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A JUSTIÇA E O DIREITO
DA ÍNDIA

Luiz Guilherme Marques

lgm@artnet.com.br

2003

Todo processo indica uma perturbação que afeta a ordem do Universo. Ao


juiz incumbe a obrigação de restaurar a ordem.
(pensamento indiano antigo)

Em um contexto institucional de frágil separação de poderes e carência das


instituições políticas os Tribunais são os únicos em condições de atender
as exigências da sociedade.
(Institut des Hautes Études sur la Justice, França)

O Serviço Judiciário da Índia, que conquistou uma boa reputação pela sua
coragem e espírito de independência, e que avançou por novos terrenos
dentro da ação judiciária, sofre de males diversos. No entanto, a população
investiu muito em confiança e consideração por ele.
(David ANNOUSSAMY)

Dedicatória:
2

- a Terezinha, minha esposa


- a Tereza Cristina e Jaqueline Mara, minhas filhas

Qualquer pesquisa sobre a evolução do mundo jurídico da Índia no


século XX faz chegar a uma conclusão inarredável: todos os avanços
experimentados no país nesse período devem ser debitados, direta ou
indiretamente, ao mahatma Mohandas K. GANDHI, a quem também é
dedicado este estudo, postumamente.

Também dedico este trabalho ao jurista e magistrado francês Jean-


Claude BONNAN pela gentileza de ter-me presenteado com vários textos de
sua autoria sobre o Direito indiano antigo.

Agradecimentos:
- Aleksander Guglinski
- Andréia Monteiro Felippe
- Bibliothèque Cujas, de Paris
- David Annoussamy
- Institut des Hautes Études sur la Justice (École Nationale da la Magistrature de
France)
- Joaquim Marcos Fiuza
- Juliana Araújo Assis

ÍNDICE

1 - Introdução
2 - A Evolução da Índia
2.1 – A História
2.2 – A Índia Atual
2.3 - As Religiões mais Importantes
2.3.1 - O Hinduísmo
2.3.2 - O Islamismo
2.3.3 - O Cristianismo
2.3.4 - O Sikismo
2.3.5 - O Budismo
2.3.6 - O Jainismo
2.4 - O Idealismo Indiano
2.5 - A Pobreza
2.6 - As Castas
2.7 - A "intocabilidade" (Situação dos Párias)
2.8 - Tradição versus Modernidade
3 – O Direito Hindu
3.1 - O Dharma e o Costume
3.2 - A Legislação e a Jurisprudência
3.3 - A Doutrina Moderna
3.4 - A Dominação Muçulmana
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3.5 - A Dominação Britânica


3.6 - A Interferência da França, Holanda e Portugal
3.7 - O Recurso aos Pundits
3.8 - O Recurso a Outras Técnicas
3.9 - Deformação Sofrida pelo Direito Hindu
3.10 - Limitação do Domínio do Direito Hindu
3.11 - A Legislação Britânica
3.12 - A Independência
3.13 - As Leis de Manu
4 – O Direito Indiano
4.1 - Generalidades
4.1.1 - Definição
4.1.2 – Lex loci
4.1.3 – A Lex Loci nas Presidências
4.1.4 – A Lex Loci no Mofussil. 1º Período
4.1.5 – A Lex Loci no Mofussil. 2º Período
4.1.6 – A Recepção do Direito Inglês
4.1.7 – A Originalidade do Direito Indiano
4.1.8 – A Ligação à Família da Common Law
4.1.9 – As Diferenças em Relação ao Direito Inglês
4.1.10 – A Independência: Confirmação do Direito Anterior
4.2 - Matérias Específicas
4.2.1 - Direito Constitucional
4.2.2 - Sociedades Anônimas
4.2.3 - Casamento
4.2.4 - Manutenção da Pena de Morte
4.2.5 - Direito Processual Civil
4.2.6 - Direito do Trabalho
4.3 - Tendências Modernas
5 – A Justiça Estatal
5.1 - A Figura Simbólica do Juiz
5.2 - Aspectos Históricos
5.3 - A Organização Judiciária
5.4 - Os Juízes
5.5 - O Juiz e a Lei
5.6 - O Papel Político dos Juízes
5.7 - As Distorções
5.8 - Perspectivas para o Futuro
5.9 - Magistratura Corajosa
6 – A Justiça Hindu
7 – Os Advogados
8 – O Ensino Jurídico
9 – Os Juristas mais importantes
9.1 - Bhim Rao Ambedkar
9.2 - P. N. Bhagwati
9.3 - David Annoussamy
9.4 - Hari Singh Gour
10 - O Ministério do Direito e da Justiça
11 - O Ministério Público
12 - Escola da Magistratura
13 - Notariato
14 - A Assistência Judiciária
CONCLUSÃO
APÊNDICE
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1 – A Constituição da Índia (excertos)


NOTAS
BIBLIOGRAFIA CONSULTADA
BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR
ENDEREÇOS DE INTERNET

1 - INTRODUÇÃO

O Leitor fará certamente a pergunta: - Por que a Justiça e o Direito


da Índia?

Na verdade é um país que não tem projeção na área jurídica, mas


somente na área religiosa, valendo a afirmação de STREETER e APPASAMY
(Internet): a Índia é o país dos místicos, tendo, como diz ZINS (1993:5), a
inacreditável vivacidade de uma cultura antiga supostamente pouco
mudada no curso dos séculos e totalmente dominada pelos templos e
castas.

Berço do hinduísmo, budismo, sikismo e jainismo, é visitado por


milhares de turistas, que ali vão beber da fonte do conhecimento religioso
para direcionar sua vida. Entretanto, ali não aparece nenhum visitante
estrangeiro à procura de lições jurídicas. Essa a verdade.

Entretanto, a Índia chamou-nos a atenção justamente porque sua


religião predominante (hinduísmo) traz em seu bojo também estruturas de
Direito (dharma) e de Justiça próprias, tudo isso que veremos
detalhadamente, sendo que essas estruturas ainda perduram para grande
parte da população com muita pujança e convivem com o Direito e a
Justiça estatais disputando espaço. Justamente essa coexistência entre o
Direito oficial e o Direito religioso é a peculiaridade jurídica desse grande
país, onde a tradição e a modernidade atingem extremos.

Essa luta entre o moderno e o antigo é o diferencial para se entender


a Índia.

Coexistência semelhante existiu na Idade Média européia em que, ao


lado do Direito e da Justiça estatais, se faziam presentes e Direito e a
Justiça da Igreja Católica.

Quanto ao Direito religioso, sua expressão mais importante


consolida-se no Direito hindu, pois a maior parte da população é adepta do
hinduísmo, sendo representado pelo dharma (conjunto de deveres a serem
cumpridos pelos hinduístas) e pelos costumes, válidos para cada casta
(veremos depois o que significam) e subcasta separadamente.

A Justiça hindu (religiosa) é representada por "assembléias" dentro


de cada casta e subcasta, como também veremos.

Quanto ao Direito e a Justiça estatais são, sobretudo, o resultado de


cerca de dois séculos de influência direta da Inglaterra, com adaptações
indígenas, alguma interferência da França, Holanda e Portugal (todos
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esses quatro colonizadores) e a natural evolução posterior à


independência do país (que ocorreu em 1947).

No entanto, o que chama a atenção quanto ao Direito e a Justiça


estatais da atualidade é a flagrante procura pela igualdade social e pelo
ideal do justo nos processos, para tanto dispensando-se muitas regras
consagradas do Direito Processual.

Verifica-se na Índia uma situação de extremos: de um lado o


hinduísmo pregando aos seus adeptos uma vida de conformação fatalista e
principalmente aos pobres sua aceitação à indigência para merecer
reencarnações mais felizes (Direito hindu) e sua Justiça interna
("assembléias" de casta) punindo os membros inadaptados, e, de outro, o
Direito estatal legislando sobre direitos e deveres de todos e a Justiça
estatal lutando pela abolição das desigualdades extremas.

Outro detalhe importante a ser lembrado é que a área abrangida


pelo Direito hindu é cada vez mais restrita: primeiro, porque só diz
respeito aos adeptos do hinduísmo, e, segundo, porque somente tem
validade para determinadas relações jurídicas, principalmente quanto ao
Direito de Família.

O presente estudo pretende ser uma viagem pelo mundo do passado


e do presente do segundo mais populoso país do planeta (mais de 1 bilhão
de habitantes), que, ao lado da fome e falta de saúde de milhões de
cidadãos, analfabetismo, desigualdade chocante da situação dos
"intocáveis" (párias), corrupção política e problemas sociais graves,
narrados pelas penas magistrais de Gita MEHTA e Vidiadhar Surajprasad
NAIPAUL, detém a técnica da fabricação da bomba atômica, é muito
desenvolvido nas pesquisas espaciais, é o maior exportador de softwares
de computador, tem a maior universidade do mundo (Calcutá) e é a maior
democracia do mundo, tendo eleito em 1997 o Presidente Narayanan, para
nós, surpreendentemente, um "intocável" (pária).

É, sem dúvida, um país de contrastes impressionantes.

Este estudo não pretende ser laudatório nem também peça de


acusação. Procura somente mostrar uma realidade e deixar para o
ilustrado Leitor as conclusões. Abriu-se exceção praticamente apenas
quanto ao elogio ao advogado, político e filósofo Mohandas K. GANDHI, por
uma torrente irresistível de emoção e reconhecimento pelo bem que trouxe
à humanidade toda.

Conheçamos então a Índia, agora, através do seu Direito e sua


Justiça, devendo sempre ficar presente para nós as observações de
ANNOUSSAMY (2001) quando afirma:

Quem quer que aspire ao conhecimento completo do Direito da


Índia será levado necessariamente a estudar o Direito hindu
antigo bem como o Direito indiano moderno. (p. 9)

... existem na Índia diversos estratos de Direito. Apesar de as


camadas recentes serem dominantes, as antigas não restam
completamente esquecidas. Eles vêm à superfície em
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determinadas localidades por força própria ou mesmo chamadas


pelas camadas mais recentes. Assim, todas essas fontes
conservam seu interesse. (16)

... para as populações tribais, cujo número se eleva a mais ou


menos 80 milhões de pessoas, o costume é a única fonte em
matéria de Direito pessoal e para todas as transações no interior
de cada tribo. Nem os textos sagrados hindus nem as leis
modernas relativas ao Direito hindu lhes são aplicáveis, porque
essas pessoas não pertencem à religião hindu. Os costumes
variam evidentemente de tribo para tribo, se bem que se possa
classificá-las em famílias, considerando as semelhanças
existentes. (p. 16)

No extremo sul, na região tamul, a lei permanece inteiramente


costumeira, sendo que os dharma-sastras se aplicam apenas aos
brâmanes. (pp. 16-17)

Mesmo após a elaboração dos textos de leis modernas sem base


religiosa, é o costume que é aplicado quando não se procuram os
Tribunais e Cortes estatais, ou seja, em grande número de casos.
Também, essas leis previram exceções em favor dos costumes.
Essas exceções são relativamente numerosas.

... esse Direito [Direito hindu] não é imóvel. Constatamos


variações importantes no curso dos séculos tanto nas idéias
como nas apresentações dos Códigos. A regulamentação segue a
evoluçãoda sociedade. Vimos o Direito se laicizar. Títulos de
litígios aparecem, ganham importância ou a perdem. Passando
de Gautama a Manu, depois a yajnavalkaya, tem-se a impressão
de passar de uma sociedade pastoral (regras numerosas sobre
oas animais errantes) a uma sociedade agrícola (aparecimento
dos litígios sobre os limites de terras), depois a uma sociedade
urbana e comerciante (documentos escritos, sociedades
comerciantes). O Direito da mulher, a situação dos sudras, o
Código do Trabalho sofrem modificações importantes que
poderiam estar ligadas a mudanças de mentalidade nascidas do
budismo e do jainismo.

2 - A EVOLUÇÃO DA ÍNDIA

País que consagrou a desigualdade das pessoas pelo nascimento,


através da realidade das castas [1] (que acabou gerando a
"intocabilidade"), foi a Índia abalada em sua aparente imobilidade,
primeiro, pela ideologia islâmica por cerca de oito séculos, através da
presença ditatorial mogol (árabe) no país nesse período, sendo
contrastada pelo credo islâmico da igualdade entre os crentes; depois pela
européia (francesa, portuguesa e holandesa, mas sobretudo inglesa, esta
última por cerca de dois séculos) também com ideal de igualdade, baseada
nos preceitos iluministas da Europa, devendo-se pesar também o esforço
das religiões surgidas na própria Índia como dissidências dentro do
hinduísmo (budismo, sikismo e jainismo), que também forçaram no
sentido da igualdade social. Entretanto, mesmo assim, com todos esses
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séculos de combate sistemático à desigualdade social, a Índia


(representada pela maioria hinduísta) somente passou a tolerar, mais ou
menos, a idéia da igualdade de todos os indianos depois da pregação
sacrificial de Gandhi, que culminou com seu assassinato, e das lutas
idealistas de Ambedkar, Rajah e Srinavasan, dentre outros.

Efetivamente, a maioria hindu não consegue encarar com


naturalidade a idéia de que as pessoas sejam iguais e que todos mereçam
progredir socialmente, uma vez que naquele país se fixou, desde milênios,
a crença de que cada um deve viver no nível em que nasceu por deméritos
de vidas passadas (caso dos membros das castas mais desprestigiadas) ou
méritos de vidas passadas (para os membros das castas mais elevadas)
para que uns e outros alcancem o paraíso após a morte. É a presença forte
da religião na vida diária de cada um.

Para os ocidentais fica a imagem do hinduísta como frio e insensível


frente aos sofrimentos das classes mais pobres, mas, na verdade, trata-se
essa realidade da crença no fatalismo, na Justiça Divina, que não pode ser
questionada nem modificada, gerando essa imobilidade, essa aceitação
dolorida para a maioria, acatada mais ou menos resignadamente pelas
massas sofredoras.

Mas, a instrução das populações, a globalização, a troca de


experiências com outros povos, tudo isso tem feito os indianos em geral
pretenderem uma realidade nova para si e seu país. Assim, dentro da
realidade indiana moderna, principalmente, após a edição da Constituição
(1950), talvez a conquista mais importante a ser alcançada seja o
reconhecimento da igualdade entre as pessoas como forma de solucionar
os problemas do país, pois, sem isso, o país estará sempre vitimado pelo
analfabetismo e a pobreza.

A situação de desigualdade social é o problema mais grave do país,


do qual os demais (pobreza, analfabetismo etc.) são meras conseqüências.

Outro ponto importante a esclarecer é que os indianos nunca foram


uma unidade, uma vez que a divisão e subdivisão da sociedade sempre foi
uma regra fixa: primeiro, a divisão em religiões, que não se comunicam
entre si, e, dentro da maior delas (hinduísmo), a divisão dos adeptos em
quatro castas (subdivididas em milhares de subcastas), sem contar os
inúmeros dalits (conhecidos no Ocidente como párias, homens e mulheres
sem castas, que são considerados a escória da sociedade). Somente após a
independência se passou a pensar verdadeiramente em termos de país,
coletividade, direitos, principalmente quanto aos cidadãos "excluídos". A
existência de muitas línguas e dialetos, tradições e costumes diversificados
também dificultam, fazendo do país uma "colcha de retalhos".

As noções de Direito e Estado eram inexistentes para a Índia até há


algum tempo atrás. Somente se tratava de religião, num individualismo
exacerbado.

Hoje o país é um caldeirão de tendências tradicionalistas e


progressistas lutando entre si dentro e fora de cada indiano, mas pouco a
pouco seguindo cada um e todos em direção à compreensão de que a
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religião verdadeiramente aplicada não é incompatível com a conquista dos


progressos culturais e materiais.

Mas, sigamos por esse caminho passo a passo.

2.1 - A HISTÓRIA

Para um povo, como o indiano (referimo-nos aqui aos hindus,


adeptos do hinduísmo), a História, no sentido como a conhecemos no
Ocidente, não é importante, pois geralmente não lhe interessam a figura
do rei, do chefe de Estado, do guerreiro conquistador e dos
empreendedores do progresso material, mas sim o brâmane, mestre da
religião, conhecedor das realidades do espírito, aquele que mereceu, pelo
nascimento, ter contato com as obras sagradas do hinduísmo.

Assim, seus livros mais antigos preocupam-se em ensinar a religião,


principalmente, e nunca relatar a vida dos personagens importantes,
identificando datas e eventos de interesse puramente material.

E, se alguém escrevesse a história (nos padrões ocidentais de datas


e eventos políticos) da Índia, provavelmente não encontraria muitos
leitores, pois a maioria (pelo menos dos hindus), estaria preocupada
somente em viver de forma coerente com seu dharma (regras de conduta)
para merecer nas reencarnações posteriores nascer em castas cada vez
mais superiores.

Pelo que se diz, apesar de muitos historiadores mencionarem datas


mais recentes, a civilização da Índia data de mais ou menos 8.000 anos,
antecedendo inclusive a egípcia e a judaica.

Enumeremos então os dados históricos possíveis, de acordo com os


historiadores ocidentais.

O ALMANAQUE ABRIL 2001 diz:

A origem da nação hindu é a civilização que se desenvolve desde


2500 a.C. no vale do rio Indo, onde hoje fica o Paquistão. A
região é conquistada em 1500 a.C. pelos arianos, que implantam
uma sociedade baseada num sistema de castas. Sua religião é o
hinduísmo. Após a invasão de Alexandre, o Grande, entre 327
a.C. e 325 a.C., forma-se em 274 a.C. o Reino de Asoka, que
unifica a Índia sob o budismo. O hinduísmo retoma pouco depois
sua posição dominante.

A cultura hindu atinge o apogeu no século IV com a dinastia


Gupta. No século VII, o oeste da Índia é invadido pelos árabes,
que trazem o islamismo. A nova fé conquista camadas
importantes da população, que vêem no Islã - cuja premissa é a
igualdade de todos diante de Deus - uma oportunidade de
escapar da rigidez social do sistema de castas.

Domínio ocidental - O auge da hegemonia muçulmana, com a


dinastia Mogul (1526 a 1707), coincide com a presença ocidental
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na Índia, impulsionada pelo comércio de especiarias. Em 1510,


os portugueses completam a conquista de Goa, na costa oeste do
país. Sucessivamente, ingleses, holandeses e franceses criam
companhias de comércio com a Índia. Em 1690, os ingleses
fundam Calcutá, mas só depois de uma guerra contra a França
(1756-1763) o domínio do Reino Unido se consolida na região.

No século XIX, os ingleses reprimem várias rebeliões


anticolonialistas. Paradoxalmente, a cultura britânica torna-se
um fator de união entre os indianos, que, com o inglês, adquirem
uma língua comum. A organização política que governaria a
Índia independente, o Partido do Congresso, é fundada em 1885
por uma elite nativa de educação ocidental. Nos anos 20 cresce a
luta nacionalista sob a liderança do advogado Mohandas Gandhi,
conhecido como o Mahatma. Pacifista, Gandhi desencadeia um
amplo movimento de desobediência civil que inclui o boicote aos
produtos britânicos e a recusa ao pagamento de impostos.

Independência - A luta contra o colonialismo britânico termina


com a independência, em 1947. Os líderes muçulmanos indianos
decidem formar um Estado independente, o Paquistão, a oeste
da Índia. A partilha, baseada em critérios religiosos, provoca o
deslocamento de mais de 12 milhões de pessoas. Choques entre
hindus e muçulmanos deixam 200 mil mortos. Gandhi, a
contragosto, aceita a divisão do país e é assassinado por um
fundamentalista hindu em 1948.

Guerras com o Paquistão - Índia e Paquistão travam uma guerra


pelo controle da Caxemira que se estende até 1948, concluindo
com a divisão da área entre os dois países. O conflito indiano-
paquistanês se enquadra na Guerra Fria - a Índia tem o apoio
soviético e o Paquistão, o respaldo dos EUA. O primeiro
governante da Índia independente, o primeiro-ministro
Jawaharlal Nehru, adota uma política estatizante de inspiração
socialista. Nehru morre em 1964. Em 1966, a filha de Nehru,
Indira Gandhi, assume o poder.

Índia e Paquistão entram mais uma vez em guerra, em 1971,


quando o governo indiano apóia os separatistas bengalis da
província do Paquistão Oriental, isolada do resto do Paquistão
por quase 2 mil km. Os paquistaneses capitulam reconhecendo a
criação de Bangladesh como país independente.

Conflitos étnicos - Em 1974, a Índia explode sua primeira bomba


atômica. Indira Gandhi deixa o governo em 1977, mas retorna
em 1980. Irrompem conflitos étnicos por todo o país. Os sikhs,
grupo étnico e religioso, formam uma organização pela
independência do estado do Punjab, onde são maioria. Uma série
de atentados leva a primeira-ministra a ordenar, em 1984, a
invasão do principal santuário sikh, o Templo Dourado de
Amritsar. Centenas de sikhs morrem na ação. Em represália, os
rebeldes assassinam Indira, causando outra onda de violência.

O novo primeiro-ministro é o filho de Indira, Rajiv Gandhi. Seu


governo é marcado pela agitação étnica, por acusações de
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corrupção e pelo crescimento do partido fundamentalista hindu


Bharatiya Janata (BJP), que se torna uma força importante no
Parlamento nas eleições de 1989. O Partido do Congresso, por
sua vez, perde a maioria parlamentar e Rajiv renuncia. Durante a
campanha eleitoral de 1991, vencida pelo partido, Rajiv é morto
por separatistas tâmeis do Sri Lanka .

Fundamentalismo hindu - A animosidade entre hinduístas e


muçulmanos, insuflada pelo BJP, gera conflito em torno de uma
antiga mesquita na cidade de Ayodhya, instalada onde, segundo
a tradição hindu , nasceu o deus Brahma. O governo se omite e,
em 1992, milhares de hinduístas destroem a mesquita,
deflagrando uma onda de violência que deixa 1,2 mil mortos.

Em 1994, o Partido do Congresso perde as eleições locais, em


geral para adversários nacionalistas. Dois anos depois explode o
maior escândalo de corrupção da história do país, que envolve
membros do Partido do Congresso e do BJP. Inicia-se uma fase
marcada pela formação e queda de coalizões. O primeiro-
ministro Narasimha Rao renuncia à chefia do governo em maio
de 1996. No mês seguinte, o líder da aliança de centro-esquerda
Frente Unida (FU), Deve Gowda, toma posse como primeiro-
ministro, mas abdica em abril de 1997, após perder o apoio do
Partido do Congresso. Em julho é empossado como presidente
Kocheril Raman Narayanan, primeiro membro dos párias - grupo
que não pertence a nenhuma casta da escala social hinduísta por
ser considerado impuro - a ocupar a chefia de Estado.

Nacionalismo - O BJP é o partido mais votado nas eleições de


fevereiro e março de 1998. Com o apoio de forças regionais e
ultranacionalistas, obtém a maioria parlamentar e seu líder, Atal
Behari Vajpayee, se torna primeiro-ministro. Pela primeira vez,
os ultranacionalistas hindus assumem o poder no país. O BJP
reverte as diretrizes econômicas de abertura ao capital
estrangeiro e de privatização de empresas estatais, em curso no
país desde 1993.

Testes nucleares - O governo indiano realiza cinco explosões


nucleares subterrâneas no deserto do Rajastão, em maio de
1998, reprovadas com veemência pela comunidade
internacional. Trata-se de uma demonstração de força perante o
Paquistão, que responde com seis testes nucleares no final do
mês. Recomeçam os combates na Caxemira.

ÚLTIMAS NOTÍCIAS - A tensão entre Índia e Paquistão diminui


com a assinatura, em fevereiro de 1999, de um acordo pelo qual
os dois países se comprometem a avisar o vizinho antes de
qualquer teste de mísseis. O gabinete de Vajpayee cai em abril
em meio a uma crise na coalizão governista. Novas eleições são
convocadas para setembro e outubro.

Aproveitando a crise no governo, guerrilheiros muçulmanos -


apoiados pelo Paquistão - ocupam áreas estratégicas em Jammu
e Caxemira. A Índia reage com uma grande ofensiva aérea e
terrestre e os dois países travam o mais sério confronto na
11

região em 30 anos, que deixa cerca de 1,2 mil mortos. Os


guerrilheiros retiram-se em julho, após o Paquistão admitir -
num ato inédito - que seus soldados participaram do ataque.

O triunfo militar garante a vitória eleitoral do BJP e partidos


aliados, que conquistam 298 assentos - de um total de 543 - na
Casa do Povo. O Partido do Congresso tem seu pior resultado
desde a independência. Em outubro, Vajpayee é reconduzido à
chefia de governo.

Terrorismo no ar - Na véspera do Natal, guerrilheiros


separatistas da Caxemira seqüestram um Airbus da Indian
Airlines após ter decolado de Katmandu, no Nepal, com destino a
Nova Délhi. A aeronave faz escalas na Índia, no Paquistão e nos
Emirados Árabes Unidos (onde o cadáver de um jovem indiano é
entregue), até ser desviada para o Afeganistão. O drama dos
mais de 150 passageiros a bordo só termina no dia 31, quando o
governo indiano atende à reivindicação dos terroristas e liberta
da prisão três rebeldes muçulmanos. Autoridades indianas
acusam o Paquistão de envolvimento no seqüestro.

Choques étnicos e religiosos - O ano 2000 é marcado pelo


aumento da violência. Conflitos entre hindus e imigrantes
bengalis deixam cerca de 170 mortos, em maio, no estado de
Tripura. Na Caxemira, centenas de hindus e muçulmanos, em sua
maioria civis, morrem em combates nos primeiros meses do ano.
O Hizbul Mujahidine, principal grupo separatista em Jammu e
Caxemira, anuncia uma trégua unilateral em agosto. Pela
primeira vez em 11 anos, o governo indiano suspende as
operações militares na região. Mas a negociação fracassa, diante
da negativa da Índia em aceitar a participação do governo
paquistanês no processo de paz.

Vajpayee acelera a privatização de estatais e, em setembro de


1999, anuncia a criação de zonas econômicas especiais, livres de
impostos, que funcionarão como pólos exportadores. O país
torna-se o maior provedor mundial de softwares e também de
cientistas e técnicos na área de tecnologia de informação. Entre
1998 e 1999, os EUA concedem cerca de 69 mil vistos de
trabalho temporário a pesquisadores indianos. Desde o fim da
Guerra Fria, os EUA ensaiam uma aproximação com a Índia. O
presidente Bill Clinton visita o país em março de 2000, enquanto
a Casa Branca lança críticas ao apoio que o Paquistão, seu
tradicional aliado, dá aos separatistas muçulmanos. No dia 11 de
maio de 2000, nasce em Nova Delhi a menina Astha Arora,
escolhida simbolicamente como a cidadã indiana número 1
bilhão.

A EMBAIXADA DA ÍNDIA NO BRASIL, através do seu site na Internet


(http://www.indianembassy.org.br) apresenta alguns dados históricos e
fornece dados sobre o país:

Os abrigos de Bhimbetka, na forma de cavernas, situados na


faixa central da Índia, apresentam a narrativa da história desde
o período pré-histórico até o histórico. Uma das mais antigas
12

civilizações do mundo se desenvolveu por volta de 3000 a.C. no


vale fértil do rio Indu. As escavações feitas em Mohenjodaro e
Harappa indicam a existência de uma civilização que vivia em
cidades bem planejadas. Marcas, bem como a existência de
estaleiros em Lothal parecem indicar um comércio marítimo com
a Mesopotâmia. A presença ariana foi registrada por volta de
1.500 a.C. Além do cavalo, eles introduziram a adoração ao fogo.

De nômades a agricultores estabelecidos, os arianos


desenvolveram aldeias comunitárias. O hinduísmo encontrava-se
na sua fase inicial e o sânscrito, do qual derivam a maioria das
escritas indianas do norte, era a língua prevalecente. As
epopéias hindus, o Ramayana e o Mahabharata, são fruto deste
período.

O fomento social e intelectual no século VI a.C., fez com que os


pensadores como Mahavira e Gautama Buddha buscassem e
oferecessem caminhos alternativos - o jainismo e o budismo.

Quanto Megathenes, Embaixador da Grécia visitou a Índia, no


século III A.C., o norte foi consolidado num grande império
subordinado à Chandragupta Maurya. Seu neto, Ashoka, O
Grande (268-231 a.C.), porém é o mais conhecido.
Profundamente angustiado, com o derramamento de sangue
num campo de batalha, ele optou pela prática e a disseminação
da filosofia budista de não-violência, tanto na Índia como no
estrangeiro.

No sul, enquanto os governantes locais - os Cheras, Cholas e


Pandyas, lutavam pela supremacia, o comércio marítimo com
Roma floresceu. São Tomé veio à Índia no século I d.C. e
estabeleceu, neste local, a comunidade cristã.

No período entre 320 e 480 d.C., conhecido por Era Dourada dos
Guptas, a Índia vivenciou o desenvolvimento da arte, cultura,
literatura e da ciência. Foram escritos tratados eruditos sobre
assuntos desde a medicina e a matemática, a astronomia e, até
mesmo, acerca do amor (o famoso Kamasutra).

Qutub-ud-din Aibak da dinastia escrava lançou a base do


governo muçulmano na Índia no século XIII. Os Tughlaqs e os
Lodis sucederam os Aibaks. No século XIV, Dabur estabeleceu
neste local o reino Mugal. Akbar, seu neto (1562-1605) é visto
até hoje como um governante progressivo, pois tentou de muitas
formas - através de um sistema administrativo, artístico,
cultural, e até religioso, amalgamar diferentes culturas.
Também, fisicamente o reino dividido se tornou um império.
Outro governante, o Shahjehan, famoso pelo Taj Mahal, sua
criação imortal, conduziu o império Mugal para o auge da sua
glória. Aurangzeb foi o último grande imperador da dinastia
Mugal.

O século XVII trouxe os europeus: ingleses, holandeses e


portugueses estabeleceram os seus postos comerciais. Logo, os
13

interesses comerciais juntamente com as aspirações políticas


(um processo no qual os governantes locais desenvolveram um
papel importante) e a luta pelo poder começaram a serem
sentidos. A Batalha de Plassey, em 1757 foi decisiva, durante o
qual os ingleses ganharam supremacia em relação aos outros.

O governo britânico ofereceu à Índia uma rede ferroviária e o


estabelecimento da burocracia. Porém, as aspirações nacionais e
o desejo da autodeterminação da parte dos indianos resultou na
Primeira Guerra da Independência em 1857. Embora,
brutalmente oprimidos, marcou o início da luta na qual o
Congresso Nacional Indiano, fundado em 1885, foi a espinha
dorsal. Finalmente, em 15 de agosto de 1947 a Índia ganhou a
sua independência. Em 26 de janeiro de 1950 ela se tornou uma
república. O POVO

Quatro grandes grupos raciais se encontraram e se


desenvolveram nesta terra fértil, oferecendo uma grande
diversidade à sua população. A diversidade racial influenciou os
padrões de estilo de vida tanto quanto se pode observar.

Os estilos de vida, costumes, tradições e crenças religiosas


variam. Na verdade, não há uma característica indiana limitada,
mas uma rara catolicidade. As pessoas são unidas, aceitando
estilos e crenças individuais. A maioria dos indianos são hindus,
mas os muçulmanos, sikhs, cristãos e os judeus gozam de
liberdade religiosas e festivais de religiões diferentes como o
Holi (festival de cores), Diwali (festival de luzes), Id, Natal e
Sexta-feira Santa são celebrados por todos com muito fervor.

Estilos sartoriais são também diversos, embora as mulheres


usem sari no país inteiro. Igualmente diverso é o repertório da
culinária, que varia de apimentado e condimentado, passando
pelo sutil e chegando até o suave. Os estilos diferem de região
para região bem como de estado para estado. O que muitos
acham impressionante é o número de pratos vegetarianos
existentes, utilizados sem qualquer dúvida por um grande
número de indianos que são vegetarianos.

Hindi é a Língua nacional. O Inglês também foi mantido como


língua oficial de comunicação. Existem 15 línguas principais e
844 dialetos que são falados em diferentes regiões do país.

A Índia segue um regime parlamentar, sendo a maior


democracia do mundo. A constituição garante a liberdade,
igualdade e justiça a todos. As eleições, com base no direito a
voto para maiores de idade, acontecem a cada cinco anos. O
Parlamento é constituído por duas Câmara - a Lok Sabha com
membros eleitos pelo povo e a Rajya Sabha, onde os membros
são nomeados e eleitos. Membros de ambas as Câmaras e as
Assembléias Estatais elegem o Presidente para um tempo de
cinco anos. O Presidente é o chefe do Estado e o Comandante
Chefe das Forças Armadas. A pessoa que goza do apoio da
maioria na Lok Sabha é nomeada Primeiro Ministro pelo
14

Presidente. O Presidente nomeia outros Ministros aconselhado


pelo Primeiro Ministro.

Há vinte e seis estados e seis territórios na União. Cada Estado


tem um Governador na chefia, assistido por um Conselho de
Ministros, sendo o Ministro Chefe seu líder.

O Judiciário, independente do executivo, é o guardião e o


intérprete da Constituição. O Tribunal Supremo na Chefia do
sistema Judiciário é o tribunal máximo do país.

2.2 - A ÍNDIA ATUAL

O ALMANAQUE ABRIL 2001 nos dá informações a respeito:

Além da diversidade de línguas e culturas, a Índia é a terra de


origem do hinduísmo e do budismo. Essas religiões têm enorme
importância no cotidiano do país e seus seguidores nem sempre
convivem pacificamente. Violentos conflitos entre a maioria
hinduísta e as minorias muçulmana e sikh levaram ao
assassinato de Mahatma Gandhi, principal líder do movimento
pela independência, da ex-primeira-ministra Indira Gandhi e de
seu filho, Rajiv, e continuam a abalar o país. A Índia também
vive um confronto latente com o vizinho Paquistão, a quem
acusa de incentivar o separatismo na província de Jammu e
Caxemira, de maioria muçulmana.

O território da Índia ocupa a maior parte de uma vasta planície


que, isolada do resto da Ásia pela cordilheira do Himalaia, forma
o Subcontinente Indiano. Desastres naturais, como tufões ,
ciclones e intensas ondas de calor, ocorrem com freqüência na
região. O solo é fértil, há extensos recursos minerais e rios
caudalosos, como o Ganges, considerado sagrado pelos hindus.
Uma das principais economias agrícolas do mundo, a Índia lidera
a produção de várias culturas. A maior parte se destina ao
consumo de seus habitantes, dos quais 70% vivem da
agricultura de subsistência. Ao lado das inúmeras aldeias rurais,
existem grandes cidades, como Mombai - antiga Bombaim - e
Calcutá.

O tamanho da população (1 bilhão) contribui para a existência


de imensos contrastes: mesmo com o 11º maior PIB mundial,
cerca de 600 milhões de indianos vivem na miséria. Segundo a
ONU, em 2050 a Índia será o país mais populoso do mundo,
superando a China. No extremo oposto, a considerável parcela
dos indianos com acesso à educação garante ao país papel de
destaque na produção científica - farmacêutica e informática. Em
1999, a Índia torna-se o maior exportador mundial de softwares,
atividade que rende cerca de 4,2 bilhões de dólares anuais.

DADOS GERAIS

República da Índia (Bharat Juktarashtra).


15

CAPITAL - Nova Délhi.

NACIONALIDADE - indiana.

DATA NACIONAL - 26 de janeiro (Proclamação da República); 15


de agosto (Independência); 2 de outubro (aniversário de
Gandhi).

GEOGRAFIA - Localização: centro-sul da Ásia. Hora local: +8h30.


Área: 3 287 782 km2. Clima: de monção (maior parte), tropical,
equatorial (S), árido tropical (NO), de montanha (N). Área de
floresta: 650 mil km2 (1995). Cidades principais: Mumbai (ex-
Bombaim) (aglomerado urbano: 15 725 000 em 1996; cidade: 9
925 891 em 1991), Calcutá (aglomerado urbano: 12 118 000 em
1996; cidade: 4 399 819 em 1991), Nova Délhi (aglomerado
urbano: 10 298 000 em 1996; cidade: 7 206 704 em 1991);
Madras (5 906 000), Bangalore (4 749 000) (aglomerados)
(1995).

POPULAÇÃO - 1 bilhão (2000); composição: indo-arianos 72%,


drávidas 25%, mongóis e outros 3% (1996). Idioma: hindi
(oficial), línguas regionais (principais: telugu, bengali, marati,
tâmil, urdu, gujarati). Religião: hinduísmo 80,3%, islamismo
11% (sunitas 8,2%, xiitas 2,8%), cristianismo 3,8% (católicos
1,7%, protestantes 1,9%, ortodoxos 0,2%), sikhismo 2%,
budismo 0,7%, jainismo 0,5%, outras 1,7% (1991). Densidade:
308,32 hab./km2. População urbana: 28% (1998). Crescimento
demográfico: 1,6% ao ano (1995-2000). Fecundidade: 3,13
filhos por mulher (1995-2000). Expectativa de vida M/F: 62/63
anos (1995-2000). Mortalidade infantil: 72‰ (1995-2000).
Analfabetismo: 44,2% (2000). IDH (0-1): 0,563 (1998).

GOVERNO - República parlamentarista. Divisão administrativa:


25 estados. Chefe de Estado: presidente Kocheril Raman
Narayanan (desde 1997). Chefe de governo: primeiro-ministro
Atal Behari Vajpayee (BJP) (eleito em 1998, renuncia em abril de
1999 e volta ao cargo em outubro).

Principais partidos - do Congresso, do Povo Indiano (Bharatiya


Janata) (BJP). Legislativo: bicameral - Conselho de Estado, com
245 membros (a maioria eleita pelas assembléias estaduais e o
restante indicado pelo presidente) com mandato de 6 anos; Casa
do Povo, com 545 membros (543 eleitos por voto direto e 2
nomeados pelo presidente) com mandato de 5 anos. Constituição
em vigor: 1950.

ECONOMIA - Moeda: rúpia indiana; cotação para US$ 1: 44,38


(jul./2000). PIB: US$ 430 bilhões (1998). PIB agropecuária:
29%; PIB indústria: 25%; PIB serviços: 46% (1998).
Crescimento do PIB: 6,1% ao ano (1990-1998). Renda per
capita: US$ 440 (1998). Força de trabalho: 431 milhões (1998).
Agricultura: algodão em pluma, arroz, chá, castanha de caju,
juta, café, cana-de-açúcar, legumes e verduras, trigo,
especiarias, feijão. Pecuária: bovinos, ovinos, caprinos, suínos,
16

eqüinos, camelos, búfalos, aves. Pesca: 5,4 milhões t (1997).


Mineração: minério de ferro, diamante, carvão, asfalto natural,
cromita. Indústria: alimentícia, siderúrgica (ferro e aço), têxtil,
química. Exportações: US$ 32,9 bilhões (1998). Importações:
US$ 42,2 bilhões (1998). Parceiros comerciais: EUA, Japão,
Reino Unido, Alemanha.

DEFESA - Efetivo total: 1,2 milhão (1998). Gastos: US$ 13,8


bilhões (1998).

RELAÇÕES EXTERIORES - Organizações: Banco Mundial,


Comunidade Britânica, FMI, OMC, ONU.

2.3 - AS RELIGIÕES MAIS IMPORTANTES

Estudar a Índia sem abordar suas religiões seria como estudar Roma
antiga sem o Direito Romano, ainda mais quando se trata de um estudo
jurídico, sabendo-se da já mencionada bifurcação do Direito naquele país:
Direito hindu (religioso) e Direito indiano (estatal).

Deve-se esclarecer que as religiões serão mencionadas na ordem


decrescente de adeptos naquele país.

2.3.1 - O HINDUÍSMO

O ALMANAQUE ABRIL 2001 mostra um pouco do que seja o


HINDUÍSMO:

Conjunto de princípios, doutrinas e práticas religiosas dominante


na Índia, conhecido dos seguidores pelo nome sânscrito
Sanatana Dharma, que significa a ordem permanente. Está
fundamentado nos Vedas (conhecimento, em sânscrito),
conjunto de textos sagrados compostos de hinos de louvor e
ritos. Suas características principais são o politeísmo e a crença
na reencarnação. O hinduísmo é a terceira religião do mundo em
número de praticantes e seus preceitos influenciam fortemente a
organização da sociedade indiana.

História e doutrina - A tradição védica nasce com os arianos,


povos das estepes da Ásia central, que a levam para a região da
Índia em 1500 a.C., ao invadir e conquistar os vales dos rios
Indo e Ganges. Baseia-se em uma memória coletiva sobre
deuses tribais e cósmicos transmitida oralmente e,
posteriormente, registrada em livros sagrados, os Vedas. Esses
livros são agrupados em quatro volumes durante o século X a.C e
contêm as verdades eternas reveladas pelos deuses: a ordem
(dharma universal) que rege as coisas e os seres, organizando-
os em categorias, as castas ou varnas.

Segundo os Vedas, o ser humano está preso a um ciclo eterno de


morte e renascimento, chamado samsara, pelo qual está fadado
a reencarnar e a sofrer em infinitas vidas. As reencarnações,
17

como ser humano ou animal, são regidas pelo carma, preceito


segundo o qual a forma como renascemos em nossa vida atual
foi definida na vida anterior, pelo estágio espiritual que
alcançamos e os atos que nela praticamos. O hindu busca fundir-
se a Brahman, a verdade suprema, espírito que rege o Universo.
Isso só é possível libertando-se do samsara pela purificação de
seus infinitos carmas, atingindo o estágio conhecido como
nirvana, a sabedoria resultante do conhecimento de si mesmo e
do universo. O caminho para o nirvana passa pelas práticas
religiosas, pelas orações e pela ioga, mas muitos hindus adotam
também dietas vegetarianas e o ascetismo (renúncia aos bens e
prazeres materiais) para atingi-lo.

Do século IX ao XIV floresce o tantrismo, corrente que prega o


aperfeiçoamento espiritual pelo domínio da mente e do corpo,
incluindo hábitos e práticas sexuais. Em reação à expansão do
islamismo na Índia, a partir do século VII, e ao domínio
britânico, iniciado no século XVIII, surgem várias correntes no
hinduísmo.

Textos sagrados - O hinduísmo possui extensa literatura com


preceitos relativos à vida cotidiana e à organização social. Os
mais antigos, os Vedas ou Conhecimento, reúnem ensinamentos
anteriores ao século X a.C. Além desses, são importantes os
Puranas (narrativas sobre a tríade divina Brahma, Shiva e
Vishnu, as festas e condutas do hindu), o Mahabharata (O
Grande Combate dos Bharata), poema que trata da luta do bem e
do mal, dos cultos a Shiva e Vishnu e as lutas entre as tribos
hindus; os Upanishads (aulas dos mestres), o Ramayana (poema
sobre o amor de Rama por Sita) e o Código de Manu (normas,
regras e práticas sociais hindus).

Preceitos na vida social - O hinduísmo distingue quatro metas na


vida humana: kama (prazer físico), artha (prosperidade),
dharma [2] (condutas e deveres morais definidos pela casta do
indivíduo e pelo dharma universal) e moksha (iluminação). As
quatro metas têm relação com quatro etapas da vida ou
ashramas, do nascimento à morte: na infância, estudar os Vedas
e preparar-se para a vida; depois, casar-se e constituir família;
aposentar-se do trabalho e desligar-se das posses materiais; e,
na velhice, concentrar-se na busca religiosa.

Essas metas e etapas têm, por sua vez, matizes definidos para os
indivíduos segundo as quatro castas (varnas) às quais podem
pertencer. A dos brâmanes [3] , os sacerdotes, é a mais elevada.
Seguem-na a dos guerreiros [4]; a dos lavradores, comerciantes
e artesãos; e, finalmente, a dos sudras, servos e escravos. Um
quinto grupo, o dos párias, não é considerado casta por terem
seus membros desobedecido, no passado, às leis religiosas.
Tradicionalmente, os párias não podiam viver nas cidades, ler os
livros sagrados ou se banhar no rio Ganges.
18

Divindades – Há centenas de deuses e deusas hindus. Todos são


parte de Brahman, a essência universal. Três deles se destacam
e compõem uma tríade divina, a Trimurti:

Brahma, o princípio criador, Shiva, o princípio destruidor e


libertador, e Vishnu, o princípio protetor e preservador. Sempre
que o mundo está sob ameaça do mal, Vishnu aparece para
protegê-lo através de uma de suas dez reencarnações ou
avatares. São eles, pela ordem, Matsya (o peixe), Kurma
(tartaruga), Varaha (javali), Narasimha (homem-leão), Vamana
(anão) Parashurama (homem com machado), Rama (príncipe
herói), Krishna (herói que matou o demônio Kamsa) e Buda. O
décimo avatar, Kalki, ainda não surgiu na Terra e virá para
extirpar todo o mal e iniciar uma era do bem.

Rituais e comemorações - O hindu costuma manter em casa um


altar de devoção a seu deus, no qual queima incenso, coloca
flores, velas e oferendas. Também freqüenta os templos que
estão entre os de arquitetura mais exuberante do mundo. Cada
altar possui sempre a estátua de seu deus, e nos templos as
imagens são diariamente despertadas pela manhã, lavadas,
vestidas e enfeitadas com flores pelos sacerdotes. Diante do
altar, os hindus recitam mantras, fórmulas sagradas escritas nos
Vedas que podem aproximá-los dos deus. Peregrinar para visitar
os templos e lugares sagrados são práticas habituais. Algumas
das celebrações hindus são o Festival das Luzes, comemorado
em todo o país no outono com o acender de velas, o Festival das
Nove Noites para a deusa Durga, em setembro ou outubro, o
Festival da deusa Shiva, em março, e o Festival de Krishna, em
agosto.

No seguinte endereço de Internet encontra-se uma abordagem


sobre BRAMANISMO (outra denominação do HINDUÍSMO):
http://www.geocities.com/Athens/Parthenon/4643/bramanismo.html:

Apesar da escassez de dados confiáveis para pesquisa, os


historiadores citam a Índia como berço do Bramanismo, uma das
mais antigas religiões. A doutrina bramânica, nos seus
primórdios, compunha-se de postulados esparsos, sem qualquer
ordenação e era transmitida oralmente através de cânticos.
Cerca de 14 séculos a. C., um sábio brâmane recebeu o nome de
Vyasa (compilador) por seu trabalho, e ordenou adequadamente
a religião brâmane. A sua fixação, entretanto, só ocorreu por
ocasião do surgimento da escrita na Índia, entre os séculos IX e
VIII a. C. Os ensinamentos védicos, escritos em sânscrito,
passaram a constituir os Vedas ou Livros do Conhecimento
Sagrado, a obra religiosa mais antiga de que se tem notícia.

Rigveda, o mais conhecido dentre eles, consta de hinos de


aparência simplesmente devocional, mas que encobrem o
segredo da Criação. Apenas os sacerdotes e iniciados
distinguiam a verdade escondida sob o véu das alegorias. O
Bramanismo, também conhecido por Induísmo, exotericamente
desenvolveu-se, sofreu modificações, foi adulterado e, com o
19

passar dos tempos, entrou em decadência, como é usual


acontecer com as religiões. A sua essência, no entanto, continua
inalterada e preservada pelos Mistérios, em santuários da Índia.
A doutrina original pode ser resumida em Cinco Princípios, dos
quais decorrem as demais diretrizes:

1 - Um Deus Único com Tríplice Manifestação (Trindade Divina).


" O Ser Supremo se imola a Si próprio e Se divide para produzir a
Vida Universal".

2 - A Natureza Eterna do Mundo "Ele sempre foi e sempre será. O


mundo e os seres saídos de Deus voltam a Ele por uma evolução
constante".

3 - A Reencarnação "Há uma parte imortal do homem que é


aquela, ó Agni, que cumpre aquecer com teus raios, inflamar com
teus fogos. De onde nasceu a Alma? Umas vêm para nós e daqui
partem, outras partem e tornam a voltar".

4 - O Carma "Se vos entregardes aos vossos desejos, só fareis


condenar-vos a contrair, ao morrerdes, novas ligações com
outros corpos e outros mundos".

5 - O Nirvana "Estado de não desejo". O mais puro e íntegro da


alma, livrando-a em definitivo da roda das encarnações.
Considerado o coroamento da Perfeição. As Escolas Iniciáticas
demonstravam cabalmente, na teoria e na prática, a relevância
de alcançar o Nirvana, para se chegar a Deus. Para atingir essa
condição, o Ego precisa se libertar de todos os desejos, mesmo
os originados de sentimentos bons e altruístas. O Nirvana é um
estado de consciência tão íntegro que toda doação é prestada
naturalmente e não em decorrência de inclinação sentimental.

As Castas

Supõe-se que não faziam parte do corpo doutrinário original.


Apesar de ser um preceito bastante antigo, parece constituir um
adendo incluído em remotas épocas, pela mão imperfeita do ser
humano. Prega a divisão em castas como consequência do
Carma, pela qual o indivíduo por comportamento de vidas
anteriores, renasce em determinada posição social, sofrendo
efeitos decorrentes dessa circuntância. Tal proposição, rejeitada
pela maioria dos reformadores do bramanismo, conforma uma
tese a ser discutida, demonstrando a pequenez do ser humano,
razão pela qual deve ser extinta, pois existem inúmeras
maneiras de a Lei ser exercida, sem o agravamento maior
imposto pela sociedade. A aceitação da divisão em castas
significaria o mesmo que aprovar a escravidão, já que seriam
escravos apenas os que construíram, em vidas passadas, as
causas que ocasionaram esse efeito. Fica exposta a tese para
que cada um escolha a que mais lhe esteja de acordo.

Conforme ensinado sigilosamente nos santuários, Agni, o fogo, é


o símbolo do Eterno Masculino ou Espírito Criador. Soma, o licor
20

do sacrifício, é o símbolo do Eterno Feminino, Alma do Mundo,


Substância Etérea. Em Sua união perfeita, esses dois Princípios
Essenciais do Universo, essa dualidade, constituem o Ser
Supremo - Zians, ou seja, Deus.

O céu, o inferno e o processo de vidas sucessivas,


regulamentados pelas leis de Manu, constam do Manava-Darma-
Sastra, ou Livro das Leis, com especial sistema de sanções. Nele,
o inferno, denominado de Naraca, é apresentado como forma de
planos, vinte e um dos quais são particularmente descritos. Para
o povo, mostravam-no simbolicamente, como todas as religiões,
como sendo local tenebroso de trevas e tormentos,onde o fogo
que purifica,queimava os maus. O céu também é classificado em
planos na doutrina secreta, e era designado por Svarga.

Como o inferno, consiste em estados de consciência, difícil de ser


compreendido mesmo pelos maiores conhecedores do assunto.
Porisso, popularmente explicavam-no como um jardim de
delícias, com a luz brilhando perpetuamente, onde os bons
gozavam de bem-aventurança. Esses simbolismos, como todos
os outros, tomados ao pé da letra, desfiguraram o verdadeiro
pensamento, mostrado exclusivamente nas Escolas Iniciáticas. A
massa, familiarizada apenas com as exterioridades, manteve
esses conceitos desvirtuados, forma com que chegaram aos
tempos de hoje, vez que a Verdade sempre permaneceu no
hermetismo da doutrina. Outros Livros Sagrados complementam
o acervo religioso da Índia. Os Brâmanas, comentários sobre os
Vedas, delineiam uma fase da modificação da primitiva doutrina.
Os Upanixades, significando literalmente Sentar-se sob um
Mestre, revelam período diverso de alteração dessa religião. Os
ensinamentos neles contidos, antes de serem fixados pela
escrita, eram transmitidos secreta e oralmente pelos sacerdotes
que os consideravam demasiado sagrados para serem
conhecidos por leigos. Posteriormente, quando transformados
em Livros, continuaram reservados exclusivamente aos que
tinham acesso aos Mistérios. Constituem a base da moderna
filosofia hindu. Eis uma das mais poéticas pregações de Amor,
contidas nos Vedas e repetida com outras palavras em todas as
religiões: "Sê, para teu inimigo, o que é a terra que recompensa
com fartas colheitas o lavrador que lhe rasga o seio. Sê, para
aquele que te aflige, o que é o sândalo, que perfuma o machado
do lenhador que o corta".

A Grande Renovação do Bramanismo

Quando os ensinamentos védicos foram completamente


esquecidos pelo povo e, em seu lugar surgiram as grandes
aviltações da idéia-mãe, um iniciado com o nome de Krishna,
criado por ascetas que viviam retirados junto ao Himalaia,
saindo de seu isolamento, renovou a religião primitiva. A história
de sua vida e os princípios por ele defendidos são conservados
até hoje em Livros Sagrados, nos santuários do sul do Industão.
como Jesus, Krishna, acompanhado de discípulos, saiu a pregar
pelas vilas e cidades, sacrificando-se para implantar a doutrina.
21

Alguns historiadores atribuem a ele a autoria de dois Livros


Sagrados da coleção religiosa da Índia: Ramaiana e Maabárata.
Outros, por falta de comprovação efetiva, julgaram mais
prudente reputá-los como de autor desconhecido. Ramaiana
significa As Aventuras de Rama e relata em cerca de vinte e
quatro mil estâncias, as façanhas do deus Vishnu, o Preservador,
quando em sua sétima encarnação apareceu como o príncipe
Rama, para salvar a humanidade. Maabárata, ou A Grande
História dos Irmãos, narra os acontecimentos de outra
encarnação de Vishnu, como Críxena. São de difícil
entendimento, expondo tanto a doutrina, quanto acontecimentos
históricos do país. O Maabárata ficou famoso e até hoje é
consultado, mesmo fora da Índia, devido ao relato do 18º dia de
uma batalha, durante o qual o general Arjuna discute com seu
cocheiro Críxena o significado da vida e da morte. Tal narrativa é
conhecida como Bhagavad-Gita, ou A Sublime Canção da
Imortalidade. Mahatma Gandhi dizia que quando as decepções o
avassalavam e não conseguia vislumbrar nenhum raio de luz,
recorria ao Bhagavad-Gita, único bálsamo para suas
desesperanças.

Krishna, além de renovar os princípíos védicos, emprestando-


lhes uma cara nova, poética e mais atualizada para a ocasião,
falava aos discípúlos de sua missão, aconselhando-os a guardar
silêncio sobre as Verdades aprendidas com ele: "Revelei-vos os
grandes segredos. Não os digais senão àqueles que os podem
compreender. Sois os meus eleitos: vedes o alvo; a multidão só
descortina uma ponta do caminho." Por essas palavras fica
compreendido que, desde então, já os Mestres pregavam
simbolicamente ao povo, reservando a poucos escolhidos os
segredos dos Mistérios. As pregações populares de Jesus se
assemelham muito as de Krishna. Eis apenas duas delas, para
mostrar tal similaridade: "Se conviveres com os bons, teus
exemplos serão inúteis; não receeis habitar entre os maus, para
os reconduzir ao bem". Quando so fariseus criticavam Jesus por
comer com os publicanos e pecadores, Ele disse: " Não são os
homens de boa saúde que necessitam de médico, mas sim os
enfermos.

Não vim chamar à conversão os justos, mas sim os pecadores." -


"As obras inspiradas pelo amor de nossos semelhantes, são as
que mais pesarão na balança celeste." Esta máxima representa o
"Amai-vos uns aos outros", de Jesus. Todos os ensinamentos de
Krishna traduzem nada mais do que os fundamentos védicos, e
ponderados e meditados, podem trazer luz à alma, permitindo ao
homem encontrar o caminho adequado para seu crescimento
espiritual. Krishna forneceu a resposta mais sábia à pergunta
constante e milenar dos que reclamam a elucidação da Essência
e dos Desígnios de Deus: "Só o Infinito pode compreender o
Infinito. Somente Deus pode compreender Deus". Selando sua
Obra com o próprio sangue, deixou a Terra, legando à Índia a
mais bela e verídica concepção do Universo e da Vida. Nesse
ideal superior ela se manteve durante milhares de anos.

PANIKKAR (1977:324) fala da da remodelação do hinduísmo, mas


22

esclarece que manteve-se ainda o Hinduísmo popular, como sempre


acontece com todas as religiões:

O Hinduísmo popular continuou dividido em seitas que exigem de


seus fiéis uma piedade simplista e o cumprimento de ritos
quotidianos.

2.3.2 - O ISLAMISMO

O ALMANAQUE ABRIL 2001 mostra um pouco do que seja o


ISLAMISMO:

Religião monoteísta baseada nos ensinamentos de Maomé


(chamado O Profeta), contidos no livro sagrado islâmico, o
Alcorão. A palavra islã significa submeter-se e exprime a
obediência à lei e à vontade de Alá (Allah, Deus em árabe). Seus
seguidores são chamados muçulmanos - muslim, em árabe,
aquele que se subordina a Deus. Fundado na região da atual
Arábia Saudita, o islamismo é a segunda maior religião do
mundo. Perde apenas para o cristianismo em número de
adeptos. Seus fiéis se concentram, sobretudo, no norte da África
e na Ásia.

Maomé - O nome Maomé (570-632) é uma alteração hispânica de


Muhammad, que significa digno de louvor. O Profeta nasce em
Meca, numa família de mercadores. Começa sua pregação aos 40
anos, quando, segundo a tradição, tem uma visão do arcanjo
Gabriel, que lhe revela a existência de um Deus único. Na época,
as religiões da península Arábica são o cristianismo bizantino, o
judaísmo e uma forma de politeísmo que venera vários deuses
tribais. Maomé passa a pregar sua mensagem monoteísta e
encontra grande oposição. Perseguido em Meca, é obrigado a
emigrar para Medina, em 622. Esse fato, chamado Hégira, é o
marco inicial do calendário muçulmano. Em Medina, ele é
reconhecido como profeta e legislador, assume a autoridade
espiritual e temporal, vence a oposição judaica e estabelece a
paz entre as tribos árabes. Quase dez anos depois, Maomé e seu
exército ocupam Meca, sede da Caaba, a pedra sagrada de 15 m
de altura que é mantida coberta por um tecido negro, já então
um centro de peregrinação. Maomé morre no ano 632 como líder
de uma religião em expansão e de um Estado árabe que começa
a se organizar politicamente.

Livros e doutrinas - O Alcorão (do árabe al-qur'ãn, leitura) é a


coletânea das revelações divinas recebidas por Maomé de 610 a
632. É dividido em 114 suras (capítulos), ordenadas por
tamanho. Seus principais ensinamentos são a onipotência de
Deus e a necessidade de bondade, generosidade e justiça nas
relações entre as pessoas. Neles estão incorporados elementos
fundamentais do judaísmo e do cristianismo, além de antigas
tradições religiosas árabes. O Alcorão inclui muitas das histórias
do Antigo Testamento judaico e cristão, como a de Adão e Eva.
Depois de desobedecer a Deus, Adão viajou e construiu a
23

primeira Caaba. Após o dilúvio, Abraão, considerado o primeiro


muçulmano, a reconstruiu. Do Novo Testamento, o Alcorão
registra passagens da vida de Jesus Cristo, reverenciado pelos
muçulmanos como um profeta que em sua religião só é
sobrepujado em importância pelo próprio Maomé. Os
muçulmanos acreditam na vida após a morte, na vinda do anti-
Cristo e na volta de Jesus Cristo para vencê-lo, no Juízo Final e
na ressurreição final de todos os mortos. A segunda fonte de
doutrina do Islã, a Suna, é um conjunto de preceitos baseados
nos ahadith (ditos e feitos do profeta).

Preceitos religiosos - A vida religiosa do muçulmano tem práticas


definidas pela Sharia, o caminho que o muçulmano deve seguir
na vida. A Sharia define normas de conduta, comportamento e
alimentação, além dos chamados pilares da religião. O primeiro
pilar é a shahada ou profissão de fé: Não há outro Deus a não ser
Alá, e Maomé é seu profeta. Esse testemunho é a chave da
entrada do fiel para o Islamismo. O segundo pilar são as cinco
orações diárias comunitárias (slãts), durante as quais o fiel deve
ficar ajoelhado e curvado em direção a Meca. Às sextas-feiras
realiza-se um sermão de um verso do Alcorão, de conteúdo
moral, social ou político. O terceiro pilar é uma taxa chamada
zakat. Único tributo permanente ditado pelo Alcorão, é pago
anualmente em grãos, gado ou dinheiro. É empregado no auxílio
aos pobres e no resgate de muçulmanos presos em guerras. O
quarto pilar consiste em cumprir o jejum completo nos dias do
mês do Ramadã. O quinto pilar é o hajj ou a peregrinação a
Meca, que precisa ser feita pelo menos uma vez na vida por todo
muçulmano que tenha condições físicas e econômicas para
realizá-la.

A esses cinco pilares, a seita khawarij adicionou o jihad.


Traduzido comumente como Guerra Santa, significa a batalha
para reformar o mundo, um dos objetivos do Islamismo. É
permitido o uso dos exércitos nacionais como meio de difundir os
princípios do islã. Segundo a doutrina muçulmana, as guerras,
porém, não podem visar à expansão territorial nem a conversão
forçada de pessoas. Por isso, o jihad não é aceito por toda a
comunidade islâmica.

Festas e lugares sagrados - As principais comemorações são Eid


el Fitr, Eid el Adha, Dia de Hégira (Ano-Novo) e a comemoração
do nascimento de Maomé. Elas acontecem nessa ordem no
decorrer do ano e são definidas segundo o calendário lunar, por
isso têm datas móveis em relação ao calendário solar. Na Eid el
Fitr é comemorado, com orações coletivas, o fim do Ramadã.
Durante todo o nono mês lunar de cada ano, guarda-se o
Ramadã, e, do amanhecer ao pôr-do-sol, o muçulmano celebra a
revelação do Alcorão a Maomé e comemora sua primeira vitória
militar contra Meca. Enquanto é dia, os fiéis não podem comer,
beber, fumar ou manter relações sexuais, embora trabalhem
normalmente. Mas as restrições não são mantidas durante as
noites, e as ruas se enchem de pessoas que comemoram
alegremente a revelação feita a seu profeta. A celebração do Eid
24

el Adha lembra a disposição de Abraão em sacrificar a Alá seu


próprio filho, Ismael (na tradição judaico-cristã o filho seria
Isaque). Na época de Eid el Adha também acontece a
peregrinação a Meca. O Ano-Novo islâmico é comemorado no Dia
de Hégira, o 1º do mês Muharram. O marco é o ano de 622,
quando Maomé deixa Meca. Os lugares mais sagrados do
Islamismo são Meca, cidade onde fica a Caaba, Medina, lugar
onde Maomé construiu a primeira Mesquita (templo), e
Jerusalém, cidade onde o profeta ascendeu aos céus durante
uma viagem noturna em que foi ao paraíso e se encontrou com
Moisés e Jesus Cristo.

Divisões do Islamismo - Os muçulmanos se dividem em dois


grandes grupos principais, os sunitas (da palavra suna, o
caminho) e os xiitas. Os sunitas subdividem-se em quatro grupos
principais, cada um deles com uma escola de interpretação da
Sharia: hanafitas, malequitas, chafeitas e hambanitas. São os
seguidores da tradição do Profeta, continuada por All-Abbas, seu
tio. Calcula-se que 84% dos muçulmanos sejam sunitas. Para
eles, a autoridade espiritual pertence à comunidade. Os xiitas
(16% dos muçulmanos) também possuem sua própria
interpretação da Sharia. Seu nome deriva da expressão "shi at
Ali", partido de Ali, que foi marido de Fátima, filha de Maomé.
Seus descendentes teriam a chave para interpretar os
ensinamentos do Islã. A rivalidade entre sunitas e xiitas é
exacerbada com a revolução no Irã, liderada pelo Aiatolá
Khomeini, de linha xiíta.

Uma corrente das mais antigas, a sufista, surge no século IX e é


a mais mística do Islamismo. Os sufistas enfatizam a relação
pessoal com Deus e praticam rituais que incluem danças e
exercícios de respiração para atingir um estado místico. São
membros praticantes do sufismo os faquires, da Índia e outras
regiões da Ásia, e os dervixes, da Turquia. Historicamente, o
Islamismo tem sido marcado pelo surgimento de movimentos,
grupos e correntes de maior ou menor envolvimento político, de
linhas fundamentalista (conservadora) ou moderna.

2.3.3 - O CRISTIANISMO

O ALMANAQUE ABRIL 2001 mostra um pouco do que seja o


CRISTIANISMO:

Religião dos seguidores de Jesus Cristo, iniciada por suas


pregações e as de seus apóstolos em meados do século I, na
região do atual Estado de Israel. Tem origem no judaísmo e é
atualmente a religião mais difundida no mundo, sendo o credo
predominante na Europa e nas Américas. Divide-se em três
ramos principais: catolicismo (o mais antigo, datado do século
IV), Igreja Ortodoxa (de tradição oriental, que surge no século
XI ao se separar da tradição romana) e protestantismo
(movimento do século XVI que dá origem a muitas
denominações).
25

A doutrina - A fé cristã professa que o Deus criador, revelado a


Abraão, a Moisés e aos profetas judeus, envia à Terra seu filho
como Messias (Cristo, em grego), o salvador. Jesus é sacrificado
em lugar dos homens, que perderam a graça de Deus e se
distanciaram dele no início da criação do mundo. Após ter sido
morto, ele ressuscita e oferece a dádiva da salvação e da vida
eterna após a morte, a seu lado, no Céu, aos que se reaproximam
de Deus, acreditam nele e seguem seus preceitos. Sua principal
mensagem é da primazia do amor a Deus e aos demais seres
humanos sobre todas as coisas e postulados. Para os cristãos,
Deus é uma trindade, formada também por seu filho, Jesus
Cristo, e pelo Espírito Santo.

A história do Messias - Segundo a tradição cristã, Jesus de


Nazaré nasce em Belém, na Judéia, em uma família comum, no
período em que a Palestina estava incorporada ao Império
Romano. Ele é o Messias, anunciado no decorrer de mil anos ao
povo judeu, que vem ao mundo para salvar os homens e
anunciar a instauração do reinado de Deus. Aos 30 anos, ele
inicia sua pregação, anunciando o amor e o perdão de Deus a
todos os homens. Durante suas peregrinações ele realiza
milagres, reúne discípulos e apóstolos. Considerado blasfemo
pelos sacerdotes judeus, é preso pelas autoridades romanas,
acusado de não reconhecer a divindade do imperador e conspirar
contra Júlio César. É submetido a processo, condenado,
crucificado e sepultado. Ressuscita três dias depois, aparece a
seus discípulos e os encarrega de levar seus ensinamentos a
todos os pontos do mundo. Para isso, eles são ungidos pelo
Espírito Santo.

O livro sagrado - Os cristãos seguem a Bíblia, que se divide em


duas partes, o Antigo e o Novo Testamento, num total de 73
livros, para os católicos, e 66 para os protestantes. O Antigo
Testamento, chamado de Torá ou Torah pelos judeus, narra a
criação do mundo, a história, leis e tradições judaicas, a vida dos
profetas que anunciaram a vontade de Deus e a vinda do
Messias. São particularmente importantes os primeiros cinco
livros, chamados de Pentateuco, que inclui os Dez Mandamentos
ditados por Deus a Moisés e que são a base ética e moral de todo
o cristianismo. O Novo Testamento contém os textos posteriores
à morte de Cristo, entre eles os quatro Evangelhos (Marcos,
Mateus, Lucas e João), as principais fontes sobre a vida de Jesus.
Os outros textos são os Atos dos Apóstolos, as Epístolas e o
Apocalipse, todos de autoria dos apóstolos.

Expansão - O cristianismo organiza-se primeiro em Jerusalém,


como um movimento dentro do judaísmo. Em vida, Jesus tem
poucos seguidores. Após sua morte, seus apóstolos (enviados,
em grego) peregrinam e espalham seus ensinamentos nas
regiões do Mediterrâneo, fundando várias comunidades. Desde o
início o cristianismo se organiza como Igreja (do grego ekklesia,
reunião), sob a autoridade dos apóstolos e seus sucessores.
26

Os cristãos são perseguidos durante o Império Romano até 313


d.C, quando Constantino lhes concede liberdade de culto. Em
392, o cristianismo se torna a religião oficial do Império, e
missionários são enviados a várias partes da Europa para fundar
igrejas, ocupando todo o continente.

No final da Idade Média, a expansão marítima européia leva o


cristianismo à América e à Ásia. A partir do século XIX,
missionários chegam também à África e ao leste da Ásia,
completando a difusão da religião no mundo.

Festas religiosas - As principais são o Natal - celebração do


nascimento de Jesus Cristo, comemorado em 25 de dezembro
pela maioria das igrejas; a Páscoa, que celebra a ressurreição de
Cristo no domingo da primeira lua cheia do outono (hemisfério
sul) e o Pentecostes, 50 dias após a Páscoa, data em que é
recordada a descida e unção do Espírito Santo aos apóstolos. O
calendário da Igreja Católica, a mais antiga entre as cristãs,
inclui ainda outras celebrações.

Os Dez Mandamentos

Enunciados a Moisés e inscritos por Deus em fogo em duas


tábuas de pedra. Versão resumida dos mandamentos, que podem
ser lidos na Bíblia no livro de Exôdo, capítulo 20, e em
Deuteronômio, capítulo 5.

1. Não terás outros deuses diante de mim.

2. Não farás para ti imagem de escultura, não te curvarás a elas,


nem as servirás.

3. Não pronunciarás o nome do Senhor teu Deus em vão.

4. Lembra-te do dia do sábado para o santificar. Seis dias


trabalharás, mas o sétimo dia é o sábado do seu Senhor teu
Deus, não farás nenhuma obra.

5. Honra o teu pai e tua mãe.

6. Não matarás.

7. Não adulterarás.

8. Não furtarás.

9. Não dirás falso testemunho, não mentirás.

10. Não cobiçarás a mulher do próximo, nem a sua casa e seus


bens.

2.3.4 - O SIKISMO
27

Em http://www.enjoyindia.net/NofotoReligion.htm#sikismo acha-
se uma referência ao Sikismo:

O Sikismo foi fundado no século XV pelo guru Nanak, que


pretendeu unificar o Hinduísmo e o Islamismo, conjugando o
melhor de cada uma dessas religiões. São suas crenças básicas o
monoteísmo, a negação das casta, a humildade e o serviço ao
próximo.

A maioria dos sikhs se concentram na região do Punjab, onde se


encontra seu centro mais sagrado: o Templo de Ouro de
Amritsar.

2.3.5 - O BUDISMO

O ALMANAQUE ABRIL 2001 dá alguma idéia do que seja o BUDISMO:

Sistema ético, religioso e filosófico criado na região da Índia pelo


príncipe hindu Sidarta Gautama (563? - 483 a.C.?), o Buda, por
volta do século VI a.C. Buda é venerado como um guia espiritual
e não um deus. Essa distinção é importante, pois permite a seus
seguidores conviver com outras religiões e continuar seguindo
os preceitos budistas. A origem do budismo está no hinduísmo,
religião na qual Buda é considerado a nona encarnação ou avatar
de Vishnu. O budismo tem sua expansão freada na Índia a partir
do século VII, após a invasão muçulmana e o crescimento do
islamismo. Mas expande-se intensamente por toda a Ásia.
Ramifica-se em várias escolas, ganhando novos matizes e rituais
quando é adotado por diversas culturas.

Princípios - Os ensinamentos do Buda têm como base o preceito


hinduísta do samsara, segundo o qual o ser humano está
condenado a reencarnar infinitamente após cada morte e a
enfrentar os sofrimentos do mundo. Os atos praticados em cada
reencarnação definem a condição de cada pessoa na vida futura,
preceito conhecido como carma. Buda ensina a superar o
sofrimento e atingir o nirvana, evolução e aprimoramento total
do espírito que aniquila os fatores humanos e permite ao homem
encerrar a corrente de reencarnações.

Sua doutrina é baseada em quatro verdades. As três primeiras


são relacionadas entre si: a existência implica dor, a origem da
dor é o desejo e a ignorância, a superação da dor só é possível
com o fim do desejo e da ignorância. A quarta verdade prega que
a remoção da dor pode ser alcançada por oito caminhos:
compreensão correta, pensamento correto, palavra, ação, modo
de vida, esforço, atenção e meditação corretos. Dos oito
caminhos, a meditação é considerada chave para atingir o
nirvana.

Buda também define cinco preceitos morais, chamados Panca


Sila, essenciais para reger a vida atual e melhorar o carma da
vida futura. O primeiro deles é não magoar os seres vivos, pois
28

todos são reencarnações do espírito. Em razão desse preceito,


muitos budistas se tornam pacifistas e adotam uma dieta
vegetariana. Os demais são não roubar, evitar má conduta
sexual, evitar declarações indignas, como mentir, caluniar ou
difamar, evitar drogas e álcool.

O nascimento do Buda - O príncipe Sidarta nasce em uma família


nobre do Nepal e é criado em confinamento no palácio. Aos 29
anos, fica chocado ao descobrir as doenças, a velhice e a morte.
Parte, então, em busca de uma explicação para o sofrimento
humano. Junta-se a um grupo de ascetas, jejua e medita durante
seis anos. Sem encontrar as respostas que procura, separa-se do
grupo. Um dia, sentado sob uma figueira, tem a revelação das
quatro verdades. Passa a ser chamado de Buda (Iluminado, em
sânscrito) pelos seguidores e decide pregar sua doutrina pela
Índia. Seus ensinamentos ganham adeptos, atingem toda a Ásia
e incorporam novos matizes e rituais em diversas culturas,
dentro das duas grandes escolas de filosofia budista, a Hinayana
e a Mahayana.

Budismo Hinayana (Pequeno Veículo) ou Theravada - É a forma


mais antiga dessa religião, praticada principalmente nos países
do sul da Ásia, como Sri Lanka, Mianmar, Camboja, Laos e
Tailândia. Os seguidores dessa corrente acreditam na busca do
nirvana dentro de uma ordem monástica e rejeitam o conceito de
bodhisattva do Budismo Mahayana.

Budismo Mahayana (em sânscrito, Grande Veículo) - Surge no


século II a.C como uma evolução da escola Hinayana. O
Mahayana considera que, embora a aspiração final do ser
humano seja o nirvana, o sábio que já o alcançou, chamado de
bodhisattva (futuro Buda), pode e deve adiar sua morte e
libertação do samsara, para dedicar-se a ensinar aos outros o
caminho do nirvana, por compaixão aos demais seres humanos.
Fazem parte dessa corrente duas das escolas budistas mais
conhecidas no Ocidente, o budismo tibetano e o zen-budismo. O
budismo tibetano surge no fim do século VIII, da fusão das
tradições budista e hinduísta com a primitiva religião do Tibet.
Seu chefe espiritual, o dalai-lama, é considerado um bodhisattva.
O zen-budismo nasce na China, no século VI, e difunde-se,
sobretudo, no Japão, a partir do final século XII. Baseia-se na
prática da meditação e nos exercícios de postura e respiração.
Acredita que o corpo é dotado de uma sabedoria própria que
deve nortear a vida cotidiana.

2.3.6 - O JAINISMO
Em http://www.enjoyindia.net/NofotoReligion.htm#jainismo acha-
se uma referência ao Jainismo:

Esta religião foi fundada uns 500 anos a. C. por Mahavira,


curiosamente contemporâneo de Buda. Não ustrapassam os 3
milhões em toda a Índia (não há fiéia fora desse país),
29

concentrando-se principalmente nos Estados de Rajasthan e


Gujarat. Os jainistas são vegetarianosuma vez que não lhes é
permitido prejudicar aos demais seres vivos (para eles os
animais também têm alma). Inclusive muitos trazem a boca
tapada por uma tela que lhes impede de ingerir insetos
acidentalmente. Talvez sua doutrina da "não violência" nos
lembre o Mahatma Gandhi e não é de estranhar uma vez que
nasceu no Estado de Gujarat e, apesar de não Ter sido jainista, é
induvidoso que foi influenciado por suas crenças.

Os jainistas, tanto quanto os hindus, acreditam na reencarnação,


mas para eles o Universo é infinito e não foi criado por nenhum
Deus.

O interior dos templos jainistas é de uma riqueza inigualável,


não existindo nem um só resquício em que a pedra não haja sido
primorosamente lavrada. Merecem ser visitados os templos do
Monte Abu e os de Ranakpur, ambos no Estado de Rajasthan.

2.4 - O IDEALISMO INDIANO

País em que a pobreza é um dos temas mais relevantes, a Índia


produziu na Economia um expoente como Amartya SEN, que conheceremos
através de um texto de Charo QUESADA, publicado na Web em
http://www.iadb.org/idbamerica/Portuguese/JUL01P/jul01p2.html
intitulado
AMARTYA SEN E AS MIL FACES DA POBREZA

Que é a pobreza? Como se mede? Quem são os pobres? Por que


são pobres? Amartya Sen, prêmio Nobel de Economia, dedicou
sua carreira a responder a essas perguntas, cujas respostas são
fundamentais para o desenvolvimento.

Definir e medir a pobreza e calcular as porcentagens dos pobres


de um país ou de uma região não é uma questão só de cifras e
médias. Em 1998, a Real Academia da Suécia conferiu o prêmio
Nobel de Economia ao Professor Amartya Sen "por devolver uma
dimensão ética ao debate dos problemas econômicos vitais". Sen
havia ultrapassado a teoria matemática para aplicar à economia
uma visão social inovadora, mais realista e humana. Seu
trabalho tenaz de muitos anos o ajudara a descobrir as múltiplas
facetas da pobreza.

Segundo Sen, a pobreza é um mundo complexo e a descoberta


de todas as suas dimensões exige uma análise clara. "Nós, seres
humanos, somos fundamentalmente diversos", explicou o
professor recentemente durante encontro da Rede de Redução
da Pobreza, iniciativa do Banco Interamericano de
Desenvolvimento. "Não se pode estabelecer uma linha de
pobreza e aplicá-la rigidamente a todos da mesma forma, sem
levar em conta as características e circunstâncias pessoais."
30

Certos fatores geográficos, biológicos e sociais multiplicam ou


reduzem o impacto exercido pelos rendimentos sobre cada
indivíduo. Entre os mais desfavorecidos faltam em geral
determinados elementos, como instrução, acesso à terra, saúde
e longevidade, justiça, apoio familiar e comunitário, crédito e
outros recursos produtivos, voz ativa nas instituições e acesso a
oportunidades.

Ser pobre, segundo Sen, não significa viver abaixo de uma linha
imaginária de pobreza – por exemplo, auferir um rendimento
igual ou inferior a US$2 por dia. Ser pobre é ter um nível de
rendimento insuficiente para desenvolver determinadas funções
básicas, levando em conta as circunstâncias e requisitos sociais
circundantes, sem esquecer a interconexão de muitos fatores.

Em busca de exemplos, Sen se reporta ao mundo da mulher,


campo no qual realizou estudos pioneiros, juntamente com seu
trabalho sobre fome e liberdades e a economia da pobreza. A
mulher com maior nível de instrução, explica, tende a ter um
trabalho mais bem remunerado, mais controle sobre a própria
fecundidade e um índice de saúde mais elevado para si própria e
para seus filhos. Há muitos anos Sen defende a idéia de que a
imagem da mulher como heroína relegada ao sacrifício pelo lar e
pela família não a beneficiou em nada.

"Há disparidades sistemáticas entre o nível de liberdade de que


desfruta o homem e a mulher em diferentes sociedades", diz
Sen. "Além da disparidade no nível dos rendimentos ou recursos,
há diferenças em outras esferas, como a divisão das tarefas no
lar, o nível de instrução recebida ou o nível de liberdade de que
desfrutam os vários membros de uma mesma família." A forma
como um indivíduo deve apresentar-se para ser aceito em
sociedade – a roupa que veste, a aparência que tem – limita e
condiciona suas opções econômicas, fenômeno que Sen qualifica
de "vergonha social".

Sen recomenda que, em vez de medir a pobreza pelo nível de


renda, calcule-se o que o indivíduo pode realizar com essa renda
a fim de se desenvolver, levando em conta que essas realizações
variam de um indivíduo para outro e de um lugar para outro. De
outra forma, não teria explicação a existência, nos países ricos,
de bolsões de pobreza nos países ricos, entre pessoas de
rendimentos médios. Nos bairros marginalizados dos Estados
Unidos, o baixo nível de instrução, a precariedade dos serviços
de saúde, a falta de serviços sociais e a ameaça do crime
violento tornam a qualidade de vida (medida em termos de
longevidade, mortalidade infantil, serviços de saúde e educação
e índice de segurança) comparável ou até inferior à de muitos
pobres do resto do mundo, mesmo para pessoas de rendimentos
aceitáveis que vivem numa sociedade rica.

Sen nasceu no estado de Bengala Ocidental, na Índia. Seu país e


a China foram os laboratórios onde estudou economia do
31

desenvolvimento. Hoje, é professor na Universidade de Harvard


e reitor do Trinity College da Universidade de Cambridge. Sua
vasta experiência nas áreas do desenvolvimento e redução da
pobreza resultou num cabedal de teorias e ensinamentos que,
acredita, são aplicáveis à América Latina e ao Caribe.

"A análise da pobreza deve concentrar-se nas possibilidades que


tem um indivíduo de funcionar, mais do que nos resultados
obtidos com esse funcionamento", afirma Sen.

Outra realização de Amartya Sen foi abrandar o impacto do


desenvolvimento. Com uma penada, aboliu o caminho regado a
sangue, suor e lágrimas que se apontava às massas dos países
subdesenvolvidos para alcançar o progresso. A velha teoria do
sacrifício cedeu lugar à do êxito individual, que Sen subscreve
sempre que exista uma rede de apoio social e uma democracia
autêntica. Esta é a explicação de Sen para a grave crise
financeira e social que em 1998 varreu a Ásia, região onde o
esforço havia-se concentrado na produção e no êxito individual,
mas que carecia de uma rede de apoio social e das liberdades
próprias da democracia.

Acredita Sen que o problema da desigualdade tem muitas


facetas, entre elas a pobreza. Ao longo de uma conversa plena
de comentários sociais, aflorou, como era inevitável, o tema da
globalização. Os protestos contra esse fenômeno, opina Sen,
revigoraram um debate muito necessário sobre suas
conseqüências. "A globalização não deve ser rechaçada sem
discussão nem aceita sem uma crítica séria", ponderou. "É
preciso verificar em que medida está beneficiando o mundo. Se a
proporção for 90% para os ricos e 10% para os pobres, é uma
coisa; se for 70-30 ou 60-40 é outra, muito diferente."

2.5 - A POBREZA
GONZÁLEZ-BALADO (1978:35-41) mostra a pobreza e as dificuldades
da Índia no campo social:

Dos 14.000.000 de cegos que há no mundo, 5.000.000 vivem na


Índia.

Na Índia, o déficit de moradias é de 84.000.000.

85% dos indianos vivem com menos de 10 cruzeiros por dia.

Na Índia existem 13.000.000 de anormais, em geral sem


nenhuma assistência, visto que não se podem satisfazer nem
mesmo as necessidades dos milhões de normais que precisam de
assistência num país onde vive uma sétima parte da
humanidade...

[...] A quantidade de calorias de um indiano, em média, é a mais


pobre do mundo inteiro.
32

A fome é uma das conseqüências mais diretas desta situação.


[...] O indiano tem fome, mas não tem raiva.

Não existe, ou quase não existe, na Índia, o ódio entre ricos e


pobres.

[...] O indiano é pacífico e resignado. Aceita sua pobreza e sua


condição social.

É a condição que "mereceu". Por isso, não procura sair dela.

Esta resignação, que tem um fundo religioso muito marcante,


acarreta notáveis implicações sociais.

[...] A situação socialmente subdesenvolvida da Índia não é


sobretudo conseqüência de desorganização, de preguiça ou
indolência.

É antes conseqüência de algumas crenças que acentuam os


valores da contemplação, diminuindo os da ação.

[...] Esta convicção leva muitos a não causar o menor dano a um


animal, a começar pelas vacas, animais sagrados por
antonomásia.

[...] Quem viveu mal, por castigo, se reencarnará num animal ou


numa casta inferior.

[...] há uma mendicidade abundantíssima. Talvez mais do que


em qualquer outra parte do mundo.

[...] Pedem esmola, escavam nos escombros ou se prostituem


para saciar a fome.

[...] Não faltam usurários que exploram a miséria alheia em


favor de sua riqueza nunca suficiente.

Em http://www.geocities.com/Athens/Atrium/2423/india.htm
vêem-se as seguintes informações atualizadas:

Uma grande proporção dos estudantes que são cerca de quatro


milhões é viciada em drogas.

A AIDS tornou-se um grande problema em Bombaim e Calcutá.


Em 1991 estimava-se em 500.000 os portadores do vírus HIV.

São 3,2 milhões os que sofrem de lepra, e o número de cegos


chega a 10 milhões representando mais de um quarto do total
mundial.

Em http://www.ajuris.org.br/fmundialj/preview/artigo26.html lê-
se:
33

A maioria trabalhadora, 90% da população indiana, continua


relegada à economia informal, carente de instrumentos de
acesso aos mercados, ao crédito, à tecnologia e ao
conhecimento. Existem muitas experiências bem-sucedidas de
qualificação e dinamização de fragmentos dessa economia
popular, empreendidas por governos locais e movimentos
comunitários. A Índia [...] necessita de uma verdadeira parceria
entre o Estado e as populações pobres.

2.6 - AS CASTAS
BATH (1994:59) afirma:

Há na Índia, talvez, oito mil subcastas, reunidas em quatro


castas principais, e a mais importante é a dos brâmanes, a que
pertencem os sacerdotes hindus.

PANIKKAR (1977:325) cita VIVEKANANDA:

Desde Buda até Ram Mohan Roy, todos cometeram o erro de


considerar a casta uma instituição religiosa... Mas todas as
divagações dos sacerdotes não impedirão a casta de ser a
cristalização de uma instituição social que outrora foi útil, mas
que hoje em dia empesta a atmosfera da Índia.

E logo em seguida comenta:

O sistema de castas, a família patriarcal, as modalidades de


herança e as conseqüências que delas decorrem, todas essas
características da sociedade indiana são instituições legais, e
não religiosas. São instituições humanas que não podem de
modo algum pretenderem uma origem divina ou uma sanção
religiosa e cuja manutenção depende de leis humanas e não de
uma Igreja ou de um clero.

SCHUON (2002:23-50) procura enxergar o sistema de castas de uma


forma mais otimista:

Como todas as instituições sagradas, o sistema de castas se


baseia na natureza das coisas, ou mais precisamente em um
aspecto desta, portanto em uma realidade que não tem como
não se manifestar em certas condições; a mesma observação
vale para o aspecto oposto, o da igualdade dos homens diante de
Deus. Em suma, para justificar o sistema de castas, basta
levantar a seguinte questão: existem a diversidade das
qualificações e a hereditariedade? Se sim, o sistema de castas é
possível e legítimo. E o mesmo para a ausência das castas, onde
ela se impõe tradicionalmente: os homens são iguais, não
somente do ponto de vista da animalidade, que aqui não está em
questão, mas do ponto de vista de seus fins últimos? Isto é
34

certo, porque todo homem tem uma alma imortal; esta


consideração pode, portanto, ter primazia, em determinada
sociedade tradicional, sobre a da diversidade das qualificações. A
imortalidade da alma é o postulado do “igualitarismo” religioso,
como o caráter quase divino do Intelecto e, portanto, da elite
intelectual é o postulado do sistema de castas.

Não seria possível imaginar maior divergência que aquela entre


a hierarquização hindu e o nivelamento muçulmano, e, no
entanto, não há aí senão uma diferença de acentuação, pois a
verdade é una: de fato, se o Hinduísmo considera na natureza
humana antes de mais nada as tendências fundamentais que
dividem os homens em uma série de categorias hierarquizadas,
ele não deixa por isso de realizar a igualdade na sobrecasta dos
monges errantes (sanyâsís), na qual a origem social já não
exerce nenhum papel; o caso do clero cristão é análogo, no
sentido de que nele os títulos nobiliárquicos desaparecem: um
campones não pode tornar-se príncipe, mas pode tornar-se papa
e sagrar o imperador. Inversamente, a hierarquia se manifesta
mesmo nas religiões mais “igualitárias”: para o Islã, no qual
cada um é seu próprio sacerdote, os xerifes, descendentes do
Profeta, formam uma nobreza religiosa e se sobrepõem assim ao
resto da sociedade, sem, contudo, assumir nela uma função
exclusiva. No mundo cristão, pode acontecer que um burguês de
nível seja “enobrecido”, o que está totalmente excluído no
sistema hindu; o objetivo das castas superiores é essencialmente
o de “manter” uma perfeição primordial, e é o sentido
“descendente” da génese das castas que explica que a casta
pode ser perdida, mas não ganha;1 esta perspectiva da
“manutenção hereditária” é a própria chave cio sistema de
castas. E esta mesma perspectiva que explica, de resto, no
Hinduísmo, o exclusivismo dos templos — que não são púlpitos
de pregação —, e, de maneira mais geral, o papel preponderante
das regras de pureza. A “obsessão” do Hinduísmo não é a
conversão de “incrédulos”, mas, ao contrário, a manutenção de
uma pureza primordial, tanto intelectual como moral e ritual.

Ora, quais são as tendências fundamentais da natureza humana


às quais as castas se referem mais ou menos diretamente?
Poderíamos definir essas tendências como uma série de
maneiras de considerar um “real” empírico: em outros termos, a
tendência fundamental do homem está ligada ao seu
“sentimento” — ou a sua “consciência” — de um “real”. Para o
bráhmana, — o tipo puramente intelectual, contemplativo,
“sacerdotal” —, é o imutável, o transcendente, que é “real”; ele
não “crê”, em seu foro íntimo, nem na “vida” nem na “terra”; há
algo nele que permanece alheio à mudança e à matéria; essa é, a
35

grosso modo, sua disposição íntima, sua “vida imaginativa”, se


assim podemos dizer, sejam quais forem as fraquezas que a
obscureçam. O kshatri)”a — o tipo “cavaleiresco” — tem uma
inteligência aguda, mas voltada para a ação e para a análise
mais que para a contemplação e a síntese; sua força reside
sobretudo em seu caráter; ele compensa a agressividade de sua
energia por sua generosidade, e sua natureza passional por sua
nobreza, seu autodomínio, sua grandeza de alma; para este tipo
humano, é o ato que é “real”, pois é o ato que determina,
modifica, ordena as coisas; sem o ato, não há nem virtude, nem
honra, nem glória. Dito de outro modo, o kshatri)’a “crê” mais na
eficácia do ato que na fatalidade de uma dada situação: ele
despreza a servidão aos fatos e só pensa em determinar-lhes a
ordem, em clarificar um caos, em cortar nós górdios. Portanto,
do mesmo modo que para o bráhmana tudo é “cambiante” e
irreal” a não ser o Eterno e o que a ele se liga — a verdade, o
conhecimento, a contemplação, o rito, a via — para o kshatrijya
tudo é incerto, periférico, a não ser as constantes de seu
dharma: o ato, a honra, a virtude, a glória, a nobreza, das quais
dependerão todos os outros valores. Esta perspectiva pode se
transferir para o plano religioso sem mudar essencialmente de
qualidade psicológica.

Para o vaishya — o mercador, o camponês, o artesão, ou seja, o


homem uja atividade está diretamente ligada aos valores
materiais, não de fato e por acidente, mas em virtude de sua
natureza íntima — para o vaishya, é a riqueza, a segurança, a
prosperidade, o “bem-estar” que são “reais”; os outros valores
são secundários para sua vida instintiva, ele não “crê” neles em
seu foro íntimo; sua imaginação se desabrocha no plano da
estabilidade econômica, da perfeição material do trabalho e da
produtividade, o que, transposto no plano religioso, tornar-se-á
a perspectiva exclusiva da acumulação dos méritos em vista da
segurança póstuma. Esta mentalidade apresenta uma analogia
exterior com a dos brâhmanes por seu caráter estático e
pacífico; mas ela se afasta da mentalidade do brâhmane e do
kshatriya por uma certa “pequenez” da inteligência e da
vontade; o vaishya é hábil, ele também tem bom-senso, mas
carece de qualidades especificamente intelectuais e também de
virtudes cavalheirescas, de “idealismo” em um sentido superior.

Sublinhemos que não falamos aqui de “classes”, mas de


“castas”, ou mais precisamente de “castas naturais”, dado que
as instituições como tais, se retraçam a natureza, não são,
contudo, jamais totalmente impermeáveis às imperfeições e
vicissitudes de toda manifestação. Ninguém pertence a uma
casta natural porque exerce determinada profissão ou porque
tem determinados pais, mas uma pessoa exerce — ao menos em
condições normais — determinada profissão porque pertence a
tal casta, e isto é em grande parte — mas não de forma absoluta
—garantido pela hereditariedade; esta garantia é ao menos
36

suficiente para tomar possível o sistema hindu. Esse sistema não


pôde jamais excluir exceções, que como tais “confirmam a
regra”; o fato de que as exceções sejam mesmo o mais
numerosas possível em nossa época de superpopulação e de
“realização dos impossíveis” não poderia, de qualquer modo,
abalar o princípio da hierarquia hereditária.

Poder-se-ia definir o homem “duas vezes nascido” (dwija, ou


seja, as três castas de que acabamos de falar) como um espírito
dotado de um corpo, e o shúdra — que representa a quarta casta
— como um corpo dotado de uma consciência humana; de fato, o
shúdra é o homem que só é qualificado realmente para trabalhos
manuais mais ou menos quantitativos, não para trabalhos que
exigem iniciativas e aptidões mais vastas e mais complexas;
para esse tipo humano, que se separa dos tipos precedentes
ainda mais do que o vaishya se separa das castas nobres, é o
corporal que é “real”; é o comer e o beber que fazem,
rigorosamente falando, a felicidade, com as concomitâncias
psicológicas que a isso se ligam; em sua perspectiva inata, em
“coração”, tudo o que está fora das satisfações corporais
aparece como um “luxo” ou mesmo uma “ilusão”, ou em todo
caso como algo que se situa “à parte” do que sua imaginação
toma como realidade; é a satisfação das necessidades vitais
imediatas. Poder-se-ia objetar que o tipo cavalheiresco é
também um amante do prazer, mas isso não está em questão,
pois trata-se aqui antes de tudo da função psicológica do gozo do
prazer, de seu papel em um conjunto de compossíveis; o
kshatriya é de bom grado poeta ou esteta, ele quase não põe o
acento na matéria com tal.

O caráter central e ao mesmo tempo elementar que tem ô prazer


na perspectiva inata do shúdra explica o caráter habitualmente
despreocupado, dissipado e “instantâneo” deste último, caráter
pelo qual ele reencontra, por uma curiosa analogia invertida, a
despreocupação espiritual do que está “além das castas”
(ativarnâshramí), o monge (sannyâsí), que, também ele, vive
“no instante”, não se preocupa com o dia seguinte e erra sem
objetivo aparente; mas o shúdra é muito passivo diante da
matéria para poder se governar a si mesmo, ele depende, por
conseqüência, de um querer outro que não o seu; sua virtude é a
fidelidade, ou uma espécie de retidão maciça, opaca, sem dúvida,
mas simples e inteligível.

As qualidades dos vaishyas são freqüentemente confundidas


com as dos brâhmanas ou inversamente, pela simples razão de
que essas duas castas são pacíficas; do mesmo modo, ocorre de
confundirem shúdras e kshatriyas por causa dos aspectos de
violência próprios dessas duas castas; esses erros são tanto mais
nefastos quanto vivemos em uma civilização meio-vaishya meio
shüdra, cujos “valores” facilitam tais confusões. Em tal mundo,
éimpossível compreender o brâhmane sem ter antes
37

compreendido o kshatriya; é preciso, a fim de escapar de


confusões por demais fáceis e das assimilações mais
injustificadas, distinguir nitidamente e em todos os planos o
superior do inferior, o consciente do inconsciente, o espiritual do
material, o qualitativo do quantitativo. Resta-nos agora
considerar o caso do homem “sem-casta”; é sempre o tipo
natural, a tendência fundamental, que temos em vista, e não
exclusivamente as categorias de fato do sistema hindu. Vimos
que o shúdra nítido, por sua falta de interesse real por aquilo
que supera sua vida corporal e pela falta de aptidões
construtivas que disso resulta, opõe-se ao grupo das três castas
superiores; de uma maneira análoga, o homem “fora das castas”
se opõe, por seu caráter caótico, aos homens de caráter
homogêneo. O "intocável" tem tendência a realizar as
possibilidades psicológicas excluídas pelos outros homens, de
onde sua tendência àtransgressão; ele encontra satisfação no
que os outros rejeitam. Segundo a concepção hindu, o iinais
baixo dos “intocáveis" — o chandâla — provém de um shúdra e
de uma brâhmane a idéia fundamental é aqui a de que o máximo
de “impureza”— ou seja, de dissonância psicológica em razão de
incompatibilidades congênitas — é obtido por um máximo de
distância entre as castas dos pais; o filho de pais shúdras é
“puro” graças a sua homogeneidade mental, mas o filho da união
de um shúdra e de uma mulher nobre é “impuro” na medida
mesma em que a casta da mulher é superior à do marido. De
resto, nos países cristãos como em toda parte, ou quase, o filho
ilegítimo, “fruto do pecado”, é praticamente visto como
“impuro”; do ponto de vista hindu, que é centrado em uma
espécie de pureza orgânica, esse pecado inicial é hereditário
como o é entre nós a nobreza da espada, ou como o é o “pecado
original”. Em todo caso, o pária, e sejam quais forem sua origem
étnica e sua ambiência cultural, constitui um tipo definido que
vive normalmente à margem da sociedade e esgota as
possibilidades nas quais nenhum outro quer tocar; ele tem
comumente algo de ambíguo, de desequilibrado, por vezes de
simiesco e de protéico quando tem dons, o que o torna capaz “de
tudo e de nada”, se assim podemos dizer; pode ser visto
freqüentemente como limpa-fossas, saltimbanco, comediante,
carrasco, sem falar das ocupações ilícitas; em uma palavra, ele
tem tendência seja a exercer as atividades bizarras ou sinistras,
seja simplesmente a negligenciar as regras estabelecidas, no
que ele se assemelha a certos santos, mas por analogia inversa,
está claro. No que se refere aos trabalhos “impuros” ou
“desprezíveis”, poder-se-ia considerar hipócrita deixar a certos
homens atividades que não se quer para si mesmo e de que, não
obstante, se tem necessidade, mas é preciso não esquecer que a
sociedade tem o direito de se proteger contra as tendências que
poderiam prejudicá-la, e de neutralizá-las exercendo-as por
intermédio de homens que de certa forma as encarnam; a
sociedade — enquanto “totalidade” — tem direitos “divinos” que
38

o indivíduo — como tal, enquanto “parte” — não tem, e


inversamente, conforme o caso. O indivíduo pode não condenar;
a sociedade é obrigada a fazê-lo.

No entanto, mesmo as situações invariáveis podem-se atenuar


pelo desgaste; a massa dos párias da Índia se beneficia da lei
cósmica de compensação pelo fato de seu número, e da
homogeneidade que daí resulta: o próprio número age como uma
substância absorvente, pois a massa enquanto tal tem algo da
inocência niveladora da terra; assim como, segundo o esoterismo
muçulmano, as chamas do inferno terminarão por se resfriar,
Deus sendo “essencialmente” bom — não “acidentalmente” —,
do mesmo modo a transgressão congênita do pária, portanto sua
“impureza”, deve-se atenuar no fim dos tempos, e mesmo se
reabsorver completamente em muitos casos, mas sem com isso
abolir a hereditariedade, da qual o indivíduo continuará sendo o
elo ou a parte. Para esses indivíduos, o fato de ser pária será um
aspecto do karma — uma conseqüência de “ações anteriores" —
exatamente como o é uma doença ou uma infelicidade qualquer
para um membro de uma casta elevada; por outro lado, a
“intocabilidade" —um pouco como a condição das viúvas — tem
um valor religioso para os próprios párias, o que explica a recusa
da maior parte deles de sair de sua condição abandonando o
mundo hindu; como regra geral, todos são orgulhosos de
pertencer a sua “casta” particular de pária, mesmo os chandálas.

A casta é o centro de gravidade da alma individual; o tipo pária


puro não tem centro, ele vive, portanto, na periferia e na
inversão; se ele tende para a transgressão, é porque ela lhe
confere de certo modo o centro que ele não tem e assim o liberta
ilusoriamente de sua natureza equivoca. O pária é uma
subjetividade descentralizada, portanto centrífuga e sem limite;
ele foge da lei, da norma, porque ela o remeteria ao centro do
qual ele foge por sua própria natureza. O tipo shâdra também é
“subjetivo”, mas esta subjetividade é opaca e homogênea, ela é
ligada ao como, que é uma realidade objetiva; o shúdra tem a
qualidade — e o defeito — de ser “sólido”. Poderíamos também
nos exprimir da seguinte maneira: o brâhmane é “objetivo” e
centrado no “espírito”; o kshatriya tende para o “espírito”, mas
de uma maneira “subjetiva”; o vaishya é “objetivo” no plano da
“matéria”; quanto ao shúdra, ele é “subjetivo” no mesmo plano.

As três primeiras castas — os “duas vezes nascidos”, no


Hinduísmo — se distinguem, por conseqüência, dos shúdras seja
pelo “espírito”, seja pela “objetividade”; só o shúdra é “matéria”
e “subjetividade” ao mesmo tempo. O vaishya é materialista
como o shúdra, mas éum “materialismo” de interesse geral; o
kshatriya é “idealista” como o brâhmane, mas e um idealismo”
mais ou menos mundano ou egocêntrico.

O inferior não somente não tem a mentalidade do superior, mas


39

não pode mesmo concebê-la exatamente; assim, poucas coisas


são mais penosas que as interpretações “psicológicas” que
atribuem ao homem superior intenções que ele não pode ter em
nenhum caso, e que não fazem senão refletir a pequenez de seus
autores, como pode-se constatar à saciedade na “crítica
histórica” ou na “ciência das religiões”; homens cuja alma é
fragmentária e opaca querem nos ensinar sobre a “psicologia”
da grandeza e do sagrado.

Dissemos que o sistema de castas reside na natureza das coisas,


ou seja, em certas propriedades naturais do gênero humano, e é
delas uma aplicação tradicional; ora, como acontece sempre em
tais casos, o sistema tradicional “cria” — ou contribui para criar
— aquilo de que ele é uma aplicação: o sistema hindu resulta das
diferenças intelectuais ou espirituais, e ao mesmo tempo ele cria
tipos tanto mais definidos; seja isso uma vantagem ou uma
desvantagem, ou as duas coisas ao mesmo tempo, o fato existe e
é inevitável. E o mesmo vale para a ausência tradicional das
castas: esta perspectiva, não somente deriva da indiferenciação
real dos homens, mas também a realiza, ou seja, elimina de
certa maneira o que, na perspectiva oposta, dá lugar ao sistema
de casta. No Islã, onde não há casta sacerdotal — nem
hereditária nem vocacional — todo homem tem algo de sacerdote
e nenhum é inteiramente “leigo”, ou mesmo “desprezível”; para
citar outro exemplo, diremos que, se todo muçulmano e um
pouco sacerdote”, todo pele-vermelha é “um pouco profeta”, ao
menos em certas condições determinadas e em razão da
estrutura particular desta tradição, que reparte o profetismo por
toda a coletividade, sem abolir com isso a função profética
propriamente dita. Se se quisesse censurar ao Hinduísmo o
“criar” o pária, poder—se—ia da mesma forma censurar ao
Ocidente o “i” o pecado, pois que o conceito, aqui como em toda
parte, contribui para realizar a coisa, em virtude de uma
concomitância inevitável de toda cristalização formal.

Seja como for, se o ocidental tem dificuldade de compreender o


sistema de castas, é antes de tudo porque ele subestima a lei da
hereditariedade, e ele a subestima pela simples razão de que ela
se tornou mais ou menos inoperante em um meio tão caótico
como o Ocidente moderno, onde quase todo mundo aspira a
ascender na escala social — se é que isso ainda existe — e onde
quase ninguém exerce a profissão de seu pai; um ou dois séculos
deste regime bastam para tornar a hereditariedade tanto mais
precária e flutuante quanto ela não havia sido posta em ação
antes por um sistema tão rigoroso quanto o das castas hindus;
mas mesmo onde havia ofícios transmitidos de pai para filho, a
hereditariedade foi praticamente abolida pelas máquinas. A isto
é preciso acrescentar, por um lado, a eliminação da nobreza e,
por outro lado, a criação de novas “elites”: os elementos mais
40

disparatados e mais “opacos” foram transmutados em


“intelectuais”, de modo que já quase ninguém “está em seu
lugar”, como diria Guénon; assim, não há nada de surpreendente
no fato de a “metafísica” ser considerada doravante segundo a
perspectiva do vaishya e do shúdra, o que nenhuma mixórdia de
“cultura” poderia dissimular.

O problema das castas nos leva a abrir aqui um parêntese: como


definir a posição ou a qualidade do trabalhador moderno?

Responderemos em primeiro o “mundo trabalhador” é uma


criação totalmente artificial, devida à máquina e à vulgarização
científica que a esta se liga; dito de outro modo, a máquina cria
infalivelmente o tipo humano artificial que é o “proletário”, ou
antes, ela cria um “proletariado”, pois se trata, em tal caso,
essencialmente de uma coletividade quantitativa e não de uma
“casta” natural, ou seja, tendo seu fundamento em determinada
natureza individual. Se se pudesse suprimir as máquinas e
reintroduzir o antigo artesanato com todos os seus aspectos de
arte e de dignidade, o “problema do trabalhador” deixaria de
existir; isto é verdadeiro mesmo para as funções puramente
servis ou os ofícios mais ou menos quantitativos, pela simples
razão de que a máquina é inumana e anti-espiritual em si. A
máquina mata, não somente a alma do trabalhador, mas a alma
como tal, portanto também a do explorador: o par explorador-
trabalhador é inseparável do maquinismo, pois o artesanato
impede esta alternativa grosseira por sua própria qualidade
humana e espiritual, O universo maquinista é acima de tudo o
triunfo da ferragem pesada e dissimulada; é a vitória do metal
sobre a madeira, da matéria sobre o homem, da astúcia sobre a
inteligência; expressões tais como “massa”, “bloco”, “choque”,
tão freqüentes no vocabulário do homem industrializado, são
totalmente significativas para um mundo que está mais perto
dos insetos do que dos humanos. Não há nada de surpreendente
no fato de que o “mundo do trabalhador”, com sua psicologia
“maquinista-cienticista-materialista”, seja particularmente
impermeável às realidades espirituais, pois ele pressupõe uma
“realidade ambiente” totalmente factícia: ele exige máquinas,
portanto metal, bulício, forças ocultas e pérfidas, uma ambiência
de pesadelo, do vaivém ininteligível, em uma palavra, uma vida
de insetos na feiúra e na trivialidade; no interior de tal mundo,
ou antes de tal “cenário”, a realidade espiritual aparecerá como
um ilusão patente ou um luxo desprezível. Em não importa qual
ambiência tradicional, ao contrário, é o problematismo
“trabalhador” — portanto maquinista — que não teria mais
nenhuma força persuasiva; para torná-lo verossímil, é preciso
portanto começar por criar um mundo de bastidores que lhe
corresponda, e cujas formas mesmas sugerem a ausência de
Deus; o Céu deve ser inverossímil, falar de Deus deve soar falso.
41

Quando o trabalhador diz que não tem “tempo para rezar”, ele
não está muito errado, pois não faz senão exprimir assim tudo o
que sua condição tem de inumano, ou digamos de “infra-
humano”; os antigos ofícios, por sua vez, eram eminentemente
inteligíveis, e não privavam o homem de sua qualidade humana,
a qual implica por definição a faculdade de pensar em Deus.

Alguns objetarão sem dúvida que a indústria é um “fato” e que é


preciso aceitá-la como tal, como se esse caráter de fato tivesse
primazia sobre a verdade; considera-se habitualmente como
“coragem” e “realismo” o que é exatamente o contrário, ou seja:
porque ninguém pode impedir determinada calamidade, ela é
chamada de “bem” e é glorificada a incapacidade de se lhe
escapar. O erro torna-se verdade porque ele “existe”, o que está
bem de acordo com o “dinamismo” — e com o “existencialismo”
— da mentalidade maquinista; tudo o que existe pela cegueira
dos homens se chama “nosso tempo”, com uma nuance de
“imperativo categórico”. É por demais evidente que a
impossibilidade de escapar de um mal não impede que este seja
o que ele é; para encontrar um remédio, se a ocasião se
apresenta, é preciso considerar o mal independentemente de
nossas chances de escapar a ele ou de nosso desejo de não o
ver, pois um bem não poderia se produzir de encontro à verdade.

E um erro comum — e característico para a mentalidade


“positiva” ou “existencialista” de nossa época — crer que a
constatação de um fato depende do conhecimento das causas ou
dos remédios, conforme o caso, como se o homem não tivesse o
direito de ver o que ele não pode nem explicar nem modificar;
chama-se “crítica estéril” à indicação de um mal e esquece-se
que o primeiro passo para uma eventual cura é a constatação da
doença. Seja como for, toda situação oferece a possibilidade,
senão de uma solução objetiva, ao menos de uma reação
subjetiva, de uma libertação pelo espírito; quem compreende a
verdadeira natureza do maquinismo, escapará por isso mesmo
das servidões psicológicas da máquina, o que já é muito.
Dizemos isto sem nenhum “otimismo”, e sem perder de vista que
o mundo atual é um “mal necessário” cuja raíz metafísica está,
em última análise, na infinitude do Possível divino.

Mas há outra objeção que é preciso levar em conta: alguns dirão


que sempre houve máquinas e que as do século XIX são
simplesmente mais perfeitas que as outras, mas esse é um erro
radical que se encontra sempre, sob diversas formas; é uma falta
de senso das “dimensões” ou, dito de outro modo, é não saber
distinguir entre diferenças qualitativas ou eminentes e
diferenças quantitativas ou acidentais. Um antigo tear, por
exemplo, por mais perfeito que seja, é uma espécie de revelação
e um símbolo cuja inteligibilidade permite à alma “respirar”,
enquanto que a máquina é propriamente “sufocante”; a gênese
42

do tear está ligada à vida espiritual — o que se percebe, aliás, em


sua qualidade estética — enquanto uma máquina moderna
pressupõe ao contrário um clima mental e um trabalho de
investigação que são incompatíveis com a santidade, sem falar
de seu aspecto de artrópodo gigante ou de caixa mágica, o qual
também tem um valor de critério; um santo pode construir ou
aperfeiçoar um moinho d’água ou de vento, mas nenhum santo
pode inventar uma máquina, precisamente porque o progresso
técnico implica uma mentalidade contrária à espiritualidade,
critério que aparece com uma evidência brutal, como dissemos,
nas próprias formas das construções mecânicas. Precisaremos
que, no domínio das formas como no do espírito, é falso tudo o
que não está de acordo nem com a natureza virgem, nem com
um santuário; toda coisa legítima tem, por um lado, algo da
natureza e, por outro, algo do sagrado. Uma característica
surpreendente das maquinas e que elas devoram matérias —
geralmente telúricas e tenebrosas —, em vez de serem postas em
movimento pelo homem apenas ou por uma força natural tal
como a água ou o vento; é-se obrigado a saquear a terra para
fazê-las “viver”, o que não é o menor aspecto de sua função de
desequilíbrio. É preciso ser muito cego para não ver que nem a
rapidez nem a superprodução são bens, sem falar da
proletarização do povo e do afeamento do mundo;” mas o
argumento de base contínua a ser o que enunciamos em
primeiro lugar, a saber, que a técnica só pode nascer em um
mundo sem Deus — um mundo no qual a astúcia substituiu a
inteligência e a contemplação.

Mas voltemos, após esta digressão, a nosso tema fundamental: é


fácil compreender, para um ocidental, como a igualdade dos
homens diante de Deus resulta da natureza das coisas, tanto
mais quanto as religiões monoteístas — como, de resto, o
Budismo — neutralizam por sua própria estrutura os
inconvenientes que podem resultar das desigualdades humanas;
o fato de que elas aceitem estas desigualdades no plano “leigo”
ou “mundano” e que, por outro lado, elas criem hierarquias
religiosas não abala em nada sua perspectiva fundamental.

Alguns perguntarão por que, dado que tal “nivelamento” é


espiritualmente possível, o Hinduísmo não poderia colocar-se no
mesmo ponto de vista e abandonar as castas; ora, o Hinduísmo
enquanto tal, ou seja, enquanto totalidade, não tem nem o
direito nem o poder de fazer isto, pois é evidente que, se uma
instituição sagrada existe, é porque ela é metafisicamente
possível e portanto necessária, o que implica que ela apresenta
vantagens que não poderiam ser realizadas de outra forma.

De fato, o caráter puro e direto da metafísica vedantina seria


inconcebível sem o sistema de castas; a intelectualidade mais
transcendente goza na Índia de uma liberdade total, enquanto
que esta mesma intelectualidade deve-se acomodar, em outras
tradições, com um esoterismo mais ou menos sibilino ou mesmo
43

“tortuoso” em suas formulações, e geralmente também com


certas coações sentimentais; é o preço da simplificação do
quadro social. Nas religiões semíticas, o esoterismo é solidário
do exoterismo, e inversamente; a ausência de castas obriga a
certa uniformidade mental que não apresenta menos
inconvenientes, do ponto de vista da metafísica pura, do que o
sistema de castas apresenta do ponto de vista dos
imponderáveis da natureza humana; o exoterismo invade
habitualmente o terreno do esoterismo, de onde um movimento
de pêndulo entre esses dois planos, ao qual um Omar Khayyam,
súfi ortodoxo, respondeu pelo paradoxo e pela ironia. Onde há
um exoterismo nítido, o esoterismo quase não pode-se impedir
de andar com “pernas de pau” exotéricas, enquanto que na
realidade ele representa a essência da verdade, a qual supera as
formas e incidentemente as rompe; é o que mostra um caso
como o de Al-Hallâj, “amante” de Deus que os hindus certamente
não teriam condenado. É preciso não esquecer que a coletividade
representa um princípio de espessamento e de complicação: ela
atribui comumente um caráter absoluto a fatos, e é esta
tendência que o dogmatismo religioso leva em conta a priori. Se
o esoterismo pode infundir à massa algo de seu mistério e de
suas graças, a massa lhe oferecerá em retorno — na medida em
que ele se entrega a ela — suas tendências ao mesmo tempo
“espessantes” e “dissipadoras”, de onde uma simplificação
doutrinal e uma necessidade de atividade exterior que estão nos
antípodas da intelecção e da contemplação. Em suma, convém
distinguir, no Islã, quatro planos: há em primeiro lugar o
exoterismo (shâri’ah) como tal, que compreende as idéias e os
meios próprios a sua natureza; depois há o esoterismo
(haqiqah/taçawwul) no exoterismo, que comporta o que este
pôde assimilar daquele, e que ele teve mesmo de assimilar, a
separação entre os dois planos não sendo estanque; mas tal
interferência é sempre coisa pessoal e mística e não afeta a Lei.
Há em seguida a situação inversa, ou seja, a perspectiva
exotérica infiltrando-se no esoterismo, pelo fato de uma
vulgarização parcial, e historicamente inevitável: é uma
perspectiva de atividade e de mérito, de temor e de zelo,
combinada com idéias esotéricas; por fim, há o “esoterismo no
esoterismo”, se assim podemos dizer, que não é senão a gnose
liberada, não, certamente, de toda forma, mas de todo
formalismo interior e de todo absolutismo mitológico.

Quanto aos aspectos positivos do “nivelamento” muçulmano, o


Islã não apenas neutralizou as diferenças de casta, ele aboliu
também as oposições raciais; talvez nenhuma civilização tenha
misturado tanto as raças como o Islã: o mulato aparece nele, em
geral, como um elemento totalmente “puro” e honrável, e não
como o pária que ele é na prática nos povos de origem cristã;
poder-se-ia dizer que o turbante ou o fez está para o muçulmano
44

como a pele branca está para o europeu. Para o Islã, as deter-


minações da natureza são acidentes; a escravidão é um acidente,
ela não tem, portanto, nenhuma relação com o sistema de
castas; a humanidade original era sem castas e sem raças; é ela
que o Islã quer restaurar, em conformidade com as condições de
nosso milenar. O caso é análogo no Cristianismo e no Budismo;
todo homem são de espírito pode tornar-se sacerdote ou monge;
o clero corresponde a uma casta vocacional, não hereditária
como a nobreza; a ausência desse caráter hereditário se acha
compensada pelo celibato. Já indicamos que, sob esta condição,
o Hinduísmo admitiria em princípio que um não-brâmane
pudesse tomar-se brâmane em virtude de sua aptidão individual
e de sua vocação — o risco de atavismos negativos sendo então
afastado — e de fato há algo deste gênero no estado de
ativamâshrami que se situa além das castas, mas com a condição
de separar sua pessoa do corpo vivo da sociedade; o fato de
haver ordens de sannyâsís que não admitem senão brâmaries
não impede que todo homem possa tornar-se sannyásí fora
dessas ordens. Notemos também que três avatáras de Vishnu, a
saber, Râma, Krishna e o Buddha, eram kshatrias e não
bráhmanas, apesar de que eles possuíam por definição a
natureza bramânica no mais alto grau; é essa uma manifestação
de universalidade ao mesmo tempo que uma compensação, pois
Deus, em suas manifestações diretas e fulgurantes, não se
submete a molduras preexistentes, derrogação que exige sua
infinitude.

A fim de prevenir toda má interpretação, é interessante notar


aqui que a ausência de castas propriamente ditas no Islã, ou
mesmo na maior parte das outras tradições não-hindus, não tem
nenhuma relação com uma preocupação de “humanitarismo” no
sentido corrente do termo, pela simples razão de que o ponto de
vista da tradição é o do interesse global — e não apenas da
satisfação — do ser humano; ela não tem de praticar uma
pseudocaridade que salva os corpos e que mata as almas. A
tradição é centrada no que dá um sentido à vida, e não em um
“bem-estar” imediato, parcial e efêmero, e concebido como um
fim em si; ela não nega a legitimidade — relativa e condicional —
do bem-estar, mas ela subordina todo valor aos fins últimos do
homem. O bem-estar espiritual é infelizmente incompatível, para
a maioria dos homens, com um bem-estar terrestre por demais
absoluto; a natureza humana tem necessidade de “provações”
tanto quanto de “consolações”. Um determinado indivíduo, seja
rico ou pobre, pode ser sóbrio e desapegado por sua própria
vontade, mas uma coletividade não é um indivíduo e não tem
vontade única; ela tem algo de uma avalanche contida e não se
mantém em equilíbrio senão com a ajuda de coações, e, de fato,
as virtudes hereditárias que podem nos espantar em tal ou qual
grupo étnico se mantêm graças a uma luta constante, seja qual
for o plano desta; esta luta também faz parte da felicidade,
45

acima de tudo, contanto que ela se mantenha perto da natureza,


que é maternal, e não se torne abstrata e pérfida. Não
esqueçamos, por outro lado, que o “bem-estar” é coisa relativa
por definição; quando o homem se coloca unicamente no ponto
de vista material, ele destrói o equilíbrio normal entre o espírito
e o corpo e desencadeia apetites que não têm em si mesmos
nenhum limite. É este aspecto da natureza humana que os
humanitaristas propriamente ditos negam ou ignoram de forma
preconcebida; eles crêem que o homem é bom em si, portanto
independente de Deus, e atribuem seus defeitos,
arbitrariamente, a condições materiais desfavoráveis, como se a
experiência não provasse, não somente que a malícia do homem
pode não depender de nenhum fator exterior, mas também que
esta malícia se desenvolve freqüentemente no “bem-estar” e ao
abrigo das preocupações elementares; os desvios da “cultura”
burguesa o mostram à saciedade. Para as religiões, a norma
“econômica” é expressamente a pobreza, da qual os Fundadores,
aliás, sempre deram o exemplo — trata-se de uma pobreza que
se mantém perto da natureza, e não um desnudamento tornado
ininteligível e enfeado pelas coações de um mundo artificial e
irreligioso —, enquanto que a riqueza é tolerada, pois ela é um
direito natural e não impede nem o desapego nem a sobriedade,
mas ela não é o ideal como épraticamente o caso no mundo
moderno.

O Hinduísmo é particularmente rigoroso sob este aspecto:


segundo os Shâstras, o luxo propriamente dito — aquele que não
visa senão o bem-estar físico e lhe acrescente novas
necessidades —é um “roubo para com a natureza”; seu contrário,
a simplicidade, não é, evidentemente, uma privação do
necessário, mas uma recusa do supérfluo, sempre no que diz
respeito à comodidade física, não à propriedade como tal; é
verdade que esse estado de simplicidade foi ultrapassado, na
própria Índia, já há séculos. Seja como for, as pessoas com
muita freqüência englobam, hoje em dia, sob um denominador
comum — o de “miséria” — a simplicidade ancestral da vida e a
simples falta de víveres, confusão que não é desinteressada; a
noção de “país subdesenvolvido”, em sua cândida perfídia, é
muito significativa sob este aspecto. Inventou-se um “padrão de
vida” maquinista e cientista que se gostaria de impor a todos os
povos, e a fortiari àqueles que são classificados como
“atrasados”, quer se trate de hindus ou de hotentotes; para os
progressistas, a felicidade se identifica a uma multidão de
complicações ruidosas e pesadas, próprias a esmagar muitos
elementos de beleza e portanto de bem-estar; e, querendo abolir
determinados “fanatismos” e “horrores”, esquece-se que
existem atrocidades no plano espiritual, atrocidades das quais a
civilização dita humanitarista dos modernos está saturada.

Para julgar exatamente a qualidade de felicidade de um mundo


passado, seria preciso poder se colocar no lugar dos homens que
46

nele viveram e adotar sua maneira de avaliar as coisas, portanto


também seus reflexos imaginativos e sentimentais; muitas
coisas de que passamos a ter o hábito lhes apareceriam como
coações intoleráveis às quais eles prefeririam todos os riscos de
seu meio; a simples feiúra e a atmosfera de trivialidade do
mundo atual lhes pareceriam o mais sombrio dos pesadelos. A
história como tal não poderia dar conta plenamente da alma de
uma época longínqua: ela registra sobretudo as calamidades e
deixa de lado todos os fatores estáticos da felicidade; já se disse
que a felicidade não tem história, e isto é profundamente
verdadeiro. As guerras e as epidemias — não mais que certos
costumes — não refletem, evidentemente, os aspectos felizes da
vida de nossos ancestrais, como o fazem, em compensação, as
obras artísticas e literárias; a supor que a história não possa
nada nos dizer sobre a felicidade da Idade Média, as catedrais e
todas as outras manifestações artísticas do mundo medieval são
um testemunho irrecusável neste sentido, ou seja, elas não dão
a impressão de uma humanidade mais infeliz que a atual, para
dizer o mínimo; como os orientais de antigamente, nossos
ancestrais prefeririam sem dúvida, se tivessem a escolha, ser
infelizes à sua maneira a ser felizes à nossa. Não há nada de
humano que não seja um mal sob algum ponto de vista: mesmo a
tradição é um “mal” sob certos aspectos, pois ela deve entrar em
contato com os males humanos e os males humanos a invadem,
mas ela é então um “mal menor” ou um “mal necessário”; seria
evidentemente menos falso dizer que ela é um “bem”,
humanamente falando. A verdade pura, é que “só Deus é bom”, e
que toda coisa terrestre tem um lado ambíguo.

Alguns dirão, sem dúvida, que o humanitarismo, longe de ser


materialista por definição, pretende reformar a natureza humana
pela educação e pela legislação; ora, é contraditório querer
reformar o humano independentemente do divino, este sendo a
essência daquele; tentar fazê-lo é provocar no fim das contas
misérias bem piores que aquelas às quais tentava-se escapar. O
humanitarismo filosófico subestima a alma imortal pelo fato
mesmo de que superestima o animal humano; ele obriga um
pouco a enegrecer os santos para melhor poder branquear os
criminosos, pois uma coisa não vai sem a outra. Resulta daí a
opressão dos contemplativos desde sua tenra infância: em nome
do igualitarismo humanitário, vocações são trituradas, gênios
são dilapidados pela escola em particular e pela mundanidade
oficial em geral; todo elemento espiritual é banido da vida
profissional e pública, o que equivale a privar a vida de uma boa
parte de seu conteúdo e a condenar a religião à morte lenta. O
nivelamento moderno, “democrático” se quiserem, está nos
antípodas da igualdade teocrática das religiões monoteístas, pois
ele se baseia, não no teomorfismo do homem, mas em sua
animalidade e sua revolta.

A tese do progresso indefinido se choca, de resto, com a


47

seguinte contradição: se o homem pôde sobreviver durante


milênios sob o império de erros e de tolices — supondo que as
tradições não sejam mais do que isto, e então o erro e a tolice
seriam quase incomensuráveis — a imensidão deste engano seria
incompatível com a inteligência que se atribui ao homem como
tal e que se está obrigad6 a lhe atribuir; dito de outro modo, se o
homem é suficientemente inteligente para chegar ao “progresso”
que nossa época encarna — supondo que isso seja uma realidade
— ele é a priori inteligente demais para ter estado enganado,
durante milênios, por erros tão ridículos quanto os que o
progressismo lhe atribui; mas se, ao contrário, o homem é
suficientemente tolo para poder ter acreditado nisso por tão
longo tempo, ele é também por demais tolo para lhe escapar. Ou
então: se os homens atuais tivessem enfim chegado à verdade,
eles deveriam ser superiores em proporção aos homens de
outrora, e esta proporção seria quase absoluta; ora, o mínimo
que se pode dizer é que o homem antigo — medieval ou da
Antigüidade — não era nem menos inteligente nem menos
virtuoso que o homem moderno, longe disso. A ideologia do
progresso é um desses absurdos que chocam pela falta de
imaginação, bem como pela falta do senso das proporções; é, de
resto, essencialmente uma ilusão de vaishya, um pouco como a
“cultura”, que não é senão uma “intelectualidade” sem
inteligência.

Mas voltemos à questão das castas: a ausência de castas


exteriores — pois as castas naturais só poderiam ser abolidas na
santidade, ao menos sob certo aspecto — exige condições que
neutralizam os inconvenientes possíveis desta indiferenciação
social; ela exige particularmente uma civilidade que salvaguarde
a liberdade espiritual de cada um; entendemos com isso não a
liberdade para o erro, que evidentemente não tem nada de
espiritual, mas a liberdade para a vida em Deus. Essa civilidade é
a própria negação de todo achatamento igualitário, pois ela diz
respeito ao que há de mais elevado em nós: os homens estão
obrigados à dignidade, eles devem tratar-se uns aos outros como
santos virtuais; inclinar-se diante do próximo, é ver Deus em
toda parte, e é abrir-se a si mesmo a Deus. A atitude contrária éa
camaradagem”, que nega ao próximo todo o mistério e mesmo
todo direito ao mistério: é colocar-se no plano da animalidade
humana e reduzir o próximo ao mesmo nível, obrigá-lo a um
achatamento sufocante e desumano. A indiferenciação social só
pode ter uma base religiosa: ela só pode se produzir pelo alto,
em primeiro lugar religando o homem a Deus, depois
reconhecendo Deus no homem. Em uma civilização como o Islã,
não há “meios sociais” propriamente ditos; as regras de com-
portamento fazem parte da religião, basta ser piedoso para
conhecê-las, de modo que o pobre se sentirá à vontade entre os
ricos tanto mais quanto a religião está “de seu lado”, visto que a
pobreza enquanto estado é uma perfeição; o rico não ficará
48

chocado, entre os pobres, por uma falta de educação ou de


“cultura”, pois não há “cultura” fora da tradição, cujo ponto de
vista, aliás, não é nunca quantitativo. Dito de outro modo, o
pobre pode ser “aristocrata” sob andrajos, enquanto que no
Ocidente é a própria “civilização” que lho impede; é verdade que
pode-se encontrar camponeses aristocratas na própria Europa,
particularmente nos países mediterrâneos, mas eles são como
sobreviventes de uma outra era; o nivelamento moderno
destruiu em toda parte as belezas da igualdade religiosa, pois,
sendo sua caricatura, ele é incompatível com ela.

A casta, como a entendemos, tem essencialmente dois aspectos,


a saber, o do “grau e o do “modo” da inteligência, distinção que
é devida, não à essência do intelecto, mas aos acidentes de sua
manifestação. A inteligência pode ser contemplativa ou
escrutadora, intuitiva ou discursiva, direta ou indireta; ela pode
ser simplesmente inventiva ou construtiva, ou mesmo reduzir-se
ao bom-senso elementar; em cada um desses modos há graus,
de modo que um homem pode ser mais “inteligente” que outro
ao mesmo tempo em que lhe é inferior do ponto de vista do
modo. Em outros termos, a inteligência pode ser centrada no
intelecto, que é transcendente e infalível em sua essência, ou na
razão, que não tem nenhuma percepção direta das realidades
transcendentes e não poderia ser garantia, por conseqüência,
contra a intrusão do elemento passional no pensamento; a razão
pode ser determinada em maior ou menor medida pelo intelecto,
mas ela pode também limitar-se às coisas da vida prática, ou
mesmo aos aspectos mais imediatos e mais rudimentares desta.
Ora, o sistema de castas, como dissemos, resulta essencialmente
de uma perspectiva da inteligência, portanto da intelectualidade
ou da metafísica, de onde o espírito de exclusividade ou de
pureza tão característico para a tradição hindu.

A igualdade — ou antes a indiferenciação — realizada pelo


Budismo, pelo Islã e por outras tradições se refere ao pólo
“existência” mais que ao pólo “inteligência”; a existência, o ser
das coisas, neutraliza e une, enquanto que a inteligência
discerne e separa. Em contrapartida, a existência é por sua
natureza (exsistere, ex-stare) “saída” da Unidade, ela é portanto
o plano da separação, enquanto que a inteligência, sendo
Unidade por sua natureza intrínseca, é o raio que remete ao
Princípio; a existência e a inteligência unem e dividem, mas cada
uma sob um aspecto diferente, de modo que a inteligência divide
onde a existência une, e inversamente. Poderíamos nos exprimir
também da maneira seguinte: para o Budismo — que não nega”
expres-samente as castas, mas antes as “ignora” — todos os
homens sao um , em primeiro lugar no sofrimento, e depois na
via que liberta; para o Cristianismo, todos são “um”, em primeiro
lugar pelo pecado original, e depois pelo batismo, penhor da
Redenção; para o Islã, todos são “um”, em primeiro lugar porque
49

criados de pó, e depois pela fé unitária; mas para o Hinduísmo,


que parte do Conhecimento e não do homem, é antes de tudo o
Conhecimento — que e um e os homens são diversos por seus
graus de participação no Conhecimento, portanto também por
seus graus de ignorância; poder-se-ia dizer que eles são “um” no
Conhecimento, mas este só é acessível, em sua pureza integral, a
uma elite, de onde o exclusivismo dos brâmanes.

A expressão individual da inteligência é o discernimento; a


expressão individual da existência é a vontade. A perspectiva
que dá nascimento às castas, como vimos, baseia-se no aspecto
intelectual do homem: para ela, o homem é a inteligência, o
discernimento; por outro lado, a perspectiva da indiferenciação
social — que se refere ao póio “existência” — parte da idéia de
que o homem é a vontade, e ela distinguirá na vontade uma
tendência espiritual e uma tendência mundana, como a
perspectiva do intelecto e das castas distingue os diversos graus
de inteligência ou de ignorância. Isto permite compreender
porque a bhakti ignora praticamente as castas e pode permitir
iniciar mesmo párias: porque ela vê no homem a priori a
vontade, o amor, e não a inteligência, a intelecção; por
conseqüência, há, ao lado das castas baseadas no “conhecer”,
uma outra hierarquia baseada no “querer”, de modo que as
categorias humanas se entrecruzam como os fios de um tecido,
ainda que o “querer” espiritual se encontre muito mais
freqüentemente lá onde está o “conhecer”.

Psicologicamente falando, a casta natural é um cosmos; os


homens vivem em cosmos diferentes, conforme o “real” no qual
são centrados; é impossível ao inferior compreender realmente o
quem compreende realmente, “e o que ele com— superior, pois
preende. Por outro lado, pode-se dizer que todas essas
categorias humanas se reencontram de certa maneira, ainda que
seja muito indireta e totalmente simbólica, não somente em cada
uma das ditas categorias, mas também em todo homem; há
ainda uma certa analogia entre as castas e as idades, no sentido
de que os tipos inferiores se reencontram em certos aspectos da
infância, enquanto que o tipo passional e ativo será representado
pelo adulto, e o tipo contemplativo e sereno pelo velho; é
verdade que o processo é em geral o inverso no homem rústico,
que não guarda, após as ilusões da juventude, nada mais que o
materialismo e que identifica com estas ilusões o pouco de
nobreza que a juventude lhe havia dado. Mas não esqueçamos
que cada um destes tipos fundamentais possui virtudes que o
caracterizam, de modo que os tipos não-bramânicos não têm
somente uma significação puramente privativa: o kshatri)’a tem
a nobreza e a energia, o vaishya a honestidade e a habilidade, o
shúdra tem a fidelidade a a diligência; a contemplatividade e o
desapego bramânico contêm eminentemente todas essas
qualidades.
50

O princípio das castas se reflete não somente nas idades, mas


também, de outra maneira, nos sexos: a mulher se opõe ao
homem, em certo sentido, como o tipo cavalheiresco se opõe ao
tipo sacerdotal, ou ainda, sob outro aspecto, como o tipo
“prático” se opõe ao tipo “idealista”, se assim podemos dizer.
Mas, do mesmo modo que o indivíduo não está absolutamente
vinculado pela casta, ele não poderia estar vinculado de uma
maneira absoluta pelo sexo: a subordinação metafísica,
cosmológica, psicológica e fisiológica da mulher é evidente, mas
a mulher é não obstante igual ao homem do ponto de vista da
condição humana e, portanto, também do da imortalidade; ela é
igual sob o aspecto da santidade, mas não sob o das funções
espirituais: nenhum homem pode ser mais santo que a Virgem
Santíssima e, no entanto, o último dos padres pode rezar a missa
ou pregar em público, enquanto que ela fez o podia fazer. Por
outro lado, a mulher assume, em face do homem, um aspecto de
Divindade: sua nobreza, feita de beleza e de virtude, é para o
homem como uma revelação de sua própria essência infinita,
portanto do que ele “quer ser” porque ele o “é”.

Gostaríamos de mencionar, por fim, uma certa relação entre a


actualização das castas e o sedentarismo: é um fato inegável que
os tipos inferiores são menos freqüentes entre os nômades
guerreiros que entre os sedentários; o nomadismo aventuroso e
heróico faz com que as diferenças qualitativas se encontrem
como que submersas em uma espécie de nobreza geral; o tipü
materialista-servil pouco aparece e, por compensação, o tipo
sacerdotal não se separa completamente do tipo cavalheiresco.
Segundo a concepção desses povos, a qualidade humana — a
“nobreza” — é mantida pelo gênero de vida combativo: não há
virtude sem atividade viril, portanto perigosa; o homem se avilta
quando não encara de frente o sofrimento e a morte; é a
impassibilidade que faz o homem; é o acontecimento, a
aventura, se se quiser, que faz a vida. Esta perspectiva explica o
apego desses povos — os beduínos, os tuaregues, os peles-
vermelhas, os antigos mongóis — a seu nomadismo ou semi-
nomadismo ancestral, e também seu desprezo pelos sedentários,
sobretudo os citadinos; de fato, os males mais profundos de que
a humanidade sofre vieram das grandes aglomerações urbanas,
não da natureza virgem.

No cosmo, tudo oferece ao mesmo tempo um aspecto de


simplicidade e de complexidade, e há em todo domínio
perspectivas que se referem a um ou outro desses aspectos; a
síntese e a análise estão na natureza das coisas, e isto é
verdadeiro para as sociedades humanas como para outros
domínios; é, portanto, impossível que não haja castas em parte
alguma, ou que elas não estejam ausentes em lugar nenhum. O
51

Hinduísmo não tem, a rigor, “dogmas”, visto que nele todo


conceito pode ser negado, com a condição de que o argumento
seja intrinsecamente verdadeiro; mas esta ausência de dogmas
propriamente ditos, ou seja, “inamovíveis”, impede ao mesmo
tempo a unificação social. O que a torna possível,
particularmente nas religiões monoteístas, é precisamente o
dogma, que desempenha o papel de um Conhecimento
transcendente acessível a todos; o Conhecimento enquanto tal é
inacessível à maioria, mas ele se impõe a todo homem sob a
forma da fé, de modo que o “crente” é algo como um brâmane
“virtual” ou “simbólico”. O exclusivismo do brâmane em relação
às outras castas se repete, mutatis mutandis, no exclusivismo do
“crente” em relação aos “incrédulos” ou “infiéis”, nos dois casos,
é o “Conhecimento” que exclui, quer se trate da aptidão
hereditária ao Conhecimento puro, ou do fato de um
conhecimento simbólico e virtual, ou seja, de uma crença
religiosa. Mas, na fé revelada como na casta instituída, a
exclusão — que écondicional e “ofensiva” no primeiro caso, e
incondicional e “defensiva” no segundo — não pode ser mais que
“formal”, não “essencial”, pois todo santo é “crente” , seja qual
for a sua religião, ou “brâmane”, seja qual for a sua casta. Seria
preciso talvez detalhar, no que diz respeito à questão dos
dogmas, que os pilares doutrinais do Hinduísmo são em parte
“dogmas móveis”, ou seja, que perdem sua absolutez em planos
superiores ao mesmo tempo em que a guardam inabalavelmente
no plano ao qual eles se referem, fazendo-se abstração das
divergências legítimas de perspectiva; mas em tudo isto não há
nenhuma porta aberta para o erro intrínseco, sem o que a
tradição perderia sua razão de ser. A partir do momento em que
discernimos entre o verdadeiro e o falso, a “heresia” torna-se
possível, seja qual for nossa reação a seu respeito; ela é, no
plano das idéias, o que o erro material é no plano dos fatos.

A casta, em seu sentido espiritual, é a “lei” (dharma) que rege


determinada categoria de homens em conformidade com suas
qualificações; é neste sentido — e neste sentido apenas — que a
Bhagavad-Gítâ diz: “Mais vale para cada um sua própria lei de
ação, mesmo imperfeita, que a lei de outro, mesmo bem
aplicada. Mais vale perecer na própria lei; é perigoso seguir a lei
de outro” (III, 35) 22 E do mesmo modo o Mánava-Dharma-
Shástra: “Mais vale cumprir suas próprias funções de uma
maneira defeituosa do que realizar perfeitamente as de outro;
pois aquele que vive no cumprimento dos deveres de outra casta
perde imediatamente a sua” (X, 97).

2.7 - A "INTOCABILIDADE" (SITUAÇÃO DOS PÁRIAS)


GONZÁLEZ-BALADO (1978:38-39) mostra as desigualdades sociais
na Índia:
52

Quem viveu mal, por castigo, se reencarnará num animal ou


numa casta inferior.

Quem viveu bem, recebe como prêmio a reencarnação em uma


casta social mais elevada.

Na Índia, as castas são quatro: brâmanes, guerreiros,


comerciantes e lavradores.

Sobra uma quinta categoria de pessoas - de muitos milhões - que


não pertence a casta alguma: são os párias.

Eles não têm direitos. Não podem ser tocados nem admitidos no
trato social, por causa do risco de contágio.

Os brâmanes gozam do privilégio de terem vivido bem em


existências precedentes; esta é a convicção religiosa comum.

Os párias sofrem o castigo por terem vivido mal nas existências


anteriores.

GANDHI (1998) fala sobre a "intocabilidade":

Considero a "intocabilidade" a maior mácula do hinduísmo. (p.


24)

[...] mesmo na época eu acreditava que a "intocabilidade" não


fazia parte do hinduísmo; e que, se fizesse, esse hinduísmo não
era para mim. (p. 49)

[...] do fundo do coração, odeio o repugnante sistema da


"intocabilidade" pelo qual milhões de hindus se tornaram
responsáveis. (p. 70)

Não quero renascer. Mas se precisar nascer de novo, gostaria de


nascer um "intocável", para poder partilhar as tristezas, os
sofrimentos e as afrontas que lhes são impostos e para que eu
possa me esforçar para libertar a mim e a eles dessa miserável
condição. (p. 93)

NOOTEN (2002) fala nas "castas dos "intocáveis":

Fora do sistema de castas, havia as "castas dos "intocáveis": os


povos tribais das montanhas, como os Kiratas, os persas e os
gregos bactrianos.

MEHTA (1998:144) mostra as conquistas atuais dos "intocáveis":

Hoje, os 200 milhões de indianos pertencentes às castas


inferiores possuem seu próprio partido político, e têm
representações impressionantes nos outros partidos.

Em http://www.an.com.br/2000/jul/07/0mun.htm lemos o
seguinte texto sobre os dalits (párias):
53

Pobres reagem à discriminação na Índia

Vítimas do sistema de castas que domina o país, os assim


chamados dalits, vivem como uns fantasmas

Carla POWER

Newsweek

Após séculos de discriminação, os dalits da Índia estão


revidando - usando o voto e a desobediência civil para
reivindicar seus direitos.

No papel, os moradores da favela Estrada Lodi, de Nova Délhi,


nem existem. Os dalits, (literalmente, "gente arruinada",
conforme os membros da casta dos "intocáveis" são chamados),
não aparecem nas listas eleitorais, nos cartões de distribuição de
alimentos ou nas contas d'água.

Amontoadas à sombra da Corporação de Habitação e Urbanismo


da Índia, as cabanas da favela são feitas de barro, papelão e
sacos plásticos. Crianças brincam com porcos na lama; mães
lavam roupas em água de esgoto.

Esses "kabariwallahs", ou caça-restos, selecionam lixo ou


carregam esterco humano para ganhar algumas rúpias. As
crianças pedem esmolas no semáforo próximo. Ninguém vai à
escola. Conforme diz Om Prakash, caça-restos que vive ali há 40
anos, "temos direito à vida". É o que muita "gente quebrada" da
Índia tem.

Sua Índia não é a que o presidente americano Bill Clinton viu


durante a viagem que fez no início deste ano - terra de gurus dos
softwares e classe média em rápido crescimento. Os dalits
podem viver no país democrático mais populoso do mundo, mas
suas vidas são moldadas por um sistema de apartheid
(segregação) consagrado. Há 3.500 anos o sistema indiano de
castas classifica as pessoas dentro de uma hierarquia rigorosa
segundo a classe e o emprego.

As castas "intocáveis", que fazem o trabalho "sujo" da


sociedade, estão bem na base da estrutura social. Vilas estão
divididas em aldeias de dalits e de castas superiores. Nas
aldeias, os proscritos não têm acesso aos templos hindus. Nas
zonas rurais, os dalits são com freqüência vítimas de assédio,
estupro e outras formas de violência dos senhores pertencentes
a classes mais altas.

No mês passado, um contingente de milicianos no Estado de


Bihar invadiu a cidade de Miapur e matou a tiros 35 aldeãos de
classe inferior, oito dos quais eram dalits. O massacre foi o
oitavo grande ataque relacionado com castas em Bihar, nos
últimos seis meses.
54

Há muito tempo a constituição indiana proibiu a discriminação


contra os dalits. A Índia tem um presidente dalit e mais de 100
dalits no Parlamento.

Mas, apesar dos sistemas de cotas de empregos no serviço


público e na educação, membros das castas superiores como
brâmanes e xátrias têm o monopólio do poder; controlam os
negócios, a mídia e o governo.

Após séculos de tamanha discriminação, os dalits começam a


revidar.

Iniciaram a luta pelos seus direitos civis, motivados pelas


campanhas de libertação dos negros americanos e dos sul-
africanos. Essa nova disposição de ânimo irrita os poderosos e
provoca uma luta cada vez mais sangrenta.

Segundo o Movimento de Educação dos Direitos Humanos da


Índia, organização não-governamental com sede em Madras, a
cada hora dois dalits são agredidos, três mulheres dalits são
estupradas, dois dalits são assassinados e duas casas de dalits
são incendiadas.

O movimento dalit é novo e fragmentado. Até o termo "dalit"


abrange várias subcastas e tribos, muitas das quais falam
línguas diferentes. Ao contrário do apartheid racial na África ou
da discriminação dos sexos no mundo muçulmano, o movimento
contra o privilégio das castas não atraiu a atenção do Ocidente -
por enquanto. Há sintomas de mudança. No começo deste ano, a
Campanha Nacional pelos Direitos Humanos dos Dalits pediu que
a Conferência da ONU sobre Racismo, no próximo ano, inclua o
combate aos privilégios de casta em sua agenda.

Um parlamentar dalit, Buta Singh, diz: "Se a Índia pôde tornar-


se independente da Inglaterra, por que os dalits não podem ser
independentes desse povo preocupado com castas?" Mas mudar
um sistema consagrado pelos textos religiosos indianos vai ser
difícil. Milhões de dalits tentaram escapar do sistema
convertendo-se ao islamismo, cristianismo ou budismo. Acontece
que o sistema está tão enraizado na sociedade do Sul da Ásia
que as castas persistem nas comunidades cristãs e muçulmanas.

Além do mais, o movimento dalit ameaça os privilégios das


classes superiores. Poucas pessoas destas castas se interessam
em alterar uma ordem social que lhes fornece mão-de-obra
barata e posição social. Alguns membros das classes superiores
reagiram aos dalits com "atrocidades", como os crimes
motivados pelo ódio são chamados na Índia.

Os menores gestos de afirmação de direitos - um dalit que


concorre à câmara municipal, um menino dalit que se apaixona
por uma menina de casta superior, um dalit que consome água
de quem pertence a casta mais alta - podem provocar violência.
55

Informa-se que líderes das castas superiores e até policiais


estupraram mulheres dalits para dar a seus maridos e irmãos
"lições" sobre o perigo de exigir salário mínimo ou reclamar a
devolução de terras perdidas, segundo o Relatório do Human
Rights Watch de 1999.

"O aumento das atrocidades é uma conseqüência da


reivindicação de direitos das castas inferiores", comenta
Dipankar Gupta, professor de sociologia na Universidade
Jawaharlal Nehru, em Nova Délhi. "Nas gerações anteriores,
dalits não eram espancados porque 'conheciam o seu lugar'" .Já
não é esse o caso. As bases ganham força. Talvez o movimento
mais radical seja o dos Panteras Dalit, uma organização de
resistência tâmil nadu que se baseia nos Panteras Negras afro-
americanos.

Liderados por Thirumal Valavan, de 34 anos, cujos emocionantes


discursos de duas horas em comícios o transformam numa figura
venerada na região, os Panteras não pregam abertamente a
violência. Mas o grupo incentiva os dalits a proteger seus direitos
por todos os meios necessários.

No final do ano passado, Valavan concorreu ao Parlamento e


perdeu. O legado de sua tentativa de se eleger foi a destruição.
Para assustar eleitores dalits, bandos das classes superiores
incendiaram 21 aldeias no distrito Cuddalore, destruindo mil
cabanas. Atacaram 60 homens dalits, matando um. Valavan, que
raramente sai de casa sem seus cinco guarda-costas, recebe com
freqüência ameaças de morte. "Recebi uma recentemente que
dizia: 'Vamos decepar sua cabeça dentro de um mês por lutar
contra pessoas das classes superiores'", contou.

Apesar do perigo, os dalits assumem riscos para se livrar das


tradições rurais. Têm entrado em casas de chá e quebrado
xícaras do sistema de "duas xícaras", que obriga os dalits a
beberem em recipientes separados. Invadem templos, violando a
multicentenária proibição do ingresso de dalits nos lugares
sagrados hindus das castas altas. Noivos hindus vão a cavalo à
cerimônia de seu casamento - mas patrulheiros das classes
superiores atacam dalits por tentarem fazer o mesmo.

Em junho do ano passado no Rajastão, um noivo dalit fez o


percurso num cavalo pela primeira vez, protegido por 400
policiais, ambulâncias e equipes de médicos.

Os dalits não têm líder nacional, mas uma nova geração de


ativistas surgiu. No Estado sulino de Karnataka, o casal M. C. e
Jyothi Raj está organizando dalits em 300 vilas por meio da
Sociedade para o Desenvolvimento da Educação Rural (REDS),
mantida por alemães. Na última década, a campanha da REDS
pelos direitos dos dalits ganhou força. No início desde ano,
depois que uma multidão de castas superiores matou sete dalits
carbonizados, a REDS mobilizou milhares de dalits que
56

bloquearam dez rodovias federais, forçando o governo a fornecer


abrigo e indenização às famílias das vítimas.

Em janeiro, o casal Raj lançou a Era Ambedkar - um ano de


promoção do orgulho dalit. Em Tumkur, M. C. Raj falou a uma
multidão de 40 mil dalits, contando-lhes como seu povo fora o
habitante inicial da Índia antes da invasão dos indianos arianos.
Muitos dos ouvintes não se haviam considerado mais que
simples proscritos da sociedade indiana.

"Pensávamos que ser um dalit significava ser inferior", diz


Thippeswany, um dalit. "Então por que devíamos fazer trabalho
de escravo para essa gente? Temos nosso lado humano,
merecemos igualdade." Os poucos dalits que tiveram a sorte de
conseguir serviço de escritório ou burocrático concordam.

Até nos corredores do poder, profissionais dalits encontram


discriminação. Dois anos atrás, quando o juiz de um tribunal
superior em Uttar Pradesh assumiu o posto antes ocupado por
um dalit, receou tanto ser maculado por seu antecessor de casta
inferior que mandou "purificar" os gabinetes com água do
sagrado Rio Ganges.

Alguns indianos de casta superior são contra a ação afirmativa


do governo, que diz garantir emprego em excesso para gente de
casta inferior - em detrimento das outras castas. Pela
constituição, existem "reservas", ou cotas, para os dalits: cerca
de 23% dos empregos governamentais e vagas em
universidades são reservados a "castas e tribos específicas".
Ativistas dalits argumentam que até o ano passado mais de 1
milhão de empregos "reservados" não tinham sido preenchidos,
evidentemente por não haver dalits com qualificação profissional
para preenchê-los.

O governo da Índia está insistindo numa revisão constitucional,


e os dalits receiam que venham a perder suas cotas. "Conversa
fiada", replica Maneka Gandhi, ministra de Justiça e
Emancipação Social. Ela diz que o objetivo da revisão é "verificar
o que precisamos fazer para melhorar as coisas".

Muitos dalits receiam que o recente avanço da Índia para a


economia privatizada, aberta ao investimento estrangeiro, venha
a prejudicar as castas inferiores. A indústria privada não tem
cotas. "Assim que o setor privado se tornar o mais forte", diz
Ambrose Pinto, chefe do Instituto Social Indiano, com sede em
Nova Délhi, "os dalits não terão nenhuma chance." Mas outros
dizem que uma economia aberta vai trazer exatamente o oposto
- oportunidades, pois investidores estrangeiros não se
preocupam com castas.

Nas eleições à câmara municipal de Tumkur no início do ano,


houve candidatos dalits pela primeira vez. Um dalit chamado
Ramesh K., a exemplo de outros 300 dalits no mesmo distrito
eleitoral, venceu. Sua mãe encarquilhada, Lakshmamma, diz que
57

está notando uma mudança histórica.

2.8 - TRADIÇÃO VERSUS MODERNIDADE


BOUGLÉ (1993:88) mostra como a presença inglesa acabou
introduzindo uma mentalidade mais livre de preconceitos e passando por
cima de tradições retrógradas:

É enfim a administração que oferece mudanças inesperadas:


torna-se agente, funcionário, recebedor, controlador: numerosos
brâmanes tornam-se policiais e carregam sem escândalo - que
diriam seus ancestrais! - cintos de couro. A ambição indígena
não se restringe em princípio aos degraus inferiores do
funcionalismo: nada impede "a priori" que um hindu das mais
baixas castas, que tenha passado com sucesso nas provas dos
concursos regulamentares, se eleve na escala do "civil service"
aos postos de direção.

Compreende-se por aí que não sejam somente as profissões que


mudaram, mas também as situações sociais: ao mesmo tempo
que a especialização, a hierarquia tradicional foi modificada
substancialmente. Uma espécie desconhecida, parece, da Índia
antiga - o "selfmade man", o homem novo, - vai surgir. Se um
membro de uma casta inferior se encontra, conforme a
exigênciai dos concursos, em igualdade de condições, investido
de uma parte do poder público, como o respeito não seria
desviado dos setores tradicionais? Os efeitos dessas mudanças
de valor se farão sentir até sobre os casamentos: bem-sucedidos
e diplomados começam, diz-se, a alcançar destaque em
determinados meios, mesmo sem pureza genealógica.

Gita MEHTA tem escrito muitas coisas interessantes sobre a Índia,


mostrando os apectos positivos do seu país aos estrangeiros,
contrabalançando a imagem do país conhecida pelos não-indianos, que ali
acreditam existir a fome, a pobreza e o analfabetismo.

Em um de seus livros (Escadas e Serpentes) encontramos um artigo


que merece ser transcrito e só não o fazemos quanto a outros para não
transcrevermos quase seu livro inteiro.

O texto chama-se ESCRITURAS e tem muito a ver com a luta que se


trava entre o tradicionalismo, representado por muitos dos 80,3% de
hinduístas, e a modernidade, alavancada pelos outros hinduístas
progressistas e os demais segmentos religiosos ou não, continuadores
diretos ou indiretos de Gandhi e Ambedkar.

Na década de 1890, quando a terrível crueldade do sistema de


castas ainda negava educação a milhões de indianos, o soberano
de Baroda, um dos maiores reinos da Índia, franqueou a
educação para todas as castas.

Na Índia antiga as castas haviam sido um pouco como as


corporações medievais, servindo simplesmente para descrever a
58

ocupação das pessoas. Embora pertencesse à casta mais baixa, o


sábio vyasa o poema épico-religioso da Índia, o "Mahabhata", e
o filho de uma mulher de casta inferior criara o glorioso império
maurya. Com efeito, quando seu neto, o imperador Asoka,
converteu-se ao budismo, as grandes universidades por ele
criadas disseminaram os ensinamentos de Buda e com o tempo
eles se tornaram a religião da ásia.

Mas ao longo dos milênios o sistema de castas foi degenerando,


até que a ocupação das pessoas se transformou num fato
imutável de nascença. Os membros da casta mais baixa, dos
lixeiros e catadores de lixo, eram tratados como anãtema,
poluindo as demais castas com a sua mera sombra. Eram os
chamados "intocáveis".

A morte era o castigo para um "intocável" que pretendesse


instruir-se. As Leis de Manu, seguidas pelos hinduístas
ortodoxos, determinavam a forma de execução. Se algum
"intocável" chegasse a ouvir palavras em sânscrito, a linguagem
dos livros sagrados, era executado mediante o derramamento de
chumbo derretido nos ouvidos.

Em Baroda, finalmente autorizado a instruir-se, um jovem


"intocável" estudou com tal afinco que conseguiu obter o grau de
bacharel na Universidade de Bombaim. Em seguida ganhou uma
bolsa de estudo para a Universidade de Colúmbia, em Nova York.
Deixando os estados unidos já como PhD, foi para a Universidade
de Londres e obteve o grau de doutor em Ciências.

Duas vezes o menino "intocável" realizara o impossível. Viria a


ser o Dr. Ambedkar.

Na Índia, o Mahatma Gandhi insistia para que os "intocáveis"


fossem chamados "harijans", filhos de Deus. Mas o Dr. Ambedkar
sabia que mesmo com outro nome os "intocáveis" continuariam
sendo o detrito de uma religião, o inferno em vida do qual os
hinduístas buscavam libertar-se mediante boas ações, a serem
reconhecidas em futuros renascimentos, ao longo da escalada da
reencarnação.

Decidido a modificar um vasto continente no qual quase um


terço da população era explorado pela discriminação de casta, o
Dr. Ambedkar obteve novo grau em londres, desta vez em
Direito.

Em 1946 formou-se uma comissão para redigir a Constituição da


Índia, e em 1947 o Dr. Ambedkar passou a presidi-la.

Durante os quatro longos anos necessários à redação da


Constituição, o subcontinente foi sacudido pela mudança. Os
britânicos partiam. Quinhentos soberanos independentes
reuniam seus domínios para formar a Índia e o Paquistão, e as
metades ocidental e oriental do Paquistão estavam separadas
uma da outra por 1500 quilômetros de Índia. No dia seguinte ao
da libertação das duas novas nações - Índia e Paquistão -, a Grã-
59

Bretanha anunciou a temida partição e o subcontinente explodiu


em carnificinas. Hinduístas, muçulmanos e sikhs abandonaram
suas terras ancestrais em uma das maiores migrações da
história humana - uma migração que em apenas um ano deixaria
1 milhão de mortos e mais de 7 milhões de desabrigados.

Ao longo de toda essa devastadora turbulência, o trabalho de


redigir a Constituição prosseguia.

Para assessorá-lo na redação, o Dr. Ambedkar dispunha não


somente das Constituições do mondo ocidental, como também da
grande obra indiana sobre a ciência do governo - o "Arhya
Shastra", atribuído a Kautilya, ministro da corte do império
maurya.

A História também estava à sua disposição.

Na terceira e última leitura da lei que instituiu a Constituição da


Índia, o Dr. Ambedkar disse:

"Não se pode dizer que a Índia não saiba o que é a Democracia.


Houve um tempo em que havia inúmeras repúblicas na Índia.

Não se pode dizer que a Índia não conheça os parlamentos, ou


os procedimentos parlamentares. Os Shangas [ordens
monásticas budistas] possuíam regras sobre a distribuição dos
assentos, sobre as moções, resoluções, quorum, lideranças,
contagem de votos, votação, moções de censura, regularização,
res judicata etc. [...], retiradas das assembléias políticas que
funcionavam à época.

A Índia perdeu esse sistema democrático, teremos de perdê-lo


uma segunda vez?

Se desejarmos manter a democracia não apenas na forma, mas


também de fato [...] devemos observar a cautela que John Stuart
Mill recomendou a todos os interessados na permanência da
democracia, isto é, não entregar suas liberdades nem mesmo a
um grande homem, nem dar-lhe poderes que lhe permitam
subverter as instituições.

O culto do herói é o caminho seguro para a degradação e, mais


adiante, para a ditadura."

A República Soberana da Índia foi proclamada formalmente em


26 de janeiro de 1950, governada por uma Constituição que
garante que:

O Estado não negará a nenhuma pessoa igualdade diante da lei;

O Estado não discriminará nenhum cidadão por motivo de


religião, raça, casta ou sexo;

A "intocabilidade" fica abolida, e sua prática, sob qualquer


forma, é proibida.
60

A Índia estava preparada para ir às urnas para a primeira eleição


geral.

Naquela grande ocasião o advogado "intocável" que redigira a


com stituição do país recordava ao povo da Índia que ela seria
apenas um pedaço de papel enquanto não ficasse inscrita no
coração dos cidadãos.

Apesar de esforços progressistas ainda se vêem situações estranhas:


http://www.vaticanradio.org/portuguese/brasarchi/2002/RV33_2002/02
_33_33.htm

MULTIPLICAM-SE CASOS DE PERSEGUIÇÃO A CATÓLICOS NA ÍNDIA

Cidade do Vaticano, 16 de agosto (RV)

Recentemente, foi apresentado na Índia, um informe sobre a


situação em que vive a comunidade cristã nesse país. O
documento apresentado por Pe. George Plackapilly, Secretário-
executivo para a educação e a cultura, da Conferência Episcopal
da Índia recordou que o artigo 30 da Constituição da Índia,
garante às minorias religiosas o direito de estabelecer e
administrar livremente seus próprios institutos escolares.

Entretanto, o sacerdote advertiu aos 22 congressistas católicos


do país, que existe uma estratégia de grupos “antiminorias” para
abolir ou interpretar equivocadamente aquele artigo da
Constituição. Isso ocorre num contexto no qual se multiplicam os
casos de perseguição religiosa aos católicos na Índia.

No último 18 de julho, uma religiosa foi detida pela Polícia de


Ambikapur no Estado de Chattisgarh, Índia central _ e
condenada a seis meses de prisão, sob a acusação de ter feito
com que alguns hindus se convertessem à fé cristã. (SP)

Em http://utopia.com.br/anistia/noticias/not00_05.html#2 lê-se:

Defensores dos Direitos Humanos comunicam à AI os riscos que


enfrentam

Os defensores dos Direitos Humanos, na Índia, trabalham em


vários aspectos de toda a estrutura dos direitos, enfrentando
enormes desafios. Em Madhya Pradesh, em 8 de março de 2000,
cerca de 200 mulheres estavam entre as várias centenas de
pessoas que protestavam pacificamente, e que foram
espancadas pela polícia e arrastadas para fora do local de
protesto. A demonstração era contra a construção da represa de
Maheshwar, que ameaça deslocar essas pessoas e suas famílias.
No dia anterior, as autoridades tinham proibido reuniões na área
- ordem usada com freqüência na Índia, para banir protestos
pacíficos.
61

O dia seguinte assinalava o quarto aniversário do seqüestro, pela


polícia de segurança, de Jalil Andrabi, defensor de Direitos
Humanos, no estado indiano de Jammu e Cachemira. Seu corpo
foi encontrado 19 dias após o seqüestro. Em 9 de março de 2000,
foi adiada a audiência do caso contra os responsáveis,
retardando, uma vez mais, o processo de prestação contas sobre
a morte de Jalil.

Os riscos enfrentados pelos defensores dos Direitos Humanos


das comunidades dalit (grupo em desvantagem, devido à
hierarquia de castas) aliam-se à discriminação que enfrentam na
sociedade. Em julho de 1998, um ativista dalit do distrito de
Jalma, em Maharashtra, foi atacado e morto por membros da
casta superior de sua aldeia, quando ele voltava, no meio da
noite, para visitar a esposa e o filho recém-nascido. Ele fora
banido do distrito por dois anos, por lhe terem sido atribuídos
vários delitos criminosos pela polícia (supostamente instigada
por um dono de fábrica local, que se opunha às atividades de
conscientização da comunidade dalit sobre seus direitos).
Acredita-se que a língua, os braços e as pernas do ativista
tenham sido cortados, antes de seu corpo ter sido queimado.

Em 1999, como parte do Projeto dos Defensores dos Direitos


Humanos no Sul da Ásia da AI, os defensores de Direitos
Humanos de toda a Índia foram contatados, para que falassem
das dificuldades que enfrentam, inclusive a prisão de
manifestantes pacíficos, torturas, maus tratos, ameaças,
hostilidades, acusações falsas, "desaparecimentos" e execuções
extrajudiciais. Estas preocupações são abordadas em um novo
relatório: Perseguidos por desafiarem a injustiça - defensores
dos Direitos Humanos na Índia (ASA 20/08/00)

3 - O DIREITO HINDU
Como já dito, o Direito hindu é o Direito tradicional da Índia,
aplicável pelos e aos adeptos do hinduísmo em determinadas situações
(por exemplo, Direito de Família), coexiste com o Direito estatal.

3.1 - O DHARMA E O COSTUME


CHRÉTIEN-VERNICOS (Internet) fala sobre o Direito hindu de forma
extremamente clara:

INTRODUÇÃO

Não se deve confundir hindu com indiano. Os habitantes da Índia


são os indianos, dentre os quais, aqueles que adotam o
hinduismo (religião) são os hindus. Direito indiano e Direito
hindu não são sinônimos: o Direito indiano é o Direito do Estado
indiano, que se aplica a todos os seus habitantes qualquer que
seja sua religião, enquanto que o Direito hindu é o Direito que
somente se aplica à comunidade hindu. A exposição das
62

concepções hindus do Direito começa por um paradoxo porque


não há na tradição hindu termo para explicar o conceito de
Direito, bem assim o sentido jurídico da palavra lei. Em 1772, o
governo britânico ordenou que “em todos os processos
referentes a sucessões, casamento, castas e outros usos e
instituições religiosos” aplica-se aos hindus suas próprias leis.
Foi então necessário fazer-se um esforço para estudar e traduzir
os livros sânscritos nos quais estavam codificadas as “leis
hindus”. Esses livros eram o que se chamava de “tratados de
dharma”; daí a equação feita para os tradutores ocidentais:

tratado de dharma = livre de Direito, código,


e
dharma = Direito

Os indianos seguiram essa prática. Todavia, quando se traduziu o


conceito de Direito nas línguas modernas utilizaram-se outros
termos. Assim, nos dicionários hindis modernos existem dois
termos para Direito, um emprestado da tradição arabo-persa
(muçulmano) kanun e a outra da tradição sânscrita (hindu)
vidhi. E quando a Constituição indiana foi traduzida em hindi,
vidhi foi traduzida oficialmente por Direito.

Tal fato é devido a que as línguas indianas modernas tinham


todas elas utilizado a expressão dharma para designar um outro
conceito importado do Ocidente: religião. A idéia de um Direito
separado da religião ou de uma religião separada das outras
regras de vida social não existe na tradição hindu. O pivô do
sistema é o dharma, que não é nem religião, nem Direito, mas
que representa os conceitos hindus do Direito.

Nós veremos de início a noção de dharma (§1º) depois as fontes


do dharma (§2º) e enfim os caracteres do dharma (§3º)

§1 – Noção de dharma

A – A EXPRESSÃO DHARMA

Dharma é formado com o sufixo ma sobre a raiz dar ou dhr. Essa


raiz exprime a ação de segurar, suportar, manter, preservar,
guardar. Dharma é a maneira segundo a qual, ou os meios pelos
quais alguém segura, suporta ou mantém. Por uma aproximação
de sentido isso se torna não somente a maneira de fazer as
coisas mas também a única maneira de fazê-las.

Dharma é a maneira como se deve portar, suportar ou manter.

No nível cósmico, dharma é a maneira como se mantêm todas as


coisas, a maneira como o cosmos ou o equilíbrio do cosmos é
mantido. No nível microscópico, é a maneira como cada elemento
constitutivo do cosmos contribui com sua parte para manter o
equilíbrio geral. Certamente, cada elemento cósmico tem seu
próprio dharma, mas na prática, os hindus fixam sua atenção
sobre o dharma dos seres vivos. Cada indivíduo tem seu próprio
63

dharma, seu svadharma determinado essencialmente por dois


fatores: o fato de pertencer a uma das quatro etapas da vida
(asrama), o fato de pertencer a uma das quatro classes sociais
(varna). O dharma de cada um é a maneira pela qual ele deve se
comportar para manter a ordem cósmica existente.

B – O DOMÍNIO DO DHARMA

O dharma de uma pessoa regula todas suas atividades quaisquer


que seja sua natureza.
1 – Suas atividades cotidianas:
Quando ela deve acordar, como deve dividir suas atividades
diárias, quando ela deve dormir. Sua alimentação, o que ela deve
comer, qualitativa e quantitativamente.

2 – As relações humanas com os poderes sobrenaturais.

Prescreve os rituais das cerimônias pelas quais essas relações


são mantidas, e assim, o que fazer em termos religiosos.

3 – As relações de um indivíduo com os seus semelhantes. O


dharma governa também os contatos sociais, dos quais muitos
aspectos pertencem ao campo do Direito.

O Direito hindu é, com todos os outros aspectos das atividades


de um hindu, parte do dharma hindu. As regras do Direito hindu
serão encontradas nos dharmasastras, os Tratados de dharma,
mas esses textos contém uma infinidade de outras regras que
têm pouco ou nada em comum com o Direito. Além disso, o
dharma, é principal fonte do Direito, admite além dele próprio
outras fontes.

§ 2 – As fontes do Direito hindu

As fontes do Direito hindu são o dharma, do qual veremos as


fontes materiais, mas também o costume.

A – AS FONTES MATERIAIS DO DHARMA

O dharma provém de uma Revelação (sruti), que posteriormente


foi parcialmente escrita, desde a tradição e enfim de
comentários, que foram baseados em precedentes.

1° -A Revelação ou a literatura sruti

Sruti, sruti, shruti, significa audição, de onde ouvido, de onde


revelado.
O dharma provém de uma Revelação que beneficiou alguns
escolhidos e que foi parcialmente escrita nos textos sagrados
chamados Veda, que significa o conhecimento (do latim vídeo,
ver), mas também sabedoria.

Os védas consistem em quatro coletâneas das quais a mais


antiga é o Rigveda, que data de mais ou menos 1100 a.C. M.
64

Sinhá escreve que o Rigveda é o texto mais sagrado para os


hindus” e que constitui “uma parte da tradição hindu viva”. A
literatura védica é essencialmente de natureza religiosa e houve
necessidade de ser desenvolvida e interpretada.

2° - A Tradição ou a literatura smriti

smrti é a memória daquilo de que se lembra igual a tradição.

Autores humanos, sábios, interpretaram entre 600 e 100 a.C. as


revelações e moldaram-nas em uma ciência jurídica do dharma.

Suas obras são em geral chamadas dharmasastras: tratados de


dharma, mas se distinguem cronologicamente dois tipos: os
dharmasutras e os dharmasastras.

a – Os dharmasutras

Chamam-se dharmasutras, a primeira literatura smriti. São


manuais de dharma em prosa 9suscinta e enigmática) utilizada
igualmente para outros segmentos do saber (ioga,
arquitetura...). Eles enunciam os preceitos de dharma sob forma
de aforismos. Foram sem dúvida compostos entre 600 e 300 a.C.
Os mais antigos e mais célebres são os atribuídos a Gautama,
Apastamba, Vasistha e Baudhayana. Os primeiros dharmasutras
são muito vagos e apresentam pouco interesse quanto aos
aspectos jurídicos do dharma. Com o tempo cada vez mais as
regras de Direito aparecem e ainda mais nos dharmasastras.

b- Os dharmasastras

Desde seu aparecimento os dharmasastras, deram seu nome ao


conjunto de textos. São mais detalhados e escritos em versos,
dísticos de 32 sílabas chamadas sloka). Os mais significativos
são os de:

— Manu, chamado Manusmriti, provavelmente escrito sob a forma


atual entre 200 a.C. e 200 d.C.. É sem dúvida a tradução em
versos métricos de uma obra superior de dharmasutra atribuída
a Manu. Tornou-se o mais influente dos textos de Direito e de
doutrina hindu tanto na Índia quanto no sudeste da Ásia.

— de Yajnavalkya, escrito em nome de um sábio ilustre entre 100


a.C. e 300 d.C., enunciado proeminente do Direito hindu durante
o período britânico.

— Narada, nome de um antigo sábio, provavelmente entre 100 e


300 d.C.

— Consideram-se também entre os dharmasastras, os poemas


épicos, dentre os quais Mahabharata:

— O Mahabharata, a grande (maha=magna) história épica das


batalhas das tribos baratas (tribos arianas que invadiram a
65

Índia) é o mais extenso poema épico do mundo. É uma história-


padrão, ou seja, um conjunto de narrações nas quais diversas
histórias sucessivas são incluídas, no interior de outras histórias.
O núcleo do texto deve datar de mais ou menos 500 a.C.; mas o
texto atual contém muitas adições posteriores e é impossível
datar as diversas partes com exatidão. Uma data entre 200 a.C. e
200 d.C. é muitas vezes utilizada. É dividida em 18 partes
menores (parvan). As passagens de doutrina jurídica se
encontram mais freqüentemente na décima segunda parte, o
Santi parva, nos 129 primeiros capítulos, Bishan (o autor
suposto das passagens jurídicas) discorre sobre os deveres do
rei (rajadharma); os 38 seguintes tratam dos deveres especiais
em tempos de dificuldades; apaddharma; os 189 capítulos do fim
têm menor interesse jurídico e tratam do fim da existência
terrestre (mokshadharma).

Enfim encontra-se entre as fontes do Direito uma obra que


pertence à artha (a ciência do útil e do governo).

— O Kautilya, obra escrita entre 325 a.C. e 200 d.C., da categoria


de arthasastra [5], que expõe a ciência para atingir o bem-estar
material e o sucesso. Por referências indiretas sabe-se que ele
existia no entanto somente foi reencontrado no início do século
XX no sul da Índia. Provavelmente composto principalmente por
uma pessoa chamada Canakya ou Kautilya, que era ministro de
Candagupta Maurry, o qual dirigiu um império no norte da Índia
de 321 a.C. a 297 a.C.. Essa obra foi indubitavelmente composta
entre 320 e 300 a.C.. É um texto maquiavélico que ressalta o
artha em detrimento do dharma e afirma que o fim justifica os
meios.

3° - Os comentários, nibandhas

A partir do século VIII, cessa-se de escrever novos


dharmasastras. Daí em diante serão interpretados nas obras
freqüentemente chamadas de gestos, nibandhas. Foram muito
utilizados durante o peíodo colonial, mas os especialistas em
dharma parecem fazer pouco caso dessas obras.

B – O COSTUME

O costume, "achara", é também considerado como uma fonte de


Direito tratando-se da “prática engrandecida e sem ambigüidade
dos virtuosos. Os dharmasastras mencionam a possibilidade da
aplicação do costume, falando na prática dos bons sadacara ou
prática dos sábios sistacara. Assim foi dito: “ as leis do país,
castas, famílias que não são opostas (contrárias) aos textos
sagrados têm também autoridade”. "Os agricultores,
comerciantes, criadores, emprestadores de dinheiro e artesãos
(têm autoridade para afirmar as regras) para sua respectiva
classe”. Tendo tido conhecimento de processos desse tipo quem
(em cada classe) tem autoridade para falar dará a decisão
jurídica.” Conforme um autor, se em princípio os sastras são a
66

fonte teórica do Direito, na prática as máximas e costumes


tinham prevalência.

§ 3 – Os caracteres do dharma

O dharma se aproxima em significado do que nós chamamos


Direito, no entanto, não é a mesma coisa que ele.

A –O DHARMA NÃO RECONHECE DIREITOS MAS UNICAMENTE


DEVERES

Fundado sobre a crença de que existe um ordem no universo


inerente à natureza das coisas, necessárias à preservação do
mundo. O dharma é o conjunto de obrigações que se impõe aos
homens, porque elas decorrem da ordem natural das coisas.

Conseqüentemente, nosso conceito de Direito subjetivo


(fundamento do nosso Direito atual) parece aos hindus
profundamente exótico: o dharma é concentrado na idéia de
dever e não de direito. Um dharma particular é desenvolvido nos
dharmastras, é aquele do rei, e consiste igualmente em deveres.

O rei é denominado raja porque seu dharma mais elevado é de


tornar as pessoas felizes (ranjayati). Ainda uma vez, esses
deveres são encarados como uma contribuição à manutenção do
equilíbrio geral. Sua responsabilidade é de sustentar o equilíbrio
entre os indivíduos e o seu reinado. Deve proteger o fraco contra
os ataques do forte, para que este último não devore o primeiro
como um peixe na água.

B – O DHARMA CONSAGRA A DESIGUALDADE SOCIAL

O dharma não é o mesmo para todos, dependendo de um lado


da casta do indivíduo e de outro de sua idade, do estágio de vida
no qual ele se encontra

1° - A casta

A organização social da Índia é caracterizada pelas castas. A


casta é um conjunto de pessoas a quem o nascimento permite de
contratar casamento entre elas e de se alimentarem juntas.
(endogamia, comensalidade, craft exclusiveness) Conforme um
texto do Rigveda, os hindus se dividem em princípio em quatro
classes (varnas):

— Os Brahmanes, encarregados do ensino e dos sacrifícios


religiosos;

— Os Ksatriyas ou guerreiros, encarregados de proteger a ordem


através das armas;

— Os Varsyas, encarregados dos negócios;

— Os Sudras, encarregados da agricultura.


67

O restante da população é considerado fora das castas: os


chandalas ou párias. O sistema é na realidade mais complexo,
pois se combina com um outro sistema chamado jati, que já
existia na Índia no momento da invasão das tribos arianas.

Existem por volta de 2000 castas (jâti), ordenada


hierarquicamente cada casta, com um real despreso pelas castas
inferiores.

2° - Os estágios da vida, ashram ou asaram ou asrama


Idealmente, a vida de cada pessoa (mâle) passa por quatro
etapas.

— O estudante, brahmancharine (ou bramacarin), início da vida,


deve ser consagrado ao celibato, à austeridade e ao estudo;

— O grahastha (ou grhasth), chefe de família, chefe da casa;

— O vanaprastha, ermitão na floresta, que não se preocupa com


os bens deste mundo;

— O Sanayasin, o asceta.

C - O DHARMA É UM DIREITO REVELADO MAS NÃO ABSOLUTO

1° - O dharma pode em determinadas situações ceder o lugar ao


costume

Os dharmasastras são superpostos à todas as coletividades


existentes nas quais cada castas, cada região, cada família e
cada grupamento tem seus costumes particulares. Os bramares
que escreveram os dharmasastras não eram puros teóricos, não
eram legisladores mas sim moralistas cuja missão essencial era
de revelar aos homens as regras de conduta decorrentes da
natureza das coisas. Se as regras atualmente seguidas, as regras
costumeiras estão de acordo com o ensinamento dos sastras,
elas ficam consagradas, adquirindo força obrigatória. Mas, em
caso de desconformidade, a regra do dharma não prevalece
frente à regra costumeira. Para o comum dos homens absorvidos
nos seus trabalhos cotidianos não se pode querer obrigá-los
senão aos seus costumes ancestrais. Bem assim, os
dharmasastras reconhecem a primazia do costume sobre a regra
do dharma. Pode-se citar inclusive Manu (IV, 178), quando
afirmando que se deve seguir o costume dos seus ancestrais. E E
o mesmo autor recomenda aos reis se informarem sobre os usos
das castas do país, dos guildes, das famílias e fixarem os deveres
de cada um (VIII, 41). Assim, em razão de sua própria natureza,
a regra do dharma não pode se impor, ela apenas propõe.

As prescrições dos dharmasastras não se tornam regras de


Direito a não ser quando são aceitas pela população e sejam
praticadas por ela.
68

2° - O dharma é somente "relativamente" imutável

Conforme a teoria, o dharma, revelado, é eterno e imutável.


Todavia, parece que os textos, apesar de aparentarem uma
fascinante uniformidade, dão muitas vezes soluções diferentes
ao mesmo problema podendo-se pensar que se tratam de
variações locais ou temporais, mas muitas vezes as variações
estão dentro de um mesmo texto. Os autores hindus apresentam
então duas explicações.

a – A teoria do apad ou dificuldade

Não contentes em apresentar soluções diferentes para o mesmo


problema, os textos permitem explicitamente tipos de variações
especiais. Em numerosas ocasiões, após um assunto particular
do dharma ser enunciado, são apresentadas regras
suplementares para serem aplicadas somente em casos de apad,
o que geralmente se traduz em épocas de sofrimentos. Mas a
expressão não se apresenta sempre claramente definida, pode-
se evidentemente referir a calamidades gerais, tais como
inundação ou seca, mas pode também se referir a um sofrimento
referente a uma ou algumas pessoas. A teoria do apad pode
então ser vista como uma indicação que os autores dos textos
sobre o dharma admitiam possível um determinado grau de
variação do Direito e adaptação do Direito às circunstâncias.

b –As idades do mundo

A teoria segundo a qual o dharma é eterno (sanatana) e imutável


deve ser adaptada a um outro conceito muito popular no
hinduismo. Os hindus, como os antigos gregos e muitas outras
civilizações crêem na sucessão de quatro yugas (idades do
mundo), do melhor para o pior. O tempo presente é o Kaliyuga, a
idade de Kali. O dharma era perfeito durante a primeira idade,
mas diminui de um quarto a cada idade sucessiva, com o
resultado de que na idade de Kali, o dharma se mantém apenas
sobre um dos pés. Conseqüentemente, numerosas práticas
descritas nos textos do dharma são chamadas Kalivariyas,
“práticas a serem evitadas na idade de Kali". Por exemplo, os
dharmasastras mais recentes utilizaram esse critério para
explicar as posições antigas e contraditórias sobre o lévirat
(nigoya): o lévirat era uma prática comum nas primeiras idades,
mas deve ser evitado no Kaliyuga. O hinduismo acredita
inicialmente na deterioração gradual de cada yuga e em seguida
no eterno retorno, com interrupções, das quatro idades. A
conclusão lógica é então que para os hindus ortodoxos dharma e
Direito são de fato sujeitos a mudanças contínuas.

3.2 - A LEGISLAÇÃO E A JURISPRUDÊNCIA


A legislação e jurisprudência em face do dharma são abordados por
DAVID (1996:440-441):
69

Legislação e precedentes judiciais não são considerados pelo


dharma e pela doutrina hindu como fontes do Direito. É
permitido ao príncipe legislar. Porém, a arte de governar e as
instituições do Direito Público dependem do artha, não do
dharma. O dharma exige que se obedeça às ordens legítimas do
príncipe, mas ele próprio continua, pela sua natureza, fora das
“intromissões” deste. Legislação e ordens do príncipe não podem
produzir efeito algum sobre o dharma. São apenas medidas
ditadas pela oportunidade e possuem um caráter temporário;
justificadas pelas circunstâncias do momento, serão modificadas
quando estas circunstâncias tiverem mudado. Por outro lado,
postos em presença de uma lei, os juízes não poderão aplicá-la
rigorosamente; uma grande discrição lhes deve ser concedida
para conciliar, tanto quanto for possível, justiça e governo.

Tal como na legislação, não se pode ver uma verdadeira fonte do


Direito na jurisprudência. A organização da justiça é, como a
legislação, uma matéria que depende do artha. As decisões dos
tribunais podem ser justificadas pelas circunstâncias, O dharma
é simplesmente um guia; é da ordem natural das coisas que os
juízes se afastem dele, se boas razões os impedem de com ele se
conformarem, contanto que não ofendam um princípio
fundamental do dharma. A decisão do juiz, em vista deste
empirismo, não deve em caso algum ser considerada como um
precedente obrigatório; a sua autoridade é limitada ao litígio que
foi submetido à sua apreciação; ela apenas tem justificação em
relação às circunstâncias especiais que a originaram.

3.3 - A DOUTRINA MODERNA


DAVID (1996:441-442) mostra a doutrina moderna do Direito hindu:

O dharma agrupa as regras do Direito e a sua forma de


expressão é bem diversa da dos direitos do Ocidente ou do
Direito muçulmano. Prescrições de ordem ritual e de ordem
jurídica se misturam uma às outras nos dharmasastras. Um
grande número de regras que interessam ao Direito deviam, por
isso, ser procuradas nos livros que, por seus títulos, parecem se
referir mais à religião do que ao Direito.

O livro que mais particularmente se referia ao Direito, como se


entende no Ocidente, era um livro chamado vyavahara.
Começava por tratar da administração da justiça e do processo e
continuava por considerar dezoito categorias de litígios,
respeitantes ao Direito privado e ao Direito criminal.

Algumas regras de Direito Público eram formuladas nos


dharmasastras, mas a ciência do governo era objeto de uma
outra ciência, tratada nos arthasastras.

Os autores de livros modernos sobre o Direito hindu,


influenciados pelas concepções ocidentais, já não pretendem
expor o dharma, mas sim o Direito positivo que é aplicável nos
70

nossos dias aos hindus. Eles excluem das suas obras tudo o que,
segundo a concepção ocidental, pertence ao domínio da religião
e também todos os ramos de Direito que vieram a ser regulados,
na India, pelo Direito territorial aplicável a todos os indianos,
sem considerar a religião a que pertencem. O Direito hindu, por
eles exposto, compreende principalmente as seguintes matérias:
filiação, incapazes, adoção, casamento e divórcio, propriedade
familiar, sucessões ab intestat, sucessões testamentárias,
fundações religiosas, damdupat, convenções benami, indivisão
perpétua. Estas matérias não deixam transparecer a
originalidade profunda do Direito hindu; mas basta abrir um livro
de Direito hindu para descobrir, no interior de cada uma delas,
numerosos termos que não puderam ser traduzidos porque
correspondem a noções desconhecidas no Ocidente. Existem, por
exemplo, segundo o Direito hindu, oito espécies de casamentos,
e a existência de uma propriedade familiar (Joint Family
property) contribui igualmente para a complexidade do Direito
hindu. É necessário estar-se familiarizado com concepções e
estruturas sociais do hinduísmo para poder ler e compreender
um livro de Direito hindu.

3.4 - A DOMINAÇÃO MUÇULMANA


DAVID (1996:442) mostra como ficou limitado o Direito hindu nesse
período:

Sob o domínio muçulmano, que se estabeleceu no norte e no


centro da Índia no século XVI, os tribunais apenas aplicaram o
Direito muçulmano. O Direito consuetudinário hindu continuou a
ser aplicado pelos panchayats [6] de castas, mas não pôde
desenvolver-se e ver reforçada a sua autoridade pela ação dos
organismos, judiciários ou administrativos, do Estado. Ele
afirma-se, assim, como questão da religião, da decência e dos
costumes, mais do que como Direito.

PANIKKAR (1977:326) esclarece sobre o Direito hindu no período da


dominação muçulmana:

Os muçulmanos não tocaram nas leis... [porque] não dispunham


de aparelho legislativo adequado.

O Direito muçulmano aplica-se somente aos adeptos dessa corrente


religiosa, tal como o Direito hindu, e, assim mesmo, restrito a
determinados aspectos da vida desses adeptos, dentre os quais a área de
Família e Sucessões.

DAVID (1996:429) fala que as jurisdições tradicionais muçulmanas


[foram] suprimidas na Índia Britânica desde 1772 [...]

3.5 - A DOMINAÇÃO BRITÂNICA


PANIKKAR (1977:326) esclarece sobre o Direito hindu no período da
71

dominação britânica, dizendo que os ingleses não interferiram no Direito


hindu por uma questão de conveniência, a fim de evitar atrito com os
nativos.

DAVID (1996:442-443) trata agora do período da dominação


britânica:

Tal era a situação quando, no século XVIII, o domínio britânico


se substituiu — primeiro de fato, depois de Direito — ao do
Grande Mogol.

De acordo com o princípio que constantemente dominou a sua


política, os novos conquistadores da Índia não procuraram impor
aos seus novos súditos o Direito inglês. Eles pretenderam aplicar
às populações dá Índia, principalmente em matéria de Direito
privado, as regras que lhes eram familiares. O estabelecimento
do domínio britânico teve, no entanto, sobre a evolução do
Direito hindu, uma influência considerável. Esta influência
manifestou-se de duplo modo.

Inicialmente manifestou-se de modo positivo, fazendo sair o


Direito hindu da clandestinidade e reconhecendo oficialmente o
valor e a autoridade deste direito, contrariamente ao que
acontecia sob o domínio muçulmano: Direito hindu e Direito
muçulmano foram colocados no mesmo plano, no momento em
que os juízes britânicos tiveram de estatuir sobre litígios para os
quais se aplicavam esses direitos.

Se o domínio britânico foi, sob este aspecto, favorável ao


progresso do Direito hindu, foi, pelo contrário, sob outro ponto
de vista, fatal ao Direito hindu tradicional. Originou uma
profunda transformação deste Direito; e teve, sobretudo, como
corolário acantoná-lo na regulamentação de certas relações,
enquanto setores cada vez mais importantes da vida social foram
submetidos a um novo Direito de natureza territorial aplicável a
todos os habitantes da Índia sem considerar a sua religião.

3.6 - AS INTERFERÊNCIAS DA FRANÇA, HOLANDA E PORTUGAL

Antes de consolidar-se definitivamente a dominação inglesa sobre


toda a Índia, existiam ainda colônias de outros países sobre o território
indiano.

Para conhecimento da realidade histórica mostramos ao Leitor


alguns dados que, se não têm valor de atualidade, têm-nos como, no
mínimo, curiosidades históricas, principalmente quanto a Pondichéry.

BONNAN (1999) fala da vida judiciária de Pondichéry (então colônia


francesa na Índia) no período compreendido entre 1766 e 1817, com
características francesas, bem diferenciadas das demais regiões da Índia.
A colonização francesa também atingiu as regiões de Carical, Maé e
Chandernagor, sendo que em 1954 a França entregou à Índia todas suas
então colônias.
72

Sabe-se que nas regiões de Goa, Damão e Dio (à essa época colônias
portuguesas na Índia), as atividades judiciárias tinham contornos
portugueses, devolvendo Portugal à Índia em 1961 sua última colônia
(Goa).

O mesmo se pode dizer quanto ao espaço colonizado pelos


holandeses na Índia, restritos à área de Cochim.

Na época a Índia era um território muito maior do que a atual Índia


(pois englobava o atual Paquistão), no entanto fragmentado em inúmeros
governos independentes e não formando uma unidade a não ser com a
independência em 1947.

Cada um desses governos locais ou regionais mantinha suas regras


de Direito e sua Justiça própria.

Os ingleses foram, certamente, os unificadores da Índia e sua


presença durante cerca de dois séculos no solo indiano alterou
profundamente a estrutura do país.

No entanto, não se pode desprezar as demais interferências, como a


francesa, holandesa e portuguesa, pela contribuição que deram em termos
de maior ocidentalização da Índia.

ANNOUSSAMY (2001:59-61) fala num repositório de costumes


tamúis redigido por Claas Isaaksz, chefe da localidade de Jaffnapatnam,
apresentado ao governador Cornelis Joan Simons, da Índia holandesa, que
ANNOUSSAMY classifica como um documento precioso.

3.7 - O RECURSO AOS PUNDITS

DAVID (1996:443) fala da colaboração decisiva dos pundits


(estudiosos do Direito hindu) nas áreas dominadas exclusivamente pelos
ingleses:

O desejo de respeitar as regras do Direito hindu foi contrariado


pela ignorância que os novos donos da Índia revelaram, no início
do seu domínio, sobre o Direito hindu. Originariamente os
ingleses acreditaram, de maneira errada, que o dharma era o
Direito positivo da Índia. Entretanto, as obras que o comentavam
estavam escritas numa linguagem que eles não conheciam, e a
sua complexidade desorientava-os. Para se libertarem dos
obstáculos, por diversas vezes pensaram levar a cabo uma obra
de codificação. Enquanto esta obra não era realizada, recorreram
a um expediente. Decidiram que os juízes seriam auxiliados por
peritos, os pundits, que lhes indicariam, com base nos
dharmasastras e nibandhas a solução aplicável ao litígio. Até
1864, a função do juiz foi somente conferir força executória à
decisão que os pundits lhe indicavam como devendo ser dada ao
litígio.
73

3.8 - O RECURSO A OUTRAS TÉCNICAS

DAVID (1996:443-444) fala dos outros recursos para bem


interpretar o Direito:

Os pundits foram, por parte de alguns autores, objeto de


veementes críticas. Acusaram-nos de terem sido venais, de
terem interpretado mal os textos do Direito hindu, e até de os
terem falseado. Na realidade, o próprio princípio sobre o qual era
fundado o recurso ao pundits era falso: a solução dos litígios não
podia buscar-se unicamente nos livros sagrados, porque as
regras neles expostas apenas constituem um ideal; no momento
da sua aplicação é necessário dotá-las de uma grande
flexibilidade para que sejam também considerados os costumes
e a eqüidade.

Os juízes britânicos sentiram-se sempre embaraçados, enquanto


a sua atividade se limitou unicamente a dar força executória às
decisões dos pundits. Quando foram publicadas traduções
suficientes dos livros dos dharmas, quando igualmente passaram
a existir livros de Direito e especialmente compilações de
jurisprudência relativas ao Direito hindu e escritas em inglês, o
sistema que fora seguido pareceu ultrapassado. E isso era mais
evidente porque a ciência agora revelava e denunciava o erro
que fora cometido na caracterização da natureza e da autoridade
do dharma.

Mas qual era então a solução que convinha adotar? A atitude


tomada não foi a mesma por toda parte. As províncias e os
tribunais eram agora muito independentes uns dos outros. No
norte e no centro da India compilaram-se os costumes das
populações e começou-se a aplicá-los. No sul, pelo contrário, na
jurisdição do tribunal de Madras, perseverar-se-ão os processos
anteriores, considerando, em suma, que as populações pareciam
estar profundamente conformadas com eles, e que a segurança
das relações jurídicas impunha o respeito pelos precedentes.

3.9 - DEFORMAÇÃO SOFRIDA PELO DIREITO HINDU

DAVID (1996:444-446) fala das modificações que ocorreram no


Direito hindu:

O modo como o Direito hindu foi aplicado, em um e outro caso,


suscitou muitas críticas. Os juízes, se queriam seguir as regras
do dharma, estavam mal apetrechados para o fazer. Um terço ou,
no máximo, a metade dos dharmasastras foi traduzida em língua
inglesa, e os juízes apenas podiam ter um conhecimento muito
parcial de um sistema que exigia o conhecimento global das suas
fontes. Sancionaram-se assim regras que nunca tinham existido
ou que tinham caído em desuso. Por outro lado, se pretendiam
aplicar os costumes, os juízes arriscavam-se a aceitar demasiado
74

facilmente como verdadeiras as descrições destes, contidas em


obras escritas pelos europeus que não haviam visto ou
compreendido em toda a sua complexidade as concepções e os
costumes hindus. A infinita variedade e o caráter destes
costumes não puderam ser compreendidos pelos juristas
habituados à idéia de uma commune ley. Os juízes britânicos,
por outro lado, de acordo com os seus próprios métodos,
concederam aos precedentes judiciários uma autoridade que a
tradição hindu de modo algum lhes reconhecia. Por vezes,
também modificaram, de modo consciente, o Direito hindu, pois,
na verdade, as suas soluções pareciam-lhes chocantes — nunca
se aperceberam que estas soluções podiam corresponder ao
sentimento de justiça existente no seio da comunidade hindu. A
necessidade de usar uma terminologia inglesa, imprópria para
exprimir os conceitos do Direito hindu, foi outra das causas da
distorção deste Direito. Por efeito destes diversos fatores, o
Direito hindu foi submetido a consideráveis deformações no
período do domínio britânico.

A recepção das regras de prova do Direito inglês veio modificar


as condições de aplicação do Direito hindu. Idéias tiradas da
equity inglesa foram, do mesmo modo, aplicadas para regular as
relações entre membros de uma comunidade familiar de bens ou
o estatuto das fundações de caridade hindus; no primeiro caso,
deformaram a noção hindu de benami c, no segundo caso,
vieram deformar o conceito hindu de fim altruísta ou exigir
condições que a liberdade dharma na o comportava segundo o
Direito hindu.

Estas deformações serviram para reduzir uma diversidade de


costumes locais, que os próprios hindus consideravam como um
mal. Por outro lado, muitas vezes, contribuíram para uma
evolução que muitos acham ter sido benéfica, na medida em que
modernizava o Direito hindu, respeitando o seu espírito. Os
juristas hindus aprovam, assim, certos desenvolvimentos que a
jurisprudência operou em matéria de comunidade familiar ou em
relação ao princípio que impõe ao filho pagar as dívidas
justamente contraídas pelo seu pai. Os tribunais souberam,
nestas matérias, respeitar as idéias fundamentais do Direito
hindu, suavizando, com considerações de boa-fé e de eqüidade, o
que a regulamentação tradicional podia apresentar de mais
absoluto e obsoleto. Era justo e necessário que se produzisse
uma evolução do Direito hindu; os tribunais, por vezes, apenas
fizeram reconhecer o valor de novos costumes, em condições
perfeitamente admissíveis do ponto de vista do Direito hindu;
reconheceram a validade do testamento feito por um hindu,
quando a prática de testar, ignorada completamente pelo antigo
Direito hindu, se difundiu.

3.10 - LIMITAÇÃO DO DOMÍNIO DO DIREITO HINDU

DAVID (1996:446-447) mostra como o Direito hindu tem um âmbito


restrito:
75

O domínio britânico não teve simplesmente por efeito deformar,


quando o julgava aplicável, o Direito hindu. Ele teve, outrossim,
a conseqüência de o limitar a certos domínios.

O hinduísmo, que atribui a cada ato do homem um valor


espiritual, destinado a regular em todos os seus aspectos a vida
social, está apto a formular, para todas as situações concebíveis,
regras de conduta. Porém, somente certas categorias de relações
— aquelas que interessam a uma sociedade essencialmente
agrícola e rural — tinham sido objeto da regulamentação
elaborada, até o momento em que o domínio britânico se
instalou na Índia. Existiam numerosas regras relativas à
organização da família ou das castas, ao regime da terra, e ao
das sucessões. Nas outras matérias o Direito hindu era pouco
desenvolvido. Não pagar as dívidas, por exemplo, era
simplesmente considerado pelo dharma como um pecado; o
Direito não previa uma sanção precisa no caso de inadimplência
do devedor.

O domínio britânico pôs termo ao desenvolvimento original que


o Direito hindu tinha podido comportar, relativamente às novas
relações advindas da evolução da sociedade. O Direito hindu foi
aplicado pelos tribunais apenas em certos domínios particulares:
sucessões, casamento, castas, usos e instituições ligados à
religião. Fora disto, é um outro sistema de Direito, como vamos
ver, que se desenvolveu e se aplicou na Índia.

Poderia ter sido de outra maneira? Permitimo-nos duvidar disso.

A regra em Bombaim, Calcutá e Madrasta era que o Direito hindu


dos contratos devia ser aplicado quando o réu fosse um hindu. O
princípio assim exposto não teve grande efeito na prática; os
interessados optaram, a maior parte das vezes, por submeter a
sua questão ao Direito inglês, que comportava uma maior
certeza; a própria interpretação do Direito hindu foi muitas vezes
feita à maneira dos juizes estranhos à civilização da Índia.

3.11 - A LEGISLAÇÃO BRITÂNICA


DAVID (1996:447) fala da influência do Direito inglês:

Os próprios hindus manifestaram o desejo de reformar um


Direito que apenas imperfeitamente correspondia aos seus
costumes. A maneira normal de operar estas reformas devia ser
pelo recurso à legislação. As autoridades britânicas, porém,
intervieram com reserva no domínio em que o Direito hindu fora
limitado. Ao tempo do domínio britânico, somente leis de alcance
limitado foram promulgadas. Rejeitaram-se certas regras,
ligadas ao sistemas das castas ou consagrando a incapacidade
da mulher, que chocavam numerosos elementos evoluídos da
população hindu. Regularam-se igualmente em 1870, pelo Hindu
Wills Act, os testamentos feitos pelos hindus. Mas nenhuma codi-
ficação geral interveio para modernizar e expor no seu conjunto
76

o Direito hindu; esta obra fora projetada em 1833, mas o projeto


foi abandonado em 1861.

Uma obra legislativa mais importante foi concluída, quando do


domínio britânico, a respeito das matérias onde se deixara de
aplicar o Direito hindu; mais adiante iremos expor o movimento
que contribuiu para constituir um Direito anglo-indiano.
Devemos somente assinalar que, apesar das grandes leis que se
publicaram, continuou, em certos aspectos, a ser possível tomar
em consideração concepções próprias do Direito hindu. Os
tribunais de Bombaim e de Calcutá puderam assim continuar,
depois da promulgação do Indian Contract Act, em 1872, a
sancionar a dita regra de damdupat, segundo a qual os juros não
podem, em caso algum, elevar-se a uma soma superior ao capital
que é devido; o tribunal de Madras julgou de modo diferente,
entendendo que esta regra se devia considerar revogada; mas
uma lei de 1938 veio recolocá-la em vigor, em Madras, no
tocante às dívidas contraídas nos estabelecimentos agrícolas.

3.12 - A INDEPENDÊNCIA
DAVID (1996:447-451) fala do Direito hindu após 1947:

A independência da Índia, conseguida em 1947, modificou os


dados do problema e originou um novo desenvolvimento no
Direito hindu.

No plano judiciário, as diferentes High Courts estabelecidas na


Índia Britânica eram apenas, antes da independência,
submetidas ao controle, estrangeiro e longínquo, da Comissão
Judiciária do Conselho Privado; os tribunais dos Estados
principescos (Baroda, Travancore, Cochin, Mysore, Hyderabad)
eram plenamente soberanos e escapavam a esse controle.

Depois da independência, um novo Supremo Tribunal veio coroar


a hierarquia de todos os tribunais estabelecidos na Índia.
Compete-lhe a confirmação ou a retificação das decisões
tomadas na época do domínio britânico; uma certa obra de
reforma e de unificação do Direito hindu pôde, assim, ser
realizada.

No plano legislativo, foi constituída uma comissão legislativa


para estudar, a nível geral, algumas formas legislativas que
deveriam ser introduzidas no Direito da Índia sem excetuar o
Direito da comunidade hindu, Os trabalhos desta comissão
levaram desde logo a resultados espetaculares. Não existe, por
assim dizer, nenhum princípio importante de Direito ortodoxo
que não tivesse sido afetado ou renovado pela legislação ou
pelos códigos.

A Constituição repudiou o sistema das castas; o artigo quinze


proíbe toda a discriminação fundada sob pretexto da casta. Toda
a matéria do casamento e do divórcio foi profundamente
77

reformada pelo Hindu Marriage Act de 1955 (alterado em 1964).


O casamento, considerado como um sacramento pela religião
hindu, era para o Direito hindu tradicional uma doação que os
pais da mulher faziam desta ao marido; a mulher, objeto do
contrato, não tinha de consentir o casamento; o casamento era
indissolúvel e a poligamia autorizada. Todas estas regras foram
repudiadas pelo novo Direito hindu: a poligamia é proibida; a lei
prevê o divórcio e até a possibilidade de conceder uma pensão
alimentar ao cônjuge divorciado; exige que os cônjuges
consintam pessoalmente no casamento, como se se tratasse de
um contrato, e estabelece uma idade mínima para o casamento
tanto para o homem como para a mulher; reduz igualmente o
número de impedimentos matrimoniais. Uma verdadeira
revolução é, portanto, trazida ao Direito hindu. A nova lei,
porém, continua a ser apenas aplicável aos hindus e não a todos
os cidadãos da Índia, tendo sido conservadas certas regras
tradicionais do Direito hindu.

Três outras partes de um Código Hindu, da qual a lei sobre o


casamento constitui a primeira parte, foram votadas pelo
parlamento: a parte relativa à menoridade e à tutela (Hindu
Minority and Guardianship Act, 1956), a parte relativa às
adoções e à obrigação alimentar (Hindu Adop tions and
Maintenance Act, 1956) e a parte relativa às sucessões (Hindu
Succession Act, 1956).

A lei sobre as sucessões, coroando um movimento que já


inspirara um certo número de leis, esforça-se por assegurar a
devolução sucessória de acordo com a ordem preestabelecida
pela vontade do defunto, ordem na qual as mulheres encontram
um lugar; a sucessão, segundo o Direito hindu antigo, era
reservada exclusivamente às pessoas que podiam, segundo a
religião, conceder vantagens de ordem espiritual ao defundo, e
esta idéia diretriz conduzia em geral à exclusão das mulheres. Os
inconvenientes do sistema limitavam-se a uma época em que os
bens, salvo exceções, eram propriedade da família; o declínio da
comunidade familiar de bens, na nossa época, tornou necessária
a alteração do Direito.

Reformas de grande alcance foram igualmente efetuadas em


matéria de comunidade familiar de bens. Já em 1930, declarou-
se que os salários adquiridos pelos indivíduos lhes pertenciam
como bens próprios. Esta primeira reforma foi seguida de outras.
Desde 1936, uma parte da propriedade familiar cabe, como bem
próprio, aos diversos herdeiros ou legatários, entre os quais
figura a viúva do defunto. Leis de reforma agrária procuraram,
por outro lado, nos diversos Estados da Índia, depois de 1950,
reduzir os grandes domínios, evitando, contudo, uma
fragmentação excessiva da propriedade.

O Direito hindu sofreu, nos nossos dias, profundas reformas.


Continua a ser um Direito unicamente aplicável à parte hindu da
população da Índia; mas numerosos costumes que
comprometiam a unidade deste Direito foram abolidos. Em
78

relação ao passado, esta é uma importante modificação. As


reformas que foram operadas são, por outro lado, substanciais.
Daí não resulta que sejam condenáveis em face da ortodoxia. O
dharma foi elaborado para uso de grupos sociais colocados a
níveis muito diversos de civilização; nunca pretendeu ser mais
do que um ideal, destinado a orientar a conduta dos homens, e
acomoda. se, pela sua própria natureza, a todas as espécies de
acordos provisórios impostos pelo costume ou pela legislação; a
situação é aqui muito diferente da do Direito muçulmano. Os
atuais governos da Índia puderam afastar-se consideravelmente
deste Direito-modelo; contudo, não deixaram de afirmar, sempre
que possível, o seu respeito pelos princípios da civilização hindu.
O desejo de ser fiel à tradição existe apesar de todas as
mudanças, e o Direito hindu permanece, por esta razão, como
uma das concepções fundamentais da ordem social existente no
mundo contemporâneo.

Uma transformação radical é realizada quando concebemos o


Direito não no quadro da comunidade hinduísta, mas sim no
quadro das fronteiras geográficas da Índia. Esta mutação foi
operada, como veremos, em numerosos domínios, onde
atualmente convém falar, em vez de Direito hindu, de Direito
indiano.

O artigo quarenta e quatro da Constituição previu a


generalização deste sistema, com a elaboração de um código
civil que seria comum a todos os cidadãos da Índia. Porém, como
se viu, um outro método foi utilizado; é para uma modernização
e uma unificação do Direito hindu que até aqui se orientaram os
esforços. Não é impossível, contudo, que se chegue
gradualmente a realizar a promessa da Constituição, por meio de
reformas que, em pontos particulares, afastarão ou modificarão
os direitos de estatuto pessoal para os substituir por um Direito
comum.

Certas leis podem iniciar tal movimento, prevendo e regulando


relações entre indianos de credos diferentes, que a religião de
uns e outros não autorizava. O Special Marriages Act, 1954,
declara, assim, válidos em face da lei os casamentos celebrados
entre hindus e muçulmanos ou outros não-hindus. A adoção
desta lei define claramente a revolução que se operou nas idéias
desde há um século; há cem anos, sir Henry Maine havia
efetivamente elaborado um projeto de lei semelhante, mas este
projeto viria a ser abandonado em virtude da oposição unânime
que suscitara; “bispos, pundits, rabinos, mobeds e mullahs
encontravam-se, pelo menos por uma vez, em completo acordo”.
É possível que um Direito interpessoal venha assim a
desenvolver-se, constituindo uma nova espécie de ius gentium
aplicável no domínio até agora reservado a estatutos pessoais
distintos.

Seja qual for a evolução futura, o Direito hindu continua a ser,


atualmente, para a imensa maioria dos indianos, o único sistema
de Direito que diz respeito à sua vida privada. É aquele que rege
o seu estatuto pessoal e este é compreendido no seu sentido
79

mais amplo. O estatuto pessoal não abrange só as relações


extrapatrimoniais, mas também compreende aspectos do Direito
patrimonial, quer se considere o Direito sucessório ou a co-
munidade familiar de bens. O Direito hindu penetra, por este
meio, no Direito Comercial. Se um negócio, por exemplo, é
explorado pelos membros de uma família, como será muitas
vezes o caso, sem que estranhos a esta família lhe sejam
associados, as regras do Direito Comercial indiano, insertas no
Indian Partnership Act, não serão aplicáveis; as relações entre
sócios serão reguladas pelo Direito hindu, porque elas derivam
do seu estatuto e não se consideram como emergentes de um
contrato. Por outro lado, não é necessário insistir sobre a
importância que apresenta a comunidade familiar de bens, do
ponto de vista do crédito, num país onde apenas a família pode,
em princípio, ser proprietária; mas parece que as comunidades
familiares de bens se vão tornando cada vez mais raras.

O que é permitido pergunta-se, sobretudo, é em que medida o


Direito estatal dá hoje conta da realidade sociológica da Índia. O
legislador pode, de um só golpe, abolir o regime das castas,
autorizar os casamentos intercastas, substituir os punchayats de
aldeias aos punchayats de casta tradicionais. Porém, a sua obra,
mesmo se necessária ao desenvolvimento do país não pode, de
um dia para outro, mudar hábitos e pontos de vista enraizados
há séculos e ligados a crenças religiosas. A maioria dos hindus
(80%), vivendo no campo, continua a viver como seus
antepassados; são administrados e julgados, à margem dos
organismos oficiais, pelas instituições que sempre conheceram.
Uma obra de legislação não basta; impõe-se uma obra paciente
de reeducação.

O sucesso desta obra está ligado ao desenvolvimento de uma


economia moderna na Índia; é evidente a dificuldade de escapar
aqui a um círculo vicioso, sendo este desenvolvimento
consideravelmente freado pelas estruturas, crenças e
comportamentos forjados por uma tradição imemorial, sempre
venerada.

3.13 - AS LEIS DE MANU


As Leis de Manu contêm o maior número de normas jurídicas do
Direito hindu.

ANNOUSSAMY (2001:7-9) mostra a diferença entre as opiniões de E.


DALLOZ ("in" Répertoire méthodique et alphabétique de legislation, de
doctrine et de jurisprudence, t. I, livre 1, Paris, édition de 1870) e E.
GIBELIN (Études sur le droit civils des hindous; recherches de législation
comparée sur des lois de l'Inde, les lois d'Athènes et de Rome, et les
coutumes des Germains, t. 1, Pondichéry, 1846), adotando o primeiro um
tratamento de crítica rude contra determinados institutos jurídicos hindus
e o segundo muito complacente com esses mesmos pontos questionáveis.

Por aí se vê que o tema é extremamente polêmico.


80

BOUGLÉ (1993:124-131) fala sobre esse Código:

Não que ele constitua, como se acreditou, no “Código da Índia”.


Mas, de todos os textos hindus onde se encontram questões de
Direito, ele foi sem dúvida, desde há muito tempo, o mais
conhecido e estimado: numerosas inscrições colocam Manu à
testa dos juristas, e nenhuma revelação, nas regiões mais
diversas, é mais comentada que a sua. [...] O Código de Manu é
de início e acima de tudo um breviário de conduta piedosa. O
Direito somente aparece nos Códigos hindus misturado, melhor
dizendo, envolvido e trespassado pela religião. [...] A noção de
sanção puramente restitutiva não é lembrada. Para distinguir as
infrações civis dos crimes propriamente ditos, a terminologia era
insuficiente: parece que todas as infrações eram do mesmo grau
(aparâdha), que trazem como conseqüência os castigos (danda).
[...] O Direito Civil e comercial não tinham sido ainda destacados
do Direito penal. [...] Se o criminoso queria se esquivar dos
tormentos futuros somente tinha um recurso: procurar
voluntariamente os castigos que lhe prescreviam os brâmanes.
[...] A maior parte dos castigos rigorosos...não são aplicados aos
brâmanes; seus prestígio desarma os rigores do braço secular.
Eles podem ser condenados ao banimento, mas não à morte.
Ninguém pode castigá-los fisicamente mesmo que com um ramo
de erva. De forma mais geral, o teto das comissões varia em
função da situação social das pessoas: atinge o máximo quando
o ofendido pertence às altas castas e o ofensor às mais baixas.
[...] Em resumo, imbuído de religião e ligado à desigualdade,
menos preocupado em reparar do que em punir, e de punir na
forma mais dura, tal nos parece, através dos Códigos clássicos o
Direito hindu.

Transcrevemos a tradução de Ana Clara Victor da PAIXÃO do


original em inglês de Raimon PANNIKAR, divulgada através da Internet em
http://www.serrano.neves.nom.br/cgd/036_xxx_cgd/041cgd.htm:

1. Um rei, desejoso de investigar casos legais, deve entrar em


sua corte de justiça, preservando uma postura digna, juntamente
com os Brâmanes e seus conselheiros mais experientes.

2. Ali, sentado ou de pé, erguendo seu braço direito, sem


ostentações em suas vestes ou ornamentos, examinará os
assuntos dos pretendentes.

3. Diariamente decidirá um após outro os casos que lhe forem


submetidos sob os dezoito títulos da lei, de acordo com os
princípios extraídos dos costumes locais e com os Institutos da
sagrada lei.

4. Desses títulos, o primeiro é o não pagamento de débitos,


depois o depósito e o penhor, a benda sem propriedade, as
desavenças entre parceiros, e as doações,
81

5. O não pagamento de salários, não cumprimento de acordos,


rescisão de compra e venda, disputas entre proprietários e
servos,

6. Disputas de limites, lesão corporal e difamação, furto, roubo e


violência, adultério,

7. Dívidas do homem e da esposa, partição da herança, jogo e


aposta, estes são, neste mundo, os tópicos que geram demandas
judiciais.

5. De acordo com a lei eterna, decidirá as pretensões dos


homens que demandarem os assuntos já mencionados.

9. Mas se o rei não investigar pessoalmente as lides, apontará


um estudioso Brâmane que as julgará.

10. Este homem entrará naquela alta Corte, acompanhado por


três assessores, e analisará todas as causas submetidas ao rei,
sentado ou de pé.

11 - O lugar onde os três Brâmanes versados em Vedas e o


estudioso indicado pelo rei se sentarem será chamado "a corte
de Brahman".

12 - Mas onde a justiça, ferida pela injustiça, se apresentar, e os


juizes não extraírem o dardo, então eles também serão feridos
pelo dardo da injustiça.

13 - Ou a corte não deve ser adentrada ou a verdade deve ser


dita. Um homem que não diz nada ou fala falsamente se torna
um pecador.

14 - Onde a justiça é destruída pela injustiça, ou a verdade é


destruída pela falsidade enquanto os juizes olham, estes também
devem ser destruídos.

15 - A justiça, sendo violada, destrói; a justiça, sendo


preservada, preserva. Assim, a justiça não deve ser violada, uma
vez que a justiça violada nos destrói.

16 - Pela divina justiça, diz-se que um vrishna que a viola (a


justiça) é considerado pelos deuses como sendo um homem
abominável como um Sudra; terá ele, assim, a recompensa por
violar a justiça.

17 - O único amigo que segue os homens depois da morte é a


justiça, pois tudo o mais é perdido ao mesmo tempo que o corpo.

18 - Um quarto da culpa por uma decisão injusta cairá sobre


aquele que cometeu o crime, um quarto sobre a falsa
testemunha, um quarto sobre todos os juizes, e um quarto sobre
o rei.
82

19 - Mas quando aquele que é merecedor da condenação é


condenado, o rei está livre da culpa, e os juizes estão salvos do
pecado, e a culpa recairá apenas sobre o perpetrador do crime.

20 - Um Brâmane que vive apenas pelo nome de sua casta, ou


aquele que se autodenomina um Brâmane, embora sua origem
seja incerta, pode, se agradar ao rei, interpretar a lei, mas nunca
um Sudra.

21 - O reinado desse monarca, que assiste enquanto um Sudra


aplica a lei, afundará como uma vaca no pântano.

22 - Aquele reinado onde Sudras são muito numerosos, que está


infestado por ateus e destituído de habitantes "duas vezes
nascidos", em breve perecerá inteiramente, afligido pela fome e
pela doença.

23 - Tendo ocupado o assento da justiça, tendo coberto seu


corpo, e tendo louvado as divindades guardiãs do mundo, deverá
ele, com a mente concentrada, começar o julgamento das
causas.

24 - Sabendo o que é moralmente correto e o que não é, o que é


justiça pura ou injustiça, ele examinará as causas dos
suplicantes de acordo com a ordem das castas (varna).

25 - Pelos sinais externos ele descobrirá a disposição interior


dos homens, por suas vozes, suas cores, seus movimentos, seus
aspectos, seus olhos e seus gestos.

26 - O funcionamento interno da mente é perceptível através da


aparência, os movimentos, o andar, os gestos, a fala, e as
mudanças dos olhos e da face.

27 - O rei deverá proteger a herança e outras propriedades do


menor, até que ele tenha retornado da casa do seu tutor, ou até
que ele deixe para trás sua menoridade.

28 - Da mesma maneira devem ser amparadas as mulheres


estéreis, ou aquelas que não tem filhos, ou cuja família tenha
sido extinta, ou aquelas esposas viúvas fiéis a seus senhores, e
aquelas mulheres afligidas por doenças.

29 - Um rei rigoroso deverá punir como ladrões aqueles parentes


que se apossarem das propriedades de tais mulheres durante
suas vidas.

30 - O rei manterá em depósito, durante três anos, os bens


daqueles que houver desaparecido; dentro deste período o
proprietário dos bens deverá reclamá-los, depois disso o rei
poderá tomá-los.

31 - Aquele que diz "Isto me pertence" deve ser examinado de


acordo com a regra; se ele descreve acuradamente a forma e o
83

número de artigos que encontrados, então ele é o proprietário, e


deve receber a propriedade.

32 - Mas se ele não sabe realmente o tempo e o local onde o bem


foi perdido, sua cor, forma e tamanho, ele é merecedor de uma
multa de valor igual ao do objeto reclamado.

33 - Agora ao rei, recordando o dever dos homens bons, deverá


tomar um sexto da propriedade perdida e depois encontrada, ou
um décimo, ou pelo menos um duodécimo.

34 - A propriedade perdida e depois encontrada pelos servos do


rei deverá permanecer guardada em poder de oficiais; aqueles
que o rei condenar por havê-la roubado, ele os fará serem
mortos por um elefante.

35 - Daquele homem que disser verdadeiramente a respeito de


um manancial de riquezas "Isto me pertence", o rei tomará um
sexto ou um duodécimo.

36 - Mas aquele que o afirmar falsamente, será multado em um


oitavo de seus bens, ou em uma parte do valor calculado do
tesouro que existia.

37 - Quando um estudioso Brâmane encontrar um tesouro,


enterrado nos tempos antigos, ele deverá tomá-lo por inteiro,
pois ele é o mestre de tudo.

38 - Quando o rei encontrar um tesouro oculto na terra ele dará


a metade aos Brâmanes, e porá a outra metade em seu tesouro.

39 - O rei receberá metade dos valores e metais encontrados no


solo, em troca de sua proteção, e porque ele é o senhor do solo.

40 - A propriedade roubada por ladrões deve ser devolvida pelo


rei aos homens de todas as castas; um rei que usa tal
propriedade para si incorre na mesma culpa que o ladrão.

41 - Um rei que conhece a lei sabrada, deve estudar a lei das


castas, dos distritos, das guildas e das famílias, e aplicar a lei
peculiar a cada um.

42 - Pois os homens que seguem suas próprias ocupações e


cumprem com os seus próprios deveres se tornam queridos pelo
povo, mesmo que vivam à distância.

43 - Nem o rei nem seus servos devem iniciar uma lide, nem
tentar extinguir aquela que tenha sido submetida a sua
apreciação por outro homem,

44 - Como um caçador encontra a toca de um veado ferido pelas


gotas de sangue, assim deve o rei descobrir de que lado jaz a
verdade, pelas inferências dos fatos.
84

45 - Quando envolvido em procedimentos judiciais, ele deve


prestar completa atenção à verdade, ao objeto da disputa, e a si
mesmo, mais do que às testemunhas, ao local, ao tempo e ao
aspecto.

46. O que pode ser praticado pelos virtuosos, pelos homens


"duas vezes nascidos" devotados à lei, será estabelecido como
lei, se isto não contrariar os costumes dos países, famílias e
castas.

47. Quando um credor pede, diante do rei, a restituição da


quantia de dinheiro em poder do devedor, ele fará com que o
devedor pague a soma que o credor prove ser devida.

48. Por quaisquer meios que o credor seja capaz de obter bens
de propriedade do devedor, até mesmo por esses meios ele
poderá forçá-lo e fazer com que pague.

49. Através de persuasão moral, por meios legais, por meios


artificiosos, ou pelo procedimento costumeiro, um credor pode
recuperar a propriedade emprestada; e (até mesmo) pela força.

50. Um credor que recupere por si mesmo a sua propriedade não


deve ser ser culpado pelo rei por retomar o que lhe pertence.

ALTAVILA (2000:61-82) analisa com rigor o Código de Manu:

O Código de Manu não poderia deixar de ser um código copioso e


exaustivo, oriundo que foi de uma civilização mística e
convencional, cujo rendilhado de pedra dos templos
imensuráveis e inúteis, espelha a sua orientação rotineira e
persistente.

[...] O código hamurábico era um cárcere; porém um cárcere


espaçoso, com janelas gradeadas, por onde entravam livremente
o ar e a luz.

A lei escrita de Manu era, todavia, um subterrâneo tenebroso,


onde o hindu de classe média ou inferior encontrava in-
falivelmente um abismo legal diante de cada passo inseguro,
pois os degraus que nele se construíram eram anulados pelas
cavidades.

Há, no livro do prof. Carlos Ayarragaray “La Justicia en la Biblia y


en Talmud” um esclarecido comentário da legislação de Manu,
feito por Alberto López Camps onde destacamos esta
consideração acertada:

— “La ley de Manu forma un código de preceptos artificiales, que


respondió al ideal de cíerta escuela brahmanica, y no es una
legislación proclámada por un poder público”.

Quando os árias invadiram a Índia, transportaram consigo


princípios monoteístas; porém esse período védico foi superado
pelo período bramânico que destruiu a epopéia cosmogônica dos
arianos e evolucionou pela legislação religiosa da casta
invencível dos sacerdotes.
85

O Código de Manu (Manu foi o Adão do paraíso indiano) faz parte


da coleção dos livros bramânicos, enfeixado em quatro
compêndios: — o Maabdrata, o Romaiana, os Purunas e as Leis
de Manu.

É natural que, instituindo a vida estatal, o culto, as relações civis


e criminais, — tenham os brâmanes consagrado uma
preponderância absoluta sobre a vida nacional, através de leis
que não admitiam comentários.

O período búdico, que se projetou seis séculos antes de Cristo,


modificou profundamente a fase teogônica anterior, mas aboliu
em absoluto os preceitos raciais que ainda hoje subsistem.

E tanto assim que, em face da perseguição dos brâmanes, o


budismo emigrou, com eficiência, para a Indo-China, Japão,
Tibet e Mongólia, onde encontrou um solo espiritual favorável ao
seu enraizamento.

Manu foi apenas um pseudônimo da classe sacerdotal. Havia


sempre o proclama de uma emanação divina em todas as leis de
antanho, como já dissemos. Era um meio astucioso de
corresponsabilizar os deuses pelos interesses humanos.

[...] O Código de Manu, inspirado a Brama pelo descendente do


Ser Supremo e que “le Richi Bhrigou est supposé l’avoir fait
connaitre” no século XIII, — foi traduzido do sânscrito para o
francês por M. Loiseleur-Deslonchamps e editado em 1850 sob a
direção de M. Lafévre, na coleção “Moralistes anciens”.

O professor Hersílio de Souza, em 1924, publicou uma tradução


portuguesa, recolhida do original francês. Evidencia-se no seu
trabalho um cunho de meticulosidade, conquanto diferente do
original francês nos textos complementares. A tradução
presumidamente foi feita dessa edição centenária que
consultamos, pois o autor diz: — “Seguindo Deslonchamps,
damos aqui a parte das leis de Manu que constituem propria-
mente o Código Civil e Criminal, encerrados nos capítulos oitavo
e nono".

A obra editada em Paris se mostra em três partes, tratando


respectivamente de Religião, Moral e Leis Civis, sendo que a
tradução de vinte e cinco instâncias foi feita por M. Pauthier,
conforme declara o editor, sendo Deslonchamps o autor de
“toute la suite”.

As duas primeiras partes vão se entrelaçar adiante, na última,


que se amplia precisamente por oito capítulos: — Das Funções
dos Juízes, Dos Testemunhos, Dos Juramentos, Do Roubo, Do
Adultério, Dos Deveres do Marido e da Mulher, Dos Jogos de Azar
e Apostas, Dos Deveres do Kchatrya, do Vaisya e do Soudra e das
Classes Misturadas.

A tradução do professor pernambucano seguiu uma melhor


técnica de codificação e compreende 18 Títulos, uma Parte Geral
e Disposições Finais. Observamos ainda que a tradução direta do
sânscrito não distribui as matérias em forma articulada, ao passo
que a versão portuguesa se distende em caráter numérico.
86

Podemos, assim, admitir a existência de uma outra edição,


consultada pelo autor de “Novos Direitos e Velhos Códigos”.

Van Bemmelen, depois de nos esclarecer que Max Müller


apresentou as traduções inglesas de cinco códigos hindus, sob o
título Sacred books of the East, refere-se à existência de outras
traduções e bem assim diz que “otros de los códigos rela-
cionados con la ley de Manu han salido de las escuelas brah-
mánicas: ei de Narada, dei siglo IV, V e VI de nuestra era; y ei de
Brihaspati, que acaso sea todavia un poco más reciente”.

Formulado dez séculos depois do Código de Hamurabi, não teve,


todavia a projeção legal deste, porquanto a legislação
cuneiforme se infiltrou pela Assíria, Judéia e Grécia e constituiu
“um legado comparável ao que Roma fez ao mundo moderno”.

Foi um código sem ressonância fora dos limites hindus. Seu


manuseio vale por unia dissecação legal e nada mais.

A parte geral — Da Administração da Justiça — desdobra-se


inexplicavelmente nestes três capítulos, sendo que o último não
se justifica estar ali encaixado, pela diversidade da matéria:

I—Dos ofícios dos juízes.


II— Dos meios de prova.
III — Das moedas.

O artigo 1º estabelecia um freio inicial para o rei, que “deve


comparecer à Corte de Justiça em um porte humilde, sendo
acompanhado de brâmanes e de conselheiros experimentados”.
Tudo isto apenas simples exteriorismo, para impressionar os
milhões de seres bestializados pelo horror dos castigos e pelo
narcótico do medo daquele mundo além da morte, para onde os
justiçados já iam com a condenação lavrada na terra. E como os
brâmanes eram os compendiadores da lei, por esse intróito do
código o soberano não poderia de modo nenhum decidir sozinho,
ou mesmo acompanhado dos seus conselheiros.

O artigo 3º, como comprovação do emaranhado legal hindu, é


redigido da seguinte forma:

Que cada dia ele decida, unia depois da outra, pelas razões
tiradas dos costumes particulares locais às classes e às famílias
e dos Códigos e leis, as causas classificadas sob os dezoito
principais títulos que se seguem.

Logo daí se estabelecia o sentido previlegial consuetudinário e o


merecimento das castas e das linhagens.

Quando, todavia, os casos não se enquadravam nas matérias


capituladas, o rei poderia julgar “seus negócios apoiando-se
sobre a lei eterna”. Ora, essa lei eterna resultaria da consulta
feita aos brâmanes e do modo como quisessem eles nortear a
sentença do soberano, — sempre acautelando os interesses da
classe das funções religiosas.

Segue-se um amontoado de considerações, sempre visando a


superioridade do pensamento sacerdotal, do qual se salva esta
87

concepção elevada:

Art. 13 — A justiça é o único amigo que acompanha os homens


depois da morte; porque qualquer outro afeto é submetido à
mesma destruição do corpo.

Mais adiante, e para que o rei não desprestigiasse a casta


influente, vem esta consideração pitoresca:

Art. 17 — Quando um rei tolera que uni sudra pronuncie


julgamento à sua vista, seu reino está em perigo igual ao de uma
vaca num atoleiro.

Como parte pretensiosamente psíquica, mas perigosa nos


julgamentos, esclarecia-se que:

Art. 22— Conforme o estado do corpo, o porte, a marcha, os


gestos, as palavras, os movimentos dos olhos e da face, se
adivinha o trabalho interior do pensamento.

Prossegue o capítulo com a determinação de que se um homem


achasse um tesouro, o rei deveria ter dele 6%, ou 10%,
conforme a condição do descobridor. Se o tesouro fosse achado
por um brâmane, seria todo seu, “porque ele é senhor de tudo o
que existe”. E se o descobridor fosse o próprio rei, então os
brâmanes teriam direito a 50% do achado. Deduzimos que o
soberano hindu, em tal conjuntura, ficava colocado em condição
inferior à de um simples indivíduo que desenterrasse um
punhado de ouro ou de pedras preciosas.

O segundo capítulo, — Dos meios de prova — é vastíssimo e


decalcante da matéria nele próprio estatuída. Prescreve-se que
somente homens dignos de confiança, “isentos de cobiça”,
possam ser escolhidos para testemunhas de fatos levados a juí-
zo; sendo tal missão vedada aos artífices de baixa classe, aos
cozinheiros, aos atores, aos estudantes, aos ascetas e aos hábeis
teólogos que seriam, então, uma espécie de advogados,
desnecessários a esclarecerem a confusão legal.

A mais interessante proibição testemunhal é, entretanto, a que


contém adiante:

Art. 49- Nem um infeliz acabrunhado pelo pesar, nem um ébrio,


nem um louco, nem um sofrendo de fome ou sede, nem um
fatigado em excesso, nem o que está apaixonado de amor, ou em
cólera, ou uni ladrão.

Desta maneira, o hindu que se apresentasse perante a corte,


estando reconhecidamente apaixonado por uma mulher, não
merecia fé pública para depor, era considerado em privação de
sentido. Num estado em que os casamentos eram negociados na
infância pelos pais dos nubentes, havia mesmo razão de
considerar um louco o homem que se apresentasse descon-
trolado pelos efeitos perturbantes do amor.

É de justiça, porém, esclarecer que o código hindu, nessa


exceção processual, vai ao encontro da moderna teoria do re-
nomado jurista italiano prof. Enrico Altavila, pois no primeiro
volume de sua Psicologia Judiciária, no capítulo pertinente às
“Emoções e paixões”, estão consignados, cm abono de Manu, os
88

seguintes argumentos:

“O amor apresenta, como as idéias fixas, fenômenos muito


evidentes de obsessão e de impulsão: a obsessão implica uma
restrição especial do campo da consciência, que explica o
exclusivismo, que é o caráter distintivo da paixão. O homem
enamorado é, por conseguinte, testemunha medíocre, pela
obtusidade da sua consciência, para percepcionar
acontecimentos estranhos ao seu amor, e pelos freqüentes erros
do juízo que comete”.

Nessa emergência, a patologia forense dos indo-arianos oferecia


um aspecto que a psicologia penal do século XX referenda
através da obra do ilustre criminalista da Universidade de
Nápoles.

Quanto ao testemunho feminino, a lei bramânica circunscrevia-o


desta forma:

Art. 50 — Mulheres devem prestar testemunho para mulheres.

O artigo seguinte, porém, excepcionava o crédito visual e


auditivo, expressando que “na falta de testemunhas conve-
nientes, pode—se receber o depoimento de uma mulher”.

Ainda em socorro do Código de Manu fomos encontrar, neste


particular, esta observação do professor argentino Ricardo
Levene, no seu livro El Delito de Falso Testimonio:

“El sexo es otro factor. La mujer depone más bajo ei influjo de


los sentimientos y pasiones que ei hombre. Su psiquis suele
volverse más irritable por sus estados patológicos normales. Su
emoción se acrescenta en estado de gravidez y además es
facilmente sugestionable”.

Derivando sempre pelo sentido racial, as leis indianas indicavam


taxativamente que os “misturados” somente poderiam depor
para a casta amorfa daqueles que se uniam ou resultavam da
união de castas diferentes.

A testemunha que depunha sobre coisa diversa do que vira e


ouvira, seria “precipitada no inferno, com a cabeça para baixo e
privada do céu”. Neste particular, como lá observamos. Manu
também legislara para a eternidade.

O artigo 109 estabelecia o grau das penas: - simples repreensão,


severas censuras, multa e castigo corporal. A pena espiritual
ficava omissa neste dispositivo, conquanto surgisse, impiedosa,
em muitos outros artigos tenebrosos. Observemos que o próprio
rei poderia ser recomendado ao fogo do inferno pelos brâmanes,
desde que não aplicasse aos culpados os castigos legais, — isto
é, aqueles que os seus conselheiros achassem compatíveis com
os seus interesses. Era, assim, o soberano hindu um prisioneiro
político e religioso daquela casta que retinha nas mãos ávidas
todos os poderes do nebuloso e complicado estado bramânico.

O terceiro capítulo da parte introdutiva, — Das moedas, —nos


seus oito dispositivos dedicados ao cobre, à prata e ao ouro,
89

evidenciava que o metal circulante merecia urna atenção


especial dos legisladores brâmanes.

O valor monetário começava da poeira do sol quando “passa


através de uma janela”. Oito grãos de poeira formavam, então, a
unidade metálica concreta. Seguiam-se os valores crescentes,
até atingir uma “nikka”, que deveria ser o maior valor concebido
pelos economistas da Índia. Entretanto, o código não se referia
ao privilégio da cunhagem das moedas, nem às falsificações ou
cerceios. Tanto melhor para a aplicação das penalidades
arbitrárias, urdidas no momento crucial dos julgamentos.

A parte especial derivava, de início, para as dívidas.

A ação de cobrança tinha a sua propositura perante o rei, depois


de o credor ter usado inutilmente de todos os recursos legais: —
astúcia, ameaça e violência.

O mutuante de dinheiro garantido por um penhor tinha direito,


além do seu capital especializado, aos juros de 100% ao mês.

Não coma a prescrição em determinados casos e sobre


determinados “bens”, como prescrevia a lei:

Art. 143 - Um penhor, o limite de uma terra, o bem de uma


criança, um depósito aberto ou selado, “mulheres”, as
propriedades de um rei e as de um teólogo, não ficam perdidas
por que um outro delas goze.

Podia-se fazer a inovação da dívida, desde que fossem pagos os


juros; o filho não respondia pelas dívidas do pai, desde que ele
tivesse gasto o dinheiro com mulheres, músicos, jogo e licores
espirituosos.

Os ébrios, os loucos e os doentes eram incapazes para contratar.


Os contratos somente eram válidos se “compatíveis com as leis
estabelecidas e os costumes imemoriais”.

A fraude anulava o contrato; os herdeiros pagavam as dívidas do


de cujus; as dívidas poderiam ser ressarcidas com a prestação de
trabalhos e a lei proibia que os advogados administrativos
fizessem queixa dos credores perante os soberanos.

O capítulo — Dos depósitos — apresentava esta disposição


recomendável:

Art. 174 — Qualquer que seja o objeto e de qualquer maneira


que ele seja depositado nas m5os de uma pessoa, deve se reaver
esse objeto da mesma maneira; assim depositado, assim
restituído.

O capítulo — Das empresas comerciais feitas por associados —


introduz no direito uma instituição que mais tarde, na Idade
Média, foi generalizada na Europa Central: a associação de classe
ou o cooperativismo.

E estabelecia, então, o velho código.

Art. 204 — Quando vários homens se retinem para cooperar,


cada um por seu trabalho, em uma mesma empresa, tal é a
90

maneira por que deve ser feita a distribuição das partes.

Compreendia-se perfeitamente o espírito de tal instituição, pois


a indústria manual gerava toda a economia do país e bem
caprichosos foram aqueles artesãos que trabalharam no engaste
das gemas preciosas, nas primorosas estatuetas de marfim, nos
móveis de decorações reveladoras de um refinado senso
artístico, nos lavores de prata e ouro sobre famosas caixas de
teca, nos couros luxuosamente pirografados, nos interiores onde
a pintura revelava as belezas da fauna e da flora. Foram eles que
retalharam no monólito dos templos aquelas milhares de
estátuas e baixos-relevos dos deuses medonhos da mitologia
indo-ariana. Contentados com a casa, o pão e a esperança de um
lugar na eternidade, compraziam-se em realizar tuna obra
silenciosa e duradoura. Esqueciam a sua própria condição hu-
milde, na criação de um estilo que culminou também na fatura
dos vasos de metal, recamados de frisos damasquinados de
prata, nos bizarros instrumentos de música tauxiados de ma-
drepérola e marfim, nas aljavas de recamos esquisitos, nos ca-
pacetes de guerra, nos tecidos de maravilhosa estamparia, nos
objetos de adorno que são legitimas obras-primas. Quando a lei
os reconheceu e os amparou, não foi certamente por benigni-
dade, mas pela necessidade de sua sobrevivência laboriosa e
construtiva.

O capítulo destinado às ações para serem retomadas as coisas


dadas não possui valor analítico, parecendo-nos que as doações
não eram costumeiras entre os hindus.

O capítulo — Da recusa de cumprir as convenções é omisso e


impreciso, não oferecendo igualmente margem para um
comentário que possa interessar. A retrovenda era cabível em
todos os negócios, dentro de dez dias, mesmo que não, estivesse
exarada no corpo do contrato e se tratasse de coisa imperecível.
Essa norma de arrependimento foi introduzida na legislação
moderna com a prévia especificação pelas partes contratantes,
pelo que concluímos que a tradição da coisa vendida somente se
operava necessariamente depois do prazo fixado pelo art. 215.

O capítulo - Das contestações entre proprietários de animais e


pastares — não se reveste de aspecto merecedor de crítica,
tendo apenas um sabor bucólico e regional.

No capítulo — Das questões sobre limites — exigia-se que os


demarcadores teriam de exercer as suas funções “pondo terra
sobre as cabeças, conduzindo grinaldas de flores vermelhas e
com vestimentas vermelhas”. Somente assim, sob tal dilúvio
escarlate, a demarcação teria valimento perante a corte, porque
a cor exercia uma importante significação psicológica em tais
audiências.

O capítulo — Das injúrias — era ferocíssimo: estabelecia penas


de língua cortada, estilete de ferro em brasa, óleo fervendo pela
boca e pagamento de multa.

Na parte — Das ofensas físicas — Talião se apresenta como


colaborador de Manu. Aliás ele exerceu notável influência em
todas as legislações antigas, inclusive na grega e na romana.
Passemos por cima de tantos requintes de crueldade, indignos
91

de serem comentados.

O código dos brâmanes distinguia o furto e o roubo. Em qualquer


dos casos, as penalidades máximas se relacionavam com os bens
das classes superiores, principalmente da casta sacerdotal.

A diferenciação estava contida neste dispositivo:

Art. 324 - A ação de tirar uma coisa por violência, à vista do


proprietário, é um roubo; em sua ausência, é furto, do mesmo
modo o que se nega ter recebido.

A distinção da lei era, entretanto, quanto à presença ou ausência


do dono da coisa, desprezando o característico da violência física
instituído no Direito subsequente.

A legítima defesa era tomada em consideração, desde que não


houvesse no criminoso “nenhum meio de escapar”.

O capítulo mais apurado e mais minucioso é o Do adultério


ampliando-se por 69 artigos, por vezes repetidos. O zelo por
esse aspecto da vida hindu deixa-nos diante deste dilema: ou a
previsão social era sincera, ou as mulheres da Índia antiga não
eram muito sérias. Propendemos para a primeira asserção, pois
o artigo inicial mandava que o rei punisse o sedutor com
“mutilações infamantes” e, em seguida banisse do reino “a-
queles que se comprazem em seduzir as mulheres dos outros”.

Aliás, o legislador hindu não implantava tal rigorismo contra o


adultério em respeito à manutenção da moral social, mas sim
“porque é do adultério que nasce no mundo a mistura das
classes”. Sempre a preocupação racial; sempre o horror pelas
castas inferiores, nascidas dos membros inferiores do deus
criador e mitológico.

A minudência e a pragmática tocavam as raias da estultice


quando definiam, desta maneira, certos casos de transgressão
conjugal, numa linguagem técnica que era, todavia, mais um
estímulo do que unia disposição penal:

Art. 349 — Ter pequenos cuidados com uma mulher, mandar-lhe


flores e perfumes, gracejar com ela, tocar nos seus enfeites ou
nas suas vestes, sentar- se com ela no mesmo leito, — são
provas de um amor adúltero.

Art. 350 — Tocar o seio de uma mulher casada ou em outras


partes do seu corpo, de uma maneira indecente; deixar- se tocar
assim por ela, são ações resultantes do adultério, “com mútuo
consentimento”.

Dispensamos prudentemente o comentário de muitos outros


dispositivos reguladores desta complicada matéria, não somente
pela hilaridade, como pelo requinte de realismo com que foram
exarados pelos circunspectos sacerdotes de Brama.

Entre as penas mais bizarras para os adúlteros, registravam-se


estas: — cabeça raspada e regada com urina de burro e
cremação com fogo de ervas de caniço.

Seguem-se as prescrições — Dos deveres da mulher e do marido.


92

O Código de Manu foi o mais rigoroso, até hoje, em relação à


mulher. Pelo Código de Hamurabi, a mulher poderia ser
comerciante, na organização política hebraica a mulher poderia
chegar à proeminência de Juiz, como no caso de Débora; no Egito
as mulheres tinham propriedades individuais e poderiam testar
livremente. Na Índia, a mulher era uma escrava e a sua pobre
vida decorria dentro da angústia do círculo de ferro deste
dispositivo:

Art. 415- Uma mulher está sob a guarda do seu pai durante a
infância, sob a guarda do seu marido durante a juventude, sob a
guarda de seus filhos em sua velhice; ela não deve jamais
conduzir-se à sua vontade.

Este artigo, porém, vai completar o seu sentido no artigo 442,


em que a mulher culpada “depois de sua morte renascerá no
ventre de um chacal e será atormentada de moléstias como a
tuberculose e a elefantíase”.

Alguns historiadores dispensam à legislação hindu muito


apanágio de moralidade; entretanto, essa moralidade era apenas
convencional e derivava do espírito rotineiro e dogmático da
cultura sacerdotal. Para exemplo, vem o caso da falta de des-
cendência. O egípcio, o caldeu, o hebreu, o árabe e outros povos
repudiaram a mulher de ventre estéril, garantindo-lhe, porém, a
subsistência, uma vez que ela não fosse diretamente culpada por
não procriar. Entretanto, o hindu engendrou no seu código as
disposições mais aberrantes sobre o assunto, até a atualidade.
Assim é que os artigos 471 e 472 autorizavam o conúbio da
esposa com um cunhado ou outro parente, desde que o
reprodutor a procurasse discretamente à noite, “regado de
manteiga líquida e guardando silêncio”. Ignoramos a
importância que representava para o ato essa unção legal e
indispensável.

O capítulo — Da partilha e das sucessões — desdobra-se


prolixamente por 115 artigos, muitos dos quais repisam a maté-
ria anterior e outros tratam de assuntos diferentes de sua
epígrafe.

Enquanto isso, o Código de Hamurabi desenvolve toda a relação


de família em 56 artigos, incluindo neles os dispositivos
sucessórios, começando do artigo 162. Apenas o código
mesopotâmio se emparelha ao código hindu, nessa parte de
Direito Civil, eximindo a mulher da herança do marido, que recai
em benefício dos descendentes.

O capítulo é iniciado com o seguinte dispositivo:

Art. 516 — Depois da morte do pai e da mãe, que os irmãos,


tendo-se reunido, partilhem entre si igualmente os bens de seus
pais, quando o irmão mais velho renuncia a seu direito; eles não
são donos de tais bens durante a vida daquelas duas pessoas,
salvo se o pai mesmo tenha preferido partilhar esses bens.

Seguem-se os decretos e privilégios da primogenitura, pois o


estado hindu tinha a preocupação de reter a fortuna particular
em poucas mãos e de incrementar o aumento da pobreza que
seria um elemento fácil de ser detido na fronteira da lei:
93

Art. 517 — Mas, o mais velho, quando ele é eminentemente


virtuoso, pode tomar posse do patrimônio em totalidade e os
outros irmãos devem viver sob sua tutela, como viviam sob a do
pai.

Art. 518 — No momento de nascer o mais velho, antes mesmo


que a criança tenha recebido os sacramentos, um homem se
torna pai e paga sua dívida para com os seus antepassados, o
filho mais velho deve, pois, ter tudo.

Como justificativa desse privilégio do primogênito, o art. 519


explica que o nascimento do primeiro filho dá ao homem a
imortalidade e que “os sábios consideram os outros (filhos)
como nascidos do amor”. Alias, essas vantagens da primoge-
nitura tinham suas fontes nas leis primitivas, originadas do
princípio fundamental de que a família deveria ser sempre re-
presentada por um chefe, que mantivesse o culto dos antepas-
sados. Seria mais fácil, dessa maneira unilateral, cumprir os
deveres religiosos para com os ascendentes, do que dividindo-se
os poderes familiares e afrouxando-se o vigor da agnação
preferencial.

Mateo Goldstein considera “cuán arraigado estaba en la Índia ei


culto de los antepassados” e diz que “según ia Ley premosaica,
todo jefe de familia teMa cl derecho de ejercer las funciones
sacerdotales y después de su muerte era ei hijo primer nacido
quien le reemplazaba en ese derecho; pero carecia de éi en vida
dei padre; tomaba ei sacerdocio en la sucesión de su padre”.
Considera, todavia, o mesmo esmerilhador do Direito hebreu que
esse sistema somente se operava na fase pré-mosaica, citando
aqueles três dispositivos do capítulo 21 do Deuteronômio, que
não nos convencem, porquanto Moisés confirma no versículo 17
que “aquele é o principio de sua força, o direito da primogenitura
seu é”.

Como comprovação do caráter religioso da primogenitura hindu,


o art. 537 prescreve que — “O direito de invocar Indra, nas
orações chamadas Swabrahmanyâs, é concedido àquele que
nasceu primeiro”. E o art. 597 determina como devem ser feitas
as libações de água aos antepassados (pai, avô paterno e
bisavô) e bem assim o oferecimento de um bolo propiciatório.

Tal era a preocupação por uma descendência varonil, que o


Código de Manu regulava as falhas da aviação da seguinte forma:

Art. 538 — Aquele que não tem filho macho pode encarregar sua
filha da maneira seguinte, de lhe criar um filho, dizendo: que o
filho macho que ela puser no mundo se torne meu e cumpra em
minha honra a cerimônia fúnebre.

Mas a explicação desse interesse de linhagem ou de agnação


está explicado nessa benemerência legal e religiosa:

Art. 548 — Por um filho, um homem ganha mundos celestes; pelo


filho de um filho, ele obtém a imortalidade; pelo filho desse neto,
ele se eleva à morada do sol.

O restante do capítulo pode ser resumido da seguinte maneira:

— Os filhos de mulher “não autorizada a ter um filho de outro


homem”, o filho “engendrado pelo irmão do marido com mulher
94

que tem filho varão”, — não são classificados herdeiros — (art.


554).

— Os filhos dos brâmanes, de mulheres diferentes, terão a


herança diferida pelas suas castas — (art. 563).

— O filho macho de uma mulher que se case grávida, será


considerado como de seu marido — (art. 584).

— O filho de um brâmane com uma mulher de baixa categoria “é


chamado cadáver vivo” — (art. 589).

— Recai no pai e nos irmãos o direito sobre a herança “de um


homem que não deixe filhos de solteira, nem de viúva” — (art.
596).

— Não havendo herdeiros masculinos ou femininos e


extinguindo-se com o morto a sua linhagem, será herdeiro o
preceptor intelectual ou o discípulo do defunto. Só na falta
desses últimos, a fortuna recairia na categoria dos Brâmanes
“versados nos Três Livros Santos, puros de espírito e de corpo e
senhores de sua paixões”, os quais ofereceriam o bolo e
prestariam os demais deveres fúnebres — (arts. 598-599).

Entretanto, o art. 600 estabelece contradição com essa norma de


herança, pois diz textualmente:

— A propriedade dos Brâmanes não deve nunca voltar ao rei, tal


6 a regra estabelecida; mas nas outras classes, na falta de
qualquer herdeiro, que o rei se emposse do bem.

Os artigos 607 e 608 regulam a sucessão da mulher casada sem


descendentes, de um modo complicado: — se o casamento foi
realizado “segundo os modos de Brama, dos Deuses, dos Santos,
dos Músicos Celestes ou dos Criadores, — devem os bens voltar
ao seu marido”. Se, todavia, o casamento foi realizado “segundo
o modo dos maus gênios, a partilha recai nos seus ascendentes”.

Assim, a herança será regulada pela interpretação dada ao modo


como foi celebrado o casamento dessa “jovem mulher casada”.
Existe a seguinte proibição sucessória no Código de Manu:

Art. 612 — Os eunucos, os homens degredados, os cegos e


surdos de nascimento, os loucos, idiotas, mudos e estropiados,
não são admitidos a herdar.

Entretanto, essa proibição podia ser remediada pelo sistema


adotado neste cínico dispositivo:

Art. 614 - Se algumas vezes, dá na fantasia ao eunuco e aos


outros de se casarem e terem filhos, a mulher do eunuco, tendo
concebido então de um outro homem, — segundo as regras
prescritas, esses filhos são aptos a herdarem.

Outra disposição ociosa do art. 615 está no caso da compartilha


dos bens do irmão mais velho, pelos outros irmãos, quando eles,
vivendo em comum, “se aplicam ao estudo da ciência sagrada”.

E o Código Hindu prossegue no preceito, mas agora com esta


redação nociva e sem nexo, uma vez que a coisa a ser partilhada
fora ganha justamente pelo irmão que não tinha ciência:
95

Art 617 - Mas a riqueza adquirida pelo saber pertence


exclusivamente àquele que a ganhou.

Os últimos dispositivos desse capítulo oferecem, felizmente, algo


de eqüidoso: — o art. 627 determina uma sobrepartilha ao filho
nascido depois do inventário; o art. 629 prescreve a reabertura
da sucessão quando forem encontrados bens que não se
arrolaram; o art. 630 proíbe a partilha das vestimentas do de
cujus e ordena que certos bens devem continuar com a sua
finalidade: a serventia da água dos poços, os escravos, as
pastagens, os animais etc.

Prevaleceu, na elaboração deles, o sentido econômico e social


sobre o convencionalismo bramânico; isto porque não era
possível uma completa extensão dos direitos da classe fa-
vorecida: algumas migalhas jurídicas haveriam de sobrar da
mesa de banquete daqueles deuses humanos, embora nem che-
gassem para enganar a fome dos sudras, saídos originariamente
dos pés da divindade criadora.

O capítulo — Dos jogos e combates de animais — enfeixa também


matérias diferentes de sua propositura.

Inicialmente, o Código de Manu condenava os jogos e as apostas,


tal qual o Alcorão como veremos adiante, no estudo a ele
referente; sendo que o princípio legal bramânico considerava-os
“furtos manifestos” e Maomé definia o jogo como “abominação
inventada por satanás”.

O Direito hindu classificava os jogos de duas maneiras:

a) jogo ordinário, em que se empregam objetos inanimados, —


como por exemplo, os dados.

b) jogo de aposta, aquele no qual são utilizados seres animados,


como galos.

O art. 632 recomendava a prescrição dos jogos e apostas por


parte do rei, “porque essas duas práticas criminosas causam aos
principais a perda de seus remos”.

E o art. 638 explicava: “o homem sábio não se deve entregar ao


jogo, nem mesmo para se divertir”.

Em seguida, a lei deriva para outros assuntos.

Regulava-se assim o pagamento das multas: — os militares, os


comerciantes e os servos pagavam as infrações com serviços,
porém os brâmanes pagariam “pouco a pouco” (art. 640).

Nessa divisão do código foi tauxiado artigo que deveria estar na


parte concernente às ofensas físicas, pois estabelece no artigo
648 que se imprima a fogo, sobre a testa do homem que desonra
o lar do seu chefe espiritual, uma figura obscena; na testa de uni
ébrio, um alambique; na testa de um gatuno, uma pata de cão;
na testa do assassino de um brâmane, um homem sem cabeça.

Ao fim dessa parte legal, há este dispositivo filosófico que, em


outra sociedade menos escravizada pelos ditames religiosos,
96

teria uma aplicação magnânima:

Art. 660 — Considera-se como tão injusto para um rei deixar ir


um culpado, quanto condenar um inocente; a justiça consiste em
aplicar a pena conforme a lei.

As Disposições finais, que deveriam ser traduzidas por


Disposições gerais, compreendem 84 artigos.

O art. 662 recomenda ao rei conciliar a afeição dos povos dos


países que lhe são submetidos; o art. 663 lembra a necessidade
de o rei construir fortalezas em regiões florescentes e extirpar os
celerados; o art. 665 considera que um rei que não reprimir os
ladrões “é excluído da morada celeste”.

O art. 668 dividia os ladrões em duas classes:

a) ladrões públicos, os que operam vendendo diferentes coisas


de maneira fraudulenta.

b) ladrões ocultos, os que penetram nas moradas por uma


brecha e os salteadores das florestas.

O art. 678 recomenda uma prática condenável: utilizar-se dos


ex-ladrões para confabular com os ladrões em atividade e atraí-
los para um festim, onde deveriam ser capturados e dizimados.

Apesar da ojeriza legal contra os ladrões, o art. 681 prescrevia


que não se fizesse “morrer um ladrão sem que seja preso com o
objeto roubado e os instrumentos do roubo”.

O art. 693 adotou estranhamente esta medida de ordem


higiênica e de difícil justificação por parte do infrator:

— Aquele que faz suas dejeções na estrada real, sem uma


necessidade urgente, deve pagar dois Karchapanas e limpar
imediatamente o local que emporcalhou.

A lei, todavia, eximia de multa os velhos, os doentes, as


mulheres grávidas e. as crianças, que seriam somente repreen-
didos e intimados a limpar o local.

Há um dispositivo dedicado à medicina, estabelecendo a


qualificação dos delitos, mas não determinando as penas.

Art. 695 — Todos os médicos e cirurgiões que exercerem mal a


sua arte, merecem unia multa; ela deve ser do primeiro grau
para um caso relativo a animais; do segundo, relativo a homens.

O art. 698 é dedicado aos crimes contra a economia popular,


punindo os que alteram os preços e vendem mercadorias
deterioradas.

Ignoramos porque o Código de Manu adotou contra os ourives


esta medida horrorosa:

Art 703 — Mas, o mais perverso de todos os velhacos e um


ourives que comete uma fraude; que o rei o faça cortar em
pedaços, por navalhas.

Neste capítulo há muitos artigos que dispõem, relembram e


elevam os direitos dos brâmanes, que têm poderes até para
97

destruir o exército do rei, por meio de “imprecações e seus sa-


crifícios mágicos”.

Encerra-se o Código dilucular de Manu recomendando uma


obediência cega às ordens dos brâmanes versados no co-
nhecimento dos livros santos, pois somente assim um sudra
obterá “felicidade depois da morte e obterá um nascimento mais
elevado".

Depois de uma legislação desalumiada como esta, só mesmo a


reação passiva de Buda.

A raça, teimosamente ainda hoje dividida em classes, acomodou-


se à nova doutrina do príncipe mendigo, porém continuou,
séculos afora, ignorando a existência miserável dos párias e
eliminando os que pregam igualdade humana, como Gandhi, o
Buda formado em Oxford.

O paraíso de Manu é tenebroso e exclusivista. O paraíso de


Sáquia-Muni é uma espécie de vácuo onde, pela sua natureza,
não há som, nem palpitações, nem luz num lago imenso, sem o
espumejar de uma onda, sem margens e sem horizonte, onde se
afogam aniquiladamente todos os espíritos.

Renan situou bem essa paragem imaginária e nirvânica: — Un


paradis dans lequel l’homme se trouve reduit à l’état de cadavre
disséché.

Babilônia reduziu-se a ruínas; todavia revive no diorito do seu


código materialista, porém humano. A Índia, todavia, subsiste;
mas a sua sobrevivência é um encadeamento contraditório do
seu passado e do seu presente e, no seu primitivo código de 746
artigos, pouco penetrou a perlucidez de um sentido judicioso.

Depois de analisar aquela fantástica e fantasiosa arte construtiva


hindu, talhada em pórfiro e granito, abrigando divindades
caricatas e medonhas nos seus dois mil templos, — César Cantu
remata seu entusiasmo com estas palavras: — “A arquitetura
indiana ê a religião e a literatura do bramanismo, gravada na
face da terra como um imenso monolito”.

O mais elegante e erudito dos historiadores do século XIX


omitiu, porém, como parte complementar da escultura indo-
ariana, o Código de Manu. Porque essa legislação extensa como o
templo subterrâneo de Elora, escavado em dez quilômetros de
rocha viva, é também um templo de granito vermelho, revestido
de imagens e lavores extravagantes, revelando mais a tortura do
pensamento bramânico do que mesmo a altura de uma
concepção legal.

4 – O DIREITO INDIANO

O Direito indiano é o Direito estatal, que somente passou a existir a


partir da presença inglesa na Índia, com marcados traços de common law.

No site http://www.droitcivil.uottawa.ca/world-legal-systems/fra-
tableau.html#i da Faculdade de Direito da Universidade de Ottawa
98

(Canadá) é classificado o sistema jurídico da Índia como misto (common


law/muçulmano/costumeiro). Abordaremos neste estudo apenas o
primeiro e o terceiro devido às suas peculiaridades.

4.1 – GENERALIDADES

Nesta parte seguiremos sobretudo DAVID (1996), jurista mais


conhecido, apesar de ANNOUSSAMY (2001) ser mais rico em detalhes até
pelo fato de ser indiano de nascimento e ter desenvolvido toda sua vida de
magistrado e jurista na própria Índia.

Entretanto, vale a pena trazer para o Leitor uma observação


esclarecedora de ANNOUSSAMY (2001:10):

O Direito moderno se baseia deliberadamente na Filosofia do


Direito europeu, baseada na preponderância da pessoa humana.
Essa orientação acentuou-se após a independência com a adoção
de uma Constituição inspirada nos Direitos Humanos.

E, estabelecendo um parelelo entre o Direito indiano e o Direito


hindu, diz ANNOUSSAMY (2001:10):

Enquanto que este último visava a preservação de uma


sociedade fortemente hierarquizada, o novo Direito aspira a uma
transformação social para fazer reinar a igualdade.

ANNOUSSAMY (2001:25) afirma a importância do "princípio do


precedente":

As Cortes Superiores da Índia chegaram igualmente a afirmar


com força o princípio dos precedentes. Elas não só determinaram
que os tribunais inferiores eram obrigados a seguir suas
decisões, como também declararam que toda recusa seria
considerada como ato de insubordinação.

4.1.1 – DEFINIÇÃO

DAVID (1996:453) esclarece:

O Direito hindu é o de uma comunidade fundada sobre a


vinculação estreita e uma religião. Este Direito tende a ser
substituído, atualmente, por um Direito nacional, cuja aplicação
é independente da filiação religiosa dos interessados. A
tendência atual na Índia é substituir o conceito tradicional de
Direito religioso (Direito hindu, Direito parsi, Direito muçulmano,
Direito Canônico) pelo conceito ocidental de um Direito laico,
autônomo em relação à religião. Este Direito nacional da Índia é
chamado Direito indiano, por oposição ao Direito hindu. Ele
compreende todas as leis da Índia que são, em princípio, de
aplicação geral, mesmo quando disposições particulares destas
leis as declaram inaplicáveis a certas categorias de cidadãos. O
Indian Succession Act, por exemplo, é considerado como fazendo
parte do Direito indiano, embora esteja previsto expressamente
99

nesta lei que, com exceção de algumas disposições, ela não se


aplica nem aos hindus, nem aos muçulmanos, nem aos budistas,
nem aos parsis e que deixa fora do seu domínio a imensa maioria
da população da Índia em tudo o que respeita às sucessões ab
intestato.

4.1.2 – LEX LOCI


DAVID (1996:453-454) explica:

A noção de Direito territorial (lex loci), que concebe o Direito


como um corpo autônomo de regras em relação à religião ou à
tribo, é uma noção ocidental, moderna, estranha à tradição da
Índia. Era desconhecida na Índia antes do domínio britânico, O
Direito muçulmano era então, é certo, o único Direito aplicável
pelos tribunais, cujo acatamento era assegurado pelas
autoridades públicas, mas não podia, só por isto, ser considerado
como um Direito territorial; o Direito muçulmano está ligado à
religião do islã e é, pela sua própria natureza, inaplicável aos
não-muçulmanos, quer se trate de cristãos, judeus ou gentios
(gentoos), como eram então qualificados os hindus. Apenas em
matéria de Direito criminal se aplicava aos hindus, na maior
parte da Índia, o Direito muçulmano. Nas outras matérias
deixava-se que aplicassem entre eles os seus costumes; não
existia Direito territorial.

A criação de um Direito territorial impôs-se na Índia sob o


domínio britânico. A constituição de um tal Direito surgiu como o
melhor meio de regular as relações entre pessoas pertencentes a
comunidades diferentes. Por outro lado, Direito muçulmano e
Direito hindu deixavam fora da sua aplicação comunidades
importantes da população da Índia 8: cristãos, judeus, parsis e
pessoas cuja integração numa comunidade era duvidosa. Im-
punha-se a criação de um Direito territorial para uso destas
populações, cada vez mais numerosas, a partir sobretudo do
momento em que a Índia, em 1833, se abriu aos europeus.
Direito muçulmano e Direito hindu, enfim, comportavam grandes
lacunas, mesmo concedendo que em teoria eles estavam aptos a
regular todas as espécies de relações; o desenvolvimento da
Índia seria favorecido se, para regular as novas relações, se
instituísse um Direito territorial comum aos muçulmanos e aos
hindus, assim como aos habitantes pertencentes a outros credos.

4.1.3 – A LEX LOCI NAS PRESIDÊNCIAS


DAVID (1996:454-455) diz quanto ao Direito das cidades mais
importantes, diferente das demais:

Qual vai ser este Direito territorial e como ele vai poder ser
constituído? A resposta a estas duas questões variou em razão
da complexidade e evolução política e constitucional da Índia.
100

Nas instâncias de Bombaim, de Calcutá e de Madras (Presidency


Towns) os tribunais reais, criados desde a origem do domínio
britânico, receberam instruções no sentido de aplicarem, em
princípio, o Direito inglês, tal como era aplicado no ano de 1726.
Contudo, este princípio comportava duas ressalvas. O Direito
inglês só era aplicável sob reserva dos regulamentos
(Regulations) que em certas matérias podiam ter sido definidos
pelas autoridades locais. Só era aplicável, por outro lado, na
medida em que a sua aplicação parecesse possível no meio
particular da Índia.

Por último, e em especial, a competência dos tribunais reais


abrangia originariamente apenas os litígios em que um dos
interessados era inglês ou os litígios para os quais esta
competência era formalmente admitida pelos pleiteantes.
Quando, em 1781, a competência dos tribunais ingleses se es-
tendeu a todos os litígios, especificou-se que, para os litígios
privados, interessando a muçulmanos os hindus, o tribunal
estatuiria, conforme o caso, segundo o Direito muçulmano ou
hindu, O Direito, fundado sobre o Direito inglês, aplicado nas
Presidências é, todavia, a origem daquele que viria a ser o
Direito anglo-indiano ( Anglo-Indian Law).

4.1.4 – A LEX LOCI NO MOFUSSIL. 1º PERÍODO


DAVID (1996:455-456) mostra como, num primeiro tempo, era o
Direito das localidades menos destacadas:

No restante da Índia, chamado mofussil ou muffassal, a situação


era diferente. Os tribunais estabelecidos no moíussii não são
tribunais reais ingleses, mas tribunais da Companhia das Índias
(East India Company); esta tem, desde 1765, em virtude de um
privilégio (diwani grant) que lhe fora concedido, o direito de
cobrar impostos mediante o pagamento anual de uma soma
adjudicatória ao imperador (Mo gol); a este direito está ligado o
de administrar a justiça. Esta situação durará até 1858, data em
que o governo da Índia ficará sob a autoridade direta da Coroa.

A necessidade de aplicar o Direito inglês não era sentida no


mofussil. A aplicação deste Direito teria sido, de resto, difícil. Por
conseqüência, fez-se uma distinção, cuja origem se encontra no
“plano” estabelecido em 1772 pelo governador-geral Warren
Hastings. Em matéria de sucessões, de casamento, de casta e de
outros usos ou instituições ligados à religião há lugar para a
aplicação, segundo os casos, das regras do Direito hindu ou das
do Direito muçulmano. Noutras matérias convém estatuir
segundo os princípios de justiça, de eqüidade e de consciência
(principies o! justice, equity and good conscience). Esta fórmula
é a de um regulamento de 1781, que cria dois tribunais
superiores, um em matéria civil (Sadar Diwani Adaiat), outro em
matéria penal (Sadar Nizamat Adalat) para as províncias de Ben-
gala, Bihar e Orissa. Ela é retomada no Indin High Courts Act de
101

1861, que reorganiza a justiça em toda a Índia. A situação no


moi ussií é, por conseqüência, a seguinte: por um lado, o Direito
muçulmano e o Direito hindu, limitados a certos domínios
específicos, não têm o mesmo alcance de aplicação que nas
Presidências; por outro lado, o Direito que deve, além deles, ser
aplicado não é, como nas Presidências, o Direito inglês: os
tribunais devem encontrar a regra de Direito aplicável,
procurando a solução mais conforme aos princípios da justiça, da
eqüidade e da consciência.

Esta fórmula, como recentemente mostrou um autor, não teve


por objeto proteger a importação do Direito inglês, mas sim
excluir a aplicação da common law. Também, numa primeira
fase, um importante lugar foi deixado à sabedoria daqueles que
eram chamados a solucionar os litígios. Nenhuma “recepção”
deliberada do Direito inglês teve lugar nesta época, pelo menos
de modo geral, a partir da fórmula que a lei empregava. A justiça
era então feita pelos administradores civis (Revenue 0/1 icers),
que não eram juristas e nem conheciam o Direito inglês, e os
debates realizavam-se muitas vezes numa das línguas da Índia.
Por outro lado, o Direito inglês não parecia o mais apropriado
para as populações nas quais os ingleses eram em número
insignificante. Aplicaram-se principalmente, ao que parece, as
regras que pareciam, aos olhos dos administradores, consideran-
do a religião que professavam e todas as demais circunstâncias,
ser as mais aptas a realizar a justiça: regras do Direito hindu ou
do Direito muçulmano, costumes locais ou regras que pareciam
ser simplesmente as mais eqüitativas segundo o bom senso do
juiz, porque uma “notável ausência de princípios jurídicos
indígenas” caracterizava a situação.

4.1.5 – A LEX LOCI NO MOFUSSIL. 2º PERÍODO

DAVID (1996:456-458) mostra como, num segundo tempo, passou a


ser o Direito das regiões "interioranas":

Inicia-se um segundo período com o Charter Act de 1833. A


fórmula da codificação, que triunfou na França e que teve na
própria Inglaterra numerosos partidários, parece ter
desempenhado serviços relevantes na Índia. Ela irá servir, neste
país, para conferir segurança e unidade ao Direito, no interesse
da justiça e do desenvolvimento do país; ela permitirá a
recepção de um Direito inglês sistematizado, simplificado,
modernizado e adaptado às condições próprias da Índia.

Um law member, verdadeiro ministro da justiça, é acrescentado


em 1833 ao conselho de três membros que assiste o governador-
geral no governo da Índia. A primeira personalidade nomeada
para este posto, o futuro Lorde Macaulay, é, como muitos dos
seus contemporâneos, um fervoroso admirador de Bentham e da
codificação, prevista formalmente pela seção cinqüenta e três do
Charter Act. Uma primeira Law Commission, sob a sua
presidência, vai funcionar de 1833 a 1840; dessa gestão
102

resultará um famoso relatório conhecido sob o nome de Lex Loci


Report. A comissão projeta a elaboração de três códigos: um que
exponha sistematicamente as regras do Direito muçulmano, um
segundo código que exponha as regras do Direito hindu, e um
terceiro que exponha as regras do Direito territorial (lex loci)
que será aplicável sempre que o Direito hindu e muçulmano não
o sejam; este terceiro código porá fim à diversidade do Direito
que se observava entre as diversas regiões da Índia, e
especialmente entre as regras e os próprios princípios de decisão
seguidos nas Presidências por um lado, no mofussil por outro. No
que se refere a este terceiro código, a comissão propõe tomar
por base o Direito inglês, salvo certas exceções e observando
certas adaptações; uma cláusula geral salvaguardará os
costumes estabelecidos e os usos imemoriais aos quais os
indígenas estão submetidos.

As propostas feitas pela primeira comissão, e especialmente um


projeto de código penal por ela preparado, não produziram um
resultado imediato. O princípio da codificação, por ela admitido,
encontrava nos juristas da common law sérias resistências, e o
projeto de códigos relativos ao Direito hindu e ao Direito
muçulmano, por outro lado, suscitava graves objeções. Uma
segt.mda comissão, constituída em 1853, abandona estes dois
últimos projetos e concentra os seus esforços no
estabelecimento de uma lex loci. Foi necessário, porém, esperar
pelo choque provocado pela rebelião de 1857 e pelas reformas
constitucionais que estas revoltas provocaram, para que fossem
realizados progressos substanciais.

Segue-se um intenso movimento legislativo, de 1859 a 1882.


Constituiu-se, então, um vasto corpo de Direito indiano, com a
cooperação de duas novas comissões, tendo a sua autoridade
substituído aquela que se atribuía precedentemente ao Direito
inglês nas Presidências, por um lado, e, por outro, à
jurisprudência do molussll, fundada sobre os princípios da
justiça. Este processo iria em seguida se abrandar, sem contudo
cessar.

Os principais elementos do Direito indiano são constituídos por


diferentes códigos e por grandes leis. É curioso constatar que se
deu o nome de códigos às leis indianas somente nos casos em
que eles, quanto ao seu conteúdo, correspondiam a um dos
códigos do modelo napoleônico. Assim, existe na 1 ndia um
código de processo civil (1859, atualmente substituído por um
código de 1908), um código penal (1860), um código de proces-
so penal (1861). As outras grandes leis, que codificaram a
common law da Índia, não são chamadas códigos. Podemos citar
a lei sobre a prescrição (Limitation Act, 1859), a lei sobre as
sucessões (Succession Act, 1865, hoje substituída por uma lei de
1925), a lei sobre os contratos (Contract Act, 1872) 14, a lei
sobre as provas (Evidence Act, 1872), a lei sobre a execução
específica das obrigações (Specijic RelieJ Act, 1872), a lei sobre
os atos do comércio (Negotiable Instruments Act, 1881), sobre a
transferência de propriedade (Trans ler 01 Property Act, 1882,
103

emendada em 1929), a dos trusts (Trusts Acts, 1882), etc.


Notar-se-á que, tal como na França, o Direito da
responsabilidade delitual (torts) não foi codificado; um projeto
preparado por sir Frederick Pollock, que visava esta codificação,
não chegou a realizar-se.

4.1.6 – A RECEPÇÃO DO DIREITO INGLÊS


DAVID (1996:458-459) comenta como o Direito inglês foi sendo
difundido na Índia:

Por efeito destas diversas leis, que foram elaboradas por juristas
ingleses e muitas vezes mesmo em Londres, operou-se na Índia
uma verdadeira recepção do Direito inglês. Esta recepçao foi
confirmada ao término do estatuto particular da East India
Company, em 1858, com a abolição da soberania nominal do
Mogol e quando a justiça, depois de uma reorganização dos
tribunais, veio, em 1861, a ser administrada cada vez com mais
freqüência, em todo o território da Índia, por juízes formados na
common law. Estes, muito naturalmente, completaram a obra de
recepção realizada pelo legislador e consideraram,
contrariamente à verdade histórica, que por “princípios de jus-
tiça, de eqüidade e de consciência” se deveria entender as regras
do Direito inglês. A evolução pode ser considerada como
concluída em 1887, data em que a Comissão Judiciária do
Conselho Privado, que controla como instância superior a
administração do Direito na Índia, a consagra: “A eqüidade e a
consciência podem ser interpretadas, de um modo geral, como
significando as regras do Direito inglês, se estas forem
consideradas suscetíveis de aplicação à sociedade e no contexto
próprio da nação indiana”.

4.1.7 – A ORIGINALIDADE DO DIREITO INDIANO [7]


DAVID (1996:459-460) afirma a identidade do Direito indiano,
apesar de fortemente influenciado pelo Direito inglês:

Os códigos e leis com que a Índia foi dotada, na época do


domínio britânico, são fundados sobre os conceitos do Direito
inglês. Estão, porém, longe de ser uma obra de simples
consolidação; não se limitaram a expor sistematicamente as
regras do Direito anterior; a codificação foi utilizada para
reformar o Direito. Os autores do código penal declararam
formalmente que tinham sido influenciados na sua obra pelo
código penal francês e pelo código penal da Louisiana, confissão
que deveria ter sido cuidadosamente evitada na Inglaterra. Os
codificadores do Direito indiano não temeram tampouco
introduzir, nos seus códigos e leis, as reformas que julgaram
desejáveis no Direito inglês: na lei sobre os contratos, por
exemplo, foram dadas soluções originais no tocante aos
contratos celebrados por menores, aos contratos formais, à
impossibilidade de execução e à responsabilidade contratual; foi
igualmente consagrada uma concepção diferente de ordem
104

pública (public policy). A codificação indiana, por esta razão,


revela um progresso acentuado em relação ao Direito inglês; ela
foi o modelo seguido pelos que, na África Oriental e no Sudão,
pretendiam codificar os seus direitos, continuando fiéis aos
sistemas de common law.

As particularidades da Índia foram naturalmente levadas em


conta na codificação indiana. Comprovam especialmente esta
observação as incriminações mantidas pelo código penal, ou, em
relação ao código de processo civil, a eliminação do júri em
matéria civil; na lei sobre os contratos notar-se-ão as regras
relativas à coação, à cessão de direitos litigiosos e àassistência
dada aos pleiteantes (maintenance e champerty) e às cláusulas
restritivas da liberdade comercial; na lei sobre as sucessões
notar-se-a, também, a eliminação de toda a distinção entre real e
personal property, o desaparecimento da declaração das
liberalidades e a simplificação trazida às formas inglesas do
testamento.

4.1.8 – A LIGAÇÃO À FAMÍLIA DA COMMON LAW


DAVID (1996:460-461) mostra como o Direito da Índia faz parte da
família da common law:

Quaisquer que pudessem ter sido as reformas operadas, e apesar


da importância atribuída à técnica da codificação e ao Direito
legislativo, o Direito da Índia continuava antes da independência
a pertencer à família da common law.

Pertencia a esta família, antes de mais nada, pela sua


terminologia e pelos seus conceitos. As soluções do Direito
indiano podem não ser as mesmas do Direito inglês; no entanto,
elas inserem-se em quadros e utilizam conceitos que são
próprios da common law. Um grande número de conceitos
relativos ao Direito tradicional da Índia foi eliminado.

O Direito indiano liga-se à common law, em segundo lugar, pelas


suas técnicas e pela própria concepção que ele tem da regra de
Direito. Os indianos podem ter utilizado a técnica da codificação
para reformar o seu Direito, porém os seus códigos são códigos
de common law, que os juristas da Índia utilizam da mesma
maneira como são utilizados estes materiais legislativos nos
países de common law.

A regra do precedente é admitida e chega mesmo a ser


oficializada como nunca o fora na Inglaterra. Compilações de
decisões judiciárias foram publicadas na Índia desde 1845, e a
iniciativa privada continuou a publicar numerosas compilações: a
publicação de compilações oficiais foi considerada, depois de
1861, como uma tarefa que a administração devia assumir,
devendo esta dar a conhecer do mesmo modo tanto o Direito de
origem judiciária como o Direito de fonte legislativa.

No que se refere aos conceitos e técnicas, o Direito indiano é


105

incontestavelmente aparentado com a família da common law. O


exemplo do código penal indiano é a este respeito característico.
Macaulay, o seu autor, considerava o Direito criminal inglês da
sua época como atrasado e bárbaro, e era sua intenção formular
um código independente de todo e qualquer sistema de Direito
criminal existente; a Comissão Jurídica, no seu relatório de
introdução ao código, envolve na mesma censura o Direito
muçulmano, o Direito hindu e o Direito inglês. Elaborado por
juristas ingleses, o código penal indiano surgiu, contudo, logo
que foi terminado em 1860, como um código fundado sobre a
common law: o código indiano rejeitara todas as soluções
ultrapassadas do Direito inglês, mas permanecia fundado sobre
os conceitos e maneiras de pensar dos juristas ingleses; podia-se
mesmo encará-lo por esta razão, como um verdadeiro código-
modelo para uso da Inglaterra.

A Índia não se liga à common law apenas pelos conceitos e


técnicas do seu Direito. Está ainda ligada a esta pela concepção
que aí existe da função judiciária, pela importância que aí se
atribui à administração da justiça e ao processo e pela idéia que
aí se faz da supremacia do Direito (rule of law). Os indianos
depositam a sua confiança num bom processo, decalcado do
processo inglês, para atingir uma solução justa quanto ao fundo.
A psicologia dos seus juristas e dos seus juízes é, por outro lado,
a dos juristas e juízes ingleses, com o mesmo prestígio ligado à
função judiciária, o mesmo papel preponderante é, na Índia
como na Inglaterra, atribuído ao Poder Judiciário, implicando a
negação da distinção entre Direito público e Direito privado. Os
tribunais devem exercer um controle geral sobre todo
contencioso, sem que haja lugar para distinguir se o autor de
uma infração ou aquele que infringiu uma regra de Direito é um
particular ou um agente da administração.

4.1.9 – AS DIFERENÇAS EM RELAÇÃO AO DIREITO INGLÊS


DAVID (1996:461-462) diferencia o Direito indiano do Direito inglês:

Não é necessário levar estas conclusões demasiado longe. Desde


a origem, existem elementos que diferenciam profundamente os
direitos da Inglaterra e os da Índia 23, A distinção inglesa da
common law e da equity não se faz na Índia. Isto éfacilmente
explicável. Nunca existiram na Índia jurisdições especiais para
aplicar as regras da equity. Os mesmos tribunais foram sempre
convocados para aplicar, ao mesmo tempo, a common law e a
equity. Por esta razão, na Índia, chegou-se desde o início a uma
conclusão idêntica àquela para a qual os tribunais ingleses se
encontram irremediavelmente voltados após a reforma dos
Judicature Acts em 1873-75: common law e equity são
considerados como um sistema único; segundo a fórmula de um
juiz, a equity, na Índia, encontrou o seu lugar na common law e
não em oposição à common law. A fusão assim realizada, da
common law e da equity, conduziu a uma consideração muito
diferente da inglesa da figura do trust; a terminologia indiana
106

ignora, nesta matéria, a distinção inglesa dos direitos (legal


rights) e dos interesses protegidos (equitable interests); para o
jurista indiano, se a propriedade pertence ao trustee, o
beneficiário do trust não é menos titular de um verdadeiro
direito.

Em matéria de direitos reais, a terminologia do Direito inglês foi


conservada. Mas é aplicada para organizar um regime fundiário
tão diferente do inglês que se pode perguntar se a identidade de
terminologia não cria somente uma falsa aparência; os conceitos
que se batizaram com nomes ingleses parecem ser muitas vezes,
nesta matéria, diferentes na Índia e na Inglaterra.

O Specific Relief Act de 1877 manifesta também a originalidade


do Direito indiano. Esta lei reagrupou regras que, diferentes pela
sua origem, parecem apresentar aos olhos dos ingleses um
caráter completamente heteróclito: regras de equity referentes à
execução in natura das obrigações contratuais ou outras, mas
também à retificação ou anulação dos escritos de onde derivam
as obrigações, regras relativas à restituição dos bens in-
devidamente detidos ou usurpados, regras respeitantes às
ordens que um tribunal de common law pode dirigir à
administração (mandamus).

O Direito internacional privado da Índia inspira-se em soluções


do Direito inglês. Contudo, a atenção dos juristas da India, neste
domínio, dirige-se principalmente para as questões de conflitos
entre leis de estatuto pessoal, que não se apresentam sob o
mesmo aspecto e são, afinal, secundárias para os juristas
ingleses.

4.1.10 – A INDEPENDÊNCIA: CONFIRMAÇÃO DO DIREITO


ANTERIOR

DAVID (1996:462-463) comenta sobre a continuidade do Direito


indiano :

A independência da Índia não acarretou uma revisão dos


conceitos implantados na época da dominação britânica, nem
tampouco colocou em perigo a obra legislativa realizada.

A Constituição de 1950 proclamou a manutenção em vigor do


Direito anterior (art. 372). A Índia, que continua a pertencer ao
Commonwealth [8], permanece sendo um país de common law.
Entretanto, sob diversos aspectos, se reduziu a ligação com o
Direito inglês. Mesmo independentemente das matérias
referentes ao estatuto pessoal, onde participar de uma
determinada comunidade constitui um fator decisivo, o Direito
indiano apresenta, no interior da common law, uma indubitável
originalidade, comparável à que vimos existir no diretio dos
Estados Unidos, em relação ao Direito inglês.
107

4.2 - MATÉRIAS ESPECÍFICAS

4.2.1 - DIREITO CONSTITUCIONAL


DAVID (1996:463-465) comenta sobre o Direito Constitucional
indiano:

Esta originalidade aparece especialmente para quem considera o


Direito constitucional da Índia. A Constituição da Índia,
promulgada em 1950, comporta trezentos e noventa e cinco arti-
gos agrupados em duas partes e oito anexos. A própria
existência deste documento e a União de Estados que ele
constitui 28 distinguem a Índia da Inglaterra, que não é um
Estado federal nem tem Constituição escrita. Por outro lado, a
diferença, embora não tão marcada, não deixa de ser
considerável com os Estados Unidos da América.

Em ambos existe, sem dúvida, uma estrutura federal, mas os


Estados da Índia dificilmente podem ser comparados aos Estados
Unidos da América, porquanto a unidade linguística, que
constitui um fator de unidade nos Estados Unidos, não existe na
Índia. Quinze línguas, que pertencem a quatro grupos
linguísticos diferentes, são reconhecidas como oficiais nos
diferentes Estados. A disposição da Constituição, que prevê que
o hindi seja a língua oficial da União, dificilmente se tornará uma
realidade no subcontinente indiano que, neste aspecto, se
assemelha mais à Europa do que aos Estados Unidos da América.

Independentemente disto, as relações entre Estados e União não


puderam ser regulamentados do mesmo modo que nos Estados
Unidos. A repartição de poderes entre os Estados e a União não
se operou da mesma maneira nem na forma, nem quanto ao
fundo. Não existe na Constituição da Índia nenhuma disposição
análoga à que se encontra na dos Estados Unidos, definindo o
princípio de que a competência dos Estados é a regra e a das
autoridades federais a exceção; a Constituição da Índia enumera
certas matérias da competência exclusiva da União (noventa e
sete artigos) e outras que são da competência dos Estados
(sessenta e seis artigos); outras, finlamente, cuja competência
cabe a ambos, porque nesse caso a unificação surge como
desejável, mas não como absolutamente necessária (quarenta e
quatro artigos). Entre estes últimos figura o estabelecimento de
um código civil único para toda a nação.

Por outro lado, são reconhecidas às autoridades federais amplas


prerrogativas, em condições sem paralelo nos Estados Unidos,
para intervirem nos Estados em circunstâncias excepcionais,
com vista à manutenção da ordem e da paz; fez-se um largo uso
destas disposições sempre que um Estado foi julgado
ingovernável; foram também usadas para suspender as
liberdades fundamentais dos cidadãos em caso de ameaça contra
a segurança do país ou contra a ordem pública.
108

Submetidos durante muitos séculos ao domínio estrangeiro, os


indianos experimentam um profundo sentimento de unidade e
um legítimo orgulho por terem conquistado, por meios não
violentos, conformes à sua doutrina, a independência.
Entretanto, a Constituição de 1950 não é o mesmo tipo de
documento que a Constituição dos Estados Unidos da América.
Não possui, em especial, a mesma estabilidade; relativamente
fácil de modificar num país em que existe um partido político
dominante, ela sofreu, em vinte e cinco anos, quarenta
alterações.

O controle da constitucionalidade das leis, reconhecido pelo


Supremo Tribunal, tem, nestas condições, um significado
diferente do dos Estados Unidos. Não se poderá falar
propriamente, na Índia, de “governo de juízes”, porque as
decisões do Supremo Tribunal, que contrariam o desejo de
reformas do governo central — ou de certos Estados —, são facil-
mente neutralizadas por uma emenda à Constituição. Tal fato foi
particularmente notório quando o High Court de Patna e o
Supremo Tribunal declararam inconstitucionais, porque se
mostravam contrárias ao respeito pela propriedade, as medidas
de reforma agrária bastante radicais, tomadas nos Estados de
Bihar e de Bengala Ocidental 32; a quarta emenda à
Constituição, votada em 1955, reagiu contra esta jurisprudência
e veio permitir aos Estados, tal como à União, iniciar uma política
agrária “socialista”; a mesma emenda, para excluir qualquer
espécie de dúvida, tornou válidas, ao mesmo tempo e de modo
expresso, sessenta e quatro leis relativas a essa matéria.

Profundamente tolerante, mas tendo de fazer face a uma


extrema pobreza, a India hesita entre a via do liberalismo e a do
socialismo e procura conciliar estas duas tendências. Os
problemas apresentam-se aqui de modo diferente do dos Estados
Unidos, país de abundância. A própria Constituição da India
afastou-se deliberadamente da dos Estados Unidos em diversos
aspectos. Ela procurou especialmente dar uma certa moderação
ao princípio da “igual proteção das leis”, reconhecendo a
necessidade de consentir na existência de um estatuto especial
para certas classes desfavorecidas de cidadãos ou em favor de
certas castas ou tribos: cerca de 40% da população incluía-se
nestas categorias.

A Constituição da Índia definiu, por outro lado, que o due


process of law implicava somente a conformidade às leis
regularmente publicadas e que esta fórmula não autorizava os
juízes a pronunciarem-se sobre o valor moral ou o mérito destas
leis.

4.2.2 - SOCIEDADES ANÔNIMAS

SÉROUSSI (2000:140) apresenta as características das sociedades


anônimas indianas:
109

- quanto aos acionistas: número mínimo de 7;


- quanto ao capital social: não há exigência de capital mínimo; a sociedade
deve, antes de iniciar suas atividades, estabelecer no seu contrato social, o
montante do capital autorizado e a subscrição mínima a liberar;
- quanto às ações: podem ser ordinárias ou preferenciais; proibição da
existência de ações de voto múltiplo; possibilidade para estrangeiros
serem acionistas;
- quanto à administração: 3 a 12 membros com poderes extensos;
administradores em princípio eleitos por maioria simples; administradores
não podem ocupar mais de 20 mandatos na sociedade anônima; elege-se
um conselho de administração todos os trimestres;
- quanto às assembléias gerais: pelo menos uma assembléia geral
ordinária uma vez por ano; 2 tipos de decisões são possíveis: as tomadas
por maioria simples dos membros presentes ou representados e as
tomadas por maioria qualificada de 75% dos membros (ex.: mudança da
sede social, liquidação...);
- quanto às informações dos acionistas e controle: contas de resultados,
balanço... da sociedade são conservados durante oito anos; essas contas
devem estar disponíveis a todo momento para os funcionários
devidamente autorizados pelo governo indiano e todos administradores da
sociedade anônima.

4.2.3 - CASAMENTO

SÉROUSSI (2000:142) fala também sobre o casamento:

O casamento na Índia é uma autêntica instituição, cheia de


cores, na qual reina o dinheiro soberanamente. Os casamentos
seguem quase as mesmas regras endógamas: os esposos são
escolhidos pelos pais no seio de sua casta, sem que um
parentesco muito distante possa ser observado.

Conforme a doutrina tradicional hindu do dharmasastra (tratado


que expôe o dharma), o casamento é concebido como um
sacramento que deve selar uma comunidade de vida indefectível.
A tradição proibia, em princípio, a ruptura da união. No entanto,
o marido tinha o direito, em determinadas circunstâncias, de
tomar uma Segunda esposa (ex., pela recusa de cumprir as
obrigações do casamento). A poligamia, se bem que rara, podia
ocorrer em conseqüência.

O legislador e a obra da jurisprudência indiana fizeram muito


evoluir o estatuto do casamento. Uma lei muito importante e
estruturante foi votada em 1955, a Hindu Marriage Act. Esse
texto vai unificar o Direito do casamento, e libertá-lo de seus
numerosos costumes divergentes que, até lá, lhe impediam o
bom desenvolvimento.

A lei nova adota assim as disposições seguintes que apresentam


facetas impressionantes em um país onde as tradições, em
particular na zona rural predominante, pesam com toda sua
pujança:
110

- abolição da proibição do casamento entre membros de castas


diferentes,
- proibição da poligamia,
- diminuição das proibições relativas aos casamentos colaterais,
- e autorização do divórcio.

O parlamento indiano rapidamente entendeu o interesse de fazer


tais reformas. Nesse impulso, adotou assim no ano seguinte toda
uma série de textos fundamentais visando codificar
definitivamente todo o Direito sucessoral indiano (cf. the Hindu
Succession Act of 1956). Da mesma forma, em fevereiro de
1986, uma lei foi promulgada - seguida ao caso Shah Banu -
proibindo de fato aos divorciados musulmanos de pleitear o
pagamento de pensão alimentícia.

O sistema de classes, largamente consolidado no curso dos


séculos, inaugurou a partir daí sua lenta modificação que,
conforme todas semelhanças e sob a dupla vigilância percuciente
do legisla e do juiz, deve conduzi-lo em direção da igualdade. É,
mais geralmente, o estatuto pessoal que ele pretende
uniformizar em aplicação do artigo 44 da Constituição indiana.

4.2.4 - MANUTENÇÃO DA PENA DE MORTE

SÉROUSSI (2000:143) diz que a pena de morte ainda está em vigor


sob a modalidade de enforcamento.

Mais adiante resume:

As crenças, os costumes perduram, mas alteram-se sob o efeito


conjugado do legislador e da poderosa Suprema Corte federal.
(p. 145)

4.2.5 - DIREITO PROCESSUAL CIVIL


ANNOUSSAMY (1996:11-13) fala de aspectos do Direito Processual
Civil, principalmente sobre a instrução processual, as alegações finais dos
advogados e a sentença.

O Processo Civil indiano antigo consagrava o sistema do livre


convencimento, baseado nos depoimentos das partes, de testemunhas e
outros meios de provas orais.

Atualmente, seguem o sistema inglês de "prova legal".

As provas continuam sobretudo orais.

Quanto à instrução (trial) consiste nos depoimentos pessoais das


partes, ouvida de testemunhas (arroladas pelas partes ou ouvidas -
raramente - de ofício) e juntada de documentos (estes últimos que são
111

apresentados por ocasião dos depoimentos pessoais das partes).

As audiências de instrução são demoradas e fastidiosas, sendo os


depoimentos reduzidos a termo.

Quanto às alegações finais, por ocasião delas os advogados lêem


textos de jurisprudência que lhes são favoráveis.

Cada processo toma vários dias dos Tribunais.

Durante as alegações finais atuam os juízes de forma mais ou menos


intensa, de acordo com a índole de cada um, ou somente ouvindo ou quase
que debatendo com os advogados e alguns até antecipando a sentença.

As sentenças são exaradas na língua do Estado em que se encontra o


Tribunal até o nivel dos Tribunais de Distrito. Os acórdãos dos Tribunais
Superiores são redigidos, de acordo com o caso, na língua do Estado e em
inglês.

As sentenças e os acórdãos são geralmente muito extensas, devendo


analisar os pontos controvertidos alegados pelas partes e mencionar a
fundamentação, mas geralmente mencionam as alegações das partes, os
depoimentos das testemunhas e das partes e reproduzem partes extensas
da jurisprudência mencionada pelas partes.

Os juízes procuram decidir de acordo com a jurisprudência


dominante.

Não se pode exprimir opinião sobre processos em andamento.

4.2.6 - DIREITO DO TRABALHO

RENOUARD (1996: 358-360) fala sobre o Direito do Trabalho:

A evolução do Direito do Trabalho modificou profundamente a


vida dos trabalhadores indianos nas grandes empresas. Com a
independência, os textos que associavam a proteção e a tutela
(leis de Bombaim de 1937), tratavam dos trabalhadores
permanentes das empresas com mais de 50 empregados mas os
restantes permaneciam fragmentários. É sem ruptura com a
herança colonial que foi elaborado o Direito do Trabalho da
República Federal, sob o impulso de sindicalistas congressistas
(tais como V. V. Giri, ministro do trabalho em 1952), de
segmentos dos meios organizados do patronato e de pessoas
independentes, formadas na escola jurídica anglo-saxônica.
112

As leis fundamentais, a lei sobre as usinas (1948), a lei sobre as


relações industriais (1947), a lei sobre o salário mínimo (1948),
a lei sobre a seguridade social dos empregados (1948), foram
adotadas imediatamente após a partida dos colonizadores, para
satisfazer os reformistas do Congresso e lutar contra a influência
comunista. Essas leis tratam de forma codificada da duração do
trabalho (oito horas legais), idade mínima de contratação (14
anos) e a prática do sindicalismo. Se o direito de greve não foi
reconhecido mas somente admitido de fato (95% dos conflitos
são ilegais), os sindicatos são sobretudo encorajados todos eles
fortemente prevenidos contra o espírito aventureiro. Os
Tribunais do Trabalho foram criados em 1949 e 1956. O
recenciamento da mão-de-obra foi organizado nos anos 1950, ao
mesmo tempo em que foram promulgadas leis sobre os
trabalhadores de minas e portos e um sistema de poupança
obrigatória (1952). Durante os anos 1960, sistemas de
aposentadoria, formalização de prêmios anuais (1965) e uma
extensão do salário mínimo foram concretizados. Existem leis
nacionais, mas também leis estaduais, o que faz com que
determinados governantes locais (Gujarat) usem da fluidez
jurídica para atrair os investidores. Durante os anos 1970, novas
leis definiram a proteção dos sindicalistas, promoveram a
organização de negociações entre as partes, igualdade dos
salários masculinos e femininos (1976), regularam as migrações
internas e protegeram os trabalhadores precários.

Atualmente, o Direito do Trabalho indiano é um vasto conjunto


heterogêneo. Conservou a tradição de práticas jurídicas que
remontam ao período colonial, com campos de aplicação, mas
também atores especializados. Os esforços para simplificá-lo
(em 1953 e 1978) falharam. Acontece também em determinados
casos a observância de um padrão de complexidade de forma
alguma desejado por seus equivalentes dos países
desenvolvidos, e que assentua o papel dos conselheiros jurídicos
nos sindicatos. Desde 1980, o prestígio do Direito do Trabalho
frente aos trabalhadores, até essa época muito importante,
enfraqueceu muito. Além de sua tendência para impor
intermediários em todos os setores, onerosos e fora do mundo
das empresas, sua grande fragilidade reside no seu modo de
aplicação. Inicialmente os delegados de oficina são raros e os
procedimentos simplificados de resolução de conflitos, do tipo
trabalhista da França, são desconhecidos. Além disso, a Justiça
do Trabalho é lenta e terrivelmente sobrecarregada (10.000
processos em andamento em 1982). Enfim, as leis eficazes
dizem respeito somente à mão-de-obra permanente das grandes
113

empresas e do setor público, e elas estão longe de serem ali


aplicadas como deveriam. Os efetivos de inspeção do trabalho
são mínimos. Nas pequenas empresas, tratadas somente por
alguns textos legais (trabalho infantil, trabalhadores da indústria
do tabaco, salário mínmimo, higiene) as disposições legais são
raríssimas. É por isso que a abertura econômica recente
significou pouco para o abrandamento das leis sociais, apesar da
tentativa, vitória, do governo de R. Gandhi para reduzir a idade
legal de contratação de crianças para a indústria (de 14 para 12
anos). É problemático porém facilitar esses licenciamentos, que
jamais foram difíceis, e sobretudo o fechamento de empresas até
agora submetidos a um regime de autorização administrativa
(sistema de licenças), enquanto que se intensifica a retórica da
livre concorrência contra o emprego protegido em geral e contra
o setor público em particular.

A persistência, ou seja, a extensão de determinadas formas de


trabalho escravo agregado às grandes indústrias (grandes
canteiros de obras, empreiteiras), nas pequenas empresas e no
universo do “sistema do suor” ilustram a fragilidade da lei. Na
Índia, o trabalho escravo é originariamente uma forma de
escravidão por dívida, associada, no período colonial, à estrutura
hierárquica das castas: foi inicialmente um fenômeno rural,
ligado a determinados segmentos de trabalhadores agrícolas.
Todavia, situações de semi-escravidão são muito encontradas
entre os trabalhadores, as formas antigas de sujeição (apelo à
humildade das castas inferiores, cumplicidade da administração
e dívidas mais ou menos irreais) deram lugar freqüentemente a
práticas de coerção declarada (pedreiras, minas clandestinas,
fabricação de tapetes, têxteis). Escândalos surgiram
regularmente no curso dos anos 1980. Todas as formas de
trabalho escravo foram expressamente banidas pela lei (1976) e
o Estado assumiu o dever de reabilitar aqueles que se encontram
nessas condições. No entanto, a semi-escravidão não
desapareceu nas regiões onde existia Bihar, Uttar Pradesh,
Orissa) e ele permanece mesmo em determinados subúrbios
urbanos (Hyderabad, Surat...).

4.3 - TENDÊNCIAS MODERNAS

BHAGWATI, no seu artigo intitulado DEMOCRATIZAÇÃO DE


SOLUÇÕES E ACESSO À JUSTIÇA (2002:44-47), mostra seu idealismo e a
tendência mais moderna do Processo Civil indiano:

Hoje, mais do que nunca, é de vital importância assegurarmos o


114

cumprimento dos Direitos Humanos, pois existem milhões de


pessoas em todo o mundo (particularmente em países em
desenvolvimento) que têm negada a proteção de seus direitos e,
a menos que se desenvolvam soluções para assegurar o
cumprimento dos Direitos Humanos e que se vá em busca destas
soluções, em vez de meramente falar sobre Direitos Humanos
através de uma plataforma elitista, os Direitos Humanos
continuarão sendo uma mera ilusão e promessa de irrealidade.
Toda nossa abordagem sobre Direitos Humanos não deve ser
orientada através de conferências e seminários, mas sim através
da realização de ações concretas e da estipulação de metas.

Somente se o movimento dos Direitos Humanos for levado a um


nível básico pelos ativistas sociais que se dediquem à causa dos
pobres, que tenham um senso de comprometimento social e que
estejam trabalhando entre as camadas mais sofridas e
exploradas da humanidade, e que compartilhem seu sofrimento e
miséria, a semente dos Direitos Humanos irá germinar como uma
grande árvore, espalhando suas raízes longe e de uma maneira
abrangente, oferecendo sua proteção e sombra às pessoas
exaustas.

O foco das atenções dos Direitos Humanos deve se voltar para as


camadas mais destituídas e vulneráveis dos países em
desenvolvimento, para quem a vida é uma eterna vigília e a
quem Gandhi, o Pai da Nação, disse: “Eu tive a dor de observar
pássaros que, por desejo de força, não puderam ser acariciados
nem com um alvoroço de suas asas. O pássaro humano sob o céu
da Índia se levanta mais fraco do que quando pretendia se
aposentar. Para milhões, é uma eterna vigília ou um eterno
transe.”

Portanto, é necessário ter um mecanismo que assegure o


cumprimento e a realização dos Direitos Humanos garantidos
pela Constituição e as leis.

Visivelmente, não bastam meras declarações e resoluções sobre


os Direitos Humanos essenciais ao pleno desenvolvimento da
personalidade humana. Direitos Humanos devem ser efetivamen-
te implementados, e não se deve permitir que continuem sendo
meras declarações. Temos que desenvolver novas ferramentas e
inovar estratégias, com o objetivo de atualizar os Direitos
Humanos e fazer com que eles tenham significado para as
grandes massas do povo. Temos que democratizar nossas
soluções e assegurar o cumprimento desses direitos, para que
assim eles se tornem disponíveis para cada cidadão no país,
115

independente de sua casta, credo, cor, religião ou gênero.


Infelizmente, hoje as portas dos tribunais, apesar de
teoricamente abertas a todos, estão, em realidade, fechadas
para os pobres, que não conseguem se aproximar para assegurar
seus direitos. O sistema de justiça em nossos países é baseado
em dois postulados, a saber: a auto-identificação de danos e
injustiças e a auto-seleção da solução, do “remédio”. Estes dois
postulados estão, infelizmente, faltando na maioria dos países
em desenvolvimento. Os pobres não estão cientes dos direitos a
eles conferidos pelos organismos nacionais e internacionais, e
tampouco possuem a capacidade de reivindicar esses direitos
contra os representantes do governo, contra os violadores corpo-
rativos ou contra as camadas poderosas da comunidade. A eles
falta consciência de seus direitos, assim como a capacidade de
afirmar, de sustentar seus direitos.

Eles também não possuem a disponibilidade de recursos para se


aproximarem dos tribunais e assegurarem seus direitos,
resultando que os direitos a eles conferidos nacional e
internacionalmente continuam sendo meramente “tigres de
papel", sem dentes nem garras. Além disso, o enorme atraso e
os altos custos do sistema legal barram, efetivamente, o acesso
do pobre à Justiça.

Os pobres não estão cotados no sistema legal; eles são, se assim


devo chamar, os “fora-da-lei” funcionais. Eles não têm outra
opção a não ser sofrer, num silêncio angustiante e no desespero
da falta de ajuda, da frustração, das violações dos seus direitos
por camadas poderosas da comunidade, por exploradores cruéis,
políticos insensatos e burocracia. Freqüentemente, eles são
vítimas da falta de lei governamental e da polícia, e eles estão
totalmente sem soluções contra a opressão e a injustiça.

Apesar da preocupação expressada pelos ativistas dos Direitos


Humanos, infelizmente até agora, em algumas partes do mundo,
a privação e a exploração continuam não sendo combati-das; os
Direitos Humanos básicos do pobre são violados. A eles são
negadas as necessidades básicas da vida. Eles não desfrutam do
direito à educação e muitos são ainda analfabetos. Os benefícios
das leis de seguro social e as medidas governamentais não
chegam até eles; esses benefícios são desviados pelos
intermediários, ou direcíonados aos bolsos errados, ou
conferidos somente às camadas mais elevadas.

A lei geralmente é usada contra o pobre para questões


repressivas e, em alguns locais, a máquina da polícia, em vez de
116

ajudar as camadas mais vulneráveis, permite ser utilizada para


assistir e perpetuar sua exploração. Quando a lei é utilizada
contra os pobres como um instrumento de repressão, ela parece
se aplicar somente a eles, e não aos ricos e influentes, e aqueles
não sabem aonde ir ou a quem se reportar. Eles notam que o
processo legal e judicial lhes foi tirado, e eles quase perdem a fé
na sua capacidade de trazer-lhes justiça. Mas, não existem
razões para desespero, pois gradualmente uma revolução está
acontecendo no processo legal e judicial, como resultado de uma
assistência legal e de ações de litígio social, que se tornaram
instrumentos poderosos para prover acesso efetivo dos pobres e
desafortunados à Justiça em muitos países em desenvolvimento.

É reconhecido em todos os lados que o acesso à Justiça é um dos


Direitos Humanos básicos, e que sem este o cumprimento de
muitos outros direitos deve tornar-se difícil. Portanto, em
resposta à demanda do acesso à Justiça, que milhões de pessoas
estão constantemente reivindicando, com vistas à proteção
contra a violação de seus Direitos Humanos, a Suprema Corte da
India abriu suas portas para ampliar a doutrina do locus standi,
ou o que é conhecido como a chance de proporcionar e
possibilitar aos pobres a oportunidade de trazerem seus
problemas diante dos tribunais. A Suprema Corte da Índia, no
documento “Nomeação de Juízes e Transferência de Caso”,
sustenta que, apesar de a regra comum da jurisprudência anglo-
saxônica afirmar que uma ação somente pode ser trazida pela
pessoa a quem o dano foi causado, esta regra pode e deve partir
da observação da pobreza massiva e da ignorância do povo. Ou
seja, quando o dano é causado a uma pessoa ou a uma classe de
pessoas que, por razões de pobreza, inabilidade ou desvantajosa
posição socioeconômica não pode aproximar-se dos tribunais
para obter sentenças judiciais, qualquer pessoa pública ou re-
presentante de organização não-governamental, agindo de boa-
fé, pode mover uma ação no tribunal procurando reparação
judicial para o dano causado a essa pessoa ou classe de pessoas
e, nesse caso, os tribunais não insistirão na petição regular a ser
preenchida pelo indivíduo ou pela ONG que assumiu a causa.
Essa ampliação da regra Iocus standi e a criação de uma nova
jurisdição epistolar introduziram uma nova dimensão no
processo judicial e abriram vistas a uma forma totalmente
diferente de litígios em defesa dos direitos das classes mais
pobres da comunidade, assegurando-lhes dignidade humana
básica.

Ação de litígio social


117

Os tribunais na Índia estão agora recebendo ações de litígio


social iniciadas através de petições regulares ou até mesmo
cartas enviadas por grupos de ativistas sociais, advogados,
jornalistas, acadêmicos de Direito e ONGs, e estão usando seu
poder judicial ou de intervenção com vistas ao melhoramento da
situação de miséria e sofrimento do povo, que tem origem na
pobreza, repressão, falta de leis governamentais e desvio
administrativo. O povo chegou a identificar os tribunais como o
último reduto dos oprimidos e desnorteados. A transição do
status de agência sw captação tradicional com baixa visibilidade
social, para agência liberal com alta visibilidade sociopolítica é
uma evolução memorável na carreira do nosso sistema
judiciário. Portanto, através de ações de litício social, os
tribunais indianos estão ditando o passo das mudanças
socioeconômicas e forçando os governos e burocratas a
desenvolcver seus deveres constitucionais de proteger os pobres
contra as injustiças sociais e econômicas, assegurando o
cumprimento dos Direitos Humanos básicos.

Existem vários tipos de causas chegando até os tribunais,


elencando os problemas das camadas mais vulneráveis e
desprovidas da comunidade; existem causas de réus primários,
assim como de prisioneiros condenados; mulheres nos serviços
de proteção; crianças em instituições juvenis; trabalhadores
imigrantes e com vínculos empregatícios; mão-de-obra não-
regulamentada; tribos intocadas e organizadas; agricultores sem
terra que se vêem vítimas da mecanização defeituosa; mulheres
que são compradas e vendidas; mendigos e vítimas de execuções
extrajudiciais, entre muitos outros tipos de causas.

Os tribunais estão, através da criatividade judicial, evoluindo em


direção aos pobres e aos novos direitos dos oprimidos, que
fazem parte dos Direitos Humanos básicos, mas que estão hoje
incompletos e lutando para nascer, e que mesmo antes de nascer
já são sufocados pela classe exploradora.

O Judiciário, pela primeira vez, está agindo em prol das camadas


mais fracas da comunidade indiana. Então, as ações de litígio
social se tornaram um dos instrumentos mais poderosos para a
proteção dos pobres e fracos contra a violação dos seus Direitos
Humanos básicos, através da democratização das soluções e do
acesso proporcionado pela Justiça a esses seres humanos
desafortunados.

Quando eu, como juiz da Suprema Corte, dei início às ações de


litígio social na Índia, havia críticas de alguns quadrantes que
118

afirmavam que orientar as ações de litígio social, criar ordens e


traçar diretrizes em direção à tomada de ações afirmativas para
dar significado e tornar eficazes os Direitos Humanos eram
atitudes que iam muito além da função judicial tradicional.

Alguns críticos afirmaram que a função de um juiz é meramente


administrar a lei como ele a encontra e que não cabe a ele criar a
lei; sua função éjus dicere e não jus dare; ele deve analisar as
causas do povo apenas através da maneira apresentada pelos
advogados, e decidir de acordo com o mistério e a mística
herdada do processo judicial anglo-saxônico. Eles acham que
orientar as ações de litígio social e formar ordens que assegurem
os Direitos Humanos básicos aos pobres e necessitados faz com
que o Judiciário se coloque acima da lei e transgrida suas
limitações. Esta crítica foi repelida por mim como infundada, pois
a lei não pode permanecer estática; ela tem que se adaptar às
necessidades do povo e satisfazer suas esperanças e aspirações.
A lei não é uma antigüidade para ser trazida, admirada e posta
de volta à prateleira. É um instrumento dinâmico, elaborado pela
sociedade com o objetivo de eliminar os atritos e conflitos e, a
menos que assegure justiça social ao povo, ela não irá atingir o
seu objetivo e, algum dia, o povo irá deixá-la de lado.

Portanto, é dever dos juízes moldar e desenvolver a lei na


direção correta, através da sua interpretação criativa, de modo
que ela atinja seu objetivo social e sua missão econômica. Os
juízes devem perceber que a lei administrada por eles deve
tornar-se um instrumento poderoso para assegurar justiça social
a todos, e por justiça social eu digo justiça que não seja limitada
a poucos felizardos, mas que compreenda grandes camadas de
desafortunados e desprovidos, lei que traga distribuição
equânime do material social e dos recursos políticos da
comunidade. Nós precisamos de leis dinâmicas e não estáticas,
leis que tenham sua sustentação no passado mas que olhem
para o futuro, leis que estejam prontas para avançar a serviço da
humanidade; nós faríamos bem em lembrar as famosas palavras
do jurista Cardozo: “O recanto que protege o direito não é o fim
da jornada. A lei, assim como o viajante, deve estar preparada
para o amanhã.”

ANNOUSSAMY (1996:22-25) fala também das ações de litígio social


sob a denominação de ações de interesse público, sendo importante
destacar duas informações:
- a partir de 1984 a publicação do Instituto de Direito indiano apresenta
um capítulo sobre o Direito do Interesse Público;
- há uma tendência da Suprema Corte em restringir sua atuação nessas
119

ações.

5 – A JUSTIÇA ESTATAL

O autor que mais subsídios nos deu para este capítulo foi David
ANNOUSSAMY, ex-presidente da Corte de Madras, na Índia, e atual
presidente da State Consumer Dispute Redressal Commission, de
Pondichéry, na Índia, através da sua monografia la Justice en Inde.

5.1 - A FIGURA SIMBÓLICA DO JUIZ

ANNOUSSAMY (1996:3-5) afirma:

Tem-se uma abundante literatura em sânscrito e tamul


mostrando o perfil do juiz como era concebido na Índia antiga. É
antes de tudo aquele que descobre a verdade.

O erudito autor fala nas lendas do juiz Mariadai Ramane, verdadeiro


representante de Deus na Terra, do rei juiz, que modifica a lei para
satisfazer a necessidade de justiça, e de Manu Nidi Sojane, considerada
como a mais importante de todas.

5.2 - ASPECTOS HISTÓRICOS

Como já dito anteriormente, a Índia era uma multiplicidade de


pequenas e grandes divisões administrativas comandadas por nativos ou
estrangeiros. Assim é que havia colônias inglesas, francesas, holandesas e
portuguesas no território indiano.

Cada um desses colonizadores disputava com os outros pela


ampliação dos seus domínios.

No final prevaleceu o domínio inglês, que teve como principal


adversário a França.

No entanto, enquanto cada um dos colonizadores pôde interferir na


Índia, manteve vigorantes nas regiões de domínio seu Direito e Justiça
peculiares.

Pode-se dizer que a Índia era uma verdadeira "colcha de retalhos"


em termos de Direito, no século XVIII e parte do século XIX.

BONNAN (1999) mostra a realidade judiciária da região de


Pondichéry no período de 1766 a 1817, quando essa região ainda era
120

colônia francesa.

Trataremos, nesta parte, apenas da Justiça francesa na Índia,


deixando de lado as Justiças de Portugal e Holanda, pois, abaixo da
britânica, esta teve uma influência maior que as outras duas.

Abordaremos todos os seus aspectos neste ítem do estudo, inclusive


os juízes e corpo de funcionários e as regras processuais, para não
fragmentar as informações que conseguimos na nossa pesquisa, toda ela
embasada em Jean-Claude BONNAN, especialista em Indologia.

Vejamos o que informa BONNAN:

Sabe-se que o Conselho Soberano estabelecido em Pondichéry


estava incumbido de assegurar a administração geral, política e
comercial da sucursal, mas também a polícia e devia também
exercer a Justiça para os habitantes. (p. xv)

Mais adiante, historia a vida da instituição, explicando suas fases e


vai até sua extinção em 1817:

O Conselho Soberano, tendo como seu chefe o Governador (ou


Comandante Geral) e o Intendente (ou Ordenador), somente
confirmou o Direito local. Levando em conta um organismo que
funcionava, preocupou-se, numa primeira fase, em dar uma
Justiça especial para os nativos, segundo as leis destes e
conforme as orientações das autoridades francesas, e depois,
numa Segunda fase, assegurar uma Justiça de primeiro grau de
jurisdição para todos os habitantes. As Portarias do Governador
e os acórdãos regulamentadores do Conselho fixaram as regras
de funcionamento e da competência dessa jurisdição e uma
história processual se desenvolve sob os olhos do observador. A
Portaria de 18 de novembro de 1769 (modificada em 2 de
setembro de 1775) e em 5 de agosto de 1777, sobre a
composição da jurisdição) determina a competência em último
grau de jurisdição do Tribunal da "Chaudrie", o "teto da
jurisdição", montante abaixo do qual o recurso de apelação era
incabível, bem como as modalidades de apelação. Definiu
também as condições nas quais as convenções e testamentos
deviam ser passados. O tabelião que lhe é adido recebeu
atribuições de registrar. Uma outra Portaria, de 30 de dezembro
(modificada em 28 de janeiro e 4 de julho de 1778) e a de 5 de
abril de 1788 para a polícia organizam o funcionamento da
jurisdição e da polícia da cidade. Traçam estruturas de base que
não foram modificadas fundamentalmente durante todo o tempo
de existência da jurisdição. Algumas outras Portarias de
121

regulamentação tratam das Escrivanias, atos notariais,


tabelionato, juros etc. Enfim, a de 27 de janeiro de 1778 institui
uma Câmara de Consulta, composta de notáveis, para dar seu
parecer às jurisdições em matéria de Direito local.

Essas regulamentações lembram o convencionados pelas


autoridades francesas de julgar, nos processos civis, os nativos
de acordo com o Direito deles, princípio antigo e que seria
enunciado em todas as grandes Declarações (e em último lugar,
nessa época, pela Portaria de 16 de janeiro de 1819
determinando a aplicação para as jurisdições francesas das leis e
costumes para as pessoas regidas por estatuto pessoal, em
oposição àquelas regidas pelo Código Civil). Os processos
criminais eram da competência do Lugartenente Geral de Polícia
(após separação de suas funções daquelas do Lugartenente
Civil), que tinha o encargo de fazer respeitar os regulamentos de
polícia e decidia sobre as sanções tradicionais menos graves
(chicote, mutilação das orelhas). [...] Encaminhava relatórios ao
Conselho Superior quanto aos processos mais graves,
notadamente da área criminal. Analisava enfim os processos nos
quais as regras de castas estavam em jogo, com recursos
eventuais para o Conselho.

Através da Ordenança Real de 23 de dezembro de 1827, a


"Chaudrie" foi extinta, sua jurisdição passando a ser exercida
por um tribunal de Primeira Instância, organizado segundo os
padrões metropolitanos. Os processos de estatuto pessoal
seriam então julgados pelas jurisdições francesas, salvo em
matéria de castas. Os processos "intracastas" eram ajuizados
através de petição junto ao juiz de polícia que os enviana ao
Comitê Consultativo de Jurisprudência Indiana, que era uma
assembléia de sábios-árbitros indianos instituída pela Ordenança
local de 30 de outubro de 1827, encarregada também da redação
dos costumes, ou das assembléias de casta ou de família. As
decisões eram homologadas pelo juiz de paz ou eram avocadas
pelo Conselho. Os processos "intercastas" eram solucionados
diretamente pelo Governador, que decidia em primeira e última
instância. (pp. xvi-xvii).

Quanto aos juízes, diz BONNAN:

A "Chaudrie" não dispunha de pessoal próprio e exclusivo de


juízes, pois estes pertenciam ao conselho (em que eles exerciam
suas funções principais) e sendo somente comissionados ou
afetos a ele para ocupar os postos nesse Tribunal e ali fazer
justiça como presidente ou vogal. As deliberações do referido
122

Conselho nos mostram que a "Chaudrie" era formada por três


membros do conselho, um como presidente assistido por dois
vogais. Eles são confirmados nessa situação pelo acórdão de 17
de fevereiro de 1707 e outros que se seguirão. Tratam-se de
vendedores, negociantes e notáveis nomeados ou agregados
pela Companhia para garantir o funcionamento das instituições e
os serviços do comércio. Essa estrutura manter-se-á até a
Portaria de 30 de dezembro de 1769, editada para a organização
da "Chaudrie" e da polícia da cidade. Ela retoma essa
composição e a formaliza. A presidência é atribuída ao membro
do Conselho que tinha função de Lugartenente civil. Sob o
regime do edito de fevereiro de 1776, que criou um novo
Conselho, a presidência é atribuida ao primeiro Conselheiro, que
tinha o cargo de Lugartenente civil, acompanhado de dois vogais.
Posteriormente, sob o regime do edito de 1784, o Conselho
passou a ser composto por dois Administradores (o Governador
ou o Comandante geral e o Intendente ou Comissário
ordenador), pelo mais antigo oficial da administração,
negociantes e notáveis maiores franceses, retomando-se o
sistema do edito de 1701.

As disposições de 1776 eram, todavia, renovadoras e garantiam


uma Justiça mais independente e mais profissional. Com efeito, o
Conselho se compunha, entre outros membros, de sete
Conselheiros titulares, indicados pelo rei e nomeados por ele.
Esses asseguravam, com garantia de permanência, as funções da
Justiça tanto civil quanto criminal e tinham voto deliberativo no
Conselho. Servia como contrapeso à autoridade dos
Administradores, que se tornavam assim autoridades executivas
e os instrumentos de relação com a coroa. Não é exagerado
pensar que o Conselho se situava então dentro da tradição dos
Parlamentos [franceses]. No edito do mesmo dia previa também
que pelo menos três desses Conselheiros deviam ser advogados,
maiores de 27 anos e que estivessem exercendo a profissão há
pelo menos quatro anos em alguma Corte ou judicatura do
Reino. Esses profissionais deviam apresentar seus títulos e
comprovante de exercício da advocacia. Sabemos que o Conselho
de 1776 funcionou quase nada, e que a atividade da "Chaudrie"
parou em 1778, para ser retomada após o Edito de 1784. A
"Chaudrie" passou então a funcionar com um pessoal de
qualidade, permanente e independente, na pessoa desses
Conselheiros. Alguns deles eram provavelmente aptos, levando-
se em conta sua formação jurídica anterior, para informarem-se
sobre o Direito local, aplicá-lo e estudá-lo. Essa hipótese não tem
nada de gratuita, porque os trabalhos de que dispomos
atualmente sobre o Direito de Pondichéry são obra de
123

magistrados profissionais, os da Monarquia, do Segundo Império


e da República notadamente, que ali exerceram suas funções a
partir do século IXX. Isso não é pretender também que os juízes
da "Chaudrie" estivessem aquém da sua capacidade, pelo
contrário, o exame dos processos revela seu senso de equidade,
sua inteligência para analisar as situações jurídicas e sua
vontade de respeitar os usos locais. Mas levando-se em conta
seu modo de recrutamento à discrição dos Administradores, suas
funções essencialmente administrativas, como os órgãos da
Companhia, sua formação originária comercial na maioria dos
casos, e suas ocupações codidianas nos negócios, na verdade
eles não eram tão bem preparados para exercer as funções de
jurisdição e redigir os julgamentos. [...] O julgamento de 24 de
fevereiro de 1792 documenta que a comissão de Bernard
Magdeleine Fanthome que substitui N. Marcilly, nomeado
escrivão chefe do Conselho. Esses atos são realizados na
ausência das autoridades, notadamente do governador e do
entendente geral, durante a ocupação inglesa [...] Desde então,
a autoridade britânica se substitui aos administradores para
designar a título precário os membros da "Chaudrie" [...] A
resolução do Conselho de Madras de 30 de maio de 1797 reforma
a Justiça de Pondichéry, mudando o número de Conselheiros
para cinco “os quais para um tempo indeterminado serão
nomeados e cumprirão seus encargos respectivos enquanto
assim o entender este governo e não mais”. A competência da
jurisdição fica conservada sobre as outras feitorias e sobre os
ingleses, com exceção da execução das penas de morte.

A portaria de 15 de fevereiro de 1817 que organiza a "Chaudrie"


nas bases de 1778 (nota: é também criado um Tribunal de
Revisão, composto de quatro pessoas, dentre as quais o
Comandante ou o Presidente do Conselho, seu membro mais
antigo e dois notáveis, oficiando em última instância, seja em
apelação, cassação ou “requête” civil. (pp. xxiii-xxix)

BONNAN refere-se aos funcionários:

Os juízes da "Chaudrie" não dispuseram em época alguma de um


“Código de Processo” e a própria jurisdição somente foi
regulamentada muito depois do início do seu funcionamento
(após a metade do século XVIII) visando a organizar alguns
aspectos do seu funcionamento e a reger o curso dos processos.
Quanto ao Direito, as partes, bem como os juízes, deviam referir-
se ora à tradição jurídica local (brâmane ou islâmica), aos
costumes dos grupos sociais, aos regulamentos das autoridades
(indianas ou francesas, e mesmo inglesas) e às instituições reais
124

francesas. Resultava daí uma variabilidade, senão uma


impresição, mas também uma flexibilidade extrema de soluções
adotadas, bem como de mudanças verificadas no funcionamento
e nas próprias instituições. (p. xxxvii)

Logo adiante o ilustrado autor fala da situação da "Chaudrie" dentro


do sistema judiciário:

O sistema judiciário aplicado a Pondichéry era extremamente


simples e, no início, quase gratuito para os jurisdicionados.
Existiam dois órgãos jurisdicionais, respectivamente para os
colonos e para os nativos, transformados em seguida em dois
graus de jurisdição, tanto na área cível quanto na criminal, com
recursos para o Conselho do Rei. Não havia instâncias
senhoriais, eclesiásticas, fiscais e outras, e a circunscrição era
unitária (se bem que funcionando em seções) e pouco extensa. O
Tribunal do Almirantado, competente para o pessoal e os
processos do mar, criado em 1717; o Conselho de Guerra, que
julgava os militares (desde 1729); o Tribunal do Tenente, que
conhecia das matérias administrativas e dominiais; o Tribunal
dos Administradores, estabelecido para os estrangeiros; a
Câmara Municipal, a partir de 1790; a Corte de Judicatura,
substituindo o Conselho em 1805; o Tribunal de Revisão,
julgando em cassação as decisões do Conselho ou da Corte; o
Conselho de Madras; o Conselho Privado; diversas instâncias
arbitrais etc, somente surgiram tardiamente para solucionar
situações específicas e limitadas dentro da organização cujo
estilo permanecia ainda muito vivo.

A "Chaudrie" se encontrava, no entanto, desde que os franceses


ficaram em uma situação paradoxal sob mais de um ponto-de-
vista. Sua existência era nessa época contrária à legislação real,
que somente previa um tipo de jurisdição, aquela do Conselho, e,
mais tarde, dos Conselhos Provinciais nas outras feitorias, para
todos as pessoas provenientes da Colônia [...] Em outras
palavras, esse Tribunal não tinha nenhuma razão legal além da
intenção do Conselho de conservá-lo e organizá-lo. Funcionava
como jurisdição pessoal, a dos nativos, depois se transformando
em jurisdição mista, a das relações entre esses nativos e os
europeus, e enfim transformou-se em jurisdição de primeira
instância em muitos processos. Sua finalidade era de julgar em
concorrência com o Conselho quando indianos eram partes,
inicialmente na prática depois de Direito quando eles eram
partes. Enfim, era sobretudo uma jurisdição francesa decidindo
com base no Direito indiano e subsidiariamente no Direito
francês, enquanto que o Conselho mesmo julgando em grau de
125

apelação as sentenças da "Chaudrie" não era obrigado a aplicar,


pelo menos no início do século XVIII o Direito indiano. Essa
competência híbrida, que não era excepcional para aquela época,
afirmar-se-á progressivamente, à medida que se fortalecia a
jurisprudência desse Tribunal. (pp. xxxviii-xxxix)

Quanto ao Direito aplicável aos processos:

O procedimento que era aplicável à "Chaudrie" apresentava


particularidades absolutamente excepcionais do ponto de vista
da adaptação das práticas às necessidades locais. No plano dos
princípios, as jurisdições francesas instaladas na Índia deviam
aplicar o Direito da metrópole (o que era lembrado no edito de
fevereiro de 1776 e no de agosto de 1784), ou seja,
notadamente nas ordenanças reais, como afirmado na
Declaração de agosto de 1664. [...] A competência do Tribunal da
"Chaudrie" e o procedimento que era seguido são definidos ora
segundo a tradição indiana, ora conforme a prática anterior. Era
a própria jurisdição, sob o controle do Conselho, que
determinava a extensão das suas atribuições, elaborava suas
próprias regras internas durante o exame dos processos,
formando um tipo de estilo próprio. Surge um estilo de Direito,
formado pelos Direitos indiano, francês e pondicheriano (aquele
das autoridades diligentes da feitoria). [...] É provável que,
comparado às jurisdições tradicionais, tinha-se um procedimento
oral, mesmo se a sociedade jurídica indiana tinha conhecimento
dos documentos escritos, atos de autoridade pública ou
contratos escritos. As fontes antigas (tratados de dharma,
epigrafia) confirmam isso, mas, sobretudo, em época mais
recente, as partes apresentavam, na "Chaudrie", para
sustentarem suas pretensões, documentos públicos, atestações,
contratos, títulos diversos, contas etc. dos quais alguns eram
manifestamente independentes da intervenção dos europeus.
[...] O procedimento junto à "Chaudrie" se tornou escrito
(sobretudo após a Declaração de fevereiro de 1777), mas com
possibilidade de ser ordenado o comparecimento pessoal,
contraditório e dilatório, enfim, sendo de iniciativa das partes,
com a intervenção importante do juiz e outras autoridades. (pp.
xxxix-xl)

Fala da estrutura da sentença e do procedimento:

A sentença, redigida como uma menção de todos os atos que


foram efetuados, com indicação das respectivas datas, origem e
conteúdo, comprova a observância de todas as fases do
processo, a última das quais contém a decisão propriamente
126

dita. Essa parte começava em geral pela menção “Tout (vu et)
considere lê tribunal (declare, condamme, homologue, etc.)...”,
constitui o último ato do processo, aquele que é contemporâneo
da data da sentença, e segue e conclui a lista dos atos
precedentes, sem motivação explícita e separada. [...] Compete
às partes (mas também aos operadores do Direito e
comentadores) reconstituir os motivos que levaram às decisões
das sentenças. Esta maneira de proceder está completamente
dentro da linha adotada pelas jurisdições do Antigo Regime, que
não se diziam obrigadas a justificar suas decisões. [...] A ação é
invariavelmente apresentada através de petição, redigida pela
parte interessada (o autor) ou seu representante (procurador)
ou eventualmente pelo oficial de justiça encarregado. Entregue
ao cartório do Tribunal, a petição era encaminhada à parte
contrária (o réu) e continha os elementos de fato e, em princípio,
os fundamentos jurídicos visando sustentar a pretensão. [...] A
contestação era encaminhada ao autor e expunha os
fundamentos de fato e de Direito da defesa. Uma nova petição
era geralmente admitida para replicar a contestação, a qual
podia ser objeto de tréplica. Todos os outros atos do processo, as
novas falas das partes e também (réplicas, falas de resposta ou
incidentes etc), as injunções de produção de peças ou de
comparecimento, submetiam-se também aos procedimentos de
remessa, indiretas e oficiais. A determinação do conteúdo dos
atos processuais no momento de sua elaboração pertenciam
naturalmente às partes, mas o juiz (provavelmente o presidente,
ou seja, o Tenente civil) intervinha para presidir o processo
desde o início [...] o juiz exercia um poder soberano sobre a
admissão ou rejeição das petições, com vistas à filtrar o
contencioso. Desde esse instante, o juiz controlava a admissão
dos pedidos, ou, pelo menos, os critérios de admissão das
pretensões, analisava sua competência a título provisório ou
definitivo e organizava a pauta das audiências repartindo os
processos sucessivamente ou em função da natureza dos
processos (notadamente penal ou civil). Os autos eram
acrescentados de novas peças, sendo elas (títulos e escritos em
geral) produzidos em apoio das falas das partes sendo
apresentados ao cartório e eventualmente analisadas. [...] Esses
elementos reunidos, era designado um juiz relator para fazer a
síntese do processo e apresentar um relatório, oral ou escrito
aos julgadores. [...] Antes de qualquer decisão de mérito, o réu
devia ser intimado. [...] A oitiva de testemunhas era confiada a
um juiz ou aos intérpretes juramentados do Conselho e ocorria
antes dos debates propriamente ditos. Os depoimentos eram
documentados num termo escrito, submetido aos juízes. As
perícias, mais raramente utilizadas e que não obrigavam os
127

juízes, existiam também, notadamente em matéria imobiliária


para a delimitação de terrenos ou avaliação de colheitas ou de
bens mobiliários ou imobiliários. [...] Quanto ao juramento, era
raro e as formalidades que obedeciam não são explicadas pelo
Tribunal. (pp. xl- xliii)

5.3 - A ORGANIZAÇÃO JUDICIÁRIA

A Justiça indiana é eminentemente estadual, tendo cada um dos 26


Estados sua estrutura judiciária própria, mas existe uma Corte federal, que
é a Suprema Corte.

A organização judiciária indiana atual é uma herança britânica, no


dizer de ANNOUSSAMY.

Verificamos uma certa complexidade no estudo de desse autor


(1996:6-9) e preferimos dividir as jurisdições indianas de uma forma que
acreditamos mais didática:
- I) Tribunais de Direito Comum;
- II) Tribunais Especializados.

(I) TRIBUNAIS DE DIREITO COMUM

Quanto aos Tribunais de Direito Comum subdividem-se em dois


grupos:
- A) Tribunais Inferiores;
- B) Tribunais Superiores.

Os Tribunais Inferiores (A) se ramificam em:


- a) Tribunais compostos por leigos;
- b) Tribunais compostos por juízes profissionais.

Os Tribunais compostos por leigos existem somente no 1º grau de


jurisdição e são opcionais:
- 1) Tribunais Rurais tradicionais (competentes para todas as matérias,
existem somente nas pequemas cidades ou vilas, são compostos por 5
habitantes de maior destaque na comunidade);
- 2) Tribunais para processos criminais de menor gravidade.

(Considerando que mais de 70% da população do país vive nas


pequenas cidades e vilas, pode-se facilmente concluir que é ainda muito
grande a procura pelos juízes leigos, quais sejam, os dos Tribunais Rurais
tradicionais, apesar da tendência ser no sentido da valorização da figura
dos juízes profissionais.)
128

Os Tribunais compostos por juízes profissionais são todos os demais:


- 1) no 1º grau de jurisdição: os Tribunais separados para os processos
civis e criminais de menor importância;
- 2) no 2º grau de jurisdição: Tribunais Civis de Jurisdição Plena
(competentes para processos civis e criminais menos os crimes contra a
vida e apelações nos processos julgados pelas jurisdições de 1º grau, ou
sejam, Tribunais Rurais tradicionais, Tribunais para processos criminais de
menor gravidade e Tribunais separados para os processos civis e criminais
de menor importância);
- 3) no 3º grau de jurisdição: Tribunais de Distrito (competentes para os
processos criminais por crimes graves; apelações nos processos dos
Tribunais de 2º grau de jurisdição, ou sejam, Tribunais Civis de Jurisdição
Plena; apelações civis nos processos de valor inferior a um determinado
teto; recurso de provimento de cassação nos processos de competência
dos juízos de 1º grau, ou sejam, Tribunais Rurais tradicionais, Tribunais
para processos criminais de menor gravidade e Tribunais separados para
os processos civis e criminais de menor importância, sejam esses
processos não submetidos a apelação sejam após apelação pelos Tribunais
Civis de Jurisdição Plena).

Deve-se acrescentar que todos esses Tribunais (1º, 2º e 3º graus)


atuam no sistema de juiz singular (juiz único).

Os Tribunais Superiores (B) se ramificam em:


- a) Altas Cortes de Justiça de cada Estado;
- b) Suprema Corte.

As Altas Cortes de Justiça de cada Estado são competentes para as


apelações nos processos julgados em primeira instância pelos tribunais de
Distrito; apelações julgadas em primeira instância pelos Tribunais Civis de
Jurisdição Plena não sujeitas a apelação frente aos Tribunais de distrito;
recurso de provimento de cassação contra decisões de qualquer Tribunal
inferior.

As Altas Cortes de Justiça de cada Estado também podem agir "ex


officio" quando detectam alguma irregularidade grave a ser corrigida em
qualquer área da comunidade, seja a nivel estatal, seja a nivel dos
particulares. Também decidem requerimentos formulados por particulares
ou entidades versando sobre atentados às liberdades fundamentais
previstas na Constituição.

As Altas Cortes de Justiça são os Tribunais mais graduados de cada


Estado.

Acima delas existe a Suprema Corte, que é competente para


apelações nos processos julgados pelas Altas Cortes de Justiça de cada
Estado.

A Suprema Corte também conhece, em primeira instância, de casos


delicados, em que se alega violação aos direitos fundamentais previstos na
Constituição.

Deve-se acrescentar que os Tribunais Superiores são sempre


colegiados.
129

Deve-se observar que, nos recursos, antes de seu recebimento tanto


pelas Altas Cortes de Justiça de cada Estado como pela Suprema Corte, os
recorrentes são ouvidos em audiência pública e se o Tribunal entente
descabidos, são rejeitados liminarmente, acontecendo mais casos dessa
natureza sobretudo na Suprema Corte.

(II) TRIBUNAIS ESPECIALIZADOS

ANNOUSSAMY fala da extrema especialização de alguns Tribunais e


enumera alguns deles, especializados em:
- Reforma Agrária;
- Locação de Imóveis;
- Proteção do Domínio Público;
- Desapropriação;
- Seguro;
- Cooperativas;
- Cadastro;
- Florestas;
- Irrigação;
- Minas;
- Plantações;
- Patentes;
- Imprensa;
- Refugiados;
- Família;
- Contencioso de Funcionários;
- Consumidores;
- cada categoria de Impostos e Taxas;
- Trabalho;
- etc.

O renomado jurista indiano afirma que somente na área trabalhista


há vários Tribunais especializados, quer levando em conta a natureza do
contencioso, quer a categoria do trabalhador.

Essa variadade enorme de Tribunais se deve ao fato de no período


da colonização inglesa, que só terminou em 1947 com a independência do
país, os ingleses tinham criado poucos Tribunais de Direito Comum
enquanto que existiam Tribunais especializados, cujo número só foi
aumentando e, mesmo quando criados Tribunais de Direito Comum para
todo o país, ficava mais fácil para os jurisdicionados procurar os Tribunais
especializados.

ANNOUSSAMY menciona as vantagens dos Tribunais especializados:


- ter uma decisão definitiva de maneira pronta (determinados processos
podem passar por cinco graus de jurisdição nos Tribunais de Direito
Comum);
- ter juízes com a visão desejada ou conhecimentos especializados para
esses processos;
- uma certa desconfiança quanto às Altas Cortes dos Estados, as quais
divergem dos poderes políticos.

A seguir ele enumera as desvantagens desses Tribunais:


- somente existem nos grandes centros urbanos, pois é relativamente
pequeno o número de processos de cada um;
- os jurisdicionados têm dificuldade em saber qual o Tribunal especializado
competente para conhecer do seu problema específico.

Em 1976 o governo distinguiu determinados Tribunais


especializados: Contencioso de Funcionários; cada categoria de Impostos e
Taxas; Comércio Exterior; Moedas Estrangeiras e Alfândega; Trabalho;
Desapropriação; Limite da Propriedade Urbana; Eleições e Abastecimento
130

dos Alimentos Essenciais. Criou para eles, na Constituição, uma hierarquia


diferenciada, não mais os subordinando às Altas Cortes dos Estados mas
sim a Cortes Superiores de hierarquia equivalente, naturalmente que tendo
como instância mais graduada a Suprema Corte. No entanto, na realidade,
somente foram implantados Tribunais Superiores em duas ou três dessas
especializações, o restante continuando a subordinar-se às Altas Cortes
dos Estados.

DAVID (1996:465-467) fala na organização judiciária indiana, na


Suprema Corte e na obrigatoriedade do precedente:

A Índia, consideradas sua extensão e sua população, não pode


ter uma justiça centralizada como a da Inglaterra. A organização
judiciária que ela adotou é, contudo, muito diferente da dos
Estados Unidos da América. Na Índia não existem jurisdições
federais à exceção de um Supremo Tribunal Federal, com sede
em Nova Delhi, composto pelo Chief Justice of India e treze
juízes. Os juízes do Supremo Tribunal são designados pelo
Presidente da República, após ter recebido diversos pareceres
consultivos, sem que seja necessária a aprovação do Senado.

O Supremo Tribunal tem por função essencial zelar pelo cumpri-


mento da Constituição. Pronuncia-se sobre a validade das leis da
União ou dos Estados quando a constitucionalidade destas leis é
contestada. Pode ser chamado a pronunciar-se, por outro lado,
nos casos em que é alegada a violação de um “direito
fundamental” garantido pela Constituição. Além disso, o
Supremo Tribunal tem igualmente uma competência extensa:
pode, por exemplo, ser chamado a pronunciar-se pela via de um
recurso contra qualquer decisão proferida por um High Court em
matéria civil, se o interesse em jogo ultrapassa as 20.000 rúpias,
e pode, por outro lado, admitir um “apelo especial” contra
qualquer decisão proferida por qualquer tribunal da Índia,
exceção feita aos tribunais militares.

O Supremo Tribunal estabelece, ele próprio, o seu regulamento


do processo, que deve, contudo, ser aprovado pelo Presidente da
República; a Constituição obriga-o a prever que pelo menos cinco
juízes devam participar no julgamento dos processos nos dois
primeiros casos supracitados; igualmente cinco juízes se devem
pronunciar quando é pedido ao tribunal um parecer meramente
consultivo por parte do Presidente da República, conforme
autoriza a Constituição.

O Supremo Tribunal da Índia, como o dos Estados Unidos, pode


operar mudanças de jurisprudência. Isto verifica-se raramente,
dada a grande facilidade com que o parlamento pode modificar a
Constituição. Um caso notável veio pôr em relevo esta
possibilidade. O Supremo Tribunal, revendo sua jurisprudência,
decidiu, em 1967, num acórdão muito contestado, que somente
uma Assembléia Constituinte poderia, eventualmente, restringir
os direitos fundamentais garantidos pela Constituição; o
parlamento não tinha, segundo ele, este poder.

No que respeita a outras jurisdições, que não o Supremo


Tribunal, a própria Constituição (art. 141) define que estas
131

jurisdições devem seguir os precedentes estabelecidos pelo


Supremo Tribunal. E quanto às decisões proferidas por
jurisdições diferentes do Supremo Tribunal? A questão coloca-se,
neste aspecto, tal como nos Estados Unidos da América. Pode
perguntar-se perfeitamente se, para simplificar a administração
da justiça e para assegurar a uniformidade do Direito nos
diversos Estados, não conviria antes abandonar, ou pelo menos
tornar mais flexível, a regra do precedente, tal como ela pôde
funcionar na época do domínio britânico. Uma comissão
constituída em 1955 considerou a prática anterior tão ligada à
psicologia dos juristas que não era possível colocá-la em causa,
mesmo que isso parecesse desejável. O importante papel atri-
buído à lei e os progressos da idéia da codificação poderão levar,
na Índia como nos outros países de common law, a significativas
mudanças nesta matéria.

5.4 - OS JUÍZES

ANNOUSSAMY (1996:9-11) informa quanto ao aspecto histórico do


estatuto da magistratura:

O estatuto atual dos juízes resulta da administração colonial com


algumas modificações trazidas pela Constituição. [...] Apesar das
garantias inegáveis, há muitos riscos para a independência dos
juízes. Mas os casos em que os juízes sacrificaram sua
independência são raros. No conjunto eles procuram preservar a
tradição de independência legada pelos ingleses.

Abordemos os diversos ítens.

- concurso para juízes de 1º grau: prova oral para candidatos provenientes


da advocacia;
- nomeação: feitas pelo governo, geralmente com indicações do Tribunal
Superior (Alta Corte ou Suprema Corte, de acordo com o caso);
- promoções para o cargo de juiz de Tribunal de Distrito: um terço de
advogados e dois terços de juízes de Tribunais menos graduados (os
primeiros normalmente têm mais chance na carreira que os segundos);
- promoções para as Altas Cortes: mediante indicação do primeiro
presidente das respectivas Cortes, sendo um terço de juízes de Tribunais
de distritos e dois terços de advogados, sobretudo aqueles que prestam
serviço à administração pública;
- promoções para a Suprema Corte: geralmente escolhidos entre os
primeiros presidentes ou juízes mais antigos das Altas Cortes;
- há uma distinção acentuada entre juízes de Tribunais Inferiores e de
Tribunais Superiores, inclusive pela valorização da posse dos segundos
através de uma solenidade pomposa e recebimento de complemento de
vencimentos "in natura", o que não acontece com os primeiros;
- remuneração: os vencimentos encontram-se defasados por causa da
inflação;
- rotatividade: os juízes de Tribunais Inferiores não podem ser nomeados
para Tribunais de seu local de origem e não podem permanecer mais de
três anos em um mesmo Tribunal; quanto às Altas Cortes um terço de seus
juízes têm de ser provenientes de outros Estados;
- disciplina: as punições disciplinares dos juízes de Tribunais Inferiores são
feitas pelo governo sob proposição da respectiva Alta Corte; quanto aos
juízes de Tribunais Superiores somente podem ser demitidos por ato do
presidente após processo de iniciativa de pelo menos dois terços de cada
132

uma das duas câmaras do Parlamento central sob argumento de


incapacidade ou mau procedimento. Um ponto importante para ser
mencionado é que os juízes das Altas Cortes podem censurar os juízes de
Tribunais Inferiores nos próprios autos dos processos que lhes chegam
pela via recursal.

Os juízes são provenientes das classes média e alta, conforme diz


ANNOUSSAMY (1996:22). Parece não haver oportunidade real para os
"intocáveis" (párias).

O Departamento de Justiça do Ministério do Direito e da Justiça, no


endereço de Internet http://lawmin.nic.in/Just.htm fornece dados
atualizados:

Quanto à Suprema Corte (federal):

O número de juízes da Suprema Corte (incluindo o Presidente


desse Tribunal) é de 26, sendo que 25 ocupam seus cargos
desde 17.12.1996, havendo 1 vaga a ser preenchida.

Quanto às Altas Cortes (estaduais):

O Governo da Índia adotou a política de designar Presidentes das


Altas Cortes dos Estados que não sejam profissionais desses
Estados. De 1.12.1995 a 17.12.1996, foram feitas transferências
e designações de 11 Presidentes de Altas Cortes Justiça para
Altas Cortes de outros Estados. Desde 17.12.1996, só a Alta
Corte de Sikkim tem um Presidente nativo.

Desde 17.116.1996, o número de juízes e juízes adicionais das


várias Altas Cortes era de 568. Em acréscimo, foi estabelecida a
criação de cargos de 9 juízes permanentes e 38 juízes adicionais
em diferentes Altas Cortes.

De 1.12.1995 a 17.12.1996, 93 recentes designações de juízes


permanentes e adicionais juízes foram feitas e, em acréscimo, 17
juízes adicionais foram designados como juízes permanentes.

5.5 - O JUIZ E A LEI


ANNOUSSAMY (1996:13-16) descreve a evolução da mentalidade
dos juízes indianos frente às leis.

Fala numa primeira fase, anterior à chegada dos britânicos à Índia.

Prevalecia então o sistema multimilenar de os juízes decidirem


levando em conta primeiramente os costumes e, na sua ausência, é que
eram aplicadas as leis. E, mesmo assim, as leis podiam ser
desconsideradas se levavam à injustiça. Assim, nessa época reconhecia-se
uma latitude muito grande para o arbítrio judicial.

Explica ANNOUSSAMY (1996) essa mentalidade:

Os Códigos antigos da Índia não são Códigos de leis positivas,


são "Códigos modelos". Deve-se procurar a aproximação máxima
possível, mas não se tem a obrigação de ser abolutamente
conforme a eles. (p. 13)
133

Numa segunda fase, quando os britânicos passaram a influenciar a


Índia, eles não editaram leis para esse país justamente por causa de sua
adesão à common law.

E como os juízes indianos não conheciam o Direito inglês, o plano de


Warren Hastings estabeleceu em 1772 que os juízes indianos deveriam
julgar de acordo com a justiça, a eqüidade e a consciência, o que, na
verdade, fez continuar a situação que já existia, em nada alterando a
forma de julgar.

Quando Jeremy Benthan iniciou na Inglaterra um movimento em


favor da codificação do Direito inglês, não obteve sucesso, procurando
então transplantar seus planos para a Índia, daí sendo editado um Código
em 1859.

Já em 1882 a maior parte das leis inglesas prevalentes na Índia foi


codificada.

Após esse Código os juízes indianos ficaram obrigados a decidir com


base na lei, sem poder sequer de interpretá-la e passou a não reconhecer
nenhuma outra forma de julgar.

No entanto, mesmo assim, os juízes indianos insistiam em aplicar a


jurisprudência sempre que visualizavam alguma lacuna na lei até porque
não queriam renunciar ao seu privilégio de criar regras de Direito a que
tinham se habituado.

Dessa forma, criou-se um sério impasse: enquanto o chamado


Conselho Privado da Índia afirmava que os juízes não poderiam decidir
contra os princípios jurídicos formulados por ele, as Altas Cortes
ameaçavam de punições esses mesmos juízes se decidissem
contrariamente à jurisprudência.

Uma solução temporária surgiu através da legislação indiana de


1935, que estabeleceu que os parâmetros do Conselho Privado e da Corte
Federal deveriam ser seguidos obrigatoriamente por todos os Tribunais do
país.

E a Constituição (1950) endossou esse entendimento em relação à


nova Suprema Corte.

Quanto às Altas Cortes, sua jurisprudência passou a obrigar os


juízes dos respectivos Estados, mas não de outros.

A força das leis com isso foi minimizada pela jurisprudência, no


entanto, para novo prestígio das leis, são elas sucessivamente reeditadas e
acompanhadas da jurisprudência, e, assim, os juízes se baseiam em
dispositivos legais sem maiores problemas.

Duas situações peculiares passaram a ocorrer: as sentenças dadas


com base exclusivamente na jurisprudência são mantidas em grau de
recurso somente se não há texto de lei expresso sobre a matéria, e a lei é
aplicada isolada da tendência jurisprudencial se o caso ocorrente é uma
situação completamente nova, não adequável a nenhuma jurisprudência. E
nesses casos os juízes de primeira instância ficam na difícil situação de
decidir.

De alguma forma minimizou-se também a força do stare decisis,


utilizando-se a técnica da distinção para deixar-se de aplicar a
jurisprudência nos casos que apresentam aspectos diferenciados em
relação ao molde jurisprudencial.
134

E foi a própria jurisprudência que mostrou o caminho a ser seguido


para bem julgar os processos:

O exemplo e as diretivas que as Cortes Superiores dão é de fazer


prevalecer a Justiça e de não se deixar entravar pelas regras
técnicas e um juridismo escrupuloso. (p. 15)

Conclui ANNOUSSAMY (1996) que os juízes indianos atuais estão


voltando a ter a liberdade de decisão que tiveram até uma parte do século
XVIII, mas, diferentemente dos juízes ingleses, devem expor nas
sentenças sua fundamentação:

Assim pouco a pouco os juízes indianos recuperam um pouco sua


tradição após um intervalo de rigorismo da administração
judiciária à moda inglesa. A grande diferença é que eles devem
explicitar sua fundamentação de forma convincente. [...] A lei
está a serviço da Justiça em que o juiz é o oficiante ativo. Tal é a
filosofia que parece emergir. (p. 16)

5.6 - O PAPEL POLÍTICO DOS JUÍZES


ANNOUSSAMY (1996:16-22) menciona algumas situações que fazem
o Judiciário indiano desempenhar um papel político relevante:
- sua atuação em processos que têm envolvimento político importante,
como no caso de eleições etc.;
- sua atuação no controle de constitucionalidade, que pode ocorrer no
curso dos processos;
- a Suprema Corte estabeleceu "cláusulas pétreas" para a Constituição,
que não podem ser objeto de revisão constitucional;
- a Suprema Corte acaba invadindo a área do Poder Legislativo quando
este se omite na elaboração de leis que politicamente não lhe interessam;
- a Justiça é procurada pelos cidadãos que vèm seus direitos relegados ao
descaso pela classe política;
- em muitas situações os juízes acabam estabelecendo regulamentações
para casos em que o legislador não o faz, como ocorreu com relação à
adoção internacional de crianças indianas, quando o próprio governo
comunica aos serviços competentes essas decisões do Judiciário.

ANNOUSSAMY (2001), depois de afirmar que a atividade legislativa


é desbordante depois da independência (p. 21), fala da disputa entre o
Judiciário e o Legislativo:

Quando a Suprema Corte anula uma disposição legislativa, o


Parlamento a ressuscita sob outra forma; algumas vezes a
situação se repete e degenera em verdadeiro duelo. Assim, a lei
se torna agressiva em determinados casos, deturpa a realidade e
se macula. (10-11)

Essa disputa realmente é grave, segundo ANNOUSSAMY (2001:22):

... as leis somente sobrevivem se estão conformes à constituição:


se elas não recebem a afirmação de validade pela suprema Corte,
no bojo de um recurso processual de provimento, a insegurança
paira sobre elas.

5.7 - AS DISTORÇÕES
ANNOUSSAMY (1996:25-29) fala dos problemas da máquina
135

judiciária antes dizendo dos primeiros felizes tempos após a


independência:

Os britânicos tinham deixado à sua partida um sistema bem


organizado de tal forma que todos estavam satisfeitos. Após a
independência as cortes superiores receberam a admiração e a
gratidão da população por sua pronta intervenção na
salvaguarda dos direitos fundamentais. De uns quinze anos para
cá surgiu uma sombra nesse cenário. (p. 25)

Enumera os problemas, que seriam os seguintes:


- a causa principal foi o crescimento populacional, que mais que dobrou
nos últimos quarenta anos;
- o desenvolvimento da atividade econômica aumentou o número de
litígios, gerando o aumento do número de processos;
- a legislação indiana não está preparada para evitar os litígios nem lhes
dar solução rápida, sendo de notar-se que as provas escritas não são
utilizadas nos processos, sendo regra a oralidade;
- o rito dos processos disciplinares é complicado e acabam sendo esses
processos questionados perante a Justiça;
- as leis sócio-econômicas são em número avultado, não são editadas com
o consenso de todos os interessados e acabam gerando resistência
daqueles a quem desagradam;
- a prática administrativa nem sempre coincide com as leis;
- por falta de recursos financeiros as leis mais bem intencionadas deixam
de ser colocadas em prática;
- os recursos financeiros para custeio de pessoal e meios materiais não são
ideais;
- o aumento do número de Tribunais especializados gera o aumento de
serviço para os Tribunais Superiores, sendo que a Suprema Corte contava
em 1996 mais ou menos 39.000 em andamento, dos quais cerca de 20.000
em andamento há mais de cinco anos, e essa é a situação das Altas Cortes;
- a indulgência dos juízes e a pressão dos advogados contribuem para que
ações sejam apresentadas diretamente aos Tribunais Superiores forçando-
se alegações de violações a direitos fundamentais, sendo essa prática
utilizada principalmente pelos que residem nas capitais, fazendo com que
casos complexos sejam julgados dentro de um rito simplificado;
- em virtude das dificuldades existentes há processos em andamento há
mais de vinte anos nos casos em que começaram em Tribunais de primeira
instância e o vencido resolve recorrer sempre;
- as decisões provisórias nos processos acabam perdurando muitas vezes
por anos seguidos, prejudicando as partes;
- políticos têm procurado usurpar as funções judiciárias, através do que
ANNOUSSAMY chama de "depravação da democracia", quando a classe
política procura exercer verdadeira ditadura em todos os domínios;
- há uma tendência de certos juízes a hipotecar sua imparcialidade em
favor dos poderosos do dia ou por amor ao dinheiro, observando-se como
fatores facilitadores o sistema de juiz único como regra quase geral, há
possibilidade de fraude na distribuição de processos, as leis são um tanto
fluidas e o controle dos Tribunais Superiores sobre os juízes de Tribunais
Inferiores é cada vez menor. As acusações ao Judiciário são de corrupção e
morosidade;
- os advogados têm contribuído para agravar a situação da Justiça em
geral, pois os princípios de deontologia nem sempre são seguidos, gerando
desconfiança nos eventuais clientes; as relações entre advogados e juízes
nem sempre são cordiais, muitas representações sendo formuladas contra
juízes, que acabam removidos compulsoriamente ou demitidos;
- a polícia também tem colaborado para os desacertos quando da
elaboração de inquéritos policiais embasadores de processos criminais e
inclusive já se registrou a ocorrência de ofensa pública de policial a juiz, o
que, felizmente, ocorreu poucas vezes;
- oas próprios Tribunais Superiores atrapalham a estabilidade da estrutura
136

quando, ao invés de manterem a uniformidade da jurisprudência (stare


decisis), resolvem decidir de forma diversa, gerando a insegurança
jurídica, o aumento do número de processos e outros efeitos danosos;
- as sentenças são por demais extensas, algumas vezes com centenas de
páginas;
- as publicações de jurisprudência estão nas mãos de advogados, que
procuram mencionar apenas as que lhes interessam, principalmente nos
casos criminais, as que favorecem os acusados;
- há uma certa precariedade nos estudos mais aprofundados, gerando
afoiteza e risco de decisões injustas;
- apesar de o idioma dos processos nos Tribunais Superiores ser o inglês,
muitos advogados não o conhecem suficientemente e muito menos as
partes e pessoas em geral num país onde há uma diversidade enorme de
línguas e dialetos.

ANNOUSSAMY (1996:26) diz que, devido ao assoberbamento dos


Tribunais, o governo pensou em duas soluções alternativas: uma
incentivando a conciliação e outra a arbitragem, esta última baseada no
modelo de 1985 da ONU, o que, aliás, são opções muito úteis, praticadas
por muitos outros países, com excelentes resultados.

5.8 - PERPECTIVAS PARA O FUTURO


ANNOUSSAMY (1996:29-34) sugere algumas medidas para melhorar
a Justiça indiana, quais sejam:
- aumento dos vencimentos dos juízes, inclusive para evitar a corrupção;
- implantação do sistema de colegialidade nos Tribunais pelo menos na
hora da prolação das sentenças (em lugar do sistema de juiz único);
- redefinição das competências principalmente para desobstruir os
Tribunais Superiors, que encontram-se assoberbados por processos em
que se alega agressão aos direitos fundamentais;
- limitar os fundamentos para reforma dos julgamentos a um ou dois;
- designação de juízes de excelente nível profissional para os Tribunais de
primeira instância mais importantes, que apresentam causas mais
complexas;
- limitação do número de advogados, exigindo maior qualificação moral e
técnica;
- reagrupamento de forma mais racional os Tribunais Especializados,
visando melhor atendimento aos jurisdicionados e diminuição das
despesas;
- revisão das regras processuais, principalmente no que pertine às provas;
- redução da extensão das sentenças e acórdãos.

O estudioso doutrinador enumera cinco tendências que parece


inclinarem o governo indiano quanto à Justiça sob inspiração dos
estudiosos das leis sociais:
- inserção nos textos de lei de regras de interpretação das leis (devido à
relativa indefinição que existe quanto à prevalência das leis ou da
jurisprudência);
- informatização (para facilitação inclusive do conhecimento da
jurisprudência);
- utilização de meios alternativos como a conciliação e a arbitragem (já
tendo sido criados Cortes Populares - compostas de juízes e advogados
aposentados - junto aos Tribunais de todas as instâncias, em que, quando
há acordo entre as partes, redige-se compromisso, que é título executivo);
- incentivo à Justiça paralela no interior de cada comunidade religiosa
(faltando apenas a partifipação dos hinduístas, uma vez que musulnanos e
cristãos são mais simpáticos a essa sugestão);
- formação dos juízes (que não passam por nenhum curso após aprovação
no concurso de ingresso na profissão, havendo somente cursos de
137

reciclagem), devendo-se observar quatro ítens:


- conhecimento jurídico;
- qualidade intelectual;
- caráter;
- moralidade.

Quanto ao números de processos em andamento, causas do acúmulo


de processos na primeira instância e soluções adotadas, foram divulgados
pela Internet (http://mha.nic.in/justi.htm) os seguintes dados:
- na Suprema Corte: redução do número de processos: de 104.936 (1991)
para 19.806 (1998)
- nas Altas Cortes: aumento do número de processos: de 2,65 milhões
(1993) para 2,98 milhões (1995) e 3,18 milhões (1997). Observa-se mais
de 50% desse total centralizado em apenas 4 Altas Cortes: Allahabad (0,86
milhões), Madras/Chennai (0,32 milhões), Calcutá (0,28 milhões) e Kerala
(0,25 milhões)
- nos Tribunais inferiores: números oscilantes: de 21,8 milhões (1995)
diminuindo para 19,9 milhões (1996) e aumentando para 20 milhões
(1997).

Pesquisadas as razões dessa situação, concluiu-se que múltiplas são


elas: a) falta de responsabilidade e transparência na administração, b)
aumento no acesso à informação e no ajuizamento de processos, c)
aumento da população, d) radicais mudanças na causação dos litígios, e)
variedade de tipos de litígios, f) ineficiência de juízes e funcionários da
Justiça, g) adiamentos e demoras etc.

Foram adotadas as seguintes soluções: a) classificação e


agrupamento de processos, b) identificação e listagem de processos
julgados definitivamente pela Suprema Corte e pelas Altas Cortes, c) uso
de moderna tecnologia de informação no arquivamento e gerenciamento
dos processos, d) aumento no número de cargos de juízes e funcionários
da Justiça, e) simplificação dos procedimentos civil e criminal, f) supressão
de leis arcaicas, g) adoção de formas alternativas de solução de litígios, h)
transparência e responsabilidade na administração através de meios
eletrônicos etc.

5.9 - MAGISTRATURA CORAJOSA


MEHTA (1998:143-144) fala da firmeza dos juízes indianos mesmo
quando as partes interessadas são os poderosos do dia:

Um juiz da Suprema Corte, homem cuja posição e salário


dependiam do governo, teve a coragem de enfrentar a pessoa
mais poderosa da Índia e condenar a primeira-ministra Indira
Gandhi por corrupçãoeleitoral. Durante o julgamento, quando
alvo de todas as pressões imagináveis, de dinheiro a
intimidações, o juiz Sinhua advertiu repetidamente a primeira-
ministra no sentido de que não cometesse perjúrio, e informou a
uma sala apinhada de sicofantas e pessoal de segurança que
ninguém deveria levantar-se quando a primeira-ministra
entrasse.

- Neste tribunal - observou, severamente - as pessoas só se


levantam diante da lei.

Nos anos que se passaram desde o julgamento do juiz Sinhua, o


138

conjunto de pressões exercidas pela sociedade indiana


transformou lentamente a política da Índia - e os resultados estã
começando a aparecer.

Hoje, a Suprema Corte condena por corrupção líderes de todos


os quadrantes do aspecto político - primeiros-ministros,
ministros de Estado, líderes de todos os grandes partidos
políticos.

6 – A JUSTIÇA HINDU
CHRÉTIEN-VERNICOS (Internet) fala sobre a Justiça nas castas (e
subcastas) de forma extremamente clara:

Em cada localidade, cada casta tem seus próprios costumes, seu


próprio Tribunal, o panchayat, ou assembléia local. Essa
assembléia resolve todas as dificuldades internas da casta,
apoiando-se sobre a opinião da castas toda da localidade; julga
conforme o dharma adaptado às necessidades locais da casta;
intervém em todas as matérias religiosas e também jurídicas,
aplicando sanções, que podem ir do desprezo até a exclusão da
casta.

ANNOUSSAMY (2001:11) também é claro no sentido de que:

...praticamente cada casta tem seu costume.

Tentar adentrar aspectos processuais fica muito difícil, pois, como


visto na exposição da ilustrada autora sobre o Direito hindu, os costumes
locais de cada casta (ou subcasca) prevalecem sobre o próprio Dharma
(que são regras mais genéricas).

7 - OS ADVOGADOS
A classe dos advogados é muito prestigiosa, sendo que nela são
recrutados os juízes e notários, não havendo Ministério Público.

GANDHI (1998:37-38) fala da sua advocacia:

Compreendi que a verdadeira função de um advogado é unir


partes desunidas. A lição ficou tão indelevelmente impressa em
mim, que ocupei grande parte dos meus vinte anos de prática
advocatícia promovendo compromissos particulares de centenas
de casos. Nada perdi com isso - nem mesmo dinheiro, e com toda
a certeza, não minha alma.

Mais adiante (pp. 59-61) diz:

Nunca apelei à mentira em minha profissão, e dedicava grande


parte da minha atividade advocatícia ao serviço público,
cobrando apenas as despesas de custo, quando eu mesmo não as
pagava... No tempo de estudante, eu ouvia dizer que advocacia
era profissão de mentiroso. Mas essa idéia não me influenciou,
uma vez que eu não tinha intenção de ficar famoso nem de
ganhar dinheiro com a mentira... Meus princípios foram postos à
139

prova muitas vezes na África do Sul. Eu sabia que em geral meus


adversários orientavam suas testemunhas. Assim, bastava-me
incentivar o meu cliente ou suas testemunhas a mentir para
termos ganho de causa, mas sempre resisti a essa tentação.
Lembro-me apenas de uma ocasião, quando, depois de ganhar
um caso, suspeitei que meu cliente havia me enganado. No meu
íntimo, eu sempre queria vencer e só queria vencer se a causa do
meu cliente fosse justa. Ao fixar o preço, não lembro de tê-lo
condicionado uma vez sequer ao ganho da causa. Quer meu
cliente vencesse ou fosse derrotado, eu não esperava nem mais
nem menos do que me era devido.

A todo cliente novo eu alertava já no início que não assumiria um


caso falso nem que instruiria as testemunhas; com isso, criei
uma reputação tal, que ninguém se apresentava com um caso
falso. Tanto assim que alguns clientes meus encaminhavam suas
causas limpas para mim e as duvidosas para outros escritórios
de advocacia.

Durante meu trabalho profissional, também era hábito meu


nunca ocultar minha ignorância aos clientes ou aos colegas.
Quando estava confuso, recomendava ao cliente que consultasse
outro advogado. Essa franqueza me granjeou uma afeição e
confiança ilimitadas de meus clientes. Eles se dispunham a pagar
a taxa sempre que se fizesse necessária uma consulta a um
advogado mais experiente. Esse afeto e confiança me foram de
grande utilidade em minha atividade pública.

Em http://www.cesa.org.br/Valor%202.9.02%20Liberaliza%E7%
E3o.doc lê-se:

Segunda-feira, 2 de setembro de 2002


Ano 3
Nº 585
Legislação & Tributos

Mercado

Mais de oito mil advogados indianos saíram às ruas para


protestar contra abertura

Liberalização de serviços jurídicos é tema polêmico em vários


países

Daniela CHRISTÓVÃO

São Paulo

A discussão sobre a atuação de escritórios estrangeiros em


território nacional não ocorre somente no Brasil. A questão é
invocada em vários países e a liberação da atuação dos
consultores já surtiu efeitos em mercados como o da França e
Índia. Sendo o advogado um profissional essencial à
140

administração da Justiça, uma série de regras - muitas delas


constitucionais (como ocorre no Brasil) - deve ser observada
para a atuação no mercado, sob pena de exercício ilegal da
profissão.

São poucos os países que não exigem do advogado um exame de


admissão em um órgão regulador da profissão. Mas, por outro
lado, é inexorável a queda de barreiras na prestação de serviços
em uma economia globalizada, principalmente após as
negociações que resultarão no Acordo Geral sobre Serviços
Relacionados ao Comércio - mais conhecido por sua sigla em
inglês GATS.

O exemplo mais radical de não aceitação de advogados


estrangeiros atuando localmente é o da Índia, que, assim como a
Inglaterra e os Estados Unidos, tem o seu sistema jurídico
construído sob a tradição da commom law. Em 24 de abril de
2000, mais de oito mil advogados indianos saíram em passeata
pelas ruas de Nova Delhi em protesto contra uma proposta da
Comissão de Direito da Índia que introduzia o regime de
consultor em Direito estrangeiro no país.

Assim como no Brasil, cresce na Índia a pressão de outras


nações para que o país assuma compromissos referentes ao
setor jurídico durante as negociações do GATS. Atualmente,
advogados e governo indianos estão estudando maneiras de
assegurar que os profissionais locais tenham uma perspectiva
real de atuação global antes de se assumir o acesso de
escritórios de advocacia estrangeiros ao mercado indiano. A
multidisciplinariedade também é proibida pela Ordem dos
Advogados da Índia.

8 - O ENSINO JURÍDICO
BONNAN, através da Internet, respondendo à indagação do autor
desta monografia, esclarece:

Existem Escolas de Direito (Law College) em todas as grandes


cidades que têm universidades, Escolas essas que são mais ou
menos independentes das universidades, inclusive em
Pondichéry, e que têm um curso até o nivel de PhD. Sua
reputação varia de uma para outra, sendo a de Bangalore a mais
conceituada. Formam-se nessas escolas sobretudo advogados. O
ensino versa sobretudo sobre a common law, mas também sobre
o Direito Internacional.

ANNOUSSAMY (2001:25) fala da enorme quantidade de revistas


jurídicas de iniciativa privada versando sobre a jurisprudência das 22
Cortes Superiores estaduais além da Suprema Corte, esclarecendo (p. 26)
que os estudos doutrinários são insuficientes.
141

9 – OS JURISTAS MAIS IMPORTANTES

9.1 - BHIM RAO AMBEDKAR (1891-1956)

JAFFRELOT (2000:19-23) resume a biografia de Ambedkar (primeiro


líder "intocável" que a Índia conheceu) assim:

Bhim Rao Ambedkar nasceu em 14 de abril de 1891 em Mhow,


uma cidade com guarnição militar próxima de Indora - a capital
de um principado de mesmo nome que será incorporado à
província de Madhya Bharat (no atual Madhya Pradesh) após a
independência. Sua família vinha todavia de Maharashtra como
numerosos habitantes do Estado de Indora cuja dinastia era de
casta maratha, casta dominante em Maharashtra. Sua terra
natal, em Konkan (a costa da região marata), chamava-se
Ambavade e o verdadeiro nome de Ambedkar, Amabavadekar,
vem daí. Mudou-o para Ambedkar em 1900 quando seu professor
brâmane, impressionado por sua qualidades infantis, decidiu dar
a ele seu sobrenome.

Ambedkar foi assim durante bastante tempo preservado das


discriminações que afligiam os "intocáveis" pelo fato das
condições peculiares da vida na guarnição militar onde seu pai
trabalhava, soldado do Exército da Índia britânica. Pouco a
pouco, no entanto, conheceu a realidade. Criança, espantava-se
quando algum barbeiro se recusava a cortar-lhe os cabelos.
Sobretudo, sofreu uma humilhação que não esqueceu jamais, um
dia em que se preparava para, com seu irmão e sua irmã,
receber o pai. Chegando ao destino, as três crianças foram
interrogados pelo chefe da estação que, verificando sua casta,
"recuou cinco passos"; quanto aos condutores de "tonga"
(charrete a cavalo), nenhum deles se dispôs a levá-los ao
vilarejo de seu pai. Um deles aceitou que eles fossem com a
condição de eles mesmos conduzirem o veículo. Por ocasião de
uma parada, o animal alimentou-se num albergue, enquanto que
as crianças, obrigadas a permanecer do lado de fora, ficaram
reduzidas a beber a água suja de um riacho. A tomada de
consciência de Ambedkar é então mais radical porque ele é
dotado de uma viva inteligência.

Em 1907, essas qualidades intelectuais lhe permitem conseguir


sua matrícula (equivalente ao "baccalauréat" francês) na
Elphinstone High School (equivalente ao liceu francês) de
Bombaim onde seu pai veio a se instalar. Inscreveu-se em
seguida na universidade, no prestigioso Elphinstone College,
graças a uma bolsa, e aí se gradua como "Bachelor of Arts" (B.
A.), equivalente à licenciatura francesa, em 1912. Obtém então
uma bolda de estudos nos estados Unidos, chance que nenhum
homem de sua condição jamais tinha conseguido. Faz um
mestrado e depois parte em 1916 para Londres, onde é admitido
em Gray Inn para estudar Direito e na "London School os
Economics" para prosseguir seus estudos de Economia. Deve
142

totavia retornar à Índia - onde chega em agosto de 1917 -


porque sua bolsa tinha expirado.

O sucesso que conheceu nos seus estudos o destacou frente aos


britânicos, que viam nele um representante do poder dos
"intocáveis". Foi inquirido em 1919 pelo Southborough
Committee que o governo britânico suspendeu das funções para
revcisar os critérios do censo eleitoral e permitir assim a um
número maior de indianos votar para renovação das assembléias
políticas das províncias e de Nova Delhi. [...] Ambedkar propôs a
criação de um eleitorado separado e de vagas reservadas para os
"intocáveis".

Em 1920, lança um novo jornal, o Mook Nayak (o líder dos sem-


voz) com o apoio financeiro do marajá de Kolhapur, Shahu
Maharaj, que não é outro senão o descendente de Shivaji. Não
hesita todavia a retomar seus estudos tão logo esse príncipe lhe
fornece o apoio financeiro necessário para retornar à inglaterra.
Em Londres, obtém o título de "master of science" em 1921,
depois, no ano seguinte, apresenta sua tese intitulada "The
Problem os the Rupee".

Instala-se em seguida em Bombaim como advogado, mas sua


situação de "intocável" afasta os clientes. Profundamente
magoado, decide consagrar o esssencial do seu tempo a lutar
contra o sistema de castas. É assim que cria, em julho de 1924, a
"Bahishikt Hitakarini Sabba" (Associação das Vítimas do
Ostracismo) que ele incentivará até 1928. No ano anterior é
nomeado para o Conselho Legislativo da presidência de Bombaim
pelos britânicos. Ambedkar se esforça, nessa época, para obter o
acesso dos "intocáveis" aos poços de água (esse será o objetivo
da mnobilização de Mahad, na costa de Konkan, em 1927) [...]

Ambedkar cria seu primeiro partido político em 1936, o


"Independent Labour Party", com vistas às eleições de 1937.
[...] O IPL apresenta candidatos apenas para a PresiD~encia de
Bombaim, onde alcança um grande sucesso, sendo Ambedkar
eleito junto com outros nove companheiros de partido. [...]
Ambedkar entra para "Defense Advisory Committee" em 1941
antes de ser nomeado Ministro do Trabalho em 1942.

Ambedkar combina essa atividade ministerial com o


relançamento de sua estratégia partidária ao fundar um novo
partido em 1942, a "Scheduled Castes Federation". [...]
Jawaharlal Nehru o nomeia Ministro da Justiça no seu governo
em 3 de agosto de 1947. Em 29 de agosto é encarregado de
presidir a comissão encarregada da redação da Constituição (o
"Drafting Committee") que absorve o essencial de suas energias
de 1947 a 1950.

Se a Constituição traça então os quadros propícios à reforma


social, notadamente abolindo a "intocabilidade" e proibindo toda
discriminação baseada nas castas, a raça e o sexo, Ambedkar
quer atacar os males da sociedade indiana de forma mais
143

concreta. Assim ele lança, desde janeiro de 1950, uma campanha


para a revisão do "Hindu Code Bill".

9.2 - P. N. BHAGWATI
No endereço http://reseauvoltaire.net/article8086.html encontra-se
um resumido curriculum do importante jurista indiano.

O juiz P.N. Bhagwati era o mais jovem juiz da história da Índia


quando foi nomeado juiz-chefe da Alta Corte do Estado de
Gujaratm, depois, posteriormente, juiz-chefe da suprema Corte
da Índia. Conservou o cargo de juiz-chefe da Suprema Corte da
Índia até sua aposentadoria, em 1986.

Desde sua aposentadoria, ele se dedica muito decididamente a


promover a justiça social na Índia e através do mundo. Atuou
como perito-conselheiro junto aos governos do Nepal, da
Mongólia e do Camboja para elaboração de suas Constituições.
Contribui igualmente para a justiça social por intermédio do
Commonwealth, da ONU, da Organização Internacional do
trabalho (OIT) e do PNUD.

Na ONU, foi presidente do Congresso Mundial dos Direitos


Humanos, membro da Comissão dos Direitos Humanos, do
Comité de Peritos sobre a aplicação das Convenções da OIT e da
Corte Permanente de Arbitragem em Haia bem como presidente
do Conselho Consultivo da CIJ em Genebra. Bhagwati igualmente
assegurou a presidência do Grupo de eminentes personalidades
encarregadas pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os
refugiados de estudar as questões relativas aos refugiados.

Em http://www.ajuris.org.br/fmundialj/preview/artigo26.html lê-
se sobre Bhagwati:

[...] ex-presidente da Corte Suprema da Índia e atual presidente


do Conselho de Direitos Humanos da ONU, Dr. Bhagwati. Sob a
liderança do mesmo, desenvolveu-se significativa jurisprudência
de Direitos Humanos, em seu país, a partir das decisões em
ações civis públicas que beneficiaram grandes setores de
excluídos. Destaca-se o conferencista também na área de
direitos das mulheres, tendo sido o principal apoiador de três
oficinas judiciais para mulheres-juízas e que tratavam da
aplicação das normas do Direito internacional dos Direitos
Humanos das mulheres, no âmbito doméstico. Presidiu, por
outro lado, o Tribunal Popular de Violência contra as Mulheres,
durante o Congresso de Direitos Humanos, na Áustria.
Preocupado com o acesso à Justiça, pelas classes
desfavorecidas, ampliou a doutrina da legitimidade de ação,
perante a Suprema Corte e construiu um programa de
assistência legal aos necessitados. Tem sido um defensor da
causa dos trabalhadores, a ponto de suas decisões sobre
trabalho informal e infantil terem resultado em leis posteriores
144

ou projetos de governo que melhoraram as condições sociais e


econômicas daqueles.

9.3 - DAVID ANNOUSSAMY

Nasceu em Pondichéry, Índia, em 21-10-1927, filho de uma família


tamul, recebendo educação escolar francesa e educação familiar e social
inteiramente tamul.

Conquistou os seguintes títulos universitários: licenciatura em


Letras e doutorado em Direito.

Ocupou os seguintes cargos: juiz e professor de Direito.

Realizou a transição do serviço judiciário de Pondichéry do sistema


francês para o sistema anglo-indiano.

Publicou numerosos artigos e os seguintes livros: Perspectives


démographiques de l’Union Indienne, Le droit indien en marche, French
legal system, The language riddle, Judicial training (em colaboração) e
Moji kalviyil poudia nôkou (este último em tamul).

Pertence às sociedades científicas: Indian Law Institute, Académie


internationale de droit comparé e société de droit comparé de Pondichéry
(sendo presidente desta última).

9.4 - HARI SINGH GOUR

ANNOUSSAMY (2001:51) fornece os poucos dados que conseguimos


apurar sobre esse importante jurista:

No domínio do estatuto pessoal hindu, a codificação deu um


passo adiante. Um jurista indiano, H. S. Gour, tinha preparado e
publicado no início do século um projeto de Código de Direito
hindu em inglês com 384 artigos descrevendo o Direito hindu em
vigor nessa época.

10 - O MINISTÉRIO DO DIREITO E DA JUSTIÇA

No seu site http://lawmin.nic.in o Ministério do Direito e da Justiça


presta informações importantes (em inglês).

11 - O MINISTÉRIO PÚBLICO

BONNAN, respondo à indagação do autor desta monografia, através


da Internet, informa:

Não existe Ministério Público [na Índia].


145

12 - ESCOLA DA MAGISTRATURA

BONNAN, respondendo à indagação do autor desta monografia,


através da Internet, esclarece:

Não existe [na Índia] Escola da Magistratura.

13 - NOTARIATO

BONNAN, respondendo à indagação do autor desta monografia,


através da Internet, esclarece que os notários são recrutados na classe dos
advogados:

Os advogados têm também as funções de notariato.

14 - A ASSISTÊNCIA JUDICIÁRIA

ANNOUSSAMY (2001:83-84) informa que, antes da independência da


Índia a Justiça era considerada cara, resumindo-se a assistência judiciária,
na área cível, à isenção de selos para os considerados pobres, e, na área
penal, à nomeação gratuita de defensor.

Com a independência é que realmente se fez algo de mais


consistente, principalmente graças à colaboração dos advogados e
professores de Direito, estes últimos através da participação de alunos nas
chamadas clínicas de ajuda legal.

Leis foram editadas para fortalecer a assistência judiciária, estando


em vigor atualmente a de 29 de outubro de 1994, que adquiriu vigência em
1997, além de decretos regulamentadores.

O que prevalece no momento é uma legislação que concede ampla


assistência aos carentes que litigam em Juízo, englobando honorários
advocatícios além da isenção do pagamento de selos, sendo essas
despesas todas adiantadas pelos Escritórios de Ajuda Legal se se certifica
da aparente razão do mérito do processo que será apresentado em Juízo (o
que significa dizer que os demandantes de má-fé nunca conseguem
gratuidade).

No entanto, mesmo sem necessidade de serem pobres, muitas


pessoas conseguem gratuidade: são as mulheres, crianças, operários,
populações tribais, párias, vítimas de desastres, inválidos, doentes
mentais, mendigos, vítimas de exploração sexual, presidiários ou
submetidos a medidas de reeducação.

O solicitante de gratuidade terá seu pedido deferido sem


necessidade de provar pobreza, bastando apenas sua afirmação sob
juramento e a gratuidade é deferida se a autoridade não tiver motivo legal
para indeferí-la.
146

Os Escritórios de Ajuda Legal têm também outras funções: informar


os beneficiários sobre as leis sociais, formar voluntários para divulgação
da cultura da conciliação, favorecer as clínicas de ajuda legal nas
faculdades de Direito, desenvolver a assistência judiciária nas vilas e
subúrbios, incentivar as instituições filantrópicas a se consagrarem à
assistência judiciária, avaliar o trabalho realizado e promover pesquisa na
área de assistência judiciária.

CONCLUSÃO
No endereço http://asiep.free.fr/inde/droit-indien-en-marche.html
encontramos um texto de Roland BOUCHET sobre o Direito e a Justiça
indianos, do qual extraímos um trecho, altamente elucidativo, esclarecedor
inclusive de como ocorreu a evolução do Direito e da Justiça hindus para o
Direito e a Justiça modernos:

Os Códigos antigos têm por fundamento o dharma, conjunto de


regras morais que regem o gênero humano e que têm por
objetivo a preservação de uma sociedade fortemente
hierarquizada. Essas regras, que não são destinadas a toda a
população, mas sim a uma determinada elite, são muito
estruturadas e apresentam uma grande lógica nos princípios e
uma grande flexibilidade na execução, flexibilidade que encontra
justificativa no costume.

A presença colonizadora (inglesa) serviu de ponte entre o Direito


hindu e o Direito moderno. Com efeito, a potência colonial tomou
para si a incumbência de administrar a Justiça em um país que
ela conhecia pouco. Essa potência quis codificar as regras
existentes, os princípios e os costumes, e os letrados indianos
consultados pertenciam evidentemente às castas que tinham
acesso aos textos sânscritos e cujo interesse era na manutenção
de seus privilégios. O desconhecimento da realidade do país pelo
colonizador conduziu-o a estender, por exemplo, esse novo
Código ao sul da Índia, região cujo Direito era costumeiro e não
hindu. Apesar de erros desse tipo, o período colonial deixou
traços naquilo que seria o sistema judiciário atual, como a
possibilidade de ajuizar nos tribunais ações contra o Estado e a
proeminência, na legislação, da pessoa humana sobre as
hierarquias sociais. A Constituição da União Indiana, de qualquer
forma, concretizou esse movimento marcando uma aspiração a
uma transformação social rumo ao reinado da igualdade de
todos. Essa Constituição, uma das mais longas do mundo e que
sofreu 80 emendas em meio século, inspirou-se na Declaração
dos Direitos do Homem, da qual fez sua pedra angular.

Nada é tão simples na Índia e lá, mais que alhures, um texto, por
mais prestigioso que seja, pode mudar a realidade social
milenar. Desde a independência, pode-se observar uma tensão
na vida judiciária do país entre um Direito abolido, que a
população continua a seguir e um outro Direito redigido pelos
mandatários do povo. Além disso o crescimento da força do
147

poder dos Estados da união e a independência afirmada da


magistratura, notadamente das Altas Cortes e da Suprema Corte,
deram a ela um papel que os próprios constituintes jamais
imaginariam. A inconstitucionalidade de uma lei pode ser
alegada diante de qualquer jurisdição por ocasião dos processos
e é a Suprema Corte quem decide a questão em última instância,
apoiada nos direitos fundamentais inscritos na Constituição.
Assiste-se quase, em determinados casos, a uma
"judiciarização" da vida política.

O que a Índia tem a ensinar em termos jurídicos é justamente sua


luta, ainda não totalmente vitoriosa, pela prevalência do Estado de Direito,
contra a corrupção e pela igualdade social, para isso optando pela
supressão de alguns formalismos processuais em casos como os de afronta
aos direitos fundamentais das pessoas e quando ocorrentes outras
irregularidades graves, luta essa assumida por um Judiciário corajoso e
decidido a ocupar seu lugar na vida do país.

APÊNDICE
1 - A CONSTITUIÇÃO DA ÍNDIA
É composta de 295 artigos, agrupados em duas partes, e oito
Anexos, sendo inspirada na conciliação de tendências da Inglaterra,
Estados Unidos, Canadá e Irlanda, conforme diz ANNOUSSAMY (2001:23).

Trata-se da mais extensa Constituição do mundo, conforme, aliás,


afirma ANNOUSSAMY (2001:20).

Uma peculiaridade interessante a ser lembrada é de que, como


certifica ANNOUSSAMY (2001:20), os Estados e Territórios não estão
autorizados a elaborar sua própria Constituição.

Transcreveremos apenas o que é mais diretamente ligado aos temas


deste estudo, em tradução do francês da edição de 23 de março de 1951,
nº 1.454 de La Documentation Française.

CONSTITUIÇÃO DA ÍNDIA

(atualizada até 23 de março de 1951)

Preâmbulo

Nós, povo da Índia, solenemente, tendo resolvido fazer da Índia uma


República democrática soberana e garantir a todos os seus cidadãos:
- justiça social, econômica e política,
- liberdade de pensamento, de expressão, de crença, de religião e de
culto,
- igualdade de de status e de acesso a todas as carreiras, e de promover
entre todos:
- a fraternidade garantindo a dignidade do indivíduo e a unidade da
Nação,

Em nossa Assembléia Constituinte, neste vinte e seis de novembro de


1949, adotamos, promulgamos e nos damos a presente Constituição.
148

[...]

Terceira Parte

Direitos Fundamentais

Generalidades

Definição

Artigo 12 Definição

Nesta parte, a menos que o contexto afirme de outra maneira, a


expressão “Estado” compreende o Governo e o Parlamento da Índia, e o
Governo e o Legislativo de cada Estado, bem assim todas as
autoridades, locais ou outras, dentro do território da Índia ou sob o
controle do Governo da Índia.

Artigo 13 Leis incompatíveis com estes direitos fundamentais

(1) Todas as leis em vigor no território da Índia, imediatamente antes da


entrada em vigor da presente Constituição, no caso de serem
incompatíveis com as disposições desta Parte, serão anuladas na medida
dessa incompatibilidade.

(2) O Estado não deverá elaborar nenhuma lei suprimindo ou ab-


rogando os direitos conferidos por esta Parte, e toda lei elaborada
contrariamente à presente disposição será nula na medida em que lhe é
contrária.

(3) No presente artigo, a menos que o contexto exija de outra,


(a) a expressão “lei” compreende toda ordenança, decreto, lei de
aplicação, regra, regulamento, notificação, costume ou uso com força de
lei no território da Índia;

(b) a expressão “leis em vigor” compreende as leis votadas ou criadas


por um órgão legislativo ou qualquer outra autoridade competente no
território da Índia, antes da entrada em vigor da presente Constituição,
e que não tenham sido ab rogadas anteriormente, não obstante o fato
de que uma tal lei ou parte dessa lei não estaria em vigor em todo ou
parte do território.

Direito de igualdade

Artigo 14 Igualdade perante a lei

O Estado não recusará a ninguém a igualdade perante a lei ou proteção


igual das leis no território da Índia.

Artigo 15 Proibição de estabelecer discriminação em razão de


religião, raça, casta ou sexo.
149

(1) O Estado não fará nenhuma discriminação entre os cidadãos,


quaisquer que sejam eles, por razões fundadas unicamente na religião,
raça, casta e sexo, local de nascimento ou qualquer um desses
elementos.

(2) Nenhum cidadão será, por razões fundadas unicamente sobre a


religião, raça, casta, sexo, local de nascimento ou qualquer um desses
elementos restringido de qualquer forma ou submetido a alguma
obrigação, restrição ou condição no que diz respeito:

(a) acesso às lojas, restaurantes públicos, hotéis e locais de


divertimento público; ou,

(b) uso de poço, tanque, banhos coletivos, estradas e locais públicos


mantidos na totalidade ou parcialmente com recursos do Estado ou
destinados a uso público.

(3) Nada no presente artigo impedirá o Estado de estabelecer


disposições especiais referentemente às mulheres e às crianças.

Artigo 16 Igualdade de acesso aos empregos públicos

(1) Todos os cidadãos terão o mesmo direito de acesso aos empregos e


cargos nos serviços do Estado.

(2) Nenhum cidadão será, por razões fundadas unicamente na religião,


raça, casta, sexo, ascendência, lugar de nascimento ou de residência, ou
sobre algum desses elementos, excluído de emprego ou cargo nos
serviços do Estado.

(3) Nada no presente artigo impedirá o Parlamento de estabelecer


alguma lei que prescreva, quanto aos empregos ou cargos referentes a
algum Estado especificado no Anexo I ou de toda autoridade local ou
outra situada no seu território, condições de residência nesse Estado.

(4) Nada no presente artigo impedirá o Estado de elaborar disposição


para reservar nomeações ou cargos a qualquer classe desprivilegiada de
cidadãos que a critério do Estado, não esteja representado de forma
adequada nesses serviços.

(5) Nada no presente artigo afetará a aplicação de todas as leis que


prevejam que o titular de um ofício que se relacione aos negócios de
uma instituição religiosa ou confessional qualquer ou um membro
qualquer da direção de uma tal instituição deva ser pessoa que professe
uma religião determinada ou pertença a uma confissão particular.

Artigo 17 Abolição da "intocabilidade"

A "intocabilidade" fica abolida e é proibido observá-la sob qualquer


forma que seja. O fato de limitar alguém de qualquer forma que seja por
razões de “intocabilidade” constituirá delito que será punido conforme a
lei.
150

Artigo 18 Abolição dos títulos

(1) Nenhum título, afora as distinções militares ou acadêmicas, será


conferido pelo Estado.

(2) Nenhum cidadão da Índia deve aceitar títulos de Estado


estrangeiro, qualquer que seja.

(3) Nenhum não-cidadão da Índia deve, enquanto titular de emprego


estatal, que implique proveito ou responsabilidade, aceitar, sem o
consentimento do Presidente, título de Estado estrangeiro, qualquer que
seja.

(4) Nenhum titular de emprego estatal que implique proveito ou


responsabilidade deve aceitar, sem o consentimento do Presidente,
algum presente, emolumento, título ou ofício de qualquer sorte que seja
da parte ou a serviço de algum Estado estrangeiro.

Direito de liberdade

Artigo 19 Proteção de determinados direitos referentes à


liberdade de expressão, etc.

(1) Todos os cidadãos terão direito a:


(a) exprimir-se livremente;
(b) reunir-se pacificamente e sem armas;
(c) formar associações ou uniões;
(d) circular livremente através de todo o território da Índia;
(e) residir ou estabelecer-se em toda a parte do território da Índia;
(f) adquirir e possuir bens e deles dispor; e
(g) praticar qualquer profissão, ou exercer qualquer ocupação, comércio
ou negócio.

(2) Nada no sub-parágrafo (a) da cláusula (1) do presente artigo afetará


a aplicação de leis existentes, ou impedirá o Estado de elaborar alguma
lei, no que diz respeito à calúnia, escândalo, difamação, sedição ou
qualquer outro meio ofensivo à decência ou à moralidade, ou prejudicial
à segurança do Estado, ou tendente a eliminá-la.

(3) Nada no sub-parágrafo (2) da referida cláusula afetará a aplicação


das leis existentes, ou impedirá o Estado de elaborar alguma lei que
imponha, no interesse da ordem pública, restrições ao exercício do
direito conferido pelo referido sub-parágrafo.

(4) Nada no sub-parágrafo (c) da referida cláusula afetará a aplicação


de leis existentes ou impedirá o Estado de elaborar qualquer lei que
imponha, no interesse geral, restrições ao exercício do direito conferido
pelo referido sub-parágrafo.

(5) Nada nos sub-parágrafos (d), (e) e (f) da referida cláusula afetará a
aplicação de qualquer lei existente, ou impedirá o Estado de elaborar
151

alguma lei que imponha restrições ao exercício de direitos conferidos


pelos referidos sub-parágrafos, seja no interesse geral, seja em vista da
proteção dos interesses de toda tribo reconhecida como anexa.

(6) Nada no sub-parágrafo (g) da referida cláusula afetará a aplicação


de lei existente, ou impedirá o Estado de elaborar lei impondo, no
interesse da ordem, da moralidade e da saúde públicas, restrições ao
exercício do direito conferido pelo referido sub-parágrafo e em particular
toda lei que prescreva ou dê às autoridades poder para prescrever as
qualificações profissionais ou técnicas necessárias ao exercício de
qualquer profissão, ocupação, comércio ou negócio.

Artigo 20 Proteção relativa à condenação dos delitos

(1) Ninguém será inculpado por um delito qualquer se não violou uma
lei em vigor no momento em que cometeu o ato incriminado, nem será
passível de pena mais grave que aquela que poderia ter sido infligida em
virtude da lei no momento em que o delito foi cometido.

(2) Ninguém será processado e punido mais de uma vez por um mesmo
delito.

(3) Nenhuma pessoa acusada de um delito qualquer será obrigada a


falar contra si própria.

Artigo 21 Proteção da vida e da liberdade pessoal

Ninguém será privado da vida ou de sua liberdade pessoal a não ser


conforme o processo estabelecido pela lei.

Artigo 22 Proteção contra a prisão e a detenção em


determinados casos

(1) Toda pessoa presa deverá ser informada, desde que possível, dos
motivos dessa prisão e não poderá ter recusado seu direito de consultar
um advogado de sua escolha e de lhe confiar sua defesa.

(2) Toda pessoa presa ou detida será conduzida diante de um


magistrado mais próximo no prazo de vinte e quatro horas, não incluído
o tempo necessário para viagem do local da prisão ao Tribunal, e
ninguém será detido além desse prazo sem a aprovação do magistrado.

(3) Nada nas cláusulas (1) e (2) se aplicará:


(a) a alguém que é, na época, um inimigo;
(b) a alguém que seja preso ou detido em virtude de lei que prescreva a
prisão preventiva.

(4) Nenhuma lei que prescreva a prisão preventiva deve autorizar no


prazo superior a três meses, a menos que:

(a) um comitê consultivo, composto de pessoas que são ou foram


qualificadas pelos cargos de juiz de alguma alta corte, tenha significado,
antes do término do referido período de três meses, e existem, segundo
seu entendimento, razões justificativas dessa prisão; todavia, nada
152

nessa sub-cláusula deve autorizar uma prisão superior ao período


máximo prescrito pelas leis elaboradas pelo Parlamento relacionadas
com a sub-cláusula (b) da cláusula (7); ou pelo menos que essa pessoa
seja detida em conformidade com as disposições de lei elaborada pelo
Parlamento com relação às sub-cláusulas (a) e (b) da cláusula (7).

(5) Quando uma pessoa é detida em cumprimento de ordem


determinada conforme lei que prescreve a prisão preventiva, a
autoridade que emitiu essa ordem deve, desde que possível, informar o
preso dos motivos dessa ordem e deixar-lhe, o mais cedo possível, a
possibilidade de apresentar suas objeções a essa ordem.

(6) Nada na cláusula (5) obrigará a autoridade que expediu a ordem


acima referida a revelar fatos que ela considere contrários ao interesse
público pela revelação.

(7) O Parlamento pode prescrever através de lei:


(a) as circunstâncias nas quais, e a ou as categorias de delitos pelos
quais uma pessoa poderá ser detida mais de três meses em
conformidade à lei que preveja a prisão preventiva com dispensa de
parecer do Comitê Consultivo
mencionado na sub-cláusula (a) da cláusula (4);
(b) o prazo máximo de prisão para a ou as categorias previstas pelas
leis que prescrevam a prisão preventiva; e
(c) o procedimento que será seguido pelo Comitê Consultivo no exame
decorrente da sub-cláusula (a) da cláusula (4).

Direito de não ser explorado

Artigo 23 Proibição do tráfico de seres humanos e do trabalho


forçado

(1) O tráfico de seres humanos, o trabalho forçado e outras formas


similares de trabalho forçado são proibidos e todo descumprimento a
essa disposição constituirão delito punível conforme a lei.

(2) Nada neste artigo impedirá o Estado de impor o serviço obrigatório


por razões de interesse público. Impondo esse serviço o Estado não fará
nenhuma discriminação de raça, religião, casta ou classe.

Artigo 24 Proibição do emprego de crianças nas usinas, etc.

Nenhuma criança de menos de quatorze anos poderá ser empregada em


trabalho em usina ou mina, nem em nenhuma outra ocupação perigosa.

Direito de liberdade religiosa

Artigo 25 Liberdade de consciência e liberdade de profissão, de


prática e de propagação da religião

(1) Sob reserva da ordem, da moralidade e da saúde públicas, e outras


disposições desta Parte, todas as pessoas têm os mesmos direitos à
liberdade de consciência, e o direito de professar, praticar e propagar
livremente a religião.
153

(2) Nada no presente artigo afetará a aplicação de lei existente ou


impedirá o Estado de elaborar lei:
(a) regulamentando ou restringindo toda a atividade econômica,
financeira, política, ou outra atividade secular ligada a qualquer prática
religiosa;
(b) tendo em vista o bem-estar social ou a reforma social, a abertura
das instituições religiosas hindus de caráter público a toda classe ou
categoria de hindus.

Explicação I: O porto do "kirpân" será considerado como incluído na


profissão da religião "sikh".

Explicação II: Na sub-classe (b) da cláusula (2), o termo Hindu se


entende como compreendendo os adeptos das religiões "sikh", jaina e
budista, e a expressão “instituições hindus” se entende da mesma
forma.

Artigo 26 Liberdade de administrar as questões religiosas, e


possuir, adquirir e administrar bens com finalidades religiosas ou
caritativas

Sob reserva da ordem, moralidade e saúde públicas, toda confissão


religiosas ou toda categoria de cidadãos a elas pertencentes têm o
direito:
(a) de estabelecer e manter instituições com finalidades religiosas ou
caritativas;
(b) de administrar seus próprios negócios em matéria de religião;
(c) de possuir e adquirir bens móveis e imóveis; e
(d) de administrar esses bens conforme a lei.

Artigo 27 Liberdade quanto aos impostos que servem a uma


religião particular

Ninguém pode ser obrigado a pagar um imposto cujo montante seja


especialmente destinado a cobrir as despesas de propagação ou
sustento de alguma religião ou confissão religiosa particular.

Artigo 28 Liberdade de assistência à instrução religiosa ou culto


em determinados estabelecimentos de educação

(1) Nenhuma instrução religiosa será dada pelo Estado em


estabelecimento de educação sustentado inteiramente pelas finanças do
Estado.

(2) Nada nesta cláusula se aplicará aos estabelecimentos de educação


administrados pelo Estado, mas fundados graças a alguma dotação ou
legado que exijam que a instrução religiosa seja dada no
estabelecimento em questão.

(3) Nenhuma pessoa que frequente um estabelecimento de educação


reconhecido pelo Estado ou que receba a ajuda financeira do Estado
será obrigado a tomar parte em algum ensino religioso ou assistir a um
culto religioso qualquer dado nesse estabelecimento, ou em alguma
154

dependência desse estabelecimento, a menos que o responsável por


essa pessoa, se se trata de um menor para tanto tenha dado o seu
consentimento.

Artigo 29 Proteção dos interesses das minorias

(1) Toda categoria de cidadãos residentes no território da Índia ou parte


dela, e que tenha uma língua, uma escrita e uma cultura particulares
terá o direito de conservá-las.

(2) Nenhum cidadão pode ter recusada em um estabelecimento de


educação sua admissão feita pelo Estado, ou que receba ajuda
financeira do Estado, ao motivo de religião, raça, casta, língua ou
qualquer uma dessas circunstâncias.

Artigo 30 Direitos das minorias para estabelecer e administrar


instituições educacionais

(1) Todas as minorias, quaisquer que sejam, à base de religião ou


língua, terão o direito de fundar e administrar estabelecimentos de
educação de sua escolha.

(2) O Estado, concedendo subvenções a estabelecimentos de educação,


não fará nenhuma discriminação em detrimento de qualquer
estabelecimento de educação que seja pelo fato de que seja
administrado por minoria à base de religião ou língua.

Direito de propriedade

Artigo 31 Desapropriação

(1) Ninguém será privado daquilo que é de sua propriedade, a não ser
por força de lei.

(2) Toda propriedade, móvel ou imóvel, inclusive os interesses sobre


essa propriedade, ou em sociedades de que se é proprietário, ou em
empresas comerciais e industriais, somente será levada desapropriada
por interesse público em virtude de lei que autorize tal desapropriação,
com a condição de que a lei preveja o pagamento de compensação para
o proprietário, e fixe o montante da compensação, ou especifique os
princípios em face dos quais e a forma conforme a compensação será
fixada.

(3) As leis do tipo mencionado na cláusula (2), elaboradas pelo


legislativo de um Estado, somente terão efeito se submetidas ao exame
do presidente e tido sua aprovação.

(4) Se um projeto de lei se encontra em andamento por ocasião da


entrada em vigor desta Constituição diante do Legislativo de um Estado,
e, tendo sido examinado pelo Presidente, recebeu sua aprovação, essa
lei assim aprovada não poderá, apesar de toda disposição da presente
Constituição, ser questionada diante de nenhuma jurisdição ao pretexto
de contravir à cláusula (2).
155

(5) Nada na cláusula (2) afetará:


(a) As disposições de lei existente fora das leis mencionadas na cláusula
(6);
(b) As disposições de lei que o Estado poderá criar em seguida:
1º Seja com vista a impor ou receber um imposto ou penalidade;
2º Seja com vista a melhorar a saúde pública ou prevenir um perigo que
ameace vidas e propriedades;
3º Seja em cumprimento de um acordo entre o Governo do Domínio da
Índia ou o Governo da Índia e o Governo de qualquer outro país, ou
passado de forma semelhante, no que diz respeito às propriedades
declaradas legalmente propriedades dos refugiados.

(6) Toda lei do Estado, promulgada a menos de 18 meses antes da


entrada em vigor da presente Constituição, pode, em um prazo de três
meses a partir dessa entrada em vigor, ser submetida ao Presidente
para confirmação e, desde então, se o Presidente a confirmou
publicamente, ela não poderá ser questionada diante de nenhuma
jurisdição sob o argumento de contravir à cláusula (2) do presente
artigo ou que ela contravenha à subseção (2) da seção 299 do Ato do
Governo da Índia de 1935.

Direito de recurso constitucional

Artigo 32 Providência com vista à entrada em vigor dos direitos


conferidos nesta Parte

(1) É assegurado o direito de peticionar à Corte Suprema, através de


um procedimento apropriado, quanto ao cumprimento dos direitos
conferidos nesta Parte.

(2) A corte suprema terá poder de publicar diretivas ou ordens sob a


forma de ordenanças, hábeas corpus, mandados de segurança,
interdições, “quo warranto” e “certiorari”, conforme as necessidades,
para cumprimento dos direitos conferidos nesta Parte.

(3) Sem que sejam derrogados os poderes conferidos à Corte Suprema


pelas cláusulas (1) e (2), o Parlamento pode, através de lei, conceder
poder à qualquer outra Corte para exercer nos limites locais de sua
jurisdição, na totalidade ou em parte, os poderes exercidos pela Corte
Suprema em virtude da cláusula (2) deste artigo.

(4) Os direitos garantidos por este artigo não serão suspensos salvo se
a presente Constituição dispuser de outra forma.

[...]

Artigo 34 Restrições aos direitos conferidos nesta parte em caso


de estado de sítio

Não obstante as disposições contidas nesta Parte, o Parlamento poderá,


através de lei, indenizar as pessoas a serviço da União ou de algum
Estado, ou qualquer outra pessoa, em razão de ato praticado por essa
pessoa, por ocasião da manutenção ou restabelecimento da ordem no
156

território da Índia em que o estado de sítio tenha sido declarado ou


validar as sentenças proferidas, punições infligidas, confisco ordenado,
ou qualquer outro ato executado em virtude do estado de sítio nessa
região.

[...]

Quarta Parte

Princípios diretivos da política do Estado

[...]

Artigo 38 O Estado deverá garantir uma ordem social própria a


promover o bem-estar da população

O Estado procurará promover o bem-estar da população assegurando e


protegendo também tão eficazmente quanto possível uma ordem social
na qual a justiça social, econômica e política inspirará todas as
instituições e a vida nacional.

Artigo 39 Determinados princípios de política em que o Estado


deverá se inspirar

O Estado, na sua política, procurará agir de tal forma que:


(a) que os cidadãos, homens e mulheres indistintamente, têm o direito
aos meios de existência convenientes;
(b) que a propriedade e o controle dos recursos materiais da
coletividade sejam distribuídos de forma a garantir da melhor forma o
bem comum;
(c) que o funcionamento do sistema econômico não leve à concentração
de riquezas e de meios de produção em detrimento do interesse geral;
(d) que o salário seja igual para os trabalhos iguais, para os homens
como para as mulheres;
(e) que não se explore as energias e a saúde dos trabalhadores,
homens, mulheres e crianças de pouca idade, e que os cidadãos não
sejam obrigados pelas necessidades econômicas a exercer trabalhos
incompatíveis com sua idade e suas forças;
(f) que a infância e a juventude sejam protegidas contra a exploração e
contra o abandono moral e material.

Artigo 40

O Estado tomará medidas para organizar os ""panchayats""


[assembléias municipais] de vilas e muni-los de poderes e da autoridade
necessários para seu funcionamento como unidades autônomas.

Artigo 41 Direito ao trabalho, à educação e à assistência pública


em determinados casos

O Estado tomará, dentro dos limites de sua capacidade e de seu


desenvolvimento econômico, providências eficazes para assegurar o
direito ao trabalho, à educação e à assistência pública em casos de
157

desemprego, velhice, doença, enfermidades, e outros casos de


dificuldades injustas.

Artigo 42 Disposição com vista a garantir condições de trabalho


justas e humanas e assistência à maternidade

O Estado tomará providências para garantir condições de trabalho justas


e humanas, e a assistência à maternidade.

Artigo 43 Salário vital etc.

O Estado procurará garantir, através de legislação apropriada ou através


de uma organização econômica, ou por qualquer outro meio, a todos os
trabalhadores da agricultura, da indústria e outros, trabalho, salário
vital, condições de trabalho que assegurem um nível de vida descente e
de plena fruição de lazer e de atividades sociais e culturais, e, em
particular o Estado procurará promover as indústrias domésticas sobre
uma base individual ou cooperativa nas regiões rurais.

Artigo 44 Código Civil uniforme para todos os cidadãos

O Estado procurará garantir aos cidadãos um Código Civil uniforme para


todo o território da Índia.

Artigo 45 Cláusula que prevê a instrução primária gratuita e


obrigatória

O Estado procurará garantir, em um prazo de dez anos a partir da


entrada em vigor desta Constituição, a educação gratuita e obrigatória
de todas as crianças até a idade de quatorze anos.

Artigo 46 Defesa dos interesses das castas e tribos especificadas


nos Anexos e outras categorias mais desfavorecidas do ponto de
vista da educação e da economia

O Estado velará com uma atenção especial pelos interesses de natureza


educativa e econômica das categorias mais frágeis da população, e,
particularmente, aqueles das castas anexas e das tribos anexas, e os
protegerá contra a injustiça social e todas as formas de exploração.

Artigo 47 Dever do Estado de melhorar a qualidade de


alimentação e o nível de vida e melhorar a saúde pública

O Estado considerará como um de seus deveres essenciais elevar a


qualidade da alimentação e o nível de vida da população e melhorar a
saúde pública, e, em particular, o Estado procurará estabelecer a
proibição, salvo para fins médicos, da utilização de bebidas que
provoquem embriagues e drogas prejudiciais à saúde.

[...]

Artigo 50 Separação entre Judiciário e Executivo


158

O Estado tomará providências para separar o Judiciário do Executivo dos


serviços públicos do Estado.

[...]

Quinta Parte

A União

Capítulo I

O Poder Executivo

[...]

Artigo 72 Poder do Presidente em conceder graças etc. e


suspender, perdoar e comutar sentenças em determinados
casos

(1) O Presidente terá o poder de conceder graças, comutações, perdões


ou suspensões ou remissões de penas, ou suspender ou comutar
sentenças que qualquer pessoa condenada por delito:
(a) em todos os casos em que a pena ou a sentença tenha sido
pronunciada por Corte Marcial;
(b) em todos os casos em que a pena ou a sentença se aplique a um
delito previsto em lei relativa ao Executivo da;
(c) em todos os casos de sentença de morte.

(2) Nada na sub-cláusula (a) da cláusula 1 afetará o poder conferido


pela lei aos oficiais das Forças Armadas da Índia de suspender, perdoar
ou comutar sentenças proferidas por Corte Marcial .

(3) Nada na sub-cláusula (c) da cláusula (1) afetará o poder de


suspender, perdoar ou comutar sentença de morte de competência do
Governador ou Râjpramukh de um Estado em virtude de lei em vigor na
época.

[...]

O Procurador Geral da Índia

Artigo 76 Procurador Geral da Índia

(1) O Presidente nomeará para o cargo de Procurador Geral da Índia


pessoa qualificada para as funções de juiz da Suprema Corte.

(2) Incumbirá ao Procurador Geral aconselhar o Governo da Índia nas


questões legais, e cumprir outras funções de caráter legal que poderão
lhe ser submetidas pelo Presidente, e de se desincumbir das funções
que lhes são confiadas por ou em virtude desta Constituição ou de
outras leis em vigor à época.
159

(3) No cumprimento de seus deveres, o Procurador Geral terá o direito


de audiência em todas as Cortes do território da Índia.

(4) O Procurador Geral permanecerá no cargo enquanto assim o


entender o Presidente e receberá a remuneração que este lhe fixar.

[...]

Capítulo II

Parlamento

Generalidades

Artigo 88 Direito dos Ministros e do Procurador Geral em relação


às câmaras

Todo Ministro, bem assim o Procurador Geral da Índia terá o direito de


uso da palavra e de participar também dos trabalhos nas Câmaras,
durante as seções comuns, e em todos os comitês do Parlamento do
qual poderá ser nomeado membro, mas o presente artigo não lhe dá o
direito de voto.

[...]

Procedimento Geral

Artigo 122 Proibição às Cortes de Justiça de se imiscuir nos


trabalhos do Parlamento

(1) A validade de todos os trabalhos do Parlamento não deve ser


questionada sob pretexto de irregularidade no procedimento.

(2) Nenhuma autoridade ou membro do Parlamento a quem poderes são


confiados por ou em virtude da Constituição com vistas a regulamentar
o procedimento ou a tramitação dos processos ou de manter a ordem do
Parlamento será submetida à jurisdição de alguma Corte ao fundamento
do bom ou mau exercício desses poderes.

[...]

Capítulo IV

A Magistratura Federal

Artigo 124 Estabelecimento e constituição da Suprema Corte

(1) Haverá uma Suprema Corte da Índia composta de um Primeiro


Magistrado da Índia e, até que o Parlamento assim legisle, por uma lei
que prescreva um número maior, sete juízes no máximo.

(2) Todos os juízes da Suprema Corte serão nomeados pelo Presidente


(da Índia) por ordem autografada com seu selo, após consulta a tais
juízes da Suprema Corte e das altas Cortes dos Estados que o
160

Presidente entender necessário consultar para essa finalidade, que


permanecerão no cargo até a idade sessenta e cinco anos.
Todavia, no caso de nomeação de juiz que não seja do primeiro
magistrado, esse primeiro magistrado da Índia deverá sempre ser
consultado. Além disso:
(a) um juiz poderá, através de carta autografada endereçada ao
Presidente, renunciar ao cargo;
(b) um juiz poderá ser demitido do cargo através do previsto na cláusula
(4).

(3) Ninguém será qualificado para nomeação como juiz para a Suprema
Corte se não é cidadão indiano e se não:
(a) foi durante pelo menos cinco anos juiz de alguma Alta Corte ou de
duas ou mais Altas Cortes sucessivamente; ou
(b) foi durante dez anos pelo menos advogado de alguma Alta Corte ou
de duas ou mais Altas Cortes sucessivamente;
(c) é, segundo o entendimento do Presidente, distinto jurista.

Explicação I: Nesta cláusula, o termo Alta Corte significa uma Alta Corte
que exerce, ou que, antes da entrada em vigor desta Constituição
exercia sua jurisdição sobre toda parte do território da Índia.

Explicação II: No cálculo, para os fins desta cláusula, do período durante


o qual alguém foi advogado será incluído todo o período durante o qual
ele exerceu funções judiciárias após ter se tornado advogado.

(4) Um juiz da Suprema Corte não será demitido de suas funções a não
ser por decreto do Presidente (da Índia), após manifestação de cada
uma das Câmaras do Parlamento e deliberada por maioria absoluta dos
membros dessa Câmara e a maioria de dois terços pelo menos dos
membros presentes e votantes, votação essa levada ao Presidente da
República pelas duas Câmaras do Parlamento, na mesma seção, com
vistas a essa demissão, que terá como fundamento comprovadas má
conduta ou incapacidade.

(5) O Parlamento poderá, através de lei, regulamentar o procedimento


de apresentação de requerimento, investigação e prova de má conduta
ou incapacidade de um juiz, conforme cláusula (4).

(6) Toda pessoa nomeada juiz da Suprema Corte deverá, antes da


posse, fazer e assinar diante do Presidente (da Índia) ou toda pessoa
nomeada por ele, um juramento ou afirmação conforme a fórmula
enunciada para esse fim no anexo III.

(7) Ninguém que tenha exercido as funções de juiz da Suprema Corte


poderá atuar como advogado em qualquer jurisdição ou diante de
qualquer autoridade no território da Índia.

Artigo 125 Remuneração dos juízes etc.

(1) Serão pagos aos juízes da Suprema Corte vencimentos especificados


no anexo II.
161

(2) Os juízes da Suprema Corte terão direito a tais benefícios e


indenizações e as indenizações de licenças e pensões, que poderão,
periodicamente, ser fixadas por ou em virtude de lei do Parlamento, e
até que sejam assim fixadas, esses juízes terão direito a esses
benefícios, indenizações, indenizações de licença e pensões que serão
especificadas no Anexo II.

Todavia, nem os benefícios, nem as indenizações de um juiz, nem seus


direitos relativos às licenças e pensões serão modificados para pior após
a nomeação.

Artigo 126 Nomeação do Suplente do Primeiro Magistrado

Quando o cargo de Primeiro Magistrado da Índia ficar vago ou o Primeiro


Magistrado esteja, em razão de ausência ou por outro motivo,
impossibilitado de cumprir os deveres do seu cargo, esses serão
cumpridos pelos outros juízes da Corte que o Presidente da Índia
nomear para esse fim.

Artigo 127 Nomeação de juízes especiais

(1) Se, a todo momento, não for obtido quorum entre os juízes da
Suprema Corte, que permita iniciar ou continuar uma seção qualquer da
Corte, o Primeiro Magistrado poderá, com o consentimento prévio do
Presidente da Índia e após consulta ao Primeiro Magistrado da Alta Corte
interessada, requerer por escrito a presença às seções da Corte, como
juiz especial, pelo período que seja necessário, um juiz de uma Alta
Corte, devidamente qualificado para as funções de juiz da Suprema
Corte, e que será nomeado pelo Primeiro Magistrado da Índia.

(2) O juiz assim nomeado deverá, antes de qualquer outro dever do seu
cargo, assistir às seções da Suprema Corte, no momento e durante o
período para o qual sua assistência é requisitada, e enquanto assistir a
essas seções, ele exercerá a jurisdição, os poderes e privilégios, e
cumprirá as funções de juiz da Suprema Corte.

Artigo 128 Assistência de juízes aposentados às seções da


Suprema Corte

Não obstante às disposições contidas neste Capítulo, o Primeiro


Magistrado da Índia poderá, a qualquer momento, com o consentimento
anterior do Presidente da Índia, convocar toda pessoa que ocupou as
funções de juiz da Suprema Corte ou da Corte Federal para oficiar e agir
como juiz da Suprema Corte, e toda pessoa assim requisitada terá,
enquanto oficiar e agir nessas condições, toda a jurisdição, poderes e
privilégios de um juiz dessa Corte, mas sem ser todavia considerado
como tal.

Todavia, nada neste artigo significa exigir da pessoa acima mencionada


que ela irá oficiar e agir como juiz dessa Corte se ela não aceita sua
convocação.

A Suprema Corte
162

Artigo 129 Corte de "registro"

A Suprema Corte será uma Corte de "registro" e terá todos os poderes


de uma tal Corte, inclusive o poder de punir ofensas contra ela própria.

Artigo 130 Sede da Suprema Corte

A Suprema Corte terá sua sede em Delhi ou em outros locais que o


Primeiro Magistrado poderá fixar periodicamente com a aprovação do
Presidente da Índia.

Artigo 131 Jurisdição Original da Suprema Corte

Sob reserva das disposições desta Constituição, a Suprema Corte terá,


com exclusão de todas as outras Cortes, uma jurisdição original em
todos os processos:
(a) entre o Governo da Índia e um ou mais Estados; ou
(b) entre o Governo da Índia e determinado ou determinados Estados de
um lado e um ou vários Estados de outro lado; ou
(c) entre dois ou vários Estados,
no caso em que, e na medida em que, o processo implique em questão
(seja de direito, seja de fato) de que depende a existência ou a
extensão de um direito. Todavia, a referida jurisdição não se estenderá
a:

(1) um processo em que um Estado especificado na parte (b) do Anexo I


seja parte, se o processo surgiu a propósito de alguma disposição
constante de tratado, acordo, adesão, "sanad", ou outro instrumento
similar concluído ou executado antes da entrada em vigor desta
Constituição, e que permanece ou foi mantido em vigor após esta data;

(2) um processo de que um Estado qualquer seja parte, se esse


processo surge a propósito de disposição de tratado, acordo, adesão,
"sanad" ou outro instrumento similar que preveja que a referida
jurisdição não se aplicará a tal processo.

Artigo 132 Jurisdição Apelação da Suprema Corte nas Apelações


das Altas Cortes dos Estados em determinados casos

(1) Caberá apelação à Suprema Corte de todo acórdão, decreto ou


ordenança em última instância de toda Alta Corte de um Estado, quer se
trate de processo civil, penal ou outro, se a Alta Corte certifica que esse
processo tem questão de direito essencial referente à interpretação
desta Constituição.

(2) Quando a Alta Corte tiver se recusado a expedir a mencionada


certidão, a Suprema Corte poderá, se se convence de que o caso
implique questão de direito essencial referente à interpretação desta
Constituição, dar uma autorização especial para apelação quanto ao
acórdão, decreto ou ordenança em última instância.

(3) Quando essa certidão tenha sido dada, ou essa autorização seja
concedida, cada parte do processo poderá apelar à Suprema Corte pelo
motivo de que uma questão como aquelas acima mencionadas foi objeto
163

de decisão errada e também com a permissão da Suprema Corte por


qualquer outro motivo.

Explicação: Para os fins desse artigo, é necessário compreender pela


expressão “ordenanças em última instância” uma ordenança que decida
de tal forma que, se é em favor do apelante, seria suficiente para que o
processo fosse julgado sem apelação.

Artigo 133 Jurisdição de Apelação da Suprema Corte das


Apelações emanadas das Altas Cortes em matéria civil

(1) É cabível apelação à Suprema Corte contra um acórdão, decreto ou


ordenança em última instância em um processo civil de uma Corte
indiana, se a Corte certifica:
(a) que o valor da causa para a Corte de Primeira Instância, depois da
apelação, não era e não é inferior a vinte mil rúpias ou outro valor que
poderá ser especificado através de lei do parlamento;
(b) que o acórdão, decreto ou ordenança da última instância diz respeito
direta ou indiretamente a algum questionamento ou questão
concernente à propriedade do mesmo valor; ou
(c) que trata-se de caso peculiar a uma apelação à Suprema Corte e,
quando o acórdão, decreto ou ordenança de última instância de que se
apelou confirma a decisão da Corte imediatamente inferior em caso
diferente daqueles previstos na cláusula (c), se a Alta Corte certifica
além disso que a apelação diz respeito à questão essencial de direito.

(2) Não obstante às disposições contidas no artigo 132, a parte apelante


à Suprema Corte em virtude da cláusula (1) desse artigo, poderá
invocar como um dos motivos da apelação questão de direito essencial,
referente à interpretação desta Constituição, que foi objeto de decisão
errônea.

(3) Não obstante qualquer disposição deste artigo, nenhuma apelação


poderá, a menos que o Parlamento decida de outra forma através de lei,
ser interposta diante da Suprema Corte contra acórdão, decreto ou
ordenança em última instância proferidos por juiz único de Alta Corte.

Artigo 134 Jurisdição de Apelação da Suprema Corte em matéria


criminal

(1) Caberá apelação à Suprema Corte em face de acórdão, decreto ou


ordenança em última instância em processo criminal de Alta Corte
indiana, se a Alta Corte:
(a) na apelação, cassou a absolvição e condenou a pessoa à morte; ou
(b) entendeu incompetente uma Corte qualquer subordinada a ela,
entendendo a si própria competente, e, no seu acórdão, declarou o
acusado culpado e condenou-o à morte; ou
(c) certifica que o caso é suscetível de apelação à Suprema Corte.
Todavia uma apelação interposta em virtude da sub-cláusula (c) será
submetida a tais disposições que poderão ser estabelecidas a esse
respeito em virtude da cláusula (1) do artigo 145 e a condições que a
Alta Corte poderá estabelecer.
164

(2) O Parlamento poderá, através de lei conferir à Suprema Corte todos


os outros poderes para conhecer e julgar apelações contra acórdãos,
ordenanças de última instância ou condenação em processo criminal
frente às Altas Cortes indianas, sob reserva das condições e limitações
que poderão ser especificadas na lei em questão.

Artigo 135 Jurisdição e poderes atuais da Corte Federal podem


ser exercidos pela Suprema Corte

Até que o Parlamento decida de outra forma através de lei, a Suprema


Corte terá jurisdição e poderes no que diz respeito a todas as questões
às quais não se aplicam as disposições dos artigos 133 e 134, se a
jurisdição e os poderes relativos a essa questão competiam à Corte
Federal imediatamente antes da entrada em vigor desta Constituição,
qualquer que seja a lei que determinou essa atribuição.

Artigo 136 Autorização especial de apelação concedida pela


Suprema Corte

(1) Não obstante qualquer disposição deste Capítulo, a Suprema Corte


poderá, discricionariamente, conceder autorização especial de apelação
à qualquer julgamento, decreto, determinação, condenação, o
ordenança em qualquer processo, adotado ou proferido por qualquer
Corte ou Tribunal indianos.

(2) Nada na cláusula (1) se aplicará a julgamentos, decisões,


condenações ou ordenanças adotadas ou proferidas por Cortes ou
Tribunais constituídos por ou em virtude de lei relativa às Forças
Armadas.

Artigo 137 Reexame dos julgamentos ou ordenanças pela


Suprema Corte

Sob reserva das disposições das leis criadas pelo Parlamento ou de


regras estabelecidas em virtude do artigo 145, a Suprema Corte terá
poder de reexaminar qualquer julgamento pronunciado por ela ou
qualquer ordenança de sua iniciativa.

Artigo 138 Ampliação da jurisdição da Suprema Corte

(1) A Suprema Corte terá todas as outras jurisdições e poderes


referentes a todas questões relativas à Lista da União que o Parlamento
lhe conferir através de lei.

(2) A Suprema Corte terá outra jurisdição e poderes para todas as


questões que o governo da Índia e o governo dos Estados poderão lhe
conferir através de acordo especial se o Parlamento prevê através de lei
o exercício dessa jurisdição e desses poderes pela Suprema Corte.

Artigo 139 Poderes conferidos à Suprema Corte de publicar


determinadas ordenanças

O Parlamento poderá, através de lei, conferir à Suprema Corte o poder


de publicar diretivas ou regulamentos sob a forma de ordenanças,
165

habeas corpus, mandado de segurança, interdições, "quo warranto" e


"certiorari', ou algum desses atos, para finalidades outras que aquelas
mencionadas na cláusula (2) do artigo 32.

Artigo 140

O Parlamento poderá, através de lei, elaborar disposições para conferir à


Suprema Corte poderes suplementares não incompatíveis com algumas
disposições desta Constituição que pareçam necessárias ou úteis para
permitir à Corte exercer mais eficazmente a jurisdição que lhe é
conferida por ou em virtude desta Constituição.

Artigo 141 Caráter obrigatório das decisões da Suprema Corte

As decisões da Suprema Corte serão obrigatórias para todas as


jurisdições da Índia.

Artigo 142 Entrada em vigor dos decretos e regulamentos da


Suprema Corte e regulamentos relativos à instrução dos
processos

(1) A Suprema Corte, no exercício de sua jurisdição, poderá adotar


decretos ou estabelecer ordenanças necessárias para bem julgar os
processos que tramitam perante ela, e os decretos assim adotados, ou
todas as ordenanças assim estabelecidas, entrarão em vigor no território
indiano de tal maneira que poderão ser adotados por ou em virtude de
leis elaboradas pelo Parlamento.

(2) Sob reserva das disposições legais elaboradas a esse respeito pelo
Parlamento, a Corte Suprema terá, no território indiano, todos os
poderes de elaborar ordenanças com a finalidade de assegurar a
presença das pessoas, a revelação ou a produção de documentos, ou a
investigação ou punição de todas as ofensas contra ela.

Artigo 143 Poder do Presidente de consultar a Suprema Corte

(1) Se, a qualquer momento, convém ao Presidente que algum caso


concreto de direito ou de fato ou suscetível de transformar-se num caso
concreto, de tais natureza e importância pública que seja necessário
solicitar o parecer da Suprema, ele poderá submeter a questão a essa
Corte para exame, e a Corte poderá, após as avaliações que ela
entender apropriadas, encaminhar ao Presidente um relatório sobre o
assunto.

(2) O Presidente poderá, não obstante todas as disposições contidas nas


cláusulas (1) das disposições restritivas do artigo 131 submeter à
Suprema Corte, para parecer, um litígio da natureza mencionada na
referida cláusula; e a Suprema Corte, após averiguações que entenda
apropriadas, comunicará seu parecer ao Presidente da Índia.

Artigo 144 Assistência das autoridades civis e judiciárias à


Suprema Corte
166

Todas as autoridades civis e judiciárias indianas deverão prestar


assistência à Suprema Corte.

Artigo 145 Regulamento da Corte etc.

(1) Sob reserva das disposições das leis elaboradas pelo Parlamento, a
Suprema Corte poderá, periodicamente, com aprovação do Presidente
da Índia, elaborar regulamentos referentes à prática e procedimento da
Corte inclusive:
(a) regulamentos referentes aos profissionais que trabalham diante da
Corte; (b) regulamentos referentes ao procedimento das apelações e
outras questões, dentre as quais o prazo no qual as apelações à Corte
devam ser apresentadas;
(c) regulamentos referentes aos procedimentos encaminhados à Corte
para execução de algum direito conferido à parte;
(d) regulamentos referentes às apelações mencionadas na sub-classe
(c) da cláusula (1) do artigo 134;
(e) regulamentos sobre as condições de reexame de qualquer
julgamento pronunciado pela Corte ou ordenanças de sua iniciativa, e
procedimento desse reexame, inclusive o prazo no qual os
requerimentos de revisão sejam admissíveis;
(f) regulamentos referentes às despesas essenciais e acessórias dos
processos da Corte e honorários exigíveis nesses processos;
(g) regulamentos referentes às cauções a serem prestadas;
(h) regulamentos referentes à duração dos processos; e
(i) regulamentos que prevejam o julgamento sumário das apelações que
sejam apresentadas à Corte como sendo vãos ou vexatórios, ou
apresentadas com a finalidade de procrastinação;
(j) regulamento sobre o procedimento das investigações mencionadas
na cláusula (1) do artigo 317.

(2) Sob reserva das disposições da cláusula (3), regulamentos


elaborados em virtude desse artigo poderão fixar o número mínimo de
juízes que devem oficiar para determinados casos e poderão fixar os
poderes dos juízes individualmente e também os poderes das diversas
seções da Corte.

(3) O número mínimo de juízes que devam oficiar para decidir quanto
aos casos que trazem matéria de direito essencial relativa à
interpretação desta Constituição, ou com a finalidade de conhecer os
processos relativos ao artigo 143 deve ser de cinco.
Todavia, onde a Corte conheça de uma apelação interposta em virtude
de disposição deste Capítulo, afora o previsto no artigo 132, prevê
menos de cinco juízes e, onde, no curso dessa apelação, a Corte tem a
convicção de que a apelação refere-se a questão de direito essencial,
relativa à interpretação dessa Constituição e que o aclaramento dessa
questão é necessário para julgamento dessa apelação, a Corte deverá
encaminhar seu entendimento para uma Corte constituída como previsto
nesta Cláusula para os processos referentes a essas implicações e
deverá após a resposta, decidir face a essa apelação conforme o
entendimento já exposto.
167

(4) Nenhum julgamento poderá ser proferido pela Suprema Corte que
não seja em seção pública, e nenhum relatório de que trata o artigo 143
poderá ser feito se não está em conformidade com o entendimento
expresso também em seção pública.

(5) Nem julgamento nem entendimento dessa espécie poderão ser


enunciados sem a adesão da maioria dos juízes presentes no julgamento
do caso, mas nada nessa cláusula poderá impedir algum juiz que não
esteja de acordo de enunciar seu voto divergente.

Artigo 146 Vencimentos, indenizações e pensões de funcionários


e empregados, e despesas da Suprema Corte

(1) As nomeações de funcionários e empregados da Suprema Corte


serão feitas pelo Primeiro Magistrado da Índia ou outro juiz ou
funcionário da Corte designado por ele.
Todavia o Presidente (da Índia) poderá através de regulamento,
pretender que, em determinados casos especificados no mencionado
regulamento, nenhuma pessoa que não seja ainda ligada à Corte, possa
ser nomeada para qualquer emprego nela, a não ser após consulta à
Comissão dos Serviços Públicos da União.

(2) Sob reserva das disposições das leis do Parlamento, as condições de


trabalho dos funcionários e empregados da Suprema Corte serão
estabelecidas através de regulamentos de iniciativa do Primeiro
Magistrado da Índia ou outro juiz ou funcionário da Corte por ele
autorizado para elaborar esses regulamentos. Todavia, os regulamentos
estabelecidos em virtude desta cláusula, no que diz respeito aos
salários, indenizações, licenças ou pensões, necessitam da aprovação do
Parlamento.

(3) As despesas administrativas da suprema Corte, inclusive todos os


vencimentos, indenizações e pensões pagáveis aos ou para os
funcionários e empregados da Corte serão pagas sobre o Fundo
consolidado da Índia, e todos os honorários e outros fundos percebidos
pela Corte farão parte desse Fundo.

Artigo 147 Interpretações

Neste Capítulo e no Capítulo V da Parte VI, as menções às questões


essenciais de direito relativas à interpretação desta Constituição, serão
interpretadas como sendo toda questão essencial de Direito relativa à
interpretação do Ato do Governo da Índia de 1935 (inclusive emendas e
suplementos) ou das Ordens do Conselho ou Ordenanças pertinentes, ou
do Ato de Independência da Índia de 1947 ou Ordenanças pertinentes.

Capítulo V

Artigo 148 O controlador e verificador geral da Índia

[...]

Parte VI Os Estados da Parte A do Anexo I


168

Capítulo I

Generalidades

[...]

Capítulo II

Poder Executivo

O Governador

[...]

Conselho de Ministros

Artigo 165 Advogado-Geral do Estado

(1) O Governador de cada Estado nomeará para as funções de


Advogado-Geral do Estado, uma pessoa qualificada para as funções de
juiz da respectiva Alta Corte.

(2) Incumbirá ao Advogado-Geral a função de aconselhar o Governador


do Estado em questões legais e cumprir outras funções de caráter legal
que poderão lhe ser periodicamente submetidas pelo Governador, e
desincumbir-se das funções que lhes sejam conferidas por ou em
virtude desta Constituição ou outra lei atualmente em vigor.

(3) O Advogado-Geral permanecerá no cargo enquanto assim aprouver


ao Governador e receberá remuneração que o Governador lhe fixar.

Capítulo III

O Legislativo dos Estados

Generalidades

[...]

Direitos dos Ministros e do Advogado-Geral quanto às Câmaras

Artigo 177 Direito dos Ministros e do Advogado Geral referente


às Câmaras

Todos os Ministros, bem assim o Advogado-Geral de cada Estado, terão


direito de tomar a palavra, e participar dos trabalhos da Assembléia
Legislativa do Estado, ou, no caso de Estados que tenham Conselho
Legislativo, das duas Câmaras e de todas as seções comuns das
Câmaras, e de ali tomar a palavra, e participar de qualquer outra
maneira dos trabalhos dos Comitês do Legislativo do qual poderá ser
nomeado membro, no entanto, o presente artigo não lhes dá o direito
de voto.

Artigo 211 Restrição aos debates do Legislativo


169

Não se admitirá discussão nos legislativos dos Estados sobre a conduta


de Juízes da Suprema Corte ou das Altas Cortes em razão do exercício
de suas atribuições.

Artigo 212 As Cortes não têm ingerência nos atos do Poder


Legislativo

(1) A validade dos atos do Legislativo de um Estado não poderá ser


invocada com base em irregularidade de procedimento.

(2) Nenhum membro do Legislativo de um Estado investido de poderes


por ou sob esta Constituição para regular procedimentos ou para a
condução de negócios, ou para manter a ordem no Legislativo estará
sujeito à jurisdição de qualquer Corte com relação ao exercício de tais
poderes.

[...]

Capítulo V As Altas Cortes dos Estados

Artigo 214 Altas Cortes dos Estados

Haverá uma Alta Corte em cada Estado.

Artigo 215 Altas Cortes como Cortes de Registro

Cada Alta Corte será Corte de Registro e terá todos os poderes


peculiares, incluindo o de punir por desobediência às suas decisões.

Artigo 216 Composição das Altas Cortes

Cada Alta Corte será constituída de um Presidente e outros Juízes em


número que o Presidente periodicamente julgar necessário.

Artigo 217 Nomeação e condições do cargo de Juiz de Alta Corte

Cada Juiz de Alta Corte será nomeado pelo Presidente por decreto
assinado e selado, depois de consultados o Presidente da Suprema Corte
da Índia, o Governador do Estado correspondente, e (no caso de
nomeação de Juiz que não seja Presidente de Corte) do Presidente da
Alta Corte, e o manterá no cargo no caso de Juiz adicional ou atuante
conforme previsto no Artigo 224, e, em qualquer outro caso, até ele
atingir a idade de 62 anos:
Considerado que -
(a) qualquer Juiz pode, através de pedido de próprio punho enviado ao
Presidente, renunciar ao cargo;
(b) qualquer Juiz pode ser removido pelo Presidente como previsto na
cláusula (4) do Artigo 124, de remoção de Juízes da Suprema Corte;
(c) o cargo de Juiz de Alta Corte será considerado vago quando o Juiz
for nomeado pelo Presidente como Juiz da Suprema Corte ou for
transferido pelo Presidente para outra Alta Corte dentro do território da
Índia.
170

(2) Para que uma pessoa se considere qualificada para ser nomeada
como Juiz de Alta Corte deve ser cidadão da Índia e
(a) ter durante no mínimo dez anos mantido escritório de advocacia no
território da Índia; ou
(b) ter durante pelo menos dez anos advogado em uma Alta Corte ou
em duas ou mais Altas Cortes sucessivamente;

Explicação: Para as opções deste dispositivo


(a) na computação do período em que o candidato manteve escritório de
advocacia no território da Índia serão incluídos períodos em que
manteve escritório de advocacia no qual foi advogado em Alta Corte ou
manteve escritório tendo advogado em algum Tribunal ou exercido outra
atividade junto à União ou Estado e requereu reconhecimento especial
para tanto;

(aa) na computação do período em que o candidato advogou em alguma


Alta Corte será incluído qualquer período em que manteve escritório de
advocacia ou escritório junto a um Tribunal ou qualquer atividade junto
à União ou Estado, requerendo conhecimento especial da lei após
tornar-se advogado;

(b) na computação do período em que uma pessoa manteve escritório


de advocacia no território da Índia ou foi advogado em alguma Alta
Corte será incluído qualquer período antes da entrada em vigor desta
Constituição durante o qual o candidato manteve escritório de advocacia
em qualquer área compreendida em qualquer época compreendida
antes de 15 de agosto de 1947 dentro da Índia como previsto pelo Ato
de 1935 do Governo da Índia ou advogou em qualquer Alta Corte em
qualquer área;

(3) Quando for suscitada questão sobre a idade de Juiz de Alta Corte,
será decidida pelo Presidente da Alta Corte depois de consulta ao
Presidente da Índia e a decisão do Presidente da Alta Corte será
definitiva.

Artigo 218 Aplicação de certas normas relativas às Altas Cortes


Supremas

As regras das cláusulas (4) e (5) do Artigo 124 aplicar-se-ão em relação


às Altas Cortes, tal como se aplicam em relação à Suprema Corte,
apenas com a substituição de referência às Altas Cortes por referência à
Suprema Corte.

Artigo 219 Juramento ou declaração dos Juizes de Altas Cortes

Cada pessoa designada para ser Juiz de Alta Corte, antes de assumir o
cargo, fará e subscreverá perante o Governador do Estado, ou perante
alguma pessoa por este designada, juramento ou declaração segundo a
forma estabelecida no Terceiro Roteiro.

Artigo 220 Restrição à advocacia pelos Juízes aposentados

Ninguém que, depois da entrada em vigor desta Constituição, tenha


ocupado o cargo de Juiz titular de Alta Corte poderá advogar ou atuar
171

nas Cortes ou perante qualquer autoridade indiana a não ser na


Suprema Corte e nas Altas Cortes de outros Estados.

Explicação: Neste Artigo, a expressão "Alta Corte" não inclui as Altas


Cortes de Estados mencionados na Parte B do Primeiro Roteiro conforme
existia antes da entrada em vigor desta Constituição (Sétima Emenda),
Ato de 1956.

Artigo 221 Remuneração etc. dos Juízes

(1) Serão pagos aos Juizes das Altas Cortes vencimentos de acordo com
a legislação própria elaborada pelo Legislativo e, até que normas sejam
editadas nesse sentido, tais vencimentos serão aqueles especificados no
Segundo Roteiro.

(2) Os Juízes têm direito a tais bonificações e benefícios nos casos de


licença e aposentadoria e periodicamente pode ser estabelecido por lei
que tais benefícios e bonificações a aplicação das regras do Segundo
Roteiro:
Considerado que tais bonificações e demais benefícios não poderão ser
reduzidos após a nomeação dos Juízes.

Artigo 222 Transferência de Juízes de uma Alta Corte para outra

(1) O Presidente de Alta Corte pode, depois de consulta ao Presidente


da Índia, transferir um Juiz de uma Alta Corte para outra.

(2) Quando um Juiz é transferido de uma Alta Corte para outra, durante
o período em que ele oficia na nova Alta Corte, após a entrada em vigor
da Constituição, recebe em complementação à sua remuneração uma
bonificação compensatória a ser determinada pelo Legislativo através de
lei e, enquanto tal lei não for editada, tal bonificação compensatória
poderá ser fixada pelo Presidente.

Artigo 223 Nomeação de Presidente interino

Quando o cargo de Presidente de Alta Corte está vago ou em caso de


ausência do Presidente por qualquer razão que seja, bem como no caso
de incapacidade do Presidente, suas atribuições serão exercidas por
outro Juiz da Corte que o Presidente indicar como seu substituto.

Artigo 224 Nomeação de Juízes interinos

(1) Se houver aumento temporário do serviço de alguma Alta Corte ou


atraso no serviço interno, o Presidente da Alta Corte pode nomear
pessoas qualificadas para serem Juizes adicionais da Corte no período
que o Presidente fixar, não podendo exceder a dois anos.

(2) Quando qualquer Juiz de Alta Corte que não seja o Presidente
estiver, em razão de ausência ou por outro motivo incapacitado para
exercer suas atribuições ou for designado para substituir o Presidente, o
Presidente poderá nomear uma pessoa qualificada para substituir
provisoriamente aquele Juiz.
172

(3) Nenhuma pessoa nomeada como Juiz adicional ou interino de Alta


Corte permanecerá no cargo depois de atingir a idade de sessenta e dois
anos.

Artigo 224A Nomeação de Juízes aposentados para atuarem nas


Altas Cortes

Não contrariando regra deste Capítulo, o Presidente de Alta Corte de


qualquer Estado pode, a qualquer tempo, com o prévio consentimento
do Presidente, convidar qualquer pessoa que exerceu o cargo de Juiz
daquela Alta Corte ou de qualquer outra Alta Corte para reassumir o
cargo e oficiar como Juiz daquela Alta Corte, e cada pessoa assim
convidada receberá, enquanto estiver no exercício do cargo,
remuneração que o Presidente estabelecer e terá todas as atribuições,
poderes e privilégios dos Juízes titulares:
Somente serão nomeados no presente caso os convidados que
aceitarem a invitação.

Artigo 225 Jurisdição das Altas Cortes existentes

Sob reserva das disposições desta Constituição, e de todas disposições


contidas nas leis do Legislativo competente, criadas em virtude dos
poderes conferidos a esse Legislativo por esta Constituição, a jurisdição
de todas as Altas Cortes existentes, e o direito aplicado por elas, bem
assim os poderes respectivos dos juízes dessas Cortes, no tocante à
administração da justiça por essas Cortes, inclusive o poder de fixar
regulamentos das Cortes, e de regulamentar suas seções e as seções de
seus membros oficiando como juiz singular ou nas seções da Corte,
serão as mesmas que existem imediatamente que antes da entrada em
vigor desta Constituição:
Todavia, qualquer restrição à qual o exercício da jurisdição original das
Altas Cortes era submetido antes da entrada em vigor desta
Constituição para processos referentes às rendas do Estado ou atos
ordenados ou executados no recebimento desses rendimentos não se
aplicarão mais doravante a essas jurisdições.

Artigo 226 Poder conferido às Altas Cortes de publicar


determinadas ordenanças

(1) Não obstante às disposições contidas no art. 32 desta Constituição,


as Altas Cortes terão poder, no território de sua jurisdição, de publicar
para conhecimento de todas as pessoas ou autoridades as diretivas ou
regulamentos sob a forma de ordenanças, habeas corpus, mandado de
segurança, interdições, "quo warranto" e "certiorari", para entrada em
vigor de algum dos direitos conferidos pela Parte III desta Constituição e
para qualquer outra finalidade.

(2) O poder conferido às Altas Cortes pela cláusula (1) deste artigo não
reduzirá em nada o poder conferido à Suprema Corte pela cláusula (2)
do artigo 32 desta Constituição.

Artigo 227 Poder de controle sobre os Tribunais


173

(1) Toda Alta Corte terá direito de controle sobre todas as Cortes e
Tribunais no território da sua jurisdição.

(2) Sem que tal implique limitação à extensão da cláusula precedente, a


Alta Corte poderá:
(a) determinar a feitura de relatórios por esses Tribunais;
(b) elaborar e publicar regulamentos gerais, e prescreve formas para
regulamentar a prática e o procedimento desses Tribunais
(c) prescrever as formas nas quais os livros, registros e contas deverão
ser elaborados pelos agentes desses Tribunais.
(3) A Alta Corte poderá igualmente elaborar quadros de remuneração
para pagamento do delegado e outros empregados desses Tribunais,
bem assim aos advogados que aí oficiam.
Todavia, todos os regulamentos elaborados, formas prescritas, ou
quadros em virtude da cláusula (2) o da cláusula (3) deste artigo não
deverão ser incompatíveis com as disposições das leis em vigor.

Artigo 228 Transferência de determinados casos à Alta Corte

Se a Alta Corte se convence de que um caso em tramitação diante de


uma jurisdição que lhe é subordinada implica uma questão de direito
essencial referente à interpretação desta Constituição, ela avocará um
processo e poderá:
(a) julgá-lo ela própria;
(b) fixar o ponto de direito em questão; e enviá-lo ao Tribunal perante o
qual tramitava o processo, remetendo uma cópia do seu julgamento
sobre aquele ponto, e o mencionado Tribunal deverá julgar o caso de
conformidade com aquele julgamento.

Artigo 229 Funcionários e empregados, e despesas das Altas


Cortes

(1) As nomeações dos funcionários e empregados de uma Alta Corte


serão feitas pelo Primeiro Magistrado da Corte ou outro juiz ou
funcionário da Corte que ele designar.
Todavia, o Governador do Estado no qual a Alta Corte tem sua sede
principal poderá, através de regulamento, solicitar que, em
determinados casos especificados neste regulamento, nenhuma pessoa
que anteriormente não fosse ligada à Corte possa ser nomeada para
algum cargo dela, a não ser após consulta à Comissão dos Serviços
Públicos do Estado.

(2) Sob reserva das disposições de leis criadas pelo Legislativo dos
Estados, as condições de serviço dos funcionários e empregados de uma
Alta Corte serão prescritas através de regulamentos elaborados pelo
Primeiro Magistrado da Corte ou outro juiz ou funcionário autorizado
pelo Primeiro Magistrado para estabelecer regulamentos com essa
finalidade.
Todavia, os regulamentos estabelecidos em virtude desta cláusula, na
medida em que se referem aos salários, indenizações, licenças ou
pensões, necessitam da aprovação do Governador do Estado em que a
Alta Corte tem sua sede principal.
174

(3) As despesas administrativas de uma Alta Corte, inclusive todos os


vencimentos, indenizações e pensões pagáveis aos ou para os
funcionários e empregados da Corte serão pagos sobre o Fundo
consolidado do Estado, e todos os honorários e outras quantias
recebidas pela Corte farão parte desse Fundo.

[...]

Capítulo VI

Tribunais subordinados

Artigo 233 Nomeação dos Juízes de distrito

(1) As nomeações, atribuições de cargos e progressão dos Juízes de


distrito nos Estados serão feitas pelo Governador do Estado, em
consulta à Alta Corte do Estado.

(2) A pessoa que não esteve ainda a serviço da União ou do Estado não
poderá ser nomeada como Juiz de distrito a não ser se durante sete
anos pelo menos foi advogado e está sendo recomendada pela Alta
Corte para essa nomeação.

Artigo 234 Recrutamento para outros postos que não sejam de


Juízes de distrito

As nomeações de pessoas que não sejam Juízes de distrito para o


serviço judiciário de um Estado serão feitas pelo Governador do Estado
de acordo com os regulamentos elaborados por ele sobre essa matéria
após consulta à comissão dos serviços públicos e à Alta Corte do Estado.

Artigo 235 Controle dos Tribunais subordinados

O controle sobre os Tribunais de Distrito e os Tribunais que lhe são


subordinados, inclusive as atribuições de cargos e progressão, bem
como a aposentadoria, para as pessoas que pertencem ao serviço
judiciário do Estado e ocupam cargo inferior àquele de Juiz de distrito
competirão à Alta Corte. Mas nada neste artigo deverá ser interpretado
como impossibilitando às pessoas desse nível o direito de apelação que
pode ser exercido em virtude da lei que fixe as condições de serviço, ou
autorizando a Alta Corte decidir de outra forma que não seja de
conformidade com as condições de serviço prescritas por esta lei.

Artigo 236 Interpretação

Neste Capítulo:
(a) a expressão “Juiz de distrito” engloba: juiz de um Tribunal civil, juiz
de distrito suplementar, quo-Juiz de distrito, Juiz de distrito adjunto,
presidente de Tribunal de Primeira Instância, primeiro magistrado de
uma “presidency”, Juiz de seção, juiz de seção suplementar e Juiz de
seção adjunto;
(b) a expressão “serviço judiciário” designa um serviço composto
exclusivamente de pessoas destinadas a ocupar o posto de Juiz de
distrito e outros postos judiciários civis inferiores ao de Juiz de distrito.
175

Artigo 237 Aplicação das disposições deste Capítulo a


determinadas categorias de magistrados

O Governador pode, através de notificação pública, decretar que as


disposições precedentes neste Capítulo e os regulamentos elaborados
em virtude delas deverão, a partir de determinada data por ele fixada,
aplicar-se a toda categoria ou categorias de magistrados do Estado da
mesma forma que elas se aplicam às pessoas pertencentes ao serviço
judiciário do Estado com as exceções e modificações que achar por bem
modificar nas suas especificações.

Sétima Parte

Os Estados da Parte B do Anexo I

[...]

Oitava Parte

Os Estados da Parte C do Anexo I

[...]

Artigo 241 Altas Cortes para os Estados da Parte C do Anexo I

(1) O Parlamento pode, através de lei, constituir Alta Corte para um


Estado especificado na Parte C do Anexo I ou declarar que todo Tribunal
desse Estado será uma Alta Corte para todos os fins ou um dos fins
desta Constituição.

(2) As disposições do Capítulo V da Sexta Parte aplicar-se-ão às Altas


Cortes definidas na cláusula I como se aplicam às Altas Cortes definidas
no art. 214, sob reserva de modificações ou exceções que poderão ser
estipuladas através de lei do Parlamento.

(3) Sob reserva das disposições desta Constituição e das disposições de


leis do legislativo competente elaboradas em virtude dos poderes
conferidos a esse legislativo por ou em virtude desta Constituição, todas
as Altas Cortes que exercem sua jurisdição ante da entrada em vigor
desta Constituição quanto aos Estados especificados na Parte C do
Anexo I ou regiões aí compreendidas, continuarão a exercer essa
jurisdição no que diz respeito a esse Estado ou região quando a
Constituição entrar em vigor.

(4) Nada neste artigo derroga o poder do Parlamento de decidir pela


extensão ou exclusão da jurisdição de uma Alta Corte de algum Estado
especificado na Parte A ou Parte B do Anexo I sobre um Estado
mencionado na Parte C deste Anexo ou sobre toda região ligada a esse
Estado.

[...]

Nona Parte
176

Os territórios da Parte D do Anexo I e outros territórios não


especificados nesse Anexo

[...]

Décima Parte

As zonas anexas e tribais

[...]

Décima-primeira Parte

Relações entre a União e os Estados

Capítulo I

Relações legislativas

Repartição dos poderes legislativos

[...]

Capítulo II

Relações administrativas

Generalidades

[...]

Processos relativos às águas

[...]

Coordenação entre Estados

[...]

Décima-segunda Parte

Finanças, bens, contratos e processos

Capítulo I

Finanças, gereralidades

[...]

Repartição das rendas entre a União e os Estados

[...]
177

Capítulo II

Empréstimo

[...]

Capítulo III

Bens, contratos, direitos, adesões, obrigações e direito de


acionar ou ser acionado em juízo

[...]

Décima-terceira Parte

Comércio, negócio e relações comerciais nos limites do espaço


territorial da Índia

[...]

Décima-quarta Parte

As condições de serviço para os funcionários da União e dos


Estados

Capítulo I

Condições de serviço

[...]

Capítulo II

Comissão de serviços públicos

[...]

Décima-quinta Parte

Eleições

Artigo 324 Organização, direção e controle das eleições


confiadas a uma comissão eleitoral

(1) A organização geral, a direção e o controle das listas eleitorais, e o


procedimento das operações, para todas as eleições ao Parlamento e ao
Legislativo dos Estados e para as eleições para os cargos de Presidente
e vice-Presidente da Índia efetuadas em virtude dessa Constituição,
inclusive a nomeação de Tribunais eleitorais encarregados de julgar as
situações litigiosas e os processos decorrentes do fato ou a propósito
das eleições ao Parlamento e aos Legislativos dos Estados serão
confiados a uma Comissão (designada nesta Constituição sob o nome de
Comissão Eleitoral).
178

(2) A Comissão Eleitoral será composta pelo Comissário eleitoral chefe e


de um número de comissários eleitorais se existente, que o Presidente
(da Índia) poderá designar periodicamente, e a nomeação do comissário
eleitoral chefe e dos outros comissários eleitorais deverá ser feita pelo
Presidente (da Índia).

(3) Quando outro comissário eleitoral for nomeado, o comissário


eleitoral chefe exercerá o papel de presidente da comissão eleitoral.

(4) Antes de cada eleição geral para a Câmara do Povo e a Assembléia


Legislativa de cada Estado e antes da primeira eleição geral e, em
seguida, antes da eleição bienal ao Conselho legislativo de cada Estado
que seja provido de tal Conselho, o Presidente da Índia poderá também
nomear após consulta da comissão eleitoral os comissários regionais que
ele entender necessários com a finalidade de assistir a comissão
eleitoral no cumprimento das funções conferidas a essa comissão pela
cláusula (1).

(5) Sob reserva as disposições das leis elaboradas pelo Parlamento, as


condições de serviço e de estatuto da função para os comissários
eleitorais e os comissários regionais serão as que o Presidente (da Índia)
lhes determinar através de regulamento. Todavia o comissário eleitoral
chefe não será destituído desta função a não ser conforme as mesmas
modalidades e sob os mesmos motivos que no caso de juízes da
Suprema Corte, e as condições de serviço do comissário eleitoral chefe
não serão modificadas em prejuízo dele após sua nomeação.
Afora isso outro comissário eleitoral ou comissário regional não será
destituído de sua função a não ser sob recomendação do comissário
eleitoral chefe.

(6) O Presidente (da Índia) ou o Governador ou "Râjpramukh" de um


Estado deverá, a pedido da comissão eleitoral, colocar à disposição dela
pessoal que seja necessário para o cumprimento das funções conferidas
à comissão eleitoral pela cláusula (1).

Artigo 325 Ninguém deve ser excluído de lista eleitoral por


razões de religião, raça, casta ou sexo

Haverá uma lista eleitoral geral única para cada circunscrição territorial
para as eleições a uma ou outra das Câmaras do Parlamento ou à
Câmara ou às Câmaras do Legislativo de um Estado e ninguém deve ser
excluído de tal lista, ou não poder reclamar para ser inscrito em lista
especial por razões que sejam apenas de religião, raça, casta, sexo ou
por qualquer desses motivos.

[...]

Artigo 329 Não intervenção dos Tribunais na questão eleitoral

Não obstante qualquer disposição dessa Constituição:


(a) a validade de qualquer lei relativa à delimitação de circunscrições ou
à atribuição de cota de vagas a essas circunscrições, a lei elaborada ou
que se afirme elaborada em virtude dos artigos 327 ou 328 não será
questionada diante de nenhum Tribunal;
179

(b) nenhuma eleição às Câmaras do Parlamento ou à Câmara ou às


Câmaras do Legislativo de qualquer Estado será questionada, salvo
através de petição eleitoral apresentada a essa autoridade e dessa
maneira será julgada por ou em virtude de lei feita pelo Legislativo
competente.

Décima Sexta Parte

Disposições especiais relativas a determinadas classes

Artigo 330 Vagas reservadas às castas e tribos anexas na


Câmara do Povo

(1) Vagas serão reservadas na Câmara do Povo: -


(a) às castas anexas;
(b) às tribos anexas, não compreendidas as tribos anexas das zonas
tribais do Assam;
(c) às tribos anexas dos distritos autônomos do Assam.

(2) O número de vagas reservadas em todos Estados às castas anexas e


às tribos anexas em virtude da cláusula (1) deverá ser, tanto quanto
possível, na mesma proporção em relação ao número total de vagas
destinadas a cada Estado para sua Câmara do Povo quanto à população
das castas ou tribos anexas de cada Estado (ou de parte desses
Estados, conforme o caso), em face da população total do Estado.

[...]

Décima Sétima Parte

Língua Oficial

Capítulo I

Língua da União

[...]

Capítulo III

Língua da Suprema Corte, Altas Cortes etc.

Artigo 348 Linguagem a ser usada na Suprema Corte e nas Altas


Cortes para atos, notificações etc.

(1) Não havendo nenhuma previsão em contrário nesta Parte e até que
o Parlamento estabeleça de outro modo, através de lei -
(a) todos processos na Suprema Corte e em todas as Altas Cortes
(b) os textos -
(i) das notificações ou emendas de qualquer Casa do Parlamento ou do
Legislativo dos Estados
(ii) dos atos do Parlamento ou dos Legislativos dos Estados, de todas
ordenanças promulgadas pelo Presidente ou pelos Governadores dos
Estados, e
180

(iii) das ordens, regras, regulamentos e estatutos publicados após a


vigência desta Constituição ou leis editadas pelo Parlamento ou
Legislativos dos Estados, serão na língua inglesa.

(2) Não havendo afronta ao previsto na subclasse (a) da cláusula (1), os


Governadores dos Estados podem, com o prévio consentimento do
Presidente, autorizar o uso da língua hindi ou qualquer outra língua
usada oficialmente no Estado em processos das Alta Corte.
Desde que esta cláusula se aplique aos julgamentos e todos os atos das
referidas Altas Cortes.

(3) Não contrariando a previsão da subclasse (b) da cláusula (1), onde o


Legislativo de um Estado estabeleceu um idioma que não o inglês para
uso atos oficiais referidos no parágrafo (iii) daquela subcláusula, a sua
tradução para a língua inglesa publicada por ordem do Governador do
Estado no jornal oficial daquele Estado passará a ser o texto oficial.

[...]

Capítulo IV

Diretivas Especiais

[...]

Décima oitava Parte

Provisões Emergenciais

[...]

Décima nona Parte

Regras Diversas

[...]

Vigésima Parte

Emendas à Constituição

[...]

Vigésima primeira Parte

Provisões Especiais, Temporárias e Transitórias

[...]

Vigésima segunda Parte

Título Curto, Começo, Texto Autoritário em Hindi e Revogações

[...]
181

Capítulo III

Língua da Suprema Corte, Altas Cortes etc.

[...]

NOTAS
[1] Casta:

Posição social do indivíduo determinada pelo nascimento,


religião, ou profissão. Grupo fechado de caráter
predominantemente hereditário.

(Fonte: ENCICLOPÉDIA JURÍDICA LEIB SOIBELMAN)

.....................................................................................................................

[2] DAVID (1996:437-438) inicia falando sobre os sastras (livros de


preceitos):

A civilização da Índia repousa sobre fundamentos muito


diferentes dos da civilização da cristandade ou do Islã. Cristãos,
muçulmanos e judeus encontram na Sagrada Escritura o
princípio básico de que os homens, dotados de alma, têm um
valor igual perante Deus, à imagem do qual foram criados, O
hinduísmo rejeita esta noção fundamental do Ocidente. Para ele
o “homem é uma simples abstração; há somente “homens”
definidos para categoria social a que pertencem pelo seu
nascimento. As diversas categorias de homens são
complementares e hierarquizadas, de forma que aos homens
pertencentes a cada uma delas correspondem direitos, deveres e
mesmo uma moral específica que lhes é própria.

As regras que regulam o comportamento dos homens estão


expostas em obras, denominadas sastras, de três espécies
diferentes, correspondentes às três motivações que podem
determinar este comportamento: virtude, interesse e prazer.
Certos sastras ensinam aos homens como estes se devem
conduzir para serem justos: é a ciência do dharma. Outros
ensinam aos homens a maneira de enriquecer e ao príncipe a
arte de governar: é o artha, ciência do útil e da política. Outros,
finalmente, desenvolvem uma ciência do prazer: é o kama.

Dharma, artha e kama são todos três legítimos e a ordem natural


das coisas exige que sejam devidamente considerados pelos
homens. Contudo, cada um deverá agir como a categoria social a
que pertence o exigir.

O brâmane esforçar-se-á por conduzir a sua vida tanto quanto


possível segundo o dharma; os dirigentes e os comerciantes
procurarão, antes de tudo, o útil, considerando o artha; as
182

mulheres, que não têm destino próprio após a morte, colocarão


em primeiro plano o kama.

Na filosofia hindu é claramente reconhecida uma certa


superioridade ao dharma, mas desse fato não resulta que o artha
ou o kama devam necessariamente subjugar-se às exigências do
dharma. O dharma não exprime, de fato, a moral hindufstica na
sua totalidade; por isso mesmo é muito diferente do fiqh, que
domina sem contestação na sociedade muçulmana; na verdade
não merece ser olhado como se fosse um “Direito” propriamente
dito. Mais do que um Direito, o dharma é um simples modelo que
se adapta às derrogações e pede mesmo certas adaptações,
dentro do espírito de realismo e, mais ainda, de tolerância, que
constitui a marca distintiva do hinduísmo.

Em seguida, trata DAVID (1996:438) do dharma (preceitos):

O dharma fundamenta-se na crença de que existe uma ordem no


universo, inerente à natureza das coisas, necessária à
preservação do mundo, e da qual os próprios deuses são apenas
protetores. O dharma abrange no seu conjunto a conduta dos
homens. Ele não distingue entre deveres religiosos e obrigações
propriamente jurídicas. Indica, por exemplo, aos hindus a
penitência à qual devem submeter-se quando pecarem e as
ocasiões nas quais devem oferecer sacrifícios; impõe-lhes leis
em matéria de esmola e de hospitalidade; impõe aos soberanos a
visita aos templos e a garantia da segurança pública. A idéia
ocidental de “direitos subjetivos” é totalmente estranha ao
dharma e ao pensamento hindu, O dharma assenta na idéia de
deveres, não na de direitos; ele indica a cada um como deve
comportar-se se pretende ser um homem de bem e se preocupa
com o que vem depois da morte. Os deveres assim impostos
variam segundo a condição de cada um e também com a idade
dos indivíduos 4; são particularmente rigorosos para as pessoas
de condição superior. Existem independentemente de todo o
mecanismo destinado a assegurar a sua eficácia.

A autoridade do dharma não reside no costume. O seu prestígio


deve-se ao religioso respeito inspirado por aqueles que
exprimiram os seus mandamentos, sábios dos tempos passados
que souberam pôr em destaque o “bom costume” e tiveram uma
visão incontestada da ordem divina.

Existem dois tipos de tratados a respeito, conforme DAVID


(1996:439), ou sejam: dharmasastras e nibandhas:

O dharma encontra-se exposto em tratados chamados


dharmasastras. Os mais célebres foram escritos em verso: são,
em especial, as leis de Manou, as de Yajnavalkya e as de Narada,
que se julga terem sido redigidas entre o primeiro século a.C. e o
século III ou IV da nossa era.

O que deve ser considerado como obra de dharma, impondo


183

autoridade, foi estabelecido pela tradição. Os dharmasastras,


reconhecidos como tais, formam um todo, qualquer que tenha
sido a época em que tenham sido redigidos; o seu conjunto deve
ser tomado em consideração para conhecer o dharma. Não pode
pretender-se conhecê-lo através de uma obra particular, por
mais prestigiosa que seja; os sastras explicam-se uns pelos
outros e completam-se reciprocamente. Existe na India, por esta
razão, outra categoria de obras, os nibandhas. Os nibandhas se
destinam a esclarecer o sentido, por vezes obscuro, dos
dharmasastras, a torná-los inteligíveis aos homens cultos e
também a resolver as aparentes contradições entre os diversos
dharmasastras. Certos nibandhas abrangem o conjunto do
dharma, outros visam apenas uma instituição particular. Seus
autores ora são conhecidos, ora desconhecidos. Suas datas se
escalonam entre os séculos XI e XVII.

O dharma é uno e só pode ser conhecido a partir do conjunto


dos dharmasastras. Porém, existe um grande número de
dharmasastras e os nibandhas são muito numerosos. Disto
resulta que o conhecimento ou a preferência que se tenha por
cada um deles irá variar de região para região; certos grupos
sociais vivem sob a autoridade de um nibandha e outros sob a
autoridade de um outro nibandha diferente. Duas escolas
principais existem assim no Direito hindu: a escola do
Mitakshara e a do Dayabhaga. Estas escolas, com as distinções e
subdistinções que comportam, têm efetivamente, como os ritos
do islã, um domínio geográfico, embora constituam estatutos
pessoais, que acompanham os indivíduos em qualquer lugar em
que se encontrem: a escola do Dayabhaga domina na Bengala e
em Assam, a escola do Mitakshara no resto da Índia e no
Paquistão.

DAVID (1996:439-440) afirma que o dharma e o costume se


completam:

A vida neste mundo não poderia ser regida unicamente pelo


dharma. Se só este exprime uma verdade eterna, outros
elementos são legitimamente levados em conta para determinar
a conduta dos homens: considerações do útil (artha) e do
agradável (kama). O homem sábio concilia na sua conduta a
virtude com o interesse e o prazer, e não se pode esperar que as
pessoas vivam em completa conformidade com o dharma no
período de decadência (kali), que é o de nossa infeliz época. Por
esta razão o próprio dharma admite o costume praeter legem e o
costume contra legem: deve-se, segundo Yajnavalkya e Manou,
renunciar seguir a regra de conduta consagrada pelos textos se
esta é reprovada, desprezada pelo mundo. Entretanto, as regras
costumeiras, provindas das condições contingentes de tempo e
lugar, não têm relação com o comando divino, que é o
fundamento do dharma. Elas representam um simples fato, que
não merece estudo, e não poderiam servir de base para uma
verdadeira essência. A realidade, portanto, é que a Índia vive
184

segundo costumes dominados, em maior ou menor grau, pela


doutrina do hinduísmo, que dispõe sobre as regras de conduta
em conformidade com as quais os costumes foram, com maior ou
menor intensidade, modificados, orientados ou interpretados.

Os costumes são variados. Cada casta ou subcasta segue as


regras do costume que lhes são próprias; as assembléias
(panchayats) resolvem, a nível local, todas as dificuldades e
todos os litígios, apoiando-se na opinião pública. A assembléia,
que decide por unanimidade, dispõe de meios de pressão
eficazes; a sanção mais temível é a excomunhão, que faz do indi-
víduo um isolado numa sociedade onde a vida não se concebe
fora de um grupo.

Substituindo eventualmente o costume, um outro fator que pode


regular o comportamento dos hindus é constituído pela razão e
pela eqüidade. Os dharmasastras mandam o indivíduo agir e o
juiz decidir segundo a sua consciência, segundo a justiça,
segundo a eqüidade, se nenhuma outra regra de Direito estrito
lhes é imposta. Assim, as leis de Manou recomendam que se
recorra, em casos duvidosos, à “satisfação interior”.

.....................................................................................................................

[3] e [4] Em 1931 os brâmanes correspondiam a 6,4% da população e os


kshatriyas a 3,7, segundo informação de JAFFRELOT (1996:12).

.....................................................................................................................

[5] KAUTILYA, no seu Arthashastra (2002:35-55), adota, dentre outros


preceitos políticos, outros tantos, de aparência jurídica, que se
assemelham aos do Dharmasastra:

O ofício do contador

O superintendente das contas instalará sua repartição com a


porta voltada para o norte ou o leste, os lugares de trabalho dos
contadores bem separados e prateleiras com os livros de contas
perfeitamente ordenados.

o funcionário que violar qualquer norma, ou desviar-se da forma


estabelecida para as contas, fizer um registro sem saber o que
significa ou equivocadamente registrar duas ou três vezes a
mesma operação será multado em doze dinheiros.

Aquele que por inadvertência apagar o registro de um total


sofrerá dupla punição.

Aquele que o omitir será multado oito vezes.

O que provocar perda de receita reporá essa perda acrescentada


de cinco vezes o seu valor. Se mentir, sofrerá a penalidade
185

prevista para o roubo. Se omitir da primeira vez algum registro,


incluindo-o só mais tarde, sofrerá em dobro essa pena.

O soberano perdoará uma falha de pequenas proporções; ficará


satisfeito mesmo quando a arrecadação for pequena, mas
honrará com recompensas o funcionário que lhe trouxer grandes
beneficios.

Descobrindo desvios de tributos por funcionários corruptos

Todos os empreendimentos dependem de recursos. Por isso, o


tesouro deve merecer a maior atenção.

A prosperidade pública, os prêmios pela boa conduta, a captura


dos ladrões, a redução do número de servidores públicos, as
colheitas abundantes, a prosperidade do comércio, a inexistência
de distúrbios e calamidades, a redução das isenções de
impostos, as receitas em ouro — estes são fatores que conduzem
à prosperidade financeira.

O exame da conduta dos servidores públicos

Aqueles que têm qualificações ministeriais devem ser nomeados


para dirigir os departamentos governamentais de acordo com a
sua capacidade individual. Enquanto estiverem nessas funções,
serão inspecionados todo dia, porque os homens são
naturalmente dispersivos e, como os cavalos engajados numa
tarefa, mudam de disposição a cada instante. Por isso os
instrumentos que utilizam, o local e hora em que trabalham e a
exata forma da sua atividade, bem como seus resultados, devem
ser objeto de constante reavaliação.

O superintendente do comércio

Cabe ao superintendente do comércio verificar se há ou não


demanda pelos vários tipos de produtos da terra ou da água,
transportados por estradas ou vias fluviais e marítimas, assim
como a flutuação dos seus preços. E decidirá também a melhor
época para a distribuição, depósito, compra e venda desses
produtos.

Os produtos de ampla demanda devem ser armazenados, e seu


preço sempre aumentado. Quando o novo preço for aceito pelo
povo, um outro preço será fixado.

Os produtos de origem local serão armazenados; os importados


serão distribuídos para venda em diferentes mercados. E os dois
tipos de mercadoria serão vendidos ao povo em condições
favoráveis. O soberano evitará lucros muito grandes que
prejudiquem o povo.
186

Não haverá qualquer restrição à época de vender os produtos


pelos quais haja demanda freqüente, que não estarão sujeitos
aos inconvenientes da armazenagem.

No concernente à venda das mercadorias do rei em países


estrangeiros, assim procederá o superintendente: depois de
verificar o valor das mercadorias locais, comparativamente aos
produtos estrangeiros que podem ser obtidos em troca, calculará
se há uma margem de lucro, considerado o custo do transporte e
as diferentes taxas e tributos pagos ao estado estrangeiro. Se
não houver lucro na venda dos produtos locais em mercados
estrangeiros, o superintendente verificará se existe alguma
possibilidade vantajosa de troca com produtos locais. Depois,
enviará um quarto da mercadoria disponível para diferentes
mercados, usando estradas seguras. Para assegurar bons lucros,
deverá relacionar-se amistosamente com as autoridades do
outro estado, tomando todas as precauções para proteger os
recursos assim obtidos. Se não for possível alcançar o mercado
pretendido, para evitar sua perda total a mercadoria poderá ser
vendida em qualquer outro lugar, com um lucro inferior, sem
pagar impostos, como se fosse um produto local.

O superintendente aduaneiro

O superintendente aduaneiro construirá um posto de inspeção e


coleta perto do portão principal de acesso à cidade, de frente
para o norte ou o leste, e exibindo as suas insígnias. Quando os
comerciantes passarem pelo posto, quatro ou cinco coletores
anotarão seu nome, procedência, as mercadorias trazidas e o
local onde foram inspecionadas pela primeira vez.

A mercadoria que não tiver o selo apropriado pagará os direitos


em dobro. Se o selo for falsificado, pagará uma multa de oito
vezes o seu valor. Se o selo estiver apagado ou danificado, o
mercador será retido por algum tempo. Haverá também uma
multa em dinheiro nos casos em que a mercadoria declarada não
corresponder à verdade, ou o selo for diferente do obrigatório.

O superintendente das prostitutas

Pagando-lhe um salário fixo, o superintendente das prostitutas


empregará na corte uma prostituta, reputada pela sua beleza,
juventude e qualificações, seja ou não de uma família de
prostitutas. Será também nomeada uma prostituta substituta
com um salário de metade do valor do primeiro.

Quando uma dessas prostitutas viajar, ou se vier a falecer, a


filha ou irmã poderá tomar o seu lugar, recebendo seu salário e
patrimônio. Este poderá caber a sua mãe ou a uma outra
prostituta. Se isso não ocorrer, o patrimônio ficará para o
soberano.
187

Para acrescentar ao brilho das prostitutas que levam as insígnias


do soberano’3 e que o servem quando está no leito real, no trono
ou numa carruagem, as prostitutas devem ser classificadas em
três graus, de acordo com sua beleza e as jóias que usam; e seu
salário variará da mesma forma.

A prostituta que perder sua beleza será empregada como


serviçal.

Se, depois de ter recebido a quantia que lhe for devida, uma
prostituta se recusar a atender quem a pagou, será multada em
duas vezes essa quantia.

Quando uma prostituta recusar seu cliente, será multada em oito


vezes o valor da quantia cobrada, a menos que o cliente esteja
prejudicado por uma doença ou defeito pessoal.

Se uma prostituta matar seu cliente será queimada viva ou


afogada.

Ao cliente de uma prostituta que roubar sua roupa ou suas jóias,


ou deixar de pagar-lhe o que é devido, será imposta multa igual
a oito vezes o valor do que foi roubado.

Toda prostituta informará o superintendente sobre seus clientes,


sua receita diária e renda prevista.

As mesmas regras se aplicarão aos atores, dançarmos, cantores,


músicos, cômicos, mimos, bardos, artistas de circo, cáftens e
mulheres livres.

Toda prostituta pagará ao governo, mensalmente, o equivalente


à sua receita de dois dias.

O matrimônio e seus deveres

A propriedade da esposa e as compensações devidas

O matrimônio constitui a base de todas as disputas

A propriedade da mulher está representada por meios de


subsistência e jóias, para as quais não há limite de valor. No
caso dos meios de subsistência, seu dote será sempre superior a
dois mil dinheiros. A esposa poderá lançar mão desses recursos
para manter-se, ou para manter os filhos ou a nora, caso o
esposo esteja ausente e não tenha deixado recursos para isso.
Quanto ao esposo, poderá também utilizar esses recursos em
caso de calamidade, doença ou fome, para afastar perigo ou em
188

atos de caridade.

Se uma viúva voltar a casar-se com um homem que não tenha


sido escolhido pelo seu sogro perderá tudo o que lhe tiver sido
dado por este e pelo falecido esposo.

Os deveres da esposa

A esposa que praticar quaisquer atos sexuais, ou beber, violando


desta forma uma proibição, pagará multa de três dinheiros. No
caso de sair durante o dia para assistir a um evento esportivo ou
um espetáculo, pagará multa de doze dinheiros. Se a falta
ocorrer durante a noite, a multa será dobrada. A esposa que sair
quando o esposo estiver dormindo, ou embriagado, será
penalizada com doze dinheiros; o mesmo se impedir a entrada do
cônjuge em sua casa à noite. Se um homem e uma mulher
trocarem palavras ou sinais com o propósito de marcar um
encontro amoroso, a mulher será multada em 24 dinheiros, o
homem em 48.

A difamação

A calúnia, os comentários insultuosos e a intimidação constituem


difamação. Entre as expressões abusivas relativas ao corpo, aos
hábitos, à educação, chamar uma pessoa defeituosa por apodo
verdadeiro, tal como “o cegos", “o aleijado”, etc., implicará
multa de três dinheiros; e se o apodo for falso, a multa será
dobrada. Se um cego for chamado ironicamente de “homem com
belos olhos”, ou um desdentado de “homem de dentes
perfeitos”, por exemplo, a multa aplicável será de doze
dinheiros. O mesmo com a pessoa afetada pela lepra,
impotência, insanidade mental, etc. De modo geral, as ex-
pressões insultuosas — sejam verdadeiras, falsas ou irônicas —
entre pessoas do mesmo nível social serão punidas com
multas acima de doze dinheiros.

Se as vítimas de tais insultos forem pessoas de nível social


superior ao de quem insulta, este pagara uma multa dobrada; se
a vitima for de nível inferior, pagará a metade. A calúnia que
atinja a esposa alheia levará a dobrar a multa aplicável.

Se o insulto for devido a desatenção, embriaguez ou alienação


dos sentidos, a multa será diminuída pela metade.

Caberá aos médicos ou aos vizinhos, em cada caso, determinar


se a lepra, a alienação, etc. são uma condição verdadeira.

A impotência será determinada pelo testemunho de mulheres, a


espuma da urina ou pelo comportamento das fezes quando
mergulhadas em água.

A agressão
189

Tocar em uma pessoa, golpeá-la ou feri-la constitui uma


agressão.

Se a pessoa tocar na outra abaixo do umbigo com a mão, terra,


cinza ou lama, será punida com multa de três dinheiros; se o
instrumento usado estiver sujo, ou a agressão for praticada com
a perna ou um respingo de saliva, a multa será de seis dinheiros;
se com urina, saliva, fezes etc., a multa crescerá para doze
dinheiros. Cometida acima do umbigo, a multa será dobrada; na
cabeça, será multiplicada por quatro.

Praticada a agressão contra pessoa de nível social superior,


acarretará multa dobrada; o mesmo se a agressão for contra a
esposa alheia; contra pessoa de nível social inferior, a multa será
diminuída pela metade.

Se a agressão for causada por embriaguez, desatenção ou


aIienação dos sentidos, será diminuída pela metade.

Segurar um homem pelas pernas, mãos, roupa ou cabelo


implicará multa acima de seis dinheiros. Apertar uma pessoa
com os braços, empurrá-la, arrastá-la ou sentar sobre ela será
também punido com multa da primeira categoria.

Se o agressor se afastar correndo, depois de derrubar a vítima,


será punido com metade da multa prevista.

Se o agressor for da casta Sudra, e a vítima Brâmane, o membro


com que este for agredido será amputado.

O julgamento e a tortura necessária para obter uma confissão

Há quatro categorias de tortura: com a banheira, sete formas


com o chicote, duas formas com a suspensão do corpo e as seis
punições.

As pessoas condenadas por crimes graves receberão nove tipos


de golpe com um bastão; doze golpes nas duas coxas; vinte
golpes com um ramo de árvore; trinta e dois golpes na palma de
cada mão e na sola de cada pé. As mãos atadas duas vezes, terão
as pernas unidas de modo a parecer um escorpião. Há dois tipos
de suspensão com o rosto para baixo. As juntas dos dedos serão
queimadas, depois do condenado beber água com arroz; seu
corpo será aquecido durante um dia depois que beber óleo. No
inverno, será colocado sobre a grama para passar a noite.

Cada dia será praticado um tipo diferente de tortura

Qualquer que seja a natureza do crime cometido, nenhum


brâmane poderá ser torturado, mas seu rosto será marcado com
uma indicação do crime cometido: a forma de um cão, no caso do
ladrão; a de um corpo decapitado, no caso do homicida; uma
190

parte feminina, no caso do estuprador; a bandeira dos


taberneiros, se tiver bebido álcool.

Depois de ter marcado assim o criminoso brâmane, e de ter


proclamado em público o seu crime, o soberano o banirá do país
ou o obrigará ao trabalho nas minas o resto da vida.

A pena capital, com ou sem tortura

O homem que tiver assassinado um outro será torturado até


morrer. Se uma pessoa, ferida numa luta, morrer dentro de sete
dias, aquele que lhe tiver causado o ferimento mortal será
executado instantaneamente. Se a pessoa ferida morrer dentro
de duas semanas, o criminoso pagará uma multa da categoria
mais elevada. Se a vítima falecer dentro de um mês, o criminoso
deverá pagar uma multa de quinhentos panas, além de indenizar
a família atingida.

Se alguém ferir uma pessoa com uma arma, pagará multa da


categoria mais elevada; se tiver causado esse ferimento sob o
efeito da embriaguez, terá sua mão amputada. Se provocar a
morte instantânea do ferido, pagará com a vida.

Relações sexuais com meninas

Aquele que violar uma virgem da sua casta, quando ainda for
uma menina, terá a mão amputada ou pagará a multa de
quatrocentos panas. Se a virgem vier a morrer, o violador será
executado. No caso da virgem ter mais idade, o violador terá o
dedo médio da mão amputado, ou pagará a multa de duzentos
panas, além de dar ao pai da moça uma compensação adequada.

Nenhum homem pode ter relações sexuais com uma mulher sem
o seu consentimento.

Aquele que violar uma virgem com o seu consentimento pagará


multa de 54 panas; a virgem pagará também uma multa de
metade desse valor.

A conduta do cortesão

Por meio da influência de algum amigo, quem tiver bastante


experiência do mundo poderá buscar o favor do soberano que,
dispondo de todos os atributos da realeza, tenha uma disposição
bondosa. Cortejará o soberano, pensando: “Assim como preciso
de um protetor, o soberano tem um caráter amável e pendor
para dar bons conselhos”. Cortejará até mesmo um rei que tiver
perdido suas riquezas e não dispuser dos elementos do poder
real, mas nunca aquele de caráter depravado.

Sem perder as oportunidades, falará das coisas que interessem


ao soberano; dos seus próprios interesses só quando na
191

companhia de amigos; e dos interesses de outras pessoas, no


lugar e momentos apropriados, em conformidade com os
princípios da correção e da economia.

Quando indagado, dirá ao soberano o que é bom e agradável de


ouvir, mas não o que é mau, embora seja agradável; se o
soberano tiver prazer em ouvi-lo, poderá dizer-lhe
confidencialmente o que é bom mas desagradável.

Poderá, se necessário, guardar o silêncio, mas nunca dirá o que é


odioso; até mesmo pessoas indesejáveis adquiriram poder
abstendo-se de falar sobre o que o soberano odeia; fizeram isso
ao perceber que o soberano só queria tratar de coisas
agradáveis, sem dar atenção às más conseqüências e seguindo
essa sua disposição.

A autodefesa deve ser o pensamento primordial e constante do


homem sábio, pois a vida de quem está a serviço do soberano
pode ser comparada à existência no meio de um incêndio —
enquanto o fogo destrói o corpo, em parte ou no todo, o
soberano pode destruir ou favorecer toda a família, incluindo os
filhos dos empregados e suas esposas.

Considerações sobre as dificuldades enfrentadas pelo


soberano e o seu reino

O soberano e seu reino são os elementos fundamentais do Estado

As dificuldades enfrentadas pelo soberano podem ser internas ou


externas. As primeiras são mais sérias do que as externas.
Problemas criados pelos ministros são mais sérios do que os
outros tipos de dificuldades internas. Por isso, o soberano deve
manter o tesouro e o exército sob o seu controle direto.

.....................................................................................................................

[6] ANNOUSSAMY (2001:65) fala sobre os panchayats:

A Justiça era concebida como uma função divina cumprida pelo


rei ou seus delegados. Paralelamente havia em cada vila um
Tribunal ao qual as partes submetiam tradicionalmente suas
lides. As apelações ao rei eram raras. Essas instâncias
tradicionais continuam ainda a funcionar se bem que
desprovidas de reconhecimento oficial. Elas compreendem em
geral cinco habitantes importantes da vila e são chamadas, por
essa razão, panchayatas... Elas se renovam por via de admissão
porém sob condição de aprovação tácita dos habitantes. A
colonização, depois a urbanização, e os meios modernos de
transporte diminuíram sua importância, mas elas desempenham
ainda um papel importante em determinadas localidades. Nessas
localidades adota-se um ponto de honra em não apresentar
nenhuma demanda nos tribunais oficiais; essas vilas são cada
vez mais raras, é verdade. Mas, no conjunto, os Tribunais
192

tradicionais tratam ainda de um número considerável de


processos de pessoas simples, algumas vezes até de processos
criminais.

A forma de operar desses Tribunaisadota o ideal de justiça


presente no espírito da população. É uma concepção que vem de
priscas eras. É difícil dizer exatamente como funcionavam esses
tribunais antigamente. O que se pode afirmar é que deveriam
existir variações conforme a localidade e a época, mas
determinados pontos comuns deveriam existir em todas as
localidades e épocas. Pode-se Ter uma idéia disso através das
referências literárias e contos.

.....................................................................................................................

[7] Leis federais em vigor (em inglês) :

Alphabetical List - Central Acts

Name of the Act Year Act No

Absorbed Areas (Laws) Act 1954 20

Acquired Territories (Merger) Act 1960 64

Acquisition of Certain Area at Ayodhya Act 1993 33

Additional Duties of Excise (Goods of Special Importance) Act 1957 58

Additional Duties of Excise (Textiles and Textile Articles) Act 1978 40

Additional Emoluments (Compulsory Deposit) Act 1974 37

Administration of Evacuee Property Act 1950 31

Administrative Tribunals Act 1985 13

Administrative Tribunal (Amendment) Act 1986 19

Administrators-General Act 1963 45

Advocates Act 1961 25

Advocates’ Welfare Fund Act 2001 45

African Development Bank Act 1983 13

African Development Fund Act 1982 01

Agricultural and Processed Food Products Export Cess Act, 1985 1986 03

Agricultural and Processed Food Products Export 1986 02

Development Authority Act, 1985

Agricultural Produce Cess Act 1940 27

Agricultural Produce (Grading and Marking) Act 1937 01

Agriculturists' Loans Act 1884 12

Aircraft Act 1934 22


193

Airports Authority of India Act 1994 55

Air Corporations (Transfer of Undertakings and Repeal) Act 1994 13

Air Force Act 1950 45

Air (Prevention and Control of Pollution) Act 1981 14

Air (Prevention and Control of Pollution) Amendment Act 1987 47

Ajmer Tenancy and Land Records Act 1950 42

Alcock Ashdown Company Limited (Acquisition of Undertakings Act 1973 56

Aligarh Muslim University Act 1920 40

All-India Council for Technical Education Act 1987 52

All-India Institute of Medical Sciences Act 1956 25

All-India Services Act 1951 61

All-India Services Regulations (Indemnity) Act 1975 19

Aluminium Corporation of India Limited Acquisition and Transfer of 1984 43

Aluminium Undertaking Act

Amending Act 1897 05

Amending Act 1901 11

Amending Act 1903 01

Amritsar Oil Works (Acquisition and Transfer of Undertakings) Act 1982 50

Anand Marriage Act 1909 07

Ancient Monuments and Archaeological Sites and Remains Act 1958 24

Ancient Monuments Preservation Act 1904 07

Andhra Pradesh and Madras (Alteration of Boundaries) Act 1959 56

Andhra Pradesh and Mysore (Transfer of Territory) Act 1968 36

Andhra Scientific Company Limited (Acquisition and Transfer of 1982 71

Undertakings) Act

Andhra State Act 1953 30

Anti-Apartheid (United Nations Convention) Act 1981 48

Anti-Corruption Laws (Amendment) Act 1967 16

Anti-Hijacking Act 1982 65

Antiquities and Art Treasures Act 1972 52

Apprentices Act 1961 52

Arbitration and Conciliation Act 1996 26

Architects Act 1972 20

Armed Forces (Emergency Duties) Act 1947 15

Armed Forces (Jammu and Kashmir) Special Powers Act 1990 21


194

Armed Forces (Punjab and Chandigarh) Special Powers Act 1983 34

Armed Forces (Special Powers) Act 1958 28

Arms Act 1959 54

Army Act 1950 46

Army and Air Force (Disposal of Private Property) Act 1950 40

Arya Marriage Validation Act 1937 19

Asian Development Bank Act 1966 18

Asian Refractories Limited (Acquisition of Undertakings) Act 1971 65

Asiatic Society Act 1984 05

Assam (Alteration of Boundaries) Act 1951 47

Assam Criminal Law Amendment (Supplementary) Act 1934 27

Assam Municipal (Manipur Amendment) Act 1961 49

Assam Reorganisation (Meghalaya) Act 1969 55

Assam Rifles Act 1941 05

Assam Sillimanite Limited (Acquisition and Transfer of Refractory Plant) Act 1976 22

Assam University Act 1989 23

Atomic Energy Act 1962 33

Auroville Foundation Act 1988 54

Authoritative Texts (Central Laws) Act 1973 50

Babasaheb Bhimrao Ambedkar University Act 1994 58

Banaras Hindu University Act 1915 16

Bangalore Marriages Validating Act 1936 16

Bankers' Books Evidence Act 1891 18

Banking Companies (Acquisition and Transfer of Undertakings) Act 1970 05

Banking Companies (Acquisition and Transfer of Undertakings) Act 1980 40

Banking Laws (Application to Co-operative Societies) Act 1965 23

Banking Laws (Amendment) Act 1985 81

Banking Regulation Act 1949 10

Banking Service Commission Act 1984 44

Bar Councils (Validation of State Laws) Act 1956 04

Beedi and Cigar Workers (Conditions of Employment) Act 1966 32

Beedi and Cigar Workers (Conditions of Employment) Amendment Act 1993 41

Beedi Workers Welfare Cess Act 1976 56

Beedi Workers Welfare Fund Act 1976 62

Benami Transactions (Prohibition) Act 1988 45

Bengal, Agra and Assam Civil Courts Act 1887 12


195

Bengal Alluvion and Diluvion Act 1847 09

Bengal, Bihar and Orissa and Assam Laws Act 1912 07

Bengal Bonded Warehouse Association Act 1838 05

Bengal Bonded Warehouse Association Act 1854 05

Bengal Chaukidari Act 1856 20

Bengal Chemical and Pharmaceutical Works Limited (Acquisition and 1980 58

Transfer of Undertakings) Act

Bengal Criminal Law Amendment (Supplementary) Act 1925 ..

Bengal Districts Act 1836 21

Bengal Embankment Act 1855 32

Bengal Finance (Sales Tax) (Delhi Validation of Appointments and 1971 20

Proceedings) Act

Bengal Ghatwali Lands Act 1859 05

Bengal Immunity Company Limited (Acquisition and Transfer of 1984 57

Undertakings) Act

Bengal Indigo Contracts Act 1836 10

Bengal Land Holders' Attendance Act 1848 20

Bengal Land Revenue Sales Act 1841 12

Bengal Land Revenue Sales Act 1859 11

Bengal Military Police Act 1892 05

Bengal Rent Act 1859 10

Bengal Suppression of Terrorist Outrages (Supplementary) Act 1932 24

Bengal Tenancy Act 1885 08

Berar Laws Act 1941 04

Betwa River Board (Amendment) Act 1993 49

Betwa River Board Act 1976 63

Bharat Petroleum Corporation Limited 1988 44

(Determination of Conditions of Service of Employees) Act

Bhopal Gas Leak Disaster (Processing of Claims) Act 1985 21

Bihar Land Reforms Laws (Regulating Mines and Minerals) Validation Act 1969 42

Bihar Reorganisation Act, 2000 2000 30

Bihar and Uttar Pradesh (Alteration of Boundaries) Act 1968 24

Bihar and West Bengal (Transfer of Territories) Act 1956 40

Bikrama Singh's Estates Act 1883 10

Bird and Company Limited (Acquisition and 1980 67


196

Transfer of Undertakings and Other Properties) Act

Births, Deaths and Marriages Registration Act 1886 06

Bolani Ores Limited (Acquisition of Shares) and Miscellaneous Provisions Act 1978 42

Bombay Civil Courts Act 1869 14

Bombay Municipal Debentures Act 1876 15

Bombay Public Security Measures (Delhi Amendment) Act 1948 52

Bombay Rent-free Estates Act 1852 11

Bombay Reorganisation Act 1960 11

Bombay Revenue Jurisdiction Act 1876 10

Bonded Labour System (Abolition) Act 1976 19

Border Security Force Act 1968 47

Boundaries 1847 01

Boundary-marks, Bombay 1846 03

Brahmaputra Board Act 1980 46

Braithwaite and Company (India) Limited (Acquisition and Transfer of 1976 96

Undertakings) Act

Brentford Electric (India) Limited (Acquisition and Transfer of 1987 36

Undertakings) Act

Britannia Engineering Company Limited (Mokameh Unit) and the Arthur 1978 41

Butler and Company (Muzaffarpore) Limited (Acquisition and Transfer

of Undertakings) Act

British India Corporation Limited (Acquisition of Shares) Act 1981 29

British Statutes (Application to India) Repeal Act 1960 57

Broach and Kaira Incumbered Estates Act 1877 14

Bronze Coin (Legal Tender) Act 1918 22

Building and Other Construction Workers (Regulation of Employment 1996 27

and Conditions of Service) Act

Building and Other Construction Workers' Welfare Cess Act 1996 28

Bureau of Indian Standards Act 1986 63

Burmah Oil Company [Acquisition of Shares of Oil India Limited and of the 1981 41

Undertakings in India of Assam Oil Company Limited and the Burmah Oil

Company (India Trading) Limited] Act

Burmah Shell (Acquisition of Undertakings in India) Act 1976 02

Burn Company and Indian Standard Wagon Company (Nationalisation) Act 1976 97

Cable Television Networks (Regulation) Act 1995 07

Calcutta High Court (Extension of Jurisdiction) Act 1953 41


197

Calcutta High Court (Jurisdictional Limits) Act 1919 15

Calcutta Land-revenue Act 1850 23

Calcutta Land-revenue Act 1856 18

Calcutta Metro Railway (Operation and Maintenance) Temporary 1985 10

Provisions Act

Calcutta Pilots Act 1859 12

Calcutta Port (Pilotage) Act 1948 33

Caltex [Acquisition of Shares of Caltex Oil Refining (India) Limited and 1977 17

of the Undertakings in India of Caltex (India) Limited] Act

Cantonments (Extension of Rent Control Laws) Act 1957 46

Cantonments (House Accommodation) Act 1923 06

Cantonments Act 1924 02

Capital of Punjab Development and Regulation (Chandigarh Amendment) Act 1973 17

Cardamom Act 1965 42

Carriage by Air Act 1972 69

Carriers Act 1865 03

Caste Disabilities Removal Act 1850 21

Cattle-trespass Act 1871 01

Census Act 1948 37

Central Agricultural University Act 1992 40

Central Board of Revenue Act 1963 54

Central Duties of Excise (Retrospective Exemption Act 1986 45

Central Excise Act 1944 01

Central Excises and Salt (Amendment) Act 1985 79

Central Excise Tariff Act, 1985 1986 05

Central Excises (Conversion to Metric Units) Act 1960 38

Central Industrial Security Force (Amendment and Validation) Act 1999 40

Central Industrial Security Force Act 1968 50

Central Labour Laws (Extension to Jammu and Kashmir) Act 1970 51

Central Laws (Extension to Arunachal Pradesh) Act 1993 44

Central Laws (Extension to Jammu and Kashmir) Act 1968 25

Central Provinces Court of Wards Act 1899 24

Central Provinces Financial Commissioner's Act 1908 13

Central Provinces Land-revenue Act 1881 18

Central Provinces Laws Act 1875 20


198

Central Provinces Tenancy Act 1898 11

Central Road Fund Act 2000 54

Central Reserve Police Force Act 1949 66

Central Sales Tax (Amendment) Act 1969 28

Central Sales Tax Act 1956 74

Central Silk Board Act 1948 61

Cess and Other Taxes on Minerals (Validation) Act 1992 16

Chandernagore (Merger) Act 1954 36

Chandigarh (Delegation of Powers) Act, 1987 1988 02

Chandigarh Disturbed Areas Act 1983 33

Chaparmukh Silghat Railway Line and the Katakhal Lalabazar Railway Line 1982 36

(Nationalisation) Act

Charitable Endowments Act 1890 06

Charitable and Religious Trusts Act 1920 14

Chartered Accountants Act 1949 38

Chemical Weapons Convention Act, 2000 2000 34

Child Labour (Prohibition and Regulation) Act 1986 61

Child Marriage Restraint Act 1929 19

Children (Pledging of Labour) Act 1933 02

Chit Funds Act 1982 40

Chota Nagpur Encumbered Estates Act 1876 06

Church of Scotland Kirk Sessions Act 1899 23

Cigarettes (Regulation of Production, Supply and Distribution) Act 1975 49

Cinematograph Act 1918 02

Cinematograph Act 1952 37

Cine-Workers and Cinema Theatre Workers (Regulation of Employment) Act 1981 50

Cine-Workers Welfare Cess Act 1981 30

Cine-Workers Welfare Fund Act 1981 33

Citizenship Act 1955 57

City of Bombay Municipal (Supplementary) Act 1888 12

Civil Defence Act 1968 27

Coal Bearing Areas (Acquisition and Development) Act 1957 20

Coal Bearing Areas (Acquisition and Development) Amendment and 1971 54

Validation Act

Coal India (Regulation of Transfers and Validation) Act 2000 45

Coal Mines (Conservation and Development) Act 1974 28


199

Coal Mines (Nationalisation) Act 1973 26

Coal Mines Labour Welfare Fund (Repeal) Act 1986 27

Coal Mines Provident Fund and Miscellaneous Provisions Act 1948 46

Coal Mines (Taking Over of Management) Act 1973 15

Coast Guard Act 1978 30

Coasting Vessels Act 1838 19

Coconut Development Board Act 1979 05

Code of Civil Procedure 1908 05

Code of Criminal Procedure, 1973 1974 02

Coffee Act 1942 07

Coinage Act 1906 03

Coir Industry Act 1953 45

Coking Coal Mines (Emergency Provisions) Act 1971 64

Coking Coal Mines (Nationalisation) Act 1972 36

Collection of Statistics Act 1953 32

Colonial Courts of Admiralty (India) Act 1891 16

Commanders-in-Chief (Change in Designation) Act 1955 19

Commercial Documents Evidence Act 1939 30

Commissions of Inquiry Act 1952 60

Commission of Sati (Prevention) Act, 1987 1988 03

Companies Act 1956 01

Companies (Amendment) Act 1988 31

Companies (Donations to National Funds) Act 1951 54

Companies (Profits) Surtax Act 1964 07

Company Secretaries Act 1980 56

Comptroller and Auditor General's (Duties, Powers and Conditions of 1971 56

Service) Act

Compulsory Deposit Scheme Act 1963 21

Conservation of Foreign Exchange and Prevention of 1974 52

Smuggling Activities Act

Consumer Protection Act 1986 68

Contempt of Courts Act 1971 70

Contingency Fund of India Act 1950 49

Continuance of Legal Proceedings Act 1948 38

Contract Labour (Regulation and Abolition) Act 1970 37


200

Converts' Marriage Dissolution Act 1866 21

Cooch-Behar (Assimilation of Laws) Act 1950 67

Co-operative Societies Act 1912 02

Copyright Act 1957 14

Coroners Act 1871 04

Cost and Works Accountants Act 1959 23

Cotton Copra and Vegetable Oils Cess (Abolition) Act 1987 04

Countess of Dufferin's Fund Act 1957 63

Court-fees Act 1870 07

Court-fees (Delhi Amendment) Act 1967 28

Criminal and Election Laws Amendment Act 1969 35

Criminal Law Amendment Act 1932 23

Criminal Law Amendment Act 1938 20

Criminal Law Amendment Act 1961 23

Customs Act 1962 52

Customs (Amendment) Act 1985 80

Customs and Central Excises Laws (Amendment) Act 1988 29

Customs and Excise Revenues Appellate Tribunal Act 1986 62

Customs Duties and Cesses (Conversion to Metric Units) Act 1960 40

Customs Tariff Act 1975 51

Cutchi Memons Act 1938 10

Dadra and Nagar Haveli Act 1961 35

Dakshina Bharat Hindi Prachar Sabha Act 1964 14

Dalmia Dadri Cement Limited (Acquisition and Transfer of Undertakings) Act 1981 31

Damodar Valley Corporation Act 1948 14

Dangerous Machines (Regulation) Act 1983 35

Decrees and Orders Validating Act 1936 05

Dehra Dun 1871 21

Dekkhan Agriculturists Relief Act 1879 17

Delhi Agricultural Produce Marketing (Regulation) Act 1976 87

Delhi and Ajmer-Merwara Land Development Act 1948 66

Delhi and Ajmer Rent Control Act 1952 38

Delhi and Ajmer Rent Control (Nasirabad Centonment Repeal) Act 1968 49

Delhi Apartment Ownership Act 1986 58

Delhi Co-operative Societies Act 1972 35

Delhi Delegation of Powers Act 1964 23


201

Delhi Development Act 1957 61

Delhi Development Authority (Validation of Disciplinary Powers) Act, 1998 1999 06

Delhi Fire Prevention and Fire Safety Act 1986 56

Delhi High Court Act 1966 26

Delhi High Court (Amendment) Act 1980 37

Delhi Hotels (Control of Accommodation) Act 1949 24

Delhi Land Holdings (Ceiling) Act 1960 24

Delhi Lands (Restriction on Transfer) Act 1972 30

Delhi Laws Act 1912 13

Delhi Laws Act 1915 07

Delhi Motor Vehicles Taxation Act 1962 57

Delhi Municipal Corporation Act 1957 66

Delhi Municipal Corporation (Validation of Electricity Tax) Act 1966 35

Delhi Police Act 1978 34

Delhi Primary Education Act 1960 39

Delhi Rent Act 1995 33

Delhi Rent Control Act 1958 59

Delhi Restriction of Uses of Land Act 1941 12

Delhi Road Transport Laws (Amendment) Act 1971 71

Delhi Sales Tax Act 1975 43

Delhi Sales Tax (Amendment and Validation) Act 1976 91

Delhi School Education Act 1973 18

Delhi Sikh Gurdwaras Act 1971 82

Delhi Special Police Establishment Act 1946 25

Delhi University Act 1922 08

Delhi (Urban Areas) Tenants' Relief Act 1961 30

Delhi Urban Art Commission Act, 1973 1974 01

Delimitation Act 1972 76

Delivery of Books and Newspapers (Public Libraries) Act 1954 27

Dentists Act 1948 16

Departmental Inquiries (Enforcement of Attendance of Witnesses and 1972 18

Production of Documents) Act

Departmentalisation of Union Accounts (Transfer of Personnel) Act 1976 59

Deposit Insurance and Credit Guarantee Corporation Act 1961 47

Deposit Insurance Corporation (Amendment and Miscellaneous 1978 21


202

Provisions) Act

Depositories Act 1996 22

Designs Act 2000 16

Destruction of Records Act 1917 05

Destructive Insects and Pests Act 1914 02

Destructive Insects and Pests (Amendment and Validation) Act 1992 12

Diplomatic and Consular Officers (Oaths and Fees) Act 1948 41

Diplomatic and Consular Officers (Oaths and Fees) (Extension to Jammu 1973 02

and Kashmir) Act

Diplomatic Relations (Vienna Convention) Act 1972 43

Direct Tax Laws (Amendment) Act 1989 03

Direct-Tax Laws (Miscellaneous) Repeal Act 2000 20

Displaced Persons (Claims) Supplementary Act 1954 12

Displaced Persons (Compensation and Rehabilitation) Act 1954 44

Displaced Persons (Debts Adjustment) Act 1951 70

Disputed Elections (Prime Minister and Speaker) Act 1977 16

Dissolution of Muslim Marriages Act 1939 08

Disturbed Areas (Special Courts) Act 1976 77

Dock Workers (Regulation of Employment) Act 1948 09

Dock Workers (Regulation of Employment) (Inapplicability to Major 1997 31

Ports) Act

Dock Workers (Safety, Health and Welfare) Act 1986 54

Dourine Act 1910 05

Dowry Prohibition Act 1961 28

Dramatic Performances Act 1876 19

Drugs and Cosmetics Act 1940 23

Drugs and Magic Remedies (Objectionable Advertisements) Act 1954 21

Drugs (Control) Act 1950 26

Durgah Khawaja Saheb Act 1955 36

Easements (Extending Act 5 of 1882) 1891 08

East-Punjab Urban Rent Restriction (Extension to Chandigarh) Act 1974 54

Economic Offences (Inapplicability of Limitation) Act 1974 12

Election Commission (Conditions of Service of Election Commissioners 1991 11

and Transaction of Business) Act

Election Laws (Extension to Sikkim) Act 1976 10

Electricity Regulatory Commission Act 1998 14


203

Electricity (Supply) Act 1948 54

Elephants' Preservation Act 1879 06

Emblems and Names (Prevention of Improper Use) Act 1950 12

Emigration Act 1983 31

Employees' Provident Funds and Miscellaneous Provisions Act 1952 19

Employees' Provident Funds and Miscellaneous Provisions (Amendment) Act 1988 33

Employees' State Insurance Act 1948 34

Employees' State Insurance (Amendment) Act 1989 29

Employers' Liability Act 1938 24

Employment Exchanges (Compulsory Notification of Vacancies) Act 1959 31

Employment of Manual Scavengers and Construction of Dry Latrines 1993 46

(Prohibition) Act

Enemy Property Act 1968 34

Energy Conservation Act 2001 52

Environment (Protection) Act 1986 29

Epidemic Diseases Act 1897 03

Equal Remuneration Act 1976 25

Essential Commodities Act 1955 10

Essential Services Maintenance (Assam) Act 1980 41

Esso (Acquisition of Undertakings in India) Act 1974 04

Evacuee Interest (Separation) Act 1951 64

Exchange of Prisoners Act 1948 58

Excise (Malt Liquors) Act 1890 13

Excise (Spirits) Act 1863 16

Expenditure-tax Act 1987 35

Explosive Substances Act 1908 06

Explosives Act 1884 04

Export-Import Bank of India Act 1981 28

Export (Quality Control and Inspection) Act 1963 22

Extradition Act 1962 34

Factories Act 1948 63

Family Courts Act 1984 66

Faridabad Development Corporation Act 1956 90

Fatal Accidents Act 1855 13

Finance Commission (Miscellaneous Provisions) Act 1951 33


204

Food Corporations Act 1964 37

Foreign Contribution (Regulation) Act 1976 49

Foreign Exchange Management Act 1999 42

Foreign Jurisdiction Act 1947 47

Foreign Marriage Act 1969 33

Foreign Recruiting Act 1874 04

Foreign Trade (Development and Regulation) Act 1992 22

Foreigners Act 1946 31

Foreigners Law (Application and Amendment) Act 1962 42

Forest (Conservation) Act 1980 69

Forfeited Deposits Act 1850 25

Former Secretary of State Service Officers (Conditions of Service) Act 1972 59

Fort William Act 1881 13

Forward Contracts (Regulation) Act 1952 74

Futwah-Islampur Light Railway Line (Nationalisation) Act 1985 83

Ganesh Flour Mills Company Limited (Acquisition and Transfer of 1984 16

Undertakings) Act

Ganges Tolls 1867 01

General Clauses Act 1897 10

General Insurance Business (Nationalisation) Act 1972 57

General Insurance Business (Nationalisation) Amendment Act 1985 03

Geneva Conventions Act 1960 06

Geographical Indications of Goods (Registration and Protection) Act 1999 48

Gift-tax Act 1958 18

Glanders and Farcy Act 1899 13

Goa, Daman and Diu (Absorbed Employees) Act 1965 50

Goa, Daman and Diu (Administration) Act 1962 01

Goa, Daman and Diu (Extension of the Code of Civil Procedure and the 1965 30

Arbitration Act) Act

Goa, Daman and Diu Mining Concessions (Abolition and Declaration as 1987 16

Mining Leases) Act

Goa, Daman and Diu (Opinion Poll) Act 1966 38

Goa, Daman and Diu Reorganisation Act 1987 18

Gold Bonds (Immunities and Exemptions) Act 1993 25

Government Buildings Act 1899 04

Government Grants Act 1895 15


205

Government Management of Private Estates Act 1892 10

Government of National Capital Territory of Delhi Act, 1991 1992 01

Government of Union Territories Act 1963 20

Government Savings Banks Act 1873 05

Government Savings Certificates Act 1959 46

Government Seal Act 1862 03

Governors (Emoluments, Allowances and Privileges) Act 1982 43

Gresham and Craven of India (Private) Limited (Acquisition and Transfer of 1977 42

Undertakings) Act

Guardians and Wards Act 1890 08

Hackney-carriage Act 1879 14

Haj Committee Act 1959 51

Handlooms (Reservation of Articles for Production) Act 1985 22

Haryana and Punjab Agricultural Universities Act 1970 16

Haryana and Uttar Pradesh (Alteration of Boundaries) Act 1979 31

High Court and Bombay (Extension of Jurisdiction to Goa, Daman and 1981 26

Diu) Act

High Court at Patna (Establishment of a Permanent Bench at Ranchi) Act 1976 57

High Court Judges (Conditions of Service) Act 1954 28

High Courts (Seals) Act 1950 07

High Denomination Bank Notes (Demonetisation) Act 1978 11

Himachal Pradesh and Bilaspur (New State) Act 1954 32

Himachal Pradesh Legislative Assembly (Constitution and Proceedings) 1958 56

Validation Act

Hind Cycles Limited and Sen-Raleigh Limited (Nationalisation) Act 1980 70

Hindi Sahitya Sammelan Act 1962 13

Hindu Adoptions and Maintenance Act 1956 78

Hindu Disposition of Property Act 1916 15

Hindu Gains of Learning Act 1930 30

Hindu Inheritance (Removal of Disabilities) Act 1928 12

Hindu Marriage Act 1955 25

Hindu Marriages (Validation of Proceedings) Act 1960 19

Hindu Minority and Guardianship Act 1956 32

Hindu Succession Act 1956 30

Hindustan Tractors Limited (Acquisition and Transfer of Undertakings) Act 1978 13


206

Hire-Purchase Act 1972 26

Homoeopathy Central Council Act 1973 59

Hooghly Docking and Engineering Company Limited (Acquisition and 1984 55

Transfer of Undertakings) Act

Hotel-Receipts Tax Act 1980 54

Howrah Offences Act 1857 21

Identification of Prisoners Act 1920 33

Illegal Migrants (Determination by Tribunals) Act 1983 39

Immigration (Carriers’ Liability) Act 2000 52

Immigrants (Expulsion from Assam) Act 1950 10

Immoral Traffic (Prevention) Act 1956 104

Imperial Library (Change of Name) Act 1948 51

Imperial Library (Indentures Validation) Act 1902 01

Improvements in Towns 1850 26

Inchek Tyres Limited and National Rubber Manufacturers Limited 1984 17

(Nationalisation) Act

Income-tax Act 1961 43

Indecent Representation of Women (Prohibition) Act 1986 60

Indian Bar Councils Act 1926 38

Indian Bills of Lading Act 1856 09

Indian Boilers Act 1923 05

Indian Carriage of Goods by Sea Act 1925 26

Indian Christian Marriage Act 1872 15

Indian Council of World Affairs Act 2001 29

Indian Contract Act 1872 09

Indian Copper Corporation (Acquisition of Undertaking) Act 1972 58

Indian Criminal Law Amendment Act 1908 14

Indian Divorce Act 1869 04

Indian Easements Act 1882 05

Indian Electricity Act 1910 09

Indian Evidence Act 1872 01

Indian Fisheries Act 1897 04

Indian Forest Act 1927 16

Indian Independence Pakistan Courts (Pending Proceedings) Act 1952 09

Indian Iron and Steel Company (Acquisition of Shares) Act 1976 89

Indian Law Reports Act 1875 18


207

Indian Majority Act 1875 09

Indian Matrimonial Causes (War Marriages) Act 1948 40

Indian Medical Council Act 1956 102

Indian Medical Degrees Act 1916 07

Indian Medicine Central Council Act 1970 48

Indian Museum Act 1910 10

Indian Naval Armament Act 1923 07

Indian Nursing Council Act 1947 48

Indian Partnership Act 1932 09

Indian Penal Code 1860 45

Indian Ports Act 1908 15

Indian Post Office Act 1898 06

Indian Railway Board Act 1905 04

Indian Red Cross Society Act 1920 15

Indian Reserve Forces Act 1888 04

Indian Rifles Act 1920 23

Indian Securities Act 1920 10

Indian Short Titles Act 1897 14

Indian Soldiers (Litigation) Act 1925 04

Indian Stamp Act 1899 02

Indian Statistical Institute Act 1959 57

Indian Succession Act 1925 39

Indian Telegraph Act 1885 13

Indian Tolls Act 1851 08

Indian Tolls Act 1888 08

Indian Tolls Act 1864 15

Indian Tolls (Army and Air Force) Act 1901 02

Indian Tramways Act 1886 11

Indian Tramways Act 1902 04

Indian Treasure-trove Act 1878 06

Indian Trusts Act 1882 02

Indian Veterinary Council Act 1984 52

Indian Wireless Telegraphy Act 1933 17

Indira Gandhi National Open University Act 1985 50

Indo-Tibetan Border Police Force Act 1992 35


208

Industrial Development Bank of India Act 1964 18

Industrial Disputes Act 1947 14

Industrial Disputes (Amendment and Miscellaneous Provisions) Act 1956 36

Industrial Disputes (Banking and Insurance Companies) Act 1949 54

Industrial Employment (Standing Orders) Act 1946 20

Industrial Finance Corporation (Transfer of Undertaking and Repeal) Act 1993 23

Industrial Reconstruction Bank (Transfer of Undertaking and Repeal) Act 1997 07

Industrial Reconstruction Bank of India Act 1984 62

Industries (Development and Regulation) Act 1951 65

Infant Milk Substitutes, Feeding Bottles and 1992 41

Infant Foods (Regulation of Production, Supply and Distribution) Act

Inflammable Substances Act 1952 20

Information Technology Act 2000 21

Inland Vessels Act 1917 01

Inland Waterways Authority of India Act 1985 82

Insecticides Act 1968 46

Institutes of Technology Act 1961 59

Insurance Act 1938 04

Insurance Regulatory and Development Authority Act 1999 41

Intelligence Organisations (Restriction on Rights) Act 1985 58

Interest Act 1978 14

Interest on Delayed Payments to Small Scale and Ancillary Industrial Under- 1993 32

takings Act

Interest-tax Act 1974 45

International Development Association (Status, Immunities and Privileges) Act 1960 32

International Finance Corporation (Status, Immunities and Privileges) Act 1958 42

International Monetary Fund and Bank Act 1945 00

Inter-State Corporation Act 1957 38

Inter-State Migrant Workmen (Regulation of Employment and Conditions 1979 30

of Service) Act

Inter-State Water Disputes Act 1956 33

Iron Ore Mines, Manganese Ore Mines and Chrome Ore Mines Labour Welfare 1976 55

Cess Act

Iron Ore Mines, Manganese Ore Mines and Chrome Ore Mines Labour Welfare 1976 61

Fund Act

Jallianwala Bagh National Memorial Act 1951 25


209

Jamia Millia Islamia Act 1988 58

Jammu and Kashmir (Extension of Laws) Act 1956 62

Jammu and Kashmir Representation of the People Supplementary) Act 1968 03

Jawaharlal Nehru University Act 1966 53

Jayanti Shipping Company (Acquisition of Shares) Act 1971 63

Jubbalpore and Chhattisgarh Divisions (Divorce Proceedings Validation) Act 1935 13

Judges (Inquiry) Act 1968 51

Judges (Protection) Act 1985 59

Judicial Officers Protection Act 1850 18

Junagarh Administration (Property) Act 1948 26

Jute Companies (Nationalisation) Act 1980 62

Jute Manufacturers Cess Act 1983 28

Jute Manufacturers Development Council Act 1983 27

Jute Packaging Materials (Compulsory Use in Packing Commodities) Act 1987 10

Juvenile Justice (Care and Protection of Chiuldren) Act 2000 56

Kalakshetra Foundation Act, 1993 1994 06

Kazis Act 1880 12

Khaddar (Protection of Name) Act 1950 78

Khadi and Village Industries Commission Act 1956 61

Khuda Bakhsh Oriental Public Library Act 1969 43

King of Oudh's Estate Act 1887 19

King of Oudh's Estate Act 1888 14

King of Oudh's Estate Validation Act 1917 12

Konkan Passenger Ships (Acquisition) Act 1973 62

Kosangas Company (Acquisition of Undertakings) Act 1979 28

Labour Laws (Exemption from Furnishing Returns and Maintaining Registers 1988 51

by certain Establishments) Act

Lady Hardinge Medical College and Hospital (Acquisition and Miscellaneous 1977 34

Provisions) Act

Lalitkala Akademi (Taking Over of Management) Act 1997 17

Land Acquisition Act 1894 01

Land Acquisition (Amendment) Act 1962 31

Land Acquisition (Amendment and Validation) Act 1967 13

Land Acquisition (Mines) Act 1885 18

Land Improvement Loans Act 1883 19


210

Laws Local Extent Act 1874 15

Laxmirattan and Atherton West Cotton Mills (Taking over of Management)Act 1976 98

Leaders of Chief Whips of Recognised Parties and Groups in Parliament 1999 05

(Facilities) Act, 1998

Legal Practitioners Act 1879 18

Legal Practitioners (Fees) Act 1926 21

Legal Practitioners (Women) Act 1923 23

Legal Representatives' Suits Act 1855 12

Legal Services Authorities Act 1987 39

Legal Tender (Inscribed Notes) Act 1964 28

Legislative Assembly of Nagaland (Change in Representation) Act 1968 61

Legislative Councils Act 1957 37

Lepers Act 1898 03

Levy Sugar Price Equalisation Fund Act 1976 31

Life Insurance Corporation Act 1956 31

Life Insurance Corporation (Modification of Settlement) Act 1976 72

Light House Act 1927 17

Limestone and Dolomite Mines Labour Welfare Fund Act 1972 62

Limitation Act 1963 36

Live-stock Importation Act 1898 09

Local Authorities Loans Act 1914 09

Local Authorities Pensions and Gratuities Act 1919 01

Lok Sahayak Sena Act 1956 53

Lotteries (Regulation) Act 1998 17

Lushai Hills District (Change of Name) Act 1954 18

Madhya Pradesh Reorganisation Act 2000 28

Madras, Bengal and Bombay Children (Supplementary) Act 1925 35

Madras City Civil Court Act 1892 07

Madras City Land Revenue Act 1851 12

Madras Civil Courts Act 1873 03

Madras Compulsory Labour Act 1858 01

Madras District Police Act 1859 24

Madras Forest (Validation) Act 1882 21

Madras Public Property Malversation Act 1837 36

Madras Rent and Revenue Sales Act 1839 07

Madras Revenue Commissioner Act 1849 10


211

Madras Uncovenated Officers' Act 1857 07

Mahatama Gandhi Antarashtriya Hindi Vishwavidyalaya Act, 1996 1997 03

Mahendra Pratap Singh Estate (Repeal) Act 1960 48

Maintenance Orders Enforcement Act 1921 18

Major Port Trusts Act 1963 38

Mangrol and Manavadar (Administration of Property) Act 1949 02

Manipur and Tripura (Repeal of Laws) Act 1958 35

Manipur (Courts) Act 1955 56

Manipur (Hill Areas District Council) Act 1971 76

Manipur Land Revenue and Land Reforms Act 1960 33

Manipur Municipalities Act 1994 43

Manipur Panchayati Raj Act 1994 26

Manipur (Sales of Motor Spirit and Lubricants) Taxation Act 1962 55

Manipur (Village Authorities in Hill Areas) Act 1956 80

Manoeuvres, Field Firing and Artillery Practice Act 1938 05

Marine Insurance Act 1963 11

Marine Products Export Development Authority Act 1972 13

Maritime Zones of India (Regulation of Fishing by Foreign Vessels) Act 1981 42

Marking of Heavy Packages Act 1951 39

Marriages Validation Act 1892 02

Married Women's Property Act 1874 03

Married Women's Property (Extension) Act 1959 61

Maruti Limited (Acquisition and Transfer of Undertakings) Act 1980 64

Maternity Benefit Act 1961 53

Maulana Azad National Urdu University Act, 1996 1997 02

Medical Termination of Pregnancy Act 1971 34

Medicinal and Toilet Preparations (Excise Duties) Act 1955 16

Mental Health Act 1987 14

Merchant Shipping Act 1958 44

Merchant Shipping (Amendment) Act 1986 33

Merchant Shipping (Amendment) Act 1987 13

Merged States (Laws) Act 1949 59

Metal Corporation (Nationalisation and Miscellaneous Provisions) Act 1976 100

Metal Tokens Act 1889 01

Metro Railways (Construction of Works) Act 1978 33


212

Mica Mines Labour Welfare Fund Act 1946 22

Mineral Oils (Additional Duties of Excise and Customs) Act 1958 27

Mines Act 1952 35

Mines and Minerals (Regulation and Development) Act 1957 67

Minimum Wages Act 1948 11

Mirzapur Stone Mahal Act 1886 05

Miscellaneous Personal Laws (Extension) Act 1959 48

Mizoram University Act 2000 08

Mogul Line Limited (Acquisition of Shares) Act 1984 33

Monopolies and Restrictive Trade Practices Act 1969 54

Motor Transport Workers Act 1961 27

Motor Vehicles Act 1988 59

Multimodal Transportation of Goods Act 1993 28

Multi-State Co-operative Societies Act 1984 51

Municipal Taxation Act 1881 11

Murshidabad Act 1891 15

Murshidabad Estate Administration Act 1933 23

Muslim Personal Law (Shariat) Application Act 1937 26

Muslim Women (Protection of Rights on Divorce) Act 1986 25

Mussalman Wakf Act 1923 42

Mussalman Wakf Validating Act 1913 06

Mussalman Wakf Validating Act 1930 32

Mysore State Legislature (Delegation of Powers) Act 1971 23

Naga Hills-Tuensang Area Act 1957 42

Nagaland University Act 1989 35

Narcotic Drugs and Psychotropic Substances Act 1985 61

National Bank for Agriculture and Rural Development Act 1981 61

National Cadet Corps Act 1948 31

National Capital Region Planning Board Act 1985 02

National Commission for Backward Classes Act 1993 27

National Commission for Minorities Act 1992 19

National Commission for Safai Karamcharis Act 1993 64

National Commission for Women Act 1990 20

National Company (Acquisition and Transfer of Undertakings) Act 1980 42

National Co-operative Development Corporation Act 1962 26

National Council for Teacher Education Act 1993 73


213

National Dairy Development Board Act 1987 37

National Environment Appellate Authority Act 1997 22

National Environment Tribunal Act 1995 27

National Highways Act 1956 48

National Highways Authority of India Act 1988 68

National Housing Bank Act 1987 53

National Institute of Pharmaceutical Education and Research Act 1998 13

National Library of India Act 1976 76

National Oil Seeds and Vegetable Oils Development Board Act 1983 29

National Security Act 1980 65

National Security Guard Act 1986 47

National Service Act 1972 28

National Thermal Power Corporation Limited, the National Hydro-Electric 1993 24

Power Corporation Limited and the North-Eastern Electric Power Corporation

Limited (Acquisition and Transfer of Power Transmission Systems) Act

National Trust for Welfare of Persons with Autism, Cerebral Palsy, 1999 44

Mental Retardation and Multiple Disabilities Act

National Waterway (Allahabad-Haldia Stretch of the 1982 49

Ganga-Bhagirathi, Hooghly River) Act

National Waterway (Kollam-Kottapuram Stretch of 1992 25

West Coast Canal and Champakara and Udyogmandal Canals) Act

National Waterway (Sadiya-Dhubri Stretch of the Brahmaputra River) Act 1988 40

Naval and Aircraft Prize Act 1971 59

Navy Act 1957 62

Negotiable Instruments Act 1881 26

New Delhi Municipal Council Act 1994 44

Newspaper (Price and Page) Act 1956 45

Newspaper (Price and Page Continuance) Act 1961 36

Neyveli Lignite Corporation Limited (Acquisition 1994 56

and Transfer of Power Transmission System) Act

North-Eastern Area (Reorganisation) Act 1971 81

North-Eastern Council Act 1971 84

North-Eastern Hill University Act 1973 24

North-Eastern Provinces Village and Road Police Act 1873 16

Northern India Canal and Drainage Act 1873 08


214

Northern India Ferries Act 1878 17

Notaries Act 1952 53

Oaths Act 1969 44

Obstructions in Fairways Act 1881 16

Official Languages Act 1963 19

Official Secrets Act 1923 19

Official Trustees Act 1913 02

Oil and Natural Gas Commission (Transfer of Undertaking and Repeal) Act 1993 65

Oil Fields (Regulation and Development) Act 1948 53

Oil Industry (Development) Act 1974 47

Opium and Revenue Laws (Extension of Application) Act 1950 33

Oriental Gas Company 1857 05

Oriental Gas Company 1867 11

Orissa Weights and Measures (Delhi Repeal) Act 1958 57

Orphanages and Other Charitable Homes (Supervision and Control) Act 1960 10

Oudh Estates Act 1869 01

Oudh Laws Act 1876 18

Oudh Sub-settlement Act 1866 26

Oudh Taluqdars' Relief Act 1870 24

Oudh Wasikas Act 1886 21

Parel Investment and Trading Private Limited and Domestic Gas Private 1979 29

Limited (Taking Over of Management) Act

Parliament (Prevention of Disqualification) Act 1959 10

Parliamentary Proceedings (Protection of Publication) Act 1977 15

Parsi Marriage and Divorce Act 1936 03

Part B States (Laws) Act 1951 03

Part B States Marriages Validating Act 1952 01

Part C States Miscellaneous Laws (Repealing) Act 1951 66

Parliamentary Proceedings (Protection of Publication) Repeal Act 1976 28

Partition Act 1893 04

Partition of Revenue-paying Estates 1863 19

Passport (Entry into India) Act 1920 34

Passports Act 1967 15

Patents Act 1970 39

Payment of Bonus Act 1965 21

Payment of Gratuity (Amendment) Act 1987 22


215

Payment of Gratuity Act 1972 39

Payment of Wages Act 1936 04

Pensions Act 1871 23

Personal Injuries (Compensation Insurance) Act 1963 37

Persons With Disabilities (Equal Opportunities, Protection of Rights and Full 1996 01

Participation) Act, 1995

Petroleum Act 1934 30

Petroleum and Minerals Pipelines (Acquisition of Right of User in Land) Act 1962 50

Petroleum (Berar Extension) Act 1937 23

Pharmacy Act 1948 08

Places of Worship (Special Provisions) Act 1991 42

Plantations Labour Act 1951 69

Poisons Act 1919 12

Police Act 1861 05

Police Act 1888 03

Police Act 1949 64

Police, Agra 1854 16

Police Forces (Restriction of Rights) Act 1966 33

Police (Incitement to Disaffection) Act 1922 22

Pondicherry (Administration) Act 1962 49

Pondicherry (Extension of Laws) Act 1968 26

Pondicherry University Act 1985 53

Porahat Estate Act 1893 02

Post-Graduate Institute of Medical Education and Research, Chandigarh, Act 1966 51

Post Office Cash Certificates Act 1917 18

Powers-of-Attorney Act 1882 07

Prasar Bharati (Broadcasting Corporation of India) Act 1990 25

Preference Shares (Regulation of Dividend) Act 1960 63

Pre-Natal Diagnostic Techniques (Regulation and Prevention of Misuse) Act 1994 57

Presidency Small Cause Courts Act 1882 15

Presidency-towns Insolvency Act 1909 03

President (Discharge of Functions) Act 1969 16

Presidential and Vice-Presidential Elections Act 1952 31

President's Emoluments and Pension Act 1951 30

Press and Registration of Books Act 1867 25


216

Press Council Act 1978 37

Prevention of Blackmarketing and Maintenance of Supplies of Essential 1980 07

Commodities Act

Prevention of Corruption Act 1988 49

Prevention of Cruelty to Animals Act 1960 59

Prevention of Damage to Public Property Act 1984 03

Prevention of Food Adulteration Act 1954 37

Prevention of Food Adulteration (Extension to 1972 24

Kohima and Mokokchung Districts) Act

Prevention of Illicit Traffic in Narcotic Drugs and Psychotropic Substances Act 1988 46

Prevention of Insults to National Honour Act 1971 69

Prevention of Seditious Meetings Act 1911 10

Prisoners Act 1900 03

Prisoners (Attendance in Courts) Act 1955 32

Prisons Act 1894 09

Prize Chits and Money Circulation Scheme (Banning) Act 1978 43

Prize Competitions Act 1955 42

Probation of Offenders Act 1958 20

Produce Cess Act 1966 15

Professions Tax Limitation (Amendment and Validation) Act 1949 61

Promissory Notes (Stamp) Act 1926 11

Protection of Civil Rights Act 1955 22

Protection of Human Rights Act, 1993 1994 10

Protection of Plant Varieties and Farmers’ Right Act 2001 53

Provident Funds Act 1925 19

Provincial Insolvency Act 1920 05

Provincial Small Cause Courts Act 1887 09

Provisional Collection of Taxes Act 1931 16

Provisions of the Panchayats (Extension to the Scheduled Areas) Act 1996 40

Public Accountants' Defaults Act 1850 12

Public Debt Act 1944 18

Public Employment (Requirement as to Residence) Act 1957 44

Public Financial Institutions (Obligation as to Fidelity and Secrecy) Act 1983 48

Public Gambling Act 1867 03

Public Liability Insurance Act 1991 06

Public Premises (Eviction of Unauthorised Occupants) Act 1971 40


217

Public Provident Fund Act 1968 23

Public Records Act 1993 69

Public Sector Iron and Steel Companies (Restructuring) and Miscellaneous 1978 16

Provisions Act

Public Servants (Inquiries) Act 1850 37

Public Suits Validation Act 1932 11

Public Wakfs (Extension of Limitation) Act 1959 29

Punjab District Boards Act 1883 20

Punjab Disturbed Areas Act 1983 32

Punjab Excise (Delhi Amendment) Act 1979 12

Punjab Gram Panchayat, Samities and Zilla Parishad (Chandigarh Repeal) Act 1994 27

Punjab Land Revenue Act 1887 17

Punjab Laws Act 1872 04

Punjab Legislative Council (Abolition) Act 1969 46

Punjab Municipal Corporation Law (Extension to Chandigarh) Act 1994 45

Punjab Pre-emption (Chandigarh and Delhi Repeal) Act 1989 22

Punjab Reorganisation Act 1966 31

Punjab State Legislature (Delegation of Powers) Act 1984 36

Punjab Tenancy Act 1887 16

Railway Claims Tribunal Act 1987 54

Railway Companies (Emergency Provisions) Act 1951 51

Railway Property (Unlawful Possession) Act 1966 29

Railway Protection Force Act 1957 23

Railway Protection Force (Amendment) Act 1985 60

Railways Act 1989 24

Railways Employment of Members of the Armed Forces Act 1965 40

Railways (Local Authorities' Taxation) Act 1941 25

Raipur and Khattra Laws Act 1879 19

Rajasthan and Madhya Pradesh (Transfer of Territories) Act 1959 47

Rajghat Samadhi Act 1951 41

Rampur Raza Library Act 1975 22

Reciprocity Act 1943 09

Recovery of Debts Due to Banks and Financial Institutions Act 1993 51

Red Cross Society (Allocation of Property) Act 1936 18

Reformatory Schools Act 1897 08


218

Refugee Relief Taxes (Abolition) Act 1973 13

Regional Rural Banks Act 1976 21

Registration Act 1908 16

Registration of Births and Deaths Act 1969 18

Registration of Foreigners Act 1939 16

Rehabilitation Council of India Act 1992 34

Rehabilitation Finance Administration Act 1948 12

Religious Endowments Act 1863 20

Religious Institutions (Prevention of Misuse) Act 1988 41

Religious Societies Act 1880 01

Remittances of Foreign Exchange and Investment in Foreign Exchange Bonds 1991 41

(Immunities and Exemptions) Act

Rent Recovery Act 1853 06

Representation of the People Act 1950 43

Representation of the People (Amendment) Act 1989 21

Representation of the People Act 1951 43

Representation of the People (Miscellaneous Provisions) Act 1956 88

Requisitioned Land (Apportionment of Compensation) Act 1949 51

Requisitioning and Acquisition of Immovable Property Act 1952 30

Research and Development Cess Act 1986 32

Reserve Bank (Transfer of Public Ownership) Act 1948 62

Reserve Bank of India Act 1934 02

Reserve Bank of India (Amendment and Miscellaneous Provisions) Act 1953 54

Reserve and Auxiliary Air Forces Act 1952 62

Resettlement of Displaced Persons (Land Acquisition) Act 1948 60

Revenue, Bombay 1842 13

Revenue Commissioners, Bombay 1842 17

Revenue Recovery Act 1890 01

Richardson and Cruddas Limited (Acquisition and Transfer of Under- 1972 78

takings) Act

River Boards Act 1956 49

Road Transport Corporations Act 1950 64

Rubber Act 1947 24

SAARC Convention (Suppression of Terrorism) Act 1993 36

Salar Jung Museum Act 1961 26

Salary, Allowances and Pension of Members of Parliament Act 1954 30


219

Salaries and Allowances of Ministers Act 1952 58

Salaries and Allowances of Officers of Parliament Act 1953 20

Salary and Allowances of Leaders of Opposition in Parliament Act 1977 33

Sale of Goods Act 1930 03

Sales of Land for Revenue Arrears 1845 01

Sales Promotion Employees (Conditions of Service) Act 1976 11

Sales Tax Laws Validation Act 1956 07

Salt Cess Act 1953 49

Sarais Act 1867 22

Scheduled Areas (Assimilation of Laws) Act 1951 37

Scheduled Areas (Assimilation of Laws) Act 1953 16

Scheduled Castes and Scheduled Tribes Orders (Amendment) Act 1956 63

Scheduled Castes and Scheduled Tribes Orders (Amendment) Act 1976 108

Scheduled Castes and the Scheduled Tribes (Prevention of Atrocities) Act 1989 33

Scheduled Securities (Hyderabad) Act 1949 07

Seamen's Provident Fund Act 1966 04

Seaward Artillery Practice Act 1949 08

Securities and Exchange Board of India Act 1992 15

Securities Contracts (Regulation) Act 1956 42

Seeds Act 1966 54

Semiconductor Integrated Circuits Layout Design Act 2000 37

Sheriff of Calcutta (Power of Custody) Act 1931 20

Sheriffs' Fees Act 1852 08

Shillong (Rifle Range and Umlong) Cantonments Assimilation of Laws Act 1954 31

Shipping Development Fund Committee (Abolition) Act 1986 66

Shore Nuisances (Bombay and Kolaba) Act 1853 11

Sick Industrial Companies (Special Provisions) Act, 1985 1986 01

Sick Textile Undertakings (Nationalisation) Act 1974 57

Sick Textile Undertakings (Taking Over of Management) Act 1972 72

Sikh Gurdwaras (Supplementary) Act 1925 24

Sir Dinshaw Maneckjee Petit Act 1893 06

Sir Jamsetjee Jejeebhoy Baronetcy Act 1915 10

Slum Areas (Improvement and Clearance) Act 1956 96

Small Coins (Offences) Act 1971 52

Small Industries Development Bank of India Act 1989 39


220

Smith, Stainstreet and Company Limited (Acquisition and Transfer of 1977 41

Undertakings) Act

Smugglers and Foreign Exchange Manipulators (Forfeiture of Property) Act 1976 13

Societies Registration Act 1860 21

Sonthal Parganas Act 1855 37

Sonthal Parganas Act 1857 10

Special Court (Trial of Offences Relating to Transactions in Securities) Act 1992 27

Special Criminal Courts (Jurisdiction) Act 1950 18

Special Marriage Act 1954 43

Special Protection Group Act 1988 34

Special Tribunals (Supplementary Provisions) Act 1946 26

Specific Relief Act 1963 47

Spices Board Act 1986 10

Spices Cess Act 1986 11

Spirituous Preparation (Inter-State Trade and Commerce) Control Act 1955 39

Sree Chitra Tirunal Institute for Medical Sciences and Technology, 1980 52

Trivandrum Act

St. John Ambulance Association (India) Transfer of Funds Act 1956 21

Stage-Carriages Act 1861 16

Standards of Weights and Measures Act 1976 60

Standards of Weights and Measures (Enforcement) Act 1985 54

Standards of Weights and Measures (Extension to Kohima and Mokokchung 1967 25

Districts) Act

State Acquisition of Lands for Union Purposes (Validation) Act 1954 23

State Agricultural Credit Corporation Act 1968 60

State Armed Police Forces (Extension of Laws) Act 1952 63

State Associated Banks (Miscellaneous Provisions) Act 1962 56

State Bank of Hyderabad Act 1956 79

State Bank of India Act 1955 23

State Bank of India (Subsidiary Banks) Act 1959 38

State Bank of Sikkim (Acquisition of Shares) and Miscellaneous 1982 62

Provisions Act

State Financial Corporations Act 1951 63

State of Arunachal Pradesh Act 1986 69

State of Himachal Pradesh Act 1970 53

State of Mizoram Act 1986 34


221

State of Nagaland Act 1962 27

States Reorganisation Act 1956 37

Sugar-cane Act 1934 15

Sugar Cess Act 1982 03

Sugar Development Fund Act 1982 04

Sugar Export Promotion Act 1958 30

Sugar (Regulation of Production) Act 1961 55

Sugar (Special Excise Duty) Act 1959 58

Sugar Undertaking (Taking over of Management) Act 1978 49

Suits Valuation Act 1887 07

Suppression of Unlawful Acts against Safety of Civil Aviation Act 1982 66

Supreme Court Advocates (Practice in High Courts) Act 1951 18

Supreme Court (Enlargement of Criminal Appellate Jurisdiction) Act 1970 28

Supreme Court Judges ( Salaries and Conditions of Service) Act 1958 41

Supreme Court (Number of Judges) Act 1956 55

Swadeshi Cotton Mills Company Limited (Acquisition and Transfer of 1986 30

Undertakings) Act

Tamil Nadu Agricultural Service Co-operative Societies (Appointment of 1988 22

Special Officers) Amendment Act

Taxation Laws (Amendment and Miscellaneous Provisions) Act 1965 41

Taxation Laws (Amendment and Miscellaneous Provisions) Act 1986 46

Taxation Laws (Continuation and Validation of Recovery Proceedings) Act 1964 11

Taxation Laws (Extension to Jammu and Kashmir) Act 1954 41

Taxation Laws (Extension to Jammu and Kashmir) Act 1972 25

Tea Act 1953 29

Tea Companies (Acquisition and Transfer of Sick Tea Units) Act 1985 37

Tea Districts Emigrant Labour (Repeal) Act 1970 50

Technology Development Board Act 1995 44

Telecom Regulatory Authority of India Act 1997 24

Telegraph Wires (Unlawful Possession) Act 1950 74

Terminal Tax on Railway Passengers Act 1956 69

Territorial Army Act 1948 56

Territorial Waters, Continental Shelf, Exclusive Economic Zone and other 1976 80

Maritime Zones Act

Terrorist Affected Areas (Special Courts) Act 1984 61


222

Textile Undertakings (Nationalisation) Act 1995 39

Textile Undertakings (Taking Over of Management) Act 1983 40

Textiles Committee Act 1963 41

Tezpur University Act 1993 45

Tobacco Board Act 1975 04

Tobacco Cess Act 1975 26

Tobacco Duty (Town of Bombay) Act 1857 04

Tokyo Convention Act 1975 20

Trade Marks Act 1999 47

Trade Unions Act 1926 16

Trading with the Enemy (Continuance of Emergency Provisions) Act 1947 16

Transfer of Evacuee Deposits Act 1954 15

Transfer of Prisoners Act 1950 29

Transfer of Property Act 1882 04

Transfer of Property (Amendment) Supplementary Act 1929 21

Transformer and Switchgear Limited (Acquisition and Transfer of 1983 41

Undertakings) Act

Transplantation of Human Organs Act 1994 42

Travancore-Cochin Vehicles Taxation (Amendment and Validation) Act 1959 42

Tripura Land Revenue and Land Reforms Act 1960 43

Union Duties of Excise (Distribution) Act 1979 24

Union Duties of Excise (Electricity Distribution) Act 1980 14

Union Territories (Direct Election to the House of the People) Act 1965 49

Union Territories (Laws) Act 1950 30

Union Territories (Separation of Judicial and Executive Functions) Act 1969 19

Union Territories (Stamp and Court-fees Laws) Act 1961 33

Unit Trust of India Act 1963 52

United Nations (Privileges and Immunities) Act 1947 46

United Nations (Security Council) Act 1947 43

United Provinces Act 1890 20

University Grants Commission Act 1956 03

University of Hyderabad Act 1974 39

Unlawful Activities (Prevention) Act 1967 37

Untouchability (Offences) Amendment and Miscellaneous Provision Act 1976 106

Urban Land (Ceiling and Regulation) Act 1976 33

Urban Land (Ceiling and Regulation) Repeal Act 1999 15


223

Usurious Loans Act 1918 10

Usury Laws Repeal Act 1855 28

Uttar Pradesh Cantonments (Control of Rent and Eviction) Repeal Act 1971 68

Uttar Pradesh Reorganisation Act 2000 29

Vice-President's Pension Act 1997 30

Victoria Memorial Act 1903 10

Visva-Bharati Act 1951 29

Voluntary Surrender of Salaries (Exemption from Taxation) Act 1961 46

Wakf Act 1995 43

War Injuries (Compensation Insurance) Act 1943 23

Warehousing Corporations Act 1962 58

Warehousing Corporations (Supplementary) Act 1965 20

Waste-Lands (Claims) Act 1863 23

Water (Prevention and Control of Pollution) Act 1974 06

Water (Prevention and Control of Pollution) Cess Act 1977 36

Wealth-tax Act 1957 27

Weekly Holidays Act 1942 18

West Godavari District (Assimilation of Laws on Federal Subjects) Act 1949 20

White Phosphorus Matches Prohibition Act 1913 05

Wild Birds and Animals Protection Act 1912 08

Wild Life (Protection) Act 1972 53

Wild Life (Protection) Amendment Act 1991 44

Women's and Children's Institutions (Licensing) Act 1956 105

Working Journalists and other Newspaper Employees (Conditions of Service) 1955 45

and Miscellaneous Provisions Act

Working Journalists (Fixation of Rates of Wages) Act 1958 29

Workmen's Compensation Act 1923 08

Works of Defence Act 1903 07

Young Persons (Harmful Publications) Act 1956 93

....................................................................................................................

[8] Commonwealth (Comunidade Britânica)

Com sede em Londres, a Comunidade Britânica (Commonwealth)


é uma associação de 54 países, totalizando cerca de um quarto
da população mundial. É formada pelo Reino Unido e a maioria
de suas ex-colônias, que optaram por manter laços de
cooperação. Por meio de órgãos específicos, a Comunidade
224

oferece ajuda técnica e científica aos membros mais pobres em


áreas como agricultura, energia, indústria e infra-estrutura.
Desde 1990, monitora eleições a pedido dos governos nacionais
e desenvolve programas de gerenciamento dos pleitos.

Embora independentes do Reino Unido, todas as nações aceitam


a rainha inglesa Elizabeth II como chefe simbólica da
Comunidade Britânica. Ela é, também, a chefe de Estado do
Reino Unido e de 15 dos 22 países cujo sistema político é a
Monarquia. Nesses casos é representada por um governador-
geral, cuja escolha é feita por ela, mas aconselhada pelo
primeiro-ministro do país, como ocorre na Austrália, na Jamaica
e no Canadá. Em outras cinco monarquias da Comunidade -
Brunei, Lesoto, Malásia, Suazilândia e Tonga -, o rei acumula as
funções de chefe de Estado e de governo. Em Samoa, o chefe de
Estado é vitalício, existindo também um primeiro ministro. A
República é adotada como forma de governo em 32 países.

Membros - África do Sul (reingresso em 1994); Antígua e


Barbuda (1981); Austrália (1931); Bahamas (1973); Bangladesh
(1972); Barbados (1966); Belize (1981); Botsuana (1966);
Brunei (1984); Camarões (1995); Canadá (1931); Chipre (1961);
Cingapura (1965); Dominica (1978); Fiji (reingresso em 1997);
Gâmbia (1965); Gana (1957); Granada (1974); Guiana (1966);
Ilhas Salomão (1978); Índia (1947); Jamaica (1962); Kiribati
(1979); Lesoto (1966); Malauí (1964); Malásia (1957); Maldivas
(1982); Malta (1964); Maurício (1968); Moçambique (1995);
Namíbia (1990); Nauru (1968); Nigéria (1960); Nova Zelândia
(1931); Papua Nova Guiné (1975); Paquistão (reingresso em
1989); Quênia (1963); Reino Unido (1931); Samoa (1970);
Santa Lúcia (1979); São Cristóvão e Névis (1983); São Vicente e
Granadinas (1979); Seicheles (1976); Serra Leoa (1961); Sri
Lanka (1948); Suazilândia (1968); Tanzânia (1961); Tonga
(1970); Trinidad e Tobago (1962); Tuvalu (1978); Uganda
(1962); Vanuatu (1980); Zâmbia (1964); Zimbábue (1980).
Tuvalu é membro especial e não participa das reuniões de chefes
de governo. Paquistão e Fiji são suspensos dos conselhos da
organização, após golpes de Estado em 1999 e 2000,
respectivamente.

(Fonte: ALMANAQUE ABRIL 2001)

.....................................................................................................................

[9] Prova legal. (dir. prc.):

Sistema no qual o valor das provas estava preestabelecido em


lei, não tendo o juiz nenhuma liberdade na sua apreciação. Este
sistema decorria do receio de arbítrio judicial. Havia então uma
hierarquia das provas, ficando o juiz impedido também de
admitir provas que a lei não especificasse. V. livre
convencimento e prova livre.

(Fonte: ENCICLOPÉDIA JURÍDICA LEIB SOIBELMAN)


225

.....................................................................................................................

[10] No endereço justi.htmjusti.htm se acham dados (em inglês) sobre as

ALTAS CORTES (Justiça Estadual) DA ÍNDIA:

(nome da Alta Corte, ano de criação, Estados ou


Territórios abrangidos, sede e nome do Presidente da
Corte)

NAME YEAR TERRITORIAL SEAT CHIEF


JURISDICTION JUSTICE
Allahabad 1866 Uttar Pradesh Allahabad M.K. Mitra
(Bench at
Lucknow)
Andhra 1954 Andhra Pradesh Hyderabad M.M.S.
Pradesh Liberhan
Bombay 1862 Maharashtra, Bombay Y.K.
Goa, Dadra and (Benches at Sabharwal
Nagar Haveli, Nagpur,
Daman and Diu Panaji and
Aurangabad
Calcutta 1862 West Bengal, Calcutta S.K.
Andaman & (Circuit Bench Mookharjee*
Nicobar Islands at Port Blair)
Delhi 1966 Delhi Delhi Devinder
Gupta*
Guwahati** 1948 Assam, Manipur, Guwahati Brijesh
Meghalaya, (Benches at Kumar
Nagaland, Kohima,
Tripura, Mizoram, Aizwal,
Arunachal Imphal,
Pradesh Shillong,
Agartala)
Gujarat 1960 Gujarat Ahmedabad K.G.
Balakrishnan
Himachal 1971 Himachal Pradesh Shimla Doraiswamy
Pradesh Raju
Jammu & 1928 Jammu & Kashmir Srinagar & Bhawani
Kashmir Jammu Singh
Karnataka*** 1884 Karnataka Bangalore Y. Bhaskar
Rao
Kerala 1958 Kerala, Ernakulam G.
Lakshadweep Rajasekharan
*
Madhya 1956 Madhya Pradesh Jabalpur A.K. Mathur
Pradesh (Benches at
Gwalior and
Indore)
Madras 1862 Tamil Nadu & Chennai M.K. Jain*
Pondicherry
Orissa 1948 Orissa Cuttack Arijit
Pasayat*
Patna 1916 Bihar Patna (Bench B.M. Lal
at Ranchi)
Punjab and 1966 Punjab, Haryana Chandigarh Arun B.
Haryana**** and Chandigarh Saharya
226

Rajasthan 1949 Rajasthan Jodhpur S.V. Patil


(Bench at
Jaipur)
Sikkim 1975 Sikkim Gangtok Ripusudan
Dayal
* Acting Chief Justice.

** Originally known as Assam High Court, renamed as


Guwahati High Court in 1971.

*** Originally known as Mysore High Court, renamed as


Karnataka High Court in 1973.

**** Originally known as Punjab High Court, renamed


as Punjab and Haryana High Court in 1966.

.....................................................................................................................

[11] ANNOUSSAMY (2001:101-112) trata dos Tribunais para Consumidores


num Capítulo separado daquele em que aborda os Tribunais especializados
porque, realmente, a defesa dos consumidores vem ganhando força nos
últimos anos, esclarecendo o ilustrado doutrinador que esses Tribunais
podem ser acionados todas as vezes em que há defeito no objeto comprado
ou insuficiência de um serviço contratado.

Informa também que a jurisprudência parece revolucionar p Direito


tradicional em matéria de venda e de responsabilidade.

Fala dos três níveis desses Tribunais, sendo os menos graduados os Fóruns
de Distritos, estando acima deles as Comissões dos Estados, e, no topo, a
Comissão Nacional, submetida ao controle da Suprema Corte.

.....................................................................................................................

[12] Organizações ligadas ao Direito (Law Organizations) (em inglês):

- THE BAR ASSOCIATION OF INDIA


Chamber Nº 93
Supreme Court Building
New Dehli 110001, Índia
Fone: (91 11)38.5902

- THE BAR COUNCIL OF INDIA


AB/21 Lal Bahadur Shastri Margi
Facing Supreme Court Building
New Dehli 110001, Índia
Fone: (91 11) 38.6845

.....................................................................................................................

[13] Faculdades de Direito (Law Schools) (em inglês):


227

01. AGRA UNIVERSITY - LAW DEPARTMENT


Agra, Uttar Pradesh, Índia

02. AJMER UNIVERISTY - LAW DEPARTMENT


Ajmer, Rajasthen, Índia

03. ALIGARH MUSLIM UNIVERSITY - DEPARTMENT OF LAW


Aligarh, Uttar Pradesh, Índia

04. ALLAHABAD UNIVERSITY - LAW DEPARTMENT


Allahabad, Índia

05. AMRAVATI UNIVERSITY - DEPARTMENT OF LAW


Amravati, Maharashtra, Índia

06. ANDHRA UNIVERSITY - DEPARTMENT OF LAW


Waltair, Andhra Pradesh, Índia

07. AWADH UNIVERSITY - DEPARTMENT OF LAW


Faizabad, Uttar Pradesh, Índia

08. BANARAS HINDU UNIVERSITY - SCHOOL OF LAW


Varanasi, Uttar Pradesh, Índia

09. BAGALORE UNIVERSITY - COLLEGE OF LAW


Bangalore, Karnataka, Índia

10. BARKATULLAH UNIVERSITY - DEPARTMENT OF LAW


Hoshangabad Road
Bhopal, Madhya Pradesh, Índia

11. BERHAMPUR UNIVERSITY - LAW COLLEGE


Berhampur, Orissa, Índia

12. BHAGALPUR UNIVERSITY - LAW COLLEGE


Bhagalpur, Bihar, Índia

13. BHARATIDASAN UNIVERSITY - DEPARTMENT OF LAW


Palkalai, Perun Tiruchirapalli,
Tamil, Índia

14. BHARTIYAR UNIVERSITY - DEPARTMENT OF LAW


Maruthamalai Road
Bhartiyar, Índia

15. BHAVANAGAR UNIVERSITY - DEPARTNENT OF LAW


Bhavanagar, Gujarat, Índia

16. BIHAR UNIVERSITY - DEPARTMENT OF LAW


Muzaffarpur, Bihar, Índia

17. BOMBAY UNIVERSITY - COLLEGE OF LAW


MG Road
Fort Bombay, Índia
228

18. BUNDELKHAND UNIVERSITY - LAW DEPARTMENT


Jhansi, Uttar Pradesh, Índia

19. BURDWAN UNIVERSITY - DEPARTMENT OF LAW


Burdwan, West Bengal, Índia

20. CALCUTTA UNIVERSITY - COLLEGE OF LAW


Calcutta, West Bengal, Índia

21. CALICUT UNIVERSITY - LAW SCHOOL


P.O. Calicut, Kerala, Índia

22. GURUNANAK DEV UNIVERSITY - DEPARTMENT OF LAW


Amristsar, Punjab, Índia

23. SHRI KRISHNA DEVARAYA UNIVERSITY - DEPARTMENT OF


LAW
Shri Venkateswarwpuram
Anantapur
Andhra Pradesh, Índia

24. DIBRUGARH UNIVERSITY - DEPARTMENT OF LAW


P.O. Dibrugarh
Assam, Índia

25. RANI DURGAWATI UNIVERSITY - DEPARTMENT OF LAW


Pachpedi - Jabalpur
Medhya Pradesh, Índia

26. MAHATMA GHANDHI UNIVERSITY - LAW COLLEGE


Priyadarshini Hills, P.O.
Kerala, Índia

27. GAUHATI UNIVERSITY - LAW COLLEGE


Gopinath Bordoloi Nagar
Assam, Índia

28. DR. HARI SINGH GAUR UNIVERSITY - DEPARTMENT OF LAW


Sagar
Madhya Pradesh, Índia

29. GURU GHASIDAS UNIVERSITY - DEPARTMENT OF LAW


Bilaspur
Madhya Pradesh, Índia

30. GOA UNIVERSITY - DEPARTMENT OF LAW


Borbolim Santa Cruz
Goa, Índia

31. GORAKHPUR UNIVERSITY - DEPARTMENT OF LAW


Gorakhpur
Uttar Pradesh, Índia
229

32. GUJARAT UNIVERSITY - LAW COLLEGE


Ahmedabad, Gujarat, Índia

33. GULBARGA UNIVERSITY - DEPARTMENT OF LAW


Jnana Ganga, Gulbarga
Karnataka, Índia

34. HEMVATI NANDAN BAHUGUNA GARHWAI UNIVERSITY -


DEPARTMENT OF LAW
Sri Nagar, Garhwal
Uttar Pradesh, Índia

35. INDORE UNIVERSITY - LAW DEPARTMENT


Indore,
Madhya Pradesh, Índia

36. JIWAJI UNIVERSITY - LAW DEPARTMENT


Gwalior
Madhya Pradesh, Índia

37. JODHPUR UNIVERSITY - FACULTY OF LAW


Jodhpur
Rajasthan, Índia

38. KAKATIYA UNIVERSITY - DEPARTMENT OF LAW


Vidyaranyapuri
Andhra Pradesh, Índia

39. MADURAI KAMRAJ UNIVERSITY - DEPARTMENT OF LAW


Palkalai Nagar
Madurai T.N., Índia

40. KANPUR UNIVERSITY - LAW DEPARTMENT


Kalyanpur, Kampur
Uttar Pradesh, Índia

41. KARNATAKA UNIVERSITY - LAW COLLEGE


Pavate Nagar Dharwad
Karnataka, Índia

42. KASHMIR UNIVERSITY - DEPARTMENT OF LAW


Hazratbal Srinagar
Kashmir, Índia

43. KERALA UNIVERSITY - LAW COLLEGE


P.O. Thiruvananthapuram
Kerala, Índia

44. KUMAON UNIVERSITY - DEPARTMENT OF LAW


Nainital, Uttar Pradesh, Índia

45. KURUKSHETRA UNIVERSITY - DEPARTMENT OF LAW


Kurukshetra
Haryana, Índia
230

46. KUVEMPU UNIVERSITY - DEPARTMENT OF LAW


Vishwaivyanilaya Karya Soudha
Karkatana, Índia

47. LUCKNOW UNIVERSITY - DEPARTMENT OF LAW


Badshah Bagh
Lucknow
Uttar Pradesh, Índia

48. MADRAS UNIVERSITY - LAW COLLEGE


Centenary Buildings Chepauk
Madras
Tamil Nadu, Índia

49. MAGADH UNIVERSITY - LAW DEPARTMENT


Bodh Gaya
Bihar, Índia

50. MAHARSHI DAYANAND UNIVERSITY - DEPARTMENT OF LAW


Rohtak
Haryana, Índia

51. MANGALORE UNIVERSITY - LAW DEPARTMENT


Mangalore
Karnataka, Índia

52. MANIPU UNIVERSITY - LAW DEPARTMENT


Imphal
Manipur, Índia

53. MARATHWADA UNIVERSITY - LAW COLLEGE


Aurangabad
Maharashtra, Índia

54. MEERUT UNIVERSITY - LAW DEPARTMENT


Meerut
Uttar Pradesh, Índia

55. L.N. MITHILA UNIVERSITY - DEPARTMENT OF LAW


Kameswaranagar
Dhabhanga, Bihar, Índia

56. MYSOR UNIVERSITY - LAW DEPARTMENT


Crawford Hall
Mysore
Karnataka, Índia

57. NARGAJUNA UNIVERSITY - LAW DEPARTMENT


Nargajuna
Nagar
Andhyra Pradesh, Índia
231

58. NAGPUR UNIVERSITY - MG MARG LAW DEPARTMENT


Nagpur
Maharashtra, Índia

59. ÍNDIA UNIVERSITY - NATIONAL LAW SCHOOL


Central College
Compound
Bengalore, Índia

60. NORTH BENGAL UNIVERSITY - LAW DEPARTMENT


Raja Rammophanpur Dist.
West Bengal, Índia

61. NORTH EASTERN HILL UNIVERSITY - LAW DEPARTMENT


Lower Lachaumiere Shillong
Meghalaya, Índia

62. NORTH GUJARAT UNIVERSITY - LAW DEPARTMENT


P.B. nº 21
Rajmahel Road
Gujarat, Índia

63. OSMANIA UNIVERSITY - COLLEGE OF LAW


Tilak Road
Hyderabad
Andhra Pradesh, Índia

64. SARDAR PATEL UNIVERSITY - LAW COLLEGE


P.B. 10
Vallabh Vidyanagar
Gujarat, Índia

65. PATNA UNIVERSITY - DEPARTMENT OF LAW


Patna,
Bihar, Índia

66. PONDICHERRY UNIVERSITY - LAW DEPARTMENT


R. Venkataranan Nagar
Kalapet Pondichery, Índia

67. SAMBALPUR UNIVERSITY - LAW COLLEGE


Joyti Yahar
Burla, Índia

68. SAURASHTRA UNIVERSITY - LAW COLLEGE


Rajkot
Gujarat, Índia

69. MAHARAJA SAYAJIRAO UNIVERSITY OF BARODA - LAW


DEPARTMENT
Baroda
Gujarat, Índia
232

70. RAVI SANKAR UNIVERSITY - LAW COLLEGE


Raipur
Madhya Pradesh, Índia

71. SHIVAJI UNIVERSITY - LAW COLLEGE


Kolhapur
Maharashtra, Índia

72. AWADHESH PRATAP SINGH UNIVERSITY - DEPARTMENT OF


LAW
Bevehar
Madhya Pradesh, Índia

73. SOUTH GUJARAT UNIVERSITY - LAW COLLEGE


P.B. 49
Vdhna Magdalla Road
Gujarat, Índia

74. SRI PADMAVTI MAHILA VISHWAVIDYALAYA - CHITTOOR


DIST. DEPARTMENT OF LAW
Triupati,
Andhra Pradesh, Índia

75. SUKHADIA UNIVERSITY - DEPARTMENT OF LAW


Udaipur
Rajastham, Índia

76. TRIPURA UNIVERSITY - DEPARTMENT OF LAW


P.O. Vani Vihar Bhubaneshwar
Orissa, Índia

77. UNIVERSITY OF DELHI - DEPARTMENT OF LAW


Delhi, Índia

78. UNIVERSITY OF JAMMU - DEPARTMENT OF LAW


Rahumali Rakh
Índia

79. UTKAL UNIVERSITY - DEPARTMENT OF LAW


P.O. Vani Vihar Bhubaneshwar
Orissa, Índia

80. SHRI VANKATESWARA UNIVERSITY - DEPARTMENT OF LAW


Chittoor Tirupati
Andhra Pradesh, Índia

81. KASHI VIDYAPETH - DEPARTMENT OF LAW


Varanasi
Uttar Pradesh, Índia

82. VIKRAM UNIVERSITY - LAW COLLEGE


Kothi Road
Ujjain
Madhya Pradesh, Índia
233

.....................................................................................................................

[14] No endereço http://www.keral.com/Hcourt/ili.htm se tem notícias


(em inglês) do

INDIAN LAW INSTITUTE

KERALA BRANCH

The Indian Law Institute (ILI), New Delhi established in 1956, a


national and international centre for promoting and pursuing
advanced socio-legal research , was conceived by its founding
fathers- the eminent legal luminaries of India. The Institute ,
through its doctrinal and empirical legal research develops the
science of law, promotes systemization in legal and other allied
fields, improves legal educations , imparts instructions in law
and projects its universal image through studies , books, annual
surveys, and periodicals, etc. on current problems of socio-
economic and socio-legal relevance. It has been engaged in
organising seminars, diploma courses , lecturers and
conferences of national and international importance on
contemporary problems. The Kerala Branch of the Indian Law
Institute is functioning in the High Court premises has been
carrying out the objectives of the Parent Institute in letter and
spirit effectively.

EXECUTIVE COMMITTEE

President: Hon'ble Sri.Arijit Pasayat, Chief Justice


Executive Chairman: Hon'ble Sri.Justice AR.Lakshmanan
Treasurer: Sri.M.K.Damodaran, Advocate General of Kerala
Secretary: Smt.Susheela.R.Bhat. Advocate

MEMBERS

Sri.E.Chandrasekharan Nair, Hon'ble Minster of Law, Govt of


Kerala
Hon'ble Smt.Justice .K.K.Usha
Hon'ble Sri.Justice .P.K.Balasubramanyan
Hon'ble Sri.Justice K.S.Radhakrishnan
Hon'ble Justice Sri.C.S.Rajan
Sri.M.M.Abdul Azeez, Advocate
Sri.M.Pathrose Mathai, Advocate
Dr.K.N.Chandrasekharan Pillai
Sri.M.C.Sen, Advocate.

RESEACH WING OF THE INDIAN LAW INSTITUTE. KERALA


BRANCH

EDITORIAL PANEL

CHAIRMAN
234

Hon'ble Justice Sri.K.S.Radhakrishnan

Honorary Editor

Dr.K.N.Chandrasekharan Pillai, Professor of Law

Members

Sri.N.Sugathan, Advocate
Sri.T.R.Ramachandran Nair, Advocate
Sri.T.R.Ravi, Advocate

ACADEMIC PANEL

Hon'ble Sri.Chief Justice Arijit Pasayat :Chief Patron


Hon'ble Sri. Justice AR.Lakshmanan: Vice-Patron
Hon'ble Sri.Justice K.K.Usha: Chairperson
Hon'ble Sri.Justice P.K.Balasubramanyan: Vice-Chairperson
Hon'ble Justice Sri. K.S.Radhakrishnan: Vice-Chairperson

MEMBERS

Hon'ble Sri.Justice A.S.Venkitachala Moorthy


Hon'ble Sri.Justice S.Sankarasubban
Hon'ble Sri.Justice C.S.Rajan
Sri.E.Achuthan Unni, Director of Training, High Court
Dr.V.D.Sebastine, Dean, School of Legal Studies, Cochin
University
Dr.K.N.Chandrasekharan Pillai, Professor of Law, Cochin
University
Dr.Smt. Sukumari Antharjanam, Professor of Law, Government
Law College, Ernakulam
Sri.S.Venkitasubramonia Iyer, Senior Advocate
Sri.M.N.Sukumaran Nayar, Senior Advocate
Sri.Pathrose Mathai, Advocate
Sri.E.Subramani, Advocate

GENERAL CONVENOR

Sri.K.Ramachandran, Advocate

JOINT CONVENORS

Sri.K.T.Sankaran, Advocate
Sri.K.M.Joseph, Advocate

.....................................................................................................................

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA
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2002/02_33_33.htm
- http://www.ajuris.org.br/fmundialj/preview/artigo26.html
- http://www.juseuropae.org/fr/thindou.htm
- http://supremecourtofindia.nic.in
- http://lawmin.nic.in
- http://delhihighcourt.nic.in
- http://hcbom.mah.nic.in
- http://causelists.nic.in/calcutta/web_cal
- http://www.himachal.nic.in/highcourt
- http://highcourtofkerala.nic.in
- http://www.jkhighcourt.nic.in
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- http://www.livres-mystiques.com/partieTEXTES/SundarSing/
Appasamy/Table.html