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Para minha esposa Ginger, pelas muitas horas gastas na editoração deste manuscrito, e pelo seu discernimento prático, espiritual. Na minha opinião, o nome dela deveria constar da capa, com o meu.

índice

1.Evidências de Esgotamento Espiritual

2.Caldo Mortífero do Legalismo

5

7

3.Novo Tipo de Amor

27

4. Escravos ou Filhos?

35

5. Falsos Pastores

45

6. A vida “zoe”

55

7. Como Viver a Vida de Cristo

65

8. Verdadeira Fé

75

9. Descanso da Fé

83

10. Como vencer a tentação

95

I. Um Caso Clássico de Esgotamento Espiritual

105

12.Fé a Alegria do Senhor

117

13.Fé a Paz do Senhor

129

14.Como Viver no Espírito

137

15.Esgotamento Espiritual Repentino

151

16.Uma Solução para o Esgotamento Espiritual

163

17. Problema da Falta de Perdão

175

18. Fé para Perdoar

185

19.Ministério do Perdão

195

Referências

207

CAPÍTULO 1

Evidências de Esgotamento Espiritual

Estávamos sentados numa lanchonete, em Londres, na

área de Mayfair. Era uma tarde de fins de novembro. Lá fora descia o nevoeiro. O aspecto sombrio do tempo combinava com o desespero profundo estampado na face de meu amigo Jack, do outro lado da mesa. Eu me havia sentado ali ainda sob o entusiasmo de tudo quanto acontecera em meu recente trabalho

mas esquivei-me imediatamente ao perceber o total

desinteresse e a depressão de meu amigo. Por que você prega sobre o amor, Malcolm? Ele me olhava por cima de sua xícara de chá; seu rosto mostrava a raiva refletida na voz. Por que você não prega sobre doutrinas? Aí poderíamos fazer o que todos os cristãos fazem com perfeição: discutir, dividir e dizer que Deus nos mandou iniciar uma nova igreja! Surpreendi-me diante da súbita explosão verbal, do tom de cinismo em suas palavras. Eu não via Jack havia muitos meses. Ele tinha pastoreado com grande sucesso uma igreja na Escócia,

na

era muito conhecido como pregador e conferencista, não só no Reino Unido mas também nos Estados Unidos e na Austrália. Quando ele entrou em contato comigo, alguns meses antes, pegou-me totalmente desprevenido. Jack me disse que abando-

nara o ministério e agora estava vendendo seguros

disse que

precisava dar o fora do pastorado a fim de tornar-se marido e pai funções que havia negligenciado. Acordei um dia e descobri que meus filhos estavam crescendo e eu mal os conhecia. Ao passar por Londres, com escala em Johannesburg, indo para Nova York, reservei algum tempo para uma visita. Porém, de modo nenhum estava preparado para enfrentar a nuvem negra que pairava sobre Jack. Esse não era o homem que eu

conhecera durante muitos anos

siasmo e visão, sempre discutindo o último programa de cres-

cimento da igreja, ou alguma coisa nova que ele havia desco- berto nas Escrituras. Em duas horas de conversa, Jack injetou sua visão negativa em todos os assuntos discutidos. Qualquer coisa que eu par- tilhasse concernente à obra de Deus e meu ministério, só conseguia arrancar dele observações sarcásticas. Seu último comentário foi quase violento.

Na noite anterior eu falara numa igreja local a respeito do mandamento de Jesus para que amássemos. Pareceu-me óbvio que Jack tivesse pensado sobre o assunto no dia seguinte. Ele me olhava do outro lado da mesa, enquanto seu rosto me

enviava um misto de sinais

acima de tudo, desespero. O silêncio era total, exceto o ruído do chá sendo despejado em sua xícara vazia. Estou falando sério, Malcolm. Você prega sobre o amor,

mas sabe que ninguém fará o que você está dizendo! Fiquei olhando as pessoas ontem à noite. Concordam com você, aba- nam a cabeça afirmativamente e gritam expressões de louvor a Deus. Fazem fila para apertar sua mão e dizer-lhe como foram abençoadas. Mas, antes de chegarem em casa já estarão mexe- ricando, brigando e traindo os amigos. Porém, graças a Deus, não fumam nem bebem vinho! Estas últimas palavras Jack as cuspiu, cheias de veneno. Em seguida baixou os olhos durante algum tempo e ao olhar- me outra vez, vi nele um homem cansado, que a vida tomara exausto, um homem imerso, agora, em profundo desespero. Ele continuou a falar calmamente:

um homem cheio de entu-

repugnância, ódio, desculpas e,

Eis porque abandonei tudo, Malcolm. Reconheço que

poderia ter mudado minha programação a fim de dar mais

tempo à minha família. Como você mesmo pode ver, essa foi apenas uma boa desculpa para eu parar. O verdadeiro motivo

Jack parou e encarou pensativamente o nevoeiro que se adensava lá fora.

o verdadeiro motivo é que a coisa não funciona, não é

mesmo, Malcolm? E só falatório inócuo e celebração de costumes religiosos, mas ninguém se transforma!

Havia ocasiões em que eu me sentia como um traficante de

drogas. A congregação me pagava para que eu lhe desse injeções

regulares de ânimo. Eu tinha de convencer as pessoas de que deveriam prosseguir tentando ser bons crentes durante mais uma semana! E elas iam embora acreditando que, daquela vez, as coisas seriam melhores. Mas sabíamos que nada ia mudar,

porque o negócio não funciona! A voz dele parecia engasgada, agora, por um soluço, mas Jack ainda falava com raiva.

Era isso que eu tinha de enfrentar no ano passado: eu era

ministro e pregava o evangelho, mas a maior parte do Novo Testamento, no que concernia a vivê-lo, estava fora de meu alcance. Eu apenas continuava pregando, na esperança de que ninguém notaria que minha vida era tão vazia como a dos

demais crentes.

Você estava certo ontem à noite, Malcolm. Jesus deixou-

nos uma ordem:

ele nos chamou para viver aqui e agora o amor divino, mas

amai-vos uns aos outros (João 15:17). Sei que

cheguei à conclusão de que não conseguiria pregar sobre o tema enquanto não visse provas de que esse amor estivesse funcionando de verdade.

Um dia, há cerca de um ano, percebi que estava enojado

das vidas religiosas vazias da minha congregação, enojado das

inclusive eu mesmo. Escute

máscaras que todos usávamos

aqui: eu estou falando sério! Se você vai permanecer na igreja, pregue então sobre doutrinas, e estará alimentando as razões por que as pessoas perambulam pela igreja.

É isso que eu quero dizer: vamos, pelo menos, divertir-nos

diante de uma situação decepcionante. Pregue doutrinas, ataque todas as pessoas que não concordam com você, e as pessoas

vão adorá-lo. Descubra toda a sujeira possível na vida dos indivíduos de quem você discorda, e conte tudo a todo o mundo as pessoas acharão que você é tão santo que se tornou dono da verdade. Todo o mundo pensará que você é um apóstolo que recebeu nova revelação, e se quiser, conseguirá até fundar uma nova igreja! Após proferir estas últimas palavras, virou-se e contemplou a rua através da janela nebulosa da lanchonete. Agora tudo estava escuro. Jack é mais um que veio aumentar as crescentes estatísticas das baixas na igreja, crentes que desfaleceram à beira do caminho, exaustos, espiritualmente queimados. Norman é gerente de uma mercearia no meio-oeste, um jovem de olhos brilhantes. Sempre que conversamos sobre as coisas de Deus, seus olhos brilhantes tornam-se nebulosos e o rapaz vai embora. Às vezes percebe-se um soluço em sua voz. Após formar-se em um seminário teológico, tomou-se pastor de pequeno grupo de pessoas que almejavam alcançar muita coisa da parte de Deus. Sob a bênção divina o grupo cresceu rapidamente. Mas aí surgiram as amargas discussões entre Norman e alguns dos presbíteros. Depois, a pessoa que lhe servia de braço direito foi embora levando consigo metade da congregação. Norman juntou seus pertences e saiu da cidade. Falávamos em meio às mercadorias, e ele abriu o coração para mim. Disse-me logo ter percebido que não dispunha de uma fonte de força espiritual onde pudesse alimentar-se, que suas reservas estavam esgotadas, e por isso não tinha conse- guido controlar a pressão que acompanha o pastorado de uma igreja crescente. Nesse estado de exaustão, ficou desgostoso com as infames ofensas e lutas internas na igreja aquela igreja que ele mesmo fundara! Sacudiu a cabeça com tristeza e lamentou-se:

Malcolm, há mais amor num bar do que na igreja! Encontro-me com Phil cada vez que vou a Houston. É homem de meia-idade, corretor de seguros; os cabelos grisalhos lhe cobrem as têmporas. Tendo dispendido a maior parte de sua vida pastoreando na Califórnia, tenta agora o sucesso no ramo de seguros. Boa parte de sua vida ativa ele gastou construindo uma igreja bem-sucedida, e dando palestras sobre a vida espiritual em

grandes convenções por todo o país. Porém, com o passar dos anos, foi perdendo contato com a própria família. A esposa tornou-se fria e distante. Acreditava que lhe haviam roubado o marido e, por isso, nutria ressentimentos contra Deus e a igreja. Um dia ele se viu envolvido numa aventura apaixonada com sua jovem secretária. Disse-me o homem, cheio de tristeza:

Todo aquele trabalho que realizei para Deus me cansou

demais. Quando a tentação chegou, eu não tive forças para resistir! Digo-o com toda honestidade: eu mesmo não acreditava

quando percebi que estava envolvido com outra mulher. Meu ministério se tomara um empreendimento comercial e Deus estava longe, bem longe. Quando a esposa soube da aventura, foi embora de casa e pediu divórcio.

Em seu escritório minúsculo, o homem olhava para mim com os olhos cheios de lágrimas do outro lado da escrivaninha. Em meio a um profundo suspiro, exclamou:

Ah! se as coisas houvessem sido diferentes! A coisa mais

amedrontadora sobre tudo isso é que se você quer ser bem-su-

não conheço nenhum outro jeito

senão se matando de tanto trabalhar!

Todos os ministros bem-sucedidos que eu conheço estão

chegando perto do precipício com suas famílias. Muitos, muitos deles são vazios por dentro e apenas esperam que ninguém o

descubra! Eu sei

Esgotar-se espiritualmente é coisa que ocorre à semelhança do que está acontecendo no mundo secular. Foi aqui que se cunhou o termo queimado a fim de descrever-se a condição da pessoa que se tornou mental e emocionalmente exaurida na luta pelo sucesso em sua profissão. O Dr. Herbert Freudenberger descreve a pessoa esgotada como “alguém que está num estado de fadiga ou frustração em conseqüência de sua devoção a uma causa, seu estilo de vida, seus relacionamentos, coisas que não lhe trouxeram a recom- pensa esperada.” ^ A pessoa — homem ou mulher que não se esforça para atingir o topo, jamais sofrerá desse mal, nunca se queimará. Isso só ocorre com pessoas que almejam o melhor. Porém, queimar-se espiritualmente não é coisa que só acon-

tece a pastores. Quando os ministros do evangelho se queimam,

cedido no mundo de

Tenho conversado com eles.

ganham publicidade indesejável e, às vezes, algumas manchetes no jornal local. Mas o fato é que estamos contemplando uma epidemia de crentes que abandonam a igreja; e não se pode dizer que eram daqueles que só iam aos cultos na Páscoa e no Natal, e sim crentes exemplares, obreiros esforçados. Em geral, abandonam a igreja em razão de uma contenda com outro obreiro, ou devido a mágoa e decepção por não terem recebido o reconhecimento que julgam merecer. De repente, não aparecem mais. Aos domingos, ficam em casa amargurados, cheios de ressentimento contra quem quer que lhes tenha causado o trauma. Alguns, meditando no que lhes aconteceu, percebem que tudo aquilo em que tinham crido a respeito do poder para viver a vida cristã falhou quando mais precisavam de ajuda. A fé entrou em curto-circuito devido à ação de outro ser humano que não fazia as coisas como esses crentes queriam. Porém, nem todos os crentes abandonam a igreja ao se queimarem espiritualmente. Há alguns meses entrevistei al- gumas pessoas de uma igreja pentecostal num subúrbio de Chicago. Todos concordaram em que a vida cristã já não é o que costumava ser. Todos que conversaram comigo foram rápidos em contar-me como o Espírito atuou poderosamente, no estádio futebolístico de Second e Main, quando a igreja se iniciara 15 anos atrás. Mas ao longo dos anos, muitos membros da igreja a abando- naram. O Senhor estava podando-nos, livrando-se dos galhos mortos foi o que me disseram. Enquanto isso, a congregação parece funcionar como guardiã de lembranças, procurando todos os domingos pela manhã, semana após semana, reviver o passado mediante o cântico monótono dos mesmos velhos hinos. Houve ocasião em que tais hinos expressavam um fogo interior; contudo, hoje fazem-me lembrar das tristonhas marchas fúnebres entoadas nos funerais de uma igreja que se recusa a ser enterrada. Os membros da igreja não a abandonaram. Não. Vivem, em vez disso, em função de algo menor do que a visão que Deus

lhes havia plantado no coração quando de início vieram a Cristo.

Uma das épocas mais tristes de meu ministério ocorreu em 1963, numa viagem ministerial ao sul de Gales. Visitei igrejas que nasceram no reavivamento galês de 1904. Hoje, todavia, estão queimadas. São como as cinzas frias numa lareira, lembrete do fogo de ontem à noite. Porém o fato mais triste de todos foi o da igreja onde Evan Roberts orou na noite em que se iniciou o grande reavivamento. Na parede da pequena capela há uma placa dizendo que naquele exato lugar Evan Roberts orou, e levou o reavivamento ao mundo. Se aquela placa não estivesse ali, eu jamais saberia que naquele lugar os rios da vida iniciaram a inundação do mundo,

porque a temperatura espiritual daquela igreja é

quase zero, hoje. Conversei com alguns dos membros que naquela noite ma- ravilhosa haviam estado ajoelhados ao lado de Evan Roberts. Eles desfiaram para mim um relato minuto a minuto de todos os acontecimentos que presenciaram. Aqueles pobres crentes, irmãos queridos, eram agora guias turísticos num museu espi- ritual! Fosse o que fosse que há 60 anos os enchera de poder espiritual, agora era apenas lembrança; tudo o que sobrou foi vim monumento e uma placa na parede. Saí de lá perguntando:

Por quê, Senhor Jesus? Por que uma congregação, depois de

agraciada por um dos movimentos mais poderosos do Espírito nesta geração, ficou espiritualmente esgotada em menos de 60 anos? Viajando ao redor do mundo, desde então, tenho feito a mesma pergunta muitas vezes. Todos ouvimos freqüentemente falar das milhares de pessoas que vêm a Cristo em países estrangeiros. Entretanto, sabemos que dentro de poucos meses restará pouquíssima evidência de que algo grandioso aconteceu! Por quê? Afirmar que o evangelista não lançou um alicerce firme é tentar deliberadamente não ver alguns fatos embaraçadores.

a Palavra foi pregada e os

sinais que se seguiram confirmaram a proclamação do evangelho. Contudo, algo aconteceu ou deixou de acontecer aos novos convertidos. Hoje, sentam-se em suas casas e ficam relembrando aqueles dias em que Deus era tão real.

em 1904

Conheço alguns desses

À semelhança de Cleofas e seu amigo a caminho de Emaús, eles também tinham ouvido Jesus, visto suas obras, e estiveram prontos a dar a própria vida pelo Senhor. Agora, pelo que sabiam, ele estava morto e parecia-lhes que haviam literalmente jogado fora suas vidas por um sonho morto. Algumas pessoas sacodem a cabeça, dizendo que o diabo obteve vitória. Se isso for verdade, surgem ainda outras per- guntas. Jesus ascendeu vitorioso sobre todos os poderes do inferno! Ele disse que edificaria sua igreja e as portas do inferno não prevaleceriam contra ela. Portanto, há algo errado quando o diabo consegue desmantelar a igreja assim tão facilmente. Por que é que as pessoas se esgotam espiritualmente, aban- donam a igreja ou acomodam-se à essa forma tediosa de agru- pamento humano a que chamamos de “igreja” hoje? Aonde iremos à procura de ajuda a fim de parar a correnteza desse rio repleto de crentes que vão caindo das fileiras cristãs? Dizem alguns que deveríamos orar mais. Não descarto a importância da oração; porém, descobri que muitos dos que oram são candidatos potenciais à exaustão espiritual! Portanto, seja qual for a sua causa, queimar-se espiritualmente é algo mais profundo do que falta de oração. Dizem outros que sofremos de falta de fé. Necessitamos edificar a nossa fé, alimentar o espírito com a

Palavra

Concordo que falta fé à igreja, e que muitos, em sua miséria e desespero, precisam voltar aos preceitos de vida contidos na Palavra de Deus. Todavia, alguns dos casos mais trágicos de queima espiritual com que me defrontei envolviam essas pessoas que reivindicam entender a fé. Janet veio conversar comigo; as lágrimas escorriam abun- dantemente em seu rosto. Entre soluços, ela partilhou como crera em Deus, e que ele haveria de curar sua filhinha. Em todos os momentos de vigília ela repetia as passagens escriturísticas pertinentes à cura; ao acordar, à noite, imediatamente prosseguia recitando as promessas de Deus. Ela temia que se esquecesse de declarar a cura, ou deixasse de fazê-lo, a filhinha continuaria doente. Até pensou em manter uma vigília contínua de 24 horas sem dormir. Na época em que veio falar comigo, essa mulher era uma tragédia emocional, espiritual e física. Estava queimada em todos os sentidos.

e então seremos invencíveis.

Acredito em curas, como também acredito que a fé é o canal mediante o qual todas as bênçãos de Deus chegam a nós. Porém, não obstante aquilo que ensinaram a Janet, ou a maneira como ela interpretava o que lhe havia sido ensinado, ali estavam as sementes mortíferas que frustram as grandes obras de Deus na vida do crente. Neil e eu viemos a conhecer-nos mutuamente enquanto eu ministrava à igreja que ele freqüentava. Em cada visita eu, ele e sua esposa Melissa nos confraternizávamos. Surpreendi-me quando ele me escreveu dizendo que Melissa estava com leuce- mia, segundo um diagnóstico. Pediu-me que me unisse a ele e a

muitas outras pessoas, em oração pela cura da esposa. Poucas semanas depois ela morreu. Visto que me encontrava perto, fui aos funerais. Horrorizado ao lado do caixão, ouvi Neil dizer solenemente:

todos nós a matamos! Se eu tivesse tido

mais fé, ela teria sido curada. Se vocês todos houvessem exercido

mais fé, ela estaria viva agora. Amargurado, Neil finalmente abandonou a igreja. Seria este um caso extremo? Talvez . entretanto, eu sabia que mais uma vez topara com o elemento que está sempre presente cada vez que encontro um caso de queima espiritual. E muito difícil uma reunião encerrar-se sem que alguém venha a mim a fim de expressar preocupações e formular muitas das quais mantém escondidas dos demais irmãos crentes. Visto que eu simplesmente passo pelas suas vidas, parece-lhes mais fácil partilhar suas aflições comigo. Jackie procurou-me e tomamos o desjejum enquanto conver- sávamos. Eu estava proferindo uma série de conferências numa cidade do meio-oeste. Ela e o marido haviam sido membros de uma igreja pertencente a certa denominação histórica, logo após se mudarem para aquela cidade, anos antes. Nascera-lhes no coração uma fome de Deus e, por isso, foram atraídos à igreja onde realizávamos as reuniões.

Eu matei

Acho que estou sendo ingrata ao pedir tantas coisas disse ela enquanto sorria nervosamente mas às vezes eu me pergunto a respeito da vida cristã. Enfim, a vida cristã é isso?

Nada mais além disso? Não me compreenda mal

do que tudo quando tínhamos até então. Deus é real para mim, mas, falando honestamente, Malcolm, o que chamamos de igreja

não é muito mais do que um clube religioso e acho que está bem assim. Ela hesitou um pouco, antes de dizer:

Às vezes fico tão frustrada! Será que Jesus morreu e

ressuscitou a fim de ser o fundador de um clube em que todos

cantar no coro, levar nossos filhos às

reuniões, à escola dominical, ouvir as palestras animadoras de todos os domingos, dizer “amém” nos momentos certos e participar de algum programa social nas noites de terça-feira com os irmãos da igreja? Malcolm, se isso é tudo a respeito de Jesus, ele é bem maçante!

Quando ela se reclinou na cadeira, ruborizada, eu sabia que ali estava outra vítima em potencial do esgotamento espiritual a menos que obtivesse as respostas que almejava. Ela era porta-voz de muitas pessoas que se sentem da mesma maneira, e que jamais o confessariam abertamente. Que veneno mortífero é esse que se espalha por toda a igreja? Temos procurado evitar o problema fugindo dele, fingindo que não existe ou pondo a culpa no diabo e em seguida evitamos também confrontar os crentes exauridos, queimados espiritual- mente, que abandonam a igreja. Todavia, o problema está aí para não ir embora. Na verdade, vai-se tomando epidêmico. Certa manhã, passeando pelas montanhas Catskill, em Nova York, presenciei uma cena inesquecível. Eu descansava, sentado numa pedra, ao lado de uma lagoa coberta de algas. Enquanto mosquitos se entretinham numa dança interminável, bem pertos da superfície do lago, eu observava indolentemente umas libélulas em seu vôo rápido entre juncos. Uma rã tomava sol, deitada numa rocha parcialmente submersa, bem no centro da lagoa. De repente, despertei para algo surpreendente. Acontecia uma coisa esquisita à rã. Diante de meus olhos ela entrou em colapso não caiu, mas murchou como se fosse uma bexiga com um furinho, por onde vazava o ar. Finalmente, só restou

procuramos ser como ele é

é muito melhor

ali um montinho horroroso de pele de rã; o recheio desaparecera de todo! Só então é que vi o assassino. Um besouro d‟água gigante havia picado a rã, injentado-lhe uma substância que lhe dissolveu as entranhas. Em seguida, o besouro passou a sugar o conteúdo da rã, deixando só a pele, como se fora uma sacola vazia de mercearia, atirada na rocha.

algo lhes suga toda a vida,

arrebata-lhes toda a vitalidade. Eles se tomam espiritualmente exaustos, seus pensamentos agora são cínicos e negativos. Ei-los amargurados, ressentidos, como se Deus estivesse longe demais. Queimaram-se espiritualmente.

Muitos crentes são como essa rã

CAPÍTULO 2

O Caldo Mortífero do Legalismo

Q uando o profeta Eliseu foi visitar alguns estudantes das Escrituras em Gilgal, havia fome na terra de Israel. Chegou a hora do jantar e, enquanto a panela fervia, um

dos estudantes saiu à procura de alguns vegetais a fim de preparar um caldo. Visto não haver por ali fazendas onde pudesse comprar provisões, o estudante pesquisou os pastos silvestres ao redor da comunidade. Ele encontrou o que acreditava ser pepinos. Na verdade, deveriam ser o que se denomina “colocíntidas”, que parecem pepinos comestíveis, porém são venenosos. O estudante regressou e, satisfeito por haver encontrado tão depressa bastante alimento para todos, começou imediatamente a preparar o caldo. Todos viram à mesa a sopeira cheia de rodelas do que lhes pareceu ser pepino. Enquanto Eliseu ensinava, a sopa borbulhava; nenhum aroma indicava que o caldo fosse venenoso. E claro que ninguém estava procurando indício indicativo de que algo estava errado. Por que haveriam de ficar procurando? Um dos companheiros colhera os vegetais e havia preparado a refeição; ele mesmo, o cozinheiro-

mor, estava disposto a saboreá-la!

Só quando a comida já estava em suas bocas é que alguém

descobriu o gosto de veneno, o sabor da morte. E essa pessoa gritou:

Há morte na panela!

A reação de Eliseu foi tomar um pouco de farinha e atirá-la

no caldo. Miraculosamente, a sopa tomou-se comestível, deixou de ser venenosa. Estamos vivendo em dias de fome espiritual; e o alimento não se encontra prontamente disponível onde esperaríamos que estivesse. Os famintos espirituais têm de sair e providenciar provisões, quaisquer mantimentos, onde quer que os encontrem. Na maioria dos casos, tais pessoas saem sem ter qualquer

conhecimento das Escrituras, mas apenas com o desejo ardente de conhecer a Deus. Se espantam quando vêem quanta coisa está crescendo nos terrenos baldios, a saber, nas livrarias evangélicas, e que uma quantidade quase infinita de “pepinos” viceja nas encostas montanhosas dos programas de rádio e televisão.

A verdadeira colheita parece estar nas fitas gravadas

plantas que parecem crescer por toda a parte! E sempre há um

pregador especial no culto carismático de uma igreja local. Nessa procura, há pouca ou nenhuma análise das coisas que

são ditas, ou da maneira como as Escrituras estão sendo inter- pretadas. Se o pregador, ou escritor, menciona o nome de Jesus ou usa a Bíblia como base daquilo que está dizendo, sua men- sagem é aceita.

E ninguém observa que muitas vezes um pregador contradiz

o outro! Como acontece nas épocas de fome, come-se qualquer coisa que parece alimento para o espírito. Se o pastor é nascido de novo, e cheio do Espírito, qualquer coisa que ele disser do púlpito deve necessariamente ser verdadeiro. Se o livro está à venda numa livraria evangélica, só pode ser de Deus! Muitos pastores acham muito difícil estudar a Bíblia. Em conseqüência, enfrentam dificuldade imensa no preparo de um sermão dominical que contenha alimento espiritual. Estão constantemente procurando, apanhando qualquer coisa com que alimentar suas ovelhas. Chega o domingo lá vêm eles com seus sermões. Será que não estão carregando nos braços montes e montes de colocíntidas? Porém, os circunstantes não notarão que aquilo que está

sendo dito vai envenenar os ouvintes. Por que deveriam notar? Confiam em seu pastor e muito corretamente presumem que ele vai aplicar a si mesmo aquilo que está ensinando. Certa ocasião eu pregava numa cidade do Connecticut, e perguntei ao atendente do posto de gasolina qual seria o melhor restaurante da cidade. Estávamos famintos, e desejávamos comer alguma coisa antes do culto. Foi-nos recomendado o “Joe‟s Kitchen". Em condições normais, eu não comeria ali de modo nenhum. Mas estávamos famintos e dispúnhamos de pouco tempo. Durante toda a noite fiquei rolando na cama em agonia, com dores estomacais. De manhã, estava fraco demais para sair da cama. Voltei àquela cidade muitas vezes, mas preferiria ficar com fome do que cruzar de novo as portas do “Joe‟s Kitchen!” Entendi que a comida que me foi servida era responsável pela minha doença e fraqueza total. Quando as pessoas estão exaustas e espiritualmente doentes, é preciso que primeiramente lhes pesquisemos a dieta espiritual. Em geral a morte principia no prato onde comem, no alimento que usualmente é preparado por um pastor ou evangelista sincero que come, ele próprio, dessa comida envenenada. No fim estarão todos queimados espiritualmente, juntos.Os problemas da igreja, hoje, não são primordialmente falta

de oração, de estudo bíblico, de fé ou de dedicação. O problema é mais profundo do que estas coisas. Alguma coisa nos tomou tão

. eliminou- se de

nós todo o entusiasmo pelas coisas de Deus. Que é que está fazendo com que o exercício da fé se transfor- me numa verdadeira batalha, quando sabemos que, na verdade, ali está o portal do descanso eterno em Deus? Por que é que nosso culto entusiástico veio a tomar-se tão frio a tal ponto que ficamos cansados de cultuar? Por que é que tantos crentes acabaram cansando-se de estudar a Bíblia? Por que é que nossas grandes palavras de vitória falham quando mais precisamos

delas? Os crentes estão queimando-se e caindo de exaustão porque - o alimento espiritual que estão ingerindo é venenoso. Há morte na panela! Um fato incontestável é que as Boas Novas de Jesus Cristo

fracos que não queremos orar nem ler a Bíblia

não exaurem nem podem exaurir a pessoa que nele crê. O

evangelho é chamado

vida (Atos 5:20), palavras da vida eterna (João 6:68), que nos

a mensagem completa desta nova

asseguram que já passamos da morte para a vida (1 João 3:14).

a paz de Deus, que excede todo o

(1

Pedro 1:8), e dá-nos

corações pelo Espírito Santo (Romanos 5:5). Estas certamente

não são expressões que descrevem o estado da pessoa que se queimou espiritualmente, que se tornou cínica, prostrada e exausta. O crente é tentado e às vezes cai. Experimenta épocas de escuridão que só podem ser comparadas ao vale da sombra da

morte. Há ocasiões em que se vê perto do desespero e pode, realmente, sentir que está desistindo de lutar. Mas não desiste!

E assim que Paulo descreve sua vida de crente: como

morrendo, porém vivemos; como castigados, porém não mortos; como entristecidos, porém sempre alegres (2 Coríntios 6:9,10).

Ele não se sente “morto” por causa da revelação de Deus que recebeu em Cristo, contida no evangelho. Enquanto a pessoa estiver vivendo segundo as verdades que nos foram trazidas por Cristo, não pode queimar-se espiritual- mente! Aquele que cai exausto, só cai porque acreditou numa distorção das Boas Novas (que não é, portanto, evangelho!), ou porque se esqueceu do cerne do evangelho em que creu, numa ocasião, e se deixou extraviar.

Se é esse o caso, podemos afirmar que a melhor coisa que tal

pessoa pode fazer é tombar exausta à beira da estrada da vida. Se aquilo em que ela está crendo não é o evangelho da verdade,

quanto mais cedo determinar que suas crenças são incapazes de fornecer-lhe vida espiritual e saúde, melhor será. Quando estudamos o ministério de Jesus, é significativo ver que ele não apenas ensinou a verdade, mas também atacou o

erro

Ele veio para livrar o povo das falsidades em que criam, porque estas estavam matando as pessoas. Jesus anunciou bem cedo com que propósito tinha vindo:

derramado em nossos

entendimento (humano)

O evangelho nos traz

(Filipenses 4:7)

gozo

o amor de Deus

e fê-lo em todas as oportunidades.

t “O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo qual \

Mj me ungiu para evangelizar aos pobres. Enviou-

' me para apregoar a liberdade aos cativos, dar

vista aos cegos, pôr em liberdade os oprimidos, j e anunciar o ano aceitável do Senhor”.

(Lucas 4:18,19)

Os ensinamentos, os milagres e a morte, ressurreição e ascensão de Cristo quebraram o poder de tudo que mantinha a

humanidade em cativeiro. Costuma-se esquecer que, ao fazer aquelas declarações, Jesus estava dispondo-se a livrar o povo de certo sistema de crença. Seria correto afirmar que, durante todo o seu ministério terreno, ele esteve engajado numa guerra sem tréguas contra o sistema de crenças mantido pela seita religiosa chamada farisaísmo.

É importante ressaltar que Jesus nunca investiu contra as

prostitutas, contra os ladrões, os bêbados e os cobradores de impostos (a forma mais aproximada que Israel conheceu de crime organizado). Na verdade, ele transformou aquelas pessoas em seus amigos. Todavia, seu ministério integral foi uma cruzada contra os ensinos dos fariseus. Que tipo de sistema doutrinário era esse que atraía sobre si as palavras mais fortes e severas de Jesus? O fato é que os fariseus orientavam as pessoas a buscarem a aceitação da parte de Deus através de seus méritos pessoais, mencionando diante dele as boas obras que cada um tivesse praticado; era a mensagem da busca da benevolência divina mediante o desempenho pessoal. Ora, coincidentemente, esta é a mensagem que se encontra no cerne de todas as religiões, e é também o que deixa as pessoas exaustas, em seus esforços no sentido de desempenhar seu papel de modo aceitável perante Deus. Webster define a palavra religião da seguinte forma: “piedade, consciência aguda, escrúpulos; vem de religare, emendar; re e ligare, unir de novo; estado mental ou maneira de vida em que se expressa amor a Deus e confiança nele, e a vontade da pessoa e seus esforços no sentido de agir de acordo com a vontade de ^

A religião leva a pessoa a unir-se fortemente a um voto de

guardar as regras que governam a conduta, os ritos e fórmulas

pelos quais pode aproximar-se de Deus. Isto exige o constante

Deus

exercício de sua vontade, e a completa obediência aos preceitos. A finalidade principal de tudo isto é Deus ser agradado e a pessoa ser aceita por ele.

A religião começou no jardim do Éden, quando o homem caiu.

A primeira reação do homem em sua condição decaída foi fugir da presença de Deus e esconder-se atrás de algumas árvores. Desde esse dia o homem sem Cristo sente medo de Deus. E expressa esse medo mediante o ateísmo, que é a esperança de que Deus não está mais lá, ou nunca esteve; e o materialismo, através do qual o homem se esconde nas coisas materiais desta vida, na esperança de que Deus vá embora ou jamais se inte- resse por ele! Religião é a expressão última daquele mesmo medo. Ela apresenta Deus como estando zangado com a humanidade, e procura meios de apaziguá-lo e ganhar sua atenção. Todas as religiões do mundo são o resultado das especulações do homem decaído, cuja mente pecaminosa procura o significado da vida, suas origens e objetivos, o caráter da divindade e que é que se deve fazer para tomar-se aceitável perante Deus. Todas as religiões do mundo, em suas bases, são iguais:

enxergam um Deus distante, nem um pouco amigo, e severo distribuidor de leis pelas quais se pode aproximar dele. Tais leis são confiadas à elite dos religiosos, usualmente sob a forma de livro, e essa elite interpreta as leis para os adoradores. Todas as religiões, onde quer que as encontremos, resumem-se no homem estirando o braço, erguendo-o para encontrar um meio de agradar a Deus, de quem sente tanto medo. Os gregos definiam o amor humano com a palavra Eros que, em português, expressa a idéia: “desejo para mim mesmo o mais elevado, o melhor e o mais belo.” Eros é o útero onde se concebem todas as tentativas do homem para alcançar Deus. Todas as regras e rituais que, conforme acredita o homem, agradam a Deus, iniciam-se em Eros. Nele estão também o alicerce da crença humana concer- nente à natureza de Deus. Eros é a emoção mais elevada e mais bela do homem, que almeja apenas o melhor, que o conduz sempre para cima e para longe dos padrões mais baixos, na direção dos mais sublimes. E muito natural, pois, que a mente do homem decaído defina Deus afirmando que “ele é Eros em última instância”. Basta, pois, apenas um passo mais para afirmar-se que Deus quer as pessoas mais belas, o melhor da humanidade, as pessoas que alcançaram e conseguiram o mais elevado plano possível de vida a que um ser humano possa atingir.

Religião é escada que garante a aceitação da parte de Deus, da pessoa que galgou o degrau máximo. A religião reivindica ser

a revelação do caminho montanha acima, até as estonteantes

alturas da perfeição e da familiaridade com a divindade perfeita. Embutido nas entranhas desse sistema teológico está o orgulho. Quem se dispõe a galgar a escada acredita que tem o único sistema de regras que finalmente agrada a Deus e, por isso, considera os outros como tendo menos valor do que o dele próprio. Acha, além disso, que é seu dever destruir todos quantos

não acatam tais leis e não desejam recebê-las de suas mãos.

Eros constitui a base de todas as guerras religiosas, quer se tenham travado em campos de batalha, quer nos anfiteatros da teologia. Eros sempre traça círculos ao seu redor, excluindo todos quantos não se obrigaram a guardar e observar as leis reveladas.

A conduta religiosa dos fariseus era a pior de todas, devido a

sua sutileza. Em suas origens, o movimento farisaico edifica vase

sobre a Palavra de Deus, de modo que, considerando-se seus objetivos, toma-se difícil incriminar o sistema farisaico. Fariseu era a pessoa que se havia dedicado a observar minuciosamente a lei de Moisés, chamada Torah (os primeiros cinco livros da Bíblia) na língua hebraica. O juramento dedica-

tório era denominado “tomar o jugo da Torah". A partir desse

dia,

consideravam-se separados para Deus, sua lei e para uns

com

os outros. Formavam círculo bem fechado, dentro do qual só

eram bem-vindos os devotos, círculo que os separava do mundo de pecadores lá fora.

Na realidade, as exigências da lei eram simples: amor a Deus

e ao próximo. Mas a religião sente-se perturbada pela simpli-

cidade. Em vez de perguntar como é que a lei de Deus deveria ser observada, eles perguntavam: “Como é que vamos deixar de

quebrá-la?” A partir desta pergunta, todas as formas de debates

e questionamentos foram surgindo, finalizando nas

determinações legalísticas dos fariseus que objetivavam evitar

que a pessoa sequer se aproximasse do ponto em que poderia

quebrar a lei de Deus. Estas leis feitas pelo homem eram denominadas “leis da cerca”, a saber, leis que circundavam a lei de Deus, tentando evitar que o devoto corresse o risco de quebrá-la. Nunca perceberam que se apegassem ao amor, teriam guardado toda a lei, e mais ainda. Em vez disso, enterraram-se num pantanal de

preceitos sem fim e sem sentido. As “leis da cerca” procuravam circundar todas as áreas da vida. Havia leis sobre como a pessoa devia vestir-se, sobre o que podia comer ou beber, os lugares aonde podia ir ou não, o que podia fazer, as pessoas com quem se podia relacionar e, mais importante do que tudo, o que não podia fazer no sábado, e outras centenas de pequenos rituais que precisavam ser observados quando a pessoa ia comer, orar ou jejuar. Até mesmo o israelita secular era constantemente lembrado pelos fariseus quanto aos preceitos da lei, e sentia freqüentes beliscões de consciência culpada por não estar vivendo à altura dos padrões de santidade que os intérpretes legais haviam declarado ser a verdade final.

O mal do sistema não estava naquilo que a lei proibia, ou

ordenava (embora a maior parte do sistema fosse exercício tolo de futilidade), mas na raiz de Eros. A guarda das regras pelos fariseus seria aceitável por Deus; o nível de sua obediência à lei

seria indicação de onde ficavam na escada que galgavam com tanto esforço, na direção de Deus. Entretanto, não obstante a retidão dos objetivos, Deus não pode ser alcançado mediante a observância de mandamentos e pelo desempenho de rituais. Foi contra esta forma de religião que Jesus proferiu suas palavras mais duras. Quando viu o que esse sistema doutrinário estava fazendo às pessoas, ele se moveu de compaixão:

“Vendo ele as multidões, tinha grande compaixão delas, porque andavam cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm pastor”.

(Mateus 9:36)

A essas ovelhas, cansadas e exaustas devido aos constantes

jugos pesados colocados sobre elas pela religião, disse Jesus:

“Vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e encontrareis DESCANSO PARA AS VOSSAS ALMAS. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.

(Mateus 11:28-30) A palavra “cansado” significa: “exausto, ter trabalhado até que não resta força alguma”. Hoje, no contexto em que Jesus estava falando, poderíamos traduzir o texto assim: “queimados

espiritualmente, esgotados de toda força espiritual, exaustos na tentativa de agradar a Deus”. Aquelas pessoas estavam sobrecarregadas, esmagadas pelo peso de todas as leis e preceitos que a religião jogara em cima delas. Jesus convidou as pessoas a virem a ele e, ao agir assim, atirou a luva desafiadora no rosto da religião. Ele usou esta

expressão: Tomai sobre vós o meu jugo

descrevia o juramento de fidelidade à religião com todos os seus

preceitos. Jesus estava afirmando que ele próprio é a nova Tora, a nova

Lei, não uma lista de mandamentos, mas uma Pessoa viva; e diz mais: que a aceitação do jugo de Cristo propicia descanso. A

versão chamada Bíblia Ampliada diz o seguinte:

contrareis descanso alívio, consolo, refrigério, recreação e abençoado sossego para as vossas almas. A religião trouxe a queima espiritual. Jesus prometeu que vir

a ele resultaria em recreação, com um período de férias

em que a pessoa estaria gozando de contínuo refrigério e renovação em seu relacionamento com ele. Queimar-se espiritualmente é alternativa que só pode ocorrer quando há má compreensão fundamental do cerne do evangelho, ou quando a pessoa falha em aplicá-lo em sua vida e ministério. Um crente espiritualmente exausto está exibindo sintomas de um problema muito mais grave.

. vida

e en-

(v. 29), frase que

(1)

Noah Webster, Webster’* New 20th Century Dictionary of the English Language (Dicionário do Século Vinte da Lingua Inglesa, de Webster) segunda edição rev. (Nova York:: Simon and Schuater, 1983).

CAPÍTULO 3

Novo Tipo de Amor

J esus foi a revelação de um novo tipo de amor com que a humanidade, a despeito de sua mais sublime imaginação, jamais poderia sonhar. As mais lúcidas mentes do mundo

se haviam reunido e deliberado a respeito da natureza de Deus, ou dos deuses. Os pensamentos mais sublimes que puderam

conceber eram a extensão da mais elevada virtude que conheciam, como homens decaídos Eros. O homem só pode saber como é Deus mediante a revelação que o Senhor fez de si mesmo em Jesus. Foi necessário tomar-se outra palavra grega para descrever

este amor divino: Agape. Esta palavra quase não era usada antes de Jesus vir, e foi necessário que os escritores do Novo Testamento definissem esse termo ao descrever a revelação de Deus.

1João 4:8 nos dá a definição final

Deus é amor (Agape).

Agape, portanto, não é emoção que Deus exerce, mas sua própria natureza, sua maneira de ser. Agape é a escolha eterna de Deus, a decisão de existir para as pessoas, existir para o bem de sua criação. O amor-ajgape não traça círculos, não exclui ninguém. Jesus falou da maneira de ser de Deus em Mateus 5:44,45:

Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem, para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus. Ele faz que o seu sol se levante sobre maus e bons, e envia chuvas sobre justos e injustos” E em Lucas 6:35:

“Ao contrário, amai os vossos inimigos, fazei o bem, emprestai, sem nada esperardes. Então será grande o vosso galardão, e sereis filhos do Altíssimo, porque ele é benigno até para com os ingratos e maus”.

Estes dois versículos focalizam Deus abrangendo com seu amor a todas as pessoas, até mesmo os seus inimigos, os maus e os ingratos, sem esperar retribuição alguma. Ele ama por quem ele é, não por causa de algum desempenho da parte do ser amado. Os homens poderão fugir dele, amaldiçoá-lo e empenhar- se em práticas que o entristeçam, mas Deus continua a amá-los, disposto a operar o maior bem a favor deles. Em Jesus, o Ágape tomou-se carne, viveu entre nós e cami- nhou conosco. Em tudo quanto ele era, disse ou fez, vemos a natureza deste tipo divino de amor. Na morte de Jesus, o Ágape encontrou sua definição final. Ele morreu para que seus inimi- gos, os que o odiavam, não precisassem morrer! A religião mais pura e a única verdadeira neste mundo, a que

nasceu no monte Sinai, mediante Moisés, dizia:

próximo como a ti mesmo

assim: ele amou o próximo mais do que a si mesmo. Este tipo de amor não pode, realmente, ser expresso em palavras, em linguagem humana; por isso Deus, no Antigo Testamento, usou um de seus profetas, Oséias, para demonstrar através dele o amor Ágape. Em sua função de representante de Deus, o nome de Oséias tomou-se bem conhecido em todos os lares de Israel. Ele e sua família eram vigiados por todos. Deus convocou Oséias para que este se casasse com Gômer, mulher que tinha a infidelidade no coração. Casaram-se, e não demorou muito para a infidelidade de Gômer tomar-se mani- festa. Ela era vista com diferentes homens nas festas da socie- dade samaritana, e a nação inteira de Israel começou a acom- panhar o desenrolar daquela novela que acontecia diante de seus olhos. Por fim, ela abandonou Oséias e tomou-se prostituta. Aos olhos das pessoas decentes, ela era depravada e fazia o marido de tolo. Todas as ações dessa mulher deixavam bem claro que ela desprezava Oséias e desejava embaraçá-lo diante do vigilante povo de Israel. Em seguida, os muitos amantes cansaram-se de Gômer. Ela se viu obrigada a vender o próprio corpo nas ruas, escravizada

por um alcoviteiro. Finalmente, este a colocou num palanque onde se vendiam escravos ela deveria ser vendida pela oferta mais alta.

ama- rás o teu

(Levíticos 19:18). Jesus não fez

Oséias sentiu-se profundamente ferido

em sua solidão, as

lágrimas corriam livremente, lágrimas provenientes da grande vergonha de um escândalo público. Agora sua esposa está à venda numa barraca de escravos; Deus lhe ordena que vá comprá-la e que a reconsidere como sua esposa: “Ame a mulher que o envergonhou e o desprezou, procure o maior bem dessa mulher, leve-a para casa, proteja-a e tome conta dela.” Enquanto Oséias abria caminho pelas ruas de má fama de Samaria até chegar ao mercado de escravos, cada passo do profeta demarcava na mente do povo de Israel a natureza do amor de Deus para conosco. Eros rejeita aos que o ferem, como também ao feio; Ágape abraça seus inimigos e procura seu mais elevado bem. Diz Eros:

“Eu te amo, porque preciso de ti!” Diz Agape: “Preciso de ti porque eu te amo!” O amor incessante de Oséias por sua esposa tornou-se a mensagem de Deus para Israel, um retrato composto de sombras de seu amor à humanidade. Foi este mesmo amor que fez com que Jesus chorasse publicamente, sobre Jerusalém (Lucas 19:41- 44), não porque o povo iria insultá-lo, envergonhá-lo e crucificá- lo, mas porque, procedendo assim, o povo estaria prejudicando-se eternamente. Ele chorou por causa do sofrimento de seus inimigos. Jesus, o Agape de Deus, morreu por nós e ressuscitou dentre os mortos e dá a todas as pessoas que o receberem o dom da vida eterna. A única reação que o homem deve apresentar diante da dádiva de Deus, do Agape, é a fé nele e na obra que ele realizou. Até mesmo essa fé, pela qual a pessoa recebe esse amor em sua vida, a fim de curá-lo, é dom de Deus. Quando Jesus sentou-se no meio da escória da Galiléia para comer com aquela corja imoral, uma nova palavra começava a ser cunhada e incluída no vocabulário humano: graça. havia sido utilizada nos tempos do Antigo Testamento, porém, só recebeu definição completa, claríssima, em Jesus. Graça é palavra muito rica no vocabulário grego. Era usada nas ruas da Grécia e de Roma muito antes de o Espírito Santo incluí-la no Novo Testamento. A palavra grega para graça é charis. Essa palavra significava: “algo que delicia ou traz alegria, um favor, algo dado não por merecimento". A palavra poderia ser usada para descrever um presente de aniversário, ou algo que a

pessoa faria pelo seu vizinho ou amigo. Charis exprime-se muito bem num costume dos imperadores romanos. Todos os anos separava-se um dia em que se celebrava a ascensão do imperador ao trono. Nesse dia ele concedia, de seu próprio bolso, uma bonificação a seus soldados. Tal bônus nada tinha que ver com o salário normal que recebiam; era dádiva do imperador e chamava-se “charis”. Os soldados não haviam trabalhado a fim de fazer jus ao abono; este partia do coração generoso do imperador. Quando os gregos saudavam-se uns aos outros, usavam a palavra charis. Iniciavam suas cartas com esta mesma palavra. Ela exprimia o desejo de que a vida da outra pessoa se enchesse de boas coisas, de beleza e alegria, de favores dos deuses. De modo semelhante, quando os cálices se tocavam nos bares ou num casamento, o brinde era: “charis para você!” Por expressar o coração de Deus, que nos deu a salvação em Jesus, charis era a palavra perfeita para ser incorporada ao vocabulário do evangelho. Entretanto, esse vocábulo necessitava expandir seu signifi- cado para poder descrever como Deus nos dá suas dádivas. A definição foi alargada, a fim de abranger a idéia não apenas de um favor concedido em retribuição, mas favor não merecido, favor que, na verdade, é o reverso do merecimento. Nós não merecemos as dádivas de Deus, e nada que fizéssemos nos habilitaria a recebê-las em retribuição, porém, Deus no-las concede e isso é graça.

Charis, quando usada como saudação ou brinde, era simples cumprimento, uma saudação alegre destituída do poder de tomar realidade os bons desejos. Contudo, quando trazida para o vocabulário cristão, veio acompanhada do poder de Deus. O Senhor não se limita a desejar-nos boas coisas; mais do que isso, ele efetivamente opera a salvação em nós. O evangelho é o poder de Deus para a salvação (Romanos 1:16). Os primitivos cristãos prosseguiram com o costume grego de iniciar suas cartas com a saudação charis; contudo, acres-

centavam a autoridade e o poder "

da parte de Deus nosso Pai,

e do Senhor Jesus Cristo” (2 Coríntios 1:2). Os cristãos do Novo Testamento jamais pensaram em charis como uma virtude trancada no coração de Deus. Essa palavra sempre esteve ligada à vinda de Jesus, à sua morte e ressurrei-

ção eventos que deram realidade à graça de Deus na história humana. Seu poder manifesta-se na proclamação do evangelho. O evangelho é o convite para descansar em Cristo, para receber a dádiva não-merecida que Deus nos concedeu no Filho. Nada existe que o homem possa fazer para ganhar a salvação, nem no passado, nem no presente. Trata-se, do princípio ao fim, da charis de Deus, que só pode ser recebida pela fé. Deus não está à venda! As escadas que o homem constrói, e as regras que ele formula na tentativa de ascender a Deus tudo isso constitui um insulto ao Deus-Ágape que a si mesmo se dá graciosamente a todos. O espírito da religião enfurece-se contra o Deus que ama e dá- se a si mesmo por todos. Eros odeia Ágape! A mente carnal insiste em que o homem ganha a aceitação de Deus mediante merecimento. Mesmo tendo graciosamente o perdão da parte de Deus, esse homem natural crê que precisa trabalhar agora, a fim de merecer e continuar recebendo o favor divino. O corpo de verdades que proclama a revelação de Deus se chama Boas Novas, a saber, Boas Notícias. Notícia, por defini- ção, é o anúncio de algo que aconteceu, não a lista de coisas que ainda estão para ser realizadas. Tudo quanto precisaria ser feito para que o homem vivesse em perfeita união com Deus já foi realizado por Jesus, em sua morte e ressurreição. Nada mais restou ao homem a ser feito: não há escadas a galgar, nem montanhas a escalar. O cerne da vida cristã é permanecer maravilhado diante do amor de Deus e dizer:

“Obrigado, Senhor!” Mas quando começamos a adicionar condições para o recebi- mento da dádiva de Deus, sejam quais forem as razões, come- çamos simultaneamente nossa queda no farisaísmo, e nossa queima espiritual. A morte que penetrou na panela que alimen- tará o espírito das multidões, hoje, é a semente venenosa de um sistema doutrinário que convoca as pessoas a observarem regras,

a fim de continuarem a ser aceitas por Deus. Muitas das histórias que Jesus contou foram motivadas em sua reação ao espírito que os fariseus expressavam quando estes

viam o tipo de gente que Jesus aceitava. Tais histórias ilustram

a maravilha de Ágape e de charis, que fluem de Deus até nós. Um dia Jesus estava jantando com algumas das pessoas mais indignas cobradores de impostos e outros tipos de companhia

desaconselhável. Os fariseus desprezavam tais pessoas, chamando-as de “pecadoras”. Nos tempos bíblicos, o ato de tomar a refeição juntos signi-

ficava mais do que satisfazer o apetite: tratava-se de um com-

a promessa de estar presente

quando o outro precisasse de você. Escandalizados, os fariseus murmuravam ao observar a cena: Jesus era escândalo para a

religião!

E o Senhor convocou a todos e começou a contar-lhes histó-

rias, tanto aos convidados para o jantar quanto àqueles orgu- lhosos fariseus. Contou a história do pai que tinha dois filhos. Aparentemen- te, ambos os filhos se irritavam com a disciplina que regia a administração da fazenda. Consideravam o pai um feitor de escravos, em vez de o principal sócio da fazenda que logo mais

promisso de amizade

lhes pertenceria. A atitude negativa desses filhos cegou-os, e eles não mais enxergavam o verdadeiro coração daquele homem coração cheio de amor e bondade para com todos.

O filho mais novo chegou-se ao pai e pediu-lhe a parte que lhe

caberia como herança. A terminologia que Jesus coloca nos lábios do jovem é puro jargão jurídico o rapaz tinha um advogado, ou consultara um deles. Legalmente, ele não teria acesso à herança enquanto seu pai

vivesse. Esta cláusula era a garantia de que o velho receberia cuidados enquanto vivo. Mas o que o filho pródigo está realmen- te dizendo é o seguinte: “Não agüento esperar até que você morra; quero meu dinheiro já!” Tais palavras produziriam golpe profundo no coração de qualquer pai.

A lei concernente às heranças concedia dois terços do inventá-

rio ao filho mais velho e um terço ao mais novo. O pai não colocou obstáculo contra o pedido. Deu ao jovem um terço de seus bens, e este imediatamente partiu para um país longínquo. A expressão “país longínquo” significava, aos ouvidos israe- litas, lugar bem longe do povo da aliança, entre os gentios. Estes eram desprezados e odiados pelos fariseus; por isso, já teriam julgado aquele jovem como não tendo a mínima esperança de salvação. Nas terras longínquas o dinheiro foi rapidamente desbaratado numa vida iníqua. E por infeliz coincidência, quando o rapaz percebeu que não tinha mais nenhum centavo, sobreveio grande

fome àquela terra. Ei-lo agora miserável e morrendo de fome, à procura de emprego numa fazenda como guardador de porcos. Para o judeu, isto era o cúmulo da vileza, o ponto mais baixo a que poderia chegar uma pessoa. A lei levítica descrevia o porco como animal impuro e detestável. Tocar um porco, ou comê-lo, era a mesma coisa que participar de sua impureza, e tomar-se tão detestável quanto o próprio animal. A pessoa que tocasse em porcos não mais seria recebida entre o povo da aliança.

Porém um dia, ao contemplar seus farrapos e a imundícia em que estava, lembrou-se de algo a respeito de seu pai. Não parecia grande coisa, mas ele se lembrou que o velho cuidava muito bem

de seus empregados. Sempre tinham o suficiente para viver

sempre lhes sobrava alguma coisa. Ele decidiu, então, ir a seu

pai e pedir-lhe que fosse considerado como um de seus empregados. Antes, ensaiou o que iria dizer. Diria simplesmente que havia pecado contra Deus e contra seu pai, e pediria para ser considerado como um empregado diarista. Esse empregado não constava da folha de pagamento, não morava entre os demais empregados na fazenda e não mantinha contatos com a família do fazendeiro. O indivíduo era contratado para trabalhar du- rante um dia, sempre que houvesse necessidade de ajuda extra. Não fez promessas, não pediu uma segunda oportunidade

ele simplesmente agiu segundo sua

para voltar a ser filho

e

lembrança da bondade paterna no cuidado dos diaristas contratados. Enquanto isso, nenhum dos dois rapazes sabia que seu pai jamais deixara de amar o filho que se perdera entre os gentios. Quando o pai dera o dinheiro ao filho, simultaneamente per- doara seu egoísmo e suas palavras duras. Durante todo o tempo em que o moço esteve fora, e até mesmo durante a chegada dos boatos sobre o que o filho estaria fazendo, não houve ressenti-

mentos nem amargura. O amor do pai pelo filho era maior do que tudo quanto este fizera de ruim. Preocupava-lhe o sofri- mento pelo qual o filho poderia estar passando onde quer que estivesse, e apenas desejava tê-lo de volta em casa. O pai aguardava a volta do filho, e diariamente examinava a estrada. No momento em que o filho surgiu no horizonte, o pai o viu. Não esperou que o moço chegasse em casa, mas correu a encontrar-se com ele, atirou os braços ao redor do corpo

emagrecido que cheirava a porcos. Após abraçá-lo e beijá-lo, recusou-se a ouvir o filho pedir que fosse considerado um trabalhador diarista. Em vez disso, vestiu- o com o melhor trajo, calçou-lhe os pés com sandálias e colocou- lhe no dedo um anel! Em seguida, conduziu-o de volta à casa, para um banquete comemorativo de sua reinstalação na família, como filho. Nesta altura da história os fariseus deveriam ter demons- trado total ódio ao moço. Na opinião deles, um filho tão sem valor, que havia abandonado o povo da aliança, só prestava para o inferno. Se acontecesse que os fariseus tocassem em um homem cujas vestes estivessem sujas de estrume de porco, eles imediatamente sairiam para tomar banho e lavar as próprias roupas. Abraçar tal pessoa e apanhar um pouco daquela sujeira que ela portava era algo revoltante demais para exprimir-se em

e beijar um tratador de porcos era a mesma coisa que

palavras

beijar um sapo repulsivo! Portanto, a tese defendida por Jesus era óbvia. Ele dizia que Deus não era, de forma alguma, como os fariseus imaginavam que fosse. Deus ama as piores pessoas, aquelas carregadas de problemas, que já não têm mais esperança. Deus não condena as pessoas pelos seus pecados, acusando-as sem piedade; em vez disso, ele abraça essas pessoas que ainda cheiram a porcos, ele as perdoa e as beija. CAPÍTULO 4

Escravos ou Filhos?

N este ponto da história, Jesus introduziu o caráter do irmão mais velho a fim de mostrar, mediante contraste vivido, a verdadeira natureza do sistema doutrinário farisaico. Vê-se

que esse irmão não possuía o amor-Ágape presente em seu pai e,

além disso, revelou-se totalmente ignorante de tal amor, e inimigo de qualquer manifestação nesse sentido. Ele trabalhara o dia inteiro no campo. Ao regressar, ouviu o

som de música e da dança. Aborrecido, perguntou a um empre- gado o que estava acontecendo. O empregado lhe disse que seu irmão havia regressado e

aquela festa era a celebração de boas vindas da família. Os olhos

voltou ao campo, recusou-se a

entrar. Ele repugnava o irmão menor; desprezava-lhe a memória

do moço escureceram-se de

e,

por dentro, também sentia raiva de seu pai. Ouvindo que seu filho mais velho não estava disposto a receber

o

irmão menor, o pai saiu a fim de persuadi-lo a entrar. Muito

mal-humorado, o moço recusou-se, e em seguida explodiu contra

seu pai:

"Mas ele respondeu a seu pai: Olha, sirvo-te há tantos anos, sem nunca transgredir o teu mandamento, e nunca me deste um cabrito para alegrar-me com os meus amigos. Vindo, porém, esse teu filho, que desperdiçou os teus bens com meretrizes, tu mandaste matar para ele o bezerro cevado”. (Lucas 15:29,30)

Em sua fúria, o moço revelou o que se aninhara no seu coração durante todos aqueles anos. Disse ele: “Tenho estado

servindo ao senhor sem jamais negligenciar um sequer dos seus mandamentos.” A palavra grega para “servir” é “estar escravi- zado.” The New English Bible (Nova Bíblia Inglesa) traduz a

tenho sido seu escravo durante todos estes

(v. 29). Argumentava que havia sofrido muito sob as leis

decretadas por um pai feitor de escravos. Ele se considerava também um escravo, rápido na obediência a todas as ordens. Devido ao seu pensamento pervertido, o moço entendia as palavras do pai segundo a mente de um escravo. Quando o pai dizia: “as cercas precisam de conserto”, estava falando ao filho e co-proprietário da fazenda. Na verdade, o pai estaria dizendo o seguinte: “Seria um investimento sábio em nossa propriedade se consertássemos as cercas hoje.” Contudo, aos ouvidos do irmão mais velho aquelas palavras se traduziam assim: “Vá consertar minhas cercas, menino!” Em sua opinião ele ia bem como escravo. Sempre obedecera a todas as ordens recebidas embora nem sempre sentisse alegria no trabalho, nem concordasse com as tarefas. O fato é que esse moço ainda não havia sequer começado a compreender a idéia de um relacionamento de amor no qual ele, como filho, era aceito e amado por quem era, e como era. Tampouco conhecia a alegria de amar ao pai e ao irmão com esse tipo de amor. Jamais houve um único dia em que ele trabalhasse por amor puro e simples a seu pai, a fim de prover- lhe sustento e, ao mesmo tempo, extasiar-se diante da idéia de ser co-proprietário da fazenda. O fato é que a mentalidade de escravo não imagina festas e celebrações espontâneas de alegria. Só imagina temores e per- guntas retraídas, tipo: “Parece que nunca conseguirei agradá-lo — será que já fiz o suficiente?” E provável que esse moço jamais tenha desejado uma festa até ver seu irmão no meio de tanta alegria. A explosão dele foi: “Isso não é direito! Ele não fez o que eu fiz! Ele não trabalhou como um escravo, não obedeceu a todas as ordens como eu obedeci. Quando é que terei feito tanto, que o senhor estará satisfeito?”

passagem assim:

anos

O que esse moço e os fariseus não conseguiam enxergar, por serem cegos, era que a aceitação nada tinha a ver com ações ou

Escravos ou Filhos f o l

comportamento. Tinha tudo a ver, entretanto, com o amor do pai; e da parte do irmão mais novo, fé nesse amor incomensu- rável.

O fariseu acreditava que seu currículo de realizações con- quistaria para ele o favor divino. Ao aproximar-se de Deus, ele lhe colocaria diante dos olhos sua folha de serviços prestados, encararia aquele a quem considerava tirano e dono de escravos. Recitaria todas as suas vitórias e lamentaria todos os seus fracassos, lamuriando-se por ser tão propenso a cair.

É certo que os fariseus teriam ficado estarrecidos com a história

de Jesus. O pai havia menosprezado o comportamento do filho mais velho e, ao proceder assim, estava afirmando que suas ações nada tinham a ver com aceitação ou rejeição. A aceitação dependia de quem era o pai, e não do que o filho fizera. Visto que religião é modificação do comportamento, ela subtrai da vida da pessoa muitas coisas que esta antes vinha fazendo, e acrescenta muitas outras que nunca antes fizeram parte de seu modo de viver. A ênfase da religião é no exterior: nas roupas que a pessoa não pode usar; nos lugares que precisam ser evitados; nos livros, revistas, e filmes proibidos; nos alimentos e bebidas que não podem ser tocados. A religião também acrescenta um novo comportamento:

freqüência assídua à igreja ou às reuniões religiosas, separação de momentos especiais para a leitura da Bíblia e oração; obras sociais entre os pobres. Há mudança nas amizades: só se incluem os amigos que adotam o mesmo estilo de vida religiosa e que, juntos, estão engajados em todas as atividades sociais aceitáveis segundo o

código daquele tipo particular de religião. A pessoa poderá tomar-se ainda mais devotada a Deus se se tomar presbítero, membro do coro, líder da mocidade, ministro do evangelho ou mesmo missionário!

É óbvio que o sistema doutrinário dos fariseus, o qual procura a

aceitação de Deus mediante a modificação do comportamento, reduz o Cristianismo a uma fórmula, em vez de mostrá- lo como realmente é: um relacionamento dinâmico com Deus, trazido por Cristo. Quando o irmão mais velho referiu-se ao mais novo como

“esse teu filho," em vez de “esse meu irmão", estava dando a entender que o comportamento do rapazinho o levara a perder o direito de membro da família.

Mas a coisa é ainda pior, porque viver segundo regras e códigos produz o inverso dos objetivos de Jesus. Deus é Agape, e Jesus afirmou que seus discípulos seriam conhecidos por uma vida marcada pelo amor divino. E trágico que a religião só consiga produzir orgulho no coração da pessoa, e desprezo por todos quantos não acatam os preceitos específicos da seita. A religião mira-se no espelho de seus mandamentos e, em seguida, espreita os que não pertencem ao mesmo círculo de

ó Deus, graças te dou porque não

sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros (Lucas 18:11). Descreve, em seguida, seu modo de vida superior! Ao longo da história, o Espírito de Deus tem-se manifestado continuamente entre os homens, e aberto seus olhos para que vejam o grandioso e incondicional amor revelado por Deus em Jesus Cristo. Quando o homem recebe a dádiva do Ágape, há alegria, há festa. Entretanto, dali a pouco os guias farisaicos aparecem, à semelhança de erva daninha em canteiro de flores, a fim de minimizar a vida espontânea do Espírito, reduzindo-a a um código rígido. O relacionamento com Deus transforma-se assim numa fórmula morta para reger a vida. Já não se conhece mais o crente pelo fato de Cristo ser a fonte de sua vida; ele é conhecido, em vez disso, pelas peculiaridades dos preceitos pelos quais vive. Testemunhar deixou de ser um compartilhamento do próprio Jesus na vida do crente, e trans- formou-se num convite para ele viver sob o jugo de uma forma particular de religião.

presunçosos, e orgulha-se:

Quanto mais religiosa se toma a pessoa, mais longe fica de Deus. Quanto maior a dedicação religiosa, maior a sensação de vazio. A observância de todos os preceitos não satisfaz a fome interior; e assim, uma dedicação segue-se a outras dedicações, enquanto a pessoa vai nutrindo a esperança de que aquela será a última oferenda capaz de agradar a Deus, e trazer satisfação ao seu coração. Porém, cresce a frustração agonizante! O coração não deseja observar preceitos; surge o desejo de romper com as rígidas

exigências da religião, o que só produz constante reconhecimento de fracasso quando a pessoa tenta aproximar-se de Deus. Tivemos um cão, certa vez, chamado Fred. Era uma criatu- rinha cheia de júbilo, mas tinha o hábito perturbador de morder, por brincadeira, as pernas de qualquer pessoa que passasse pela nossa calçada, especialmente as do carteiro. Se quiséssemos manter o cachorro, precisávamos tomar alguma providência por isso nós o amordaçamos. Para alívio do carteiro, Fred agora aparecia sentado, de focinheira na boca. As pessoas já podiam caminhar pela nossa calçada com segurança. Entretanto, embora nosso cachorro agora fosse inofensivo, nada mudara em Fred. Todos os dias ele se quedava bem quieto, cobiçando as pernas dos transeuntes. Havíamos mudado seu comportamento, mas não sua natureza! A religião muda o comportamento, mas não muda o coração, a

fonte dos desejos humanos. Ao acatar todos os preceitos, o crente

mas seu coração ainda deseja

regalar-se. Na verdade, o coração almeja ainda mais fazer aquelas coisas, agora que elas se tomaram proibidas. A pessoa sincera se entristece com sua incapacidade para obedecer, mas sempre se esforça para retomar às dedicações e promessas a Deus. Esta pessoa sincera é quem, mais cedo ou mais tarde, estará cheia de problemas, queimada espiritualmente, e exaurida. Algumas pessoas conseguem viver com a diferença entre os preceitos e a realidade das coisas, mas o candidato à queimar-se espiritualmente não consegue viver com aquilo que percebe ser hipocrisia. Essa pessoa continua a lutar em prol da maturidade espiri- tual dentro da estrutura de códigos de sua igreja, toma-se confusa, desanimada e amargurada. Seu entusiasmo esvai-se, e ela percebe que continua a agir pelo ímpeto. Finalmente, desaparece do cenário, queimada pelo ensino que recebeu. O único inimigo real do crente é a mentalidade de escravo, em constante luta para ganhar o favor de Deus. Todas as bênçãos divinas lhe pertencem, desde que ele procure ganhá- las mediante modificação de seu comportamento. Ao examinar suas ações para certificar-se de que é aceito diante de Deus, a pessoa cai nas garras do diabo; sem a mínima esperança, toma-se presa do acusador de nossos irmãos.

evita o que lhe é proibido

A exposição que Jesus fez do espírito do farisaísmo demons-

trou que este é antagônico ao coração do Pai e ao evangelho.

Assim advertiu ele aos discípulos

fermento dos fariseus

doutrina mortífera penetraria até mesmo entre aqueles que haviam estado com ele e contemplado sua santa indignação contra tal veneno. Ao lermos o relato do Espírito Santo descendo no Pentecoste, esquecemo-nos de que aqueles primeiros crentes estavam arro- lhados dentro da cultura religiosa em que nasceram. Haviam recebido o Espírito, mas suas mentes avaliavam o caminhar com Deus em santidade da maneira como tinham sido educados, e esta, até certo ponto, não passava de farisaísmo. Embebidos no ensino que receberam dos rabinos desde criança, e respeitando os fariseus como os mais santos de todos os homens, era inconcebível para eles que alguém pudesse conhecer verdadeiramente a Deus enquanto não se submetesse ao jugo da lei. Não atenderam à advertência de Jesus, ainda que entendes- sem seu significado. Sob a liderança de Tiago, durante as primeiras décadas após o Pentecoste, a igreja de Jerusalém considerava o Messias como alguém exclusivo dos judeus. Criam que ele viera para instaurar um reino em que todos haveriam de obedecer com perfeição à letra da lei. Muitos fariseus chegaram a conhecer Jesus depois do Pen- tecoste. Entretanto, ao aceitarem a Jesus, não cessavam de viver segundo as ordenanças da lei. Presumiam que, pelo fato de conhecerem Cristo, o Senhor os ajudaria a cumprir todos os rituais e fórmulas da lei vetero-testamentáriabem como seus preceitos humanos denominados “cercas legalísticas”. Achavam que era de seu dever ensinar a todos quantos vinham a Cristo, de fora, como viver segundo os preceitos. Os fariseus viam-se a si próprios como pessoas que adentraram o reino já perfeitamente educadas, de modo que agora poderiam ajudar aqueles pobres gentios ignorantes a serem tão espirituais como eles, os fariseus, o eram. Nunca lhes ocorreu que a morte e ressurreição de Cristo trouxeram fim à religião, e o início de um novo modo de vida. Paulo e Bamabé dirigiram-se aos gentios, primeiramente em Antioquia, na Síria, e depois na Ásia Menor, anunciando que

Olhai, guardai-vos do

(Marcos 8:15). Cristo sabia que a

todos podiam aproximar-se de Deus mediante o que Cristo havia feito sem que primeiro precisassem consertar seu comportamento, alinhando-o com a lei de Deus. Antioquia tomou-se o centro de alegre celebração no Ágape e na graça de Deus.

A tensão entre o que a igreja de Jerusalém, sob a liderança de Tiago, estava ensinando, e o que Paulo estava pregando, tomou-

se muito forte. Decidiu-se, portanto, marcar uma reunião em que

assunto fosse discutido abertamente, com a orientação do Espírito Santo. Nesse concilio, o Espírito abriu os olhos dos crentes de Jerusalém, inclusive de Tiago, e todos viram que a graça e o amor de Deus estavam voltados a todas as

sem que precisassem merecê-los mediante a observância da lei de Moisés ou dos preceitos dos fariseus. O grupo de irmãos voltou a Antioquia, regozijando-se porque o Espírito prevalecera e salvara a Igreja da mentalidade de escravo, própria do irmão mais velho. Pedro chegou e despendeu algum tempo com os discípulos em Antioquia, vivendo livremente entre eles, sem observar nenhum dos preceitos farisaicos. Um dia, porém, chegaram alguns crentes da igreja de Jerusalém. Pedro, imediatamente, começou

a agir à semelhança de um fariseu, e o povo judeu da igreja

seguiu seu exemplo. Até Bemabé cedeu e começou a acatar a “cerca” legalística. Paulo percebeu que tal prática não consistia em mero disse- me-disse local em tomo da maneira como o crente devia proce- der. Viu que era o próprio evangelho que estava em jogo, pois ou o crente é aceito diante de Deus baseado em suas tentativas de cumprir a lei de Deus e os preceitos humanos de um grupo eclesiástico, ou é aceito baseado no amor e na graça de Deus, que não têm preço. Não pode existir meio termo. Paulo levantou-se e confrontou a Pedro diante de toda a igreja. Suas palavras finais revelam a etema seriedade da questão: Não anulo a graça de Deus, pois se a justiça provém da lei, segue-se que Cristo morreu em vão (Gálatas 2:21). Se a pessoa buscar a aceitação de Deus baseada, de alguma forma, no seu modo de viver, estará declarando que a morte de Cristo foi desnecessária. Paulo não poderia ter afirmado isso de maneira mais clara do que quando o fez naquele dia, em Antioquia.

o

Entretanto, o espírito da religião é persistente. Paulo e Bamabé pregaram o evangelho da graça de Deus por toda a Galácia; milhares de pessoas aceitaram a Cristo e iniciaram vuna vida no poder reinante neles. Os judeus que se converteram ao evangelho já não viviam mais segundo os preceitos farisaicos, mas segundo o Espírito Santo dentro deles. Os gentios que haviam abandonado a sociedade imoral, idólatra, estavam aprendendo a caminhar em amor com Jesus Cristo que vivia dentro deles, sem apelar para preceitos e proibições. Então chegaram alguns dos fariseus crentes, de Jerusalém. Aparentemente, eles não haviam concordado com as conclusões do concilio (e é questionável se o próprio Tiago houvesse real- mente entendido o que o Espírito Santo revelara naquele con- cilio). Eles apresentaram congratulações aos gálatas pelo fato de estes terem aceitado a Cristo, e em seguida lhes perguntaram:

“E como é que vocês vão planejar viver, agora, a fim de agradar a Deus?” E prosseguiram com as perguntas, repreendendo os judeus por terem abandonado a lei, assegurando-lhes que agora dispunham do poder para obedecer a todos os mandamentos e que só assim é que Deus se agradaria. Também pressionaram os gentios para que estes se colocassem sob a lei, de modo que não retomariam à sociedade imoral, privada de leis, de onde tinham vindo há pouco tempo. Os argumentos que usavam fazem sentido para a mente natural:

Claro que é necessário estabelecer alguns regulamentos e diretrizes: vamos determinar os degraus que deveremos galgar na direção do alvo da maturidade espiritual. Numa sociedade idólatra e imoral como a da Galácia, precisamos de preceitos que governem a maneira como nos vestimos, o que bebemos e comemos, quantas horas devemos dedicar à oração e meditação, e quantas vezes por semana devemos freqüentar as reuniões dos crentes. Precisamos de balizas semelhantes a estas para que possamos ser boas testemunhas. As pessoas saberão que somos crentes pelo nosso vestuário, nossas abstenções e nossa fre- qüência à igreja. Precisamos de leis na igreja que julguem quem é espiritual e quem é mundano. Tudo isso faz sentido para a carne, mas é antagônico a Deus! Quando Paulo soube do que o partido farisaico havia feito

entre os convertidos gálatas, escreveu uma carta a esta igreja. De novo suas palavras não poderiam ser mais claras; não se tratava de alguma doutrina de pequena importância sobre a qual os crentes poderiam manter-se em desacordo legítimo.

“Admira-me que tão depressa estejais passando daquele que vos chamou na graça de Cristo, para outro evangelho; o qual não é outro, mas há alguns que vos inquietam, e querem transtornar o evangelho de Cristo. Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho além do que já vos anuncia- mos, seja anátema. Assim como já vo-lo dissemos, agora de novo também vo-lo digo: se alguém vos anunciar outro evangelho além do que já recebestes, seja anátema”.

(Gálatas 1:6-9)

Estas palavras estão entre as mais enérgicas do Novo Tes- tamento. Elas nos mostram que acreditar que precisamos mudar nosso comportamento a fim de usufruir do favor de Deus, é jogar fora a obra de Cristo! Seja maldito todo o homem que ensinar tal heresia diz Paulo. Entretanto, aí está a panela da qual tantos crentes estão se alimentando hoje. Eis o ingrediente que está transformando filhos de Deus em escravos lastimosos que lutam para obedecer a mandamentos. É este fermento dos fariseus que está causando a queima espiritual dos crentes, os quais tombam, exaustos, à beira da estrada da vida. Você se lembra de quando sentiu, pela primeira vez, a graça de Deus em sua vida? Você se alegrou em Jesus pelo que ele fez,

pelo que ele passou a ser para você

Surgiu de repente em seu coração um amor espontâneo por todas as pessoas, um deleite infantil pela vida, proporcionando-lhe uma auréola de alegria de tal ordem que até os amigos céticos comentaram. Você se espantou de como alguns hábitos velhos sumiram, e nova vida começou a emergir lá de dentro. Foi como se os portões

de uma prisão de abrissem, e você pudesse sair, livre como um pássaro. Acima de tudo, você sentia fome insaciável de Deus. Vivia o tempo todo cônscio da presença de Deus, e sabia o que Paulo

durante algum tempo!

tinha em mente quando disse que devemos orar sem cessar. Você queria conhecer a verdade de Deus, e por isso lia as Escrituras com avidez.

E neste ponto da vida cristã que muitas pessoas são desviadas

por influência de um fariseu que se diz crente. Este pode ser o pastor de uma comunidade, um evangelista de rádio ou televisão, ou um membro de algum grupo de oração ou de estudo bíblico,

que durante algum tempo foi crente.

O raciocínio é que se a pessoa estiver aparentemente cheia do

Espírito Santo, tudo que ela disser tem de ser correto. Portanto,

aceita-se a mensagem de que é possível alguém se tomar crente maduro mediante a obediência a regras e preceitos. Tal mensagem faz sentido para a carne. A liberdade em Cristo cede lugar à escravidão do farisaísmo. Sob o jugo dessa escravidão, a espontaneidade da vida em Cristo, que mora no crente, toma-se apenas memória, e desaparece a alegria no Senhor. Agora é apenas uma questão de tempo: a pessoa, quer esteja dentro, quer fora da igreja, queimar-se-á, ficará espiritualmente exausta.

CAPÍTULO 5

Falsos Pastores

M ilhares de crentes queimados espiritualmente, cheios de confusão, deixaram a igreja porque um pastor sincero os alimentou, servindo-lhes da panela farisai- ca do legalismo.

Jesus usou com freqüência a imagem do pastor e das ovelhas a fim de descrever a razão porque veio à terra. Tal imagem não é originalmente de Cristo. Na verdade, é um quadro que Deus com

freqüência usava para descrever seu relacionamento com o povo da aliança. Jacó foi o primeiro a falar de Deus nesses termos (Gênesis 48:15; 49:24), e Davi imortalizou esse quadro no Salmo

23.

Nos dias bíblicos o pastor significava muito mais do que hoje.

Ele se entregava a seu rebanho; era totalmente responsável pela proteção e sustento das ovelhas. Sempre que o termo pastor era usado simbolicamente, descrevia líderes; tanto podia referir-se ao rei quanto aos líderes espirituais da nação. Todos esses eram vistos como responsáveis pelo cuidado, alimentação e orientação das pessoas em suas áreas específicas. Entretanto, a imagem do pastor desenvolveu-se na realidade entre os profetas. Muitos deles sentiram o pesado fardo de enfatizar que o povo da aliança de Deus havia sido desviado por falsos pastores. Que é que os pastores ensinaram ao povo que causou sua dispersão, e os deixou a mercê de todos os inimigos que procu- ravam sua morte? O profeta Zacarias referiu-se a isso:

“♦. • por isso [òs homens] vagueiam como ove-

lhas, estão aflitos, pois não há pastor” (Zacarias 10:2)

não visitará as que estão perecendo, não

buscará a desgarrada, e não sarará a doente, nem

apascentará a sã, mas comerá a carne da gorda (Zacarias 11:15)

um pastor

Ezequiel falou disso mais claramente que qualquer outro profeta:

“A fraca não fortalecestes, a doente não curas- tes, a quebrada não ligastes, a desgarrada não tornastes a trazer e a perdida não buscastes, mas dominais sobre elas com rigor e dureza. Assim se espalharam, por não haver pastor, e ficaram para pasto de todos os animais do campo, porque se espalharam. As minhas ovelhas andam desgarradas por todos os montes, e por todo alto outeiro; sim, as minhas ovelhas andam espalhadas por toda a face da terra, sem haver quem as procure, nem quem as busque. Portanto, ó pastores, ouvi a palavra do Senhor: Tão certo como eu vivo, diz o Senhor Deus, visto que as minhas ovelhas foram entregues à rapina, e as minhas ovelhas vieram a servir de pasto a todos os animais do campo, por falta de pastor, e os meus pastores não procuram as minhas ovelhas, pois se apascentam a si mesmos, e não apascentam as minhas ovelhas

(Ezequiel 34:4-8)

Quando Deus viu seu rebanho hostilizado e perseguido pelos pastores, cuja principal missão é garantir a saúde das ovelhas, dando-lhes proteção e orientação, disse o Senhor que ele próprio viria e pastorearia seu rebanho:

“Pois assim diz o Senhor Deus: Eu, eu mesmo procurarei as minhas ovelhas, e as buscarei. Como o pastor busca o

seu rebanho, no dia em que está no meio das suas ovelhas dispersas,

assim buscarei as minhas ovelhas. Livrá-las-ei de todos os lugares para onde foram espalhadas no dia de nuvens e

Em bons pastos as apascentarei, e nos altos

montes de Israel será a sua malhada, e pastarão em pastos gordos nos montes de Israel. Eu apascentarei as minhas ovelhas, e eu as farei repousar, diz o Senhor Deus.

escuridão

A perdida buscarei, a desgarrada tornarei a trazer, a quebrada ligarei e a enferma fortalecerei (Ezequiel 34:11-16)

Como pastor divino da aliança, Jesus falou que tinha vindo com o propósito de ajuntar seu rebanho, curá-lo e dar-lhe repouso e segurança. Usou a linguagem de Ezequiel a fim de descrever sua missão. Pois o Filho do homem veio buscar e salvar o que se havia perdido (Lucas 19:10). Jesus viu o povo como as ovelhas feridas de que os profetas

haviam falado:

que não têm pastor

compadeceu-se delas, porque estavam aflitas e exaustas como ovelhas que não têm pastor (Mateus 9:36). Duas palavras neste texto descrevem as condições das ovelhas. A palavra traduzida por “aflitas” é usada na língua grega para descrever pessoas que foram atacadas e roubadas, perdendo seus bens. Elas jazem agora amedrontadas, confusas, fracas demais para caminhar e sair da margem da estrada aonde foram atiradas e abandonadas. “Exaustas” — a segunda palavra também tem sido usada para descrever pessoas que caíram e não têm condições de erguer-se. Se alguém olhasse para a multidão, veria um grupo de camponeses decentes, respeitáveis, da Galiléia, que iam ao culto todos os sábados, e enviavam seus filhos à escola em que o principal livro-texto eram os cinco primeiros livros da Bíblia. A maior parte das famílias lia e memorizava grandes porções das Escrituras, e ordenava suas vidas numa tentativa de obedecer aos preceitos escriturísticos. Jesus as via com os olhos de Pastor da aliança. Ele descreveu essas pessoas respeitáveis como ovelhas perdidas, aflitas, de quem tinham roubado a verdade, ovelhas perseguidas, dispostas a desistir. Seus líderes espirituais distorceram a verdade da Palavra de Deus a tal ponto, que esta se lhes tornara fonte de morte e exaustão espiritual.

teve compaixão deles, porque eram como ovelhas

(Marcos 6:34). Vendo ele as multidões,

Quando afirmamos que Jesus busca os perdidos, nós o visua- lizamos à procura de todos os pecadores, quem quer que sejam, e onde quer que estejam, e sejam quais forem as razões por que se perderam. Isto é verdade. Entretanto, o fato é que Jesus estava afirmando que tinha vindo para buscar os que viviam confusos e magoados pelas palavras daqueles que se diziam seus pastores. Os perdidos eram os que se sentavam todos os sábados na sinagoga, no esforço de tomarem-se bonzinhos a ponto de Deus os amar. Os perdidos eram também as pessoas que, embora quisessem aproximar-se de Deus, eram afastados pelos líderes espirituais. Os fariseus eram os maiores gritalhões ao denunciar os cobradores de impostos, as prostitutas, os ladrões e outros pecadores das vielas escuras de Jerusalém. Proclamavam, do púlpito, que Deus se deleitava em condenar esses pecadores ao inferno, por causa de seu mau comportamento. Eles se escan- dalizaram ao ver que Jesus fez dessas pessoas, desses “pecadores” — seus amigos e discípulos. Hoje, Jesus ainda está à procura das pessoas que se perderam porque apanharam até à exaustão. Elas foram ofendidas pelas palavras dos líderes religiosos que falam em nome de Deus. Muitas pessoas nos Estados Unidos já estiveram numa escola dominical de alguma igreja, e muitos têm freqüentado escolas seculares pertencentes à igreja. No entanto, tais pessoas fugiram daquilo que ouviram! Por quê? Será que são pessoas que odeiam Deus? Não! Fugiram porque algum pastor, falando como representante de Deus, apresentou-lhes um evangelho corrompido pelo fermento dos fariseus. Esse pastor exigiu que mudassem seu comportamento a fim de conformar-se a um tipo de vida que segundo promessa dele lhes traria o favor de Deus. Há quinze anos fui o palestrante num acampamento na região noroeste dos Estados Unidos. O acampamento fora patrocinado por um grupo de igrejas evangélicas que acreditavam que os crentes precisavam passar pela experiência de encher-se do Espírito Santo. Todos os adolescentes provinham de famílias evangélicas. Seus pais eram membros de igreja; muitos eram diáconos, presbíteros e líderes de grupos corais. Alguns pertenciam a famílias de pastores. Os pastores responsáveis pelo acampamento reuniram-se comigo antes do início das palestras, e disseram-me que as igrejas

patrocinadoras estavam preocupadas com o estado espiritual de seus adolescentes. Observava-se que, quando as crianças chegavam

à adolescência, ficavam desinteressadas quanto às coisas de Deus;

alguns tinham-se até rebelado contra seus pais e contra a igreja.

As primeiras reuniões foram difíceis. Cerca de 150 adolescentes sentavam-se, ou melhor diríamos, esparramavam-se pelas cadeiras. Os olhos de alguns pareciam vidrados; outros mascavam chiclete e faziam grandes bolas cor-de-rosa; outros, ainda, bocejavam interminavelmente. Na terceira noite, sentei-me à borda do estrado e pedi aos adolescentes que me ajudassem a compreender em que é que eles criam. Houve uma fagulha de interesse que, eu sei, nasceu do fato de eles acharem que naquela noite não haveria sermão! Assegurando-lhes que eu não os criticaria, encorajei-os a responder às minhas perguntas. Comecei com: “O que é um cristão?” Após breve silêncio, uma garota de cerca de quatorze anos ergueu

a mão e disse:

E uma pessoa que aceitou Jesus como Salvador. Acenei afirmativamente e perguntei-lhe:

E como é que se consegue fazer isso?

Outra mão ergueu-se:

A pessoa levanta a mão numa reunião, vai lá na frente e ora.

Por que a pessoa tem de fazer isso? perguntei. Com que finalidade a pessoa ora quando vem à frente?

Mais mãos ergueram-se, e eu escolhi um rosto sardento a duas fileiras de mim.

que vai

abandonar o pecado afiançou-me. Outro adolescente gritou:

A pessoa promete a Deus que vai ser

A pessoa pede a Deus que a ajude a ser boa!

Muito bem, disse eu o que acontece quando a pessoa se torna crente? Um zunzum de murmúrios e de risadinhas abafadas espalhou- se pela multidão. Finalmente, uma mocinha levantou a mão. Fica pior para as meninas! disse ela, com hesitação,

corando e rindo.

Surpreendi-me com essa resposta e encorajei-a a explicar o que ela queria dizer.

as meninas crentes não podem usar mini-saias nem e mais uma vez corou e ficou quieta.

maquiagem

Bem

Outras meninas concordaram e acrescentaram, ruidosamente:

Não podemos cortar o cabelo nem usar brincos. Convencidos agora de que não haveria mesmo nenhum sermão, os adolescentes pareciam despertos. Os meninos come- çaram a colaborar, sugerindo suas listas de coisas que os crentes não podem fazer. No topo das proibições vinha o cigarro, seguido de cerveja e vinho, falar palavrões, ouvir música de rock e ler “Playboy”. Enquanto as respostas vinham, dei uma olhada nos pastores. Fiquei estupefato ao ver que, sorrindo e concordando com a cabeça, estavam aprovando o que os adolescentes diziam. Salientei que eles me haviam indicado apenas o que os adolescentes crentes não podem fazer e perguntei:

Como é que os crentes passam o tempo? Houve longo silêncio; depois, uma voz vinda do meio da multidão berrou:

Eles não fazem muita coisa! A observação foi recebida com gargalhadas. Outra pessoa berrou também:

Vão jogar pingue-pongue aos sábados, e os pais ficam olhando para eles! Esta observação foi recebida com apupos e mais gargalhadas. Houve longo silêncio, depois do qual as respostas começaram a pingar com menos entusiasmo. Ir à igreja o dia inteiro no domingo e nas noites de quarta-feira era uma obrigação absoluta todos concordaram. Outros sugeriram meia hora de leitura da Bíblia e de oração todas as manhãs. Tomou-se aparente que os cristãos verdadeiramente dedicados eram os que testemunhavam às pessoas nas galerias dos “Shopping

Centers" aos sábados, deixavam folhetos para os garções nos restaurantes (às vezes, no lugar de gorjetas) e íam de casa em casa, convidando as pessoas para irem à igreja.

O que é que dá a motivação a esses crentes para fazerem

todas essas coisas? perguntei. Outra vez houve silêncio. A menina séria sentada na fileira da frente disse:

A pessoa precisa esforçar-se bastante, orar muito, dedicar a

vida a Jesus o tempo todo, e ouvir programas evangélicos de rádio.

Será que existe alguém que vive assim? perguntei.

Olharam uns para os outros e houve alguma inquietação.

Muitos voltam atrás um bocado disse um rapaz sentado ao

lado da moça solene. Então perguntei:

O que é que esse crente deve fazer, nesse caso?

Um adolescente respondeu:

A pessoa vai lá na frente, rededica a vida e tenta de novo! Aguardei num silêncio quase amistoso e em seguida ponderei:

Vocês acham que ser crente é a coisa mais fantástica da vida aqui na terra? Eles não estavam esperando uma pergunta assim e, por isso, explodiram numa gargalhada. Por fim, um deles balbuciou:

Só se o cara for louco!

Eu estava admiradíssimo de que aqueles adolescentes, expostos a tantas reuniões, tantas palestras, e também ao seu próprio pastor, semanas após semanas, não houvessem entendido o evangelho de maneira alguma. Como é que os pais deles, alguns dos quais eu sabia serem crentes cheios do Espírito Santo, podiam ter deixado aquela impressão nos filhos? Onde entra Jesus Cristo em tudo isso? perguntei quando as gargalhadas diminuíram. Imediatamente houve um dilúvio de mãos levantadas. Todos concordaram em que ele morrera por nós.

Mas o que é que vocês querem dizer com isso? enfatizei

minha pergunta, aumentando mais o entusiasmo de todos eles. De novo a resposta veio como um raio:

Ele morreu pelos nossos pecados para que pudéssemos ir para o céu.

Você tem certeza de que vai para o céu? perguntei de maneira casual a um adolescente, em particular.

Foi a

jovem solene, da fileira da frente, que me agraciou com seu

conselho. Eu ia perguntar como é que a gente agrada a Deus, mas sabia que iríamos cair de volta naquela história de ir lá na frente e rededicar a vida. Deixei de lado.

Está bem, digam-me então o que significa a frase “Jesus

ressuscitou dentre os mortos”. Fez-se longo silêncio, e todos se sentiram um pouco incomo- dados. Finalmente, alguém disse que isso queria dizer que Jesus estava com as pessoas todos os dias, ajudando-as a serem boas, a serem cristãos dedicados. Perguntei se a ressurreição significava que Jesus os ajudaria a não usar mini-saia, a não fumar cigarro, a não beber vinho, mas a ler a Bíblia todos os dias em vez de “Playboy”. Todos pareciam sentir-se constrangidos e alguns timidamente diziam sim com a cabeça. Eu sabia que estava penetrando em áreas em

Só se eu me esforçar bastante para agradar a Deus

que eles não haviam pensado antes. Pus o assunto de lado e encorajei-os a me fazerem perguntas genéricas sobre a Bíblia. Tive um panorama geral quanto a onde eles estavam, o que me forneceu orientação para a pregação na semana seguinte. Depois, conversei com os ministros que lideravam o acam- pamento. Um deles me disse:

Muito bem, você viu as coisas por si mesmo! Esses adoles- centes sabem o que é santidade, porém não desejam pagar o preço! Fiquei aturdido; por um momento, senti-me como se estivesse sentado na velha Jerusalém, conversando com Tiago ou com um de seus assistentes farisaicos, crentes em Cristo! Nas igrejas que patrocinaram o acampamento, os crentes eram semelhantes a muitos milhares de crentes no mundo inteiro. Eram todos verdadeiramente renascidos e cheios do Espírito Santo. Em algum ponto de suas vidas, Jesus entrara e permeara seu viver de tal modo que muitos componentes de seus costumes desapareceram, para dar lugar a uma vida que expressava a presença do Senhor. A graça de Deus lhes havia alcançado o coração, e seu amor lhes expulsara os antigos padrões de vida. Contudo, não demorou muito para que eles se esquecessem de que Deus os amara enquanto eles estavam comprometidos com o antigo estilo de vida. Deus os amara embora fossem bêbados, e quando deslizavam pelas pistas de dança. Mas eles se esqueceram disso, e passaram a agir como se houvessem ganho sua posição em Deus por terem deliberadamente e não pela graça que os alcançara desistido do antigo viver. Ninguém dentre eles conseguia lembrar-se do dia em que acrescentaram um apêndice ao evangelho. Tomou-se regra na igreja que qualquer pessoa que pensasse em Deus com seriedade, precisaria renunciar as coisas que aqueles crentes originais haviam renunciado, e adotar o estilo de vida que estes passaram a adotar. O que de início fora graça para eles, transformava-se, agora, em lei para seus filhos. E por causa de suas leis, estavam afastando seus filhos de Jesus. E eram tão sinceros! Acreditavam sinceramente que estavam resguardando seus filhos contra o pecado, sem perceber que, de fato, estavam transformando o pecado em algo muito atraente para eles. Tampouco percebiam que a existência de suas regras negava que só Jesus, mediante sua morte e ressurreição, poderia libertá-los do

pecado e mantê-los livres. No ano passado, falei com um dos pastores que haviam liderado aquele acampamento. Perguntei-lhe:

Você se lembra daquele acampamento há quinze anos? Que aconteceu àqueles adolescentes? Ele sacudiu a cabeça, com tristeza. Eram rebeldes, e quase todos foram para o mundo. Não, não eram rebeldes. Não fugiram de Jesus nunca o encontraram. Fugiram, cansados e exauridos, da religião que retrata um Deus mesquinho, irado, que só ama as pessoas que a igreja considera boas. CAPÍTULO 6

A Vida Zoe*

E m João 10, Jesus descreveu os falsos pastores como ladrões, assaltantes e assassinos. Na melhor das hipóteses, eram

servos contratados que só trabalhavam mediante salário, empregados que não demonstravam qualquer interesse pelo bem- estar do rebanho. Na pior das hipóteses, eram semelhantes a ladrões que assaltavam o rebanho, para roubar-lhes tudo quanto o Pai lhes havia concedido graciosamente, em seu amor. Eram assassinos que traziam a morte espiritual com suas palavras. “O ladrão só vem para roubar, matar e não tem cuidado com as ovelhas” (João 10:10,13). Muitos têm sugerido que o ladrão é o diabo, mas o contexto não permite tal interpretação. O ladrão, nesta passagem, é a pessoa que está ensinando às ovelhas uma doutrina que destrói sua vida espiritual. No contexto de João 10, tratava-se dos fariseus. Jesus nada tinha em comum com a religião, da mesma forma que um pastor nada tem em comum com o caçador desonesto. Ele

o

não veio para dar-nos forças para cumprirmos os dez mandamentos, e tampouco deu-nos Cristo uma versão atualizada do decálogo no sermão do monte. Ele não nos ofereceu leis tipo “cerca”. Na verdade, com palavras veementes, ele repudiou essas leis vigentes em seus dias. Ele

mesmo as violou ostensivamente, e incentivou seus seguidores a fazerem o mesmo. Jesus opôs-se a todo e qualquer sistema que ensinava que a pessoa precisa antes mudar seu comportamento a fim de tornar- se aceitável diante de Deus. Ele não veio fundar nova religião. A igreja pela qual ele morreu e ressuscitou a fim de trazê-la à existência, de modo nenhum é uma religião. Ei-lo descrevendo a si próprio e à sua religião:

eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância. Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a sua vida pelas ovelhas”.

(João 10:10,11)

Sentiremos a força daquilo que Jesus está dizendo aqui, ao compreendermos o significado da palavra que ele usa para vida. Na língua grega, essa palavra é zoe. Zoe se define como “vida no sentido absoluto, vida como Deus a tem, vida que o Pai possui em si mesmo, e que ele deu ao Filho encarnado, para que a tivesse

nele

Zoe é a vida que se expressa na Palavra que, pronunciada, trouxe o mundo à existência, sendo o alicerce de todo o fôlego existente no universo. E a vida de Deus e, portanto, não se entende meramente como extensão de dias e atividades, mas

como qualidade e intensidade de vida.

(Ágape) (1 João 4:16) e, por isso, a vida de

.” ' '

Deus é

Deus, o modo de ele ser, é Ágape. A zoe de Deus veio habitar entre nós, em Jesus. Disse ele de si mesmo: “Eu sou a vida ” (zoe) (João 14:6). Quando João contemplou os anos que passara

com Jesus, e ao olhar para trás, retrospectivamente, na vida terrena de Jesus, ele exclamou:

“O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos próprios olhos, o que contemplamos e as nossas mãos tocaram, isto proclamamos com respeito ao Verbo da vida (zoe) pois a vida (zoe) foi manifestada, e nós a vimos, e testificamos dela, e vos anunciamos a vida (zoe) eterna, que estava com o Pai, e nos foi manifestada”. (João 1:1,2)

A definição final de zoe é “a vida de Jesus”; é a vida como Jesus a viveu. Ao ser criado originalmente, o homem partilhou a vida e a

natureza de Deus.

“Formou o Senhor Deus ao homem do pó da terra, e soprou-lhe nas narinas o fôlego da vida (Gênesis 2:7)

No meio deste jardim paradisíaco estava a Arvore da Vida, da qual o homem tinha permissão para comer. Contudo, na queda,

“entenebrecidos no entendimento, (Efésios 4:18).

Desse dia em diante, o homem é descrito como estando morto. E certo que ele está vivo em sua mente e corpo, e juntamente com toda a vida criada, é sustentado pela zoe. Entretanto, o homem não conhece a Pessoa que é Zoe\ considerando que a razão da criação do homem é que ele conhecesse a Deus, esse desconhecimento indica que o homem está morto. O homem disporia, a seguir, de certa extensão de dias, durante os quais ele criaria seus relacionamentos, sonharia, acalentaria seus sonhos, estabeleceria seus objetivos, adquiriria sua fortuna e ganharia suas batalhas. Contudo, havia um vácuo em seu coração que deveria ser preenchido com a zoe de Deus. Jamais o homem poderia satisfazer-se, e sua busca contínua daquilo que perdeu se confirma na existência da religião onde quer que o homem se encontre. Visto que o homem foi criado para partilhar a zoe de Deus, ele não consegue satisfazer-se com as regras externas e os rituais da religião. Ele pesquisou além do exterior e penetrou no mundo demoníaco, o que o deixou escravizado, amedrontado e imerso em

Adão foi eliminado desta separados da vida (zoe) de

trevas cada vez mais densas. Só zoe o satisfaz e preenche o abismo existente em seu coração. Veio então Jesus, zoe em carne. “Nele estava a vida (zoe), e a vida (zoe) era a luz dos homens (João 1:4). Em Atos 3:15 ele é chamado de “o Autor da vida” (zoe). A Bíblia Amplificada traduz a

passagem assim: "

Desde o início de seu ministério, tomou-se patente que Jesus estava dizendo alguma coisa radicalmente diferente de tudo que se ouvira antes. Ele assegurou continuamente a seus discípulos que crer nele resultaria em eles receberem zoe, e passarem a participar

de zoe, isto é, da vida eterna. Logo no início de seu ministério, disse Jesus a Nicodemos:

para que todo o que nele crê tenha a vida (zoe) eterna.” “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça,

a própria Fonte o Autor da

.*

mas tenha a vida eterna (zoe).”

(João 3:15,16) “Todo aquele que crê no Filho tem a vida (zoe) eterna, mas todo aquele que rejeita o Filho não verá a vida (zoe)”. (João 3:36)

Falando à mulher samaritana, disse ele:

“ mas aquele que beber da água que eu lhe der, nunca

mais terá sede. Deveras, a água que eu lhe der se fará nele

uma fonte de água que jorre para a vida (zoe) eterna”. (João 4:14)

Ele censurou os fariseus, dizendo-lhes:

“ contudo não quereis vir a mim para terdes vida (zoe).” (João: 5:40)

Depois de alimentar os 5.000, ele lhes prometeu o verdadeiro pão:

“Eu sou o pão da vida (zoe). Aquele que vem a mim não terá fome, e quem crê em mim jamais terá sede” (João 6:35). Quando a pessoa vem a Cristo, preenche-se o abismo existente em seu coração. Em outra ocasião, disse ele: “Eu sou a luz do mundo. Quem me segue não andará em trevas, mas terá a luz da vida (zoe)” (João

8:12).

A lei referente aos mandamentos de Deus exigia o cumprimento

FAZE ISTO E

da parte da pessoa, segundo as palavras: “

VIVERÁS” (Lucas 10:28). A mensagem de Jesus era diferente. Disse ele que o homem deveria crer nele e, tendo a vida de Deus, passaria a viver. Ele disse a mesma coisa, só que de modo diferente, ao dirigir-se a

seus discípulos com respeito ao amor divino, Ágape:

“Novo mandamento vos dou: amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei a vós, assim também deveis amar uns aos outros.

(João 13:34,35)

Com estas palavras e promessas, ele mostrou a natureza da salvação que nos veio trazer. O chamamento aos homens para que viessem participar da vida e do amor de Deus, tirou a questão da salvação do âmbito da ação humana, a saber, do que o homem poderia realizar. Nenhuma forma de dedicação humana poderia produzir no homem a natureza de Deus! Esta não é, portanto, uma questão de lei que a pessoa procura acatar, mas trata-se de um dom da Vida, da qual flui espontaneamente um novo modo de viver. Jesus não veio meramente para perdoar-nos e enviar-nos embora a fim de que, com sua ajuda, façamos o melhor possível. Ele veio para iniciar uma nova raça de pessoas que partilham sua vida zoe.

Trata-se de um dom da Vida, da qual flui espontaneamente um novo modo de viver. Não estamos falando de as pessoas tomarem ou não tomarem drogas, ou álcool, ou ir à igreja aos domingos, ou vestir-se de determinada maneira. Estou dizendo que fomos chamados a fim de receber a vida de Deus, zoe, em nossas próprias vidas, a fim de nos tomarmos membros de uma nova raça de indivíduos. Em João 12:24 Jesus descreveu como esta dádiva se tomaria disponível ao homem:

“Em verdade, em verdade vos digo que se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica só. Mas se morrer, produz muito fruto.”

O que Jesus disse é óbvio. Se a semente cair sobre o solo e não morrer, haverá apenas uma semente. Mas quando ela é plantada no solo, ocorre o milagre da colheita. Aquela semen- tinha produzirá muitas outras sementes, todas iguais à original. Dentre todas as sementes que Jesus poderia ter utilizado a fim de ilustrar esta verdade, ele preferiu a do trigo. Este pertence a uma família de grãos que se reproduzem, dando exatamente grãos iguais ao que foi plantado. Jesus se descreve como a semente original. Mediante sua morte

e ressurreição, ele se reproduzirá na vida de milhões de pessoas que

crêem nele. Não se trata de vidas parecidas com a dele e sim Cristo vivendo na vida dos crentes! Quando é que Deus cuida de nosso pecado? Quando é que esta vida-zoe toma-se disponível para nós? Não é quando o chamamos, porque já ocorreu há 2.000 anos, quando Jesus morreu, ressuscitou

e ascendeu aos céus! O pecado do homem precisa ser julgado e abandonado. O homem deve: (1) ser liberto do poder do diabo, (2)ser liberto de todas as conseqüências da queda, (3) receber o dom da vida de Deus, (4) ter o amor de Deus derramado em seu coração, e (5) readquirir seu domínio, a fim de reinar na vida. O homem não conseguirá realizar nada disso mediante seus próprios méritos ou poder, porque é escravo, impotente diante do pecado e da morte. Contudo, Deus já fez tudo isso pelo homem, já o abençoou com todas as bênçãos espirituais. Isto ele o fez em um Homem Jesus Cristo. O corpo de verdades que chamamos de evangelho será melhor entendido como Boas Novas. Novas são o anúncio de coisas que já

aconteceram. O evangelho é o anúncio daquilo que Deus já fez com perfeição por nós e para nós.

O evangelho não é um chamado para fazermos algo, mas o

anúncio de que tudo já foi feito naquele que representou a todos.

Este é o significado da expressão-chave do Novo Testamento: “em Cristo”. Deus pôs todos os homens em um Homem, e cuidou de todos, uma única vez, e definitivamente, em Cristo.

E difícil para a nossa mente ocidental entender este fato;

entretanto, era fácil à mentalidade hebréia entender a idéia comum

de uma pessoa representar todas as demais. A história de Davi em

seu confronto com Golias ilustra este fato. Dois exércitos, o dos filisteus e o dos israelitas, enfrentavam- se

no vale de Elá. Seria uma batalha decisiva que influiria em todas

as pessoas de ambas as nações. Golias, o campeão do exército filisteu, veio à frente e desafiou Israel a enviar um campeão para lutar contra ele.

A idéia era que, em vez de gastar-se grande quantidade de

homens numa batalha, um homem representasse os filisteus e

outro os israelitas, e que ambos lutassem. O lutador vitorioso daria

a vitória à sua nação. De fato, quando os adversários se

enfrentavam, deixavam de ser cidadãos particulares; repre- sentavam e constituíam suas respectivas nações. Quando Davi saiu a batalhar contra Golias, ele era Israel. Todos os israelitas estavam “em Davi”. A história de Davi era a história de

Israel; o que lhe acontecesse, teria acontecido a todos os israelitas.

Se ele fosse derrotado, todos os israelitas se tomariam escravos da

Filístia. Enquanto os soldados de Israel observavam Davi dançando ao redor de Golias, sabiam que eles também estavam lá, à beira do vale. A perícia de Davi no uso da funda tomou-se a perícia dos israelitas quando este moço, no lugar deles, como se incorporasse a todos eles, girou a funda. Quando o homem monstruoso caiu por terra, todos os israelitas conheceram a vitória, e sentiram o peso da espada em suas mãos quando a cabeça de Golias foi decepada. Em seguida, devido à vitória alcançada por Davi, passaram a possuir a terra dos filisteus. Jesus, a zoe, a Palavra através da qual toda a criação veio a existir, e pela qual se sustenta, tomou-se o representante da raça humana. Em função de quem ele era, pôde ocupar o nosso lugar. A Vida que é a fonte e o Autor de toda a vida pode assumir o lugar de toda a criação, de tudo que ela mesma criou. Foi possível ele tomar-

se como nós, suportar a penalidade de nosso pecado, penetrar em nossa morte, derrotar todos os poderes que nos mantêm escravizados, e elevar-nos em triunfo. Isto jamais tinha acontecido na história de zoe! Zoe criara a vida

a partir do nada, mas na cruz, zoe penetrou na morte, a antivida.

Ele abraçou a morte, e por esta foi abraçado, provou-a até a última gota e, tendo-a conquistado, retomou à vida.

A ressurreição foi uma manifestação muito maior da zoe de Deus

do que a própria criação. Não somente é Cristo a Vida, mas

ressurreição e a vida

A ressurreição de Cristo significa que todo o pecado que separava

o homem de Deus recebeu o tratamento necessário. Significa que a

própria morte morreu na ressurreição de Jesus.

Significa que o diabo perdeu toda a autoridade sobre os filhos dos homens e está, portanto, derrotado e indefeso diante de qualquer homem em cuja vida reine Jesus. Significa que o homem já não está escravizado sob o poder da morte, mas incluído na ressurreição

e pode, agora, receber a zoe. Jesus ressurreto é o foco central do evangelho. Quando descansamos naquilo que ele realizou, o Espírito Santo aplica tudo quanto o Senhor fez à nossa própria experiência. Jesus aproximou-se de seus discípulos após haver ressuscitado e

soprou-lhes, dizendo:

Aquele que estava diante dos discípulos era a zoe-vida, que experimentara a morte e dela emergira vencedor. Ele fez isso não apenas por nós, mas como se ele fosse nós. Tudo quanto conseguiu passou a ser nosso, tão certamente quanto era dele. Ele soprou a vida conquistadora da morte naqueles que criam nele, unindo-se com eles ao executar essa tarefa. O Cristo que estava de pé, objetivamente, diante dos discípulos, na verdade vivia dentro deles pelo seu Espírito! Um grupo de homens aterrorizados e confusos tomou-se uno mediante a vitória que a Vida conquistou sobre a morte, o diabo e o pecado. A partir daquele momento eles perderam todo o medo, e celebraram um relacionamento e comunhão com Deus pelos quais o homem havia ansiado desde a sua expulsão do Éden. Era o novo nascimento, o início de uma nova raça. Os discípulos haviam sido pendurados na cruz com o Senhor e agora, ressuscitados com ele, passaram a viver nesta nova dimensão da vida. Nunca mais haveriam de definir a vida como sendo separada dele. Cristo se tomara a vida-zoe dos discípulos.

a

(João 11:25).

Recebei o Espírito Santo” (João 20:22).

Paulo sumarizou tudo isso nestas palavras: “Para mim o viver é

Cristo

(Colossenses 3:4). E em Gálatas 2:19-20:

” (Filipenses 1:21) e “

Cristo, que é a nossa vida (zoe)

“Estou crucificado com Cristo, e já não vivo, mas Cristo vive em mim. A vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim.”

Pedro disse o mesmo sucintamente

tomeis participantes da natureza divina

“para que por elas vos (2 Pedro 1:4).

O evangelho não é um chamado para que imitemos a Jesus. As

Boas Novas são que, mediante minha participação no evento da ressurreição, agora eu posso receber sua vida. De agora em diante,

ele vive em mim, sem fazer de mim mero fantoche. Na verdade, ele me restaura a liberdade e o significado de minha existência.

A vida do crente é 100 por cento sobrenatural. A modificação de

comportamento produzida pela religião não se aproxima da vida

descrita no Novo Testamento. Sabedora disso, a religião conserva suas exterioridades e rituais frívolos, e evita a montanha intransponível de zoe. Aquilo que o homem não pode conseguir, nós o possuímos só pela

só porque ele nos ama! Acreditamos naquilo que ele

fez por nós, e descansamos nele. As virtudes da vida cristã estão claramente descritas como tendo

sua origem no Espírito Santo agindo no interior do homem transformado. “Mas o fruto do Espírito é: amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão e

domínio próprio

A vida do crente não pode ser explicada à parte do Espírito de

Cristo que vive dentro dele

Cristo, esse tal não é dele” (Romanos 8:9). Neste sentido, não existe uma “moralidade cristã” que possa ser imposta a uma cidade ou nação. O modo cristão de viver não pode ser formulado e instituído como princípios orientadores conducentes a uma vida bem-sucedida. Esse modo jamais foi concebido como tendo existência à parte de Cristo redivivo. Ele é a fonte dessa vida no coração do crente. Quando um crente se queima, foram seus próprios recursos humanos que se exauriram. A zoe infinita de Deus jamais pode chegar à exaustão. Já que ele vive em cada um de nós, e é a vida de cada crente, a queima espiritual é causada pela incapacidade do

“Se alguém não tem o Espírito de

graça de Deus

(Gálatas 5:22).

crente de descansar no fluxo da vida, e de receber essa vida que dele emana continuamente. Quando um ramo se queima, as chamas se alimentam dos gases aprisionados no interior da madeira. Quando tais gases se exaurem, a madeira fica reduzida a cinzas, as chamas fenecem e morrem. Houve, porém, uma vez um arbusto que se queimava, mas não se consumia nas chamas. O arbusto ardia, mas as chamas não se alimentavam dos recurso* dele; ele apenas um veículo que continha e expressava o fogo. As chamas e a luz radiante que provinham do arbusto eram a Vida não-criada, a zoe de Deus, que é luz. Quando a presença de Deus abandonou o arbusto, suas folhas permaneceram verdes e os galhos tão permeados de água como sempre estiveram. Ele se queimara, mas seus recursos haviam sido poupados: não se queimaram. Viver a vida cristã não é viver mediante as próprias forças e recursos, mas mediante o Cristo infinito que vive dentro de quantos crêem nele. Toda a força humana chegará ao fim, mais cedo ou mais tarde, deixando cada um de nós transformado em cinzas. Mas o poder de Cristo não tem fim!

(1) W. E. Vlne, An Expoaitory Dictionary of New Testament Worda (Dicionário Expositivo de Palavraa do Novo Testamento) Old Tappan: Fleming H. Revell Co., 1966 pág. 336.

CAPÍTULO 7

Como Viver a Vida de Cristo

E stávamos sentados na varanda, olhando a clareira tão grande como um campo de futebol. Era uma das várias casas térreas, simples, edificadas entre as árvores que cercavam a

propriedade. O missionário, velho amigo nosso de Londres, servia- nos chá num bule de porcelana que um morador local nos trouxera. Um grande ventilador rodava lentamente acima de nossas cabeças, agitando o ar úmido. Meu amigo sentava-se numa grande cadeira de palhinha, do outro lado, enquanto olhava a propriedade, que era a sede da missão. Pequeno avião aterrisava na pista de emergência, aberta no centro da clareira. Os moradores locais ocupavam-se de tanger o gado para longe da pista. Finalmente, meu amigo voltou-se e disse:

“Ouvi o que você disse hoje pela manhã no estudo bíblico, Malcolm. Eu sei que Cristo vive em nós, e sei que isso significa que o amor de Deus está em nós. Na verdade, suponho que todos os crentes sabem disso, mas deixamos esse fato de lado, achando que é uma idéia formidável e pronto. Você sabe como é que a gente faz!” — e ele riu-se. “Posicionalmente, estamos em Cristo nos lugares celestiais, mas na realidade estou aqui em baixo arrastando-me na companhia de meus irmãos. De certo modo Deus nos vê perfeitos, embora eu saiba que sou muito imperfeito. Às vezes, acho que se Deus me conhecesse tão bem como eu me conheço, ele não diria que estou entronizado em alturas celestiais!” — e riu de

novo, uma risadinha oca. “Vamos ser francos, Malcolm. Se a vida de Cristo está ativa dentro de nós, e se essa vida é amor, como é que sempre que tento ser semelhante a Jesus, me esborracho no chão? Vamos ser absolutamente francos. Há cinco casais de missionários aqui: dois dos Estados Unidos e três da Inglaterra. Aqui estamos nós enterrados no mato a 800 quilômetros de Monróvia, e o que você

está enxergando à sua frente é o nosso mundo.”

“As pessoas têm ciúmes umas das outras; elas brigam como cães

e gatos, e só se falam nas reuniões. As crianças chegam a brigar aos murros! Há mais ressentimento e amarguras aqui do que horas disponíveis para eu lhe narrar tudo. E tenho tanta culpa como qualquer um deles.” “E há, além disso, os problemas entre eu e minha esposa.

Discutimos a respeito das discussões

quanto ã última briga lá fora. Eu já decidi que não voltarei mais

para novo período de trabalho missionário. Como é que vou pregar para os nativos desta terra se eu próprio sinto que a coisa não funciona em minha vida? Nem na vida dos outros” — acrescentou com tristeza.

Já ouvi palavras semelhantes em quase todos os campos missionários em que estive. Meu coração se rompe por causa desses homens e mulheres que sacrificam a vida e famílias a fim de levar o

evangelho aos confins do mundo

que não sabem como viver o que pregam! Já me sentei com jovens missionários nas Filipinas, seis meses depois do início do primeiro período de trabalho. Haviam deixado o seminário com grandes palavras de fé, mas descobriram rapidamente que não sabiam como amar da maneira como Jesus amava, nem viver no poder da vida ressurreta de Cristo. Chegaram

à triste conclusão de que o que julgavam ser fé era apenas bravura e pensamento positivo. Este não é um fracasso peculiar dos missionários. Já mantive o mesmo tipo de conversa com donas-de-casa de Los Angeles, executivos da Wall Street e freqüentadores de igreja que se queimaram, em Tulsa. De que forma a zoe, a vida do próprio Cristo, verdadeiramente se toma manifesta em nossa vida? Sabemos que tentar imitá-la com nossas próprias forças é total desespero. Mas, então, como é que Cristo vive em nós? Algumas das palavras mais importantes de Jesus ele as pronunciou durante aquela ceia, na noite anterior, pouco antes de padecer a morte. Os discípulos estavam confusos, cheios de perguntas; não tinham a mínima idéia do que estava acontecendo. Não percebiam que estavam vivendo alguns minutos da história que nos introduziriam à Nova Aliança, que traria o homem a Deus. Ainda estavam apegados à idéia judaica de que o Messias

só para descobrir, ao chegar lá,

você sabe, tomamos partido

haveria de estabelecer seu trono em Jerusalém e derrotar os inimigos. Viam-se como membros do governo messiânico. A caminho da ceia, discutiram asperamente entre si mesmos sobre qual deles seria o maior e quem, dentre eles, ocuparia o primeiro lugar no reino, o qual, eles tinham toda a certeza, seria estabelecido naquele fim de semana. Porém Jesus os decepcionou com um choque, logo no início da ceia, ao assumir o encargo do mais ínfimo servo, lavando- lhes os pés ação que jamais seria praticada por um poderoso dominador mundial! Em seguida, ele lhes falou sobre a necessidade de se amarem uns aos outros com aquele tipo de f

Agape.

“Novo mandamento vos dou: Amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei a vós, assim também deveis amar uns aos outros. Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros.” (João 13:34-35)

De que modo estes discípulos sedentos de poder, que se engalfinham pela conquista do primeiro lugar, ciumentos das posições que ocupam no grupo de discípulos, viriam a tomar parte num reino em que todos haveriam de servir e amar uns aos outros, exatamente como Jesus o fizera? O Mestre lhes aumentou a confusão ao dizer-lhes: “Naquele dia conhecereis que estou em meu Pai, e vós em mim, e eu em vós” (João 14:20). Naquela dia, na Galiléia, ele chegara a eles, que consertavam as redes, e lhes dissera: “Sigam-me!” E eles haviam abandonado as ocupações da pesca e o seguido pelas estradas de Israel. Estiveram sentados durante muito tempo, ouvindo os seus ensinos; viram o Senhor curar os enfermos. Ele era o Mestre, eles eram os discípulos. À semelhança dos discípulos de outros grandes mestres, haviam-se sentado aos pés de Jesus a fim de aprender dele, procurando pôr em prática os ensinos dele. Contudo, agora ele falava em conceitos que os confundiam. Como poderia essa Pessoa, que se sentava à frente deles, vir a ficar dentro deles? E como, simultaneamente, poderiam eles estar nele? Nenhuma categoria de pensamento, nenhuma imaginação selvagemente criativa em suas mentes podia conceber tal idéia.

A Antiga Aliança relacionava-se com a lei, com mandamentos e

ritos. A pessoa aprendia com o professor como as coisas deveriam ser feitas e ia em frente, tentando praticar o que aprendera. Jesus lhes dizia, naquele novo dia que nasceria no momento de sua ressurreição, que não haveria nova lei codificada que todos deveriam conhecer e praticar. Ele próprio seria a nova lei! Ele não lhes ministrou ensino a ser aprendido, pois ele não era apenas o Mestre; era também o próprio ensino. Ele lhes dissera:

.

.Eu sou

a verdade

(João 14:6).

O novo mandamento de amar uns aos outros, com aquele tipo de

amor de Deus, não era mandamento exterior, mas o próprio Amor vivendo dentro deles. Ele estaria vivendo na fonte do ser de cada discípulo, no íntimo de seus corações, e suas vidas seriam a

expressão de Cristo. Notando a confusão dos discípulos, Cristo prosseguiu e deu- lhes esta ilustração:

“Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor. Todo ramo em mim que não dá fruto ele o corta, e todo ramo que produz fruto ele o poda, para que produza mais fruto ainda. Vós já estais limpos por causa da palavra que vos tenho falado. Permanecei em mim, e eu permanecerei em vós. O ramo de si mesmo não pode produzir fruto, se não estiver na videira. Tampouco vós podeis produzir fruto, se não perma-

necerdes em mim. Eu sou a videira, vós sois os ramos. Se alguém permanece em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; sem mim nada podeis fazer.” (João 15:1-5)

Ele chama a si mesmo de videira. Quando dizemos “videira” queremos dizer a vida da videira, a seiva singular que faz com que a videira tenha a aparência que tem, que produza folhas, que floresça

e frutifique como toda videira. Jesus está dizendo que ele é a vida

que transforma o crente em quem ele é, e a vida do crente é a manifestação da vida de Cristo. O crente é o ramo da videira. E interessante que Jesus tenha escolhido, dentre todos os vegetais, a videira. A madeira da videira é totalmente inútil; para nada serve senão para sustentar uvas. Não se pode fazer móveis de videira. Ela não presta para esculturas.

Jesus estava dizendo que temos função primordial: manifestar sua vida ao mundo. Só quando estamos vivendo a vida de Cristo é que vivemos verdadeiramente a própria vida! Essa é a razão por que fomos criados. Os discípulos aguardavam o reino do Messias como se fosse uma organização cheia de cargos a serem preenchidos, e de territórios a serem conquistados. Disse Jesus que embora tais idéias fossem corretas no mundo, em seu reino as coisas eram diferentes. Seu reino, que em breve explodiria sobre o mundo, seria ele próprio expresso por milhões de crentes. Ele não mais se limitaria geograficamente, mas estaria presente onde quer que seus ramos permitissem a produção de frutos. Ao chamar os crentes de ramos, demonstrou-lhes a inabilidade deles para produzir frutos por si mesmos. Qualquer ramo separado do fluxo de seiva vital da videira jamais produzirá uma folha ou uma única uva sequer. E a seiva vital da videira, subindo através dos ramos, que lhes permite produzir frutos. Mediante a união com

a videira, da qual suga a seiva vital, o ramo consegue produzir os frutos que nenhum ramo por si só produziria! É apenas por amor à análise que falamos de videira e de ramos. Quando olhamos para a videira, vemos que ela e seus ramos formam uma unidade. Quem já ouviu falar de videira

sem ramos

quem já chamou de videira a um monte de galho*

secos? Jesus diz que o crente não possui existência independente, que de vez em quando precisa receber ajuda especial, uma injeção de ânimo espiritual, a fim de prosseguir na vida cristã. Não se pode pensar num ramo como vivendo à parte da seiva vital que flui nele, como não se pode pensar num crente senão como expressão de Jesus Cristo. Semelhantemente, Jesus só pode ser conhecido hoje através dos crentes ramos de videira. A vida de Cristo precisa de um canal pelo qual possa fluir para o mundo. Este relacionamento jamais muda. Sempre haveremos de ser os ramos, e ele sempre há de ser a vida que produz frutos por nosso

Por isso, não fique desesperado ao sentir o desamparo

de ser apenas ramo. Quando enfrentamos o desafio ou a oportunidade de expressar o amor de Deus, sentimos muitas vezes nossa falta de capacidade para ser ou fazer aquilo que a situação exige de nós. E quando a tentação bate à nossa porta, sentimos compulsão para atendê-la.

Isto não é pecado! Estamos apenas constatando o quanto somos apenas “ramo”, e entendendo, assim, o que Jesus quis dizer quando afirmou: “Sem mim nada podeis fazer.” Crescer como crente em Cristo não significa que aos poucos nós nos tomaremos tão parecidos com Cristo que, em certo dia, produziremos frutos por nós mesmos e Jesus sentirá orgulho de nós. Separados da seiva vital que flui dentro de nós, seremos sempre ramos inúteis, desamparados. Reconhecer nossa própria fraqueza, nossa impossibilidade de viver Cristo nesta ou naquela situação eis como devemos nos sentir continuamente. Seremos sempre os ramos desamparados, e ele é perpetuamente a videira, a vida. Não lutamos para ser o

cristão que julgamos ser pressionados pela

nem

lamentamos perante Deus nossas fraquezas. Deliberadamente reconhecemos que Cristo vive na fonte de nosso ser, e decidimos permitir que ele viva através de nós, e em nós, no ponto de nossa

fraqueza. Para a religião, isto é espantoso. A religião sempre pensa em Deus em termos de separação. Deus é o Deus “lá longe” que mora num templo; é o Deus celestial, bem distante. Oramos a fim de conseguir a ajuda dele, naquela situação crítica.

intermédio

Porém, o Jesus que ressuscitou trouxe algo completamente novo ao mundo. Ele ressurgiu dentre os mortos e agora, mediante o Espírito Santo, não vive confinado pela geografia, mas está intimamente presente dentro do coração de cada um de nós. Não podemos pensar mais em nós mesmos como separados dele, assim como o ramo que produz frutos não pode pensar de si mesmo como estando separado da vida da videira. Paulo ilustra o relacionamento entre Cristo e o crente com a união existente entre a cabeça e o corpo. Não podemos pensar na cabeça como separada do corpo vivo: ambos são funcionalmente uma unidade. Pensar que minha cabeça é inglesa e que meu corpo é francês, é tolice. E igualmente tola a idéia de que minha cabeça é milionária e meu corpo é paupérrimo. O que é verdade a respeito da cabeça é verdade também a respeito do corpo. Dessa mesma maneira o crente está unido a Cristo. Ele não está “lá longe”, de modo que se deva chamá-lo para vir “até aqui” a fim de ajudar-me quando sou tentado, ou desafiado, ou quando tenho uma oportunidade. Ele se fez um com o meu espírito, e minha percepção de fraqueza funciona somente como gatilho que dispara a reação de Cristo ao meu problema: ele vem com sua vida- zoe e me inunda. Paulo fala disso com franqueza em Gálatas 2:20: “Estou crucificado com Cristo, e já não vivo, mas Cristo vive em

e em Efésios 3:17: . para que Cristo habite pela fé nos

vossos corações

Cristo em vós,

m i m

e em Colossenses 1:27:

esperança da glória”. Ele resumiu o segredo de toda a sua vida em Filipenses 4:11-13:

aprendi a contentar-me em toda e qualquer situação.

Sei passar necessidade, e também sei ter abundância. Em toda maneira, e em todas as coisas aprendi tanto a ter fartura, como a ter fome, tanto a ter abundância, como a padecer necessidade. Posso todas as coisas naquele que me fortalece.”

A habilidade de Paulo no manejo adequado de qualquer circunstância em que se encontrasse não derivava do fato de ser ele personalidade estóica. Ele vivia daquela maneira vitoriosa . “posso todas as coisas naquele que me fortalece” (v. 13). A Bíblia Amplificada traduz com maiores luzes o que Paulo queria dizer:

Tenho forças para todas as coisas em Cristo que me fortalece estou pronto para enfrentar qualquer coisa,

em igualdade com qualquer coisa, mediante aquele que me infunde seu poder interior em mim (a saber, sou auto- suficiente por causa da suficiência de Cristo).

A palavra “infundir” significa “pôr de molho em, pôr de infusão, incutir, inspirar, penetrar” com o objetivo de extrair certas qualidades. Um dia, há vários anos, eu me sentei para jantar ponderando nestas grandes verdades. Perguntei a mim mesmo:

“Como pode Cristo, zoe-ágape de Deus, viver em mim?” A garçonete me trouxe uma xícara de água fervente acom- panhada de um saquinho de chá. Comecei a mergulhar o saquinho de chá na água, e vi a água tomar-se colorida ao receber a força da erva. Removi o saquinho ainda cheio das folhas, e pus-me a beber. De súbito, ocorreu-me que eu havia apenas “infundido” o chá na água o que resultou numa saborosa bebida. A força e o sabor do chá haviam sido liberados das folhas da erva, misturando-se com a água anteriormente incolor e insossa. Água insossa era o veículo necessário para receber a essência do chá. Colocar o saquinho de chá encostado à xícara jamais trans- formaria a água em chá. A água não consegue imitar o chá se apenas olhar para ele! Era necessária a infusão. Percebi então que eu, em mim mesmo, sou impotente porque não consigo reproduzir a vida de Cristo, da mesma maneira como a água não consegue transformar-se em chá. Se eu quiser viver a vida de Cristo, o Senhor precisa vir a mim e viver dentro de mim. A vida de Cristo precisa ser infundida em meu espírito. O Cristo ressurreto jamais será conhecido e provado pelo mundo de hoje como resultado de os homens tentarem ser parecidos com ele. E preciso que ele se expresse mediante nossa fraqueza. O chá estará perpetuamente encerrado no saquinho até ser liberado mediante a água. A infusão do chá na água é tão completa que já não a chamamos mais de água, e sim de chá. Entretanto, a água não é o chá, visto que este continua no saquinho. Assim também Cristo está em nós, a nossa vida é a vida dele e, no entanto, ele não se transformou em nós e nós não nos transformamos em Jesus. Somos perpetuamente distintos, e perpetuamente unificados. Este é o milagre que ocorre quando alguém vem a Cristo. O Espírito de Cristo lhe sobrevêm. Na madrugada de sua ressurreição, Jesus postou-se objeti- vamente diante dos discípulos; no entanto, estava ao mesmo tempo dentro deles, como quando ele soprou o Espírito dentro de seus

espíritos. Assim, quando uma pessoa invoca a Jesus Cristo, ele

“Mas se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse

tal não é dele” (Romanos 8:9). O crente é uma pessoa que tem Cristo lá dentro do coração! Falar-se de um crente que não tem o Espírito de Cristo é contradição tal pessoa não existe.

atende, e

não reconheceis (nem percebeis) que (mediante

experiências mais e mais enriquecedo- ras) Jesus Cristo está em vós? Se não é que já estais reprovados (submetidos a um teste e rejeitados)!

(2 Coríntios 13:5, A Bíblia Amplificada)

A percepção deste fato em nossas vidas tem amplitudes infinitas!

O Novo Testamento deixa bem claro que a plenitude de Deus mora agora em nós: Pois nele habita corporalmente toda a plenitude da

(Colossenses

2:9,10).

divindade. E recebeste a plenitude em Cristo

A Bíblia Amplificada assim traduz o versículo 10:

“E vós estais nele, obtiveste a plenitude e alcan- çastes vida integral em Cristo vós também estais cheios da Trindade, do Pai, do Filho e do Espírito Santo, e obteis

estatura espiritual

Visto que esta é a verdadeira situação do crente, Paulo ora para que ela se tome realidade na vida e na experiência de todos

.*

os crentes

(Efésios 3:19).

para que sejais cheios de toda a plenitude de Deus

A Bíblia Amplificada assim traduz este versículo:

que vós possais encher-vos (todo o vosso ser) da plenitude de Deus (isto é) que vós possais usufruir das mais ricas medidas da Presença divina, e tornar-vos completamente cheios e inundados do próprio Deus”. Quando vivemos segundo a plenitude de Cristo, que vive em nós, não podemos queimar-nos.

CAPÍTULO 8

Verdadeira Fé

U ma das principais causas do esgotamento espiritual é a distorção de nossa fé pelo fermento dos fariseus. Vivemos pela fé e, quando esta se transforma em obra da carne, a

exaustão espiritual é inevitável. Quando usamos a palavra fé, que é que estamos querendo dizer? E vital que entendamos exatamente o que estamos dizendo, visto que uma ligeira distorção em nossa definição significará o caos, e maior desastre ainda estrada abaixo. Fé é, essencialmente, uma reação de confiança a determinado conjunto de fatos. Nossa fé no relacionamento com Deus pode ser ilustrada, até certo ponto, no nível humano. Suponhamos que eu tenha encontrado uma pessoa que li- vremente abriu o coração para mim, e mostrou-se bondosa, piedosa ao extremo. Suponhamos, ainda, que essa pessoa ca- minhou um pouco mais e agiu para comigo de maneira tal que me mostrou de forma concreta a sua bondade. E façamos mais uma suposição: essa pessoa comprometeu-se comigo em lealdade e prometeu-me que, de acordo com sua capacidade, faria por mim tudo quanto um amigo faria, pelo resto de minha vida. Ação assim exige algum tipo de reação. Eu poderia, é claro, alimentar suspeitas de que essa pessoa teria motivos menos dignos, segundas intenções, e eu poderia ir embora, dando-me parabéns por não ter caído numa esparrela. Mas eu poderia também correr o risco e reagir às suas palavras e ações com plena confiança, crendo que essa pessoa é tudo quanto afirma ser. Em outras palavras, eu teria fé na tal pessoa, e lhe permi-

tiria transformar suas intenções em realidade. Na verdade, minha fé seria a permissão para que a pessoa pudesse expressar seu amor e bondade através das coisas que desejava dar-me. Há riscos nesse tipo de compromisso que será posto em jogo ao longo dos anos. Haverá épocas em que o que eu vejo e ouço

poderá sugerir que aquela pessoa não é tudo o que parecia; entretanto, a natureza da fé é que, havendo feito um compro- misso de lealdade, ela descansa no caráter da pessoa como eu a conheço e não no que estou vendo agora. Minha reação a essa pessoa iniciaria uma comunhão que amadureceria ao longo dos anos, transformando-se em verda- deira amizade. Esse tipo de relacionamento humano é apenas sombra da atuação da fé em nosso relacionamento com Deus.

A fé não se inicia com o ser humano. Inicia-se quando Deus

abre seu coração para conosco. Deus revela seu amor e graça concretizados em Jesus. Começa com o caráter de Deus, e o que ele fez por nós em Cristo. A primeira ação da fé é a reação de

confiança à revelação que Deus nos concedeu. Deus se revelou em sua Palavra, mas a fé é concedida quando

o Espírito Santo toma viva essa Palavra em nós, pessoalmente.

De sorte que a fé vem pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus

(Romanos 10:17). O vocábulo grego para “palavra” é rhéma; significa que este versículo poderia ser traduzido assim:

ouvindo a palavra dos próprios lábios de Jesus.”

A fé é reação a algo ou a alguém fora da própria fé neste

caso, a revelação de Deus em Jesus, e sua fidelidade a essa revelação. Essa reação responsiva assume a forma de abrir-se a porta a fim de permitir que Deus em Cristo seja tudo quanto ele prometeu; é deixar Deus ser o Deus que ele afirma ser em qualquer situação. A fé poderia ser comparada ao olho do espírito que, ao contemplar Jesus, é motivado a reagir a ele em amor, descansar nele e permitir-lhe que seja tudo que ele revelou ser. Da mesma

maneira, é o ouvido do espírito que, ao ouvir a Palavra de Deus,

é motivado a descansar nele e a permitir que ele seja tudo que declarou ser. Por nós mesmos não conseguimos encontrar fé que agrade a

Deus. A fé que temos nele vem dele! Explicando a maneira como

o homem coxo foi curado na Porta Formosa, assim disse Pedro:

M A fé que vem pelo nome de Jesus deu a este, na presença de todos vós, esta perfeita saúde” (Atos 3:16). Outra versão da Bíblia traduz o versículo assim: O nome de Jesus, mediante fé despertada Não há luta, porque não há tentativa de ter fé suficiente para

enfrentar uma situação problemática, visto que a fé não vem de

quem somos, mas de quem ele

a carreira que nos está proposta, olhando firmemente para

Jesus, autor e consumador da nossa fé

A palavra grega para “autor” seria melhor traduzida por “fonte”. Nossa fé tem sua fonte em Quem ele é, e encontra sua força na fidelidade de sua Palavra. Não devemos pensar que o ouvir a Palavra que produz fé significa tratar a Bíblia como se ela fosse um livro-texto, e selecionar as passagens apropriadas. O Espírito Santo deve tomar as verdades das Escrituras e tomá-las reais em nosso coração. Assim é que quando Paulo pregava, ele confiava com- pletamente no Espírito Santo para que este tomasse a Palavra real, de modo que a fé das pessoas seria fé verdadeira, salvado- ra.

Corramos com perseverança

(Hebreus 12:1-2).

“A minha palavra, e a minha pregação, não consistiram em palavras persuasivas de sabedoria humana, mas em demonstração do Espírito e de poder, para que a vossa fé não se apoiasse na sabedoria dos homens, mas no poder de Deus.

(1 Coríntios 2:4-5)

Quando Paulo saía de uma cidade, continuava orando pelos crentes ali, a fim de que a revelação do coração e do caráter de Deus prosseguisse entre eles.

“Não cesso de dar graças a Deus por vós, lem- brando- me de vós nas minhas orações, para que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, vos dê em seu conhecimento o espírito de sabedoria e de revelação.

(Efésios 1:16-17)

A fé não pode nascer em nós com base naquilo que Deus realizou em prol de outra pessoa. Ele deve proferir sua Palavra em nosso coração, o que deixará, não um fato verdadeiro em nossa mente, mas um conhecimento absoluto em nosso coração. A revelação que recebemos focaliza-se na morte e ressurrei- ção de Jesus. É aqui que Deus se revelou a nós. O Espírito Santo testifica que Jesus realmente está vivo; até os primitivos pre- gadores sabiam disso. Se Deus não testificasse essa verdade, ninguém creria numa só palavra do que dissessem! “Nós somos testemunhas destas palavras, nós e também o Espírito Santo,

que Deus deu àqueles que lhe obedecem” (Atos 5:32). Fé é o abandono à revelação de Deus, e o descanso nela. A palavra hebraica para “confiança” contém a idéia de a pessoa desabar de rosto no chão, sem apoio nenhum. Fé é a pessoa depositar todo o peso de sua vida seu passado, presente e futuro na revelação recebida: Jesus está vivo. Fé, por sua própria natureza, é ser leal àquilo que agora

vemos e ouvimos, é a queima de pontes atrás de nós

caminhar na direção do desconhecido, o futuro incerto, tendo depositado tudo na ressurreição de Jesus dentre os mortos. A partir da entrega a Cristo, a linguagem e as ações do crente passam a refletir seu descanso na fé. Numa manhã terrivelmente fria de janeiro, deixei o aeropor- to J.F. Kennedy, em Nova York, vestindo um temo leve, de verão. A razão dessa minha aparente insanidade é que logo eu estaria desembarcando em Johannesburg, África do Sul, em pleno verão. Meu vestuário não criou a elevada temperatura na África; eu vesti essa roupa porque era verão lá. A fé não declara coisas a fim de criar as bênçãos de Deus; declara-as porque já vê as bênçãos em Cristo. Visto que sabemos e cremos no coração, as ações e palavras harmonizam-se com o que o coração enxergou. Muitas vezes, o que entendemos ser a verdade final entra em conflito com nossos sentimentos e com as aparências. O mundo zomba de nós porque não consegue ver o que vemos; contudo, vemos com os olhos da fé, o que deve resultar numa confissão de fé intimo- rata, diante do mundo que nos observa.

é

“ .a palavra da fé que pregamos. Se com a tua boca

confessares a Jesus como Senhor, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo”(Romanos 10:8-9) Não é o ato de fé que nos salva, cura ou abençoa, mas sim o meio pelo qual Deus realiza dentro de nós o que ele quer. Esse meio lhe permite entrar em nossa vida com todas as bênçãos que ele, mediante aliança, criou para nós em Cristo. Quando a fé reage desta forma, o Espírito testifica com o nosso espírito que o assunto está resolvido: “Sabemos que sabemos” de nossa união com Deus em Cristo. Gálatas 4:6 diz:

Porque sois filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: “Abba Pai.” E em 1 João 4:16: E nós conhecemos, e cremos no amor que Deus tem por nós

Todos os passos da vida em Cristo são encaminhados pela fé, segundo o mesmo padrão manifesto de início na salvação. Sempre há a Palavra de Deus tomada viva pelo Espírito, a revelação de Deus nas circunstâncias atuais. Este processo é acompanhado pela nossa reação de confiança, de expectativa e de descanso em Deus, permitindo-lhe que obre sua Palavra em nós e por nosso intermédio. Uma expressão vetero-testamentária descreve a fé como “esperar no Senhor.” Isaías descreve a fé como meio de revita- lizar crentes queimados.

“Não sabes? Não ouviste? O Senhor é o eterno Deus, o Criador dos fins da terra. Ele não se cansa nem se

Dá força ao cansado, e multiplica o poder ao

que não tem nenhum vigor. Até os jovens se cansam e

se fatigam, e os jovens tropeçam e caem, mas os que esperam no Senhor renovarão as suas forças. Subirão com asas como águia; correrão e não se cansarão, caminharão e não se fatigarão.” (Isaías 40:28-31)

fatiga

A palavra que Isaías usa para “jovens” descreve o apogeu da força física, os candidatos aos jogos olímpicos. O suprasumo da força natural um dia chegará ao fim de seu vigor os campeões cairão ao lado da estrada. Isaías coloca a força infinita do Deus etemo em confronto

com a força humana, e declara que os que esperam no Senhor viverão na força ilimitada que dele emana, enquanto caminham através das pressões desta vida. A palavra “esperar” contém a idéia de contemplar a revelação dada por Deus, na esperança de que ele é tudo quanto prometeu. Mas essa palavra também significa que aquele que aguarda a revelação está unido àquilo que espera, isto é, tornou-se uma unidade com o doador dessa bênção. Enquanto a fé espera em Deus e se entrega a tudo quanto Deus mesmo revelou ser, a fraqueza humana é tragada e se transforma numa unidade com a força divina! Por causa desse intercâmbio de forças o crente pode voar como águia, pode correr eternamente na força que não lhe pertence, e consegue até caminhar através do mundanismo todos os dias de sua vida, sem sucumbir.

O sistema religioso dos fariseus havia distorcido a fé, trans-

formando-a em obra, a saber, em um dos degraus da escada

mediante a qual a religião procura galgar alturas até Deus. Em certo sentido, ela é o último degrau da escada, porque sem fé não se pode agradar a Deus (Hebreus 11:6). Se fé é obra mediante a qual ganhamos a aceitação de Deus, ter fé então é obter um feito notável!

A fé legalista é sutil. Podemos defini-la como “fé na fé em

Deus!” A ênfase é colocada na própria fé, em vez de no Objetivo,

na Pessoa que é a Fonte e a Consumação da fé. Exige tremendo esforço obtê-la, guardá-la e fazê-la crescer. Todo o peso vai para as palavras pronunciadas, para a atitude mental rigorosamente mantida. Esse tipo de fé apóia-se fortemente na verdadeira fé vista e apreciada nos outros, em vez de numa palavra pessoal de Deus. Tem-se a impressão de que se a fórmula funcionou para uma pessoa, há de funcionar para outras.

Esse engano não apenas produz a tensão que sempre se associa às obras da carne, mas também gera medo constante de essa fé vir a perder-se, trazendo a conseqüente condenação, caso a pessoa não tenha suficiente fé. É aqui que milhares tombam,

porque não possuem a fé nascida da

espiritualmente esgotados

revelação, mas a originada em fórmula morta que a religião lhes ofereceu.

Visto que o ponto focal centraliza-se na própria fé em vez de no Deus que desperta fé em nós, esta pseudo-fé procura mani-

pular Deus. Aceita a idéia de que fé é um poder que eu posso utilizar a fim de influenciar Deus. Quem concebe a fé desta maneira passa a pensar que essa fé é moeda celestial com a qual pode comprar quaisquer bênçãos de Deus. Eis porque não vamos a Deus dizendo: “Faze isso para mim por causa de minha fé.” A fé não tem consciência de si mesma e, por isso, diz: “Faze isso para mim por quem tu és, por quem tu te revelaste!” A exaustão espiritual resultante de tentar obrigar Deus a fazer nossa vontade não apenas queima as pessoas, mas deixa- as também desiludidas e amarguradas. Acham que Deus não honrou o dinheiro celestial que colocaram no balcão divino. Porém, a entrega leal e simples que a fé verdadeira faz muda tudo. Nunca mais haverá luta para que se tenha bastante fé. Quer seja fé para cura, quer para experiência mais profunda no Espírito, quer para necessidades que precisam ser atendidas, quer para a resposta à oração, fé é simplesmente reação àquele que é, ao “EU SOU”, a permissão para que ele assuma nossas circunstâncias. E ele quem nos cura, a fonte de todas as bênçãos. Ao vê-lo como resposta a todas as suas necessidades e desejos, o crente declara: “Senhor Jesus, tu és tudo isso, agora, para mim!”

CAPÍTULO 9

O Descanso da Fé

J á sabemos que a vida inexaurível que ressurgiu, vencendo a morte, está disponível a nós, a fim de que possamos viver triunfantemente neste mundo. Mas como

conseguimos trazer essa vida às nossas próprias vidas tão fracas? A sabedoria infinita de Deus está dentro dele mesmo, e

precisamos dessa sabedoria para superarmos os problemas e confusões da vida. Contemplamos as agruras sofridas pelas pessoas à nossa volta, e julgamo-nos insensíveis e desinteressados. De que maneira poderíamos receber no coração a compaixão de Deus? Quando as pessoas nos ferem e não encontramos em nós mes- mos capacidade de amá-las e perdoá-las, como poderíamos obter o amor divino, perdoador, implantado no coração? A resposta da religião a estas perguntas sempre se expressa em termos de alguma coisa que temos de fazer. Na minha mocidade, fiz essas perguntas a muitos pastores e as respostas sempre foram alguma variação da mesma idéia: Se quisermos receber a seiva da vida de Deus, devemos reservar tempo para a oração, para a leitura da Bíblia, de modo regular; nosso culto pessoal a Deus seria a chave para habitarmos em Cristo. Pois eu não acredito nisso. Na verdade, acho que essa prática apenas aumenta mais ainda a frustração, e piora o problema. Há muitas razões pelas quais devemos separar algum tempo para estar com Deus; entretanto, se estivermos fazendo isso a fim de obter o fluir de Deus em nossa vida, estamos só piorando nossa exaustão espiritual. Afirmar que a vida de Cristo flui em nós e através de nós, porque gastamos uma hora em exercício devocional hoje, e transformar a oração e o estudo bíblico em obras da carne. É transformar o culto ativo num degrau adicional da escada conducente a Deus. Os fariseus esquadrinhavam as Escrituras e recitavam orações na crença de que, assim, estabeleceriam ligação direta com a vida divina. Porém Jesus lhes disse categoricamente que tal procedimento deixava de lado a única fonte de vida que é o próprio Cristo.

“Examinais as Escrituras, porque pensais ter nelas a vida eterna. São estas mesmas Escrituras que testificam de mim, contudo não quereis vir a mim para terdes vida.”

(João 5:39-40)

De maneira semelhante, nossas autodedicações, nossas pro- messas e votos a Deus de que nossa vida lhe pertencerá daqui

por diante, caem todos na mesma categoria. Até que ponto a pessoa precisa dedicar-se para que a vida comece a fluir? Em que nível de “entrega total a Deus” precisamos estar antes de os primeiros sinais de zoe começarem a surgir? Todas estas obras farão apenas que a pessoa corra mais depressa pela estrada escorregadia do esgotamento espiritual. Em Colossenses 2:6 Paulo nos ensina como habitar em Cristo e nele andar todos os dias: “Portanto, assim como recebes- tes a Cristo Jesus, o Senhor, assim também andai nele.” Nós o recebemos pela fé e, da mesma maneira permanece- mos nele e o expressamos diante do mundo. Paulo declarou a oração que elevava a Deus pelos efésios: “Assim habite Cristo nos vossos corações, pela fé.” “Que Cristo, mediante vossa fé, possa verdadeiramente habitar estabelecer- se, morar em vossos corações, fazendo deles seu lar permanente!” (A Bíblia Amplificada). Minuto a minuto vamos vivendo pela fé na capacitação de Cristo dentro de nós. Dessa maneira, a energia divina do amor de Cristo é bombeada para dentro de nós em todas as situações em que estivermos. Chegamos, assim, ao ponto central das Boas Novas: fé, e não obras! No Novo Testamento, a aceitação do evangelho era vista como obediência à fé. Não era obediência aos dez mandamentos, mas obediência que resultava da fé.(Romanos 16:26)

" pelo qual recebemos a graça e o apostolado, por

amor do seu nome, para a obediência da fé entre todos

os gentios

(Romanos 1:5)

“ grande parte dos sacerdotes obedecia à fé.” (Atos 6:7)

É neste ponto que o crente, que se vai queimando em seus esforços para agradar a Deus, sai da exaustão e entra no descanso. Cansado, totalmente exausto da tentativa de tornar- se aceitável diante de Deus mediante disciplinas e exigências religiosas, o crente ouve da graça de Deus, e o Espírito Santo vivifica a graça em seu coração. À semelhança do filho pródigo da história de Jesus, a maioria dos crentes só enxerga um pouquinho de tudo quanto Deus almeja dar-nos. Ficamos perfeitamente felizes em vir para casa

no nível baixo de servo diarista; achamos que a posição de servo é a mais apropriada para nós. Se pudermos ser perdoados e continuar a receber perdão, achamos que não devemos pedir mais nada. Como a fé é reação responsiva, só podemos reagir no nível em que ela nos permite ver e ouvir. Só depois de estarmos de volta ao lar é que descobrimos que a graça do Pai é infinitamente maior do que jamais havíamos sonhado, e nossa fé passa a reagir diante dessa revelação. Percebemos que o Senhor não é apenas o Salvador que nos libertou do pecado, no particípio passado, mas é também aquele que vive dentro de nós no tempo presente, sendo nossa vida e nosso fôlego. O Cristianismo não é fórmula, mas a Pessoa de Jesus Cristo. Percebendo que ele está lá dentro, a fé reage e permite que essa realidade permeie a vida toda. A despeito de sentimentos e aparências, a fé adere à Palavra de Deus e declara que Cristo vive dentro do crente. Esta entrega simples muda tudo. Nunca mais o crente tentará ser igual a Jesus; a revelação de Cristo que vive dentro dele livrou-o de tentar galgar a escada religiosa. Ele deixou de

tentar viver para Deus; passou a viver a partir de Deus, que é a fonte da vida. Quando surgem as dúvidas, a fé não entra em pânico. Ela

simplesmente volta-se para aquele que é a fonte e o aperfeiçoa- dor de nossa fé, sabendo que, nesta situação, Cristo está com- prometido com a sua palavra. As Escrituras não são um livro de teologia sistemática que tabulou tudo quanto devemos crer. É um livro de biografias que nos mostra como pessoas comuns, através das eras, aprenderam

a andar na força do Senhor, a fim de superar seus problemas.

Ao relatar as histórias dessas pessoas, o Espírito Santo não retém absolutamente nada. O Espírito demonstra como esses crentes descobriram a realidade de Deus na escuridão de seus fracassos pessoais. Muitos desses crentes ilustram com exatidão a maneira de encontrar a resposta às perguntas que formulamos. O que é que

a pessoa faz para que a seiva da vida divina lhe inunde a vida?

Como é que o crente se toma ramo produtivo da videira? Davi era um crente assim e, visto que conhecemos muito mais as coisas que se passavam em seu coração do que no coração de qualquer outra pessoa das Escrituras, ele constitui excelente modelo a ser estudado. Nos salmos de Davi, seu

termômetro espiritual surge perante nossos olhos para que o vejamos e o estudemos. Vezes sem conta David viu-se face a face com sua fragilidade humana e sua incapacidade para resolver situações problemá-

ticas da vida, sentindo profundamente suas falhas. Foi acusado sem motivo, caçado implacavelmente por um rei atacado de inveja insana, traído por pessoas que ele julgava serem ami-

gas

e além disso tinha de encarar os próprios pecados e

fracassos na vida. Uma coisa espantosa é que

Davi jamais se esgotou! Expres-

sava com liberdade seus sentimentos no meio de tudo o que lhe

acontecia. Suas emoções revelam um homem em sofrimento real.

Estou cansado do

meu gemido; toda a noite faço nadar a minha cama no

W A minha alma está em agonia

choro, e molho o meu leito com lágrimas

(Salmo 6:3,6) "Senhor, como se têm multiplicado os meus adversários!

São muitos os que se levantam contra mim. Muitos dizem da minha alma: Não há salvação para ele em Deus.

(Salmo 3:1,2)

“ pois as águas me sobem até o pescoço. Ato- lei-me em

profundo lamaçal, e não se pode estar em pé. Entrei na

profundeza das águas; a corrente me leva. Estou cansado de clamar; secou- se-me a garganta. Os meus olhos desfalecem de esperar por meu Deus. Aqueles que me odeiam sem causa são mais do que os cabelos de minha cabeça ”

(Salmo 69:1-41)

“ Estou agitado e ando perplexo, por causa do clamor

do inimigo e da opressão do ímpio, pois lançam sobre mim iniqüidades, e com furor me hostilizam. O meu coração está angustiado dentro em mim; os terrores da morte me sobrevêm. Temor e tremor me apertaram; o horror me cobriu. Eu disse: Ah! quem me dera asas como de pomba! Voaria, e estaria em descanso. Fugiria para longe, e pernoitaria no deserto. Apressar-me-ia ao meu refúgio, longe da fúria do vento e da tempestade.” (Salmo 55:2-8)

Averigüemos atentamente a maneira como Davi atravessava os períodos de crise sem esgotar-se em sua força espiritual. Uma dessas ocasiões de profundo abatimento enfrentado por ele está registrado com minúcias. Davi e seus homens moravam, nessa época, numa pequena cidade desértica, Ziclague. Haviam estado fora de casa durante alguns dias e agora voltavam. Quando se aproximaram o suficiente para poderem enxergar a cidade, viram fumaça no céu e aves de rapina voando em círculos, lá em cima. Alguns minutos depois pararam diante das cinzas fumegantes daquilo que fora o lar deles.

Em sua ausência, um bando de amalequitas andarilhos

saqueou a cidade e fugiu. Tudo havia desaparecido: as famílias raptadas e as casas queimadas até os alicerces. Era demais. Homens fortes começaram a chorar e Davi soluçou com eles. Choraram até não haver mais lágrimas e depois sentaram-se sobre as ruínas de suas casas fumegantes, com os pés imersos nas cinzas quentes. Um por um, começaram a expressar seus sentimentos entre

alguém deveria pagar

pelo ultraje. Com os olhos cheios de ódio, um por um, os homens

si. Alguém era o culpado dessa violência

começaram a olhar na direção de Davi. Os olhares deles diziam:

“Você nos trouxe aqui, você deverá pagar por isso.” Formava-se um grupo de linchadores.

“Então Davi e o povo que se achava com ele alçaram a sua voz, e choraram, até que não houve neles mais forças para chorar.

“Davi muito se angustiou, porque o povo falava em apedre-

já-lo; a alma de todo o povo estava cheia de amargura

Davi se fortaleceu no Senhor seu Deus.” 1 Samuel 30:4,6 A razão porque Davi não se queimou espiritualmente está nas palavras “se fortaleceu”. Traduzida literalmente, essas palavras querem dizer: “amarrou-se, retesou-se” — como um músculo flexionado. Essa expressão também traduz a idéia de prender-se, e foi usada para descrever o fato de os cabelos de Absalão terem ficado “presos” nos ramos de um carvalho (2 Samuel 18:9). Devemos observar o verbo. Não se diz aqui: “Davi foi forta- lecido”, e sim: “Davi se fortaleceu”. Andar na fé que permanece na videira é diferente de ser um robô esperando passivamente que Deus aja em nosso lugar. Não é lamentar-se perante um

Mas

“Deus separado”, pedindo-lhe que faça alguma coisa por nós. Esta expressão poderia se traduzida de outra maneira: “Davi encorajou-se”. A coragem divina estava ali, aguardando que a fé a tomasse, e Davi a tomou. Aqui estava um homem prestes a queimar-se mental, emocional e espiritualmente, mas pelo

exercício da fé, controlou-se

Que é que ele viu em Deus que o tornou retesado, à seme- lhança de um músculo sob esforço? Davi fez uso da Palavra de Deus de que dispunha, os primeiros cinco livros da nossa Bíblia. Era um manuscrito da aliança contendo tudo quanto o Senhor revelara a seu próprio respeito, tudo que havia prometido aos crentes. Foi nesse mesmo livro da aliança que Davi aprendeu, quando era apenas bebê nos braços da mãe. Quando adolescente, sozinho no deserto com suas ovelhas, ele havia estudado, me- morizado e meditado nas palavras desse livro, que passaram a fazer parte dele mesmo. O livro dizia claramente que Deus era a rocha do seu povo (Deuteronômio 32:4,30,31). Deus era seu pastor (Gênesis 49:24).

e fortaleceu-se no Senhor.

Guiou-o através do deserto com a nuvem e a coluna de £ fogo (Exodo 13:21,22). Alimentou-o todas as manhãs com pão vindo do céu (Êxodo 16:35). Mediante a exibição de seu poder no julgamento que infligiu ao Egito (Exodo 7-11), e a separação das águas do mar Vermelho (Êxodo 14), Deus apresentou-se como o Libertador e Salvador do seu povo, livrando-o de todos os seus inimigos físicos e espirituais. Quando os inimigos egípcios estavam quase em cima dos israelitas, Deus se tomou o escudo e a defesa do seu povo, colocando a nuvem de sua presença entre o povo e seus inimigos (Êxodo 14:19,20). Deus se revelara em seus nomes. Ele era Iavé Jireh, o Deus que prometera que sempre estaria ali para atender às necessi- dades do povo (Gênesis 22:14). Era Iavé Rapha, o Deus que

havia prometido curar todas as suas doenças, sendo, realmente,

a saúde diária de seu povo (Êxodo 15:25). Ele era Iavé Nissi, o

Deus que se constituía em bandeira de seu povo, sob a qual ele mesmo seria a vitória sobre todos os inimigos (Êxodo 17:15). Tudo isto fora jurado numa aliança de sangue, mil anos antes de Davi nascer. Davi sabia, contudo, que o Deus da aliança nunca muda. Deus haveria de ser perpetuamente tudo quanto havia revelado ser a Abraão, a Moisés e ao antigo povo de Israel.

Contudo, o povo de Israel se esquecera há muito tempo de que Deus era o Deus vivo. Tinham transformado a aliança numa religião inoperante. A maioria das pessoas estava queimada e exaurida espiritualmente. Jamais Davi tivera um modelo ideal que lhe mostrasse a maneira como a pessoa poderia ser um ramo inserido na vídei - ra, em comunhão com Deus. Nem mesmo em sua própria

família. Qualquer parente seu lhe asseguraria que todas aquelas histórias da aliança eram verdadeiras, mas também lhe diria

as coisas eram diferentes

que eram histórias de outras eras agora.

Enquanto meditava nas Escrituras, no deserto, ao lado de suas ovelhas, os olhos de Davi foram abertos pelo Espírito Santo,

e viram que a revelação proporcionada por Deus de si mesmo

ainda era verdadeira e vigente. O Senhor esperava encontrar alguém que reagisse mediante a fé, e lhe permitisse ser para essa pessoa tudo o que prometera aos patriarcas. Davi foi essa

pessoa. Nos últimos anos, em meio a todos os seus problemas, e agora imerso no horror de Ziclague, Davi “se reanimou no Senhor seu Deus” e considerou tudo o que Deus havia dito que seria. Sua fé

reagiu responsivamente a essa revelação, descansou nela e permitiu que o Senhor fosse tudo em sua vida. A fé lhe permitiu crer em todas as promessas de Deus, entrelaçar-se com ele e unir-se ao Deus que encontrara na revelação contida nas Es- crituras. O salto de fé ocorreu quando Davi proclamou: “O Senhor é ”

meu

foram escritos no período mais problemático de sua vida. Eles

giram em tomo desta expressão de fé com a qual Davi se uniu a Deus experimentalmente. O Senhor já não era apenas o Pastor

(Salmo 23:1). Deus não

era apenas a Salvação de seu povo. Disse Davi: O Senhor é a

minha luz e a minha salvação

De tudo quanto Deus afirmara ser, Davi se apossou como se fora um bem pessoal: “O Senhor é a defesa de minha vida

minha Rocha

cudo

Ele constatou pessoalmente que Deus era tudo isso para ele. Percebeu que, apesar de não passar de mero ser humano falho, fraco, cheio de temores estava unido solidamente com o próprio Deus. Tudo quanto o Senhor declarou ser para o povo da aliança, tomou-se realidade para Davi como se Davi fosse o único membro do povo da aliança! Todavia, observe cuidadosamente o que foi que o salmista fez com exatidão nessas circunstâncias. Ele não pôs à parte algum tempo para ler as Escrituras, como se cresse que esse exercício espiritual produziria a ajuda de que necessitava. Tampouco se pôs a orar! Orar seria a mesma coisa que pedir que Deus se tomasse, em certo momento no futuro, aquilo que Davi precisava que Deus fosse imediatamente para ele naquele instante. O que o salmista fez foi assumir audaciosamente tudo quanto Deus havia

de Israel, mas O Senhor é o meu pastor

Alguns dos maiores salmos do filho mais novo de Jessé

(Salmo 27:1).

minha Fortaleza

meu Libertador

meu Es-

meu Forte.”

revelado ser. E assim, disse Davi: “Ele é isto — neste exato momento!” Davi centralizou sua fé na necessidade específica, no desafio

que o confrontava. Se sentisse necessidade de orientação e de sabedoria no deserto da vida, sua fé diria: O Senhor é o meu

Pastor

ameaçassem exterminá-lo, ele descansaria nestas palavras:

Senhor é a força da minha vida; de quem me recearei? (Salmo

27:1).

A necessidade, os sentimentos negativos, a escuridão tor- navam-se o imprescindível gatilho capaz de disparar e liberar a fé que o levaria a descansar em Deus, a resposta específica. Nessa liberação de fé, Davi se tornava conscientemente unido a Deus. A força infinita era agora “minha luz”. Literalmente, dois transformavam-se em um.

Nos últimos anos, tenho falado a centenas de pessoas que se esgotaram espiritualmente, crentes desiludidos que vinham orando e esperando mudança em sua vida. Entretanto, a ênfase das Escrituras não é tanto na mudança, mas principalmente no

intercâmbio!

Quando a fé espera no Senhor, a fraqueza do crente é tragada pela força divina. A seiva flui através do ramo, e os frutos de Deus são produzidos em nossa vida. Nossa fé tem visão muito mais clara de Deus do que jamais Davi teve. Somos membros de uma “aliança melhor”, cheia de “promessas melhores”. Davi só dispunha da revelação de Deus do Gênesis ao Deuteronômio. Todavia, nós temos a revelação mais completa, a revelação final, a Palavra encarnada, Jesus Cristo. Davi entendia sua união com Deus mediante as sombras das alianças do Velho Testamento. Porém, o Deus a quem o salmista conhecia à distância penetrou nossa humanidade, morreu por nós e ressuscitou dentre os mortos, a fim de vir, mediante o Espírito, morar dentro de nós. Quando chegam os problemas, quando nos defrontamos com as oportunidades de expressar o amor de Deus para com os outros, aí é que sentimos nossa fraqueza, e não nos vemos como grandes homens de Deus. Muitas vezes nós nos sentimos como

(Salmo 23:1). Se estivesse rodeado de inimigos que

o

Davi

A religião nos convoca para que lamentemos nossa fraqueza, dediquemos e redediquemos a nós mesmos e tentemos encontrar, dentro de nós, forças para a batalha. Todavia, a tentativa de achar a dedicação última, ou a experiência

choramos até que não haja mais lágrimas a derramar.

definitiva que nos transformará em homens fortes de Deus, só nos trará mais sentimento de culpa, e aumentará nossa exaustão espiritual. Nossos sentimentos são o gatilho necessário para a fé, de modo que esta substitua nossa fraqueza pela força de Deus. Podemos assim entender a declaração triunfante de Paulo “quando estou fraco, aí é que sou forte” (2 Coríntios 12:10). Uma ilustração fantasiosa poderá ajudar-nos a compreender este ponto. Vamos supor que eu deseje aprender a jogar tênis. Vou a uma livraria e compro todos os livros que ensinam como se deve proceder nesse esporte, com todas as regras e demons- trações de como se joga. Durante muitos dias fico pesquisando esses livros, memori- zando regras e algumas jogadas. De pé, em minha sala de estar, desajeitadamente mantenho os braços nas posições mostradas nas fotos. Convencido de que já estou pronto para jogar, compro um arsenal de tênis, uma raquete, algumas bolas e equipamen- tos para a quadra. Porém descubro, pouco tempo depois, que a despeito das muitas horas que gastei estudando o jogo, na hora de jogar mesmo eu nada sei, nada! Meus músculos recusam-se a coope- rar e as bolas voam por toda parte menos para os lugares aonde desejo que vão. Tendo agido como um perfeito tolo, dou o fora da quadra e retomo aos livros. Contudo, todas as vezes que tento jogar de novo, parece que estou pior. De fato, quanto mais duramente eu tento, mais tenso vou ficando, e piores se tomam minhas débeis tentativas. Estudo as jogadas de antigos jogadores e até vou a Wimbledon a fim de observar os campeões mundiais em ação. Mas quando volto para casa, minhas tentativas patéticas de atingir a bola apenas anunciam ao mundo que eu ainda não consigo jogar tênis. Finalmente, contrato um treinador que é campeão mundial. Ouço-o e admiro sua habilidade. Mas quando tento fazer o que ele faz, e imitar seus movimentos, algo dentro de mim se recusa a cooperar. Venho tentando aprender o jogo mediante regras e preceitos, observando instruções de livros e de pessoas, capitalizadas pelos meus esforços no sentido de pôr tudo isso em prática.

Fantasiosamente, suponhamos que eu pudesse convidar o treinador para que entrasse em mim, dentro de minha mente, meus nervos, meus músculos. Ele estaria dentro de mim de tal maneira que pudesse pensar seus pensamentos dentro de minha cabeça, permitir que seus músculos fossem os meus

músculos, que sua memória de todas as suas grandiosas jogadas

vitoriosas fossem parte de minha memória

minha personalidade e liberdade de escolha jamais me fossem arrebatadas. Eu seria eu mesmo e ele seria ele próprio mas estaría- mos operando como se fôssemos uma só pessoa. Quanto a mim, meu papel seria o de desistir de jogar tênis, e admitir minha incompetência. Eu deveria entender que se insistisse em tentar

jogar, o campeão dentro de mim me deixaria voltar a bancar o perneta, a fazer o papel de tolo; nós ambos não poderíamos jogar

ao mesmo tempo. De pé na quadra de tênis, admitindo francamente que não sei jogar, decido entregar-lhe a raquete. O campeão joga, eu decidi deixá-lo jogar. E começo a ganhar todos os jogos! Vejo-me agora praticando tudo o que os livros me mandavam fazer, obedecendo às regras, enfim, fazendo as coisas que o treinador jamais me ensinara. Entretanto, não estou agindo segundo minha própria capacidade; estou descansado no

treinador, o qual representa todos os livros e regras encarnados numa pessoa. É assim que Jesus Cristo, mediante seu Espírito, vive em nós.

O descanso da fé ocorre quando decidimos permitir-lhe que

venha disputar o jogo da vida dentro de nós, como se ele estivesse em nosso lugar. E um salto pela fé, segundo o qual

declaramos que ele é nossa vida; depois, tomamos um milhão de decisões pela fé, à medida que os desafios vão surgindo. Cristo produz em nós tudo quanto a lei e todos os alpinistas

de escadas religiosas têm estado objetivando o amor, que é o

cumprimento da lei (Gálatas 5:14).

e que, apesar disso,

CAPÍTULO 10

Como Vencer a Tentação

S egue-se certa euforia logo após a descoberta do que sig- nifica estar em Cristo. Aliadas ao descanso que sobrevêm ao crente, quando este cessa de produzir suas próprias

obras, chega a alegria e a paz sobre as quais havia lido tanto nas Escrituras. A vida assume novo sentido e nova dimensão quando todos os

dias são iniciados com o reconhecimento de que posso todas as

coisas naquele que me fortalece (Filipenses 4:13). Que para mim

(Filipenses 1:21). Que agora a vida é definida

como

Entretanto, quando a tentação surge, desaparece a euforia, e com freqüência o crente sucumbe. Toma-se confuso e fica imaginando como é que pode ser tentado, se Cristo mora dentro dele. Muitas vezes as pessoas me têm perguntado:

“Se Cristo está em mim, como é que eu pude ser tentado daquele jeito? Como é possível eu abrigar os pensamentos que me sobrevêm?” Devemos entender que a tentação não é pecado. Jesus foi como nós, em tudo foi tentado, mas sem pecado (Hebreus 4:15). Precisamos ter a ousadia de aceitar esse versículo exatamente como ele se apresenta Jesus, o Homem perfeito, impecável, conheceu a tentação em todas as áreas da vida, de todas as maneiras, como ocorre conosco. Tal compreensão nos convenceria, finalmente, que

o viver é Cristo

Cristo em vós, esperança da glória (Colossenses 1:27).

ser tentado não é pecado; entretanto, crentes em núme- ro incontável se autocondenam porque sentem o chamado da tentação. A avaliação exata do que é a tentação nos livrará de estar em constante luta contra ela. Nós a reconheceremos como o método escolhido por Deus para firmar-nos na fé.

Antes de virmos a Cristo, éramos um com o mundo, que no maligno (1 João 5:19), mundo que consiste de

concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba

do poder

das trevas e transportados para o reino do Filho do seu amor (Colossenses 1:13), tomamo-nos conscientes daquele império do qual fizemos parte um dia. Enquanto estávamos na escuridão, vivíamos tão acostumados a ela que praticamente não a notávamos. Quando eu morava na cidade de Nova York, lia muito a respeito de poluição atmosférica. Quando esta alcançava níveis péssimos, a imprensa local nos alertava sobre os perigos. Porém,

morando dentro da cidade, raramente eu me sentia côns- cio de estar respirando ar poluído. Certa vez, voando de outro lugar para Nova York, vi uma nuvem marron, pesada, suspensa sobre a cidade, engolfando os edifícios. Era a poluição de que todos falavam. Eu só conseguia vê-la, na sua imundície e feiura, estando fora dela. Da mesma forma, só quando estamos em Cristo é que percebemos como o mundo é, na realidade. Vendo-o, sabemos que já não temos parte com ele. Tentação é apelo forte para que voltemos às trevas. E apelo à nossa humanidade, aos nossos apetites físicos, às reações normais de nossas emoções e racionalizações. Tiago nos demonstra passo a passo o processo da tentação:

“Mas cada um é tentado, quando atraído e engodado

pela sua própria concupiscência. Depois, havendo a

jaz

da vida

(1 João 2:16). Agora que fomos libertados

concupiscência concebido, dá à luz o pecado (Tiago 1:14,15)

As palavras que Tiago usa são importantes para a nossa compreensão do que está acontecendo. A palavra “cobiça” em geral vem associada ao mal. Contudo, na realidade cobiça significa simplesmente “desejo ou paixão” — anseios normais para a nossa carne humana. A palavra “seduzir” sugere a idéia

de “atrair com boa isca”, vocabulário próprio de caçadores e pescadores. Significa, literalmente, “enganar mediante uma isca". Quando utilizamos palavras como “seduzir” e “isca”, imedia- tamente pensamos em estímulos, excitação, em atração na direção de algo. O âmago da tentação é que nossos desejos humanos são atraídos fortemente na direção de algo existente no mundo. Tiago nos diz que isto não é pecado. Só se toma pecado quando o desejo concebe, ao passarmos da reação à decisão, a fim de perseguir com deliberação o que desejamos. Alguém nos diz algo maldoso, injusto ou malicioso. Não é pecado experimentar reação emocional negativa, a de estarmos feridos, ou nutrirmos sentimentos de ódio ou vingança. Tal coisa é perfeitamente normal ao ser humano. Se sou apanhado num engarrafamento de trânsito, não é pecado eu sentir impaciência ou irritação. Quando esperamos convidados especiais para jantar em casa e tudo sai errado na cozinha, não é pecado sentir frustração e ficar à beira das lágrimas. Nós não recebemos corpo ressurreto quando Cristo vem morar em nós; continuamos a manter ainda todos os apetites físicos normais e comuns ao gênero humano. Ainda sentimos fome, sede, atração sexual, e sentimo-nos cansados após longo dia, exatamente como Jesus se sentia. Se viciamos nosso organismo com drogas ou com álcool antes de termos recebido a Cristo, não será incomum o corpo sofrer alguns retrocessos e enviar mensagens ao cérebro solicitando alívio para as tensões, como o fazia antes. Nada disso é pecado. Porém, encontrei muitos crentes que usam máscaras em todas estas áreas, fingindo que não experi- mentam reações diante da vida. O fato é que tais crentes estão entre os primeiros a queimar-se espiritualmente, porque a pessoa não consegue viver na irrealidade. O Getsêmani nos mostra Jesus enfrentando as maiores tentações de sua vida. Muitas vezes ele falara de sua morte aos discípulos, morte que se aproximava, e de sua ressurreição. Havia mostrado a eles com clareza que era da vontade do Pai que ele, o Filho, sofresse e morresse. No Getsêmani, sendo homem verdadeiro, tudo em sua carne tentava afastá-lo para longe da determinação divina. Aquela tentação foi tão grande

que Jesus perguntou ao Pai se não haveria outro caminho. Contudo, nem aqui o Senhor pecou. Pecado é seguir o desejo e escolher a prática proibida. E a realidade factual é que raramente os crentes vão tão longe. Grande parte da condenação sentida pelos crentes não deriva de terem realmente pecado; apenas de terem sido atraídos para o

pecado. Faça uma pausa e veja bem quem é o crente. É alguém que forma unidade com Cristo. E um em Cristo.

" o que se une ao Senhor é um espírito com ele.”

não sabe is que o nosso corpo é santuário do

Espírito Santo, que habita em vós, proveniente de Deus? Não sois de vós mesmos; fostes comprados por preço ”

(1 Coríntios 6:17,19,20)

Somos os que nos apresentamos a Deus, como vivos dentre os mortos, e (os nossos) membros a Deus como instrumentos de justiça (Romanos 6:13). Somos membros da Nova Aliança, e a lei de Deus foi escrita em nossos corações (Hebreus 8:10). Estando unido a Cristo, lá no âmago de seu ser o crente já não deseja pecar; deseja andar na justiça. Os pecadores não são tentados! Ainda estão nas trevas de seu pai, o diabo. A tentação só ocorre nas pessoas que deixaram o mundo. Quando vemos algumas folhas presas a um galho de árvore durante o inverno, sabemos que essas folhas já não constituem parte da árvore; morreram muitas semanas atrás. Mas na primavera a árvore disporá de tudo quanto não lhe pertence, e se revestirá de novas folhas, que são a expressão da nova vida. De maneira semelhante, a tentação nos traz a fé que libera a vida de Deus em nós, e nos separa, como as folhas mortas caem da árvore, do tipo de vida comum no mundo. Vi, outro dia, uma pele de cobra enroscada no tronco rugoso de uma árvore. Eu sabia o que havia acontecido. A cobra ganhara pele nova, de modo que a pele velha era agora algo descartável, grudada na cobra sem fazer parte dela. Ao encontrar superfície áspera, o réptil começou a coçar-se até livrar-se da pele que já não fazia parte de seu corpo. Todavia, essa pele fizera parte da serpente no ano passado; mas agora era apenas coceira irritante. A tentação é uma coceira que Deus permite em nossa vida, de tal

maneira que possamos escolher ser quem somos: nova criatura em Cristo. Se não entendermos isto, seremos prisioneiros de um medo

mórbido da tentação. Quando este medo liga-se ao legalismo dos fariseus, o crente se vê rodeado de leis ridículas que proíbem uma porção de atividades normais, sadias. Todas essas leis “de cerca” surgem na mente de guias eclesiásticos obcecados com tentações e pecados. As Escrituras nos ensinam que a tentação não deve ser vista com medo, mas com senso de cautela. Trata- se do método escolhido por Deus para revelar-nos Cristo continuamente em nossa vida. Quando as poderosas polias da tentação nos puxam, se quisermos crescer em Cristo devemos de imediato reconhecer as reais questões que enfrentamos. De duas maneiras diferentes a tentação nos convida para sermos o que não somos. Em primeiro lugar, a chamada da tentação é para que façamos algo que, em nosso coração, sabemos não estar de acordo com quem somos agora em Cristo. E a segunda maneira a tentação real é esquecer-nos de quem somos, e tomar-nos legalistas, tentando vencê-la como se estivéssemos separados de Jesus.

O legalista obedece à sua própria força de vontade a fim de

obedecer à lei, quer seja lei de Deus, quer seja lei criada pela sua

igreja, quem sabe pela própria pessoa. Esta fica repetindo para

si mesma: “Não devo fazer isso, não quero fazer isso

Ela se

empenha ao máximo, na esperança de fortalecer sua força de vontade; faz promessas a Deus pelas quais não atenderá aos

apelos do pecado. Entretanto, ainda enquanto está formulando suas promessas, já está caminhando na direção do pecado!

E quando a pessoa peca, procura resolver seu problema de

condenação e culpa mediante rededicações e novas promessas da que não fará aquilo de novo. E assim, aquela vida espiritual- mente miserável vai boiando rumo ao esgotamento. Ninguém resiste à tentação mediante força de vontade. Mas nós resistimos e a vencemos ao nos voltarmos para Cristo, nossa vida interior. Cristo é reconhecidamente a resposta positiva aos desejos que foram estimulados de maneira negativa. Se fomos convocados para a impaciência, ele é nossa paciência. Se para o ódio e amargura, ele é nosso amor e nosso perdão. E neste sentido que Deus escolheu a tentação para ser o

veículo pelo qual glorificaremos a Jesus durante toda a vida. Atirados num mundo de trevas pesadas, a luz de Cristo dentro de nós é claramente vista. Ninguém vence a tentação mediante a força de vontade. Ainda que tenhamos forças suficientes em nós mesmos para dizer “não”, já falhamos e fomos reprovados no teste. Deus não deu permissão à tentação em nossa vida para que mostrássemos ao mundo a força da nossa vontade: a tentação é o meio pelo qual permitimos que Cristo viva poderosamente em nós. O crente jamais diz “não” à tentação, mas diz “sim” a Cristo. Mas o que acontece se pecarmos, se formos desalojados e desequilibrados, e nos esquecermos de quem somos e nos en- contrarmos cheios de culpa? Falando a crentes, assim se expres- sou João:

"Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados, e nos purificar de toda injustiça”.

(1 João 1:9)

Quando confessamos o nosso pecado, dizemos sobre ele a mesma coisa que Deus diz. Admitimos que, na verdade, é pecado, mas reconhecemos que ele já foi lavado no sangue de Jesus. Ao procedermos assim, concordamos com Deus em que nosso pecado já está perdoado. Nós não injuriamos Deus, cha- furdando na culpa e na condenação, mas louvamo-lo, levantan- do-nos e partindo para novas vitórias pela fé. Antes de conhecer o Senhor, Hector fora viciado em drogas. Experimentou conversão maravilhosa, e em seguida se encheu do Espírito Santo. Voltou à convivência da esposa e ela também conheceu o Senhor. Contudo, não se passou muito tempo para que Hector des- cobrisse que, embora fosse agora novo Hector em Cristo, ainda sentia fortes tentações para retomar ao velho hábito das drogas. Certa manhã, às quatro horas da madrugada, sua esposa Glória chamou-me, muito desalentada. Hector estivera muito perturbado no dia anterior, saíra de casa e ainda não tinha voltado. Ela estava convencida de que o marido havia ido procurar um traficante. Na manhã cinzenta, dirigi-me à área onde Hector tinha passado seus dias de viciado. Ápós algumas perguntas, encon-

trei-o num recinto imundo. Quando ali entrei, ele ficou chocado e obviamente envergonhado pelo fato de eu o ter encontrado naquele lugar. Ele me chamou à parte e disse:

Pastor, por favor me deixe em paz! Desapontei a Deus, desapontei o senhor e todos os meus irmãos e irmãs da igreja. Não adianta. Não vale a pena o senhor preocupar-se comigo. Eu não prestei atenção às suas palavras pronunciadas sob o peso da culpa. Em vez disso, convidei-o a tomar um café comigo. Ele continuava dizendo que Deus tinha que jogá-lo fora, pois agora ele voltara a usar drogas. Olhei-o bem nos olhos e disse-lhe:

Hector, Deus o amou quando você era um lixo, e o salvou. Você acha, então, agora que é filho dele, que ele não o ama livremente e incondicionalmente? Ele ainda o ama, ainda que ontem à noite você tenha se magoado a si mesmo e à sua família. Deus ama você neste momento, da mesma maneira como o amava na semana passada, quando você estava cantando no Espírito. O amor de Deus não depende de coisas que você faz ou deixa de fazer. Ele perdoa você. Aceite seu perdão e agradeça a Deus! Seu rosto iluminou-se, podia-se percebê-lo. Voltei minha atenção à questão de como ele enfrentara a tentação quando ela surgiu; especificamente, a tentação de voltar às drogas. Ele me pareceu chocado pelo fato de eu fazer-lhe tais perguntas, e assegurou-me que, enquanto estava sendo tentado, dizia con- tinuamente: “não, não!”

ele dizia “não” às

tentações. Tinha vivido até ali segundo a lei escrita por ele mesmo, que dizia mais ou menos o seguinte: “Não usarás drogas, não embarcarás em nenhuma 'viagem'.” Mantendo o

olho na lei, determinou a si mesmo tentar viver segundo a

imagem que criara de um crente forte

alguém que não era

tentado pelas drogas. E quando a tentação chegou, Hector foi atirado à culpa: era

fraco demais, a ponto de sentir aquilo

e assim, armou a vontade

própria a fim de resistir. Onde houver lei, haverá também obsessão a respeito do pecado que a lei proíbe; é assim que centenas de desejos se erguem, exigindo que o pecado seja

Aqui estava o problema de Hector

novamente experimentado, conforme Hector descobriu pobre moço! Hectordisse eu você precisa entender que a fé nunca diz “não” à tentação. Ela diz “sim” a Jesus! Prossegui explicando que o velho Hector fora crucificado com Jesus e que agora o Espírito de Jesus vivia dentro dele. A vida não era questão de Hector tentar ser bom, mas de ele admitir que nunca poderia ser bom! Desde que esse ponto fosse compreendido, Hector nunca mais pensaria que o Cristianismo é questão de reajustar o comportamento, e sim deixar que Cristo viva no crente, exer- cendo nele seu poder infinito. Fé não é eu reunir toda a minha força de vontade num poderoso “não!” E o reconhecimento, no meu momento de fraqueza, de que, embora eu não o perceba, Cristo é a minha força. Parecia que Hector havia compreendido; voltou a ser a pessoa feliz, perambulando pela igreja. Meses depois, surgiram novas pressões sobre sua vida, e Hector começou a pensar que fazer uma “viagem” durante a noite aliviaria um pouco sua ansiedade. E começou a dizer “não!” mas com o passar das semanas, sua resistência foi ficando cada vez mais fraca. Finalmente, um dia ele saiu de casa para o trabalho mas já havia decidido ir a um traficante e tomar um “pico”. Disse a si mesmo que seria uma única vez. Porém, ao mesmo tempo a diminuta resistência que sobrara ficou berrando “não!” tão alto quanto conseguia. Ao chegar perto do lugar onde costumava comprar as drogas, Hector gritava por dentro: “Por favor, Deus, ajuda-me!” Não sei como, mas dentro dele, bem no fundo, Hector se lembrou da conversa que havíamos tido meses antes. “Este anseio por drogas não é o meu eu real. Esse Hector morreu com Cristo e agora eu ressuscitei com o Senhor, e ele é a minha vida. Estou tentando resolver este problema como se Cristo não estivesse dentro de mim. Senhor Jesus, não quero fazer esta „viagem‟. Mas eu sou fraco. Toma posse de mim, Senhor, e executa a tua vitória." Naquele instante, Hector percebeu que ele era um ramo de videira, e que a vida estava ali, à sua disposição. A fé uniu sua vida a Cristo. Naquele momento, Cristo assumiu o controle. O Espírito do Senhor veio a ele, e Hector prosseguiu em seu

caminho, louvando a Deus. Isso aconteceu há muitos anos. Hector nunca mais foi tentado seriamente a voltar às drogas.

Um Caso Clássico de Esgotamento Espiritual

M ilhares de crentes se esgotam diariamente porque esperavam coisas da parte de Deus que o evangelho não

promete. Asafe era homem de Deus, nos dias do rei Davi. Era autor de vários salmos, e pioneiro, sob a orientação de Davi, na condução de

Israel num culto alegre no monte Sião. Asafe havia nascido na tribo sacerdotal de Levi, o que significava que estava destinado a ministrar na presença de Deus durante toda sua vida. Na época do seu nascimento, o interesse nacional pelas coisas espirituais estava num ponto baixíssimo devido à apostasia de Saul, que reinava em Israel. Quando Davi tomou-se rei, conduziu o povo a um reaviva- mento espiritual, levando a arca da aliança de volta a Jerusalém. Ela tinha sido colocada dentro dos muros de Sião; na tenda que a abrigava, erguia-se um louvor desinibido, um culto espontâneo a Deus. As orações de centenas de israelitas piedosos, que intercederam durante os dias negros de Saul, alcançaram respostas que ultrapassavam os sonhos mais fantasiosos. Davi era o instrumento através do qual Deus haveria de trazer um reavivamen- to jamais visto antes. Os que conheciam as Escrituras lembravam-se dos dias de Moisés, quando Miriã conduziu a nação inteira no cântico e nas danças, em adoração a Deus, às mar

gens do mar Vermelho. A consciência da presença de Deus exigia o cântico de louvor e palmas de alegria diante da magnificência de Deus. O próprio rei Davi dançava sem inibições em adoração a Deus. E quando encontramos Asafe pela primeira vez. Ele é atirado por catapulta da obscuridade à proeminência ao ser escolhido para reger a música de louvor do povo que escoltava a arca no trajeto até Jerusalém.

“Disse Davi aos chefes dos levitas que constituíssem a seus irmãos, cantores, para que, com instrumentos de música, com alaúdes, harpas e címbalos, se fizessem ouvir, e levantassem a voz com alegria. Portanto,

designaram os levitas a Hemã

a Asafe

e Etã

(1 Crônicas 15:16-17)

Para que os guias tivessem consciência de sua capacidade musical, a reputação de Asafe deveria ter sido semelhante à do próprio Davi. Anos antes, quando era obscuro pastorzinho de ovelhas, a habilidade de Davi para louvar a Deus com sua harpa já era conhecida até na corte. Logo após este fato, Davi nomeou Asafe para a posição permanente de líder do culto, diante da arca da aliança.

Designou alguns dos levitas para ministrarem perante a arca do Senhor, para fazerem petições, para louvarem e exaltarem ao Senhor Deus de Israel: Asafe era o

chefe

Nesse mesmo dia Davi

fazer ressoar os címbalos

deviam tocar os alaúdes e as harpas, Asafe devia

entregou a Asafe e seus irmãos, pela primeira vez, o

seguinte Salmo de ações de graças ao Senhor

deixou a Asafe e seus irmãos diante da arca da aliança

Davi

do Senhor para ministrarem ali continuamente, segundo se ordenara para cada dia.” (1 Crônicas 16:4,5,7,37)

Sem dúvida, Asafe era homem dotado de grandes dons espirituais, e de grande potencial, ungido pelo Espírito a fim de conduzir o povo no louvor. Com o passar dos anos, ele haveria de escrever alguns salmos, e, muitos anos após sua morte, seria lembrado pelo título profético de “vidente” (2 Crônicas 29:30). Contudo, naqueles primeiros dias, logo após ser guindado da obscuridade, Asafe estava numa posição perigosa. Recebera a magnífica honra de ter seu nome ligado ao de Davi como o

salmista de Israel. Por razão de sua posição, o moço gozava de reputação que excedia sua experiência.

A adoração sem inibições a Deus exigia todas as emoções e

esforços físicos. Os enormes corais e orquestras moviam a alma

na direção de Deus, havendo momentos em que tempo e espaço pareciam tragados pela eternidade. Entretanto, a profunda sensação da presença de Deus não podia ser confundida com a experiência de conhecê-lo num relacionamento de aliança. Deus

ordenara os corais e a música, não, porém, como substitutos do

conhecimento do próprio Deus relacionamento com ele.

O louvor não é uma droga celestial destinada a amortecer a

dor desta vida. Visto que conhecemos nosso Deus, nós o louvamos até em meio das tristezas cotidianas. Nosso relacionamento com Deus é, primordialmente, reação responsiva de fé, fre- qüentemente contrária às aparências e aos sentimentos. Nossa vida se fundamenta sobre Quem é Deus, não sobre como pos- samos sentir-nos a respeito dele, hoje. Asafe, companheiro de Davi, homem que conduzia a nação no louvor, no ápice de sua vida espiritual esgotou-se espiritual- mente. Exauriu-se. Ocupadíssimo todos os dias na organização do culto a Deus, as bases de Asafe começaram a desmoronar. E significativo que o Espírito Santo registre o testemunho que ele deu no Salmo 73, descrevendo como falhou e se recuperou. Asafe é prova de que ninguém está isento de queimar-se

e ele também é a esperança de que podemos

espiritualmente

Eram apenas expressão do

mover-nos, saindo da exaustão espiritual para a verdadeira alegria da fé. Devido o fato de ele ter documentado cuidadosamente as causas que o conduziram a seus dias de crise na fé, o salmo é preciosa chave para a compreensão do esgotamento espiritual. Asafe também nos diz o que foi que o trouxe de volta e deu-lhe 0 rico ministério pelo qual o conhecemos. Ele relacionou o início de seus problemas com o dia em que começou a observar os ricos vizinhos incrédulos, cuja vida era opulenta. Eram prósperos materialmente, e pareciam não ter qualquer preocupação neste mundo. Ásafe fora criado sob a lei de Moisés, e embora, sob a influência de Davi, tivesse sido tocado pela graça de Deus e se movido na

dimensão do Espírito, ele ainda se cingia aos velhos princípios da lei. Acreditava que sua fé, sua dedicação a Deus e suas obras o tomaram merecedor das bênçãos materiais do Senhor. A aliança seria uma fórmula de prosperidade para uma vida tranqüila. Tal perspectiva é sempre perigosa, porque iguala a espiri- tualidade com as posses e livramento das oposições, nesta vida. Era o fermento dos fariseus antecipando-se, e dizendo: “Visto que eu fiz isto e aquilo, Deus deveria conceder-me bênçãos materiais.” E o mesmo espírito que vemos no irmão mais velho da parábola do filho pródigo: “E claro que eu deveria ser recompensado por todo o trabalho que fiz para o senhor!” O problema aqui não é se Deus abençoa seu povo com coisas materiais. Ele abençoa. Contudo, as coisas materiais são o pós- escrito da aliança que nos trouxe a um relacionamento dinâmico com Deus. Esse relacionamento significa que o crente assume atitude completamente diferente da do incrédulo no que tange a posses e riquezas. O incrédulo junta riquezas e amontoa posses como segurança contra o futuro, a fim de adquirir poder sobre os outros e manter a áurea de importância que o ouro lhe confere. Mas o crente sabe que Deus se tomou para ele a segurança que o dinheiro jamais compra, que Deus lhe conferiu nova auto-

auto-imagem de plena honra e glória a que o

imagem em

espírito humano mais aspira. Mais do que isso, quando estamos ligados a Deus, que é amor, conhecemos a alegria de dar, da mesma forma que recebemos, de tal modo que nossa vida se toma rio caudaloso que segue dando, recebendo e dando de novo. Para Asafe, a questão mais importante era a posse de bens materiais e a vida livre de dificuldades. O pós-escrito se tinha transformado na própria carta! Os resultados do relacionamento da aliança obscureceram o próprio relacionamento. Foi quando Asafe começou a contemplar os vizinhos naba- bescos, a observar-lhes a vida impiedosa e a compará-la com a sua própria dedicação e serviço a Deus. “Certamente eu mereço ser abençoado com uma vida sem problemas, com bastante riqueza e grande abundância de bens. Por que é que eles têm mais do que eu?” Ele gastou horas pensando nestes termos, observando como esses vizinhos viviam, suas atitudes para com Deus e sua maléfica

influência sobre as pessoas ao redor. Quando, finalmente, começou a expressar seus sentimentos, estava cheio de inveja; a visão daqueles perversos era suficiente para deixá-lo mortificado. Asafe fez uma descrição deles, cheia de minúcias e ódio:

“Portanto, a soberba lhes cinge o pescoço como um colar; vestem-se de violência como de um adorno. Os olhos deles estão inchados de gordura; não têm limite as imaginações do seu coração. Zombam, e falam com malícia; na sua arrogância ameaçam com opressão. Erguem a boca contra os céus, e a sua língua percorre a terra. Pelo que o seu povo volta a eles, e bebe águas em abundância. Dizem: Como sabe Deus? Ou há conhecimento no Altíssimo? São assim os ímpios; sempre em segurança, e as suas riquezas aumentam.” (Salmo 73:6-12)

Ao meditar sobre os malvados, e na crescente convicção de que Deus o tratara injustamente, Asafe começou a exagerar a vida agradável do incrédulo. Ao acreditar na mentira, fez com que suas queixas ressoassem como se fossem corretas a seus próprios ouvidos.

“Pois eu tive inveja dos soberbos, ao ver a prosperidade dos ímpios. Não há apertos na sua morte; o seu corpo é

São

forte e sadio. São livres das tribulações dos mortais

assim os ímpios; sempre em segurança, e as suas

riquezas aumentam.” (Salmo 72:2-5,12)

Fazendo declarações genéricas, universais, a respeito da vida

não

nem são afligidos” — Asafe

evita enfrentar a tolice da mentira que decidiu acatar. Sua experiência prática ficou aquém daquilo que ele podia crer,

partilham das canseiras dos mortais

descuidada dos perversos — “Para eles não há

e que o evangelho teria prometido. Todos os dias, no monte Sião,

ele conduzira o povo no cântico de que Deus era grande e bondoso,

Senhor sobre toda a terra. Considerando todas aquelas coisas que ele entendia serem os fatos reais, Asafe achou que a injustiça e a parcialidade

o

reinavam

que Deus abdicara seu trono. Descreve-se a si mesmo,

dizendo:

quando o meu coração se azedou, e senti picadas nos

meus rins, estava embrutecido e nada sabia (Salmo 73:21-22).

As palavras “se azedou” descrevem um estado raivoso de

espírito, um ressentimento contra Deus por ele deixar que as coisas sejam como são. Este sentimento se faz acompanhar de amnésia a pessoa se esquece de todas as bênçãos que Deus lhe derramou no passado. A amargura é destilada em palavras raivosas, em má vontade para com as pessoas em geral. Asafe começou a demonstrar os sintomas clássicos do crente queimado espiritualmente. Seu ódio contra Deus ele tem certeza agora de que Deus o abandonou e falhou em suas responsabilidades com relação à aliança expressa-se em observações cínicas:

“Na verdade que em vão purifiquei o meu coração; em vão lavei as minhas mãos na inocência. O dia todo sou afligido; sou castigado cada manhã.” (Salmo 73:13-14)

Com amargura, ele revê sua dedicação a Deus, sua caminhada na fé; pergunta se houve vantagem nisso. Ponderou em tudo

. conduzira uma nação no louvor, escrevera salmos

que haveriam de ser entoados durante gerações

que teve foi viver dias cheios de problemas. A memória do homem se filtrava através da autopiedade, de modo que só se lembrava das más coisas, das partes negativas de sua vida. Usou o termo “afligido”, que nas Escrituras é empregado para descrever a ação de Deus. Diz ele: “Tu olhas para os que se riem à tua face, tu os deixas prosperar; quanto a mim, que sou filho da aliança, tu me bates todos os dias!” Suas perguntas,

misturadas com amargura e ciúmes, iam e vinham em sua mente, e sempre voltavam ao seu problema com Deus. Ele era membro do povo da aliança! “Julguei que tu podias tratar melhor um dos teus filhos da aliança. Como é que Deus pode permanecer verdadeiro à sua própria palavra, à luz de tudo quanto estou vendo? Por que é que eu não tenho as riquezas todas que desejo? Por que é que eles podem tê-las? Sou crente, eu deveria viver sem dores e mágoas. Deus não manteve sua aliança comigo.” Ele descreveu sua experiência nesse ponto com estas palavras:

os meus pés quase se desviaram; pouco faltou para que se desviassem os meus passos (Salmo 73:2). Desde que começou a acreditar nas distorções da verdade, sentiu que os pés

a recompensa

quanto fizera

escorregavam, como se estivesse caminhando sobre gelo. Estava perto do desastre. Tendo aparentemente um motivo honroso, Asafe viu-se fugindo dos amigos. Disse ele: “Se eu tivesse dito: Falarei assim; teria

traído a geração de teus filhos” (Salmo 73:15). Na verdade, ele estava dizendo o seguinte: “Creio que vou desistir de tudo quanto tenho crido, mas não quero influenciar outras pessoas, e levá-las a partilhar de minhas dúvidas. Em face de minha posição, exerço enorme influência sempre que o povo se

por isso, vou guardar meus

sentimentos para mim mesmo, e me demitirei tão discretamente quanto me for possível.” Asafe se julgava hipócrita se permanecesse diante do povo regendo o cântico de louvor. Louvor de que ele não partilhava. Quando alguém o saudava, ele respondia da maneira usual:

“Louvado seja Deus”. Por dentro, porém, ele dizia: “Que adianta prosseguir?” Assim que seu trabalho como regente dos corais e das orquestras terminava, ele escapulia pela porta dos fundos, não querendo falar com ninguém. Conquanto fosse excelente idéia não falar com crentes ima- turos, Asafe poderia ter discutido a questão com Hemâ e Etã, seus colegas de ministério, e certamente teria recebido conselhos e oração. Todavia, um sintoma clássico da queima espiritual é a pessoa fugir dos outros, e querer ficar a sós. Asafe afundou-se em areias movediças de tal maneira que não conseguiu meditar em particular, ou escapulir do lodaçal. Quando tentei compreender isto, fiquei sobremodo perturbado (Salmo 73:16). As palavras no original dão a idéia de que “a tentativa de compreender o que estava acontecendo era esforço grande demais para mim”. À semelhança de alguém que estivesse se congelando, perdido, tudo o que ele desejava fazer se resumia em se deitar e abandonar-se a um sono sem fim. Ao resumir o que acontecera, Asafe disse que seu coração e sua carne haviam falhado. Queimara-se espiritualmente. Agora, desalentado e exausto, nada sobrara; não tinha nada com que contar. Mas finalmente ele teve o discernimento de que sua atitude negativa representava muito mais do que um mau dia. Ele se descreveu como estando “afligido” — fez uso de uma palavra que,

reúne para cultuar a Deus

com freqüência, é utilizada no hebraico para descrever a pessoa picada por serpente. Reconheceu que se expusera de modo a ser picado pelo pai da mentira. Em seguida, Asafe relembrou-se como saiu da terrível cova que

o sugava para baixo. Tinha chegado ao ponto em que nem se incomodava de tentar fugir, e permaneceu no buraco até que

entrei no santuário de Deus

Ao mencionar “entrei no santuário”, Asafe não se referia à

estrutura física. Rogar ao crente espiritualmente esgotado que vá

ele acha que foi a igreja que lhe

sugou a vida! Asafe estivera dentro da estrutura física do

santuário todos os dias de sua vida, e nos últimos meses aquele

e onde

se sentira um grande hipócrita. “O santuário” no Antigo Testamento era o lugar que Deus escolhera para tomar conhecida a sua presença. A expressão Monte Siáo, a colina de Jerusalém em que a arca de Deus se instalara, veio a ser sinônimo do conceito de Deus morando entre os homens. Quando Asafe entrava naquele lugar (como o fez todos os dias de sua vida, no desempenho de suas obrigações sacerdotais),

havia sido o lugar onde sofrerá os mais terríveis

(Salmo 73:17).

à igreja não vai ajudá-lo muito

tomava-se consciente da Pessoa que morava no santuário. Ele não se aproximava de um edifício, mas da Pessoa que dava importância ao edifício. Vinha diretamente à Resposta, em vez de buscar um livro de fórmulas e respostas. A presença de Deus dava-lhe compreensão e perspectiva da

vida que ele jamais tivera antes. Se a houvesse tido, não se teria queimado. Primariamente, não foram as emoções que receberam ajuda; foi sua mente, sua compreensão do que se passava. A pessoa espiritualmente exaurida precisa mais do que o cântico de alguns hinos inspirativos de louvor; estes simplesmente a farão sentir-se bem no momento. A pessoa precisa é de uma perspectiva completamente nova de como encarar a vida. Quando isto ocorre, a

fé retoma.

Asafe não veio a aprender algo realmente novo ele com- preendeu a palavra de que já dispunha, agora tomada viva e aplicada pelo Espírito. Abandonou a posição de procurar fórmulas, respostas e chaves para tomar-se tão bem-sucedido e feliz quanto

os perversos, e entrou num relacionamento com o Pai, que constitui o ceme da fé.

Foi nesse momento que Asafe olhou para trás e descreveu-se a

si mesmo da maneira que já analisamos. Suas palavras expressam

arrependimento e mudança de pensamento a respeito das conclusões a que chegara, cheias de amargura e autopiedade. Lembrou-se de que agira mais como animal irracional do que como filho de Deus. Estava embrutecido, e nada sabia; era como um animal perante ti (Salmo 73:22). Qualquer animal reage de acordo com os fatos apreendidos pelos seus sentidos. Asafe estava na realidade reagindo diante da vida, em vez de agir nela à luz de tudo quanto sabia a respeito de Deus.

Ao ponderar bem sobre onde estivera e em que havia começado

a crer, ele caiu em si e percebeu de repente: Todavia, estou de

contínuo contigo; tu me seguras pela minha mão direita (Salmo 73:23). Asafe percebeu que, apesar de ter perambulado como errante, Deus nunca o abandonara, mas continuava a Ele o sustentara em todo o trajeto. A religião escandaliza-se diante dessa idéia. Ela defende que para usufruir da presença de Deus e de sua mão orientadora, a pessoa precisa ter merecimentos. Um homem que troveja contra Deus e, ao mesmo tempo, lidera o culto no monte Sião, não só é indigno, mas hipócrita também! Entretanto, Deus não nos abandona quando, exaustos de tanto tentar explicar a vida segundo nossa própria sabedoria limitada, desfalecemos. Certa vez eu tentava arranjar carona numa estrada bravia da Irlanda. Um fazendeiro local que me recebeu em seu velho caminhão, disse-me que conhecia um atalho conducente a bela estrada, a qual me levaria mais perto de meu destino. E tirou seu velho veículo da estrada principal, tomando um caminho lamacento, próprio para carroças. Trinta metros longe da estrada, atolamos na lama grossa. Saí do caminhão e tentei empurrá-lo. Não consegui. Eu estava com pressa, e embora sentisse pena do fazendeiro, precisava prosseguir viagem. Desejando-lhe muitas felicidades, voltei à estrada à procura de outra carona. Em outra ocasião eu viajava com um amigo e, em circuns- tâncias semelhantes, atolamos. Desta vez eu não continuei viagem; meu compromisso era chegar ao meu destino com o meu

amigo e, por isso, fiquei até conseguirmos desatolar o carro. Deus nunca pega caronas! Ele não nos abandona quando saímos da estrada principal, apanhamos um atalho e nos ato- lamos estupidamente na lama. O compromisso de Deus é de jamais nos abandonar. O pai continuara a amar seu filho pródigo enquanto este andava pelo país distante, ilustrando um amor que não depende do desempenho da pessoa amada. E espantoso que muitas pessoas acreditem que Deus nos ama incondicionalmente enquanto somos pecadores, e contudo, a partir do momento em que passamos a fazer parte da família dele, seu amor fique condicionado ao nosso desempenho. Podemos aceitar o fato de que ele ama as pessoas indignas até que estas venham a Cristo; porém, a partir daí precisamos merecer as bênçãos, ser dignos de recebê-las. Asafe descobriu em seu encontro com Deus no santuário que a verdadeira prosperidade inicia-se com um relacionamento com Deus. As coisas que ele invejara e cobiçara em seus vizinhos logo desapareceriam nesta vida e, com toda certeza, na vindoura. Entretanto, a alegria que Deus nos concede não pode

desaparecer porque flui dele, e não das coisas. Olhando para o futuro, Asafe percebeu que haveria de chegar muitas ocasiões em que ele enfrentaria outra vez problemas que poderiam exauri-lo. mas agora ele possuía a resposta. Seu relacionamento com Deus e seu conhecimento sobre como viver em comunhão com ele o levariam em triunfo por quaisquer circunstâncias que o futuro desconhecido lhe trouxesse. “A quem tenho eu no céu senão a ti? E na terra não há quem eu deseje além de ti. A minha carne e o meu coração desfalecem, mas Deus é a fortaleza do meu coração”. (Salmo 73:25,26)

CAPÍTULO 12

a Alegria do Senhor

O verdadeiro problema de Asafe estava em suas expectativas de Deus. Há coisas que o Senhor nunca prometeu, e que jamais fará. Se estivermos esperando que ele faça coisas que não

prometeu, mais cedo ou mais tarde estaremos esgotados espiritualmente. Asafe procurava a felicidade. Deus não dá a seus filhos a felicidade no sentido de circunstâncias perfeitas. Na verdade, ele nos livra tanto da felicidade quanto da infelicidade!

O vocábulo felicidade provém do latim “felicitas”. Trata-se de palavra criada pelo homem fora da aliança de Deus, para descrever a vida como o ser humano a sente. O homem vê os eventos de sua vida como sendo caóticos, sem que alguém os controle; portanto, os eventos e as pessoas lhe sobrevêm. Tudo é questão de sorte, probabilidades, destino impessoal. Em algumas partes do mundo, as pessoas crêem que suas vidas são controladas por espíritos cruéis, satânicos; portanto, vêem o caos da vida como uma série de fatos atirados em seus caminhos pelos demônios. Pense em como a pessoa típica perambula errante pela vida. As

vezes, os fatos atiram-lhe ao colo as coisas de que gosta. Acha que está

as pessoas lhe dão o devido respeito, a

sendo tratada como

esposa está de bom humor e as crianças tiram notas boas na escola. Seu time de futebol favorito está ganhando o campeonato e o sol brilha todos os dias. Os acontecimentos tomam-no feliz, ele se sente bem, tudo vai bem. A este relacio

namento com as circunstâncias a pessoa chama de felicidade1

Entretanto, na maior parte das vezes, as pessoas não gostam dos acontecimentos da vida, das coisas que encontram pelo caminho. Elas não fazem o que gostariam de fazer. Parece-nos que quem exerce o controle da situação são os maus deste mundo. Achamos que não somos estimados, e até nos julgamos rejeitados. As pessoas nos magoam com suas palavras e ações. Há dias cheios de ansiedade,

preocupação e temor. Chove no dia sete de setembro, dia de pique- nique. Nessas ocasiões, desejamos que todos esses acontecimentos não tivessem acontecido. Quando dias assim começam a acumular-se, dizemos que somos infelizes.

O homem procura escapar desses maus acontecimentos tentando

de alguma forma bloqueá-los na mente, e viver na fantasia de felicidade. Não gosta do mundo do jeito que ele é, está entediado e infeliz e, por isso, procura um meio de escapar, metendo-se numa euforia que o faça acreditar momentaneamente que tudo será como deseja. Então surge a oportunidade para o vício das drogas, do valium à

cocaína; da filosofia do esquecimento nas “horas alegres” no bar. Isto também faz parte das razoes porque milhões de pessoas se prendem todas as noites às novelas de televisão.

A felicidade tem a aparência de paz, mas é falsa harmonia que se

prende a um fio fragílimo, em que todas as coisas e todas as pessoas se encaixam nos planos atuais da pessoa. Essa pseudo-paz e pseudo- felicidade assemelham-se à teia de aranha na sebe do jardim, em manhã de verão. Ela rebrilha com um milhão de gotículas de orvalho,

ostentando a aparência de tiara de rainha. Mas no meio da manhã o orvalho se evapora e algum animal destrói a estrutura frágil dos fios. Até no riso tem dor o coração, e o fim da alegria é tristeza (Provérbios 14:13). Qual o crepitar dos espinhos debaixo duma panela,

tal é o riso do tolo. Isto também é vaidade (Eclesiastes 7:6). Se a paz e felicidade da pessoa dependerem de os outros agirem conforme essa pessoa quer, ela passará a maior parte de sua vida na infelicidade.

O evangelho não constitui fórmula pela qual o crente tem garantia

de que sua vida estará em harmonia com a idéia que ele faz de como ela deveria ser. A fé não é poder interior capaz de fazer todos os acontecimentos se enquadrarem de modo que façam o crente feliz. Como já vimos, Jesus veio a fim de livrar-nos da felicidade (sensação de bem-estar baseada em circunstâncias externas). Assim,

Cristo nos livrou da infelicidade. Deixamos de ser escravos dos acontecimentos e também da felicidade. Libertos da infelicidade, já não necessitamos de fugir, e nos tomamos capazes de encarar a vida

como esta realmente é. Se o crente foi induzido a pensar que Deus vai tomá-lo feliz fazendo com que pessoas e acontecimentos da vida se encaixem em seus planos, tal crente está bem perto do esgotamento espiritual.

A fé não é força que controla a Deus. Ela não consegue determinar

que os acontecimentos da vida obedeçam a um padrão de felicidade

pessoal. Entretanto, a verdadeira fé nos introduz numa dimensão só conhecida pelos crentes. Há pouquíssimas pessoas felizes na Bíblia, porém tampouco encontramos crentes infelizes.

A Bíblia está cheia de homens e mulheres que, por causa de sua fé,

constituem o alvo do ódio do mundo. São traídos pelos melhores amigos, estão rodeados de pessoas que lhes tomam difícil a prática da fé, vêem-se tentados pelo diabo e pressionados pelo mundo para que se conformem com os padrões mundanos. Acrescente-se a tudo isso o fato de as pessoas partilharem com toda a humanidade a vida num mundo decaído, com todas as suas mazelas naturais. Dificilmente alguém diria que este é um quadro de felicidade! Entretanto, tais pessoas têm a vida cheia de gargalhadas. Encontramo-las louvando a Deus ao ponto de dançar, bater palmas e rodopiar de alegria. E fazem tudo isso enquanto coisas negativas estão acontecendo. Tais pessoas não estão escravizadas àquilo que lhes

acontece. Portanto, não são escravas da felicidade ou da infelicidade.

A fé trouxe o crente a uma nova dimensão de vida que não depende

dos eventos e das pessoas ao redor. Trouxe-nos à compreensão de

o fruto do

Espírito

nossa comunhão com o Espírito de Cristo, e daí

alegria

(Gálatas 5:22).

Este vigor espiritual que energiza o crente recebe o nome noutra

passagem

alegria no Espírito Santo (Romanos

14:17) e

.

.a alegria do S enhor

(Neemias

8:10). Isaías,

contemplando o futuro e vendo os dias da nova aliança, disse:

. com júbilos; alegria eterna coroará as suas cabeças. Gozo e alegria alcançarão, e deles fugirá a tristeza e o gemido.” (Isaías 35:10)

.e os remidos do Senhor voltarão e entrarão em Sião

O anjo anunciou aos pastores, nos campos de Belém:

“Não temais. Eu vos trago novas de grande alegria, que o será para todo o povo.”

(Lucas 2:10)

“Alegria eterna” é a alegria singular de Deus. Eterno é termo diretamente relacionado a Deus; só ele não tem começo nem fim. Eterno é o que existe antes e depois do tempo, não estando, portanto, vinculado aos acontecimentos temporais. Os acontecimentos pertencem ao tempo; o eterno pertence a Deus. A alegria eterna do Senhor é a alegria que ele tem em si mesmo. Deus está infinitamente satisfeito consigo mesmo. Ele é perfeito, nada havendo que lhe possa ser acrescentado ou subtraído. A alegria de Deus é que ele é quem ele é! Considere a revelação que Deus nos deu de si mesmo. O simples fato de ele ter-se revelado a nós mostra-nos seu coração: Deus é amor. Ele poderia ter-nos deixado nas trevas, mas decidiu vir iluminar-nos e chamar-nos para a comunhão com ele. Amor não é algo que ele tem, mas é sua própria essência, o modo de ele ser. Por causa disso, Deus agiu com o homem em graça, vindo a nós e celebrando aliança conosco. Em tudo quanto ele é, Deus é fundamentalmente amor, procurando nosso maior bem por sua própria conta. Seu poder onipotente na criação e na ressurreição operou em nosso benefício. Ele nos conhece de modo total, e nos ama de modo total. Sua sabedoria planejou um fim perfeito para nós, de modo que viéssemos a ser o objeto de seu amor eternamente. E em tudo isso, ele não muda

nunca é melhor, nunca pior

Conseguiríamos nós imaginar um Deus que não fosse amor? Se ele não se houvesse manifestado a nós, o homem jamais pensaria num Criador que fosse amor. Nós o teríamos imaginado como Deus todo-poderoso, distante, ditador supremo. As religiões

humanas, que surgiram a partir da sabedoria humana, têm imaginado que Deus é cruel ou, na melhor das hipóteses, frívolo, que persegue e ridiculariza a humanidade. Podemos nós imaginar um Deus que nos conhece completamente, e

um Deus do qual jamais podemos uma força onipotente a

. um Deus que celebrou aliança para

amaldiçoar-nos? Não! A maravilha da revelação que o amor fez ao homem é que Deus é amor!

porque ele é infinitamente completo.

está determinado a

escapar, que se deleita em

serviço da destruição

Ele se expressou em Jesus Cristo, a Palavra, Deus conosco, para revelar-nos quem ele é. O Deus cuja alegria eterna está na sua satisfação consigo mesmo, anunciou que sua alegria e deleite encontra

E uma voz dos céus disse: “Este é o meu Filho

seu foco em

amado, em quem me compra- zo” (Mateus 3:17). Apocalipse 5:12 resume a questão assim:

“Digno é o Cordeiro, que foi morto, de receber poder e riqueza, e sabedoria, e força, e honra, e glória, e louvor.”

Ele se agrada de seu povo; Deus nos ama e exulta de alegria por

regozijar-

se-á em ti com júbilo” (Sofonias 3:17). Em face da perfeição do propósito de Deus, nada que o homem possa fazer poderá prejudicá-lo em última instância. Quando o homem se ergue a fim de destroná-lo, ele se ri em função da alegria que sente em seu perfeito plano de amor . e da loucura do homem em até mesmo tentar destruí-lo.

nós! “O Senhor teu Deus

se deleitará em ti com alegria

“Por que conspiram as nações, e os povos imaginam coisas vãs? Os reis da terra se levantam, e os príncipes se reúnem contra o Senhor e contra o seu Ungido, dizendo: Rompamos as suas cadeias, e sacudamos de nós as suas algemas. Aquele que está entronizado nos céus se ri; o Senhor zomba deles.

(Salmo 2:1-4) Na condição de crentes, fomos trazidos à comunhão com Deus em Cristo. Através do seu Filho, a alegria e a satisfação que Deus tem em si mesmo passou a habitar em nós. O Espírito Santo abriu nossos olhos, e fez que víssemos o amor que Deus tem por nós, e nele

o

fruto do Espírito

Os acontecimentos da vida às vezes não são como o crente gostaria que fossem; às vezes as pessoas o ferem, e o diabo o ataca com suas piores armas; contudo, em tudo isso, o crente se regozija. A fé não fica contemplando os eventos da vida. Ela enxerga mais longe, e constata que Deus é bom, e que cada minúcia da vida está cooperando de modo triunfal para a execução do plano perfeito e sábio de Deus não importando as aparências. E na reação responsiva da fé e do descanso no senhorio de Jesus sobre todas as coisas da vida que a força do Senhor é liberada dentro

crêssemos. E quando a fé descansa nessa realidade, o resultado é

alegria

do crente, e a expressão disso é a alegria:

vossa força (Neemias 8:10). Lembro-me de certa manhã, quando eu e minha filhinha de três

anos desfrutávamos o sol quente. De súbito, nuvens negras

apareceram no horizonte e correram pelos céus em nossa direção. Dentro de minutos sobreveio escuridão amedrontadora que nos engolfou, iluminada por raios que partiam das nuvens. Minha filhinha apertou minha mão e disse, tremendo:

a alegria do Senhor é a

Papai, o sol morreu!

Não, respondi-lhe eu ele ainda está lá, brilhando do mesmo

jeito como brilhava há cinco minutos. Só não podemos vê-lo agora. Em seguida começou a chover. Não havia abrigo para onde

pudéssemos ir, de modo que tivemos de agüentar a chuva desferindo sua fúria sobre nós, ensopando-nos em poucos segundos.

Papai, estou com medo exclamou minha filha em meio aos

trovões.

Não tenha medo disse eu o sol ainda está brilhando e nós o

veremos daqui a minutos. Dentro de dez minutos, os momentos escuros do temporal marcado pelos trovões espalharam-se pelas campinas. De súbito, tudo voltou à tranqüilidade e de novo o sol passou a brilhar Rnquanto o vapor subia de nossas roupas, minha filhinha ria e dizia:

Você tinha razão, papai, o sol não morreu! Quando todos os poderes das trevas se atiram contra nós, quando as pessoas nos ferem e nada parece dar certo, a fé enxerga além da escuridão e diz: “Deus existe. As promessas de Deus são verdadeiras. Ele é sábio, controla tudo, ele é bom e me ama. Ele não morreu.” É nesta afirmação de fé que a alegria do Senhor se levanta em nosso coração, e estabelece nosso relacionamento com Deus. Tal fato expressa-se em nossos lábios e coração quando começamos a louvar e a adorar ao Senhor pelo fato de ele ser o Deus que é. O crente sabe que os problemas desta vida não conseguiriam interromper os planos e objetivos daquele que é amor. Ele é sábio, bom e fiel à Palavra de sua Aliança. Esta alegria está sempre no coração do crente, e é considerada sobrenatural quando a arremetida furiosa dos problemas chega ao ponto crítico. Habacuque percebia a aproximação de problemas, mas bradava com alegria e fé:

“Ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide, ainda que o produto da oliveira falhe, e os campos não

produzam mantimento, ainda que as ovelhas sejam exterminadas, e nos currais não haja gado, todavia eu me alegrarei no Senhor, exultarei no Deus da minha salvação.” (Habacuque 3:17,18)

O louvor é a fé em ação, exprimindo seu âmago. A fé enxerga além

das nuvens e da chuva, e contempla o sol que ainda está brilhando. Ainda que sinta as agruras desta vida, a fé se une a Deus e regozija-

se nele; e a alegria do Senhor é a sua força (Neemias 8:10).

É esta reação alegre da fé perante Deus que constitui a vitória

sobre o inimigo e sobre os problemas que nos rodeiam. Tudo que se

segue decorre desta alegria triunfante da fé.

O objetivo constante de Satanás é levar-nos a amaldiçoar a Deus

diante de cada dificuldade, e fazer-nos partir em amargura. Com respeito a Jó, o escárnio do diabo era:

Jó te serve em troca de nada? Não passas de escravo de Jó! Se sobrevier uma crise, ele te abandona. As épocas difíceis são a prova de nossa fé. Quando todas as evidências indicam que Deus está ausente, a fé enxerga além das circunstâncias e regozija-se em Deus. Contudo, isso não é o fim. Se fosse, esta posição seria apenas a variação do fatalismo. O crente submeteu-se a Deus e declarou: “Eu creio em ti, a despeito de tudo que estou vendo!” Está agora capacitado para executar a vontade de Deus naquela situação especial. Ele consegue dizer a

Cristo, que é a sua vida: “Que faremos agora? Serás glorificado neste ato?” Após Habacuque haver clamado em alegria sua fé no Senhor mesmo diante do desastre que se aproximava, percebeu em seguida sua comunhão com Deus. Agora Deus poderia realizar seus propósitos através de Habacuque, e derrotar o inimigo. O profeta encerrou sua afirmação de fé em Deus com estas palavras: “O Senhor é a minha força; torna os meus pés como os das corças, e me faz andar sobre os lugares altos” (Habacuque 3:19). A Bíblia Amplificada traduz assim esta passagem: “O Senhor Deus é a minha fortaleza, minha bravura pessoal, meu exército invencível ”

O profeta podia enfrentar agora todos os problemas com ousadia

vinda de Deus. O Senhor venceria em seu lugar. A fé podia, agora, falar com autoridade, resistir ao diabo e ser a manifestação da vida ressurreta de Jesus entre os homens.

É o regozijo do louvor que prepara o caminho para a vontade de

Deus cumprir-se por nosso intermédio. A fé que oferece louvor a Deus compreende com exatidão o que é necessário ser dito e feito para que a vontade de Deus seja cumprida em qualquer situação. “Aquele que oferece sacrifício de louvor me glorifica, e àquele que bem ordena o seu caminho eu mostrarei a salvação de Deus” (Salmo 50:23). Certa versão da Bíblia traduz assim este versículo: “Aquele que sacrifica oferta de gratidão me glorificará e preparará caminho pelo qual poderei mostrar-lhe a salvação de Deus.” Quando nos abrimos em louvor, diante de dificuldades e confusões, dispomos de caminho, de estrada preparada, ao longo da qual podemos caminhar na direção da salvação ou do livramento que Deus preparou para nós. Considere esta parábola: imagine a vida cristã acontecendo nas encostas de uma montanha. Há vários acampamentos de crentes espalhados pelas vertentes da montanha, sendo que cada grupo discute o maior problema enfrentado por quem mora nela. A intervalos regulares, pedras de todos os formatos e tamanhos rolam e vão passando pelos acampamentos. A discussão que predomina em todas as reuniões desses acampamentos é: “De onde vêm as pedras, quem as está empurrando para que rolem por cima de nós, e que faremos?” Alguns crentes espiam as pedras que se aproximam e lastimam-se, temerosos. Sentem-se infelizes, e gostariam que as pedras mudassem

de rumo, que se evaporassem, que acontecesse qualquer coisa, desde

que desaparecessem. Nas reuniões de oração esses crentes medrosos rogam a todos que orem a seu favor, porque os perversos atiradores de pedras estão atacando de novo: “Orem para que as pedras vão-se embora”, suplicam.

Tais crentes candidatam-se ao esgotamento espiritual. Alimentam expectativa da parte de Deus, a qual, por ser falsa, nunca se realizará.

O conceito que têm do evangelho é que Jesus removerá todas as

pedras que descerem da montanha; a definição que fazem de paz é a ausência de pedras caindo lá de cima. Outro crente, influenciado pelo pensamento grego mais do que pelas Escrituras, contempla as pedras e suspira: “Eis minha cruz que devo suportar; vou carregá-la com paciência!” O testemunho dele às demais pessoas na encosta montanhosa é que o Deus dele o ama tanto que, regularmente, atira-lhe pedras. E o fatalista disfarçado de santo. A filosofia dele é que o que deve acontecer, acontecerá. Em todas as cidades há muitas congregações que vivem esmagadas

pelas pedras que rolam das montanhas. Crêem sinceramente que Deus quer que as coisas sejam assim. O conceito que fazem de Deus é semelhante ao do irmão mais velho, na imagem que fazia de seu pai; portanto, não há Boas Novas que a fé possa despertar. Tais crentes não têm alegria e tampouco felicidade. E bem difícil alguém entusiasmar-se diante da idéia de um Deus que atira pedras em seus filhos! Eles vivem num estado de exaustao espiritual, lutando para sobreviver num mundo em que as pedras despencam enquanto, ao mesmo tempo, devem crer que Deus os ama. Outro crente, embora mais próximo da verdade, também se encaminha para o esgotamento espiritual por causa da maneira como encaminha a vida. Zomba do fatalista: “Você deve estar louco para crer que Deus atira pedras no seu povo, a quem ama! Eu não creio que Deus quer que esta pedra caia sobre mim.” Ele entende a fé assim: acha que pode mudar a montanha do jeito

que quiser

Se for extremista, poderá ver uma pedra caindo e dizer a seu irmão: “Não há pedras por aqui. Nem sequer mencione esta palavra perto de mim, pois minha fé seria destruída.” Quando uma pedra rola por cima dele, ele se recusa a mudar sua posição confessional; quando as pessoas lhe perguntam se a pedra o feriu, ele nega que alguma pedra chegou a aproximar-se dele. Um de seus colegas, não tão extremado, terá comportamento diferente. Ele dirá que Deus não atira pedras quem o faz são os perversos. Acreditando que a fé é poder para uso pessoal, tenta usá-la para dissolver a pedra! E quando ela cai bem em cima dele, ele se

abala. Os demais membros de sua igreja dirão que esse crente não tem fé suficiente, razão por que a pedra rolou por cima dele. Então o crente acha que Deus ficou tão decepcionado pelo seu fraco desempenho quanto seus irmãos ficaram; e passa a imaginar que talvez Deus o teria rejeitado pela sua falta de fé. Desejando que seus irmãos crentes o aceitem, e que haja prosseguimento em sua reputação de homem de fé, esse crente poderá esconder dos irmãos o fato de que uma pedra acabou de atingi-lo. Ao fazer isso, o crente inicia uma caminhada solitária pela estrada da máscara no rosto, um dos primeiros sintomas da queima espiritual que se aproxima. Se esse processo continuar a repetir-se, o crente certamente se queimará. A queima dele será mais devastadora do que a de seu

quer felicidade, sem pedras à vista.

estóico amigo no fim da rua. Naquela igreja ninguém espera nada e, na verdade, todos agradecem a Deus quando nada recebem! Este crente pensa que a fé pode manipular a vida e acomodar seus objetivos. Quando o esquema deixa de funcionar, o crente acaba amargurado e dá o fora daquilo que pensava ser o evangelho. A queixa dele será semelhante à de Asafe: “Eu tinha fé, mas Deus nada fez. Ele me abandonou.” Apesar de toda a sinceridade dessa pessoa, ela se esgotará

espiritualmente porque lhe falta fé em Deus. Ela iguala a fé natural à fé proveniente de Deus, e julga que fé é moeda celestial com a qual se pode comprar a felicidade. Crê, de maneira errônea, que se tiver fé suficiente, conseguirá manipular a Deus, e o levará a atender todos os seus desejos. Mas Deus não honra esta pseudo-fé. O evangelho é, em primeiro lugar, o anúncio de um relacionamento de aliança; somos chamados para conhecer a Deus pessoalmente. Nossa fé, mediante a qual Deus opera em nossa vida, emana desse relacionamento, e não de fórmulas segundo as quais se alega que Deus nos obedece. Ele preferiria que a pedra rolasse sobre nós, em vez de nos ver tentando manipulá-lo. Ele quer que o conheçamos, e que desse relacionamento possam fluir todas as bênçãos da aliança divina. O crente cuja fé nasceu do Espírito contempla a pedra que vem rolando e sente-se perturbado. Poderá sentir um toque de medo e

ele não gosta de pedras. Contudo, ele

interromperá a seqüência de pensamentos de temor e de desejos de

desejar que a pedra vá embora

fugir correndo. Diz a si mesmo que existe ali muito mais coisas do que pedra caindo. Prefere ver todos os fatos, que incluem outras coisas além da pedra. Sabe que Deus controla a montanha toda, o que inclui todos os atiradores de pedras e todas as pedras. Sabe, também, que Jesus ressuscitou dentre os mortos e venceu todos os apedreja- dores. À luz desses fatos, ele entenderá que houve permissão para que a pedra

rolasse, a fim de que a glória de Cristo fosse revelada

mais uma vez ficasse evidente que todos os atiradores de pedras estão

e para que

derrotados. Jamais a fé esmorece ante a aproximação das pedras da vida. E quando elas estão caindo que a fé mostra o que tem de melhor. Com louvor a Deus, que é o dono da montanha, e a Jesus, o vencedor dos atiradores de pedras, o crente que tem fé coloca-se tu»

caminho das pedras e recebe-as à medida que caem. Com brado de vitória, ele pergunta: “Que faremos com isto, Senhor? De que maneira tu serás glorificado desta vez?" Essa pessoa, em comunhão com seu Deus, é senhor da montanha, e não se esgotará espiritualmente.

a Paz do Senhor

Jeosafá foi um dos grandes reis de Judá. Um incidente em sua vida, registrado em 2 Crônicas 20, nos permite ver como ele controlava todas as pressões existenciais, e por que jamais se viu exausto espiritualmente. A passagem conta- nos de sua fé, e a coloca sob microscópio. Seus problemas começaram no dia em que chegaram as notícias de que seus vizinhos amonitas, moabitas e membros de tribos de Edom se uniram a fim de destroná-lo e ocupar Jerusalém e Judá. Planejavam colonizar o território a ser conquistado, e para isto haviam trazido consigo seus pertences. Estava claro que não tinham a intenção de regressar a suas terras. Jeosafá teria de enfrentar um exército de povos impie-

dosos, dispostos a varrer Judá e seu rei daquela terra, e ocupá- la. O inimigo não fez um ataque frontal à região em que Jeosafá mantinha guardas de fronteira, pois estes poderiam tê-lo aler- tado. O adversário chegou pela extremidade sul do mar Morto, galgando precipício quase escarpado a fim de alcançar Jerusalém praticamente sem ser percebido. No momento em que os espiões avisaram que o inimigo se aproximava, este já se achava distante de Jerusalém apenas 15 horas de marcha. Dizem-nos as Escrituras que Jeosafá estava com medo. Em sua oração ele descreveu a situação como sendo triste, angus- tiosa. A palavra que traduzimos em nossa Bíblia por “angústia” também poderia ser traduzida por “desfiladeiro estreito; estrada que se aperta”.

Em Números 22:26 a palavra é traduzida assim:

lugar

estreito, onde não havia caminho para se desviar nem para a direita nem para a esquerda. Significa que tudo está prestes a esmagar o indivíduo; ele sente claustrofobia no espírito. Jeosafá sentia tudo isso. A vida o pressionava a ponto de ele achar que não havia escapatória. Sem espaço para voltar, sentiu muito medo. Medo é fé em todos os fatos apresentados pelos cinco sentidos; de acordo com todas as evidências disponíveis, a nação seria derrotada dentro de 24 horas. Nesta vida, quando enfrentamos momentos assim, há varie- dade de providências a que podemos recorrer. Podemos tomar o caminho da nossa experiência para estabelecer nossa comunhão com Deus, ou podemos assumir atitudes que no fim nos conduzirão à queima espiritual.

A caminhada ao longo da trilha dos sentimentos de culpa e

condenação está causando milhares de queimas, hoje. Os sen- timentos de culpa baseiam-se no erro legalístico segundo o qual a fé é coisa originada no homem, e que os grandes homens de Deus

a têm em abundância. Se o crente estiver cheio de temores, uma luz vermelha condenatória disparará raios sobre ele, gritando-lhe: “Você não

tem fé suficiente! Você não tem lido as Escrituras, nem tem orado o suficiente. Você baixou a guarda, não está alerta.” A situação toma-se, agora, mais angustiosa: “Deus não se agrada de mim por causa da minha falta de fé. Preciso remediar a situação.” Então o pobre crente solitário começa a “afugentar” seus temores. Poderá tentar repetir versículos bíblicos como fórmulas mágicas para o sucesso; é desta forma que alguns crentes tentam exorcizar seus temores. Quando a pessoa se sente forte o suficiente, tenta repreender o inimigo.

O fato é que, em qualquer época em que virmos a fé como algo

que podemos criar dentro de nós mesmos, estaremos decididamente destinados ao fracasso. O medo que sentimos é apenas o lembrete: sou apenas ramo e, de mim mesmo nada posso fazer. Dependo completamente do Deus com quem celebrei aliança. O princípio bíblico é que quando sou fraco, então sou forte. Este tipo de medo não constitui pecado: é a reação humana às circunstâncias que se apresentam. É um “cutucãozinho" que me adverte sobre minha incapacidade de controlar a vida segundo

minhas próprias forças e sabedoria. Fé é minha reação ao grandioso jogo de fatos que meus cinco sentidos não conseguem apresentar-me fatos que sobressaem do conhecimento do Deus que me ama, que celebrou aliança comigo, e que jamais me

deixará. Muitos anos mais tarde, o profeta Isaías haveria de encontrar- se em posição semelhante. Estava dentro de Jerusalém e exércitos inimigos ameaçavam a cidade. Ássim descreve ele a

situação:

árvores do bosque com o vento (Isaías 7:2). O Senhor falou ao

.não temais o seu temor, e não

vos assombreis” (Isaías 8:12). Isaías não deveria apresentar diante dos fatos o mesmo comportamento que as pessoas estavam apresentando. Elas estavam reagindo aos desígnios do grande exército armado contra a cidade, aceitando-o e comungando com ele. O povo depositava fé nos fatos que os cinco sentidos lhe apresentavam. Mas o Senhor ordenou a Isaías que temesse outra coisa, isto é, que reagisse a uma conjuntura diferente de fatos.

profeta dizendo-lhe o que fazer: a

do seu povo, como se agitam as

se agitou o coração

“Ao Senhor dos exércitos, a ele santificai; seja ele o vosso temor, e seja ele o vosso assombro. Então ele vos será santuário ”

(Isaías 8:13,14)

Foi exatamente isso que Jeosafá fez. Em vez de alimentar

e pôs-se a buscar

o Senhor

dom de Deus, expressão do fruto do Espírito. Não existe por sua

própria força, mas recebe força diretamente do Senhor. Medo é pânico na mente, quando a pessoa procura depressa

uma solução humana sem valor, depois outra, e

possível a pessoa pensar em recitar as Escrituras e uma fórmula de oração, como tentativa de solucionar os problemas da vida. Contudo, trata-se apenas de mais uma tentativa inútil, fútil, de resolver os problemas da vida usando o nome de Deus como alguém invocaria um gênio mitológico. Êxodo 14:10-15 registra o pânico de Israel à medida que <m egípcios se aproximavam. Uma das soluções foi clamar ao Senhor.

É

pensamentos de temor, tomou uma resolução

(2 Crônicas 20:3). Enfrentamos aqui o fato de a fé ser

Procurar o Senhor significa que paramos e nos reagrupamos, à luz de quem ele é, e quem somos nós, em nossa comunhão com ele. Nos salmos encontramos a palavra selá, que quer dizer: “pare e pense calmamente nestas coisas”. Procurar o Senhor é entender que ele está bem no âmago de

é entender que não somos o que estamos sentindo,

que formamos uma unidade com Deus. E voltar a atenção para o

fato de que em nós, em nossa própria vida, está alguém que é a plenitude da sabedoria, do amor e do poder.

E nesta verdade que a fé se desperta. Ela não está consciente

de si mesma, da mesma forma como o olho não está consciente de si próprio. Ele é invadido pelo objeto que contempla. Fé é o crente

ser invadido pela grandiosidade de Deus.

A oração de Jeosafá descreve, em câmara lenta, a fé aconte-

cendo. Essa oração nos conta o que o espírito de Jeosafá fazia. Ele

não ficou olhando para a situação, segundo seus sentidos lhe comunicavam, mas contemplou-a através da verdade maior. Não negou os fatos que estariam acontecendo dali a 15 horas; disse simplesmente que existia mais coisas naquela situação do que seus ouvidos podiam ouvir.

“ O Senhor, Deus de nossos pais, não és tu Deus nos

nosso ser

céus? Tu dominas sobre todos os reinos dos povos, e na tua mão há força e poder, e não há quem te possa resistir.”

(2 Crônicas 20:6)

Em certo sentido, isto não é oração e, com certeza, tampouco um pedido. E expressão da alegria de conhecer a Deus; é louvor nos lábios do rei concernente à grandeza e à capacidade de Deus, naquele momento. As perguntas retóricas do rei não são lembretes para Deus sobre sua capacidade divina, mas forma de louvá-lo, pois Deus é assim. Jeosafá contemplou as três nações marchando na direção dele — o que era um fato. E disse: “Há um fato maior ainda: o Senhor governa todas as nações. A aliança de nossos inimigos constitui coalisão poderosíssima, é verdade, mas todo o poder e força estão nas mãos do Senhor! "O nosso Deus, não lançaste fora os moradores desta terra, de diante do teu povo Israel, e não a deste à semente de Abraão, teu amigo, para sempre?

Habitaram nela, e nela edificaram santuário ao teu nome, dizendo: Se algum mal nos sobrevier, espada, juízo, peste, ou fome, nós nos apresentaremos diante desta casa que leva o teu nome e clamaremos a ti na nossa angústia, e tu nos ouvi- rás e livrarás.” (2 Crônicas 20:7-9)

Tendo considerado a capacidade infinita de Deus nessa situação, Jeosafá contempla o compromisso do Senhor em aliança com os que são da fé de Abraão, e que clamavam pelo seu nome. Ele se referiu a Abraão pelo título de aliança: “amigo”. Jeosafá representava o povo crente, unido a Deus pelo sangue da aliança. Reconhecia que Israel não era qualquer povo, mas uma nação que vivia no foco do amor da aliança. Prossegue Jeosafá relembrando a dedicação do templo nos dias de Salomão, quando este orou pedindo proteção contra todos os inimigos. Deus respondeu a essa oração enchendo de glória o templo. Em suas palavras de louvor, Jeosafá lembrou-se de que Deus ainda estaria respondendo àquela oração, confirmaria a resposta, e protegeria seu povo, da mesma maneira como prometera a Salomão. Jeosafá apelou para o amor sempre disponível de Deus, amor selado em compromisso. Lembrar-se de Deus e decidir-se a louvá- lo naquela situação de emergência despertou a fé. A apresentação do pedido tomou-se, agora, pequena minúcia:

“Mas agora aqui estão os homens de Amom, de Moabe e do monte Seir, por cujo território não permitiste que os filhos de Israel passassem, quando vinham da terra do

nos dão o pago, vindo para lançar-nos fora da tua

herança, que nos fizeste herdar. Ó nosso Deus, não os

julgarás?

Egito

(2 Crônicas 20:10-12)

A fé não nega a presença do problema, mas calmamente ®oloca o assunto nas mãos de Deus. O rei termina sua oração com uma das maiores declarações de fé da Bíblia:

“Pois em nós não há força perante esta grande multidão que vem contra nós. Não sabemos o que fazer, mas os nossos olhos estão postos em ti.” (2 Crônicas 20:12)

Jeosafá está apenas declarando que não alimenta qualquer

esperança em sua capacidade ou sabedoria humanas. Ele se declara, sem envergonhar-se por isso, um ramo desamparado. Tal posição não lhe é ameaçadora, cheia de culpa ou de condenação; o rei a usa como oportunidade para abandonar-se ao Deus de infinita capacidade e amor. Foi mediante essa declaração de fé que Jeosafá obteve vitória. O Espírito deu testemunho disso entre o povo:

“ não temais, nem vos assusteis por causa desta

grande multidão. Pois a peleja não é vossa, mas de

Deus

em pé, e vede a salvação do Senhor para convosco, ó Judá e Jerusalém. Não temais nem vos assusteis. Amanhã saí-lhes ao encontro, e o Senhor será convos- co.”

Nesta batalha não tereis de pelejar. Parai, estai

(2 Crônicas 20:15,17)

O povo reagiu responsivamente com louvor em voz alta. O

assunto estava resolvido; o povo foi dormir, e dormiu profun-

damente. Durante a noite o inimigo marchou para a frente de combate, planejando tomar Jerusalém num ataque de surpresa no dia seguinte; mas Jeosafá, sabendo que a batalha já estava

ganha, dormiu sossegadamente. A fé não luta nem perde o sono; vai para a cama dando graças a Deus porque ele providenciará a vitória durante a noite.

A expressão final de fé ocorreu na manhã do dia seguinte,

quando Israel foi encontrar-se com o inimigo: Jeosafá enviou o grupo coral na vanguarda.

louvarem por causa do esplendor da sua santidade, enquanto saíam na frente do exército, dizendo: Rendei graças ao Senhor, porque a sua misericórdia dura para sempre.”

.ordenou cantores para cantarem ao Senhor e o

(2 Crônicas 20:21)

“Misericórdia” é a palavra que descreve a fidelidade de aliança da parte de Deus, a certeza que ele nos dá de que jamais nos deixará, nem nos abandonará. Quando o povo manifestou esta expressão final de fé, a vitória que já lhe pertencia mate- rializou- se.

“Quando começaram a cantar e dar louvores, o Senhor pôs emboscadas contra os homens de Ámom, de Moabe

e do monte Seir, que tinham vindo contra Judá, e foram desbaratados.

(2 Crônicas 20:22)

Parece que o inimigo destruiu-se a si mesmo, deixando suas possessões nas tendas. Israel levou três dias para carregar todas as riquezas a Jerusalém. Não apenas obtiveram vitória, como também saíram do episódio mais ricos, tanto em seu conhecimento de Deus como em bens materiais. Há fortes indicações de que o Salmo 84 foi escrito nesta época. O versículo 26 sugere que Israel deveria encontrar-se com o inimigo no vale de Baca. Era um vale desconhecido, fora de Jerusalém.

“Baca” quer dizer “ramos gotejantes como lágrimas; choro”. Uma tradução literal poderia ser: “vale de lágrimas”. O versículo

diz:

.passando pelo vale de Baca [Beraca], faz dele um lugar de

fontes

(Salmo 84:6). O crente sob referência aqui transforma um

vale árido, onde só há lágrimas, numa fonte refrescante; as tristezas da vida tornam-se a oportunidade para que se beba das profundezas de nosso Deus. Parece que este é o vale que recebeu novo nome. Ao quarto dia se ajuntaram no vale de Beraca, onde louvaram ao Senhor. Por isso chamaram àquele lugar Vale de Beraca [Bênção], até ao dia de hoje”. (2 Crônicas 20:26). “Beracah” em hebraico é “bênção.” A fé em Deus é o caminho pelo qual ele adentra nossa vida e transforma cada lágrima num triunfo e numa bênção. O crente que enfrenta os problemas desta vida com o

conhecimento de seu relacionamento com Deus, em Cristo, não pode queimar-se espiritualmente a despeito dos problemas que vai enfrentando. Ele poderá entristecer-se e às vezes ficar perplexo, mas sempre vencerá por morar no centro da paz de Deus.

CAPÍTULO 14

Como Viver no Espírito

N uma tarde de novembro, vi um cão da raça pastor alemão. Chovera durante a maior parte do dia, e uma neblina rodeava a montanha. O cão estivera perambu- lando

sorrateiro pelo meio do mato, nos fundos do meu jardim. A pelugem ensopada, intrincada, cobria um corpo emaciado. De onde eu estava, pude ver que o cão, de cauda entre as pernas, tremia de frio. Pus-me a caminhar na direção dele, mas o cão virou-se e desapareceu na neblina. Muitos de meus vizinhos tentaram alimentar o cão, que só fazia agachar-se e rosnar contra seus benfeitores. Por fim, a sociedade protetora dos animais o capturou. Algum tempo mais tarde, eu soube que o animal havia sido repetidamente surrado por um homem cheio de vícios, meio louco, até conseguir fugir e ficar

perambulando pelo campo, não ousando confiar noutro ser humano. Em todas as cidades há muitos crentes solitários, tremendo de frio espiritual, agachando-se para evitar os que lhe desejam fazer bem. São pessoas feridas em seu espírito, surradas verbalmente desta ou daquela maneira pelos irmãos da mesma fé. Vêem-se indignas diante de Deus, e temem partilhar sua vida com outro ser humano, pois seriam condenadas e rejeitadas. Assemelham-se

àquele

Isaías viu com perfeição o coração de Jesus, e o que ele viria fazer. Resumiu o caráter e o ministério de Jesus no capítulo 42:3 de

sua profecia: “Não esmagará a cana quebrada, nem apagará a torcida que fumega

alienadas, amedrontadas e solitárias.

Canas cresciam com abundância às margens dos rios de Israel. Ás crianças gostavam de sentar-se às margens dos rios e tirar o miolo das canas, a fim de fazer flautinhas musicais. A tarefa era delicada; a cana poderia ser facilmente esmagada, estaria inutilizada para produzir música; as crianças quebravam de vez essa cana, e a atiravam no rio. Pois, se havia tantas outras canas com que trabalhar! Disse Isaías que quando o Messias viesse ele não esmagaria “a

se caracterizaria como a Pessoa que nunca

jogaria fora aqueles que fossem esmagados no processo de manuseio. Nos tempos bíblicos, as casas israelitas eram iluminadas por lamparinas de óleo. Um pavio feito de fio de linho boiava no óleo, e iluminava a casa. Se o azeite acabasse, o mau cheiro do linho queimado causaria náusea; embaraçada, a dona-de-casa o atiraria fora, pela janela. Ela teria uma caixa cheia de pavios, de modo que jogar fora um deles não faria a mínima diferença. Entretanto, disse Isaías que Jesus, quando viesse, não apagaria “a torcida que fumega”. Ele não se livraria daqueles que se viram queimados pela vida, que só produzissem luz bruxuleante. Outra possível tradução das palavras equivalentes a “torcida que fumega” seria, literalmente: “pavio apagado, inutilizado”. Os fariseus descartavam-se das pessoas que haviam falhado na vida, mas Jesus restaurava aquelas canas esmagadas, transformando-as em instrumentos musicais que tocavam seu cântico da graça. Jesus tomava os restos fumegantes de uma vida esgotada e transformava-os num pavio mediante o qual ele próprio seria a Luz do mundo. Neil sentou-se em meu gabinete. Era um jovem de trinta e poucos anos, a quem seus amigos haviam aconselhado que viesse falar comigo. Eu me sentara numa cadeira do outro lado da escrivaninha, e examinava seu porte. Parecia cheio de suspeitas, pronto para sair correndo a qualquer momento. Fez-me lembrar do cão pastor alemão. Hesitante, falou-me de seus problemas conjugais e do divórcio ocorrido recentemente. Ele e a esposa sofreram problemas que já duravam muito tempo; contudo, tinham tido o cuidado de não tomá-los públicos. Haviam mantido a imagem da família cristã perfeita. Mas durante o último ano o casamento morto foi atira