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O ESTADO DE S. PAULO DOMINGO, 18 DE ABRIL DE 2010

Imagem da semana
OLAFUR EGGERTSSON/REUTERS

No caos, a beleza QUARTA-FEIRA, 14 DE ABRIL. Uma


enorme nuvem de cinzas cuspidas na atmosfe-
ra pela erupção de um vulcão na Islândia deu
tons impressionistas à paisagem captada pelo
fazendeiro Olafur Eggertsson. A beleza, po-
rém, se transformou em caos quando as cin-
zas chegaram ao norte da Europa. Doze países
fecharam seus aeroportos ou espaços aéreos
e 17 mil voos foram cancelados na sexta-feira.

Assunto Portaria do prefeito Gilberto Kassab (DEM-SP)


de polícia regulamenta atuação da Guarda Civil Metropolitana
na abordagem e no encaminhamento de moradores de
rua de São Paulo aos serviços de assistência social da
cidade. Os sem-teto reclamaram do aumento da
QUARTA, 14 DE ABRIL truculência por parte dos guardas.

O segredo de nossa noite


No país do esplendor diurno, é na escuridão noturna, quando muitos se recolhem aos cafofos de papelão para dormir,
que a verdade das cidades brasileiras vem à tona. Uma verdade que, desgraçadamente, não nos incomoda mais

JOSÉ DE SOUZA MARTINS

LEONARDO SOARES/AE

aterça-feira, partici-

N
pei de um debate no
Centro Cultural do
Banco do Brasil, em
São Paulo, sobre a
obradoartistaplásti-
co e grafiteiro Ale-
xandre Órion, Ossá-
rio, uma interven-
ção realizada no tú-
nel Max Feffer, na Avenida Europa. Descas-
cando a película preta da fuligem do escapa-
mento dos carros, depositada sobre as pare-
desdo túnel,Órion foi criandoum amontoa-
do de caveiras. O objetivo de sua obra era o
de chamar a atenção dos motoristas para a
poluição e para o que provavelmente está
acontecendo com os pulmões da popula-
ção. Foi longo o tempo em que as paredes
enegrecidas ali estiveram sem que ninguém
se importasse com elas. Bastou que Órion
nelas trabalhasse, madrugadas a fio, para
que a fiscalização aparecesse, a polícia de
trânsito o interpelasse e aPolícia Militar fos-
se chamada. O artista tentou explicar o que
fazia, suas razões, sua obra. Foi vencido pela Ir para onde?Já sem abrigos no centro, os moradores de rua de São Paulo são ‘convidados’ pela polícia a sair da calçada
água das mangueiras da limpeza pública: o
grafiti inacabado foi borrado, ficando intac- te a noite. Já antes fechara os abrigos do cen- Neste país do esplendor diurno, a verda- Tanto na repressão ao artista e a sua obra
to o restante enegrecido da parede. tro tentando deslocá-los para os bairros. de é noturna. Há pouco menos de 40 anos, de arte quanto na repressão à vítima de nos-
Ao sair do debate, na Rua Álvares Pentea- O que há de comum entre o artista notíva- Georges Lapassade e Marco Aurélio Luz pu- sas misérias é a força dessa ambivalência
do, cerca das 22 horas, percorrendo antigas e go, que tenta arrancar da noite o lado invisí- blicaram um livro instigante sobre O Segre- constitutiva que se manifesta, o bifrontis-
ricasruas do centrode São Paulo, até o Largo vel das nossas irracionalidades urbanas, e a do da Macumba. Nele, expõem o resultado mo que abre um imenso abismo entre o po-
de São Francisco, onde está a Faculdade de visibilidade que a elas involuntariamente da pesquisa que fizeram no Rio de Janeiro der e o povo, entre o que sobra e o que falta,
DireitodaUniversidadedeSão Paulo,monu- dão os que foram privados de destino e que sobre a cultura religiosa da população ne- o abismo de instituições fundadas sobre o
mento da nossa cons- pagam o preço de mui- gra. À meia-noite, nos terreiros de umban- medo em relação ao povo insubmisso e des-
ciênciacidadã,fiqueias- tos desapreços? Apa- da, chegava Exu, para revelar nossas encru- confiado. Como entender esta nova disputa
sombrado. Encostadas Amontoados nas rentemente, nada. Nos zilhadas, abrir as ocultações do permitido e eleitoral pelo poder senão no marco desse
às portas e paredes, re- ruas, os sem-teto dois casos, porém, e darlugar aoCandomblé proibido e persegui- divórcio e nos reclamos de uma sociedade
colhidas a leitos e cafo- por diferentes razões, do pela polícia. Gostamos de nos pensar fraturada por primarismos como o das re-
fos de papelão, pano e dão forma à morte essas personagens da como se fôssemos franceses, ingleses ou pressões indicadas? O sentido deste enfren-
plástico, quase uma ao indevida que nos ronda escuridão deram forma americanos. Muitos vivem permanente- tamento pelo poder não está nos exageros
lado da outra, centenas ao que forma aparente- mente na alienação dessas suposições, imi- do populismo palavroso e irresponsável.Es-
de pessoas dormiam ou mente não tem, a for- tando mais do que criando, sobrevivendo tá muito mais no silêncio de nossa noite.
tentavam acomodar-se para passar a noite. ma estética da morte indevida que nos ron- mais do que vivendo, sonhando mais do que
Tudo diferente do que se vê de manhã, quan- da e a forma social das insuficiências de nos- fazendo. Vem de longe essa matriz de inde- ✽
do essa humanidade some para voltar à noi- sa sociedade anômica e permanentemente cisões culturais e sociais, essa duplicidade JOSÉ DE SOUZA MARTINS É PROFESSOR EMÉRITO
te.Porcoincidência,naquelesdiasaprefeitu- inacabada. Eles nos revelam as ocultações crônica que nos atormenta, o policialismo DA FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊN-
ra autorizou a Guarda Civil Metropolitana a da cidade enferma, os distanciamentos do do dia sobre a noite, que nem mesmo nos CIAS HUMANAS DA USP E AUTOR, ENTRE OUTROS
abordaros moradores de rua, mesmo duran- poder e o próprio poder. incomoda. LIVROS, DE O CATIVEIRO DA TERRA (CONTEXTO)

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