Vous êtes sur la page 1sur 28

ESCOLA DE COMUNICAÇÃO E ARTES DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

CENTRO DE ESTUDOS LATINO AMERICANO SOBRE COMUNICAÇÃO E
CULTURA - ECA/USP

PROFª KATIA KODAMA

Sueli Pereira Nunes Silva
OS DESAFIOS DE MANTER AS TRADIÇÕES CULTURAIS DE UMA COMUNIDADE
TIROLESA DA ITÁLIA NA MODERNIDADE – “ FESTA DA POLENTA DE
PIRACICABA”

Trabalho de conclusão de curso apresentado como
requisito para obtenção da pós-graduação latu sensu em
Gestão de Projetos Culturais e Organização de Eventos
do Centro de Estudos, Latino Americano sobre Cultura
e Comunicação, da Escola de Comunicação e Artes da
Universidade de São Paulo.

São Paulo
2010

2

pela atenção paciência e principalmente pelo incentivo em percorrer os caminhos da pesquisa. pelo incentivo e compreensão.3 AGRADECIMENTOS Agradeço a Coordenação dos Cursos de Especialização do CELACC e sua quipe pela atenção.Chefe do Serviço de Cultura e Extensão Universitária. bem como sua importância na representação dos signos culturais da Comunidade. Um agradecimento especial ao Ivan Correr Coordenador dos Projetos Culturais da Comunidade Trentina de Santa Olímpia que relatou a história da origem dos Bairro de Santa Olímpia e Santana e sobre a Festa da Polenta. Denis de Oliveira pelas aulas maravilhosas que descortinou o universo teórico da Cultura de forma dinâmica e pelo empenho na Coordenação dos Cursos de Especialização do CELACC. em especial ao Estagiáio João da Secretaria. Dedico esse estudo ao meu amigo Joãodenir Furlan (in memorian) que pertencia a comunidade Tirolesa de Piracicaba. . e ao Prof. Profª Drª Katia Kodama. A Srª Elza –Presidente da Associação de Moradores de Santa Olímpia e aos moradores da comunidade pela atenção e interesse em levar ao conhecimento da sociedade a Cultura Trentina/Tiroleza de Piracicaba. por ser uma pessoa alegre e que sempre me incentivou a acreditar nos meus sonhos. Ao Presidente da Comissão de Cultura e Extensão Universitária Profº Drº Rubens Angulo Filho e a minha Coordenadora Maria de Fátima Durrer. Ao Presidente da Comissão de Cultura e Extensão Universitária Profº Drº Rubens Angulo Filho e a minha Coordenadora Maria de Fátima Durrer.Chefe do Serviço de Cultura e Extensão Universitária. A minha orientadora. pelo incentivo e compreensão.

incentivaram e encorajaram para a realização desse Curso. Também a minha família pelo apoio e compreensão no período em que me ausentei e distanciei em virtude de estudo e pesquisa. e a todas as pessoas que me ajudaram.4 Agradeço a Deus. .

.A História da Alimentação e a Construção de Identidade Cultural ....................................................................................................................................................................................................................................Brasil .............................................................12 • III....... ................................................................................................................................................A Cultura veio junto com a Imigração................5 SUMÁRIO RESUMO......................................7 INTRODUÇÃO ..........................29 ANEXOS......................................................................................... 20 • VII -A Festa da Polenta do Bairro de Santa Olímpia – Piracicaba................................................................................ 18 • VI – A Vinda da Polenta............................................................................5 ABSTRACT.................17 • V Festa – Conceituação..........................................................25 REFERÊNCIAS.....11 • II -A disseminação do Milho na Europa e a descoberta de suas propriedades como alimento e a variedade de sua utilização .................. entre elas a “Polenta”........13 • IV ......................................................................Migração Trentina para a cidade de Piracicaba-SP...............................................................11 • I ...................................................................................20 CONSIDERAÇÕES FINAIS.................................................................................27 ...................

6 .

Tradição. As transferências de informações entre o passado e o presente (tradição) deve respeitar os valores dos anciões por intermédio da oralidade que servirá como balizador para que os signos culturais não se torne apenas uma trasmissão de tradição de geração em geração. Na ocasião foi realizada a 1ª Festa da Polenta e a partir da Festa a comunidade Trentina retoma as relações com a região de origem com o objetivo de manter os elementos culturais. Identidade .Nessa perspectiva há muita boa vontade da comunidade em trabalhar os aspectos culturais significativos para o grupo. formada por dois Bairros: Santa Olímpia e Santana no Município de Piracicaba-SP. Palavras – chave: Cultura.A atuação deverá ser pensada em manter a configuração idêntica a um modelo original. crenças. tradições. que realiza essas questões por etapas e orientados por um historiador da comunidade. ritos sem perder sua autenticidade. usos e costumes e na gastronomia reverenciar a Polenta que é sua base alimentar. e dá início ao processo de reconstruir e ressignificar a identidade cultural. Essas questões tornaram-se um desafio para esta comunidade. valores.7 RESUMO Este estudo foca a trajetória de uma comunidade vinda do Norte da Itália – Trentina/Tirolesa. que chegou ao Brasil no século XIX. Será necessária algumas transformações na ressignificação dessa cultura e seus elementos de saberes. No ano de 1992 a comunidade comemorou o centenário de sua imigração.

8 .

learn the dialect and other meanings of historical significance.9 ABSTRACT This study focuses on the trajectory of a community coming from the northern Italy . Brazil.The performance should be considered in maintaining an identical configuration to the original model. there is much goodwill in the community to work with the cultural aspects significant to the group.Trent/ Tyrolean to Brazil in the nineteenth century. without losing its authenticity. Altenmayer Everton guides these activities as a member of the community. customs and cuisine. The historian Prof. values. such as to learn how to cook. forming two neighborhoods: Santa Olympia and Santana in the city of Piracicaba-São Paulo. make Trent crafts. In 1992 the community celebrated the centennial of its immigration. beliefs. Tradition. On this occasion. The information transfers between the past and present (tradition) must respect the values of their elders through orality that will serve as base for the cultural signs not to become just a tradition transmission from generation to generation. Identity . From this perspective. the 1st Festival of Polenta (corn stew) was held and afterwards the Trent community decides to revive the relations with the region of origin in order to maintain the cultural elements. Keywords: Culture. It will require some changes in the redefinition of this culture and its elements of knowledge. traditions. rites.The steps of this initiative became a challenge to the community. initiate the process to rebuild and reframe the cultural identity. mainly the polenta its main dish.

10 .

inseri-la no concorrido mercado de consumo da mídia e do turismo. cria-se uma manifestação cultural diferenciada do local onde está vivendo no momento.11 INTRODUÇÃO Este estudo investiga questões e apresenta reflexões sobre a identidade cultural e a preservação das tradições como patrimônio cultural. seu sentido de pertencer ao lugar que deixaram. porém com limites de atuação. a música. respeitando a cultura. As festas populares neste caso.A História da Alimentação e a Construção de Identidade Cultural O homem primitivo encontrou nos produtos que a Natureza espontaneamente lhe fornecia. agenciado pelo estado. Limitando-se a colher ou a caçar. considerando o aspecto que está no âmago da comunidade Trentina/Tirolesa de Piracicaba. que refletem suas preferências e quando ocorre a imigração. reelabora os conteúdos da tradição inserindo-os no mercado de consumo da Indústria Cultural. . ao passo que a mídia. A alimentação é um fator de diferenciação cultural que permite aos integrantes de uma determinada cultura manifestar sua identidade. que demonstram as características de uma cultura em particular. reforçando assim . música e ritos culturais dos mais diversos. além de se constituir como elemento de divulgação. a espacialidade. Dessa forma. município e elites locais. ele atravessou um período relativamente longo em que não havia agricultura e esse fato favoreceu as migrações e o nomadismo. seja na gastronomia. a serem apresentadas e compartilhadas com a sociedade de forma que as mesmas tornam-se um diferencial ao público participante evento. I . seus símbolos. dança. artesanato local. Há dois elementos da modernidade que operam de forma articulada: o turismo. a sua alimentação. Nesse estudo as relações midiáticas acontecem entrem os elementos citados. que recria os espaços e se apropria das tradições. passam por modificações e ressignificações visando. manifestações culturais. estas pessoas levam consigo.

jojoto. a alimentação contribuiu para motivar encontros e comemorações nas épocas de colheitas(sociais e políticos) e mesmo até compartilhar conhecimentos sobre novos alimentos. II -A disseminação do Milho na Europa e a descoberta de suas propriedades como alimento e a variedade de sua utilização . A planta recebeu várias denominações. considera-se o momento em surgiu a culinária. também. Conhecida à época do Império Romano. de acordo com a língua falada nos países. a alimentação não reflete somente a satisfação de uma necessidade fisiológica. não com farinha de milho. corn. levou a experiência de assar e cozer os alimentos. Cada etnia tem seus signos culturais e a alimentação é um deles. idêntica em todos os homens. para a África e a Ásia. mais. Com esta observação dos ciclos da natureza. Assim. sendo chamada de choclo. é um alimento muito antigo. conforme as cirunstâncias e necessidades. entre elas a “Polenta” Em 1492 Cristóvão Colombo. Os portugueses levaram-no. mas sim com grãos .12 Os povos foram assimilando o funcionamento cíclico das culturas espontâneas e. descobriu o milho que era base alimentar dos indígenas que lá habitavam. anterior ao surgimento do pão. sendo assim. também procuravam lugares montanhosos para se proteger de animais. que por intermédio da navegação foi possível a comercialização advindos de outros países. passando a realizar trocas com outros grupos e a descoberta do fogo. porém seu nome de origem latina. como hoje a preparamos. que significa flor de farinha. ao regressar levou sementes. os povos começaram a cultivar algumas plantas locais que de início simplesmente colhiam. elote e granone. que causou uma grande sensação entre os botânicos da Península Ibérica. mas também reflete a diversidade de culturas e tudo aquilo que contribui para modelar a identidade de cada povo: As relações entre esses aspectos da cultura e da maneira de se alimentar sempre existiram. pois já na fase primitiva do homem ele não se alimentava sozinho e sim com o seu grupo. No entanto. navegador genovês descobriu a América considerada o Novo Mundo em busca de ouro e tesouros que não encontrou. maize. era "pollen.

Os protagonistas desta batalha pela unificação foram Giuseppe Mazzini e Giuseppe Garibaldi. inclusive nas dos restaurantes de vários estados do Brasil.13 esmigalhados de fava ou de farro. Na Itália. O processo de unificação somente estaria concluído com a Primeira Guerra mundial que garantiu à Itália a anexação das regiões do Trentino e de Friuli e da cidade de Trieste. porém de consistência bem mais dura. pelo império Austro-Húngaro. o milho matou a fome de sucessivas gerações. A partir de 1493 se espalhou pela Europa e no norte da Itália. água e sal. no início do século XVI. III. Seus grãos foram imediatamente socados e transformados em polenta. quanto na Europa recebe diferentes molhos. Nos dias de hoje ocupa lugar de honra nas mesas elegantes. e também para outros países.italiano e ladino. Com tropas mal armadas a frentes muitos distantes.Tirol do Norte (Nordtirol) 2 . saboroso e nutritivo. e por uma situação econômica desastrosa.Brasil Dividida em sete Estados após o congresso de Viena (1815).o milho chegou por Veneza. a Itália começou o seu processo de reunificação que demandaria 50 anos de ásperas lutas. A receita básica de polenta utiliza fubá. Diante de tantos problemas parte da população migrou para o Brasil. Estado Tirol -Pertencente à Áustria 1 . O domínio trouxe um período difícil de adaptação e luta em manter seus idiomas: Alemão.Tirol do Leste (Osttirol) . Este. obtendo sucesso instantâneo. um cereal semelhante ao trigo. queijos e acompanha carnes de aves em geral. a polenta permaneceu como alimento cotidiano das famílias camponesas. crescendo rápido. para livrar-se definitivamente da pressão exercida sobre suas fronteiras norte-orientais. Fácil de cultivar. a Itália teve porém de pagar um alto preço. o país ficou enfraquecido e com crises nas áreas financeira e agrária. sendo consumida cozida. após a descoberta do milho.Migração Trentina para a cidade de Piracicaba-SP. constituído por muitas vidas humanas. conseqüência da derrota de Napoleão. na chapa ou frita.

Trentino (Welschtirol .Tirol do Sul (Südtirol) 4 .14 Pertencente à Itália (Regione Autonoma Trentino-Südtirol) 3 .Tirolo Italiano) (Provincia di Belluno – Regione Veneto) 5 – Ampezzo (Haydn) Provincia (Trento) Trentino Autônoma de .

O grupo era constituído por aproximadamente trinta famílias. Forti. Os recém chegados trabalharam ao lado dos trabalhadores alemães (Holstein). Pompermayer e Degasperi. Trento e arredores – imigra para o Brasil em busca de paz e principalmente de melhores condições de vida. com o navio Frankfurt. Forti.Stenico. muitas aparentadas entre si e imigraram para o Brasil com recursos próprios e aconselhadas pelos frades capuchinhos trentinos. um grupo de tiroleses – provenientes das aldeias de Meano. chegaram outras famílias – Correr. de bandeira alemã. chegaram a bordo do Navio Nord América. Romagnano. Defant. Cristofoletti.na cidade de Campinas (interior do estado de São Paulo). Sardagna. Cortesano. que iniciaram os seus trabalho ao lado dos escravos. de bandeira italiana. Símbolo de entrada dos Bairros Santa Olímpia e Santana As famílias Correr. Brunelli. . Degasperi. Em dezembro de 1881. Muitas famílias eram aparentadas e foi ali que ocorreram os primeiros casamentos e nasceram os primeiros filhos ítalos brasileiros. Vigo Meano. Brunelli. Neste grupo estavam as famílias Vitti. nas terras de Joaquim Bonifácio do Amaral – barão e visconde de Indaiatuba. entre outras – à Fazenda Sete Quedas. Brunelli e Stenico de Romagnano. Eram em sua maioria camponeses. Zotelli. Degasperi de Sardagna e Cristofoletti de Meano – se transferiu para Piracicaba. Correr. Forti.15 Os dialetos trentinos e as demais línguas da província Em 1877.

Jacob Correr e sua esposa Rosa Pompermayer As famílias Vitti e Forti. Victorio Correr e Rosa Christofoletti. José Christofoletti e Anna Correr. se uniram e compraram a Fazenda Santa Olímpia. Em 20 de novembro de 1892. que agora já estava maior. João Correr e Catharina Mosna. um contrato com o Barão de Serra Negra e . Dionísio Degaspari e Magdalena Correr. Os componentes do patriarca Jacob Correr e Rosa Pompermayer consituíram as famílias fundadoras de Santa Olímpia: Cyriaco Brunelli e Rosa Correr. E em 4 de setembro de 1893 a família de Bortolo Vitti assinou. junto com Francesco Forti.16 Em 1888 aceitaram trabalhar na Fazenda Monte Alegre de propriedade de Joaquim Rodrigues de Amaral. parte do grupo. Virgilio Stenico e Luiza Correr. próxima à cidade de Piracicaba. José Forti e Maria Stenico. inicialmente se estabeleceram na cidade de Rio Claro. Simão Stenico e Maria Correr. ainda na condição de colonos na lavoura de cana-de-açúcar. com novas formações familiares. situada nas proximidades da cidade de Piracicaba. Isidoro Correr e Ernesta Degaspari. que vieram da mesma região. Luiz Correr e Amália Christofoletti.

Estes estão sendo feitos e a cultura está mudando.A Cultura veio junto com a Imigração Segundo Peter Burke. Rio Grande do Sul. Espírito Santo.(Hibridismo Cultural. IV . Burke. de forma que há apropriações de diferentes culturas. Paraná e São Paulo. em Piracicaba. Com a globalização estamos vivendo um momento particularmente favorável para intercâmbios culturais. principalmente na região sudeste. hibridismo cultural expressa idéia de que as conseqüências culturais de encontros não são automáticas. Cerca de Trinta mil Tiroleses desembarcaram entre os anos de 1870 e 1940. tendo se estabelecido nos estados do Rio de Janeiro. Peter-2003) . O Brasil foi o país que mais recebeu emigrantes tiroleses. as pessoas têm de trabalhar para adaptar itens de uma cultura para outra. o que interfere na nossa compreensão e identificação de nossas próprias culturas. Santa Catarina. Vale destacar que as terras das Fazenda de Santa Olímpia e Santana lembram a geografia da cidade Trentina.17 Torquato da Silva Leitão pela compra de uma fazenda denominada Sant’Anna. Com a compra das propriedades formou-se a colônia Tirolesa de Piracicaba. vizinha à Fazenda Santa Olímpia.

ressignificar seus hábitos sem no entanto. os Tiroleses traziam em seus “baús” sua cultura: costumes. Em sua análise da memória coletiva. os quais não pertenciam ao seu cotidiano. comemorativa. procuravam reproduzir sua cultura. esses lugares de memória analisados por Pierre Nora. em fim. Como aponta Maria Nazareth em pesquisas realizadas na Itália. novos elementos culturais. pois a conservação de rituais que já estavam impressos nas memórias. E assim. a música e porque não as tradições culinárias. elas . Atualmente. No Brasil.18 Ao emigrarem. As tradições e a cultura acompanharam a trajetória dos emigrantes. conhecimentos de outros elementos culturais. enfim. certas regras de interação. Maurice Holbwachs enfatiza a força dos diferentes pontos de referência que estruturaram nossa memória e que a inserem na memória da coletividade a que pertencemos.(1989) V Festa . sua cultura. percebemos a força da imigração trentina nas culturas regionais onde se estabeleceram. as festas populares servem como instrumento privilegiado para entendimento dos fenômenos da comunicação. O patrimônio arquitetônico e acompanharam por toda a vida. pautando-se pela alegria e pela celebração. as datas.Conceituação Fenômeno de natureza sócio-cultural. que houve abertura por parte dos emigrantes e também dos brasileiro apesar de não estarem em sua terra. Assim. depararam-se com novas condições de vida. só contribuiu para reforçar as raízes genuínas da cultura tirolesa. No entanto observa-se. hábitos alimentares. ao adaptar. língua(dialetos). foram introduzidas em suas vivências a apropriação cultural local. significando uma trégua no cotidiano rotineiro e na atividade produtiva. as tradições e costumes. hábitos alimentares. esquecer sua terra natal. modos de ver a vida. Entre eles incluem-se evidentemente os monumentos. Sua natureza é intrínsecamente diversional. a festa permeia toda a sociedade. bem como a incorporação de elementos culturais identitários mais significativos de cada cultura. personagens históricas de cuja importância somos incessantemente relembrados. as paisagens.

a festa tem a capacidade de trazer para a atualidade. Eric Hobsbawm aborda sobre a Invenção das Tradições.modernidade toda a força de suas raízes.19 podem demonstrar as possibilidades de reconhecer. os mecanismos de sustentabilidade desta relação. nas festas a comunicação participa na articulação entre passado e presente incorporando novos valores aos tradicionais. tais práticas. as festas reavivam laços sociais que correm o risco de desfazer. os indivíduos tem . os usos e costume mais profundos vivenciadas pelo cotidiano. Isto não significam que as tradições sejam intocáveis. as festas populares são consideradas como locais de interação social e cultural. significam que as mesmas podem passar por processos de inovação embasadas nas tradições de origem. de natureza simbólica. identificando as verdadeiras faces da cultura como prática cotidiana e como expressão comunicativa. Nesse contexto. O passado histórico no qual a nova tradição está inserida não precisa ser remoto. no divertimento em grupo o individuo desaparece. moldada através da cultura. superação das distâncias entre os indivíduos. coloca em cena o conflito entre a vida séria e a natureza humana e por alguns momentos. posições de vinculo religioso e processos de modernização. onde buscam nas raízes do passado sua autenticidade. visam inculcar certos valores e normas de comportamento através da repetição. as experiências culturais vivenciadas por determinada população. onde argumenta que as “tradições inventadas” entende-se um conjunto de práticas. mostrando a verdadeira face do povo.normalmente reguladas por regras tácita ou abertamente aceita. em correspondência com a cultura enquanto totalidade das relações entre o homem e a natureza. estas manifestações projetam o cenários de pós. nesses momentos são reafirmados as crenças grupais e as regras que tornam possível a vida na sociedade. O entende-se que se dá pela continuidade e repetição de tais eventos. desde longínquas épocas. as quais interagem com os limites da liturgia e da fé católica . Ou seja. As festas estabelecem um elo entre a história e a tradição popular. É possível então dizer que. porém pode haver remodelações sem que o passado real seja deixado de lado e que seja de modo a respeitar a identidade cultural que é resultado de tradição construída e não de um imaginário. ao contrário.

a um mundo onde a sua imaginação está mais à vontade. .20 acesso a uma vida menos tensa e mais livre.

no início do século XVI. A partir da necessidade de trabalhar fora da comunidade. o milho chegou por Veneza. Amarela ou branca. assim como é para nós brasileiros. a polenta acabou conquistando o paladar dos ricos e se espalhando em todas as classes sociais. crescendo rápido. saboroso e nutritivo. a polenta destaca-se como alimento característico de grupos familiares provenientes de regiões rurais do Vêneto. portanto. a relação com outras realidades. passa ser uma ameaça da perda da cultura local. Fácil de cultivar. No ano de 1970 os mais jovens saíram para trabalhar na cidade de Piracicaba e região. virou comida de pobre. A polenta é para os italianos da região do veneto comum. A cozinha do imigrante italiano originário do Vêneto era. pois a comunidade vivia toda ali e o contato com outras culturas não era contínuo. baseada na polenta. Na Itália. Seus grãos foram imediatamente socados e transformados em polenta. o milho matou a fome de sucessivas gerações. no início com o cultivo do café e depois com o cultivo da cana. em 1492. até 1970 as famílias conseguiram sobreviver da agricultrura. Até esse período não havia a preocupação em manter a cultura. Entre os tiroleses e italianos que emigraram para o Brasil. VII -A Festa da Polenta do Bairro de Santa Olímpia – Piracicaba Segundo relato de Ivan Correr – Coordenador de Projetos Culturais ligado a Associação de Moradores de Santa Olímpia.21 VI – A Vinda da Polenta: A polenta que conhecemos e que também degustamos. . o arroz com feijão. surgiu no norte da Itália em conseqüência da descoberta da América. Alimento barato. A polenta manteve-se como alimento base das famílias camponesas de origem italiana imigrantes da região Sul e Sudeste do Brasil. obtendo sucesso instantâneo. Começou a ser preparada três ou quatro décadas depois do regresso de Cristovão Colombro. consumida diariamente e acompanhada por outros alimentos produzidos pela própria família.

Jacó Correr e Rosa Pompermayer.22 Em 1985 foram formados Grupo de Danças Típicas. lingüiça. Cada ano. Corria o risco de ser mais uma festa de mais um bairro de Piracicaba. Após muitos diálogos entre a comunidade houve uma votação de que a Festa da Polenta. salsichão • deliciosos gròstoi (pasteiszinhos doces). No ano de 1992 o Bairro comemorou os 100 anos de imigração trentina para o município. Como Ivan argumenta. o qual seguiria em qualquer gestão da Associação as regras tradicionais da cultura trentina/tirolesa. • Todas as especialidades podem ser acompanhadas por boa cerveja. já que a mesma ficou conhecida e estava começando a perder o foco das tradições da comunidade. todos de fabricação local. • polenta con cuccagna (fritada de ovos com tomates. o desafio não parou por aí. teria um regimento. as moradoras do bairro preparam pães e bolos caseiros. bacon e queijo) • strangola pretti (nhoques verdes). . e neste momento foi realizada a 1ª Festa da Polenta com o propósito de manter as tradições culturais dos tiroleses e continua até hoje. A festa iniciou com um jantar no pequeno salão de festas do bairro. um povo sem raiz é um povo sem alma. Coral e a formação da Associação de Moradores do Bairro. com o Cardápio. homenageando os pioneiros e os patriarcas da emigração no bairro. Para acompanhar as bebidas. servidos em uma sopa de frango). polenta frita. Na ocasião foi montada uma aconchegante cafeteria trentina na qual são servidos vários tipos de bebidas quentes. mostrando pratos tradicionais da cozinha trentina/tirolesa: • canederle ou knödel (nhoques de pão com lingüiça e especiarias. chocolate quente e café expresso além de alguns tipos de chás. entre outros pratos típicos. mas os destaques vão para os ótimos vinhos tintos. como cappuccino. vinho de laranja e a grappa (destilado da casca da uva). houve um período de repensar a festa. são convidados grupo de música que encanta os visitantes da cafeteria tornando o ambiente muito mais agradável. Porém.

As mesmas. latente e penetrante. Após a entrevista realizada para subsidiar esse texto. como por exemplo o estilo e pintura das casas e salão de festas que foi reformado. com sua hospitalidade e afavilidade em receber os turistas que por lá passam. de doutorado sobre o dialeto trentino. A memória aparece como força subjetiva ao mesmo tempo profunda e ativa. dificultando possíveis riscos de comportamentos indesejáveis. seguem os padrões da pátria mãe. Para Ecléa Bosi. interfere no processo atual das representações.000 pessoas. que representa a comunidade tirolesa de Piracicaba. artesanato. oculta e invasora. música típica tirolesa. último fim de semana de julho. para a comunidade existe o respeito à religião. que orientam sobre as tradições. Mesmo durante a realização da Festa há um limite de participantes que pode chegar a um número aproximado de até 15. o Café que abre somente nos dias da festa. trabalham nas pesquisas e mantém contato com os amigos do Trentino/Austriaco. música. A idéia é de repassar este conhecimento para os jovens da comunidade. e a festa é realizada em frente a Igreja Imaculada Conceição. o passado não só vem traz a lembranças passadas misturando-se com as percepções atuais. Existem 02 Cafés. . culinária e ainda hoje. Chega a ser emocionante o envolvimento da comunidade em manter sua história representada através da arquitetura. sendo que os anciões da referida comunidade já o fizeram na forma de oralidade. sendo na sexta-feira com um jantar e sábado e domingo com almoço. roupas típicas dos grupos dança e coral.23 Na Festa da Polenta tudo foi pesquisado. Essa medida foi tomada em respeito a espacialidade do local. Segundo Evertom Altenmayer. canto e dança. Pela memória. culinária. algumas ruas e também a Cafeteria foram percorridas e apreciado todo o trabalho de arte e artesanato. pois. a memória permite a relação do corpo presente com o passado e. historiador e dialetológo. seja nas moradias ou em lembranças confeccionadas pelos moradores da comunidade. na cidade de Trento ele realizou pesquisas. Os mesmos são orientados pelos coordenadores com apostilas e aulas gratuitas . Os coordenadores incentivam os moradores a manterem no bairro o espírito do trentino.

a cada nova história a qual somos apresentados vivemos a sensação do desconhecido. onde a vida do espírito ganha reflexão entre os dois tempos. . São objetos ou fatos que só são lembrados de forma consciente quando induzidos por fatores externos ou por um esforço interno. Assim. mas a todos que já estiveram aqui e aqueles que ainda virão. a importância da perda da tradição. “Na realidade não há percepção que não esteja impregnada de lembranças”. ela a define o fio que nos guia com segurança através dos domínios do passado. A escritora tem a idéia de que o planeta não pertence só a nós que vivemos nele agora.24 ”Segundo esse argumento. nós temos materiais de lembrança latentes. Além disso. entre o passado e o futuro estão contidas história e historicidade. navegam e sobrevoam em tempos sombrios. Arendt considera. pois caminham. Só podemos dizer que algo é “novo” por sabermos que não pertence a nenhum material retido na memória do sujeito em forma de lembrança.

25 .

por intermédio de representações estéticas e culturais. Obedecendo ao regimento que foi estabelecido para a “Festa da Polenta”. sendo altamente influenciadas pelas relações midiáticas que visam o mercado de consumo. e nesse período surgiram as primeiras festas. pois aquele Trentino que faz parte do imaginário da comunidade ficou no passado. cujo objetivo é sensibilizar e conscientar a comunidade da importância em manter seus valores e tradições. No estudo realizado observou-se. com o progresso e o desenvolvimento da cidade efetivando e fortalecendo as relações sociais. Outras foram modificadas descaracterizando sua identidade cultural. pois esse foi transmitido pelas gerações anteriores e tem o compromisso de manter o patrimônio que é compartilhado pela comunidade e composto de valores e julgamentos que são expressos e representados pelas manifestações culturais. Respeitar o patrimônio cultural para colônia tirolesa. outras permanecem vivas na contemporaneidade com dificuldades de ressignificar sua tradição. pois a colheita foi o principal motivo de agradecimento pela produção. mas com a preocupação em manter a orginalidade das raízes e tradições culturais. com todo o sistema de significados que lhes são entendidos.26 Considerações Finais: As festas acompanham a humanidade desde quando o homem resolveu abandonar a vida nômade utilizando a terra para a própria existência. Ser diferente é ser fiel a sua herança de patrimônio histórico cultural da comunidade trentina. Existem algumas festas que ao longo do tempo desapareceram. que a comunidade Trentina/Tirolena procura manter um processo dialético. . e o presente está resgantando sua essência real. é um desafio que vem sendo desenvolvido por intermédio dos projetos culturais da comunidade.

27 .

. 09. .28 REFERENCIAS ARENDT. 9. 1984. RANGER. E.N. T. São Paulo: Paulus. Memória e Sociedade: lembranças de velhos. (Org. de fato. .ECA/USP. As Festas Populares na expansão do Turismo. nos comunicamos?: uma reflexão sobre o processo de individuação e formação. Entre o passado e o futuro. 3.103 e 104 FERREIRA. C. 2005. M. Rio e Janeiro:Paz e Terra. Até que ponto. São Paulo: Companhia das Letras. .p 43 a 45 BOSI. São Paulo: Ed.p. 78 e 79. Hibridismo cultural. Perspectiva. . A invenção das tradições.p 43 a 48 BURKE. São Paulo: CELACC.p. . a Experiência Italiana. H. 102. 1994. E. Tradução de Celina Cardim Cavalcante.p.). 25 a 29 HOBSBAWN. . 1999. 2004. 5.ed. Arte &Ciencia Editora.13 e 17 MARCONDES FILHO. P. RS: Unisinos. 2003.ed.p.