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UMA CONTRIBUIÇÃO DA HISTÓRIA PARA UMA HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO» Eliane Marta Teixeira Loppes** Em conferência na Faculdade de Filosofia da UFMG

, Robert Darnton' disse que a expressão História das Mentalidades vem sendo abandonada pelos próprios historiadores e que ele prefere uma expressão que se conjugue com a Antropologia, seja história antropológica, seja alguma outra que possa dar conta mais da forma de abordar do que do objeto de que trata. Esta também parece ser a opinião de Véronique Nahoum-Grappe2 em curso dado na Faculdade de Educação. Segundo Véronique, é importante que se esteja atento à con* Este texto foi apresentado no Colóquio Internacional Ciências Humanas e Educação na França e no Brasil realizado em Belo Horizonte em outubro de 1989; participou da mesma mesa o Professor Jean Hébrard, do Institut National de Recherches Pédagogiques, Paris, a quem agradeço o amigável e proveitoso diálogo este texto continua, apesar de tudo, em discussão

cepção de mentalidades tal como a propôs originalmente Lucien Febvre3. Parece-me que esses sinais, quase avisos, de que um campo especifico de estudo está se transformando, nos dão conta daquilo que vem sendo chamado de crise das Ciências Sociais. Porque, então, de dentro da História da Educação, estamos sendo chamados a pensá-lo? Será, de novo, a educação a reboque de algum modismo fulgurante que chega ao Terceiro Mundo com muitas marcas de suor, é verdade, mas com indisfarçáveis sinais de esgotamento? Ou podemos considerar que o "modismo" — assim classificado por quem vem depois — permitirá que se avance na construção de um campo do saber, entre nós mais que entre outros, em busca de suas fontes, de seus objetos, de sua identidade? História das mentalidades... Para que nos coloquemos no mesmo patamar de entendimento do que são umas coisas e outras, é bom que de saída nos entendamos. Estou chamando de História das Mentalidades não a uma história das idéias ou do pensamento. O que busco sob esse título é a possibilidade de reconstituição dos comportamentos, das expressões e dos silêncios que traduzem concepções de mundo e sensibilidades coletivas. Segundo R. Mandrou, referendado mais tarde por M. Vovelle4, o termo "mentalidades" poderia ser extremamente sumariado na expressão "história das visões de mundo" e inclui necessariamente o domínio afetivo, os sentimentos, as paixões, as sensibilidades. E a história das atitudes diante da vida, diante do nascimento, diante
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** Professora de História da Educação da Faculdade de Educação da UFMG.

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Autor de vários livros já publicados no Brasil, entre os quais O Grande Massacre de Gatos, Robert Darnton esteve em Belo Horizonte em agosto de 1989. Para esse tipo de discussão confira em Actes de Ia Recherche o debate, á guisa de resenha, entre Pierre Bourdieu, Roger Chartier e Robert Darnton, Dialogue a propos de I'histoire culturelle (p.86 a 93). Em sua mais recente publicação no Brasil, O Beijo de Lamourette, Darnton retoma esse tema.

' Professora e Pesquisadora da École des Hautes Études en Sciences Sociales, Paris, esteve como professora visitante no Brasil (Minas Gerais, São Paulo, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro), em setembro de 1989, a convite do Mestrado em Educação da UFMG, com o apoio do CNPq.

Cf FEBVRE. Lucien Le probleme de l'incroyance au XVI! siècle: Ia religion de Rabelais. Paris: A. Michel, 1968. 511p. VOVELLE, Michel. Ideologias e mentalidades. São Paulo: Brasilienses, 1987.

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deixar de lidar com oposições. Lucien Febvre assim se dirigiu aos alunos da École Norma le Supérieure: ". salvo em situações conjunturais. antes de mais nada. Talvez passe despercebido que disse na vida e na educação mas quero deixar isso bem frisado. perFEBVRE. Maurice 0 acontecimento em história social: A "história social-problemas. vivam.5 Buscando heranças.. permanente/cambiante.. causam ainda o efeito desejado de convocação para um novo olhar sobre a História.. Sejam também juristas e sociólogos e psicólogos. nâo tem neste texto exatamente a mesma significação (Cf BRAUDEL. É preciso observar.1 p. 1977. É possível mesmo falarem Educação sem falar em mentalidades? É certo que o historiador privilegia o novo. e trabalhar nessa perspectiva é trabalhar na longa duração. ao pensar em história das mentalidades e da Educação. e que. por exemplo: novo/velho.. Mas vivam também uma vida prática (. muda de um dia para o outro. na prática. as ações inovadoras em detrimento de ações repetitivas. e isso talvez pareça estar em desacordo com essa proposta de se trabalhar com o que muda lentamente.. É.. prestes a comemorarem meio século.ed Tradução por Carlos Braga e Inácia Canelas Lisboa: Presença. 56. Lisboa: Presença. com a Históriada Educação. por essas pontas de história que passa o futuro. Historiadores. É preciso que. sejam geógrafos. CRUBELLITER. ainda. avivando as luzes e restabelecendo o barulho. se.. os momentos de ruptura ou transformação. Quanto ao futuro. realizar essa operação. para fazer história virem resolutamente as costas ao passado e. Essa é. 8 Proponho. na vida e na educação. a sua vida quente e jovem. Assim. pois é nessa indissociabilidade que percebo a indissociabilidade da história das mentalidades e da história da educação A expressão "longa duração". A articulação Passado-Presente-Futuro Como. de quem. vocês penetrem animados da luta. as ciências do universo físico. F História e ciências sociais 2. de onde. onde só passam sombras despojadas de substância. inéditas. tomadas de consciência imprevisíveis. 1973 (Colóquio da Escola Normal Superior de Saint-Cloud. de uma segunda maneira. a inovação e o novo. abrindo as janelas de par em par. com a lentidão na História. a meu ver. Crubellier6.. 5 No início do ano letivo de 1941. como.) É preciso que a História deixe de lhes parecer como uma necrópole adormecida.da morte. já introduzo a idéia de lentidão? Se o presente parece arquear-se e sufocar-se sob o peso de um passado que se prolonga interminavelmente? Proponho duas maneiras. as mentalidades são aquilo que mais lentamente muda em qualquer sociedade. E nada disso. 15 a 16 de maio de 1965) 6 . sem dúvida. senão inevitável. ao lado de permanências espantosas. 1976. não será a História lenta mesmo? Não se diz que é preciso paciência histórica? É verdade que."7 Essas palavras. Cf. aquilo que vem se fazendo novo. Lucien Combates pela História. recorro a Merleau-Ponty. por exemplo. 260p. cunhada por Fernand Braudel.. em toda sua variedade. quase inacreditáveis. capazes de reorientar o comportamento de um grupo. 0 lugar que se atribui ao passado é igualmente uma maneira de dar lugar a um futuro. de maneira evidente. então. tomo emprestada a fala de Lucien Febvre. Na vida intelectual. impossível esquecer o presente que será em relação ao passado que seremos. despertem com a sua própria via. de quando vem esse gesto ou essa expressão? Nesse ponto cruza-se. na verdade. para a segunda. agora.. v. a vida enregelada da princesa adormecida. à sua frente.. sempre apontada pela historiografia. impossível nâo pensar na articulação passado/presente/futuro. indicando novos paradigmas metodológicos. Mas. Envolvam-se na vida. transforma. talvez. do sangue coagulado do monstro vencido. no velho palácio onde ela dorme. ainda cobertos da poeira do combate. não fechem os olhos ao grande movimento que. a uma velocidade vertiginosa. fontes e métodos Lisboa: Cosmos. Para a primeira. a mais poderosa chave de entrada no passado. Tomada essa direção. segundo M. realizam-se.

aí. aprender. No entanto. mas não apenas isso. aponta para penetração. na segunda edição. impregnante. se t o r n a m verdadeiros laços para o pensamento. as mentalidades — não é permanente. substantivo f e m i n i n o . da Filosofia. encontrei-a. diz: "pregnância de possíveis". Foi nela que encontrei. mistura. todos. fusão. uma riqueza escondida pelo que a palavra pode revelar. as atitudes. mulher ou fêmea.manência/inovação. 1975. Aurélio Buarque de Holanda. continuidade. e t a m b é m impregnar. Tendo v o l tado. Vocabulário Ortográfico da Lingua Portuguesa. No entanto. "para e x p r i m i r t u d o aquilo que. gros de raison. para em seguida abandonar. por e x e m p l o . mas a muitas questões postas pela Educação e pela História da Educação. ela v o l t o u . aí. Pode-se querer t u d o desde que seja leve". e introduzir. evidentemente me atrai a sutileza feminina contida em pregnância. pregnância apresenta uma filiação etimológica c o m o latim praegnans. mas não ao ponto de impedir sua confirmação no Vocabulário da Língua. partilharei essa aproximação c o m vocês. restam pregnâncias a serem captadas. as expressões. para que se entenda que o calar não é não se ter o que dizer. pregnável. NOVAES. Mas porque são.-ante. Rio de Janeiro: Bloch. 0 Olhar. Academia Brasileira de Letras. como ocorre às palavras que. Parece-me haver. em O Olhar 10 . pregnante. abastança. não tendo m e d o de serem de efeito. q u a n d o não buscava. a resposta que me pareceu a mais adequada. Poros. coleta dos registros da língua m o d e r n a e c o n t e m p o r â n e a . fecundidade. Se me p e r m i t e m . 1988. Volto ao Aurélio e. os silêncios. Tempos depois. para a mais simples das perguntas — a palavra existe? — a crueza do Dicionário na resposta: não existe. as emoções. lá está." De inicio. p. as afetividades. 1981. " N ã o diz o que v i u . Rubens Rodrigues Torres Filho. m a s diz o que não pode dizer. a idéia de pregnância. de maneira que aquelas coisas que não p o d e m ser ditas é mister ao menos dizer que não p o d e m ser ditas. p r o f u n d a m e n t e pregnantes. Se se pensa em educação. pregnado. A q u i é preciso um afastamento estratégico da História e uma aproximação. nâo é disso que fala a realidade histórica que se busca atrás das palavras. Poder-se-ia pensar. fertilidade. Todo o c a m p o semântico de pregnância. " E. Adauto et alli. compreender. em todas as outras línguas latinas em que existe. Letras sobre o espelho São Paulo: Iluminuras. Sor Juana Inês de Ia. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. São Paulo: Cia das Letras. não a um problema de Filosofia. que pela primeira vez fui tomada pela surpresa da palavra pregnância. pregnante. pois t a m b é m nela está contido esse sentido de duração. permeação. pregnar. 9 Foi no texto de Adauto Novais.' 2 ¹2CRUZ. tudo aquilo que perpassa a prática e as relações pedagógicas — os gestos. e não apenas a ela.63 . pregnador. não sendo visível nos permite ver. os sentimentos. irrefutável certeza. breve e leve. 1989. c o m o t a m b é m a todas as suas variações: 9 10 11 pregnação. impregnação. aponta para o sentido que particularmente interessa a esta refIexão: Plein de sens implicite. Consta que v e m do Inglês. mas sim não caber nas palavras o m u i t o que há para dizer". em permanência. de conséquence etc. Novo dicionário da lingua portuguesa. embora de uso restrito porque erudito. Tal constatação vinha do Aurélio. FERREIRA. o adjetivo prégnant. No Francês. não sendo pensado nos dá a pensar através de um o u t r o p e n s a m e n t o " . curvei-me a ela e fui buscar " p r e n d e r : apreender. 0 autor. que t o m o emprestada a Merleau-Ponty. "Isso de ler e escrever é por a m o r ao estudo Marx e a vida são breves.antise certamente todos nós nos l e m b r a m o s da prenha. É contando c o m isso que Merleau-Ponty escolhe pregnância. citando Merleau-Ponty. ao m e n o s para os fins da reflexão que ora p r o p o n h o .

quanto à raça. À l'usage des Filies de Ia Charité employées aux écoles. Em meados do século XIX. o homem. A Introdução à obra é escrita por M. Tais reflexões abrem caminho.. na qual se situa. mas também o que as provocaram. ou cristalização de imagens. mas de pistas. ouvroirs. elaboram o primeiro grande consolidado pedagógico dessa Companhia. mas onde estava o ar que ele respirava. História da educação. ou Sherlock Holmes. de quem falaremos. pensando. Era. e quanto á classe social. É preciso dizer novamente: o passado não enquanto permanência. Desde o século XVI. emblemas. mutações e crises. devido à origem e à história da formação da Companhia. desde o início de seu "generalato". 1989 MANUEL. quando começam a se dedicar de forma sistemática à Educação. já que a realidade histórica impede qualquer tentativa de fuga dessa orientação.. . 1866. as Ursulinas faziam. Seguindo algumas prescrições recentes. consciente da pregância que o envolve e ao seu objeto de estudo. etc. vou expor e abrir a discussão. nem nos "cortes". mas entre cada um deles e seu interlocutor em oposição. aquela dada nos colégios ou orfanatos religiosos. como prenha. Alguma educação para as meninas. em outros tipos de escola e sob a responsabilidade de outrem. Superior dos Lazaristas. A escola pública para meninos educados por homens. nem na periodização. ou Morelli. que se disponha a penetrar no passado como Freud. de uma maneira geral. pistas e sinais" 13 . e se aplicar na tarefa de penetração e de decifração. é preciso sentir e é preciso não acreditar muito.Ao historiador da educação. e outros segmentos sociais. rastros por onde talvez não tenha passado o sujeito do seu trabalho. pede-se que olhe o presente. Mesmo assim. ouvroirs etc. Assim. em busca de "traços. por várias congregações que se ocupavam da educação ou da caridade. M. mas colocam o desafio de situá-las concretamente. esse presente como chave de entrada no passado. Suas professoras eram religiosas e a partir do século XIX deveriam ser formadas especialmente para isso. a educação de meninas com um padrão pedagógico claramente definido. Para realizá-lo. ou pelo menos imitado. essa professora urbana. as Vicentinas sempre tiveram o mesmo Superior que os lazaristas. Talvez não apareça nesta exposição a devida articulação. no qual um capítulo é expressamente dirigido à formação das professoras. sinais: morfologia e história São Paulo: Cia. talvez. Pede-se. do século XIX e início do XX. que viva o presente. Paris: Adrien Le Clere. entre elas as Filhas da Caridade de São Vicente de Paula. contém em seu bojo transformações.. e certamente ministrada por mulheres. na França. ao nível da educação escolar. no século XVIII. digamos assim. estarei falando da chamada classe média. Sabe-se que. organização e interpretação do material que lhe concerne. ou melhor. mas enquanto pregnância que. traços e sinais dentro de um campo da prática pedagógica. ainda.. essa articulação e esse diálogo estarão presentes. Quanto ao gênero. estarei falando da branca. Cario Mitos. Etienne pensou e preparou o referido manual. o fez no masculino. não só entre esses três eixos. a Revolução criou a função de professor público. Primórdios da Educação Feminina Quando. Rastros sempre lacunares e confusos que subsistiram em não se sabe ainda que formas de expressão. — o da formação da professora. Esse padrão foi seguido. das Letras. estarei falando da mulher. o Manuel à l'usage des Filies de Ia Charité employées aux écoles. Vou tentar expor. Para além das objetivas atitudes de coleta. o olho que o olhava. quero dizer quais são os três eixos em torno dos quais se articula essa linha de trabalho. Etienne. nâo do resultado final de uma pesquisa. cuja tarefa era a de "guiá-las na carreira e indicar os meios de percorrê-la com sucesso".14. que se coloque nessas duas perspectivas citadas. convocou uma comissão coordenada pela econôma da companhia e composta das irmãs mais experientes e que melhor dominavam o assun14 Cf GINZBURG. a raça 13 negra..

Para ser uma boa mestra de escola eram necessárias duas qualidades. que apareceu dezessete anos depois. sabedoria. se vos chamam é sobretudo para confiar a educação das meninas (. Essa comissão "fez tudo para realizar suas intenções e objetivos. Sem precisar recorrer a um dicionário de Teologia. a de educar meninas: ". vigilância e firmeza. era preciso exercer a "maternidade espiritual. elas mesmas. as Vicentinas vêm para o Brasil. em 1849. as Filhas da Caridade. as qualidades são propriedade ou atributo da pessoa. etc. prevenindo-a contra todas as armadilhas e todos os perigos que ela deve enfrentar. conduta. em detrimento da formação intelectual. a chamado do Bispo de Mariana. o manual foi "submetido em todos os detalhes ao exame da Comunidade. Etienne acrescenta uma nova missão. ajudada pelos manuais de etiqueta. de conselhos. que o fez com a mais escrupulosa atenção. Evidentemente. E ainda doze virtudes: devoção. 0 manual. M. A Educação Feminina no Brasil Do outro lado do mundo. a manter as coisas (todas) nos seus devidos lugares. as meninas educadas. Trata-se da transmissão de uma moral familiar na qual o ensinamento religioso ocupa um lugar fundamental. Durante muitos anos esse círculo. antes de aprovar sua redação e impressão. com a ajuda de Deus. A esse papel se destinarão.to. silêncio.. alimentando seu coração com ensinamentos diversos. No mesmo compasso.. A ação de Dom Viçoso é claramente moralizadora e regeneradora. predomina a formação do caráter. Irmãs entre si.. a regeneração dos povos e a salvação das almas (. doçura. Essas "mães espirituais" educariam meninas. para o bem da religião.. constância.. É delicada e difícil de ser captada e aprendida a trama que se vai . desde o começo de sua vida e sempre cultivando sua inteligência. mas sem abandoná-las. Depois de pronto. paciência. a uma Filha da Caridade empregada em uma escola. zelo. da consciência. ensinando-as a bordar. patrimônio de vossa santa voca- ção e que o céu vos confia para assegurar sua felicidade no tempo e na eternidade. "Uma Filha da Caridade é a mãe. gravidade. Educar é "ocupar-se da menina desde a mais tenra infância. poderia responder a todas as necessidades e garantir o sucesso do trabalho não importa onde ele se desenvolvesse. segundo essas qualidades e virtudes. podem contribuir enormemente para o bem da Igreja. é segui-la pouco a pouco. Ela a envolve de cuidados. prudência e discreção. A tarefa de educar seá confiada à professora. a diferente entre virtudes e qualidades se impõe: as virtudes são disposições constantes do espírito. necessária e exclusivamente (o texto não deixa alternativa). cumprindo desde o início a direção proposta"." Se seguido como regra de conduta na educação da juventude. não foi rompido. generosidade e bom exemplo. a sua mãe.) é toda uma obra de regeneração das mães de familia. em um tipo de educação como esta. a dirigir uma casa." Para isso. do coração. formando-a na prática de todas as virtudes que devem compor sua riqueza aqui na terra. assegurando sua felicidade em um mundo melhor. Às antigas tarefas desempenhadas pelas Irmãs. para serem mães. É que são mães espirituais." Ser mãe. vai ser a pedagogia normativa das Irmãs em Mariana. de afetos. o lazarista Dom Viçoso. enquadra-se adequadamente na política "neo-contra-reformista" do Papa Pio IX. a sociedade proclamava que a mestra das meninas por excelência era a mãe. sobretudo hoje. mais especialmente vêm para Minas Gerais.. mesmo na Europa. é envolvê-la de sua mais salutar influência. concebido para ser aplicado e dar certo onde quer que a ação educativa se desse." A terceira parte do manual vai se dedicar então às virtudes e qualidades necessárias a essa educadora. humildade. "servas de pobres e doentes". das famílias e das nações. da menina do povo. e de toda a solicitude da maternidade na ordem da salvação".) sustentareis a honra da Companhia naquela de suas funções que.

. da formação da professora. passam. passando cordões de isolamento por toda a sociedade. Escola Normal pública. descortinando a vida privada e exibindo os afazeres domésticos. passavam-se outras coisas. o lado masculino.. em torno da educação da mulher. aí eu fui ser Luísa. Vincent. se se escuta uma mulher. em Minas Gerais no século XIX. através de uma imprensa paralela. cozinham.. Diferentes? Sim e não. que inclui a ambição de uma síntese histórica global do social. através dos Boletins Eclesiáticos. os relatórios de inspeção. abrindo espaços para a escrita feminina. hábitos. analisar a política educacional e a legislação atinente. • É a sociedade marianense com suas gavetas nas mesas e candelabros de prata nas igrejas de ouro. escolas domésticas e senhoras respeitáveis para ensinar às meninas ler. preparar doces e massas. desinfetando os espaços públicos. fazer um levantamento sócio-econômico das alunas dos colégios. com professores e alunos homens. tocar piano.. lado feminino. o ideário de filiação político-ideológico-partidária. A voz eclesial também. ao lado. desenhar. os prospectos.. que vai sendo tecida. anunciando venda. • É ainda Paris ditando a moda e o bom-tom das boas famílias burguesas.. arbitrando um sistema disciplinar. • É. preparam doces e massas. é o seminário ensinando aos meninos. editando e exportando manuais de delicadeza.. fantasias. engomam. falar francês. são os pais impedindo que suas filhas aprendam a ler.. são os padres amasiados e empencados de filhos. dizer: ". Talvez sim. A voz feminina circula em toda Minas Gerais. hábitos. bem ao lado. categorizam ou desclassificam costumes. palavras. cenário da criação da Companhia das Filhas da Caridade de São Vicente Paula. dias e dias em lombo de burro.15 Uma nova perspectiva de estudo Tudo isso para falar de coisa tão simples.. fuga de escravos e escravas. o Bom Ladrão... Seus Casos de Consciência divulgam. mostrando a moda e seus artesãos.. é M. ex-aluna da década de 50 de um colégio da Companhia no Brasil.. se se pretendesse trabalhar de alguma outra perspectiva que não essa. Os diferentes fios que compõem essa trama precisam ser buscados: • É Paris. estatutos e programas de ensino? Não bastaria falar da nomeação das professoras e seus colégios de origem. fazer flores. a formação da professora em Minas Gerais nos séculos XIX e XX? Não bastaria falar das matérias que eram estudadas. é na escalada e ultrapassagem das serras do mar e da Mantiqueira. contar. são as prostitutas ameaçando os lares abençoados. as (ainda assim chamadas) mentalidades. atitudes. Agradeço essas 1nformações a Francelina Drummond e seus estagiários do CEAC UFOP . criadora da Companhia e mulher em carne e osso. Sua enorme imprensa debatendo temas como a instrução pública e os ideais republicanos.. o Romano... século XVII. • E Louise de Marillac. o conselheiro dos "grandes" do século XVIII. • É a pedagogia católica do século XIX indicando as qualidades e virtudes de uma mestra de escola. as negras lavam. costurar. bordar. interlocutor de Louise. os exercícios e os livros didáticos. compra. de guloseimas."). Em Ouro Preto. escrever. idéias. na travessia do Oceano. a Irmã que ficou louca. as incumbências das mulheres escravas — as brancas costuram e bordam.tecendo. de qualidade e de defeitos das meninas e mocinhas casadoiras. o currículo. para não dizer marginal.. da questão do trabalho e do salário? Não bastaria e tudo isso já não seria muito? acho que não. (É demais? Não. interiorizando costumes.

em Paris. Há algo que resiste. todas as professoras podem não estar. se nâo se olha o hoje — repleto de agoras — e se pensa: Tudo novo. (.) Notar-se-ão como primeiras qualidades vocacionais' a sociabilidade e o amor (. sermões. religiosas. as (ainda assim chamadas) mentalidades. na disposição e ordenação do espaço físico. profundamente pregnado de lutas. mas a maneira como se difundem na sociedade e sob que formas vêm expressas tem de ser ainda captadas. religiosa ou técnica. que a História da Educação nâo pode esquecer. e a articular-se com pesquiasadores de outras áreas. como a Antropologia.. nos autos jurídicos e policiais. a se solidarizar com os alunos.. novos objetos. e recorrer a fontes bem menos ortodoxas.) A vocação para a carreira do Magistério é coisa que pode ser traduzida objetivamente por uns quantos indícios. sejam eles de origem política. de recalcados. tratados de boa conduta. epitáfios. panfletos. imersas nesse ethos pedagógico..... da pofessora? Talvez valha a pena mostrar concretamene um exemplo do que insinuo. populares. ao seu objeto específico. 16 BACKHAUSER. de resgatar práticas... uniformes.) A sociabilidade conduz o professor a ser comunicativo. É certo que não se pode dizer que nada mudou. Ler com múltiplos olhos o que foi escrito. caridade que lhe é sinônimo. mas há alguma coisa que não muda. Mas. discursos edificantes. Rio de Janeiro: Agir. Uma professora pode não estar submetida a esse todo educativo. não se diz às mesmas pessoas. a se alegrar com suas vitórias. O professor. Mas pode-se dizer que tudo mudou? Aquelas virtudes e qualidades valorizadas no manual das Irmãs do século XIX."' 6 Não se diz a mesma coisa. claro. É espantosa. significa amor ao próximo. Uma pesquisa que articule a história desse tipo de livro com uma análise de seus conteúdos. nas cerimônias de festa e luto cívicas. da Educação (ou educações) e da Pedagogia (das pedagogias). e através deles poder rescaldar objetos que podem ser incorporados à memória. elogios. é preciso ser feita. essa pesquisa ja começou a ser feita por mim mesma.. (grifos meus). insígnias.. Talvez sim.. Os melhores desses indícios residem exatamente nas qualidades do professor (. mas as professoras estão. que inclui a ambição de uma síntese histórica global do social. se tomarmos os livros e manuais de Didática do mesmo século. como é espantosa a prática que as veiculam. Nessa perspectiva é preciso que o historiador da educação se disponha a incorporar e articular. com a representação do "ser professor. nos emblemas. a Análise do Discurso. "A vocação é o próprio da personalidade. Tudo isso se traduz em qualidade e sociabilidade. gestos. retomo a idéia de pregnáncia. ou da década de vinte ou quarenta do século XX. a meu ver. de renegados. religioso e feminino. que insiste.Talvez sim. se se pretendesse trabalhar de alguma outra perspectiva que não essa. a Psicanálise. medalhas.. ainda que o historiador se disponha a incorporar e articular outros saberes aos da História. professora" na sociedade. 17 Como também é preciso que se preste atenção às idéias de salvação e de missão tão amplamente divulgadas nos discursos educacionais. roupas. ouvir com múltiplos ouvidos o que foi contado e o que foi silenciado. . sim. a se tornar deles um amigo. não se diz por causa das mesmas coisas. Penso nos depoimentos e histórias de vida. de conflitos. 1946.. não permaneceram. Penso na literatura de qualquer qualidade. nas fotografias. é o sinal divino aposto diferencialmente pois que cada qual como que rece- be ao nascer um encargo especial preponderante. a estimar e procurar sua convivência. Nessa perspectiva é preciso. sob o risco de manter o presente aprisionado. entre nós. " Entre o momento em que este texto foi escrito e sua presente apresentação. a sua recorrência.. não se diz "no" e "do" mesmo lugar e época. tomados muitas vezes como a única possibilidade. de reprimidos. biografias de heróis exemplares ou não. Para terminar. Everardo. quer dizer. na iconografia. que nâo se pode continuar ignorando. Penso nos escritos de propaganda (de colégios ou não). a sofrer com o que de mal lhes possa acontecer. que dizem eles das qualidades do professor. É preciso atenção porque sua origem tem uma marca muito claramente detectável. Mas alguma coisa insiste. a Literatura. manifestos.