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Moinho de Água da Ponte – Torrão: Marcas de Uma Identidade

Micaela Casaca Sécio


Investigadora

Resumo
Apresenta-se neste trabalho o Moinho de Água da Ponte, localizado na vila de
Torrão, pretende-se com este estudo demonstrar a importância deste património
molinológico na história da localidade e a sua ligação com a comunidade; como tal,
houve a preocupação em contextualizar a unidade patrimonial que foi alvo de estudo
realizando um enquadramento histórico, atribuindo uma classificação e mostrando o seu
funcionamento. Para além disso, apostando-se nas correntes museológicas da Nova
Museologia, foi elaborada uma sugestão programática para o património em estudo,
seguindo estratégicas do processo museológico.

Abstract
In this work we present the Moinho de Água da Ponte in Torrão, with this study
we want show the importance of this heritage in the local history and its connection
with the community. The main objective throughout this work was the contextualization
of this heritage unit. In order to achieve this, an historical framing of the mill was made,
as well as a brief description of its functions.
This study is sustained by the museological theories of New Museology. The
objective was to make a programmatic suggestion for this heritage unit, following the
strategies of the museological process.

Palavras-Chave: Moinho de Água da Ponte, Valorização, Musealização, Memória,


Identidade.

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I) Introdução
O presente trabalho é o resultado de uma investigação em torno de um moinho
de água, situado na freguesia de Torrão, o Moinho da Ponte. Durante a investigação que
efectuámos procurámos recolher o máximo de testemunhos possíveis, atravessando
gerações, para que nos fosse possível apurar o quanto este moinho significava para os
torranenses.
Todas as pessoas que entrevistámos contribuíram grandemente para a realização
deste trabalho, no entanto o maior contributo foi-nos dado por Desidério José Duarte,
filho de Feliciano José Duarte, o moleiro do Moinho de Água da Ponte. Desidério
também foi moleiro, aprendeu o ofício com o seu pai e nasceu num moinho de água
localizado um pouco acima do Moinho da Ponte, mas na margem contrária. Este
moinho possuía uma casa de habitação e, segundo Desidério, quatro casais de mós,
sendo um moinho de maiores dimensões que o nosso objecto de estudo, o seu
proprietário na altura era António Ramalhete, vendendo-o mais tarde à empresa José
Mendes Palma, actualmente o seu proprietário é de origem alemã, tendo havido uma
transposição para o próprio moinho, este é conhecido como o “Moinho do Alemão”.
Este moinho foi transformado em casa de habitação.
O moleiro Desidério ajudou o pai várias vezes no seu trabalho diário no Moinho
de Água da Ponte; como tal, as suas memórias são fontes inesgotáveis de lembranças.
Quando nos deslocámos ao local com ele, percebemos o quanto aquele moinho era
importante para si, através do seu entusiasmo e alegria aprendemos e apercebemo-nos
da importância cultural deste património.
O Moinho de Água da Ponte é um bem privado; no entanto não houve quaisquer
obstáculos para a realização da presente investigação, antes pelo contrário, desde o
primeiro momento tivemos todo o apoio por parte do representante dos proprietários.
Neste contexto, através de trabalho de campo, observação directa, pesquisa
bibliográfica e recolha oral, orientámos toda a nossa investigação; sabemos porém que
esta está incompleta, pois este é um tipo de estudo que está em aberto, podendo vir a ser
completado com mais dados: quer históricos (a pesquisa em arquivos ainda está muito
incipiente), quer etnográficos (necessidade de mais recolhas orais).
De forma a facilitar o leitor, o presente artigo está dividido em capítulos,
iniciando-se com o enquadramento histórico do moinho, havendo a preocupação de o
contextualizar na localidade; a seguir apresenta-se a sua classificação e funcionamento

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no contexto molinológico, seguindo-se da sua importância museológica e de uma
apresentação de proposta de musealização do bem patrimonial objecto do nosso estudo.
Sendo um estudo em aberto, o nosso objectivo com esta primeira abordagem ao
Moinho de Água da Ponte é despertar consciências, mostrando que através de um
património molinológico podemos transformar o conhecimento num processo aberto
onde a comunidade se reencontra e reconstrói no exercício de uma cidadania consciente
e esclarecida.

II) Enquadramento Histórico


O Moinho de Água da Ponte está inserido na freguesia de Torrão, a segunda
maior do País, situa-se a 35 km de Alcácer do Sal. (foto 1)
Existem muito poucos estudos sobre a história deste local, a falta de
documentação tenta ser suplantada pelas investigações arqueológicas, que revelaram
Torrão como sendo um importante local neste campo de estudos, facto que levou Leite
de Vasconcelos a visitá-lo nos finais de Dezembro de 1895.
Torrão possui um património imóvel vasto, testemunho de várias épocas, que
atestam o seu passado histórico, tendo sido um povoado do período Neolítico, foi uma
zona com alguma influência romana e esteve sobre um forte domínio árabe. Sendo
assim, os vestígios patrimoniais mais importantes assinalados nesta localidade são: a
Anta de São Fausto, Igreja de São Fausto, Igreja de São João dos Azinhais, Igreja e
Convento de São Francisco, Ponte e calçadinha Romana, Monte da Tumba, Antiga
Igreja do Carmo, Igreja Matriz, Palácio dos Viscondes do Torrão, Ermida de Nossa
Senhora do Bom Sucesso e Fonte Santa.
A origem do seu nome provem de torrejam, que significa “torre alta”, contudo o
seu topónimo vem desde contexto islâmico Turruš, que segundo António Rafael
Carvalho “corresponde a uma adaptação fonética da palavra latina Turres, que no
decurso da Antiguidade tardia, é sinónimo de villa romana.
Como já foi anteriormente exposto, este topónimo latino seria atribuído à colina
onde vai ser edificado um castelo em contexto islâmico” (Carvalho, 2009, p.6). Mário
Fagulha, através de uma citação, demonstra-nos que “Esta é a Torre ou Torreão, à qual
lhe chamam castelo mas o nome é Forte ou Fontim de D. Jorge, porque é em redondo e
os castelos são rectangulares”(Fagulha, 2001, 20). Para além disso, este castelo ou forte
não esteve erguido por muito tempo, no século IV este já tinha caído em ruína; a Ordem
tenta recuperá-lo com um investimento de 2000 libras, mas verificando que este teria

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que ser maior, o trabalho ficou incompleto. Nas memórias paroquiais de 1758, o pároco
do Torrão, Francisco Carneiro e Abreu, refere-se ao local como “Paço do Gram Mestre
Dom Jorge a que chamão o castello, hoje arruinado, cercado de muros de taipa; o qual
vizitou Dom Rodrigo de Menezes fidalgo da casa de sal Magestade, comendador das
comendas de Villa de Caçella e da igreja do salvador de Santarém, e treze e João
Fernandes Barresão Prior de nossa Senhora do Castelo de Alcácer, ambos vizitadores,
em Dezembro de mil e quinhentos setenta e sinco. E achou quatroze casas Altas
forradas de cortiça; muitas officinas, cavalariças, e hoje tudo arruinado”(Memórias
Paroquiais, 1758,596). Verificando-se a inexistência do dito forte já no século XVIII.
Tendo estado sobre domínio árabe, Torrão foi libertado pelos cavaleiros da
Ordem de Santiago, no entanto não se sabe muito bem a data desta libertação, aponta-se
que terá sido entre 1217 e 1234, altura em que foi doado a esta ordem militar, tendo-lhe
sido atribuído foral em 1260. Mas este não seria o único, D. Manuel I em 20 de
Novembro de 1512 doou-lhe novo foral. Desde a altura do seu primeiro foral até 1835
foi sede de município, tendo sido anexado ao concelho de Alvito, onde esteve até 1870,
data em que foi integrado no município de Alcácer do Sal, onde pertence até ao dias de
hoje.
A vila de Torrão sempre foi uma vila com uma actividade económica ligada à
agricultura e pastorícia, o que levou o Padre António Carvalho da Costa, na sua
Corografia Portugueza de 1708 a considerar “o seu termo é abundante de pão, vinho,
azeite, caça, gado, com muitas colmeias e bons montados” (Carvalho da Costa,
1708,485), nesta altura o mesmo autor, demonstra que a localidade é próspera, tendo já
uma considerável densidade populacional (600 habitantes), havendo casa de
misericórdia, hospital, um convento de frades franciscanos e outro de freiras.
Para além de toda a sua actividade económica ser centralizada na actividade
agrícola, esta localidade sempre manteve uma ligação estreita com o rio lhe está anexo,
o Rio Xarrama. Nas suas águas se pescava, mulheres lavavam roupa e se construíram
moinhos de água.
Em 1758, o Padre Francisco Carneiro e Abreu faz uma grande descrição do Rio
Xarrama e atesta que “tem otto moinhos perto desta terra, e outros arruinados, e não
tem outro algum engenho”(Memórias Paroquiais, 1758, 603), estando o referido padre a
descrever o rio, e tendo já descrito a parte da ponte que o atravessa, deduzimos que os
moinhos a que se refere são moinhos de água, ou seja de oito assinalados nesta altura
pelo autor, actualmente temos conhecimento de quatro moinhos de água situados nas

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margens deste rio, um dos quais é o Moinho de Água da Ponte, o que levamos a tomar
como certo o facto de este moinho já existir em 1758.

II.1) O Moinho de Água da Ponte


Existem muito poucos dados históricos sobre este moinho, até ao momento, tal
como já foi referido pensamos que a sua existência venha desde o século XVIII, através
do testemunho de Veiga de Oliveira, Fernando Galhano e Benjamim Pereira no seu
livro Tecnologia Tradicional Portuguesa: Sistemas de Moagem de 1983, sabemos que
este moinho apresenta características mais modernizadas do que outros que estão
referenciados na mesma publicação. Sendo este um livro muito importante no estudo de
moinhos em Portugal, o facto destes autores o terem mencionado, principalmente com a
descrição do seu urreiro em ferro, atesta o quanto este moinho é importante no contexto
da molinologia actual. (foto 2)
Devido à falta de documentos sobre este moinho, tentámos construir a sua
história através de relatos orais, sendo assim o primeiro moleiro que se tem
conhecimento foi Inácio Júlio, também seu proprietário, em 28 de Novembro de 1957
vendeu-o a António Mendonça, na sua escritura de venda pode-se atestar “que, pelo
preço de quinze mil escudos, que confessam ter recebido, vendem ao segundo
outorgante um pavimento térreo com duas divisões, servindo de Moinho, e uma terra
de cultivo, prado natural e dependência agrícola, com a área de um hectare dois mil
duzentos e cinquenta centeares, sitos no Moinho da Ponte, freguesia do Torrão, deste
concelho(…)”(Actos e Contratos entre vivos, 1957/1958, 13).
Para além da escritura de sua venda foi também celebrada outra, no mesmo dia,
a de passagem da autorização de moagem “respeitante a moagem de cereais (azenha),
com dois casais de mós de um metro e vinte centímetros e um motor de combustão
interna, correspondendo-lhe o número oito mil quinhentos e setenta e nove na mesma
circunscrição, classe de indústria oito(…)”(Actos e Contratos entre vivos, 1957/1958,
15); a partir desta altura o moleiro deste moinho passa a ser Feliciano José Duarte.
Feliciano José Duarte (conhecido por Feliciano Peúga, o moleiro) foi moleiro a sua
vida toda, através de testemunhos da família sabemos que a sua profissão era um modo
de vida, aprendeu o ofício com um senhor que o criou e passou-o aos filhos, tendo tido
dois que seguiram o seu exemplo e também foram moleiros. Desde 1957 até à década
de 80, Feliciano foi o moleiro deste moinho, a ele se deve toda a transformação que
existiu em 1961, quando António Mendonça encomenda a Joaquim Roupa e Joaquim

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Valente que aumentem o andar de cima do moinho, para instalar neste uma moagem
eléctrica, a pessoa que ficou encarregue de a montar e a gerir foi Feliciano.
Faleceu em 1993, com 92 anos. Segundo testemunhos da família, o moinho da
ponte era a sua paixão, deixou de trabalhar nele nos anos 80 por imposição da família,
dado a sua avançada idade, contudo continuou a ir ao moinho até falecer.
A história do Moinho de Água da Ponte está intimamente relacionada com o seu
moleiro mais carismático, através da memória colectiva da população torranense
verificamos que quando se fala do moinho, Feliciano Peúga está sempre presente.

III) Classificação e Funcionamento


Os moinhos de água podem ser divididos em moinhos de roda horizontal e em
moinhos de roda vertical (azenhas), apresentando ambos tipologias diferentes. Dentro
dos moinhos de roda horizontal, temos os de rodízio e os de rodete submerso; os mais
comuns são os moinhos de rodízio, que se distinguem pela forma como é realizada a
ligação da roda hidráulica ao respectivo veio (pela), assim podem ser de rodízio fixo à
pela ou móvel à pela, os mais comuns são os fixos à pela, pois adequam-se a todos os
locais. Sendo assim, seguindo esta tipologia podemos classificar o Moinho de Água da
Ponte como um moinho de água de roda horizontal, de rodízio com penas descoberto,
fixo à pela.
De uma forma geral, os moinhos de água correspondem a pequenos edifícios
com apenas um casal de mós, sendo um pequeno investimento ao alcance de muitos
proprietários rurais, contudo o presente moinho apresenta dois casais de mós e tem dois
pisos, sendo um dos exemplos de moinhos de maiores dimensões.
Segundo testemunhos orais, o moinho sempre possuiu dois andares, no de baixo
estavam, e ainda se encontram, os engenhos e o de cima servia para armazenar cereal,
farinha e de aposentos para o moleiro. Em 1961, o moinho foi aumentado e construído
no 1º andar um sistema de moagem eléctrico.
O presente moinho apresenta características de um moinho de submersão,
contudo não podemos afirmar que este o seja, no entanto, estamos perante um moinho
que apresenta algumas semelhanças na sua construção e localização com os referidos
moinhos. Os moinhos de submersão são construções muito robustas e resistentes, com
soluções arquitectónicas de reforço de segurança e de minimização do impacto das
águas, no sentido de resistirem a longos períodos de submersão, estes moinhos
localizam-se maioritariamente no leito do Rio Guadiana, contudo existem outros em

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vários rios portugueses, como o caso do Moinho de Água da Abóbada (Rio Almansor),
no concelho de Montemor-o-Novo, estudado por Francisca Mendes. (foto 3)
O que nos leva a colocar a hipótese de este ser um moinho de submersão é pelo
facto de o r/c apresentar um tecto em abóbada e duas aberturas nas paredes que se
destinavam a aliviar a pressão, para além disso o moinho encontra-se numa cota muito
baixa, estando sujeito a inundações nas alturas de maior caudal do rio. Testemunhos
orais, transmitiram-nos que este moinho esteve sujeito a muitas inundações, numa das
quais o moleiro e o seu ajudante ficaram no telhado durante três dias.
Sendo a água um dos agentes de degradação arquitectónica, este moinho foi
construído com paredes de grande espessura em alvenaria e bastante robustas, para que
pudesse resistir a todas as intempéries, o que permitiu que resistisse até à actualidade; as
paredes interiores são “boleadas, ou seja, as esquinas do edifício são arredondadas
para facilitar a circulação da água no seu interior…” (Mendes, 2008, 87). Estando
caiadas com cal no interior e no exterior.
Em relação à estrutura molinológica esta é constituída por múltiplos
subsistemas: o açude, a levada, o edificado e a tecnologia, estes estão todos
interdependentes e um dos aspectos mais importantes num estudo sobre moinhos é
perceber como estes se relacionam.
No caso do Moinho de Água da Ponte este apresenta um açude que, devido ao
estado de abandono em que se encontra, se confunde com o Rio; a água é conduzida
deste até ao moinho através de uma levada que não é muito extensa, pois o moinho não
se localiza muito longe do leito do Rio, a margens desta levada foram aumentadas em
1961, pois em alturas de cheias a água galgava-as. Contudo a água é represada numa
presa, que é uma poça vedada com muros de pedra ligada à levada junto ao moinho, a
passagem da água é feita através de um orifício a que vulgarmente se dá o nome de
“ladrão”. Na presa a água é conduzida até às seteiras, que apresentam um inclinação
bem acentuada, para que a água tenha a força necessária para accionar o aparelho motor.
As seteiras conduzem a água até ao interior dos infernos, que são os pisos semi-
enterrados nos quais funcionam os rodízios, esta entra nos infernos através de um
regulador de saída em madeira, com encaixe onde se move a comporta do pejadouro. Na
entrada da seteira era colocada uma grade para impedir a entrada de objectos grandes no
interior.
No interior dos infernos encontravam-se os rodízios, cada um funcionava
independentemente do outro, caracterizavam-se por serem rodas de madeira horizontais

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com cerca de 1 metro de diâmetro, com penas de madeira dispostas radialmente, o
sistema de transmissão também era de madeira, sendo de ataque directo, ou seja o
rodízio estava directamente ligado à mó de cima, não havendo nenhum sistema
intermédio, o veio atravessava o orifício circular da bucha de madeira, que terminava na
segurelha sobre a qual assenta a mó de cima.
O rodízio encontrava-se fixo ao urreiro, este é a peça onde se fixa a rela (peça
que estava no rodízio), apoiado numa das extremidades a uma das paredes do inferno e
suspenso pela outra através do aliviadouro, que é uma peça que vai terminar no sobrado
junto às mós, ligada ao urreiro que ergue o conjunto – rodízio, pela e veio – e levanta
ou baixa a mó superior, testemunhos orais afirmam que o aliviadouro era de pedal. Em
relação ao presente moinho “ como o conjunto pela-lobete-veio se tem de manter
rigorosamente à superfície desta, a ponta fixa do urreiro precisa de ser amparada
lateralmente por pedras e cunhas que impeçam desvios; em alguns moinhos mais
modernos, como por exemplo no Torrão (Alcácer do Sal), essas pedras foram
substituídas por pequenos blocos de cimento” (Veiga de Oliveira, et al, 1983, 166). Para
além disso, o urreiro do Moinho da Ponte é em ferro, o que constitui uma excepção,
porque normalmente este é em madeira, sendo por vezes um tronco tosco. Actualmente,
apenas resta um urreiro num dos infernos, os rodízios foram retirados, no entanto a
descrição destes foi-nos facultada pelo moleiro que nos ajudou nesta investigação.
O trabalho dos rodízios é iniciado ou interrompido através da abertura do
pejadouro da comporta, peça que estava encaixada no regulador de saída, que devido a
ser em ferro é vulgarmente conhecido por “ferra”. Em relação ao aparelho de moagem,
este é constituído por um casal de mós, tem uma mó em baixo que se dá o nome de
pouso e por uma mó em cima, a andadeira. Como já vimos anteriormente, a mó de cima
está ligada ao rodízio, sendo assim quando o rodízio começa a funcionar a mó andadeira
movimenta-se. (foto 4)
Como já foi referenciado, o moinho possui dois casais de mós, neste momento
apenas um apresenta as duas mós, restando ao outro apenas o pouso, a mó fixa estava
assente numa parede de pedra, em forma de meia-lua. Originalmente cada casal de mós
tinha um tegão (peça de madeira com a forma de uma pirâmide invertida) que tinha uma
ripa de madeira que o atravessava, onde uma das pontas se encontrava preso ao corvo
(peça em madeira ligada ao casal de mós) e a outra se encontrava suspensa a um arame
que vinha do tecto. Ligada ao tegão, por arames, encontrava-se a quelha e junto desta o
cadêlo, dentro do tegão estava um fio com um bocado de cortiça no fim, a outra ponta

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tinha um chocalho junto do cadêlo, este servia para avisar o moleiro que era altura de
colocar mais cereal, ou seja quando o chocalho soava o moleiro sabia que o tegão estava
mais vazio e a precisar de mais cereal. O moinho moía sempre de noite e o moleiro que
dormia no andar de cima, utilizava este sistema para despertar, as mós nunca poderiam
trabalhar sem cereal, pois podiam partir.
Deste aparelho apenas restam um tegão e uma quelha, contudo não se encontram
no local original, a descrição de como este sistema se encontrava foi-nos dada pelo Sr.
Desidério. Para além destas peças em madeira, encontrámos também um tegão em ferro
com uma abertura em plástico para se ver a quantidade de cereal, pensa-se que este seja
um tegão que foi utilizado num dos casais de mós que foi modernizado a partir de 1961.
Segundo a mesma fonte oral, o moinho possuía um cambeiro de madeira, esta
peça rodeava o casal de mós e tinha uma abertura por onde passava a farinha, a abertura
tinha um arame onde estava metido um pano para proteger a farinha que caía para o
chão. A partir de 1961, retirou-se o cabeiro de madeira de um dos casais de mós que foi
substituído por uma saia em ferro, mantendo-se a abertura, mas agora com uns encaixes
para colocar um saco, deixando a farinha de cair para o chão. Neste momento, ainda
encontramos a saia no casal de mós e também uma das partes de encaixe do judeu (peça
que servia para ajudar o moleiro a picar a mó no mecanismo mais modernizado).
O chão do piso térreo é de pedra, verificamos que o revestimento foi feito com
restos de mós, segundo o moleiro Desidério, este era o melhor material para se colocar
no chão, pois, para além de haver em abundância, não deitava pó e assim a farinha que
caía para o chão não se degradava. A ligação ao andar de cima faz-se através de uma
escada de secção redonda com degraus também de pedra.
No segundo andar encontra-se actualmente a moagem eléctrica, antes desta ter
sido construída era neste andar onde se armazenava os cereais e a farinha, ou seja o
trabalho do moleiro era processado neste andar, dado que no andar de baixo havia o
risco de inundação. Era neste local que se preparava o cereal para ser moído, os casais
de mós podiam moer cereais diferentes, uma milho e outra trigo.
Moer cereal dava muito trabalho, à partida pensa-se que deveria ser só encher os
tegões e colocar o moinho a funcionar, mas esta é a parte final do trabalho de um
moleiro. Antes de colocar o cereal nos tegões este tinha que ser molhado, dando o
exemplo do trigo devia-se ter em conta os litros de água e quilos de trigo conforme a
qualidade do trigo. O trigo rijo podia levar 3 litros de água por 100 quilos de trigo, o
trigo mole não levava mais do que 1,5 litros, pois se levasse água a mais a farinha

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pegava. Quando o cereal chegava ao moinho, o moleiro primeiro molhava-o com um
regador e depois dava-lhe umas voltas no chão, depois encostava-o a um canto do
moinho durante 4 horas para que pudesse secar, nunca se podia moer antes desse tempo,
pois estava ainda muito mole; passado esse tempo o moleiro bandejava-o, ou seja
utilizava uma bandeja manual e tirava-lhe as pedras, só depois é que era moído.
Todo este processo era realizado no 1ºandar, pois os tegões eram cheios através
de orifícios que se situavam no chão mesmo por cima destes, actualmente ainda
podemos verificar a presença dos tubos no tecto do andar de baixo localizados no lugar
onde, supostamente, estariam colocados os tegões.
Segundo o Sr. Desidério “O moinho foi apenas elevado uns dois metros, metro e
meio e foi construída a parte mais pequena para pôr o gerador, o tamanho manteve-se.
Antes de se montar a moagem, quando chovia muito passava-se a farinha lá para cima,
era onde se cozinhava, onde se dormia, os moleiros têm que dormir no moinho. De dia
picava-se as mós, molhava-se o trigo, joeirava-se e bandejava-se e à noite moía-se. Eu
estava deitado e quando o chocalho batia acordava e tinha que me levantar logo, se não
deixava-me dormir, o barulho repetitivo bastava para me deixar dormir, só acordava
quando o trigo acabava nas mós, porque faziam um grande ronco. A minha família
estava na vila.” (excerto de entrevista ao Sr. Desidério em Abril de 2009).
Com o trabalhar constante de um moinho, a mó de cima desgasta-se, para que se
possa moer o cereal as mós têm que ser irregulares, o desgaste da mó de cima pode
alisá-la o que a impede de efectuar um trabalho eficaz, podendo até partir, sendo assim
uma parte importante do trabalho do moleiro era a picagem das mós, ou seja avivar os
sulcos da mó, através da mesma fonte tivemos conhecimento desse processo.
Para picar a mó era necessário utilizar uma alavanca em ferro e uma cunha em
madeira, punha-se a ponta da alavanca entre as duas mós e levantava-se a mó, com o
apoio do quadril, para pôr a cunha e depois metia-se um rolo em madeira com meio
metro de comprido atrás da mó e outro à frente, estes ficavam colocados no meio das
duas mós. Após este processo a mó era puxada e rolava, quando estava um bocado fora
da mó de baixo colocava-se um pau grosso com uma “encarna” que se chamava o
“maluco”, com um metro e meio, quando a mó saía da outra entrava na concavidade do
“maluco”, apoiava-se numa grade de madeira que estava colocada em baixo desta, com
a ajuda do “maluco” metido no olho colocava-se a mó em cima de um “cavalo de
madeira”, à frente, a meio metro, havia uma “espera” também em madeira com um
apoio quadrado grosso com um pau metido lá dentro, a mó ficava assente em cima do

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cavalo e da espera, virada para cima, podendo ser picada, com a ajuda de um picão
(utensílio tipo martelo em bico) para que se pudesse repor a rugosidade necessária à
trituração do cereal. Para voltar a colocar no lugar fazia-se o processo de maneira
inversa. Quando as mós eram picadas o moinho moía mais depressa.
Para além de todo o processo manual, não podemos esquecer que neste moinho
foi acrescentado um sistema de moagem, o que lhe conferiu uma estrutura diferente,
pois foi aumentado e acrescentaram-lhe uma casa para abrigar o gerador. Actualmente,
ainda podemos encontrar grande parte da maquinaria que serviu para a sua montagem.
Sendo assim, deste sistema faziam parte um gerador, uma aparelho de limpeza para
limpar o trigo e o molhar e colectores, estes eram uns tubos de pano branco, onde a
farinha que caía das mós passava e era logo ensacada. Na moagem tradicional do
moinho, a farinha caía para o chão e deixava-se arrefecer só depois podia ser ensacada,
mais tarde mesmo caindo para um saco o processo era o mesmo, pois se a farinha fosse
ensacada quente estragava-se; na moagem os colectores arrefeciam a farinha e esta
podia ser logo colocada em sacas.
Segundo testemunhos orais, o moinho continuou sempre a laborar, mesmo
quando foi lá colocado o sistema de moagem eléctrico, nos tempos áureos do Moinho
de Água da Ponte e, principalmente, no inverno os dois sistemas trabalharam em
simultâneo e produziram muitas toneladas de farinha.

IV) Importância Museológica


Antes de se entrar na vila de Torrão, vindos pela estrada de Alcácer do Sal
avistamos o Rio Xarrama, passamos por cima deste através de uma ponte e ao longo das
suas margens verdejantes somos confrontados com alguns processos construtivos de
humanização da paisagem, um desses testemunhos é o Moinho de Água da Ponte.
Com já foi referido, este moinho faz parte de um conjunto de quatro moinhos de
água que se localizam ao longo do rio, pelo menos os que chegaram até aos nossos dias,
mas é de todos aquele que apresenta a localização mais privilegiada, ou seja, situa-se
muito perto da vila, sendo assim está muito enraizado na memória da população.
Tendo-se mantido em funcionamento até à década 80 do século XX, este moinho
faz parte da memória colectiva de grande maioria da população, pois deixou de
funcionar a apenas três décadas. Vários testemunhos nos confessaram que compravam
farinha naquele moinho, onde o seu moleiro (Feliciano Peúga) era um dos factores mais
importantes de ligação deste à população.

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Na sua presa pescavam-se pardelhas, peixe de água doce que se encontra em
abundância no rio Xarrama; quando havia as grandes cheias no rio, o moleiro fechava o
ladrão e colocava uma rede onde o peixe ficava retido, o que fazia as delícias de
crianças e adultos que se reuniam para as comer, muitas vezes no próprio moinho. Mas
também a sua levada era muito importante, mulheres confessaram-nos que lavavam
roupa nas suas margens e a colocavam a secar perto do moinho.
O moinho foi um importante factor, quer económico quer de lazer, para os
torranenses, superou a sua função inicial: a de moagem, e tornou-se um elo de ligação
entre a população e o rio, demonstrando o respeito que as pessoas nutriam por este.
Sendo a memória e o património a base de estudo da Museologia, este moinho
traduz-se por ser um bem patrimonial com uma elevada importância museológica, pois
é um factor importante na herança cultural de Torrão. Através da recuperação e
musealização deste moinho proporcionar-se-ia à população uma devolução de um
pouco da sua história recente. Neste contexto, a Museologia, enquanto uma disciplina
aplicada, reúne entre os seus campos de reflexão e acção os procedimentos de
salvaguarda e comunicação e procura propor articulações entre as sociedades e sua
herança patrimonial.
Os museus podem ser compreendidos como práticas sociais colocadas ao serviço
da sociedade e do seu desenvolvimento, sendo as suas principais características: o
trabalho permanente com o património cultural integral, recurso educacional, acervos e
exposições, abertos ao público para a construção social da memória com percepção
crítica e comunicação.
Sendo assim, a constituição de uma unidade museológica no Moinho de Água da
Ponte seria de maior importância, pois esta teria a função de interligar o passado e o
presente, projectando o futuro, poderia potenciar ligações estreitas com a comunidade e
ser a unidade museológica promotora de actividades de relevo no que diz respeito à
educação patrimonial e que desenvolvam a sua originalidade no campo museológico
português.
Atribui-se a importância museológica a este moinho através da sua recuperação
e a sua muselização in situ, ou seja manter o bem patrimonial no local de origem.
Apostando neste tipo de musealização, estar-se-ia a aproximar o património às pessoas,
proporcionando a todos sensibilidades diferenciadas perante o bem em causa: os que o
conheceram o moinho poderiam revivê-lo, os que não o conheceram a funcionar
poderiam fazê-lo.

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Sendo assim, contribuir-se-ia para a concepção do Museu Integral, onde a
instituição museológica é entendida como um instrumento de mudança social e para o
desenvolvimento sustentável, destinada a proporcionar à comunidade local uma visão
de conjunto do seu meio material e cultural.

V) Proposta para uma Intervenção Museológica


Uma intervenção museológica no Moinho de Água da Ponte pressupõe sempre a
sua recuperação, pois o moinho encontra-se abandonado, contudo parece-nos que, a
recuperação do edifício não seria muito complicada, dado que não apresenta qualquer
aspecto de ruína. Para além do edifício, os seus dois sistemas de moagem (tradicional e
eléctrico) também deveriam de ser recuperados, tal como todo o sistema molinológico
exterior.
Um factor muito importante nesta recuperação seria envolver a população,
principalmente as pessoas que estiveram mais ligadas ao moinho, quer quem o conhecia
originalmente, quer quem ajudou a montar o sistema de moagem eléctrico.
A recuperação deste integrar-se-ia numa perspectiva de salvaguarda, contudo
deve-se ter em conta que esta salvaguarda do património só interessa se existir uma
aposta num critério de reutilização. Pois, qualquer preservação deve ser um acto do
presente e não do passado, para, assim, conseguir ser rentabilizada a favor da
comunidade a que pertence. A perspectiva que se defende nesta proposta de intervenção
museológica não é a devolução da sua função inicial, ou seja transformar o cereal em
farinha com fins económicos, mas sim atribuir-lhe outras funções, nomeadamente de
estudo, aprendizagem e troca de experiências.
Para se constituir um museu ou uma unidade museológica existem vários
critérios que se têm de seguir, segundo António Nabais as “(…)Principais etapas para
a realização de um projecto museográfico: do conceito à instituição museológica.
Existe um caminho a percorrer que se pode sintetizar da seguinte forma:
– decisão das autoridades públicas ou/e privadas em criar uma instituição
museológica: o conceito e objectivos;
- selecção do local ou do edifício:
- designação do museólogo e da equipa multidisciplinar de especialistas para
definir a programação;
- definição da natureza das colecções e elaboração dos vários tipos de
programas: programa museológico, programa arquitectónico (preliminar), programa

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expositivo (preliminar); programa dos equipamentos; programa da organização
- gestão (operação), programa da difusão e programa educativo;
– elaboração do programa de consulta;
- elaboração dos termos de referência (…)” (Nabais,2007,para. 9)
O processo de elaboração de uma intervenção museológica deverá iniciar com
uma investigação aprofundada sobre o moinho e os restantes moinhos de água da zona,
para que se possa efectuar uma proposta eficaz, sendo assim não podemos esquecer os
testemunhos importantes da população do Torrão referente ao alvo da nossa
investigação.
Um elo de ligação com este património é o Museu Etnográfico de Torrão,
espaço museológico inserido na vila, este teria como missão devolver à população toda
a investigação efectuada em torno do moinho e até mesmo a evolução da sua
recuperação, assim a elaboração de uma exposição que estivesse em constante
actualização, seria a melhor maneira de “colar” a população ao bem patrimonial.
Tendo como base a ideia da investigação em torno dos objectos, o acervo desta
unidade museológica pode ser definido através das seguintes categorias patrimoniais:
1) Espaço (lugar de memórias)
a. Edifício do moinho;
b. Envolvente ambiental;
2) Equipamento
a. In situ;
b. Vestígios arqueológicos encontrados na recuperação;
3) Documentação
a. Localizada no Arquivo Municipal;
b. Localizada com particulares;
c. Localizada noutros fundos documentais;
4) Depoimentos Orais

Estes objectos constituem uma fonte de investigação de uma unidade


museológica que se preocupa, não apenas com os objectos tridimensionais, mas também
com documentos e testemunhos orais. Neste sentido temos uma preocupação de
preservação do moinho suportada na informação, através da comunicação dos seus
públicos. Contribuindo, assim, para a preservação de bens patrimoniais muito
importantes para a perpetuação da memória.

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Integrado no programa museológico existe o projecto expositivo que, deverá
conter exposições a realizar sobre o bem patrimonial em causa, este projecto deve ser
actualizado e estar em constante apreciação.
A exposição é a forma mais comum de comunicação de um museu e/ou unidade
museológica com o seu público. As exposições que se poderiam potenciar no presente
moinho seriam decorrentes da investigação e estudo em torno deste indicador de
memória, sendo assim poderiam ser encontrados vários temas para realizar as referidas
exposições. Estas deverão não apenas se concentrar no passado, mas as suas mensagens
deverão orientar-se para o presente, conseguindo captar uma maior atenção por parte
dos seus visitantes.
Para elaborar qualquer exposição é necessário ter um projecto expositivo, por
isso temos que conhecer bem os bens materiais e os conteúdos que queremos retratar
nessa exposição. Segundo António Nabais e José Carvalho estas são as fases para a
elaboração do referido projecto: “escolha do tema; / orçamento (estimativa); /
constituição da equipa de trabalho; / selecção dos objectos; / investigação; / restauro,
quando objectos não se encontram em bom estado; / análise e síntese dos resultados da
investigação; / elaboração do programa científico; / definição do percurso; / o
projecto, que deve corresponder, ponto por ponto, ao conteúdo científico do programa;
/ construção do espaço adequado à organização ideológica da mensagem a
transmitir; / preparação e edição do catálogo; / montagem da exposição; /
divulgação; / inauguração; / avaliação.”(Nabais e Carvalho,1993,141). Por tudo isto
verificamos que a concepção de uma exposição é um acto de criação.
Um factor que potencia a captação de público é a elaboração de exposições
itinerantes que circulem por diversas instituições, não apenas as locais, mas também as
concelhias, aproximando o bem patrimonial a público-alvo diferenciados, levando o seu
conhecimento a locais concelhios distantes e proporcionando às populações mais
isoladas momentos de aprendizagem e, em alguns, casos de recordação.
Para que a fidelização de audiências se concretize, estas exposições têm que ser
acessíveis a um maior número de pessoas possível, assim os textos de apoio deverão ser
inclusivos e ter uma leitura fácil, não podendo ser muito longos e difíceis, sob pena de
não serem lidos por todas as pessoas. Estes devem possuir o mínimo de informação
possível, “(...) funcionando como notas explicativas, claras e suficientemente concisas,
de modo a serem compreensíveis para todos os públicos.”(Nabais e
Carvalho,1993,142).

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Com a realização de exposições tendo em conta as preocupações demonstradas,
a unidade museológica Moinho de Água da Ponte conseguirá comunicar com mais
pessoas, em diversos espaços e tempos. Sendo estas, uma interpretação da realidade, os
objectos servem para transmitir uma mensagem que transformará esta unidade
museológica num local de reflexão.
Os procedimentos a adoptar, em termos de investigação e estudo, propiciam a
comunicação sobre a memória, servindo-se de uma estratégia e de uma pedagogia
própria. A utilização da memória colectiva é um referencial básico para o entendimento
e a transformação da realidade, permitindo o reconhecimento das identidades e das
culturas de todas as sociedades, com o incentivo à apropriação do património, para que
se possa viver a identidade pluralmente.
O Moinho de Água da Ponte pode constituir-se como uma instituição museal
actuante na sua comunidade, assim deverá estudar os seus públicos, ou como Susana
Gomes da Silva prefere chamar “audiência” “(...) as audiências (termo preferencial ao
de públicos, já que pressupõe a ideia de que uma audiência é composta
simultaneamente pelos visitantes reais e potenciais, ou seja, aqueles que ainda não
sendo visitantes o poderão passar a ser com programas adequados)”. (Silva,2001,113)
A informação que esta unidade museológica deve vincular, através da suas
iniciativas de comunicação, deverá ter em conta a fidelização de audiências, tendo em
vista a captação de um maior número de pessoas. Assim, para além de possuir
informação genérica para o público de uma visita esporádica, esta unidade deverá
providenciar informação mais detalhada e aprofundada para públicos mais exigentes e
informação adequada a públicos juvenis e infantis, se possível adequada aos currículos
escolares.
O público juvenil e infantil é um utilizador privilegiado de museus e/ou unidades
museológicas, contudo deve-se apostar num programa educativo que não seja apenas
dirigido para este, dado que “(…) o alargamento da missão educativa do museu
implicou também a ampliação e diversificação dos públicos-alvo aos quais dirigir os
seus serviços e programas (procurando, desta forma, constituir uma audiência capaz
de integrar públicos que até então não eram visitantes de museu). Ao lado das
actividades para o público escolar (...) começam gradualmente a surgir programas
educativos dirigidos às famílias, à terceira idade, à comunidade ou comunidades
envolventes, a grupos culturalmente minoritários, a indivíduos com necessidades
educativas especiais e, nalguns casos, com uso das novas tecnologias, ao visitante

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virtual (...) O nascimento de um museu inclusivo, acessível a uma cada vez mais
alargada audiência, tem implicado, assim uma dinamização da instituição que não só
justifica a sua existência, como também reforça a importância do seu papel cultural”
(Silva, 2001,113).
Por tudo isto, o programa educativo do Moinho de Água da Ponte deverá ser
abrangente, tendo em conta vários tipos de audiência, tornando-se numa unidade
museológica inclusiva, com um papel cultural relevante na sociedade torranense,
potenciando o envolvimento de toda a comunidade, pois será potenciador de integração
de públicos que, normalmente, não se revêem num museu.
Assim, este programa educativo deverá ser promotor de uma experiência global,
onde o seu ambiente provoque, no visitante, uma experiência multi-sensorial (visual,
táctil, auditiva) e vivencial. Vários factores se conjugam para que essa meta seja
atingida, para além do ambiente, também o acolhimento por parte dos profissionais, a
disponibilização de diferentes actividades adequadas ao teor da visita, a informação
fornecida, a existência de espaços de lazer nas proximidades e uma pequena loja,
também são factores a ter em conta, pois, contrariando algumas ideias pré-concebidas,
mas potenciando o novo museu do século XXI, estes factores também se enquadram
dentro das expectativas do actual visitante de museus e/ou unidades museais.
A constituição deste programa educativo deverá ser um projecto de parceria com
várias instituições concelhias. Este trabalho em parceria deverá contribuir para a
construção de um plano educativo de longa duração, onde todos se revejam, para que se
possa concretizar objectivos e potenciar estratégias de actuação eficazes com vista a
uma maior e melhor interacção com todos os potenciais visitantes. Este processo
educativo tornar-se-ia dinâmico, negociado e democrático, promovendo a verdadeira
divulgação cultural em redor deste património.
Sendo assim, as acções educativas decorrentes deste programa colocariam o bem
patrimonial no centro da acção, onde a comunidade reconheceria a sua própria
identidade. Proporcionando ao Moinho de Água da Ponte um caminho próprio para
comunicar com as suas audiências.
O Moinho de Água da Ponte assumirá a sua estratégia comunicativa com os seus
visitantes de uma forma educativa, privilegiando a sua função social, interagindo com a
sua comunidade numa perspectiva de educação para a cidadania.
Através desta proposta de intervenção museológica, pretendemos demonstrar
que a investigação de um bem patrimonial fundamenta a sua programação e define e

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actualiza os eixos fundamentais da cadeia operatória da museologia: Salvaguarda e
Comunicação.

VI) Notas Conclusivas


Ao longo do presente trabalho houve a intenção de demonstrar que o Moinho de
Água da Ponte é um testemunho da história da localidade onde está inserido, sendo um
elo de ligação da população com o Rio Xarrama.
Através da recuperação e musealização do presente bem patrimonial assente em
processos de trabalho que valorizem o conhecimento e a cooperação, com um programa
museológico suportado na construção do diálogo com as populações, podemos saber o
que a comunidade pretende ver retratado nesta unidade museal, onde há lugar a fóruns
de negociação cultural. Assim sendo, o museu revela a sua capacidade de entidade
prestadora de serviços.
Este moinho revela a importância da história local na construção de mais e
melhores cidadãos, assim a valorização de patrimónios locais, como o moinho em
causa, e a sua musealização é uma forma de transmitir uma educação local própria de
cada comunidade, fazendo desta um acto de cidadania, integrada num processo
dinâmico, potenciando o desenvolvimento local.

Agradecimentos
Para realizar o presente estudo contámos com a colaboração, o apoio e a dedicação
de várias pessoas, por isso não poderíamos deixar de lhes prestar o devido
agradecimento.
Assim, queremos agradecer em primeiro à família pais Marina e José, tios Ana e
Custódio, avós Clara e Francisco, primo Mauro e marido Hugo pelo apoio e
informações preciosas que nos deram. Agradecemos também a António Caipira pelo
modo como acolheu a nossa investigação e como a facilitou, a Mário Fagulha pela
cedência do seu livro e a todas as pessoas que nos deram o seu depoimento,
especialmente Henrique Inácio, Joaquim Valente e, um agradecimento muito especial a
Desidério José Duarte, sem o seu precioso apoio este estudo não seria uma realidade.

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Bibliografia

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segundo, Lisboa;

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VEIGA DE OLIVEIRA, Ernesto e outros (1983). Sistemas de Moagem – tecnologia


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