Revista Varal do Brasil - Novembro de 2013

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ISSN 16641664-5243

Ano 4 - Novembro de 2013— 2013—Edição no. 26
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FELIZ ANIVERSÁRIO A VOCÊ QUE ESCREVE CONOSCO! A VOCÊ QUE NOS LÊ! A VOCÊ QUE ACOMPANHA NOSSAS ATIVIDADES! A VOCÊ QUE TORCE POR NÓS! SÃO 4 ANOS DE VARAL DO BRASIL! PARABÉNS!
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LITERÁRIO, SEM FRESCURAS
Genebra, outono de 2013 Edição no. 26 - Novembro de 2013
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EXPEDIENTE
Revista Literária VARAL DO BRASIL NO. 26 - Genebra - CH - ISSN 1664-5243 Copyright : Cada autor detém o direito sobre o seu texto. Os direitos da revista pertencem a Jacqueline Aisenman. O VARAL DO BRASIL é promovido, organizado e realizado por Jacqueline Aisenman Site do VARAL: www.varaldobrasil.com Blog do Varal: www.varaldobrasil.blogspot.com Textos: Vários Autores Ilustrações: Vários Autores Foto capa: Fotolia com

A distribuição ecológica, por e-mail, é gratuita. A revista está gratuitamente para download em seus site e blog. Informações sobre o 28o Salão Internacional do Livro e da Imprensa de Genebra e sobre o stand do VARAL DOBRASIL: varaldobrasil@gmail.com

PARITICIPE DAS PRÓXIMAS EDIÇÕES: • Até 25 de NOVEMBRO você pode enviar texto para a edição de JANEIRO, que trará o tema livre. Escreva em verso ou em prosa, envie poemas, crônicas, contos, artigos! Proponha uma coluna! Até 25 de JANEIRO você pode enviar textos para nossa edição de março que trará o tema INFINITA MULHER e onde falaremos da mulher em todos os seus significados e expressões. As inscrições podem ser encerradas antes se um número ideal de participantes for atingido.

Muitas imagens encontramos na internet sem ter • o nome do autor citado. Se for uma foto ou um desenho seu, envie um e-mail aqui para a gente e teremos o maior prazer em divulgar o seu talento. Agradecemos sua compreensão. Revisão parcial de cada autor Revisão geral VARAL DO BRASIL Composição e diagramação: Jacqueline Aisenman •

BLOG DO VARAL Você pode contribuir com artigos, crônicas, contos, poemas, versos, enfim!, você pode escrever para nosso blog. Também pode enviar convites, divulgação de seus livros, pinturas, fotografias, desenhos, esculturas. Pode divulgar seus eventos, concursos e muito mais. No nosso blog, como em tudo no Varal, a cultura não tem frescuras! (www.varaldobrasil.blogspot.com) Toda contribuição é feita e divulgada de forma gratuita e deve ser enviada para o e-mail varaldobrasil@gmail.com
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COLUNAS
A VIDA IMITA A ARTE - Cintia Medeiros CORPO & ARTE - Eliane Accioly CULTÍSSIMO - Ana Rosenrot DICAS DE PORTUGUÊS: Renata Sborgia ECOVULUNTÁRIA - Alexandra Magalhães Zeiner FALANDO DE CULTURA - Marluce Alves Ferreira Portugaels HISTÓRIA DO BRASIL SOB A ÓTICA FEMININA - Hebe C. Boa-Viagem A. Costa LITERATURA E ARTE - Luiz Carlos Amorim LUPA CULTURAL - Rogério Araújo (ROFA) NO UNIVERSO DE - Guacira Maciel PALAVRA CRÔNICA - Anaximandro Amorim REFLEXÕES CONTEMPORÂNEAS - Júlia Rego REFLEXÕES DA ALMA - Michelle Franzini Zanin REFLEXÕES E PRÁTICAS GEOGRÁFICAS Ricardo Santos de Almeida VARAL DOS FILMES E LIVROS - Valquíria Imperiano

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VARAL DO BRASIL E VOCÊ: UMA PARCERIA QUE LEVA A LITERATURA CADA VEZ MAIS LONGE!

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E o Varal do Brasil está comemorando quatro anos de existência! Começamos a revista em 2009 de forma tímida e com muita vontade de espalhar o talento que acompanha nossa Língua Portuguesa e hoje, quatro anos depois, temos a certeza que conseguimos realizar um sonho e carregamos o desejo de ir sempre mais longe. De lá para cá já nos investimos em outras atividades: organizamos e lançamos três antologias (Varal Antológico). Estas antologias, reconhecidas pelo padrão profissional com o qual são feitas, têm agradado muito os leitores e os próprios autores participantes. No momento, estamos organizando a quarta antologia que será lançada no 28o Salão Internacional do Livro de Genebra, em maio de 2014. E falando disto... Também nos investimos em participações cheias de sucesso na maior feira literária suíça, um dos eventos culturais mais em evidência em toda Europa: o Salão Internacional do Livro e da Imprensa de Genebra! Participamos em 2012 com um estande de seis metros quadrados. Fomos quatorze autores autografando e muitos títulos para venda e exposição. Um momento onde contatos foram feitos, talentos desabrocharam e acabou sendo ponto de partida para muitos acontecimentos culturais não só na Suíça, mas pela Europa em geral. Voltamos ao Salão de Genebra este ano e desta vez com um estande de doze metros quadrados, trinta e dois autores autografando e mais de cem títulos para exposição e venda.

Com certeza um sucesso absoluto que teve inclusive a visita do renomado escritor Paulo Coelho e da presidente do evento, Isabelle Fauconnier. Para 2014 estamos nos preparando desde já: nosso estande terá cinquenta metros quadrados! Teremos música e literatura, teremos exposições de pintura e artesanato. É nossa cultura sendo mostrada da melhor maneira para um público exigente que conhece o que há de melhor. E é o melhor que nós levamos a este evento. Continuamos nosso caminho sempre levando adiante nosso lema: literário, sem frescuras! E a este lema juntamos outro no decorrer de nossas jornadas: a literatura é melhor quando é feita para todos! Obrigada a você que nos lê! Obrigada a você que escreve conosco! Obrigada a você que acompanha nossas atividades! Obrigada a você que torce pelo nosso sucesso, pois ele é também o seu! Que venha 2014 e todos os sonhos que transformaremos em bela realidade!

Jacqueline Aisenman Editora-Chefe Varal do Brasil

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ADINA WORCMAN ADRIANA FREITAS ALEX MONTEIRO ALEXANDRA M. ZEINER ALICE LUCONI AMÉLIA M. RAPOSO DA LUZ ANA ESTHER ANA ROSENROT ANAXIMANDRO AMORIM ANDREIA COSTA ANGELA GUERRA ANTONIO L. SOBRINHO BASILINA D. PEREIRA CAMILA MOSSI DE QUADROS CARLOS BATISTA CEIÇA ESCH CHRISTINA HERNANDES CINTIA MEDEIROS CLÉA PAIXÃO DALILA LUBIANA DANIELE FERNANDA ECKSTEIN DÉBORA MORENO DEIDIMAR ALVES BRISSI DEIVISON L. BARRETO

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DOMITILLA BORGES BELTRAME EDIANE SOUZA ELENA LAMEGO ELENA MARIA ELIANE ACCIOLY ELISE SCHIFFER EMÉRITA ANDRADE ESTHER ROGESSI EVANISE GONÇALVES EVELYN CIESZYNSKI FABIANA DE ALMEIDA FÁTIMA RODRIGUES FELIPE CATTAPAN GAIÔ GEORGE DOS S. PACHECO GERMANO MACHADO GILBERTO N. DE OLIVEIRA GIRLENE MONTEIRO PORTO GREICE MUNHOZ GUACIRA MACIEL HEBE C. BOA-VIAGEM A. COSTA IRIS BERLINCK ISABEL VARGAS ISIS BERLINCK RENAULT
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IVANE LAURETE PEROTTI JACQUELINE AISENMAN JANIA SOUZA JEANNE PAGANUCCI JÔ ALCOFORADO JOSÉ CARLOS PAIVA BRUNO JOSÉ HILTON ROSA JOSUÉ DE BRITO JÚLIA REGO JULIANA ANDREOTTI LANGE PINHEIRO LENIVAL NUNES ANDRADE LEÔNIDAS GREGO LÓLA PRATA LUIZ CARLOS AMORIM LYRSS CABRAL BUOSO MARCIA SBARDELOTTO MARCOS MAIRTON MARIA DA GLÓRIA MARIA JOÃO SARAIVA MARIA JOSÉ V. JUSTINIANO MARIA LUÍZA FALCÃO MARIA (NILZA) DE C. LEPRE MARIA SOCORRO SOUSA MARIANE FIGUEIREDO MARILU F. QUEIRÓZ MARINA GENTILE MARINA VALENTE MARIO REZENDE MARLENE CERVIGLIERI MALUCE PORTUGAELS MARLY RONDAN MICHELLE FRANZINI ZANIN NATO MATOS NELIDA NUNES CARDOSO

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NILZA AMARAL SOUZA NUBIA STRASBACH ODENIR FERRO OLIVEIRA CARUSO ONÃ SILVA RAI DE LAVOR RAQUEL SÁ REGINA COSTA REGINA MERCIA SENE SOARES REJANE MACHADO RENATA SBORGIA RICARDO BRUGNI DA CRUZ RICARDO SANTOS DE ALMEIDA RITA DE OLIVEIRA MEDEIROS ROBERTO SATURNINO BRAGA ROGÉRIO ARAÚJO (ROFA) ROSALINO DE CARVALHO ROSSANDRO LAURINDO RUBENS JARDIM SANDRA NASCIMENTO SELMO VASCONCELOS SID SUMMERS SILVANA BRUGNI SILVANA PINHEIRO SONIA MARIA DE ARAÚJO CINTRA SONIA NOGUEIRA SONINHA PORTO THEREZINHA D. BRISOLLA VALQUIRIA IMPERIANO VERA LÚCIA ERTHAL VÍTOR DEISCHMANN VICÊNCIA FREITAS JAGUARIBE VÓ FIA WELBER ROCHA REGIS YARA DARIN
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Intersecção (Prelúdio e Fuga)
Por Felipe Cattapan

e u eu duas letras - dois fonemas uma sílaba e um símbolo: uma única palavra só não é - está... esperando uma outra na esperança de vir a ser o que entretanto ela já é: o pressentimento de um momento que pede um complemento, uma vírgula, uma rima, um prosseguimento que justifique o seu surgimento no nascimento de um procedimento em cujo desenvolvimento se desdobra um movimento onde o todo, em deslumbrado alumbramento, transforma cada fragmento em um único monumento: Intersecção O que há de uno em cada união. A celebração da comunhão - ao invés de expressão; a coesão da conciliação

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da ação com a reação em forma de contração: a redução à eterna repetição das espirais que perpetuam a comunicação. Entre o texto e o contexto interage o intertexto. Entre o fluxo e o refluxo, a influência e a confluência, floresce uma fluorescência em “flu” condensando a essência que confluindo reencontra permanência no ponto final de alguma reticência... ... nem chegada nem partida: partilha... a parte da ilha cuja quilha não se reparte cuja metade não parte com a ida da partida. a parte da arte que arde em um estandarte de alarde para que o instante se retarde à espera da verdade. a verdade como possibilidade de alguma estabilidade: uma ilha em forma de idade nas águas da vivacidade

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num oceano de instabilidade: vendo onde mar catam a o ás no na e a vivacidade ondas ar coisa fôrma astro do e de viver sondas cantam no cais da mastro do e do maestro o se vir e o ondulam encantam caos forma ser

o estrato da estrutura das entranhas das estradas o espasmo inesgotável esgotado em toda gota de orgasmo que espreme o esperma pede mas não perde sobrevive à vida ama o âmago ata todos os amores moram no mesmo amor que rima e ruma à Roma no ramo da mesma romã mesclado no melado o meu mel alado mamado na mama da minha mãe o meu eu não é só meu Entre o fim e o começo reconheço no mesmo berço o recomeço de estar em vir a ser,

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a repetição de ser em permanecer. e eu é só uma palavra... convertida em repetição, o ímã de uma rima irmã que nascerá talvez amanhã... Ao final o que me resta não sou mais eu, mas minha aresta - um estilo que vem a ser o meu: uma intersecção de repetições sem meta jazendo como um eixo ou uma fresta entre o passado, o futuro e um esteta. Entre o nascimento e a morte jaz a hora que mora e se demora no alento do movimento entre o aqui e o agora. De manhã meu filho amanhece, de noite minha mãe anoitece; entre os dois... recomeço a minha prece, rejuvenesço um hoje que aqui se esvaece... e agora se estabelece em uma alegoria provisória: a epigênese da epifania na polifonia da memória...

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LUPA CULTURAL
Por Rogério Araújo (Rofa)
O valor de um escritor
Na passagem do dia 25 de julho, que no Brasil é o Dia Nacional do Escritor, fiquei imaginando que responsabilidade eu tenho ao seguir essa carreira, bem como a de muitos que se dizem “escritores” e que escrevem cada coisa horrível. O que será que significa um monte de letras juntas com um toque pessoal de cada autor? Será que somente vale as “regras” a serem seguidas pela gramática e boa ortografia? E a emoção de quem escreveu e a famosa e bem aceita “licença poética”? Bakhtin, um dos mais destacados pensapelo falante para o contexto social, histórico, cultural e ideológico. "Caso contrário, ele não será compreendido", explica a linguista Beth Brait, estudiosa de Bakhtin e professora associada da Universidade de São Paulo (USP) e da Pontifícia Universidade Católica (PUC), ambas na capital paulista. Sendo assim, o que sobra para o escritor? Suas palavras escritas, embora possuam suas funções e significados ao serem produzidas, ganham vida e até nova interpretação ao serem lidas. E quando declamadas as suas poesias, dramatizados os seus contos e lidos com ênfases as suas crônicas, podem mudar de sentido pela entonação da voz.
Michel Foucault em sua obra “O que é um au-

dores de uma rede de profissionais preocupa- tor?”, afirmou categoricamente que “O autor está morto”. dos com as formas de estudar linguagem, lite- Ele desseca em seu estudo que não basta reafirmar que ratura e arte, afirmou que a língua só existe em a escrita não é expressão de interioridade alguma e que função do uso que locutores (quem fala ou esdiante da obra o autor morre mil vezes a cada palavra. Ou seja, uma vez escrita, uma obra ganha o mundo e

creve) e interlocutores (quem lê ou escuta) fa- vira atemporal. Não é toa que escritores, sejam membros zem dela em situações (prosaicas ou formais) da academia de letras ou não são considerados de comunicação. aprender e o empregar a linguagem passam
“imortais”. Uma vez escritas e publicadas, as palavras

Também deixou claro que o ensinar, o nunca morrem. Carlos Drummond de Andrade em seu necessariamente pelo sujeito, o agente das re- poema bem conhecido e comentado “No meio lações sociais e o responsável pela composi- do caminho” disse que “No meio do caminho ção e pelo estilo dos discursos. Esse sujeito se tinha uma pedra / tinha uma pedra no meio do vale do conhecimento de enunciados anteriores caminho / tinha uma pedra / no meio do camipara formular suas falas e redigir seus textos. nho tinha uma pedra”. Além disso, um enunciado sempre é modulado
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O que eram essas pedras? Ele mesmo * Escritor, jornalista, autor do livro “Mídia, bênção ou
maldição?” (Quár2ca Premium, 2011), dentre par2cipações em diversas antologias no Brasil e exterior; venceGanhou vida seus versos... dor de prêmios literários e culturais; membro de várias academias literárias brasileiras e mundiais; menção honAinda sobre “pedras”: rosa no Prêmio Varal do Brasil de Literatura, com a crôSócrates escreveu: “Transforme as pe- nica “O amor... é cego, surdo e mudo?!”.

se divertia com a repercussão e interpretações.

dras que você tropeça nas pedras de sua esca- O que achou da coluna “Lupa Cultural” e deste texto? Contato: rofa.escritor@gmail.com da”. Antoine de Saint-Exupéry: “Um monte de pedras deixa de ser um monte de pedras no momento em que um único homem o contempla, nascendo dentro dele a imagem de uma catedral”. Cora Coralina: “Fiz a escalada da montanha da vida removendo pedras e plantando flores”. Quantas frases, afirmações e óticas distintas de vários autores sobre um tema relativamente banal: “pedras”. E existe um significado maior ou menor a respeito? Não. Cada um tem o seu, sendo todos corretos ao seu modo. Da mesma forma que uma tela pintada. Os artistas que a fizeram podem afirmar o que quer dizer, mas, aparentemente, isso não tem importância. Quem vislumbra e admira que assimile de sua forma bem particular. Lembro-me de um quadro que de perto e de longe tinham visões bem distintas. Assim, acontece o mesmo com a interação com o admirador, leitor e espectador. Mediante tudo isso, em resumo, uma frase minha que postei no Dia do Escritor, pelas redes sociais, pelo meu dia e de muitos colegas: “Escrever é ter o dom divino de falar com as palavras escritas que ganham vida com o prazer de escrever e de ser lido pelos leitores”.
O valor de um escritor é enorme pelas pérolas que produz com sua riqueza que somente será lapidada por quem lê e aproveita de seu brilho para sua vida.

O ser humano não pode abandonar estes que sempre o acompanharam. É preciso defender o direito dos animais contra a crueldade humana.

DEFENDA OS ANIMAIS, NÃO ABANDONE, NÃO MALTRATE!

Um forte abraço do Rofa!
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ECOVOLUNTÁRIA

Alexandra Magalhães Zeiner

Amazonas de Hoje
Hoje criei tempo para me amar Me encontrar, sentir, acariciar Esta outra parte de mim, que vive distante Em mundos paralelos de sonhos

Indicadores de outras vidas Outras dimensões E assim me entreguei

Guiada até a superfície Um novo processo foi iniciado De aceitação e compaixão

Perdoei e integrei as mutantes que coexistem Para comigo e com minhas irmãs em mim Filhas da Polaridade e do Mundo A Salomé A Madalena A Guerreira A Maria Deusas com muitas faces Amazonas, habitantes da Mãe Terra

Desconhecia o poder A força O medo Tudo que a escuridão e a ilusão causavam Me cegava e separava desse mundo Arte de EICHWALDMOND Ao mergulhar nas profundezas Das fossas oceânicas Encontrei seres de luz própria
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JACQUELINE AISENMAN LIVROS No Brasil: atendimentoto@designeditora.com.br Livrarias Catarinense e Curitiba Europa: coracional@gmail.com

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É SÓ ALGUÉM

Por Adriana Freitas

É alguém que eu gosto E não quero mais gostar. Persegue os meus pensamentos E sabe sempre onde me encontrar. Parecendo vício. Obsessão. Qualquer doença que não traga benefício. E sempre machucando o coração. É alguém que penetrou até os meus poros. E não quer ir embora. Mesmo estando do outro lado da cidade. Mesmo não se fazendo mais presente. É alguém que fixou na minha pele. E por mais que eu tente. Eu não consigo esquecer.

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Um olhar
Por Christina Hernandes

Olho ao redor e vejo sombras Sombras infantis... Não as reconheço, parecem muito jovens Parecem mesmo, crianças.

Espontâneas, ingênuas, verdadeiras, Sem barreiras, sem censura... Saudáveis, plenas, quase absolutas Curiosas, felizes, como toda criança.

Seus mundos não são restritos, Seus desejos infinitos. Seus receios, medos, enfrentados No reencontro descoberto. Você!

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HOMENS QUE HONRAM SUAS FARDAS Por Rai D’ Lavor

Policiais militares que defendem a nossa pátria amada E que mesmo com um salário tão injusto diante da responsabilidade que Que carregam em suas bagagens, trabalham, ariscam suas próprias vidas para nos livrar da violência e ainda tem um amor tão grande dentro do coração para transmitirem as pessoas em momentos, de dor e agonia. Um momento que ficará eternizado em minha vida. Um dia de agradecimento a DEUS! E AOS ANJOS DO ASFALTO. Na noite do dia 28/08/2013, meu filho chegou do trabalho tomou banho se arrumou e falou mãe eu vou sair. Eu como sempre quero saber aonde ele vai e com quem vai apesar de ele ter 29 anos ainda o chamo de minha criança, sabe como é coração de mãe coruja, ainda mais eu que sempre fiz o papel duplo fui e sou até hoje pai e mãe dos meus filhos. Bem, ele disse-me que iria encontrar uma garota, no bairro Maria da Graça R/J. E foi... Eu orei a DEUS pedi que o levasse em paz e segurança, e fui dormir. E por volta de, 00: 45 acordei com minha filha Jacqueline falando ao telefone, ela parecia assim muito calma, eu levantei já com minhas penas bambas e perguntei o que aconteceu com o Marco? Ela calmamente respondeu: Mãe ele bateu o carro mais ele está bem. Eu entrei em desespero, e só consegui me acalmar quando cheguei ao local da colisão e vi meu filho sem um arranhão Ah! Eu agradeci muito a DEUS. Gente! Algo que me chamou atenção nessa história toda “foi” a atenção e o carinho com que fomos recebidas pelos Soldados do 22° BPM de Manguinhos R/J. Os Soldados Amaral 96.170 e Barbosa 95.996 D 2ª UPP de Manguinhos que registraram o acidente e que tiveram assim um cuidado muito grande conosco, parecia que a gente já se conhecia antes. Tive que acompanhar meu filho até a delegacia minha filha ficou no local aguardando a seguradora para retirar o carro. Mas, antes eles solicitaram outra dupla de soldados para que ficassem fazendo a guarda no local e, ao voltarmos da DP logo em seguida a seguradora chegou, retirou o veículo graça a DEUS tudo bem com meu filho. Mas, os soldados perguntaram vocês vão para casa como? Minha filha falou vamos de taxi. E assim prosseguimos nos despedimos dos dois agradecemos por tudo, e atravessamos a Avenida para o outro lado e eles permaneceram lá. Enquanto a gente não embarcou em um táxi eles não foram embora. Isso não tem preço... Bom. Resumindo. Quero aqui nesse pequeno espaço que me foi cedido pela Revista Varal do Brasil, agradecer do fundo do meu coração, aos soldados Amaral e Barbosa. Pelo carinho, e atenção. E hoje os meus mais sinceros agradecimentos são: Em primeiro lugar para DEUS, pelo grande livramento que deu para o meu filho. Segundo, anjos do asfalto os soldados. Amaral e Barbosa, amigos do asfalto saibam que se tornaram membros da minha família e estarão sempre presente em minhas orações. A vocês! Homens honestos, a minha eterna gratidão.
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QUANDO NÃO SE QUER IR EMBORA Por Maria Socorro Sousa Em doce embalo sonoro Soa um cântico dos deuses Amo-te! Amo-te! Não me deixes Flutua o amor em sussurro: te adoro Lamento em pétalas ao vento A brisa é o perfume vazando no peito Desafia a melodia o amor na aurora Quando não se quer ir embora A gloria estava no auge E mais do que nunca Aparecia o belo abençoado De um poder tomado Meu amor preferido! Vem aquecer Amor de um pranto não quer ir embora Coração soluça ao amanhecer Quando não se quer ir embora Eu em você – impossível esquecer Você em mim – ama-me agora! Onde colocava a bondade Da porção divina Onde tudo se atina De uma grande mortalidade Mas ela vinha mesclada Da incapacidade de suportar O fardo tão grande e pesado Onde ocorreu um terremoto Impressionante e remoto De uma imensidão e passado Que sobrevivera a morte Tudo foi tragado pelo mar E desapareceu sem deixar Um sinal qualquer de sorte A terra ficou totalmente perdida E aquela catástrofe esquecida E tudo tornou-se destruído Ficando tudo intransponível E tudo ficou invisível Ajuste Final Por Regina Mercia Sene Soares

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Decisões da Vida: razão ou emoção?
Por Rogério Araújo (Rofa) Ao longo de toda a nossa existência neste mundo, somos desafiados e pressionados de todos os lados a tomar decisões. Mas, aprendemos que, onde reside a “massa pensante” do corpo é no cérebro (razão) e quem ouve mais o coração (emoção) tende a fazer besteira. Mas, quais são as melhores decisões para a vida, as da razão ou da emoção? Quem acha que é muito racional, metódico e organizado para se deixar levar pelo coração, pode chegar a um ponto da vida que nada que viveu representou um marco, uma vitória real ou um momento brilhante. Porque quando também agimos pela emoção, a vida se torna mais suportável, doce, nas grandes amarguras que temos de provar pelo mundo afora. Quem, ao contrário, acha que é emocional, como um barco à deriva, largado para deixar de levar a vida tão a sério e controlado pelo cérebro, pode concluir mais tarde que viveu muitas emoções, mas que não chegou a se firmar em nada e não construiu nada tão sólido assim para manter sua existência pelos anos vindouros. E a dúvida persiste, a razão ou a emoção deve controlar nosso viver? A resposta: as duas, de maneira dosada, dependendo da situação e momento, com a ajuda de nosso criador, Deus, que saberá dar um auxílio para lá de precioso para que esse equilíbrio aconteça na medida certa.

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CULTíssimo
Por @n[ Ros_nrot

No início do Século XX, contra todas as possibilidades, surgiu um filme que ditou às regras do futuro do cinema (e talvez da própria humanidade) influenciando até hoje gerações de escritores, cineastas, filósofos, a2vistas e até mesmo inventores e polí2cos, indo das obras de grandes mestres como George Orwell, Isaac Asimov, Alfred Hitchcock, entre muitos; passando por vários clássicos cinematográficos: Blade Runner, 1984, Robocop, O Exterminador do Futuro, Star Wars, O Quinto Elemento, Matrix, Bastardos Inglórios, etc... dando origem a jogos e livros importanTssimos, movimentos como o Steampunk e o Film Noir e a discussões filosóficas, técnicas, teológicas e de polí2cas públicas de desenvolvimento, tudo devido ao tema incrivelmente moderno desta obra: a dominação do mundo pelas máquinas.

Mas qual seria esse filme tão importante, chocante e sociológico, tão extraordinariamente Cult? Nada mais nada menos que Metrópolis, o filme mudo mais caro já concebido, que custou cerca de 5 milhões de marcos alemães, ou aproximadamente US$ 15 milhões em valores atuais, possui cenas de forte expressão visual, efeitos especiais inacreditáveis (para a época) e levou quase dois anos para ser produzido; essa obra de ficção cienTfica foi o marco do expressionismo Alemão; dirigida por Fritz Lang em 1926, revela uma visão incrivelmente pessimista do futuro numa época em que a Revolução Industrial 2nha a2ngido seu ápice, os sistemas polí2cos e econômicos já davam sinais de desgaste e as crises trabalhistas e sociais que deram origem ao negro período nazista já começavam a despontar, o filme foi um verdadeiro alerta sobre o que aconteceria se o industrialismo inconsequente e o capitalismo selvagem não fossem freados a tempo. Escrito pelo próprio Lang e por sua esposa Thea Von Harbou, estreou com estardalhaço em 1927, em Berlim, com a presença do Marechal Von Hindenburg e das pessoas mais importantes entre os alemães da época, mas foi um completo fracasso de bilheteria, quase falindo a Universum Film AG (UFA).

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Considerado muito longo (o que seria pouco comercial para o exterior) foi severamente cortado após sua estreia e em várias ocasiões, sendo que sua versão completa foi dada como perdida para sempre até 2008, quando uma cópia do original em péssimas condições foi encontrada na Argen2na, restaurada e relançada em 2010 com resultado mais que perfeito. Cultuado por gerações e possuindo somente 4 pôsteres originais de 1927 (feito em Litografia, por Heinz Schulz-Neudamm), é considerado o cartaz cinematográfico mais raro e caro do mundo; um deles foi leiloado em 2012, juntamente com outros oito pôsteres e o lote a2ngiu U$ 1.2 milhões de dólares. Neste momento em que o Brasil e o mundo passam por diversas transformações, recomendo esse importante, ousado e posso dizer atualíssimo filme, a obra prima de Fritz Lang, (futuro grande ídolo do Cinema Noir) onde você conhecerá o primeiro (a) robô da história do cinema. Um verdadeiro convite à reflexão e à humanização. Confiram mais algumas informações e experimentem essa experiência única:

Sem nenhum direito, os operários vivem de forma quase robo2zada, sem pensar, refle2r, sonhar, sem amanhã; mas Maria (Brigi\e Helm), uma jovem inteligente e corajosa se destaca e com o desejo de conquistar uma vida mais “humana” ela passa a exortar os trabalhadores a se organizarem para cobrar seus direitos, demonstrando que eles possuem o poder e a capacidade para a transformação da classe trabalhadora de forma pacífica, através de um escolhido que virá para representá-los. Ironicamente, o escolhido é Freder (Gustav Fröhlich), filho de Fredersen, que resolve ajudá-los após ver a triste condição de vida dos operários (e também por sua paixão por Maria); só que Freder nem imagina o que seu pai e Rotwang, o inventor (Rudolf KleinRogge), planejam para o futuro desse povo tão sofrido e para a bela e revolucionária Maria.

Metrópolis (Alemanha, 1926): é um filme mudo de ficção cienTfica, dirigido por Fritz Lang e conta a história da cidade de Metrópolis em 2026, governada pelo 2rânico empresário Joh Fredersen (Alfred Abel) e segmentada injustamente em duas grandes classes, com as pessoas de posse vivendo na super[cie e os mais pobres no subterrâneo, num verdadeiro apartheid. Os cidadãos da cidade superior possuem o que há de melhor em estrutura e tecnologia, enquanto os da cidade subterrânea vivem em condi- Para contato e/ou sugestões é só mandar uma menções precárias, desumanas, como semiescravos, tra- sagem: anarosenrot@yahoo.com.br balhando para manter as máquinas que alimentam toda a cidade superior em pleno funcionamento.
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GIRO

Por Regina Costa

Saber de você, com você Faz um bem muito melhor Caminhos distantes nos unem Separando... União duquesa de reinos, castelos Cristais tilintam azuis Ah! Quando nos vemos! Giram todos ao nosso redor Enredando calores Assopro Emoções Murmúrios de bem querer Malmequer Bem-me-quer Quem te dará meu abraço? Malmequer Bem-me-quer Caminhos distantes nos separando Malmequer Bem-me-quer Quem me dará seu abraço? Malmequer Bem-me-quer Caminhos separados unindo Distante...

NOVA ESTAÇÃO
Por Girlene Monteiro Porto Somente guardei O sabor do amor vivido, A doçura do escondido, Momentos que marcaram uma estação De primavera ou verão Ficou o gosto Daquele amor que não mais existe, Misturou-se com as noites dos meus mais ditosos sonhos, Meus anseios e desejos Confundiu-se Nas perspectivas do amanhã. Dei então um empurrão na dor, Procurei outros motivos de amor. Encontrei no presente Um novo sabor, Um novo perfume, Uma nova cor, Em uma nova primavera Ou um novo verão Mais um momento para viver Um novo sentimento Em uma nova estação.

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Libertar o Saber
Por Gaiô Vou libertar meus livros, seguindo meu coração. Tantos anos confinados, prisioneiros me esperando, tentando me conhecer...Não dá não!!! Na estante, estagnados, ilustrando em paisagens, books capes pela casa... Devem estar cansados... Que possam se reciclar em outros cantos da vida, possam ser melhor tratados, dispostos, manuseados, melhor qualidade humana. Tanta escola precisando, os projetos sociais. Com cuidado, não os queime, são paisagens do saber, alumiam o viver. Novos toques, novos colos, possam eles circular em mágicas prateleiras, nova vida e utilidade, livres do sebo, livres de mim, livres do antigo dono, da livraria da esquina...Uffffa!!!! Livres enfim!!!

Arte by Sergio Niculitcheff.

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A Rosa
Por Josué da Silva Brito Se algum dia em seus parcos Caminhos, encontrar uma rosa Ou outra qualquer flor. Pergunte-a Sobre meu amor. Se algum dia encontrar um rosa, Pegue suas pétalas e sinta Meu perfume. Se achar essa rosa Sinta em seus espinhos minha dor. Se Rosa, a flor que te dei Em meio às cartas que te escrevi achar, Lembra-te que a espero. Se Rosa achar a flor, Procurei as outras, que num jardim, Para você plantei. TROVAS

Por Marina Valente

Pobre vai de pé no chão; de carona, só por sorte. Rico estaciona o carrão e caminha por esporte... A gordinha não põe short; a celulite a deforma. Se ela praticasse esporte, seu corpo entraria em forma. Sempre que puderes, canta, seja qual for a canção, pois teu cantar acalanta um sonho em teu coração.

Imagem by BreAnn

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SONATA EXISTENCIAL
Por Germano Machado Caí abismos sobre meus abismos interiores... Sacudi-me tempestades... Abalai-me vós demônios de Lúcifer... Vinde, levantai-vos deuses de barro, quebrados e sepultados... (E não vieram) Só nas areias dos desertos... Só nas neves eternas dos polos... Só nas noites negras dos infernos... Só nos dias brancos dos céus... (Para lá voei) O desejo de amar; O desejo de voar; O desejo de dar corda nos relógios do tempo, Vendidos ao implacável senhor 60 minutos; O desejo de roubar o cetim das pálpebras das flores; O desejo de possuir as montanhas do mundo soterrado; O desejo de sacudir as energias cósmicas... (Desejo de tudo procurarei) Parte inacessível da alma humana; Mistério a governar o destino dos homens; Alma ignota; alma sofredora; Alma dilacerante; alma de Miguel e de Lusbel, Fulgurantes e diversas, Alma míope e alma de horizonte: ...quem és? onde estás? onde te escondes? de que és?... (Desejo, quimera, sonho, baixeza e altura, pobreza e riqueza, todos Mendigos de Deus, Mendigos de Absoluto)...

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AMOR ESPETACULAR
Por Michelle Franzini Zanin

Queremos um amor sem consequências Que nos ensine a superar Vivemos um amor de juventude que mostra o quanto crescemos Ardente como o fogo

Amor de cinema Amor de novela Um espetáculo a parte Quente como o teatro Pronto para ser vivido Brota no peito de forma discreta Como quem não quer nada De repente toma conta de tudo Só depende de mim e de ti para ser protagonizado Sempre sonhei com este momento Sempre quis saber o que significa afeição Só sei que te amo Sei que te zelo Quero vivenciar este momento Vamos nos despir Deixar o amor fluir Fazer um belo espetáculo com o intuito de ser aplaudido Estamos escrevendo nosso destino Vivendo uma paixão de despertar inveja na pobre Julieta Nosso amor é intenso Domina tudo ao redor Ao nos beijarmos conseguimos tocar a alma um do outro Somos uma obra á parte Um dia iremos despertar a libido na doce menina Vivemos intensamente Enamorados, pois somos namorados

Com o passar dos anos vai apagando sua chama, esfriando Se tornando calmo, maduro Já não somos mais duas crianças Queremos companheirismo Uma prova de que nos amamos Não nos resta outra escolha De forma adulta damos as mãos e decretamos o fim do primeiro ato Mas este não é o nosso fim, somente o intervalo Porque o espetáculo deve continuar.

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PALAVRA CRÔNICA

Anaximandro Amorim

meus ouvidos. Juro que deixei de frequentar um “coifér” só por causa disso. E olhe que, como bom professor de francês, cansei de explicar pro “coiffeur” como ele pronunciava sua própria profisA palavra “coiffeur”. Do francês, cabeleireiro. são... Assim como na língua portuguesa, o francês também “Coiffeur” ou “coiffeuse”, o fato é que, se você declina palavras pelo gênero. Em geral, na nossa lín- for usar uma palavra estrangeira e, principalmente, gua, o masculino se faz com o sufixo “o” e o femini- se ela não for aportuguesada, use com propriedade! no, com “a”, salvo exceções. Na língua de Molière, A “madame” em questão é “coiffeuse”. Ou então, em geral, o masculino se faz com as consoantes e o prefira o equivalente na nossa língua: cabeleireiro ou feminino com o sufixo “e”, salvo também exceções. cabeleireira. Sei que o assunto é polêmico, mas, sinUma delas é “coiffeur”. O feminino é “coiffeuse”. ceramente, se você estiver na dúvida, não use o esAssim, se o salão fosse de uma cabeleireira, deveria trangeirismo; ou então, consulte um professor. Imprópria não é a derivação, mas o uso incorreto da ser tudo no feminino, correto? Não no Brasil... palavra. E, por favor, veja se você pronuncia corretaA França sempre esteve ligada à indústria do mente. Poupe os ouvidos de um professor de francês! luxo. Assim, é “chic” colocar algumas palavras em francês para “valorizar o produto”. Afinal, quem nunca viu algum prédio com nomes como “Versailles”, “Provence”, “Monet”? Nada contra (apesar de não ver com muito bons olhos essa profusão de estrangeirismos), mas, em passeio pelo meu bairro, qual não foi meu espanto ao ver um salão que se chamava algo como “Madame Coiffeur”? E não só esse: são tantos Maria Coiffeur, Joana Coiffeur. O certo seria “coiffeuse”. Gente, é homem ou mulher? Será apenas um simples problema de tradução? Ou será que esse monte de gente está na dúvida? Prefiro acreditar que tudo isso seja um malentendido. E isso, em gramática, se chama “derivação imprópria”. Por exemplo: a palavra “rendez-vous”, em francês, quer dizer encontro. Só isso. Sem qualquer outra conotação. Mas, a tal da derivação imprópria... Assim, isso explicaria o porquê de tanta mulher ser “coiffeur” e não “coiffeuse” no Brasil. Na França, isso pegaria meio mal... mas, se tem algo que não muda nem aqui, nem lá, é a pronúncia: “coiffeur” se pronuncia “coafér”. Não é tão difícil assim. Mas é um tal de falar “coifér” que, aí, dói nos
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A PALAVRA “COIFFEUR”

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que começou a desacelerar. Foi escorregando pelo muro até sentir o chão. Olhava para o alto involuntariamente, seus pulmões ainda lutavam. A pele seca, inchada, descascada drenava um líquido viscoso. Suas coisas esparramaram à sua volta, e despejou o nada amargo que havia no estômago. Ilusão, dor, arrependimento. Abriu os olhos e, dilatados, miravam o fogaréu incandescente do

Breviarium
Por Fabiana de Almeida

sol. E olhou tão profundamente que transcendeu o clarão e atravessou esferas intransponíveis. O que se figurou lhe era conhecido. O jardim, a criança correndo, a mulher sorrindo. Ele entendeu. E chorou. Enquanto o sorriso se avizinhava, seus olhos choravam e ele sorriu também. Já não sentia a náusea, a dor, a solidão. Desligava-se daquela máquina inútil, doente, e do alto viu o corpo inerte e inócuo. Sorriu. Vitorioso seguiu rumo à sua visão. E o sol quente ainda inundava as ruas com seus raios incandescentes, a multidão a passos largos e rápidos seguiam, cada qual no seu mundo, introspecto. Indiferente.

As ruas estavam tiritando de gente. O sol escaldante machucava os olhos enquanto abafava ainda mais o calor debaixo das suas roupas fétidas e sem cor. Levava consigo apenas um cobertor e um saco cheio de tralhas, mas que serviam bem. Invisível na multidão poder-se-ia dizer que nem os céus o podiam ver. Seu estômago apertava a cada brisa que trazia o cheiro de uma guloseima ou de um almoço de restaurante. Sede. Já não a tinha. Era um dos sintomas de sua desidratação. Encostou-se a um muro pichado com nomes de gangues e sentiu o mundo rodar. Não aguentava mais caminhar, seus pés imundos não sentiam mais as pedras e nem o quente do asfalto, o calcanhar rachado sangrava. Suas pernas finas tremiam insensíveis à sua vontade, sua cabeça latejava. Seu corpo todo estava febril, os olhos vidrados foram se fechando lentamente. O sangue em suas veias borbulhava, suor gelado escorria por todos os poros. Não conseguia mais engolir, seu coração sofria tanto pra bater

Primeiro lugar na categoria Crônicas do I Prêmio Varal do Brasil de Literatura

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DISCUTINDO A RELAÇÃO Por Marcos Mairton

Tenho assistido a tudo isso calado, mas minha insatisfação veio crescendo, dia após dia, até que cheguei a este ponto. E sei que não estou me precipitando. Se estivesse, diria agora que estava me despedindo para sempre e que nunca mais sequer almoçaria em um restaurante onde você estivesse. Mas essa não seria uma decisão inteligente. Se eu agisse assim, sua presença se tornaria um incômodo ainda maior, cada vez que nossos destinos se cruzassem. E, para ser bem sincero, não sei se estou pronto para eliminar a sua presença da minha vida ou mesmo desta casa.

Assim, não quero fazer deste momento uma despedida, mas uma tomada de posição para Descobri que não preciso de você para viver. que tenhamos uma convivência melhor. Para Não foi uma descoberta instantânea, um in- isso, é necessário que o controle da sua particisight. Na verdade, nem foi propriamente uma pação em meu dia-a-dia seja meu, não seu. descoberta, mas o resultado de um processo É por isso que, a partir de hoje, você não mais lento e gradual - feito de momentos bons e situestará presente às minhas refeições, nem tamações desgastantes - que me conduziu a essa pouco interferirá quando eu estiver conversanconclusão. Aliás, que fique bem claro: não é do com amigos ou lendo um jornal. Você se que eu tenha deixado de precisar de você, apemanifestará quando eu determinar, nem mais, nas percebi que nunca precisei, mas estava nem menos. acostumado à sua participação em minha vida, a ponto de não mais imaginá-la sem você por E para começar a por em prática essa decisão, perto. apertarei agora este botão vermelho do controle remoto e deixarei você desligada por todo o Mas, isso mudou. E hoje eu olho para você e restante do dia. À noite, ligarei você novamenme surpreendo pela maneira como sua presente, mas apenas pelo tempo necessário para ça, antes aparentemente indispensável, tornouque eu assista ao Jornal Nacional. Depois, desse incômoda, desagradável até. Sei que é esligarei você de novo e lerei um bom livro, até o tranho dizer isso depois de anos de convivênsono chegar. cia, mas só eu sei quantas vezes você interferiu – às vezes sutilmente, outras nem tanto – na Pensando bem, televisão, até tirarei você do minha forma de agir, de me vestir, de comer e, meu quarto. É isso, a partir de hoje, você ficará o que mais me assusta, até de pensar. na sala. Reconheço que você me ajudou em momentos importantes. Apresentou-me pessoas e lugares que, sem você, eu jamais teria conhecido. Até algumas músicas que gosto, foi através de você que ouvi pela primeira vez. Mas, isso não justifica o seu comportamento egocêntrico nas reuniões com amigos, monopolizando as atenções, sem parar de falar mesmo quando alguém tenta expor o próprio ponto de vista. Às Segundo lugar na categoria Crônicas do I vezes, durante as refeições, você parece fazer Prêmio Varal do Brasil de Literatura. questão de tratar de coisas desagradáveis, capazes de fazer qualquer um perder o apetite.
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Nascer...
Por Rossandro Laurindo O Início da jornada do distanciamento do instante do nascimento, e a aproximação do momento da morte. Respirar a atmosfera criada somente para suprir suas necessidades de vida. Vivenciar através da visão as mais deslumbrantes paisagens. São épocas tantas já presenciadas, são detalhes preciosos de serem lembrados. Modos de viver vários permitidos pelas escolhas feitas através dos tempos. Tempo que, ininterrupto, conduz a viagens sem destinos certos, firmados e confirmados. Realidade a que se vive em meio ao cotidiano? Ou é a vivência do amor humano que tem por realidade a sua vida? Talvez seja o equilíbrio entre ambos que se pode considerar a vida que possui, neste ou em futuros modos de existir. Observar o interior dia após dia, em quantidade superior ao exterior que a cerca, pode ser a maneira de encontrar a plenitude tão ansiada por grande parte da sociedade. Deseja compreender o viver humano e os humanos que vivem a vida que têm vivido e vivenciado os minutos diários contigo? Pondo-se diante do espelho interno do coração, digo convicto, que serás capaz de fazê-lo com êxito. Devido à beleza ainda oculta em seu íntimo, és capaz de fazer gerar um ser ainda mais humano e belo que já és. Um ser gerado em sua infinita interioridade inesgotável. Um você, mas já não você, sendo você como és. Há uma arca dentro de ti. Ao encontrar a chave em seu coração poderá abri-la com coragem em busca da sinceridade que há em seu interior. Cultivada esta sinceridade e regada com as águas da coragem; a prática pelo amor fraternal será possível e impossível de ser evitada. Nascimento... Não luz, já luz Movimento De membros recém formados Buscando ar modificado Não semelhante ao já respirado Espera... De momentos desejados de finito Da mesma vida pré-nascida Moldada pelo amor paterno-maternal Vivida... Já a vida válida Videira de frutos verdadeiros Verdade revelada em vida Dividida por amigos vários Entre eles a família A cuja manjedoura fora enviada
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A revista VARAL DO BRASIL circula no Brasil do Amazonas ao Rio Grande do Sul... Também leva seus autores através dos cinco continentes. Quer divulgação melhor? Venha fazer parte do VARAL DO BRASIL E-mail: varaldobrasil@gmail.com Site: www.varaldobrasil.com Blog do Varal: www.varaldobrasil.blogspot.com

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TROVAS
Por Lóla Prata
Imagem by Disney

Ele já nasceu cansado e piorou ao casar: nada faz, nem amarrado, desmaia só de pensar. Como é lerda essa mulher, pois em trabalho de parto que muito esforço requer, dorme "aquele" sono farto... Esse esperto maridinho diz: - Enquanto eu me recosto, adoce o meu cafezinho, pois não sei de quanto eu gosto. Para as rimas extinguir da cabeça de troveiro, quando deitar pra dormir, dê tapas... no travesseiro. Rasga a calça do palhaço quando a banda bate forte mostra a cueca, só o laço, que sobrou por pura sorte! Este gosto de fofoca que da boca mostra o alarde, não respeita, suja e choca, põe pimenta onde bem arde! De uma banda, as duas bandas vê essa gente vagabunda que depois de tais “cirandas” molha a própria em água funda! Quando a banda passa, eu vejo todo o povo a rebolar... É o maldito percevejo que tornou-se popular... Por Fábio Siqueira do Amaral TROVAS HUMORISTICAS

O Café, gostoso e amado, por qualquer “biba branquela”, era o nome camuflado de um negrão lá da favela...

Essa prece mal rezada, feita aos anjos – sem ter fé –, só faz ver alma penada quando há pinga no café.
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O VALOR DA AMIZADE Por Isabel C S Vargas O homem é um ser social. Isto significa que não foi concebido para viver só. Desde a infância é buscada a socialização do indivíduo. Desta forma ele aprende a se relacionar e interagir de forma saudável e prazerosa para si e para os demais que com ele convivem. O processo de socialização começa na família, posteriormente na escola, e nos demais grupos sociais que ele se insere. É no decorrer deste processo que se estabelecem os laços de amizade, que são de fundamental importância na medida em que propiciam afeto, troca de energia, enriquecimento mútuo. Oportuniza a convivência isto é, “viver com” que se traduz em participação, doação, troca de afetividade, de respeito. Poderíamos transcrever inúmeras citações valiosas a cerca da amizade e sua importância na vida de cada um, mas é dentro de si mesmo que cada um percebe o quanto é importante ter alguém em quem confiar com quem pode partilhar todas as angústias, tristezas ou alegrias. É na convivência com o outro que se fortalece a visão de si mesmo. É através do outro que nos enxergamos. É um processo de comunicação e empatia profundo baseados na compreensão no carinho e na harmonia. Em todas as fases da vida a amizade é importante, porque através deste relacionamento são cultivados e aprimorados a sinceridade, a aceitação, cumplicidade, afinidade, responsabilidade, aconchego, respeito e confiança. Num relacionamento enriquecedor cada um tem que aprender a se aprofundar nos sentimentos, valorizando o que é saudável e faz crescer, despindo-se de orgulho, vaidade, competição e inveja. Especialmente na maturidade e mais precisamente na terceira idade a amizade tem um importantíssimo papel na manutenção da saúde física e mental, pois ativa áreas do cérebro, libera substâncias hormonais que favorecem a alegria e o bem estar, diminui a agressividade, a desconfiança, a tensão, fortalecendo o sentimento de “pertencimento”, na medida em que a pessoa tem com quem compartilhar sua vida, num momento em que o cônjuge e/ou demais membros da família já faleceram, os filhos cresceram e a pessoa se encontra repentinamente só. Os amigos passam a suprir nestes casos a ausências de parentes, são como outra família escolhida pelas afinidades, pela convivência, pela presença constante e afável em todos os momentos, pois é com eles que serão divididos os sorrisos, as lágrimas, é com eles que se estabelecerão conversas, auxílio mútuo, afastando aquela que é a maior inimiga das pessoas na velhice, ou seja, a solidão, que isola, entristece, deprime, leva a um sentimento de inutilidade, de desvalia. Portanto, a amizade é de inestimável valor e pode significar a própria vida, ou um sentimento maravilhoso de paz e integração, nesta fase, pois é através dela que o indivíduo encontrará suporte emocional, apoio, carinho, parceria, fortalecimento de identidade, elevação de autoestima, reconhecimento que certamente lhe proporcionarão viver mais tempo com mais amor e mais felicidade.

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Cigana Por Elena Lamego
Ando em busca dos meus sonhos em tudo o que faço. Mesmo doendo-me os passos, procuro dançar com leveza, Delicadeza. Muito cedo, desde menina, aprendi andar por caminhos retos Mirando estrelas que luzem nos confins do universo. Meu lema? Não desistir! Acredito no caminho que escolhi. Meu destino? Tua sina? Como saber? Não driblo a sorte, não temo a morte. Busco coragem e sabedoria para entender as linhas da minha estrada . Quero o poder da Deusa! A força da Guerreira! Quero o brilho da verdade, o sabor da alegria refletida em meu olhar. Quero amar, amar e amar. Quero dançar à céu aberto, nos palcos iluminados do universo. Sou livre, faceira... À noite canto e danço com as chispas da fogueira. Ao som do “amor que de mim emana” sou Luz, sou Chama, sou Cigana. Na jornada vou atenta, vejo outras companheiras: Mulheres lindas, ensolaradas, encorajadas pelos desafios da vida. Na bagagem: Os anseios, nossas dúvidas, nossos olhos cheios d'água, despedidas... Mas também a nossa garra, nossa história e sorrisos de vitórias. Lado a lado caminhamos Solidárias formamos laços Seguimos a caravana. Acreditamos. E assim eu vou girando girando girando Até chegar ao fim do mundo!

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A VIDA IMITA A ARTE
Cintia Medeiros

Oi gente, tão bom estar novamente com vocês! no...eu penso que ela gostava de eternizar moEstive um pouco ausente, mas como diria o mentos. matuto: "simbora". Cora chegou a fundar um jornal com algumas Hoje eu vou falar de uma pessoa que é a cara amigas: "A Rosa", e por algum tempo publicou do Varal, e que sem sobra de dúvidas, deve ser vários textos, ela tinha uma carreira promissora querida por uma porção de gente aqui: Ana pela frente. Mas ao casar larga a literatura por Lins dos Guimarães Peixoto Bretas ou simples- imposição do marido, e se dedica ao casamenmente Cora Coralina, uma poetisa goianense to e aos filhos; quando fica viúva torna-se domaravilhosa. ceira pra criar os filhos, ela costumava brincar que se achava mais doceira que escritora...e a mesma sensibilidade que passava pro papel transpôs para os doces, dessa forma criou todos os seus filhos. Com o tempo, Cora conseguiu voltar para a literatura de uma forma torta, vendendo livros em uma editora, e então aos 75 anos publicou seu primeiro livro, que foi "O Poema dos Becos de Goiás e Estórias Mais", dai pra frente o Brasil passou a conhecê-la e a aclamá-la. Muita gente cita Cora Coralina em suas redes sociais no dia-a-dia, mas poucos a conhecem; coincidência ou não, eu a conheci quando tinha uns 12 anos na minha 6ª série fundamental, no rodapé de um livro de português e ri muito com seu poema "antiguidades", onde ela contava como as "visitas" de sua casa eram recepcionadas por sua família, e citava a divisão nada igualitária que suas irmãs faziam de um bolo; não vou contar tudo porque eu gostaria muito que vocês lessem ao final da coluna, e tivessem também suas próprias percepções sobre esse texto, eu adoro...viajo! Bem, vou contar um pouquinho sobre a vida dessa poetisa, que foi aclamada inclusive por Carlos Drummond de Andrade, e não foi a Semana de Arte Moderna por proibição do marido...vê se pode?! ai ai... Gente, essa mulher começou a escrever bem cedo, e olhe que não teve oportunidade de estudar...estudou muito pouco, mas mesmo assim tinha paixão pela literatura...e gostava de contar os fatos de sua vida, de seu cotidiaEu não gosto de usar muito datas, vocês devem ter percebido já, porque eu acho que fica muito mecânico, prefiro contar a história do meu jeito, trazer a minha impressão...e deixar que cada um fique um pouco curioso, e queira também conhecer mais sobre alguém. Cora é a minha poetisa preferida, na minha opinião ela escreve com o coração, tem bem a cara do Varal; cada vez que eu leio algo sobre ela, um poema que eu não conheço, me sinto lá sentada ao seu lado ouvindo sua impressão sobre aquele fato e viajo nas impressões causadas em mim, isso é o mais bacana. Por isso, você que tá ai sentadinho lendo essa coluna e pensando: será que um dia eu vou ser famoso como a Cora Coralina, ser aclamado como o Carlos Drummond de Andrade...não sei, e você também não vai saber se ficar ai só pensando...que tal ir colocando suas idéias no papel, suas impressões da vida, das pessoas, seus sentimentos...?! Depois me conta...!! beijinhos, até a próxima!! (Segue)
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Deixo vocês com o texto Antiguidades, de Cora Co- Palmatória e chineladas ralina: não faltavam. Quando não, sentada no canto de castigo fazendo trancinhas, amarrando abrolhos. Quando eu era menina "Tomando propósito". bem pequena, Expressão muito corrente e pedagógica. em nossa casa, certos dias da semana se fazia um bolo, Aquela gente antiga, assado na panela passadiça, era assim: com um testo de borralho em cima. severa, ralhadeira. Era um bolo econômico, como tudo, antigamente. Pesado, grosso, pastoso. (Por sinal que muito ruim.) Eu era menina em crescimento. Gulosa, abria os olhos para aquele bolo que me parecia tão bom e tão gostoso. A gente mandona lá de casa cortava aquele bolo com importância. Com atenção. Seriamente. Eu presente. Com vontade de comer o bolo todo. Era só olhos e boca e desejo daquele bolo inteiro. Minha irmã mais velha governava. Regrava. Me dava uma fatia, tão fina, tão delgada... E fatias iguais às outras manas. E que ninguém pedisse mais ! E o bolo inteiro, quase intangível, se guardava bem guardado, com cuidado, num armário, alto, fechado, impossível. Era aquilo, uma coisa de respeito. Não pra ser comido assim, sem mais nem menos. Destinava-se às visitas da noite, certas ou imprevistas. Detestadas da meninada. Criança, no meu tempo de criança, não valia mesmo nada. A gente grande da casa usava e abusava de pretensos direitos de educação. Por dá-cá-aquela-palha, ralhos e beliscão.
(Segue) Não poupava as crianças. Mas, as visitas... - Valha-me Deus !... As visitas... Como eram queridas, recebidas, estimadas, conceituadas, agradadas ! Era gente superenjoada. Solene, empertigada. De velhas conversas que davam sono. Antiguidades... Até os nomes, que não se percam: D. Aninha com Seu Quinquim. D. Milécia, sempre às voltas com receitas de bolo, assuntos de licores e pudins. D. Benedita com sua filha Lili. D. Benedita - alta, magrinha. Lili - baixota, gordinha. Puxava de uma perna e fazia crochê. E, diziam dela línguas viperinas: "- Lili é a bengala de D. Benedita". Mestre Quina, D. Luisalves, Saninha de Bili, Sá Mônica. Gente do Cônego, Padre Pio.

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D. Joaquina Amâncio... Dessa então me lembro bem. Era amiga do peito de minha bisavó. Aparecia em nossa casa quando o relógio dos frades tinha já marcado 9 horas e a corneta do quartel, tocado silêncio. E só se ia quando o galo cantava. O pessoal da casa, como era de bom-tom, se revezava fazendo sala. Rendidos de sono, davam o fora. No fim, só ficava mesmo, firme, minha bisavó. D. Joaquina era uma velha grossa, rombuda, aparatosa. Esquisita. Demorona. Cega de um olho. Gostava de flores e de vestido novo. Tinha seu dinheiro de contado. Grossas contas de ouro no pescoço. Anéis pelos dedos. Bichas nas orelhas. Pitava na palha. Cheirava rapé. E era de Paracatu. O sobrinho que a acompanhava, enquanto a tia conversava contando "causos" infindáveis, dormia estirado no banco da varanda. Eu fazia força de ficar acordada esperando a descida certa do bolo encerrado no armário alto. E quando este aparecia, vencida pelo sono já dormia. E sonhava com o imenso armário cheio de grandes bolos ao meu alcance. De manhã cedo quando acordava, estremunhada, com a boca amarga, - ai de mim via com tristeza, sobre a mesa: xícaras sujas de café, pontas queimadas de cigarro. O prato vazio, onde esteve o bolo, e um cheiro enjoado de rapé.

TROVAS

Por Therezinha D. Brisolla

Ao ver pregado na cruz um Deus justo e não um réu, pede perdão a Jesus... E o "bom ladrão"... rouba o céu!

Ao ver que estava em perigo fechou, a Jane, a matraca... É que o Tarzã, sempre amigo, hoje "tava com a macaca"!

Ao vir "de fogo" recua gritando, após a topada: - Que faz um poste na rua às duas da madrugada?!

À pergunta: - Qual andar? Responde o pinguço, a esmo: - Onde quiser me levar; já errei de prédio mesmo!

A planta, o animal, o inseto, Em equilíbrio e harmonia, Ao homem – seu desafeto – Dão aulas de Ecologia!

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GRITO DE CRIANÇA Por Gilberto Nogueira de Oliveira

Vocês já ouviram um grito De criança, faminta e miserável? O grito é diferente. Vocês já ouviram? É um grito fraco e poderoso. Vocês já ouviram? Eu acho que não. É um grito tão alto Que ninguém é capaz de ouvir, Porque a ninguém importa. Se não foi a criança rica quem gritou? Se não foi o patrão quem berrou?

PASSAGEM Por Maria da Glória Jesus Oliveira

É um grito fascinante. É um grito insinuante. Que dá o que pensar, Que dá o que escrever. Mas vocês não ouviram o grito Porque suas barrigas estão cheias. Ninguém pode fazer nada, nem os pais, Porque também eles Não tem como fazer. Acordem. Concordem com o socialismo. É a única esperança De não mais se ouvir... O GRITO!

Na tarde cinzenta dos meus dias Você brilhou purpurinas. Alguns confetes colaram Em meus olhos cansados. Você trouxe água límpida Calor na noite de frio Sabor para a boca amarga. No entanto, sorrateiro, Foi esmaecendo, Levando tudo o que tinha. Fiquei com o sol da manhã Mas sem olhos de ver.

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OK! AMOR
Por Jô Mendonça Alcoforado

O AMOR É UM SENTIMENTO GRANDE E VERDADEIRO O AMOR NÃO É O ABANDONADO MESMO QUE ESTEJAMOS OCUPADOS O AMOR NÃO SE JOGA FORA QUANDO É VERDADEIRO O AMOR É FORTE QUANDO MARCA PRESENÇA TODOS OS DIAS O AMOR É RESPEITO PELO QUE NÃO SE GOSTA O AMOR É A UMA FALTA CONSTANTE DE QUERER ESTAR JUNTO O AMOR NOS DEIXA ABERTOS PARA O SORRISO, AS LÁGRIMAS, A SAUDADE. O AMOR NÃO SE DEFINE APENAS COM PALAVRAS, MAS TAMBÉM POR AÇÕES. O AMOR ÀS VEZES NOS ENGANA SOBRE O AMOR O AMOR MEXE COM O CORAÇÃO, ATIVA O SANGUE NAS ARTÉRIAS. O AMOR NOS ENTREGA NOS BRAÇOS DA PAIXÃO SÓ QUERENDO SENTI-LO O AMOR AUMENTA OS BATIMENTOS CARDÍACOS, ACELERANDO TODO O CORPO. O AMOR QUE SER OLHADO, ACARICIADO, BEIJADO TODOS OS DIAS. O AMOR É A COMPANHIA MAIS AGRADÁVEL QUE SE TEM NA VIDA! O AMOR É O PENSAMENTO EM ALGUÉM SEMPRE! O AMOR NÃO QUER SER DESCARTADO, QUER SER ALIMENTADO. O AMOR É UMA NOVELA DA VIDA QUE POUCOS TÊM O PRIVILÉGIO DE VIVER!

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Se é preciso dizer Adeus
Por Sandra Nascimento Se é preciso dizer Adeus Deixo o último beijo na sua mão Meu sorriso, o gesto Seu sorriso, o verso Fique com as imagens dos filhos pequenos Pelados, molhados, correndo pela sala Portas fechadas, Inverno lá fora O café quente e fresco A luz acesa, a mesa Fique também com o silêncio Que aos poucos ocupava o ambiente Daquela casa que dormia Para de novo ver o dia O outro dia de ir e voltar De brincar à sombra do limoeiro Ou correr e procurar Sapatinhos escondidos no quintal Fique, por favor, com essas lembranças E com as recordações de gatos De boa linhagem e bons nomes Que teimavam em morar por ali... Deixo as reminiscências das nossas alegrias Todas. Uma última palavra com alguma dor E ainda um tanto do meu amor que foi seu Nesse instante parto Parto-me Vou para além de mim Levo comigo apenas olhos de sentir Renovo-me agora Não julgue que não Se é preciso dizer Adeus

Primeiro lugar na categoria Poemas do I Prêmio Varal do Brasil de Literatura 2013

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LUTO Por Camila Mossi de Quadros

O autor declara luto oficial, Que não quer saber de mudança alguma! Que reformem os próprios narizes! Porque ele não fala palavrão... O autor declara-se aposentado por invalidez, Que a sua língua teve vários pedaços arrancados! Que a anarquia tomou a ortografia, E não declama mais porcaria nenhuma! O autor declara que não vai mais ler jornal, Que não lê poesia sem sal, Nem come lingüiça sem trema, Que é certeza de passar mal! O autor declara alerta monocromático, Que a língua está incolor! Que sonhava com um futuro acentuado, Crônicriando para superar a dor... O autor declara que nos próximos quatro meses, Encherá cadernos e cadernos de lingüiça com gosto E assembléias com lugares para sentar Quem sabe sentados os deputados voltem a pensar? O autor declara que luto! – e lutará! Pela sua amante portuguesa, em seus acentos e chapéus... Pontuada de simbologia, acentuada de emoções... E como de paixão por ela tremia, para sempre Trema.

Segundo lugar na categoria Poemas do I Prêmio Varal do Brasil de Literatura 2013

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Aplausos para a Revista Varal do Brasil
Por Jania Souza

Estou sentada. Dedos no teclado. Minha missão: falar do teu aniversário. Momento para mim muito importante. Contudo, não sei bem por onde começar. Perigo total. O prazo para comemorar contigo encerra-se precisamente no dia vinte e cinco e, eu, na minha falta de tempo costumeira, vou findar perdendo o instante singular de abraçar-te e desejar-te muito, mais muito sucesso na sua jornada, que não pode ser interrompida tão cedo, pois seu voo apenas engatinha na estrada promissora que te foi designada. Realmente, não posso perder o prazo e tenho que te ajudar a apagar as tuas velinhas tão preciosas para mim e para tantos que vibram, sorriem, realizam-se em torno da tua significante presença em nosso meio, a unir-nos em torno da literatura. Com teu corpo leve, ágil, feito um velocista recordista, leva-nos através das águas dos oceanos, mares, rios e magníficos lagos e faz-nos escalar belas montanhas congeladas para alcançar o pódio da palavra. Nossos nomes extrapolam fronteiras e levam a bandeira da nossa nação vitoriosa, lado a lado com diferentes nações. Nações irmãs pelo elo e sentido da escrita que engrandece alma e espírito e torna a matéria vencedora em qualquer circunstância e esfera. Fizeste-me imensamente feliz, ao proporcionar-me intercâmbio com outros povos, outras pessoas, outras realidades totalmente fora de meu contexto cotidiano. Degustei novos abraços. Toquei carne de amigo virtual e exultei de alegria pela materialidade do abstrato em minha vida. Nossas palavras foram trocadas com harmonia e a energia benéfica e pacífica fluiu entre nós confirmando nossa irmandade de sonhos e realizações em torno de um mesmo objetivo. Aplaudi-te é aplaudir a tua mentora, nossa querida editora, Jacqueline Aisenman, seu esposo Paulo Aisenman, que demanda esforços e atenção as tuas premissas. Também não posso deixar de aplaudir a tua eficiente equipe, que faz com garra, carinho e brilhantismo a revista Varal do Brasil, acontecer meio a toda adversidade e frutificar na seara mundial fazendo “literatura sem frescuras” na reafirmação que há espaço para todos, principalmente para os ousados que desejam também influir no contexto histórico literário universal. Parabéns, Varal do Brasil, pois fazes a diferença na literatura contemporânea brasileira.

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NO UNIVERSO DE GUACIRA MACIEL

Intolerância; pecado capital contemporâneo

Como professora, acredito de fundamental importância rever, reavaliar e trazer à discussão com mais frequência questões que já estão consolidadas e sacralizadas como verdades no seio da sociedade. O munda mudou radicalmente; a vida acontece sobre novos pilares, os comportamentos sob novos paradigmas, e apenas como um estágio preparatório para Outro deles, esse já constante da nova lista definida as perspectivas que ainda estão por vir. em 2008: “uso de drogas”. O usuário de drogas é Ao me propor a escrever sobre os Sete Pecados Ca- um ser humano doente; um ser humano que necessipitais definidos pelo Cristianismo num período que ta cuidados especiais e ajuda, uma vez que já se sabe em nada mais se parece com os tempo que estamos que muitas razões, aleatórias à vontade dessas pesvivendo, sei que corro riscos de não ser compreendi- soas, podem ser motivo desse vício, como violência da. Ora, esses pecados foram definidos no papado de doméstica, violação da integridade intima ou psicoGregório Magno, no final do século VI; portanto, lá lógica, fome, etc. Ele não é pecador! se vão 15 séculos!...a vida e as formas de viver e Mais um deles, “Violações bioéticas/controle de conviver já nada guardam daquele período, inclusi- natalidade/aborto/contraceptivos que impedem a ve, porque a Ciência avançou de forma tão profunda geração natural da vida”; realmente, esses que até o ser humano e sua capacidade biológica so- “pecados” precisam ser analisados sob novas persfreram mudanças e mutações. Hoje, sabe-se que o pectivas, perspectivas mais reais. Sabemos que a cérebro tem uma capacidade espantosa de regenera- violência sexual praticada contra adolescentes pelos ção e de reorganização, e isso faz parte do quadro próprios pais geram filhos...sabemos que sexo sem evolutivo do homem para se adequar à sua condição segurança ou estupros geram filhos e doenças que de vida atual, o que afetou profundamente as rela- matam; será que isso seria “geração narural da vições e formas de o homem se relacionar, consigo, da”? um ato de violência é uma forma natural de com o outro e com a vida. procriação? Em sendo assim, também já não é possível avaliar questões e comportamentos tão antigos usando metodologias e visões do mundo contemporâneo. Embora novos pecados tenham sido acrescentados à lista, os antigos continuam utilizados como parâmetro para julgamentos e considerações acerca da postura das pessoas que professam a fé católica. Tomando alguns deles como exemplo, eu citaria a “Luxúria”- apego e valorização dos prazeres carnais, sensualidade e sexualidade, pecado contra a saúde do corpo – ora, há muito pouco tempo assisti a um programa sério de TV aberta, em que uma sexóloga – uma profissão provavelmente proscrita Mais um deles me causa perplexidade: “Experimentos moralmente dúbios com células tronco”; um avanço da medicina que salva milhares de vidas humanas por todo o mundo diariamente; que reintegra à sociedade pessoas que tinham uma sub vida, dando-lhes condição de se sentirem gente, de se sentirem vivos, de poderem trabalhar, amar, de constituírem família... Quanto à dubiedade desses experimentos, seria muito mais uma questão de ética, restrita à classe médica e não à igrejas. (Segue)

nessa visão – incentivava os casais, eu disse casais, a iniciaram os jogos amorosos do prazer sexual dentro dos carros, “para esquentar a relação”, e mais, ainda sugeria que esses carros deveriam ter vidros escuros...isso seria um pecado? Será que ainda se espera que o sexo seja estritamente feito com fins de procriação, num mundo que promete morrer de fome, em vista das explosões populacionais e precariedade das economias, da má distribuição de renda nos continentes, entre outras graves causas? se o sexo fosse um pecado, tenho certeza que a Criação encontraria outra forma de povoar o mundo...

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Sinceramente, esse não é o Deus em nome de quem se criou coisas assim... A isso eu chamaria Intolerância, um pecado amplamente desumanizador, porque atinge a vida em todas as suas manifestações! o Deus em quem acredito, possibilitou ao homem todos os avanços e condições de que fosse estabelecida uma condição de vida melhor a seus filhos; um CRIADOR e não um verdugo, um destruidor...Mas um Deus de amor... Sinto muito não ter conseguido escrever um texto poético, mas essas questões impedem, nublam e mesmo anulam a minha visão poética.

Transpirando no caos, nova ordem, paulatino despertar. Nova lótus nascendo No lodo da humanidade carente De se ver gente, Dorida, sofrente, Necessitada de sôfregos goles De humanidade que se reinvente

Trombando com o Inúmero
Por Gaiô Maria Aparecida de Rezende Gaiofatto

Para além das manhãs desiludidas e frias. Seja a nova poesia, pipocando nos vãos, Nas entrelinhas, brotos de coração.

Já reparou? Venho me abrindo a esse olhar... ....Tanta gente no mundo, Tanto carro, tanto som, tanta palavra (Nem sempre bem dita) por segundo, Que o quase perdido se encontra, se aturde no escuro Fenda aberta, profunda...tanto barulho... Na trombada com o inúmero Que o compreensível ultrapassa, Grassa o obscuro. Desloca a luz quase inaudível, imperceptível Aos olhos distraídos, vazios, com tanta poluição. Cega a visão do coração. Se prestar atenção, verá no espocar de luzes Entre equilíbrios fugazes, outra aragem,
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Menção Honrosa no I Prêmio Varal do Brasil de Literatura

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SENTIMENTOS CONFISCADOS Jacqueline Aisenman

Na Suíça: coracional@gmail.com No Brasil e demais países: atendimento@designeditora.com.br

A crônica, este gênero do presente, é tão flexível que pode beirar o ensaio, o conto, a piada, a poesia ou o simples registro. E é nessa dança que a crônica torna-se cheia de possibilidades, sempre sedutora e com cada vez mais adeptos. O presente volume reúne crônicas e aforismos de uma das mais prolíficas escritoras catarinenses, alguém que aprendi a respeitar pelo trabalho de editora e agitadora cultural, mas sobretudo pelo poder da palavra. Com este “Sentimentos Confiscados” ela prova ser uma das cronistas e aforistas mais afiadas do país, e com uma versatilidade impressionante aborda assuntos tão díspares como desejo e redenção, e mostra como a delicadeza e a sutileza são o verdadeiro tempero da crônica brasileira. Os textos ora se contrapõem ora se sobrepõem numa dualidade incrível (são sempre dois textos em um) e que cortam de maneira diferente. E esta faca de dois gumes vai deixar marcas indeléveis nos leitores, pois a verdadeira literatura sempre confisca. Carlos Henrique Schroeder, escritor, editor (Design Editora e Editora da Casa)

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Abraços Por Ceiça Esch

Abraços são braços que se embraçam Corações que se enlaçam Almas que se unem Em emoções que se fundem. Quantos braços cabem num abraço? Quanto carinho cabe neste espaço? Quantos abraços cabem num sorriso? Em apenas um abraço O coração acerta o passo De quem perdeu O compasso da alegria. E num passe de magia Transforma a noite em um novo dia Completando com harmonia A falta de um pedaço Quantos traços cabem neste abraço? Quantos abraços cabem em nossos braços?

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Eulália e seus balões

Por Adina Worcman

Conheci Eulália num voo para Foz do Iguaçu, moça bonita, jovem com 26 anos e muita história de vida para contar. Eulália se dirigiu a mim, pois estávamos sentadas lado a lado e de repente, ela começou a falar que sentia dificuldade em se relacionar com pessoas jovens da sua idade e assim poderíamos estar conversando durante a viagem. Ela parecia tão risonha e comunicativa que parecia difícil acreditar nesta sua dificuldade. Disseme ela que estava viajando sozinha para Foz e que iria ficar uns 10 dias para fazer curso de balonismo. Logo a minha referência foi pensar na cidade de Capadócia na Turquia, primeiro por ter acabado de passar uma novela que na maior parte do tempo se desenrolava por lá e depois, pelo acidente que havia ocorrido na cidade, levando a morte 3 brasileiras. Na verdade, eu desconhecia que em Foz isto já havia virado curso e nem da existência desta programação. Perguntei onde era o local do curso e qual era o interesse dela nesta experiência? Foi aí que o balonismo a qual Eulália se referia, era nada mais que balões de aniversário, a famosa bexiga que enfeita todas as festas infantis. Eulália trabalhava com eventos e criava todo o cenário com esculturas de balões. Continuando a prosa, Eulália me disse que era casada atualmente com um senhor de 54 anos, outrora já casado e com filhos de idades superior a dela. Ela por outro lado, também já estivera casada e tinha 2 filhas, uma com o atual marido e outra de uma união que durara 1 ano , pois conheceu o rapaz em uma viagem em que morou fora do Brasil e quando ela pensou em voltar à sua terra natal, ele não quis acompanhá-la. Contou-me ainda que na adolescência foi assediada por um tio e isto a marcou muito, mas não tivera coragem de contar aos pais, que por sinal também eram separados. Quando a mãe pedia que fosse buscar algo na casa da tia que era próxima a sua, ela ficava na porta e não entrava, com receio de encontrar este tio. Falou-me das outras 2 irmãs que eram completamente diferentes dela e que a família não conseguia entender como ela, tão jovem e bonita, estava casada com um senhor tão mais velho, careca e barrigudo. Mas, ela mesma definiu que provavelmente além de ter um marido que pudesse lhe oferecer uma boa vida, também fazia o papel de pai, pois sentia falta do pai biológico que sempre fora omisso. Nossa!!!!! É inacreditável! Quantas e quantas vezes você conhece pessoas há anos e não sabe sobre elas o que em 1h30 eu soube sobre a vida de Eulália.
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Caminhada Por Marilu F Queiroz Caminhando... meu pensamento percorreu passado, presente... para tentar achar no futuro um lugar, onde possa repousar o meu querer. Caminhando refleti por muito tempo Toda a minha inquietude. Refiz projetos, desejos, sonhos ... Redefini meu querer. Caminhando reformulei a vida... Recuperei a minha infância perdida. Reorganizei a bagunça sem graça, em que se encontrava minha alma sofrida!

Aquarela de Marilu F Queiroz

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O PREÇO DA POESIA Por Mariane Figueiredo Poesia não vende mas quanta felicidade rende ao Sonhador ao fazer viajar pela rima a Menina que aprende o amor Ah! Poesia! Ah! Sonhador Sonha-guria, Sonha-dor...

MATA

Por Selmo Vasconcellos Hoje me matas violentamente com este machado. Mas, amanhã, das minhas flores te farão uma coroa, do meu caule tua urna mortuária. Aí sim, irás ao encontro da minha raiz. Eu te esperarei lá embaixo.

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HISTÓRIA DO BRASIL SOB A ÓTICA FEMININA Hebe C. Boa-Viagem A. Costa

De escrava a mulher de prestígio

nha e com ele teve um filho. Uma Visita Pastoral mudou a vida de Chica, pois Sardinha, acusado de manter relações ilícitas com mais escravas, a vendeu, juntamente com a criança, para João Fernandes de Oliveira em 1753. Novamente concubina de outro senhor! No mesmo ano, entretanto, João Fernandes a liberta. No século XVIII isso não era comum. Mas foi o que aconteceu com Chica. Dessa união, que durou 16 anos, nasceram 13 filhos que foram batizados, reconhecidos como herdeiros do pai e educados: as meninas no mais famoso Recolhimento de Minas e os meninos em Portugal. De todas as histórias inventadas com relação a

Chica da Silva – 1731(?) – 1797 Uma mulher determinada

O livro de Junia F. Furtado Chica da Chica, a mais interessante é, sem dúvida, a Silva e o Contratador de Diamantes retrata a sua verdadeira história. Sandra Lauderdale, ao verdadeira Chica da Silva, sem as fantasias comentar o livro de Junia F. Furtado, diz que que muitos lhe atribuíram. A autora buscou fa- “Chica inventou-se”. Estava determinada a pertos em numerosos documentos com o objetivo tencer à elite, observar suas regras enquanto de extrair o que havia de específico sobre Chi- esposa consensual, mãe, dona de casa, patroca. E o resultado foi surpreendente, nada pare- na da igreja e das irmandades a que pertencia. cido com a Chica criada por romancistas, autoA “Chica auto inventada” queria inserirres teatrais, diretores de cinemas e produtores se numa sociedade livre e branca. Para isso de telenovelas. tornou-se Francisca da Silva de Oliveira recuNasceu de escrava africana e pai perando o seu nome de batismo acrescido do branco entre os anos de 1731 e 1735, logo de- sobrenome de João Fernandes tal como uma pois da descoberta dos diamantes em Minas. mulher assumindo o nome de casada. PartiEm 1749 foi comprada por Manuel Pires Sardi- lhando do prestígio e da fortuna de João Fernandes de Oliveira, sexto contratador de
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de diamantes, homem rico como um nababo, Para saber mais poderoso como um príncipe e soberano do Tijuco mandava na cidade e ela, mandava nele. Chica desfrutava da casa do Tijuco, da chácara da Palha com seus jardins de plantas exóticas onde patrocinava teatro e música, cavalos, gado e tantas coisas mais. Depois de dezesseis anos de vida em comum, João Fernandes precisou voltar a Portugal, pois com a morte do pai precisava cuidar de sua herança ameaçada pela ganância da madrasta. As dificuldades encontradas duraram anos e ele acabou morrendo sem ter voltado para o Brasil ou para Chica. Ela viveu mais vinte anos após a morte de João Fernandes. Conseguiu administrar seus bens e manteve-se rica, dona de terras e de escravos. Seu objetivo de ocupar um lugar de destaque na sociedade como uma verdadeira dama, mesmo sem contar com a presença de João Fernandes, foi plenamente demonstrado no seu funeral, realizado dentro da igreja, ao pé do altar principal e das inúmeras missas oferecidas a sua alma. Sóror Joana Angélica Símbolo da resistência brasileira ao domínio português 1762 – 1821 Em 1762, em Salvador, nasceu Joana Angélica. Era filha de José Tavares de Almeida e Catarina Maria da Silva. Aos vinte anos de idade entrou para o Convento da Lapa, da Ordem das Franciscanas Concepcionistas, como irmã Joana Angélica de Jesus. Nessa época, o desejo de independência já estava presente em muitas regiões da Colônia. Apesar da forte repressão aos inconfidentes, os ideais de liberdade permaneciam vivos. Com a chegada da Corte Portuguesa ao Brasil a Colônia experimentou um progresso significativo. Seguiu-se, logo mais, a elevação do Brasil a Reino Unido de Portugal e Algarves. os anseios de independência. (Segue)
COSTA, H.Boa-Viagem A. Elas as pioneiras do Brasil – são Paulo, Ed. Scortecci, p.79 - 2005 Pag. 2 ///Palavras 524 /// s/ espaços 2644 /// c/ espaços 3207// Parágrafos 13 // linhas 56

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Em 1821, ao mesmo tempo que Sóror Joana Angélica era eleita abadessa, as tropas portuguesas obrigaram o Príncipe Regente D. Pedro a jurar a Constituição. No final do mesmo ano, D Pedro recebeu os decretos que equivaliam a fazer do Brasil novamente colônia. Os ânimos se acerbaram e a insatisfação era manifesta. Em fevereiro de 1822, a liderança brasileira e o comandante de tropa portuguesa, se confrontam na Bahia. Os combates se espalham pelas ruas de Salvador. No dia 20 desse mês, militares e civis portugueses investem contra o Convento da Lapa alegando que revoltosos brasileiros lá estavam escondidos. A abadessa Sóror Joana Angélica resistiu: Para trás, bárbaros! Respeitem a cada de Deus. Ninguém entrará no convento, a menos que passe por cima de meu cadáver. E foi o que aconteceu. Uma baioneta atravessou o peito da religiosa e ela caiu morta. Seu martírio não foi em vão. Ela tornou-se o símbolo da resistência contra o autoritarismo português. A independência passou a ser ponto de honra para os brasileiros e, no mesmo ano, a 7 de setembro, a separação oficial aconteceu.
Para saber mais COSTA, H.Boa-Viagem A. Elas as pioneiras do Brasil – são Paulo, Ed. Scortecci, p.65. 2005

Mais uma de amor Por Vítor Deichmann Faltam-me palavras para descrever o que é o amor Pelo menos pra mim Que no palco da vida é somente mais um ator Idiomas existem vários Porém... nem todos se entendem Por certo não é uma questão monetária ou geográfica Nem menos um mais um como na matemática Filosófica, poética? Uhmmm... talvez... Talvez, o amor seja um sentimento sem sentir Um dizer sem falar Um olhar sem ver Um afago sem tocar Um adeus até mais ver É... realmente é difícil definir Amar talvez seja quando Não precisamos escolher Nem se importar com as alternativas Somente aceitá-las

Menção Honrosa no I Prêmio Varal do Brasil de Literatura

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LEITE DERRAMADO Por Rubens Jardim

Minha alma é pequena e minha memória menor ainda. Não fosse isso estaria mais perto daquilo que me corrói: o leite derramado.

AS CINCO PÉTALAS - Para mulheres vítimas de preconceito Por Marcia Sbardelotto

abandono-me entre parênteses mulher - sorte sorrateira fecha parênteses um olhar estigmas entre flores (sabedoria) enigmas reticências
(Poema que integra a coletânea Delasnieve Daspet & Amigos - ISBN 978-85-87658-91-3)

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UM AMANHÃ MELHOR Por Deivison Lamonica Barreto “Amai-vos uns aos outros” – já dizia Jesus Cristo Mas o que nós vemos não é nada disto O conceito de preconceito desde cedo existiu Em terras estrangeiras e também no Brasil Contra ele lutaram lá fora e aqui Luther King Jr., Mandela, Zumbi E outros tantos em tantos outros cantos Nem o passar dos anos os fizeram desistir Mandela prisioneiro, Mandela presidente Combateu o apartheid com unhas e dentes Luther King tinha um sonho, não era utopia Queria igualdade, respeito e cidadania Julgamento por caráter e não pela cor Afinal, negros e brancos tem o mesmo valor Ao lado do brasileiro Zumbi dos Palmares Força e também conhecimentos militares O último líder do quilombo mostrou sua destreza Defendeu o seu povo da Coroa portuguesa Lutou, venceu, traído, morreu Em vinte de novembro de mil seiscentos e noventa e cinco Mas até hoje, de variadas formas, Um grito por liberdade ainda é proferido O preconceito presente no passado e no presente Desde a senzala até à casa da gente Onde você trabalha, onde seu filho estuda O futuro até pode ser melhor Mas o mundo só muda se a gente muda E um amanhã melhor está agora em nossas mãos No sentimento de cada coração Refletido em atos em todo lugar Um amanhã melhor está em preservar valores Na educação que não só vem dos professores Mas de pais que muito mais aos seus filhos devem amar e ensinar Um mundo melhor está na mudança de mentalidades De várias pessoas, de várias idades Pois realmente somos diferentes em nossos jeitos Mas nas diferenças de cores de pele Devem estar os mesmos direitos A desigualdade só ajuda a construir um muro Que espero vê-lo derrubado no futuro Que daqui a um tempo, por exemplo, Um dia como vinte de novembro Não seja só uma lembrança de Zumbi e sua luta Mas que vençamos a nossa com uma mudança de conduta E até lá irei lembrar: não vivemos o que o Mestre havia dito “Amai-vos uns aos outros..." – já dizia Jesus Cristo
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REFLEXÕES CONTEMPORÂNEAS
JÚLIA REGO
tas pessoas esmolambadas, ainda estaria na vitrine? E aquele par de sapatos, daquela marca que tem um precinho tão pequeno que daria para calçar cem peDeitada no chão da rua, coberta por um resto de len- zinhos descalços, ainda estaria disponível? Talvez fosse melhor ir àquele restaurante famoso, que ofeçol, esfarrapado, dorme ainda. rece um prato delicioso e farto por um valor tão irriContinua indiferente à luz do dia que já raiou há sório que daria para alimentar vinte pessoas. Será muito tempo. Entreveem-se por entre os buracos do que ainda estariam fazendo reservas? pano as pernas marcadas por cicatrizes, sinal, com certeza, dos maus tratos que a vida lhe tem ofereci- A noite cai. Um batalhão de condenados invade do. Os transeuntes seguem seu caminho, apressados, marquises, viadutos, praças, passeios das lojas já sem se comover com aquela cena tão banal nos dias fechadas. Unem-se, ou não, na sua sina, coincidentede hoje. Um ônibus para na sinaleira em frente à cal- mente, injusta. De vez em quando, alguém, esqueciçada e ela chama à atenção dos passageiros. Por um do de que no mundo atual não há espaço, nem temrápido momento esquecem as desventuras da própria po, para a solidariedade surge, receoso, distribuindo vida e se sentem privilegiados em relação à garota um prato de sopa, ou cobertores para que a fome e o estendida no passeio. Sentem piedade. Uma piedade frio do outro sejam amenizados. superficial e quase obrigatória. Chega a ser vergo- Este outro é o grande, e intencionalmente, desconhenhosa. Resquícios de um sentimento há muito perdi- cido problema dos dias de hoje. Não se quer conhedo e agora imposto por padrões midiáticos. Mas o cê-lo, nem sequer vê-lo. Que importa se durma, solisinal abriu e, na parada seguinte, ninguém mais se tariamente, no chão sujo das ruas imundas, que importa se ratos e baratas passem por cima dele duranlembrava da menina. te a noite, roendo suas carnes e seus sonhos, que imÉ a vida como ela é. Num dia-a-dia tão conturbado, porta se seu estômago reclame de fome, se ele pode tão corrido e tão concorrido, quem tem tempo para ser enganado com uma cheirada de cola, comprada pensar na situação dos desvalidos, dos sem teto, dos facilmente em qualquer loja especializada, que imsem alimentos, dos sem roupas, dos sem sapatos, porta que seja violentado durante as madrugadas fridos sem nada. Compra-se alucinadamente, desperdi- as das metrópoles, afinal uma pequena parte da poça-se inconscientemente, consome-se exagerada- pulação está, satisfeita, feliz e segura nos famosos e mente, vive-se indiferente e isoladamente. O outro, seletos guetos onde não se pode entrar sem o passaah! Quem é ele mesmo? porte do individualismo. O dia segue normalmente e cenas como aquela são presenciadas em cada esquina, em cada calçada, em cada canto das grandes cidades. Garotos e garotas, sem infância, perambulam pelas ruas, trabalham nas sinaleiras, dormem embaixo dos viadutos, jovens e adultos drogam-se nas barbas da sociedade e ninguém vê. Banalidades! Há coisas mais importantes com que se preocupar. Aquele vestido, daquela loja, que custa uma bagatela que daria para vestir duzen-

Quem São?

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TRÊS COLETÂNEAS LANÇADAS NO BRASIL E NA SUÍÇA, MAIS DE TRINTA EDIÇÕES DA REVISTA, DUAS PARTICIPAÇÕES VITORIOSAS NO SALÃO INTERNACIONAL DO LIVRO DE GENEBRA: VARAL DO BRASIL, LITERATURA SEM FRESCURAS, LITERATURA FEITA PARA TODOS!

PARTICIPE DO VARAL!

Escreva para a revista, escreva no blog! Inscreva-se para o livro Varal Antológico 4! Inscreva você e seu livro para o 28o Salão Internacional do Livro e da Imprensa de Genebra! Com o Varal a literatura é feita para todos, nossa revista circula via internet pelos cinco continentes! VARAL DO BRASIL LITERÁRIO SEM FRESCURAS! varaldobrasil@gmail.com

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AGENDA DO VARAL

Estão abertas as inscrições para o Salão Internacional do Livro de Genebra (exposição de livros e sessões de autógrafos) 2014 Até 25 de novembro estaremos recebendo textos para a revista Varal de janeiro (com tema livre) Até 15 de dezembro estaremos recebendo textos para o Concurso da Orelha

Até 31 de dezembro estaremos recebendo textos para a úl?ma seleção para o livro Varal Antológico 4 Até 25 de janeiro estaremos recebendo textos para a revista de março com o tema INFINITA MULHER

PARTICIPE CONOSCO!

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DICAS DE PORTUGUÊS com Renata Sborgia
“Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.” Clarice Lispector Pedro gosta e joga muito bem “dominó”. Parabéns duplamente, Pedro: grafia correta e joga bem dominó. Correto: dominó (plural: dominós) Dica fácil: não houve mudanças fundamentais quanto às regras de acentuação das palavras oxítonas ( palavras cuja sílaba tônica— forte—é a última). Regra mantida: são acentuadas as palavras tas ou fechadas grafadas a, e ou o, seguidas ou não de s. Sua atitude foi “heróica”. A atitude, mas a grafia não... Correto: heroica (heroicas) Nova Regra Ortográfica: não será mais acentuada a palavra heroico (ou heroica), porque os ditongos ei, oi da sílaba tônicasílaba tônica-forte- é a antepenúltima) perdem os acentos gráficos. Ele é um “herói”. Parabéns!!! Correto!!! Não me deem fórmulas certas, por que eu não espero acertar sempre. Não me mostrem o que esperam de çam ser quem não sou. Não me convidem a ser igual, por que sinceramente sou diferente. Não sei amar pela metade. Não sei viver de mentira. Não sei voar de pés no chão. Sou sempre eu mesma, mas com certeza não serei a mesma pra sempre.” Clarice Lispector
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Dica fácil: regra mantida. Herói continuará sendo acentuado porque os grupos ei , oi das palavras oxítonas(( palavras cuja sílaba tônica—forte—é a última) continuam acentuadas. Saiba mais para não errar: “menas”-------------não existe. Correto: menos. “comcerteza”------com certeza se escreve separado. PARA VOCÊ PENSAR: “Gosto dos venenos mais lentos, das bebidas mais insanas, dos pensamentos mais complexos, dos sentimentos mais fortes… tenho um apetite voraz e os delírios mais loucos. Você pode até me empurrar de um penhasco que eu vou dizer: - E daí? Eu adoro voar!

oxítonas terminadas nas vogais tônicas aber- amargas, das drogas mais poderosas, das ideias mais

forte- de palavras paroxítonas( palavras cuja mim, por que vou seguir meu coração. Não me fa-

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AI QUE BOM !
Por Maria Cristina Cacossi Capodeferro

aspirar o cheiro das plantas

Ai que bom !

Olhar para quem gosto tomar um solzinho ouvir frases carinhosas

Andar descalço na terra pular de satisfação ficar nas nuvens

Ai que bom !

Ai que bom !

Tirar um cochilo visualizar um sorriso piscar com cumplicidade

Pisar na areia mandar um beijo na ponta do dedo espreguiçar bem devagar

Ai que bom !

Ai que bom !

Perceber vozes conhecidas distinguir passos vindo passar a mão na cabeça do cão

Cantar “parabéns pra você” cair no sono ouvir uma voz querida

Ai que bom !

Respirar longamente sorrir para o espelho soprar uma pena

Ai que bom !!

Ai que bom !

Dançar com a vassoura assobiar à toa cantar com gosto

Ai que bom !

Salivar diante da comidinha bater na bexiga sem derrubá-la
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O QUE OUVIA FALAR Por Rosalino de Carvalho VanDunem

Imagem de J. Barricas

Que o longe é mais perto E o destino Deus, já nos escreveu. Mas só ouvia Que os céus Tocavam-se aos mares E o Sol era um E a Lua era outra,

Homem do mato
Também ouvia que os vivos Um dia seriam mortos. E que os mortos Veem os vivos. Mas só ouvia falar Que as memórias se diluiriam Onde havia Homens maus e bons. Mulheres que matam Outras que curam E que gente boa Vai ao lado de Deus. E de Jesus E todas as escritas Estavam no começo Mas as causas no fim. Ouvia só falar Que a Terra Cingia a um circo Em torno do mundo E que havia poemas. Eu queria ser Poeta. Tudo era O que eu ouvia falar. Por José Hilton Rosa Querendo andar sozinho feito bicho perdido sem fala, sem grito, nem dor perdido num pensamento Olhando para o chão vergonha da vida sem entender a razão é a força do destino É como olhos vendados longe de chegar sem pedir socorro nem para onde olhar Sem lugar para ficar não querendo ver o sol sem hora para deitar nem para levantar É como bicho perdido com ou sem dor sem ter para quem falar da tristeza de estar só
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Homens e sonhos Por Elise Schiffer Há homens que escrevem seus sonhos, Há homens que leem para sonhar. Desde as pinturas feitas nas cavernas, até a conquista do planeta vermelho. Os que escrevem ensinam como voar com seus sonhos, Os que leem aprendem que seus sonhos podem voar.

ELOS

Por Silvana Brugni

Sentir-me presa em “correntes” de carinho. Sentir-me livre para “SER”. te deixar livre e ter em mim, você! Estar ao teu lado como suave brisa no rosto, emanando suave e pura num céu azul do mês de agosto. Ligações que vêm de dentro, “Free will zone” de emoção não prendem, não aprisionam. Escolhas vindas do coração. Como os quatro elementos da natureza: Fogo, terra, água e ar... formam-se fortes “ELOS” invisíveis, como correntezas profundas do mar.

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Varal do Brasil
Por Sonia Nogueira Conheci-te, varal pela net, A paixão me dominou de mansinho, As letras correram sem frete Chegaram a ti bem baixinho. Quatro anos de emoção bimestral, Textos variados e belo perfil, Escritores com talento e astral, Encantam este belo Brasil. Contos, crônicas, poesias, Em liberdade perfilam aqui, Em cada sonhar que desafias Escritores unidos chegam a ti. A vida é concerto e emoção, A palavra voa sem fronteira, O mundo sem poesia é furacão, O Varal do Brasil luz alvissareira. Nesta data louvo teu sucesso, Os anos sejam longos para que Em versos e prosa teu progresso Aninhe cada poeta sem saber, Que leitura é terapia é prazer. Sigamos compartilhando amor, Saudade, tristeza e alforria, Unidos neste sol de cada dia. Parabéns Varal do Brasil Pelos quatro anos de sucesso.

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FALANDO DE CULTURA
Marluce Alves Ferreira Portugaels

talidade ecológica. Na cidade grande, porém, precisamos levá-las aos bosques, aos zoológicos para que elas vejam em carne e osso os animais muitos já em extinção, assim como os fragmentos de floresta preservados por pessoas de visão e de boa vontade. Muitas dessas pessoas sacrificaram parte de sua exisFoi um prazer acompanhar minha sobrinha de oito tência lutando pela natureza. Há alguns exemplos na anos a uma visita ao Bosque da Ciência de Manaus, História. Chico Mendes é um deles! num domingo de manhã. E prazer maior foi observar Então, não pude deixar de, silenciosamente, diante o interesse da pequenina por um passeio considerado da galeria de retratos dos diretores do INPA, como é démodé, por alguns, nesta época pós-moderna que conhecido na região o Instituto Nacional de Pesquiatravessamos. Outra surpresa agradável foi encontrar sas da Amazônia, na Casa da Ciência, prestar homeno Bosque algumas famílias pressurosas em mostrar nagem a esses homens que, galhardamente, têm lutaaos seus infantes as belezas daquele lugar que deve- do pela existência desse importante órgão de pesquiria ser tratado como um santuário da fauna e da flora sa e estudo de nossa região. Pessoalmente, dediquei de nossa região. Confesso que senti orgulho de ser um pensamento mais profundo àquele que considero nativa deste pedaço de Brasil, do mesmo modo que um titã da ecologia na Amazônia, e um dos pilares me comovi com a presença dos demais visitantes. em que foi construído o INPA, onde se encontra o Pensei, então, que ainda há esperança para um país Bosque da Ciência – o cientista Dr. Djalma Batista, em que as crianças se divertem passeando entre ár- orgulho de nossa terra. Ah se nesta Amazônia Brasivores milenares e observando os animais soltos pela leira houvesse mais Djalmas! Correríamos menos risco de destruição! mata.

Um domingo no Bosque da Ciência de Manaus

Adorei, tia, ver os peixe-boi, as ariranhas, as tartarugas, os jacarés, os lagartos gigantes! Também curti as cutias, as capivaras correndo pelos bosques, até parece que brincando de esconde-esconde para fazer inveja à gente. E os macacos pulando de galho em galho! Que gracinha! Sabe, tia, tive vontade de me mudar para o Bosque para poder todos os dias acordar bem cedinho com o cantar dos passarinhos, respirar o ar puro da floresta e também sair correndo pelos bosques junto com os animaizinhos. É tão ecológico! Achei uma graça esse jeito de as crianças da cidade aprenderem o que é “ser ecológico”. No Interior, onde ainda há mata virgem não muito longe das casas, talvez seja mais fácil formar nas crianças uma menwww.varaldobrasil.com 72

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Mãe e Pai

Por Nato Matos

Se o outrora existiu, sabe-se que sim. Verões longos, invernos quentes, outonos molhados, primaveras, muitas primaveras marcadas no calendário. Manhãs barulhentas, noites em claro, dias fatigados, festas longas de aniversário. Na caderneta anotações, alguns calos colados nos sapatos, nas estampas carimbos bons, ruins, lacrimosos, no coração amor, e às vezes raiva passageira, mas raiva. No caldeirão felicidade! Paciência e sapiência na salada, luz no negro café matinal, análogo ao leite o cabelo, nas mãos, marcas de um tempo sobre as águas mansas. As pegadas já desenhavam passos lentos. Vozeirões frenéticos, modernos, quase abafavam o som daquelas vozes mansas, mas a alegria de ter vivido o outrora, contemplar o presente, ambos conheciam. A bênção Mãe! A benção Pai!

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ACHADOS E PERDIDOS
Por Lange Pinheiro

nas ruas e como eu poderia ajudá-lo. Confesso que também pensei que ele era apenas mais um lixo da sociedade e que não faria diferença nha só não faz verão. No final, pensei que meus problemas já eram o bastante para querer me meter à besta e ajudar os outros. Então ele subiu no banco para puxar a cordinha da campainha e desceu cambaleando. De uma forma ou de outra aquele menino franzino de camisa listrada no momento que partiu, partiu também o meu coração. Ele me deu uma surra e provocou em mim um arrependimento profundo. Aquele moleque me fez refletir sobre tudo o que a gente quer achar e perder nessa vida. E hoje, o que eu queria era apenas achálo em um canto qualquer dessa cidade que tanto maltrata os seus filhos e fazer algo por ele. Já o que eu queria perder... Meu medo das idiossincrasias da vida, do diferente, do novo. A última imagem que eu tenho dele é de um gesto de agradecimento que ele fez para mim com o polegar direito enquanto o meu ônibus arrancava... E eu, sem ação naquele momento, apenas pensei: Isso não foi nada garoto, nada mesmo!

Então naquele fim de tarde, enquanto eu espe- eu tentar mudar seu destino, afinal uma andorirava o ônibus em mais um retorno para casa, aquele menino corria de um lado para o outro do ponto tentando pegar carona para lugar algum. Aparentando 11 anos de idade, pele clara, cabelos ruivos e arrepiados - uma criança normal, não fosse o pano com cola de sapateiro que ele tentava despistar em vão em uma das mãos. E, volta e meia ele o cheirava. Quando eu subi no meu ônibus, 5031, notei que ele também entrou e com uma voz tremula pediu ao motorista que o deixasse subir sem pagar a passagem, o que lhe foi negado. Mas numa atitude repentina eu disse que ele poderia entrar, que eu bancaria a sua viagem. E com o atrevimento pertinente aos meninos de rua ele passou pela roleta e não me agradeceu, apenas foi para o fundo do ônibus. Sentei-me à cerca de 2 metros dele. Enquanto ele cheirava aquela droga com movimentos descoordenados e um olhar distante, uma senhora do meu lado direito balançava a cabeça como sinal de reprovação. As pessoas tampavam o nariz por causa do cheiro da cola enquanto tentavam ouvir seus mp3 players e ler seus e-mails em smartphones 3G. Infelizmente parecia ser algo normal a figura daquela criança drogada. Durante uns 15 minutos eu imaginei muita coisa. Pensei que ali poderia estar o meu filho (Pedro, 9 anos) e o quanto eu gostaria que alguém o trouxesse de volta para casa. Pensei em tudo que aquele menino estaria passando
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O abandono
Por Nubia Strasbach

Sabe eu era um pet feliz, tinha casa, comida, carinho, era filhote ainda, mas cresci e virei um pet peralta. Eis que um dia, meu dono me convida a passear de carro, fui sem suspeitar de nada. Quando eu menos esperava, meu dono me jogou pra fora do carro com certa brutalidade e saiu em disparada, não pude alcançá-lo. Fiquei na noite escura, com medo e com frio. Comecei a procurar por comida, virei lixo e mais lixo e resolvi adotar um barril como minha casinha. Quando chegava uma criança, tentava ser o mais dócil possível para ser adotado. Mas lá vinha o pai e me enxotava gritando: -Sai cachorro sarnento! Eu não tinha notado, mas de tanto sofrer e me rolar no lixo, contraí sarna... Estava magro ,triste e perdido. Um dia um pitbul me pegou de jeito e só não me matou porque uma senhora muito corajosa, espantou o cão com um pedaço de pau e me adotou. Ela tratou minhas feridas, minha sarna...e me deu muito carinho. Com ela tinha mais vinte cães, todos tratados com muito amor. Mais tarde soube pela Lili, uma poodle sem perna que estava salvo, pois a senhora costumava recolher cães doentes e tratava-os com muito amor. Sabendo disso, a felicidade voltou no meu coração, pois tinha certeza que não seria mais abandonado. Hoje tenho minha família com Lili e sou muito feliz...

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LITERATURA & ARTE

LUIZ CARLOS AMORIM

representantes de Angola, França, Suécia e Suíça, conforme o escritor José Alberto Souza, no seu blog “Poeta das Águas Doces”. Além da antologia do Varal do Brasil, vários autores trouxeram obra de suas lavras. JacqueliA antologia do Varal do Brasil, que reúne escrine lançou seu novíssimo “Sentimentos Confistores brasileiros de todos os pontos do país e cados” e este cronista que vos fala fez o préalguns que vivem no exterior, além de portulançamento de seu novo livro de contos gueses, foi lançada em maio no Salão Interna“Histórias de Natal”, que foi lançado também na cional do Livro de Genebra. Tive o prazer de feira do livro de Mafra e terá lançamento, ainda, estar lá e foi uma belíssima festa. no Festival Cultural de Campos Novos e na No início de agosto, o “Varal Antológico 3” foi Feira Catarinense do Livro em Florianópolis. lançado em Florianópolis. Por que FlorianópoA reunião de tantos escritores de tantas regiões lis? Porque dos coautores da antologia, alguns do Brasil e até de fora do país, em Florianóposão aqui da região e a editora do Varal do Bralis, constituiu-se na grande festa da literatura sil, Jacqueline Aisenman, é catarinense de Labrasileira. E não só uma integração de escritoguna. res, mas a integração do Varal do Brasil com o Mais uma vez o Varal do Brasil é o elo de liga- Grupo Literário A ILHA. ção, o amálgama que une escritores geograficamente tão distantes um dos outros, que pos- Contato: Http:// sibilita o encontro de produtores de literatura luizcarlosamorim.blogspot.com.br que, de outra forma, não ficariam cara a cara, não poderiam trocar um abraço de confraternização. Isso já foi feito anteriormente, tanto aqui em Santa Catarina como em Minas Gerais e em Genebra. Sei quanto é importante essa integração entre escritores, pois há décadas fazemos isso no Grupo Literário A ILHA, ainda que, de certa maneira, em menor proporção. Começamos reunindo escritores do norte do Estado de Santa Catarina, depois de todo o Estado e, a partir do advento da internet, também de todo o Brasil e de outros países. A festa foi espetacular, com a presença de mais de uma centena de pessoas, além dos quarente e três escritores de vinte e três cidades diferentes de onze estados brasileiros, fora

A FESTA DA LITERATURA BRASILEIRA EM SC

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PROSA NO HOTEL DO JONAS
Por Maria Aparecida Felicori {Vó Fia}

Cidade pequena, mas tão pequena que dizer pequena era muito e podia ser considerado um elogio, os habitantes não passavam de um mil ou pouco mais; era um lugar tão parado e calmo que se chamava Remanso, lá o muito que acontecia era a chegada de padre Serafim aos domingos para celebrar uma missa e de vez em quando um casamento ou um batizado, mais batizados que casamentos Naquela grota do mundo as coisas modernas demoravam muito para chegar e a vida era sempre no mesmo ritmo de um canção bem lenta; os moradores se dividiam em proprietários de fazendas e trabalhadores das fazendas, mas eram todos muito parecidos, porque fazendeiros e colonos se vestiam com a mesma simplicidade com calças de brim e camisas de algodão xadrez. Entre as mulheres era o mesmo jeito simples, se vestiam de vestidos de chita e chinelos xagrim e um lenço florido na cabeça completava a indumentária; para a missa de domingo homens e mulheres, vestiam uma roupa melhor e era só; se divertiam ocasionalmente com uma festa de casamento, de batizado e um baile de vez em quando no aniversário de alguém, no toque de um sanfoneiro e era tudo. Mas mesmo naquele lugar parado, o tempo passa e traz mudanças e uma delas foi a visita de viajantes chamados cometas com suas canastras cheias de tecidos, calçados e muitas coisas mais e era muito bom, porque os cometas traziam também noticias do mundo lá de fora, mas o problema era a falta de acomodações na cidadezinha e foi ai que o Jonas Caçador abriu uma pensão em sua casa. Jonas colocou uma placa de madeira na frente da casa onde se lia: Hotel do Jonas e os cometas se hospedavam lá e adoravam a comida preparada por Sá Miloca; os cometas falavam do hotel em suas viagens e logo apareceu um médico e depois um advogado, o que foi ótimo, porque Remanso era desprovido desses luxos, mas aquele hotelzinho tinha outra utilidade, porque se tornou o ponto de encontro da comunidade. Ali os homens conversavam, discutiam o preço do café que colhiam e tomavam uma cerveja no barzinho do hotel, enquanto as mulheres fofocavam na cozinha de Sá Miloca e todos se divertiam; algum tempo depois um cometa trouxe um rádio e foi um espanto, as pessoas se admiravam com aquela caixa que dava noticias e tocava músicas e como só o hotel comprou um, todos se reuniam lá para ouvir as novidades. As recatadas jovens de Remanso mudaram de comportamento para seguir os atrizes das rádio novelas e muda daqui e dali e as famílias passaram a não gostar das mudanças e quando Lia filha de um fazendeiro disse na cozinha do hotel que Tonho de Dica era muito bonito, Sá Miloca respondeu : que isso menina, Tonho é casado e a moderna jovem disse: eu não tenho ciúme da mulher dele, Em pouco tempo a cidade inteira comentava a conversa da jovem Lia e quando o pai da moça soube do assunto, foi até o hotel quebrou o rádio em pedaços e disse: chega de novidades, vamos voltar para os modos antigos e viver em paz como a gente vivia, lugar de moça de família é na cozinha aprendendo a ser dona de casa e assunto encerrado; sem o radio para ensinar coisas novas, Remanso voltou a ter paz.

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AMIGO

Por Rita de Oliveira Medeiros

Amigo não é só para se guardar no lado esquerdo do peito. É no corpo inteiro. E é nos braços quando os estendemos para aquele abraço, longo e demorado, enorme, como a saudade de não vê-lo a tanto tempo. Amigo, É para se fazer o biquinho na hora do beijo. Aquele que se dá, cheio de surpresa e felicidade por reencontrá-lo, quando não se sabe mais o que dizer ou fazer para agradá-lo! Um beijo mais beijado do que se dá num filho é o que se dá no melhor amigo ou na melhor amiga! Porque eles vieram antes e sabem sobre nós muito mais que filhos ou amantes! Amigo, É para se correr ao encontro dele contando a última que nos aconteceu! E também é para se jogar no mar juntos, com roupa e tudo , pular as sete ondas, mesmo sem pileque! E quando eles partem inesperadamente, a amizade não precisa mais de um corpo, e persiste teimosa, nas lembranças que ficam. Não nos damos conta da saudade, nem da falta que nos fazem. Até que nos recordamos deles. Neste momento, as lembranças deles nos espetam o coração feito espinho de roseira! E lá pelas tantas da vida, quando os amores se vão e os filhos trilham os seus caminhos, com o tempo, novamente, a saudade se faz presente e nos aquece nos momentos mais frios de nossa existência! É quando eles ou suas lembranças nos cantam a nossa canção para nos lembrar de quem somos e do que já vivemos. Sorte e encanto daqueles que podem abraçar um amigo por inteiro ou somente em suas lembranças.

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REFLEXÕES D@ @LM@

Mi]h_ll_ Fr[nzini Z[nin
APOLOGIA AO CAMINHO
mesma coisa. Tudo estará diferente, outras pessoas terão passado por aqui, deixarão suas impressões e Ao passar por este caminho sinto um déjà vu, acom- pensamentos, modificarão o lugar. panhado de uma incansável nostalgia. Sei que nunca A própria natureza se encarregará de alterar o resto, estive aqui, mas o cenário me transporta, faz sentir derrubando as flores, fazendo com que o ar juvenil sensações remotas, penso que talvez exista um laço, de primavera se dissolva no ar. ligando esta vida a outras distantes, desconhecidas Certamente não me encontrarei mais aqui, porque para mim. Sinto por um momento que estou no paraíso, fecho meus olhos e deixo o vento soprar por entre meus cabelos, consigo captar a energia do momento que não retornará. Ao ver a estupenda natureza sei que há um ser maior, pois tamanha beleza não poderia ser simplesmente também estarei modificada. Por fora irei parecer idêntica, mas por dentro não serei, estarei em um momento distinto. Não irei chorar em vão, sei que posso driblar o tempo. De forma heroica resolvo voltar, refaço o caminho

criada, desenhada ou escrita por mãos frágeis, imper- que conforta meus pés, admiro mais uma vez o sublime verde, respiro o ar puro por alguns instantes. feitas, que insistem em realizar o mal. Neste simplório evento cotidiano consigo reaver muitas vezes se demonstra árdua. A árvore que define o caminho demonstra pureza, ingenuidade, me recorda a árvore do Éden, só não consigo identificar a cobra que traz malícia ao lugar. Infelizmente não posso ficar aqui para sempre, terei que partir seguir adiante. Irei andando pelo caminho que define rotas, traça destinos. Ao olhar para trás sinto que necessito voltar, mas sou impedida pelo tempo que define minhas metas. Sei que poderei retornar outro dia, mas não será a
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Por fim vou embora, definitivamente. Já me conten-

meus ideais e adquirir força para enfrentar a vida que tei por hoje, na verdade já enjoei. Aspiro outros lugares, agora careço de concreto.

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Infinito tempo...
Por José Carlos Paiva Bruno Talvez o tempo seja um sorriso ao Sol, Eterna dúvida das flores, cheiros e cores... Talvez corpos e copos, uma Elis de ouvir baixinho, Pretérito bêbado na corda, equilibrando... Talvez equilíbrio qual núncio atrevido, Cantando perigo, qual sereia do mar antigo... Talvez mênade d’Orfeu, embaixador perigo meu, Luar traiçoeiro, louco beijo verso anverso veneno... Talvez sereno da sedução, sem noção, Em que musa vem a terra, quase quimera... Talvez um pedido aos muros azuis, Quase crianças, quase danças, rituais... Talvez ritmos daqueles quadris, fictícios pueris, Pulsar d’eterna busca, carícias sutis... Talvez o desespero reencontro, mãos deste conto, Fusão das dimensões; desejo d’alma e carne... Talvez tempo de quase um bilhete, Assim lúdica cópula entre estações... Talvez embarque lúcido no imaginário, Descida próxima, comoriente linha dicionário! Certamente o que deveria, conta este conto... É que ambos descem e sobem mesmo ponto. Certamente um pesponto simbiótico... Eternizando troca de calor... Amor! Liberdade está no gozo d’outro, Afinidade está naturalmente em sintonia, Sinfonia musical de gozo mútuo, Voando talar simultâneo culto... Assim quando inquietos, buscando além do perto, Imbróglio fugaz dum presente certo, Longe ladina magia, evanescendo encontro, Ou reencontro, mas depois eu canto ou toco, conto...

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NESTE ESPELHO Por Maria José Vital Justiniano

Neste espelho Há um rosto Há uma sombra Há uma ruga Neste espelho Você não se encontra Nem se olha Não há seu reflexo Neste espelho Não há o encontro Não há o olhar Não há você Afaste-se deste espelho Nele esconde A verdade De sua idade

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INSIGNIFICANTE Por Deidimar Alves Brissi

Se você sofre só quando dói o seu corpo, Se você não consegue sentir a dor do seu semelhante, Se você é incapaz de amar, de ajudar por um instante, Rasga seu peito, arranca seu coração. Joga fora este insignificante!
Imagem by MABarneE

Sofrer Por Ana Rosenrot Sofrer não é apegar, não é perder... Tudo quisera, iludido, o asceta... de coração descrente, a dor abjeta, que nunca pode esconder... Sofrer é um elo, um ódio moribundo, é preciso amar para conhecer, o prazer, o sonho, o querer... E viver um sentimento profundo... Amar é ter um amanhecer brilhante, sofrer cria uma vida desgastante, privando a alma do sentir emocionante...

Aquele que sofre só conhece a dor, vegeta num mundo sem cor... O sofrer só acaba se encontra o amor...

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A DAMA DA NOITE

das pelo clarão de meus faróis. Da estrada podiase avistar um barranco, não muito íngreme, terminando em um rio, que serpenteava, acompanhando-me. Após uma curva fechada, vi alguém parado à beira da pista e decidi encostar o carro. Seria meu último passageiro. No meu caso, pessoas são dinheiro, e eu não estava em condições de dispensar ninguém. – Está precisando de ajuda? – perguntei após acender a luz do salão, me inclinando na direção da janela do carona. – Sim... – respondeu com uma voz fininha e sem força. Era uma mulher. Tinha os cabelos molhados e caídos sobre o rosto, e sua cabeça estava levemente inclinada para baixo. – Entre no carro! – pedi com um sorriso e ela atendeu prontamente. Até porque ela não podia desperdiçar uma chance dessas. Dera uma tremenda sorte em eu ter passado por ali. Muita sorte mesmo. – Obrigada... – agradeceu ela sem vigor. – Mas você está toda molhada! – observei ainda com a luz do salão acesa. Tive um ímpeto de tirar seus cabelos do rosto com os dedos, mas acho que ela não gostou muito da ideia e ao perceber isso, ela mesma o fez. É claro que pude observar outras coisas naquele minuto em que a luz ainda estava acesa. A moça aparentava uns vinte e três anos, apesar de suas sardas darem a ela feições infantis. Talvez tivesse um metro e sessenta. (Segue)

Por George dos Santos Pacheco Havia chovido o dia inteiro em Friburgo. Os relâmpagos cruzavam o céu como em uma demonstração da ira divina. Não que fosse muito comum Ele descarregar sua cólera, mas é que o mundo andava muito mal comportado. A tão famosa fonte da vida desabava fortemente fazendo as pessoas caminharem apressadas pelas ruas à procura de abrigo, os carros, na medida do possível. Em alguns lugares, a água invadira completamente as calçadas e, de certa forma, a soma disso tudo me ajudou bastante. Sou taxista e, até aquele momento, havia feito inúmeras viagens com os pedestres pegos desprevenidos pela chuva, faturando uma boa grana. Já era quase meia noite e eu estava tão cansado que não pensava em outra coisa senão voltar para casa, tomar um banho quente, beber um pouco de café forte e deitar em minha tão confortável cama. Saí do centro da cidade com certa facilidade. Àquela hora o trânsito já estava bem melhor, mas como todo bom apressado, procurei o primeiro atalho. Taxistas têm essa vantagem sobre os cidadãos comuns: conhecem todas as ruas possíveis e imagináveis do lugar, tornando rápido (ou lento) qualquer trajeto. A rua era deserta e sem iluminação. Não havia casas, nem bares. Apenas árvores, arbustos e algumas sempre-vivas que mesmo à noite, coloriam as calçadas sem cimento, ao serem ilumina-

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Seus cabelos eram negros, na altura dos ombros, mas podiam ter outra cor, pois estavam inteiramente molhados e não se podia distinguir perfeitamente. Usava um belo vestido vermelho cereja, que estava colado ao corpo pelo efeito da água. Tinha a pele branquíssima, coxas grossas e seios pequenos e firmes. – Não sente frio? – perguntei ao apagar a luz. – Não... – disse ela calmamente ao me olhar pela primeira vez diretamente nos olhos. Havia algo neles que não pude distinguir claramente no momento, mas que me deixaram profundamente impressionado, numa sensação de quase torpor. –Onde quer que eu a leve? Fique despreocupada, não vou lhe cobrar nada. Acredito que esteja com problemas, e estou disposto a ajudá-la. – Obrigada mais uma vez. O senhor é muito gentil... – Não precisa me chamar de senhor – disse arrancando com o carro. Já dormi com várias clientes minhas, mas ela... Ela era diferente. Tentei ser o mais cortês possível, como em nenhuma outra ocasião. – Desculpe-me – disse ela com a mão na cabeça e cerrando os olhos, parecendo um pouco confusa. – Leve-me até o cemitério... Estranhei, mas não pedi que ela confirmasse. A necrópole ficava próxima ao centro e havia muitos prédios de apartamentos por lá. Podia ser também que ela quisesse fazer algum tipo de culto religioso e nesse tipo de coisa eu nunca gostei de

opinar. – Aquela rua era muito perigosa para uma moça linda como você estar a essa hora. O que aconteceu? – perguntei. – Eu estava indo para uma festa com uns amigos, mas... não deu... – balbuciou cabisbaixa. Provavelmente brigou com o namorado a caminho da festa. Deve estar carente... Da parte dele, acho que foi muito irresponsável tê-la largado naquela estrada. Era um pulha! Passei pelo caminho mais longo até o destino, para ganhar tempo, é evidente, embora um taxista nunca deva se atrasar. O cliente sempre em primeiro lugar! Porém ela se mostrava abstrata, e seu olhar e suas feições eram inexpressivos. – Obrigada... – murmurou secamente ao abrir a porta do carro, logo após eu pará-lo. – Hei! Não vai me dar ao menos seu telefone? – disse ao segurar sua mão. – Não faça isso! – advertiu ela, chorosa, dando-me as costas em seguida. Estava começando a achá-la muito esquisita, mas mesmo assim preferi aguardar. Podia ser que depois de feitas suas orações ela necessitasse de alguém para levá-la definitivamente para casa, e esse alguém é claro que seria eu. Fiquei a olhando caminhar na direção do cemitério, sem parar nem um momento. Foi quando meus músculos enrijeceram, no momento que fui tomado por um frio intenso, que me subia dos pés a cabeça, acompanhado de tremor e calafrios. (Segue)
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. A minha dama havia atravessado os portões fechados da necrópole sem ao menos tocálo, parecendo uma névoa evanescente. Meti a mão na ignição, virando a chave, desesperadamente, consecutivas vezes, mas o desgraçado do Chevette insistia em não pegar! – Deus do Céu! - exclamei, já com a intenção de abandonar o carro e correr. Foi na última tentativa que o táxi ligou e saí em disparada, cantando pneus. Enquanto dirigia, ainda trêmulo e ofegante, sob o efeito do susto, fui ligando os fatos. Quando peguei a moça, apesar de ter chovido o dia inteiro, fazia horas que não caía uma só gota d'água e, no entanto, ela estava completamente molhada. No caminho ela disse que ia para uma festa, mas não pode ir, sem contudo justificar. Ao sair, toquei em sua mão e ela estava gelada, tal qual uma pedra de mármore. Lembrei-me então que há alguns anos um grupo de jovens acidentou -se naquela estrada. O motorista, em princípio embriagado, perdera o controle do veículo, que desceu o barranco, caindo emborcado no rio. Todos morreram. Esta noite eu não consegui dormir, perturbado com o encontro que tive. Relembrava cada momento, cada frase, e, principalmente, cada detalhe daquela mulher, e, depois desse dia, eu não me interessei por quaisquer clientes, por mais belas que fossem. Eu não conseguia - e nem queria tirar aquela moça da cabeça. Aqueles olhos, parecendo perdidos, o corpo perfeito e a pele fria, macia e suave ao toque, eram as únicas coisas em que eu pensava o tempo todo. E por mais que eu voltasse ao mesmo lugar, à mesma hora, nunca mais

a vi, exceto em meus sonhos, onde está mais linda do que nunca, com um sorriso resplandecente e cabelos que esvoaçam com uma leve brisa. Vez ou outra, sinto o mesmo perfume que senti naquela ocasião, um cheiro doce e calmante e tenho a impressão que ela está por perto. Nessas horas eu lamento por não saber ao menos seu nome, e por isso eu a chamo de Dama da Noite. Então eu choro feito um lobo que uiva ao luar, como se quisesse trazer a própria lua para perto de si. Nosso encontro não deveria ter sido àquela noite. É que eu cheguei tarde demais...

PARITICIPE DAS PRÓXIMAS EDIÇÕES: • Até 25 de NOVEMBRO você pode enviar texto para a edição de JANEIRO, que trará o tema livre. Escreva em verso ou em prosa, envie poemas, crônicas, contos, artigos! Proponha uma coluna! Até 25 de JANEIRO você pode enviar textos para nossa edição de março que trará o tema INFINITA MULHER e onde falaremos da mulher em todos os seus significados e expressões. As inscrições podem ser encerradas antes se um número ideal de participantes for atingido.

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CORPO & @RTE
Eli[n_ @]]ioly

A voz humana

Os primórdios do tempo: homens, mulheres, crianças e velhos reunidos ao redor do fogo. Aquecidos não apenas pelo calor da fogueira, mas pela voz humana; histórias narradas, cantadas ao modo de versos. A transmissão oral ao calor da presença de uns e outros, o corpo social dos pais transmitindo corpo social aos filhos. Sociedades de Ser. Na primazia da sociedade de Ter, sinto falta da sociedade de Ser que é coletiva, não feita de indivíduos solitários. Em minha nostalgia do coletivo, saio a ouvir contadores de histórias, ou poetas cantando seus poemas. Ouvi-los aquece o coração, trata do sentimento de solidão e isolamento no qual fico trancada quando me esqueço de Ser. Invisível e material ao mesmo tempo, a voz não é a palavra. A voz está na palavra modulando-a, ritmando-a e fazendo-a vibrar. O corpo de quem expressa oralmente o saber adquirido na experiência consigo mesmo, com o outro e com o mundo, vibra. E vibra o corpo de quem compartilha, ouvindo. Quando me sento em torno de “uma voz”, ou de um “conjunto de vozes”, ou seja, de uma pessoa, ou de pessoas que contam suas experiências, sinto meu corpo vibrar, ecoar e ressoar com os efeitos do (s) outro (s) em mim. Nessas experiências vivo momentos de me diferenciar, e outros de me identificar. Me separo e me uno: transcendo, vou além de mim.

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Sem nome
Por Evelyn Cieszynski

pés pisados pegadas passadas canção esquecida na madrugada tardia sem agonia

a rota apagada destino morada ilusão contida descolorida

vazio ... palavras neutras respostas nulas estalo

vácuo

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Reflexões noturnas
Por Maria (Nilza) de Campos Lepre Esta é uma noite como muitas outras e está demorando muito a passar. Parece que a insônia resolveu tomar posse de mim. Por mais que me esforce, não consigo conciliar o sono. Levanto e caminho até uma poltrona que fica num dos cantos do quarto. Como não estou com disposição para ler, nem vontade de ligar a TV ou o computador, fico tentando distinguir os sons da noite. Os trinados de alguns pássaros noturnos encantam meus ouvidos. No telhado de uma casa vizinha, um gato começa a miar, chamando por uma companheira para uma noite de amor, mas, para quebrar este encanto, chega até mim o som irritante do gotejar de uma torneira mal fechada. Levanto-me a contragosto e vou até o banheiro para resolver este problema. Volto novamente à minha meditação. Uma porta bate em alguma casa próxima, empurrada pelo vento ou, talvez, por alguma pessoa descuidada. Um pouco mais distante, um casal começa uma discussão, mas logo se aquietam. Ao longe, alguns cachorros começam a latir, alertando seus donos que algum estranho se aproxima, ou, talvez, tenham avistado um gato em cima do muro e tentam espantá-lo. Alguns carros trafegam pela rua, quebrando o encanto de sons tão bucólicos. Moro perto de uma praça muito arborizada. Por isso, estou acostuma a sons que só se podem sentir na zona rural. É um grande privilégio! Espero nunca ter de abrir mão dele. Consigo divisar vários piados e cantos de pássaros que, certamente, têm hábitos noturnos. No momento, o único que consigo distinguir é o canto triste de uma coruja, que parece fazer coro com a

minha solidão. Agora, consigo entender o porquê de estar acordada. É a saudade de tempos passados, quando minha vida era repleta de pessoas que me amavam, ou simplesmente se deixavam amar. Meus dias passavam tão rápidos, que não sobrava tempo de perceber o quanto era feliz e necessária a todos e, ao mesmo tempo, o quanto eles eram importantes apenas por fazerem parte de minha existência. A caminhada até o dia de hoje foi longa e árdua. Acabei deixando vários amigos pelo caminho; alguns se dispersaram por esse mundão de Deus, mas outros foram fazer companhia a ele. O maior ensinamento que a vida me deixou foi a capacidade de superar bravamente as perdas, pois ganhar é muito gratificante e fácil. Entretanto, perder...não existe ser humano que aceite sem sofrimento e também um pouco de revolta. Faço um balanço de tudo que vivi. Vejo que foram anos de trocas de experiências. Perdi muitas pessoas durante o caminho, mas, de alguma forma, continuam vivas dentro de mim, pois tudo que sou agora devo a elas que conviveram comigo, e acrescentaram coisas importantes ao meu modo de ser. Acabei perdendo, durante a vida, vários animaizinhos muito amados e queridos, que fizeram parte de minha infância e juventude. Até hoje sinto saudades deles, mas, mesmo assim, não consigo ficar sem novos amiguinhos ao meu lado. Alguns colegas também partiram prematuramente; às vezes por doenças, mas a maioria, por acidentes de motos ou carros. Posso afirmar com certeza que continuam vivos dentro de mim através do legado que deixaram. Afirmo que tudo que me ensinaram contribui, até hoje, para o meu crescimento de pessoa de bem que sou. Primeiro foram meus avós, depois meus pais, que partiram para uma nova jornada. (Segue)
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Assim também partiram meus sogros, cunhados, sobrinhos, tios, e, mais recentemente, um de meus irmãos, e sua esposa. Parece que estou fazendo um balanço de minha vida: a maioria das pessoas que fizeram parte integrante dela já se foram; até meu grande amor: já faz dez anos que me deixou! Não sei como consegui seguir todo este tempo sem ele. Foi muito difícil, mas, continuei a minha jornada, sempre olhando para o futuro. Só agora sinto a solidão que me restou, apesar de viver em uma casa ao lado de uma de minhas filhas, e a outra, viver comigo, mesmo assim sintome perdida nesta reta final. Cada uma de minhas filhas tem sua própria estrada a trilhar. Na maioria das vezes, não seguimos na mesma direção. Assim é a vida! Sempre foi e sempre será: cada ser tem seu próprio universo intransponível, um mundo que é só seu. Algumas vezes, conseguimos alguém que caminhe a nosso lado, mas, na maior parte, estaremos sempre presos em nosso mundo particular. Se pararmos para pensar, veremos que mesmo no meio de uma multidão alegre e feliz, restamos só, dentro de nós mesmos. Cada pessoa é um universo impenetrável. E por mais que tentemos desvendar os segredos de nossos parceiros, jamais conseguiremos nosso intento. Enxergamos apenas o que as pessoas deixam transparecer. Grande parte do que somos permanecerá sempre em completo segredo. Faça um exame de consciência: - em algum momento deixou alguma pessoa invadir seu interior? Aquela parte que só você sabe que existe e não divide com ninguém? Tenho que reconhecer que logo serei eu a partir. Os anos se esvaíram numa rapidez incrível e eu não percebi. Levanto da poltrona onde me encontro e caminho em direção a um espelho para poder me examinar:

- Q-uem é esta figura grotesca que está estampada nele? Certamente não sou eu! A imagem que tenho guardada dentro de mim é bem diferente desta que me encara neste momento. Vejo, sim, a imagem de uma linda jovem de cabelos claros, lindos olhos azuis, que era cortejada por muitos rapazes, mas que esperava fielmente por seu grande amor. O espelho revela a imagem de uma pessoa cansada, de corpo roliço, rosto enrugado pela passagem dos anos, de corpo arcado pelo peso dos grandes fardos de luta, desilusões, sofrimentos e,também, muitas alegrias conseguidas durante a longa caminhada. O cabelo branco indica indubitavelmente que a juventude há muito se foi; parecem flocos de algodão que foram colados com esmero na cabeça desta velha que se encontra à minha frente. Sem dúvida nenhuma, esta não é a minha imagem; não aceito que este seja o reflexo de minha pessoa; bem lá no fundo, no íntimo de meu ser, habita a mesma jovem de muitos anos atrás; e, é assim que continuarei a me ver até o final de meus dias. Graças a Deus, não envelheci intelectualmente. Raciocino melhor agora do que quando jovem, pois, através dos anos acabei ficando mais sábia. Nunca parei de estudar, ler e aprender tudo que se me apresentasse de interessante. Durante esta minha caminhada, adquiri o hábito de incorporar a minha existência, tudo de bom que o mundo e as pessoas podiam me oferecer. Agora posso afirmar que sou uma pessoa de grande saber. Sou muito mais poderosa do que quando, no vigor da juventude, acreditava saber tudo sobre tudo e sobre todos. Principalmente saber tudo sobre a vida. (Segue)

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Ao longe, ouço o som de um trovão. O tempo está mudando. Os galhos das árvores da praça se debatem com uma ventania que antecede a chegada da chuva. Aos poucos, vou sentindo o odor de terra molhada. É a chuva que vai se aproximando de mansinho; uns pingos aqui, outros acolá e, vai aumentando gradativamente, até se tornar torrencial. O ruído da água caindo nos teto das casas vai, aos poucos, me acalmando. O som da enxurrada escorrendo pelas sarjetas relembra o ruído de um pequeno riacho. A água que desce vai lavando a sujeira acumulada por dias no asfalto. Estes sons fazem com que meu espírito se aquiete. Começo a absorver a calmaria que vem após um aguaceiro. Aos poucos, o sono começa a se achegar. A impressão que tenho é que Deus enviou toda esta água para fazer coro às lágrimas que corriam pelo meu rosto, lavando as mágoas, dores e saudades de um passado que jamais voltará. Assim como a chuva limpa as ruas, a copa das árvores, o telhado das casas, e revigora a natureza, minhas lágrimas também desfizeram toda aflição que restava em minha alma. Volto para a cama e me preparo para desfrutar um final de noite tranquilo e feliz. Boa-noite a todos. Poderosa e reta, a mão divinal até mi’a mãe me trouxe novamente. Trouxe-me Ele dum modo genial com segurança e semblante contente. Passeei sobre as águas da Baía, com seu intrínseco e denso frescor; depois eu peguei as ruas do dia rumo às ondas do maternal amor. Peixe assado com arroz e salada, em dieta a que eu tinha bom costume nos veio de maneira equilibrada, com o intento de espantar-me o negrume. Nova visita para eu me sentir em casa, antes de na vida seguir. Por Oliveira Caruso

Soneto decassílabo de graças a Deus por minha mãe

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O DESEJO E SUA DANÇA Por Ricardo Cruz
Elvira ia completar trinta anos e ainda era virgem. Quase a desesperar-se, preferia morrer a declarar seu desespero... Bonita não era, nem sabia se arrumar com elegância. Suas saias iam abaixo do joelho e dificilmente vestia uma blusa decotada. O pai a nomeara Elvira por conta de seu entusiasmo com uma vedete dos anos cinquenta, Elvira Pagã, que cantava as próprias e picantes canções, apresentavase envolvida pelos anéis de uma serpente e despiase para encantamento e furor das plateias masculinas. Acontecia de Elvira ver casais se beijando em público e com isso muito se inquietava, embora o mais difícil fosse despregar deles o olhar... Como se por obra de hábil torturador, continuavam os casais a se beijar no seu pensamento. Como numa longa sequência cinematográfica, a cena reproduzia-se, repetida e infindavelmente, o que a deixava indignada e cheia de culpa por não ter logo de início desviado o olhar. Não compreendia como as autoridades permitia tanta licenciosidade pelas ruas e praças da cidade. Sem querer entender o porque de tanta indignação, trancava-se no seu quarto, ligava o som a todo volume e dançava sozinha até a exaustão. Antes de dormir rezava para que as imagens abominadas daquela beijação em público não invadissem seus sonhos. Para serenar seu desejo de homem, costumava dançar sozinha, trancada no seu quarto. As vezes... Não conseguia entender o que se passava consigo. Como toda mulher ela desejava ter um namorado, apaixonar-se, mas acaso algum rapaz se aproximasse demasiado, sentia tremendo desconforto. Dançar com alguém, até tentava... Mantinha o parceiro à distância evitando assim roçar certas partes do seu corpo em certas partes do corpo do rapaz.

Jamais alimentava uma cantada durante a dança dava-lhe calafrios, os pelos da nuca a se eriçarem -, de imediato pedia para sentar-se, com a desculpa de que era desajeitada para dançar. Embarcar num ônibus urbano era outro tormento. As pessoas espremiam-se e roçavam-se o tempo todo. Preferia ir de taxi para a faculdade, jamais desacompanhada, por causa das matérias que circulavam na imprensa sobre estupros. Em cada motorista de taxi enxergava um estuprador disfarçado. Logo ela que só desejava ajudar as pessoas. Cursava pedagogia porque entendia ser este um bom caminho para fazer o bem. Sua mãe era professora do 2o grau e ela desejava ultrapassá-la. Elvira desejava muitas coisas... Certa época permitiu-se maior aproximação com um colega de curso. Ele passou o braço sobre seus ombros, tocou-lhe o seio, beijou-a na boca e ela entrou em pânico. Trancou a matrícula abandonando dois semestres inteiros. Dizia para si mesma que assim agiu com medo que o rapaz descobrisse que ainda era virgem. Continuou desejando-o à distância, sem jamais admiti-lo para si mesma. Extremamente educada em público, esmerava -se em ser discreta e bem comportada, evitando modas que chamassem atenção; vestia-se sobriamente e jamais se pintava. Ao contrário, quando sozinha, ao trancar-se no seu quarto, transformava-se. Vestia -se de forma provocante ou que julgava fosse provocante, metendo-se num vestuário decotado e sumário que inventava na hora, mas que jamais teria coragem de usar em público. Despojava-se em gestos e poses obscenas diante de um espelho que mandara cravar na parede de seu quarto. Seu quarto. Via -se refletida de corpo inteiro e ensaiava coreografias incorporando personagens femininas do cinema e da televisão que fora do seu quarto tinha em conta de escandalosas, de mulheres pervertidas. (Segue)
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Frente aquele espelho exibia-se maquiada como uma mais frequência e andava assustada. O sonho do ôniprostituta (morria de vergonha diante das balconistas bus era recorrente. Não fosse ela virgem, porque de das lojas de departamento ao adquirir cosméticos, tão desinteressante achava que nenhum homem a roupas íntimas e bijuterias). Quando acontecia ser iria querer como esposa, aí sim, não teria necessidamuito intenso o desejo de masturbar-se, fantasiava- de de se... satisfazer daquele jeito. se e imaginava-se outra mulher vestindo-se com langeries negras e rendadas e transparentes, meias arrastão igualmente negras e não dispensava o uso de um par de ligas vermelhas... Para si mesma dizia que era para somente “satisfazer-se e acabar de vez com desejos carnais, profanos”. Então se... A expressão masturbar-se lhe provocava arrepios. Certa vez buscou a mãe para que a ajudasse a libertar-se de suas fantasias e da forte impressão que lhe causava o recorrente sonho com o motorista. Esperava que a mãe desaprovasse tão pecaminosas fantasias e lhe dissesse mil vezes que aquelas roupas com as quais se vestia na intimidade do seu quarto eram roupas de mulheres da vida, e que a conjurasse

Noite dessas sonhou com certo motorista do a ser uma filha decente. Rogou-lhe para que a proiônibus que com frequência tomava para ir ao centro bisse de trancar-se sozinha... De frequentar a faculda cidade. No sonho, o interior do ônibus transfor- dade, certa estava que o convívio com colegas que mava-se num amplo salão. Espelhos por todo lado. não a compreenderiam, tão avançados e liberais coParedes e teto forrados com tecido aveludado da cor mo eram, a estavam transformando numa mulher de suas ligas quando se... masturbava; os assentos, perdida. Ao contrário do que esperava, disse-lhe a transformados em poltronas de um tom lilás berran- mãe não ter intenção de proibi-la de coisa alguma. O te, eram ocupados por estranhos passageiros que a que precisava era resolver aquela solidão, sair mais, olhavam, surpresos por verem-na ali. Pelo retrovisor fazer amigos, arranjar um namorado... ELE, o motorista, a devorava com olhares libidino- Aquela mãe a revoltava, por causa dela, por nunca sos. Súbito ergue-se para escapar dali mas não há proibi-la de nada, tornou-se tão... tão problemática. saída, e só então, ao erguer-se, percebe que está in- Para uma colega a quem arriscou longo desabafo, teiramente nua. O motorista levanta-se do seu assen- queixando-se dos prejuízos que a mãe lhe causava, to e vem caminhando na sua direção, já sem camisa ouviu dela que devia buscar ajuda de um terapeuta. e aponta para ela algo pontudo que ela reconhece Desdenhou daquele conselho e internamente decidiu como a alavanca de mudança das marchas do coleti- que devia era confessar-se. Procurou uma igreja nuvo... A sensação intensa de um prazer desconhecido ma outra freguesia que não a sua. Uma igreja bem a faz acordar-se, assustadíssima. movimentada que lhe garantisse completo anonimaCerta vez encheu-se de coragem, entrou numa to. farmácia e fingindo-se de mulher liberada comprou Aquele padre revoltou-a. Tinha a mesma fala uma caixa de anticoncepcionais cuja marca lera nu- mansa e arrastada do pai. Mal podia enxergá-lo atrama revista de assuntos médicos. Às vezes, ao deitar- vés da tela do confessionário, mesmo assim lhe pase, botava a caixa do remédio sobre o criado mudo, receu pouco interessado no que para ela era seu maiao lado meio copo d´água, e exibia-se dessa maneira or pecado: “... andar fazendo... aquilo... tocar-se, para a multidão de fantasmas que invadia sua soli- satisfazer-se enfim travestida como uma... prostitudão. ta” O homem atrás da tela continuou indiferente à Ultimamente acontecia de... se masturbar com sua confissão.
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(Segue
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Após aplicar-lhe a mais leve das penitências e dizer- dade Mandou-a sentar-se e diante dela jogou os búlhe “Vá filha, e não peque mais...”, aconselhou-a a zios para aconselhar-se com Ifá. Revelou-lhe que seu casar-se para não mais sentir-se tão culpada com as corpo virgem passava por longa e temerária provatentações do sexo... Velhaco! Excomungado! Devia ção, o que era determinado pelos orixás. Dentro do ser suspenso das ordens... seu corpo escondia-se outra mulher, atrevida, seduAo analista, que após hesitar muito resolveu tora, investida de poderes. Nenhum homem ou muprocurar, surpreendeu-se Elvira por abrir-se de ma- lher haveria de se interessar por ela enquanto aquela neira quase desinibida, num jorro inesperado de con- outra dentro dela não se revelasse por inteiro, o que fidências, mal lhe indicara ele o lugar para sentar-se. somente seria possível quando seu orixá, Iansã, des“Por último” – acrescentou – “acontece de eu me se permissão... mast..., desculpe, de me satisfazer... sozinha e com Enfim, Elvira, entre assustada e maravilhada, tanta frequência, doutor!” Por conta de não conse- alguns dias depois deixou-se conduzir para a cerimôguir controlar-se andava muito nervosa, assustada. nia que a desvelaria do encantamento aos orixás. AnEstaria em risco de alguma doença mental? Rogou- tes, cumpriu as recomendações da mãe-de-santo, os lhe, após julgar que já dissera tudo o que havia para banhos purificadores, isolamento, silêncio, também dizer, que a proibisse das asneiras que cometia, ou cumpriu as oferendas de praxe. Depois, permitiu sem enlouqueceria, se é que já não estivesse completa- arrependimento que lhe raspassem a cabeça. Não se mente louca. Ao fim da entrevista o homem lhe disse envergonhou ao desnudar-se perante a corte das iaôs, que não somente não a proibiria de coisa alguma, que a borrifaram com o sangue dos animais sagrados como lhe garantiu: o que fazia com seu corpo na pri- na consagração da Iansã que a habitava. Com as vesvacidade do seu quarto não estava em desacordo tes de uma iaô, foi preparada, como a iniciação recom sua natureza de mulher. Nada do que lhe disse queria, para o necessário recolhimento na camarinha. até ali trazia em si risco de loucura. Ao contrário, Em breve, livre de todo temor, estaria preparada para enlouqueceria se deixasse de atender sua natureza enfim dançar a dança do desejo, sem proibições nem feminina. Reafirmou, finalizando, que não era seu tampouco censuras, como a mãe do terreiro lhe gapapel proibi-la nem censurá-la. Estaria disposto a vê- rantiu. la outras vezes, para que continuasse ela a lhe falar dos problemas que tanto a angustiavam... talvez, mais adiante pudesse fazê-la entender melhor outras razões secretas para tanta angústia... Fugiu horrorizada, achando que deviam tomar providências para que charlatões como aquele que se dizia psicoterapeuta jamais clinicassem, perturbando ainda mais a cabeça das pessoas, em vez de aliviálas, instigando em vez de aconselhar. Por conta própria resolveu buscar ajuda de uma mãe-de-santo. A mulher lhe ordenou que girasse o corpo, tocou-lhe as vestes e ato contínuo recolheu a mão, como estivessem carregadas de eletriciwww.varaldobrasil.com 96 (Este conto, aqui em versão nova condensada pelo autor, faz parte do seu livro Benditos Perversos publicado pela Editora Fator, 1990, com prefácio de Hélio Pólvora.)

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ENVELHECER
Por Emérita Andrade O sol assim cansado Sob o mar mergulha Seus raios de calor. E a noite que chega, meu bem. Noite sem lua em cé u de estrelas, Penumbra harmoniosa do viver... Nã o tenha medo, pois que Agora mesmo a lua imensa, Languida e vaporosa, Saiu do seu castelo, donde A maturidade cautelosa Oferta majestosa sua imagem, Que é fruto e é eternamente rosa. Brinquedo perfumado, na experiê ncia Do viver sem medo, sem reserva. Viver que é graça e é tormento; Que é essencialmente essa grandeza... Das rugas que no rosto se acumulam. Indelé veis traços, com os quais, nas telas Van Gogh coloriu a eterna primavera! Um barco... A vela... Um galho de roseira... A 0lor primeira Dar pro meu amor...!

O Mar
Por Carlos Batista Todos os dias a caminhar Sentindo a brisa do mar Buscando soluçõ es No que leva a pensar E na magia transmitida E como pudesse voar Sentido o amor brotar E tudo acalmar O mar com seus segredos Encanta a viagem De quem por ele passar O Mar
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URBANOS Por Maria Luiza Falcão (trecho do conto Olívia, do Livro Minas – contos Gerais 1, pela oficinaeditores)

Meus livros são urbanos. Eminentemente urbanos, como eu. As personagens são nascidas nos grandes centros ou, aglutinadas por eles, perdem toda e qualquer ligação com a sua origem. Conheço os males urbanos. Dos que me são familiares, discorro com facilidade. Ao contrário do que muitos pensam, não é difícil encontrar dramas na alta sociedade. Os ricos também sofrem. Em alto estilo, é verdade, mas... diante de inimigos ferozes, muitas vezes toda uma fortuna pesa e agride pela própria impotência. Todo recurso disponível não consegue evitar tragédias... não cura o incurável... não resgata a vida. O dinheiro não compra bens interiores: amigos... família... amor... Eu sei disso, passiva e ativamente. O que não se deu comigo, eu vi de perto... A dor dos semelhantes... Dos outros males urbanos eu busquei saber. A dor dos não semelhantes me parecia distante, inatingível, sem importância... mas eu fui atrás. Perguntei, fotografei, pesquisei... Descobri um mundo de desgraças de A à Z, de todos os tipos, para todos os gostos, da mais alta a mais baixa posição social. Me especializei nisso. Falo das pessoas presas entre quatro paredes, sejam elas de tábuas ou de tapetes persas. Dos que circulam pelas vias, a pé ou nos importados, e que são igualmente alvos perdidos de balas certeiras. Dos que estão dentro e fora das grades, nos presídios ou nos condomínios de luxo. Dos perdidos, sem saber o que fazer com o que têm ou não. Dos sentimentos e emoções emparedados com a argamassa do progresso. Masoquismo meu? Não. Nem deles... O paraíso terreno é um mundo distante, talvez mesmo, lendário... Uma utopia. O mundo cresce e parece girar mais rápido a cada dia. O bom e o bem são escassos... Os maus e os males se alastram... A guerra vive na própria paz. Não existe felicidade, apenas, talvez, momentos felizes e, cada vez mais ínfimos. O resto, é o real. É onde as pessoas vivem, onde elas se realizam como podem. É o que elas identificam e entendem como verdadeiramente possível.
Muitos consideram o meu trabalho extremamente criativo. Estão enganados. Ou são cínicos. Eu escrevo a verdade, e muitas vezes, a minha... Mas, a verdade está fora de moda... ninguém mais acredita nela... está em desuso. Mais vale uma boa mentira... É o que eu faço.

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Batidas na Porta

Por Sid Summers

Jaca deliciava-se com seu farto copo de vitamina de suco gástrico que acabara de regurgitar. Toc! Toc! “Batidas na porta” – ele disse para si mesmo, meditando acerca dos postulados básicos da vida castrense. Toc! Toc! “Batidas na porta” – ele repetiu para si mesmo com a boca sobrecarregada com o amargo sabor da derrota. Cogitou que era excesso de enfado, entretanto era apenas suco gástrico. Suas articulações rangeram como as dobradiças da porta. E ele se moveu com seu corpo de esqueleto tropical até a janela desesperado. Precisava untar as dobradiças com seus fluídicos óleos corporais antes de recolher as cortinas empoeiradas e ensebadas, um leve toque das fezes das harpias selvagens e dos restos dos marechais que tentaram domesticá-las em vão. Toc! Toc! “Batidas na porta” – murmurou baixinho, praguejando contra as baratas que se escondiam sob o papel de parede produzindo a mais desconcertante das canções de ninar. Jaca achou que era a sua própria antiga caixinha de musica a responsável pela canção e se recordou da sua quase esquecida infância milenar. Esquecera-se de se matar, mais uma vez, nessa manhã monótona de domingo. A grossa camada de pasta de dente seca que revestia o espelho do toalete enevoava suas visões já turvas pela catarata e o iludiam com a sensação que alguma carne ainda o cobria. Teria sorrido se pudesse, se lhe sobrasse algum músculo. Mas o brilho imponente e inconfundível dos seus dentes de diamante se impunham quais as ordens do rei Maneta. Lembrou-se dos seus séculos de clandestinidade no navio cargueiro. Ou fora num estomago de bacalhau? Droga! Não deveria ter devorado o próprio cérebro em torremos para sobreviver nos dias famintos da sua guerra particular. Que guerra? Apenas as manchas em sua couraça morta faziam-no recordar que estava vivo. Não havia cortinas nas suas janelas. Alguém as havia recolhido, ou penhorado, ou ensebado, ou vai saber o que lá. Tempos... Tempos... Tempos... Não havia mais harpias, nem marechais adestradores de harpias prontos para servirem como mais uma ímpia refeição frugal aos seus estômagos pedregosos, mas o suco gástrico descansava em sua caneca de lata, ao lado de uma banda semi-tostada pelo sol de goiaba verde crocante. Ou seriam apenas sobras de melancia? Há quanto tempo estava ali? Quantos anos em cada movimento? Não fazia diferença já que ele não podia se alimentar. Toc! Toc! “Batidas na porta” – resmungou baixinho catando os últimos pedaços das suas cartilagens. Jaca gostava de orelhas.

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MEIA NOITE MISTERIOSA Por Lenival de Andrade Não se iluda Nada trará o passado de volta Nem que nos dê revolta De nada adianta tanta oração Não ter DEUS no coração E com o irmão não viver em comunhão Viver condenado Derramar tantas lágrimas Toda culpa assumindo E desse mundo sumindo Indo e vindo Sempre diminuindo

E junto com você amava Toda grandeza do mundo O que fazer para acalmá-la? Ela tudo pode Tudo pode acontecer Pior que a sexta feira treze Não é só superstição Em filmes de ficção Ou combinação maldita Pior que vestido de chita Tem gemidos ameaçadores De perigosos caçadores Deixe de tolice com essa gemedeira Não se deixe amedrontar E nem tampouco aceitar e acreditar Ela é poderosa

O mundo infinito O céu é bonito DEUS ouça o meu grito Fui nocauteado outra vez Mesmo usando perfume francês A natureza é um paraíso aberto O mar Enigmático misterioso e oculto Refletindo reflexos na lua de prata Criado pelo ser supremo e soberano Como diria Zé Ramalho Onde tudo está contemplado sem nada faltar Grandeza que o homem nunca imitará Nem em 80 milhões de semanas Ou em 800 mil anos O juízo final virá O maravilhoso pôr do sol nos dirá Secando até as flores que eu plantava

Vistosa oculta e ditosa Meia noite misteriosa

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Meu Senhor
Por Alex Monteiro

E de mim leva o que fui E o que se resguarda, contigo segue viagem Por entre atalhos, por uma nova estrada Para outros rumos, novos mundos.

Das horas tristes, das horas findas Do regozijo, das aventuras e desventuras Companheiro da solidão Amigo do sossego, hiperativo do desapego Te depositas em minhas mãos, Pedes repouso, mas eu te devoro Te enamoro, e você me seduz Finge me confidenciar teus segredos Eu menino e tu ancião Tu tão sábio, eu tão sedento de teus encantos Relacionamento moderno Eu sem pretensão e tu cheio de insinuações Criação de mãos fadigadas, cansadas, enamoradas, abandonadas Dor poetizada, riscos que se traduz Anseios do corpo que verte na alma E no papel acalentas o que pretendes Mas tu não tens pretensão, e se tens não revelas Esconde em tuas entrelinhas, a beleza de tuas linhas Metade refutada de ti Punhado de coisas e de vida Que pretendes ser, em mãos alheias Manancial de anseios, desejos, mistérios Encantos, desencantos Um mundo em mil outros mundos Morada da realeza, Cabana da plebe Na calada da noite te acho, e me silencias Na turbulência do dia tu me aquietas Enquanto te carrego, tu me conduzes Nesse espaço chamado tempo Te tornas invencível Ele te traz mais sabedoria
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Altas Horas
Por Angela Guerra

Mergulho no silêncio amigo, que me enlaça a alma... A inspiração flui, madrugada afora...

Todas as musas, em seu voo diáfano, adejam à minha volta... Seus véus acariciam-me a mente... Despertam-me os mais belos pensamentos, que tento registrar, com maior ou menor sucesso, mas, sempre, com todo o meu coração...

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Avessos e Direitos da Emília
Por Amélia Luz Saiu de duas mãos negras, quase escravas, e de um sorriso meigo num rosto de África... Alguns trapos coloridos os cabelos em algodão negro desfiado e macela perfumada para rechear. Assim nasceu a extravagante Emília, muda, olhos arregalados de retrós! Uma dose de pílula falante desembesta a falar, autoritária, arrogante e birrenta! Malcriada e teimosa é egoísta, muito esperta nas suas estripulias... Tirana e interesseira observa tudo, tão pequenina como toda boneca de pano. Anda pelos arredores à cata de novidades carregando a sua canastra, (seu tesouro), cheia de bugigangas que vai recolhendo quando faz muitas atrapalhadas. Não se sabe se é gente ou boneca, levada da breca é temida por todos vivendo a fantasia da sua criação. Figurinha surreal centraliza as atenções esbanjando suas asneiras com convicção! Suas histórias são cheias de mistérios que vão além da imaginação... Quando lhe perguntam quem ela é, estufa o peito, levanta a voz e responde autêntica: -“Sou Independência ou Morte!” Assim, vive a liberdade ao sabor da sorte, vida com gosto de caramelo no Sítio do Pica Pau Amarelo! Ela perdeu o controle, Ele cresceu de tamanho, partiu, Não se tem notícia, ela chora, Para onde foi ninguém viu. Lembranças do inocente sorriso, Sorriso nos lábios e no olhar, Tinha tudo para aprender, Mãe e o mundo para ensinar... Suas pequenas mãos, Tentando a independência, à mesa, Momentos equilibrando o lápis, Inúmeras recordações ... Mãe, sua referência, Importante presença, Dividia o tempo, trabalhava, lutava, Tentando a sobrevivência. Educar, tarefa árdua, De equívocos e acertos, Ela afirma: ensinei, alertei, corrigi, Mas nem tudo percebi. Por Marina Gentile

Filhos desaparecidos

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Desapego ...
Por Alice Luconi Nassif

que amasses todo o por vir àqueles, que buscam tu´ alma.

o amor traz liberdade eu queria abraçar tua fúria eu queria tocar teu coração eu queria tecer a emoção ser riqueza, não penúria. sem afetos, o viver é vão só lutas, a paz se retira eu queria semear outro sentir como perfume que acalma irmão despedaça irmão. não prisão, torre da ira matriz da insanidade.

JUVENTUDE É ALGO QUE SE SENTE Por EstherRogessi Quando na minha estada em Belo Horizonte, na Praça de Alimentação do Shopping UAI, percebi um animado grupo de mulheres de faixas etárias diversas; o destaque do grupo, sem dúvida, era uma senhora de aproximadamente cinquenta anos, que esbanjava alegria e interagia, com as mais jovens, como se fosse da mesma idade. Observei-a... e, deleitei-me com a sua juventude. Àquela senhora vestia calça legging, túnica em lã, sapatilhas, e tinha os cabelos emoldurados, por um lindo chapéu – a perfeita materialização da felicidade. Próximo a mesa, onde eu estava, um grupo de moços, os mais novos contavam entre 16 a 18 anos, os outros, não mais de 25 anos de idade – sem dúvida, eram jovens – sorriam e brincavam alegremente. Constrangeu-me ouvi-los comentar sobre a alegria da senhora mais idosa. Um deles falou alto: – Olha a menininha! E, continuou: – Mas, essa menina eu não levo pra casa! A situação não foi mais constrangedora, porque o moço não encontrou apoio, entre os que o acompanhavam, todos ficaram sérios, sentindo o peso da grosseira observação do amigo. A mulher ouviu o maldoso comentário. Calmamente, dirigiu-se aos jovens, e falou-lhes: – Boa tarde, moços. Tenho consciência de minha idade, o tempo é inexorável, porém, a alegria jovial que a vida roubou-me, quando moça, devolveu-me na minha maturidade; o meu sofrer, reprimiu, mas... não matou a minha juventude; fez-me bem ouvi-lo chamar-me de “menininha”... Você disse não desejar levar-me para casa... Não acha que antes teria que me perguntar, se eu queria a sua companhia? Repondo-lhe: Não! Você é muito velho para mim! Os moços riram do colega que murchou igual a um pneu furado. A mulher voltou ao grupo sorrindo, como se nada tivesse acontecido. Meditei sobre o ocorrido e pendurei o fato, nas paredes de minha memória.

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Fome essencial... Por Guacira Maciel Meu encantamento e minha perplexidade encontro encantos desencantos dores e marcas sem necessitar perdão silêncios que superam as palavras que dizem mais no olhar que falam de mãos entrelaçadas e uma ânsia do teu corpo retida na memória das minhas células meus cabelos esparramados líquidos sobre almofadas e essa fome essencial de ti...

POÉTICA de CRIAR POÉTICA Por Eliane Accioly 1. erra no barro na chuva divaga bosta de vaca a natureza infância muge rebanho passa e a alma lavando a sola nos pés apaga pegadas da terra 2. compra pão frita linguiça o sol à janela brinca de lua degusta sabor cheiro tempero a textura do texto temperaturas criar a ocasião não mata alenta a fome

3. no temp(L)o camadas e eras vigiam o silêncio vela pinturas 4. Contemp(L)o silêncio velado

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Mister X e Nosso Lar
Por Greice Munhoz Saí da sala de cinema e fui direto ao banheiro. Pela cara de uma menina que me olhava na saída, meus olhos deviam estar vermelhos, inchados, ou ambos. Passada a choradeira, resolvi me dar um x-egg salada com fritas e refri. Lá fui eu pra praça de alimentação descomprimir do filme. Enquanto aguardava meu pedido, observava a bagunça deixada na mesa ao lado. Me auto esculachei: -e pensar que de vez em quando eu também deixo a bandeja, olha que bom… Entre a chamada do painel e o cuidado com a bolsa, achei melhor não arriscar a limpeza, paciência. 499! (gritou o painel), e rapidamente me estiquei pra alcançar meu lanche. Mal me sentei e um senhor bem velhinho começou a vir na minha direção. Nisso eu já saquei que vinha “bronca”. Franzininho, em traje esportivo e usando um boné, perguntou: – posso me sentar com você? – Claro! Respondi, enquanto puxava minha bandeja mais pra perto. Chegou com um prato cheio de camarões, de um buffet meio china, meio japa, onde costumo almoçar de vez em quando. Começou a comer com talheres, mas as mãos trêmulas acabaram desistindo da tarefa e ele decidiu comer com as mãos, não só os camarões, mas tudo mais que havia no prato (até os sushis ele desenrolou!). Com os dedos engordurados, atendeu o celular que tocava em seu bolso. Nisso eu corri pra pegar guardanapos pra ele, que ficou muito agradecido, mas logo em seguida usou todos com tanta rapidez que continuou a se engordurar. Falando um inglês fluente, explicou ao amigo que na Segunda teria uma consulta médica e que eles só poderiam se encontrar na Terça. Desligado o telefone, começamos a conversar e percebi que ele não era daqui. Mr.X deve ter um nome, mas não deu tempo de perguntar. Iniciamos por outros assuntos e fui embora antes que pudéssemos nos tornar mais íntimos. Na medida em que ele falava, eu tomava cuidado para não me aproximar muito, pois fragmentos de comida lhe escapavam pela comissão de frente dentária quase nula. Perguntou se eu trabalhava ali. Respondi que não, que tinha ido encontrar uma amiga e aproveitado para assistir Nosso Lar. Então ele me perguntou do que se tratava o filme. Expliquei tratar-se de um filme baseado no livro de mesmo nome, psicografado por Chico Xavier. Percebendo minha simpatia pela doutrina espírita, procurou demonstrar que estava inteirado sobre Kardec, cirurgias astrais, previsões do Chico etc. Mas logo mudamos de assunto e comecei a fazer perguntas a seu respeito. Sentia que me faria bem saber quem ele era e que lhe faria bem falar… Nascido em Los Angeles, Mr. X veio para o Brasil aos 16 anos, mas nunca perdeu contato com os parentes dos Estados Unidos, onde ainda esteve umas 20 vezes, segundo seus cálculos. Por não ter visto aliança em nenhuma de suas mãos, achei melhor não perguntar se ele tinha família no Brasil. Coronel aposentado da aeronáutica, ele decidiu continuar trabalhando na PAME (Parque de Material Eletrônico da Aeronáutica), na base de Santana, pois gosta de se manter sempre ativo. Enquanto apontava orgulhoso o botton que levava no peito, começou a me contar sobre suas experiências com o caça F-15. Enrolei o quanto pude para ouvir suas histórias e só quando ele praticamente tinha terminado de comer, decidi me despedir. Mais do que depressa, Mr. X me estendeu a destra engordurada, que por um momento me fez lembrar os anciãos da sala da OAB do fórum Min. Mário Guimarães, com quem trabalhei quando também tinha 16. Sabendo o que me esperava (mais uma vez), segurei sua mão com firmeza e com o sorriso de quem sempre leva álcool-gel na bolsa e muito amor no coração. Depois me fui pensativa, sobre quantos disfarces Deus utiliza diariamente para brincar com seus tantos Eus, no grande mosaico da vida. Ele que é aviador, mulher, cineasta, médium e blogueiro… Ele (a) que é TUDO, inclusive um F-15.

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CONVIVÊNCIA: UMA PRÁTICA SUSTENTÁVEL! _ Quando o exemplo vem das crianças _ "Aprendi que um homem só tem o direito de olhar um outro de cima para baixo para ajudá-lo a levantar-se." Gabriel García Marquez Por Ivane Laurete Perotti

Em minha rua brincam crianças. Idades diferentes, tamanhos diversos. Meninos e meninas encontram-se para correr e conversar como se a década não fosse esta. Quem ouve os gritos disparados sem aviso perde-se no tempo e nas rodas das bicicletas, no vaivém dos gizes coloridos que pintam as calçadas de cimento, na curva das bolas de couro que sobem e descem a depender da força do pé descalço. As risadas soltas, redondas de alegria simples, invadem portas e janelas, tomando de assalto anunciado as casas de minha rua, especialmente ao cair da tarde, quando os pequenos cumprem com um ritual divertido de encontrarem-se, assim, como que por acaso todos os dias. Distantes do fio pessimista que açoita a todos nós, adultos em fase de contrita frustração - generalizações e insinuações prosaicas à parte -, os menores mergulham nas brincadeiras resgatando o que deixamos há décadas e décadas atrás: a rua tranquila. Essa que é uma espécie de "zona franca", palco de encontros e desencontros, já foi lugar de recreação e reuniões informais, uma extensão dos quintais das casas que se alocam ao redor (ou... é o contrário? Seriam as ruas a se colocarem por entre as casas, como linhas soltas, riscadas sobre a terra pavimentada? Não sei! A demarcação de espaços públicos não é mais uma questão de infraes"A grandeza de uma nação pode trutura e prospecção do Plano Piloto das metrópoles. ser julgada pelo modo que seus animais são tratados. " Da vã demografia surgem ruas e ruas e ruas, feito Mahatma Gandhi veias abertas pelas quais se drena o sangue e a vontade dos munícipes mais urbanos.). Por conta da insegurança crescente, da trafegabilidade intensa, dos riscos visíveis e invisíveis que espreitam a todos e a qualquer um, caminhar pelas ruas das cidades povoadas - a alusão aqui é pura ironia - é, por si só, uma grande empreitada. Quem se arrisca, vira petisco! Alvo desejável pelos que fazem das vias públicas um espaço para o esbulho, o desgabo, a cabronagem, entre outras formas insuspeitas de avançar sobre as posses alheias e o próprio alheio. Minha rua tem crianças / Que brincam sem cansar/ As crianças que aqui brincam /Não procuram outro lugar... com as devidas escusas pelos trocadilhos infiéis, a Canção do Exílio de Gonçalves Dias versificaria atualizada o fustigante exílio contemporâneo
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que a insegurança nos impõe. Fechar-nos para a rua é condição de sobrevivência e em nome dela, abortamos experiências que permitiriam sorvermos a solidariedade em doses altamente apreciáveis. Qual o paralelo entre as brincadeiras infantis e as ruas de nossas vidas? O espaço para a convivência segura! Presumivelmente segura, uma vez que o controle da vida só a ela própria pertence e a ninguém mais. Não é seguro conviver com demandas imprevisíveis e incontroláveis que exigem preparo e atenção constante. Mas enquanto as crianças crescem, munem-se do que as rodeiam para descobrir que não apenas os carros em alta velocidade oferecem perigo. Bom seria a gradação em níveis homeopáticos: uma lição a cada ciclo. Contudo, os acontecimentos atropelam a pedagogia da vida; poucos podem abrir a porta da frente e sentar-se nela. As crianças de minha rua privilegiam-se com um espaço construído a muitos olhos. À frente da porta vejo um grupo de pequenos cidadãos crescerem em brincadeiras e aprendizado. Com avidez, observo as cores tomarem as calçadas, as bolas - não mais de capotão - invadirem os jardins, os gritos ultrapassarem os saudáveis 90 decibéis. E tudo isso é mágico e alentador. Na rua que não é minha saboreio e participo do movimento das crianças para salvar um cão faminto, para juntar cobertas e aquecê-lo nas últimas noites frias. Para buscar alguém que o adote e ame. São as crianças que hoje mostram-me o quanto é sustentável conviver sobre os paralelepípedos urbanos, aceitando que nem todos os transeuntes são um perigo à segurança. Nem todos. O que nos rodeia agora, trouxe apenas algumas pulgas e muitos carrapatos. Nada que um bom banho não resolva. Melhor: as crianças já resolveram.

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O tempo
Por Soninha Porto O tempo é implacável, não deixa esquecer que as coisas passam, ai! E aquelas coisas que a gente quer que dure pra sempre? O primeiro salto-alto, o primeiro beijo, a primeira transa, o primeiro filho. O primeiro marido?! Este se bobear a gente leva tempo para esquecer, principalmente quando há filhos e uma pensão pra tratar. O tempo vai-e-vem, num desenrolar louco, basta parar um pouquinho, e pronto, tudo vai ficando pra trás e azar o teu se não souber viver, se não souber curtir e capturar a beleza destes momentos, vai pro espaço, sem dó. Ao mesmo tempo, falando em tempo, ele ajuda com coisas que a gente não quer nem lembrar, suaviza dores, porradas da vida que não tem como não levar, ou aquelas que a gente pede. Pais, amigos, conhecidos, que partem pra outros lugares e, também, para o infinito. Pessoas, coisas, pedaços que vamos deixando pelo caminho, perdas, derrotas, que batem duro, e quando, sem querer, lembramos, mesmo voltando a viver, são mais amenas, viram coisas do ontem. Julgo que tenho sorte de ser poeta. Posso viajar nos meus mundos internos usando uma lente que amplia o que vivi, e neste momento único, só meu, é quando passo uma peneira e deixo de lado o que não incomoda e cutuco a dor. Assim, quando o poema se forma e letras caem na tela do meu computador, deixo ali um pouco de mim, arranco o que sangrava até a última fibra e viro as páginas das tristezas, ânsias e mistérios construídos dentro do meu eu e adquiridos com o tempo. Graças por ser poeta! É o que me permite um olhar melhor sobre o tempo que deixei pra trás, posso viver mais em paz o meu presente e prosseguir minha viagem com uma carga mais leve.

Quero
Por Júlia Rego

Quero voar para os campos floridos, sentir o cheiro do mato, correr com as borboletas e cantar com os passarinhos. Quero molhar meus pés no riacho azul-claro e subir no pé de manga para pegar goiaba. Quero sentir o sol criança brincar em meu corpo e deixar o vento desmanchar meus cabelos. Quero deitar na relva macia e amar com o pôr do sol de testemunha. Quero, à noite, passear de mãos dadas com você e pedir que a lua cheia ilumine a nossa estrada. Quero te dizer um até amanhã cheio de amor e dormir entrelaçada numa rede preguiçosa. Quero ouvir os grilos fazendo sua orquestra noturna e despertar com um galo cantando. Quero que o despertar derrame sobre mim o desejo de começar tudo de novo com você.

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A BELEZA REFLORESCIDA

pécie de Ipês, cintila uma aura magnética de um brilho vivo e todo especial; chegando até mesmo, apreNOS PÉS DE IPÊS! sentar-se exótico. Devido à originalidade ímpar, da forma – como as copas floridas dos Ipês-Roxos, se Por Odenir Ferro apresentam destacadas, dentro dos muitos tons de verdes – que as copas de inumeráveis árvores outras, As árvores dos Ipês são árvores carregadas de sím- à sua volta, se contrastam. bolos carismáticos de encantadora beleza, ao irem-se florindo nos tons de rosas, brancos, amarelos, ou ro- Todas as árvores de Ipês, nas diferentes cores, gaxos, ou até mesmo em tons verdes, nas colinas ver- nham destaques nas suas floradas, embora os pés de dejantes desse nosso Brasil gigante. Árvores símbolo Ipês-roxos sejam ímpares – de uma significação vido País enfeitam os meses de julho e agosto, pré- sual de harmonia – exuberante e especial. anunciando a chegada da Primavera. - Árvores de madeira nobre não podem ser cortadas: - Eu me encanto com a profundidade da beleza que felizmente, graças a Deus! os pés de Ipês trazem nas suas floradas, para as paisagens que os cercam. A sua madeira é madeira de Lei! De valores nobres! Aliás, todas as composições das árvores dos pés de Ipês, são de procedências nobres! A mão da natureza abençoou de beleza a vida existencial dos pés de Ipês! No ano passado, eu tive a felicidade de acompanhar todos os ciclos de algumas delas. Seguindo a ordem cronológica, primeiro eu vi, no inverno, as folhas verdes tornarem-se – gradativamente, amarelecidas – para logo depois irem caindo, uma a uma.

Num determinado dia, eu peguei uma delas, queren- Eu estou procurando usar uma linguagem de tom do registrar aquele ínfimo e íntimo momento – de coloquial simples: sem os recursos de muitas metá- pleno aconchego harmonioso – entre todo o meu ser foras ou rimas poéticas – para, em tom descritivo –, e a natureza. procurar narrar de forma simples, objetiva e direta, a Então escrevi uns versos românticos, amorosos, simbeleza de uma árvore de classificação tão nobre, ples, e depois datei. quanto são as Árvores dos Ipês! E sendo final de agosto, já início de setembro, é tem- Guardo-a comigo até hoje! Está ressequida, mas a po de ver, observar, sentir, até tocar o delicado suave tinta da caneta esferográfica ainda está visível. de intensa beleza que emana da energia singela das Está à minha espera, para quando eu tiver inspiração, muitas flores que compõem – uma a uma – todas as escrever o poema romântico saído de uma folha resárvores de Ipês! sequida, caída de um pé de Ipê! As copas dos Ipês Amarelos enchem os olhos de ternura, devido à escancarada beleza que se deixa solta aos embalos dos ventos que as levam e trazem de um lado ao outro – dando aos pés, um balançar suave; aonde os ventos, como silenciosos contribuintes, vão se despetalando – uma a uma – todas as flores que compõem as copas amarelo-ouro das árvores. Deixando em torno de cada árvore, um tapete de pétalas douradas. Forrando o chão em sua volta, – numa grande amplitude circular – em torno de cada árvore. O mesmo acontece, com os Ipês Rosa e Ipês Brancos. Também, é claro, com os Ipês Roxos e demais. - Eu vi as folhas caírem, para depois ver as flores brotarem, florirem, embelezando todo o local. Depois, eu as vi – com os impulsos ululantes dos ventos – partirem, caírem no chão, formando imensos tapetes, para depois estragarem-se ao sol, se ressecando e depois, vivarem esterco para os pés vistosos, que ficavam naquele local. - Eu vi depois, ainda, num ininterrupto processo e rápido, em questão de dias sequenciados, formando algumas semanas, onde novas folhas foram brotando, moldando os tons de verdes claros para verdes musgos oliva, enquanto cresciam. E juntamente no meio delas, vi formarem-se várias, inúmeras vagens grandes – de quase um mesmo tom de verde oliva acinzentado – que depois, ressequidas pela forte exposição aos ventos e ao sol, começaram-se então, a

Desde a minha tenra infância, sempre ouvi os meus tios e tias, além de os meus pais, os meus avós, – comentarem ser –, o Ipê-Roxo, uma espécie de árvore mais rara ainda, do que as demais. E é! A cor roxa é uma cor especial: e nas pétalas das flores desta es- (Segue)
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racharem-se nas bordas laterais, onde dentro delas exibiram-se incontáveis sementes – envolvidas numa espécie de folhas brancas transparentes acetinadas, que na medida em que os ventos chacoalhavam os galhos, elas se iam, dançando, dançando, dançando, girando, girando no ar, dando muitos e muitos rodopios esparramando-se num campo de ação, num raio de vários e vários metros distantes da localização dos pés das árvores. Um verdadeiro espetáculo de gratificante beleza, que a natureza ofereceu e oferece todos os anos, onde as correntes de ventos se encarregam de transportarem as sementes para bem longe, com imensos potenciais de futuras novas mudas de árvores. Tudo isso, sem contar com os pássaros, que também contribuem, levando-as pelo bico. - Sendo árvores nobres, a natureza não comediu generosidades, para com essas magníficas e tão belas e exuberantes árvores.

ferentes – talvez, incompreensíveis por nós – e talvez, com um grau de pureza muito mais evoluído até, nos outros reinos da natureza, do que o nosso. Mas, voltando aos belos pés de Ipês, tem uma cena magnífica – que desejo aqui, registrá-la, retratá-la: - Num determinado dia, no mês de julho do ano passado, estando eu, numa sala de amplas janelas de vidro, após ter chovido e depois cessado, por volta do meio-dia, brancas nuvens reapareceram, enfeitando um céu azul – que pespontava tímidos raios solares, enquanto as miúdas gotinhas da forte e repentina chuva, ainda escorriam pela parte externa do vidro da janela que me divisava da parte externa do local, pois estava eu, na parte interna da sala. Entre eu e a janela, na janela que me divisava do belo cenário de lá de fora, enquanto as gotinhas desciam, subiam vagarosas, ágeis e graciosas “joaninhas” de asinhas vermelho telha alaranjado, com pintinhas pretas.

Olhando para a cena e vendo os ipês floridos balan- Eu pude observar que elas têm um relógio biológi- çando no plano de fundo, tive uma ilusão de óptica – co de precisão suíça. que me deu a impressão de que elas desejavam esta- Falando, ou melhor, escrevendo hoje, sobre essas rem transitando – nas flores dos pés de ipês! árvores, começo agora a recordar-me: no ano passa- Pressenti que se não fosse a placa de vidro, pois endo, para ser mais preciso, na segunda quinzena do quanto as gotinhas da chuva escorriam do lado de mês de julho, estava eu amoroso, comovido, poético, fora do vidro, elas subiam do lado interno do vidro, intenso, profundo, me deliciando com a sábia inteli- divisando os espetáculos que os meus olhos viam: gência viva e analítica e altamente científica do no- pois a placa de vidro, sendo invisível para elas, bre Cientista e Astrônomo Carl Sagan. Estava eu, transparentes para mim, enfim, se elas estivessem lendo o libro Bilhões e Bilhões, de autoria do mes- em livre trânsito pelo ar, estariam elas lá, com total e mo. sensível acesso as folhas e às floradas dos ipês, sa- De maneiras inconscientes, o meu Poema Cogni- boreando a natureza e as flores, expostas ao gélido ção (A Família Humana), já estava a caminho, se vento e aos tênues raios de sol, que nas copas das formando dentro das melhores emoções que habita- árvores, agora incidiam. vam dentro de mim. - O livro Bilhões e Bilhões, a natureza à minha volta, e os ciclos de vida das árvores dos pés de Ipês, foram às fontes de mais altas de qualificadas inspirações, para mim. E também Nino Chaninho, um gatinho de tristes olhos azuis vesguinhos, que tive o prazer de conviver com ele por cerca de uns seis meses. Já estava eu, no ano passado, terminando de ler Carl Sagan, pensando já, consciente, nos laços mais profundos dos processos Cognitivos que envolvem os mistérios da vida – quando pude sentir, definitivamente, que essa Cognição não atua somente dentro da Humanidade – mas sim, dentro de todos os Reinos da Natureza, embora com linhas Cognitivas diwww.varaldobrasil.com 112

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SOB A FACE

TIPOS DE FOTOGRAFIAS
Por Débora Moreno

Por Basilina Pereira

Tu és o que pensas e não o que aparentas. Guarda o delírio que te persegue e na voragem da tua alma que vaga, planta tua busca no veio da intuição. Dela poderás colher o abismo ou a alvorada. No abismo, verás o medo e a tua própria face, aquela que se esconde do espelho. No alvorecer, que desafia a esfera do homem, verás o reflexo da luz, os perigos do horizonte, mas chegarás ao outro lado onde a tua imagem não mais te negará. E quando renasceres sobre teu próprio passo serás a centelha e a essência do que és e não vês.

A mulher que vai a luta, conquista, Disputa e faz juras de amor O trabalho, A gravidez, O enjoo, Os filhos, A raiva, A dor, Sabe sorrir, Vai embora e ver partir. Traz no coração a força para não desistir. Olhar intuitivo de abrigo definido. Feliz é aquela que descobre a importância de maquiar-se no espelho interior e enxergar a grande mulher que é. A explosiva, ás vezes a vida pra ela foi dolorida. A que sabe sorrir disfarçando a dor. A que descobre o pote de ouro no arco-íris multicor. A que escuta: "Não tenho tempo agora e chora". A que ver o filho partir pra não mais voltar mesmo sabendo que perto dela é o seu lugar. A que ver o filho mudar de endereço e saber que tudo tem um preço. A que carrega o filho adulto no colo Sem reclamar o peso, pois o carrega com a força do coração E quando as pessoas a olham tiram disso uma sublime lição. A que faz os dois papéis (pai e mãe) Sabendo que a verdadeira razão da fé, vem do céu! Este é o grande troféu! A que não dorme enquanto o filho em casa não chega, A que traz no coração a felicidade que tanto almeja. A que sabe o quanto é amada dentro de casa, A que não precisa disfarçar a dor, pois recebe da família e dos amigos muito amor. A que quase sempre é trocada num dia de sol, pelo futebol. A mulher que olha no espelho do tempo e conta até três. A que não tem medo de começar tudo outra vez A que ouve as palavras: Não, sim e talvez e até três. A que ouve o perdão sem restrição na cela de uma prisão. A que dá um basta e se valoriza pelo o que é. Esta é a mulher.

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ESSE CARA PODE SER VOCÊ!
Por Juliana Andreotti “Uma coisa que até agora não entrou na minha cabeça é como a mulherada MODERNA está delirando tanto com a velha música “Esse cara sou eu” do tão aclamado Rei Roberto. Que fique muito claro que não estou questionando toda a soberania do cantor no assunto MPB. Eu praticamente cresci (ok, não cresci TANTO, mas esse assunto não está em pauta!) ouvindo “Como vai você”, entre outros, junto ao LP empoeirado de minha mãe - grande entusiasta da causa - e aprendi a gostar do som que era manipulado em meus tímpanos. Então vem a Globo com mais uma soap opera improdutiva e lança a velha guarda do Rei como tema romântico de um casal que todo mundo sabe que vai ficar junto e viver feliz para sempre. Eu não assisto novela, com exceção de casos onde tenho que interagir socialmente com pessoas que estão com a Globo conectada no fatídico horário nobre. Então após meses e meses do Hits ser relançado eu fui obrigada a ouvir a tão aclamada música “Esse cara sou eu”. JURO, mas JURO do fundo do meu coraçãozinho poeta que ainda acredita no amor e no príncipe encantado, que não compreendi o motivo do sucesso da tal música. Pra começo de conversa, a melodia é nauseante. Pra segundo começo de conversa, a melodia não é melodia. Pra terceiro começo de conversa, gentiiiii, que porra de letra de música é essa? Como eu estava ocupada demais em detestar a melodia da música, não prestei tanta atenção na letra em si. Então graças ao meu best friend Google fiz uma busca e encontrei a letra da música em um site. WTF?! Podem me chamar do que quiser. Lá no fundo eu sou uma menininha que acredita um dia conseguir encontrar um príncipe banguela, vesgo, levemente corcunda, com muita sorte! Mas admitir ou reconhecer que existe um cara assim é querer forçar a amizade, colega! “Ahhhh Juliana você não sabe do que está falando pq vc nunca encontrou um cara assim. Meu namorado/marido é perfeito igual o cara da música”. “Bom, amiga, sorte a sua! Só procure um psicólogo talvez, por que esse cara não é real”. O príncipe moderno é malandro. Ele fala que te ama, mas vai ser a causa do seu choro. Ele abre a porta do carro pra você, mas fecha a porta do coração. Ele pensa todas as noites em você...... melhor não, Juliana! Ele é seu melhor amigo, então não confie nele pois ele vai usar seus segredos contra você. Ele estará do seu lado pro que der e vier, até que você não invada o espaço dele. Ele ama você do seu jeito, mas se você mudasse para o jeito que ele quer, ele amaria milhões de vezes mais. O cara cafajeste Vinícius de Moraes. O cara errado de Luis Fernando Veríssimo. O “sou foda” da música do Pente.... ESSE CARA sim PODE SER VOCÊ!”

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A TRANSFORMAÇÃO

Por Mário Rezende

Alex levantou-se da cama na hora de costume. Como sempre, com uma vontade terrível de urinar. Foi cambaleando para o banheiro, estava se sentindo meio enjoado. Como fazia todos os dias, esvaziava a bexiga e depois ia preparar o café para ajudar a despertar. Abaixou a calcinha até o meio das pernas. Sentou no vaso e cortou um pedaço de papel higiênico, dobrou três vezes para não molhar a ponta dos dedos. Enxugou-se e depois levantou-se do vaso e desenrodilhou a calci... Calcinha! Despertou de vez, quando reparou na peça íntima e nos seios pontudos que não estavam ali quando foi dormir. Com o coração acelerado, virouse para o espelho sobre a pia para verificar se era ele mesmo. Viu a imagem de uma mulher com os seios empinados, dois botões imensos, iguais ao da garota que tinha visto no filme na noite anterior, um espetáculo! Os cabelos cacheados pendentes até o ombro, os olhos azuis, a boca pequena, lábios bem desenhados. Passou a mão no peito e ela passou a mão nos seios, olhou para baixo e constatou que não tinha mais o pênis. Seu companheiro desde que nasceu tinha se transformado num bem desenhado órgão genital feminino. Virou de lado para examinar o bumbum... Perfeito! A garota do espelho fez o mesmo. Abriu a porta do banheiro para conferir o quarto. Sem dúvida era o dele. Não estava entendendo nada. Tinha virado mulher. “E agora, o que eu vou fazer? Onde eu arrumei esta calcinha?”- Pensou. Foi para o quarto e examinou-se de novo: os seios, o púbis - aparadinho. O sexo estava ali, bem diferente do que tinha antes de dormir. O corpo livre de pelos e a pele macia... “Nada mal! Nada mal uma ova! Nunca fui mulher na vida, nem no carnaval. Não tenho experiência nenhuma. O que eu vou dizer pros meus amigos? Abandonar o emprego? Não poderia chegar lá no Banco e falar pro gerente: Olha, eu sou o Alex! Não sei o que aconteceu, mas eu virei mulher. Provavelmente ele iria gostar. Metido a garanhão do jeito que ele é...O que é que eu vou fazer? Caracas! Ligar pra Marcela? Pedir a ela pra vir aqui? Naturalmente foi praga da mãe dela, minha sogra, aquela jararaca. Pode até ter encomendado um trabalho. Eu estou com um problemão meu

Deus! O que é que eu faço?” Abriu a gaveta do armário do banheiro: escovas de cabelo, batons, coisas de mulher. Correu para o quarto abriu o guarda-roupa. Suas calças e camisas se transformaram em vestidos, as cuecas em calcinhas, diversos modelos, cores e padrões, vermelhas, brancas, com florezinhas... Abriu a gaveta de meias. Adivinhe! Femininas, lógico. Abriu a sapateira. Não deu outra, um festival de sandálias e botas. Tinha um par de pantufas rosa ao pé da cama. Ficou desesperado. Ligou para a Marcela, mas foi um homem quem atendeu. Falou que lá não morava nenhuma Marcela e ele queria dormir. “Devo ter teclado errado” – pensou. Ligou de novo. “Sinto muito, mas a senhora ligou errado de novo, justamente quando eu estava pegando no sono. Vou deixar o telefone fora do gancho”– disse o interlocutor. “Ele disse senhora? Que desaforo!”- esbravejou. Ligou de novo. Ocupado. Sentou na beirada da cama, nu, nua. Já estava totalmente confuso. Lembrou de olhar no cesto de roupas para lavar. Na certa estariam lá as cuecas e as camisas que ainda não tinha lavado. Levantou a tampa, calcinhas enroladas, blusas, sutiãs... Foi andando desolado para a sala e abriu a janela para respirar ar fresco para ver se acalmava. Deu de cara com a senhora que morava no apartamento em frente que, simpática, lhe desejava bom dia todas as manhãs. A velha arregalou tanto os olhos que quase lhe saltaram das órbitas. Então, ele se deu conta que estava sem roupas e que agora tinha seios. Cobriu-os com a mão e o braço esquerdos. Deu um gritinho que só serviu para deixá-lo mais preocupado ainda e fechou rapidamente as cortinas com a mão direita. Sentou-se muito confuso no sofá da sala, pensando no que poderia fazer. Acordou uma hora mais tarde com o barulho infernal do trânsito na rua. Estava nu e muito atrasado. Não dava tempo para fazer café, nem tomar banho. Enfiou uma cueca que estava por cima, na gaveta, a calça, a primeira camisa que alcançou no armário, pegou uma maçã na geladeira e saiu correndo, feliz da vida porque era homem de novo. Tivera um sonho terrível, um pesadelo.

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Teófilo Brás, o Torcedor Brasileiro mais Azarado do Mundo
em...

A Copa é no Brasil, dá pra ir de carro ao estádio!
Por Ana Esther No Café Seleção Brasileira, o tradicional local de encontro dos amigos, o Teófilo Brás está muito agitado hoje. Juju e Zequinha tentam acalmá-lo, mas está difícil. “Bah, tive outro sonho daqueles!” “Calma, TB, conta aí, como foi dessa vez, cara!” Zequinha suspira, olha para a Juju e toma um gole de café. “É dia de jogo do Brasil, eu na maior das alegrias pronto para ir ao estádio, a Copa é no nosso quintal!!! Pego o meu ingresso, vou para a garagem, pego o meu carro e lá me toco para o estádio...” “Mas tu não tens carro, TB???” Juju olha do TB para o Zequinha com cara de ponto de interrogação. “Pô, Juju, no sonho eu tenho, né! Bom, aí, estou bem faceiro indo pela avenida em direção ao estádio, nada me impede de chegar lá, finalmente vou realizar o meu sonho de assistir um jogo de Copa do Mundo! Ver o Felipão e todos os jogadores ali na minha frente!” “Dessa vez vai!” Zequinha vibra com o amigo. “Que nada... o sonho de repente virou pesadelo... a avenida ficou lotada de carros, ônibus, táxis, motos, bicicletas, carroças e até skates! Todo mundo indo na mesma direção e formando um baita engarrafamento de vários quilômetros que não dava vazão para o trânsito e eu ali paradão, no meu carro, desesperado, vendo as horas passarem! Eu, com o ingresso na mão e perdi o jogo! É demais pra mim...” Teófilo Brás segurava a cabeça com as duas mãos. “Calma, TB, isso é só um sonho. Até a Copa chegar os problemas de mobilidade urbana já estarão todos resolvidos!” Juju tentou levantar o astral do TB. “Será mesmo?” O TB sacode a cabeça, aflito. Na TV do Café Seleção Brasileira uma voz grita: “Viva o torcedor brasileiro!!!!”

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O Urso chorão...
Por Marlene B. Cerviglieri Eram três ursinhos lindos e saudáveis. Dava gosto ver os três rolando a campina verde na imensa floresta. Todos os animais procuravam sua alimentação durante a manhã logo bem cedinho. O riacho que corria no meio da campina era muito grande de uma água muito límpida, se via o fundo nitidamente. Eu não gostava muito quando as onças vinham beber água, pois pareciam dóceis, mas certo arrepio passava por mim quando as via. Gostava mesmo era da família dos macacos que sempre estavam na maior das alegrias. Qualquer graveto ou folhinha já era motivo para brincadeira. Os pássaros então voavam nas árvores altas, mas desciam também para o solo a fim de ciscarem e às vezes tomar banho. Os jacarés já viviam dentro da lagoa atrás do penhasco. Era um lugar sombrio que eu também não gostava muito. Todo cuidado por ali era pouco, apesar de reinar certa harmonia entre todos os animais. Mas o que estava incomodando ultimamente era o Urso chorão... Os três irmãos brincavam ali perto de minha árvore favorita e sempre podia observá-los. O que será que acontece para que ele chore o tempo todo? Resolvi que iria observá-lo bem atentamente.

E assim fiquei de prontidão em cima da árvore. Lá chegaram os três, eram tão iguais que só percebi o chorão porque começou a chorar. Foi então que ouvi a mamãe Ursa dizer aos outros: -Deixe que ele chore logo ele vai parar. Mas o Ursinho chorava e gritava também. Então um de seus irmãos chegou até ele e disse; Meu irmãozinho você quer brincar comigo? Não houve resposta. -Então o Urso chegou até ele novamente e estendeu-lhe folhinhas e disse-lhe: Quer ficar com elas? -Não houve resposta. Assim meio como quem não quer nada o outro irmão tentou se comunicar com o chorão. Ei, vamos brincar de correr para achar formigueiro? -Não houve resposta. Sendo assim os dois voltaram para seus folguedos e deixaram o chorão como a mãe havia dito. Foi então que esta chegou até o filho e sentou -se ao seu lado. -Meu querido filhinho, e abraçou-o com carinho. Mamãe vai contar uma história bem bonita para você. Devagar ele foi parando de chorar e ficou só soluçando. Vendo esta cena fiquei intrigada... Voei para bem alto onde estavam meus pais e perguntei; -Porque, porque ele age assim? Chora não ouve nem os irmãos, ele é muito diferente. Foi quando minha mamãe me disse; Filho, nem todos são iguais há muitas diferenças. Você já imaginou se todos fossem iguais? Seria um desastre... Cada um tem seu dom, sua inteligência seu modo de ser. Ele é um especial e muito feliz. Muito feliz disse eu. (Segue)
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-É muito feliz porque ele tem o amor da família. Talvez ele ainda não perceba, mas é amado. Volte para baixo creio que agora ele não estará mais chorando ou soluçando. Voei para baixo e fiquei olhando novamente. Agora estavam todos em volta dele falando e rindo. Que coisa estranha ele parou mesmo de chorar, mas parece que está em outro mundo. Do meu lado mamãe disse; e está mesmo, meu filho. Mas o carinho e o amor da família dele logo o trarão para cá, a fim de que ele possa ter vida própria. Quanta sabedoria vinha de minha mamãe, transformando coisas tão difíceis de eu entender em simples fatos. Gostaria que você fosse a mamãe dele também. Não meu filho cada um tem sua família e ele pertence a ela. São lições de vida que aprendi ao longo do tempo e até hoje ainda aprendo no dia-a-dia. A floresta continua calma aparentemente com todos os seus perigos ocultos e eu aqui da minha árvore espreito tudo para, cada vez saber mais. Humanos... Olha gente, que coruja linda lá em cima! Símbolo da Sabedoria não é mesmo? É o que dizem. Fiquei contente então é assim, é? Exato meu filho você também é um ser especial, todos nós somos, Filhos de Deus.

A LUZ DO DIA
Por Jacqueline Aisenman

Antes de cada noite ainda será dia e mesmo a tarde ainda será dia... e mesmo se o sol estiver no berço amável das nuvens ainda será dia. Há esperança no dia. A bonança do dia... mesmo após a tempestade mesmo após o açoite do vento no dia há a luz brilhante luz cinzenta luz tão branca luz a luz do dia... doce esperança da luz do dia! Imagem by elise enchanted

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O Ventre Vazio
...a certeza de jamais conceber-te Por Ediane Souza Eu te esperei a vida inteira, sonhei contigo, te desejei, sem mesmo ter-te, até, te amei. Eu te busquei por todos os cantos, sobrevivi a cada desencanto, por ti sempre esperei. Eu quis a ti dedicar a minha vida, ansiei ficar acordada por horas perdidas velando o sono teu. Eu fui até o infinito, preparei meu traje mais bonito, quis te embalar no colo meu. Sempre foste meu sonho escondido, meu presente mais bonito, meu projeto de vida. Não te ter comigo deixa meu peito sofrido, cala meu grito escondido, é a dor mais doída. Em meus delírios, ensaiei para ti uma cantiga, nanei teu sono, meu abraço a ti ofertei. Na madrugada troquei tuas vestes, um sorriso me deste, teu choro dengoso acalentei. Ora te via sorrindo, imaginava-te um menino, saldável, astuto, correndo lépido e fagueiro. Encantava-me por te sentir menina, com laços cor-de-rosa, seguindo meus passos o dia inteiro. Por vezes queria os dois, de uma única tacada, nascidos sem hora marcada, bem assim. Queria a surpresa da chegada, numa noite iluminada, como gotas de orvalho caindo em mim. Meu sonho é cada dia mais distante, brilha ao longe como diamante, talvez a mim não pertença. Desesperanço em tê-lo, de que adianta meu desvelo se nisto não mais tenho crença? Sinto-me murcha por dentro, um doloroso lamento, uma saudade do que não vivi. Uma tristeza que nunca sara, o ventre vazio que me desampara, o ser que não concebi.

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NÓS MULHERES EM UM TEMPO DE TRANSIÇÃO Por Nélida Nunes Cardoso

O arquétipo político da atualidade está sendo imputado da seguinte forma, nos textos virtuais: Apodrecimento moral Banditismo no crime organizado

Nos interessamos e decodificamos modalidades textuais. Estamos habilitadas para gerenciar pareceres, os quais despertam curiosidades aos ávidos pelo saber. Iremos discorrer sobre um determinado foco de leituras, oriundas das redes sociais. Desdobraremos com sutileza aos escritos originários virtuais. Navegaremos com as imagens textuais oferecidas, esperamos não exaurir nossa busca reflexiva e sim deixar em aberto lacunas para futuras investiduras.

Comunismo marginal no Poder Conflito de interesses Falcatruas contábeis Farra politica Guerrilheiros de elite Subversão comunista no poder Totalitarismo ideológico marginal... Pelos motivos expostos, entre outros delitos, o Estado Democrático de Direito, propõe a substituição da Política Atual pelo Modelo: “Econômico Traba-

Assim capacitadas, entregaremos ao leitor, nossa lhista Educacional”. ocupação intelectual. Como o eleitor percebe; as explanações divulgadas

Para tanto delinearemos ao longo do texto, a repre- nas redes; são de valores pedagógicos exultantes, sentação da Mulher como: “Identificação de DEUS não difundidas pela Imprensa. em seu processo Criador” e a ela nos reportaremos. Há vista, está intrínseco em nós a maternidade, por esta razão aprendemos desde tenra idade nos doar em amor. Tem mais... As decisões forenses de qualquer esfera que tenham por objetivo, reencaminhamentos de conduta por coação legal, têm como garantia de execução na for-

Brasileiras, estudiosas, aptas para o voto e inseridas ça bélica. no mercado de trabalho não sabemos bem o lugar o qual ocupamos, no Sistema Vigente. Por sermos geradoras de vidas! Estamos nos sentindo temerosas. A Cúpula do Regime instaurado nas entranhas do Pudera! Ao que indica os escritos, das redes sociais, a Nação Brasileira está sofrendo disparates. São delações de cunho político, nas quais estão introduzidas: “Crise Institucional de Estado, instalada na Cúpula do Regime Brasileiro e o Poder Constituinte objetiva a Unificação da Nação com a troca do Modelo Político Operante. No entanto, na qualidade que nos compete, somos fonte inesgotável de vida, natural se esvair de nós; misericórdia! (Segue)
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O termo: “força bélica” nos acabrunha!

Brasil está se esfacelando? Nos apropriamos do léxico “entranhas”. Por não ser da nossa propensão natural deglutir despautérios. São temáticas fundas, profundas...

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Dotadas com tais atributos. Óbvio, não iremos sub- ARCAL mergir num rio de lama, turvo e revolto. Identificada como nascedouro da “Era Aberta”,

Objetivamos, emergir sim, lá onde existe - Água determinada como o Tempo da MULHER. Cristalina em Campo Florido. Mas, para que tal fato ocorra, precisaremos moldar nossa autoridade moral e posicionarmos como MULHER EM SEU PEDESTAL DE DEUSA. Assim feito, apaziguar nosso ímpeto inerente. Afinal, as mulheres são personificadoras da emoção e Serpentes com atributos da razão e esta dicotomia se imbricam formando uma simbiose internalizada e externalizada. Logo, nossa composição emoção X sensorial do ser é latente. Estamos sofrendo certo estranhamento! Então, buscamos nos escritos virtuais dados capazes de aquietar nossos rompantes: “A Constituição da República está aparelhada pelo Estado Democrático de Direito do foro de Soberania operada pela Magistratura de Estado composta do Foro Mandatário Transitório, Constitucional e do Foro de Caserna Constituinte. Formando a Instituição da Presidência da República, que embute as Políticas do Comando Supremo e Autoridade Suprema.” 01/Junho/2013. O texto virtual na data exposta, acalenta nossas inquietações. E agora, em conformidade, com as vozes oriundas da massa populacional, enfim, a juventude acorda o “Gigante pela própria natureza”. E as jovens MULHERES, se destacam nas manifestações pacíficas pelo espírito de liderança. Afinal! A MULHER é merecedora do entendimento na árvore cósmica da vida. Revestida de ternura, a Mãe Sábia se descortina. E resplandece A NOVA CIVILIZAÇÃO MATRIwww.varaldobrasil.com 121

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Na venda do velho imigrante
Por Nilza Amaral Souza

Todos os sábados à tarde, o espetáculo acontece. O homem montado ao contrário no pangaré mambembe, agarrado ao rabo do animal, sai pelas ruas do vilarejo, na demonstração gratuita aos poucos passantes que param para um momento de riso. Porém, absortos em seus afazeres, retomam seu caminho, sem atinar porquê aquele caipira de alpargatas, calça rancheira e chapéu de palha, atravessa o vilarejo todos os sábados à tarde, fazendo as palhaçadas em cima daquela égua magra. O ponto de partida e de chegada do caipira montador, é a venda do velho imigrante __ cheio de nostalgia de sua Veneza, das gôndolas e do cheiro do mar, da sua terra natal da qual fugira devido à inundação que quase engolira a ilha no ano dezoito. O velho cobra caro pelo gole de cachaça ofertado aos fregueses de fim de semana, os sitiantes que vêm comprar suas mercadorias para abastecer seus sítios. A cobrança é em performance, não em dinheiro. É o ônus pela felicidade que tem essa gente humilde de poder permanecer em seu país, ignorantes às ameaças políticas ou catástrofes da natureza. Depois do quarto ou quinto gole de fernéte, ou no terceiro copo de cachaça, o sitiante faz a vontade do dono da venda, e distrai sua cabeça dos pensamentos da terra de origem, bancando o palhaço de circo, enquanto sua mulher de pele curtida pelo sol da lavoura, com as roupas domingueiras, meias soquetes com os canos comidos pelas alpargatas, espera pelo final do espetáculo de cabeça baixa e olhos fixos no chão. Cada vez que o marido passa agarrado ao rabo do cavalo, imitando os cavaleiros de rodeio, puxando a rédea, fazendo empinar a bunda do animal que relincha de dor a cada puxão do freio, disparando coices para todos os lados, a mulher estampa na face um riso amarelo e insosso. Não é um riso de vergonha ou de opressão. Talvez um amuo de humildade. O sitiante, consciente de sua responsabilidade de bêbado, com uma das mãos agarrada ao rabo do animal e a outra à crina, ao chegar à porta da venda faz evoluções arriscadas terminando o espetáculo invariavelmente com uma queda espetacular. As evoluções despertam o riso adormecido do velho vendeiro, e tudo se finda sempre com a internação do sitiante na santa casa do lugar, o único hospital disponível. Então se dando por satisfeito, o vendeiro enxota a mulher

com as suas mercadorias, ¨xô, xô, xô, vada via,vada via¨. Ela atrela o cavalo velho à carroça das compras e vai providenciar os cuidados médicos para o marido. O vendeiro descarrega a sua infelicidade nos sitiantes e estes usufruem a bebida do vendeiro. Pode-se classificar essa relação como uma relação politicamente amistosa entre duas raças. Depois da apresentação insólita, o velho e o cônsul __ também oriundi __ sentam-se sobre os sacos de batatas à porta do armazém e relembram passagens da terra natal, carregados de emoção, sentimento e saudade. __ Alora sono um vecchio, non torno piu, desabafa o vendeiro.__ É, somos velhos meu amigo, jamais voltaremos, arremata o cônsul. Muitas vezes as palavras são substituídas por longos silêncios e sentidos suspiros, logo suplantados pelos comentários sobre os patrícios recém chegados, pelos apartes sobre a riqueza dos mais antigos lá na capital. ¨Temos até políticos¨, ¨temos o paisano dos museus¨, e a conversa sempre termina com os elogios do cônsul ao amigo vendeiro afirmando que este conseguira um pouco do poder da vila, pois afinal é dono dos prédios da prefeitura, da igreja, e da gleba do cemitério. __ Mas falta reconhecimento, diz o vendeiro, reconhecimento. __Reconhecimento e o cheiro do mar, completa o cônsul. Mais tarde, quando a noite cai e o cônsul se retira, ele recolhe das portas os sacos de estopas de mantimentos, e aí sim, uma pontinha de remorso pela humilhação imposta aos fregueses simplórios, pica-lhe o coração, mas somente por segundos, logo volta toda a inveja pelos nativos da terra e ele sorri feliz pensando nas palhaçadas fazem por um copo de aguardente. Então engole seu fernéte, coloca no velho toca-discos suas óperas italianas, principalmente, a Tosca, e noite sim noite não, toma seu banho quente. Giulia, a mulher do vendeiro, procura a sua terra natal todos os dias pelas ruas da cidadela Não sabe quem é, ou quem foi. O espelho lhe mostra uma figura que ela não reconhece: uma bruxa gorda de cabelos brancos. Ela procura pela sua antiga imagem: a bela italiana de pernas grossas e cintura fina. Toda a manhã, depois de tomar o desjejum feito pela empregada, percorre quilômetros em busca da casa de seus pais e de sua identidade.

(Segue)

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Pára horas, defronte o riacho que divide o lugar, achando que aquele é o Tibere de sua Roma, senta-se sob uma árvore e conversa muito com formigas, ratazanas, borboletas, conta-lhes fatos passados, de como sente falta da sua verdadeira vida que ela não mais sabe onde está. Volta sempre em segurança pelas mãos de algum morador já ciente das suas andanças infrutíferas, para o seu velho marido.Este a olha ternamente, acaricia seus cabelos brancos e compridos enrolados num grande ¨birote¨, e a conduz com cuidado à cadeira de espaldar alto, ¨o trono de minha rainha¨ ignorando o riso abobalhado da mulher que o contempla insegura. Passa a noite ouvindo suas óperas até o sono bater forte. Então, o velho conduz a mulher até o seu quarto e coloca o terço entre seus dedos trêmulos. E ela, fica ali, tentando lembrar o que se faz com aquela fileira de contas que todas as noites o homem que se diz seu marido, enrola em suas mãos, dizendo ¨reze, reze, para recobrar a memória¨. Ajoelhada ante a imagem da santa, ela passa as horas, sem saber se é noite ou dia, até que sentindo dor nas pernas, joga-se na cama. Porém, um toque de magia se instala nessa noite surpreendente. Ela não se joga na cama quando vem o cansaço. Fica ali, extenuada, as pernas doendo, os olhos ardendo, apertando aquelas contas, querendo extrair delas a sua significação. Ele apronta tudo para o ritual do banho, esquentando as roupas e a toalha na chapa do fogão elétrico, preparando o copo duplo de fernéte, abrindo ao máximo a água da torneira da banheira, amarelada e antiga, até a fumaça da água quente inundar o banheiro e a cozinha contígua. Então mergulha seu corpo velho e dolorido na água relaxante, e fica horas submerso, bebericando o fernéte, perdido nas recordações no meio a fumaça abundante, pedindo a Deus que lhe dê uma morte sem a dor da vida. Nessa noite, diferente das outras, um aroma de mar, invade o quarto. Ele liga o seu rádio Galena, uma relíquia. trazida da terra natal e que funciona quando a sorte ajuda. Entre chiados e interrupções ouve o locutor dizer: ¨ a escória dos países estrangeiros está invadindo o país, os imigrantes, escorraçados de sua pátria de origem, vêm dar com os costados em nossa terra trazendo na bagagem crimes sem punição e costumes inferiores¨. O velho imigrante que não fora criminoso no seu país, e crescera ouvindo seu pai cantar óperas, dá um murro no rádio que para sua sorte

em vez de cair na água se estraçalha na porta do banheiro, causando um barulho infernal no recinto silencioso e fechado. Infeliz, o velho dobra a dose do fernéte. E mergulha de cabeça na água tépida, inunda-se de um estranho odor de maresia, e permanece ali um longo tempo.Tempo suficiente para perceber estranhos ruídos de carroça, alarido de vozes, som abafado de bate-estacas, gente se instalando..Ante seus olhos abrem-se imagens futuristas de ruas se formando, vilas aumentando, grandes fazendas se compondo, o dinheiro surgindo. Ainda mergulhado na água assiste as imagens se sobrepondo, a prosperidade chegando, banqueiros se alojando. As cenas persistem, e ele reconhece seus conterrâneos contribuindo para o crescimento da cidade, um deles o que até fundara museus, trouxera exposições de todo o mundo para esse país que os acolhera como a escória, nada diferente do modo que haviam recebido os escravos da África.A água amorna-lhe o corpo, relaxa -lhe os sentidos, e ele se revê jovem, esperançoso, casando-se com sua Giulia, aumentando sua família, doze filhos brasileiros, que são marceneiros, alfaiates, comerciantes, e contribuem com seus esforços para a riqueza da nação. O filme de sua vida passa ante os seus olhos até o momento em que sentindo uma dor lancinante no peito ele os fecha para sempre. No seu quarto, Giliua ainda tenta descobrir para o quê servem as continhas enfileiradas. Então sem mais nem menos as palavras da oração brotam-lhe do cérebro e saem pelos lábios e ela recita a Ave Maria com devoção, sentindo umedecerem-se os seus olhos e os da imagem de Nossa Senhora, umidade essa que se transformando em lágrimas de felicidade, encharcam o chão ladrilhado de vermelho. De repente, as palavras esquecidas no fundo da memória aparecem aos borbotões, faíscas de lembranças da sua terra natal, do navio que a trouxera ao país estrangeiro, do marido que tanto ama, de seus filhos. Mal acreditando na graça recebida, reza fervorosamente, todas as orações que sua família italiana orava unida. E então sim, o anseio de tantas recordações é demais para o seu coração. Abraçada à imagem, ali permanece estática, até que o aroma da água do seu rio italiano predominante no ar, cesse por completo. O estalido do rádio quebrando-se contra a porta volta no tempo nessa noite mágica e o barulho agora ensurdecedor, estremece a casa, entorna a água do banho, que se junta às lágrimas (Segue)

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de Giulia e às da santa, inundam a casa, transportam a banheira pelos cômodos todo, pára no quarto de Giulia, recolhe-a e a imagem da santa, em seu bojo, juntamente com o corpo passivo de Giuseppe. Aquele barco improvisado navegando nas águas salgadas das lágrimas misturadas à água doce da banheira, serve-lhes de leito.Ao amanhecer, os filhos chegam com uma surpresa para os pais. E encontram o casal inerte, com um riso de felicidade estampado nas faces, mais a imagem da santa vertendo lágrimas, boiando na banheira antiga na casa inundada. Não estranham o acontecido, afinal ainda perdura a mágica do tempo. São enterrados, em um grande ataúde, dignos de um imigrante que gosta de óperas. A imagem da santa vertendo lágrimas é colocada sobre o túmulo. Como homenagem ao vendeiro, os sitiantes chegam, embebedam-se com aguardente, e seguem o féretro fazendo as habituais palhaçadas sobre os seus pangarés, diante dos olhares das mulheres de pele curtida ao sol da lavoura, orgulhosas de poderem contribuir para a regozijo do acontecimento. Dessa vez os passantes param para prestar a última homenagem ao casal que se fora, e reverenciar-se aos pés da imagem da santa que chora. A pedra de mármore, a surpresa que não chegou a tempo, serve como lápide, e nela se lê: ¨A Câmara Municipal homenageia o senhor Giuseppe Ancona e família, e os considera cidadãos brasileiros em reconhecimento por haverem contribuído para o progresso da cidade.¨ O último a se retirar é o cônsul italiano, abatido e desapontado. Afinal o pedido feito à Câmara dos Vereadores não fora atendido em tempo útil. Ao acariciar a lápide com saudade, um odor de maresia penetra-lhe as narinas, os botões de rosa recém plantados abrem-se em flor, ao mesmo tempo em que uma grande paz acalma o seu coração. Passando pelo portão de ferro, não resiste à saudade e vira-se para um último olhar. E dessa vez lá estão Giuseppe e Giulia abraçados sobre a lápide do túmulo. Acenando daquela distância, o casal lhe parece extremamente jovem. Ainda perdura o estranho toque de magia. Nunca a nostalgia da pátria doera tanto no coração de um cônsul.

Inventei manhãs

Por Maria João Saraiva

Perdi-me no avesso das tuas palavras… O silêncio da minha solidão é azul um azul sem fim, um azul de jasmim, de rostos límpidos que sei, mas nunca vi de murmúrios que não vestem, mas adormecem nas páginas aguadas de tormentas inquietas E inventei manhãs, lugares inabitados, impossíveis, onde os teus tempos são claros, onde o eco do que não dizes entoa o voo dos pássaros do sul e onde me poderei enfim encontrar na ternura morna do teu rosto – um mar de searas que principiou, amanheceu, na minha mão

Menção Honrosa no I Prêmio Varal do Brasil de Literatura
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QUE DANÇA É ESSA? Dalila Lubiana

Que dança é essa que inebria e desliza ao longo das eras, nos desertos áridos, nas montanhas íngremes e nos vales sem fim? Que dança é essa que se abandona no chão, encaminha os pés e eleva o ser? Que dança é essa que rodopia na bruma, viaja nas nuvens e acalenta a dor? Que dança é essa que encanta transeuntes e se deixa admirar? Que dança é essa que não se cansa de dançar, que espreita a tristeza e deságua na alegria? Que dança é essa, plena de si mesma, de riso... e saber? Que dança é essa que dança a si mesma, livre por si só, sem se deixar apegar? Que dança é essa que vence distâncias, aproxima corações, acende luz e, faz brilhar? Que dança é essa que acolhe e encanta, recebe e doa, inocenta ... sem se alarmar? Que dança é essa que cura feridas, segue suave e faz o milagre? Que dança é essa, presente no silêncio, na pulsação, nas entranhas e no ar? Que dança é essa que penetra a alma, abre corações e explode em se dar? Que dança é essa que faz nascer e crescer, transmutar e morrer, e viver em esplendor? Que dança é essa que eleva, enaltece sem nunca se cansar? Que dança é essa sem nome e sem cor, sem forma nem odor, sem sombra nem sabor, sem tempo nem hora, sem som e sem pudor? Que dança é essa que não esgota nem finda, quanto mais se dança, mais dança há? Que dança é essa?... Essa dança é criança, é anciã, é feminino-masculino... menina-menino... moça-rapaz... senhorasenhor... Em síntese: é a dança do AMOR.

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O Macaco da Ilha
Por Raquel Sá
“Na minha matéria anterior os leitores do varal ficaram conhecendo um cara super bacana. Um cara tipo aventureiro, que não tem medo de arriscar. Falo do macaco Raul Casquilho. Quem não o recorda? Raulzito (apelido carinhoso dado por mim) é inesquecível! É o tipo do cara cativador. Agora vou aqui registrar sua origem”. Essa história aconteceu há bastante tempo. Os portugueses ainda nem tinham nos descoberto e o Brasil era habitado por índios guaranis que falavam a língua tupi. Moravam nas ocas, pescavam peixes dos rios e plantavam sementes para colher seus frutos. O padre Anchieta ainda não tinha os alfabetizados, por isso, os índios viviam em sua pura cultura. Em uma das tribos Raul Casquilho era criado. Chamavam-lhe de Zulú naquela época. Os curumins, que em tupi quer dizer menino, o adoravam. Penteavam Zulú com semente de urucum, que é de onde se extrai um condimento alimentar que se chama colorau, e faziam pinturas em seu corpo só para ele ficar com cara e jeito de índio. Assim, diante de tanto mimo e cuidado Zulú cresceu um macaco inteligente. Tão inteligente que conseguia imaginar e criar coisas. Sabia resolver problemas, mas não falo dos problemas de matemática, e sim, dos problemas da vida que ainda são mais complicados. Quando Zulú atingiu a idade adulta para um macaco não se conformou em ficar na tribo onde cresceu. Queria descobrir novas terras e novos povos. Tinha a intuição de que o mundo era imenso, com coisas diferentes para explorar e aprender. Uma noite quando todos os índios já dormiam Zulú foi escapando de fininho, foi andando em meios passos e saiu em direção ao rio. Pegou a canoa, os remos e perna pra quem te quer, ou seja, remos pra quem te quer. Lá se ia o macaquinho querido! Durante a viagem pensou em seu nome e até que achou que ser “Zulú” era carinhoso. Mas, queria ter um nome mais forte e poderoso. Então pensou e decidiu ser chamado de Raul Casquilho. O tempo foi passando e toda comida que ele tinha dava apenas para uma semana. E nada de ele ver terra firme. Onde estava todo mundo? Deu tanto desespero que apertou-lhe uma dor de barriga tremenda. De repente, por sorte ou espanto de Raul Casquilho, ele passou pela pororoca, que é o encontro da água doce com a água salgada. Então ele estava no mar, tão azul, tão lindo, tão profundo e misterioso. Mas, ao mesmo tempo tão triste. Passando vários dias no mar ele já estava de boca seca (pois detestou a água salgada) e pensava que não iria sobreviver. Até que uma tempestade fez sua canoa virar e ele foi parar em uma ilha no meio do oceano atlântico, com água doce e inúmeras bananeiras. Sentiu saudade dos curumins, mas, não podia se arrepender do seu sonho de ir à procura de coisas novas. Mas, os dias o deixou entediado por está preso sempre em um mesmo lugar, cujo já conhecia por completo. Percebeu que o mundo que queremos conhecer jamais pode ser alcançado. Se Raul Casquilho tivesse consigo caneta e papel naquele momento (pois a sua mochila que hoje é o seu depósito de ideias ele obteve muito depois) escreveria uma carta para os índios dizendo que viesse à sua procura, que ele estava muito infeliz. Mas, por outro lado ele bem sabia que a sua felicidade não estava naquela tribo. Tanto procurou e tanto achou. Não poderia voltar atrás de modo algum. De tanto instigar situações em sua cuca Raul Casquilho percebeu que ninguém entende um cérebro que pensa.

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AS AVENTURAS DE LAVINHA
Por Andreia Costa

- Veja, Lavinha, a noite chegou . - Nossa! Que bela noite! A lua a iluminar, com o seu embelezar. - Queria tanto chegar lá para tocá-la. - Venha, minha pequena, você precisa parar.

Olhem ali, bem ali, no jardim das diferenças. Vejo uma pequena lagarta. Vou perguntar para onde vai com tanta pressa. - Ei! Psiu! Psiu... - Quem me chama? - Sou Vavá, o vagalume. Como é o seu nome, pequenina? - Me chamo Lavinha, a aventureira. - Para onde vai com tanta pressa? - Vou em busca de aventuras. Quer vir comigo? - Vou, sim!

A noite chegou e Lavinha finalmente descansou. Mas no seu coração, a tristeza ficou. Lavinha queria ser forte, bonita, perfumada, iluminada, admirada e amada. Queria, nos outros beleza encontrar . Dias se passaram e Lavinha de tão cansada e triste que ficou, uma pulpa virou e em seu casulo se fechou . - Fiquei ali só a observar a natureza se encarregando de sua vida mudar. A cascata ali ficou. A flor que tanto embelezou, murchou. O beija-flor foi em busca de uma nova flor.

E assim Vavá e Lavinha saíram em busca de aven- A lua adormeceu e um novo dia nasceu. turas. E foi assim, por longos dias, no jardim das diferen- Nossa! Veja que linda cascata! Vou ate Lá. ças. A vida se transformou e Lavinha ali na plantinha ficou. - Cuidado, minha amiga, ela pode te levar. - Queria ser assim: bonita, forte, fazendo minha própria sorte. - Venha, vamos continuar para ver onde ela nos levará. - Vou subir nessa folha e deixá-la me guiar. - Veja que belas flores! Tão lindas e perfumadas. Os beija–flores vêm beijá-las e amá-las . - Queria ser assim: bonita, perfumada e amada. -Ninguém nunca me beijou e meu coração conquistou. -Tudo aqui é tão belo! Olhe um pássaro Queroquero. Ouça o seu canto. Você já viu algo mais belo???? - Sou pequena, feia, verde e desapareço no capim . - Não fale assim. Você é linda para mim. - Não tenho brilho, não tenho nada . - Não sou como você, que brilha nas noites de estrelas.
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Oh! O que está acontecendo com a pequena Lavinha? Do casulo a vejo despertar. Nossa! Que linda borboleta essa pequena virou. Seu reflexo na cascata avistou. E Lavinha feliz ficou!

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MACUMBA II
Por Leônidas Grego

“Suportei o melhor que pude as mil e uma injúrias de Fortunato; mas quando começou a entrar pelo insulto, jurei vingança. Vós, que tão bem conheceis a natureza da minha índole, não ireis supor que me limitei a ameaçar.” O Barril de Amontilado, Edgar Allan Poe Amargo e quente “O corpo estava deitado numa poça de sangue morno. Uma lâmina de porte desmedida estava encravada no seu tórax, um pequeno punhal fincado entre os seus olhos. Mais cinco lâminas estavam fincadas no seu tronco, intercalando-se por entre as costelas. Havia um círculo no chão desenhado com sangue, e um risco escuro, onde a pólvora foi queimada. Um bode, uma galinha preta e um tacho com oferendas se distribuíam nas linhas da circunferência. Vinte e uma velas coloridas circundavam o local. O homem morto tinha uma pistola na mão direita. O outro, vestido feito um Pai de Santo estava caído à sua frente, com várias perfurações pelo corpo. O quarto guardava uma atmosfera sombria, uma cena digna de um filme de terror. Símbolos estranhos, indecifráveis para os que ignoravam os rituais de bruxaria, estavam espalhados pelos cantos. Tinha uma estátua de metal que simbolizava o espírito Exu Caveira e um outro, em gesso pintado em vermelho, era o Exu Sete Facadas. Algumas cédulas de grande monta se espalhavam pelo piso sujo de sangue. Sete adolescentes estavam mortas. Cada uma tinha cada sete furos no tórax- parecia ter sido um ritual de sacrifício; o piso do salão estava afogado de vermelho . Na parede frontal estava um banner feito em couro de bode, escrito com sangue, em Latim: Septem libras, Septem spiritusque, Septem Specubus. Superest tibi omnia sacra. Ego Exú Septem stabs et calvariam, et promitto. Sete Vidas, Sete Fôlegos, Sete Furos. O sobrevivente do Ritual terá tudo o que desejar. Eu, Sete facadas e Exú Caveira, prometo e dou. O inquérito policial foi concluído rápido. O caso foi arquivado. Não havia culpados vivos. A imprensa logo esqueceu o caso. As famílias dos envolvidos estavam em choque.

Cometer um homicídio é fácil, difícil é se livrar de provas que compliquem o culpado, por isso é preciso ser frio e calculista. Existem criminosos de toda or- (Segue)

dem -,sempre tolos. Cedo ou mais tarde vão ter problemas com a justiça. Um crime perfeito é realizado sem pressa, sem precipitação. É no calor da fúria que a maioria dos assassinatos são cometidos-sem pensar, sem planejamento. Estes são os criminosos comuns; sorte deles é que as leis brasileiras são brandas, verdadeiras piadas. Porém, para mim teria que ser sem envolver a polícia, delegacia, delegado, inquéritos, advogados e juiz- uma sentença. O desejo de vingança existia, a forma de sua execução, mera especulação. Qualquer ação que o ameaçasse, que o eliminasse de forma violenta, poderia me denunciar. Seria fácil chegar á minha pessoa – talvez. Haja visto, que o mesmo não tinha inimigos. Eu não fui um deles, apenas dei a minha resposta para o tipo de pessoa que ele era. Ninguém queria a sua cabeça; sorte minha. Aquela velha história de que sem corpo não há crime, é balela. Existindo provas e evidências, o suspeito estará atrás das grades. A polícia não é boba, e existirão jogos psicológicos por parte dos agentes, delegado- os apertos; a pressão da imprensa – então, quando menos se espera, para desafogar-se, solta-se tudo o que fez. Para não falar dos métodos arcaicos de se arrancar confissões de um suspeito, na base da porrada, choques elétricos. Confessa-se até que matou o Papa, Kennedy, Luther King. Era preciso aumentar o fluxo de pessoas naquela casa, e que algumas festinhas passassem a acontecer. Havia descoberto um ponto fraco nele; gostava de menininhas, novinhas, safadinhas. Eu o via no escritório de sua residência navegando nas redes sociais, sempre com as novinhas -,muitas delas colegas de sua filha. Eu não sabia ao certo, como fazer, e não sabia se daria certo. Era preciso pensar, e muito. Ele era casado, a mulher muito caseira. Tinha a presença dos empregados na residência. Mas havia a casinha nos fundos do jardim, distante de tudo. Existia a possibilidade para se criar outro meio, um novo caminho. Ele era ambicioso, queria acumular riquezas. A sua vaidade era desmedida, sonhava em ter amigos importantes. Gente da televisão, da música. Vivia falando a respeito, queria criar meios para ser alguém da “high society”. Talvez, pudesse usar as duas alternativas, interligadas. Sim, talvez , essa fosse a maneira mais eficaz. A idéia existia, o método, não. Ele acreditou nas coisas do além. Em feitiços, ebós , despachos e rituais para espíritos que davam as coisas em troca de entrega da alma para o Diabo. Eu o odiava – não era por muito, porém, existiam coisas que me feriram. Tenho vinte e dois anos, é comum a paixão nessa idade. Ela tinha dezessete. Cheia de vida e de exuberante beleza. Ele era esperto, percebeu com muita facilidade o meu interesse pela filha. Havia gestos e olhares que me denunciavam.

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Sempre procurava uma forma de estar próximo dela, era galanteador e lhe dava atenção em demasia. Elaine era receptiva, modéstia a parte, não sou um sujeito feio. Tenho rosto bonito, cabelos bem tratados e dorso bem desenhado, devido à malhação diária que fazia no jardim antes do meu banho. Resolvi trabalhar em horário integral, e me ofereci para pernoitar na casa dos fundos – para maior segurança da família . O pai dela aceitou. Desconfiado, mas cedeu ao meu apelo. Foi bom para mim, mas não tive aumento no salário. O acerto ficou pela estadia gratuita – que me livraria do aluguel do quarto na periferia-; caso os patrões precisassem, eu estaria presente. Dali, em diante, o que parecia para mim uma felicidade, havia se tornado um inferno de humilhações diversas.” - Os sanitários da ala das dependências dos fundos estão entupidos. Vou trabalhar, quando retornar -, quero-os limpos. “Pediu o serviço, tendo a família ao seu lado. Percebi o que desejou passar para ela: “ ele é um limpador de bosta.” - Está bem, mas, estarei limpando a piscina e aparando a grama, não poderia pedir para Helen... “Antes de concluir a frase, fui interrompido, de forma brusca.” - Como é? Está sendo insubordinado? Recusando realizar uma ordem minha? “ Sei muito bem o que ele quis dizer.” “ Ele é um merdinha, pau mandado do seu pai para limpar bosta.” “Foi com surpresa ao perceber que todos os banheiros estavam há dias sendo usados sem que a descarga fosse acionada. Pedaços de tecidos estavam nos vasos para provocar o entupimento. O mau cheiro era insuportável. Fedia feito o ódio que eu estava tendo no coração. Helena surgiu de repente e riu de minha cara. Balançava a chave do armário do depósito dos produtos de limpeza, ali havia solda cáustica. Foi fácil fazer a merda descer.” - Todos os dias ele estava vindo fazer as suas necessidades aqui, e pelo jeito não dava a descarga. Tem prestígio, um pouco de dinheiro e falta de educação. - Filho da puta, é isso que ele é. Está querendo me humilhar diante da filha dele. - Ponha-se no seu lugar. Acha que uma menina estudada, fina, bela e elegante vai olhar para você? “Afastei-me, pensando no poder que tinha a solda cáustica em derreter o que era sólido. Os meus pulmões estavam inundados pelo cheiro podre de merda, era como se uma consciência registrasse a fedetina dentro de mim, de forma teimosa. Eu sou assim, nunca desisto. Quanto mais dificuldades, mas insisto com muito mais ódio no coração. Entretanto, respiro fundo, conto até dez e não tomo nenhuma atitude precipitada. Aprendi uma coisa na vida – a tolerância é a maior das armas de um homem. A paciência o maior dos tesouros, convém aproveitar. Tive um avô que me passou muita sabedoria.

Daquele dia em diante se iniciou a minha encenação mais talentosa. Não a observava, evitava o seu olhar, não direcionava os meus olhos para as suas boas formas, quando ela estava na piscina, de biquine sumário; ou quando estava com calça jeans justa, vestidinho colado, sensual. Eu o vi notar a minha mudança, na certa pensara: “o pobretão pôs-se no seu lugar. Havia alguns meses que inauguraram um shopping popular chamado de GAM – Galpão Água de Meninos. O GAM surgiu da necessidade da modernização da feira de São Joaquim-uma feira livre de mais de meio século de existência, tombada como patrimônio cultural da humanidade. Mais da metade dos boxes comercializavam produtos para o Axé – eram casas de vendas de estátuas de Orixás, Exús, santos diversos. Até animais vivos, como bodes, cabras, galinhas e pombos brancos. Colares, contas, garrafas de cachaças, água de cheiro, perfumes, fumo de corda. Uma variedade incalculável de coisas e quinquilharias. Roupas para Pai e Mãe de Santo, Filhas de Santo, e até tronos onde o mesmo se senta.Tinha tudo para a preparação de ebós. Ali, Filhas e Filhos de Santo compareciam para comprar os mais diversos produtos para as obrigações das religiões de matriz africana. Era intenso o movimento daqueles que tinham que cuidar dos seus Exús e Orixás com oferendas e rituais diversos que eram, desde a matança de animas nos galpões à saída de Ogã. Impressionavam-me as estátuas de ferro, outras de gesso, coloridas de alguns espíritos. Exu Caveira ostentava duas protuberâncias na testa, feito pequenos chifres redondos, pouco salientes. A sua pele em tom vermelho, tinha cavanhaque. O artista o simbolizava como um ser de cerca de cinquenta anos, robusto e conservado. O olhar era de pessoa cruel. Vestia-se com uma capa vermelha e tinha um tridente numa das mãos. Observei que muitos espíritos simbolizados, em suas estátuas, das mais diversas tinham um tridente nas mãos. Alguns com pontas contundentes, outras com pontas arredondadas.” - As de pontas agressivas são para os espíritos do sexo masculino, as arredondadas são dos espíritos do sexo feminino. “ Disse um dos vendedores. Além de me informar de que o tridente era um símbolo de poder, não é um simbólico demoníaco, como é pregado pela igreja católica - os líderes espirituais de determinadas regiões assim o fazem valer a sua autoridade, e o seu posto. Existem os terreiros de Candomblé, Umbanda, Quimbanda de todos os níveis. Alguns terreiros trabalham com energias positivas - de linha branca, que fazem o bem. E, existem os que trabalham com os espíritos baixos, de energia pesada-e que fazem o mal. A vaidade dos Pais e Mães de Santo estava evidente nas inúmeras indumentárias que usavam nos mais diferentes rituais. As roupas são feitas de tecido brilhoso, coloridos ou branco - com inúmeros enfeites
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babados, desenhos e decorações e cores diversas, alguns possuem até coroas douradas ou cocares com plumas que lembravam a cauda de um pavão. Uma das estátuas de Exús me impressionou, era o de Sete Facadas, um espírito violento e sanguinário. O outro, Sete Túmulos, mais Maria Padilha- um espírito do sexo feminino, que se vestia com roupa vermelha, muito vaidosa e ligada ao sexo, algumas de suas figuras estavam nuas, em pelos. Tinha a Exú Mulambo ligada aos vícios e aos prazeres da carne. As estátuas não passavam sobriedade nas suas expressões; exceção para Preto Velho, Preta Velha, Santa Bárbara, São Jorge portando a sua lança, montado em seu cavalo branco matando o dragão da maldade. Lembrei-me do meu patrão, o dragão.” - Temos “banhos” prontos para tirar quebrantos, trazer o amor de volta, acabar com casamentos e limpeza de corpo. Temos um muito eficiente, é o “ Sete Ervas”, velas sete dias, as para 21 dias. “Nada lhe respondi. Olhava para os produtos, como se fosse um admirador da religião. Achei engraçado um produto, que era vendido em caixinha que seria utilizado para atrair a mulher amada – pega mulhere tinha o para atrair o homem amado- pega homem.” - Vai ter uma festa num terreiro na sexta-feira, querendo ir, posso levá-lo como meu convidado. “ Fiquei surpreso com o convite de um dos balconistas da casa de axé Dona das Águas. Aceitei de prontidão. Na certa, queria conquistar mais um cliente.

ritual em si, pela sua forma, soava como tenebroso, assustador. Próximo dali estavam distribuídos os atabaques. Homens começaram a tocá-los freneticamente. E o saudaram assim :” - Laraioié. “Impressionou-me as cores fortes e o falo erecto na estátua do Exú. Notando a minha expressão facial, Agenor me informou:” - O símbolo maior do Exú é Ogó de forma fálica, falo erecto. Os seus elementos são Terra e Fogo. Os seus domínios são sexo,magia,união,poder e transformação. “ Tudo a ver com o meu patrão -, pensei.” - Exu é a figura mais humanizada dos orixás, senhor do princípio e da transformação. Deus da terra e do universo; na verdade, Exú é aquele que se multiplica e se transforma na unidade elementar da existência humana. Exú é o ego de cada ser, o grande companheiro do homem no seu dia-a-dia.

É um Exú a entidade voltada para a maldade, para a perversidade, que se ocuparia em semear a discórdia entre os seres humanos. Na realidade, Exú contém em si todas as contradições e conflitos inerentes ao ser humano, nada além. Exú não é totalmente bom nem totalmente mau, assim como o homem: um ser Após um dia exaustivo, tomei um banho refrescante. capaz de amar e odiar, unir e separar, promover a Escolhi uma roupa branca. Uma camisa polo. Foi paz e a guerra. Muito perigoso lidar com a linha dos recomendação de Agenor, o funcionário da casa de Exús. axé. Fomos de ônibus, não ficava muito longe o terreiro de Umbanda. Era uma chácara na região mais A cultura africana desconhece oposições, em espearborizada da região. O barracão ficava nos fundos, cial a oposição entre bem e mal; sabe-se aqui que o cercado por farto arvoredo. O local era escuro e bem de um pode perfeitamente ser o mal de outro, sombrio. Para minha surpresa, inúmeras pessoas que portanto, cada um deve dar o melhor de si para obter pertenciam à burguesia estavam ali. Os carros esta- tudo de bom na sua vida, sempre cultuando, agracionados no pátio não eram populares. Muitas pes- dando e agradecendo a Exú, para que ele seja, no soas vestidas de branco, outras de preto e de verme- seu quotidiano, a manifestação do amor, da sorte, da lho. Os colaboradores do terreiro faziam os últimos riqueza e da prosperidade. preparativos para a festa oferecida para um dos simpatizantes da casa. Fomos conduzidos para um salão Exú, é o que entende como ninguém o princípio da grande. No centro havia uma bacia de metal. Baia- reciprocidade, e, se agradado como se deve, saberá nas vestidas de branco, de torso na cabeça, saia ro- retribuir; quando agradecido pela sua retribuição, dada e batas com rendas e babados acendiam inúme- torna-se amigo e fiel escudeiro. No entanto, quando ras velas pelo ambiente. Fiquei impressionado com esquecido é o pior dos inimigos e volta-se contra o as estátuas de Exús que estavam por ali espalhados. negligente, tirando-lhe a sorte, fechando-lhe os caAlém de chifres de boi que queimavam uma erva de minhos e trazendo catástrofes e dissabores. cheiro estranho. Um grande número de animais foi trazido, e ali na bacia tiveram a cabeça cortada. O “ Era o que eu estava precisando, disse para mim. sangue era colhido na bacia. A sala grande estava Os atabaques soavam, as pessoas dançavam no bariluminada à luz de velas, a sua decoração me condu- racão. Todos os convidados eram saudados, um a zia para uma atmosfera indecifrável, impactante, o um. Bebida farta e comida eram servidas. Alguns cheiro de sangue fresco a tudo impregnava. Os ros- rituais com sangue se desenvolviam. tos dos presentes se apresentavam num aspecto tenebroso. Havia uma tensão macabra ali. Eu não posso (Segue) mentir, estava em pânico. O coração acelerado. O
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Era um terreiro de Umbanda de linha Yorimá, existem Sete linhas de Exús na Umbanda, dizia o meu amigo.E citou os Exús que ali baixavam - Exú caveira, Exú Tata Caveira, Exú Sete Covas, Exú Bananeira, Exú Mulambo, Exú Sete Porteira e tantos outos mais. Cânticos ecoavam pelo salão em adoração ao Exo Caveira, dizia uma das músicas:

“ Não lhe dei credibilidade - o meu objetivo era outro. Enquanto observava o ritual religoso, assustador ; comunava comigo mesmo de que forma seria a minha vingança.

À meia-noite, belas negras saíram de um quartinho com alguns alguidáres, com oferendas. Tinham farofa de dendê, carne e cebola. Outro vasilhame trazia charuto e aguardente. Fomos todos cumprimentados Exú Caveira comedor de carne crua e a festa tinha acabado para os visitantes e familiares Espera o seu la no meio da rua, dos envolvidos. Agenor voltou comigo. Pegaríamos Exú Caveira comedor de carne crua o último ônibus da noite, um senhor de carro nos Espera o seu la no meio da rua. ofereceu carona. Saltei na porta de casa. Entrei pelos portões dos fundos, pois, dali tinha uma cópia das Portão de ferro cadeado de madeira chaves e me recolhi. O sono demorou a chegar. BuO dono da calunga ainda é o Exú caveira rilava algumas coisas sinistras na minha cabeça. Ri, Exú Caveira comedor de carne crua virei-me e decidi dormir. Algumas cenas terríveis do Espera o seu la no meio da rua ritual permaneceram na minha cabeça por longos minutos. Quando fechava os olhos, via nitidamente Pois o seu povo te chamou pra trabalhar, as figuras do Exús desfilando à minha frente. Noite Exú Caveira comedor de carne crua difícil para pegar no sono. Não apaguei a luz, dormi Espera o seu la no meio da rua. no claro, assustado. Uma chuva fina molhava a maTodos cantavam e dançavam. Um a um os sete con- drugada, podia ouvir o sibilar do vento açoitando as vidados, vestidos de branco entraram no salão. Be- copas das árvores do jardim. Os cães ladravam. beram do sangue dos animais servidos e tomaram Quando o dia era de sol, ela colocava o biquin sumábanho de folha. Dançavam e cantavam. Preto Velho rio e, ficava horas a fio na piscina. O seu corpo tinha não era convidado, mas uma mulher se transfigurou, curvas fatais. A bunda farta, bem desenhada. Cintura não tinha mais do que vinte e poucos anos; quando de pilão. O quadril era elogiável. As coxas grossas, se curvou para frente, os seus movimentos se torna- torneadas. A barriguinha durinha. Um par de seios ram lentos e difíceis como os de um idoso. Parecia de deusa, rosto lindo. Os cabelos ruivos, bem tratater uma bengala invisível na mão direita. Pegou na dos, longos. Notava que me lançava alguns olhares, mesa de um charuto, o acendeu. Dizia:” enigmáticos. Havia um míster de sedução e provocação. Cuidando do jardim passava por ela. Estava de frente para mim, de pernas abertas, as coxas separadas - o desenho do triângulo de carne sufocado pelo biquine. Uma delícia de visão. Quando estava virada, de pernas abertas: o bumbum farto, muito bonito, e entre as pernas, o volume no biquine vermelho à mostra. Eu suava frio. Foi uma surpresa desagradá“ O Preto Velho dava uma risadinha a cada frase vel descobrir que o seu pai me observava. O maldito dada, enquanto soprava a fumaça sobre o corpo de estava sentado na varanda. Degustava um litro de todo aquele que se aproximava. Ficou por algum vinho. Estava sem camisa, de bermuda na cadeira tempo junto dos sete convidados, os que estavam de espreguiçadeira.” vermelho e preto.” - O que faz? Por acaso viu passarinho verde? Está - O Preto Velho está dando o chamado Passe. O obmais de olho em “piriquita” do que nas plantas do jetivo é eliminar as larvas astrais que ficam impregjardim. Saia daqui, vá cuidar das plantas dos fundos. nadas na áurea das pessoas. As larvas são elementos Vamos, sai, sai, sai, homem. vivos que se originam dos maus pensamentos e atos sujos. Estão na energia de cada um, da energia den- “Ela apenas levantou a cabeça na direção do pai, sa, pesada e negra que rodeia a humanidade que vive depois me olhou. Baixou a cabeça, ajeitando os ócuna matéria e cultivam os desejos mais condenáveis. los escuros nos olhos e voltou para o seu banho de Todos os convidados de vermelho e preto eram ho- sol. Saí humilhado. Ouvi quando dialogavam:” mens pobres, ou ricos que desejaram mais riquezas. - Por quê não manda ele embora? Vieram hoje agradecer o que conquistaram. Os Exús quando cuidados protegem os negócios, e se gostam “Ela disse, com voz pausada.” atraem riquezas e prosperidades. O Preto Velho gosta de interromper tais rituais, pois não concorda que busquem o pacto para adquirir bens materiais; quer que o homem desperte para a fé e que se cuide para (Segue) a prática do bem. - Zifios precisa de amilhorá os pensamentos, zifio pode colher o amargo da vida, nem tudo que é gelado e doce...pode ser saboroso. O que agrada à carne poderá não agradar o ispíritu, cuidado. Muito cuidado, pois, o que se adeseja pode ser quente e amargo, invés de doce gelado.
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- Gosto de me divertir com os fracos. Ele vai sentir na pele o que é ser pobre. Eu o farei se sentir o último dos homens. Esse merdinha se acha quem, e o quê para viver te olhando feito um tarado? Por acaso você lhe daria mole? Caso fosse sua mãe, não duvidaria. Por várias vezes tive que mandar embora motoristas, vigilantes e jardinheiros. - Pára com isso, paizinho, esse corpinho aqui tem dono, e sabe de quem é. “Ele se aproximou dela e começou a passar protetor solar por todo o seu corpo, começando pelas costas, desceu até o bumbum e demorou muito mais do que o necessário por entre as coxas. Ela permanecia passiva, como se o toque de suas mãos fosse muito mais do que atitude paternal. Os ricos são estranhos, pensei.

Havia pedido a sua autorização para que um grupo de adolescentes, pudesse vir trocar comigo alguns livros de contos. Ler foi um hábito que eu havia desenvolvido no ensino fundamental. Eram amigas de Agenor, ele sabia dessa meu hábito salutar . Criamos um meio convincente para que pudesse dar início ao meu plano. Era necessário que existissem estudantes novinhas. Elas chegaram, cada uma com cerca de três livros adquiridos em sebo, é claro. Ele estava presente. Eu havia calculado tudo.” - Ora,ora quem são essas coisas lindas?

“ Indagou ele, com brilho de lobo nos olhos. Algumas das meninas vestiam saias curtas, outras shortinhos jeans apertadinhos, deixando aquele volume na frente do triângulo. Sentamo-nos nas cadeiras de uma das mesas à beira da piscina. Ele não tirou os Á noite eu alimentava os cães de guarda. Depois os olhos dos seios salientes, que saltavam para á frente soltava para que ficassem pelo jardim protegendo a diante do fino e curto tecido das blusinhas. Apresencasa de invasores. Sentava numa das cadeiras à beira tei-o ao meu amigo Agenor. Distanciaram-se um da piscina e ficava observando as estrelas. Acendia pouco, andando pelo jardim, enquanto eu trocava os livros com as amigas. Agenor tinha habilidade com um cigarro. A água da piscina refletia a lua, uma as palavras e conhecia muito dos rituais, dos pactos imagem bela. Andava um pouco pelos arredores, com as coisas do além, em troca de sucesso e de para relaxar. O quarto dela estava com a luz acesa. Mente vazia, oficina do Diabo – a vontade era esca- muito dinheiro. Dialogavam assim:” lar o pé de goiaba, entrar pela janela aberta e estuprá - Quem protege a família e os negócios? -la, com força, com crueldade e matá-la com requin- “Indagou Agenor.” te de crueldade. Sorte que tive um avô que me ensinou a ser paciente, tolerante e frio feito uma barra de - Como assim? Eu sou o chefe da casa e sou o patrão gelo. Dizia: “não se precipite em nada na vida, tudo na minha empresa. Acha mesmo que uma família precisa se envolver com tais práticas religosas para se resolve ao seu tempo. estar protegida? Veio á minha mente as figuras amedrontadoras dos Exús: Exú Caveira,Exú Tata Caveira,Exú Velu- “Então, foi lhe oferecido a proteção devida, para a do,Exú Gira Mundo, Exú Sete Covas,Exú Bananei- família, a segurança nos negócios. A oportunidade ra, Exú Mulambo, Exú Sete Porteira.Um em especi- de se aproximar de gente da música, da tv,da plítica al me chamou a atenção. Era bem semelhante ao e da alta burguesia. No início ele foi meio cético. Exú Caveira, porém, trazia junto a si sete lápides, Com os argumentos do Agenor, ficou balançado. era o Exú Sete Covas. Outra que parecia me agradar Aceitou o convite para visitar o terreiro de Umbanera a Exú Mulambo, ligada aos prazeres da carne. da. Numa dia de eventos, compareceu e o Pai de Sim, eu adorava tudo que se relacionasse com o luxo Santo com o seu poder de persuasão conseguiu fisgá e ao sexo. E, o meu patrão era assim, também. O fio -lo. O que mais lhe agradou foram as negras belas e que nos separava era a condição social - éramos de joviais, vestidas de branco que desfilavam pelo termesma vibração, e de classes sociais diferentes. Ri- reiro. Não tirava os olhos das bundas fartas que bacos e pobres se odeiam mutuamente. A minha von- lançavam quando andavam num bailado sensual, tade era invocar o Exú Sete Facadas e poder dar provocante. Uma negra bela transfigurou-se, assuconta dele, com vontade, com fúria. Não, não seria tando-nos. Rasgou as suas vestes exibindo um belo bom. Estaria satisfazendo o meu instinto assassino, par de seios durinhos, que apontavam para cima, e o meu lado animal, e dai? A polícia daria conta de dando risadinhas, olhava-nos e fazia do seu vestido mim, seria a minha ruína. Podava as plantas, com branco um trapo de tiras rasgadas com muita faciliódio - galhos e folhas. A cada corte dado com a dade. Nua, falou com um timbre de voz de mulher grande tesoura, era como se cortasse os músculos e mais velha: “ Boa-noite, senhores e senhoras. Eu sou ossos do filho da puta. E,a cada golpe dado, a inspi- Exú Mulambo, e vim para me divertir. Ela o enlaração demoníaca alimentava a minha criatividade, çou, trocaram longos beijos e adentraram para um como se os Exús estivessem me inspirando para o quartinho escuro. Dali soavam gemidos, sussurros e mal. O plano estava urdido. Agora, era executá-lo. o som instigantes de estocadas viris de quadril a Era uma guerra, e no front de batalha se derrama o quadril. Após longos minutos, recomposto e contansangue do inimigo, e infelizmente, o de inocentes; é do com a conivência de todos do recinto religioso, ele me indagou assim:” (Segue) um preço caro que temos que pagar - é a vida.
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- Ora, se estes rituais podem dar riquezas e proteção - Preciso saber dos seus negócios. Os Exús precisam por que você não está na religião? saber de todas as coisas, sendo assim, poderão ofere- Ora, patrão, tudo é dinheiro. Nada fazem sem a cer proteção contra a inveja, o roubo, a concorrência. Daí far-se-á uma corrente para a prosperidade infinigrana, e essas coisas custam caro. Eles têm o poder e ta. Os Exús são controladores, protetores e participanão dão de graça para qualquer um, precisa ter peditivos. Nada tema, sou uma pessoa de fé, cultivo as gree.” Os Pais de Santo não precisam ostentar riquecoisas do além. Poderá ter tudo o que desejar. Serei za, a obrigação deles é a conquista de adeptos para um grande Pai de Santo. Vai ouvir falar muito de os cuidadores dos Exús. Eles, precisam das energias mim na tv. dos encarnados para que os dois mundos vivam em simbiose”; - dizia Agenor, o meu amigo.É uma ques- “Dizia Agenor, pousando de Pai de Santo. Mais de tão de escolha, patrão. A Exú Mulambo, entre tantos Dez Mil Reais foram pagos. Despachos foram prepahomens no recinto, te escolheu para o prazer. Ela rados e postos em encruzilhadas. Ele foi iniciado. teve o aval do Pai de Santo. Fiquei arrepiado. Com a presença das sete adolescentes, convocadas -A negra era linda, formosa e tão fogosa. Depois do pelo Agenor numa favela, escolhidas a dedo. Eram de beleza excepcional. Cada uma recebeu uma grana ato, afastou-se de mim assustada, como se não tivesboa para que comparecesse à casa do meu patrão, se entendendo nada o que havia ocorrido. Empurroucom regularidade. Algumas vezes ele sumia com me e saiu nua correndo do quarto, nua. duas, três pelos fundos da casa. A sua esposa vivia “ Ele observou. Agenor o convidou para um ritual de na casa de amigas, no salão de beleza, no médico ou prosperidade e de inicialização, sob a minha reco- no dentista. Não foi difícil ter privacidade. Os gemimendação. Faria um ritual de sacrifício, onde pode- dos e as estocadas viris me feriam os ouvidos; perria ter a possibilidade fazer um pacto com os Exús mitir que tão belas meninas fossem por ele tocadas, e da prosperidade. Apresentá-lo aos que conseguiram eu ficasse na bronha, nada além. Isso aumentava o mudar de vida depois dos rituais e de devoção foi meu ódio por ele. fácil. A cada dia estava provado para ele que não se tratava de um engodo. Era real, palpável. Esteve Tudo ficou muito claro. Até mesmo os cofres onde com médicos que abriram clínicas particulares, de- guardava o dinheiro na casa. As senhas das contas pois de servirem ao poder público com parcos salá- bancárias foram conseguidas com a minha habilidarios. Conheceu comerciantes que enriqueceram do de - ele as tinha num caderninho no escirtório da renada. Políticos que cresciam, artistas que faziam su- sidência. Então, no dia do grande ritual final, sete adolescentes foram sacrificadas. No desenrolar do cesso quando fizeram o pacto com os Exús.” ritual, adentrei no salão, aproveitei que ele estava no - É arriscado, é perigoso. Pode resultar em desgraça chão e cravei os sete punhais em seu corpo. Havia e morte. Poderemos ter problemas com a polícia, roubado do seu cofre a sua pistola. Furei o Agenor caso não dê certo. Entretanto, dando certo, poderá se todo de balas. Algumas notas de alta monta se espatornar num homem poderoso,rico, famoso e admira- lharam pelo chão, caindo de suas mãos. Peguei o do. Os Exús querem sangue e sacrifício. Não vai ser couro de bode e usando o meu dedo escrevi em latim difícil conseguir as adolescentes. A Exú Mulambo a descrição do ritual. Tê-lo furado com perfurações precisa desse tipo de energia, e Sete Túmulos quer precisas me deu um prazer indescritível. Senti a lâsete vidas – por sete anos te dará proteção contra aci- mina segura nas minhas mãos entrar na sua carne dentes, assaltos e qualquer tipo de desgraça. É só furando músculos e tocando os ossos. Primeiro dei cuidar, que o Exú dá. Indagou: uma estocada entre os olhos, assim o anulei por completo. Depois dei as demais. O sangue jorrava - Como vou sobreviver à sete facadas? aos borbotões. Agenor ao assistir a cena ficou espan- Da mesma forma que os demais sobreviveram. Não tado. Antes de me perguntar algo, peguei da pistola, se atinge órgão vitais e as Lâminas não entram de pus numa das mãos do cadáver e apertei o gatilho. forma profunda. Tombou morto, o pobre colega Agenor. Eu estava - E quando as famílias derem conta do sumiço das coberto com uma grossa lona coberta com papel laminado dos pés à cabeça. O exame de pólvora comadolescentes? busta daria negativo, caso fosse fazer; pois, tinha - Ora, pessoas desaparecem todos os dias numa além por baixo da lona, farta proteção. A minha fangrande cidade. Não ficamos expostos quando as re- tasia era assustadora, Exú Sete Facadas, em pessoa. crutamos. Os familiares não nos conhecem. Somos Juro que me senti fora de mim quando a vesti – pareespertos. cia possesso pela entidade perversa. “Respondeu-lhe, Agenor, com habilidade. “Ele topou. A cegueira já era evidente, então, o ritual (Segue) aconteceu. Agenor lhe passou as coordenadas:”

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As adolescentes tinham os rostos cobertos com um pano negro, corpos desnudos. Usavam mordaças nas bocas, amarradas nos pés e mãos. Entre elas estava a sua filha. Não saí dali sem antes ter experimentado os prazeres que o seu corpo pudesse me oferecer, mesmo depois de morta. As pobres coitadas pensavam tratar-se de uma encenação, fizeram por dinheiro. A filha dele foi por mim sequestrada e forçada a participar do ritual. Dei sete furos em cada corpo, de forma impiedosa. Um mar de sangue jorrava pelo piso de pedra portuguesa. Banhei-o com o sangue da própria filha.

do e doce...pode ser saboroso. O que agrada a carne poderá não agradar o ispíritu,cuidado. Muito cuidado, pois, o que se adesejá gelado e doce pode ser quente e amargo. “Pensei em pedir demissão. Poderia ir para uma cidade distante e mudar de vida. Quando assim fiz, ela disse:” - Por quê quer ir embora? Por acaso algo o pertuba? Não estudou, não sabe ganhar dinheiro, fazer o quê? Tem mais é que limpar merda da burguesia para ganhar a vida. Os pobre nada sabem fazer direito, devido a isso, são obrigados a engolir sapos, cobras e lagartos a quem os suporta, ou acha que o amamos? Fique sabendo de uma coisa, os investigadores insistem na idéia que houve a participação de uma terceira pessoa no crime do ritual macabro, devido ao estado em que foi deixado o ventre de minha filha -as demais adolescentes não foram tocadas. Não acha estranho isso? O Pai de Santo foi inocentado, ele teve um álibe perfeito. Já está nas ruas. Fizeram análises científicas nas frases escritas à dedo na pele de bode, querem as digitais.

Estavam ali, mortos, o meu patrão e a filha e eu com uma pequena fortuna nas mãos. O dinheiro estava num saco. Guardei-o com cuidado. Quando a polícia encerrou o caso, a rotina da casa retornou ao normal. Helena, a empregada fiel da família não era mais a mesma e a esposa dele parecia abalada, desnorteada emocionalmente. O meu álibe foi perfeito. No dia da tragédia estava distante dali, no cinema. Tinha o ingresso em mãos. Retornei depois da meia-noite. Os meses foram se passando. Eu cuidava do jardim, da piscina e de serviços outros. Muitas vezes ficava sozinho com a patroa. Ela ficou mais caseira, observava o seu corpo quando estava à beira da piscina, de “Pensei com os meus botões: não me preocupa. Usei biquíni sumário - era muito bela. luvas. Além do mais, o ácido destrói coisas sólidas, inclusive, merda. Ela foi para a perícia carcocomida Certo dia, a viúva disse-me, ao notar o meu olhar na genitália. Posso contar o filme assistido do início para o seu corpo tão desejável:” ao fim. Havia baixado na internet antes do seu lançamento e já dei fim no hd -, caso a polícia possa - Os sanitários dos fundos estão entupidos, parecem deduzir que eu poderia ter comprado o ingresso do cheios de merda. Trate de ir limpá-los. Vou sair, cinema e tenha voltado para casa a tempo de comequando retornar quero vê-los limpos...Estou indo ter o crime, o trajeto do cinema para a mansão, ida e volta não era condizente com o tempo do fatídico. tentar recuperar a empresa da família. “Eu não podia fugir dali e usar a pequena fortuna que estava em minhas mãos. Tinha que continuar a limpar merda. Cometer um homicídio é fácil, difícil é se livrar de provas que compliquem o culpado, por isso é preciso ser frio e calculista. Quando começasse a gastar, seria o meu fim. Ficou provado que os saques que eu fazia antes do crime foram com a autorização dele, passando-me a sua senha. O cofre vazio foi obra do Pai de Santo junto com Agenor. O Pai de Santo estava preso, como cúmplice, pois, a polícia deduzira nas investigações que estava claro a participação de uma segunda pessoa naquele ritual criminoso. E a vítima estivera algumas vezes no terreiro, isso complicou para o Pai de Santo. O meu avô me ensinou a ser tolerante, a ter paciência. A vingança é um prato frio que se come, pensava. A cada dia antes de dormir olhava a pequena fortuna que tinha em mãos, por enquanto, o saco com as cédulas me servia como travesseiro, e so. Retornaram à minha memória as palavras do Preto Velho:” - Zifios precisa de amilhorá os pensamentos, zifio pode colher o amargo da vida, nem tudo que é gelawww.varaldobrasil.com 134

Será que a minha patroa se agradaria em conhecer a linha dos Exús, e acreditar que eles podem ajudá-la a recuperar os negócios da família, a encontrar conforto pela perda da filha e um encontrar um novo marido e a felicidade?”

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O Silêncio e a Palavra
Por Angela Guerra

Não dizem que a palavra é de prata e o silêncio é de ouro, ou coisa semelhante? Concordo, mas só parcialmente. Senão, vejamos: Quando a palavra é bem-vinda, ela pode até ser de um metal mais nobre – a platina!... Por outro lado, quando o silêncio é indesejado, deve ser rebaixado de categoria e passar a ser de chumbo, um metal totalmente desprovido de sofisticação e, até mesmo, letal... Haja vista os soldadinhos de antigamente, agora, graças a Deus, banidos do mercado... Tanto a palavra quanto o silêncio carregam significados profundos. A única diferença é que, na primeira, eles se escondem nas entrelinhas, na ênfase aqui e ali; no segundo, no próprio silêncio... Ambos se escoram na expressão facial e/ou corporal de quem deles faz uso... Há o silêncio positivo dos templos, que oferecem guarida às almas aflitas... Há o silêncio amigo, dos que estão acostumados à vida em comum e não mais necessitam de palavras para se entenderem... Há o silêncio solidário, das horas de sofrimento dos que amamos... Há o silêncio tão bem-vindo, que abraça o poeta, e permite que, na calada da noite, encontre suas musas e a inspiração para criar... Também há o silêncio negativo, que pesa e estabelece um vácuo no ambiente, no peito da gente.. Há o silêncio da decepção, quando não se acham palavras para exprimir os sentimentos... Há o silêncio da solidão, quando não se enxergam interlocutores disponíveis... Há o silêncio daquele que não se utiliza da palavra, que o outro tanto espera, porque está dominado pela ira, pelo ressentimento, e se vinga, permanecendo num silêncio que fere o outro, seu objetivo maior... Tanto o silêncio quanto a palavra carregam dons idênticos. Ambos podem amparar ou destruir pessoas, alegrar ou trazer desespero... Portanto, cuidado!... Meça o que diz, pois palavras calam fundo... Dose seus silêncios, pois eles podem se voltar contra você...

Menção Honrosa no I Prêmio Varal do Brasil de Literatura

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Varal
Por Silvana Pinheiro

VARAL
Por Sonia Maria de Araújo Cintra

Recipiente silente Calor do sol, luz verão Linha temporal Varas e corda Roupas no varal Pregadores suspensos Citações de eras Marcos de existir.

Estendi em meu coração uma corda de cavaquinho para secar a dor de um antigo chorinho

Houve tempo de quará-las Lavar manchas, gerar nitidez Aquecer marcas, esquecer fissuras Tocar miudezas e cores Fartura de olores novos ou rotos Maciez e tessituras Palpáveis. em tom maior O quente do dia inaugura convite Tecer fileira de roupagens Sem despir vestes antigas Imaginar figurinos recém-nascidos Para não perder o fio Das cenas ainda por poemar. Menção Honrosa no I Prêmio Varal do Brasil de Literatura Menção Honrosa no I Prêmio Varal do Brasil de Literatura
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Em mi a mágoa penduro com prendedor de poesia esperando

o sol de novo dia

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Recônditos do silêncio de uma mulher
Por Jeanne Paganucci

Na clareira a história da mulher. Essa mulher sou eu. Marcada pelo tempo, um passado malicioso daquilo Que não escolhi. Sombrio. Corpo entregue ao desvario, Pele queimada por uma vela acesa, do que não sou, de Quem não importa agora. Se o tempo passou, as lembranças Não sabem, já não distinguem o que é, o que foi e o que será. Assassinos do eu, daquela mulher que um dia resplandecia, Em algum lugar. Agora. Só importa o horizonte, o par de chinelos Velhos, o pente para pentear os longos cabelos e apagar a noite Passada, depois daquela promessa de mudar a vida. Não mais. O tempo recolheu a dor, as histórias malditas do sofrimento. Restou o tempo, o agora e uma caneta para escrever. Outros Tempos ,vida recolhida ao silêncio, sou eu. Um convite para Um chá, por hoje basta.

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Infinito alvorecer
Por Daniela Fernanda Eckstein ...quando ele se pôr quero fechar os olhos e o silêncio compor até mais ou menos o tempo que for... ...quando ele nascer quero abrir os olhos e assim permanecer até mais ou menos o fim do entardecer... ...quando ele novamente se for quero enfim acontecer sem nada tirar nem pôr apenas ser até mais ou menos o infinito alvorecer.

Primavera
Por Marly Rondan Eu, hoje sou Primavera! Posso mudar de estação. Como a Terra sou sincera. Quando eu amo, sou Verão. Sou Inverno, quando triste, Quando chora o coração. Sempre a esperança existe: Posso mudar de estação. Outono também serei. Folhas secas pelo chão, Novas emoções terei. Permanecer é quimera. Sou brisa, flores e cores. Eu, hoje sou Primavera!

Menção Honrosa no I Prêmio Varal do Brasil de Literatura

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Desejo do Poeta Por Vera Lúcia Erthal Senta aqui bem pertinho... Venha pra perto de mim. Se solte, guarde a pressa, desnude-se do cotidiano. Desprenda o cabelo... Afrouxe a gravata, sem medo. Porque pertinho, no silêncio que logo se esvazia, Quero lhe falar à alma... Quero lhe falar de poesia! Porém, só é compreensível, se vista com o coração. Com olhos da alma, tocável, aberta às emoções! Não é mera escrita, para ser, ligeiramente lida... É mais que isso, é mensagem para ser absorvida! Pois traz sonhos, traz sensações do viver, do amar... Sentimentos que afloram... Alegrias, frustrações. Pois apesar de ser, muitas vezes, fragmentos, Por muito, ou por um único momento, Enlevam-nos em recordações, quase esquecidas. Amores vividos, eternos ou reprimidos... Reminiscências para viver, ou recordar! Poesia é feita de quimera, de amor... Desejo do poeta etéreo, sonhador! Sonha por si e pelos outros também! Que no seu intento, se por um instante, O fez ouvinte atento, enfim, um ser pensante, Realizou-se, o fez poetizando, conseguiu poetizar! Menção Honrosa no I Prêmio Varal do Brasil de Literatura

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A minha aldeia tem janelas
Por Maria João Saraiva No sopé da montanha adivinhava-se festividade; as casas e as ruelas lembravam flores e caules, enfeitando de colorido as rochas solenes, quietas, que guardavam, impávidas, histórias de alegrias, de dor, de perdas e reencontros, que exalavam daquela aldeia pequena, submissa àquela imensidão de natureza que lhe dava morada, que a guardava. A festa da Primavera era celebrada naquela semana como um ritual em que as portas e janelas, engalanadas, pareciam anunciar o desejo de se abrirem à alegria. Nina sentava-se quieta naquele bocado de chão que considerava seu durante alguns minutos e observava, como se estivesse longe, aquele reboliço, aquela azáfama que parecia juntar as pessoas como se fosse um remoinho de vontade. Juntas nas trocas de ideias, nos planos para as festas, nos esforços para as actividades que se conjecturavam, juntas nas ruas que passavam a ser salas de estar, nas vozes que entoavam cânticos à estação da cor, da alegria. E Nina observava, naquela sua quietude, mas excluída daquele ímpeto de pertencer a uma união que acontecia pela velocidade com que o tempo parecia precipitar as vidas; era um evento que unia todos, com retalhos de história de cada um, deixados em memórias que se afirmavam em fotos, que eram seguradas nos contos que a seguir se propagavam de boca em boca, preenchendo os prados de memórias que se estendiam até ao próximo festejo da vida, da primavera.

da festa da primavera, que era efémera e não guardava os laços que afinal não tinham chegado a existir. Persistiam apenas retratos de proximidades que nunca o tinham sido, os dias ficavam baços até ao ano seguinte, onde tudo se repetia, mecanicamente, mas sem que nada se alterasse, sem que as relações permanecessem. E a vida parava…Nina pensava que ali, não existia presente; apenas retalhos que pouco acrescentavam às vidas, marcos de um passado, uma promessa de futuro, sem que entre estes dois tempos algo existisse ou permanecesse. Como se pode viver sem presente…? E ela, onde é que ela pertencia…? Dias depois a festa aconteceu, aconteceu a música no realejo do Sr Vitorino, morando no coração de sua tia, os bailes, os mascarados investindo as raparigas, o olhar de Francisco, mascarado pelas ruas fora, com o sorriso ligado ao seu.

Quando a festa dormia, Nina contemplava a bordadura do realejo do Sr. Vitorino. E sorria quando pensava que ele parecia cintilar, em pedacinhos, naquele céu anoitecido sempre que a música se desprendia e esvoaçava dali. Gostava de imaginar que quando a manhã espreitava, as estrelas iam adormecer na bordadura daquele realejo, fazedor de festa, de magia. Por vezes chegava-se perto dele, tocavao suavemente com as pontas dos dedos, a sentir-se perto das estrelas. Sorria, era um seu segredo. Perdia-se assim em sonhos; muitas vezes a vida que a habitava tinha coloridos, aconteceres, que a faziam voar, desprender-se da realidade que ali se detinha. E quando, finda a festa, a vida ficava parada, dentro daquelas portas e janelas, então fechadas, guardando o passado até o futuro aconteFindos aqueles oito dias, as portas fechavam cer, Nina soltava-se dentro dos sonhos, fazendentro de si as casas, as pessoas que nelas do o seu presente, desenhando o seu presentinham morada e a partir daí não havia prete. (Segue) sente, apenas o passado e os próximos dias
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Naquele fim de tarde era um rodopio, a vida parecia ter explodido de dentro para fora, depois de contida, à espera de esvoaçar. Sentiase alegria nos olhares, nos movimentos dos corpos que caminhavam à procura uns dos outros, vozes que se misturavam numa espécie de cântico daquele lugar, daquele momento, com um cheiro a noite e a flores que ficava para sempre. Nina saboreava tudo isto fechando os olhos, querendo guardar dentro dos seus sonhos o que lhe ofereciam aqueles dias em que a vida acontecia. Sentiu-se subitamente acordada pelo bater descompassado de um coração, ali, perto dela – o que seria para outros um mascarado perdido da azáfama das investidas em que estava comprometido, era para ela um olhar, um olhar e um bater de coração que pareciam ir ao encontro dela e guardála, por detrás daquela indumentária opaca e rude. Por momentos sentiu que voava dali, de mãos dadas com aquele indivíduo que nem sabia quem era…e ele respondeu ao seu pensamento: ”Francisco, sou o Francisco, tu és a Nina”. E ela viu-o sorrir, por detrás daquela máscara, opaca e rude. Pegou-lhe na mão e levou-o perto do realejo do Sr. Vitorino, aquele fazedor de música que enfeitava as ruelas da aldeia, colocou a mão dele com a sua no realejo e perguntou-lhe: “ o que vês?” Ele ficou em silêncio, a olhá-la, a olhá-la e a sentir a mão dela perto da sua. “Vejo estrelas que se espalham neste céu, com a música, e ficam a cintilar . E quando a noite acaba, regressam e adormecem, aqui.” Foi para sempre que ficaram ligados. Nina não sabia a tonalidade dessa ligação, mas sabia que sim, ele sabia o caminho onde encontrava a sua alma, que voava…e ela sabia que o queria próximo, num presente que só eles iriam saber fazer. Nessa noite foi para casa mais habitada, deitou-se no chão da varanda do seu quarto e contemplou os restos de festa no céu; queria ficar à espera de ver as estrelas com sono, soltarem-se para a bordadura do realejo do Sr. Vitorino, mas adormeceu. A manhã despontara com uma frescura que ainda cheirava a flores da noite. Nina sentou-se quieta naquele seu bocado de chão, onde po-

dia sentir, lá ao longe, o pulsar de vida daquela aldeia, engalanada de festa, que juntava vidas naquele sopé de montanha, colorido, bonito. Faltava um dia para as festividades acabarem e pensava novamente se os dias iriam ficar baços até ao ano seguinte, onde tudo se iria repetir e sem que as relações permanecessem; perguntava-se novamente como se pode viver sem presente…e quando procurava respostas, encontrou uma – olhou para o lado e ficou guardada num sorriso, o sorriso do mascarado Francisco; ficou guardada naquele sorriso. Agora já não estava só naquele presente tecido a sonhos, já não estava só… E durante dias e dias chegou a casa alegre como a manhã e a sua alegria, o seu presente, foi inundando de vida a casa da sua tia, onde morava; e as janelas começaram a abrir-se e a deixar entrar o sol, a noite, as flores, a brisa, o vento. Um dia encontrou a sua tia adormecida; a seus pés, caído, um papel amarrotado, onde podia ler-se: “Vitorino, durante anos, no 1º dia das festas vieste a minha casa perguntar-me o que eu via na bordadura do teu realejo e eu ficava inquieta, sem saber o que responder. Hoje, quando a minha sobrinha me puxou para a janela e me mostrou a beleza da noite que brilha, púrpura, lá fora, encontrei a resposta, primeiro no coração dela e depois, no meu…já sei o que há de belo nesse teu realejo, em ti, não precisas de ficar à espera que eu te encontre, eu já te encontrei. Espero que ainda me esperes.” E naquele sopé de montanha, naquela aldeia que era uma flor, as janelas foram-se abrindo, umas a seguir às outras e deixaram entrar o sol, a noite, as flores, a brisa, o vento.

Primeiro Lugar na Categoria Contos do I Prêmio Varal do Brasil de Literatura.

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SITIO SÃO JOÃO A TERRA QUE ME VIU NASCER Por Antonio Lauren?no Sobrinho
Sitio São João, lá era meu rincão, a terra q na Serra de Santana, Mas com ele ninguém se engana, o que me viu nascer, que me viu crescer. Era 6 de outubro de 1949, numa noite muito clara, quando me viu pela primeira vez, eu não era só mais um cabra-macho que nascia, um sertanejo avexado, mais que Arretado! Quem nunca morreu, nem tem inveja de quem morreu, Cresceu e viveu com os xique-xiques, foi onde nasceu e cresceu, no município de Assaré, distrito de Aratama, pertinho de Taboquinha e Faustino Maciel, as areias estas eram nossas aldeias, município de Assaré e altaneira terra de violeiro, terra do pau pereiro e também Terra de vaqueiro, por isso vou te dizer, a terra que me viu nascer, O Sitio São João é um lugar abençoado, encantado, bom pra morar. Tem açude, tem roçado, lá era meu reinado, assim diz o ditado, a terra do patativa, que canta versos a prosa da qual ele era mestre da cantoria, Tudo pra ele era uma festa, alegria e poesia, tinha o dom da cantoria. Ele era uma alegria, era em tudo que faziantado de repentes e emboladas, cantava de improviso poemas e sonetos, martelo à galopada, também este era o nosso poeta maior, Antonio Gonçalves, o simplesmente Patativa do Assaré, por isso não me canso de dizer, ainda ei de ver toda aquela gente, por isso vou te dizer a terra que me viu nascer. O Sitio São João é uma terra querida, que agrada minha vida. anos vivi por lá, tinha a família Alencar, o garanhão do lugar, Pois era o major Alencar, o chefão. Em Aratama era coro eleitoral, lá casava e batizava, quando tinha eleição era ele Que mandava e os matutos obedeciam, porque era ele que mandava. freguesia assim ele dizia, pois quem manda aqui so eu! Tinha trator e caminhão pra no dia da eleição carregar o povão, como uma carga de algodão. Já falei de cantador, agora falo de farofa e pirão. Combustível do sertão, pra ganhar eleição, neste querido sertão tem que ter bastante farofa e pirão, por isso vou te dizer a terra que me viu nascer O Sitio São João, lá tinha cantador e rezador, políticos oportunistas, aproveitador de eleitor, que trocava seu voto por uma dentadura mal feita, eleitores enganados e humildes, daqueles que falavam assim: -- Este Coronel é bonzinho! Vamos todos votar no coronel Alencar, senão Votar nele, ele não vai nos perdoar, já conhecemos o coronel! era aquela confusão na hora da votação, era urna marcada para ninguém Errar, uns chamavam de Major, outros de Coronel, todos faziam seu papel. Ele com sua jagunçada, se misturava ao povão. Ano que vem vamos votar também todos bem tratados, para ficarmos animados, os matutos Já votaram, compadre! Por isso vou te dizer a terra que me viu nascer O Sitio São João era um grade rincão, de lá nos saiamos pra votar tinha políticos corruptos, tinha político ladrão, que fazia falcatrua pra ganhar a eleição! Em dia de votação era uma festa danada, tinha carne cozida, farofa e pirão. Era Só em dia de eleição, vamos comadre e compadre! Vamos comer o pirão, A Buchada do Coronel Alencar, senão vai esfriar. Quando chegava ao barracão, tinha lá um jagunço que logo vinha encontrar o povo. -- São da situação ou da oposição?- Não amigão, só votamos no Major Alencar. -- Pois vamos se abancar. Maria traga Já farofa, feijão e pirão, sem estes ingredientes não se ganha eleição, Pois a concorrência é forte, tem comida farta com Cachaça, Mas se não tem pirão e farofa vão perder a eleição, só se Ganha eleição com farofa, feijão e pirão, por isso vou te dizer a terra que me viu nascer O Sitio São João, vamos todos matutos, vamos para Aratama, Botar pra quebrar, vamos! Os adversários do Major Alencar, não podemos faltar, Ele não vai gostar! As urnas do Major Alencar Ele é nosso defensor e também professor É dono das cacimbinhas, Taboquinha, Varginha, as areias Faustino. Só não vota quem não quer, pois homem, não vamos deixar de votar para as dentaduras ganhar, pra mastigar rapadura e fubá. Vamos a pé, de trator e de caminhão. Como fosse carga de algodão, ele é o dono do nosso Rincão. Com ele não falta arroz, nem feijão, ele é nosso patrão. Vamos! Hoje é dia de eleição, lá só se ganha eleição com voto farofa, pirão, cachaça da boa. Este era o Sítio São João, era a maior confusão, Em dia de eleição, Por isso vou te dizer terra que me viu nascer!!!

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e encontrou a jaula do urso. Por um instante ela achou que ele havia feito contato com ela, daí retribuiu a mensagem. Sua ousadia encantou o urso. Ele hesitou um pouco mas não resistiu ao encantamento e forte sentimento que sentia. E sussurrou: Ela é o amor que eu esperava! Vai alegrar os meus dias! Desde então, nunca mais se separaram: dormem, brincam, sonham, brigam e comem juntos… Não é demais! Parecia improvável esse amor tão intenso e verdadeiro! Ele grandão e fortão. Ela pequena e franzina. Todos que os viam juntos perguntavam “por que eles são tolerantes um com o outro? Nós não sabemos. Talvez seja amor...Ou talvez este urso seja realmente um gatinho enorme…” Lembro-me de quando, certa vez, recebi um abraço de urso. Quem não gosta de um bom abraço de urso? Não existe algo melhor que abraçar alguém, O AMOR ENTRE UM URSO E UMA GATA é sentir-se abraçado por um envolvedor, um protetor… coração com coração batendo juntos. É assim um grande abraço de urso, que demonstra todo o caPor Cléa Paixão rinho que uma pessoa sente pela outra. Aquele abraço apertado, cheio de energia, que nos envolve e irradia, às vezes chega a nos tirar o ar. Esse abraço também faz com que o novo ar possa entrar na genTenho aprendido que o gato e o urso são te... mais familiares do que nós humanos poderíamos Pois é, no abraço de urso tradicional uma imaginar! Apesar de diferentes espécies, tamanhos pessoa geralmente é maior e mais larga do que a ouaté desproporcionais parecem feitos um para o outro, tra, mas isso não é indispensável para manter a quatamanha a cumplicidade e sintonia! lidade emocional do abraço de urso. Quem for mais Exemplo disso é a história do urso peludo e alto poderá permanecer de pé ou levemente curvado da gatinha manhosa. O urso peludo vivia enjaulado sobre o parceiro mais baixo, envolvendo firmemente na solidão da cidade grande, numa floresta de pe- os ombros deste com os seus braços. O mais baixo dras. Cheio de mágoas e ressentimentos. A gata tran- fica de pé com a cabeça apoiada no ombro ou no cafiada em seu mundo a espera de um grande amor. peito do abraçador mais alto, braços enlaçados em Nem via o tempo passar! volta de qualquer área entre a cintura e o peito, que O lindo urso habitava há quase 2.000 quilô- eles alcancem. Os corpos se tocam num apertão formetros de distância da gatinha manhosa. Bastou um te, vigoroso, que pode durar por longo precioso temcontato e logo começou a aproximação. No primei- po. ro olhar também veio o primeiro abraço. E não quiA jornalista e escritora Martha Medeiros esseram mais desgrudar um do outro. Talvez seja o creveu no http://marthamedeiross.tumblr.com: "Seu amor natural entre os animais, que os homens cos- amor lhe dá um abraço de urso, faz estalar sua tertumam chamar de instinto. ceira e quarta vértebras e fala: Que bom que você Há inúmeros casos em que mães de uma não vai embora, então que tal um cinema pra comedeterminada espécie adotam filhotes de uma outra. morar? Ao se olhar no espelho você se depara com Há casos incríveis até mesmo entre inimigos natu- uma mulher seis anos mais velha e 750ml de lágrirais. Mostram que os animais tem um sentido de mas mais inchada, mas antes que comece a chorar sobrevivência e de proteção muito além da capaci- de novo, ele diz: Tá linda. Vamos nessa." dade de entendimento do ser humano. Talvez só São assim os dias do urso peludo e da gatinum futuro muito distante é que o homem venha nha manhosa. Quem diria! Uma simples e humilde descobrir nos animais a verdadeira sabedoria e o gatinha, com seu jeitinho discreto e estrutura aparenverdadeiro amor cada vez mais esquecido pela hu- temente frágil, libertou o urso da jaula e trouxe para manidade. o mundo uma das mais belas histórias que os aniMas a história do urso peludo e da gati- mais podem contar e transmitir à humanidade. A hisnha manhosa vai além disso. É amor verdadeiro. tória de um grande amor! Diferentes, mas unidos! Tudo começou quando a gatinha de pelos brancos, (Segue) muito curiosa, saiu à procura de novas descobertas
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O urso, às vezes, fica intimidado pela gatinha brava. O que ela tem de pequena no tamanho é grande na ousadia e atrevimento. No entanto, ele ainda consegue, antes de ser arranhado pela corajosa e brava gata, virar o “jogo”. A força do amor entre os dois vencem os obstáculos e vai ajustando as diferenças entre ambos. E já se passaram quatro meses! É um amor infinito! A ligação entre eles é tão grande que certa vez, ele ficou muito triste, deprimido, isolou-se solitário em sua jaula em lágrimas, ela há quilômetros de distância sentiu a sua dor e saiu depressa para socorrê-lo. Mesmo ele insistindo em ficar preso numa jaula, ela chamava a atenção de todos ficando sempre do lado de fora da jaula junto ao seu amor urso até levá-lo novamente à liberdade. Os dois sempre vivem juntos, comem juntos, passeiam... sempre tocando e acariciando um ao outro Quem vê de longe pensa que a gata é um filhote de urso, mas ao se aproximar... a surpresa, é uma gata mesmo. E não é uma dessas gatas qualquer, é dona de simplicidade e graciosidade únicas. Possui virtudes e formosura. Ela é simplesmente única! Na verdade os dois transmitem uma bela mensagem aos chamados humanos. Entre eles não há diferença de raça, cor, idade e muitas outras que separam as pessoas. É, parece que a cada dia temos mesmo que aprender com os animais. Eles nos dão cada lição! Quando a história foi divulgada nas redes sociais as pessoas não paravam de cutir. Gente do mundo todo queria saber detalhes desse amor. O urso e a gatinha viraram um símbolo do amor verdadeiro dando uma grande lição em muitos que deixam de viver sentimentos lindos, puros e duradouros por causa das diferenças, limitados pelo preconceito. É a velha história que se repete. Os humanos querem ensinar aos animais, mas em questão de moral e de amor acabam mesmo é aprendendo. Viva o amor! POESIA-MENINA Por Onã Silva Poesia-menina Cheia de letra bailarina Movimente-se! Põe-meninice: em rima.

Poesia-menina Cheia de graça e encanto Movimente-se! Põe-meninice: tornando (em) canto.

Poesia-menina Cheia de vigor e alegria Movimente-se! Põe-meninice: mostre a sua euforia.

Poesia-menina Cheia de ludicidade Movimente-se! Põe-meninice: rainha da criatividade.

Invente-se, Poesia-menina, Menina- Ser Põe-meninice: sempre. Seja poesia!

Menção Honrosa no I Prêmio Varal do Brasil de Literatura

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em tempo. O caminho chamava para mais longe, mais longe, mais longe. Não era mulher de quebrar a rotina. Se fosse... Na casa de madeira que em nada indicava suas moradoras, ela entrava sem lavar os pés. Batia-os na soleira da porta para anunciar que o dia começava. Três mulheres moravam ali. Três gerações em

AMOR SEM VOLTA
Por Ivane Laurete Perotti Conhecia o caminho que a levava para fora da pequena vila. Madrugada ainda buscava a brisa que

um espaço pequeno, corroído pelo tempo e pelas amarguras que têm a singular capacidade de entranharem-se em madeiras e ferros marcados à mão. Os pés descalços raspavam as tábuas alinhadas em forma de assoalho. Gemiam diante do fogão aceso e

se esgueirava por entra as árvores altas. Frio. Talvez atiçado com carvão fresco. Só o carvão lembrava um anúncio do inverno próximo. O som da natureza frescor naquele lugar. Era um lugar, apenas um delevantando os olhos para o céu acalmava seus passos pósito de dores e abandono sem nada que lembrasse o universo feminino das três gerações. O carvão esapressados. Caminhar sozinha pelo maior tempo possível até não despertar atenção. Passar despercepalhava seu cheiro e a fumaça passeava pelos correbida, ficar entregue aos pensamentos que floresciam dores emudecidos. Um, dois, três, quatro quartos e voluptuosamente. Pernas esticadas quase à frente dos uma porta fechada. Em uma mesa abancava-se a pés, cabelos em desalinho, pequeno agasalho sobre mais velha, e ali ficava pelo tempo que o dia lhe deios ombros entorpecidos pela noite insone. No bolso um cigarro que nunca acendia. Não gostava de fumar. Gostava de se imaginar fumando, em largas e Com o calcanhar desnudo pisava a grama ou qualquer planta que encontrasse para só depois descer a planta do pé na terra úmida. As folhas provocavamxasse os olhos abertos. Olhos com mais de oitenta anos, só viam lembranças, nada mais. A segunda mais velha sentava de frente para a porta, olhando o do a casa no primeiro degrau da escada carcomida. Era um caminho de ir e voltar. Ela esperava, não voltava ninguém. Fora-se o marido. Ficara a filha

másculas tragadas que subiam rente ao nariz afilado. caminho aberto em duas vias que passavam lamben-

lhe um formigamento rápido e profundo, enquanto a descalça e estranha. No fogão erguido com tijolos e terra que escondia pedras e pedregulhos ofertava-lhe barro, as panelas coziam receitas amargas. Os pés pequenas dores novamente aliviadas pela próxima descalços respiravam com dificuldade sobre as táplanta. Amarelinha. Pulava amarelinha sem o equilí- buas desgastadas. Sua avó lembrava, sua mãe esperava e ela, ela se resignava com a estultice de seus brio estético da brincadeira infantil. Já se iam anos sem que qualquer brincadeira lhe fizesse gosto. Caminhar era o começo e o fim de algumas horas de consciência. Plantas e pedras. Um bálsamo, várias recordações. Um quilômetro, dois, três. A brisa diminuía o fôlego, devia voltar. Pesavam os pés negando o retorno, pedindo mais espaço, gemendo por liberdade. Voltar era uma ordem cumprida à risca e
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sentimentos. Se ela fosse uma mulher de coragem... O calor do fogo e os pés descalços misturavam sentidos e sentimentos. (Segue)

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As labaredas enroscavam-se nas bordas do carvão levantando as imagens que tentava abandonar. Em vão. Em vão. Se pelo menos a porta abrisse mais uma vez! Ela poderia tentar chegar até aqueles lábios trêmulos, surpresos, assustados. O marido agonizante, A água na chaleira empretecida lembrava-lhe o banho interrompido. O medo de não ser correspondida. A bacia esmaltada cheia de espuma e a toalha que desfalecera até o chão. A pele doce, o cabelo macio. As vias do caminho à frente da casa não se abririam trazendo de volta o amor de seu primo. Fora -se, impelido pelo desejo de ficar para sempre, para sempre, para sempre. Se ela fosse uma mulher de coragem tomaria a via de ida sem olhar para trás. Os sons das lembranças debatiam-se em cadências desvairadas. Três mulheres, quatro histórias, um amor sem volta. Amanheceria outra vez! Os pés descalços lamberiam a saudade da noite vazia. Amanheceria... O carro todo amassado, cheio de cachaça, o Lua, contou ter "atropelado" um poste "andando " na rua... Zero a zero...Fim do jogo. Voz pastosa, o "seo" Antero pergunta, "curtindo um fogo": Segundo Lugar na categoria Contos do I Prêmio Varal do Brasil de Literatura - Quem fez o primeiro zero? Bem na hora da comunhão, cheio de pinga, o Amaral, chega e diz ao sacristão: -É a fila do sonrisal? "Em Lisboa, zero grau" anuncia o aviador. -"Que bom - exclama Lalau não é frio e nem calor!" insistindo quer saber; Fui traído? - E ela hesitante: -E, se você não morrer?!... Por Domitilla Borges Beltrame TROVAS

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UM DIA LAURA PERGUNTA A JORGE. VAMOS NO CONHECER?. GOSTARIA MUITO. JORGE FICA ALUCIADO NA PESPECTIVA DE CONHECER LAURA - LAURA, QUE TAL A GENTE SE CONHECER NO DOMINGO? - POR MIM ESTÁ TUDO BEM. - COMO VAMOS NOS CONHECER. DIZ LAURA A ROSA VERMELHA Por Iris Berlink - VOU LEVAR UMA ROSA VERMELHA. DIZ JORGE. E VOCÊ? - VOU LEVAR UMA ROSA BRANCA - ONDE NOS ENCONTRAMOS? - QUE TAL EM FRENTE AO COPACABANA PALACE? - ÓTIMO. A QUE HORAS? O TELEFONE TOQUE E LAURA ACORDA ASSUS- PARA MIM SERIA MELHOR ÀS 18 HS. TUDO BEM TADA, AFINAL JÁ ERA QUASE 11HS. PARA VOCÊ? - ALO -TUDO BEM. ATÉ LÁ. - É DA CASA DE LEONOR? LAURA ESTAVA NO DIA MAIS FELIZ DE SUA VI- QUEM ESTÁ FALANDO? DA. DEPOIS DE TANTAS DESVENTURAS ELA IRIA - MEU NOME É JORGE E GOSTARIA DE FALAR RECOMEÇAR SUA VIDA. COM LEONOR. NO DIA E HORA MARCADO LAURA ESTA LÁ. - ME DESCULPE SENHOR MAS NÃO TEM NIN- O TEMPO PASSA E NADA ACONTECE.. GUEM AQUI COM ESTE NOME. LAURA VOLTA PARA CASA COM UMA AMARGU- ME DESCULPE VOCÊ , POIS A ESTA HORA LI- RA DO NADA ACONTECER. GAR PARA UM NUMERO ERRADO NÃO É AGRAO TELEFONE TOQUE E LAURA CORRE PARA DAVEL. ATENDER. - NÃO TEM IMPORTÂNCIA, ISTO ACONTECE. - DONA LAURA? - POR FAVOR, COMO É SEU NOME? - SIM, SOU EU. - LAURA - AQUI É DO ASILO BOA VENTURA ONDE SEU PAI - QUE NOME LINDO. VOCÊ SABE QUE LAURA ESTA. DIGO ESTAVA POIS ELE ACABA DE FALESIGNIFICA COROA DE OURO? CER. OS CESARES A USAVAM PARA DIFINIR PODER. -MAS COMO? ELE ESTAVA TÃO BEM. - NÃO SABIA E AGRADEÇO PELA INFORMAÇÃO. - FOI UM ENFARTE FULMINANTE. PARECIA QUE ELE ESTAVA PRESSENTINDO ALGUMA COISA POIS TOMOU BANHO E ESTAVA TODO ARRUMA- BEM JORGE, ESTE É SEU NOME, NÃO? É O NO- DINHO, DE TERNO, ME DO MEU PAI - UMA COISA NOS CHAMOU ATENÇÃO. ELE TI-QUE COICIDÊNCIA. SIM É O MEU NOME. JÁ SEI, NHA UMA ROSA VERMELHA NA MÃO E ESTAVA TEMOS QUE DESLIGAR. POSSO LIGAR PARA VO- COM UM SORRISO NOS LABIOS. QUEREMOS DICÊ EM OUTRO DIA? ZER QUE ELE NADA SOFREU - CLARO, MAS NÃO TÃO TARDE. - ALO DONA LAURA... ESTÁ ME OUVINDO? - DESCULPE O HORÁRIO MAS COMO TRABALHO LAURA, COM SUA ROSA BRANCA CHOROU A ATÉ TARDE O HORÁRIO QUE TENHO PARA CON- PERDA DE TUDO. VERSAR É ESTE MESMO. MAS NÃO VOU PEERTUBA-LA. FOI UM PRAZER. - JORGE, ME LIGUE QUANDO VOCÊ PUDER. ADO- Menção Honrosa no I Prêmio Varal do Brasil REI CONVERSAR COM VOCÊ. de Literatura O TEMPO PASSA E AS CONVERSAS ENTRE LAURA E JORGE ESTÃO CADA VEZ MAIS CONSTANTES.
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Como todos sabem, o cachorro é do filho, mas quem cuida são os pais e a tarefa de levá-lo para passear foi destinada a mim. O lugar predileto é uma praça, lugar delicioso, florido, arborizado com árvores floridas exalando deliciosos perfumes, muita cantoria de pássaros, arbustos com flores bem coloridas que ao toque do vento se misturam com as cores das borboletas e dançam um balé com sincronismo tão perfeito, que sensibiliza e alegra a vida de quem o assiste.

Meu pequeno salvador

A praça fica bem pertinho de onde moro, mas eu não conhecia.

Encontrei nessa praça pessoas que também passeiam com seus cães e conquistei novos amigos. O DomiPor Leni André nic encontrou amigos e namoradas, brincam e correm o tempo todo. A palavra praça nem pode ser pronunciada em casa, se não existe a intenção de faSempre achei absurdas e exageradas as histórias que zer o passeio. ouvia sobre a amizade e fidelidade de um cão para com seus donos, de como são espertos, inteligentes e Contudo, uma angústia profunda insistia em invadir capazes de compreender tantas coisas. É que eu não minha alma e por muitas vezes acordava, quando dormia, sem vontade de fazer nada, querendo apenas tinha vivido ainda essa maravilhosa experiência. ficar na cama chorando baixinho, deixando-me abaNormalmente quando um filho entra pela porta da ter pela tristeza e entregando-me completamente a frente, um animalzinho entra pela porta dos fundos ela. Então, chegava essa criaturinha feliz, me beijande nossas casas. Não foi diferente comigo. Um podo, abanando o rabinho, fazendo gracinha e trazendo odle macho de cor cinza e com três meses de idade brinquedos para minha cama. Vendo essa criatura entrou em nossa casa como presente de aniversário tão feliz, cheia de vida, mas indefesa, dependendo ao meu filho. Demos a ele o nome de Dominic e mi- unicamente de mim para ter os cuidados mais básinha vida foi presenteada. cos: comer, beber e se exercitar... percebia que era Rapidamente ele aprendeu a fazer suas necessidades impossível continuar na cama, e lá íamos nós para o no local indicado: jornais na área de serviço. Acon- passeio matinal, levar o Dominic para encontrar os selhados pelo veterinário, cada vez que ele acertasse, amigos, brincar e correr até cansar. Saberia mais tarteríamos que lhe recompensar com um biscoitinho. de que também eu conquistaria amigos valiosos. Partindo desse episódio é que posso contar a história mais engraçada desse cãozinho e que se alguém me contasse eu duvidaria: ele fazia xixi e vinha correndo abanando o rabinho, como quem pergunta: cadê minha recompensa? Isso acontecia com grande frequência até que desconfiamos de sua malandragem e fomos conferir. Ele dividia um único xixi em várias etapas para ser recompensado várias vezes e entre um xixizinho e outro, tomava uns bons goles de água. Já tinha associado que bebendo bastante água, faria bastante xixi. Eu e meu filho que o espionávamos, tivemos que sentar no chão para rir. Dei boas gargalhadas como há tempos não fazia. O Dominic fez-me lembrar de como é bom sorrir. Quando ele chegou para nós, eu vivia, talvez, o pior momento da minha vida. Minha casa estava de pernas para o ar, consequências de desestabilidade financeira e crise conjugal: combinação perfeita para que nos tornemos personas não gratas no metier de amigos e nas happy hours da vida, porque quem se diz amigo, nessas horas fogem de nós como diabo da cruz. Descobri que não tinha amigos. Num dia, sentia-me menos triste, noutro, quase alegre, noutro, alegre e sem que eu percebesse, a tristeza e a falta de vontade de viver não mais me rondavam. Sinto-me uma pessoa melhor hoje por não duvidar jamais de quaisquer histórias contadas sobre cães pelos seus donos. Psiquiatras afirmam que pacientes depressivos podem ter boa melhora ou até se curar, se adquirem um cão ou outro animalzinho. Eu acredito e acho incrível “como a companhia de um cão pode auxiliar ou curar alguém doente, quando na maioria dos casos, o que provoca a doença é justamente um relacionamento mal sucedido entre seres humanos!” Foi essa criaturinha indefesa, com certeza, que espantou minha tristeza. Hoje, sou eu quem não vê a hora de amanhecer Para levar o Dominic na praça e vê-lo feliz ao correr Encontrar os amigos que conquistei (Segue)
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Revista Varal do Brasil - Novembro de 2013 Descobrir os que ainda irei conquistar Deslumbrar-me com o canto afinado dos pássaros numa perfeita sinfonia Exalar o perfume das flores que eu ainda não conhecia Alegrar-me com suas cores e beleza As flores da praça que o Dominic me apresentou Tão pertinho de casa, mas eu não sabia que existia.

Dedico às pessoas que recolhem animais abandonados e lhes dão um lar.

Menção Honrosa no I Prêmio Varal do Brasil de Literatura

O SEQUESTRO DA NOIVA

Por Maria Josefina da Nóbrega

Aquela tarde de abril de 1975, em Luanda, capital de Angola, a vida estava transcorrendo dentro da normalidade para Edite Marques, apesar da guerra civil que estava levando a inquietação e sofrimento para os habitantes do país. Ela acabara de provar o vestido de noiva e havia dado uma checada nos últimos preparativos para o casamento com Carlos que seria realizado daí a um mês. Tinha acabado de completar 19 anos e desde os quatorze que namoravam e agora que ele estava bem estabelecido no comércio, iriam realizar o sonho de se unirem para sempre. O tio dela, bispo de Luanda iria realizar a cerimônia e todos os convites já haviam sido distribuídos

Como já estava atrasada, entrou correndo no Escritório da Organização não governamental em que trabalhava e após cumprimentar os dois colegas: Clara, a inglesa responsável pela ONG e Manoel outro funcionário, sentou-se no bureau para terminar uns relatórios. Estava tão envolvida no trabalho, que só viu os cinco homens encapuzados e armados com pistolas e metralhadora quando eles gritando deram ordens para deitarem-se no chão e ficarem quietos. Daí em diante, o pesadelo começou: amarrados, amordaçados e com os olhos vendados foram jogados dentro de uma camionete que disparou em direção ao campo. Depois de um tempo que pareceu uma eternidade, sentiram o carro parar e eles foram colocados para fora. Ao serem desamarrados e retirada a venda, viram que já era noite e que estavam em uma clareira no meio do mato. Eles mal podiam ficar em pé, devido a desconfortável posição em que tinham viajado e aos tropeções foram empurrados para dentro de uma tenda, ficando um guarda armado do lado de fora, pronto para atirar se eles tentassem fugir. Edite, nauseada, mal se sustentava em pé e começou a vomitar, Clara, por sua vez chorava e gritava histérica. Apavorada dizia que iam mata-la, pois sendo a única pessoa branca do grupo estava mais sujeita ao ódio deles, devido a xenofobia criada pela guerra da independência contra Portugal. (Segue)

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Por que eles estavam ali? Descobriram depois ser obra dos Guerrilheiros que sequestravam jovens para lutar na guerrilha ou para pedir sequestro se a pessoa tivesse dinheiro. Eram membros do partido contrário ao que havia assumido o poder e agora lutavam para tomar o posto do mandatário do país. Os dois partidos fizeram, cada um do seu lado, aliança com potências estrangeiras o que deu ao conflito uma proporção maior, jogando irmãos contra irmãos em uma guerra feroz Depois de um tempo jogados ali como animais, duas mulheres entraram com comida e água. Edite tomou logo a água de tão sedenta que estava e só depois olhou para a sopa que mesmo sendo rala deu para matar a fome daquele momento. Quando não se aguentavam mais chamaram o guarda e perguntaram se podiam ir ao banheiro, o guarda mandou que as mulheres trouxessem os uniformes de guerrilha e as levassem para se lavarem e trocarem de roupa. O sanitário era um buraco no chão e o banheiro um cano improvisado, mas que alivio poder se refrescar e tirar aquelas roupas cheias de vômito e de urina.

Várias vezes tentaram fugir e em uma delas, Clara e Manoel foram assassinados, Edite ferida, foi internada no hospital improvisado. Dois meses passou entre a vida e a morte e quando estava se recuperando dos ferimentos, teve malária. A febre de tão alta, atacou o cérebro que junto com a lavagem cerebral feita pelos guerrilheiros a deixaram em uma confusão que já não sabia quem era de verdade e o que estava fazendo ali. Enquanto isso o noivo e os familiares, desesperados procuravam saber de seu paradeiro, mas nenhuma noticia tiveram até que alguns anos depois seu nome constava da lista das pessoas mortas e eles tiveram que se conformar com a perda. Vivendo no meio da selva, Edite aos poucos foi se acostumando com a tristeza de estar longe dos seus e passou a cooperar com os trabalhos das mulheres, como cuidar e educar as crianças, cozinhar, lavar e costurar a roupa dos guerrilheiros. Um dia, o comandante daquelas tropas, vendo aquela moça esguia, de traços nobres e de Menção Honrosa no I Prêmio Varal do Brasil uma beleza triste, resolveu tomá-la por esposa. de Literatura Ela se rebelou, não amava aquele homem, denwww.varaldobrasil.com

tro dela ainda existia a lembrança de um passado feliz e do noivo que havia perdido nas vésperas do casamento. Foi em vão, aquele homem era o Senhor e dono de todos ali e sua vontade era lei. À força, foi obrigada a viver na barraca dele e apesar da revolta, com o tempo deixou de se rebelar. Por ser a mulher do chefe era tratada com mais regalia e até um certo respeito. Passou a viver em função dele, engravidou e teve três filhos. Quando o partido deles começou a perder e a situação ficou ainda mais perigosa, ele resolveu manda-la junto com os filhos para morarem no país vizinho, Zâmbia, até que a situação melhorasse e pudesse trazêlos de volta. Foram tempos difíceis de adaptação, no inicio, ele aparecia para dar um suporte a família, mas depois as visitas foram ficando esporádicas e ela teve que se virar sozinha e vender alguns diamantes que havia trazido escondido para custear as despesas. Com o fim da guerra em fevereiro de 2002, eles puderam voltar para o Moxico, província Angolana, onde estava o Comandante. Porém nesse período em que ficara só, ele havia arranjado outra mulher, bem mais jovem e estava feliz com a nova família. Edite então aproveitou a situação para pedir a liberdade o que depois de muito esforço foi consentido e assim livre voltou com os filhos para Luanda a fim de encontrar os familiares e quem sabe Carlos. Queria vê-lo nem que fosse de longe para poder matar a saudade, imaginava que ele não iria querê-la mais, depois do que ela havia passado. Foi muito comovente o reencontro com os entes queridos que a julgavam morta e o ex noivo que estava casado, ao saber que ela estava viva, pediu o divórcio e foi ao seu encontro para enfim poderem viver o amor que apesar do tempo, da separação e de tantos sofrimentos, nunca deixou de existir.

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EU SOU O BRASIL
Por Eliana Maria Irion Poppendieck INTRODUÇÃO O “EU SOU” O BRASIL é um conjunto de

Somos tudo aquilo que pensamos, sentimos, queremos e fazemos. Sejamos o que de melhor há em nós.

A única e real transformação é aquela que se

afirmações categóricas com o objetivo de apagar das dá de dentro para fora. mentes e dos corações dos brasileiros toda e qualA única e real transformação é aquela que se quer forma-pensamento negativa que possam ter em dá a nível da Consciência mais elevada tendo sua relação ao Brasil e para com seu povo. origem na abertura do Coração. Dar crédito às forças involutivas como a corrupção, a injustiça, a violência, o medo e tantas outras é conferir-lhes poder. O mal é frágil, insignifie da Luz. Jamais deve-se cogitar na vitória do que é destrutivo. Há que se conferir o Poder à Evolução. Pois, todos estamos destinados a um dia nos tornarmos Luz. É só uma questão de tempo. de. O “EU SOU” é alquímico. Ao se pronunciar uma afirmação “EU SOU”, esta penetra em nossas Aqui o Brasil dissolve no AMOR e NA LUZ as manifestações das forças involutivas que operam contra a Evolução: contra a concretização do Genuíno Destino desta Nação. Quanto mais o ‘EU SOU”... O BRASIL for lido, visto e escutado maior será o seu poder de transformação. Através das inúmeras afirmações alquímicas do EU SOU, o Brasil sedimenta, sacramenta o que de mais elevado ele É. A repetição destas afirmações vai paulatinamente transformando a consciência das pessoas. Eu acredito na mudança Eu quero a mudança. Trabalhemos pela mudança. consciências causando a transmutação. O significado da palavra Deus é: EU SOU O cante e efêmero diante do invencível poder do Amor QUE EU SOU Quando se pronuncia “EU SOU”. . . põe-se em movimento a manifestação desta afirmação no universo, transformando-a em verdade. “EU SOU” é a Energia de Deus em ativida-

O “EU SOU” O BRASIL é a consumação da Vontade Superior da Alma e da Essência do Grandioso Ser Brasil e de seu Povo.

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do, conforme assinala a autora, são mulheres

REPRESENTAÇÕES DA MULHER SERTANEJA: DIADORIM E MARIA MOURA
Por Jeanne Paganucci
Sertão. Sabe o senhor: sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte do que o poder do lugar. (GUIMARÃES ROSA: 2006 p.25)

que não fogem ao feminino, independente de classe social, cor da pele ou qualquer elemento cultural. Na literatura, os aspectos físicos, políticos e socioculturais seguem a memória ancestral contada e recontada por gerações, presente nos mitos folclóricos e transmitidos como fonte histórica. O que poderia permitir a desenvoltura da mulher sertaneja como Maria Bonita em aspectos

A mulher sertaneja é diferente das outras masculinizados em Diadorim de Grande Sertão mulheres, porque além do sexo, gênero e im- Veredas? O nascer no sertão? A natureza insposições do sexo masculino sobre sua perso- tável? A geografia? O fato é que nascer mulher nalidade, transita entre a geografia do lugar, o no sertão e se instalar entre o mundo masculisertão, e sua feminilidade. Forjada no calor do no e o feminino assusta, levando os romances sertão, surge na memória registrada da literatu- regionalistas a discussões acerca da identidade ra. Na literatura brasileira, o regionalismo en- cultural do sujeito enquanto mulher, questiovolve aspectos das características da mulher nando a história das mulheres em suas repredo sertão em roupagens diversas, impregnando sentações literárias no mundo sertanejo masa instabilidade de gênero (homem/mulher), do culino. sexo (masculino/feminino) e de sua condição sociocultural, já que essa é uma mulher que pode se permitir ser diferente. Parece natural a mulher do sertão ser valente e transitar no mundo complexo do masculino, por outro lado, a mulher em contextos socioculturais diferentes não são vistas com naturalidade ao apresentar comportamento e roupagens masculinizadas.
Mulheres ricas, mulheres pobres, cultas ou analfabetas: mulheres livres ou escravas do sertão. Não importa a categoria social: o feminino ultrapassa a barreira das classes. Ao nascerem, são chamadas “mininu fêmea”. A elas certos comportamentos, posturas, atitudes e até pensamentos foram impostos, mas também viveram o seu tempo e o carregaram dentro delas. (DEL PRIORE: 2012, p.239) A história é a reconstrução sempre problemática e incompleta do que não existe mais. A memória é um fenômeno sempre atual, um elo vivido no eterno presente: a história, uma representação do passado. Porque é efetiva e mágica, a memória não se acomoda a detalhes que a confortam, ela se alimenta de lembranças vagas, telescópicas, globais e flutuantes, particulares e simbólicas, sensível a todas as transferências, cenas, censura ou projeções. (PIERRE NORA:1993)

De algum modo, as mulheres sertanejas parecem carregar fardos pesados do estereótipo da mulher que se reveste da força, da coragem e da desenvoltura masculinizada. Contuwww.varaldobrasil.com 152

(Segue)

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A história, conforme assinala o autor, aborda uma mulher guerreira, forte, corajosa, que ao fatos que já passaram, por isso sempre proble- final de tudo morre, deixando a representação do feminino esculpida por João Guimarães Romático, mas, por outro lado, a história abriga a sa. memória, que permite observar aspectos do que parece perdido, mas presente na ancestralidade e memória individual e coletiva de um povo. A personagem Diadorim é um caso particular de que a representação da mulher sertaneja é particularmente animada pelo mito da mulher valente, guerreira, donzela, quase heroína, uma mulher quase homem, que revela a transição entre homem e mulher, o lugar marPor outro lado, Maria Moura aparece na cado pelo incerto. Em contrapartida, Maria obra Memorial de Maria Moura de Rachel de Moura de Rachel de Queiroz reserva-se a femi- Queiroz na representação de uma menina delinilidade impetuosa e o aspecto feminino, ainda cada, feminina, inocente e confiante. Entre os que investida da roupagem masculina, mantém afazeres domésticos na fazenda onde morava firme a condição de ser mulher.
Aí pois, de repente, vi um menino, encostado numa árvore, pitando cigarro. Menino mocinho, pouco menos do que eu, ou devia de regular minha idade. Ali estava, com um chapéu-de-couro, de sujigola baixada, e se ria para mim. Não se mexeu. Antes fui eu que vim para perto dele. Então ele foi me dizendo, com voz muito natural, que aquele comprador era o tio dele, e que moravam num lugar chamado Os-Porcos, meio-mundo diverso, onde não tinha nascido. Aquilo ia dizendo, e era um menino bonito, claro, com a testa alta e os olhos aos-grandes, verdes. (GUIMARÃES ROSA: 2006 p.102)

com sua mãe, e as poucas visitas à cidade (vila), costuras e vida tranquila, antes da morte da matriarca.

O trecho acima, extraído da obra Grande Sertão Veredas, descreve a percepção de Riobaldo Tatarana a respeito de Reinaldo/ Diadorim, personagem enigmática, encantadora, que transita entre o feminino e masculino. Diadorim é um jagunço corajoso, guerreiro, revestido em trajes rudes, esconde sob o véu do estereótipo masculino, as sutilizas femininas. O corpo de uma mulher é encoberto por uma armadura de proteção, a aparência do masculino, para proteger-se no sertão. Na descrição de Riobaldo, Diadorim é inicialmente apenas um garoto destemido, valente e cheio de vida. Conforme a história/quase poesia/narrativa desenvolve, Diadorim finaliza sua trajetória como

Sempre me senti muito só. Agora, naquela intimidade obrigada com os meus homens, eles prosando, discutindo, eu entendia que eles não falavam muita coisa por respeito à minha pessoa. Eu podia ser o chefe, como exigia que eles me considerassem, mas era também a Sinhazinha, que João Rufo de certo modo ajudou a criar e que os rapazes tinham visto menina. Só tinha visto. Eu nunca andei com eles, os meninos do sítio. Mãe não deixava. E de andar com as meninas eu não fazia conta, eram muito bestalhonas em medrosas. (QUEIROZ: 2008, p.105)

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Com a descrição da personagem Maria Moura, REFERÊNCIAS: verifica-se que a roupagem e ideais masculinos não escondem sua feminilidade, os resquícios da criação materna, sua maneira de encarar e decidir com seus homens o rumo das suas ações. QUEIROZ, Rachel de. Memorial de Maria Moura. 21ª. ed.- Rio de Janeiro: José Olympio, 2008. NORA, Pierre. Entre a memória e a história: a problemática dos lugares. Projeto História, nº 10, p.7-28, dez.1993. ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas. – 1. ed. – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006. DEL PRIORE, Mary. História das mulheres no Brasil. 10. ed. 1ª reimpressão. – São Paulo: Contexto, 2012.

Considera-se as representações da mulher sertaneja, em especial Diadorim e Maria Moura, relevantes para a memória sociocultural, em aspectos regionais, do que essas personagens podem oferecer a respeito das imagens e identidades femininas e colaborar para que o estudo e olhar acerca do sertão e das tantas mulheres representadas na ficção historiográfica não seja esquecida, relegada ao esquecimento. A vida no sertão parece, diante das obras analisadas, uma quase poesia.
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Revista Varal do Brasil - Novembro de 2013 A Bienal deste ano contou com profundo envolvimento do público, pois, segundo informações oficiais, cerca de 30 mil pessoas estiveram em espaços como “Café Literário”, “Mulher e Ponto”, “Placar Literário”, “Acampamento na bienal” e “Planeta Ziraldo”, além das prestigiadas sessões do “Conexão Jovem” e do “Encontro com Autores”, nos auditórios, lotando as sessões.

COBERTURA – BIENAL DO LIVRO DO RIO DE JANEIRO

Um evento bem carioca para todo mundo
Rogério Araújo (Rofa) * A XVI Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro, aconteceu entre 29 de agosto e 8 de setembro de 2013, num investimento na programação cultural oficial em torno de R$ 5 milhões – 20% a mais que na edição anterior – levando ao Riocentro um número recorde de 163 autores brasileiros e 25 estrangeiros (incluindo nove vindos do país homenageado deste ano, a Alemanha), além de 42 mediadores. O resultado, segundo os organizadores - o SNEL (Sindicato Nacional dos Editores de Livros) e a Fagga | GL exhibitions - foi um público total de 660 mil pessoas, que participaram ativamente dos debates culturais sobre os mais diversos aspectos do universo do livro e puderam conhecer de perto seus ídolos literários.
Nesta edição, o país homenageado foi a Alemanha. E o estenda era gigantesco, com curiosidades do vocabulário alemão de A a Z expostos ali na Temporada da Alemanha no Brasil, com visitas ilustres de autores e do ex-jogador da seleção alemã de futebol, Michael Ballack, que participou da abertura da XVI Bienal do Livro ao lado do cônsul geral da Alemanha no Rio de Janeiro, Harald Klein, e de Marifé Boix García, vice-presidente da Feira do Livro de Frankfurt. Além de participar da inauguração do estande da Alemanha, país homenageado no evento, o craque causou furor nos visitantes. Sempre muito simpático, ele conversou com jornalistas, bateu fotos com fãs e distribuiu uma série de autógrafos.

Para Sônia Jardim, presidente do SNEL, os visitantes da Bienal refletiram a riqueza e a diversidade da programação. "Passaram por nossos corredores autores de diferentes perfis, atraindo uma plateia variada, mas é impossível não destacar a grande presença dos jovens. Eles sempre deram brilho à Bienal, mas nos últimos anos vêm se tornando o maior público leitor do país. E quem esteve no Riocentro pôde constatar isso: os jovens eram maioria tanto na plateia dos debates culturais como nas sempre animadas filas para autógrafos e compras de livros", afirma. No espaço dedicado aos jovens, o #acampamento na bienal, um dos destaques foi a Máquina de Ler, onde, dentro de uma cabine especial, o público leu trechos do clássico Capitães da areia, de Jorge Amado, gerando vídeos com o conteúdo completo da obra disponibilizados no blog do espaço. E, por meio da visitação escolar, marca registada da Bienal, com dias reservados para que alunos da rede pública possam conhecer o evento, 145 mil estudantes estiveram no maior encontro literário do país. O evento também recebeu 2.300 autores credenciados, 97 mil professores e 37 mil profissionais do livro. (Segue)

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Bienal é um grande encontro de pessoas que amam a leitura de alguma forma, além de estimulante ao escritor é a melhor forma do mercado incentivar a leitura e mostrar a força editorial de um país”. Um evento deste porte vem consolidar os 30 anos comemorados na Cidade Olímpica 2016 que iniciou de maneira tímida, crescendo e alcançando um público e prestigio sem limites, nacionais e internacionais. Contrastes são visíveis no público bem eclético com ônibus bem cheios de estudantes que fizeram um tour pelos estandes para conhecer o mundo real e irreal das letras e nos autores também, desde os de fama internacional até os que lançaram seu primeiro livro na Bienal, bem emocionados. E o mais importante é a literatura levada a sério e todos saindo satisfeitos em contribuir de alguma forma.

Sônia Jardim revela ainda que o total de livros vendidos segue aumentando a cada edição: este ano foram 3,5 milhões, contra 2,815 em 2011. "Mais importante que o número de público em si é constatar que ele é formado de fato por leitores, cada vez mais íntimos do mundo das letras. A média de exemplares entre as pessoas que compraram livros foi de 6,4, um crescimento relevante em relação aos números da edição anterior, que foi de 5,5", afirma. Além disso, pela primeira vez, a 16ª edição da Bienal do Livro Rio contou com o Salão de Negócios, que, atendendo a uma demanda de mercado, levou aos três primeiros dias do evento agentes literários e profissionais do livro de diversos países como Estados Unidos, Alemanha, Canadá, Chile e Gana em encontros movimentados. A experiência, na visão de todos os participantes, foi muito positiva. A ideia dos organizadores é que a ação cresça e se consolide nos próximos anos.

O que mais chamou a atenção de todos que passaram pelos corredores cheios eram os personagens infantis que andavam junto com o público, tirando fotos e conversando, desde fadas, duendes, bichos, até super-heróis que só faltaram voar, que despertou o imaginário e o lado lúdico que todos têm e vez por outra é estimulado – ainda mais num evento como a Bienal. A XVII Bienal do Livro Rio já tem data para acontecer: acontecerá entre 20 e 30 de agosto de 2015.
* Repórter da “Revista Varal do Brasil” na cobertura da XVI Bienal do Livro do Rio de Janeiro; escritor, jornalista, autor do livro “Mídia, bênção ou maldição?” (Quár2ca Premium, 2011) e diversas antologias nacionais e internacionais; colunista nesta publicação de“Lupa Cultural”. Contato: rofa.escritor@gmail.com
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Izabelle Valladares, presidente da Literarte – Associação Internacional de Escritores e Artistas, que se fez presente com lançamento de livros de diversos autores, disse que “A

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Menção honrosa no I Prêmio Varal do Brasil de Literatura

O PRÊMIO
Por Roberto Saturnino Braga

vem, jovem belo de estatura e de ânimo, jovem alegre, jovem educado, jovem do Rio e da praia, jovem do sol, atleta, remador do Botafogo, jovem sem nenhuma esperança de vida de repente, dali para a frente, num acidente idiota, subitamente morto de alma, de ânimo, para sempre. E que entretanto foi, foi e se reencontrou com a vida, dia a dia, gota a gota, devagar se reencontrou com a vida, plenamente conseguiu, e atingiu com o tempo um sentido de preenchimento interno que era felicidade, um sentido de cumprimento da vida. O conto findava com as cogitações dele, do personagem, já maduro, sobre o sentido da vida. Olhou de novo o papel e leu então o texto todo dirigido a ele: era aquilo mesmo, o seu era o melhor conto, escolhido pela banca e premiado, parabenizado ao final. A face olhou o céu pela lateral aberta do corredor, um olhar de graça se estampou durante um tempo sem contagem, uma graça que tomava toda a atenção dele, toda a consciência daquele momento da vida, uma graça dominante como um sopro de ventura que lhe invadia o corpo e o espírito por inteiro. E entretanto tinha de dar a aula, os alunos esperavam e o dever exigia. Foi e entrou na sala, fez um aceno para aquela animação. Sentou-se na cadeira, colocou a pasta no chão e o envelope sobre a mesa. Não; não ia falar nada sobre o seu prêmio. Mas também não tinha condições de dar a aula normal. Ficou num silêncio pensativo que os alunos acabaram observando e também aos poucos silenciaram com atenção: algo diferente se passava.

Deu o bom-dia de sempre a Marinalva e ela lhe entregou um envelope; foi subindo a escada, estava em cima da hora, e olhando o envelope, que tinha o timbre da Editora Campus, oh, meu Deus, acabou de subir e parou no corredor antes de entrar na sala, abriu o envelope no impulso do coração, oh, meu Deus, não leu o texto inteiro que era curto, estava todo numa página só, mas leu bem, com certeza, leu bem, logo no primeiro parágrafo, a expressão Primeiro Prêmio, e no final a palavra Parabéns! Oh, meu Deus, ele tinha vencido o concurso, o primeiro prêmio era do seu conto! Perdeu o fôlego e sentiu a inflamação, era do corpo e era da alma, encostou-se à parede do corredor e inspirou fundo, duas, três vezes, ouvia o ruído das vozes dos alunos logo ali adiante, na sala onde ele ia ter de entrar para dar a aula. Era professor de português no curso para vestibular da Rede da Maré. Tinha nascido ali na favela, tinha estudado e se formado em letras, tinha acompanhado todo o movimento da associação de moradores e da criação da Rede, tinha realmente participado daquela construção admirada em toda a Cidade. Era agora professor para a nova geração que se preparava pra crescer e avançar. E gostava de escrever, tinha vontade e achava que podia vir a ser um escritor, escrevia textos que agradavam e tinha sabido do concurso promovido pela Campus, uma editora nova, cheia de gás e já conceituada do Rio, que buscava talentos promissores, escritores novos, e já pelo terceiro ano fazia aquele concurso que logo ganhou destaque na imprensa: premiava poemas, contos e romances, os três melhores de cada gênero, e publicava os vencedores.

Felipe então foi dizendo aos poucos, sem levantar da cadeira como era seu hábito, foi dizendo que a vida era uma coisa toda cheia de mistérios que envolviam as alegrias e as tristezas; ninguém decidia nascer e ninguém decidia morrer, salvo os doentes, suicidas. Elevou-se a atenção dos alunos. Mas a vida era um conjunto de decisões de cada um, influenciadas por isso ou por aquilo, decisões também cercadas de mistérios que a psicologia tentava decifrar, sem conseguir. Teria um sentido esse conjunto? Um significado, uma razão de ser, essa vida humana? Pois era isso que ele queria saber de cada um dos alunos: não ia dar aula; pedia que cada um fizesse ali uma redação sobre aquele tema, o sentido da vida; dissesse o que lhe viesse à cabeça, que ele queria muito saber o Pois ele tinha ganhado o primeiro prêmio de que eles pensavam, eles que iniciavam a caminhada. contos, com o seu conto sobre a vida de um homem E, ademais, aquele era um excelente exercício de de 60 anos que havia perdido uma perna quando jo- redação.
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nada! O pai da garota ficou transtornado ao ser informado do romance e a linguagem usada para namorar: o internautês. Ele era um famoso revisor de uma editora, partícipe da equipe de revisão do Dicionário Houaiss e membro de vários concursos literários. Realizava tratamentos estilísticos em textos de escritores famosos. Para o pai, era inadmissível a sua linda filha namorar um rapaz que assassinava a língua portuguesa, um O ROMANCE INTERNAUTÊS Por Onã Silva Tudo começou na internet. Há algum tempo que os encontros virtuais transformam-se em romances. E com eles foi assim. A internet contabilizou aquele mântico do mundo web. Eles, de tão apaixonados, logo se tornaram experts em cibernautês e internautês. Aprenderam a usar o engolidor de vogais e um ignorante no uso de interjeição. O rapaz chegava ao cúmulo de usar mais de uma interjeição ao mesmo tempo. O moçonamorado desconhecia acentos, pontuações e escrevia palavras em internautês.

romance virtual legítimo, pois nasceu no cenário ro- O pai encontrou bilhetes que fizeram-no ter crises asmáticas: E aí amor? BLZ? Eu ti amu muiiiito.....Ou seja, era uma afronta ter um genro que usava o internautês.

chat, SMS, e-mail, e, é claro os smiles expressando Quanto à mãe do garoto, ela era professora de portuos diversos sentimentos dos enamorados: alegria, guês, mestre em linguística e especialista em intertristeza, saudade. Muito livres na internet, os jovens nautês – não interferia na curiosidade do filho desta namoravam, criando as próprias mensagens, sem linguagem. nenhuma regra ou revisão. Vendo que o sogrão estava muito =(, o rapaz solici-

E foram justamente as palavras diferentes que ajuda- tou ajuda da mãe. Ela iniciou uma revisão intensiva ram a manter o romance virtual: - Olá, oi, hi, hello, com o filho, retomando aos princípios da língua porallô, holla... Dd tc? dd és? h/m? Id? cmo és?tb, Tdo tuguesa e recapitulando as vogais existentes. A revibem? k fzes? hobbies? td blz? Aki? fala seeerio, são era importante porque o internautês tem normas naum, outra pssoa..., aqle mulek q mora perto da próprias como a economia de caracteres, o corte de sua ksa? Tb, rsrs. "miga e migo", Xtrelinha p vc... Bj quase todas as vogais e o aproveitamento do som bj... dos vocábulos para formar novas construções.

Tudo ia blz, até o dia em que o pai da garota desco- Decidido a ganhar o coração da garota, o rapaz recabriu o romance. Ele fez um esforço hercúleo para pitulou as vogais, fonemas, encontros vocálicos e tentar de algum modo decifrar aquelas mensagens consonantais, as diferenças entre as abreviaturas e as muito estranhas: - Filha, o que significam estas mensagens? eh! naum to acreditando, vc eh mto bunitin... tc..."né"? "Tô", "tá", "naum", "nuss". - Não entendi
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palavras do internautês e, em nível avançado, atualizou-se em acordo ortográfico.

tb, vc, pq, (Segue)

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O pai da moça fez uma proposta ao rapaz de que em determinado dia, o mesmo deveria se submeter a uma prova de amor: escrever uma redação cujo tema seria informado apenas no dia, para não correr o risco da sua mãe, ajudá-lo, previamente. Só depois desta prova, sem nenhuma palavra do internautês, o pai aprovaria o romance. Chegou, enfim, o dia D. No dia da prova, o rapaz chegou acompanhado da sua mãe. Após escolher um tema passou a dissertar. A moça não estava presente, mas ficou o tempo todo proferindo orações cheias de locuções interjeitivas: - Oh! Meu Deus! Deus Meu! Enquanto isto, o pai da garota começou a conversar... conversar... com a mãe do rapaz. Falou sobre os seus estudos, sua carreira, viagens e trabalhos literários. A mãe do rapaz achou muito interessante aquele homem que apresentava um português impecável, colocação pronominal correta e acentos bem flexionados. A voz do homem parecia uma valsa gramatical, marcada pelas pontuações e acentos, bailando no tempo certo. Na mente da mulher passavam vários adjetivos respeitantes ao homem: interessante, inteligente, educado, simpático, bonitão, exigente, perfeccionista... Após a revisão, o rapaz foi aprovado. Redação impecável: nenhuma palavra em internautês, frases curtas, sem vírgula separando sujeito do verbo, concordâncias corretas e mesmo sem a obrigatoriedade de usar o acordo ortográfico, escreveu idéia sem acento e proferiu corretamente a interjeição de alívio: - Ufa! - Graças a Deus! Completou a namorada. Mas, depois de todo sufoco – e aprovação – na forma de comemoração de todos, ainda escapuliram algumas expressões que lembravam o internautês: o pai rs, a mãe rsrsrs, o rapaz hehehe, a moça eheheh. E eu, testemunha desta história, também comemorei: kkkkkkk. Menção honrosa no I Prêmio Varal do Brasil de Literatura
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VARAL DOS FILMES E LIVROS

VALQUIRIA IMPERIANO
Varal dos livros com uma realidade, às vezes, camufladas pelo nosso medo de envelhecer. Os questionamentos da maturidade, da nossa vida, do caminho que percorremos de maneira às vezes tristes, às vezes engraçadas. Uma ótima leitura, mas não é um livro que se lê num passar de olhos. É preciso ler nas entrelinhas. Recomendo. Boa leitura. Varal do Filme Des mains en or : um filme sobre o médico neurocirurgião americano Benjamin Carson, muito bom.

Muitos são os livros e filmes lidos nesses últimos meses, alguns merecem ser mencionados . Passei na biblioteca municipal de Genebra e escolhi “A máquina de fazer espanhóis” de Valter Hugo Mãe (um escrito português). A escolha, entre as poucas ofertas na sessão de literatura portuguesa, foi por acaso. Passei um olho sobre os títulos, um titulo me chamou a atenção, pensei que fosse uma historia de ficção. Não era. Era um romance moderno. Comecei a leitura, um inicio é lento, pensei em desistir mas não desisti. Queria conhecer a historia daquele silva simples, idoso e questionador. A medida que as paginas iam sendo consumidas fui entrando naquela estranha forma narrativa, sem pontuação, ou melhor uma pontuação feita sem letras maiúsculas, dando a impressão que os personagens falam sem parar, atropelam os pensamentos. Descobri um grande escritor que analisa de uma maneira inteligente a vida e o passar dos anos
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O Farol
Por Júlia Rego

Caminhava sob o frio pálido do outono. Seus cabelos corriam na mesma velocidade do vento, num compasso, simultaneamente, leve e dolorido. Enquanto caminhava, absorvendo o ar gelado daquela estação, refletia sobre o passar do tempo e em todas as vezes que se jogam fora as oportunidades de vida plena que poderia ter sido e não foi. Estava longe de casa e um certo gostinho de saudade apertava-lhe o peito, sufocando o soluço que teimava em pular para fora de si. Achava tudo estranho naquele lugar, as pessoas olhavam-na de forma enviesada, como a querer decifrar quem seria e de onde vinha aquela mulher. Será que estaria tão tristemente exposta a ponto de não conseguir esconder a melancolia que há muito embaçava os seus olhos... Fugira para aquele lugar na esperança de deixar para trás dias, meses, anos que lhe fizeram o favor de corromper sua alegria. Aquele amargor, almagamado a sua alma, chicoteava suas carnes, onde quer estivesse, agora percebia isso. Sua vida sempre fora permeada por conflitos que nunca conseguiram ser resolvidos à luz da razão, aliás, a emoção, qual um furacão devastando e desbravando caminhos, sempre acabava por determinar seu destino. E, muitas vezes, reconhecia, pagava um preço alto por essa permissão. Será que era por isso que sofria visceralmente diante de qualquer situação que exigia firmeza nas atitudes... Tinha a sensação de que, para ela, era sempre mais difícil tomar decisões importantes e inadiáveis. Enquanto refletia sobre a sua passagem pela existência, observava as folhas caídas das árvores, lembrando-lhe que o ciclo da vida deve continuar e que folhas mortas caem no outono para dar lugar ao verde de novas folhas e ao colorido das flores que embele- Menção honrosa no I Prêmio Varal do Brasil de zam a primavera. Literatura Assim é com a natureza e assim deve ser com a vida. Caminhava para frente e era assim que deveria ser. O vento não dava trégua e já podia sentir os respingos de chuva molhando sua pele.
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E caminhava... A estrada agora estava deserta, ninguém a lhe espiar, sentia-se mais confortável assim, sem ter que esconder o rosto constrangido pelas dúvidas que lhe assomavam o pensamento. Viu um farol ao longe como a indicar uma estrada além-mar, convidando-a a descansar daquela jornada fatigante em busca de si mesma. Pensou em correr desesperadamente antes que aquela luz se apagasse e a deixasse novamente na escuridão, mas seus pés pareciam não obedecer. Como num sonho, andava, andava e não saía do lugar. Começava a chover torrencialmente, olhou ao redor e não encontrou abrigo, apenas árvores desfolhadas que, como ela, esperavam o renascer de seus brotos para saciar a fome insondável de viver. À medida que corria, o farol, a balançar no mar cinzento, parecia cada vez mais distante. Seus cabelos, agora, deixavam escorrer uma água gélida que lhe percorria todo o corpo. Ansiara a vida inteira por aquela luz e agora temia não saber o que fazer quando lá chegasse, mas, mesmo assim, desejava, sofregamente, alcançá-la. Tremia de frio e de medo. De repente, se viu nadando em águas revoltas e repletas de ondas gigantes que a tragavam como monstros devoradores de certezas. Lutava, desesperadamente, para chegar do outro lado do mundo onde a luz lhe acenava. Exausta e confusa, segurou firme num raio brilhante que surgira no meio do mar e deixou-se levar mansamente... Aquele outono gelado passou, levando com ele as folhas mortas daquela estação. Acordou atordoada com o clarão que inundava seu quarto. Quando olhou pela janela, viu um feixe de raios incidindo sobre seu corpo nu. Árvores repletas de folhas verdes descortinavam-se a sua frente num amanhecer esplendoroso. Uma sensação infinitamente leve tomava conta da sua alma naquele momento. Olhou-se no espelho e lá estava ele. O farol que tanto desejou alcançar estivera o tempo todo ali, bem diante de si. Era primavera e se dera conta de que havia botões de flor germinando em seu coração. E assim, o ciclo da vida continuava, racionalmente, apesar das folhas pardas caídas ao longo da estrada, ilusoriamente, construída com as pedras da emoção...

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fazia-se sempre mais curto do que as músicas que gostava de ouvir. Depois do almoço gostava de sentir o aroma do café de outros continentes; às vezes vinha acompanhado de um quadrado de chocolate negro; ficava a salivar o resto do dia. Uma noite acordei sobressaltado e obrigaram -me a dar um pulo da cama. Está na hora! O carro passou por cima do balanço dos acordes e guiou-me pra lá; desta vez o caminho fezse mais longo. O timbre perdeu a melodia, e a voz, agora, carregava agitação.

A decisão
Por Rui Pedro Pinheiro

Debati-me o mais que pude, mas deixaramme em situação de barriga à boca. Faltou-me o ar quando me puxaram pela cabeça; fiquei pendurado pelas pernas; uma cara ao contrário vertia lágrimas; o homem de barba aparada sorria. Então como está o nosso menino?

Desde que chegou a notícia, vi-me obrigado a visitar o médico regularmente; nunca deixei de comparecer no dia e hora das consultas.

Os pulmões pincelaram-me a cara num tom Havia uma voz que eu gostava de ouvir arroxeado; bateram-me no rabo. quando chegava ao consultório. Nunca lhe perguntei Está na hora! o nome, nem lhe vi a cara, mas o timbre era suave e Decidi respirar, e fi-lo da única forma que melodioso. Sentava-me e ficava a ouvi-la até o doutor chamar. Entrava no gabinete contrariado e de sabia: com uma choradeira. mau humor; às vezes até ficava com soluços. Abraçaram-me à cara que vertia lágrimas e ao homem de barba aparada. Então como está o nosso menino? O portão ficou aberto. Nunca lhe respondi. De volta a casa o caminho fazia-se sempre mais curto do que as músicas que gostava de ouvir. Às vezes ficava no carro à espera que uma canção acabasse; o fechar do portão separava-me das outras vidas. Chegamos! Sorria sempre que ouvia esta exclamação. Desde a primeira vez, percebi que não havia nada melhor que o nosso sítio. Gostava quando me levavam a conhecer novos lugares, mas gostava ainda mais de regressar. Chegamos! No quarto gostava de me deitar na cama grande; perdia-me no labirinto dos lençóis de cetim e ficava a ouvir o chilrear dos pássaros até adormecer; a luz do nariz do palhaço ficava sempre ligada; Menção honrosa no I Prêmio Varal do Brasil de apagava-se quando o dia batia à janela. Levantava- Literatura me contrariado e de mau humor; às vezes até ficava com soluços. Está na hora! O carro baloiçava pelos acordes e o caminho
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O

palavras, a mãe sem presença. Ambos permaneceram assim por bom tempo. Os cabelos grisalhos da mãe já douravam a cabeça, ornavam-lhe de anos bem vividos. O corpo esquálido dentro do vestido ainda era forte, apesar dos anos, da queda sofrida em tempos longínquos e no cotovelo esquerdo via-se ainda a marca da cirurgia. Se porventura palavras fossem ditas, de consolo, de carinho, de exatidão, certamente ela não daria conta e nem sequer pestanejaria a qualquer timbre de voz. Absorvida, então, pelos tempos, pela longitude dos anos, da vida bem vivida, não repararia em detalhes nenhum, em olhaamor em três dimensões res nenhum e certamente em claridade nenhuma. Presença de filho, ausência de emoção. Sequer lágriPor José Anchieta F. Mendes mas, sequer sorrisos, sequer palavras vindo dela. O filho mais novo não sabia o que fazer: se corria para abraçá--la, beijá-la, estreitá-la ao peito e sentir aquele corpo materno ou se ficava ali parado, longe de qualquer emoção. Atentou para o fato do provável repúdio, da frieza da mãe. Permaneceu a remoer sentimentos, ali parado, recostado à porta, sem ação. Olhava para a mãe com os olhos envolvidos em tênue camada de lágrimas, o coração a palpitar acelerado e as mãos trêmulas. Viu a mãe movimentar-se para o lado, na menção de buscar algo aparentemente na parede. Alegrou-se por pensar por ela vir ao seu encontro, mas não veio. Passou-lhe pela cabeça a lembrança das imagens do Coração de Jesus e da Virgem Maria dependurados na sala do santo. Ela costumava limpá-los todos os dias, em carinho extremo. Os quadros significavam a simbologia perfeita da união matrimonial. Eles acompanhavam a trajetória árdua ou leve, imperfeita ou perfeita, altos e baixos da vida do casal suburbano. Casal simples e rico de amor em busca da multiplicação dos seres terrenos, comum aos leitores da Bíblia. Gestos simplórios, monotonia dos dias, mas para ela inegáveis atitudes de quem gostava imensamente da vida a dois. Lembrava, também, de todas as noites, quando os pais ajoelhavam-se diante das imagens em intermináveis orações. A imposição em acompanhá-los, muita das vezes a cabecear de sono, dava lugar à preguiça. Nunca se acostumou à ideia de oferecer-se tanto ao seu Deus. Os dois, ao contrário, buscavam forças de um interior mais profundo, para ficarem horas ajoelhados, em repetitivas jaculatórias, onde todos da família eram lembrados: vivos e mortos.

Quando a porta se abriu, um clarão entrou no quarto de maneira forte, a invadir todos os cantos, palmo a palmo. Iluminou a cama vazia, sem o travesseiro, sem o colchão, solitária. Clareou também aquele ser inocente. Nada mais havia no quarto, a não ser elas duas sozinhas: cama e mulher. Estavam entregues à solidão e a ninguém mais. A mulher de mãos vazias, o olhar vazio, a pele envelhecida, o corpo verticalmente vivo, somente vivo. Quando ela era mais jovem, bem casada, tinha seus filhos ao alcance das vistas e das mãos. A vida, um sentido único: amar esposo e rebentos. Amar com graça, com luz, com super dedicação. Soube criá-los, à sua maneira. Suas orações, beijos, voz de mãe, jeito peculiar, ditados, sorrisos, sempre com o ar alegre. A luz entrou e misturou-se à outra da pequena janela. Certamente ela não reparou bem naquela suposta mudança. Sequer sorriso brotou dos lábios. Nem seus olhos relampejaram claridade e nem suas mãos voluntariamente estenderam-se ao encontro do filho mais novo. A inércia continuou. Ignorou presença, ignorou ausência, não deu conta de nada: rancor, raiva, desgosto, sentimento algum. O filho lembrou-se das peculiaridades da mãe. Além dos sorrisos, das amabilidades, o gênio forte. O jeito de desprezar os outros. Matar na unha, como ela costumava dizer. Quem pisasse nos calos dela, decerto não revidava, mas dava de ombros. Esquecia aquele ou aquela pelo resto da vida; até mudava de calçada. Simplesmente ignorava a existência daquela pessoa.

Hoje, ali, rememorando, quem rezava por ela? Talvez ninguém, porque os vivos estavam morEle recuou um pouco. À primeira vista assus- tos pela correria dos dias, do esquecimento dos detatado com a situação da mãe. A lembrar do último lhes, pela indisposição intolerável da vida acelerada instante ao lado dela; dos três casamentos passagei- por busca de sobrevivência. ros, do desgosto da mãe. E o mais cruciante: desistência de ser padre e por fazê-la chorar pelos cantos (Segue) a não vê-lo sacerdote. Sonho posto por terra e ter ido de encontro ao fervor católico. Ela de costa estava e assim ficou. O filho sem
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raiva tapando-lhe a garganta, não seguiu os companheiros. Sapatilha na mão, esperou a chegada do carro alegórico, para atacar a galega. Mas um dos organizadores do desfile, que (Chuva de Verão) bem conhecia o gênio da mulata, desconfiou do desenredo anunciado, tomou-lhe a sapatilha, deixou-a por ali mesmo e levou a moça para (Crônica sugerida por uma Manchete do Jornal um ponto fora da zona de risco. Será que foi Nacional no sábado do Carnaval de 2013.) isso mesmo que aconteceu? Mais um caso de amor desfeito durante os dias de carnaval, como reza a tradição? Ora, ora! Pode não ter sido Por Vicência Jaguaribe nada disso. O que falei até agora não passa de conjecturas. Tudo é, provavelmente, simples fantasia, como vinha anunciando. Um gari depara-se com uma solitária sapatilha Aquela sapatilha não seria nada mais nada meno meio do sambódromo. Sozinha, sem nem nos do que o sapatinho de uma foliã das arquimesmo a companhia de seu par. O homem olha ao redor. Para quê? Talvez para tentar en- bancadas que, no sufoco da saída do sambódromo, deixou-o cair do pé? E o vento — sujeicontrar o par daquele pequeno calçado ou alguma pista da dona dele? Não sei. Acaso, terá to que gosta de brincar incitando nossa imagipensado em dar uma de príncipe de certo con- nação — encarregou-se de levá-lo ao lugar onde o gari o encontrou? to de fada e sair, de casa em casa, à procura da jovem de pezinho tão delicado que cabia Mesmo sem graça e sem romantismo, esnaquele sapato de brinquedo? sa pode ser a verdade dos fatos. Uma pequena Mas, se o gari pensou assim — o que não pos- distração no empurra-empurra da saída e uma brincadeira do vento. Encerrada a questão. Fim so de maneira alguma assegurar —, foi um pensamento rápido, pois logo, logo deu de om- da crônica e da fantasia — até outro mote surgir. bros, pegou a sapatilha e encaminhou-se ao depósito do lixo. Deve haver presumido que um sapato sozinho, sem seu par, não tem serventia. O pensamento durou somente o tempo de lançá-lo entre os detritos. Talvez nem isso. Afinal, estava ali para limpar o espaço do samba, onde outras escolas desfilariam dentro de poucas horas. Mas eu, que não sou aquele gari e gosto de fantasiar, interrogo-me: De qual passista seria aquela sapatilha? E qual escola de samba agasalharia a passista que deixou para trás uma de suas sapatilhas? Por que aquela sapatilha fora deixada para trás? Primeira fantasia: uma sambista iniciante, que se sentiu incomodada e, sem quebrar o ritmo do samba, livrou-se dela com a ajuda do outro pé. Segunda fantasia: uma sapatilha folgada abandonou o pé da sambista sem pedir licença. Menção honrosa no I Prêmio Varal do Brasil de Terceira fantasia: andou pelo pé de uma samLiteratura bista que, no fim do desfile, desgostosa com a péssima performance de sua escola, saiu do sambódromo furiosa, deixando rastros da fantasia tão arduamente trabalhada. Quarta fantasia: uma sambista do morro — mulata tipo exportação —, com ciúmes de seu nego, que desfilava, no alto de uma alegoria, com uma branca descascada, destaque da escola este ano, resolveu revidar a ofensa. Quando sua ala chegou ao fim da pista do samba, ela, com a
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Uma sapatilha solitária mexe com a imaginação da cronista

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Queria, sim, pensou ele, dar-lhe um abraço mais estreito possível e dele arrancar todas as lembranças boas, todos os momentos felizes por passarem juntos; de um lado uma mãe admirável, lutadora, fiel, resignada, compadecida, companheira e amiga. Do outro, um filho muito das vezes ingrato, esquecido, frio, intolerante, amante do mundo alheio, extra familiar, entregue às mazelas das amigas e das mulheres mundanas, mas nem por isso menos amoroso para com ela. - Mãe - conseguiu balbuciar, com voz entrecortada - estou aqui, mãe! Nenhuma resposta. Ela voltou-lhe as costas em gesto largo, porém sem tantas intenções. - Há quanto tempo, mamãe! Trouxe-lhe novidade. Gostaria que a senhora a conhecesse. Pareceu, naquele instante, a mãe sentir alguma coisa, pois quis voltar-se. O filho lembrou quanto ela gostava de novidades, nem tanto de presentes. Os presentes eram eles, os filhos, as noras, os netos. Para que objetos se eram passageiros, quebráveis, inanimados, mundanos, frios? Não importava com as dádivas. Sempre dizia: “não gastem à toa. Não se preocupem comigo”. Realmente, o que hoje lhe restava: um quarto, uma cama e uma nesga de sol a invadir o seu cubículo. Nada mais, pois o verme da idade corroia as lembranças, afastava a sensibilidade e matava aos poucos os pormenores. A neta entrou no quarto e, tanto quanto o pai, estagnou-se diante da imagem da avó. Naquele momento, a mãe voltou-se para eles e lançou um olhar compenetrado, porém loquaz, sem brilho e longe, muito longe. O filho sorriu, mas ela não compreendeu, envolvida estava por uma espessa camada a nebular todos os sentidos. Correu a abraçá-la, estreitoua ao peito, mas a mãe permaneceu inerte, ausente. Beijou-a tantas vezes na testa, no rosto, nas mãos. Balbuciou palavras sem tanta convicção. A neta veio medrosa, porque também há muito não via a avó. Os três ficaram abraçados aconchegados em três dimensões. Uma convicta do que estava fazendo, consciente do seu dever, e as outras duas inocentes pelo tanto de anos vividos e adormecidos, e pelo muito a viver. A nesga de sol iluminou os três. Quando o filho se despediu da mãe, viu nos olhos dela um brilho diferente, uma profundidade a pedir-lhe para ficar. A pedir-lhe para não ir embora ou voltasse sempre, por não abandoná-la, apesar de não poder reconhecê-lo jamais.

MEMÓRIAS DA INFÂNCIA Por Isis Berlinck Renault “Pai, Filho, Espírito Santo, Amem... Bênção, mãe”. “Durma bem, filha. E não faça xixi na cama”. Preocupação... Cabeça coberta, medo do escuro. Sombras que assustam. Assombração... São João Del Rei – Minas Gerais. Primeiro livro de histórias, mamãe contando. Papai Noel chegando. Ilusão... Primeira Comunhão Vestida de anjo na procissão. Coroação da Virgem Maria. Emoção... Viagem... Cidade nova. Queda no Rio das Mortes. Braços que salvam: braços fortes do irmão. Gratidão... Viagem... Cidade nova. O mar - imenso mar. Casa grande, cheia de segredos. Inquietação... Viagem... Cidade nova. Carnaval, corso, fantasia de Odalisca. Nascimento da irmã. Comemoração. Viagem... Cidade nova Guerra , confusão. Morte do irmão. Comoção. Fim da infância

Menção honrosa no I Prêmio Varal do Brasil de Literatura

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que lhe escorresse da língua, olhos, vagina. Qualquer mucosa. Qualquer ferida. Enquanto o marido se entregava a tais devaneios, a mulher olhava sonolenta para o céu. Via agora, através dos raios dourados do entardecer, o quadro que ela sempre quisera pintar: corpos nus contemplados do alto enquanto FERIDA QUALQUER Por Ricardo Belíssimo boiavam, na imensidão inóspita do oceano, com seus sexos suplicantemente enlaçados. Com o entardecer, plânctons passaram a Boiavam há horas no mar. Seus corpos permaneciam enroscados como vestígios de ectoplasmas caídos ali sobre o oceano por alguma fissura no éter. Do inconsciente de ambos eclodia agora lembranças difusas de sonhos que, em épocas e situações adversas, um tivera com o outro quando então ansiaram permanecer exatamente assim, acoplados por horas ou mesmo dias ao corpo do amado. Se afinal o desejo de permanecerem com suas carnes tão desesperadamente unidas, e por tão longo tempo, já estivera arraigado ao inconsciente dos amantes, isso de alguma forma significava que suas almas, após percorrerem o caminho espinhoso das tantas provações e desatinos semeados outrora por suas turvas solidões, haviam enfim penetrado numa mesma vereda. Um caminho que o marido agora o imaginava semelhante ao que sua mulher um dia pintara, todo ele ladeado por tulipas negras, o passeio salpicado por pétalas brancas, onde só aqueles que se amam na mesma intensidade poderiam um dia atravessar. Já quase em estado de semiconsciência, continuou evocando a possibilidade de permanecer ali naquela praia deserta por mais algumas semanas, ou meses, sem se alimentar de outra coisa senão de sua amada. Qualquer substância
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delinear uma luminescência leitosa ao redor de suas peles. Era como se não mais flutuassem na água, mas em alguma substância oleosa, etérea, ideal para que logo diluísse o invólucro de carne que ainda tanto lhes aprisionava o espírito. Esse mesmo brilho orgânico ainda fez o marido evocar a fusão total de suas células com todas as células da mulher. Ela, instigada por esse mesmo clarão mítico, já começava a enxergar o próprio corpo como uma tela em branco a boiar sem rumo pelo oceano. Mas que, pouco a pouco, ia sendo preenchida só com as cores adamascadas da fecundação do marido. Em seus silêncios, ainda intuíram: enquanto estivessem naquele encrave quase sideral, deveriam guardar seus pensamentos apenas para si mesmos. Nada de palavras. Nada de justificativas. Nada de declarações amorosas. Nada de nada. Quando o sol finalmente esvaneceu pelo horizonte, entregaram-se a novos contorcionismos e orgasmos diversos, coroados dessa vez pelo reflexo das primeiras estrelas incidindo sobre o sal em suas peles.

(Segue)

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E quando já pensavam em culminar naquele que seria o último êxtase do dia, viram-se novamente embriagados pelo profundo afeto que um sentia pelo outro. E mais uma vez enroscaram seus corpos como se fossem se metamorfosear numa única criatura. Híbrida, talvez andrógina. Até hermafrodita, quem sabe. Não lhes importava a forma, apenas o conteúdo. Curiosamente, o início desse processo delirante agora também escoava, em rara sintonia, pelo inconsciente de cada um dos amantes. Suplicavam, em seus silêncios, apenas sumir um no corpo do outro. Ansiando assim por essa improvável quimera, continuaram se amando pelo resto da noite, dessa vez já quase sustentados por uma colcha formada de folhas e sargaços, e que ia sendo lentamente tecida em volta de suas silhuetas. Saíram uma única vez do mar, mas apenas para que seus corpos secassem ao vento e, em seguida, um lamber o sal ressequido da pele do outro. Peles cada vez mais ásperas, primitivas, pois assim tinha que ser. Ao fim, retornaram para a água. Após mais um orgasmo, a mulher escancarou involuntariamente os olhos e, nessa hora, ela viu uma estrela cadente. Não quis fazer nenhum pedido. A felicidade afinal já estava ali. Plena. O dia amanheceu e os amantes continuaram descamando suas peles embaixo de sal e sol, como se estivessem prontos a se enterrar no útero do oceano, onde dariam início à metamorfose que definitivamente os uniria, senão a um mesmo corpo, a uma mesma alma. E com os sexos ainda grudados, continuaram se beijando e se amando, como se quisessem enfim destilar todos os venenos do amor, acumulados há anos em seus corações.

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Sentimento de uma primavera
Por Yara Darin

As plantas sempre exerceram um grande fascínio em minha vida . A primavera, cujo nome científico é: bougainvillea glabra, é a minha preferida. Acredito eu, que este sentimento de amor as plantas esteja ligado ao contato carinhoso e diário com que minha mãe cuidava do seu jardim sempre colorido, com várias espécies e cores de primavera. O cuidado era tanto ,que ela não permitia que ninguém tocasse em suas flores, somente podíamos fotografá-las, apreciando a sua beleza.. Elas cresciam e floriam de tal forma que seus galhos pendiam e transpassavam pelo muro da casa ,caindo seus galhos para o outro lado da rua. Outras subiam, tomando forma de uma grande árvore; um verdadeiro espetáculo da natureza. Lembrar desta planta primavera, é mexer com um sentimento dentro de mim , um não sei quê indefinido, um amor contido por algo que não sei bem explicar. Os anos se passaram, casei-me e levei comigo esse hobby de cultivar primavera . Há alguns anos ,plantei uma pequenina muda ao lado do portão da entrada de uma casa de praia ,que eu havia adquirido. A primavera crescia , mas não florescia. Suas folhas eram imensas e seus galhos enormes se curvavam sobre o portão e pendiam pelo muro chegando quase ao chão! Eu sabia que a primavera florescia desde pequena, porém , algo com a minha acontecia. Não florescia por mais adubo que eu colocasse na terra. Esperava ansiosamente pela descoMenção honrosa no I Prêmio Varal do Brasil de berta da sua cor. Literatura Certo dia, sentada ao lado desta primavera, noite alta, céu coalhado de estrelas, sentindo a brisa deliciosa que vinha do mar, comentei com
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amigas que estavam comigo: _Talvez eu corte esta primavera e planto outra em seu lugar, afinal, primavera sem flores, não é primavera! _Veja, o adubo só faz aumentar seus galhos e folhas. a cada dia... Eu havia decidido cortá-la. Na manhã seguinte, retornei para São Paulo. De volta, após um longo período de ausência, numa tarde quente e ensolarada, qual não foi a minha surpresa ao enxergar minha primavera repleta de botões vermelhos se espalhando pelo muro...tal uma cascata colorida. Tão bela quanto havia imaginado. . Não resisti a emoção e chorei! _Coincidência ,fui imaginando, quando me lembrei da conversa com minhas amigas , naquela noite de verão. _Mas não, agora sabia com toda certeza. Era um sentimento reprimido, contido na alma da primavera , e que a despertou ,assim que ouviu a minha decisão em cortá-la. Planta tem sentimento, sente e percebe quando é amada e tratada com carinho . E simplesmente ela agradece, florindo! Não tenho mais esta casa na praia. Porém, os novos proprietários ,fizeram questão em deixá-la ornamentando a entrada da casa. E hoje, qual não foi a minha surpresa, quando deparei -me com uma enorme primavera numa profusão de cores, num matiz colorido, sem igual, transbordando seus pendões com suas flores , numa verdadeira pintura em tons de um intenso vermelho . Fiquei observando-a por alguns minutos ,lembrando com saudade daquela primavera que um dia tanto amei. Enquanto eu a olhava atentamente, senti profunda gratidão pela minha mãe, que ensinoume a amar e cuidar com carinho desses seres ,que também são vivos. Afinal, agora eu esperava da minha pequena e amada primaverinha ,a qual eu havia acabado de plantar em meu novo jardim , presentear-me com suas delicadas flores e cores sutis.

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APOSENTADORIA Por Maria Edviges Machado

Muriel se aposentou, mas continuou saindo de casa quase todos os dias, valendo-se de qualquer pretexto. Gostava de ver o movimento das pessoas nas ruas e era o que estava fazendo enquanto percorria dez estações de metrô até o seu ponto final. Flutuava sem destino entre a multidão agitada igual a um balão desgovernado, enquanto todos corriam em mão certeira e contrária à sua. A inércia singular da aposentadoria ainda confundia um pouco sua vida. Queria estar feliz, como se espera de um ócio remunerado. Não estava! Também não estava infeliz. Uma sensação de ansiedade sem nome em alguns momentos e um deslumbramento pela novidade em outros, era tudo o que sentia ultimamente - a medida exata de um sentimento dividido entre o tédio e a felicidade, respectivamente. Nos dias felizes, aquela vadiagem nova, enquanto fascinante que era, submetia o mundo às ideias mais criativas de Muriel, e fazia a vida, influenciada pelo seu bom humor, dar boas risadas e exibir-se como um pavão em suas cores brilhantes. Nos dias de tédio, procurava lembrar-se dos últimos tempos em que ainda trabalhava na empresa e tudo começava a lhe doer como um reumatismo na alma. Naquele espectro outonal de sua existência, Muriel arrastava-se pelos corredores e salas do escritório, cansada das mil novíssimas idéias velhas, de uma juventude animada e inexperiente das velhacarias de um mundo que há muito tempo a enfastiara. O burburinho irritante daquela energia moça e o desfile das vaidades inerentes, que assistia estática de sua mesa de trabalho, começavam a lhe dar náuseas. Não era inveja daquela gente, apenas uma fadiga de tudo. Quase um enjôo de viver. Muriel era uma funcionária inteligente, bem informada, honesta, bem humorada, organizada, rápida, e tudo o mais necessário para subir de cargo. Quase nunca subia! Uma promoção e um aumento de salário seriam justos, mas há muito tempo que não tinha nenhum dos dois. Tudo que ofereciam ultimamente eram as mixarias de um cursinho aqui, uma reuniãozinha mais importante ali, uma viagem que não acrescentava nada e uma falsa situação de inclusão aos melhores do setor. Isto era tudo o que podiam fazer com uma funcionária

que envelhecia, em todos os sentidos, e não pedia demissão por livre e espontânea vontade. Muriel percebia essa indiferença e esse joguinho safado por parte da chefia, mas ainda estava viva, era teimosa e continuava querendo mais. Enquanto seguia tentando se adaptar, pela enésima vez, a sempre nova gerência, que surgia do nada e sumia da mesma maneira, trazidos das inovações do mundo empresarial e levados pelo mesmo motivo, aos seus olhos, embaçados de dúvidas e frustrações, os novos chefes pareciam verdadeiros zumbis. Sentados em suas mesas ou perdidos nos corredores, procurando por funcionários ou copiando documentos, parados nos cafés ou fumando e olhando o tempo pela janela, todos permaneciam concentrados em si mesmos e completamente indiferentes a tudo o que se passava ao redor e que não estivesse ligado aos seus interesses e aos interesses do mundo globalizado e capitalista. Que tédio! Muriel queria fazer uma revolução, uma pequenina revolução que fosse, mas se fizesse, estaria somente atestando uma canalhice, lembrando-se do que disse Nietzsche: “A revolução se faz quando os pequenos culpam os grandes pelo seu mal estar. Já que sou um canalha, deves sê-lo também”. Embora Muriel pudesse se enquadrar naquele pequenino que queria culpar o grande, naquele canalha querendo aumentar o time e na funcionária medíocre e invisível à chefia, fazendo reivindicações, ela não pretendia fazer revolução alguma, mas não havia como negar seus sentimentos de baixa estima nem um pouco agradáveis. Muriel continuava usando seu poder de invisibilidade, quando trombava naqueles zumbis do escritório, atravessando seus corpos como um fantasma, invadindo suas mentes, brilhantes ou não, para fazer suas reivindicações. Muitas vezes, cansada daquele exercício tedioso, convertia-se de fantasma, requerente de seus direitos, em palhaça, com suas piadinhas tragicômicas. Tudo em vão! Como fantasma, Muriel fora sempre um fracasso, e como palhaça, acabou se transformando numa figura bondosa e patética. Enfim, Muriel acabou desistindo de continuar tentando mudar seu status, cansada de carregar seu fardo de funcionária, mulher, feia, esgotada, e agora velha e desatualizada, prestes a ser substituída como um produto vencido nos fundos de uma gôndola. Naquele jogo infinito de gato e rato, onde o rato era ela e os gatos, todos os outros, um grande fastio tomou conta dela. E o inferno não seria mesmo os outros, como disse o Sr. Sartre, o filósofo existencialista? Sim, Muriel concordava com ele. “O inferno eram os outros”. E uma vida de emoções desatinadas era só o que nos restava depois de tudo visto, revisto e analisado racionalmente. Isto era a existência. Sendo assim, como queria continuar existindo, e bem distante do inferno, resolveu, finalmente, fazer o que eles queriam. Transformaria sua vida da única maneira possível no momento. Aposentando-se!

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cumprimenta os vizinhos, sempre olhando para frente com olhar irritadiço. Toda manhã a mesma corrida, se perder o escolar, só depois de meia hora o próximo ônibus. Fico cansado só de vê-la quase correndo, com aqueles sapatos que não combinam com a rua. Parecem os mesmos, mas deve já ter trocado o salto, ou compra sempre o mesmo modelo, não seriam tão resistentes à maratona diária. Um dia desses, vinha ela, apressada, lá no início da rua, olhei no relógio e verifiquei que estava três minutos atrasada. Ela sabia disso, porque começou a correr. Coitada, cheia de livros, e de novo aquela sacola de papelada pesada. Passou pela frente da minha casa quase voando, não sei como conseguia com aqueles sapatos. Foi aí que tropeçou numa daquelas irritantes pedras do caminho e caiu. Foi uma queda tragicômica: tombou de joelhos, mãos no chão, sacola, livros, papéis, bolsa, tudo no meio da rua. Pulei da minha cadeira e larguei o chimarrão. Tinha levado um grande susto. Mas ela... nem um ai, nada, levantou rapidamente, olhou o joelho ferido, sangrando, a meia-calça rasgada, esfregou as mãos uma na outra para limpar a poeira da estrada e o cascalho. Depois juntou tudo calmamente. Nisso, o ônibus escolar passou. Ela, sem uma lágrima, sem um sinal de constrangimento, apenas tinha o rosto contraído, sério. O joelho direito sangrava bastante. Fez meio volta, e mancando, voltou para casa. Por dois dias, não vi a professora. Depois, acho que quinta ou sexta-feira, ela passou, apenas um livro, sem sacola nem bolsa. Olhei bem, estava de calça jeans azul e camiseta branca, usava um tênis preto, o cabelo amarrado para trás. Passou calmamente, era cedo ainda para o escolar passar. Notei que mancava da perna direita. Ela percebeu que eu estava olhando e disse, pela primeira vez em sete ou oito meses, um bom-dia alegre e jovial.

A Professora

Por Evanise Gonçalves

Nunca fui um bom observador, nem reparava muito nas pessoas. Cheguei a conviver de dez a quinze anos com alguns companheiros de serviço, mas se alguém me perguntasse se fulano era gordo ou se usava óculos, eu era bem capaz de dizer que não lembrava, na verdade não sabia mesmo, de tão desatento com as pessoas. Mas de uns tempos para cá, e isso depois de me aposentar, dei de ficar observando as pessoas passando na frente da minha casa. É que agora, levanto cedo e ao invés de correr para o trabalho, sento na área da frente de casa com meu chimarrão e fico vendo os outros passarem apressados para o serviço, a maioria a pé, e esse novo ofício me diverte. Esses dias, reparei que já conheço todo pessoal da rua só pelo tempo que paro na frente da casa tomando meu chimarrão. Todos com tamanha pressa, indo em direção à parada de ônibus, que fica a uns quatrocentos metros daqui da minha área. Todos apressados, mas nenhum como aquela professora. Ela parece estar sempre atrasada. Passa quase correndo, sempre tropeçando naquelas pedras mal colocadas da rua; usa sempre um sapato de salto alto, um traje básico de saia e casaco, sempre atulhada de livros e cadernos. Às vezes, carrega também uma sacola de supermercado com material da escola: cartolina e jornal sempre a mostra na sacola cheia. Sem falar na bolsa preta de couro que combina com o sapato. Ela tem o cabelo quase curto e liso que fica balançando a cada passo e tropeço na rua de pedregulhos. Passa e nem olha para os lados, não

Menção honrosa no I Prêmio Varal do Brasil de Literatura

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ocupa um lugar bastante favorável nos seus lazeres. Geralmente aventuras, ficção, coisas fantásticas. Afinal o pai chegou, trouxe um amigo, o menino foi para o colo que é seu, e sempre segurando o triste ursinho, não teve para com o pai as expansões habituais. Estava sério, grave, sofrido, pareceu-me. Denis ao abraçá-lo, abraçava também ao Lulu, formando um quadro harmônico de que não se dava conta, entretido em conversa com o amigo. O filho, distante. Sua alminha não estava ali. Descobri que ele empatizou com o texto que lhe tocou, profundamente. Despertou-lhe a compaixão. Funcionou com ele da mesma forma com que impressiona a gente quando se é tocado por algo significativo, poesia ou música que nos atinge o âmago. Concluí comigo, observando-o: foi a crítica mais expressiva que jamais recebi sobre qualquer coisa que eu tenha escrito. Esta criança, ainda tão pequena, tão incontaminada de teorias e leituras direcionadas a ensiná-lo ver o que há nas entrelinhas de um texto, soube captar a minha angústia pela incapacidade de resolver o problema exposto na crônica que leu, seja, como livrar-me de “alguém”/ algo que já não tem mais nenhuma função na nossa vida? E reforçou o meu mal estar, sentindo no seu pequeno coração a injustiça da vida- e a dificuldade que se constitui na tentativa de descarte daquela criaturinha que nem sequer é uma pessoa, mas a quem ele, o pequeno Luan, concedeu importância, concedeu alma.

LULU OU: AS COISAS NÃO TÊM ALMA Por Rejane Machado

O pequeno Luan cresceu. Como aprendeu a ler aos quatro anos e ama à “música de maestro”, ganhou de sua bivó uma coleção de Clássicos para crianças, original e instrutiva publicação da Folha, com os respectivos CDs. Está doido para ouvi-los, quando chegar à sua casa, no lugar paradisíaco em que mora, nas fraldas das montanhas que levam à Friburgo. Ele, que já lê Gibis, ficou encantado com as historinhas dos músicos-crianças prodígios. Folheou e atendeu à minha sugestão de lê-los em sua casa, porque aqui há outras diversões. Não podemos ir à praia porque não haverá tempo, o pai telefonou, está vindo buscá-lo. Então, pegou o livrinho de crônicas que estava em cima da mesa e pôs-se a passar as folhas; fiquei apreensiva que ele começasse com a “Advertência”, que é leitura meio indigesta para sua E se revelou, também, um grande crítico literário – pequena idade, pois trata de teoria literária, é mais por que não? ou menos um credo poético, portanto inadequado para os seus oito anos recentes, e lhe sugeri a crônica Lulu, que é da sua realidade, afinal o ursinho, apesar de gasto pela idade e por muitos usuários, serviu ainda aos seus primeiros anos. Esticando-se no sofá começou a ler, grave e circunspecto, como uma gentinha entendida. Não fez perguntas. Poderia bem ter perguntado: Vó, que é instituição?- coisas assim, mas foi em frente. Terminou, pousou o livro na mesinha e levantando-se, foi à sala de leitura e TV, apanhou o Lulu que fica encarapitado no alto da poltrona e o abraçou, voltando a sentar-se, calado. Recordemos que a crônica expressa a dificuldade que tive ao tentar livrar-me dele, por já não ter função. A Renata nunca o amou: que urso mais feio, Vó! – ela Menção honrosa no I Prêmio Varal do Brasil de Literatura dizia. Mas Luan nunca o desprezou. A sua carinha de piedade sempre comoveu a criança mais próxima. E este garotinho já tem outras preferências; a leitura
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O amor... é cego, surdo e mudo?!
Por Rogério Araújo (Rofa)

dável. E como existem casais que um fala demais e o outro fica muito quieto, o que acaba um dia dando problemas. Se o amor é mudo e consegue segurar certas palavras que é muito melhor que não sejam ditas, será uma grande dádiva! O que mais importa é que o amor faça bem à vida. E quando duas pessoas se relacionam por intermédio do amor e não apenas de maneira carnal, físico, que ele possa ser, sim, cego, surdo e mudo desde que obtenha resultados com as atitudes. Porque como disse Leonardo Da Vinci e que confirma toda essa avaliação: “As mais lindas palavras de amor são ditas no silêncio de um olhar.”

Um famoso adágio popular diz que “O amor é cego”. Este deve se referir à condição em que a pessoa age emocionalmente pelo coração e parece deixar a razão de lado. Por isso refere-se ao “amor cego”. O amor verdadeiro é capaz de deixar qualquer um de cabeça para baixo, agindo como nunca agiu e desconhecendo a si mesmo. Mas, nem por isso, passa a ser cego como se nada enxergasse e vivesse no escuro da ignorância, não pensando. O ditado pode ser, ainda, ampliado: “O Menção honrosa no I Prêmio Varal do Brasil de amor é cego, surdo e mudo”. Agora complicou Literatura tudo! Onde estão os sentidos mais elementares da pessoa no que se refere ao amor? Será que a mudança é tão profunda assim? O amor é cego de modo obscuro quando deixa de ver tudo que o outro faz de errado, por exemplo. Ou, como dizem, também quando um está com o outro ignorando sua aparência. Quantas vezes olhamos para um casal e falamos: “Não sei o que ele/ela viu nele/nela!” Mas, existem belezas que ultrapassam as físicas. Se o amor for cego e ignorar certas atitudes em beneficio do relacionamento pode até ser muito bom! O amor é surdo e inaudível quando não ouve o que é falado pela anestesia do “estar apaixonado” e leva a uma relação a dois sem profundidade. Tapar os ouvidos como se não quisesse escutar não é a melhor solução e não ajuda em nada. Se o amor é surdo e faz com que palavras entrem e saiam para melhor viver, é uma grande virtude! O amor é mudo e nada fala quando apenas um pode expressar sua opinião como um monólogo que muito difere de uma relação sauwww.varaldobrasil.com 172

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Era o baile dos mortos e não dos viventes. As vezes a lua aparecia Mas até ela tinha medo Clareava um pouco e sumia O baile só terminava de manhã cedo. Depois dessa tenebrosa serenata, aquele pai desavisado apagava a luz e dizia: durmam com Deus meninos, que Ele os abençoe e guarde, saia do quarto deixando todos de cabeças cobertas suando de medo; depois de crescidos levavam anos para se esquecer daquelas historias e daquela canção de ninar do carinhoso papai: o jeito antigo de criar e ninar os filhos pode hoje parecer errado , mas os pais estavam sempre presentes. No momento não existe canção de ninar, nem pais presentes, porque é outro século, outros costumes e as crianças já não ouvem historias e nem canção de ninar, a vida perdeu a graça e a poesia, a inocência desapareceu e se os pais contarem coisas assustadoras, os meninos vão rir pensando que é piada, porque coisas reais e piores acontecem diariamente e o susto caiu na rotina, agora tudo é normal e aceitável.

CANÇÃO DE NINAR
Por Vó Fia

Hoje os pais tem pouco tempo para cuidar de seus filhos, porque precisam ganhar dinheiro para fazer face ao consumismo e as crianças passam seus dias em escolinhas ou em casa com os avós, tias e em ultimo caso com babás; são bem cuidadas, mas não acarinhadas como as crianças de tempos passados, quando os pais saiam para trabalhar, mas as mães permaneciam em casa. Naquela época as crianças tinham o privilegio de comer refeições deliciosas preparadas por suas mães, encerradas com maravilhosas sobremesas e seus lanches eram feitos com bolos, biscoitos e roscas feitas em suas casas; as senhoras eram mães antes de qualquer outra coisa, os pais eram amados e respeitados e sempre estavam em casa a noite para jantar com a família e colocar os filhos para dormir. Seu Décio era um pai carinhoso e mal informado, ele não sabia que as crianças não nascem medrosas, que o medo é adquirido com o passar do tempo, dependendo das historias que ouvem elas se tornam assustadiças e esse medo pode acompanha-las para sempre, mas ele adorava contar lendas de fantasmas aos filhos e todas as noites depois do jantar, ele falava durante horas sobre o assunto. Seus meninos ouviam de olhos arregalados aquelas historias, onde se misturava mula sem cabeça com o lobisomem, o Saci Pererê e fan- Menção honrosa no I Prêmio Varal do Brasil de Literatura tasmas vestidos com alvos lençóis que arrastavam correntes e soltavam gemidos e uivos apavorantes; quando se recolhiam para dormir, Seu Décio as acompanhava e cantava uma canção de ninar para acalmá-las, mas até a cantiga era assustadora.. Os versos cantados eram rimados, mais ou menos assim: A noite era escura e a coruja gemia As caveiras chacoalhavam seus dentes Um esqueleto pulava dançava e ria
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e ela quer um vale, tenho que repetir para ela não manchar as roupas, decidir o cardápio do almoço, será que hoje consigo fechar aquele tão esperado negócio, não posso esquecer a chave do escritório, nem o celular, vou tomar café e suco, adoro leite mas tenho intolerância à lactose, lembrar se hoje é dia do rodizio da placa do meu carro, preciso decidir se faço uma escova nos cabelos mas já está meio tarde, faço o amassadinho mesmo, enfim todas essas preocupações são interrompidas sorrateiramente com a minha rotineira dúvida se o que está nas minhas mãos é shampoo ou conSÉRIE: "O DIÁLOGO QUE NÃO OCORREU" dicionador... Recuso-me a pegar os óculos SHAMPOO nesse momento. Óculos debaixo do chuveiro já é demais! Por Fátima Rodrigues Entre a cachoeira de água desperdiçando pelo ralo e a dúvida cruel, visto que a porta está trancada e ninguém vai me ver fazendo isso, aperto os olhos, aproximo os tais frascos junto ao meu nariz e consigo contabilizar as letrinhas já em forma de tirinha como um borrão e, inteligentemente deduzo que o mais comprido é o cooondiiiiiciiiiiioooonaaaadoooor e o mais curto é o shampoo. Convicta e decidida abro o escolhido frasco e, ainda com uma duvidazinha, coloco um pouquinho nas mãos, esfrego nos cabelos torcendo prá que faça espuma, senão terei que enxaguar os cabelos e gastar mais água. Na maioria das vezes acerto, mas mesmo assim meu pensamento voa até a mesa do MBA em Marketing que desenvolveu aquele produto e não teve a capacidade de diferenciar a tal ponto os frascos porque, com toda certeza ele é recém-formado, jovem e ainda enxerga muito bem!

Acordo saltitante, tomo meu primeiro e costumeiro copo de água colocado de véspera no criado-mudo, espreguiço, bocejo, calço os chinelos e vou até o banheiro desviando dos pés da cama, nos quais já fraturei o dedinho do pé. Esvazio minha bexiga, escovo os dentes com a torneira fechada num gesto ecológico. Verifico se a toalha está por perto, entro no box e misturo as águas sempre achando um desperdício o tanto de água limpa que vai pelo ralo até chegar na temperatura ideal. Tento lembrar se lavei os cabelos no dia anterior e, na dúvida, começo a lavá-los de novo. Busco o shampoo na prateleira de vidro, entre os 350 frascos que lá estão, mais o barbeador do marido, a lixa de pé, a bucha, etc e reconheço por familiaridade e pelo rótulo o que me pertence, e que por sorte a empregada não guardou dentro do armário O diálogo que não ocorreu: na última limpeza. Pego o dito cujo e antes de abri-lo, novamente - Eu para o MBA – “Filho, cê tem mãe?”

como acontece há 20 anos todos os dias, fico em dúvida se é shampoo ou condicionador! Penso que deveriam inventar uns óculos antiembaçantes para banho ou com pára-brisa... O pior de tudo é que isso ocorre em meio a um trilhão de pensamentos que disparam feito mísseis no meu cérebro que tenta traçar a agenda diária do tipo: será que a empregada já chegou Menção honrosa no I Prêmio Varal do Brasil de Literatura para contar aquelas histórias interessantes da condução que atrasou, a cantada que ela levou do motorista da van, a conta que está atrasada
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REFLEXÕES E PRÁTICAS GEOGRÁFICAS

Ricardo Santos de Almeida

“EXPERIÊNCIAS EM AULA DE CAMPO: ÁREA DE
EM MARECHAL DEODORO/AL,

Sábado, 06 de novembro de 2010, às

PROTEÇÃO AMBIENTAL DE SANTA RITA 08h14 o professor José Rildo Moura confere a BAIRRO SÃO listagem dos alunos inscritos para a Aula de Campo e nos faz breve explicação sobre o roteiro da Aula de Campo. Às 08h16 seguimos Por Ricardo Santos de Almeida saindo do “Ponto 1 Praça do Sinimbu”, no bairro Poço em Maceió, rumo à Ilha de Santa Rita Este estudo iniciou-se a partir da aula de em Marechal Deodoro. campo realizada em 06 de novembro de 2010. Seguimos pela Avenida Assis ChateauAo tornar a aula de campo uma relação produti- briand, onde já no bairro Trapiche da Barra, em va não sendo uma aula qualquer o aluno não orla marítima, onde é notável o avanço do mar se detém apenas às informações e conceitos na praia da Avenida resultante da dinâmica trabalhados em sala de aula por professores, costeira. Além deste elemento contido na paipois
Quando se está em contato com o objeto estudado é possível se envolver com a paisagem e aplicar os conceitos e conhecimentos (escala temporal e espacial, processos, formas) obtidos em sala de aula de maneira que se torna a principal forma de se compreender os processos e acontecimentos do passado e do presente que implicam na realidade observada. (SILVA & SOUZA, 2009, p.2).

JORGE E LITORAL DE MACEIÓ/AL”

sagem percebe-se a antropização ao longo da referente avenida, incluindo-se a existência de vegetais exóticos como o coqueiro. Já no bairro Pontal da Barra é perceptível construções de casas em cima de paleodunas, que são dunas estabilizadas em área de restinga, configurando -se em uma ocupação desordenada e consequentemente irregular. Chegando a ponte Divaldo Suruagy percebe-se que a ação do homem está explicita na Desenvolvendo essa capacidade cognitiduplicação da rodovia AL 101 Sul (ver figura 1), já na Ilha de Santa Rita em Marechal Deodoro. (Segue)

va de ir e reaprender em campo conhecimentos essenciais à academia é fortalecido o ensinoaprendizagem dos futuros professores e pesquisadores quanto ao ato de compartilhar conhecimentos com a sociedade alagoana.

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Realizamos

parada

no

“Ponto

Para Ivan Fernandes Lima a Ilha de

2” (referida ilha) às 08h38 com odometro Santa Rita é lagunar, pois possui ligação direta (medidor de distancias) marcando 3.287. Es- com o mar. Existem 17 lagunas em Alagoas. ta ilha está localizada no litoral sul de Alago- Segundo o professor José Rildo Moura o comas e faz parte da Área de Proteção Ambien- plexo foi formado a aproximadamente 7 mital Santa Rita que abrange os municípios de lhões de anos resultantes do processo de Coqueiro Seco, Maceió e Marechal Deodoro, transgressão e regressão marítima, havendo num total aproximado de 207 Km do conjun- soterramento da área costeira e posteriormente to da formação. No Complexo Estuarino La- o início do processo de formação das lagunas. gunar Mundaú-Manguaba a laguna Mundaú O relevo é configurado como geomorfologicaé uma fronteira natural entre os três municí- mente contínuo com rebaixamentos ligados a pios que fazem parte da APA e possui 23 soerguimentos (ver figura 2). Km, já a laguna Manguaba 37 Km. É notável que, mesmo em uma APA haja poluição por lixo doméstico (ver Figura 2).

Figura 2. Representação do Complexo Estuarino Lagunar Mundaú-Manguaba (da esquerda para a direita: Elevação, rebaixamento 1, soerguimento resultante de sedimentação, rebaixamento 2, soerguimento resultante de acúmulo de sedimentos, e água oceânica). Fonte: Autor. Figura 1. Aterro para duplicação da rodovia AL 101 Sul, na Ilha de Santa Rita.

Neste complexo estuarino – limnociclo, ou biocilo dulcícola – há água salubre, resultante da combinação entre águas doce e salgada. Este ambiente torna-se produtivo para a vida vegetal e animal, favorável a existência do manguezal que possuem odor diferenciado como reflexo da decomposição constante e menor nível de oxigênio em solo rico. Há sete espécies de mangues, das

Figura 2. Presença de lixo na estrada de terra que seguimos rumo ao manguezal na APA de Santa Rita. Fonte: Autor

quais apenas três estão presentes no Complexo Estuarino Lagunar Mundaú-Manguaba: (Segue)

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Rhizophora

mangle:

Ou

mangue-

Figura 3. Cranguejo Aratu entre raiz de manguezal e solo lamacento. Fonte: Autor.

vermelho, popularmente chamado de gaiteira possui vegetação com raízes profundas e em formato de âncoras. Avicennia germals: Ou mangue-preto, que possuem vegetação com folhas e raízes de arriba, voltadas para cima, eretas e tronco único, com caule penetrando no solo.

Após sairmos, às 09h40, do ponto 2 onde adentramos o manguezal realizamos preenchimento do formulário1 (ver em anexo). Entre 09h40 e 10h06 realizamos o trajeto Ilha de Santa Rita, em Marechal Deodoro, rumo

Laguncularia racemos: Ou mangue- ao litoral norte de alagoas, seguindo em Maceió branco, que possuem vegetação tam- pelos bairros Pontal da Barra, Trapiche da Barbém frutífera (frutos vivos entre as fo- ra, Jaraguá e Pajuçara. Neste recorte do roteilhas), configurando-se em com folhas ro, observamos dentro do ônibus a limpeza da latifoliadas sujeira nas praias da Avenida nas proximidades (largas e grandes, como exemplo, a da foz do rio Reginaldo. Realizamos parada no folha do manguezal) e plantas da famí- “Ponto 3 Praia de Ponta Verde” às 10h06. aciculifoliadas (mato) e lia das ciperáceas rasteiras que no O odometro marcava 3.300, e no exato mangue vivem devido as condições ponto da parada do ônibus avistamos uma língua negra em uma das praias marítimas mais favoráveis do solo. famosas de Alagoas. Algumas frutíferas encontradas no manÀs 10h11 o professor José Rildo Moura guezal são: mangabeira, cajueiro e o jenipapei- inicia a explicação quanto ao talassociclo – bioro. Com essas informações percebe-se a im- ciclo marinho/água salgada – enquanto continuportância do manguezal como base alimentar ação do relevo marinho. Destaca a transgressão e regressão marinha e as elevações na da humanidade. Após a explicação adentramos o man- costa litorânea e a formação do dos recifes de guezal e identificando o solo lodoso, pobre em corais. Destaca que no talassociclo é subdividioxigênio e rico em nutrientes, além do aumento do em regiões marinhas: Nerítico: Correspondente a camada entre da umidade, mesmo ainda estando quente comparado a área correspondente a pequena estrada para o mesmo. Durante a baixa maré tornou-se limitada a visualização de animais como o caranguejo aratu (ver figura 3). a lâmina d’água e 200m tocando o solo marinho. Seres vivos dependem da luz para a sobrevivência. Pelágico: Correspondente a camada entre a lâmina d’água e 1.000m de profundidade, ou seja, o considerado alto mar, onde existem as massas de água responsáveis pela locomoção de alguns seres. (Segue)
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Batial: Correspondente a camada em água oceânica entre 1.000m e 6.000m de profundidade. Abissal: Correspondente a camada em água oceânica acima de 6.000m. Além dessas divisões explica ainda a divisão do ecossistema costeiro em zonas: Supralitoral: Preamar até onde os respingos de água chegam, como exemplo as plantas próximas ao mar, em rochas ou na praia. Mesolitoral: Médio preamar e início do baixa preamar, ou seja, durante a baixa maré ficam expostos, por exemplo, partes do recife de corais. Infralitoral: Início do alto da maré. Destaca a existência de algas halófilas que gostam de sal, as que possuem coloração azul (cianofíceas), verde (clorofíceas) como exemplo a ulva, marrom (feofíceas) e vermelha (rodofíceas), como exemplo o sargaço ou alga de arriba, utilizada para a produção de fertilizantes ou na extração da substancia hagarhagar para fabricação de produtos voltados ao segmento cosmético. Explica sobre os recifes de arenito resultantes da formação do solo ou calcário consolidado, e os coralíneos resultantes da combinação areia e corais (ver figura 4.). Além disso, comenta sobre legislações importantes para a proteção ambiental.
Figura 4. Recife de arenito na praia da Avenida. Figura 5. Coralíneos na praia da Ponta Verde. Detalhe para a poluição por resíduo sólido. Fonte: Autor.

No ponto 3, após a explicação, o professor realiza as perguntas para o preenchimento do formulário 2 (ver em anexo), realizamos a saída rumo ao ponto 4 às 10h46. Seguindo rumo ao litoral norte, utilizamos o trajeto que liga o bairro Ponta Verde ao Cruz das Almas e em seguida utilizamos a rodovia AL 101 Norte, realizando a “Parada 4 Praia do Pratagy” às 11h07. O odometro marcava 3.313 e vamos rumo ao recife de arenito com crescimento horizontal, configurando-se como recife de barreira na referente praia às 11h14. Avistamos um manguezal atrofiado na praia distante da desembocadura estuarina do rio Pratagy que contém mangue fluvial. Percebe-se que a dinâmica costeira é evidenciada de maneira diferente a praia de Ponta Verde, pela granulometria acentuada e afofada da areia na praia, a coloração mais escura do mar – mar profundo e revolto.
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epinociclo, que corresponde ao biociclo terrestre. Nesta parada o odometro marcava 3.323 às 12h15 e realizamos a análise da paisagem onde, há rachaduras no chão, por pararmos em área de aterro argiloso. Abaixo verificamos resquícios de Mata Atlântica, cultivo de coqueiros e elementos da paisagem urbana como residências e prédios que fazem parte da expansão urbana da capital de Alagoas, Maceió. E ao fundo a presença de erosões que podem levar a desmoronamentos e consequente perda material configurando potencial área de risco (ver figura 8).

Figura 6. Recife de arenito, e ao fundo mangue atrofiado na praia do Pratagy. Figura 7. Granulometria acentuada na praia do Pratagy. Fonte: Autor.

O professor nos relembra do conteúdo da disciplina Biogeografia ao comentar sobre as plantas xerófitas (que vivem em lugares secos e sem umidade), higrófitas (que vivem em lugares úmidos como os mangues), orófitas (que vivem em cima das rochas) e hidrófitas (que vivem em ambientes aquáticos). No ponto 4, após a explicação, o professor realiza as perguntas para o preenchimento do formulário 3 (ver em anexo) em sombra após passarmos em construção de restaurante Figura 8. Erosão ao fundo, resquícios de Mata Atlântica na beira mar, que sofre com a dinâmica costei- ao centro e no canto inferior coqueiral. Área pertencente ra. Respondido o questionário seguimos rumo ao ponto 5 retornando ao sentido sul de Alagoas, seguindo pela MAC 204 saindo do bairro Jacarecica rumo ao bairro São Jorge, no
www.varaldobrasil.com 179 (Segue) a subacia do Jacarecica na bacia do Pratagy. Figura 9. Área de Aterro para construção civil. Fonte: Autor.

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Ir além da categoria paisagem ao longo da aula de campo tornou-se indispensável, pois através dela consegue-se entender de modo mais palpável a relação sociedade-natureza, não havendo dicotomias, mas sim reflexão quanto a esta relação que deve acontecer em equilíbrio.

TROVAS Por Lyrss Cabral Buoso

REFERÊNCIAS GOOGLE MAPS. Disponível em: <http:// maps.google.com.br/>. Acesso em: 07 nov. 2010. LIMA, Ivan Fernandes. Maceió: A Cidade Restinga – Contribuição ao Estudo Geomorfológico do Litoral Alagoano. Edufal, 1990. 255 p. SILVA, Vanessa Cecília Benavides & SOUZA, Carla Juscélia de Oliveira. A Contribuição Didática do Trabalho de Campo na Compreensão da Paisagem da Região Metropolitana de Belo Horizonte e Entorno a partir da Cartografia e dos Vestígios Sociais e Físicos. Disponível em: <http://www.agb.org.br/XENPEG/ artigos/GT/GT5/tc5%20(7).pdf>. Acesso em: 22 mai. 2010. WIKIPÉDIA. Disponível em: <http:// pt.wikipedia.org/wiki/Página_principal>. Acesso em: 07 nov. 2010.

A loja em liquidação é um perigo para quem compra só por compulsão e acaba sem um vintém.

Na idade mais madura maldizemos nossa sorte, se o tamanho da cintura revela falta de esporte.

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Soneto de amor
Por Welber Rocha

Juro a minha eterna e lídima amada Aproveitar a cada momento, apenas com sua presença De tanto amor assim, meu coração não guarda Pois ele espera com angústia a sua sentença.

Mesmo com sua indecisão, mantenho meu coração em chama Tendo meu sangue como combustível; minha alma inflama Sentindo, por ti, muito amor e brandura Em um passeio primaveril apagará minha amargura.

Temo, por debaixo de um conjunto de arvoredos Não contemplar seu semblante e sua imagem Cautelosamente guardarei todos os seus segredos.

Por prudência não direi que meu amor será eterno Creio que falar em eternidade é aludir a uma miragem; Mas enquanto ele durar sempre será blandícia e terno.

Imagem do filme Sailor et Lula de David Lynch (1990)

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VARAL DO BRASIL POR TODOS OS LUGARES, PARCERIAS VENCEDORAS!

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Revista Varal do Brasil A revista Varal do Brasil é uma revista independente, realizada por Jacqueline Aisenman. Todos os textos publicados no Varal do Brasil receberam a aprovação dos autores, aos quais agradecemos a participação. Se você é o autor de uma das imagens que encontramos na internet sem créditos, façanos saber para que divulguemos o seu talento!

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VARAL DO BRASIL no. 26

Voltaremos Voltaremos em dezembro com o especial de NATAL!

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