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P SICOPATOLOGIA : B REVE INTRODUÇÃO 1 © Celeste Duque, 2005 – Psicóloga Clínica (

PSICOPATOLOGIA: BREVE INTRODUÇÃO 1

© Celeste Duque, 2005 – Psicóloga Clínica (mailto:celeste.duque@gmail.com)

A Psicopatologia do Desenvolvimento é uma disciplina relativamente

recente, teve início em 1974, surgiu o primeiro Manual da autoria de

T. Achenbach, mais recentemente, Cichetti e Cohen (1995a, b) editam dois volumes, um deles centrado na teoria e nos métodos e um segun- do dedicado ao estudo do risco, perturbações e adaptação.

Esta área foca a sua atenção nas origens e curso (fases e sequelas) dos padrões inadaptados de comportamento, alguns dos quais se enquadram em perturbações psiquiátricas tradicionais. Basicamente é feita a comparação entre as trajectórias adaptadas e inadaptadas. A este nível é importante sublinhar o reconhecimento da dinâmica entre o desenvolvimento normal e anormal, adaptado e inadaptado dos processos ontogénicos. O conhecimento do desenvolvimento norma- tivo é, obviamente, crítico para a compreensão do desenvolvimento atípico, mas, também, exa- minar o desenvolvimento desviante é necessário para o avanço do conhecimento do funciona- mento adaptativo. Nomeadamente, no que concerne ao conhecimento dos processos adaptativos biológicos, psicológicos e sociais, este é, de facto, muito importante para a compreensão, pre- venção e tratamento da psicopatologia.

Zigler e Glick (1986, p. xi) afirmam: “os indivíduos movem-se entre formas patológicas e não patológicas de funcionamento e, mesmo no seio da patologia, os pacientes apresentam meca- nismos adaptativos”. Já Sroufe considera que a psicopatologia deve ser concebida numa pers- pectiva organizacional e que deve ser percepcionada como um desvio do desenvolvimento nor- mal o que obriga a que se identifiquem e se interpretem os significados dos padrões de funcio- namento, tendo em atenção o contexto em que se inserem.

Como exemplo, pode-se citar um caso descrito por Cichetti e Cohen em que “pode ser adaptati- va a inibição afectiva numa criança cujos pais a maltratam, mas tal pode resultar em vitimização pelos pares” (1995 c), p. 8).

Nos casos em que a patologia representa uma distorção, perturbação ou exagero da condição do funcionamento normal, o estudo do fenómeno patológico pode, levar à compreensão dos proces- sos normais. Isto é, por vezes a patologia é melhor compreendida quando analisada à luz da normalidade (adaptado), outras, pelo contrário, é normalidade que e melhor explicada quando em comparação com a patologia.

1 Texto de Apoio expressamente elaborado para os alunos da Universidade do Algarve (UAlg), Escola Superior de Saúde de Faro (ESSaF), do Curso de Terapêutica da Fala, 1º Ciclo, 2º Ano, 2º Semestre, ano lectivo de 2004- 2005 (Maio, 2005).

Ainda nesta linha de raciocínio também Joyce-Moniz é peremptório “num sentido superficial, toda a psicopatologia é desenvolvimentista, na medida em que a patologia se constitui num pro- cesso desviante que ocorre durante o tempo, tornando possível a comparação com o processo de desenvolvimento normal. Assim o que uns designam por distúrbio psicológico, outros por sín- drome nosológico, doença mental, etc., integra-se bem na noção de desvio contraproducente. Não tanto em relação ao que é normal, mas mais ao que deveria evoluir normalmente” (1993, p.

4).

A

investigação nesta área do conhecimento centra-se nas populações que apresentam perturba-

ção psicológica mas também nas consideradas de alto risco, o que leva a uma visão dupla do problema.

Já não se pode estudar a doença mental sem ter em atenção os comportamentos, e estes apenas

podem ser considerados de um ponto de vista dinâmico: já que tendem à realização de um determinado objectivo e estão expostos a um duplo sistema de sujeições, que depende do pró- prio organismo, necessariamente dividido na sua busca de uma impossível perfeição, e do mun- do circundante que contraria essa busca ou lhe impõe as suas próprias vias. Pulsão e Conflito surgem, então, como noções de base indispensáveis, nesta perspectiva.

A noção freudiana de um inconsciente dinâmico permitiu reduzir esse afastamento: o compor-

tamento absurdo e o sintoma têm, de facto, um sentido oculto, isto é, uma finalidade. Muitos são os psiquiatras que apenas retiveram o suplemento que a psicanálise oferece, quando consegue atribuir um sentido.

Esperando, deste modo, que os psicanalistas interpretem o significado oculto, do sintoma, para, assim, alargar o domínio da compreensão psicológica e não pretendendo explicar a doença.

Convém no entanto realçar que a interpretação analítica apenas se justifica pelos seus efeitos ou o seu valor preditivo e que é arriscado alargar o seu uso fora do âmbito da “cura”, sem especifi- car o sistema de validação, ao qual se refere.

Assim, uma soma de interpretações particulares feitas a propósito de um caso clínico não consti- tui uma avaliação psicopatológica. Não basta acumular hipóteses sobre o significado dos sinto- mas, dos propósitos e dos comportamentos. Os motivos humanos não se justapõem ao acaso, organizam-se em sistemas e os conflitos internos exprimem a incompatibilidade entre estruturas parciais da personalidade. Além de que, essa organização específica, não surge do nada ou de um mero acaso, ela nasce e desenvolve-se no decurso da história do indivíduo, em função dos conflitos que marcam, necessariamente, as fases de desenvolvimento, dessa história.

O que é designado em psicanálise como meta psicológico não oferece somente um modelo teó-

rico mas permite construir toda uma nova semiologia (formações defensivas, leis do processo primário, derivados do inconsciente) distinta dos significados concretos. De referir que o pro- fundo conhecimento, desta, é indispensável ao clínico e que a sua aplicação fora do âmbito da cura se torna muito mais legítima.

Na “cura”, as referências meta psicológicas esbatem-se para dar lugar ao estudo das representa- ções particulares. Apesar disso, a utilização destas referências confere uma nova luz à exposição

da

observação clínica e algumas das suas variantes, como o estudo da situação projectiva.

O

mérito da obra de Bergeret, Bécache, Boulanger, Chartier, Dubour, Houser e Lustin (2004)

consiste precisamente no facto de mostrar como os modelos teóricos permitem dar consistência a uma semiologia original e a uma melhor compreensão das síndromes clínicas tradicionais.

O objectivo da Psicologia Psicopatológica não pode ser confundido com o da psiquiatria; limi-

tando-se ao estudo da evolução das vicissitudes do psiquismo humano, não se debruçando sobre

os aspectos técnicos das terapêuticas.

No aspecto clínico, Bergeret et al. (2004) desenvolvem uma posição ligada a determinadas con- cepções que apenas consideram e reconhecem duas formas de neuroses: a neurose obsessiva e a histeria (de angústia ou de conversão). Os comportamentos depressivos, ou fóbicos, não são característicos de qualquer estrutura em exclusivo, tal como também não o são o masoquismo, ou a homossexualidade. Também a noção de estrutura assume um sentido extremamente preci- so. E nota-se, a esse propósito, um extremo cuidado em reservar para as entidades claramente definidas os qualificativos “neurótico” e “psicótico”.

O desenvolvimento psicossexual

Sigmund Freud foi quem pela primeira vez falou em desenvolvimento psicossexual do ser humano, tendo proposto que este se processa em quatro fases, a saber: fase oral, fase anal, fase fálica e fase genital.

É de salientar, em primeiro lugar que a sexualidade infantil é indiferenciada e pouco organizada. Diferindo da sexualidade do adulto em pelo menos três pontos:

- Regiões corporais de maior sensibilidade (ou fontes de pulsionais de prazer) não são forçosamente as regiões genitais, aliás, outras zonas erógenas (regiões que proporcionam prazer sexual) acabam por predominar;

- Os objectivos são diferentes: a sexualidade infantil não conduz a relações sexuais propriamente ditas, mas comporta actividades que virão a desempenhar, mais tarde, um papel de prazer preliminar;

- Por último, esta sexualidade infantil tende a ser auto-erótica mais do que dirigida a objectos.

Fase oral

A Fase Oral tem como primazia a zona bucal como zona erógena ou fonte corporal pulsional.

Quanto ao objecto original de desejo sexual da criança de peito, é constituído pelo seio materno ou pelo seu substituto, sendo a primeira expressão da pulsão sexual o acto de mamar. De facto, o acto de mamar não só satisfaz a necessidade de alimentação, como também proporciona prazer por si só.

A relação de objecto é, na realidade, uma inter-relação dialéctica: o que está em jogo não é ape-

nas a forma como o sujeito elabora e constitui os seus objectos (externos e internos) mas tam-

bém o modo como estes vão moldar a sua actividade.

Fase anal

Não subsistem quaisquer dúvidas quanto ao facto de o prazer anal existir desde o início da vida, mas, numa fase mais precoce, ele não constitui o principal escape libidinal, tal como ainda não está conflitualizado. Apenas quando se instala o controlo dos esfíncteres e o acto de defecar se transforma num acto sobre o qual a criança adquiriu um domínio mínimo, suficiente, o prazer ligado a essa defecação, bem como os conflitos específicos que lhe dizem respeito, passam a ocupar uma situação privilegiada.

A Relação de Objecto desenvolve-se de acordo com o modelo das relações mantidas pela crian-

ça com as suas matérias fecais e, além disso, em função dos conflitos ocasionados pela educação para a limpeza que o indivíduo vai orientar a sua relação de objecto, com as suas características específicas: sadismo caracteriza-se por uma agressão carregada de prazer contra um objecto; masoquismo, cujo termo remete para o objectivo passivo de aceder ao prazer por experiências dolorosas. Tanto um como outro, estão ligados aos castigos corporais, para os quais as nádegas constituem, nessa altura, o alvo preferido.

Fase fálica

Surge por volta do terceiro ano de vida, com base nas fases anteriores, por abandono ou solução dos conflitos afectivos a eles inerentes, a fase fálica inaugura uma relativa unificação dos das pulsões parciais sob uma certa primazia dos órgãos genitais. Não se trata, ainda, de uma verda- deira genitalização da libido. O erotismo uretral é considerado, por exemplo, por Fenichel, como uma fase uretral, intermédia entre as fases anal e fálica. O objectivo primário deste ero- tismo é o prazer de urinar, verificando-se, igualmente, prazer na retenção. Começa, como facilmente se pode observar como um prazer auto-erótico, orientando-se sucessiva e progressi- vamente para objectos (fantasmas de urinar para cima dos outros) enquanto a enurese poderá ser considerada, após o auto-erotismo, como um equivalente masturbatório inconsciente.

A masturbação infantil seja primária ou secundária esta masturbação infantil precoce, é frequen- temente negada (reprimida) pelos adultos, provavelmente em função do seu próprio Superego. Deixa, no entanto, marcas profundas e inconscientes na memória e parece representar uma das principais causas da famosa amnésia infantil, que se relaciona, nomeadamente, com a actividade reprimida pelos pais, mas sobretudo com os fantasmas sexuais próprios da idade (na sua maio- ria, fantasmas masturbatórios, de essência Edipiana, logo angustiantes e culpabilizantes).

O pénis não é ainda percepcionado como um órgão genital mas sim como um órgão de potência

ou de completude, ou seja, um falo, derivando desse facto o nome desta fase.

Fase Genital

O Complexo de Édipo tem um papel fundamental de organizador central na estruturação da per-

sonalidade. O conflito em causa (que surge entre os três e os cinco anos) é um conflito doravan-

te sexualmente especificado, que se inscreve numa problemática a três – designa-se também

como triangular em que estão envolvidas as três personagens familiares: criança, pai e mãe. É precisamente este conflito que inaugura a verdadeira genitalização da libido.

Não restam dúvidas que o Complexo de Édipo é um produto da instituição social constituída pela família e daí, o ser susceptível de mudança ao sabor das transformações desta, como aliás facilmente o demonstra a prática clínica. Mas as diferenças efectivamente observadas nas for- mas de expressão do Édipo consoante as sociedades ou as culturas apenas confirmam a tese de Freud que tende a salientar a importância da estrutura familiar no estabelecimento de um siste- ma simbólico destinado a transmitir, num contexto sócio-cultural específico, uma lei fundamen- tal no estabelecimento das relações sociais.

Freud admitiu a existência, no indivíduo, de uma fase ou período anterior ao Édipo, contraria-

mente à escola kleiniana, que faz remontar o complexo de Édipo à posição depressiva, o que equivale a dizer que intervém a relação com as pessoas totais. De igual modo, também se está a diferenciar, ou mesmo a opor, o pré-edipiano ao Édipo, salientando-se a existência e os efeitos

de uma relação complexa, de tipo dual, entre a mãe e a criança, e a procurar identificar as fixa-

ções desta relação nas mais diversas estruturas psicopatológicas. É aliás célebre a frase que o Édipo constitui-se no “complexo nuclear das neuroses”.

Relação de objecto edipiana – verifica-se quando as fixações arcaicas fortemente investidas, ao pai e/ou à mãe, são reproduzidas sobre outro homem ou sobre outra mulher que surge a neurose. Dito de outra forma, ultrapassar as tendências edipianas representa uma condição prévia para o acesso à sexualidade adulta normal, enquanto que agarrar-se a elas inconscientemente significa fixar-se na pedra angular da neurose.

Resumindo, com a resolução do complexo de Édipo, as escolhas objectais (termo que significa o desejo de possuir sexualmente um indivíduo, por exemplo, a atracção do rapaz pela mãe) são regressivamente substituídas por identificações (o que implica o desejo de se parecer com alguém, por exemplo, no rapaz que imita as características do pai).

No entanto, tal “regressão” é apesar de poder parecer contraditório ou mesmo paradoxal, é na realidade um progresso. Já que a dissolução ou abandono do complexo de Édipo é acompanhado pela libertação de uma quantidade de energia considerável. Esta energia será, regra geral, investida no enriquecimento intelectual, nomeadamente na aquisição de capacidades e compe- tências intelectuais. E, mais tarde, manter-se-á disponível para ser reinvestida em novos objec- tos.

Freud afirmou que “O Superego é o herdeiro do complexo de Édipo” e esta afirmação nunca foi contestada ou desmentida, mais tarde referiu ainda que “o estabelecimento do Superego pode ser considerado como um caso de identificação conseguida”.

Psicopatologia Dinâmica

Bergeret define a normalidade como sendo a capacidade de coordenar:

- As necessidades pulsionais com as defesas e adaptações;

- Os dados internos (hereditários e adquiridos) com as realidades externas;

- As possibilidades caracteriais e estruturas com as necessidades relacionais.

Há, então uma adequação funcional no seio da linha estrutural.

Neste sentido, patologia pode ser definida como a ruptura do equilíbrio no seio da mesma linha estrutural.

- A estrutura é a base ideal de arranjo estável dos elementos meta psicológicos constantes e essenciais no indivíduo.

- Carácter é o nível de funcionamento manifesto e não mórbido da estrutura.

- Sintomatologia pode ser definida como o modo de funcionamento mórbido de uma estrutura quando está descompensada, isto é dado que os factores internos ou externos da conflitualização não se encontram equilibrados por um jogo eficaz dos mecanismos de defesa e da adaptação.

Estruturas autênticas são estruturas sólidas, fixas e definidas: neuróticas e psicóticas.

Aestruturações são organizações intermédias – estados limite; menos específicas de maneira durável e podendo originar disposições mais ou menos estáveis (estados caracteriais e perver- sões).

Personalidades pseudo normais não se encontram totalmente estruturadas no sentido das Neu- roses ou das Psicoses, estabelecem-se por vezes de maneira durável mas, no entanto, sempre precariamente, segundo arranjos diversos, não totalmente originais, que obrigam estes sujeitos, a fim de não descompensarem na Depressão, a funcionarem aparentemente como pessoas super- normais.

Linha estrutural psicótica

Na linha estrutural psicótica:

- As frustrações aconteceram em idade muito precoce (fase anal e 1º sub-estádio anal);

- Eu psicótico pré-organizado.

Na adolescência ainda é possível mudar embora seja extremamente difícil que isso se venha a verificar.

Características:

- Enfraquecimento da vida narcísica primária;

- Relação mais ou menos fusional com a mãe;

- Eu extremamente falho (clivagem);

- Super-Eu, não tem um papel organizador;

- Angústia de fragmentação; divisão;

- Conflito é causado pela realidade face às necessidades pulsionais do indivíduo (Id/realidade);

- Mecanismos de defesa: negação da realidade; projecção e desdobramento do Eu.

- Instância organizadora: Id.

Linha estrutural neurótica

A linha estrutural neurótica apresenta:

- Conflitos ao nível da Situação Edipiana; e

- Eu neurótico pré-organizado.

Na adolescência são possíveis mudanças, no entanto, são raras.

Características:

- Conflito entre Super-Eu e Eu;

- O Eu não está dividido (pode encontrar-se deformado);

- Relação de objecto genital;

- Mecanismos de defesa: recalcamento;

- Não há negação da realidade;

- Primazia do processo secundário sobre o processo primário;

- Angústia: (de) castração;

- Instância organizadora: Super-Eu.

Estruturas intermédias

Têm por base um traumatismo desorganizador (regra geral, uma sedução real precoce, por parte do adulto – não uma fantasia como sucede no caso dos neuróticos) que é sentida como uma grande frustração do ponto de vista afectiva, o que vai bloquear o desenvolvimento afectivo.

Estes indivíduos (ao contrário do que acontece nas estruturas neuróticas) não conseguem utilizar muitas vezes o recalcamento com sucesso.

Características:

- Instâncias organizadora – Ideal do Eu (o Super-Eu é imperfeito);

- Natureza do conflito – Ideal do Eu com o Id e a realidade.

- Angústia: perda de objecto;

- Mecanismos de defesa – Clivagem dos objectos; Forclusão, e Evitamento.

- Relação de objecto – anaclítica (dependência do objecto, luta pela sua posse)

É uma doença do narcisismo; o que marca o tronco comum dos estados limites é o bloqueio da vida afectiva.

Não há clivagem do Eu, mas há dois sectores de funcionamento:

- Adaptativo – em relação à realidade;

- Anaclítico – quando a perda de objecto de quem se depende e de quem se faz depender.

Do ponto de vista económico, funciona em dois sistemas: adaptativo e defensivo mas, apesar desta flutuação, não possui a solidez de um Eu neurótico/normal.

São indivíduos que precisam permanentemente de afecto (são muito sedutores) e a sua luta é contra a depressão. São muito susceptíveis e dependentes da realidade externa, daí que a sua posição possa ser trocada por uma grande instabilidade. Reagem muito mal às frustrações e estão sempre à defesa.

Génese da estrutura base da Personalidade

Freud considerava que logo após o psiquismo do indivíduo ter atingido um grau de organização que equivalha a uma “cristalização” definitiva.

Segundo linhas de força (e de fraqueza) interiores complexas e originais, não haverá mais varia- ção possível.

Nos casos gerais de evolução psíquica do sujeito em direcção a uma estrutura estável, em geral, as coisas parecem, segundo Bergeret, processar-se da seguinte forma:

- 1ª etapa – numa primeira etapa consideram-se os estados iniciais da criança na sua indiferenciação psicossomática, e também a pouco e pouco, o Eu se distingue do Não-Eu.

Neste estado inicial, o Eu conserva uma certa plasticidade às influências exteriores tóxicas, tal como às maturativas.

- 2ª etapa – começamos a assistir a uma espécie de “pré-organização” já mais específica, em função de linhas de força determinadas de um lado por dados hereditários e congénitos inegáveis e, por outro, pelas experiências objectais sucessivas referentes às zonas erógenas cada vez mais extensas; das pulsões cada vez menos parciais.

As relações com os pais permanecem fundamentais e às quais se associam as relações com todos os membros do contexto social educativo.

Tudo isto se repercute no psiquismo em formação por conflitos frustrações, traumatismos, mas tam- bém por seguranças anaclíticas e identificações positivas.

As defesas começam a organizar-se de forma cada vez menos flutuante. O Eu vai manobrando por movimentos de tentativa e erro. De modo a fazer face às ameaças criadas no exterior, tanto pela rea- lidade como pelas pulsões.

Progressivamente o psiquismo organiza-se, “cristaliza-se”, segundo um modo de ligação dos seus elementos psíquicos próprios. Numa verdadeira organização interna com linhas de clivagem e de coesão que já não poderão variar posteriormente.

- 3ª Etapa: chega-se a uma verdadeira estrutura da personalidade que já não se poderá modificar, nem mudar de linha fundamental, mas unicamente adaptar-se ou desadaptar-se, segundo uma linha de organização estrutural imutável.

Enquanto o indivíduo de uma ou outra estrutura estável neurótica ou psicótica, não estiver submetido a provas externas ou internas demasiado fortes, não sofra frustrações demasiado grandes, e não se sinta vítima de conflitos demasiado intensos, não estará “doente”, embora tenha uma estrutura Neu- rótica ou Psicótica.

Se surgir algum acontecimento de maneira a quebrar o “cristal” a clivagem não se poderá operar, a não ser segundo linhas de força e de ruptura preestabelecidas na infância ou na adolescência do sujei- to.

Resumindo a génese da estrutura base de personalidade segue 3 etapas, como se reperesenta na figura seguinte.

segue 3 etapas, como se reperesenta na figura seguinte. Figura 1 . Génese da Estrutura Base

Figura 1. Génese da Estrutura Base de personalidade

Estados Limite

Génese do tronco comum dos Estados Limite:

O Ego, nos Estados Limite, superou sem frustrações nem fixações as relações precoces muito más com a mãe. Este Ego continua sem muitos empecilhos, no caminho rumo ao Édipo, quando subitamente no 2º sub-estádio da Fase Anal, há um traumatismo desorganizador precoce:

- A situação triangular relacional triangular e genital não pode ser abordada em condições normais. No contexto genital, o traumatismo vai ser sentido pelo sujeito como uma frustração muito viva com ris- co de perda de objecto.

Este traumatismo corresponde a uma emoção pulsional intensa que sobreveio num estado ainda mal organizada e imatura quanto ao seu equipamento, adaptações e defesas para que pudesse ser enfrentado em condições inofensivas, exemplos:

- Criança que toma contacto, demasiado cedo, com a Situação Edipiana;

- Criança violada;

- Criança exposta a manifestações sexuais.

Pode-se considerar que a criança entrou de um só golpe brutal, massivo, e precocemente numa Situação Edipiana para a qual não estava absolutamente preparada.

Este primeiro traumatismo afectivo, “precoce”, desempenhará o papel de primeiro desorganiza- dor (“desorganizador precoce”) da evolução do sujeito.

Encontramos esta evolução fixada, de início, e às vezes por muito tempo, numa espécie de pseudo latência mais precoce e que, muitas vezes, se prolonga até à idade adulta.

Este bloqueio evolutivo de maturidade afectiva do Eu no momento em que ainda não está sexualmente diferenciado, constitui o chamado “tronco comum” dos Estados Limite.

Este tronco comum não pode ser considerado uma verdadeira estrutura uma vez que não possui a fixidez, a solidez e a especificidade definida das organizações verdadeiramente estruturadas.

Este apenas consegue ficar em situação “ordenada” mas não fixada: trata-se de uma “organiza- ção” (estrutura intermédia) de estatuto provisório.

A organização limite é acima de tudo uma doença do narcisismo, superado o perigo de uma psi-

cogénese do tipo psicótico, o Ego não conseguiu chegar a uma psicogénese do tipo Neurótico, a

relação de objecto permaneceu centrada na dependência anaclítica do outro; o perigo imediato contra o qual lutam todas as variedades de Estados Limite é, acima de tudo, a depressão.

O Ego suas características:

No interior da Personalidade Limite coexistem dois sectores operacionais do Ego:

- Um permanece no contexto de uma clássica adaptação aos dados da realidade exterior;

- O outro funciona de um modo mais autónomo em relação à realidade, fixado essencialmente nas necessidades narcísicas internas, ao anaclitismo assegurador.

Esta dualidade de sectores operacionais não pode ser confundida com uma verdadeira clivagem do Eu. Tratando-se antes de uma simples reacção defensiva n as actividades do Eu, destinadas justamente a evitar a ameaça de rompimento.

O Ego deforma-se em algumas das suas funções, indo operar, sob dois registos diferentes:

- Um registo adaptativo em todo o campo relacional onde não exista qualquer ameaça para o indivíduo tanto no plano narcísico como no plano genital;

- Um registo anaclítico desde que apareça uma ameaça de perda de objecto, em consequência tanto a perigos no plano narcísico como genital.

Todo o problema económico da organização limite se desenrola nas relações entre estes dois sistemas, ao mesmo tempo adaptativos e defensivos, permitindo ao Ego uma certa mobilidade e segurança, porém jamais permitindo uma verdadeira solidez.

O Eu é lacunar (não organizado e indiferenciado), isto é não parcelado como nos Psicótico, mas

também não completo como nos Neuróticos – defende-se da ruptura, desdobramento, defor-

mando-se. O Eu é essencialmente incompleto, tem falhas narcísicas primárias, que vão caracte- rizar a relação de objecto e os modos de defesa.

Estes sujeitos manifestam uma necessidade imensa de afecto, mostrando-se por isso, sedutores:

a sua luta contra a depressão obriga-os a uma incessante actividade. A sua dificuldade em se

envolverem coloca-os na necessidade de se tornarem disponíveis e adaptáveis a todo e qualquer momento, na falta de poderem estar realmente adaptados.

O Eu dos Estados Limite conserva, em suas fixações, um olhar voltado para a antiga indistinção

somato-psíquica, podendo, em momentos particularmente angustiantes, fazer o retorno parcial, a este modo arcaico de expressão que utiliza a linguagem corporal.

As organizações Limite resistem mal às frustrações actuais que despertem antigas frustrações infantis precoces; facilmente utilizam traços de carácter paranóicos na tentativa de assustar quem os possa frustrar.

O narcisismo destes sujeitos encontra-se mal estabelecido, permanecendo frágil; existe uma evi-

dente e excessiva necessidade de compreensão, respeito, afeição e apoio. O objecto é sentido como persecutório mas nunca tanto (nem tão anal), como no paranóico.

Este objecto desempenha o duplo papel de Super-Eu auxiliar situando-se pois com a importante ambivalência como proibidor e protector simultaneamente.

A relação de objecto anaclítica constitui uma relação de grande dependência que permanece

vivida e jogada a dois mas de forma muito diferente do jogo fusional psicótico com a sua mãe. Para o anaclítico trata-se de ser amado e ajudado por ambos os progenitores: trata-se de agredir

e dominar analmente a ambos em partes iguais. Este tipo de relação de objecto constitui uma defesa contra a depressão.

A angústia da organização Limite é a angústia da depressão, e esta ocorre a partir do momento

em que o sujeito imagina que o seu objecto anaclítico possa fazer-lhe falta, possa escapar-lhe. É, na realidade, uma angústia de perda de objecto, pois sem objecto o anaclítico mergulhará na

depressão. Não se trata de uma depressão do tipo melancólico, pois neste Estado Limite o objec-

to não pode ainda ser introjectado. O luto permanece igualmente impossível. Esta angústia diz

respeito ao passado e ao futuro em simultâneo. Ele lembra um passado infeliz, mas atesta,

simultaneamente, uma esperança de salvação investida na relação de dependência fecunda do outro. O anaclítico tem necessidade do outro a seu lado, embora tema os perigos da intrusão na proximidade grande demais, não consegue resolver-se a permanecer só: eis porque procura mui-

to o grupo, sentindo-se aí mais securizado.

Enquanto a linhagem Neurótica corresponde à articulação dos factores:

Édipo ! Super-Eu ! Conflito Genital ! Culpa ! Angústia de Castração

A linhagem narcísica corresponderia à sucessão:

Narcisismo ! Ideal do Eu ! Fenda Narcísica ! Vergonha

!

Angústia de perda de objecto

!

Depressão

Ideal do Eu e Super-Eu

Embora na organização Limite existam elementos Edipianos e Super-Egoícos, estes não desem- penham o papel principal de organizadores. De qualquer forma, é de notar que, o grau de aquisi- ções Edipianas depende das condições de impacto do traumatismo desorganizador, do grau de maturidade do Eu e dos meios de que dispunha aquando desse traumatismo.

O Super-Eu clássico, de estrutura Neurótica, definido como herdeiro e sucessor do Édipo, não

conseguirá constituir-se de forma completa nestes sujeitos, uma vez que as vivências Edipianas

se

acharão sensivelmente escamoteadas.

O

Ideal do Eu é a instância organizadora, enquanto herdeiro do narcisismo primária (o indivíduo

despende um infrutífero e impotente esforço para tentar restaurar partes perdidas da “boa rela-

ção” com a mãe ou os pais omnipotentes).

A função do Ideal do Eu já se achava fortemente investida durante o período genital, pelo que o

retraimento dos primeiros elementos Super-Egoícos desenvolverá ainda mais a inflação do Ideal

do Eu, que a partir daí ocupará a maior parte daquilo que normalmente deverá reverter para o Super-Eu.

Daqui resulta que:

- Estes sujeitos abordam a sua vida relacional com heróicas e desmesuradas ambições de fazer bem para conservar o amor e a presença do objecto;

- Todo o processo demasiado cruel agirá de modo a criar vergonha ou desgosto (linhagem Narcísica) de si mesmo e eventualmente projectável sobre os outro;

- A intolerância às contradições e incertezas;

- Facilidade com que a representação mental ou a expressão passam ao acto inesperada e incompreen- sível.

Sminfel considera o Ideal do Eu instância organizadora, na medida em que se liga ao Id para sufocar o Super-Eu. Assim, o Super-Eu só exerce as funções de punição, ameaças e pressões.

O Ideal do Eu, ao contrário, age essencialmente pelas “promessas” ingénuas, assim o Super-Eu

das organizações Limite reinveste apenas as forças sádicas e agressivas, reforçando o seu lado

negativo.

Narcisismo

Caracteriza a relação de objecto do indivíduo Limite e o modo de defesa: por regressão libidinal. No indivíduo Limite há impossibilidade de romper os laços anaclíticos não só com a mãe, mas com os dois progenitores edipianos. Esta forma de relação de objecto continua sendo uma reac- ção contra a depressão.

Édipo

Nos Estados Limite o Édipo foi precocemente evitado, desviado daí que os seus modos de defe-

sa não tenham a mesma temporalidade nem potencial de integração que nas Estruturas Neuróti- cas.

A consequência deste estado é o entrave à constituição do Super-Eu no sentido pós-Edipiano.

Nos Estados Limite o Super-Eu permanece num estado preparatório incompleto, não permitindo a formação de uma instância pessoal, completa e internalizada. É então o Ideal do Eu que vai guiar as condutas (não gerando mais conflitos de instâncias, tal como acontece com o verdadeiro

Super-Eu).

Assim:

- A primeira situação traumática;

- A existência de um Édipo precoce;

- A genitalização prematura conduzem a:

- Falha de investimento libidinal;

- Alterações graves de investimento fantasmático.

É a clivagem do objecto (narcísico/fantasmático; bom/mau) que conduz à relação de objecto tipo Anaclítico.

A emergência de sentimentos de hostilidade e de amor em relação aos objectos edipianos (ou

substitutos) é vivida como perigo. Isto surge da angústia violenta de ver renovar-se as condições de traumatismo primitivo – origina o risco de depressão e despersonalização – é a crise de angústia aguda, descrito como episódio de ruptura de equilíbrio do Estado Limite.

Há então possibilidade de entrar na Neurose ou na Psicose consoante os elementos Edipianos dispersos que pré-existem.

Angústia

A angústia latente é o traço m ais marcante da linha depressiva limite e pode ter uma tonalidade

permanente, difusa, flutuante e infiltrante.

Pode revestir aspectos hipocondríacos para além de aspectos neurovegetativos e suicidários.

Caracterização dos Estados Limite

- Instância dominante na organização: Ideal do Eu;

- Natureza do conflito com: o Ideal do Eu com:

- O Id; e

- A realidade.

- Natureza da angústia: Perda de objecto;

- Relação de objecto: Anaclítica.

Defesas principais:

- Clivagem dos objectos (trata-se de uma clivagem das representações objectais, de um simples desdo- bramento dos imagos, destinada a lutar contra a angústia de perda de objecto, correndo o risco de chegar realmente à clivagem por verdadeiro desdobramento do Eu);

- Evitamento (o sujeito evita o encontro com a representação, mesmo quando esta se acha isolada ou deslocada);

- Idealização;

- Identificação projectiva;

- Denegação;

- Manipulação da realidade;

- Forclusão (esta diz respeito a uma forma de rejeição da representação constrangedora; endereça-se a uma imagem mais paterna cuja representação simbólica é preciso rejeitar).

Os sujeitos Limite são:

- Dependentes;

- Sedutores, pois necessitam de estima, de afecto;

- Falta de tolerância à ansiedade;

- Falta de controlo da impulsividade;

- Apreensão objectal com forte tonalidade do processo primário;

- Certo bloqueio das capacidades sublimatórias;

- Extremamente agressivos ou extremamente dóceis;

- Perturbação da identidade (pseudo ou super-normais).

Tipos de personalidade

Personalidade Narcísica

- Sobrevalorização de realizações e capacidades próprias;

- Preocupação com fantasias de êxito, poder, brilho e beleza ilimitadas.

- Exibicionismo, exigência de atenção e admiração;

- Indiferença fria ou sentimentos de cólera, inferioridade, vergonha, humilhação ou vazio perante a crítica ou indiferença dos outros;

- Alteração nas relações inter-pessoais (pelo menos duas):

- Sentimentos de ter direito, ou a expectativa de favores especiais;

- Abuso nas relações;

- Variação e idealização/desvalorização;

- Ausência de empatia.

Personalidade Compulsiva

(tem que apresentar pelo menos 4 das seguintes condições)

- Restrição da capacidade de expressar emoções;

- Perfeccionismo excessivo;

- Insistência para que os outros se submetam à sua vontade;

- Devoção excessiva ao trabalho e produtividade;

- Indecisão, dificuldade de tomada de decisões.

Personalidade Paranóide

Suspeita ou desconfiança excessiva (! 3):

- Expectativa de traição ou dano;

- Hipervilância, tomada de atitudes desnecessárias;

- Desconfiança;

- Recusa de crítica quando justificada;

- Dúvida sobre a lealdade dos outros;

- Procura de confirmação de ideias preconcebidas;

- Preocupação excessiva com motivos escondidos e significados especiais;

- Cíume patológico.

Hipersensibilidade (! 2):

- Tendência a sentir-se facilmente humilhado e ofendido;

- Exagero das dificuldades;

- Tendência a contra-atacar perante ameaça;

- Incapacidade de se descontrair.

Afectividade restrita (! 2):

- Aparência fria e pouco emotiva;

- Orgulho racional;

- Ausência de sentido de humor;

- Ausência de sentimentos de passividade, ternura e afectividade.

Não provocado por outra perturbação funcional (exemplo, esquizofrenia)

Nota: Maior prevalência nos homens que nas mulheres

Personalidade Esquizotípica

(! 4):

- Pensamento mágico (superstição, telepatia, etc.);

- Ideias de auto referência;

- Isolamento social;

- Despersonalização, Desrealização, Sentimentos de presença;

- Alteração do discurso (alteração de associações, circunstancialidade, metáforas);

- Atitudes inadequadas, distância, frieza;

- Desconfiança ou ideação paranóide;

- Ansiedade social, hipersensibilidade à crítica.

Não reúne critérios de Esquizofrenia.

Personalidade Histriónica

Comportamento exageradamente dramático, reactivo e expresso de uma forma intensa (! 3):

- Auto-dramatização;

- Apelativo;

- Procura de actividade e excitação;

- Reactividade excessiva a acontecimentos insignificantes;

- Acessos irracionais de cólera ou mau humor.

Alterações relações inter-pessoais:

- Encarado como superficial e hipócrita, embora encantador e simpático;

- Egocêntrico e Auto-indulgente;

- Não exigente;

- Dependente, procura constante de apoio;

- Tendência à ameaça, manipulação, Depressão Suicídio.

Personalidade Dependente

- Aceitação passiva que terceiros assumam responsabilidade em áreas fundamentais da sua vida;

- Subordina as próprias necessidades às das pessoas de quem depende;

- Falta de autoconfiança, sentimentos de indefesa.

Personalidade Anti-social

Idade actual ! 18 anos; Início antes dos 15 anos ( ! 3):

- Absentismo às aulas;

- Expulsão ou suspensão;

- Delinquência;

- Fugas;

- Mentiras frequentes;

- Relações sexuais repetidas no decurso de relações efémeras;

- Alcoolismo (fármaco-dependência);

- Roubos;

- Vandalismo;

- Classificações escolares inferiores às esperadas, de acordo com o QI;

- Violação de regras sociais, familiares;

- Incitamento à desordem.

Após os 18 anos (! 4):

- Incapacidade de manter desempenho profissional regular;

- Incapacidade de possuir papel parental;

- Incapacidade de aceitar normas sociais;

- Incapacidade de manter relação durável com parceiro sexual;

- Irritabilidade e violência;

- Incapacidade de respeitar obrigações financeiras;

- Incapacidade de planear;

- Desespero pela verdade;

- Imprudência.

Violação dos direitos de terceiros, constantemente;

Não devido a um atraso mental ou Esquizofrenia.

Personalidade Esquizóide

- Frieza e distanciamento emocional;

- Indiferença aos elogios, crítica e sentimentos alheios;

- Amizade íntima limitada a 1 ou 2 pessoas, incluindo a família;

- Ausência de excentricidades no comportamento verbal e não verbal;

- Não provocado por distúrbios psicóticos;

- Antes dos 18 anos não reúne critérios para Distúrbio Esquizoíde da Infância ou Adolescência.

Psicoses Esquizofrénicas

Tipos Clínicos

Psicoses Esquizofrénicas Tipos Clínicos Quadro 1 Psicoses esquizofrénicas: Formas de apresentação Esquizofrenia

Quadro 1

Psicoses esquizofrénicas: Formas de apresentação

Esquizofrenia simples

Esquizofrenia Catatónica

Esquizofrenia Hebefrénica

Esquizofrenia Paranóide

Esquizofrenia Esquizo-afectiva

Episódio esquizofrénico

Esquizofrenia latente

Esquizofrenia residual

 

Início agudo

Psicoses delirantes e alucinatórias agudas Estados maníacos atípicos Estados defensivos atípicos Perturbação do comportamento

Formas de apresentação

Início cíclico

Episódios delirantes repetidos Episódios catatónicos repetidos Estados maníacos atípicos

Início insidioso

Acentuação progressiva de personalidade esqui- zóide Crise adolescência grave prolongado Invasão progressiva do delírio

Início pseudo-neurótico

Formas Evolutivas

- Remissão total com recaídas, ou parcial com defeito de personalidade;

- Cronicidade estável (30 a 40% dos casos);

- Remissão total sem recaídas;

- Deterioração para esta terminal (rara);

- Recuperação completa e permanente (2 a 4% dos casos);

- Suicídio e tentativa de suicídio.

Psicoses Esquizofrénicas

- Distorção do pensamento, delírios, principalmente de estar a ser influenciado (convicção delirante de ser controlado por forças externas ao Eu);

- Perturbações formais do pensamento:

- Perda de lógica entre as ideias;

- Dificuldade em pensar;

- Lentificação do pensamento;

- Pensamento emaranhado;

- Pensamento em tropel;

- Pensamento saltuário;

- Vaguear de ideias;

- Perseverança do pensamento;

- Bloqueios do pensamento.

- Perturbação da afectividade:

- Discordância afectiva;

- Ambivalência;

- Mudança ou inversão de afectos;

- Frieza afectiva.

- No conjunto há uma alteração global relativamente:

- Individualidade do sujeito;

- Auto-determinação;

- Clivagem ou cisão (passam a existir dois mundos diferentes no sujeito: o real e o delirante).

Tipos Clínicos

Esquizofrenia Simples

A perturbação fundamental é uma perturbação dos afectos, não havendo fenómenos delirantes.

Para alguns autores trata-se de um estado psicótico enquanto que para outros, é apenas um dis- túrbio de personalidade – distúrbio esquizofrénico de personalidade.

Esquizofrenia Catatónica

Predominam as perturbações psicomotoras (estados de agitação e/ou inibição). É de início rela- tivamente tardio.

Esquizofrenia Hebefrénica

A alteração dominante é a perturbação formal do pensamento (pensamento incoerente, ruptura

das associações, etc.).

Tem um início precoce – 16/18 anos a 25 anos –, provocando uma intensa deterioração de per- sonalidade e uma evolução rápida.

Esquizofrenia Paranóide

Aparecimento de delírios mais sistematizados (influenciamento, grandeza, persecutórios, etc.) bem como de alucinações auditivas.

Início tardio: 25 a 45 anos

Esquizofrenia Esquizo-afectiva

Quando ao sindroma esquizofrénico se associam manifestações depressivas ou maníacas carac- terísticas das Psicoses Maníaco-Depressivas.

É menos grave e tem tendência a evoluir para surtos relativamente curtos, o que possibilita à

pessoa manter-se ajustada à realidade fora dos surtos.

Episódio Esquizofrénico Agudo

Quando há intensas manifestações de despersonalização e angústia.

Esquizofrenia latente

Esquizofrenia Residual

Predominam o isolamento social, comportamentos excêntricos, pensamento ilógico e o afrou- xamento de associações, embora possa haver ideias delirantes e alucinações.

Formas de Apresentação

Início agudo ou súbito

- Psicoses delirantes e alucinatórias agudas;

- Estados maníacos atípicos;

- Estados depressivos atípicos;

- Perturbações do comportamento.

Início cíclico

Apresenta-se sobre um fundo de distúrbio de personalidade esquizoíde que durante 2/3 anos apresenta “assaltos” progressivos, surtos psicóticos de:

- Episódios delirantes repetidos;

- Episódios catatónicos repetidos

- Estados maníacos atípicos.

Início insidioso

Instalação progressiva e lenta do quadro clínico sem que, nas fases inicias, haja ruptura com a realidade externa, nem fragmentação do Eu.

a) Acentuação progressiva de personalidade esquizóide:

Debilitação progressiva de iniciativa e actividade; Quebra do rendimento escolar ou profissional; Grande inércia nos cuidados pessoais; Súbitos interesses filosóficos, místicos ou excentricidades; Grande rebaixamento e indiferença afectiva, com tendência para a passividade e o isolamento; Crise familiar com inversão dos afectos e hostilidade marcada.

b) Crise de adolescência grave e prolongada:

Vivências internas de despersonalização e mal-estar corporal (sinal em espelho); Frieza afectiva; Actos agressivos e impulsivos, aparentemente sem motivo; Auto-regulação paranóide.

c) Evasão progressiva do delírio:

Aparecimento de acontecimentos insólitos e enigmáticos, com atitudes de desconfiança e impenetrabilidade; Racionalizações sistemáticas dos acontecimentos vividos e das relações inter-pessoais; Vivências delirantes primárias – percepção e ocorrências delirantes – com temas de perseguição, hipocon- dríacos, de ser influenciado e grandeza.

Início pseudo-neurótico

Durante alguns anos, a esquizofrenia encontra-se camuflada por sintomas neuróticos (a eclosão psicótica é travada por núcleos neuróticos) – quadro de Neurose Pré-Psicótica, com manifesta- ções histéricas, obsessivas, hipocondríacas ou fóbicas com:

- Sintomas neuróticos, massivos e agudos;

- Grande isolamento relacional;

- Frieza afectiva;

- Intensas preocupações corporais;

- Ideias delirantes de auto-relacionação;

- Tendência a não pedir ajudar.

Depressão

Existe uma grande variedade de classificações sobre os estados depressivos.

Quadro 2

Sintomatologia

Depressão Endógena (de base orgânica)

Depressão neurótica

Personalidade pré-mórbida Tristeza vital, profunda e persistente Insónia terminal Variações de humor (& tarde) Inibição psicomotora Ideias delirantes: ruína e culpa, hipocondrias, nihilistas Curso fásico Frequência de história familiar de problemas afectivos. Possível suicídio Ausência de factores genéticos desencadeantes Resposta (+) aos anti-depressivos

Rasgos neuróticos da personalidade Tristeza, ansiedade Insónia inicial Variações de humor ( " tarde) Não há transtornos marcados na psicomotricidade Ausência de delírios Curso prolongado e não de estação Rara historia familiar de problemas afectivos Suicídio excepcional

Resposta ( # ) aos anti-depressivos

Diagnóstico diferencial

Para uma visualização mais rápida apresenta-se de seguida o quadro 3 no qual se pode observar de forma esquemática como se efectua o diagnóstico diferencial entre perturbação orgânica, alteração psicossomática e histeria de conversão.

Quadro 3 Diagnóstico diferencial entre perturbação orgânica, alteração psicossomática e histeria de conversão

Perturbação orgânica

Alteração psicossomática

Histeria de conversão

   
   
   

Estruturas afectadas

Partes do organismo

Relação com o SN vegetati- vo

Relação com o sistema senso- rial ou motor Psicogenético: o conflito actual situa-se entre duas tendências opostas Sem correlação com os determinantes anatómicos Por bloqueio Inconsciente do SNC desaparece ao cessar a repressão e recalcamento Repressão superficial de uma das tendências opostas

Determinante geral Fisiogenia Psicogenético: o conflito

 

actual

actua

como

factor

desencadeante

 

Coerência dos sintomas

Positiva

Positiva

Patogenia do sintoma

Própria de cada pertur- bação

Por influência do SN Vege- tativo: tende a produzir lesões irreversíveis Repressão profunda do con- flito infantil

Elaboração do conflito

Efeito da motivação sobre o sintoma Eleição do órgão

Psicanálise

Normalmente nenhuma

Nenhuma evidente Importante: papel determinan-

Depende do padrão reactivo psicossomático, estabelecido na infância Padrão reactivo formado nas fases Oral e Anal Sem modificação

te ou selectivo Depende das capacidades do órgão para expressar simboli- camente o conflito Padrão reactivo na fase Edi- piana Modificação

Efeito da sugestão

Sem modificação

Atitude do paciente Consequências

Preocupação

Preocupação

Belle indifférence” Incapacidade funcional selec- tiva Geralmente ineficaz

Incapacidade física

Incapacidade física

Resposta ao tratamento físico

Pode ser positiva

Pode ser positiva

No quadro seguinte procede-se ao diagnóstico diferencial entre crise histérica e crise epiléptica.

Quadro 4 Diagnóstico diferencial entre crise histérica e crise epiléptica

Crise histérica

Crise epiléptica

   
   

Personalidade

Rasgos histéricos: histrionismo Ausência de rasgos histéricos: impulsividade, viscosidade

Conflito

Presente Variável

Ausente Constante

Padrão da crise Início

Presença de outras pessoas Perda da consciência Convulsões Gritos Falar durante a crise Relaxação dos esfíncteres Mordedura da língua Consequências físicas da crise

Progressivo: permite tomar medidas de segurança Sim Parcial

Anárquicas; intencionais Sintomáticas; organizadas; não intencionais Durante a crise Início da crise

Brusca; aura; não permite medidas de segu- rança Não/Sim Total

Possível Excepcional Nunca Pequenas lesões ou ausência destas Positiva

 

Nunca Frequente Frequente Frequentes traumatismos por queda

Resposta à sugestão Finalização

Nula

Choro frequente Estado confusional pós-crítico; cefaleias; mal- estar geral

Duração Recuperação Frequência Finalidade da crise Prolactinemia EEG

Minutos/horas

Minutos

Rápida

Progressiva

Várias ao dia Raramente mais que uma por dia

Mobilização do ambiente Normal Normal

 

Ausente

Elevada

Patológico

Normal Normal   Ausente Elevada Patológico Histeria Medo de padecer de uma Hipocondria “Belle

Histeria Medo de padecer de uma

Hipocondria “Belle indifférence”

 

doença grave Incluir-se em diversas intensi- dades básicas: não dá angústia; não observável; psicastenia; depressão, psicoses crónicas

Personalidade com rasgos histéricos: histrio- nismo

Vive cercado e dominado pelas

Repercussões

que

as

perturbações

têm

no

suas doenças

ambiente

Ambos reclamam atenção e ajuda exterior mas por diferentes razões.

Perturbações da personalidade

Neuroses

Caracterizam-se por ser:

- Uma perturbação, menor, do comportamento;

- O paciente tem consciência do carácter patológico da sua perturbação;

- Perturbações compreensíveis, no quadro da psicologia corrente.

Os factores psicológicos desempenham um papel na génese e desenvolvimento destas perturba- ções.

A neurose é descrita como uma afecção psicogénica, em que os conflitos são a expressão de um conflito psicológico que se encontra enraizado na história familiar do paciente (origem na 1ª infância: conflitos entre o Eu e as pulsões sexuais; centrado no Complexo de Édipo.

Sintomas neuróticos nos adultos:

- Actividade sexual anómala. Frequentemente uma inibição sexual, ou uma impotência ou frigidez. Este constitui, frequentemente, o motivo da consulta.

- Perturbações do sono. Dificuldade em adormecer e em voltar a adormecer, sem causas razoáveis. O medo de se deixar levar pelo sono pode estar relacionado com o facto de o sono erguer a barreira do inconsciente, através do sonho.

- Outras vezes a pessoa dorme demais para se proteger, o que é designado de hypersomnia.

- Astenia permanente fadiga tanto psicológica quanto física, acompanhada, não raras vezes, dum sen- timento de ansiedade e de tédio. Consequência da tensão ligada ao conflito entre o inconsciente e os instintos sexuais ou agressivos.

- Angústia. Está, igualmente, muito presente nas crianças. É um sentimento muito penoso de expecta- tiva, de medo sem objecto, de receio de um perigo não definido, muito vago.

- Perturbações hipocondríacas. Preocupação excessiva com o estado de saúde. Démarche narcísica. Introspecção ansiosa.

- Perturbação dos comportamentos alimentares.

- Agressividade.

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© Celeste Duque 2008-04-05