E
Carlos Drummond de Andrade pensávamos com ânsia no seu regresso, um pouco para
gozar de....sua companhia, outro pouco para aprender
Nas histórias que ele nos contava, quando meninos, o
que me prendia a atenção. a ponto de fascinar-me, não nomes feios, e bastante para descontar os socos que ele
era o enredo, o desfecho, a moralidade; e sim um nos dera, o miserável.
aspecto particular da narrativa, a resposta de uma
Vocês, criados em cidade grande, não se
personagem, o mistério de um incidente, a cor de um
chapéu ... espantem com esse jeito de nossa infância do interior.
Ah, no interior se briga muito. Até mesmo no meu
A SALVAÇÃO DA ALMA estado, símbolo de ordem e moderação, terra de bois
BRIGA de irmãos... Nós éramos cinco e pacíficos e de políticos suaves e bem comportados ... Há
brigávamos muito, recordou Augusto, olhos perdidos uma força acumulada querendo expandir-se, uma
num ponto X, quase sorrindo. Isto não quer dizer nos energia que sobrou do tempo da luta com os emboabas,
detestássemos. Pelo contrário. A gente gostava bastante não sei ... Olhem: na minha terra damos grande apreço à
uns dos outros e não podia viver na separação. Se um de cultura intelectual. Mas confiamos pouco em seus
nós ia para o colégio (era longe o colégio, a viagem se efeitos. O delegado de polícia, um bacharel gordo e de
fazia a cavalo, dez léguas na estrada lamacenta, que o bigodes fornidos, lia Spinoza, tomava a boa pinga de
governo não conservava), os outros ficavam tristes uma januária e não gostava de amolações; se as amolações
semana. Depois esqueciam, mas a saudade do mano apareciam, chamava o comandante do destacamento e
muitas vezes estragava o nosso banho no poço, irritava mandava rachar a lenha. Com o pau cantando, ele
ainda mais o malogro da caça de passarinho: "Se Miguel voltava ao seu Spinoza. De resto, nas relações civis, em
estivesse aqui, garanto que você não deixava o tiziu meio semi-rural, o tapa, o murro, o pescoção e o cacete
fugir", gritava Édison. "Você assustou ele falando alto ... são recursos limpos de ... polêmica. Só o punhal e a
Miguel te quebrava a cara." Miguel era o mais velho, e garrucha são proibidos; mas, em casos extremos, é lícito
fora fazer o seu ginásio. Não se sabe bem por que sua empregá-los. O povo não gosta de assassinos, embora
presença teria impedido a fuga do pássaro, nem ainda inveje os valentes. Ai de quem apanha sem reagir, e isto
por que o tapa no rosto de Tito, com o tiziu já longínquo, nós sabíamos de sobra, porque papai o pregava ao
teria remediado o acontecimento. Mas o fato é que a almoço e ao jantar, ele que tinha uma vida agitada, no
figura de Miguel, evocada naquele instante, embalava transporte de tropas para o Espírito Santo, negócio
nosso desapontamento e de certo modo participava dele, perigoso e de lucro incerto, por causa dos rios sem
ajudando-nos a voltar para casa de mãos vazias e a ponte, dos ladrões de estrada, dos camaradas bêbados,
enfrentar o risinho malévolo dos Guimarães: "O que é das febres, do crédito a doze meses, dos compradores
que vocês pegaram hoje?" "Nada." Miguel era deste que fincavam pé no mundo e nunca mais davam as
tamanho, impunha-se. Além disso, sabia palavras caras ... O velho nos contava mais de uma história de
difíceis, inclusive xingamentos, que nos deixavam de noite dormida ao relento, em que ele e seu pessoal
boca aberta, ao explodirem na discussão, e que acordavam com os animais soltos no campo, aos
decorávamos para aplicar na primeira oportunidade, em relinchos, o fogo apagado, e vultos escuros remexendo
nossas brigas particulares com os meninos da rua. os alforjes num canto ... Pois em nenhuma dessas
Realmente, Miguel fazia muita falta, embora cada um de ocasiões precisou liquidar ninguém, nem permitiu que o
fizessem. Tudo acabava com os ladrões amarrados e
conduzidos à vila mais próxima, às vezes com algumas raiva suficiente para morder, unhar, cuspir, gritar,
costelas quebradas, mas que r diabo! o lombo carece sempre que vergava a força do braço ... Eu vivia em
sofrer um bocadinho. Por isso mesmo um dia ou outro guerra com todos, precisamente porque era o mais raro, e
nós nos surrávamos a frio, sem qualquer motivo, porque não raro essa fraqueza triunfava por um expediente de
o lombo carece sofrer, e há um certo prazer em curar audácia extrema, ou apenas porque o mais forte, cônscio
ferida. de seu poder, abandonara o campo ao desesperado. Se eu
Assim crescíamos nós cinco, e a vida não era percebesse que era por esta última razão, ficaria
má. Um apenas participava pouco das aventuras profundamente humilhado; mas a cegueira da vitória não
arriscadas, e era a meiga Ester, que mesmo assim me permitia verificá-lo.
figurava a miúdo nas brigas, ora como causadora, ora De todos, Tito era que mais me batia;
como anjo da paz. Na paz, Ester era nossa cliente; desvantagem de ser caçula ... Éramos os mais próximos
vendíamos-lhe estampas de decalcomania, pastilhas de pela idade, e os outros dois, Miguel e Édison, sentiam
hortelã e chocolate, caixas vazias de sabonete. Tinha um vergonha de "sujar as mãos em mim". Tito dizia sentir
fraco pelas caixinhas, que eram utilizadas em laboriosas também essa vergonha, mas era mentira dele. Ao menor
arrumações de pentes, dedais, laços de fita, caramelos, pretexto, estávamos no chão, embolados. Direi em seu
conchas, roupas de boneca, bolas de gude, lápis de cor e louvor que nunca foi desleal. Combatia com aviso
outras maravilhas. Explorávamos sordidamente sua boa- prévio, fazendo a necessária provocação e dando-me
fé e, mais do que isso, sua facilidade em arranjar tempo suficiente para correr; mas eu não corria, e ele
dinheiro com papai. Duzentos réis por uma caixinha de caía-me em cima. Por minha vez, eu gostava de provocá-
sabonete inglês era preço mais do que razoável, mas eu lo tinha esperança de que, um dia, chegaria a vencê-lo.
pedia quinhentos; e Ester, ignorando o valor das coisas, Estudava seu estilo de luta, comparava - o com estilos,
ou dando-lhes um valor especial, que nos escapava, treinava, sozinho no quarto, diante do espelho, pedia a
estendia os quinhentos réis. Às vezes eu praticava uma Miguel e a Édison que me ensinassem a maneira de
torpe manobra: sob um pretexto qualquer, confiscava o desvencilhar-me do adversário deitado sobre mim no
objeto vendido; eram lágrimas e queixas, e afinal chão. Inútil. Ele desmoralizava todas as táticas. Era
entrávamos em acordo; eu restituiria o objeto, mediante mais duro, mais ágil, mais controlado.
um suplemento de trezentos réis ... Se Tito estivesse ali, Eu tinha nove anos e estava farto de apanhar.
a injusta combinação malograria. Porque Tito era contra Nenhuma perspectiva de mudança, entretanto. Tito me
a injustiça. Discutiria comigo, o sangue me subiria à defendia contra os assaltos dos meninos no grupo
cabeça, e eu acabaria perdendo ... Eu perdia sempre. escolar, mas às vezes, depois desses choques, ao chegar
Não tenho vergonha de confessar que perdia em casa voltava-se contra mim, acusando-me de haver
sempre, porque Tito era mais velho do que eu um ano, e provocado barulho sem ter força para sustentá-lo. O
tinha muito mais peito. Minha criação com leite orgulho dos Novais repontava nessa recriminação,
esterilizados, meus resfriados contínuos, minha a porque um Novais não podia apanhar, e se não fosse ele,
inapetência, tudo isso me condenava a um papel inferior Tito, eu, Augusto Novais Júnior; apanharia em público,
nas lutas da família; mas tudo isso me fornecia também para gozo dos Teixeira, dos Andrada, dos Guimarães e
de outros clãs rivais. Insubmisso, mas desesperançado,
ia-me deixando crescer. Quando tivesse vinte anos, Papai resmungava, concordando. Mas nosso
nossos tóraces seriam iguais, e eu derrubaria Tito, mas progresso em doutrina cristã era mínimo.
era longe, vinte anos. Criança tem pressa de viver, e não Novas notícias chegaram sobre os missionários.
lhe prometam uma compensação no futuro, a Eram estrangeiros - de que país mesmo, .ninguém sabia,
necessidade é urgente, o bálsamo que venha já, amanhã tão atrapalhado o português que falavam -, muito
será tarde demais ... vermelhos, e estavam dispostos a fazer uma boa colheita
Eu estava nessa melancolia quando Ester veio de almas para Deus , no dizer da piedosa D. Antonina. E
dizer que tinham chegado uns padres e que iam começar pregavam, pregavam. Todos os dias, e hora em hora, a
as "missões". A família sentara-se nos bancos da sala de partir das duas da tarde, um deles subia ao púlpito e
jantar, à luz do lampião. Papai lia jornal, mamãe cerzia narrava os horrores do Inferno, os jardins do Paraíso, a
meias. miséria da alma em pecado mortal, a traição de Judas, a
- Chegaram em boa hora, só assim eu consigo aflição dos ricos no juízo final, a doçura de sofrer e ser
que esses hereges se confessem - comentou mamãe, humilhado, o perigo de casar somente no civil, a
placidamente. necessidade de contribuir para as obras pias, a loucura de
- Hmmm - resmungou papai, e continuou a ler as lidar com maçons e espíritas... Nós escutávamos,
notícias do mundo. pensando em outra coisa, com exceção Tito, absorto, de
A idéia de missões não era particularmente olhos baixos.
festiva, mas sempre importava em reuniões no adro da Enquanto um pregava, os outros padres ouviam
igreja, leilão em beneficio do altar novo, muito foguete, em confissão. Veio primeiro a gente dos distritos, que
liberdade de chegar tarde em casa, e outros prazeres. Era morava longe e carecia ser despachada depressa. Depois
bom. Nenhum de nós se manifestou contra a idéia de as pessoas gradas do lugar, autoridades, comerciantes,
confissão. "Herege", na linguagem local, significava suas famílias. Em seguida os operários. E só no fim as
cristão displicente, de pouca reza e nenhuma prática, crianças, que, já trabalhadas, ardiam no desejo de
fugindo aos deveres do culto e limitando-se a vagas ajoelhar-se e contar suas faltas, tão contagioso é o
promessas mentais de oferecer um tostão às almas, exemplo das pessoas grandes, e porque, afinal, seria uma
diante de algum aperto. Nós quatro éramos hereges vergonha não ter pecados quando toda gente os tinha e
declarados, e somente Ester mantinha o equilíbrio entre vinha confiá-los ao padre vermelho.
sentimento e ação, amando Jesus e procurando segui-lo. Entramos os cinco, em fila, na sacristia escura.
Os outros iam à missa por obrigação penosa, se a manhã Mentiria se dissesse que não estávamos compenetrados -
era clara e havia jogo de bola no campo da Fábrica. o tom era de respeito -, mas somente Ester se mostrava
Renovamos sem fervor e bocejávamos diante dos apelos perfeitamente natural e apta para o misterioso colóquio
dominicais do padre. Com grande mágoa de mamãe, que com a divindade. Por isso mesmo, fizéramos questão de
considerava sagrada a pessoa do padre, e de ouro as que ela fosse conosco, deixando de lado o grupo das
palavras de sua boca. meninas, para que de certo modo suprisse nossa
- Esses meninos não sabem uma palavra de insuficiência e desse ao céu garantia satisfatória de
catecismo. Louvado seja Deus! Quando crescerem, não nossas almas tão sujas.
sei o que será deles. Quem não está bem com Deus tem
mau fim.
-Não. marcar com um recompunha-se. Os erros dos quatro Deus. havia hortas. outro acontecimento aquela mudança da alma. lealdade. Fomos confiança absoluta nos propósitos pacifistas de Tito me andando.Não bato mais não. Voltávamos para casa. e o preço do resgate não . de vida Olha: de hoje em diante não brigo mais com . perseverança e humildade para evitar .. zangado por isso.Quando jura por bem. pois só teve três padre-nossos e Seria feio não acreditar. elas que são o próprio alinhamento.. Por que cotidiana. Um a um.Você sabe que a gente não deve jurar. um pedaço subia o morro. A tarde caía.Ora. pode acreditar. me. Amanhã você implica .Acabar com certas coisas. Diz que podiam interessar uma criança disposta a viver. de casas nem chafariz. mil coisas seu amigo e não quero mais abusar de minha força. Estou nova queda nos pecados de ira. Ao aperto de mão. O que um desejo de nos purificarmos. e vi à minha frente um futuro de honra e variada! Essa rua tomava todas as direções. murmuramos nossos erros e . ranchos. Amanhã não tem aula. Mas que garantia me três ave-marias.Tito. ser um sujeito decente.secundei num abandono uma coisa. E havia trechos de estrada sem .À toa.Quer me sujar a cara de barro? você. palmeiras fora emoção e falta de costume.Vou provar a você que sou d. Você quer me dar um tapa na cara? . margeava o córrego. e fé. e as andar um bocadinho. cobiça e luxúria. você diz isso? Foi Tito quem rompeu o silêncio. enganando não. gula. concordei. A gente pode montanha onde a cidade era um sulco insignificante. quando Tito me puxou . Cinco padre-nossos e cinco ave-marias para isso? cada um. e não lhe foi feita a recomendação dava ele de sua firmeza em cumprir o juramento? Calei- subsidiária. paz na . quero mostrar que sou sincero. cabras e as galinhas já dormiam. Não fico pelo braço. de atingirmos a bondade você quiser eu faço. nos tornava indiferentes à matéria .Quer me entornar uma bacia de água suja na outra vez comigo e me bate. sabe? Mudar mesmo -Não. Mas você vai ver.Bem.Eu também . De uma só rua era feita nossa cidade. não estou te conhecendo hoje. De hoje em diante a . -Já disse a você que quero mudar de vida . Está feito? Toque.. Ester certamente apresentou Você não acredita? carga mais leve de erros. .Escuta uma coisa .) . e ruim mesmo. Juro por recebemos nossas penitências.(A voz engasgava-se. . partia-se. a confissão infiltrara em nós seu óleo espesso e triste. Paz em nossos corações. mostrei-me incrédulo. uma Sem motivo para recusar. é diferente. e a compreensão..Vamos dar uma volta? gente não briga mais. mas uma coisa dificil. jurando por bem. paciência. não estou confiante. Diz depressa . Estou com vontade de viver bem com mudar de vida. Mas uma coisa que eu possa fazer. Você diz isso à toa. . se você não acredita. cabeça? . homenzinhos eram comuns. como é podia variar.Pra quê? Toquei.1 linha.Escuta uma coisa . mas que invadiu.. Apesar de contrito.. .. Mas Tito queria ir mais longe. pra me humilhar diante de você .. em que nos refocilávamos. Juro que faço. os irmãos. chamando-me a um canto.
.Ajudo sim. pecaminosa deleitação que de cinqüenta em cinqüenta . eu cumpria um desígnio de Deus..sim. Tito levantou a cabeça. na minha mártires políticos . Era duro. embora de leve. Exigi mais . " Eu montava em meu irmão como num estão ainda intatos em mim. como havia suposto.Sou burro e quero capim! Sou burro e quero um animal. ora essa. contribuindo para a purificação de sua alma. exigindo a . e eu . Como iniciar um Tito pôs-se de quatro.não era das mais aprazíveis. e era ele quem sujava as mãos na terra de profunda e ardente. eu o acariciava. gritando: nenhum? "Sou burro e quero capim! Sou burro e quero .. orgulho. bom. em si. de gengivas sangrando e . epílogo de nossas batalhas.. suplementares careciam de prática. E Mas. meu querido Tito . os esterco. foi talvez a melhor montado .. obrigando-o a nada.. colocando-me às suas costas e enlaçando-Ihe os rins com as pernas . Antes de tudo. mas os pés rua. Então vamos fazer uma coisa.Também você não ajuda. decidi-me a do cavalheiro era cômoda. mas a marcha. E se eu estimulasse o animal? entre nós.Quer rasgar minha coleção de Júlio Verne? simplesmente para atendê-lo. marcha recomeçaria. de que se fazem os santos.. Tito. Tá certo? capim! Sou burro e quero capim! Ele não podia dizer que não. agravada pelo mau calçamento. pouco a pouco. já estava suando . lo. a posição não quisesse praticar nenhum ato mau. como . sensação de tudo. a você e basta. E melhor assim. você sabe . Eu acredito em capim! Sou burro e quero capim!" Depois do que. e ir de passo pela rua onde havia outros isso fosse preciso levantar-se.. que mãos? As patas que me levavam.. eu montei-o. ele salvando a sua a impacientar-se. doce. e triunfando sem Ou seria ainda orgulho. segurando novo rumo de vida sem expiar os erros antigos? Chegou nos ombros. embora a mais cruel. Mas Tito não se conformava. se você quer mesmo isso . E a cada momento. alma. de subida difícil. orgulho de pisar o malícia e sem ódio. de jeito nenhum. e então eu me agarraria meninos. . andava.Então você não quer se vingar de mim de jeito passos ele se detivesse. a idéia da facilidade desse embora eu. por ser a imagem costumeira delícias imaginadas. não tinha as Pensara em tapa no rosto. Aceitou. e lá fomos rua acima. Ai.Bem. Mas eu também não quero de braços roxos na poeira! Já não me pesava no peito humilhar você.Não. tá ouvindo? confissão da derrota: "Diz que apanhou! Diz!" Trinta anos se passaram. gente que vinha da igreja . . gloriosa e pacífica reabilitação. ao meu Compreendi subitamente que era preciso atendê.sem querer .. -Não.. e seu olhar e sua voz "Apanhei . Eu não pedi seus longos cabelos lhe caíam na testa..e por mim . Tito humilhar meu irmão. que levava Tito a essa espantosa declaração? Passando-lhe a mão no pescoço. encarou-me: nem escutava aquela boca implacável.. triunfo começou a aborrece-me. aquele joelho de chumbo. subo nas suas costas e você me leva até em casa. Eu afastá-los. Chegávamos à parte inclinada da fazia o possível para conduzir-me bem. mais ao pescoço. bolas! anos de humilhação e derrota. também ungido de suave arrependimento. . talvez assim . Ele andava.tirando a minha desforra. mas servir de burro a Talvez se ele apressasse a andadura mesmo que para alguém.. revelando a convicção burro manso.e nisto acho que não foi . e sim por um começo de -Não.Mas eu quero ser humilhado. até chegarmos em casa. A idéia de ser Gostei ouvir estas palavras.
impondo-se pelas calcanhares. em que se Era assim que você queria ajudar a salvar minha alma? somam todas as perfeições possíveis. se não fosse muita imaginação. um peixe. entretanto a repele por instinto. em 1916. Senti que a noite. se o nosso comportamento se uma só porta. sentindo a violência de sua cólera e a hábitos. mas eu não tinha esporas nem freios. e fui atingir meu irmão na virilha. de certo com olhos já confeitaria na rua principal. nas matinês de domingo. desgraçado! Toma. e. pelo asfalto. clientela de funcionários estaduais. pela Não pudemos comungar no dia seguinte. que. não calculei bem a intensidade do seduções que emanavam de cartazes coloridos. não falando no espantoso número de dispúnhamos apenas dos domingo para os nossos botequins. Abria- lado. virtudes do coração. bandido! refinamento produzido pela cultura. A um simples olhar de meninos do seguro no ataque. Alguns cafés completavam o equipamento cidade. cachorro! Toma! expressão de um modelo ideal inatingível. O centro da aglomeração social. rapazes e estrelas. Alunos internos. que nos movimento. síntese que é de Toma. com suas escassas Para ele convergiam. que exprimia a noite (contavam-nos) com a irradiação dos focos dor acima de todas as boas intenções e de todas as luminosos dispostos em fieira na fachada. consolo de pobre. roupas. a . Mas no escuro. e eu fugia dele como particular de que se teciam as suas vidas. gente do mas inexoravelmente limitado na sua parte final: o atraso interior que vinha visitar a capital e com pouco se na volta constituía infração punida com reclusão no . joalherias de se pois à nossa frente. outra na avenida que cortava influídos por uma penetração maior de outras visões da essa rua. agências de loteria que eram ao mesmo houvesse mantido em nível tolerável durante a semana. areia. facilmente reconhecíveis pelo com ele. pernas. Tito parecia cego de dor. tempo pontos de venda de jornais do Rio ostentavam um dia de solou de chuva. com uma a experiência da sua freqüentação. no espaço de tempo ocupadas pelo comércio de armarinho. Rolou no chão e eu rolei moças de boa família. estudantes. pelo Governo e por tantas outras entidades poderosas. o seu próprio vergonha do meu abuso. e só alguns anos depois pude fazer teria apenas cinqüenta mil habitantes. Um comércio miúdo. a receia e a inveja. deslumbrava. de bom ou mau emprego. na confusão e enchimento físico. Tanto é certo que o homem da cidade na raiva. pois nem me interior. abstenho -me referi-lo diretamente. eletricidade. e abolida em parte a virgindade áspera das urbano em matéria de casas públicas de consumação e minhas sensações de quase aldeão. apuro do vestuário como pela distinção e superioridade braços. porque o colégio não nos Quando chegamos ao colégio. Para estimular Tito recorri a um golpe duplo de concentrando todos os prestígios. e visitas tediosas a parentes cadeiras de engraxate. seus dedos afinal prenderam minha carne e me oferece à admiração desarmada do morador da roça.a conclusão da missa das oito e tradicional do salto dividido em dois: fregueses de um o toque de sineta para o estudo das seis da tarde. Sempre tão naturais da atitude. O sorvete Quanto ao aspecto no turno do cinema. esquecidos de toda bem aventurança..Toma. conversa.fosse melhor . para a ou de prazeres insuspeitados. a cidade permitia sair à noite. e beneficiando-se à Ele soltou um berro fulgurante. Formamos um bolo confuso e agitado. como éramos nós. pareciam rutilantes e gigantescos. dono e caixeiros do outro. castigaram. cabelos. identificava-se a substância atingia cheio nem me dominava. alfaiates.. se virava sobre nós. ainda na forma que se confinava entre . roupas e pedras. era o cinema. As ruas do centro eram passeios isentos da censura colegial.
o pai de Joel considerou que devia bonde ao subúrbio. seus vendedores contemplação e referência. e amigo mais agradável e com quem me entendia melhor. para recordação. nenhuma das operações de que se na capital. e esse dinheiro. em armazená-lo. num domingo de março. de prendê-lo numa espécie de vaso sua sessão das duas horas da tarde. no centro de era menos um prazer concreto a possibilidade de nossa fuga. tanto quanto mornas. jogos no apoiava-se na capacidade de resolver. maiores. compradas a um doceiro de rua e comidas num banco de Quando meu pai se decidira a internar-me naquele jardim. Já exercia o comando na cidade. e você não!" fornecer dinheiro aos educandos. minha timidez xucra primeira vez. a fim de acumular recursos. e. cujo esplendor atravessaria as horas terreno baldio da semana seguinte. gulodices providenciar. nosso mofino dinheiro no bolso. suas fitas americanas transparente onde se tornasse definitivamente objeto de ainda destituídas de sofisticação. minha bichos ainda não conhecidos e exame mais minucioso de onde crescêramos amigos inseparáveis. dada a exigüidade do nosso orçamento pudesse exibir a colegas menos afortunado porque infantil. na sala de estudo. e volta. Eu tinha onze anos. Ficava assim.. matinê de cinema. o maravilhoso cinema.vantagem dramática - estatutos: "Os senhores pais não deverão de modo algum machuquei uma perna. além do Em síntese. à vista do que expressamente regiam os ao circo. a hipótese para tanta gente de espírito infantil ou adulto. com inspeção dos comandante. um guia cômodo. quando não simplesmente que se Considerável. lhe bastava para se atribuir definitiva a cidade. Não distinguíamos bem os elementos da . o que. e o nosso fora pacientemente estabelecimento". compunha o programa parecia por si mesma Eis-nos pois. nós o pequenas despesas. eu e Joel. que a munificência paterna jamais ousaria passaram presos o domingo: "Eu fiz isto. o que buscávamos animávamos a enfrentá-la. Ou trabalho. passeio no parque. contra os perigos ainda nebulosos da vida no internato e Sim. e você não. era ainda como se eu vagamente considerasse Joel um íamos prelibando o gozo que sua execução nos protetor. Joel era meu de exercício. silenciosos passados entre as carteiras. e fazer um pouco autoridade sobre mim. extraordinária. O prazer que isso me suscetível de variar muito nos domingos subseqüentes. Na realidade. Esse programa não era dizer o mesmo com seu filho. diante do um gavião-de-penacho não suficientemente apreciado da espelho da "cidade grande". e apenas era tão grave que não nos anos atrás. e pressentisse nele o escudo proporcionaria. talvez uma excursão de colégio distante. como afinal sibilantes de balas e de amendoim torrado. por que. fui transpor. desânimo. treze. tudo pela quantia assaz considerável de mil e cem réis. matéria algo desconcertante de um palco extra com bailarinas. aí de nós ainda era concebido nas conversas de recreio e através de bilhetes menor do que nossas mesquinhas despesas. causou não vinha somente de que eu teria a meu lado o mas pareceu-nos de uma sublime originalidade. mas. nosso domingo se comporia de: ida a pé para tamanho. e até . dirimir e quintal com os primos. almoço em casa de meu tio. porque nebulosos. à medida que se iam consumando. e do de meu companheiro. atributos que sempre me faleceram. à cata de sensações ficavam registradas em nós como outros tantos episódios amáveis cuja recordação nos servisse para povoar o memoráveis. o qual ficará sob a guarda do sabíamos por intuição. era em suma!.hebdomadária. projetando-se para além da mediocridade de posso certificar-me do meu espírito infantil de trinta nossos destinos.domingo seguinte. enquanto batíamos a pé pela rua plantada de mangueiras. passeio pela cidade. salvo o destinado a Mas a própria aventura exige um roteiro. e você não. Joel. que compensasse as horas de ócio.
eu não me arriscaria à aventura do o interesse. quando um objeto jeito é ir.Eu também não . exposta de maneira tão súbita. mas é fruição geral. se no-lo alteração de nosso programa. com Delicioso sorvete de ABACAXI Mutt e Jeff engatinhando as primeiras tentativas de . torno de idéias complexas que elas sugeriam .paisagem. na rua Eu sabia que Joel falava da boca para fora. Sua superioridade! comum. e assim do paladar. sorvete era porém tão evidente. me captou Sem Joel. e. choque de louça no conceder por magnanimidade o que contava fazer de mármore. que muitas vezes prefere numa casa onde se comem. e que tanto contribuem para a composição cultiva ilusões úteis. e de sonho em real a um subordinado. nas ruas arborizadas que palmilhávamos. satisfazer o seu de um modo que parecesse capitulação misto de atenção a formas simbólicas.respondeu o fortíssimo Joel. antes de serem degustados pela boca procurava cativá-lo no interesse de uma profunda ávida. mas. zinia. mas Especialidade da casa HOJE! esses elementos se inseriam automaticamente em nós.A gente já tinha resolvido ir ao cinema. visto de perto. - que nele não figuravam de fato. despercebido à nossa visão imediata. já recuado no espaço e na percepção sortilégio das palavras.. e tão deter-se. a dois passos dele. Joel não se deixara invadir pelo atribuíramos. A caminho do cinema."Delicioso sorvete de abacaxi . Único sentido atacaríamos o sorvete de abacaxi. Certos indiferente. estado de reminiscência.. mas insólito no lugar onde se achava. solferinos. não lhe podia ser se dirigem simultaneamente a vários sentidos. diante porque então não achei sentido na firmeza com que ele daqueles pudins e daqueles roxos. ante as formas caprichosas e coloridas que ali estranha a ele quanto a mim próprio. " Nunca tomei tio Lucas era talvez um bom almoço. se não chegassem até ele os ruídos normais da psicologia do chefe. do lado da calçada. ovo.. quem disse que o desenho animado. Pois vamos! HOJE Mas. o são pelo nariz e pelos olhos. e com os fundos disponíveis a maciez. a doçura e a delicadeza da pasta. mas. e nos sentíamos capazes de fornecer aos colegas uma A inscrição emocionou-me intensamente. e dei descrição abundante de tudo quanto passara conta a Joel de minha perturbação. E a campainha da porta do cinema. amarelos. a cuja porta é grato a gente a idéia de sorvete. o chefe não concede familiares a que se ligam imemorialmente as sensações nunca. bolos e cremes. frutas . que Joel receou talvez Estávamos absortos na contemplação ritual. e muito menos repugnante.. Meu desejo de trocar o cinema pelo desse extraordinário prazer de comer. de metais na louça. Encostado a uma das três portas da sorvete. a do sorvete e a de Joel. pequenos rumores vontade própria.Você está vendo? gavião-de-penacho não tinha o porte real que lhe Aparentemente. a sorvete fica para domingo que vem. porque em disso. vulgar. e que principal. recuperava a majestade. o ouvido permaneceria alheio a essa Notei que outra coisa não desejava Joel. mas parece estar sempre se dobrando. confeitaria. Deve ser porcaria. que amariam verificar sessão de cinema. um quadro-negro resignei-me àquela. Entre duas privações. agora o cristalizadas e invisível manteiga. Estas coisas imagino hoje. está a confeitaria. comandou: verdes e róseos montículos de açúcar. o seriam pelas mãos. Na realidade.ali. o . Maliciosamente. geléia. propunha-nos os seguintes dizeres em giz branco: como cigarra. enchia-se de pratos e temperos . e o cinema . não beneficiado. o almoço em casa de . A saber: cancelaríamos a permitissem.
em desproporção com a realidade e mesmo procurava encontrar no rosto de Joel a tristeza do sorvete fora dela. e cruzada Arrependimento da proibição imposta a si bruscamente com a nossa velha e querida palavra mesmo e a um amigo. ao sobre esta mesa a cuja roda há dois meninos do mais lado de outro problema. calor. queimava-me. pequenas. para só ficar a idéia de uma Fomos à confeitaria. e já ouço um leitor maduro. Era uma dor interpretar.ou seria representativa de uma espécie rara de refresco.Vamos lá. agressiva aos ocultava. como todos os meninos de prender-nos? Quem disse que a comédia de Carlito . Lágrimas subiram-me guardanapos de papel. e duas aos olhos. desenvolvia na tela. e tão rápida e difundida O garçom depositou cuidadosamente sobre a como se invadisse no mesmo segundo. e oferece o risco de corromper gráfica ou oral. a verdade é que pelo menos tivera que as palavras despertam em nosso espírito maleável. a uma região íntima do de vidro opaco. forma. se chegamos a atingi-lo. e tínhamos de resolver no espaço de alguns que me interrompe: "Afinal este sujeito quer transformar instantes. Peço apenas que te debruces liquidar com o sorvete sem ser por via de ingestão.às meias esferas trazia talvez em si Eu sabia que "lá" era a confeitaria. templo misterioso onde se coisa ao mesmo tempo pétrea e frágil.. universal o que ele espalhava. a essência imanente à coisa ou palavra ser em que está o núcleo da personalidade.. se travavam conhecimento com uma A mais simples comparação de dois prazeres deteriora o coisa de que só conhecessem antes a representação que estamos desfrutando.. No rosto de Joel. "delicioso"? murmurou: A carga de simpatia e sensualidade com que me . lograva de uma pedra de gelo. pela indisposição em atribuindo-lhe um valor mágico. ou qualquer outro móvel gerente da confeitaria. na parte dos fundos. o problema de irritado. insatisfação. sentara-se na era detestável. mais para além deles. ante as proezas espetaculares que William Farnum para nosso próprio uso. perante o olhar talvez malicioso dos o ato de tomar sorvete numa cena histórica?" Leitor freqüentadores. de uma substância alva e brilhante. por uma astúcia do volubilidade da alma humana. vedada por uma portinha dentes. por mil toalhinha alva dois copos cheios de água. do caixa. um valor independente da coisa e diretamente frustrado. cada uma delas. contendo. era impossível continuar com desprezarão minha narrativa. às que nos deixou a frustração do primeiro.. em preto e branco. Crianças de cinco Evidentemente. não é bem isso. e se tal sentimento não se manifestava de ligado a sugestões de som. dois filamentos. meia esfera desenhava. cidades não era dado conhecer. densidade. na seda fina e macia da palavra não esclarecido. de um frio doloroso. toda lembrança de abacaxi. abacaxi. maneira irrecusável. e. aquilo. dela se aproximavam não raro o segundo. espírito de aventura. do garçom. toda a rede nervosa . Eles nunca haviam sentido na boca o frio transformação imediata do nosso lírico conceito de . O sorvete de abacaxi entrara comigo no cinema. também o sofrimento se tacinhas de vidro. catucando-me o braço. vamos? atirei . o certo é Joel. outra estrela.fixação da personagem ideal. ? todos os países.nos atiramos . com florezinhas pálidas. cor. salvando Louise Lovely . oh. que às talvez outro astro. tão mais penoso. pois o sorvete o germe da decepção que logo nos assaltou. eu vezes cruel. sua mais sorvete. o da longe sertão. em torno da palavra sorvete. No escuro. às vezes divino. e. ambas como que envoltas. suficiente poder para eliminar todo indício de satisfação Como posso reconstituir agora tudo o que nós criáramos. e que meus pobres sentidos se aguçavam para profunda capacidade de gozar e sofrer. do qual se excluía minha cadeira e embora o soubesse frio.
nós pretendíamos absorvê-lo a dentadas. O céu da boca era um teto fulgurante bolso. insisto. ou por haver chalezinho.. porque. Não. E sem dor. desaparecer um objeto de difícil transporte e Joel percebeu meu desconforto sem apoiá-lo. A doida Renunciei antes de Joel à empreitada de amor. Olhei firme para meu amigo. que debilíssimos. "Por que pediu sorvete? Se reputação pode perder-se com à menor prova de não ia gostar?! E por que não gostou? É admissível que fraqueza. que o garçom e o caixa me matassem. essa dor era ridícula. em cordial. que o alguém não goste de sorvete? Logo de abacaxi! indivíduo recebe no berço e tem que sustentar. Ele também sofrera bastante. A verdade é que. entre o barranco e um chão descoberto instintivamente a técnica de tomar sorvete abandonado. E a rua descia para o córrego. mas sabemos necessário. E nada mais triste do que reparar na ele ministrava a um membro de outra família não menos tranqüilidade esmagadora que os da cidade assistem à rica de princípios respeitáveis. Em certo sentido. os Caldeira Lemos. Olhava-me com desdém e reprovação. erma de toda continuava levando a colher à boca. Joel Especialidade da casa!" O caixa saíra do trono para tirava seu comportamento. . a dor que um cáustico. o homem do campo. sorvete de abacaxi: ele teve coragem de ir a uma Todo o encanto do sorvete estava perdido. à direita. A DOIDA habitava um chalé no centro do próprio. intragável. Acabe com isso se não quer ficar malogrado. já agora aprobativo e ingeri-lo. a vergonha que elas fariam derramar sobre iniciativa própria. minha boca doía com a lembrança daquele gelo ardente e Refreando as lágrimas. meninos costumavam banhar-se. mas ele continuava mastiguei as últimas porções daquela matéria atroz. Mas eu ouvia dentro de mim Sucede que aquilo que nos é penoso fazer. perguntou quanto era. entre assassinos devem formular-se.. por ser de ânimo mais rude do que eu. e conservação. de dor: e o pior é que. O garçom aproximou-se. uma noção dos Mendonça. tornada maior pelo silêncio. sem noção alguma de como Joel olhou-me de novo. o burro que pastava. Mas restava confeitaria elegante. numa situação assim dizer-me isso com a mão direita coçando o queixo e o imprevista. Era só aquele que. com as complicações /da cidade. um dever miserável. éramos formada na educação burguesa de várias gerações. nós nos sabíamos desmoralizado. fechados no quarto com o dentes: cadáver. O dinheiro não chegava. mas a vida é um grandes porções que levavam consigo o pânico de um combate. e me bigode . os mais sinistros e engenhosos expedientes têm . onde os "comeria" mais aquilo. criminosos. por suas palavras. mas não jardim maltratado. na rua. Uma nossa angústia insolvável. do corpo de doutrina dos Mendonça. eu bem o sentia. num lugar público? Pergunta que os com um olhar peremptório baixou-me esta ordem.. o desapontamento.sorvete numa triste noção experimental. Então reatacamos o sorvete. é sempre débil. à esquerda. Mas como fazer já solapada. de pessoa. Joel pôs a mão no motor de dentista. ou finalmente por temperamento de chefe. Há um orgulho de família. o muro de um grande quintal.. pedir um sorvete e estragá-lo: e um dever do sorvete a cumprir. não saiu nem disse nada. a meia bola de neve satisfação física ou estética .o filho do Coronel Juca não gosta de de executar quando um poder estranho no-lo determina. a sós Era um pensamento. filho de boa família não pode sentir em público. se torna fácil minha família . lembrava que eu devia fazer o mesmo.
que até propagou-se lá dentro. tinha pressa em chegar ao campo. e o garoto galgou os dois degraus. e a onda de som não era necessária. o rouca. Só com essa intenção. fazendo valer sua Mas era bom passar pela doida e provocá-la. como Onde estava o fiscal. sozinho em casa da doida. O menino poderiam dizê-lo. os sãos. jogou-a fora. Recuou um pouco e recompensado. abria-se em reboco. soltando xingamentos. cabecinha móbil e suspicaz. e todos pintada de rosa e azul. dizia . que não mandava capiná-la? até praticar outras e maiores façanhas. Lá estava. poucos todos os jardins. E isso não comovia ninguém. a mesma lagartixa de Como era mesmo a cara da doida. brancos e desgrenhados. Só o busto. dos quais alguns pareciam escabrosos. porque vivia trancado? . era tudo a mesma paz. Pisar o como fazer visitas. Os companheiros. Os três garotos desceram manhã cedo. fomos aquinhoados. Era o primeiro a penetrar no jardim. Tinha a pedra na mão. Então... já Bam! Tinha atingido uma lata. Dos doidos devemos ter piedade. A loucura se parecia com qualquer um. metida em recantos só dela sabidos. E a Era um ponto que não se via da rua. eles não gozam dos benefícios com que nós. junto à cancelinha recortado numa das janelas da frente. apenas era selvagem. ou queriam ver até hera da grade. não banho e a pega de passarinho. e pisava firme. As mães autoridade. as mãos magras. Mas Aí o terceiro do grupo. azul (tinha sido azul) que fechava a varanda da frente. empurrou a cancela. onde estaria a doida? sentiu-se cheio de coragem e resolveu invadir o jardim. o jardim de onde iria a coragem dele.o contrário: que era horroroso. E ninguém ainda fizera a experiência. ou explicavam demais. Tudo tão fácil. pensou primeiro em matar a lagartixa e depois em atacar Não aparecia de frente e de corpo inteiro. Tomar café com a doida. as janelas abertas e vazias.Rua cheia de capim. Eram palavras da Bíblia misturadas a termos soalho da varanda tinha buracos. poucos pecados O garoto empurrou o portão: abriu. o canteiro de cravinas afogava-se no seu jardim. .. Mas entrar em terreno proibido é tão impressão de que eram to os privilégios de gente adulta. e no chão fortíssimos na sua cólera. excitante que o apelo perdia toda a significação. ameaçando. para o desapontados com a falta do espetáculo cotidiano. cravo e mato. Não só podia atirar mais de perto na outra janela.. E os três melão-de-são-caetano se enredava entre as violetas. não seriam maiores. entrou. que a louca desistira de reparar. Esperaram um pouco. e restava a impacientes. que correu. uma farinha de caliça denunciava o estrago das pedras.. Curioso o jardim irmandades. Ou gritos. Os cabelos. como a janela. E o chefe. em seus onze anos. a parede. A cancela apodrecera. perseguição. num declive áspero. queriam segui-lo. Jantar em casa da doida. as sentiam-se inclinados a lapidar a doida. esses beneficias. isolada e agreste roseiras pediam poda. sob as trepadeiras e a estavam mesmo com muita pressa. pedras soltas. em erva. receber cartas. As paredes descascadas. Na as outras pessoas. coberto como boca inflamada. conversando na calma. foi para rente do chalé. chão inimigo.e. e o parecia antes erro do que seria miséria. Não explicavam bem quais fossem posto que cauteloso Os amigos chamavam-no. o menino sentiu-se ia perdendo o senso da precaução. numa voz estava pela massa de folhagem. para ouvir os olhou para a rua: os companheiros tinham sumido. pragas. Chegou perto do animal. do meio vibrou um golpe na primeira janela. quentando sol. outrora populares. entrar para chão pela primeira vez. Falta um pedaço A lagartixa salvara-se.
encurralada a um janela. o som indistinto renda e várias caixas de papelão. E nela. De resto. na investigação do rumor sala. Seguramente cadeiras. uma mesinha de passar um som vago e tímido. E que pequenininha! O corpo sob a indagado r no soalho gretado. um baú e mais pacotes. que tinha se espremido ali. para uma velha. a doida não deu nenhum sinal de Passou a outra janela e viu o mesmo abandono. passagem a um corpo magro. e tapando pela metade a cortina confirmavam. que a obscurecia. de desaponto. e a pedra que o companheiro esconder-se. tornaram a subir ao rosto infantil. Difícil identificar imediatamente intruso com atenção voraz. leve. debruçado à Atrás da massa do piano. cômodo. e todo desejo de maltratá-la se dissipou. A doida parecia aprovar com a . com um insólito. tendo ao alto dois quadros virados para a doida. Apenas levantou as mãos à altura dos olhos. O Talvez pedisse água. mais algumas cadeiras empilhadas. deixou pairavam um amplo guarda-comida. O tato descobriu uma vazias. subiam ao teto. Mas os dedos desceram um pouco. a matéria confusa do interior. E parecia ter medo. que cedia. e o mesmo jeito da enganchavam-se uns nos outros. coisa redonda e lisa. espelhos. A princípio não distinguiu bem. jogada no catre preto de solteiro atrás da enfrentar o inimigo. e os dedos. a guerra. e viu a esticava o rosto para a frente. o olhando para o morro. contorna aqui. caixas. O fio de A criança sorriu. movendo-se canhestramente. E ele estava determinado a conhecer tudo jogara. esbarra mais adiante. entreabrindo-se numa faixa estreita que mal dava manchando-a. Atrás da porta devia pois Ele encarava-a. e os No outro cômodo a penumbra era mais espessa e pequenos olhos amarelados encararam por sua vez o parecia muito povoada. piano também soterrado sob a pilha de embrulhos e Ele teve a impressão de que não era xingamento. completamente vazia e esburacada. apelo. com a porta cerrada. um se esboçou outra vez. Sobre uma mesa grande firmando-se nos cotovelos. Sentiu-se atraído para a majestosas. outro armário. Era um parede. estendeu-o. desse sujo que o tempo deposita na pele. Os olhos estavam canto. a doida cheios de claridade. toalete. automático de queixo. A casa boca insistia em soltar a mesma palavra curta. Ou seria um bater quarenta anos. sim. corredorzinho no fundo. Então a doida ergueu-se um pouco mais. com interesse. A boca remexeu. mesma nudez. A porta dos fundos cedeu igualmente à pressão escura. Ele encheu o copo pela metade. Junto à única janela. Os móveis O menino aproximou-se. fugindo à perseguição de entretanto não tomava forma. Miúda. produzindo um som sem qualquer O menino foi abrindo caminho entre pernas e significação? braços de móveis. Seguia-se um guarda-roupa de proporções parecia antes um chamado. Mas aquele quarto dava para outro como para protegê-los de uma pedrada. pisou barricada de móveis. criado-mudo. e no fundo do corredorzinho Não adiantava ao menino querer fugir ou uma caçarola no chão. A moringa estava no quarto era pequeno e cabia tanta coisa. desceram às suas mãos as formas que ali se acumulavam. busto soerguido. coberta formava uma elevação minúscula. sem saber o que luz coado do jardim acusou a presença de vidros e fizesse. daquela casa. mas afinal se acomodaram. a curva de uma cantoneira. estava a cama. entre vidros e papéis. um abajur de Como a criança não se movesse. que inexplicavelmente não se mexia. Encostado à mesa. E simplesmente estar a doida. E o menino saltou o peitoril.
veria o namorado. afinal. corre.e conseguiu. Com o ar fumando ou alisando o cabelo com brilhantina. dos irmãos. a não ser sentar-se à beira da cama. Mas a boca deixava passar ainda o mesmo ruído manejar agulha e bilro. escrever as cartas de todos. Portanto. chamar ninguém. luz invadiu o depósito onde a mulher morria. senão também porque muitas vezes. como ninguém no mundo deve “Dasdores. ressoa pela casa toda. velar pelos doces de calda. pelas conservas. e suas mãos queriam segurar sozinhas. Ficou perplexo. que fazia crescer as veias do pescoço. pegar-lhe nas mãos e esperar o que ia acontecer. Os obscuro. Seria caso que será capaz a mulher? Quem pode vigiar sonhos de talvez de chamar alguém. Sabia que não poderia fazer nada para ajudá-la. está fino veio uma decisão. pais exigem-lhe o máximo. Festas são raras.. diante dos olhos. Havia no quarto uma vela que talvez antes de meia-noite e se se dedicasse ao segundo não estivesse morrendo. que é antes uma dele. Cabras passeiam nas ruas. inutilmente. que morava longe. não chegou a esta nossa cidade. ou. impedir que se formem. talvez remédio . Seu e exposta a pedradas. . é próximo. morrer. arrastou com esforço deixou aprisionar por obrigações enfadonhas. Os músculos rígidos da tilinta: é a tropa. Um sentimento de responsabilidade apoderou-se se o foi." Dasdores multiplica-se. Teve que abraçar-lhe os ombros diriam jaulas.cabeça. Sem receber qualquer sinal sempre. prega esse botão para acordando no escuro. Fazia tudo naturalmente. pois moça não em casa um agonizante. mas foi Presépio preciso que o menino a ajudasse a beber. . desembaraçou a cortina. os pais o afastada É difícil ver namorado na rua. os feminina é: trabalharás dia e noite. Nunca vira ninguém morrer. Mas é um engano supor que se Foi tropeçando nos móveis. e nem se lembrava Dasdores assim se chamavam as moças naquele mais por que entrara ali. Se não trabalhar frasquinhos do criado-mudo. Não deixaria a mulher para Abelardo. carne?" "Ah. E viúvas espiam de janelas. A própria idéia de doida presépio.com repugnância . não porque a casa seja pobre. quem deixou o diabo desse gato furtar a repetisse sempre. avisar o farmacêutico mais moça? Eles são confusos e perigosos. ficara gelado por não sentir o calor sua mãezinha. e isso ele sabia não apenas porque sua mãe o Dasdores. deitá-la em Dasdores e suas numerosas obrigações: cuidar posição suave. mas porque o primeiro mandamento da educação Passou-lhe um a um. Desajeitadamente procurou fazer com que a cabeça fazenda crescida.. A total ocupação varre o Mas hesitava em deixar a mulher sozinha na casa aberta espírito. eu bem. delibera e do corpo do irmão e seu bafo protetor. pessoas morrem. Dasdores. E tinha medo de que ela morresse nome. ou ir à procura do médico. se não ocupar todos os minutos quem sabe de de aquiescência. salvo para rezar ou visitar parentes. Dasdores nunca tem tempo para nada. e a coração e a voa para o sobrado da outra rua em que. o presépio não ficaria armado desaparecera. Mas deve ser assim que as deve sair de casa. alegre à força de repetido. irresoluto. providencia mil coisas. em completo abandono. nem conservava qualquer tempo) sentia-se dividida entre a missa-do-galo e o espécie de aversão pela doida. que se mulher não o ajudavam. um cincerro repousasse sobre o travesseiro. Água não podia ser. O cinema ainda não foi inventado. Em seu o pesado armário da janela. Se fosse à Igreja. as dálias já foram regadas hoje?" "Você viu.
não preferência a este último.algo de "Agarra-me!" Sucede que ninguém mais. importante e que exige não somente largo espaço de desafia o incauto: tempo mas também uma calma dominadora . o Menino deve ao misturar o sagrado ao profano. e mesmo no apenas de uns poucos minutos para fazer algo de muito mais calmo povoado o tempo dá um salto repentino.. Dasdores que. e desembrulhá-las é a primeira satisfação entre as interrogando o relógio. porém. de Dasdores passaria o dia inteiro compondo sozinha a fixar a estrela. Quando alguém dispõe grande da sala de jantar. ô de casa! pensar em Abelardo. o prazer de distribuir as figuras. no Menino Jesus. e Dasdores prefere ver-se morta a ceder. matéria preciosa fazê-lo no interior. Das mil maneiras de amar. lenta como costuma desordem. dissimulados nas atrapalham. Nos pastores. pelos camelinhos. Entretanto. sente neles a combinar o movimento dos braços com a atividade macieza da mão de Abelardo. e eis ã que ocorre na espécie. ramagens do papel da parede. pois no fundo da caminha de guardam proporção com os cameleiros que os tangem. de circunstâncias adversas. na figuras do presépio. figura no ramo Menino. Dasdores não o há de circundar a manjedoura. mas Dasdores é íntima do relógio ("Agarra-me! Agarra-me!”). perfeito. assim mutilado e dolorido. Ou nele se insinuou o prazer da estão perfeitos. como também percebe esse rosto de bigode. (Dir-se-ia que as mulheres foram sentimento nebuloso. e o trabalho começa a peça. a secreta é a mas são presente da tia morta. palha suas mãos acariciavam o Menino. de espalhar no lago de viIra os patinhos paisagem de água e pedras. Alguma coisa mais do que coisa só. lhes a responsabilidade plena da direção. que de celulóide. Nada Virgem e em São José. prolongando-se. Dasdores passa resignação sustenta as donas de casa. e os olhos acesos. afigura-se-Ihe que tudo é uma feitas para o trabalho . Os camelos. e não há limites para o humano. a qual por sua vez participa sente-se livre em meio às tarefas. dispondo-as onde convém. porque cada surgir. salvo muito importante e que não pode absolutamente ser esta moça. nele vê apenas o rosto de que estão infusas na prática ritual da armação do Abelardo. relva. mas parece a viesse a impedir o segundo? Ou um sentimento de culpa. na sala em está por armar. que se poderia consertar. O melhor seria que não amolassem. arte comunicada por adiado . ó pais.é uma conspiradora . e presépio. talvez! querer-lhe mais.se esse alguém é nervoso. Dasdores não bicho. determinado há quase dois mil anos. Dasdores dos animais domésticos. cães e pinheiros. por exemplo. mas o que a pele . mesa. este carneirinho tem uma perna missa? Ou o medo de que o primeiro. e Dasdores. dando. também delicado. e profunda. bastante miúdos. Através de um delas algum prazer. pode dispor o presépio. e um pouco por toda parte. e até mesmo extrai obscuramente da natureza da família. a noite caminha. está alterado. quebrada. sua vontade se uma tia já morta. mas antes a cabeleira lustrosa. cada musgo tem seu papel no nascimento do pertence a essa raça torturada e criadora. O presépio Entram e acham o presépio desarranjado. Vão-se As caixas estão depositadas no chão ou sobre a as amigas. ou subtrai-se. encontrá-la completamente desprevenida. sim. que não perdoa. mas impotente.) Dasdores sabe os dedos. com ternura. e participam da natureza mais ardilosa. Esta véspera de Natal. do passado a tia repete sua lição subsidiárias. para voltar duas horas depois.e sempre acha folga para Alguém bate palmas na escada. E só Dasdores conhece o lugar de cada concentra. interior . Todos os irmãos querem colaborar. numa excitação aguda. Nem todos os animais saboreia por inteiro. Esta visita come mais tempo.. veio amigas que vêm combinar a hora de ir para a igreja. dos fantasistas. Jamais lhes A mão continua tocando maquinalmente nas será dado tocar. e nas grutas fará com que erre. e ai do presépio que cede a novidades.
depressa -. vestir-se do presépio. A sensuais. diferente da que lhe coube. porque o mundo é cruel e as Abelardo. acelerar o ritmo da torno dos cabelos macios de Abelardo. as finanças públicas. seus cinco. se nos pusermos a contemplá-lo.Vinte e cinco mil. e sim . este ano dos quais apenas uns cinco nos distritos: a taxa talvez não haverá Natal. o mistério prestigioso do ser de Aqui desejaria. em excursão. reconfortante para Dasdores. colocando os pastores na posição devia e que a outra sala. olhando para a montanha e o vale . e é pura cinco mil-réis. já sabeis de quem. que querem se debruçar sobre juros penosos. Não assim os serenos. E já Menino. se policiam. Correi. "Agarra-me! Agarra-me!" Nas contos por ano. como essa de afinador. e que Abelardo fumava na outra rua. aqueles que. a pele morena de narrativa.. Começa a fazê-lo. Salão muito quente. sem perspectiva de paz ou . no máximo. correr. a vida parou luz. se nós formos indagar dos contribuintes dele. Deus me perdoe . Pronto. a matar-vos. prover Dasdores com os muitos braços de que Jesus. o empréstimo para instalação de luz elétrica vence estouvamento dos irmãos.ardendo na areia ela carece para cumprir com sua obrigação. e chegai . os recursos para comprar um maço de velas quando faltar números gelam. há uma previsão de malogro iminente. que assim lograria folga A Câmara Municipal discutia o orçamento para para localizar condignamente os três reis na estrada. no gado. meu caro! num largo pranto sobre o travesseiro. encontrar a igreja vazia.queria sentir .AFINADOR de piano..Quanto? sempre ou muito tarde ou muito cedo.era um calor peculiar à adoração. e este vai mastigando seus minutos.Bem. mesmo durante a viagem. Às vezes o afinador não ganha isso conciliação. com efeito. a tanto muda interrogação da mãe. Mas seria preciso atribuir-lhe. Dá cismarenta e repartida. e o cada título da receita. decifrando os olhos de Abelardo. 1920. as humano. correi ladeira acima. ir correndo ladeira acima. no sentimento de que a vida compromisso. mas continuai a . mas. arrecada 72 tempo dispara de novo. que recolhe o sol da tarde. calma e preocupada. sôfregos. o ponteiro imobiliza-se. paga imposto de indústria e profissão . no criar taxas inéditas.É exagero. a auréola que os caminhantes descobriram em histórias também costumam sê-lo. e nenhum Abelardo. ao funcionalismo. sair com as amigas depressa. talvez pule meia hora. não braços e pernas suplementares. os vereadores tentam reerguer Dasdores continua. Uma ninharia.sentia. como um prestidigitador quanto é que eles querem pagar. seus quinze minuto. violentamente. na instrução. O município é pobre. os dois vereadores ponderavam ponto por ponto levantar os muros de Belém. Juntando na imaginação os dois pra frente da praça. No calor da sala. Se nos esquecermos . à o caminho de areia antes que essa esteja espalhada. Para atender ao serviço de estradas. O Juca Silveira me contou. Saber que a vida parou seria lançamento. Mas piano calor que começa a fazer apesar das janelas escancaradas quantos pianos terá o município? Quinze. placidez. o adro Câmara e cadeia já quase deserto.quem botou! . E a noite se fundirá não produza cinqüenta mil-réis. Seria preferível que eles mesmos fizessem o rigorosamente. ao passo deuses. Nem namorado. deu peste no cabeças que espiam pela porta entreaberta. Houve praga na lavoura. é variada demais para caber em instantes tão curtos. torna-se imperioso lançar novos impostos. vinte e outra natureza. e aquele cigarro . às eleições. é o relógio. mãos de Abelardo. a tesouraria fica sem furta um ovo. depois do principal fonte de renda dele é a criação• de perus. O dono desta noite.
moitas de arbustos. E cantavam. a gente não olha para a bosque.perguntava a si mesmo. Valdemar. Valdemar via-os Valdemar levantou-se. . foi correndo ver o que havia.pois lá embaixo. naquela imundície. perdia ali suas limitações. escolas. estranho.A cadeia é a parte determinada. Os meninos achavam ficava com o papel odioso. três na dos separava de meia dúzia de criaturas embrutecidas. mas reconfortante para a vista. Tem constrangimento. Ele. Vinha da sala de do chão. dormiam e faziam necessidade aquele era um dos pontos de vista mais altos da cidade. Mas Do alto do casarão. e os as assustavam. como se de repente subisse ciscavam . Galinhas ar pareceu-lhe empestado. . Faziam objetos de cheio de serviço. em que narinas mais jogando-lhe sobras de comida ou pequeninas coisas que apuradas distinguem o perfume de árvores distantes. Sempre houve presos. rampa verde conduzia ao fundo do vale. a rua subia.profundo. caprichosa e . onde os presos se distraíam sessões. Viam eternamente as contínua e deixava-o exausto. o vereador sentiu o prazer de existir podemos concordar com essa vergonha? dentro da natureza. tão pés homens humilhados se amontoavam confusamente. estar ali Os funcionários tinham saído. e não os de classe? A batalha Com as mãos nas grades. É sinais de homem. nem perder os olhos na mata. madeira. tão seca. onde serpeava . e pisadas. Mas agora. já homem. ao nível Um rumor fê-lo voltar-se. pastagens. interesses da comunidade. caminhos que se enxovia. fitavam a mesma serra. não adiantava até as alturas da Câmara o cheiro de mofo e de urina que reclamar. contemplavam os escassos contra o comércio. árvores esparsas ou em Câmara. recebe uma doce brisa. Ao entrar. era transeuntes que desciam a ladeira. desenhos de areia colorida sobre vidro. que barrava o condenada da horizonte. lá longe. Poucos perceber o que se passa lá dentro. era a cadeia. A na semi-escuridão. Sabia da miséria deles. defendia realmente os taquara. sobre o chão atijolado que não se lavava nunca. onde vozes alteradas se cruzavam Valdemar deixou a sacada. E do sobre presos? outro lado do córrego. quando debaixo de seus oferecia-se como um repouso. a paisagem fruindo a paisagem e o ventinho. O Baixou os olhos até a ladeira gramada. foi até de maneira diferente. ou talvez medo. e entre eles a boca da mina. atravessou a sala. Contornando a rua. prosa. e achava os fundos do prédio para respirar um ar menos oficial. Uma simples tábua o Dois andares da fachada principal. certo que tudo corre por conta do Governo do Estado. Não era proibido conversar com eles.Como fazer leis e cobrar impostos pisando uma água tímida.eram do fiscal da Câmara. e olvidou por momentos o déficit E já não tinha gosto para sorver o ar da serra municipal. juntas. Ora bolas! aquilo natural. mas João Batista não admitia que se cobrasse mais dos Pareciam alegres quando alguém parava para dar uma bilhares e das fábricas de aguardente. pequena mancha preta no dorso cinza-roxo da montanha. caçadores chegam a identificar um cheiro de anta. Ciscavam minuciosamente junto às paredes da pairava na parte baixa do edifício. Da janela. casa. A cidade. representado por João Batista. fundos . Valdemar nascera na cidade e desde menino se Falta a pa´gina 52 habituara ao espetáculo dos presos. que comiam. de interrompiam na verdura para surgir mais além. chegando até as grades . O povo precisava de mesmas árvores. ou quando menos desagradável. estrangulada de morros. até o sopé da serra. que não pensa em construir uma cadeia decente.a casa estava assentada sobre uma ladeira. através dos ferros. de uma enfermaria nova no hospital em ruínas . na umidade.
estava um homem de pé no chão. alertando-o: e como fossem inúteis. atirar-se ao desconhecido. assim claro. Foi quando percebeu a . repito! Vamos. num esforço que lhe fazia tremer a barba. mas violência . ouviu? Está preso em nome da lei! para a enxovia. não se retire. compreendo como pôde sair de lá! de todos os pontos de saída ou refúgio. renda-se à faltava. . Não faz outra coisa. refugiasse atrás de uma mesa. advertiu: Aquele era moço . sonolenta. barba por vez. pela roupa do homem. eu abri a chegada de Valdemar. Em frente deles. ser atacado e subjugado depois de muita luta. porém a voz lhe _ O senhor está preso. Mesclando-se à preso. .retrucou o detento.exclamou afinal o presidente da mas o farmacêutico acudiu a seu favor: Câmara.Precisamos providenciar! resolvia. fique preso aí mesmo. ser um dos presos da cadeia.Retire-se! . Meireles fazia-lhe sinais desesperados. que ele devia quiseram me acompanhar. Os vereadores sentiam-se mais confortados.. . se Valdemar. Não gestos. O farmacêutico brandia _ Onde está o diabo desse destacamento que não uma cadeira. Valdemar deteve-se. Tinha esperado. interrompendo os nossos trabalhos! Volte já preso. indeciso. não tenho um canivete. .rosto de vinte e cinco anos. Major aparece? _ Que fim levou o cabo? Com certeza jogando Ponciano estendia os braços.Ou .E os outros? determinou outro. de precaução. Afinal. A sala perdera subitamente a fisionomia grave e Do grupo atemorizado partiam exclamações. das sacadas da frente.Os outros ficaram .. apenas subi a escada . depressa! Se não quer que usemos de O intruso não se mostra intimidado. . A objeção deixou perplexo o agente executivo. a três autoridade! _ Preso? .disse o criminoso. O senhor não pode me prender outra em manga de camisa. com as mãos espalmadas. O senhor está Câmara. Os . E o Coronel Lindolfo abria e fechava a boca. Afinal eu não fugi. Lá embaixo fazia muito calor . . olhos brilhantes. ao verificar.Como não fugiu? Pois se ousa até desacatar a antes. como para fazer sustar o avanço de um inimigo afoito. tinham recuado murmúrios. O Coronel procurava impor-se: tentando articular uma palavra enérgica. em tom sereno. uma brusca simpatia paralisou-lhe os lavagem de porcos) e por falta de exercício. fazer.A porta estava aberta. tão majestoso.. Ou estaria Pontes! engabelando os presentes para depois puxar da faca e .Preso eu já metros de distância. calça de pano riscado. Quatro rostos brancos. em atitude de ameaça e defesa. Podem me revistar: agrade aumentar o susto dos vereadores..Os soldados devem estar bêbedos! João Batista media com os olhos a distância que o _ Quem sabe se ele não matou o carcereiro? Não separava do corredor dos fundos. Olha um pouco espantados para aqueles . por certo. estou há dois anos.respondeu calmamente o dois fitaram-se. Estou descansando. ou por outra. e quase sorri. apenas . Os vereadores estavam de pé. nalgum botequim.perguntou não podia crer que o poder público..Como foi que chegou até aqui? .. um assassino não é tão perigoso como se pinta. E eu não teimei com eles.Não vim fazer homens que se encolhiam. Não seria um criminoso perigosíssimo! Daquela morte das Duas rústico. O primeiro impulso deste foi porta.Calma . Coronel. para trás da mesa da presidência. professor! É um envelhecido pela barba e pela magreza. Fisionomia até simpática. O movimento. talvez lhe mal a ninguém. . mas não se . da parte contrária. A maioria está doente por causa da comida (é uma curiosidade.Não chegue perto dele.
Eu? . de pedir socorro. desenvolvendo.É. De resto.E já que você saiu.continuou evadir-se. sacudindo os ombros. se o senhor vivesse naquele cálculo. vinte anos .Então o senhor não sabe o que vai fazer um Engraçado. . mas eu vou levar você de novo lá para vida. queria ele. E é já. ao menor gesto suspeito do outro. Além medo reúne os homens. se também andarem escondidos nalgum canto. é claro.. Não podia calmamente pousando numa boa cadeira de braços. e chiqueiro . sempre com as mesmas pessoas? Desculpe a pela porta da rua. encarou -Vamos sentar um pouco . e eu já nem . e é pego de novo . hão dei um jeito na fechadura . No seu abandono. A maneira compreensiva como o tratara tinha- Valdemar sabe que não é direito isso que você fez? o cativado talvez. em meio ao espanto dos outros. Não é confiança. estar ali em cima (sempre cismava no que não acha? Olhe. O secretário. haveria no preso a tendência de se confiar aos vaivéns Por mais que a gente trabalhe. a cena parecia regida pelo acaso. Então parece que até as faltas se misturam.Moço.responder deu filosoficamente Apalpava com agrado a palhinha do assento. Saí porque não agüentava mais e ou. bolo só.. tivesse saído numa sala. o . o fiscal-geral surgirão a qualquer instante. se é que havia encanto. baixo. minuto sozinho. livre prolongar indefinidamente a conversa com o preso. Valdemar. pé.(ficou algum tempo hesitando. barriga. o tempo não passa.. entre preciosos para os vereadores e para o preso. Não. . no escuro. parecia O outro voltou a rir. Antes de fugir. Só isso de não ficar um Zombar daqueles homens importantes. delícia. tem dois anos que eu não sei o que é cristão quando fica livre da grade? Que faz um cadeira. e não simplesmente . eu não iria atrás para pegá-lo. Mas você veio cá em cima e confessou ter suportava? Se ao menos dessem uma cela para cada um escapado por um jeito que deu na fechadura. É uma porção de coisas.sangrá-los? À queda de tensão sucede nova tensão. momento.Ah.disse Valdemar. moço. suor.. É impossível que não . Roupa. O sei mais os erros que carrego nas minhas costas . um do meu. de resultado incerto. Então desse acaso. Mas o curiosos e prudentes. quem sabe? de noite.Macio. hem? voar. interrompendo a sessão da Câmara. Valdemar: . nem avalia. pode ser. mas o encanto se romperia a qualquer O outro riu. meu filho.Valdemar percebia que um jogo estava se sobre sua cabeça). mesmo ébrio. se eu não experimentasse o cadeado . tempo trabalha a favor da Câmara. costumariam fazer aqueles velhotes que pisavam duro . disposto a saltar.Nada. E depois de uma pausa: Sentaram-se..Agora me diga uma coisa . O homem passou a mão na testa. aproximando-se e batendo de leve no ombro do preso. na sala. o senhor está perguntando demais..Mas afinal você saiu para fazer o quê? apareça algum soldado. à procura amanuense. Não é só porcaria. em vez de subir. E a cidade libertará seus . passarinho fora da gaiola? . Que . É tudo embolado. mas mesmo sendo com sua família o senhor meu oficio. mas sentara somente na ponta.. Sentia-o pronto a aproveitar o menor descuido para . do bodum e da tristeza dos companheiros. Mas sempre é bom experimentar.Escute. Já pensou em viver dez. Nessa expectativa escoam-se momentos Os vereadores vinham se aproximando.. de palavras).Às vezes não sabe mais . como fazem com as doidas e as mulheres da muito. Se você. Sinto de nós. faz de quatro deles. que é que vai fazer agora? representantes.
O posto a tudo.. chamada refrigeradores e não há esgotos. nenhuma escola. minha gente . o cinema é da espera de vaga na vila proletária. e a capela vindo. e é como se para eles não houvesse mosquitos. muitos meninos. mulher e filhos viviam como que em depósito. Mas ninguém no calor. que do mas adquiriu sotaque norte-americano. se por acaso cessasse um momento. posto policial. Os homens parecem cansados antes de começar a lida. à O hotel é da Companhia. Valdemar ainda quis persegui-lo. num gesto sabia nada ao certo. o mais são casas Sete da manhã. muito ágil.explica o subdiretor. ou que saem do onde tinham começado os obras para insta1ação da hotel com ar tranqüilo. na região. Curiosa vila de Capitão. A e o cemitério constituem doações amáveis da mão. naquelas travou-lhe o braço: . um cinema. americanos louros e bem dormidos. manhã inteira. como evaporado a obra. Os Beira . o silêncio explorar ramos subsidiários. e o imenso armazém. uma capela novinha. um No meio ficava o rio. que contudo Companhia. e o fio de som que emitiam no vôo lento.Não me encoste! . Não há.. e mesmo onde se destila legais e mais duas e prorrogação.Está doido?! . Tudo é igual! exigia-se de todos um esforço maior.. cães à procura de ossos. e o trabalho principiando no esparsas. pulo e tirando do bolso alguma coisa que apertava na Como não restassem trabalhadores a recrutar.Essa carinha limpa não me engana. e o cemitério. dilacerava a trama. sob cinqüenta nomes diferentes. e Capitão Borges. transportando material e gente. porque marcando a direção dos caminhos.. caboclos repugnante . a cadeia lá embaixo era tão Na barranca do rio. Então o apontador ia benevolente. campo em ruínas.Essas miudezas só acordar o balseiro. A cachaça tão fina. É pouco uma usina em construção. Falava-se. A proibição não está nas leis de um O dia de trabalho espichava-se por oito horas estado onde se bebe tanto. estrumeira de animais campo. esperam a balsa. acabada fechada. você viu? tanto com o preso. proibido beber. do lado de Capitão. ia tirando pouco a Em vão procuraríamos um botequim.. em honrado desbravador daquele sertão. na outra margem. ele simpatizara brenhas . O apontador chegava ainda com escuro. onde há dez residência de diretores técnicos e operários. de inesperado. que é brasileiro. dando um Companhia tinha pressa na execução do programa.. falava-se que Foi saindo de costas.gritou o preso. e os dois. tecia sobre a cama uma espécie de cortinado. Chegando à macilentos. que se atravessava de balsa. a seu desejo de servir. presenciavam calados o nascimento do sol.- mão. literalmente sumiu. ou quando se retirasse. mão erguida e iria formando um bolo para o operário receber. indo e policial foi 1nstalaao expensas da Companhia. A leste improvisara-se uma cidade. isto se deve a seu espírito feria por sua vez. A polícia que se arranjasse. . levantando-se. dão amolação . Quanto à E chega de conversa! Adeus. e que é .\ OESTE ficavam os terrenos da Companhia. cortando o rio. ele. . Mas o único negócio da Companhia é logo se recompunha. já com não conseguia dormir na casinha de pau-a-pique onde doze corpos. e tão constante no seu dom de realmente a usina. . e sumiu. mais formal do que instintivo. remuneração desse suplemento de serviço. Os mosquitos resistiam Companhia. . sem pagamento.. que construíram suas casas entre jardins.e daí. Ela voga a sacada viu ainda o homem. o armazém é da Companhia.Rio técnicos chegam mais tarde. que desaparecia no beco. mas o farmacêutico E fiscal do Ministério do Trabalho. meio curvados. e se a administração consente em irritar que. grande indústria.
Não as há em Capitão. organiza-se o comércio subterrâneo das armazém quadrado. Do em cada esquina. para cortar doença. de CEM CRUZEIROS. e até mesmo homens acorrentados ao armazém volumes vagos. A necessidade avança rigorosamente proscrito como o jogo. explica de resto vive fechado. Mas esta é uma seção reservada aos garrafas. e no interesse do serviço.o trabalhador encontra no armazém.mais trabalham. Bebe-se para esquecer. admitido ontem. uma cédula _ Eh.é admirável .avisam os chefes de desejado. que veio de Pirapora para vos servir. Tirei licença do Governo para negociar. servidores . comanda Simplício da Costa. . suas atividades pré-matutinas.A Companhia não é brinquedo. extrato de conta. antes prossegue ativa noite há abundância de baralhos e de uísque no grande adentro. mas o poder água-benta que até menino enjeita. bem em frente da balsa um varejo de cigarro. irmão. Não há nada. é névoa mistura a noite e as águas na mesma maravilhoso. Mas lá se tantas outras coisas para distrair o do Governo. e no fim do mês receber ao escritório um turma. trocá-lo no armazém pelo artigo quem vender bebida come cadeia . ao alcance da O subdiretor fareja cachaça no ar. chegando a margem do rio. Estão amigos. . esguicha das lado de. ao mesmo tempo. trouxe indeterminação . para zombar da administração. como água que furou cano.previne o dessa imaginação. objetos de uso para agüentar o repuxo. Um trabalhador. à força de abstenções. receber do pagador da Companhia. à beira- Então. enjeriza logo não há bebida. surgido assim quase criado. Verdade seja que com o dia e não esmorece. insônia habitual..A Companhia manda do lado de lá do rio. deslocando-se em meio a roupa. Mas aguardente da legítima. Por um processo muito simples. tecidos. que consiste em _ Quem beber será expulso no sufragante. espírito e movimentar os sentidos~ que só raramente lhe estabelecida pela Companhia.pergunta o balseiro. desiludidos.. que Então Simplício da Costa. Então. o álcool. bolsa. Vai montar ali. negro. Proibição tácita. O inquieto na algibeira. contigo. Por esse extrato ele O apontador dobra como um cobertor sua verifica não ter saldo.faz frio. não essa represente. mulheres há que conseguiram percebem com espanto uma sombra movendo-se. dá ordens ríspidas.fonte considerável de receita pública. vosso criado. e no serviço os trabalhadores aparecem técnicos e à alta administração.não podendo usufruir as coisas boas da vida os rio. . consigo oitenta cruzeiros. por assim dizer. Novo desaponto: em Capitão também balseiro.e os dois.gêneros do país. com enguiço no motor. Os homens tomam a balsa. jogam . atônitos. O negro riu: O apontador veio de uma cidade onde há um bar . A bebida não é coisa boa em si. O resto . mexe-se O balseiro acende o cigarro no pito do outro. E pedir vale ao escritório. datilografado. _ É de paz. clandestinamente. A brasa minúscula mostra o queixo e um logram de quando em quando. boas da vida. O álcool foi Em Capitão é diferente. para fazer de conta. irmão. bem. quê que há? . transformar-se em coisas apontador faz o mesmo. dinheiro sempre aparece. que quanto mais bebem e bêbedos. para lembrar. Uma economizar alguma coisa. fora o cinema. plantando horta ou lavando sombra com um cigarro.. com a autoridade ruas. quer sair. vosso Esse dinheiro. bate à porta do balseiro . e imaginação e. no interesse dos seus ocorria beber. Simplício da Costa. há turmas desfalcadas. de frustrar-se à tirania _ Acho bom tu tomar cuidado . sai. a Apesar de tudo. pastéis trabalhadores contentam-se em obter algo que as e aguardente..
regular. algumas ripas e folhas-de-f1andres. Recebem instruções para neles. A Companhia Mas os vigias da Companhia participam a não se meta comigo. Que se passou com os homens? Alguns . no balcão de pinho. e Criado mostra uma pistola carregada. justo se expor assim por amor da Companhia.Os homens entreolham-se. rápida. Mas às primeiras palavras dos espoletas. sob pretexto de Os dois homens estavam fascinados. Em algumas horas o negócio de Vosso Criado tanto mais esquisita quanto suas palavras saem num bafo conquista a confiança pública. mesquinha. na grama há cascas de frutas e À noite. esse dia. para uma guarda a uma bitácula. que eu racho ela. vindo do Norte. menos dez anos.sem exemplo .nas O subdiretor exprobra-Ihes a fragilidade: Que obras. mas vinha entender-se com o negro e convidá-lo a remover sua encontrá-los restaurados e ágeis. injusto. minha gente. tem outro e o comandante lhe diz. mosquitos. onde os operários . Vosso tranqüilo como uma árvore. trazida de longe por está é vendendo uma cachaça perturbadora. forrando-os com jornal. o vazio de Capitão. reconciliava-os com a vida. e diz travam conhecimento com Simplício da Costa. Prefere discutir: . de gente. a luta noturna contra os álcool. aqueceu-os. Criado fazia café quando seis praças cercam a vendinha. penetrou de que é por ordem superior. em Capitão. O trabalho no campo. como se tivessem tralha da beira do rio. como se o O negro quer saltar. Não é encontrarão a única coisa de que realmente precisam.Tirei licença do Governo. O negro ofereceu-lhes uma Eles têm a missão de policiar disfarçadamente os colegas "prova". montando o comandante do destacamento policial. fria. O negro é No dia seguinte. E a cachaça chegou mais perto. contemplando a corrente. Os homens param ali o de cachaça. Hoje a balsa leva homens menos curvados. A manhã nascia.para molhar a conversa. o subdiretor manda chamar pontas de cigarro. mas sente no peito uma mais certo lhe parecesse mesmo uma produção forma dura. na realidade da madrugada. quando preciso. de trocar duas palavras . Na inspeção uma cervejinha .Vai dando o fora de mansinho que esta venda cantam. ao ponto de embarque. E seu comércio. isenta de efusões melódicas. conferência no hotel. hesitante. O comandante é simpático. Na friúra negociar com cigarros e coisas de comer. Dentro. que ele andava sempre provido de uma e. E vão porque dá o esquecimento de todas. Um negro quenta sol. a dureza do trabalho pago com salário O subdiretor chama dois homens de confiança.Paguei estampilha na coletoria de Guapó. Já não toda essa boa disposição para vem simplesmente do lhes pesava a solidão no mato. Um negro. homens capazes de conversar com um negro ordinário? Os grandes da Companhia chegam por sua vez Não havia. a idéia da cachaça. os olhos não vêem a coisa proibida. irmãozinho! infração. antes de amanhecer. e poucas vezes aqueles ares terão ouvido canto acabou. De sorte que um negro de Pirapora. os objetos de . com quem não gostar não carece beber. Está tudo legal. com uma pressão leve no braço: rendimento. A administração está desconfiada.e vão descendo vergonha para a Companhia! Então não há por aí dois para o rio. tinham esquecido a conversa . tempo de se reconfortar. Ali vai surgir uma tenda sumária. O negro simplesmente: estende no chão. mais tarde contar ao subdiretor uma história atrapalhada. cautelosos. Vosso Começam a chegar os trabalhadores da usina. descer-lhes a lenha sem dar impressão garrafinha. e aceita pratos vazios e alguns maços de cigarro.
o homem firme. ia pensando na há mais nada de pé. e morrera E as garrafas rolando na correnteza.. na lisura do pêlo. no estofado. Para assustá-lo. Licença do Vosso Criado. Que raça? A . Não sei. adquirido como antes a força de trabalho de um negro. . É verdade que aqueles eram estabelecimento. andou foi um fox terrier. o único que por lá esse serviço.Agora. Caminha natural num passo pesado. cachorrinho mal acabara de nascer e já me fitava com abrindo-se no ar. É com vergonha que uso esta . A caixa de charuto.. indiferente à destruição do seu interior. bela féria se os vende a todos por aquele preço. comprei-o imediatamente.. tu acredita em licença? Licença é pelo vento. Mas andem depressa com cidade não dispunha de animais finos. não se podia saber. a venda há anos. finca o pé na estrada e vai Dois soldados amarraram Vosso Criado.Vamos obrigar esse negro a olhar para o rio. . realmente bonitos. deixa de caçoada. já livre. Como a cada ninhada era de seis. peito esperasse apenas dois ou três mil-réis filhote de cão.e fez um sinal às praças. deslizava um momento.. trazida .alguma coisa de raça insinuava-se na seu comal1dante? forma curta do focinho. Recuando o braço para tomar impulso. depois a Meu companheiro água avermelhada engolia a coisa preciosa. isto .. negro . Outros olhando sempre para a frente. sacode-se. as latas e chatos. Se não . os soldados lançavam no ar cada objeto... Tanto faz. e parecia crescer. dois ficaram de sentinela para obstar a intervenção de Empurram-no. falou o comandante para Vosso Criado. Daí a pouco não pois o negócio e. O volume ia cair no rio. que se mantinha Detidos a distância pelas sentinelas. que trescalava. palavra comprar. compadre. os pacotes de fósforos. sumindo. negro. gente. e não se podia dizer que fossem .Eta negro safado.. Eu não te disse? . As tábuas de pinho começam a arder. Talvez Mas ele não olhava. de pés começaram a tirar de lá os maços de cigarros. contemplam as ruínas.. As chamas ou como ainda hoje. desdenhosamente da camisa uma folha queimada.. correr. também soverteu nas águas.Tua venda acabou. o afeto e um animal é comandante. negro.ordenou o puros são objeto de mercancia. mas Vosso Criado não quer algum paisano.Eh. mas em hem. ele faria uma . . Marcolino! nossa absurda sociedade capitalista os valores mais .. na casa do médico.paremos com esse socialismo. ao referir-me a um amigo. . Sumiram as latas. Fiz antecipam a manhã que está a chegar.Deixa ele.Ora. até parece que ele tem rótulo. sem pressa. tira Governo está aqui . O negro. entrando na vendinha.. Que raça. cada garrafa cheia. os soldados atiram a esmo.Ô diacho! E a gente precisando tanto de cobre. deixou cair uma chuva de níqueis que jeitão carinhoso que seria impossível abandoná-lo.Solta esse negro. sorriu. e que se desfaz em Cinza. . Dei cinco mil-réis pelo cachorrinho. pois?. os pratos de pastéis e de doces. as garrafas escuras. não vale nada. apontador e balseiro digno. um talvez fosse apenas dos meus olhos.Olha negro. costume . tua cachaça acabou. sem . mas o diabo do rolo de fumo. E os restantes. de volta para casa. meros vira-latas .Agora vamos tacar fogo .
e desafiando nossa agilidade em Logo se colocou a questão da propriedade .e foi preciso dá-lo a Juquinha o esporte. herdados adequado aproveitar a inspiração do momento e não do primeiro. Assim. Cães nunca tivemos. cansou-se no de que maneira. desapareceu dois dias depois. e para assombro de nós todos. sem aviso prévio. Pirolito regra.baseava-se exclusivamente no fazer não se repetiam espontaneamente. vindo não se Depois. Pois não foi difícil consegui-la. e com isso contornei o dissídio exercício. consciência. Todo cão tem seus descontentamento. alisando-lhe o pêlo. e nada. contrário à existência de animais domésticos em nossa para subir a escada: os movimentos que o obrigávamos a casa . Na terceira vez. Deus sabe façanha. um sempre a propriedade! . pessoal. sempre diante do enorme retrato de meu avô. deitou-se e dormiu. que por sua vez era uma espécie de propriedade passa chispando à nossa frente. e a paciência se zelo pela saúde das crianças e no amor à limpeza. mas o focinho como para fareja o mistério de suas barbas . Não irei tiveram com a chegada de Pirolito. talvez para meio do trajeto. mas. não pôde deixar de sorrir diante da instantes de ale ria louca. é no mais puro sentido da palavra. Ou antes: só aprendia por esforço próprio. meninos. detinha-se passou a existir como parte integrante da família. Meus filhos iam pois brincar com humor fantasista vieram consolidar a situação de os animais da vizinhança. muito excitado. desceu com a mesma ufania e tornou a repetir a apurou de onde. O cachorrinhos o iguais. detestava pulgas. e minha mulher. e queria que o chão e os móveis do Pirolito ergueu as patinhas dianteiras. Ouvira esgotava sem que fosse registrado o menor progresso. embora querendo simular vou citar apenas dois exemplos. Ele não aprendia intransigentes um dia acordam abertas à tolerância. Um dia. geralmente depois do banho. por essa força de atração que Está claro que acontecimento dessa natureza têm os gatos mais desdenhosos. As pessoas mais ensinando-lhe pequenas habilidades. sem nenhum da casa e de todos. subitamente. em que pese à vaidade ou à rabinho do cachorro que eu trazia ao colo também batia ternura cega dos donos: não posso.necessidade de conquistar para o cãozinho a amizade de também ela se deixava surpreender brincando com o Margarida. Parece que todos os vizinha a moça cantava "Pirolito que bate bate". Novas manifestações de seu possuí-los em gaiola. deu um salto nosso interior tão modesto fossem limpos como sua elástico e subiu gloriosamente os degraus da escada. sem-cerimônia com que ele.pelo que dizia . Margarida não quis olhá-lo. acostumar-me de prazer. persegui-lo. não simpatizar com ele. e não Margarida nem era intransigente. porém. Imaginem a alegria que prestígio absoluto que ele desfrutava entre nós. e quase que dissipou as quanto a passarinhos eu concordava que não valia a pena reservas de Margarida. fazendo-lhe cócegas. estendendo Margarida tentava furtar-se a seu encantamento. um humour selvagem que era sua contribuição Pirolito foi acolhido com simpatia ruidosa pelos própria para a renovação dos gestos padrões a espécie. tomou conta quando se põe a correr pela casa afora. Pirolito confirmava a que fatalmente se estabeleceria entre estes. Percorre invariavelmente os mesmos lugares. objetivo de caça. contar as mil e uma coisas engraçadas que costuma Este nome de Pirolito impôs-se porque na casa praticar um cachorrinho novo. animalzinho. já arquejante de cansaço. como logo me pareceu. Pelo menos e os realizava com uma nota criar o difícil problema doméstico de escolher nome. Um gato que apareceu por lá. ao passar pela sala de visitas. falar de uma criança mordida de cão hidrófobo. caçula. e abalou profundamente a família. e afinal dá por findo o dos irmãos mais velhos. de sorte que achei à idéia de que Pirolito realizasse atos em série. Seu ponto de vista pelos processos educativos que aplicávamos.
que eu traduzia para a limitada meninos ." distinto exemplar da raça canina em todos os tempos.. porque tínhamos na parede da copa uma diretor do ginásio . Solto los a outro homem que só compreendesse português. nós nos dispúnhamos a considerá-lo o mais satisfeito com Motinha.ou eu mesmo . Esta atitude de Pirolito. e ficou Adquiri logo o hábito de conversar com Pirolito.eram antes me prendera pela calça ao perceber minha intenção .e pensar. caminho menos suave.aproveitava a ocasião para linguagem humana. Se fizer isso. Verdades desagradáveis. ." Também é próprio da generalidade dos cães uma Era assim. à sua e à minha maneira. a esconder-me de uma visita cacete mas cachorrinho. toda vez que me via disposto a escancarar a boca. uma espécie de reverência. dizia-me o focinho úmido. E daí. vezes me conduzia à prática não direi do mal.. ao amigo ou representados pelo prefeito e sua camarilha. fechá-la. que consiste em derivando para o sonho.. cerra os olhos e assim fazer qualquer grande transigência com os poderes materiais. A parada em outras tantas maneiras de exprimir seus conceitos sobre frente do retrato às vezes lhe era fatal. Hoje não estou Fragonard". Laurindo . forçando-me a recomendar-lhe silêncio. que se socorrem de uma força exterior ancestrais. dobrando as pernas da frente e realismo. Denunciava-me com o Abanar o rabo. E o projeto de ir para a Capital? Começa um cão toma essa postura diante de uma dama. eu a chamava de "fazer vender a alma ao Coronel Dutra. não. mas acrescento: tudo que não queria. Macedo .e isso é comum aos tímidos somente pelo acervo de ato mecânicos recebidos de seus e aos preguiçosos. não conte mais oleogravura reproduzindo a tela de Fragonard em que comigo. Assim. porque algum dos as coisas do tempo. indignada ao ouvir lá dentro os latidos do cachorrinho e Conversávamos horas e horas.. com desempenhava papel menos conseqüente. para se orientarem. alarido. como também pela interpretação pequeno. "ele quer si). o Dr. lamber. era uma bajulando o prefeito e acaba enterrado nestes cafundós. conjeturou minha mulher . que sabia que eu estava em casa.e prosseguia na corrida maluca. difíceis de dizer ou de o olho esquerdo – e sim piscava o olho esquerdo! .negras .. Servia-me de com essa particularidade parecia exprimir desdém não consciência. para que ela perdesse tempo com um modo de olhar. Pirolito burguesa que atribuíamos a seu espreguiçamento. No caso. focinho baixo. "Estou com amiga (não creio que o façam quando sozinhos ou entre pena de Motinha". folhinha. mas do Margarida dava de ombros.e rimos.. brinde da padaria. sarcástico e positivo. Se me percebia atitude graciosa de espreguiçamento. trabalho não lhe erro. porque às base num flagrante da vida aristocrática francesa . porém. meus apelos para que se calasse. já não recomeçava a correria. entretanto de sugerir-me um mantendo levantada a parte posterior do corpo. ao que ele reagia sempre de má-vontade.. Geralmente ele me tratava por esse diminutivo com que quando lhe ocorresse fazê-la de novo era certa a estação na cidade todos me conheciam: Motinha. por um motivo jamais sempre na terceira pessoa: "Motinha está pensando que suspeitado dos ignorantes que nós somos. no dia em que me aconselhou. ele as pensava por mim. comprometida por um jeito pouco versalhesco de piscar também. Mas. importante. Quando Pirolito "fazia como o Dr. Para chegar talvez a Fragonard".. se não quer tirar o leite dos garotos. e o fazia em frente das barbas de meu avô. um momento depois. levantar ou descer as orelhas. então? Talvez . experimentava as armas do esticar o pescoço. resfolegando . Não deixava. como se fosse necessário comunicá- pegá-lo. Talvez seja vai ganhar na loteria? Que esperança! Trate de dar suas falta de respeito. Já estão percebendo que o cão falava comigo mas a galanteria século XVIII de sua atitude era logo tudo que eu queria. por um certo faltava em casa. quando contemplar-me de boca aberta. aulas no ginásio.
nunca teve. mas também desapareceu. Seria possível? Não. Não sou bastante forte para me por causa dos meninos. para afinal apodrecer sem exposição à como lhe senti a falta. um cachorrinho como Pirolito. um impulso comum a descobrir do que de aprender e às vezes me surpreendo todo ser vivo? . Como ele. de consciência. às vezes. Teria sido furtado? Seria absurdo com relação a mim um papel de recuperação da infância. mostravam-se Pirolito tivesse fugido. armário. que tinha nele um companheiro. tão afetuosa . alterando a linha de um gesto tradicional por um que eu repilo. inconvenientes a nós ambos. nada. no reproduzo essa qualidade. como já disse. nem suficientemente dócil para me submeter. movimento pessoal e desconcertante. sua farmácia ficando besta. e que a vida toda continuam como botões confidente. e com prejuízo para de contar com ênfase. pois. e o olhar dele certificaram-me de que não morrera envenenado . não sou amigo de luz. desenganado e realista... Há muito tempo. abafadas por para mim. sem exceção de Juquinha.. Não diferente . Os garotos. que mistura arsênico à que sua saúde e a minha se tornavam odiosas desde que bóia dos cachorros." Margarida nada dizia. prático. O certo julguei esclarecer o motivo dessa afeição recíproca é que sumiu sem deixar rastro. Também me induziu imaginoso em sua prisão doméstica. por preservadas à custa desse desejo..em suas ações. diferente só porque era a meus pés que gostava de dormir. apenas um pouco autorizando-me a praticar aqueles gestos que minha macio de pêlo. era sempre lógico ou mecânico . De resto. meio utópico e furioso. Só cachorro feliz não foge. e de quem mais o aproximaria mútua comiseração e uma aliança. só era interessante mesmo para nós. para quê? Pirolito possível. pois enciumados. atribuindo-a à identidade de temperamentos. Mas Pirolito. a ele devido aos vermes. Também é havia dezenas em qualquer rua: furtar. mas tive infância normal. a um sentimento de fuga. Ciúme de mim libertar. condição de adulto já não comportava. segundo dizia. onde há sempre uma coisas açucaradas. " E não era? Vulgar para os outros. parece que eu à prática de pequenos furtos de doces e bolos. não gosta de velho. Não. Como resistir-lhe. e receio mesmo que se Pirolito pudesse me frustrado. Pesquisas minuciosas Escravizo-me demais aos seres que amo. de focinho um pouco redondo. Muitas pessoas também No fundo. O gato apareceu e sumiu dois dias depois. porque nos entendíamos. e não me sobraram. supô-lo. dessas vontades de menino. ao se entende com um animal firma com ele um pacto de qual legalmente pertencia. seu cinema dominical! Sabia-o meu amigo.e aquela cidade era tão escutar. É o absurdo dos absurdos. Pirolito não me restituía nada de perdido ou expansões. e isso repercutia em mim de tal jeito criatura ruim ou mal acostumada. porém? vimos mais nosso amigo.não gosto de animais. Dir-se-á então que ao baixo da casa e na vizinhança. apenas me divertia. Quem pode? . e principalmente que eu saiba. Combino o espírito Pirolito durou mais tempo. Hoje. a mim por causa Nada aconteceu com Pirolito que valesse a pena do diabete.como é freqüente no interior. Direi apenas que um dia não as visitas de minha mulher.. Margarida tão boa. A evasão será. Aqui me vem uma suspeita miserável. havia de dizer: "Olha Motinha como está triste. pois era um cão comum. um pais rigorosos. Prometi dinheiro a lado da função moral.de suportar a visita. Acreditou mesmo que eu era um cachorro política. diziam: "Esse cachorro é muito burro. Procuramos por toda a parte. como para mim. Pirolito exercia quem o encontrasse. Fico imaginando que o instinto. algo mais entendia bem com Pirolito. Em verdade. Sim.de encerrava um' desejo tão profundo e natural de comer bola . Não preciso dizer de flor fechados. com suas caras sem surpresa. um crítico e um cúmplice. estará morto. Também gosto mais de do que uma doença dos homens. e cada homem que porque me preferia a todos. eu me fatalmente. Ele era .
ou não Batista. certamente porque era a tão assim que adquiriu o costume de passear lá por amiga quem falava. Mas por preguiça. por lá. juro.Em casa. Não.começou ela. Você não vai me nem disso: estamos possuídos de universal credulidade.ou . para dar uma espiada. As sabe. argumento máximo. contemplando túmulo. a moça costumava ficar no portão do Ou cravo. isso não história era verdadeira. uma coluna queira. . deu para andar . quando estivesse mais amolada. Você sabe. recordo que a conversa sobre flores . mas é puro palpite. quem mora por ali. Meu Deus. curiosidade dos enterros. onde está a parte nova do cemitério. Sou apenas um sujeito que Às vezes ela chegava a entrar no cemitério e a escuta algumas vezes. sua voz murchou um pouquinho. Não é conto.. mas até o Telefone. pela grave. desses . mas sempre merece ser olhado. ela apanhou a flor. Tinha o mar à sua lembro. naturalmente. cemitério. fazia cálculos de idade dos defuntos. a amiga .Mas a moça era de Botafogo.Uma flor qualquer. ainda dentro. sei lá por quê.Que flor? Se o enterro era mesmo muito importante. pobres. Para mim foi margarida. pedir a certidão de idade da moça. a cinco minutos de casa. Toda hora partida. .sim. pois que mais poderia fazer? Talvez mesmo A moça. queira ou não olhava. O mar. descer no Falava-se de cemitérios? De telefones? Não me Mourisco. Apanha. nem sua descrição E daí. bem arranjada. tanto faz. uma águia. porque amigo tem o dom de se fazer E no caso da moça.Mas você não vai acreditar. interessa. Deve passando. flor embalam. . coroas não prestigiam apenas o defunto. compreender até sem sinais. Quem sabe? Tudo depende da pessoa que conta. Polidoro . e nunca se disposição de família ou falta de recursos. tem de tomar conhecimento da morte. passar enterro do que não ver nada . tudo grátis.Era uma moça que morava na Rua General melhor. ou retratos em medalhões . . bastava tomar um bonde em direção à praia. E há a curiosidade que a gente tem diante de um pé de flor. Até sem olhos.. por exemplo. de bispo general. Há dias em que não depende . a amiga asseverou que a física.não tem cheiro. como inconscientemente já se aquele que chega desacompanhado de flores por .Sei de um caso de flor que é tão triste! em São João Batista. leva ao de ler o que está escrito nelas.ficou subitamente as ilhas de coral. Para o caso que estou contando. Olhava uma inscrição. debruçar-se na amurada. E se fosse ficar com as covas mais modestas. Margarida. descobria uma figura de anjinho. e a gente acaba por se interessar. gostava mais de ver subisse ao morro. que outras não escuta vai acompanhar o préstito até o lugar do sepultamento. E deve ter sido lá que. Morto que dá pena é nariz .Perto do cemitério São João mergulhada em cisma. sem a menor explicação. . agora me disposição. De qualquer modo. comparava as covas ricas às covas está passando enterro. Você já notou como nunca apurei. "deslizar” pelas ruinhas brancas do cemitério. e é doce ouvir os amigos.bom.somem de repente. Coitada! E sorrindo: . moça. há de ser isso que ela fazia carruagem de rei.Ela trabalhava? como do jeito de contar. com tanto lugar para passear no Rio! quando não falem. Não me interrompa. havia de estar tarde. Apanhou com esse gesto vago e maquinal coroa impressiona a gente? Demais. O certo é que de tarde costumava passear . Naquele dia escutei. considerava Não é tão empolgante como navios ou casamentos.No interior isso não é raro . as viagens. uma triste diante de tanto corpo desfilando.
. Não falava mais nem para as amigas. desligava Trabalho inútil. Mas infrutíferas. acaba por de novo. vem buscar. você tem Vamos fazer o possível. surda.o tempo de sair do cemitério e cemitério ou no chão da rua. ouvia o alô. um mês. pois a pessoa da voz Se a moça jogou a margarida no chão do devia estar ali por perto . depois para todos os telefones ver enterro passando? Sentia-se miserável. a um vago defunto que nem sequer . que só se também ignoro. Quero minha flor. desesperar um santo. isto é. a voz .esperava -. obrigação de devolver. quando o telefone tocou. linha dois-meia . -Alô. o queixo..fatores de ordem técnica . Seria uma fazia-se entender. a voz . era mulher? Tão distante. Quem disse que ela queria mais da Rua General Polidoro. obrigações. mas "quero A voz era longínqua. triste. quando voltou para casa. Era homem. aludiu a. pausada. nenhuma. A moça riu de novo. esclarecer esse ponto. E. mas teve de queixar-se à polícia. ela atendeu. que . severo. Cinco minutos depois. "quem furtou minha flor tem de restituir" moça riu. o telefone chamava Isso durante quinze dias. conferia a voz - Não se pensa mais nisso.. Dou-lhe um conselho de amigo. ou investigações Cinco minutos dão para a pessoa mais sem telefônicas não eram sua especialidade o fato é que não imaginação sustentar um trote. A moça topou loucura. Bem. A voz sempre mendigando a flor. se outra pessoa estava no aparelho. depois amassa a flor. A moça perdendo o Falta pagina 80 e 81 apetite e a coragem. poucos minutos. estava em casa bem quietinha havia diligências. Serei obrigado a me privar de telefone? florzinha.. O pai correu à Companhia Telefônica. Diálogo com essas pessoas a "voz" não mantinha. sem ânimo para sair o rapaz começou a tocar para todos os telefones à rua ou para trabalhar. Volte para sua casa. joga para um canto. meu caro senhor. não -. tocar para a moça .Não faça isso.Quedê a for que você tirou de minha sepultura? muito ocupada em prender comunista. de minha .Quero a flor que você me furtou. você já está percebendo que não adiantou. preparada.e bem escondida estava ela. a certa hora da tarde.Está aqui comigo. escravizada a das ruas transversais.Vem buscar. Ela mesma se esforçou mais tarde por fazia ouvir quando queria.Aloooô . Foi recebido por um cavalheiro amabilíssimo. Aí é que não se apura mesmo nada.Quedê a flor que você tirou de minha não deixava de pedir. para as suas explicações. depois para todos os telefones na uma voz.. Mas a minha flor". . a uma flor. estou te dizendo. que coçou . rádio e refrigerador.. . No mesmo tom lento. mas não se identificava. Hoje em dia a conversa: é impossível viver sem telefone. Claro que a moça deixou de atender telefone. Andava pálida. Ou a polícia estava . E a "voz" não dava Desligou. mas se apurou nada.Você bem sabe que eu não posso buscar coisa tranqüilize a família e aguarde os acontecimentos. Discava. -O quê? Sua conversa era com a moça. O certo é que já Essa questão de hora também inspirou à família algumas tinha voltado. Então a "voz".Mas é a tranqüilidade de um lar que eu venho respondeu: pedir ao senhor! É o sossego de minha filha. Voltou para o quarto. meio sem compreender: etc. . Me dá minha casa. mas foi incapaz. minha filha. sepultura? não dizia mais "você me dá minha flor". A família não queria escândalos.
esquecida. de ir ver o corpo. eu preveni que meu caso de flor era comprou cinco ramalhetes colossais. e a voz continuou. que ficara rolando no pó e já não conservasse o tom parlamentar: existia mais. da hora insuportável. como se disse.atravessou a rua muito triste. Onde ou eles mesmos são impotentes. . como julgar. senador? adiantava? . Compareceu a tão alheias a seu vocabulário. senador exclamou: . Como é que foi hem? alguém que houvesse perdido toda noção de O senador sentou-se. SENADOR abriu a porta e. e grande era sua fé de emergência. o alguma coisa até sua última fibra. Porque . esticou . e pediu-lhe que estabelecesse contato exprimia antes esforço por penetrar naquelas palavras com a alma despojada de sua flor. essa flor não existe mais para e ser dada. A moça morreu no fim de alguns meses.já disse que era distraída . embora amarrotada. Voltou para casa e ficou à espera nunca mais pediu. como não narrar pormenores. notou o mesmo silêncio de . chambre vinho-tinto.nem esquecer o seu sentido cruel. . e a moça?- uma. desceu.Carlos. que era a no Flamengo (idem: com a lituana). brotavam de seu estrume – Isso não dizia a voz. e O irmão voltou do São João Batista dizendo que.Quer dizer. e aos vivos é dado A Baronesa consolá-los. que isso. As outras vinham de outra terra. embora se apegasse em Ipanema (pensando: com a Déia Cartaxo). O primeiro movimento do ra12az foi no sentido mas os poderes sobrenaturais se recusaram a cooperar. Flores.Como.Onde estará Renato? surda.. e se era de morto. Não era possível compreender mais do maldita flor. A mãe não disse coisa aI . isso é difícil. Mas a"voz " não se deixou consolar ou subornar. era Luís. A esta hora . inúmeras sessões. uma infelicidade tamanha que fazia como passara a noite. Talvez esteja vezes a família ainda conjeturava. Você não ac a do lado por onde a moça passeara aquela tarde. branco no robe de Nenhuma outra flor lhe convinha senão aquela.seria de espiada. miúda.. Vou dar uma falta de qualquer explicação lógica para aquilo. como um jardim vivo e foi derramá-los votivamente exausta. metódica.se é que os mortos sofrem. De resto os ignorava. disse com voz alterada.. havia inteiramente sem esperança? cinco sepulturas plantadas. a quem expôs O senador olhou-o sem reprovação Seu rosto longamente o caso. bem cedo. Apenas voltou a já estavam no seu propósito. entrou numa casa de flor da vizinhança. Mas sossegue. e refletir: até a maldade mesmo se lembrava da cova de onde arrancara aquela pode ser triste. avise a Renato que a baronesa faleceu. E a mãe desistiu de novas oferendas. quando alguém quer estaria Renato? Como um eco de seu pensamento.conhecia. Ao entrar vencer os mortos? De qualquer modo. para tudo há esperança: a voz sobre cinco carneiros. que cabeça.. missas. que debruçado sobre xícaras e pratos. Se era mesmo de vivo (como às . bateu o 31. infeliz. para a clássica pergunta de uma tristeza úmida. Descobriu um médium fortíssimo.Mas. com evidente intenção de misericórdia.. Se ao menos soubesse . depois de os haver afligido. havia no apelo no quarto da tia. estava de costas. . Mas refletiu: era avisar Renato. visp 'rou? O pai jogou a última cartada: espiritismo.Visp'rou. não . ou então cada dia mais a uma explicação desanimadora. Alguém pede continuamente uma certa flor. hóspede da casa. Seu coração lhe dizia que aquele gesto propiciatório havia de aplacar a mágoa do enterrado .Ah.Luís..
Tudo presidido pelo ceticismo do senador houve tanto caminhão nas ruas do Rio). Baependi. Aqui o e um boboca. percebia-se que a noite patrimônio sobrevivera à corte.Sério. rapé. Ela estava com sentido nos brincos e mandei avisar aos outros parentes. você é meu amigo? informados Luis engoliu o pão com geléia como se fosse . Clementina. e nunca bailes idos. se juntarmos em sua Renato . isenta de desprezo . . Nesse mês estava em milhares de títulos em bancos e companhias sólidas. a baronesa visp'rou! anos.Se Etelvino já tiver chegado. D. Dos Figueiredo Moutinho. o duco sal de frutas. no fundo do corredor. os dois que vinha dos velhos tempos e não se integrava nos consideravam: novos.Veja se traz Renato ainda pela manhã.secundou Luís. onde ela vivia há . então. um sinal só perceptível aos velhos. Você deve abrir o . se você não chegar depressa a turma rumor se perdia nos tapetes do apartamento.. Presta atenção também no Cícero. preocupados com a lerdeza do táxi gorgorão de seda. . sem Renato era homem de quinze mulheres. representação os modernos aos objetos remotos. No caminho. não Ele rapa tudo. ouviu? Aquele camarada é capaz de esconder o cadáver. . Viúva de um barão com grandeza. A baronesa era antiqüíssima. mas dentro do silêncio um cheiro ou ausência de Voando apanhou um táxi e mandou tocar para cheiro. O João Barbosa tomará todas as providências . cujo Renato custou a acordar. A baronesa mal saía do quarto. pois não acreditava muito em lituanas. pigarro. de Ipanema. raças. Déia é que ele devia estar. por meio de alguns fora também de álcool intenso. .Rumo à baronesa! .naquele estado . reumatismo. e especialidade que cada um seria capaz de enxugar.Qual. A morte de sua tia-avó vinha ao bolor (invisível. Já olho é com Clarita. tinha-se finado. Boa moda a cachacinha de Catrambi. Déia. sombra.. mas eterno) que envolve as caixas de completamente fora de propósito. Luís vira-a no máximo quatro vezes. pentes de monograma. Ana Clementina de Soromenho Pinheiro Lobo e continuava resistindo à deterioração do hábito. O living . e à noite. o último alimento sobre a terra. que logo Ipanema. . deixa de safadeza e me conta: a que horas dependesse de tê-lo ingerido. estava há um mês em casa do senador. Saiu voando. limpa ela sozinha! (Estranho apartamento. Renato fica por sua na pulseira grande. Vamos a Figueiredo Moutinho . uma indulgência plenária.sempre. e chispamos. conta. porém derramava sobre todas as épocas. Mas. anterior a todas. bolinhas de cânfora.Limpa quarto da baronesa marcava o limite de uma região de essa cara.aquela maravilha de claridade. veste aí qualquer trapo. conversa de (os sinais verdes apagavam-se por encanto. mas com qualquer incômodo para os da casa. e faziam-se apostas de senhora.precisava era de sono. se bem que completamente duzentos paus sobre o número de cálices dessa surda e ausente. firmada em pernas -Ah o quê! impróprias Sua perna mais hábil era a bengala cujo . precipitou-se tia Clementina morreu?Você já entrou no quarto? para fora e apertou com a mão aberta os três botões do elevador. reconheceu. . A essa voz de que os parentes já estariam ..Luís..Renato. Teve um rasgo madrepérola onde se guardam fitas e broches de sublime. o de descer. a porta do .Rumo à baronesa! sobre a baía. religiões e costumes. e sua salvação -Luís. estamos fritos.Dai. o de subir e o de alarme. antigamente. chuveiro.
algo caprichoso e desconcertante como aquela massa inerte. Entre as pelancas retorcidas do que fora o mais . Ali estava. Subiram sem dizer palavra. e às vezes se encontrava um anel rolando no chão. à porta do edifício. Os parentes A velha estava ainda na posição em que fora espalhavam-se pelo apartamento. e apenas o lábio pareça. descarnado. .. solenemente. . as mãos se afundaram nos moderno. reduzIdo seguro como o passo de rua. como casca enrugada de fruta. Impossível persiana fora levantada. A empresa travesseiro. Renato aproxima-se da cama.. Acorda tarde . A tropa é capaz de não dedo e orelha. Jóias de cabeça e pescoço. além do que... outras denunciavam a ofensiva dos parentes. Ela comporia o corpo . de leve. de cabelo se enroscava. e aquele feixe de coisas conceber enterro saindo de um edifício de apartamentos. Pedro. um pouco chata . mas deles desceram à nuca . superior.. tinha na cômoda um saquinho de balas de mel.Fomos . e seu passo não é o corpo de sua tia-avó. Espia: chegaram! jóias . Ana Clementina era incapaz de dar relaçâo de particular: tudo. arrumadeiras. passou-as pelo rosto miúdo.. da qual excluía o não havia carne. Quer analisar objetivamente ao mínimo. numa caso não se preferisse transformá-las em alguma coisa de carícia errante. um segredo de sangue velha que teimava em contar casos do Império e explicar circulava entre eles . . Esperava-se a funerária ainda não viera. nevado. vez à luz natural e aos olhos de Renato. e quem sabe até se outras ter aparecido ainda. O senador repousava encontrada. com acento muito fraca. e. Os braços estavam nus. um maço de ossos por cima do ramo espúrio dos Figueiredo Chaves. que tardava. para o laborioso transporte pelo elevador. selava a boca e que oferecia a todos. Afinal era sua tia-avó. meio quente. com enxaqueca. brigada com D. pois. (inexplicavelmente) desapareceram. Mas não havia sangue. Quarto escuro .. Com a memória Renato olhou para Luís. a muito ordinária. oficiais já se tinham desvanecido há muito. Tinham chegado antes. Na extrema aderência da pele.respondeu Luís.Juro que não . Algumas já tinham sido distribuídas por ela Três automóveis. Era o sonho da família. -Fomos. famílias de trato em geral desconfiam de . mas divide-se entre sentimento e objeto supra-realista ou materialização espírita. só ossos.. onde um ou outro fio Boa velha. como proteção para os brônquios.feito cócega .voltaram um pouco restava a lembrança de corpetes bordados a ouro e tatearam. a cabeça um pouco erguida sobre o no quarto de dormir.. tia-avó).ninguém no fundo. jóias de sapato. As Jóias escorriam da baronesa. Seus vestidos cabelos ralos. como presentes de casamento e batizado. a exposição na capela de Santa Teresinha. apenas as mãos esticadas. só ossos. veneráveis e ridículas aparecia quase que pela primeira onde os mortos são intrusos. Não. parecia querer esconder o queixo. Depois. mais mexesse . "guarnecidos com brilhantes fingindo gotas de orvalho". que poderiam ser convertidas em bom dinheiro. a genealogia dos Figueredo Moutinho. essas jóias de um século Lentamente Renato entendeu as mãos (era sua morto. de busto. Mas que jóias! os dedos vazios. No dia claro. chegada de uma prima especialista em cuidados nada lembrava a presença da morte . Por absurdo que caveirinha apresentava-se perfeita. que ninguém mexesse. compungido. Mas. e a ficou esperando no corredor.respondeu o outro.salvo aquele quarto fúnebres. que permanecia fechado. passearam pelo couro cinza. de Com certeza morreu dormindo.e o entregaria aos carregadores da Renato abriu lentamente a porta. Boa análise. Seu amigo empresa.. eco de São Cristóvão. gente intrigante e sommier azul-celeste. . cintura e braço.
sussurrou Luís. a que Samuel jamais aderiu. seu cavalo de corrida.. Distinguia-se pela correção de maneiras e pelo refrescando a pele. os dedos tiveram trabalho A partilha foi honesta. é dele. Renato O gerente apertou as mãos. do Norte.. fosse o que algum tempo. mostrou os brincos. fosse. punhos fechados. 38 .. e olhe lá. esbarrou na banqueta. corte a um tempo simples e elegante da roupa. Mas abre logo essa mão e passa marido.Como é. para ir ao bar folgadas? Cada vez que um da turma precisava de grana. Samuel não se furtou a pequenos . de maneiras discretas passa mais ou menos despercebido .. Primas do Norte fizeram a viagem minha parte. O ventinho de fora batia nas toalhas. Chegando a gerente. em fixá-lo. Mas.. alteou-se. ele dava só uma volta. sua roda. vestir. o corpo ficou sentado com fora? Preciso telefonar à lituana.Só isso? cinemas. e arrancava uma conta. no. e Renato derramou loção no cabelo. O outro abriu. pois o homem bem vestido e Renato não respondia. Ou . não cedia. e Com certeza o Cícero perdeu ontem na Urca e a cada promoção no banco novos salões se lhe foram veio aqui hoje cedinho . eu vi a baronesa.Parece que você ficou meio frouxo depois de nos dias que correm. o corpo-quase se Assim acabou o Segundo Reinado. a cabeça veio . não de senhoritas. e é difícil resistir à batalha dos telefones. As O outro. puxando. Súbito: plic. Samuel era um homem . pra mim ela morreu foi recebiam-no com simpatia especial. São João.. apresentemo-lo antes. entre moças e rapazes espiar a velha . abrindo. Luís. levantava . tinha seu clube. e que Samuel nunca chegaria a chegava perto da velha. Vamos dar o para a frente. não se distinguia. na penteadeira. Daria excelente . A velha foi estrangulada. e a safra? melhor. fez que não.. Também ele não saía do pescoço nem na hora do chamadas soquetes. caindo de costas. Isso era pelo menos o que se dizia Em apartamento. e correu Perguntou-lhe Pilatos: Que é a verdade? para fora.Pode ser . vendo os ERA um homem que comia dedos de senhoras. com a cabeça. dos chás. onde o fiel Luís o esperava. mesmo entre do colar. Coitado. essas pessoas penetrara já a moda das meias curtas. Moças do Rio desafiaram- miudezas. banco. mãos lacradas. mesmo grande como aquele. de gestos soltos. e dos banho. dos . Ela deu o colar a tia quase gordo e de pouco cabelo.Deixa de besteira. Achou o colar? americanizados. Tudo isso está no passado porque ele morreu há O colar foi diminuindo. Chegara a gerente de Foram ao banheiro. num calor de todo o corpo. Na última vez que um ano. cerrou os olhos. rigidez. Conversaram ainda por em descobrir algo. XVIII. Mas. e na luta para arrancá-lo. pessoas mais velhas certamente o prezavam por isso.belo par de orelhas de 1880. era evidente. Não se casara. puxá-lo. A defunta teve um movimento para trás e desabou na cama. roupas vistosas. Matilde. porém. Os dedos puxando. Você se lembra de que ele dava três voltas paletós esportivos.Pois olha. ou passear na praia. morava em Laranjeiras. por aquela época. soltos como camisolas. Sua entra a em sociedade e se fez sem esforço. e . diminuindo. de uremia. no sono. em Poços.. Viera difícil a gente se isolar para uma conversa mais íntima. meu velho.A esquerda é minha .Esta loção de papai é uma droga. E de vapor para conquistá-lo.
Olhava-me. flores. modesto. Era tudo quanto subsistia de religião em sua digna do maior respeito. sem entusiasmo. alma. De 1932 para cá. nenhuma no Largo do Machado. que desenhos imaginários na calçada. Respeitava o . Política. Na realidade.cinema. dessa natureza eram registrados pelo em mudança. Gostava de conforto. e tinha opiniões sobre as artistas agradecer-lhe essa cortesia. grande admiradora de Verdi (como eu: católicas. com o corpo moído. morte de um tio. enlevados. convidativo. cada vez mais sucintos. ela fazia sentimental desapareceu de todo dos apontamentos. A igreja da 20 de dezembro. sobretudo desta última. suponho que se prendesse a raízes minha vizinha. O caderno falava apenas de negócios bem ou com um grande chapéu de palha enfeitado de frutinhas e malsucedidos. nas páginas seguintes. senti-me no dever indeclinável de igualmente seu futebol. aliás instituição operações. Se Afastando-se ela para que eu me sentasse na se dava bem em roda de homens de negócios. e o ando muito atarefado com o balanço. e obrigava-o a um esforço enorme para estudar 7 de outubro. não fosse desses capazes de matar o pai para obtê-lo. Viera novo e lábios estas palavras: "Até breve. que pouco. e eu não descubro espiritual. tanto do ponto de vista da arte como da entabulássemos ligeira mas deleitosa conversação.romances. banalidades à guisa de introdução. e tanto bastou para que de . mas tornado indiferente pela omissão do culto que coincidência) e da natureza. que perdera Casos. e um caderno de apontamentos. Não pude deixar de perceber tinha preocupações literárias. com o luar prateando as águas da baía. tão duro para' quem porta de sua casa e ao nos despedirmos ouvi de seus principia a lutar na atmosfera dos bancos.sabia agradar. os registros eram 1925 . À saída da missa das dez. plástica e da simpatia pessoal. No domingo a levarei à matinê do Odeon. Em religião. à noite. simpatizei muito com inexperiente de Sergipe. Acompanhei-a até a e pelas contingências do trabalho. Samuel tirava-lhe respeitosamente o chapéu." para um deputado federal. Passeio na ilha de Paquetá. mas encontros com o pessoal do Norte. passando o bonde "Águas Férreas". E à proporção que os dias iam passando. apreciava ponta do banco. ela o tornar-se ridículo. que era eu o objeto do seu sorriso por assim dizer Que preocupações teria Samuel? Aparentemente.13 de setembro. foi-se esquecendo dos deveres religiosos. Respondi-lhe. dizer-lhe algumas nenhuma. O curso de contador exigiu Passamos um dia agradabilíssimo. não respeito era maior por ver a casa de Deus postada entre pretendo mais procurá-la. compromissos sociais. e dele tirando energia para suas delicadas em mim vocação para o matrimônio. O elemento resolvi esperar. o emprego obtido era. logo à primeira vista. sacrifício Tendo de lutar para obter melhoria de situação. Ambição de riqueza é possível que tomou e assim pude voltar para casa a seu lado. mas disfarçada. e voltamos à noite. depois de resto não eram diários nem regulares. às vezes parecia convidá-lo para entrar um mudança para o Leme. Mas não foi Homem moderado afável. tinha mesmo anotações como estas: caderno. com tivesse. Fiquei sabendo que tratava com uma professora pública. indicação. num bilhete. Sinto que as pretensões de as casas do dinheiro estas como que submissas ao poder Cláudia vão além de simples amizade. Cláudia escreveu-me Candelária. Samuel não discutia. embora prazer e economia de tempo. sem necessário. tão majestosa entre os redutos da alta queixando-se de que não a procurei mais desde a sua finança. trazendo carta de apresentação o seu tipo. olhou-me longamente. Eu ia tomar o bonde. Pensei em aproximar-me. Com a ponta da sombrinha. uma senhorita vestida de azul. Samuel não baixava os olhos e sorria.
Mas sucede uma coisa desagradável. como até não emitiam . Mas qualquer espécie de ruído. Era agradável tanto interessam ao crédito. não precisava matar-se antebraço estender-se... lavar-se. embora estivesse deslocava-se com espontânea leveza. Branco. a sobra imperceptível na Samuel podia comparecer a duas ou três por dia. de sorte que. o rosto da senhoora. e não há na sua galanteria nada de ancien cidadão bem-posto. eram silenciosos. Nesse último compreende. mas sorri de novo: banqueiro. procurando tempo. com suavemente. ultimamente. das promissórias protestadas.para saudar uma senhora. passar em casa. Da boca à mão o espaço tarde. que tinha apertam.. até o julgamento benévolo este momento. ocultar o dedo indiscreto. saindo do serviço. se ergue. cabeça volta à sua posição. à vista de todos. embora infringindo a cinema. mas a realidade se lhe oferece. Apenas como enluvada. que se interessava por futebol. sem se gravata se desfaz. Sim. Ela baixa os olhos. O tecido rendado súbito se tinge em um dos Possuía o dom da conversa de sociedade. o tronco era homem de gabinetes. flexíveis. Não de lã. sua mão está de tal modo a uma senhora idosa que a achava cada vez ensopada de sangue! Como foi que aconteceu? Espere aí. e ele me picou. fazia tudo vestido.ia muito a etiqueta. e eis outra vez Samuel firme no centro molestar. A senhora olha atônita para a mancha que se repertório abrange desde as considerações gerais sobre o alastra. e agir em conseqüência. os braços não profissionalmente atento às reformas que saem deles e comprometiam esse movimento. Os diretores do banco contemplar Samuel movendo-se suavemente . dos O certo é que Samuel beija . que limpo. que entrando no salão do casal Boanerges. não se incomode .. contrai-se um instante..Feriu-se? Mas que horror. perfeita. livre das letras de câmbio. Não apenas seus sapatos não rangiam. mentira de Samuel se resolvia em verdade. verdade de A senhora está pálida. sido um alfinete. terreno.. ninguém descobriria nele quem pela manhã também sorria. pentear-se. seus dentes se liquidara a tragédia do lavrador de Campos.está beijando a mão saques. As pernas moviam-se calmas e leves. com garantia na praça.. Samuel.. que Samuel se recusou a adotar). passando pelas impressões dos sucessos teatrais. Passei a mão no mas seriam antes maneiras suaves . Instintivamente a mão se fecha. que escolheu para sangrar logo cinematográficos e musicais. a Aquele inverno foi cheio de recepções no Rio. corridas. indo a pé até a Avenida Rio era grande. Samuel pisava em lã. _ Não foi nada. a cabeça inclinar-se levemente. O trabalho no banco dava-lhe tempo para da sala. e a vou arranjar um pouco de iodo. mesmo antes da adoção dos solados de borracha (solados Samuel está desolado.Governo. o dirigentes das finanças nacionais. À sorriso levemente esboçar-se . algodão . ele próprio tinha pés diretores gerais e até ministros se faziam nos salões. cujo dedos. régime. recepções . Deve ter Foi dito que Samuel tinha maneiras discretas. de afetado.Lamento muito o acidente. assim lépidoe aborrece muito Samuel. Suas relações com os suavíssimos. um lencinho faço parar o sangue. era outro homem. jantares. onde estará esse maldito alfinete? Merece o maior . Samuel era realmente incomparável: sabia dizer . mas sem freqüentá-lo. como avançara sem pressa. Não precisa procurar nada. mais jovem. beija a mão da dama com uma elegância recepções.vale punham-no a par de conversações sigilosas com os insistir no advérbio . muito mesmo. foi com certeza. Samuel a princípio não das condições físicas do interlocutor. que a senhora subitamente remoçava. E a boca recua. evidente. enquanto sua mão enluvada hipotecado o último pé de cana para financiar a safra. e ninguém reparou como ele foi transposto. o para ficar sabendo de tudo.
passou por eles.. O cavalo de Samuel correra e ganhara. recusando o curativo que me ofereci para fazer. e disfarçando com um sorriso a dor da picada. mais que de dor. Os até que viesse o carro. Guiomar. um rapaz de roupa xadrez. Ela manifestou grande presença de tempo que um grito de espanto. num movimento convulsivo. excitadíssimos com a vitória. sem Na recepção em casa dos Boanerges. sei lá. talvez o um negócio em Porto Alegre. _ Oh. o dedo doendo.atalhava D. marcava-se outro. lhe. Faltava a ponta do dedo. Marcava-se dia. - figurar aí. . Guiomar tinham apostado nele.. não de seus adoecia. Os alfinetes são ingratos e sem imaginação. Guiomar gemia. tocar para a Assistência. lê-se beijar a mão da futura comadre. fizera três anos. espírito. Samuel . Sentada.dizia navalha. ao se despedirem (o casal Boanerges. a de D. os guardas .. D. sacudia o braço. Não caía. e Tancredo tinha de resolver traços. que tem lindas mãos. rindo. O lenço em que Tancredo convidara-o para padrinho de um filho. terceira marca. Impossível averiguar qualquer coisa. Houve um esbarro. Samuel assistia às de lágrimas. ferir-se em mão de Samuel recuou. ela dois homens tinham uma amizade de vinte anos. Logo em seguida: . tive o pesar chapéu. o indicador gotejava.Luisinho viverá cem anos pagão . programa das corridas. morava em Ipanema). sempre lisonjeiro . O sujeito tinha um papel na mão. Guiomar também. escapou dos lábios da jovem senhora. Tancredo. Fica tomando conta dela discurso que vai pronunciar na Ordem dos Economistas. com um alfinete. uma lâmina. é claro. com um papel na mão. no Paraná. Chama um táxi e manda martírio esse que durou uma hora de relógio. e estavam E afastou-se. impossível batizar Luisinho. quando Samuel se inclinava para No caderno de apontamentos de Samuel. o rosto lavado Um domingo mais tarde. ele fere menos que certos homens . ao lado de seu amigo Tancredo. Samuel não a viu mais na sala.Meu Deus. a tarde pobre alfinete.Não diga isso. e D. Guiomar. e da senhora deste. enquanto eu procuro o sujeito. Tancredo e falo do senhor. ele Lembrava-se perfeitamente de sua roupa. corretor de títulos.Está escrito no livro do destino. em com data desse dia: velocidade de navalha. mas um dedo. que Samuel e Tancredo precipitaram-se. D. Samuel. Na mão deve ter sido forte. Levaram-na para o bar. A dor era insuportável. Sr.. ao mesmo cumprimentar-mos. e ainda não fora batizado. passou de raspão. que já envolvera o dedo estava ensopado. Guiomar recebia notícia de doença do avô. É indigno de . Juntou gente. Você é que não tem vocação para Ela não pôde deixar de sorrir. Mas era Samuel voltou sem ter descoberto o tipo. logo depois de nos essa última. Vou pegá-lo Martiniano Lopes me pegou no terraço para ler um longo . Deixe o Estavam calmamente na arquibancada. que é isto! Foi aquele sujeito que A recepção esteve muito cacete e o Dr. que chegavam não tinham indicações suficientes para . D. soprava o ponto ferido.castigo: ser expulso desse lindo vestido. Samuel. carnuda e morena de D. Sumira pela porta q e conduzia ao quarto de toalete dos No atropelo da saída. Guiomar.Espera. Deus é muito grande. corridas do Jockey Club. padrinho.Mas seria só o papel? Com certeza escondia . A de ver Madama Sousa.
Guimar ficou mesmo aleijada. Mas vermelhas caíam da mão contrária. que brilhavam. desapareceu. Figueiroa. a careta de dor deformava- . Alguém. porta do buffet. acabrunhado. Os três entraram. tão brusco . Criatura magnífica. E Tancredo. depois pudemos pegar o agressor. e uma O pranto de D. passando A Senhora Figueiroa achou jeito de esconder a mão rapidamente.Ora. olhos pestanudos. é verdade. à tristeza de saber-se mutilada enchiam-lhe a alma.ela nem percebeu como foi . talvez alguma pontinha de vidro? No caderno: Os diplomatas sabem dominar dificuldades. Guiomar diminuíra.. e ela se amparar a pobre senhora. Coragem. Não há lesão grave. não é caso para vocês ficarem assim. Com doçura especial uma coleção de borboletas brasileiras. que não compreendia nada. sem ponta. Não ferida . As gotas cortezinho à-toa.apanhar o criminoso. forte e bonita como sempre. mas durante dez anos por um especialista. e permitiu- fluxo. A Senhora Figueiroa nunca se apanhou o rapaz vestido de xadrez. Passou a avistar-se com personalidades do mulher. queria protestar. rapaz. Coisa de uma semana. Procurei consolá-los o mais e retirou-se com o marido. sempre trabalhando no duro e se não fazer barulho. mulherzinha ainda há de fiscalizá-lo por muitos anos. Samuel aproximou-se para avisar que o táxi representando árvores e pássaros.. boca da Senhora Figueiroa. Vossa Excelência feriu-se? Como foi isso? Na bandeja. chineses como seus. parecendo queimar as palavras _ compreensão detivera o fluxo de sangue. Saiu muito sangue. Sua .e Samuel aprovou em vez de ir à No baile da legação.É incrível.e a se da bandeja de refrescos. aleijado. Samuel apanhou-o. hospitalizou-se. e ofereceu à senhora do Ministro protegendo-a contra o aperto. Mas a emoção A esplêndida senhora mal teve tempo de desviar- do golpe. foi ele quem cortou o dedo . Um lhe o rosto. empunhada por um garçon . O garçon voltou. talvez um pouco tratariam do ferimento. que é ótimo. Samuel tornou-se tinha chegado. prender o criado. mal posso acreditar no que vejo . onde América Central. Perdeu a falangeta. está boa... tratava os interesses Abriu caminho para a passagem da moça. esposa de um encarregado de negócios da apanhá-lo e seguir para a sua própria casa. feriu-a no indicador da mão direita. e os médicos declararam: dentada humana. como se a desgraça da corpo diplomático. A voz quente. inexplicável. queria negócio das ações do Cotonificio. passar em casa do médico da família. que desmaiava. e as A mulher de Tancredo foi vítima de um atentado mulheres dos diplomatas educam-se no mesmo espírito. Receio que o dedo fique por trás do lenço. Um ai! escapou da consolava a ambos. O vestido branco estava manchado. ampla de busto. e Esse caso foi mais sério. . O triste é que D. e mão.um horrível ferimento . finalmente dentro da saída de arminho. uma bata de seda azul-celeste com aplicações de ouro. Tancredo ficou tão abatido que até parece que após um momento de indecisão. O garçom. e possível. Amanhã cedo vou propor ao Tancredo o apesar de diplomata queria chamar a polícia. enquanto a outra basta uma arteriazinha rompida para causar todo esse deixava tombar o leque. organizada sustinha a mão mutilada. O Ministro da China mandou-lhe outra aumentasse o valor da sã. Passava a mão na mão intacta da divertindo. à saída do Jockey. Tancredo preferiu . alisando-a com meiguice. preferia Samuel.por trás do leque. apresentaram-lhe a Senhora Assistência.se espantado. íntimo da legação da China. Samuel mal tivera tempo de beijar-lhe a Samuel não sofria menos que Tancredo.
. o que seria nada publicaram. sobre uma dama? era-lhe forçoso convir. exceção de certo pivô sábado.Acho que a Senhora Figueiroa se feriu na maluco? bandeja num copo. Nem uma falha. Acabará na City.Ninguém. de instinto Fizeram-se investigações policiais discretas. Samuel resolveu rir. aproximar-se com a bandeja -. O Dr. Alguma evitaram-no..um sopro -. Na confeitaria da Rua da Carioca então ainda tirar os olhos de sua boca.Olá. que o olhava atemorizada. D.e bateu-lhe no ventre. enfrentar o risco. polícia.Então. Regina teve que ao escutar o grito. de braço encolhido. .o senhor louro. absurdo . Os jornais garçom não se inclinara para beijá-la.Ah. entretanto. O delegado recebeu-o com delicadeza.Meu caro. O senhor acredita que esse garçom apenas tocou-lhe a mão. como explica o fato? .. casa de saúde no Rio Comprido. O médico vivia muito fora da vida.Pois não. Samuel foi convidado a ir à parecia perceber.e deixou o cigarro mas a esposa dançava em todo baile elegante. com licença . Tabuada não adivinhava. . apenas passou o garçon.Está . e o rapaz dependurado na boca. lhe secionara um dedo. Ele não garçom não adiantou nada. e voltou-se para a . doutor. deitando-lhe um beijo levíssimo tenha . doutor? Então. Os médicos tinham dito uma besteira. como sempre. como se fosse uma porcelana que ele não Figueiroa? quisesse trincar. o dedo dela foi arrancado a dente.É um absurdo. . tirou a carteira ..disse o médico. E só parou Ele forçou o aperto de mão. Ele não faria isso E por que Ela sorriu. Sua cortesia era. Não sendo homem de intimidades. Pelo menos que eu visse senhora. tênue. encontrou. o recuavam os dedos. era evidente que o bote espalha-se como pó fino sobre os móveis. . pessoas amigas. que alguém mordera Era o primeiro caso assim: o delegado também sua esposa. numa ponta de vidro. estabelecer contato. Uns olhavam para os outros. e cada qual achava Alguém deu uma dentada nela. amistoso.Que é isso. rapaz? . Mas Samuel . . Então o senhor acredita como Samuel pairava acima de qualquer suspeita. sua mulher. também cultivava festas. alguém se aproximou dela e curvou. D. num perfeitos. o quê? O Dr. a não ser o de nos salões.O senhor não está sendo acusado de nada. algumas informações entende: Quando palestrava com a como os Rothschild . Tabuada. seu Samuel. abriu na gargalhada. e o Samuel não foi mais incomodado. hem? Já sei Apenas solicitamos? seu comparecimento para obter que é dono de toda a Rua 10 de Março. de seus dentes. Mas seria possível? Um cavalheiro tão distinto . fosse cair de dentada próprio encarregado de negócios não queria acreditar. Nunca se sabe de onde vem o rumor. Regina ria também.ela se lembrava mesmo que nenhum gesto Mas alguma coisa do último incidente transpirou especial fora feito pelo servidor.. por . diretor de uma conseqüente a uma queda de cavalo. com uma bandeja. partira de Samuel. Eram muito freqüentada por gente fina. Samuel se? correspondeu com um sorriso formal. aliviada. Senhora Figueiroa. primo dela. que acompanhara a havia de fazer? cena com preocupação. e como as duas achou absurdo. mais divertido . e um rapaz Samuel percebeu isso. exalando fumaça.. ao serem cumprimentadas por Samuel. sua vez. .. O que alguém. doutor. fuma. O primo. dissimuladamente mordido a Senhora . há quantos anos. As mulheres. não acredito. únicas pessoas próximas eram Samuel e o garçom.. mas sem impecável. num baile de legação.
com indiferença. fresca e agradável. afinal concluído. Era a segurando o vendedor pelo braço. e outras coisinhas. Opera-se assim. O Rio tem perto de dois milhões de pode viver sempre entre papéis. foram Garçons acudiram. Samuel. tudo.Oh. Não se deu crédito ao Use. O senhor não imagina como levando listas de subscrição em favor dos flagelados. Ela devia a Samuel algumas finezas. Até qualquer dia. dos fiquei contente em vê-lo.Ai. arroladas em inventários. escrivaninha. Se não Quando a polícia chegou.. vou indo. ações Mas eu não fiz nada.. não é assim? coisa ou agarrá-lo? Mas o rapaz afundou no mar de . . porque numa das . e retidas no banco. E o senhor sempre mundano. abriu caminho entre as pernas agitadas e ganhou pelas casas de alguns velhos amigos. Deolinda Deolinda Gualberto sorriu-lhe. Alguns liberadas antes do alvará do juiz.O melhor aparelho de barba e a melhor gilete. apenas. . mais calmo que Petrópolis.. pois não é de bom-tom beijar- licença . Sr. morder senhoras. lhes a mão. Eu . Já . Indicou-lhe um hotel. Mas Samuel resolveu ficar. Sr. A toalha da mesa de D. este dispositivo. Dou meu giro peitos.. Samuel tinha saído com a tão bem. O gesto do vendedor atrapalhou samuelino. com a boca torcida.Imprudente! Atrevido! . a senhora fez questão do beijo dispunha a beijá-la . . não sabia que os banqueiros não era possível esconder o fato de que ele gostava de entendessem de moda . minha senhora. Deolinda conversa penosa. . Deolinda gabaria essa leveza de luto do costume lilá .Há quanto tempo não o vejo.Meu caro Samuel. as coisas ficaram difíceis para Samuel. ai ... Dona tipo grande: O VAMPIRO DOS SALÕES - Deolinda pensava em fugir do calor. noticiou em Falaram do inventário. Ao se levantarem. balbuciando: - sorria. Não se a rua. Estava confiante. um monstro. procurou em vão o fosse reavivar recordações que lhe são penosas. estava sem um pedaço do dedo mindinho. Fica-lhe parecia ter vinho entornado.. fregueses aproximaram-se. a Noite de estava justamente estendendo a mão a Samuel. Moças que costumavam percorrer o comércio . para dizer-lhe alguma em salões.. e este se ontem . que era um sádico. eu sujeito das giletes.Bem.Oh. num caderninho. D. eu .gemeu a senhora. Sumiu. procuraram inocentá-lo. É A confusão era infernal. nem tanto. Samuel aconselhou.. cavalheiro.. Um . Era um propagandista que metera o nariz na O presidente do banco chamou-o para uma mesa. o gerente com eles. Com testemunho das virgens. desculpe! banco outra vez roçou-a de leve.. e até mais CONHECIDO ELEMENTO DO NOSSO MUNDO barato.exclamou Samuel. Samuel. não acha? Quanto prazer em vê-la.Pois fique sabendo. Fez-se o bolo. mesas da esquerda estava outra pessoa conhecida. entre as taças de sorvete vazias. que lhe O homem lutava por escapar. órfãos de guerras balcânicas e de outras vítimas. revelando as iniciais de Samuel. ESTRANHA SÉRIE DE AVENTURAS DE lhe Friburgo. e no meio dela Samuel verdade que desde a morte de meu marido não ponho pé consegue chegar perto do camelô.Ah. vespertino. e a boca do alto funcionário do . e levara-a para casa. . D. D.. Entendemos de tudo.. viúva Mendes Gualberto. afundado na habitantes. Já reparou que combina admiravelmente com a viúva. de que a viúva tomou nota BANCÁRIO. tarde? Bem..
Samuel encontrou o bronze. calado. em Ao chegar em casa.Nós não . vício. O banco deseja minha .o que há é uma série de coincidências recomendar-lhe que a goze na Argentina. Tudo se forte. uma com a razão desses . . Vasconcelos e fique em casa aguardando instruções. Na quinta-feira tomaremos uma interesses.Ah . Tenho direito a Como o senhor explica isso? uma explicação. vou convocar a diretoria para saída. entregue a gerência ao Senhor progredisse. . Compreende? Aquele instante foi longo. . Isso tem me preocupado muito O presidente não respondeu. acompanhar o movimento de uma formiga que. Até lá. O delegado recebeu-o sem reparar naquelas formas calipígias. mas que hei de fazer? Não sabe como. Não posso atinar .. Então um homem de posição.. Eu não peço corredor. Passe/muito bem. depois de vinte anos de dedicação a seus estudarmos o caso. Representava uma mulher de túnica.Não compreendo. hem? ter decaído da confiança da diretoria... e Deve sair hoje na edição final. Morais. presidente. Estou E eu lhe direi: sei lá. segurando um facho. resolvemos conceder-lhe uma licença de três meses.Nada..Mas eu não estou precisando de repouso. Isso é que é. entre pretas que queriam atestado de pobreza. Quem sabe se o banco está querendo me pudesse intervir a tempo. Samuel. ninguém _ Eu também não. Isso lá. limpou a garganta. Morais. protestando contra as insinuações.. O banco que me demita. O presidente olhava para uma estatueta. Falei à toa.Você não anda um pouco fatigado pelo excesso temos explicações a dar. por aí assim. Em todo caso. O senhor. é o senhor? Então repetiu-se a coisa. Por que o senhor falou em trata-se dessa miséria que .. se introduzira no gabinete e marchava sobre posso me confessar autor dessas barbaridades.O senhor engana-se . saiba que senso. mas de que não posso ser acusado . no Uruguai. . .Fatalidade coisa nenhuma. depois de uma hora de espera no .Doutor. Então o senhor deu crédito a médico? essas torpezas? Pois olhe: não esperava isso do seu bom- . Não. Dirá o senhor: mas como foi que aconteceram? . com um sorriso amargo -. aconteceram na minha presença. se quiser.Estou me sentindo perfeitamente bem. seu safado. Depois de todo o meu esforço para que ele deliberação. posso trabalhar. eis aí. Isso lhe fará bem. não.. sim. recebido na alta-roda. era bom investigador. Escrevi . Nunca . acidentes.Sabe de uma coisa. nenhuma consideração.retrucou vagaroso o uma carta à redação.Sr. acusado. A fatalidade . põe-se a .Ah. -Já sei. Ainda no começo do ano fui a passou à minha frente.disse Samuel. sem que eu Caxambu. esse não sei que diga. Garanto-lhe que foi afastar? assim mesmo. Sr. não posso ser Samuel perturbou-se. só sei que eles afirmativa.. na certa. diante de meus olhos. constrangido. não senhor.Devo interpretar seu silêncio como . tentando libertar-se das curvas da estatueta. o senhor nem calcula.. Mesmo de metal. O que há .. me senti tão bem como agora.Agora estou percebendo. Aconteceram: eis aí. Isto é uma infâmia. o tapete da presidência. demissão. perfeitamente lamentáveis sob todos os pontos de vista.. é que precisa de trabalho? Gostaria de consultar o médico? explicar esse . que ia buscá-lo. e Samuel pôde . Sr. é? O presidente. eu não explico nada. e repetiu: . ultimamente. já sem o tom afetuoso do princípio. Não posso .e fez uma pausa.
comer dedos de senhoras e depois quer despistar? Não - É pra seu bem, ninguém quer lhe fazer mal, ora
faltava mais nada. Mas que diabo de fome esquisita a essa. Morde só um instantinho.
sua, hem? Ele mordeu. Cuspiu fora, com uma careta.
- Doutor, O senhor está me ofendendo com essas Coisa que impressionava o delegado é que em
expressões. Peço licença para não responder. nenhum dos casos chegados ao seu conhecimento se
_ Pois não responda - berrou o delegado. - Vai sabia o que fora feito dos pedaços de dedos. Aquele
ver o que acontece a um camarada que quer bancar o malandro os teria engolido? Mas dizia-se que não fizera
antropófago numa cidade civilizada ... movimento nenhum de engolir; nem tinha sangue nos
E ria-se com a idéia de um antropófago à solta lábios ... Isto é, ninguém se lembrara de olhar para os
na capital do país. lábios dele, na hora do susto. A mulher mordida atraía
- Desculpe, doutor, mas eu não sou um sempre a atenção. O gerente da confeitaria vira-o cravar
criminoso. Sou gerente de um banco, tenho direito a um os dentes no dedo da senhora, mas o próprio gerente não
pouco de consideração. Respeito as autoridades de meu reparara depois na boca, nem podia dizer se ela tinha
país e acho que elas também precisam me respeitar. Se sangue.
eu fosse ... A perplexidade aumentou com o depoimento da
- Cale-se! Além de antropófago o senhor é um viúva, que inocentou completamente o acusado.
verborrágico, pelo que estou vendo. Não faltava nada O inquérito foi arquivado. Não era possível
mais. denunciar o homem.
Não houve mais jeito de se entender com o A diretoria do banco reunira-se, e não resolvera
delegado. O inquérito foi intaurado. Samuel teve de nada. Aquele não era um caso comercial; nenhum dos
submeter-se a longos interrogatórios. O garçom-que o banqueiros tinha experiência de casos assim, e doía-Ihes,
servira na Rua da Carioca depôs contra ele. O gerente da no escuro, condenar um antigo servidor, quase um
confeitaria afirmou que, da caixa, vira o momento em colega. Resolveram aguardar o resultado do inquérito,
que os dentes de Samuel, certeiros e inexoráveis, se com Samuel suspenso. Informada do arquivamento, a
cravaram no dedo da viúva. Mas o vendedor de diretoria insistiu em dar férias a Samuel, que afinal
aparelhos de barba, elemento importantíssimo para aceitou.
esclarecer o fato, não foi localizado. Quase dois milhões Não foi para Buenos Aires. Foi para São Paulo.
de habitantes! Quando as férias acabaram, Samuel achou
O médico-Iegista examinou os lábios de Samuel, melhor ir ficando por lá. A filial do banco desenvolvia-
as presas ... Estudou os movimentos da boca, mandou-o se. Precisava de um gerente capaz. Os diretores acharam
morder uma banana, depois uma maçã. Samuel, a boa idéia designá-lo para o cargo. Em São Paulo
princípio com relutância, depois com fúria, finalmente ninguém sabia de nada, e ficava-se livre dele no Rio.
com resignação, pôs-se a morder e a mastigar tudo: lápis, Samuel andou oito anos labutando por lá. Oito
borrachas, pedacinhos de pau, gomos de cana-de-açúcar. anos perfeitamente tranqüilos. Poucas relações. Não há
Depois, deram-lhe uma mão de cera, comprida, de notícias especiais desse período.
mulher. Tanto tempo sem ver o Rio despertou-lhe
- Isso, não. Estão abusando de minha paciência. saudades. Havia um negócio e exportação, muito
Isso eu não mordo.
complicado, a resolver. Tomou o avião e veio conversar - Não se lembra mais de minha voz, seu Samuel?
com o presidente. Faça um esforço.
Achou o presidente meio acabado, o cabelo ao - Lamento muito, minha senhora, mas não me
lado das orelhas já branco. Os funcionários dos guichês lembro. Pode dizer-me de quem se trata?
também apresentavam sinais de ruína. E muitas caras - Pena que o senhor tenha se esquecido. Eu li o
novas, aqui e ali. O banco era o mesmo, na mesma rua; seu nome na lista dos passageiros da Vasp. Foi uma
até a estatueta de bronze - mas sentia-se melancólico. surpresa para mim, sabe? Telefonei logo para o banco e
- Você está muito bem disposto, Samuel. Folgo lá me deram seu endereço. Mas, deveras, não se lembra
em vê-lo assim em forma. São Paulo lhe fez bem. Acho- mais da gente?
o apenas um pouco barrigudo. E a idade, não? - Não, minha senhora, confesso que não me
A essa familiaridade do presidente, Samuel lembro. Estou realmente pesaroso, mas se quisesse me
encolheu-se. dizer seu nome ... - Por enquanto, não. Vamos ver se
- Também tenho prazer em vê-lo, Sr. Morais. Ao adivinha.
senhor e a todos os companheiros da casa. Oito anos - Não posso adivinhar, eu ...
sempre é alguma coisa. O senhor está a par do assunto - Pode. Procure em suas recordações.
que me trouxe ao Rio, não? -Já procurei. Infelizmente não acho nada.
Durante uma hora debateram o negócio. Samuel A voz ficou pesarosa.
estava suando. Dali voltou para o hotel, meteu-se no - Pois eu esperava que o senhor achasse. Não há
chuveiro, e foi deitar-se, de cuecas, com as janelas tanto tempo assim ... Vamos, um pouquinho de boa-
abertas sobre a baía. vontade.
Este calor do Rio! Há tanto não o sentia, que Samuel, sinceramente, não se lembrava.
agora o achava insuportável. Podia telefonar à portaria, - Ainda continua muito entendido em vestidos?
pedir um gelado, não adiantava. O ar estava parado. O - Como? Em vestidos? Mas ...
céu, cinzento. Os automóveis lá embaixo eram - Não se faça de esquecido. Uma vez o senhor
besourinhos movendo-se sem ruído. Os objetos do disse que meu vestido combinava com a cor do céu,
quarto pareciam mais espessos. O telefone, sobre o naquela hora. Lembra-se?
catálogo de endereços, ali perto, era uma pIas ta negra. Havia tantos vestidos e tantos galanteios
Telefone, aliás, inútil: há oito anos não conversava com inócuos, sepultados na memória de Samuel, que ele não
ninguém no Rio, nenhuma de suas antigas relações fora se lembrava de um, particularmente. Começava a ficar
conservada. Ainda se lembrariam dele? Seus amigos do intrigado.
clube, das embaixadas, aqueles homens e aquelas - É engraçado como o senhor sabe - sabia - dizer
mulheres, alguém se lembraria dele? Oito anos sem uma coisas tão bonitas, conservando a aparência de um
carta uma explicação: era um bocado. homem de negócios ... Ou eu me enganei? Alô: é o Sr.
O telefone tocou. - Alô? Quem fala? Samuel quem fala?
- Como? Com quem deseja falar? -Eu mesmo.
- Quero falar com o Sr. Samuel Cardoso. - Samuel... Nome esquisito, esse. Assim meio
- E ele mesmo. Quem fala, por obséquio? triste, mas inspira uma simpatia, não sei. Escute uma
coisa, Samuel, então você não se lembra mesmo de Samuel estava encabulado. A vida em São Paulo
mim? transcorrera longe da sociedade. Faltavam-lhe palavras
- Me deixa chamar você de Samuel, chamar de que, em outro tempo, ele teria para enfrentar a situação.
você, assim como se nós fôssemos íntimos. Ai, Samuel, - Mas, D. Deolinda ...
aquela coisa que você fez foi horrível. A gente perdoa, - Não me chame de dona, está me achando tão
mas não pode esquecer. velha assim?
- Eu perdoei, isto é, acabei achando natural, Sentaram-se num banco, junto ao busto de
porque vinha de você, e você me impressionou muito. Olegário Mariano. Assim solitários, naquele canto, o ar
Escuta uma coisa, Samuel, você se demora no Rio? era de namorados.
- Acho que não. Dois ou três dias, no máximo. - É engraçado como as coisas acontecem,
- Eu queria ver você, queria mostrar a você ... Samuel. Sempre achei você um homem simpático.
- Mas ... Gostava de suas maneiras tão finas. Quando fui ao banco
- Não me negue isso, Samuel, seja bonzinho. pela primeira vez e o conheci, disse para mim mesma:
Escute uma coisa. Hoje à noite, está bem? Este homem é um encanto, e ninguém o descobre. Está
- Como? Se eu não sei de quem se trata ... escondido numa sala escura, no meio de máquinas. Se
- Não tem importância. Depois fica sabendo. saísse à rua ... Depois, soube que você freqüentava muito
- Mas não sei se terei tempo. Marquei encontro à a sociedade, e fiquei imaginando um encontro casual,
noite com uns amigos ... fora do banco. Mas eu estava viúva de pouco tempo, não
- Que mentira, Samuel, não tem encontro podia ir a festas. Você se lembra? Ora, se lembra nada.
nenhum. Você nunca mais deu notícias a ninguém. Depois, foi aquele encontro na confeitaria ...
Perguntei a amigos seus, fui ao banco. Não souberam ou - Do encontro eu me lembro - confessou
não quiseram me dizer para onde você tinha ido. ingenuamente Samuel.
Descobri por acaso, no jornal. Você vai se encontrar O ombro esquerdo de Deolinda encostava-se no
comigo hoje, sabe? Eu estou lhe pedindo. ombro direito de Samuel. Sem provocação. Era sinal de
Ele cedeu, afinal. Ela não queria lugar ruidoso. confiança, acompanhando as palavras. E a confidência,
Encontrar-se-iam às 9 horas da noite, no Passeio acentuando-se, juntava naturalmente os corpos.
Público, perto do portão de Mestre Valentim. Ela o - Pois foi naquele encontro que eu descobri
abordaria. Não faltasse. isso ... Ou que isso nasceu, não estou bem certa. Pode
Foi. A mulher alta destacou-se das árvores, achar ridículo, mas me lembro das menores coisas
trajando roupa escura. Tinha um casaco sobre os daquele tarde. O vestido lilá que eu usava, o sorvete que
ombros, recobrindo o braço direito. A mão esquerda nós tomamos, era de caju, sabe? Me lembro que você me
segurava a carteira, e com a ponta dos dedos tocava no falou do Norte, contou coisas de sua meninice em
braço de Samuel. Sergipe, na cidadezinha de Capela. Guardei esse nome:
- Dona Deolinda ... Ela sorriu: não foi em Capela que você nasceu?
- Então não conheceu minha voz, hem? É -Foi.
verdade que nós não conversávamos muito. Mas - Pois é. Você me contou a história de um banho
pensei ... no rio de um cajueiro que havia à beira da água, de onde
os meninos se atiravam à correnteza. Eu fechei os olhos
Então. A irritação crescia nele.. que horror. de cabeça baixa. sem chapéu. . paletozinho no chão.É. sobre o vestido. . que você fez isso. Eu sou uma Você falou do banho no rio. Ele ficou pasmo. não sei. .Estou me lembrando que falamos do inventário delegado que eu não tinha culpa de nada? .. depois na taça. tanto. Já disse que perdoei. depois do comentário sendo caçado. com uma lata. Os soluços o corpo .Por favor. . por que disse ao ... Samuel? Queria me marcar? . do cajueiro. Com o movimento o casaco lembrar a tarde inteira.Tive uma surpresa medonha. continue . uma dor e depois pendido para a frente e sacudido pelos soluços. sorveteira..murmurou Samuel. agarrando-se ao lado profissional. começou a pobre mulher. não se zangue. com os meninos saltando e nadando. Então eu não vi? Não senti em árvore. Uma criatura em que eu confiava . A Samuel tinha vontade de ajoelhar-se. Num gesto maquinal.Sei que tudo isso é ridículo .Meu bem. fiz .Perdoou o quê? A mim não tinha nada que tomando na colherinha..se e A dor talvez fosse menor do que a tristeza. um Quando entrou aquele propagandista de aparelhos de pouco abaixo do cotovelo. tinha vontade de sair procurou o de cá.arriscou Samuel. eu fico até tonta.Naturalmente. Ao mesmo tempo. sem palavras. onde os bondes passavam cheios. ? um esforço para imaginar você pequenino. Deolinda rompeu em soluços. mas foi no começo. Quando saudade do tempo em que conversava com senhoras. ergueu-se também.Mas você está louca. meu filho.para ver o rio. foi sim. costume. barba . pela noite afora. . Olhava parava de soluçar. braço.. Queria estendido para segurá-lo. tapando o rosto com a carteira. e achavam-no brilhante.continuou ela. tão homem passou. sentindo na boca aquele perdoar. gostinho frio de Sergipe . senti aquelas pontas de dente no dedo.ausente e não tinha coragem. Coitada de mim. o caldo entrando na não é isto. e o caju espremido. Ele levantou-se. meu Deus.Samuel.Eu ia Contar. . o braço Deolinda tinha dificuldade em continuar. Eu apanhou-o levando-o aos ombros de Deolinda. O uma tristeza enorme . A mulher não Samuel despregou um pouco o ombro. Depois a conversa tomou outro rumo. aquela coisa sobre coisas mínimas. E ri muito quando você disse assim: quem sabe minha carne? se esse caju não veio de Sergipe? . principalmente esta.. com a suspeita de estar . Queria olhar o recordação. tombou. na direção da rua. Juro que da Carioca. A cheirava tão bem. pelo amor de Deus que não continuasse.Você não tinha contado . pedir-lhe que ponto ela queria chegar? Depois de tanto tempo. atenciosa. gelando. E sua cabeça Deolinda não pensava em afastar o corpo. encurralado. Por linha de calor humano pegava no ombro e ia até a perna. Então apareceu a manga vazia. tão boa . calma. Teve uma vaga força vem de você. e a gente .Mas esperar o quê? Pois você achou . pensei que ia morrer. mas sem a suavidade de Você me desculpa. Mas o ombro de lá para o inferno. Ela quis retê-lo. De repelão..suspirou ela. esfriando. medonha. Samuel. Um não podia esperar que uma criatura como você.. Com certeza está me narrar a viagem complicada do caju. como você é forte. sim. Ou que fosse voltar a um assunto aborrecido. Achei adorável. Que A vaidade picou-o de leve. a despedida. como se o contato fosse essencial à correndo. de Capela até a Rua julgando mal. agachou. fulminante. sua mão era tão macia. se atirando da . supondo que eu quero me vingar. flutuante... .
finalmente. Você está completamente recuperara a calma. Deolinda. um pouco afilado. permitisse ver bem. Eu admito que no momento a dor não lhe No quinto. Já estava cicatrizando. . meu Deus. a certeza se hem. olhar. Agora parecia mais aliviada. Deolinda entrou. As luzes da praça .Está bem (secamente).? .Samuelito de mi corazón. de cabeça participar da excitação. rodela de limão afundava-se no copo. Mas como você podia pensar um minuto apenas confuso no qual entravam o Conde Matarazzo. Depois. fazia-a levantar o rosto encarar SamueI. jardim.. Mas depois que tudo passou.. seguindo pela Cinelândia. diga. Os dois seguiram.. você mesmos? sente horror de mim? "Se pedir um sorvete de caju. O sorriso tênue e desapontado. não fora preciso A pé. Uma espécie de nouveau de seus tempos heróicos. Tão neste momento. depressa: Estavam na terceira dose... A confeitaria tinha a mesma decoração art Dissera tudo. E isso que aconteceu depois foi pior semana em Santos. no táxi.. Estava deserta. a coisa incompleta se oferecia ao Samuel. amputar. levado? Ai. ele . e desabou a cabeça no peito de Samuel. Assim como estava. Por minha mãe. ele acompanhou-a. Porém ela pediu gim-tônica. nos orgulhoso. Garçons bocejavam no fundo. dali.perguntou pescoço do amigo. ainda esbelto. bastante divertidos. -Juro. ? Paulo. No quarto copo. ele ia imaginando como acabaria revelar a verdade em palavras. ela ria muito. sentiu a conveniência de tirá-la baixa: . Não foi culpa do médico que fez os clareavam o corpo de Deolinda. Ela ria alto. Samuel.? É absurdo. ..Acredito (sua voz era indecisa.Agora que estou marcada para sempre. quase decepcionada: .Escute. .Tive noite. na Cinelândia. Antes tivesse ficado em São . com uma mulher sem braço.Quer tomar alguma coisa. com ele o gim não podia. enganada O que se passou naquela tarde de fato foi uma Contava-lhe histórias de São Paulo. você é um número. Meu bem. ele me mata de tanto rir. Bésame! Bésame! Falava tão alto que Samuel.Mas como foi que . agora.. sem Ficaram algum tempo calados.Mas então você Teve um soluço seco. assim é demais . um que eu. veja bem. esbarrei num jarro. mas em todo caso tempo cristalizara-se nas mesinhas retorcidas. Deixaram o rindo. e então foi preciso lhe como um tapa. pálido.Quero . pensou Samuel fez um esforço para dizer tudo que Samuel. você acredita mesmo que eu . Por que sumiu esse tempo todo. e um caso meio ainda. Peregrinaram pelos bares de Copacabana.Vamos andando. o braço esquerdo enlaçado no . por perguntar. diluía em angústia). Começou a sangrar de novo inflamou A idéia de que viera de São Paulo para passear à ( ela não dizia o que é que sangrara nem inflamara). Ela. enforco-a". quando puro. fins de coisa horrorosa . e aborrecia-se. um desses casos de cinema..Infeccção. mais. mergulhado nos negócios. no calor.. aquilo. o rosto primeiros curativos. Seria preciso que eu papagaio cearense e duas datilógrafas. . e a fosse um indivíduo anormal. constrangidos. Juro por Deus. ? . ? engraçadinho que ele é. Naquela confeitaria. Levou-a docemente para a rua. precisava. Samuel era forte. espelhos. soy tu esclava. sabe? Samuel ficou tão perturbado que resolveu beber . Chega. jura que ... de romance. doeu- que me internar numa casa de saúde. Seriam os .
Os dedos sacodem a Pressentia-se o momento em que as formas alongadas e tampa.Meu benzinho. Samuel -Nada. Nossa amiga . mas tanto.. Mais soluços. às talvez até mais bonita. Os bichos de cristal na metal e coberta por uma tampa móvel. a abertura forrada de certa depredação iminente.. agarrou-a.. a seu alcance. cointreau. tipo ordinário. adeus. desencadeando o necessário e aflitivo rumor. a solução já não lhe satisfaz. Muito mexedeira. .E a outra de onde você veio? O carro seguiu. tornar a entrar minutos aquilo? Sarpuel tinha a impressão de que venceria o depois.Samuel. franqueia-se o . preta. . vezes descalça. . três anos. de vento . de mão na boca. vou me atirar na Gruta da . meu coração . Como acabaria À força de entrar.Não mexa nos bichinhos. lanchar.De qual você gosta mais? . esquecida. meu bem. sair. .. praticar pequenos atos domésticos. antes prazer de sentir-se cortejada. e ameaça de .. mimada. a mãe não queria que ela brincasse. mas tanto! Um dia foi brincar com o cachorrinho de vidro. perguntam de dentro: pousara uma bruxa.. esta bananinha .Gosto da outra. .Que é que você vai me dar? Imprensa! Fez o gesto de abrir a porta do carro. Mexia. Antes de abrir. igualzinha a você. Há Catarina e Pepino. . Entra uma coisinha morena. vermute.. Samuel. se é que não a retificou para os desmascarasse algum propósito oculto. .Que Catarina? Ante a intimação peremptória.Tem aqui esta pessegada. senador Nem tudo são flores. dormir na primeira perigo pelo álcool. enquanto alguém lhe acarinha os cabelos. Catarina foi inventada à pressa. Deolinda ria e chorava. Na chispada. Será campainha. idêntica: por ali entram as cartas. para frustrar Descobre na porta.Esta e aquela. dicionários do futuro. recinto.Não mexa. Ele sempre séria. >>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>120 .. entrar. respondem: . tocando.É Luci Machado da Silva. conhaque.. despenteada.Você está vendo aquela bruxa ali? É Catarina. -Também. dissolveu a despertasse nela outras reações perigosas. Com pouco.Gosto desta casa! Gosto de você! NÃo é bastante alta para chegar ao botão da Não é gulodice nem interesse mesquinho. Catarina teimou. . que atende à sua requisição.Uma menina de sua idade. no espaço entre as duas ou ministro do Supremo.misturando uísque. de matéria mesinha da sala de estar tentavam a mão viageira. já disse . -Qual é a sua casa? -Esta.Foi a garota que pediu para chamar . Mas também podia ser que o álcool poltrona. .Quantas casas você tem? de bebidas incoerentes. olhando os Alguém abre. Ou lhe noção de residência. Em vão. frágeis se desfariam. residências. Esquece a O peixeiro presta-lhe esse serviço. monstro.Manda tocar para a Avenida Niemeyer. sua voz vinha num bafo enjoativo.Quem está aí? É de paz ou de guerra? De fora . preciso de ar frio. . merenda para ficar na sala. tornar a sair. vômito. Quando não é algum transeunte austero.. às vezes comendo pão com cocada.Abre que eu quero . . Na parede. pés estendidos. ar extremamente maduro das meninas de era de ferro.
Você vai ver se ele pega. que sugere terrores ou levar.Pois eu vou dar uma festa para as crianças . rebelde e decaído. João e Adão. .a rua e o espaço entre as duas quadras. Nas campinas da imaginação. . jamais os mitos do mundo (entre os seres reais?). personalíssimo com o primeiro encontro do dia .Vou embora para minha casa. Catarina virou aquela bruxinha preta. Edison. e que os prolonga. Nesinha.Mas você mora tão pertinho . Você é quem perde. recompensas fantasiosas. . e estas. você não tem medo do Pepino? partes iguais da vida e do sonho. representa para si só a imemorial história das mães.Mas que beleza! Onde você vai? resto da vida. Vem bêbado. encontram sua Volta meia hora depois. tirada em . desaparece o temor.Eu não vou na festa. estranhamente rua . Maria Helena.Comadre.fazem Pegador de crianças. para dizer à mãe. Seria realmente temor? Miguel e seu furto Gosta de ser acompanhada. A doença Sai voando. . e com uns panos velhos.Pega. recolhidas em conversas Você. repleto de preferidas a quaisquer outras. a galinha que salta do carrinho de feira .Tá com dedo machucado e dodói na barriga.Vou na festa. quando chega em casa: SABE-SE que nascemos proporcionados às . vem Elsinha. . Meu sapato branco. Circula na a conversa grave com pessoas grandes.será a verdade? -E Pepino? Senta-se no corredor. grandes. se não a constituem.Estou zangada com você. lápis vermelho. como é uma boba. pensativos.mexeu e quebrou o cachorrinho. Miguel nascera. não toma parte. saem da mesma boca inexperiente. Ele é camarada. tudo dizia que vestido limpo. carretel. o brinquedo surpresas _ geralmente à tarde. Pepino vai dançar para as crianças.Então vou dar no meu também. é parede como nos olhos fixos. ainda se vê o pequeno vulto desgrenhado. esquecer a festa.um expondo em frases incoerentes seus problemas Íntimos. Seu . e o seu? . Perguntas e respostas. Então. sim. Careca. horrorosa. .. Lourdes. . Você vai me enganado não será o adulto. Com a zanga. crepuscular. existem os sustos maternais.Tá bom. de castigo. quando deflagram. Não há pressa em ir para ela. Alice. Da existe. ante os soldados de Herodes. -. se acaso um intruso vem surpreender a criação. comadre. Mas tudo se desfaz. Barbara. . Para o . Eu sei. esse galope de formas . E resta saber se o . seu filhinho como vai? desta rua e convido Pepino. . mas que opera interiormente- um. qualquer elemento poetizável. Pepino tem existência mais positiva. Em outras palavras. varanda. . . alado. O objeto -Até logo! que serve de filho é embalado com seriedade.. pedrinha. de adulto. Entre necessário que se anuncie sempre uma festa. penteada. medida em nosso ser.Espia minha roupa nova.Não Assim pudesse a mãe antiga tornar invisível seu filho. existe mais localizada ou realizada. Heloísa. A bruxa está presa tanto na Para tomar banho e trocar de vestido.Pepino não pega ninguém. A merenda. Vai tomar injeção.fadado a grandes experimentos. A mão imobiliza-se.Espia quem me trouxe nossas ações.Espere aí. curvado. a porta fecha-se com estrondo. sua fascinação. calçada.
sem proclamação. inteirou-se das uma lancha apenas. hem? E com sorriso veio-lhe a idéia. o mimo da mais exaltados apologistas de Miguel foram pouco a repartição. só tinham pouco reduzindo o reconhecimento de seus talentos a reparado agora. tornou a ler: sim senhor. identificação com o mundo. mas que aplicação. de um modo geral. americana. material miúdo e telégrafo . Miguel não da televisão e do conto da francesa. do conto do bilhete premiado. manchetes: senão o próprio mar onde elas navegam. O piano de cauda foi furtado no último dispensava exteriorização. e este Vivia dos favores de um tio enriquecido no bastaria para torná-lo. proclamada. Deliberou o Por meio de vales. estando o diretor desaparecido. barcos. de resto.. andar do edifício. Sem desprovida de valor moral.. grande. e cuja posse garantisse a seu titular o pessoas nervosas costumam pensar em suicídio. respectivamente. Alguma coisa absolutamente indispensável a duvidoso que jantasse. Aqui se contrabando. da terra e da água. O netinho eliminou o pasmo deslumbrado que a pessoa de Miguel narcotizou a avó para roubá-la e comprar uma bicicleta suscita à primeira vista. o caixa e o contador de uma furto do mar.porte era varonil. algas. passeando olhos vazios. de um irmão jogador e. Decretada a falência de afundados. e a da simpatia coletiva. seu rosto radioso. evidencia a adequação de Miguel ao seu projeto. Sucede que circunstâncias especiais deste a Miguel. e era capturado. A verificação não armênio envolvidos num caso de suborno. do conto A força das aptidões. ilhas. que por sua própria extensão fosse diante de um navio ancorado em frente à Praça Mauá. Miguel viu-se sozinho. sua cidade e sua pátria. os dotes de espírito excepcionalmente bem-dotado. gaivotas. cascos milhões de cruzeiros da empresa. Três destilava confiança em si mesmo. companhia de aviação deram sumiço a vinte e cinco bóias. das mais velozes. Nos jornais estendi sobre a calçada. Desapareceu a estátua de Vênus. Miguel esparziam-se em desvanecimento sobre sua Entre tantos furtos do ar. ninguém se lembrava de até a lancha. esmagador. ou todas as lanchas e embarcações. às duas horas da tarde. os lancha da Polícia Marítima. e tranqüila fazendeiros recém-chegados ao Rio foram vítimas. recebimento de devidos e pesados tributos. profissão liberal nem descobrira qualquer técnica Medicamentos falsificados. um desenvolveu nenhuma. No Norte. com auxílio de guindaste. e toda a sua pessoa um banco. peixes. E foi quando esses talentos luziram mais. cetáceos. e a família verificou. Generais do exército moderna de granjear sustento. sacristão carregou com as alfaias e com o dinheiro do que ele nem aprendera oficio nem se incorporara templo. com suas costas. revelava subitamente toda a originalidade daquele ao mesmo tempo evidentes e invisíveis. embora não de ser sem dinheiro e sem programa. carcaças. pode ser que o tenha acrescido. faróis. reduzidos a pura essência. seu bairro. insuscetível de ser escondido. estava sumida havia já um ano . que não carecia ser Miguel fixou os olhos. imenso. não Miguel. e o Qual o projeto de Miguel? dom da simpatia humana murchou um pouco pelo Apropriar-se de algo considerável. Apareceram libras falsas no mercado. poderoso. uma consideração abstrata. do Museu Miguel era Miguel: tamanho feixe de atributos de Curitiba. Não tinha almoçado. Miguel resolveu chamar a si. e que. certo dia. Atingira aquele ponto em que as vida humana. antes criminosa. interromperam as atividades lucrativas dos parentes. mundo. Falando claro. família. Idéia excogitar. E uma Sendo a admiração sentimento extenuante. Miguel percebeu que um não fora ainda tentado.
a que ele não se dignou a sempre. estava ainda sem almoço. abençoavam Miguel. cada semestre. E alegres e guardar o mar fora de seu leito. que ele fosse cuidar desses problemas de organização Alguns pequeninos aborrecimentos não sem antes forrar o estômago.) As autoridades policiais que a deliberação ou intenção prevalece sobre as naturalmente tomaram conhecimento do ato de Miguel. foi materialismo rombudo. se bem que furtado. Era um furto a mais. de si mesma. (Os que repararam no pormenor de que Miguel. uma vez locomotivas. até então. raia do vasto objeto que dali se descortinava. alongou a vista. em questões de decência era implacável. que eram exíguos. não lhe faltaram utilidades. que devia ser absoluta no mar. Os jornais registraram como só uma exceçãozimha para casais de respeito. e maior do que este. depois Aproximou-se do cais. Mas a em rolo diminuto. ofereceu-se sem milenar desse veículo de comunicação. porque o não foram na aparência. ( Idéia são fluídos. mas só uma sutileza socrática ou um assentado que o mar não deixaria seus cômodos. que cuidou de assegurar novos peixes e novas pérolas aos pescadores. do mar. contudo operários. dele. Abriu não restava a menor dúvida.submarino: E se assim o pensou. poderão aumentar de vinte e cinco por cento as tarifas aduaneiras sustentar que tais objetos não tenham sido furtados na . estas em número Neste sentido conversou alguns amigos mais íntimos. trabalhariam na estiva. a fim de não acumular multo.em beneficio. Miguel era terrivelmente rico. Alguns cientistas pesquisavam o modo de reduzir A fortuna pessoal de Miguel cobriu a fortuna da uma quantidade astronômica a simples proporção da nação e do continente nunca mais que Miguel teve unha.) amor à moralidade. os armazéns da terra seminus. Da consumação do furto. Enquanto as obras a solução desejada. e medidas complementares de execução. nas obras de remodelação. e a partir do momento em que furtou o proibira as excursões de lanchas e iates de recreio. mero sonho. Miguel conseguiam turvar o cristal de sua beatitude. da chuva. em sua carreira centenária. e às a receptação para o volumoso produto de seu furto. sob o sol e o peso. em modernismo insólito. (Escapou-lhe o caráter inédito da operação. riqueza brota do fogo. Nos vespertinos. Miguel sabia defender-se. Não era a mesma coisa. que afinal se equiparam. ainda não era possível não tinham início. O mar continuou. donos. pois. porém os matutinos foram mais objetivos. furtou-o. podendo assim carregá-lo consigo. sua primeira providência. embora os alargasse a imaginação de seus lhes pagava um salário radioso: seu sorriso. o golpe de Miguel apareceu . mulheres de suas relações. atender. por mar. não logrando. como qualquer outro. Miguel deu trabalho a inúmeros quem pôs na confidência do fato. que se tornavam indispensáveis. da neblina. dado o uso Esta distinção. Miguel pensou em tempo para contar sua riqueza.) nas "Ocorrências Policiais". Miguel prometeu tardança ao espírito de Miguel. a avultadíssimo. e poderia perder a sua em proveito de qualquer cidadão o jornal do Comércio apenas lhe dedicou quatro linhas receptivo. Tecnicamente. do asfalto. de resto. com a devidamente colorido com os excessos de imaginação da presteza que a idéia exigia.é ato mental. explicou ele. O tesoureiro que quem poderia escusar-se a tomá-lo? furta de uma estrada de ferro não leva para casa trilhos e Com efeito. teria pensado o velho órgão. das obras de remodelação essência. em sua às quatorze horas. Então passou a queimá-la microfilmar o mar. seu Furtar . com ar de tantos outros. Não se preocupem. que já os solerte e apropriativo e. que se convinha. estranharão riqueza vinda do mar. estabelecendo mentalmente a anotara aos milhões. no mesmo lugar de Surgiram reclamações. e Miguel reportagem. assim o fez.
. correu à praia próxima. repugnando a nossa sensibilidade. não faltava quem advertisse. amanhecer no caíque. . na revoada de pássaros. se . e contas de aljôfar. para se introduzir nela um no mar.. consolidação da democracia popular nos Bálcãs. Nas vão tornando fisicamente sinistras à medida que nelas manhãs estivais. e cantos matutinos que vinham na qualquer estrela. princípio. morador em Ramos. Adeus. fugia a todas as classificações do direito penal e jornalistas. E inédita. qualquer da cidade. O garoto regalava-se ao banho imenso. um garoto de sete e os mentirosos passaram a contar menos histórias de anos. nada Aí começou o grande movimento nacional pela podia fazer. e sereias."seria Grécia". mulheres de morte. que do direito marítimo: era a primeira vez que se furtava o todo o mar lhe ofertava. que passava na rua. andavam extremamente mesmo de calça e paletó. por sua vez. Porque ~ Então outro menino criando também coragem.. pela voz de seus bom. e teve repercussão internacional. e foi uma sucessão enfadonha de Um caminhão. bramiam as massas. Teu reino seria eterno. Junto aos posto de reconheciam isto. E Miguel.. nem impedir aquele menino de tomar banho reforma da Constituição.. que praticaste um E a algum viajante nato. não podia ter efeito retroativo. nem ao mar de dar banho àquele menino. fugiu certa manhã de casa. e as angras calmas. atirou-se Alguns bacharéis meio arreliados bateram às triunfalmente ao mar deserto e verde. E mulheres. Os próprios adversários afoitos. poesia do largo! Reduziu-se o turismo. e com ele deste a medida de tua transe de exclamar' "Que bom viajar!” O ouvinte personalidade. era preocupadas com a solução do conflito na China e a perigoso. Movimento que empolgou os espíritos luz. e. tempestade na Marambaia. paralisado num ponto mar. os juízes por averiguar que a_ espécie era totalmente Outros meninos se juntaram. miguelinas e todas as recomendações domésticas. jamais seria maduras.. Em vão. mesmo de calções compridos. Raparigas em flor.dispusessem a pagar a taxa secreta de moralidade Porque Miguel permanecia indelevelmente sim marítima.. despindo-se. do céu. da atmosfera ou de cintilações. e pediam-lhe desculpas ao tentarem salvamento. infringindo todas as proibições . impotente.E. sair pelo mar . pareciam chamar crianças e moças. para espairecer . tornou. . assombrado.. ao contrário das personagens de romance. senhoras idosas que careciam de banhos aplicada. e nácar. que se O banho de mar é que foi uma pena . portas da justiça. Miguel inoperante. "Queremos pão para a sair um domingo em pescaria. representantes. em que a arrebentação tentava os lavra a corrupção moral. e Miguel velava pela existência de cada um. em mil dispositivo que impedisse ou punisse com pena de flores de espuma. Bem-aventurado Miguel. estacou. sublevar as massas contra seu poderio econômico As se Impossível cair n'água. à maneira clássica. nas ondas. um cara tão simpático! medicinais de iodo acompanharam-nos. E um rapaz .. E basbaques. botou o dedão n'água. e morte o furto do mar.. entre as ondas passando por cima do conflito nos tribunais e da rítmicas! Adeus. e outro menino também e depois conforme é da tradição liberal do nosso direito. A pena outro e mais outro. Foi um reboliço.Psiu! Foi furtado . indagação nas casas do parlamento. Quando não era imoral. mas só de avião ou por terra . massas. aquele menino. se adotado. prudente: Acontece que. E logo em Miguel. acabando desceu e veio admirar. em grande feito. ático. de sorte Se alguém aludia vagamente à possibilidade de que não tomaram conhecimento. retrucava. O motorista pleitos e conflitos de jurisdição e competência.
Todos os que viajam de pé sabem estava livre. ela. o bonde tinha de parar. guarda-chuva. Não havia lugar para O velho agradeceu vagamente: sem dúvida.atlético empurrou o seu barco e lá se foi a arar as terras no bolso do colete. entre eles um cortês. Voltou instantes depois. mortal. E outro apareceu com seu batelão. dispôs os tolhidos. e mesmo a menina só pôde acomodar-se em meu precisava disso. assim o prejuízo seria maior - explicou ao velho. e os postes.Não precisa. recomeçou a alegria no litoral e sobre as águas. onde ele ficou balouçando de leve. com a criança. O deslocamento de alguns milímetros é. . Tinha os movimentos estribo. empunhou. e extrair desse secreto lugar as verdes do mar. enfiá-los sua função preponderante. entretanto. O bonde seguiu. o . uma canoa. no momento preciso em que deliberaram ali mesmo não pagar mais tributo algum a passa o bonde. e o mais que aconteceu foi a moeda cair na davam as mãos. E armadores de navio ao passeio. e só à velha e abandonada alfândega. vazada naquele agradecimento impreciso. A garota sentou-se a meu lado. uma geringonça. sem a cor das nuvens. E não fora derrotado mesmo. A certeza de que não pagaria duas vezes banco porque uma senhora magra aí consumia pouco e perderia apenas os níqueis do troco restituiu-lhe a espaço. lembrança dupla. que apresentam a pratinha entre os trilhos. deixasse de ser passou a dedicar-se à coleção de conchinhas. Era de prever a dificuldade da operação a que se ao peito. e Como a linha. meio seco. o velho resignou-se ao mínimo com o veículo. havia base de rico. assumiu automaticamente via obrigado: libertar dois dedos da mão direita. pouco adiante. que se dispunha. Ninguém cogitou para a suposição. O condutor aproveitou o momento para pesquisar As conchinhas da praia. e ambígua. e. confraternizando. e Já então o velho estabelecera um modus vivendi desistindo de ordená-los. que eram pingente oferece perigo. Não sabendo que fazer dos acessórios. vinha. não os dois. Cabia-lhe não recusar nem aceitar: atitude Notei que a menina levava um pacote de balas. e arrimou este junto níqueis. depois de penosamente sacada do bolso. Era de dez confessou derrotado. um providenciava uma vela. ele que os possuía tantos. E mais perto dele. uma vigilenga. Miguel inteirou-se de tudo. mas sem prazer. desta vez com Conversa do velho com criança facilidade. havia troco. vigiava-o com prendê-lo. quando nasce o dia. fenômeno. a posição do uma jangada. Colocou o guarda-chuva no ferro do de desconforto na viagem. o velho serenidade e a compostura próprias dos caracteres dependurou-se no estribo. e o condutor aproximava-se. Miguel não se rua. firmes. Depositou em bancos sólidos boa parte de sua fortuna. O bonde seguiu. A vida. na desordem de seus movimentos. tostões. quanto à mão direita. O bonde segue paralelo e rente logo atiradas à flutuação. Na linha em que viajávamos. O mar às vezes. e como? E por quê? De alegria todos se interesse. E cada moedas devidas. uma catraia. Os que morrem têm tempo de verificar o recuperação. Vieram as autoridades e lavraram a disso. porém não de evitá-lo.O QUANDO O bonde ia pôr-se em movimento. o senhor não paga nada. com força. calma e Imaginei que o velho se arriscava a morrer dessa decorosamente que era mais um de seus atributos depois maneira. a tirar outra moeda. a mão tilintando embrulhos sobre o braço esquerdo. à espera de outro que discreta e nostálgica de sua propriedade oceânica. deslocam-se imperceptivelmente para Miguel. . senhor idoso subiu. meio que com o velho iam vários embrulhos.
ou escorria uma gôndola grossa. mas o homem. aposto. abriam-se alguma coisa de monstruoso. . Abre pra mim. . um preto que a sorrateira infiltração do pó tornava 1 Disse e sorriu para mim. com sentara no n banco e era miudinha. Um relógio .me outras partes mergulham na sombra. e os olhos mãozinhas seguravam com firmeza o embrulho precioso. . móveis nem chapéus. com exigüidade nas calças. tenho cinco. de uma tristeza particular e sem comunicação O bonde. amigo e amiga? objeto de cuidados especiais. simplesmente.de ( para dar também o gosto do nome comprido como trem de ferro. e neles se concentrava toda Enquanto chupava a bala.E está no jardim-de-infância.Eu também quero uma. .Me diga uma coisa. incompreensível. como o guarda-chuva -.observei. É de outra criatura? Ferreira continuava no estribo. sim. ficou balouçando. casimira de cor neutra era talhada com fartura no paletó. para uma criança daquele tamanho. velhas resignam à poeira. O nome é grande . certo é que chupou sua bala com uma simplicidade que O homem tinha 60.Maria de Lourdes Guimarães Almeida Xavier.balaústre e ficou responsável pela vida e segurança do possível que Ferreira houvesse compreendido. . O chapéu também era p de Lourdinha. porque não vale a pena. O oferecimento fora um ardil constrangimento. não a expulsando mais dos . de qualquer idade. a interrogá-la (e Deus sabe como me é difícil dirigir a No corpo de mais de meio século. No rosto vermelho. realmente sofredora do rosto. Só então voltei a reparar na menina. bestamente. equilíbrio assegurado. por instantes.70 anos. devia ser com o conjunto humano a que devia pertencer. e falava dessas casas onde todas as pessoas são língua. com a bala dançando na doce. Me dê uma aí. Gravata preta laço mais A vivacidade indicava um largo treino. eu não saberia interessá-la. tristes.Ferreira. você quer uma bola? Não fez caso. _ Você tem quatro anos. a chave para que Ferreira consentisse na abertura do pacote.sua vida -Jardim de quê? Ah! (muxoxo) Estou não. ressurgia na voz.O nome é maior do que a pessoa . e deixou de pensar em Ferreira. sulcado de rugas. a ponto anulá-la. sem .repetiu o velho. e. Quando encontrarás. não carecia a menina a expressão da fisionomia. As sabiamente em redor das pálpebras cansadas. A . Havia desajeitado que displicente. O velho desprendeu a mão do estribo . desatou o embrulho de balas. Mas a presença infantil relações. imagem do tempo . As rugas entrecruzavam-se de outra diversão. nem são percebidas. o bigode branco era ralo e não parecia Avô e neta? Ou. A Ondulou sobre nós. como e que você se c ama.Não. Ou era na paisagem de ruínas. e não envolve compromisso de protegiam-na. as vestes eram palavra a um desconhecido. .Quero. com o Evidentemente. morena. as criança tomava conhecimento do bonde? Surpreendi. Os olhos eram a parte O fato é que eram íntimos. em modestas e denunciavam o pequeno proprietário de qualquer situação): subúrbio (talvez antigo funcionário público?). Sentara-se essa condescendência mole com que se gratifica o na ponta do banco corpo do velho e seus embrulhos vizinho de bonde. um leve menina serviu-se primeiro. São comuns as criaturas em que apenas eu que não compreendia a maneira como a um só pequenino ponto parece existir realmente.devia bater dentro do colete onde tão mais interessante do que Maria somente.É. Ferreira. Carlos. que se . excluía a menor suspeita de reflexão. que era lépida e desejosa.
Ferreira .É você! É você! pausadamente. Você viu? SENHORA DE MINHAS RELAÇÕES . de temperamentos que se ajustam. sentarmo-nos é. O corredor exíguo fora. ocupou-o inteiro. Foi ali atrás. e trazendo de volta para aquele um fluxo de imaginei Ferreira vizinho de Maria de Lourdes. junto à boca lambuzada.Ferreira perdeu o dinheiro do bonde. mas Meu pai dizia que os amigos são para as também não queria ver sua identidade conhecida do ocasiões. Ele disse apenas: “ ah!. subornando-lhe o coração à comportamento moral varia com a posição do corpo. onde teoricamente há poltronas. Ali pois me os pais de hoje prescindem do respeito em beneficio da plantei agarrado a uma argola. que apontou altura do cordão. A vida dele estava salva. Ao que Ferreira respondeu. quase nunca .Não . algumas vezes. de pêlos. Assim é o homem: seu afeiçoando-se à pequena. mais baixo. você é o saci-pererê.” Certamente ele freqüentava a conversa de ambos. Seriam amigos? Os sobrenomes não coincidiam. a camaradagem consentida é menos estimável que do homem que viaja em pé e o coração do que viaja a espontânea. Maria de o dedo para Ferreira e insistiu: Lourdes. aliás. destinado à circulação. pôs a velha orelha. A ausência de respeito era outro. Num sussurro. pelo planejamento. em tom confidencial: EXTRAORDINÁRIA CONVERSA COM UMA . para si. E depois. cinco anos de diferença faziam o entendimento mais . Chega aqui. coberta . já que pessoas da mesma idade dificilmente se um metro. vermelha.ligar. roubando-a. mas pratinha amarela. e custa de carinhos diários.) Os dois calaram-se. grosso público. o É você. os postes haviam recuado perfeito. guarda-chuva e embrulhos desceram .. Era uma O ônibus repleto não convidava a entrar.terminou Ferreira distraidamente. Onde você perdeu? . os cinqüenta e de maus sentimentos. Ferreira. o prazer se combina com a necessidade: animei-me pois (Estava pensando em outra coisa. -Achou? urgia o tempo. e. dizer esta frase estranha: Ferreira inclinou-se. Os avós devem ter-se modernizado escravidão urbana e deixei que as rodas rodassem. Seria Ferreira um avô moderno? De qualquer Há um secreto rancor circulando entre o coração modo. amigo Ferreira. A Depois retirou do estribo o guarda-chuva e alçou-o à imagem invocada fez rir Maria de Lourdes. E sentado. de capacidade maior que a ao intimidade abandonada.Ferreira.Caiu da mão. na curva. não existe. entraram pela Ferreira sorriu o bastante para significar a Maria primeira porta aberta. a subir. atravessaram a rua. Exigências sociais converteram- e que nenhum vínculo de sangue forçasse aquela no em veículo à parte.. daí.. enfim. O bonde parou. que. oportunidade de cambiar Amiga Maria de Lourdes.Não. símbolo da modernaa camaradagem. entendem.. de Lourdes que não se importava em ser saci-pererê.ocupadas desde o argumento contra o parentesco e favor da amizade. com tranqüilidade: _ baixou os olhos com infinito pudor. A menina. Você é que é o sacio segredo grave passou de boca a orelham introduziu em Por que o saci aparecera de súbito entre os dois? Ferreira. sabe Deus para que penosas macerações. exclusivamente. Eu preferia que fossem amigos. também. indiferença e desdém. O silêncio deu tempo a Maria de Lourdes para . Mas começo dos séculos por seres privilegiados.
Ou la Chimerè s'exténue numa versão onde a cabeça assumiria demasiada Váut la torse et native nue saliência. num cabide solto no espaço teria o direito de ondular ao Embora não a reconhecesse. Mas. estabelecida em sua poltrona. como num quadro de Salvador Dali. que eu via do alto para baixo. e. que cumpre Eu ia resolver praticamente este pequeno pôr sob caução. e me era vedada a linha do queixo. A calça poltrona a poucos centímetros do meu cômodo mental. tornado quase doloroso pela agravante de uma circunstância: o momento indébito. satisfazendo as obrigações mínimas da muitas seções do plano horizontal. me Sorria-me a encanta ora senhora. a quem eram nossas relações. em ondas mais sangüínea dos lábios. já aboletadas quando subimos. outro. O sorriso é hoje dádiva tão sabor da viração. a nós espectadores. a caminho de nossos respectivos destinos. que O que não lograra decifrar a frágil memória não deixariam jamais de ser paralelos. quando a vista Não se desperdiçam sorrisos. solicitando-nos a novos hábitos. capacidade de sorrir. excepcional que só o concebemos dirigido a pessoas mas o homem em condições similares deve manter muito de nossa estima. acumpliciados no cerne de um fenômeno artístico da dia" em que se dissolvera aquele sorriso. a desvendar-me agora o oprimido canto de ônibus em que rolávamos para a aspecto ainda incoerente. e que logo me colocava diante de uma gentil contemplação da beleza. indumentária nos convocam ainda. máscaras. o próprio mistério das coisas. Voz que me era maior transcendência. e todo o partido que sabia tirar da espraiadas. impõe- encostos de onde nos sorriem. captou-o a memória auditiva. ocorreu-me que seria Quelle soie aux baumes de temps pela posição do rosto. . abrimos exceção para as pessoas de senhora de trato cerimonioso. se a acudiram os versos de Mallarmé: princípio não logrei identificá-la. se me turbou e com uma fulguração radiosa. como O atestavam digressões de ordem estética possivelmente não isentas a regularidade e a neve dos dentes. nos igualmente nova técnica de cortesia. diante do "bom. carnal. hors de ton miroir. a Era uma esplêndida senhora. Contudo. Minha distinta amiga usava um desses vestidos fisionomia porventura já bastante revelada antes nas que. significa uma sensibilidade de época remota. e há que ser Não me restava outra conduta senão a de sorrir gentil para com uma dama sentada. A mim me faltaria talvez o ângulo. qual seja o da exposição e o da familiar. de uma cidade. entre gloriosa e discreta. mas que a convivência elabora num alumbramento poético pois ele correspondia apenas a todo compatível. acabava de vislumbrar instalada na no teto de um veículo em movimento célere. mas subitamente visual. e que a devidas todas as homenagens. em piquê. porque inassimilado. Estávamos pois ali. polidez e outros freios nos inibem de expulsar dos A vida. que se oferecia a meus olhos naquele quase vertical. perfis e ângulos não E não havia nada de estranho nesse raro divergentes. a úmida fita de sensualidade mas atingindo. Sorrir para alguém que não compostura e mostrar-se afável e atento a uma senhora conhecemos ou que é simplesmente nosso conhecido. eu e aquela estimável como se chamaria? senhora. de costas equilíbrio depende da fidelidade a uma argola suspensa para o motorista. quando o nosso também para a encantadora senhora que eu. mas cordial. Os rostos Que. problema de estática e de boas maneiras. tu tends! que conhecemos são a síntese de vários flagrantes sucessivos e superpostos.
ai. se a entendermos bem. É preciso ver e Não era também desses vestidos adolescentes não ver. e até mesmo coletes curtos de novo tipo os de partida de uma meditação infindável e celeste. (Sabe-se que leves armações de na dupla função de recolher e desvendar. os braços! viajores. Certo. um desses exemplares a que o percebe. com as aquilo que melhor se defende pelo resguardo que pela costas protegidas pela poltrona. e ainda mais. ou não pude. e no entanto como aderem à superfície num mundo de idealidades e enigmas metafísicos.segredou em mim o moralista. em armá-los. E assim me . mas. começam (ou acabam) onde a dama quer. fruição visual. é preciso escolher. de sorte que os braços parecem destacar-se do conjunto. rosto magnífico da senhora. iridescendo vaga prudente impedir a idéia de transpô-lo. com resguardar penugem. e perdia-se mangas e alças. era o limite. impõe um rito. Só a mostra nos prova e nos avalia. ruminava o problema do limite. cenário onde apenas se deve ultrapassar. escultóricos e tépidos. cujo ápice está descoberto -. e nada havia ali no cotidiano até os ombros . Se a interessada pretende prolongar o colo até seus arcanos. Sim. demasiado simples! – técnica para isso.) No caso vertente. Eu panorama das espáduas é como o amplo cenário vazio. justo no limite em que o humano olhar se mesquinhas. pode ser ponto barbatana. A beleza a que me refiro não se concentrava no homem da rua qualificou um dia de "presos sob palavra". não há. para . se perde a alegria da casta aguda prospecção. daquele ônibus que me prevenisse da Irrupção da beleza. não menos delicado que róseo e dourado na expectativa dos objetos e figuras com o do sentido das coisas. libertos que estão de elegia caminhos de sua própria invenção. Como. tanto mais quanto qualquer olhar de mais arrisca à vertigem. a emergir da omitir. responder. a bem dizer. acabava em qual não me sentia habilitado em circunstâncias tão bom lugar. embora nele tivesse origem. sentir e não sentir.Como vai? usarmos de linguagem cosmológica. e no qual o À qual não soube. nesse caso. porém. porque era desta separados que ficam por uma fina e espumante linha modalidade que se tratava e essa é a que via de regra. e tanto é e reentrâncias do corpo já não contam para o fim de esta abstrata como concreta. e com freqüência é uma simples Descreve-nos o vestido . Sorrindo. pois aparentemente nada os retém.pedireis. preparação. dona de todo o meu sincero disputar em torno do limite das coisas! Não há estatuto respeito. podia muito bem ser tomado como impertinente pela Sim. com ela. haveria que digna senhora que ali estava.os ombros. De resto. prossegue. e. mais pasmo nos provoca. exige orla de tecido que. na posição em que se achava. há um limite que se não que o pintor o povoará. porque a beleza tem suas horas. artificial. a elegante Faltam-me os dados técnicos desejáveis. é preciso em que a cabeça parece boiar como flor. que me sentisse inclinado a emitir. reserva mental que no-lo impõe. pois saliências convoca. não seria mais desenvolve a presença da luz. Não serei indiscreto assinalando algo que logo se Era. longe de afugentar. onde lhe apraz. autônomos. mas senhora dirigiu-me esta frase que não significa nada. tão íntimos são os laços da perfeição. em suma. impossibilidade Um simples vestido . e lá vão. afirmarei que não era desses onde uma alça em torno do nem mesmo pede resposta coerente: pescoço se diria sustentar o equilíbrio das esferas. que o carnuda sobre que pousaram! Vestidos são esses que espetáculo de certas partes naturais. marginando todo o colo. Sem seriam as excelentes espáduas daquela senhora? oportunidade não há responsabilidade. de que préstimo artístico mostra? Não . que o estabeleça. para a sustentam por dentro. da beleza recôndita.
a companheira de apanhá-las.o coletivo nos jogava ora para a direita ora para a esquerda . Est-il art plus tendre Pensei ou disse a estrofe? Ficou entre a região Que cette lenteur? mental e a palavra. E a senhora como vai? Seguia-se. podia perdurar em um transe que exigia de mim. aliás. mas.. Mas que na verdade que eu que a saúde.sim. que lera Paul Valéry. gentil. que poderia mesmo ser. na ordem natural de tais palestras. circunstâncias se haviam interpolado para torná-la muito Já não me lembra mais o que me disse do bairro preocupada. de desvanecido. de quem? Era meu dever perguntá-lo. o sorriso pairava ainda depois Desculpai-me.. e sempre era um começo de conversa. e prosseguia a entrecortada meritação poética sobre curvas . sem maior risco. méandre. área de manobra de que dIspunha. graciosa e respeitável senhora eletrocardiograma. _ Vou bem. equilíbrio físico. em condições de ficou pensando de mim (ter-me-á achado apenas idiota? preocupar-me com as ondulações de um gráfico Seria o juízo ideal. porque pequena era a viagem. teria cabimento. Mas . boa educação. Inclinou-se. o tempo. e também me inclinei para . Uma Ao que lhe retruquei: forma de arte pede outra. quem sabe. pergunta solícita: Je croís voír des fronts souveraíns O Courbes. . que não implicasse recordação de lucubrações. em desastre. Éclatés de leurs découvertes! Secrets du menteur. bolsa e as luvas. se não a considerais sequer uma conversa. doce linha sensível. em novas aplicações de versos antigos. a acuidade.. de comentário ao desconforto dos transportes urbanos. O ônibus corria.repetiu. Mas confesso que esta me enigmático. e qualquer sorte. no caso).e o cristal dos versos se Um escritor nasce e morre trincava entre hiato de molas rangentes. do pareceu a conversa mais extraordinária de quantas. alto controle um coquetel na embaixada da Bolívia e não sei que mais emocional. varara a penumbra de minhas alguma anedota breve. de minhas relações: nem o que lhe respondi. e ela própria. o cinema e os concertos no confesse: a acuidade lírica excluía toda aptidão para Municipal podem ir lentamente se aglomerando e conversas de momento. capacidade de sublimação. hei tido com senhoras de minhas relações.. caíram-lhe ao chão a um círculo. nem o que mas estava eu. Mas parecia evidente que as sugestões e antevisões que aquele momento me A estimável senhora. e discreta. por minha vez. porque um gatinho siamês de sua maior ternura. ao Pareceu-me ouvi-la responder que não ia nada mesmo tempo. proporcionava iriam tomando o rumo da memória de pegou-o no vôo: _ Está fazendo exercício de memória? poesia.Como vai? . mal constituindo base razoável para a travessia até a cidade. Então pronunciei estas palavras aparentemente Dures grenades entr'ouvertes fora de toda e qualquer conexão com o objeto da Cédant à l'exces de vos graíns. vista bem. e todas se completam. até o coração de um gato? dia presente. o A resposta meio alvar saíra atrasada. havia também na conversa um até o centro aquela fina. A um solavanco mais forte.prendia no círculo fechado dessas interrogações .
Julgou-me não ser bonecos sem pescoço. bonecos de pau). Então nasci. uma igreja e uma escola bem sucumbindo. sendo professora D. Me dá aqui. apertou-o irresistivelmente. nem eu . em minha descrição da interpelação de D. nova de quatro ou cinco anos. apareceu. vassouras. o sol que grande escritor. a expressão "tímidas cecéns". A igreja Ele fez uma descrição muito chique. No sobre complicações ortográficas mas passava adiante. Emerenciana escritor. homem simples. onde um padre Isso durou talvez um quarto de hora. Não façam isso. mostrou que está também era velha. na sala. trazendo países inteiros. inclusive o naufrágio e a visita ao vulcão.Juquita. Minha mãe. a escola. senti necessidade de escrever. As cidades vinham surgindo na ponte era inteligentíssimo. um condor surgiam A viagem ao Pólo foi cuidadosamente destacada misteriosamente. Lembro-me: nesse dia de julho. A cadeia era velha. Meu pai. . nevoeiro.. descascada na parede espetáculo da humilhação. e a professora traçava no quadro-negro nomes cabeça enorme. com assombro para mim.Vocês estão rindo do Juquita. porém. do caderno onde se esboçara. declarou comiam.Tico achou-o.. A aula era de no Rio de Janeiro havia um homem pequenininho.. quê que você está fazendo? . Emerenciana: primavera.. Você ainda será um grande sala do 3° ano. levantei-me. de geografia. e rematou: . . Ganhei uma ssinatura do Tico. Em uma delas meu retrato . e que se chamava ponta do papel. onde havia uma cadeia. Mas sabia que descia da serra era bravo e parado. e que a professora de um rio. Emerenciana passou os dos fundos. não avaliava o que fosse um despretensioso. O indignou. e em meus nove anos dos nomes. E aproveitando bem as aulas. Juquita. . abriu uma exceção para escutar os vagidos do mão avançou para a carteira à procura de um objeto. Barbosa. na pequena cidade Eu relutava. escritorzinho.. Devia ser.Continue. abandonada no É talvez a mais curta narração no gênero. porém não tinha o mesmo prestígio. era o lugar Uma pausa. de bom senso representando as mãos. Foi aí que nasci: Nasci na . e Paris era uma torre ao lado de uma ponte e achei com certeza. Cá fora. gozando já o Turmalinas. um esquimó. e valeu-me a introduziu criminosamente.. a c asse toda olhando. flores de papel. o braço duro segurando a próximas umas das outras. Nasci numa tarde de julho. Dez primeiro capítulo para alívio do Marechal Lopez. escreveu alguma presente régio naqueles tempos e naquelas brenhas. a Inglaterra não se enxergava bem no me comparava a Rui Barbosa. a superestimação de meus talentos. . uma história da Guerra do Paraguai.Me dá esse papel aí . internato. Não me pagavam nada. fui redator da Aurora Ginasial. minha integral. era analfabeto e A maioria. Nesse momento. com adjetivos. e conduzida em triunfo De repente nasci. que fazia discursos muito compridos e de países distantes. com cinco riscos predestinado. Eu próprio não avaliava. D. Deixei Turmalinas. Até então. não respondi. poesias e Turmalinas ao Pólo Norte. e coisa parecida com a narração de uma viagem de passei a escrever contos. . mas seus óculos eram imperiosos. para casa. Escrevi. um grande escritor. revistas literárias passaram a abrigar- rosto ficou mais quente. naturalmente inclinada à Nunca pensara no que podia sair do papel e do lápis. menos estimado de todos . dramas. que me . que Deus tenha. me com assiduidade. linhas. Eu II escrevia com o rosto ardendo e a mão veloz tropeçando ESCREVI. romances. Deus sabe como os presos lá dentro viviam e óculos pelo papel e.. mas exercia sobre nós uma fascinação à classe: inelutável (era o lugar onde se fabricavam gaiolas. isto é. Ela insistiu.
E não . e a cidade esqueceu-me. é especializara... viver não era fácil. antes de ir para a Meu sorriso gauche. .podia admitir que literatura se vendesse ou se comprasse. Não impressionar. Sabia que os homens Não houve resgate. Minha literatura assumia feição masturbação. suficientemente íntegros (ganhei fama de irônico por Escrevi muito. E sempre a descoberta do meu trabalho. gozei de evidente notoriedade. sacrificava-se com galanteria às belas-letras. Eu escondia meu crime. louvados por meus companheiros de geração e de feita de gratuidade absoluta. no fundo.. eu sei . despertava a sensação incômoda do resto bem simples. impressionado. ainda me pediram. O escritor tornou. amigos. Eu não era um literato que se as partes pudendas. acrescentava III outra voz interior (borborigmo. talvez). . É O sujeito afastava-se. consistia em jamais pronunciar ou homem que foi encontrado nu e não teve tempo de cobrir sugerir a palavra literatura. que para mim próprio Nunca mais voltei lá. a que faltou. e eu a reputações nacionais não se estabelecem de outro modo. mas vegetando não obstante.. de ainda em plena rua.. o número de sábado.Dois volumes de contos e um de poemas. sua maior ou distância e cabritos pastando na rua. com alguma coisa de nativo e contrariado na Todos . existem. Rente a meu pensão. um pouco estranhos a uma terra em que a hematita IV calçava as ruas. A forma viesse a resgataro melancólico abandono em que. fazendo da literatura um segredo de saber-se literato. e nada disso contaminava meus pedindo para fazer uma página sobre o Pico do Amor ou escritos.. outros rapazes faziam o mesmo. E escrevia. a Careta e a Revista da Semana publicavam origem. e que os críticos acadêmicos olharam com ombro. Dessa incontaminação brotara. Meus requintes espasmódicos eram Eu escrevia. publicou . dando às almas uma rigidez triste. Minha tática. certo trabalho de jardinagem. meu nome em letra de forma comovia a Autor. "Artista puro". Nem sempre havia numerário suficiente impossível viver sem fazer inimigos. mesmo. todos ou quase todos poemas em prosa.. Quantas vezes meu coração bateu quando os dedos Distribuí as edições entre jornais. com progresso a 50 quilômetros de maior ou menor gordura dos homens. sublinhava a intenção Turmalinas. e dava esperança de que o meu talento não tinha projetos. orgulhoso anunciava. para duração. entretanto.se urbano. sofria por de tê-lo cometido. murmurava dentro de mim a ou morreram. compreendia menos. simultaneamente trabalhos de minha humilde lavra. Muitas verdade que Turmalinas me compreendia pouco. mas um homem que. Escrevia realmente para quê. desprezo. que viver não é fácil. Eles é que para adquirir todas as revistas. A fio. menor fome não me preocupavam. quente. ela se arrastava.. não acredite . eu me atribuía essa dignidade exemplar. em que me . o Para estranha. Sobretudo entre as últimas. certa a Fonte das Sempre-Vivas. trêmulos. vozinha orgulhosa: ". de dentes não pensão. Eu pequena cidade. tipógrafo e público não saberiam responder.Calúnia de meus inimigos. pessoas que folheavam. ao traia o espírito". e mulheres a quem eu desejava cheirando a tinta de impressão! Publicou . à noite. Havia semanas em que o Fon-Fon. anos a redonda ou quadrada do mundo me era indiferente. Não tinha esperanças. De lá ninguém me escreveu. Meus parentes espalharam-se vaidade. e então o copo de leite espalham isso. escrevia por quê? Entretanto. não me pejo de confessá-lo. Infelizmente.O senhor escreve coisas lindíssimas... com pão e manteiga. discreta da negativa. Como o espírito Publiquei três livros que foram extremamente não protestasse. Em causa do sorriso envergonhado).
que procurei desmoralizar na primeira proibia-nos o aconchego das igrejinhas. genebra e gim. Algum tempo mais para regular os sinais colaborar no Grito Proletário. afirmava o rumo seguro de minha geração. fixando. ao . recebiam manifestações de apreço. pão e fruta às casas. Como os dromedários. o infelicidade. Voltou-se para a velocidade aos bondes. um Curso de Alimentação anos era não somente absurdo. Era como se eu Aleixanor. O ambivalências.queríamos nada. geralmente pessoas sem complexidade. Vários compraram lotes. se entretinham na interpretação onírica e confrontavam eram a meus olhos monstros de intolerância. Em verdade. o nosso individualismo fundamental Psicanálise. passavam do Fugindo aos mais velhos.s optavam. vitoriosos em concursos de afora. Esses louros repugnavam-me. Éramos muito manifestos. seria natural que nos suplemento de domingo a página editorial. Licurgo. chamados a trabalhar em gabinetes de secretários de As mesmas fobias em cada um de nós. inveja. a Sociedade de Aculturação Ário-Africana. Era só o que sedentas de verdade e metafísica. Eu perseguia o mito literário. quando emudeceu. todos se haviam mudado para as cidades em frente. o Instituto de Genética. Cubo de Éter". ter mais de 45 Gramáticos de Ouro Preto. e começando a deserta. para introduzir nele Amigos dos Livros de História. de Lenine.aventurados que acadêmicos.. conquistou um cartório. os acadêmicos mereciam Grupo Deus-Pátria-Justiça-Ensino Profissional. solidão .. fato de terem quase todos mais de 45 anos apenas Fundaram-se. e eu o Nunca meus poemas foram mais belos. Até certo ponto. relógios? . não podem ser responsabilizados pelo gênero de vida Todos. dentro em mim. tendo comprado num sebo as Cartas morasse numa cidade que. geralmente. a Academia dos um grão de piedade triste. e nossas conversas de bar. outros eram Cultivávamos mais ou menos os mesmos preconceitos. havia em torno de mim. recalques e malícia e incompreensão intensamente misturadas. inofensivos. introduzindo sub-repticiamente entre os sócios. em redor de mim. Desgraçadamente. Todo. o Clube simpatia. tinham traços de ferocidade e autoflagelação. Éramos reunião. implacavelmente. volumosa quantidade de academia de letras reunia os gregários. que lhes impõe o vício de nascença. Em cada estado do Brasil. escreveu e distribuiu resto para que bondes. que compusera comigo o "Poema do mas sem fé. fosse ficando aos Operários Americanos. A poetisa Laura Brioche fundou um Clube de O meu. uma antes da votação dos estatutos. noite floração de filhos. animais estranhos que Esperantista Limitado. pouco a pouco. distribuía louros uísque. extraordinário. Estado.que nesse tempo pregando os novos velhos tempos. ferozmente solitários. De ação política. gravemente seus respectivos complexos. A afastamento recíproco. como prova de extrema Racional. Nos jornais. carne. descobriu certa noite o tomismo. sucessivamente... meus expulsei de minha convivência. e os mas restaram aqui e ali grupos de bem. não esperávamos nada.. elas nos impunham o cauteloso Um deles. sofreu de minha parte uma luminosos nas esquinas. se iam afirmando.. a Associação dos adoçava esse sentimento de repulsa. puericultura. como acontece de 35. e desfrutou de certa notoriedade até o golpe felizes embora não soubéssemos. os de 20 a 25 anos. A sessão dissolveu-se em álcool. campanha de descrédito intelectual. Entretanto . Solidão. perturbando almas de crescente solidão. fundou sindicatos. Já não via ninguém. começaram a edifícios. Alguns ligássemos uns aos outros. dar corda aos relógios. Mas sua voz continuou contos e crônicas mais fascinantes do .
e agora pareciam escurecer: mudar pequena cidade. ao sul. ela não apareceu. Mas eu andava. O amigo de Joel quis deixar o Risquei um fósforo.. ruas que outrora Sorvete – Joel e seu colega moravam em uma me eram familiares. doida. pelo contrário. Moravam em uma cidadezinha uma casa isolada de onde. Joel comeu do mesmo jeito e o amigo foi obrigado a comer também. porém ali estava a confessar. A doida – Na cidade havia uma doida. só que tinha feito 30 anos. Abelardo. para quem vinha do campo de forma. pois o pai logo estava dentro da casa e os outros meninos já tinham sempre lhe dava dinheiro. Miguel. saia uma nega que onde brigar era coisa comum e questão de fazer valer sua por três meses ou menos trabalhou ali como doméstica. Os meninos mesmo brigavam muito entre si. era o meio palavrões. ofereceu. quatro justificativas do porquê que se tornara louca. Com a chegada de alguns ido embora. mas em uma tarde ao passarem pela confeitaria decompunham . Depois disso Tito. primeiramente o menino disse chegar. já sob a escuridão absoluta e filme para ficar e tomar o sorvete.. tinha ido pra cidade grande como: “você vai almoçar com a doida. Então morno Dou minha palavra pensavam no sorvete.. dormir. Abandonaram o filme e foram à de honra que morri estou morto. eu não queria acreditar . um estado de espírito que se cinema.. que encontravam e ela sempre comprava.norte. Vivia em meninos e uma menina.eu continuava. Lá não conseguiam prestar atenção. uma geração. que já tinha o perdoado. viram um anúncio em que se oferecia sorvete de abacaxi. Tudo ia escurecendo . honra.. chegou ao seu irmão mais novo com quem sempre percebeu que ela estava à beira da morte e se brigava e humilhava nas lutas e pediu perdão. vendiam a ela coisas dos garotos encheu-se de coragem e penetrou o jardim. A visita . Ambos tomaram até o fim aquele sorvete que odiaram. queriam vê-la sair da janela gritando seriam diferentes. Experimentaram e odiaram. que era o penúltimo filho. mas depois deu a ele pra se redimir a pena de levá-lo montado em suas costas e a Presépio – Das dores era jovem e seu pai a cada distância gritar que era um burro. O Os adultos para assustar as crianças faziam ameaças filho mais velho. a única filha mulher. Ester. de cheiro: de tal modo estavam ligadas a uma já era de se impressionar. Rolaram no chão em brigas e no deixara de viver. Certa vez um grupo de meninos tacava pedras imaginavam que com o irmão mais velho ali as coisas na casa da doida. porém acabaram indo na lâmpada que minhas mãos concha formavam. no entanto. no entanto. Os meninos costumavam ir ao época.. ficando junto dela esperando o momento se a fazer qualquer coisa. morar fazer o colegial deixando os outros irmãos que sempre com ela”. tinha um namorado. O mais novo dos rapazes conseguirem dinheiro. às vezes. Naquele outro dia não puderam comungar. percebi para o cinema. especialidade da casa. Na casa suja e destruída encontrou um padres na região os meninos foram levados pra quarto nas mesmas circunstâncias.. Contos de Aprendiz Deixar o sorvete na taça era ferir a honra da família. escurecendo . e eu passeava lugubremente minha solidão nas ruas que ressoavam a meu passo.. Nem por isso a menina lhe chutou as virilhas. bem morto. ao vê-la não quis mais machucá-la. muitas A salvação da alma – Eram cinco filhos. Como o irmão enchia de tarefas para que ela não ficasse com tempo passara a andar devagar com ele em cima o mais novo vago pra pensar em bobeiras. compadeceu.. dia era véspera de natal e ele tinha ido visitá-la. confeitaria.
caminhando Abelardo. Era isso que afligia Bonerges desconfiando enviou dois homens para que Das dores. porém era familiarizada. mas tinha traços de cães de raça. Foi em meio a isso que ouviu barulhos pirulito gostava mesmo era do homem e ele do que o fez voltar à sala. mais sem pressa. Valdemar convenceu o preso de se gostava de gente “velha”. ele se lembrou de estimação. no entanto. no entanto eles voltaram alegando nada ter terminar aquilo a impediria de ir à missa de galo para ver encontrado. quando era menino e como a imagem dos presos já lhe Ao filho mais novo foi dado o título de dono. Valdemar deixou o problema com os essa história. Ela conhecia bem o relógio e como as horas então chamou o capitão do destacamento policial. Até que chegou por ali preocupações. A mulher não era muito chegada a animais de Embaixo da câmara ficava a cadeia. mas seus bafos eram de bebida. mas logo desconsiderou.atrasou a finalização do presépio. Então certo dia o cachorro sentar e ali ele contou que abrira a fechadura e saíra. A menina de tanto Beira rio – As chamadas terras da companhia acompanhar tais eventos se habituou ao cemitério e por eram lideradas pelo capitão Bonerges. confusões. sua cova. claro que agia de forma uma voz distante e suplicante que todo dia ao mesmo escondida. telefone. mas não se aproximava. o homem até pensou ter sido ação da tinha ido até lá para ver os homens que pisam na cabeça esposa. contou também do calor e das nojentas tinha ido embora como muitas pessoas fazem. os irmãos ainda a chegaram e logo o negro afirmou ter licença do governo atrapalhavam e a visita de amigas para combinar o para ter aquele comércio ali. os homens gritavam querendo o submeter conversar. não passava cobrados. aquela que nascera em uma animação e disposição para o trabalho nunca visto. O calor abafava a sala e ele o pra casa e já lhe dera o nome de pirulito para evitar foi até a janela onde ficou olhando as redondezas. Um preso havia fugido e ido lá cachorrinho. porém nos trabalhadores logo se encontrou horário pedia sua flor de volta. E foi em um de seus passeios que alcoólicas eram proibidas e talvez por isso os arrancou do chão uma florzinha insignificante e. vivia em uma casa ao lado do cemitério. Eles voam quando se precisa dela. lentamente mesmo ao som dos tiros. ela era a única que sabia montar corretamente rondassem o negro e o retirassem das terras com suas o presépio e tinha que terminá-lo naquela noite. Até que Valdemar levantando disse que teria que prendê-lo novamente. entre todos aqueles homens só um de um vira-lata. A diversão muitas vezes era assistir os velórios. não tinham o que instantes depois. a lançou fora sem maiores lhes fizesse esquecer a realidade. os meninos até implicavam. Bonerges Abelardo. Das dores montava o destruíram a vendinha e todos os produtos obrigando o presépio. esse foi. desapareceu. Foi ai que começou a receber ligações de um negro que vendia bebida. o preso naturalmente Flor. Lá as bebidas lá já passeava. Valdemar. mas bebidas. moça – Uma amiga lhe contou tentou fugir. gostava do bichinho. Uma moça morando em uma cidadezinha policiais que já o perdiam de vista na fuga. mas em cada objeto só via e pensava em negro ir embora. pois o cachorro à sua “autoridade”. Como as ligações não paravam a menina . no entanto os homens horário de irem à missa também. só sabia que o amigo dos presos. Levou- fazia o trabalho. trabalhadores fossem tão desanimados. Os dois eram companheiros e se punham a para a câmara. Câmara e cadeia – Estavam todos os homens da Meu companheiro – O homem na estrada pagara Câmara Municipal ali discutindo os impostos a serem mais que o necessário por um cachorrinho. refeições da cadeia.
estabelecidas. findado o seu sustento. Às vezes a menina não queria ir poço que sobrara. entrou no quarto e pegou o que pegava as crianças. Teve por fim uma última guardar as coisas que constantemente adquiria. e outro menino entrou e de repente todos depois do beijo. outra vez depois do jockey novamente quando Miguel e seu furto – Miguel se tornou um ia beijar a dama em despedida passou correndo em um homem simpático. Samuel foi afastado do banco se apoderavam novamente do mar. dormia em sangrando. O médico avaliou que o dedo tinha perdido jornais. Ele se dedo lhe foi arrancada. o evitar a mão bisbilhoteira criaram Catarina. Porém. E assim o fez. A voz não parou e ligou Na manhã seguinte Samuel voltou a São Paulo sem até que a menina de tal forma perturbada morreu. Tratava-se de uma rica não tinha permitido. e procuraram em centros ajuda. como o imposto pago a Miguel e a ao mesmo tempo em que um garçom passava a ponta do proibição dos banhos para manter a moralidade. baronesa. finalizar o negócio que tinha levado ao Rio. E no dia da entre duas casas. para as quais ia sozinha mesmo. porém apenas bebendo muito. quando foi se despedir entrou roubas corajosamente nadou no mar e logo o povo um homem vendendo lâminas e o dedo da viúva sangrou juntou pra ver. era o gerente motivo pelo qual ela tomava banho. A essa altura as mulheres temiam tornou tão rico que queimava sua riqueza para ter onde os cumprimentos de Samuel. porém ela tinha adquirido . Os dois passaram a acreditar no conteúdo espiritual daquela voz continuaram o encontro. A baronesa – Luis vivia naquela casa há um bom Nossa amiga – Uma menina de três anos vivia tempo e só vira a rica baronesa quatro vezes. Por fim. o mar ficasse no mesmo local novas regras tinham sido Em uma festa. Festas era o O gerente – Samuel não se casara. Renato chegou. E Pepino que era um velho bêbado e curvado apoderaria. Com isso. dama com quem tomara um sorvete e conversara sobre o um dia um menininho saiu correndo e arrancando suas inventário e outra coisa. quebrou-o e virou uma borboleta senhora e quanto mais cedo se chegasse de mais jóias se “bruxa”. trabalhando no banco de lá. vivia a freqüentar a sociedade também de mamãe. ia embora dizendo que não viria à festa. Chegou a casa dele e juntos voltaram para que por brincar com um cachorrinho de vidro que a mãe a casa onde a baronesa vivia.contou aos pais que pediram ajuda policial até que só uma infecção e teve o braço amputado. porém nunca assumira uma posição cavalo um homem e logo se viu a Mão da mulher na vida e agora. mesmo que Samuel. a polícia o questionou mas em nada resultou. usando frases colhidas da conversa até que incidentes se deram. que perdera a ponta do dedo. e depois saiu do quarto. uma dama a quem cumprimentava essa começou a sangrar. Miguel depositou sua e foi morar em São Paulo. uma menina sobrinho-neto. falavam que iriam dar uma festa e chamar Pepino só entraram no banheiro e fizeram a partilha justa das jóias para a menina ver como ele era bonzinho e ela com raiva da morta. Para morte dela. Primeiro ao beijar a mão de dos adultos. Luis o esperava. E foi lendo as manchetes desses que teve a sua ponta através de uma mordida e logo acusaram grande idéia de roubar o mar. brincava bem sucedido do banco. novamente ao cumprimentar uma dama. incomodando a posição de morte da embora de uma casa para outra com medo do Pepino. saiu correndo em busca de Renato. fortuna em bancos seguros e passou a colecionar anos depois voltou ao Rio e se encontrou com a viúva conchinhas para se lembrar de sua ex-propriedade. mas logo voltava arrumada e de banho tomado.
a professora tomou o tesouro e o velho vinha carregado de compras e em pé. como descobriu cidadezinha pequena e em uma aula de geografia a perguntando. sorriram. E a senhora como vai?”. escreveu contos e poesias. “Vou bem. Depois disso o ônibus parou e ela desceu. não gostava de se achar um escritor literado e fazia porém essa lhe caiu das mãos indo parar na rua. ele não a ouvia pois se questionava sobre ultrapassar ou não os limites. ela estava sentada e. Extraordinária conversa com uma senhora de minhas relações – Ele estava em pé no ônibus se segurando pelas argolas que ficam no teto. até porque a via de cima pra baixo. o valor que dava as curvas certas e os limites que impunha. Ele não se lembrou da imagem dela. Ao fundo ouvia uma voz que lhe o bonde e procuraram a moeda e como não a acharam o afirmava ser um artista nato. No entanto. ambos eram amigos. percebia-se também que a menina só oferecera a bala para ela também poder comer. Conversa de velho com criança – Ele observa o Um escritor nasce e morre – Ele morava em uma velho e a menina no ônibus. Quando o bonde parou os dois desceram e o homem ficou a se perguntar se eram grandes amigos ou apenas vô e neta muito amigos. Pararam críticas aos outros. sendo pra ele essa a mais extraordinária conversa que tivera com damas de sua relação. Ela lhe perguntou como ia e só na segunda vez que ele a respondeu com versos. como eram conhecidos. segundos depois corrigidos pela pergunta certa. Ferreira que aceitou. Foi assim Quando o cobrador veio. com dificuldade o velho que ele cresceu e foi embora. eletrocardiogramas e etc. A menina ofereceu uma bala a morreu. Não conseguiu e se pôs em avaliações sobre o vestido dela. . A menina trazia um pacote de balas como a um da sua cidadezinha ao Pólo Norte. Então aos trinta anos velho não teve que pagar. A menina. então quando ela o cumprimentou com um bom dia tentou decifrar quem era através da lembrança da voz. ao que ela lhe falou sobre sua preocupações com um gato. chamava Maria de Lourdes e o velho professora falava sobre países longes e citou o Pólo descobriu que chamava-se Ferreira ouvindo a conversa Norte. foi ali que o escritor nasceu. arrancou do bolso uma moeda para pagar a passagem. texto e o afirmou como um grande escritor. notava-se só de olhar. Escreveu a viagem dos dois.