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ACAMPAMENTO DO SAJUP :)

O acampamento do SAJUP de 2010 aconteceu nos dias 6, 7 e 8 de agosto no


tradicional espaço da Casa do Trabalhador. Chegamos lá na sexta à noite e
começamos com uma mística de “semear e queimar”... Já nesse dia, contamos
com a presença de Diego Diehl e de Ricardo Pazello, ex-membros do SAJUP,
e de Luiz Otávio Ribas, outro conhecido da assessoria jurídica popular.

“Eu quero semear a paz entre os povos e queimar a inveja e a falsidade” – ok, não.

Após a mística e apresentação, houve o súbito aparecimento de um fantasma


do passado, que veio tentar mostrar, de uma forma caricatural, a história do
SAJUP.

“Eu soooou o fantaaasma do passaaado e vim mostrar pra vocês daonde vieram!!”

Felizmente, Diehl estava presente para esclarecer melhor a história do SAJUP


e das AJUPS como um todo, relacionando-a com a conjuntura nacional e com
uma perspectiva da luta de classes. Diehl apontou alguns dos dilemas que as
assessorias jurídicas enfrentam hoje, como a até agora incapacidade de
realmente participar da mobilização e da organização das classes oprimidas: a
dificuldade de saber lidar com o momento de “embate” que decorre (ou deveria
decorrer) de seu próprio trabalho. Também ressaltou a importância de não se
ignorar que existe interferência e influência das organizações políticas (como
partidos) nas comunidades – é preciso, ao contrário, entender bem as forças
que existem e estudar a fundo a organização política.

“Será que a gente tem que se inserir na luta de classes justamente onde está rolando porrada?”

Depois continuamos a conversa de forma mais descontraída, discutindo alguns


dilemas concretos que o SAJUP estava enfrentando no momento.

O primeiro painel do dia seguinte foi facilitado pelo ex-sajupano/pet-


extensionista Vitor Dieter, que relacionou e comparou poemas de autores
brasileiros, como Ferreira Gullar (O Açúcar), Manoel Bandeira (Menino
Carvoeiro), Bertold Brecht (Perguntas do Trabalhador que Lê), Vinícius de
Moraes (O Operário em Construção) e A Estética da Fome de Glauber Rocha
para discutir o reconhecimento do poeta como produto também da sociedade
de classes e o reconhecimento de sua obra como produto do trabalho social
humano, caracterizado em nosso modo de produção pela exploração. Ferreira
Gullar só pode consumir seu café com açúcar e escrever seu poema porque
existem “homens de vida amarga e dura”. Nesse sentido, todo o trabalho
intelectual e artístico é também produto do trabalho da humanidade toda – não
existe artista isolado.
Ao enfrentar a realidade social e constatar sua miséria e desigualdade, o
poeta/intelectual pode assumir uma postura de mera piedade (ou de evasão),
visando apenas acabar com sua própria culpa, ou inserir-se na luta para acabar
com a estrutura da opressão, assumindo certas contradições ao permanecer
dentro da sociedade, ao invés de fugir dela.
Esse painel de reflexão foi seguido pela grande surpresa do acampamento: O
JOGO DO SAJUP!

As brigadas do acampamento (tigres, águias, dragões e coelhos) formaram as


diferentes equipes e cada equipe escolheu uma pessoa para servir de peão pro
jogo, cujo tabuleiro era em tamanho humano.

Equipe dos tigres e seu peão no jogo

Equipe dos dragões e seu peão no jogo

Equipe das águias e seu peão no jogo

Equipe dos coelhos e seu peão no jogo

O jogo consistia em passar por diversas casas de perguntas, desafios e de


sorte/revés com temas da AJUP e dos movimentos sociais, além de passar
pelas casas maiores que representavam os espaços em que o SAJUP se
insere ou já se inseriu: a universidade, a rádio comunitária, escolas, a
RENAJU, Caçador e um túnel do tempo.

“Um dos perigos do trabalho popular é o “Desafio! Hora de botar em prática o Apresentador, sorrindo
messianismo. Você anda se sentindo o trabalho coletivo e montar uma pirâmide frente às acusações de
salvador da comunidade onde trabalha. humana!” arbitrariedade. “Tigres,
Volte três casas para desinflar o ego.” voltem 2 casas!”

A tarde começou com um espaço sobre os diferentes modelos de extensão: as


brigadas dividiram-se para ler textos sobre o assunto (Novas tendências da
extensão universitária em Direito: da Assistência à Assessoria Jurídica, de Ivan
Furmann e Três Modelos de Extensão – Sob a Ótica da Crítica ao Naturalismo,
de Ligia Klein) e buscaram aprofundar o debate entre assistência e assessoria
a partir dos modelos propostos pela Lígia Klein de extensão: modelo
tradicional, modelo judaico-cristão e o modelo político-revolucionário. A seguir,
cada brigada montou um teatro, tentando apresentar ludicamente cada modelo
e as conseqüências concretas que sua adoção tem para as comunidades.

O teatro sobre um núcleo de extensão tradicional mostrou uma extensão burocrática, monológica e sem
comprometimento com e inserção na comunidade. Após a saudação do pavilhão e o início solene da reunião, o núcleo
decidiu doar laptops para uma comunidade miserável e analfabeta, pois “inclusão digital está em alta”.

O teatro sobre um projeto de extensão político-revolucionária revelou que esse modelo é capaz de, a partir de
problemas concretos, fazer as mediações para entender a totalidade e as causas estruturais. Os membros da brigada
representaram, cada um, as diferentes mediações, até desvelar o que estava escondido (na foto, segurando um lençol
e reaproveitando os chifres do dragão do jogo) atrás dos problemas de moradia e alimentação de D. Maria: “Eu sou o
grande problema. Eu sou a propriedade privada dos meios de produção, o capitalismo, a exploração do trabalho.
(risada maléfica)”
O teatro da extensão judaico-cristã mostrou extensionistas motivados a ir nas comunidades pela culpa e continuando a
alimentar o que o povo incorporou de reacionário e de opressivo da ideologia dominante. No teatro, o projeto
compareceu a uma assembléia de moradores e não sabia se apoiava ou não uma mobilização do povo, fugindo de
participar do debate e de se assumir polticamente.

O teatro que representou a assessoria mostrou, através da entrevista com um morador da comunidade, que a
assessoria baseia-se num trabalho contínuo com a comunidade, valorizando o diálogo, a educação popular e uma
crescente autonomia da comunidade em relação aos educadores populares.

O próximo painel, de “Como funciona a sociedade”, foi apresentado pelo


Ricardo Prestes Pazello, que apresentou uma compreensão mais geral do
marxismo e diversas de suas categorias mais importantes. Para abordar as
mediações até a totalidade, trabalhou com a música O Malandro, de Chico
Buarque. Também apresentou a teoria marxista mais voltada à realidade da
América Latina, em especial a teoria da dependência, desenvolvida por Ruy
Mauro Marini, Theotonio dos Santos, Vania Bambirra, entre outros. Ao final,
Pazello apresentou um pouco da relação entre direito e marxismo,
principalmente pelo debate entre os juristas soviéticos Stucka e Pashukanis.

Mais tarde, houve um momento especial preparado pelas veteranas, que


contaram um pouco de sua experiência no SAJUP e proporcionaram a todo
mundo que estava presente uma reflexão mais aprofundada de por que estar
no SAJUP e o que isso significa.
A noite contou ainda com uma festinha do SAJUP, com várias partidas de Hu-
Yá, rodadas de UNO, e outras emoções.
[Fotos censuradas]

O domingo começou com um painel apresentado pela Vanda, militante do


Cefúria e da Assembleia Popular, que contou sobre a história e a conjuntura
dos movimentos populares em Curitiba e arredores. Ela falou também sobre a
relação entre a conjuntura nacional e os movimentos populares, do momento
de refluxo da esquerda, da necessidade de retomada do trabalho de base e do
surgimento da Assembleia Popular em 2005. Concluiu explicando mais e
esclarecendo dúvidas sobre o Plebiscito Popular pelo Limite da Propriedade da
Terra, no qual o SAJUP também estava interessado em participar.
O próximo momento foi facilitado pelo Luiz Otávio Ribas, que buscou
esclarecer a distinção entre o debate de assistência e assessoria que é feito
pelos projetos de assessoria universitária e a classificação feita a partir do
debate de legalidade instituinte e de ética coletiva que permeia novas formas
de trabalho jurídico. Luiz enfatizou o trabalho da advocacia popular,
representada por grupos como a ONG Terra de Direitos e o Centro de
Assessoria Jurídica Popular Mariana Crioula.

Após o almoço, cada brigada leu, além de um texto apresentando algumas


idéias principais de Antonio Gramsci, alguns trechos sobre uma categoria
específica gramsciana (intelectual, hegemonia e contra-hegemonia, guerra de
posição e guerra de movimento, e catarse) e buscou relacioná-la ao trabalho
da AJUP. Fizemos então uma discussão coletiva sobre nosso papel contra-
hegemônico, de difusão da consciência de classe, tendo como entendimento
que o próprio povo é possível intelectual orgânico da transformação.

Por fim, na tardinha de domingo, fizemos uma avaliação sobre o


acampamento, sobre o que a formação e discussões que tivemos podem
contribuir para o nosso trabalho e o que queremos fazer de agora em diante.
Discutiu-se principalmente a necessidade de não apenas admitirmos nosso
trabalho como político, mas de agirmos mais como tal: entender que também
temos um pé e um papel na universidade. Entender, ainda, que precisamos
aproximar-nos dos movimentos sociais e de outros espaços políticos. O
acampamento terminou com uma leitura do texto “Os Indiferentes”, de Gramsci,
e com um abraço coletivo.

SAJUP 2010