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5 de Outubro de 1910

ANTECEDENTES

1910

A monarquia está refém das questiúnculas dos


partidos, da rápida sucessão de governos e dos
Gravura alusiva à proclamação da República, no Porto, aquando
da abortada revolta republicana de 31 de Janeiro de 1891.
escândalos em que se afundam os seus dirigentes e
a Corte. Os republicanos alargam a sua influência.
A Maçonaria e a Carbonária preparam o derrube do
regime: “O único herdeiro do trono é o Povo”.

Terça-feira, 1 de Fevereiro de 1910


Guardas municipais armados vigiam uma urna de voto nas eleições de 5 de Abril de 1908, em que os republicanos alcançaram a vitória
em mais de 70% das freguesias da cidade de Lisboa. As eleições foram acompanhadas em Lisboa por violentos confrontos entre a
guarda municipal e manifestantes republicanos, que reclamavam a fiscalização das urnas eleitorais, registando-se 14 mortos.
Como habitualmente, muita gente dirige-se às
campas dos regicidas, depondo flores e prestando
Representação do fabrico de uma bomba artesanal.
homenagem aos que haviam atentado contra a vida
da família real dois anos antes.

Março-Abril de 1910

Afonso Costa levanta no Parlamento a questão


Hinton, relacionada com a indemnização de
673.000 libras pedida por um súbdito inglês
que obtivera o estabelecimento, em 1903,
na Madeira, de um verdadeiro monopólio de
transformação do açúcar em álcool. O governo
tenta impedir a discussão, registando-se diversas
Representação, de autor anónimo, do regicídio, vendo-se, em
primeiro plano, as efígies de Manuel Buiça e Alfredo Costa.
sessões tumultuosas no Parlamento. Afonso Costa
apresenta cartas comprometedoras de D. Fernando
de Serpa, ajudante de campo de D. Carlos e de D.
Manuel e comandante do iate real “Amélia”, O
rei acaba por encerrar o Parlamento, colocando as
tropas de prevenção, enquanto o juíz de Instrução
enche as prisões de suspeitos de pertencerem à
Carbonária.
Romagem às campas dos regicídas (Alfredo Costa e Manuel Buiça) Dr. Francisco Maria da Veiga, “O Juiz Veiga”, primeiro juiz de instrução criminal. Reprodução de uma capa da <<Ilustração Portu-
no cemitério do Alto de S. João. guesa”, de 2 de Dezembro de 1907, da autoria de Rafael Bordalo Pinheiro.

FUNDAÇÃO
MÁRIO SOARES
5 de Outubro de 1910
A PROPAGANDA

Sexta-feira, 29 de Abril de 1910

Realiza-se, no Porto, nos dias 29 e 30 de Abril,


o 11º congresso anual do Partido Republicano,
tendo como pano de fundo os preparativos
revolucionários em marcha para a implantação
da República, elegendo mesmo uma comissão
para sondar os governos das principais potências
europeias sobre a matéria.

Junho-Julho de 1910

A manifestação promovida pela Junta Liberal descendo a Rua do Alecrim, Agosto de 1909 (Fotografia Joshua Benoliel). O padre Matos e o jornal católico ultramontano “Portugal”. Re-
produção de um postal satírico de propaganda republicana.
A missão eleita no Congresso do Partido
Republicano do Porto, desloca-se a Paris e Londres.
Dela fizeram parte José Relvas, Alves da Veiga
(apenas a Paris) e Sebastião de Magalhães Lima.

Sábado, 7 de Maio de 1910

D. Manuel II parte para Londres para assistir aos


funerais do rei Eduardo VII.

Sábado, 4 de Junho de 1910

Reúne-se a assembleia geral dos accionistas do


Crédito Predial, cuja falência fora anunciada a 1 de
Maio. A polícia impede a entrada a uma multidão
de mais de 1.000 pequenos obrigacionistas,
levados à miséria por esta falência. O governo
Veiga Beirão é arrastado no escândalo, que envolve
alguns dos nomes mais sonantes da política, da
magistratura e das finanças destes últimos tempos
Reprodução de um cartaz de propaganda republicana para as eleições legislativas de Agosto de 1910. da monarquia.

FUNDAÇÃO
MÁRIO SOARES
5 de Outubro de 1910
A DECISÃO

Terça-feira, 14 de Junho de 1910

Reúne-se no Grémio Lusitano o “Povo Maçónico”


de Lisboa para “resolver tudo o que tivesse por
conveniente com respeito às leis de excepção
que têm levado alguns dos nosso Irmãos a serem
perseguidos e nomeadamente dos decretos e leis
respeitantes ao Juízo de Instrucção Criminal.”
“Com grande entusiasmo e por unanimidade”, a
assembleia aprovou uma proposta que delega no
Grão-Mestre a nomeação de cinco maçons para
constituírem uma “Comissão de Resistência”,
com plenos poderes para “velar pela segurança
Convocatória de José de Castro, Grão-Mestre Adjunto do Grande Oriente
dos Irmãos, defender a maçonaria dos ataques da
Lusitano Unido, de 3 de Agosto, para que se reunam no Palácio Maçóni-
co “todos os Veneráveis Mestres” de Lisboa, para assunto que se prende
“com a reunião plenária que se realizou em 14 de Junho último”.
reacção política e religiosa, guiando o trabalho dos
Obreiros no mundo profano no interesse superior
da Pátria e da segurança dos cidadãos”.
A 5 de Agosto, por convocatória de José de Castro,
Grão-Mestre Adjunto da Maçonaria, reúnem-
Primeira página da circular sobre a criação pela Maçonaria, em 14 de Junho de 1910, da “Comissão de Resistência”.
se no Palácio Maçónico, “todos os Veneráveis
Mestres, ou seus delegados, das Oficinas do Vale
de Lisboa”.

Domingo, 26 de Junho de 1910

Teixeira de Sousa, que, nos finais do ano anterior,


sucedera a Júlio de Vilhena na direcção do
Partido Regenerador, forma um novo governo,
após a arrastada crise em que
mergulhara o anterior governo de
Veiga Beirão, maioritariamente
Símbolo da Loja maçónica “Montanha”.
progressista, levado com a falência
Credencial de Cândido dos Reis (com o nome simbólico de Marceau) como inspec-
tor da Carbonária Portuguesa.
do Crédito Predial.

FUNDAÇÃO
MÁRIO SOARES
5 de Outubro de 1910
PREPARATIVOS

Sábado, 2 de Julho de 1910

Sebastião de Magalhães Lima, Grão-Mestre da


Maçonaria, regressado de Londres, onde estivera
em missão exploratória relacionada com a eventual
implantação da República em Portugal, escreve de
Paris uma carta a Simões Raposo, então professor
na Casa Pia, em que lhe comunica que o resultado
das suas diligências em Inglaterra “foi admirável”.
Telegrama cifrado dirigido por João de Deus Ramos ao padre Elísio Campos, comunicando que Guerra Interroga-se, no entanto, para que servem “todas
Junqueiro e Sampaio Bruno já concluíram os trabalhos de redacção da Proclamação de implantação da
República.
estas diligências e toda esta despesa, se aí não
correspondem”.

Quinta-feira, 14 de Julho de 1910


Fotografia de Sebastião de Magalhães Lima, envergando insígnias de Grão-Mestre da Maçonaria.

O padre Elísio Campos recebe nas “Escolas


Móveis” um telegrama do seguinte teor: “Sim vou
rápido tarde = João”. Com esta mensagem, João
de Deus Ramos comunica que Guerra Junqueiro
e Sampaio Bruno já concluíram a redacção da
Proclamação de implantação da República.

Quinta-feira, 14 de Julho de 1910

Cândido dos Reis, Machado Santos, José Afonso


Pala e o capitão de fragata Fontes Pereira de
Melo reúnem-se para decidir uma eventual
“vinda da Revolução para a rua”, mas adiam o
movimento, que esteve marcado para o dia 16
de Julho. Entretanto, a Comissão de Resistência
Carta de Sebastião Magalhães Lima para Simões Raposo, datada de Paris, 2 de Setem-
da Maçonaria organizou um novo plano para a
bro de 1910.
acção civil, que foi sancionado pelo Directório
do Partido Republicano, faltando apenas marcar
Primeira página da “Proclamação” redigida por Guerra Junqueiro e Sampaio Bruno.
a data.

FUNDAÇÃO
MÁRIO SOARES
5 de Outubro de 1910
A SITUAÇÃO

Quarta-feira, 20 de Julho de 1910

Uma greve dos tecelões alastrou a todo o Vale


do Ave, lutando por reivindicações salariais e de
horários.

Domingo, 7 de Agosto de 1910

Realiza-se em Lisboa um grande comício


republicano.

Domingo, 28 de Agosto de 1910

Após a dissolução da Câmara dos Deputados,


realizaram-se as eleições legislativas, de que
Os candidatos à vereação municipal no comício realizado na antiga Avenida D. Amélia, distinguindo-se, entre outros: Ventura Terra, Cunha e Costa, Aurélio da Costa Ferreira, Alberto Marques, Miranda do Vale e
Tomás Carreira (Fotografia Joshua Benoliel).

resultou a eleição de 87 deputados regeneradores


(ortodoxos), 23 progressistas, 14 republicanos,
8 regeneradores dissidentes, 5 franquistas, 3
nacionalistas e 3 governamentais.

Quarta-feira, 31 de Agosto de 1910

Bilhete de Miguel Bombarda para Simões Raposo, 31 de Agosto de 1910. Miguel Bombarda escreve a Simões Raposo um
bilhete cifrado em que lhe comunica que se vai
ausentar para Abrantes e, por isso, lhe pede toda a
“diligência para tratarmos do negócio dos exames
na 6.ª feira”.

Setembro de 1910

Cresce o movimento grevista, que gira


designadamente em torno dos operários corticeiros
da margem Sul do Tejo e dos trabalhadores da
Feio Terenas, Teófilo Braga, Agostinho Fortes e Bernardino Machado num comício
de propaganda republicana.
Aspecto de uma fábrica têxtil da época. cortiça do Alentejo e do Algarve.

FUNDAÇÃO
MÁRIO SOARES
5 de Outubro de 1910
PROTAGONISTAS

Sábado, 10 de Setembro de 1910

O governo ordenou um inquérito à residência da


Companhia de Jesus no Quelhas, para verificar se
estava em conformidade com o decreto de 18 de
António José de Almeida Miguel Bombarda Alexandre Braga Teófilo Braga Sampaio Bruno Abril de 1901.

Segunda-feira, 12 de Setembro de 1910

O governo, ao abrigo da legislação de 1901


sobre as congregações, determina a dissolução
da comunidade religiosa de Aldeia da Ponte, no
concelho de Sabugal.
Brito Camacho João Chagas Afonso Costa Anselmo Braancamp Freire Guerra Junqueiro
Sexta-feira, 23 de Setembro de 1910

Na abertura das Cortes, o rei


lê o seu último discurso da
Coroa, em que sublinha os
“princípios acentuadamente
liberais, como convém a uma monarquia
democrática” e anuncia a reforma de artigos da
Bernardino Machado Ana de Castro Osório Afonso Pala Consiglieri Pedroso Simões Raposo Carta Constitucional, a reorganização da Câmara
dos Pares e a reforma do Código Administrativo”.
As Cortes são seguidamente adiadas.

Terça-feira, 27 de Setembro de 1910

Realizam-se no Buçaco as comemorações da vitória


anglo-lusa sobre as forças francesas em 1810.
Foi organizada uma parada militar e D. Manuel
Cândido dos Reis José Relvas Heliodoro Salgado Machado Santos Angelina Vidal II recebeu demonstrações de lealdade. Esteve
presente o duque de Wellington, em representação
do seu antepassado.

FUNDAÇÃO
MÁRIO SOARES
5 de Outubro de 1910
ORDEM GERAL

Quinta-feira, 29 de Setembro de 1910

Na sede do Directório do Partido Republicano


Português reúnem alguns dos mais importantes
conspiradores do Partido Republicano, da
Maçonaria e da Carbonária: Simões Raposo,
Machado Santos, José Cordeiro Júnior, António
Maria da Silva, José Barbosa, Inocêncio Camacho,
Cândido dos Reis, Manuel Martins Cardoso,
Eusébio Leão, José Relvas e Miguel Bombarda –
esta reunião terá representado o momento decisivo
Teixeira de Sousa, Presidente do último Ministério da Monarquia, recebe no Arsenal do arranque do movimento revolucionário.
de Marinha, a 1 de Outubro de 1910, o Presidente eleito do Brasil, Marechal Hermes
da Fonseca, que partirá já com a República implantada.

Sábado, 1 de Outubro de 1910

O Presidente eleito do Brasil, Marechal Hermes


Esquema da reunião de 29 de Setembro de 1910 (excerto), com identificação dos participantes.
Rodrigues da Fonseca, chega a Lisboa.

Domingo, 2 de Outubro de 1910

Realiza-se uma nova reunião, em que é


definitivamente marcada a eclosão do movimento
revolucionário para a 1 hora da manhã do dia
4. Machado Santos entrega a um marinheiro
do “Adamastor” as bandeiras republicanas que
deveriam ser hasteadas nos navios revoltosos.

Domingo, 2 de Outubro de 1910

A Comissão de Resistência aprova a Ordem Geral


do Comité Civil com instruções para a actuação dos
grupos civis revolucionários, que foi distribuída com
Avental do grau 18 do Rito Escocês Antigo e
Aceito - Soberano Príncipe Rosa Cruz, pintado
Sala de Visitas do Dr. José de Castro, onde reuniu pela primeira vez a Comissão
de Resistência da Maçonaria.
Ordem Geral do Comité Civil (Carbonária Portuguesa), com instruções para
actuação dos grupos revolucionários civis.
o símbolo da Venda Jovem Portugal da Carbonária
sobre seda.
Portuguesa.

FUNDAÇÃO
MÁRIO SOARES
5 de Outubro de 1910
3 de Outubro

Segunda-feira, 3 de Outubro de 1910

«O Dr. Miguel Bombarda foi alvejado a tiros de


revólver por um louco que hoje o procurou em
Rilhafoles, tendo recolhido ao Hospital de S. José
em estado grave. O povo de Lisboa está convencido
de que o assassínio foi obra dos clericais» - assim
foi anunciado o homicídio do famoso médico
alienista e dirigente republicano. Registaram-se
incidentes na Baixa, em que populares, soldados
Fotografia do gabinete do Dr. Miguel Bombarda no Hospital de Rilhafoles, tal como ficou de-
pois do seu assassinato pelo tenente Rebelo, antigo aluno dos colégios da Companhia de Jesus,
distinguindo-se, do lado esquerdo da imagem, a pistola com que foi morto.

e marinheiros perseguiram e tentaram agredir


alguns padres. O jantar no Palácio de Belém, que o
Presidente do Brasil, Hermes da Fonseca, oferecia
nessa noite ao rei, foi apressado sob a suspeita de
“Três Varões Assinalados”, Luz de Almeida, Machado Santos e António Maria da Silva.
que a revolução ia rebentar...
Desenho de Francisco Valença, publicado em Novembro de 1910 no jornal de caricaturas
“Varões Assinalados”. Reunião da Rua da Esperança
No 3.º andar do n.º 106 da Rua da Esperança,
tem lugar uma reunião plenária dos principais
implicados militares. O almirante Cândido dos
Transportado para o Hospital de S. José, Miguel Bombarda foi operado, “depois de ter man-
Reis afronta o parecer geral negativo dos elementos
dado queimar à vista uma carta que trazia na carteira” e falado com Brito Camacho, mas não
resistiu à operação, entrou em coma e faleceu cerca das 6 da tarde.
militares e faz prevalecer a decisão de avançar
para a insurreição. Neste mesmo dia, Cândido dos
Reis transmite a Machado Santos e aos restantes
chefes militares a senha da revolução: “Mandou-
me procurar? - Passe cidadão!”
Machado Santos prepara assalto a Infantaria
16
Às 8 da noite, Machado Santos reúne no jardim de
Campo de Ourique com as praças do regimento de
Infantaria 16, combinando os detalhes do assalto
ao quartel. Encontra-se depois com sargentos de
marinha e passa pelo Grémio Lusitano (sede da
No dia 2, Cândido dos Reis reúne com oficiais da Marinha no escritório de Eusébio Leão. Aí
Maçonaria). Segue para o Centro Republicano de
No 3º andar do nº 106 da Rua da Esperança, prédio da mãe de Inocêncio Camacho, tem lugar
a última reunião dos principais implicados militares e de alguns dirigentes civis. O almirante
comunica a Machado Santos que “a revolução viria para a rua à uma hora da madrugada do
dia 4”. Nessa noite, após reunião da Comissão de Resistência, Machado Santos entrega a um
marinheiro do “Adamastor” as bandeiras republicanas que deverão ser hasteadas nos navios
Santa Isabel, em Campo de Ourique, onde enverga
Cândido dos Reis faz prevalecer a decisão de avançar para a insurreição, apesar da prevenção
das tropas ordenada pelo governo.
revoltosos (vermelha junto ao mastro e a parte maior verde, com esfera armilar de ouro sobre
fundo azul, encimada por uma estrela de cinco pontas em prata com resplendor de ouro, similar a farda de gala e prepara a tomada do quartel.
à utilizada no símbolo da Carbonária Portuguesa).

FUNDAÇÃO
MÁRIO SOARES
5 de Outubro de 1910
PASSE, CIDADÃO!

Segunda-feira, 3 de Outubro de 1910

Na noite de 3 para 4 de Outubro, o estado-maior


da revolta republicana reúne-se nos Banhos de
S. Paulo. Para aí convergem, designadamente,
José Relvas, Eusébio Leão, Inocêncio Camacho,
Afonso Costa, José Barbosa, António José de
Civis que participaram no assalto ao quartel de Artilharia 1, na noite de 3 de Outu-
bro de 1910. Almeida, João Chagas, Ricardo Durão, Celestino
Stefanina, Malva do Vale, Marinha de Campos,
Soares Guedes e Alfredo Leal.

Conferência de Magalhães Lima em Paris


Sebastião de Magalhães Lima realiza em Paris,
nos salões do café Globe, uma conferência sobre
Portugal republicano. Passada a escrito foi enviada
a vários jornais e revistas internacionais, afirmando
que “a monarquia cai por si própria”.
Elementos da “Barraca Buiça” (Carbonária) que participaram no ataque ao Museu

Terça-feira, 4 de Outubro de 1910


de Artilharia, de onde recolheram armamento.

Caricatura de Sebastião de Magalhães Lima, Grão-Mestre da Maçonaria, da autoria de Alfredo Cândido.

Às 00.45 horas, civis armados, comandados por


Machado Santos, saem do Centro Republicano de
Santa Isabel, em Campo de Ourique, e tomam o
quartel de Infantaria 16. Dominado este, a coluna
revoltosa, composta por cerca de 200 homens,
dirige-se para Artilharia 1, em Campolide. Apesar
da resistência de alguns militares, os insurrectos
republicanos assaltam os paióis e apoderaram-se de
armamento pesado. Entretanto, é também dominado
por militares e civis o Quartel de Marinheiros, em
Alcântara. A Guarda Municipal tenta controlar
os acontecimentos mas não consegue impedir
Esquema feito a partir do mapa de Lisboa (editado pelo jornal “O Século”) utilizado para preparar o movimento revolu- Fachada do Centro Republicano de Santa Isabel, em Campo de Ourique,
de onde sairam os revoltosos que tomaram Infantaria 16.
que a coluna saída de Artilharia 1 se dirija para a
cionário.
Rotunda.

FUNDAÇÃO
MÁRIO SOARES
5 de Outubro de 1910
A ROTUNDA

Suicídio de Cândido dos Reis


O almirante Cândido dos Reis suicida-se na
madrugada do dia 4 de Outubro, após ter considerado
perdida a revolução, de que era o principal
responsável militar e cujos primeiros tiros já se
ouviam. Vem a aparecer morto na Azinhaga das
Freiras. Suicídio ou, como se suspeitou, assassínio?
O certo é que, vencido Cândido dos Reis, só
Machado Santos se manterá firme na Rotunda.
Bombardear o Palácio das Necessidades
Os revoltosos que se haviam apoderado do Quartel
dos Marinheiros, em Alcântara, enviam uma
Barricadas na Rotunda, ao cimo da Avenida da Liberdade (Fotografia
Joshua Benoliel). ordem manuscrita para o cruzador “Adamastor”,
já sob o comando do tenente Cabeçadas: “Tome
posição conveniente e bombardeie imediatamente
Palácio Necessidades. Nós ficamos aguardando
chegada das tropas revolucionárias que estão a
Este e mantemos reducto quartel. Cuidado com
pontarias”.
Barricadas improvisadas na Rotunda (Fotografia Joshua Benoliel).
Forças revoltosas concentram-se na Rotunda
Elementos civis armados, quase todos da
Carbonária, comandados por Alberto Meireles, e
militares republicanos convergem para a Rotunda
(actual Praça Marquês de Pombal) e levantam
improvisadas barricadas. Pouco passa das três
da manhã. Machado Santos assume o comando,
Forças revolucionárias no acampamento da Rotunda (Fotografia Joshua
Benoliel). mas as notícias que vão chegando não são muito
animadoras, falhada a adesão de diversas unidades
militares e conhecido o suicídio de Cândido dos
Reis. Os oficiais do Exército abandonam a Rotunda.
Apenas aí ficam nove sargentos carbonários,
Ordem manuscrita enviada do quartel dos marinheiros, em Alcântara, para o cruzador Adamastor: “Tome
alguns cadetes da Escola do Exército e oito peças
posição conveniente e bombardeie imediatamente Palácio Necessidades. Nós ficamos aguardando chegada

Grupo de militares e populares armados, na Rotunda, posando com uma


das tropas revolucionárias que estão a Este e mantemos reducto quartel. Cuidado com pontarias.”Assinada
por António Ladislau Parreira, José Carlos da Maia e José Mendes Cabeçadas. Esta ordem fez com que os
de artilharia.
bandeira com a inscrição “Carbonária Portuguesa/Justiça e Liberdade” navios revoltosos tomassem posição frente a Alcântara e iniciassem o bombardeamento do palácio real,
(Fotografia de J.J. Ferreira, oferecida a Bernardino Machado). levando á fuga do rei.

FUNDAÇÃO
MÁRIO SOARES
5 de Outubro de 1910
O REI EM FUGA

Bombardeado o Palácio das Necessidades


Os cruzadores “Adamastor” e “S. Rafael”, já
controlados pelos republicanos, tomam posição
frente a Alcântara, de onde, cerca das onze da
manhã, disparam mais de quarenta granadas sobre
o palácio real, atingindo a cornija da capela das
Necessidades e o próprio quarto de D. Manuel,
além de terem conseguido cortar o mastro onde
estava hasteado o pavilhão real... Esta acção
provoca a fuga do rei e lança a confusão nas tropas
que defendiam o palácio real, ao mesmo tempo
Estragos causados no Palácio das Necessidades pelos bombardeamentos efectuados pelos navios
que alivia a pressão sobre o quartel de Alcântara,
revoltosos.
onde os insurrectos estavam entrincheirados.
O rei foge para Mafra
Quando os cruzadores “S. Rafael” e
Representação do bombardeamento do Palácio das Necessidades pelos navios revoltosos,
“Adamastor” tomam posição frente
publicada no semanário britânico “Graphic”.
ao Palácio das Necessidades, o
pânico apodera-se de quantos aí se
encontravam. D. Manuel refugia-se
na tapada, no pavilhão mandado construir por seu
pai, “o atelier onde D. Carlos pintava e recebia as
visitas patuscas”. Cerca das duas da tarde, acaba
por fugir pelas traseiras, dirigindo-se para Mafra,
Postal alusivo ao embarque na Ericeira, com o título “A família real
batendo em retirada”.
Duas enfermeiras, uma portuguesa e uma espanhola, que prestaram
assitência aos feridos. de automóvel. Ao mesmo tempo, avisa a mãe e
a avó, que se encontravam no Palácio de Sintra,
para se lhe juntarem em Mafra.
Hospital de sangue na Rotunda
Junto à Rotunda, é instalado um hospital de
sangue na cocheira do palácio do conde de
Sabroza, que “cedeu o primeiro andar e pôs às
ordens do improvisado hospital os seus criados”,
prestando “óptimos serviços na ambulância”
diversas senhoras.
Bandeira republicana existente no Museu Maçónico Português, similar às referenciadas em
diversas fotografias dos acontecimentos de 5 de Outubro de 1910.
Revolucionários civis e militares na Rotunda.

FUNDAÇÃO
MÁRIO SOARES
5 de Outubro de 1910
4 DE OUTUBRO

Loures, Almada e Moita


Em Loures, é proclamada a República, que em
Lisboa ainda está por decidir. Ao chegarem notícias
dos combates em Lisboa, republicanos constituem
uma Junta Revolucionária e ocupam os Paços
do Concelho, hasteando uma bandeira verde e
vermelha. Também em Almada, republicanos idos
de Lisboa proclamam a República, enquanto os
Oficiais da Marinha que participaram na revolução republicana. Sentados, da esquerda para a direita: Vas-
concelos e Sá, Sousa Dias, Ladislau Parreira, Tito de Morais e Costa Gomes; de pé: José Mendes Cabeçadas operários abandonam as fábricas e percorrem as
Júnior, Mariano Martins, João Fiel Stokler, Carlos da Maia e Silva Araújo.
ruas com bandeiras dos centros republicanos, ao
som da Marselhesa e da Portuguesa, e é instituída
uma Junta Revolucionária. Entretanto, chega a
Cacilhas, vindo de Setúbal, o deputado republicano
Feio Terenas. Também a Moita proclamou a
República a 4 de Outubro.
Armada bombardeia o Rossio
Feio Terenas com dois companheiros republicanos da margem sul.
Cerca das 16 horas, os navios fundeados no Tejo
deslocam-se para a frente do Terreiro do Paço e
bombardeiam o Rossio, onde estavam concentradas
O artilheiro de 1.ª classe, Joaquim Primo António, à esquerda, mostra a Mendes Cabeçadas, ao centro, o
canhão do “Adamastor” que abriu fogo contra o Palácio das Necessidades e com que apeou o pavilhão real
que estava hasteado no mastro daquele palácio.
tropas monárquicas, pondo em fuga a Guarda
Municipal ali estacionada. A posição dos navios
da Armada impede o prosseguimento dos ataques
à Rotunda.
“D. Carlos” passa-se para os republicanos
Pelas 10 horas da noite, o cruzador “D. Carlos”,
que permanecia sob comando monárquico, é
abordado por marinheiros e civis revoltosos, sob
a direcção do 2.º tenente José Carlos da Maia, a
partir do “S. Rafael”. A equipagem alinha também
pela República, travando-se combates a bordo
com a oficialidade monárquica, de que resultaram
Marinheiros e populares, no dia da revolução republicana (Fotografia de J.J. Ferreira, oferecida a Bernardi-
diversos feridos, morrendo o comandante do navio,
Álvaro Ferreira.
no Machado).

Desenho de Georges Scott publicado nas revistas <<The Illustraded London News>>
e <<Illustration>>, representando os combates registados a bordo do cruzador <<D.
Carlos>> (“os últimos defensores da monarquia”).

FUNDAÇÃO
MÁRIO SOARES
5 de Outubro de 1910
OS ÚLTIMOS COMBATES

A noite de 4 para 5 de Outubro


O bombardeamento do Palácio das Necessidades
e do Rossio, bem como a fuga do rei e a iminência
de um desembarque dos marinheiros na Baixa,
lançam a confusão nas tropas fiéis à monarquia.
Estragos provocados na porta de armas do Quartel de Artilharia Um
durante a revolução republicana.
Ainda assim, perto das duas da manhã, o Quartel-
General ordena a Paiva Couceiro que instale uma
das suas peças de artilharia no pátio do Torel,
de modo a apoiar uma ofensiva que se prevê
desencadear ao romper do dia 5 sobre o Parque
Eduardo VII e a Rotunda, onde Machado Santos
Artilharia colocada numa das ruas de acesso à Rotunda, onde estavam concentrados as forças revolucionárias.
continua entrincheirado. Durante a noite, os tiros
Soldados revoltosos do Regimento de Infantaria 16 em formatura na Ro-
tunda, Lisboa, no dia da revolução republicana (Fotografia de J.J. Fer-
de artilharia trocados entre os dois lados atingem
reira, oferecida a Bernardino Machado).
o prédio n.º 222 da Av. da Liberdade.

Quarta-feira, 5 de Outubro de 1910

Ao romper do dia, a peça de artilharia que Paiva


Couceiro instalara no Torel dispara sobre a Rotunda
e o Parque Eduardo VII, lançando a confusão nas
hostes republicanas. Entretanto, todos os navios
fundeados no Tejo colocam-se do lado republicano,
ameaçando fazer fogo ao longo das ruas Augusta
e do Ouro e bombardear o Rossio, onde se
concentram as tropas ainda fiéis à monarquia, que,
no entanto, dão sinais de debandada – esperam, em
vão, a chegada de reforços, vindos de Santarém,
mas as linhas férreas e algumas estradas foram
sabotadas. Ao mesmo tempo, anuncia-se iminente
o desembarque de marinheiros. No Castelo de S.
Jorge, é hasteada uma bandeira republicana. E a
Guarda Municipal, aquartelada no Carmo, não
Aspecto do prédio da Av. da Liberdade n.º 222, em Lisboa, incendiado pelos tiros de artilharia na noite de
consegue intervir de modo decisivo.
Civil revolucionário de guarda à porta da Câmara Municipal de Lisboa ( Fotografia Joshua Benoliel).
4 para 5 de Outubro (Fotografia de J.J. Ferreira, oferecida a Bernardino Machado).

FUNDAÇÃO
MÁRIO SOARES
5 de Outubro de 1910
A PROCLAMAÇÃO

Encarregado de negócios da Alemanha pede


armistício e precipita a vitória republicana
O Encarregado de Negócios da Alemanha pede
um armistício de uma hora, para que os cidadãos
estrangeiros possam abandonar a cidade. O
quartel-general monárquico aceita a proposta,
na suposição de que assim poderia receber os
esperados reforços de Santarém. Concedido o
armistício, sai do quartel-general uma ordenança
a cavalo com uma bandeira branca que é suposta
A primeira bandeira republicana na Rotunda, 5 de Outubro de 1910 (Fotografia Franco).

acompanhar o diplomata até à Rotunda para


conferenciar com Machado Santos. Muitos julgam
tratar-se da rendição monárquica e saúdam a
República... Machado Santos arranca às 8.35 da
Rotunda à frente de muitos populares e desce a
Avenida a cavalo, sendo depois levado aos ombros
até ao quartel-general monárquico, instalado no
Palácio da Independência, onde acaba por obter a
rendição
A primeira bandeira republicana içada nos navios de guerra. Populares aclamam a República no Largo de S. Domingos, frente ao Palácio da Independência, onde estive-
ra instalado o Quartel-General monárquico, (Fotografia de J.J. Ferreira, oferecida a Bernardino Machado).
Proclamação da República nos Paços do
Concelho e anúncio do Governo Provisório
José Relvas, acompanhado por Eusébio Leão e
Inocêncio Camacho, proclama a República, às 11
da manhã, da varanda dos Paços do Concellho:
“Unidos todos numa mesma aspiração ideal,
o Povo, o Exército e a Armada acabou de, em
Portugal, proclamar a República”. Inocêncio
Camacho lê ao povo a lista dos membros do
Governo Provisório. O telégrafo levou a notícia
da Implantação da República e da constituição do
Governo Provisório a todo o país e às colónias,
provocando a gradual adesão generalizada, quase
Aspecto da multidão na Praça do Município, em 5 de Outubro de 1910, quando foi proclamada a República (Fotografia
José Relvas proclama a República da varanda da Câmara Municipal de Lisboa
sem resistência.
(Fotografia Joshua Benoliel).
Joshua Benoliel).

FUNDAÇÃO
MÁRIO SOARES
5 de Outubro de 1910
O GOVERNO PROVISÓRIO

Edital do Governador Civil de Lisboa


Anunciado o Governo Provisório, Eusébio Leão,
entretanto nomeado Governador Civil de Lisboa,
publica no próprio dia 5 de Outubro um Edital ao
povo da capital afirmando que “Ordem e trabalho
é a divisa da Pátria libertada pela República”. Na
revolução do 5 de Outubro haviam-se registado
78 feridos, dos quais 14 morreram no Hospital
de S. José.
Proclamação ao Povo Português
Escassas horas após a Proclamação da República,
o jornal “O Mundo” publica, por sua vez, uma
Proclamação ao Povo Português, da autoria de
António José de Almeida: “Cidadãos! O povo,
o exército e a armada acabam de proclamar a
República. A dinastia de Bragança, maléfica
e perturbadora consciente da paz social, acaba
de ser para sempre proscrita de Portugal. (...)
Edital do governador civil de Lisboa, Eusébio Leão, de 5 de Outubro, afirmando que “Ordem e O membro do Directório do Partido Republicano, Inocêncio Camacho, lendo ao povo os nomes dos mem-
Consolidai com amor e sacrifício a obra que surge
da República Portuguesa!”
trabalho é a divisa da Pátria libertada pela República”. bros do Governo Provisório, da janela da Câmara Municipal de Lisboa, na manhã de 5 de Outubro de 1910,
após a proclamação da República feita por José Relvas que está na fotografia à sua esquerda.

D. Manuel de Bragança parte para o exílio


Tendo fugido para
Mafra, D. Manuel de
Bragança, D. Amélia
de Orleans, D. Maria
Pia e alguns cortesãos
dirigem-se para a praia
da Ericeira, onde embarcam no iate Amélia que,
depois de algumas hesitações, acaba por rumar à
colónia britânica de Gibraltar.
Na Ericeira, a população festeja a República. A
partida para o exílio da família real consuma a
Postal com a fotografia dos Ministros do Governo Provisório. Em cima, da esquerda para a direita: Bernardino Machado, António
José de Almeida, Azevedo Gomes, Correia Barreto e António Luís Gomes; em baixo, da esquerda para a direita: Afonso Costa,
Diário do Governo com a composição do Governo Provisório da
República. abdicação.
Teófilo Braga e José Relvas.

FUNDAÇÃO
MÁRIO SOARES
5 de Outubro de 1910
ORDEM E PAZ

Quinta-feira, 6 de Outubro de 1910

Eusébio Leão, governador civil de Lisboa,


entregou às comissões paroquiais republicanas o
policiamento da cidade. “Os agentes da ordem da
República ostentam no braço uma divisa vermelha.
Cada comissão comanda o policiamento da sua
freguesia, auxiliada por soldados e estudantes,
civis e militares.”

Cartaz intitulado “Os Heróis da Revolução Portuguesa”, edição de J.J. Dos Santos.

Alterações na toponímia da cidade de Lisboa


Em Reunião na Câmara Municipal de Lisboa,
presidida por Anselmo Braamcamp Freire, Nunes
Loureiro apresenta uma proposta aprovada por
aclamação. A Avenida Ressano Garcia passou
a denominar-se Avenida da República e a Rua
António Maria de Avelar passou a designar-se
Avenida Cinco de Outubro.

Sexta-feira, 7 de Outubro de 1910

Um grupo de revolucionários saudados pela multidão no Rossio, destacando-se, entre outros, o Comandante
Serejo, o Visconde da Ribeira Brava e o Dr. Artur Leitão.
Revolucionários num trem, no Largo das Duas Igrejas, esquina da Rua Nova da Trindade (Fotogra-
fia Joshua Benoliel).
Restabelecida em todo o País a circulação
ferroviária, que fora seriamente afectada em
numerosas linhas por cortes de via e derrube de
postos telegráficos.

FUNDAÇÃO
MÁRIO SOARES
5 de Outubro de 1910
OS HERÓIS

Funerais de Cândido dos Reis e Miguel


Bombarda
Os funerais do vice-almirante Cândido dos Reis e
do Dr. Miguel Bombarda são organizados com toda
a solenidade, saindo dos Paços do Concelho.
Conselho de Ministros
O Conselho de Ministros do Governo Provisório
aprova a amnistia para os crimes políticos e de
imprensa, a supressão do “juízo de instrução
criminal”, a revogação das leis de imprensa
Cabeçalho do jornal “O Mundo”, de 7 de Outubro de 1910.
franquistas, a adopção do novo formulário de
posse dos funcionários públicos, a dissolução das
guardas municipais, que serão substituídas pela
Guarda Nacional Republicana, a dissolução da
“polícia civil de Lisboa” e a reposição em vigor
das leis de Pombal, Aguiar e Braancamp sobre
jesuítas e ordens religiosas.
Governo e as manifestações
O Governo Provisório emite um comunicado,
apelando a que “cessem imediatamente todas as
manifestações na rua que possam dar a impressão
de que há alteração da ordem”, “para se restabelecer
imediatamente a vida normal da cidade, todas as
suas transacções do comércio e da indústria e a
circulação pública”.
Novos governadores civis
O Governo Provisório nomeia os novos
governadores civis, reforçando assim o controlo
da situação em todo o país.
Entrega das armas
O Governo Provisório convida os grupos
revolucionários e forças populares não militarizadas
Os féretros do Almirante Cândido dos Reis e do Dr. Miguel Bombarda saindo da Câmara Municipal de Lisboa (Fotografia Joshua Benoliel).
a entregar as armas.

FUNDAÇÃO
MÁRIO SOARES
5 de Outubro de 1910
A EXPULSÃO DAS CONGREGAÇÕES

Tiroteio no convento do Quelhas


Cerca das 8 da noite, uma força de marinheiros que
patrulhava a rua do Quelhas foi atacada a tiro e com
bombas de dinamite “de dentro do coio” dos jesuítas,
estabelecendo-se de seguida intenso tiroteio. O
Um padre jesuíta, alegado autor de tiros feitos a partir do Convento de Campolide, é retirado sob protecção de ministro do Interior, António José de Almeida,
deslocou-se pessoalmente ao local, mandando
forças do Exército e da Marinha, escapando à ira popular.

evacuar a população que ali se aglomerava,


“conservando-se apenas a força pública em defesa”.
Na madrugada seguinte, o convento do Quelhas
foi tomada pelas forças revolucionárias e presos
os respectivos ocupantes.

Sábado, 8 de Outubro de 1910

Expulsão dos jesuítas


Caricatura de Afonso Costa, da autoria de Alfredo Cândido, satirizando o seu combate anti-clerical.
e de outras congregações religiosas
O Governo Provisório da República publica um
Jesuítas expulsos de Portugal, à sua passagem pela Praça do Município, a caminho da estação de caminhos de
diploma, elaborado pelo ministro da Justiça,
ferro.
Afonso Costa, que repõe em vigor a lei pombalina
de 3 de Setembro de 1759, “pela qual os jesuítas
foram havidos por desnaturalizados e proscritos” e
“expulsos de todo o país e seus domínios para neles
mais não poderem entrar”, e a lei de 28 de Agosto
de 1787, que determina a expulsão imediata da
Companhia de Jesus, assim como o decreto de 28
de Maio de 1834, da autoria de Joaquim António
de Aguiar, que extinguiu todos os conventos,
mosteiros, colégios, hospícios e casas de religiosos
de todas as ordens regulares.

Desenho satírico, da autoria de Charles Léandre, publicado pelo jornal francês “Le Embarque de padres jesuítas na estação de Campolide (Fotografia Joshua Benoliel).
Rire”, de 19 de Novembro de 1910. Sob o título “A Jovem República Portuguesa e os
seus Papás”, representa a República, de barrete frígio, empurrando um frade, enquanro
o rei já foi atirado fora, e rodeada por Bernardino Machado, Teófilo Braga e pelo coro-
nel Correia Barreto, com a seguinte legenda: “O que ser· quando tiver dentes!”

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MÁRIO SOARES
5 de Outubro de 1910
A CELEBRAÇÃO

Domingo, 9 de Outubro de 1910

O Ministro dos Negócios Estrangeiros,


Bernardino Machado, que na véspera apresentara
cumprimentos de despedida ao Presidente eleito
do Brasil, marechal Hermes da Fonseca, comunica
aos Representantes Diplomáticos em Portugal,
que o Governo Provisório honraria todos os
compromissos internacionais, estabelecidos
em boa ordem. Cumpre o que a “embaixada”
republicana do Verão de 1910 afirmara em Paris
e Londres.
Editais do governador civil de Lisboa
O governador civil de Lisboa, Eusébio Leão,
publica um edital, encimado pela divisa “Pátria e
Liberdade”: “Previne-se o público contra boatos
“Pela República”. Litografia em que figuram os membros mais destacados do Partido Republicano.
malévolos sobre a existência de frades em casas
particulares. A casa do cidadão é inviolável. (...)
As autoridades competentes estão procedendo
com segurança e energia para resolver a questão
religiosa”. Já três dias antes mandara publicar um
outro edital apelando ao “respeito pelas pessoas dos
polícias, dos soldados municipais e dos padres”.
O Governo Provisório visita a Rotunda
Pouco passava das três horas e meia da tarde,
quando pelo acampamento da Rotunda corre a
notícia de que para ali se dirigem os membros do
governo provisório, sendo esperados por grande
multidão. Machado Santos assume o comando
da guarda de honra aos membros do governo.
Bernardino Machado, António José de Almeida e
Membros do Governo Provisório visitam o acampamento da Rotunda, após a proclamação da República. Distinguem-se, da
Afonso Costa proferem saudações aos heróis da
O comandante Ladislau Parreira, oficial revolucionário da Armada, é vitoriado na
esquerda para a direita: general Teles da Silveira, Bernardino Machado, Machado Santos e Afonso Costa (Fotografia Joshua Rotunda por António José de Almeida e Malva do Vale.
Benoliel).

Rotunda.

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MÁRIO SOARES
5 de Outubro de 1910
A REPÚBLICA IMPLANTADA EM TODO O PAÍS

Domingo, 9 de Outubro de 1910 freiras são conduzidas para o Arsenal de Marinha. Outros religiosos,
nomeadamente jesuítas, foram de imediato mandados seguir para
Cortejo no Porto o estrangeiro.
Realiza-se no Porto um grandioso cortejo que soleniza a proclamação
da República. A República fora proclamada no dia 6. A guarnição Segunda-feira, 10 de Outubro de 1910
aderira assim que recebera a notícia dos acontecimentos de Lisboa.
Paulo Falcão toma conta do Governo Civil. É publicado o decreto do Governo Provisório que revoga toda a
Prisão e interrogatório do patriarca resignatário de Lisboa legislação de excepção e a lei de imprensa, publicada por João
Às 10 da noite, na estação do Cacém, foi preso o patriarca Franco em 11 de Abril de 1907. São também revogadas as leis de
resignatário de Lisboa, cardeal D. José Neto, excepção, que submetam quaisquer indivíduos a
de imediato conduzido para o Quartel-General. juízos criminais excepcionais e é extinto o Juízo
Cerca das três horas da madrugada, após a reunião de Instrução Criminal.
do Conselho de Ministros, Afonso Costa informa Assalto popular aos jornais “Liberal” e
a imprensa que se vai deslocar ao quartel-general “Portugal”
para interrogar o cardeal Neto, “como delegado Populares assaltam os jornais “Liberal”
do governo”. Findo o interrogatório, em que o (ex-progressista) e “Portugal” (católico
cardeal Neto afirma que se deu “sempre bem com ultramontano).
todos os governos”, fica a aguardar o comboio Regresso do iate “Amélia”de Gibraltar
da manhã, para nele partir para Leiria, de onde O governo britânico determina o regresso do
seguirá para Espanha “passar algum tempo”, não iate “Amélia”, propriedade do Estado, que havia
tendo regressado a Portugal. transportado a família real até Gibraltar. Recorde-se
Ao mesmo tempo, Afonso Costa dá ordem às que o iate passara para a propriedade do Estado na
forças policiais para deter os padres que andassem sequência da solução que João Franco apresentara
na rua, de modo a “evitar abusos” e situações às Cortes para a questão dos adiantamentos à
controversas, dada a reacção popular anti-clerical. família real.
De facto, haviam sido assaltados por civis vários conventos e No dia 12, o Governo britânico comunicará ao Governo Provisório
colégios, nomeadamente o Quelhas, as Trinas, o de Arroios e o que o ex-rei D. Manuel de Bragança será recebido no Reino Unido
colégio de Campolide, registando-se trocas de tiros entre religiosos como simples particular, apesar do tradicional relacionamento com
e civis e militares republicanos. a família real inglesa.
Na sequência destes incidentes, forças da Marinha e do Exército Proclamação da República em Macau a 10 de Outubro
mantêm sob custódia os religiosos que aguardam a execução da Prossegue a proclamação da República em todo o país e nas
ordem de expulsão, decorrente do diploma de 8 de Outubro: 82 colónias, ficando o novo regime definitivamente implantado no
religiosos são detidos em Caxias e 48 no Limoeiro, enquanto 233 dia 12 de Outubro de 1910.

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