: O episodio dos porcos precipitados no mar (Me 5,1-20;


Mt 8, 28-34; Le 8,26-39) é suscetivel de varias interpretares:

— a literal, que nSo vé problema em aceitar a descricáo como a


propoe o Evangelho;

— a simbolista, que admite a possibiiidade de que a perda dos porcos


6¡mbolize a mina do demonio em vlrtude da acáo missionária de Jesús; os
porcos, porém, seriam mera imagem literaria no caso;

— a semt-histói lea, que admite tenha Jesús realmente tratado com


urna manada de porcos; todavía os Evangelistas haveriam ornamentado o
episodio a fim de que o leitor compreenda que Jesús velo, antes do mais,
desinstalar o demonio e Infligir-lhe a derrota definitiva;

— a psicoclnética, que nega a possessSo diabólica e admite tenha


Jesús curado um homem de Gerasa. Este, ao recuperar a saúde, terá emi
tido torgas ou energías que assustaram os porcos e teráo ocasionado a
precipitado caótica dos mesmos no mar.

Quaiquer das tres prlmelras interpretares é tranquilamente compa-


tível com a fé católica.

Comentario : O tema «possessáo diabólica» tem estado em


foco nos últimos tempos, principalmente através de romances
e filmes que vém suscitando comentarios sobre o assunto. De
modo especial nos debates respectivos vem á baila o caso do
possesso de Gerasa e da manada de porcos que, impelida pelos
espiritos maus, se precipitou no mar (Me 5,1-20; Mt 8,28-34;
Le 8, 26-39). O episodio causa dificuldades a quem o queira
compreender, parecendo a muitos inverossimil. Eis por que pro
curaremos estudá-lo ñas páginas que se seguem, a fim de elu
cidar as interrogagóes que ele deixa ao leitor.

Para facilitar o estudo da passagem bíblica, transcrevemos


o texto do Evangelho segundo a recensáo de Me 5,1-20, que
é a mais minuciosa :

— 258 —
OS PORCOS DE GERASA '_ 39

Me 5, 1 "Chegaram ao outro lado do mar, ao territorio dos gerasenos.


2 Ao desear da barca, velo logo ao seu encontró, salndo dos sepulcros, um
homem possesso do espirito imundo. 3 Esse homem morava ñas entradas
dos sepulcros, e já ninguém podía atá-lo nem mesmo com cadelas. 4 Mul
tas vezes fora preso com grilhSes e cadetas, mas romperá as cadeias e
despedagara os grilhSes, e ninguém o podia subjugar. 5 E sempre, día e
nolte, andava pelos sepulcros e pelos montes, gritando e ferlndo-se com
pedras.

6 Quando, porém, viu Jesús de longe, correu, prostrou-se diante dele,


7 e, gritando em altos brados, disse: 'Por que te preocupas comlgo, Jesús,
Filho do Deus altlsslmo? Eu te conjuro, por Deus, que nao me atormentes'.
8 Jesús, com efeito, Ihe dissera: 'Sai desse homem, espirito imundo'.

9 Perguntou-lhe entSo Jesús: 'Qual é o teu nome ?'

'Meu ,iome ó Legiáo, respondeu, porque somos muitos'. 10 E implo-


rava-lhe com instancia que nao os expulsasse daquela regiao.

11 Eslava al i, junto ao monte, pastando urna grande manada de por-


cos. 12 Os esplrltos comegaram a suplicar-lhe dizendo: 'Manda-nos ir
para os porcos, para entrarmos neles'. 13 Jesús o permitiu. Os esplrltos
¡mundos sairam do possesso e entraram nos porcos. Nisto a manada intelra
precipitou-se impetuosamente no mar. Compunha-se de cerca de dois mil
porcos e afogaram-se todos no mar.

14 Aqueles que os apascentavam fugiram e espalharam a noticia pela


cidade e pelos campos. E o povo saiu para ver o que havia acontecido.
15 Aproximaram-se de Jesús e viram ali assentado, vestido e em perfelto
juizo, o homem possesso que estivera atormentado pela LegiSo. Enche-
ram-se de espanto. 16 Os que haviam presenciado o fato, contaram-lhes
como se dera a cura do possesso e o que acontecerá com os porcos.
17 Ouvindo isto, comegaram a pedir-lhe que se afastasse do territorio deles.

18 Quando Jesús subía á barca, o homem que havia sido libertado do


demonio comegou a pedir-lhe que Ihe desse permissSo de ir com ele. 19 Je
sús nao consentiu, mas disse-lhe: 'Val para a tua casa, para junto dos teus,
e anuncia-lhes tudo o que o Senhor fez em teu beneficio e como se com-
padeceu de ti'.

20 Ele se retirou e comegou a publicar no territorio da Decapóle tudo


o que Jesús me havia feito. E todos se admiravam".

Antes do mais, trataremos de reconstituir o cenário des


crito, pondo em relevo alguns tragos marcantes do mesmo.
Depois passarembs a reflexóes sobre a interpretagáo que o
texto possa merecer.

1. Tópicos salientes do episodio

1. Jesús, certa vez, tendo atravessado o mar ou lago de


Tiberíades ou Genesaré, foi a regiáo dos Gerasenos. Dispen-

— 259 —
40 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS> 174/1974

sando-nos de discutir as questóes que tal nome propóe aos crí


ticos, diremos que com probabilidade este territorio ficava a
SE do citado lago. O Senhor terá desembarcado na localidade
hoje chamada Koursi (em grego Ghorsis), a qual corresponde
á cidade mencionada em Mt 8,33? Me 5,14; Le 8,34; ao sul de
Koursi ficava o promontorio de Moqa' a'dla, largo de 30 m
apenas (há vinte séculos devia ser ainda mais estreito), donde
os porcos se teráo precipitado ñas aguas, conforme Mt 8,32;
Me 5,13; Le 8,33.

Já esta reconstituicáo do ambiente geográfico elucida um


dos pontos obscuros do episodio. Costuma-se indagar como pode
Jesús defrontar-se com urna manada de 2.000 porcos, quando
o consumo de tais animáis era proibido aos judeus pela Lei
de Moisés. — Leve-se em conta que a regiáo de Gerasa era habi
tada em grande maioria por pagaos; a cidade de Gadara, que
ai ficava, foi o bergo de varios homens ilustres, poetas ou filó
sofos, todos pagaos. Flávio José narra que, ao se revoltarem
contra os romanos no séc. I d. C, os judeus, sob a chefia de
Jesús Justo de Tiberiades, devastaram os territorios de Gadara
e Hipos; em conseqüéncia, os habitantes destas duas cidades
se vingaram, condenando á morte ou ao cárcere os judeus que
nelas moravam (Bel. jud. H XVEI 1 e 5). As circunstancias
etnográficas, portante, explicam muito bem a criacáo de por
cos em Gadara; os numerosos habitantes pagaos da regiáo nao
estavam sujeitos as proibigóes da Lei de Moisés.

2. Eis que, ao desembarcar, Jesús viu caminhar ao seu


encontró dois possessos (segundo S. Mateus) ou um só (se
gundo S. Marcos e S. Lucas).

A divergencia nao causa dificuldades a quem tem presente


a distineáo, observada pelos autores semitas, entre o uso pre-
cisivo e o uso exclusivo dos números. Na realidade, admitam-se
dois possessos, como refere S. Mateus; os evangelistas Marcos
e Lucas, ao falarem de um só, prescindiram ou abstrairam do
outro, mas nao o excluiram nem negaram (prescindirán!, por
que provavelmente um só demoníaco chamava de fato a aten-
cáo; ademáis bastava mencionar urna só das duas vítimas para
que a narrativa fosse testemunho do poder taumaturgo de
Cristo).

3. O demoníaco mencionado por Marcos habitava em


sepulcros ou cavidades rochosas habitualmente reservadas aos
mortos (na Palestina as sepulturas eram, sim, abertas artifi-

— 260 —
OS PORCOS DE GERASA 41

cialmente na rocha, quando nao se podiam aproveitar grutas


naturais para colocar os cadáveres; eram táo espagosas que
sem dificuldade podiam servir de mansáo a um homem). A
permanencia dos possessos em tais lugares entende-se pelo fato
de que se haviam tornado indesejáveis aos concidadáos; nao
podiam viver senáo em lugares desertos, dada a agressividade
de suas atitudes no convivio social. Nem causará estranheza
a circunstancia de que Satanás, o introdutor da morte neste
mundo, levasse suas vitimas para a regiáo dos mortos.

As manifestagóes de furor que Sao Marcos atribuí ao pos-


sesso, explicam-se bem á luz de quanto foi dito atrás: poderáo
ser tidas como reacóes doentias, neurasténicas; nao resta dú-
vida, porém, de que Satanás as fomentava. Sim; a possessáo
diabólica no caso é evidente, pois Jesús, ao ver o infeliz, man-
dou imediatamente que os espíritos impuros o abandonassem.
Ao que estes replicaram (segundo Mateos): «Por que te ocupas
conosco, Filho de Deus Altissimo? Vieste antes do tempo ator
mentar-nos?» Dotados de ciencia penetrante, os demonios ha
viam reconhecido em Jesús um Mensageiro Divino, cuja vinda
possivelmente acarretaria o juizo final da historia.

O título «Filho de Deus Altissimo», na linguagem usual de


Israel aqui suposta, nao era propriamente um título do Mes-
sias; muito menos significava, ocorrendo nesta passagem do
Evangelho, que o demonio tivesse conhecimento do misterio
da Encarnagáo. No caso apenas servia para exprimir o receio
que os maus espiritos tinham, de estar diante de urna hora
decisiva para a sua sorte : nao há dúvida, eles sabiam, e sabem,
que até o juízo final a Providencia Divina lhes concede tentar
os homens sobre a térra, a fim de que estes comprovem sua
fidelidade a Deus ; nao ignoravam, porém. nem ignoram, que
no fim dos tempos os anjos maus seráo definitivamente entre
gues a sua sorte no inferno; cf. Jud 6 (é o inferno que eles
designam pelo nome de «abismo» em Le 8,31). Enquanto ten-
tam os homens sujeitos á provagáo desta vida, os demonios nao
deixam de experimentar em seu íntimo o tormento do inferno
(que é, antes do mais, o tormento de haver abandonado a Deus);
contudo ainda se «consolam» mediante o exercício de suas arti-
manhas contra os mortais. Era a cessagáo deste consolo que
os demonios gerasenos temiam ao verem Jesús aproximar-se.

4. O Senhor perguntou entáo aos maus espíritos qual o


seu nome, nao porque o conhecimento do nome fosse necessário
para realizar o exorcismo, mas porque era útil aos Apostólos

— 261 —
42 -iPERGUNTE E RESPONDEREMOS» 174/1974

saberem exatamente o alcance do feito de Jesús. Os demonios


responderam que constituiam urna legiáo. — A Legiáo Romana
nos tempos de Augusto contava 6.826 homens (6.100 infantes
e 726 cavaleiros). Está claro que o vocábulo, no episodio do
Evangelho aquí analisado, significa apenas que grande era o
número dos espíritos que infestavam os dois possessos.

Os demonios rogaram entáo ao Senhor que os deixasse


entrar numa manada de 2.000 porcos situada ñas cercanías.
Estranho pedido !... Entende-se, porém, tal súplica : os maus
espíritos sabiam que eátavam á mercé de Cristo e que, por
conseguinte, deveriam sair de sua vítima humana, como Ihes
mandara Jesús; contudo, a fim de nao abandonarem a térra,
visando prosseguir mais tarde sua agáo nefasta, desejavam
encontrar abrigo ao menos em animáis irracionais da regiáo.
Possivelmente também julgavam que, prejudicando o gado, tor-
nariam os ánimos dos gerasenos infensos a Jesús.

O Senhor concedeu aos malvados o que desejavam. Em


conseqüéncia, os suínos entraram, por sua vez, em estado de
convulsáo diabólica, e convulsáo táo veemente que, já nao po-
dendo controlar os seus passos, se precipitaran! no lago. A
perda, que provavelmente nao estava ñas intenc.5es dos espíri
tos maus, causou notável prejuizo aos habitantes da regiáo...
Quanto ao possesso, referem Marcos e Lucas que ele ¡mediata
mente se viu livre, em plena posse de suas faculdades, sen-
tando-se como discípulo aos pés de Jesús.

Pergunta-se agora: que sentido dar a táo singular episodio?

2. As interpreta;óes do texto

Recensearemos abaixo alguns modos de entender o episo


dio de Me 5,1-20, propostos por autores contemporáneos.

2.1. A interpretacao literal

Há autores que, apesar da estranheza da narracáo, a acei-


tam tal como a propóe a letra do Evangelho. Embora singular,
tal episodio nao é impossível; dai o entendimento literal, se
gundo tais autores.

Apenas perguntam os adeptos dessa exegese : por que


motivo terá Jesús permitido o afogamento dos animáis ?

— 262 —
OS PORCOS DE GERASA 43

— Esta questáo, que preocupa o moderno leitor do Evan-


gelho, parece nao ter tido importancia aos olhos dos Evange
listas. Com efeito, nunhum destes experimentou a necessidade
de explicar e justificar o procedimento de Jesús; parecem só
ter focalizado os beneficios daí decorrentes para os habitantes
do país, os quais foram destarte libertados da tremenda sanha
diabólica. Observam alguns comentadores que nem os mora
dores do territorio parecem ter ressentido mágoa contra o
Senhor Jesús; em verdade, o texto sagrado nao refere queixa
alguma dos mesmos contra Cristo; apenas narra que, chama
dos a tomar conhecimento do ocorrido, se surpreenderam por
verem o antigo possesso sentado aos pés de Jesús a ouvir o
Divino Mestre em plena compostura. O contraste entre o que
o homem fora e o que ele era, os terá impressionado: pagaos
em maioria como eram, devem ter percebido que estavam em
presenca de urna forca sobrenatural; nao sabendo donde vinha
nem de quem era, foram conseqüentemente acometidos de te
mor (nao, porém, de furia nem odio); é, sim, espontáneo ao
homem conceber timidez todas as vezes que se sinta em pre
senca do Divino. Atemorizados em sua mentalidade simples,
pediram entáo ao taumaturgo desconhecido (Jesús) que se
retirasse da regiáo (á semelhanca, alias, do que fez Sao Pedro
ao tomar consciéncia de que estava em presenca do Filho de
Deus, por ocasiáo da pesca milagrosa ; cf. Le 5, 8-10).

O prejuízo material perde o seu significado diante dos be


neficios espirituais que o episodio acarretou tanto para os ge-
rasenos como para os Apostólos. É evidente que o Senhor Jesús
podia ter realizado o exorcismo sem permitir a perda dos por-
cos. Nao toca a nos, porém, pobres criaturas, pedir-Lhe contas
de seus gestos; nem Ele tem obrigacáo de no-las prestar. O
que podemos dizer com certeza, é que, em toda e qualquer hipó-
tese, a conduta de Cristo nao foi injusta; o Senhor procedeu
conforme a sua sabedoria e santidade, manifestando-nos, da
maneira que Ele julgou oportuna, seu absoluto dominio sobre
todas as criaturas : sobre os irracionais, sobre as almas e os
corpos humanos, até sobre os demonios que os homens tanto
costumam temer} Os maus espirites nada podem sem a per-
missáo de Deus...

2.2. A interpretado simbolista

Outros exegetas admitem a possessáo diabólica do homem


de Gerasa em Me 5,ls. Todavía julgam que o exorcismo desse

— 263 —
44 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 174/1974

demoniaco é descrito de maneira «muito difusa e plástica» K


A narracáo contém, sem dúvida, um núcleo histórico e con
creto; mas é muito difícil reconstituir ou deduzir do texto do
Evangelho esse núcleo histórico e concreto. O Evangelho, ao
descrever os pormenores do exorcismo, tinha em mira «um in
tento teológico-qnerigmático extremamente forte», isto é, visava
a facilitar aos leitores a compreensáo do sentido salvífico que
o episodio tem; quería «por em viva luz a superioridade sobe
rana de Cristo, mesmo sobre táo excepcional aglomeracáo de
foreas demoniacas». Nesta linha de pensamento, a mencáo dos
porcos, animáis impuros afogados no mar, teria valor mera
mente simbólico; ela apenas ilustraría de maneira dramática a
derrota dos espíritos impuros ou dos demonios — derrota con-
seqüente á vinda de Cristo e á sua obra sobre a térra. O estilo
seria tínico da catequese popular, em conformidade com a
mentalidade judeo-cristá; expressarra a definitiva Vitoria de
Cristo sobre os demonios.

Tal maneira de entender o episodio nao sofre objecio por


parte da fé católica. Esta admite que os Evangelistas (e os
autores sagrados em geral) se tenham servido dos géneros lite
rarios e das formas de estilo habituáis na catequese e na his
toriografía da sua época.

Ademáis, sabe-se que os Evangelhos sao livros de historia


posta a servico da catequese; contém, sem dúvida, historia real;
esta, porém, é formulada de tal modo que os leitores compreen-
dam bem o valor religioso e salvífico que os episodios narrados
apresentam para o cristáo. Os antigos leitores nao se ensana-
vam ao se defrontarem com tais géneros literarios e artificios
de estilo; entendiam-nos devidamente, porque eram usuais (ao
passo que em nossos dias já nao sao costumeiros e, por isto,
podem deixar o leitor moderno perplexo ou sujeito á incom-
preensáo).

2.3. A interpretado semi-mstórica

Para outro grupo de autores, a possessáo dos porcos de


Gerasa descrita em Me 5 deve corresponder a um núcleo his
tórico, mas esse núcleo é descrito de maneira a por em realce

i Temos em vista aqui, de modo especial, Alfred Lapple no seu livro


"A mensagem dos Evangelhos hoje". Sao Paulo 1971, p. 248. é desta fonte
que tiramos as frases entre aspas do texto ácima.

— 264 —
OS PORCOS DE GERASA 45

a mensagem proclamada por Cristo: «Nada impede que se


possa admitir um quadro parabólico, um singular anuncio cris-
tológico, mas nao há razóes para excluir inteiramente a objeti-
vidade (do episodio dos porcos)» (O. da Spinetoli, «Matteo>
Assis2 1973, p. 237).l

O fato de que Jesús, segundo os Evangelistas, haja permi


tido que os porcos se precipitassem no mar, recorda certas pas-
sagens bíblicas relativas á queda de Satanás e dos adversarios
do Reino de Deus :

— Assim em Apc 12, 4, Satanás cai do céu amistando


consigo urna terca parte das estrelas (o que significa a derrota
do Maligno por obra de Cristo).

— As aguas que se fecham sobre os porcos, a fim de tra-


gá-los, lembram o que se deu com Faraó e seu exército no Mar
Vermelho, conforme Ex 14,28 (Faraó, no caso, significava os
que se opóem á obra de salvagáo suscitada pelo Senhor Deus
na térra).

— O mar, na linguagem dos antigos, é o receptáculo das


forgas malignas; as suas profundidades vém a ser a sede do
demonio. Ora a Biblia usa essa linguagem dos orientáis, sem
porém, adotar a respectiva mitología. Por isto, o texto bíblico
fala de monstros marinhos que habitam ñas aguas profundas
e impetuosas: Leviatá! (cf. Is 27,1; SI 74, 13s), Rahab (Is 30,7;
51, 9s; Jó 9,13; 26,12s). No Apocalipse, o mar, juntamente com
a morte e a mansáo dos mortos, deve desaparecer para dar
lugar & nova criatura (cf. Apc 20,13-21,1).

Quem tem consciéncia dessa linguagem bíblica, verifica o


seguinte: o fato de que os demonios com os porcos, no Evan-
gelho, se predpitam no mar ou no lago, deve ilustrar, aos olhos
do leitor, o fato de que, pela agio de Cristo, as forqas do mal e
da impureza que invadiram a térra (por obra do demonio")
voltam ao mar, que é o seu lugar de origem; sao recolocadas
no Grande Abismo, donde nunca deveriam ter saído. Do episó-

i Seja mencionado outrosslm K. Gatzweiler, "Les réclts de miradas


dans 1'Évanglle selon Matthleu". Gembloux 1972, pp. 209-220.
P. Lemarche nSo se Interessa tanto pelo caráter literal ou simbolista
do episodio de Me 5,1-20, mas desenvolve o significado teotfqico que o
mesmo tem dentro do contexto geral da Biblia. Cf. P. Lemarche, "Le possédé
de Górasa", em "Nouvelle Revue Théologlque" 90 (1968), pp. 581-597.

— 265 —
46 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 174/1974

dio também se depreende que o homem nao é o «habitat» pró-


prio do Maligno. Ademáis, este é utn ser destruidor, que nao
só impelía o possesso a se ferir e machucar, mas também fez
que os porcos se atirassem á morte, precipitando-se no mar.
Tragados pelas aguas, os espirites maus perdem o seu dominio,
o seu campo de agáo, os seus súditos.

É a partir de tais observacóes que, segundo os mencionados


exegetas, se deve depreender o sentido do episodio dos porcos :
anuncia o fim do reino de Satanás e a abertura do reino mes-
siánico, abertura, alias, que se dá em um territorio pagáo
(Gerasa).

Em outros termos ainda : a ida de Jesús ao territorio dos


Gerasenos e a libertacáo do(s) possesso (s) ai ocorrida anun-
ciam antecipadamente a futura evangelizacáo dos pagaos. O
triste estado do(s) possesso (s), descrito táo realísticamente
pelos Evangelistas, sugere as tristes condicóes espirituais em
que se achavam os homens anteriormente á vinda de Cristo
sobre a térra. Assim o episodio de Gerasa, sem perder a rea-
lidade histórica que lhe toca, toma-se altamente profético.

Os gerasenos, assustados pela perda dos porcos, pediram a


Jesús que deixasse o seu territorio. Esta atitude dos habitantes
locáis dissipa qualquer dúvida sobre a reaüdade do milagre feito
por Jesús e sobre as proporgóes do mesmo ; essa atitude supóe
danos reais, assim como o receio de que semelhantes prejuízos
se reproduzissem futuramente. Todavía á recusa dos gerasenos
frente a Jesús talvez se possa atribuir também um significado
teológico. Ela bem pode insinuar que os gerasenos (ou os pa
gaos) ainda nao estavam preparados para receber Jesús. A
hora dos pagaos ainda nao chegara; mas o milagre realizado
por Jesús dá a entender que estava próxima.

A conseqüente partida de Jesús, intimado pelos gerasenos


para deixá-los, manifesta a delicadeza de sentímentos humanos
de Cristo: o Senhor é bondoso, discreto e condescendente.
Aceitó, sem protestar, o pedido da populacáo local, prestes a
se lhe tornar presente em ocasiáo futura mais oportuna. Alias,
é interessante notar que Jesús nao permitiu ao possesso curado
que o acompanhasse para integrar o séquito habitual do Senhor;
nao se deveria crer que tal homem nao estivesse em condicóes
de seguir Jesús; mas Cristo preferiu que permanecesse entre
os pagaos na Decapóle para constituir a base do futuro minis-

— 266 —
OS PORCOS DE GERASA 47

tério de evangelizacáo dos pagaos de Gerasa; tal homem ante-


ciparia, de certo modo, a evangelizagao do mundo nao judeu.

Tal modo de entender o episodio de Gerasa nao é incom-


patível com os principios da fé.

2.4. A interpretado psicocinética

Deixando o setor dos exegetas propriamente ditos para


entrar no dos dentistas, encontramos a explicacáo parapsico-
lógica do episodio de Me 5, 1-20 ; nao se trataría, em absoluto,
de possessáo diabólica. Dever-se-ia, antes, dizer que Jesús en-
controu um doente (dito «possesso») em Gerasa ; curou-o, pois
Jesús era Deus e o podía fazer. Aconteceu, porém, que o en
fermo, ao recuperar a saúde, emitiu energía cinética ou motriz;
esta foi atingir os porcos que, em conseqüéncia, se assustaram;
deixaram-se agitar e convulsionar em pánico, e finalmente se
precipitaram caóticamente ñas aguas do lago (ou mar) de
Genesaré.

— A propósito, observe-se que a explanacáo de um texto


biblico deve, antes do mais, ser feita segundo regras de herme
néutica literaria : a Biblia, sendo um livro divino-humano, deve,
em primeira instancia, ser penetrada através do instrumental
próprio da Biblia e da crítica literaria. As explicacóes deduzidas
da parapsicología e das ciencias naturais podem ter grande
valor na exegese bíblica, mas somente se se enquadram dentro
das conclusóes que a crítica literaria sugere. Ora o recurso k
parapsicología, no caso dos porcos de Gerasa, é gratuito e sem
fundamento; o fenómeno se explica de outro modo, se se leva
em conta o conteúdo literario de Me 5, 1-20 (tenham-se em
vista as eonsideracóes atrás apresentadas). Ademáis quem
queira recorrer á parapsicología, poderá gratuitamente desfigu
rar todos os milagres de Jesús narrados pelo Evangelho, como,
por exemplo, fez Marcos Hochheim no seu livro «Cristo, o
hipnotizador» (cf. PR 134/1971, pp. 75-81).

Ficam, pois, propostas aqui ao exame do leitor as sentencas


mais importantes que se tém proferido últimamente sobre Me
5,1-20. É difícil chegar a maiores precisóes ou determinares.
O fiel católico, porém, nao negará a existencia do demonio nem
a acáo deste sobre os homens (acáo que a Providencia Divina
permite e envolve num sabio plano de santificagáo dos homens).

A bibliografía se acha Indicada no decorrer deste artigo mesmo.

— 267 —
a térra de israel em foco
II. Jerusaiém, a visSo da paz

Deve ser motivo.de profunda alegría para todo homem que


pensa, saber que existe a cidade de Jerusaiém (etimológicamen
te : Visito da Faz) sobre a térra.

Esta cidade já era calorosamente saudada pelos peregrinos


judeus que, provenientes de longe, déla se aproximavam com
a exclamagáo :

"Quanto me alegrel, quando me dlsseram:


'Iremos á Casa do Senhor!'
Aqui estamos, nossos passos se detém
Diante das tu as portas, ó Jerusaiém !"
(SI 121, 1s)

Jerusaiém é a cidade que no séc. XI a. C. Deus escolheu,


em meio ao mundo pagáo, para que ela desse testemunho de
um so Senhor, Criador do céu e da térra, Santo, Providente e
Justo. O único Deus, que falou a Abraáo (séc. XIX a. C.) e
seus desccendentes,... que se manifestou em plenitude por
Jesús Cristo, e que Maomé (séc. VII d. C.) também quis cul-
tuar do seu modo, é hoje adorado conjuntamente em Jerusaiém
por judeus, cristáos e muculmanos. Por conseguinte, é para Je
rusaiém que convergem as tres grandes e únicas confissóes
monoteístas da humanidade: judaismo, Cristianismo e islamis
mo. Vé-se assim como essa cidade se deveria prestar a unir
e reconciliar os homens entre si.

Compreende-se também que Jerusaiém seja a Cidade Santa


por excelencia sobre a térra. Sim; é santa para os judeus, por
que representa para eles a síntese de suas glorias passadas e
de todas as suas esperanzas no futuro. É Santa para os mugul-
manos, que a denominam «El Quds — A Santa». Mas de modo
especial para os cristáos é a Cidade Santa, pois o seu solo foi
irrigado pelo sangue do Salvador. Lá Cristo proferiu as suas
palavras de vida eterna: «Eu sou a luz do mundo» (Jo 8,12),
«Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida» (Jo 14,6). Lá Ele
promulgou o novo mandamento do amor mutuo (cf. Jo 15, 12),
primeiramente vivido pelo próprio Cristo a ponto de dar Ele

— 268 —
JERUSALÉM, A VISAO DE PAZ 49

a sua vida por amigos e inimigos, pregado á cruz do Calvario.


Foi lá também que Ele quis instituir a S. Eucaristía e conhecer
a agonía dos homens, suando sangue no horto das Oliveiras.
Por fím, lá Ele quis ressuscitar e ser glorificado como ho-
mem,... como o Homem Novo, que, após ter experimentado
as nossas miserias, as transfigurou pela vitória final da vida
sobre a morte.

Entende-se por isto que, ininterruptamente desde os albo


res do Cristianismo, os peregrinos tenham acorrido á Cidade
Santa do Evangelho, a partir das mais diversas térras, sofrendo
fadigas e desconforto, enfrentando perigos e desafiando a pró-
pria morte, a fím de pisar o solo que Cristo pisou, oscular a
rocha do Calvario e a pedra do S. Sepulcro.

Compreende-se também que milhares de cavaleiros na


Idade Media tenham dado o seu sangue e a sua vida para liber
tar de dominio estranho o S. Sepulcro do Senhor.

Ainda em nossos dias, aparentemente alheios á fé e ás


expressóes concretas da fé, Jerusalém continua sendo um sinal
eloqüente da presenga de Deus na historia dos homens, contri-
buindo poderosamente para despertar ou avivar a fé amorte
cida de muitos dos seus visitantes. Até a nos, da América La
tina, a quem o mundo oriental é, por sua índole mesma, dis
tante e vago, Jerusalém tem muito a dizer: quem a descobre,
nao pode deixar de se rejubilar profundamente, pois descobre
um céu sempre azul e recebe forte impulso para vivenciar me-
Ihor o S. Evangelho.

Eis por que vamos prosseguindo nossas breves crónicas


concementes á Térra Santa, na esperanga de serem úteis aos
nossos leitores, que talvez venham a conceber o desejo, táo ge-
nuinamente cristáo, de tocar físicamente os lugares que Cristo,
a Virgem SS., os Apostólos e tantos cristáos tocaram com ora-
gáo íntima e amor ardente.

E quem sabe se nao se pode aínda acrescentar: Quem


concebe o desejo..., já se colocou a caminho de o tornar rea-
lidade vivida concretamente!

Estéváo Bettencourt O.S.B.

— 269 —
divorcio em pratica
A título de ilustragáo do Editorial deste fascículo, vai aqui
transcrito o artigo do «Jornal do Brasil» de 15/V/1974, ca-
derno B, p. 1, que traz o titulo «Divorcio».

"No Aeroporto de Las Americas, em Sao Domingos, um


recepcionista sorridente recebe o grupo de senhores america
nos que desee do aviao. Desembaraga-lhes a bagagem e le-
va-os para o El Embajador Hotel, onde os esperam excelentes
apartamentos, drinks e urna refeigao de acordó com os me-
Ihores preceitos da cozinha internacional. No dia seguinte, o
mesmo guia encaminha-os para a grande atragáo turística
local: o Palacio da Justiga. Antes do meio-dia saem dali di
vorciados de suas mulheres que ficaram nos Estados Unidos.
Prego da operagáo : cerca de 500 dólares (Cr$ 3.500,00 apro
ximadamente), mais passagens de aviao e urna diaria de hotel.

Desde 1971, a República Dominicana iigura como um dos


mais importantes centros dos divorcios expressos, urna fama
compartilhada apenas pelo vizinho Haiti, que já em novembro
de 1970 aprovara a legislagáo sobre o divorcio rápido de es-
trangeiros, ocupando o espago que o México deixara vazio
— em 1970, a modificagáo da leí mexicana, exigindo um tempo
mínimo de permanencia de estrangeiros no país para conce-
der-lhes divorcio, acabara com a industria nacional dos des-
casamentos, estabelecida principalmente em Ciudad Juárez.
Papa Doc ¡mediatamente aproveitou aquela fonte de divisas, que
seu filho Baby Doc nao desprezaria; a República Dominicana
seguiu o exemplo, contando de saída com urna boa promogáo
publicitaria — entre os primeiros clientes do divorcio domini
cano figuraram Elliott Gould e Barbara Streisand, que desfize-
ram lá seu casamento.

Mulher faladeira

O divorcio ao estilo Caribe, como é chamado, fica porém


para urna minoría, e tem a desvantagem de nao contar com
ampio reconhecimento legal, inclusive nos Estados Unidos, de
onde provém quase a totalidade da clientela haitiana e domi
nicana. Em quase todos os paises, a maioria dos ¡nteressados
em divorcio tem que se subordinar ás legislagóes nacionais,
que nem sempre facilitam as separagóes definitivas.

— 270 —
DIVORCIO 51

O maior ou menor rigor da lei, as diferengas locáis na


apreciagáo dos casos de divorcio tornam inclusive aleatorio o
confronto de estatísticas. Numa primeira apreciagáo, por exem-
plo as estatfsticas egipcias parecem alarmantes. Segundo di-
vulgou no ano passado o Centro Nacional de Investigag8es
daquele país, houve 700 mil divorcios em 1970, para 325 mil
casamentas. Mas isto decorreria de um rito de divorcio suma-
ríssimo, que dispensa inclusive a homologagáo dos tribunais
e em muitos casos o divorciado ainda ficou com tres muihe
res, pois a lei Ihe permite ter até quatro.

Na Malasia, sob alguns protestos de muiheres de origem


chinesa, foi adotado há dois anos, para pessoas daquela na-
cionalidade, um velho costume chinés que permite a dissolu-
gáo do casamento, por iniciativa do homem, com base em
sete motivos: desrespeito aos pais dele, falar dernais, adul
terio, .ciúmes, roubo, doenga seria e esterilidade. O protesto
contra a medida do Supremo Tribunal da Malasia tinha sua
razáo de ser: na própria China, a famosa Lei dos Sete Moti
vos há muito tempo deixou de vigorar.

De um modo geral, as estatísticas de divorcio crescem


no mundo inteiro, o que as vezes pode ser atribuido á modi-
ftcagáo da lei. O divorcio, ai, representaría em muitos casos
apenas a regularizagáo de uma situagáo de fato. É o caso da
Inglaterra, que no inicio de 1971 modificou sua Iegisiagáo sobre
divorcio, admitindo-o depois de cinco anos de separagáo,
quando antes só o concedia em casos comprovados de adul
terio, crueldade e abandono de lar. Na previsáo de 80 mil
divorcios naquele ano — 15 mil a mais do que no ano ante
rior — muitos incluíam pessoas que estavam conjugalmente
saparadas até por 30 anos, segundo alguns analistas. No ano
passado, houve cerca de 100 mil divorcios na Inglaterra,
número que, em termos absolutos ou comparativos, está longe
das cifras norte-americanas — cerca de 1 milháo 848 mil di
vorcios; a proporgao é de 3,5 divorcios por mil habitantes
contra 1,2 na Inglaterra (dados de 1970).

Os recordistas

Na Franga, a taxa de divorcios tem progredido firme. Se


gundo La Documentation Catholique, de novembro de 1971,
a indicagáo de 679.560 franceses divorciados felfa pelo recen-
seamento de 1968 está longe de corresponder á realidade,

— 271 —
52 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 174/1974

pois em muitos casos os divorciados preferem declarar-se ca


sados ou viúvos. De qualquer forma, os dados oficiáis repre-
sentavam o dobro dos de 1936 (332 mil divorciados), e a qua-
druplicagao do índice de divorcios a partir do inicio do sécuio
(10 mil em 1901, 18 mil na Primeira Guerra Mundial, cerca de
24 mil entre 1923 e 1929, de 26 mil a 27 mil entre 1930 e 1937,
34 mil de 1953 a 1963, e daí em diante cerca de 42 mil). A
percentagem de separagóes, que era de 5,8% entre 1910 e
1913, passou a 8,3% entre 1934 a 1938, a 10,4% de 1953 a
1963, para atingir a media de 11,9 % de 1965 a 1969. A dura-
gáo media do casamento, antes do divorcio, é que variou pouco:
11,8 anos entre 1906-1910 para 12,1 anos no período 1956-1960.
Em compensacio, a faixa de maior índice de dissolucSes, si
tuada nos sete anos de casamento em 1950, caiu para cinco
anos em 1965.

Depois de comparar os índices de divorcio e separacQes


de acordó com as localidades, abuela publicacio conclufa:
"... nos setores onde a prática religiosa é intensa, a separa-
cáo de corpos mostra-se mais freqüente do que o divorcio".

Mas a Franca está longe de ser a recordista européla de


divorcios. Com sua taxa de 0,8 divorcios por mil habitantes
(a da Holanda é de 0,7), nao chega a alcangar a Alemanha
Ocidental, com 1,0; a Inglaterra, com 1,2; a Austria, com 1,4;
e muito menos a Hungría, que ostenta o recordé de 2,2".

Diz-se que a historia é a Mestra da Vida (cf. Cicero). Seja


isto verdade também no tocante ao problema do divorcio !

— 272 —
Pa!avras-desaf¡o de Paúl Valéry, incréu, em seus
"Carnets" :

«SE DEUS EXISTISSE, SE EU PUDESSE CRER QUE ELE


EXISTE, EU SERIA PERPETUAMENTE FELIZ. EU NAO ME PO-
DERIA INTERESSAR POR OUTRA COISA QUE NAO ELE; EU
ME SENTIRÍA CERCADO DE TERNURA E PROTECAO. OS
PRAZERES DO MUNDO NADA SERIAM, A MORTE NADA
SERIA. SE EU SOUBESSE QUE DEUS EXISTE, SE MINHA VIDA
FOSSE APENAS O DIFERIMENTO DO MEU ENCONTRÓ COM
ELE, MESMO QUE ESSA VIDA FOSSE DOLOROSA, ELA
SERIA SUAVE, COMO A LONGA ESPERA DE UMA MULHER
BEM-AMADA, DE QUEM EU ESTARÍA CERTO DE QUE ELA
CHEGARIA. SE DEUS EXISTISSE, PARECE-ME QUE EU SERIA
NATURALMENTE BOM PARA TODOS. . . SE DEUS EXISTISSE,
PARECE-ME QUE AS MINHAS FALTAS SERIAM ABSORVIDAS
NELE E PERDOADAS DESDE QUE EU AS RECONHECESSE
COMO FALTAS... MAS TUDO OCORRE NO MUNDO, E
MESMO ENTRE AQUELES QUE CRÉEM EM DEUS, COMO SE
DEUS NAO EXISTISSE».
CARO AMIGO,

ESTAMOS PENSANDO EM MODIFICAR O


TÍTULO DA NOSSA REVISTA...

NAO ACHA VOCI -QUE PODER1A SER MA1S


CURTO E FUNCIONAL, SEM DEIXAR DE EVOCAR
A IDÉIA DE DIÁLOGO ?

PENSAMOSi EM «CÓJMFRONTO».
P.ÜE DIZ VOCI7ACHA SIGNIFICATIVO?...
OPORTUNO ?

- POR ORA, DEIXARfAMOS «PERGUNTE E RES


PONDEREMOS» NA CAPA DO¡ FASCÍCULO EM
CARACTERES PEQUEÑOS; ~ E 'COLOCARÍAMOS
«CONFRONTO» EM RELEVO. ASSIM A REVISTA
VIRIA A SER MAIS E MAIS DESIGNADA POR ESTE
NOVO TÍTULO.

PODERIA ENVIAR-NOS SUA OPINIÁO E


SUAS SUGESTÓES A RESPEITO ?

GRATÍSSIMOS PELA VALIOSA COLABORA-


CÁO.

A ADMINISTRAgÁO DE PR