BELO HORIZONTE
2010
Capítulo 01 – Confissão religiosa e estratificação social
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• Quais foram ou são os elementos dessa confissão que atuam na direção
profissional “burguesa”?
mundo, ascese e devoção eclesial com a participação na vida capitalista. Pg. 36.
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Capítulo 02 – O “espírito” do capitalismo
-Livro dos provérbios (22, 29): “vês um homem exímio em sua profissão? Digno ele
é de apresentar-se perante os reis”.
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Isso era o que o pai de Franklin, calvinista estrito, lhe repetia quando pequeno. Na
ordem econômica moderna, o ganho de dinheiro aparece como resultado (expressão) da
habilidade na profissão. E é a habilidade que fundamenta a moral de Franklin. Pg. 47.
A profissão pensada como dever, obrigação do indivíduo com o conteúdo de sua
atividade profissional, é característica da ética social capitalista. Para o indivíduo que
nasce em seus cosmos ela já aparece como fato, sendo importante na medida em que foi
determinante para a constituição desse “espírito” mas não tanto para o capitalismo atual.
O capitalismo atual seleciona seus sujeitos econômicos com base em modalidades
de conduta que tiveram de emergir. E isso se deu a partir de um modo de ver de um
grupo de pessoas. Pg. 48.
“Espírito do capitalismo” existe, muitas vezes, antes do desenvolvimento capitalista.
Weber inverte a lógica da superestrutura. Nas colônias do Norte dos EUA ele se
desenvolveu mais que nas do Sul, ainda que elas tenham sido criadas com fins mercantis.
As do norte foram fundadas por religiosos e pequenos burgueses. Pg. 49.
Para se desenvolver, o espírito teve que enfrentar outras disposições. Teria sido
visto como avareza na antiguidade ou Idade Média. Mas a avareza nunca foi
exclusividade sua e não é essa característica que o marca como fenômeno de massa. Pg.
50.
Avareza foi tolerada para fora do grupo, mas a irrupção do livre lucro no seio do
grupo mesmo era vista como eticamente lamentável (ou indiferente). Para se firmar, o
espírito precisou lutar contra o tradicionalismo, uma vez que o trabalho e a valorização
racional do capital não eram orientadores da conduta de vida. Pg. 51.
Que é o tradicionalismo?
“O ser humano não quer ‘por natureza’ ganhar dinheiro e sempre mais dinheiro,
mas simplesmente viver, viver do modo como está habituado a viver e ganhar o
necessário para tanto”. Pg. 53.
->O capitalismo, onde quer que se instale, e quanto mais “atrasada” é a mão-de-
obra, tem que enfrentar essa tendência. A idéia de produtividade pela intensidade não é
dada e muitas vezes o aumento de salário por produtividade leva a uma baixa desta, não
o contrário, pois é possível trabalhar menos para manter o antigo padrão.
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->mulheres alemãs: resistem às novas formas de trabalho em favor de seus
hábitos mesmo que eles representem mais trabalho e menos rendimento. Exceção são as
pietistas, cuja orientação religiosa inculca noções de domínio de si, poupança, dever do
trabalho, sobriedade. São características que elevam sua produtividade; assim superam a
rotina tradicional em conseqüência da educação religiosa nas novas condições
econômicas. Pg. 56.
-No início dos tempos modernos, o empreendedor capitalista estava nas camadas
emergentes dos pequenos industriais de classe média: novos ricos: burguesia.
-Grandes empresas só podem ser dirigidas sob o espírito do capitalismo, porém no
comércio varejista a revolução que está pondo um fim no tradicionalismo ainda está em
plena marcha.
-Exemplo de empresa têxtil tradicional: clientes de sempre, qualidade reconhecida,
poucas horas de trabalho por dia, ganho moderado (o suficiente para levar uma vida
respeitável e em tempos favoráveis, economizar um pouco). Bom relacionamento entre
competidores, amplo grau de concordância quanto ao funcionamento do negócio. Longas
visitas diárias a taverna com amigos: vida confortável e prazerosa.
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-A forma da organização era capitalista em todos seus aspectos, porém o espírito
era tradicionalista.
-Muitas vezes foi um jovem da família vindo da cidade que começou a mudança:
cuidado ao escolher funcionários, supervisão sobre o trabalho, cuidado com os cliente,
adequação as necessidades do cliente, preços baixos e alto giro.
-Aqueles que não seguiram o mesmo processo tiveram que sair do negócio. A vida
prazerosa se tornou uma amarga batalha em que as pessoas não estavam interessadas
em consumir, mas em ganhar. Quem não quis se adequar teve que baixar o padrão de
consumo.
-Não foi o dinheiro investido que fez isso, foi o espírito do capitalismo. Sua
entrada em cena não costuma ser pacífica, traz muita desconfiança, ódio e indignação
moral. É muito mais fácil não reconhecer que somente um caráter extraordinariamente
forte poderia salvar o empreendedor desse novo tipo de perda de seu autocontrole
temperado e do naufrágio moral e econômico. Os homens que fizeram tal mudança não
foram aventureiros, foram homens crescidos na dura escola da vida, calculando e
arriscando ao mesmo tempo, acima de tudo sóbrios e confiáveis, perspicazes e
completamente devotados aos seus negócios, com princípios e opiniões estritamente
burgueses.
- Somos levados a pensar que tais características pessoais nada tenham a ver com
religião. Parece que a relação entre elas é negativa.
- Se perguntarmos as pessoas a razão da sua atividade sem descanso, vão dizer
“para garantir uma vida confortável aos meus filhos e netos” ou que o trabalho tornou-se
parte necessária de suas vidas. Do ponto de vista da felicidade pessoal, parece por
demais irracional que o homem exista para seu negócio, quando deveria ser o contrário.
-O desejo de poder e reconhecimento pela riqueza desempenha seu papel. Porém,
o tipo ideal de empreendedor capitalista evita a ostentação e os gastos desnecessários, e
fica embaraçado com as manifestações externas de reconhecimento social que recebe.
Não tira de sua riqueza nada para si mesmo, a não ser o sentido irracional de ter
cumprido bem o seu trabalho.
-Mas é exatamente isso que parece ao homem pré-capitalista tão incompreensível
e misterioso, tão desprezível e sem valor. Que alguém possa fazer disso o único fim de
sua vida útil.
-Hoje em dia o interesse social e comercial dos homens tende a influenciar suas
opiniões e atitudes. Quem não adaptar seu modo de vida as condições do sucesso
capitalista será sobrepujado, ou pelo menos impedido de subir.
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-No nascimento do capitalismo, ele só pôde destruir as antigas formas de
regulamentação medievais se aliando ao crescente poder do Estado Moderno. O mesmo
se passou com as forcas religiosas. A idéia de ganhar dinheiro como um fim em si mesmo
sempre foi contrária ao sentimento ético de todas as épocas.
-Dentro da Igreja Católica, a atividade direcionada para a aquisição era somente
tolerada, apenas por causa das inalteráveis necessidades da vida nesse mundo.
-A doutrina dominante rejeitou o espírito capitalista. Capitalistas temiam não
merecer a salvação e frequentemente destinavam quantias generosas a caridade em
seus testamentos. Porque tal doutrina floresceu quando era considerada eticamente
injustificável e quando muito tolerada, na Florença dos séc, XIV e XV?
-Não faltaram tentativas de justificar eticamente o capitalismo: a alegria de dar
emprego para muitas pessoas, contribuir para o progresso econômico, satisfação.
-Desenvolvimento do capitalismo esta relacionado com o desenvolvimento do
racionalismo. Protestantismo= filosofia racionalista. Idéia falha, visão simplista. é possível
racionalizar a vida de diversas formas. Qual é a idéia irracional por trás do conceito
capitalista de vocação?
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Capítulo 03 – O conceito de vocação em Lutero. O objeto de pesquisa
Segundo Weber, essas idéias de Lutero tiveram início em sua primeira década
rumo à Reforma Protestante. No entanto, a princípio ele está em consonância com os
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O livro de Eclesiásticos não deve ser confundido com Eclesiastes. O primeiro só aparece em algumas versões da
bíblia, não aparecendo, por exemplo, nas bíblias protestantes de veia pentecostal.
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Em traduções diferentes, aparecem expressões diferentes para o desígnio da idéia de um dever dado por Deus. Em
alemão, a palavra utilizada por Lutero é “besuf”. Na versão atual da bíblia em alemão, a expressão utilizada é deiner
pflicht, que significa algo em torno de dever relacionado ao trabalho.
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ideais medievais católicos (de que o trabalho está no plano do mundo, e se estabelece
como base para a fé na medida em que é base para viver nesse mundo, assim como
necessidades de comer e beber). No entanto, com o transcorrer do tempo, os
pensamentos vão divergindo à medida que Lutero relaciona a noção de vocação cada vez
mais à profissão, ao mundo laboral. Em certo aspecto, pode-se dizer que o trabalho vai
sacralizando-se na visão de Lutero.
Com isso, a vida monástica passa a ser encarada de uma maneira diferente: além
de não ter valor útil, ela é vista como uma forma de egoísmo com relação aos deveres no
mundo.
Saindo um pouco das explicações da visão de Lutero, Max Weber nos conduz
numa discussão sobre a significação dos feitos da Reforma, uma vez que, por mais que
esses feitos estejam bastante claros, sua significação é menos óbvia do que os casos de
outras religiões (como o calvinismo). Isso porque, principalmente, a Lutero não pode ser
atribuído algum grau de parentesco com o capitalismo (até mesmo hoje em dia, os
círculos eclesiásticos negam veementemente esse tipo de aproximação). Inclusive, seria
de sua desaprovação os tipos de privilégio que as empresas possuem no mercado,
podendo até mesmo ser comparado às tradições monásticas, criticadas por ele.
Além disso, as leituras e conceituações feitas por Lutero podem dar
desenvolvimento a diferentes tipos de configuração, não necessariamente o capitalismo
como se observou. De fato, Weber coloca que Lutero tinha uma postura voltada ao
tradicionalismo, na medida em que assumia posturas de pensar o mundo terreno como
algo tão passageiro, que não faz sentido buscar benção material além do que esteja ao
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alcance. Inclusive, essa busca excessiva por dinheiro e status quo poderia ser sintoma de
algum “mal estar” em relação à confissão religiosa.
Partindo desse paradigma, é observável que em consequência de suas
experiências e vivências (embora algumas muito pontuais), Lutero apresenta uma visão
de destino ao homem, sendo a situação terrena algo do propósito divino. Logo, não
devemos buscar mais do que seja de nossa condição.
Essa atribuição tão concreta não é nova. Na verdade, já fora pensada por místicos
alemães, como Johannes Tauler, por volta do ano 1300.
Portanto, pode-se dizer que em certo aspecto, a ética luterana acaba sendo um
retrocesso, em relação à autodisciplina ascética.
O que se pode tirar disso, segundo Weber, é que não podemos atribuir o
florescimento do capitalismo à posição luterana em relação à vocação profissional.
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http://www.sophia.bem-vindo.net/tiki-index.php?page=Johannes+Tauler
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Principalmente por conta do diálogo antagônico entre o luteranismo (e o catolicismo) e o
calvinismo.
Mesmo assim, todas as formas de religião em discussão não tinham em mente um
anseio por reformas sociais e culturais – na realidade, sua preocupação estava muito
mais centrada na salvação da alma. Os efeitos que se produziram vieram quase como por
acidente. Nas palavras de Weber:
Por fim, o que se pode apreender dessas discussões é que se torna necessário
entender que a Reforma não foi um movimento pela sobrevivência da igreja frente às
novas formas de produção e consumo, nem o capitalismo é fruto da Reforma. Em outras
palavras, a Reforma não é causa nem consequência strictu sensu.
Na verdade, tem-se que pensar em quais aspectos da Reforma contribuíram para a
expansão do capitalismo, e que aspectos da cultura podem ter origem na Reforma.
Inclusive, Weber termina seu texto indicando uma seqüência lógica que deveria ser
seguida: primeiro deve-se pensar em como o movimento religioso afetou (o modo e a
direção) no desenvolvimento da cultura material. Somente depois de bem fundamentada
essa sistematização é que devemos pensar em que medida os conteúdos culturais têm
sua gênese nos movimentos religiosos.
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