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,,Editorial ,,Destaque

Retocar o real com o cinema


Pesquisar a obra e a carreira de Jorge Molder é descobrir a
multiplicidade. Robert Bresson disse-o de uma maneira exemplar
que talvez possamos aplicar ao trabalho de Molder: “Onde não
existe tudo, mas onde a cada palavra, a cada olhar, a cada gesto
algo mais subjaz”. De facto, a fotografia confronta-nos com
o silêncio mas oculta as palavras que, a qualquer momento,
rompem a fotografia e nos invadem. A já longa carreira de Jorge
Molder faz dele não só um dos melhores artistas portugueses, mas

© Rui Monteiro
sobretudo um dos melhores fotógrafos do século XX. O que aqui se
reproduz são imagens, “folhas” soltas (ou não) de várias imagens
que o próprio artista organiza sob o nome “Entrada por Saída”. O
resto é a impressão de uma estética única, que dialoga aqui com
a linguagem cinematográfica, tão próxima, aliás, da fotografia, o
preto e branco, o corpo que lança ao espectador um enigma… o
resto é Jorge Molder.
A pretexto dessa escrita com imagens, a A23 associa-se a uma
iniciativa tão louvável como é o Imago, desta vez subordinado
ao tema “Da película ao HD”. Se, por si só, o Festival de Cinema
é uma lufada de ar fresco no Interior do país, mais uma vez com
lugar marcado na cidade do Fundão, a programação faz jus à
qualidade a que o Imago já nos habituou: Jonas Mekas; David
Lynch; Rui Poças; Xavi Gimenez; Khan; Gonzalez; Kalabrese e
tantos outros nomes integrados neste evento que reúne jovens
realizadores e oferece a possibilidade ao público português assistir
a filmes habitualmente não distribuídos no nosso país. À exposição
de credos estéticos consagrados, soma-se o facto de jovens artistas
verem as suas obras partilharem o mesmo espaço. É essa não

© Margarida Dias
separação que gostaríamos de realçar aqui: é apenas a obra a
protagonista e que, por isso, não se importa com falsas modéstias
nem de agradar a todos.
Para além do grande tema que domina esta revista – o cinema,
a A23 dá continuidade a um dos géneros mais prezados, pela
forma como a objectividade se conjuga com a subjectividade:
a Reportagem. Neste número, a grande reportagem abre P.04 REPORTAGEM P.02 OPINIÃO
uma janela sobre a forma como o sexo é visto e “consumido” O amor exposto é para consumo na casa “A crise da democracia”;
“A aldeia”;
pelas populações das cidades do Interior. Vários estudos têm
“O rei vai nu”
sido publicados a este respeito, convergindo na ideia de que Reportagem libertina, entre bordéis à beira da estrada, estudos sobre
o conceito de sexo em Portugal está a mudar. Mas muitos sexualidade na adolescência e segredinhos sexuais, escondidos nas alcovas do P.10 PORTFÓLIO
hábitos permanecem e conformam a nossa forma de encarar a puritanismo beirão. Com Ovídio como companheiro e os ensinamentos da “Arte Jorge Molder - “Entrada por Saída”
sexualidade, ainda hoje para muitos assunto privado e tabu. Num de Amar” no bolso, partimos à procura de sexo sem vista para o mar …
registo diferente, a escritora Antonieta Preto aceitou o desafio da P.17 SUPLEMENTO ESPECIAL
“IMAGO”
A23 de acompanhar a rota de um dos maiores barcos de velas P.08 DOSSIER CIDADANIA
do mundo – a “Traslatio Literaria e Xacobea” que, com partida a
12 de Agosto, revisitou a antiga rota marítima da Idade Média,
Verde Urbano P.25 CRÓNICA
“Uma aventura na noite de Monsieur Ramos”
entre Valência e Santiago de Compostela. Através do olhar e da Preocupada com a manutenção dos espaços verdes nas cidades, a Comissão
sensibilidade poética de uma escritora, o mar correu nas veias dos Europeia encomendou recentemente um estudo sobre o assunto. Esse estudo P.26 ENSAIO
que embarcaram nesta aventura, onde marcaram presença outros concluiu que as zonas verdes, os parques e jardins das cidades, são essenciais a três “Antonioni e o duplo”
escritores como o português Possidónio Cachapa, a escritora galega níveis: ambiental, social e psicológico. Alem de serem agentes contribuidores para
Luísa Castro e o poeta Xulio Valcárcel. a diminuição da poluição citadina e temperadores do clima, representam ainda um
P.28 ENTREVISTA
“Olga Roriz - Dançar com as palavras, escrever
Destaque ainda para o Dossier deste número que reflecte sobre a importante pólo de encontro e diversão social, potenciador do equilíbrio emocional com o corpo”
preocupante e quase inexistência de espaços verdes nas cidades, na vida atribulada e de stress do cidadão urbano. Viajámos pelas cidades da Guarda,
contribuindo sobremaneira para a degradação da qualidade de Covilhã, Fundão e Castelo Branco e tentámos apurar se são ou não “cidades verdes”. P.30 ARQUITECTURA
vida dos seus habitantes. Olga Roriz, em discurso directo ou o Chorão Ramalho: “a obra e a pessoa”
perfil de um nome forte da Arquitectura como Chorão Ramalho P.32 VIAGEM
sobressaem neste número. P.36 CULTURA
Ainda com o dedo no mapa da nossa vida, as crónicas de Manuel Escritores a bordo “Do subterrâneo da cultura, a geração
instintiva, o teatro manifesto”;
da Silva Ramos e de Rita Barata Silvério e muitos outros temas No dia 12 de Agosto atracou em Lisboa um dos maiores barco de velas do “A essência da subtração”;
para descobrir. Faz-se assim o balanço do terceiro número desta mundo para nele embarcarem os escritores portugueses Antonieta Preto “Eve, o perigo da banalidade”
publicação, já com um ano de existência. Continua a interessar-nos e Possidónio Cachapa, juntando-se a mais de uma vintena de escritores
tudo acerca da cultura e da sociedade, hábitos, tradições, estéticas espanhóis, que foram embarcando nos vários portos. A rota, denominada P.38 INTRIGAS CINÉFILAS
que exigem ser ditas. O desejo mantém-se: o de fazer da A23 um como “Traslatio Literaria e Xacobea” pretende recuperar a antiga rota marítima
interlocutor com todos aqueles que nos vão mostrando como, todos
P.39 GASTRONOMIA
(entre Valência e Santiago de Compostela) da Idade média, e rememorar a “Quinta da Hera - Um Éden de Restaurante na
os dias, há novas ideias que nos espantam e que nos dão prazer. última viagem dos restos do apóstolo São Tiago quando foi trasladado desde Cova da Beira”
Jerusalém até Santiago de Compostela. A A23 pediu à escritora Antonieta Preto
Ricardo Paulouro que transmitisse o seu olhar sobre a viagem... P.40 MEMÓRIA

Director/ Ricardo Paulouro Director-adjunto/ Pedro Leal Salvado Chefe de Redacção/ Margarida Gil dos Reis Colaboram neste número/ Antonieta Preto, António Leal Salvado, César Rodrigues, Jacinto Galião de Tormes,
Luiz Antunes, Manuel da Silva Ramos, Nuno Teotónio Pereira, Pedro Fiúza, Pedro Ramos, Rita Barata Silvério, Rodrigo César, Rui Pelejão Marques, Sérgio Felizardo, Vasco Paulouro Neves Design Gráfico/ contiudo.com |
David Duarte, Nuno Lages Foto de Capa/ Jorge Molder Fotografia/ Adriano Batista, David Duarte, Filipa Carvalho, Jorge Molder, Margarida Dias, Nuno Reis Gonçalves, Rui Dias Monteiro Ilustração/ Lucas Almeida , Sicrano
Periodicidade/ Trimestral Tiragem/ 10.000 exemplares Impressão/ Mirandela Artes Gráficas Distribuição/ Gratuita Propriedade/ Associação Cultural A.23 | associacao23@gmail.com | www.contiudo.com | contiudo@gmail.com

Número registo na ERC/ 125073 Morada e sede de redacção/ Rua dos Três Lagares - Edifício Laranjeiras, Torre 3, 6º - 6230 Fundão

A.23 // 01
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Sinais A crise da
democracia
+ Aquilino Ribeiro no Panteão Nacional Texto | Vasco Paulouro

Os restos mortais de Aquilino Ribeiro foram trasladados


para o Panteão Nacional. Mestre da língua, Aquilino
recebe assim uma das maiores homenagens que a Pátria Em meados do século XX, muitos intelectuais e teóricos políticos constar, a par das famosas medidas de reajustamento estrutural,
presta aos seus nomes maiores. É de salientar aqui a ocupavam o seu precioso tempo a reflectir sobre a natureza da no programa de receitas neoliberais elaborado pelo FMI ou o
iniciativa da Assembleia da República que, com esta relação entre o capitalismo e a democracia, nomeadamente Banco Mundial.
iniciativa, reforça a importância de Aquilino Ribeiro no quanto à possível incompatibilidade “genética” entre os avanços A apresentação da receita neoliberal – regressão em relação
panorama da cultura em Portugal. 44 anos passados da em matéria de direitos democráticos nas sociedades centrais aos direitos sociais adquiridos no pós-guerra, privatização dos
sua morte (Aquilino morreu em 1963), esta homenagem do sistema capitalista mundial e a própria essência do desigual serviços públicos ou a desregulação e “flexibilidade” das relações
era já aguardada por muitos, não pela homenagem ao sistema capitalista. Dito de outro modo, julgava-se que o laborais são alguns dos elementos mais óbvios desta receita –
morto mas, pelo contrário, a provar que a presença e as carácter igualitário e inclusivo do processo de democratização como uma realidade inquestionável e impossível de contrariar,
palavras de Aquilino continuam vivas dentro de todos os iria inevitavelmente entrar em ruptura com o capitalismo, por está a dar origem a um crescente desencanto em relação à
que o leram, ouviram ou com ele privaram. natureza desigual e excludente. democracia e à política. “Não há alternativa!”, repetem-nos
Aquilo que nos parece hoje uma análise absurda era na altura insistentemente, não vamos nós suspeitar dos novos iluminados
bem compreensível. Vivia-se então em plena “euforia” do pós- da economia. Através de um falso realismo, aparentemente
guerra, o crescimento avassalador da economia mundial coincidia neutral e objectivo, a ideologia hegemónica afunilou a realidade
com a emergência de um Estado-Providência que era fruto da social, reduzindo a política ao deprimente papel da mera gestão
pressão de um movimento operário poderoso e activo, assim do capitalismo realmente existente. Se a História chegou ao fim,
como do “papão” comunista, a União Soviética imperial, que como dizia Fukuiama, também a política se tornou uma futilidade
emergira dos escombros da segunda guerra mundial. A época dispensável.
era de optimismo e de crença no progresso. Esta enorme decepção, que frustra tanto aqueles que tinham
O ritmo impressionante das conquistas sociais promovido através a justa expectativa de maior inclusão social com o advento da

- Onde pára o Cineclube Gardunha? do Estado-Providência e a redistribuição económica que o mesmo


impunha, e que teve como consequência mais óbvia a inclusão
democracia, como aqueles que, nas sociedades centrais, se
julgavam seguros e que vêem agora os seus direitos esfumarem-
Nos últimos anos, o Interior do país tem conseguido política dos trabalhadores nas democracias liberais, deixava se, só vai alimentar, cada vez mais, e de uma forma que pode
ganhar verdadeiras apostas a vários níveis, tentando antever uma transformação interna radical do capitalismo, quem ser dramática, a crise da democracia enquanto regime político. A
fugir, de uma forma ou de outra, ao fatalismo deprimido sabe até mesmo a sua superação. O sonho da social-democracia crescente abstenção eleitoral, o cinismo e o cansaço em relação
de se tratar de uma região hierarquizada, em termos parecia estar a concretizar-se. à vida política ou o descrédito dos partidos políticos perante os
culturais, relativamente às grandes cidades. No entanto, Hoje, é evidente que esta suposta incompatibilidade foi cidadãos são sinais claros e inquestionáveis dessa crise.
iniciativas como a do Cineclube Gardunha trouxeram ao contrariada pelo caminhar da História. Não só capitalismo Foi como se tivesse sido invertido o modelo relacional explicativo
Fundão um sopro de vitalidade que atraía espectadores e democracia se revelaram compatíveis, como o avanço da de que falámos no início deste texto. Não é a democracia que
de todas as idades. A 7ª arte continua a ser das mais democracia, desde a chamada terceira vaga da democratização vai provocar a crise do capitalismo, mas sim a radicalização
procuradas e, um pouco por todo o mundo, tornou-se protagonizada pelos países do sul da Europa, nos anos 70, até do capitalismo que está a levar à crise da democracia. E neste
uma arte democratizada, ao alcance de todos. Contudo, à actual “exportação” do modelo democrático a todo o mundo, contexto, o perigo da emergência do populismo e da extrema-
é de lamentar que iniciativas desta natureza esmoreçam se fez a par com a emergência do processo de globalização direita na cena política europeia é cada vez mais uma realidade.

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e não exerçam uma actividade regular. Mais triste ainda neoliberal e as suas dramáticas regressões ao nível dos direitos Pelo menos neste aspecto a consciência histórica da Europa é
é que os habitantes da cidade do Fundão se tenham sociais adquiridos no pós-guerra. A democracia passou mesmo a inegavelmente curta. [x]
de deslocar às localidades vizinhas – Covilhã ou Castelo
Branco - para assistirem a um filme. Estranho será o

A aldeia
facto de, com a inauguração, há precisamente um ano,
de uma estrutura cultural como a Moagem, esta situação
se manter. Não terá o século XXI chegado ao mesmo
tempo para todos?

Texto | César Rodrigues

- As cidades de betão Quando se imagina a capital à distância de alguns extensa, mas estreita a tal ponto que os automóveis quando
Quando se fala em ‘qualidade’ de vida não é difícil quilómetros, no aconchego de um vale ladeado por altas a atravessam, todos no mesmo sentido, desaceleram. Tem
associarmos esta expressão a espaços onde a qualidade serranias, imaginamo-la com gente apressada, socialmente tascas, onde alguns aldeões populares refrescam a garganta
do ar, o convívio com a natureza é preservado. Contudo, activa e disponível para surpreendentes divertimentos. com o sabor da cevada gelada e borbulhante ou com o
se é certo que as cidades do Interior do País reúnem Mas eis que quando mergulhamos no seu âmago, nos bairros barato vinho, desde a juventude do dia até ao anoitecer.
todas as condições para atraírem mais habitantes, históricos, destapamos a vida aldeã que julgáramos inexistente. Falam de futebol, pois então. E emprestam aos argumentos
movidos por este desejo, assistimos, cada vez com mais Nos núcleos populacionais antigos de Lisboa fervilha o espírito fervorosos sentimentos, pois se trata do tema central para
velocidade, à construção urbanística desmesurada e, bairrista, que pouco se diferencia do aldeão, a não ser talvez pela os pouco desenvolvidos espíritos. Enquanto isso, as mulheres
sobretudo, desorganizada. O verde das serras continua indumentária dos mais jovens - o boné e o brinco na orelha, tudo atravessam a rua, em movimento pelas mercearias, donde
a existir, a tentar servir de pulmão, mas nas cidades misturado com o andar gingão -, a pronúncia e o ritmo apressado sacam o manjar, ainda nas formas rudimentares dos legumes.
os pequenos espaços verdes de lazer parecem estar com que se desfiam conversas. Talvez escasseiem características Trazem soltas as crianças, algumas delas pobremente
condenados a desaparecerem. O jardim não é um diferenciadoras que o leitor se tenha lembrado. vestidas. Uns e outros falam alto, como se entre eles houvesse
terreno desperdiçado. Muito pelo contrário, é uma Esta rua donde escrevo, a paredes-meias com os Sapadores, é um campo de trigo.
necessidade vital. tal qual a rua principal de uma aldeia. Aliás, a população que O mais certo é que o cinema, esplanadas, conferências é coisa
a habita e os que vêm de um pouco mais distante para dela que estes aldeões desconhecem. É como se aqueles altíssimos
tirarem proveito é em número igual ou superior a algumas prédios além fossem montanhas. A cultura e a urbanidade
aldeias beirãs. Ela desce em direcção ao centro do vale, é está lá ao longe, bem longe. [x]
,,O rei vai nu
Texto | António Leal Salvado

Informação e Comunicação com objectivos de curto prazo, ainda dá mais resultados Mentira
do que reveses. Daí os pequenos césares que, uma vez
Chamar a isto em que vivemos a sociedade da comunicação é instalados no império de uma simples autarquia, ditam fiat Mentira. A palavra é dura, fria, cruel… digamos: certeira. Tão
um lugar comum. Por isso mesmo é que é importante dizê-lo lux com a mesma convicção com que se curvaram em amen certeira e eficaz que ela própria, a palavra, é muitas vezes
e, sobretudo, pensá-lo. Desde logo, por ter-se tornado lugar intermináveis e invariáveis até que conseguissem o ceptro do mentirosa. Ilude a sua condição de sóbrio substantivo e
comum – com todos os malefícios, os da banalização e os império. O desastre do apelo à pedrada feito recentemente impõe-se no lugar que lhe não pertence. No desengraçado
agregados – e pela ênfase com que se eleva ao estatuto de por um pequeno-grande césar para reagir à queda da máscara caso do festival que a artista de Lisboa não viu, o que
característica definidora o acto mais instintivo e rudimentar da legalidade, mesmo tendo ocorrido no cavaquistão, só sucedeu, dêem-se aos adjectivos as voltas que se derem, foi
do animal social. Mas também porque não é por acaso que aconteceu porque por detrás das notórias deficiências de que os eventos, as performances, os performers e o próprio
no centro da vida pública o dicionário fez deslizar para um comunicação havia outras deficiências mais profundas. cenário não eram bons nem maus, não eram belos nem
certo sentido de comunicação os benefícios dos prodigiosos feios, não eram sérios nem brejeiros – eram mentira. Simples
recursos da informação. Sentido único, apetece adiantar – mas Um festival e friamente, pura e redonda aldrabice. Mentira parola, diria
já lá chegaremos. Já não falamos dos factos da informação, eu, não tivesse já visto este adjectivo ‘ser’, também ele,
dos meios e dos agentes de informação; falamos dos No passeio de final de férias pela Província, a artista da incómodo que nem uma carapuça. Mentira é um vocábulo
objectivos da comunicação, dos recursos e das agências de capital soube do festival e achou piada à designação, talvez diabólico. Tão diabólico que em situações de tal significativa
comunicação. Como por ironia, as técnicas que poderiam pela convivência da toponímia tradicional com o layout insignificância se transforma na única (e divinal) palavra que
melhorar a transformação do conceito de informar num fluxo anglo-saxónico. Nas letras pequenas do anúncio grande exprime a verdade.
de conhecimento nos dois sentidos levaram os seus novos descobriu o horário de uma exposição – parecia ser de artes Diabólica, sim, é o que a mentira é. Diabólica nas manhas
donos (das técnicas) a transfigurar a informação interactiva plásticas. Dirigiu-se à rua de memórias muitas e entrou na com que seduz os enganados – mas ainda mais diabólica na
numa nova arte de comunicação unilateral. Os novos técnicos velha loja que albergava a esperada expressão de cultura. irresistibilidade com que se dá ao manejo dos que vivem
de comunicação sabem como tornar aparentemente vivo o Entrou e viu espaços vazios. Perguntou o que havia para ver de ludibriar o alheio, quantas vezes à sombra das cuidadas
que ainda não nasceu e, quem sabe, poderá jamais nascer. na exposição. Responderam-lhe que não era para ver, era paredes do engenho e das artes. Afinal, muitos medram à
A esperteza da nova comunicação tem várias técnicas – desde para imaginar – que cada visitante visse nos espaços vazios o sombra do que não é mas convém que pareça – e muitos
a de saber averiguar o que o destinatário prefere ouvir até à que bem lhe desse na real gana. A entendida senhora olhou mais são enrolados no que parece muito mas não é coisa
de adocicar o presente com bálsamos de uma ideia de futuro a toda a volta e de relevante não conseguiu descortinar mais nenhuma.
que, por ser de futuro, só é possível de vislumbrar como do que dois pequenos quadriláteros de azulejo numa parede O pior é que aquilo que parece ingénua ficção de somenos é
projecto, sendo que um projecto é o que é: uma figuração da – e voilà, eureka, atenção. Pelo sim pelo não, perguntou à muitas vezes astuta intrujice de coisas sérias.
realidade e não a própria realidade – e aqui a questão é a de voluntariosa assistente do lugar se o cerne da exposição Num mundo em que as técnicas da comunicação e do
tornar a figuração tão verosímil, tão plausível, tão parecida era aquela geométrica mostra de azulejaria. Que não, marketing são ou arranjam solução para quase tudo, mentir
com a realidade, que aqueles que esperam por César se uops, que os azulejos tinham ficado agarrados à parede da é um caminho curto para se chegar longe. A esperteza de
bastem com admirar a mulher de César. Evitemos a incómoda antiga loja de comércio… A visitante saiu, dispensando o urdir, amplificar e instituir a mentira pública é uma poderosa
palavra que é manipulação e digamos que o engenho dos “olho clínico” de quem levou uma vida a transpirar obras ferramenta ao serviço daquilo a que chamam imagem – que
novos espertos da comunicação é o de saberem vender um de arte e preferindo refugiar-se na imaginação das coisas é como quem diz propaganda. A vida pública tornou-se num
futuro incerto numa embalagem de presente certo. Tudo está genuínas da vila erudita de outrora, como que sublimando circo em que o importante é exibir o número mais aparatoso.
em saber escolher o que se diz e o que se omite, na cuidada a parola megalomania da cidade kitsch de hoje. Prosseguiu Mentir compensa. No ilustrativo exemplo da exposição que
aproximação do que é ao que parece, como no caso da na rua de nome tradicional, de nome igual ao do “festival” a artista de Lisboa pensava encontrar há um maquiavélico
mulher de César. pomposamente alardeado, como se o que lera nos outdoors, traço de união entre as obras que não estiveram expostas,
O mundo da Economia deu o mote: gerou o marketing, de vocabulário tipo néon e redacção tipo pimba, não fosse a festa que não aconteceu na rua do festival e os palhaços
conceito de etimologia curiosa mas de resultados sérios. Os mais que o ingénuo espelho de algum ideólogo suburbano que não fizeram graça: no vazio dos conteúdos que (não)
novos césares, os grandes césares e os pequenos césares, que os mandou imprimir em hora de “deu-me para aqui”. aconteceram houve uma mão cheia de acontecimentos que
deixaram-se seduzir pela arte da sedução. E na tautologia da Procurou pela animação da rua tradicional que era suposto se propagandearam. No deserto da inteligência cultivou-se a
sedução descobriram que não é mais que uma tautologia o acolher o festival. Nada. Do festival só lhe deram a saber sombra da esperteza. Questão de cultura, ou de imagem – ou
estatuto deles próprios: têm mais argumentos porque usam que nesse mesmo dia haveria uma performance na velha da miragem.
mais os argumentos. Enquanto se tiram as provas da bondade praça da cidade. Local central, bom tempo para o serão na A bilheteira do circo abriu, cada um que veja o número
dos argumentos eles governam e enquanto governam têm esplanada, fachada do belo edifício local a emoldurar – e como lhe der na real gana, pede-se um forte aplauso que o
mais argumentos. O que é preciso é argumentos – e produzir descobriu-se o evento dito artístico. Uma pandilha vinda espectáculo terminou. Recolhe-se o arame, desmontam-se
argumentos é incomparavelmente mais fácil do que produzir de muito longe estava no alto de um palco ambulante a os trapézios, folgam os animais – e os palhaços já preparam
obra. Afinal não é difícil chegar a César. desfazer-se num desempenho que se decifrava nisto: hora novas graças. [x]
e meia a confeccionar uma inutilidade culinária de um país
Os césares de outro mundo, de uma cultura de mundo nenhum. Dos
ombros caridosamente encolhidos da assistência ainda
O uso da propaganda (da tal comunicação dos objectivos, houve quem aventasse que aquilo eram palhaços. Saciada Diabólica, sim, é o que a mentira é. Diabólica
técnicas e agências) se é mais antiga que o grande César, a meio da palhaçada, a forasteira indagou discretamente
é hoje moda obsessiva dos novos césares. E tornou-se num pelo boné da moedita para a desfanfarra. Desnecessário
nas manhas com que seduz os enganados –
compulsivo vício – mais um – para os pequenos césares. O – a facécia era patrocinada e estava paga. Dinheiro vivo mas ainda mais diabólica na irresistibilidade
recurso aos fazedores de imagem, mais venenoso quando e verdadeiro da banca, com generoso endosso municipal.
aplicado a grandes multidões e pelos meios mais massivos, Presente da autarquia local. Fim do festival de nome
com que se dá ao manejo dos que vivem de
é mais apetecível e está mais à mão dos que falam para espavento-tradicional para a artista visitante. Regressada ludibriar o alheio, quantas vezes à sombra
auditórios menores, embora mais sujeito a ser desmascarado a Lisboa, dizia no estremunhado cartão dirigido a um filho
pelas próprias pedras da calçada que qualquer comum mortal da terra: ”Que pena! Tudo isso não passa de uma ridícula
das cuidadas paredes do engenho e das
pisa no quotidiano. Mas, porque por natureza se contenta mentira!”. artes.

OPINIÃO // 03
Este artigo contém linguagem explícita e não deve ser lido na
presença de encarregados de educação, membros do clero ou

,,O amor exposto


outras autoridades incompetentes.

é para consumo
na casa
Texto | Rui Pelejão Marques
Fotografia | Adriano Batista

Reportagem libertina, entre bordéis à beira da estrada, estudos sobre sexualidade na


adolescência e segredinhos sexuais, escondidos nas alcovas do puritanismo beirão. Com Ovídio
como companheiro e os ensinamentos da “Arte de Amar” no bolso, partimos à procura de sexo
sem vista para o mar …
4 // REPORTAGEM
“Portugal é um país de moralistas que até chateia. Precisava pescador com o seu anzol sabe perfeitamente em que águas
era de ser pasteurizado em merda de uma ponta à outra”. nadam os peixes, por isso tu também deves ser o primeiro
José Cardoso Pires, em “A balada da praia dos cães” a saber onde encontrar grande quantidade de donzelas.
Para achares este lugar não é mister que te faças ao mar,
Um jardim Zoológico em Amesterdão guindou-se às páginas ou percorras um longo caminho. Se te agradam os encantos
dos “fait-divers” da imprensa internacional quando promoveu juvenis e o seu desabrochar, oferecer-se-á aos teus olhos,
o primeiro encontro “online” entre orangotangos, instalando intacta, uma virgem. Preferes uma beleza feita? Agradar-te-
“webcams” para os primatas holandeses poderem conhecer ão milhares delas, na plenitude da sua beleza, de modo que,
potenciais parceiros sexuais na Indonésia. Está-se mesmo a com mágoa tua, não saberás qual escolher. E se porventura
ver – orangotango respeitável, com boa posição social, procura te inclinas para uma idade madura e experimentada, o
orangotanga jovem, para relacionamento honesto. ramalhete será ainda mais completo.”
Esta alcovitice da macacada é apenas um dos milhares de Já se viu que Ovídio tem um fraquinho pelas balzaquianas,
artigos sobre sexualidade animal que é possível bisbilhotar mas aqui no Fundão parece de difícil aplicação prática a sua
na Internet. Mas afinal, qual é o maior predador sexual a dardejante teoria.
caminhar sobre a Terra? Levamos o poeta numa ronda pelos bares da cidade da cereja.
Pois é, o tal que inventou a roda, foi à lua, criou a pílula Tudo às moscas e com um ar fúnebre. Poucos clientes e na
e o Viagra, o vibrador, as algemas e a pornografia “pay- maioria homens, que abatem imperiais ou Red Bull com whisky,
per-view”? Sobre os seus hábitos e comportamentos enquanto olham com ar sonolento o resumo do dia na Sport TV.
sexuais multiplicam-se estudos credíveis e de ciência certa, Se o pulsar de uma cidade média se pode medir pela animação
misturados com balelas humoradas, que nos garantem, por nocturna e pela sexualidade potencial que dela emerge, então
exemplo, que os filipinos são quem mais se masturba (6 somos levados a pensar que o Fundão mais parece um mosteiro
vezes por semana); que as italianas são as europeias que beneditino ou um velório sexual.
se destacam na prática da ginasticazinha sexual, com uma Que cidade macambúzia esta, que apenas se excita nas
média de quatro sessões por semana; ou até que o futuro segundas-feiras de mercado com o corrupio de gente das aldeias,
da humanidade é o bissexualismo, como defende um antigo os emigrantes e o colorido próprio de uma cidade-feira; do queijo
Ministro da Saúde italiano. Mas, se como escreve Manuel ao regador, das sementes de abóbora ao CD pirata da Romana.
da Silva Ramos no seu último livro – a Internet é uma foda Recorremos à filosofia de balcão e ao barman para a
mal dada – não há nada sobre sexo que o Google nos possa epistemologia deste Agosto beirão: “Está muita gente de férias,
desvendar que Freud não tenha coscuvilhado já. e há muitas festas por aí nas terreolas, mas é verdade que o
Especialmente se o que nos interessar for o sexo sem vista Fundão está uma cidade cada vez mais morta. Só aos sábados
para o mar, no interior de Portugal. Por isso, toca de embalar à noite é que anima e os bares se enchem.”
a trouxa e zarpar para esta reportagem libertina com um Longe vão os tempos áureos do English Bar que em Agosto
companheiro de odisseia muito especial… parecia uma discoteca de Ibiza, à pinha de gente em noites
quentes que se prolongavam até ao madrugar na Santa, o
A ronda da noite miradouro sobre a cidade onde tantos amores passageiros e
duradouros despertaram com o sol fresco da manhã.
A lua cheia de Agosto inunda com o seu candeeiro de luz Agora, o velho e carismático English Bar mudou de nome e deu
branca a Cova da Beira. Noite de lua cheia como um queijo da lugar a uma discoteca moderninha, ascética e igual a tantas
Soalheira, de lobisomens e de apetites sexuais. Sento-me num outras. Há mais garrafas na montra que clientes na pista e nem
bar do Fundão com o meu companheiro de viagem. Pedimos o esforço do DJ a “puxar” com um “hip-hop” viril consegue
dois tintos da adega cooperativa para soltar a língua. Passo às arrancar os cotovelos do balcão aos clientes; essencialmente
apresentações - Públio Ovídio Nasão, poeta romano que viveu no malta do “tuning”, de brinco gingão e boné à banda.
dealbar da nossa era, cronometrada pelo nascimento de Cristo. De copo na mão, Ovídio defende os encantos que territórios
Grande lírico do amor, era o preferido da mundana sociedade do povoados oferecem para a caça do belo sexo. No seu tempo
seu tempo e conquistou a imortalidade com a sua obra “A Arte eram as corridas e o circo, agora o sucedâneo mais provável são
de Amar”- virtuoso guia para a perda da virtude. Um livro onde as discotecas: “O circo fornece múltiplas oportunidades, por ser
enaltece e glorifica as paixões libertinas, o amor ligeiro, o desejo frequentado por um público numeroso. Não terás necessidade
carnal sem culpa nem angústia, e em que descreve com precisão de usar a linguagem das mãos nem de fazer sinais com a
intemporal as artimanhas para saquear os Templos de Vénus; os cabeça para que te dêem consentimento. Nada te impede de
locais onde encontrar mulheres e como conquistá-las; dando-lhes te sentares ao lado da bela que te agrada; aproxima o mais
a elas conselhos de igual índole. possível o teu corpo ao dela; felizmente que o tamanho dos
No Fundão, até Ovídio teria dificuldade em planificar a sua assentos força as pessoas, quer gostem ou não, a chegarem-se
guerra dos sexos, que como alguém dizia, é a única que o e a bela não tem outro remédio senão deixar-se tocar. Procura
homem não pode vencer. A julgar pelos bares locais num então entabular conversa e que sejam banais as tuas primeiras
sábado à noite, até o Quartel de Abrantes tem mais mulheres palavras.” A estratégia de engate de Ovídio soa familiar.
disponíveis. O grupo de rapazes motociclistas que se agremia Uma discoteca à cunha mais parece um palco de rituais
ao balcão a contar proezas de Valentão Rossi na estrada para de insinuação sexual, onde a música a bombar convida à
o Souto da Casa, está disponível para dois dedos de conversa libertação dos corpos, e esse grande desinibidor sexual que é
sobre sexo: “Não há gajas no Fundão e as que há, ou são o álcool, predispõe os espíritos para o amor: “O vinho prepara
muito novinhas ou já estão ocupadas, e por isso são muito os corações e torna-os propícios aos ardores amorosos; as
caseirinhas. Em Agosto isto anima com as franciús, por isso preocupações desaparecem e afogam-se. Nasce então o
costumamos andar aí a bater todas as festas”, informa o riso, o tímido torna-se afoito. A franqueza tão rara no nosso
notório líder deste grémio motorizado, um calmeirão de vinte tempo, abre as nossas almas; depois do vinho, Vénus é fogo
e tal anos e pinta de futebolista da Atalaia do Campo. sobre fogo. Mas deves saber que a luz das lâmpadas causa
Ovídio pigarreia, e educa a jovem plateia: “O caçador sabe muitas vezes equívocos: não deves confiar muito nela. A noite
muito bem onde há-de armar as suas redes para caçar; e o vinho são maus elementos para julgar a beleza.” Como
conhece perfeitamente os vales nos quais grunhe o javali; o muito bem sabe Jorge, recém-licenciado em Engenharia, que

REPORTAGEM // 5
bebe um copo sozinho ao balcão: “Não há mulheres feias, só Para confirmar o amor % das mulheres confessou ter sido infiel ao seu namorado.
há falta de whisky. Já me aconteceu engatar uma miúda que Menos tranquilas devem ficar as mulheres, já que no caso dos
à noite parecia a Cameron Diaz, e no outro dia encontrar-lhe Apesar do sexo nos entrar todos os dias pela janelinha homens a infidelidade admitida sobe até aos 39 %.
semelhanças com a minha porteira”, confessa entre uma risada indiscreta da televisão, com imagens publicitárias e ficções Para fechar este departamento estatístico, é curioso referir
galhofeira “não tenho lá muito jeito para meter conversa em que exploram o fruto proibido até à última dentada, que 96 por cento dos inquiridos no estudo de Patrícia Alçada
discotecas. Além disso, as miúdas daqui não dão grande bola e a vivência sexual continua a ser objecto de cochicho e afirmaram nunca ter tido contacto sexual com o mesmo
por isso acabo por beber demais para ganhar coragem, e a única vergonha. Os assuntos de cama são para morrer nela. E sexo, o que remete a homossexualidade para um fenómeno
coisa que acabo por levar para casa é uma grande bebedeira.” quando se tenta espreitar a bem do conhecimento e da relativamente marginal (mas não inexistente) nos jovens da
Mas será que as miúdas daqui são assim tão inacessíveis? ciência, o mais provável é taparem a fechadura. “Foi muito Beira Interior. Outro assunto tabu, o da masturbação, merece
Para defesa da honra e para que não digam que esta é uma difícil fazer este estudo por causa das barreiras que se análise no estudo conduzido pela investigadora social, onde
reportagem totalmente machista e misógina (só é um bocadinho), ergueram, sobretudo barreiras institucionais nas escolas, apenas 42 % dos inquiridos admitem fazê-lo habitualmente,
vamos visitar as depauperadas fileiras do inimigo mais querido. porque o objecto deste estudo foi a população escolar. Ao sendo que apenas 7 % deles são mulheres.
É verdade que não ligam nenhuma aos rapazes cá da terra? contrário disto, a adesão dos miúdos foi extraordinária, Outra diferença de género é o facto da masturbação ser
Fala a defesa, a cargo de Joana, Luísa e Alice, três universitárias fizemos os inquéritos por SMS que trocavam entre eles”. essencialmente induzida pela pornografia para 53 % das
de férias no Fundão, que aterram no English Bar, conquistando Apesar das cintas de castidade da burocracia puritana vigente, respostas positivas, com larga maioria desse método a ser
de imediato a atenção carnívora das aves de rapina que afiam Patrícia Alçada chegou a conclusões interessantes. Assim, 72 reconhecido pelos homens.
os bicos nos copos de Red Bull: “Isso não é verdade. Só não por cento dos inquiridos já iniciou a sua vida sexual. Sendo Então a pornografia é coisa de homens? Para Rita Barata Silvério,
ligamos a quem não nos interessa. É essa a diferença. Para os que a idade média com que trincaram a mação do pecado dona e senhora do blogue www.rititi.com, voz descomplexada
rapazes tudo o que mexe, marcha. Nós somos mais selectivas.” pela primeira vez foi aos 15 anos. De acordo com o estudo, as e cintilante da sexualidade feminina na blogosfera portuguesa:
Explica Joana, a mais desinibida do triunvirato. raparigas começam a sua vida sexual mais tarde do que os “A pornografia é coisa machista, existe apenas para excitar os
Como dizia com graça, o actor americano Billy Cristal – “As rapazes. Para a noite de estreia, a esmagadora maioria dos homens. Não sou contra a pornografia, sou contra a pornografia
mulheres precisam de uma razão para fazer amor, os homens inquiridos (64 %) preferiu o namorado/a, o que segundo Patrícia machista, que é quase toda. Já repararam que não há filmes
só precisam de um sítio”. O aforismo merece a concordância da Alçada induz “uma tendência para um parceiro com quem sexuais orientados para as fantasias e desejos das mulheres. O
Alice, a intelectual do grupo: “Acho que nós mulheres precisamos se está emocionalmente ligado”, o que se confirma também homenzarrão peludo entesoado aparece sempre em plano de
de um mínimo de ligação afectiva, os homens são mais dados pelo facto de 74 % dos inquiridos indicar o namorado/a como domínio e os ângulos de câmara e a realização é toda feita sob o
à contabilidade, só lhes apetece é somar. É óbvio que isto é parceiro mais frequente, e apenas 2 %, um desconhecido. Aliás, ponto de vista do macho.”
uma generalização. Também há mulheres que gostam do sexo existe uma forte componente romântica e emocional associada a Procuro revistas pornográficas para ver como anda a indústria
pelo sexo, e homens que são mais sentimentais. O problema algumas respostas. Assim a razão principal para ter sexo evocada da pornochachada, e nos quiosques da avenida do Fundão não
do Fundão é que é uma cidade pequena, onde toda a gente se pelos inquiridos foi “para confirmar o amor” (53%), enquanto consegui nem uma para mostrar a Ovídio. Então que é feito
conhece. Isso acaba por ser um inibidor sexual, já que se vamos apenas 14 % admitiram que queriam apenas obter “satisfação das velhas “Ginas” da nossa adolescência, das mais refinadas
para a cama com alguém, no outro dia toda a gente sabe, e física” e 5% “divertimento”. “Penthouse” ou até dos relatos escabrosos do “Jornal da Sexologia”.
isso pode ser muito desagradável numa terra pequena. Quando A propensão para a monogamia acentua-se quando 59 % dos Nem sinal delas, esfumaram-se misteriosamente das bancas.
vamos estudar para fora acabamos por viver a nossa sexualidade adolescentes afirma ter até agora tido apenas um parceiro e No clube de vídeo, apenas alguns filmes mais hard-core, mas
de uma forma mais descomprometida, isso é bom.” 73 % dos inquiridos esperam só vir a ter um parceiro sexual com pouca saída, explica o empregado: “Há poucos clientes para
A invulgar franqueza de Alice destapa um pouco do véu sobre no futuro. Ovídio até se arrepia com a ideia. Curiosamente, os a pornografia, ou é por vergonha ou então hoje em dia com a
a sexualidade oculta no interior, a tal que se esconde sob uma padrões de comportamento sexual revelados por este estudo TV por cabo, e o canal Playboy, as coelhinhas chegam lá a casa
capa de puritanismo assexuado numa região onde é raro ver são compatíveis com os de um inquérito informal e sem directamente.”
um casal de mão dada ou trocando beijos em público. objectivos científicos, realizado no Fundão a uma faixa etária Então onde se esconde a pornografia caseira? No telecomando da
O sexo é aqui assunto privado e até tabu, conforme descobriu superior (entre os 18 e os 30 anos), em que a sexualidade TV ou na Internet, essa mega-montra para o voyeurismo libidinoso.
Patrícia Alçada Rosa, investigadora da Universidade da Beira aparece também associada a ligações afectivas e a hábitos A Internet é definitivamente um grande bordel de fodas mal dadas.
Interior que realizou um estudo sobre as vivências sexuais dos monogâmicos. Neste caso, 68 por cento dos inquiridos tem Será? D. Quixote e Dulcineia (nicknames) conheceram-se num chat
jovens da Beira Interior, abarcando um universo de 200 jovens uma relação estável e pratica sexo com o namorado/a, da Internet, ele é do Porto e ela da Covilhã, ambos andam perto
adolescentes entre os 16 e os 20 anos, distribuídos por Castelo enquanto 28 % já teve relações de uma noite só (sobretudo dos trinta anos e vivem com os respectivos namorados relações
Branco, Covilhã e Guarda. os homens). Tranquilizem-se os ciumentos, porque apenas 18 estáveis. Encontraram-se pela primeira vez no festival Imago há

6 // REPORTAGEM
dois anos, e a partir daí começaram a ter encontros sexuais furtivos, é um bordel pobre, à medida da carteira de clientes pobres. caminho errado e entrou pela A23, onde morreu atropelado
alimentando essa relação proibida num blogue secreto: “É lá que Uma das prostitutas, a mais nova, levanta-se com dificuldade à entrada do túnel da Gardunha. É M. quem me conta esta
escrevemos as nossas fantasias, os nossos desejos mais íntimos, e sobre os saltos e aborda-nos com um português tão história, concluindo: “Um dia sou eu.”
vamos aumentando a tensão para estar juntos. Mais do que sexo desengonçado como o andar: “Olá, chamo-me Alessandra Homem pobre, homem rico. Bordel pobre, bordel rico.
puro e duro, trata-se de fugir à rotina das nossas relações e poder e tu?” Convida-nos para nos sentarmos. Aceitamos pagar- Prosseguimos para um bar de alterne, a caminho da Covilhã. Uma
ter uma sexualidade proibida, que é muito excitante. Encontrámo- lhe um flute xaroposo de whisky cola a vinte euros, porque vivenda vistosa e recatada, com Mercedes e outras bólides de
nos poucas vezes durante o ano, mas criamos sempre uma sabemos que “amor de mulher da vida e convite de matrícula francesa estacionadas à porta. Dez euros de consumo
história fetiche. Uma vez combinámos encontrarmo-nos taberneiro, só por dinheiro.” mínimo. Entramos e na pista, dança-se ao som de “As meninas da
no comboio, como se fossemos desconhecidos e fomos A história é um disco tantas vezes riscado neste país-bordel, Ribeira do Sado é que é/ lavram a terra com as unhas dos pés”.
comer-nos para a casa de banho. Foi espectacular”, explica onde o amor se encontra exposto para consumo na casa. Um Não me parece a mais adequada canção para a sensualidade do
quixotescamente, o galã cibernético. país de públicas virtudes e vícios privados, varrido a campos roça-roça, mas os clientes parecem gostar. São também poucos,
Afinal o luar de Agosto da Beira, também esconde paixões de golfe, casas de passe e bares de alterne: “Sou da Roménia, mais novos e mais bem vestidos do que no bordel de estrada. As
devassas e proibidas, tão do agrado de Ovídio: “Não penseis que, tenho vinte e seis anos. Trabalhava numa fábrica de cablagens”, meninas também têm um ar mais cuidado e insinuante.
armado em censor severo, vos condeno a ter só uma amiga. lá vai ela apalpando o português fanhoso e a perna de Ovídio, Num bar de alterne o negócio é pagar copos em troca de atenção e
Tal coisa não agrada aos deuses. É difícil, mesmo a uma mulher “vim para Portugal há três meses com uma amiga. Comecei a alguns apalpões. Lu, uma mineirinha rechonchuda e bonita, senta-
casada, manter esta conduta. Diverti-vos, mas sede prudentes; trabalhar numa casa em Vila Velha de Ródão, depois estive em se à nossa mesa e pede o inevitável xarope de whisky com água
que o vosso erro se mantenha escondido e clandestino. O amor Castelo Branco e agora o patrão mandou-me para aqui.” Faz suja do capitalismo, agora a 25 euros. Percebe-se que tem outro
proibido agrada igualmente ao homem e à mulher. Apenas uma careta de repúdio. Não gosta deste fim do mundo: “Vim traquejo. Veio do Brasil há já um ano e define-se como “garota de
acontece que o homem não sabe dissimular e a mulher esconde de Bucareste para fugir à miséria, e aqui há uma miséria ainda programa” e não como “quenga”: “Vivo com uma amiga na Covilhã,
muito melhor os seus desejos.” maior. Não me importo com o que faço, mas os clientes daqui e recebemos senhores em casa, mas apenas clientela seleccionada.
são muito miseráveis, não cheiram bem como tu!”, e aponta A maior parte deles são de outras cidades, ou empresários em
Retratos do país-bordel para Ovídio “queres vir?”. São 60 euros por uma hora e tal. viagem, já que é raro alguém da Covilhã bancar um programa.
Declina o convite que se estendia para o corredor dos fundos, Sabe como é, para mijar fora do penico, convém ser longe de
A luz vermelha na longa recta de uma estrada próxima onde recebem os clientes em quartinhos abafados, com uma casa.” Lu explica que “nesta discoteca não se pode subir com o
do Fundão, chama imediatamente à atenção. Não são os cama, uma pechiché e uma mesinha de cabeceira. Alessandra cliente, estamos aqui apenas para conversar, dar algum carinho e
foguetes proibidos da festa do Anjo da Guarda, mas apenas mostra um sorriso desdentado, mas franco: “Tá bem. Olha, há recebemos percentagem nas bebidas. Se a menina quiser, pode
um velho bordel de estrada. Outrora uma churrasqueira que uma coisa que gosto em Portugal. Sabes o que é? A comida”. encontrar com o cliente, mas lá fora.” Uma noite com Lu pode custar
se passou a dedicar a outro tipo de comércio de carne. À E deixa-nos, para dar atenção ao cliente da mesa ao lado, que até 200 euros, “tudo depende, do que o cliente quer. Tenho um um
porta, uma motocultivadora, duas carrinhas agrícolas a cair cambaleia a cabeça sobre a enésima garrafa de Super Bock. senhor de posição da Guarda que me visita apenas para me ver
da tripeça e uma motorizada, deixam adivinhar o tipo de Reconheço-o. É M., meu amigo de infância. Costumávamos tocar e dar palmadinha na minha bundinha. Não pede mais nada.”
clientela. Avançamos decididos para o balcão-altar com um brincar juntos no campo a guardar as cabras e as ovelhas do Nos sofás repolhudos na zona mais escura do bar um cliente ressona
poster do Sporting campeão (uma raridade), uma imagem rebanho do pai dele. Agora está gasto pelo álcool e pelo azedo copiosamente, estendido com as peúgas brancas a assomarem no
da Nossa Senhora e as garrafas em parada militar à espera da vida. Os olhos varejados de sangue já não têm o lampejo escuro: Ovídio boceja. A noite já vai longa e o licor beirão pesa-lhe
de ser dissipadas. Como é época alta, este bordel tem agora do rapaz irrequieto que eu conheci. Só saiu daqui para cumprir na pestana. Desanimado, encolho os ombros. Fiquei a saber tanto
seis meninas: três brasileiras, duas romenas e uma ucraniana. o serviço militar, onde agarrou o vício do Ventil e das Minis. De sobre sexo no interior como sobre a vida sexual das tartarugas do
“Normalmente só cá temos três ou quatro. Chega e sobra”, regresso à terra, trabalhou no campo, guardou rebanhos e deu Índico. Sei apenas que cada um deve descobrir o seu caminho para
resmunga-nos o barman com fronha de poucos amigos, ao litro nas obras. Todo o tusto que amealhou foi estoirado nos a felicidade sexual, iluminado pela Luz da Lua de Agosto, porque
enquanto nos serve um Licor Beirão. copos. Por aqui, mulheres em idade casadoira é mentira e a vida só há uma e tem essa estranha mania de se gastar depressa.
As prostitutas estão sentadas nas mesas com três ou quatro caminho dos 40, M. perdeu a esperança no amor. Agora afoga-se Ovídio anima-me: “Mas eis que o leito cúmplice recebeu dois
clientes. Os restantes ganham coragem e embalo no balcão. nos whiskys caros e no amor pago a 50 euros à beira da estrada. amantes. Detém-te, Musa, à porta fechada deste quarto. Sem a tua
Mesmo a pagantes é preciso coragem. Todos parecem Trágico foi também o destino de um velhote da aldeia, que ajuda, completamente sós, as palavras, acorrerão em tropel, e na
sonâmbulos de olhar perdido. As putas de serviço são animado pelo vigor inesperado do Viagra e pela miragem cama, a mão esquerda não ficará inactiva. Os dedos acharão com
entradotas, gorduchas e ficam a dever uns centavos a uma da luz vermelha, uma noite, já bêbado que nem um cacho que ocupar-se nas partes onde, misteriosamente o Amor deixa cair
beleza, que porventura se dissipou com o uso. Percebe-se que depois de uma sessão com uma brasileira, tomou a pé o os seus dardos.” Este Ovídio é que a sabe toda. [x]

REPORTAGEM // 7
,,
Verde Urbano
Texto | Pedro Leal Salvado
Fotografia | contiudo.com | David Duarte

Preocupada com a manutenção dos espaços verdes nas cidades, a Comissão Europeia
encomendou recentemente um estudo sobre o assunto. Esse estudo concluiu que as zonas
verdes, os parques e jardins das cidades, são essenciais a três níveis: ambiental, social e
psicológico. Alem de serem agentes contribuidores para a diminuição da poluição citadina e
temperadores do clima, representam ainda um importante pólo de encontro e diversão social,
potenciador do equilíbrio emocional na vida atribulada e de stress do cidadão urbano. A A.23
viajou pelas cidades da Guarda, Covilhã, Fundão e Castelo Branco e tentou apurar se são ou não
“cidades verdes”.
8 // DOSSIER CIDADANIA
A década de 1980 ficou marcada negativamente no que se No entanto, também a Covilhã aproveitou o programa “Polis” “corredor verde”. No entanto, dificilmente cumpre quer a função
refere a urbanismo. Foi a década em que foram cometidas para dotar a cidade de mais verde e, em Janeiro de 2005, foi ambiental, uma vez que se situa entre uma estrada de quatro
as maiores atrocidades urbanísticas no nosso País. Um pouco inaugurada a maior área verde da Covilhã, o Jardim do Lago. faixas e uma zona industrial; quer a função social e de lazer,
por todo o lado plantaram-se torres de betão, as cidades A Covilhã passou assim a estar dotada de um verdadeiro dado que se encontra fora da cidade e é cortado por acessos à
cresceram desorganizadamente e sem qualquer plano, espaço verde que reúne os benefícios eco-ambientais com o zona industrial do Fundão, sendo perigoso para crianças.
destruindo-se sem dó o património e esquecendo-se por lazer e encontro social. Construído num anfiteatro natural, o Assim, também no Fundão é imperador o betão, o cimento
completo as zonas antigas e históricas que passaram a ser Jardim do Lago oferece as condições óptimas para o descanso e a pedra, não existindo um planeamento verdadeiramente
empecilhos à ganância desenfreada dos senhores do betão. e lazer dos habitantes da cidade, com muitas sombras, um “verde”, que eleve a qualidade de vida dos fundanenses.
A partir de meados da década de 1990, começaram a extenso relvado e relaxantes espelhos de água.
surgir novas preocupações ligadas ao urbanismo, tendo- Mas dizer que a Covilhã tem um excelente espaço verde, não Castelo Branco
se começado um pouco por todo o lado a pensar a cidade é dizer que existe na cidade um equilíbrio entre o verde e o
na sua totalidade e não apenas lote a lote. Na sequência betão. Aquando da inauguração do referido jardim, referiu Na cidade de Castelo Branco encontramos dois espaços verdes
desta mudança de mentalidade surgiu o programa “Polis”, o presidente da autarquia Carlos Pinto que “o urbanismo emblemáticos: o Jardim do Paço Episcopal – conhecido por
dinamizador não só da recuperação das zonas antigas e dita que exista um equilíbrio entre áreas edificadas e zonas jardim das estátuas – e o Parque da Cidade/Jardim Municipal
históricas das cidades, mas também do ordenamento e verdes”. Pena que passados quase três anos sobre aquela de Castelo Branco.
planeamento das mesmas. Nesse planeamento voltam a ter inauguração, se assista ao crescer desmesurado da cidade, O Jardim do Paço Episcopal construído no século XVIII, é um
lugar os espaços verdes, espaços fulcrais para a qualidade de onde as torres de betão e cimento são rainhas e onde no espaço verde decorativo com inúmeras estátuas de granito e com
vida dos pólos urbanos, não só qualidade de vida ambiental meio delas não nasceu – nem sequer se deixou espaço para – um percurso demarcado por arbustos. Não cumpre as funções
mas social. qualquer zona verde. acima assinaladas, ou seja, a ambiental e a de encontro social.
Outrora donos dos espaços nobres de todas as cidades, os Assim e apesar da criação de uma excelente infra-estrutura Já o Parque da Cidade/Jardim Municipal de Castelo Branco é
parques e jardins foram sendo progressivamente ocupados verde, como é o Jardim do Lago, a Covilhã ainda carece de um um abundante espaço verde, transformado em jardim público
por cimento, pedra e betão, acabando em muitos casos por verdadeiro plano verde que aumente a qualidade de vida dos no ano de 1934. É o jardim urbano tradicional, com muita
desaparecer por completo. covilhanenses. vegetação, espelhos de água e alamedas. É o verdadeiro

Guarda Fundão
O aumento da área verde da cidade foi uma das maiores A cidade do Fundão goza em relação às outras cidades pulmão da cidade, local de convívio social com dimensão
preocupações do programa “Polis” da cidade da Guarda. No analisadas de uma grande vantagem: a sua situação natural suficiente para oferecer resguardo do rebuliço do trânsito e da
âmbito daquele programa, pretende a cidade aumentar a na encosta da (ainda) verdejante Serra da Gardunha. Assim, a normal agitação urbana.
área verde disponível de 16,7 para 88,0 hectares. análise da questão na cidade do Fundão tem de ser feita em No entanto, também Castelo Branco sofreu a euforia do
Actualmente o Parque Municipal continua a ser o maior duas vertentes: numa vertente urbana, ou seja, da existência betão da década de 1980, apresentando zonas com muita
espaço verde da cidade. Parque bem arranjado com algumas ou não de zonas verdes propriamente ditas; e numa outra, densidade de construção onde não há quaisquer espaços
sombras e relva, que não descura a função social de uma uma vertente de património eco-ambiental. verdes. Quanto às novas urbanizações, a preocupação com
zona verde incorporando no recinto uma ludoteca. Comecemos pelo património eco-ambiental. O Fundão os espaços verdes não é uniforme, havendo zonas onde o
No entanto, a Guarda continua hoje deficitária no que tem como quadro de fundo uma encosta totalmente verde equilíbrio entre o verde e o cimento foi respeitado e outras
toca a espaços verdes, sendo uma cidade onde continua a da Serra da Gardunha miraculosamente sobrevivente aos onde apenas houve espaço para o betão.
imperar o betão das zonas residenciais e a pedra granito da incêndios que fustigaram a região nos últimos anos. A Mesmo assim, há que referir que ao abrigo do programa
zona histórica, sendo raros e quase inexistentes jardins ou existência de tão extensa área verde natural é por si só “Polis”, foram criadas e sofreram obras de beneficiação cerca
parques que quebrem a monotonia do cimento. Prova da incrementadora da qualidade de vida dos fundanenses. de 44.500 m2 de áreas verdes na cidade – continua, no
predominância do betão sobre o verde é a recente construção Sucede que, também aqui os senhores do betão falam entanto, a ser grande o desequilíbrio entre o espaço edificado
do Teatro Municipal, obra que não contempla um único espaço mais alto e vão subindo a encosta da serra, substituindo o e os espaços verdes.
verde. tapete verde por um negro de alcatrão, as árvores por postes
de iluminação e edifícios. Curioso observar o silêncio das Analisadas as quatro cidades do Interior, conclui-se que os
Covilhã associações para-ambientais locais… espaços verdes começam a fazer parte do planeamento
Quanto a espaços verdes dentro da cidade, subsistem apenas urbanístico. No entanto, é uma mudança de mentalidades que
Até 2005, a cidade da Covilhã tinha como seu único dois: o jardim da Praça do Município, invadido nos últimos é lenta. Os “homens do betão” têm ainda muito – demasiado
significativo espaço verde o Jardim Público Municipal, anos por trânsito automóvel e transformado em parque de – poder. Continuamos a assistir em pleno século XXI à
construído no ano de 1908, nos antigos terrenos da cerca estacionamento de viaturas municipais, e o pequeno Parque das transformação das nossas cidades em aglomerados de betão,
conventual do extinto convento de São Francisco. Tílias. Nas imediações da cidade foi inaugurado em 2006 um cimento e alcatrão, frias, irrespiráveis e desumanas. [x]

DOSSIER CIDADANIA // 9
,,Portfolio

Jorge Molder
“Entrada por Saída”
2000/2007 Dimensões Variáveis, Impressão Digital

10 // PORTFÓLIO
PORTFÓLIO // 11
Texto | Margarida Gil dos Reis

* de “Estilo”, de Herberto Helder, in


Os Passos em Volta, Lisboa, Portugália
Editora, 1963: 14.

12 // PORTFÓLIO
Sabe ao menos do que lhe estive a falar? Da vida? *
Primeiro, o corpo aparece assim, tornado imagem, como para Saída” expõe, em toda a sua dimensão, um jogo com o tempo e ausência. O efeito de silêncio conseguido nesta imagem faz-nos
ser mostrado ou mostrar qualquer coisa. O sujeito representado uma capacidade de olhar que deixa uma impressão nos olhos do pensar como a fuga é uma construção porque, como se diz no
apresenta um ar grave, um olhar intenso, uma presença que espectador. Uma mistura de diferentes séries e trabalhos que têm título de uma das suas séries (1994-1995), tudo são points of
nunca chegamos a saber se é também uma ausência. Mas a luz, em comum uma característica: são as pistas de que precisamos no return. O corredor, como a porta, são lugares charneira que
como o corpo, no seu ponto de fuga, indicam que estão ali para para também nós começarmos a jogar um jogo que não tem oferecem inesgotáveis possibilidades. O mesmo se passa com
serem olhados. Sombras inatingíveis das quais restam as ilusões princípio nem fim, onde tudo se pode baralhar e tirar de ordem, as ‘imagens vídeo’, fragmentos da dupla condição do sujeito: o
platónicas, corpos em movimento que desafiam o olhar insistente onde a entrada pode, afinal, ser a saída, e vice-versa. que olha e é olhado.
da máquina fotográfica, sabendo que ela quer e vai fixar para Desde Uma Exposição (1979) até Entrada por Saída (2007), O que procuram então estes corpos que vagueiam por vários
sempre uma aparência. toma-se como protagonista o corpo em fuga que vence os rasgões cenários, onde se chega, como se parte? Como se o sujeito fosse
Toda a arte de Jorge Molder consiste em apoderar-se de um da luz do preto e branco. Poderíamos quase dizer que o corpo também um actor, aquele que entra e sai constantemente do
instante que se oferece consciente da contingência de desaparecer acompanha a velocidade a que corre a vida: a vida na grande palco, o que projecta a sua duplicidade no espelho, aquele que ora
a qualquer momento. Como se as situações surgissem por si, sem cidade (como na série NYC, 1991) ou a velocidade de movimentos procura a escuridão, ora a luz. Certo é que, em Jorge Molder, em
nexo aparente, mas criassem elos inexplicáveis. Ele partilha a sua da série Waiters (1986), onde um conjunto de empregados de vários momentos ao longo da sua obra, passam-se muitas portas
aura, a sua presença, a sua expressão, nós somos incumbidos um café se sucedem entre si como sombras. Um movimento que que são muito mais do que simples aberturas feitas numa parede.
de decifrar o enigma que qualquer imagem coloca: o mistério associo ao exercício de Esgrimistas (1986), às sucessivas quedas São perspectiva ou plano cego, cinematografia simples onde
daquele que se torna visível e que nos convida a habitar o seu em Nox (1999) ou à sequência de imagens do vídeo Linha do corpos ou vultos se movimentam.
próprio espaço dentro da fotografia. Roland Barthes já o havia dito: Tempo (2000). Em todas elas, o tempo parece-me ruidoso, O vai e vem é o suporte do homem. Por mais que viaje,
“A Fotografia é subversiva não quando assusta, perturba ou até friamente expressivo como os corredores ou as portas por onde o que encontre na presença/ausência um ponto de fuga, ele
estigmatiza, mas quando é pensativa”. corpo vai passando. Uma das fotografias que sempre me intrigou sustenta-se na procura. Persegue-o sempre qualquer coisa e
Por isso, o corpo entra como sai, alternadamente, desloca-se, cai, é uma imagem de Corredor (2000): um corredor muito estreito, o corpo pressagia, de várias formas, a terrível duplicidade que
desafia o tempo na evanescência das suas formas. Ao mesmo quase claustrofóbico, que confere um secretismo à imagem; lá ao existe no homem. A nós, espectadores, resta-nos seguir com
tempo que é fixado pela fotografia adquire leveza, ganha fundo o corpo, quase todo ocultado pela escuridão, entrecortado o olhar o vai e vem do corpo e entregarmo-nos ao mistério da
velocidade, porque a forma pouco interessa. O tempo é, afinal, pelas paredes frias do corredor onde se vislumbra pouco mais evidência muda e silenciosa da fotografia. Como as imagens
esse “agente secreto” (que deu também nome a uma das suas do que um colarinho branco com gravata. Esperamos, a qualquer que nos olham, a vida corre exactamente nesse mesmo vai
séries, em 1991) que actua sobre as coisas. Quem se move momento, pela anulação da distância em relação a esse corpo, e vem. Todas as imagens de Molder olham-nos e são-nos
primeiro? O corpo ou o tempo? como se ele viesse numa difícil marcha, lentamente. Mas a reenviadas. Elas são um momento de dádiva porque a sua
Este conjunto de imagens a que Jorge Molder chamou “Entrada por dúvida permanece, perturbante, como a presença que é também razão de existir encontra-se já em cada um de nós.[x]

PORTFÓLIO // 13
14 // PORTFÓLIO
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18 // SUPLEMENTO ESPECIAL
20 // SUPLEMENTO ESPECIAL
SUPLEMENTO ESPECIAL // 21
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SUPLEMENTO ESPECIAL // 23
24 // SUPLEMENTO ESPECIAL
,, Uma aventura na noite
de Monsieur
Ramos Texto | Manuel da Silva Ramos
Fotografia | Margarida Dias

Acabara de rever “ A Aventura “ do Antonioni na Cinemateca e transitei com Hernia para uma transversal que ia dar à rua Vulcano ! murmurou ela de repente.
--- uma das mais belas e estranhas histórias de amor da da Atalaia. À porta de uma lojeca que vendia preservativos Não sei se ela invocava o vulcão da sua cona da Boémia com
sétima arte como dizia o Le Clézio --- e, lançando todo o meu de todos os tamanhos e feitios deitei o primeiro pingo desse os seus cinco casos nominativos. Só sei que ela me pegou na
património inexistente para as urtigas, perdi-me na noite. azeite virginal e soberbo que é a glória do nosso país no seio mão, entrou num pequeno restaurante, fomos à cozinha, e aí
Encontrei-me ( pensando sempre em Monica Vitti com os seus direito da checa. Ela não deu um gritinho, só riu com esse riso ela levou os nossos dedos unidos à chama azul transparente.
cabelos loiros olhando a estranheza da vida da janela de um alimentado desde a infância de cogumelos. Depois chupei-o Queimámo-nos ligeiramente. Mas eu sabia que este gesto
comboio) num sítio estranho do Bairro Alto: a travessa das com a ânsia de um homem que sempre viu filmes de cow- à beira da velha marca mundialmente conhecida era a
Bolas. Aí, à frente de um muro esquisito composto por bolas boys na vida. união que nos faltava para sermos felizes em qualquer lado.
incrustadas num painel granítico, lá estava ela, de seios de A noite era nossa e depois de termos apostado forte e perdido Rejubilava interiormente.
fora, Hernia, a jovem vinda da Morávia e que falava só alguns numa banca portátil que uns africanos mantinham com um só Perdi-a quando descíamos a Calçada do Combro. Eu fiquei
picles de português. Aproximei-me e vi que a sua beleza era baralho no miradouro de Santa Catarina descemos para a Bica. para trás para ver o horário da biblioteca do Camões onde
como um doce conventual, antiga e serena. Neste bairro labiríntico fácil foi encontrar uma outra mercearia devia consultar um livro sobre cogumelos checos que crescem
- Gosto bravo de make amor com muribundos ! disse ela para onde comprei um bocado de sabão Clarim. No fontanário nas florestas da Morávia e gritando o seu nome ninguém me
me experimentar. público ela sentou-se na escadas comidas pelo tempo e eu de respondeu: Perguntei a várias pessoas que subiam se tinham
A União Europeia pagava rios de dinheiro a jovens para eles joelhos religiosamente lavei-lhe a conaça com os seus pêlos visto uma estrangeira de seios à mostra mas as pessoas riram
através do programa Erasmus convidarem a convivialidade postados como índios esperando uma diligência. de mim...
à mesa da curiosidade. Mas só a sexualidade era chamada Ela ria agora como a trombeta que anuncia a chegada da Fui a um bar do Poço dos Negros beber uma aguardente que
e se apresentava quase sempre com o seu manto espesso e sétima cavalaria para terminar a chacina. Beijei-a na boca não imitava a slivovice e regressei a casa de táxi. Consultei o
complicado de lontra. molhada enquanto com um dedo esguio me assegurei relógio no banco fofo. Tinham passado noventa minutos desde
Levei-a nesse estado catatónico a uma mercearia da rua da que a sua vagina estava chuvosa. Levantámo-nos depois e que encontrara Hernia e a perdera para sempre. Era o tempo
Rosa (aberta a essas horas tardias porque o dono acabava começámos a subir a ladeira dos melhores sonhos de Lisboa de um bom filme... Mas como eu não gosto de encontrar
de morrer e entravam os cangalheiros) e de uma prateleira e que nos ia instalar na linha imorredoura do eléctrico 28. duas vezes as mesmas jovens perturbadas e anacronicamente
retirei uma garrafa de azeite Gallo. Deixei o dinheiro no balcão Direcção sexo súbito. felizes aqui fica também a palavra FIM. [x]

CRÓNICA // 25
Criou uma linguagem própria que marcou a história do Cinema.
“Blow-Up” foi o primeiro filme em língua inglesa do realizador
Michelangelo Antonioni e um sucesso sem precedentes.
Controverso, na década de 60, pelo seu conteúdo sexual e pela
nudez feminina, “Blow-Up” valeu a Antonioni um Óscar pelo
melhor realizador. Antonioni morreu a 30 de Julho e o Cinema
ficou mais pobre. Ficou o sentimento de orfandade face à
ausência do mestre

,,Antonioni
e o Duplo
Texto | Margarida Gil dos Reis

Em 1860, em “Pintor da Vida Moderna”, Baudelaire contribuiu Cartier-Bresson, num registo autobiográfico: “Fui a Marselha. (…)
para a definição do “flâneur” como o homem moderno, por Acabava de descobrir a Leica. Tornou-se na extensão dos meus
excelência, um “observador, errante, filósofo” que condensa toda olhos e, desde que a encontrei, nunca mais me separei dela.
a fragmentação e ambiguidade da modernidade. Percorrendo Vagueava pelas ruas todo o dia, tenso e preparado para atacar,
as ruas da cidade, o “flâneur” busca a singularidade ao mesmo determinado a ‘capturar’ a vida, a preservá-la no acto de viver”.
tempo que interpreta a realidade como se esta fosse um Na década de 60, mais precisamente em 1966, eis que surge
espectáculo passível de ser contemplado. Saliente-se que o filme “Blow-Up”, realizado por Michelangelo Antonioni, onde
Baudelaire rejeitava a ideia de que a arte fosse uma imitação o papel do fotógrafo e, até certo ponto, da fotografia é de
da natureza. Talvez por isso fosse tão pessimista em relação às novo questionado, retomando algumas das questões até aqui
intenções artísticas dos fotógrafos, algo que ficou, aliás, bem referidas. Inspirado na figura do famoso fotógrafo inglês, David
expresso no Salão de 1859: “Nestes lamentáveis dias surgiu uma Bailey, a história é aparentemente linear: Thomas, interpretado
nova indústria que contribuiu pouco para que a chã estupidez por David Hemmings, é um fotógrafo de fotoreportagem e
fosse reforçada na sua crença (…) que a arte não é, e mais não de moda. Certo dia, dispersa-se por Londres, simplesmente à
pode ser, do que a reprodução exacta da natureza”. procura de imagens. Num jardim, encontra um casal que lhe
A proposta artística de Baudelaire, fundada numa consciência do prende a atenção. Anónimo e escondido, tal como o “flâneur”, o
tempo, mostra-nos como o instante é essencial e como o artista fotógrafo capta aquele que lhe parece ser um encontro amoroso.
é o arquivista da vida. A função da arte seria, seguindo esta linha Mais tarde, observa o trabalho e repara num detalhe: o indício
de pensamento, construir uma realidade, afastada de quaisquer de um cadáver. Têm então lugar uma série de ampliações feitas
parâmetros realistas, que surgisse da percepção do cruzamento em laboratório. Mas, progressivamente, instala-se uma zona
da mudança com o que era imutável. O “flâneur” oitocentista, de incerteza: ao mesmo tempo que as ampliações desvendam
assim como nos é apresentado por Baudelaire, mas também aspectos ocultos da realidade, encaminham-se também para
por Walter Banjamin, é esse homem fascinado pelo anonimato uma indefinição de contornos, próximas da pintura abstracta.
mas que tem consciência da sua singularidade entre a multidão. Esta será, numa primeira análise, a definição de fotografia feita
Talvez, por isso, para Benjamin, o “flâneur” fosse mais do que o por Antonioni: a fotografia guarda muito mais do que aquilo que
homem que deambula anónimo pelas ruas para ser o detective, aparentemente revela, como se esta imagem mecânica fosse
por excelência, aquele cuja sensibilidade lhe permite emitir uma aparência que esconde outra, até ao infinito.
juízos críticos sobre a sociedade. Este “flâneur” não é mais um, é Esta reflexão serve para introduzir aqueles que consideramos
aquele que é visto e que, por isso mesmo, tem a sua observação serem dois dos aspectos mais importantes na análise deste
condicionada pelos parâmetros sociais. filme: em primeiro lugar, não será “Blow-Up” uma metáfora
O olhar passa a ser cada vez mais valorizado, numa sociedade linguística, um discurso sobre o discurso? Em segundo lugar,
onde, face ao progressivo desenvolvimento das artes como se estrutura a relação entre o director e o protagonista,
dita mecânicas, a velocidade e a imediatez passam a ser e de que forma esta relação é transmitida na construção da
fundamentais no acto de representar. Se na pintura esta imagem do próprio filme?
instantaneidade se traduziu numa simplificação do que é Chamamos assim a atenção para algumas das cenas do filme,
descrito, como uma maior definição dos contornos, na fotografia a partir das quais podemos perguntar: até que ponto a câmara
os detalhes ganham protagonismo. No cinema vinga a ideia do fotógrafo está em sintonia com a câmara de filmar do
de “olho variável”, começando-se a variar os pontos de vista, realizador? Em várias entrevistas, Antonioni assumiu este filme
das técnicas de montagem e do movimento da própria câmara. como o seu mais autobiográfico. Será então que o espectador
A mobilidade do olho conduz-nos à possibilidade de reter o vê tudo a partir do ponto de vista do fotógrafo ou, pelo
«aqui» e o «agora» com a máquina, isto é, mesmo sendo a contrário, Antonioni reserva-se o estatuto de observador, mas
fotografia uma forma de arte pessoal, tal como a pintura, a sua vai marcando a sua presença e o seu ponto de vista através do
singularidade está também associada ao seu poder maquinal processo de montagem?
– uma visão rápida, automática e repetível. Em finais do século É certo que os possíveis significados deste filme acabam por ser
XIX, o fotógrafo segue as mesmas linhas do “flâneur”, mesmo ambíguos e múltiplos. Examina-se a relação entre um indivíduo
que isso signifique captar as temáticas mais banais. Citando Henri e a realidade, mais ainda do que as relações interpessoais.

26 // ENSAIO
Desde o inicio da história que a inter-relação entre verdade, limites entre a realidade e a ficção: regressando ao parque, a fim
realidade, aparência e arte se afigura como sendo cada vez de comprovar aquilo que a fotografia havia registado, Thomas
mais importante. O protagonista, Thomas, tem, aliás, um não encontra o corpo. A questão que se coloca de imediato é:
percurso evolutivo do ponto de vista social, na medida em que, terá de facto existido algum crime? A fotografia capta e fixa o real
progressivamente, adquire um sentido de partilha social, como mas existirá um intervalo entre a realidade e a representação?
é bem visível na última cena do filme. Sendo esta uma história Diferenciando a fotografia do texto, Roland Barthes definiu a
sobre a capacidade de observação e, mais especificamente, de fotografia de “contingência pura”, isto é, a fotografia é sempre
participação artística, o espectador acaba por assistir a quase aquilo que é representado. Enquanto o texto é indissociável de
tudo do ponto de vista do protagonista. No entanto, o processo um sentido, a fotografia é do domínio do contingente, do sem-
de filmagem é feito a partir de uma perspectiva exterior às sentido, no entanto, “a fotografia é subversiva não quando assusta,
personagens. Poderemos assim falar dos diferentes pontos de perturba ou até estigmatiza, mas quando é ‘pensativa’. Justamente
vista existentes em “Blow-Up” e na forma como os mesmos são porque o referente da fotografia é diferente dos outros sistemas
determinantes para a construção da imagem do filme. No que de representação; na fotografia a presença das coisas nunca é
diz respeito ao ponto de vista do realizador, existe uma clara metafórica mas real, ela é a presença imediata da coisa no mundo.
identificação com o do protagonista. Note-se que o facto de Talvez por isso possamos dizer que a fotografia se autentifica a si
se tratar de um fotógrafo aproxima ainda mais o realizador da mesma ou, como diria Barthes, ao contrário da ficção, a fotografia
personagem pois trata-se de uma clara ligação entre a máquina olha-nos nos olhos. Contudo, “a visão do fotógrafo não consiste em
fotográfica e a câmara. «ver» mas em estar lá”, isto é, a fotografia é melhor reconhecida,
Analisemos uma das cenas do filme onde a convergência, por vezes, se recordada, do que vista no momento.
melhor, a complementaridade de pontos de vista é mais Não menos importante, nesta relação entre o realizador e o
evidente. Quando Thomas fotografa a modelo Verushka, a protagonista, é o facto de Thomas ser humanamente problemático.
câmara move-se, acompanhando os movimentos da máquina Arrogante, quase anti-social, o mundo da moda que o rodeia
fotográfica, como se também ela estivesse a participar da sessão, acaba por ser um universo grotesco pela sua artificialidade. A
usufruindo até da iluminação do estúdio fotográfico. No entanto, humanidade cede lugar às “birds” e às “bitches”, mulheres-objectos,
a câmara destaca-se da imobilidade da máquina fotográfica vulneráveis, servis. Ao dirigir-se a uma das aspirantes a modelo,
ao criar um efeito de movimento que, ilusoriamente, nos faz Thomas pergunta-lhe o nome para, em seguida, se apressar a
crer que a máquina fotográfica se move com aquela rapidez. A dizer: “what’s the use of a name?” De facto, a identidade dos que
mesma situação ocorre quando, no parque, a câmara se move o rodeiam é irrelevante. Porque terá Antonioni incutido traços
tentando reproduzir o movimento da máquina fotográfica de despidos de humanidade no protagonista, tem sido uma das
Thomas. Não será talvez por acaso que Antonioni localiza esta perguntas frequentemente colocadas pela crítica. Certo é que, ao
cena num parque, um local aparentemente natural mas que fazê-lo, Antonioni ocupa o lugar de crítico, ironicamente distanciado,
estabelece, por si só, uma dicotomia com o social e o artificial. explorando a natureza da criatividade artística.
A cena desenrola-se lentamente e, a determinada altura, existe Na última cena do filme, onde Thomas acaba por participar num
um intervalo entre o que o fotógrafo vê e o que o espectador estranho mas surpreendente jogo de ténis, assistimos, numa
vê, como se existisse um terceiro ângulo, o do realizador, que primeira análise, a um confronto entre a cultura e a natureza. Na
marca a sua presença e, simultaneamente, mostra qual é o seu verdade, a maioria das cenas principais do filme tem lugar num
papel. Existe aqui uma ruptura, de ponto de vista, significativa: a parque, um local que é o produto de uma construção, um artifício
câmara não acompanha Thomas; ela foca ao longe a sua entrada pela forma como faz conviver a natureza e a cultura. Nesse jogo
no parque, sugerindo uma presença que orienta o filme à de ténis, o que se questiona, mais uma vez, não é a realidade e
medida que cresce o clima de mistério. Mais uma vez, o grande o seu significado mas a mobilidade dos significados; a realidade
tema aqui equacionado é o olhar e as diferentes perspectivas surge como uma construção, permitindo jogar uma partida de ténis
que ele pode ter. imaginária, pois o seu significado depende do contexto. Nesse jogo,
Quando, mais tarde, no seu atelier, Thomas tenta criar uma existe novamente um diálogo entre a câmara e a personagem.
sequência lógica para as várias ampliações das fotografias Thomas assiste incrédulo ao jogo de ténis, enquanto a câmara segue
que tirou no parque, tentando reconstruir o crime, a câmara o movimento da bola imaginária. Mesmo que o espectador não
de Antonioni move-se em sucessivos zoom sobre as imagens consiga ver a bola, ao seguir o seu movimento Antonioni mostra-nos
imóveis, assumindo-se como plataforma de comunicação como podem ser ténues as fronteiras entre a realidade e a ficção,
entre as imagens/objecto e a própria máquina fotográfica. como a personagem, Thomas, é ficcional e apenas ele, o realizador,
Procura-se, através das sucessivas ampliações de negativos, tem o poder de controlar o nosso olhar. Resta ao espectador entrar
uma verdade visual, isto é, a correspondência entre a realidade ou não naquele que é um jogo de sentidos.
e a representação, e constrói-se uma narrativa, à semelhança Apesar da correspondência diagética entre a câmara e a máquina
do processo de montagem. O que nos parece mais curioso é fotográfica, a câmara de Antonioni faz muito mais do que
o facto de as ampliações serem colocadas na parede numa reproduzir a máquina fotográfica de Thomas. Poderíamos arriscar
ordem lógica, em busca de uma equivalência entre realidade ao dizer que Thomas funciona como o duplo do realizador, um
e representação. Ao se tomar consciência da necessidade duplo fundado na ambiguidade, no facto de significar contraste
de construir uma narrativa, as fronteiras entre o fotógrafo e e oposição, mas também semelhança ou complementaridade.
o realizador tornam-se mais permeáveis, pois também na Nesse mundo de imagens falacioso e ambíguo onde Antonioni
montagem o realizador justapõe as imagens a fim de encontrar nos projecta, encontramos pelo menos quatro pontos de vista: o
uma sequência lógica. de Thomas, o fotógrafo; o de Thomas, o ‘voyeur’, aquele que vê
Apesar de podermos interpretar esta cena como um paradoxo – e não vê; o da máquina enquanto intermediária; o do realizador.
quanto mais as imagens são ampliadas ao ponto de abstracção, Em “Blow-Up” Antonioni define qualidades únicas da fotografia,
menos leitura têm – parece-nos que a questão central reside associando cada imagem a um palimpsesto, isto é, cada imagem
justamente na interpretação oposta: o crime é descoberto através contém mais do que aquilo que aparentemente revela. Esse
de sucessivas ampliações, mostrando-nos como a verdade passa a ser, aliás, o papel do fotógrafo na contemporaneidade:
também pode ser encontrada nas representações abstractas. Em aquele que experimenta a fotografia até aos seus limites e, no
“Blow-Up”, Antonioni transcende o estádio de simplesmente conjunto dos seus detalhes, reconhece a acumulação histórica
mostrar coisas para alcançar o “stage of ecstasy”. Ao converter a do mundo. “Blow-Up” chama a atenção para o significado que
realidade em abstracção, a arte ‘trai’ a realidade no sentido em a realidade pode ter para além da sua aparência. Talvez por isso
que ultrapassa os seus limites. Apesar da obsessão pelo detalhe, o fotógrafo seja aqui o duplo do realizador na medida em que
várias vezes referida pela crítica, Antonioni formula, nesta cena, ambos – fotografia e cinema – descobrem e isolam o detalhe.
uma das questões mais pertinentes sobre a fotografia: será a “Blow-Up” poderá talvez ser lido como uma metáfora da busca,
ampliação reveladora da realidade? Como veremos ao longo do na medida em que a problemática inspiradora é a aparência da
filme, até certo ponto sim, mas a fotografia é incapaz de nos dar realidade. Cada um pode, por isso, pensar o que quiser. Porque,
toda a história, na medida em que o sentido não está na imagem tal como o olho humano se ilude, também a imagem mecânica
mas em quem a observa. Mais uma vez se coloca a questão dos mostra ser mera aparência que esconde muitas outras. [x]

ENSAIO // 27
,,Dançar com as palavras, escrever com o corpo
Olga Roriz
Abrir a porta para aquele Mundo é como abrir a porta de uma
qualquer, (ora grande ora pequena) Alice, para o País das
Maravilhas do conto de Lewis Carroll. Pequenas nuvens de fumo
de incenso viajam entre pinturas, fotografias, objectos cheios de
vida e significação, dissipando-se de encontro com as pedras da
muralha Fernandina de Lisboa.
No sofá uma mulher, mãe, criadora de ilusões e confusões reais,
uma amiga, uma inventora de novas respirações para o corpo,
para o movimento, para a dança. Um ser pensante, com ideias
sobre homens e mulheres, daqui e dali.
Os cigarros são compridos, as mãos são alongadas como as pontas
dos pés de uma bailarina. O dourado do isqueiro encandeia o rosto, ao
cuspir fogo em linha paralela ao esguio pescoço de uma garça-real.
Escreve muitas palavras, mas para si. Os movimentos não os
escreve como qualquer coreógrafo (escritora de movimento),
inscreve-os primeiro no seu corpo, depois para corpos alheios
que de alguma forma já foram seus, carregados de vivências,
plenos de significância. Chez Madame não habita a abstracção,
cada movimento, cada gesto precede uma ideia e transmite uma
emoção, um estado, um estar. Os seus 50 anos de idade, 30 de
carreira e 10 de companhia, transformaram o ano de 2005, num
ano de comemorações e de “Felicitações Madame”, título do
primeiro filme de dança em Portugal dirigido e realizado pela
Madame Roriz, a estrear em Junho deste ano. Falar de Olga Roriz é
descobrir alguém com histórias no corpo e na cabeça, daí precisar
de racionalizar a emoção lendo ensaios e poucos romances, é
descobrir que “a pele é uma venda e um poço de memórias”.
A maior coreógrafa da história da dança em Portugal, é uma
Diva, não pela maneira como a tratam muitas vezes, mas pela
forma como trata.

O seu trabalho como coreógrafa revela um fascínio pelo drama.


Quando prepara uma coreografia pretende que ela seja mais do
que uma dança, seja um espectáculo?
OLGA RORIZ – Acho que nunca pensei de outra maneira senão
essa. Nunca pensei que a dança fosse esvaziada de sentido
e de conteúdo dramático. Achei que era uma via, sobretudo
numa fase inicial, para dizer alguma coisa, mesmo que através
do corpo. Desde cedo, nunca me fez muito sentido a ‘dança
abstracta’, se é que ela existe, mas sim os movimentos terem
por base uma ideia. Ao partir deste pressuposto, o que acontece
é que a súmula desses porquês e dessas ideias segue uma linha
dramática, mais ou menos teatral. Mesmo tendo feito o meu
percurso na Gulbenkian, durante 18 anos, de pesquisa ao nível
do movimento e da linguagem do corpo, a partir de certa altura
deixou de me interessar o lado da malha coreográfica, pela
malha dramatúrgica, pelas ideias em si.

Qual é, para si, o peso da palavra neste processo criativo?


Entrevista | Luiz Antunes Quase poderia dizer que o meu ideal é essa junção perfeita, que
Fotografia | Rodrigo César ainda não sei bem o que é, entre a dança e a palavra. Ainda procuro
o momento perfeito em que o corpo possa estar em movimento e
complete a sintonia com a palavra. Tenho feito esse percurso, desde
há dois anos, com uma das bailarinas que está na companhia.
Subida íngreme, caminho de pedra e sem saída. Ao fundo
uma porta de cor verde, talvez demasiado estreita e alta, Quais são as vozes literárias que a acompanham?
Geralmente não elejo ninguém, em nenhuma área. Tenho
encimada por uma vidraça em arco e sobre esta uma cruzamentos que são muito importantes, motivados, sobretudo,
por vivências. Desde muito nova que sempre preferi o ensaio
pequena janela rasgada na parede que deixa sair alguma luz aos romances ou à ficção. Li muitos ensaios filosóficos, Nietzsche,
Schopenhauer… Foram autores marcantes, sobretudo para uma
para o exterior da envolvente casa da Madame Roriz. rapariga muito jovem. Nietzsche é um autor muito masculino,

28 // ENTREVISTA
quase cruel para as mulheres… Depois li todo aquele conjunto Sente que existe uma dimensão de monstruosidade no seu Olga Roriz tem um quase percurso paralelo relativamente à
de autores que são quase cliché, tais como o Sartre, o Camus, trabalho coreográfico? dança em Portugal que, mesmo tendo interceptado algumas
Fernando Pessoa, que ainda hoje continuo a ler. Há ainda todo Não tenho essa noção. No entanto, sei que alguns monstros me vezes, sempre manteve a sua rota. Sente que abriu novas
um conjunto de escritores que estão na prateleira há anos e que perseguem. Mas só trabalho com coisas que me atormentam de portas na dança?
estão ali à espera do momento, mesmo sabendo que é quase forma a exorcizá-las. A criação é uma despoluição. Qualquer artista Sobretudo neste último ano, em que a Companhia foi muito
um pecado não os ter lido! É quase a retenção de um desejo. ao não conseguir enfrentar ou lidar com uma dada realidade pública, sinto que houve de facto um percurso contínuo, apesar
Hoje em dia deixei de ter o hábito de ir à livraria comprar um ilude-se e vive nessa ilusão. Muitas vezes utilizo certas coisas da existência de fases distintas, fruto de uma natural evolução. O
livro. O que me faz conhecer novas músicas, novos escritores inconscientemente e quando as racionalizo consigo compreendê- que é muito interessante para mim é perceber que mesmo hoje
e artistas é a pesquisa que faço para todos os meus trabalhos. las e estabelecer ligações com a minha própria vida. Por exemplo, em dia ainda abro portas, ou cabeças, a pessoas muito jovens.
Mesmo que isso só aconteça de oito em oito meses, são o Start and Stop Again foi apresentado aos bailarinos como um É isso que me dá a noção de que não fiquei parada no tempo. É
momentos muito enriquecedores para mim. projecto inspirado no filme Os Cavalos também se Abatem e, muito gratificante, por exemplo, ter fãs da idade da minha filha.
a determinada altura, apresentei-o como um projecto sobre o
A escrita distanciou-a de algum modo da leitura? tempo. Algum tempo depois do trabalho conjunto sobre este Traz para cena constantemente a figura da mulher, frágil mas
Sim, sem dúvida. Não escrevo para ninguém ler, apesar de já projecto, um dos bailarinos perguntou-me porque é que eu simultaneamente com uma força muito masculina…
me terem pedido para editar os meus Diários Falsos, que já vão tinha mudado de linha temática. Eu, que não estava à espera Eu sou assim. Lembro-me de me criticarem a minha violência
no quarto volume. Acho que é uma questão de necessidade. desta pergunta, disse impulsivamente e de forma inconsciente: gestual quotidiana e de ter consciência desse lado forte mas
Sempre escrevi para mim, e alguns pequenos textos para “Porque pela primeira vez na minha vida estou sozinha em casa acho que essa situação tem a ver sobretudo com a minha
figurarem nos programas de certos espectáculos meus. Mesmo e o meu tempo modificou-se completamente”. O Amor ao Canto personalidade, com o meu lado de excessos, de pujança física…A
esses textos pequenos eram dolorosos porque sabia de antemão do Bar trata um confronto terrível mas que ao mesmo tempo me coisa mais minimal que eu fiz, no sentido geométrico, foi a Terra
que eram públicos. Esses textos foram-se alongando e a certa tranquilizou. Foi algo que retirei de mim de forma a conseguir do Norte mas ao mesmo tempo era tudo tão térreo e tão tribal!
altura, por incentivo de várias pessoas, comecei a escrever com resolver este conflito interior. Eu nunca fui muito atrás de correntes, géneros ou modas.
um pouco mais de tranquilidade. Em 1996 escrevi um texto
bastante longo para um espectáculo e, talvez a partir dessa Trabalhando diariamente com o corpo, considera que ele pode A limpeza de movimentos que traz à dança, partindo deste
altura, escrevo todos os dias. Neste momento, escrevo mais do ser monstruoso e simultaneamente belo nessa monstruosidade? estado para chegar a uma sujidade, a uma naturalidade, é um
que danço. Não trato todos os dias o meu corpo como bailarina, Há uma dualidade muito grande no corpo, com o passar dos anos: o contributo inédito à dança em Portugal.
mas todos os dias tenho de escrever. Uma das coisas que me dá, corpo vai-se deteriorando mas cada vez sabe mais. Essa sabedoria A questão da naturalidade é uma coisa que vem desde muito
por exemplo, muito prazer é a coreografia da escrita que tem a é uma poderosa ferramenta que contraria o envelhecimento da cedo, do tempo da Gulbenkian. Muitos problemas eu tive com
ver com o meu ritmo interno, com a minha dinâmica. máquina. O último solo que repus do Jardim de Inverno, que foi feito bailarinos quando apelava a uma naturalidade! Durante muito
há 16 anos, lançou-me numa fase inicial algumas questões porque tempo tive algumas dúvidas sobre se estaria certa relativamente
Sendo a coreografia um grafismo do movimento, de que naturalmente nessa altura eu tinha um poder físico muito grande. a essa naturalidade mas o que é certo é que nunca perdi essa
forma é que, tanto as palavras que escreve influenciam esse Curiosamente, ao fazê-lo recentemente apercebi-me que pela característica. A dualidade masculina e feminina fez também
movimento ou vice-versa? sabedoria que este corpo agora já tinha eu consegui que esse solo com que num determinado momento da minha carreira
A escrita tem sobretudo a ver com as minhas ideias e não fosse, pelo menos para mim, muito mais interessante. O meu corpo preferisse trabalhar com homens porque as mulheres, sobretudo
necessariamente com o movimento. É a descoberta dessas tem sido muito bom para mim porque responde e corresponde à as do tempo da Gulbenkian, não estavam prontas para certas
ideias que me facilita depois a organização das coisas no minha cabeça. Obviamente que a minha linguagem cresce através coisas, não conseguiam exteriorizar a força quase masculina que
espaço. As palavras, assim como a música no cinema, são coisas deste corpo que eu tenho, com um lado feminino e um lado eu procurava. Quando pus em cena o espectáculo Três Canções
independentes, discursos que estão ali pelo que valem e não por masculino que sabem conversar muito bem. de Nina Hagen, fui abordada por várias pessoas na rua que me
estarem a servir qualquer outra coisa. perguntavam porque é que as mulheres eram tão mal tratadas.
Há cerca de dois anos atrás, Olga Roriz disse: “O silêncio não Exactamente por isso: porque é horrível.
Beckett disse: “Encontramos sempre alguma coisa para nos existe. Ou melhor, existe antes ou depois de nós”. Interessa-lhe
dar a impressão de que existimos”. Sente essa necessidade de viver o instante, sem retrospectivas ou projecções? O momento de dança, para si, é a suspensão ou o desequilíbrio?
interiorização no seu processo criativo? Eu costumo dizer que tenho saudades do futuro. Por muito que São várias coisas. Ambas fazem parte de mim. Os opostos são
Acho que tudo começa pela necessidade. Não tenho de dizer queira ou não, não consigo descolar de mim o que está para muito importantes para mim, assim como o preciosismo, que é
a mim própria que existo sempre que faço alguma coisa. Essa trás. O que me interessa é continuar, não só porque somos outro lado meu, presente na Casta Diva. São os vários eus, da
interiorização não é para comunicar nada mas apenas por uma empurrados para o próximo minuto, mas também porque o que intérprete e da coreógrafa.
necessidade egoísta. É ali que eu existo como pessoa e tenho o é preciso é construir esse minuto.
privilégio de ser e fazer o que quero, onde e como quero viver. Quase heterónimos…
É certo que poderia ter pesquisado o meu espaço de várias O cenário, para si, é também um espaço de habitação? Não sei… eu sinto-me uma pessoa muito una mas tenho duas
maneiras, através da pintura, da fotografia, mas foi esta a forma Acho que esta questão tem muito a ver com o realismo do lado cargas muito fortes, bem distintas: a mulher forte, sensual e a
que encontrei para me exprimir. teatral. Há muito tempo que deixei o chamado cenário decorativo. miúda que não cresce.
Um espaço ou está vazio ou se há alguma coisa deve funcionar
Quais são os seus medos? como um discurso paralelo, conversar com esse objecto. Tenho Por ocasião dos seus três aniversários - 50 anos de vida, os 30
Uns já não tenho, outros ainda permanecem. Tenho várias sempre muito a tendência de usar objectos quotidianos: nada mais anos da sua carreira como dançarina e coreógrafa e os dez anos
fobias mas que se têm desvanecido porque talvez as enfrente. quotidiano do que as cadeiras que são um sítio para estar. Essa sobre a existência da Companhia Olga Roriz – surge o filme
Acho que tenho medo das coisas que penso que tenho medo. minha recorrência de uma série de objectos que falam com o corpo Felicitações Madame. A Morte do Cisne, uma das cenas filmadas,
A solidão, o silêncio, a noite, são alguns dos medos que se têm tem a ver com uma linguagem de necessidade e com a vontade mostra esse lado mais infantil. O processo de criação é sobretudo
vindo a transformar em algo presente. Tenho outros medos mais de que o público faça uma reflexão rápida. Quando comecei a um impulso, uma vontade?
físicos, por exemplo o medo da queda, algo que é estranho, coreografar eu não sabia o que queria, mas sim o que não queria. Não sei explicar, é algo que cresce repentinamente. Pensei como
sobretudo sendo eu uma coreógrafa que constantemente Foi muito bom por isso ter o Vasco Wallemkamp ao meu lado, depois de tantos anos eu consegui dar a volta à Morte do Cisne.
trabalhou sobre este tema. Justamente o momento que gosto porque me obrigou a fazer esta reflexão. A distância com o público Ao mesmo tempo sem deixar de ser eu. Eu gosto muito de
mais é o momento em que já não há retorno na queda. Tenho foi uma das coisas que quis eliminar, aproximando o público do dançar e tenho pena de não conseguir ter trabalhado comigo não
medo do pânico, da morte, não me apetecia morrer. palco, tentando falar e exprimir problemas comuns a todos. como coreógrafa mas como bailarina. [x]

ENTREVISTA // 29
,,
Chorão Ramalho: a
obra e a pessoa
Texto | Nuno Teotónio Pereira_ Arquitecto
Fotografia | Filipa Carvalho

Escrever sobre Raul Chorão Ramalho e a sua obra é Iniciando a actividade profissional por volta do Congresso das técnicas e dos materiais, buscando com rigor os mais
recuar meio século no tempo, quando eu trabalhava de 48, quando a imposição dos modelos nacionalistas adequados para cada obra; a lealdade e frontalidade para
como tirocinante no atelier do inesquecível Carlos Ramos, começava a deixar de ser regra geral, mas ainda se com os clientes e a Administração; o rigor do desenho, desde
juntamente com seu filho Carlos Manuel Martins e outros mantinha com rigidez em muitas encomendas de Obras a concepção espacial até aos pormenores cuidadosamente
que não recordo. Lembro-me que a certa altura caíu no Públicas, Chorão Ramalho teve a sorte de ter como clientes estudados. Mas englobando tudo isto, que configura com um
atelier um trabalho de invulgar responsabilidade a que era organismos oficiais dispondo de uma certa autonomia e sólido profissionalismo, uma profunda consciência cívica. Daí
preciso dar resposta e a mão d’obra disponível era formada onde os aspectos técnicos prevaleciam em prejuízo dos a grande unidade que transparece na sua obra, para além de
por principiantes como nós. Ouvi então dizer a Carlos ideológicos. Teve assim a oportunidade de, face à fortaleza programas e contextos muito diferenciados, e ao longo de
Ramos que tinha obtido a colaboração de um jovem muito das suas convicções e à integridade do seu carácter, cinco décadas. Efectivamente, através de uma diversidade
talentoso e já com provas dadas no atelier de Paulo Cunha: conquistar a liberdade de expressão que frequentemente de linguagens que foi adoptando para cada caso, as obras de
era o Chorão Ramalho. era negada a muitos arquitectos. Chorão Ramalho têm qualquer coisa de comum que resulta
Fomos depois companheiros nos primeiros anos da minha Efectivamente, os modelos impostos pelo salazarismo de uma permanente têm qualquer coisa de comum que
vida profissional, já que partilhávamos do mesmo atelier, começavam a ser nessa época ignorados por entidades resulta de uma permanente finalidade aos valores que nunca
juntamente com Manuel Tainha, Alzina de Meneses, como a Câmara de Lisboa, o governo de Macau, as Caixas deixou de cultivar.
Bartolomeu Costa Cabral e mais tarde Nuno Portas. de Previdência, as Obras de Hidráulica Agrícola ou a Caixa Entre esses valores está sem dúvida uma extrema atenção
Ramalho foi assim para a minha geração como que um Geral de Depósitos. Chorão Ramalho pode assim gabar-se de ao meio envolvente. Não que haja qualquer preocupação
irmão mais velho, cujo conselho era sempre de grande nunca ter visto um projecto recusado por razões estilistas. mimética nas suas obras: em alguns casos, como no
proveito. Dotado de grande sensibilidade, cedo aprendeu Ao longo de uma produção intensa espalhada pelo complexo da Previdência no Funchal ou no Hospital de
a lidar bem com os diversos materiais e a agir sobre o Continente, pela Madeira e por Macau, Ramalho personifica Viana do Castelo, os volumes sobressaem com um contido
estirador com uma imaginação contida, conduzida por uma uma posição ética na arquitectura. Ética que se revela num dinamismo dos tecidos circundantes. Mas com uma coragem
grande disciplina interior. Era assim que criava com total certo número de atitudes e comportamentos: a resposta lúcida e sensível, sem arrogância ou sobranceira: não
liberdade numa linguagem própria, de grande consistência, atenta às exigências dos programas, com uma grande esmagam, antes constituem elementos dominantes que
despida de artificialismos e modismos. atenção aos aspectos de ordem funcional; o conhecimento ajudam a estruturar a paisagem urbana.
A perfeita noção daquilo a que os arquitectos chamam escala é
aqui determinante qualquer que seja a dimensão dos edifícios,
grande ou pequena, a escala estabelece uma relação de harmonia
com o contexto, sempre presente nas obras de Ramalho.
E tem alguma relação com isto o cuidado posto na criação
de espaços de ligação à volta dos seus edifícios. Estes
nunca são objectos isolados, caídos de pára-quedas, pois
o arquitecto empenha-se no desenho de elementos de
suporte ou envolvimento que estabelecem uma relação
com o que se passa à volta. São exemplos desta atitude
as generosas plataformas pedonais que acompanham os
edifícios do Centro Comercial do Restelo, toda a organização
do espaço no Cemitério do Funchal, articulando as diferentes
construções, e sobretudo a embaixada de Brasília, que levou
Chorão Ramalho a projectar a Praça de Portugal, já fora dos
limites do lote, mas parte integrante de um mesmo conjunto
carregado de coerência. Neste caso foi uma grande perda para
a arquitectura portuguesa que não tivesse sido construído na
totalidade este monumento.

Outra das características do arquitecto é a imaginosa e sábia


relação entre interior e exterior, patente em muitas das
obras projectas, a começar exactamente por esta de Brasília.
Espaços alpendrados, pátios, espelhos de água, caminhos
pedonais e coberturas tratadas como espaços verdes, são uma
constante na sua obra. Para além de Brasília, o Centro regional
de Segurança Social de Setúbal, o Hospital de Viana, a Escola
Pedro Nolasco em Macau e a Assembleia regional da Madeira
são exemplos eloquentes desta interpenetração interior /
exterior, de que a nossa arquitectura contemporânea não é
particularmente rica.

As obras já citadas e muitas outras, como os edifícios da


Caixa Geral de Depósitos, atestam mais uma característica
do trabalho de Chorão Ramalho: a dignidade conferida aos
equipamentos públicos e aos edifícios da Administração.
Esta dignidade, obtida com a recusa total de expressões
de grandiloquência ou gigantismo, resulta da profunda
consciência cívica a que já aludi. Pode dizer-se que Ramalho
transmite nestes edifícios o conceito de que a dignidade das
instituições não se exprime à custa do esmagamento dos
cidadãos, mas representa antes, na organização do espaço
edificado, uma clara ideia de urbanidade.

Nos edifícios de habitação, de que são exemplo o conjunto da


Praça Pasteur e Avenida de Paris, em co-autoria, os blocos de
Olivais - Sul ou os prédios do Funchal e de Macau, é patente
a sua atenção à problemática da arquitectura doméstica e
ao cuidado de fazer cidade, em que se demonstra uma sábia
contenção formal a favor do equilíbrio e da harmonia do
conjunto urbano.

A obra de Raúl Chorão Ramalho, aí está, polifacetada mas


coerente, para mostrar como um arquitecto consciente e
competente, sereno mas determinado, trazendo para os seus
trabalhos a colaboração frequente de artistas plásticos e
amando a sua profissão, deu um contributo inconfundível e
de grande qualidade à arquitectura portuguesa desta segunda
metade do século.” [x]

ARQUITECTURA // 31
No dia 12 de Agosto atracou
em Lisboa um dos maiores
barco de velas do mundo para
nele embarcarem os escritores
portugueses Antonieta Preto e
Possidónio Cachapa, a escritora
galega Luísa Castro e o poeta
Xulio Valcárcel, juntando-se a
mais de uma vintena de escritores
galegos, espanhóis, e peregrinos,
que foram embarcando nos vários
portos. A rota, denominada como
“Traslatio Literaria e Xacobea”
pretende recuperar a antiga
rota marítima (entre Valência e
Santiago de Compostela) da Idade
média, e rememorar a última
viagem dos restos do apóstolo
São Tiago quando foi trasladado
desde Jerusalém até Santiago de
Compostela. Na última etapa da
viagem, feita a pé até à capital da
Galiza, juntaram-se outros escritores
como Carlos Quiroga, Eva Rumí,
Espido Freire, David Castillo, Asier
Serrano, Juan Manuel Prada, entre
outros. Os escritores descreverão
a sua experiência vivida a bordo,
deste “barco literário”, e a pé, num
livro a ser lançado ainda este ano
em Madrid. A A23 pediu à escritora
Antonieta Preto que transmitisse o
seu olhar sobre a viagem...

Etapas e Portos da Viagem

,, Viagem Literária
Valência - Cartaxena - 4 a 6 de Agosto. Escritores: Fernando Marías e
Marta Rivera de la Cruz.
Cartaxena - Málaga - 6 a 8 de Agosto. Escritores: Fanny Rubio, Ramón
Pernas, Milagros Frías, Manuel Francisco Reina y Francisco Quintero.
Málaga - Cádiz - 8 e 9 de Agosto. Escritores: Rosa Regàs, Guillermos
Galván, Gustavo Martín Garzo, Carmen Gurruchaga, Emilio Ruiz
Barrachina, Ángeles Macua, Lucís Novas e Elvira Riveiro Tobío.
Cádiz - Lisboa - 9 a 12 de Agosto. Escritores: Almudena de Arteaga,
Fernando Martínez Laínez, Carlos Franz e Juan Bolea.
Lisboa – Vilagarcia de Arousa – 12 a 15 de Agosto. Escritores: Antonieta
Preto, Possidónio Cachapa, Luísa Castro e Xulio López Valcárcel.
Peregrinação a Pé (20 quilómetros), desde Padrón até à catedral
Texto | Antonieta Preto de Santiago de Compostela. Escritores: Carlos Quiroga, Eva Rumí,
Fotografia | IAGO RV - Xacobeo e Luís Vera Possidónio Cachapa, Antonieta Preto, Asier Serrano, Felipe Juaristi,
Espido Freire, Juan Manuel de Prada, David Castillo, Pedro Ramos,
José Ramón Trujillo, Basílio Rodríguez e José María Paz.

32 // VIAGEM
O silêncio do sol, quente, na tarde de domingo, dia 12 de Agosto, O começo da transformação da pele na barca os restos do apóstolo. A lenda conta que os mesmos
perto das quatro, no cais da Rocha em Lisboa. Já veio de outras seguiriam depois por terra, para serem enterrados num bosque.
paragens, tal como a embarcação, isso, denuncia-se, logo, nos tons, Já deixámos Lisboa, atravessámos as casas, a terra imensa. O que Dez séculos depois, um eremita que passava por aqueles lugares
uns mais escuros do que outros, dos rostos serenos, tranquilos. iremos ter pela frente, todos, sem excepção: apenas elementos viu cair uma grande chuva de estrelas. Avisou o bispo da Galiza.
Andaram pelo mediterrâneo, peregrinos, escritores, jornalistas, naturais. Sol ou Nuvens, Mar e Céu. Que sublime. É o começo Dizia-se que uma estrela fixa iluminava o local do sepulcro onde
políticos, chegaram ao atlântico onde continuarão a viver as novas da transformação da pele, que é a alma. É o começo de novas estavam os restos do apóstolo. O cemitério da época romana
experiências no interior do barco russo “Mir”, (cujo nome significa linguagens que cada um descobrirá. Algumas apenas se podem ficou conhecido como “El Campo de la Estrela”. O rei de Espanha
paz) até chegarem à Galiza. Os olhos e os corpos encostados às fotografar dentro. É o que acontecerá a Iago, fotógrafo profissional. Afonso II mandou, então, edificar um pequeno templo que
varandas do barco ficam a receber os novos viajantes que chegam Revelar-me-á ele uma linguagem secreta, que lhe chegou e de protegesse a campa. Assim nasceu “São Tiago do Campo das
com as bagagens. “Vamos à aventura?”questiona Possidónio que falarei mais tarde. Estrelas”. Assim nasceu o nome de Santiago de Compostela.
Cachapa quando me encontra. Resposta minha: “Claro”. À aventura Tento arrumar a bagagem num dos armários do camarote. Detenho-me, agora, num peregrino recostado numa cadeira, de
(a tantas coisas mais, também, ficarão em mim, pensei) Possidónio Arrumo-a entre o bambolear do barco que percorre a rota mítica frente para o mar. Sustêm nas mãos o livro En Tiempo de Prodigios”
transporta uma mochila às costas. Eu já “guardei” a bagagem no bar (e que ressuscita, com esta iniciativa organizada pela Junta da de Marta Rivera de la Cruz. A escritora deixou-o autografado antes
(o “meu camarote” estava em limpeza). Luís Ulloa (coordenador do Galiza e a Associação de Amigos do Caminho de Santiago, um dos de desembarcar em Lisboa( no decorrer das etapas há escritores
projecto xacobeo) assegurou-me de que não havia problema em itinerários marítimos mais populares da idade Média caído em que embarcam e outros que desembarcam, conforme os portos)
deixar a bagagem numa qualquer divisão do barco. Sorte, a minha, desuso com a reforma protestante). Um bambolear, decerto, mais à Associação de Amigos do Caminho de Santiago. Todos os dias,
e a de todos que aqui viajam, porque, Possidónio, há um mês que suave do que o bambolear da barca que, segundo a lenda, terá ele recostar-se-à na cadeira. Novas páginas juntar-se-ão às já
espera notícias da sua mala desaparecida numa das últimas viagens partido, sem remos nem capitão, transportando no seu interior lidas anteriormente. Entusiasmado com a leitura prefere falar dela
de avião. Vergonhas aéreas. A conversa entre nós interrompe- os restos do apóstolo Santiago, depois de ter sido degolado em quando chegar ao fim. Se chegar, adverte. O tempo pode ser curto.
se naturalmente com o movimento de outros passageiros que Jerusalém, depois dos seus discípulos lhe descobrirem o corpo e o Será mais certo percorrer o caminho místico, por mar, mais tarde por
começam a chegar. A escritora, Luísa Castro e o poeta galego depositarem na barca. terra, e, nesse percurso, chegar ao fim.
Xulio López Valcárcel, Pepa, vocalista dos próximos dias do grupo A primeira cidade espanhola por onde terão passado os seus
musical Medio Cabalo – cujo nome nasceu de um grupo de pedras restos terá sido Valencia. Seguiu-se Cartagena, Málaga, Cádiz, Em cada instante de corpo, morro...
que estão no meio do mar, avistá-las-emos, próximas de ilhas e Lisboa, chegando finalmente a Santiago de Compostela, onde
da costa Corrubedo (famosa pelas suas dunas) não muito longe de se diz estar soterrado o seu corpo. Penso, seguidamente, nos O veleiro é uma fogueira de passos felizes, autênticos, curiosos,
Vilagarciade Arousa, onde irá terminar esta viagem por mar – Carlos romanos, povo conquistador que tinha a sua águia imperial. Como pensativos, contemplativos, meditativos, interrogativos. Rubén
Izquierdo e Gonzalo Mato, ambos membros do grupo. A música ela, também eles tinham de chegar o mais longe possível. Depois Lois, (director geral do turismo da galiza), caminha com o
da partida, o som que vem de um tempo muito antigo. Amigos, de subirem as terras do sul espanhol, já conquistadas, seguiram cérebro, para trás e para a frente. Que pensa aquele homem,
familiares, jornalistas, fotógrafos ficam no cais a olhar os novos e em direcção a um país desconhecido, mas do qual já tinham enquanto a sua mulher, deitada sobre o chão do barco, recebe
os antigos passageiros, registando o momento. Gonzalo grita, na ouvido falar. O país onde se acreditava acabar o mundo: Galiza numa paz de mar o sol, o sol com o mar, mescla impressionante,
sua língua espanhola, a um amigo: tudo o que precisares, eu não ( o final do percurso. Como a morte, o fim biológico de uma geradora de energia, transformadora daquilo com que entra em
estou, mas telefona para a minha mulher, que é como se fosse vida – mas não é verdade que a matéria se pode transformar? ) contacto? Recebe ela, recebe a Sara Zanón (peregrina), recebe
eu. O músico pergunta-me, (nessa altura já sabíamos os nomes) O lugar para onde nos encaminhávamos. Mas, até onde chegaria a Maria José (professora na universidade da Corunha) a Luisa
fixando o meu olhar: Antonieta, estás emocionada de deixar Lisboa? eu nesta viagem? De que forma? O importante era chegar, ou Chas (professora de Economia na Universidade de Santiago de
Entreguei-lhe uma resposta algo vaga, mas, agora que escrevo fazer o caminho, enfrentar alguns problemas, que, no caso do Compostela) a Sílvia Pérez (directora das Imagines Ediciones,
este texto Gonzalo, digo-te, não, não. As terras nunca partem, só os mar, se concentravam numa primeira fase nas indisposições, editora que publicará o livro com o relatos dos escritores ) a
homens. Talvez por isso a partida se sinta tanto, às vezes, como uma nos enjoos, por parte de alguns viajantes? Talvez os dissabores Carolina Saborido (peregrina), a Susana Camino( política da
morte. Tão insuportável a morte biológica... representassem etapas na busca de um conhecimento. Recordo- área da educação) a Flávia Ramil (responsável pelo sector de
me da indisposição de Carlos Izquierdo, na primeira noite, junto turismo de Santiago de Compostela), a Lanzada Catatayud
Lisboa, Lisboa... e sobre a água - símbolo da purificação. A primeira limpeza do (directora dos cursos internacionais da Universidade de Santiago
corpo preparado, depois disso, para receber uma qualquer outra de Compostela) , a Beatriz Sevilla (coordenadora das actividades
O adeus – há uma música do corpo e da alma que se agita e se coisa? Observá-lo-ia, nos dias seguintes, numa contemplação de no barco), e eu ( pele de água, de vento, de sol. Pele de mastro.
acentua – levar o olhar ao alto e contemplar a belíssima tela com paz, colhendo o mar, o sol, a viagem, a paisagem humana, em Pele pendurada na subida da linguagem) e outros corpos que
S. Jerónimo de Durer, os painéis de S. Vicente de Nuno Gonçalves estado de fascinação. O mesmo se passaria com Hermínia Filgaira nunca os perderei no tempo. Corpos estendidos, ou dobrados,
ou S. Leonardo de Andrea della Robbia que enchem, alheios a (guitarrista). Em terra, demostrar-me-ia o desejo do regresso. A que se espalham mansos, naturais. Corpos plurais, singulares,
polémicas e guerras hierárquicas indesejáveis, as fachadas amarelas repetição da viagem. no princípio e no final –deixaram de respirar, pelo poder do
do magnífico museu de Arte Antiga, as escadas elegantíssimas da Até onde chegariam, pois, o resto dos viajantes a bordo do veleiro? mar e do sol. Sinto: é o mar que nos respira, nos renova e nos
24 de Julho por onde se sobe até ao jardim do museu – Jardim 9 Que razões existiam para esta peregrinação por mar, mais tarde destrói na sua vibração composta. Corpos mortos na guerra. Às
de Abril (data da batalha de la lys) – a esplanada estendida sobre por terra? Que dimensão espiritual era esta que eu arrancava vezes, vivo, e, nessa tentativa de viver sobre a vida, levanto
o rio... Lisboa vista da direita, para a esquerda, a luz, os telhados, devagar do meu corpo, corpo-alma, guardando-a até hoje, e da preguiçosamente o corpo, ou talvez seja apenas a pele, e
o mosteiro dos Jerónimos ...Curro, homem da câmara, discreto qual só desejo revelar, hoje e no futuro, apenas uma parte? detenho-me nesta imagem belíssima, cinematográfica, entre
e apaixonado pela imagem fascinar-se-á com o que verá a a morte e a morte (vida). Entre o misticismo cinematográfico,
seguir. “ Nunca tinha tido esta visão de Lisboa. O monumento aos Receber o mar o sagrado e o terreno. Os rostos, das mulheres estendidas,
descobridores, a Torre de Belém, nunca os contemplara antes, a fechados,lábios de sangue, estão mais sangue, cada minuto que
partir do mar, eles foram construídos para serem contemplados Penso na grafia do Mar. Detenho-me nos sons e vibrações passa. Em cada instante de corpo, morro. E, como um alquimista,
daqui. Vê-los banhados pelo mar e pelo sol... Uma autêntica da palavra. Detenho-me nas diferentes grafias que encontro, sinto-me a transformar cada vez mais a minha matéria interior.
preciosidade”. Outras preciosidades ficarão registadas entre 14 de acordo com o alfabeto de cada país, para uma única
horas de filmagens, reduzidas a 45 minutos para o documentário verdade: a de que o mar é quase sempre recebido. Mas Astronomia em alto mar
(que ele e Ángela Palomares, outra profissional da câmara, hão-de também, não poucas vezes, rejeitado, como a fé. Contudo, a
preparar sobre a viagem) , entre elas, observo, no segundo dia de primeira e talvez a única forma de a aceitar é recebendo-a Quando chegar a noite e olhar o céu, misturarei os corpos da manhã
viagem, uma das mais brilhantes filmadas por Curro à saída de Lisboa interiormente. É o que faço com este mar. com as palavras que a tarde me deu no livro “A Noite do Índio”. “ Lá
– “ gravar um mastro com mais de cinquenta metros de altura é Não haverá ninguém no interior do barco a rejeitar esta bem no alto está o céu que, durante incontáveis séculos, derramou
impressionante mas, quando apareceu a ponte no visor, encolhi-me. A imensidão. Outras coisas sim. Amparo Sánchez, da Associação lágrimas de compaixão sobre os nossos antepassados; Hoje ele está
grandiosidade do mastro, com mais de cinquenta metros, com as suas de Amigos do Caminho de Santiago da Comunidade Valenciana, limpo, amanhã poderá apresentar-se coberto de nuvens. As minhas
velas atadas, a ponte, majestosa, imponente, unidos numa mesma tem o rosto quase preto, contemplativo. Está sentada sobre o palavras são como estrelas que nunca se apagam. O grande Chefe
imagem e com o sol em contraluz, fez-me sentir muito pequenino. chão do barco. Quando deambulando pelo convés a encontro Washington pode confiar no que o Seattle diz, tanto como os nossos
Por um momento, mastro e ponte uniram-se, o sol ocultou-se. A e lhe pergunto se deseja a ouvir a música que trago colada ao irmãos de cara pálida confiam no regresso das estações. O filho do
magia tornou-se realidade e o barco seguiu o seu caminho connosco ouvido, é categórica: “Só quero ouvir o mar, aquilo que apenas Chefe- Branco afirma que o seu pai nos envia cumprimentos de
nas entranhas. Num momento assim, sentimo-nos pequeninos, consigo e desejo ouvir”. Há muito que Amparo já ouve o mar, há amizade e boa-vontade. Ele está a ser gentil porque sabemos que
ínfimos, maravilhados por ter contemplado uma coisa deste género”. muito que vem de longe, de águas quentes e cúmplices. Iniciou tem pouca necessidade da nossa amizade, uma vez que o seu povo
Há sempre lugar para uma perspectiva original, uma descoberta o seu percurso em Valência, no dia 4 de Agosto, onde ela, outros é numeroso. As suas gentes são como a erva que cobre as vastas
resultante das mais diversas origens, graças aos olhares que olham peregrinos e os escritores Fernando Marías e Marta Rivera de pradarias, enquanto que o meu povo é reduzido em número. Somos
de dentro para fora e de fora para dentro. As imagens são como as la Cruz foram os primeiros a entrar num dos maiores barcos de como árvores dispersas numa planície varrida pelas tempestades”.
obras. Como diz o escritor Oliver Rolin “as obras não jorram de uma vela do mundo. Outros se seguiram até ao percurso final já por Confio no Seattle, que transcende os homens. Confio no poder das
origem, mas de um emaranhado de origens”. terra, no Padrón, antiga cidade de Iria Flavia, onde terão chegado árvores. Das montanhas. Dos rios. Do mar. Do sol. No poder que os

VIAGEM // 33
elementos naturais exerce sobre os homens. Confio no céu. Quando
chegar a noite haverá céu e um homem que o explica: Fernando
Ballesteros, astrónomo. No seu imenso firmamento, espreitará um
raio verde. Nunca o “vi”. Estarei atenta a partir de agora. Fernando
explica que o efeito acontece porque atmosfera reflecte os últimos
raios do sol, (que na realidade já se esconderam atrás do horizonte)
e vemo-los refractados em sete cores: as do arco-íris. De entre elas,
a cor verde é a última que nos salta à vista. O astrónomo seguirá no
firmamento com a lua. A lua muito maior, parece-nos, quando está
mais baixa. Trata-se de um outro efeito, este, psicológico. Tudo o
que observamos acima dos nossos olhos, o cérebro interpreta como
mais pequeno. Visão peculiar do cérebro, não dos olhos. Prova disso
é que, se esticarmos o braço, podemos tapar a lua com o dedo mais
pequeno da nossa mão. Quer a lua se encontre mais em baixo, ou
mais em cima.

O saber dos antigos sábios, surpresas...

O meu corpo exausto na cama, estendendo as surpresas,


durante a longa noite, que Carlos Izquierdo me foi traduzindo,
quando não entendia a rapidez da linguagem espanhola de
Fernando. Estender-se-ão até ao sonho. Não é que Fernando
pôs em causa o saber dos antigos sábios, a astrologia grega,
os signos do zodíaco? As constelações por onde passa o sol,
e que marca cada signo zodiacal, não têm todas o mesmo
tamanho. São bem diversas, assegura. Por isso, o sol passa
por elas durante mais dias (dois meses por exemplo e,
nalguns dos casos, apenas durante uma semana). Então, os
períodos regulares dos signos do zodíaco que conhecemos
(um mês cada um) corresponde a uma organização prática,
não real, da situação dos astros. Posições astronómicas,
racionalistas, astrológicas e outras encheriam esta revista. Para
Carlos Quiroga, escritor galego, amigo – juntar-se-á a nós ao
chegarmos a terra – seriam estas mais do que suficientes para
um debate. Pois, pois, Carlos, sorri enquanto lês. Já sei o que
estás a pensar.

Outra manhã de mar. Os cheiros dessa


grande massa de água salgada vivem no
meu corpo inteiro.

Vemo-nos todos, obrigatoriamente, nas refeições russas e


pontuais: oito horas, pequeno-almoço, 12 h, almoço 16 h,

34 // VIAGEM
conta: “Não dormi na noite anterior a entrar no barco, Carlos (guitarra, coros) e Gonzalo (flauta, saxofone, coros) –
preparando uma exposição: El Espírito de La Letra” e que trata ainda a presença de um cadete que aprendeu a tocar tambor
da evolução histórica da comarca de Requena (Valência) desde por estes dias – darão um concerto a partir das 22 h de que
o século XI até à actualidade. Não dormir, por duas causas não há memória. Fado, cantado por uma espanhola. “Se Amália
como estas...”. cantou em espanhol porque não poderei cantar em Português”,
Flávia, que nunca teve o prazer de ver o mar turbulento (como perguntava Pepa a brincar. E cantou. Admiravelmente.
isso a estimularia), descobri-la-ei na roda do leme numa Possidónio Cachapa considerou-a melhor do que uma das
manhã de sol. A tripulação ficou nas suas mãos, uma boa grandes fadistas portuguesas da actualidade. Vieram depois
meia hora, sem que desse por isso. Grande domínio, assegura os sons brasileiros: Simone, Vinicius de Morais, João Gilberto,
o comandante. Juntar-me-ei a ela na experiência. Impressões Caetano Veloso, Djavan, entre outros, e, claro, os ritmos
boas, terríficas. A sensação de levar o barco no sentido espanhóis.
contrário, de me fugir, de ir para trás. Abandonei-o, passando-o Uma da manhã. O barco de pé. Medio Cabalo mantinha a
para mãos seguras. mesma energia. Como era possível? Leio o que Mário Benso,
crítico musical, escreveu sobre o grupo. “A sua musica sale
Literatura no meio do mar como de uma chisfera; hay algo de mágico en todo ello y el
público notará el resultado de esta mezcla de sonidos, que
Virá a tarde. Chegarão de muito perto, Xulio Valcárcel, poeta, adquiere unos matices e fuerza expresiva poco habituales en
Luísa Castro, escritora e poetisa, talvez do bar, do camarote outras agrupaciones de estas características”. Cadetes, todos,
ou dos corredores, cujo cheiro se nos entranhou no nariz. acordados. Viajantes, todos, contagiados. Observo os olhos
Literatura no mar. Entre o microfone, as duas cadeiras, mar, sol. de Possidónio, que está sentado, a dançarem. Observo Ángel
Um quadro vivo. Faz-se. Ouve-se. Poesia. Ou prosadentro dos Pasero (jornalista da agência Ares) a observar. Há uma fila
corpos, onde por vezes o vento se atravessa. Xúlio diz: “tenho interminável de corpos que se soltaram neste veleiro, como
lido os meus poemas em muitos sítios, nunca no meio do mar, o refrão da canção do Lume de Mafalda Veiga “ …e dá-te ao
o sol espalhando os últimos raios dourados sobre a água e o vento como um veleiro, solto no mais alto mar”: Lanzada,
menear dos mastros e o zunido do vento...”. Outras palavras Beatriz, Flávia, Luísa, Luís, Maria Nieves Chillón (peregrina, que
rebentam. Saem veleiros do poeta “Mirade os veleiros\ subirá ao palco para cantar)... os meus olhos deixam de ver,
Mirade as suas velas, fortes como peito de varón, levas como voltam a mirar quando, surpreendentemente, Curro abandona
blusas de rapaza”. Saem homens e mulheres de Luísa. Amores a câmara e se apodera do microfone para cantar e dançar. “
complexos, de que trata o último livro da escritora “La última Não percas tempo/ o tempo corre/só quando dói é devagar…”.
mujer”. O sol começa a desaparecer para amanhã voltar. Ou “Ángela não perdeu tempo, como Curro, e encarrega-se
não. Como o amor. da câmara. Iago, peregrinos, somos nós todos, pegam nas
Hora do jantar. (Atrasos, nem pensar, caso contrário, máquinas fotográficas. Curro, dir-me-á mais tarde “La pena de
lanche, 20 h, jantar. Vemo-nos todos quando não estamos, ficarei sem refeição, ou quase, como aconteceu a um dos aquella noche fue que no hubiessemos podido continuar en
muitas vezes, em lugares secretos que vamos descobrindo pequenos-almoços. Helena, a cozinheira russa, é implacável, proa por culpa del tiempo. Estaríamos ahora todos viviendo
(nos dias mais frios arranco uma manta da cama e uma ou outra coisa que gosto de silenciar sobre os fascinantes juntos en una comuna”.
almofada, estendo-a no chão, junto a um abrigo, perto da comportamentos humanos. Depois de ter varrido tudo quanto Chegámos a terra no dia 15 de Agosto, a VilaGarcia de Arousa,
proa, onde não há ninguém, para tentar ler as palavras que estava na mesa onde me sentara, acabou por deixar as quatro lugar onde novos escritores se juntarão aos outros escritores
trouxe de Portugal e o mar). De quando em vez, vejo o fatias de queijo que sobravam num pires). As canecas de e peregrinos embarcados, afim de concretizar a última etapa,
Possidónio. Costuma trazer na mão um livro sobre cinema. esmalte com sumo, lá no fundo, de sabor irreconhecível. Mais desta vez por terra. Carlos Quiroga, escritor galego, será um
Decerto servirá para o seu documentário que está a preparar bom do que mau pela sua estranheza. Parece-me sumo de deles. Percorreremos vinte quilómetros a pé desde o Padrón
sobre o escritor português Urbano Tavares Rodrigues. Ou, rosas. Sopas recheadas de vinagre, vegetais e carne. Carnes, até Santiago de Compostela. Ouviremos os nossos passos.
Carolina, absorvida pela magia. Há uma água que dança nos massas. Incógnitas. Gosto da estranheza. Amanhã, repetir-se- Sentiremos o nosso caminho. Falaremos de literatura. Da vida.
seus olhos. Antecipam a despedida? Há palavras que ela ão os horários pontuais, as conversas entre os viajantes à hora (Não é a vida literatura e o contrário?) De tudo o que só se fala
podia grafar no corpo, como grafou no papel “esta viagem foi das refeições. O burburinho mistura-se com aquilo que inundou em privado e entre amigos de países diferentes que não se
uma ruptura com o passado e com os medos, um encontro a nossa pele: o som contínuo do balouçar do barco, o som encontram há muito. Observaremos paisagens belas e terríveis.
com o destino, o começo do resto da minha vida”. Ou Beatriz, do mar e o som das línguas. A beleza, o contraste dos sons e Teremos cada um o nosso olhar. Terá o Carlos, o Possidónio, a
corpo sensível, irrequieto, a deixar escapar lágrimas a que das vibrações das línguas galega, espanhola, portuguesa, por Susana, o José Arenal, veterano das peregrinações, terá o Alec
Iago não está desatento. Iago, fotógrafo, discreto, poderoso no entre as mesas. De repente, detenho-me numa musicalidade, Rus (médico que nos acompanhou durante toda a viagem) – dir-
gesto de captar, a encontrar outros melhores momentos – por discreta, suave, mas cheia de energia, de mistérios e de sinais me-ia que “a vida para as pessoas sem fé deve ser muito feia” –
exemplo, o espectáculo impressionante dos cadetes do barco – indecifráveis quando se não está atento, quando se não e os restantes peregrinos, como Luís Torcida, mais um veterano,
russo a içarem as velas – a encontrar as “linguagens entre acredita. Sei de que língua vem... e escritores como Eva Rumí (olhar atento e grande sobre o que a
os momentos de solidão dos corpos que procuravam os seus Na tarde do dia seguinte, depois da ternura dos golfinhos que rodeia ) David Castillo, Asier Serrano, Felipe Juaristi, Emílio Ruiz
lugares no barco”. No entanto, haverá uma que ele jamais nos visitaram, falar-se-à de literatura portuguesa. Histórias Barrachina (o escritor encontra-se a preparar um documentário
poderá fotografar. “Não pude fotografar o som do vento e excêntricas, bizarras, terríveis – irão dar ao amor, às memórias cinematográfico sobre a viagem ) Juan Manuel Prada que
do mar pela noite que, ajudados pelas velas e madeiras do afectivas, à violência escondida. Possidónio lê, entre a fúria do perguntava a dada altura do percurso “Não nos enganámos no
barco, pareciam inventar uma linguagem. Só eu a poderia vento, sentado no soalho do barco, passagens do seu belíssimo caminho?” Espido Freire, José Ramón Trujillo, Basilio Rodríguez,
compreender”. Iago compreendê-la-ia. Guardá-la-ia como livro “Materna Doçura” e conta o seu percurso de vida: escritor, Pedro Ramos, José María Paz Gago e Lucía Novas.
uma concha que se traz para sempre ou como uma pulseira dramaturgo, argumentista... e tantos livros já (uma vasta e O final desta viagem bem podia ter o título de um dos livros
simbólica que se põe na pele e no coração. excelente obra, sou eu que o digo, não o Possidónio). Eu, de Carlos Quiroga “O Regresso a Arder” (livro profundo e
Vejo, às vezes, Pepa, recolhida ao sol a descansar. Fala dos depois do percurso, linhas violentas de um dos contos do livro belo como a língua.). E, antes do regresso, quando o barco se
seus dois bebés. Há muito que a impedem de repousar. Em “Chovem cabelos na Fotografia” lido a três, na língua galega, encosta à pele da terra, em VilaGarcia de Arousa , e aperta
contrapartida, depois dos seus nascimentos, Pepa entendeu por Xulio Valcarcél, na espanhola por Carlos Izquierdo , na forte o abraço do mar e da ria , aí, nesse lugar último, quando
serem a paz e a saúde as únicas coisas importantes na vida. portuguesa por mim. Em terra, já em Portugal, chegar-me ia já só se ouve o ruído poderoso da alma, saberemos como nos
De paz fala o peregrino Fernando Albi (que voluntariamente um mail assim: “Dejarom una honda impresión em mim alma encontrar. No regresso, a cada país, palavras que se enviam
escolheu deambular sozinho pelo barco) quando Sílvia lhe pede aquellas terribles palavras que leiste de tu libro. No puedo apenas assim: Já na minha Lisboa de sempre. Quando cheguei,
a ele e a todos que se apresentem. A felicidade de viajar num olvidar el incómodo silencio y desasosiego que produjeron en Lisboa encheu-se de Mar e de Afectos. Depois, pediu-me uma
barco à vela, com um grupo de paz, isso... é tudo, diz. mi y en todos los que las oyeron”. O maior objectivo do conto concha e eu entreguei- ª. Beberemos juntas o reino sagrado
Emílio Nogueira (secretário geral do conselho de Inovação e havia sido alcançado. das águas. Viveremos a morte e a ressurreição.
Indústria e Junta da Galiza) vejo-o, muitas vezes, a contemplar No regresso enviar-se-ão e receber-se-ão palavras dissimuladas
o mar. Fica fixo como os seus olhos. Nem uma palavra “ …E dá-te ao vento como um veleiro solto por entre este longo texto.
se desprende. Emílio, Sara, Maria Pilar (peregrina) o seu no mais alto mar ...” No regresso quando a distância já é, e a linguagem dentro
companheiro, também. Assim como Maria López, (peregrina) entregou tudo sobre os telhados de granito escalonados da
que capta a vida do mar e a dos homens, também, em Eu corpo, procuro o canto na boca do mar, encontro-lhe a imponente catedral de Santiago de Compostela, e o corpo
fotografia. E Fernando Moya, igualmente peregrino, olhos língua, abro-lhe todas as velas que há no corpo. Nós, corpos, desfaleceu sobre as praças, ruas e os montes históricos que
ternos, pele que o sol queimou desde Cartaxena, à conversa, chegados ao canto da noite, aos cantos últimos. Pepa, vocalista, rodeiam a cidade, o fundo fica sempre perto... [x]

VIAGEM // 35
,,Do subterrâneo da cultura, a geração
instintiva, o teatro manifesto
Texto | Pedro Fiúza
Fotografia | Nuno Reis Gonçalves

É-me sempre complicado arranjar títulos e começar textos com percebermos o que se passa. Voltando ao espectáculo… os
títulos e começar textos em geral. Neste número desta revista não objectivos de um espectáculo de teatro são, para mim, sempre
me quero repetir, portanto este não será um texto de teoria maçuda os mesmos: fazer algo que toque nas pessoas, fazer algo para
sobre teatro e sobre a minha perspectiva individual sobre teatro. as pessoas. Não estou a dizer que se façam concessões, estou
Vou aproveitar esta oportunidade para fazer uma espécie de análise a dizer que é importante que o teatro seja como uma zona de
sobre o espectáculo que acabei de fazer, assim tenho sempre uma partilha de vida. Este texto era assumidamente difícil, para já, era
base prática, um objecto de reflexão concreto, uma referência. escrito de uma forma completamente literária como só um dos
Nos últimos números desta revista acabei por cometer o erro de mestres o conseguiria escrever, depois, tem um contexto mas
entrar em dissertações mais ou menos abstractas sobre uma prática não tem propriamente uma acção, há um homem num espaço
possível, sobre uma espécie de teatro de sonho. As coisas são bem que faz divagações teóricas para um público, isto é bastante
diferentes. Quero aqui meter dois conceitos à força: optimismo complicado de gerir, ainda por cima quando não se procuram
teórico e pessimismo prático. Voltando ao assunto que me interessa, inventar muletas, uma espécie de sequências de acção mais ou
acabei de fazer um monólogo auto-encenado chamado Do menos justificadas que permitam partir o texto e dar-lhe uma
Subterrâneo, construído com base nos Cadernos do Subterrâneo de consistência interpretativa que não seja maçuda para o espectador
Dostoievski. Um monólogo é sempre uma coisa difícil de gerir e um e o ajude a compreender o que é dito. Mais uma vez, o risco de
monólogo sem uma direcção, sem uma encenação, que procure quem não sabe e mesmo assim comete a loucura de sonhar:
criar linhas e limpar as máscaras que o actor usa para defesa de procurei o lado mais centrado da linguagem, mais orientado, não
si e do espectáculo é ainda mais complicado, enfim… lá me meti recorri a imagens nem a subterfúgios, não usei qualquer banda
eu em mais uma aventura impossível! Em primeiro lugar quero sonora, foi o actor em risco, eu em risco… não estou a dizer que
dizer que não considero o espectáculo que fiz uma aventura ganha, o tenha ganho, nem todos os riscos se ganham, mas mesmo
calendário mal escolhido, tempo de preparação quase nulo, apoios assim cometo a loucura de assumir que quero fazer espectáculos
nenhuns (para não variar), a continuação da procura da forma, o impossíveis! Espectáculos com interpretações limite, coisas em
medo do texto na estreia, a duração oscilante do espectáculo por que acredite, não defendo nem posso defender o teatro pelo
causa dos branqueamentos do texto, a falta de público, enfim… entretenimento puro, é preciso dizer coisas, é preciso chegar ao
que raio de actor fui eu sair e, mais ainda, que raio de produtor sou público. Não estou a falar de uma arte panfletária, estou a falar
eu!!! Aproveito para dizer que preciso de um produtor!!! Bem, nunca de compromisso, teatro é compromisso. E falhei nele quando me
tinha sentido tanto medo de um espectáculo como neste, no dia engasguei na estreia e falhei nele quando escolhi estas datas e
da estreia parecia que a barriga se me comia, ainda por cima com falhei nele porque talvez não tenha escolhido a melhor forma
o texto inseguro… imaginem lá a bomba que não é… aquilo cheio, de divulgação!!! Também quero aproveitar para dizer que desde
as pessoas, o stress, o texto a não aparecer… ter de inventar texto que estou em cena nenhum membro dos A.C.E.O.P. (Assistentes
para não dar seca e para manter aquilo minimamente consistente… da Cultura Expressamente Orientada para o Poder), nenhum
ai, ai! Foi mesmo estupidamente complicado e frustrante e chorei desses senhores foi ver o espectáculo. Pergunto-me se para esses
no fim e tudo quando o público saiu, claro, estava-me a roer de senhores a cultura será apenas o que organizam? Será que para
vergonha! O espectáculo lá foi crescendo com a oscilação normal esses senhores a cultura é apenas o que tem o seu símbolo nos
que qualquer espectáculo tem, os actores não são máquinas, o cartazes? E até pergunto mais: quando o senhor Manuel Frexes
texto lá foi ficando mais ou menos seguro, o espaço mais ou menos afirma com tristeza que há cavalheiros no Fundão que não vão
dominado, mas faltava o salto, faltava o público. Enquanto escrevo dar apoio à Grande Verdade e que preferem dar apoio a outras
isto faltam três apresentações para acabar a carreira do espectáculo pequenas verdades insignificantes e exteriores, será que o
e tenho a esperança que o salto comece hoje!!! Também quem é senhor Manuel Frexes consegue perceber que talvez esses
que se iria lembrar de estar duas semanas em cena no Fundão? cavalheiros não se revejam na Grande Verdade, que até há,
Ao menos já estou na história… enfim! O público do Fundão é de facto, poucos cavalheiros a reverem-se nela, se tivermos
estranho, vou aqui desabafar, porque afinal de contas agora pode-se em conta os números. Porque para estes senhores a cultura
desabafar, dizem as escrituras que durante não sei quantos anos é festa, é tasquinhas, é petisco… não é uma programação,
vivemos no cinzentismo do vazio cultural de uma determinada é um festival!!! A cultura é acção. A cultura faz-se a partir de
orientação política, dizem que antes não havia nada, dizem que dentro. Todos os contágios são bem recebidos se não forem
nada se passava e que esta terra era o sinónimo mais certeiro e imposições. Toda a programação é bem vinda se não for uma
afiado do marasmo, pois bem, posso concordar com o que dizem as programação de catálogo chapa 5 cena muintáfrente, porque
escrituras, mas alguém me sabe dizer o que é que está a ser feito não é assim que se criam hábitos, isto já nem sequer está
para fazer as pazes das pessoas com a cultura? Alguém me sabe sujeito a discussão! Enfim, estou um bocado enervado… é o
dizer qual é a direcção do que está a ser feito? Cada vez me parece Subterrâneo a provocar as descargas!!! O texto é mesmo bom.
mais que o problema da interioridade tem a ver com uma certa O livro está dividido em duas partes, a primeira é a teórica e
deriva, todos os que passam pelo poder vão fazendo certas escolhas a segunda é a prática, é o ser em movimento, agora fiz este
e vão tomando certas opções e depois vão-se embora e quem vem e quero mostrá-lo por aí, onde quer que seja, no máximo
a seguir que assuma as responsabilidades e que use o que foi feito, de lugares possíveis, em Novembro quero começar a fazer a
nada deita nada ao ar, tudo se vai construindo ruína sobre ruína. O segunda parte, é um espectáculo sequela, e um dia se me der
que, para mim, é o maior problema é que o poder não consegue na gana faço um fim de semana com os dois. Neste país e em
pensar a longo prazo e esquece-se que quem cá vai estar sempre especial nesta cidade, uma pessoa tem de se inventar para
somos nós, cidadãos normais, mais ou menos comprometidos com sobreviver. Outro dia perguntaram-me como é que se vive do
as coisas, mais ou menos interessados na cultura ou no futebol ou teatro no Fundão, respondi: com um pé dentro e outro fora, é
na novela ou na vida dos cafés. Já perdi o fio ao que queria dizer. Já a cidade que temos. De uma coisa tenho orgulho: fiz mais um
sei: o Fundão tem habitantes, é verdade, mas será que o Fundão espectáculo e continuo a combater a indiferença. E já agora,
tem público? Qual tem sido a estratégia para a criação de públicos? senhor Manuel Frexes, fiz um espectáculo no Fundão, por
Um dia chegaremos a uma resposta concreta quando acaso foi ver? [x]

36 // CULTURA
,,Essência
da subtracção
Texto | Luiz Antunes Texto | Rita Barata Silvério
(escreve diariamente no blog www.rititi.com)

Nos últimos anos, continua a assistir-se a um fenómeno de rejeição,


do ponto de vista moral e estético, sobre a disciplina e rigor; parece
que os criadores nacionais continuam a disparar numa guerra já
extinta, na tentativa de libertar os corpos dos espartilhos que os
encerravam, rompendo todas as normas que governavam a dança.
Esta “estética da recusa” foi postulada pela coreógrafa norte-
americana Yvonne Rainer, em 1965, aquando da escrita do seu
texto-manifesto em que afirmava: “NÂO ao espectáculo, não ao
virtuosismo, não às transformações e à magia e ao uso de truques,
não ao ‘glamour’ e à transcendência da imagem da star, não ao
heroísmo, não ao anti-heroísmo, não às imaginárias de pechisbeque,
não ao comprometimento do bailarino ou do espectador, não ao
estilo, não às maneiras afectadas, não à sedução do espectador
graças aos estratagemas do bailarino, não à excentricidade, não
ao facto de alguém se mover ou se fazer mover”. Mais de quatro
décadas passadas, a criação actual parece ainda viver à sombra destas
inúmeras recusas – trazidas para Portugal pela geração da Nova Dança
(João Fiadeiro, Vera Mantero, Francisco Camacho, etc.), tendo sido

,,As grandes cabras da ficção:


fundamentais para a evolução/revolução da dança teatral no nosso
país – não tolerando uma inversão salutar deste postulado tão datado.
Yvonne Rainner no seu manifesto acaba por recusar a própria dança
na frase final: “não ao facto de alguém se mover ou se fazer mover”,
tendo dito mais tarde que não tinha tido bem a consciência do que
tinha afirmado. Mas o sentido parece ser claro: por exemplo, Marcel
Duchamp na arte pictórica expôs um objecto cru (um urinol), o ready-
made, um objecto paradoxal, simultaneamente artístico e não artístico,

Eve, o perigo da banalidade


representando o despojamento da forma artística; melhor: extraindo da
pintura tudo o que lhe não pertence, mostrando que o que se designa
por “objecto de arte” não é mais que um conjunto de convenções e
tudo é possível de ser transformado num objecto artístico.
A coreógrafa americana parece ter feito um paralelo, mas indo mais
longe que Duchamp, que nunca deixou a ambiguidade do ready- (All About Eve)
made, nunca afirmando “o fim da arte”. Depois de ter recusado
todos os elementos que considerava exteriores à dança, não que a
sua intenção fosse propor “o fim da dança”, Yvone Rainner viu-se
enleada no seu próprio enunciado de recusa absoluta.
Mas em matéria de arte não existe revolução das formas se as posições
tomadas não forem absolutas; no fundo, “o fim da dança” não era mais
que um processo de negação das técnicas, formas e conteúdos, actuando Eve. Eve the Golden Girl, the Cover Girl, the Girl Next Door, sua obras, só foder, ser cabra, roubar a vida alheia, parasita ela
como um princípio regulador de um novo movimento progressivo de the Girl on the Moon. das suas próprias tristezas. Que triste, Eve, ao fim premiada e
transformação da “antiga dança”; se o acto de questionar já era de A queriducha que sempre está disponível, o ombro amigo, sozinha. Afinal, Eve, de que serviu tudo?
alguma maneira a génese do acto criativo, assume uma força redobrada. a vítima da vida, a devota discípula. A que guarda a faca Eve não suporta o êxito alheio, a glorificação do próximo,
A dança teatral, terrivelmente cortante na sua essência devoradora debaixo da almofada. porque nela só reside mesquinhice e uma infelicidade crónica,
e absoluta, interroga-nos constantemente; hoje parece que o O que quer Eve? Êxito? Amor? Glória e um homem? de quem jamais foi amada. Eve, no final, é comida pela
questionamento assumiu uma força tal que se sobrepôs à própria Que lhe falta a Eve, que se dá com tanta facilidade? Um mesma avareza que a levou a criar a tragédia na vida de
resposta, a questão surge como um objecto paradoxal, perdendo o apartamento em Manhattan? Uma peça na Broadway? Margo - porque o género feminino está cheio de pequenas e
discurso uma linha coerente no sentido da discussão, pois não existem Nem por isso. À inocente e pura da Eve o que lhe dói é ser insignificantes Eves, de sanguessugas das riquezas que nunca
pontos de vista, apenas perguntas, por vezes sem qualquer género simplezeca, minúsculas, sem nada a acrescentar que um poderão ter. O problema da banalidade é que de nada servem
de análise ou tratamento. O produto passa a ser a metodologia, o lambe-botismo irritante. os prémios ou as glórias fáceis. É sempre preciso mais, foder
próprio espectáculo. O excesso de questionamento leva à inércia dos Eve precisa o que os outros têm: a vida de Margo, o marido mais, roubar mais, mentir mais, invejar mais, que os outros
corpos. Quando o movimento surge, completamente justificado pelo de Karen, a fortuna de Max, a genialidade de Bill. O que sofram mais.
brilhante acto da pergunta, aparece por si; a dramaturgia é imóvel, as lhe sobra a Eve – inveja, mediocridade, banalidade – falta- Claro que só as mulheres conseguem cheirar a léguas as Eves
obras parece que já não necessitam de falar por si, mas que falem por lhe em escrúpulos e valores. Eve não tem moral a que se deste mundo (partilhamos os mesmos genes). Por vezes
elas. A realidade trazida para cena acaba por ser mais distante que os agarrar, só raiva por não ser plena e feliz, como os demais, só damos pelo monstro que temos ao nosso lado quando o
contos de fadas, no fundo são contos de fadas mas imperceptíveis, como Margo, a vítima perfeita no seu plano demente. terramoto já é inevitável, quando se nos cai a casa na cabeça,
pois o postulado dos corpos reais e desnudos de tudo é distante e Eve, Eve, always Eve. Pois é Margo, sempre Eve, a sombra, a como lhe acontece à ciumenta e velha Margo, a quem Eve saca
ausente. No tempo da transdisciplinariedade, o conteúdo perdeu- que espera que adormeças para te arrancar os olhos, a que proveito dos pequenos pecados, das fraquezas da diva. Eve
se em detrimento da “categorização” da obra. É urgente “escutar não tem limites na mentira. não suporta esta estrela egocêntrica e adorada por um mundo
a nossa própria época”, entrar em zonas de risco, devir, reformular Não há personagem masculina no cinema que chegue aos que não precisa de heróis perfeitos. Eve, ao apontar o dedo
e criar uma nova ideia do que são “os conceitos disciplinares e da pérfidos calcanhares de Eve. A filha da putice é algo tão às debilidades de Margo, mais não faz que sacar à luz a sua
tradução contemporânea de expressões artísticas multíplices”, sem feminino, que vem de dentro, uma víscera estranha que própria merda. Porque o tempo nada perdoa.
se ficar preso a postulados datados e assumindo-os constantemente domina o carácter e a mente. Lecter era requintado, um Nem a Eve, a rapariga dourada, a rapariga da capa, a rapariga
como contemporâneos. [x] génio do mal. Eve não procura a arte nem a perfeição nas da porta do lado, a rapariga na Lua. [x]
,,E no fim é tudo um gag…
Exclamações, provocações, insinuações, prevaricações e o fino humor de realizadores e actores
de cinema. Sobre eles, os filmes, o sexo, o álcool e essa grande comédia que é a vida. Porque no
fim é tudo um gag…

”Os amantes de filmes são pessoas doentes.” “Querido, as pernas não são assim tão bonitas, eu só sei o “Não me lembro de nada que alguém tenha dito num filme
François Truffaut que fazer com elas.” do John Ford. Não acontece nada, a não ser acção.”
Marlene Dietrich Elia Kazan
“Dirigir filmes é um óptimo refúgio para os medíocres”
Orson Welles “O que é que eu uso na cama? Chanel nº5, claro.”. “Nunca confundas o tamanho do teu cheque, com o
Marilyn Monroe tamanho do teu talento.”
“Um bom começo e um bom final fazem um bom filme, Marlon Brando
desde que sejam perto um do outro.” “Todos os homens que eu conheci queriam ir para a cama
Frederico Fellini com a Gilda, e acordaram comigo.” “Os actores são gado.”
Rita Hayworth Alfred Hitchcock
“Este filme custou 32 milhões de dólares. Com esta massa
toda podia invadir um país.” “Não se casem com actrizes, porque elas também são “Disney tem o melhor casting . Se não gostar de um actor
Clint Eastwood actrizes na cama.” pode simplesmente apagá-lo.”
Roberto Rosselini Alfred Hitchcok
“Tudo o que preciso para fazer uma comédia é um jardim,
um polícia e uma rapariga bonita.” “Falo duas línguas: Inglês e corporal.” “Fala baixo, fala devagar e não fales demais.”
Charlie Chaplin Mae West John Wayne
“Roubo de todos os filmes que já foram feitos.” “Uma mulher deve-se vestir como se fosse uma vedação “Não perguntes o que podes fazer pelo teu país, pergunta
Quentin Tarantino de arame farpado - servindo o seu propósito sem obstruir a antes o que é o almoço”.
vista.” Orson Welles
“O cinema é uma velha puta que sabe dar vários tipos de Sophia Loren
prazeres.” ”O meu médico aconselhou-me a acabar com jantares íntimos
Federico Fellini “Como é que cheguei a Hollywood? De comboio.” para quatro, a não ser que haja outros três convidados”
John Ford Orson Welles
“Sexo é uma porta para algo tão poderoso e místico, mas os
filmes normalmente usam-no de uma maneira aborrecida.” “Nos westerns podíamos beijar o cavalo, mas nunca a rapariga.” “Suponho que uma das grandes ironias da vida é fazer as
David Lynch Gary Cooper coisas erradas no momento certo.”
Charlie Chaplin
“Na América o sexo é uma obsessão, em outras partes do “É mais fácil que um actor faça de cowboy, que um cowboy
mundo, é um facto”. faça de actor.” “No final, é tudo um gag.”
Marlene Dietrich John Ford Charlie Chaplin

38 // INTRIGAS CINÉFILAS
,,
Quinta da Hera
Um Éden de Restaurante na Cova da Beira

Texto | Jacinto Galeão de Tormes


Fotografia | contiudo.com | David Duarte

Há restaurantes que por mais voltas que dê a terra nunca mais sociedade. Lembro-me de repente que esse personagem de Calvino todas belas : estaladiças samussas, pastéis de bacalhau também
se esquecem. E porquê ? Porque eles convocam imediatamente que vivia nas árvores estaria bem aqui perto do restaurante da equilibradíssimos e os rissóis como os croquetes todos vitoriosos.
os sabores da nossa infância ou simplesmente a nossa infância. Manuela Pereira... Olhámos a noite que tinha começado. Uma infinitude de estrelas
É o caso do restaurante da Quinta da Hera nos arredores da Sentámo-nos e rapidamente fomos abordados pelo eficaz vinha anunciar-nos que a alma do Bêbado Mau estava agora
Covilhã que foi outrora a quinta do Bêbado Mau, um homem David, um jovem recém-chegado de uma escola de hotelaria sossegada e que podíamos ancorar na baía dos pratos principais.
irascível voltado constantemente para a bebida. Ainda me lembro. de Manteigas, que nos trouxe a carta dos vinhos e a ementa. Pedimos uma açorda de bacalhau e arroz de pato. Mas podíamos ter
Nós íamos lá aos figos, a uma figueira gigantesca ou às uvas Escolhemos um magnífico e bem frutado Quinta dos Termos ( tinto pedido outras especialidades tais como polvo à lagareiro, robalinho
repletas de sol doce. E o derrancado do homem ao ver a situação 2005 ) numa carta recheada com os nossos melhores vinhos da escalado na grelha, solomillo ibérico ao alhinho, costeletas de
perseguia-nos vociferando ou prometendo tiros. Nunca nos Cova da Beira ( lista bem guarnecida com preços equilibradíssimos ) borrego no churrasco, Filet Mignon em cama de ananás, cabritinho
apanhava pois nesse tempo o gozo das vitaminas roubadas dava- mas também vimos bons vinhos nacionais como o Esteva do Douro na grelha com ervas de Provença ou bife à Quinta da Hera. Ao
nos asas. A vitória ainda era mais certa quando depois de o termos ou a Herdade das Servas do Alentejo. Provámos o belo néctar e segundo copo de Quinta dos Termos atingimos a felicidade e
despistado nos sentávamos na linha férrea próxima que vinha de avançámos para o buffet onde nos servimos moderadamente. O rapidamente compreendemos que nunca tínhamos comido um
Lisboa e o comboio das três nos espalmava as moedas brancas grão com bacalhau cru desfeito revelou-se ser um regalo e da orelha arroz de pato assim: Maravilhoso, requintado e cheirando muito
que algumas mãos familiares nos davam com o intuito de sermos de porco cortada com amor e muito bem temperada só posso bem. Comeríamos toneladas deste arroz divinal, sem gordura. O
mais estudiosos. O quinteiro Bêbado Mau morreu, a quinta foi dizer que foi uma delícia. Quanto às miniaturas que provei estavam pato desfeito, congregando-se sabiamente com um arroz leve e
vendida e hoje parte dela pertence à simpática Manuela Pereira aéreo, levou-nos a comparações. Melhor que o da minha mãe que
que fez aí um paraíso e dentro dele um restaurante inaudito. é, no entanto, uma maravilhosa cozinheira. Quanto ao segundo
Nos formosos jardins de Babilónia parece que havia sempre uma prato, bem apaladado, atraía também inexoravelmente o néctar
temperatura ideal e é o mesmo na Quinta da Hera. Manuela que do João Carvalho. A açorda estava pombalinamente picante e o
é natural da Covilhã nunca se arrepende de ter comprado esta tomate misturava-se bem com os coentros e o bacalhau vestido. Um
quinta que lhe foi oferecida numa bandeja por uma cliente teimosa saborosíssimo prato. Estávamos perante uma comida sã, muito caseira
do seu salão de estética que via nela a única guardiã das suas e muito beirã. E para termos a prova que o divino azeite da nossa
preocupações ecológicas. E conta-nos que nunca pensou ter aí um Beira fazia a diferença pedimos uma simples salada de tomate e
restaurante. Tudo começou quando uma amiga vendo a beleza do alface. Aí o paladar do verde e precioso líquido mudava o mundo.
local quis casar nesse rincão absoluto de Adão e Eva. Improvisou Olhámos de novo a noite que avançava com passos de burro em
uma tenda, um catering e depois desse primeiro sucesso construiu charola. Faltava-nos as sobremesas para concluirmos uma refeição
de raiz um restaurante e começou a fazer casamentos e nunca triunfal. De novo avançámos para o buffet onde provámos um
mais parou como que prolongando o tempo em que essas duas untuoso arroz doce tão bom como o da minha mãe, uma tigelada
figuras edénicas faziam da felicidade um paraíso. Fico sempre em bem crostadinha, umas frescas natas com sabor a frutos silvestres e
admiração quando me vejo em contacto com pessoas que puseram aqui parei porque já o meu estômago anunciava a meta à vista. Devia
os seus sonhos em prática. Manuela Pereira é uma dessas raras que concluir com o queijo. E foi o que fiz sabendo-me já em altitudes
não tem frio nos olhos e oferece a Natureza nos seus magníficos beirãs. Foi um delicioso queijo da Serra que comi entabulando uma
pratos de faiança. São castanheiros centenários, uma dúzia de bela conversa com uma marmelada genial e forte.
cerejeiras, plácidas nogueiras, aveleiras, diospireiros, figueiras, Manuela Pereira veio e antes de se sentar logo viu a nossa longa
abrunheiros, e até uma pereira. A água corre em profusão, há um satisfação. «Adoro trabalhar nesta área que me dá contacto com
riacho, vários pequenos lagos e claro, muita relva. E claro, flores. o público e é mesmo um ramo que exige muita criatividade e eu
Uma álea de belíssimas hortênsias passa ao lado do Cantinho da adoro. Por exemplo, conto fazer aqui o S. João com rosmaninho
Leitura ( retirada solidão com sombra acolhedora ) e não muito e tudo. Mas também tenho um parque para churrascos, o Largo
longe do Cantinho dos Namorados e do Canto do Amor que dos Magustos que é no dia 10 de Novembro e organizo festas
rivalizam de verdura secreta e aconchegante. Um exército de heras de amigos e acolho também congressos e até faço festas de fim
bondosas invade todos os muros e árvores e com ele ganhamos de ano. Já vê, não paro». Acreditamos e olhamos esta mulher
uma paz incomensurável. Aposto que Thoreau, que era vegetariano, voluntariosa que dorme pouco, cheia de carácter e que com pulso
aqui teria um apetite dos demónios e comeria até à loucura de ferro dirige esta casa também especialista em casamentos. «Os
empurrado por um castanheiro calmo. casamentos são feitos nesta enorme tenda para 300 pessoas e este
Depois deste banho magnífico de natureza onde só mesmo falta ano já tenho dezoito marcados». conclui ela.
o rouxinol do Garrett (mais tarde ouviremos na noite cigarras e o Sorrio na noite estival. Oiço agora o coaxar das rãs, as cigarras e os
coaxar das rãs) chegamos ao Templo da Hospitalidade. E ficamos grilos e penso que casados, divorciados, solteiros, sóbrios e menos
estupefactos com a beleza da construção. É uma moderna igreja sóbrios, gordos ou magros, faladores ou sisudos, não podem perder
dos anos 60 ou o bojo de um transatlântico louco ? Entramos e logo este éden às portas da Covilhã. [x]
outra paz nos invade. Numa sala única onde cabem sem incómodos
sessenta pessoas. Em tons branco, verde e bege, e madeiras
Restaurante Quinta da Hera
que fazem lembrar um país nórdico, a sala comum é um lugar
Estrada Nacional 18 - Ribeiro Seco, Boidobra, Covilhã
tranquilo e apaziguador com grandíssimas janelas que dão para
(Depois do Refúgio seguir pela nacional 18 e cortar na
a densa natureza. Quanto ao mobiliário, também originalíssimo,
primeira à esquerda antes da ponte sobre a linha de caminho
pessoalíssimo, ele congrega a audácia e o conforto. As cadeiras,
de ferro da Beira- Baixa) Tlm. 912 585 310
principalmente, em forma de um V ultraconfortável. Peças únicas
feitas em Viseu para condizer com o edifício. Mas a cereja sobre
Menu a 13 euros de 2ª a 6ª feira com buffet livre, bons vinhos
o bolo são essas enormes vidraças cintilantes que nos torna ao
e pratos à lista que variam entre 9 e 12 euros.
mesmo tempo humanos e nus dentro do espesso arvoredo e na
Preços Médios - 15 a 20 Euros

GASTRONOMIA // 39
,,memória ,,
dvd
Eraserhead (1977)

Considerado ainda hoje por


muitos a obra-prima de David
Lynch, este filme é sem
dúvida uma obra-prima do
surrealismo, ombreando com
o melhor de Buñuel, Cocteau
ou mesmo Dali. Eraserhead é
tudo menos consensual, tendo
sido apelidado de estranho,
bizarro, frustrante, impossível
de ver, um filme sem qualquer
sentido, é, no entanto e sem
dúvida alguma, inesquecível. Trata-se de uma verdadeira experiência
cinematográfica em que o espectador é mergulhado dentro de
um pesadelo alheio e é obrigado a vivenciá-lo dessa perspectiva.
Lynch abriu com o Eraserhead as portas a um novo estilo de terror,
surreal, esquizofrénico e tremendamente inquietante, onde a história
é contada desconstrutivamente e o público experiência sensações
nem sempre agradáveis. Por tudo isto Eraserhead tem hoje o
incontornável estatuto de filme de culto.
[*] Sé da Guarda

,,
luxos
Quanto custa uma ilha?
Terminou o Verão e já pensa no ano seguinte? Pois fique sabendo
que para ser considerado realmente VIP tem de ser dono de uma
ilha. Segundo a revista Forbes, a segunda ilha mais cara é Sa
Ferradura e foi comprada por um anónimo pela módica quantia
de 33 milhões de euros. Mas não desespere: a mais cara de todas
ainda está no mercado por 55 milhões de euros. Situada no mar
das Caraíbas, este pedaço de terra não é assim tão pequeno. Tem
810 hectares, várias cascatas naturais e cascatas naturais. Espreite
www.privateislandonline.com. A ilha mais barata custa 20.000
euros aproximadamente.

,, ,,design
ainda se lembra
“Se queres ser dos nossos, tens que ter um Fá. Fá é fabuloso, é o Este objecto criação da dupla João Sabino e Miguel Taborda
melhor que há”. Era este o jingle que anunciava na TV os granizados para o Estoril Open 2006, nasce da ideia de “aglomeração
Fá na década de 1980. A um preço acessível a todos – 2$50 de matéria”, partindo do objecto singular, bola de ténis, que
(0,012Euros) os granizados Fá faziam a delícia de todas as crianças. ao ser unido repetidamente, acaba num paralelepípedo
Existiam em três tamanhos diferentes e nos sabores de morango, rectangular, conferindo-lhe uma nova função no seu uso através
limão, laranja e cola. da encadeamento da unidade assumem-se as novas formas
pretendidas: mesa de apoio e banco. A dupla criativa desenvolve
projectos na área do design, arquitectura e cenografia, tendo
participado em eventos como o Optimus Open Air 2006, Lisboa-
Dakar 2007, Estoril Open 2007 e Futebol Show 2007.

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