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II Jornada Programa de Pós­graduação em Meios e Processos Adiovisuais 14 de outubro de “Peões”:
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II Jornada
Programa de Pós­graduação em Meios e Processos Adiovisuais
14 de outubro de

“Peões”: A Construção de um Olhar Cinematográfico Sobre a Memória Operária do ABC Paulista

Marco Antônio Pereira do Vale

mapv@usp.br

Orientação: Henri Pierre Arraes de Alencar Gervaiseau

Nível: Doutorado

Linha de Pesquisa: História, Teoria e Crítica

Palavras­chave: Memória Operária através do Cinema, Eduardo Coutinho, Narrativa Documental

Resumo

Procuro, neste estudo, fazer uma análise do filme “Peões” (2004) de Eduardo Coutinho não só sobre o que filme aborda, mas como esta abordagem se demonstra em sons e imagens de um discurso audiovisual construído pelo cineasta e como estas estratégias de linguagem traduzem a experiência coletiva de uma determinada classe social. Procuro dar destaque nas escolhas da fotografia e da montagem no filme, não me restringido somente ao que os entrevistados falam para as câmeras. É importante fazer esta ressalva, porque a linguagem audiovisual que Coutinho aplica em “Peões” pode ter a aparência de um despojamento formal, o que ajuda a criar a impressão de que o filme é um simples registro da “voz do outro”, devido à forma com que a narrativa é conduzida, principalmente, pelas entrevistas. Como é apontado por Jay Ruby, o público tem a tendência de acreditar na idéia positivista de que podemos descobrir uma objetiva realidade através do documentário. Eduardo Coutinho (como qualquer documentarista) lança mão de uma série de estratégias e escolhas que revelam, acima de tudo, um olhar que é do cineasta sobre um processo histórico e não o olhar daqueles que participaram do mesmo. E o olhar de Coutinho sobre a memória das grandes greves do ABC é, sobretudo, um olhar melancólico. A escolha do título do filme é, aparentemente, óbvia, pois “peões” é um termo muito popular no Brasil para chamar os trabalhadores operários. Mas a escolha do título esconde um dos temas centrais da visão de Coutinho sobre o processo social e histórico abordado: a transitoriedade da condição de ser operário no Brasil como profissão e a sua persistência como elemento de identidade social para muitos ex-operários. Por este

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motivo, o documentário começa sua narrativa com a chegada da equipe de filmagem à cidade Várzea Grande no estado do Ceará, localidade tão distante geograficamente do pólo industrial do ABC paulista. Lá, Coutinho encontra seus primeiros personagens, todos ex-operários que tiveram de voltar para a sua terra natal, uns porque se aposentaram, enquanto outros porque suas vidas como operários do ABC foram se inviabilizando já nos anos 80. Mesmo deslocando o restante da narrativa para a região do ABC Paulista, muitos dos personagens retratados por Coutinho no estado de São Paulo não conseguiram manter a profissão de operários ao longo de suas trajetórias. Alguns poucos continuaram operários, como é o caso do último entrevistado, Geraldo, que mantém de forma precária sua profissão, convivendo com longos períodos de desemprego e sendo contratado somente para trabalhos temporários. Geraldo explica que a palavra “peões” foi criada para descrever uma profissão em que os operários ficavam “rodando” em diferentes cidades ou estados brasileiros, trabalhando à medida que surgiam demandas específicas de mão de obra nas fábricas em diferentes localidades. Situação trabalhista esta que deveria ter sido superada pelo desenvolvimento econômico e social do Brasil nas últimas décadas e pelas conquistas da categoria operária após as greves de 1979/1980. Mas em 2002, Geraldo continua a enfrentar uma situação tão instável e transitória como a de décadas atrás, trabalhando como soldador por empreitada, sem emprego fixo. Em outro momento do filme, Zélia, antiga servente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, conta a história de como ela ajudou a esconder os rolos do filme “Linha de Montagem” (1982) de Renato Tapajós, para que esta obra cinematográfica não fosse aprendida pela polícia. Zélia tem orgulho em ter protegido o filme e diz que era a história deles (operários) que foi preservada. A entrevista termina com Coutinho perguntando se Zélia já assistiu ao referido filme e ela responde que não. Este diálogo acaba sendo um comentário muito importante tanto para “Peões” como para os filmes de Tapajós, Leon Hirzsman e João Batista de Andrade, realizados nos anos 70 e 80 sobre a questão operária no ABC. Operários como Zélia, que aparecem retratados nestas obras, participaram ativamente deste momento histórico (as grandes greves do ABC), mas não são donos de suas próprias imagens. Estes filmes não representam um olhar de dentro do operariado, mas sim o ponto de vista de membros de outra classe social (intelectuais de classe média/alta como os cineastas), que se apropriam das experiências de um momento da vida daquelas pessoas (no caso de “Greve”, “Linha de Montagem” e “ABC da Greve”) ou de suas memórias (no caso de “Peões”). O último diálogo de Zélia com Coutinho tem fortes ressonâncias com o último diálogo que encerra o filme, quando Geraldo pergunta ao diretor do filme se ele já fora “peão” de fábrica e Eduardo Coutinho responde, simplesmente, “não”. Coutinho deixa clara a sua posição como alguém que não faz parte da classe social que ele escolheu como protagonista de seu filme. O contraste entre a construção do olhar cinematográfico de Coutinho e os fragmentos de testemunho vivo destes operários, acaba sendo o principal objeto de análise deste texto.

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Bibliografia

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