Vous êtes sur la page 1sur 428

C atherine Zimermann levava uma vida normal, sem luxos ou grandes a mbições. Após perder os pais e um trágico acidente, não conseguiu i mpedir que seu irmão Chase, desiludido e revoltado com a vida, p artisse de sua cidade natal, deixando-a para trás. Desde então, Cath v ive um dia de cada vez, cursando sem pressa a faculdade de p sicologia e trabalhando em uma lanchonete de dia, para pagar seus e studos à noite. Até que um telefonema inesperado tira sua rotina dos trilhos.

C hase está com a voz embargada e desesperada; está encarcerado em u m presídio na Califórnia, acusado de estupro e homicídio. Cath fica p erdida. Apesar de há muito desconhecer o antigo irmão dócil e c arinhoso, nunca imaginara que ele fosse capaz de tremenda b rutalidade. Então ela segue para Califórnia, decidida a esclarecer tal h istória, com ânsia de provar que o que Chase alega é a mais pura v erdade: ele é inocente. Mas, para isso, Cath precisa encontrar o verdadeiro culpado.

O que fazer quando a verdade que procuramos está bem diante de n ossos olhos? O que fazer quando o coração nos trai e nos apaixonamos por quem deveríamos odiar?

A vida não possui um roteiro. O destino sempre pode nos pregar uma peça.

Capítulo 1

Cath

O sol entrou pela janela e bateu diretamente nos meus olhos, fazendo minha cabeça explodir. Eu não compareci à aula na noite anterior. Aliás, não compareci à aula a semana inteira.

Abri um pouco as pálpebras e me arrependi no mesmo instante, gemendo baixo. Resignada, levantei-me, mexendo nos cabelos e tapando a vista com a mão. Entrei no banheiro e fechei a porta. Encarei minha imagem devastada no espelho: a maquiagem havia escorrido e eu parecia um urso panda. Meus cabelos loiros estavam desgrenhados. Como eu havia chegado em casa? Nossa, há muito tempo não bebia dessa forma!

Na noite anterior houve a despedida de solteira de Patrícia, minha grande amiga desde que me conheço por gente. O casamento está marcado para o próximo mês e eu serei sua dama de honra. Todos os preparativos já estão concluídos, só nos resta esperar e comemorar.

E nós izemos isso. Bem demais, até! Arrecadamos uma boa quantia vendendo seus últimos beijos como solteira. Paty é uma mulher linda e todos quiseram tirar proveito da situação. Todos menos Victor, claro.

Victor era o melhor amigo de meu irmão, Chase. Victor, Patrícia, Chase e eu crescemos juntos. Uma infância perfeita, digna daqueles ilmes melosos que costumam passar numa tarde enfadonha de domingo. Nós quatro éramos inseparáveis. Logo, como parecia inevitável, Chase e Patrícia acabaram se apaixonando, assim como Victor e eu. Brincávamos com nosso futuro, imaginando como seríamos inseparáveis para sempre. Como iríamos juntos para a faculdade e, depois de formados, seríamos vizinhos e nossos filhos seriam amigos desde pequenos, assim como nós.

Mas a vida é uma caixinha de surpresas, e nem sempre elas são agradáveis. Pelo contrário.

Meus pais morreram em um trágico acidente de carro, quando Chase e eu tínhamos dezenove e dezesseis anos, respectivamente. Foi uma barra difícil, e posso dizer que nunca superamos completamente.

As primeiras semanas após o acidente passaram como se eu estivesse anestesiada. Ficamos com Tim Button – pai de Victor e melhor amigo de Charles, meu pai. Não lembro bem como ia para a escola; como tomava

banho, me arrumava, conversava com as pessoas ao meu redor – se é que conversava. Por esse motivo, não sei dizer em que ponto Chase começou a se tornar uma pessoa completamente diferente daquela que conheci em

minha

infância...

Que brincava comigo de boneca quando me sentia

sozinha; que me defendia de qualquer pessoa que implicasse comigo; que dizia que eu era a irmã caçula mais linda que ele poderia desejar.

Eu ouvia as discussões de Chase com Victor e podia sentir a tensão no ar, estática. Eram melhores amigos desde pequenos e, mais do que nunca, eram como irmãos, podiam conversar sobre tudo. A inal, nós morávamos ali, na casa de Vic. Ele dizia que Chase estava se perdendo e que chegaria a um ponto em que não conseguiria mais encontrar o caminho de volta.

Cinco anos atrás

* * *

– E quem disse que eu quero voltar, Victor? – Chase gritava, as veias saltando em seu pescoço. – Eu não só não quero como não tenho para onde voltar!

– Você não sabe o que está dizendo. – Victor falou baixo, mas sério. Ele estava exausto daquelas discussões, de toda aquela situação. Estava explícito nele, eu o conhecia muito bem. – Você tem que encarar o seu

problema de frente, Chase. Fugir, se levará a lugar nenhum, cara!

esconder...

Não vai adiantar, não o

– O que você sabe disso, Victor? – Chase sorria sarcasticamente, os olhos castanhos faiscando. – Virou doutor em problemas emocionais?

Vic suspirou fundo e cruzou os braços musculosos. Claramente lutava para manter a calma.

– Eu também perdi minha mãe. Sei que a sensação é terrível, um buraco negro dentro do peito. Mas é como se diz: a vida continua. Problemas acontecem, coisas se quebram dentro da gente e o mundo não para até que você conserte. A vida segue. Ou você segue com ela ou ica para trás, sabe?

Eu estava sentada no sofá, olhando para a TV ligada sem ter a mínima ideia do que estava passando na tela. Minha atenção estava totalmente voltada para a conversa dos dois.

– Fui pegar um livro dentro da sua mochila – Victor continuou, com expressão de quem se desculpava.

– Você o quê? – Gritou Chase, suas bochechas icando vermelhas no mesmo instante. – Agora deu para vasculhar minhas coisas, Victor?

– Desde quando você está usando aquilo? Você sempre foi um cara limpo, careta demais, até!

O quê? Do que Victor estava falando? O que ele encontrou na mochila de Chase? Drogas? - eu pensava freneticamente.

– Patrícia sabe disso? – Victor perguntou, aproximando-se de Chase. – Duvido muito. Ela nunca aceitaria. – Em primeiro lugar, Patrícia não sabe. Aliás, você também não saberia,

se eu tivesse o mínimo de privacidade nessa droga de casa! Em segundo lugar, isso não interessa a ninguém, muito menos a ela. Nós terminamos!

– Chase, mais respeito! – Coloquei-me de pé num impulso. Ele não podia falar daquela maneira da casa de Victor, que tão gentilmente nos abrigou. – Temos que agradecer todos os dias por eles terem nos ajudado!

– Agradecer? Ajudado? – Meu irmão gritou e aproximou-se, olhando-me de cima. Nossa diferença de altura sempre foi gritante. – Eu não preciso de esmola! Entendeu?

– Ei, Chase! – Victor colocou seus quase dois metros de altura no meio de nós. – Calma aí, cara! Você está indo longe demais!

Chase olhou com raiva para Victor – e com mais raiva ainda para mim. Eu não o reconhecia mais. Não existia nenhum vestígio do antigo Chase ali. Mas ele deve estar escondido em algum lugar, não é mesmo? Pensei.

– Acabou! Chega. Estou indo embora! – Chase virou-se e foi em direção ao quarto que dividíamos, e eu fui atrás dele.

– Você sempre foge das conversas, Chase! – Ele não olhou para mim; estava tirando algumas roupas do armário e jogando numa mochila. – Aonde você vai?

– Embora, Catherine - ciciou, ainda de costas. – Não dá mais para icar aqui.

– Embora para onde, Chase? Eu vou com você e...

– Não! – Meu irmão me interrompeu, secamente. – Quero ir sozinho.

Preciso de um tempo para pensar, colocar as ideias em

ordem...

Está tudo

muito confuso agora, mal posso cuidar de mim, quanto mais de você.

Não consegui responder. Senti minha garganta fechar e meus olhos

encheram de lágrimas tão rapidamente que, em segundos, minha face já estava toda molhada. Chase virou-se para mim e por um momento reconheci meu irmão na expressão triste e arrependida de quem havia me magoado sem querer.

– Um dia eu volto, Cath – disse ele, me abraçando. – E, quando voltar, nós vamos morar juntos. Isso se Victor e você ainda não tiverem se casado. – Então ele voltou a icar frio como gelo. – Bom, é isso. Cuide-se. Ligo assim que souber onde vou parar, ok?

Afastando-se de mim, meu irmão pegou a mochila e saiu.

* * *

Esse mês faz cinco anos que eu não vejo Chase. Nós nos falamos esporadicamente. A última vez em que eu tivera notícias, ele estava em São Francisco na Califórnia, trabalhando como bartander.

Voltei para o quarto e me joguei na cama, arrependendo-me no mesmo momento. Minha cabeça rodava de uma forma tão horripilante que eu podia jurar que ia colocar todos os órgãos para fora. Esse era um dos males de viver sozinha.

Eu alugava um quarto na casa da Sra. Ford – uma aposentada solteirona, sem ilhos, que tinha cinco gatos. O quarto era muito bom (na medida do possível) e tinha um banheiro privativo, o que era essencial. Havia deixado de morar com Victor algum tempo depois que Chase fora embora. Se eu não estava sendo a melhor companhia do mundo depois da morte de meus pais, após a partida do meu irmão tornei-me uma pessoa simplesmente insuportável. No início, chorava por tudo, depois, fechei-me ainda mais, fiquei distante, nada me interessava.

Com isso, o inevitável aconteceu: Victor e eu nos afastamos e uma espécie de abismo invisível criou-se entre nós. Não que ele não tentasse:

continuou sendo o amigo amoroso e gentil que sempre esteve presente em minha vida. Mas cada um de nós foi guiando seu destino. Eu o via sair para trabalhar, e via os amigos dele chegando para reuniões descontraídas. No início eles puxavam conversa comigo, mas logo desistiam, ao notar que eu não dava qualquer atenção.

E então, um dia, Victor chegou acompanhado de dois novos amigos, Thomas e Brenda. O rapaz era muito engraçado. De longe, o amigo de Victor mais simpático que eu já havia conhecido. A mulher era bonita. Uma beleza exótica, com a pele morena, cabelos negros e lisos. Eles tornaram-se presença constante na casa: em reuniões, jantares, almoços. Então a presença de Thomas começou a ser menos constante, enquanto a de Brenda só se intensificou.

* * *

Quatro anos e meio atrás

O dia na lanchonete foi exaustivo. Eu só queria chegar em casa (bom, na casa de Victor) e colocar os pés para cima, enquanto assistia um pouco de TV para desanuviar a mente. Deixei minha bolsa em cima da mesa da sala e fui para o quarto que, desde que Chase partira, era só meu.

Chase. Que saudade eu sentia dele!

Ele havia me ligado naquele dia. Atendi o celular meio descon iada, sem reconhecer aquele código de área. Quando ele se identi icou, quase infartei. Precisava contar a Victor! Desviei do meu quarto e fui até o quarto dele. A porta estava encostada e eu entrei, como sempre fazia desde que me entendia por gente.

Victor estava na cama, aos beijos com a tal de Brenda. Fiquei ali parada, olhando, nem sei por quanto tempo. Até que Brenda precisou parar por um segundo para tomar um pouco de fôlego, abriu os olhos e me viu. Ela

pigarreou e Victor virou-se, o olhar encontrando o meu. Pisquei várias vezes, sacudindo a cabeça e virando-me para sair dali, tudo ao mesmo tempo.

– Catherine! – Já estava dentro do meu quarto quando Victor entrou. – Cath, me desculpe! Não queria que você descobrisse dessa forma!

Ah, que ótimo! Eu não era nenhuma imbecil. Victor e eu não agíamos como namorados há muito tempo, mesmo antes de Chase partir. Eu ainda gostava dele, mas não podia a irmar que era nada mais do que uma forte amizade, um amor de irmãos. Mas, como mulher é um bicho estranho, foi só eu vê-lo todo entregue para uma outra garota que o sentimento de posse gritou em minha cabeça e tive que me segurar para não fazer uma cena.

– Tudo bem, Victor – concentrei-me para falar o que era racional. – Não tem problema. Na verdade, tenho até que pedir desculpas. Não posso icar invadindo seu quarto dessa forma.

Ei...

Você pode entrar em meu quarto sempre que quiser, Cath!

Sempre foi assim e sempre será, ouviu bem?

Aham. Quem sabe da próxima vez eu não encontro vocês pelados. Era só o que faltava para eu não conseguir dormir nunca mais, pensei.

Ele me abraçou.

– Eu amo você, Catherine. Amei-a desde a primeira vez que a vi, e roubei sua boneca para chamar sua atenção, e Chase me bateu. E vou amá-la para sempre, sabe? Você pode contar comigo sempre que precisar.

– Eu sei. Obrigada. Ele beijou minha testa e saiu.

Naquele momento decidi que precisava me emancipar de vez. Já que eu não tinha ninguém – que eu era, literalmente, uma pessoa só – precisava me assumir como tal.

* * *

E então eu me encontrava assim: de ressaca, mais para bêbada do que para sóbria, tendo que me arrumar para trabalhar, mas sem ânimo algum.

Meu celular tocou e pensei que minha cabeça fosse explodir.

Hã...?

– Minha voz saiu como um gemido.

– Cath? – A voz de Patrícia estava ótima, como se tivesse dormido o sono dos justos durante toda a noite. – Você está bem? Que voz horrível!

– Ai, minha cabeça dói, Paty! – Tentei melhorar a voz, mas ainda gemia. – Fala!

– Quero saber se você aceita uma carona! Estou indo comprar mais umas coisinhas para o meu enxoval e...

– Paty? A ligação caiu.

Bom, uma carona até que não seria má ideia. Levantei-me e comecei a tirar a roupa, para tomar uma ducha e ir trabalhar, quando meu celular tocou de novo. Atendi sem olhar.

– Oi, Paty! A ligação caiu... – Catherine?

Surpresa, senti uma onda de alegria percorrer meu corpo. Há quanto tempo eu não escutava aquela voz? Três meses? Quatro?

– CHASE! – Gritei, sem conseguir me conter. – Chase, que saudade, como você está? – Cath, para de falar e me escuta. Eu não tenho muito tempo, ok? Ele estava sério, como nunca antes. E estava afoito. – Ok – foi a única coisa que consegui responder.

– Eu estou preso. Estou no presídio de São Francisco, mas sou inocente. Não posso falar muito tempo, só tenho dois minutos e você é a única pessoa que tenho para ligar. Não fui eu, Cath. Eu preciso de ajuda, eu...

– Vamos, rapaz! Acabou o tempo! – Ouvi alguém falando ao fundo.

Catherine...

Eu preciso de ajuda!

Então a ligação foi encerrada.

Fiquei ali, meio despida, o aparelho ainda na mão, encarando o nada. Quando o celular tocou de novo, levei um susto tão grande que o deixei cair no chão.

– Alô! - Estava nervosa, e minha voz entregava isso. – Calma, Cath, sou eu! A ligação caiu e...

– Paty – murmurei ainda sem acreditar no que estava acontecendo. –

Chase acabou de ligar,

ele...

Ele está preso, Paty!

A última frase quase não saiu, tão embargada estava a minha voz pelas lágrimas que fechavam minha garganta.

Capítulo 2

Cath

Encerrei a ligação, após deixar Patrícia tão atônita quanto eu. Tentei processar tudo o que Chase havia me dito: que estava preso em São Francisco, mas que era inocente. E, principalmente, que precisava de ajuda. Da minha ajuda. Mas como eu poderia ajudar?

Ainda com o celular na mão, disquei o primeiro número que me veio à cabeça. Victor.

Ele icou tão chocado quanto eu, e prontamente se ofereceu para me acompanhar até o presídio. Pensei em repudiar sua oferta, a inal, não era justo tirá-lo de seus afazeres. E, além do mais, havia Brenda. Ela, obviamente, não gostava de mim, e não gostaria nada daquela história. Mas Victor insistiu, dizendo que jamais deixaria que eu fosse a um local como aquele, sozinha. E, como eu não tinha mais forças para discutir – ainda mais quando, em meu íntimo, realmente não gostaria de enfrentar aquela situação sozinha –, acabei aceitando sua gentil oferta.

Imediatamente após encerrar a ligação com Victor, enviei uma mensagem para Patrícia, avisando que estava partindo com Vic para ver meu irmão e que mandaria notícias em breve. Joguei o celular em qualquer lugar e comecei a arrumar algumas peças de roupa desajeitadamente em uma bolsa de mão. Tomei uma ducha e, quando estava saindo do chuveiro, bateram na porta.

– Entre, está aberta! – Gritei, ainda de dentro do banheiro, enquanto me enxugava.

– Cath?

Abri a porta e coloquei a cabeça para fora. Patrícia estava ali. Vestia uma roupa básica e não usava qualquer maquiagem – o que era um milagre, para alguém tão vaidosa. Os cabelos negros estavam presos desleixadamente.

– Paty, você não recebeu minha mensagem? Desculpe-me, mas não vou poder conversar com você agora, estou correndo e...

– Eu recebi sua mensagem, Catherine. É por isso que estou aqui. Vou

com você. Ou

melhor...

Vamos.

– Vamos? – Sim. Brian está no carro, esperando por nós. Victor já chegou?

– Acabei de chegar. – Victor estava parado na porta do meu quarto, com uma mochila nas costas. Fiquei sem ar ao olhar para ele. Fazia semanas que não nos víamos e mal nos falávamos pelo telefone. Parecia ainda mais bonito e forte. A pele cor de jambo contrastava contra a camisa branca e os cabelos negros haviam sido raspados.

– Ótimo – disse Patrícia. – Acaba rápido aí, Cath. Quanto mais cedo partirmos, mais cedo chegaremos a São Francisco.

Assenti e voltei para dentro do banheiro. Encarei minha imagem no espelho: uma vez mais naquela manhã, meus olhos estavam repletos de lágrimas. Eu podia ter muitos problemas, minha vida podia ser uma bagunça total, mas uma coisa eu tinha que agradecer: tinha amigos verdadeiros. Amigos que me amavam e que estavam ao meu lado nas horas mais difíceis, sempre que eu precisava deles.

Sacudi a cabeça, desanuviando os pensamentos; não tinha tempo para lamentações. Arrumei-me em tempo recorde e, minutos depois, estávamos entrando no carro de Brian, noivo de Patrícia.

– Bom dia,

Brian...

– Cumprimentei-o, meio sem jeito. – Muito obrigada

por fazer isso, de verdade.

Ele se virou e baixou os óculos escuros, os olhos azuis encarando os meus.

Catherine...

Você é a melhor amiga de minha futura esposa, e dama de

honra de nosso casamento. Pode ter certeza, estou fazendo isso de coração,

por livre e espontânea vontade. Não precisa agradecer.

Forcei um sorriso. Victor apertou minha mão em solidariedade e Brian voltou a olhar para frente, ligando o carro.

Não sei se foi a noite mal dormida ou se, simplesmente, meu sistema emocional abalado arriou completamente minha bateria. Provavelmente foi uma junção das duas coisas. Só sei que, de repente, quando parecia que tinha acabado de sentar no carro, senti Victor me chamando enquanto acariciava meus cabelos.

– Cath? Querida, acorde, já chegamos...

Abri os olhos e vi que ainda era dia, meio nublado. Procurei por prédios, mas a única coisa que vi foi um imenso paredão de cimento.

– Já chegamos mesmo? – Perguntei, arrumando os ios desajeitados e passando a mão no rosto. – Estamos no presídio?

Brian olhou para trás e respondeu:

– Sim, Catherine. Você está pronta?

Se eu estava pronta? É claro que não! Ninguém nunca está pronto para uma situação dessas. Mas eu não podia responder isso. A inal, não faria qualquer diferença. Pronta ou não, eu tinha que enfrentar o que viria a seguir, então respondi que sim, estava pronta e abri a porta, saindo do

carro. Todos me seguiram e, em segundos, estávamos parados de frente para a entrada, como se estivéssemos criando coragem de entrar. O que era verdade, pelo menos no meu caso.

Passamos pela porta, após deixarmos um documento de identi icação e recebermos um crachá de visitante, e fomos recebidos por um funcionário sério e de poucas palavras.

– Boa tarde – falei. – Meu nome é Catherine Zimermann. Vim visitar meu irmão, Chase Zimermann.

O homem baixo e carrancudo analisou um livro, e em seguida pediu para que eu assinasse. – Só é permitida a entrada de duas visitas por dia – falou, secamente. Olhei para os meus três acompanhantes, sem querer decidir quem entraria comigo. – Acho que Patrícia deveria entrar – Victor opinou, olhando para ela. – Sei que Chase ficaria muito feliz em vê-la, Paty. Minha grande amiga, por sua vez, olhou para Brian. Ele era um verdadeiro cavalheiro. Sabia toda a história existente entre Patrícia e Chase, mas nunca havia tocado mais profundamente no assunto. Brian percebeu a situação desconfortável de Paty.

– Tudo bem, amor – ele falou, aproximando-se dela e acariciando seu rosto. – Pode entrar, Chase é seu amigo e está num momento muito difícil.

Patrícia assentiu, colocando a mão sobre a dele e beijando-o rapidamente nos lábios.

– Eu amo você. Obrigada – falou, e virou-se para o funcionário: ​ – Eu vou com ela.

Ok...

– O funcionário respondeu, claramente desinteressado. – De

qualquer maneira, a entrada é individual. Quem vai primeiro? – Eu! – não pensei duas vezes antes de responder. – Acompanhe-me, por favor, senhorita Zimermann.

Victor me incentivou com um aceno de cabeça e eu acompanhei o funcionário até chegarmos a um longo corredor, que tinha uma grade ao fundo. Atrás dessa grade havia outro funcionário, que permitiu nossa entrada, a grade se fechando atrás de nós assim que passamos por ela. Chegamos a um enorme corredor com diversas cabines, cada uma com um telefone do lado e um vidro separando as pessoas. Havia várias cabines vazias, intercaladas por apenas dois presos que conversavam com seus prováveis advogados, engravatados e imparciais.

A cada cabine que passava meu coração acelerava e eu esperava encontrar o rosto de Chase por trás do vidro. Quando já estava perdendo as esperanças, eu o avistei. Estava sentado, a cabeça abaixada, usando um macacão laranja grande demais para seu tamanho. Parecia magro e abatido, com fundas olheiras roxas sob os olhos castanhos. Parei à sua frente e ele levantou a cabeça, me encarando. Tirou o telefone que estava preso à parede ao seu lado e continuou a me observar, esperando que eu, enfim, me sentasse e fizesse o mesmo.

– Você tem dez minutos – o guarda que me acompanhara até ali, e que eu havia esquecido que estava ao meu lado, falou e saiu sem olhar para trás.

Eu me sentei, peguei o telefone e coloquei no ouvido. No primeiro momento, nenhum dos dois falou nada. Então decidi quebrar o silêncio, indo direto ao ponto. Nós não tínhamos muito tempo.

Chase...

– Minha voz saiu falhada e cocei a garganta; não queria

demonstrar fraqueza, não para ele. Meu irmão já estava sofrendo demais.

Conte-me...

O que aconteceu?

Ele respirou fundo.

– Eu também não sei direito, Cath. Saí uma noite com um amigo, ele me

apresentou umas

garotas...

E, ao que tudo indica, uma delas foi assassinada

e eles acreditam que fui eu.

Engoli em seco. Não queria fazer a pergunta seguinte, mas era necessário.

Chase...

E foi você? – Vi uma névoa de raiva passar pelo rosto do meu

irmão, e apressei-me a continuar: – Eu preciso saber a verdade, por pior que seja. Mesmo que tenha sido, sou sua irmã, farei de tudo para tirá-lo daqui, mas eu preciso saber se... – Catherine, você está me ofendendo ​ ​ – ele havia se inclinado mais par

perto do vidro, em minha direção. – É claro que não fui eu. Eu jamais teria

coragem de fazer algo desse tipo. Você me

conhece...

Meu Deus!

Chase voltou a se recostar na cadeira, frustrado, passando a mão pelos cabelos loiros que costumavam ser brilhantes e sedosos, mas que hoje estavam opacos.

– Não fui eu, Cath – ele continuou. ​ – Eu sou inocente – disse, quase num sussurro, a voz mecânica através do telefone.

– Ok - falei, tentando manter a calma e raciocinar objetivamente. – Precisamos arrumar um bom advogado. Alguém que possa tirá-lo daqui, provar que você não fez nada, que isso é uma injustiça! Chase balançou a cabeça pesarosamente. – Com que dinheiro, Cath? O dinheiro que tenho guardado mal dá para

comprar uma bicicleta! Vou ter que me contentar com um defensor público qualquer.

Não! Isso não podia acontecer! Nós teríamos que arrumar uma solução. Eu teria que arrumar uma solução. Chase não poderia ajudar em nada de onde estava.

– Vou conversar com a promotoria, tentar entender o que está acontecendo no seu caso, do que eles estão lhe acusando, que provas eles tem para mantê-lo aqui. Mas antes preciso que você conte o que aconteceu, a sua versão da história, Chase.

Ele voltou a se aproximar do vidro.

– Eu conheci esse homem em um dos bares que

trabalhei...

Ele sempre

pareceu um cara legal, de ótima família,

renomada...

Com muito dinheiro,

Cath. Muito mesmo, mais do que você possa sequer imaginar. – A voz de

Chase era sem vida. – Nós começamos a sair constantemente, e tenho que admitir que iquei deslumbrado; ele me apresentou a uma vida que eu nem sabia que existia!

Chase fez uma pausa, mas eu não falei nada. Deixei que continuasse:

– Então, na última noite que saímos juntos, ele me levou a um clube privado, onde só pessoas influentes e conhecidas têm acesso e a entrada só é permitida a convidados, o que era meu caso. As pessoas eram lindas,

tanto homens quanto

mulheres...

As

mulheres...

Meu Deus, pareciam

supermodelos saídas de capas de revistas, Cath!

Chase ixou o olhar no nada, como se estivesse se esforçando ao máximo para se lembrar de tudo que ocorreu na noite fatídica.

– E tinha essa

mulher...

Ela era linda, claro, como todas, mas era

diferente...

Tinha um charme diferente, sabe? Todos os que estavam na

festa gostaram dela e a queriam! E ela me escolheu.

Eu imaginava tudo o que Chase estava narrando, mas uma coisa em minha cabeça não se encaixava, por isso tive que esclarecer minha dúvida:

– Espera um instante,

Chase...

Deixe-me entender uma coisa: você a

pagou com que dinheiro? Eu não sou

tola...

Tenho certeza que uma hora

com uma mulher dessas é mais do que você ganhava no mês!

Ele umedeceu os lábios e respondeu:

– Meu amigo pagou para mim. Nós icamos juntos, e foi uma noite perfeita, e deixei Molly de volta no clube, inteira. Viva!

Soltei o ar pesadamente e, sem perceber, deixei meus ombros caírem.

– Entendo – foi a única coisa que consegui dizer de primeira, depois de ouvir tudo aquilo. – Bem, farei o que combinamos. Falarei com a promotoria e tentarei arrumar um advogado decente para tirá-lo daqui.

Chase assentiu diversas vezes com a cabeça. Estava altamente nervoso, era perceptível seu nível de estresse. – Obrigado. Voltarei para a cela agora, espero que você retorne logo...

– Não, Chase. Meu tempo acabou, mas há outra pessoa lá fora querendo vê-lo. Na verdade há duas pessoas, mas você só pode receber duas visitas por dia, então só uma poderá entrar.

Chase ficou surpreso.

– D-duas? – Ele gaguejou, mas logo se recompôs, endireitando as costas na cadeira. – Quem vai entrar? Victor?

Fui a pessoa mais íntima de meu irmão durante a maioria dos anos de nossas vidas. Conhecia Chase melhor do que ele mesmo. Ele não queria que

fosse Victor. Apesar de que icaria feliz em ver o melhor amigo, mesmo depois das desavenças. Chase queria que fosse Patrícia. Fiquei feliz por saber que traria uma boa notícia.

– Não,

Chase...

Victor é a outra pessoa, está lá fora também, mas não é

ele que entrará agora – pude ver um vislumbre de alegria no rosto de Chase, um suave brilho no olhar que há poucos minutos era vazio. – Quem entrará agora é Patrícia.

Patrícia...

– Ele repetiu o nome em voz alta, como que para acreditar,

fitando o vazio. Então voltou a me olhar. – Eu não quero que ela entre, Cath.

Não quero que ela me veja nessas condições. Paty é muito sensível, sempre foi. Ficará horrorizada, esse não é lugar para ela. Na verdade, também não é lugar para você, mas infelizmente quanto a isso eu não tinha escolha. Além disso, não quero que ela me veja assim, não depois de tanto tempo.

Chase...

Patrícia está preocupada com você! Ela largou tudo e veio até

aqui sem pensar duas vezes. Eu jamais diria a ela que você não quer vê-la. Ela icaria magoada demais e isso não é justo, não mesmo! Se é isso que você sente, diga você mesmo. Paty aguenta, ela é mais forte do que você imagina.

Eu não queria discutir com Chase naquelas condições, mas não podia aceitar que ele renegasse a visita de Patrícia, tão gentil e leal a nós, daquela forma. Chase suspirou fundo.

– Tudo bem – ele disse, concordando contrariado. – Antes de você

ir...

A

polícia icou com a chave do quarto que eu estava alugando. Veja se já está

liberada e pegue de volta. Você pode icar lá, está pago pelos próximos dois meses. Não é nada luxuoso, nem de longe, mas é um abrigo.

– Ótimo. Amo você, ique bem – coloquei o telefone no gancho, Chase repetiu meu gesto. Eu estava saindo quando me lembrei de uma pergunta

essencial e voltei. Tirei o telefone e ele me imitou, surpreso. – O que foi? – Perguntou, antes que eu pudesse falar. – Faltou você me dizer uma coisa. Qual o nome do tal clube privado?

– O clube não tem um nome especí ico, Catherine. Como eu disse, as reuniões são completamente privadas, quase secretas, apenas para um seleto grupo. Mas muitos dos membros desse clube frequentam um outro... – Chase falava baixo, em tom de segredo, como se as paredes pudessem nos ouvir. – Chama-se Espartacus.

– Espartacus. Ok. E qual o nome do seu amigo?

– Ah – ele me olhou e falou, ainda sussurrando: – O nome dele é Leonard. Leonard Clarke.

Leonard Clarke.

Aquele nome ainda me daria muito trabalho.

Capítulo 3

Chase

Eu não havia sentido uma única gota de felicidade desde que fora parar naquele inferno na terra. Não até aquele momento.

Quando Catherine pronunciou o nome de Patrícia, foi como se meu mundo tivesse parado de rodar; como se eu me esquecesse de como era respirar. Depois veio a consciência de minha situação.

Eu não via Paty há cinco anos, no mínimo. Nosso término foi algo que magoou muito aos dois, apesar de imaginar que Patrícia não acredite que eu tenha sofrido, pelo modo frio e distante como agi. Mas eu sofri. Demais.

Patrícia era a única coisa boa que existia em minha vida naquela época, a única pessoa que me jogava para cima e me incentivava a seguir em frente, a construir um futuro melhor para nós dois. Mas eu simplesmente não tinha forças para isso. Estava arrasado, devastado, irritado demais com Deus para sequer me preocupar com o presente, que dirá pensar no futuro. Por isso acabei me afastando de Patrícia, a única mulher por quem eu já havia me apaixonado, a única que eu realmente amara.

Ouvi o som de passos ecoando pelo assoalho encerado do corredor. Arrumei os cabelos – sem sucesso – e ajeitei a gola do macacão ridículo e enorme que eu trajava.

Patrícia apareceu em frente à minha cabine. Estava linda. Havia cortado e des iado os cabelos negros e longos que eu tanto amava, e que sempre reclamava quando aparava apenas alguns centímetros. Usava uma roupa básica – calça jeans e uma blusa branca. A respiração dela estava agitada e percebi que a minha também estava.

Paty sentou-se e pegou o telefone, esperando que eu izesse o mesmo, mas eu parecia estar congelado. Ela apontou para o meu aparelho através do vidro, e finalmente o peguei e colei ao meu ouvido.

Chase...

– O som da voz de Paty, e o simples barulho de sua respiração,

tiveram dois efeitos completamente inversos em meu organismo. Ao mesmo tempo em que espantaram todo o medo e nervosismo que existia

em mim, acalmando minha alma e aliviando minha mente, uma onda de adrenalina jorrou por meu sangue, acelerando meu coração tão rapidamente que podia senti-lo batendo em minhas costelas. – Chase, fale

comigo...

Como você está?

Cheguei mais perto do vidro. Amaldiçoei silenciosamente aquele lugar por me impedir de abraçá-la, de sentir seu corpo pequeno e quente em meus braços, de sentir a essência que dela emanava, seu hálito. Por me impedir de beijá-la.

Paty...

Meu Deus, como é maravilhoso ver você! Você

está...

Você está

linda!

Uma gota escorreu de seus olhos para o rosto perfeito, e tive vontade de morrer por fazê-la passar por aquela situação.

– Não chore,

Paty...

– Implorei. – Por favor! Eu estou bem, tudo vai icar

bem, você vai ver!

– Desculpe, é que foi muita coisa! Esse lugar,

você...

Ah,

Chase...

quanto tempo não nos

falamos...

Há mais tempo ainda não nos vemos...

Nossa! – Ela limpou a lágrima e respirou fundo. Sabia que estava lutando para engolir o choro, para ser forte. – Mas você tem razão. Você está bem e tudo ficará bem, tudo vai se resolver. Tenho certeza disso, Chase.

Patrícia espalmou a mão direita, que estava livre do telefone, sobre o vidro, e eu iz a mesma coisa, unindo a minha mão à dela. Ou melhor, ia

fazer. Pois, quando já estava quase tocando no vidro blindado, um objeto brilhante chamou minha atenção. Para ser mais exato, um enorme anel em seu dedo.

Não sei como deve ter icado minha feição, mas ela entregou minha surpresa e dor, pois Patrícia seguiu meu olhar, baixando a mão e escondendo-a sobre a mesa. Nós icamos nos olhando por algum tempo, que me pareceu interminável. Eu não queria falar, tampouco perguntar o que aquilo significava ​ – eu já sabia –, e ouvir Patrícia dizer tais palavras ia acabar de me matar por dentro.

Chase...

– Ela começou e eu fechei os olhos, como se dessa forma

pudesse impedir que suas palavras penetrassem em mim. – Eu ia contar.

Mas não agora. Quando nos encontrássemos lá fora, quando você já estivesse livre disso tudo, eu contaria.

– Quem é ele? Eu o conheço? – Perguntei ainda de olhos fechados. Patrícia suspirou fundo.

– Não vale a pena termos essa conversa aqui, agora. Não foi para isso que vim.

– Quem é ele, Patrícia? – Abri os olhos e ignorei o comentário dela. Eu precisava saber.

– Brian McCallister – ela foi direta.

Brian McCallister? Aquele almofadinha mauricinho? Eu não conseguia acreditar!

– Desde quando você se interessa por playboyzinhos capitalistas, Paty? E desde quando vocês estão juntos?

Patrícia respirou fundo, visivelmente desconfortável.

– Estamos juntos há pouco mais de um ano, Chase. E Brian não é

nenhum playboyzinho

capitalista...

Ele é uma pessoa maravilhosa.

– Você costumava concordar comigo nesse ponto, antigamente. Quando íamos para o colégio e Brian "Maurício" McCallister chegava de motorista particular, no seu carro imponente.

Eu sabia que estava irritando Patrícia, mas simplesmente não conseguia parar. O ciúme estava me corroendo por dentro.

– Eu não o conhecia. Julguei-o mal, só pela aparência. Arrependo-me

profundamente

disso...

Como falei, Brian é uma pessoa formidável.

Nosso olhar não se desviava. – Sei. E vocês vão se casar? Já? Vocês estão juntos há apenas um ano! Patrícia fechou os olhos ante essa pergunta. – Por favor, Chase... – Responde Paty. Eu mereço saber. Ela voltou a me encarar. – Não. Nós íamos casar. Mês que vem. Catherine ia ser minha dama de honra e Victor meu padrinho. Nós íamos viajar para Europa logo após a grande festa, que já estava totalmente arranjada. Mas não vamos mais. Não enquanto você estiver aqui. Então era verdade. Patrícia ia se casar. E não seria comigo.

– Não se dê ao trabalho de adiar o casamento por minha causa, Patrícia – falei, levantando-me. – A inal, nós nem sabemos se eu sairei daqui um dia, não é mesmo? Você não pode deixar o príncipe McCallister esperando para sempre. Seja feliz. Adeus, Paty.

Coloquei o fone no gancho sem desconectar nosso olhar e saí, sem olhar para trás.

Minha última centelha de vida icara com Patrícia, do outro lado do vidro blindado.

Capítulo 4

Cath

Eu estava abraçada com Victor. Sentia-me muito pequena envolta por aqueles braços enormes e quentes, e a sensação era um tanto quanto reconfortante; eu não havia percebido o quanto sentia falta de carinho.

Momentos depois, Patrícia apareceu. Não demorou muito, e estranhei. Ela estava com os olhos um pouco inchados e a ponta do nariz vermelha. Com certeza havia chorado, e não fora pouco. Brian abraçou-a carinhosamente, deixando que Paty escondesse o rosto em seu ombro e acabasse de desaguar as lágrimas que lhe restavam.

Bom...

– Brian acariciava os cabelos de Paty enquanto falava. – Vamos

para um hotel, então? Vocês duas precisam descansar.

– Na verdade, vocês podem ir – falei. – Conversei com o agente penitenciário antes de sair e peguei a chave do quarto que Chase aluga... Ou alugava. Dormirei por lá.

– Ah,

claro...

– Brian era sempre compreensivo.

– Vou com você, Cath. – Victor se prontificou. – Ok. Você nos deixa lá, Brian? Estou com o endereço. – Com certeza. Vamos indo.

Nós entramos no carro e em pouco tempo estávamos rodando pela cidade, que já estava escura, iluminada somente pelos postes e faróis dos carros. O bairro em que Chase alugava um quarto não era nada familiar. As pessoas que caminhavam pelas calçadas pareciam ter saído diretamente de ilmes de polícia e bandido. De initivamente iquei feliz e

aliviada de Victor estar ali comigo.

Subimos três andares pela escada estreita, até que chegamos a uma porta localizada num corredor escuro e sombrio. Giramos a chave com di iculdade – a fechadura estava completamente enferrujada – e, depois de usarmos de força, abrimos a porta, que rangeu no caminho.

Dava para perceber que a policia estivera vasculhando aquele local. O quarto era pequeno, e parecia ainda menor devido ao fato de tudo estar jogado pelo chão, numa desordem generalizada. Respirei fundo e entrei, seguida por Victor, que colocou nossas bolsas no chão ao lado da porta.

– Vou dar um jeito nessa bagunça – falei, olhando em volta, sem saber por onde começar. – Tome um banho, Vic. Amanhã será um dia longo.

– Ok, Cath. Já volto para ajudá-la, certo?

Assenti e Victor foi para o banheiro. Assim que ele fechou a porta, comecei a vasculhar tudo. Não sabia ao certo o que procurava, mas tinha certeza que descobriria quando encontrasse. Ouvi Victor abrindo o chuveiro e me apressei como se estivesse fazendo algo ilícito. Não sabia o motivo, mas queria encontrar o que quer que fosse longe de seu olhar.

Eu já ia desistindo quando Victor fechou o chuveiro, mas uma coisa chamou minha atenção. Era uma caderneta preta, parcialmente escondida embaixo do sofá. Peguei-a rapidamente e fui direto à letra "E". Estava lá:

Espartacus. Sem pensar duas vezes, folheei até a letra “L”, e agradeci ao constatar que também estava lá o outro nome que eu procurava. E o telefone de Leonard Clarke.

Victor abriu a porta e enfiei a caderneta preta no bolso de trás dos meus jeans. Quando olhei pra ele, quase infartei. Aquele homenzarrão corpulento estava vestido apenas com uma toalha branca na cintura.

– Cath, será que você pode pegar minha mochila, por favor?

Victor sorria sem graça. Pisquei algumas vezes, pegando a mochila e levando até ele, que a segurou, mas não entrou de volta no banheiro. Ficou ali, parado, me encarando. No segundo seguinte, como se meu corpo tivesse vontade própria, eu havia me aproximado dele e meus braços estavam em volta de seu pescoço. Victor largou a mochila, que caiu aos nossos pés, e envolveu a minha cintura com o braço livre, enquanto continuava a segurar a toalha com a outra mão.

– Ah,

Cath...

Senti tanto a sua falta! – Ele não afastou os lábios dos meus

nem para sussurrar aquelas palavras, que não eram precisas. O corpo dele já me revelava que era verdade.

Parei para pegar fôlego e ele me acompanhou.

– Também senti sua falta, Vic – admiti, mas me afastei um pouco e ele não me impediu.

Victor me conhecia desde criança, e perfeitamente bem. E me respeitava acima de tudo. Ele sabia que eu jamais faria alguma coisa ali, naquelas circunstâncias, com meu irmão sofrendo em uma cela imunda a poucos quilômetros de nós.

Victor...

– Sussurrei, e ele assentiu ao mesmo tempo em que levava a

mão ao meu rosto.

– Eu sei,

Cath...

Eu sei – sorriu, timidamente. – A nossa primeira vez teria

mesmo que ser mais especial, num lugar mais romântico do que aqui, nesse quarto imundo, com seu irmão nessa situação.

Sábias palavras.

Ah, sim: eu era virgem. Apesar de conhecer Victor desde pequena e de termos namorado quase dois anos, eu era muito nova na época e Vic

sempre respeitou meu momento. Sem falar que, depois do acidente em que meus pais morreram, não tive mais cabeça para esse tipo de coisa e me afastei totalmente de Victor. Que acabou conhecendo Brenda...

– É – falei, afastando-me, voltando a mexer nas coisas espalhadas pelo chão do pequeno quarto para manter minhas mãos ocupadas. – E, além do

mais, tem a

Brenda...

Você namora com ela, agora.

Ouvi Victor suspirar pesarosamente, mas não olhei para trás.

Catherine...

Eu gosto da Brenda, ela é uma garota fantástica, nós nos

damos bem e tudo o

mais...

– Eu estava agachada no chão, catando papéis a

esmo. – Mas você sabe que eu amo você. Que sempre amei e sempre amarei. Que, se você quiser, irei esperá-la pelo tempo que for necessário.

Parei de me mover, meu cérebro absorvendo e processando todas as palavras que Victor pronunciava. Levantei lentamente e me virei para ele, que tinha o olhar suplicante, uma ruga funda vincando a testa.

Victor...

Eu não posso prometer nada – forcei-me a ser o mais sincera

possível, coisa que era di ícil demais depois de uma declaração como aquela. – Eu sei que amo você, e que você é mais do que especial para

mim...

Mas...?

- Ele fechou os olhos, esperando que eu concluísse, sabendo

que não gostaria nada do que eu diria.

Mas, como disse, não posso prometer nada. Eu não estou feliz, há muito tempo. E nós só podemos fazer alguém feliz quando nos sentimos bem e em paz com nós mesmos. Não seria justo com você.

– Eu não me importo, Catherine – Victor havia aberto as pálpebras e seu olhar me consumia, fazia a minha alma doer. – Estar com você é tudo o que mais desejo. É tudo o que necessito para ser feliz e completo.

Eu sabia que Vic estava sendo sincero. Sabia que o amor que ele sentia por mim era incondicional e que ele não se importava se eu sentia o mesmo, fosse na mesma proporção ou não. Sabia que ele só ansiava estar ao meu lado, fazendo de tudo para que eu fosse feliz. E eu não podia aceitar isso. Não podia aceitar que ele se anulasse por mim. Não, se eu não podia lhe dar a certeza de que, algum dia, mesmo que distante, seria capaz de corresponder à altura.

– Mas eu me importo, Vic – meus olhos estavam marejados, e por isso tornei a virar de costas para ele. – É melhor assim.

Victor não falou mais nada, assim como eu também não. Ouvi-o expirar o ar pesadamente e girar nos calcanhares, voltando ao banheiro e fechando a porta.

Continuei arrumando a bagunça. Agia mecanicamente – como, aliás, vinha levando minha vida há muito tempo. Nem vi o tempo passar. Quando dei por mim, já havia organizado (na medida do possível, naquelas condições precárias) mais da metade das coisas. Victor dormia pesado na cama de Chase, a pequena e velha TV ligada em um programa qualquer, quase sem som. Olhei o relógio. Passava um pouco da meia-noite.

Peguei uma roupa limpa na bolsa que eu havia arrumado às pressas, uma toalha e fui tomar banho. Meu corpo era pura tensão. Meus músculos estavam tão enrijecidos que chegavam a doer. Deixei a água fervendo cair abundantemente sobre mim, até sentir a pele icar dormente devido à quentura, o vapor rapidamente tomando conta de todo o pequeno banheiro. Não adiantou nada. A tensão e o estresse permaneceram ali, presentes e vitoriosos.

Saí do banho e sentei numa pequena poltrona de couro, rasgada em diversos lugares, penteando o cabelo. Eu não estava com nenhum vestígio de sono. Meu corpo estava totalmente alerta. Olhei mais uma vez para

Victor. Dormia como uma criança após um dia exaustivo no parque de diversões. Levantei-me, peguei outra muda de roupa na mala e me troquei.

Vesti uma calça jeans, uma blusa preta e sandálias, e prendi o cabelo num rabo de cavalo. Eu simplesmente não podia icar ali, calmamente, de mãos atadas, esperando o tempo passar, aguardando para ver o que mais o destino iria me aprontar. Eu precisava agir.

Peguei cuidadosamente minha bolsa, esforçando-me para não fazer barulho e acordar Victor, e saí. Enquanto descia as escadas, peguei meu celular, disquei para informações e solicitei um endereço. Endereço esse que forneci para o motorista do táxi.

Capítulo 5

Cath

– Chegamos, senhorita – o motorista se virou, acendendo a luz enquanto eu remexia na bolsa a procura do dinheiro. Dei a nota, peguei o troco e saí.

A rua era bem movimentada e distante de onde se localizava o quarto que Chase alugava. Era uma rua de casas noturnas. Diversas pessoas andavam pelas calçadas largas, todas bem arrumadas. Mulheres lindas, vestidas para noite, andavam conversando alegremente; casais de mãos dadas se dirigiam para as entradas, dispostos a se divertir; manobristas tinham bastante trabalho, tamanhas eram as ilas de carros que aguardavam para estacionar. A maioria das casas tinha ila na porta para entrar, e, vez ou outra, um grupo passava pela corda de contenção, ultrapassando os demais em meio a reclamações frustradas – e ignoradas pelos seguranças.

Fui andando, observando toda essa movimentação em plena quinta-feira à noite, tão diferente de minha singela – e monótona – cidadezinha natal. De repente, um letreiro me chamou a atenção: ESPARTACUS CLUB. O lugar parecia luxuoso. Dois seguranças, vestidos de preto e com escutas presas ao ouvido, ladeavam a entrada, os braços cruzados.

Parei na calçada do outro lado da rua e iquei observando. Não havia ila na porta. Vez ou outra um carro parava, o manobrista assumia o volante e o motorista (sempre um homem) entrava no estabelecimento. Vi uma morena voluptuosa caminhando em direção à entrada, falando ao celular. Ela cumprimentou os dois homens com um aceno leve de cabeça, sendo correspondida na mesma medida, e entrou.

Não sei quanto tempo iquei parada ali, e muito menos sabia o que

pretendia fazer. Não tinha elaborado nenhum plano de ação. Um homem saiu e parou ao lado dos dois seguranças, acendendo um cigarro e começando a conversar. Ele era baixo, tinha os cabelos curtos e tingidos de um vermelho quase laranja, e usava uma camisa estampada. Olhou em minha direção, forçando a vista para me enxergar melhor, ao que eu disfarcei, pegando meu celular e fingindo que falava com alguém.

Depois de um tempo – e de me sentir ridícula o su iciente com essa encenação –, guardei o aparelho na bolsa. O homem já havia apagado o cigarro e conversava com os seguranças, sorrindo, e todos lançavam olhares indiscretos para mim. Até que o homem atravessou a rua e veio em minha direção.

Senti meu coração quase sair pela boca, minhas têmporas latejavam freneticamente.

Olá...

Boa noite – o homem falou, cordialmente, as mãos en iadas nos

bolsos da frente da calça jeans. – Meu nome é Steven. E o seu?

Eu não queria dizer meu nome. Pelo menos, não o verdadeiro.

Cindy – respondi o primeiro nome que me veio à cabeça e estendi a mão, que o homem apertou sem desfazer o sorriso.

– Você está esperando alguém, Cindy?

Não...

– Lutei para que minha voz saísse natural, para que o homem

não percebesse meu nervosismo. – Sou nova na cidade, estou só

conhecendo o local.

Entendo...

– Steven seguiu meu olhar para a entrada do

estabelecimento. – Eu sou o gerente da Espartacus.

Assim que ele acabou de falar, meu interesse na conversa aumentou consideravelmente. Podia sentir a sorte, en im, vindo para o meu lado.

Como não me manifestei, Steven continuou:

– Sabe, eu estava observando você, do outro lado da

rua...

Você é linda. –

Olhei para ele, surpresa com o elogio inesperado, e percebi que Steven não estava nem um pouco interessado em mim. Pelo menos não pessoalmente, e sim comercialmente. – Tenho certeza que você faria muito sucesso se trabalhasse aqui. Você é maior de idade? Estaria interessada? Gostaria de fazer um teste?

Minha mente começou a trabalhar numa velocidade inimaginável. Lembrei-me de tudo o que Chase contara; pensei em como faria para descobrir a verdade e tirá-lo de lá. E percebi que, de initivamente, não havia jeito melhor.

– Sim, sou maior de idade, tenho 21 anos. E estaria muito interessada em fazer um teste, na verdade – respondi irmemente. O sorriso de Steven se alargou.

– Ótimo! – Ele começou a andar, parando no meio io e olhando para mim, que continuava imóvel. – Vamos? A casa ainda está praticamente vazia, o movimento aumenta mais tarde. É até melhor, dá tempo de você se familiarizar com o local.

Não esperava que o teste fosse ocorrer naquela mesma noite, mas, como não estava em posição de escolher, achei melhor agarrar a chance que o destino gentilmente me oferecia. Resignada, acompanhei Steven até o interior da Espartacus.

Devo admitir que me surpreendi ao ultrapassar as portas da boate. Imaginava um local sombrio, com mulheres vulgares oferecendo-se para homens tarados, porém deparei-me com um ambiente so isticado, recheado de pessoas elegantes. Havia um imenso bar do lado direito, que tinha banquetas de couro espalhadas por toda a extensão do balcão e era

repleto de bebidas das melhores marcas e tipos. As atendentes eram mulheres maravilhosas, todas bem vestidas e maquiadas, com aparência sensual sem ser vulgar. Grandes sofás de couro preto, em forma de "U", estavam espalhados pelo salão; na mesa à frente deles, baixa e de vidro, velas acesas forneciam ao ambiente um ar aconchegante e, ao mesmo tempo, sedutor. No fundo do salão, um imenso palco se erguia, com uma barra de metal fixada verticalmente no centro.

– Acompanhe-me, Cindy. Por aqui.

Fui seguindo Steven, que me apresentou a algumas das atendentes pelo caminho. Passamos pelo palco e descemos uma escada escondida na parte de trás. Lá embaixo também era imenso, e tão luxuoso quanto o andar de cima. Um lounge ao canto, com sofás e velas, abrigava também uma mesa repleta de comidas, copos e taças de cristal, ao lado de uma bandeja que continha diversas garrafas e um balde, com gelo e champagne.

– Você está servida? – Steven me perguntou, parando e se servindo de uma dose de uísque. – Essa parte é toda reservada para vocês. Algumas meninas gostam de beber uma ou duas taças antes do show, para se sentirem mais a vontade.

Neguei com a cabeça e Steven não insistiu, voltando a caminhar.

– Essas portas que você vê são os camarins, onde vocês se trocam. Temos bastante deles, mas mesmo assim não é o su iciente para que cada uma tenha o seu individual. Somente as mais renomadas conquistam um camarim próprio – ele se virou e me olhou, sorrindo e dando uma piscadinha. – Algo me diz que um dia você terá o seu, querida.

Sorri amarelo. Paramos em frente a uma porta em que uma placa informava: "Samantha". Steven bateu duas vezes, as mãos já na maçaneta. – Sam, querida? Está composta? – Ele aproximou o ouvido da porta.

– Sim, Stew! Pode entrar, baby! – A voz vinda do outro lado estava animada.

– Olá, com licença! – Ele entrou e eu o segui. – Como vai a minha estrela? Está bem disposta esta noite?

Dentro do camarim, sentada em frente a um imenso espelho circundado de luzes, segurando um batom vermelho e sorrindo, com o maior ar de estrela de Hollywood, estava a bela morena que eu vira entrar na boate pouco tempo antes. Ela usava um robe de seda branco, e os cabelos cacheados e sedosos estavam ainda mais chamativos em contraste com a cor.

– Eu estou sempre bem disposta,

Stew...

Você sabe disso! – A morena

cobriu os lábios de vermelho e voltou a nos encarar, os olhos pousando

sobre mim, uma sobrancelha arqueada. – Quem é essa?

– Essa é Cindy – Steven disse, colocando a mão nas minhas costas e me impulsionando alguns passos para frente. – Ela vai fazer um teste aqui, hoje.

Samantha me analisou da cabeça aos pés.

Cindy...

Taí. Gostei do seu nome!

– Você pode ambientá-la, querida? – Steven indagou, já andando em direção a porta. – Ainda tenho muitas coisas para resolver e a presença deles está confirmada para esta noite. Preciso organizar tudo!

Oh...

Ok! – Samantha levantou-se e veio até mim, soltando meus

– cabelos do rabo de cavalo. – Pode deixá-la comigo.

Steven saiu e a morena me puxou pelo braço, colocando-me sentada na cadeira onde ela estava momentos antes.

– Você já fez isso antes? – Perguntou, olhando-me pelo espelho enquanto suas mãos mexiam em meus cabelos compridos.

Não...

– Eu tentava mentir o menos possível. Era péssima nisso, desde

pequena, e minimizar as mentiras era a melhor coisa a fazer. – É a minha primeira vez e estou bastante nervosa, tenho que admitir.

Samantha riu, uma risada leve, jogando a cabeça para trás. Depois se abaixou um pouco e aproximou os lábios do meu ouvido.

– E você tem certeza de que quer fazer isso? – O semblante dela era sério, mas a voz tinha um quê de deboche, de malícia.

– Sim, tenho – respondi com irmeza, sem hesitar. Mal sabia ela os meus motivos!

– Então, cuidado – ela sussurrava, e seus olhos estavam ixos nos meus

pela imagem do espelho. – Porque depois que pegar o querer parar, querida.

gosto...

Você não vai

Ela falou isso tranquilamente, como alguém que descrevia seu prato ou doce predileto.

– Bem, nós não temos muito

tempo...

– Continuou. – Temos que escolher

algo para você vestir, e tem de ser algo especial, tendo em vista que é a sua noite de estreia, não é? E eu tenho que lhe dar uns toques, para você fazer bonito e continuar conosco. Mas, primeiro, deixe-me maquiá-la.

As mãos de Samantha eram leves, ligeiras e habilidosas. Em poucos minutos eu estava tremendamente maquiada. Ela colocou uma sombra em minhas pálpebras que realçou o tom chocolate dos meus olhos. O blush – aplicado estrategicamente – salientou as maçãs e a inou meu rosto; o rímel alongou ainda mais meus cílios naturalmente longos, e o lápis contornando meus lábios deu a impressão que eles eram mais carnudos do que o

normal, o que foi ainda mais acentuado pelo batom vermelho.

– Prontinho. Você está divina! Modéstia a parte, sou muito boa nisso! – Ela se virou e foi em direção a uma porta. – Vem comigo, garota! Está esperando o que?

Obedeci prontamente e me surpreendi com o closet imenso repleto de diversos tipos de igurinos, em sua grande maioria, brilhantes e chamativos. E todos, sem exceção, ousados. Muito ousados.

– Você quer ajuda para escolher? – Ela perguntou com a voz animada. Aparentemente estava gostando de ser a minha "professora".

Assenti com a cabeça com a certeza de que, se falasse, minha voz sairia um sussurro baixo.

– Que foi? O gato comeu sua língua, é? – Samantha já remexia nos cabides, negando com a cabeça para si mesma quando pegava uma vestimenta que achava inapropriada. – Ah, sim! Essa aqui!

Ela pegou um cabide com somente duas peças mínimas. Um mini (super mini) short preto de vinil e um top da mesma cor.

– Vai realçar seus cabelos loiros! – Ela me deu o cabide e me empurrou

para o trocador. – Enquanto você se troca eu vou falando, ok?

Bem...

Você

tem que relaxar. Isso é essencial, o show ica horrível quando você está travada, sem saber o que fazer, como agir. Todos percebem, e daí é ladeira abaixo. Sinta a música. Esqueça onde você está, quem você é, até mesmo qual o seu nome! Preste atenção na melodia e deixe seu corpo se movimentar de acordo com o ritmo. E o mais importante: não encare diretamente os clientes. Jamais. Isso é um tiro no escuro e você pode acabar acertando seu próprio pé. Certo?

– Certo.

Falei baixo, assim que acabei de me vestir, mas aparentemente alto o suficiente para Samantha escutar, já que ela abriu a porta.

– Ótimo, então você fala! – Ela sorria, e seus olhos desceram para meu corpo. – Uau! A roupa icou perfeita! Você vai arrasar, garota! Agora escolha uma das botas para completar o visual!

Obedeci, procurando um par que me servisse e calçando botas de cano alto, ganhando alguns centímetros com o salto altíssimo. Bateram na porta e, antes que Sam pudesse responder, Steven entrou.

– E aí? - Ele parou e me olhou. Minha vontade era de abraçar meu próprio corpo tentando cobrir o que conseguisse, porém lutei para me manter parada. Ele assoviou, e eu podia sentir minhas bochechas queimarem. – Arrasou, Cindy! Parabéns Sam, sua iniciante está linda!

– É claro! Eu nunca faço um trabalho mal feito, você Eles chegaram?

sabe...

Mas e então?

Eu não fazia a menor ideia de quem eles estavam falando, pela segunda vez agora. Mas devia ser alguém importante.

– Só um. Estranhei, mas não quis perguntar. Sabe como o humor deles é

instável...

– Steven falava com ar de veneração. Ou medo. Ou as duas coisas.

– Sim, eu sei bem. E, aparentemente, o humor está como? – Samantha cruzou os braços, a isionomia preocupada, tão diferente de segundos atrás.

– Aparentemente está bom. Mas nunca se sabe. – Ele se virou para mim:

Bem...

It´s show time! – Eu sorri, e Steven voltou-se novamente para a

morena: – Acho melhor você entrar primeiro. Assim, Cindy a observa e consegue entender melhor a magia da coisa. Angel acabou de descer do palco.

Samantha concordou e começou a desfazer o laço do robe de seda, entregando-o para Steven e revelando a roupa que usava: uma saia de couro dourado, um top que realçava muito o volume dos seus seios, meia- calça arrastão e botas de couro com uma imensa plataforma.

– Vem comigo, Cindy – Samantha falou, ajeitando os cabelos. – Observa direitinho para fazer bonito na sua estreia!

Ela saiu e Steven me passou o robe de seda, que tratei de vestir. Fomos os dois atrás de Samantha, que pegou um copo de champagne no caminho e bebeu de um gole só.

– Quebre a perna, querida - Steven desejou antes de dar-lhe um selinho. – Bom show!

Com o DJ já anunciando sua entrada, Sam subiu as escadas sem olhar novamente para trás. A música começou e pude ouvir alguns assovios animados vindos da plateia. Subi alguns degraus da escada, o su iciente para poder observar sem ser notada.

Samantha era dona do palco. Seus movimentos eram sincronizados e extremamente sensuais. Olhei para a plateia e vi muitos homens sentados, bebendo, alguns com mulheres ao redor. Todos estavam com a atenção voltada para ela. Sam os hipnotizava.

Um homem, em especial, estava completamente rodeado por mulheres. Todas o paparicavam, mexendo em sua gravata, na gola de sua camisa, em seu cabelo curto. Mas ele parecia só enxergar Samantha, que, por sua vez, abraçou-se à barra de metal existente no centro do palco e começou a dançar sensualmente.

O homem era musculoso; estava vestido formalmente – usava uma camisa social e tinha a gravata aberta desleixadamente –, mas ainda assim era possível perceber que era realmente muito forte. Ele apoiou os

cotovelos nos joelhos, inclinando-se para frente, como se a mínima distância ultrapassada com esse gesto fizesse toda a diferença.

Quando a música inalmente acabou, todos aplaudiram. Menos o homem, que voltou a se recostar no sofá de couro enquanto degustava um longo gole do uísque que tinha nas mãos, sorrindo malandramente, e em seguida uma das mulheres finalmente conseguiu reter sua atenção.

– Ah, graças a Deus foi tudo certo! – Sam desceu as escadas, o corpo ligeiramente suado, e Steven logo lhe entregou outro robe, dessa vez, negro. – E aí, o que achou Cindy? – Por um segundo eu não respondi. Esqueci que ela estava falando comigo, não estava acostumada a ser chamada por aquele nome. - Cindy?

– Oi? Ah, foi magní ico, Sam! Parabéns! – Ela sorriu, gostando de receber o elogio. – Aquele homem musculoso sentado bem de frente para o palco não desviou os olhos de você nem um segundo sequer! – Emendei.

Tanto Samantha quanto Steven me olharam.

– Que foi? – Perguntei, e eles cruzaram um olhar de cumplicidade. – O que foi? – Insisti.

– Veja bem,

garota...

– Steven tinha a voz séria. – Aquele homem, a quem

você se referiu, é Jodie Clarke. Um conselho de quem pouco a conhece, mas

não quer vê-la

encrencada...

Não se meta com os Clarke.

Ao ouvir aquele nome senti minhas pernas bambearem. Eu estava mais

perto do que procurava do que podia sequer imaginar! Mas, se aquele

homem se chamava

Jodie...

Onde diabos estava o tal do Leonard?

Olhei para Sam, que se esquivou de mim, baixando o olhar para os pés.

– Bom! – Steven forçou descontração na voz, diminuindo o clima pesado do ar. – A próxima é você, Cindy. Prepare-se, não vai demorar!

Ele saiu e nos deixou a sós, Samantha imediatamente se servindo de mais um copo de bebida. Dessa vez eu a imitei.

Sam...

Qual o problema com os Clarke?

Samantha sorveu um gole demorado da bebida.

– Os Clarke são uma das famílias mais ricas dos Estados Unidos, senão do mundo. Eles não gostam de aparecer muito na mídia, não são do tipo que precisam desse tipo de ostentação, entende? – Assenti. – Eles são os donos da Espartacus, logo, são os clientes mais importantes da casa. São muito exigentes. E gostam de individualidade. Pagam por isso.

– Individualidade? – Eu estava tão nervosa que minha taça já estava a menos da metade.

– É. Quando cismam com alguém, muitas vezes pagam para que tenham exclusividade. Não custa barato, claro. Mas isso não é problema algum para eles. Por outro lado...

– Por outro lado...? Samantha me olhou diretamente nos olhos.

– Por outro lado, pode se tornar um sério problema para nós. Individualidade e exclusividade, na maioria das vezes, geram intimidade. E é exatamente aí que mora o perigo.

Eu ia responder àquela a irmação da morena, mas Steven foi mais rápido:

– Cindy! – A voz dele vinha do alto da escada. – Vamos, querida, agora é sua vez!

Mordi o lábio inferior com força. Não sabia se teria coragem. A imagem de Chase instantaneamente veio à minha cabeça. Abatido, depressivo,

engolido pelo macacão laranja atrás daquele vidro blindado, a voz mecânica através do telefone. Minha coragem voltou com força ainda maior.

Tirei o robe e entreguei para Samantha, que me abraçou. – Quebre a perna, garota.

Engoli em seco e me dirigi às escadas, já escutando o DJ anunciar minha presença:

E

agora...

Uma pequena surpresa para os presentes! A mais nova

integrante da Espartacus Club! A sexy, a sensual, a

Diva...

Cindy!

Um foco de luz forte iluminou o último degrau da escada que levava ao palco. Minha respiração estava rápida e pesada; a mão que segurava o corrimão estava gelada e escorregadia de suor. A música começou a tocar. Era hora de agir.

Capítulo 6

Cindy

– Vai, Cindy! – Steven sussurrou atrás de mim, o tom de voz revelando irritação.

Sem pensar mais, respirei fundo e subi os degraus que faltavam. A música tocava tão alta que eu sentia as notas graves sacudirem meu corpo. Fechei os olhos. Inspirei profundamente. Comecei a dançar.

Eu nunca havia dançado para um público. Na verdade, eu sempre evitava qualquer ocasião ou evento em que eu precisasse dançar em público. Sempre fui muito introspectiva; nunca me senti confortável sendo o centro das atenções. Mas ali eu tinha que dar o meu melhor. Por Chase.

Segurei-me no mastro de pole dance e agachei até o chão, os olhos ainda fechados. Quando levantei, tomei coragem e os abri, enquanto ainda movimentava meu corpo da forma mais sensual que conseguia. Jodie Clarke – agora eu sabia seu nome – continuava sentado no mesmo lugar. Ainda havia várias mulheres ao seu redor, e ele ainda segurava um copo de bebida. Mas havia um detalhe diferente no quadro.

Tratava-se de um homem, parado ao lado de Jodie. Eu não conseguia enxergar muito bem de onde estava, com as luzes piscando e me impedindo de decifrar com clareza seus traços, mas eu tinha certeza de uma coisa: o homem me encarava diretamente, com os braços cruzados, parecendo que não havia nada mais ao redor senão o palco. Um arrepio percorreu todo o meu corpo.

Continuei me movendo no ritmo, tentando manter a mente vazia, os segundos parecendo horas intermináveis. Até que, graças a Deus, a música acabou. Por um momento mínimo o salão icou em silêncio. Depois alguém

começou a bater palmas e elas se espalharam, seguidas por gritos entusiasmados e assovios. Olhei para o homem misterioso, que continuava parado, os braços cruzados, sem expressar qualquer reação mais calorosa. Jodie Clarke olhou para cima e falou algo com ele, que, sem o encarar, assentiu brevemente com a cabeça, em seguida virando-se de costas e andando na direção contrária, até que o perdi de vista.

– Vem, Cindy! – Steven estava na escada. – Desce, já acabou! Obedeci, e assim que desapareci do palco ele me abraçou.

– Garota, você é um su-ces-so! – Ele me passou um robe e eu me vesti imediatamente. – Temos que melhorar algumas coisas, mas para a

primeira

vez...

Uau!

– Isso aí, Cindy! Arrasou! – Sam estava parada ao meu lado, uma taça meio vazia de champagne nas mãos.

Senti-me desconfortável por receber elogios a uma coisa de que, no meu íntimo, não me orgulhava nem um pouco. Steven e Samantha começaram a conversar animadamente, quando ouvimos passos na escada e olhamos naquela direção.

Os sapatos surgiram primeiro. Eram pretos e muito bem lustrados, como se estivessem sendo usados pela primeira vez. A calça risca de giz apareceu em seguida e o corpo do homem foi se revelando, esguio, alto e perfeito. Um arrepio percorreu meu corpo, mesmo sem haver qualquer tipo de vento canalizado onde estávamos. Então o homem inalmente chegou à base e eu pude ver seu rosto.

Os olhos, de longe, eram o que mais chamavam atenção. Verdes e faiscantes, sérios e misteriosos, eram emoldurados por sobrancelhas escuras e espessas, o que acentuava o tom singular. Mas tudo, absolutamente tudo nele era perfeito. Os cabelos negros, bagunçados

ligeiramente, forneciam um ar jovial e másculo. O maxilar era quadrado e bem de inido. Os ombros eram largos, característica realçada pelo terno de corte impecável. Era o mesmo homem que eu vira ao lado de Jodie Clarke, momentos antes. E era, também, o homem mais incrível que eu já vira na vida.

– Steven – o homem não olhou para mim, tampouco para Samantha. Sua voz era rouca e máscula. – Quero falar com você. A sós.

Passando por nós, ele entrou em uma sala. Steven nos encarou.

– Desejem-me sorte, garotas. Leonard Clarke não parece estar de bom humor.

Leonard Clarke! Steven havia dito Leonard Clarke!

Ele seguiu o mesmo caminho do homem misterioso e nós icamos ali, nos roendo de curiosidade. Assim que Steven fechou a porta, eu me virei para Samantha, me controlando para não revelar ansiedade:

– O que será que esse tal de Leonard quer? Sam não me olhou. Ainda encarava fixamente a porta fechada. – Não faço a menor ideia – respondeu.

Segui o olhar da morena. Minhas mãos suavam. A adrenalina corria abundantemente em minhas veias, o medo de ser descoberta quase me deixando sem ar.

– Ele não é nada simpático, não é mesmo? – Constatei. – Nem nos cumprimentou.

Samantha sorriu ironicamente, terminou num gole só a bebida borbulhante que esquentava em sua taça e me olhou.

– Leonard Clarke nos enxerga da mesma forma que enxerga essa mesa, Cindy. Somos meros objetos.

– Algo me diz que você não gosta dele.

A expressão de Samantha icou sombria e ela apoiou a taça sobre a mesa, fechando o robe contra o corpo e andando em direção ao camarim, sem falar nada. Eu a segui, também calada. Sam voltou a falar somente quando nos encontrávamos a sós lá dentro, com a porta fechada.

– Olha só,

Cindy...

Eu já falei uma vez e vou repetir, certo? Não é

aconselhável se envolver com os Clarke. – Ela se sentou em frente ao

grande espelho e pegou um lenço umedecido, começando a retirar a

maquiagem pesada. Então prosseguiu: – Muitas

acham...

Ou

achavam...

Que

conseguir a atenção dos Clarke era tirar a sorte grande, mais até do que

ganhar sozinha na loteria acumulada. Eu mesma achava isso.

Ela parou de falar e balançou a cabeça negativamente, retirando outro lenço da embalagem.

– E por que não acha mais? – Perguntei, ao que Sam parou de limpar o rosto, apoiou a mão sobre a penteadeira e me olhou, a face metade maquiada, metade limpa.

– Porque tudo isso perdeu a graça depois que Molly morreu.

Molly. A garota do caso de Chase. Samantha se levantou e foi para o closet, de onde voltou com um roupão felpudo nas mãos.

– Molly trabalhava conosco. Ela morreu há pouco

tempo...

– Sam engoliu

em seco, fechando os olhos. – Ou melhor, foi assassinada brutalmente há

pouco tempo atrás.

Ficamos em silêncio por alguns segundos. Estava sedenta por mais informações e não sabia quanto tempo mais aquele disfarce iria se

sustentar, mas queria dar oportunidade de Samantha se recompor. Menos tempo do que o necessário depois, minha ansiedade falou mais alto:

– E o que isso tem a ver com os Clarke?

Meu medo era ouvir o nome de Chase em alguma citação de Samantha. Meu coração parecia que ia sair pela boca; parecia que ele pulsava em minha garganta. Samantha mal acabou de retirar a maquiagem e, sem nenhum pudor, começou a despir-se ali, na minha frente, recolocando o roupão em seguida.

Cindy...

– Ela se aproximou de mim e o olhar era de piedade, como se

eu fosse uma criança muito nova para entender a verdade dos fatos. – A última vez em que soube de Molly, ela havia sido requisitada para participar de uma das reuniões privadas realizadas pelos Clarke.

Exatamente como Chase havia me contado. Até agora, a versão dele batia.

– Reunião privada? – Indaguei, como se não soubesse de nada. Até porque, eu precisava saber mais. Muito mais.

Sim...

Frequentemente os Clarke realizam algumas reuniões, a que

somente convidados especiais têm acesso. Elas acontecem sempre em locais diferentes, e, quando eles se interessam por alguém daqui, requisitam a Steven.

– Requisitam?

– Sim. E foi com relação a isso que eu disse que, antes, era uma verdadeira honra ser requisitada para uma dessas reuniões.

– Com

licença...

– Steven abriu uma brecha da porta. – Posso entrar?

Estão vestidas?

– Sim, Stew – Samantha respondeu enquanto prendia o cabelo num coque desleixado.

Steven entrou e fechou a porta, aproximando-se de nós.

Cindy...

– Olhei para ele, ainda estranhando por ser chamada daquele

nome. – Leonard Clarke quer falar com você.

Meu coração disparou. Ele sabe quem eu sou – pensei. De alguma forma, ele me desmascarou! Samantha me olhou com a expressão pasma, a boca aberta.

– Leonard não gostou dela? – A morena perguntou com a voz raivosa. – Você explicou para ele que era a primeira vez da Cindy? Pediu para que lhe desse uma oportunidade?

– Calma, Sam! Não é nada disso! – Steven voltou a me olhar. – Vai logo, Cindy. Não devemos deixar um Clarke esperando.

Eu não queria ir. Maldito plano estúpido! - pensei, a lita. Mas, não havia como retroceder. Assim, assenti e olhei para Samantha, que me incentivou. Segundos depois eu estava parada na porta da sala em que Leonard me aguardava. Resolvi entrar sem bater. Fechei a porta sem fazer ruído.

Leonard estava de costas, servindo-se de algo que, pelo barulho do gelo batendo no copo, constatei ser uísque. Eu podia sentir sua presença preenchendo todos os espaços daquela sala, que parecia apertada demais para comportá-lo. Suas costas eram largas sob o terno risca de giz bem cortado. Os cabelos negros eram bem aparados em sua nuca, onde havia uma pequena e charmosa pinta do lado esquerdo.

O homem emanava autoridade. Emanava poder. Emanava sexo. – Boa noite – falei.

Minha voz quase saiu falhada. Abracei o robe de seda contra o corpo, o tecido ino e gelado me causando arrepios. Leonard não me respondeu. Virou-se para mim, o copo de uísque na mão, a garrafa da bebida pela metade na mesa atrás de si.

– Tire o robe.

Sem qualquer apresentação, a voz rouca cortou o ambiente. Engoli em seco, a pouca saliva machucando minha garganta pelo caminho. “Ele não sabe quem eu sou” – pensei, aliviada.

– C-como? Leonard inspirou fundo e se aproximou um passo de mim. – Tire. O. Robe. – Repetiu, pausadamente.

Os olhos verdes de Leonard eram penetrantes e inebriantes. Lembrei- me da roupa que eu usava por baixo do robe de seda: um short de vinil e o top decotado do conjunto, expondo mais do meu corpo do que eu estava acostumada a revelar normalmente, ainda mais para um estranho. Um estranho misterioso e sedutor, mas nada mais que um estranho. E um provável assassino, que deveria estar preso no lugar do meu irmão.

O medo voltou com força total. Estávamos só Leonard e eu ali, e era notório o quanto todos naquele lugar o respeitavam e temiam. Ele poderia fazer qualquer coisa comigo e nada aconteceria.

Como permaneci imóvel, sem obedecer, Leonard apoiou o copo na mesa e se aproximou ainda mais de mim, calmamente, como um felino selvagem observando a presa desejada. Ele parou com o corpo a pouca distância do meu e olhei para cima, nosso olhar se cruzando por um breve momento. Então suas mãos enlaçaram a faixa em torno da minha cintura.

– Aprenda uma coisa, e essa é a única vez que

ensinarei...

– A voz de

Leonard era rouca e baixa, fazendo minha respiração sair descompassada.

– Nunca,

jamais...

Desobedeça-me novamente. Entendeu?

O perfume que emanava dele era másculo e amadeirado, e eu podia jurar que estava icando com água na boca. Assenti uma única vez com a cabeça. No segundo seguinte, Leonard desfez o laço e meu robe deslizou por meu corpo, indo parar no chão, aos nossos pés. Senti meu rosto corar completamente em instantes. Minha face queimava. Meu corpo inteiro queimava.

Eu nunca tinha me sentido daquela forma, antes. Meu peito subia e descia freneticamente; eu podia ouvir o som da minha respiração, o ar entrando e saindo de meu organismo de forma entrecortada. Os olhos de Leonard percorriam todo o meu corpo, analisando-me cautelosamente dos pés à cabeça. – Vire de costas. Dessa vez eu nem pensei duas vezes; meu corpo automaticamente obedeceu àquela ordem e rapidamente eu me encontrava como ele mandara. Leonard se aproximou um passo, a cabeça levemente inclinada, os olhos ixos em meu quadril. Estremeci ligeiramente quando a mão grande e de dedos longos tocou meus cabelos, jogando-os por cima do meu ombro direito, expondo meu pescoço. A respiração de Leonard escovou minha pele, arrepiando meus poros. Fechei os olhos e, com bastante concentração, pude sentir o seu hálito. Era intrigante e convidativo, almiscarado com um leve odor do álcool que ele acabara de ingerir. Quando inalmente abri os olhos, Leonard havia se afastado ligeiramente. Por cima do meu ombro, onde antes eu sentia sua respiração, estava a sua mão, portando um cartão preto entre os dedos. Levei minha mão lentamente até o cartão e o segurei pela ponta, mas

Leonard não o soltou. – Sábado à noite – disse. – Sem atraso.

Então ele inalmente largou o cartão, passou por mim e saiu pela porta, sem nem cogitar olhar para trás.

Meus ombros caíram e minha respiração deixou meu corpo em uma lufada. Olhei para o cartão. Era todo preto, inclusive as pequenas letras, que se destacavam apenas por ser em outra textura e em alto relevo, no canto inferior direito. "Private Pass" - era o que estava escrito.

Eu reli a pequena frase umas três vezes, meu cérebro tentando processar tudo o que havia acontecido.

– Cindy? – Steven en iou a cabeça por uma fresta da porta, e Samantha brigava por um espaço para enxergar também. – Podemos entrar?

Assenti em silêncio, desnorteada demais para emitir qualquer ruído. Eles se aproximaram e Steven tratou de pegar o pequeno cartão de minhas mãos.

– Minha mãe

santíssima...

– Ele sussurrou com os olhos arregalados, a

cor se esvaindo da pele.

– O que foi? – Samantha olhou para as mãos dele e também arregalou os olhos. – Oh! Não sei se digo boa sorte ou sinto muito, garota.

– O que eu faço agora? – Perguntei. – O que, exatamente, isso significa? Steven e Samantha se encararam.

– Esse cartão,

Cindy...

– Steven falava baixo, como se fosse um segredo. –

Ele é um passe individual para uma reunião privada que os Clarke promovem vez ou outra.

Voltei a olhar para o pequeno e discreto cartão preto em minhas mãos. – Aqui não diz horário. Nem endereço. Ele me mandou não atrasar,

como vou saber

que...

?

– Ele sabia que você iria me perguntar. – Olhei para Steven, sem entender a colocação. – As escolhidas sempre saem daqui, às oito horas,

em ponto. Mas, com relação ao

endereço...

Isso eu não sei, as reuniões

sempre ocorrem em lugares diferentes a cada vez.

Não conseguia desgrudar os olhos do cartão. "Private Pass". No que eu estava me metendo?

– Bom,

eu...

Eu preciso ir. Já está tarde, vão sentir minha falta.

Peguei o robe no chão e, quando ia sair, Steven segurou meu braço.

– Vejo você amanhã à noite, não é? Seria bom você voltar aqui mais uma vez antes de se encontrar com o Sr. Clarke. Para conversarmos, sabe como é.

Não. Eu não sabia como era. – Sim, Steven. Estarei aqui amanhã à noite, no mesmo horário.

Fui para o camarim, me troquei e, quando estava tirando a maquiagem, Samantha entrou.

– Oi, Cindy – Sam parou atrás da cadeira, me encarando através do espelho enquanto eu passava um lenço umedecido no rosto. Não falou mais nada até que eu acabasse.

–- Então é isso, Sam – falei, me levantando e pegando minha bolsa. –- Até amanhã.

– Cindy...

Olhei para ela. Samantha estava receosa em falar, dava para sentir sua hesitação.

– Fale, Sam. Pode falar.

Ela suspirou e se aproximou de mim. –

Cindy...

Não vá. Não se envolva com os Clarke. Digo isso por

experiência própria. Experiência própria? - pensei.

– Isso mesmo – ela respondeu, como se tivesse lido meus pensamentos. – Experiência própria, Cindy. Lembra quando disse que se envolver com os Clarke poderia ser perigoso?

– Sim. Sim, eu me lembro.

– Exato. Eu estou nessa vida há muito tempo, Cindy. Posso dizer com certeza que nada, absolutamente nada, se compara a essas reuniões. É algo do tipo que você não consegue mais sair depois que se envolve demais...

Respirei fundo. Que escolha eu tinha?

– E há outro fator. Um pior – ela continuou, vendo que não estava conseguindo me convencer.

– Que outro fator? O que pode ser pior do que as coisas que você está me dizendo?

Samantha deu mais um passo em minha direção e apoiou as mãos em meus ombros, olhando diretamente em meus olhos.

– O pior,

O risco

É você gostar. Veja bem,

Os

Clarke

Perfeitos! Ricos. Poderosos. Belos. Cavalheiros na hora certa.

Cafajestes na hora certa, também. E isso pode

ser...

viciante. Entende?

– Não acredito que isso possa vir a acontecer comigo, Samantha. – Foi o que disse a ela. Eu jamais me viciaria no homem que provavelmente deveria estar preso no lugar do meu irmão; foi o que verdadeiramente pensei.

Samantha arqueou as sobrancelhas, surpresa com minha convicção.

Agora tenho realmente que ir – disse. – Não quero que

percebam minha ausência. Até amanhã, ok?

– Ok,

Até amanhã, garota.

Saí de lá ainda meio desnorteada, e agradeci a Deus quando o táxi parou rapidamente para me levar para casa. Ou melhor, para o quarto de Chase onde Victor estava, rezava eu, ainda dormindo. Coloquei a chave e girei com o máximo de cuidado. Abri a menor fresta possível da porta, o mínimo necessário para que meu corpo conseguisse atravessá-la.

A pequena TV ainda estava ligada e a claridade me deixou enxergar a desordem sem que eu esbarrasse em nada. Victor dormia em sono solto. Tirei a roupa e vesti uma mais leve, sem pensar em tomar uma ducha. Não podia me dar ao luxo de acordar Vic e ter que explicar onde estava, pois além de saber que ele não acreditaria facilmente em qualquer mentira, eu ainda teria de acordar cedo no dia seguinte; precisava procurar a promotoria e descobrir exatamente de que Chase estava sendo acusado, além de ter que pensar numa forma para conseguir-lhe uma defesa decente.

A única cama existente no quarto era de solteiro e de initivamente pequena demais para nós dois, tendo em vista que os músculos de Victor ocupavam praticamente todo o espaço disponível. Olhei ao redor. A outra opção que eu tinha era a poltrona velha de couro rasgado, que com certeza destruiria minha coluna. Aproximei-me e sentei na beirada da cama, Victor agarrando imediatamente minha cintura e me puxando para perto de si,

gemendo baixo.

Deitei-me lentamente, tentando ao máximo não acordá-lo. Aconcheguei- me em seu peito e ele me abraçou por instinto.

– Shhh,

Cath...

– Vic murmurou com a voz embargada de sono. – Não

precisa ter medo, tudo vai acabar bem.

Suspendi a respiração e em pouco tempo os músculos de Victor relaxaram, e ele tornou a apagar. Fechei os olhos, concentrando-me em sua respiração pesada e compassada, até que finalmente adormeci.

Capítulo 7

Cath

Quando acordei na manhã seguinte, estava sozinha no pequeno quarto. Tomei um banho demorado e ao sair me deparei com Victor, que havia chegado da rua com nosso café da manhã.

– Patrícia acabou de ligar – Vic foi dizendo, enquanto me servia um copo de suco de laranja. – Disse que daqui a meia hora ela e Brian passarão aqui para levá-la ao fórum, Catherine. Melhor se apressar.

Concordei e tomamos café, calados. Pouco tempo depois estava no carro, indo em direção ao fórum de São Francisco.

– Você quer que eu a acompanhe, Catherine? – Brian ofereceu educadamente, sempre solícito. – Eu sei que também não entendo muito, mas é bom ter alguém com a cabeça fria, nessas horas.

– Claro! É muita gentileza sua,

Brian...

Obrigada!

O trânsito em São Francisco estava um caos. Quando inalmente chegamos ao fórum, a simples tarefa de encontrar uma vaga para estacionarmos tornou-se uma aventura. Assim, Patrícia nos deixou lá, voltando para encontrar Victor no pequeno quarto que Chase alugava.

O prédio onde se localizava o fórum da cidade era grande e majestoso, e levamos algum tempo para descobrirmos onde conseguiríamos ser atendidos. Quando inalmente chegamos à sala indicada, fomos prontamente atendidos por um jovem promotor. Ele era baixo, apresentava sinais de calvície e era, na medida do possível, simpático.

– Bom dia – disse o promotor, apontando cadeiras para que Brian e eu nos sentássemos. – Meu nome é Oliver Scott. Vocês vieram para se

informar com relação ao caso Estado contra Chase Zimermann, correto? Ele era direto. Não queria perder tempo.

– Sim, Doutor – foi Brian quem respondeu. – Sou Brian McCallister e essa é Catherine Zimermann, irmã de Chase.

O promotor sentou-se atrás da imensa mesa de mogno e abriu uma pasta, a qual analisou rapidamente e voltou a nos encarar.

– Infelizmente, sinto dizer que o caso de Chase Zimermann é bastante delicado. Ele já possui duas passagens pela polícia, uma por lesão corporal e outra por arrombamento. – Fiquei em choque ante tal revelação e ante a naturalidade com que o promotor falava. Ele pareceu não notar meu estado e continuou: - Agora, Chase está sendo acusado de estupro seguido de morte, um crime que se enquadra como hediondo.

Brian e eu ficamos calados, esperando que o Dr. Scott prosseguisse:

– Eu não sei se vocês conhecem as leis do Estado da Califórnia – o promotor fez uma pausa, e tanto eu quanto Brian negamos com a cabeça. – Existe uma expressão, inspirada no baseball, bastante utilizada para de inir nossas leis estaduais, que é: "Three Strikes Laws". Utilizando as regras do esporte para que vocês entendam melhor, e sse jogo tem uma regra básica que estabelece que um rebatedor possui apenas três tentativas para rebater a bola, sob pena de ser eliminado do jogo. Cada uma das chances perdidas é chamada de strike. Sendo assim, as leis denominadas Three Strikes Laws punem, de forma especialmente severa, o criminoso condenado pela terceira vez, deixando-o, literalmente, fora do convívio social por um longo lapso temporal. Na verdade, o pressuposto dessas normas é de que esses indivíduos não são passíveis de reabilitação. E,

como Chase agora responde a um crime condenado à pena máxima.

hediondo...

Receio que ele será

Pena máxima? - meu cérebro começou a processar as palavras tão rapidamente que minha cabeça começou a latejar.

– Pena máxima, Doutor? – Brian indagou. – Isso significa...?

– Pena de morte – Dr. Scott falou calmamente. – Injeção letal ou cadeira elétrica.

Senti meu coração parar de bater.

- Mas o Senhor disse que Chase foi apenas indiciado pelos crimes

anteriores...

Não condenado! – Brian rebateu, incrédulo. – E, se ele não foi

condenado, não é reincidente.

– Ocorre que tais indiciamentos são o bastante quando o delinqüente pratica um crime hediondo, Sr. McCallister. E tenho certeza que o júri concordará comigo. – Era notória a vontade daquele promotor em condenar meu irmão. Visivelmente, ele faria de tudo para enviá-lo à cadeira elétrica. - Temos provas irrefutáveis de que o acusado esteve com a vítima na noite fatídica. Suas impressões digitais estavam presentes na cena do crime, bem como seu DNA. Sinto muito, Srta. Zimermann.

Sinto muito? O que diabos ele queria dizer com aquilo?

– Não precisa sentir – falei, colocando-me de pé. Não queria mais icar ali, com alguém que já tinha estereotipado meu irmão como culpado. – Chase é inocente e vamos provar isso!

O promotor me olhava com condescendência.

– Desculpe-me, estou apenas exercendo meu trabalho. E meu trabalho é deter criminosos sem escrúpulos soltos pela cidade. Sinto muito se seu irmão se enquadra nesse perfil.

Meu sangue ferveu.

– Ele não se enquadra nesse per il imundo que você descreveu! E eu provarei isso!

Dr. Scott se levantou e me estendeu a mão. – Boa sorte, Srta. Zimermann. Você, definitivamente, irá precisar. Saí da sala deixando a mão do promotor pairando no ar.

Brian e eu seguimos em silêncio pelo imenso corredor. Era notório que ambos estávamos absorvendo o impacto da conversa com o Dr. Scott, que não havia sido – nem de longe – reconfortante e animadora. Ao contrário, na verdade. Eu havia acabado de descobrir que meu único irmão, a única pessoa que eu ainda tinha de minha família, estava com sério risco de ser condenado à morte, por um crime estúpido que ele a irmava não ter cometido.

– Nós vamos contratar um bom advogado e tudo vai acabar bem, Catherine – Brian falou, encarando o vazio a sua frente, provavelmente sem coragem de me olhar e transparecer que nem ele mesmo acreditava no que dizia. – Ah, Brian! Eu também estou preocupada com isso! Vou conversar com vocês quando nos reunirmos, tenho que contar o que decidi. – E o que você decidiu? – Brian parou de andar e me encarou.

Suspirei fundo e resolvi contar logo para Brian; a inal, ele estava ali comigo, ajudando-me sem ter a menor ligação com a situação. Podia considerá-lo um amigo fiel.

– Decidi permanecer em São Francisco até tudo estar de inido. Arrumarei um emprego, ou dois, para conseguir pagar uma boa defesa para Chase.

– Eu concordo que você tenha que permanecer em São Francisco. A inal seu irmão está aqui e, pelo menos por enquanto, sem previsão de saída. Você deve icar perto dele; mais do que nunca, Chase vai precisar de sua ajuda.

– Que bom que você entende, Brian. Sei que vai ser bem mais di ícil com Vic e com Patrícia.

– Pode deixar que com Paty eu converso, Catherine – sorri. – Mas tem uma coisa nisso tudo que terei de discordar.

– Com o quê? – Perguntei.

– Com a parte de você ter que se matar em dois empregos para poder pagar uma boa defesa para Chase. Ainda mais sabendo que, para contratar um advogado realmente bem conceituado, você teria que arrumar no mínimo uns quatro bicos por aí.

Mas o que ele estava dizendo? Que eu tinha que dar de ombros e deixar Chase nas mãos de um defensor público? Jamais!

– Eu não deixarei meu irmão na mão, Brian. Sei que será di ícil e cansativo, mas não deixarei Chase ser defendido por um advogado de porta de prisão qualquer. Eu nunca me perdoaria se ele morresse sem que

eu tivesse lhe dado uma defesa disponível!

chance...

Sem que tivesse lhe dado a melhor

Brian concordava com a cabeça enquanto eu falava, como se eu estivesse completamente correta em minhas convicções, e isso me deixou confusa. O que diabos ele queria que eu fizesse, então?

– Eu não estou dizendo que Chase não terá a melhor defesa existente. Estou dizendo que acho errado você literalmente se sacri icar para pagar um advogado que não chegará aos pés da melhor defesa. Estou dizendo

que eu mesmo vou arcar com essa despesa.

Abri a boca para falar, mas o ar não entrou em meu organismo, logo não consegui formar um único som. Eu tinha plena consciência de que Brian era muito rico; sua família possuía diversas indústrias espalhadas pelo mundo, tendo Brian como único herdeiro. O que eu nunca poderia imaginar é que ele se disponibilizaria a ajudar meu irmão. A inal, eu mesma não era muito mais do que uma desconhecida para ele; nada mais que a amiga meio depressiva e inconsequente de Patrícia.

Senti meus olhos encherem-se de lágrimas, mas me contive. Eu não poderia aceitar. Poderia? – Brian, eu... – Por favor, Catherine, não diga que você não aceitará. Eu conversei com

Paty sobre esse assunto ontem à noite, e ela me disse que era exatamente isso que você faria. Pense bem: seu irmão está em uma situação extremamente delicada. Esse não é momento para orgulho, e eu realmente

quero ajudar. Por você, por

Chase...

Por

Patrícia...

Simplesmente aceite.

Engoli as palavras e expirei o ar. Brian estava coberto de razão. Aquele não era, de initivamente, o momento certo para eu usar meu orgulho. Eu seria totalmente estúpida se recusasse aquela oferta.

– Muito, muito obrigada Brian. Espero um dia poder retribuir. Brian sorriu amigavelmente.

– Ficarei plenamente satisfeito se tudo valer a pena. É só isso que importa nesse caso.

Nós seguimos em frente e agradeci mentalmente por Brian estar resolvendo um problema de seu trabalho pelo celular, pois dessa forma eu poderia me afundar em meus próprios devaneios.

Eu estava ansiosa para que chegasse o dia seguinte. Para que chegasse logo o momento de me encontrar com Leonard Clarke e tentar descobrir alguma pista, qualquer coisa, por menor que fosse, que pudesse aliviar o problema de Chase. Mas, antes da noite do dia seguinte, eu ainda tinha que me preocupar com o presente. Antes de mais nada, eu tinha que encontrar um jeito convincente de despistar Victor, para poder sair tranquilamente e ir até a Espartacus. E ainda teria que tomar uma injeção de coragem para subir novamente naquele palco.

Chegamos ao quarto que era de Chase e encontramos Patrícia falando ao celular sentada na poltrona de couro em frangalhos. Victor estava de costas, arrumando sua bolsa sobre o colchão.

– Sim,

sim...

Então ele está fora de perigo? – Paty levantou-se quando

entramos e abraçou Brian. – Ótimo. Muito obrigada!

– O que houve? – Perguntei. Victor virou-se ao escutar minha voz, e pude constatar que ele havia chorado. Ultrapassei o pequeno espaço que havia entre nós como um jato. – O que houve, Victor?

Eu o abracei, mas meu corpo era pequeno demais para lhe dar o conforto que pretendia.

– Meu

pai...

O barco em que ele e Henry estavam pescando

virou...

Ele

caiu no mar, quase se afogou...

– Calma, Vic. Eu ouvi Patrícia dizendo que ele está fora de perigo. Vai ficar tudo bem!

Ele me soltou e me encarou, os olhos cheios de tristeza. – Perdão, Cath. Eu prometi que icaria ao seu lado nesse

momento...

Mas

preciso ver meu pai! – Victor! Você está maluco? – Ele olhou para baixo e segurei seu queixo,

forçando-o a me encarar. – É claro que você tem que ir ver seu pai! Eu não preciso desculpá-lo por nada! Sou eu que preciso pedir desculpas, por não

estar lá com você nesse

momento...

A inal, você sempre esteve comigo, ao

meu lado, nas horas em que mais precisei. Só me prometa que me ligará assim que chegar lá.

– Eu amo você – Victor ignorou minha ultima frase. – Voltarei o mais rápido possível.

– Tudo bem, ique tranquilo. Tim precisa de você. Você já me ajudou demais, Vic.

Surpreendendo-me mais uma vez naquele dia, Brian ofereceu carona a Victor, a irmando que precisava voltar de qualquer forma para resolver problemas de trabalho. Insisti para que Paty fosse com eles. Não queria que ela icasse ali comigo, longe de Brian. A inal, o dia seguinte era sábado, e não havia muito que fazer no inal de semana. E, principalmente, iz isso porque seria mais fácil icar sozinha do que ter de explicar aonde iria de noite.

Eles acabaram de arrumar as coisas rapidamente e partiram, com Victor prometendo que ligaria assim que chegasse e a irmando que voltaria antes que eu notasse sua ausência. Percebi que isso era mentira: assim que Vic passou pela porta, o quarto ficou maior e mais gelado.

Capítulo 8

Cindy

Tomei um banho para relaxar, mas as palavras do promotor ecoavam em minha cabeça, tornando impossível tal façanha. Descobrir que Chase já respondera por outros crimes, e pior, que ele me havia sonegado tal informação nesse momento de crise, me deixava nervosa e irritada. Banho nenhum iria dissipar minha tensão, eu devia ter imaginado.

Quando saí do banheiro, estava com fome. Não havia almoçado e fui até uma lanchonete que havia na esquina comprar um sanduíche. Andando naquela direção, não resisti e comprei um chip de celular em uma banca de jornal.

Ao voltar, joguei o sanduíche e o refrigerante sobre a mesa e sentei-me no sofá. Tirei o chip do meu aparelho e coloquei o novo, ligando-o em seguida. Fiquei algum tempo encarando o telefone, decidindo se era uma sábia atitude a que eu estava prestes a tomar.

Bem, que mal havia? Dei de ombros, peguei a pequena agenda e fui até a letra "L". Leonard Clarke.

Disquei o número e esperei. Um toque. Dois. Três. Quatro. Já havia tirado o fone da orelha quando ouvi a voz.

Aquela maldita e maravilhosa voz.

– Leonard Clarke. – Parei de respirar, como se ele pudesse identi icar quem era somente pelo barulho de minha respiração. – Alô?

Menos de um segundo de silêncio depois, o homem desligou na minha cara. Pelo visto, Leonard Clarke não gostava de esperar.

Levantei-me e fui até a mesa. Estava tomando um gole de refrigerante quando meu celular tocou, fazendo-me engasgar, o líquido gasoso voando pela sala. Coloquei a mão sobre o peito e iquei ali, com a blusa toda molhada, olhando o celular acender e apagar na medida em que tocava. Até que parou.

Deixei meus ombros caírem e voltei a respirar. Quando meu coração estava voltando a se acalmar, o celular tocou novamente. Peguei o aparelho e abri o flip, levando-o ao ouvido, sem falar nada.

– Alô. Quem fala? – A voz grave soou impaciente.

Engoli em seco e o silêncio reinou na linha. A única coisa que eu escutava era a respiração pesada de Leonard Clarke, tão próxima ao aparelho que eu podia sentir como se estivesse em meu pescoço, e recordei-me perfeitamente do nosso último – e único – encontro, meu corpo respondendo instantaneamente, um arrepio me envolvendo em um abraço.

Percebendo que não podia mais voltar atrás, criei coragem e falei:

– B-boa tarde, Leonard. Aqui quem fala é Cindy, da Espartacus Club. O silêncio reinou na linha mais uma vez, o barulho da estática deixando- me angustiada. – Onde você conseguiu esse número? – A voz dele era fria e áspera. – Tenho meus contatos. – Ele não respondeu. – Eu liguei porque, ontem, você foi embora de nossa conversa antes que eu pudesse lhe dar uma resposta sobre o convite que me fez. Novamente Leonard nada disse. Que situação desconfortável! Minhas mãos suavam frio. Como aquele homem conseguia meter medo daquela forma – e àquela distância?

Eu...

– Forcei a voz para que saísse irme e determinada. – Bem,

infelizmente, não sei se poderei ir. Tenho um compromisso amanhã.

– Cindy? Engoli em seco antes de responder:

– S-sim?

– Aquilo não foi um convite. Foi uma ordem. Uma intimação. – Senti meus músculos enrijecerem assim que ele acabou de falar. E, com relação a

você entrar em contato direto com meu número

particular...

– Leonard fez

uma pausa e minha respiração ficou suspensa. – Que isso não se repita.

Então ele desligou e eu deixei meu corpo desabar sobre a cama. Como ele podia ser tão babaca? Como alguém podia tratar outra pessoa de maneira tão fria e insensível?

– Idiota! – Xinguei em voz alta, levantando-me e tirando a blusa suja de refrigerante.

Quando acabei de comer, decidi me forçar a dormir. Teria que voltar a Espartacus à noite, e seria bom que estivesse descansada para tanto. Só de pensar que veria Leonard Clarke novamente, um arrepio percorreu minha espinha.

Capítulo 9

Cindy

Acordei com o toque incessante do meu celular, mas não levantei a tempo de atender a ligação. Era Victor, provavelmente para dizer que havia chegado bem e contar como estavam as coisas em casa. Olhei no relógio e constatei que estava atrasada – havia dormido demais. Retornaria a chamada depois. Arrumei-me com pressa; estava muito nervosa. A probabilidade de encontrar com Leonard era enorme e eu realmente acreditava que ele iria ser ríspido como antes, ao telefone.

Fiz um lanche rápido, me arrumei e peguei um ônibus até a Espartacus. Eu não tinha muito dinheiro e não podia icar gastando as minhas economias, que não eram muitas, em viagens de táxi.

Parei do outro lado da rua onde icava a boate e abracei meu corpo. Sabia que estava me envolvendo em algo que tinha grandes probabilidades de me arrepender no futuro. Suspirei fundo. Quando coloquei o pé na calçada para atravessar, um carro completamente preto parou em frente ao Clube, o segurança abrindo a porta imediatamente. Recuei um passo atrás. Leonard saiu do carro elegantemente, a isionomia séria, o olhar de esmeralda sombrio. Estava diferente da última vez em que eu o vira; no lugar do terno bem cortado e alinhado, usava uma calça jeans escura e uma camisa em gola “V” cinza, as mangas repuxadas até o cotovelo. Parecia impossível, mas ele estava ainda mais atraente.

Bateu a porta atrás de si e por um segundo eu me encolhi, achando que ele me veria ali. Mas, ao invés disso, Leonard rapidamente adentrou na Espartacus, sem nem cumprimentar o segurança que abriu a porta para que ele passasse. O carro em que ele chegara partiu e a rua voltou a icar deserta.

Olhei no relógio. Já estava tarde. Steven devia estar achando que eu havia desistido. Respirei fundo e atravessei a rua, entrando no estabelecimento.

O salão estava super movimentado. As atendentes passavam rápidas de um lado para o outro, mal notando minha presença. Olhei ao redor, analisando o local com calma, sabendo quem meus olhos involuntariamente procuravam. Ele.

Uma corrente elétrica invadiu meu corpo quando, en im, meus olhos pousaram em sua imagem. Estava sentado em um sofá, numa área cercada por cordões e seguranças. Olhava seu celular e estava sozinho. Havia um copo de uísque na mesa baixa de vidro à sua frente, e a luz da vela que ali jazia iluminava levemente seu rosto. Um vinco profundo marcava o meio dos seus olhos; o cabelo – terrivelmente sexy – caía sobre a testa de forma irritantemente excitante.

Meu corpo involuntariamente se moveu naquela direção, como se um imã me sugasse para perto dele. Quando estava apenas a alguns metros, estanquei. Uma mulher alta, negra, com um corpo deslumbrante embalado por um justo e belo vestido vermelho, ultrapassou a corda que separava Leonard do resto dos reles mortais e se sentou ao seu lado. Imediatamente uma atendente veio até ela, que sorriu de forma esnobe e aceitou o Cosmopolitan que lhe era servido. Não pude deixar de perceber que Leonard sequer levantou os olhos para a beldade. Era como se ele permanecesse sozinho.

– Dominique Weber. – Saltei de susto ao escutar a voz que emergia às minhas costas. Olhei para trás e Samantha olhava na mesma direção que eu, o olhar impassível.

– Quem? – Perguntei.

– Ela trabalhava aqui – Samantha en im me encarou. Já estava devidamente maquiada, mas ainda com roupa comum. – Agora a clientela dela é outra.

Voltei a olhar para Leonard, que então conversava com a mulher – Dominique, agora eu sabia o nome dela – ouvindo sério e calado o que ela dizia. Ele parecia entediado.

– Você não estava pensando em ir até lá antes de eu chegar aqui, né? – Samantha me analisava intensamente. – Porque seria a ideia mais idiota que você poderia ter, Cindy!

– Não! – Menti. – Claro que não!

– Steven estava quase arrancando as calças pela cabeça, achando que você não vinha. Vários clientes a elogiaram e ele já havia prometido sua presença!

Sorri forçadamente e Samantha começou a andar, me puxando pela mão. Quando já estávamos no andar de baixo, dentro de seu camarim, eu não resisti:

– Sobre aquela tal de

Dominique...

– Sam olhou-me através do espelho,

um grampo na boca, a mecha do cabelo paralisada na mão. – O que você quis dizer com "a clientela dela agora é outra”?

Samantha suspirou, pegou o grampo e prendeu agilmente a mecha, conferindo o resultado antes de me encarar novamente.

– Lembra quando eu disse que os Clarke gostam de exclusividade? – Assenti. – Foi assim com Dominique. Agora ela só trabalha nas reuniões particulares dos Clarke.

Mas...

A reunião não é amanhã?

Samantha deu de ombros e voltou a se entreter com o penteado. – A que você tem conhecimento, sim.

Recostei no sofá e pensei no que Sam dissera. Então Dominique era

exclusiva dele?

– Acho melhor você se trocar – Samantha falou. – Você entra logo depois de mim. Deixei uma roupa separada, acho que você vai gostar. Até daqui a pouco!

Samantha deixou o camarim em direção ao palco. Fui até o closet e me troquei. Bateram na porta e senti meu coração parar. Steven apareceu com um sorriso no rosto.

– A senhorita nunca mais apronte uma dessas, ouviu, dona Cindy? Eu já estava infartando! Está pronta?

Assenti, vestindo um robe. Estava ansiosa; precisava fazer o meu melhor, para conseguir aproximar-me de Leonard Clarke o quanto antes. Cada segundo que passava meu irmão estava mais perto da morte.

Parei na mesa que havia no corredor e me servi de uma taça de champagne. Não tardou para que eu escutasse os aplausos vindo do andar de cima. Pouco tempo depois, Samantha surgiu ao meu lado, desejando-me boa sorte em minha apresentação. Agradeci e tirei meu robe. Estava no penúltimo degrau antes mesmo de ser anunciada. Não faço a mínima ideia do que o DJ falou antes de eu entrar. Não faço ideia da música que ele colocou para minha apresentação. A única coisa na qual pensava quando subi naquele palco, era em localizar o olhar dele.

Procurei através dos holofotes, enquanto meu corpo se mexia instintivamente. Então, enfim, o encontrei. Leonard continuava no mesmo local, mas agora, além de Dominique, Jodie Clarke e mais duas mulheres

lhe faziam companhia. Olhei ixo para ele durante todo o tempo em que estive no palco. Leonard, contudo, não encontrou meu olhar uma única vez. Não olhou em minha direção. Ele simplesmente ignorou a minha existência.

Mal ouvi a música parar. As palmas surgiram e continuaram ressoando em meus ouvidos, mesmo quando eu já havia sumido através da escada no fundo do palco. Fui praticamente correndo até a mesa onde Steven estava parado e literalmente roubei o copo de uísque de seus lábios, sorvendo todo o líquido amargo num único gole, longo e demorado. Fechei os olhos com força – uma reação à queimação em minha garganta – e, no mesmo instante, a imagem de Leonard surgiu por trás de minhas pálpebras.

– Tudo bem com você, Cindy? – A voz de Steven soou preocupada. – O show foi ótimo, você estava ainda mais perfeita do que ontem!

– Eu

estou...

Eu preciso ir, Steven – virei-me e comecei a andar em

direção ao camarim.

– Cindy! Cindy! – Ouvi Steven andando depressa para me alcançar. – Não se esqueça de que amanhã você tem um compromisso inadiável, hein, garota?

Dei um sorriso forçado – que, a contar pela expressão de Steven, deve ter sido mais parecido com uma careta – e entrei no camarim. Agradeci intimamente por Samantha não estar mais lá: havia somente um bilhete escrito em um guardanapo e preso na moldura do espelho circundado de luzes, onde ela dizia que precisara partir para um compromisso e onde anotara seu número de celular.

Guardei o papel em minha bolsa e me sentei na cadeira em frente ao espelho. Que merda estava acontecendo comigo, a inal? Onde diabos eu havia me metido? O que era necessário fazer para me aproximar de Leonard e, o mais importante, comprovar que ele provavelmente era o

verdadeiro culpado pela morte de Molly? – Droga de vida – suspirei comigo mesma, enquanto caminhava até o closet. Escolhi um longo sobretudo preto. Não estava com ânimo nem para trocar de roupa. Passei a bolsa lateral pelo meu corpo e saí, segurando o casaco para mantê-lo fechado. Meus cabelos esvoaçavam contra o vento frio que batia, zumbindo em meus ouvidos. As ruas estavam vazias – a virada do tempo espantara todos os transeuntes. Parei em frente a um pequeno bar, que naquele momento me pareceu tremendamente quente e aconchegante. Minhas pernas se moveram para seu interior, sem que eu pensasse duas vezes. Havia alguns homens sentados em banquetas junto ao balcão, a grande maioria bebendo cerveja em canecas de vidro enquanto degustava amendoins e assistia a um jogo de baseball na TV, o que me remeteu imediatamente ao exemplo utilizado pelo promotor e me fez gemer baixo. Os homens me encararam quando entrei, mas logo voltaram sua atenção para o jogo – ao que tudo indicava, um grande time local havia derrotado seu maior rival. Uma mulher tragava um cigarro solitariamente em uma mesa de canto – aparentemente, a lei antifumo não vigorava naquele local. – Vai querer alguma coisa, boneca? Olhei para o garçom atrás do balcão. Era enorme e truculento, com um imenso tribal negro tatuado no braço esquerdo. Tinha um pano de prato encardido pendurado em um dos ombros e o cabelo estilo moicano lhe fornecia um ar assustador. – Uma dose de tequila, por favor. O homem bateu o pequeno copo sobre o balcão e virou a garrafa até o

líquido amarelado quase transbordar. Virei a bebida em um único gole, dessa vez a ardência em minha garganta muito menos incômoda. Mal havia pousado o copo sobre o balcão, o garçom mal encarado já o estava reabastecendo.

Não sei quantas vezes aquela cena se repetiu. Mas, quando inalmente decidi parar de beber e desci do banco, mal senti o chão sob meus pés.

– Ei, cuidado! – O garçom me segurou por detrás do balcão, impedindo- me de parar diretamente no piso frio e, muito provavelmente, imundo. – Você vai para casa como, boneca? Quer que eu ligue para alguém?

Nãooo...

– Minha voz soou um tanto quanto irreconhecível aos meus

próprios ouvidos. – Eu pego um táxi, está

tudo...

Tudo bem!

Abri minha bolsa e retirei uma nota, largando-a sobre o balcão com uma gorjeta generosa – primeiro porque eu não estava em condições de procurar a nota certa, e segundo porque, se não fosse pelo rapaz, eu poderia estar sem os dois dentes da frente naquele exato momento.

Saí do bar e olhei para a rua. Deserta. Nem um único táxi,

ônibus...

Nada.

– Ah, sim. Quanta sorte! Cagada pela droga de um urubu albino! – Resmunguei.

Comecei a caminhar – já que era a única opção que me restava. Coloquei-me perto da parede numa tentativa praticamente inútil de evitar o vento frio, que havia aumentado consideravelmente. Uma batida constante começou a me incomodar e olhei para trás. Eram passos. Um homem mal encarado. Aumentei meu ritmo, quase imperceptivelmente. Eu

mal conseguia ter total controle de minhas funções

motoras...

Que dirá

correr! O homem me alcançou em menos de cinco segundos. – Vi você bebendo no bar – falou, imprensando-me na parede enquanto

apertava meu braço. – Eu não sou muito chegado à vadias bêbadas, mas por você abro uma exceção...

Tentei acertar uma joelhada no seu quadril, mas ele se esquivou com facilidade.

– Hum, e ainda por cima é nervosa... – Solta ela.

Os músculos do homem se enrijeceram, o aperto em meu braço aumentando por instinto. Um arrepio percorreu todo o meu corpo, uma mistura de frio, medo e surpresa. Então meu cérebro – lento, sob efeito do álcool em excesso – reconheceu a voz. Aquela voz.

– Você é surdo? – Leonard voltou a falar, asperamente. – Mandei soltá-

la.

O homem virou-se, inalmente soltando meu braço. Mesmo sem olhar sua expressão, notei que ele congelou apenas em perceber com quem estava lidando.

– Sr. Clarke! – A voz raivosa de segundos atrás havia sumido. – Não sabia que o senhor a conhecia, eu...

– Não me interessa. Acho melhor você ir. Agora!

– Sim,

sim...

– O homem falou, enquanto já se afastava.

Fiquei parada ali, olhando o meu agressor sumir na esquina, o barulho do vento frio entre mim e Leonard. Ele deu um passo em minha direção e eu abracei meu corpo.

– Venha comigo – ele disse. – Vou deixá-la em casa. Meu cérebro berrava para que eu simplesmente não aceitasse. O que eu

estaria fazendo? Livrando-me de um maluco e caindo nas garras de um provável estuprador homicida, sem qualquer testemunha por perto?

– Não, obrigada. Leonard encarou-me seriamente, um vinco fundo entre os olhos terrivelmente verdes. – Você não está em condições para discutir, Cindy. Você vem comigo.

Leonard segurou meu braço e me guiou em direção ao seu luxuoso carro. Ele abriu a porta de trás e me sentou no banco de couro, e imediatamente recostei a cabeça, tudo girando ao meu redor. Após ele se acomodar, o motorista indagou para onde devíamos seguir.

Senti os olhos de Leonard sobre mim e pensei rapidamente no que iria responder. Não podia dar o endereço certo – a inal, se ele era amigo de Chase, poderia reconhecer o local. Droga!

O que eu devia fazer?

Capítulo 10

Cath

- É di ícil dizer isso, mas estou alugando o quarto de Chase enquanto ele está preso.

– Chase? – Um vinco surgiu entre os olhos de Leonard. – Chase Zimermann?

Sim...

Exatamente.

– De onde você o conhece? – Chase é meu irmão. – Eu o conheço bem – falou.

– Eu sei. Ele está preso no seu lugar, sendo acusado injustamente pelo crime brutal que você cometeu!

Acordei ofegando desesperadamente, ios do meu cabelo grudados na camada de suor que havia se formado em minha testa. Esperei meus olhos se adaptarem à luz do sol que entrava pela janela, bem como o latejar constante da minha cabeça diminuir. Estava deitada, sozinha, em uma imensa cama revestida com lençóis macios. O sonho recente ainda era vívido em minha mente.

Levantei o lençol e constatei que estava vestindo uma camisa masculina

social branca. A questão

era...

Que lugar era aquele? Como eu havia ido

parar ali? Continuei deitada por alguns segundos, absorvendo toda a situação maluca em que havia me en iado antes de analisar o local em que me encontrava.

O lugar era completamente clean. A cama imensa onde eu me

encontrava icava no centro do quarto, que também continha uma poltrona de aspecto confortável e uma enorme TV presa à parede. Coloquei os pés para fora da cama, e, ao invés do esperado chão frio, encontrei a maciez de um tapete felpudo.

Fui para o banheiro – enorme, limpo e moderno, assim como o quarto. Um espelho imenso tomava uma parede inteira, sobre duas pias de louça branca. Apoiei as duas mãos sobre a bancada e me encarei.

– Que merda, Catherine! O que diabos você fez?

A imagem re letida não me respondeu, claro. Ao invés disso, bufou, mordeu o lábio inferior e passeou as mãos nervosamente pelos cabelos, numa imitação fiel aos meus gestos. Abri a água e lavei o rosto, amenizando levemente o latejar constante em minhas têmporas, fruto da bebida em excesso da noite anterior. Saí do banheiro ainda sem saber o que fazer. Devia sair do quarto e inspecionar o resto do lugar? Mas, e então? O que eu faria quando encontrasse Leonard? O que eu falaria? Sim, porque aquela devia ser a casa dele, não é mesmo? E eu não podia sair vestida daquela forma, podia?

Então percebi que, com certeza, não seria novidade para ele. A inal, se eu estava com amnésia alcoólica, muito provavelmente não estava em condições de caminhar sozinha, muito menos trocar de roupa. Logo, ele mesmo deve ter feito aquele serviço.

Sentei na cama, meus pés quase não tocando o chão, a ponta dos dedos sobre o tapete.

– Meu Deus, por favor, faça com que eu não tenha feito nenhuma besteira...

Suspirei, e já ia me levantar quando bateram na porta. Duas batidas leves e rápidas. Senti todos os meus músculos se enrijecerem e

instintivamente abracei meu próprio corpo.

– Com licença, senhorita

Cindy...

Posso entrar?

Para minha surpresa e alívio, a voz era feminina. Fez-se silêncio, até que eu me lembrei de que eu era a tal da Cindy e que devia responder à voz desconhecida:

– Sim, claro.

A porta se abriu e uma mulher, na faixa dos trinta anos, entrou no quarto, trajando um sóbrio terno preto, com os cabelos castanhos presos em um rabo e óculos de grau com armação estilo gatinho.

– Meu nome é Mariana. Sou assistente pessoal do Sr. Leonard Clarke. Ela sorria, parada alguns passos à minha frente, as mãos entrelaçadas na frente do corpo. – Muito prazer – falei, ainda receosa, colocando uma mecha de cabelo para trás da orelha.

– Espero que tenha dormido bem. – Mariana era simpática e parecia realmente preocupada com meu bem estar.

Sim...

Quer dizer,

eu...

Na verdade, eu não me lembro. É meio

vergonhoso admitir, mas nem me recordo de como cheguei aqui.

Ela sorriu, ajeitando os óculos no rosto.

– O Sr. Leonard Clarke trouxe você. Hoje pela manhã, assim que cheguei, ele me comunicou que tinha uma hóspede e que você poderia acordar um pouco indisposta. – Como não falei nada, ela continuou: – De qualquer forma, antes de sair, ele ordenou que eu lhe deixasse à vontade e que lhe atendesse no que fosse necessário. Posso mandar servir seu café da manhã?

– Não, obrigada – respondi. – Na verdade, eu tenho que ir.

Mariana assentiu rapidamente com a cabeça e se dirigiu até o closet. Recordei-me da roupa que trajava quando saí da Espartacus, na noite anterior: um conjunto de lingerie ousado, que eu usara na apresentação, e um sobretudo. Ótimo. Seria um sucesso em plena luz do dia!

Mariana pegou uma toalha e me entregou, junto com um roupão felpudo.

– Tome um banho

quente...

Vai ajudá-la a relaxar um pouco. Mandarei

servir um café aqui no quarto, caso se sinta melhor após o banho.

Aceitei o conselho de Mariana e aproveitei o banho quente. Quando desliguei o chuveiro pude sentir o cheiro de café fresco, que passava pela fresta da porta e se misturava com o vapor do banheiro, e agradeci mentalmente por Mariana ser uma pessoa tão sábia.

Enrolei os cabelos na toalha e vesti o roupão. Bochechei um pouco de antisséptico bucal. Quando saí, um diversi icado café da manhã estava sobre uma mesa perto da janela, junto com uma aspirina e água, que tomei sem pestanejar. Peguei uma maçã, vermelha e suculenta. Estava na segunda mordida quando algo me chamou a atenção. Duas caixas, grandes e pretas, pairavam sobre a imensa cama – agora arrumada. Aproximei-me, deixando a fruta mordida sobre a mesa e analisando as caixas. Mas que droga era aquela? Levantei uma das tampas. Não! Não podia ser!

Retirei o papel de seda timbrado com mínimas palavras "Prada" e me deparei com um lindo vestido de seda azul escuro salpicado com pequeninas bolinhas brancas e um trench coat vermelho. Abri a outra caixa. Um saco de cetim guardava um par de sandálias. Sentei na cama, a tampa ainda em minhas mãos. Roupas. Ao voltar a olhar a primeira caixa, reparei que existia um cartão branco sobre o vestido:

"Cindy,

Espero que você goste: o Sr. Clarke acredita que esse seja o seu manequim. Dentro do closet há outra coisa para você. O motorista está a sua disposição, assim como eu.

Mariana"

Levantei-me, antes mesmo de acabar de ler. Abri o closet e havia um cabide encoberto por uma longa capa plástica. Havia outro bilhete preso ali.

"Use essa noite."

Uma única frase, escrita com uma letra irme, sem assinatura. Nada mais. Abri o zíper e deparei-me com um vestido negro, maravilhoso, com certeza a peça de roupa mais cara e elegante que meus olhos já haviam visto.

Senti minhas pernas bambearem e cambaleei de volta para a cama. Não sabia ainda se me encontrava em um sonho ou em um pesadelo. Mas sabia que, fosse o que fosse, era estupidamente – e perigosamente – excitante.

Capítulo 11

Cindy

Minhas mãos estavam levemente trêmulas enquanto eu passava o batom vermelho nos lábios. Limpei os cantos da boca com a ponta do indicador e me olhei no espelho. Havia prendido meus cabelos num coque elegante, pois decidi que era a melhor maneira de compor com o chique vestido negro, além de ser uma artimanha para parecer mais velha e requintada. Após duas noites sendo maquiada por Samantha, utilizei alguns truques simples que me favoreciam. Escolhi um par de brincos discretos e uma sandália de salto ino, que eu havia comprado naquela tarde junto com uma bolsa tipo carteira, pois não havia trazido nada naquele estilo quando precisei vir às pressas para São Francisco. Aproveitei e comprei, também, uma calcinha nova, de renda preta.

Eu estava linda. Na verdade, quase não me reconhecia no re lexo à minha frente. Mas, e aí? Estava tão nervosa que podia sentir minhas pernas falharem a cada passo, como se eu fosse desabar a qualquer

segundo. Se ansiedade séculos! Meu dia tinha sido tão

matasse...

Eu já estaria morta e enterrada há

surreal...

Havia acordado na casa de um estranho

misterioso, sem me lembrar de nada da noite anterior. E agora estava indo encontrar com o mesmo estranho, sem fazer a menor ideia de onde isso iria me levar. A verdade é que eu estava me arriscando. Leonard provavelmente era um psicopata cruel, e eu sabia disso. Mas Chase precisava de minha ajuda, e aquela era a maneira mais rápida de tentar ajudá-lo.

Ajeitei o coque que havia feito. Olhei mais uma vez para o vestido de seda azul escuro, para o casaco vermelho e para as sandálias. Jamais havia

ganhado um presente tão pessoal e ino de um homem. Respirei fundo, peguei um táxi e me dirigi para a Espartacus, onde um Steven completamente agitado e uma tensa Samantha me aguardavam na porta. Mal o táxi parou, eles vieram em minha direção. – Achei que você fosse se atrasar, Cindy! – Steven falou, enquanto abria a porta do carro. – Estava quase tendo um aneurisma! – Calma Steven, já cheguei, já cheguei! – Falei, enquanto pagava o táxi e saía. – Sim, e pelo visto bem na hora. – Encarei Samantha e segui seu olhar.

Uma Limusine prata estava virando a rua. – Aqui – ela colocou um papel na minha mão. – Nesse papel tem um número de um amigo meu. Qualquer

problema...

Se você precisar de

ajuda...

Ligue para ele, ok?

Assenti com a cabeça e logo depois Sam me abraçou. – Boa sorte, garota. Até amanhã, com todos os detalhes! – Falou.

Eu ia responder, mas não tive tempo. A Limusine já havia parado próximo ao meio fio e o motorista de quepe preto estava segurando a porta para que eu entrasse. Respirei fundo, segurei a barra do meu vestido longo – tinha que tomar todos os cuidados possíveis, não estava acostumada com aquele tipo de roupa – e entrei no pomposo carro. Esperei meio sem jeito, sentada desconfortável no banco de couro preto – se é que isso era possível! –, até que um telefone tocou do meu lado direito. Atendi.

– Boa noite, senhorita Cindy. Meu nome é Edgar e estou aqui para servi- la. O frigobar está equipado com diversas bebidas e no armário ao lado existem alguns aperitivos, também. – O motorista fez uma pausa enquanto

eu olhava para os lados, identi icando o que ele citava. – O Sr. Clarke

mandou avisar que existe uma surpresa

para a senhorita no

compartimento a sua frente. A senha é seu nome. Boa noite, e me chame se precisar de algo.

Ele desligou e eu permaneci com o telefone no ouvido, o silêncio total do outro lado um tanto quanto agourento. Olhei para frente. Havia um compartimento, logo acima do frigobar, que se parecia com um pequeno cofre. Pequenos botões se localizavam no canto inferior esquerdo, logo abaixo de um visor em que estava escrito: "Digite a senha". Apertei vagarosamente meu nome – meu falso nome, quer dizer – e, assim que havia acabado de digitar a letra "y", a pequena porta se abriu. Olhei para o interior.

Eu não fazia ideia do que poderia ser, mas de initivamente não havia imaginado aquilo.

Retirei com cuidado e observei minuciosamente a máscara veneziana em minhas mãos. Era revestida de veludo negro e ios dourados traçavam linhas delicadas por toda a sua extensão. Possuía uma linda pedra ao centro, entre os olhos. Grandes plumas se pronunciavam do lado direito, onde também havia uma haste forrada em cetim, para que eu pudesse segurar e manter a máscara no rosto.

Dentro do compartimento também havia um espelho, que segurei enquanto levava a máscara ao rosto. Meus expressivos olhos castanhos chamaram atenção pelos cílios longos e meus lábios tingidos de vermelho destacaram-se contra o veludo negro.

Recostei-me no banco, pousando a máscara em meu colo. Eu estava tão

nervosa, tão

apreensiva...

Não fazer a menor ideia do que me esperava

estava simplesmente arruinando qualquer vestígio de autocontrole que ainda pudesse existir dentro de mim. Não sei quanto tempo se passou até o momento em que senti o carro parar.

Olhei para fora, mas não consegui enxergar praticamente nada através dos vidros escuros. A porta se abriu e a mão de Edgar, envolta em uma luva de couro preta, surgiu cavalheiramente para me ajudar a sair. Respirei fundo e em poucos segundos me encontrava parada em um jardim divinamente iluminado, à frente de um palacete deslumbrante. E com o detalhe de não fazer a mínima ideia de onde aquele palacete se localizava.

Logo o carro pomposo partiu, deixando-me parada no belo jardim bem tratado. Fechei os olhos, mordendo o lábio inferior e rezando intimamente para que tudo desse certo. E, também, xingando a parte de mim que teimava em se sentir excitada com toda aquela porcaria. Eu só podia estar maluca.

Ajeitei estrategicamente a máscara veneziana sobre meu rosto e ia tocar a campainha quando a porta se abriu. Uma mulher totalmente vestida de preto – com um terno justo e bem cortado – e usando uma máscara simples presa ao rosto, também negra, abriu a porta, sorrindo mecanicamente. Os olhos cinza eram frios e não transmitiam qualquer sentimento aparente. Os cabelos loiros – que, de tão claros, pareciam brancos – estavam arrumados em um coque baixo, preso à nuca.

– Boa noite – ela permaneceu parada à minha frente, o sorriso persistente na face, o corpo impedindo minha entrada.

– Ah,

claro...

O convite! – Falei, enquanto levava minha bolsa de mão até

quase a altura do meu rosto, numa forma desajeitada de tentar não abaixar a máscara. Apesar de não ter movido um único músculo, senti que a impaciência emanava em minha direção, partindo da mulher. – Aqui... Prontinho!

O sorriso da mulher alargou-se e ela moveu o corpo para o lado, elegantemente.

– Seja bem vinda.

Entrei e agradeci, mas minha voz saiu tão baixa que tive certeza de que não fui ouvida. Quando me virei para tentar corrigir minha indelicadeza, a mulher não estava mais ali. Senti um arrepio percorrer todo o meu corpo, literalmente – do io de cabelo até os dedos dos pés – apesar do local ser quase abafado de tão aconchegante. O piso de madeira corrida era tão brilhoso que revelaria detalhes a mais de alguma mulher descuidada, e por vezes era coberto por algum tapete persa ornamentado e de cores vibrantes. O lustre que pendia no centro da antessala em que eu estava era de cristais, imenso e imponente. Uma escada de madeira se elevava ao sul, revelando pelo menos mais um andar.

– Boa noite, Cindy.

Meus músculos se retesaram quando meu nome – ou melhor, pseudônimo – foi proferido às minhas costas, por uma voz completamente estranha aos meus ouvidos. Era uma voz masculina, com timbre grave e determinado. Ouvi os passos ecoarem pelo ambiente, abafados apenas quando ultrapassavam um dos tapetes, enquanto o estranho se aproximava de mim. Ele parou a uma curta distância e meu cérebro ordenou que eu me virasse, ao que meu corpo relutou veementemente, até que me forcei e obedeci. Não tinha outra escolha, já havia alcançado um ponto em que era impossível retroceder.

Meus olhos bateram na gravata borboleta do homem extremamente musculoso, e isso porque o salto da sandália favoreceu minha altura. Ergui minha cabeça, minha mão levantando a máscara no mesmo ritmo, e me deparei com um sorriso largo abaixo de um par de olhos azuis perfeitos, numa face livre de qualquer ornamento. O homem não usava nenhum tipo de máscara.

A primeira coisa que meu cérebro fez foi processar de onde conhecia

aquele homem que cheirava bem, tinha uma bela voz e continuava sorrindo simpaticamente para mim. Então inalmente ele descobriu: era o homem que eu vira em minha primeira apresentação na Espartacus, circundado por mulheres dos mais variados tipos, e que não tirava os olhos de Samantha. Era um Clarke. Jodie Clarke, para ser mais exata.

A segunda coisa que meu cérebro insano pensou – de forma irritante e surpreendente – era porque diabos a minha máscara era do estilo que devia ser segurada, ao invés de ixada no rosto. Mas acho que isso se deu pelo fato de meu braço direito ter começado a arder. De initivamente, eu precisava deixar o sedentarismo de lado.

– Um gato comeu sua língua? – Jodie Clarke cruzou os braços e arqueou as sobrancelhas. Só então me dei conta que não havia respondido a seu cumprimento; de initivamente o nervosismo havia acabado com qualquer vestígio de educação que um dia eu tivera.

Não...

Quer

dizer...

Boa noite.

– Quer guardar sua bolsa? – Ele perguntou, virando-se levemente de lado e apontando para uma porta; provavelmente uma chapelaria.

Não, acho melhor manter meu celular perto de mim, por via das dúvidas - pensei.

– Vai dar-lhe mais

mobilidade...

Caso contrário, você icará com as duas

mãos ocupadas, por conta da máscara.

Droga.

– Obrigada – cedi.

Estendi a bolsa e no segundo seguinte a mulher que abrira a porta – de onde ela surgia? – apareceu e se incumbiu do trabalho de guardá-la.

– Vamos. Todos estão no salão ao lado.

Assenti, e Jodie Clarke fez sinal para que eu fosse à frente. Assim que andei alguns passos senti sua mão – grande e irme – espalmar-se em minhas costas, logo acima do meu quadril, encaminhando-me na direção correta. Então seria assim? Qualquer um sairia tocando em mim sem sequer pedir licença?

Comecei a escutar uma música leve ao fundo. Música clássica. Um garçom – usando uma simples máscara preta – passou por nós, a bandeja repleta de copos cheios com bebidas variadas. Ultrapassamos a gigantesca porta e chegamos numa sala suntuosa, com pé direito alto e teto rebuscado. Nessa sala havia vários homens, todos vestidos a rigor, e diversas mulheres, também vestidas em traje de gala. Todas as mulheres usavam máscara; os homens, não.

Percorri os olhos pelo lugar. Era impressionante como, simplesmente, não havia uma única pessoa feia ali. Nem sequer comum. Eram todos belos, homens poderosos e mulheres divinas, com ar de superioridade e aparência elegante. Eu senti que destoava, como se estivesse pelada com uma melancia enfiada na cabeça.

Quando meu olhar encontrou Leonard, suspendi a respiração. Estava do lado oposto do imenso salão, conversando calmamente com alguns homens. Trajava um smoking de corte impecável, o que elevava à máxima potencia sua beleza já espetacular. Como se sentisse minha presença, seus olhos encontraram os meus, e imediatamente um arrepio envolveu meu corpo, fruto de uma eletricidade quase palpável.

O Clarke ao meu lado se aproximou do meu ouvido:

– Divirta-se – sussurrou, saindo e me deixando ali, sozinha em meio a um bando de estranhos e estranhas mascaradas.

Capítulo 12

Cindy

Engoli em seco e senti minhas mãos suarem. Um garçom parou ao meu lado e inclinou-se quase imperceptivelmente, ao que suspirei fundo e peguei uma taça com a mão livre. O gosto levemente amargo do champagne invadiu meu organismo e meu corpo agradeceu.

– Boa noite. – Virei-me num susto, algumas gotas da bebida esparramando-se pelo chão. – Desculpe, não queria assustá-la. – Um homem na faixa dos cinquenta anos, de olhos castanhos e cabelos dourados, sorria contidamente, ambas as mãos escondidas nos bolsos da calça do smoking preto.

– Desculpe-me você – falei, dando de ombros discretamente. – Eu estava distraída.

– Meu nome é Bruce Forrester.

O homem apresentou-se sem estender a mão, até mesmo porque eu não poderia cumprimentá-lo. Novamente, maldita máscara veneziana! Em pouco tempo eu não sentiria mais meu braço direito.

– Meu nome é Cindy – falei.

Fez-se silêncio por alguns segundos, até que o Sr. Forrester arqueou as sobrancelhas, sorrindo mais abertamente.

– Só isso? – Perguntou. – Cindy? Sem sobrenome?

Eu não era boa para perguntas inesperadas e sabia que qualquer sobrenome que falasse naquele momento seria ou ridiculamente comum, ou estupidamente revelador.

– Sim. Só Cindy.

– Entendo. – Bruce tirou uma das mãos dos bolsos e coçou a pele ao lado da sobrancelha, como se tentasse compreender o que se passava ali. – Então muito prazer, Cindy.

– Igualmente, Sr. Forrester. – Essa é a primeira vez que vem às nossas reuniões?

Será que estava tão na cara assim? Eu pensei que o letreiro em néon vermelho piscando "peixe fora d'água" em minha testa fosse só impressão. Pelo visto, não.

Sim...

É a primeira vez.

– Seja bem vinda – Bruce falou, abrindo os braços discretamente, como se me oferecesse o local. – Espero que se sinta à vontade entre nós.

– Obrigada. O homem aproximou-se de mim. – Eu posso ajudá-la a se ambientar – ciciou.

Imediatamente, como por re lexo, meus dentes seguraram o lábio inferior com força. Droga, de initivamente eu devia ter me preparado melhor. Eu devia aceitar? Era obrigada a aceitar? Ou podia escolher, dizer não? Mas então que diabos eu estaria fazendo ali?

Boa noite.

A voz rouca ecoou às minhas costas. Fiquei paralisada, não só meu corpo como meu cérebro. Todos os pensamentos esvaíram-se como suor por meus poros e minha respiração foi interrompida no meio, meu coração quase audível batendo com força em meu peito.

– Leonard – Bruce falou, enquanto cumprimentava-o com um leve aceno de cabeça. – Boa noite.

Eu podia sentir o olhar de Leonard em minhas costas, queimando minha pele, que eu jurava formigar onde seu olhar tocava. Eu precisava me mover, desmaiar, sair correndo, qualquer coisa. Ficar parada como uma estátua de cera realmente não pegava bem. Girei meu corpo lentamente, pensando cautelosamente em cada gesto, em cada movimento. Eu nunca fora a pessoa mais delicada do mundo e esse não era o momento de agir desleixadamente. Idealizei Audrey Hepburn – um símbolo de feminilidade que admirava desde criança – e me forcei a ser o mais feminina e delicada possível.

– Boa noite, Sr. Clarke – sussurrei, utilizando meu melhor tom sensual. Já tinha entendido que estava me arriscando em me envolver com aquelas pessoas, então precisava fazer o melhor para não ser descoberta.

– Infelizmente, a senhorita Cindy não poderá aceitar seu convite esta noite, meu caro Bruce. – Leonard falava com o homem sem desviar os olhos dos meus. – É a sua primeira vez em nossas reuniões e eu não seria um bom an itrião se não izesse as honras da casa. – Finalmente ele desviou sua atenção para Bruce. – Mas tenho certeza que você entende, não é mesmo?

Bruce tinha a expressão frustrada, provavelmente triste por não ser o primeiro a degustar o novo aperitivo da festa.

– Sim, com certeza – ele me encarou. – Foi um prazer, Cindy. Espero que possamos conversar melhor na próxima vez.

Bruce afastou-se, deixando-nos sozinhos.

– O vestido icou perfeito – era a primeira vez que Leonard dirigia-se a mim informalmente, sem rispidez ou meias palavras.

– É verdade – concordei. Não agradeci o presente e Leonard também não esboçou qualquer reação de desagrado, caso esperasse por isso.

Minha atenção foi desviada para um homem que havia acabado de entrar pela porta. Aparentava ter pouco mais que quarenta anos, era alto, esguio, tinha os cabelos castanhos e um olhar duro. Estava sorrindo e era cumprimentado pelas pessoas enquanto passava. Assim que avistou Leonard, veio em nossa direção.

– Boa noite, Leonard. Como estão as coisas? – Tudo como esperado, Vincent.

O homem – Vincent – olhava somente para Leonard; era como se eu simplesmente não existisse. Seus cabelos escuros eram bem penteados e sua roupa elegante era perfeitamente moldada ao seu corpo.

– Ótimo. Vamos para um lugar reservado, preciso falar com você. – Sim, claro – Leonard virou-se para mim: – Até mais tarde. Assenti, muda. Mais uma vez, em um curto espaço de tempo, encontrava-me sozinha e perdida em meio àquelas pessoas misteriosas e – por que não dizer? – assustadoras.

Que raio de lugar era aquele? Será que pertencia aos Clarke, também? Será que era ali que o crime havia acontecido? O que aquela gente toda tinha em comum? Pisquei com força, forçando desanuviar minha mente daqueles pensamentos, que em nada poderiam me ajudar na atual conjuntura.

Os minutos foram passando e eu estava icando cada vez mais tensa. Podia sentir os olhares masculinos curiosos sobre mim, em parceria com os olhares raivosos de algumas mulheres, que deviam estar se indagando sobre quem eu era e como eu havia chegado até ali. Percebi também que,

na medida em que o tempo passava, o número de pessoas diminuía. Primeiramente algo imperceptível, até que o salão icou notoriamente mais vazio.

– Venha comigo – Leonard aproximara-se de forma sorrateira por trás de mim, que estava encostada no batente de uma porta observando o local.

Ele passou o braço por minha cintura, mantendo-me rente ao seu corpo, a mão pousada em meu quadril. Caminhamos para fora da sala e subimos as escadas. Cada degrau era como se meu coração fosse fugir pela boca. Concentrei-me em olhar para baixo e não tropeçar no vestido, e quem sabe assim tentar acalmar minha respiração, que estava quase entregando meu desespero.

Paramos em frente a uma porta de madeira escura que Leonard abriu sem bater, e no momento seguinte estávamos lá dentro. Parecia que havíamos ultrapassado algum tipo de portal para outra dimensão.

O quarto não tinha absolutamente nada a ver com o resto da casa – um palacete de estilo colonial. O chão era revestido com um carpete mar im, macio sob meus pés, o salto da sandália afundando enquanto eu andava. Os móveis eram claros e anatômicos; as paredes eram escuras, e a única iluminação era uma fraca luz atrás da cabeceira da cama.

Leonard parou ao meu lado, retirando a gravata borboleta. – O-onde fica o toillet? – Fechei os olhos com raiva quando gaguejei. Leonard segurou meu antebraço e eu soube que havia arregalado os olhos até o limite e que minha boca estava aberta. – Você já pode retirar a máscara, Cindy. Demorei um pouco até processar as palavras de Leonard. Isso porque a única coisa em que conseguia pensar era em como minha pele formigava

sob a mão dele e em como os pelos do meu braço haviam se arrepiado ao seu toque quente. Leonard percebeu que eu estava paralisada e forçou meu braço para baixo, afastando ele mesmo minha máscara.

– O banheiro é a sua esquerda – falou.

– Ah!

Eu...

Eu

vou...

– Procurei palavras enquanto apontava o lugar que

ele havia me indicado e saí, quase tropeçando em minhas próprias pernas,

que haviam virado pudim de uma hora para outra.

Praticamente corri até o banheiro, a porta escapando das minhas mãos e batendo com força.

Merda! – Resmunguei, jogando a máscara sobre a bancada do banheiro e encarando-me pelo espelho.

Respirei fundo e fechei os olhos. Concentrei-me em minha respiração, na forma como o ar entrava e saía do meu organismo, e aos poucos as batidas do meu coração foram normalizando.

– Não é nada demais – falei baixo para mim mesma, molhando os pulsos com água gelada. – Isso teria que acabar acontecendo, uma hora ou outra.

Inspirei profundamente, criei coragem e saí do banheiro. Leonard estava de costas, no outro lado do quarto, preparando uma dose de bebida.

– Você aceita beber alguma coisa? – Ele perguntou sem se virar. – Não, obrigada.

Parei perto da parede e cruzei os braços, analisando com calma o ambiente, analisando as atitudes de Leonard. Ele parecia tranquilo e sereno. Levou o copo à boca, uma menção de careta surgindo em sua face. Apoiou o copo vazio sobre a mesa e meu corpo estremeceu com o barulho. Definitivamente eu estava com os nervos à flor da pele.

Leonard virou-se e caminhou em minha direção. Os olhos verdes começaram pelos meus pés e foram subindo lentamente enquanto ele andava, uma das mãos passeando desleixadamente pelos cabelos sedosos. Parou a menos de trinta centímetros de distância e instintivamente recuei um passo. Ele apoiou as duas mãos na parede atrás de mim – minha cabeça icando entre seus braços – e aproximou o rosto do meu. Imediatamente senti minha respiração acelerar e minhas têmporas latejarem. Mas não era essa pulsação que mais me deixava intrigada.

Leonard tocou meu pescoço com os lábios e eu literalmente estremeci. Ele segurou minha nuca e levantou meu rosto. Nossos olhos se encontraram e Leonard fechou levemente as pálpebras, os cílios negros, longos e espessos escondendo parcialmente o verde intenso e febril.

– Você causa um frisson inexplicável nos homens – sussurrou. – Todos naquela sala me perguntaram sobre você. Queriam experimentar você. Mas não tinha cabimento que outra pessoa a iniciasse em nossas reuniões... Afinal, eu a convidei, eu a inicio.

Os lábios dele roçavam minha pele, agora muito próximos aos meus próprios lábios. Minha boca se abriu levemente, desejando inconscientemente que ele a tomasse. Para meu total desespero, Leonard passou direto por ela, indo para o outro lado do meu rosto. Gemi em protesto, sem conseguir me conter.

– Eu não vou beijar você – Leonard sussurrou junto ao meu ouvido, os dedos em minha nuca acariciando minha pele. – Mas eu vou comê-la de uma maneira tão deliciosa, que você viverá o resto dos seus dias implorando por mais.

Fechei os olhos, meus joelhos dobrando-se ligeiramente. – Vire de costas – ele murmurou.

Como sempre, suas palavras soaram como uma ordem. Fechei os olhos e obedeci, virando-me de costas para ele, meu corpo quase colado à parede. As mãos de Leonard passearam por todo o meu corpo – pelos meus quadris, minhas coxas, meus joelhos. Amaldiçoei em pensamento aquele vestido longo, que me impedia de sentir o contato direto de suas mãos contra minha pele.

– Abra as pernas, Cindy.

Apertei meus olhos. Eles estavam fechados com tanta força que eu podia ver pintas brancas por trás de minhas pálpebras. Afastei meus pés ligeiramente.

– Você pode fazer melhor – a voz de Leonard soava impassível, e o fato de não saber o que se passava em sua cabeça me deixava ainda mais nervosa – e excitada. De initivamente, eu não respondia mais por meus atos.

Afastei mais um pouco minhas pernas, quase tanto quanto o vestido longo me permitia. As mãos de Leonard tocaram simultaneamente meus calcanhares e foram subindo lentamente, trazendo para cima meu vestido na medida em que percorriam meu corpo. Todos os meus poros estavam arrepiados sob suas mãos quentes.

– Você está nervosa? – Ele perguntou, mas percebi que era uma pergunta retórica. – Até parece que nunca fez isso antes.

É que, na verdade, eu sou virgem – pensei. Sempre protelei esse momento com meu namorado de infância e agora estou aqui, quase desfalecendo nas mãos de um possível maníaco assassino.

Leonard aumentou a pressão contra meus músculos quando alcançou minhas coxas. Ele levantou meu vestido até a cintura, revelando minha calcinha de renda negra. Eu respirava com tanta intensidade que meu

corpo inteiro se sacudia a esse gesto. Uma de suas mãos começou a percorrer a parte interna de minha coxa. Seus dedos iam quase até o ponto de meu corpo que berrava por alívio e retrocediam, e a cada nova investida eu rezava silenciosamente para que ele acabasse com aquela tortura.

Leonard levou sua mão esquerda até meu seio. Puxou meu decote para o lado, sua mão grande envolvendo imediatamente toda a minha carne, que pareceu se encaixar perfeitamente aos seus dedos. Sua outra mão escorregou pela minha cintura e sorrateiramente encontrou minha calcinha. Empinei meu quadril, inconscientemente. Seus dedos estavam quase me tocando onde eu ansiava, mas ainda faltava um espaço curto, e eu sabia que era proposital. Leonard movimentou o quadril contra o meu e junto comigo.

Os dedos longos desceram lentamente sobre minha calcinha rendada. Quando alcançaram meu músculo pulsante, Leonard me apertou contra seu corpo e me manteve imóvel. Num movimento impensado fechei as pernas, a mão de Leonard icando presa entre minhas coxas. Ele tentou movimentar os dedos – uma tarefa quase impossível naquela posição em que eu o colocara – e meu corpo icou dividido entre lhe ceder espaço ou continuar aproveitando seu toque, ainda que insuficiente.

– Estou adorando senti-la pulsando contra mim,

Cindy...

– Leonard falou

entre meus cabelos, seu hálito me deixando tonta. – Mas tenho que admitir que seria muito, muito melhor, sem esse tecido entre nós.

Ficou claro que ele se referia a minha calcinha, e aquelas palavras pareceram mágicas aos meus ouvidos, como "Alakazam" ou "Abracadabra". Afastei minhas pernas e os dedos de Leonard invadiram o tecido rendado, percorrendo toda a minha extensão, como se estivessem fazendo uma inspeção territorial.

Meu quadril começou a se mover. Era como se eu simplesmente não tivesse mais controle algum sobre meu corpo, como se todas as minhas células existissem apenas para servir àquele homem. Meu corpo estava alcançando o clímax e eu estava totalmente entregue. Então, inesperadamente, Leonard abriu o zíper do meu vestido e se afastou por completo de mim, a roupa voltando a quase tocar no chão.

– Mas o

que...?

– Resmunguei enquanto me virava, ciente de que meu

desespero havia transtornado minha expressão.

– Ainda não.

Ainda não? Ainda não?! Se aquele calhorda havia feito isso com Molly antes de matá-la, além de assassino ele era um sádico maldito!

– Deite-se na cama – falou, imparcial. – Nua.

Por um segundo minha vontade foi de mandá-lo para casa do cacete. Mas percebi que não podia. Primeiro, porque estava sozinha com ele naquele quarto, num palacete cuja localização eu desconhecia. Segundo,

porque essa aproximação era a maneira mais provável – ainda que mais

perigosa – de tentar provar a inocência de Chase. E

terceiro...

Bem, terceiro

porque meu corpo necessitava que ele acabasse o que havia começado.

Deixei meu vestido escorregar por meus ombros e cair no chão. Lentamente tirei um pé, depois outro, e me livrei de minha calcinha. Resolvi manter as sandálias. Caminhei lentamente até a cama, rezando para que ele não percebesse que eu era um misto de excitação e medo.

Medo de ele me machucar. Medo de doer. Medo de gostar.

Deitei-me na cama apoiada em meus cotovelos. Leonard me encarava, e foi dessa forma que ele começou a tirar a roupa. Despiu o paletó do smoking, revelando uma arma prateada presa a um coldre embaixo de seu

braço. Meu coração imediatamente acelerou e arregalei os olhos por instinto. Leonard não se abalou; apenas retirou o coldre e pousou a arma sobre a mesa próxima, e em seguida retirou a camisa social branca, revelando músculos irmes num corpo perfeito, sem nenhuma gordura aparente. Sua pele clara era salpicada por algumas pintas esporádicas. E era enorme.

Leonard começou a se tocar lentamente, o olhar sedento sobre mim. – Abre as pernas para mim.

Obedeci mais prontamente que nunca. Sem desconectar nosso olhar, Leonard agachou-se e posicionou o rosto entre minhas pernas. Ele beijou minha virilha e eu movi meu quadril, forçando-o a chegar logo onde eu precisava, em prol de minha sanidade mental. Aproveitando a sensação magnífica que sua língua quente criava, envolvi seu pescoço com as minhas pernas e segurei seus cabelos entre meus dedos, a im de me assegurar de que Leonard não se afastaria. Mas é claro que não era eu quem mandava naquele momento. Leonard era, claramente, o dono da situação, e num movimento rápido ele girou nossos corpos, invertendo nossas posições.

Hesitei por um momento. A inal, Leonard não estava usando preservativo e aquilo não era seguro. Contudo, lembrei-me de onde estava e com quem estava. Negar, provavelmente, seria mais perigoso ainda. Assim, engatinhei sobre suas pernas e parei perto de seu quadril. Leonard gemeu quando o toquei com meus lábios. Após alguns minutos, senti seu músculo contrair-se sobre minha língua; então Leonard segurou meus cabelos e me impediu de continuar.

– Deite na cama.

Mordi o lábio inferior e engoli em seco. Deitei sobre o lençol de seda branco, enquanto Leonard se levantava e pegava um preservativo na

mesinha ao lado. Ele colocou rapidamente – questão de prática, imagino – e voltou para a cama, deitando-se sobre mim. O peso de seu corpo era agradável sobre o meu e eu tinha total ciência do seu membro quente entre minhas pernas. Os olhos dele me devoravam. O cabelo caia desleixadamente sobre sua testa e uma fina camada de suor se formara ali. Eu estava com tanta vontade de beijá-lo, de experimentar a textura de sua língua e o ritmo do seu beijo, que sentia um grito se formar em minha garganta.

Senti a mão de Leonard entre minhas coxas, guiando seu membro rijo até minha entrada. Ele parou, posicionado, de initivamente querendo que eu desfalecesse em seus braços. Senti meu músculo contrair-se na expectativa de recebê-lo, experimentando essa sensação pela primeira vez. Leonard forçou a entrada e no mesmo instante uma dor se misturou à excitação. Meus músculos enrijeceram e fechei os olhos. Leonard parou e icou imóvel, para logo tornar a investir contra meu corpo, devagar. Senti-o avançar um pouco mais, ainda com di iculdade, apesar de eu estar completamente molhada e da lubrificação artificial do preservativo.

Abri as pálpebras e o olhar de Leonard era de dúvida, o vinco em sua testa mais profundo do que nunca.

– Cindy? Você

é...

virgem?

Parei de respirar. Abri meus lábios para negar – era patético demais admitir àquela altura do campeonato – mas acabei assentindo silenciosamente com a cabeça.

Leonard permaneceu imóvel por um tempo que não consegui determinar. Então ele se moveu, afastando seu quadril. Ainda havia dúvida no olhar dele, mas dessa vez havia algo mais, que não consegui decifrar. Para minha total surpresa e felicidade, Leonard inclinou-se lentamente e seus lábios tocaram os meus. Abri minha boca e nossas línguas se

encontraram, primeiro timidamente, se conhecendo, e em pouco tempo o

beijo tornou-se feroz,

sedento...

Faminto. Quando meus pulmões já

reclamavam pela falta de oxigênio, Leonard desvencilhou-se de mim, mas não foi longe. Seus lábios continuaram colados aos meus, o olhar penetrante. Seu quadril moveu-se contra o meu, e novamente ele posicionou-se em minha entrada.

Quente. Pulsante. Nu. Leonard havia retirado o preservativo que nos separava.

Sentir sua pele fez com que minha excitação – já em estado de miséria – duplicasse de tamanho. Eu sabia que permitir que Leonard continuasse

seria um ato inconsequente, que beirava à

insanidade...

Mas, quando ele

investiu com o quadril novamente, fechei os olhos e sabia que pertenceria

a ele. Não havia mais volta. – Está doendo? – Perguntou.

Porra, não, não estava! Estava perfeito, pura e simplesmente. Neguei com a cabeça.

O quadril dele se chocou contra o meu, inalmente rompendo a barreira intacta e natural do meu organismo. Senti meu corpo abrindo-se, dando-lhe passagem, moldando-se ao dele num abraço aconchegante. Leonard gemeu e afundou a cabeça na curva do meu pescoço. Plantei os pés sobre o colchão e ergui ligeiramente meu quadril. De initivamente eu não conseguia mais esperar; estava em ponto de ebulição, prestes a explodir. Abracei seu corpo com minhas pernas, entrelaçando meus pés em suas costas, e entreguei-me deliciosa e violentamente, fruto de tantas vezes frustradas naquela noite.

Leonard me beijou enquanto eu gemia baixo. Quando meu corpo amoleceu e minhas pernas voltaram para a cama, ele se retirou de dentro

de mim. Acariciou-se freneticamente enquanto me encarava, até que despejou seu tesão sobre meu corpo, demarcando seu território, em seguida caindo deitado ao meu lado no colchão. Nossas respirações estavam ofegantes e descompassadas. Não falamos nada, até que ele se sentou de costas para mim. Passou a mão nos cabelos e se levantou.

– Bem vinda ao clube, Cindy – falou, indo para o banheiro e fechando a porta, o silêncio tomando conta do ambiente.

Capítulo 13

Cindy

Minha respiração ainda não estava em seu ritmo normal. Minha pele formigava onde havia sido demarcada por Leonard. Pensei nos motivos que o levaram àquele último gesto e a resposta me pareceu óbvia: Leonard era milionário, jovem e solteiro, e a última coisa que precisava era que uma vagabunda qualquer engravidasse, interessada numa mesada vitalícia.

Meus olhos pousaram sobre a arma de Leonard, que jazia no mesmo lugar que ele deixara desde que se despira. Engoli em seco, sentindo minhas mãos suarem. Não podia dizer que não era familiarizada com aquele tipo de apetrecho – meu falecido pai adorava caçar, e desde pequena convivi com os mais variados tipos de arma de fogo –, mas nem toda intimidade do mundo seria capaz de anular minha apreensão em uma situação como aquela. A inal, Leonard Clarke não era o tipo do homem pacato e moderado, e sequer imaginá-lo utilizando uma arma fez meu corpo tremer por inteiro.

Virei-me de lado sobre o colchão e puxei o lençol sobre meu corpo. Foi agradável a sensação do tecido leve e gelado contra minha pele quente. Bateram na porta e Leonard saiu do banheiro.

– Deixa que eu abro.

Sentei-me na cama, tapando meu corpo com o lençol, a outra mão arrumando instintivamente meus cabelos.

– Obrigado – ele disse. – Por enquanto é só.

Leonard havia aberto apenas uma brecha da porta. Senti minha boca encher-se de água e minha língua passeou por meus lábios, sedenta,

apenas por observar a imagem de seu corpo nu de costas. Quando ele se virou, carregava um balde de gelo em uma das mãos, contendo duas garrafas, e um recipiente com morangos na outra. Sem falar nada, e enquanto Leonard colocava tudo sobre o aparador, eu me levantei e fui ao banheiro.

Dei uma olhada para trás antes de fechar a porta. Havia apenas duas gotas de sangue sobre o lençol de seda branco. Um suspiro fundo escapou de minhas narinas. Eu oficialmente não era mais virgem. Pensei em Victor; em como eu havia imaginado aquele instante, às vezes em um cenário romântico, às vezes em um momento de excitação desesperada, mas sempre com ele. E em como havia sido in initamente melhor do que em meus devaneios.

Abri o chuveiro e deixei a água quente lavar meu corpo, massageando minha pele e relaxando meus músculos, ao mesmo tempo em que sentia o cheiro de Leonard me abandonando. Quando terminei, me enrolei numa toalha felpuda. O espelho estava embaçado e o banheiro repleto de vapor. Passei uma escova por meus cabelos molhados e saí, meu corpo arrepiando-se imediatamente em contraste com o ambiente frio.

Leonard estava sentado na beira da cama fumando um cigarro, os olhos fechados enquanto tragava com força. Inspirei fundo o cheiro do tabaco – eu havia parado de fumar há pouco tempo, mas frequentemente recaía, principalmente quando havia bebida alcoólica envolvida no meio. Ele me encarou, soltando a fumaça e passando a mão pelos cabelos, agora mais atraentes do que nunca, pois haviam sido bagunçados por meus dedos. Sem falar nada, Leonard levantou e me ofereceu uma taça de champagne, o líquido borbulhando contra o cristal. Aceitei, sorvendo um longo gole.

Leonard me estendeu o recipiente e peguei um morango, fechando os olhos assim que o gosto doce da fruta misturou-se ao sabor amargo da

bebida. – Qual o seu nome? – Ele perguntou.

Engasguei e tapei a boca com a mão. Quando inalmente consegui engolir, abri os olhos, colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha.

– C-como assim? Você sabe meu nome! – Minha voz soou bem mais esganiçada do que eu planejava.

Leonard balançou a cabeça negativamente enquanto tragava mais uma vez, a última antes de apagar o cigarro.

– Sim, você se chama Cindy. Mas eu me referia ao seu outro nome. O verdadeiro.

Droga! O que eu devia dizer? Meu nome é Catherine Zimermann? Sou irmã de Chase, que costumava ser seu amigo e de repente não passa de um "laranja" para crimes hediondos?

– Tudo bem – Leonard continuou antes que eu decidisse que mentira inventar. – Na verdade, é melhor assim.

Bebi mais um gole de champagne e agradeci mentalmente que a bebida já estivesse começando a surtir o efeito esperado. Meu coração batia consideravelmente mais depressa, meus re lexos estavam minimamente mais lentos e meus sentidos icavam cada vez mais a lorados. Creio eu que, exatamente por isso, a fragrância amadeirada que emanava de Leonard, misturado com o suave aroma de tabaco de seu hálito, estava realmente me deixando maluca. Eu precisava de mais dele.

– Melhor assim? – Perguntei, mal reconhecendo minha própria voz, num tom bem mais instigante que o normal. Era a voz da Cindy, com certeza. – Por quê?

Leonard se aproximou de mim, o calor que emanava de seu corpo

invadindo meu espaço.

– Somos parecidos em muitos aspectos – murmurou.

– E em quais seriam?

– Eu não quero nada mais sério que uma foda ocasional e, ao que

parece, pela sua pro

issão...

Você também não. – Os dedos de Leonard

passearam pela lateral da minha coxa e alcançaram a borda da toalha,

subindo ligeiramente. – Meu corpo reage ao seu antes que meu cérebro

consiga impedir, e, ao que

parece...

– Sua mão deslizou pela toalha,

seguindo para meu sexo, e percorreu minha entrada antes de continuar: –

A recíproca é verdadeira.

Gemi, remexendo-me instintivamente contra seus dedos.

– E parece que você tem medo de mim. – Abri os olhos, esperando que

ele completasse. – E, tenho que

confessar...

– Um de seus dedos longos me

penetrou lentamente. – Eu também tenho medo de mim, muitas vezes.

Meus joelhos dobraram-se ligeiramente. Engoli em seco e pensei em

algo para dizer, que não fosse: "Você sabe como deixar uma mulher

maluca, Sr. Clarke. Tome-me novamente, por favor?”.

Foco, Catherine. Lembre-se de quem ele é e de qual é o seu objetivo aqui

pensei.

– Você não vai me acompanhar? – Perguntei.

Leonard pegou a garrafa e encheu meu copo, sua mão abandonando

meu corpo por esse motivo.

– Sim, vou. Deite na cama, Cindy.

Continuei sustentando seu olhar por alguns segundos, em que Leonard

permaneceu impassível. Deixando minha taça sobre o aparador, deitei na

cama, apoiada em meus cotovelos. Leonard pegou uma das garrafas e

bebeu um gole diretamente do gargalo. Aproximou-se da cama, icando de

joelhos no chão, e abriu minhas pernas, en iando-se entre elas. Levantou a

garrafa no ar, na altura de minha barriga. O liquido caiu em meu umbigo,

enchendo minha carne e me causando arrepios. Leonard sugou a bebida

vagarosamente, sua língua tratando de limpar qualquer vestígio de minha

pele.

– Meu

– Gemi baixo, jogando a cabeça para trás, meus olhos

fechados.

– Esse champagne é

maravilhoso...

– Ele falava com a boca contra minha

pele, beijando-me nos intervalos entre as palavras. – Mas misturado ao seu

sabor...

Ele é um néctar dos Deuses.

Ergui a cabeça e vi que Leonard levantava a garrafa novamente,

despejando um pouco da bebida, dessa vez em meu sexo. A sensação do

líquido gelado e borbulhante encontrando a parte mais sensível do meu

corpo foi simplesmente alucinante. Arqueei minhas costas, agarrando com

força o lençol, levantando meu quadril em sua direção. Segurei seus

cabelos negros e apertei seu rosto contra mim. Comecei a sentir a pulsação

aumentar e tudo ao meu redor icou turvo. A sensação era como se minha

alma deixasse meu corpo em espirais.

Toc. Toc. Toc.

Ah, não! - pensei. Agora não!

Intensi iquei o aperto em seus cabelos, forçando-o a continuar. Graças a

Deus ele me obedeceu; parecia tão tentado em vivenciar aquele momento

quanto eu.

Toc. Toc. Toc.

– Quem é? – Leonard perguntou com raiva, os lábios ainda colados aos

meus.

Jodie.

Meus músculos enrijeceram e soltei os cabelos de Leonard. Ele se

levantou, limpando a boca com a mão enquanto deixava a garrafa de

champagne sobre o móvel e vestia a boxer branca que jazia no chão.

– Fique aí – rosnou para mim, que inconscientemente tratei de envolver

meu corpo no lençol.

Leonard abriu a porta - novamente apenas uma brecha.

– E então? – Foi Jodie quem falou, a voz abafada vindo do corredor.

– Mudança de planos – Leonard respondeu.

Silêncio.

– Mudança de planos porra nenhuma. O combinado não é esse!

Foda-se o combinado, Jodie.

Leonard...

– O outro Clarke estava sério, bem diferente do que eu vira

mais cedo. – Você vai sair e eu vou entrar nesse quarto, agora. Ou, se você

preferir, pode icar aí me assistindo comer a mais nova aquisição do clube,

que você teve o prazer de iniciar. A escolha é sua.

Quanto de ansiedade o corpo humano pode aguentar até perder a

consciência? Porque eu podia jurar que meus sentidos estavam se

esvaindo após aquela declaração.

– E então? – Jodie Clarke quebrou o silêncio que se instaurara desde seu

último comentário. – O que vai ser?

– Um minuto – Leonard entrou e fechou a porta. Permaneceu alguns

segundos encarando o chão e, en im, seus olhos sombrios encontraram os

meus. – Você ica com Jodie, agora – ele falou sem emoção, meu coração

começando a bater descompassadamente no mesmo instante.

Abri a boca para falar, gritar,

reclamar...

Mas nem um io de voz escapou

de minha garganta, meus pulmões lutando para puxar o oxigênio. Leonard

começou a vestir-se. Seus movimentos eram lentos, e me perguntei se isso

se dava porque ele queria adiar a sua saída. Então percebi o quão idiota

aquilo soava, até mesmo em meus pensamentos.

A verdade é que ele estava se lixando para mim. Só havia icado irritado

por seu irmão ter interrompido sua diversão.

Senti meus olhos arderem – estava há muito tempo sem piscar, os olhos

ixos no nada, amortecendo o impacto daquela notícia. Quando voltei a

mim, Leonard já estava pronto, acabando de colocar sua gravata. Minha

respiração pesada era o único barulho no quarto, entregando minha

ansiedade. Ele foi até a porta, em silêncio. Colocou a mão na maçaneta e

parou, a outra mão correndo por seus cabelos sedosos.

– Tome uma ducha – sua voz saiu baixa. – Mas não precisa vestir-se, não

se dê ao trabalho.

Sem olhar para trás, Leonard saiu. Levantei-me em um impulso e corri

para o banheiro, afoita. Fechei a porta e me encostei na madeira pesada.

Que merda!

E agora, o que eu devia fazer?

Capítulo 14

Cindy

Parei de respirar quando ouvi movimentos do outro lado da porta.

Fiquei assim por um bom tempo, que não consigo avaliar ter sido muito ou

pouco. Então caí em mim e foquei na situação em que me encontrava.

Eu estava nua, meu vestido estirado no carpete mar im do outro lado da

porta. Estava nervosa e temerosa, com pânico de sair e ter que encarar

novamente o desconhecido; entregar-me a outro homem com quem eu não

possuía qualquer ligação emocional, na minha segunda vez. Estava

vulnerável, e não só porque era uma iniciante naquela "festa privada", sem

saber a mínima ideia de nossa localização geográ ica, como também

porque meu tamanho era imensamente desproporcional ao de Jodie

Clarke. Ele me mataria com um soco, se assim desejasse.

Resolvi me mover, antes que Jodie resolvesse perguntar o que estava

acontecendo. Cogitei a possibilidade de permanecer ali. Quanto tempo

alguém poderia sobreviver sem comida?

Entrei no box pela segunda vez naquela noite e abri o chuveiro, dessa

vez deixando a água gelada bater com força sobre minha pele, numa

tentativa de despertar. Tentei me convencer de que não era nada demais;

muitas mulheres levavam a vida daquela forma, dormindo com mais de um

homem por noite todos os dias, e a verdade é que a grande maioria não

era premiada com dois deuses do Olimpo.

Ok, onde eu queria chegar? “Relaxa e aproveita, querida”? Fala sério!

Bufei para a voz em minha cabeça e desliguei a água. Mais uma vez

enrolei-me numa toalha felpuda, mas, depois de me secar, acabei optando

por um roupão – branco e macio – que estava atrás da porta.

Você escolheu entrar nesse jogo perigoso - pensei. Resolveu desa iar o

perigo. Você não é Catherine, você é a Cindy. Encarne esse personagem, vá lá

fora e não seja descoberta. E tente sair daqui viva, senão tudo terá sido em

vão.

Respirei fundo e saí. Jodie estava de costas. Havia tirado a parte de cima

da roupa e seus músculos perfeitos estavam relaxados, a ponta da boxer

cinza surgindo pelo cós da calça.

– Sirva-me um copo de uísque, Cindy. Duplo e caubói.

Engoli em seco e me dirigi até o aparador, onde jazia a garrafa de

champagne pela metade esquentando fora do balde de gelo. Preparei a

dose e permaneci parada, o copo na mão, o líquido balançando

ligeiramente em resposta ao meu nervosismo.

Jodie virou-se. O sorriso acolhedor de antes, de quando eu chegara à

mansão, não estava presente. Ele estava sério, os olhos azuis quase

marinhos, uma sobrancelha ligeiramente arqueada. Andou até mim e

parou a poucos centímetros, levando sua mão até o copo, minha mão sendo

totalmente envolta pela dele.

– Tenho que admitir que estou realmente curioso para saber o que você

tem...

Não é sempre que preciso tirar Leonard quase à força de uma

convidada.

Não respondi. Engoli em seco e mordi meu lábio inferior, com tanta força

que não duvidaria que tivesse arrancado sangue. Jodie levantou a outra

mão e segurou meu pescoço, me puxando para perto dele, aproximando

sua boca de minha orelha.

– Seu cheiro é

gostoso...

Assim como você. Uma pena que eu não esteja

conseguindo apreciar devidamente. – Ele estava muito próximo de mim,

então. – Tire o roupão.

Jodie tirou sua mão de meu pescoço e se afastou, levando o copo e

sorvendo todo o líquido de uma vez, descartando o recipiente de cristal

sobre o aparador e levando suas mãos até o cós de suas calças, que no

momento seguinte estavam no chão. Quando seu olhar tornou a recair

sobre mim, estava sério.

– Você ouviu o que eu disse, Cindy? – Sua voz soou impassível. – Mandei

tirar o roupão.

Ligeiramente amedrontada pelo tom autoritário de Jodie, minhas mãos

seguiram para o cordão felpudo que prendia meu roupão e ele abriu-se na

frente, revelando parte do meu corpo. Jodie passou a língua pelos lábios e

engoliu a saliva, um meio sorriso surgindo em sua face pela primeira vez

desde que entrara no quarto.

– Começo a entender Leonard, agora – murmurou maliciosamente,

aproximando-se e tomando meu corpo para si.

* * *

Jodie levantou e se dirigiu em silêncio para o banheiro. Joguei o braço

sobre os olhos, tudo icando escuro imediatamente, enquanto aguardava

minha respiração descompassada voltar ao normal. Eu estava cansada.

Mas, acima de tudo, estava atônita. Havia, nas últimas horas, vivenciado

momentos que julgaria impossíveis três dias atrás.

Escutei o barulho de água correndo no chuveiro. Que horas deviam ser?

Duas, três da madrugada? Eu não fazia a menor ideia.

Levantei-me e peguei meu roupão que estava no chão. Estava acabando

de dar o nó quando uma batida leve na porta me fez pular. Prendi a

respiração, a mão no peito, o coração acelerado. O único barulho no quarto

era o som abafado da água que corria por detrás da porta do banheiro.

Outra batida. Droga! Aproximei-me da porta, colando meu ouvido contra

a madeira.

– P-pois não?

– Sou eu, Cindy. Leonard.

Leonard? Leonard?!

– Jodie está no banho, Leonard – respondi.

– Eu não vou entrar, Cindy. Abre a porta.

Olhei na direção do banheiro. A água ainda corria incessantemente.

Engoli em seco, passei as mãos pelos cabelos e abri a porta.

– Pois na...?

Não consegui completar a frase. Leonard segurou meu pulso e me

puxou com força para o corredor, fechando a porta com a mão livre. Num

gesto indelicado ele me lançou contra a parede, os olhos verdes descendo

para meu colo, onde o roupão havia se aberto parcialmente.

– Fiquei pensando e não achei justo que tenhamos sido interrompidos.

Leonard aproximou-se de meu corpo, uma das mãos imediatamente

ultrapassando a barreira do meu roupão. Sua boca encontrou a minha e

sua língua me invadiu – ele parecia querer me engolir, me devorar. Meu

corpo conseguiu distinguir a diferença entre os dois homens

imediatamente: minhas mãos identi icaram a diferença nos músculos, na

textura da pele, na essência dos perfumes, no sabor do hálito. No mesmo

instante perguntei-me como era possível, levando em consideração minha

inexperiência. Mas o fato é que meu corpo claramente elegeu sua

preferência e todas as minhas células pareciam implorar por Leonard.

Minhas mãos agarraram-se aos seus cabelos. Leonard desceu a boca

por meu pescoço, roubando-me um gemido baixo. Agarrou minhas coxas e

enlaçou minhas pernas à sua cintura.

– Quero ouvi-la gritando meu nome,

Cindy...

Para que todos dessa casa

escutem, inclusive Jodie.

Não percebi em que momento Leonard abriu o zíper de suas calças.

Nem em que momento ele abriu completamente meu roupão, enquanto

pressionava a parte de cima do meu corpo contra a parede. Só me dei

conta que isso tudo havia acontecido quando ele me penetrou de uma

única vez, profundamente.

Seus olhos estavam ixos nos meus. Leonard segurou com força minha

cintura e começou a se mover vagarosamente. Sua respiração estava

ofegante, seus olhos faiscavam e seus movimentos precisos e calculados

estavam me deixando totalmente maluca.

– Quem é melhor? – Voltei a abrir os olhos e me deparei com aquela

imensidão verde escura. –

Quem...

É...

Melhor...?

– Você – respondi. Ah, droga, e ele era! Naquele momento Leonard era

tudo o que quisesse: era um Deus, o dono do universo!

Leonard segurou meu cabelo e puxou minha cabeça para trás, minha

boca se abrindo parcialmente. Colou os lábios nos meus e estocou com

tanta força que – posso jurar – vi estrelas.

– Goza para mim. E grita meu nome.

Soltando meu cabelo, seus dedos meticulosos seguiram para o centro de

minhas pernas, massageando meu músculo num ritmo constante.

Leo...

Leo...

LEONARD!

Eu tremia desde as pálpebras até o dedão do pé. Foi um orgasmo tão

intenso que meus sentidos icaram interrompidos – eu não ouvia som

algum, tudo icou turvo, minhas extremidades icaram dormentes. Só voltei

parcialmente a mim quando senti meus pés tocarem o chão. Leonard

voltou a segurar meu cabelo e me pressionou para baixo, ainda contra a

parede. No segundo seguinte eu estava ajoelhada à sua frente, minha boca

preenchida por sua carne.

– Engole tudo – a ordem saiu baixa e quase tardia.

Leonard afastou-se de mim. Limpei discretamente os cantos da minha

boca e me levantei. Olhei para ele, que estava com a cabeça ligeiramente

abaixada enquanto tratava de fechar a calça, recompondo-se. Quando ele

finalmente me olhou, sua expressão era sombria novamente.

– Foi um prazer, Cindy. Nos vemos qualquer hora, na Espartacus.

Assenti, fechando meu roupão e abraçando meu próprio corpo. Leonard

virou-se, afastando-se. Fiquei ali, sem reação, o gosto dele impregnado em

mim. Pisquei, saindo do transe, e tomei coragem para voltar ao quarto.

Jodie estava parado, a toalha enrolada na cintura, preparando outra

dose de uísque.

– Quer dizer que Leonard voltou para acabar o que havia começado? –

Ele indagou sem se virar, enquanto fechava a garrafa e voltava a colocá-la

na bandeja. – Típico do meu irmão. Não gosta de ser contrariado.

Coloquei uma mecha de cabelo atrás da orelha e voltei a abraçar meu

próprio corpo. Poderia eu estar mais sem jeito? Duvido.

– Sabe,

Cindy...

– Jodie levou o copo à boca e, como da outra vez, bebeu

todo o conteúdo de uma única vez. – Eu ouvi você berrando o nome dele.

Sim, claro que ouviu. Mas sabe o quê? Não era eu, eu estava possuída por

algum tipo de pomba-gira com estado hormonal avariado – pensei.

Jodie se virou para mim. Sua face era um misto de raiva e ironia.

– Vou fazê-la arrepender-se por isso – completou.

Capítulo 15

Cath

Sabe aqueles dias em que você acorda e tudo o que aconteceu na noite

anterior parece um sonho, de tão surreal e improvável? Pois é.

Abri os olhos. O quarto era o mesmo da noite anterior, mas agora, com a

claridade que conseguia entrar através de uma brecha da pesada cortina,

parecia completamente diferente. Parei um segundo e prestei atenção em

como eu estava me sentindo.

Minha cabeça latejava levemente e minha boca tinha um gosto

ligeiramente amargo. Meu corpo doía consideravelmente, inclusive em

partes que eu nem sabia que existiam. Sim, claro. Era de se esperar. Voltei

a fechar os olhos e imediatamente várias cenas passaram pela minha

cabeça.

Limusine. Máscara. Jodie Clarke. Bruce Forrester. Vincent. Leonard

Clarke. Champagne. Corredor. Prazer.

Voltei a abrir os olhos. Eu estava sozinha ali. Levantei-me, sem me

preocupar em me cobrir, e fui para o banheiro. Analisei meu corpo em

frente ao espelho. Havia algumas marcas vermelhas espalhadas por minha

pele alva, mas nada que fosse perdurar por muito tempo. Havia, também,

um leve chupão no meu pescoço, que seria facilmente mascarado com um

pouco mais de maquiagem. Meus grandes olhos castanhos estavam

levemente borrados de maquiagem e meus cabelos loiros pareciam saídos

de um furacão. Tomei um banho, sequei meu cabelo e saí.

Havia um bilhete sobre o aparador, agora repleto de garrafas vazias.

"Leve o tempo que quiser. Suas roupas estão no armário e o motorista está

a sua disposição, para levá-la de volta ao endereço que fornecer.

Até breve.

J. Clarke."

Fui até o armário. O vestido longo e negro estava ali, pendurado em um

cabide. Minha bolsa estava em uma prateleira, junto com minha lingerie, e

minhas sandálias jaziam no chão. Respirei fundo e comecei a me vestir.

Estava perdida em meus devaneios quando um barulho me chamou a

atenção.

Bip. Bip. Bip. Que barulho irritante era aquele? Vesti-me e, enquanto

fechava o zíper, o barulho ressoou mais uma vez. Bip. Bip. Bip. Meu celular!

Peguei a bolsa e retirei o aparelho de dentro. A bateria estava quase no

inal. Olhei a hora: passava um pouco das dez da manhã. "9 ligações

perdidas".

Estava mexendo no aparelho para ver de quem eram as ligações

quando o celular começou a tocar. “Victor chamando".

Eu não queria atender. Não ali, naquelas condições. Mas e se algo tivesse

acontecido com Tim? Eu jamais me perdoaria.

– A-alô?

– Cath? Droga, Catherine, graças a Deus! Onde você se meteu, eu estava

quase surtando...

– Está tudo bem, Vic!

– Eu liguei mil vezes! Você não me atendeu, eu...

– Eu estava muito estressada,

cansada...

– Interrompi-o. – Tomei um

remédio para dormir e, como não estou acostumada, apaguei

completamente.

Uma dor lancinante surgiu em meu peito. É por Chase, Catherine. Foco!

– Eu já ia ligar para você, acabei de acordar.

– Você está melhor, agora? – Vic perguntou com a voz preocupada.

– Sim. Bem, mais ou menos. Vou melhorar. – E o peso na minha

consciência aumentando. – Como está seu pai? – Perguntei.

– Está bem melhor, só um pouco melindroso. Não corre mais riscos.

Voltarei o mais breve possível, Cath. Pode ficar tranquila.

– Ok. Leve o tempo que for necessário, as coisas aqui estão congeladas e

acho que esse quadro não será alterado tão cedo.

– Tudo bem. Mantenha-me informado, certo? Fico louco só de imaginar

você aí sozinha, tendo que enfrentar isso tudo.

– Certo. Pode ficar tranquilo, Vic. Dê lembranças a todos.

– Amo você, Cath.

Droga, droga, droga!

– Também, Vic.

Ele desligou e sentei no chão, no lugar em que me encontrava. Não

consegui evitar que um choro desenfreado rolasse. Eu estava me sentindo

tão desorientada, tão sozinha,

tão...

Suja! O problema não era eu ter feito

tudo aquilo, pois sabia em meu íntimo que era por uma causa justa. O

problema era eu ter gostado, ter sentido prazer.

Forcei meu corpo a se levantar. Respirei fundo e me vesti, com pressa.

Queria sair daquele lugar, esquecer – ou pelo menos tentar esquecer –

tudo o que havia acontecido ali. Sim, como se isso fosse possível.

Havia acabado de sair e estava fechando a porta quando uma voz

estranha me chamou. Meu corpo pulou ligeiramente à surpresa. Virei-me e

uma linda mulher estava ali, a mesma que eu vira na Espartacus, de

vestido vermelho. Como era mesmo o nome dela?

– Meu nome é Dominique – ela se apresentou. – Muito prazer.

Ah, é mesmo. Dominique. Ela estendeu a mão, que eu apertei.

– Muito prazer, meu nome é Cindy.

– Venha comigo, por favor.

Ela virou-se e começou a andar. Demorei alguns segundos, até que

minhas pernas inalmente moveram-se e eu a segui. Dominique entrou em

uma porta, alguns metros além do quarto em que eu estivera, no mesmo

corredor. Um escritório desvendou-se aos meus olhos, em estilo colonial,

com as paredes revestidas de madeira e obras de arte. Ela deu a volta em

uma grande mesa de carvalho e se sentou, apontando a cadeira em frente.

Sentei-me, calada.

– Normalmente nós não pagamos as iniciantes, Cindy – disse, enquanto

abria uma gaveta da mesa após ter digitado uma senha. – É de praxe que

um dos Clarke faça

um...

Test drive na primeira vez, para ter certeza de que

vale a pena e que a garota se tornará um membro constante.

– Tudo bem, eu estava indo embora...

Contudo...

– Dominique continuou, claramente irritada por eu tê-la

interrompido. – Fui orientada a abrir essa exceção.

Dominique esticou a mão, onde um envelope branco contrastava com

sua pele macia, suas unhas pintadas de vermelho vivo. Segurei e ela soltou,

cruzando os braços. Respirei fundo e abri, rasgando a lateral.

Engasguei com minha própria saliva, num claro e ridículo momento de