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Soberania e a proteção internacional dos

direitos humanos: dois fundamentos


irreconciliáveis

Valerio de Oliveira Mazzuoli

Sumário
1. Introdução. 2. O direito do pós-guerra e a
internacionalização dos direitos humanos. 3. O
velho conceito de soberania e a restrição atual
de sua abrangência. 4. A soberania e a negação
de sua existência no âmbito internacional. 5. So-
berania e direitos humanos: dois fundamentos
irreconciliáveis. 6. Por um novo conceito de so-
berania: flexibilização e delimitação das linhas
divisórias. 7. Conclusão. 8. Bibliografia.

1. Introdução
O aumento gradativo da participação
dos Estados no sistema internacional de
proteção dos direitos humanos, bem como o
reconhecimento, por vários deles, da juris-
dição dos órgãos de monitoramento perti-
nentes, tem levado alguns internacionalis-
tas a um reestudo da questão atinente ao
dogma da soberania estatal absoluta, rede-
finindo o seu papel para a satisfação da jus-
tiça globalizada em sede de proteção inter-
nacional dos direitos humanos.
Este estudo, da mesma forma, buscará
desvendar a possibilidade de existência de
Valerio de Oliveira Mazzuoli é Professor um novo conceito de soberania, moldado às
de Direito Internacional Público e Direitos Hu- exigências da nova ordem internacional e da
manos na Faculdade de Direito de Presidente proteção internacional dos direitos humanos.
Prudente – SP (Associação Educacional Tole- Para tanto, num primeiro momento será
do) e de Direito Constitucional e Direito Inter-
feito um breve histórico do processo de in-
nacional Público na Universidade do Oeste
Paulista – UNOESTE. Mestrando em Direito In-
ternacionalização dos direitos humanos,
ternacional na Faculdade de Direito da Uni- para, posteriormente, estudar-se o papel (ne-
versidade Estadual Paulista (UNESP) – Cam- gativo) do conceito de soberania no sistema
pus de Franca. internacional de proteção de direitos.
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2. O direito do pós-guerra e a na comunidade mundial. Um deles foi o de
internacionalização dos direitos colocar os indivíduos na posição central –
humanos há muito merecida – de sujeitos de direito in-
ternacional, dotando-os de mecanismos pro-
O Direito Internacional dos Direitos cessuais eficazes para a salvaguarda dos
Humanos, pode-se dizer, é o direito do pós- seus direitos internacionalmente consagra-
guerra. É dizer, aquele direito gerado com o dos. Por outro lado, pretendeu-se afastar de
propósito de romper de vez com a lógica vez o velho e arraigado conceito de sobera-
nazista da destruição e da barbárie, que nia estatal absoluta – que considerava os
condicionava a titularidade de direitos a de- Estados os únicos sujeitos de direito interna-
terminada raça (a raça pura ariana). A cons- cional público –, para proteger e amparar
trução de um cenário internacional de prote- os direitos fundamentais de todos os seres
ção de direitos foi conseqüência direta do sal- humanos, tanto no plano interno como no
do de 11 milhões de pessoas mortas durante plano internacional.
o Holocausto. Decorreu da vontade da comu- A doutrina da soberania estatal absolu-
nidade internacional em dar ensejo à cons- ta, assim, com o fim da Segunda Guerra,
trução de uma estrutura internacional de pro- passa a sofrer um abalo dramático com a
teção de direitos eficaz, baseada no respeito crescente preocupação em se efetivar os di-
aos direitos humanos e na sua efetiva prote- reitos humanos no plano internacional, pas-
ção. E a partir daí, o tema “direitos huma- sando a sujeitar-se às limitações decorren-
nos” tornou-se preocupação de interesse co- tes da proteção desses mesmos direitos.
mum dos Estados, bem como um dos princi-
pais objetivos da comunidade internacional1.
Como bem explica a Professora Flávia 3. O velho conceito de soberania e a
Piovesan, diante da ruptura “do paradig- restrição atual de sua abrangência
ma dos direitos humanos, pela negação do
valor da pessoa humana como valor fonte Em decorrência do processo de inter-
do Direito”, passou a emergir “a necessida- nacionalização dos direitos humanos, ad-
de de reconstrução dos direitos humanos, vindo do pós-Segunda Guerra, o conceito
como referencial e paradigma ético que apro- tradicional de soberania, que entende ser ela
xime o direito da moral” (2000, p. 129). E um poder ilimitado do Estado em relação
como resposta às barbáries cometidas no ao qual nenhum outro tem existência, quer
Holocausto, em que imperava a lógica do interna quer internacionalmente, passa a en-
terror e do medo, e a vida humana nada mais fraquecer-se sobremaneira.
era do que simplesmente descartável, a co- À medida que os Estados assumem com-
munidade internacional começou a esboçar promissos mútuos em convenções interna-
um novo – e até então inédito – cenário cionais, que diminuem a competência dis-
mundial de proteção de direitos, que pu- cricionária de cada contratante, eles restrin-
desse servir, na busca da reconstrução gem sua soberania e isso constitui uma ten-
dos direitos humanos, como paradigma e dência do constitucionalismo contemporâ-
referencial ético a orientar a nova ordem neo, que aponta a prevalência da perspecti-
mundial (PIOVESAN, 1998, p. 49). va monista internacionalista para a regên-
Se a Segunda Guerra representou a “rup- cia das relações entre o direito interno e o
tura” para com os direitos humanos, o pós- direito internacional2. E tal restrição encon-
Segunda Guerra deveria representar a sua tra seus limites, internamente, na persona-
“reconstrução”. lidade reconhecida do indivíduo e, externa-
O processo de internacionalização dos mente, no direito internacional pelos pró-
direitos humanos causou alguns impactos prios Estados reconhecido. Os Estados, por

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força desse reconhecimento, impõem-se res- en même temps, que l’idée de la sou-
trições e limites, sem que possam, em segui- veraineté de l’individu, et que la vali-
da, juridicamente, libertar-se, por um ato de dité objective de l’ordre étatique a eté
vontade própria e exclusiva, das obrigações ainsi mise hors de doute, de même en
que a si mesmos impuseram (cf. MARTINS, éliminant le dogme de la souveraine-
1998, p. 20). té, de l’Etat, on établira qu’il existe un
Bastante expressiva é lição de Gilberto ordre juridique universel, indépen-
Amado neste tema: dant de toute reconnaissance et supé-
“Assim como se organizou a socie- rieur aux États, une civitas maxima”4.
dade humana, assim como cada indi- Cabe ao direito internacional, dessa for-
víduo perdeu sua liberdade pessoal ma, “depois de vencidas as últimas resis-
para criar a sociedade humana, cor- tências que lhe opõe o conceito atual de so-
porificada em nações, assim estas hão berania, instituir a paz universal sobre fun-
de perder um pouco da sua soberania dações profundas e sólidas (…), realizando
para criar esse superorganismo neces- assim a aspiração medieval da civitas maxi-
sário à paz do mundo e à felicidade ma que é, no fundo, o ideal comum dos con-
do gênero humano” (apud GARCIA, temporâneos”5.
2000, p. 79). Assim é que muitos autores chegam mes-
Nesse sentido, já assinalara Pasquale mo a negar a soberania do Estado, tal como
Fiore que só se pode reconhecer aos Estados definida por Jean BODIN (1949 e 1966) des-
uma independência limitada pelas exigências de o século XVI, posto não passar de uma
da sociedade internacional, o que A. Pillet competência delegada pela comunidade in-
caracterizou como sendo uma situação de ternacional, no interesse geral da humani-
interdependência das nações, nestes termos: dade, o que resulta no entendimento de que
“L’indépendance de l’État n’existe existe não só um direito internacional, mas
pas, telle est la conséquence fatale de também um direito supranacional ou hu-
l’existence du commerce internatio- mano, estando a liberdade do Estado cir-
nal… Une même loi gouverne donc la cunscrita tanto por um quanto pelo outro
vie des individus et des peuples: la loi (cf. MANDELSTAN, [19- -?], p. 192)6.
de l’interdépendance” (apud BOSON, Soberania, em realidade, é o poder que
1958, p. 178, nt. 294)3. detém o Estado, de impor, dentro de seu terri-
Essa nova mentalidade em relação ao tório, suas decisões, isto é, de editar suas leis
conceito tradicional de soberania tem leva- e executá-las por si próprio. É o poder que,
do alguns autores a, até mesmo, negar o seu dentro do Estado, internamente, não encon-
plano de existência. tra outro maior ou de mais alto grau. Nas sá-
bias palavras do Professor Goffredo TELLES
4. A soberania e a negação de sua JUNIOR, a soberania pode ser definida
existência no âmbito internacional como um “poder incontrastável de decidir,
em última instância, sobre a validade jurí-
Para KELSEN, bem como para os solida- dica das normas e dos atos, dentro do terri-
ristas franceses, a idéia de soberania tradi- tório nacional”. Segundo o ilustre jurista,
cional deveria ser eliminada, por acarretar trata-se de um poder incontrastável porque
obstáculos ao desenvolvimento do direito in- “é o poder de produzir o Direito Positivo,
ternacional e à evolução da comunidade das que é o direito contra o qual não há direito; o
nações rumo a uma civitas maxima, ou seja, a direito que não pode ser contrastado”; e é um
uma comunidade internacional universal: poder de decidir em última instância, “porque
“De même que la théorie subjecti- é o poder mais alto, o poder acima do qual
viste du contrat social a été vaincue [internamente] não há p oder” (2001, p. 118).

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No âmbito externo, entretanto, isso não “A conservação do Estado sobera-
ocorre. Os Estados, nas suas relações in- no será a negação da natureza jurídi-
ternacionais, encontram-se pareados, em si- ca do direito externo e, por conseguin-
tuação de coordenação, ou seja, em plena te, a consagração da anarquia inter-
igualdade jurídica. Assemelham-se, pode- nacional. Mas, nem por isso, o imobilis-
mos assim dizer, às vitórias-régias que pai- mo jurídico renunciou de vez à noção
ram, soberanas, sobre o limbo. Assim, todos de soberania. Os internacionalistas, na
eles, no contexto internacional, têm o mes- sua grande maioria, têm-se mantido fi-
mo status, seja uma grande potência, ou uma éis a ela, sustentando a conveniência
pequena Nação. De fato, como explica ain- de sua conservação, embora reconhe-
da o Professor Goffredo TELLES JUNIOR, çam que, mantida com o seu conceito
um Governo só é soberano dentro dos limites originário, será uma fonte de perma-
de suas competências nacionais. Diz ele: nentes dificuldades opostas ao desen-
“Nenhum Estado é soberano rela- volvimento do internacionalismo.
tivamente a outro Estado. Soberania Para não suprimi-la, preferiram
conota superioridade, supremacia, submeter a uma extravagante revisão
predominância (…). Logo, constitui- o seu conteúdo, procurando adaptá-
ria verdadeiro contra-senso a afirma- lo às condições de vida internacional
ção de que os Estados são soberanos e às aspirações pacifistas de que se
em suas relações internacionais. (…) acha animada a civilização contem-
Na relação entre os Estados, o que exis- porânea. A conciliação, porém, é im-
te não é soberania, mas igualdade dos possível e o direito externo só se afir-
Estados” (p. 121). mará definitivamente depois que tiver
A noção de soberania, aliás, nem é ine- lançado os seus fundamentos sobre
rente à concepção de Estado. Surgiu, pois, as ruínas da soberania nacional”. (…)
da luta que os Estados nacionais tiveram Essas concessões, como se vê, vi-
que travar, externamente, contra a Igreja, que sam salvar o dogma da soberania,
os pretendia colocar ao seu serviço, e contra mas, efetivamente, elas não têm feito
o Império Romano, que os considerava como senão precipitar-lhe a ruína, porque
simples províncias; e internamente, contra admitir que a soberania possa ser re-
os senhores feudais, que procuravam duzida é reconhecer que ela não exis-
igualar-se com os Estados, atribuindo-se te. Uma soberania susceptível de li-
poder próprio, independente e autônomo mites e restrições é uma hipótese ab-
(MARTINS, 1988, p. 17). surda. Todas as tentativas para amol-
Sem embargo de desaparecidos os moti- dar a soberania às exigências atuais do
vos que a determinaram, a concepção de direito internacional têm sido baldadas,
soberania ainda subsiste, embora fragiliza- porque ela, em sua qualidade de su-
da pela pressão das necessidades históri- perlativo, é asuprema potestas. O Estado
cas, notadamente pelo sistema internacio- soberano, como já se tem afirmado, pode
nal de proteção dos direitos humanos, que, ter direitos mas não tem deveres. Com
reagindo incessantemente contra o seu a preocupação de depurar o seu con-
conceito original, tal como identificado ceito para amoldá-lo às circunstâncias
por Bodin, acabou de fato por transfor- jurídicas, o que se tem feito é atentar
má-lo num “adorno extravagante”, intei- contra o seu tríplice sentido: gramati-
ramente vazio de sentido e de expressão cal, lógico e histórico. Ou então, o que é
(MARTINS, 1988, p. 18). ainda mais grave – para desincompa-
E Pedro Baptista MARTINS, a esse res- tibilizá-la com a ordem jurídica inter-
peito, assim leciona com total lucidez: nacional, tem-se urdido uma série de

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teorias, cada qual mais obscura incoe- sim de toda a comunidade mundial. A não-
rente e contraditória” (p. 19-23). ingerência em assuntos internos não pode
As modernas relações internacionais ser interpretada como pretendendo limitar
não se compadecem, pois, com o velho e ar- o mecanismo de monitoramento internacio-
raigado conceito de soberania e pretendem nal em sede de direitos humanos. Esses di-
afastá-lo para cada vez mais longe, a fim de reitos, pela universalidade e indivisibilida-
tornar mais viáveis as relações entre os Es- de que os caracteriza, não dizem respeito
tados, dando a estes direitos, mas também estrito a um ou outro Estado, mas a todos os
obrigações na órbita internacional. Trata-se, Estados conglobados na comunidade inter-
como se vê, da verdadeira negação do con- nacional.
ceito de soberania no cenário internacional. Se existe noção alheia à proteção inter-
nacional dos direitos humanos, essa noção
5. Soberania e direitos humanos: dois é da soberania. É irreconciliável, pois, o seu
fundamentos irreconciliáveis fundamento com a dinâmica internacional
de proteção desses direitos, o que implica
Em se tratando de proteção dos direitos necessariamente a abdicação ou afastamento
humanos, a noção clássica de soberania daquela noção em prol da proteção do ser
sofre, ainda, uma outra transformação. No humano (TRINDADE, 1994, p. XVI).
cenário internacional de proteção, os Esta-
dos perdem a discricionariedade de, inter-
namente, a seu alvedrio e a seu talante, fa- 6. Por um novo conceito de soberania:
zer ou deixar de fazer o que bem lhes convier. flexibilização e delimitação das linhas
Nesse contexto é que devem os Estados-par- divisórias
tes, num tratado internacional, cumprir todo
o acordado, sem objetar disposições de seu
direito interno como justificativa para o não- A verdadeira soberania deveria consis-
cumprimento do que foi pactuado. Há, pois, tir numa cooperação internacional dos Es-
nesse cenário de proteção dos direitos hu- tados em prol de finalidades comuns. Um
manos, um enfraquecimento da noção da não- novo conceito de soberania, afastada sua
interferência internacional em assuntos in- noção tradicional, aponta para a existência
ternos (Carta das Nações Unidas, art. 2º, de um Estado não isolado, mas incluso
alínea 7), flexibilizando, senão abolindo, a numa comunidade e num sistema interna-
própria noção de soberania absoluta7. cional como um todo. A participação dos
Não existem direitos humanos globais, Estados na comunidade internacional, se-
internacionais e universais, sem uma sobera- guindo-se essa nova trilha, em matéria de
nia flexibilizada, o que impediria a projeção proteção internacional dos direitos huma-
desses direitos na agenda internacional. nos, esta sim seria sobretudo um ato de so-
Inúmeros países, invocando a doutrina berania por excelência.
da soberania estatal, têm mesmo se utiliza- A esse respeito, e bem a propósito, o Se-
do do princípio da não-intervenção em as- cretário Geral das Nações Unidas, B. Bou-
suntos internos, principalmente quando tros-Ghali, na defesa da prevalência do di-
estão em posição defensiva em relação aos reito internacional dos direitos humanos, já
seus deveres internacionalmente assumidos, afirmara:
em matéria de direitos humanos. Não é essa, “Ainda que o respeito pela sobe-
entretanto, a melhor exegese do art. 2 º (7) da rania e integridade do Estado seja
Carta das Nações Unidas. O respeito aos uma questão central, é inegável que a
direitos humanos não é assunto de interes- antiga doutrina da soberania exclusi-
se exclusivamente interno de um Estado, mas va e absoluta não mais se aplica e que

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esta soberania jamais foi absoluta, humanos. Com isso, busca-se a construção
como era então concebida teoricamen- de um novo constitucionalismo, que asse-
te. Uma das maiores exigências inte- gure definitivamente a proteção dos direi-
lectuais de nosso tempo é a de repen- tos humanos e suplante os atuais proble-
sar a questão da soberania (...). Enfati- mas existentes em sede de incorporação de
zar os direitos dos indivíduos e os di- tratados internacionais de proteção.
reitos dos povos é uma dimensão da Em suma, quando um Estado ratifica um
soberania universal, que reside em tratado de proteção dos direitos humanos,
toda a humanidade e que permite aos não diminui ele sua soberania (entendida
povos um envolvimento legítimo em em sua concepção contemporânea), mas, ao
questões que afetam o mundo como contrário, pratica um verdadeiro ato sobera-
um todo. É um movimento que, cada no, e o faz de acordo com sua Constituição.
vez mais, encontra expressão na gra- Uma das manifestações que ainda rema-
dual expansão do Direito Internacio- nesce da noção tradicional de soberania, a
nal” (apud HENKIN, 1993, p. 18). da assim chamada “competência nacional
Nesse compasso é que o art. 11 da Cons- exclusiva”, encontra-se – na lição de Antô-
tituição italiana, já inserto dentro desse nio Augusto Cançado TRINDADE – há
novo contexto, preceitua que a Itália “con- mais de duas décadas definitivamente su-
sente, em condições de reciprocidade com perada pela própria atuação, com aquies-
outros Estados, nas limitações de soberania cência dos Estados, dos órgãos de supervi-
necessárias a uma ordem asseguradora da são internacionais, inclusive no plano glo-
paz e da justiça entre as Nações”9. Aliás, a bal (Nações Unidas), não ousando nenhum
Corte de Justiça Européia, em certa ocasião, governo, nos nossos dias, de boa-fé levan-
declarou-se competente inclusive para jul- tar a exceção do “domínio reservado” do
gar – em tema de direitos fundamentais – os Estado em detrimento da ação dos órgãos
conflitos existentes entre o direito comunitá- internacionais competentes em matéria de
rio europeu e o direito constitucional interno proteção dos direitos humanos, o que estaria
dos países membros, com o escopo de dar certamente fadado ao insucesso (1994, p. XVI).
prevalência ao primeiro em detrimento do Os mecanismos de monitoramento de
segundo (cf. sent. de 9 de março de 1978, cau- violações de direitos humanos nas jurisdi-
sa 106/1977) (vide BARILE, 1984, p. 445-446). ções nacionais, levados a efeito pelos órgãos
No mesmo sentido, seguindo essa ten- de supervisão internacionais, à exceção do
dência moderna do constitucionalismo sistema de petições individuais, não ultra-
democrático, a Carta Política do Chile de passam o nível de observação e recomenda-
1980, reformada em 1997, estabelece, no ção, uma vez que cabe ao discernimento dos
seu art. 5 (2), que: Governos as decisões em responder ou não
“El ejercicio de la soberanía reco- às indagações formuladas, acolher as reco-
noce como limitación el respeto a los mendações propostas e cooperar com os re-
derechos esenciales que emanan de la latores (ALVES, 1994, p. 38). Por isso, como
naturaleza humana”, complementan- lembra Lindgren ALVES, em virtude do en-
do que é dever “de los órganos del tendimento generalizado “de que esses me-
Estado respetar y promover tales de- canismos da ONU gozam de legitimidade
rechos, garantizados por esta Consti- internacional, sem ferir a soberania nacio-
tución, así como por los tratados in- nal, praticamente todos os Estados procu-
ternacionales ratificados por Chile y ram responder às demandas que lhe fazem,
que se encuentren vigentes”. sem recorrerem ao princípio da não-inter-
São, efetivamente, exemplos a serem se- venção, também entronizado na Carta da
guidos, em matéria de proteção dos direitos ONU” (p. 38).

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7. Conclusão poder (ou qualidade do poder) absoluto; mas, ab-
soluto não quer dizer que lhe é próprio. A soberania
A conclusão que se chega, do que acima é, assim, um poder (ou grau do poder) absoluto,
ficou exposto, é que o sistema de proteção mas não é nem poderia ser ilimitado. Ela encontra
internacional dos direitos humanos das seus limites nos direitos individuais, na existência de
outros Estados soberanos, na ordem internacional”
Nações Unidas não ameaça a soberania [grifo nosso] (1998, p. 9).
nacional dos Estados, uma vez que o seu 4
Hans Kelsen. Recueil des Cours, no 14, p. 326.
caráter de proteção é complementar e subsi- Vide, Gerson de Britto Mello Boson, (1958, p. 179,
diário, em que se reconhece primordialmente nt. 287).
aos Estados a incumbência pela efetiva pro-
5
Para MARTINS, Pedro Baptista: “A anarquia
internacional, de que os povos ainda não lograram
teção. Apenas no caso deste não zelar pela emergir inteiramente, a despeito dos esforços infa-
proteção de tais direitos é que o sistema da tigáveis que se têm conjugado, depois da guerra
ONU entra em ação como meio de se efeti- européia, no sentido de organizar a comunidade
var a proteção internacional dos direitos dos Estados, nada mais é do que o índice da obsti-
humanos (ALVES, 1994, p. 39). nação com que, por motivos de ordem exclusiva-
mente política, se tenta defender o dogma da sobe-
De outra banda, pode-se concluir que rania nacional e, com ele, a doutrina da supremacia
não há conceito mais alheio ao da proteção do direito interno” (1998, p. 2).
internacional dos direitos humanos que o 6
Para DUGUIT, as Declarações de Direito, na es-
conceito tradicional de soberania. São irre- cala hierárquica, sobrepõem-se à Constituição, e
conciliáveis os conceitos de “soberania” e esta às leis ordinárias, nesta ordem: Declarações de
Direito, leis constitucionais e leis ordinárias. De for-
“direitos humanos”, o que implica necessa- ma que, para ele, a primazia das Declarações de
riamente a abdicação ou afastamento daque- Direito impõem tanto o respeito do legislador ordi-
la noção em prol da proteção dos seres hu- nário, como o respeito do legislador constituinte,
manos protegidos, a menos que se remodele jamais podendo ser afastada por qualquer deles
(1930, p. 604).
o conceito para passar a dizer respeito à 7
Fábio Konder COMPARATO, ao comentar o
cooperação internacional dos Estados em § 2º do art. 5º da Carta de 1988, conjugando-o
prol de finalidades comuns. com o inc. II do art 4º da mesma Carta (segundo o
qual o Brasil se rege nas suas relações internacio-
nais pelo princípio da “prevalência dos direitos
humanos”), afirma criticamente: “O sentido desta
Notas última declaração de princípio parece ser o da su-
premacia dos direitos humanos sobre quaisquer
1
Para um estudo mais detalhado da matéria,
regras decorrentes da soberania internacional de
vide Valerio de Oliveira Mazzuoli (2002, p. 212-231).
nosso País, considerada esta como independência
2
Cf. DALLARI, Pedro. Recepção pelo direito in- em relação a outros Estados e como poder, em últi-
terno das normas de direito internacional público: o pa- ma instância, para decidir sobre a organização de
rágrafo 2º do artigo 5º da Constituição Brasileira competências no plano interno. Tal significa, segun-
de 1988. (trabalho acadêmico, não publicado). Para do a melhor exegese, que o Brasil reconhece a inapli-
Hans KELSEN, a questão, todavia, consiste em saber cabilidade, para si, em matéria de direitos humanos,
em que medida a soberania do Estado é limitável do princípio de não-ingerência internacional em as-
pelo direito internacional, e admite que a resposta suntos internos (Carta das Nações Unidas, art. 2º,
não pode ser deduzida, quer do primado do direito alínea 7). A proteção aos direitos fundamentais do
internacional, quer do primado do direito interno homem é, por conseguinte, considerada assunto de
nacional (1984, p. 457). legítimo interesse internacional, pelo fato de dizer
3
Para Mirtô Fraga: “(…) não se pode esquecer respeito a toda a humanidade” (1996, p. 282).
que o conceito de soberania não é estático, mas 8
Contra: vide a lição de Manoel Gonçalves FER-
dinâmico, modificando-se para atender às necessi- REIRA FILHO, para quem não assiste razão àque-
dades da sociedade internacional. Do conceito de les que afirmam estar ultrapassada a idéia de so-
soberania como a qualidade do poder do Estado berania, em vista da afirmação de uma sociedade
que não reconhece outro poder maior que o seu – internacional e de um direito internacional superio-
ou igual – no plano interno, chegou-se à moderna res ao Estado. Para este professor da Faculdade de
conceituação: Estado soberano é o que se encontra, Direito da USP: “A sociedade internacional é antes
direta e imediatamente, subordinado à ordem jurí- um desejo idealista do que uma realidade concre-
dica internacional. A soberania continua a ser um ta. O que dela mais se aproxima, a ONU, não pas-
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sa de uma associação cujo poder – juridicamente ______. Los seis libros de la republica. Caracas: Insti-
falando – não prevalece sobre o dos associados. tuto de Estudios Politicos/Universidad Central de
Por sua vez, o Direito internacional costumeiro – Venezuela, 1966.
pois em relação às normas de tratados é evidente o
BOSON, Gerson de Britto Mello. Curso de direito in-
caráter contratual – só prevalece sobre o direito in-
ternacional público. Belo Horizonte: Livraria Bernar-
terno, quando a Constituição do Estado o aceita e do Álvares, 1958. v. 1.
na medida em que o aceita”. E conclui: “Assim o
Estado contemporâneo é ainda um Estado sobera- COMPARATO, Fábio Konder. A proteção aos di-
no”. Admite ele, entretanto, que um dos fatores reitos humanos e a organização federal de compe-
que está a anunciar o fim do Estado “soberano” é a tências. In: TRINDADE, Antônio Augusto Cança-
globalização, mormente, no seu entender, o aspec- do (Ed.). A incorporação das normas internacionais de
to econômico da mesma. (1998, p. 94-95). Para proteção dos direitos humanos no direito brasileiro. 2. ed.
Gerson de Britto Mello BOSON: “É necessário, pois, Brasília: IIDH, 1996.
estabelecer duas orientações para a imputação do DUGUIT, León. Traité de droit constitutionnel. 3. ed.
conceito de soberania ao Estado: uma vertical, posi- Paris: E. de Boccard, 1930. v. 1.
tiva, outra horizontal, negativa. Em ambos a sobe-
rania tem sentido absoluto, por ser um aleijão pre- FERREIRA FILHO, Manoel Gonçalves. O futuro do
tender-se soberania limitada. Acontece, porém, que Estado. Revista da Escola Paulista da Magistratura,
só na segunda orientação é possível aplicar o con- Associação Paulista dos Magistrados, ano 2, n. 4,
ceito, ao Estado, com base no princípio da igualda- p. 91-98, jun./nov. 1998.
de jurídica, de que decorrem outros princípios, como FRAGA, Mirtô. O conflito entre tratado internacional e
o de imunidade de jurisdição e o de não interven- norma de direito interno: estudo analítico da situa-
ção” (1958, p. 184). Frise-se que um dos princípios ção do tratado na ordem jurídica brasileira. Rio de
pelo qual a República Federativa do Brasil se rege Janeiro: Forense, 1998.
em suas relações internacionais é o princípio da
não-intervenção, consagrado pelo inciso IV do art. 4º GARCIA, Márcio P. P. Gilberto Amado, o jurista.
da nossa Carta Magna. Revista de Informação Legislativa, Brasília: Senado
9
Na lição de Paolo BARILIE, Enzo CHELI e Federal, Subsecretaria de Edições Técnicas, ano 37,
Stefano GRASSI: “I limiti alla sovranità del nostro n. 147, jul./set. 2000.
Stato che derivano dall’attribuzione dei poteri nor- HENKIN, Louis; PUGH, Richard, SCHACHTER,
mativi agli organi comunitari, trovano fondamento Oscar & SMIT, Hans. International law: cases and
nel principio di cui all’art. 11 C., che ‘consente, in materials. 3th. ed. Minnesota: West Publishing, 1993.
condizioni di parità com gli altri Stati, le limitazioni
di sovranità necessarie ad un ordinamento che assi- KELSEN, Hans. Teoria pura do direito. 6. ed. Tradu-
curi la pace e la giustizia fra le nazioni’, ed invita ção de João Baptista Machado. Coimbra: Armênio
Amado, 1984.
l’Italia a ‘promuovere’ e ‘favorire’ le ‘organizzazio-
ni internazionali rivolte a tale scopo’: le Comunità MANDELSTAM, A. La protection internationa-
europee sono nate – come si è accenato – com scopi le des droits de l’homme. Recueil des Cours, n. 38,
analoghi a quelli indicati dall’art. 11 C., come risul- p. 192, [19- -?].
ta anche dai preamboli dei rispettivi trattati” (1998,
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