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UNESP - Universidade Estadual Paulista

FCL - Faculdade de Ciências e Letras


Programa de Pós-Graduação em Sociologia

Processo de trabalho no século XX e pensamento social: Uma crítica à


fundamentação teórica e empírica da “superação” da alienação em
Adeus ao Proletariado de André Gorz

Dissertação apresentada como exigência parcial para


obtenção do título de Mestre em Sociologia à
Faculdade de Ciências e Letras (FCL/Car) da
Universidade Estadual Paulista sob a orientação do
Prof. Benedito Rodrigues de Moraes Neto.

ARARAQUARA
2005
MARCELO GOMES
2

Dissertação de Mestrado

Processo de trabalho no século XX e pensamento social: Uma crítica à


fundamentação teórica e empírica da “superação” da alienação em
Adeus ao Proletariado de André Gorz

Banca Examinadora:
Orientador: Prof. Dr. Benedito Rodrigues de Moraes
Neto (Unesp)
Prof. Dr. Iram Jácome Rodrigues (USP)
Profa. Dra. Maria Orlanda Pinassi (Unesp)
3

Dedicatória:
Dedico este trabalho a todos os homens e
mulheres que se entregaram ou entregam suas vidas à
construção da ciência, entendida como instrumento de
desmistificação da vida. À estas figuras abnegadas, e
dispostas ao penoso trabalho de construção, limpeza ou
defesa científica, pois sabem que o ataque à verdadeira
ciência, ao contrário de ser revolucionário, fortalece
ainda mais a mistificação do mundo e a ignorância:
ambas sustentáculos da estrutura de dominação.
4

Agradecimentos:
Devo agradecer primeiramente a meus pais e
irmão que durante todos estes anos me apoiaram de
diversas formas possíveis. Agradeço também a meu
orientador, Benedito Rodrigues de Moraes Neto, não só
por sua inspiração teórica, mas também pela dedicação à
minha pessoa e por ensinar-me a autoconfiança.
Meus agradecimentos aos amigos da Graduação
e da Pós, aos funcionários da FCL e, principalmente, a
Vanessa (minha fiel companheira de todos os
momentos), a Thiago (meu fiel amigo de princípios e
ideais) e a Rodrigo (o grande filósofo que junto a mim
cresceu). Meus agradecimentos também a Romildo,
Adriano, Idaleto, pelas discussões e contribuições diretas
teóricas fundamentais e a Alessandro, Alessandra, Rita e
Lênin, que muito contribuíram para minha formação,
ainda que não possam avaliar quanto ou como.
Por fim, devo lembrar o apoio financeiro do
CNPq através da bolsa de mestrado, sem o qual este
trabalho não se realizaria desta maneira.

Sumário
5

Resumo..............................................................................................................................
.....................05

Introdução........................................................................................................................
.....................07

Capítulo 1 – O projeto dualista de Gorz e a questão


teórica..................................................15
1.1 Apresentação e problemática: a fundamentação do projeto
dualista.......................15
1.2 Desenvolvimento das forças
produtivas.......................................................................28
1.3 Apontamentos sobre a superação da alienação em Marx: a negação
radical do trabalho
alienado............................................................................................................
..42

Capítulo 2 – O projeto dualista de Gorz e a questão empírica: o olhar para o


capitalismo..............................................................................................
................53
2.1 O contexto de Adeus ao
Proletariado................................................................................53
2.1.1 Século XX: a importância do setor metal-mecânico na
reprodução do
capital..................................................................................................
................53
2.1.2 Apogeu e crise da sociedade do
trabalho.......................................................59 2.2 A armadilha do
taylorismo/fordismo...........................................................................63
2.3 Sobre contraditoriedades da
obra..................................................................................69

Capítulo 3 – O projeto dualista de Gorz e a questão empírica: o olhar para o


“socialismo realmente
existente”......................................................................75
3.1 Breve análise do atraso
soviético...................................................................................75
3.2 Do atraso ao que havia de “mais avançado e científico”: o
taylorismo...................81
3.3 Emulação, ethos do trabalho e stakhanovismo: a medíocre
emancipação.............91

Conclusão: uma crítica aos fundamentos do projeto


dualista............................................103

Referência
bibliográfica..................................................................................................................1
14
6

Resumo

O objetivo deste trabalho é mostrar as deficiências sobre as quais está


apoiada a crítica de André Gorz à idéia de superação da alienação posta pela teoria
de Karl Marx. Neste sentido, a pesquisa analisa os elementos componentes que
fundamentam sua crítica e seu posterior projeto de uma sociedade dualista, na qual
a alienação não pode ser superada, mas apenas reduzida. O projeto de uma tal
sociedade na teoria de Gorz teria como fundamento, dentre outros teóricos,
paradoxalmente, o próprio Marx, e como fundamento empírico o processo de
trabalho no capitalismo e nos países outrora tidos como socialistas.
Assim, nossa intenção é tentar mostrar que seu sustentáculo teórico a
partir de Marx é um equívoco, tendo em vista que, para este último, a libertação
humana pela sua atividade na produção — a auto-atividade — se tornou
concretamente possível com o desenvolvimento das forças produtivas. Além disso,
Gorz traria um referencial de emancipação baseada numa nostalgia passadista do
artesanato, e não na grande indústria, e, devido a isto, veria a automação como
mais um elemento nocivo à realização no trabalho. Com relação à fundamentação
empírica da sociedade dual de Gorz lastreada nos processos de trabalho tanto do
lado capitalista como do lado socialista, que serviu para afirmar uma alienação
insuperável, contrapomos o fato de que sua visão se dirige exclusivamente aos
sistemas tayloristas e fordistas — objeto privilegiado da crítica de Gorz: a divisão do
trabalho de caráter manufatureiro.
7

Abstract

The aim of this work is to show failures in which is supported Andre


Gorz’s critic to the idea of alienation overcome formulated by Karl Marx theory. In
this way, research analyses the component elements which supports his critic and
his subsequent project about a dualist society capable only to decrease alienation
not to overcome it. The project of such a society in Gorz’s theory would have as
basis, among others and paradoxically, the own Marx, and as empirical basis the
work process on capitalism and in countries faced in past as socialists.
To do so, our intention is trying to show that his theoric basis starting
from Marx is a mistake, because in the later, human release trough its own activity
in production – the self-activity – became concretely possible with development of
productive powers. Besides, Gorz would bring a emancipation referential based on
a nostalgia of artisan art, and not in great industry, and because of this, would see
automation much more as harmful element to work realization. Relating to empirical
basis of Gorz’s dual society, pursued in work process both in capitalist as in socialist
sides, used to firm a insuperable alienation, we contrasted the fact about its vision
as directed exclusively to taylorist and fordist systems – a favored object of Gorz’s
critic: work division with manufacturer character.
8

Introdução

O livro de André Gorz intitulado Adeus ao proletariado teve um


profundo impacto na teoria social da década de 80, quando foi lançado. Este ensaio
trouxe temas instigantes e podemos dizer, concordando com um importante
1
estudioso de André Gorz no Brasil , que esta obra marca uma reviravolta na
trajetória teórica deste autor.
Não foram poucas as polêmicas suscitadas pelas questões trabalhadas
nesta obra, nem foram poucas as críticas sofridas, elaboradas por muitos teóricos da
área. Mas, ainda que o livro tenha caído num certo desinteresse devido ao período
decorrido desde seu lançamento, pensamos que esta obra está em perfeita sintonia
com os debates mais atuais no que diz respeito às questões que envolvem o
chamado mundo do trabalho. A pauta sobre a redução da jornada de trabalho se
faz presente nos movimentos de grandes centrais sindicais e o desemprego,
causado principalmente pela introdução de novas tecnologias, está também
presente, num alto grau, em quase todas as sociedades industrializadas ou em
desenvolvimento, fato que teria levado muitos teóricos a propalarem o fim da
importância do trabalho enquanto uma categoria analítica das Ciências Sociais. Uma
verdadeira torrente de livros e artigos sobre o tema desaguou no mundo acadêmico
nestas últimas duas décadas, sendo que Adeus ao proletariado constava entre os
mais importantes.
Com relação às críticas surgidas no Brasil à esta obra de André Gorz,
devemos destacar o trabalho de Ricardo Antunes, cujo trabalho de livre docência
resultou no livro Adeus ao trabalho?, o qual se propõe ser uma antítese à Adeus ao
proletariado. Devido à sua importância, sentimo-nos na obrigação de tecer algumas

1
Trata-se de Josué Pereira da Silva (Cf. SILVA, 2002).
9

considerações a fim de explicar as razões que nos levaram a não adotar as


principais teses de Antunes e abordar uma outra perspectiva crítica ao analisar os
fundamentos do dualismo gorziano. Disto não se depreende que nossa análise seja
excludente ou complementar à de Antunes, deixando a cargo dos leitores o
proceder de tal julgamento.
Embora concordemos com Antunes sobre alguns pontos de sua
análise, nossa perspectiva, ao contrário deste autor que faz uma oposição direta às
teses gorzianas, vai no sentido de tentar entender os fundamentos das posições de
André Gorz no que tange a seu projeto dualista de emancipação. Assim,
concordamos com Antunes no ponto em que o trabalho deva ainda ser visto como
uma categoria sociológica fundamental. Afinal, como ele mesmo diz, a sociedade
em que vivemos ainda se fundamenta na exploração do trabalho abstrato para a
reprodução de capital. Todavia, com relação à tendência do capitalismo em reduzir
trabalho vivo — como veremos ao longo deste nosso trabalho — abre-se um ponto
de divergência. Antunes abraça a idéia de que vivenciamos na atualidade uma
reestruturação produtiva caracterizada pela flexibilização e precarização a partir da
antiga base fordista, embora salientando que este “fim” do fordismo guardaria uma
estreita relação com os métodos pretéritos de exploração do próprio fordismo. Ou
seja, estas mudanças não devem ser comemoradas pela classe operária como uma
emancipação no interior do capitalismo2. Sobre o fato de que esta mudanças não
representam uma emancipação, também concordamos com o autor, embora não
adotemos o mesmo referencial da escola da regulação e, principalmente, de Harvey
3
(2001) para fundamentar tal visão .
O ponto de nossa diferença reside então no fato de que neste
conceito de padrão de acumulação toyotista incorporado por Harvey haveria uma

2
Cf. (ANTUNES, 1997), particularmente o capítulo II.
3
Antunes se ampara, neste sentido, na discussão feita por David Harvey (2001), a qual incorpora a
visão da escola da regulação. Segundo alguns autores como Harvey, a sociedade teria passado de
um padrão de acumulação fordista para um padrão de acumulação toyotista. Contudo, em que pese
um movimento de sensíveis mudanças, o que haveria, segundo Harvey, seria uma combinação
heterogênea de formas de exploração que necessariamente não seriam marcadas por uma tendência
ao desenvolvimento das tecnologias de automação. Neste novo “padrão de acumulação flexível”, não
parece haver tendência do capital ao desenvolvimento das forças produtivas. Ao que parece, tratar-
se-ia de uma opção de cada setor capitalista a adoção ou não de tecnologias de produção: “Em
condições de acumulação flexível, parece que sistemas de trabalho alternativos podem existir lado a
lado, no mesmo espaço, de uma maneira que permita que os empreendedores capitalistas escolham
a vontade entre eles. [...] O ecletismo nas práticas de trabalho parece quase tão marcado, em nosso
tempo, quanto o ecletismo das filosofias e gostos pós-modernos” (HARVEY, 2001, p. 175). De fato,
as formas de superexploração da força de trabalho se tornaram visíveis nestes últimos anos.
Contudo, o ponto de vista de Harvey, como vimos, parece ser menos o de olhar para este fenômeno
como uma conseqüência aberta pelo desenvolvimento tecnológico, do que olhá-lo como uma via
alternativa de produção para o capital.
10

recomposição consciente dos elementos do capital que o impediria de chegar a


uma derradeira contradição. Explicando melhor, para este autor adotado por
Antunes, o desenvolvimento das forças produtivas no capitalismo não parece mais
ser visto como o movimento de prescindibilidade in extremis do trabalho vivo que
gerará uma contradição, seja no nível social, seja no nível do valor. Assim, para
estes autores, embora admitindo que nesta nova forma produtiva de fato há uma
sensível redução do emprego formal, cuja forma residual estaria situada no núcleo
das empresas, não se poderia depreender deste movimento que há uma lei
tendencial do capital rumo a uma prescindibilidade do trabalho vivo imediato. Ao
contrário, uma enorme quantidade de trabalhadores dispensados deste núcleo fabril
se realocaria nas margens do sistema produtivo como trabalhadores precarizados,
superexplorados, em tempo parcial, etc. Para fundamentar tal afirmação, “lançam
mão” de uma série de exemplos de empresas que adotaram uma produção “enxuta”
e que descentralizaram suas cadeias produtivas. Esta tendência, segundo eles, não
negaria o trabalho, mas o afirmaria na forma precarizada, principalmente no
4
chamado “terceiro mundo” :
O mais brutal resultado dessas transformações é a expansão, sem
precedentes na era moderna, do desemprego estrutural, que atinge o
mundo em escala global. Pode-se dizer, de maneira sintética, que há uma
processualidade contraditória que, de um lado, reduz o operariado
industrial e fabril; de outro, aumenta o subproletariado, o trabalho precário
e o assalariamento no setor de serviços. Incorpora o trabalho feminino e
exclui os mais jovens e os mais velhos. Há, portanto, um processo de
maior heterogeneização, fragmentação e complexificação da classe
trabalhadora (ANTUNES, 1997, p. 41-2, itálico do autor).
Tendo em vista esta perspectiva, Antunes declara:

Tudo isso nos permite concluir que nem o operariado desaparecerá tão
rapidamente e, o que é fundamental, não é possível perspectivar, nem
mesmo num universo distante, nenhuma possibilidade de eliminação da
classe-que-vive-do-trabalho (ANTUNES, 1997, p. 54, itálico do autor).
Então, utilizando-se de uma famosa citação de Marx nos Grundrisse5,
que versa sobre o conflito entre o aumento da composição orgânica do capital e a

4
Embora não se possa desconsiderar os exemplos de países da Europa (caso da chamada terceira
Itália) que adotaram estes processos de produção, existem alguns teóricos que questionam a
generalização destas experiências particulares, como é o caso de Simon Clarke ao dizer: “Ficava
implícito que tanto a capacidade de generalizar o modelo como seu caráter socialmente desejável
eram questionáveis. As mesmas qualificações se aplicam aos outros exemplos apresentados pelos
proponentes da “especialização flexível”, como por exemplo os sistemas flexíveis de fabricação, dos
quais a pioneira foi a Toyota, no Japão, e o setor da alta tecnologia em Baden-Württemberg, na
Alemanha. A coerência do modelo original provinha da particularidade das suas circunstâncias [...]”
(CLARKE, 1991, p. 123). Ou ainda quando diz: “É difícil detectar qualquer coerência no modelo da
“especialização flexível”, enquanto que sua aplicabilidade empírica também já foi amplamente
contestada. [Karel] Williams e outros apresentam uma crítica completa de Sabel e Piore, mostrando
que o modelo não postula relações coerentes entre seus diferentes elementos [...] (CLARKE, 1991, p.
124).
5
Cf. (ANTUNES, 1997, p. 49-0).
11

lei do valor, Antunes interpreta-a como se, por se tratar de uma contradição visível
do capital, ela nunca seria uma realidade no capitalismo. Assim, quando Marx
coloca que

[...] o capital mesmo é a contradição em processo, (pelo fato de) que tende
a reduzir a um mínimo de tempo de trabalho, enquanto que, por outro
lado, converte o tempo de trabalho em única medida e fonte de riqueza.
[...] Todavia, constituem as condições materiais para fazer saltar esta base
pelos ares (MARX apud ANTUNES, 1997, p. 49-0).
Antunes considera:
Portanto, a tendência apontada por Marx — cuja efetivação plena supõe a
ruptura em relação à lógica do capital — deixa evidenciado que, enquanto
perdurar o modo de produção capitalista, não pode se concretizar a
eliminação do trabalho como fonte criadora de valor (ANTUNES, 1997, p.
50).
Ora, da maneira como a descrição de Marx é analisada, não há
nenhum erro em se afirmar a inexorabilidade da lei do valor enquanto vigorar o
capitalismo. Todavia, o que Antunes parece fazer é dizer que o capital
compreendera sua contradição e que, portanto, não irá mais proceder segundo suas
leis tendenciais, chegando sempre a um limite seguro que evite a contradição de
suas leis de reprodução. Disto, o que poderíamos inferir é que o capital teria
abandonado a tendência à mais-valia na sua forma relativa e sua correspondente
prescindibilidade do trabalho vivo, preferindo uma composição entre as formas
relativas e absolutas de extração deste mais-trabalho.
Marx foi extremamente claro na passagem acima ao dizer que “o
capital é uma contradição em processo” e, portanto, pensamos que continuará
procedendo segundo a lei tendencial de aumento de sua composição orgânica. O
caminho de abolição do trabalho deve ser visto como um caminho inexorável uma
vez que a tendência do capital é a mais-valia na sua forma relativa. O que não quer
dizer que isto seja uma via linear, como o próprio Marx demonstrara em O Capital,
no capítulo sobre a maquinaria, ao falar destas formas precarizadas do trabalho
como conseqüência imediata da incorporação da maquinaria num determinado
setor, ainda que esta conseqüência imediata não deva ser vista como uma tendência
que se perpetuará6. Do contrário, deveríamos nos perguntar porquê Marx dera
maior importância ao desenvolvimento da indústria e da maquinaria na Europa em
detrimento da escravidão que ainda perdurava e estava institucionalizada em países
como o Brasil.
Por fim, para fecharmos esta pequena digressão a respeito de nossas
razões para adotarmos uma perspectiva distinta de Adeus ao Trabalho?, devemos

6
Sobre isto, ver (MARX, 2003, p. 534).
12

destacar ainda que, embora questionando a idéia gorziana de crise do trabalho, as


conclusões que Antunes chega não estariam assim tão distantes das premissas de
Gorz. Explicando melhor, Antunes se coloca criticamente frente à idéia de crise de
um trabalho em seu sentido concreto, e mesmo no sentido abstrato esta crise se
mostraria relativa, uma vez que o assalariamento estaria aumentando (Cf. ANTUNES,
1991, p.76-8). Desse modo, o título do livro de André Gorz (Adeus ao proletariado)
foi tomado por uma hipóstase, uma vez que a classe trabalhadora estaria sofrendo
uma metamorfose que a fragmenta, precariza, mas que de forma alguma a abole.
Mas vejamos se não é esta a mesma consideração de Gorz ao falar de sua “não-
classe”, ademais similar à “classe-que-vive-do-trabalho”:
Essa não-classe engloba, na realidade, o conjunto dos indivíduos que se
encontram expulsos da produção pelo processo de abolição do trabalho,
ou subempregados em suas capacidades pela industrialização (ou seja,
pela automatização e pela informatização) do trabalho intelectual. Engloba
o conjunto desses extra-numerários da produção social que são os
desempregados reais e virtuais, permanentes e temporários, totais e
parciais (GORZ, 1989, p. 87-8).
O que poderia então explicar esta similaridade entre as conclusões de
Antunes e as premissas de Gorz — a saber: o desemprego e a precarização? A
resposta possível poderia ser o fato de ambos estarem olhando para o mesmo
fenômeno, embora para o primeiro este fenômeno seria o ponto de chegada,
enquanto que para o segundo o ponto de partida7.
Finalmente, embora não nos reste dúvida quanto à importância da
obra de Antunes como crítica à Adeus ao Proletariado, o caminho procurado por
nós nesse trabalho será o de ver que, apesar da precarização ocorrida, o caminho
central do capital é o de desenvolvimento das forças produtivas e de superação de
8
sua dependência frente ao trabalho vivo imediato : ambos, fundamentos para Marx
declarar a possibilidade de superação radical do trabalho alienado. Ou seja,
veremos que o projeto marxiano difere do projeto dualista de Gorz justamente por
conceber que o desenvolvimento das forças produtivas no capitalismo será o

7
Esta diferença de olhar dos autores em relação aos desdobramentos da automação do final do
século XX será retomada na conclusão de nosso trabalho.
8
Podemos ler em O Capital, especificamente no capítulo XIII, item 7, a seguinte consideração de
Marx: “Todos os representantes de algum porte da economia política admitem que a introdução das
máquinas constitui uma calamidade para os trabalhadores dos artesanatos e das manufaturas
tradicionais, com os quais elas competem inicialmente. Quase todos deploram a escravatura do
trabalhador de fábrica. E qual é o argumento mais importante que apresentam? Este: a máquina,
após os horrores de seu período de introdução e desenvolvimento, aumenta, em sua etapa final, os
escravos do trabalho, em vez de diminuí-los. Sim, a economia política rejubila-se com o teorema
repugnante — mesmo para o filantropo que crê na necessidade eterna do modo capitalista de
produção — de que a fábrica baseada na exploração mecanizada, depois de certo período de
crescimento, após transição mais ou menos longa, chegará à fase em que absorverá integralmente
número tão grande de trabalhadores que não haverá possibilidade de deixa-los sem emprego como
no estágio inicial” (MARX, 2003, p. 509).
13

pressuposto, a base material sobre a qual se poderá transformar quantitativa e


qualitativamente o trabalho necessário; e será este movimento que tornará possível
a libertação humana mesmo no interior do trabalho social e necessário.
Para retomar a discussão sobre a obra de Gorz, o subtítulo de seu
livro (para além do socialismo) também nos reporta a uma experiência não tão
distante e que ainda hoje no campo teórico podemos sentir seus abalos. Trata-se da
queda de alguns governos cuja economia era tida como socialista. São os países
que viviam o chamado socialismo real. Neste sentido, o subtítulo deste livro de
André Gorz poderia ser visto como uma antevisão do que iria ocorrer na história. E,
somente por estas questões, já podemos dizer que o livro não está como um todo
superado, e este é um dos motivos que nos levou a trabalhar com ele.
Adeus ao Proletariado, a uma primeira leitura, parece um tanto
complexo, principalmente pelo seu caráter ensaístico. Todavia, pudemos perceber
ao longo das leituras que ele forma um todo que culmina com uma nova
reinterpretação da realidade reconhecidamente não marxista. Esta reinterpretação se
expressa no seu projeto de ‘superação’ da alienação, ou, como ele mesmo coloca,
numa “sociedade dualista”. Pois é justamente neste seu projeto dualista de
sociedade, ou melhor dizendo, nos fundamentos deste projeto, que reside nossa
crítica.
A fundamentação deste projeto aparece ao longo de seu livro sob
duas formas: a teórica e a empírica. Sua fundamentação teórica está bem declarada
e passa por muitos autores. No entanto, o que nos chama a atenção é que ele se
utiliza justamente de uma citação do próprio Karl Marx situada no livro III de O
Capital, no capítulo intitulado A Fórmula Trinitária. Não obstante o fato de parecer
paradoxal utilizar o próprio Marx num livro repleto de críticas a Marx e ao
marxismo, ou seja, utilizar Marx contra Marx, nos deparamos com o fato de que boa
parte da fundamentação deste seu projeto também se situa no nível empírico.
Afinal, é constante a referência e as ilustrações das transformações ocorridas no
processo de trabalho para fundamentar seus argumentos e críticas. Outro fato que
nos remete à questão empírica deste projeto é seu ataque às formas alienantes
remanescentes no próprio socialismo soviético.
Neste caso, este trabalho se propõe dar conta de um duplo
movimento. O primeiro deles é saber em que medida a frase de Marx utilizada
como fundamento teórico do projeto dualista de Gorz estaria em sintonia com o
todo do pensamento marxiano no que tange a questão da alienação e da
14

emancipação humana. O segundo é tentar mostrar que Gorz é conduzido à negação


de Marx e de sua teoria de superação do trabalho alienado justamente por se
lastrear em duas coisas: 1) nas experiências da classe trabalhadora do século XX, no
âmbito restrito da indústria metal-mecânica. Explicando melhor, a declaração de
André Gorz de que o trabalho alienado é um fato insuperável é conseqüência
primordial de sua análise dos processos de produção fundados no taylorismo e no
fordismo, tanto do lado do capitalismo quanto do socialismo real. Deste modo, ao
proceder sua crítica, ele o faz olhando para uma base material extremamente
atrasada e que traz a desrealização humana como imanência técnica: o taylorismo
e o fordismo e sua indelével divisão parcelar do trabalho. Chegando a esta
conclusão, a saída encontrada por Gorz é justamente retornar a um ideal passadista
de produção de tipo artesanal, no qual reinaria a autodeterminação do indivíduo
sobre sua atividade produtiva material. Para uma tal visão de emancipação a
automação promovida por diversos setores graças à microeletrônica só pode ser
vista como uma inimiga e um empecilho a ser denunciado. Todavia, este autor
parece não ter levado em consideração todas as implicações que um tal projeto
passadista comporta.
Somente assim é que poderemos entender o que levará Gorz a
decretar que as forças produtivas desenvolvidas pelo capitalismo não se prestam
para o uso socialista e que, portanto, não há técnica neutra passível de ser re-
apropriada pelo proletariado. 2) Do mesmo modo, ao olhar para o socialismo real e
tomá-lo como a prova cabal de que a alienação é impossível de ser superada
mesmo sob o socialismo, Gorz desconsidera duas coisas. A primeira é o
questionamento sobre a concreticidade de um socialismo de fato nos países do leste
europeu, da URSS, China, Cuba, etc. E o segundo é simplesmente ignorar que
estava olhando na maioria das vezes para a mesma base atrasada do capitalismo do
mundo ocidental. Assim, seja quando olha para o ocidente capitalista, seja quando
volta o olhar para o oriente socialista, o que Gorz consegue visualizar são somente
os processos de trabalho fundados no taylorismo/fordismo. Quando este autor, por
momentos incorpora a crítica aos sistemas automáticos e cientificizados, o faz sob a
única acusação evidente de que esta base prescinde cada vez mais do trabalho vivo,
o que fere sua idéia de autonomia fundada num estágio artesanal.
Do modo como pensamos, estas questões colocadas são
extremamente relevantes para o julgamento do projeto dualista de Gorz. Afinal, se o
taylorismo/fordismo não representa de fato a ponta do desenvolvimento das forças
15

produtivas no capitalismo, a crítica de Gorz sobre a não-neutralidade da técnica e


perda de seu caráter de contradição pode ser um grande equívoco e,
conseqüentemente, o fundamento de seu dualismo pode ignorar as reais
possibilidades engendradas pelo caráter autocontraditório do próprio capital, que já
no século XIX se fazia sentir e fora descrito por Marx.
No primeiro capítulo desta dissertação faremos então uma dupla
análise que envolve a questão propriamente mais teórica de nosso objeto. Na
primeira parte deste capítulo estaremos expondo uma visão geral de Adeus ao
proletariado e deixando o autor apresentar suas teses contidas neste seu livro. Na
segunda parte estaremos levantando alguns apontamentos que nos servirão de
reflexão sobre a questão teórica da emancipação nos escritos do próprio Marx.
Reservamos o segundo capítulo para expor um breve histórico do
processo de trabalho no século XX que teria formado os elementos empíricos do
contexto de Adeus ao proletariado. Devemos levantar uma discussão a respeito dos
processos de trabalho nos países capitalistas fundados no taylorismo e no fordismo,
bem como traçar um breve esboço do que significaram estes métodos de trabalho
para a economia da época. Outro ponto que levaremos em consideração nessa
discussão é o papel do keynesianismo nas formulações de André Gorz
anteriormente ao livro aqui tratado.
No terceiro capítulo tentaremos resgatar, ainda que de forma
simplificada, alguns elementos do processo de trabalho da antiga União Soviética.
Como já fora colocado por nós, os processos de trabalho fundados no taylorismo e
no fordismo dos países que compreendiam o chamado socialismo real tiveram uma
forte influência nos escritos de André Gorz, seja quando este condenava o processo
de proletarização vivenciado nos países ditos socialistas, seja quando este formulou
a idéia de insuperável alienação mesmo sob o socialismo.
Desse modo, reservamos em nossa conclusão o debate frente às teses
gorzianas, uma vez que os pressupostos de nossa crítica já tenham sido
apresentados ao longo dos capítulos deste nosso trabalho.
16

Capítulo 1 – O projeto dualista de Gorz e a questão teórica

1.1 Apresentação e problemática: a fundamentação do projeto


dualista

Gorz, como todo grande teórico, nos traz uma miríade de


possibilidades de abordagem de sua obra. Um ensaio como Adeus ao Proletariado,
como o próprio autor o reconhece, abre mais questões do que pode fechar, ou
como diz: “[...] Não pretende ter resposta para todas as questões que levanta”
17

(GORZ, 1987, p. 9). Desse modo, as indagações suscitadas são impregnadas de um


valor em si mesmo. Nossa intenção, contudo, não é uma abordagem total de todas
as implicações de suas questões, mesmo porque isto pareceu reconhecidamente
impossível para o próprio André Gorz. Como já pudemos dizer na introdução deste
nosso trabalho, nossa intenção é tentar compreender os fundamentos de seu projeto
dualista de sociedade e, posteriormente, demonstrar que seu raciocínio ignorou
alguns elementos teóricos e empíricos relevantes. Isto, pensamos, é o que teria
levado Gorz a um caminho sem saída que o forçaria a declarar a impossibilidade da
superação da alienação na sociedade humana moderna. Pensamos também —
embora nos fuja a possibilidade de desenvolvimento neste trabalho — que boa
parte da teoria frankfurtiana resvalou nos mesmos obstáculos, levando estes teóricos
igualmente a negar princípios tidos como fundamentais no pensamento marxiano.
Entendamos então o que vem a ser o projeto dualista de Gorz e qual sua
fundamentação a partir do próprio autor de Adeus ao proletariado.
Comecemos pelo final do livro deste autor, onde ele lança as bases de
sua utopia dualista. Numa situação hipotética, Gorz descreve a realização de seu
ideal de uma sociedade verdadeiramente emancipada. As pessoas já não
precisariam trabalhar tanto tempo em prol da sociedade, mas sua libertação seria
resultado de suas atividades criativas numa esfera além da produção necessária da
sociedade, quando então, desobrigadas de qualquer determinação social, pudessem
produzir de forma autônoma as mesmas coisas que se produz na produção social.
Vejamos o exemplo para nos esclarecer este ponto.
[...] Cada bairro, cada cidade, talvez mesmo cada grande edifício de
moradia devia ser dotada de oficinas de criação e de produção livre em
que as pessoas, em suas horas de lazer, produzissem de acordo com seu
desejo, contando com uma gama de instrumentos cada vez mais
aperfeiçoados, inclusive o vídeo e a televisão em circuito fechado. A
semana de 24 horas e a garantia de recursos permitiriam que as pessoas se
organizassem entre si para prestarem serviços umas às outras [...] (GORZ,
1987, p. 201).
A idéia básica de Gorz é a de que as pessoas deveriam consumir mais
o que elas próprias produzem. Assim, lança inclusive a proposta de que ao se
adquirir uma bicicleta, ela viesse como um “kit” para ser montada pela própria
pessoa. Para esta nova realidade em que a produção material estivesse disseminada
para toda a população, dever-se-ia construir em cada bairro, cada escola ou mesmo
em edifícios uma oficina comunitária, a fim de que as pessoas pudessem montar ali
mesmo suas coisas de uso pessoal ou realizar consertos. Gorz lembra da
importância de que os reparos são também fundamentais para esta nova lógica. Em
resumo, as pessoas devem fazer elas próprias seus produtos pessoais para sua
18

satisfação e realização. Este retorno idílico a um tempo em que imperava o


artesanato é a proposta de Gorz como alternativa ao capitalismo contemporâneo.
Certamente, o autor é movido pelo processo de expansão do mercado
que nos fala Harry Braverman, o qual excluiu a possibilidade das antigas produções
familiares no interior do próprio lar e retirou a possibilidade de uma produção
pessoal.
[...] a industrialização do alimento e outros utensílios domésticos
elementares é apenas o primeiro passo num processo que de fato leva à
dependência de toda a vida social, e de fato a todas as inter-relações da
humanidade para com o mercado. [...] Assim, a população não conta mais
com a organização social sob forma de família, amigos, vizinhos,
comunidade, velhos, crianças, mas com poucas exceções devem ir ao
mercado e apenas ao mercado, não apenas para adquirir alimento,
vestuário e habitação, mas também para recreação, divertimento,
segurança, assistência aos jovens, velhos, doentes e excepcionais
(BRAVERMAN, 1977, p. 235).
Pois é contrariamente a este processo que Gorz afirma a produção
autônoma. E as razões para que chegue a tal projeto passaremos a expor agora.
O controle operário (abusivamente qualificado de “autogestão” operária)
na realidade consiste somente em autodeterminar as modalidades de
heterodeterminação: os trabalhadores dividem-se e definem suas tarefas no
contexto de uma divisão de trabalho preestabelecida na escala da
sociedade como um todo. Não definem eles próprios essa divisão do
trabalho nem as normas de usinagem nos rolamentos, por exemplo.
Podem eliminar o caráter mutilante do trabalho mas não conferir-lhe um
caráter de criação pessoal. Trata-se, aí, de uma alienação inerente não
apenas às relações de produção capitalistas, mas à socialização do próprio
processo de produção: ao funcionamento de uma sociedade complexa.
Essa alienação pode ser atenuada em seus efeitos, mas não pode ser
suprimida (grifo nosso) (GORZ, 1987, p. 19).
Gorz é claro em suas declarações ao dizer que a alienação do
trabalho é insuperável. Ainda que os produtores tomassem os meios de produção
para impor suas determinações sobre a produção, ainda assim, isto seria somente
uma maneira de autogerir a heteronomia. Tal conceito expressa simplesmente a
impossibilidade de determinação sobre aquilo que se faz. E aqui o autor funda um
conceito que para ele será análogo ao conceito de alienação. Embora não
concordemos com esta simplificação feita por Gorz sobre a alienação teorizada por
Karl Marx, é ele quem expõe:
Chamo de alienação a impossibilidade de desejar o que se faz e de
produzir ações que possam ser tomadas por finalidade em seus resultados
assim como nas modalidades de seu desenrolar. À questão moral do
“posso desejar isso?”, o indivíduo alienado responde sempre: “Não sou eu
quem... Seria preciso que... Não se tem escolha...” etc. (GORZ, 1987, p.
114).
Anteriormente ao livro Adeus ao proletariado, este autor ainda
concebia uma possibilidade de superação da alienação. Em boa parte de suas obras
19

ele considerava a possibilidade da então criticada autogestão operária para se abolir


a alienação.
Ele cultivava em suas obras até a década de 70 um referencial de
emancipação — ou desalienação como fala — da classe operária baseada na idéia
de que esta classe, tomando para si numa revolução o conjunto dos meios de
produção (fábricas, matérias-primas, instrumentos de produção, etc.), poderia
autogerir o processo produtivo e colocá-lo sob seu controle. Desse modo, efetuar-
se-ia o reencontro de sua vida com sua produção — transformada pelo capitalismo
como simples meio de vida. Ou seja, sua vida outrora cindida e estranhada seria
redimida pela vontade dos sujeitos que colocariam sob seu controle a produção de
sua vida. A autogestão poderia assim quebrar as determinações do capital ao fazer
com que o processo produtivo servisse às necessidades humanas e não mais do
capital, ou seja, o processo de produção da vida deixaria sua forma estranhada de
processo de produção de valor, ou processo de valorização, para tornar-se uma
esfera de realização e desenvolvimento do indivíduo.
No entanto, “durante a década de 1970, [...] surgem os primeiros sinais
de que Gorz estava abandonando a crença na possibilidade desse controle
operário” (SILVA, 2002, p. 140). Ao longo de sua trajetória teórica, Gorz teria
visualizado o que, segundo ele, era um obstáculo à apropriação coletiva dos meios
de produção. Começaria então um distanciamento cada vez mais pronunciado das
teorias de Marx.
Para demonstrar os pressupostos deste distanciamento Gorz iria se
valer dos acontecimentos ocorridos no interior dos processos de trabalho tanto do
lado capitalista como do lado socialista. Uma vez que Adeus ao proletariado nasceu
no contexto do fim dos anos dourados do capitalismo, o autor narra o fenômeno do
desemprego estrutural gerado não só pelas crises da economia capitalista como
também, e principalmente, pela entrada da revolução microeletrônica aprofundando
ainda mais a automação na indústria e no comércio.
A sociedade do desemprego é a que vem progressivamente se instalando
sob nossos olhos: de um lado, uma massa crescente de desempregados
permanentes; de outro, uma aristocracia de trabalhadores protegidos; entre
os dois, um proletariado de trabalhadores precários, que cumprem as
tarefas menos qualificadas e mais ingratas (GORZ, 1987, p. 12).
Devido a este contingente de pessoas jogadas para fora do mercado
de trabalho, Gorz propala a morte da classe operária e, portanto, o fim da idéia
marxiana de um sujeito histórico.
A crise do socialismo é, antes de mais nada, a crise do proletariado. Com o
desaparecimento do operário profissional polivalente, sujeito possível de
20

seu trabalho produtivo e, portanto, sujeito possível da transformação


revolucionária das relações sociais, desapareceu a classe capaz de tomar
sob sua responsabilidade o projeto socialista e de realizá-lo nas coisas
(GORZ, 1987, p. 85).
Vejamos. Segundo o autor, o socialismo tornou-se uma teoria
fracassada porque já não existiria mais uma classe operária — e devemos ter em
conta que o sujeito revolucionário para Gorz é justamente o conjunto de
trabalhadores da indústria, logo, a classe operária. Desta antiga classe operária o
que teria restado foi somente um “neoproletariado” avesso a qualquer idéia de
trabalho e disciplina social.
Essa classe operária tradicional não passa de uma minoria privilegiada. A
maioria da população pertence a esse neoproletariado pós-industrial dos
sem-estatuto e dos sem-classe que ocupam os empregos precários de
ajudantes, de tarefeiros, de operários de ocasião, de substitutos, de
empregados em meio expediente, (empregos esses que, num futuro não
muito distante, serão abolidos pela automatização) (GORZ, 1987, p. 89).
A partir destas constatações, nosso autor declara a morte mesmo do
marxismo, dizendo que seu criador procede por meio de mistificações tanto quanto
o próprio Hegel o fazia. O proletariado de Marx, segundo o autor, fora apenas um
sucedâneo do Espírito hegeliano. Quanto à teoria do sujeito revolucionário, “o
único fundamento que seus diferentes defensores podem oferecer são a obra de
Marx e a palavra de Lênin: ou seja, a autoridade dos fundadores. A filosofia do
proletariado é religiosa” (GORZ, 1987, p. 33).
Prosseguindo com a análise do autor, vemos então que ele decreta a
falência das teorias revolucionárias e de emancipação de Marx justamente porque o
século XX teria desmistificado todas estas teorias. O proletariado não havia se
tornado o sujeito de sua história porque de um lado a recente automação destruía
muitos postos de trabalho e de outro, o trabalho que restava era completamente
dividido e degradado a tal ponto que não comportava um mínimo de poder a quem
o exercesse.
Josué Pereira da Silva expõe claramente como este movimento de
análise empírica influenciou a mudança teórica ilustrada pelo projeto dualista de
André Gorz em Adeus ao proletariado. Comentando sobre as transformações
ocorridas no processo de trabalho capitalista, diz:
[...] essas mudanças empíricas põem em questão toda a teoria sobre a qual
se baseava o modelo do trabalho, demandando, portanto, uma mudança
teórica. A eliminação do trabalho, de um lado, e a persistência de uma
divisão do trabalho alienante, de outro, solapam a possibilidade de
controle operário e impedem a possibilidade de libertação no trabalho.
Assim, tanto a possibilidade de eliminar a alienação sob essas condições
21

quanto a de instituir uma sociedade de produtores associados resultaram


numa utopia impossível (SILVA, 2002, p. 204, grifo do autor)9.
Ora, parece-nos claro então que foi justamente a experiência de Gorz
a partir do processo de trabalho da década de 70 que levou este autor à uma
mudança teórica. Mas vejamos que esta experiência não se limitaria ao olhar para o
ocidente capitalista. Afinal, como diz Josué, “não se pode ignorar o fracasso dos
regimes socialistas em superar o fenômeno da alienação como um importante
motivo na base dessa defesa da autonomia individual” (SILVA, 2002, p. 195).
Para Gorz, os países que vivenciaram o chamado socialismo realmente
existente reproduziram todas as degenerescências dos paises capitalistas, com o
agravante das formas totalitárias estarem subjetivadas na própria consciência do
individuo. Para este autor, a impossibilidade de se instaurar o socialismo era
imanente às próprias técnicas desenvolvidas pelo capitalismo e que foram
incorporadas pelos países socialistas. Não obstante, as próprias exigências morais
do socialismo nada mais eram do que exigências técnicas camufladas em prol de
um Estado totalitário do qual Gorz compara com o Estado hitlerista.
[...] toda ordem social e, particularmente, o socialismo da escassez, tende a
confundir moral com obediência às regras e aos regulamentos, como se
estes fossem imperativos éticos e não meios técnicos, freqüentemente
provisórios e improvisados, de assegurar o funcionamento de um sistema
material ele mesmo contingente. Assim a moral do Estado socialista, bem
como as morais militares e tecnocráticas, tem consistido até agora em
exigir dos indivíduos que se identifiquem com as funções e condutas
heterônomas [...] A exigência ética é, assim, pura e simplesmente
substituída pelo imperativo técnico (GORZ, 1987, p. 112-3).
Ou mesmo quando este autor compara a ideologia destes regimes
com a ideologia do formigueiro:
Na realidade, a ideologia dos regimes que se qualificam socialistas não
deixou de ser dominada pelo culto quase mítico do Proletariado, do
Trabalho Social e da Produção como entidades exteriores separadas. A
ideologia das relações dos indivíduos com uma sociedade totalmente
estatal aproxima-se mais da ideologia do formigueiro (ou seja, do
hiperorganismo que regula as atividades dos indivíduos em virtude de uma
inteligência que os ultrapassa), ou da ideologia militar, do que do
comunismo (GORZ, 1987, p. 43).
Podemos ver com estes exemplos que nosso autor não se limitou em
olhar para os fenômenos ocorridos do lado “ocidental capitalista”, mas também
olhava e condenava a proposta socialista, acusando-a de reproduzir todas as
degenerescências de um Estado capitalista. E segundo este mesmo autor, um fato
estava por trás de tudo isto: não se poderia erigir um Estado socialista baseado nos
antigos preceitos do marxismo. Ou seja, o problema apontado anteriormente era

9
Sobre a questão de ver a automação (eliminação do trabalho) e a divisão do trabalho como dois
fenômenos que não se auto-excluem, trataremos mais a frente nesta dissertação.
22

secundário. O obstáculo à consecução do socialismo não estava na morte do sujeito


revolucionário; não estava no desemprego e precarização vivenciados no momento
que o autor escrevia Adeus ao proletariado. Se havia um obstáculo, este residia na
própria base material sobre a qual se tentava erigir o socialismo.
Para Gorz, a premissa de Marx de que o comunismo era uma
sociedade posterior ao capitalismo, e que seria gestado pela própria base produtiva
deste, era um grande equívoco. O desenvolvimento das forças produtivas, segundo
nosso autor, não era nenhuma garantia para a edificação do comunismo. E isto
porque ao contrário de propiciar a tão esperada emancipação do trabalhador, a
base técnica do capitalismo teria degradado ainda mais este trabalhador e retirado-
lhe todo poder e autonomia.
O desenvolvimento das forças produtivas do capitalismo é funcional
apenas com relação à lógica e às necessidades do capitalismo. Esse
desenvolvimento não somente não cria a base material do socialismo
como lhe cria obstáculos. As forças produtivas desenvolvidas pelo
capitalismo trazem a sua marca impressa a tal ponto que não podem ser
geradas ou colocadas em operação segundo uma racionalidade socialista.
Se há de haver socialismo elas precisam ser refundidas, convertidas.
Raciocinar em função das forças produtivas existentes é colocar-se na
impossibilidade de elaborar ou mesmo de distinguir uma racionalidade
socialista.
[...] O desenvolvimento das forças produtivas do capitalismo deu-se de
maneira tal que elas não se prestam a uma apropriação direta por parte do
trabalhador coletivo que as coloca em operação nem a uma apropriação
coletiva por parte do proletariado (GORZ, 1987, p. 26).
Como dissera o autor, e de forma clara, não se poderia utilizar das
forças produtivas desenvolvidas no capitalismo porque estas levam sua marca
indelével. Elas funcionariam segundo a lógica do capital e não poderiam ser
utilizadas para outros fins.
A premissa de que o processo de produção possa ser apropriado e
autogerido sem reproduzir os mesmos efeitos perniciosos sobre a classe operária
deveria ser descartada. A base material, ou seja, os meios de produção,
reproduziriam a mesma hierarquização e desqualificação operadas no capitalismo.
Isto porque, segundo ele, as forças produtivas capitalistas levam a sua marca. Ao
comentar esta mudança de Gorz, Josué Pereira da Silva explicará que, para aquele:
[...] o desenvolvimento das forças produtivas capitalistas não funciona de
forma a permitir uma apropriação coletiva direta por parte do trabalhador
coletivo, isto é, pelo proletariado. O desenvolvimento capitalista criou uma
classe operária, cuja maioria não tem capacidade para gerir os meios de
produção (SILVA, 2002, p. 31).
Ou seja, o que Gorz parece dizer é que as relações de dominação são
inerentes à estrutura física dos meios de produção. “Um sistema de relações que
emana das estruturas do sistema” (SILVA, 2002, p. 141). Isto é o que se
23

convencionou chamar de não-neutralidade técnica, ou seja, é uma crítica à idéia de


que a técnica desenvolvida pelo capitalismo seja passiva e possa ser direcionada a
outros objetivos que não a exploração e valorização do capital10. A impossibilidade
de construção de novas relações sociais a partir destes meios de produção
engendrados pelo capitalismo seria uma imanência destes próprios meios e também
do caráter social da produção.
Neste caso, vemos que o autor é inflexível11, as técnicas e tecnologias
geradas pelo capitalismo são capitalistas e não se pode esperar nada mais do que a
reprodução das relações de produção capitalistas ao utilizá-las.
[...] essa explicação, olhando bem, está diante de nossos olhos: o próprio
proletariado, como parte integrante do “trabalhador coletivo”, reflete o
agenciamento social dos meios de produção que põe em ação. Esses
meios de produção não são simplesmente máquinas neutras: as relações
capitalistas de dominação nelas se inscrevem e reforçam a dominação dos
trabalhadores sob a aparência de exigências técnicas inflexíveis (GORZ,
1987, p.44).
O trabalhador não se encontra mais isolado no aparato produtivo e,
logo, não tem mais nenhum campo de autonomia visto que pertence a algo acima
dele que é o próprio trabalhador coletivo. À sua frente está um aparato técnico que
não é neutro e cujas exigências já estariam determinadas no corpo e no
funcionamento desta própria máquina. Eis o que nos relata este autor.
Mas de que espécie de determinação nos fala Gorz? Que espécie de
racionalidade é esta que parece brotar do próprio aparato técnico? Embora a
resposta a estas perguntas só possa ser apropriadamente apresentada na conclusão
de nosso trabalho, adiantaremos aqui alguns pontos da visão de Gorz, evitando,
contudo, uma digressão mais extensa que desvirtue o propósito desta nossa breve
exposição das teses de Adeus ao proletariado.
Do modo como pensamos, um importante referencial para que
possamos entender André Gorz nestas novas teses seria olhá-lo por uma
perspectiva menos de Marx do que de Weber. Ao que nos parece, sempre é mais
enaltecida a influência de Marx nos pensadores da Escola de Frankfurt do que a

10
Neste sentido, podemos ver que mesmo autores críticos à tese central de Gorz concordam com ele
nesta questão de uma técnica “amarrada” ao capital: “Este postulado da neutralidade
material/instrumental é tão sensato quanto a idéia de que o hardware de um computador pode
funcionar sem o software. [...] O mesmo vale para as fábricas construídas para propósitos capitalistas,
que trazem as marcas indeléveis do ‘sistema operacional’ — a divisão social hierárquica do trabalho
— com o qual foram constituídas” (MÉSZÁROS, 2002, p. 865). Neste caso o software seria, por
essência, capitalista.
11
A não ser quando Gorz abre uma certa margem de indeterminação ao expressar que as forças
produtivas deveriam ser “refundidas” ou “convertidas” se se quisesse utilizá-las sob uma
racionalidade socialista. Todavia, sobre este ponto de relatividade de André Gorz a respeito do
determinismo da não-neutralidade técnica discutiremos apropriadamente na conclusão deste
trabalho.
24

influência do próprio Weber. O mesmo se passa com André Gorz. A idéia de uma
racionalidade instrumental desenvolvida pelo ethos capitalista ganha muita força
nesta mudança teórica de Gorz. A idéia exposta acima de que em Adeus ao
proletariado nosso autor já admite uma racionalidade capitalista imanente às forças
produtivas desenvolvidas por este sistema é uma clara demonstração disso. Não é
para menos que ele negará a possibilidade de emancipação na esfera econômica,
segundo ele, berço desta racionalidade instrumental, e negará a possibilidade de
emancipação ou mesmo abolição da esfera administrativa, berço da dominação
burocrática racional-legal. Poderíamos mesmo dizer que para Gorz a lei é a
expressão máxima da heteronomia social, pois fruto do coletivo, não representa a
vontade de ninguém particularmente.
Um esboço desta influência em Adeus ao proletariado pode ser
visualizado já em sua idéia de um poder funcional que acompanha os aparatos
sociais tanto da produção quanto da administração. Segundo nosso autor, a
hierarquia e a dominação seriam reproduzidas por esta racionalidade que
acompanha estes aparatos e sua estrutura. Esta é a idéia colocada tanto na sua
formulação de uma não-neutralidade técnica como de um poder que emana da
própria estrutura organizadora da vida social.
Essa esclerose institucional da dominação acompanha a burocratização do
poder. Ninguém poderá conquistá-lo por e para si próprio; apenas poderá
tentar elevar-se a uma dessas posições às quais é inerente uma parcela de
poder. Assim, não são mais os homens que possuem o poder, são as
funções de poder que possuem os homens (GORZ, 1987, p. 72).
E conclui a respeito do Estado moderno de modo similar a Weber:
Todos os poderes modernos são desse tipo. Não têm sujeito: não são
levados nem assumidos por nenhum soberano que se reivindique como
fonte de toda lei e fundamento de toda legitimidade. No Estado moderno,
nenhum chefe, nenhum tirano comanda os homens em razão do seu “eu
quero”, nem exige fidelidade e submissão à sua pessoa. Os portadores do
poder, no Estado moderno, comandam os homens apenas em nome de
uma submissão a uma dada ordem das coisas da qual ninguém se
reconhece como autor. O poder tecnocrático atual tem uma legitimidade
essencialmente funcional: pertence não a uma pessoa-sujeito mas à
função, ao lugar que um indivíduo ocupa no organograma da empresa, da
instituição, do Estado (GORZ, 1987, p. 65-6).
Devemos esclarecer que isto é válido, segundo o autor, tanto para o
Estado e suas instâncias de poder quanto para o locus produtivo, como bem frisou.
Todavia, é em textos mais recentes, como em Metamorfoses do trabalho, que esta
vinculação de Weber nas críticas de Gorz fica mais explícita. É quando Gorz irá
descrever a transformação das atividades produtivas humanas perdendo seu caráter
autônomo e tradicional para serem capturadas por uma forma instrumental e
contábil. Este autor faz uma pequena descrição da passagem do trabalho artesanal e
25

fonte de autonomia, segundo ele, para um trabalho entendido como labor, ou seja,
carregado de elementos nocivos e heterônomos. Após citar Weber, Gorz irá
concluir:
Dito de outro modo, a racionalidade econômica foi por longo tempo
contida, não apenas pela tradição, mas também por outros tipos de
racionalidade, outras finalidades e outros interesses que lhe consignavam
limites a não serem ultrapassados. O capitalismo industrial só pôde
desenvolver-se a partir do momento em que a racionalidade econômica
emancipou-se de todos os outros princípios de racionalidade, para
submete-los a seu único domínio (GORZ, 2003, p. 27).
Uma vez efetuada esta trajetória de racionalização, a economia parece
ter então incorporado esta racionalidade de modo inexorável. É o que se pode
extrair do autor quando este diz que se trata de uma racionalidade insuperável.
Assim,
Gorz define racionalidade econômica como uma forma particular de
racionalidade cognitiva instrumental. Para ele, a racionalização econômica
começa com a contabilidade e o cálculo que são concebidos como a forma
quintessencial de racionalização reificante” (SILVA, 1999, p. 168).
Mais à frente no livro, Gorz irá destacar que o triunfo desta
racionalidade da economia seria alcançado no projeto marxiano de emancipação.
A utopia marxiana, o comunismo, aparece, assim, como a forma acabada
da racionalização: triunfo total da Razão e triunfo da razão total;
dominação científica da Natureza e domínio científico reflexivo do
processo dessa dominação.
[...] Tamanho triunfo da Razão supõe, claro, a racionalização integral da
existência individual: a unidade da Razão e da vida. E essa racionalização
integral exige, por seu lado, uma disciplina individual que, por vezes,
lembra a ascese puritana: é na qualidade de indivíduo universal, despojado
de seus interesses, laços e afeições particulares, que cada um acederá à
unidade verdadeira entre o sentido de sua vida e a História (GORZ, 2003,
p. 37).
Devemos dizer desde já que isto não se trata de um elogio ao projeto
de emancipação marxiano. O triunfo da Razão sobre a vida do indivíduo e sobre a
natureza não é aqui elogiável. Ao invés da suposta libertação que o movimento
racional pudesse trazer sobre as carências humanas e sobre a forma determinada de
existência perante a natureza que obrigava o homem a se sujeitar às suas forças, o
que se vê em Gorz é uma crítica à este pensamento. Por vezes até parece acusar
Marx de uma ingênua crença no progresso material oriundo de um ranço
iluminista12. Esta crítica é similar à crítica que Marcuse faz sobre a ciência e a

12
Aliás, esta crítica à Marx e Engels, ora velada, ora explícita, aparece em muitos autores
contemporâneos, seja na já mencionada Escola de Frankfurt, seja em autores da própria esquerda
crítica. Com relação à crítica de Gorz, apesar de Josué Pereira da Silva dizer que Habermas e Gorz
procedem uma “crítica do imperialismo da razão instrumental (ou econômica), sem no entanto se
deixarem seduzir pela recusa do iluminismo típica do pensamento pós-estruturalista” (SILVA, 1995,
p. 134), ainda assim, pensamos que há esta recusa, bastando para isso analisar o conteúdo
retrógrado do projeto dualista de emancipação de André Gorz.
26

técnica, embora não pareça desprezá-las13 e também Habermas, cuja similaridade


com o projeto dualista de Gorz será comentada mais à frente.
A passagem da submissão do homem frente às determinações da
natureza para uma crescente dominação de suas necessidades possuiu a
imprescindível mediação da razão ou ciência. Podemos nos lembrar da própria
exortação — tão criticada — de Bacon, quando se referia a tal procedimento,
dizendo que seria preciso “surrar a natureza a fim de que ela confessasse suas
verdades”. Este processo, aliado a uma crescente conversão da religião rumo à uma
ascese material marcariam aquilo que Weber chamou de processo de
desencantamento do mundo (entzauberung). Contudo, se não se pode afirmar que
para Weber este processo era negativo, ele é visto por este autor como um
processo inexorável e sem volta, e marcaria a crescente hegemonia de uma forma
de racionalidade sobre todas as esferas humanas, formando uma verdadeira “jaula
de ferro”, para usar um termo weberiano.
Gorz acusava então o projeto de Marx de desejar uma expansão desta
forma de ação humana sobre todas as coisas e sobre si mesmo. Do mesmo modo,
acusava tal projeto de se confundir com uma completa sujeição do indivíduo a um
plano coletivo que traçaria determinações sobre toda a coletividade com a completa
perda da individualidade. Pois é esta sujeição que Gorz denuncia como uma
captura da racionalidade do plano econômico sobre a totalidade da vida do
indivíduo. Afinal, nosso autor conclui que no projeto de emancipação marxiano não
haveria uma dicotomia entre a esfera da produção social das coisas e a produção
do indivíduo (sua vida).
Todavia, uma vez que no plano econômico e no administrativo
impera uma racionalidade perniciosa que se reproduz pelos próprios meios
técnicos, nosso autor faz, como já vimos, um rompimento com seu antigo projeto
de autogestão operária. Não será mais concebível para ele que o indivíduo possa se
libertar integralmente, uma vez que no âmbito produtivo — e administrativo — a
dominação racional impede qualquer forma de atividade autônoma e emancipada.
Sendo assim, o antigo projeto de controle e autonomia a partir da
tomada do processo produtivo pelos trabalhadores ficaria comprometido. Não seria
mais possível se pensar num poder autônomo do proletariado frente ao processo de
produção social. Assim, se uma liberdade e autonomia ainda fossem possíveis na
sociedade, estas somente se efetivariam na esfera fora da produção social, ou seja, a

13
Cf. (MARCUSE, 1999) e (MARCUSE, 1968).
27

libertação agora só poderia ser pensada e concretizada fora do trabalho diretamente


social. Dito por outras palavras, a libertação ansiada agora seria do trabalho e não
mais no trabalho. Assim, o projeto de Gorz muda radicalmente.
Em vez de uma totalidade unificada típica do primeiro modelo, esse
segundo modelo de sociedade é dualista. Aqui, a sociedade é concebida
como formada por duas esferas analiticamente separadas, embora
interdependentes. A esfera da autonomia e a esfera da heteronomia
(SILVA, 2002, p. 204).
Lembremos que este primeiro modelo do qual nos fala Josué diz
respeito às formulações de Gorz até a década de 70. Após este período Gorz o
modifica e assume a impossibilidade do controle operário do processo produtivo.
Provavelmente levado por todas estas considerações que estamos apresentando
aqui. Porém, diferentemente de Weber, Gorz concebe uma esfera da vida humana
que não estaria determinada por esta racionalidade econômica ou heteronomia —
pois são termos que parecem se confundir nos escritos de Gorz. Seria possível
sonhar com uma redenção social, desde que fora do plano da produção social. Mas
não devemos confundir este plano com a esfera do consumo, pois este autor deixa
claro que a vida alienada na produção também o estaria no consumo, no qual é
cada vez mais freqüente a heteronomia e o lazer em sua forma mercadológica. Se
se quisesse sonhar com tal liberdade e autonomia, o indivíduo deveria cindir a sua
realidade social em duas partes, reservando seu tempo livre para as atividades
autônomas. Como ele mesmo dissera, “só há solução dualista, pela organização de
um espaço social descontínuo que comporta duas esferas distintas e uma vida
ritmada pela passagem de uma à outra” (GORZ, 1987, p. 116).
Mas como se daria este tempo livre? Nada mais do que o tempo
liberado pelo constante crescimento de produtividade do trabalho social e sua
automação que libera cada vez mais homens da esfera produtiva. A saída proposta
é a redução da jornada de trabalho graças a outra proposta que é a extensão do
trabalho necessário para toda a população, de modo que todos trabalhem um
pouco para todos trabalharem. A proposta encontrada é para resolver um cenário
que se instala em nossa sociedade, formado pelo contraste entre um pequeno
grupo de pessoas que trabalha estavelmente numa longa jornada e um grande
grupo subjacente que padece no desemprego ou realiza um trabalho em tempo
parcial. Assim, Gorz sintetiza em Adeus ao proletariado
[...] o que poderia ser essa organização dualista do espaço social numa
esfera da heteronomia subordinada aos objetivos da esfera da autonomia.
A primeira garante a produção programada, planificada, de tudo o que é
necessário à vida dos indivíduos e ao funcionamento da sociedade, o mais
eficazmente possível e, por conseguinte, com o menor consumo de
esforços e de recursos. Na segunda, os indivíduos produzem de forma
28

autônoma, fora do mercado, sozinhos ou livremente associados, bens e


serviços materiais e imateriais, não necessários mas de acordo com os
desejos, os gostos e a fantasia de cada um (GORZ, 1987, p. 117).
O trabalho social, cada vez mais alienante e heterônomo, segundo o
autor, é também o que torna possível a realização desta utopia dualista, graças à
sua crescente produtividade. Reconhecer-se-ia então este caráter deletério da
produção e administração social e buscar-se-ia uma libertação no tempo livre.
Todos participariam de um “rodízio” na esfera produtiva para que o tempo de
trabalho fosse ínfimo e estivesse subordinado ao tempo liberado. E o que se faz
com este tempo liberado? Produz coisas, necessárias ou não — visto que a
necessidade não é somente histórica, como subjetiva. Eis o projeto de Gorz. A
atividade produtiva é assim negada e afirmada ao mesmo tempo contraditoriamente.
Como o próprio autor diz:
O mesmo trabalho que é corvéia quando efetuado cotidianamente e em
tempo integral [...] torna-se um período de tempo vago entre outras
atividades quando, dividido por toda a população, é realizado durante
apenas quinze minutos por dia; pode mesmo tornar-se uma diversão bem
vinda e uma ocasião de festa quando, como é o caso atualmente de alguns
trabalhos agrícolas e silvícolas, é realizado durante alguns dias no ano ou
alguns meses da vida (GORZ, 1987, p. 124).
Aqui o autor passa a idéia de que o único problema do trabalho está
na sua quantidade, mas não é o caso. Já vimos acima que ele elenca outros
elementos que tornam o trabalho heterônomo. Além disso, uma outra contradição14
apresentada nesta idéia é a de que reduzindo o trabalho a um mínimo ele se torna
prazeroso e fonte de realização. Como vimos também acima, isto não procede, visto
que o trabalho social, mesmo reduzido, continua sendo fonte de alienação, segundo
o autor, pois estaria impregnado da “racionalidade” capitalista.
Uma vez explanado o projeto de sociedade dualista do autor,
poderemos ver como ele guarda uma insólita semelhança com a teoria de Jürgen
Habermas a respeito de sua famosa dicotomia entre sistema e mundo da vida.
Quem aponta esta semelhança novamente é Josué Pereira da Silva.
Dentre os diversos esforços teóricos que se situam nessa perspectiva, os
trabalhos de Jurgen Habermas e de André Gorz chamam atenção tanto
pela maneira sistemática de suas críticas ao chamado paradigma da
produção quanto pela ambição dos seus projetos de pensar a sociedade
(como um todo) a partir de um modelo dual, formado por duas esferas
diferenciadas e autônomas: sistema e mundo da vida (Habermas) e
heteronomia e autonomia (Gorz) (SILVA, 1995, p. 133).
Habermas faz, também de modo similar a André Gorz, uma separação
entre estas duas esferas que o ajuda a distinguir o que parece ser duas formas
condicionadoras do agir humano. “Fundamental para essa empresa passa a ser a

14
As contradições apresentadas por André Gorz serão discutidas na conclusão desse nosso trabalho.
29

distinção entre ‘mundo da vida’ (Lebenswelt) e ‘sistema’ (System) enquanto forças


sociais regidas por princípios reguladores mutuamente excludentes” (SOUZA, 2000,
p. 72).
Ao que nos parece, estes princípios que se excluem mutuamente nada
mais são do que uma motivação para as ações humanas semelhantes ao que Weber
fala. O princípio que regularia o Sistema seria a racionalidade objetiva entre meios e
fins, daí estarem ligadas à esfera econômica ou técnica (como queiram). Já o
princípio regulador do mundo da vida seria a “racionalidade” baseada em valores
ou mesmo na tradição. Podemos mesmo indagar se nas formulações destes autores
não haveria polarizações tais como moderno/arcaico ou racional/tradicional
escamoteadas por esta distinção entre regras técnicas e agir comunicativo. Neste
caso, o dualismo criado por Habermas opera uma
[...] distinção entre questões prático-morais e técnicas. Essa dualidade é
percebida por Habermas por meio dos conceitos de trabalho e interação,
referindo-se o primeiro tanto à ação instrumental como à escolha racional,
enquanto o segundo diz respeito a normas aceitas intersubjetivamente
mediadas simbolicamente (SOUZA, 2000, p. 69).
Em que pese as diferenças e especificidades das formulações feitas
em cada teorização — tanto de Habermas quanto de Gorz — podemos dizer que
ambas fundam um projeto de emancipação desligado do processo de produção
humano, embora Gorz ainda afirme a positividade da produção autônoma, seja no
fundo de quintal seja nas oficinas de bairro. No que diz respeito a estas diferenças,
Josué nos dá novamente o gancho para retornarmos ao problema crucial de André
Gorz. Vejamos a diferença:
Ao contrário de Habermas, que elabora seu modelo de sociedade dual por
via quase que estritamente teórica, Gorz desenvolve suas idéias sobre um
modelo de sociedade dual a partir de uma reavaliação das condições
empíricas e dos pressupostos teóricos sobre os quais se baseava o projeto
político do proletariado (SILVA, 1995, p. 143).
Pois é justamente sobre estas condições empíricas e teóricas que nos
apegaremos para fazer a crítica a André Gorz no final deste trabalho. Todavia, para
finalizarmos, vejamos novamente as duas principais questões empíricas ligadas ao
projeto dualista de Gorz e que serão retomadas ao longo deste nosso trabalho. Estas
questões, segundo o que se pode acompanhar da própria finalização do texto de
Josué, podem ser vistas como a permanência do problema da alienação no
processo de trabalho15. “O reconhecimento de que a divisão do trabalho não pode
ser eliminada significa admitir implicitamente que a alienação não pode ser também
eliminada, já que a última resulta da primeira” (SILVA, 1995, p. 145). A outra
15
Lembramos que esta permanência para Gorz equivale tanto para os países capitalistas como para o
socialismo real.
30

questão empírica vivenciada por Gorz era a destruição pela automação dos postos
de trabalho, sejam eles dotados de um skill operário ou não. Afinal, como coloca
Josué, “Gorz fala da revolução microeletrônica, que não só elimina todo trabalho
que envolve um contato direto com a matéria, mas também a própria classe
operária” (SILVA, 1995, p. 145). E isto, ao que parece, era um grave problema para
a visão de emancipação de André Gorz, visto que sua referência era o trabalho
artesanal. Entremos então na questão teórica, crucial para o entendimento das
críticas formuladas por Gorz à Marx.
Como vimos, a proposta teórica de André Gorz não é a abolição do
trabalho e a realização numa esfera supostamente paradisíaca de tempo ocioso.
Assim já colocava o autor em Adeus ao proletariado.
Abolir o trabalho não significa, por conseguinte, abolir a necessidade do
esforço, o desejo de atividade, o amor à obra, a necessidade de cooperar
com os outros e de se tornar útil à coletividade. [...] A exigência de
“trabalhar menos” não tem por sentido e por finalidade “descansar mais”,
mas “viver mais”, o que quer dizer: poder realizar por si mesmo muitas
coisas que o dinheiro não pode comprar e mesmo uma parte das coisas
que ele atualmente compra (GORZ, 1987, p. 11).
Todavia, se ele não nega a participação do trabalho como uma
atividade realizadora, como podemos ver que ele almeja a abolição do trabalho?
Seria um paradoxo? Na verdade não. Como demonstramos acima, Gorz, ao
proceder sua análise empírica da realidade do século XX irá perceber um completa
degradação do trabalhador nos processos de trabalho nos quais impera a divisão
parcelar do trabalho. Vê um trabalhador degradado e destituído de todo poder que
outrora possuía sobre sua atividade. De outro lado, percebe que a automação
parece um processo sem volta que, ao invés de redimir o trabalhador e restituir a
primazia, o exclui do próprio processo produtivo. De ambos os lado, nosso autor
percebe que não há mais possibilidade de uma realização no processo de trabalho
social, forçando-o a idealizar um projeto em que se possa produzir livremente
(autonomia) quando liberto da esfera produtiva. Eis a síntese de seu projeto dualista
e seus fundamentos empíricos. Contudo, falta ainda um elemento chave: A
fundamentação de tal projeto pela própria teoria de Karl Marx. Isto parece irônico,
visto que ao longo de todo seu livro procedeu por uma negação completa de Marx,
e, por vezes, inclusive declarando que o marxismo havia exaurido sua validade
histórica.
A tentativa por parte deste autor em trazer Marx para fundamentação
deste projeto dualista pode ser visualizada na seguinte passagem, na qual discute
sua visão de emancipação e liberdade fora da esfera social da produção:
31

Esta já era a intuição de Marx ao final do Livro III do Capital, quando


afirmava que a “esfera da liberdade” (ou seja, da autonomia) só começa
para além de uma “esfera da necessidade” (ou seja, da heteronomia) que
se deve reduzir, mas que é impossível suprimir. É reservando-lhe o seu
lugar e não negando a realidade que se poderá reduzir tanto quanto
possível esta esfera e impedir que sua racionalidade domine o conjunto
das atividades individuais: “O reino da liberdade só começa quando não
existe mais obrigação de trabalho imposta pela miséria ou pelas finalidades
exteriores” (GORZ, 1987, p. 115).
É a partir deste vínculo com a passagem desenvolvida no capítulo 48
do livro III de O Capital que Gorz tenta fundamentar teoricamente em Marx seu
projeto dualista de sociedade. Ainda que existam grandes implicações e antinomias
nesta junção da referida passagem de Marx com sua idéia de emancipação, Gorz a
faz aparentemente na contramão — e desconsiderando todos os outros elementos
— da teoria marxiana, principalmente no que diz respeito às transformações no
interior do processo de produção com o desenvolvimento das forças produtivas.
Esta nossa afirmação não parece absurda, bastando para isto verificar o sistemático
ataque contido em Adeus ao proletariado a todas as teses marxianas. Tal fato nos dá
respaldo para dizer que existe uma nítida arbitrariedade por parte de Gorz ao
selecionar o que melhor lhe convém na teoria de Marx. Neste caso, somente lhe
teria apetecido uma frase esparsa de um capítulo do livro III de O capital que versa
sobre algo muito distante do projeto de emancipação contido nas obras de Marx.
Tal passagem diz exatamente aquilo, porém, vejamos se ela expressa antes um
desvio, do que o pensamento central de Marx sobre a emancipação na própria
esfera do trabalho social.

1.2 Desenvolvimento das forças produtivas

Pensamos que esta análise é de vital importância para que se possa


especular sobre o que Marx pretendia dizer quando afirmou n’A Ideologia Alemã a
superação do trabalho. Não obstante, esta análise ser-nos-á útil também para que
possamos clarear a idéia colocada por Marx sobre a origem e destino do controle
capitalista do processo de trabalho, bem como a problemática relação entre o par:
subsunção formal/subsunção real do trabalho ao capital e as idéias de alienação e
não-neutralidade técnica. Toda esta discussão tenderá a um só movimento preparar
o caminho para que possamos fazer a crítica a Gorz tanto da sua visão da teoria de
Marx sobre emancipação quanto de sua visão sobre a insuperável alienação no
processo de trabalho.
32

Partamos de uma primeira questão: Como se origina o processo de


produção capitalista propriamente dito? Tomemos então de início o ponto de vista
discutido por Marx nos capítulos XI, XII e XIII de O Capital:
A atuação simultânea de grande número de trabalhadores, no mesmo
local, ou, se se quiser, no mesmo campo de atividade, para produzir a
mesma espécie de mercadoria sob o comando do mesmo capitalista
constitui, histórica e logicamente, o ponto de partida da produção
capitalista. Nos seus começos, a manufatura quase não se distingue, do
ponto de vista do modo de produção, do artesanato das corporações, a
não ser através do número maior de trabalhadores simultaneamente
ocupados pelo mesmo capital. Amplia-se apenas a oficina do mestre
artesão (MARX, 2003, p. 375).
Marx expressa com isto que a diferença entre a produção artesanal no
feudalismo e a produção propriamente capitalista é meramente uma diferença
quantitativa. “Amplia-se apenas a oficina do mestre artesão”. A manufatura,
processo de produção que marca o início do capitalismo, nos seus começos “quase
não se distingue [...] do artesanato”. Não obstante, se não há praticamente uma
distinção qualitativa no que diz respeito à forma técnica da produção capitalista, há
uma evidente distinção no que diz respeito à forma social. Esta distinção consiste
em que produtores e meios de produção estão agora dissociados. Aparece
socialmente a figura do patrão (capitalista e senhor dos meios de produção) e do
produtor (proletário e senhor exclusivamente de sua força de trabalho). Esta
característica diferia do artesanato de antes. Lembremos, afinal, que o mestre
artesão — o próprio trabalhador — detinha os meios de produção, como podemos
ver neste historiador da transição econômica do feudalismo.
O mestre artesão é, pois, em toda a força do termo, um empresário
independente. O seu capital não compreende mais do que a sua casa,
assim como a ferramenta indispensável à profissão. O seu pessoal, limitado
por regulamentos, consta, geralmente de um ou dois aprendizes e outros
tantos companheiros (PIRENNE, 1968, p. 193).
Chamemos atenção para o fato de que, ainda que Henri Pirenne use o
termo capital, não podemos entendê-lo como o capital propriamente dito, ou seja,
um valor que entraria na produção com a finalidade de se valorizar. Além do mais,
este mesmo autor tem consciência de que este processo de valorização está, por
princípio da organização tradicional, inviabilizado. Afinal, “a referida organização
proporciona-lhes uma posição certa, impede que progridam; em suma, poder-se-ia
classificá-la com o termo ‘acapitalista’” (PIRENNE, 1968, p. 193). Entendamos o que
este autor chama de caráter “acapitalista” para podermos entender melhor a
diferença entre a organização artesanal e a organização capitalista da produção.
Em primeiro lugar devemos ter em conta que as forças produtivas
representadas seja pelos servos, seja pelos artesãos urbanos da Idade Média,
33

constituíam forças dispersas e isoladas, que por sua natureza eram de baixíssima
eficiência produtiva. Mais adiante veremos que o mérito do capital foi justamente
reorganizar de modo coletivo estas forças dispersas na estrutura feudal. Em segundo
lugar, devemos entender que esta organização herdava todo o tradicionalismo e
falta de liberdade típicos do feudalismo.
Segundo Pirenne (1968), esta organização teria se formado a partir da
dispersão de grande contingente de pessoas dos campos em busca de melhores
condições de vida. Estas pessoas iam procurar a sorte em outras cercanias e,
conseqüentemente, em outras atividades (quando não viviam de esmolas da Igreja
da época). Muitas delas teriam encontrado um refúgio no comércio ou escambo
que, longe de ser seguro e estável, rendia-lhes um certo sustento. Outrora viajantes
solitários, por força da insegurança causada pelos saqueadores, começaram a viajar
em grandes contingentes, de modo que prestavam auxílio mútuo de proteção.
Estas caravanas faziam das cidades muradas — tratava-se dos burgos16 — seu porto
seguro. No entanto, ao longo deste desenvolvimento, as corporações que cuidavam
da produção separaram-se entre suas respectivas profissões e também entre as que
cuidavam da comercialização. Estas corporações de ofício eram regidas por leis que
controlavam a produção, seja sua quantidade, seja sua qualidade; regiam os preços
de venda e o aprendizado dos iniciantes, etc. Por tudo isso, tornou-se um obstáculo
do ponto de vista dos objetivos e necessidades do capital que é, por essência,
17
revolucionário .
O privilégio e o monopólio da corporação têm como compensação o
aniquilamento de toda iniciativa. Ninguém pode permitir-se prejudicar os
outros por processos que o capacitariam a produzir mais depressa e mais
barato. O progresso técnico é considerado como uma deslealdade. O ideal
baseia-se na estabilidade das condições dentro da estabilidade da indústria
(PIRENNE, 1968, p. 192).
Como acabamos de ver, faltavam os principais elementos para a
reprodução do capital: a possibilidade de exploração sistematizada e de revolução

16
Henri Pirenne nos fala em seu livro que os castelos ou burgos murados tornaram-se pontos de
convergência destes mercadores errantes, a tal ponto que, ao saturar o limite físico destes locais,
tiveram que montar estadias e acampamentos nos arrabaldes do burgo. Logo, com a grande
influência e peso financeiro destas atividades para com as cidades, os muros vieram abaixo e um
processo de regulamentação de várias atividades e profissões se fez necessário. Estas
regulamentações municipais visavam o exclusivismo e monopólio da comercialização, evitando que
estrangeiros viessem lucrar com seus produtos de outras localidades. Mas se por um lado se
protegeram do comércio externo, ficaram enleados no tradicionalismo e em formas econômicas anti-
racionais.
17
Este caráter revolucionário do capital fora muitas vezes apontado por Marx. A necessidade do
revolucionamento constantes das condições de produção e seus meios é justamente o grande mérito
trazido pelo capitalismo segundo a perspectiva marxiana. Esta característica entrará em nossa análise
quando da avaliação da grande indústria neste mesmo capítulo e o caráter autocontraditório do
capitalismo.
34

constante das técnicas de produção. Elementos que como veremos estão


intrinsecamente ligados.
Aos poucos, esta base técnica foi tomando proporções e importância
consideráveis. O renascimento do comércio somava-se agora às descobertas de
novos mercados pelas navegações intercontinentais e os descobrimentos. O
comércio e a rapinagem promoviam a acumulação de grande soma de dinheiro que
passaria a constituir o pressuposto do capitalismo para a formação da burguesia18.
Segundo Marx, a manufatura — primeiro processo de produção propriamente
capitalista — não nasceria, como muitos pensam, das contradições internas da
oficina artesanal. Foi um passo dado pelo capital comercial em direção ao processo
produtivo para impor-lhe suas necessidades de valorização.
Não foi sequer no seio das velhas corporações que nasceu a manufatura.
Foi o negociante que se tornou chefe da oficina moderna, e não o antigo
mestre das corporações. Em quase toda a parte se travou luta acesa entre a
manufatura e os ofícios (MARX, 2001, p. 121).
Por isso, se há um movimento que ilustre o nascimento de um
verdadeiro modo de produção capitalista, este movimento é o do controle do
processo de trabalho por parte do capital (processo de subsunção). Este controle,
como já fora falado, em sua origem caracteriza-se pela utilização dos trabalhos
esparsos dos antigos ofícios agora reunidos no seio da indústria manufatureira, ou
manufatura, que se encontra sob o jugo do capital.
Quando o camponês, que outrora era independente [...]; quando a
estruturação hierárquica característica do modo de produção corporativo se
eclipsa perante a simples antítese de um capitalista que obriga os artesãos
convertidos em assalariados a trabalhar para ele [...] temos que processos
de produção socialmente determinados de outro modo se transformaram
no processo de produção do capital (MARX, s. d., p. 88).
O que o capital consegue promover é a inserção da cooperação de
vários trabalhadores, outrora dispersos, no processo produtivo. Cooperação esta,
agora monopolizada e sob a direção da figura do capitalista. Contudo, esta
cooperação na sua forma simples não foi uma invenção burguesa, pois existiu ao
longo da história aparecendo em várias civilizações. Como Marx nos diz no capítulo
XI de O Capital, “a poderosa força da cooperação simples se revela nas obras
gigantescas realizadas pelos antigos povos asiáticos, pelos egípcios, pelos etruscos
etc.” (MARX, 2003, p. 386). Neste caso, não se tratou de uma invenção do capital e
a base artesanal continuou a mesma, porém com a diferença de que trabalhavam

18
Deve-se lembrar também que, de outro lado, o desterro de grande contingente de pessoas saindo
do campo em direção às cidades e o próprio crescimento populacional destas criaram os
pressupostos para a formação de uma classe despossuída de qualquer coisa que não sua força de
trabalho: o proletariado. No que tange a reprodução desta situação, esta se dá devido ao monopólio
dos meios de produção pela burguesia. Este movimento está sintetizado em (MARX, 2001, p. 121).
35

conjuntamente. E, por este simples fato, ocorria um aumento da produtividade, uma


vez que o fator do trabalho coletivo gera uma série de elementos que culminam
numa maior produtividade. Dentre estes elementos temos a emulação. “Mesmo não
se alterando o método de trabalho, o emprego simultâneo de grande número de
trabalhadores opera uma revolução nas condições materiais do processo de
trabalho” (MARX, 2003, p. 377). Esta revolução diz respeito ao uso comum dos
meios de produção que o trabalho coletivo engendra. Desta forma, isto incidiria no
valor das mercadorias e, conseqüentemente, no valor da força de trabalho. Não
obstante, a coletividade cria também o que Marx chamara de simultaneidade, ou
seja, enquanto um trabalhador sozinho tem uma capacidade e ação limitada perante
seu objeto de trabalho, o trabalhador coletivo pode atacá-lo por todos os lados. “É
que o trabalhador coletivo tem olhos e mãos em todas as direções e possui, dentro
de certo limite, o dom da ubiqüidade. Concluem-se ao mesmo tempo diversas
partes do produto que estão separadas no espaço” (MARX, 2003, p. 380).
Neste momento ainda estamos no nascedouro do capitalismo, na
manufatura, marcada em seu início exclusivamente pela cooperação simples. Mas já
aqui se apresenta nesta forma o domínio do capital sobre o processo de trabalho.
Domínio este que determinará a exploração da força de trabalho e o
desenvolvimento das forças produtivas de um modo nunca dantes visto.
Ao falarmos sobre as forças produtivas desenvolvidas no capitalismo
devemos ter em conta que o processo de produção no qual estas se inserem é
também um processo de trabalho — uma vez que a atividade humana é o
componente principal desta produção — e, principalmente, um processo de
valorização. Estes três elementos se imiscuem num só movimento no mesmo tempo
e espaço do capital: a produção.
O processo de produção é a unidade imediata do processo de trabalho e
do processo de valorização, assim como o seu resultado, o resultado
imediato, a mercadoria, é unidade imediata do valor de uso e do valor de
troca. Mas o processo de trabalho não é mais do que um meio do
processo de valorização, processo que, por sua vez, enquanto tal, é
essencialmente produção de mais-valia, isto é, processo de objetivação de
trabalho não pago (MARX, s. d., p. 57, itálico do autor).
Assim, se o principal móvel do capital é a necessidade imperiosa de
se valorizar e se reproduzir, tenhamos em conta que os objetivos do capital serão
os hegemônicos nesta esfera e que todos os elementos neste locus a ele estão
subordinados. Já é conhecida a idéia de que neste processo a importância do valor
de uso cede lugar para o valor de troca e que, portanto, a importância para o
36

capitalista torna-se a quantidade de valor extraído do trabalhador no processo de


produção — a quantidade de mais-valia.
[...] a finalidade da produção capitalista não é a produção de valores de
uso, mas sim de valores de troca ou, mais exatamente, de mais valia. O
mais trabalho “deve ser, desde o início, suficientemente grande, para que
uma parte dele possa ser novamente usado como capital” (ROSDOLSKY,
2001, p. 202).
A quantidade de mais-valia, seja em sua forma absoluta ou relativa,
dependerá do maior ou menor volume de mais-trabalho expropriado do
trabalhador. Por sua vez, isto depende da duração da jornada de trabalho, da
intensidade do trabalho e do tempo de produção das mercadorias (o qual incidirá
no valor da força de trabalho19). Daí decorre a importância do controle do processo
de trabalho por parte do capitalista, pois só assim ele poderá determinar seu ritmo e
necessidade, em detrimento dos ritmos e necessidades humanas dos trabalhadores.
Já no caso da intensidade do trabalho e da produtividade, aparecerá também a
importância do desenvolvimento da base técnica, seja na organização do trabalho,
seja nos próprios instrumentos de trabalho.
Embora o capitalista desconhecesse cientificamente todo este
processo — primeiramente desvendado por Marx — ele o conhecia na sua
experiência fenomênica da produção e comercialização. Ou seja, na mera
aparência para ele da relação entre tempo de trabalho e produtividade; entre
produtividade e lucratividade; e mesmo entre uso racional dos meios de produção e
preço médio de mercado. É desse modo que podemos entender os imperativos de
controle da produção capitalista exposto por Marx:
[...] a conservação do valor do capital constante depende além disso de
que, tanto quanto possível, tal valor seja consumido produtivamente, não
seja desperdiçado, pois, caso contrário, o produto conteria uma parte de
trabalho objetivado maior do que a socialmente necessária.
Tal depende, em parte, dos próprios operários e é aqui que começa a
vigilância do capitalista (MARX, s.d., p. 51, itálico do autor).
É esta necessidade advinda da lei de valorização que traz o imperativo
do controle do processo produtivo, coisa que Gorz parece não entender, como
veremos. Historicamente é este controle capitalista do processo que Marx chamaria
de subsunção formal do trabalho ao capital. Podemos dizer que esta subordinação
é formal porque ainda não está materializada nos elementos do processo de
produção. Marx dirá que se pode chamá-la assim justamente porque “só diferencia
formalmente dos modos de produção anteriores sobre cuja base surge (ou é

19
Lembremos o que Marx diz sobre esta relação em O Capital: “O valor da força de trabalho
compreende o valor das mercadorias necessárias para reproduzir o trabalhador, ou seja, para
perpetuar a classe trabalhadora” (MARX, 2003, p. 307).
37

introduzida) diretamente” (MARX, s. d., p. 94, itálico do autor). Até esta etapa, a
forma por excelência da mais-valia é a absoluta, conseguida apenas com a
ampliação da jornada de trabalho.
Vejamos então como Marx teria resumido todo este movimento
operado pela manufatura capitalista em seu início, no qual operava-se com a
cooperação simples , sob a forma da subsunção formal:
No modo de produção propriamente dito não se verifica qualquer
diferença nesta etapa. O processo de trabalho, do ponto de vista
tecnológico, efetua-se exatamente como antes, só que agora como
processo de trabalho subordinado ao capital. Não obstante, no próprio
processo de trabalho, tal como se expôs, desenvolvem-se: 1) uma relação
econômica de hegemonia e subordinação, pois que é o capitalista quem
consome a capacidade de trabalho e, portanto, a vigia e dirige; 2) uma
grande continuidade e intensidade do trabalho e uma maior economia no
emprego das condições de trabalho, pois se mobilizam todos os meios
para que o produto só represente o tempo de trabalho socialmente
necessário (MARX, s. d., p. 94-5, itálico do autor).
Como vemos, o capital pode agora dispor da força produtiva social
recriada por ele quando reuniu os trabalhadores sob o mesmo “teto”. No entanto, o
fato de tê-los reunidos e subordinados formalmente não quer dizer que o capital
conseguiu dominá-los totalmente a ponto de imbuí-los da necessidade de
valorização. Esta sim será a precípua luta historicamente empreendida pelo modo
de produção capitalista. A ela corresponde o revolucionamento das forças
produtivas promovido pelo capitalismo. A busca de novas técnicas que pudessem
proporcionar ao capital o total domínio do processo de trabalho e superar aquilo
que Marx chamaria de barreira orgânica do capital; uma busca que visava
concretizar a junção entre as necessidades de valorização do capital com a sua
concretização a partir da absorção interior destas necessidades por parte dos
trabalhadores. Dito mais claramente, fazer com que os trabalhadores aceitassem os
ritmos da valorização do capital, da expansão de novos mercados e da concorrência
intercapitalista, despojando-se de toda humanidade e vontade própria. Enfim, — e o
que é importante para nossa central discussão com Gorz — que os trabalhadores
abandonassem sua autonomia no processo de trabalho típica do artesanato e
20
aceitassem a determinação do capital .
É obvio que isto jamais poderia ser concretizado pela força do
argumento e sim pelo argumento da força. Podemos visualizar isto com os

20
Esta suposta aceitação e interiorização das necessidades do capital por parte dos trabalhadores será
na história do capital algo extremamente precário e instável. Esta instabilidade se deve
principalmente porque esta aceitação dependerá de variáveis históricas e sociais. Daí a importância
de um exército industrial de reserva que pressione o trabalhador a aceitar os imperativos do capital,
tal como Marx o demonstrou. Outra variável importante seria o condicionamento cultural e
axiológico exercido sobre a classe operária, dentre outros exemplos.
38

exemplos de vigilância que aparecem no processo de produção capitalista, no qual


passa sua função de vigilância a cargos especializados a esta finalidade.
Com o desenvolvimento, o capitalista se desfaz da função de supervisão
direta e contínua dos trabalhadores isolados e dos grupos de
trabalhadores, entregando-a a um tipo especial de assalariados. Do mesmo
modo que um exército, a massa de trabalhadores que trabalha em
conjunto sob o comando do mesmo capital precisa de oficiais superiores
(dirigentes, gerentes) e suboficiais (contramestres, inspetores, capatazes,
feitores), que, durante o processo de trabalho, comandam em nome do
capital. O trabalhado de supervisão torna-se sua função exclusiva (MARX,
2003, p. 385).
Esta criação de uma hierarquia assalariada somar-se-ia à coerção
econômica que se expressa pela reprodução das condições proletárias que se opera
com o próprio assalariamento. Não obstante, isto não seria suficiente para um
pronto abandono, por parte do trabalhador, de sua subjetividade no trabalho e o
capital teria se deparado com a necessidade de aprimorar suas técnicas de
produção. E é desse modo que a manufatura capitalista desenvolve uma forma de
cooperação (a divisão parcelar do trabalho) mais avançada que a cooperação
simples, que ainda subsiste ao lado daquela e de outras formas, como a maquinaria,
por exemplo. É o que podemos notar da seguinte passagem de Marx:
A cooperação simples continua sendo sempre a forma predominante nos
ramos de produção em que o capital opera em grande escala, sem que a
divisão do trabalho ou a maquinaria desempenhem papel importante.
A cooperação é a forma fundamental do modo de produção capitalista. Na
sua feição simples, constitui o germe de espécies mais desenvolvidas de
cooperação, e continua a existir ao lado delas (MARX, 2003, p. 388).
A divisão parcelar do trabalho consiste simplesmente na
decomposição de um ofício nas suas diversas tarefas particulares, sendo que cada
tarefa será agora executada exclusivamente por um trabalhador. O conhecimento e
a capacidade de fazer um produto do começo ao fim se perde para este trabalhador
agora especializado em uma única tarefa repetitiva e simplificada na maioria das
21
vezes . Agora a produção poderia funcionar como um todo orgânico no qual o
término de uma tarefa engendra o início de outra. Desse modo, o capital realiza
neste duplo movimento um ataque a todo o saber operário típico de seu passado
artesão, ainda que o elemento principal desse processo continue sendo o subjetivo,
pois o homem é o produtor direto. Pelo fato de dividir a produção de um produto
nas suas várias tarefas que um valor de uso comporta, o capital quebra, com isso, a

21
Devemos nos lembrar do clássico exemplo da manufatura de alfinetes descrita por Adam Smith em
seu livro A Riqueza das Nações na qual “um operário desenrola o arame, um outro o endireita, um
terceiro o corta, um quarto faz as pontas, um quinto o afia nas pontas para a colocação da cabeça do
alfinete; para fazer uma cabeça de alfinete requerem-se 3 ou 4 operações diferentes; montar a cabeça
já é uma atividade diferente, e alvejar os alfinetes é outra; a própria embalagem dos alfinetes
também constitui uma atividade independente. Assim, a importante atividade de fabricar um alfinete
está dividida em aproximadamente 18 operações distintas” (SMITH, 1985, p. 42).
39

habilidade que um trabalhador tem de realizar um produto do começo ao fim. De


uma operação altamente complexa e qualificada, o capital gerou uma porção de
pequenas atividades desprovidas de um alto grau de dificuldade22. Com isso,
consegue ter um maior domínio sobre a produção pelo fato de que uma tarefa
simples comporta um grau elevado de intercambiabilidade. Dito de outro modo,
seria mais fácil para o capital empregar e substituir um trabalhador que realiza uma
tarefa desqualificada, usando o amplo mercado de trabalho desqualificado
disponível para pressionar o trabalhador e forçar sua necessidade.

Mas um outro fato soma-se a isto para induzir o trabalhador a


produzir mais. Pela disposição que já falamos, a manufatura com o princípio da
divisão do trabalho pode agora simular um ritmo autônomo coletivo por tratar-se de
uma somatória de diversos ritmos individuais. A divisão do trabalho criaria um
mecanismo coletivo que forma um princípio de continuidade na produção, no qual
a operação que antecede e que procede ao trabalho de um trabalhador dita o ritmo
de sua produção pela mútua dependência. E, apesar de ser evidente que o ritmo
depende fundamentalmente das vontades individuais, ele é percebido
empiricamente como um ritmo externo inerente ao trabalho coletivo agora sob a
posse do capital.
Cabe dizer que Marx distingue duas origens da manufatura: a simples
e a composta (complexa). No primeiro caso consiste desta fragmentação de várias
operações particulares de um produto outrora executado por um só artífice. Caso
da manufatura de alfinetes que fora desmembrado nas suas várias operações. No
segundo, temos a reunião num mesmo local para a produção de um objeto outrora
executada por vários artífices distintos e separados. O exemplo que Marx nos
oferece seria o da produção de carruagens, que antes era produzida separadamente
pelos diversos artífices: o costureiro, o serralheiro, o correeiro, o pintor, etc. Ou

22
É necessário dizer que mesmo com este parcelamento uma porcentagem mínima de tarefas ainda
requer uma certa qualificação, embora sempre menor que a qualificação do antigo artífice que
executava a produção integral do produto. Todavia, por este fato, o capital agora poderia aplicar um
princípio que ficou conhecido como princípio de Babbage. Princípio pelo qual o capital poderia, a
partir da divisão de várias etapas, comprar a quantidade de trabalho exata para cada etapa. Desse
modo, também deixaria de pagar o valor de uma força de trabalho qualificada para realizar
operações desqualificadas, cujo valor tende a ser menor. Explicando didaticamente, um capitalista,
dono de uma manufatura de alfinetes, deixaria de pagar aos seus empregados salários referentes a
um mestre artesão para pagar um baixo salário condizente com um “desenrolador” de arame, um
cortador de arame, um afiador de arame, etc. Como podemos ver numa nota de Moraes Neto, o
próprio Babbage dirá que este princípio consiste de que “[...] o patrão manufatureiro, através da
divisão do trabalho a ser executado em diferentes processos, cada um deles requerendo graus
diferentes de habilidade [skill] ou de força, pode comprar exatamente a quantidade precisa de ambos
que é necessária para cada processo (BABBAGE apud MORAES NETO, 2003, p. 45-6).
40

seja, no primeiro caso a decomposição; no segundo a combinação; em ambos os


casos o homem continua sendo o elemento central.
A manufatura, portanto, se origina e se forma, a partir do artesanato, de
duas maneiras. De um lado, surge da combinação de ofícios
independentes diversos que perdem sua independência e se tornam tão
especializados que passam a constituir apenas operações parciais do
processo de produção de uma única mercadoria. De outro, tem sua origem
na cooperação de artífices de determinado ofício, decompondo o ofício
em suas diferentes operações particulares, isolando-as e individualizando-
as para tornar cada uma delas função exclusiva de um trabalhador
especial. A manufatura, portanto, ora introduz a divisão do trabalho num
processo de produção ou a aperfeiçoa, ora combina ofícios anteriormente
distintos. Qualquer que seja, entretanto, seu ponto de partida, seu
resultado final é o mesmo: um mecanismo de produção cujos órgãos são
seres humanos (MARX, 2003, p. 393).
Continuando o homem o principal elemento do processo produtivo,
ou seja, coincidindo ainda processo de produção e processo de trabalho, significava
que o domínio do capital sobre tal processo continuava prejudicado e dependente
do elemento subjetivo. Sua sujeição perante o trabalho vivo inviabiliza a
consecução ideal dos objetivos de valorização do capital. Vejamos mais de perto
este problema.
Na produção baseada na habilidade humana os tempos e movimentos
do trabalho estão sujeito a variações imprevisíveis. Já vimos como a tradição que
regulamentava o artesanato pouco exigia neste sentido. Ao contrário, a regulação
das corporações chegava a punir aqueles que ultrapassassem o limite de produção
ou ferissem a qualidade estipulada do produto. Ora, isto é totalmente incompatível
com a produção em massa exigida pelo capitalismo. Dizemos “em massa” porque,
ao contrário do que alguns possam pensar, a produção em massa de forma alguma
é uma exclusividade e invenção do que se chamou de padrão de acumulação
fordista. Ela é a própria marca distintiva do capital. Vejamos Rosdolsky a respeito
deste caráter capitalista logo em seu início com a manufatura:
Ela [manufatura] modifica a divisão do trabalho fabril: o que importa não é
principalmente a qualidade do produto, como ocorria no artesanato, mas
sim a produção em série, por “tratar-se de valor de troca e mais-valia”.
Por isso, a manufatura — primeira forma histórica da produção capitalista
— aparece primeiro ali “onde se produz em massa para a exportação, para
o mercado externo” [...] (ROSDOLSKY, 2001, p. 203).
Digressões à parte, a questão é que a dependência da habilidade
humana na produção não é de forma alguma adequada aos imperativos da
produção capitalista. Como diria Andrew Ure:

É tão grande a fraqueza da natureza humana que quanto mais hábil é o


operário mais voluntarioso e intratável se torna, e, por conseguinte, menos
indicado para um sistema de mecânica a cujo conjunto podem causar dano
considerável os seus súbitos caprichos (URE apud MARX, 2001, p. 125).
41

Sendo assim, a única alternativa do capital seria superar esta barreira,


ainda que custasse o risco de sua própria estabilidade. Pois foi justamente o passo
historicamente dado pelo capital e o passo que o conduzia para o inexorável
23
caminho da sua auto-contraditoriedade . Deste passo histórico nasce então a
maquinaria, cujo princípio deve créditos não só ao avanço do conhecimento
humano, mas também ao caminho preparado pela decomposição e simplificação
das tarefas mecânicas pela divisão parcelar do trabalho. Para sermos rigorosos com
os termos, deve créditos, portanto, para a divisão do trabalho no interior da
sociedade bem como para a divisão do trabalho no interior da fábrica.
Os princípios da cooperação baseada na maquinaria marcariam o
início da grande indústria. Esta, como veremos, é totalmente adversa à idéia de
permanência do homem como principal elemento produtivo e à idéia de uma
produção que dependesse dos tempos e movimentos do trabalho vivo. A tradicional
dependência frente ao trabalhador que víamos na manufatura é agora superada.
Tenhamos em conta que, na manufatura,
[...] as leis que a regem não são de modo algum idênticas “às da grande
indústria”. Apesar de todo o desenvolvimento da divisão do trabalho, seu
fundamento permanece sendo a habilidade artesanal, e seu “mecanismo
específico [...] [é] o trabalhador coletivo formado pela combinação de muitos
trabalhadores parciais” (ROSDOLSKY, 2001, p. 204, itálico do autor).
Com relação aos limites do capital frente à barreira humana no
processo de trabalho, Rosdolsky também é claro:
Só a indústria moderna, baseada na maquinaria, pode superar essa
barreira. Ao contrário da manufatura, na grande indústria a contínua
revolução do modo de produzir não se baseia na força de trabalho, mas
sim nos meios de trabalho (ROSDOLSKY, 2001, p. 204).
Portanto, desde já devemos chamar a atenção para um fato: a
maquinaria é uma arma utilizada pelo capital contra a hegemonia e o poder do
trabalhador — principalmente aquele dotado ainda de uma operação que exigisse
grande virtuosismo e qualificação — no processo de produção. Pensamos, por isso,
que não faz sentido uma falsa polêmica sobre a impossibilidade da superação da
alienação pelo caráter nocivo da máquina ao discuti-la isoladamente. Quando
muitos críticos da técnica vêm alardear uma peremptória descoberta, acusando a
perversidade da máquina contra a classe trabalhadora, não se dão conta de que
estão fazendo uma tautologia simplista de Marx e, por isso mesmo, desnecessária.
Afinal, vejamos o que este nos fala sobre o emprego da maquinaria no processo de
produção capitalista:

23
Esta contradição do capital será vista mais detalhadamente no próximo item que fala da questão da
superação do trabalho alienado.
42

[...] a partir de 1825, quase todas as novas invenções resultaram de


choques entre o operário e o industrial, que procurava a todo o custo
depreciar a especialidade do operário. Depois de cada nova greve, por
pouco importante que fosse, surgia uma nova máquina. O operário estava
tão longe de considerar a aplicação das máquinas como uma espécie de
reabilitação, de restauração, como diz o sr. Proudhon, que no século XVIII
por muito tempo resistiu ao nascente império do autômato (MARX, 2001,
p. 123, itálico do autor).
Nesta citação de Miséria da filosofia fica claro que o uso da máquina
pelo capitalista veio justamente para romper e depreciar o saber operário. Mas ao
mesmo tempo foi uma ofensiva do capital contra a organização e reação da
nascente classe proletária. Sobre o ataque ao savoir-faire dos proletários ainda
qualificados, vejamos a citação de Ure utilizada por Marx em O capital:
“Sempre que uma operação exija muita habilidade e mão segura, é ela
retirada, com a maior brevidade possível, do trabalhador destro,
freqüentemente propenso a irregularidades de toda a espécie, e confiada a
um mecanismo tão bem regulado que uma criança pode tomar conta dele”
(URE apud MARX, 2003, p. 493).
Sendo assim, não há dúvidas. A maquinaria é constantemente
utilizada como uma arma no processo de trabalho para vencer a barreira orgânica
encontrada pelo capital. Todavia, não devemos cair na imperceptível, mas
desastrosa, armadilha de ver este movimento do capital como uma estratégia
simplista de luta de classes. Não que esta luta não ocorra no interior do processo de
trabalho, pelo contrário. Todavia, a luta travada pelo domínio do chão-de-fábrica
não é um capricho da burguesia, como já falamos. Este movimento é engendrado
pelo capital movido pelo imperativo econômico da sua valorização. Por este fato,
não é uma coisa da qual a burguesia possa prescindir sem maiores conseqüências.
Em outras palavras, a luta da burguesia pela hegemonia no interior do processo de
trabalho é uma face do fenômeno. A outra face é a busca da extração de mais-
trabalho do trabalhador para aumentar neste processo de valorização seu
percentual de lucro e vencer a concorrência. Portanto, é uma decisão capital; uma
“questão de vida ou morte”. A partir deste momento, não é permitido ao capital
individual do setor que inseriu a máquina no seu processo produtivo deixar de
adotar a maquinaria como fundamento de sua produção. E, uma vez adotando-a,
ainda que prevendo entraves para sua reprodução futura24, não é permitido ao
capital retroceder e abandonar seu uso, sob pena de perecer na concorrência, seja
local ou mundial.

24
Queremos dizer com isto que, ainda que o capital consiga antever o problema criado para a
realização da mais-valia na esfera da circulação ocasionado pela exclusão de força de trabalho, o
capital individual não pode ir contra uma tendência do seu setor.
43

Dito isto, continuemos nossa análise agora sobre os efeitos da


substituição do trabalhador pela máquina. Antes de qualquer coisa, a máquina é,
em termos conceituais de Marx, um mecanismo que engloba a união do
instrumento de trabalho, mecanismo de transmissão e uma força motriz. Estes três
elementos, agora reunidos num mesmo mecanismo, realizam um trabalho outrora
realizado pelo trabalhador na produção. Nos períodos anteriores à maquinaria, o
homem reunia em si a força motriz (sua força vital de trabalho) e os mecanismos de
transmissão (seus nervos e músculos), os quais transmitiam o movimento e a
destreza aos instrumentos de trabalho (as ferramentas). Já no caso da maquinaria
clássica, o homem não entra senão como mero vigilante dos movimentos agora
autonomizados da máquina. Todo o virtuosismo outrora concentrado no saber-fazer
do trabalhador é capturado e transmitido pelas leis mecânicas intrínsecas à
maquinaria. O capital se emancipou da força de trabalho viva no que diz respeito à
sua habilidade, a qual tornava o trabalhador indômito aos objetivos do capital.
Deste ponto de vista — e isto é necessário frisar — é a maquinaria a forma mais
adequada de capital fixo. Vejamos a explicação deste processo nas palavras de
Marx nos Grundrisse:
En la máquina, y aun más en la maquinaria en cuanto sistema automático,
el medio de trabajo está transformado — conforme a su valor de uso, es
decir a su existencia material — en una existencia adecuada al capital fixe
y al capital en general, y la forma bajo la cual el medio de trabajo, en
cuanto medio inmediato de trabajo, se incluye en el proceso de
producción del capital, es superada bajo una forma puesta por el capital y
a él correspondiente. La máquina en ningún aspecto aparece como medio
de trabajo del obrero individual. Su differentia specifica en modo alguno
es, como en el caso del medio de trabajo, la de trasmitir al objeto la
actividad del obrero, sino que más bien esta actividad se halla puesta de
tal manera que no hace más que trasmitir a la materia prima el trabajo o
acción de la máquina, [a la] que vigila y preserva de averías. No es como
en el caso del instrumento, al que el obrero anima, como a un órgano, con
su propia destreza y actividad, y cuyo manejo depende por tanto de la
virtuosidad de aquél. Sino que la máquina, dueña en lugar del obrero de la
habilidad y la fuerza, es ella misma la virtuosa, posee un alma propia
presente en las leyes mecánicas que operan en ella [...]. La actividad del
obrero, reducida a una mera abstracción de la actividad, está determinada
y regulada en todos los aspectos por el movimiento de la maquinaria, y no
a la inversa (MARX, 1978, p. 218-9).
Quando o capital assim procede, ele torna este fenômeno
abertamente numa tendência a se espalhar não somente pelo setor que o originou,
mas por todos os outros. No entanto, este movimento não pode ser visto de forma
linear. A mecanização de um setor interfere na composição dos outros setores.
Além disto, devemos reconhecer que devido à diferença da natureza de cada
44

processo produtivos, a mecanização não atinge simultaneamente todos os setores, o


que não quer dizer que esta tendência não se realizaria jamais25.
Esta tendência não concorre em benefício do trabalhador, para
amenizar seus sofrimentos como dizem alguns apologetas.
A aplicação capitalista da maquinaria se revela na verdade, como o
contrário exato do que diz a apologia burguesa: em lugar de tornar o
trabalhador mais independente e atenuar sua exploração, serve para
confiscar uma parte crescente de seu tempo de trabalho na forma de mais-
trabalho, de modo a perpetuar e fortalecer o poderio do capital, que lhe é
hostil (ROSDOLSKY, 2001, p. 206).
Uma vez introduzida, a maquinaria suprime o poder do trabalhador;
não o torna menos alienado e cindido de si mesmo. Ao contrário, acentua esta
relação de estranhamento, uma vez que a ciência que se materializa na máquina é
uma força estranha que o subjuga e condiciona. Isto porque a máquina no
capitalismo assumiria, como é comum na dicotomia marxiana, uma forma de
existência que encobre sua essência, sendo que a sua existência não é outra coisa
que não sua forma de utilização.
Se entendermos a alienação como extrusão (exteriorização humana),
então devemos ter em conta que o trabalhador envolvido diretamente com a
máquina sequer tem seus produtos expropriados por uma classe, porque sequer
produz. A objetivação não é mais uma faculdade e conseqüência de seu poder
teleológico e de seus movimentos sobre a matéria. A concepção não está mais na
cabeça deste trabalhador, bem como a consecução do produto não depende mais
de suas potências e habilidades musculares.
La maquinaria — en cuanto capital fixe — lo pone como no autónomo,
como objeto de la apropiación. Este efecto de la maquinaria solo se
produce en la medida en que está determinada como capital fixe, y está
determinada en cuanto tal sólo porque el obrero se relaciona con ella
como asalariado, y el individuo activo en general como mero obrero
(MARX, 1978, p. 225).
Neste momento o capital chegou ao ponto máximo da subsunção real
do trabalho ao capital, uma vez que concretizou neste movimento esta subsunção.
Seu plano inicial se concretizou com sucesso e o trabalho vivo foi finalmente
subjugado a um trabalho morto, que, não obstante, torna-se vivo em comparação
com a modorra do trabalhador. E, para aqueles que vêem a emancipação humana
sendo realizada no próprio modo de produção capitalista, Marx esclarece: “A
mistificação implícita na relação capitalista em geral desenvolve-se agora muito mais
25
Atentemos para este fato, uma vez que é deste descompasso entre os vários setores produtivos que
se apresentará distorções e armadilhas que arrastam muitos teóricos a conclusões equivocadas a
respeito do processo produtivo no século XX. Sobre isto, ver a problemática do taylorismo e do
fordismo em Moraes Neto (1991). E sobre o “tropeço” de Harry Braverman nesta problemática
apresentada por Moraes Neto, ver Sandoval Filho (2002).
45

do que se teria podido e pudera desenvolver no caso da subsunção puramente


formal do trabalho no capital” (MARX, s. d., p. 93).
Todavia, este movimento adequado momentaneamente ao capital,
não se limita. A revolução constante das forças produtivas é uma necessidade
econômica do capital. Marx então esclarece que aquela maquinaria do início do
processo, ilustrada pela máquina parcial ou mesmo pelo sistema de máquina
(combinação de máquinas que realizam tarefas diferentes de um mesmo produto),
tão logo se integre a uma cooperação de máquinas formam o que ele chama de
grande autômato.
Um sistema de máquinas — quer se baseie na cooperação simples de
máquinas-ferramenta da mesma espécie, como na tecelagem, ou na
combinação de máquinas de espécie diferente, como na fiação — constitui
em si mesmo um grande autômato, sempre que é movido por um primeiro
motor que se impulsiona a si mesmo (MARX, 2003, p. 437).
Pois este sistema automático do qual Marx nos fala trata-se de um
sistema integrado de máquinas que ou realiza integralmente um produto (caso da
máquina parcial) ou realiza-o através da combinação de várias máquinas distintas e
integradas, sendo que cada uma delas executa uma parte da produção passando
adiante o objeto de trabalho sem a intervenção humana nesta tarefa de transporte.
Este sistema, como ele nos diz, é passível de contínuo aperfeiçoamento.
Quando a máquina-ferramenta, ao transformar a matéria-prima, executa
sem ajuda humana todos os movimentos necessários, precisando apenas
da vigilância do homem para uma intervenção eventual, temos um sistema
automático, suscetível, entretanto, de contínuos aperfeiçoamentos (MARX,
2003, p. 437).
Mas do que Marx estaria realmente querendo dizer quando falava de
“contínuos aperfeiçoamentos”? Está dizendo que o estágio da maquinaria não se
encontrava acabado. A grande indústria se aperfeiçoa e evolui a todo momento e já
na sua época ele pode visualizar isto. Não se trata de uma antevisão de Marx ao nos
relatar processos altamente cientificizados e automatizados em meados do século
XIX. Nem nos parece se tratar de que nos Grundrisse o que Marx descrevia era uma
26
antevisão de uma “pós-grande indústria” como quer Ruy Fausto (1989) . Vejamos a

26
A idéia apresentada por este texto é a de que as etapas de transformação do processo produtivo
que constam em O Capital de Karl Marx pára no momento da Grande Indústria, enquanto nos
Grundrisse Marx avançaria até uma etapa descrita por Ruy Fausto como Pós-Grande Indústria. A
idéia, nas palavras do próprio autor, é que “Marx adota em O Capital uma postura menos otimista
no que se refere ao destino que teria o processo de trabalho na sociedade comunista. Dentro dela, a
‘necessidade’ se manteria [como vemos no capítulo 48 deste livro]. Os Grundrisse enveredam por um
outro caminho, e poderíamos nos perguntar porque Marx não o seguiu em O Capital” (FAUSTO,
1989, p. 48). Assim, diria este autor, “se a grande indústria aparece como a negação do processo de
trabalho, a pós-grande indústria é a segunda negação do processo de trabalho, e na realidade a
negação da negação” (FAUSTO, 1989, p. 49, itálico do autor).
46

prova em O Capital de que Marx teve um contato empírico com este fenômeno de
revolucionamento constante da própria maquinaria:
[...] a máquina de fiar precisava da ajuda do trabalhador para ser posta em
funcionamento, até que se inventou a máquina automática; [...]. É o que se
dava na construção de máquinas antes de a espera de torno27 se
transformar em elemento automático. [...] São invenções mais recentes o
aparelho que pára a máquina de fiar quando se parte um fio, ou o freio
automático, que pára o tear a vapor aperfeiçoado quando falta o fio da
trama na canela da lançadeira (MARX, 2003, p. 437).
Ora, se isto já se fazia notar em sua época, quanto mais agora,
transcorrido quase um século e meio. Este princípio reforça ainda mais a tendência
que ficou implícita desta nossa descrição. Devemos, pois, explicitá-la. No
movimento capitalista de superar a barreira humana, o capital não somente
apendiciza o homem em uma função estranhada e desqualificada. O capital, ao por
em marcha sua tendência de aumento de sua composição orgânica, ele prescinde,
ou seja, torna supérfluo o trabalho vivo e passa de seu ponto ideal de
reprodução, uma vez que o capital é uma relação social. É devido exclusivamente a
isto que Marx diz que a tendência do capital é diminuir o trabalho a um mínimo, o
que levará a uma superação do capitalismo rumo à emancipação humana. “O
capital de modo não premeditado, reduz a um mínimo o trabalho humano, o gasto
de energia. Isso resultará em benefício do trabalho emancipado e é condição de sua
emancipação” (MARX apud ROSDOLSKY, 2001, p. 539, nota 31).
Com isso chegamos ao fim de nossa descrição sobre o movimento de
desenvolvimento das forças produtivas no capitalismo. No entanto, no que diz
respeito a esta última característica, o fato de que a tendência do capital seja
eliminar trabalho e reduzi-lo a um mínimo não se contrapõe à idéia de André Gorz.
Lembremos que este se baseia justamente na idéia de que ainda que o trabalho da
produção material seja reduzido drasticamente, este trabalho residual será
heterônomo, ou seja, marcado por leis externas que colidem com as leis de livre
expressão e desenvolvimento do indivíduo. Nem tão pouco, até o momento, nos
confere autoridade para refutarmos a idéia de Gorz de que a alienação continuará
existindo neste mínimo. Entretanto, continuemos analisando este movimento
material da sociedade trazendo alguns elementos teóricos do próprio Marx sobre
alguns apontamentos para a emancipação humana.

27
Não fica claro nesta tradução que se trata do torno com descanso deslizante ou torno (slide-rest).
47

1.3 Apontamentos sobre a superação da alienação em Marx: a


negação radical do trabalho alienado

Como acabamos de ver, nossa discussão parou sobre a questão: é


possível ver em Marx um caminho que indique a emancipação e liberdade humana
no próprio processo de trabalho necessário? Afinal, ao que parece, Gorz não se fez
esta pergunta quando selecionou a famosa passagem no capítulo intitulado “A
Fórmula Trinitária” do livro III d’O Capital que fala sobre a impossível atividade
livre na produção material. Ou no caso de ter feito a pergunta, Gorz teria ignorado
a teoria de Marx que, como veremos, indica a possível libertação na esfera
necessária. Embora o caminho para se ver isso possa ser complexo, muitas vezes as
indicações de Marx estão colocadas de forma inequívoca.
Antes de tudo, devemos esclarecer algumas questões que por vezes
são levantadas de forma imprópria quando se fala do tema de libertação. A primeira
questão a discutir é sobre o conceito de liberdade na produção e a segunda é se
seria cabível falar de libertação no interior do modo de produção capitalista.
O conceito de liberdade, pela sua natureza, pode ser vago ou mesmo
extremamente controverso, sobretudo porque guarda uma herança e vinculação
dentro da filosofia com a metafísica. Portanto, não seria profícuo para nosso
objetivo aqui fazer um mergulho nesta discussão — com certeza deveras importante
para quem se interessa pelo tema. Ainda assim, não podemos nos isentar de
debatê-la minimamente. Para tanto devemos nos restringir ao processo de produção
material da sociedade.
Nesta esfera, — devemos dizer de antemão, ainda que de forma
jocosa — não é possível conceber que a liberdade esteja em se fazer o que se quer,
na hora que se quer e da maneira que se quer, tal como nos parece ser a proposta
de autonomia e liberdade para Gorz. Não podemos conceber que uma sociedade se
funde em tal princípio tão adverso à liberdade coletiva. Não se pode conceber que
na produção material (necessária) um indivíduo esteja “livre” para fazer um sapato
numa fábrica de cervejas. Nem tão pouco produzir parafusos desprovidos de rosca,
ou seja, que não tenha a menor utilidade. Isto não é cabível nem para os objetivos
do capital e nem para qualquer sociedade, por mais livre que seja. Vejamos nesta
citação de Gorz o porquê de estarmos fazendo tal conjectura:
O poder do proletariado e a propriedade coletiva proletária só poderão
tornar-se realidade, se os proletários, como indivíduos, grupos, equipes,
comunidades, tiverem o poder de unir-se e decidir em conjunto, lá, onde
48

trabalham e onde vivem, sobre aquilo que querem produzir, como,


quando e onde (GORZ et alli, 1996, p. 17).
Quanto a esta questão da autodeterminação do como fazer e da hora
em que fazer, devemos nos lembrar da tragicômica polêmica entre Trotsky e os
anarquistas sobre a autonomia e o serviço de transporte. O primeiro, juntamente
com o governo soviético, fora acusado pelos segundos de atentarem contra a
autonomia e vida dos operários autonomistas ferroviários. Mas o fato é que “a
autonomização dos caminhos de ferro — e secundariamente doutros sectores de
transportes ou transmissões — levou ao ponto de ruptura o descalabro da
actividade econômica. Já não existe, a bem dizer, produção específica” (LINHART,
1977, p.129). Esta pretensa idéia de liberdade e autonomia estava matando de fome
pessoas na cidade, justamente em nome da “autonomia” dos operários de
transporte. “[...] Reina a fome no centro da Rússia, apesar de haver trigo, mas o seu
transporte é dificultado pela desordem” (LENIN apud LINHART, 1977, p. 131-2).
Sendo assim, nossa discussão não deve cair nesta caricatural e infantil
idéia de autonomia na produção. Haverá trabalho necessário e ponto. Necessidade
esta que não é ditada pelo indivíduo que trabalha, mas pela coletividade. Todavia,
daí a extrairmos a idéia de que a necessidade desde logo trava a possibilidade de
liberdade e de desenvolvimento — como é a preocupação de Marx — vai uma
distância muito longa. Vejamos como Engels relata a superação da necessidade
mesmo sabendo que sua supressão é impensável.
Foi Hegel o primeiro que soube expor de um modo exato as relações
entre a liberdade e a necessidade. Para ele, a liberdade não é outra coisa
senão a convicção da necessidade. “A necessidade somente é cega
enquanto não compreendida” (grifo do autor). A liberdade não reside,
pois, numa sonhada independência em relação às leis naturais, mas
na consciência dessas leis e na correspondente possibilidade de
projetá-las racionalmente para determinados fins (grifo nosso)
(ENGELS, 1990, p. 95).
Aqui temos Engels concordando com este aspecto da discussão de
Hegel. O que nos é importante reter é que ele resolve claramente a questão da
oposição: liberdade / necessidade não com a idéia idílica de supressão das
necessidades. Ele resolve esta antinomia de uma forma que, pensamos, resolvia
também para Marx o problema da produção e, principalmente, o problema
colocado no capítulo 48 do livro III de O Capital. Vejamos. A liberdade não está na
supressão das necessidades, mas na conscientização das leis que determinam as
vontades e necessidades humanas. Todavia, se Engels se restringisse a este ponto
de superação, ele estagnaria num hegelianismo que, como sabemos, não resolve
materialmente o problema da liberdade e emancipação humanas. Por isso Engels
49

continua e afirma que é necessária a: “consciência das leis e [...] projetá-las


racionalmente para determinados fins”. Ora, esta “projeção” significa sua
transferência para o mundo material e o que Engels descreve nada mais é do que o
caminho da ciência e sua posterior aplicação no processo de produção humana.
Este movimento se completa quando o processo de produção torna-se uma
aplicação tecnológica da ciência e, conseqüentemente, promove o desenvolvimento
pleno da individualidade — porque não mais a fábrica é o locus produtivo, mas sim
o laboratório. No entanto, veremos melhor como chegamos a esta interpretação no
final desta discussão.
A liberdade neste sentido atribuído por Engels é pois um produto
histórico e não um elemento a priori. Assim como as ideologias (religião) precedem
a ciência, assim também a necessidade precede a liberdade, e a história das
sociedades nada mais é do que a luta para a superação destas barreiras naturais. De
início, esta luta é menos o entendimento da realidade e de suas leis e muito mais a
atribuição a uma classe específica o papel de superação. Explicando melhor, o
caráter rudimentar das sociedades até então não lhes permitia entender as leis que
regem a realidade e, deste modo, era impossível a elas superarem suas
necessidades numa perspectiva científica. Assim, a única forma de superação
possível das necessidades materiais era repassar a outrem este fardo. Talvez o poder
atribuído a cada papel na divisão social do trabalho pode permitir que isto tenha se
realizado, daí surgindo o que poderíamos chamar de raízes da alienação. O fato,
contudo, é que a uma classe ficou o encargo de suprir materialmente através de seu
trabalho uma outra classe, agora livre para exercer tarefas como guerrear,
administrar, comandar, curar, orar ou pensar, etc. Esta separação entre trabalho
intelectual e trabalho manual teve como resultado direto a criação da ideologia na
sociedade (MARX; ENGELS, 2002). Não obstante, em que pese todas as
condenações cabíveis a esta separação e estranhamento gerados pela divisão social
do trabalho, pode-se visualizar neste seu movimento a construção da base de sua
própria superação. Afinal, é ela que permitiu a uns poucos elementos da sociedade
o desenvolvimento do intelecto humano, ou seja, o desenvolvimento daquilo que
Engels estava considerando (o entendimento das leis da realidade) como libertação.
Vejamos mais a este respeito nas considerações de Engels:
A liberdade, pois, é o domínio de nós próprios e da natureza exterior,
baseado na consciência das necessidades naturais; como tal é,
forçosamente, um produto da evolução histórica. Os primeiros homens
que se levantaram do reino animal eram, em todos os pontos essenciais de
suas vidas, tão pouco livres quanto os próprios animais; cada passo dado
no caminho da cultura é um passo no caminho da liberdade. Nos
50

primórdios da história da humanidade, realizou-se a descoberta que


permitiu converter o movimento mecânico em calor: a descoberta do fogo
pela fricção; o progresso tem, atualmente, como sua etapa terminal, a
descoberta que transforma, inversamente, o calor em movimento
mecânico: a máquina a vapor (ENGELS, 1990, p. 96).
O que Engels então colocava naquela época pode ser levado — em
idéia — ao paroxismo atualmente com as possibilidades abertas não somente pela
revoluções técnico-científicas diretamente aplicadas à produção, mas mesmo pela
própria possibilidade real que se abre hoje em dia de o homem ser objeto dele
mesmo com os avanços abertos pelo mapeamento e manipulação genéticos. É
claro que tudo isto demanda um amadurecimento científico e ético que transborda
nosso momento presente, mas que já se faz audível — mais do que gostariam os
pessimistas e menos do que gostariam os otimistas. Entretanto, neste ponto aparece
a segunda questão de que falamos acima: Poderia o homem acreditar numa
libertação, em sentido marxiano, no seio do capitalismo? Tendo em vista que o
homem pode acreditar no que quiser, e de fato o faz, a resposta bem poderia ser
sim. Todavia, tal ideologia estaria totalmente descolada da realidade. Esta pergunta
acima é quase impertinente para quem tem um contato mínimo com os escritos de
Marx, tal é a evidência de sua resposta.
Nem o tempo livre nem o tempo na produção comportam liberdade
para um homem cindido de sua essência graças ao estranhamento provocado pelo
modo de produção capitalista. Na verdade, para qualquer sociedade fundada na
apropriação privada dos produtos e dos meios de produção isto se torna um
axioma.
Os teóricos que tentam compatibilizar, numa sociedade de classes, a
falta de libertação em uma esfera e a liberdade em outra, acabam por anunciar a
falta de liberdade para todas. Este parece ser o caminho tanto de Gorz quanto de
Habermas, mas outros já o fizeram. Com relação a isto Ricardo Antunes poderia
afirmar:
Não é possível compatibilizar trabalho assalariado, fetichizado e
estranhado com tempo (verdadeiramente) livre. Uma vida desprovida de
sentido no trabalho é incompatível com uma vida cheia de sentido fora do
trabalho. Em alguma medida, a esfera fora do trabalho estará maculada
pela desefetivação que se dá no interior da vida laborativa (ANTUNES,
2001, p. 175, itálico do autor).
Marx nos fala nos Manuscritos Econômico-filosóficos (MARX, 2004, p.
87) que apesar de que a propriedade privada apareça como o fundamento do
trabalho alienado (exteriorizado) ela é antes uma conseqüência desta
exteriorização, ou seja, a propriedade privada é produto do trabalho alienado.
Sendo assim, não se pode pensar na abolição da alienação pela abolição da
51

propriedade privada, pelo simples fato de declará-la coletiva. Ao contrário, só


ocorrerá a supressão da sociedade de classes e da propriedade privada com a
abolição do trabalho alienado. Se este se mantém, como diria Marx, toda a porcaria
volta a retomar suas antigas bases. Não é por outro motivo que ele e seu
companheiro intelectual Engels insistem na necessidade de supressão radical do
trabalho — trabalho este entendido como atividade alienada.
Em todas as revoluções anteriores, o modo de atividade permanecia
inalterado e se tratava apenas de uma outra distribuição dessa atividade,
de uma nova divisão do trabalho entre outras pessoas; a revolução
comunista, ao contrário, é dirigida contra o modo de atividade
anterior, ela suprime o trabalho (grifo nosso) e extingue a dominação
de todas as classes abolindo as próprias classes [...] (MARX; ENGELS, 2002,
p. 85-6, itálico do autor).
Ora, sem essa supressão não é possível instaurar qualquer efetividade
de libertação. Todavia, e como já viemos falando ao longo deste trabalho, estas
bases materiais são criadas pelo próprio modo de produção capitalista, e esta
criação se deve aos imperativos econômicos da valorização também já relatados. E
eis a grande contraditoriedade do capital. Este processo de produção gera não
somente a alienação de que Marx fala reiteradamente, mas produz ao mesmo
tempo a base material de libertação humana.
Na produção material, no verdadeiro processo da vida social — pois é isso
o processo de produção — dá-se exatamente a mesma relação que se
apresenta na religião, no terreno ideológico: a conversão do sujeito em
objeto e vice-versa. Considerada historicamente, esta conversão aparece
como o momento de transição que é necessário para impor, pela violência
e a expensas da maioria, a criação da riqueza enquanto tal, quer dizer, o
desenvolvimento inexorável das forças produtivas do trabalho
social, única base material de uma sociedade humana livre. É
necessário atravessar esta forma antitética [...] (grifo nosso) (MARX,
s.d., p. 56).
Como Marx então deixa claro, a base é criada, mas deve-se atravessar
esta forma social antitética para que se possa efetivar aquilo que está posto em
potência pelo capital. A contraditoriedade do capital no nível da valorização se dá
porque este tende a reduzir o tempo de trabalho socialmente necessário a um
mínimo, ao mesmo tempo em que toma o tempo de trabalho como a medida de
valor de todas as coisas. Todavia, o capital não opera com este movimento somente
uma mudança quantitativa na produção, mas opera uma mudança qualitativa
importante para o que estamos discutindo. Vejamos de perto este movimento:
[...] Marx precisa que, na sua sede insaciável de lucro, o capital leva o
trabalho a ultrapassar constantemente os limites de suas necessidades
naturais e cria assim os elementos materiais de uma rica
individualidade, que é também universal na sua produção tanto
quanto no seu consumo, e “cujo trabalho não aparece mais como
trabalho, mas como desenvolvimento pleno e integral da atividade”
(grifo nosso). Ele volta aqui a uma idéia fundamental da Ideologia Alemã,
contrariamente à opinião de certos “marxólogos”, que consideram as idéias
52

dessa obra de juventude de Marx como um pouco “românticas” e


“idealistas”, superadas na obra do sábio mais maduro (MANDEL, 1968, p.
114).
Eis a importante mudança operada pelo capital. Ele de fato reduz a
esfera da produção necessária a um mínimo, mas este mínimo passa a conter os
elementos de uma rica individualidade. E este ponto deve agora ser analisado com
muito cuidado e paulatinamente. Primeiramente, vejamos o mais evidente: Marx
deixa claro que o trabalho aparece como desenvolvimento pleno e integral da
atividade, ou seja, ele desconsidera o próprio caráter de trabalho que existia antes
de se tornar uma atividade rica. Afinal, pela suas palavras, a individualidade neste
estágio passa a ser rica na produção e no consumo.
Para evitar a velha crítica alertaremos mais uma vez que está desde
logo pressuposto não somente para Marx como para nós que isto é colocado como
potência pelo capital, mas que só se torna efetivo “por uma revolução comunista”,
como diz na Ideologia Alemã.
Voltando à nossa questão principal, Marx diz claramente que a
atividade na esfera da produção material pode e deve se tornar fonte de
desenvolvimento e riqueza para a individualidade nela inserida. Não há uma
alienação imanente a ela pelo fato de se tratar de um locus humano de necessidade.
Esta declaração de Marx que aparece no livro de Mandel, como citamos, está nos
Grundrisse, mas vejamos aqui sua declaração na Ideologia Alemã para corroborar
com a idéia lembrada por Mandel deste todo orgânico das obras marxianas:
É somente nesse estágio [comunismo] que a manifestação da atividade
individual livre coincide com a vida material, o que corresponde à
transformação dos indivíduos em indivíduos completos e ao
despojamento de todo o caráter imposto originariamente pela
natureza; a esse estágio correspondem a transformação do trabalho
em atividade livre (grifo nosso) e a transformação dos intercâmbios
condicionados existentes num intercâmbio dos indivíduos como tais
(MARX; ENGELS, 2002, p. 84).
Mais uma vez Marx estaria apontando para o fim da atividade alienada
e nascimento de uma atividade rica, chamada por ele de auto-produção, pois a
realização da atividade coincidiria com a realização e desenvolvimento do indivíduo
em sua omnilateralidade, como se costuma dizer. Deixemos claro, todavia, —
principalmente para os que gostam de criticar o que está pressuposto — que isto
somente se realizaria numa sociedade para além do capitalismo.
Se este desenvolvimento qualitativo está posto na Ideologia Alemã,
também está posto (e não somente pressuposto) em outras obras de Marx, como
nos Grundrisse, por exemplo. Porém, é em uma passagem desta obra que a
53

explicação de como o “reino da necessidade” poderia se tornar o “reino da


liberdade” está colocada. Vejamos a passagem para posteriores comentários.
Precisamente, los trabajos realmente libres, como por ejemplo la
composición musical, son al mismo tiempo condenadamente serios, exigen
el más intenso de los esfuerzos. El trabajo de la producción material
sólo puede adquirir ese carácter 1) si está puesto su carácter social,
2) si es de índole científica, (grifo nosso) a la vez que trabajo general,
no esfuerzo del hombre en cuanto fuerza natural adiestrada de
determinada manera, sino como sujeto que se presenta en el proceso de
producción, no bajo una forma meramente natural, espontánea, sino como
actividad que regula todas las fuerzas de la naturaleza (MARX, 1978, p.
120,).
O autor coloca novamente de maneira evidente a questão da
possibilidade de libertação (de atividade livre) no universo da produção material da
sociedade. Esta colocação nos Grundrisse, como diria Mandel, desmente que ela é
fruto de uma juventude idílica de Marx na Ideologia Alemã28. Mas atentemos para
um outro fato. O autor coloca um condicional que nos conduz de imediato à
produção coletiva pelo seu caráter social, mas também nos conduz à idéia inicial
desenvolvida neste nosso item. Qual seja, a idéia de que a produção tornar-se-ia
uma aplicação tecnológica da ciência (índole científica). De um lado, esta aplicação
tecnológica conduz àquilo que retratamos no item anterior: uma diminuição radical
do tempo de trabalho necessário. Mas em que pese a importância para a
emancipação no que diz respeito à redução do tempo socialmente necessário na
produção, há também a importância qualitativa. No que diz respeito à primeira, os
indivíduos estarão cada vez menos coagidos a participar da produção material
propriamente dita. Também oriundo deste desenvolvimento está o fato de que a
produtividade cresce a níveis impensáveis anteriormente na história. O socialismo
não precisa mais ser o socialismo da escassez, ainda que a idéia de necessidade de
consumo deva ser repensada, sob pena da humanidade extrapolar os limites de seu
habitat.
No que diz respeito à segunda questão, — a qualitativa — o indivíduo
não estará mais se relacionando com a natureza mediado por seu trabalho imediato
na produção, mas estará mediado pela ciência e tecnologia. A produção material
não dependerá mais, neste estágio, da habilidade manual, mas sim da capacidade
intelectual do indivíduo. Como tal, este movimento cinde com a anterior

28
Uma questão a ser explorada é se perguntar até que ponto o fato da obra máxima de Karl Marx (O
Capital) ter sido escrita para descrever o movimento da sociedade capitalista determinou suas
conclusões menos ousadas que se vê em outras obras, como aliás, já foi colocado por Ruy Fausto.
Ou seja, devemos perguntar se era cabível nesta obra o autor se permitir falar de libertação, ou
mesmo que a idéia de libertação na produção pudesse aparecer no interior desta obra, que versa
sobre a sociedade capitalista, embora aparecendo momentos de a-historicidade como no capítulo
intitulado A Fórmula Trinitária.
54

desqualificação vista nos processos de produção atrasados e medíocres. Ou seja,


traz consigo a necessidade do indivíduo se apropriar do conjunto de conhecimentos
sociais e naturais legado pela humanidade desde os tempos mais remotos.
[...] el proceso entero de producción, empero, no aparece como subsumido
bajo la habilidad directa del obrero, sino como aplicación tecnológica de la
ciencia. Darle a la producción un carácter científico es, por ende, la
tendencia del capital, y se reduce el trabajo a mero momento de ese
proceso (MARX, 1978, p. 221).

[...] a sociedade se relacionará cientificamente com o processo de sua


reprodução, em meio a uma abundância crescente: deixará de existir o
trabalho no qual o homem faz aquilo que as coisas podem fazer em seu
lugar [...]. (MARX apud ROSDOLSKY, 2001, p. 352).
Como já observamos, este movimento não se dará de forma
espontânea, necessitando para isto da ação dos sujeitos históricos. Mas o capital
coloca seu problema e a solução ao alcance deste sujeito.
Neste sentido, a potencialidade de que a ciência substitua a ação
produtiva já é posta pelo capital. A realização da liberdade na história está
pressuposta, bastando para isto que o homem a efetive. Dizemos que está
pressuposta porque neste movimento do capital se concretizou a possibilidade que
Engels falara acima. O entendimento das leis que determinam nossa realidade e
nossas necessidades se tornara um imperativo econômico do capital que escapa a
seu controle. Pois este imperativo determina que os homens envolvidos na
produção material se desenvolvam com este entendimento que faz o salto da
natureza para a humanidade, entendendo que a ciência deva ser vista como a
entelekheia humana. “O trabalho não aparece mais de tal maneira incluído no
processo de produção, mas o homem se comporta antes como fiscal e regulador do
processo de produção” (MARX apud MANDEL, 1968, p. 112). Neste caso, devemos
entender que o papel de fiscal e regulador não é mais aquele papel de apêndice
vivo e desqualificado da máquina. Esta regulação exige um alto grau de qualificação
tanto por aqueles que projetam os sistemas de produção, quanto por aqueles que
irão se relacionar tecnicamente com a tecnologia.
Na realidade, nada se opõe hoje à possibilidade de transformar
progressivamente todos os homens em sábios, isto é, a essa dissolução
progressiva do trabalho produtivo em trabalho científico que Marx prevê
na passagem já citada dos Grundrisse, com a condição de que a sociedade
humana se reorganize de maneira tal que possa cercar cada criança dos
mesmo cuidados infinitos com os quais ela prepara hoje submarinos ou
foguetes interplanetários (MANDEL, 1968, p. 119-120).
A formação de um tal corpo social altamente instruído e
universalizado deveria nos soar estranho. Afinal este não é o movimento do capital.
No entanto, nada impede que, uma vez desvencilhados das relações sociais
55

capitalistas, isto se efetive no interior da sociedade. Mas não se trata de um projeto


de equalização caricatural. Ninguém deverá estar obrigado a se interessar e se
relacionar com as questões científicas da produção. No entanto, esta produção
altamente complexa não poderá ser para o indivíduo fonte de estranhamento e
mistificação. A sociedade terá por dever permitir a todos os indivíduos se
desenvolverem.
Vejamos, enfim, a questão colocada também por Mandel ao comentar
uma passagem de um tal Dawidow.
Na mesma medida em que o homem se torna a “força produtiva principal”
pelo fato da enorme extensão da tecnologia científica, ele está cada vez
menos “integrado” diretamente no processo de produção. Na medida
mesma em que o “trabalho vivo” é expulso do processo de produção, ele
se revaloriza como organizador e controlador desse processo. E, na
medida mesma em que se opera assim a produção paralela de uma
abundância de bens materiais e de homens universalmente desenvolvidos,
a dominação do “trabalho morto” sobre o “trabalho vivo” desaparece, e a
liberdade é “reintegrada” na produção material.
Toda essa análise, que se apóia essencialmente nas passagens dos
Grundrisse de Marx que citamos antes, nos parece de natureza a esclarecer
fundamentalmente o problema (MANDEL, 1968, p. 199-200).
Esta citação fala por si só e coloca de forma clara como seria possível
a passagem de uma situação de necessidade para a de uma libertação. A realidade
da necessidade não fora superada. A produção material é um fato insuperável em
todas as sociedades, mas ela deixa de ser uma realidade alienante que nega a
realização e libertação humanas, desde que tenha se tornado livre das amarras do
capital e seja “de caráter social e científico”. Ela pode ser então uma esfera de
desenvolvimento e auto-atividade porque o desenvolvimento intelectual deixou de
ser a exclusividade de uma classe e passou a ser a exigência da produção altamente
cientificizada. Pode, neste estágio, ser uma esfera de realização porque a redução
drástica do número de trabalhadores envolvidos torna-a opcional para o indivíduo
nela se inserir. E pode ser uma esfera de libertação humana porque nela o
indivíduo não mais se depara com sua condição limitada e natural, mas é agora
parte da natureza consciente que manipula a si mesma.
Todavia, nosso objetivo aqui é menos demonstrar que uma libertação
humana é possível num estágio posterior ao capitalismo que se beneficie de sua
base material do que demonstrar que uma outra análise teórica dos escritos de Marx
é possível. Aliás, do que se depreende até aqui, é que não podemos dizer que o
caminho de uma emancipação irrestrita é somente mais uma interpretação possível
de Marx. O que estamos tentando demonstrar é que a libertação na esfera produtiva
seria o caminho principal trilhado por este autor, como podemos constatar na
56

totalidade de seus textos — fato que Gorz pareceu descartar. No entanto, se


estamos apontando todas estas questões, é porque
[...] aí está a chave da desalienação definitiva. Ela é função da abolição do
trabalho (no sentido em que Marx e Engels o entendem na Ideologia
Alemã) ou, se se quiser, da substituição do trabalho mecânico e
esquemático por um trabalho realmente criador, e que não é mais trabalho
no sentido tradicional da palavra, que não tem mais por finalidade “ganhar
a vida”, que não chega mais a que se perca a vida para assegurar a
existência material, mas que se tornou a atividade criadora universal do
homem (MANDEL, 1968, p. 208).
Ora, Marx não é Hegel. Sendo assim a libertação para o primeiro
autor deve necessariamente se efetivar na história, não somente numa esfera da
vida, mas principalmente na esfera onde o homem realiza sua práxis, ou seja, a
29
esfera na qual produz e reproduz a si mesmo enquanto ser genérico . “[...] para
Hegel a alienação é uma objetividade insuperável e permanente” (ASTRADA, 1968,
p. 62). Mas para o “filósofo da práxis” isto não poderia ser concebível.
Diferentemente de Hegel, Marx concebe, pois, a história como o processo
cujo sentido reside precisamente na aniquilação da potência estranha do
trabalho capitalista e suas categorias econômicas, em que se condensou e
consolidou a auto-alienação do homem; não reconhece, portanto, que a
alienação seja uma objetividade insuperável. De onde se conclui que a
história, para Marx, é o resgate do homem de sua alienação mediante uma
práxis radical (ASTRADA, 1968, p. 63).
Mas se a opinião de Marx a respeito da superação radical do trabalho
alienado é tão clara, como poderia haver controvérsias nesta questão? Por que
pessoas experientes como André Gorz seriam conduzidas a crer que a atividade da
produção material nunca se despojaria de sua forma atrasada e alienada, ou seja, de
sua forma capitalista? A resposta só poderá ser encontrada, como falamos antes,
num duplo movimento. O primeiro deles é ver na técnica a origem de todas as
relações de produção capitalistas. Ou seja, ver que é a formação social que
determina a base material e não seu contrário. O segundo movimento é dado pelas
experiências “socialistas” que malograram no que diz respeito à superação deste
trabalho como desrealização humana. Neste ponto, Ernest Mandel nutria a mesma
conclusão acima relatada. Assim explica ele sobre como estes teóricos chegam a tais
conclusões equivocadas a respeito de Marx:
O que é específico do modo de produção capitalista é atribuído a toda
sociedade na era da grande indústria. O que decorre de um tipo de
organização social é atribuído a uma forma de organização técnica.
A maior parte dos sociólogos ocidentais tira conclusões pessimistas dessa
identificação com a técnica. Eles fazem ressurgir o antigo mito do Leviatã
de Hobbes, e vêem o homem moderno inevitavelmente esmagado pela
máquina, oriunda de seu cérebro. A alienação do trabalho, o esmagamento
do trabalhador por seu próprio produto, seriam o resultado inevitável da

29
Sobre esta realização de seu ser genérico pela mediação com a natureza, ver (MARX, 2004).
57

grande indústria, e essa alienação se agravará implacavelmente, na medida


em que o aparelho técnico se aperfeiçoar.
É preciso reconhecer que a degenerescência burocrática da URSS,
sobretudo na época stalinista, forneceu muitos argumentos aos partidários
dessa tese pessimista. O que os caracteriza, no entanto, em geral é a
ausência de análises em profundidade, que destacariam as leis de
desenvolvimento da realidade social de uma descrição puramente
fenomenológica.
Afirmando que haverá sempre “comandantes” e “comandados”, que haverá
sempre bens raros e a necessidade de uma repartição alienante destes,
elevam-se a um nível de axioma não as conclusões, mas as premissas de
um raciocínio. Acredita-se estar-se apoiando em fatos empíricos, mas nega-
se na realidade uma tendência que vai no sentido inverso (MANDEL, 1968,
p. 220-3).
Pensamos que André Gorz se enquadra perfeitamente nesta descrição
feita por Mandel. Passemos agora então a analisar este duplo movimento empírico
de Gorz que o levaria a negar Marx: seu olhar para a técnica do ocidente e seu
olhar para o “socialismo” da União Soviética.
58

Capítulo 2 – O projeto dualista de Gorz e a questão


empírica: o olhar para o capitalismo

2.1 O contexto de Adeus ao proletariado

Como nos demonstra o livro de Josué Pereira da Silva, duas


importantes obras de André Gorz precedem e antecipam as teses posteriormente
desenvolvidas em Adeus ao proletariado. Estas obras, escritas na década de 70 são
Ecologie et politique e Ecologie et liberté. Desse modo, pretendemos apontar algumas
características econômicas da sociedade capitalista que marcaram esta época e que,
possivelmente, teriam influenciado Gorz em seus escritos, principalmente em seu
novo projeto de emancipação humana.
Pensamos que, em maior ou menor grau, esta obra que estamos
analisando — bem como a transição teórica deste autor — foi influenciada pelo
contexto europeu do pós-guerra. Este meio e período dizem respeito ao apogeu
vivenciado pelo capitalismo na sua Era de Ouro, “um período homogêneo único na
história do mundo”, para concordar com Hobsbawm. Um período cujo
desenvolvimento e reprodução do capital estavam ligados à política econômica
keynesiana que, por sua vez, estaria em grande parte mediada, ou melhor, ancorada
num processo de produção que demandava grande contingente de trabalhadores: o
setor metal-mecânico e sua organização do trabalho lastreada no taylorismo e no
fordismo.

2.1.1 Século XX: a importância do setor metal-mecânico na


reprodução do capital

Womack, Jones e Roos abrem seu livro A Máquina que Mudou o


Mundo com a seguinte frase a respeito da indústria de automóveis:
Quarenta anos atrás, Peter Drucker denominou-a de “a indústria das
indústrias”. Atualmente, a indústria automobilística continua sendo a maior
atividade industrial, com aproximadamente 50 milhões de novos veículos
produzidos a cada ano (WOMACK; JONES; ROOS, 1992, p. 1).
59

Vê-se, por este relato, o grau de importância dado à indústria metal-


mecânica e, especificamente neste caso, ao setor automotivo, por uma série de
autores que analisam o processo de trabalho no século XX. É por tal motivo que
nos deteremos brevemente sobre a importância e o peso deste setor no século XX e
como este peso pode ter determinado a formação no imaginário sociológico da
idéia de um paradigma produtivo generalizável aos vários processos de produção.
Poderemos ver à frente que no período do pós-guerra ocorreu um forte crescimento
na demanda de bens de produção e bens de consumo duráveis. Um desses
produtos, que também poderíamos chamar de paradigmático — haja visto o
comentário acima — fôra o automóvel. Na verdade, na primeira metade do século
este produto já despontava como um importante atrativo de consumo. Mas foi
graças a Ford e seu empenho obsessivo que este produto pôde sair de uma
produção quase artesanal (craft-production) no início do século para se tornar um
produto de massa por excelência no pós-guerra. E não fôra somente o automóvel.
Toda uma mudança no padrão de consumo (principalmente o americano)
demandou bens como eletrodomésticos e outros bens de consumo duráveis, assim
como os bens de capital para a produção de tais produtos. Como a produção de
todos estes bens estava baseada nas técnicas tayloristas ou fordistas, podemos
concordar com (MORAES NETO, 2003, p. 32) ao dizer que “os setores que
abraçaram o fordismo ganharam um peso relativo bastante alto na estrutura
industrial capitalista no pós-guerra (bens de consumo duráveis em geral)”. Para
quantificar este peso, vejamos a seguir um texto de Fajnzylber no qual se faz uma
avaliação do peso do setor metal-mecânico na produção industrial dos “anos
gloriosos do capitalismo”:
Al analizar el contenido sectorial de la expansión industrial, se comprueba
que hay dos grandes familias de productos que ejercen el liderazgo
indiscutido en la estructura industrial: la de los productos pertenecientes a
la metalmecánica y la rama química, en particular la petroquímica. En la
metalmecánica están incorporados los bienes de capital, los bienes de
consumo durables domésticos y los automóviles. Tanto el sector
automotor como los bienes de consumo durables simbolizan en
buena medida, el patrón de consumo prevaleciente en los Estados
Unidos y en ellos se advierte, como se verá más adelante, una
tendencia paulatina de aproximación de Europa y Japón a los
niveles norteamericanos (grifo nosso) (FAJNZYLBER, 1983, p. 22).
Como podemos ver, este padrão de consumo marcaria não somente
uma demanda crescente nos Estados Unidos no pós-guerra, mas ele se estenderia
por toda a Europa e mesmo o Japão. Todavia, antes de continuarmos, devemos
fazer uma diferenciação proveitosa para nosso debate a respeito dos processos
produtivos. Na citação acima, Fajnzylber destaca, além do setor metal-mecânico, o
60

setor químico, cuja importância está na petroquímica. Contudo, devemos dizer que
o ramo da produção que nos importa agora é o metal-mecânico, não somente
porque o ramo da química ocupa uma porcentagem demasiado pequena em
comparação com o metal-mecânico, como o autor deixou claro, mas também
porque são processos de produção completamente distintos neste período do
imediato pós-guerra. Vejamos o que estamos dizendo:
En 1955, los productos químicos y derivados representaban, a nivel
mundial, el 10 % de la producción industrial. En 1977, esa producción se
había elevado al 14 %. La industria metalmecánica eleva su participación
de 34 a 43 % en ese mismo período (FAJNZYLBER, 1983, p. 22).
Ou seja, o setor químico representava aproximadamente pouco mais
de um quarto do setor metal-mecânico no mesmo período. Ao passo que se
fizermos uma comparação com a produção total da indústria, veremos que este
último setor representou quase a metade de toda a produção industrial em 1977.
Visto isso, parece-nos quase indiscutível seu peso na economia. Entretanto, antes de
avançarmos em nosso raciocínio, vejamos uma diferenciação entre estes dois
setores:
O setor químico pode ser enquadrado por sua natureza produtiva,
num tipo de indústria chamado de indústria de processo contínuo ou mesmo de
fluxo contínuo30:
Alguns setores industriais cujos processos de produção incorporam, em
maior ou menor grau, características do tipo contínuo são as indústrias
petroquímica, química, nuclear, siderúrgica, de bebidas, de alimentos, de
cimento, de vidro, de borracha e outras (FERRO; TOLEDO; TRUZZI, 1985,
p. 23).
O que marca do ponto de vista técnico o processo de produção
destas indústrias é o caráter integrado de suas “etapas” propiciando uma
continuidade na produção. Da mesma forma, suas instalações grandiosas muitas
vezes se confundem com os próprios equipamentos produtivos, cujo caráter é de
uma produção extremamente dedicada, ou seja, pouco flexível.
A fábrica é dispersa e seus equipamentos pesados “explodem” para cima e
para os lados, não se contendo na maioria das vezes no interior de
qualquer edificação. Porém, convém notar desde logo, que sob a dispersão
aparente dos equipamentos dessa indústria, oculta-se muitas vezes um alto
nível de integração.
Outra característica básica das instalações é a sua baixa flexibilidade,
sobretudo quando comparada às tradicionais máquinas ferramentas
universais, uma vez que a produção propriamente dita é realizada em
fluxo por uma única seqüência de equipamentos e operações que, em
geral, não pode ser alterada significativamente (FERRO; TOLEDO; TRUZZI,
1985, p. 28).

30
Para uma diferenciação deste tipo de indústria para as demais, confira (FERRO; TOLEDO; TRUZZI,
1985).
61

Mas se por um lado estas são as características técnicas da indústria de


fluxo, o que nos importa no momento são suas características no que tange à
organização do trabalho, ou seja, sua especificidade com relação à mão-de-obra.
Uma característica descrita pelos autores está no fato de que o ritmo de produção
não é análogo ao ritmo de trabalho, uma vez que a este último está reservado um
papel de controlador do processo, tendo uma maior intervenção justamente quando
algo na produção falha.
Com o trabalho produtivo sendo realizado essencialmente pelos
equipamentos, a intervenção humana se restringe basicamente às
atividades de monitoração e controle das máquinas e dispositivos, de
manutenção dos equipamentos e algumas atividades de apoio (FERRO;
TOLEDO; TRUZZI, 1985, p. 34).
É a partir desta característica que podemos compreender um
fenômeno ligado a este tipo de indústria. Qual seja, o da alta qualificação e de uma
baixa intensidade do uso de trabalho humano na produção direta. Do modo como
pensamos, estas duas características nada se parecem com as técnicas tayloristas ou
fordistas. Com relação à organização taylorista, o estereótipo do “homem boi”
taylorista (caracterizado por Schmidt)31 seria o tipo menos indicado para lidar com
um equipamento altamente complexo e que demanda um alto investimento em
capital. Já no caso de Ford, sua famosa frase sobre a baixa qualificação do sistema
fordista em nada se adapta às exigências deste tipo de indústria. Em ambos os
casos, a produção lastreada na força de trabalho humana em nada se compara com
o alto grau de automação da indústria de fluxo contínuo. Como veremos, somente
com a introdução da automação — primeiramente de base eletromecânica e
posteriormente de base microeletrônica — na indústria metal-mecânica é que o
processo de produção pode se assemelhar, no sentido da baixa intensidade de
mão-de-obra, àquele tipo de indústria.
[...] na medida em que generaliza-se a robotização e inúmeras atividades
periféricas e complementares na produção são automatizadas, a indústria
intermitente [caso da metal-mecânica], tenderá assemelhar-se, guardadas as
diferenças essenciais em termos de processo e produto, à indústria de
processo contínuo (FERRO; TOLEDO; TRUZZI, 1985, p. 27).

31
Sobre as características desse tipo de trabalhador exigido pelos processos tayloristas ou fordistas,
vejamos o que Taylor fala: “Quanto à seleção científica dos homens, é fato que nessa turma de 75
carregadores apenas cerca de um homem em oito era fisicamente capaz de manejar 47,5 toneladas
por dia. Com as melhores das intenções, os demais sete em cada oito não tinham condições de
trabalhar nesse ritmo. Ora, o único homem em oito capaz desse serviço não era em sentido algum
superior aos demais que trabalhavam em turma. Aconteceu apenas que ele era do tipo do boi —
espécimen que não é tão raro na humanidade, nem tão difícil de encontrar que seja demasiado caro.
Pelo contrário, era um homem tão imbecil que não se prestava à maioria dos tipos de trabalho. A
seleção do homem pois, não implica encontrar algum indivíduo extraordinário, mas simplesmente
apanhar um entre os tipos comuns que são especialmente apropriados para esse tipo de trabalho”
(TAYLOR apud BRAVERMAN, 1977, p. 99).
62

Posto isso, voltemos à nossa caracterização do contexto do pós-guerra


e da primazia do setor metal-mecânico. No que tange à produção de bens de
capital, este período por nós tratado veria um espantoso aumento de produção,
estimulado obviamente pelo aumento da demanda de bens duráveis e não duráveis
como um todo. Fajnzylber nos fala que, “en la década del 70, la participación de los
bienes de capital en el producto manufacturero alcanzó proporciones cercanas al 40
%, destacándose nuevamente el caso del Japón, donde se acercó al 50 %”
(FAJNZYLBER, 1983, p. 39). Todavia, e para considerar a questão da
empregabilidade neste setor, podemos ver, segundo este autor, que há um aumento
significativo do emprego puxado exatamente não só pela indústria de máquinas,
mas pelo próprio setor metal-mecânico como um todo, graças à sua baixa
intensidade de capital.
En efecto, se observa que, contrariamente a una percepción generalizada,
la rama de bienes de capital presenta un intensidad de capital
significativamente menor al promedio de la industria.
[...] Esto explica la contribución decisiva que el sector productor de bienes
de capital ha tenido en el crecimiento del empleo industrial de las
economías avanzadas. Se advierte, en efecto, que en la mayor parte de los
países desarrollados, el empleo en la rama metalmecánica representa una
proporción creciente del empleo manufacturero total, alcanzando en 1977
niveles cercanos al 40 % (FAJNZYLBER, 1983, p. 41).
Vejamos então uma consideração de toda esta análise feita até agora
neste item. Pudemos ver que, de toda a produção industrial no período do pós-
guerra até 1977, o setor metal-mecânico fôra responsável por quase a metade desta.
Este setor era intensivo em mão-de-obra, ou seja, em força de trabalho humana.
Sabendo-se que a organização técnica do trabalho referente a este setor
fundamentou-se no taylorismo e, posteriormente no fordismo, devemos considerar
que estas técnicas se tornaram, dada a importância deste setor para a economia, o
paradigma mesmo da grande indústria no imaginário sociológico. Não foi sem razão
que muitos teóricos atribuem à especificidade das técnicas tayloristas/fordistas o
status de um padrão genérico que englobaria todos os setores da economia.
Somente aceitando esta generalidade, por demais arbitrária, é que se tornaria
possível entender e falar de um padrão de acumulação fordista32.
Sendo assim, as técnicas tayloristas e fordistas se tornariam
simbolicamente hegemônicas no seio da moderna sociedade industrial, a um tal
ponto que estas técnicas foram vistas como ilustrativas das forças produtivas por
excelência do capitalismo. Criticá-las tornou-se análogo à crítica dirigida ao capital.

32
Sobre esta idéia de um padrão de acumulação especificamente fordista que toma o fordismo como
generalidade industrial, na verdade oriunda da escola da regulação, ver: Parte II de (HARVEY, 2001).
63

Ao mesmo tempo, criticar o capital seria análogo à crítica ao taylorismo/fordismo.


Esta mesma generalidade pode ser vista nos escritos de Piore e Sabel. Todavia,
encontramos numa passagem do livro de Moraes Neto (2003) uma citação que pode
resumir assim esta questão:
[A partir do livro de Piore e Sabel, de 1984] [...] torna-se possível enxergar
fordismo em qualquer [lugar] da manufatura ao longo dos últimos 60 anos.
Contra isso, argumentamos que a inovação de Ford da fábrica com linha
de montagem possui um campo limitado de aplicação... As técnicas
produtivas de Ford apenas apresentam uma esmagadora vantagem de
custo na produção de bens duráveis complexos, inicialmente automóveis e
produtos elétricos, e posteriormente no campo de produtos eletrônicos, os
quais incluem bens de consumo e de produção. [...] Todavia, para o caso
dos bens de consumo simples, como vestuário e móveis, as técnicas de
produção em massa possuem uma vantagem limitada. As indústrias de
processo, intensivas em capital, como siderúrgicas e químicas, seguiram por
um caminho próprio antes e depois de Ford. (itálico de Moraes Neto). É
portanto bastante compreensível que a maior parte das plantas nas
economias avançadas não contenham linhas de montagem; o mencionado
levantamento sobre a indústria manufatureira britânica mostrou que 31%
das plantas da amostra utilizam linhas de montagem, e apenas metade
delas acionadas mecanicamente. As inovações de Ford foram importantes,
mas elas dificilmente podem-se responsabilizar por toda trajetória de
desenvolvimento das economias avançadas (WILLIAMS et alli apud
MORAES NETO, 2003, p. 95).
No entanto, o que seria realmente mais grave no campo propriamente
conceitual é que esta generalização do taylorismo/fordismo fez com que estas
técnicas fossem vistas como a consubstanciação da grande indústria descrita por
Marx. Um exemplo desta idéia, a nosso ver absurda, de que Taylor realizaria o que
Marx antes havia prescrito para a indústria no seu período de incorporação de um
sistema automático de maquinaria, pode ser visto na seguinte passagem de Coriat:
“Tudo o que Marx anuncia relativamente às características
especificamente capitalistas do processo de trabalho (parcelamento das
tarefas, incorporação do saber técnico no maquinismo, caráter despótico
da direção) o realiza Taylor, ou mais exatamente, lhe dá uma extensão
que até então não havia tido. O excepcional interesse que apresenta
Taylor reside no fato de que é a expressão consciente, concentrada e
sistemática dos interesses do capital em um momento estratégico de sua
história. Torna consciente a burguesia dos imperativos da valorização do
capital relativos às formas que devem imprimir ao processo de trabalho,
formas que Marx havia anunciado de maneira dedutiva” (CORIAT apud
MORAES NETO, 1991, p. 94, itálico do autor).
Assim, para vários autores, bem como para André Gorz, olhar para as
forças produtivas mais desenvolvidas do capitalismo significaria fundamentalmente
olhar para o locus produtivo da indústria metal-mecânica (e em grande medida a
indústria automobilística) e sua característica específica de organização do trabalho:
o taylorismo e o fordismo. Mas, como vimos, apesar do apogeu vivenciado pelo
ramo da metal-mecânica no século XX, não se pode esquecer que outra metade da
produção industrial era efetuada por técnicas e processos produtivos distintos do
que se convencionou chamar de tayloristas/fordistas. Todo o setor têxtil e de fluxo
64

contínuo independia de tais técnicas. Devemos dizer, aliás, que tanto a têxtil quanto
a indústria de fluxo contínuo comportavam um alto nível de automação, nível
alcançado pelo setor metal-mecânico somente a partir dos anos 80 com a aplicação
da automação de base microeletrônica, e que o leva a cada dia a assumir as
características de um processo contínuo.
O revolucionamento ocasionado pela introdução da nova automação, de
base microeletrônica, sobre a forma taylorista-fordista de produzir
concentra-se, portanto, na indústria metal-mecânica produtora de bens
duráveis de consumo complexos. Sua conseqüência será a de trazer essa
indústria para o “leito da automação”, no qual já caminham há muito
tempo ramos industriais tecnologicamente mais avançados, como as
indústrias têxtil e de processo contínuo (MORAES NETO, 2002, p. 83-4).
Se o período que marca o contexto da obra Adeus ao Proletariado
abarca o apogeu da sociedade fundada no pleno emprego lastreado no taylorismo e
no fordismo graças à indústria metal-mecânica, este mesmo período abarca também
o aparecimento de avançadas tecnologias de automação introduzidas justamente
onde antes vigiam o taylorismo e o fordismo. Assim, Gorz teria também que lidar
com a recente crise do trabalho33 e, conseqüentemente, com a correlata crise das
políticas keynesianas.

2.1.2 Apogeu e crise da sociedade do trabalho

Nos limitamos agora a alguns apontamentos sobre as décadas


vivenciadas por André Gorz quando da preparação das principais teses que
comporiam seu referido livro.
Praticamente as três décadas que se seguiram ao pós-guerra foram
marcadas por um profundo crescimento da economia mundial. Foi o que os
economistas classificaram como um período de boom do capitalismo. Boa parte
deste sucesso fôra vista na época, pela maioria dos analistas, como uma decorrência
direta da política econômica estatal conhecida como keynesianismo, na qual o
Estado assumia o status de maior agente econômico responsável pela dinâmica da
34
economia . Os países capitalistas haviam aprendido — com a economia de guerra

33
Crise do trabalho entendida aqui como crise do trabalho abstrato, para nos referirmos à exortação
de Ricardo Antunes em seu livro Adeus ao Trabalho?, ou mesmo a crise do trabalho entendido como
labor, visto que é o termo que André Gorz se utiliza para se referir ao trabalho especificamente
capitalista (Cf. GORZ, 2003, p. 24).
34
Uma opinião contrária a esta pode ser vista no artigo de Simon Clarke intitulado: Crise do fordismo
ou crise da social-democracia? (Cf. CLARKE, 1991).
65

de um lado e a economia planificada da União Soviética de outro — a controlar o


mercado e a colocá-lo em confluência com os objetivos estatais. Esta política
apostava num crescimento gerado pela ação do Estado garantindo gastos públicos
que estimulariam a economia. Dessa forma, poder-se-ia esperar uma certa indução
e aumento de demanda efetiva. Assim, “passava a existir uma economia de
consumo de massa com base no pleno emprego e rendas reais em crescimento
constante, escorada pela seguridade social, por sua vez paga pelas crescentes
rendas públicas” (HOBSBAWM, 2000, p. 277). De fato, como pudemos ver, o
crescimento do consumo de bens duráveis no pós-guerra foi algo de espantoso
(HOBSBAWM, 2000).
É justamente neste período que veríamos o crescimento das técnicas
de propaganda e indução ao consumo promovidas de forma sistemática através dos
nascentes meios de comunicação de massa, a mass media. Houve também um
visível crescimento da “classe média” que, como nos mostra HOBSBAWM em seu
livro, ilustraria com perfeição um estrato social altamente condicionado pela
burguesia, dando origem aos consumidores compulsivos hodiernos motivados pela
ideologia consumista:
Ao mesmo tempo, o compromisso político de governos com o pleno
emprego e — em menor medida — com redução da desigualdade
econômica, isto é, um compromisso com a seguridade social e
previdenciária, pela primeira vez proporcionou um mercado de consumo
de massa para bens de luxo que agora podiam passar a ser aceitos como
necessidades (HOBSBAWM, 2000, p. 264).
Com o aumento do consumo, a demanda por bens duráveis fortaleceu
ainda mais este setor. Sabemos, contudo, que boa parte desta indústria, entendida
como indústria de forma (assembly industry), se valia de mão-de-obra em larga
escala, como é característico do taylorismo e do fordismo.
Mas se a política-econômica keynesiana de fato promovia um
crescimento na economia, devemos lembrar também que após toda destruição de
capitais, devido às crises ou guerras, gera-se um novo estímulo à produção
capitalista. Devemos nos lembrar também que o período relatado tratava-se do pós-
guerra, ou seja, grandes somas de capitais foram arrasadas. Devemos ter em conta,
portanto, que essa indução às novas necessidades da qual nos fala HOBSBAWM —
e que receberam as críticas de Gorz — se somava às necessidades básicas da
própria reconstrução dos países envolvidos diretamente na guerra. E uma vez que
para a produção destes bens de consumo duráveis a burguesia despendia uma
grande soma em capital variável, então se torna clara a relação entre a organização
do trabalho baseada no taylorismo/fordismo e o pleno emprego vivenciado nos
66

períodos de crescimento dos anos dourados do capitalismo35. De qualquer forma, a


sociedade capitalista vivenciaria por algumas décadas o fenômeno deste pleno
emprego, fato que teria levado muitos pensadores da época a considerarem que o
desemprego e a pauperização pregada por Marx como uma lei inexorável do capital
fosse mais uma de suas infundadas teleologias catastrofistas. “Desemprego em
massa? Onde se poderia encontrá-lo no mundo desenvolvido da década de 1960,
quando a Europa tinha uma média de 1,5% de sua força de trabalho sem emprego e
o Japão 1,3%” (HOBSBAWM, 2000, 262).
Este contexto teria então influenciado profundamente André Gorz no
seu primeiro percurso teórico, no qual traçaria uma estratégia operária de tomada e
controle do processo de produção. Pelo menos é isso que podemos ver no livro de
Josué Pereira da Silva:
O ambiente histórico e político no qual Gorz começou sua carreira
intelectual é o complexo contexto europeu e particularmente o francês das
décadas de 1950 e 1960. Esse contexto caracterizou-se, de um lado, pela
crise do stalinismo e, de outro, pela estabilização do capitalismo no
Ocidente e pelos sucessos do welfare state keynesiano, que levaram a uma
pacificação dos conflitos de classe nos países desenvolvidos do Ocidente.
É no interior desse contexto que deve ser entendida a teoria de Gorz sobre
estratégia operária. (SILVA, 2002, p. 130).
Não obstante, um outro acontecimento extremamente relevante
marcaria este contexto: A crise do próprio welfare state e o surgimento no plano
tecnológico da automação de base microeletrônica. Estes dois fenômenos, a nosso
ver interligados, redundariam no que foi chamado de “crise da sociedade fundada
no trabalho”.
A abolição do trabalho é um processo em curso e que parece acelerar-se.
Para cada um dos três principais países industrializados da Europa
Ocidental, institutos independentes de previsão econômica estimaram que
a automação irá suprimir, no espaço de dez anos, entre quatro e cinco
milhões de empregos, a menos que haja uma revisão profunda da duração
do trabalho, das finalidades da atividade e de sua natureza. Keynes está
morto: no contexto da crise e da revolução tecnológica atuais, é
rigorosamente impossível restabelecer o pleno emprego [...] (GORZ, 1987,
p. 11).
Uma breve consideração nesta nossa análise deve ser feita. Gorz,
apesar de declarar acima que Keynes estava morto na época em que escrevia seu
livro Adeus ao proletariado, estava no contexto francês, onde ainda vigia um estado

35
Não nos cabe neste trabalho uma discussão para saber se realmente a tese dos keynesianos está
correta ou não, nem teríamos competência para tanto e nem diz respeito a nosso objeto de estudo.
Todavia, uma indagação que poderíamos fazer aqui é se foi realmente uma política econômica que
teria conseguido alavancar este crescimento ou se foi uma situação peculiar e complexa envolvendo
vários fatores, mas cujo principal talvez fosse uma base produtiva altamente concentradora de
trabalho vivo, como é o caso do fordismo. No caso de uma aceitação do primeiro argumento
(determinação de uma política econômica) devemos perguntar se esta mesma política seria possível
no estágio atual do capitalismo.
67

de bem-estar. Sendo assim, quando falava de um “neoproletariado” que preferia


não trocar suas horas livres por um trabalho, devemos entender que este
“neoproletariado” ainda possuía uma grande assistência, diferentemente de hoje.
Todavia, à época da formulação das teses de seu livro, os efeitos da
crise e das novas tecnologias de automação no nível de emprego já se faziam sentir
de forma avassaladora. O desemprego em massa que poderíamos ver pelas décadas
subseqüentes aos anos gloriosos do capitalismo iria marcar fortemente André Gorz,
a ponto deste dar o nome da obra que estudamos de Adeus ao proletariado. Este
desemprego, causado principalmente pela crise e pela inserção da automação no
processo de produção de setores importantes, teria sua taxa rapidamente elevada,
como podemos ver:
O desemprego na Europa Ocidental subiu de uma média de 1,5% na
década de 1960 para 4,2% na de 1970 (Van der Wee, 1987, p. 77). No auge
do boom em fins da década de 1980, estava numa média de 9,2% na
Comunidade Européia, em 1993, 11%. Metade dos desempregados (1986-7)
se achava sem trabalho há mais de um ano, um terço há mais de dois
(HOBSBAWM, 2000, p. 396).
Porém, em que pese a contribuição da crise para uma redução no
nível de emprego, não podemos atribuir a ela a grande responsabilidade. O
desemprego poderia ser visto, sobretudo, como um desemprego tecnológico. Sendo
assim, a retomada do crescimento na economia pouco poderia ajudar para a
retomada dos índices de empregabilidade em vários setores.
O número de trabalhadores diminuiu relativamente, absolutamente e, em
qualquer caso, rapidamente. O crescente desemprego dessas décadas não
foi simplesmente cíclico, mas estrutural. Os empregos perdidos nos maus
tempos não retornariam quando os tempos melhoravam: não voltariam
jamais (HOBSBAWM, 2000, p. 403).
Este descompasso entre crescimento e nível de emprego na era da
automação microeletrônica Gorz bem o sabia, e afirmava:
Na idade da automatização, o crescimento deixa de ser gerador de
emprego. A maior parte das indústrias, na verdade, podem ou poderão
produzir mais reduzindo seu pessoal. Na Alemanha [...] aproximadamente
a metade (46%) de todos os investimentos industriais visam precisamente a
essa finalidade: “economizar mão-de-obra” (GORZ, 1987, p. 161).
Desse modo, romper-se-ia
[...] o laço entre crescimento da produção e crescimento do emprego. Põe
em maus lençóis um dos dogmas da economia política keynesiana, a
saber: que a retomada do investimento reduzirá o desemprego.
Keynes morreu e com ele as políticas do “pleno emprego” (GORZ, 1987, p.
161).
O ataque a uma sociedade que mesmo apresentando um claro
movimento de eliminação substantiva de postos de trabalho continuava insistindo
na primazia desta atividade como nexo social seria o foco principal de Gorz. É
neste sentido que ele pode ser incluído entre os autores que alardeiam o fim do
68

trabalho. E justamente por este motivo este autor sofreria severas críticas em todo o
mundo e mesmo no Brasil.
Com isso fechamos um breve esboço do que teria participado da
análise de Gorz antes e depois da mudança na sua trajetória teórica. Porém
devemos lembrar que apesar deste autor decretar, ao nosso ver acertadamente, que
a automação marcaria o final do keynesianismo no plano político-econômico, o
mesmo não pode ser dito com relação à sua opinião sobre os destinos do fordismo,
uma vez que, para este autor, o fordismo continuaria existindo, como veremos
posteriormente.
É como se para Gorz a automação do final do século XX não tivesse
aberto uma fissura no setor metal-mecânico e não tivesse colocado um fim na
produção baseada nos tempos e movimentos dos trabalhadores. Devemos lembrar
que outros setores produtivos já caminhavam nos princípios da automação no
começo do século XX e mesmo no século XIX. Este é o caso do setor têxtil e do
setor chamado de indústria de fluxo ou processos contínuos, ambos contendo um
alto grau de automação determinada pela aplicação tecnológica da ciência. Cf.
(MORAES NETO, 2003).
Já vimos que a indústria por excelência do século XX foi tomada pela
metal-mecânica e, mais especificamente, pela indústria automotiva. Como já
dissemos também no item anterior, as técnicas inerentes a este setor marcariam o
imaginário sociológico devido a seu peso na economia. Assim, podemos entender
Gorz quando este anuncia ao mesmo tempo avanço da automação e a prevalência
dos processos heterônomos e insuperáveis — como ele vê — típicos do taylorismo
e do fordismo. É o que se vê nesta passagem em que Josué reafirma a visão de
Gorz sobre a impossibilidade de emancipação: “A eliminação do trabalho, de um
lado, e a persistência de uma divisão do trabalho alienante, de outro, solapam a
possibilidade de controle operário e impedem a possibilidade de libertação no
trabalho” (SILVA, 2002, p. 204). Mais ainda, o que Gorz parecia não querer ver era
o aparecimento de novas tecnologias automatizadas aplicadas nas indústrias de
forma, ocasionando a rápida abolição dos processos taylorista e fordista.
O silêncio de Gorz sobre todo este movimento que acontecia na
metal-mecânica não parece ter explicação, e somente isto poderia explicar
contradições como a que vimos ao afirmar dois fenômenos tão antagônicos como
divisão manufatureira e automação e abolição do trabalho. Afinal, como se poderia
69

conciliar, ao mesmo tempo, eliminação do trabalho com a persistência de uma


divisão do trabalho?
Ora, já vimos como Marx descreveu que o princípio da cooperação
baseada na maquinaria rompera com o princípio manufatureiro da divisão do
trabalho. Essa ruptura dá-se porque o trabalho se torna apendicizado num primeiro
estágio e supérfluo ao longo do desenvolvimento. Como então se conciliar coisas
tão opostas como automação e tarefas repetitivas e parciais de cada homem parcial?
Para clarear esta discussão devemos agora entrar na análise dos
processos especificamente fundados no taylorismo e no fordismo. Somente deste
modo poderemos compreender a armadilha que tais processos comportam e
compreender como esta armadilha teria conduzido Gorz em sua negação da
possibilidade do desenvolvimento do que Marx entendia como auto-atividade no
seio mesmo da produção material da sociedade, ou seja, entender o porquê
daquele autor negar a possibilidade de realização e desenvolvimento individual na
esfera da produção. Do mesmo modo, ficará claro para nós como pôde este autor
afirmar a prevalência e inexorabilidade de métodos alienantes na produção
capitalista, mesmo se deparando com as recentes aplicações da automação de base
microeletrônica.

2.2 A armadilha do taylorismo/fordismo

A primeira coisa a ser salientada neste item é que, como veremos, o


taylorismo/fordismo, ao invés de representarem conceitualmente a ponta do
desenvolvimento das forças produtivas na época em que Adeus ao proletariado fora
gestado, representavam um retrocesso. E este caráter anacrônico do taylorismo e do
fordismo, aparecendo no século XX, representou um obstáculo para a maioria dos
teóricos que lidavam com a análise do processo de trabalho.
Enquanto no século XIX Marx tirava conclusões sobre o brilhantismo
das forças produtivas desenvolvidas pelo capitalismo, o século XX traria a surpresa
de gestar em um importante ramo de sua indústria uma forma produtiva que não
representava em nada aquele brilhantismo visto por Marx.. Como vimos no primeiro
capítulo deste trabalho, Marx já naquele século pudera captar todo o
desenvolvimento da produção fundada pelo capitalismo. Estas forças produtivas
capitalistas teriam como fase final e mais desenvolvida a sua expressão no sistema
70

automático de maquinaria da grande indústria; uma base produtiva que, no limite,


conduziria à abolição do trabalho humano diretamente ligado à produção. No
entanto, o que o século XX iria ver seria um processo de produção
fundamentalmente ligado ao trabalho, entendido enquanto trabalho humano. Pior
do que uma simples manutenção do trabalho vivo na produção foi que o taylorismo
— e depois o fordismo — representou um colossal esforço para tornar o elemento
vivo (o homem) num elemento mecânico. Desse modo, podemos dizer que o
descompasso dos setores produtivos ocasionou uma ruptura no conceito de
desenvolvimento das forças produtivas no seu sentido linear, e trouxe para o século
XX um processo que se encaminhava na contramão da história do desenvolvimento
das forças sociais de produção. Apesar de partirmos da consideração de que nossos
leitores já possuam um certo conhecimento sobre estes métodos de produção,
vejamos rapidamente o processo de constituição das técnicas pouco brilhantes — se
comparadas com a tendência do capitalismo — do taylorismo e do fordismo.
Sabemos que fôra Frederick Winslow Taylor quem criou o “brilhante”
princípio da chamada gerência científica. Ao se empregar numa indústria
siderúrgica chamada Midvale Steel Works, pouco a pouco foi conhecendo e
tomando contato com os processos de trabalho e suas maiores fragilidades e
necessidades. Algum tempo depois se tornava chefe de turma no departamento de
tornos mecânicos. E em que pese a total falta de importância do conhecimento
psicológico de Taylor para este nosso trabalho, vejamos como Braverman descreve
sua personalidade:
Em sua constituição psíquica Taylor era um exemplo exagerado de
personalidade obsessiva-compulsiva: desde a mocidade ele contava seus
passos, media o tempo de suas várias atividades e analisava seus
movimentos à procura de “eficiência” (BRAVERMAN, 1977, p. 87).
Taylor sabia, pela sua experiência, como funcionava a produção na
Midvale Steel e mais ainda como os trabalhadores estrategicamente seguravam a
produção no sistema de tarefas a partir do chamado marca-passo. Dito de outra
forma, Taylor sabia muito bem que os trabalhadores determinavam uma cadência
coletiva para que não se ultrapassasse este limite de produção. Ou seja, como já
expusemos anteriormente ao falar sobre a subsunção do trabalho ao capital, nos
processos cuja dependência da habilidade do trabalho vivo é muito grande, o
trabalhador possui um correlato poder de determinação sobre o tempo de produção
e seus elementos. Nesta fase impera o que Marx chamou de subsunção formal, cujo
poder do capital se limita à extração da mais-valia na sua forma absoluta. Todavia,
71

o passo histórico do capital é justamente a eliminação desta barreira que se


expressa pela dependência do saber e da habilidade dos operários.
Mas enquanto a tendência do capital para resolver esta dependência
frente ao trabalho era a de tornar o trabalhador supérfluo, o caminho que Taylor e
o taylorismo seguiu fora outro: fracionar o trabalho, retirar todo seu conteúdo de
concepção e passá-lo para a gerência. Como dissera corretamente (MORAES NETO,
1991, p. 32), “[...] é radicalmente diferente a forma taylorista para buscar resolver o
mesmo problema da dependência do capital frente à habilidade do trabalho vivo”.
É dispensável dizer que ele sofreu uma dura oposição durante os
primeiros dois ou três anos em que tentou empregar os seus métodos. No entanto,
depois de muitas experiências e adequações, conseguiu retirar quase todo o
controle operário da produção e passá-lo para as mãos da gerência que, por sua
vez, expressava a vontade do capital. Seus princípios de “organização científica”
não são nada extraordinários. Como podemos ler em Braverman,
[...] Taylor não estava interessado a princípio no avanço da tecnologia [...].
Ele fez significativa contribuição para o conhecimento técnico da prática
nas oficinas (sobretudo no aceleramento do manejo de ferramentas), mas
se trata de subprodutos de seu empenho em estudar esta prática com
vistas a sistematizá-la e classificá-la. Interessava-lhe o controle do trabalho
em qualquer nível de tecnologia (BRAVERMAN, 1977, p. 101).
Neste caso, a concepção correta de “qualquer tipo de tecnologia”
deve ser entendida como qualquer tipo de tecnologia que comporte uma
importância aos tempos e movimentos dos seres humanos na produção — coisa bem
distante do que se concebe como avançado do ponto de vista do desenvolvimento
das forças produtivas.
Por fim, a grande preocupação do taylorismo era o controle do poder
operário no processo de trabalho. A saída apresentada foi justamente promover
ainda mais a desqualificação já falada através da simplificação dos tempos e
movimentos, com sua posterior passagem para o controle da gerência. A
autonomia entendida como possibilidade de fazer e agir sem determinação prévia
de um corpo de gerentes ficava comprometida. Gorz — que era um apologeta deste
princípio criativo e autônomo de tipo artesão — extrairia deste fato a maior parte
de seu fundamento para declarar a insuperável heteronomia da produção material e
concebendo aí a ilação abstrusa de que esta perda de autonomia era uma
imanência técnica.
Quanto ao fordismo, o que podemos dizer é que ele não representa
uma mudança significa do taylorismo. Ao contrário, devemos ver nele um
movimento complementar das práticas tayloristas que analisamos acima.
72

O fordismo caracteriza o que poderíamos chamar de socialização da


proposta de Taylor, pois, enquanto este procurava administrar a forma de
execução de cada trabalho individual, o fordismo realiza isso de forma
coletiva, ou seja, a administração pelo capital da forma de execução das
tarefas individuais se dá de uma forma coletiva, pela via da esteira
(MORAES NETO, 1991, p. 36, itálico do autor).
Antes de 1909 a produção do automóvel deve ser vista como algo
similar a um trabalho do período artesanal. Este período da produção de
automóveis ficaria conhecido pela chamada craft-production. Este processo de
trabalho exigia trabalhadores altamente qualificados, os quais, em grupos, ficavam
responsáveis pela montagem e eram capazes de solucionar qualquer problema que
surgisse durante este processo. Esta forma de montagem tinha como característica
ser estática, tal como é a construção de uma casa. Numa tal forma, a produtividade
era demasiado baixa, tendo, por isso, o automóvel um alto custo unitário, o que
acabava por torná-lo um “bem de luxo” e inviabilizava sua comercialização em larga
escala, como é o objetivo da produção propriamente capitalista.
Enquanto na montagem ocorria o que acabamos de descrever, nos
processos mecânicos de fabricação, temos o problema da ausência de
intercambiabilidade entre as peças. Tal problema advinha do uso das máquinas
ferramentas universais (MFU), que, por sua natureza técnica, comportava uma
dependência do ajuste humano dos operadores. A principal característica destas
máquinas é a sua flexibilidade na produção de diferentes peças — característica que
seria modificada por Ford para obter maior padronização e, desse modo, superar
um forte entrave para a produção em massa de um produto altamente complexo
que envolvia mais de cinco mil peças.
A ausência de intercambiabilidade de peças é a forma de manifestação,
para o caso da produção de um complexo produto metal-mecânico fruto
de montagem, da característica de não-padronização típica da produção
artesanal. Para o caso do automóvel, composto de algumas milhares de
peças, ausência de padronização em todas as etapas da cadeia produtiva
significa que as peças de um automóvel qualquer não se ajustam
perfeitamente a outro automóvel qualquer, de mesmo modelo (MORAES
NETO, 2003, p. 67).
Este entrave da produção artesanal fôra atacado por Ford de modo
obstinado nos processos mecânicos de fabricação. Essa era, portanto, a base técnica
de produção do automóvel com a qual Ford se deparou no primeiro decênio do
século XX. Vejamos como se operaram estas mudanças:
Entre 1909 e 1913 Ford começa a aplicar suas mudanças nos
processos mecânicos de fabricação. Ele procurou viabilizar a produção em massa
solucionando o problema da falta de intercambiabilidade entre as peças. Isso foi
73

possível mediante a “rigidificação”36 das máquinas-ferramentas, ou seja, direcioná-las


para a produção de um único tipo de peça. Criava-se assim uma estrutura produtiva
para se atingir a padronização das peças, o que tornava a produção muito mais ágil
e capaz de atingir a produção em massa de um produto altamente complexo: o
automóvel. Mas se por um lado esta mudança pode resolver o grande problema da
produção artesanal, por outro lado, tornaria a produção fordista um processo rígido
ou, melhor dizendo, rigidificado, para usar um termo de Moraes Neto. Todavia, esta
solução se restringia aos processos mecânicos no qual se dá a estamparia e a
usinagem. Tratava-se agora de condicionar e racionalizar a montagem.
O passo seguinte dado por Ford, a partir de 1914, foi equiparar a
montagem à produção agora em larga escala das peças e componentes do
automóvel. É necessário falar então que de forma geral os aprimoramentos na
produção e montagem não se distinguiam muito dos princípios tayloristas e
manufatureiros: adequação das distâncias e alturas entre os homens, o objeto de
trabalho e suas ferramentas; variedade destas ferramentas; simplificação das tarefas,
etc.
Contudo, a principal inovação de Ford e aquilo que se tornaria sua
marca distintiva fora justamente a incorporação da esteira, evitando desta forma o
desperdício de tempo despendido no serviço de transporte do objeto de trabalho,
problema inerente à produção manufatureira. Do exposto, podemos então ver que
a inovação promovida pelo fordismo se reduz a questões organizacionais e de
transporte, mas nada que mude substancialmente o princípio já colocado pela O. C.
T.
Uma vez vistos de forma geral o taylorismo e o fordismo, façamos
agora um aprofundamento do ponto de vista conceitual sobre o significado destes
processos para nossa discussão.
Moraes Neto, em seu livro Marx, Taylor, Ford, faz uma discussão
conceitual destes processos mencionados e refuta a idéia colocada por muitos
autores que vêem no taylorismo e no fordismo a expressão acabada do que Marx
descrevera como grande indústria. Ao invés de representarem a ponta do

36
Este têrmo de Moraes Neto foi criado para dar conta do movimento da produção fordista quando
da passagem de uma produção semi-artesanal para uma maior padronização das peças. Este
movimento então teria exigido uma mudança significativa, tornando rígidas as máquinas-ferramentas
universais que produziam de forma flexível. “Sua característica distintiva seria a de produzir de forma
padronizada, ou rígida, [...] lastreando-se, todavia, numa estrutura técnica potencialmente flexível,
coisa não perceptível na época. Esta fase será chamada de fase da ‘rigidificação’” (MORAES NETO,
2003, p. 66).
74

desenvolvimento das forças produtivas no capitalismo, representavam antes um


atraso tecnológico comparados à descrição de Marx.
Primeiramente, devemos refutar a falsa colocação de que o taylorismo
se baseia numa “organização científica” do trabalho. Uma pergunta deve ser feita
para tanto: qual a cientificidade de algo que está colocado na dependência das
vontades subjetivas dos homens? A questão dos tempos e movimentos humanos é,
desde o início, uma questão política colocada no interior da fábrica; é uma
negociação que se faz entre capital e trabalho, daí a importância dos prêmios e das
multas.
Quanto ao taylorismo, visto como um processo de administração dos
tempos e movimento do trabalho vivo, observa-se uma diferença
fundamental no que se refere ao papel da ciência na produção, dado que
a questão de até onde se pode levar o movimento humano não é uma
questão passível de ser resolvida pela ciência (MORAES NETO, 1991, p. 40,
itálico do autor).
A ergonomia não deveria aqui ser vista como um princípio
“científico”, mas sim como um princípio de “dominação” entendida enquanto
subsunção do trabalhador às determinações do capital, sendo esta dominação
suscetível às mudanças histórico-sociais. Não devemos nos esquecer — como já
fora falado por nós acima — que de fato o capital procedeu sempre ao longo de
seu desenvolvimento por um modo de superar a barreira encontrada pela utilização
do fator humano na produção.
A simplificação e o parcelamento de tarefas também não seria uma
novidade do taylorismo e do fordismo. Já vimos como o princípio da divisão
manufatureira do trabalho visava o controle da produção pelo capital baseando-se
nesta mesma simplificação e parcelamento. O padrão de vários homens reunidos
sob um mesmo local; de homens se defrontando com o objeto de trabalho
mediados por simples ferramentas; destes mesmos homens dispostos de tal forma a
formar um mecanismo orgânico em que o trabalho de um determina o trabalho
seguinte; tudo isto já podia ser visto no processo de trabalho manufatureiro: “A
elevação da produtividade social do trabalho para Ford se dá pela via do
parcelamento das tarefas. Ora, esta não é outra coisa senão a natureza por
excelência da manufatura” (MORAES NETO, 1991, p. 49, itálico do autor).
Sendo assim, os processos de trabalho baseados no taylorismo e no
fordismo significaram um retrocesso do ponto de vista conceitual em comparação
às descrições de Marx quanto ao brilhantismo do capitalismo no que tange ao
desenvolvimento das forças produtivas. Deixemos que o resumo de Moraes Neto
abaixo esclareça este ponto de vista:
75

A inovação típica de Ford, a linha de montagem, não fez outra coisa senão
coletivizar o taylorismo, através do recurso fundamental da esteira, que
busca a solução para um problema típico da manufatura, chamado por
Ford de “problema do transporte”. Na realidade, a grande fábrica fordista,
ao invés de significar a indústria por excelência, a forma mais avançada da
produção capitalista, significa isto sim uma “reinvenção da manufatura”,
uma coisa extremamente atrasada do ponto de vista conceitual, a despeito
de seu imenso sucesso do ponto de vista produtivo e econômico. A
colocação de milhares de trabalhadores, uns ao lado dos outros, fazendo
movimentos parciais e repetitivos, administrando seus tempos e
movimentos, ou seja, a utilização in extremis do ser humano como
instrumento de produção, de forma alguma ajusta-se à noção marxista de
produção à base de maquinaria. Trata-se, o taylorismo-fordismo, não de
uma manifestação histórica quase perfeita da “antevisão” de Marx sobre o
processo capitalista, mas sim da negação do conceito marxista de grande
indústria. O caminho do taylorismo-fordismo significa na verdade um
“desvio mediocrizante” do capitalismo no que se refere ao
desenvolvimento das forças produtivas, não fazendo jus à colocação de
Marx de que, quanto a esse ponto, o capitalismo apresentaria uma
natureza brilhante (MORAES NETO, 2002, p. 82).
Uma vez que a aparição de tais processos foi perceptível de modo
mais evidente a partir do século XX, isto provavelmente representou um complexo
obstáculo para quem se deparava empiricamente com tais processos. Isto porque
seu aparecimento aparentava uma linha de continuidade com toda a descrição feita
por Marx em seus escritos. Neste caso, a visão linear e não dialética do
desenvolvimento das forças produtivas causou uma opacidade a quem não se
apercebera do caráter manufatureiro do taylorismo e do fordismo; caráter que
rompia radicalmente com a idéia posta de desenvolvimento linear das forças
produtivas capitalistas. É neste sentido que podemos entender a falta de rigidez
conceitual da obra de André Gorz no que tange às forças produtivas. Também é
desse modo que podemos entender porque Gorz, ao olhar para o sistema capitalista
ou mesmo socialista, captara somente o que havia de mais negativo e medíocre na
sua base técnica. Isto porque na visão deste autor formou-se um amálgama
problemático em que co-existiam os resultados do processo de automação nas
décadas de 70 e de 80 (desemprego) e os processos baseados ainda numa divisão
parcelar do trabalho, o que imprimiria nele uma idéia de degenerescência
inexorável do processo capitalista de produção. Portanto, a incapaz diferenciação
destes dois processos que co-existiram no século XX e a não percepção do caráter
manufatureiro do taylorismo e do fordismo contribuíram para que Gorz fizesse a
ilação de que tudo o que via era fruto de um desenvolvimento homogêneo das
forças produtivas. Eis a armadilha do taylorismo e do fordismo.
Na verdade, vendo os avanços mais recentes da indústria automotiva
e da metal-mecânica como um todo, podemos ver claramente que esta
degenerescência não é inexorável. No entanto, está claro para nós que outros
76

fatores explicam a visão do processo de superação da alienação de André Gorz: seu


saudosismo pelas formas artesanais de produção, nas quais somente haveria a
autodeterminação da vontade do produtor sobre seu produto, evidencia já um
problema para este autor não partilhar das mesmas idéias marxianas de
emancipação. Seu olhar por um viés weberiano também representa um outro
obstáculo. Todavia, não se pode negar que não só autores como Gorz, mas muitos
outros, não puderam perceber que o taylorismo e o fordismo não representavam a
tendência de produção mais avançada no capitalismo.
Em síntese, podemos dizer que o olhar para o taylorismo e o
fordismo representou uma importante armadilha que contribuiu para conduzir Gorz
a problemas conceituais e a tirar ilações sobre o caráter insuperável da alienação na
produção material dos homens. Vejamos agora uma outra problemática da obra
Adeus ao Proletariado.

2.3 Sobre contraditoriedades da obra

Neste item ressaltaremos algumas contraditoriedades suscitadas pela


obra de André Gorz, sendo que algumas já foram levantadas acima. Ainda nesta
parte não faremos nossa crítica principal, que pretendemos realizar na conclusão
deste nosso trabalho, embora a estrutura desta dissertação já apresente o arcabouço
de nossa visão crítica sobre esta obra. Devemos agora chamar a atenção para as
contraditoriedades que nos aparecem, pois nelas poderemos encontrar outras
possíveis deformidades da visão de André Gorz.
Comecemos com uma citação de Josué que, apesar de extensa,
resume as principais idéias colocadas em Adeus ao proletariado e que fizeram o
autor convergir para uma outra direção bem distante da original idéia de abolição
do trabalho alienado e realização das ricas individualidades no processo produtivo,
características da proposta de Karl Marx.
[Adeus ao proletariado], provavelmente o livro mais famoso de Gorz, foi
publicado em 1980 [...]. Esse livro é numa certa medida o resultado de toda
uma década de reflexão acerca do destino do proletariado nas sociedades
industriais contemporâneas e representou uma ruptura com suas
concepções políticas e teóricas dos anos 1960, nas quais toda esperança de
transformação revolucionária estava depositada no potencial revolucionário
da classe operária.
A principal tese defendida no livro é desenvolvida em torno de duas
crises interligadas: a crise do marxismo e a crise do movimento da
classe operária, ou seja, uma situação de crise com dimensões tanto
empíricas quanto teóricas: “O marxismo está em crise porque há
77

uma crise do movimento operário” (GORZ, 1980: 13). Essa dupla


crise decorre, segundo Gorz, da quebra, a partir dos anos 1960, do
vínculo entre o desenvolvimento das forças produtivas e o
aprofundamento das contradições de classe (grifo nosso). Durante as
últimas décadas, ainda segundo Gorz, o capitalismo aprendeu a
administrar sua crise de forma a impedir qualquer possibilidade de colapso
do sistema, apesar de a natureza das relações de produção continuar a
mesma. Assim, partindo das duas suposições, primeira, que a natureza do
sistema não mudou, isto é, continua caracterizado por contradições de
classe; segunda, que a força do marxismo como instrumento analítico e
intelectual, para não dizer revolucionário, encontrava suporte nessas
contradições de classe, Gorz avança a tese segundo a qual a chave para
diagnosticar a crise do marxismo deve ser buscada na acima
mencionada quebra de vínculo das contradições de classe (grifo
nosso).
De fato, a idéia de socialismo científico deriva do seguinte duplo
pressuposto: 1) que a revolução socialista seria a tarefa de uma classe
social (o proletariado), que englobaria a maioria dos produtores sociais; e
2) que a essência dessa classe seria sua consciência da impossibilidade de
aceitar sua realidade social como uma classe. Em outras palavras, a teoria
da revolução proletária de Marx supõe, de um lado, que “o
desenvolvimento das forças produtivas engendre a base material do
socialismo” (GORZ, 1980: 14), e, de outro lado, que esse desenvolvimento
“faça surgir a base social do socialismo, a saber: uma classe operária capaz
de se apropriar coletivamente e de gerir a totalidade das forças produtivas
cujo desenvolvimento a fez nascer” (GORZ, 1980: 14).
Mas a conexão entre esses dois postulados não foi confirmada pela
realidade. Em primeiro lugar, a chamada base material para o
socialismo não pode ser derivada do desenvolvimento das forças de
produção capitalistas porque essas últimas só funcionam de acordo
com a lógica da racionalidade capitalista. Assim, ao invés de
fornecer a base material para uma sociedade socialista, elas tornam-
se, na verdade, um obstáculo para essa última. Seria preciso,
portanto, uma reconversão completa de tais forças produtivas para
adaptá-las às necessidades de uma sociedade socialista.
Em segundo lugar, o desenvolvimento das forças produtivas
capitalistas não funciona de forma a permitir uma apropriação
coletiva direta por parte do trabalhador coletivo, isto é, pelo
proletariado (grifo nosso). O desenvolvimento capitalista criou uma
classe operária, cuja maioria não tem capacidade para gerir os meios de
produção. Além disso, os interesses dessa classe operária não estão
necessariamente propensos a coincidir com uma racionalidade socialista
(SILVA, 2002, p. 30).
Vejamos agora as várias problemáticas que uma tal visão comportaria.
Primeiramente devemos tratar de uma questão: como pode ser anunciada a falência
de Marx e da contraditoriedade do capitalismo justamente na sua fase de maior
contraditoriedade? Explicando, para Gorz o desenvolvimento das forças produtivas
deixou de significar uma contradição com as relações de produção. Todavia, como
já vimos, Marx explica que, em sua ânsia para suprir a constante necessidade da
valorização, o capital revoluciona incessantemente a sua base material que, como
vimos, atinge um tal estágio de eficiência que gera a exclusão dos trabalhadores37.

37
Devemos deixar claro aqui que nosso uso constante da palavra trabalhador expressa simplesmente
aquele que trabalha. Da mesma forma poderemos utilizar desempregado para se referir ao individuo
que não está no processo produtivo. No entanto, disto não se tira a conclusão de que somente o
primeiro é um proletário. Uma vez que este conceito, ao nosso ver, é usado por Marx e Engels para
78

Seria este o sentido de se falar de um proletariado que não tem mais nada a perder,
nem mesmo seu emprego. Vejamos então como Marx e Engels viam esta
contradição social do capital já no século XIX — por sinal, uma condição muito
similar a nossos dias:
A grande maioria dos desempregados torna-se vendedores ambulantes. É
principalmente aos sábados à noite, quando toda a população operária sai
à rua, que vemos reunidas as pessoas que vivem disso. Fitas, rendas,
galões, laranjas, bolos em resumo, todos os artigos imagináveis são
oferecidos por homens, mulheres e crianças [...]. Outros ainda, chamados
jobers, circulam nas ruas tentando encontrar alguns trabalhos ocasionais.
Alguns conseguem um dia de trabalho; muitos não são tão felizes
(ENGELS, 1988, p.104).
Numa tal situação, “o imposto para os pobres não é suficiente; a
caridade dos ricos é uma gota de água no oceano, cujo efeito desaparece logo em
seguida; a mendicância é pouco eficaz, dado o número de mendigos” (ENGELS,
1988, p. 106-7).
O que queremos com estes relatos é abrir a possibilidade de uma
pergunta simples: por que o desenvolvimento das forças produtivas gerava
contradição antes e agora deixou de gerar? Acaso as conseqüências, vistas por
Engels, da aplicação da máquina no setor têxtil e das crises não são as mesmas de
nosso contexto? Mais uma vez a resposta pode servir de fundamentação a nossa
crítica. Gorz toma por referência o taylorismo/fordismo e, mesmo concebendo a
abolição do trabalho pela automação, não consegue, paradoxalmente, vislumbrar a
superação destas técnicas de processo produtivo. Contudo, não avancemos mais do
que ainda não nos fôra possível demonstrar.
Façamos outra pergunta: quando e por que propriamente as forças
produtivas deixaram de representar uma contradição no capitalismo. A resposta é
clara e é fornecida também por Josué Pereira da Silva.
A pacificação do conflito de classes nos países industrializados do
Ocidente (ou compromisso fordista) era pelo menos em parte resultado da
capacidade do welfare state de prover a maioria da população desses
países com um padrão de vida acima da linha de pobreza (SILVA, 2002, p.
85).
O welfare state, o compromisso keynesiano entre as classes, que ficou
conhecido como o pacto social, tão amplamente pregado por partidos reformistas,
se estruturou a partir deste contexto do século XX. Num tal contexto em que a base
produtiva fundamentalmente taylorista/fordista, como falamos, devorava seres

se referir a todo aquele que, não tendo mais nada a não ser sua força de trabalho, deve procurar
alguém para comprá-la. Neste caso, um proletário não deixa de estar na condição de proletariado
por não encontrar alguém que deseja comprar sua força de trabalho. Em não encontrando alguém
que o explore podemos — somente aí — dizer que não tem mais nada a perder, a não ser suas
algemas. Logo, o desemprego não seria, em qualquer hipótese, o fim do proletariado.
79

humanos como khronos a seus filhos, só se podia esperar uma amenização, pelo
pleno emprego, das desigualdades sociais e da conseqüente contradição social do
capitalismo. A classe trabalhadora tivera asseguradas conquistas nunca dantes
sonhadas. Todavia, se isto representava uma força de negociação da classe operária,
representava também uma fraqueza por justamente esta classe preferir agora a
negociação, evitando assim perder as novas conquistas numa ruptura com a ordem
burguesa vigente.
Em outras palavras, a máxima marxista segundo a qual a única coisa que o
proletariado teria a perder no caso de uma revolução social seriam seus
grilhões tornou-se de difícil aceitação sob as condições do welfare state no
período posterior à Segunda Guerra Mundial (SILVA, 2002, p. 86).
Neste contexto, parece haver sentido os dizeres de Gorz sobre a
relação estabelecida entre as forças produtivas e o fim das contradições das relações
sociais capitalistas. Como acusá-lo, se a tese revisionista procedia com os mesmos
elementos de análise? Como pensar em contradições num sistema onde a base
técnica estimula o emprego de milhares de pessoas e a forma social obriga milhares
de pessoas a procurarem um emprego para garantir a satisfação de suas
necessidades vitais mínimas? No entanto, a acusação deve vir não por ter enxergado
uma relação para lá de evidente, mas por ter interpretado que a ausência de
contradição era resultado do desenvolvimento das forças produtivas capitalistas. O
que criticamos nele é que não se apercebera de que a ausência de contradição
retornou ao século XX justamente pelo retrocesso capitalista ao buscar uma força
produtiva de índole manufatureira, como é o caso do taylorismo e do fordismo,
como pudemos ver anteriormente. Ao fazer isto, o capital gerou realmente um
estado de coisas adverso aos seus objetivos de controle absoluto da produção e da
determinação in extremis do tempo de produção, uma vez que o trabalho humano
diretamente ligado à produção não fora abolido, mas, ao contrário, a habilidade
humana se encontrava novamente valorizada, agora pelos processos produtivos do
setor metal-mecânico — e justamente por este estado de coisas, em que a classe
operária detinha um maior poder, é que o movimento sindical sente saudades deste
tempo.
Como diria acertadamente HOBSBAWM:
[...] nos velhos centros industrializados, que significado poderia ter o “De
pé, ó vítimas da fome!” da “Internationale” para trabalhadores que agora
esperavam possuir seu carro e passar férias anuais remuneradas nas praias
da Espanha? E se os tempos se tornassem difíceis para eles, não haveria
um Estado previdenciário universal e generoso pronto a oferecer-lhes
proteção, antes nem sonhada, contra os azares da doença, da desgraça e
mesmo da terrível velhice dos pobres? (HOBSBAWM, 2000, 262).
80

Vendo tudo isto, como deixar de dar razão a Gorz sobre sua
colocação de que, naquela situação, o “marxismo estava em crise porque o
movimento operário estava em crise”? No entanto, não podemos concordar com ele,
e força-nos a tarefa de explicar este aparente jogo de inversões provocado pela
interversão ideológica da realidade ou, se preferirmos um têrmo de Marx,
provocado pelas “travessuras do espírito”.
Como poderemos constatar na longa citação de Josué Pereira da Silva,
Gorz está do alto dos anos 80 escrevendo a este respeito. Se Adeus ao proletariado
é uma obra que já visualizava e propagava o fim do proletariado provocado pelo
desenvolvimento do capitalismo, em hipótese alguma ele poderia dizer que a
realidade carecia do princípio de contraditoriedade social já visto por Engels e Marx
no século XIX. Se bem nos lembrarmos de uma citação do subitem 2.1.2, Gorz
declarava: “Keynes está morto”. Neste contexto de Adeus ao Proletariado, portanto,
a única coisa sensata a ser dita sobre a contraditoriedade do capitalismo seria dizer
que ela estava retornando; dizer que o tempo do pleno emprego keynesiano e seu
alicerce taylorista-fordista estavam ruindo e que por isso a não-contraditoriedade do
período de ouro do capitalismo estava terminando. Não obstante, e esta é a grande
inversão ideológica, ao invés de perceber isto, vemos Gorz afirmando a crise do
marxismo, justamente no momento de sua maior vigência a julgar pelo que já
discutimos no item sobre o desenvolvimento das forças produtivas. Gorz teve a
ousadia de dizer o óbvio ao falar que Keynes estava morto, mas parece não ter tido
a mesma vontade para afirmar o fim do taylorismo-fordismo e, portanto, do retorno
da contraditoriedade do capital.
Disso tudo, a única conclusão lógica que podemos tirar é que, de
fato, Gorz, apesar de se basear no fim do trabalho pela automação, combina
paradoxalmente sua análise tendo em vista os sistemas tayloristas/fordistas. Todavia,
apresentaremos agora a maior evidência disto que estamos afirmando. Esta
evidência está ligada a mais uma questão que surge da longa citação apresentada
por nós acima, na qual Josué Pereira fala sobre a obra Adeus ao Proletariado.
Vejamos então mais este aspecto a ser destacado.
Esta outra questão surgida daquela citação é a idéia já comentada
parcialmente por nós de que as forças produtivas gestadas pelo capitalismo “não se
prestam a uma apropriação pelo proletariado” para um “uso socialista”.
O que nos importa mostrar aqui é novamente o vínculo contraditório
das idéias de Adeus ao proletariado com o taylorismo/fordismo. Dizemos
81

contraditório justamente porque é uma obra que tira asserções da automação e da


redução do trabalho necessário — não podemos esquecer de uma idéia central da
“não-classe” dos “não-trabalhadores” — ao mesmo tempo em que mostra uma
constante vinculação dos métodos tayloristas e fordistas do trabalho em suas
principais teses: fim da contraditoriedade do capitalismo e permanência de métodos
de trabalhos desprovidos de qualificação que reproduzem o embotamento.
Lembremos novamente da passagem que estamos nos referindo nas
palavras de Josué:
O desenvolvimento capitalista criou uma classe operária, cuja maioria
não tem capacidade para gerir os meios de produção (grifo nosso).
Além disso, os interesses dessa classe operária não estão necessariamente
propensos a coincidir com uma racionalidade socialista (SILVA, 2002, p.
30).
Esta vinculação entre desenvolvimento do capitalismo e
desqualificação do operário não é exclusividade de Gorz. Mas ela evidencia que
não se está falando de processos altamente cientificizados. No caso, trata-se da
desqualificação promovida pelo taylorismo e pelo fordismo que, como fôra
mostrada pelo próprio Henry Ford, não exige do operário nada mais do que
movimentos ritmados e parciais: “A maioria dos homens que se apresentam em
nossa fábrica não possuem especialidade nenhuma e em horas ou dias aprendem o
seu ofício. E se não o aprendem é que não prestam para nada” (FORD, 1926, p.
77). Ou mesmo:
Quanto ao tempo preciso para a aprendizagem técnica a proporção é a
seguinte: 43% não requerem mais que um dia; 36 requerem de um dia até
oito; 6, de uma a duas semanas; 14, de um mês a um ano; 1, de um a seis
anos. Esta última categoria de trabalhos requer grande perícia — como a
fabricação de instrumentos e a calibragem (FORD, 1926, p. 105).
Como vemos, somente 1%, segundo o próprio Ford, teria um nível de
qualificação realmente grande, enquanto que uma maioria quase absoluta não
requeria uma formação profissional. Pensamos que é devido exclusivamente a este
fator que Gorz declarou que o capitalismo havia criado um proletariado que não
poderia gerir ou controlar a produção social. Quanto a outros teóricos que
propagam a mesma idéia de desqualificação impregnando a totalidade dos
trabalhadores podemos ver Harry Braverman. Neste caso, também como Gorz,
38
Braverman fazia a análise a partir da base produtiva taylorista e fordista .

38
Esta discussão pode ser encontrada em (MORAES NETO, 1991) e (SANDOVAL FILHO, 2002).
82

Capítulo 3 – O projeto dualista de Gorz e a questão


empírica: o olhar para o “socialismo realmente existente”

3.1 Breve análise do atraso soviético

Partindo da discussão já efetuada, resta-nos compreender o que vê


Gorz ao olhar e criticar o socialismo. Já sabemos que, da posição histórica em que
se situava Gorz, a questão empírica do ocidente revelou-lhe uma primazia dos
processos de trabalho fundados no taylorismo e no fordismo. Não obstante, a
investigação dos processos de trabalho e processos decisórios do Estado soviético
não logrará visão de um quadro mais otimista para a emancipação humana. Sendo
assim, nosso objetivo neste capítulo será especificamente resgatar o caráter atrasado
da base produtiva soviética e a posterior tentativa de construção de uma base
socialista. Para tanto, devemos fazer um breve resumo do contexto pré-
revolucionário e do período revolucionário, evitando entrar numa maior
complexidade que exigiria tal análise da transição soviética.
O que de fato nos importa saber é se havia uma base material
desenvolvida para a construção de uma sociedade emancipada, ou se, ao contrário,
esta base teve de ser construída ao longo do processo revolucionário. Neste último
caso, saber também em qual processo de trabalho se basearam os mentores e
construtores desta nova sociedade que buscava a emancipação. Cabe lembrar ainda
que nossa discussão estará referenciada no socialismo soviético por algumas razões
muito simples. A primeira delas é porque Gorz, ao fazer críticas ao socialismo em
seu livro Adeus ao Proletariado, refere-se diretamente à União Soviética e aos
mentores desta revolução: Lênin, Trotski, etc. Também porque foi o primeiro país a
tentar implantar uma sociedade socialista e que possuiu, por isso, uma
temporalidade maior que outras tentativas. Foi a partir também de suas experiências
83

que se tiraram modelos para as outras revoluções, formando uma nova teoria —
combinando teoria e prática — que ficara conhecida no campo socialista como
Marxismo-leninismo.
Para chegarmos à compreensão de nossos objetivos, comecemos este
breve histórico com um fato comum às várias revoluções socialistas do século XX.
Este fato é que, excetuando um ou dois países do leste europeu (Tchecoslováquia e
Hungria), todas estas experiências se deram em países atrasados do ponto de vista
econômico. Mas apesar do atraso, vale lembrar que, para o caso do antigo império
russo, era o atraso de um império. Para que se compreenda isto, devemos
retroceder na história até o antigo império tsarista russo no século XIX.
Juntamente com outros impérios coloniais, a Rússia antiga possuía um
grande poderio militar. Derrotara as tropas de Napoleão e se tornara reconhecida
por este feito. Todavia, a um certo momento do século XIX a Rússia parece ter
perdido a marcha econômica da história.
Introduzira-se naquelas quatro décadas, entre 1815 e 1855, um
descompasso que se tornara histórico entre a Rússia tsarista e as potências
capitalistas mais dinâmicas da Europa. Como se a Rússia não tivesse sido
capaz de acompanhar o processo de modernização (a Revolução
Industrial) que estava mudando a paisagem econômica e social da Europa
ocidental desde fins do século XVIII. Em 1820, a Rússia produzia mais
ferro que a França ou os Estados Unidos, ou a Prússia, e o equivalente a
um terço da produção inglesa. Quarenta anos depois produzia dez vezes
menos do que a Inglaterra, um terço do que produziam os EUA e tinha
sido já ultrapassada pela França e até pela Prússia (REIS FILHO, 2003, p.
22).
Era o reinado de Nicolau I, que ficara conhecido como um período de
obscurantismo. Neste caso o obscurantismo pode ser ilustrado como uma
continuidade e até fortalecimento das estruturas feudais e relações de servidão que
terão fim somente em 1861, com as reformas de Alexandre II. O tsarismo
caracterizava-se ainda por um extremo misticismo e religiosidade exacerbada e por
uma grande miséria da população que, juntos, plasmavam a ignorância
principalmente dos servos camponeses conhecidos como mujiks. Vale ainda
lembrar que este campesinato constituía cerca de 85% a 90 % da população Russa,
diversificada em suas etnias e línguas. Podemos ver estas imagens mais fielmente
retratadas pela pena de Tolstoi e Dostoievski ao descreverem a miséria do campo e
da cidade, ou mesmo lembrar a estranha figura do monge Rasputin, tido como um
bruxo pelas massas na época de Nicolau II.
Por volta da metade do século XIX, impulsionado por pressões sociais
tanto no campo quanto na cidade, o regime tsarista propõe algumas reformas,
sobretudo para tentar acompanhar outros impérios e conter revoltas internas. Uma
84

destas mudanças ocorridas no campo foi a criação de comunidades agrárias


coletivas conhecidas como mir. Não fora propriamente uma doação de terras por
parte do tsar, afinal os camponeses deveriam pagar pela posse da terra. Além disso,
devemos ter em conta que não se trataram de reformas pacíficas, uma vez que a
nobreza não estava disposta a ceder seu lugar tão facilmente.
Estas disputas e revoltas marcam o cenário russo desde a segunda
metade do século XIX até a revolução de outubro. Antes mesmo do início do século
XX, disputas e reações contrárias à modernização ou mesmo à ocidentalização
ocorrem. Intelectuais se dirigem ao campo para tentar mobilizar a população
camponesa pela educação. São os chamados narodniks. Estes movimentos, que
darão origem ao populismo russo, combatem a modernidade ocidental capitalista e
tentam construir um novo padrão de desenvolvimento, chegando a incorporar até
os ideais socialistas e a recente teoria de Karl Marx, traduzida então recentemente
para o russo.
No que diz respeito a estas teorias, grandes foram também as disputas
ideológicas travadas no interior destes vários movimentos que irão compor o
cenário revolucionário russo. Teses originadas das tentativas de se pensar o
marxismo no contexto da Rússia tsarista são identificadas nos debates entre
ortodoxos que excluem a idéia da possibilidade de se incorporar o campesinato no
movimento revolucionário. E apesar de podermos considerar que o grupo chamado
de socialistas-revolucionários estava ligado ao campesinato, foram justamente outros
teóricos — como bem o sabemos, Lênin e o partido bolchevique39 — que irão
sustentar que o campesinato é imprescindível para o sucesso da revolução, sendo
os únicos a apoiarem de fato a revolta no campo segundo LINHART (1977).
[...] quando se insiste em que apenas os socialistas-revolucionários,
herdeiros dos populistas, estavam ligados aos camponeses, enquanto os
bolcheviques procediam como políticos burgueses, é evidentemente difícil
admitir que no momento crucial em que se punha praticamente a questão
de apoiar ou reprimir o movimento revolucionário de massa dos
camponeses apenas Lenine e o Partido Bolchevique se tenham posto, na
realidade, do lado dos camponeses (LINHART, 1977, p. 26, itálico do
autor).
Está claro, porém, que esta opinião não era consenso no interior do
partido, bem como as clássicas e polêmicas teses que debatem a possibilidade de se

39
Devemos, contudo, ter em mente que este apoio não se deu de forma unitária. As polêmicas ainda
no final do século XX já demonstravam uma discordância entre os teóricos. G. Plekhanov, aliado por
certo período de Lênin, foi um opositor conhecido de uma revolução pelo campesinato: “Plekhanov,
ao longo dos anos 80 e 90, foi quem melhor encarnou a ortodoxia desse marxismo russo nascente: o
socialismo na Rússia não mais se basearia, como pensavam os populistas, no campesinato, nas
tradições rurais igualitárias e na comuna agrária, mas no progresso urbano, na classe operária
emergente, na fábrica” (REIS FILHO, 2003).
85

ocorrer uma revolução socialista num país atrasado como a Rússia e sobre a
possibilidade de sobrevivência do socialismo num só país.
Também sobre isto, é conhecida a renitente defesa que faz Stalin da
possibilidade de que o socialismo se desenvolva unicamente em um só país.
Todavia, quem primeiro se aventurou a afirmar tal coisa foi o próprio Lênin.
A partir de alguns escritos de Engels e também de Marx, podemos
constatar a pesada crítica que estes autores fizeram às tentativas de se pensar o
socialismo em uma sociedade atrasada e em uma só localidade. Se o comunismo é
fruto, dentre outras coisas, do intercâmbio universal entre os homens e do
desenvolvimento das forças produtivas, seria impensável sua implantação em um
único país, principalmente atrasado. Marx e Engels escrevem em A Ideologia Alemã:
O comunismo só é empiricamente possível como o ato “súbito” e
simultâneo dos povos dominantes, o que supõe, por sua vez, o
desenvolvimento universal da força produtiva e os intercâmbios mundiais
estreitamente ligados a este desenvolvimento (MARX, ENGELS, 2002, p. 31-
2).
Desse modo, a ortodoxia do movimento marxista russo reafirmaria
esta tese, excluindo que uma verdadeira revolução socialista pudesse se operar
isoladamente no contexto soviético. Boa parte do POSDR e posteriormente do
partido bolchevique sabiam disso e ansiavam por uma revolução na Europa,
principalmente porque a Alemanha da época passava por revoltas constantes e a
revolução aparentava estar prestes a eclodir. Mesmo assim, houve uma mudança
significativa nos discursos, principalmente de Lênin. Talvez isto se devesse ao fato
de, como líder político, abrir mão da rigidez teórica e abraçar a estratégia de
insuflar a massa para uma mudança imediata sem a dependência da Europa40.
[...] a tese de Engels de que a vitória do socialismo num só país seria
impossível transformou-se num dogma, compartilhado também pelos
marxistas russos. O primeiro que divergiu decididamente desta formulação
foi Lênin (MEDVEDEV, 1988, p. 48).
Sobre a afirmação colocada por Medvedev de que é dogmatismo
ponderar sobre a impossibilidade da construção do socialismo isoladamente, não o
cabe agora. Nem avaliar se se trata de um imperativo econômico sine qua non de
realização do socialismo. O que nos importa momentaneamente é mostrar a
mudança de Lênin e o peso que ela terá, sobretudo na posterior defesa staliniana
ancorada em suas palavras. Assim, num artigo intitulado “Sobre o lema Estados
Unidos da Europa” Lênin dirá:
‘A desigualdade do desenvolvimento econômico e político é uma lei
absoluta do capitalismo. Disto resulta que é possível o triunfo do

40
As conseqüências desta e de outras mudanças do ponto de vista teórico do marxismo serão
analisadas no próximo item que discutirá as bases materiais do socialismo soviético.
86

socialismo, inicialmente, em alguns países ou mesmo num só país


capitalista, tomado separadamente. O proletariado vitorioso deste país,
expropriados os capitalistas e organizada no próprio país a produção
socialista, se poria contra o resto do mundo capitalista, atraindo para si as
classes oprimidas dos outros países’ (LÊNIN apud MEDVEDEV, 1988, p.
49).
A declaração do líder bolchevique era nítida e será o sustentáculo
teórico para o momento decisivo quando da tomada do poder.
Retomemos agora as transformações pelas quais vinha passando a
Rússia no início do século XX. Apesar de incipiente, havia um proletariado que
passava privações e que, agora motivado por agitadores socialistas, se organizava
para reivindicar direitos juntamente com excluídos do meio rural. Em 1905 uma
manifestação de trabalhadores pedindo reformas e melhorias fora reprimida e
esmagada pelo governo tsarista.
O tom geral era de Antigo Regime: os súditos, como crianças, suplicavam
ao tsar paizinho (batiuchka) atenção e proteção. Mas as reivindicações
eram modernas: jornada de trabalho de oito horas, salário mínimo,
eleições, assembléia representativa. Misturavam-se as épocas no que
diziam e nas formas em que se manifestavam e se organizavam os
trabalhadores, avançando em direção ao Palácio de Inverno em São
Petersburgo, com suas mulheres, ícones e crianças.
O tsar não se dignou a recebê-los, nem estava no Palácio. A tropa disparou
a metralha sobre a população indefesa, fazendo dezenas de mortos e
centenas de feridos.
O massacre não intimidou. Gerou indignação e revolta, dando início à
revolução (REIS FILHO, 2003, p. 42, itálico do autor).
Teve início então a revolução de 1905. Revoltas generalizadas no
campo e na cidade promoviam saques e invasões. Soldados se amotinavam nos
quartéis41 e engrossavam o movimento popular rebelado por três grandes
manifestações e greves ao longo deste ano. Mas sem dúvida, o acontecimento mais
importante fora o surgimento de uma organização coletiva que tinha sua instância
deliberativa em assembléias populares: os chamados sovietes. Surgido ao norte de
Moscou, se disseminaram por todo o império russo tanto nas cidades quanto nos
campos. Foram de grande auxílio na organização da população e nas decisões que
aos poucos foram levadas em consideração pelo tsar, ao ser pressionado.
Deu-se então o que era inevitável. Para se manter no poder, o
tsarismo cedeu à algumas reivindicações e estabeleceu a liberdade de manifestação
e organização política, bem como a promessa de uma assembléia representativa na
Rússia. Grande parte do movimento aceitou estas concessões e em parte aderiram
ao próprio governo. Os que continuaram rebelados foram presos e até exilados. Daí
até o início de 1917 o império promoveu sua autocracia e dominação. É fato que

41
Foram nestas rebeliões que se deu o grande motim da base de Kronstadt, no golfo finlandês e o
motim do famoso Encouraçado Potemkim, eternizado pelas lentes de Eisenstein.
87

fez reformas há muito exigidas pela população; modernizou sua economia


recuperando em parte o atraso de sua antiga tradição absolutista e de seu período
de retrocesso, mas no plano político continuou nas velhas bases conservadoras
incluindo repressões ainda mais violentas de sua polícia política.
Entraria em cena, no entanto, a primeira guerra mundial com a
respectiva adesão da nação russa. Este fato não pode ser desprezado. Autores como
(HOBSBAWM, 2000, p. 61) dirão que “a revolução foi a filha da guerra no século
XX: especificamente a Revolução Russa de 1917, que criou a União Soviética”.
Quando deflagrada a guerra cresceu o sentimento de nacionalismo e a
propaganda chauvinista do império russo levou o povo a apoiá-la. Mas a guerra se
revelou mais uma vez numa grande penúria a ser suportada pela população
camponesa e trabalhadores das grandes cidades. Aliados a todos estes sofrimentos
estavam os já existentes, que se tornavam agora insuportáveis para uma população
privada de condições mínimas de vida que avistava seu governo reprimindo-os e
dissipando suas riquezas nas decadências de uma corte anacrônica para o moderno
século XX. A revolta inesperada levou cinco dias, mas fora o suficiente para
destronar um tsar sem forças políticas e alianças que pudessem sustentá-lo. Esta
revolução, que teria vida quase tão breve quanto o tempo que durara, ficou
conhecida como revolução de fevereiro por ocorrer nos últimos dias de fevereiro de
1917.
O tsar abdicara e um governo provisório escolhido pela Duma
(assembléia) tomou seu lugar, uma vez que seu sucessor recusou-se a assumir.
Eram pessoas comprometidas com o que havia de mais ocidentalizante na Rússia
(Cf. REIS FILHO, 2003, p. 58-9). Este governo, que sofreria ainda uma tentativa de
golpe pelas forças conservadoras e que fôra rapidamente abafada, fora
extremamente vacilante e dava mostra de completo despreparo para as decisões a
serem tomadas. Lênin e os bolcheviques foram firmes em suas críticas e, sob o
slogan de Lênin “todo o poder aos sovietes” exigiram que os conselhos populares
dos sovietes tivessem maior participação. O governo tenta ainda a cooptação do
movimento incorporando ao ministério o soviete de São Petersburgo, mas o
movimento não se deixou prender-se. Exigiam reformas políticas e poderes e o
movimento campesino começara uma onda de invasões exigindo a partilha da terra
e realizando a reforma agrária a força. Estavam preparadas as condições subjetivas
da revolução e também as objetivas. Nas vésperas da realização do II congresso dos
sovietes, tropas sob o comando bolchevique marcharam na capital, só encontrando
88

resistência maior no Palácio de Inverno, a qual foi facilmente debelada. Fôra a


revolução de outubro de 1917. O poder do antigo império tsarista passava agora às
mãos dos bolcheviques, um governo representante do proletariado e também do
campesinato russo.
No entanto, no que tange a discussão sobre as condições objetivas
resta-nos algumas reservas. Se pensarmos uma situação em que um governo e suas
instituições políticas perdem sua legitimidade perante a grande parte da população;
uma situação em que o movimento histórico em suas várias esferas — econômico,
político, etc. — já ultrapassara há muito as condições ainda vigentes em um
determinado país; se pensarmos isto como condições objetivas, então devemos
admitir que a Rússia tsarista possuía tais condições para uma revolução. Não
obstante, como o reconhecem os próprios líderes da revolução (como veremos no
próximo item), estas condições representavam a decadência de um governo e de
relações de produção que em nada devia ao Ancient Regime. No meio rural ainda
imperava as relações de servidão, de tal modo que as revoluções russas (1905,
fevereiro e de outubro) estavam mais para um acerto de contas com a aristocracia
nobiliária do que com a burguesia.
Para reforçar a tese de que a revolução russa demonstra claramente a
idéia de uma ruptura com o Antigo Regime basta ver sua característica precípua de
uma revolução camponesa. Aliás, Robert Linhart dirá que não fora fortuito o fato de
ela ter ocorrido em outubro.
Se a Revolução de Outubro se realizou em Outubro foi, porque os
camponeses russos, passando à acção na época do amanho das terras,
forçaram com a sua atitude todas a (sic) forças políticas a determinarem-se
[...] (LINHART, 1977, p. 26).

3.2 Do atraso ao que havia de “mais avançado e científico”: o


taylorismo

Como já pudemos relatar ainda que brevemente, as relações do antigo


império russo no campo poderiam ser entendidas como semifeudais. No que diz
respeito às indústrias a situação também era precária. É fato que os últimos anos do
tsarismo puderam promover um crescimento de seu parque industrial e de sua
produção, mas comparado com índices da Europa ainda deixava muito a desejar.
Mesmo alguns anos após a revolução a economia soviética continuou
89

essencialmente agrária, com a agravante de produzir ainda menos do que produzia


antes da revolução.
[...] Deve-se também lembrar que, em meados dos anos 20, a economia
soviética era ainda, em grande medida, uma economia camponesa. Em
1926, como em 1914, 83% da população viviam no campo; [...] Além disso,
a parte da produção agrícola vendida no mercado era proporcionalmente
muito inferior à do período anterior à revolução (DAVIES, 1988, p. 84).
Outro fato notório da estrutura econômica da antiga Rússia era a falta
de um proletariado típico. Sabemos o quanto Lênin, talvez estrategicamente,
utilizara em seus discursos que a Rússia possuía um proletariado pronto e acabado
para encabeçar a revolução. Não obstante, reconhecia que “[...] a primeira
particularidade da Rússia, característica no mais alto grau, é, [...] que o proletariado
constitui uma minoria e, além disso, uma fraca minoria, para uma esmagadora
maioria de camponeses” (LENIN, 1978, p. 181). Posteriormente ele alegará,
legitimando o emprego do taylorismo como veremos em seguida, que o
proletariado deveria ser uma construção do regime revolucionário no interior das
próprias fábricas. Afinal, anteriormente à revolução “[...] a origem dos operários é o
mundo rural, as aldeias, e não as cidades. Não se constitui como decorrência de um
longo processo de mudança da base produtiva” (AUED, 1995, p. 43).
Que a estrutura sócio-econômica da Rússia era atrasada — quanto a
esta afirmação parece haver um consenso conforme podemos ver em (AUED, 1995,
p. 38) — os próprios líderes da revolução pareciam saber e aceitar. Sobre Lênin,
“[...] em 1917 estava tão claro para ele quanto para todos os ouros marxistas russos
e não russos que simplesmente não existiam na Rússia as condições para uma
revolução socialista” (HOBSBAWM, 2000, p. 65, itálico do autor). Ou mesmo
Trotski:
O traço essencial e o mais constante da História da Rússia é a lentidão com
que o país se desenvolveu, apresentando como conseqüência uma
economia atrasada, uma estrutura social primitiva e baixo nível cultural
(TROTSKI apud AUED, 1995, p. 38).
Mas como entender que marxistas esclarecidos pudessem então
propor uma revolução socialista num país que carecia das bases mais
desenvolvidas? Como coloca HOBSBAWM,
[...] Com exceção dos românticos que viam uma estrada reta levando das
práticas coletivas da comunidade aldeã russa a um futuro socialista, todos
tinham como igualmente certo que uma revolução da Rússia não podia e
não seria socialista. As condições para uma tal transformação simplesmente
não estavam presentes num país camponês que era um sinônimo de
pobreza, ignorância e atraso, e onde o proletariado industrial, o
predestinado coveiro do capitalismo de Marx, era apenas uma minúscula
minoria, embora estrategicamente localizada. Os próprios revolucionários
marxistas russos partilhavam dessa opinião (HOBSBAWM, 2000, p. 64).
90

A resposta novamente deve ser procurada na esperança que os


revolucionários cultivavam de que a Revolução de Outubro acendesse o rastilho de
pólvora que detonaria a revolução mundial, começando pela Alemanha. “Para os
revolucionários marxistas na Rússia, sua revolução tinha de espalhar-se em outros
lugares” (HOBSBAWM, 2000, p. 65, itálico do autor). Como vimos acima, Lênin
colocava antes de 1917 a tese do socialismo em um só país e até ponderava sobre a
possibilidade dele triunfar. Todavia, após a revolução e com as dificuldades
inerentes de uma base material pouco desenvolvida e do cerco contra-
revolucionário promovido por países capitalistas, Lênin relativiza aquela
possibilidade.
A ampliação da guerra civil na Rússia complicou mais ainda a posição do
poder soviético. No fim de 1918 e em 1919, a situação dos bolcheviques
era de tal modo crítica que Lênin, em muitas declarações daquele período,
repetiu várias vezes que a revolução russa não poderia vencer sem o apoio
da revolução socialista européia. Era o mesmo que afirmavam naqueles
meses muitos outros líderes bolcheviques [...](MEDVEDEV, 1988, p. 52).
Ao findar a contra-revolução e o comunismo de guerra, com a
implantação da NEP (Nova Política Econômica), a economia parece retomar
novamente um crescimento. Neste momento, novas polêmicas e mudanças nos
discursos sobre as possibilidades do socialismo num só país iriam se reacender. E
enquanto Lênin parecia refeito do susto dos primeiros anos da revolução, Trotski
continuava a denunciar:
As contradições na posição de um governo operário num país atrasado,
com uma maioria esmagadora de população camponesa, só poderão ser
resolvidas (...) na arena da revolução mundial do proletariado (TROTSKI
apud MEDVEDEV, 1988, p. 57).
Trotski, o grande crítico da tese do socialismo isolado num país
atrasado como a Rússia, ainda contava com o apoio de Zinoviev e Kamenev neste
período. Entretanto, com a morte de Lênin e com a condução cada vez mais
autoritária de Stalin, estes dois líderes passam a aceitar, ainda que contrariados, a
tese (agora assumidamente staliniana) de que o socialismo poderia se desenvolver
isoladamente no contexto da União Soviética. Trotski, então, ficaria tão isolado
quanto o socialismo criticado por ele, sendo exilado como um traidor da
42
revolução .
Para efeito de nossos propósitos neste trabalho estas discussões
possuem um valor estritamente de contextualização histórica. O que importa para

42
“Só um grupo combateu invariavelmente o stalinismo a partir de 1923, o grupo formado por
Trotsky e pela oposição de esquerda. E, por isso, pagaram um preço terrível: Trotsky foi assassinado
no exílio por um agente russo, e seus correligionários morreram em grande parte no Gulag, onde
formaram um dos poucos grupos que organizaram ativamente a resistência ao regime que prevalecia
no campo de concentração” (CALLINICOS, 1992, p. 29).
91

nós no momento é deixar claro que a esperada — por muitos — revolução mundial
não veio e em sua ausência instalou-se a fome e o atraso.
A revolução mundial, que justificou a decisão de Lenin de entregar a
Rússia ao socialismo, não ocorreu, e com isso a Rússia soviética foi
comprometida, por uma geração, com um isolamento empobrecido e
atrasado. As opções para seu desenvolvimento futuro estavam
determinadas, ou pelo menos estreitamente circunscritas [...] (HOBSBAWM,
2000, p. 71).
Sobre o diagnóstico das conseqüências do isolamento da revolução,
Reis Filho não poupará palavras para explicitar este desvio de vital importância para
o futuro do socialismo:
No plano internacional, e contrariando as previsões dos líderes
bolcheviques, a revolução internacional não acontecera. A Rússia estava
isolada. O socialismo num só país, uma entorse essencial na teoria marxista
de revolução.
[...] O comunismo imaginado por Marx como a sociedade da abundância
concretizava-se como a organização da escassez (REIS FILHO, 2003, p. 72,
itálico do autor).
O Partido Bolchevique que havia conseguido a simpatia popular
vociferando contra a guerra foi obrigado a entrar num armistício que lhe custou
partes importantes de seu território — a chamada paz de Brest-Litowsky. Os
primeiros anos se revelaram de enorme penúria graças à guerra civil na contra-
revolução promovida pelos países capitalistas do exterior e pelos russos brancos
internamente. Esta primeira fase do socialismo soviético contava com a requisição
forçada de produtos agrícolas para o abastecimento das cidades e do exército
vermelho nas linhas de combate. Esta requisição forçada gerou um desestímulo dos
camponeses e a conseqüência imediata foi o boicote dos kulaks e a queda de
produtividade. Após a vitória na guerra civil,
O país estava simplesmente arrasado. O produto industrial registrava um
declínio de mais de dois terços. Na grande indústria, a perda chegava a
80%. A produção de petróleo, energia elétrica e carvão caíra em mais de
70%. Em relação a outros setores estratégicos para o equilíbrio da
economia, como ferro, aço e açúcar, uma situação ainda mais desoladora:
quase 100% de queda. O mesmo ocorria no tocante ao comércio externo.
Quanto à produção agrícola, diminuição de quase metade (REIS FILHO,
2003, p. 71).
Desse modo, o império que já apresentava um profundo atraso em
relação à Europa e aos Estados Unidos, tornara-se ainda mais empobrecido, de tal
forma que a grande conquista agora seria a vitória contra a fome e as pestes. Em
1919 Lenin diria:
A nossa [...] tarefa é a luta contra os piolhos que transmitem o tifo
exantemático. Este tifo, numa população minada pela fome, doente,
privada de pão, de sabão e de combustível, pode degenerar numa
calamidade que nos impedirá de levar a cabo toda a edificação socialista.
Esse é um dos primeiros passos na nossa luta pela cultura e é uma luta
pela existência (LENIN apud LINHART, 1977, p. 16).
92

Estas preocupações de Lenin nos mostram o quão distante estava


aquela realidade da possibilidade de constituição do socialismo. Mas em que pese
este desvio grosseiro das teorias desenvolvidas por Marx e Engels devemos
reconhecer que Lenin e o governo soviético agiam movidos pelas vicissitudes do
contexto calamitoso da URSS. Eles sabiam a dimensão do problema que estavam
criando ao exigir uma atitude dos socialistas da Rússia nos momentos decisivos.
Porém, imaginavam poder solucionar este problema com a ajuda da revolução
mundial e com os esforços da população russa sob a direção do Partido
Bolchevique. Desse modo, sabiam também que, se a base material do socialismo
não existia ainda: tratar-se-ia de construí-la.
Vencidas a fome e as pestes, a nova tarefa que se impunha era a
construção da Grande Indústria. Algo que pareceria simples do ponto de vista
teórico, mas que seria de uma enorme complexidade no contexto soviético. Para se
constituir um parque industrial na Rússia da época podemos pensar em algumas
medidas que fossem necessárias: 1) Começar pelas indústrias de base que
porventura não existissem ainda. 2) Possuir uma rede de eletrificação nacional para
fazê-las funcionar, pois tal malha não existia até então. 3) Constituir um corpo
técnico, que ou não existia ou havia desaparecido com a recente revolução. 4)
Garantir a importação de maquinários que não existiam na URSS. Para isto seria
necessária uma certa concessão revolucionária aos países capitalistas para que uma
negociação de política externa se efetivasse. 5) Para que houvesse importações seria
necessário ainda gerar as divisas na balança comercial e, para isso, a necessidade
premente de exportação do único produto possível na URSS da época: produção
agrícola.
É esta tarefa que se impõe ao Comitê central, a saber: a adoção do
imposto em natureza, sob o poder proletário; e essa tarefa está
estreitamente ligada às concessões. [...] Através das concessões, o Estado
proletário pode assegurar-se um acordo com os países capitalistas
adiantados; desse acordo depende o reforço de nossa indústria, sem o qual
não poderemos avançar para o caminho que conduz ao comunismo; de
outro lado, nesta fase de transição, num país de maioria camponesa, é
preciso saber tomar medidas que visem a garantir a situação econômica
dos camponeses, o máximo de medidas com o fim de melhorar sua
situação econômica. Enquanto não mudarmos a condição campesina,
enquanto a grande indústria não a transformar, é preciso assegurar aos
camponeses a liberdade de gerar sua exploração (LENIN, 1978, p. 183).
Ora, aqui estava colocado um problema de recíproca determinação
que ligava a questão industrial à questão agrária, ao mesmo tempo em que ligava o
proletariado e o campesinato. Se o campesinato não possuía uma cultura socialista,
como fazê-lo entender que deveria produzir excedente para manter a população
93

citadina e para a exportação? Sem exportação, como desenvolver e importar


maquinários e técnicos que possibilitassem o desenvolvimento da indústria e,
conseqüentemente, da economia que beneficiaria o campesinato com um maior
comércio e com a introdução de implementos agrícolas no campo (como o trator,
por exemplo)?
Sabemos que a requisição forçada de produtos da população
campesina no início da revolução se revelou um fiasco. A produção decresceu
ainda mais. A medida que conseguiu retomar o fôlego da produção foi a garantia
da comercialização livre e privada do excedente por parte do campesinato. Este foi
o grande sucesso da NEP, apesar de retroceder dos ideais socialistas e permitir a
economia privada e de mercado. Este fôlego conseguido pela NEP abriu a
possibilidade de estruturar a indústria sobre os moldes verdadeiramente proletários.
43
Tem início então o grande projeto de proletarização que marcou a mentalidade
socialista e que forneceu uma miríade de elementos para a crítica44.
Outra das condições para o aumento da produtividade do trabalho é, em
primeiro lugar, a elevação do nível cultural e de instrução das massas da
população. Isto se dá agora com grande velocidade, fato que as pessoas
cegas pela rotina burguesa são incapazes de ver; incapazes de
compreender quanto é grande a ânsia por luz e o espírito de iniciativa que
hoje se desenvolve entre as “camadas baixas” do povo, graças à forma
soviética de organização. Em segundo lugar, uma condição da ascensão
econômica é a elevação da disciplina dos trabalhadores, sua destreza,
eficácia, a intensidade do trabalho e a sua melhor organização (LENIN,
1988, p. 163).
Esta proletarização encontraria suas razões nestes fatos já relatados
acima. Robert Linhart (1977) irá mostrar em um dos capítulos chamado O
proletariado inencontrável a falta deste proletariado desviado no momento da
revolução, e posteriormente, para a composição do exército vermelho,
administração, etc. Além disso, se se queria aumentar a base produtiva, deveriam
ampliar ainda mais o corpo proletário além dos limites que já existiam. Assim, a
única possibilidade encontrada pelo poder soviético foi buscar seus trabalhadores
nos campos e discipliná-los. O instrumento usado para promover tal disciplina:
importar o sistema taylorista de produção — e com ele sua mediocridade intrínseca.
O apelo no sentido de aplicar o taylorismo se insere numa situação de
recuo, ainda que não de “retirada estratégica”, como a NEP. Mais ainda: a
necessidade de recorrer à “ultima palavra do capitalismo” em termos de
racionalização nasce e se desenvolve com a constatação de que “o russo é
um mau trabalhador”, devido à sobrevivência de “restos do regime feudal”
sob o czar. Daí se segue que o poder soviético “deve pôr diante do povo

43
Sobre a necessidade de produtividade e aumento da disciplina do trabalho e emulação, ver
capítulo VI de (BORODÍNE; FAMÍNSKI et alli, 1983).
44
Sobre esta crítica, ver (GORZ, 1987) e (KURZ, 1999).
94

em toda a sua amplitude” uma tarefa precisa e inadiável: “aprender a


trabalhar” (FINZI, 1988, p. 150)45.
Lenin teria tido contato com a literatura que falava sobre o sistema
taylorista antes mesmo da revolução. A princípio sua posição com relação a este
sistema se mostrava crítica. Todavia, aos poucos, foi amenizando suas
considerações críticas e admirando as possibilidades que poderiam advir da
implantação de um tal sistema libertado da determinação das relações de
exploração capitalistas (Cf. LINHART, 1977 e FINZI, 1988). Esta mudança, contudo,
não se operou posteriormente à revolução, como nos mostra Finzi (1988, p. 145),
mas antes mesmo. Assim, a adoção de uma posição apologética por parte de Lenin
não pode ser escusada com a justificativa de um imperativo prático posterior à
revolução.
Nossa intenção aqui não é julgar as posições de Lenin, mas
simplesmente indicar as conseqüências desse desvio teórico para o socialismo e,
principalmente, para a fundamentação da crítica de André Gorz ao socialismo46. No
entanto, é forçoso fazermos algumas considerações. Comecemos então recolocando
a pergunta também perplexa de Robert Linhart: “Como é que semelhante modo de
organização do trabalho pôde ser tomado como modelo pela indústria soviética nos
primeiros anos que se seguiram à Revolução de Outubro?” (LINHART, 1977, p. 89).
A resposta, a nosso ver, pode ser encontrada na própria teoria
marxista, pois para esta o socialismo não pode ser fruto de uma base material
atrasada. E, como vimos, Lenin sabia que a Rússia tsarista havia legado para o
governo bolchevique uma estrutura atrasada, não somente pelas condições técnicas,
mas psicológicas e culturais de um país fundamentalmente camponês. Sabia
também que esta primeira fase da revolução não poderia ser sequer socialista.
Deveriam — e isto fica claro nas colocações de Lenin — construir primeiramente
uma estrutura produtiva desenvolvida para só então dar o salto posterior ao
socialismo.
45
O que se encontra entre aspas se refere às próprias palavras de Lenin.
46
Como pudemos ver ao longo da dissertação, as posições colocadas por Gorz e a fundamentação
de seu projeto dualista estão ancoradas, por um lado, justamente no fato do socialismo soviético
reproduzir em larga medida as mesmas degenerescências do capitalismo no que tange às suas
relações de produção. Neste sentido, o que tentamos demonstrar é que esta reprodução das relações
capitalistas não advém do emprego de forças produtivas capitalistas avançadas, como quer Gorz e
outros autores com suas críticas à neutralidade técnica. Nem tão pouco concordar com o debate
maoísta de que a URSS assimilou estas técnicas capitalistas de forma passiva (ver MARTORANO,
2002). A problemática colocada está justamente no fato de que a União Soviética tivera que buscar
não o que havia de mais desenvolvido para a produção material — uma vez que, como vimos, o
setor metal-mecânico somente iria encontrar um caminho para a automação no final do século XX —
mas o que havia de mais atrasado: a dependência produtiva da habilidade do próprio homem e de
seus movimentos, coisa muito distante das asserções feitas por Marx e que, por isso, deve ser
denunciada.
95

A produtividade tornava-se uma necessidade imperiosa. E este motivo,


aliado a outros, teria contribuído para reforçar a crença de que a criação de um
proletariado disciplinado era fundamental para se atingir uma indústria produtiva.
Para este objetivo Lenin deveria importar o que houvesse de mais avançado nos
processos produtivos do ocidente capitalista.
Até aí ele estaria, ao nosso ver, coerente com a teoria socialista de
Marx e Engels. Porém, o óbice à coerência está no fato de Lenin realmente acreditar
que o taylorismo representava o máximo de desenvolvimento técnico-científico. A
partir das anotações de leitura vê-se que ele está cada vez mais atraído pelo sistema
Taylor:
Não há dúvida de que, no taylorismo, Lênin vê um aspecto científico num
sentido, por assim dizer, próprio e estrito: de progresso dos conhecimentos
naturais, de maior penetração nos segredos da natureza, de avanço da
capacidade humana de submeter a si o mundo natural. Daí sua constante
ênfase na importância das conquistas tayloristas no estudo dos
movimentos (FINZI, 1988, p. 144).
Ora, avanço no que diz respeito à ampliação do conhecimento sobre
os segredos da natureza com o taylorismo? Ainda que tal absurdo fosse verdade,
este conhecimento só ampliaria a consciência da gerência responsável pelo estudo
e aplicação de tal sistema. Quanto ao homem envolvido diretamente na produção,
o que se pode dizer é que continuou limitado e condicionado pelas determinações
da natureza. Não se pode concordar ou mesmo admitir que se veja um tal avanço
tendo em vista o que discutimos no capítulo 2, principalmente quando o próprio F.
W. Taylor reconheceu que não há praticamente nenhuma inovação técnica em seu
sistema, a não ser a captura do saber humano transferido para a gerência e a análise
de como pode o homem — este primeiro e atrasado instrumento de produção —
fazer seu movimento mais rápido.
O sistema Taylor tem como função essencial dar à direção capitalista do
processo de trabalho os meios de se apropriar de todos os conhecimentos
práticos até então monopolizados de facto pelos operários. Não há, ou
quase, produção de conhecimentos novos, mas sim apropriação pelo
capital e pelos seus agentes do saber operário, na maior parte dos casos
perfeitamente adequado. O método Taylor aspira à “cientificidade” em
nome da sua única actividade de classificação e sistematização.
O próprio Taylor reconhece que em geral quase nada inova no plano
técnico em relação à perícia operária preexistente (LINHART, 1977, p. 85,
itálico do autor).
Todavia, se há que se entender o que teria levado um teórico do
porte de Lenin a ver avanço científico no taylorismo, isto se deve à já mencionada
armadilha do taylorismo/fordismo, na qual o próprio André Gorz, mesmo criticando
a posição de Lenin, cairia.
96

Em suma, em vez de ter em mente as conquistas do sistema


automático de máquinas, como propunha Marx, o socialismo real soviético basear-
se-ia e investir-se-ia da tarefa de transformar o elemento humano em máquina —
ou peças de uma gigantesca máquina como é o interior de uma indústria taylorista
e fordista. Sendo assim, é dispensável dizer o nível de alienação e coisificação do
homem que comportava tal equívoco teórico-prático promovido pela URSS. Como
podemos ver nos dizeres de Lenin:
A última palavra do capitalismo neste terreno — o sistema Taylor — do
mesmo modo que todos os avanços do capitalismo, reúne em si toda a
ferocidade refinada da exploração burguesa e uma série das maiores
conquistas científicas referentes ao estudo dos movimentos
mecânicos durante o trabalho, a supressão dos movimentos
supérfluos e torpes, a elaboração de métodos de trabalho mais
racionais, a implantação de melhores sistemas de registro e de
controle, etc. A República Soviética deve adotar, a qualquer custo, as
conquistas mais valiosas da ciência e da técnica neste domínio (grifo
nosso). A possibilidade de se construir o socialismo depende precisamente
do êxito que logremos, ao combinar o poder soviético e a organização
soviética da direção com as últimas conquistas do capitalismo (LENIN,
1988b, p. 164).
Sequer deve ter passado pela cabeça de Lenin que estas crueldades
por ele enxergadas estão ligadas com as elogiadas “mais preciosas conquistas
científicas”. Do ponto de vista teórico e prático do socialismo, a exortação que ele
faz ao falar “adotar a qualquer custo” não poderia prever que iria custar tão caro. E
assim, seguiu a URSS seu caminho rumo ao socialismo real adaptando as teorias de
Marx ao contexto soviético, tendo como objetivo a proletarização baseada na
obrigatoriedade do trabalho e de sua respectiva coerção disciplinar. A referida
“gestão soviética” ficaria restrita à esfera política, ainda que Lenin em seus discursos
ousasse dizer que a produtividade do trabalho serviria para garantir a redução da
jornada e para a respectiva participação do trabalhador na administração. Após
algum tempo esta idéia iria desaparecer dos discursos oficiais. “Na redação
definitiva, destinada ao público, das Tarefas imediatas do poder soviético,
desaparece o estreito laço entre emprego do sistema Taylor e redução da jornada
de trabalho” (FINZI, 1988, p. 153).
Quando dos momentos de implantação do taylorismo, Lenin chegou a
ser incisivo em suas argumentações. Declarou abertamente por diversas vezes que o
taylorismo, ao simplificar e racionalizar os movimentos dos trabalhadores,
aumentaria a produtividade ao mesmo tempo em que reduziria a jornada de
trabalho a longo prazo, permitindo assim a participação dos trabalhadores na gestão
pública. Isto seria decisivo para a tão esperada extinção do Estado.
97

[...] a aplicação do sistema Taylor, corretamente dirigida pelos próprios


trabalhadores se estes são bastante conscientes, será a melhor garantia para
que no futuro (grifo nosso) se possa reduzir enormemente a jornada
obrigatória de toda a população trabalhadora, será a melhor garantia para
que num período bastante breve realizemos o objetivo que pode-se
expressar aproximadamente da seguinte maneira: seis horas diárias de
trabalho físico para cada cidadão adulto e quatro horas de trabalho para
administração do Estado (LENIN, 1988a, p. 121).
E sobre esta possibilidade de trânsito do trabalhador entre o trabalho
manual e o trabalho intelectual dirá ele que “é isso que levará à extinção completa
de todo o Estado em geral” (LENIN apud LINHART, 1977, p. 99, itálico do autor).
De fato, o que ocorreu foi exatamente seu contrário. A alienação e
mecanização do trabalhador seriam ocultadas por uma cultura da doação individual
ao bem coletivo. Em vez da propugnada superação da divisão entre trabalho
manual e intelectual com a participação operária no processo de gestão do Estado,
o trabalhador se viu mutilado de seus movimentos “supérfluos” sob o jugo de uma
nova hierarquia do trabalho gestada e introduzida pela implantação do taylorismo
na URSS. Uma casta de gerentes que não só se cristalizará no processo produtivo,
mas terá sua equivalente no âmbito estatal.
Este processo de trabalho iria então reproduzir todas as perversidades
e ignomínias das relações de produção capitalistas, não por ser uma técnica
importada do capitalismo de forma passiva, mas sim pela determinação de seu
atraso ao se valer do homem como elemento de produção.
Quando ilustramos em citação acima as palavras de Lenin “no futuro”,
ao falar dos efeitos benéficos do taylorismo para a redução da jornada de trabalho,
queremos mostrar que seu ideal só poderia se situar numa linha temporal distante.
Afinal, que esperar de um processo de produção que dependa fundamentalmente
do homem para a realização de movimentos que darão origem aos produtos, como
no caso do taylorismo e do fordismo? Aliado a esta restrição precípua, está o fato de
que este ideal de Lenin se restringe ainda mais por basear-se no comando de uma
gerência “comandada pela vontade de um indivíduo”. Está claro que Lenin, como
exortara acima, disse que este ideal e possibilidade de diminuição da jornada
dependeriam da “orientação correta dos trabalhadores conscientes” envolvidos no
processo. Mas como pôde ele colocar a eficácia de sua idealista superação da cisão
entre trabalho manual/intelectual na dependência da vontade dos trabalhadores
num processo de produção que lhes nega sistematicamente a vontade? Como
poderia Lenin dizer coisas tão contraditórias como afirmar que a realização da
emancipação do trabalhador depende de sua autonomia consciente no processo de
trabalho e ao mesmo tempo afirmar que
98

Há que se consolidar o conquistado por nós mesmos, o que decretamos,


convertemos em leis, discutimos e planificamos, tudo isso devemos
consolidar dentro das formas estáveis de uma disciplina diária do trabalho.
Esta é a tarefa mais difícil, mas também a mais fecunda, porque somente
seu cumprimento nos dará uma ordem socialista. Devemos aprender a
combinar a democracia das “reuniões públicas” das massas
trabalhadoras, que flui turbulenta, impetuosa como as águas primaveris
que fazem transbordar os rios, com a disciplina de ferro durante o
trabalho, com a obediência incondicional à vontade de uma só
pessoa, o dirigente soviético no trabalho (grifo nosso) (LENIN, 1988b,
p. 176, itálico do autor)
Ora, o taylorismo e a organização do processo de trabalho que se
baseia numa gerência investida de plenos poderes como o descrito acima não
poderia jamais garantir uma autonomia aos trabalhadores. Ao contrário, o móvel da
produção não era a atividade com fim em si mesmo, — como se refere muitas
vezes Marx — mas a produtividade e disciplina. Sendo assim, este sistema era uma
47
extração ao paroxismo do suor do trabalhador neste socialismo, de forma tão ou
mais perversa.
Desse modo, o socialismo soviético estava reproduzindo a hierarquia
e a burocratização no processo produtivo — reproduzindo uma gerência na
produção que posteriormente se sentiria ameaçada pela introdução do voluntarismo
stakhanovista e de seu estímulo à superação da normatização em prol da
produtividade48. Enfim, o que o Estado socialista estava fazendo na esfera produtiva
era a reprodução da famosa burocracia herdada do regime tsarista na esfera política,
a qual Lenin tentava combater.
[...] Lutar contra o burocratismo apoiado no taylorismo, como pretendia
Lenine, não será lançar pela janela o que se reintroduz pela porta
principal? A longo prazo — e para uma visão actual — trata-se talvez de
uma das questões fundamentais da Revolução Soviética. Lenine bateu-se
contra a burocratização das “superestruturas”, mas viu-se ao mesmo tempo
obrigado, pela lógica desse combate, a instalar o germe do burocratismo
no próprio seio das relações de produção — no processo de trabalho
(LINHART, 1977, p. 123).
Isto será uma das grandes objeções de André Gorz à tentativa
emancipatória do processo de trabalho soviético e fornecerá ainda a ele a idéia de
que a técnica desenvolvida pelo capitalismo não se presta a uma apropriação e uso
socialista. Afinal, ela reproduz na íntegra as relações de produção capitalistas e a
hierarquia no trabalho e sua conseqüente heteronomia do poder funcional, como
gosta de dizer.
47
Não podemos nos esquecer que em 1913 Lenin escreve o artigo “Sistema ‘científico’ para arrancar
o suor”, no qual irá dizer que o sistema taylorista consiste “em extrair do operário três vezes mais
trabalho numa mesma jornada de trabalho” (LENIN apud FINZI, 1988, p. 139).
48
Alguns autores como Arthur G. Bedeian e Carl R. Phillips dirão: “Many managers were afraid that
Stakhanovites would infringe on the entire order of plant work, breaking rules imposed by
technological processes. Generally, Stakhanovites undermined departmental subordination and the
authority of both technical staff and line managers” (BEDEIAN; PHILLIPS, 1990, p. 33).
99

O desenvolvimento das forças produtivas do capitalismo deu-se de


maneira tal que elas não se prestam a uma apropriação direta por parte do
trabalhador coletivo que as coloca em operação nem a uma apropriação
coletiva por parte do proletariado (GORZ, 1987, p. 26).
Mas o reconhecimento de que as técnicas capitalistas adotadas pelo
socialismo soviético não se prestavam para um uso socialista teria vindo bem antes.
O governo chinês de Mao Tse Tung irá denunciá-la, mas mesmo antes o próprio
Trotski admitiria que “A velha técnica, na forma em que a conquistamos, é
inteiramente inadequada ao socialismo” (TROTSKI apud FINZI, 1988, p. 156). No
entanto, não se poderia exigir que estes críticos que associavam taylorismo com a
grande indústria de Marx pudessem enxergar a saída para tal apropriação
adequada das forças produtivas. E, como pretendemos mostrar com este nosso
trabalho, nem o próprio Gorz pôde fazê-lo. Daí a origem do equívoco de seu
projeto dualista.
Voltando à nossa discussão original, devemos lembrar ainda mais um
fato que nos chama a atenção. Como sabemos, o taylorismo fora aplicado contra o
poder do operariado da fábrica que detinha seu savoir-faire; fora aplicado contra a
elite operária para expropriar seu saber em benefício do capital. Todavia, há um
fato: não havia saber operário no início do governo bolchevique porque não havia
conceitualmente um proletariado como herdeiro de séculos de formação de base
artesanal e manufatureira (AUED, 1995).
O taylorismo, como expropriação, toma toda a sua dimensão de ofensiva
estratégica no plano social quando investe contra classes operárias
poderosas, experimentadas, qualificadas, herdeiras de séculos de ofício, de
corporações, de artesanato. Nada semelhante existe na Rússia. O
proletariado industrial russo nascente não acumulou esse capital de
conhecimento e prática de natureza técnica (LINHART, 1977, p. 108,
itálico do autor).
Esse fato só vem fortalecer então a tese de que o taylorismo é
implantado com a finalidade de criar uma disciplina e um saber fazer ausente da
população trabalhadora no início do socialismo soviético. Mais ainda, ele teria sido
adotado com o propósito de se criar as bases de uma economia de transição do
capitalismo para o socialismo na qual uma nova cultura deveria brotar deste
exercício de proletarização. No entanto, esta transição haveria de se tornar um
modo de produção solidificado. Não podemos nos esquecer que Stalin irá herdar
este Estado ainda incipiente, tendo como objetivo sua consolidação.
Neste contexto, nada de novo poderia ocorrer. Externamente a
revolução mundial não viera e o socialismo soviético teve de lidar com a realidade
de seu isolamento. Internamente, não se poderia esperar nenhuma grande
transformação de um sistema de trabalho que por essência promove o atrofiamento
100

das universalidades humanas e a desqualificação da força de trabalho. Excluída as


mudanças nos âmbitos da propriedade jurídica e na esfera da distribuição, a única
transformação possível seria o aprofundamento deste sistema e o aumento
conseqüente da produtividade econômica. Fato que levaria ao aumento da
degenerescência provocada por um processo de produção inadequado ao contexto
socialista teorizado por Karl Marx.

3.3 Emulação, stakhanovismo e ethos do trabalho: a medíocre


emancipação

Passado o período de Lenin no poder e com a posterior solidificação


do poder de Stalin, um novo impulso e revigoramento da economia era exigido. A
NEP dera seus frutos, mas chegara a um limite e até a um certo decréscimo. A idéia
de uma verdadeira planificação estava sendo gestada para que se alcançassem os
níveis pretendidos para a sobrevivência do socialismo num país isolado.
No pleno do Comitê Central do Partido, em julho de 1928, Stalin insistiu
em que a industrialização soviética somente podia ser financiada com
recursos internos, e não com os empréstimos externos e a exploração
colonial que tinha financiado a industrialização capitalista; isso significava
que a classe operária e os camponeses iriam ser as fontes principais da
acumulação de capital (DAVIES, 1988, p. 100).
Com o esgotamento das possibilidades geradas pela adoção da NEP
na economia, surgiram as primeiras propostas de substituição da concessão do
mercado para uma economia realmente planificada. Entravam em cena os planos
qüinqüenais. Neste período de exaustão da NEP, o programa de planificação para
os diversos setores produtivos necessitava contar com altos investimentos. Todavia,
não se poderia contar com os investimentos externos ou tão pouco continuar
apelando ao campesinato, já exaurido e historicamente propenso ao individualismo
e a revoltas. Assim, a nova fonte desta expropriação de recursos, chamada por
Stalin de acumulação socialista, viria do recém criado proletariado.
O elemento característico do plano do GOSPLAN era a insistência na
necessidade de preparar planos qüinqüenais para cada indústria e cada
setor da economia, que contivessem programas específicos de
investimentos líquidos de capital fixo capazes de transformar gradualmente
a natureza da economia. Sua maior fraqueza estava na incapacidade de
oferecer um projeto praticável para a acumulação dos recursos necessários
ao financiamento do programa de investimento. Reconhecia-se que a
agricultura não poderia ser sacrificada ainda mais, e que os recursos
principais deviam ser fornecidos pela própria indústria através de um
aumento da produtividade do trabalho e da diminuição dos custos
(DAVIES, 1988, p. 93).
101

Neste cenário, como podemos perceber, com a consolidação do


stalinismo, o proletariado sofreria ainda mais as conseqüências negativas do que
outrora representava um ideal de Lenin ao tentar construir a estrutura econômica da
transição socialista. De um estado transitório da economia, veríamos agora uma
perpetuação desta estrutura. Pois “[...] à medida que a industrialização avançava, a
estrutura perdia seu caráter provisório e a União Soviética acomodava-se a uma
organização de trabalho diferente apenas em pormenores em relação aos países
capitalistas” (BRAVERMAN, 1977, p. 22). Neste caso, esta estrutura econômica
atrasada do ponto de vista da grande indústria de Marx ganharia ainda um verniz
ideológico como veremos à frente.
A construção do projeto de proletarização que teve início com Lenin
não levou em conta as limitação e degenerescências do taylorismo, como vimos.
Mais ainda, ele teria visualizado benefícios onde não existiam, e proposto sua
disseminação no interior da URSS. Como este projeto estava ligado ao ideal de uma
nova cultura socialista, não poderia ficar restrito ao âmbito do processo produtivo.
Daquele momento em diante a ideologia do trabalho deveria ser reproduzida para
os jovens no âmbito ideológico das escolas. Essa reprodução deveria ser tanto no
que diz respeito à qualificação da mão-de-obra quanto de um novo ethos que a
levaria aos mais extremos sacrifícios em nome de um socialismo de país atrasado. A
URSS se investiria então do projeto de
[...] Construir um homem novo. Um ser humano solidário que não pensasse
principalmente em si mesmo, de forma egoísta, como nos países
capitalistas, mas no conjunto, na sociedade como um todo, em todo o
mundo, na inteira humanidade. No presente, lançar bases para o futuro
(REIS FILHO, 2003, p. 97, itálico do autor).
No plano econômico, como já afirmamos, deveriam ser criados os
pressupostos materiais e técnicos para a consecução do projeto de proletarização.
Assim, a idéia de adoção do ensino do sistema Taylor nas escolas é assumida pelo
próprio Lenin. Diz ele: “Devemos organizar na Rússia o estudo e o ensino do
sistema Taylor, experimentá-lo e adaptá-lo sistematicamente aos nossos próprios
fins” (LENIN, 1988b, p. 164). Mais esclarecedoras ainda são as citações abaixo:
Estes estudos interessam a toda a sociedade (...). Um resultado
característico é o facto de o afastamento entre a escola e a fábrica ser
progressivamente eliminado. O estudo intensivo dos movimentos
demonstra que existe muito mais semelhança entre os ofícios e até entre as
profissões, do ponto de vista mecânico, do que alguma vez imaginaríamos
[...]. O mundo industrial exigirá cada vez mais jovens operários
dotados de dedos ágeis (...). Isso tem de ser ensinado nas escolas
102

públicas (grifo nosso) [...] (LENIN apud LINHART, 1977, p. 98, itálico do
autor)49.

[...] No conjunto parece-me perfeitamente indicado para ser adotado


como manual obrigatório em todas as escolas profissionais e em
todas as escolas do segundo grau, em geral. Aprender a trabalhar é
presentemente a principal tarefa da República dos Sovietes, uma
tarefa que diz respeito a todo o povo (grifo nosso) (LENIN apud
LINHART, 1977, p. 120, itálico do autor).
Pensamos que o projeto da criação de uma classe proletária em si já
envolve um sério problema do ponto de vista teórico da emancipação. Temos claro
que para Lenin o que estavam construindo no momento pós-revolucionário não era
o socialismo, e sim uma economia de transição. Porém, este projeto, aliado a uma
base técnica extremamente atrasada, resultou numa perpetuação de uma sociedade
de classes, na qual uma gerência administrativa tornar-se-ia autônoma em relação à
classe produtiva. Jamais se poderia esperar uma superação destas condições iniciais
com o desenvolvimento e reforço desta organização do trabalho que estavam
construindo. Em outras palavras, a dinâmica exigida para o funcionamento deste
processo de trabalho acentuaria o problema ao invés de resolvê-lo; sua superação
jamais se daria pelos elementos endógenos, como nos iria mostrar a história.
No entanto, se falamos acima dos condicionamentos técnicos pelo
ensino do taylorismo a esta nova classe promovidos pelo poder soviético, falemos
agora dos condicionamentos ideológicos que acompanharão a execução deste
projeto de proletarização.
Lenin costumava dizer que o trabalho verdadeiramente comunista
seria voluntário e abnegado, tendo em vista não a satisfação pessoal, mas o bem-
estar coletivo. Não obstante, lembremos do lema de Lenin que dizia: “quem não
trabalha não come”. Este lema, que expressa a mesma coerção econômica dos
países capitalistas, marcava uma época de muitas dificuldades para o
estabelecimento do Estado proletário e o abastecimento das cidades. Neste contexto
irão surgir dois fenômenos antinômicos. O primeiro deles, ligado justamente às
ferrovias que uniam campo e cidade, ficou conhecido como sábados comunistas.

49
Há nesta citação dois pontos que nos chamam a atenção. O primeiro é a colocação de Lenin ao
afirmar que o “mundo industrial exigirá cada vez mais jovens operários dotados de dedos ágeis”.
Ora, isto evidencia claramente que o mundo industrial de Lenin esta bem distante do mundo
industrial de Marx, para o qual o elemento vivo do trabalho tende à apendicização até o ponto de se
tornar supérfluo. O segundo ponto reside no fato de que a proposta de Lenin vai de encontro ao
que podemos visualizar no mundo capitalista. Escolas encarregadas da qualificação e formação dos
futuros trabalhadores — um exemplo brasileiro pode ser encontrado no SENAI — encobrem o fato
de que servem unicamente para fornecer mão-de-obra especializada, perpetuando sua condição de
classe ao impedir um ensino universal condizente com a sua condição de ser humano multilateral
em suas necessidades e potencialidades.
103

Este tipo de iniciativa seria elogiado por Lenin como um verdadeiro exemplo de
trabalho comunista e consistia simplesmente em que os operários dedicassem seu
tempo de folga nos sábados para trabalharem na construção e recuperação das
ferrovias de forma gratuita (Cf. LINHART, 1977). De segunda a sexta trabalhariam
para si, aos sábados para a construção do Estado socialista. Tecnicamente não se
distinguia em nada do processo de trabalho habitual, a não ser pelo fato de sua
gratuidade.
O segundo fenômeno, que se dará em 1920, cerca de um ano depois
dos sábados comunistas, será conhecido como militarização do trabalho. Esta
militarização era marcada pela obrigatoriedade do trabalho e pelo recém criado
exército dos trabalhadores comandados por Trotski e conhecidos como
trabalhadores de choque. O nome é uma analogia com as tropas de choque, pois,
de forma similar, estes destacamentos de trabalhadores serviriam para intervir em
obras de importância vital que passavam por dificuldades de conclusão. Conta-se
que seus relatórios espelhavam os moldes militares e que os trabalhadores
chegavam ao trabalho marchando e em grande estilo. Mas o fato a ser destacado é
que foram empregados justamente onde antes se situava o núcleo dos sábados
comunistas. Segundo (LINHART, 1977, p. 135-6) isto revelaria que a eficiência dos
trabalhos voluntários do ponto de vista técnico era precária. Esta miscelânea entre
duas formas de trabalho — voluntário e obrigatório — leva-nos a concordar com
Robert Linhart quando este diz que o ordenamento da força de trabalho se dará de
modo “voluntário se possível, obrigatório se necessário”.
Ao se verem privados das necessidades básicas, a militarização do
trabalho e sua obrigatoriedade haveria de se tornar permanente.
[...] vencida a guerra civil, a mesma proposta voltaria em outras versões,
como a da militarização do trabalho, o emprego sistemático dos critérios
de organização militar para a vida civil, a sociedade mobilizada em
batalhões e exército distribuídos de forma centralizada por frentes de
trabalho [...] (REIS FILHO, 2003, p. 72).
Não podemos aqui deixar de relatar um triste capítulo da ex-União
Soviética e que guarda uma relação de vital importância nesta análise sobre a
estrutura do processo de trabalho: Os campos de concentração de trabalhos
forçados (Gulag). Os prisioneiros destes campos eram destinados aos trabalhos
forçados, sob tais condições que, posteriormente, alguns autores fariam analogias
com o trabalho escravo. Sem dúvida, a importância econômica desta forma de
trabalho seria relevante, principalmente no que diz respeito ao projeto de
acumulação socialista. Isto levaria o governo de Stalin a incentivar este tipo de
104

economia, coisa que fica evidente quando se constata o vultoso número de milhões
de prisioneiros. Como dirá (MCNEAL, 1988, p. 263),
Enquanto milhões de pessoas subiam na hierarquia sócio-econômica da
Rússia staliniana, outros milhões desciam; aliás, a posição dessas últimas
precipitou-se bruscamente. Tratava-se dos habitantes do vasto sistema de
campos de trabalho forçado ou gulag (a sigla para ‘administração estatal
dos campos’). É ainda hoje impossível estabelecer, com uma mínima
pretensão de exatidão, o volume da população do gulag; [...] Para manter
em nível constante a sua população, era necessário que — para substituir
os mortos ou, mesmo, os poucos sobreviventes que eram soltos —
passassem a fazer parte da mesma um número maior de pessoas do que o
exigido para a reprodução das outras classes”.
Sendo assim, a reprodução deste sistema exigia cada vez mais um
número de pessoas disponíveis para os trabalhos. O principal alvo desta política
stalinista de “expurgo” foi a camada mais abastada do campesinato, na época
considerada um perigo iminente e inimiga da revolução. Os camponeses que
fugiam da coletivização
[...] Transformavam-se, juntamente com os acusados de crimes políticos,
em zeks, prisioneiros adstritos a trabalhos forçados, responsáveis pela
abertura de canais, construção de estradas de ferro, exploração de
madeiras nobres e de minas de ouro nas condições insalubres de regiões
inóspitas. A importância econômica do trabalho forçado, por muitos
denunciado como uma restauração disfarçada do trabalho servil,
largamente reconhecida, é até hoje de difícil mensuração estatística” (REIS
FILHO, 2003, p. 91).
No entanto, sabemos que outras pessoas foram atingidas com estas
pechas difamantes de inimigos do socialismo. Já falamos anteriormente que Trotski
fora acusado de traição e exilado. Mesmo assim, Stalin denunciaria uma perigosa
influência trotskista e burguesa no interior do próprio partido comunista da União
Soviética. Sob este pretexto, vários dirigentes seriam perseguidos e, acusados de alta
traição, confinados nos campos de trabalhos forçados, como vemos na seguinte
citação.
“[...] Dela fazem parte não apenas a prisão de membros da velha
burguesia, mas também a liquidação dos elementos considerados infiéis no
interior do Partido. Essas pessoas teriam caído vítimas das tentações
oferecidas pelo inimigo capitalista que circundava a Rússia. Esse tema foi
posto em cena pelos três grandes processos públicos de 1936, 1937 e 1938,
nos quais foram condenados velhos bolcheviques como Kamenev,
Zinoviev e Bukharin” (MCNEAL, 1988, p. 266).
O que estamos vendo é a concretização daquele projeto de
proletarização anteriormente mencionado por nós. O trabalho verdadeiramente
comunista segundo Lenin seria voluntário, mas eles não podiam se dar ao luxo de
contarem exclusivamente com uma consciência socialista ainda em formação. Deste
modo, a medida tida como coerente foi usar da força para que se criasse o
proletariado. As frentes militares de trabalho davam o tom da marcha, mas caso
falhasse, poderiam contar com novas formas de repressão ao trabalhador.
105

[...] os trabalhadores urbanos eram controlados por códigos draconianos


que previam pena de prisão para simples transgressões do contrato de
trabalho; nas empresas, o princípio da direção única (adinonatchalie)
investia os chefes de poderes discricionários (REIS FILHO, 2003, p. 101).
É dispensável falar sobre o grau de poder que se investe a gerência e
o ressurgimento da figura do patrão no chão de fábrica. A necessidade do controle,
como Marx já falara no capítulo sobre a cooperação simples, fora aqui reintroduzida.
No entanto, como falamos a pouco, este tipo de medida só seria
necessário caso a conscientização promovida pelo socialismo soviético falhasse.
Então, o Estado deveria se esforçar por criar esta nova consciência, este novo ethos
que ressurgiria como uma ideologia do trabalho.
[...] De um lado, a liberação dos jovens (45% da população soviética tinha,
então, menos de vinte anos), concitados ao trabalho voluntário, à
participação nas novas frentes de trabalho em lugares distantes e inóspitos,
à construção de uma sociedade nova, livre da exploração, no âmbito das
organizações de jovens comunistas (konsomol) (REIS FILHO, 2003, p. 94,
itálico do autor).
Era a promoção da libertação dos jovens das velhas amarras da antiga
sociedade patriarcal. Esta libertação condicionada à ética do trabalho seria
devidamente propagada. Para esta reprodução ideológica o Estado soviético
contava agora com todos os instrumentos de que dispõe a burguesia para fazer a
mesma coisa. Neste caso, tendo em mãos o Estado e, conseqüentemente o domínio
sobre os aparelhos ideológicos, o que seria preciso era simplesmente acioná-los.
Assim,
[...] A partir de 1918, os textos de Dziga Vertov fixam ao cinema a tarefa de
fabricar “cientificamente” uma ideologia nova através de associações
sistemáticas de idéias e imagens. Os seus argumentos são um testemunho
extraordinariamente precioso: instrumentos de laboratório destinados a
produzir um “pensamento de massas” (LINHART, 1977, p. 140-1).
E ainda, no que diz respeito à literatura, nem Maiakovski seria
isentado deste uso da cultura como ideologia reforçadora do ideal e do ethos do
trabalho. Assim, numa passagem de um livro escrito por um Instituto soviético,
intitulado História da Sociedade Soviética, lê-se:
[...] do ponto de vista do Estado, tem importância ainda maior uma outra
tarefa: lutar para que surjam brigadas, secções, oficinas e fábricas inteiras
de choque. Ao falar disto, Ordjonikidze acrescentou: “Seria bom que
Maiakovski ajudasse com a sua pena. Transmita-lhe este pedido, que não é
só meu. Que ajude o partido e o governo nesta importante tarefa”.
Pouco depois daquela conversa, o poeta criou a sua Marcha das brigadas
de choque.
Os melhores escritores e poetas, tal como Maiakovski, intervinham nos
auditórios operários, viajavam pelo país e colaboravam nos jornais
(POLIAKOV et alli, 1979, p. 195).
106

Poderemos constatar que todo este esforço no tocante a produção de


uma ideologia proletária trará seus frutos em breve: 193550. O incentivo ideológico
para a criação com esmero de um novo homem não era sem propósito. Suas
conseqüências eram sentidas diretamente no âmbito do processo produtivo e
engendrava o que ficou conhecido como emulação socialista. Assim nos fala Lenin
sobre o papel da imprensa para a organização da emulação:
[...] em relação à importância da imprensa como órgão de reorganização e
de reeducação econômica das massas, devemos nos referir também à
importância da imprensa para organizar a emulação.
A organização da emulação deve ocupar um lugar destacado entre as
tarefas do poder soviético na esfera econômica (LENIN, 1988a, p. 128).
A emulação, como o próprio termo diz, criava artificialmente um
estímulo para estimular um sentimento de disputa e rivalidade para se igualar ou
mesmo ultrapassar as metas econômicas estabelecidas. Isto também podia se aplicar
às disputas de maior produção entre os trabalhadores no processo produtivo.
Segundo pensamos, isto engendraria um sucedâneo para a competição de mercado
ocorrida nos países capitalistas51. Seu reflexo na produtividade ficaria nítido e sua
adoção legitimada. A ideologia, neste caso, seria considerada um fator produtivo52.

A função imediata dos “sábados comunistas” consiste em obter por meios


ideológicos maior rendimento das forças produtivas e sobretudo em
aumentar em proporções decisivas a produtividade do trabalho humano
(LINHART, 1977, p. 163, itálico do autor).
A ideologia funciona aqui como força produtiva (grifo nosso). Mas
com a condição de se fundir no molde de uma estrutura tradicional do
aparelho produtivo (LINHART, 1977, p. 161).
Devemos dizer, que a partir de um determinado período, as
recompensas antes meramente morais são substituídas por algo mais concreto. A
escassez de certos produtos naquele período tornava valioso qualquer coisa de
difícil acesso. Um trabalhador que conseguisse ultrapassar suas metas poderia
50
Neste ano, um jovem trabalhador das minas de carvão do Donetz (Donbass) chamado Alexei
Stakhanov irá superar a produtividade estipulada pelas normas e dedicará este recorde ao Dia
Internacional da Juventude. Este ato irá originar um movimento que se espalhará por toda a União
Soviética e será conhecido com o nome de Stakhanovismo, em homenagem a seu feito.
51
Sobre esta preocupação da substituição da competição de mercado por uma emulação no locus
produtivo, podemos ver as seguintes considerações de Lenin: “Os ataques dos socialistas jamais
foram dirigidos contra a emulação em si, mas somente contra a concorrência no mercado. A
concorrência no mercado é, contudo, uma forma especial da emulação, própria da sociedade
capitalista, e que consiste na luta entre os diferentes produtores pela sobrevivência e pela influência,
por um lugar no mercado. A supressão da concorrência como uma luta de produtores, que está
somente vinculada ao mercado não significa de nenhuma maneira que a emulação seja eliminada.
Ao contrário, o desaparecimento da produção mercantil e do capitalismo, torna possível a
organização da emulação, não de uma forma feroz, mas humana” (LENIN, 1988a, p. 129).
52
Uma questão que se abre aqui, mas que nos foge a possibilidade de desenvolvê-la, seria a de se
pensar se a ideologia como motivador e fator produtivo fôra uma exclusividade da URSS ou se
também poderíamos identificá-la em processos que visaram a captura da subjetividade operária,
como parece ser o caso do toyotismo. Neste caso, a ideologia serviria para poder capturar a
subjetividade do trabalhador e torná-lo um “olho” do próprio (patrão) capital no chão de fábrica.
Todavia, esta consideração é apenas uma especulação por demais distante de nossos objetivos aqui.
107

garantir regalias proibidas para a maioria ou mesmo conquistar altos postos na


burocracia soviética:
Stakhanovites were rewarded with increased pay, better jobs, and social
and political recognition. Many ultimately became Communist Party
officials and deputies of the Supreme Court (BEDEIAN; PHILLIPS, 1990, p.
32).
A premiação por medalhas e outros tipos de condecorações também se tornaram
comuns. Isto fazia com que os trabalhadores de choque (udarniks) ou os
trabalhadores das organizações dos jovens comunistas (konsomol) dessem tudo de
si para a construção de sua pátria. O que a levaria a presenciar saltos de
produtividade, reconhecidos mesmo por países adversários.
[...] Em Janeiro de 1935, o governo condecorou com ordens e medalhas,
pelos êxitos alcançados, um numeroso grupo de trabalhadores da
indústria. As empresas vanguardistas corresponderam a esta distinção com
novos compromissos elevados. Aquele ano decorreu sob o signo de êxitos
cada vez maiores.
Em 1935, a fábrica de automóveis de Níjni-Nóvgorod quase igualou as
empresas Ford quanto ao nível da produtividade do trabalho (POLIAKOV
et alli, 1979, p. 215).
Foi justamente esta política de estímulos e recompensas — que nos
remete analogamente às próprias experiências comportamentalistas de Pavlov —
que garantiria a reprodução daquela moral “socialista” e que daria origem ao
movimento stakhanovista.
Ao mesmo tempo, no entanto, os trabalhadores de choque (udarniks), que
cumpriam ou ultrapassavam as normas, ganhavam recompensas especiais,
acesso a bens escassos, regalias e privilégios. A partir de 1935, o
movimento stakhanovista, [...] tendeu a consolidar uma camada
diferenciada no interior da classe trabalhadora. Muitos apontariam o
fenômeno como incompatível com a sociedade socialista, mas a política
dos estímulos materiais angariou adeptos. Embora recorrentemente
criticada, perduraria ao longo do tempo (REIS FILHO, 2003, p. 96, itálico
do autor).
Ou, como podemos ver na citação abaixo, outros já lutavam antes de
A. Stakhanov para aumentar a produtividade. Um tal de Nikita Izótov já aparece em
1932, e mesmo este batendo posteriormente o recorde de Stakhanov, é este último
que marcará o grande movimento de emulação que levará seu nome.
As mesmas características podem aplicar-se também aos vanguardistas da
produção que nos anos trinta iniciaram novas formas de emulação
socialista.
O mineiro Nikita Izótov desempenhou um papel destacado na luta para
elevar a produtividade do trabalho. Em 1932 fez trinta anos e recordava
bem o começo da sua carreira de mineiro: como trabalhava numa fábrica
de briquetes, com idade de 12 anos, e como regressava extenuado a casa
(POLIAKOV et alli, 1979, p. 210).
Entretanto, somente em 1o de Setembro de 1935 que
[...] o país conheceu o nome de Alexei Stakhánov. O jovem mineiro da
mina Irmino-Tsentrálhaia do Donbass, seguindo um conselho da
organização do partido, tinha decidido estabelecer um recorde em honra
do Dia Internacional da Juventude. Na noite de 30 para 31 de Agosto
108

arrancou 102 toneladas de carvão em menos de seis horas, catorze vezes


mais do que o estipulado pela norma!
O forjador E. Martékhov dizia a esse respeito, num jornal de Leningrado, o
seguinte: “A dizer a verdade, a princípio duvidei de que fosse possível
superar uma norma em 20-30 vezes. Entre nós falou-se muito de
Stakhánov. Ao fim e ao cabo coincidimos na opinião de que era
certamente um verdadeiro titã, um homem descomunal com músculos de
aço, ao qual ninguém se podia igualar.
Com essa explicação demo-nos por satisfeitos. Mas depois soubemos pelos
jornais que Nikita Izótov tinha superado o primeiro recorde de Stakhánov,
arrancando 240 toneladas, e que Artiukhov arrancou da mesma camada
310 toneladas: 19 vagões de carvão num só turno... Então compreendemos
que o segredo não estava nos músculos de aço, mas em qualquer coisa
diferente”.
Com efeito, a força insólita daquele mineiro do Donbass não estava nos
músculos. Os mineiros de vanguarda pensavam desde havia muito tempo
na maneira de melhorar a organização e as operações no trabalho e no
corte. Um mesmo homem arrancava hulha, depois colocava escoras
e voltava a empurrar o martelo... Não seria melhor dividir o
trabalho? (grifo nosso) (POLIAKOV et alli, 1979, p. 218).
Ora, como podemos perceber, este processo de trabalho de tipo
“socialista” não trazia consigo nada de novo, pelo contrário. Sua alta produtividade
garantida pelo fator ideológico já revelaria este “enigma”. Se a ideologia influencia
na produtividade é porque esta produtividade depende da subjetividade, ou seja,
do homem enquanto principal força produtiva. Quanto ao elemento organizacional
do trabalho, também não expressaria nada de novo, uma vez que este se revela
uma saída medíocre já encontrada pela manufatura e seguida e aprimorada por
Taylor e Ford: a saber, a divisão parcelar do trabalho.
Ironicamente, não foi assim que pensaram os chefes de Estado da
época, nem tampouco o corpo teórico daquele país, como podemos ver claramente
nesta declaração pouco isenta de um instituto soviético:
Nisto residia a força dos stakhanovistas, que se apoiaram na técnica
avançada e nos últimos progressos do pensamento científico. A ampla
propagação da experiência dos melhores operários ajudou a elevar
consideravelmente a produtividade do trabalho na economia nacional, o
que facilitou e acelerou o cumprimento do segundo plano quinquenal
(POLIAKOV et alli, 1979, p. 223).
A esta altura o sucesso da produção de uma cultura proletária
tornava-se evidente e alcançava o paroxismo. As necessidades não foram abolidas,
longe disso. Ao invés da abolição do trabalho alienado podemos ver o culto ao
trabalho e a seu estatuto dignificante. O fato de estar servindo a um Estado
assumido como socialista não mudava empiricamente muita coisa do ponto de vista
da classe produtora daquela sociedade. A realidade soviética, ao invés de abolir o
estranhamento, resolveria assim mascará-lo e sublimá-lo. O que, do ponto de vista
marxiano, acaba por exacerbar ainda mais este estranhamento ao fortalecer a
hipostasia da coletividade, como vemos na passagem de A Ideologia Alemã:
109

É justamente essa contradição entre o interesse particular e o interesse


coletivo que leva o interesse coletivo a tomar, na qualidade de Estado,
uma forma independente, separada dos interesses reais do indivíduo e do
conjunto e a fazer ao mesmo tempo as vezes de comunidade ilusória
(MARX; ENGELS, 2002, p. 29).
Crítica semelhante iria fazer também André Gorz. Neste caso, sua
denúncia seria dirigida às tentativas de sublimação da esfera da necessidade tendo
em vista a impossibilidade de sua supressão. Seu exemplo seriam as comunidades
hippies ou religiosas que, defrontadas com tarefas mesquinhas do cotidiano que
não se podiam eliminar, tendiam a coroá-las com uma áurea mística e como um
dever sagrado e divino a ser realizado.
[...] o próprio dessas comunidades é exatamente o fato de que os trablhos
necessários não são realizados nelas pela sua necessidade nem visando
apenas seu fim primário. O conjunto das atividades e das relações da
comunidade de tipo monacal é mediado por seu significado religioso: o
trabalho é, nela, uma forma particular da prece, ou seja, da comunhão com
uma ordem transcendente; não tem por finalidade primeira produzir o
necessário, mas permitir a manifestação de Deus no seio do cotidiano
(GORZ, 1987, p. 130).
No caso da URSS, como não se podia abolir esta esfera alienada do
cotidiano, sua alternativa — de forma semelhante ao que denunciou Gorz — foi
tornar este serviço como algo sagrado. Deus seria substituído neste caso pela
coletividade, e a subsunção do indivíduo a estas tarefas assemelhar-se-ia às
humilhações e submissões exigidas por todo o tipo de ascetismo religioso. Neste
sentido, a moral ascética soviética não ficaria atrás de nenhuma outra na história, e
negar isto apelando à conscientização dos trabalhadores promovida nesta época
será sempre um paradoxo, pois pode tanto legitimá-la como uma ação
emancipatória consciente como denunciá-la como a mais abjeta de todas as formas
de alienação do espírito individual, uma vez que sua captura se dá de forma
consentida.
Sendo assim, as denúncias de alguns autores estariam corretas, como
podemos ver abaixo:
[...] Ao invés de criarem condições para a liberação cada vez maior do
trabalho, através da ampliação de uma base produtiva fundamentada no
trabalho passado, intensificam a produção para que todos trabalhem. E ao
criarem trabalho para todos, criam uma sociedade que tem o trabalho
como ethos de coesão social, semelhante à sociedade que se pretende
superar, a capitalista. Eis a contradição (AUED, 1995, p. 17).

Em nenhum outro lugar esse ethos protestante do trabalhador abstrato


dentro de uma sociedade transformada numa máquina de trabalho,
declarado por Max Weber como característica constitutiva ideológica e
histórica do capitalismo, foi posto em prática com mais fervor e rigor do
que no movimento operário e nas formações sociais do socialismo real
(KURZ, 1999, p. 18).
110

E também André Gorz, que segue na mesma direção de Kurz ao


condenar a moral socialista originada deste projeto de proletarização soviético:
[...] a ‘moral socialista’, ao exigir que cada indivíduo se invista totalmente
em seu trabalho e que o confunda com seus objetivos pessoais é opressiva
e totalitária desde a raiz. É uma moral da acumulação, simétrica à moral
burguesa da idade heróica do Capital. Identifica a moralidade com o amor
pelo trabalho, ao mesmo tempo que despersonaliza o trabalho por sua
própria industrialização e sua própria socialização: portanto, exige o amor
à despersonalização, ou seja, o sacrifício de si. Opõe-se à própria idéia do
‘livre desenvolvimento de cada indivíduo como objetivo e condição do
livre desenvolvimento de todos’ (GORZ, 1987, p. 19).
[...] a moral do Estado socialista, bem como as morais militares e
tecnocráticas, tem consistido até agora em exigir dos indivíduos que se
identifiquem com as funções e condutas heterônomas cuja natureza é
definida pelo funcionamento da sociedade enquanto sistema material [...]
(GORZ, 1987, p. 112-3).

Do ponto de vista do indivíduo, o Plano, no final das contas, não dispõe


de nenhuma superioridade com relação ao mercado. Como esse último,
expressa uma média de preferências heterogêneas, mas essa média, tal
como o “consumidor médio” ou o “indivíduo de massa” deduzidos das
pesquisas de mercado, não é a preferência real de nenhuma pessoa real
(GORZ, 1987, p. 98).
Nosso objetivo, ao demonstrarmos estas passagens de André Gorz, é
menos discordar do que analisar a pertinência delas. Sua crítica às tentativas
emancipatórias da URSS tornaram-se pertinentes e fizeram sentido a tal ponto de
servir de fundamento a todo o tipo de crítica: desde uma crítica à teoria marxiana
até a crítica à neutralidade técnica. Por isso, nossa intenção neste capítulo foi
analisar o processo de construção socialista da URSS, para encontrar o fundamento
da crítica de André Gorz. Mas embora esta crítica tenha procedência, pensamos ter
demonstrado que ela ataca elementos que nada tem a ver com as forças produtivas
desenvolvidas. Ao contrário, se há pertinência é porque o socialismo soviético
mostrou à história as degenerescências de um projeto emancipatório nascido de
uma base técnica atrasada. Não por menos Marx criticara tanto as tentativas dos
socialistas utópicos anos antes. Podemos encontrar a prova de que o socialismo
soviético fornecera a base empírica da crítica de Gorz em várias passagens de seu
próprio livro. Como vemos neste exemplo abaixo, ele estabelecerá a origem do
estranhamento a partir da imanência da base técnica fazendo menção à experiência
soviética:
A exterioridade do trabalhador coletivo com relação aos trabalhadores
individuais é, por conseguinte, inerente à estruturação material do
aparelho produtivo, à natureza dos processos e dos fluxos físicos que este
ordena. E não foi simplesmente em razão de circunstâncias históricas
particulares que Lênin foi partidário do taylorismo e Trotski (quando no
poder), da militarização do trabalho (GORZ, 1987, p. 42).
111

Pensamos que ao explicitarmos nossa idéia de que o projeto soviético


foi fruto de uma base técnica atrasada — em que pese nossa consciência de todo o
esforço que fora feito no sentido do desenvolvimento tecnológico e de sua
ascensão econômica num espaço de tempo tão curto — demonstramos uma
condição para entendermos André Gorz e seu projeto dualista. Vimos o que
significa o taylorismo do ponto de vista conceitual do desenvolvimento das forças
produtivas e constatamos sua ampla aplicação na URSS. Mas podemos ver também
que nos últimos anos de vida deste socialismo soviético, uma das principais causas
de sua condenação teria sido justamente, e de forma irônica, não ter conseguido
acompanhar o capitalismo nos setores industriais de ponta que se utilizavam das
tecnologias vitais para um projeto socialista nos moldes que visualizaram Marx e
Engels já no século XIX.
Enquanto o capitalismo dava saltos de produtividade no quadro de uma
nova revolução científico-tecnológica, a União Soviética se deixava
distanciar em quase todos os setores tecnológicos de ponta (REIS FILHO,
2003, p. 134).
É neste sentido que a crítica de André Gorz que promove a ilação
entre todas as degenerescências do socialismo real como um desdobramento das
forças produtivas desenvolvidas nos parece improcedente. Esta crítica oriunda desta
aparente confusão seria de um fundo determinista e pouco dialético, como nos
mostra Braverman nessa brilhante citação:
A semelhança entre a prática soviética e o capitalismo tradicional estimula
fortemente a conclusão de que não há outro modo pelo qual a indústria
moderna possa ser organizada. E esta conclusão já foi suficientemente
estimulada pela tendência da moderna ciência social no sentido de aceitar
tudo o que é real como necessário, tudo o que existe como inevitável e,
portanto, o atual modo de produção como eterno. Em sua mais completa
forma, esta opinião assemelha-se a um verdadeiro determinismo
tecnológico: os atributos da sociedade moderna são vistos como fluindo
diretamente das chaminés, máquinas operatrizes e computadores. Em
conseqüência, estamos diante da teoria de uma societas ex machina, não
apenas um “determinismo” mas um despotismo da máquina (BRAVERMAN,
1977, p. 25).
Para evitar este tipo de ilação equivocada seria preciso somente um
raciocínio assaz simples: nem toda crítica que é valida ao socialismo soviético é
válida para a teoria marxiana do desenvolvimento das forças produtivas. É neste
sentido que podemos dizer que a experiência do socialismo real, particularmente o
soviético, fora um péssimo referencial didático para a reflexão dentro das Ciências
Sociais. André Gorz, a exemplo do que nos fala Braverman, acaba revelando um
profundo determinismo tecnológico ao expor seu projeto dualista. Uma vez que ele
olha para a sociedade soviética reproduzindo relações de produção similares às do
ocidente capitalista, sua ilação conseqüente é atribuir à alienação um caráter
112

infindável e as relações de produção como decorrência direta da técnica. E, embora


sua exortação coloque a necessidade da criação de uma técnica própria do
socialismo — uma vez que a técnica desenvolvida pelo capitalismo “não se presta a
uma apropriação socialista” — em outras partes de seu livro e, principalmente, em
seu projeto dualista, contraditoriamente afirma que não importam quais sejam as
técnicas na produção, ela sempre será um espaço de heteronomia.
Pensamos que esta afirmação de Gorz não é por acaso, e deriva
diretamente, dentre outras coisas, da experiência soviética. Seu projeto dualista teria
então uma grande dívida para com a malograda experiência emancipatória do
Socialismo Real ao empreender um processo de produção que não só não
expressaria grandes diferenças do capitalismo, mas que, principalmente, baseara-se
no que havia de mais atrasado e medíocre do ponto de vista da promoção das
potencialidades humanas: o taylorismo/fordismo com um verniz ideológico de uma
ética do trabalho e doação que nega a rica individualidade.

Conclusão: uma crítica aos fundamentos do projeto


dualista

Como vimos até agora, este autor partiu da análise empírica de que o
trabalho no século XX estava se reduzindo, conseqüência direta da automação e da
microeletrônica. Mas se por um lado o trabalho se reduzia, por outro,
paradoxalmente, continuava existindo para o autor um trabalho parcelado,
heterônomo, graças à hierarquização e divisão do trabalho. Devido a estes fatores,
Gorz declarou que o trabalho transformava-se numa esfera de desrealização
humana e disso concluiu que as técnicas desenvolvidas no capitalismo não eram
neutras. Ao contrário, reproduziam, no nível da produção, as relações de
dominação e alienação da sociedade capitalista. Daí a impossibilidade de fundar
uma nova sociedade a partir das forças produtivas do capitalismo. Comecemos
deste ponto.
113

Partindo deste raciocínio, o principal fundamento da teoria marxiana


com relação às forças produtivas estaria sendo negado.
Podemos ler nos Grundrisse: “Se a sociedade, tal como é, não contivesse,
ocultas, as condições materiais de produção e de circulação necessárias a
uma sociedade sem classes, todas as tentativas de criá-la seriam
quixotescas”.
Quais condições materiais de produção tornam possível e necessária a
transição a uma sociedade sem classes?
Devemos buscar a resposta, antes de tudo, na análise que Marx faz do
papel da maquinaria. Ela mostrou, de um lado, como o desenvolvimento
do sistema de máquinas automáticas reduz o trabalhador individual ao
nível da ferramenta parcial, a mero elemento do processo de trabalho; de
outro, mostrou como o mesmo desenvolvimento cria também as
condições prévias para que o dispêndio de esforço humanos se reduza a
um mínimo no processo de produção e para que o lugar dos
trabalhadores segmentados de hoje seja ocupado por indivíduos
desenvolvidos de forma multifacética, para quem “as diferentes
funções sociais sejam modos intercambiáveis de atividade”
(ROSDOLSKY, 2001, p. 353-4, grifo nosso).
A conclusão de Rosdolsky sobre as passagens dos Grundrisse nos
parece acertada: é preciso que a antiga sociedade crie as condições materiais sobre
as quais a nova irá se erigir. Afirmar o contrário seria se contrapor ao próprio
materialismo histórico e voltar ao idealismo, pois se estaria afirmando que a
realidade não é fruto da própria realidade material e sim fruto de uma consciência
transcendental. Mesmo assim, muitos teóricos, incluindo o próprio Gorz, irão se
contrapor a esta idéia central em Marx. E ao afirmarem que as técnicas produtivas
estão amarradas ao capital a ponto de não o contradizerem, acabam por negar a
auto-contraditoriedade do capital. E, como disse Moraes Neto,
[...] se o capitalismo não apresenta em seu movimento a contradição que o
negará, transforma-se num modo de produção eterno (não há como negar
esta ilação). Em conseqüência, o socialismo não pode ser visto mais como
uma formação social progressiva em relação ao capitalismo, sua negação
histórica, mas deve aparecer como uma “via” da evolução social, uma
alternativa ao capitalismo, não surgindo deste, por suposto (MORAES
NETO, 1991, p.110).
Contudo, como estamos tentando mostrar ao longo deste nosso
trabalho, o problema das considerações de Gorz não está somente no fato de negar
Marx, mas naquilo em que se baseia para proceder com tal negação. A alegação de
que as forças produtivas reproduzem a degradação que é vista no capitalismo só
tem uma explicação: ela é fruto do olhar de Gorz para a indústria metal-mecânica.
Vejamos. Quando nosso autor faz menção a um “sistema onde cada um é uma
roldana impulsionada pelo vizinho da esquerda e que impulsiona o vizinho da
direita” (GORZ, 1987, p. 50) evidencia que seu olhar está no sistema
taylorista/fordista. Afinal, esta é a descrição mais fiel da linha de montagem — cuja
semelhança com o processo manufatureiro é também evidente. Quando Gorz diz
que “a máquina é regulada de antemão para produzi-los e espera do operário uma
114

sucessão de gestos simples, a intervalos regulares” (GORZ, 1987, p. 50), o que ele
está descrevendo senão os processos tayloristas/fordistas? Vejamos outros exemplos:
[...] olhando de perto, a pergunta permanece: por que o trabalho deve ser
dividido em parcelas ínfimas? Por que as tarefas estreitamente
especializadas devem ser executadas separadamente? (GORZ, 1996, p.
227).

Essas precisões eram necessárias para fazer compreender a racionalidade e


a necessidade, do ponto de vista do capital, da divisão hierárquica e
parcelada do trabalho: esta não é exigida pela busca do progresso técnico
em sentido próprio; é exigida pela busca da exploração máxima (GORZ,
1996, p. 228).

Em lugar de uma hierarquia e de uma ordem operárias da produção, o


taylorismo instaurou uma hierarquia e uma ordem patronais, concebidas e
impostas pela direção da fábrica. Os operários de profissão, eliminados
após lutas encarniçadas, foram substituídos por “suboficiais de produção”
que, embora de origem proletária, faziam parte da hierarquia patronal
(GORZ, 1987, p. 61, itálico do autor).

Essas experiências foram precisamente motivadas pela constatação de que


a divisão do trabalho e a tecnologia que a sustenta não permitem chegar à
máxima eficácia técnica. Isso vale para o trabalho por peça, em máquina
individual, como para a linha de montagem.
Esses dois tipos de organização do trabalho têm um traço comum: a
predeterminação “científica” dos tempos necessários à realização de uma
tarefa repetitiva: a duração de cada gesto é estabelecida quase com a
precisão do décimo ou do centésimo de segundo e um tempo padrão é
fixado para a realização de uma sucessão de gestos (GORZ, 1996, p. 230).

Na França, e na Itália, uma nova geração de operários de origem rural,


confinada nas linhas de montagem pela concentração capitalista da
agricultura, revoltava-se contra o parcelamento das tarefas, a hierarquia, os
ritmos, os chefes, o salário de acordo com os rendimentos (GORZ, 1996, p.
10).
Como podemos ver, Gorz é um manancial de descrições sobre
processos de trabalho fundados na divisão parcelar do trabalho. E não é para
menos. Eles de fato são responsáveis por tudo aquilo que Gorz os acusa. São
realmente uma fonte de alienação, heteronomia e desqualificação, como diz o
autor. Já tentamos demonstrar nos capítulos deste nosso trabalho que o capital
busca a sua completa hegemonia sobre o processo de trabalho, pois é isto que lhe
garante a determinação sobre a produtividade e sobre sua reprodução. Nesta busca
incessante o capital tenta subsumir o trabalhador a fim de lhe impor suas
determinações e objetivos. Portanto, torna-se obvio o fato de que o processo de
trabalho é também um processo de exploração, e que as técnicas e os meios de
produção atuam como capital para extração de mais-trabalho. Daí as ilações de
Gorz a respeito das técnicas desenvolvidas pelo capital. Não obstante, este autor
115

fará, acompanhando a tese de Stephen Marglin53, a extrapolação de que estas


técnicas não visam uma maior produtividade, mas sim o mero controle da força de
trabalho. Ora, do modo como pensamos, toma-se o efeito pela causa. Está claro que
o capital visa a subsunção do trabalho, mas tendo em vista a produtividade deste.
Não há dúvida, porém, que as técnicas capitalistas são fonte de
exploração. E no caso do taylorismo e do fordismo isto fica mais que evidente, uma
vez que representam o atraso das forças produtivas desenvolvidas pelo capitalismo.
Neste caso, vê-se uma imanência da degradação humana com a técnica, visto que o
trabalho decomposto em suas inúmeras etapas tendo o homem como o realizador
destas desqualificadas operações não é de fato realizador. O que tal técnica pode
fazer é simplesmente embotar a consciência do trabalhador. Por isto foi tão fácil
condenar as técnicas capitalistas no século XX, quando se olhou para a divisão
manufatureira no berço da metal-mecânica. E para quem tem dúvida sobre que tipo
de divisão do trabalho Gorz se refere, vejamos:
A divisão capitalista do trabalho é a fonte de todas as alienações. “Estropia
o trabalhador e faz dele uma espécie de monstro”; favorece, “como numa
estufa, o desenvolvimento de habilidades parciais, suprimindo todo um
mundo de instintos e capacidades” (GORZ, 1996, p. 9).
Desse modo, podemos ver o exemplo das técnicas de exploração e
concordar integralmente com esta frase. Todavia, com relação à produção altamente
cientificizada baseada na maquinaria automática, o que se pode acusar? Gorz nos
responde: “a automação irá suprimir, no espaço de dez anos, entre quatro e cinco
milhões de empregos, a menos que haja uma revisão profunda da duração do
trabalho” (GORZ, 1987, p. 11). Ora, de fato a automação abole a necessidade
imperiosa do trabalho humano diretamente ligado à produção.
Ao chamar a atenção para as conseqüências dessa revolução tecnológica,
ele [Gorz] afirma que em fábricas totalmente automatizadas a
quantidade de trabalho requerida para produzir tende a zero (grifo
nosso). Assim, pelo menos do ponto de vista lógico, a revolução
tecnológica parece solapar as bases teóricas da noção de autogestão da
produção (SILVA, 2002, p. 158).
Vejamos pois que a máquina e a automação no capitalismo não
engendra um mundo maravilhoso ao proletariado. Não é ela que o leva ao paraíso
no capitalismo, uma vez que, como capital fixo, atua na redução do tempo de
produção e desemprega o trabalhador. Mas já vimos acima a afirmação na qual
Marx fala que a forma de capital fixo não é a forma mais adequada para o uso da
maquinaria. Assim, Gorz estava olhando o movimento de uma base técnica que, em
alguns setores, se automatizam e, em outros, reproduzem uma desqualificação
53
Sobre esta tese de Marglin, ver “Origem e funções do parcelamento das tarefas (para que servem
os patrões?)” em (GORZ, 1996).
116

inerente ao seu baixo grau de desenvolvimento (taylorismo/fordismo). Quando


Gorz ousa fazer a crítica à automação e aos sistemas altamente cientificizados, ele
se resume a apontar a eliminação do trabalho como se isto implicasse numa
incompatibilidade com uma formação social emancipada. Sequer percebe a
contradição nesta sua crítica. Todavia, há um porquê de sua crítica e este se
encontra justamente na sua concepção de emancipação fundada no trabalho
manual típico do processo artesanal de produção. Por que a divisão do trabalho
eliminaria a possibilidade de autogestão operária? Porque ela fragmenta e simplifica
as operações a ponto de deixar um trabalho sem conteúdo para o trabalhador e que
não leva mais seu toque pessoal e artístico. E quanto à automação? Esta também,
segundo o autor, excluiria qualquer possibilidade de autogestão, pois eliminaria o
próprio trabalho pessoal. Se há alguma dúvida sobre este olhar e concepção de
Gorz, vejamos quando este se reporta a uma indústria de fluxo contínuo:
Autogerir o que? O que resta para ser autogerido na grande fábrica
química quando o “trabalho” consiste em “ficar sozinho, à noite, atrás do
vidro fume de uma cabine, não tendo nada para fazer além de vigiar”? O
que pode ser autogerido na central nuclear em que o “trabalho” consiste
em ficar olhando um painel de controle e, em caso de acidente, executar à
risca as ordens previstas? O que significa a autogestão de uma fábrica de
vidro ou de plástico onde “o trabalho de execução se reduz a verificar se
tudo está funcionando normalmente” e onde, “ao sentimento de
impotência diante do instrumento de trabalho, acrescentam-se o
isolamento e a solidão”? (GORZ, 1987, p. 151-2, grifo do autor).
Gorz não pode perceber que estes processos da indústria de fluxo
são, como pudemos ver no capítulo 2, altamente cientificizados. Não se trata de
trabalhadores apendicizados às máquinas. Envolvem uma alta qualificação mesmo
em sua vigília. Mas se há uma antítese neste processo de trabalho com a
emancipação é porque o referencial gorziano, como já falamos repetidas vezes, é
passadista. Para quem sonha com um processo emancipatório fundado no trabalho
manual, não só a divisão parcelar do trabalho, mas a própria automação
cientificizada, representariam um obstáculo.
[...] mesmo que as tarefas repetitivas e embrutecedoras sejam abolidas ou,
quando não possam sê-lo, sejam repartidas por toda a população, o
trabalho socialmente necessário nunca será comparável à atividade dos
mestres-artesãos ou dos artistas; uma atividade autodeterminada, de que
cada pessoa ou equipe define soberanamente as modalidades e o objeto, o
toque pessoal, inimitável, que imprime sua marca particular ao produto
(GORZ, 1987, p. 17).
Ora, se bem nos lembrarmos das idéias de Gorz de que a classe
perdeu seu poder e por isso uma apropriação coletiva se faz impossível, podemos,
nesta citação acima, encontrar a resposta. Para quem tem como referencial de
emancipação uma atividade artística e artesanal, o processo capitalista fôra
117

realmente um processo que aniquilou com esta qualificação de tipo skill, ou seja, de
tipo artístico-empírico54. Neste sentido, a automação também foi uma inimiga e por
isso mesmo Gorz a tratou de forma indiferenciada dos processos tayloristas e
fordistas. Vejamos como ele não os distingue.
A divisão parcelar do trabalho, depois o taylorismo, depois a O.C.T. e,
finalmente, a automatização aboliram, juntamente com os ofícios, aqueles
operários dotados de um ofício que tinham, com “orgulho do trabalho
bem-feito”, a consciência de sua soberania prática (GORZ, 1987, p. 58)
Este conflito na visão de Gorz não só o fez enxergar um obstáculo na
automação como também a tratou de forma indiferenciada. Talvez por isso ele não
pôde ser rígido em seu conceito de automação e não só não faz distinção entre
taylorismo, fordismo e automação, mas tratou este último conceito de forma
equivocada. Isto fica visível nesta sua próxima citação, na qual Gorz parece extrair
o conceito de automação do já falado padrão “um homem – uma máquina” típico
da cooperação simples de máquinas55.
[...] a automatização e a posterior informatização suprimem os ofícios e as
possibilidades de iniciativa e substituem por um novo tipo de operários
não-qualificados o que ainda resta de operários e funcionários
qualificados. A ascensão dos operários profissionais, seu poder na fábrica,
seu projeto anarco-sindicalista terão apenas aberto parênteses que o
taylorismo, depois a “organização científica do trabalho” (O. C. T.) e,
finalmente, a informática e a robótica acabaram por fechar (GORZ, 1987,
p. 39-0).
Gorz parece ter em mente o operário soberano em suas tarefas, visto
que este ainda realizaria a totalidade do produto. Ou, quando muito, ele olha para
os já superados operadores de máquinas-ferramentas universais e técnicos
ferramenteiros da indústria metal-mecânica. Estes trabalhadores, dotados de uma
saber operário — o savoir-faire atacado no início do capitalismo — eram os
operários intratáveis, segundo Andrew Ure. Intratáveis para o capital, é claro, visto
que tinham poder de autonomia e decisão dentro do processo, uma vez que o

54
Podemos ver em uma nota do livro de Moraes Neto (2003) a seguinte diferenciação das formas de
qualificação de tipo skill e de tipo knowledge: “[...] é necessário discutir brevemente a relação entre
skill e knowledge, que são conceitos relacionados, mas não idênticos. Knowledge abrange o
entendimento de um processo ou informação a um nível abstrato, tais como aqueles que podem ser
transmitidos a outro indivíduo de forma igualmente abstrata. Como tal, o conhecimento deve ser
explicitamente racionalizado em termos abstratos que possam ser prontamente entendidos — um
processo que passamos a conhecer como ciência e tecnologia. Skill compreende um conjunto de
experiências exercitadas, que pode envolver não apenas a aquisição de conhecimento, mas também
um grau maior ou menor de aptidão natural e regras implícitas de operação. Skills são adquiridos
individualmente e envolvem a combinação de aprendizagem abstrata, aptidão e experiência, mas o
mesmo não é verdadeiro para knowledge, que é essencialmente abstrato e menos individualizado”
(KAPLINSKY apud MORAES NETO, 2003, p. 47).
55
Esta característica da maquinaria, anteriormente a seu estágio mais avançado chamado por Marx de
sistema automático de maquinaria, ainda reproduz a apendicização desqualificante típica de seu
caráter incipiente de aprimoramento rumo a um sistema automático. Neste caso, a informática e a
robótica, ao invés de promover uma reprodução deste caráter mediocrizante, iria suprimir esta
característica que apendiciza e prende o homem a um “trabalho” enfadonho frente à máquina.
118

saber não estava nas mãos do capitalista, mas nas dos operários. Nosso autor, neste
sentido, está correto ao dizer que o taylorismo-fordismo foi um duro ataque à este
saber operário, sendo que a automação de base microeletrônica abolira aquilo que
Taylor e Ford não conseguiram.
Não obstante, Gorz muitas vezes trata, como já dissemos, a
cooperação simples de máquinas como se fosse o sistema automático de
maquinaria, não fazendo nenhuma distinção entre eles. Não há rigor nestes
conceitos, nem nos conceitos de maquinaria e automação: “Gorz nem mesmo
estabelece uma diferença (ou uma definição, qualquer que seja) da maquinaria para
a manufatura e cooperação, tudo parece ser a mesma coisa, são elementos
indistintos da produção capitalista” (SANDOVAL FILHO, 2002, p. 212).
Na verdade, Gorz, em nenhum momento, faz referência direta à
maquinaria, critica as máquinas e técnicas, instalações, ciência, sem
demonstrar, em ponto algum de sua abordagem, uma definição ou, pelo
menos, um sinal de que tenha clareza a respeito do significado do sistema
automático de máquinas. A interpretação de que a grande indústria é o
mesmo que manufatura pode ser, como no caso de Coriat, a razão pela
qual Gorz seja um adepto da critica à neutralidade da técnica (SANDOVAL
FILHO, 2002, p. 199).
Postas estas questões — que causam uma dificuldade no estudo
rigoroso das posições de André Gorz — retornemos ao ponto principal de nossa
análise, qual seja, a fundamentação da conversão para o projeto dualista.
A negação de Gorz da idéia de abolição radical do trabalho alienado
na teoria de Marx, como mostramos no item 1.3, vem acompanhada em nosso
trabalho de uma pergunta: por que? A resposta, como pensamos ter mostrado é
que, de fato, na época em que Gorz tecia suas análises veiculadas em Adeus ao
Proletariado, as forças produtivas do capitalismo em um setor específico (metal-
mecânica) realmente expressaram o que Gorz apontava: desqualificação,
desrealização, heterodeterminação in extremis dos tempos e movimentos do
indivíduo, etc. Isto era tão evidente, principalmente nas indústrias menos avançadas
do ponto de vista da automação, que mesmo Gorz visualizando as conseqüências
da automação que se operava em outras indústrias, todas as características da
divisão do trabalho acima se impregnaram em suas teses, da mesma forma que a
luz solar marca a retina de um observador incauto.
Ora, no caso de Gorz, este olhar se movia tanto para os países
capitalistas como para os países socialistas. Quando este autor pôde ver que o
projeto socialista de Marx havia se concretizado numa forma que reproduzia todas
as degenerescências do capitalismo, ele não hesitou em declarar que o socialismo
havia fracassado. Não procurou diferenciar o projeto marxiano de emancipação e as
119

discrepâncias dos modelos do socialismo real. Tratou estes países como se fossem a
consubstanciação de tudo aquilo que Marx falara, mesmo que ali não houvesse o
desenvolvimento das forças produtivas no sentido de libertar o homem do trabalho
desrealizador. Pôde ver o taylorismo empregado com as roupagens stakhanovistas
da ideologia do trabalho e simplesmente comparou o socialismo como uma
“ideologia do formigueiro”, sem avaliar se de fato aquilo tudo era a forma socialista
teorizada por Marx e Engels. E, uma vez que pôde ver estas técnicas medíocres dos
dois lados da geografia do século XX, — “ocidente” capitalista e “oriente” socialista
— não foi difícil para ele chegar à conclusão de que as técnicas estavam amarradas
ao capital e não possibilitariam uma ruptura com o processo de alienação
engendrado pelo capitalismo. Ainda pior, o ethos daquela sociedade que conseguiu
em grande parte vencer a dominação religiosa, assemelhar-se-ia ainda mais à ascese
puritana e sua realização numa prática cotidiana desencantada, como dissera
outrora Weber sobre o protestantismo. Daí a grande devoção e entrega dos
stakhanovistas à causa da produtividade na URSS. Não é a toa que Gorz por várias
vezes remete à esta analogia weberiana da religião Cf. (GORZ, 1987, p. 19) e
(GORZ, 2003, p. 37). Na verdade, o próprio Weber já abria um precedente de
análise pela idéia de uma racionalidade insuperável no caminho da racionalização,
inclusive uma racionalidade consubstanciada na própria máquina:
[...] Quando o ascetismo foi levado para fora dos mosteiros e transferido
para a vida profissional, passando a influenciar a moralidade secular, fê-lo
contribuindo poderosamente para a formação da moderna ordem
econômica e técnica ligada à produção em série através da máquina, que
atualmente determina de maneira violenta o estilo de vida de todo
indivíduo nascido sob esse sistema [...] (WEBER, 1999, p. 130-1).
Esta citação mostra de forma clara um liame muito mais forte entre
Weber e os críticos das técnicas capitalistas do que gostam ou possam admitir os
teóricos de Frankfurt ou mesmo André Gorz.
Retornando ao nosso fio de análise, Gorz não procurou ver na
automação a destruição dos métodos tayloristas ou stakhanovistas. Não procurou
ver nos escritos de Marx seu caminho central de libertação num trabalho altamente
cientificizado, como veremos logo à frente. Ao contrário, preferiu adotar uma
nostalgia passadista fundada no trabalho artesanal e denunciar a automação como
mais um obstáculo para se atingir uma realização humana no trabalho social. Quem
já nos esclarece sobre este papel da automação na ruptura com o taylorismo e o
stakhanovismo é Carlos Astrada, ao dizer que
Com as conquistas da automatização e da cibernética em todos os
domínios do trabalho, a relação do homem com a máquina modificou-se
essencialmente nos aspectos quantitativo e qualitativo. Já não cabe falar de
120

taylorismo, nem de stakanovismo; o primeiro foi um pesadelo para o


trabalhador e o stakanovismo não representou o último estágio do
processo de racionalização do trabalho, iniciado na sociedade capitalista
em sua fase de industrialização. Mas a esse processo se antepôs, sob o
ponto-de-vista psicológico e moral, como signo humano positivo
(ASTRADA, 1968, p. 34).
Como se pode ver na citação acima, os desdobramentos das novas
tecnologias aplicadas à produção são os de romperem com a base ainda
manufatureira que imperava em muitos setores da produção, quais sejam, aqueles
que abraçaram o taylorismo/fordismo. Esta ruptura, contudo, não nos leva de modo
algum a um paraíso em que a classe proletária se emancipa automaticamente no
interior da sociedade capitalista. O máximo que se pode dizer deste movimento,
que explodiu com as formas tayloristas/fordistas de um lado e stakhanovistas de
outro, é que um importante setor da economia (metal-mecânica) caminha rumo a
uma aplicação tecnológica da ciência, como já o era o setor têxtil e a indústria de
fluxo. Sob este ponto de vista, podemos dizer que finalmente o capital retomaria
seu brilhantismo56 no que tange ao desenvolvimento das forças produtivas e,
conseqüentemente, retoma o caminho do aprofundamento da contradição que
poderá decidir o momento da classe-em-si tornar-se classe-para-si e despertar o
grande sujeito adormecido.
No entanto, Gorz trilhou o caminho da impossível abolição total da
alienação no processo de trabalho social, pelas razões que já explicitamos. Assim,
ao invés de buscar na totalidade de Marx os caminhos que conduzem à idéia de
uma abolição radical do trabalho alienado, Gorz preferiu a citação do livro III de O
Capital, no qual Marx descreve de forma similar, mas não idêntica, o caminho
dualista. Todavia, isto foi uma decisão deliberada de André Gorz, pois este conhecia
muito bem o caminho de Marx rumo a uma sociedade totalmente emancipada e
realizada no próprio processo produtivo. Como ele mesmo admite em Metamorfoses
do trabalho,
A idéia de que a liberdade (isto é, aquilo que é propriamente humano) só
começa “além do reino da necessidade” [...] reencontramo-la em Marx, na
famosa passagem do Livro III de O Capital que, em contradição
aparente com outros escritos do autor (grifo nosso), situa o “reino da
liberdade” em um espaço mais além da racionalidade econômica (GORZ,
2003, p. 22).
Ora, pelas próprias palavras de nosso autor temos a comprovação de
nossa tese. A saber, que ele tomou para sua fundamentação teórica uma passagem
isolada de Marx que contradizia o restante de todo projeto de emancipação

56
O termo é de Benedito Rodrigues de Moraes Neto e pode ser compreendido em (MORAES NETO,
2003).
121

marxiano. E se o fez, foi porque suas fundamentações empíricas o conduziram para


uma negação do trabalho social como fonte de realização. Contudo, se há
inconsistências neste projeto dualista de André Gorz, elas podem ser mais bem
visualizadas em contradições do próprio autor. Quando, por exemplo, ele declara
que “se há de haver socialismo elas [as forças produtivas] precisam ser refundidas,
convertidas” (GORZ, 1987, p. 26); ou quando diz que “não há nenhuma
necessidade técnica para a desqualificação e para a robotização dos trabalhadores”
(GORZ, 1996, p. 232), o autor deixa antever um ilogismo em suas considerações.
Ora, se as forças produtivas possuem uma marca indelével do capitalismo, como se
pode dizer que seu caráter alienante não é uma “necessidade técnica”? Do mesmo
modo, se o projeto dualista está fundado na idéia de que, não importa o que se
faça, a esfera da produção não é realizadora, como dizer que é possível “refundir”
ou “converter” as forças produtivas para que elas funcionem segundo uma
racionalidade socialista? Talvez este ilogismo, que deixa transparecer uma certa
hesitação do autor com relação à idéia de uma insuperável alienação, demonstre
que não havia tanta consistência assim em seu projeto dualista. Como ele mesmo
deixou escapar, o trabalho, às vezes, “pode mesmo tornar-se uma diversão bem
vinda e uma ocasião de festa” (GORZ, 1987, p. 124).
Teria este ilogismo sido fruto de sua equivocada crítica à neutralidade
da técnica? Não cremos que se possa afirmar isto. O que podemos fazer é lembrar
que toda a crítica de Gorz dirigida às forças produtivas desenvolvidas pelo
capitalismo só pode ser vista na sua ilustração do taylorismo e do fordismo. Sua
crítica aos sistemas automatizados ou cai em profunda contradição ou se esvai em
uma vaga e redundante acusação da eliminação de postos de trabalho — coisa por
demais óbvia e perfeitamente compatível e necessária com a idéia de abolição
radical do trabalho alienado.
[...] interessa-nos buscar, na crítica às forças produtivas capitalistas, uma
crítica ao sistema automático de maquinaria, esta, sim, a forma mais
desenvolvida assumida pelo capital. Não a encontramos em Gorz e Coriat.
A crítica à produção cientificizada, e não taylorizada, como forma de
produção eternamente capitalista, irrecuperável para o socialismo, é tão
insustentável que não chega sequer a ser formulada. Contentam-se os
autores em criticar o taylorismo e inferir daí as conclusões gerais sobre a
total inadequação da base material legada pelo capitalismo para a
instauração de relações de tipo socialista (MORAES NETO, 1991, p. 127,
itálico do autor).
Por fim, e para reforçar o caráter da insustentabilidade da crítica à
produção altamente cientificizada, devemos mostrar quando esta crítica aparece.
Gorz a faz em momentos esparsos de seu livro. Todavia, nos raros momentos em
que se deixa de acusar os elementos do taylorismo e do fordismo e passa-se a
122

tentar acusar a automação o que aparece é o que se segue nas palavras de Josué
Pereira da Silva:
Ao chamar a atenção para as conseqüências dessa revolução tecnológica,
ele [Gorz] afirma que em fábricas totalmente automatizadas a
quantidade de trabalho requerida para produzir tende a zero (grifo
nosso) (SILVA, 2002, p. 158).
Reconsiderando o que antes fora dito por Moraes Neto, podemos ver
que a crítica também se dirige aos sistemas automáticos. Uma crítica inclusive de
extrema coerência, afinal culpa-se com acerto o fato de que a automação é
responsável pela tendência da redução do trabalho a zero. Porém, a questão que
fica é se isto de fato “solapa” as bases da emancipação humana ou se, devido às já
comentadas “travessuras do espírito”, conflui coincidentemente com as “previsões”
de Marx sobre o caminho da libertação humana através da auto-atividade tornada
possível graças a esta mudança quantitativa e qualitativa — quantitativa devido à
extrema redução do trabalho necessário e qualitativa devido ao novo patamar de
qualificação exigido para gerir processos altamente cientificizados. Aliás, se
aplicarmos aqui a idéia dos processos genuinamente dialéticos, talvez possamos
afirmar que seria, dentre outras coisas, justamente desta quantidade reduzida de
trabalho que se chegaria à nova qualidade. Do modo como vemos, também não
haveria um empecilho à autonomia, uma vez que o indivíduo estaria desde então
livre para escolher e se desenvolver na atividade que melhor lhe aprouvesse.
No entanto, sabemos que esta autonomia é diferente daquela
apregoada por André Gorz, que vê, na verdade, a autonomia do mestre-artesão e
da autodeterminação do trabalho manual. Claro que necessariamente não se está
falando do artesão das corporações de ofício, mas conceitualmente trata-se da
mesma coisa. Afinal, o poder operário declina assim que o capital subsume o
trabalho às suas determinações no início do modo de produção especificamente
capitalista. Mas enquanto Gorz lamenta esta perda, vejamos o que nos diz Marx na
Miséria da Filosofia ao falar sobre a oficina automática.
[...] nela o trabalho perde qualquer caráter de especialidade. Mas desde
que cesse qualquer desenvolvimento especial, a necessidade de
universalidade, a tendência para um desenvolvimento integral do indivíduo
começa a fazer-se sentir. A oficina automática faz desaparecer as espécies
e o idiotismo da profissão.
O sr. Proudhon, não tendo sequer compreendido este único aspecto
revolucionário da oficina automática, dá um passo atrás, e propõe ao
operário que faça não apenas a duodécima parte de um alfinete, mas
sucessivamente todas as doze partes. O operário chegaria assim à ciência e
à consciência do alfinete. [...].
Resumindo, o sr. Proudhon não superou o ideal do pequeno-burguês. E
para realizar esse ideal, não imagina nada melhor do que fazer-nos voltar
123

ao companheiro ou, quando muito, ao mestre-artesão da Idade Média


(MARX, 2001, p. 126-7).
Gorz se diz um inimigo da nostalgia. Declara, na abertura de Adeus
ao proletariado: “Este livro [...] tenta descobrir orientações e temas em torno dos
quais poderia renascer uma esquerda portadora de futuro, não de nostalgia”
(GORZ, 1987, p. 9). Mas, ao avaliar seu projeto dualista, acreditamos que nosso
autor não poderia ser mais infeliz na colocação. Afinal, parodiando Marx, podemos
dizer que Gorz — e todos os apologetas do emprego para todos ou do
cooperativismo — também não superou o ideal pequeno-burguês, ao contrário,
continua proclamando o ideal do idiotismo da profissão. Enfim, para uma tal visão
que vê a autonomia operária e a liberdade como expressão do retorno a um
passado medíocre, não se pode esperar outra conclusão que não a de que a divisão
do trabalho e a automação sejam vistas indistintamente como forças deletérias.
Pensamos ainda que ao longo destes últimos anos, dentre algumas
perspectivas a respeito do fenômeno da crescente automação, podemos identificar
basicamente duas que nos parecem mais comuns. Estes dois grupos parecem
assumir posições mais ou menos sectárias: Uma olha o desenvolvimento do
capitalismo tendo em vista somente o caminho da prescindibilidade do trabalho
vivo e da tendência de qualificação, e vê neste caminho uma forma de emancipação
no interior mesmo do capitalismo. A outra posição prima pelo processo de
degradação que o avanço técnico traz consigo. Deste modo, esta última corrente de
autores condena o desenvolvimento capitalista como um processo unilateralmente
deletério e que nos conduz inexoravelmente à destruição. Entre estes dois grupos
situa-se o caminho que pensamos trilhar. Devemos, pois, apreender o que há de
civilizatório no processo de desenvolvimento capitalista, tal como fizera Marx,
evitando o equívoco de uma visão unilateral, a fim de discernir o papel histórico da
burguesia do papel histórico do proletariado.
André Gorz, como vimos, parece ter escolhido o segundo grupo, uma
vez que não acreditou em suas próprias palavras:
“Chegou o tempo em que os homens não mais farão o que as máquinas
podem fazer”, escreveu Marx, anunciando (foi em 1857) que o capitalismo
tendia inexoravelmente para a abolição do trabalho — a qual, por sua vez,
engendraria sua morte. Essa teoria, retomada em 1932 por Jacques Doboin
e, mais recentemente, na Itália pelos marxistas “autonomistas”,
corresponde finalmente a fatos observáveis. Esse é o motivo pelo qual o
tema da abolição (ou da redução) do trabalho obrigatório é mais
subversivo do que nunca. Se todo mundo tomasse consciência de que
virtualmente não há mais problemas de produção, mas apenas um
problema de distribuição [...] o sistema social atual teria graves dificuldades
para se manter. [...]
124

Para que a ordem atual não seja solapada em seus fundamentos


ideológicos [...] as promessas da automatização serão apresentadas como
se fossem ameaças (GORZ, 1987, p. 164-5).

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