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Direcção

José Eduardo Franco

DICIONÁRIO
HISTÓRICO DAS

ORDENS
INSTITUTOS RELIGIOSOS
E OUTRAS FORMAS
DE VIDA CONSAGRADA
CATÓLICA EM PORTUGAL

CRONOLOGIA DA HISTÓRIA
DA VIDA CONSAGRADA

Com o Alto Patrocínio


da Presidência da República
Direcção
José Eduardo Franco

DICIONÁRIO
HISTÓRICO DAS

ORDENS
INSTITUTOS RELIGIOSOS
E OUTRAS FORMAS
DE VIDA CONSAGRADA
CATÓLICA EM PORTUGAL

CRONOLOGIA DA HISTÓRIA
DA VIDA CONSAGRADA

Com o Alto Patrocínio


da Presidência da República
Mais do que um dicionário comum, estamos diante de uma verdadeira enciclopédia

desenvolvida em que se condensa o conhecimento sistematizado sobre a extraordinária

multiplicidade de instituições de vida consagrada integradas ao longo dos séculos na

Igreja Católica.

Esta obra de grande fôlego mostra, de forma rigorosa e profusamente ilustrada, o

quanto tantos monges e monjas, frades e freiras tiveram e continuam a ter presença

e influência significativas em Portugal.

As Ordens, as Congregações, os Institutos Seculares e as Novas Comunidades de Vida

Consagrada, ramos que brotam do tronco multimilenar do monaquismo cristão, têm

revelado, ao longo da nossa história, um dinamismo empreendedor no plano da

Missionação, da Arte, do Património, da Cultura, da Ciência e da Espiritualidade.

As marcas qualificadas do empreendedorismo das ordens, realizado com o patrocínio

do poder político e económico, são mais notáveis no plano do património monumental

traduzido nas imensas edificações de igrejas, mosteiros e conventos, muito visíveis em

todo o território português. Estas constituem, de facto, uma das partes mais importantes

da herança monumental do nosso país.

Na época contemporânea, marcada por relações de conflito entre ordens, congregações

e Estado, esta obra mostra que estas instituições, muitas vezes perseguidas e expulsas,

tiveram uma capacidade extraordinária de resistência, renovação, regresso e renascimento

em Portugal.

Hoje, a sua acção continua a ser de grande dimensão e valia, não só na Igreja, mas

também ao serviço da sociedade portuguesa. Encontramos estes homens e mulheres,

marcados pelo seu estilo de vida consagrado, ao serviço da Educação, da Assistência

Social, da Saúde e da Evangelização. É a história fascinante dessas instituições e dos

seus protagonistas que aqui nos é dada a conhecer. Ligando passado e presente, este

dicionário enciclopédico oferece um instrumento de conhecimento global sobre a grande

diversidade e deriva histórica de instituições que revelaram extrema capacidade de

metamorfose para efeitos de adaptação aos desafios de cada tempo.


SUMÁRIO

13 PREFÁCIO DE MANUEL JOAQUIM GOMES BARBOSA

15 ORGANIGRAMA
15 DIRECÇÃO
15 COORDENAÇÃO
15 SECRETARIADO DE REDACÇÃO EDITORIAL
15 COMISSÃO CIENTÍFICA
16 AUTORES
19 INSTITUIÇÕES COORDENADORAS
19 INSTITUIÇÕES PROMOTORAS
19 INSTITUIÇÕES ASSOCIADAS
19 INSTITUIÇÕES PATROCINADORAS

21 ABREVIATURAS

23 INTRODUÇÃO GERAL

27 ORDENS E CONGREGAÇÕES MASCULINAS

307 ORDENS E CONGREGAÇÕES FEMININAS

553 ORDENS RELIGIOSAS MILITARES

609 INSTITUTOS SECULARES

635 OUTRAS INSTITUIÇÕES

671 GLOSSÁRIO TÉCNICO


689 SIGLÁRIO
695 ÍNDICE REMISSIVO ANTROPONÍMICO
721 ÍNDICE DOS NOMES DAS INSTITUIÇÕES
730 CRONOLOGIA DA HISTÓRIA DA VIDA CONSAGRADA
780 CRÉDITOS FOTOGRÁFICOS
ÍNDICE GERAL1

13 PREFÁCIO DE MANUEL JOAQUIM GOMES BARBOSA

15 ORGANIGRAMA
15 DIRECÇÃO
15 COORDENAÇÃO
15 SECRETARIADO DE REDACÇÃO EDITORIAL
15 COMISSÃO CIENTÍFICA
16 AUTORES
19 INSTITUIÇÕES COORDENADORAS
19 INSTITUIÇÕES PROMOTORAS
19 INSTITUIÇÕES ASSOCIADAS
19 INSTITUIÇÕES PATROCINADORAS

21 ABREVIATURAS

23 INTRODUÇÃO GERAL

27 ORDENS E CONGREGAÇÕES MASCULINAS


27 INTRODUÇÃO
39 AGOSTINHOS – Agostinianos, Eremitas de Santo Agostinho, Eremitarum Sancti Augustini, Frades Agostianianos,
Gracianos, Ordem de Santo Agostinho, Ordo Fratrum Eremitarum Sancti Augustini, Ordo Fratrum Sancti
Augustini (OSA/OESA)
50 AGOSTINHOS DESCALÇOS – Congregação de Nossa Senhora da Conceição dos Agostinhos Descalços,
Congregação dos Agostinhos Descalços, Grilos
51 APÓSTOLOS DE SANTA MARIA – Arautos da Misericórdia Divina, Comunidade dos Apóstolos de Santa Maria
52 ARRÁBIDOS – Franciscanos Arrábidos, Franciscanos Reformados da Província da Serra da Arrábida, Ordem
dos Frades Menores Capuchos da Serra da Arrábida (OFM, Cap. Ar.)
59 BAPTISTAS – Missionários de São João Baptista (MSJB)
60 BENEDITINOS – Congregação dos Monges Negros de São Bento dos Reinos de Portugal, Ordem Beneditina,
Ordem de São Bento (OSB)
71 CAPUCHINHOS – Franciscanos Capuchinhos, Ordem dos Frades Menores Capuchinhos, Padres Capuchinhos
(OFMCap)
77 CARMELITAS CALÇADOS – Albertos, Carmelitas Observantes, Frades Listrados, Gregórios, Irmãos da Bem-Aventurada
Virgem Maria do Monte Carmelo, Irmãos de Nossa Senhora do Monte Carmelo, Mitigados, Monges Carmelitas,
Ordem da Bem-Aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo, Ordem do Carmelo, Ordem do Carmo, Ordem
dos Carmelitas Observantes, Ordo Fratrum Beatissimae Virginis Mariae do Monte Carmelo (OCarm)
82 CARMELITAS CLAUSTRAIS DE GOA – Carmelitas Terceiros Claustrais, Ordem Terceira Carmelita Claustral,
Terceiros Carmelitas Claustrais de Goa
83 CARMELITAS DESCALÇOS – Irmãos Descalços da Ordem da Bem-Aventurada Virgem do Monte Carmelo,
Ordem dos Carmelitas Descalços, Ordem dos Padres Carmelitas Descalços, Ordo Fratrum Discalceatorum
Beatissimae Virginis Mariae do Monte Carmelo (OCD)
100 CARMELITAS TERCEIROS OBSERVANTES – Carmelitas Observantes Seculares, Ordem dos Carmelitas Terceiros
Observantes
105 CARTUXOS – Brunos, Frades Brancos, Ordem Cartusiana, Ordo Cartusiensis (O-Cart)
109 CISTERCIENSES – Cister, Monges Bernardinos, Monges Brancos, Ordem de Cister, Ordem Cisterciense (OCist)
1
Os nomes em maiúsculas são aqueles que figuram com a
119 CLARETIANOS – Missionários Claretianos, Missionários de Santo António Maria de Claret, Congregação dos
respectiva entrada na ordenação alfabética do Dicionário. A seguir,
em itálico, estão colocados os outros nomes ou cognomes, oficiais
Missionários Filhos do Imaculado Coração de Maria (CMF)

ou alcunhados, das mesmas instituições por que foram nomeadas 125 CLUNIACENSES – Cluny, Monges Beneditinos do Mosteiro de Cluny, Ordem de Cluny

ao longo da sua história. Entre parênteses estão indicadas as 129 COMBONIANOS – Missionários Combonianos do Coração de Jesus, Padres Combonianos (MCCJ)
siglas por que são identificadas. 131 CONSOLATINOS – Instituto Missionário da Consolata, Missionários da Consolata (IMC)
134 DEHONIANOS – Congregação dos Sacerdotes do Coração de Jesus, Padres Reparadores (SCJ)
138 DOMINICANOS – Ordem de São Domingos, Ordem de São Domingos de Gusmão, Ordem Dominicana,
Ordem dos Pregadores (OP)
152 EREMITAS DE SÃO PAULO – Congregação da Serra d’Ossa, Eremitas de São Paulo Primeiro Eremita da Serra
de Ossa, Ordem de São Paulo Primeiro Eremita da Congregação da Serra de Ossa, Ordo Sancti Pauli Primi
Eremitae, Paulistas (OSPPE)
155 ESPIRITANOS – Congregação do Espírito Santo e do Imaculado Coração de Maria, Congregação dos Padres
do Espírito Santo, Padres Espiritanos (CSSp)
157 FILHOS DA CARIDADE – Instituto Religioso Filhos da Caridade, Padres Operários (FC)
158 FRANCISCANOS – Frades Menores, Franciscanos Observantes, Ordem de São Francisco, Ordem dos Frades
Menores, Ordem dos Frades Menores da Regular Observância, Ordem Franciscana (OFM)
169 FRANCISCANOS CONVENTUAIS – Capuchos, Frades Menores Conventuais, Ordem dos Frades Menores
Conventuais (OFMConv)
173 HOSPITALEIROS – Irmãos de São João de Deus, Ordem Hospitaleira de São João de Deus (OH)
187 IRMÃOS DE JESUS – Irmãos de Jesus do Padre Foucauld, Irmãozinhos de Jesus, Petits Frères de Jésus (IJ)
188 IRMÃOS DO CAMPO – Irmãos Missionários do Campo (IMC)
189 IRMÃOZINHOS DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS – Fraternidade dos Irmãozinhos de São Francisco de Assis
190 JERÓNIMOS – Eremitas de São Jerónimo, Monges de São Jerónimo, Ordem de São Jerónimo, Ordem Jeronimita,
Ordo Sancti Hieronimi (OSH)
195 JESUÍTAS – Companhia de Jesus, Inacianos, Padres da Companhia, Padres de Santo Inácio, Ordem de Santo
Inácio, Sociedade de Jesus, Societas Jesu (SJ)
206 LAPA, Ordem da – Irmandade da Lapa, Venerável Irmandade de Nossa Senhora da Lapa
209 LASSALISTAS – Congregação dos Irmãos das Escolas Cristãs, Fratres Scholarum Christianarum, Irmãos de La
Salle, Instituto dos Irmãos das Escolas Cristãs, Irmãos das Escolas Cristãs (FSC)
211 LÓIOS – Cónegos Azuis, Cónegos de São João Evangelista, Cónegos São Salvador de Vilar, Congregação de
São João Evangelista de Xabregas, Congregação dos Cónegos Seculares de São João Evangelista, Homens
Bons de Vilar
213 MARIANOS – Clérigos Marianos da Imaculada Conceição da Beatíssima Virgem Maria, Marianos da Imaculada
Conceição (MIC)
218 MARISTAS – Congregação dos Irmãos Maristas das Escolas, Institutum Fratrum Maristarum a Scholis, Irmãos
Maristas, Irmãos Maristas das Escolas (FMS)
220 MERCEDÁRIOS – Ordem da Mercê, Ordem da Virgem Maria da Mercê da Redenção de Cativos de Santa
Eulália de Barcelona, Ordem de Nossa Senhora das Mercês, Ordem Mercedária (O de M)
222 MÍNIMOS – Ordem de São Francisco de Paula, Ordem dos Mínimos, Ordo Minimorum (OM)
224 MISSIONÁRIOS DA BOA NOVA – Sociedade Missionária Portuguesa (SMP/SMBN)
226 MISSIONÁRIOS DE SÃO FRANCISCO XAVIER – Congregação dos Padres do Pilar, Congregação Missionária
de São Francisco Xavier do Pilar de Goa, Sociedade do Pilar, Sociedade dos Missionários de São Francisco
Xavier, Sociedade Missionária do Pilar
227 MISSIONÁRIOS DO PRECIOSÍSSIMO SANGUE – Congregação dos Missionários do Preciosíssimo Sangue de Nosso
Senhor Jesus Cristo, Congretatio Missionariorum Pretiosissimi Sanguinis Domini Nostri Iesu Christi (CPPS)
229 MONFORTINOS – Companhia de Maria, Missionários da Companhia de Maria, Societas Mariae Montfortana (SMM)
231 ORATORIANOS – Congregação de São Filipe de Néri, Congregação do Oratório, Congregados do Oratório,
Oratório Português, Padres Oratorianos (CO)
240 ORATORIANOS DE GOA – Congregação da Cruz dos Milagres, Congregação do Oratório da Santa Cruz dos
Milagres de Goa, Congregação do Oratório de São Filipe Néri de Goa, Congregação dos Milagristas do
Beato Padre José Vaz, Milagristas de Goa
242 ORDEM FRANCISCANA SECULAR – Congregação da Ordem Terceira da Penitência de São Francisco, Frades
Borras, Irmãos da Terceira Ordem da Penitência, Ordem da Penitência, Ordem dos Penitentes, Ordem
Terceira da Penitência, Ordem Terceira de São Francisco, Ordem Terceira Franciscana, Ordem Terceira
Regular de São Francisco de Assis, Terceira Ordem Regular de São Francisco, Terceiros Franciscanos, Tertius
Ordo Franciscani (TOR/OFS)
245 ORDEM TERCEIRA DA SANTÍSSIMA TRINDADE – Celestial Ordem Terceira da Santíssima Trindade
247 PALOTINOS – Sociedade de Vida Apostólica, Sociedade do Apostolado Católico, Societas Apostolatus Catholici
(SAC)
249 PASSIONISTAS – Congregação da Paixão de Jesus Cristo, Congregação dos Missionários Passionistas, Missionários
Passionistas (CP)
252 PAULISTAS – Instituto Missionário Pia Sociedade de São Paulo, Padres Missionários de São Paulo, Padres
Paulistas, Paulus, Pia Sociedade de São Paulo, Sociedade de São Paulo (SSP)
258 PREMONSTRATENSES – Cónegos Premonstratenses, Norbertinos, Ordem Premonstratense (OPraem)
261 REDENTORISTAS – Congregação do Santíssimo Redentor (C SS R)
266 REGRANTES DE SANTA CRUZ, Cónegos – Cónegos de Santa Cruz, Cónegos Regulares da Santa Cruz de
Coimbra, Congregação de Santa Cruz, Congregação de Santa Cruz de Coimbra, Crúzios, Irmãos da Cruz,
Ordem dos Cónegos Regulares de Santa Cruz, Ordem dos Crúzios, Ordo Canonicorum Regularium Sanctae
Crucis, Ordo Regularium Crucis (ORC)
276 REGRANTES DE SANTO AGOSTINHO, Cónegos – Cónegos de Santo Agostinho, Cónegos Regulares de Santo
Agostinho
281 REGRANTES DE SANTO ANTÃO, Cónegos – Antonianos, Antoninos, Cónegos de Santo Antão, Frades de
Santo Antão, Hospitalários de Santo Antão, Ordem de Santo Antão, Ordem Hospitaleira de Santo Antão
Abade
283 SACRAMENTINOS – Congretatio Presbyteorum Sanctissimo Sacramento, Eucaristinos, Sociedade do Santíssimo
Sacramento, Societas Sanctissimi Sacramenti (SSS)
284 SAGRADOS CORAÇÕES – Congregação dos Sagrados Corações de Jesus e Maria e da Adoração Perpétua
do Santíssimo Sacramento do Altar, Padres Brancos, Picpus, Picpussianos (SS CC)
286 SALESIANOS – Congregação Salesiana, Salesianos de Dom Bosco, Sociedade de São Francisco de Sales,
Sociedade Salesiana (SDB)
291 SCALABRINIANOS – Congregação dos Missionários de São Carlos, Congregação dos Scalabrinianos de São
Carlos Borromeu (CS)
292 SENHOR JESUS DA BOA MORTE E CARIDADE, Congregação do
293 TEATINOS – Caetanos, Clérigos, Clérigos Regulares de São Caetano de Thiene, Ordem dos Clérigos Regulares,
Regulares Teatinos da Divina Providência (CR)
294 TOMINA, Congregação da – Agonizantes, Camilos, Clérigos Regulares Ministros dos Enfermos, Congregação
de Nossa Senhora das Necessidades da Tomina, Congregação dos Clérigos Regulares da Tomina (MI)
295 TRINITÁRIOS – Ordem da Santíssima Trindade (O SS T)
297 VERBITAS – Congregação do Verbo Divino, Missionários do Verbo Divino, Sociedade do Verbo Divino, Sociedade
dos Missionários do Verbo Divino (SVD)
299 VICENTINOS – Congregação da Missão, Congregatio Missionis, Irmãos de São Vicente de Paulo, Lazaristas, Padres
da Congregação da Missão, Padres da Missão, Padres de Rilhafoles, Padres de São Vicente de Paulo (CM)

307 ORDENS E CONGREGAÇÕES FEMININAS


307 INTRODUÇÃO
311 ADORADORAS ESCRAVAS – Adoradoras Escravas do Santíssimo Sacramento e da Caridade, Religiosas
Adoradoras, Religiosas Escravas do Santíssimo Sacramento e da Caridade (AASC/AESSC/ESSCC)
312 AGOSTINHAS – Cónegas Agostinhas de Santa Cruz de Coimbra, Cónegas Regrantes de Santo Agostinho,
Religiosas Agostinhas
313 ALIANÇA DE SANTA MARIA – Irmãs da Aliança de Santa Maria (ASM)
313 AMOR DE DEUS, Irmãs do – Congregação das Irmãs do Amor de Deus, Congregação das Religiosas do Amor
de Deus (RAD)
317 ANGÉLICAS DE SÃO PAULO – Angélicas, Congregação das Irmãs Angélicas de São Paulo
320 ANUNCIAÇÃO, Ordem da – Celestinas, Ordem da Santíssima Anunciada, Turquinas
321 ANUNCIATAS – Dominicanas de la Anunciata, Irmãs Anunciatas
322 APRESENTAÇÃO DE MARIA – Congregação da Apresentação de Maria, Congregação das Irmãs da Apresentação
de Maria, Irmãs da Apresentação de Maria (PM)
325 AUXILIADORAS DA CARIDADE – Auxiliatrices de la Charité
329 BENEDITINAS – Congregação das Beneditinas, Monjas Beneditinas (OSB)
333 BENEDITINAS MISSIONÁRIAS – Beneditinas Missionárias de Tutzing (OSB)
335 BENEDITINAS DA RAINHA DOS APÓSTOLOS – Congregação das Monjas Beneditinas da Rainha dos Apóstolos
(SRA)
337 BOM PASTOR, Congregação do – Bom Pastor, Congregação de Nossa Senhora da Caridade do Bom Pastor,
Congregação de Nossa Senhora da Caridade do Bom Pastor de Angers, Irmãs do Bom Pastor, Ordem de
Nossa Senhora da Caridade (CBP)
340 BRÍGIDAS – Freiras Inglesas, Inglesinhas, Irmãs da Ordem de São Salvador, Ordem de Santa Brígida, Ordem
de São Salvador, Ordem do Santíssimo Salvador (O SS S)
340 CANOSSIANAS – Canossianas Missionárias, Filhas da Caridade, Instituto das Filhas da Caridade Irmãs
Canossianas, Servas dos Pobres (FdCCM)
344 CAPUCHINHAS FRANCESAS – Clarissas Capuchinhas Francesas, Francesinhas
345 CARMELITAS – Irmãs Carmelitas Observantes, Monjas Carmelitas, Ordem das Irmãs da Virgem Maria do
Monte Carmelo
347 CARMELITAS DE ORIHUELA – Congregação de Terceiras Carmelitas de Vida Regular, Irmãs da Bem-Aventurada
Virgem Maria do Monte Carmelo
349 CARMELITAS DESCALÇAS – Monjas Descalças, Ordem das Irmãs Carmelitas Descalças da Bem-Aventurada
Virgem Maria do Monte Carmelo
352 CARMELITAS DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS – Carmelitas de Málaga, Congregação de Terceiras Carmelitas
Regulares, Irmãs Carmelitas do Sagrado Coração de Jesus (CSCJ)
353 CARMELITAS MISSIONÁRIAS – Irmãs Carmelitas Missionárias (CM)
358 CARMELITAS MISSIONÁRIAS TERESIANAS – Irmãs Carmelitas Missionárias Teresianas, Religiosas Carmelitas
Missionárias Teresianas (CMT)
359 CLARETIANAS – Congregação das Missionárias de Santo António Maria de Claret, Missionárias Claretianas,
Missionárias de Santo António Maria de Claret (MC)
360 CLARISSAS – Capuchas, Damas Pobres, Damianitas, Filhas de Santa Clara, Irmãs Pobres de São Damião,
Monjas de Santa Clara da Observância, Ordem das Clarissas, Ordem das Irmãs Clarissas, Ordem de Santa
Clara, Religiosas Clarissas, Religiosas de Santa Clara, Segunda Ordem Franciscana (OSC)
370 COMBONIANAS – Irmãs Missionárias Combonianas, Irmãs Missionárias Pia Madre da Nigrícia, Missionárias
Combonianas, Pias Madres da Nigrícia (IMC)
372 CONCEPCIONISTAS AO SERVIÇO DOS POBRES, Congregação das Irmãs – Congregação das Irmãs Concepcionistas
de Santa Beatriz da Silva ao Serviço dos Pobres, Irmãs Concepcionistas ao Serviço dos Pobres, Religiosas
Concepcionistas da Beata Beatriz da Silva ao Serviço dos Pobres (CSP)
374 CONCEPCIONISTAS FRANCISCANAS – Monjas Concepcionistas Franciscanas, Ordem da Conceição de Maria,
Ordem da Imaculada Conceição, Ordem da Imaculada Conceição da Bem-Aventurada Virgem Maria
379 COOPERADORAS PAROQUIAIS – Cooperadoras Paroquiais de Santa Maria, Educadoras Paroquiais, Educadoras
Paroquiais de Santa Maria (CPSM)
380 CORAÇONISTAS – Irmãs Coraçonistas, Irmãs da Caridade do Sagrado Coração de Jesus (JHS)
381 CRIADITAS DOS POBRES – Congregação das Criaditas dos Pobres, Parvulae Ancillae Christi (PAX)
382 DIVINA PROVIDÊNCIA E SAGRADA FAMÍLIA, Congregação da – (DPSF)
384 DOMINICANAS, Monjas – Moniales Ordinis Praedicatorum, Monjas da Ordem dos Pregadores, Monjas OP,
(MOP)
385 DOMINICANAS DE SANTA CATARINA DE SENA – Congregação das Irmãs Dominicanas de Santa Catarina de
Sena, Congregação das Terceiras Dominicanas de Portugal, Congregação de Santa Catarina de Sena da
Ordem Terceira Regular de São Domingos em Portugal, Dominicanas Portuguesas, Irmãs Dominicanas de
Santa Catarina de Sena (DSCS)
390 DOMINICANAS DO ROSÁRIO – Irmãs Missionárias Dominicanas do Rosário (MDR)
392 DOMINICANAS IRLANDESAS – Congregação das Irmãs Dominicanas de Nossa Senhora do Rosário e Santa
Catarina de Sena, Dominicanas de Cabra, Dominicanas Irlandesas do Bom Sucesso, Irmãs Dominicanas
de Nossa Senhora do Rosário e Santa Catarina de Sena, Religiosas Dominicanas Irlandesas do Convento
de Nossa Senhora do Bom Sucesso
393 DOROTEIAS – Congregação das Irmãs Doroteias, Instituto das Irmãs de Santa Doroteia, Instituto de Santa
Doroteia Filhas da Santa Fé, Irmãs de Santa Doroteia, Irmãs Doroteias (SSD)
398 ESCRAVAS DA EUCARISTIA – Congregação das Religiosas Escravas da Santíssima Eucaristia e da Mãe de
Deus (ESEMP)
399 ESCRAVAS DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS – (ACI)
401 FILHAS DE JESUS BOM PASTOR – Irmãs de Jesus Bom Pastor, Pastorinhas
402 FILHAS DE MARIA MÃE DA IGREJA – Congregação das Religiosas Filhas de Maria Mãe da Igreja, Filhas de
Maria (FMMI)
403 FILHAS DE NOSSA SENHORA DAS DORES – Hijas de la Virgen de Dolores (HVD)
404 FILHAS DE SANTA MARIA DE GUADALUPE – Congregação das Religiosas Filhas de Santa Maria de Guadalupe
(FSMG)
405 FILHAS DE SANTA MARIA DE LEUCA – Instituto das Filhas de Santa Maria de Leuca (FSML)
406 FILHAS DE SÃO CAMILO – Congregação das Filhas de São Camilo (FSC)
407 FILHAS DE SÃO JOSÉ – (FSJ)
408 FILHAS DO CORAÇÃO DE MARIA – Sociedade das Filhas do Coração de Maria (SFCM/FCM)
411 FRANCISCANAS DA IMACULADA – Irmãs Franciscanas da Imaculada
412 FRANCISCANAS DA IMACULADA CONCEIÇÃO – Hermanas Franciscanas de la Inmaculada Concepción (HFIC)
413 FRANCISCANAS DA IMACULADA CONCEIÇÃO E SÃO MIGUEL ARCANJO – Irmãs Franciscanas da Imaculada
Conceição e São Miguel Arcanjo
414 FRANCISCANAS DE NOSSA SENHORA DO BOM CONSELHO – (FBC)
415 FRANCISCANAS EVANGELIZADORAS DE NOSSA SENHORA DA ESPERANÇA – Franciscanas de Nossa Senhora
da Esperança, Fraternidade Franciscana Evangelizadora de Nossa Senhora da Esperança, Irmãs Franciscanas
Evangelizadoras de Nossa Senhora da Esperança (FENSE/IFENSE)
416 FRANCISCANAS HOSPITALEIRAS – Congregação das Irmãs Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição,
Irmãs Hospitaleiras da Ordem Terceira de São Francisco (CONFHIC)
427 FRANCISCANAS MISSIONÁRIAS DA MÃE DO DIVINO PASTOR – Congregação da Divina Pastora, Religiosas
Franciscanas Missionárias da Mãe do Divino Pastor (FMMDP)
429 FRANCISCANAS MISSIONÁRIAS DE MARIA – Congregação das Irmãs Franciscanas Missionárias de Maria,
Instituto das Franciscanas Missionárias de Maria, Missionárias de Maria (FMM)
434 FRANCISCANAS MISSIONÁRIAS DE NOSSA SENHORA – Franciscanas de Calais (FMNS)
438 FRANCISCANAS REPARADORAS – Servas Franciscanas Reparadoras de Jesus Sacramentado (SFRJS)
439 FRATERNIDADE FRANCISCANA DA DIVINA PROVIDÊNCIA – (FFDP)
440 HOSPITALEIRAS DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS – Congregação das Irmãs Hospitaleiras do Sagrado
Coração de Jesus, Congregação Hospitaleira das Filhas de Nossa Senhora do Sagrado Coração de Jesus,
Congregação Religiosa das Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus e da Bem-Aventurada
Virgem Maria Senhora Nossa, Filhas de Nossa Senhora do Sagrado Coração de Jesus, Irmãs Hospitaleiras
(IHSCJ)
447 IRMÃS DA GLÓRIA – Congregação da Glória, Congregação das Irmãs da Glória, Congregação das Irmãs de
Nossa Senhora da Glória, Congregação de Assistência Social das Irmãs de Nossa Senhora da Glória
448 IRMÃS DA MISERICÓRDIA DE VERONA – Instituto das Irmãs da Misericórdia, Instituto das Irmãs da Misericórdia
de Verona, Irmãs da Misericórdia
450 IRMÃS DA SANTA CRUZ – Comunidade das Irmãs de Santa Cruz
451 IRMÃS DE MARIANNHILL – Congregação das Irmãs Missionárias do Precioso Sangue, Congregação Internacional
das Irmãs Missionárias do Precioso Sangue, Congregatio Sororum Missionum Pretiosi Sanguinis de Mariannhill,
Irmãs Vermelhas, Missionárias de Mariannhill (CPS)
451 IRMÃS DE SÃO JOÃO BAPTISTA – Irmãs de São João Baptista e de Maria Rainha (ISJB)
453 IRMÃS DE SÃO JOSÉ DE CLUNY – Congregação de São José de Cluny (SJC)
455 IRMÃS DO CAMPO
455 IRMÃS DO CORAÇÃO DE JESUS SACRAMENTADO
456 IRMÃS DO SANTÍSSIMO SALVADOR – Congregação das Irmãs do Santíssimo Salvador, Irmãs de Niederbronn
(ISS)
459 IRMÃS DOS VELHINHOS – Irmãzinhas dos Anciãos Desamparados
461 IRMÃZINHAS DA ASSUNÇÃO, Congregação das – Petits Soeurs de l’Assomption (IA)
463 IRMÃZINHAS DE JESUS – Fraternidade das Irmãzinhas de Jesus, Irmãs do Padre Foucauld (PSJ)
464 IRMÃZINHAS DOS POBRES – Congregação das Irmãzinhas dos Pobres (IP)
466 JESUS MARIA JOSÉ, Instituto – Associação Religiosa e Beneficiante Jesus Maria José, Congregação Jesus
Maria José, Irmãs de Jesus Maria José (JMJ)
467 JOSEFINAS DA SANTÍSSIMA TRINDADE – Irmãs Josefinas Trinitárias
468 MALTESAS – Religiosas Maltesas do Convento de São João da Penitência de Estremoz
469 MANTELATAS
469 MARIAS NAZARENAS – Missionárias Eucarísticas de Nazaré (MEN)
470 MERCEDÁRIAS DA CARIDADE – Irmãs Mercedárias da Caridade
471 MISSIONÁRIAS CORDIMARIANAS – Congregação Cordimariana, Missionárias Filhas do Coração de
Maria (MC)
471 MISSIONÁRIAS CRUZADAS DA IGREJA – (MCI)
472 MISSIONÁRIAS DA CARIDADE – Irmãs da Madre Teresa de Calcutá (MC)
474 MISSIONÁRIAS DA CONSOLATA – Consolatinas, Instituto das Irmãs Missionárias da Consolata (MC)
475 MISSIONÁRIAS DE NOSSA SENHORA DE FÁTIMA – Instituto das Irmãs Missionárias de Nossa Senhora de
Fátima
476 MISSIONÁRIAS DE SÃO DOMINGOS – Religiosas Missionárias de São Domingos
477 MISSIONÁRIAS DE SÃO PEDRO CLAVER – Irmãs Missionárias de São Pedro Claver, Sociedade de São Pedro
Claver (SSPC)
478 MISSIONÁRIAS DO ESPÍRITO SANTO – Congregação das Irmãs Missionárias do Espírito Santo, Espiritanas,
Irmãs Missionárias do Espírito Santo (CSSp)
482 MISSIONÁRIAS DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS – Cabrinianas (MSC)
483 MISSIONÁRIAS DO SANTÍSSIMO SACRAMENTO – Missionárias do Santíssimo Sacramento e Maria Imaculada
(MSS)
484 MISSIONÁRIAS DOS POBRES – (MP)
485 MISSIONÁRIAS REPARADORAS – Congregação das Missionárias Reparadoras, Missionárias Reparadoras do
Sagrado Coração de Jesus (MR)
487 MISSIONÁRIAS SERVAS DO ESPÍRITO SANTO – Servas do Espírito Santo (SSpS)
489 OBLATAS – Irmãs Oblatas do Santíssimo Redentor
491 OBLATAS DO CORAÇÃO DE JESUS
493 OBLATAS DO DIVINO CORAÇÃO – Congregação das Oblatas do Divino Coração (ODC)
494 PASSIONISTAS DE SÃO PAULO DA CRUZ – Irmãs Passionistas de São Paulo da Cruz (CP)
495 PAULINAS – Filhas de São Paulo, Instituto Missionário Filhas de São Paulo, Irmãs Paulinas (FSP)
501 PEQUENAS MISSIONÁRIAS DE MARIA IMACULADA – Instituto das Pequenas Missionárias de Maria Imaculada,
Pequenas Missionárias (IPMMI)
503 PIAS DISCÍPULAS – Irmãs Discípulas, Irmãs Discípulas do Divino Mestre, Irmãs Pias Discípulas, Pias Discípulas
do Divino Mestre (PDDM)
504 RELIGIOSAS DA INSTRUÇÃO CRISTÃ – Instituto das Damas da Instrução Cristã, Instituto das Religiosas da
Instrução Cristã
505 RELIGIOSAS DE MARIA IMACULADA – Congregação das Religiosas de Maria Imaculada (RMI)
506 RELIGIOSAS DO SAGRADO CORAÇÃO DE MARIA – Instituto das Religiosas do Sagrado Coração de Maria (IRSCM/RSCM)
508 REPARADORAS DE FÁTIMA – Congregação das Religiosas Reparadoras de Nossa Senhora das Dores de Fátima,
Irmãs da Congregação das Reparadoras de Nossa Senhora das Dores (RF)
511 REPARADORAS MISSIONÁRIAS DA SANTA FACE – Irmãs Reparadoras Missionárias da Santa Face
512 SALESIANAS – Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora, Filhas de Maria Auxiliadora (FMA)
514 SCALABRINIANAS – Congregação das Irmãs Missionárias de São Carlos Borromeu, Irmãs Missionárias Scalabrinianas
(MSCS)
515 SERVAS DA CARIDADE – Religiosas Servas de Jesus da Caridade, Servas de Jesus da Caridade (SdeJ)
516 SERVAS DA DIVINA PROVIDÊNCIA – Servas da Divina Providência, de Maria Auxiliadora e do Próximo
516 SERVAS DA SAGRADA FAMÍLIA – Congregação das Irmãs Servas da Sagrada Família (ISSF)
519 SERVAS DA SANTA IGREJA – Congregação das Servas da Santa Igreja (SSI)
521 SERVAS DE MARIA – Servas de Maria – Ministras dos Enfermos (SdeM)
522 SERVAS DE MARIA REPARADORAS – Congregação das Irmãs Servas de Maria Reparadoras (SMR)
523 SERVAS DE NOSSA SENHORA DE FÁTIMA – Congregação das Servas de Nossa Senhora de Fátima (SNSF)
527 SERVAS DOS POBRES, Congregação das
527 SERVAS FRANCISCANAS – Congregação das Servas Franciscanas de Nossa Senhora das Graças (CSFNSG)
529 SERVIDORAS DE JESUS – Irmãs do Cottolengo, Irmãs Servidoras de Jesus do Cottolengo do Padre Alegre
530 TERESIANAS – Companhia de Santa Teresa de Jesus, Irmãs Teresianas (STJ)
533 TRABALHADORAS MISSIONÁRIAS DA IMACULADA – Congregação das Trabalhadoras Missionárias da Imaculada
533 TRINITÁRIAS – Trinas
536 URSULINAS – Congregação Religiosa das Ursulinas
538 VERBUM DEI – Fraternidade Missionária Verbum Dei (FMVD)
541 VICENTINAS – Companhia das Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo, Filhas da Caridade, Filhas da
Caridade de São Vicente de Paulo, Filhas de São Vicente de Paulo, Irmãs da Caridade de São Vicente de
Paulo, Irmãs de São Vicente de Paulo, Irmãs Vicentinas, Servas dos Pobres
545 VISITANDINAS – Ordem da Visitação de Santa Maria, Salésias
547 VITORIANAS – Congregação das Irmãs Franciscanas de Nossa Senhora das Vitórias, Irmãs Vitorianas (FNSV)

553 ORDENS RELIGIOSAS MILITARES


553 INTRODUÇÃO
557 AVIS, Ordem de – Freires de Avis, Freires de Évora, Milícia de Avis da Ordem de Calatrava, Milícia de Évora,
Milícia de Évora da Ordem de Caltrava, Ordem de Avis e de Calatrava, Ordem de São Bento de Avis,
Ordem Militar de Avis, Ordem Nova, Real Ordem Militar de São Bento de Avis
562 CALATRAVA, Ordem de – Freires de Calatrava, Ordem de Calatrava de Castela
564 CRISTO, Ordem de – Cavaleiros de Cristo, Freires de Cristo, Milícia de Cristo, Ordem da Cavalaria de Jesus
Cristo, Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo, Ordem dos Cavaleiros de Cristo, Ordem dos Pobres Cavaleiros
de Cristo, Ordo Militum Christi, Religião Militar de Cristo
574 HOSPITAL, Ordem do – Cavaleiros de Rodes, Cavaleiros de São João, Cavaleiros de São João de Jerusalém
e de Rodes, Cavaleiros Hospitalários, Freires Hospitalários, Hospitalários, Hospitalários de São João, Ordem
de Rodes, Ordem de São João, Ordem de São João de Jerusalém, Ordem de São João do Hospital, Ordem
dos Hospitalários, Ordem dos Hospitalários de São João, Ordem Religiosa e Militar do Hospital de São
João de Jerusalém
577 MALTA, Ordem de – Cavaleiros de Malta, Ordem Soberana de Malta, Ordem Soberana e Militar de Malta,
Soberana Ordem de Malta, Soberana Ordem Militar Hospitalar de São João de Jerusalém, de Rodes e de
Malta (SMOM)
592 RONCESVALLES, Ordem Hospitalar de – Cónegos Regulares de Roncesvalles (RV)
595 SANTIAGO, Ordem de – Cavaleiros de Santiago, Espatários, Freires de Alcácer, Freires de Palmela, Freires de
Santiago, Freires Espatários, Ordem Militar de Santiago, Ordem Militar de Santiago da Espada, Santiaguistas
602 SANTO SEPULCRO, Cónegos do – Cavaleiros do Santo Sepulcro, Cónegos do Santo Sepulcro & Ordem
Equestre do Santo Sepulcro, Cónegos Regrantes do Santo Sepulcro, Ordem de Cavalaria do Santo Sepulcro,
Ordem de Cavalaria do Santo Sepulcro de Jerusalém, Ordem do Santo Sepulcro, Ordem dos Cónegos do
Santo Sepulcro, Ordem Equestre do Santo Sepulcro
604 SÃO JULIÃO DO PEREIRO, Ordem de – Alcântara, Cavaleiros de Alcântara, Freires de São Julião, Milícia de
São João do Pereiro, Ordem de Alcântara, São Julião do Pereiro
604 TEMPLÁRIOS – Cavalaria do Templo, Cavaleiros de Cristo, Cavaleiros do Templo, Cavaleiros Templários,
Fratres Christi, Fratres Militiae Templi, Freires de Cristo, Freires de Jesus Cristo, Freires do Templo, Freires
do Templo de Salomão, Ordem do Templo, Ordem dos Cavaleiros do Templo, Ordem dos Pobres Cavaleiros
de Cristo, Ordem dos Templários, Ordo Militum Templi, Pauperes Commilitones Christi, Pauperes Commilitones
Christi Templique Salamonici, Templo

609 INSTITUTOS SECULARES


609 INTRODUÇÃO
613 ANCILLA DOMINI – Instituto Ancilla Domini, Instituto Secular Ancilla Domini
613 ANUNCIATINAS – Instituto de Nossa Senhora da Anunciação
614 CARITAS CHRISTI – Instituto Secular Caritas Christi
616 COMPANHIA MISSIONÁRIA – Companhia Missionária do Coração de Jesus, Companhia Missionária do Sagrado
Coração de Jesus
619 COOPERADORAS DA FAMÍLIA – Instituto Secular das Cooperadoras da Família (ISCF)
623 FILIAÇÃO CORDIMARIANA – Filhas do Santíssimo e Imaculado Coração de Maria, Instituto Secular Filiação
Cordinariana
623 INSTITUTO SECULAR DO CORAÇÃO DE JESUS – Sociedade do Coração de Jesus (ISCJ)
624 INSTITUTO SECULAR NOSSA SENHORA DE SCHOENSTATT – Instituto de Nossa Senhora de Schoenstatt (ISNSS)
625 IRMÃS DE MARIA DE SCHOENSTATT – Instituto Secular das Irmãs de Maria de Schoenstatt, Institutum
Schoenstattense Sororum Marialium (ISSM)
626 MISSIONÁRIAS COMBONIANAS – Instituto Secular das Missionárias Combonianas, Missionárias Seculares
Combonianas
627 MISSIONÁRIAS DO AMOR MISERICORDIOSO – Missionárias do Amor Misericordioso do Coração de Jesus (MAMCJ)
628 PADRES DE SCHOENSTATT – Instituto Secular dos Padres de Schoenstatt (ISCH)
629 PEQUENA FAMÍLIA FRANCISCANA – Pequena Família
630 SAGRADA FAMÍLIA, Instituto Secular da – Instituto Labor Christi, Obra da Sagrada Família (ISSF)
631 SANTA FAMÍLIA, Instituto – (ISF)
632 SERVAS DO APOSTOLADO – Instituto das Servas do Apostolado, Instituto Missionário das Servas do Apostolado,
Instituto Secular Missionário das Servas do Apostolado (ISA)
632 VOLUNTÁRIAS DE DOM BOSCO – (VDB)

635 OUTRAS INSTITUIÇÕES


635 INTRODUÇÃO
639 ARAUTOS DO EVANGELHO – (AE)
639 CANÇÃO NOVA, Comunidade
641 CARISMÁTICOS – Movimento de Renovação Carismática Católica, Renovação Carismática Católica, Renovação
Pentecostal Católica, Renovamento Carismático
643 COMUNHÃO E LIBERTAÇÃO – Fraternidade de Comunhão e Libertação, Memores Domini (CL)
647 CRISTO DE BETÂNEA, Comunidade
648 EMANUEL, Comunidade
649 FOCOLARES – Focolarinos, Movimento Focolarino, Obra de Maria
651 GRAAL
654 INSTITUIÇÃO TERESIANA – Instituição Teresiana de Coimbra (IT)
655 LUZ E VIDA, Comunidade
656 NEOCATECUMENAIS – Caminho Neocatecumenal
656 NOSSA SENHORA DA RESSURREIÇÃO, Fraternidade
657 OBLATAS DO MENINO JESUS – Instituto Pio das Oblatas do Menino Jesus, Recolhimento de Monfreita,
Recolhimento do Menino Jesus
661 OPUS DEI – Prelatura da Santa Cruz e Opus Dei
664 REPARADORES DE NOSSA SENHORA VIRGEM DAS DORES
665 SEMENTES DO VERBO, Comunidade
666 SHALOM – Comunidade Shalom
668 SILENCIOSOS OPERÁRIOS DA CRUZ – (SODC)
668 TOCA DE ASSIS, Fraternidade – Instituto das Filhas e Filhos da Pobreza do Santíssimo Sacramento

671 GLOSSÁRIO TÉCNICO


689 SIGLÁRIO
695 ÍNDICE REMISSIVO ANTROPONÍMICO
721 ÍNDICE DOS NOMES DAS INSTITUIÇÕES
730 CRONOLOGIA DA HISTÓRIA DA VIDA CONSAGRADA
780 CRÉDITOS FOTOGRÁFICOS
Prefácio

Prefaciar uma obra de vulto como o Dicionário Histórico das Ordens: Institutos Religiosos e
Outras Formas de Vida Consagrada Católica em Portugal, não se acomete tarefa fácil, sobretudo
quando não se tem em mente todo o panorama do seu itinerário. Contudo, face ao elenco temático
conhecido, o incentivo geral só pode ser de homenagem àqueles e àquelas que se arrojaram a levar
adiante este ingente “projecto aberto e em aberto”, na intenção dos seus promotores.
Como actual coordenador nacional das contemporâneas ordens e congregações em
Portugal, só posso congratular-me com esta empresa. A iniciativa afigura-se louvável, por vários
motivos. Primeiro, porque é realizada de um ponto de vista histórico-científico, o que vale por
si mesmo como arrojo. Segundo, porque procura ser exaustiva na sistematização coerente que
engloba quer as ordens e congregações actuais quer as que finaram nos séculos decorridos.
Terceiro, porque aborda a pluralidade da sua existência, nas traças de comuns substratos
assumidos na sua diversidade. Quarto, por se tratar de um trabalho pioneiro nos seus objectivos
globais, pelo seu carácter interdisciplinar e interinstitucional. Quinto, pelo reconhecido e variado
leque de especialistas que, com competência científica, emprestam o seu saber a esta causa
editorial.
Não deixa de ser assinalável que este projecto tenha nascido num momento histórico em
que, em Portugal, precisamente em 2005, todos os Institutos Religiosos e Sociedades de Vida
Apostólica se uniram numa única conferência: a Conferência dos Institutos Religiosos de Portugal.
O sentido de unidade plural, intimamente presente neste projecto de vida religiosa, favorece
todo um dinamismo de comunhão e de colaboração entre todas as ordens e congregações
existentes hoje em Portugal. Dessa comunhão plural ou diversidade comunional da vida religiosa
em Portugal nos nossos dias nos dá conta, de modo rigoroso e científico, a presente edição.
Mas não deixa igualmente de nos trazer, com o mesmo método, a memória histórica de tantas
ordens e congregações que contribuíram para a identidade cultural e religiosa de Portugal e
que, por variadas razões, não fazem parte da história presente.
Este Dicionário Histórico diz respeito às ordens e congregações religiosas, ou seja, ao
conjunto dos institutos de vida consagrada que, do ponto de vista jurídico, englobam os
Institutos Religiosos, os Institutos Seculares e as Sociedades de Vida Apostólica. Ainda que à
laia de breve resenha introdutória, importa reter o que sobre estas três entidades jurídicas se
refere no Direito Canónico: “instituto religioso é a sociedade em que os membros emitem
segundo o direito próprio votos públicos perpétuos ou temporários mas que, decorrido o prazo,
devem ser renovados, e vivem a vida fraterna em comum” (cân. 607 § 2); “instituto secular é
o instituto de vida consagrada, em que os fiéis, vivendo no século, se esforçam por atingir a
perfeição da caridade e por contribuir, sobretudo a partir de dentro, para a santificação do
mundo” (cân. 710); “aproximam-se dos institutos de vida consagrada as sociedades de vida
apostólica, cujos membros, sem votos religiosos, prosseguem o fim apostólico próprio da
sociedade e, vivendo em comum a vida fraterna, de acordo com a própria forma de vida,
tendem, pela observância das constituições, à perfeição da caridade” (cân. 731, §1).
Estas condensadas descrições procuram clarificar o âmbito jurídico do conjunto das ordens
e congregações religiosas mas, como é facilmente observável, não exprimem todas as dimensões
vivenciais da forma de existência cristã que é a vida consagrada. Possa este Dicionário Histórico
contribuir para desvelar um pouco mais, com fundamento e clareza, toda esta abundante e
multiforme forma de vida, quer no que toca ao passado, quer em perspectiva futura, acolhendo
a realidade actual.
Presentemente, dois grandes organismos coordenam a vida consagrada em Portugal: a
Conferência dos Institutos Religiosos de Portugal (CIRP) e a Federação Nacional dos Institutos
Seculares (FNIS).
A CIRP engloba os cerca de 150 Institutos Religiosos masculinos e femininos e Sociedades de
Vida Apostólica existentes em Portugal. Enquanto organismo de Direito Pontifício, com personalidade
jurídica canónica e civil, sem fins lucrativos, foi instituída por Decreto da Sé Apostólica e com a
correspondente aprovação dos Estatutos, a 16 de Abril de 2005, tendo em conta o parecer favorável
da Conferência Episcopal Portuguesa. Trata-se de uma entidade recente em Portugal, pois resultou
da união entre a Conferência Nacional dos Superiores Maiores dos Institutos Religiosos (CNIR) e a

13
Federação Nacional dos Institutos Religiosos Femininos (FNIRF). Tendo como objectivo principal
realizar um trabalho de coordenação e auxílio mútuo entre os diversos institutos, a CIRP visa os
seguintes fins, segundo os seus próprios Estatutos: tornar mais fortes os laços de solidariedade
que os une na prossecução do ideal próprio do seguimento de Jesus Cristo; promover um melhor
conhecimento da vida consagrada na Igreja e na sociedade; cooperar nos planos da pastoral de
conjunto da Igreja e em outras questões de comum interesse; estabelecer a conveniente coordenação
e cooperação com a Conferência Episcopal Portuguesa e com cada um dos bispos para um melhor
serviço à Igreja; promover o bem dos institutos pelo estudo e, na medida do possível, pela solução
dos problemas comuns, tendo sempre em conta a autonomia, a finalidade específica e o carisma
de cada instituto; promover iniciativas apostólicas em comum; alargar a comunhão a todas as
formas da vida consagrada em Portugal, no respeito pela sua autonomia; relacionar-se em espírito
de colaboração com as Federações de outros países e participar na União das Conferências Europeias
de Superiores e Superioras Maiores (UCESM); estar atenta aos desafios da actualidade que interpelam
a presença dos religiosos no mundo como consagrados e responder-lhes com sentido profético.
A FNIS é um organismo erecto canonicamente, que goza de personalidade jurídica no foro
civil, sendo constituído pelos institutos seculares e clericais erectos e estabelecidos canonicamente
na Igreja em Portugal. Tem como objectivos principais, segundo Estatutos próprios: promover
o mútuo conhecimento e a colaboração entre os institutos seculares, por meio de encontros
de oração, estudo e convívio ou outras iniciativas e actividades que estreitem a comunhão entre
eles; apoiar a participação dos Institutos Federados, respeitando e promovendo o carisma próprio
de cada um, nas instituições e actividades eclesiais de âmbito diocesano e supradiocesano;
contribuir para o aprofundamento da natureza e características próprias dos institutos seculares
e promover a sua divulgação, designadamente nas instâncias de pastoral vocacional; prestar a
ajuda possível aos grupos que aspirem a constituir-se em Institutos Seculares.
Ambos os organismos procuram cumprir os seus objectivos para o bem comum da vida
consagrada em Portugal, através de assembleias nacionais e regionais, do trabalho de comissões
específicas em vários sectores de actividade, como seja a realidade da justiça e paz e do tráfico
de pessoas, de revistas e publicações próprias, de celebrações comuns das suas actividades, de
jornadas e semanas de estudos e formação permanente, de resposta em comum aos desafios
vindos dos sectores da educação, da saúde e da administração fiscal, entre outros, de participação
e colaboração nas actividades eclesiais em Portugal e em “terras de missão”, em particular nos
países de expressão portuguesa.
Estes desafios só terão sentido se todos os membros dos institutos religiosos continuarem
a investir na espiritualidade como essencial à sua existência, na sua formação em ordem a um
melhor serviço qualificado nas tarefas a si confiadas, no desenvolvimento de uma pastoral
vocacional conjunta em ligação com a pastoral juvenil, num maior envolvimento em actividades
e iniciativas intercongregacionais, na abertura aos leigos enquanto participantes do seu carisma,
na reflexão e empenho na missão Ad Gentes, na sua inserção constante na vida das igrejas
locais, na coragem em rever estruturas e obras tantas vezes sem significância para os problemas
do mundo de hoje. Sem substituir a autonomia própria de cada instituto, a CIRP e a FNIS, nas
suas tarefas de coordenação e dinamização, procuram contribuir para dar resposta aos desafios
e sinais dos tempos, colocados à vida consagrada em Portugal, em atitude de abertura à
mudança, sempre na fidelidade ao Espírito de Jesus Cristo e na comunhão eclesial.
Na senda do dinamismo comunional destas duas grandes estruturas da vida consagrada em
Portugal, o presente Dicionário Histórico constitui um precioso contributo para dar a conhecer,
de modo rigoroso e científico, todo o universo, passado e presente, das congregações e ordens.
Por um lado, este trabalho traz à memória as que deixaram de existir mas que muito construíram
em prol do bem da sociedade e da Igreja; por outro, recordando os dados históricos, poderá
apelar às existentes para que renovem a sua identidade na fidelidade dinâmica às suas origens.
Em ambos os casos, o Dicionário Histórico constitui, certamente, um ponto referencial, qual ponto
de partida para futuras investigações sobre as ordens e congregações em Portugal. Permanecendo
na pauta do seu carácter histórico e científico, será sempre expressão de vida e de testemunho
de milhares de homens e mulheres que deram e continuam a dar a vida por Jesus Cristo na vida
consagrada, qual testemunho iluminador para gerações de novos consagrados e consagradas.

Lisboa, 23 de Março de 2008, Solenidade da Páscoa do Senhor.

Padre Manuel Joaquim Gomes Barbosa, scj


Presidente da Conferência dos Institutos Religiosos de Portugal (CIRP)
Vice-Presidente da União das Conferências Europeias dos Superiores(as) Maiores (UCESM)

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Organigrama

Direcção
José Eduardo Franco

Coordenação
Isabel Mayer Godinho Mendonça e Teresa Peralta (Iconografia)
João Luís Inglês Fontes e Manuel Saturino da Costa Gomes (Glossário Técnico)
João Miguel Almeida (Institutos Seculares)
José Carlos Lopes de Miranda (Outras Instituições)
José Varandas (Ordens Religiosas Militares)
Paulo Mendes Pinto e João Luís Inglês Fontes (Ordens/Congregações Masculinas)
Sara Morais Saraiva de Andrade e Sílvia Ferreira (Ordens/Congregações Femininas)

Secretariado de Investigação, Redacção e Pré-Edição


Susana Mourato Alves (Chefe de Redacção)
Cristiana Lucas Silva
Paula Cristina Ferreira da Costa Carreira

Comissão Científica
Aires Augusto Nascimento (CEC – FL – Universidade de Lisboa)
Ana Cristina da Costa Gomes (CCCM – Centro Científico e Cultural de Macau)
Annabela Rita (CLEPUL – FL – Universidade de Lisboa)
António Montes Moreira (CEHR – Universidade Católica Portuguesa)
António Ventura (CH – FL – Universidade de Lisboa)
Arnaldo do Espírito Santo (CEC – FL – Universidade de Lisboa)
Bento Domingues (Instituto de São Tomás de Aquino)
Bernard Vincent (École des Hautes Études en Sciences Sociales – Paris)
Carlos Moreira Azevedo (CEHR – Universidade Católica Portuguesa)
Christine Vogel (Universidade de Mainz – Alemanha/CLEPUL)
Fernando Cristóvão (CLEPUL – FL – Universidade de Lisboa)
Geraldo Coelho Dias (Universidade do Porto)
Guy Bedouelle (Universidade de Fribourg – Suíça)
Hermínio Rico (Universidade Católica Portuguesa)
Isidro Lamelas (FT – Universidade Católica Portuguesa)
Jerónimo Trigo (FT – Universidade Católica Portuguesa)
João Francisco Marques (FL – Universidade do Porto)
José Augusto Mourão (FCSH – Universidade Nova de Lisboa)
José Augusto Ramos (FL – Universidade de Lisboa)
Lázaro Messias de Carvalho (Diocese de Quelimane – Moçambique/CLEPUL)
Luis Machado de Abreu (CLC – Universidade de Aveiro)
Manuel Clemente (CEHR – Universidade Católica Portuguesa)

15
†Manuel da Costa Freitas (Universidade Católica Portuguesa)
Manuel Saturino da Costa Gomes (ISDC – Universidade Católica Portuguesa)
Manuela Mendonça (FL – Universidade de Lisboa)
Muanamosi Matumona (Universidade Agostinho Neto – Angola/CLEPUL)
Norberto Dallabrida (Universidade Estadual de Santa Catarina – Brasil/CLEPUL)
Paulo de Assunção (Universidade de São Paulo – Brasil/CLEPUL)
Pedro Barbas Homem (FD – Universidade de Lisboa)
Rui Loureiro (CHAM-FCSH – Universidade Nova de Lisboa)
Valmir Francisco Muraro (Universidade Federal de Santa Catarina – Brasil/CLEPUL)
Vítor Feytor Pinto (Universidade Católica Portuguesa)
Vítor Melícias Lopes (Universidade Católica Portuguesa)
Vítor Serrão (FL – Universidade de Lisboa)
Vítor Teixeira (Universidade Católica Portuguesa – Porto)

Autores
Acílio Mendes (Franciscanos Capuchinhos)
Adélio Torres Neiva (Congregação dos Espiritanos)
Aileen Josephine Coates (Dominicanas Irlandesas)
Aires Gameiro (Ordem Hospitaleira dos Irmãos de São João de Deus/IPCDVS-FPCE – Universidade
de Coimbra)
Alexandre Honrado (Instituto Europeu de Ciências da Cultura Padre Manuel Antunes)
Álvaro Manuel da Rocha Tição (Câmara Municipal de Lisboa)
Álvaro Terreiro (Diocese da Guarda)
Amador Anjos (Congregação dos Salesianos)
Ana Cláudia Vicente (CEHR – Universidade Católica Portuguesa)
Ana Cristina da Costa Gomes (Centro Científico e Cultural de Macau)
Ana Filipa Isidoro da Silva (CLEPUL – FL – Universidade de Lisboa)
Ana Maria Homem Leal de Faria (CH – FL – Universidade de Lisboa)
Annabela Rita (CLEPUL – FL – Universidade de Lisboa)
António de Araújo (FD – Universidade de Lisboa)
†António Lopes (Companhia de Jesus)
António Rocha Martins (FL – Universidade de Lisboa)
Armando Alberto Martins (FL – Universidade de Lisboa)
Artur Manso (Universidade do Minho)
Augusto Moutinho Borges (Museu S. João de Deus/CEIS20 – Universidade de Coimbra)
Áurea Adão (Universidade Lusófona)
Benilde Abegão (CEFE/FCSH – Universidade Nova de Lisboa)
Carla Delgado de Piedade (FL – Universidade de Lisboa)
Carlos Aguiar Gomes (Militia Sanctae Mariae)
Carlos Berrincha (Instituto Politécnico da Guarda)
Carlos João Correia (CF – FL – Universidade de Lisboa)
Carlos Margaça Veiga (FL – Universidade de Lisboa)
Célia Cristina da Silva Tavares (Universidade Estadual do Rio de Janeiro)
Cristiana Lucas Silva (CLEPUL – FL – Universidade de Lisboa)
David Sampaio Barbosa (CEHR – Universidade Católica Portuguesa/Congregação do Verbo Divino)

16
Deolinda Rodrigues (Irmãs Dominicanas do Rosário)
Deolinda Serralheiro (Congregação das Servas de Nossa Senhora de Fátima)
Diana Barbosa (Irmãs Doroteias)
Eugénio dos Santos (FL – Universidade do Porto)
Eva Santos (Sociedade das Filhas do Coração de Maria)
Fernanda Cristina Santos (CLEPUL – FL – Universidade de Lisboa)
Fernanda Olival (CIDEHUS – Universidade de Évora)
Filomena de Melo Borja (CLEPUL – FL – Universidade de Lisboa)
Gisela Pinto (FL – Universidade de Lisboa)
Helena Maria Cardoso Oliveira (Congregação do Amor de Deus)
Henrique Manuel S. Pereira (CLEPUL – FL – Universidade de Lisboa/Universidade Católica
Portuguesa)
Henrique Pinto Rema (Ordem dos Franciscanos Menores – OFM)
Ilda Maria A. S. Soares de Abreu (CEFE/FCSH – Universidade Nova de Lisboa)
Inês Versos (Instituto Europeu de Florença)
Isabel Baltazar (CEFE/FCSH – Universidade Nova de Lisboa)
Isabel Castro Pina (IEM-FCSH – Universidade Nova de Lisboa)
Isabel Mayer Godinho Mendonça (ESAD – Fundação Ricardo do Espírito Santo Silva)
Isabel Rodrigues (CLEPUL – FL – Universidade de Lisboa)
Jacinto Salvador Guerreiro (CEHR – Universidade Católica Portuguesa)
Jerónimo Trigo (FT – Universidade Católica Portuguesa/Congregação dos Claretianos)
Jesué Pinharanda Gomes (Academia Portuguesa da História/Ordem Terceira Carmelita)
Joana Barreira (CLEPUL – FL – Universidade de Lisboa)
João Luís Inglês Fontes (IEM-FCSH – Universidade Nova de Lisboa/CEHR – Universidade Católica
Portuguesa)
João Miguel Almeida (CEHR – Universidade Católica Portuguesa)
João Paulo Freire Carreteiro (CLEPUL – FL – Universidade de Lisboa)
José Carlos Calazans (CECR – Universidade Lusófona)
José Carlos Lopes de Miranda (CLEPUL – FL – Universidade de Lisboa/Faculdade de Ciências
Sociais – Centro Regional de Braga da Universidade Católica Portuguesa)
José Eduardo Franco (CLEPUL – FL – Universidade de Lisboa/Instituto Europeu de Ciências da
Cultura Padre Manuel Antunes)
José Maria Silva Rosa (Universidade da Beira Interior)
José Nunes Dorguete (Ordem Hospitaleira dos Irmãos de São João de Deus)
José Renato Gonçalves (FD – Universidade de Lisboa/CLEPUL)
José Varandas (CH – FL – Universidade de Lisboa)
José Victor Adragão (Comunidade Shalom)
Lauro Portugal (Sociedade Portuguesa de Autores/CLEPUL)
Luís Filipe Oliveira (Universidade do Algarve/IEM-FCSH – Universidade Nova de Lisboa)
Luís Machado de Abreu (CLC – Universidade de Aveiro)
Luís da Cunha Pinheiro (CLEPUL – FL – Universidade de Lisboa)
Luísa de Oliveira Guimarães (ESAD – Fundação Ricardo do Espírito Santo Silva)
Mafalda Neves Pedroso (CEFE/FCSH – Universidade Nova de Lisboa)
Manuel Joaquim Gomes Barbosa (Congregação dos Sacerdotes do Coração de Jesus/CIRP)
Manuel Saturino da Costa Gomes (ISEDC – Universidade Católica Portuguesa)

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Margarida da Costa Alves (CLEPUL – FL – Universidade de Lisboa)
Maria da Glória C. Santana Paula (CLEPUL – FL – Universidade de Lisboa)
Maria de Fátima Reis (CH – FL – Universidade de Lisboa)
Maria do Céu de Brito Vairinho Borrêcho (CEFE/FCSH – Universidade Nova de Lisboa)
Maria Domingos (Monjas Dominicanas)
Maria Emília Stone (CEFE/FCSH – Universidade Nova de Lisboa)
Maria Filomena Andrade (Universidade Aberta)
Maria Graça Vicente (FL – Universidade de Lisboa)
Maria João Ferreira (CHAM – Universidade Nova de Lisboa)
Maria João Pereira Coutinho (CLEPUL – FL – Universidade de Lisboa)
Maria José Remédios (Universidade Lusófona)
Maria Julieta Mendes Dias (Instituto das Religiosas do Sagrado Coração de Maria)
Maria Leonor García da Cruz (FL – Universidade de Lisboa)
Maria Lúcia Amado Correia (Companhia Missionária do Coração de Jesus)
Maria Odete Soares Martins (CEHR – Universidade Católica Portuguesa)
Maria Teresa C. S. Gonçalves dos Santos (CFE/FCSH – Universidade Nova de Lisboa/ Universidade
de Évora)
Mariagrazia Russo (Universidade de Viterbo)
Miguel Real (CLEPUL – FL – Universidade de Lisboa)
Miguel Rodrigues Lourenço (FL – Universidade de Lisboa)
Nuno Milheiro (CLEPUL – FL – Universidade de Lisboa)
†Otília Rodrigues Fontoura (Ordem de Santa Clara)
Paula Cristina Ferreira da Costa Carreira (CLEPUL – FL – Universidade de Lisboa)
Paula Xavier (CLEPUL – FL – Universidade de Lisboa)
Paulo Mendes Pinto (CECR – Universidade Lusófona/Cátedra de Estudos Sefarditas Alberto
Benveniste da Universidade de Lisboa)
Paulo Santos (CLEPUL – FL – Universidade de Lisboa)
Pedro Carlos Lopes de Miranda (Instituto de Estudos Teológicos de Coimbra)
Pedro Gil (Opus Dei)
Ricardo Basílio (Associação Internacional de Estudos Ibero-Eslavos – CompaRes)
Ricardo Duarte Gonçalves (CEC – FL – Universidade de Lisboa)
Ricardo Varela Raimundo (CEHR – Universidade Católica Portuguesa)
Rita Angeja (FL – Universidade de Lisboa)
Rita Maria Nicolau (Congregação das Dominicanas de Santa Catarina de Sena)
Rosa Fina (CLEPUL – FL – Universidade de Lisboa)
Rui A. Costa Oliveira (Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias)
Sandra Leandro (Universidade de Évora/IHA – Universidade Nova de Lisboa/CLEPUL)
Sara Morais Saraiva de Andrade (ESAD – Fundação Ricardo do Espírito Santo Silva)
Sérgio Pinto (CEHR – Universidade Católica Portuguesa)
Sílvia Ferreira (CLEPUL – FL – Universidade de Lisboa)
Sofia Mendes Geraldes (École des Hautes Études en Sciences Sociales – Paris/França)
Susana Bastos Mateus (Cátedra de Estudos Sefarditas Alberto Benveniste da Universidade de
Lisboa)
Susana Mourato Alves (CLEPUL – FL – Universidade de Lisboa)
Susana Pedroso (FL – Universidade de Lisboa)

18
Teresa Amaro (CFE/FCSH – Universidade Nova de Lisboa)
Teresa Leonor M. Vale (CEPESE – Universidade do Porto)
Teresa Peralta (CLEPUL – FL – Universidade de Lisboa)
Teresa Rosa (Universidade dos Açores)
Valmir Francisco Muraro (Universidade Federal de Santa Catarina – Brasil/CLEPUL)
Vasco Resende (École Pratique des Hautes Études – Paris/França)
Virgínia Dias (CFE/FCSH – Universidade Nova de Lisboa)

Instituições Coordenadoras
Centro de Literaturas de Expressão Portuguesa das Universidades de Lisboa – Faculdade de
Letras da Universidade de Lisboa (CLEPUL – FLUL), actual Centro de Literaturas e Culturas
Lusófonas e Europeias
Centro de História – Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (CH – FLUL)

Instituições Promotoras
Centro de Estudos em Ciência das Religiões da Universidade Lusófona
Comissão Nacional para as Comemorações do Centenário da República
Conferência dos Institutos Religiosos de Portugal
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
Instituto Europeu de Ciências da Cultura Padre Manuel Antunes
Instituto Superior de Direito Canónico da Universidade Católica Portuguesa
Reitoria da Universidade de Lisboa

Instituições Associadas
Associação Internacional de Estudos Ibero-Eslavos – CompaRes
Centro Cultural Franciscano, Ordem dos Frades Menores
Centro de Línguas e Culturas da Universidade de Aveiro
Direcção Regional dos Serviços Culturais da Região Autónoma da Madeira
Escola Superior de Artes Decorativas da Fundação Ricardo do Espírito Santo Silva
Instituto de São Tomás de Aquino, Ordem dos Pregadores
Ordem Hospitaleira dos Irmãos de São João de Deus
Revista Brotéria, Companhia de Jesus

Instituições Patrocinadoras
Artlandia Design
Centro Cultural Franciscano
Centro Nacional de Cultura
Congregação das Irmãs da Caridade do Sagrado Coração de Jesus
Congregação das Irmãs Dominicanas de Santa Catarina de Sena
Congregação das Irmãs Franciscanas de Nossa Senhora das Vitórias
Congregação das Religiosas do Sagrado Coração de Maria
Congregação das Servas de Nossa Senhora de Fátima
Congregação de São José de Cluny
Congregação do Santíssimo Redentor
Congregação dos Missionários do Verbo Divino

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Criaditas dos Pobres
Departamento do Património Histórico e Artístico da Diocese de Beja
Franciscanas Missionárias de Nossa Senhora
Fundação Calouste Gulbenkian
Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora
Instituto Missionário da Consolata
Irmãs da Apresentação de Maria
Irmãs Franciscanas Evangelizadoras de Nossa Senhora da Esperança
Missionárias Dominicanas do Rosário
Missionários do Preciosíssimo Sangue
Sacerdotes do Coração de Jesus

Projecto financiado pela


Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior
(Programa Operacional Ciência e Inovação 2010 (POC/2010) do Quadro Comunitário de Apoio
III e Comparticipação pelo Fundo Comunitário Europeu FEDER), e pelo Projecto “La obra de
Mário Martins como estudio de las interrelaciones literarias y culturales en el contexto ibérico”
(INTERIBER), aprovado pela Dirección General de Investigación Científica y Tecnológica [Referência:
FFI2008-00824 do Plan Nacional I+D+I] do Ministerio de Ciencia y Tecnología de Espanha.
Abreviaturas

a.C. = antes de Cristo ms. = manuscrito


AA.VV. = autores vários mss. = manuscritos
art. = artigo n. = nascimento
arts. = artigos N. = Nossa
Av. = Avenida n.º = número
B.º = Bairro n.os = números
c. = cerca m. = morte
cap. = capítulo (de livros) op. cit. = opus citatum
cf. = conferir p. = página (pp. = páginas)
Cód. = Códice P.e = Padre
col. = coluna P.es = Padres
cols. = colunas Prof. = Professor
comp. = compilador Pr. = Praça
cx. = Caixa Q.ta = Quinta
d.C. = depois de Cristo R. = Rua
Dr. = doutor Res. = Reservado
d. = direito
to
S. = São
e. g. = exempli gratia S.ta = Santa
ed. = edição / editor S.to = Santo
(quando a obra é uma compilação de artigos) s.d. = sem data
eds. = editores s.l. = sem lugar
Eng. = engenheiro s.n. = sem nome
esq. = esquerdo séc. = século
etc. = et cetera sécs. = séculos
Fr. = Frei Sept. = Separata
i. e. = id est Sr. = Senhor
Il. = Ilustrado Sr.ª = senhora
Ir. = Irmã/Irmão ss. = seguintes
mo(a)
Irs. = Irmãs/Irmãos SS. = Santíssimo(a)
L. = Largo t. = tomo/tomos
liv. = livro/livros trad. = tradução
m. = morte Trav. = Travessa
mç. = maço/maços v. = vida
M. me
= Madame vol. = volume
Mons. = Monsenhor vols. = volumes

21
Introdução Geral
Introdução Geral

“Não há História definitiva, pela simples razão de que a palavra pronunciada, por mais fundadora
e fecunda que seja, está ela própria sujeita ao tempo, torna-se ela própria passado, objecto de outras
experiências, o que quer dizer que tem de ser constantemente renovada, constantemente pronunciada
para se manter viva. A sua relação com uma intuída Palavra eterna exige a sua actualização constante
para que o tempo não devore tudo.”
(José Mattoso, A Escrita da História)

Coloca-se agora à disposição do grande público e da comunidade científica um Dicionário


que traz como título Dicionário Histórico das Ordens: Institutos Religiosos e Outras Formas de Vida
Consagrada Católica em Portugal. Gostaríamos de o considerar, em primeiro lugar, no quadro da
intensa renovação que, sobretudo a partir das últimas décadas do séc. XX, atingiu a historiografia
portuguesa, envolvendo também, e necessariamente, a historiografia religiosa e a história das
instituições eclesiásticas. Desse movimento é sinal eloquente a recente História Religiosa de Portugal,
dirigida por Carlos A. Moreira Azevedo1 e o respectivo Dicionário de História Religiosa, coordenado
pelo mesmo autor2, que permitiram ultrapassar, em muitos aspectos e sobretudo numa base teórica
e conceptual renovada, a antiga, embora ainda útil, História da Igreja em Portugal, de Fortunato
de Almeida3, e dar continuidade, ainda que em moldes distintos, ao Dicionário de História da Igreja,
deixado inacabado por A. Banha de Andrade4. Dessa renovação é também fruto o recente Guia
Histórico das Ordens Religiosas em Portugal, dirigido por Bernardo Vasconcelos e Sousa5, roteiro
bibliográfico e documental de grande utilidade, abarcando o período que se situa entre os primeiros
1
Carlos A. Moreira Azevedo (dir.), História Religiosa de Portugal, testemunhos da presença do monaquismo em território português e o Concílio de Trento.6
3 vols., Lisboa, Círculo de Leitores/Centro de Estudos de História Contudo, toda esta produção, orientada para fins específicos, não suplantou, mas antes
Religiosa da Universidade Católica Portuguesa, 2000-2002. estimula e exige, um instrumento que permita um olhar tão exaustivo e sistemático quanto
2
Carlos A. Moreira Azevedo (dir.), Dicionário de História Religiosa, possível, sobre o universo institucional das ordens e congregações religiosas presentes em
4 vols., Lisboa, Círculo de Leitores/Centro de Estudos de História Portugal, ou seja, sobre esse vasto conjunto de famílias e institutos religiosos genericamente
Religiosa da Universidade Católica Portuguesa, 2000-2001. englobados pelo actual Código do Direito Canónico sob a designação de institutos de vida
3
Fortunato de Almeida, História da Igreja em Portugal, 4 vols., consagrada. Desta forma, não só se colmata o carácter não exaustivo de outros dicionários
Nova ed. preparada e dirigida por Damião Peres, Porto, face ao conjunto das ordens e congregações, como se possibilita a integração, nas notícias
Portucalense Editora, 1967-1971. A edição original, em oito elaboradas para o mesmo, dos mais recentes progressos facultados pela investigação no que
volumes, data de 1910-1928. respeita à história e aos contornos da sua presença entre nós.
4
António Alberto Banha de Andrade (dir.), Dicionário de História Este projecto de dicionarização de um saber fundamental sobre as ordens foi desenvolvido
da Igreja em Portugal, 2 vols, Lisboa, Ed. Resistência, 1980- por um conjunto vasto de investigadores e especialistas de várias áreas do saber e de várias
-1983. instituições científicas e universitárias nacionais e estrangeiras. Associam-se nesta obra, pois,
5
Bernardo Vasconcelos e Sousa (dir.), Isabel Castro Pina, Maria autores e consultores científicos de vários países, de vários quadrantes científicos e de várias
Filomena Andrade e Maria Leonor Ferraz de Oliveira Silva Santos, faixas etárias, reunindo os contributos de reconhecidos investigadores e de outros, mais jovens,
Ordens Religiosas em Portugal: Das Origens a Trento – Guia cujos caminhos de investigação tendem a aportar novos e importantes elementos para um
Histórico, Lisboa, Livros Horizonte, 2005. conhecimento renovado da história das instituições aqui tratadas.
6
Não podemos deixar de referir que a nível internacional se Estudar ordens e instituições afins implicou aqui assumir também aquele que é considerado
têm diversificado um conjunto de projectos de investigação e o pecado original do historiador: uma parte significativa das instituições estudadas ainda é
de publicações que revelam o renovado interesse que o universo realidade viva e actuante.
das ordens e congregações religiosas continua a suscitar entre Contudo, quando aquilo sobre que se trabalha, sobre o que se escreve, com o que
a comunidade científica. Muitas delas são obras de referência dormimos, sonhamos ou desesperamos, vem até nós ou, ao menos, tem raízes até tempos
obrigatória para quem se dedica ao estudo deste universo vasto próximos, com gentes e lugares prenhes e marcados dessas realidades, o Presente-vivido irrompe
e diversificado. Referimos aqui apenas algumas a título ilustrativo muito mais brutalmente pelo Passado-estudado.
entre uma miríade de outras edições que têm vindo a lume em No resultado final destas centenas de entradas, encontramos, assim, um longo caminho
várias línguas: Agnès Gerhards, Dictionnaire Historique des de diálogo e de conhecimento em que, estranhem, nenhuma das partes ficou a perder. A
Ordres Religieux, Prefácio de Jacques Le Goff, Paris, Fayard, maioria dos participantes neste processo compreendeu a natureza científica do trabalho, não
1998; Gaston Duchet-Suchaux, Monique Duchet-Suchaux, Les apologética ou memorialista. Apenas se valorizou o esclarecimento e o rigor, exactamente com
Ordres Religieux: Guide Historique, Paris, Flammarion, 2000; o mesmo respeito que demos a todos os intervenientes.
Guerrino Pellicia, Giancarlo Rocca (dirs.), Dizionario degli Istituti Este Dicionário Histórico das Ordens: Institutos Religiosos e Outras Formas de Vida Consagrada
di Perfezione, 10 vols., Roma, Ed. Paoline, 1974-2003. Católica em Portugal é uma edição parcelar extraída, corrigida e adaptada do projecto mais vasto

23
de que participou, intitulado Dicionário Histórico das Ordens e Instituições Afins em Portugal.
Esta mesma introdução, especificamente orientada para abrir a presente edição parcelar é
adaptada da Introdução Geral do Dicionário-Mãe, onde tem a sua origem.
Nesta realidade, o projecto que agora chega ao seu fim, teve de apresentar algumas soluções
que superassem o inicial constrangimento provocado pela amplíssima abordagem proposta e o
transformassem numa mais-valia. Decidiu-se enfrentar essa dificuldade, deixar de a olhar como
um problema, e esgrimir com ela o que desejamos para esta obra: exactidão, mas também
diálogo e respeito. Assim, qual Janus, com duas caras e dois olhares, a direcção e a coordenação
do projecto olharam para as realidades historiografadas, mas ao mesmo tempo vivas.
Em nome da procura do máximo rigor de informação e sempre à luz da nossa posição
ecuménica e construtiva, pedimos à maior parte dessas mesmas instituições vivas a abertura
para nos receberem, para lerem os nossos textos, para complementarem alguns dados importantes
descurados e corrigirem aspectos de pormenor em termos de informação factual. Foi, pois,
com este fim que convidámos os representantes e dirigentes das instituições vivas que participassem
na revisão do nosso trabalho.
Uma Ciência Dialogada e para a Comunidade é, assim, o que pretendemos apresentar
como o resultado desta postura de Diálogo Metodológico. Estes textos são a imagem desse
processo longo de anos e rico de experiências.
Seguramente, ficámos todos mais ricos. A obra engrandeceu-se. A Ciência ficou mais clara
e dialogante. Nós, a quem a tarefa foi por nós próprios pedida, mais satisfeitos.
Acima de tudo, este é um projecto aberto e em aberto. Não se pretende dizer a última
palavra sobre o assunto, nem encerrar ou esgotar o campo de investigação, nem muito menos
ter o delírio do definitivo. Tão-só queremos explorar e abrir decisivamente as portas de um
caminho novo e apaixonante de conhecimento, facultando, de forma clara, distinta e sistemática,
a informação já existente sobre as ordens e acrescentar-lhe um pouco mais através do processo
de pesquisa que todas as equipas envolvidas, que aceitaram o nosso convite à colaboração,
realizaram com grande dedicação, apesar da escassez dos meios disponíveis.
É para eles, em primeiro lugar, que dirigimos o nosso caloroso “Muito Obrigado”: aos
autores nomeados em cada entrada que em graus diversos ajudaram a construir com os seus
textos esta obra, auxiliados pelo inestimável apoio dos diferentes membros da Comissão Científica
que em conjunto penhoradamente reconhecemos.
A segunda mas não menos importante palavra de agradecimento vai para as instituições
que acolheram e promoveram cientificamente o projecto que esteve na base desta obra e para
aquelas que apoiaram materialmente a sua execução. Há depois muitas pessoas que, não
aparecendo visivelmente, nomeadas em algum lugar desta edição, contribuíram como facilitadores
e incentivadores no processo da sua preparação.
Dado o longo período que implicou a elaboração desta, corremos o risco de esquecer
alguém que tenha tido um papel mais ou menos adjuvante; mesmo assim arriscamos fazer
menção de alguns nomes que é de justiça referenciar como forma de agradecimento: Hermínio
Rico, sj, antigo Director da Revista Brotéria, Ana Teresa Santa Clara, Diogo Gaspar (Director) e
Jorge Inácio do Museu da Presidência da República, Pedro Sousa e Silva da FCT, João Henrique
Silva, Director da DRAC-Madeira, Marcelino de Castro, Director da Revista Islenha, José António
Falcão, Director do Departamento do Património Histórico e Artístico da Diocese de Beja, Maria
Teresa Rosendo (Chefe de Divisão) da Câmara Municipal de Palmela e Isabel Cristina Fernandes
do Gabinete de Estudos sobre a Ordem de Santiago (GEsOS) da Câmara Muncipal de Palmela,
Miguel Gaspar, Director da Artlândia, Isidro Lamelas OFM, então Provincial da Ordem dos Frades
Menores, Patrícia Costa e José Furtado da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Fausto
Oliveira da Câmara de Lousada, Maria Edite B. Mourato Alves do IECC-PMA, José Luís de
Almeida Monteiro, Bibliotecário do Convento Dominicano de Tours.
Uma palavra importante de agradecimento reconhecido queremos deixar bem patente às
instituições que acreditaram no nosso projecto desde o início do lançamento e decidiram oferecer
o seu apoio material para garantir a sua viabilização. Em particular, e a modo de representação
de todas estas, queremos destacar o grande significado do Alto Patrocínio concedido pela
Presidência da República, bem como aqueles que contribuíram para que este apoio, que muito
nos honrou, fosse garantido. Da actual equipa da Presidência da República, agradecemos o
empenho do Chefe da Casa Civil, José Nunes Liberato, e do Secretário-Geral da Presidência,
Armando Ferreira Coutinho. Da anterior Presidência, agradecemos as diligências importantes
do Assessor para os Assuntos Culturais, José Manuel dos Santos.
Finalmente, cumpre-nos deixar bem expresso um agradecimento muito especial à equipa
de investigadoras-bolseiras da Fundação para a Ciência e a Tecnologia, constituída por Cristiana

24
Lucas Silva, Paula Cristina Ferreira da Costa Carreira e Susana Mourato Alves. Estas tenazes
investigadoras constituíram um eficiente secretariado executivo, no qual, com entusiasmo,
empenho e rigor, trabalharam a tempo inteiro numa fase decisiva de preparação, revisão e
produção dos instrumentos complementares (índices, siglários e glossários) desta obra composta
por 231 entradas, englobando Ordens, Congregações, Instituto Seculares e outras instituições
de algum modo herdeiras do dinamismo carismático da chamada Vida Consagrada Católica.

As Equipas de Direcção e de Coordenação

Lisboa, 3 de Março de 2010

25
Ordens e Congregações Masculinas
Introdução
Ordens e Congregações Masculinas
Coordenação de Paulo Mendes Pinto e João Luís Inglês Fontes

INTRODUÇÃO

“Os homens procuram a solidão no deserto, na praia ou nas montanhas – um sonho que tu
próprio tanto tens acarinhado. Mas tais fantasias são totalmente impróprias de um filósofo, uma vez
que em qualquer altura que queiras podes recolher-te dentro de ti próprio. Não há para o homem
refúgio algum mais silencioso e mais tranquilo do que a própria alma; sobretudo para quem possua,
em si mesmo, recursos que apenas precisa de contemplar para assegurar uma paz de espírito imediata
– paz que é apenas outro nome para um espírito bem organizado. Aproveita, pois, este retiro com
frequência e renova-te continuamente. Traça para a tua vida regras sumárias, mas que abranjam o
fundamental.”

Marco Aurélio, Meditações, 4, 3

“À medida, porém, que se vai avançando na vida religiosa e na fé, o coração dilata-se e, com
inefável doçura de amor, corre-se pelo caminho dos mandamentos de Deus. Deste modo, não nos
desviando nunca dos seus ensinamentos e perseverando em sua doutrina no mosteiro até à morte,
partilhamos, pela paciência, dos sofrimentos de Cristo, a fim de merecermos também ser participantes
do seu reino.”

Regra de S. Bento, Prólogo

“A regra e vida dos irmãos é esta, a saber: Viver em obediência, em castidade e sem nada de
próprio; e seguir a doutrina e exemplo de nosso Senhor Jesus Cristo.”

S. Francisco de Assis, Primeira Regra, n.º 1

I. Do Mundo Helenista Ao Ideal Monástico Cristão

1. Quadro de funcionalidade: A cristianização de uma herança helenista


Após quase 2000 anos de história da religião cristã, urge olhar para o que de não cristão
ela integrou. Dentro dos inúmeros fenómenos a si anteriores ou paralelos, o que desaguará
no universo tradicionalmente designado por ordens religiosas é, de forma questionável,
obviamente, um dos que mais interesse tem na construção das próprias imagens que essa
religião criou de si mesma.
Em grande medida por dentro da espiritualidade que o Cristianismo desenvolveu, senão
mesmo quase o seu único motor, o universo dos grupos de religiosos organizados em comunidade
foi, desde muito cedo, uma consciência atenta e uma quase constante motivação de reforma,
de retorno, de recriação e de purificação da própria fé e das suas práticas.
É dentro deste jogo de conceitos, onde as ideias de reforma e de retorno marcam um
lugar de primeiro plano, que vemos os mais antigos grupos que podemos genealogicamente
entroncar com o fenómeno cristão.
De facto, e segundo o nosso olhar, o que genericamente passaremos a designar neste
ponto por monaquismo apresenta, na sua origem, uma forte relação com uma forma cultural
e religiosa específica, o helenismo.
Desta forma, o fenómeno que naturalmente vemos francamente enraizado na própria
definição de Cristianismo é, acima de tudo, uma corrente cultural transversal a toda uma época
e uma vasta região que abrange, pelo menos, o lado oriental da bacia do Mediterrâneo.
Torre do Tombo, arquivo nacional rico em documentação sobre Reflexo de ecos que emergem de medos e receios antigos, matizados com fugas recentes
as ordens (JEF) a um cada vez mais forte e aglutinador mundo urbano, a criação de formas religiosas onde a

27
vida dos indivíduos se pauta por um propositado afastamento ao mundo da urbe, numa busca
de algo de espiritual e de sentido da vida que nela não se encontrava, é imagem de uma
religiosidade que se pode encontrar em diversos grupos ou seitas religiosas que pululavam no
mundo que herdaram os antíocos, os selêucidas, os ptolemeus, para não falar em realidades
mais distantes, como o Budismo, onde pelos mesmos séculos nasciam movimentos em muito
semelhantes.
Seguidores de Mitra, de Aura Mazda, de Ísis, de Dioníso ou de Baco, Neoplatónicos,
Pitagóricos e Órficos, todos incluíam no seu horizonte de possibilidade religiosa a fuga para
fora das grandes cidades1. O que significava essa fuga?

2. A fuga para uma Idade de Ouro


Um dos sentidos mais fortes que podemos encontrar nestes grupos de seitas religiosas
helenistas reside numa certa ideia de que, fora do mundo dos deveres e do ritmo das cidades,
existia como que uma paz imanente gerada pelo próprio mundo ainda não corrompido pelo
homem.
Ora, este primeiro motor patente nesse retorno, através de uma reforma de vida, encontra-
-se, claramente, numa recusa e num crescente afastamento do processo de urbanização no
Médio Oriente Antigo. No limite, a raiz desta realidade encontramo-la em diversos mitos que
nos mostram uma clara nostalgia da fase da caça e recolecção, o que se pode designar como
uma consciência de que o processo de neolitização trouxera uma perda de qualidade de vida
ao obrigar a um trabalho constante, diário.
De facto, é o que encontramos nas descrições idílicas do Éden retratado em Génesis, onde
Pedro, o Eremita (in Susie Hodge, Templários: não era necessário trabalhar para ter alimento, ou, numa versão talvez da mesma época, a
A História Secreta, Lisboa, Editorial Lisboa, 2007, p. 14) descrição da Idade de Ouro de Hesíodo: “Para eles tudo era perfeito: o solo fértil oferecia-lhes
por si frutos numerosos e abundantes; e eles, contentes e tranquilos, viviam da terra, no meio
de bens inúmeros.”
Neste quadro, é de dar alguma atenção ao facto de os personagens apresentados nestes
grupos humanos idílicos viverem, de facto, numa plena e perfeita harmonia. Adão e Eva viviam
longe de todo o pecado, isto é, como irmãos (que realmente eram), e não maritalmente; essa
alteração de situação “civil” ocorre apenas depois da sua queda. A vida monástica procurará
sempre este ideal anterior à saída do paraíso; uma forma de vida de irmandade onde a pureza
das práticas dita as necessidades.
Obviamente, esta questão do afastamento do mundo implica levar ao limite a própria
condição humana. Por um lado, a própria noção de humanidade implicava já o próprio mundo
criado por ela; por outro lado, o que na prática alguém que se afastasse do mundo urbano
iria encontrar era exactamente o oposto da terra do leite e do mel – a vida de eremita era, na
sua grande parte, uma vida de provação e não de abundância.
Será nestas duas linhas que o aprofundar dos sentidos do monaquismo nos irá levar nas
próximas reflexões.

3. A fuga para uma expiação


O sentido anterior, de um mítico reencontro original, deve ser revisto no equilíbrio com
uma outra dimensão, esta mais visível nas leituras que do fenómeno se podem fazer.
Paralelamente a uma ideia de regresso ao paraíso, aos tempos primeiros, a uma dimensão
ainda não corrompida, numa recusa do mundo agrícola, porque não seria necessário trabalhar
manualmente, mas especialmente numa negação do mundo urbano, devemos olhar para esse
alheamento face aos bens terrenos como um caminho para o sofrimento, como prova diária,
como sacrifício continuado e expiação.
A ida para esses locais ermos tinha uma clara natureza de iniciação, de prova que necessitava
S.to Antão no altar da nave da Igreja de N. Sr.ª do Livramento,
de ser superada – quanto mais não fosse porque poderia equivaler a uma literal sobrevivência.
Câmara de Lobos (DRAC)
Mas mais que sobreviver nesse sentido estrito de conseguir regularmente água e alimento para
manter em funcionamento as funções vitais do corpo, fugir ao mundo onde viviam normalmente
os homens era também fugir ao horizonte das tentações e, assim, expiar os pecados pelo
sofrimento e pela força constante da recusa. Não tendo todos os bens que estavam ao alcance
no mundo cosmicizado, antropizado, a maior das tentações era a fuga, o regresso para esse
mundo antes conhecido. Obviamente, não indo, assumindo essa falta como algo de natural,
1
Sobre esta questão aplicada às seitas religiosas greco-romanas, era entrar num campo de autoflagelação continuada.
ver, por exemplo, M. L. Freyburger-Galland, G. Freyburger, J. C. Mas os exemplos desta funcionalidade eram dados abundantemente por muitas tradições
Tautil, Sectes Religieuses en Grece et à Rome, Paris, Les Belles religiosas. No Êxodo, é o próprio Povo Eleito que fará uma longa e simbólica travessia do
Lettres, 1986. deserto durante o tempo necessário para que toda uma geração fosse superada, que morressem

28
todos os que participaram nas ofensas cometidas contra Deus na base do monte Sinai. Seriam
necessários 40 anos de vida errante no deserto – vejamos que fora em comunidade, com regras
de convivência, e com um guia – para que a população vinda do Egipto, antes brindada com
a libertação, fosse agora introduzida na Terra prometida – uma terra de leite e mel.
No campo dos indivíduos, os exemplos hebreus eram ainda em número e peso muito
significativos. Jesus, seguindo claramente uma tradição e costume da época, segue também
para o deserto para ser posto à prova. Neste caso, a prova estava num nível diferente: não
estava em causa o dado simples e linear de não ter alimento ou outro conforto qualquer, mas
sim o próprio confronto com a entidade maléfica que lhe ofereceria tudo o que o mundo teria
para lhe dar. Jesus não vai expiar culpa alguma; passando para o campo de uma leitura cultural
em que o texto dos Evangelhos é o mediador entre quem quis passar a mensagem e a quem
ela era dirigida, podemos dizer que Jesus vai a um lugar onde se reconheceria que seria
importante e significativo ir para poder afirmar bem alto, quando a fraqueza do corpo fosse
grande, que mesmo assim recusava tudo o que de bom o mundo dos homens lhe tinha para
oferecer. É a situação da fuga que é, mais uma vez, alicerçada até ao limite da interpretação
da vida em retiro: a prova é a vida sem os bens, mas mais que essa superação constante e
momentânea, é a recusa constante da fuga para onde esses bens existissem.

4. O local de comunicação e de hierofania


Longe do mundo dos homens, da cidade e dos espaços agrícolas domesticados pela mão
inventiva do génio humano, o isolamento em locais ainda não alterados pelo homem implicava
uma literal integração ecológica do indivíduo. A interacção directa com a natureza e as suas
criaturas, sem que isso implicasse uma intervenção destruidora, foi, sem dúvida, uma das linhas
constantes no movimento monástico da Antiguidade.
Ao ir viver, sem meios, para um campo qualquer, fosse ele deserto ou floresta, a pessoa
em causa integrava-se na referida dimensão de Hesíodo em que se esperava que fosse a própria
terra a dar o que de alimento lhe aprouvesse. Recolectores, os eremitas integravam-se numa
natureza em tudo semelhante à da criação, à primeira das paisagens nascidas da mão da
sabedoria divina. Estes espaços, ainda em comunhão com os tempos primeiros, eram também
espaços de comunicação, de passagem aberta para com o divino.
É no isolamento que se dá uma parte significativa dos grandes momentos de comunicação
entre homens e divindade. Jesus, quando quis orar, afastou-se no horto. A Maomé foi revelado
o Corão em isolamento – como diz o ditado, se Maomé não vai à montanha, vai a montanha
a Maomé... O que interessava é que teria que haver “montanha” para se dar a revelação.
Na construção do imaginário judaico, a situação da revelação da “condição” de Moisés
também passou por essa fase de transmissão de conhecimento num local isolado. De facto, a
hierofania de que Moisés é alvo, a sarça ardente, e que modificaria toda a sua vida e de um
povo, ocorre quando Moisés “conduziu o rebanho para além do deserto” (Ex 3, 1). De resto,
os pastores eram, na Antiguidade Oriental, dos poucos grupos humanos que de forma sistemática
e continuada se embrenhavam pelos espaços menos antropizados em busca de pasto para os
seus rebanhos. Não é de estranhar que algumas das mais significativas revelações do último
Monge marronita (Tours) milénio antes de Cristo tivessem ocorrido a pastores quando estavam junto a montes ou rios:
assim aconteceu com Ezequiel, “nas margens do rio Cabar” (Ez 1, 3); mas também com Amós,
que foi “um dos pastores de Técua” (Am 1, 1); no mundo grego, o quase contemporâneo dos
dois anteriores, Hesíodo, também apascentava o seu gado quando as ninfas foram ter com
ele: “Foram elas [as musas] que uma vez ensinaram um belo canto a Hesíodo, quando ele
apascentava os seus cordeiros nas faldas do Hélicon divino” (Teogonia, vv. 22, 23 e 26).

5. A sabedoria
A hierofania, o contacto, o conhecer, são essencialmente sabedoria. E os espaços de fuga
eram, obviamente, locais, zonas de saber. De facto, na confluência fenomenológica dos dois
temas antes focados, desaguamos num que será, ao longo de centenas de anos, duplamente
entendido e do qual resultaram diferentes formas de encarar a vida monástica: a sabedoria,
num sentido mais contemplativo, de estado a atingir, ou num sentido mais nosso contemporâneo,
de uma acção que se empreende. Aqui, o que entendemos por sabedoria é algo que surge de
forma natural do contacto com o divino, seguindo muito a tradição de interpretação das figuras
de David e de Salomão, expressa de forma notável nos livros bíblicos da Sabedoria e de Ben
Mosteiros em Meteora (Grécia), cujo isolamento proporcionado Sirá, entre outros. A sabedoria faz parte da própria esfera do divino, nomeadamente no momento
pela orografia permite realizar mais plenamente o ideal da criação, em alguns casos, como que autónoma dele, e pode ser atingida por uma caminhada
de fuga mundi (PCC) que propositadamente a procure.

29
Para atingir a sabedoria, o espaço do retiro espiritual e físico é a melhor das chaves. O
sofrimento e a própria natureza dos locais, propícios a hierofanias, de contacto com um mundo
primevo, para além da liberdade de tempo e pensamento possíveis num alheamento a tudo o
que de social existia no mundo urbano, promovem todo o eventual monge ou eremita num
suposto repositório de saber. Do Extremo Oriente à Península Ibérica, era recorrente que as
populações acolhessem nas suas proximidades eremitas e monges que eram, e em algumas
regiões do Oriente ainda são, vistos como pontos de acesso a saberes divinos inacessíveis aos
comuns dos mortais.
Fora do horizonte cristão, e pelas palavras de um “pagão”, Plutarco, que tenta relatar a
religião em torno de Ísis e Osíris, é exactamente este o sentido com que se justifica um
afastamento aos prazeres, em muito próximo ao que se pedia aos monges e eremitas dos
Mosteiros em Meteora (Grécia), cujo isolamento proporcionado
primeiros séculos do Cristianismo, e mesmo posteriores: “Com efeito, ao obrigá-los a seguir
pela orografia permite realizar mais plenamente o ideal
um regime constantemente moderado, a absterem-se de manjares abundantes e dos prazeres
de fuga mundi (PCC)
de Afrodite, amortece neles a destemperança e a sensualidade. Inacessíveis à moleza, habitua-
-os a persistir nas santas práticas, com uma constante devoção, práticas cuja finalidade é a
obtenção do conhecimento do Ser primeiro, soberano2.”
Obviamente, o grande desafio respondido por alguns dos primeiros cristãos que olharam
de forma sistemática para o fenómeno, foi o de integrar esta realidade que, não nos esqueçamos,
era crescentemente importante no seio da religião cristã, mas não lhe era peculiar, dentro de
uma realidade religiosa cada vez mais bem organizada e com regras estabelecidas para muitas
das funções que implicava.

6. Quadro da normativização: A integração cristã – primeiras formas e funções


Muita variedade de formas de vida e de rigor nasceu numa vastidão de Cristandade que
integrava um largo conjunto de heranças. No pós 313, com o fim da perseguição às seitas
menos submetidas à religiosidade cívica do Império, haveria que procurar um outro espaço de
sacrifício que fosse a continuidade do martírio – forma de sacrifício plenamente integrada no
Cristianismo nascente, já referida de forma positiva nos Actos dos Apóstolos (Act 5, 41; 14,
22). O deserto, o eremitismo, a busca de formas o mais radicalmente afastadas da vida corpórea,
fosse em locais ermos, ou no cimo de colunas, eram agora uma das chaves que faria o imaginário
religioso. Mesmo Maria e Madalena eram recriadas em modelos eremíticos que serviam de
guias para até os mais incorrigíveis pecadores – Maria era efabulada a viver numa floresta nos
arredores de Éfeso, depois de uma passagem pelo monte Athos, onde ainda hoje vivem várias
comunidades monásticas ortodoxas em rigorosa clausura, enquanto que Maria Madalena viveria
miticamente alguns anos numa montanha próxima de Marselha, expiando as suas duras faltas
enquanto prostituta – mito criado exactamente no séc. VI e passado para a posteridade num
sermão de Gregório Magno (540-604 d.C.)3.
O modelo copta terá sido dos mais difundidos pelo rigor da vida que implicava a ida para
fora da cidade. No ere-mos, o deserto, as colónias de discípulos em torno de eremitas, por vezes
famosos, criaram verdadeiros mitos de santidade e magia. Seguia-se o mestre, era esta a regra
fundamental até Pacómio (m. 346/348) ter consignado uma primeira forma monástica de vida
regulamentada. Neste misto entre cenobitismo e eremitismo (visto que se criavam comunidades
Religioso copta (Tours)
em redor de um eremita), Pacómio vai centrar-se na organização dos grupos de eremitas em
mosteiros – destes mosteiros, criados no séc. IV, com base em grupos de eremitas do séc. III,
ainda subsistem, junto ao mar Vermelho, dois: o Mosteiro de S.to António (Dair Anba- Antuniyus),
fundado por António, o Grande (m. 356), e o Mosteiro de S. Paulo (Dair Anba- Bula-), supos-
tamente fundado onde se encontrava o túmulo do eremita Paulo de Tebas (m. 341). De qualquer
maneira, a mítica forma eremítica de vida não desapareceu, antes pelo contrário: no deserto
de Nitrie, a escassos 14 km da cidade mais próxima, no Delta do Nilo, viviam 2000 eremitas
no ano 3914 – a vida eremítica implicava, em especial em larga escala, uma retaguarda de
abastecimentos e de logística que impossibilitava uma verdadeira entrada pelo deserto das
comunidades maiores.
2
Plutarco, Ísis e Osíris, 2, Lisboa, Fim de Século, 2001, p. 8. Vários modelos se tinham regulado e sistematizado, todos procurando a imitação de
3
Homilia XXXIII, integrada em PL LXXVI, 1238: “Aquela que antigos mestres de ascese: vida cenobítica, com um superior que regulava a comunidade,
Lucas diz ser pecadora, a que João nomeia como Maria, são a normalmente o fundador do espaço, e a vida eremítica ou anacorética, que dava uma maior
mesma, cremos nós, que aquela de quem, seguindo Marcos, liberdade de gestão espiritual, e não só, aos seguidores. Não se pode falar propriamente em
foram retirados sete demónios.” Noviciado, mas sim em fases de provação, de integração e prova, pelas quais os “iniciados”
4
Julius Assfalg, “Monastères Coptes”, in Julius Assfalg, Paul teriam de passar.
Krüger, Petit Dictionnaire de l’Oriente Chrétien, Paris, Brepolis, No Oriente, a vida monástica tinha algumas regras gerais, como a recusa total da carne
1991, p. 381. como alimentação. A profissão monástica consistia em tomar o hábito do mosteiro, numa cerimónia

30
que está atestada para o séc. V, e que simbolizava a aceitação de todas as regras desse mosteiro5.
Mas, como vemos, a transversalidade de elementos das regras, a existir, era fruto das
heranças de que falámos antes e não de uma organização centralizada que impusesse algumas
directivas. A criação de normas tendencialmente universais no horizonte religioso cristão, seria
um processo longo e sinuoso.
O segundo Concílio de Constantinopla, em 553, normaliza em muito a vida monástica,
apresentando 32 cânones sobre a questão. Já antes, o cânone 4.º do Concílio de Calcedónia
regulamentava funções semelhantes.

7. A integração cristã: Primeiros elementos em terras peninsulares


No que respeita ao caso peninsular, nomeadamente no que concerne ao território actualmente
português, as primeiras notícias seguras datam exactamente da época antes referida, o séc.
VI, época que marca o início de um forte esforço de normativização da vida monástica em
todo o Ocidente cristão.
Seguindo José Mattoso6, terá sido S. Martinho de Dume (m. 579) quem primeiro levou a
cabo a introdução de uma observância de vida monástica no actual território português. Foi
ele quem divulgou na Península Ibérica uma muito lida colecção de sentenças dos Padres do
Deserto. Mas, a vida monástica, ou melhor, as práticas de natureza monástica e ascética foram,
de certo, anteriores. Por um lado, há que ter em conta a presença gnóstica priscilianista; por
outro, parece certo que o próprio Martinho de Dume, ao aprender grego aquando da tradução
Convento do Buçaco, Carmelitas Descalços (PCC)
das sentenças dos Padres do Deserto, revelava já o conhecimento de outras importantes
sistematizações relativas à vida monástica, nomeadamente a de João Cassiano, também ela
fortemente marcada pela experiência do deserto.
Martinho de Dume pode, e ainda segundo José Mattoso, ter apreendido tais ensinamentos
no Sul de França, ou na própria Galécia. A própria função exercida por Martinho, expressa pelo
título Bispo-Abade, revela uma proximidade a alguma forma de monaquismo celta, muito
relacionado com as instituições episcopais, e que teria existido na Galécia, provavelmente em
Britónia.
De qualquer forma, o que nos surge como essencial nesta caracterização em torno do
séc. VI, na medida em que se pode falar de uma anterior presença e influência priscilianista,
com uma forte e inevitável procura de uma perfeição superior, e uma posterior adopção, por
parte de meios episcopais (começando por Martinho, seguido pelo seu discípulo Pascácio de
Dume), de uma orientação vinda da dura prática ascética do deserto, é que o rigor e a severidade
seriam a dominante neste monaquismo nascente em terras lusas.
Esta severidade de vida monástica atesta-se ainda no século seguinte, com a figura
importante de S. Frutuoso (m. 665). Terá sido ele quem redigiu para o Mosteiro de Compludo,
junto a Bragança, uma Regra monástica. Terá ainda presidido ao Sínodo abacial que promulgou
a Regula communis que, por essa razão, lhe tem sido atribuída.
Noutro horizonte de organização, totalmente diverso do que referimos até agora, é também
seguindo S. Frutuoso que sabemos da existência, por ele combatida, de formas de monaquismo
clânicas. De facto, o Sínodo que promulgou a Regula communis declara como uma corrupção
intolerável da vida religiosa as comunidades monásticas de base familiar, em que habitavam
no mosteiro os descendentes e colaterais do fundador, repartindo entre eles os bens comuns
e mesmo os dos membros que decidiam abandonar o grupo.
Numa época de franca instabilidade administrativa e territorial, o esforço por criar fortes
linhas de observância por parte de entidades religiosas teve fracos ecos na realidade das
organizações monásticas. Só os sécs. IX e X verão nascer com força movimentos que trarão
uma verdadeira unidade de formas (desde espirituais a arquitectónicas) aos movimentos
monásticos do ocidente europeu. Cluny será a primeira pedra dessa longa caminhada que
desaguou nas ordens que historicamente mais relacionamos com a História de Portugal:
Franciscanos, Dominicanos e, mais tarde, Jesuítas – todas elas estruturas já muito acima
dos regionalismos, das intricadas heranças locais.

5
Johannes Madey, “Monachisme Maronite”, in Julius Assfalg,
Paul Krüger, Petit Dictionnaire de l’Oriente Chrétien, Paris, II. Da Idade Média à Contemporaneidade: Percursos pelas Formas
Brepolis, 1991, p. 377. de Vida Religiosa
6
José Mattoso, “Monaquismo”, in C. M. Azevedo (dir.), Dicionário
de História Religiosa de Portugal, vol. J-P, [Lisboa], Círculo de 1. O tempo das ordens
Leitores/Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Chegados ao séc. XI, as experiências monásticas que se documentam neste extremo
Católica Portuguesa, 2001, pp. 255-258. ocidental da Península apresentavam uma configuração muito própria. Certamente que os

31
elementos fundamentais da vida monástica já aí se encontram: a separação do “mundo”, a
abstinência sexual, a organização de exercícios religiosos (recitação ou canto de orações e
meditação) e as práticas ascéticas, enquadradas no desejo do seguimento de Cristo7. Contudo,
estamos ainda longe da vinculação a uma Regra específica e da profissão de votos solenes que
o Direito Canónico associaria, mais tarde, ao conceito de ordem monástica. Pelo contrário,
estas comunidades anteriores ao séc. XI recorriam a uma grande diversidade de Regras então
conhecidas, bem como a costumes locais, que, com grande liberdade, utilizavam, mais como
repertório de princípios espirituais e de soluções práticas que como textos normativos. Regras
como as de S. Bento ou de S.to Isidoro de Sevilha seguiam assim a par com as de S. Leandro,
de S. Frutuoso ou de Cesário de Arles, muitas vezes reunidas em códices, em combinações
diversas, servindo aos superiores dos cenóbios na orientação das respectivas comunidades.
A esta diversidade de Regras (regula mixta) aliava-se uma grande autonomia dos mosteiros,
Rosácea, Mosteiro de Alcobaça (PCC)
proporcionada pela ausência de uma autoridade centralizada e pela aceitação implícita de tal
estatuto pelos bispos das respectivas dioceses. A configuração destas comunidades era igualmente
diversificada, com alguns cenóbios mais ricos a par de numerosos mosteiros rurais, mais pequenos
e de parcos recursos, ou comunidades masculinas a par de comunidades dúplices ou de mosteiros
familiares. Mesmo os movimentos de reforma intentados por figuras como S. Martinho de
Dume (séc. VI), S. Frutuoso (séc. VII) ou S. Rosendo (séc. X) não impediriam a manutenção de
muitos costumes locais e da grande diversidade de soluções encontradas pelo monaquismo
peninsular.
Só a partir de 1080 começamos a encontrar indícios documentais mais seguros que atestam
um gradual abandono da regula mixta, por parte de diversos mosteiros, em favor da Regra de
S. Bento, tida agora como norma exclusiva de vida. Este seguirá, aliás, a par com uma importante
“reforma” litúrgica, traduzida no abandono da liturgia moçárabe em favor da romana. Esta
normalização da vida monástica, que conduziria gradualmente à extinção dos mosteiros familiares
e das comunidades dúplices, realiza-se por meio da adopção dos costumes cluniacenses, apoiada
desde cedo pelo papado e pelo episcopado peninsular, empenhados na reforma das instituições
eclesiásticas e no reforço do seu poder e autonomia face aos poderes seculares (reforma
gregoriana). Afonso VI de Leão e Castela e o próprio Conde D. Henrique, também ele de origem
borgonhesa, secundarão os intentos reformadores da Santa Sé e muitas famílias de infanções,
então em ascensão, favoreceriam a adopção das novas observâncias nos mosteiros de que eram
padroeiros8.
Contudo, o abandono das antigas formas de vida monástica e dos costumes litúrgicos
peninsulares não se fará sem resistências. Sobretudo após a fundação do Mosteiro de S.ta Cruz
de Coimbra, em 1131, muitas comunidades mais refractárias aos novos costumes iriam optar
pelo modelo canonical, na sujeição à Regra de S.to Agostinho. Esta nova forma de vida, embora
com profundas raízes na história do Cristianismo, ganhava um novo vigor, nestes tempos em
que, por toda a Europa, se assistia gradualmente a um renascimento urbano e a um reanimar
da vida económica e da circulação monetária. Dando uma nova primazia à actividade pastoral
e propondo também para os clérigos uma vida comunitária, segundo o modelo dos tempos
apostólicos, com uma nova ênfase na observância da pobreza, procurava-se, deste modo, dar
uma resposta às novas necessidades suscitadas pelas cidades. Por outro lado, a adopção da
Regra de S.to Agostinho, mais flexível que a de S. Bento, permitia aos antigos mosteiros uma
mais fácil adaptação às novas observâncias propostas.
Outras ordens de matriz canonical, embora com uma vertente mais assistencial, teriam
entre nós uma presença muito mais discreta. Assim, ainda antes de 1130, é possível atestar a
instalação, no Mosteiro de Águas Santas (Diocese do Porto), dos Cónegos do Santo Sepulcro
e, já no séc. XIII, durante o governo de Sancho II, a chegada a território português dos Cónegos
de Santo Antão. A estes se juntariam, possivelmente ainda no séc. XIII, os Cónegos de
Roncesvales.
7
Cf. Jean Leclercq, “Monachesimo, Fenomenologia del”, in O mesmo movimento de renovação atingiria também o universo monástico, motivado por
Guerrino Pelliccia, Giancarlo Roca (dirs.), Dizionario degli Istituti igual desejo de um regresso à pureza das suas origens, por meio de uma vivência mais radical
di Perfezione, vol. V, Roma, Ed. Paoline, 1978, cols. 1672-1684; da Regra de S. Bento. Cister assumirá esta contestação contra Cluny, à sua opulência e ao
José Mattoso, “Forma de vida monástica. Nota histórica”, in primado da liturgia sobre o trabalho, propondo uma vida mais austera e simples, num equilíbrio
Bernardo Vasconcelos e Sousa (dir.), Ordens Religiosas em entre a oração e o labor manual. A sua rápida expansão entre nós ao longo dos sécs. XII e
Portugal: Guia Histórico (das Origens a Trento), Lisboa, Centro XIII, a par do apoio dos monarcas e, para o ramo feminino, das irmãs de Afonso II, será
de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica igualmente feita pela adesão aos seus costumes de numerosos grupos eremíticos ou de
Portuguesa/Livros Horizonte, 2006, pp. 37-39. emparedadas. Outras ordens parecem também ter atraído estes grupos, como é o caso dos
8
Cf. José Mattoso, O Monaquismo Ibérico e Cluny, Lisboa, Cónegos Premonstratenses, já instalados no antigo eremitério de Ermida do Paiva (Diocese
Círculo de Leitores, 2002. de Lamego), em 1214.

32
Também no Norte do país, mas sobretudo nos territórios mais próximos da fronteira com
o Islão, instalar-se-ão, desde o séc. XII, diversas ordens, distintas das anteriores pela aliança
que propunham entre a vida monástica e o exercício da guerra. Nascidas na Terra Santa após
a Primeira Cruzada (1096-1099) e votadas à defesa dos lugares santos ou à protecção dos
peregrinos que aí afluíam, as ordens militares consignavam uma aliança entre o ideal religioso
e os valores guerreiros da nobreza que, após algumas reticências iniciais, acabaria por ser
plenamente aceite pela Igreja. Algumas das ordens aí fundadas estenderiam a sua presença ao
ocidente hispânico (Hospital e Templo), mas o desinteresse manifestado por muitos destes
monges guerreiros pela cruzada peninsular motivaria a formação, na segunda metade do séc.
XII, de diversas ordens militares autóctones.
Estas manifestariam soluções diversas, quer nas Regras adoptadas (Santiago seguiria a
Regra de S.to Agostinho e as restantes a de S. Bento, numa versão transmitida por Cister a
Capela do Senhor do Horto no Convento de S.ta Cruz da Serra
de Sintra, Franciscanos Conventuais (CS)
Calatrava), quer nos costumes que regiam o seu quotidiano. As diversas adaptações introduzidas
à disciplina monástica tradicional, ao nível dos hábitos alimentares, do vestuário, das obrigações
litúrgicas e até do celibato (a Ordem de Santiago, por exemplo, substitui-lo-ia pelo da castidade
conjugal, autorizando a profissão de casais e a existência de freires casados), bem como os
poderes dados aos Mestres, em regra leigos, que podiam inclusive suspender o cumprimento
da Regra, acentuavam a importância da actividade militar no âmbito do seu modo de vida e,
mesmo obrigando os seus membros ao cumprimento dos votos monásticos, afastavam-nos
claramente da tradicional reclusão e do rigor da vida claustral9.
A rápida difusão destas ordens no território português e a emergência de novas ordens
militares autóctones (como a Ordem dos Freires de Évora-Avis) associar-se-iam, desde cedo, à
protecção que lhes foi dispensada pela realeza e ao seu envolvimento na guerra contra as
forças muçulmanas presentes na Península ou na defesa e povoamento dos territórios
paulatinamente conquistados ao Islão.
À excepção das ordens militares, todas as restantes famílias religiosas, desde as monásticas
às canonicais, pautavam-se por uma grande autonomia das respectivas casas, mesmo quando,
como acontecia com Cister ou Prémontré, a sequência das fundações implicava a estruturação
de uma rede de filiações entre os novos mosteiros e as respectivas Casas-Mães. Os monges
ligavam-se vitalmente ao mosteiro onde professavam, por meio do voto de estabilidade e, em
regra, abades e priores exerciam o respectivo cargo vitaliciamente.
Um modelo alternativo de organização e de espiritualidade nascerá ainda nas primeiras
décadas do séc. XIII sob o impulso de Francisco de Assis (1182-1226) e Domingos de Gusmão
(m. 1221). Sem recusarem a dimensão do afastamento do século, dado a forma de vida por
eles proposta implicar também a recusa dos prazeres e bens do mundo, a tónica era agora
colocada sobre a dimensão pastoral e apostólica, propondo-se, com matizes diversas, uma
relação própria com os bens materiais, com o universo da cultura e com os pobres, numa
procura de resposta às novas aspirações espirituais do mundo urbano e dos próprios leigos.
Embora com traços distintos – os Franciscanos reger-se-iam por textos normativos redigidos
pelo próprio S. Francisco, com uma forte acentuação da sua componente laical e da fraternidade
entre clérigos e leigos no interior da Ordem, enquanto S. Domingos optaria por um modelo
algo próximo do canonical, seguindo a Regra de S.to Agostinho e constituindo comunidades
prevalentemente clericais –, ambas as ordens partilhavam importantes elementos que justifica-
riam o seu rápido sucesso: um novo entendimento da vivência da pobreza evangélica, não
já a um nível somente pessoal mas também comunitário, a aceitação do trabalho e da
mendicância como formas de sustento, o cuidado com a pregação nos meios urbanos e com
a formação e coerência de vida dos seus agentes, a incondicional obediência à Igreja e
respeito aos seus ministros, uma espiritualidade profundamente cristocêntrica, humanizada
e evangélica10. Ao contrário das ordens anteriores, os mendicantes optariam por uma forma
de governo bastante centralizado, com conventos regidos por um Prior (Dominicanos) ou
Guardião (Franciscanos) eleitos temporariamente, organizados em Províncias e superintendidos
por um Geral directamente dependente da Santa Sé.
Ambas se instalaram, desde cedo, em Portugal, ainda em vida dos respectivos fundadores,
alcançando uma rápida expansão, com uma geografia que dava prioridade aos núcleos urbanos,
onde desenvolviam a sua acção apostólica, livre do controle episcopal por privilégio outorgado
pela Santa Sé. Quer Franciscanos quer Dominicanos manteriam desde cedo na sua órbita
9
Luís Filipe Oliveira, “Ordens militares”, in Bernardo Vasconcelos não apenas comunidades femininas, como também grupos de leigos que procuravam viver, no
e Sousa (dir.), op. cit, pp. 455-457. seu quotidiano, segundo o carisma e a espiritualidade dos respectivos fundadores. No caso dos
10
Cf. André Vauchez, A Espiritualidade da Idade Média Ocidental Franciscanos, desde cedo muitos grupos optaram por uma vivência em comunidade com a
(Sécs. VIII-XIII), Lisboa, Ed. Estampa, 1995, pp. 75-156. profissão de votos religiosos, dando assim origem à Ordem Terceira Regular, que receberia do

33
Papa Leão X, em 1521, uma Regra própria.
À família mendicante juntar-se-iam, por acção do papado, outras ordens, umas de origem
eremítica (caso dos Carmelitas e dos Eremitas de Santo Agostinho) e outras com uma forte
vertente caritativa, ligadas ao resgate de cristãos sob cativeiro muçulmano (caso dos Trinitários
ou dos Mercedários). A sua implantação entre nós ocorre também durante o séc. XIII, embora
no caso dos Agostinhos aí se integrem comunidades de eremitas com uma origem talvez
anterior. A família das ordens mendicantes ficaria completa com os Mínimos, fundados por
S. Francisco de Paula no séc. XV (em Portugal, a sua presença é muito tardia, com um convento
em Lisboa fundado em 1717) e os Hospitaleiros de São João de Deus, surgidos na segunda
metade do séc. XVI, ambos vocacionados para o cuidado dos mais pobres e marginalizados.
No campo das ordens monásticas e canonicais, será ainda preciso contar com as novas
fundações decorrentes dos movimentos de reforma religiosa que perpassam os finais da Idade
Média. No primeiro grupo se inseririam duas ordens resultantes de uma primeira experiência
eremítica: os Jerónimos e os Eremitas de São Paulo Primeiro Eremita da Serra de Ossa. Se,
no caso dos Jerónimos, a fase eremítica foi bastante breve, já para os segundos esta estendeu-
-se por cerca de dois séculos, até ao enquadramento das respectivas comunidades numa ordem
religiosa. Embora adoptassem já alguns elementos organizativos típicos das ordens mendicantes
(o governo centralizado, a divisão em províncias, a realização de Capítulos Gerais e de visitações
e a eleição de Superiores temporários), o seu modo de vida permaneceria fiel aos cânones
monásticos, pela exclusão, em princípio, da acção pastoral, e pelo primado dado à separação
do mundo, à contemplação e à vida comunitária. Com intuitos de reforma efectiva do clero e
Padrão dos Descobrimentos, Lisboa (PCC)
da vida religiosa é igualmente fundada, na primeira metade do séc. XV, a Congregação dos
Cónegos Seculares de São João Evangelista (Lóios) a partir do modelo dos Cónegos de São
Jorge de Alga de Veneza.
O apoio dos monarcas de Avis a estas novas ordens, bem como de diversos bispos em
cujas dioceses efectuariam novas fundações, é bem revelador do crescente envolvimento e
empenho da Coroa e das autoridades eclesiásticas na reforma da vida religiosa. Esta revelava-
-se, aliás, transversal ao universo das ordens religiosas, suscitando movimentos diversos de
regresso a uma observância mais fiel e austera dos respectivos carismas. Se, nalguns casos, as
tentativas perpetradas se revelariam, num primeiro momento, condenadas ao fracasso (como
aconteceu, por exemplo, com as iniciativas reformadoras de D. Gomes de Florença11 ou de
Fr. João Álvares entre os Beneditinos12, ainda no séc. XV), noutros mostrar-se-iam bastante
bem sucedidas, nomeadamente entre os Franciscanos e os Dominicanos. Este esforço de
reforma das ordens teria, aliás, plena continuidade ao longo do séc. XVI, por vezes com o
recurso a reformadores vindos de fora do reino, como aconteceria, por exemplo, com os
Eremitas de Santo Agostinho.
A mesma renovação que se pretendia da vida religiosa traduzir-se-ia igualmente num
intenso esforço ordenador, desde logo, face aos movimentos eremíticos e de beguinagem, que
11
Cf. António Domingues de Sousa Costa, “D. Gomes, serão alvo de um crescente controlo por parte dos monarcas e das instâncias eclesiásticas,
reformador da abadia de Florença, e as tentativas de reforma favorecendo-se a sua gradual institucionalização13, mas também perante os conventos ou ordens
dos mosteiros portugueses no século XV”, in Studia Monastica, sem capacidade de renovação dos seus efectivos ou sem rendimentos, por meio da respectiva
t. V, 1963, pp. 59-164. extinção e transferência das comunidades que aí ainda subsistissem. As soluções encontradas
12
Cf. João Luís Inglês Fontes, “Frei João Álvares e a tentativa iriam da redução dos conventos a igrejas seculares ou da sua entrega a outras ordens à efectiva
de reforma do mosteiro de S. Salvador de Paço de Sousa no extinção das respectivas ordens, como aconteceria com os Cónegos de Santo Antão, do
século XV”, in Lusitana Sacra, 2.a série, vol. X, 1998, pp. 217- Santo Sepulcro e Premonstratenses14.
-302.
13
Cf. Maria de Lurdes Rosa, “A religião no século: vivências e 2. Sob o signo da Reforma Católica
devoções dos leigos”, in C. M. Azevedo (dir.), História Religiosa Estes e outros aspectos preparariam, assim, o intenso esforço reformador e ordenador que
de Portugal, vol. I, Lisboa, Círculo de Leitores/Centro de Estudos constituiria o Concílio de Trento (1545-1563). Com o duplo intuito da definição doutrinal e da
de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa, 2000, reforma disciplinar, o Concílio acabaria por orientar toda a instituição eclesiástica na perspectiva
pp. 492-505. da salvação das almas. O clero, na sua natureza como nos seus actos, passava a ser definido
14
Cf. José Adriano Freitas de Carvalho, “A Igreja e as reformas essencialmente pela sua função pastoral, ao serviço dos fiéis, decorrendo desta as renovadas
religiosas em Portugal no século XV. Anseios e limites”, in El preocupações com a formação dos candidatos ao sacerdócio e as exigências quanto à respectiva
Tratado de Tordesillas y Su Época: Congreso Internacional de exemplaridade de vida. Por seu lado, os bispos eram claramente apontados como os principais
História, vol. II, Madrid, Sociedad “V Centenario del Tratado de responsáveis da missão pastoral, não se deixando, por isso, de proclamar repetidamente as
Tordesillas”-C.N.D.P./Junta de Castilla y León, 1995, pp. 635-660. suas obrigações e poderes, com novos mecanismos que lhes permitiam vigiar e ordenar a vida
15
Cf. Marc Venard, “L’Église Catholique”, in J.-M. Wayeur, Ch. religiosa das respectivas dioceses. Sob o seu domínio incluir-se-iam também as ordens religiosas,
et L. Pietri, A. Vauchez, M. Venard (dirs.), Histoire du Christianisme, anunciando-se assim um reforço do controle episcopal sobre as mesmas15.
vol. VIII: Le Temps des Confessions (1530-1620), s.l., Desclée, Todos estes factores incutiriam um novo dinamismo no campo da vida consagrada,
1992, pp. 223-279. permitindo, por um lado, a continuidade do esforço reformador entre as ordens tradicionais

34
e, por outro, abrindo e valorizando a dimensão apostólica e missionária no âmbito da vida
religiosa. Assim, vemos expandirem-se, entre nós, algumas reformas iniciadas no período anterior
ao Concílio, nomeadamente entre os Carmelitas, com a criação do ramo descalço da Ordem,
ou entre os Franciscanos, com consecutivas novas províncias ligadas a movimentos de uma
renovada austeridade na vivência do carisma do Poverello. Para algumas das antigas ordens
monásticas e canonicais, optar-se-á por novas soluções institucionais, mantendo a autonomia
dos mosteiros mas unindo-os numa congregação encabeçada por uma casa da ordem
(Congregação de Santa Cruz de Coimbra, para os Cónegos Regrantes de Santo Agostinho
– 1556; Congregação de Alcobaça, para Cister e Congregação de São Bento de Portugal, para
os Beneditinos – 1567). Tal como nas ordens mendicantes, os Superiores das diversas casas
passavam a ser eleitos temporariamente e não por toda a vida, como acontecia anteriormente.
Alicerçadas na prioridade da actividade pastoral definida pelo Concílio, vemos surgirem
novas ordens, distintas das anteriores por agregarem comunidades de clérigos regulares,
particularmente dedicadas à evangelização e com uma grande preocupação na formação dos
seus efectivos e na exemplaridade da sua vida. O primado dado à vida apostólica, exigente de
uma grande mobilidade, levaria a uma redução ou aligeiramento das respectivas funções corais.
Entre estas ordens, contam-se os Jesuítas, os Camilos ou Ministros dos Enfermos e os
Teatinos. Se as duas últimas só mais tardiamente chegariam a Portugal (1650 e 1709,
respectivamente), os seguidores de S.to Inácio, reconhecidos pela Santa Sé em 1540, nesse
mesmo ano se instalariam em território português. O seu sucesso seria tal que, volvidos apenas
seis anos, constituiriam a sua primeira província, precisamente em terras lusas, tornando-se,
Pormenor da Basílica da Estrela, Lisboa (PCC)
aqui como por toda a Europa e fora dela, um dos instrumentos e dos rostos mais fiéis da
Reforma católica.
A par destas novas ordens de clérigos regulares, outros institutos religiosos nasceriam
como respostas às diversas necessidades pastorais, desde o trabalho missionário ou o cuidado
dos mais pobres à educação da juventude ou à formação dos clérigos. Distinguiam-se das
ordens religiosas por professarem votos simples e pela sua vertente activa, definida de acordo
com o carisma do respectivo fundador e orientada para uma influência directa na sociedade.
O Direito Canónico consagrá-los-ia, mais tarde, sob o título de Congregações, dividindo-as
entre Congregações Religiosas Clericais e Laicais, consoante o desempenho do ministério
sacerdotal fizesse ou não parte essencial do seu carisma. A sua implantação em Portugal
aconteceria sobretudo a partir do séc. XVIII e com maior pertinência ao longo do séc. XIX, num
contexto novo de afirmação da autonomia da própria Igreja em face dos Estados saídos das
Revoluções Liberais.
No mesmo domínio do empenho apostólico, outros institutos religiosos também surgidos
durante o período moderno, como os Oratorianos ou os Lazaristas (Congregação da
Missão), seriam posteriormente enquadrados pelo Direito Canónico como Sociedades de Vida
Apostólica. Distintos, no novo enquadramento jurídico, dos Institutos de Vida Consagrada, por
não implicarem a profissão de votos religiosos, partilhavam com estes o primado da actividade
apostólica, vivendo em comum a vida fraterna, de acordo com a própria forma de vida e
procurando a perfeição de acordo com as respectivas constituições16.

3. Do confronto à integração
O multiplicar de casas religiosas pertencentes às diversas ordens e congregações durante
os sécs. XVI a XVIII, não raro estendendo-se aos territórios ultramarinos, não impediu que se
verificasse, em muitos casos, uma efectiva estagnação e incapacidade de renovação por parte
dos referidos institutos. A crise interna que os atravessava acentuar-se-ia ao longo do séc. XVIII,
bem patente nas dificuldades de recrutamento de novos efectivos, nas infracções à disciplina
regular, na estagnação intelectual e na quebra do ideal missionário. Acresciam ainda as dificuldades
económicas derivadas de uma população conventual excessiva e de uma administração muitas
16
Cf. Código de Direito Canónico Promulgado por S. S. o Papa vezes incompetente, motivando o endividamento de muitas casas religiosas e o avolumar de
João Paulo II: Texto Latino e Versão Portuguesa, Lisboa /Braga, queixas junto da Corte e do Governo. Os conturbados anos das Invasões Francesas (1807-
Conferência Episcopal Portuguesa/Editorial Apostolado da Oração, -1811), com as delapidações efectuadas em numerosos conventos e mosteiros, a par da
1983, cânone 731, § 1. participação de muitos religiosos nas hostes de combate às tropas napoleónicas, viriam agravar
17
Para uma perspectiva mais global, cf. José Pedro Paiva, “A ainda mais a situação.
Igreja e o poder”, in C. M. Azevedo (dir.), História Religiosa de Os institutos religiosos deparavam ainda com um crescente intervencionismo do poder
Portugal, vol. 2: Humanismos e Reformas, coord. João Francisco político sobre os seus destinos e uma nova mentalidade que encarava de forma cada vez mais
Marques e António Camões Gouveia, Lisboa, Círculo de depreciativa o seu modo de vida. Às iniciativas tomadas durante o governo de Pombal com
Leitores/Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade vista à afirmação do poder do Estado sobre a vida da Igreja, que conduziriam à expulsão dos
Católica Portuguesa, 2000, pp. 171-185. Jesuítas (1759) e ao corte de relações diplomáticas com a Santa Sé (1760)17, juntar-se-iam as

35
tentativas de reforma das ordens e congregações religiosas por meio da criação, já no reinado
de D. Maria I, da Junta do Exame do Estado Actual e Melhoramento Temporal das Ordens
Regulares (1789). O advento do Liberalismo viria acentuar a política anticongreganista, que
culminaria com o famoso Decreto de 28 de Maio de 1834, pelo qual se extinguiam todos os
conventos e mosteiros masculinos e se condenavam as casas femininas a uma lenta agonia,
impossibilitadas legalmente de admitir novas candidatas à vida religiosa. Os respectivos bens
eram destinados à Fazenda Nacional, à excepção dos paramentos e vasos sagrados, que seriam
entregues aos bispos diocesanos18. À dispersão dos religiosos seguir-se-ia uma política de
nacionalização dos bens das ordens e congregações repleta de percalços, sobretudo na gestão
do respectivo património artístico e na preservação das bibliotecas e arquivos que tão ciosamente
haviam sido constituídos e preservados19.
Seria necessário aguardar pelo reatar das relações diplomáticas com a Santa Sé (1841)
para que se assistisse a um paulatino e tolerado regresso das ordens e congregações religiosas,
iniciado logo em 1848 com os Jesuítas e continuado nas décadas seguintes com os Lazaristas
(1857), Franciscanos (1861), Beneditinos (1865), Espiritanos (1867), Irmãos de São João
de Deus (1867), Salesianos (1894) e Claretianos (1898). As limitações do Estado liberal no
campo do ensino e da assistência abririam caminho a uma crescente presença dos institutos
religiosos nestes domínios, embora se mantivesse em vigor a legislação de 1833-1834. A mesma
duplicidade no tratamento pelo Estado das ordens e congregações religiosas transpareceria nas
iniciativas legislativas tomadas por Hintze Ribeiro em 1901, ao promover a sanção das mesmas
ordens e congregações, sob o epíteto de associações que corresponderiam, por vezes ficticiamente,
a instituições com que os religiosos se encontravam pastoralmente comprometidos. Embora
reduzisse o alcance das mesmas às áreas da beneficência, educação e ensino ou às missões
ultramarinas, e impusesse diversas limitações aos seus movimentos, exigindo a aprovação dos
respectivos Estatutos no Diário do Governo e proibindo a existência de clausura, noviciado e
profissões ou votos, este decreto tornava visível o retomar da presença dos religiosos e a sua
paulatina reorganização e, sem aprovar explicitamente qualquer instituto religioso, permitia a
manutenção e extensão da sua actividade e influência20.
A polémica anticongreganista que marcou os últimos anos da monarquia constitucional
culminaria, após o advento da República, com o retomar da legislação pombalina e liberal,
concretizado no Decreto de 8 de Outubro de 1910, que extinguia de novo todas as ordens e
congregações em Portugal e submetia os respectivos bens à tutela e posse do Estado. Ficava
vedado aos religiosos o acesso ao ensino e o uso de vestes talares, fazendo-se depender da
autorização estatal a possibilidade de trabalharem em estabelecimentos de saúde, higiene,
piedade e beneficência. De modo a impedir o desenvolvimento da vida comunitária, a possibilidade
de residência comum era limitada a um máximo de três elementos, devendo o seu domicílio
ser comunicado ao Ministério da Justiça.
Embora a investigação recente tenha permitido enquadrar melhor os efeitos da legislação
republicana neste domínio, demonstrando, apesar de tudo, a continuidade da presença de
muitos religiosos em Portugal e a manutenção em funcionamento de diversas casas sob a sua
18
Cf. Vítor Neto, O Estado, a Igreja e a Sociedade em Portugal tutela, bem como o reanimar da vida de diversos institutos logo a partir da década de 20, após
(1832-1911), Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1998, o restabelecimento das relações diplomáticas entre o Governo português e a Santa Sé (1919)21,
pp. 45-52. só em 1940, com a Concordata e o respectivo Acordo Missionário, as ordens e congregações
19
António Martins da Silva, Nacionalizações e Privatizações em abandonariam definitivamente a clandestinidade e alcançariam o reconhecimento jurídico da
Portugal: A Desamortização Oitocentista, Coimbra, Minerva, sua existência. É certo que a porta já havia sido aberta para muitas famílias religiosas que
1997; Paulo J. S. Barata, Os Livros e o Liberalismo: Da Livraria desenvolviam alguma actividade missionária, através do Estatuto Orgânico das Missões Católicas
Conventual à Biblioteca Pública, Lisboa, Biblioteca Nacional, Portuguesas de África e Timor (13.10.1926), que conferia personalidade jurídica às missões
2003; Carl Erdmann, “A secularização dos arquivos da Igreja católicas e responsabilizava o Estado pela protecção e sustento dos missionários. Mas a Concordata
em Portugal”, in Anais das Bibliotecas e Arquivos, 2.a série, vol. e o Acordo Missionário consagrariam, de forma mais lata, todo um quadro legal que permitiria
VIII, 1927, pp. 48-57. a livre implantação das ordens e congregações religiosas e o desempenho do seu trabalho
20
Cf. Vítor Neto, op. cit., pp. 310-361; Artur Villares, As apostólico. A obrigação, consignada no Acordo Missionário, de todas as ordens com trabalho
Congregações Religiosas em Portugal (1901-1926), Lisboa, missionário nos territórios coloniais portugueses terem casas de formação na metrópole, suscitaria
Fundação Calouste Gulbenkian/ Fundação para a Ciência e a instalação em Portugal de novos institutos religiosos, cujo número não cessaria de aumentar
Tecnologia, 2003, pp. 21-47. ao longo das décadas seguintes22.
21
Ibidem. António Matos Ferreira, “Congregacionismo”, in C. Com a Revolução de 1974 e o avançar dos processos de descolonização, abrir-se-ia uma
M. Azevedo, Dicionário de História Religiosa de Portugal, op. nova fase na vida de muitas ordens e congregações. Com efeito, estas alterações políticas
cit., vol. A-C, pp. 488-490. obrigaram a um reequacionar de prioridades pastorais e a uma maior abertura à colaboração
22
Cf. Adélio Torres Neiva, “Acordo Missionário”, in C. M. Azevedo com as igrejas locais em Portugal, desde a formação à imprensa ou ao trabalho paroquial. Por
(dir.), ibidem, pp. 19-20; António Matos Ferreira, outro lado, desde há uma década que todos os institutos religiosos haviam sido intimados, na
“Congregacionismo”, ibidem, pp. 488-490. sequência do Concílio Vaticano II (1962-1965), a repensarem profundamente os caminhos de

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uma efectiva renovação da vida religiosa, na dupla vertente do “contínuo regresso às fontes
de toda a vida cristã e à genuína inspiração dos Institutos” e da “adaptação às novas condições
dos tempos”23. Os próprios textos conciliares propunham uma abordagem nova do fenómeno
da vida consagrada, centrada no respeito pela pluralidade, por uma eclesiologia de comunhão,
pelo acentuar da essencialidade do seguimento de Cristo, expresso na profissão dos conselhos
evangélicos, e pela inserção numa sociedade olhada, não já na defensiva mas numa atitude
esperançosa de acolhimento e de diálogo. E, de facto, os tempos pós-conciliares assistiriam,
não apenas a uma renovação da vida religiosa, como ao aparecimento de novas formas de
vida consagrada, de compromisso apostólico e de experiência de vida comunitária, que não
excluiriam os leigos nem o quotidiano da sociedade secularizada.
Muitos destes dinamismos seriam assumidos, é certo que de formas e em ritmos distintos,
pela Igreja em Portugal e também pelos diversos institutos de vida consagrada. Não nos cabe
aqui fazer qualquer balanço ou avaliação. Constataremos apenas a actual diversidade de ordens,
congregações e institutos seculares, a par das sociedades de vida apostólica, que actuam em
Portugal, bem como o efectivo alargamento do seu campo de acção pelas diversas áreas da
vida eclesial e social. Importa igualmente reconhecer o papel activo de muitos institutos religiosos
em países de expressão portuguesa, numa presença retomada após os conturbados tempos da
descolonização, em moldes que atestam o abandono de um caduco modelo de colonização
cultural em favor de uma verdadeira aculturação do Evangelho. A nova importância dada a
aspectos como o desenvolvimento, a participação, a paz ou a defesa dos direitos humanos,
S. Pedro, Vaticano (CLS)
revela uma efectiva mudança que, talvez mais do que noutras áreas, aqui se torna bem eloquente.

PAULO MENDES PINTO


JOÃO LUÍS INGLÊS FONTES

23
Igreja Católica, “Decreto Perfectae Caritatis – A Conveniente
Renovação da Vida Religiosa”, in Concílio Ecuménico Vaticano II:
Constituições, Decretos, Declarações e Documentos Pontifícios, 9.a
ed., Braga, Editorial A. O., 1983, n.º 2.

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Ordens e Congregações Masculinas
ORDENS E CONGREGAÇÕES MASCULINAS AGOSTINHOS

AGOSTINHOS Março de 1244 e Setembro de 1245, contribuirão 1895, 1925), a última das quais, finalizada em 1968,
Ordem mendicante actualmente designada como para uma gradual definição da Ordem, sujeita à procuraria ajustar já o modo de pensar e viver o
Ordem de Santo Agostinho – Ordo Fratrum Sancti profissão de votos religiosos e à recitação do Ofício carisma dos Agostinhos aos desafios e indicações
Augustini (OSA) ou simplesmente Agostinhos – Divino, isenta da jurisdição episcopal (e, logo, veiculados pelos padres do Concílio Vaticano II.
recebeu, nos primeiros séculos da sua existência, o directamente dependente da Santa Sé) e aberta a O seu modo de vida é, segundo estas, definido como
nome de Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho leigos e clérigos, podendo os respectivos sacerdotes eminentemente apostólico, radicado numa profunda
– Ordo Eremitarum Sancti Augustini ou Ordo Fratrum exercer o múnus da confissão e da pregação. comunhão com Deus e com os irmãos da própria
Eremitarum Sancti Augustini (OESA). Tal designação Em 1256, novamente sob a iniciativa e direcção da comunidade. A humildade e a pobreza individual
permitia a sua distinção da chamada “Ordem de Santa Sé, uma segunda união – chamada a “Grande são encaradas como exigências decorrentes desta
Santo Agostinho”, ou Ordo Sancti Augustini, expres- União” – acabará por integrar na recente Ordem mesma comunhão. O estudo assume também, no
são usada, ao longo dos sécs. XI a XV, para designar outras famílias eremíticas, nomeadamente os carisma agostinho, uma importância central, quer
as diversas formas de vida religiosa que observavam Guilhermitas e os Eremitas de Frei João Bom, de como caminho da procura de Deus e da comunhão
a Regra de S.to Agostinho, ao mesmo tempo que Montefavale e de Brettino. Ratificada por Alexandre com Ele, quer como meio para uma adequada
ilustrava, com maior fidelidade, as próprias origens IV por meio da Bula Licet Ecclesiae Catholica preparação para a actividade pastoral.
desta família religiosa, resultante, num primeiro (09.04.1256), a “Grande União” implicaria uma
momento, da união de diversos ramos eremíticos ampliação da Ordem em número e em extensão, 2. A presença dos Agostinhos em Portugal: das
sob imposição pontifícia. acabando por impor às restantes famílias eremíticas origens à reforma do séc. XVI. As origens da
entretanto reunidas aos Agostinhos a forma de vida presença dos Eremitas de Santo Agostinho em
1. Origem da Ordem, sua organização e textos anteriormente imposta aos eremitas da Toscana. território português permanecem, em larga medida,
normativos. Esta fusão de grupos eremíticos foi A mesma Bula de 1256 atribuía já à Ordem dos por esclarecer, dada a falta quase total de estudos
iniciada em Março de 1243, por meio de duas Bulas Eremitas de Santo Agostinho os mesmos privilégios mais aprofundados que recenseiem, a partir da
– Incumbit nobis e Praesentium vobis – então das ordens mendicantes, embora só em 1567 estes documentação existente, os dados seguros sobre as
emanadas pelo Papa Inocêncio IV, dirigidas aos fossem oficialmente reconhecidos no seu estatuto datas e circunstâncias da fundação das primeiras
eremitas da Toscana (Itália). A primeira, verdadeira de ordem mendicante, durante o pontificado de comunidades agostinhas. As informações facultadas
carta de fundação da Ordem, determinava a união Pio V. Por privilégio outorgado por Alexandre IV em pelos cronistas da Ordem devem, aqui, ser lidas com
dos diversos grupos eremíticos existentes nessa 1257, o voto de pobreza era interpretado no seu particular cuidado, dada a tendência para ligar os
região, enquanto que a segunda definia o modo sentido mais lato, permitindo-se a posse colectiva conventos mais antigos a feitos do passado
como essa união se deveria operar. Colocados de bens às casas que o desejassem, de modo a particularmente exaltantes (caso da conquista de
doravante sob a obrigação de observarem a Regra garantir a sua subsistência e a tranquilidade da sua Lisboa) ou a figuras prestigiantes que, na histo-
de S.to Agostinho, deveriam os membros da nova vida espiritual e apostólica. Por outro lado, a isenção riografia da Ordem, desde cedo foram associadas
família religiosa elaborar as suas próprias episcopal inicialmente concedida à Ordem seria às suas fileiras, caso de S. Guilherme de Aquitânia,
Constituições e eleger um Prior Geral, num esquema paulatinamente alargada entre 1244 e 1347. Aberta que aparece relacionado por Fr. António da
de governo centralizado similar ao adoptado para a leigos e a clérigos, o reforço gradualmente colocado Purificação, um dos mais importantes cronistas
as ordens mendicantes. O primeiro Capítulo Geral na sua dimensão pastoral contribuiria decisivamente agostinhos portugueses, à fundação do Convento
para a crescente clericalização das suas comunidades. de Penafirme. Assim, os dados que com alguma
Na sua estrutura, a Ordem adoptaria claramente o segurança se podem actualmente apresentar parecem
modelo centralizado dos mendicantes, com conventos sustentar a possibilidade de se terem integrado na
regidos por um Prior, inseridos em províncias e Ordem, talvez após a “Grande União” de 1256,
colocados sob a direcção de um Prior Geral, na algumas comunidades portuguesas de eremitas já
directa sujeição à Sé Apostólica. Junto da Cúria existentes. Assim aconteceu com Penafirme (Concelho
Romana, encontrava-se o Cardeal Protector que, a de Torres Vedras), onde, desde 1226, se documenta
seguir ao Papa, detinha a maior autoridade sobre a a presença de um grupo de eremitas, liderado por
Ordem, bem como o Procurador Geral da Ordem, um certo Fr. Gaibetino, a quem o Concelho de Torres
para tratar das questões relativas à Santa Sé. Vedras doa um terreno, junto à costa, para nele se
Os Capítulos Gerais assumiriam uma importância instalarem e desenvolverem o seu modo de vida.
determinante, até porque lhes cabia redigir ou rever Do mesmo modo, em Lisboa, diversas tradições falam
as Constituições que, juntamente com a Regra de da existência de um grupo de eremitas em S. Gens,
S. to Agostinho, constituíam o texto normativo
fundamental de toda a Ordem. As primeiras
Constituições surgiriam logo a partir do Capítulo de
1244, embora a sua composição e aprovação
definitivas datem de 1254. Com graduais acrescentos
e revisões, estas Constituições acabariam por ser
alvo de uma profunda reelaboração, definitivamente
S.to Agostinho no seu estúdio com o Coração na mão (I) aprovada no Capítulo de Ratisbona (1290). Este
corpus legislativo manter-se-ia, com algumas adições,
até 1551, data em que um novo texto é aprovado,
da Ordem é celebrado em Roma em Março de 1244, sob influência do Geral Jerónimo Seripando. As
sob a presidência do Cardeal Riccardo degli Annibaldi Constituições da Ordem seriam alvo de sucessivas
e diversas bulas emitidas por Alexandre IV, entre reformulações após esta data (1575, 1685, 1753, Convento de Penafirme, Torres Vedras (FF)

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ORDENS E CONGREGAÇÕES MASCULINAS AGOSTINHOS

que mais tarde transitaria para o interior da cidade, onde a presença dos Agostinhos parece documentar-
vindo a estar na origem do Mosteiro de S.to Agostinho -se a partir dos primeiros anos do séc. XVI, junto a
de Lisboa, dito posteriormente de N. Sr.a da Graça. uma anterior igreja dedicada a N. Sr.a da Graça.
As datas apontadas por diversos autores para a A fundação do novo convento dar-se-ia em 1512,
existência documentada desta comunidade de junto ao referido templo. O apoio do Bispo da cidade,
agostinhos em Lisboa oscilam, contudo, entre 1192 D. Afonso de Portugal, bem como dos Monarcas D.
e 1234, sem que se possa, por falta de indicação Manuel e D. João III, revelar-se-ia fundamental para
dos elementos que as suportam, tirar mais conclu- a expansão do convento e para a vasta campanha
sões. O certo é que, após 1256, começamos a encon- de obras realizadas no convento e na igreja, que lhes
trar os indícios que apontam para a construção, seria doada pelo bispo eborense em 1520. As obras
nestes locais, de complexos habitacionais e igrejas de ampliação da igreja estender-se-iam até 1540 e
destinados às respectivas comunidades conventuais as do convento pelo menos até 1546, fazendo-se
e que atestam a sua efectiva filiação na Ordem o próprio D. Afonso sepultar nessa igreja, num
entretanto criada pela Santa Sé. Sinal claro da túmulo de singular beleza por ele mandado construir.
presença da Ordem em Portugal é também o apoio
régio concedido aos Agostinhos, patente num
diploma datado de 24 de Dezembro de 1266, pelo
qual o Rei D. Afonso III autorizava a fundação de
novas casas agostinhas nas importantes urbes de
Torres Vedras, Abrantes e Vila Viçosa.
Igreja da Graça, Santarém (AJ)
Destas três vilas, apenas a de Vila Viçosa acolheria,
de imediato, um convento agostinho, fundado logo
no ano seguinte, em 1267. Amplamente beneficiada as casas portuguesas deste período e mesmo
pelo Rei D. Dinis, a casa conheceria um particular posteriormente optaram num primeiro momento
incremento graças ao patrocínio do Condestável por escolher como patrono o próprio Bispo de
Nuno Álvares Pereira que, em 1366, aumentou o Hipona. Só a partir da segunda metade do séc. XIV,
convento e reedificou a capela-mor da respectiva várias casas passariam a referir-se também ao título
Convento dos Anjos, Montemor-o-Velho (LA)
igreja. Após este, o Convento de Vila Viçosa, mariano de N. Sr.a da Graça, em larga medida graças
dedicado a S. to Agostinho, continuaria a ser à tradição que liga o Convento de Lisboa à des-
particularmente agraciado pela Casa de Bragança, coberta de uma imagem da Virgem, cerca de 1362, Também em Évora, os Agostinhos lograriam a
que acabaria por obter o respectivo padroado. por parte de uns pescadores, imediatamente guar- primeira fundação feminina, a do Convento de S.ta
A fundação seguinte, ocorrida em Torres Vedras, dada no convento, e cujos milagres lhe valeram o Mónica, que, contrariamente ao afirmado pelas
aconteceria mais de um século depois. Com efeito, título de Sr.a da Graça. A mesma invocação seria crónicas da Ordem, tem a sua origem numa
seria necessário esperar por uma nova licença régia, tomada pelos Conventos de Torres Vedras e comunidade de “beatas” ou “mulheres da pobre
dada por D. Pedro I em 1366, para que se desse o Penafirme, e os frades da Ordem passariam também vida”, já existente junto à Igreja de S. Mamede
arranque definitivo da casa torreense, cuja existência a ser conhecidos por Gracianos. possivelmente desde o primeiro quartel do séc. XV,
nos aparece documentada a partir de 1383. Quatro Durante este período inicial, as casas portuguesas que viviam em comunidade mas sem se sujeitarem
anos volvidos, encontramos já o nome de um dos permaneceram integradas na Província de Espanha, a qualquer Regra. A documentação permite apenas
seus primeiros priores, o P. e João de São Pedro. criada logo em 1256. Face às guerras que, durante comprovar a sua adesão à Regra de S.to Agostinho
A este convento se liga, de forma particular, a o último quartel do séc. XIV, opuseram os reinos de a partir de 1508, altura em que se pode aceitar
memória de S. Gonçalo de Lagos (m. 1422), que Portugal e Espanha, e que culminariam com a derrota também a sua integração na Ordem Agostiniana.
nela exerceu o cargo de Prior e em cuja igreja seriam de João I de Castela em Aljubarrota, bem como o Ainda no Alentejo, uma segunda comunidade
depositados os seus restos mortais, desde cedo alvo Cisma do Ocidente que dividia os dois reinos entre feminina, dedicada a S.ta Cruz, seria fundada em
de veneração por parte dos fiéis, com culto aprovado a obediência a Avinhão ou a Roma, o Rei D. João 1527, desta feita em Vila Viçosa. Ligada à casa ducal,
pelo Papa Pio VI em 1778. I de Portugal obterá, neste contexto, e face ao dado que as casas para a comunidade foram doadas
Ainda em 1376, um novo convento de Agostinhos número já significativo de casas da Ordem fundadas pelo P.e Mendo Rodrigues de Vasconcelos, capelão
é fundado em Santarém, com o apoio de D. João no seu território, a desvinculação do ramo português do Duque D. Jaime de Bragança, a nova fundação
Afonso Teles de Meneses e sua mulher, D. Guiomar da Província Castelhana. Assim, logo em 1387, os seria iniciada com várias freiras oriundas do Convento
de Vilalobos, Condes de Ourém. Instalada ini- conventos portugueses eram erigidos em Vicariato de S.ta Mónica de Évora.
cialmente em dependências do paço condal, a Provincial, colocado sob a directa dependência do Em 1519, a Ordem lograria ainda uma outra
comunidade de frades agostinhos transitaria para o Prior Geral de Roma. Esta situação manter-se-ia até fundação do ramo masculino em Castelo Branco.
novo convento, cuja construção se estenderia até 1476, data da constituição da Província de Portugal. Segundo a cronística da Ordem, este convento,
ao primeiro quartel do séc. XV. A respectiva igreja, A criação da Província Portuguesa suscitou um novo dedicado a N. Sr.a da Graça, teria sido inicialmente
iniciada em 1380, converter-se-ia no panteão familiar surto de fundações, iniciado em 1494 com o habitado por Franciscanos, transitando para os
dos condes, estando também aí sepultado D. Pedro estabelecimento de um convento em Montemor-o- Agostinhos em 1526.
de Meneses (m. 1437), Governador de Ceuta e neto -Velho, no local onde existia uma ermida dedicada Durante este período, encontramos já documentada
dos fundadores. a N. Sr. a dos Anjos, propriedade de Diogo de uma estreita ligação da Ordem com o meio
Obedecendo à tradição em vigor na Ordem que, Azambuja, o qual se faria sepultar na igreja universitário e com a Corte régia, tais como o francês
por não ter fundador, desde cedo valorizara a sua conventual, concluída em 1511. As fundações Fr. Martinho de Lyon e o italiano Fr. André Orsini.
ligação ao carisma e obra de S.to Agostinho, todas seguintes direccionar-se-iam para a cidade de Évora, Para a mesma época é citado também o português

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ORDENS E CONGREGAÇÕES MASCULINAS AGOSTINHOS

Fr. Álvaro de Veiros, professor de Teologia em 1344 Romano como reformador da Ordem e, por duas e Montoya, se procedia à trasladação do Convento
(nesta altura a universidade já tinha sido mudada vezes, enviou-o a Portugal com o propósito de sub- de Torres Vedras para um novo local, dado que o
para Coimbra, facto ocorrido em 1308). Além deste, meter os Agostinhos à reforma, apelando aos Decretos primeiro convento, além de modesto, estava
são referidos outros professores agostinhos do V Concílio de Latrão (1512-1517), no qual o próprio localizado perto do rio Sizandro, tornando-se alvo
portugueses que leccionaram mais tarde, já no tempo Egídio tivera um papel relevante. No entanto, Teófilo fácil das águas do rio que, em Invernos mais
de D. Afonso III (1438-1481), sendo eles Fr. Soeiro Romano acabaria por não ter sucesso na sua empresa, rigorosos, facilmente transpunham as margens,
de Santarém, Fr. Pedro da Graça e Fr. Bento de facto que levaria o próprio Rei D. João III a solicitar inundando o cenóbio. Para o efeito, o monarca doou
Lisboa. Relativamente aos professores reitores, o ao prior geral o envio para Portugal de dois novos aos Frades Agostinhos, nesse mesmo ano, o hospital
cronista cita os nomes de um Fr. Geraldo, de Fr. reformadores. da antiga Gafaria de S.to André, situado junto às
Simão da Cruz e de Fr. Agostinho Belo. Alguns portas da vila, após obter a devida licença do Papa
acontecimentos também evidenciam a estreita relação 3. Sob o signo da reforma: a acção dos P.es Fr. Paulo III. Apesar da resistência dos oficiais camarários,
entre a universidade e a Ordem. São eles uma Francisco de Villafranca e Fr. Luís de Montoya os Agostinhos tomaram posse do hospital e dos
cerimónia académica, chamada Augustiniana, (1535-1569). Em Janeiro de 1535 eram enviados respectivos bens em Outubro desse ano, mudando-
celebrada no convento agostinho de N. Sr.a da Graça, para Portugal pelo Superior Geral, Gabriel Véneto, -se para o novo local em Novembro. A construção
a realização de um dos autos de Teologia no mesmo os P.es Francisco de Villafranca e Luís de Montoya, do novo convento e da respectiva igreja iniciar-se-
local e o Préstito, que consistia na celebração de com o intuito de reformarem a Província Portuguesa. -ia em 1559, prolongando-se as obras até 1590. Do
uma missa, realizada todos os anos no dia 25 de À exemplaridade de vida dos reformadores aliar-se- mesmo modo, também o Convento de Penafirme,
Março, pela alma do Infante D. Henrique, o -ia todo um plano bem estruturado de reforma, próximo do de Torres Vedras, sofreria importantes
Navegador, na Igreja de N. Sr.a da Graça, e a que apoiado pelo monarca e pelos superiores gerais, que obras a partir de 1547, que permitiriam a edificação
todo o corpo universitário estava obrigado, sob assentava as suas traves mestras na normalização e de uma nova igreja e de novas estruturas para a
juramento (ex juramento praestito), a participar. Fora defesa da vida comunitária, no cuidado com a vida da comunidade e para o acolhimento dos
do contexto universitário, algumas figuras foram formação e renovação espiritual e cultural dos peregrinos que demandavam o templo conventual,
relevantes, nomeadamente o agostinho inglês Fr. religiosos, na vigilância sobre a admissão e formação devido à fama dos milagres operados pela imagem
Agostinho de Santa Mónica, confessor de D. Filipa dos candidatos à Ordem, na realização regular de da Sr.a da Graça aí existente.
de Lencastre (1359-1415), o P.e Álvaro de Lisboa, visitas canónicas aos diversos conventos, na escolha As crónicas da Ordem conservam, relativamente a
confessor do Rei D. João I (1385-1433), o P.e João criteriosa dos priores e outros religiosos para cargos este período, a memória de alguns frades que se
de São Tomás, nomeado regente do Estudo Romano de direcção e governo das casas, na promoção de destacaram pela sua exemplaridade de vida: Fr. Álvaro
dos Agostinhos em 1419, e o Beato Gonçalo de uma correcta gestão dos bens conventuais – pela Monteiro (1461-25.12.1551), agostinho professo no
Lagos (m. 1422) que viveu os seus últimos anos em realização de tombos, cópia das escrituras Convento de Lisboa e que viveu no Convento de
Torres Vedras (onde é hoje santo padroeiro), apesar comprovativas da posse dos bens, adopção de Torres Vedras, onde granjeou fama pela sua caridade
de ter professado no Convento da Graça em Lisboa, critérios mais rigorosos de gestão – e na própria para com os pobres e onde morreu, com 90 anos,
e onde, depois da sua morte, o seu corpo passou realização de importantes campanhas de obras com depois de ter tido uma visão do Beato Gonçalo de
a receber culto, aprovado pelo Papa Pio VI no ano vista à adequação das estruturas conventuais às Lagos e de Fr. João de Estremoz anunciando a sua
de 1778. necessidades de vida das comunidades. Vários morte; Fr. Ubertino Eneu (m. 11.11.1559), um
indicadores deixam-nos perceber o sucesso da acção agostinho francês que viveu completamente isolado
desenvolvida em Portugal pelos reformadores durante os 17 anos que esteve em Portugal e que,
castelhanos ao longo de cerca de trinta e cinco anos: pela forma de vida que adoptou, se tornou num
o aumento claro de vocações, o fomento dos estudos, modelo de austeridade e simplicidade; e Fr. Cipriano
a renovação da vida comunitária, o incremento da Perestrelo, um agostinho devoto de Nossa Senhora
acção missionária da província e a própria expansão que se entregou à oração e à penitência, tendo
da Ordem com a fundação de novas casas. morrido muito novo, pensa-se que em 1565, seis
Destas, a primeira foi realizada em Tavira, em 1542, anos depois de ter ingressado na Ordem.
fruto do abandono do Convento de Azamor, fundado
por Pedro de Vila Viçosa nesta cidade africana, que
tivera uma existência efémera devido ao alto custo
exigido pela sua manutenção. No entanto, a
Beato Gonçalo de Lagos (PLG)
construção do edifício conventual só se iniciaria em
1569, no local da antiga judiaria da cidade. Em
Uma das suas figuras mais emblemáticas neste domínio 1543, atendendo ao pedido do Superior Geral
é a de Fr. João da Madalena, Mestre em Teologia e Jerónimo Seripando, D. João III mandou edificar o
professor desta disciplina na Universidade de Lisboa, Colégio de N. Sr. a da Graça em Coimbra, cuja
confessor da Rainha D. Leonor, mulher de D. João II, importância no âmbito dos intuitos de reforma da
que, entre 1491 e 1505, exerceu por quatro vezes o Ordem justificariam a presença do próprio Fr. Luís
cargo de Provincial. Outros provinciais aparecem já de Montoya, que desde 1544 dirigiu os destinos da
Convento da Graça, Torres Vedras (FF)
ligados às primeiras tentativas de reforma da Ordem, comunidade instalada no colégio. Aí leccionaram os
sendo alguns deles expressamente nomeados para melhores mestres entre os agostinhos, nomea-
reformadores da província, como foi o caso do P.e Bento damente João Soares (1507-1572), Gaspar do Casal 4. O período de ouro da Ordem: fundações e
de Lisboa (1512) e do P.e Ambrósio Brandão (1517). (m. 1584) e Egídio da Apresentação (1539-1626). actividade missionária (1569-1630). O período
No mesmo sentido, Egídio de Viterbo, Prior Geral da Também em 1544, sob a égide de D. João III e de 60 anos que se seguiu à morte de Villafranca e
Ordem, em Janeiro de 1515 nomeou o italiano Teófilo certamente a pedido dos reformadores Villafranca de Montoya é considerado a época de ouro da

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ORDENS E CONGREGAÇÕES MASCULINAS AGOSTINHOS

Ordem de Santo Agostinho, durante o qual as de uma cátedra em Bolonha oferecida por Gabriel cidade de Braga acolheu também um novo colégio
fundações se multiplicaram e se deu início a uma Palleoto, Cardeal da referida cidade; Agostinho da da Ordem, dedicado a N. Sr.a do Pópulo, graças ao
intensa actividade missionária no golfo da Guiné e Graça (m. 1593), professor durante 14 anos na patrocínio do Arcebispo Fr. Agostinho de Castro.
no Oriente. Universidade de Lovaina, tendo recusado a cátedra Este colégio destinava-se à instrução teológica de
No que ao provincialato diz respeito, em 1566 foi de Teologia em Coimbra que lhe fora oferecida por muitos párocos da Diocese de Braga, cujos
nomeado Provincial português o P.e Pedro de Vila Filipe II; P.e António Galvão (m. 1609), catedrático conhecimentos eram insuficientes para um bom
Viçosa, fundador do Convento de Tavira, e nos anos de Bíblia em Coimbra; Gregório Nunes Coronel (m. exercício do seu ofício. Em 1603, os Agostinhos
seguintes sucederam-lhe excelentes provinciais, dos 1620), que, embora não tivesse dirigido nenhuma fundaram o modesto Convento de N. Sr.a da Penha
quais nos chegaram os seguintes nomes, por ordem cátedra, foi bastante erudito e chegou a trabalhar de França, a terceira fundação agostinha na cidade
de sucessão: Diogo de São Miguel (1568-1570), ao lado dos Papas Clemente VIII e Paulo V; e o P.e de Lisboa.
Agostinho de Castro (1570-1572), Sebastião Toscano Egídio da Apresentação (1539-1626) que, com um A estas casas de frades juntou-se uma de freiras,
(1578-1580), Miguel dos Santos (1580-1582), percurso notável na área dos estudos de Teologia, também em Lisboa, o Convento de S. ta Mónica,
Agostinho de Castro, pela segunda vez, (1582-1584), foi autor do tratado De Beatitudine e de outro em fundado no dia 1 de Janeiro de 1586, em casas
Dionísio de Jesus (1584-1586), Cristóvão de Corte defesa da Ordem de Santo Agostinho. No que à doadas por D. Maria de Abranches. No dia 12 de
Real (1586-1588), Manuel de Cristo (1588-1590), santidade diz respeito, Fr. Afonso de Alhos Vedros Outubro do mesmo ano introduzia-se a clausura,
Dionísio de Jesus, pela segunda vez, (1590-1592), (m. 1576) e Fr. Paulo de Barletta (m. 1580), um com três freiras oriundas do Convento de Évora: D.
Manuel da Conceição (1592-1594), Guilherme de agostinho italiano que, antes de ir para as missões Isabel de Noronha, D. Jerónima de Meneses e D.
Santa Maria (1594-1596), António de Santa Maria em Goa, viveu um longo tempo de ascese no Margarida da Silva, com os cargos de Superiora,
(1596-1598) e Dionísio de Santa Cruz, pela terceira Convento de Lisboa. Vice-Superiora e Porteira, respectivamente.
vez (1598-1600). Destes, distinguiram-se Agostinho A reforma aplicada por Montoya e Villafranca à
de Castro, que, entre outros aspectos, foi o fundador Província Portuguesa permitiu, após a sua morte, a
das missões da província, Vigário Geral na Alemanha, fundação de novas casas e o melhoramento de
Arcebispo de Braga e Primaz em Portugal entre os outras mais antigas. Um dos conventos agostinhos
anos 1588 e 1609, e Sebastião Toscano, professo a ser fundado nesta altura foi o de Arronches, em
em Salamanca, com formação em Itália, que foi 1574, dedicado a N. Sr.a da Luz, com o patrocínio
nomeado Pregador Real por D. João III, sendo o do Rei D. Sebastião e o apoio do então Provincial
responsável pela primeira tradução para castelhano P.e Diogo de São Miguel. No dia 8 de Março do
das Confissões de S. to Agostinho. Além destes mesmo ano foi também confiado à Ordem o
homens, todos eles provinciais, outros se destacaram Convento de Loulé, dedicado a N. Sr.a da Graça,
enquanto bispos na metrópole, nomeadamente João pondo termo à presença, no mesmo, da anterior
Soares (1507-1572), Bispo de Coimbra durante 34 comunidade de Franciscanos. Uma terceira
anos; Fr. Gaspar do Casal (1512-1584), Arcebispo fundação ocorreria em Leiria, graças à iniciativa de
do Funchal (1551) e Bispo de Leiria (1557) e de Fr. Gaspar do Casal, Prelado dessa cidade. A data
Coimbra (1579); Fr. António de Santa Maria (m. desta fundação é incerta, sendo 1576 considerado
1623), nomeado Bispo de Leiria em 1616; Fr. o ano em que se iniciou a construção e 1593 o ano
Francisco Pereira (m. 1621), Bispo de Miranda em em que todas as obras terão terminado, pois só
1618; e Fr. João de Valadares (m. 1635), eleito Bispo nesta data se procedeu à trasladação do corpo do
de Miranda em 1621 e transferido para a Sé do bispo fundador, conforme a sua vontade. Na cidade
Porto em 1628. A Província Portuguesa teve dois de Angra do Heroísmo, na ilha Terceira, foi também
bispos auxiliares durante este período, ambos ligados edificado um convento agostinho, do qual se
Convento de N. Sr.ª da Graça, Lisboa (PLG)
à Arquidiocese de Braga. Foram eles Fr. Jorge desconhece a respectiva data da fundação, embora
Queimado (m. 1618), nomeado para o cargo em já apareça mencionado nas actas do Capítulo de
1599, pelo Arcebispo Agostinho de Castro, com o 1584 como tendo sido fundado pelo P.e Fr. António Durante este período, o Convento da Graça de Lisboa
título de Fez e, em 1612, pelo Arcebispo Aleixo de Varejão e nas actas do Capítulo de 1598 com a adquiriu um renovado esplendor, fruto dos trabalhos
Meneses, e Fr. António dos Santos (m. 1618), eleito informação de que nesse ano o convento tinha o de ampliação e engrandecimento da igreja e
Bispo Auxiliar pelo mesmo Aleixo de Meneses, em seu próprio superior e que nele funcionava uma dependências conventuais, iniciados ainda no tempo
1616, com o título de Nicomédia. O escritor comunidade agostinha. O convento agostinho da de Montoya e que se estenderiam durante nove
agostinho que mais se destacou foi Fr. Tomé de Jesus cidade do Porto foi fundado em 1592, depois de o anos (1556-1567). À magnificência da igreja juntou-
(c. 1530-c. 1585), autor da célebre obra Os Trabalhos Superior Geral Tadeu de Perúrgia, em 1573, ter -se o facto de nela se começar a guardar, a partir
de Jesus, escrita enquanto esteve prisioneiro em escrito uma carta ao rei dando conta da falta de de 1610, uma peça de ourivesaria muito valiosa:
Alcácer-Quibir e a mais editada em língua portuguesa um convento desta Ordem numa cidade tão uma arca de cristal que fora oferecida ao Arcebispo
depois da Bíblia e das obras de Camões. Outros, importante. No ano seguinte, procedeu-se à fundação de Goa, Fr. Aleixo de Meneses, pelo Governador de
embora não tão famosos, também merecem ser do Colégio de S.to Agostinho, instalado no antigo Ormuz, para que servisse de sacrário ou tabernáculo
relembrados pela função que desempenharam Convento de S.to Antão-o-Velho, após o mesmo ter na igreja do convento lisboeta. Além deste, a igreja
enquanto docentes universitários, nomeadamente sido deixado pelos Jesuítas, que transferiram o seu possuía outros tesouros, como a antiga estátua de
Fr. Francisco de Cristo (m. 1587), professor em Colégio de S.to Antão para novas instalações. Esta N. Sr.a da Graça e uma imagem de Nossa Senhora
Coimbra nas cátedras de Gabriel Biel, Escoto e fundação viu os seus Estatutos serem confirmados trazida de Ormuz em 1622, conhecida por N. Sr.a
Vésperas de Teologia; Fr. Agostinho da Trindade (m. pelo Provincial P.e António da Ressurreição e pelos do Resgate, ou N. Sr. a da Pérsia, por ter sido
1598), catedrático em Coimbra de Durando (1574) seus conselheiros e aprovados pelo Superior Geral resgatada aos maometanos quando a ilha caiu nas
e de Escoto (1576); Luís de Beja Perestrelo, director da Ordem em 1601. No dia 3 de Julho de 1596, a mãos dos persas. Com a justificação de que não

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ORDENS E CONGREGAÇÕES MASCULINAS AGOSTINHOS

existia uma universidade na região do Alentejo que esteve no convento feminino de S.ta Cruz, tendo -1563), para o que contou com um grupo
promovesse a formação dos párocos da mesma seguido de imediato para Lisboa. A sua estada em significativo de missionários agostinhos, do qual
região, o Duque de Bragança D. Teodósio I pediu Lisboa coincidiu com o ataque das tropas inglesas apenas nos chegaram os nomes dos P.es Gaspar de
ao Papa Pio V (1559-1572) que unisse a Igreja de à cidade, conduzidas por D. António, Prior do Crato, Santa Mónica, Inácio Antunes e Francisco da Madre
S. Pedro de Monforte ao convento agostinho de tendo, por isso, seguido de imediato para Coimbra, de Deus. O Bispo Gaspar Cão morreu pouco depois
Vila Viçosa, com o título de colégio, encarregando- passando por Santarém e por Tomar. Antes de do seu retorno a S. Tomé, em 1574 e, no ano
-se o próprio das despesas. Apesar da anuência seguir para Espanha, em direcção a Santiago de seguinte, o Provincial Fr. Miguel dos Santos enviou
papal, o projecto acabaria por não ter continuidade Compostela, passou por Braga, onde esteve na outro grupo de agostinhos, entre os quais se
após a morte do Duque D. Teodósio, ocorrida em companhia de Fr. Agostinho de Castro, Arcebispo encontrava o frade italiano Paulo de Barletta. Os
1563. daquela cidade. Desta estada resultou o projecto de Agostinhos dirigiram o Seminário de S. Tomé até
No séc. XVI, três superiores gerais da Ordem visitaram fundação do Colégio de Braga, que viria a ser 1584, ano em que abandonaram a ilha, depois de
a Província Portuguesa. A primeira foi realizada por edificado poucos anos depois. o novo bispo lhes ter tirado a fundação. Em 1634,
Jerónimo Seripando em 1541, na sequência da visita Os Agostinhos actuaram em duas regiões missionárias fez-se uma nova tentativa no sentido de voltar a
efectuada às Províncias de França e de Espanha, autónomas num espaço de pouco mais de dois enviar um grupo de missionários agostinhos para
com o objectivo de supervisionar a reforma iniciada séculos e meio: no golfo da Guiné e na Índia Oriental. aquela região, de acordo com as determinações da
por Montoya e Villafranca. O superior geral entrou O trabalho missionário em pouco se diferenciava da Congregação Romana De Propaganda Fide, encarre-
em Portugal e dirigiu-se em primeiro lugar ao vida religiosa vivida nos conventos de Portugal, gue de dirigir a actividade missionária da Igreja, mas
Convento de Vila Viçosa, donde seguiu para Lisboa, embora o apostolado tivesse sido exercido entre tal nunca chegou a acontecer.
onde visitou a casa central dos Agostinhos. Daí, povos e contextos culturais e religiosos muito A presença dos Agostinhos na Índia Oriental, pelo
seguiria para Évora, tendo regressado a Vila Viçosa diferentes. Um dos objectivos fundamentais das contrário, foi mais duradoura, tendo-se mantido até
antes de seguir para Espanha. missões era revigorar a prática religiosa de muitos ao decreto de expulsão das ordens, emanado em
A segunda visita, realizada em 1573, traria a Portugal cristãos, esmorecida devido à permanência pro- 1834. Os primeiros missionários agostinhos foram
o Superior Geral Tadeu Guidelli (ou Tadeu Perusino, longada entre os infiéis. Neste sentido, era privilegiada enviados para o Oriente português a pedido do Rei
como era conhecido), onde chegou no início de a assistência dada aos soldados portugueses, quer D. Sebastião, em Março de 1572, com destino à
Junho desse ano, depois de uma visita às Províncias nas frotas, quer nos hospitais, e a viajantes europeus ilha de Ormuz e a Goa, onde deveriam fundar uma
de Espanha, tendo seguido para Lisboa, onde foi católicos e protestantes. Procurou-se o regresso à casa com o objectivo de prestarem assistência
Igreja Católica dos cristãos de S. Tomé e a espiritual. E, com efeito, nesse mesmo ano duas
recuperação de uma tradição católica que se estava novas fundações eram erigidas em Goa e Ormuz,
a perder, numa comunidade que só aparentemente embora em instalações provisórias. Formava-se, então,
estava ligada a Roma. Os missionários agostinhos a Congregação da Índia Oriental, governada como
trabalharam, assim, com grupos de cristãos dispersos se de uma província se tratasse, mas sempre
pelo Oriente, como os monofisitas arménios da Pérsia dependente da Província de Portugal, com a “casa-
e da Arménia, os monofisitas jacobitas da Pérsia e -mãe” sediada em Goa. Era então Provincial o Fr.
da Geórgia, os nestorianos do Malabar e os maome- Agostinho de Castro.
tanos, e com os mandeus do Iraque. O trabalho O cenário geográfico onde os Agostinhos se
missionário nem sempre deu bons resultados pois, estabeleceram e actuaram foi bastante alargado,
por vezes, as conversões eram meramente aparentes estendendo-se desde a costa suaíli, na África Oriental,
e visavam apenas a ajuda económica. Mas nem até à costa da China. Assim, em 1598 fundaram
sempre assim foi, tendo, muitas vezes, sido coroado um convento na cidade de Mombaça (actual Quénia),
pelo êxito. Porém, para que tal acontecesse, foi onde permaneceram durante um século, a partir do
necessária muita dedicação por parte dos Agostinhos, qual puderam prestar assistência a outras estações
que tiveram de aprender os hábitos e os idiomas missionárias estendidas ao longo da costa suaíli (uma
árabe e persa, os dialectos da Índia e da costa sualí área que se estende desde a ilha Lamu, no Quénia,
de África, e de colaborar com outras comunidades até à fronteira meridional da Tanzânia) e em algumas
que trabalhavam em zonas comuns ou próximas, ilhas próximas. No mesmo ano, fundaram um
como os Carmelitas em Ispahan e em Baçorá, os convento na fortaleza portuguesa de Mascate, onde
Capuchinhos e Jesuítas em Ispahan e com os prestaram assistência espiritual aos portugueses
Teatinos na Geórgia e na Índia. residentes e aos viajantes católicos que por lá
Convento de S.ta Cruz, Vila Viçosa (NM)
A sua presença na costa da Guiné remonta ao ano passavam e onde, sempre que possível, faziam um
de 1565, quando Gaspar Cão, nomeado Bispo de trabalho de missionação dirigida aos muçulmanos
recebido pelo Rei D. Sebastião. Daí, dirigiu-se a S. Tomé em 1564, se dirigiu àquela região, que viviam na região circundante. Esta fundação
Coimbra, com vista a visitar o colégio agostinho, acompanhado por dois agostinhos. O próprio bispo durou apenas 50 anos, altura em que os portugueses
tendo passado primeiro por Santarém, Almeirim e trabalhou empenhadamente na ilha de S. Tomé e perderam o controlo da referida fortaleza. Foram
por Leiria. O seu itinerário contemplaria ainda as no interior do continente africano. Porém, no mesmo também criadas fundações menores no Golfo Pérsico:
casas do Porto e de Braga, num percurso que, ao ano em que chegou ao golfo da Guiné viu-se o Convento de Ormuz, que se conservou até à perda
contrário do anterior, optaria sobretudo pela visita obrigado a regressar a Portugal, só podendo voltar da ilha pelo portugueses, em 1622, por ocasião de
aos conventos a norte do Tejo. O último superior à sua diocese em 1572. Desde então, desenvolveu um ataque dos persas em conjunto com tropas
geral a visitar a província no séc. XVI foi Gregório uma profícua actividade, logrando inclusive criar um inglesas, onde os Agostinhos, além de exercerem a
Petrocchini (ou Gregório de Montelparo), em 1589. seminário com vista à formação do clero, de acordo função de párocos, davam assistência a um hospital
Durante a sua visita, passou por Vila Viçosa, onde com o determinado pelo Concílio de Trento (1545- militar português e aos cristãos que passavam pela

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ORDENS E CONGREGAÇÕES MASCULINAS AGOSTINHOS

ilha; uma paróquia na ilha de Quism, que se perdeu Mas a glória maior da actividade missionária dos
em 1622 nas mesmas circunstâncias de Ormuz; outra Agostinhos na Índia foram as missões de Bengala
paróquia na fortaleza de Combrum, que se perdeu que, desde 1599 até à supressão das ordens
em 1617 após um ataque dos persas; e uma terceira religiosas, estiveram sob o cuidado dos Agostinhos
paróquia no porto de Kung, que nos finais do séc. e dos Jesuítas. A actividade missionária em Bengala
XVII ainda se conservava em actividade. Outras era desenvolvida a partir do convento central de
paróquias na costa do Golfo Pérsico foram alvo da Hoogly, do qual dependia a igreja central de Calcutá.
actividade dos Agostinhos, mas delas apenas nos O mesmo Convento de Hoogly apoiava muitos
Escudo da Ordem de Santo Agostinho (I)
chegaram os nomes: Soar, que se perdeu em 1647, centros missionários. A cidade mais importante era
Doba e Curiate. Os Agostinhos também estiveram Dracca, a capital, cuja catedral é a antiga igreja
presentes no actual Iraque, na cidade de Baçorá, teológicos, tornando-se depois sede do vigário agostinha de N. Sr. a das Dores, que em 1813
onde chegaram em 1624 vindos de Ispahan e onde provincial e do governo da Congregação. A ele foi substituía a antiga Igreja de N. Sr.a da Assunção.
actuaram durante cerca de 25 anos em conjunto anexado, em 1602, um colégio dedicado a S. to Os Agostinhos estiveram também presentes, ainda
com os Carmelitas. O centro dirigente destas fun- Agostinho, destinado a jovens estudantes. Um e que em menor escala, em centros missionários
dações no Golfo Pérsico foi o Convento de Ispahan outro duraram até 1834. Os Agostinhos deram ainda localizados em regiões mais afastadas, como nos
(1602-1747), na Pérsia, que serviu de base para o assistência ao Seminário de S. Guilherme em Neurá, antigos reinos de Arakan e de Ava (actual Birmânia)
estabelecimento dos Agostinhos em toda aquela perto de Goa, fundado no ano de 1622 e trasladado e no de Sião (actual Tailândia). As fundações mais
região, dando origem a uma comunidade conventual no ano seguinte para outro local nas imediações da orientais foram as de Malaca e Macau, nas costas
que, apesar de pouco numerosa, durou quase 150 cidade, tendo durado até 1737; à Igreja de S. to da China. Malaca era a sede de um episcopado onde
anos. Deste convento dependia também uma casa António, localizada perto do convento central e os Agostinhos fundaram, em 1587, um convento
de saúde, na cidade de Xiraz, que se conservou em cedida aos Agostinhos pelo Arcebispo Fr. Aleixo de cuja existência se prolongou até 1641. Macau era
funcionamento apenas até 1625. Por intermédio Meneses em 1606; às igrejas paroquiais de S. João já um território português quando os Agostinhos
desta cidade, os Agostinhos chegaram à Geórgia, Envagelista e de S.ta Inês, além de outras de menor da Província das Filipinas fundaram lá uma casa, em
em 1627, e fundaram um convento na cidade de importância. Além destas, davam também assistência 1581, onde permaneceram até 1819. Desta fundação
Gori, a capital de um dos reinos, que pouco depois, a três casas femininas: o Mosteiro de S.ta Mónica, a dependia a Paróquia de Penha de França, fundada
em 1647, se viram obrigados a abandonar por falta Casa de N. Sr.a da Serra para meninas e a Casa de em 1623.
de missionários. Os Agostinhos fundaram também S.ta Maria Madalena para mulheres arrependidas, as Um elevado número de bispos agostinhos tiveram
uma casa na cidade de Tattà, no actual Paquistão, três fundadas no início do séc. XVII. A mais um papel fundamental no apoio e expansão desta
em 1627. O P.e Francisco Pópulo foi o fundador desta importante foi, sem dúvida, o Mosteiro de S.ta Mónica, actividade missionária, nomeadamente Fr. Aleixo de
casa, cuja função era apoiar os missionários que se fundado em 1606 e considerado uma das glórias Meneses, Arcebispo de Goa entre 1595 e 1612, e
dirigiam à Pérsia, à Geórgia ou ao Iraque. Esta da Ordem e da Diocese de Goa. O seu imponente quem primeiro promoveu a actividade missionária
fundação terá durado pouco tempo, embora não edifício albergava mais de 100 religiosas e durou dos Agostinhos. Meneses obteve três bispos auxiliares,
seja possível precisar a data em que cessou de até ao séc. XIX, acolhendo actualmente um centro Fr. Diogo da Conceição ou Araújo, eleito Bispo Titular
funcionar. diocesano de formação teológica para religiosas de de Salém em 1595, Fr. Jerónimo Carreio, eleito Bispo
Mas foi nas costas da Índia que a Congregação da diversas ordens e congregações. Titular de Calamense em 1598 e Fr. Domingos
Índia Oriental fundou um maior número de casas: No interior da Índia foi fundada uma casa em Torrado, Bispo Titular de Salém entre 1605 e 1610,
um asilo em Diu, em 1750, que durou até 1804; Bisnagar (ou Vijayanagar), em 1652. A ilha de Ceilão, tendo substituído o arcebispo em 1610 quando este
um convento em Damão, em 1599, que se conservou uma das últimas conquistas de Portugal (séc. XVII), regressou a Portugal. Outros Bispos foram Luís de
activo até 1832 e do qual estava dependente uma foi missionada pelas quatro ordens mais importantes Melo em Malaca (1639-1648), Eugénio Trigueiros
Capela de S.to António; um outro convento, dedicado presentes na Índia, que a repartiram entre si, cabendo em Macau (1725-1740), Francisco da Purificação,
à Anunciação de Maria, em Baçaim, fundado em aos Agostinhos a chamada zona das “Quatro segundo Bispo de Pequim, e António de Gouveia,
1587, e só perdido em 1739, juntamente com outras Cordas”, assistida a partir do seu convento central Bispo Titular de Cirene e Administrador Apostólico
casas situadas nesta costa indiana devido à insurreição instalado em Colombo, a capital, e de 11 estações para os católicos na Pérsia entre 1611 e 1628. Em
de nativos vizinhos. Do Convento de Baçaim estavam missionárias existentes nessa região. Na costa oriental Goa, além de Aleixo de Meneses, foram Bispos
dependentes várias paróquias, entre as quais as de da Índia, os Agostinhos iniciaram a sua presença Sebastião de São Pedro (1624-1641), Cristóvão da
Casabe, Mola e Daince, esta doada pelas agostinhas com a fundação, em 1606, de um convento em Silveira (1670-1673), Eugénio Trigueiros (1740-1741)
do Convento de S. ta Mónica de Goa aos Frades Mailipur, no mesmo ano em que se fundou esta e Francisco da Assunção ou Brito (1773-1783). Na
Agostinhos. Um dos conventos mais antigos da diocese, sendo o seu primeiro Bispo Fr. Sebastião Diocese de Cochim foram Bispos Sebastião de São
Congregação foi fundado em Tana, a norte de Goa, de São Pedro. Em 1658, perdeu o estatuto de Pedro (1600-1615), Luís de Brito (1615-1629) e
em 1575, e durante muito tempo serviu de casa de diocese, tornando-se numa simples paróquia e Pedro da Silva (1687-1691). Na Diocese de Meliapor
Noviciado e sede de estudos humanistas, tendo sido acabou por ser abandonada em 1663. Desta foram Bispos Sebastião de São Pedro (1606-1615),
encerrado em 1737. Outro convento fundado a fundação dependiam outras duas: o Asilo de S.ta Luís de Brito (1615-1624), António de Jesus (c. 1643-
norte de Goa foi o de Chaúl, com a função de apoiar Rita, transformado em convento no ano de 1757, -1647), António da Encarnação (1745-1752),
os religiosos que se dirigiam a Goa e a Ormuz. Tal mantido como tal até 1825, e a Igreja de Monte Bernardo de São Caetano (1758-1780), António da
como o de Tana, também este funcionou como casa Grande, confiada aos Agostinhos por Fr. Bernardo Assunção (1782-1783), Manuel de Jesus (1787-1797)
de estudos, tendo-se perdido em 1739. de São Caetano. Em 1625, assistiu-se à fundação e Joaquim de Meneses e Ataíde (1804-1820), que
A cidade de Goa acolheu as casas agostinhas mais do Convento da Graça em Negapatão, abandonado nunca residiu na sua diocese, tendo permanecido
importantes da Índia. O convento central de S.to em 1658. O Asilo de Masulipatão foi fundado em no Funchal. Além destes, os Agostinhos tiveram, no
Agostinho, fundado em 1572, começou por ser 1652 e da Igreja de Vizagapatão apenas se sabe séc. XVIII, 3 bispos no Brasil, 3 em Angola nos sécs.
apenas uma sede provisória e uma casa de estudos que foi entregue aos Teatinos em 1729. XVII e XVIII e vários agostinhos descalços em S. Tomé,

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ORDENS E CONGREGAÇÕES MASCULINAS AGOSTINHOS

entre os sécs. XVII e XIX. A maior parte dos bispos dependente da Província-Mãe, pelo facto de as ilhas de 1720-1722 e Arcebispo de Évora entre 1740 e
citados foram também missionários, especialmente se encontrarem a uma grande distância da capital 1759. Teve como Bispo Auxiliar o agostinho Jerónimo
Sebastião de São Pedro, Bispo de Meliapor e de portuguesa, onde funcionava a sede do Governo de São José, Bispo Titular de Tipassa, em África,
Cochim e Arcebispo de Goa. Além deste devemos Provincial. entre os anos 1752 e 1773. O P.e António de Távora,
ainda mencionar outros cujos feitos merecem o seu Apesar da situação de decadência que a província irmão de Miguel, foi por este consagrado Bispo do
reconhecimento: o P. e Simão de Morais ou da atravessava, acentuada com a da independência Porto, onde exerceu o cargo entre 1757 e 1766.
Conceição, um dos primeiros missionários enviados política de Portugal preconizada em 1640, uniram- Além destes, foram Bispos Clemente Vieira, que,
para o Oriente em 1572 e o pioneiro da presença -se esforços para uma restauração religiosa, posta natural do Porto, foi doutor em Coimbra e eleito
católica na Pérsia; o P. e Jerónimo da Cruz, um em prática em 1715, cujos resultados foram bastante Bispo de Angra do Heroísmo, onde exerceu o seu
missionário que foi bastante admirado pelos positivos. Procedeu-se, desde logo, ao melhoramento múnus entre 1687 e 1692; José de Oliveira (1638-
maometanos de Ispahan; o P.e Diogo de Santa Ana, de algumas casas. Como consequência do terramoto -1719), nomeado Bispo do Congo em 1694, tendo
o grande impulsionador do Mosteiro de S.ta Mónica de 1755, foram restaurados os Conventos de Vila apresentado a sua demissão em 1700 sem nunca
de Goa; o P.e Melchior dos Anjos, que realizou um Viçosa, de Lisboa e de Penafirme. O Convento do ter ido à diocese; António de São José (1704-1779),
árduo mas frutuoso trabalho na Pérsia, durante as Porto foi ampliado com o apoio do Bispo agostinho eleito Bispo de S. Luís do Maranhão, onde exerceu
primeiras décadas do séc. XVII; o P.e José do Rosário, dessa diocese, Fr. António de Távora. Nesta altura, o cargo entre 1756 e 1778, foi depois transferido
que foi um exímio missionário, tendo actuado os Agostinhos prestavam assistência a quatro para o Arcebispado de S. Salvador da Bahia, mas
essencialmente em Ispahan durante a primeira mosteiros de freiras agostinhas como capelães. morreu antes de ter tomado posse do cargo;
metade do séc. XVII; o P.e Jorge da Apresentação, No que diz respeito ao ensino, os Agostinhos tinham Francisco da Anunciação Brito (1726-1783) foi
que fez um importante trabalho nas regiões de três colégios que se destinavam à educação de jovens nomeado Bispo de Olinda, embora nunca tenha
Bengala. religiosos e à actividade científica dos seus professores tomado posse da diocese dado que, em 1773, foi
e onde ensinavam sobretudo os professores e os eleito Bispo de Goa, função que exerceu até 1783;
5. Os dois últimos séculos da província (1630- leitores da província: o Colégio de N. Sr.a da Graça e António Correia, Bispo da Diocese de S. Salvador
-1834). Nos dois últimos séculos de existência da em Coimbra, o Colégio de S. to Antão ou de S. to da Bahia entre 1779 e 1802. Em Portugal, alguns
província, notou-se uma certa saturação, Agostinho em Lisboa e o Colégio de N. Sr.a do agostinhos exerceram o cargo de Bispo Auxiliar,
caracterizada pela carência de novas fundações, Pópulo em Braga, tendo sido este mais orientado nomeadamente Pedro de Foios (1640-1708), Auxiliar
perda de alguns conventos, indiferença em relação para a formação do clero diocesano da região. O de Lisboa, António Botado (1651- 1715), Auxiliar
à actividade missionária, dificuldade no cumprimento número de bibliotecas conventuais fundadas por de Braga entre 1696 e 1715, e o já mencionado
dos votos professados (o voto da pobreza, no caso religiosos aumentou neste período, assim como a Jerónimo de São José, Auxiliar de Évora. Entre os
dos Agostinhos) e por um crescente clima de tensão preocupação pela catalogação dos livros nas mesmas. pregadores distinguiu-se o P.e Manuel da Conceição
que se fazia sentir entre os Conventos do Porto e A melhor biblioteca da Província Portuguesa (1627-1682), fundador dos Agostinhos Descalços
de Lisboa. Excepção a este panorama foram as ilhas encontrava-se no colégio de Coimbra e fora fundada em Portugal.
dos Açores, onde se operaram duas novas fundações: pelo P. e Egídio da Apresentação (1539-1626). Apesar de vários conventos fundados no Oriente se
o Convento de Ponta Delgada, na ilha de S. Miguel, Habitualmente, a formação científica daqueles que terem perdido, como os de Baçaím, Tana e Chaúl,
e o de Vila da Praia, na ilha Terceira, cujos fundadores foram considerados os melhores professores e de outros terem sido abandonados, como os de
saíram do Convento de Angra do Heroísmo, na ilha começava nos estudos da própria Ordem, Cochim e Colombo, a actividade missionária naquela
Terceira, que tinha sido fundado em 1584. Estes três terminando, depois, nas reconhecidas universidades região continuou com bastante intensidade. As casas
conventos formavam uma pequena província, de Portugal, às quais deixavam os seus nomes ligados, de Goa e dos seus arredores e as missões em Bengala
pelo que a Província Portuguesa apresentava, neste continuaram até à extinção das ordens em Portugal
período, um número consistente de homens de e nas suas colónias. Outras estações missionárias,
letras, entre os quais se distinguiram o P.e João de como as da costa suaíli, também se perderam devido
Azevedo, um importante teólogo e moralista que à dificuldade em manter a sua supremacia.
publicou em 1726, em Lisboa, o seu Tribunal Nas últimas décadas de existência da província,
Theologicum et Juridicum; o P.e Bento Meireles, quem distinguiram-se inúmeros frades agostinhos. Fr. José
entre os anos 1740 e 1745 editou a obra do de Santa Rita Durão, agostinho desde 1738, foi leitor
agostinho irlandês Gibbon, Speculum Theologicum, em Coimbra, onde fez o doutoramento em 1756,
em sete volumes; Manuel Leal de Barros (m. 1691), professor no Colégio de N. Sr.a do Pópulo em Braga
um historiador doutorado pela Universidade de e autor do poema épico Caramurú, sobre a
Bordéus; os hagiógrafos José de Santo António (m. descoberta da Bahia. Foi implicado no atentado de
1727), que publicou a biografia de alguns agostinhos 1759 ao Rei D. José I, pelo que se viu obrigado a
e foi autor da obra Flos Sanctorum Augustinianum, sair do país rumo a Castela, donde partiu, mais
dividida em quatro partes, e José da Assunção (m. tarde, para Roma. Morreu em 1784, três anos depois
1751), um poeta que escreveu em latim e autor das da publicação do seu poema. Fr. Manuel de Santa
obras Hymnologia Sacra, em três volumes, e Inês, agostinho descalço, foi três vezes nomeado
Martyrologium Augustinianum, em dois volumes. Vigário Geral da sua congregação e, pelo Rei
Em relação ao apostolado, distinguiram-se, na D. Pedro IV, Vigário Capitular da Diocese do Porto
metrópole, os irmãos Miguel e António de Távora, e, depois, da de Braga. Fr. José de Santo Agostinho
tratados com rigor pela implicação da sua família Macedo é considerado o mais inteligente de todos
no atentado contra o Rei D. José I, em 1758. O P.e quantos passaram pela Ordem nas décadas anteriores
Miguel de Távora (1683-1759) foi mestre em à sua extinção. Era, porém, dotado de um
Nave central da Igreja da Graça, Santarém (AJ) Teologia, professor em Coimbra, Provincial no biénio temperamento irascível, pelo que foi expulso da

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ORDENS E CONGREGAÇÕES MASCULINAS AGOSTINHOS

Ordem em 1792. Foi nomeado Pregador Régio e Terceira, e o Convento de S.to Agostinho, em Ponta Nossa Senhora de Fátima e, desde 1999, novamente
cronista do reino, foi membro das academias Arcádia Delgada, na ilha de S. Miguel. como seminário menor. A igreja conserva diversas
de Roma e Belas Letras de Lisboa e foi eleito Todo o processo acabou, tal como noutros países, imagens do antigo convento, nomeadamente a da
deputado nas cortes de 1822. O P.e Patrício da Silva com a supressão imediata das ordens religiosas Sr.a da Graça, bem como a sepultura de Fr. João de
foi um agostinho que, nascido em 1757 no seio de masculinas e a nacionalização dos respectivos bens, Estremoz, que morreu no séc. XVI neste convento.
uma família modesta, conseguiu ser admitido à por decreto do Ministro da Justiça Joaquim António No Convento e na Igreja de Vila Viçosa passou a
profissão por ter dado mostras de grande talento. de Aguiar emitido no dia 28 de Maio de 1834. funcionar, entre 1890 e 1963, a Escola Prática de
Foi ordenado sacerdote em 1780 e doutorou-se em À extinção imediata dos conventos masculinos seguiu- Cavalaria. Desde essa altura está lá estabelecido o
Coimbra em 1785, onde dirigiu várias cátedras de -se a longa agonia dos femininos, proibidos de seminário menor da Diocese de Évora. Em 1982, o
forma notável. Além disso, foi Prior do Colégio de admitirem novas candidatas e, por isso, extintos à antigo convento agostinho recebeu a visita do Papa
Lisboa, Pregador Real, teólogo ao serviço da Inquisição data da morte da última religiosa. João Paulo II aquando da sua peregrinação ao
de Lisboa, membro da Real Academia das Ciências, Finda a presença da Ordem de Santo Agostinho em santuário nacional de N. Sr.a da Conceição de Vila
professor de Teologia no Seminário de Santarém e Portugal, depois de seis séculos de história, as suas Viçosa, padroeira de Portugal.
inspector dos estudos na Diocese de Lisboa. Em casas continuam ainda de pé, mais ou menos
1818, foi nomeado pelo rei para o cargo de Bispo conservadas e dedicadas a outros usos. O Convento 7. O regresso dos Agostinhos a Portugal.
da Diocese de Castelo Branco, tendo sido transferido, de N. Sr.a da Graça, que tinha sido restaurado em Passaram 140 anos até ao regresso dos Agostinhos
dois anos depois, para a sede episcopal de Évora, 1777 depois do terramoto de Lisboa, conserva, ainda, a Portugal, cuja ausência era muito sentida a nível
onde permaneceu até 1825. Em Évora, no ano de com a igreja, um aspecto majestoso. Quando a da Ordem. A restauração da província foi decidida
1824, foi nomeado Cardeal Presbítero mas, no ano supressão das ordens religiosas foi decretada, a igreja no Capítulo Geral de 1971 e levada a efeito sob a
seguinte, foi transferido para a sé patriarcal de Lisboa, foi confiada às Confrarias de S.ta Cruz e dos Passos orientação do novo Superior Geral, o P.e Theodore
onde morreu em 1840. Foi, ainda, Conselheiro da e posteriormente convertida em igreja paroquial, Tack, que enviou a Portugal os P. es Modesto
Princesa Isabel Maria para o governo do reino e enquanto que as dependências conventuais foram Santamarta e Pedro Mariezcurrena, agostinhos de
Ministro da Justiça. ocupadas por um quartel militar. Espanha, com o objectivo de fundarem uma casa.
No Convento de N. Sr.a da Graça de Torres Vedras, Estes agostinhos estabeleceram-se na cidade da
6. A supressão da província e o destino de alguns o Patriarcado de Lisboa fundara uma escola onde Guarda, onde contactaram com o Bispo desta
dos conventos da Ordem. Chegados aos finais do se ensinava a ler, escrever, contar e a gramática diocese, Mons. Policarpo da Costa Vaz. No dia 19
séc. XVIII, a Ordem detinha 18 conventos de frades latina, com professores pagos pelo Estado. No mesmo de Dezembro de 1972, o superior geral enviava uma
e 3 de freiras e os Agostinhos Descalços possuíam convento existia uma boa biblioteca e nele era petição ao Bispo da Guarda para estabelecer uma
11 conventos de frades e um de freiras. O primeiro realizado um importante trabalho social e prestava- comunidade agostiniana de três religiosos na sua
-se culto ao Beato Gonçalo de Lagos, cujas relíquias diocese, a qual poderia, num primeiro momento,
ainda se conservam na igreja. Hoje, conservam-se encarregar-se de alguma paróquia ou actividade
ainda duas séries de azulejos, representando a apostólica, sendo o seu objectivo fundar um
vida do Beato Gonçalo de Lagos e, outra, a vida de seminário onde pudessem ser acompanhados e
D. Fr. Aleixo de Meneses, que foi Prior deste con- formados futuros candidatos à Ordem. Obtida a
vento. Após os acontecimentos de 1834, a igreja anuência do prelado, os Agostinhos estabeleceram-
dos Agostinhos foi confiada à Irmandade dos Passos. -se na cidade da Guarda logo em 1974, onde
Quanto ao convento, foi vendido à Câmara Municipal trabalharam na Paróquia de S. Vicente, dirigidos
em 1887, que nele colocou diversos serviços sociais, pelo P.e Isaías Alonso. Daí em diante, o provincial
entre eles o do asilo municipal. Em 1984, fizeram- da Província de Espanha seria o elo entre os
-se obras de restauro na igreja e, mais tarde, no agostinhos da nova fundação portuguesa e o superior
convento, onde hoje funciona o Museu Municipal. geral. Como tal, a 8 de Fevereiro do mesmo ano, a
Província de Espanha pedia ao superior geral a
Igreja e Convento de N. Sr.ª da Graça, Évora (PB)
erecção canónica da nova comunidade, que seria
outorgada no dia 25 daquele mês. Este acon-
golpe desferido às ordens religiosas aconteceu em tecimento, tão importante, foi publicado no Boletim
1821, com um decreto que proibia o ingresso de da Província de Espanha n.º 8 (B) do mês de Abril
noviços nas Ordens religiosas e militares. No ano de 1974.
seguinte, um novo decreto reduzia o número de Mas os esforços destes agostinhos não tiveram o
conventos em todas as ordens religiosas. No que êxito esperado. De facto, a fundação na Diocese da
toca aos Agostinhos, estes viram as suas casas Guarda viria a ser apenas provisória pois, durante
reduzidas ao número de sete, assim como os bastantes anos não se ordenara nenhum sacerdote
Agostinhos Descalços, situação apenas colmatada da Ordem. Desejando experimentar outros métodos,
em 1823, com a devolução dos conventos suprimidos e devido à necessidade de continuação de estudos
por ordem do Rei D. João VI. Um outro decreto, dos jovens agostinhos que foram destinados a
Seminário de N. Sr.ª da Graça, Penafirme (FF)
emitido no dia 17 de Maio de 1832, proibia de novo Portugal, decidiram que seria mais proveitoso formar
a entrada de noviços em qualquer Ordem e suprimia uma nova comunidade do que continuar na Guarda.
diversos dos seus conventos. Os Agostinhos O Convento de Penafirme, após um tempo em posse A 14 de Março de 1979, foi pedida ao superior
perderam, em virtude deste decreto, os Conventos de particulares, acabaria por ser consecutivamente geral autorização para encerrar a Casa da Guarda,
de N. Sr.a da Graça, em Angra do Heroísmo, de S. usado como Seminário Menor do Patriarcado, como na expectativa de uma nova fundação em Lisboa,
Tomás de Vila Nova, na vila de Praia, ambos na ilha casa de retiros sob a administração das Servas de na Paróquia de Azambuja. No entanto, este projecto

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ORDENS E CONGREGAÇÕES MASCULINAS AGOSTINHOS

não chegou a ser executado, acabando por ser


confiada aos Agostinhos uma outra paróquia, em
Arruda dos Vinhos, em 1975. Esta foi a segunda
fundação dos Agostinhos em Portugal após o seu
regresso ao país, com duas filiais, as de Arranhó e
Cardosas. A 29 de Julho de 1975, o Cardeal D. António
Ribeiro assinava a nomeação do P.e Fernando Pérez
de los Rios como Pároco de Arruda dos Vinhos e,
no dia seguinte, assinava o acordo entre a Diocese
e a Província de Espanha para a entrega da referida
paróquia.
Capela de N. Sr.ª do Rosario, S.ta Iria de Azóia (RB) Igreja Matriz de S. Domingos de Rana (JMB)

grande empenho e conseguiram algumas vocações Reyes Marzo, Miguel Ángel San Gregorio, Francisco
para o ramo feminino, como Agostinhas de Clausura Xavier Carreras e José Ignacio Izquierdo.
em Talavera de la Reina ou como Agostinhas
Missionárias. Além disso, privilegiaram o trabalho BIBLIOGRAFIA: Impressa: “A Igreja da Graça –
com os jovens das freguesias, procurando entusiasmá- Santarém”, in Boletim da Direcção-Geral dos Edifícios
-los pela vocação agostiniana, para o que eram e Monumentos Nacionais, n. os 65-66, Lisboa,
criados círculos juvenis e celebradas assembleias de D.G.E.M.N., 1951; “A Igreja de Santa Maria dos
jovens. Todavia, a presença agostinha nestas Anjos”, in Boletim da Direcção-Geral dos Edifícios
paróquias estava a chegar ao fim. No Capítulo e Monumentos Nacionais, n.º 22, Lisboa, D.G.E.M.N.,
Capela de S. José, Sassoeiros (JMB)
Provincial do mesmo ano, decidia-se que para 1940; ALMEIDA, Fortunato de, História da Igreja em
conseguir a restauração da Ordem com vocações Portugal, Nova ed. preparada e dir. por Damião Peres,
Em 1976, aconteceria a terceira fundação dos portuguesas era preferível concentrarem-se numa vols. I-IV, Porto, Portucalense Editora, 1967-1971;
Agostinhos, na Paróquia de Sobral de Monte Agraço. mesma casa todos os agostinhos residentes em ALONSO, Carlos, Os Agostinhos em Portugal, Madrid,
Efectivamente, a 28 de Setembro do mesmo ano, Portugal. Essa casa seria a Paróquia de S.ta Iria de Ediciones Religión y Cultura, 2003; ALONSO, Carlos,
o Patriarca de Lisboa assinava a nomeação do P.e Azóia. Assim, em 1992, foi suprimida a comunidade “Agostinhos”, in C. M. Azevedo (dir.), Dicionário de
Hipólito Martínez como pároco desta freguesia e de agostinha instalada em Arruda-Sobral. A ideia de História Religiosa de Portugal, vol. A-C, [Lisboa],
duas filiais, S. Quintino e Sapataria. No dia 3 de fundar uma comunidade em S.ta Iria da Azóia surgiu Círculo de Leitores/Centro de Estudos de História
Outubro, tomou posse da paróquia e iniciou-se o pelo facto de esta localidade se encontrar mais perto Religiosa da Universidade Católica Portuguesa, 2000,
trabalho pastoral. Assim, no Boletim da Província de Lisboa. Como esta paróquia não tinha casa pp. 27-32; ALONSO, Carlos, Antonio de Gouvea, OSA:
de Dezembro de 1976, as comunidades de Portugal paroquial, foi necessário adquirir uma para albergar Diplomático y Visitador Apostólico en Persia († 1628),
apareciam formadas da seguinte maneira: na Guarda os padres que dela se encarregariam. Essa casa ainda Valladolid, Estudio Agustiniano, 2000; ALONSO, Carlos
estavam os P.es Isaías Alonso e Feliciano Vaz, em hoje pertence à Província de Espanha, situada no (ed.), Bullarium Ordinis Sancti Augustini: Regesta,
Arruda os P.es Eleutério del Dujo e Fernando Perez B.º da Portela de Azóia, no n.º 37 da Av. Serpa Pinto. vols. I (1256-1362), II (1362-1415), III (1417-1492),
e em Sobral os P. es Arturo Carrascal e Hipólito No dia 25 de Julho de 1986, o P.e Félix Aliste era IV (1492-1572), V (1572-1621), VI (1621-1644), VII
Martínez. Em meados de 1977 ocorreu uma nova nomeado Pároco e o P.e Arturo Carrascal Vigário (1644-1669), Roma, Institutum Historicum
alteração da distribuição dos sacerdotes pelas daquela paróquia, cuja tomada de posse ocorreu a Augustinianum, 1997-2002; ALONSO, Carlos, “Escritos
paróquias: na Guarda ficavam os P. es Hipólito 21 de Setembro do mesmo ano. Em 1992, à hagiográficos de Alejo de Meneses, arzobispo de
Martínez, Isaías Alonso e Arturo Carrascal, e em comunidade de S.ta Iria da Azóia juntaram-se os Goa y de Braga († 1617)”, in Analecta Augustiniana,
Arruda e Sobral os P.es Fernando Perez, Eleutério del religiosos que, até então, se encontravam na vol. 59, Roma, Typographia Polyglotta Vaticana,
Dujo e Félix Aliste. Pouco depois entrou para a Comunidade de Arruda-Sobral: os P.es José Manuel 1996, pp. 235-290; ALONSO, Carlos, “Las visitas de
Paróquia de Arruda o P.e Juan del Valle. Em 1978, Morales, Juan Carlos Gutiérrez e Jesús Isidro Labrador. tres priores generales del siglo XVI a la Provincia
o Patriarca de Lisboa ofereceu aos Agostinhos a Os dois últimos receberam do Cardeal Patriarca de Agustina de Portugal”, in Amar, Sentir e Viver a
Paróquia de Barcarena, respondendo ao pedido Lisboa, a 3 de Dezembro de 1992, a nomeação de História: Estudos de Homenagem a Joaquim Veríssimo
destes, que desejavam uma casa em Lisboa ou noutra Vigários Paroquiais. Entretanto, a antiga casa situada Serrão, vol. I, Lisboa, Ed. Colibri, 1995, pp. 275-
cidade universitária onde pudessem estudar. No na Portela da Azóia foi transformada num centro -289; ALONSO, Carlos, “Capítulos provinciales de la
entanto, esta oferta não foi aceite pela Província de juvenil agostiniano, procurava-se concluir a construção provincia de Portugal (1582-1598)”, in Archivo
Espanha. Às Paróquias de Arruda e Sobral viria a da igreja, situada na mesma zona, e introduzir Agustiniano, vol. 78, Madrid, PP. Agustinos, 1994,
juntar-se a de S.ta Iria de Azóia e, em meados de melhorias na igreja e no salão paroquial de S.ta Iria. pp. 3-36; A LONSO , Carlos, Alejo de Meneses,
1983, as comunidades estavam formadas do seguinte Alguns dos padres que citámos davam aulas de Arzobispo de Goa (1595-1612): Estudo Biográfico,
modo: em Arruda e Sobral encontravam-se os P.es Juan Religião e Moral ou de Filosofia, outros assistiam a Valladolid, Estudio Agustiniano, 1992; ALONSO, Carlos,
José Alonso, Eleutério del Dujo, Fernando António aulas em Lisboa e vários conseguiram uma graduação “La fundación del colegio agustiniano de Ntra. Sra.
Fabiani, Juan Carlos Calzada e José Manuel Morales, em Teologia na Universidade Católica de Lisboa. Nos de Gracia de Coimbra (1543-1551)”, in Revista da
e em S.ta Iria de Azóia os P.es Félix Aliste, Arturo últimos anos, a Paróquia de S.ta Iria da Azóia tem Universidade de Coimbra, vol. 36, Coimbra, 1991,
Carrascal e Miguel Ángel Ferrera. recebido novos padres. Actualmente, a comunidade pp. 327-341; ALONSO, Carlos, “Nueva documentación
Nestas paróquias, pertencentes ao Patriarcado de agostinha é constituída pelos P.es Arturo Carrascal inédita para una biografia de Agustín de Castro,
Lisboa, os sacerdotes agostinhos trabalharam com Minguez (Superior), Félix Aliste Mezquita, Luís Xavier OSA, arzobispo de Braga (1588-1609)”, in Analecta

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ORDENS E CONGREGAÇÕES MASCULINAS AGOSTINHOS

Augustiniana, vol. 53, Roma, Typographia Polyglotta (s. XVIII)”, in Analecta Augustiniana, vol. 34, Roma, Dicionário de História de Portugal, vol. I, Porto,
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Agustinos en la Costa Suahili (1598-1698), Valladolid, ALONSO, Carlos, “Nueva documentación inedita sobre Luciano Coelho, “A igreja de Santo Agostinho de
Estudio Agustiniano, 1988; ALONSO, Carlos, “Vida las misiones agustinianas en la India y en Persia Leiria”, in Mundo da Arte, n.º 14, Coimbra,
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48
ORDENS E CONGREGAÇÕES MASCULINAS AGOSTINHOS

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instituio em Africa, & seus discipulos introduzirão Provincia de Portugal da Ordem dos Eremitas de S. da sagrada & apostólica ordem canónica, Lisboa,
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(dir.), Dicionário de História da Igreja em Portugal, in Boletim do Arquivo da Universidade de Coimbra, Ed. por Arnulfus Hartmann, Roma, Institutum
vol. I, Lisboa, Ed. Resistência, 1980, pp. 69-72; vol. IX, Coimbra, A.U.C, 1987, pp. 269-283; Historicum Augustinianum, 1996-1999; VITERBIENSIS,
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49
ORDENS E CONGREGAÇÕES MASCULINAS AGOSTINHOS DESCALÇOS

AGOSTINHOS DESCALÇOS lhe providenciarem a necessária assistência religiosa. Efectivamente, as fundações continuaram a bom
A Congregação de Nossa Senhora da Conceição dos O projecto seria transmitido pela rainha ao Geral da ritmo: em 1671, eram erigidos dois novos conventos,
Agostinhos Descalços, também conhecida apenas ordem, Pedro Lanfranconio, em carta datada de 25 um em Montemor-o-Novo, dedicado a N. Sr.a da
por Agostinhos Descalços ou Grilos, constituiu-se, de Abril de 1663: fundar um convento de religiosas Conceição e patrocinado por D. Fernão Martins
em Portugal, como congregação autónoma, no seio agostinhas “capuchas e descalças”, onde também Marcarenhas, e outro em Estremoz, numa igreja que
da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, ligados ela se pudesse recolher, directamente dependente pertencera a Religiosas de Santa Clara, colocado
à iniciativa da Rainha D. Luísa Francisca de Gusmão do Geral dos Agostinhos. Aos seus intentos associava sob a invocação de N. Sr.a da Consolação; em Lisboa,
e ao empenho do seu confessor, o P.e Fr. Manuel da explicitamente o seu confessor, o P.e Fr. Manuel da instalar-se-iam, em 1674, no Convento da Boa Hora
Conceição, que a mesma desde cedo associaria à Conceição, escolhido para vigário da nova comu- e, no ano seguinte, lograriam erigir uma nova casa
direcção das primeiras casas agostinhas de vida nidade, e o P. e Fr. Bartolomeu de Santa Maria, no lugar de Rolão, dedicada a N. Sr.a das Neves
reformada. Tal como em outros países, onde diversos proposto como confessor das monjas, determinando- (Arruda dos Vinhos). Ainda antes da morte do
movimentos de reforma, vividos no interior da ordem, -se que também eles ingressassem no novo modo Fundador, registar-se-iam outras fundações em Porto
haviam conduzido, ao longo dos sécs. XV e XVI, à de vida descalço. Para tal, não só cedia o seu palácio, de Mós (1676), Sobreda (1677) e Monsaraz (1679).
multiplicação de comunidades adeptas de uma mais sito em Xabregas, para aí edificar o novo convento, Em 1683, os Descalços já possuíam 11 conventos e
estrita observância da Regra, com soluções dedicado a Nossa Senhora, como se dispunha a 3 hospícios, onde viviam cerca de 152 religiosos,
institucionais diversas – desde a autonomia sob a patrocinar uma outra fundação, ligada a esta, onde dos quais 60 eram sacerdotes, 40 era noviços, 37
direcção do Geral da ordem, como os recolectos de se instalassem os frades agostinhos dispostos a eram irmãos leigos e 15 eram clérigos estudantes.
Espanha, à constituição de ordens autónomas, como enveredar pela vida descalça, sob a direcção de Fr. A partir desta data, verificaram-se outras fundações,
aconteceria com os eremitas descalços de Itália e Manuel da Conceição. em Portalegre (1683), Loulé (1695), Setúbal (1695),
Alemanha – também em Portugal, ultrapassado o Os intentos da rainha seriam plenamente acolhidos Mora (1711), Grândola (1727), Coimbra (um colégio,
ímpeto reformador do séc. XVI conduzido sob a pelo Geral dos Agostinhos, que autorizaria ambas 1727), Porto (1745), Malhada Sorda (Vilar Maior, na
direcção dos P.es Fr. Luís de Montoya e Fr. Francisco as fundações, colocando-as directamente sob a sua Diocese de Lamego, 1746) e Lisboa (Colégio de S.ta
de Villafranca, se avivaram as pretensões de introduzir autoridade, designando ainda ambos os padres Rita, 1748).
uma mais estrita observância no interior da ordem. agostinhos para os cargos de Vigário e Confessor
Já no início do séc. XVII, D. Fr. Aleixo de Meneses, da comunidade agostinha. Deste modo, ainda em
o ilustre agostinho que governou a Diocese de Goa 1663, a rainha ratificaria o instrumento de fundação
(1595-1612) e posteriormente o Arcebispado do convento feminino, para o qual obteria diversas
bracarense (1612-1617), manifestava a sua simpatia religiosas vindas do mosteiro agostinho de S. ta
pelos recolectos espanhóis e expressava o desejo de Mónica (Lisboa), lideradas por Soror Maria da
fundar novos conventos da observância em Portugal. Apresentação. O convento masculino de N. Sr.a da
Conceição do Monte Olivete foi autorizado pelo
Geral da ordem em 1664 e, dois anos depois, o
próprio D. Afonso VI presidia ao lançamento da
primeira pedra do complexo conventual. Edificado
também em Xabregas, no sítio chamado do Grilo –
razão pelo qual os Frades Agostinhos Descalços
seriam também designados por “Grilos” –, o cenóbio
era governado pelo P.e Fr. Manuel da Conceição,
que dirigiria os destinos dos Frades Descalços até à
sua morte, ocorrida em 1682. Para este convento,
ingressaram diversos frades do Convento da Graça,
nomeadamente Fr. Bartolomeu de Santa Maria, Fr.
Domingos da Madre de Deus e Fr. Inácio dos Anjos,
além do já mencionado P.e Manuel da Conceição,
Igreja da Boa Hora, Setúbal (DB)
primeiro Prelado do convento.
Durante o governo deste último, multiplicar-se-iam
as fundações de novos conventos agostinhos Tal como os Agostinhos, também os seus congé-
descalços, na sequência do desejo expresso da Rainha neres Descalços desenvolveram uma importante
D. Luísa, a que o Rei D. Afonso VI (1643-1683) daria actividade missionária. Com efeito, não só esten-
pleno cumprimento, protegendo e patrocinando a deriam as suas fundações à ilha de S. Tomé (1691)
erecção de novas casas. Assim, ao Convento de e à Bahia, no Brasil (1693), como das suas fileiras
Igreja dos Grilos, Porto (FF) Monte Olivete seguiram-se, nos anos subsequentes, se recrutariam importantes figuras escolhidas para
a fundação do Colégio de Santarém (1668) e dos o governo de algumas das dioceses ultramarinas.
Contudo, tais pretensões não teriam sequência, Conventos de N. Sr.a da Assunção da Caparica (1668) Tal foi o caso de S. Tomé, onde a Congregação teve
sendo necessário esperar quase meio século para e de N. Sr.a das Mercês, em Évora (1669). D. Afonso sete bispos, entre 1699 e 1812: António da Penha
que a Rainha D. Luísa de Gusmão (1613-1666), após VI, por Alvará de 21 de Fevereiro de 1669, dava de França (1699-1702), João de Sahagún (1709-
o abandono da regência do reino, viesse a concretizar entretanto licença para que os Agostinhos Descalços -1730), Leandro da Piedade (1738-1740), Luís da
o seu projecto de fundar um convento de monjas fundassem seis conventos, de modo a poderem Conceição (1742-1744), Luís das Chagas (1745-
agostinhas de rigorosa observância, ao qual associaria constituir província e, a 11 de Abril do mesmo ano, -1758), Vicente do Espírito Santo (1779-1782) e
um convento de frades igualmente descalços para tomava a mesma província sob a sua protecção. Custódio de Santana (1805-1812).

50
ORDENS E CONGREGAÇÕES MASCULINAS APÓSTOLOS DE SANTA MARIA

Desde as primeiras fundações, a congregação 1979, pp. 260-273; B ARBAGALLO , I., “Agostiniani com acompanhamento da mesma orquestra e
portuguesa dos Agostinhos Descalços dependeu Scalzi”, in Guerrino Pellicia, Giancarlo Rocca (dirs.), participação de António Chainho em guitarra, incluía
directamente do Geral da Ordem de Santo Dizionario degli Istituti di Perfezione, vol. I, Roma, temas como “No céu, no céu”, “Nome Dulcíssimo”,
Agostinho, tendo sido logradas as tentativas, Ed. Paoline, 1974, cols. 404-415; C ASTRO , João “Jesus, eu amo-Te”, entre outros.
documentadas ainda em vida do P. e Manuel da Baptista de, Mappa de Portugal Antigo, e Moderno, Em 2003, Fr. Hermano lança o CD Vivo d’ Arte Vivo
Conceição, quer para se associarem aos recolectos 2.a ed., t. II, Lisboa, Na Officina Patriarcal de Francisco d’ Amor. É um disco repleto da espiritualidade e da
espanhóis, quer para se colocarem sob o governo Luiz Ameno, 1763, pp. 54-55; L OPEZ , Agustino alegria que sempre o caracterizaram, tendo inclusive
do Geral dos descalços italianos. Face à rápida Saturnino, “Los orígenes de los Agustinos Descalzos um tema pessoal de homenagem ao Papa João Paulo
expansão dos Agostinhos Descalços nas primeiras en Portugal”, in Archivo Agustiniano, vol. 55, Madrid, II – “Amar é dar a Vida”.
décadas após a fundação dos Conventos de PP. Agustinos, 1961, pp. 229-253; MADAHIL, A. G. Cantar É Rezar, de 2006, é o nome do disco que
Xabregas, em larga medida fruto da protecção régia da Rocha, “A crónica inédita da Congregação dos marca o fim da sua carreira artística, de cerca de
que desde cedo lhes fora assegurada, a Congregação Agostinhos Descalços”, in Biblos, Coimbra, Faculdade 50 anos. As orquestrações e direcção musical ficaram
acabaria por ser reconhecida como Congregação de Letras, vol. 12, 1936, pp. 455-469/vol. 13, 1937, a cargo do maestro José Marinho. Participa neste
independente a 8 de Fevereiro de 1675 por Clemente pp. 215-254; NOGUEIRA , José Artur Anes Duarte, disco, enquanto compositor, Paco Bandeira, nos
X e dividida em duas províncias, Estremadura e “Malhada Sorda – Notas acerca do Convento dos temas “Poetas Sonhadores” e “Sina Cigana”.
Alentejo-Algarve, às quais, mais tarde, se juntou Agostinhos Descalços”, in Beira Alta, vol. XXXVI, A par de um fulgurante percurso artístico, Fr.
uma terceira, a da Beira. A Congregação era Viseu, Junta Distrital de Viseu, 1977, pp. 321-335; Hermano da Câmara acalentava o sonho de criar
governada por um Vigário Geral, que detinha os SALAZAR, J. A., “Agostiniani Recolletti”, in Guerrino um projecto que (de acordo com um princípio
mesmos privilégios concedidos aos Agostinhos. Pellicia, Giancarlo Rocca (dirs.), Dizionario degli Istituti expresso por S. Tomás de Aquino) a uma vertente
A par com o registado com outras ordens e di Perfezione, vol. I, Roma, Ed. Paoline, 1974, cols. contemplativa, baseada na oração, se aliasse uma
congregações, os Agostinhos Descalços foram 387-404. Digital: www.agencia.ecclesia.pt. outra, de acção, que tivesse no apostolado pela
também duramente afectados pela legislação que, música o meio por excelência para ajudar os padres
desde finais do séc. XVIII, procurava reforçar a CRISTIANA LUCAS SILVA nas paróquias e contribuir para a acção social levada
intervenção do Estado sobre a vida das comunidades JOÃO LUÍS INGLÊS FONTES a cabo pela Igreja Católica. Os Apóstolos de Santa
religiosas. Assim, em 1821, foi proibido o ingresso Maria figuram, assim, como a corporização desse
de novos candidatos nas ordens religiosas e militares projecto.
e, no ano seguinte, um decreto reduzia o número APÓSTOLOS DE SANTA MARIA
de conventos em todas as ordens, restringindo os A Comunidade dos Apóstolos de Santa Maria,
Agostinhos Descalços a apenas sete casas. Em 1823, também conhecida por Arautos da Misericórdia
D. João VI devolveu às ordens os bens que lhes Divina, foi fundada a 1 de Outubro de 1988, por
tinham sido confiscados no ano anterior. Todavia, Fr. Hermano da Câmara, em Braga. Tendo começado
um decreto, emitido a 17 de Maio de 1833, voltava a funcionar oficialmente no Prado S. Miguel, a
a proibir a entrada de noviços em qualquer ordem fundação transferiu-se, cerca de um ano depois,
e a reduzir o número de conventos. Após o triunfo para a Casa da Imaculada Conceição, no Sameiro.
dos Liberais, em 1834, foi ordenada a extinção de Hermano Vasco Vilar Cabral da Câmara, de nome
todas as ordens religiosas masculinas por decreto artístico Fr. Hermano da Câmara, nasceu em Lisboa,
de Joaquim António de Aguiar, emitido a 28 de a 12 de Julho de 1933. Ligado ao fado e à guitarra
Maio. Os Agostinhos Descalços, exclaustrados, foram por tradição familiar, gravou o primeiro disco em
distribuídos pelas diversas dioceses e os bens das 1955. Aos 27 anos, tornou-se monge beneditino,
suas casas confiscados e integrados no património ingressando no Mosteiro de Singeverga, onde viveu
estatal. O seu único convento de freiras continuou até 1983. Data desta época o famoso Fado da
abrangido pelo Decreto de 1833, que proibia a Despedida. Com o seu timbre peculiar, ele encarna
entrada de noviças, pelo que não tardou a extinguir- a vedeta da canção de tipo místico. Nos anos 70,
-se o ramo feminino da Congregação, após pouco o Nazareno, obra musical inspirada no Evangelho e
mais de século e meio de vida. apoiada em vários poetas portugueses, com
transcrição, arranjos, direcção de orquestra e coros
BIBLIOGRAFIA: Impressa: A LMEIDA , Fortunato de, de Jorge Machado, teve muitas representações e
N. Sr.ª Aurora da Nova Humanidade, Igreja de Queijas (PCC)
História da Igreja em Portugal, Nova ed. preparada vendeu numerosos discos. Granjearam igualmente
e dirigida por Damião Peres, vol. II, Porto-Lisboa, sucesso os discos Deus é Música e Totus Tuus
Livraria Civilização Editora, 1968, pp. 195-196; (serenata mística a Nossa Senhora). Trata-se de um edifício espiritual em que o primado
ALONSO, Carlos, Os Agostinhos em Portugal, Madrid, Fr. Hermano deu espectáculos no Teatro Tivoli (1969), da misericórdia divina e a confiança filial são os
Ediciones Religión y Cultura, 2003, pp. 128-129; o primeiro recital em público depois da entrada no temas dominantes. Inserido no âmbito da Nova
ALONSO, Carlos, “Agostinhos”, in C. M. Azevedo Mosteiro de Singeverga, no Teatro de S. Luís (1977), Evangelização, o apostolado através da música
(dir.), Dicionário de História Religiosa de Portugal, acompanhado pela Orquestra da Radiodifusão apresenta-se como forma peculiar, mas que procura
vol. A-C, [Lisboa], Círculo de Leitores/Centro de Portuguesa, no Teatro Maria Matos (1980), no Coliseu ir ao encontro das características do tempo actual,
Estudos de História Religiosa da Universidade Católica dos Recreios (1986), no Coliseu do Porto (1988) e de anunciar a Palavra de Deus. Com efeito, a própria
Portuguesa, 2000, p. 31; ALONSO, Carlos, “Alejo de na Expo 98. Em 1994, no topo de vendas disco- Igreja reconhece plenamente que a música é, nos
Meneses, O.S.A., Arzobispo de Goa y de Braga († gráficas encontrava-se Missa Portuguesa, editado tempos que correm, o veículo mais potente para
1617), amigo de los Agustinos Recolectos”, in pela Movieplay, com acompanhamento da London tornar Jesus mais conhecido e amado. O sinal
Recollectio, vol. 2, Roma, PP. Agostiniani Recolletti, Philarmonic Orchestra. Em 1997, Um Astro de Luz, distintivo desta Comunidade é a devoção à Santíssima

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ORDENS E CONGREGAÇÕES MASCULINAS ARRÁBIDOS

Virgem. Ser Apóstolo de Santa Maria implica, pois, cap. 1.º). Ainda em vida do Fundador, a Ordem Duque de Bragança, D. Jaime. De tal modo se
uma vida que seja orientada pela Mãe do Verbo Franciscana fora capaz de absorver alguns grupos empenharam na organização comunitária e na
Encarnado e ser-se arauto das maravilhas que Deus de zelotas, extravagantes ou transviados, relaxados, fundação de conventos, que, em 1518, foram erectos
n’Ela operou, ao jeito dos primeiros apóstolos, aqueles sem Regra própria, mas possessos de vocação mística em província autónoma, separada da Província de
que acompanharam Cristo. (Irmãos da Pobreza, Espirituais, Fraticelli, Giróvagos Castela, e denominada Província da Piedade, que
Relativamente a hábitos, a vida diária dos Apóstolos Mendicantes, etc.), mas esta junção raramente cresceu até fins do séc. XVII. Com efeito, em 1673
de Santa Maria caracteriza-se pela procura de uma conseguiu unicidade de pontos de vista e, na Idade a Província da Piedade desmembrou-se e deu origem
verdadeira ascese, aceite com espírito sobrenatural Média, foram várias as tentativas de reforma, em a outra, a Província da Soledade.
e para a qual concorrem o silêncio da cela, a geral apostadas na restituição do franciscanismo às Entretanto, a par deste movimento, outro iria surgir,
sobriedade no comer, no vestir e no dormir e a origens evangélicas, com abandono das práticas activado por Fr. Martinho de Santa Maria (m. 1546),
libertação de usos escravizantes, tais como bebidas sociais e dos privilégios conquistados pela Ordem. da província franciscana de Cartagena. Ele
alcoólicas, televisão e outros passatempos mundanos. No séc. XVI, face aos reformismos oriundos de norte acompanhara, em Itália, a reforma capuchinha e
Além disso, são firmes as opções da Comunidade e, também, a uma sociedade cada vez mais quis adaptá-la a Castela. Um dia, tendo-se
relativamente a leituras e meios audiovisuais. urbanizada e imersa no temporalismo, verificaram- encontrado no Mosteiro de Guadalupe com o Duque
Os Apóstolos de Santa Maria são convidados várias -se diversos movimentos de descalcez, ou de resti- de Aveiro, D. João de Lencastre, manifestou o desejo
vezes ao dia para louvar a Deus, participando, tuição das ordens à alma mater das Regras. de um reformismo eremitista. O duque ofereceu-
diariamente, na celebração da Eucaristia, da Liturgia A descalcez motivou ordens como as dos -lhe, então, um campo que possuía na serra da
das Horas, e da Lectio Divina. Há também um tempo Agostinhos, dos Carmelitas e, também, dos Arrábida para, aí, estabelecer um eremitério. Fr.
reservado para a oração privada, que deve ser Franciscanos. Na Itália, Mateus de Bascio iniciara, Martinho aceitou a oferta, pelo que o duque escreveu
praticada com frequência e fervor, num clima de em 1525, uma reforma da Primeira Ordem, que veio (23.02.1539) ao Padre Geral dos Franciscanos,
silêncio, para que se possa escutar a voz de Deus. a constituir a terceira família franciscana, vulgarmente solicitando que permitisse a Fr. Martinho transferir-
Mas há também, naturalmente, tempo para actos nominada de Capuchinhos (em Portugal, também -se para a Arrábida, onde viveu desde esse ano,
comunitários, que incluem recreios que muito ditos Barbadinhos), por usarem um capuz depois de o padre geral ter procedido à instituição
favorecem a união fraterna e o interesse da pontiagudo, ou por usarem barbas. canónica do Convento e da Custódia (divisão
comunidade em relação a aspectos que lhe estão Na Península Ibérica, conhecidos por Franciscanos administrativa) da Arrábida – Ordem dos Frades
relacionados. Nos curtos períodos de lazer de que Descalços e Alcantarinos, os frades iniciaram a Menores Capuchos da Serra da Arrábida. Fr. Martinho
esta comunidade dispõe, realizam-se, de vez em reforma nos finais do séc. XV, sendo o movimento foi nomeado primeiro Custódio pelo Geral Fr. João
quando, jogos de futebol e de voleibol, forma de orientado por Fr. João de Guadalupe (m. 1503), Calvo, no ano de 1542.
aliviar a tensão acumulada devido a uma vida fundador da Custódia do S.to Evangelho na Província Em 1541, juntaram-se a Fr. Martinho duas outras
intelectual muito intensa. da Estremadura (Castela) e por Fr. Pedro de Alcântara. personalidades históricas: Pedro de Alcântara (depois
No que à missão social por parte destes apóstolos canonizado) e Fr. João de Aguila, ambos castelhanos,
diz respeito, à semelhança de Jesus, que dedicou além de portugueses como Diogo de Lisboa e
especial atenção aos mais pequenos e aos humildes, Francisco Pedraíta.
também eles procuram promover os pobres e No percurso temporal do Instituto, podemos
necessitados, os analfabetos e os marginalizados identificar três fases: a fundacional (1539-1545), a
pela sociedade. fase de expansão e consolidação (1545-c.1700) e a
fase da decadência (1700-1834). A custódia foi
BIBLIOGRAFIA: AA.VV., Frei Hermano da Câmara, o criada província (1560) pelo Breve Sicut aliquando
Monge Cantor, Lisboa, Edições Inapa/Neptuno, 2000; exposit, do Papa Pio IV. Os primórdios foram algo
WESTWOOD, P.e Nuno (compil.), Apóstolos de Santa perturbados. A custódia ficara um tanto sujeita à
Maria: Arautos da Misericórdia Divina/Frei Hermano Província dos Algarves, no tempo em que era
da Câmara, Lisboa, Neptuno, 1998. Provincial Fr. André da Ínsua, frade desafecto aos
reformismos e que, por isso, procurou contrariar a
RICARDO DUARTE GONÇALVES nova Ordem Arrábida, nomeando, em 1545, pouco
antes da morte do Fundador, um custódio da sua
confiança. De resto, a nova custódia carecia de um
ARRÁBIDOS Estatuto, o qual, entretanto, fora redigido por Fr.
O nome Arrábidos é atribuído a um ramo dos Pedro de Alcântara, personalidade chave desta fase,
Franciscanos Reformados (Capuchos) da Província como educador de noviços, arquitecto de novos
da (Serra) Arrábida. A Ordem dos Frades Menores conventos e orientador da vida ascética e da
(Franciscanos) viveu desde cedo o pluralismo de espiritualidade dos frades eremitas. Melhores dias
vocações e de tensões, resultantes do modo de vieram quando Fr. André da Ínsua foi eleito Geral
interpretar a Regra dada por S. Francisco. A par de dos Franciscanos (1547-1553) e saiu para Roma.
S. Pedro de Alcântara, Convento da Madre de Deus
um realismo pragmático, ocorreram diversas formas A rede conventual cresceu a olhos vistos, centrada
da Verderena, Barreiro (SMA)
de literalismo, propondo uma vivência rigorosíssima na região da Estremadura portuguesa (da mesma
da Regra, vivência essa sem contemplações nem forma que sucedera na Estremadura castelhana),
mitigações, sobretudo no que respeita à posse de O movimento provocou discordâncias e dissenções entre Setúbal e Leiria, constituindo-se como uma
bens, uma vez que S. Francisco fora transparente: na Primeira Ordem, pelo que os descalços foram Congregação de geografia estremenha, apesar de
“Observar o santo Evangelho, vivendo em obediência, vítimas de perseguição, o que levou alguns frades Lisboa estar ocupada pela Província de S.to António
sem nada de próprio e em castidade” (2.a Regra, a procurar refúgio em Portugal, sob a protecção do (restos ainda no Hospital de S. to António dos

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ORDENS E CONGREGAÇÕES MASCULINAS ARRÁBIDOS

Capuchos, antigo Convento de S. to António). de S.ta Catarina de Ribamar foi fundado em 1553,
A sede da província passou da Arrábida para o junto de uma ermida daquela invocação, pela Infanta
Convento de S. Pedro de Alcântara e, depois, para D. Isabel. Mais tarde passou a propriedade de
Mafra. A província tinha um Provincial, com dois D. Fernando Palha. Situado um pouco acima de S. José
Conselheiros, cada convento possuía um Guardião, de Ribamar, era considerado um “verdadeiro ninho
cada hospício um Presidente, o Noviciado um Mestre de açor”. A ponte da Cruz Quebrada, sobre o rio
e os estudos um Director. Periodicamente, reuniam- Jamor, foi construída sob a orientação de Fr. Rodrigo
-se em Capítulo Provincial. de Deos, autor do muito lido Tratado dos Passos
Na família dos Capuchos há várias custódias (S.to que se Andam na Quaresma e Motivos Espirituaes
António, Conceição, Piedade, Soledade e Arrábida), (1618), obra muito editada e lida. Em Santarém, no
pelo que nem sempre o inventário de casas é Vale de Figueira, foi fundado, em 1556, o Convento
coerente nas fontes documentais. Dos Arrábidos de S. ta Maria de Jesus. Inicialmente, o convento
Convento da Arrábida, Setúbal (SMA)
tanto se diz terem fundado 20 como 23 ou 26 funcionava numa quinta, propriedade do poeta e
conventos, sem considerar os hospícios que, em espiritualista D. Manuel de Portugal (m. 1606).
1834, seriam apenas três, dos nove fundados até a Na sequência das diligências do Duque D. João de Todavia, o local não foi do agrado dos habitantes.
essa data. No Dicionário de História Religiosa de Lencastre, para que Fr. Martinho de Santa Maria A casa conventual era pequena, comportava poucos
Portugal (vol. C-I, p. 276), a redacção pode induzir fundasse, num campo que o duque possuía na serra, frades e, por isso, o filho de D. Manuel, D. Henrique,
que os Arrábidos tiveram mais, incluindo em Coimbra. uma comunidade monástica, Fr. Martinho tomou fez um novo convento com uma igreja, tendo a obra
De facto, o número indicado naquela obra abrange posse do campo e da ermida (29.09.1539) e, com ficado concluída em 1627. Em 1623, ainda existia
os conventos de todos os ramos franciscanos. outro companheiro, fez da ermida a cela. O duo o velho a par do novo. Os fundadores acham-se
O movimento demográfico assentou na constituição inicial cresceu e deu-se início à construção do sepultados na mencionada igreja, que não deve ser
de pequenas comunidades auto-suficientes (na ideia convento, terminada pouco depois, em 1542, confundida com a existente Igreja de S. Domingos.
de Pedro de Alcântara, cada convento só deveria conforme inscrição na entrada do Convento – In O Convento de N. Sr.a da Piedade foi fundado em
ter oito frades), tendo havido um crescendo durante hoc barbarico monte/et sancto loco, propriedade da 1558, na Caparica, Almada, situado num “miradouro
o séc. XVII, uma forte expansão no séc. XVIII (Mafra Sancta Religionis Capucinorum de Arrábida. Com o maravilhoso”, num local onde já haviam habitado
chegou a ultrapassar as duas centenas de habitantes) aumento do número de monges, a comunidade (séc. XV) os Frades Paulistas de Nossa Senhora da
e um progressivo ermamento desde o terramoto de obrigou-se a dispor de celas (ermidas) para cada um Rosa. O padroeiro foi D. Lourenço Pires de Távora,
1755, até à supressão das ordens em 1834. Ordem deles, existindo já cinco celas cubiculares em 1542,
situada na órbita de influência de Lisboa, as suas separadas umas das outras. Cada cubículo só tinha
casas sofrem muitos danos no terramoto, com difíceis espaço para um residente. Casa-Mãe, nela iniciaram
condições de reconstrução. Também as condições ou desenvolveram a carreira monástica as principais
sociais das Invasões Francesas dificultaram a figuras da Ordem em Portugal. Lê-se ainda com
serenidade eremítica, ainda mais perturbada com a agrado, apesar de a serra ser considerada “barbárico/
guerra entre Liberalismo e Legitimismo. Receosos monte”, a Descripçam da Arrábida, do arrábido
de terem de aceitar as imposições régias caso os madeirense Fr. Inácio Monteiro, do séc. XVII, uma
Liberais tivessem a vitória, logo em 1833, imitando obra de estética barroca. Após a supressão, a
outras comunidades religiosas (cartuxos de Laveiras, propriedade e o complexo conventual devieram
cistercienses de Alcobaça, entre outros), abandonaram propriedade da família dos Duques de Palmela.
as fundações mais próximas da capital, incluindo a Integrados no Parque Nacional da Serra da Arrábida,
de Mafra. Em 1822, as Cortes decretaram a redução como bens de interesse público (Decreto n.º 129/77
do número de religiosos, pelo que os Arrábidos de 29 de Julho de 1977), vieram a ser adquiridos
foram obrigados a reduzir o número de casas, pela Fundação Oriente, que ali tem levado a efeito
incluindo os hospícios, para 25, com um total de diversas iniciativas de carácter cultural.
318 professores (média de 12 por casa), sem criados Outros conventos e hospícios foram fundados. Em
e sem leigos Salvaterra de Magos, o Convento de N. Sr. a da
Eram relativamente poucos os frades em 1834. Uns, Piedade, onde se venerou uma relíquia de S. Baco,
os apenas frades, voltaram ao seio das famílias, foi fundado em 1542, pelo padroeiro Infante D. Luís.
enveredando por diversas profissões; outros, O Convento de N. Sr. a dos Prazeres, em Palhais
sacerdotes, viveram como egressos, ou aderiram ao (actual Concelho do Barreiro), foi fundado em
Convento dos Capuchos, Costa da Caparica (SMA)
clero secular, ou, por volta de 1840, tornaram-se 1542, sendo seu padroeiro o Conde da Vidigueira,
pregadores das “missões populares”. D. Francisco da Gama. A traça do convento foi
Virada ao mar, numa ladeira belíssima, estabeleceu- desenhada por Pedro de Alcântara, que deu o nome que levou as obras a efeito entre 1618 e 1630,
-se a primeira fundação do novo ramo franciscano ao poço aberto na cerca conventual. Teve alguma tendo jazida na igreja conventual. Segundo alguns
em território português, junto de uma ermida da projecção na Ordem, em virtude da presença de autores, o convento só seria habitado a partir de
invocação da N. Sr. a da Arrábida, na serra da Pedro de Alcântara, chegando a ser, em 1560, sede 1564, achando-se em ruínas à data da supressão
Arrábida, Setúbal – o Convento de S.ta Maria da da Província da Arrábida. Em Almada, D. Lourenço das ordens religiosas. Adquirido, então, por Virgílio
Arrábida, fundado em 1539. Na raiz da serra exis- de Sousa fundou, em 1550, o Convento de N. Sr.a Alves Xavier, veio a ser incorporado no património
tia, e ainda existe, uma caverna, a Lapa de S. ta da Conceição, o qual, por ser pequeno e de pobre municipal de Almada (1950) e sujeito a restauração,
Margarida, que teria sido protegida por um grupo economia, levou a que os frades se mudassem para tendo a igreja sido reaberta ao culto em 1952.
de frades crúzios que antes lá tinham habitado. o que, depois, foi fundado na Caparica. O Convento O Convento de S. José de Ribamar, em Carnaxide

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ORDENS E CONGREGAÇÕES MASCULINAS ARRÁBIDOS

(Oeiras) foi fundado em 1559, pelos padroeiros Congregação do Bom Pastor, obra de recuperação ordens religiosas, veio a ser adquirido por D. Luís
D. Francisco de Gusmão e sua mulher, D. Joana de de raparigas, que foram conhecidas por “Angelinas” Atouguia, que o doou à Misericórdia, juntamente
Blasbett, aia da Infanta D. Maria e situa-se a um em razão de a casa ter N. Sr.a dos Anjos por padroeira com um notável silhar de azulejos barrocos, que
quarto de légua de S.ta Catarina de Ribamar, junto (O Portugal Antigo e Moderno, vol. 9, diz que a estão bem conservados. Em Verderena, localidade
à foz do rio Tejo. Há autores que consideram ser casa foi comprada pelos Lazaristas, decerto por situada entre Barreiro e Lavradio, foi fundado o
esta a quarta fundação arrábida, cujas instalações ignorância de que Rademaker, ali dado como Convento de Madre de Deus, em 1591, por
receberam benefícios em 1595. A igreja conventual, fundador do Seminário do Barro, era, não lazarista, D. Francisca de Azambuja, viúva de Álvaro Mendes
com sepulturas de gente ilustre da nobreza, era mas jesuíta). Em 1573, foi fundado o Convento do de Vasconcelos. O Convento de N. Sr.a da Boa Viagem
considerada rica. Lá repousam os restos mortais de Divino Espírito Santo, na Mealhada, Loures. Eleito
D. Francisco Manuel de Melo. Os frades tinham o Provincial no tempo do Cardeal D. Henrique, Fr.
privilégio de serem os primeiros autorizados a pedir Baltasar das Chagas agradou-se muito de uma
esmolas e dispunham de um bote para transporte vertente, virada a oriente, junto da então localidade
no rio Tejo. O convento foi vendido, em 1869, a rural de Loures, com bonita vista sobre as marinhas
Eduardo Augusto da Silva Cabral, segundo Conde ou salinas que se faziam na veiga de Frielas, onde
de Cabral. Em 1560, foi erguido no local mais chegavam as marés do Tejo. Obteve o patrocínio de
escondido da Serra de Sintra o Convento de Santa D. Luís de Castro do Rio, fidalgo da casa real (jaz,
Cruz, tendo como padroeiro D. Álvaro de Castro, com sua mãe, na capela-mor da igreja conventual),
filho de D. João de Castro e Vedor da Fazenda de tendo-se lançado a primeira pedra em 1573 e
D. Sebastião. A igreja foi construída, aproveitando procedido à restauração em 1646. O mesmo D. Luís
o côncavo de uma grande lapa, num sítio húmido. doou aos Agostinhos Descalços o Convento da
Para evitarem deslocações dos doentes a Lisboa, os Boa Hora, no Chiado, Lisboa. O Convento do Divino
frades criaram um pequeno hospício na vila de Espírito Santo recebia muitas esmolas, sendo lugar Convento da Madre de Deus da Verderena, Barreiro (AJ)
Cascais. Em Liteiros, Torres Novas, foi fundado o de peregrinação dos peixeiros de Alcântara, que se
Convento de N. Sr. a do Egipto, em 1561, por deslocavam com frequência à Mealhada à compra
D. João de Lencastre. Porém, este lugar da freguesia de sal. A capela é muito bonita, tendo um foi fundado por António Faleiro de Abreu, em 1618,
torrejana de S.ta Maria não agradou aos religiosos, esplendoroso retábulo do Pentecostes do pintor tendo a sua construção sido concluída em 1622.
pelo que o convento viria a ser refundado noutro Bento da Silveira, e outras obras de arte. A partir Inicialmente chamou-se de S.ta Catarina-a-Nova, por
local, com o título de S.to António, em 1590. O de 1728, as casas anexas serviram de hospício à justaposição a S.ta Catarina de Ribamar. A Ordem
Convento de S.ta Maria, em Chaqueda (ou Xaqueda), Ordem Terceira de São Francisco de Loures. A seguir disputou com a Cartuxa a posse da Q. ta de
Aljubarrota, foi fundado, em 1566, pelo Cardeal D. a 1834, o conjunto, vulgo, conventinho foi Laveiras, mas perdeu o processo a favor daquela,
Henrique, junto de uma ermida dedicada a S.ta propriedade do Conde de Tomar, do Marquês de que não tinha ermo perto de Lisboa, enquanto que
Maria Madalena. O convento foi habitado até 1610, Sagres e de Joseph Gellweiler. Adquirido pelo os Arrábidos possuíam diversas casas. O Convento
data a partir da qual a comunidade se transferiu Município de Loures, todo o conjunto (convento, de S.to António, em Leiria, foi fundado, em 1651,
para Chaqueda, ou Casais de Xaqueda, de onde o cerca e igreja) tem beneficiado de grandes obras de por Pedro Vieira da Silva (que seguiu o sacerdócio,
nome popular de Frades da Xaqueda. Também pelo restauro, nele se instalando o Museu Municipal, sendo ordenado Presbítero e eleito Bispo) e D. Leonor
Cardeal D. Henrique foi fundado o Convento de S. embora à volta surjam urbanizações que tendem a de Noronha. Compulsivamente abandonado, em
Miguel, em Gaeiras, Óbidos, em 1569. O convento esconder o venerável edifício. O Convento de N. Sr.a 1834, seria utilizado, desde 1864, como Hospital
encontrava-se, inicialmente, localizado no Arelho, da Conceição, em Alferrara, Palmela, foi construído, Militar. Na igreja conventual, ainda existente e con-
mas os frades consideravam o sítio inóspito e, em 1578, entre as vilas de Palmela e Setúbal, por siderada imóvel de interesse público (Decreto n.º
protestando por causa do frio, requereram um “lugar obra do padroeiro D. Estêvão da Gama, que o fundou 28/82 de 26 de Fevereiro de 1982), salientam-se a
mais salutífero”. Ao desejo acorreram novos com a ajuda dos freires da Ordem de Cristo. Em fachada barroca e o claustro conventual. Em Lisboa,
padroeiros (D. Dinis de Lencastre e mulher, D. Isabel 1584, foi fundado o Convento de N. Sr. a da no Bairro Alto, foi fundado o Convento de S. Pedro
Henriques), que criaram nova casa na sua Q. ta Conceição, na Póvoa de S.ta Iria, Vila Franca de Xira, de Alcântara, em 1672. Como a província desejasse
de Gaeiras (ou Caeiras), vulgarmente dita Q. ta pelos Condes de Pombeiro, numa ermida antes um convento na capital, um benemérito, D. Pedro
dos Freires, em 1601, a qual possuía uma fonte ocupada pelos Jerónimos. O convento, em ruínas, Coutinho, ofereceu um lugar. Contudo, o primeiro
termal. Em Torres Vedras foi fundado o Convento foi reedificado em 1672, por iniciativa de D. Pedro Marquês de Marialva, D. António Luís de Meneses,
de N. Sr.a dos Anjos, em 1570. Fundado na Freguesia de Castelo Branco. Em Santarém, foi fundado o ofereceu um campo e uma ermida, situados acima
de S. Pedro, no sítio do Barro, um lugar solitário em Convento de S. João Baptista (ou do Pereiro), em da casa jesuíta de S. Roque, a caminho do Noviciado
vale profundo e “pouco divertido” segundo um 1590, por D. Catarina de Bragança e D. João de jesuíta da Cotovia (Escola Politécnica) que os
cronista, teve o padroado de Infanta D. Maria, filha Lencastre, no sítio de S.ta Catarina dos Olivais, junto Arrábidos preferiram, dando-se início às obras em
de D. Manuel. Neste lugar do Barro tiveram casas, de uma capela construída em 1469. Foi uma das 1672, poucos anos depois da canonização de Pedro
mais tarde, Franciscanos e Jesuítas. O local inicial mais importantes comunidades arrábidas, chegando de Alcântara, cujo nome foi escolhido para a nova
foi em Matacães, um lugar pantanoso e doentio, a ter uma população de 45 religiosos. Em 1834, só casa. Com o auxílio de outros benfeitores, as obras
pelo que, em 1579, todos os frades morreram de havia um religioso de ordens e um frade leigo. ficaram concluídas entre 1681 e 1685, sendo a igreja
sezões. Por esse motivo, em 1595 o conjunto O convento fundado em 1590, no sítio de Berlé, um belo edifício barroco, ainda em muito bom estado
conventual foi transferido para o Barro e viria a em Torres Novas, deu continuidade ao de Liteiros, apesar da ruína de 1755. Depois de 1834, o conjunto
tornar-se propriedade do Marquês de Valada, que, agora com a invocação de S.to António. Os fun- passou a propriedade da S.ta Casa da Misericórdia
em 1860, o vendeu ao P.e Carlos Rademaker, sj, ali dadores foram Antão Mogo de Melo e sua mulher de Lisboa, que ali instalou uma obra social, o Instituto
se tendo instalado o Noviciado jesuíta, que funcionou D. Ângela Velasco, que doaram, em 1580, uma S. Pedro de Alcântara, no Bairro Alto. Para que se
até 1910. Mais tarde, passou a propriedade da quinta, vasta propriedade. Após a supressão das dissipem dúvidas, importa referir que é corrente

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ORDENS E CONGREGAÇÕES MASCULINAS ARRÁBIDOS

chamar-se à Paróquia de Alcântara, S. Pedro de Papa Clemente XIV, a instâncias do Marquês de


Alcântara, havendo quem julgue ser a paróquia da Pombal, entregou o complexo aos Cónegos
invocação deste santo. De facto não é. Antes do Regulares de Santo Agostinho, em 1771, que ali
terramoto, havia a Paróquia de S. Pedro (Alfama) e tiveram casa e escolas até 1791, dando lugar a um
foi criada outra, nova, do mesmo padroeiro (S. Pedro), período de grande brilhantismo cultural e social. Em
em Alcântara, com uma área transferida da Ajuda 1791, os Cónegos de Santo Agostinho preferiram
e anexa à quase paróquia que havia na zona, da regressar a Lisboa, pelo que os Arrábidos (em número
invocação da N. Sr.a da Boa Morte e da Caridade de 200) voltaram a povoar o Convento de Mafra,
(pequena igreja no L. do Calvário, já destruída). que deixaram pouco menos que desabitado aquando
A Igreja Paroquial de S. Pedro (em Alcântara), das Invasões Francesas. A população tendeu a
construída em 1786, fica na Calçada da Ajuda, mas diminuir a uma média de 40 professos, que lá se
não tem que ver com o monge arrábido. O Convento mantiveram até 1833, ano em que, temerosos da
de S. Cornélio, localizado nos Olivais, então sede
concelhia, foi fundado em 1674, às portas de Lisboa,
entre o actual sítio de Moscavide e o Poço de Bispo,
numa suave encosta virada a sudeste, onde havia
umas ermidas dedicadas a N. Sr.a da Estrela e a S.
Cornélio, tendo sido patrocinado pelo sargento-mor
João Borges de Moraes e sua esposa. Inicialmente,
fora aí construído um hospício de convalescença. O
Claustro do Convento dos Capuchos, Costa da Caparica (AJ)
novo convento, com igreja, foi inaugurado em 1675,
podendo receber 150 habitantes, ainda que só lá
tivessem vivido cerca de 20, embora pareça que, A vida económica arrábida é o corolário da opção
depois de melhoria de cómodos, em 1718, mais pela Regra fransciscana sem mitigação: “Os irmãos
Vista aérea do Convento de Mafra (MG)
frades lá tivessem sediado. No tecto da igreja via-se nada tenham de seu, nem casa, nem lugar, nem
um painel (Anunciação) do pintor Pedro Alexandrino, cousa alguma” (2.ª Regra, cap. 6). A Regra da
que vivia na Póvoa de S.to Adrião e que executou vitória dos Liberais e imitando outras ordens religiosas, província revela grande clareza quanto aos bens
pinturas para várias igrejas do termo de Lisboa, abandonaram o convento, de novo ocupado pelos materiais, porquanto nenhum professo era autorizado
incluindo o retábulo da antiga Igreja de S.to Adrião Cónegos de Santo Agostinho, por breve tempo. a receber moeda, fosse de quem fosse, uma vez
da Póvoa. S. Cornélio era uma popular devoção dos A 30 de Maio de 1834, todo o complexo era que não basta parecer pobre aos olhos do mundo,
saloios, que lhe suplicavam a protecção dos gados, nacionalizado e incorporado na Fazenda Real. Desde mas importa ser pobre aos olhos de Deus; nenhum
pagando as promessas com cornos de cera ou de 1835, a igreja serve de paroquial a Mafra, o paço professo se atreveria a apropriar-se de “cousa
prata. Após a supressão das ordens, a casa conventual tornou-se museu e o convento foi transformado em alguma”, casa ou lugar, devendo antes procurar os
passou a residência da Província de S.ta Maria dos quartel. três graus de pobreza: de corpo, de espírito e, juntas,
Olivais, enquanto que a cerca deveio cemitério, Sem efeito ficaram os projectos, aliás, aprovados pobreza de corpo e de espírito. Pela pobreza de
ainda hoje em utilização. Em 1717, foi fundado o em 1618 e em 1662, para novas fundações em corpo, o monge será mendigo; pela pobreza de
Convento de S.to António, em Mafra. Fr. José de Porto de Mós e em Condeixa (aqui, a pedido dos espírito entende-se a opção pela pobreza voluntária;
Jesus Maria prometeu, Deo dante, na sua Chronica moradores da vila). Além destes conventos, a Ordem a pobreza total chama-se “altíssima pobreza”, porque
[…] da Arrábida, escrever a memória acerca desta criara os principais hospícios (casas de passagem em outras ordens podem ter coisas em comum, mas
fundação, que ele considerava a coroa da província, trânsito apostólico, ou de convalescença para nunca os Menores, que não têm seja o que for, nem
mas não levou a promessa a bom termo. O convento doentes): N. Sr.a da Conceição, Lisboa (1542), onde em comum, nem próprio. Assume-se o princípio da
foi fundado por D. João V, em cumprimento de uma Fr. Martinho chegou a viver; Santarém (1570); N. não-propriedade, não fazendo mais uso das coisas
promessa para haver sucessão. A casa foi projectada Sr.a de Setúbal (1589); N. Sr.a de Azeitão (1646); do que as aves do céu fazem da terra. Qualquer
para 40 religiosos, alargada para 80 e, finalmente, S. to António de Torres Vedras (1646); N. Sr. a da objecto de luxo é irregular – nem “caixas de tabaco
para 300. O majestoso templo, incluído no complexo Assunção de Torres Novas (1662); S.to António de de tartaruga”, nem “lenços de seda”, antes
de que também faz parte o Paço Real, foi dedicado Caldas da Rainha (1663) anexo ao hospital real e preferindo “ordinários de lã, ou algodão”. Nenhum
a Nossa Senhora e a S.to António, na frontaria dele fundado por António Fernão de Castelo Branco, frade dirá “isto é meu”, porque nada é dele.
se contemplando um medalhão em mármore branco, Cavaleiro da Ordem de Cristo; N. Sr.a do Porto Uma comunidade carece de uma Regra ou Estatuto
com uma representação de Maria a entregar o Seguro (Cascais, 1695); e S.to António de Minde e de uma finalidade de vida, mas também carece de
Menino ao Santo. Os arrábidos desejavam muito ter (1733). um lugar onde habitar – primeira e essencial
uma fundação na zona mafrense e, aproveitando a A geografia conventual arrábida situou-se dificuldade, uma vez que a posse de terras e de casas
falta de um filho na família real, Fr. António de São principalmente na Estremadura, principalmente entre era interdita. Para vencer essa dificuldade, os Estatutos
José convenceu o monarca de que um sucessor lhe Setúbal e Leiria, repetindo o carácter estremenho determinaram que todos os conventos seriam
seria dado se erguesse, em Mafra, o convento dedi- que também tiveram em Castela. A principal propriedade de padroeiros, que os emprestariam, sem
cado a S.to António. Não nasceu um filho, mas nasceu jurisdição episcopal foi a do Arcebispo de Lisboa, custos, à Ordem. Esse empréstimo era sempre
uma filha e o rei satisfez o voto. Imediatamente a ficando apenas sob jurisdição de Évora o Convento provisório, com a duração mínima de um ano, pelo
seguir à sagração do templo, a 22 de Outubro de de Salvaterra e sob jurisdição de Leiria o desta cidade. que o guardião de cada convento visitaria o padroeiro
1730, os Arrábidos povoaram o convento com 210 Os Arrábidos ainda ensaiaram a missionação no uma vez por ano, para entregar as chaves, agradecer
frades, número que aumentou para 342 até ao ano Brasil, tendo fundado o Convento de N. Sr. a da o empréstimo e pedir (caso necessário) autorização
de 1744. Poucos mais anos lá estariam, porque o Penha, na capitania do Espírito Santo. para poderem continuar a viver no mesmo sítio.

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ORDENS E CONGREGAÇÕES MASCULINAS ARRÁBIDOS

O rigor não os inibia de uma defesa dos locais que com o terramoto de 1755 e com a incapacidade feitos em favor da decência, tapando o corpo, mas
lhes interessavam. No caso de Ribamar, perto de para fazer obras de reconstrução. Quanto às rendas qualquer pedaço de pano serviria, de onde as notícias
Laveiras, já por ali estadeavam havia uns 17 anos, conventuais, conhecemos verbas de 1828, no de que, à falta de melhor (burel) os frades utilizariam
quando a Ordem da Cartuxa, em 1594, pretendeu seguimento das inspecções levadas a efeito pela outros trapos, a jeito de manta de farrapos. O hábito
obter o direito de fundação de um eremitério na Junta do Exame das Ordens Regulares: de prédios exprimia, em imagem visível, a “evangélica pobreza”.
quinta que a Misericórdia de Lisboa recebera da urbanos, de dízimos e de prédios rústicos, nada Nem mesmo em matéria de cultura o supérfluo se
benfeitora D. Simoa, “preta de S. Tomé”. As duas tiveram; de foros e pensões, 7200 réis; de capelas permitia, cada frade podendo ter na cela apenas o
ordens entraram em conflito, mas os Cartuxos e legados pios, 1 581 560 réis; de juros e tenças, Breviário com as Horas da Liturgia e um ou dois
obtiveram o que queriam, com base no facto de os 36 000 réis; de juros e esmolas ordinárias, incluindo livros de meditação espiritual.
Arrábidos já ali terem duas casas, enquanto a Cartuxa as do Tesouro, 10 197 764 réis; e de donativos das Se o hábito de vestir se vê, o hábito interior – vida
nada tinha na região de Lisboa. Aos padroeiros Casas de Bragança e das Rainhas e do Infantado, ascética – situa-se no domínio monástico, privado.
reservava-se o direito de rescindir o empréstimo dos 162 440 réis, num total de 11 984 964 réis. Quer É a vivência da disciplina e da Regra, complementada,
conventos, cuja construção custeavam, seguindo as isto dizer que os Arrábidos nada possuíam em segundo o lugar, pelos Estatutos próprios. Os
orientações dos frades, uma vez que havia sempre, imóveis, mas bastante em pecúnia, sendo, das Estatutos da Província da Arrábida (publicados em
entre eles, algum mais instruído em arquitectura e congregações capuchas, a que dispunha de maior 1698) desenvolvem-se em 67 capítulos, 21 dos quais
em construção civil. Todavia, não consta que algum rendimento, só suplantada pela Ordem Terceira da dedicados à disciplina interna, Noviciado, tempos
padroeiro tivesse dado ordem de despejo aos Penitência. Quanto aos rendimentos da Ordem em de oração e silêncio. Dos tempos de oração
“inquilinos precários”, pelo que, por sucessão 1834, eram computados ainda no mesmo montante comunitária (Liturgia das Horas, Eucaristia, etc.),
geracional e usufrutuária, a Ordem como que se de 1828. sobressaem as três horas diárias de oração mental
tornou donatária dos lugares e das casas. De resto, Na circunstância de 1834, uns inventários indicam e, das disciplinas com cilício, relevam-se as diárias,
quanto a estas, eram sempre modestas, mais 23 conventos e três hospícios, mas em boa verdade excepto aos domingos e dias santos. Os cronistas
parecendo “cabanas de pastores, que moradas de nem todos eram propriedade adquirida pela Ordem registaram o costume de Pedro de Alcântara fazer
Religiosos”, segundo a descrição de Fr. António da em função do uso. Tenhamos em vista o caso de as três horas de oração mental, dentro do poço do
Piedade. As celas nunca teriam ornatos. Para evitar Mafra, que de modo algum podia ser contabilizado Convento de Palhais. As Eucaristias seriam sempre
posses supérfluas, obrigavam-se os frades a não naquele número. A ideia geral é a de que a por intenção dos benfeitores e padroeiros. Os
fazer objectos de madeira, barro ou cortiça. Por nacionalização dos bens das Ordens em 1834 parcos capítulos 22 e 23 são dedicados ao programa de
cama, tinham uma tábua, de madeira ou de cortiça, rendimentos gerou ao Tesouro. Em todo o caso, Estudos de modo breve, enquanto que uma
e, por travesseiro, uma pedra, e nunca guardariam sempre se poderá confirmar a realidade mediante sequência posterior até ao capítulo 43 abrange o
qualquer louça. Quanto à alimentação, tendo saúde, a consulta dos processos relativos aos conventos hábito, as enfermarias e outros aspectos logísticos.
não podiam comer carne, nem peixe e “muito menos arrábidos (um por um) constantes das Secções do Os restantes capítulos contemplam as hierarquias e
vinho” ou ovos. Em viagem, aceitariam, por gentileza, Ministério das Finanças e do Ministério da Justiça e as responsabilidades.
a comida que lhes fosse dada, podendo até levá-la dos Negócios Eclesiásticos (Feitos Findos, Torre do Os noviços eram, desde o primeiro dia, iniciados na
para o convento, excepto perdizes e galinhas, Tombo). Contudo, noutros mapas do Estado
consideradas “manjares delicados”. Aos doentes era aparecem propriedades urbanas (conventos) em
permitida melhor dieta, incluindo carnes. Quanto nome dos Arrábidos, mas nem todas as informações
aos bons de saúde, comeriam de preferência ervas, são de imediato credíveis, em vista da prática arrábida
cozidas em água com sal. Por ervas, entendamos da não-propriedade.
hortaliças e legumes, por vezes cultivados na cerca As premissas economia/espiritualidade nas ordens
conventual, mas não batata, uma vez que esta cultura religiosas ordenam-se de modo a que a espiritualidade
tão popular só foi introduzida no séc. XVIII. Nem seja a causa da economia, nunca a economia sendo
sempre os frades cuidariam das hortas, o que levou causa da espiritualidade. É esta que decide o perfil
um viajante estrangeiro que visitou o Convento de da economia, a qual evidencia, de forma visível, os
Ribamar a apelidar os frades de “madraços”, por caracteres e carismas da Ordem. Destes caracteres,
ver jardim e horta ao abandono. Vivendo nos campos, o mais visível é o hábito que o professo veste e com
não caçavam e até protegiam a fauna. É lendária a o qual transita pelo mundo. Os religiosos vestiam
gineta que se tornou companhia de Agostinho da um “saco de burel”, de vil pano, comprido até aos
Cruz, na Arrábida, enquanto Fr. André Falcão tornozelos, e, para tapar a cabeça, um capacho ou
mereceu a fama de milagreiro ao ser obedecido capucho de forma oblonga, como o dos frades,
pelas raposas e pelos toiros bravos que pastavam modelo aliás não apreciado pelo Padre Geral dos
na serra. Uma vez que durante a Quaresma não se Franciscanos, que preferiria o tradicional franciscano
acendia o forno, comiam pão (rijo) das esmolas ou, no máximo, o pontiagudo da reforma dos
molhado em água. O azeite, se acaso recebiam Capuchinhos. Nenhum frade possuiria mais do que
Pormenor do Convento dos Capuchos, Costa da Caparica (AJ)
algum de esmola, era, não para comer, mas para o uma túnica com capucho, ainda que, sendo
lampadário do Santíssimo Sacramento. Quanto às necessário, pudesse dispor de outra, mas sem capuz.
uvas, as vinhas estavam proibidas, mas podiam ter À cinta, o cordão branco dos Franciscanos foi vida monástica própria, após terem sido aprovados
latadas, as uvas sendo secas, ou feitas passas. E, da substituído por uma corda, sobre a túnica, mormente nos exames de sangue e de costumes, havendo lugar
Arrábida, uma deslocação a Lisboa só poderia em serviço, usariam um manto ou capa de mangas para a admissão de homens adultos, incluindo frades
acontecer in scriptis, quer dizer, com licença escrita até às mãos e, quanto a calçado, andariam que pertencessem a outras ordens e que desejassem
do custódio conventual. completamente descalços. Sempre que o hábito professar nos Arrábidos. A admissão era possível,
O património construído sofreu grandes depreciações precisasse de ser remendado, os remendos seriam mas sujeita a um requisito processual muito rigoroso.

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ORDENS E CONGREGAÇÕES MASCULINAS ARRÁBIDOS

Nestes Estatutos sente-se o vigor ascético de Pedro como o atribuído aos grupos de Alumbrados, os Círios de N. Sr. a do Cabo, receberam apoio
de Alcântara e de João de Aguila, que puseram a Iluminados e Quietistas. Toda a ascese se concentrava pastoral e foi prestada assistência à respectiva
tónica na unificação dos costumes dos vários na vida penitencial e na busca das origens, pelo que confraria, sem prejuízo da primazia devocional devida
conventos. Os noviços aprendiam tudo quanto Pedro de Alcântara pesou tanto no movimento ao Bom Jesus da Arrábida. Releve-se o pormenor
respeitasse à vocação monástica (por forma a descalço, a começar pela sua primeira discípula, de o costume dos Círios a N. Sr.a do Cabo e da
decidirem, em tempo, o que queriam), a distinguir Teresa de Ávila. Todavia, outros espirituais (Luís de Nazaré se ter radicado e consolidado exactamente
vida profana e vida sagrada, a procurar o caminho Granada, Amador Arrais, Tomé de Jesus, etc.), na Estremadura, região por excelência da milícia
oracional da perfeição, a treinar os métodos de pertencentes a outras ordens, inspiravam a renovação arrábida. Idêntico juízo se predica do culto e dos
oração, a dominar os termos da Teologia Mística e carismática própria do séc. XVII, antes da onda bodos do Divino Espírito Santo, como festas de
a conhecer linha a linha a Regra de S. Francisco. secularista de Setecentos e de Oitocentos. Não há, caridade activa e de partilha, pois é nesta região
Além disso, prometiam cumprir a disciplina, jamais porém, dúvida de que um tempo houve em que os estremenha que tal culto assumiu notória
revelando aos de fora segredos só do interesse da dois principais orientadores da nossa espiritualidade historicidade, mesmo antes do surto açoriano.
província. Ainda aprendiam uma série de orações eram espanhóis (Pedro na Arrábida e Luís de Granada, O culto do Santíssimo Sacramento foi protegido. No
para serem recitadas de cor, sem necessidade de em S. Domingos do Rossio). primeiro quartel do séc. XIX, verificaram-se vários
livro. O calendário cultual arrábido seguia o esquema da desacatos e violações a sacrários, levados a efeito
No essencial, as linhas de vida são as da praxis Ordem dos Frades Menores, entrosando as Festas, por cidadãos que já haviam esquecido o triste
minorita: obediência, pobreza, castidade, despo- Memórias e Solenidades próprias com os da Igreja exemplo do Senhor Roubado de Odivelas, memorado
jamento de possessão de coisas, recusa do supérfluo Universal. Na prática pastoral, souberam valorizar pela Congregação do Senhor de Jesus da Boa Morte.
(“é aquilo que tirando-o, basta o que fica para suprir as devoções populares. Antes de mais, o marianismo, Algumas igrejas arrábidas foram vítimas deste
a necessidade”), a parcimónia da prática de pedir uma vez que a Ordem nascera sob o signo de N. sacrilégio: Torres Vedras (1808); S. Cornélio de Olivais
esmola (apenas em caso de necessidade), a procura Sr.a da Arrábida, à qual Agostinho da Cruz dedicou (1810); Divino Espírito Santo da Mealhada (1826).
da “caridade pura”, a fuga a “suspeitosas com- diversos sonetos, entre eles este: “Oh Virgem Mãe Neste se constitui então uma confraria para desa-
panhias” ou “conselhos de mulheres” e a repulsa de Deus, Senhora minha,/a quem me socorri; por gravar o Sacramento, muito participada por pesca-
pelo pecado, seja ele de que grau for. A autoridade quem chamava,/A quem servir minha alma dores de Alcântara.
primeira era S. Francisco e os seus sucessores. A vida desejava/Nesta Serra do Céu vossa vizinha. Tornar- Os Frades Menores foram, desde os primórdios,
decorria no ermo, com horas comunitárias, mas -me à saudade que me vinha,/Quanto mais interpelados, não para os estudos, mas para a
também serviço apostólico, neste ponto o eremitismo docemente contemplava,/Como com favor vosso caridade evangélica e, como se sabe, só depois da
arrábido diferindo do eremitismo cartuxo, que não caminhava, /Daqui donde mais livre se caminha; Esta fundação dos Minoritas, S. Francisco de Assis aceitou
tem vida apostólica fora da Cartuxa, nem recebe terceira vez que determino/(Se Vós assim também introduzir os estudos na Ordem, em vista das
confitentes. determinais) Sem mudança fazer a sepultura,/Mostrai- necessidades pastorais da mendicância. O menor
A serra da Arrábida deveio lugar de peregrinação, -vos liberal de amor Divino,/Arça neste meu peito interesse pela cultura intelectual manteve-se nas
sendo procurada por pessoas que lá se dirigiam, tanto mais,/Quanto mais vos dotou de formosura.” aulas espiritualistas e ressurgiu nos movimentos de
não em grupos que iriam perturbar a disciplina A devoção pela imagem de N. Sr.a da Arrábida era descalcez. Ainda que fosse escritor e pensador de
eremítica, mas solitárias, em busca de cura moral e tal, que uns a queriam no convento, outros na admirável envergadura, Pedro de Alcântara prezava
de exercício em vida de perfeição. Foi esse o caso ermida, onde veio a ficar, pois das três vezes que mais – e outros co-fundadores como ele – a vida
de Agostinho da Cruz, que acabaria por lá professar, de lá a tiraram, a imagem, milagrosamente, voltou penitente do que a curiosidade erudita. Tanto explica
e, entre os mais, temos as notícias relativas ao jurista à ermida, dando sinal de que aqui era a sua real que, nos primeiros anos, os Arrábidos não tivessem
e poeta camoniano Fernão Rodrigues Soropita (m. morada. As grandes procissões devocionais, como estudos internos. Só em Janeiro de 1671, no
c. 1606), que depois de se converter, fez penitência provincialiato de Fr. Basílio da Conceição, o Capítulo
no ermo arrábido. Outros penitentes procuravam da Ordem, reunido no Hospital Real de Caldas da
cura de alma nos conventos de outros locais, embora Rainha, decidiu abrir um curso de Filosofia, o qual
o da Arrábida fosse o preferido. Aliás, os conventos serviria de propedêutico a Teologia, com a duração
promoviam a fundação, junto deles e neles sediada, de sete anos (seis de estudo especulativo e um ano
da Ordem Terceira de São Francisco, destinada a de Teologia Moral). Até essa data, a Ordem satisfazia
leigos e também a sacerdotes seculares que à pastoral e à pregação com frades já letrados, tanto
desejassem viver a espiritualidade franciscana segundo os que eram arrábidos como os que vinham de
o estado, sem votos de vida consagrada. Esta Ordem outras províncias instituídos como pregadores, mas
Terceira, promovida não apenas pelos Arrábidos, tanto uns como outros eram cada vez menos, pois
mas por toda a família franciscana, veio a radicar e a morte os ia levando pouco a pouco. No entanto,
a consolidar a óbvia faceta do franciscanismo popular e ainda que o Capítulo houvesse aprovado o Estudo
português, importante vector da piedade popular. Filosófico, proposto por Fr. João das Chagas, “amante
Terceiros penitenciavam, em retiro, nos diversos das letras”, não havia quem se resolvesse a aceitar
conventos, sobretudo na época quaresmal. a regência do estudo, o que levou os Arrábidos a
Os escritos espirituais dos Arrábidos, e sobretudo entregar esse ministério aos capuchos da Província
os de Pedro de Alcântara eram lidos e influenciavam de S.to António, tendo matriculado 18 estudantes
a praxis de muita gente. O Tratado de La Oración, (nove já presbíteros e nove coristas). Dos sacerdotes,
publicado bem cedo em Lisboa, seria traduzido para alguns já eram guardiães, mas renunciaram ao cargo
a nossa língua pelo P.e António de Araújo e seria para seguirem os estudos.
objecto de várias reedições, exercendo influência, A modéstia dos Estudos foi compensada pelo número
por vezes suspeita, de tendências de exagero místico, Convento da Arrábida (SMA) de vocações de candidatos já formados e com

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ORDENS E CONGREGAÇÕES MASCULINAS ARRÁBIDOS

interesses intelectuais, e não impediu a formação, Machado (Bibliotheca Luzitana, vol. IV, p. 475).
nos vários conventos, de valiosas livrarias. Os Citando a esmo, têm perfil definido: André da
inventários de 1833-1834, relativos aos bens de Natividade (m. 1684), ritualista; Bernardino de Jesus
cada comunidade, são expressivos quanto às (m. 1609), poeta; Braz do Espírito Santo (m. 1638),
existências bibliográficas, sendo particularmente teólogo e pregador do Convento de Ribamar; Filipe
importantes as do Convento de S. Pedro de Alcântara da Purificação (m. 1613), teólogo e historiador da
de Lisboa, com 12 000 volumes, e a de Mafra, com Ordem; Francisco da Cruz (m. 1681) de Alferrara,
cerca de 40 000 volumes. É certo que esta, mantida pregador e ordenador dos Estatutos da província;
a seguir a 1834, por sua vinculação à Biblioteca Jácome Peregrino (m. 1648), pregador; João José
Régia, também recebeu os contributos dos Cónegos do Prado, liturgista e historiador, muito ligado a
Regrantes Agostinhos enquanto residiram no Mafra; João da Madre de Deus (m. 1625), exegeta
convento mafrense, onde os livros se guardavam do pensamento de S. Boaventura e vário escritor;
num luxuoso salão, com muitas obras de arte, e João das Neves e Rodrigo de Deus, moralistas; José
sempre a comunidade dispondo de frades copistas de Jesus Maria (m. 1752), historiador e Superior da
e encadernadores. De um modo geral os acervos Comunidade do Espírito Santo da Mealhada; António
de livros datam de entre os sécs. XVI e XVIII, da Piedade (m. 1731), o principal cronista juntamente
abundando o Direito Canónico, a Filosofia, a Política com o anterior; o sermonista José da Purificação; o
e a Teologia em suas várias especialidades, etc. Todas cronista Luís da Ascensão; o diuturno pregador
as demais livrarias foram dispersas a seguir a 1834, Manuel de Santo António Dorotheu, da comunidade
achando-se em diversas instituições. Idêntico juízo de Xaqueda, cujos sermões foram impressos em seis
é aferível ao património artístico, bastando o exemplo volumes; o místico barroco Manuel das Chagas (m.
de S. José de Ribamar, de onde foram subtraídos 1637); o bibliotecário de Mafra, Matias da Conceição;
26 quadros de pintura religiosa. Não faltaram na o mestre de oração Pedro de Santo António (m. S. Pedro de Alcântara, Convento da Madre de Deus
Ordem os escritores e, sobretudo, os orientadores 1641); o moralista Sebastião da Conceição (m. 1696), da Verderena, Barreiro (SMA)
de piedade e os pregadores. Relativamente à música, cujos Exercícios Espirituais ainda eram reeditados
os conventos arrábidos não usavam órgão e, rezando em 1749; o mestre de noviços e liturgista Tomás de
muito, cantavam pouco. No entanto, visando motivar Cantuária; etc. Do Episcopológio, fazem parte, entre que revelam como “mal se pode escrever o que se
os fiéis populares, alguns frades introduziram o outros, Hilário de Santa Rosa, Bispo de Macau, que sente/No meio do silêncio sepultado/Consumido de
costume da entoação de jaculatórias cantadas a elaborou um projecto para a conquista da China a amor em fogo ardente”. A sua obra poética só foi
duas e três vozes, imperfeita imitação do cantochão, partir daquele território; Silvestre de Maria Santíssima, tornada pública muito depois da sua morte, em
a que se chamou capuchas. No tempo de D. João Bispo de Cabo Verde; António de Pádua (de quem Coimbra, no ano de 1771, embora no primeiro
V, o mestre cantor João Jorge (D. Giovani Giorgi) se sabe ter morrido depois de 1805), Bispo do volume da Chronica da Arrábida se registem algumas
ensinou os frades a cantar e fez o aproveitamento Maranhão; Joaquim de Nossa Senhora da Nazaré das produções poéticas. Sendo um dos mais
do cantochão figurado, que se fixou na música com (m. 1823), Bispo de Moçambique e depois do singulares poetas de Quinhentos é, pelo mesmo
o nome de “Canto Capucho”, chegando a influenciar Maranhão, que recusou jurar a independência do motivo, singular mestre de espiritualidade ascética
as melodias profanas, como as “modas de terno”. Brasil, pelo que regressou a Portugal; Caetano de e mística, cujo exemplo de vida serviu, mesmo depois
Só o canto gregoriano, importado da Abadia de Nossa Senhora do Pópulo, Bispo de S. Tomé; o da morte, através dos seus escritos.
Solesmes (Bélgica) travou o progresso desse canto mafrense Manuel de São Gualdino, Bispo no Oriente;
capucho, de origem portuguesa, popular e e Francisco de Nossa Senhora da Luz Chacin, Bispo BIBLIOGRAFIA: Manuscrita: Carta Regia ao Dr.
devocional. de Macau, entre outros. Anastácio Ferreira Raposo para ir a Mafra tratar da
Numa instituição que durou cerca de três séculos, De mais histórica visibilidade são, porém, os nomes Restituição dos Arrabidos ao Mosteiro daquela Villa,
e apesar de a sua implantação ser mais regional do de S. Fr. Pedro de Alcântara e de Fr. Agostinho da Ms., BNP, Cód. 800; Contas Correntes de Objectos
que nacional, o número de figuras ou de Cruz. Pedro de Alcântara (1499-1562) era castelhano, Preciosos, Ms., BNP, Res. 419A; DEOS, António da
personalidades históricas é elevado, sendo iden- mas deixou fundo rasto em Portugal, como Madre de, Descripçam do Convento e Fundação da
tificadas nas crónicas institucionais muitas daquelas organizador da província e como mestre espiritual, Arrábida, Ms., BNP, Cód. 6988; História dos
que marcaram, quer pelo desempenho de funções, tendo sido canonizado em 1669. Veio a Lisboa uma Mosteiros, Conventos e Casas Religiosas de Lisboa,
quer por terem deixado testemunho de pensamento primeira vez, a convite de D. João III, para exercício Ms., BNP, Cód. 145; Modo de Celebrar o Capítulo
e de acção. Há nomes que se mantiveram discretos, de direcção espiritual, e voltou pouco depois para Provincial, Ms., BNP, Cód. 6277; MONTEIRO, Inácio,
nas suas vidas de perfeição ascética, alguns deles co-fundar a Arrábida. O seu Tratado de la Oración Descripçam da Arrábida, Ms., BNP, Cód. 8767;
memorados por sinais de santidade, e muitas figuras seria editado pelo impressor João Belávio de Colónia, Origem e Formação da Província da Arrábida de
ganharam um rosto visível, fosse porque deixaram em Lisboa, em data incerta da segunda metade do Portugal, Ms., BNP, Cód. 68; PEREIRA, Luís Gonzaga,
obra escrita, ou porque deixaram documento de séc. XVI. Fr. Agostinho da Cruz (1540-1619), que Monumentos Sacros de Lisboa em 1833, Ms. il.,
acção apostólica. Por via de regra, nas ordens no século se chamou Agostinho Pimenta, sendo BNP, Cód. 215. Impressa: ABREU, António Graça de,
religiosas, os nomes de maior visibilidade são os dos irmão de outro notável poeta (Diogo Bernardes), “Macau: o Arrábido Mafrense Fr. Hilário de Santa
escritores, ou dos bispos, ou dos ascetas e professara a vida capucha no Convento de S.ta Cruz Rosa e o seu fantástico plano para a conquista da
missionários, cujo elenco pode ser verificado nas (Sintra, 1561), mas, por volta da idade de 65 anos, China”, in Boletim Cultural 92, Mafra, s.n., pp. 197-
Crónicas, embora as da Arrábida só atinjam os decidiu professar na Arrábida para se entregar à -207; ALMEIDA, Fortunato de, História da Igreja em
começos do séc. XVIII. Em termos de escritores, que vida eremítica até à morte. Poeta do sofrimento Portugal, Ed. Damião Peres, vol. II, Porto, Livraria
viveram até meados do séc. XVIII, o elenco acha-se interior, exprimiu toda uma funda sensibilidade Civilização, 1968; Arrábida: Publicação Comemorativa
também registado, na obra de Diogo Barbosa saudosa em elegias e em sonetos de clássico lavor, da Festividade Celebrada pelo Antigo Círio de Setúbal,

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ORDENS E CONGREGAÇÕES MASCULINAS BAPTISTAS

Set., Tip. A. Mascarenhas, 1896; A ZEVEDO , J. C., São José do, Monumento Sacro (Mafra), Lisboa, os cursos, retiros e ajudavam na formação dos futuros
Inventário Artístico de Portugal Ilustrado: Estremadura, Miguel Deslandes, 1751; PROENÇA, Raul, Guia de missionários de S. João Baptista. Em 1924, padres
Lisboa, Nova Gesta, s.d.; BARATA, Paulo J. S., Os Livros Portugal, vols. 1 e 2, Lisboa, Fundação Calouste e irmãos começaram a orientar um lar para homens,
e o Liberalismo: Da Livraria Conventual à Biblioteca Gulbenkian, 1983-1988; Real Collegio de Mafra: em Berlim. A 2 de Maio de 1927, o P.e Haw fundou,
Pública, Lisboa, BNP, 2003; B ARATA , Paulo J. S., Estatutos, Lisboa, Imp. Régia, 1781; Rede Museus em Leutesdorf, a Escola Apostólica da União de S.
“Admissão dos Noviços Arrábidos”, in Boletim Cultural de Loures, n.º 1, Loures, 2004, pp. 19-20; RIBEIRO, João, destinada a preparar rapazes para futuros
94, Mafra, s.n., pp. 79-85; BECKFORD, William, Diário Aquilino, Oeiras, Lisboa, Imp. Portugal/Brasil, 1940. membros da Congregação. Em 1932, a escola passou
de […] em Portugal e Espanha, Trad. port. de João para Mainz com o nome de Lar de S.ta Teresinha.
Gaspar Simões, 2.ª ed. rev., Lisboa, BNP, 1983; CASTRO, JESUÉ PINHARANDA GOMES Um dos primeiros missionários foi o Ir. Hermann que
João Bautista de, Mappa de Portugal Antigo e entrou para o lar com 17 anos e, durante o Nazismo,
Moderno, t. II, 3.ª ed. rev., Lisboa, Tip. do Panorama, esteve num campo de concentração.
1870; CRUZ, J. Luís da, O Convento dos Capuchos BAPTISTAS Organicamente, a Congregação tem um Conselho
da Costa da Caparica, Cacilhas, Gráfica do Sul, 1954; Os Baptistas, canonicamente denominados Geral com cinco membros, dos quais o Superior
DIAS, J. S. da Silva, Correntes do Sentimento Religioso Missionários de São João Baptista (MSJB), são uma Geral que se encontra na sede. De seis em seis anos,
em Portugal (Século XVI a XVIII), vol. I, 2 t., Coimbra, congregação religiosa de Direito Diocesano, integrada decorre o Capítulo Geral dos Missionários, em
Universidade de Coimbra, 1960; Estatutos da Província na União de São João (Irmãs de São João Baptista Leutesdorf, que reúne todos os membros, padres e
de Santa Maria da Arrábida […] aceites e aprovados e de Maria Rainha). Fundada pelo P. e João Haw irmãos, a fim de fazerem o balanço das actividades
pelo Capítulo […] em S. José de Ribamar, 6 de Julho (1871-1949), a Congregação foi erigida canoni- e elegerem os novos Superiores. Na Alemanha e na
de 1697, Lisboa, Miguel Deslandes, 1698; GAMA, camente a 6 de Maio de 1948, e tem por divisa
Luís Filipe Marques da, Palácio Nacional de Mafra: “anunciar os caminhos do Senhor” em conformidade
Roteiro, Mafra, Elo, 1985; G ANDRA , M. J., O espiritual com o seu patrono S. João Baptista. O
Monumento de Mafra de A a Z, vol. I, Mafra, Câmara carisma e a missão abrangem as vertentes socio-
Municipal de Mafra, 2002; Guias Panorama: N.º 7 caritativa (acolhimento dos sem-abrigo, margi-
– Setúbal, Lisboa, s.n., s.d.; HELME, Ervino, S. Pedro nalizados, alcoólicos) e de apostolado (formação de
de Alcântara: Mestre e Exemplo de Místicos, Trad. leigos, retiros, cursos, encontros, publicações dirigidas
port. de Vasco Cabral, Lisboa, Paulistas, 1963; INSTITUTO ao aprofundamento da Fé). Actualmente, a
DOS ARQUIVOS NACIONAIS/TORRE DO TOMBO, Inventário: comunidade, com sede em Leutesdorf, na Alemanha,
Ordens Monástico Conventuais, Lisboa, TT, 2002, continua a empenhar-se em actividades pastorais e
pp. 356-362; J ESUS M ARIA , José de, Chronica da de carácter social.
Província de Sancta Maria da Arrábida, t. II, Lisboa, O P.e João Maria Haw tinha fundado, em 1919, um
José António da Silva, 1737; JESUS MARIA, José de, sanatório de alcoólicos a que deu o nome de Lar
Instruçam de Noviços da Província de Nossa Senhora de S. João. A partir de 1921, começaram a aparecer
da Arrábida com que […] o Padre Martinho de Santa os primeiros candidatos a irmãos e alguns sacerdotes
Maria […] os educava no Caminho da Perfeição, para colaborar na Obra. Os sacerdotes orientavam
Lisboa, José Lopes Ferreira, 1716; LEAL, Pinho, Portugal
Antigo e Moderno, 12 vols., Lisboa, Tip. Matos
Moreira e Tavares Cardoso, 1873-1890; LIMA, Durval Logótipo da Congregação (I)
Pires de (ed.), História dos Mosteiros, Conventos e
Casas Religiosas de Lisboa, 2 vols., Lisboa, Câmara
Municipal de Lisboa, 1972; LOPES, F. Félix, “Influência Índia, a administração geral é comum com as Irmãs
de S. Pedro de Alcântara na espiritualidade portuguesa de São João Baptista e de Maria Rainha.
do seu tempo”, in Revista Portuguesa de História, Actualmente, o Instituto conta com cerca de meia
n.º 6, 1964; MACHADO, Diogo Barbosa, Bibliotheca centena de Missionários, na Alemanha, Portugal,
Luzitana, Ed. de Lopes de Almeida, 4 vols., Coimbra, Moçambique (Nampula) e na União Indiana (Estado
Atlântida Editora, 1967; N ATIVIDADE , André da, de Kerala), onde têm duas casas de formação.
Cerimonial ou Ritual para uso dos Frades da sua Os Missionários de São João Baptista chegaram a
Província, Lisboa, H. V. Oliveira, 1659; P EREIRA , Portugal em 1956 (padres, irmãos e também irmãs).
Fernando Jasmins et alii, “Bens”, in Dicionário de Instalaram-se numa velha casa denominada Vila
História da Igreja em Portugal, vol. 2, Lisboa, Ed. América, em Gouveia. Uma das primeiras iniciativas
Resistência, 1983, pp. 424-751; PEREIRA, Luís Gonzaga, foi a compra de uma tipografia, surgindo depois a
Monumentos Sacros de Lisboa em 1833, Ed. de A. Escola Apostólica de Cristo Rei para formação cristã
Vieira da Silva, Lisboa, BNP, 1927; PERESTRELO, Dulce, de jovens (hoje casa de acolhimento pastoral e
A Serra da Arrábida e o Seu Convento, Lisboa, espiritual). Mais tarde foi fundado o Centro P.e Haw,
Santelmo, 1952; PIEDADE, António da, Chronica da em Lisboa, na R. Ginestal Machado, que, além de
Província da Arrábida, t. I, Lisboa, José António da outras actividades, funciona como casa de formação
Silva, 1728; PIMENTEL, Alberto, História do Culto de dos membros da União de São João Baptista.
Nossa Senhora em Portugal, Lisboa, Guimarães Ed., Dedicam-se a acções pastorais nas paróquias da
1899; PORTUGAL, Fernando, MATOS, Alfredo, Lisboa região e colaboram em encontros de formação e
em 1758: Memórias Paroquiais de Lisboa, Lisboa, espiritualidade para leigos. Em Portugal, publicam
Câmara Municipal de Lisboa, 1974; PRADO, João de P.e João M. Haw (I) os Caminhos Novos, um periódico trimestral que

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ORDENS E CONGREGAÇÕES MASCULINAS BENEDITINOS

serve de boletim informativo das actividades das a firmeza, a placidez, o pragmatismo e o asceticismo; ao acolhimento e cuidado de outros. Esta planta
congregações que formam a União de São João. uma fisionomia propícia à realização de acções elementar delineada na Regra (RB, cap. 52-53)
Desde há uns anos que desenvolvem trabalho fecundas; uma fisionomia admirável dado o contexto introduz e fixa a concepção de mosteiro como espaço
missionário em Moçambique (Nampula). histórico em que nasceu e viveu – a fase moribunda espiritual relacional, irredutível a uma mera economia
do Império Romano. espacial de religação viática. A configuração do
BIBLIOGRAFIA: Anuário Católico de Portugal 2007, S. Bento nasceu por volta do ano 480, em Núrcia edifício reflecte admiravelmente a vivência simples
[Lisboa], Secretariado Geral da Conferência Episcopal (próximo da cidade italiana de Spoleto), quando as da grandeza decorrente da possibilidade de o ser
Portuguesa, 2007, p. 851; Caminhos Novos, Gouveia, instituições do Império Romano estavam a ser humano usufruir de vários níveis intercomunicantes
Ed. Escola Apostólica de Cristo Rei, 1988-2004; desfuncionalizadas por sucessivas vagas de invasores de encontro. Por conseguinte, S. Bento foi, na plena
FRANCO, José Eduardo, “Baptistas”, in Carlos Moreira e por violentas disputas sucessórias. Em 476, Odoacro consciência dos princípios cristãos, um homem da
Azevedo, Dicionário de História Religiosa de Portugal, desferiu-lhes o golpe de misericórdia ao conquistar instituição comunitária e um organizador que se
vol. A-C, [Lisboa], Círculo de Leitores/Centro de Roma. Foi nessa Roma, reduzida a identidade entregou ao desafio de reconfigurar a tradição
Estudos de História Religiosa da Universidade Católica simbólica, que se instalou na juventude para começar monástica. Tais características aproximam-no dos
Portuguesa, 2001, p. 181; GOMES, Manuel Saturino os estudos liberais. Mais tarde, estimulado por uma seus grandes contemporâneos – Boécio (c. 475-
da Costa, scj, et alii, Vinde e Vede, Lisboa, Paulinas, forte moção religiosa, abandonou Roma e retirou- -524/526), Cassiodoro (514-584), Cesário d’Arles (c.
1994, p. 137; OSÓRIO, Margarida Maria, O Seu Nome -se para Enfide (Affila), localidade montanhosa perto 470-543) e Martinho de Dume (c. 518/528-c. 580).
era João, Gouveia, Edição “Caminhos Novos”, 1997; de Subiaco. Seguiu-se a opção pela radicalização da Todos eles, posicionados no limiar histórico fixado
SCHULTHEIS, Joseph M., sj, Novena a Pedir a Intercessão experiência eremítica, refugiando-se numa gruta que entre o mundo antigo e o medieval, propício à
do Servo de Deus Padre João Maria Haw, Leutesdorf/ habitou solitariamente de acordo com a longa desagregação ininteligível e à perda dos universais
Gouveia, edições da União de S. João, 1980. tradição dos Padres do Deserto. Três anos depois horizontes de demanda, tiveram, diversamente, o
começou uma definitiva vida cenobítica, primeira- apurado sentido de salvaguardar instituições e persistir
ILDA MARIA A. S. SOARES DE ABREU mente no mosteiro dedicado a S. Cosmado, perto na vitalização dos saberes e ideais. O círculo relacional
de Vicovaro. de S. Bento inclui Escolástica, tida como sua irmã,
com quem mantém diálogos religiosos e vive na
BENEDITINOS proximidade. A relação entre irmão e irmã ganharia
A Ordem de São Bento (Ordo Sancti Benedicti – força simbólica originando eremitérios e cenóbios
OSB), comummente conhecida por Beneditina, resulta de mulheres ou comunidades duplas, isto é, incluindo
da reunião de comunidades monacais católicas os dois géneros.
obedientes à Regra de S. Bento de Núrcia (Regula S. Bento morreu no ano de 547. A iconografia
Benedicti – RB), composta no séc. VI. Identificada descreve-o a segurar o livro da Regra ou, inspirando-
pela Regra, a referência à Ordem remete decisiva- -se nos Diálogos de Gregório Magno, recorre
mente para o autor a quem é atribuída e para o criativamente à imagem do taumaturgo, associando-
contexto histórico em que foi produzida. A expressão -o ora ao cálice quebrado, ora ao corvo com um
Ordo Sancti Benedicti apareceu tão-só no séc. XIII pão na boca. Cálice e corvo remetem para as
para designar a observância dos mosteiros que, não Mosteiro de Montecassino, Itália (CLS) lendárias tentativas de envenenamento a que esteve
pertencendo a Cluny ou a Cister, seguiam a Regra sujeito e fixam a sua capacidade de descortinar a
de S. Bento. No ano de 529, fixou-se em Montecassino, no local subtileza e imprevisibilidade do Mal, vencendo-o.
onde se situara um templo dedicado a Apolo. Em Neste quadro, em que o Mal sub-repticiamente
1. Vida de S. Bento. S. Bento foi redactor de uma sua substituição e aproveitando as ruínas, construiu espreita a humanidade, fica o essencial e duradouro
Regra comunitária promotora de vivência espiritual, a Capela de S. Martinho e um oratório em honra da mensagem: a certeza da sua fé e o profundo
à qual se prendem as sobejamente conhecidas noções de S. João Baptista, dando origem ao núcleo refe- conhecimento que possuía da natureza do ser
de ora e labora. Em torno dela se configurou o rencial de todo o monaquismo ocidental. A iniciativa humano. A representação mais antiga é a de um
monaquismo ocidental e se radicou a ideia cristã de de S. Bento beneficiou do período de relativa acalmia fresco nas catacumbas de S. Ermete, em Roma.
equilíbrio entre vida activa e contemplativa. A Regra político-social e de delicada tolerância religiosa Outra imagem significativa do santo remonta ao
constituiu o primeiro elemento de remissão biográfica mantidas pelos governos de Teodorico, Eutarico e séc. XII, em estilo bizantino, e representa-o de hábito
e a sua extraordinária projecção social e cultural é Atalarico, Reis ostrogodos de confissão ariana. Tal com uma cruz na mão. A cruz assinala o gesto de
indicativa da estatura humana do seu redactor. ambiente possibilitou-lhe a criação de segundo persignação a que recorria para, juntamente com a
A biografia de S. Bento tem como fonte os Diálogos mosteiro em Terracina, dedicado a S.to Estêvão. Este oração, vencer as ciladas do Mal. As palavras da
(Dialogi, II) de Gregório Magno (540-604), Papa que desdobramento foi determinado pela crescente oração estão gravadas numa medalha em forma de
adoptou a Regra e dela fez uso para reformar e vontade manifestada por muitos quer em participar cruz, também denominada Medalha Milagrosa ou,
estabilizar a vida religiosa no momento incoativo da com S. Bento na vivência religiosa, quer em dar por antonomásia, Medalha de S. Bento. Conhecida
Idade Média. O livro II dos Diálogos constitui uma seguimento à exemplar missão evangelizadora de como objecto de veneração desde o séc. XII, o registo
digressão hagiográfica, cujo carácter histórico tem Cristo. Se Montecassino se impôs por ser o primeiro gráfico mais antigo data do séc. XIV, tendo sido
sido questionado devido ao peso das narrativas núcleo do monaquismo da linhagem beneditina, aprovado por Bento XIV, no dia 12 de Março de
miraculosas fornecidas pelos monges que Terracina destacou-se como modelo de construção 1742. No anverso da medalha, onde está repre-
conheceram pessoalmente o santo (Constantino, funcional e simbólica da Santa Humanidade em Jesus sentado o santo, lê-se no debrum circundante a
Simplício, Honorato e Valentiniano). As investigações Cristo. A planta gizava três espaços essenciais, inscrição latina impetratória Eius in obitu nostro
históricas e a hermenêutica textual têm permitido traduzindo uma realista inteligentia fidei: a igreja, praesentia muniamur (“Sejamos protegidos pela sua
balizar datas, apurar factos e preencher lacunas, restrita à prática orante; o refeitório, reservado ao presença na hora de nossa morte”). No reverso, a
porém o essencial da fisionomia permanece intocado: fortalecimento do corpo; a hospedaria, lugar aberto medalha repete o debrum e no espaço interno tem

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ORDENS E CONGREGAÇÕES MASCULINAS BENEDITINOS

desenhada uma cruz de braços regulares. A carga do Ocidente devido ao respeito e admiração pela suscitadas e deixadas inconclusas não impedem que
alfabética é muito forte, pelo que em cada um dos influência do seu magistério, sedimentado na Regra se carreiem os factos contextualizadores.
quatro ângulos formados pelos braços da cruz está monástica que criou. O título de Pai da Europa, não S. Bento, quando a certa altura teve de delinear as
golpeada uma das seguintes iniciais maiúsculas: desligado do anterior, reconhece o poderoso impulso coordenadas para a vida em comum, dispunha de
CSPB, que significam Crux Sancti Patris Benedicti dado ao desenvolvimento cultural medieval a partir uma tradição normativa proveniente dos Padres do
(“Cruz do Santo Patriarca Bento”). No interior da de vectores como organização e unidade, ambos Deserto e do próprio cenobitismo italiano, como
cruz, no braço vertical, registam-se as maiúsculas embebidos na Regra e largamente inculcados por parecem ser a Regula Orientalis (PL 103, 477-484)
CSSML, que iniciam as cinco palavras da frase Crux vários beneditinos ilustres. À sua acção se deve uma e a Regra de Eugípio (Isidoro de Sevilha, Vir., III. 26).
Sancta Sit Mihi Lux (“A cruz santa seja a minha certa identidade da realidade europeia, suportada Três nomes se impunham: S. Pacómio (292-346),
luz”); no braço horizontal encontram-se as maiúsculas pela íntima afinidade entre vida cultural livre, a partir por ser a primeira figura legisladora, S. Basílio (m.
NDSMD, equivalentes a Non Draco Sit Mihi Dux (“o da razão autónoma, e vida espiritual, fixa num fim 380), redactor de um conjunto de normas florilégicas
Dragão não seja o meu guia”). No debrum da conscientemente director. Este título – Pai da Europa muito divulgadas, traduzidas para latim por Rufino,
medalha figuram as letras VRS – NSMV – SMQL – – está declarado na Encíclica Fulgens radiatur de Pio e S. to Agostinho, que também delineara normas
IVB, que pronunciam uma admoestação exorcizante: XII, publicada a 21 de Março de 1947, por ocasião cenobíticas apreciadas (De opere monachorum e
Vade Retro Satana! – Numquam Suadeas Mihi Vana! da celebração do 14.º centenário da morte do santo Epístola 211). Se S. Bento conhecia directamente os
– Sunt Mala Quae Libas – Ipse Venena Bibas (“Retira- (Mensageiro de S. Bento, pp. 131-146), e foi textos disponíveis, servindo-se deles como fonte, ou
-te, Satanás!” – “Não me aconselhes loucuras!” – decretado várias vezes em documentos que o boletim se deles apenas tinha informação, nada se sabe.
“São Maldades o que me apresentas” – “Tu mesmo do Mosteiro de Singeverga deu conta em tradução Certo é que avançou para a composição de um texto
bebe esses venenos”). portuguesa. Destaca-se a homilia de Pio XII, capaz de garantir a indissolubilidade entre as
Na actualidade, o mesmo formato de cruz, pronunciada na Basílica de S. Paulo a 18 de Setembro ocupações contemplativa e activa, de assegurar uma
diversamente estilizada, serve de base ao logótipo de 1947. Aí se afirma solenemente que “São Bento digna autonomia para a comunidade e de exprimir
identificador de cada congregação beneditina. Em é verdadeiramente o Pai da Europa” (Mensageiro o ideal de vida cristã em quaisquer das tarefas
Portugal, a antiga devoção popular ao “milagroso de S. Bento, pp. 227-231), pois projectou um futuro rotineiras ou urgentes da vida quotidiana. A intenção
S. Bentinho” continua e testemunha-se com roma- efectivo e estabeleceu linhas estruturantes da pedagógica e o pragmatismo são evidentes e partem
gens e novenas feitas nos centros de S.to Tirso, Vairão, morfologia cultural. De referir ainda o discurso de de dois pressupostos: primeiro, fornecer um regu-
Rio Tinto ou Ermelo, e nos santuários de Seixas do Paulo VI feito na cerimónia de sagração da restaurada lamento que facilitasse a vida a todos os que, em
Minho, Rio Caldo, Gavieira (Cando), Vizela e Basílica de Montecassino a 24 de Outubro de 1964, regime comunitário, se votassem à prossecução de
Alandroal, no Alentejo. Invocações como “S. Bento proclamando-o Padroeiro e Protector da Europa um ideal comum enraizado na mundividência cristã;
durante o período da Guerra Fria, período de latente segundo, aprender a lidar com problemas concretos
ameaça disruptiva. sem se enredar em fascínios perfeccionistas ou
A Festa de S. Bento, celebrada a 21 de Março, angelicais.
apareceu pela primeira vez em Ripon, no Mosteiro Sem perder a função instrumental nem o sentido
de Wilifrido, em 704, e também está indicada no soteriológico que a embebe, a Regra dirige-se a dois
martirológio de Beda, datado entre 725 e 731. destinatários bem definidos – os regrantes e a
instituição – e opera a duas dimensões: directiva
2. Regra de S. Bento e sua problemática. S. ascética e disciplina governativa. O cristocentrismo
Bento, devotado construtor de mosteiros referenciais, constitui o eixo teológico da Regra, determinando
foi hábil artífice da Regra. Contudo, a sua autoria, a piedade e o caminho de acesso ao mistério da
originalidade e datação têm recorrentemente sido realidade e à salvação, por um lado, e, por outro,
debatidas. Que S. Bento tenha escrito uma Regra dando inteligibilidade à vontade incondicionada de
em lingua vulgaris, facto fornecido pelo Papa seguir Cristo (militia Christi Regis). Escrita com clareza,
Gregório Magno, está fora do debate, mas se decal- é constituída por um prólogo, espaço para
cou ou não partes do texto da anónima e extensa apresentação da motivação e finalidade, e por 73
(RB, cap. 94) Regra do Mestre (Regula magistri), capítulos com pontos integrados. O prólogo articula
como desde 1938 questionam os investigadores em as dimensões do acolhimento, da escuta e
vasta literatura, permanece em aberto. A similitude advertência, realçando assim a pujança da pedagogia
expressa no conteúdo e na forma impôs formular espiritual que as palavras iniciais expressam
a questão da mútua dependência e prioridade de convidativamente (Venite, filii, audite me: timorem
uma em relação à outra. Porém, a originalidade do Domini docebo vos). Se a escuta é condição genuína
texto não é aspecto decisivo na singularidade da para quem queira franquear a comunidade, a
Mosteiro de S. Bento, S.to Tirso (JAM)
Regra, antes a lucidez e a coerência da acomodação advertência é indicadora do espírito paternal que
do conjunto de prescrições à prossecução da vida deve assistir à interpretação e à aplicação da Regra.
da Porta Aberta” ou “S. Bento das Peras” parecem religiosa em comunidade. A não desprezar na Distingue-se a paternidade espiritual da noção
ter origem em circunstâncias locais (peras são pedras) apreciação a sobriedade e clareza do registo moderna de “direcção espiritual”, entendida como
e na Trasladação das Relíquias (11 de Junho), linguístico, de imediato notadas por Gregório Magno. acompanhamento orientado do desenvolvimento
expressam fé popular no seu poder taumatúrgico Também a data de composição, comummente pessoal. A paternidade espiritual, presente já na
para a cura de males ruins, predominando a crença apontada para o ano de 525, logo após a construção tradição cenobítica primitiva, tem tanto o peso da
de extirpador de verrugas ou cravos e de invocação de Terracina, é infirme, posto que é deduzida de herança vetotestamentária como a marca da
contra a bicharada venenosa (aracnídeos). uma ficcionada cronologia aproximativa e orientada civilização romana (pater familias), estando associada
S. Bento é conhecido como Patriarca dos Monges pelo faro da razoabilidade. As questões heurísticas ao reconhecimento e à aceitação da autoridade

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ORDENS E CONGREGAÇÕES MASCULINAS BENEDITINOS

abacial. É-lhe correlativa a obediência geradora de paisagem rural e urbana; assentamento cultural.
afectividade (pius pater); é-lhe contrária a deso- A pena, a cruz e o arado são símbolos fortemente
bediência impositiva de gradativa sanção correctora expressivos da reconhecida relação entre a OSB e a
(iratus pater). A paternidade espiritual aparece construção da Europa.
sobretudo desenvolvida segundo um ângulo Também com assinalável consequência para a
metafísico, em que o estado de obediência constituição de uma estética mística ocidental, se
comunitária traduz a antecipação da existência destaca o capítulo 19 da Regra dedicado à salmodia.
beatífica e testemunha o compromisso radical de No louvor a Deus no Ofício Divino, assoma uma
demanda de um plano expressivo da Vontade requintada exigência de harmonia e ordenação: a
universal. Não obstante o predomínio do estatuto voz deve afinar-se pelo espírito e seguir o seu curso
da paternidade na mundividência beneditina, válido (mens concordet voci). O exercício orante é aqui
para a gestão e a relação, a fraternidade não é assumido como experiência de busca de uma sintonia
excluída, manifestando-se quer no exercício da vibrátil com o espírito, a fim de ampliar e intensificar
caridade e da obediência mútua entre todos os a ressonância do louvor a Deus. Este acentuado
regrantes quer na recomendação do bom zelo (RB, traço contemplativo do beneditismo revela a
cap. 71, cap. 72). profundidade da Regra, escondida na sua arqui-
O capítulo 1 é decisivo para definir a natureza da tectónica prática e plástica.
comunidade e a identidade do regrante como A plasticidade inerente à Regra e a estabilidade que
cenobita, distinguindo-o do eremita (de vida austera, diversamente promove, embora se afigurem
solitária e combativa), do giróvago (indisciplinado, irreconciliáveis, foram factores simbióticos deter-
caprichosamente errante e habituado a viver à custa minantes na projecção beneditina. A plasticidade
de outro) e do sarabaíta (de detestável ociosidade). permitiu a sua adaptação diferenciada, facilitando
Nesta distinção, o equilíbrio assoma simultaneamente a independência dos mosteiros, que assim não só
como determinante modelador do cenobita e ficavam espaldados nas mentalidades epocais e
configurador da comunidade em que está integrado, Beneditino (Tours) regionais, como também agilizavam a gestão em
entretecendo o vínculo entre ambos, e nele per- função de condições particulares da geografia e do
passam as mesmas exigências quanto ao cultivo da acompanhar noviços com solicitude paternal (RB, clima. Deste modo, as excepções e as derrogações
vida interior e à manutenção da vida comunitária cap. 58), e, finalmente, do Prior (RB, cap. 65). Sem introduzidas com detalhes de observância encor-
dedicada ao serviço divino. Outros vectores emergem perder de vista a radicalidade da vocação, estão pavam a Regra e ajustavam-na ao concreto vivencial.
na promoção deste equilíbrio característico da consignados diversos aspectos práticos da organi- Por seu lado, a estabilidade beneficiava a fixação
organização beneditina: estabilidade (stabilitas in zação com carácter mais ou menos técnico: o silêncio, da comunidade e vincava-lhe os traços institucionais:
communitate), acomodação à Regra (conversatio) e o serviço litúrgico (opus Dei), a leitura (lectio divina), oficina de oração, centro para santificação da alma
obediência (obedientia). No seu conjunto, expressam as diversas ocupações, o tipo e a quantidade de e fortaleza para abrigo da contaminação social.
a compossibilidade do indivíduo e da comunidade, refeições, o repouso, o cálculo de horas. Porém, a Cumprindo o princípio da flexibilidade, a indu-
ambos dispostos no organismo do mundo, de se tradição destacou e condensou toda a Regra na mentária sempre se adequou ao clima (RB, cap. 55).
fortalecerem mutuamente na concretização de um fórmula ora et labora (“reza e trabalha”). Inicialmente, aconselhava-se uma túnica interior (a
ideal participado. Deste fortalecimento depende a Não é fácil compreender a razão subjacente à cógula), o manto com capuz e o escapulário. Para
eficácia do compromisso religioso. Por conseguinte, insistência na harmonização da contemplação com trabalhar, usava-se um manto mais curto. Havia
o equilíbrio e os demais vectores integram um a acção, considerando a tendência inicial de S. Bento ainda sandálias e meias, mas tudo tosco, de cor
esquema relacional dinâmico de resposta a uma real para a contemplação e interiorização, ou a explícita indiferente e confeccionado com material barato e
e comum vontade de ordem espiritual. valorização do eremitismo ou a sua experiência do acessível. Os calções estavam reservados para viagens.
A Regra estende-se funcionalmente ao governo, incomensurável labor na prospecção interior. Ao lado Tal indumentária encontra-se representada num
persistindo numa estrutura interna simples. Em de prováveis argumentos de ordem pragmática, antigo fresco das catacumbas perto da romana Via
conformidade com o exposto, a figura cimeira é o favoráveis à estabilidade (stabilitas loci) e dignidade Salária.
Abade, escolhido pela comunidade em função da da comunidade, como o combate da ociosidade e
exemplaridade de vida e mérito da sabedoria, a a garantia de autonomia do cenóbio, alinham-se
quem cabe a responsabilidade por todas as tarefas outros provenientes de diferentes considerações.
doutrinais e administrativas. O exercício governativo Merecem destaque o conhecimento profundo que
é partilhado com os Decanos (RB, cap. 21), escolhidos S. Bento possuía da essencial relação dinâmica entre
segundo “o mérito de suas vidas e a sabedoria de o corpo e o espírito, por um lado, e, por outro, a
sua doutrina” e os “simpectas” (RB, cap. 27), indicados necessidade de salvaguardar a coordenada cristã
pela sua sabedoria (seniores sapientes). Para agilizar que recomenda a conservação do corpo enquanto
o desempenho das tarefas doutrinais e adminis- suporte essencial do ser humano perfeito. Ao desa-
trativas, a Regra estabelece a co-responsabilidade gravar a dimensão corporal da vida humana,
do Celeireiro, que igualmente deve ser um pai para associando-a aos valores da encarnação, e ao admitir
toda a comunidade (omni congregationi sicut pater, o artifício técnico inerente à produção de bens, S. Monges beneditinos na Abadia de Dormitio (dormição),
RB, cap. 31), do Enfermeiro (RB, cap. 36), que deve Bento inaugurava um novo programa de vida Terra Santa (I)

servir os irmãos como Cristo se disponibilizou para religiosa, que interviria diversamente na configuração
servir, de uma figura equivalente ao Mestre dos do espaço e na criação do ambiente europeu: A Regra cedo transbordou o muro de Montecassino,
Noviços, isto é, um ancião capaz de formar e desenvolvimento agrícola e técnico; modelação da por força de circunstâncias geomilitares nada claras.

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ORDENS E CONGREGAÇÕES MASCULINAS BENEDITINOS

Estima-se que, em 577, Zotón, Duque lombardo de observância conjunta das Regras de S. Columbano Regra, talvez por contactos com o Império Carolíngio
Benavento, tomou, saqueou e destruiu o arqui- e S. Bento (Regula Mixta), datada de 632 e ou por mediação de livros em circulação na época
cenóbio, transformando-o em praça forte contra o encontrada em Solignac, no mosteiro fundado por (comentário de Esmaragdo).
ducado romano e forçando os cassinenses a S.to Eloy. De registar ainda a promulgação, em regime
refugiarem-se em Roma nas proximidades da basílica de exclusividade, da Regra Beneditina pelo Bispo 3. Beneditização. A beneditização manifestou-se
papal de Latrão, levando consigo a Regra. Tal saída San Leger, no cânone 15.º do Concílio de Autun, de duas formas: a progressiva internalização de
compulsiva dos monges foi essencial à publicitação realizado entre os anos de 663 e 680 (Regula Sancti prescrições da Regra em Regras pré-existentes,
e projecção da própria Regra. No ano de 742, o Benedicti edocet et implere et custodiri in omnibus misturando-se com ela (Regula Mixta), e a multipli-
Papa Zacarias (741-752) recolocou a Ordem em debeant). A considerar também a primeira citação cação de fundações a ela obedientes.
Montecassino, depois da restauração efectuada por da Regra, datada de 690, num documento em que O impulso difusor foi dado inicialmente por Gregório
Petronax, em 717, e a Regra regressou ao lugar de o Arcebispo de Rouen, Ausberto, concede ao Magno, quer por via da publicação da biografia de
pertença. No século seguinte, por volta de 883, Mosteiro de Fontenelle o privilégio de eleger o abade. S. Bento, quer por via da missionação, encarregando
quando se concretizaram as ameaças às ambições Na Bretanha, destino inaugural da missão beneditina, os monges de alargarem e consolidarem o
dos sarracenos, o mosteiro foi de novo atacado e a as referências à Regra são posteriores às encontradas Cristianismo na Europa, mediante a prática oracional
Regra transportada para Teano. Passados 13 anos, no território gaulês. No Sínodo de Edwinspath, e a celebração litúrgica. Neste sentido, ao lado do
um incêndio destruiu o mosteiro e com ele a Regra realizado em 702, consta uma declaração de Wilfrido clero secular emergia o clero regular sob a cógula
tida por primeira. A questão está em saber se desse de York dando conta de ter mandado seguir a Regula beneditina, disciplinada, eficiente e de austeridade
documento original circulavam ou não cópias Sancti Benedicti a uns monges na Nortúmbria. No moderada. A sua actividade apostólica encarnava o
fidedignas. Certo é que Carlos Magno possuía uma caso da Germânia, a Regra é mencionada pela ideal cristão de despojamento e serviço, por um
cópia em Aix-la-Chepelle, apresentada pelo Abade primeira vez no séc. VIII, por ocasião do envio de lado, e, por outro, a sua pedagogia inspirava-se nos
Teodemaro, em 787 (Regulam quam beatus pater Sturmo, colaborador imediato de S. Bonifácio (718- princípios da obediência e exemplaridade. A conse-
Benedictus cum suis sanctis manibus conscripsit). -754), a Montecassino, a fim de a vir a aplicar no cução da beneditização, ladinamente visível na Idade
Porém, a cópia também desapareceu. Os manuscritos mosteiro fundado em Fulda (Vita Bonifacii de Média gótica, foi bem captada por Linage Conde
restantes apresentam diferenças redactoriais e Wilibaldo, PL 89, 603). Na Península Ibérica, a que a fixou na expressão “a Europa dos mosteiros”.
somente a submissão dos manuscritos ao exame referência mais recuada encontra-se numa doação Outra figura incontornável para a beneditização foi
amplo e rigoroso da edição crítica permitiu de Afonso III, datada de 3 de Março de 905, ao Bento de Aniano (750-821), também chamado
caracterizá-los e classificá-los. A edição de Rudolf Mosteiro dos S.tos Cosme e Damião de Abellar, perto segundo Fundador por, no contexto da reforma
Hanslik, publicada em 1960, estabeleceu três de Leão. Como se pode verificar, pelos dados mais carolíngia da Igreja, ter introduzido, não sem
categorias de texto: puro, interpolado, recebido. significativos, o conhecimento do documento resistência persistente, uma relação de dependência
Pertence à primeira categoria o manuscrito 914 de regrante desde cedo se localiza além do perímetro entre os mosteiros, dando-lhes uniformidade de vida
Saint Gall. Trata-se de uma cópia transcrita pelos do ducado romano, mas a dispersão dos dados revela e disciplina conforme à Regra. Bento de Aniano teve
monges Grimoaldo e Tato, de Reichenau, da cópia a lentidão do processo difusor. Só a partir da época um papel determinante no Concílio de Aix-la-Chapelle
do manuscrito original redigida a pedido de Carlos carolíngia, a Regra Beneditina vigorou nestes (816-817), sendo responsável pela redacção e
Magno. Do texto interpolado faz parte o mais antigo territórios em regime de exclusividade. promulgação do capitular organizador da vida
códice conhecido, escrito em Cantuária. Data dos Na Península Ibérica, a vida religiosa seguiu um monástica (capitulare monasticum, de 10 de Julho
princípios do séc. VIII e encontra-se no manuscrito caminho próprio, tão anacrónico quanto singular, de 817), no qual se sublinham três pontos: a exi-
Hatton 48 da Bodleian Library de Oxford, publicado determinado pela invasão dos muçulmanos no séc. gência de cumprimento da observância beneditina
por E. A. Lowe, em 1929. A terceira categoria inclui VIII. À medida que se confirmava a Reconquista, o
os textos recebidos e produzidos por Paulo Diácono monacato avançava seguindo várias regras
desde o séc. VIII e no séc. IX por Hildemaro. contaminadas por tradições regionais ou parti-
Paralelamente ao texto latino, foram circulando cularismos locais, que acabaram por facilitar a
traduções. A mais antiga é em alemão e data do constituição de regimes comunitários ecléticos, mais
séc. IX (Ms. Saint Gall 916). O estudo mais apurado ou menos efémeros. Dentro do território futuramente
das edições recentes deve-se a C. Butler: Sancti correspondente ao reino de Portugal, a situação não
Benedicti Regula Monasteriorm. A primeira tradução diferia, vigorando o uso da Regula Mixta, essa
portuguesa data de 1929 e conta com 29 edições. miscelânea de prescrições sem articulação assegurada
É difícil reconstituir com precisão os percursos iniciais que admitia diversos modelos de convivencialidade
da Regra fora do ducado romano e é igualmente e de suporte económico, sendo comuns os mosteiros
difícil apurar os processos de introdução noutros dúplices, abertos a homens e mulheres, e os patrimo-
territórios e identificar os focos difusores. Os dados niais, em que o fundador podia dispor absolutamente
obtidos são avulsos e distanciados; por exemplo, dos bens. Uns e outros franqueavam as comunidades
data do ano de 620 a referência mais antiga e está religiosas à fragilidade decorrente das virtualidades
devidamente registada em pasta de correspondência. e tensões relacionais. No território português, as
Trata-se do documento enviado pelo abade diferentes Regras estão recolhidas em dois codices
venerando, fundador de Altaripa u Hauterive, na regularum pertencentes ao Mosteiro de Guimarães,
diocese gaulesa de Albi, ao seu Bispo Constâncio. datados de 959. Num constam as Regras de S.
Intitula-se Regulam sancti Benedicti abbatis Romensis, Pacómio, S.to Isidoro, S. Frutuoso e S. Leandro, noutro
quam praesens continet liber, in arce ecclesiae reúnem-se as de S.to Isidoro, S. Frutuoso e S. Bento.
Albiensis recondendam direximus. Outra referência Esta última referência, bem documentada por Mário
textual explícita enquadra-se na exigência de Martins, assinala inequívoco conhecimento da Um monge beneditino na Abadia de S. Bento de Singeverga (I)

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ORDENS E CONGREGAÇÕES MASCULINAS BENEDITINOS

a todos os mosteiros; o acento no valor espiritual expansão por volta do ano 700. Basta indicar as introduzia neles os monges formados em Brogne
do Ofício Divino, cuja duração se alongava consi- Abadias de Farfa (Sabina) e de S. Vicente de Volturno até comprovar que estava assegurada a regularidade
deravelmente (a leitura martirológica, a recitação de para dar conta de instituições vinculadas à Regra e da vida monacal. Outro caso a evidenciar a força
salmos acrescida ao ofício nocturno, a recitação decisivas no alargamento do seu campo de influência. operativa da influência e determinação na ramificação
diária do ofício dos mortos); a desvalorização do Acrescente-se que o vigor e dinamismo espiritual e na animação de comunidades religiosas é o da
trabalho manual expressa na redução do tempo a dado ao mosteiro cassinense pelo monge inglês abadia lorena de Gorza, que no início do séc. XI
ele dedicado. Wilibaldo, que nele permaneceu durante dez anos, contava com 140 comunidades. Por sua vez, uma
A beneditização conheceu três fases. A primeira fase após o seu regressou da Terra Santa (729), não são dessas comunidades, Saint-Vanne de Verdun,
foi expansionista e esteve associada à construção elementos a desconsiderar nas razões do expan- notabilizou-se como centro difusor da reforma
de mosteiros que funcionavam simultaneamente sionismo beneditino, uma vez que o recuperou e beneditina durante o governo de Ricardo (1004-
como marcos do Cristianismo e centros de apoio à preservou como referência nuclear de inspiração. -1046), dando continuidade ao típico efeito
evangelização, alguns deles originando cidades. Caen A segunda fase da beneditização corresponde à ramificador e renovador. Tal efeito também é visível
procede da Abadia de Saint-Omer, fundada em 649. tendência para o domínio exclusivo do sistema regular nas áreas vizinhas das abadias restauradas por
Os mosteiros cedo se revelaram com capacidade de Montecassino. Inicialmente avulsa ou mista, a regulares provenientes de Cluny. A Abadia de Fleury
interventiva no plano político e capacidade produtiva Regra Beneditina passou nesta fase para uso (Saint-Benoît-sur-Loire), reformada pelo cluniacense
no plano intelectual, uma e outra subordinadas à exclusivo, sujeitando todas as instituições monásticas Odão (927-948), a quem se atribui a invenção da
espiritualidade cristã, tendo-se elevado à categoria a uma mesma codificação, sem prejuízo do linguagem por signos gestuais para restaurar a
de instituição dominante. A segunda fase coincidiu atendimento à diversidade resultante de deter- observância do silêncio, acabou por reformar Saint-
com o esforço sistematizador que acompanhou a minações extrínsecas. Não obstante as resistências, -Èvre de Toul, Saint-Remi de Reims e Saint-Père de
aplicação da Regra em todas as instituições particularmente da Abadia de Saint-Denis em que Chartres, que, por sua vez, foram decisivas na reforma
monásticas, e a terceira fase correspondeu ao triunfo, uma parte dos religiosos recusou aceitá-la durante das abadias inglesas. O mesmo se pode exemplificar
simbolizado em Cluny. Na primeira fase, o itinerário cerca de 15 anos (817-832), o regime eclético foi com a Abadia de Marmoutier (perto de Tours),
inaugural da expansão foi direccionado para a substituído pelo regime cassinense, graças à restaurada por Mayeul de Cluny (954-994), que
Bretanha. No ano de 596, por ordem do Papa confluência de três factores de índole reformista: a formou uma congregação compreendendo 270
Gregório Magno partiu do Mosteiro de S.to André, política uniformizadora do Império Carolíngio; o dependências no conjunto de uma quarentena de
em Roma, um grupo integrado por 40 monges e empenho disciplinador de S. Bento de Aniano; a mosteiros. Fora da dependência de Cluny, foram
tutelado por Agostinho de Cantuária. A influência força deliberativa do Concílio de Aix-la-Chapelle muitas as abadias a prosperar no séc. XI, como a
circunscreveu-se inicialmente aos reinos celtas de (816-817). Nesta fase surgiram novas fundações fiéis de Bec, fundada pelo cavaleiro Herluin (1034), na
Kent (York) e Sussex (Salsey), graças à mobilização ao ideal monástico de S. Bento, entre as mais famosas Diocese de Rouen, ou a Abadia de La Chaise-Dieu
de Wilfrido, Monge de Lindisfarne, estendendo-se contam-se as de Vézelay (821), Hirsau, em (1043), depois tornada beneditina em 1050. Por
à Irlanda, cujo ambiente monástico criado por S. Wutemberg (c. 830), S.ta Júlia de Brescia (c. 840), conseguinte, a situação nesta terceira fase consistiu
Patrício (c. 385-c. 461) viabilizava a tentativa de Charlieu (872), etc. A disciplinação e a centralização em reformar, anexar, fundar e ramificar, sempre no
consolidação. O monaquismo beneditino carac- dos estabelecimentos, medidas propostas para contexto de um espírito empreendedor, estabilizador
terizou-se pela persistente vontade evangelizadora depurar e sintonizar o modus vivendi regrante, não e vivificador, encarado como coroamento da
e pelo elevado nível de instrução, exponenciado por estancaram a instabilidade provocada pelas invasões espiritualidade cristã.
Bento Biscop e Beda, o Venerável. Em função do normandas, sarracenas e húngaras – chamadas
sucesso anglo-saxónico, a expansão direccionou-se “invasões do ferro” –, antes adiou o investimento 4. História da Ordem Beneditina. A grande
para os territórios da Germânia, Países Baixos e na desejada recuperação da autenticidade da vida instituição beneditina foi Cluny. Estabelecida a 11
centro da Europa. Desde 721 que a Abadia de religiosa e na regularização monástica afectada pela de Novembro de 909, por doação de Guilherme, o
Reichenau, fundada por S. Pirmínio, serviu de foco desconcertante profusão de estilos. Piedoso, iniciativa patronal comum na época, não
difusor da Regra e propagação do Cristianismo. Da A terceira fase representou o restabelecimento e o configura inicialmente uma singularidade excepcional
evangelização bretã no continente europeu, iniciada triunfo do beneditismo no séc. X, resultante da no contexto da constituição beneditina. Apresenta,
por Wilfrido de York e Wilibrordo, Monge de distensão da reforma e do apogeu de Cluny. A par contudo, algumas variações que transformaram a
Nortumbría, há a destacar S. Bonifácio (m. 754) – de imperativos internos, a restauração da vida tradição da OSB e deram identidade própria a Cluny:
o apóstolo da Germânia –, fundador de grandes religiosa nesta terceira fase também foi movida pela a direcção do estabelecimento por um abade não
mosteiros na região de Turínga, Baviera e Saxónia. necessidade de príncipes ou outros, indepen- eleito que escapava ao controlo dos bispos; a
Na mesma época, o beneditismo continuou a dentemente da firmeza do sentimento piedoso, prioridade dos ofícios litúrgicos, da oração e do
progredir no território franco, onde, desde o séc. assegurarem o poder e estabelecerem uma certa silêncio no programa das actividades diárias; a
VI, beneficiava de contributos régios. Recorde-se, ordem política e social na área sob seu domínio. desvalorização da ascese por via da mortificação; o
por exemplo, a iniciativa das Rainhas Radegunda, Dada a dependência entre as instituições e o posicionamento ostensivo da liturgia, enquanto meio
cujo nome se associa à construção de S.ta Cruz de emaranhado das ramificações, a reforma estendeu- de concretização do ideal de oração perpétua e que
Poitiers, e Matilde, responsável por Chelas e Corbia. -se por influência e determinação pessoal. Referência acentuou a vocação de claustro (propter chorum
No séc. VII, a Regra internalizou-se nas instituições privilegiada para se contactar com esta estratégia fundati). Para ordenar o funcionamento da extensa
de obediência a S. Columbano e integrou-se na projectiva é o Abade Geraldo (m. 959), fundador e complexa rede cluniacense, foram redigidos três
panóplia da Regula Mixta. Nesse período, de Brogne em 914, na Diocese de Liège. Orientando documentos regulamentares durante o séc. X (ordo
celebrizaram-se os Mosteiros de Gorza (748), na um grupo de monges de Saint-Denis que se cluniacensis), cujo sucessivo apuramento estava
Lorena, de Lorsch, perto de Worms (764), ou ainda assumiam temporariamente como abades, Geraldo determinado pela minúcia dos pormenores previstos:
Brantôme (769), Aniane (782) e Conques (795?). procedeu à reforma de uma vintena de mosteiros dois sob os abadiciados de Mayeul e Odilão, o terceiro
Também em Itália, onde o beneditismo ficara contido na Flandres e em Hainaut. Para cimentar e dar denominado Costumes de Farfa (1042/1043). A codi-
no perímetro demarcado por Montecassino, houve continuidade à aplicação das novas práticas, ficação definitiva, base do direito monástico, é

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ORDENS E CONGREGAÇÕES MASCULINAS BENEDITINOS

atribuída a Ulrique, em uso até em 1081 os eslavos do Norte e ao fundar o primeiro mosteiro Com a Concordata de Worms (1122), decisiva no
(Antiquiores), e a Bernardo (1086-1088). Decidi- polaco. processo de nomeação abacial e que, por isso
damente mais orante que penitente, mais intelectual Cluny foi historicamente registado em dupla mesmo, tem sido utilizada para demarcação
que manual, a espiritualidade cluniacense promovia referência: por ser tomado como modelo da periódica, alguns estabelecimentos religiosos
o cuidado caritativo, a mais manifesta das beneditização e por ser o núcleo comum de um acabariam por se libertar da tutela das abadias e
coordenadas evangélicas. vasto conjunto de estabelecimentos ramificados por proceder a reagrupamentos, com vista à reabilitação
sua iniciativa. Como nenhum outro, Cluny exemplifica ascética ou aproximação à doutrina cristã. Sobre
a tipicidade beneditina corroborada ao longo da sua este fundo contestatário, o monaquismo de tipo
história: dependência e autonomia, rupturas dentro cluniacense, de estrutura centralizada e hierárquica,
de um mesmo quadro vinculativo – a Regra não ficou imune às dissidências por parte dos que
Beneditina –, influências, crise e vivificação, desdo- procuravam uma vida religiosa mais austera e menos
bramento institucional e revestimento de novas sistematizada. Entre os cenóbios e mosteiros que
formas. A mobilidade e plasticidade sempre deram emergiram, uns foram famosos e outros mais ou
oportunidade à OSB quer de se ajustar à variedade menos efémeros e de fraca ou nula representação
dos apelos vocacionais, quer de persistir no tempo, europeia. Famoso foi o da Ordem de Fontevraud
e a multiplicação de estilos oracionais e modelos (1111) que compreendia uma comunidade dupla,
organizacionais não provocou nenhum esmagamento. masculina e feminina, dirigida por uma abadessa,
Por um lado, reforçou a resistência ao colapso, por não obstante a pouco a pouco ter perdido a sua
outro, originou um novelo relacional difícil de originalidade. Destacou-se a comunidade eremítica
deslindar que agrava a descrição da história da OSB. de Pulsano, fundada por Jean de Matera no Monte
Basta atender à pululação da Ordem no séc. XI, Gargano, em 1129. Igualmente Montevergine,
quando a forte corrente eremítica determinou a criação fundada por volta de 1124 por Guilherme de Vercil,
de novas comunidades sob obediência beneditina que se multiplicou e estendeu a sua influência ao
ou dela derivada ou até afastada, concentradas em Sul de Itália e Sicília. Os Gilbertinos, ordem dupla
regiões do Sul da Europa, particularmente em Itália, composta simultaneamente por monges e cónegos,
que mantinha estreito contacto com o Oriente e fundada em 1139 por Gilbert de Sempringham (m.
Bizâncio. Em breve exemplificação, Romualdo (m. 1189), na Diocese de Lincoln, e influenciada pelos
1072) fundou o eremitério de Camoldoli (1023), na Cistercienses. Os Guilhermitas, criados por volta
Mosteiro de Pedroso, Vila Nova de Gaia (JAM)
Diocese de Arezzo, situada nos Apeninos (Toscânia, de 1155 pelo eremita Guilherme, na região deserta
Marcas, Úmbria), dando origem à Ordem dos da Toscânia, evoluindo para um monaquismo de
Cluny foi o símbolo do monaquismo beneditino Camaldulenses, só reconhecida em 1113; João tipo cisterciense. Algumas comunidades ligaram-se
poderoso, faustoso e triunfante. Entre as várias Gualberto, em 1036, estabeleceu uma abadia na à Regra Augustiniana e formaram a Ordem dos
razões, perfilam a sua transformação em centro comuna de Reggelo (Apeninos), que seria reconhecida Eremitas de Santo Agostinho, em 1256. Toda esta
cultural particularmente dedicado à música, como a casa da Ordem Vallombrosa, de vincada movimentação de autonomização sem perda
arquitectura, pintura e escultura. Acresce a singu- dimensão contemplativa; Roberto de Molesme vinculativa à OSB e sem perda da vitalidade
laridade do seu esplendor litúrgico, a sua participação (1028/1029-1111), inspirado directamente no regime institucional evidencia quão complexa se tornou a
nos grandes empreendimentos eclesiásticos e políticos de Cluny, fundou os Cistercienses, ou Frades questão da observância da Regra.
e a estrutura jurídica centralizada, bem em sintonia Brancos, em 1098, cujo apogeu foi alcançado com Em toda a história da OSB, as vicissitudes e as crises
com a estrutura social da época em que se inseriu Bernardo (1090/1091-1153), nomeado Abade de são uma constante, seja pelo desregramento interno,
– a medieval –, dominada pela categoria da Claraval em 1115, e com Guilherme de São Teodorico seja pela pressão externa para apropriação dos
dependência mútua estratificada. Indicativo da (1075-1148), o grande representante da contem- benefícios monásticos, seja ainda por assaltos e
proximidade com o poder feudal é o facto de a plação monástica; S. Silvestre Gualberto (m. 1073), depredações dos bens. No séc. XIII, a OSB sobreviveu
maioria dos monges, particularmente os abades, que está na origem de um eremitério em Fonte num imobilismo relativo, enquanto as ordens
pertencerem à classe senhorial, como afirma Georges Avallana, na Úmbria, cuja vida religiosa era mendicantes traziam renovação espiritual e nova
Duby para vincar o elitismo cluniacense. A influência particularmente marcada por mortificações. Outros abordagem social adequada à dinâmica da época,
de Cluny foi notável, inclusivamente pelo número nomes, entre muitos, integram o quadro genealógico marcada por profundas alterações agrícolas,
de estabelecimentos que a constituíam, quer de intermitentes cenóbios e eremitérios: Estêvão de comercias e urbanas e pela subtileza da especulação
priorados ou casas (La Charité-sur-Loire, Souvigny, Muret, S. Guilherme de Vercelli e Robert d’Arbrissel. escolástica produzida nas universidades, em parte
Sauxillanges, Saint-Martin-des-Champs e Lewesem Neste período de dinâmica fundacional, os bene- devotadas ao apuramento formal do raciocínio e ao
Inglaterra), quer mosteiros (Farfa, Mont-Saint-Michel, ditinos confrontaram-se com as grandes questões espessamento da visão metafísica da realidade. Neste
Lérins, Hirsau, Saint-Denis, Saint-Wanddrille, entre da filosofia medieval, sendo magistralmente contexto apelativo a mudanças, sucederam, entre
outros). O apogeu deu-se no abaciado de Pedro, o desenvolvidas na obra de S.to Anselmo (1033-1109), os papados de Inocêncio III e Bento XII, uma série
Venerável (1122-1156), contando então com cerca enformada pela dialéctica e motivada da busca de reformas infrutíferas, sempre insistentes na ideia
de 1200 dependências povoadas por cerca de 10 000 inteligível de Deus. Foi no Proslogion que a razão de comunidade e visando o particular relaxamento,
monges, repartidos pelos territórios hoje corres- demonstrativa e a adesão fideística coincidiram na a disfunção regulamentar, a apropriação dos
pondentes a França, Itália, Inglaterra, Espanha e construção de um argumento comprovativo da rendimentos monásticos e o descontrolo adminis-
Portugal. Temporariamente, pois desencadearam-se existência de Deus, argumento continuamente trativo. De destacar a promulgação da Constituição
reacções hostis, os monges de S. Bento instalaram- comentado por filósofos e que Kant designaria, Summa magistri dignatio (20 de Junho de 1336),
-se também na Polónia e na Boémia. Ganhou fama embora impropriamente, por “argumento onto- comummente chamada Bula Benedictina e endere-
S.to Alberto de Praga, de origem checa, ao evangelizar lógico”. çada a todas as congregações e abadias da OSB,

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ORDENS E CONGREGAÇÕES MASCULINAS BENEDITINOS

que sem desnaturalizar a tradição de autonomia origem ao monaquismo neobeneditino, mais


lançava continuidade renovada. Verdadeiramente individualista, mais intelectual e menos austero.
ilustrativa do esforço reformador de Bento XII, antigo A força da sua influência revela-se na rapidez com
monge cisterciense, a sua intenção primeira consistiu que se estendeu à maioria dos conventos italianos,
no reagrupamento dos estabelecimentos de englobando por vezes estabelecimentos olivetanos
beneditinos negros em 36 províncias eclesiásticas e outros como La Cava, Farfa, Subíaco e
(10 em Itália, 6 em França, 4 na Alemanha, 3 em Montecassino.
Espanha, um em Inglaterra, etc.). Na esperança de Também fora de Itália, conseguiu mobilizar outras
aproveitar benignamente a participação dos altos instituições a reformarem-se, tais como algumas dos
representantes comunitários, a Benedictina propunha condados germânicos do Sul, da Áustria e da Baviera
a reunião capitular de três em três anos, de modo Mosteiro de S. Bento, S.to Tirso (JAM)
(1418), graças quer à determinação de Nicolas
a exercer-se uma vigilância disciplinar comum e a Seyringes, monge proveniente do Subíaco, quer aos
administração disponibilizar ajuda mútua na resolução apoios dados pelo Duque Alberto V da Áustria e
de desvios com base nas informações elaboradoras conventos devido à peste negra e destruição pelo Bispo de Posen. Em 1470, 17 abades, eleitos
por visitadores e fiscais. A par desta proposta e no provocada por guerras contínuas. Por essa altura, a livremente e em representação da própria instituição,
mesmo intuito avançava com a integração das casas florescente Saint-Martin de Tournai não tinha mais reuniram-se em Melk, grande centro reformador, e
isoladas e de pequenas congregações num sistema de 24 elementos, em 1330, e Cluny passou de 120 aí constituíram a União de Melk, de observância
organizado, defendia a desconcentração das grandes monges para 80, entre 1360 e 1420, contando regida pela abstinência e simplicidade. O facto de
ordens em agrupamentos menores coerentes, como apenas com 60, em 1426. Uma certa política nunca se assumir como congregação não afectou
o caso de Cluny, exigia a reunião dos mosteiros em sistemática dos abades, que recusavam o aumento o poder de influenciar, pelo que a reforma proposta
províncias e obrigava à sua participação nos Capítulos de religiosos para não constranger a gestão pela União atingiu extensivamente a Áustria,
Provinciais. A Benedictina insistia na sancionação, administrativa nem diminuir a parte de cada um, o contaminou Souabe e margeou o Norte da Baviera,
no ensino (Gramática, Lógica e Filosofia), na tomada relaxamento dos costumes, a inobservância dos votos à volta de Kastl (Diocese de Eichstaedt).
de medidas favoráveis a uma gestão económica e o Grande Cisma provocaram uma certa estagnação Na mesma época, entre os reagrupamentos similares,
eficaz, enfim, na renovação de uma imagem aceitável e atonia, aceleraram a decomposição da OSB e há a mencionar a Congregação de Bursfeld
da OSB. A inexistência de meios para aplicação enfraqueceram a coerência dos agrupamentos que (Alemanha), iniciativa de João Déderoth, monge de
destas medidas controladoras decepcionou as pouco a pouco se dividiram. Mais uma vez, irrompeu Rheinhausen, que, após ter reformado Clus, recebeu
expectativas reformistas, causando desordem e o que se afigura como uma tradição crítica eivada a missão de fazer o mesmo em Bursfeld. Levou
comprometendo a vitalidade espiritual. de construtivismo e os abades beneditinos avançaram quatro monges de Saint-Mathias de Trêves que
Ao longo do séc. XIII, a OSB teve dois registos com reformas para restabelecer uma vida religiosa puseram em aplicação os princípios de João Rode.
contrários: ao mesmo tempo que fortaleceu e autêntica, desembaraçando-a das recorrentes Em 1446, o sucessor de Déderoth, João de Hagen,
continuou a recrutar religiosos, de tal modo que irregularidades perturbadoras e dos abusos derivados decidiu agrupar os mosteiros assim reformados numa
algumas abadias alcançaram índices de grande da sujeição à comenda, benefício que entregava a congregação chamada Bursfeld, cujo estatuto
prosperidade e notoriedade intelectual (Saint-Martin direcção da Congregação ao Abade Comendador, impunha austeridade estrita e eleição livre do Abade.
de Tournai), emergiram sinais de debilidade. Por pessoa exterior à comunidade monástica. Segundo registos do ano de 1469, esta corporação
exemplo, as grandes fundações pararam, datando Os Concílios de Constança (1414-1419) e Basileia religiosa conseguira reunir 36 mosteiros. Pela
a última de 1231, a dos Silvestrinos ou Beneditinos (1431-1445), determinados na actualização do poder proximidade rigorista (clausura, rudeza do regime
Azuis. Sob a tutela de Silvestre Guzzolini, a Ordem, papal, propuseram estabelecer um regime digno quotidiano, silêncio, flagelações, etc.), pelo lugar
em Itália, teve os Estatutos aprovados em 1247, os para o monacato, de modo a injectar vitalidade e fundamental atribuído à oração pessoal e impacte
quais acentuavam a austeridade, a pobreza estrita respeito pelo viver autónomo, num quadro de relação reformista, há a referir a Abadia de S. Bento de
e incluíam a prática da confissão e da pregação à vinculativa e compromisso regular. A concretização Valladolid. A partir de Espanha, originou um
maneira das ordens mendicantes. O vigor da OSB da reforma teve configurações diversas, ajustando- movimento renovador transfronteiriço.
despontaria ramificações menos robustas, mas não -se a situações casuísticas e a interpretações pessoais, Ao longo do séc. XV, tendo em conta a desor-
menos problemáticas, como a dos Florenses ou de umas vezes dando origem a novas congregações, ganização das ordens antigas e as reivindicações
Joaquim de Fiore (c. 1134-1202), Celestinos, outras não. Tal é o caso da acção reformadora de gerais a favor da autonomia e paz conventual, tentou-
Olivetanos e Corpus Christi, esta criada em 1328 João Rode (1358-1439) na Abadia de Saint-Mathias -se difundir duas medidas complementares. Uma
por Andrea di Paolo. O vigor da OSB manifestar-se- de Trêves, que nunca originou uma congregação, consistiu em reagrupar Beneditinos e Cluniacenses,
-ia ainda em três grandes reformas: Kastl, Bursfeld não obstante ter sido aplicada em mosteiros renanos tendo Cluny participado plenamente nesta tarefa
e Melk. A reforma de Kastl, na Baviera, foi iniciada de homens e mulheres (a partir da Abadia de sob a direcção dos Abades João de Bourbon e
em 1381 por Francisco de Kastl, de quem tirou o Marienbourg), defendendo a austeridade da vida Jacques d’Ambroise, destacando-se, entre outras,
nome. O seu rápido declínio contrasta com a sua quotidiana, prática da caridade, meditação pessoal as Abadias de Saint Benoît-sur-Loir e Saint-Evre de
rápida influência, alcançando directamente e trabalho intelectual. Ao contrário, a introdução Toul. Outra empresa reformadora foi posta em acção
Reichenbach (1394), Ensdorf (1413), Weihenstephan da Regra na Abadia de S.ta Justina de Pádua, fundada a partir de 1479, na Abadia de Chezal-Benoît,
(1418), Michelfeld (1436), S. Gall (1440), Veilsdorf a pedido do Papa Gregório XII por Luís Barbo em pertencente à Diocese de Bourges, pelo Abade Pedro
(1446) e S. Emmerano de Ratisbona (1452). Na 1407, estendeu-se a todos os estabelecimentos du Mas. Este insistia na vida cenobítica e na dureza
sequência da expansão da reforma de Kastl surgirão, dependentes e justificou a instituição da Congregação obrigatória da vida quotidiana. Mas, talvez inspirado
na segunda metade do séc. XV, dois grandes centros Cassiniana, em 1504. O acento na ruptura com o por S.ta Justina de Pádua, decidiu que a congregação,
reformadores: Melk e Bursfeld. mundo exterior e a recusa em aceitar uma de onde operava o reagrupamento, seria dirigida
No séc. XIV, assistiu-se à ruína de abadias causada organização selada pela presença de um abade por uma Assembleia Geral, reunindo representantes
por dificuldades económicas, despovoamento dos perpétuo afastou-os da tradição beneditina, dando de cada estabelecimento e que os Abades de diversas

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ORDENS E CONGREGAÇÕES MASCULINAS BENEDITINOS

instituições seriam eleitos apenas por um período antimonásticas muito populares e contagiantes, cujas
de três anos, tendo reunido mosteiros na bacia de consequências foram humanamente dramáticas: a
Paris e a norte de França (Saint-Suplice de Bourges, intervenção estatal e a exclaustração, seguida da
Saint-Martin de Sées, Saint-Vincent du Mans). No desamortização e, em geral, perseguição religiosa
mesmo período, o monaquismo desapareceu aos exclaustrados. A estas medidas, devoradoras de
completamente nos países escandinavos e nas ilhas mosteiros, devem-se acrescentar as consequências
britânicas, particularmente nos países germânicos, culturais provocadas quer pelo desbarato de
na Suíça, nos Países Baixos espanhóis. bibliotecas e arquivos, quer pelo saque de tesouros
O Concílio de Trento (1545-1563), que reagiu contra de arte sacra. Em França, a Comissão dos Regulares
a pressurização da Reforma e inaugurou um período (1766), encarregada pelo poder real de rever as
de revisão e reestruturação em toda a Igreja, assentou instituições de todas as congregações e ordens
na sua 25. a sessão alguns princípios de reforma religiosas, suprimiu a antiga observância de Cluny,
monástica que moldaram decisiva e intensamente assim como priorados das congregações maurista,
a vida beneditina, desde a sensibilidade devocional calmudense, guihermista e celestina. A desamor-
à expressão teológica e molde canónico. Das tização dos mosteiros, englobada na confiscação
deliberações, de carácter eminentemente jurídico, total dos bens da Igreja e decretada pela Assembleia
fixou-se a duração do Noviciado (um ano), prescreveu- Constituinte de 2 de Novembro de 1789, permitiu
-se a idade mínima para a profissão (16 anos) e que os municípios vendessem incondicionalmente
regularam-se outros aspectos, como a administração propriedades a particulares com capacidade para
de bens e a concessão de privilégios. Nele aumentar o património pessoal. Mais tarde, quando
participaram beneditinos representantes de posições a França anexou a margem esquerda do Reno,
extremadas e moderadas, distinguindo-se neste estipulou-se no Tratado de Lunéville (1801) a
último grupo o Beato Paulo Giustiniani (1476-1528), expropriação das congregações e ordens como
Interior do Mosteiro de S. Bento, S.to Tirso (JAM)
pelo manifesto equilíbrio entre o humanismo medida compensatória. Os príncipes espoliados foram
renascentista e o ideal monástico mais exigente. Na compensados com o património monástico e, a
Ordem Beneditina adoptou-se o sistema de do monaquismo beneditino graças à criação de duas pouco e pouco, as abadias desapareceram.
congregações, inspirado no de províncias, adoptado congregações, a de Saint-Vanne e de Saint-Maur, As primeiras exclaustrações foram antecipadas por
por outras ordens modernas. Alterou-se inteira e modelares na coesão interna, regularidade da vida Decreto da Assembleia Constituinte francesa, de 28
definitivamente a situação dos mosteiros. No caso religiosa e estrita articulação ao papado. Saint-Vanne de Outubro de 1789, que proibiu temporariamente
dos estabelecimentos que não aceitaram as decisões de Verdun foi reformada pelo Monge Didier de la a emissão de votos. A 13 de Fevereiro de 1790, a
tridentinas, ficaram submetidos aos bispos, passando Cour em 1600, e agrupava 400 casas distribuídas proibição tornou-se definitiva e aboliram-se as ordens
a ser conhecidos por “velhos beneditinos”. Destes pelas regiões de Lorena, Franche-Comté e Champagne. de votos solenes, tendo-se criado duas possibilidades:
não incorporados, alguns houve que, querendo Na época moderna, coube à Congregação de São opção pela secularização acompanhada por uma
escapar à autoridade episcopal, se agruparam em Mauro simbolizar o renovamento beneditino. pensão vitalícia, ou reagrupamento em casas
“congregações de isenção”, como aconteceu na Fundada em 1618, integrou mais de 200 mosteiros concentradas de ordens e congregações. O começo
Flandres e em França, criando uma nova figura de e dedicou-se ao ensino, ao ministério paroquial e à da perseguição dos exclaustrados fundamentou-se
reagrupamento autónomo. Em todo o caso, instituiu- investigação histórica. Na história da cultura e da na condição sacerdotal da maioria deles, condição
-se um sistema federativo, em que os mosteiros de erudição, sobressaem os nomes de Achery, Mabillon, que obrigava à prestação de um juramento cívico,
tipo individualista, continuando independentes ou Bousquet, Martène e Montfaucon. De não menor que por suposto nem todos acataram. Inicialmente,
relativizando a independência, se agrupavam sob a notoriedade pela dinâmica organizativa foi a a desobediência consistiu só na perda dos cargos
autoridade de um Abade Geral, assistido por Congregação de França, aparecida em 1624, com ou pensões, agravando-se a penalização da
Definidores, Visitadores e outros oficiais, tendo por uma centena de conventos. No mesmo período, a desobediência a partir 26 de Agosto de 1792, quer
órgão supremo, o Capítulo Geral. Nesta organização, Ordem de Cluny conheceu dissenções e quedas. com a condenação dos refractários à deportação
o Abade Local e tudo o que pudesse representar Uma tentativa de reforma para estabelecer a para uma colónia francesa, em caso de se verificar
autoridade passou a ter um carácter temporário, regularidade da vida religiosa desejada pelo Abade resistência, quer com a morte, em caso de tentativa
com mandatos geralmente trienais. As congregações Jacques de Veny d’Arbouze, no ano de 1621, de emigração clandestina. Em Outubro de 1793, a
foram: Mélida (1548); Flandres e Bélgica (1564); conduziu à divisão da Ordem em duas facções: uma, pena capital estendeu-se a todos os que não
Portugal (1566); França (1580); Espanha (1592); San da “antiga observância”, que recusou a reforma; compareciam à chamada para deportação (ilhas de
Vanne (1604); S. Dinis (1614); S. Mauro (1618); outra, de “estrita observância”, na qual se colocou Ré e de Oléron) e a quem os escondia. Dois casos
Estrasburgo e Alsácia (1622); Suíça (1622); S. José o Abade de Cluny, aderente da reforma. ilustram significativamente o extremismo do
(Clemente VIII); Austríaca (1635); Cluniacense Os beneditinos ingleses, perseguidos na Abadia de movimento anticlerical, simbolizado na proibição do
reformada (1634); Salisbúria (1641); Bávara do S.to Westminster em 1559, encontraram refúgio em uso de hábito religioso (1893): a morte do Superior
Anjo (1684); Espírito Santo (1685); Boémia (1709); congregações do continente. Reagruparam-se para Geral da congregação de Saint-Maur, Ambrósio
Mequitarista (1711). reconstituir a Congregação Beneditina Inglesa, Agostinho Chevreux, massacrado na igreja parisiense
Ao Concílio de Trento seguiram-se decretos aprovada em 1612, com Constituições redigidas em dos Carmelitas em Setembro de 1792, e a morte
prescritivos rectificadores emanados pelos Papas Pio 1621. do Superior da observância estrita de Cluny, João
V (1566-1572) e Paulo V (1605-1621), no sentido A história beneditina do séc. XVIII, como a história Baptista Courtin, guilhotinado em Paris em 1794.
de obrigar à realização quer de Capítulos Provinciais monástica no seu todo, foi particularmente influen- Em apoio dos perseguidos, organizou-se em Inglaterra
ou Gerais de três em três anos, quer das visitas ciada pelo jansenismo, josefismo e Revolução um serviço de socorro eficiente e regular, tendo os
canónicas. No séc. XVII, verificou-se o renascimento Francesa e profundamente marcada por duas medidas beneditinos de Gand sido os primeiros a desembarcar

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ORDENS E CONGREGAÇÕES MASCULINAS BENEDITINOS

(1794). Os beneditinos de Bruxelas chegaram a 20 e 23 de Maio de 1814. À morte do rei, assina- movimento de restauração foi iniciado em França
Londres no mesmo ano e estabeleceram-se lando o fim do antigo regime e velho monacato, as por Próspero Guéranger, que fundou Solesmes e
inicialmente em Winchester. Estes mudaram para cortes liberais instituídas retomaram a questão instituiu a congregação francesa, em 1837. Logo
East-Bergholt perto de Colchester em (1875), e monástica, promulgando a 25 de Outubro do mesmo foi seguido na Alemanha pelos irmãos Wolter, que
aqueles fixaram-se em Oulton, perto de Stone (1853), ano a Lei dos Regulares, suprimindo as ordens fundaram a Congregação de Beuron em 1868. Na
depois de terem permanecido em Caverswall Castle. religiosas e reservando alguns conventos para asilos. Itália, aparece a Congregação Americano-Cassinense,
Napoleão prolongou o movimento antimonacal e, Os sucessivos revezamentos dos partidos no governo em 1855, e a Subeacense, dita Cassinense da
a 4 de Dezembro de 1808, firmou, em Chamartín, provocaram fortes oscilações nas posições clericais Primitiva Observância, em 1909.
o decreto de exclaustração parcial, com respectiva e anticlericais. Quando de novo sucedeu o regime
redução dos mosteiros à terceira parte, reforço da absoluto, as ordens reais, emanadas de 11 de Junho 5. Confederação beneditina. Foi neste horizonte
proibição relativa à admissão de noviços e insistência e 12 de Agosto de 1823, revogaram as enclaus- impregnado de antiespiritualidade que Leão XIII
na escolha entre a secularização ou o agrupamento trações e devolveram aos proprietários os bens equacionou as medidas mobilizadoras da restauração
em mosteiros indiferenciados. Toda a Europa confiscados, sem direito a indemnização. E, quando católica. Considerando agora apenas o caso dos
participou neste ambiente epocal e, como conse- avançou o governo de Martínez de la Rosa, por Beneditinos, Leão XIII lançou, em 1893, uma
quência, a exclaustração e a desamortização oposição, o Decreto de 26 de Março de 1834 instituição de cúpula capaz de interligar as congre-
estenderam-se progressivamente, à medida que as suprimiu alguns conventos que tinham apoiado os gações beneditinas existentes e vinculadas à Regra
ideias anticlericais ganhavam força de lei e as invasões carlistas na guerra civil e de seguida, a 22 de Abril, e tradição da OSB. Tal instituição denominou-se
francesas iam progredindo. Com a anexação dos proibiu a admissão de noviços, criando uma Junta Confederação Internacional Beneditina (CIB), foi
territórios situados na margem esquerda do Reno Eclesiástica para analisar assuntos deste âmbito. Com fornecida com regulamento jurídico próprio, presidida
por parte de França (1 de Outubro de 1795), depressa o programa progressista Mendizál, reforçou-se a pela figura do Abade Primaz e sediada em Roma
o anticlericalismo chegou à Bélgica e Luxemburgo exclaustração e supressão das ordens monásticas (Breve Summa semper). É actualmente presidida por
e se impôs por Decreto de 1 de Dezembro de 1796. (11 de Setembro de 1835). Toda esta oscilação Notker Wolf, eleito no Congresso de Abades a 7 de
Na Alemanha, a exclaustração afigurou-se evidencia a incompatibilidade entre a construção da Setembro de 2000. A Confederação integra órgãos
consequência de uma desamortização total dos bens racionalidade moderna – a querer dominar todas as de decisão e formação: o Congresso dos Abades,
monásticos, motivada por conveniência financeira, instâncias do pensar e agir humanos – e os alicerces que promove o regular diálogo interinstitucional, é
ou seja, por estratégia seguradora de fundos numa religiosos, suporte de um modelo de conhecimento constituído por Abades, Superiores de priorados
conjuntura histórica determinada. Na Áustria, sob mediado pela Fé. independentes, Prior do Colégio Internacional de
o governo da Imperatriz Maria Teresa, estabeleceu- S.to Anselmo, Reitor do Ateneu, Administradores e
-se, em 1756, uma comissão inicialmente controladora Procuradores legitimamente designados e é
dos mosteiros, alguns extremamente prósperos convocado de quatro em quatro anos, sendo uma
(Melk), o que conduziu posteriormente à supressão das funções estabelecidas a eleição do Abade Primaz;
verificada em 1783. No mesmo movimento o Sínodo dos Abades negoceia matérias comuns às
invasionista e antimonástico foram suprimidos os congregações; o Colégio de S.to Anselmo, centro
mosteiros suíços, a partir de 1794, e todas as abadias internacional beneditino de estudos (domus
da Toscana, em 1807. Em Espanha, por exemplo, a studiorum), situado em Roma e onde funciona o
exclaustração definitiva foi tardia (Decreto de 4 de Ateneu Pontifício de S.to Anselmo, centro cultural
Dezembro de 1808), tendo lugar quando a França monástico beneditino. Estes órgãos comportam
já estava em plena restauração trapense e em véspera diferentes serviços que projectam diversas funções
da beneditina. Em Itália, outro exemplo diferente é administrativas ou assistenciais. A Confederação está
o de José Bonaparte, que decretou o encerramento ligada a outras instituições monacais internacionais
de todas as casas religiosas no prazo de 15 dias, independentes e a instituições ecuménicas e
com contagem a partir de 18 de Agosto de 1809, comunidades leigas variadas. Com Pio XII, toda a
à excepção de Montecassino, Cava e Montevirgine. legislação da Confederação foi codificada na Lex
Por conseguinte, embora a legislação anticlerical propria, sua constitutione Confoederationis
corresponda à concreção da ideologia oitocentista monasticarum Ordinis Sancti Benedicti, promulgada
dominante, as circunstâncias políticas e situações a 21 de Março de 1952. Importa destacar o
militares de cada país tornaram anacrónica a sua congresso de 1973, devido à decisão tomada sobre
aplicação. a eleição do Abade, fixa de oito em oito anos com
A par da hostilidade dirigida aos regulares e à Igreja, direito a reeleição por um período de quatro anos.
vai-se constituindo um movimento defensivo com Em 1960, a Confederação foi alargada com a
enquadramento político. A sucessão em alternativa integração da Congregação dos Oliveteanos,
Interior do Mosteiro de S. Martinho de Tibães (JAM)
dos partidos governamentais provocou uma seguindo-se os Vallombroseanos (1966), os Eremitas
intermitência ora favorável, ora desfavorável ao sector de Camaldoli (1966) e os Silvestrinos (1973).
religioso. A relação directa entre o fluxo e refluxo No séc. XIX, a OSB estava moribunda, mas, mais Actualmente, as 21 congregações vinculadas à CIB
ideológico-político e a alteração de pressão sobre o uma vez, recuperou o seu vigor e revestiu estão individualmente representadas em Roma pelo
sector religioso são paradigmaticamente ilustradas observâncias extremamente variadas, sobretudo a respectivo Abade e mantêm reuniões anuais. Em
por Espanha. Assim, com o regresso de Fernando partir da segunda metade do século. Algumas antigas 1957, a CIB contava com 11 500 religiosos, mas a
VII como rei absoluto e imediata abolição do sistema instituições reapareceram ou reencontraram a sua crise de vocações, sobretudo de vocações estáveis,
liberal, as casas e propriedades confiscadas aos dinâmica (Congregação Cassiniana) e outras foram provocou uma diminuição de efectivos e, em 2004,
religiosos foram devolvidas, por ordens datadas de criadas (Sainte-Cécile de Solesmes, em França). Este contabilizaram-se 8000 monges.

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ORDENS E CONGREGAÇÕES MASCULINAS BENEDITINOS

Com excepção do período dominado pelo nacional- denominada International Commission on Benedictine sucedem-se os Cistercienses: Tarouca (1144), Lafões
-socialismo alemão e pelo regime comunista após Education (ICBE). Publica edições científicas, a (1163), Salzedas (1196), Aguiar (1190), Macieira-
1945, a OSB ganhou estabilidade no séc. XX. salientar Corpus Cristianorum (Seebbrugge), Volgata -Dão (1195), S. Pedro de Águias (1201), Fiães (1203),
A Ordem dilatou-se pelo Novo Mundo, lançou-se (Roma, S. Jerónimo), Vetus Latina (Beuron), Corpus Seiça (1206), Bouro (1208), Estrela (1234).
no apostolado missionário (Congregação Missionária Consuetudinum (Roma, S.to Anselmo), e mantém em No séc. XIV, os mosteiros portugueses não estiveram
de Santa Otília) e fomentou o movimento litúrgico. circulação várias revistas científicas e históricas de imunes ao relaxamento disciplinar nem isentos do
A partir de 1919, reconheceu-se o interesse das referência, como Revue Mabillon (Ligugé, França), vínculo aos comendadores. Foram igualmente
missões para as colónias, dando resposta pronta às Downside Review (Downside, Inglaterra), Worship dizimados pela peste negra e neles se repercutiu a
necessidades locais e obedecendo a cinco princípios: (St. John, Collegeville, EUA), Studia Monastica crise nacional decorrente da Revolução de 1383.
co-responsabilidade, descentralidade, subsidiaridade, (Montserrat, Espanha), Revue Bénédictine (Maredsous, A situação criada trouxe à evidência a necessidade
solidariedade e adaptabilidade. Exemplo dessa Bélgica) e Studia Anselminiana (S.to Anselmo, Roma). de reformas. Seguiu-se a mobilização de autoridades
expansão transeuropeia foi a iniciativa de Camilo Com página própria na Internet (www.osb.org), a diocesanas (D. Fernando da Guerra e D. Luís Pires),
Leduc que estabeleceu o Mosteiro de S.to André de OSB mantém uma presença discreta impossível de reis (D. Duarte e D. Afonso V), e regrantes, entre
Bruge, em 1927, em Si-Shan, perto de Shundking contornar, diminuir ou anular. eles o Abade Gomes Anes, discípulo do grande
(China), dotando-o de uma biblioteca dedicada aos reformador olivetano Luís Barbo, e o Abade João
estudos orientais. O fracasso de algumas fundações 6. Ordem Beneditina em Portugal. Embora na Álvares, de Paço de Sousa. Desentendimentos e
(Leopolville, no Congo Belga, abandonado em 1925; Península Ibérica a vida monástica tenha seguido protestos isolaram as diversas propostas de reformas
Beagle Bay no Norte da Austrália até 1903) não um caminho próprio devido à invasão mulçumana, e inviabilizaram a generalização de bulas renovadoras.
interrompeu o expansionismo, como comprova a a reforma de Cluny entrou em Espanha através dos A reforma efectiva começou no Mosteiro de S.to
fundação de Keur-Moussa (Senegal) em 1963, reinos de Navarra, Leão e Castela. Relativamente ao Tirso com o Abade Comendatário D. António da
tornada abadia 19 anos mais tarde, notável pelo condado e posterior reino portucalense, toda a Silva e com a chegada, em 1558, do Fr. Pedro de
culto da música sacra. Os bascos Belloc, Dahomey informação sobre a reforma cluniacense e a OSB, Chaves (espanhol) e Fr. Plácido Villalobos (natural
e Benin, em 1963, criaram S. Bento das Fontes, em em geral, deve ser prioritariamente procurada no de Lisboa), os dois provenientes do Mosteiro de
Zagnando, na Diocese de Abomey (Tanzânia). Na trabalho de José Mattoso, que investiu na ordenação Montserrat.
Índia, a 21 de Março de 1950, o beneditino Kergonan de maços de pergaminhos e na reconstituição de A Congregação dos Monges Negros de São Bento
Henri le Saux e o Sacerdote Júlio Monchanin séries de documentos, viabilizando uma análise dos Reinos de Portugal foi das primeiras a constituir-
fundaram o Mosteiro de Saccidananda o Shantivanam tipológica e estrutural de consulta incontornável. -se logo após o decreto reformador do Concílio de
(Tamic Nadu), de estrutura similar a um ashram. Esta Mattoso atestou que a Regra é mencionada pela Trento. Foi efectivamente erecta, em 1566, pela Bula
adaptação cultural e internalização de certos primeira vez numa prescrição do Concílio de Coiança In eminenti de Pio V e completada pelas Bulas
costumes (vegetarianismo e hábito) são reveladoras de 1055, em alternativa com a Regra de S.to Isidoro, Regimini Universalis Ecclesiae e Ex injuncto nobis
da capacidade vivificadora das marcas da segundo o costume peninsular da não-exclusividade. desuper, ambas de 1567. No estudo de Geraldo
espiritualidade beneditina. A sua aplicação efectivou-se no Mosteiro de Vilela, Dias informa-se que a Congregação foi formada por
O monaquismo pós conciliar investiu na dinâmica em 1086, e no de S. Romão do Neiva, em 1087. 22 abadias de diferentes dioceses, precisamente 18
interinstitucional e criou uma estrutura mediadora, A Regra é ainda citada em documentos dos Mosteiros de antigos mosteiros e 4 de outros construídos de
a Aliança Inter-Mosteiros (AIM), que promove a do Paço de Sousa, de 1087, da Pendorada, de 1099, raiz, do Colégio de S. Bento de Coimbra, tornado
cooperação, a solidariedade e o Diálogo Inter-religioso deduzindo-se deles a sua observância. Também o abadia por volta de 1588, e de 2 casas menores
Monástico (DIM/MID). processo de eleição do Abade de S.to Tirso, em 1092, (Foz do Douro e Braga). No primeiro grupo,
Os Beneditinos sempre se ocuparam da educação e processo típico da Regra, e a atribuição do título de
da cultura, algumas vezes de modo paradigmático. Prior aos Abades de Leça, em 1093, de Pendorada,
Embora não tenha tido uma escola teológica e em 1094, de Paço de Sousa, em 1104, e de Cete,
filosófica própria, destacou-se S. to Anselmo que em 1117, permitem atestar a influência cluniacense.
recebeu o título de Doutor da Igreja. Foram muitos A relação entre o Abade de Tibães e S. Geraldo,
os papas pertencentes à OSB por curtos ou longos Arcebispo de Braga que havia professado no mosteiro
períodos de pontificado: S. Gregório I, o Grande cluniacense de Moissac, admite a introdução dos
(590-604), S. Bonifácio IV (608-615), Adeodato II costumes de Cluny no mosteiro tibanense, tanto
(672-676), João IX (898-900), Leão VII (936-939), mais que o biógrafo do arcebispo lhe atribui
Silvestre II (999-1003), Estêvão X (1057-1058), actividade reformadora na diocese. Mattoso afirma
S. Gregório VII (1073-1086), Beato Vítor III (1086-1087), que entre 1080 e 1115-1120 os mosteiros das
Beato Urbano II (1088-1099), Gelásio II (1118-1119), Dioceses de Porto e Braga haviam adoptado a Regra
Celestino IV (1241-1241), Nicolau III (1277-1280), e os costumes cluniacenses, sem se filiarem na
S. Celestino V (1294-1294), Beato Urbano V (1362- Congregação nem obterem isenção canónica. Fora
-1370), Pio VII (1800-1823). Actualmente, entre as desta área, outros mosteiros tinham filiação
figuras de forte projecção religiosa, destacam-se os cluniacense, como Rates (1100), Vimieiro (1127) e
Beatos Plácido Riccardi, Cardeal Dusmet e Cardeal S.ta Justa de Coimbra (1102). Todavia, e não obstante
Schuster. Também se reconhece o esforço de Luca a adesão e presença, mesmo em comunidades
Etlin de Conception (EUA) e Meinrado Eugster de eremíticas, o sistema beneditino não foi o único no
Einsiedeln a favor do retorno à autêntica tradição território português. Alguns antigos mosteiros
da OSB. A OSB possui centros para formação dos passaram para a reforma de Cister a que D. Afonso
próprios religiosos e escolas que promovem o ideal Henriques deu ajuda, em particular depois da vitória
beneditino, integradas numa organização de apoio de Ourique, em 1139. Numa linha genealógica, Mosteiro de S. Martinho de Tibães (JAM)

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ORDENS E CONGREGAÇÕES MASCULINAS BENEDITINOS

inscreveram-se S. Martinho de Tibães (1569), cabeça e na leccionação, manifestando maior dedicação à monásticas e a extinção de vários conventos (18 de
da Congregação e respectiva casa capitular, S. to pregação e ministérios que ao retiro contemplativo. Outubro de 1822). D. João VI suspendeu as medidas
André de Rendufe (1569), S.ta Maria de Pombeiro Deste modo, o Capítulo Geral de 1575 investiu na (14 de Junho de 1823), sendo novamente revogadas,
(1569), S. Salvador de Travanca (1569), S. João de criação de três colégios de coristado (Latinidade, em até se decretar a extinção definitiva de todas as
Arnoia (1569), S. Miguel de Refojos de Bastos (1569), Refojos de Basto; Artes, em Alpendorada; Teologia, casas das ordens regulares, correspondente à
S. Romão de Neiva (1569), S. João de Cabanas em Coimbra) e por deliberação de Gregório XVI exclaustração total, datada de 28 de Maio de 1834.
(1569), S. Salvador de Ganfei (1569), S. João Baptista (1596) a Congregação usufruía do privilégio de Em consequência, os exclautrados dispersaram-se
de Alpendorada (1569), S. to Tirso de Riba d’Ave conferir graus de bacharel, mestre e doutor, com em direcções tão variadas que o estudo reconstitutivo
(1569), S. Miguel de Bustelo (1585), S. Martinho do direito quer a privilégios e isenções, quer ao das trajectórias pessoais resulta impossível. O último
Couto de Cucujães (1588), S. Salvador de Palme reconhecimento à jubilação, a quem quer que monge da congregação portuguesa dos Beneditinos
(1588), S.ta Maria do Carvoeiro (1588), S. Cláudio leccionasse ininterruptamente durante 12 anos. morreu aos 85 anos, em 1894.
de Lima ou Clódio (1588), S. João de Arga (1588), Também nesta reunião capitular se colocou o A restauração portuguesa começou com Fr. João de
S.ta Maria de Miranda (1588). No séc. XVI, foram problema da fundação de mosteiros nas ilhas Santa Gertrudes Leite Amorim, vindo do Brasil.
edificados os Mosteiros de N. Sr.a da Estrela (1571) atlânticas, na Índia e no Brasil. Angariou vocações e comprou o Mosteiro de
em Lisboa, S. Bento dos Doze Apóstolos (1581) em A congregação portuguesa expandiu-se para o Brasil Cucujães (1875), elevado a Priorado (1876) e, anos
Santarém, S. Bento da Saúde (1581/1593), S. Bento com o apoio de Filipe II. Em 1580, o irmão donato depois, a Abadia (1888). São duas as etapas de
da Vitória (1596) no Porto. O processo das tomadas Pedro de São Bento Ferraz, brasileiro, foi enviado à restauração da Confederação Portuguesa. A primeira
de posse dos mosteiros pela vagatura dos Bahia para sondar uma possível fundação, ainda que data de 1888 (Couto de Cucujães) e assinala a
comendatários foi moroso e dificultoso, pelo que o esse não fosse o motivo declarado. O acolhimento federação na Congregação Beuronense (Alemanha),
primeiro Capítulo Geral se reuniu em Tibães, a 10 foi excelente, tendo sido doado um terreno para que mais tarde ajudou na fundação do Mosteiro de
de Setembro de 1570 (Livro dos Capítulos Gerais fundação de um mosteiro pelo casal Francisco- Singeverga, Roriz (1892). A Congregação foi de
da Congregação do Glorioso S. Bento e das Suas -Alfonso Condestável e Maria Carneiro. A 7 de seguida penalizada pelo Decreto monárquico de 18
Definições e Eleições). Nele participaram 19 Outubro de 1581, o Capítulo Geral da Congregação, de Abril de 1901, que proibiu a vida de clausura,
representantes de oito mosteiros, encarregados da sob direcção do recém-eleito Plácido Villalobos (1 os Noviciados e os votos, exceptuando as instituições
redacção das constituições e realização de eleições. de Outubro de 1581), concordou com o esta- dedicadas à instrução, beneficência ou propaganda
O primeiro Abade Geral foi Fr. Pedro de Chaves, belecimento de casa e enviou Fr. António Ventura da fé e civilização no Ultramar, levando ao encerra-
nomeado de 1569 a 1578 e eleito por mais um que seria o primeiro Abade de S. Sebastião de S. mento de Cucujães e da escola claustral de
triénio (1578-1581), seguindo-se Fr. Plácido Villalobos Salvador na Bahia (1581). Seguiram-se construções Singeverga. Não obstante, anteviu-se a possibilidade
(1581-1587), Fr. Baltasar de Braga (1587-1609) e de abadias no Rio de Janeiro (1586), Paraíba do de contornar o decreto, caso se assumisse a figura
Fr. Gonçalo de Morais (1590-1593), num total de Norte (1596) e S. Paulo (1598), de onde irradiou a de associação, pelo que se instituiu a Associação de
94 gerais. Em 1569, a congregação portuguesa era beneditização brasileira. Na Junta de Pombeiro, de São Bento, cujos Estatutos foram aprovados a 2 de
constituída por 80 monges e os dados recolhidos 22 de Agosto de 1596, esboçaram-se as primeiras Novembro de 1903. A implantação da República (5
na visitação de 1588-1589 indicavam 180 regrantes, constituições da Província do Brasil, erecta nesse de Outubro de 1910) deixou emergir as antigas
cuja distribuição era decidida de três em três anos mesmo ano. Os Abades eram eleitos, sempre em medidas de exclaustração e Cucujães foi arrolado e
pelo Capítulo Geral. Em função do número de número de dois, nos Capítulos Gerais realizados em vendido, escapando Singeverga por estarem vivos
monges, distinguiam-se os mosteiros em maiores Portugal. As dificuldades de recrutamento para o os doadores. Nele permaneceu o Superior P.e Manuel
ou menores, estes com menos de 13 residentes. Brasil, conjuntamente com a ordenação da exclusão Baptista Ramos e dois irmãos, mantendo um reduto
Além disso, os mosteiros estabeleciam duas categorias de mestiços e não nobres na Congregação (Pombeiro, institucional, que se converteu no ponto de apoio
de regrantes: os clérigos e os irmãos leigos ou irmãos 1600), levaram a acrescentar um quarto voto: voto para a arrancada da segunda restauração, prota-
donatos, orientados para a prestação de serviços de passar o mar. Para a história da presença gonizada por D. António Coelho e D. António
auxiliares. As Constituições de 1629 exigiam como beneditina no Brasil, há a considerar o período das Ildefonso, ambos postulantes na Bélgica (8 de
condição de admissão o saber latim ou, na sua falta, invasões holandesas (1624-1650), que afectou os Outubro de 1919). Em Julho de 1921, o Capítulo
possuir outra vantagem, tal como nascimento ilustre mosteiros brasileiros, sobretudo os do Norte, e o Geral da congregação belga decidiu quer a erecção
ou dotes musicais. O Noviciado decorria durante movimento separatista das “bilhas”, conduzido pelo de Singeverga em Priorado Conventual (1922), quer
mais ou menos um ano e realizava-se em Tibães, Abade Provincial Fr. Diogo Rangel, eleito no Capítulo a autonomia relativamente à Congregação de Beuron,
Lisboa e Porto. Os mosteiros investiam na formação Geral de 1 de Março de 1662. Inicialmente, Roma à qual Cucujães aderira. Até à revogação das leis
sentenciou contra o separatismo no Breve Exponi anticongregacionistas, viabilizadora da abertura do
nobis nuper fecit (9 de Setembro de 1686), mas Noviciado em Falperra (Setembro de 1927), a
com a independência do Brasil em 1822, a Santa formação foi assegurada em Samos, na Galiza (1922-
Sé autoriza a erecção da congregação brasileira -1926). A congregação portuguesa uniu-se à
mediante a Bula do Papa Leão XII, Inter gravissimas congregação belga da Anunciação em 1933.
(1 de Julho de 1827). Na história dos Beneditinos em Portugal há ainda a
Portugal desde cedo se mostrou ilustrado e positivista. considerar a elevação de Singeverga a Abadia (1938),
Com o Marquês de Pombal seguiram-se os passos a extinção da cela de Tibães (1931-1938) e o seu
antimonásticos de França e instituiu-se uma Junta reconhecimento como corporação missionária (1931),
de Exame, com a finalidade de verificar o estado colocada no Moxico (Angola), em 1933. Seguiu-se
actual e melhoramento temporal das ordens um momento de expansão, pontuado não só com
regulares. Porém, na sequência da Revolução Liberal o funcionamento de uma cela no antigo Mosteiro
(1820), foi decretada (25 de Maio de 1821) a de S. Bento da Vitória no Porto (1943), a reabertura
Palácio de S. Bento, antigo convento beneditino (Artlandia) suspensão da admissão de noviços nas ordens do Colégio de Lamego (1949) e a inauguração da

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ORDENS E CONGREGAÇÕES MASCULINAS CAPUCHINHOS

cela de N. Sr.a da Graça em Lisboa (1950), como Benedictino, Trad. de José Aguirre, Eneko Aguirre, no Arquivo Distrital de Braga: Nota Explicativa”, Sept.
também com a significativa construção do novo Zamora, Ediciones Monte Casino, 2001; BUTLER, C., de Bracara Augusta, 20, 45/46, Braga, 1967; MEIRELES,
Mosteiro de Singeverga (1957) e o apostolado La Règle de Saint Benoît, Paris, Desclée ou Lethielleux, António da Assunção, Memórias do Mosteiro de
missionário em Angola, no Priorado de Luena (1962). 1933; BUTLER, C., Sancti Benedicti Regula Monasteriorm, Paço de Sousa & Index Monástico-Conventual, Braga,
2.a ed., Fribourge-en-Brisgrau e de Linderbrau/Bonn, Universidade do Minho, 1985; Mensageiro de S.
1928; COCHERIL, Maur, Études sur le Monachisme en Bento, Singeverga, Ano XVI [1947]; PACAUT, Marcel,
Espagne et au Portugal, Paris, Belles Lettres, 1966; Les Ordres Monastiques et Religieux au Moyen Agê,
COLOMBÁS, Garcia M., La Traducción Benedictina, 10 Lyon, Éditions Nathan, 1993; Regra de S. Bento, Trad.
vols., Zamora, Ediciones Monte Casino, 1989-1997; do latim por D. Crisóstomo d’Aguiar, Cucujães,
COLOMBÁS, Garcia M., San Benito, Su Vida y Su Regla, Tipografia Porto Médico Lda., 1937; Regula
2.ª ed., Madrid, La Editorial Catolica, 1968; CONDE, Monasteriorum 2.º L. de Gregorii Magni Dialogi,
António Linage, San Benito y los Benedictinos, 8 (593), Editiones Patrologiae, apud Montem Rubrum,
vols., Braga, Edição da Irmandade de S. Bento da luce donatae inter quos praecipuus R.P. Pitra ordinis
Porta Aberta, 1991-1993; DIAS, Geraldo, “Liturgia S. Benedicti; SAINT-MARIE de PARIS, osb, Sous la Règle
e arte: diálogo exigente e constante entre os de Sain Benoît: Structures Monastiques et Sociétés
Mosteiro de Singeverga (JAM)
beneditinos”, in Revista da Faculdade de Letras, en France du Moyen Âge à l’Époque Moderne,
Ciências e Técnicas do Património, vol. 2, I Série, Genève, Librairie Droz, 1982; Sancti Benedicti, Regula
De momento, da Abadia de S. Bento de Singeverga Porto, 2003, pp. 291-310; DIAS, Geraldo, “A Regra Monachorum, Textus ad fidem. Cod. Sangallensis
dependem o Priorado de Lamego, as casas de Lisboa de S. Bento, norma de vida monástica: sua 914, adujuncta verborum concordantia cura D.
e do Porto, o Priorado de Luena e a Casa de Huambo. problemática moderna e edições em português”, in Philiberti Schmitz, Maredsous, Éditions de Maredsous,
Integrada na Congregatio Annuntiationis, mantém Revista da Faculdade de Letras: História, vol. 3, III 1946; São Bento: II Livro dos Diálogos de S. Gregório,
actividades culturais diversas (Museu de Etnografia Série, Porto, 2002, pp. 9-48; DIAS, Geraldo, “Ora & Mosteiro de S. Bento da Vitória, Edições Ora & Labora,
e Zoologia de Angola, Conservação e Restauro de Labora: À procura da origem da divisa beneditina”, 1993; SCHMITZ, Philibert, Histoire de l’Ordre de Sain-
Arte Sacra, Encadernação e Gráfica e Editora Ora & in Humanitas, vol. I, Coimbra, 1998, pp. 293-298; -Benoît, 7 t., 2.ª ed., Paris, Les Éditions de Maredsous,
Labora) e praticam agricultura, sendo famoso o Licor DIAS, Geraldo, “Do mosteiro beneditino ideal ao 1948-1956; SOUSA, D. Gabriel de, “Beneditinos”, in
de Singeverga. A acção dos beneditinos portugueses Mosteiro de S. Bento da Vitória”, in O Mosteiro de Dicionário de História da Igreja em Portugal, vol. II,
caracteriza-se pelo apostolado litúrgico a que está S. Bento da Vitória: 400 Anos, Porto, Arquivo Distrital Lisboa, Editorial Resistência, 1981, pp. 319-407;
adstrito serviço em paróquias, pelo serviço de do Porto/Afrontamento, 1997, pp. 13-93; D IAS , SOUSA, D. Gabriel de, Mosteiro de Singeverga: Cem
hospedagem e divulgação editorial. A publicação de Geraldo, “Hagiografia e Iconografia beneditinas. Os Anos de Vida Beneditina (1892-1992), Santo Tirso,
revistas tem sido uma constante: Opus Dei (1926- Diálogos do papa S. Gregório Magno”, in Via Spiritus, Ed. Ora & Labora, 1992; V ILLARES , Artur, As
-1937), Liturgia (1926-1951), Mensageiro de São n.º 3, Porto, 1996, pp. 7-24; D IAS , Geraldo, “O Congregações Religiosas em Portugal (1901-1926),
Bento (1931-1951), Ora & Labora (1954-1982), Mosteiro de Tibães e a reforma dos beneditinos Lisboa, FCG e FCT, 2003; VOGÜÉ, Adalbert de, La
Mensageiro de São Bento de Singeverga (1959- portugueses no século XVI”, in Revista de História, Règle de Saint Benoît, 7 vols., Paris, Sources
-1971) e Presença de Singeverga (1978). Entre os vol. XII, Porto, Centro de História da FLUP, 1993, Chrétiennes, 1972-1977.
Beneditinos conhecidos, destacam-se Fr. Bernardo pp. 95-132; D IAS , Geraldo, “Os beneditinos
de Vasconcelos, poeta com processo de beatificação, portugueses e a missão”, Sept. de Bracara Augusta, MARIA TERESA C. S. GONÇALVES DOS SANTOS
D. António Ildefonso dos Santos Silva, Bispo de Silva vol. XXXVIII, n.os 85-86 (98-99), 1984; DUBOIS, Jacques,
Porto, D. Francisco Dias, Bispo do Luso. O Abade Les Ordres Monastiques, Paris, PUF, 1985; ENDRES,
Superior de momento é D. Luís Bernardo Sacadura D. José Lohr, A Ordem de São Bento no Brasil Quando CAPUCHINHOS
Botte Aranha e, em 2007, registavam-se 52 monges Província 1582-1827, Bahia, Editora Beneditina, A Ordem dos Frades Menores Capuchinhos (OFMCap)
distribuídos pelo Mosteiro de Singeverga, Priorado 1980; GENESTOUT, A., “La Règle du Maître et la Règle foi fundada em 1525 nas Marcas (Itália) por
do Colégio de Lamego, celas da Graça em Lisboa e de Saint Benoît”, in Revue d’Ascétique et de Fr. Mateus de Bascio, a partir da reforma dos
S. Bento da Vitória, no Porto, e em Angola. Os Mystique, 21, 1940; LACERDA, Silvestre de Almeida, Franciscanos Observantes. Os Capuchinhos,
oblatos seculares estão espalhados por diversos “Nota para o Estudo da Documentação do Mosteiro chamados originariamente Ordem dos Irmãos da
centros. de São Salvador de Paço de Sousa”, Sept. de Penafiel: Vida Eremítica, constituem um dos três grandes
Boletim Municipal de Cultura, Penafiel, Câmara ramos da Ordem Franciscana.
BIBLIOGRAFIA: AA.VV., Dictionnaire de Spiritualité Municipal de Penafiel, 1992, pp. 6-7; LEVISON W. Embora o verdadeiro fundador dos Franciscanos
Ascétique et Mystique: Doctrine et Histoire, t. XIII, (ed.), Scriptores rerum merovingicarum in usum Capuchinhos seja S. Francisco de Assis, o iniciador
Paris, Beauchesne, 1988, pp. 268-281; A LMEIDA , schorarum, Hannover, MGH, 1905; LUNA, Joaquim desta reforma é Fr. Mateus de Bascio, nascido em
Fortunato de, História da Igreja em Portugal, 4 vols., Gomes de, Os Monges Beneditinos no Brasil, Rio de Urbino (Itália), na segunda metade do séc. XV, e
Porto/Lisboa, Livraria Civilização, 1970-1971; Anuário Janeiro, Ed. “Lúmen Christi”, 1947; MARTINS, Mário, falecido em Veneza, em 1552. Revoltado com a
Católico de Portugal 2007, [Lisboa], Secretariado O Monacato de São Frutuoso de Braga, Coimbra, adulteração dos princípios da Ordem Franciscana,
Geral da Conferência Episcopal Portuguesa, 2007, Coimbra Editora, 1950; MATTOSO, José, Religião e decidiu repor a pureza original de S. Francisco. Fugido
pp. 823-824; A RAÚJO , António de Sousa, S ILVA , Cultura na Idade Média, Lisboa, INCM, 1982; MATTOSO, do seu convento, partiu para Roma onde pediu ao
Armando Malheiro da, Inventário do Fundo Arquivo José, Lusitania Sacra, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa Papa Clemente VII autorização para pregar a sua
Distrital de Braga: Nota Explicativa, Braga, s.n., 1967; da Moeda, 1974; MATTOSO, José, Le Monachisme reforma, o que lhe foi concedido, de viva voz, em
AZEVEDO, C. M. (dir.), Dicionário de História Religiosa Ibérique et Cluny: Les Monastères du Diocese de 1525. Em finais deste mesmo ano, acorrem ao seu
em Portugal, [Lisboa], Círculo dos Leitores/Centro Porto de l’An Mille à 1200, Lovaine, Publications de Superior Provincial, Fr. João de Fano, dois irmãos de
de Estudos de História Religiosa da Universidade l’Université, 1968; MATTOSO, José, “Inventário dos sangue, Fr. Ludovico e Fr. Rafael de Fossombrone,
Católica Portuguesa, 2000-2001; BUTLER, C. Monacato Fundos de Antigos Mosteiros Beneditinos Existentes pedindo autorização para se retirarem a um

71
ORDENS E CONGREGAÇÕES MASCULINAS CAPUCHINHOS

a partir da reforma observante, que mais tarde, em Observantes, aos quais estavam ainda sujeitos
1525, surgiram os Capuchinhos, fundados por Fr. juridicamente, passaram a usar um hábito, de
Mateus de Bascio. estamenha escura muito simples, feito de túnica
talar com capuz alto e pontiagudo, cingido com
cordão de lã branca; o frade usa sandálias e por
vezes barba, e em certas épocas mais frias cobre-
-se de capa comprida. Pelos votos de austeridade e
pobreza, individuais e colectivos, os Capuchinhos
Logótipo da Difusora Bíblica (I) renunciavam a todos os privilégios que a Igreja tinha
concedido sucessivamente à Ordem de São
Francisco. Renunciavam assim ao pagamento por
Assim, a fundação deu-se só em 1529, nas toda e qualquer obra apostólica, recorrendo sempre
Constituições de Albacina, altura em que foi lavrada à mendicância. Na actualidade, a fisionomia humana,
a acta de fundação dos Capuchinhos, exarada pela religiosa e franciscana dos Capuchinhos pode
Bula Religionis Zelus, do Papa Clemente VII, na qual configurar-se nestes traços: no coração da sua
se constituía uma família franciscana independente vocação está o Evangelho de Cristo pobre, crucificado
dos Observantes, embora ficando ainda sujeitos à e servo; a vida e intuição carismática de S. Francisco
tutela dos Conventuais. A preocupação do seu de Assis, como genuíno Fundador; a densidade das
Fundador, de repor a pureza de S. Francisco, tomou características da sua designação de “frades
forma nas Constituições de Albacina, em 1529, mas menores”, na vivência da fraternidade e da
foi só em 1536 que as Constituições da Ordem minoridade; a dimensão orante e contemplativa da
foram revistas e terminadas pela pena de Bernardino vida pessoal e comunitária; a fisionomia de homens
de Asti, o terceiro Superior da Ordem, sendo a partir pobres, austeros e populares; a presença fraterna,
Fr. Mateus de Bascio (I)
desta data que o movimento capuchinho fica minorítica e profética junto dos irmãos mais
definitivamente organizado, destacando-se pela vida necessitados.
eremitério com outros companheiros, a fim de de oração, amor fraterno e simplicidade, pobreza e
observar a Regra de S. Francisco em toda a sua serviço aos necessitados. As Constituições de 1536,
pureza. Perseguidos pelos seus superiores, refugiam- conhecidas como Constituições de Santa Eufémia
-se nos Camaldulenses de Massaccio, indo depois (Roma), são a autêntica “carta de identidade” desta
procurar Fr. Mateus de Bascio para com ele se “bela e santa reforma”. Expoente simbólico destes
acolherem sob a autorização pontifícia. As valores é o seu primeiro irmão canonizado, S. Félix
perseguições continuam. A solicitude destes frades de Cantalício (m. 1587). Em 1608, Paulo V, pela
para com as vítimas da nova peste que assolou a constituição apostólica, declarava finalmente os
cidade de Camerino granjeou-lhes o apreço da Capuchinhos como verdadeiros filhos menores de
população. O Geral dos Franciscanos Conventuais S. Francisco de Assis, com igual deferência dos outros
tomou-os sob a sua protecção, concedendo-lhes a irmãos da família franciscana. Em 1619, pelo Breve
liberdade de viver segundo as suas aspirações. Para Alias felicis recordationis, Paulo V acabava com a
resolver a sua situação jurídica, é decisiva a tutela dos Conventuais sobre os Capuchinhos. Em
intervenção de Catarina Cibo, Duquesa de Camerino, 1643, o Papa Urbano VIII aprovou as Constituições
que apresenta ao seu tio, o Papa Clemente VII, a definitivas, revistas e adaptadas ao Direito Canónico
súplica de Fr. Ludovico e Fr. Rafael de Fossombrone, vigente, e confirmadas por Pio X a 8 de Setembro
sendo-lhes concedida a aprovação pontifícia com a de 1909. A última e mais significativa reforma das
Bula Religionis zelus, a 3 de Julho de 1528. Muitos Constituições dos Capuchinhos data de 1986,
Observantes vieram unir-se aos Capuchinhos – nome secundando os dinamismos e exigências da renovação
que lhes foi dado pelas crianças e jovens de do Concílio Vaticano II e a publicação do novo Código
Camerino, devido ao seu novo hábito, mais de Direito Canónico.
concretamente às características do capuz. Segundo as suas antigas Constituições, os Capu-
Bíblia dos Capuchinhos (JEF)
O Movimento da Observância defendia o chinhos deviam viver em pequenas casas, erigidas
cumprimento rigoroso da vida claustral, com disciplina fora das povoações, e ter nem menos de seis nem
e penitência. Como diz Fr. Manuel da Esperança, mais de 12 frades, se as casas estivessem na orla Desde a sua fundação até 1608, os Observantes
“Frade observante na Ordem de S. Francisco, quer das cidades; também as igrejas deviam ser pequenas, opuseram-se à sua expansão, mas a partir daquela
dizer frade pobre, descalço, penitente, humilde, e celebravam as horas litúrgicas da meia-noite, e os data, o papa passou a defender os Capuchinhos
ajustado em tudo com as grandes obrigações da sermões deviam ser simples e despidos de retórica; tomando-os como verdadeiros representantes de
sua regra seráfica”. Os Frades Franciscanos aos Frades Capuchinhos era totalmente proibida S. Francisco, conferindo-lhes autonomia jurídica e com
Observantes tiveram o seu primeiro ministro geral qualquer remuneração pela pregação; deviam viver ela a liberdade em relação à tutela dos Observantes.
e governo independente em 1517, quando o Papa em fraternidade, com uma vida austera, penitente Desde o início que o espírito evangélico, os votos
Leão X, com a Bula Ite et vos dividiu a Ordem e pobre, pondo tudo em comum. A emergência de pobreza e austeridade os tornaram populares em
Franciscana nos dois grandes ramos: Conventuais deste ramo franciscano no séc. XVI não se fez sem todos os círculos sociais, sendo chamados de “frades
e Observantes, juntando nestes últimos as múltiplas oposição dos Franciscanos Conventuais e do povo”, sem que tivessem perdido com o tempo
reformas existentes na época. É deste movimento e Observantes. Para se distinguirem dos Irmãos estas características das origens. No início do

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ORDENS E CONGREGAÇÕES MASCULINAS CAPUCHINHOS

movimento capuchinho, e para além das restrições capuchinhos, em 1620 já contavam com devido às relações entre Portugal e a Coroa de
impostas pela tutela dos Observantes, a bula de aproximadamente 1000. No séc. XX, em Portugal, Espanha. Na restante África, onde franciscanos e
fundação tinha igualmente limitado a expansão ao serviram o Instituto Português de Oncologia, a Cruz jesuítas portugueses tinham missionado até ao séc.
território italiano, mas o apoio concedido por Carlos Vermelha de Lisboa, os hospitais civis de Lisboa e XVII, e quando já o Congo, Angola, Matamba,
de Lorena e pelo Rei de França, Carlos IX, à Barcelos, assim como os hospitais militares de Marrocos e Casanje se encontravam abandonados,
emergente Ordem dos Capuchinhos, fez com que Coimbra, Porto e Lisboa. o Padroado Português alargou-se pela acção dos
Gregório XIII revogasse tal restrição a 6 de Maio de mesmos Capuchinhos, solicitados pelo Papa Paulo
1574, passando os frades a ter total liberdade de V, em 1618, e a pedido de Álvaro III, Rei do Congo,
se estabelecerem onde quisessem, como o fizeram e da Rainha Ginga. Este pedido originou uma nova
em toda a Europa, América e Oriente. Foi assim que missão em 1640, dirigida por Fr. Boaventura de
rapidamente em França levantaram 438 conventos, Alessano, que só cinco anos depois passou ao Congo,
contando com um total de 6176 religiosos, integrando capuchinhos italianos e espanhóis. Com
distribuídos por 14 províncias. Em 1583 passaram a chegada de novos missionários fundou-se uma
aos Países-Baixos (Bélgica), em 1589 à Suíça, e em prefeitura em Angola. Os atrasos e dificuldades na
1593 à Áustria. Em 1599, já se encontravam na acção do Padroado Português deveram-se
Checoslováquia e um ano depois na Baviera. Em praticamente ao receio de que agentes contrários
Espanha, ainda tutelados pelos Observantes, aos interesses da Coroa portuguesa, principalmente
separaram-se deles, mas só em 1558 é que se por parte dos espanhóis, se infiltrassem na
estabeleceram, na cidade de Barcelona, seguindo- missionação portuguesa de além-mar. Por esta razão,
-se Valença, Aragão, Castela, Andaluzia e Navarra. foram proibidos os capuchinhos espanhóis, restando
Em Portugal, só viriam a ter uma efectiva presença os italianos que desenvolveram uma grande acção
e expansão em 1939, quando a guerra civil espanhola Convento dos Capuchinhos, Barcelos (I) cultural e religiosa. Foi assim que D. João IV deu
os obrigou ao exílio. A sua expansão, porém, autorização apenas a 61 missionários, de 72
prosseguiu em todos os continentes. São significativos O conceito de missão e expansão capuchinha, propostos. Durante o reinado de D. Afonso VI, de
os números: cerca de 30 frades em 1529; 700 em idealizado por Fr. Mateus de Bascio, baseava-se na 29 missionários apresentados, só seis é que foram
1636; 3746 em 1578; 12 499 em 1613; 27 336 em pregação devidamente alicerçada nos pilares do aceites. Quando a Propaganda Fide nomeou 161
1702; 34 029 frades em 64 províncias e 1730 casas, Evangelho e da teologia, mediante a oração, o missionários capuchinhos (1667-1703), D. Pedro
em 1761, ano em que os Capuchinhos atingiram a silêncio, a meditação e o despojamento. Foi com deixou apenas que 127 partissem para a África; igual
maior expansão. Com a Revolução Francesa e a este zelo que os Capuchinhos não só aumentaram procedimento teve D. João V, que de 127
supressão das ordens religiosas, os Capuchinhos o número de frades como de conventos: para cada capuchinhos só autorizou a partida de 112. A missão
viram diminuídas as suas fileiras, e em 1847 contavam cidade protestante havia um convento capuchinho. do Congo, levada por diante exclusivamente pelas
com 11 152 religiosos, e em 1910, com 7628. Só A expansão da Ordem atingiu o elevado número de províncias italianas, subsistiu até 1835, enfrentando
em 1966 é que os Capuchinhos viriam a acusar de 438 conventos com mais de 6000 religiosos em toda a espécie de dificuldades, sendo a principal o
novo um crescimento considerável com 15 838 França, no decurso de 1754; estendeu-se com igual clima mortífero, que até 1746 tinha custado a vida
membros, 1286 casas e 71 províncias, para logo fervor à África, América e Oriente durante o período a 144 missionários. Da missionação em África, saiu
diminuírem até aos dias de hoje. Em Janeiro de dos Descobrimentos, dando início à missionação e a lume a Histórica Descrição dos Três Reinos do
2006, os Capuchinhos eram 10 793 frades professos à fundação de conventos e igrejas. O seu momento Congo, Matamba e Angola, da autoria de Fr. João
e 434 noviços, presentes em 101 nações do mundo. de maior expansão deu-se entre os sécs. XVI e XVII, António Cavazzi, que viveu mais de 25 anos naqueles
O seu trabalho social e religioso tocou todos os quando igualmente os Descobrimentos portugueses territórios. A Congregação de Propaganda Fide pôde
cantos da sociedade europeia, da África das e a conquista espanhola se alargaram ao mundo. alargar a sua acção à Índia através dos capuchinhos
conquistas, da América e da Índia: deram o seu Porém, a missionação dos Capuchinhos teve maior franceses: as primeiras missões procediam da sua
apoio efectivo durante os surtos epidémicos que em incidência em Angola e Brasil onde substituíram os irradiação de Alepo; em 1639, chegam a Surate;
sucessivos anos arrasaram a Europa – em 1668, 268 capuchinhos franceses por volta de 1615. Ainda no depois, atravessando o continente, para evitar o
capuchinhos morreram vítimas da ajuda prestada à Brasil, os capuchinhos italianos contaram com o encontro com os portugueses, dirigem-se a Madras,
epidemia de Paris; apoiaram e sustentaram os lugares apoio das autoridades portuguesas, ocupando os possessão inglesa; enfrentam vários conflitos com
de peregrinação; criaram associações e confrarias mesmos cargos deixados pelos seus irmãos franceses. os Jesuítas na controvérsia acerca dos ritos
de apoio aos presos e condenados à morte; Neste sentido, foi-lhes entregue, em 1705, o Hospício malabares. A missão asiática mais significativa foi a
ocuparam-se de órfãos e de jovens abandonados; da Bahia; em 1725, era-lhes confirmada pela do Tibete, mantida pelos capuchinhos italianos,
deram conforto aos combatentes, moribundos e Propaganda Fide a prefeitura de Pernambuco e, em desde 1703 até 1745. Em 1910, a Ordem dos
feridos de guerra – o Papa Pio V chegou a enviar 1737, a do Rio de Janeiro. Foi, a partir desta data, Capuchinhos possuía 736 conventos em 55 provín-
30 capuchinhos para a Batalha de Lepanto em 1571; que a missionação dos capuchinhos italianos cresceu cias, num total de 10 056 religiosos, dos quais 936
foram os primeiros a organizar-se na luta contra os no Brasil, com a abertura de várias missões. Na se dedicavam à missionação.
incêndios, podendo ser justamente considerados Guiné, onde tinham chegado em 1637, os Com o fim da Segunda Grande Guerra, os
como os precursores dos bombeiros voluntários; e Capuchinhos italianos não tiveram a mesma sorte, Capuchinhos foram expulsos da Abissínia, principal
revelaram-se como grandes pregadores populares. sendo expulsos neste mesmo ano pelos calvinistas centro de missionação, pedindo então para passarem
Embora as suas pregações fossem dirigidas às holandeses. Em Cabo Verde, trabalharam os à África portuguesa, tendo conseguido entrar em
populações menos cristianizadas, o seu trabalho capuchinhos da Normandia, de 1635 a 1644, tendo Angola, Moçambique e Cabo Verde. Desde 1947
mostrou-se igualmente profícuo na luta contra a abandonado a missão devido ao clima. Na Serra que os Capuchinhos têm permanecido em Angola,
Reforma Protestante nos Países-Baixos, e se aqui Leoa, entre 1645 e 1688, os missionários capuchinhos onde mantêm até hoje grande actividade de relevo
tinham chegado, em 1583, apenas quatro abriram várias missões, que acabaram por fechar evangelizador, cultural e humanitário em todos os

73
ORDENS E CONGREGAÇÕES MASCULINAS CAPUCHINHOS

Francisco da Mata Mourisca, que visitara os terminando assim esta missão francesa. Nestes 185
missionários em 1964 como Comissário Provincial anos de presença em Lisboa, os capuchinhos
dos Capuchinhos, veio a ser nomeado primeiro Bispo franceses eram reconhecidos pela sua vida edificante
de Carmona-S. Salvador (actual Uíje), tomando posse e irrepreensível.
a 30 de Julho de 1967, tendo exercido o seu Em 1686, seguiram-se-lhes os italianos, ambos
ministério episcopal até 3 Fevereiro de 2008. A 2 (franceses e italianos) designados por Barbadinhos.
de Novembro de 1968, é criada por decreto a Missão D. Pedro II concedeu-lhes licença para se congregarem
Regular dos Padres Missionários Capuchinhos, em Lisboa, a fim de prepararem as missões
conferindo-lhes o direito de eleger os seus próprios ultramarinas portuguesas onde já trabalhavam desde
superiores e a organizarem-se autonomamente. Em 1641 a pedido da Propaganda Fide, tendo ocupado
1972, serviam em Angola nas quatro missões do a Ermida de N. Sr.a do Paraíso. A concessão do rei
Caxito, Luanda, Uíje e Catete, 12 missionários, dos aos capuchinhos italianos, para terem em Lisboa
Missionação, Timor Leste (I)
quais cinco se mantiveram em 1976, devido às casa própria, deveu-se ao facto de, sempre que se
convulsões políticas geradas pelas lutas da dirigiam às províncias ultramarinas e de lá regres-
sectores. Ainda no Ultramar, as missões desenvol- independência. Actualmente, encontram-se a savam, terem de ficar hospedados na casa dos
veram-se em dois períodos: desde 1944, quando o trabalhar na Vice-Província de Angola seis franceses. Em 1692, os capuchinhos italianos
português Fr. Francisco Leite de Faria, juntamente capuchinhos portugueses, sendo dois bispos (D. Fr. passaram a ter casa própria, inicialmente administrada
com alguns confrades suíços, partiu para a Beira Francisco da Mata Mourisca, Bispo emérito do Uíje, por irmãos da Província de Génova e, mais tarde,
(Moçambique), mas pouco tempo depois os com- agraciado pelo Presidente da República Portuguesa, por superiores de várias províncias italianas. No
panheiros passaram ao Tanganica e às Seychelles, a 10 de Junho de 1992, com a Ordem do Infante mesmo ano, a 10 de Junho, os capuchinhos italianos
onde tinham as suas missões, e Fr. Francisco Faria Dom Henrique, e D. Fr. Joaquim Ferreira Lopes, Bispo receberam casa própria por doação das
acabou por regressar a Portugal em 1948; o segundo de Viana) e quatro frades. Mais recentemente, em comendadeiras de Santos da Ordem Militar de São
período situa-se em 1954, com a abertura da missão Outubro de 2003, os capuchinhos de Portugal Tiago da Espada, quando estas se transferiram para
de Angola, que teve como pioneiros Fr. Cirino de abriram uma nova frente missionária no jovem país um novo mosteiro. Fr. Paolo Varazze, Procurador e
Getúlio Vargas e Fr. Lourenço Torres Lima, o primeiro Timor-Leste, com um ano apenas de independência. primeiro Superior dos capuchinhos italianos,
capuchinho português formado e ordenado em Ali dispõem actualmente de duas fraternidades: uma anunciava a Roma que o seu novo convento tinha
Portugal, e mais tarde juntaram-se-lhes o Fr. Egídio em Laleia, na Diocese de Baucau, e outra em Díli, 23 celas, habitadas a partir desse ano de 1692 até
da Carpalhosa, o Ir. António do Carmo e o goês Fr. com o objectivo de implantar o carisma franciscano 1742. Em 1739, D. João V doou-lhes outro lugar
Aleixo de Calangute. Em Angola foram abertas as capuchinho em terras do Sol Nascente. A província onde fundaram um convento, para o qual o rei
missões de Nambuangongo, Caxito, Dande, S. José dos capuchinhos da Bahia e Sergipe (Brasil) colabora contribuiu anualmente com mais de 50 000 cruzados,
do Encoje e Nova Caipemba. Entre 1954 e 1964 nesta vivência e expansão missionária. que foi o Convento de S.ta Engrácia em Lisboa. Nele
foram realizados 8622 baptismos e 168 casamentos, Em 1761, os Capuchinhos atingiram a maior habitaram personalidades de relevo eclesiásticas e
fundaram-se 20 escolas primárias, com um total de expansão numérica, com 34 029 frades, disseminados civis, como por exemplo, Miguel Ângelo Conti, que
1027 alunos, e 2 internatos; construíram-se as por toda a Europa cristã, excepto a Inglaterra e a veio a ser o Papa Inocêncio XIII. Nele viveram os
Capelas de Porto Kipiri, Quikabo, Nambuangongo Holanda (pela oposição protestante) e Portugal, por capuchinhos italianos até ao ano de 1834 quando
e Nova Caipemba. Na década de 60, foram motivos ainda hoje não devidamente esclarecidos. foram extintas as ordens religiosas por D. Pedro,
construídas a Casa e Igreja de S. to António em Portugal foi, até ao século passado, a única nação pela pena do Ministro Joaquim António de Aguiar.
Luanda, e expandiram as suas actividades até ao católica em que os Capuchinhos se não estabe- Embora estes capuchinhos franceses e italianos
Distrito do Uíje. Em 1972, havia 12 missionários leceram, tendo presente que, nos sécs. XVII e XVIII tenham estado em Portugal e tenham participado
capuchinhos portugueses em Angola, com havia em Portugal 11 províncias de Franciscanos no Padroado Português, a Ordem dos Frades Menores
fraternidade no Caxito, Luanda, Uíje e Catete. Fr. com cerca de 3000 frades. Em 1612, os capuchinhos Capuchinhos nunca se implantou em Portugal.
franceses da Província de Paris entram em Portugal Apesar de tudo, houve 70 portugueses que se fizeram
e chegam pela primeira vez ao Brasil (por iniciativa frades, mas no estrangeiro. Por altura da guerra civil
de Fr. Cirilo de Mayenne) da Província da Bretanha, espanhola (1936-1939), os capuchinhos das Províncias
desenvolvendo aí notável serviço espiritual e cultural, de Castela e de Andaluzia refugiaram-se em Portugal.
nas regiões de Pernambuco, Bahia e Rio de Janeiro. De entre eles, Fr. José de Castro del Rio passou
A 11 de Agosto de 1647, D. João IV concedia provisoriamente por Serpa e Beja; Fr. Félix Maria de
autorização a Fr. Cirilo para construir em Lisboa uma Vegamián, Provincial dos Capuchinhos, com o seu
casa ou hospício, que seria inaugurado em 1648 na secretário, partiu para o Minho, e com a protecção
Freguesia de Santos em terreno doado pelo Duque do Arcebispo Primaz de Braga, D. António Bento
de Aveiro – aqui viveram, no início do séc. XVIII, 11 Martins Júnior, dirigiram-se a Barcelos e Ponte de
Capuchinhos. Igual apoio tiveram da Rainha D. Maria Lima. Devido à inexistência dos Capuchinhos em
Francisca Isabel de Sabóia, mas pouco tempo durou, Portugal, Fr. Francisco Leite de Faria, entrado na
pois, após a sua morte, e por recear que os Ordem dos Capuchinhos na Província de Castela,
missionários franceses em território do Brasil pediu ao ministro geral em Roma para a fundar em
favorecessem as pretensões da França em tomar as Portugal. Donato de Welle, então Ministro Geral,
terras da Vera Cruz, o Governo português proibiu que já tinha estado em Portugal, a 1 de Março de
o envio de mais Capuchinhos. Depois deste desaire, 1939 dava autorização para se fundar o Comissariado
o Superior da Casa-Mãe da Bretanha, mandou Geral de Portugal, nomeando para primeiro
D. Francisco da Mata Mourisca (I) regressar os restantes nove capuchinhos de Lisboa, Comissário o catalão Fr. Damião de Ódena, que

74
ORDENS E CONGREGAÇÕES MASCULINAS CAPUCHINHOS

o número de religiosos. Dos seus superiores Francisco Maria de Arezzo, até que, em Março de
destacaram-se os Comissários Gerais: Damião de 1745, o Papa Bento XIV entregou perpetuamente
Ódena (1939-1948), José de Castro del Rio (1948- aos Capuchinhos a pregação na Casa Pontifícia,
-1951), Mateus do Souto (1951-1955) e Cornélio sendo o actual pregador, Raniero Cantalamessa, o
de San Felices (1955-1957); como Comissários primeiro a exercer este ministério ao longo dos
Provinciais: Cornélio de San Felices (1957-1961), últimos 30 anos (desde 1980). Entre os pensadores
Francisco da Mata Mourisca (1961-1967) e António destacou-se S. Lourenço de Brindes, Doutor da Igreja,
Monteiro (1967-1969). A 27 de Junho de 1969, a falecido em Lisboa em 1619 e autor de várias obras
Sagrada Congregação dos Religiosos e dos Institutos literárias compendiadas em 15 volumes com o título
Fr. Francisco Leite de Faria (I) Seculares assinou em Roma o rescrito n.º 4999/57, Opera Omnia.
que autorizou o ministro geral a elevar o Comissariado Até ao Concílio de Trento (1545-1563), os
tinha estado à frente da Cúria Geral da Ordem, a uma Província da Ordem. Dois dias depois da Franciscanos tinham posto algumas reservas ao
como Vice-Secretário Geral, durante 12 anos. Pela autorização, Clementino de Vlissingen, Ministro estudo das ciências mas, a partir deste evento eclesial,
primeira vez, a Ordem dos Franciscanos Capuchinhos Geral, oficializava a fundação da nova Província aceitaram-nas, fundando posteriormente colégios e
estava implantada em Portugal. Portuguesa. A partir de 1969, presidiram à Ordem: institutos para o cultivo das mesmas. Múltiplas são
António Monteiro (1969-1975 e 1981-1987), as congregações religiosas surgidas no seio do
nomeado Bispo de Viseu em 1987 e falecido em franciscanismo, sendo o caso mais emblemático o
2004; Vítor Arantes da Silva (1975-1981), Carlos do capuchinho polaco Beato Honorato de Biala (m.
Fernandes Pereira de Carvalho (1987-1990), Manuel 1916), que fundou mais de 20 associações e
Arantes da Silva (1990-1996), João José Costa Guedes congregações religiosas, entre 1874 e 1896. As
da Silva (1996-2002) e Acílio Dias Mendes (desde actividades actuais dos capuchinhos portugueses
Maio de 2002). incluem a dinamização bíblica e a pastoral paroquial,
a pregação e as missões populares, capelanias de
hospitais, as missões em Angola e Timor-Leste. Das
missões populares, algumas das que mais se
destacaram entre 1947 e 1987 foram: Sé Nova de
Coimbra (Março de 1947), N. Sr.a de Fátima, em
Lisboa (Maio de 1949), Guimarães (Dezembro de
1949 e Dezembro de 1951), SS.mo Sacramento, no
Porto (Abril de 1950), ilha da Madeira (Abril de
1957), Diocese de Beja (Outubro a Dezembro de
1957), Açores (Outubro de 1959 e 1960), Chaves
(Abril de 1960), Viana do Castelo (Fevereiro de 1964),
Lamego (Junho de 1964), Covilhã (Maio de 1966),
Póvoa de Varzim (Abril de 1967), Bragança (Maio
de 1966). A partir de 1987, iniciou-se uma nova

D. António Monteiro (I)


Igreja dos Capuchinhos, Porto (I)

A pregação dos Capuchinhos, preferentemente


A partir desta data começaram a surgir as casas de evangélica, vai orientada mais a mover o coração
formação, sendo a primeira alugada em Fafe, que do que a ilustrar a inteligência. Dos pregadores
provisoriamente serviu de seminário até à sua capuchinhos emergiram alguns nomes notáveis
definitiva instalação no Porto (Amial), em 1941. Em como os de Bernardino Ochino, Alonso Lobo de
Barcelos, funcionou o Noviciado e os estudos de Medinasidonia, S. José de Leonissa, S. Lourenço de
Filosofia, na pequena casa situada ao lado da Igreja Brindes, Francisco de Sevilha, Jerónimo de Arles,
de S.to António. Quanto à disciplina de Teologia, foi Beato Marcos de Aviano, Beato Ângelo de Acre,
ministrada em Navarra, Castela, Valência e Tolosa Beato Diogo José de Cádiz. O pregador capuchinho
Centro Bíblico dos Capuchinhos, Fátima (I)
(província francesa) e, em 1966, os estudos superiores era aceite também na Corte, escutado por reis,
fixaram-se definitivamente na casa do Porto, já monarcas e magistrados da república, tal como na
remodelada. O comissariado foi inicialmente Itália, Alemanha, França, Espanha. Em França, surgem etapa nas missões populares com a Missão Popular
composto por capuchinhos oriundos de várias como pregadores reais Zacarias de Lisieux, José de Bíblica, sendo a equipa missionária integrada por
províncias de Espanha, mas a partir de 1945 Morlaix e Serafim de Paris. Em Espanha, há célebres Capuchinhos, religiosas de várias congregações e
igualmente os brasileiros das Províncias do Rio Grande “pregadores de Sua Majestade”, como Mauro de leigos, dando especial ênfase às Assembleias
do Sul e de S. Paulo integraram o Comissariado Valência, Boaventura de San Mateo, José de Sevilha, Familiares Bíblia e Vida. Realizaram-se Missões
Português. Terminada esta solidariedade de irmãos Jaime de Corella, Miguel de Lima e José de Madrid. Populares Bíblicas em Baixa da Banheira (Março de
espanhóis e brasileiros, os portugueses passaram a Digno de registo é o facto de serem os Capuchinhos 1987), Mangualde (Março de 1992), Amial/Porto
assumir o governo do dito comissariado. As casas os pregadores do papa e da Casa Pontifícia, come- (Março de 1993), Pinhel (Março de 1999), Figueira
e actividades da Ordem aumentaram, assim como çando por Anselmo de Monopoli, Jerónimo de Narni, de Castelo Rodrigo (Março de 2000), Cabanas de

75
ORDENS E CONGREGAÇÕES MASCULINAS CAPUCHINHOS

Viriato (Março de 2001), Faria, Paradela e Vilar de Madeira e emigrantes portugueses em todo o mundo.
Figos (Novembro de 2001), Gondomar (Fevereiro de Esta mesma actividade convergiu no Movimento
2005) e Arcozelo/Barcelos (Março de 2007). Unido Nacional de Dinamização Bíblica: edição e difusão
ao ministério da pregação está o confessionário, (Difusora Bíblica), formação básica e dinamização
proibido em Itália nos princípios da reforma, abraçado (equipa bíblica, através de cursos de iniciação,
com dedicação quando a Ordem se propagou pela secretariado nacional e secretariados regionais) e
Europa, de tal modo que, só na Província de Alsácia formação permanente (cursos e semanas de vários
os Capuchinhos, entre 1740 e 1747, atenderam temas e graus, revista Bíblica, grupos bíblicos, cursos
mais de 24 000 000 penitentes. Ainda hoje em para animadores de grupos bíblicos, cursos de
Portugal, mormente em Barcelos, os Capuchinhos agentes de pastoral bíblica e retiros bíblicos). De
são procurados para o sacramento da Reconciliação.
Grandes figuras de santidade fizeram do con-
fessionário um excelente meio de acção apostólica,
como S. Leopoldo Mandic de Castelnuovo (m. 1942)
e S. Pio de Pietrelcina (m. 1968). Intenso tem sido
também o apostolado através da imprensa (em 1937
eram 498 as publicações periódicas dos Capuchinhos,
em cerca de 30 línguas). Além da rádio, também
na televisão se notabilizaram alguns capuchinhos,
sendo os casos de maior sucesso o italiano Mariano
de Turim (m. 1972) e a província brasileira do Rio Fr. Inácio Vegas (I)
Grande do Sul, com várias emissoras de rádio e um
canal de televisão a cores. O serviço paroquial, referente à edição e difusão dos textos bíblicos, de
Revista Bíblica (I)
embora não sendo uma das actividades da tradição estes serem na sua grande maioria da iniciativa de
dos Capuchinhos, mas por pedido expresso da confissões protestantes. Neste sentido editaram:
hierarquia a nível mundial, tem vindo a ser aceite Concordância dos Evangelhos: Jesus Meu Caminho, todas as actividades destacam-se as 30 Semanas
pela Ordem. Hoje, os Capuchinhos têm a seu cargo Verdade e Vida (Famalicão, 1951); História de Jesus Bíblicas Nacionais e regionais, realizadas anualmente
as Paróquias da Baixa da Banheira (Setúbal), Calhariz Segundo a Concordância dos Evangelhos: Pensa- em Portugal continental e insular, onde cada tema
de Benfica (Lisboa), Amial (Porto) e Arcozelo mentos do Santo Evangelho para Todos os Dias do bíblico é tratado pelos melhores especialistas
(Barcelos), além da animação das comunidades cristãs Ano (Beja, 1951). A 25 de Fevereiro de 1955, era portugueses. Destas Semanas Bíblicas foram
de Coimbra, Gondomar e Barcelos. Igualmente são fundada a Difusora Bíblica e a revista Bíblica, podendo publicados seis livros monográficos, reunindo as
capelães no Hospital de S. ta Maria, no Instituto os capuchinhos portugueses agir agora com mais várias conferências num só volume. As conferências
Português de Oncologia do Porto, na Casa de Saúde liberdade e criatividade. A revista Bíblica teve uma das últimas 16 Semanas Bíblicas foram publicadas
de Coimbra e no Hospital de Barcelos. tiragem inicial de 3000 exemplares, chegando no na revista Bíblica: Série Científica. Nos últimos 33
No campo da cultura é de destacar a acção de Fr. ano seguinte aos 7500. Actualmente, depois de 53 anos, e como consequência da dinamização bíblica,
Francisco Leite de Faria, um dos maiores bibliógrafos anos de actividade, tem 15 000 assinantes. A Difusora foram nascendo várias centenas de grupos bíblicos,
europeus do seu tempo, até hoje o único capuchinho Bíblica publicou a Bíblia Sagrada (1966), que atingiu com encontros regulares em Fátima (Encontro
português a ser nomeado (em 1982) académico de a 19.a edição, com mais de 1 210 000 exemplares Nacional dos Grupos Bíblicos), anualmente
número da Academia Portuguesa de História, além vendidos, obra com edição totalmente nova, feita participados por mais de 3000 pessoas. Em 1992,
de outros capuchinhos que têm leccionado na a partir dos originais hebraico e grego, em 1998 foi inaugurado em Fátima o Centro Bíblico dos
Universidade Católica Portuguesa e noutras (Nova Bíblia dos Capuchinhos: Versão dos Textos Capuchinhos, para onde se transferiu em 1997 a
instituições académicas. Na pregação popular, os Originais (Lisboa/Fátima, Difusora Bíblica), 1998, já Difusora Bíblica, com livraria e biblioteca. A nível
Capuchinhos têm desenvolvido várias actividades em 5.a edição). Esta nova versão da Bíblia Sagrada bíblico-pastoral, ali são ministrados cursos, fins-de-
como retiros, tríduos, sermões, semanas de pregação encontra-se também em suporte digital. Editaram -semana, retiros, encontros, além do acolhimento a
e novenas, em aldeias e cidades, actividade que teve ainda Os Quatro Evangelhos e Novo Testamento, peregrinos.
início nas décadas de 40 do séc. XX, depois da ambos na 19.a edição; o Novo Testamento, em 3.a A fecundidade e vitalidade desta reforma na Família
chegada a Portugal de Fr. Francisco Leite de Faria, edição (nova versão); a colecção Cadernos Bíblicos, Franciscana tem uma expressão muito significativa
em 1938, e dos irmãos gémeos Fr. Mateus e Fr. com 98 números (quatro por ano); a colecção em tantos irmãos capuchinhos que a Igreja foi
Jerónimo do Souto, e de Fr. Bernardino de Vilas Actualidade Bíblica, com 14 números (dois por ano); proclamando santos e beatos, ao longo de quase
Boas, estes últimos vindos do Brasil. A opção Atlas Bíblico Geográfico-Histórico (3. a edição); 500 anos de vida evangélica e fraterna no amor a
preferencial apostólica dos Capuchinhos portugueses Dinamização Bíblica do Povo de Deus; trilogia bíblico- Deus e no serviço aos irmãos. A Ordem dos
a partir do Capítulo Provincial de 1975, é a -litúrgica sobre Mateus, Marcos e Lucas; À mesa da Capuchinhos tem 15 santos (8 religiosos, 6
“dinamização bíblica do povo de Deus” – inicia-se Palavra. sacerdotes e uma religiosa clarissa capuchinha); 40
em 1951 com o profeta carismático Fr. Inácio de A intensa actividade dos capuchinhos portugueses irmãos e irmãs beatificados (26 sacerdotes, 11
Vegas, oriundo de León (Espanha), tendo como na pastoral bíblica levou a um maior empenho religiosos e 5 religiosas clarissas capuchinhas).
objectivo difundir e dar a conhecer a Palavra de formativo dos seus membros. Quatro dos seus irmãos Destacam-se S. Félix de Cantalício (1515-1587: o
Deus, a Bíblia, por meio de edições muito formaram-se em Sagrada Escritura pelo Instituto primeiro capuchinho a ser canonizado, em 1712),
económicas, assim como formar católicos instruídos, Bíblico Pontifício de Roma e muitos deles têm-se S. Lourenço de Brindes (1559-1619: morreu em
dando a conhecer Cristo, contrariando deste modo dedicado ao apostolado directo com as comunidades Lisboa; proclamado Doutor da Igreja pelo Papa João
a tendência até então existente em Portugal, no cristãs em Portugal continental, ilhas dos Açores e XXIII, com o nome de “Doutor Apostólico”), S. Fiel

76
ORDENS E CONGREGAÇÕES MASCULINAS CARMELITAS CALÇADOS

-Université de Saint-Étienne, 1993; FARIA, Francisco


Leite de, NEGREIROS, Fernando de, Os Capuchinhos
em Portugal: Memória de um Cinquentenário (1939-
-1989), Lisboa, Difusora Bíblica, 1990; FELICÍSSIMO,
Albino, “Capuchinhos”, in C. M. Azevedo (dir.),
Dicionário de História Religiosa de Portugal, vol. A-
-C, [Lisboa], Círculo de Leitores/Centro de Estudos
de História Religiosa da Universidade Católica
Portuguesa, 2000, pp. 288-294; GERHARDS, Agnès,
Dictionnaire Historique des Ordres Religieux, Paris, Elias, inspirador da Ordem Carmelita (I)
Fayard, 1998, pp. 123-125; IRIARTE, Lázaro, Historia
Franciscana, Nova ed., Valência, Editorial Asís, 1979;
K ALIHOWSKI , Franiszek, Il Modello della Vita 1209, segundo se pensa, S.to Alberto, Patriarca de
Comunitaria nei Capitoli Post-Conciliari dell’ Ordine Jerusalém, dá-lhes uma Regra escrita e reúne-os
dei Frati Minori Capuccini, Roma, Pontifica Universitas perto da fonte de Elias, sob a obediência de
Gregoriana, 1985; LISBOA, Fr. Marcos de, Crónicas Brocardo (o nome não é certo), que, segundo as
da Ordem dos Frades Menores, reedição, vol. III, instituições latinas, é o primeiro Superior Geral da
liv. IX, cap. XV, Porto, Faculdade de Letras da Ordem Carmelita. Nenhum dos eremitas importantes
Universidade do Porto, 2001; MAUZAIZE, Jean, Le da época de formação teve a pretensão de ser
Rôle et l’Action des Capucins de la Province de Paris fundador. Imitar o espírito de Elias é a tradição
dans la France Religieuse du XVII e Siècle, Paris, mais antiga da Ordem Carmelita. Quando, mais
Honoré Champion, 1978; OLIVEIRA, P.e Miguel de, tarde, todas as ordens se vangloriavam do seu
História Eclesiástica de Portugal, Mem Martins, fundador, os Carmelitas quiseram pôr Elias como
S. Lourenço (I)
Publicações Europa-América, 1994; P OBLADURA , o seu. Daí as lendas da sucessão eliana, que põem
Melchior de, “Les Capucins (François, 1er ordre de “os filhos dos profetas” como os primeiros
de Sigmaringa (1577-1622: o primeiro mártir da saint)”, in Dictionnaire d’Histoire et de Géographie habitantes do Carmelo. Mas é claro que Elias era
Congregação da Propagação da Fé), Beatos Ecclésiastiques, t. XVIII, Paris, Letouzey et Ané, 1977, apenas modelo e pai espiritual, e assim o declara
Agatângelo de Vendôme (1598-1638) e Cassiano cols. 931-958. a Rubrica Prima do Capítulo de Londres (1281),
de Nantes (1607-1638: nascido em França de uma que se retomou em todas as Constituições.
rica família portuguesa), S. Pio de Pietrelcina (1887- ACÍLIO MENDES Mediante a Regra de S. to Alberto, os Carmelitas
-1968: o santo estigmatizado), S. Félix de Nicósia JOSÉ CARLOS CALAZANS receberam a existência canónica. A aprovação
(1715-1787: o último capuchinho e um dos primeiros pontifícia foi dada pelo Papa Honório III, a 30 de
santos a ser canonizado pelo Papa Bento XVI, em Janeiro de 1226. A primeira emigração para a Europa
2005). A afirmação é do Papa S. Pio V, dominicano CARMELITAS CALÇADOS dá-se entre 1226 e 1229, tornando-se obrigatória
(séc. XVI): “Aquele que observar perfeitamente estas Os Monges Carmelitas, cuja ordem é identificada em 1237, devido às perseguições dos islamitas.
Constituições [dos Capuchinhos] pode ser contado pela sigla canónica OCarm, embora nalgumas Inglaterra, Chipre, Sicília e Provença acolhem os
entre os santos”. publicações apareça incorrectamente a sigla OC, são primeiros exilados. Em 1291, foram massacrados os
também designados, em fontes mais antigas, por que ficaram no Carmelo. Queriam continuar na
BIBLIOGRAFIA: AMORIM, Maria Adelina de Figueiredo outros nomes, nomeadamente Albertos (em razão Europa a vida solitária e contemplativa, pois os
Batista, “A formação dos franciscanos no Brasil- de Alberto de Jerusalém, autor da Regra), Frades conventos ingleses de Aylades, Aylesford e Cambridge
-colónia à luz dos textos legais”, Sept. da Lusitania Listrados (em razão da capa antiga, às listas) eram verdadeiros eremitérios.
Sacra, n.º 11, 2.a série, Lisboa, UCP, 1999, pp. 361- Gregórios (na região de Torres Novas), Observantes Em 1229, o Papa Gregório IX obrigou-os a uma
-377; AMORIM, Maria Adelina de Figueiredo Batista, (também para significar a sua filiação directa nas pobreza mais estreita, equiparando-os às ordens
Missão e Cultura dos Franciscanos no Estado do origens, antes da reforma descalça), Irmãos da Bem- mendicantes, o que os levou a procurar o sustento
Maranhão e Grão-Pará (século XVII): Ao Serviço de -Aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo e numa vida mais activa. Todavia, eram proibidos por
Deus, de Sua Majestade e Bem das Almas, Lisboa, Carmelitas Calçados (para se distinguirem dos muitos bispos. Nestas circunstâncias, celebrou-se,
Texto policopiado, 1997; ANDRADE, António Alberto posteriores Descalços). em Aylesford o primeiro Capítulo Geral (em 1245),
Banha de, Dicionário de História da Igreja em Está oculta num verdadeiro labirinto histórico a durante o qual foi eleito Prior Geral Simão Stock.
Portugal, Lisboa, Editorial Resistência, 1980; Anuário origem da Ordem dos Irmãos da Bem-Aventurada Este conseguiu do Papa Inocêncio IV, a 1 de Outubro
Católico de Portugal 2007, [Lisboa], Secretariado Virgem Maria do Monte Carmelo. Há, por um lado, de 1247, a aprovação da Regra, adaptada às novas
Geral da Conferência Episcopal Portuguesa, 2007, lendas piedosas sem valor histórico e, por outro circunstâncias. É nesta época que se define o perfil
pp. 841-842; AZEVEDO, C. M. (dir.), Dicionário de lado, um mar de documentos, fruto das pesquisas mendicante da Ordem, com a concepção do hábito
História Religiosa de Portugal, 4 vols., [Lisboa], dos historiadores do séc. XX, que causaram um (o escapulário e o manto, primeiro às listas brancas
Círculo de Leitores/Centro de Estudos de História renascimento na história da Ordem Carmelita. e castanhas, depois todo branco), do carisma da
Religiosa da Universidade Católica Portuguesa, 2000- Todavia, existem algumas datas certas para a origem imitação de Maria e da heráldica (o brasão da Ordem
-2001; CHÂTELLIER, Louis, La Religion des Pauvres: da Ordem. Entre 1153 e 1159, Bertoldo vai para Carmelita remete para o monte Carmelo, com três
Les Missions Rurales en Europe, Paris, Aubier, 1993; o monte Carmelo e aí constrói uma pequena capela, estrelas, aludindo a Maria, a Elias e Eliseu, e com
DOMPNIER, Bernard, Enquête au Pays des Frères des junto da gruta de Elias. Pouco a pouco, aumenta legenda da frase do zelo de Elias). Com isto, a Ordem
Anges: Les Capucins de la Province de Lyon aux o número de eremitas, que, querendo imitar Elias, Carmelita começou uma nova vida. Como as outras
XVII e et XVIII e Siècles, Saint-Étienne, CERCOR- se espalham pelo monte, vivendo nas grutas. Em mendicantes, Simão Stock fundou conventos nas

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Descalça aprovaram uma nova leitura da Regra, ficados, em vista das necessidades apostólicas no
ordenada, ou dividida, em 24 artigos, ou capítulos, mundo. Por isso, o escapulário, nas suas diversas
sendo omissas as rubricas, ou subtítulos, que era formas e tamanhos, é a peça fundamental do hábito
costume incorporar no texto. carmelita. Posteriormente, definiu-se o hábito
Conhecem-se, pelo menos, umas 43 versões do completo: túnica de cor fosca, ou branca (conforme
escudo ao longo da história, e em todas estão o clima), escapulário, capuz, correia negra (símbolo
patentes os símbolos alusivos a Maria, à nuvenzinha da correia de Elias) e capa alba (Constitutiones, art.
de Elias (1Rs 18, 44), à brancura (castidade e pureza), 38). Em determinada altura, a túnica teria sido de
aos três estados da Ordem (Frades, Monjas e cor preta e a capa, ou manto, teria sido constituída
Terceiros), à espada eliana e às estrelas marianas. por uma espécie de manta branca às riscas largas,
A versão moderna mais corrente é constituída por castanhas, tal como se acha figurado no quadro de
um escudo em amêndoa, tendo em centro e em Pietro Lorenzetti (m. 1348), que ilustra Alberto de
chefe três estrelas, duas brancas em campo castanho Jerusalém a mostrar a Regra aos monges, junto da
e uma castanha em campo branco, numa espiral fonte de Elias. De qualquer modo, a peça funda-
triangulada, formando um conjunto a semelhar a mental é o escapulário, também vestido por seculares,
capa dos Carmelitas, embora também se interpretem embora, para estes, o Papa Pio X, pela Bula de 16
as três estrelas como símbolos de Maria, Elias e de de Dezembro de 1910, tivesse dado autorização
Eliseu. O topo do escudo é constituído por uma para usarem a medalha, a qual tem, de um lado, a
coroa, sobre a qual se ergue uma espada de fogo, imagem do Sagrado Coração e, de outro, a de N.
alusiva a Elias e ao zelo cristão. O escudo acha-se Sr.a do Carmo.
montado sobre uma espécie de paquife, com as A popularidade do Escapulário de N. S.ª do Carmo
doze estrelas (Ap 12, 1) em círculo e com a legenda deve-se, em grande parte, ao privilégio Sabatino.
eliana Zelo zelatus sum pro domino Deo Exercituum O Papa João XXII, pela Bula Sacratissimo uti culmine,
(“Ardo em zelo pelo Senhor Deus dos Exércitos”, de 1322, também chamada Bula Sabatina, revelou
1Rs 19, 10). que, em sonho, lhe aparecera Nossa Senhora,
N. Sr.ª do Carmo entregando o Sagrado Escapulário a S. Simão confirmando as promessas feitas a Simão Stock.
Stock (arquivo particular) Nessa aparição, a Virgem prometeu, além da salvação
eterna, a pronta libertação das penas do Purgatório
cidades universitárias (Cambridge, em 1249; Oxford, a quem usasse o seu Escapulário. Esta pronta
em 1253; Paris, em 1259; e Bolonha, em 1260). libertação entendeu-se: cumpridas as obrigações da
Nicolau, o Francês, seu sucessor, tentou desfazer a graça, os devotos do seu Escapulário, uma vez
sua obra, mas não o conseguindo, resignou ao cargo entrados no Purgatório, dele seriam elevados ao
de Prior Geral e retirou-se para a solidão, altura em Céu, no primeiro sábado após a morte do corpo.
que escreveu Sagita Ignea, caloroso convite à primitiva Escudo da Ordem Carmelita (I) Ou, como os antigos costumavam ler na bula:
forma de vida: a contemplativa. Como em outras “sabbato post mortem”. A fé de João XXII veio a
ordens, também na carmelita houve duas importantes ser confirmada pelo Papa Clemente VII, em 1530,
reformas: no séc. XV (após o Cisma do Ocidente) e Ao tempo da fundação, crê-se que os monges e contribuiu muito para a devoção às Almas do
no séc. XVI (após o Concílio de Trento). Foi desta não definiram hábito próprio, cada um vestindo Purgatório (Alminhas), para o sufrágio dos falecidos
última, iniciada por Teresa de Ávila e João da Cruz, conforme podia e vivendo em grutas. O hábito só (obrigação que as Confrarias do Escapulário, que
que surgiu a Ordem dos Carmelitas Descalços se terá definido, na Europa, quando a Ordem entretanto foram surgindo, levaram muito a peito)
(OCD), oficializada em 1580. adoptou o modelo mendicante, pelo que as origens e para o abrigo dos fiéis sob a protecção do
A fórmula de vida (formula vitae), da autoria do do hábito estão, sem dúvida, na revelação do Escapulário de N. Sr.a do Carmo. Na legislação antiga,
Patriarca de Jerusalém Alberto Avogadro, foi redigida Escapulário. Palavra de etimologia latina, scapula é entendia-se que esta graça, ou privilégio, era
entre os anos de 1206-1214, a pedido de alguns uma peça de tecido (burel ou fazenda de lã), uma concedida à luz da chamada “grande promessa” –
leigos latinos (talvez peregrinos ou ex-cruzados), que espécie de avental com duas bandas, que se coloca trazer o Escapulário na hora da morte, guardar
se tinham fixado em vida eremítica no monte sobre os ombros. Segundo antiga tradição, os castidade segundo o estado, rezar a Nossa Senhora
Carmelo, junto da fonte de Elias. A Regra está Carmelitas, sendo monges, encontraram muitos conforme as possibilidades de cultura e abstinência
elaborada para eremitas, pelo que, em 1247, depois obstáculos na caminhada para serem aceites na de carne às quartas e aos sábados.
de os Carmelitas se terem dispersado pela Europa, Igreja Latina. Simão Stock, sendo Prior Geral nos Os Carmelitas entraram no campo de estudo com
o Papa Inocêncio IV achou necessário introduzir-lhes meados do séc. XIII e residindo em Inglaterra, não a emigração para a Europa, o que originou a
algumas modificações, apesar de poucas, para que conseguia resolver as dificuldades, pelo que recorreu adaptação da Regra em 1247, a pedido de Simão
os monges pudessem ajustar-se a uma nova missão à Padroeira (Nossa Senhora) para lhe dar um sinal Stock. O Capitulo Geral de Montpellier, em 1287,
na Igreja, já não como ordem monástica, mas como de como os Carmelitas haviam de proceder, entoando recomenda os estudos. O primeiro doutor carmelita
ordem mendicante. uma bela antífona, o Flos Carmeli. Recebeu então de que temos noticia é Miguel de Bolonha, laureado
A Regra tem a forma de uma carta, ou epístola, de Maria uma peça de roupa, milagrosamente em Paris, em 1295. Este, eleito Geral em 1297, dá
que, para fins didácticos, se costumava dividir em ofertada como signum salutis, que veio a ser um grande impulso aos estudos na Ordem e chegou-
prólogo, 18 capítulos, ou artigos regulares, e epílogo, interpretada como signum consecratione, quer dizer, -se ao ponto de decretar que não podia ser Geral
contendo as instruções necessárias à vida eremítica como sinal de consagração. Os Carmelitas quem não fosse Mestre por Paris. No generalato de
em comunidade. A 21 de Maio de 1998, os entenderam que deveriam pôr-se ao serviço da Igreja, João de Alerio (1321-1330), existia já um verdadeiro
Conselhos Gerais das Ordens Carmelita e Carmelita mesmo com o risco de verem os seus hábitos modi- regime de estudos e numerosos mestres em Teologia.

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Quando os primeiros mestres da Ordem chegaram Campo Grande. O Provincial, Fr. José Pereira de
às cátedras de Paris, tinham já passado as grandes Sant’Anna, muito cotado na Corte e apoiado pelos
figuras da escolástica e dos sistemas existentes. Nos brasileiros, iniciou a reconstrução do convento e do
sécs. XV e XVI, seguiam S. Tomás de Aquino, S.to templo, pelo que, em Julho de 1758, os frades
Agostinho e até a corrente nominalista. Baptista regressaram à casa. Introduzindo o revivalismo,
Mantuano seguia Escoto, como diz numa carta que Sant’Anna ainda iniciou a reconstrução do templo,
escreveu a Pico della Mirandola. Um movimento por segundo os cânones do gótico ecléctico, mas, por
um mestre próprio partiu dos mestres carmelitas de ter falecido, a obra não foi concluída e, hoje, ainda
Paris, chefiados por Lourenço Burrel, e propõem o se encontra como ele a deixou: uma ruína em
carmelita João Baconthorpe (m. c. 1348/1352). Esta reconstrução. Já no primeiro quartel do séc. XX,
atitude foi recebida com agrado pelo Geral Pedro esboçou-se um movimento para se concluir a obra,
Tarrasa (1503-1511), que mandou que se publicassem mas sem efeito. Nessas “ruínas” acha-se instalada
as suas obras. As Constituições de 1540 insistem a Associação dos Arqueólogos Portugueses e o
para que se ensine Baconthorpe e Miguel de Bolonha, respectivo Museu Arqueológico. Na falta de frades,
além de S. Tomás. O Capítulo Geral de 1548 fez a e achando-se a casa como que devoluta, passou, a
separação dos dois autores: Baconthorpe para as partir de 1810, a servir de quartel da Guarda Real
províncias de Itália e Miguel de Bolonha para as da Polícia e, a partir de 1814, de quartel do Batalhão
restantes. No entanto, continuava no mundo o de Caçadores, ao qual se juntou, em 1831, um outro
ressurgimento do tomismo e a Ordem não podia regimento de milícias. Finalmente, em 1834, os
ficar indiferente. Este triunfou na Ordem em 1593, Carmelitas foram privados da propriedade de todo
com as Constituições de Cremona. Em Portugal, no Entrada do Convento do Carmo, Lisboa (CLS) o conjunto. A GNR tem procurado preservar o
séc. XV, temos Fr. João Sobrinho (m. 1475), património e mesmo as ruínas do templo são
aristotélico; no séc. XVI, Fr. Manuel Tavares, qual, em memória das vitórias militares e eventualmente animadas com celebrações litúrgicas,
catedrático da Universidade de Coimbra, que rege contemplando um novo projecto de vida, decidiu como a festa da Sr.a do Carmo, padroeira da GNR.
a cadeira de Durando, em 1587, e a de Escoto, em erguer uma igreja e um convento em Lisboa, na
1597. Apenas no séc. XVIII, encontramos alguns que encosta de S. ta Catarina, sobranceira ao Rossio
seguem Baconthorpe: Fr. Manuel Inácio Coutinho e (então Vale Verde), cuja primeira pedra foi lançada
Miguel de Azevedo, entre outros. em 1389. No último decénio do séc. XIV, o
A história do Carmelo Lusitano (expressão criada Condestável convidou os Carmelitas de Moura, em
com o propósito de o distinguir, na Hispânia, do carta dirigida a Fr. Afonso de Alfama, a tomarem
Carmelo Teresiano, ou Descalço) costuma ser dividida posse do novo mosteiro. Os primeiros frades entraram
em ciclos: fundação (1251-1523), intensificação na nova casa de Lisboa em 1397. Os primeiros
(1523-1602), missionado (1580-1823), consolidação Estatutos da Ordem contemplaram de modo especial
(1629-1755), decadência (1755-1834) e restauração o Carmo de Lisboa, determinando o mínimo de
(desde 1930, e ainda em curso), cedo se constituindo monges residentes (40), assim como o horário da
em província autónoma, a partir da primeira vida conventual e as obrigações festivas. Estas
fundação. Até 1423, o Convento de Moura inseria- tornaram-se tão populares, que muita gente acorria
-se na Província de Castela, mas, naquele ano, e a elas, participando na Confraria do Bentinho, erecta Convento do Carmo, Lisboa (CLS)
pondo cobro à instabilidade resultante das guerras na igreja, e que veio a transformar-se em Ordem
da independência, celebrou-se o primeiro Capítulo, Terceira, sediada hoje em casa e igreja próprias, no
que lançou as bases da Província Portuguesa, cujos mesmo L. do Carmo. Segundo os cronistas, o interior A Comunidade de S.ta Ana, em Colares, foi a terceira
primeiros Estatutos foram promulgados em 1424, da igreja era o mais esplendoroso de Lisboa, com fundação e a casa conventual, numa encosta belís-
por D. João I. os seus seis altares, todos a cargo da respectiva sima, olha o Atlântico (a lembrar o monte Carmelo).
No decurso da história anterior à restauração, Irmandade. Dela saía anualmente, a 16 de Julho, a Começou a ser construída em 1450, só sendo
algumas comunidades ou sodalícios se evidenciaram. grandiosa procissão de N. Sr. a do Carmo, que concluída em 1528, no provincialato de D. Fr. Baltazar
A Comunidade de N. Sr.a do Carmo, em Moura, foi demorava horas e corria a Baixa lisboeta. No Limpo. Os primeiros habitantes foram Fr. João de
fundada em 1251, por iniciativa dos cavaleiros da património conventual avultava a livraria, já notável Sant’Ana e Fr. Constantino Pereira, sobrinho do
Ordem Militar de São João de Jerusalém, ordem essa nos fins do séc. XVI e que, à data da extinção das Condestável. O Capítulo Provincial de 1617 deter-
que assumira o encargo de trazer os monges da ordens religiosas, integrava 6880 volumes. Das festas, minou que este convento se transformasse em
Palestina, em vista da conquista da Terra Santa por temos registo histórico das dedicadas a S. João da eremítico, para Monges Recolectos, ou Recolhidos.
Saladino e pelo Islão. Pouco mais se sabe dos tempos Cruz (1727), na data da sua canonização, e a S.ta Esta mudança de estatuto muito ficou a dever ao
iniciais, salvo dois nomes, o Superior José Bistriade Maria Madalena de Pazzi (1669), pelo mesmo motivo. empenho do asceta Fr. Estêvão da Purificação, que
e um pregador, talvez italiano, Tiago Tomás Caliabra. Aliás, Fr. João da Cruz visitou o Carmo, a 11 de ali viveu e morreu, jazendo na respectiva igreja, desde
No séc. XV, a comunidade era constituída por 42 Maio de 1585, quando os Descalços se reuniram há muito profanada.
frades professos de coro. Pelo Decreto 33587, de em Capítulo no Convento de S. Filipe, em Pampulha. A Comunidade de N. Sr.a das Relíquias, na Vidigueira,
27 de Março de 1944, o grandioso conjunto foi O terramoto de 1755, seguido de um pavoroso foi fundada junto de uma ermida daquela evocação
classificado como imóvel de interesse público. A incêndio, destruiu o núcleo conventual e a igreja, mariana, com o fito de assistir aos peregrinos.
Comunidade de N. Sr.a do Vencimento, ou do Carmo perdendo-se tudo e aí morrendo 14 religiosos da D. Manuel I concedeu aos Carmelitas a administração
ou do Monte do Carmo, em Lisboa, deve a sua comunidade. Os sobreviventes foram viver, primeiro, completa da ermida e a licença para a fundação de
fundação ao Condestável Nuno Álvares Pereira, o para as Amoreiras e, depois, para uma barraca no um convento, tendo o processo ficado pronto entre

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1495 e 1496. A ermida primitiva veio a ser substituída débil, que, logo no início da obra, em 1559, este destinada ao povoamento da região de Paraíba,
por uma outra, bem maior e mais rica, inaugurada devolveu as casas e os quintais que lhe tinham sido onde se esperava a fundação de um convento.
em 1593. Foi especial benfeitor desta casa um doados para o efeito. A fundação do Convento de Iniciou-se, deste modo, o chamado Ciclo Missionário,
descendente de Vasco da Gama, D. Miguel da Gama. N. Sr.a do Carmo, em Trancoso, tendo sido precária, que decorreu entre 1579 e 1720. Falhado o projecto
Segundo alguns historiadores, os restos mortais de veio a ser abandonada em 1565. D. Jaime de de Paraíba, a primeira fundação foi a de Olinda
Vasco da Gama teriam sido sepultados nesta igreja Lencastre, Bispo de Ceuta e Primaz de África, sendo, (1583), a que se seguiram as de Bahia (1586), por
e só anos mais tarde trasladados para o Mosteiro ainda, pároco de todas as freguesias de Torres Novas, Fr. Damião Cordeiro, Santos (1589) e Rio de Janeiro
dos Jerónimos, em Lisboa. Já nos fins do séc. XV se entregou, em 1558, aos Carmelitas a Ermida de S. (1590). O número de conventos e a distância do
sentia um maior desenvolvimento da província, Gregório, para nele fundarem um convento, que de Reino aconselharam a que lhes fosse dada alguma
assinalando a época da intensificação, em que surgiu facto foi construído. Aos carmelitas desta casa, o autonomia, pelo que, em 1595, os conventos
o maior número de casas conventuais. povo chamava Gregórios. A igreja, de grande beleza, brasileiros da Observância foram organizados numa
A Comunidade do Arcanjo S. Miguel, depois está aberta ao culto. O Convento de N. Sr. a do vice-província, sendo Fr. Damião Cordeiro o primeiro
denominada de N. Sr. a do Carmo, em Beja, foi Carmo, em Setúbal, foi fundado, possivelmente, em Vice-Provincial e Fr. João de Seixas o Vigário Provincial.
fundada em 1526, junto da ermida que fora erecta, 1598, estando já em construção em 1605, apesar das O número de frades, nos começos do séc. XVII, já
em 1495, pelo eremita Pedro Afonso, em honra polémicas com os Franciscanos, que se opunham rondava a centena, enquanto novas fundações se
daquele anjo. Havia ali um eremitério, pelo que ao à fundação de mais um convento. Foi seu primeiro sucediam, como as que aconteceram no ano de
local se chamava “Sítio dos Beguinos”, mas Beja Prior Fr. Diogo da Anunciação. Actualmente, acolhe 1596, em S. Paulo e em Paraíba. Em 1616, os frades
deu a preferência a uma ordem religiosa, pelo que a Ordem Terceira da cidade. A fundação do Convento iniciaram a evangelização do Norte, abordando os
Baltazar Limpo aproveitou o ensejo e deu início à de N. Sr.a do Carmo, em Alverca, em 1600, não foi indígenas do Maranhão, da Amazónia, do Rio Negro
fundação. A casa conventual foi construída mediante subsistente. Por último, o Convento de N. Sr.a do e dos Solimões. Perante as necessidades, em 1640,
o contributo de Rui Lopes e da sua esposa, Catarina Socorro, em Camarate, foi fundado na Q. ta do a Vice-Província foi elevada a Província, mas a decisão
Freire, que testamentou a favor da Ordem. Talvez Socorro, que fora pertença do judeu David Negro ficou anulada devido aos protestos do governo
porque desejassem abrir um seminário em Beja, os (seguidor de Leonor Teles) e deveio património do português. Em compensação, criaram-se duas vice-
frades mudaram-se para o centro desta cidade, onde, Condestável. A fundação ocorreu em 1602, sendo -províncias: a de S.to Elias do Rio de Janeiro, ou
de facto, criaram um Estudo de Filosofia e Teologia, elevada a Priorado, em 1608, até ao fim dos seus Fluminense, e Bahia e Pernambuco. Em 1715, a
decalcado do Estatuto do Colégio de Coimbra. dias. população de frades era notável: 218 na Bahia e
O Convento de S. Tomé, em Évora, foi fundado 163 no Rio de Janeiro, sendo evidente a vantagem
junto da ermida daquele santo, às Portas da Lagoa, de uma organização provincial. Por isso, o Papa
bem perto do lugar onde veio a ser instalada a Clemente XII, em 1720, instituiu as duas províncias
Cartuxa. A ermida foi aumentada e transformada do Rio e da Bahia, separando-as da Província de
numa igreja mais digna. O convento manteve estudos Portugal. Em 1994, o Brasil constituiu uma região,
filosóficos e teológicos, considerados em tempo com três províncias: as duas mais antigas e a de
quase tão importantes como os da Companhia de Paraná, por motivos técnicos incluída numa das
Jesus. Em 1663, nas guerras da Restauração, os províncias alemãs. Depois da extinção da Ordem em
castelhanos fizeram explodir totalmente o convento, Portugal, cessaram as relações com o carmelo
pelo que os frades andaram em bolandas, até que brasileiro, retomadas quando, na restauração
D. Afonso VI lhes concedeu o Paço dos Duques de portuguesa, se criou o Comissariado de Portugal,
Bragança, junto do qual construíram a igreja, em canonicamente integrado na Província Fluminense.
1691. Este, hoje, alberga o Paço Episcopal. Alto relevo, sobre o frontão do retábulo, Igreja de N. Sr.ª O período decadente da Ordem é assinalado pelos
Em Coimbra, foi fundado o Colégio de N. Sr.a da do Carmo, Funchal (DRAC) efeitos do terramoto de 1755, que destruiu,
Conceição (ou do Carmo). Sabedor de que D. João sobretudo, as fundações na região de Lisboa,
III preparava a transferência da Universidade de avultando a catástrofe do Convento do Carmo, numa
Coimbra, Baltazar Limpo, sendo Bispo do Porto, Na época de consolidação, e em virtude da altura em que a Ordem já estava em recessão, e
decidiu criar, nesta cidade, um colégio para necessidade de apoiar os missionários em serviço pelo Decreto de 28 de Maio de 1834, que extinguiu
estudantes da sua diocese, mas acabou por o doar no Brasil, a Ordem rumou para os Açores, em 1651, as Ordens e nacionalizou os respectivos patrimónios.
à ordem a que pertencia e que dele tomou posse e também para a Madeira. Nos Açores, o Convento Os frades seguiram, nesse ano, diversos caminhos.
em 1543. O colégio e a igreja, sitos na R. da Sofia, de N. Sr.a da Boa Nova e o templo, na Horta, Faial, Uns emigraram para o Brasil e para a Itália e outros,
levaram anos a ser concluídos, mas aquele veio a ficaram concluídos em 1698. No Funchal, o Convento sendo presbíteros, tornaram-se egressos, enquanto
ser a principal escola universitária carmelita, com de N. Sr. a do Carmo deve ter sido apenas uma que os simples frades regressaram às famílias ou
Estatutos adequados aos seus fins. Em 1571, o residência ou hospício para um comissário da Ordem procuraram outro modo de vida. Aliás, desde então,
colégio foi incorporado na universidade, nele tendo Terceira. Depois de 1799, terá aderido à Ordem dos a Província Portuguesa foi absorvida pela Província
sido o primeiro a professar Fr. Amador Arrais, que Carmelitas Descalços. Além destes conventos, ainda de S.to Elias do Rio de Janeiro.
finalizou a igreja, em 1597, e o claustro, em 1600, se fundaram outras comunidades, pouco sólidas e, Um processo de restauração iniciou-se em 1930,
ambos estando bem conservados. porventura, menos importantes, em Porto de Mós por iniciativa da Província Bética (Espanha), com a
Do Convento de N. Sr.a do Socorro, em Lagoa, (1663), Faro (1713), Guimarães (1731), Gaia (1783) chegada do P.e Eliseu Maria Rúbio Maia, que arranjou
apenas se sabe que foi criado em 1550, no Viseu (1739) e Lordelo do Ouro (1780). casa residencial na antiga Trav. de S.ta Quitéria (actual
provincialato de Fr. Bento Bueno, tendo uma Os primeiros carmelitas portugueses que de- R. de S.ta Isabel, n.os 126 e128). Os primeiros frades,
existência pouco relevante. O Convento de N. Sr.a mandaram o Brasil foram na qualidade de capelães alguns deles holandeses, de formação brasileira,
do Carmo, em Mértola, teve como primeiro Prior da expedição que o Cardeal D. Henrique organizou começaram a prestar serviços pastorais em Lisboa
Fr. Baltazar de Mértola, mas a sua economia era tão em 1579, sob a chefia de Frutuoso Barbosa, e a promover vocações. A primeira vocação foi a de

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Fr. Nuno de Santa Maria Vaz de Castro, ordenado Portugal, com maior autonomia e integrado na região que, em vista de decadência que já se fazia sentir
em 1941 – depois de liberto de um pelotão de ibérica. antes de 1834, se pode tomar como conclusivo para
fuzilamento em Espanha, durante a Guerra Civil. Na Ordem, toda a economia é comum, pois a Regra o longo período que vai da fundação até à sua
Veio a ser apóstolo no Alentejo e em Lisboa. Ainda não permite que alguém possua algo de seu, sendo expulsão. Das largas dezenas de personalidades com
em 1949, considerava-se que pouco era o fruto, haven- a distribuição dos bens feita de acordo com a idade notícia adequada, destacam-se alguns nomes mais
do opiniões que achavam melhor encerrar a missão e com as necessidades. Inicialmente, os frades podiam relevantes em diversas áreas do apostolado ou do
em Lisboa. O padre geral insistiu, chegando a afirmar ter um burro ou uma mula, para as deslocações, e, saber, como os dos Bispos D. Fr. Vasco Martim de
que preferia encerrar um convento espanhol a abando- hoje em dia, podem utilizar viatura automóvel, Alvelos (Guarda, 1302), D. Fr. Gomes de Santa Maria
nar Lisboa. Após grandes dificuldades, o Capítulo propriedade da Ordem, cujo ramo português dispôs, (Hebron, 1404), D. Fr. Martinho Sotto Mayor (Tripoli,
Provincial de S. Paulo (Brasil) resolveu aceitar a incum- antes de 1834, de um importante património 1440), D. Fr. Álvaro de Abreu (Silves, 1450), D. Fr.
bência da restauração, como um dever de agradeci- material, doado pelo Beato Nuno Santa Maria. João Manuel (Guarda, 1459), D. Fr. Cristóvão Moniz
mento ao Carmelo-Mater português. Foi neste contexto Quanto aos principais conventos, Moura dispôs de (titular de Reona e auxiliar de Évora, 1524), D. Fr.
que surgiu Fr. Cirilo Alleman, o grande restaurador. um avantajado património constituído por diversas Baltazar Limpo (Porto, 1536, e Arcebispo de Braga,
herdades, foros e rendas, podendo manter cerca de 1550), D. Fr. Amador Arrais (auxiliar de Évora e Bispo
20 residentes. Em 1834, ainda detinha três grandes de Portalegre, 1583), D. Fr. Pedro Clemente (Sacer,
herdades, um pomar e um olival de jeiras. Lisboa 1583), D. Fr. Pedro Brandão (Cabo Verde, 1588), D.
era a comunidade mais rica, com bens no termo de Fr. Ângelo Pereira (Martíria, 1600), D. Fr. Tomé de
Lisboa (Camarate, Frielas, Olivais, Belém) e com o Faria (Targa, 1616), D. Fr. Martinho Moniz (Porto,
moinho de Corroios, etc., por isso chegou a albergar 1645), D. Fr. Francisco Soares de Vilhegas (Cairo,
120 frades, ainda que, em 1831, já só estivessem 1649), D. Fr. João Coelho (Cochim, 1650), D. Fr.
31 padres, 18 estudantes, 8 irmãos e 3 noviços. Fabião dos Reis (Cabo Verde, 1672), D. Fr. José de
Colares dispunha, sobretudo, da quinta e do pinhal. Lencastre (Leiria, 1678), D. Fr. Francisco de Lima
Vidigueira, além da igreja, possuía um pomar, olivais (Maranhão, 1692), D. Fr. Bartolomeu do Pilar (Grão-
e casas de habitação. Beja também possuía terras -Pará, 1720), D. Fr. Manuel de Santa Catarina (Angola,
Maria, inspiradora da Ordem Carmelita (I)
com 80 alqueires de semeadura, além da casa 1720), D. António Vitalino Dantas (Auxiliar de Lisboa,
conventual e da igreja. O património de Coimbra, 1996, e Titular residente de Beja, 1999). No que
Nesta época, procedeu-se à restauração do Seminário além do colégio e da igreja, era reduzido, apenas respeita a D. João Manuel, Balbino V. Bayón sustenta
de Miranda do Douro, em 1949, que depois passou possuindo uma quinta. Lagoa, sendo pobre, dava que o verdadeiro bispo terá sido D. João de São
para Braga, em 1954 para Falperra, e, enfim, para albergaria a 10 religiosos, mas o terramoto de 1755 Lourenço, que antes fora Bispo de Ceuta, em 1444,
um novo edifício no Sameiro, em 1967. O Noviciado destruiu muitos bens, só restando dois padres e um e, depois, confirmado na Guarda. Na área do saber
ficou instalado na Q.ta da Mata (Longra, Felgueiras), leigo em 1787. Torres Novas deteve, além da igreja, (escritores e teólogos), na época anterior ao séc.
numa aprazível quinta doada por D. Maria Augusta a Q.ta do Bispo e uma renda camarária, paga pelo XVI, registam-se os nomes de João de São Lourenço
Rola Pereira Dias, em 1959. Por fim, em 1957 foi uso do campo da festa de S. Gregório, para se (teólogo no Estudo Geral de Lisboa); do jurista João
inaugurada a Casa Beato Nuno, em Fátima, por efectuar uma feira. Camarate chegou a ter 18 frades, Sobrinho, também dito João Consobrino, mestre
iniciativa do Fr. Kiliano Lynch, depois de ter dispondo da Q.ta do Socorro e de outras rendas. por Oxford e Bolonha e autor de várias obras, embora
estabelecido contactos com a Ir. Lúcia. Esta casa Alverca foi mais modesto, mas recebia rendas de mais conhecido como autor do tratado De Justitia
albergaria o Centro Internacional das Ordens Terceiras olivais e de vinhas. À data da extinção das ordens, Commutativa; e D. Fr. Afonso de Alfama, historiador
do Carmo e serviria de centro de espiritualidade e e englobando as comunidades femininas, havia 13 e doutrinador ascético. No séc. XVI, época de ouro
de hospedaria para os peregrinos. conventos e 2 hospícios, as rendas totalizando do Carmelo Lusitano, distingue-se a figura de Fr.
Por volta de 1960 verificou-se uma profunda crise 22 913$504 reis. Actualmente, o número de frades Baltazar Limpo, Bispo e Arcebispo, teólogo no
entre os clérigos, afectando os estudantes da (presbíteros e simples frades) é de cerca de 20. Em Concílio de Trento, grande religioso e grande
Residência do Lumiar. Alguns deles abandonaram a 1993, em Lisboa, foi aberto o Centro de Estudos reformador (foi ele que saneou a Província
Ordem, precipitados pelo ambiente de contestação da Ordem do Carmo (CEOC), que funciona como Portuguesa, de tal modo que, na época do
disciplinar. Todavia, outros frades empenharam-se movimento teresiano, os Visitadores de Roma
no apostolado paroquial, em Beja (Salvador), Ervidel achavam ser Portugal uma “província religiosíssima”
e, por fim, S.to António dos Cavaleiros e Frielas (desde imune àquele movimento) e autor das Constituições
1972). A criação da Paróquia de S.to António dos Sinodais do Bispado do Porto. A par dele, o mais
Cavaleiros foi obra efectiva de Carmelitas, pelos P.es visível dos carmelitas portugueses, Amador Arrais,
Elias Manso, Francisco Rodrigues e Serapião Seiger, autor dos Diálogos (1604), tidos como obra-prima
enquanto que a nova igreja e o centro social foram da nossa espiritualidade quinhentista e paradigma
obra do P.e (D.) António Vitalino Dantas, eleito Bispo da moderna língua portuguesa. Também D. Fr. Simão
de Beja. Coelho, espiritualista e exegeta na obra Compêndio
No que à sua jurisdição diz respeito, o Carmelo das Crónicas de Nossa Senhora do Carmo; Manuel
Lusitano integrou de inicio a Província de Castela, Centro de Estudos das Ordem do Carmo (I) Tavares, “o Santinho”; e o venerável Fr. Estêvão da
pois a Província Portuguesa só foi criada em 1423. Purificação, director espiritual e mestre em oração
Após 1834, esta integrou a Província de S.to Elias centro de estudos e como residência universitária. vocal e mental, cujo perfil e cujos escritos se acham
do Rio de Janeiro e, depois, formou-se o Em relação às figuras históricas da Ordem, Manuel em Vida e Morte de Padre Frei Estêvão da Purificação
Comissariado Provincial de Portugal, em 1954. Por de Sá legou-nos um exaustivo Catálogo dos (1621), de Fr. Luís de Mértola. No séc. XVII,
fim, a 8 de Dezembro de 1992, o P.e Geral John Arcebispos e Bispos, Doutores e Professores [...] e habitualmente considerado “período de conso-
Malley erigiu aquele em Comissariado Geral de Escritores da Província de Portugal (Lisboa, 1810), lidação”, revelaram-se João Coelho, mestre teólogo

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ORDENS E CONGREGAÇÕES MASCULINAS CARMELITAS CLAUSTRAIS DE GOA

em Lisboa, o historiador Jorge Cotrim, outro -825; BAYÓN, Balbino Velasco, ocarm, História da Claustral, cujos irmãos são conhecidos por Carmelitas
historiador, porventura o mais importante da Ordem do Carmo em Portugal, Lisboa, Paulinas, Terceiros Claustrais, Terceiros Carmelitas Claustrais
província, Fr. Emanuel de Sá, e outras duas perso- 2001; BOAGA, Emanuel, ARRIBAS, Miguel Maria, ocarm, ou, ainda, Carmelitas Claustrais de Goa. A Ordem
nalidades de superior significado, o teólogo e biblista “Maria na história e na Espiritualidade do Carmelo”, encontrava-se reservada à casta dos chardós, dando
D. Fr. João da Silveira, mariologista de água pura, in Carmelo Lusitano, vol. 12, Lisboa, Centro de hábito dos Terceiros da Senhora do Carmo a João
defensor do dogma da Imaculada Conceição e autor Estudos da Ordem do Carmo, 1994, pp. 75-157; Baptista Falcão, José da Apresentação e Francisco
de seis tomos de comentários aos Evangelhos, além COELHO, Simão, ocarm, Compendio das Chronicas Xavier dos Anjos. Esse acto foi confirmado por
de outros escritos, e o músico Fr. Manuel Cardoso, da Ordem da Nossa Senhora do Carmo: Primeira D. António Taveira de Neiva Brum, Arcebispo que,
considerado o maior contrapontista do seu tempo, Parte […], Lisboa, António Gonçalves, 1572; no mesmo mês, substituiu o primeiro. Consolidava-
cujas obras continuam a ser executadas nas ocasiões Constitutiones Ord. Fr. B.V.M. de Monte Carmelo, -se, assim, uma experiência que 12 anos antes se
mais solenes. Do período decadente, que abrange Roma, Cúria Generalicia, 1971; Chronica do havia iniciado na aldeia de Morombim, onde viveram
os sécs. XVII e XIX, registam-se os nomes de D. Fr. Condestabre de Portugal Dom Nuno A. Pereira, em vida retirada o P.e Francisco da Costa, o tonsurado
Inocêncio das Neves Portugal (nomeado Bispo do Edição de Mendes dos Remédios, Coimbra, França Paulo Mariano Falcão e, depois, os já mencionados
Algarve, mas que não chegou a receber a sagração, Amado, 1911; GALLUS, Nicolau, Ignea Sagita, Edição P.es João Baptista Falcão e Francisco Xavier do Anjos.
por ter falecido, em 1824), do canonista Manuel de A. Staring, Roma, Carmelitas, 1962; G OMES , Como surgiram outros interessados em partilhar a
Nicolau de Almeida, do Provincial e historiador Pinharanda, Amador Arraiz, Mestre do Espírito, experiência deles, transferiram-se para Chimbel e lá
D. Fr. José Pereira de Sant’Anna, autor da Crónica Lisboa, Fundação Lusíada, 2004; GOMES, Pinharanda, obtiveram licença do ordinário para estabelecer casa
dos Carmelitas, além de outros escritos apologéticos O Escapulário de Nossa Senhora do Carmo (Breve num terreno doado por Salvador Xavier de Moura.
e litúrgicos, e que ainda iniciou as obras de recons- Iniciação Histórico-Teológica), Lisboa, Rei dos Livros, Em 1781, a Rainha D. Maria confirmou essa
trução da igreja do Carmo, pondo-a no estado em 2002; G OMES , Pinharanda, Imagens do Carmelo congregação e colocou-a sob a sua protecção, tendo
que hoje se acha, e, por fim, do derradeiro Lusitano: Estudos sobre História e Espiritualidade recebido a Regra definitiva em 1785. Apesar de
historiador, Fr. Miguel de Azevedo. Nesta época, há Carmelitas, Lisboa, Paulinas, 2000; G OMES , viverem do seu património e de esmolas, uma vez
lugar para os carmelitas do Brasil, enquanto a Pinharanda, Santo António dos Cavaleiros: que fundaram residência em terreno doado, a partir
independência se não deu. Diversas personalidades Monografia Histórica, Loures, Paróquia de Santo de 1778 passaram também a dispor de uma tença
nas áreas do apostolado e da ciência se salientaram, António dos Cavaleiros, 1992; Livro de Bolso do anual, proveniente dos rendimentos dos bens
nunca se devendo omitir o nome de Fr. Caneca Confrade, 2.ª ed., s.l., Confraria do Carmo de Santo confiscados aos Jesuítas pela Coroa.
(Joaquim do Amor Divino Rebelo, falecido em 1825), António dos Cavaleiros, 2004; LOPEZ-MELUS, Rafael,
chefe da Revolução de 1824, que inspirou o projecto ocarm, El Escudo del Cármen, Caudete, Cesca, 1980;
político da “confederação do Equador”, tendo sido Regra de Santo Alberto, Apres., trad. e notas de
condenado à morte. O período pós-restauração, Manuel Gomes Quintãos, Lisboa, Edições Carmelo
caracterizado pelo reduzido número de frades Lusitano, 1993; SANT’ANNA, J. Pereira de, Chronica
comprometidos do apostolado, tem sido menos rico dos Carmelitas, Lisboa, s.n., 2 vols. 1745-1747; SOUSA,
em nomes publicitados. Ressalvam-se os holandeses Bernardo Vasconcelos e, Ordens Religiosas em
que pertenceram à nossa província: o historiador Portugal: Das Origens a Trento – Guia Histórico,
Manuel Maria Wermers, Casimiro Vloon e o escritor Lisboa, Livros Horizonte, 2005; VASCONCELOS, Evaristo
ascético Fr. Bertoldo Lurvink (m. 1994). Dos de, sj, Religiosos, Porto, A. O., 1958; VLOON, Casimiro,
portugueses, ressalva-se o Bispo D. António Vitalino ocarm, “Bens (Carmelitas)”, in Dicionário de História
Dantas, pastor e escritor, e merece registo o P. e da Igreja em Portugal, vol. 2, Lisboa, Ed. Resistência,
Henrique Martins, pela obra social que criou em Beja. 1983, pp. 619-620; WAAIJMAN , K. A., ocarm,
Outros nomes constam das publicações da Ordem “Identidade Carmelita na perspectiva da Regra”, in
e, sobretudo, da revista anual Carmelo Lusitano. Carmelo Lusitano, vol. 12, Lisboa, Centro de Estudos
Todavia, a Ordem considera como paradigma histórico da Ordem do Carmo, 1994, pp. 11-20; WAAIJMAN,
a figura de Nuno de Santa Maria, beatificado em K. A., BLOMESTTJN, ocarm, “O Âmago da Identidade
1918 e canonizado em 2009. Carmelita segundo a Rubrica Prima (1281-1369)”,
As mais importantes publicações periódicas foram: in Carmelo Lusitano, vol. 12, Lisboa, Centro de
o Santo Escapulário do Carmo (1948-1961), que Estudos da Ordem do Carmo, 1994, pp. 21-38;
depois passou a chamar-se Escapulário do Carmo, WERMERS, Manuel Maria, ocarm, A Ordem Carmelita
boletim mensal dos Sodalícios Carmelitanos; o e o Carmo em Portugal, Lisboa, União Gráfica, 1963;
Boletim Informativo do Comissariado, com circulação WESSELS, G. (ed.), “Regra: Regula Primitiva Ordinis
interna desde 1978; e a Colectânea de Estudos Nostri et Mutationis Innocentii IV”, in Analecta Ord. N. Sr.ª do Carmo, Igreja de S. Sebastião, Câmara de Lobos (DRAC)
Carmelo Lusitano (Lisboa, desde 1983), que retomou Carm., vol. 3, Roma, s.n., 1914-1916, pp. 212-223.
o título de um boletim semestral publicado pelos
clérigos em 1962-1966; e, com destino aos Sodalícios JESUÉ PINHARANDA GOMES É de sublinhar o facto notável de esta iniciativa se
de todos os graus da Ordem, Família Carmelita, tratar de um espelho da Congregação do Oratório
dirigida pelo P.e Fr. Francisco Rodrigues. da Santa Cruz dos Milagres de Goa, fundada quase
CARMELITAS CLAUSTRAIS DE GOA 70 anos antes (1682), já que ambas restringiam a
BIBLIOGRAFIA: ANTT, Inventário: Ordens Monás- No dia 10 de Dezembro de 1750, o Arcebispo de participação aos membros de uma casta, repro-
tico/Conventuais, Lisboa, s.l., 2002; Anuário Católico Goa D. Fr. Lourenço Santa Maria, depois de se ter duzindo o sistema social hindu, apesar da conversão
de Portugal 2007, [Lisboa], Secretariado Geral da reformado, estabeleceu em Chimbel, Tisvadi, ao Cristianismo. Ou seja, os Oratorianos recebiam
Conferência Episcopal Portuguesa, 2007, pp. 824- arredores de Goa, a Ordem Terceira Carmelita membros da casta brâmane, enquanto que os

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ORDENS E CONGREGAÇÕES MASCULINAS CARMELITAS DESCALÇOS

Terceiros Claustrais recebiam da casta chardó. LOPES, Maria de Jesus dos Mártires, Goa Setecentista: pela força da tradição referida, tornou-se importante
Outro aspecto que deve ser destacado é a iniciativa Tradição e Modernidade, Lisboa, Centro de Estudos pólo aglutinador de muitos destes leigos europeus,
da arquidiocese na fundação dessa Congregação. dos Povos e Culturas de Expressão Portuguesa/ Uni- de cuja presença existem testemunhos fidedignos.
Havia uma tensão crescente no seio da sociedade versidade Católica Portuguesa, 1996; MELO, Carlos Um deles é do rabino espanhol Benjamim de Tudela,
goesa, resultante do processo de cristianização que Mercês de, The Recruitment and Formation of Native que, escrevendo no ano de 1163, afirma ter visto,
implicava tanto a conversão propriamente dita quanto Clergy in India (16th-19th century), Lisboa, Agência perto da gruta de Elias, uma igreja edificada pelos
a formação de um clero nativo, que, por causa de Geral do Ultramar, 1955; NAZARETH, Casimiro Cristóvão, cristãos. Na verdade, o local preferido por estes
restrições baseadas em critérios de pureza de sangue, Mitras Lusitanas no Oriente: Catálogo dos prelados eremitas latinos situava-se junto da fonte de Elias,
sofria dificuldades na colocação em cargos religiosos da Igreja Metropolitana e primacial de Goa e das num vale aberto ao Mediterrâneo, no flanco oeste
seculares ou na entrada em algumas ordens. Assim, dioceses sufragâneas com recompilação das ordenan- do Carmelo, o que confirma a consciência de uma
a Ordem Terceira Carmelita Claustral assumia-se ças por eles emitidas e sumário dos fatos notáveis da paternidade espiritual do profeta entre estes monges,
como mais um recurso para resolver essa demanda História eclesiástica de Goa, Lisboa, Imprensa Nacional, mas também a fonte inspiradora de princípio
de alocação de religiosos nascidos na Índia Portuguesa 1897; RUSSELL-WOOD, A. J. R., “Comunidades étnicas”, fundamental da sua espiritualidade, que irá persistir
e formados nos seminários existentes em Goa, além in Francisco Bethencourt, Kirti Chaudhuri (dirs.), História na Ordem e que a expressão “Vive Deus, em cuja
de ser extremamente original, pelo facto de receber da Expansão Portuguesa, vol. 3, Lisboa, Círculo de presença estou” consubstancia. Ao testemunho do
elementos da casta dos chardós, uma vez que eram Leitores e Autores, 1998; THOMAZ, Luís Filipe F. R., De monge grego João Focas, que visitou os Lugares
os brâmanes que, em geral, haviam conseguido Ceuta a Timor, Lisboa, Difel, 1998. Santos em 1185, se deve a identificação da
algumas alternativas de carreira religiosa, mesmo comunidade que vivia junto da dita fonte: o monge
que de forma restrita. Dessa forma, o acto de CARLA DELGADO DE PIEDADE Bertoldo, natural da Calábria, com cerca de dez
fundação da nova congregação por parte do CÉLIA CRISTINA DA SILVA TAVARES companheiros. A este filho do Conde de Limoges,
Arcebispo D. Fr. Lourenço Santa Maria demonstra que veio a falecer em 1195, se associou especial
que havia a intenção de contornar esse problema. culto e devoção à Virgem Maria, embora outras
Deve-se ressaltar ainda a utilidade desses religiosos CARMELITAS DESCALÇOS fontes admitam serem-lhe anteriores. Contudo, só
goeses para a acção evangelizadora, pois dominavam O nome da Ordem advém do lugar donde surgiu, cerca do ano 1230 aparece referência a uma pequena
as línguas locais e, por isso, podiam ter um alcance o monte Carmelo, na Palestina, ou, mais exacta- capela, erguida sob a sua invocação, no guia de
maior no trabalho com as populações da região. mente, uma cordilheira que se estende ao longo de peregrinos Por aler en Iherusalem. Nesta época, os
O Arcebispo D. António Taveira de Neiva Brum pretendia 34 km, na direcção noroeste, formando um monges eram designados por Irmãos Eremitas do
que eles fossem clérigos claustrais sujeitos ao Ordinário promontório que circunda a baía de Haifa pela Monte Carmelo, para pouco tempo depois receberem
e não dependentes do Superior da Ordem do Carmo, margem sul. A generosa vegetação que reveste a o nome de Irmãos da Ordem da Bem-Aventurada
a não ser para gozarem dos seus privilégios ou para cadeia de colinas que o configura e a existência de Virgem Maria do Monte Carmelo. A mudança
evitarem conflitos jurisdicionais. Assim, a Ordem Terceira numerosas grutas nas suas encostas tornaram este prende-se com a aprovação pontifícia da Ordem,
Carmelita Claustral, apesar de os seus membros levarem “santo monte” predilecto de anacoretas, os quais como a seguir se verá. As referências, desde os
uma vida austera, chegando a ser muito estimados tomavam como modelo de vida o grande profeta primórdios, às figuras de Maria e de Elias, com a
por sua modéstia, piedade, observância e zelo, não Elias, que nele habitou, tal como Eliseu, seu discípulo espiritualidade que cada uma personifica, integrar-
cumpriam uma perpétua e rigorosa observância regular na missão profética. Criou-se a tradição, fundada -se-ão no carisma matricial da história carmelitana.
e também exerciam apostolado. em textos antigos e narrativas de peregrinação, de Os monges levavam uma vida solitária, em que
Em 1758, foi prescrito o regimento do hospício dos se ter seguido uma ocupação ininterrupta de “filhos cultivavam o silêncio e a contemplação característicos
Terceiros do Carmo em Chimbel e, na década de dos profetas”, homens inteiramente entregues à do eremitismo herdado da tradição antiga, com um
1770, os Carmelitas Claustrais fundaram o Seminário vida ascética, orante e contemplativa. Mas deste quotidiano ritmado por normas de carácter privado.
de Soledade, onde se ministrava Latim, Filosofia e longo passado, embora se colham dados com Sentindo a necessidade de uma organização canónica
Teologia. Depois da expulsão dos Jesuítas (1759), indicadores de veracidade, as lendas que a muitos reconhecida, como garantia de estabilidade, dirigiram-
ficaram encarregados de algumas missões que antes envolve dificulta o apuramento da exacta fronteira -se, por meio do Ir. Brocardo (que sucedeu na
eram geridas por essa ordem. Estes são três bons de separação. É a partir do séc. XII, com o movimento direcção dos eremitérios a Bertoldo), ao Patriarca de
exemplos de que os Carmelitas Claustrais não eram das cruzadas do Oriente e a instauração na Síria e Jerusalém, Alberto (anteriormente Bispo de Bobbio
apenas contemplativos. na Palestina do Reino Latino de Jerusalém – e depois de Vercelli), que estabelecera residência em
A 14 de Janeiro de 1835, com a chegada do Prefeito organizado em pequenos territórios subordinados, Acre por a cidade santa já se encontrar ocupada
do Estado da Índia Bernardo Peres da Silva, nomeado ao modo feudal europeu, ao Rei de Jerusalém –, pelos muçulmanos, para que lhes concedesse uma
por D. Pedro IV, foi concretizada a efectiva extinção que se passa a ter notícia histórica com contornos fórmula de vida. O documento normativo foi escrito
das ordens religiosas masculinas no Oriente, uma vez mais consistentes. Com efeito, o domínio dos Lugares entre 1206 e 1214 (admite-se que estivesse concluído
que no Reino isso tinha ocorrido pelo Decreto de 28 Santos pelos cruzados e as suas expedições em 1209 ou 1210), sugerindo o seu teor que o
de Maio de 1834. Assim, a Ordem Terceira Carmelita desencadearam, em simultâneo, no Ocidente, uma Patriarca Alberto (assassinado por um piemontês na
Claustral foi extinta junto com outras congregações corrente de mercadores e clérigos, a par de leigos procissão da Exaltação da S.ta Cruz em 1214) deu
e não voltou a ser implantada em Goa. peregrinos, alguns dos quais faziam voto de forma codificada à vida que os monges já levavam.
permanecer por toda a vida na Terra Santa, elegendo Não se conhece o texto original e o que dele se
BIBLIOGRAFIA: AZEVEDO, Carlos Moreira (dir), Dicionário o eremitismo como a melhor forma de concretizar sabe é por cotejo com versões posteriores. É dirigido
de História Religiosa de Portugal, vol. P-V, [Lisboa], o ideal ascético e penitencial, que os impelia a partir. a “Brocardo e demais eremitas que moram sob a
Círculo de Leitores/Centro de Estudos de História Admite-se, também, que alguns ex-cruzados sua obediência junto à fonte do Monte Carmelo”.
Religiosa da Universidade Católica Portuguesa, 2000; acabassem por se tornar anacoretas. Embora se Entre os princípios normativos que nele constam,
BOXER, C. R., As Relações Raciais no Império Colonial organizassem ermos em vários lugares das áreas destaca-se a necessidade de eleição de um Superior
Português: 1415-1825, Porto, Aforamento, 1988; conquistadas aos muçulmanos, o monte Carmelo, para os superintender e governar; a habitação de

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ORDENS E CONGREGAÇÕES MASCULINAS CARMELITAS DESCALÇOS

cada monge em gruta ou cela independente, onde buíram para a sua consolidação jurídica. Com efeito, último baluarte da resistência até 1291, ano do
se dedicariam a “meditar dia e noite na lei do no ano de 1215 reuniu-se o IV Concílio de Latrão, abandono definitivo dos cristãos latinos da Palestina.
Senhor”, como essência da sua vida orante e que congregou bispos do Ocidente e do Oriente, O declínio do poder político foi acompanhado de
contemplativa; o silêncio absoluto que ia da hora superiores das grandes ordens monásticas e reis um clima de insegurança, de conflitos entre cristãos
de Vésperas até depois da de Tércia; a reunião cristãos, saindo desta magna assembleia ecuménica e muçulmanos e da perseguição e consequente fuga
matinal diária para celebração da Eucaristia; a partilha decisões de largo alcance, que marcaram profun- de peregrinos e monges. Assim aconteceu com
de todos os bens que possuíam; a prática das obras damente a Igreja da Idade Média. De entre as Bertoldo, sucessor de Brocardo no priorado
de misericórdia; alimentação frugal, com total matérias tratadas, constou a proliferação de ordens carmelitano, com outros religiosos. A emigração,
abstinência da carne e jejum de sete meses no ano, religiosas, que em muitos casos não passavam de segundo Vicente de Beauvais, deu-se no ano de
desde a festa da Exaltação da S.ta Cruz até à Páscoa; grupos na fronteira da heresia e não controláveis, 1238, data que deve ser tida apenas como referência,
o trabalho como forma de prover à subsistência, sobre as quais saiu o Decreto Ne nimia religionum pois o processo não foi brusco mas gradual, ao ritmo
dentro da tradição monástica e a exemplo de S. Paulo, diversitas, a determinar que os futuros fundadores dos feitos militares, de compromissos conseguidos
cujo testemunho é evocado; uma reunião de Capítulo de ordens deveriam adoptar uma das Regras já com os chefes muçulmanos quanto a atitudes
aos domingos, para troca de impressões acerca do aprovadas. Na sequência deste decreto, muitos persecutórias, pelo que muitos insistiram em ficar
cumprimento das normas e correcção fraterna. institutos foram suprimidos. Mas o cânone conciliar até 1291. Neste ano brutal, os últimos eremitas que
É evidente que a pobreza, a castidade e a obediência não afectava os Carmelitas, visto a sua Regra já ter ainda viviam junto à fonte de Elias foram assas-
ao Prior constituíam pressupostos fundamentais. recebido aprovação, seis anos antes, das mãos do sinados, chegando à Europa o eco de terem
A Regra de S.to Alberto, nome por que se tornou Patriarca de Jerusalém, a cuja autoridade de Prelado enfrentado o morticínio ao canto da Salve Regina.
conhecida até hoje, é muito breve, apresentando- juntava a de Legado Pontifício. No entanto, os O ermo do monte Carmelo foi abandonado. A fuga
-se estruturada, na versão conhecida, em apenas 24 Religiosos Carmelitas, para acautelar dúvidas, numa e a dispersão tiveram, no entanto, a sua face positiva.
capítulos, quase todos repassados de passos bíblicos época em que a Igreja procurava fixar com maior Regressados às suas terras de origem e desejando
na sua formulação. Numa apreciação global, rigor o Direito Canónico, enviaram uma delegação continuar o género de vida eremítica, a Europa
constata-se que o documento, se por um lado ao papa, a fim de obterem confirmação da Regra conheceu um surto de fundações em lugares ermos,
enfatiza a espiritualidade individual do eremitismo que lhes fora concedida. A resposta foi-lhes favorável. como foram as casas de Fortamine (Chipre), Messina
de tradição bizantina anterior ao estilo de vida Com efeito, Honório III, pela Bula Ut vivendi normam, (Sicília), Les Aygalades (Marselha), Aylesford e Hulne
monacal de S. Bento, por outro sublinha aspectos de 30 de Janeiro de 1226, reconhecia que a norma (Inglaterra). E com elas divulgava-se a devoção a N.
comunitários e o valor do trabalho como forma de de vida albertina era anterior ao Concílio Geral, sem S.ra do Monte Carmelo.
subsistência, no que se tem visto uma influência da contudo a reproduzir. Pouco depois, Gregório IX, A vinda destes novos religiosos para a Europa, com
Regra Beneditina, fortemente modeladora da vida pela Bula Ex officii nostri, de 6 de Abril de 1229, um estilo de vida eremítica muito própria, não foi
cenobítica no Ocidente. Há quem lhe aponte, sancionou a decisão do seu antecessor, reconhecendo bem aceite pelas outras ordens, que lhes moveram
também, uma influência da Regra de S.to Agostinho aquele texto normativo como Regra. Com as perseguição sob vários pretextos, por vezes com o
(que mais correctamente deve chamar-se de aprovações pontifícias, ficava definitivamente apoio de bispos. Um dos pretextos foi a dificuldade
Praeceptum de S.to Agostinho), dado S.to Alberto ter confirmada a personalidade jurídica da Ordem, o em prover o seu sustento, tanto mais que acabavam
sido cónego regrante de S.to Agostinho no Mosteiro que lhe dava inteira liberdade para se estender por de ser aprovadas as ordens dos mendicantes
de Mortara, donde saiu ao ser eleito Prelado. Mais toda a Igreja. E com o tempo, os seus membros Franciscanos e Dominicanos. Na tentativa de
importante que procurar paralelismos é sublinhar a tornaram-se conhecidos como Irmãos de Nossa adaptação, procurou uma parte dos carmelitas unir-
originalidade da fórmula de vida (assim designada Senhora do Monte Carmelo, assim referidos numa -se ao movimento mendicante, opção que, junta à
no seu artigo 3.º), sendo o mais evidente a curta bula emitida por Inocêncio IV, de 1252, ficando rejeição que lhe era movida, colocou em grave risco
extensão já referida, a simplicidade, a forte carga oficialmente consagrada esta designação, que tinha a sua existência. O homem providencial chamado a
espiritual que a fundamentação bíblica lhe confere, já perto de meio século. solucionar tão perturbadora situação foi o inglês
mas igualmente a vitalidade que imprimiu não só à Estes primórdios trabalhosos, mas persistentes, Simão Stock, sexto Prior Geral, eleito no segundo
comunidade que a requereu como às dos outros reveladores da pujança espiritual do Ocidente, que Capítulo Geral do Ocidente reunido em Aylesford,
ermos. O facto de obedecerem a uma Regra se revitalizou no encontro com a do Oriente, em 1245. Para tanto, enviou dois religiosos, Pedro
oficialmente aprovada tornou o Prior do Monte emergem, contraditoriamente, no contexto de grande e Reginaldo, incumbidos de pedir ao Papa Inocêncio
Carmelo, de modo natural, em Prior Geral de todos perturbação da política internacional. Com efeito, IV – que se encontrava em Lyon – que “se dignasse
eles. Admite-se que, quando os eremitas se dirigiram o sucesso das primeiras cruzadas entrou em declínio, clarificar e corrigir certas dúvidas e mitigar certas
ao Patriarca Alberto e lhe pediram uma norma de com o ímpeto de reconquista pelo Islão dos territórios severidades” da Regra de S. to Alberto. O papa
vida, não tivessem a intenção de fundar uma ordem. do Reino Latino de Jerusalém, sob a chefia de encarregou o Cardeal Hugo de São Caro e Guilherme,
O certo é que, a partir de 1210, se organizaram 15 Saladino, Sultão do Egipto, Síria e Palestina. Entre Bispo de Antarado (Tortosa), ambos dominicanos,
mosteiros dispersos por vários pontos do Médio os êxitos obtidos sobre a esforçada militância dos de empreenderem a revisão da Regra. No dia 1 de
Oriente, que adoptaram aquele texto normativo, o cruzados, destaca-se a Batalha de Hattin, em Julho Setembro de 1247, o trabalho estava concluído, e
que consente afirmar que, com ele, nos alvores do de 1187, na sequência da qual Jerusalém capitulou, no dia 1 de Outubro do mesmo ano, pela Bula Quae
séc. XIII, nasceu uma nova Ordem. E dado o carácter a 2 de Outubro deste mesmo ano, para jamais ser ad hororem Conditoris, Inocêncio IV publicava a
fundacional da Regra, apesar dos ajustamentos aos recuperada. A derrota cristã, sobretudo a perda da Regra dos Carmelitas com as modificações sugeridas
tempos e às circunstâncias por que irá passar, ela Cidade Santa, que impulsionara o movimento pelos dois prelados: preconizava a recitação
será sempre uma referência em todas as formas de cruzadístico e encerrava a sua máxima expressão comunitária do Ofício Divino, segundo o costume
vida carmelitana posteriores, pelo que S.to Alberto simbólica, abalou profundamente o Ocidente, da Igreja, as refeições em comum e a possibilidade
deve ser considerado o primeiro legislador da Ordem, motivando o apelo do Papa Gregório VIII à terceira de as tomarem fora de casa quando em viagem;
sem que lhe tenha pertencido. cruzada. Mas o domínio cristão na Palestina recuava mitigava a abstinência da carne para os religiosos
Acontecimentos imediatamente posteriores contri- inexoravelmente, tornando-se S. João de Acre o itinerantes e mendicantes; os limites do silêncio da

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noite passaram da hora de Completas até após a A adopção de sistemas teológicos oscilou ao sabor a dos súbditos –, que flutuava ao sabor de alianças
de Prima; e deixava de ser obrigatório que as dos tempos, o que não impediu que, em simultâneo, diplomáticas entre reinos condicionadas pelo evoluir
fundações fossem nos desertos. As alterações se fosse impondo a especialização em Teologia das operações militares da Guerra dos Cem Anos
imprimiram à Ordem mudanças muito significativas: Mística, preparação requerida para a mestria na vida entre a Inglaterra e a França (1337-1475). Para
adquiria carácter cenobítico e era integrada na forma espiritual. A inflexão no rumo, preconizada pela cúmulo, este quadro religioso e político coexistiu
de vida mendicante. Como tal, deviam os seus necessária adaptação à realidade europeia, levantou com a profunda depressão económica por que a
membros desenvolver actividades apostólicas e logo nos primeiros tempos da transição vozes críticas. Europa passou no fim da Idade Média, interligada
pastorais, designadamente a pregação e a assistência Uma das mais veementes foi a de Nicolau, o Gaulês, à devastadora mortandade causada pela peste negra
espiritual e sacramental aos fiéis, não obstante o chamado do Monte Carmelo, onde se mantinha (1348-1350). A conjugação de factores de tanta
seu pendor matricial contemplativo. como eremita, para suceder no priorado geral a gravidade provocou rupturas irreparáveis, confe-
Simão Stock, que morreu em Bordéus quando se rindo à época um tom de sombrio pessimismo.
dirigia para o Capítulo Geral da Ordem, em Toulouse. A desorganização demográfica arrastou inexora-
Ao deparar com as inovações, tentou contrariá-las, velmente consigo a extinção de muitos conventos
tendo escrito, em 1270, um polémico opúsculo e quando, mais tarde, alguns se começaram a
conhecido por Ignea Sagitta (Flecha de Fogo), texto repovoar, faltava aos que os procuravam a plena
de grande veemência em que chama a atenção para identificação com o carisma e com a exigência da
a vida solitária, longe da agitação das cidades. Ordem. Os indicadores de declínio espiritual diziam
É também a expressão amarga de homem desiludido, respeito a pontos essenciais e manifestaram-se no
que nas mudanças via a perda da identidade primitiva reduzido tempo dado à oração, na fácil saída dos
da forma de vida. Inconformado, acabou por se conventos para recreação, contrário ao recolhimento,
demitir do cargo, em 1272, e regressar à solidão do no aceitar de doações patrimoniais e de outros bens,
ermo. contrários à Regra, numa época em que a Igreja
O fervor primitivo e o espírito de recolhimento enfrentava uma fortíssima corrente de oposição à
conheceram acentuado declínio no séc. XIV. Com sua riqueza, com autorizadas opiniões de espirituais
efeito, muitos religiosos começaram a ascender a a exigirem o regresso à prática da pobreza efectiva
cargos de relevo social, como a docência nas grandes das origens.
Santuário do Menino Jesus de Praga, Avessadas (JEF) universidades e o desempenho do múnus episcopal. Neste contexto e contra este estado de coisas, como
O governo da Ordem passou, em muitos casos, para acontece em todas as épocas de crise, levantaram-
as mãos de graduados universitários, que lhe -se vozes proféticas e geraram-se movimentos a
A promulgação pontifícia significava também que a conferiam prestígio intelectual e projecção social, clamar por reforma. No intuito de adaptar a Regra
Ordem passava a estar sob a protecção da Santa constituindo factores de atracção de muitos aos novos tempos, o Capítulo Geral reunido em
Sé, factor de enorme peso na aceitação que passou candidatos ao ingresso nas suas fileiras. Foi uma Nantes no ano de 1430, sendo Geral da Ordem
a usufruir e que se reflectiu na multiplicação dos época de apogeu de vocações em termos numéricos, Bartolomeu Rocalio, dirigiu ao Papa Eugénio IV o
conventos. À semelhança dos Franciscanos e que não teve como contrapartida uma elevação no pedido da sua revisão. Como resposta, o pontífice
Dominicanos, que tinham nascido como resposta fervor espiritual, mas, ao contrário, um esfriamento outorgou a Bula Romani Pontificis, datada de 15 de
evangélica à pujante expansão urbana que a Europa na sua intensidade. Os sinais de decadência tornaram- Fevereiro de 1432, pela qual concedeu a faculdade
conhecia, Simão Stock fundou conventos em -se mais evidentes na segunda metade do século e de comer carne três vezes por semana, suprimiu o
importantes cidades universitárias, como Cambridge ampliaram-se na centúria de Quatrocentos, para o jejum de sete meses e permitiu que, em horas
(1249), Oxford (1253), Paris (1259) e Bolonha (1260), que muito contribuiu a grave crise por que a Igreja convenientes, pudessem os monges sair de suas
escolha reveladora da sua pretensão de também passou. A transferência da sede do Papado de Roma celas para dar um passeio pelos claustros. A bula
abrir a Ordem à Universidade, uma das grandes para Avinhão (1309-1376), seguida do Grande Cisma da mitigação, como ficou conhecida, deixava intacto
criações da Idade Média. Adaptar a vida contem- do Ocidente (1378-1417), durante o qual chegou o restante texto da Regra dada por Inocêncio IV em
plativa da solidão dos ermos ao bulício das cidades a haver três papas a disputar a cadeira de S. Pedro 1247. No entanto, a maior parte dos conventos
foi um desafio, mas não constituiu óbice à – sediados respectivamente em Roma, Avinhão e passou a observar o documento revisto, havendo
proliferação de fundações, como se disse. Reflexo Pisa –, a que se juntou a forte corrente da doutrina muitos que exorbitaram no abrandamento intro-
da moldagem ao estilo mendicante foi a tendência conciliarista, defensora da superioridade dos Concílios duzido, em especial no tocante à permissão das
para uma certa clericalização, por via dos Gerais sobre a autoridade dos pontífices, arrastou saídas. Gerou-se então um clima de descon-
Franciscanos do ramo observante, e a importância consigo dissidências dentro das próprias ordens tentamento entre os que lutavam contra o que
que o estudo passou a ter, sobretudo por influência religiosas. Uma das mais desgastantes foi a deso- consideravam relaxamento, impulsionando alguns
dos Dominicanos, que lhe concediam especial relevo rientação sobre que papa reconhecer, o que, entre gerais diversas iniciativas de retorno a uma forma
para dar resposta sólida aos movimentos heréticos. os Carmelitas, provocou a divisão da Ordem em de vida mais exigente. Não sendo os tempos propícios
De facto, os Religiosos Carmelitas passaram a dedicar- duas “obediências”, cada uma com o seu geral, a uma reforma geral da Ordem, foi concedida licença
-se ao estudo da Teologia, rumo que recebeu conseguindo-se a união no Capítulo Geral celebrado aos conventos que o desejassem de a fazerem por
aprovação no Capítulo Geral reunido em Montpellier, em Bolonha, em 1411. O problema do reconhe- iniciativa própria, podendo os aderentes agregarem-
em 1287. Dez anos depois, o primeiro doutor cimento da legitimidade papal, para além de afectar -se em núcleos, com Superior próprio, mas sempre
carmelita (segundo se admite), Miguel de Bolonha, todo o tecido eclesial, teve enormes repercussões dependentes do Geral. Deste movimento de regresso
laureado por Paris, ao ser eleito Geral, deu grande no campo político, numa época de interligação quase à observância da Regra primitiva surgiram as
impulso a esta tendência, chegando-se depois ao inextricável entre a esfera do poder espiritual e a congregações reformadas de Mântua (Itália), a partir
ponto de decretar que não podia exercer o generalato do temporal. O problema avolumou-se mais ainda do Convento de Le Selve, situado entre Florença e
quem não fosse Mestre por aquela universidade. com a obediência dos monarcas – e por arrastamento Pisa, em 1413; de Albi (França), que começa em

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1499; do monte Olivete (perto de Génova), em 1516. Mas aconteceu também que a comunidade de do escapulário. Todos estes elementos ajudam a
A união caracterizava-se por os seus membros se Florença passou para a jurisdição de um vigário geral compreender o seu uso individual, a constituição de
centrarem mais na vivência interior da espiritualidade especialmente nomeado para elas no Capítulo associações de fiéis à sua volta e ainda uma difusão
do que na observância de práticas exteriores. Estes Provincial de 1452, presidido pelo próprio João que tem atravessado os tempos e que chegou aos
conventos de “observantes”, como passaram a ser Soreth. Não obstante estes aspectos jurisdicionais e nossos dias. Caracterizam-se estas confrarias pelo
chamados (por oposição aos “conventuais”, que as particularidades na organização dos grupos uso da insígnia e pela prática de actos de devoção
não aderiram à renovação), receberam o apoio de emergentes, o seu reconhecimento oficial era o mariana.
determinações de alguns Capítulos Gerais e da acção culminar de um processo evolutivo de comunidades Retornando ainda à notável acção de João Soreth,
pessoal de Priores Gerais, como João Soreth (1395- femininas com raízes profundas, a que este geral que estudou Teologia na Universidade de Paris e
-1471), João Baptista Mantuano (1447-1516), Nicolau prestou especial atenção e impulso, traduzido em nela ensinou, é de mencionar a redacção de um
Audet (1481-1562) e João Baptista Rubeo (1507- fundações de sua iniciativa nos Países Baixos e em comentário à Regra, com o título de Expositio
-1578). França. Neste país, João Soreth contou com a acção paranaetica, e a publicação de Constituições, em
da Beata Francisca de Amboise, considerada, com 1462, que substituíram as de 1324, sendo estas as
ele, fundadora do Carmelo feminino. Pela Bula Cum mais antigas que se conhecem, embora haja notícia
nulla, as monjas passavam a fazer votos solenes, a das primeiras remontarem a 1256. As Constituições
levar vida de clausura em comum e a observar a explicitam a espiritualidade que da Regra emana,
Regra dos religiosos, embora com Constituições estabelecem normas sobre vários aspectos do
próprias. funcionamento da Ordem, como as atribuições do
A João Soreth se ficou também a dever a fundação Geral, Definidores, Provinciais e Priores. A actividade
da Ordem Terceira, na sequência da mesma bula reformadora de Soreth desenvolveu-se sobretudo
que permitia aos leigos de ambos os sexos e de além Pirenéus, sendo praticamente nula a sua
qualquer estado de vida, que desejassem vida de influência, por exemplo, na Itália e nos reinos ibéricos
maior perfeição, poderem agregar-se à Ordem. Esta de então. Antes de se avançar para a realidade
faculdade foi explicitada na Bula Dum attenta, de peninsular, importa destacar que, ao entrar-se no
Sixto IV, que concretizou alguns aspectos da Ordem séc. XVI, em resultado de todo o processo reformador
Terceira. Entretanto, já desde 1455, tinha sido e do esforço de organização exigido pela multi-
elaborada uma Regra para este ramo laical, com plicidade de conventos masculinos e femininos
numerosas prescrições ascéticas e espirituais, em dispersos por toda a Europa, a Ordem apresentava-
que se incluíam votos solenes. Parece que apenas -se estruturada em províncias, à frente das quais se
mulheres seguiram estas prescrições. Mais tarde, em encontrava um Provincial, assistido por Definidores,
1583, a Santa Sé não reconheceu estes votos, que nomeavam os Priores dos conventos ou os seus
obrigando a reformular juridicamente os vínculos à Vigários e que tratavam de novas fundações, para
Ordem, o que aconteceu por Bula de Gregório XIII. além de outras atribuições. O Geral ocupava o topo
Tomando como modelo a Ordem Terceira da desta hierarquia. Desde a primeira aprovação da
Capela do Convento de S.ta Cruz do Buçaco (PCC)
Penitência, característica das outras ordens Regra, celebrava-se Capítulo Geral em cada três
mendicantes, os votos deram lugar a alguns anos, acontecendo por vezes serem mais espaçados,
Foi também neste contexto reformador do séc. XV compromissos explicitados em Regra própria. enquanto os Capítulos Provinciais se reuniam, por
que nasceu o Carmelo feminino. Com efeito, desde Importa esclarecer que as Ordens Terceiras se norma, todos os anos.
o séc. XIII, tinham-se organizado em vários países distinguem das Irmandades ou Confrarias do O traçado deste amplo quadro internacional da
grupos de mulheres que seguiam a espiritualidade Escapulário de N. Sr.a do Carmo, nascidas no séc. Ordem ficaria incompleto sem a referência à sua
carmelitana junto dos conventos masculinos, dos XIII, que têm como acontecimento inspirador a presença em Portugal, que remonta a uma época
quais recebiam apoio, mas sem Regra nem forma aparição da Virgem Maria a S. Simão Stock, a 16 não muito longínqua das origens dos Carmelitas na
canónica. Eram conhecidas por mantelatas, sorores de Julho de 1251. Durante a visão ter-lhe-á sido Europa, embora já depois de terem adquirido o perfil
e beatas e as suas comunidades por beatérios. Foi apresentado o escapulário, como sinal de protecção mendicante. Com efeito, os religiosos entraram em
do de Florença que partiu o pedido do seu aos que o usassem, acompanhado da promessa que Portugal no contexto do seu expansionismo, havendo
reconhecimento ao papa, de que foi portador o Prior tem sido repetida através dos séculos: “Este será o uma tradição, surgida na pena de cronistas dos sécs.
dos Carmelitas da cidade. Como resposta, Nicolau privilégio para ti e para todos os carmelitas: quem XVII e XVIII, que foram trazidos de Malta pelos freires-
V outorgou a Bula Cum nulla, de 7 de Outubro de morrer com ele não padecerá o fogo eterno. Quem -cavaleiros da Ordem de São João de Jerusalém
1452 (ampliada, mais tarde, pela Bula Dum attenta morrer com ele salvar-se-á”. Trata-se de uma tradição (também fugidos da Terra Santa), como seus
de Sixto IV, de 28 de Novembro de 1476), pela qual que adquiriu raízes tanto mais fortes quanto surgiu assistentes espirituais. Instalaram-se na vila alentejana
concedia aprovação à forma de vida destas mulheres. em fase de debate sobre a definição da identidade de Moura, num convento levantado pelos membros
Com este documento de 1452 nascia o ramo da Ordem na Europa, depois da saída forçada da desta Ordem de Cavalaria, que eram também
feminino no Carmelo, que passou a ser considerado Palestina. Em tempos problemáticos, não foi difícil conhecidos por Hospitalários, que o entregaram
como a Ordem Segunda (sendo a Primeira o admiti-la como aprovação divina a antecipar-se à aos filhos espirituais de N. Sr.a do Monte Carmelo.
masculino), a cuja fundação ficou associado o nome papal, incorporando-se como acontecimento sancio- Há sérias dúvidas sobre muitas destas informações,
de João Soreth. Subsistem dúvidas sobre se teria nador do seu segundo momento fundacional. Por sendo contudo indiscutíveis dois aspectos: que o
havido uma intervenção directa, na qualidade de outro lado, a mensagem que a acompanha foi de primeiro convento de Carmelitas foi em Moura e
Geral da Ordem (1451-1471), ou apenas uma con- fácil aceitação pelo homem medieval, para quem a que nele se encontra uma pedra de armas dos
cordância, hipótese fundada no seu envolvimento salvação eterna constituía problema central, para cavaleiros da Ordem de Malta. Até há pouco,
em legalizar a comunidade das Beguinas de Gelders. mais explicitada de modo tangível no símbolo material também 1291 era o ano aceite para a fundação da

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Ordem, por referência desta data num documento chamam Rubeo. Encontrou no Prior do convento
de 1421. A mesma atitude crítica coloca a fundação dos mitigados da cidade, Fr. António Herédia, que
de Moura no primeiro terço do séc. XIV, atribuindo- conhecera em Ávila no exercício de idêntico cargo,
-a a D. Afonso de La Cerda, sendo a primeira o incentivo para o projecto e o desejo de nele
referência documental a este convento datada de também se integrar, o que não a entusiasmou por
1354. É certo, porém, que se manteve como único ser homem já de idade. Um jovem carmelita, Fr.
cenóbio carmelitano até 1386, ano em que D. Nuno Pedro de Orozco, falou-lhe de um condiscípulo seu,
Álvares Pereira, após petições aos Papas Urbano VI Fr. João de São Matias, então com 25 anos, que se
e Bonifácio IX, fundou em Lisboa o convento que tornara notado por especial vida de oração e
veio a ter a designação de N. Sr.a do Vencimento recolhimento. Surgida a oportunidade do primeiro
do Monte do Carmo, cujas obras, começadas em contacto no locutório do recém-fundado convento
1389, estavam concluídas em 1422. Neste convento das Carmelitas da cidade, intuiu de imediato nele
ingressou, simplesmente como donato ou semi-frater, as predisposições espirituais, humanas e culturais
Nuno de Santa Maria, e nele havia de permanecer para o seu novo plano fundacional. E à vontade
até à sua morte, ocorrida a 1 de Abril de 1431, manifestada pelo jovem estudante – a que faltava
Convento N. Sr.ª do Carmo, Porto (DB)
domingo de Páscoa. Os dois conventos começaram o último dos quatro anos do curso teológico (1564-
por pertencer à Província Carmelita de Espanha, da -1568) na Universidade de Salamanca – de ingressar
qual se separaram em 1423 ou 1425 (persistem as da cidade, onde os pais, D. Alonso Sánchez de na Cartuxa, por desejo de uma vida espiritual mais
dúvidas) para constituir a Província de Portugal, Cepeda (natural de Toledo) e D. Beatriz de Ahumada exigente e motivado por uma especial devoção à
autonomia adquirida igualmente pelas demais ordens (natural de Olmedo), possuíam uma casa de campo Virgem Maria, respondeu-lhe com o desafio de
mendicantes, a que não foi estranho o antagonismo e aí passavam períodos de tempo, em nada altera realizar as suas aspirações dentro da Ordem em que
político entre Portugal e Castela, nos primórdios de um dos nomes por que se tornou conhecida. Foi já professara. Recebido o presbiterado em Salamanca
Quatrocentos, com a ascensão da Dinastia de Avis. em Ávila que passou a infância, a juventude e a e regressado a Medina, vestiu o hábito de carmelita,
O processo decorrera da celebração do primeiro idade adulta e onde fez toda a formação religiosa confeccionado pela própria Madre, no ano de 1568.
Capítulo Provincial, no qual foi eleito Provincial Fr. que a levaria a tornar-se monja. Na cidade, Logo a seguir, acompanhou-a na fundação do
Afonso Leitão. A partir de então e até 1834, amadureceu e deu início ao movimento reformador, convento no importante centro universitário de
sucederam-se as fundações em diferentes pontos com a fundação, a 24 de Agosto de 1562, do Valladolid, oportunidade para Teresa o instruir no
do país, com o seguinte ritmo cronológico: Colares Convento de S. José, que será sempre a grande modo de proceder na reforma e de lhe transmitir o
(1450), Vidigueira (1496), Beja (1526), Évora (1531) referência e o foco de irradiação das demais novo espírito e carisma que se vivia nos seus
e Coimbra (1537), que era o colégio universitário, fundações femininas. Foi esta actividade excepcional, Carmelos. Foi como que um tempo de Noviciado
fundado no ano da transferência definitiva da íntima e permanentemente associada a uma vida que durou pouco mais de dois meses. Acompanhá-
universidade para a cidade do Mondego. D. Fr. orante e contemplativa, acompanhada, a partir da -la-á mais tarde noutras fundações, como Alba de
Amador Arrais construirá uma nova igreja e um novo sua “conversão”, da experiência de fenómenos Tormes e Segóvia. Este empenho de Teresa decorria
claustro, cujas obras foram concluídas, respecti- místicos testemunhados nos seus escritos, que a da percepção de que a reforma dos conventos
vamente, nos anos de 1597 e 1600. Seguiram-se guindou aos cumes de uma santidade de alcance femininos exigia como complemento a dos
Lagoa (1550) e Torres Novas (1558). Fundações universal. O caminho percorrido até avançar para a masculinos, para que formassem uma só família.
efémeras foram as de Mértola (c. 1558) e Trancoso “Descalcez” (que na época, e em Espanha, equivale Além disso, considerava que seria o melhor meio
(c. 1559), às quais se seguiram as de Alverca (1600), a reformar ou reformular a Regra, recuperando o de dar às Carmelitas directores de consciência, com
Camarate (1608), Setúbal (1608), Horta, nos Açores espírito das origens), o quadro mental e espiritual formação teológica sólida e impregnados da
(1652), e Lordelo, nos arredores do Porto, em data que a contextualiza e as grandes etapas da sua originalidade do caminho espiritual que a própria
desconhecida. A expansão para o Brasil começou implantação terão mais adiante o desenvolvimento percorrera.
em 1580, na sequência da qual foram criados que se impõe. O projecto gizado tornou-se realidade em breve
conventos em Olinda (1590), Bahia (1592), Santos A outra grande referência é João de Yepes (nascido tempo. Logo nesse ano de 1568, era inaugurado o
(1589) e Rio de Janeiro (1590). Também o ramo em Fontiveros, a 24 de Junho, ou 27 de Dezembro, primeiro cenóbio de freires em Duruelo, aldeia quase
feminino teve as suas fundações, em Beja (1541 de 1542, vindo a morrer em Ubeda, a 14 de desconhecida e paupérrima, com cerca de 20
ou 1542), Lagos (1558) e Tentúgal (1565). Com a Dezembro de 1591), que ao professar no convento- habitantes, em plena montanha, a nove léguas de
reforma da Ordem Carmelita em Espanha, ao findar -noviciado da Ordem do Carmo de Medina del Ávila. A localização só em parte agradava a Teresa.
da década de 60 do séc. XVI, abre-se um novo Campo, em 1564, adoptou o nome de Fr. João de Não tanto pela ruralidade do meio e grande pobreza
capítulo na sua história, que atingirá Portugal a partir São Matias e, na sequência do seu encontro com da casa, mas porque sempre preferiu as cidades ou
de 1581. Teresa de Jesus e adesão ao movimento reformador, aglomerados com alguma relevância populacional
Ao impulso reformador em Espanha estão indele- em 1568, o mudou para João da Cruz. Com efeito, para implantar os conventos. Apesar de fazer a
velmente ligados dois grandes nomes da espiri- ao deslocar-se com um grupo de monjas, no ano apologia da vida eremítica, entendia que era possível
tualidade carmelitana: D. Teresa de Ahumada y de 1567, à cidade das feiras, dos grandes mercadores recriá-la nos terrenos envolventes dos cenóbios das
Cepeda (nascida em Ávila, a 28 de Março de 1515, e banqueiros, mas também a importante centro de cidades. Para a reformadora, nas urbes os Carmelitas
tendo vindo a morrer em Alba de Tormes, entre 4 cultura, alimentado pelos colégios das ordens encontrariam o enquadramento cultural necessário
e 15 de Outubro de 1582), que uma longa e religiosas – entre eles o dos Jesuítas –, levava Teresa ao desenvolvimento de uma vida espiritual de nível
profunda caminhada espiritual tornou conhecida por dois projectos: fundar um novo convento de religiosas elevado, através de directores de consciência de
S.ta Teresa de Jesus ou de Ávila. A hipótese, levantada e alargar o seu programa reformador ao ramo saber teológico consistente, que só as escolas,
por alguns historiadores, de acidentalmente ter masculino da Ordem, para o qual tinha autorização colégios e universidades poderiam fornecer. Era
nascido em Gotarrendura, a cerca de 20 kms a norte do Geral, João Baptista Rossi, que os espanhóis também o retomar da tradição do séc. XIII. Acrescia

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uma forte motivação pragmática: nas cidades apelos a uma vida religiosa centrada na pessoa de
concentravam-se os aristocratas e os burgueses, os Jesus Cristo e na interioridade espiritual, apoiada na
grupos sociais que maiores possibilidades tinham de leitura da Sagrada Escritura, secundarizando os actos
favorecer os conventos com esmolas. A fundação exteriores e formais de culto. Em Espanha, teve
de Duruelo foi inaugurada a 28 de Novembro de especial acolhimento o humanismo de Erasmo de
1568, assumindo o cargo de Prior Fr. António Herédia Roterdão (1469-1536), o pensador de dimensão
(que mudou o nome para Fr. António de Jesus) e o cosmopolita que melhor o expressou nos seus
de Subprior e Mestre de Noviços Fr. João da Cruz, escritos. Contudo, o entusiasmo pela corrente
a que se juntaram mais três religiosos predispostos erasmista em Espanha, que teve o seu auge entre
a fazerem a experiência de nova vida. Na primeira os anos 1527-1532, com apoio oficial de Carlos V,
missa, celebrada pelo Provincial Fr. António González, o imperador vindo da Flandres, e que foi seguida
o prior e o subprior renunciaram à Regra mitigada pela Corte deste, integrada por flamengos mas que
do Carmo e prometeram regressar à Regra não captou intelectuais castelhanos, entrou em lento
mitigada e corrigida por Inocêncio IV. A exiguidade refluxo e depois em desgraça e perseguição, por
dos espaços de Duruelo, com o despontar das suspeita de afinidades com as ideias heréticas de
primeiras vocações, obrigou à procura de instalações Martinho Lutero. Apesar de postergado ao nível do
mais capazes e cómodas. Será para o lugar de poder político, o espírito erasmista, que tocara
Mancera, em casa oferecida por D. Luís de Toledo, profundamente a universidade e as elites intelectuais
que a comunidade se transferirá em 1570, mudança urbanas, continuará a impregnar de modo subterrâ-
que não significou nova fundação. A segunda já Santuário do Menino Jesus de Praga, Avessadas (JEF)
neo o pensamento religioso e influenciará o ideal
tinha, entretanto, ocorrido em Pastrana, no ano de de reforma monástica. S. ta Teresa não terá lido
1569, vila com muito mais categoria geográfica e Erasmo, mas certamente ouviu falar dele e da atitude
histórica, a que estão ligados os nomes do português -se fazer uma incursão, ainda que breve, pela interior que preconizava, pois o erasmismo, mais do
Rui Gomes da Silva, Príncipe de Eboli e Duque de ambiência espiritual, cultural e mental em que se que corpo doutrinal, é uma disposição do espírito.
Pastrana, pelo casamento com a famosa D. Ana de moveram. Com efeito, a reforma que Teresa de Jesus Já quanto a S. João da Cruz, o estudo e magistério
Mendoza y de La Cerda, a que adiante se fará introduziu na Ordem Carmelita e para a qual atraiu nos centros universitários que frequentou levam a
particular referência. Foi nesta vila que se instalou personalidades de grande estatura espiritual, não admitir um conhecimento mais preciso. É uma
definitivamente o Noviciado. A João da Cruz se ficou resultou exclusivamente da irradiação da sua realidade que os escritos de ambos estão impreg-
a dever a transmissão da exemplaridade de vida experiência pessoal de vida contemplativa decorrente nados de profundo humanismo com afinidades a
ascética e espiritual a observar pelos aspirantes à da oração mental, mas também da convergência de esta matriz. Até certo ponto o culto à Humanidade
profissão, a qual estava impregnada do seu perfil uma diversidade de factores que nela incidiram e de Cristo, um dos traços da espiritualidade teresiana,
de grande formador humanista: suavidade, que importa destacar. Um dos mais marcantes foi, constitui um possível elo na cadeia de contactos
moderação e alegria. Por estas qualidades, a que sem dúvida, a pluralidade de movimentos reforma- com a mística vinda do Norte da Europa.
juntava a de ser qualificado homem de letras, foi dores em que o séc. XV se tornou fértil, como atrás Reflexo mais directo, mas por oposição, tiveram os
chamado para Reitor do Colégio dos Descalços, se viu, em que o teresiano, até certo ponto, se insere ventos do Protestantismo que sopraram em Espanha
fundado em Alcalá de Henares, no ano de 1570, e prolonga. As experiências dos conventos con- e que obtiveram a simpatia de personalidades de
colocado sob a invocação de S. Cirilo, que se tornará gregados foram um fermento que transpôs fron- quadrantes influentes, alimentada pela importação
numa destacada referência para a Ordem nascente. teiras e, sem que sejam muito perceptíveis contactos clandestina de livros e de bíblias protestantes que
A Universidade de Alcalá era, a par de Salamanca, directos com a Península Ibérica, impregnaram o a imprensa recém-descoberta rapidamente divulgava.
outro grande centro cultural de Espanha. Os ambiente de aspiração renovadora da época, a que A reforma teresiana começou na altura em que as
estudantes carmelitas assistiam às aulas e eram corresponderam gerais da Ordem de elevada divergências confessionais endureceram. Mas se na
acompanhados pelo exemplar padre reitor, que envergadura. Assim aconteceu com o cipriota Nicolas Europa a reforma protestante acabou por fracturar
também era professor, em cujo magistério revelou Audet, que esteve à frente do generalato entre 1524 definitivamente a Cristandade em dois blocos, após
grande conhecimento da Sagrada Escritura, argúcia e 1562, e com João Baptista Rossi (Rubeo), italiano uma agitada convulsão social e o derramamento de
em questões de Filosofia e Teologia Neotomista, de Ravena, que lhe sucedeu por eleição no Capítulo sangue na violência das guerras de religião – as de
para além de ser um mestre espiritual. A criação Geral celebrado em Roma, em 1564, figura indele- França impressionaram particularmente Teresa – em
deste colégio num meio universitário confirmava a velmente ligada à reforma teresiana. Depois de 1324, Espanha, a sua infiltração foi controlada pela rigidez
intuição e a vontade de Madre Teresa de que os ano em que o Geral João de Alério presidira o da ortodoxia religiosa, com o apoio régio, e de uma
seus frades fundassem casas em cidades de estudos, Capítulo Geral em Barcelona, Rubeo foi o primeiro apertada vigilância da Inquisição. Ao serem desco-
para também nelas recrutarem boas vocações. Em Geral a fazer visita canónica às Províncias de Castela, bertos focos heréticos em Valladolid, realizaram-se
dois anos, com as casas de Duruelo-Mancera, Andaluzia e Portugal. Teve, assim, oportunidade de na cidade dois autos-de-fé no ano de 1558; em
Pastrana e Alcalá, concretizava-se o arranque da conhecer Teresa, de visitar o Convento de S. José Sevilha também se acenderam fogueiras em 1559,
reforma dos religiosos, a que se encontra de Ávila e de verificar o modo como era observada 1560 e 1562. Em 1559, o Inquisidor Geral Fernando
estreitamente ligado o nome daquele que virá a ser a Regra primitiva aprovada por Inocêncio IV, que de Valdés publicava o Índice de Libros Prohibidos,
S. João da Cruz, mas impulsionada por Teresa de então já aí levava cinco anos de prática (1562-1567). no qual incluiu cerca de 700 obras, entre as quais
Jesus, cujas fundações tinham começado cinco anos Influentes também, embora de modo um tanto se contavam parte das que Teresa de Jesus usava (e
antes, na sequência de uma convergência de factores difuso, foram as correntes renovadoras surgidas na que contribuíram para a sua formação intelectual),
de que importa traçar o quadro. viragem para o século de Quinhentos, em especial e proibia a leitura da Bíblia em língua vernácula.
Apresentados os protagonistas de primeiro plano e a do humanismo cristão, vindo do Norte da Europa. À abertura mental dos primeiros decénios da centúria
os primórdios das realizações que os definem, impõe- Este, para além da vertente cultural, integrava fortes seguia-se um tempo de intransigência e dureza

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(“andaban los tiempos recios”, escreverá Teresa), a montagem do Tribunal da Inquisição na cidade,
para garantia da coesão doutrinal, social e política. auto-acusando-se espontaneamente de rituais
Ao longo da sua vida de fundadora e autora de judaicos em privado, conotados como crimes de
obras espirituais, para além de ver o seu Livro da heresia e apostasia, embora, em público, tivesse
Vida apreendido pela Inquisição em circunstâncias prática cristã. A atitude valeu-lhe a indulgência dos
que adiante se explicarão, em Sevilha será interrogada inquisidores, que lhe deram como penitência a
directamente pelos inquisidores e obrigada a justificar- obrigação de visitar igrejas à sexta-feira durante sete
-se. Apesar de lhes ter dissipado as suspeitas, semanas consecutivas, revestido do sambenito. Esta
exigiram-lhe que pusesse por escrito a sua vida e as imagem pública com repercussões infamantes levou-
suas experiências místicas, intimação que está na -o a sair de Toledo, a instalar-se com a toda a família
origem de duas extensas Relaciones (4.ª e 5.ª). em Ávila e a procurar uma progressiva identidade
Ao nível da Igreja Romana, a resposta à problemá- com o estilo de vida hidalga. O exemplo foi seguido
tica levantada pelo Protestantismo, entretanto pelos filhos, entre eles Alonso, pai de Teresa, que
fragmentado em diversas correntes que diferentes escolheu para esposas – casou em primeiras núpcias
reformadores personalizavam, foi dada pelo Concílio com D. Catarina del Peso e Henao e, após a sua
de Trento (1545-1563), através da promulgação de morte, com D. Beatriz de Ahumada – senhoras de
um corpus doutrinal, disciplinar e pastoral, em cuja estrato nobiliárquico médio e investiu os recursos
elaboração tiveram papel relevante teólogos e herdados na compra de terras, com o abandono do
prelados da Península Ibérica. Ao encerrar-se a trato mercantil e de operações financeiras a que a
assembleia ecuménica, abria-se uma nova era na família também se dedicava. Conseguiu “carta
história do Catolicismo, marcada por doutrina executória” de hidalguia, emitida pela Chancelaria
Pormenor do Convento de S.ta Cruz do Buçaco (PCC)
depurada, militância contra a heresia e apertada de Valladolid, em 1523, após arrastado processo
disciplina, sob o controle da hierarquia eclesiástica judicial (1519-1522), que o isentava do pagamento
com autoridade reforçada, em colaboração com a de impostos e, por consequência, lhe reconhecia a concreta do Carmelo espanhol no momento em que
dos soberanos católicos. Iniciava-se a Contra-Reforma condição de hidalgo. A sentença abrangia o pai e Teresa de Ahumada se tornou monja carmelita.
Católica, que assumia as reformas parcelares e os tios de Teresa. É através do depoimento das Existiam ao tempo 11 conventos femininos: 7 na
dispersas anteriores ao concílio, mas dava-lhes testemunhas no pleito que os pormenores sobre as Andaluzia, 3 em Castela e um em Valência. Cada
unidade e alcance universal, agora sistematizado origens judaicas e sobre a luta pela aquisição daquele mosteiro procedia de um grupo diferente de pessoas.
com os cânones tridentinos. estatuto nos são hoje conhecidos. Teresa conhecia Todos tinham começado como beatérios, evoluindo
Ao quadro traçado há que acrescentar algumas bem todo este processo e apenas se lhe refere em mais ou menos rapidamente para a plena estrutura
especificidades da Espanha, indo o destaque para passagem, de carta (1561) para o irmão Lourenço, religiosa. Como se disse atrás, “beata” dizia-se de
o misticismo dos alumbrados, ao que parece que se encontrava em Quito. São aliás eloquentes, uma mulher que, sem ser monja, vestia o hábito da
introduzido por frades franciscanos pelo ano de nos seus escritos, designadamente no Livro da Vida Ordem e vivia certos preceitos da Regra. Alguns
1510 e que se propagou rapidamente entre as (com a primeira redacção concluída em 1562, que tinham chegado inclusive à forma jurídica de
camadas populares. A sua característica mais se perdeu, e a segunda em 1565), alguns silêncios. sanctimonimales, isto é, adoptavam as leis da clausura
inquietante era a extrema subjectividade preconizada Teresa mostrava-se consciente de que a oração de papal, situação que não era comum. Cada instituto
na prática religiosa, que à Igreja levantava suspeitas, união, contemplativa e mental, que descobriu e tinha a sua fisionomia própria, apesar de professarem
o que explica as medidas drásticas tomadas contra preconizou, bem como os fenómenos místicos que a mesma Regra, podendo seguir constituições e
os iluminados, entre os quais se contavam muitas experimentou e descreveu nas suas obras, vindos de costumes diferentes. Teresa ingressou no Convento
mulheres. Ao painel há que juntar a progressiva uma mulher – habilmente diz, com frequência, da Encarnação de Ávila, a 2 de Novembro de 1535,
perseguição inquisitorial aos conversos (designação reconhecer a fraqueza do género feminino –, poderiam depois de ter sido, durante ano e meio, aluna interna
espanhola de cristãos-novos), aos “mouriscos”, com levantar suspeitas à Inquisição, pelo que recorreu no Convento das Agostinhas de S.ta Maria da Graça,
surtos insurreccionais apoiados nos seus correli- continuamente à opinião dos melhores letrados a que o de maior prestígio na cidade, onde era ministrada
gionários do Norte da África, e ainda o avanço dos teve acesso. Na pena da monja, letrados eram os a educação e formação cultural ao tempo exigida
turcos otomanos no Mediterrâneo. A guerra ao infiel teólogos, confessores e pregadores. Sobre eles, repetiu às “donzelas senhoras de bem”. Foi ao longo dessa
foi transversal a quase todo o século. Foi, pois, nesta infindas vezes ser muito amiga, indo a preferência permanência que, guiada por Maria de Briceño,
época de transição cultural, de cruzamento de para os mais qualificados de então, que se directora das noviças e pensionistas, e por sua
doutrinas e espiritualidades, que Teresa de Ahumada encontravam entre os Dominicanos e os Jesuítas. influência, se iniciou na oração e na vida espiritual.
viveu, se tornou religiosa carmelita e levou a cabo Ouviu os pareceres de futuros santos, como do Dá-se então conta da vanidade do mundo e pede
a obra reformadora. E se se procedeu a este elenco observante franciscano Pedro de Alcântara e do jesuíta a Deus que a ilumine sobre a escolha de um modo
temático, embora de conteúdo sucinto, foi porque Francisco de Borja, e ainda dos dominicanos Luís de vida. Não se queria casar, não tanto por medo
nas obras que nos legou é patente o grande cuidado Beltrán e Pedro Ibañez, para dar início à sua primeira ou repulsa, mas pela mediocridade da vida
em apresentar as suas experiências sem ser alvo de fundação. Aferiu, assim, de modo exaustivo, as suas matrimonial que pôde observar no género feminino,
suspeições. convicções de religiosa fundadora e reformadora, com que intuía ser incompatível com aspirações mais
A sua origem familiar era propícia ao receio. Com a doutrina oficial fixada em Trento, cautela que a altas que sentia. Por outro lado, o convento também
efeito, estava tocada pela “mancha” de conversa, acompanhou ao longo da vida, o que lhe consentiu não a atraía. Escreve no Livro da Vida que “sentia
herança que lhe advinha do avô paterno, Juan declarar com serenidade no derradeiro momento da grande repugnância em ser freira”. Pouco a pouco,
Sánchez, rico mercador de tecidos de origem judaica sua existência: “Por fim morro filha da Igreja”. impressionada pelo exemplo de Maria de Briceño,
que se estabelecera em Toledo. No ano de 1485, Evocado o contexto mental em que a reforma as resistências foram cedendo, acabando por se
respondeu ao pregão do édito de graça que precedeu teresiana se inseriu, importa considerar a situação decidir a ser religiosa. Na manhã de 2 de Novembro

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de 1535, foge de casa e, contra a vontade do pai, a um novo estilo de vida, sabendo-se que 30 delas para regressar a Ávila, em Julho de 1562, dá-se uma
transpõe as portas do Convento da Encarnação. passariam, mais tarde, para os mosteiros que iria coincidência inesperada: no mesmo dia da sua
A concordância paterna, que implicava a questão fundar, das quais 22 neles haviam de perseverar. chegada é recebido o breve pontifício, datado de 7
do dote, acabou por ser regularizada. A sua vocação Corria o ano de 1560. Tendo já experimentado de Fevereiro. Vinha dirigido a D. Aldonza de Guzmán
religiosa não era, contudo, muito firme. Teresa prefere êxtases e arroubamentos, ouvido falas místicas e e de sua filha D. Guiomar de Ulloa “senhoras
simplesmente o convento ao casamento. Marcelle percepcionado a visão intelectual de Cristo, eis que ilustres”, viúvas, autorizando-as a fundar um mosteiro
Auclair encontrou as palavras certas acerca deste O vê sob a forma gloriosa de ressuscitado, feminino da Ordem de Nossa Senhora do Carmo,
dilema: ao entrar no Carmelo, é uma espécie de ordenando-lhe a fundação de convento reformado nas condições pedidas. A casa já tinha sido adquirida
casamento de razão a que se resigna; levará 20 anos que devia ficar sob a invocação de S. José. Debate- e da sua adaptação ao novo destino se tinham
a transformá-lo em casamento de amor. A 2 de -se então com um feixe de problemas. Como encarregado, discretamente, a irmã, Joana de
Novembro de 1536, Teresa vestia o hábito de encontrar meios financeiros para o concretizar? Ahumada, e o cunhado Juan de Ovalle. No dia 24
carmelita no mesmo cenóbio. Como obter autorização para a ruptura? Recorre de Agosto de 1562 era finalmente inaugurado o
O Convento da Encarnação de Ávila tinha nascido aos conselhos de Pedro de Alcântara, Francisco de primeiro convento teresiano, com a aprovação do
em 1479, fora das muralhas da cidade, também Borja, dos dominicanos Luís Beltrán e Pedro Ibañez, provincial e com a licença do prelado, que se tornou
como beatério, por iniciativa de Elvira González de do Provincial dos Carmelitas, P.e Angel de Salazar, e num grande amigo de Teresa. Sobre o altar da capela
Medina. Alguns anos mais tarde, em 1512, outra do fidalgo Francisco de Salcedo. De todos recebe foi colocado um quadro de S. José, padroeiro da
“beata”, Beatriz Higuera, teve a ambição de o encorajamento para avançar. Apesar do segredo em fundação. Após o toque do sino, começou o
transformar num verdadeiro convento, junto de um que o plano se mantinha, a nova transpirou e cerimonial, que consistiu na celebração da missa
antigo cemitério judaico, com o dote exigido aos começaram as reacções. As religiosas da Encarnação pelo P.e Gaspar Daza, em representação do bispo, e
pais por via judicial. A 4 de Abril de 1515, data que consideravam-se humilhadas por não serem dignas na colocação do Santíssimo Sacramento, dois actos
coincide com a do baptismo de Teresa (no que depois de a reforma não ser feita no próprio convento. Os que se tornarão nos pilares fundacionais de todos
se viu acontecimento providencial) inaugurou-se a outros 13 mosteiros da cidade inquietaram-se com os conventos. Das mãos do sacerdote, e também
nova casa, ampla e espaçosa. A nova comunidade a concorrência que teriam de enfrentar nas esmolas por delegação de poderes de D. Álvaro de Mendoza,
adoptou a Regra do Carmelo, a mitigada, mas menos que constituíam parte do seu sustento. O município receberam o hábito as quatro primeiras noviças, com
relaxada, como muitas vezes se escreveu. Foi ao foi particularmente sensível ao argumento do suporte a particularidade de virem directamente dos seus
abrigo dos seus princípios e exigências que, a 3 de financeiro de mais uma comunidade religiosa para meios familiares e não de outros institutos. Entre
Novembro de 1537, Teresa de Ahumada fez a uma urbe que contava com uma população de 30 000 elas contava-se Maria de São José Salazar, antiga
profissão solene. Assim se integrava numa habitantes. As objecções evoluem para uma oposi- camareira de D. Luísa de La Cerda, que após a
comunidade de cerca de 180 membros, entre monjas ção veemente, que transborda para a praça pública. profissão acompanhará Teresa em muitos dos seus
idosas, de meia-idade, jovens e crianças, tão crianças O clima de agitação popular fez recuar os apoios já caminhos e que virá a ser a fundadora do Convento
que somente depois de cinco ou dez anos poderiam recebidos do provincial e do confessor. Das escassas de S. to Alberto de Lisboa, o primeiro cenóbio
começar o Noviciado. O tempo e as circunstâncias adesões de pessoas influentes vinham, entretanto, carmelitano feminino em Portugal. As demais
tinham tornado aquele convento um ponto de algumas dádivas para a compra de casa para instalar religiosas vinham do Convento da Encarnação.
atracção para senhoras de segmentos sociais mais o convento: de D. Guiomar Ulloa, da sobrinha de A pedido do núcleo de monjas fundadoras de
ilustres, algumas até nele vivendo acompanhadas Teresa, Maria de Ocampo, e, até inesperadamente, S. José de Ávila, redigirá S.ta Teresa o Caminho da
de servidoras, em celas com duas divisões e cozinha 200 ducados remetidos do Peru por Lourenço de Perfeição, em cujas páginas lhes transmitiu as suas
própria, que funcionavam como autênticos aparta- Cepeda, um dos sete irmãos de Teresa e o único instruções de pedagogia espiritual. As cópias manus-
mentos. Assim era o caso de Teresa. Compartilhava- bem sucedido na vida. Por conselho de Pedro de critas circulavam pelos seus cenóbios e serviam como
-a com a sua irmã Joana e, mais tarde, com duas Alcântara, também se precavera o necessário breve que de catecismo do carisma carmelitano durante
sobrinhas, para além de outras parentes com da Santa Sé para a fundação do cenóbio, requerido as muitas ausências exigidas pelo seu peregrinar
profissão religiosa. Muitas outras monjas havia com em nome do P. e Pedro Ibañez, já notado como fundacional. Virá a ser também a primeira obra
dotes de baixo valor, que as remetia para dormitórios iminente teólogo, e de D. Guiomar de Ulloa, com impressa, embora já depois da morte da autora.
comuns, e às quais, para atenuar as carências a indicação de que iria ficar sob jurisdição do Saiu dos prelos em Évora, no ano de 1583, por
alimentares, era consentida a saída e a permanência Provincial dos Carmelitas. A mudança deste para o iniciativa e a expensas do Arcebispo D. Teotónio de
em casa de familiares ou de quem solicitasse a sua campo dos opositores obrigou a impetrar novo breve, Bragança, gesto que decorria da mútua admiração
presença. A Regra ali seguida não impunha o sob a condição de o convento depender da e amizade que os ligava, como bem testemunha a
princípio da clausura. Também o acesso de visitas autoridade do Bispo de Ávila, D. Álvaro de Mendoza. troca epistolar que mantiveram. O Caminho da
ao locutório era muito facilitado, nem sempre por Em finais de 1561, o provincial ordenou a Teresa Perfeição será seguido pelas Moradas ou Castelo
motivos espirituais, o que o assemelhava a autêntico que deixasse a Encarnação, a que se encontrava Interior, em cujas páginas elabora a sua grande
espaço de sociabilidade para damas e cavalheiros. canonicamente vinculada, e fosse para Toledo, a fim síntese sobre o mistério da íntima relação da alma
Esta abertura à vida mundana provocara uma natural de consolar D. Luísa de La Cerda, filha do Duque com Deus (também redigido em S. José de Ávila,
erosão espiritual. de Medinaceli, que acabara de ficar viúva. no ano de 1577), que, juntamente com o Livro da
Ao fim de 27 anos desta experiência concreta, a par Inicialmente considerado como obstáculo ou Vida, constituirão as obras maiores saídas da pena
de um processo gradual de conversão pessoal, Teresa compasso de espera, foram cerca de seis meses de Teresa de Jesus.
concebeu a ideia de criar um convento mais simples, muito fecundos, pois, para além de concluir a Retome-se a fundação de S. José de Ávila. Divulgada
no qual se pudesse viver o ideal religioso carmelitano primeira redacção do Livro da Vida (que submeteu a notícia do acontecimento, levantou-se uma
de recolhimento e silêncio, só possível com número à aprovação do grande mestre espiritual, o futuro autêntica tempestade. A Prioresa da Encarnação
restrito de religiosas. Era o desejo de retorno à Regra S. João de Ávila), foi ocasião para estabelecer exigiu que Teresa regressasse ao seu convento e se
primitiva. Resultava de conversas com monjas que contacto com personalidades que se haviam de não o fez foi por condescendência do provincial.
frequentavam a sua cela e que aspiravam igualmente revelar úteis em futuras fundações. Ao receber ordem O Conselho Municipal promoveu várias reuniões

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à reforma. De tal modo ficou impressionado com a nasceram os Conventos de Beas de Segura e Sevilha
exemplaridade de vida das monjas, vestidas de burel (1575) e de Caravaca (1576), após os quais, a subida
castanho e, nos pés, alpercatas de linho cânhamo, de tom nas querelas internas na Ordem (Calçados,
adoptadas em 1563 (em vez de sapatos, usados ou Mitigados, contra Descalços) a obrigaram a
pelas religiosas da Regra não mitigada), e com a deter-se durante mais quatro anos. Passada a
personalidade da Fundadora, que acabou por lhe tormenta, em 1580 funda Villanueva de la Jara e
outorgar carta-patente, assinada em Ávila, a 27 de Palência, Sória (1581), Granada e Burgos (1582),
Abril de 1567, em que a autorizava a fundar que foi uma das suas mais duras provações, por se
conventos femininos reformados em Castela (mas encontrar já bastante doente. Aí recebeu ordem do
não na Andaluzia), que deveriam ficar sujeitos à Vigário António de Jesus, por ausência do Provincial
jurisdição do superior geral e sempre com o acordo Fr. Jerónimo Gracián de la Madre de Dios, de partir
do bispo do lugar. Para cada novo convento era-lhe para Alba de Tormes, onde a Duquesa de Alba,
concedida licença de levar duas carmelitas da D. Maria Enríquez, a chamava para ajudar, com as
Convento de S.ta Cruz do Buçaco (PCC) Encarnação, desde que fossem voluntariamente. Por suas orações, nos trabalhos de parto da sua nora.
insistência da madre, veio depois a conceder A viagem foi um autêntico calvário, com paragens
faculdade, por carta enviada de Barcelona e datada em Palência, Valladolid e Medina. A 20 de Setembro,
para debater novamente a falta de rendas para de 10 de Agosto de 1567, para os religiosos poderem chegou a Alba, quase em estado de exaustão.
sustento das religiosas. As noviças são alvo de actos fundar duas casas em Castela, segundo o mesmo Acabou os seus dias no Convento da Anunciação
intimidatórios, para que desistam e voltem a suas estilo de vida dos seus Carmelos, com a diferença de N. Sr.a do Carmo da vila ducal, assistida com
casas. Entre as raras vozes favoráveis, contava-se a de que deveriam dedicar-se também ao ministério todos os sacramentos ministrados pelo P.e Fr. António
do prelado que dera consentimento. Mesmo assim, apostólico. Nunca os freires estiveram sujeitos à de Jesus, proferindo muitas expressões da sua
os magistrados ameaçaram com um processo que clausura. As fundações de Duruelo e Pastrana, a profunda união mística com Deus que as irmãs
devia subir ao Conselho de Estado. No meio desta que se fez referência, decorrem desta autorização. registaram. Entre elas sublinhe-se a que proferiu ao
turbulência, Teresa escreve para Roma a pedir rescrito A partir de então, começa o movimento fundacional receber o viático: “Oh, Senhor, por fim chegou a
que autorizasse o convento a não possuir rendas, da “dama errante”, impressionante aventura para hora de nos vermos face e face”. Ao exalar o último
documento que lhe chegou a 5 de Dezembro. Em uma mulher que vivia numa época em que, na ordem suspiro, as monjas, que a tinham rodeado de carinho
meados do mês, o bispo chega a um entendimento social, o poder, lato sensu, era atributo exclusivo da (não lhe faltando com lençóis de impecável alvura,
com o provincial para pôr fim à querela. Teresa dominação masculina. O género feminino confinava- talvez recordadas dos muitos conselhos ouvidos sobre
obtém, finalmente, autorização para deixar a -se ao âmbito doméstico e, por extensão, ao o asseio nos conventos) irromperam com o canto
Encarnação e para se instalar no convento por ela conventual. Na história deste processo criador do Te Deum. Eram 9 horas da noite de 4 de Outubro
fundado. É nesta ocasião que confirma as suas divisam-se três grandes etapas, situando-se as mais de 1582. No dia seguinte, entrava em vigor a reforma
intenções de reforma: pobreza, jejum, assistência difíceis entre 1567 e 1571: Medina del Campo (1567), gregoriana do calendário, que suprimiu dez dias, de
ao coro e clausura, tal como prescrevia a Regra de Malagon e Valladolid (1568), Toledo e Pastrana modo que a Igreja, ao canonizá-la, em 1622, fixou
Inocêncio IV. As admissões não deveriam ultrapassar (1569), Salamanca (1570) e Alba de Tormes (1571), a sua festa no dia 15 do mesmo mês.
o previsto pela mesma Regra: 13 religiosas. Mais “todos à maneira do de S. José de Ávila, que não Embora se tenha dado particular ênfase à fundação
tarde, consentirá a admissão de 21 religiosas. Também parecem senão um”, escreve Teresa em carta para de Ávila, pela carga simbólica que encerra
posteriormente, quando o Bispo de Ávila foi seu irmão, D. Lourenço de Cepeda, a 17 de Janeiro (concretização de projecto profundamente ama-
transferido para Palência, conseguiu convencer o de 1570. Durante três anos, o Provincial Ângelo durecido e impulso para o levar por diante), torna-
novo prelado a aceitar que as religiosas de S. José Salazar aproveita os conflitos surgidos sobre -se impossível aqui reconstituir as circunstâncias das
passassem para a autoridade da Ordem do Carmelo. admissões de religiosas de famílias poderosas para 16 fundações que se seguiram e que Teresa passou
Uma palavra esclarecedora se impõe no tocante ao proibir novos estabelecimentos. O estratagema a registar no livro das Fundações, a partir de 1573.
problema das rendas. Segundo norma do Concílio consistiu em nomear Teresa, neste ano de 1571, No entanto, afigura-se pertinente apresentar em
de Trento, poderia aceitá-las com a condição de Prioresa do Convento da Encarnação, durante um breve síntese alguns dos traços que são comuns a
nada pertencer individualmente às religiosas. Teresa triénio, o que a obrigou a abandonar o Convento cada nova implantação. A Reformadora encontrou
pretendeu renunciar completamente a esta auto- de S. José. Este facto obrigou-a a ter de enfrentar sempre pela frente a resistência dos poderes públicos
rização, mas teve de ceder. Desde o início das a fúria das antigas irmãs de há nove anos, que não e das autoridades eclesiásticas, na maior parte das
fundações, viu-se obrigada a aceitar patronos, se pouparam a atitudes de repúdio, incentivando vezes sob pretexto da proliferação de muitas outras
donatários e donatárias, sabendo que, em troca das até movimentações hostis no exterior do convento. comunidades religiosas, para além de hospitais e
rendas que ofereciam ou das casas que compravam, Foi graças ao seu bom senso que aos poucos as instituições caritativas que Trento incentivou. Custava-
estes beneméritos reservavam-se no direito de os conseguiu conquistar. E para lhes transmitir o espírito -lhes acreditar que as novas religiosas pretendiam
fazer aceitar religiosas da sua escolha e de impor que a animava, chamou para confessor o P.e João viver de esmolas e do seu trabalho, prescindindo de
outras vontades, como a sepultura nas suas igrejas da Cruz, medida que foi mal vista pelos freires não rendas previamente asseguradas. Daí que, com
porque a vida de coro dava garantias mais sólidas reformados, que consideravam aquele cenóbio como frequência, resolvido o problema de obter casa, fosse
sobre o cumprimento das disposições testamentárias que um feudo seu. Talvez por isto, João da Cruz durante a noite que Teresa e as irmãs se introduzissem
no tocante a missas e Ofícios Divinos. Mas Teresa de virá a ser uma das grandes vítimas do movimento nela, em condições precárias e quase clandes-
Jesus não cedia facilmente aos poderosos do mundo. persecutório que pouco depois se levantou contra tinamente, limitando-se o acto inaugural à celebração
Tinha o dom de saber negociar situações difíceis. os descalços e que veio a culminar na sua prisão, da missa e colocação do Santíssimo Sacramento.
Durante cinco anos não houve qualquer outra questão adiante tratada. Terminado o mandato, Teresa deparou com dificuldades financeiras, tendo
fundação. Foi a visita do P. e João Baptista Rossi pôde Teresa regressar definitivamente a S. José e começado muitas fundações praticamente sem
(Rubeo), a que atrás se aludiu, que deu novo impulso retomar o dinamismo fundador que a animava. Assim dinheiro, que depois, aos poucos, ia surgindo. Teve

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sempre o apoio dos Dominicanos e Jesuítas, duas Numa delas, em 1569, ao deslocar-se de Toledo para de 1581, sob o título Regra Primitiva y Constituciones
ordens religiosas muito prestigiadas, e a generosidade Pastrana por imperativo da rede viária, hospedou- de las Monjas Descalzas de la Orden de Nuestra
das elites sociais, nalguns casos da burguesia -se no Convento de N. Sr.a dos Anjos, fundado por Señora la Virgen Maria del Monte Carmelo.
mercantil, de que Medina del Campo é um bom D. Leonor de Mascarenhas, portuguesa que fora Já se acentuou que a reforma operada entre os
exemplo. Vivendo numa Castela de pujante vida para Castela no séquito da Imperatriz Isabel e depois religiosos, embora começada cinco anos após a das
urbana e que passava por uma época de grande se tornara aia do Príncipe Filipe, futuro rei. Para monjas, decorreu da percepção sentida por Teresa
prosperidade, preferia as cidades às pequenas além da anfitriã, encontrou-se com a Princesa de Jesus de uma necessária complementaridade. Foi
localidades, como se sublinhou. Mas também recebeu D. Joana, mãe do Rei D. Sebastião, que fundara o por seu empenho que freires de grande envergadura
incentivos e colaboração de personalidades da Convento das Descalzas Reales, em 1557. E como foram atraídos para a levar a efeito, alguns dos quais
aristocracia, destoando o sucedido com a fundação a notícia correu célere, acorreram senhoras da Corte já se mencionaram a propósito do envolvimento
de Pastrana, que, pelas consequências, não é que procuravam conhecer a “santa de Ávila”, muitas directo com o dinamismo desencadeado pela
despiciendo destacar. Com efeito, concluída a de delas na expectativa de presenciar algum dos seus Reformadora. A outros se fará oportuna referência,
Toledo, foi Teresa solicitada pela Princesa de Éboli fenómenos místicos, a que Teresa, com perspicácia, pois sem eles o Carmelo Teresiano não seria uma
a fundar casa em Pastrana, que estava bem fora entreteve com conversas tão triviais como a largura realidade. Antes, porém, não é demais insistir que
dos seus intentos. Foi muito contrariada que se das ruas da cidade, então em expansão urbanística. os contributos vieram de muitas personalidades,
dobrou à quase imposição da senhora, que pertencia Foi nesta paragem que teve a oportunidade de como de prelados e de outros qualificados
a uma das grandes famílias de Espanha. Talvez fosse conhecer também, por intermédio de D. Leonor, eclesiásticos, de membros da aristocracia e de
movida por emulação com D. Luísa de La Cerda, dois italianos que viviam como eremitas no deserto burgueses, do próprio rei (com uma intervenção que
que, em termos mais convincentes, pressionou de Tardon e se dirigiam a Roma para obter do papa adiante se destacará) e também do dinâmico apoio
também Teresa a estabelecer convento em Malagon, legitimação para esse estatuto: Ambrósio Mariano das comunidades religiosas femininas, nelas
uma das suas terras; ou por saber que D. Maria de de Azzaro, napolitano, que servira o rei com as emergindo uma galeria de figuras de excepcional
Mendoza, mulher de Francisco de los Cobos, armas, doutor em Direito e estudioso de Matemática grandeza, que aqui não é possível enumerar de
secretário de Carlos V, e irmã do Bispo de Ávila e Geometria, que lhe conferia o título de engenheiro; modo exaustivo. Já se realçou a de Maria de São
(também Mendoza), tinha dado todo o patrocínio e Giovani Narducci, que passara pelo atelier do pintor José Salazar (1548-1603), Prioresa de Sevilha e depois
ao estabelecimento definitivo de Valladolid. As Alonso Sánchez Coelho. A Madre, que tinha o dom de Lisboa, e notável escritora. Torna-se imprescindível
fundações teresianas estavam na moda, no contexto de intuir a “qualidade” das pessoas, persuadiu-os salientar, também, a de Ana Lobera de Torres (1545-
de uma época mental em que, entre o corpo de a permanecer em Espanha e a tornarem-se carmelitas -1621), que, ao professar, mudou o nome para Ana
valores cimeiros, a santidade ocupava especial descalços. Acabaram por ser os primeiros religiosos de Jesus (nome por que se tornou conhecida), e que
relevância. Satisfeito o capricho da Princesa de Éboli, do carmelo masculino de Pastrana. Narducci viria a virá a ser fundadora de carmelos teresianos em
sabendo a extravagante aristocrata da existência do mudar o nome para Fr. João da Miséria e foi autor França (Paris e Dijon), a pedido do Cardeal Pierre
Livro da Vida, exigiu que lhe fosse consentida a do mais antigo e conhecido retrato de S.ta Teresa. Bérulle, e na Flandres (Bruxelas). Foi igualmente
leitura, a que Teresa resistiu por se aperceber tratar- Fr. Ambrósio Mariano de São Bento, nome que notável escritora e a ela S. João da Cruz dedicou o
-se de curiosidade frívola e não de verdadeiro adoptou, será o principal fundador do primeiro Cântico Espiritual. A ambas se ficou a dever a
interesse espiritual. Obtida a garantia da discrição, convento da Ordem em Portugal. Este religioso concretização do desejo de Madre Teresa de expandir
corroborada pelo marido, Rui Gomes da Silva, volvido concretizará, assim, um dos grandes desejos de S.ta o Carmelo Descalço feminino para além das fronteiras
não muito tempo, as visões e outros fenómenos Teresa, também pedido por D. Teotónio de Bragança, espanholas, com a particularidade de terem
místicos nele descritos tornaram-se tema de conversa cuja iniciativa ainda abençoou pouco tempo antes apreendido directamente o novo carisma que
nos ambientes palacianos, rapidamente divulgados de falecer. Mas se não pôde ver a expansão da imprimiu à Ordem, acompanhando-a em muitos
na Corte. Ao falecer o marido, a princesa decide Ordem que fundara, para além das fronteiras de passos do seu itinerário espiritual, a par do exercício
vestir o hábito carmelita no seu convento, cuja Regra Espanha, deixava-a assente em sólidos alicerces, de cargos de Prioresas por sua indicação. Mas no
desdizia com actos discricionários da sua autoridade, tanto em termos espirituais como jurídicos. tocante ao ramo masculino, no qual se pretende
advinda do padroado sobre o cenóbio e do estatuto Com efeito, pelo Breve Pia Consideratione, de 22 agora incidir, para além das pessoas que estiveram
senhorial, como se do seu palácio se tratasse. de Junho de 1580, tinha Gregório XIII concedido na primeira linha, é em torno da rede de fundações
A perturbação que causou na comunidade foi de permissão aos Religiosos Reformados (Descalços) conventuais que se poderá captar a primeira
tal ordem que Teresa se viu obrigada a uma decisão que se erigissem em província autónoma dos configuração do seu rosto. Já se evocaram os marcos
radical: evacuou o convento durante uma noite, Observantes (Calçados). O Capítulo Provincial, de arranque representados pelos cenóbios de
transferindo as religiosas para o Convento de Segóvia. celebrado em Alcalá de Henares, em Março de 1581, Duruelo-Mancera, Pastrana e Alcalá de Henares.
A princesa, num acto de vingança, entregou o livro ratificou a separação. Por eleição canónica, saiu Impõe-se, contudo, assinalar as criações subsequentes
à Inquisição, donde não mais saiu, o que explica a como primeiro Provincial Fr. Jerónimo Gracián de la e atender ao seu percurso cronológico, através do
segunda redacção a que já se fez referência. Filipe II, Madre de Dios, o religioso que Madre Teresa e as qual se capta o ritmo veloz do seu processo de
que teve sempre em grande estima a Reformadora, suas monjas desejavam ver investido no cargo. No irradiação. Assim, depois daquelas casas, abriram-
a uma das queixas da excêntrica princesa respondeu respeitante ao ramo feminino, os padres congregados -se as seguintes: Altomira (1571), La Roda (1572)
que se ocupasse da educação dos filhos. reviram as Constituições que a Fundadora tinha Granada e La Peñuela (1573), Los Remédios de
Mas Teresa de Jesus conheceu atitudes de pendor redigido em S. José de Ávila, em 1567, e que eram Sevilha (1574), El Calvário (a 10 km do convento
diametralmente contrário de figuras da alta seguidas nos seus conventos (com a aprovação do feminino de Beas, na Andaluzia), Almodóvar del
aristocracia, com quem teve oportunidade de Superior Geral da Ordem), aceitando quase todas Campo (1575), Baeza (1579) – o colégio universitário
conviver, para além das já mencionadas. As suas das muitas advertências que foi acrescentando como carmelitano da Andaluzia, fundado por S. João da
viagens obrigaram-na a passar algumas vezes por fruto da experiência quotidiana, e que enviou ao Cruz – Valladolid, e outro colégio universitário em
Madrid, vila elevada a capital do Reino, em 1561, Capítulo. O texto definitivo, precedido da Regra, foi Salamanca (1581). Quando Teresa de Jesus faleceu,
por Filipe II, e, como tal, também sede da Corte. dado à estampa em Salamanca, nesse mesmo ano em 1582, a reforma teresiana masculina encontrava-

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ORDENS E CONGREGAÇÕES MASCULINAS CARMELITAS DESCALÇOS

-se estruturada em 13 conventos masculinos, para a libertação e o regresso ao mesmo confessionário, se imiscuísse nos assuntos de Espanha. Pretendia
além dos 17 femininos já mencionados. Até ao final que, por sua vez, interditou aos Mitigados. As que se realizasse sob sua autoridade, sem
do séc. XVI, os freires erguerão outros, como determinações de Piacenza vieram a ser publicitadas dependências dos gerais, cuja eleição, em Itália, não
Guadalcázar (1585), Córdova e Segóvia (1586). em Capítulo da Ordem congregado em Valladolid, conseguia controlar. O pleito entre Calçados e
E neste mesmo ano, tanto os religiosos como as para o qual foram chamados os Descalços. Como Descalços, considerado sob este ângulo, foi uma
monjas fundam casas em Madrid, o centro do poder resposta, estes convocaram um Capítulo próprio das expressões do confronto entre o poder real e o
político, um forte desejo que Teresa teve para as para Almodôvar del Campo, na Andaluzia, em papado. O conflito desta fase só chegou ao fim
suas filhas espirituais, que só se realizou depois da Setembro de 1576, sem que juridicamente o quando Gregório XIII cedeu às pressões régias e
sua morte. pudessem fazer, decisão reveladora de consciência expediu o Breve Pia consideratione, a que atrás já
de personalidade própria e do desejo de autonomia. se fez referência, no qual consentia a separação dos
Um revés contrariou estas iniciativas: a morte do Descalços, com província distinta dos Calçados e
Núncio Ormaneto, a 18 de Junho de 1577. A sua com superiores próprios. Esta autonomia tornou-se
substituição por Filipe Sega, chegado a Espanha a realidade no Capítulo de Alcalá de Henares, aberto
29 de Agosto, partidário dos Calçados, abriu um a 3 Março de 1581, que o soberano ordenou que
tempo de turbulência para a linha reformadora de se celebrasse com toda a solenidade, custeando as
Teresa de Jesus, de que se revelou adversário, ficando despesas e enviando um comissário apostólico, isto
célebre a acusação que sobre ela escreveu de “fémina é, um delegado régio. Era uma Ordem moldada à
inquieta y andariega, desobediente y contumaz”. realidade espanhola. Os 20 Capitulares elegeram
Com a conivência do representante papal, a quatro Definidores ou Conselheiros (entre eles Fr.
animosidade dos Mitigados recaiu com maior João da Cruz) e, para Provincial, o P. e Jerónimo
dureza sobre os seus filhos espirituais. As cabeças Gracián de la Madre de Dios, como se viu, que era
foram presas, como Fr. Jerónimo Gracián, em Pastrana filho do Secretário Real Diego Gracián. Entre as
Pormenor do Convento de S.ta Cruz do Buçaco (PCC)
ou Alcalá, e Fr. João da Cruz, que se tornou na decisões conta-se a de fundar um convento em
principal vítima, por ser o braço direito da reforma, Lisboa (onde Filipe II então se encontrava) e de enviar
A evolução passará, no entanto, por momentos de e que na noite de 3 para 4 de Dezembro de 1577, uma missão para o Congo. Nestes primórdios, a
conflitualidade. Como se viu, o ponto de partida foi detido em Ávila pelos Calçados, com a anuência Ordem abria-se ao dinamismo missionário. E, tal
para a abertura dos estabelecimentos conventuais do núncio e a colaboração do poder secular abulense. como aconteceu para as religiosas, deste primeiro
masculinos decorreu de uma autorização do Geral, Receando um motim popular, levaram-no, a coberto Capítulo com plena validade jurídica saíram os dois
P.e Rúbeo, em 1567, por ocasião da sua visita a da noite, para o Convento de Toledo, tendo-lhe grandes documentos fundacionais dos religiosos,
Espanha, com a restrição de se restringirem a Castela, vedado os olhos ao entrar na cidade, para que nem assinados a 13 de Março de 1581 e publicados em
embora posteriormente fosse mais lato no o próprio soubesse onde se encontrava. Logo na Salamanca, no ano de 1582, sob o seguinte título:
consentimento. Pelo elenco atrás feito, pode verificar- manhã seguinte, Madre Teresa dá o alerta perante Regra Primitiva y Constituciones de la Província de
-se que, a partir de 1573, surgiram fundações na um notário e pediu a intervenção do rei, ficando los Frailes Descalzos de la Orden de Nuestra Señora
Andaluzia, com autorização do Visitador Apostólico, célebre da missiva enviada a seguinte frase: “Preferia la Virgen del Monte Carmelo. Até então, os religiosos
nomeado pelo Núncio Nicolau Ormaneto, e favor sabê-lo entre os mouros; eles teriam, sem dúvida, da reforma ajustavam a sua vida pelas Constituições
do rei, a que o Geral Rúbeo (sediado em Roma) se mais compaixão dele”. Intuía os padecimentos que redigidas por Madre Teresa, em 1567, e transmitidas
opunha. No ano seguinte, o núncio apostólico iria sofrer no calaboiço, como depois se tornaram a Fr. João da Cruz, em 1568. Os trabalhos do Capítulo
indigitou para reformadores do Carmo na Andaluzia conhecidos: cela exígua e sem luz, pão e água por encerraram-se a 16 do dito mês.
os P.es Francisco Vargas, dominicano, e Jerónimo alimento e maus tratos físicos. O motivo do Conseguida a pacificação entre Mitigados e
Gracián, que vestira o hábito carmelitano em encarceramento ficou bem expresso no julgamento Descalços, prosseguiram estes com as determinações
Pastrana, em 1572. Estas nomeações estão na origem a que também foi submetido, sob presidência do preconizadas nos seus Capítulos e sob a autoridade
de uma autêntica tempestade. Com efeito, em 1575 P.e Tostado: que abandonasse a reforma teresiana e do Provincial, Fr. Jerónimo Gracián, que deteve o
(Maio-Junho), reuniu-se em Piacenza (Itália) o Capítulo voltasse a vestir o hábito de Calçado. Tornava-se cargo durante quatro anos. Um novo conflito irá
Geral da Ordem do Carmo, no qual foram dadas claro que todos os procedimentos tinham em vista desencadear-se, entretanto, agora dentro da nova
informações inexactas e tendenciosas acerca dos reabsorver a reforma dentro da Ordem do Carmo e Ordem. Com efeito, com a expansão da reforma, o
Descalços em Espanha, quer dos masculinos quer impedir a ruptura. A recusa valeu-lhe a sentença de governo foi-se tornando mais complexo. Como nota
dos femininos. Decidiram os capitulares enviar um rebelde e contumaz e a prisão mantida em segredo. o P.e Silvério de Santa Teresa, historiador de referência
visitador para Calçados e Descalços, com várias Ao fim de nove meses conseguiu a fuga, que se da reforma teresiana, “desde los tiempos de la Santa,
instruções, entre elas as de suprimir todos os deu durante a oitava da festa mariana da Assunção, se había ejercido el gobierno un poco a la buena
conventos que estes tivessem fundado sem licença em Agosto de 1578, conseguindo refúgio no de Dios, es decir, com escasa organización. […] Era
do geral, proibir outras fundações e colocar Madre Convento das Carmelitas Descalças de Toledo. necesario ir sustituyendo aquel régimen familiar por
Teresa sob reclusão num convento por ela escolhido. O nível da tensão atingido com a perspectiva de outro más legal y ajustado a normas que no
O visitador escolhido foi o P.e Jerónimo Tostado, uma cisão irreversível impunha uma saída, na qual dependieran de la prudencia sola de un superior
português, adversário da reforma. Ainda antes da Filipe II directamente se envolveu, em coerência com que, por grande que fuera, podría fallar en muchos
aplicação oficial das sanções, já as represálias se a sua orientação política no tocante à reforma das casos” (SANTA TERESA, Silvério de, ocd, Historia del
tinham começado a sentir: o Prior dos Calçados de ordens religiosas. O Rei Católico estava sinceramente Carmen Descalzo…, vol. VI, p. 164). No Capítulo
Ávila expulsou Fr. João da Cruz e Fr. Germano de empenhado em levá-la por diante, na linha de uma celebrado em Lisboa, em 1585, foi eleito Provincial
Santa Maria do cargo de confessores da Encarnação tradição que remontava aos Reis Católicos e Carlos V, Fr. Nicolau Dória, da poderosa família dos Dórias de
e enviou-os sob prisão para o cárcere conventual embora de forma mais radical que a moderada Génova, famosos armadores e banqueiros, que veio
de Medina del Campo. Interveio o núncio, que exigiu preconizada por Trento, mas não admitia que Roma para Sevilha em 1570, com 31 anos. Revelou-se tão

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ORDENS E CONGREGAÇÕES MASCULINAS CARMELITAS DESCALÇOS

hábil nos negócios que o arcebispo da cidade o La Peñuela e daí seguiu para Ubeda, onde acabou elevado perfil espiritual, tanto em Espanha como
convidou para sanear o erário do arcebispado, êxito os seus dias, com muito sofrimento, a 14 de em Portugal, de modo particular com D. Teotónio
conhecido por Filipe II que, por sua vez, o chamou Dezembro de 1591. de Bragança, Arcebispo de Évora, que lhe solicitava
para colocar os seus talentos ao serviço das finanças Da actuação do P. e Dória, há ainda a destacar uma fundação no seu arcebispado, predispondo-se
públicas. Acabou por rejeitar o cargo para abraçar medidas indeléveis que imprimiram novo rumo à a custear todas as despesas. Segundo o cronista
a vida religiosa como carmelita descalço, conquistado Ordem. Uma delas consistiu na promulgação de português da Ordem, Fr. Belchior de Santa Ana, essa
pelo exemplo de Ambrósio Mariano, de quem era novas Constituições, em 1592, que espelhavam o estima e intenção fundacional intensificara-se com
amigo desde longa data, renunciando a um bispado rumo rigorista, legalista e ascético que introduzira, a comunicação mística que tivera do desastre de
que o rei lhe ofereceu. Fez o Noviciado no Convento esbatendo-se o rumo humanista e com preocupações Alcácer-Quibir, encontrando-se em Toledo, durante
dos Remédios de Sevilha, onde professou a 25 de de ordem cultural, introduzido por Teresa de Jesus. a qual, ao lamentar-se de terem os inimigos da fé
Março de 1578, mudando o nome para Fr. Nicolau Assim, enquanto que as que Teresa de Jesus deixara saído vitoriosos, Cristo lhe garantiu que todos os
de Jesus Maria. Contava 37 anos, sabendo-se que continham 59 números, as elaboradas sob a cristãos mortos se encontravam “dispostos para a
a sua formação cultural e teológica não foi muito responsabilidade do P.e Dória somavam 461. Outra bem-aventurança”, o que o tranquilizou, porque,
aprofundada. Uma vez à frente da reforma, decidiu medida, decorrente de manifestação expressa no no seu entender, com “as liberdades que traz consigo
mudar o sistema tradicional de governo, revelando Capítulo Geral da Ordem do Carmo, celebrado em as guerras […] costumam ser os soldados estragados
uma personalidade autoritária e um talento Cremona no ano de 1593, foi a declaração de em costumes”(SANTA ANA, Fr. Belchior de, Chronica
organizador. Encontrou a solução numa estrutura autonomia da província carmelitana reformada, de…, p. 66).
colegial, que impedia serem os assuntos da Ordem fundada no número de conventos que possuíam,
decididos só pelos Provinciais, mas conjuntamente 34 de religiosas e 58 de religiosos. O Capítulo acolheu
com um grupo permanente, formado pelo Vigário favoravelmente o pedido de Clemente VII, a 20 de
Geral e outros seis membros iminentes. A este Dezembro do mesmo ano, com o Breve Pastoralis
modelo foi dado o nome de Consulta da Reforma, oficii, e separou definitivamente da jurisdição do Geral
designação que era sinónimo de Governo Geral. Na os Irmãos Descalços da Ordem da Bem-Aventurada
mesma assembleia, dividiu a reforma em quatro Virgem Maria do Monte Carmelo. O Superior deixava
vicariatos regionais, ficando a província dividida nos de se chamar Vigário, para passar a ser o Prepósito
seguintes: Portugal, Andaluzia, Castela a Velha e Geral, de que o P.e Nicolau Dória foi o primeiro, cuja
Castela a Nova. Outros passos foi dando, até que, nomeação deveria, no entanto, ser confirmada em
no Capítulo celebrado em 1588, Dória foi eleito Capítulo Geral, a celebrar em 1594. Quando se Convento de N. Sr.ª dos Remédios, Évora (DB)
Vigário Geral e propôs a eleição de seis conselheiros dirigia para a congregação, adoeceu e veio a falecer
para o assistirem no cargo. Esta Consulta fixou-se em Alcalá de Henares, a 9 de Maio de 1594, embora
em Segóvia. A inovação exasperou os ânimos de nos últimos momentos de vida tivesse designado Com efeito, a decisão dos padres capitulares de
muitos freires e monjas, entre eles do P.e Gracián, para lhe suceder o P.e Elias de São Martinho. Dentro eleger Portugal como primeiro país para projectar a
que se lhe opôs por vários meios, escrevendo cartas deste rumo, a partir de 1600, os Carmelitas Descalços Ordem no exterior aconteceu em conjuntura política
e memoriais a desacreditar este modo de governo. formaram duas congregações independentes: a particularmente delicada, pelo que foi objecto de
O primeiro provincial identificava-se mais com a espanhola, chamada de S. José, que compreendia grande ponderação. Com efeito, Filipe II de Espanha
pessoa e com o pensamento da Fundadora, consi- Espanha, Portugal e as Índias; e a Italiana, chamada acabava de unir, na sua pessoa, a Coroa de Castela
derando-se responsável pela manutenção do seu de S.to Elias, que englobava Itália, França, Flandres, à de Portugal, na sequência de largo debate jurídico
carisma, o mesmo sucedendo com Fr. João da Cruz. Alemanha, Polónia e Pérsia. Também esta passou a sobre o seu direito sucessório e do recurso às armas
Gerou-se, assim, uma tensão entre duas correntes ter Constituições próprias e a eleger o seu Geral. para o fazer valer. Eram bem conhecidas as
quanto à interpretação da reforma: uma dentro da Esta fragmentação, da iniciativa do P.e Nicolau Dória, resistências portuguesas ao que vinha do outro lado
linha humanista de Madre Teresa – suave, discreta, tem sido interpretada como forma de tornar a Ordem da fronteira. Para darem cumprimento ao estabe-
letrada e apostólica –, de que aqueles eram os mais italiana ou mais pontifícia, liberta da protecção lecido, os gremiais constituíram um grupo de oito
herdeiros e a simbolizavam; outra, a do P.e Dória, e do controle do monarca espanhol. Se esta medida religiosos, seleccionando para a chefia o P. e Fr.
de pendor rigorista, penitente, legal e autoritário, se pode considerar de âmbito jurisdicional e Ambrósio Mariano de São Bento, não só por não
que conseguiu impor, através de hábeis processos organizativo, mais profundas foram as marcas de ser castelhano mas italiano de nação (do Reino de
como antecipação de eleições para se manter no ordem espiritual que se afastaram da linha traçada Nápoles) e ainda pelos seus muitos talentos. Ao
cargo. Outro recurso foi a da obtenção de bulas pela reforma teresiana. curriculum da sua formação intelectual, que atrás
papais sancionatórias da sua actuação. A confli- A determinação de implantar o Carmelo Descalço se deixou traçado, deve ainda acrescentar-se que
tualidade culminou com a expulsão do P.e Gracián em Portugal foi tomada, como atrás se disse, no fora Cavaleiro e Comendador da Ordem de São
da Ordem, em 1592, e com o envio de S. João da Capitulo Geral realizado entre 3 e 13 de Março de João de Jerusalém (vulgarmente conhecida por
Cruz para o México. Com efeito, no Capítulo 1581, em Alcalá de Henares, marco histórico no Ordem de Malta), de ter pelejado na Batalha de
celebrado em Madrid, em 1591, em clima de tensão, percurso da reforma teresiana, por nele se ter S. Quintino (1557) ao serviço de Filipe II, na qual se
um dos assuntos tratados foi o envio de 12 religiosos procedido à separação de governo relativamente distinguira como soldado e se tornara conhecido do
para aquela parcela do Novo Mundo, cuja presença aos Observantes, tornando efectivo o que já fora rei, de cuja corte foi frequentador. Teresa tinha-o
começou em 1585, ainda por iniciativa do P. e consentido pelo breve pontifício de 22 de Junho de em grande consideração e ficou particularmente
Gracián. Para os chefiar foi eleito Fr. João da Cruz, 1580. A medida agradou sobremaneira a Madre agradada com a escolha. Antes de deixar Castela,
cargo e missão que aceitou. A escolha foi logo Teresa, que há muito manifestava esse desejo, como Fr. Ambrósio encontrou-se com a Fundadora em
interpretada como um meio de o desterrar, o que deixou patenteado na permuta epistolar com várias Ávila, dela recebendo palavras de incitamento e a
não veio a acontecer por entretanto adoecer. Para personalidades, pelo bom conceito que formara do bênção para o empreendimento. O destino era
restabelecimento, passou algum tempo na casa de reino, colhido no relacionamento com figuras de Lisboa, onde o grupo chegou no primeiro dia de

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ORDENS E CONGREGAÇÕES MASCULINAS CARMELITAS DESCALÇOS

Outubro de 1581, demandando para hospedagem da Madre de Deus, Fr. António de Jesus (Herédia), ainda em Lisboa, propusera ao provincial o envio
o Convento do Carmo. O fraterno acolhimento que então Prior de Sevilha, e Fr. João da Cruz, Prior de de religiosos para missionar o Congo, em resposta
receberam dos religiosos marcou o relacionamento Granada e Definidor. Deste ficou a fama da sua à solicitação do rei deste reino. Em 1582, com a
agradável que em Portugal passou a haver entre santidade e a notícia do passeio que efectuou ao Armada da Índia, embarcaram cinco freires que
Descalços e Calçados. A primeira visita foi natural- longo do Tejo, fascinado pela beleza do seu estuário, morreram em naufrágio do navio em que seguiam.
mente ao monarca, que se encontrava na capital rio que conhecera em Toledo depois da dramática O insucesso, em vez de desânimo, suscitou
do seu novo reino, para lhe expor o projecto da fuga da reclusão conventual, no ano de 1578. Deste entusiasmo, saindo nova expedição com igual número
fundação. A audiência decorreu em ambiente Capítulo é de reter a eleição de novo Provincial, que de religiosos no ano seguinte, que também não
amistoso: era o reencontro com o valoroso soldado recaiu na pessoa de Fr. Nicolau de Jesus Maria Dória, chegou ao termo, desta vez por ataque de corsários
de outros tempos que agora militava em terreno que se encontrava em Génova, ocupado numa luteranos, os quais, poupando-lhes a vida, os
particularmente caro ao soberano. D. Filipe I de fundação na sua cidade natal. Ao regressar a abandonaram numa das ilhas de Cabo Verde.
Portugal prontificou-se a assumir o padroado do Espanha, reuniu, logo em Outubro, um Capítulo em Alentados pela perspectiva de martírio, em 1584
convento a fundar, liberalidade que Fr. Ambrósio Pastrana, onde foi confirmado no cargo. largou do Tejo novo grupo que, desembarcado em
Mariano declinou em nome do espírito de pobreza Foi também no Capítulo de Lisboa que a Província, Luanda, ficou particularmente agradado com a boa
que animava a reforma. Aceitou, contudo, a oferta atendendo ao crescente número de conventos receptividade dos nativos, seguindo então para o
de 100 000 réis de renda anual para conseguir masculinos e femininos, decidiu dividir-se em quatro Congo, onde desenvolveu fecundo apostolado até
habitação e acorrer às primeiras necessidades. Obtida vicariatos, a saber: Castela a Velha, Castela a Nova, 1587. Mas a iniciativa não teve continuidade,
a licença do Arcebispo de Lisboa, D. Jorge de Andaluzia e Portugal. À sua frente ficaram outros encontrando-se a explicação no triunfo da corrente
Almeida, que se tornou amigo e protector da Ordem, tantos vigários, eleitos na mesma ocasião, todos contrária às missões, que na Ordem se foi impondo
e do Senado da Câmara, Fr. Ambrósio arrendou umas dependendo do provincial. Mais tarde, no Capítulo pelos defensores da vida eremítica e do seu carácter
casas na Pampulha, fora das muralhas da cidade, de Madrid, reunido em 1588, estes vicariatos darão contemplativo e penitente. O mesmo não sucedeu
com vistas largas sobre o Tejo. No dia 14 de Outubro lugar a cinco províncias, como mais atrás se escreveu, com a missão no México, a qual se consolidou,
de 1581, instalaram-se os religiosos na habitação ficando Portugal a formar com a Baixa Andaluzia, embora não fossem por diante planos mais ambi-
escolhida, mas só no dia seguinte, tangida uma a Província de S. Filipe. ciosos de a estender ao Novo México.
campainha, celebraram missa e colocaram o Outro empreendimento ligado a este evento, embora Regressando ao Convento da Pampulha, importa
Santíssimo Sacramento. Houve uma segunda à sua margem, de que o P.e Jerónimo Graciano foi assinalar outros aspectos relevantes que contribuíram
Eucaristia oficiada pelos Padres da Observância, com a alma, consistiu na celebração de um acordo com para a solidez da Ordem em Portugal. Um deles
canto acompanhado de “excelente música”, no dizer os Jesuítas, designado por Vínculo de hermandad consistiu em o mesmo convento ter sido pensado,
de Fr. Belchior de Santa Ana, informação que se misionera (tem a data de 9 de Abril de 1585), para desde a fundação, para Noviciado, função que
torna mais um registo do alto nível que a música a evangelização dos pagãos da Etiópia (África), reino manteve até ser extinto. O primeiro português a
sacra tinha atingido no Convento do Carmo. Estas da China, Filipinas e outros lugares das Índias receber o hábito de carmelita reformado foi o P.e Fr.
datas e acontecimentos constituem os marcos Orientais e Ocidentais. Tratou-se de uma medida de Francisco dos Santos, natural de Lisboa, a 11 de
fundadores do Carmelo Teresiano em Portugal e fora excepcional alcance, se tivermos em conta o espírito Novembro de 1582. O aumento do número de
da sua pátria de origem. Para titular do convento particularista e competitivo existente entre as ordens candidatos tornou-se incompatível com a exiguidade
foi escolhido S. Filipe, numa evidente homenagem religiosas neste âmbito. As religiosas carmelitas, que de espaço da casa, o que obrigou a pensar na sua
ao soberano. se encontravam em Portugal desde os últimos dias ampliação. Dificuldades levantadas pelos proprietários
Com o exemplo da vida de pobreza e humildade, de 1584 (embora o Convento de S.to Alberto, seu à promessa de venda do edifício levaram o Padre
pregação, confissões e assistência espiritual aos fiéis, primeiro cenóbio, em Lisboa, só tivesse ficado Provincial, Fr. Miguel da Virgem, a adquirir outras
característica da matriz mendicante, rapidamente os concluído em 1585), aliaram-se às dominicanas do instalações na Costa do Castelo, junto da Capela
religiosos conquistaram a simpatia da população, Convento da Anunciada para partilharem orações, de S. Crispim, para onde a comunidade se transferiu
que as esmolas de todos os segmentos sociais sacrifícios e boas obras pelo bom êxito das missões, em Outubro de 1604, colocada sob a invocação da
traduziam, emergindo, contudo, um grupo de projecto que, infelizmente, não veio a efectivar-se. Madre de Deus. A localização do novo cenóbio não
benfeitores entre as elites nobiliárquicas, nas quais Teve, no entanto, concretização outra decisão tomada agradou ao Geral, P.e Fr. Francisco da Madre de
se distinguiu D. Duarte de Castelo Branco, Conde a 13 de Maio de 1585, pelo mesmo P.e Graciano, Deus, durante visita canónica, o que obrigou à
do Sabugal e Meirinho-Mor, e a sua esposa, D. Isabel na qualidade de Primeiro Conselheiro e na ausência procura de terreno para uma edificação de raiz, o
de Castro. Verificar-se-á que, independentemente do P.e Dória, de enviar 12 religiosos para o México, qual foi conseguido junto a Santos-o-Velho, não
das motivações de ordem espiritual, de avaliação que partiram de Sanlúcar de Barrameda, a 11 de muito distante do Convento de S. to Alberto das
sempre subjectiva, os leigos de alta estirpe aderentes Julho de 1586. Ficaram directamente dependentes Religiosas Carmelitas Descalças que, em 1585,
da primeira hora à nova família religiosa advieram da Andaluzia, por se tratar de território das Índias tinham fundado o seu primeiro convento. Colocada
dos apoiantes da Dinastia Filipina. No que respeita Ocidentais, pertença de Espanha. E da pena do a primeira pedra em 1606, o novo convento dos
às demais ordens religiosas, não há notícia de mesmo religioso, foi dado à estampa um pequeno religiosos pôde acolher a transferência da comunidade
conflitualidade em Lisboa, antes de apoios, com tratado com o título Estímulo de la Propagación de em Maio de 1611, embora a igreja, cuja traça se
destaque para os Dominicanos e Jesuítas, para la Fe. Assim crepitava a chama e tomava corpo a atribui ao arquitecto régio espanhol Francisco de
além dos seus irmãos Observantes, como já se frisou. dimensão missionária desejada por Madre Teresa Mora, só ficasse concluída em 1613. No Domingo
A este convento estão ligados nomes e aconte- para a Ordem, sentida e acolhida pelos que com ela de Páscoa deste ano e sob a invocação de N. Sr.a
cimentos relevantes dos primórdios da Ordem em espiritualmente mais se identificavam, mas que não dos Remédios, procedeu-se a uma solene
Portugal dignos de registo. Um deles foi a reunião era partilhada por todos. Contudo, esta iniciativa inauguração. Os Padres Carmelitas tornaram-se
de Capítulo Geral, a 10 de Maio de 1585, que trouxe de 1585 não constituiu a primeira expedição popularmente conhecidos por Marianos, numa
ao reino grandes figuras fundacionais da reforma evangelizadora dos Carmelitas Descalços. A prioridade reconhecida alusão ao primeiro Prior, Fr. Ambrósio
masculina, como o Provincial P.e Fr. Jerónimo Graciano pertence a Portugal. Com efeito, D. Filipe I, estando Mariano. O convento permaneceu como Casa

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ORDENS E CONGREGAÇÕES MASCULINAS CARMELITAS DESCALÇOS

Provincial e Noviciado do Carmelo Teresiano em pedra da igreja, por dificuldades financeiras dos Seguiu-se a fundação de Alter do Chão, no ano de
Portugal até à lei da extraclaustração das ordens sucessores dos condes padroeiros, só foi lançada em 1595, colocado sob a invocação de Divino Espírito
religiosas, de Joaquim António de Aguiar, promulgada 1625 e o templo inaugurado em 1641. Outro Santo, por patrocínio de D. Teodósio, Duque de
a 28 de Maio de 1834. Vendido em hasta pública, obstáculo que se levantou foi a grande proximidade Bragança. A comunidade só se manteve até 1605,
passou por várias mãos, sendo o templo, a partir do cenóbio à estratégica fortaleza (impedia a sua ano em que os seus membros se reuniram aos seus
de 1898, pertença da Igreja Lusitana Católica ampliação ordenada pelo rei), questão que se arrastou irmãos de Évora. Na sequência cronológica e já fora
Apostólica Evangélica (Comunhão Anglicana), por alguns anos, mas que D. Cristóvão de Moura, da Província do Alentejo, regista-se, em 1600, a
enquanto que a parte conventual se encontra Vice-Rei de Portugal no tempo de D. Filipe II (III de fundação do Convento de N. Sr.a do Carmo, em
adaptada a instalações hoteleiras. A fundação do Espanha) conseguiu desembargar. O caso de Cascais Figueiró dos Vinhos, de que foi patrono D. Pedro
Convento dos Remédios e as demais que irão surgir é paradigmático de uma fundação resultante de de Alcáçova de Vasconcelos, Conde titular desta
ficaram integradas na Província de Baixa Andaluzia, patrocínio de doadores, que se repetirá noutros vila, prosseguindo o patronato na família até 1834.
como se disse, colocada sob a invocação do apóstolo locais. Extinto em 1834, teve diferentes proprietários Teve este primeiro convento carmelitano da Diocese
S. Filipe, a partir de 1588. Esta situação alterou-se que lhe deram distintos usos, existindo hoje as de Coimbra a particularidade de ser destinado, a
a 27 de Outubro de 1612, data em que os seis edificações, enquanto que o seu rico espólio artístico partir de 1642, a Colégio das Artes e, depois, ao
conventos portugueses já existentes (entre os quais foi disperso, encontrando-se seis quadros de temática ensino da Filosofia, ciências preparatórias para o
o feminino de S.to Alberto) passaram a constituir carmelitana, da autoria de Josefa de Óbidos, na acesso à universidade, que lhe ficava próxima. Para
província independente da Baixa Andaluzia, ficando- actual Igreja Matriz de N. Sr.a da Assunção. essa complementaridade foi criado, a 18 de Julho
-lhe adjudicada a Estremadura espanhola. Manteve- No mesmo ano de 1594, chegaram os Padres de 1603, na cidade de Coimbra, o Colégio de S.
-se com o título de S. Filipe até à extinção das ordens Carmelitas a Évora, correspondendo ao desejo do José, que começou por se instalar em moradia cedida
em 1834. No Capítulo Geral, reunido em Pastrana, Arcebispo D. Teotónio de Bragança, expresso pelo Conde de Portalegre. Três anos depois, foi
a 13 de Maio de 1628, foi aprovado que a Província directamente a Teresa de Jesus, a qual lhe respondeu doado um terreno por Cristóvão de Sá, onde, em
Portuguesa passasse a ter superior nacional, uma de modo afirmativo por missiva de 16 de Janeiro Outubro de 1606, foi lançada a primeira pedra por
vez que, até então, fora sempre governada por de 1579. O prelado chegou a disponibilizar 5000 D. Afonso de Castelo Branco, o mesmo Prelado que
provinciais de várias regiões de Espanha, recaindo cruzados de renda para um cenóbio feminino, que autorizara o Cenóbio de Figueiró. No último dia de
logo a escolha no P.e Fr. Pedro de Jesus, natural do várias circunstâncias impediram de levar a cabo. Agosto de 1608, transferiram-se os religiosos para
Barreiro. Com ele teve início uma “dinastia” de Entretanto, decidiu-se pela fundação de um convento a nova casa, possibilitando as continuadas esmolas,
provinciais portugueses. Haverá uma alteração da Ordem da Cartuxa. Para acolher os filhos em especial as do Arcediago André de Pinho, a
bastante significativa em 1772. Com efeito, no espirituais de Madre Teresa de Jesus foi escolhido edificação de uma igreja, que foi inaugurada a 19
Capítulo Provincial, com vigor de “Geral”, reunido um albergue junto de uma ermida, que depois se de Março de 1613, festa do padroeiro. Para além
no Convento dos Remédios de Lisboa, a 6 de Junho chamou Capela de N. Sr.a das Brotas, cedida por de convento, a casa destinava-se a residência dos
deste ano, por Carta Apostólica requerida por D. Teotónio. O prelado favoreceu-os de muitos modos, alunos de Teologia, que até então iam estudar a
D. José I, presidindo às sessões D. Fr. Inácio de São mas não assumiu o padroado do convento. Não foi Espanha. Impõe-se referir que, em todos os colégios
Caetano, da Ordem dos Carmelitas Descalços, pacífica a presença da comunidade por despeito de da Ordem, por determinação das Constituições, a
primeiro e único Bispo de Penafiel, foi criada a algumas ordens, receosas da concorrência nas doutrina seguida era obrigatoriamente a de S. Tomás
Congregação da Beatíssima Virgem Maria do Monte esmolas (animosidade que se repetirá noutros locais), de Aquino.
Carmelo do Reino de Portugal, com Prior Geral invocando o pretexto de que não dispunham de O movimento fundador prosseguiu em direcção ao
próprio. Esta separação definitiva relativamente a alvará real, embora tivessem as licenças episcopais Norte, nascendo, em 1613, uma comunidade em
Espanha foi confirmada por Constituição Apostólica e camarárias, indispensáveis para todas as fundações, Aveiro, com licença do Bispo de Coimbra, diocese
de 28 de Abril de 1773, sendo pontífice Clemente para além da autorização do Definitório Geral. a que então pertencia, para além da concedida pelo
XIV. A medida integrava-se na forte corrente de Nenhuma fundação poderia nascer sem o consen- Duque titular da vila, D. Álvaro de Lencastre. Foram
regalismo político então dominante, que preconizava timento prévio desta instância suprema da Ordem. grandes as dificuldades de vária natureza por que
a subordinação da Igreja ao Estado e tendia a criar Um motim popular favorável aos Carmelitas levou a Ordem passou no tocante à instalação, por
uma Igreja nacional. a Câmara e várias personalidades da nobreza a hostilidade de outras ordens já estabelecidas,
A raiz plantada em 1581 na capital desencadeou interceder junto do soberano, que acabou por dar contribuindo muito para as ultrapassar, ao fim de
um surto fundacional de muitos conventos, que se assentimento. A partir de 1602, começou a edificação mais de quatro anos, a cedência de casas por parte
foi alastrando com os anos, alguns deles com história de um novo convento, contíguo e fora das portas de D. Brites de Lara e Meneses, que se encontrava
muito rica, que pode ser encontrada em estudos de Alconchel, que, embora ainda estivesse em obras recolhida no Convento de Jesus, assumindo o
monográficos de largo fôlego, mas que a natureza no ano de 1606, era parcialmente ocupado pelos padroado da fundação. O convento foi colocado
do presente trabalho não pode contemplar. A freires. A igreja só ficou concluída em 1614, sob a invocação de N. Sr.a do Carmo. A Ordem dos
segunda criação masculina foi o Convento de N. Sr.a atribuindo-se a traça ao arquitecto Francisco de Carmelitas Descalços chegou ao Porto em 1617,
da Piedade, em Cascais, no ano de 1594, na Mora, que andava, por esta altura, envolvido na com o apoio do Governador das Armas da cidade,
sequência de propostas do senhor da vila, o Conde construção do Convento da Cartuxa. O novo D. Diogo Lopes de Sousa. Vencidas as dificuldades
de Monsanto, D. António de Castro, e de sua esposa, convento dos Carmelitas foi colocado sob a invocação para levantar casa própria, a primeira pedra do
D. Inês Pimentel. Consistiam na oferta de um terreno, de N. Sr.a dos Remédios. Apesar de acontecimentos edifício conventual foi lançada por D. Rodrigo da
edificação do convento e sustento dos religiosos dolorosos por que passaram os religiosos (Guerras Cunha, em Maio de 1619. As obras foram concluídas,
quando as esmolas se revelassem insuficientes. da Restauração e Invasões Francesas), a igreja com a igreja, em 1628, ficando sob a invocação de
Começaram os religiosos por se instalar numa casa permanece hoje aberta ao culto, enquanto as N. Sr.a do Carmo. Sempre em direcção ao Norte, em
provisória até a nova construção estar concluída. De dependências anexas passaram ao uso de repartições 1618, os freires atingem Viana do Castelo (então
facto, só em 1596 os freires passaram a ocupar do Estado, após 1834, destino que tiveram as dos chamada Viana da Foz do Lima), com a protecção
parte do edifício conventual, enquanto a primeira demais conventos. do mesmo Governador do Porto e do Desembargador

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da mesma cidade. Desta implantação, há a sublinhar origens da Ordem, como acima se viu, e nunca espécies, em resultado de prescrição das mesmas
que o traçado do Convento de N. Sr.a do Carmo deixou de estar presente, embora limitado a pequenas Constituições da Ordem dada aos priores no sentido
que se ergueu, com obras começadas em 1621 e ermidas edificadas nas cercas dos conventos, onde de plantar todos os anos. Entre elas contam-se os
concluídas (com a igreja) em 1647, foi da autoria os religiosos ou as religiosas podiam fazer a cedros, pelos quais tiveram especial preferência
do Ir. Fr. Alberto da Virgem, arquitecto da Ordem. experiência da solidão absoluta durante algum tempo. durante muito tempo. No cimo da serra, com 545
Leva esta referência a esclarecer que S.ta Teresa O retorno a este modo de vida, que podia ser metros de altitude, ergue-se uma cruz alta, que dá
deixou muitas disposições sobre a arquitectura e temporário ou permanente, inseria-se no debate expressão visível à invocação do eremitério e como
decoração dos templos dos conventos da reforma, que se instalou no final do séc. XVI e nas primeiras que o coroa. O conjunto é envolvido por um muro,
insistindo que deveriam ser simples, devendo ter-se décadas do séc. XVII, sobre o monaquismo, e no no qual se rasgam quatro portas. Este paraíso na
presente que, quase sempre, os conventos e respec- clima de intensa espiritualidade que na época se terra, que o Buçaco intencionalmente evoca, onde
tivas igrejas principiavam com instalações provisórias, vivia. Por toda a Europa nasceram eremitérios da a arquitectura, a escultura, a pintura, a floresta e
pelo que não havia um plano definido com rigor. reforma teresiana, acontecendo também nas as cinco fontes se conjugam, foi cantado pela poetisa
Nos primeiros anos do séc. XVII, a questão foi tratada Províncias de Espanha. Na de Castela-a-Velha foi portuense Bernarda Ferreira de Lacerda (1590-1645)
em vários Capítulos, nos quais participaram criado o Deserto de San José de Batuecas, próximo em Soledade de Buçaco (Lisboa, 1634). Depois dela,
arquitectos da Ordem, que tomaram decisões no de Salamanca, no ano de 1599, o qual indubi- o Buçaco tem sido celebrado pela pena de muitos
sentido da simplicidade e austeridade, com indicações tavelmente exerceu influência na decisão portuguesa. autores sob diferentes registos literários.
muito precisas sobre a traça. Nem sempre o plano Para a levar a cabo, após consideração sobre vários Na sequência cronológica, vem em seguida o
arquitectónico preconizado foi rigorosamente locais, entre eles uma parcela da serra de Sintra, Convento de S.ta Teresa de Jesus de Santarém, cujo
observado, encontrando-se por isso variantes ao aproveitaram os carmelitas portugueses a doação projecto, aprovado pelas autoridades carmelitanas
paradigma, mas sem nunca fugir do espírito de da serra do Buçaco pelo Bispo de Coimbra, D. João com as locais, em Novembro de 1640, foi suspenso
despojamento estabelecido. Já no tocante a Manuel, a 11 de Maio de 1628. Para salvaguarda em virtude do movimento da Restauração da
elementos decorativos e iconográficos, com o volver da cedência de terras da jurisdição episcopal, apesar Independência, logo a 1 de Dezembro seguinte.
dos anos, os templos foram-se enriquecendo, de a serra ser pertença da mitra conimbrincense, Dilatou-se o seu estabelecimento até 1646, ano em
designadamente na época barroca, muitas vezes em foi obtido Breve de Urbano VIII, de 8 de Fevereiro que D. Madalena de Lencastre, Condessa de Faro,
resultado da devoção dos patronos e também por de 1629. Mas já em Junho de 1628, tinham partido e D. Juliana Maria Máxima, Duquesa de Caminha,
iniciativa das Ordens Terceiras. Já nos anexos do de Aveiro os três fundadores do Deserto: o Prior, Fr. decidiram tornar-se fundadoras e dotadoras do
complexo conventual se verifica uma maior constância Tomé de São Cirilo, Fr. João Baptista e o arquitecto, planeado convento, num gesto de reconhecimento
na austeridade. Ainda quanto a esta casa vianense, o Ir. Fr. Alberto da Virgem. Todos tinham feito a pelo facto de o Provincial dos Carmelitas de então,
há que referir que nela foi criada uma escola de experiência eremítica em Batuecas. A 7 de Agosto Fr. Tomé de São Cirilo, ter pedido a D. João IV a
Teologia Moral. de 1628, foi lançada a primeira pedra do convento sepultura dos corpos do Marquês de Vila Real e de
e no dia 19 de Março de 1630 teve começo a vida seu filho, o Duque de Coimbra, esposos daquelas
regular da comunidade. senhoras, no Convento dos Remédios da capital,
O cenóbio obedecia aos princípios arquitectónicos após condenação à morte, executada no Rossio, sob
concebidos pelas Constituições da Ordem para este acusação de terem conspirado contra a vida do rei.
género de vida, que, pelo que hoje ainda pode ser Os religiosos ocuparam, na vila scalabitana, várias
visto, consiste apenas num andar térreo, ao qual se instalações até terem convento próprio, começado
acede por uma portaria ou vestíbulo, ocupando a em 1656, concluindo-se a igreja só em 1708. Extintas
igreja o centro da edificação. Com o templo se as ordens, instalaram-se no edifício várias repartições
articulam as galerias do claustro, que à sua volta se públicas, até que a Câmara pediu ao Governo a
desenvolve de modo complexo, e algumas poucas destruição do templo e das suas dependências para
dependências que escaparam à demolição a que foi construir edifícios camarários.
sujeito para dar lugar ao hotel que junto se ergue. No surto de vida conventual em que a centúria de
Como prolongamento da vida cenobítica levada no Seiscentos foi fértil e na qual os Carmelitas se
convento e para a prática do eremitismo, foram inscrevem, regista-se, em seguida, o Convento de
erguidas pela serra 11 ermidas de habitação, N. Sr.a da Encarnação de Olhalvo, junto a Alenquer,
decoradas, tal como quase todo o exterior do con- no ano de 1648, por iniciativa e devoção de D.
vento, com uma combinação de seixos e conchas, Manuel da Cunha, então Bispo de Elvas.
que tomam o nome de “embrechados”, para melhor A insistência do pedido de personalidades de Braga
evocar as celas ou grutas do monte Carmelo, para uma fundação assumiu forma canónica a 1 de
designadamente a do profeta Elias. Pela montanha Fevereiro de 1653 e, como era habitual, das insta-
foram também construídas 20 capelas, nas quais lações provisórias às definitivas decorreu um espaço
estão reconstituídos passos da Via Sacra, obra de tempo. O Convento de N. Sr. a do Carmo,
Convento de S.ta Cruz do Buçaco (PCC)
ordenada pelo Bispo de Coimbra, D. Manuel de construído em terreno doado à Ordem, pôde receber
Saldanha, após 1643 (na altura ficaram assinalados a comunidade a 22 de Outubro de 1655. Implantado
O ritmo fundacional foi enriquecido com a instituição por uma cruz de madeira), embora só fossem na capital do Minho, passou a Colégio de Filosofia,
do Deserto do Buçaco, no ano de 1628, colocado erguidas em 1695, sendo Prelado da diocese D. João em 1739 (continuando activo o de Figueiró dos
sob a invocação da S.ta Cruz. Foi o único que os de Melo. Os grupos escultóricos que dentro delas Vinhos), e de Teologia, em 1781, que, por decisão
Carmelitas Descalços tiveram em Portugal. Tratou- se encontram são obra do escultor Costa Mata capitular de 1790, também era ensinada no Colégio
-se da concretização do ideal eremítico praticado de Sobrinho. O cenário completa-se com um luxuriante de Coimbra. No confisco dos bens das Ordens
modo radical no monte Carmelo, que estivera nas arvoredo, que reúne uma vasta diversidade de subsequente à sua extinção, é de realçar que a igreja

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e alguns anexos passaram para a posse de leigos convento sob a invocação do Corpus Christi, que do Bispo da diocese, D. Fernando Pires e Masca-
filiados na Irmandade de Nossa Senhora do Carmo. doou aos Carmelitas Descalços, de quem era devota renhas, que lhes ofereceu as instalações dos Jesuítas,
Trata-se de uma situação paradigmática do papel (o seu confessor era um sacerdote do Convento dos expulsos do reino por decreto do Marquês de Pombal,
que as irmandades e confrarias tiveram na Remédios), que celebraram a missa inaugural a 12 em 1759. Os Padres Carmelitas ocuparam-na a partir
salvaguarda do património material e espiritual da de Junho de 1661. de 1766, sob a invocação de N. Sr. a do Carmo.
Ordem. O templo chegou aos nossos dias, embora O apreço da Casa Real de Bragança pela reforma Depois da exclaustração das ordens, em 1834, o
com alterações na fachada. teresiana manifestou-se também na fundação do edifício foi destinado a teatro, estando ainda hoje
Convento de S. João da Cruz, em Carnide, pela activo.
Infanta D. Maria (1643-1693), filha ilegítima de No percurso pela actividade fundacional há ainda a
D. João IV, que o rei no fim da vida legitimou. A opção registar uma casa em Vila do Conde, também da
por aquele local, então subúrbio de Lisboa, foi invocação de N. Sr.a do Carmo, que teve início em
decidida depois de abandonadas outras hipóteses. 1755, mas não teve grande expansão, por faltarem
Talvez à escolha definitiva não tenha sido estranho doações prometidas. Importa ainda registar que a
o facto de bem perto se encontrar o convento Ordem começou uma fundação em Montemor-o-
feminino de S. ta Teresa de Jesus, que a infanta -Velho, em 1604, por oferta da câmara da vila, mas
elegeu para nele viver, sem contudo nunca ter encerrou no séc. XVIII; esteve para fundar convento
professado, pois durante vários anos foi garante da em Tomar, com licença régia concedia em 1616,
sucessão régia. O novo convento de padres carmelitas mas a proximidade de Figueiró contribuiu para frustrar
foi instituído em 1681, segundo as escrituras em o intento; no Sítio de S. Luís (Beja), a pedido de um
que a doadora declarou assumir o padroado da fidalgo, em 1617, sem se concretizar; em Lamego,
fundação, embora o levantamento do edifício em 1617, que não foi por diante por indeferimento
começasse mais tarde. De facto, numa inscrição em régio, invocando excesso de conventos, como acima
pedra que se encontra no que resta da construção se referiu; em S. Pedro do Sul foi aberta uma
encontra-se o seguinte: “Maria filia Ioannis IV residência de padres, no ano de 1743, mas que
Lusitaniae regis hoc oedificavit monasterium anno pouco depois encerrava; também foi pensado um
Domini 1685, regnante Petro II, fratre suo convento para Mazagão, a última praça portuguesa
amantissimo et invictissimo”. Ainda em vida da na África marroquina, mas que não chegou a ter
infanta já o convento estava em condições de ser efeito.
habitado pelos religiosos, mas depois da sua morte, Já acima se aludiu ao desejo de S.ta Teresa e dos
Convento de N. Sr.ª do Carmo, Aveiro (DB) em 1693, as obras pararam, por demanda com os religiosos da primeira geração da Reforma em
legatários do testamento da doadora. A igreja só expandi-la pelos territórios de além-mar, quando os
foi inaugurada a 24 de Abril de 1718. Com a extinção impérios ultramarinos de Portugal e Espanha se
Em resposta a uma solicitação da Câmara de Setúbal, das ordens veio a degradação. A igreja desapareceu encontravam no auge. Houve as experiências do
fazendo-se eco do desejo dos habitantes da então e o que resta deste convento pertence hoje a uma Congo e do México, não continuadas pelos superiores
vila, instalou-se no palácio do Duque de Aveiro, instituição do Estado. Existe o muro e o portão de gerais da congregação espanhola, os quais impri-
provisoriamente cedido, a comunidade dos religiosos acesso, que dá para o lado norte do L. de Carnide. miram à Ordem uma atitude austera e eremítica,
no ano de 1660, sob a invocação de S.ta Teresa de A pujança de fundações do séc. XVII não teve contrária ao apostolado externo. O mesmo não
Jesus. As dificuldades financeiras com que se continuidade na centúria de Setecentos, fenómeno aconteceu com a congregação italiana de S.to Elias
confrontaram para erguer um convento próprio comum a todas as ordens religiosas. Importa que se estendeu por todos os países da Europa e
foram, em boa parte, superadas pela generosidade esclarecer que alguns casos de recusa de fundações abriu missões no Líbano, Pérsia e Índia. Para Goa,
do P.e Luís da Silva Costa, que assumiu o padroado por parte de soberanos no séc. XVII, que algumas partiram alguns carmelitas italianos, os quais, com
da fundação, com os bens de um morgadio que ordens apoiavam em benefício próprio (o receio da permissão do vice-rei (e prévia licença régia) e do
para esse fim instituiu. A primeira pedra do convento perda de esmolas), decorria de uma forte corrente arcebispo da cidade, fundaram um convento, em
foi colocada a 13 de Maio de 1703, mas as obras, de opinião, que considerava haver excesso de 1620, sob a invocação de N. Sr.a do Carmo, que se
por escassez financeira do rendimento do vínculo, mosteiros e conventos em época de recessão tornou Noviciado e sede de estudos e para onde
arrastaram-se até 1759, com a conclusão da igreja. demográfica. Mas no séc. XVIII os Carmelitas ainda foram também alguns freires espanhóis e portu-
Lisboa teve o seu segundo convento masculino no foram solicitados para implantar conventos no gueses. Em 1633, abriram residência e construíram
ano de 1661, estando na sua origem a segunda Algarve, começando por Tavira, onde chegou um igreja em Diu. Com a Restauração da Independência,
tentativa de homicídio de D. João IV, em 1647. grupo de religiosos em 1737, que começou a em 1640, D. João IV ordenou a sujeição dos
O protagonista contratado para o acto regicida foi construir um convento em 1745, sob a invocação Carmelitas Descalços à província portuguesa de S.
Domingos Leite Pereira, que se preparava para o de N. Sr.a do Carmo, embora a igreja só ficasse Filipe, tendo para o efeito enviado como Visitador
levar a efeito durante a procissão do Corpo de Deus, pronta em 1792, como consta de inscrição na sua português o P.e Fr. João de Cristo, acompanhado de
na qual os soberanos portugueses sempre se fachada. Com a extinção das ordens, conseguiu a outros padres, mas que uma forte tempestade atirou
incorporavam. Para tanto, arrendou uma casa em Ordem Terceira local, da Fazenda Pública, a concessão para as costas de Moçambique, onde a semente
artéria correspondente à actual R. dos Fanqueiros, do edifício, sendo considerada a mais antiga das ocasional e de passagem lançada deu como fruto
por onde o cortejo religioso deveria passar. A falta Ordens Terceiras ibero-americanas do Carmelo uma fundação que abriu portas em 1642. Ao
de coragem para o concretizar não impediu que Descalço, que nasceu em 1727. No espaço prosseguirem viagem, e uma vez chegados a Goa,
fosse denunciado, sendo depois enforcado. Em acção conventual, os Irmãos Terceiros instalaram um asilo encontraram grande hostilidade, agravada pelo apoio
de graças pela protecção divina ao marido, mandou para a “infância desvalida”. A segunda casa que a que os religiosos italianos recebiam da Propaganda
a Rainha D. Luísa de Gusmão erguer no local um Ordem teve no Algarve foi em Faro, por solicitação da Fé, departamento da Cúria Romana para as

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missões, da qual dependiam. Era claro o conflito de 20 o número de candidatos. Tal como acontecia bases pelas quais se deveria regular a permanência
jurisdições, tornado mais grave pelo facto de a Santa noutros territórios de missão, o povo pedia o envio dos religiosos na sua diocese. Por sua vez, logo no
Sé não reconhecer a Dinastia Brigantina. Com o de “Terésios”, nome por que se tornaram conhecidos dia 14 de Setembro de 1926, o Definitório Geral
agudizar da conflituosidade, os padres italianos os Carmelitas Descalços no Brasil. aprovava o projecto de fundação de casa em Évora.
deixaram Goa e os portugueses regressaram a Lisboa. A primeira residência que abriram foi no mato de Para a executar, o Provincial da Província de S.
A questão, marcada por muitas atitudes de confronto, Massaramdupio, em 1695. Joaquim de Navarra, enviou dois sacerdotes como
com larga história impossível de aqui narrar, arrastou- A segunda fundação conventual foi em Olinda, no observadores e, no fim de Dezembro deste mesmo
-se até ao tempo de D. João V, quando o Definitório Estado de Pernambuco. Chegaram em 1686, ano, em entrevista com o arcebispo, ficou decidido
Geral italiano decidiu voltar à Índia, com aquiescência instalaram-se junto da igreja de N. Sr.a do Desterro, que seria o Alandroal o lugar onde os padres
do soberano, na condição de os missionários deram início às obras do convento que tomou o inicialmente deveriam exercer o ministério. Viriam
estrangeiros lhe prestarem juramento de obediência nome de S.ta Teresa, mas o templo manteve-se sob dois sacerdotes, separadamente e vestidos de padres
e de lealdade. Para tanto, o Papa Clemente XI, por aquela invocação da Virgem. No Rio de Janeiro, os seculares e não com hábito. Concluídas as nego-
Bula de 28 de Agosto de 1710, autorizou os Carmelitas Descalços aparecem pela primeira vez ciações, os religiosos carmelitas começaram por
carmelitas descalços da congregação italiana a abrir em 1714, com planos de fundação, que nunca pregar durante a Quaresma do ano seguinte (1927)
residência em Lisboa, donde partiam para os domí- adquiriu expressão conventual. Estabeleceram e regressaram a Espanha, transmitindo aos seus
nios portugueses do Oriente. residência e desenvolveram fecundo apostolado que superiores as impressões colhidas. No dia 28 de
A África, depois da curta missionação no Congo, irradiou em várias direcções territoriais. A fixação Março de 1928, chegou ao Alandroal o P.e Bonifácio
nos primórdios da reforma teresiana em Portugal, da família real no Brasil, a partir de Janeiro de 1808, da Virgem do Carmo, que ficou encarregado dos
como acima se viu, voltaram os Padres Carmelitas, com a numerosa Corte que a acompanhou (o Rio serviços da paróquia, a quem se juntou, a 5 de Maio
a pedido de D. Luísa de Gusmão, sendo Regente de Janeiro tornou-se capital por decisão de João VI, seguinte, na qualidade de Delegado da Ordem, o
do Reino. A 30 de Maio de 1659, zarpou do Tejo tomada em Março deste ano), contribuiu para P. e Marcial do Santíssimo Sacramento. Embora
a armada em que embarcaram dez carmelitas com reforçar a assistência espiritual requerida aos originários do Norte de Espanha, ambos tinham
destino a Luanda, onde, com o apoio do Governador Carmelitas. Das instalações em cidades de referência, estado no Brasil. Levaram também a sua acção
João Vieira, fundaram um convento, em terrenos que neste vasto território tiveram, há ainda a registar evangelizadora às Freguesias de Terena, S. Brás,
então nos arredores da cidade, que foi inaugurado a abertura de casa no Recife, com capela, em 1742, Juromenha e Rosário. Estes acontecimentos, pessoas
em 1689, sob a invocação de N. Sr.a do Carmo. Daí mas que foi encerrada em 1744. e o ano de 1928 constituem os marcos do recomeço
irradiaram e criaram focos de missionação em vários Após o regresso da família real ao reino e com a da Ordem dos Carmelitas Descalços em Portugal.
pontos, alguns bem distantes da capital, como proclamação da independência do Brasil, a 7 de Dado o carácter provisório de que se revestia a casa
Bambo-a-Quitamba, Matamba, Ambaca, Dembos, Setembro de 1822, que Portugal reconheceu pelo de Alandroal, com o consenso do arcebispo e
Pango e Cassange. Para além de missionários, a boa Tratado do Rio de Janeiro celebrado a 29 de Agosto correspondendo ao desejo dos filhos espirituais de
reputação que tinham também nas letras mereceu- de 1825, a vida dos religiosos portugueses tornou- S. ta Teresa, neste mesmo ano de 1928, foi-lhes
-lhes a nomeação para mestres das Escolas Régias -se difícil, tendo muitos transposto o Atlântico em entregue a Igreja Matriz do SS.mo Salvador de Elvas,
e professores de Teologia Moral no Seminário sentido contrário. A cisão de governos na Ordem para que se tornasse Casa-Mãe da Ordem em
Diocesano. Carmelita deu-se a 28 de Julho de 1828, que um Portugal. O mesmo P.e Bonifácio foi nomeado pároco,
O Brasil foi outro grande campo de missionação dos Breve da Santa Sé, de 9 de Janeiro de 1830, residindo já na cidade. Seguiram-se sérios entraves
Carmelitas Descalços da província portuguesa de S. sancionou e até impôs. Entretanto, em Portugal, as para levar por diante o processo restaurador e a
Filipe. O primeiro convite adveio-lhes do Vice-Rei Cortes Gerais, a 28 de Abril de 1821, ordenavam o definição do seu estatuto canónico, que chegou a
D. Vasco de Mascarenhas, Conde de Óbidos, instado censo dos religiosos e religiosas dos mosteiros, que colocar em risco a permanência dos sacerdotes,
por vozes representativas da cidade de Salvador da foi referendado por Ofício de 30 de Junho seguinte. obstáculos que só foram ultrapassados em 1931,
Bahia de Todos os Santos. O Definitório Provincial, Era o começo do processo que teve o seu epílogo ano em que ficaram estabelecidas as bases sólidas
reunido em Lisboa, em Janeiro de 1665, acatou com na promulgação da já referida lei do Governo Liberal, da Ordem no país. Puderam então lançar-se na sua
entusiasmo a petição, sancionada por Alvará Régio a 28 de Maio de 1834, da autoria de Joaquim António expansão para além da Arquidiocese de Évora. Assim,
de 6 de Fevereiro seguinte. Uma expedição de oito de Aguiar, pela qual todas as ordens religiosas foram a Ordem erigiu fundações em Aveiro (1930), N. Sr.a
religiosos chegou ao porto da Bahia a 14 de Outubro abolidas. Consentia que permanecessem nos con- do Carmo; Viana do Castelo (1932), N. Sr.a do
deste mesmo ano, hospedando-se no Convento do ventos femininos as religiosas até ao fim dos seus Carmo; Porto – Foz do Douro (1936), N. Sr.a do
Carmo dos Padres Calçados, que já lá se encon- dias, mas proibia novas admissões ou Noviciados. Carmo; Funchal (1946), N. Sr.a do Carmo; Marco de
travam. Merece registo o bom acolhimento e as Com esta legislação, o Carmelo Português desapareceu. Canaveses (1961), Santuário do Menino Jesus de
primeiras instalações dispensadas por portugueses A lenta mas progressiva liberdade que as ordens Praga; Braga (1963), N. Sr.a do Carmo; Fátima (1971),
que a fortuna favorecera. Adquirido terreno e obtidas religiosas foram recuperando na segunda década N. Sr.a do Carmo. No caso específico de Lisboa, a
com facilidade as necessárias licenças, a 14 de do séc. XX levou o Arcebispo de Évora, D. Manuel presença dos Padres Carmelitas teve início em 1946
Outubro de 1686 instalaram-se num convento Mendes da Conceição Santos, na visita Ad Sacra com a leccionação das disciplinas de Religião e
próprio, cuja igreja só viria a ficar concluída em Limina, a expor ao Papa Pio XI a sua preocupação Filosofia no Instituto Espanhol e, a partir de 1958,
1697, sob a invocação de S.ta Teresa. Pela projecção pela falta de clero sentida na sua diocese. O sumo como capelães da Embaixada de Espanha, habitando
que rapidamente atingiram, foi decidido destinar a pontífice aconselhou-o a dirigir-se ao padre geral os sacerdotes em andar próximo. Em 1981, mudaram-
casa a Colégio de Filosofia da Bahia, função que dos Carmelitas Descalços, a quem recomendou que -se para Paço de Arcos, para residência que
aparece a desempenhar em 1693. Em 1787, por atendesse ao pedido do prelado. Estabelecido o funcionava como sede da Província e das Edições
decisão do Capítulo reunido no Convento dos contacto, o geral aquiesceu benevolamente, vendo Carmelo. Actualmente, a sede da Província encon-
Remédios de Lisboa, o Convento do Porto passou também uma oportunidade para restabelecer a tra-se fixada na Domus Carmeli Centro Mariano
também a ser Casa de Noviciado para os que se Ordem no país. A 7 de Setembro de 1926, o prelado, Internacional de N. Sr.a do Carmo, em Fátima, aberto
destinavam aos territórios ultramarinos, fixando em encontrando-se em Marselha, expôs por escrito as em 2007.

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ORDENS E CONGREGAÇÕES MASCULINAS CARMELITAS TERCEIROS OBSERVANTES

encontrando-se implantadas actualmente nas 1987-1990; STEGGINK, Otger, La Reforma del Carmelo
seguintes cidades: Aveiro, Coimbra, Fátima, Funchal, Español: La Visita Canónica del General Rúbeo y Su
Lisboa, Paços de Ferreira, Porto, Tavira e Viana do Encontro con Santa Teresa y San Juan de la Crus
Castelo. A Regra primitiva, comum a religiosos e (1566-1567), Roma, 1965; V ECHINA , José Carlos,
religiosas, foi-lhes adaptada pelo Definitório Geral, “Carmelitas Descalços”, in Carlos Moreira Azevedo
sediado em Roma, através de Constituições próprias, (dir.), Dicionário de História Religiosa de Portugal,
aprovadas pela Santa Sé em 2003, secundadas pelos vol. A-C, [Lisboa], Círculo dos Leitores/Centro de
Estatutos da Ordem Secular dos Carmelitas Descalços, Estudos de História Religiosa da Universidade Católica
que receberam aprovação em 2006. Tanto os leigos Portuguesa, 2000, pp. 297-300; WERMERS, Manuel
como os religiosos, para além da espiritualidade dos Maria, A Ordem Carmelita e o Carmo em Portugal,
seus fundadores, integram também outras propostas Lisboa-Fátima, União Gráfica-Casa Beato Nuno, 1963;
com que o Carmelo tem vindo a ser enriquecido, ZAMORA, Anselmo Donázar, Principio y Fin de una
designadamente a espiritualidade de S.ta Teresa do Reforma: Una Revolución Religiosa en Tiempos de
Centro de Espiritualidade S.ta Teresa de Jesus,
Menino Jesus e da Santa Face, declarada Doutora Felipe II – La Reforma del Carmen y Sus Hombres,
Marco de Canaveses (I)
da Igreja por João Paulo II em 1997, S. ta Teresa Bugotá, Ediciones Guadalupe, 1968.
Benedita da Cruz (Edith Stein), canonizada em 1998,
A Ordem, ao ser restaurada em Portugal, ficou ligada e Isabel da Trindade, beatificada em 1985, pelo CARLOS MARGAÇA VEIGA
à Província de S. Joaquim de Navarra. Com a mesmo pontífice.
vitalidade que adquiriu, passou a surgir a ideia de
a autonomizar. Com efeito, em Agosto de 1974, BIBLIOGRAFIA: Anuário Católico de Portugal 2007, CARMELITAS TERCEIROS OBSERVANTES
foi criado o Vicariato Regional de Portugal, solicitado [Lisboa], Secretariado Geral da Conferência Episcopal A Ordem dos Carmelitas Terceiros Observantes é um
ao Superior Provincial de Navarra, que o Definitório Portuguesa, 2007, pp. 825-826; AQUÉSOLO, Lino, conjunto de associações de fiéis que, participando
Geral reconheceu em 28 de Agosto seguinte, o que Historia de la Orden del Cármen, Vitória, s.n., 1965; no século do espírito de um instituto religioso e sob
constituiu um grande passo na sua consolidação. A UCLAIR , Marcelle, Sainte Thérèse d´Ávila, Paris, a sua orientação, levam uma vida apostólica e tendem
No 1.º Congresso deste vicariato, convocado para Éditions du Seuil, 1950; BAYÓN, Balbino Velasco, à perfeição cristã, recebendo o nome de Ordem
29 de Junho de 1975, em Viana do Castelo, saiu ocarm, História da Ordem do Carmo em Portugal, Terceira (OT), ou outra designação consentânea
eleito primeiro Vigário o P. e Vasco Dias Ribeiro. Lisboa, Paulinas, 2001; JESUS, Crisógono de, ocd, (CDC, cân. 303).
A 19 de Junho de 1978, no 2.º Congresso, realizado Vida y Obras de San Juan de la Cruz, Madrid, Existem duas formas ou métodos terciários, o regular
no Convento de Marco de Canaveses, procedeu-se Biblioteca de Autores Cristianos (B.A.C.), 1950; JESUS, e o secular. Conforme à tradição, as Ordens Terceiras
à eleição de um novo Vigário, que recaiu na pessoa David do Coração de, ocd, A Ordem do Carmelo regulares são institutos de verdadeiros religiosos
do P.e Manuel de Jesus Vaz de Brito. Novo passo Teresiano: 50 Anos em Portugal (1928-1978), Lisboa, que, adoptando a Regra de uma ordem religiosa,
importante foi a separação do vicariato em relação Texto policopiado, 1978; JESUS, David do Coração dela se constituem ordem terceira, se bem que, a
à Província de S. Joaquim de Navarra, que aconteceu de, ocd, A Reforma Teresiana em Portugal, Lisboa, par da Regra, disponham de Constituições próprias
em 1981, ano do nascimento da província portuguesa s.n., 1962; J ESUS , P. e Fr. Joseph de, Chronica de adequadas ao fim apostólico de cada ordem. Por
de N. Sr.a do Carmo. A partir de então, estiveram à Carmelitas Descalços, Particular da Província de S. via de regra, as Ordens Terceiras regulares, em que
frente dos seus destinos os seguintes Provinciais, Filippe do Reyno de Portugal, & Suas Conquistas, t. abundam as femininas de vida activa, não utilizam
cujo cargo é exercido por triénios: P.es Fr. Jeremias III, Lisboa, Officina de Bernardo António de Oliveira, o termo Ordem Terceira no seu nome, preferindo,
Carlos Vechina, 1981-1984 e 1984-1987; Pedro 1753; JESUS, S.ta Teresa de Maria, Obras Completas, de um modo geral, criar um título autónomo e
Lourenço Ferreira, 1987-1990 e 1990-1993; Texto original revisto por Tomás Alvarez, ocd, distinto. Em todo o caso, o título Ordem Terceira
Agostinho Leal, 1993-1996 e 1996-1999; Pedro Tradução de Vasco Dias Ribeiro, ocd, Introdução e tem-se aplicado vulgarmente às ordens terceiras
Lourenço Ferreira, 1999-2001; Alpoim Alves Portugal, notas de Tomás Alvarez, ocd, Paço de Arcos, Edições seculares, que não se constituem em institutos
2002-2005; Pedro Lourenço Ferreira: 2005-2008. Carmelo, 2000; MADRE DIOS, Efrém de la, STEGGINK, religiosos, sendo associações de fiéis que, vivendo
A Ordem segue a Regra primitiva e as Constituições Otger, Tiempo y Vida de Santa Teresa, Madrid, no mundo, no próprio meio social, profissional e
aprovadas em 1986, na sequência da actualização [Editorial Católica], 1968; PÉREZ, Joseph, Thérêse familiar, professam votos de obediência a uma
preconizada pelo Concílio Vaticano II para todas as d’Avila, Paris, Librairie Arthème Fayard, 2007; Regra, fazendo propósitos ou promessas de pobreza,
ordens. SACRAMENTO, P.e Fr. João do, Chronica de Carmelitas obediência e castidade, segundo o Estado, tendendo
O Carmelo da reforma teresiana, desde as origens Descalços, Particular da Província de S. Filippe do à perfeição cristã de acordo com os carismas e a
e continuando a tradição antiga, sempre assistiu os Reyno de Portugal, & Suas Conquistas, t. II, Lisboa espiritualidade do instinto religioso escolhido para
leigos que pretenderam viver a sua espiritualidade Ocidental, Officina Ferreyrenciana, 1721; SANTA ANA, modelo (Carmelitas, Dominicanos, Franciscanos,
inseridos no mundo. Para tanto, no séc. XVIII, em Frei Belchior de, Chronica de Carmelitas Descalços, entre outros). Estas ordens Já eram consideradas
Portugal, organizaram as Ordens Terceiras, a que se Particular do Reyno de Portugal, e Província de Sam no antigo Código de Direito Canónico (cân. 702),
aludiu, às quais foram dados Estatutos próprios. Fellipe (1581-1628), t. I, Lisboa, Officina de Henrique que as define como tertiarii saeculares.
Chegaram aos nossos dias as de Viana do Castelo, de Oliveira, 1657; SANTA TERESA, Silvério de, ocd, Uma Ordem Terceira pode limitar-se a um único
Funchal e Tavira. Actualmente, dentro dos caminhos Historia del Carmen Descalzo en España, Portugal núcleo, ou surgir em diversas associações, podendo
abertos pelo Concílio Vaticano II à espiritualidade e y America, Burgos, t. III, IV, V, VI, s.n., 1935-1937; estas ser chamadas de Irmandades de Terceiros,
ao apostolado laicais, o Carmelo Teresiano tem-se SÃO BENTO, Fr. Manoel de, Chronica de Carmelitas Sodalitas Tertiariuum ou Sodalícios. A Ordem Terceira
empenhado em transmitir a vivência do seu riquíssimo Descalços Particular da Província de Portugal, t. IV, é a mesma e única em vários sodalícios, mas é,
património espiritual a novas fraternidades que estão Braga, s.n., 1990; S MET , Joaquín, ocarm, Los todavia, distinta de outras associações de fiéis, como
a florescer sob a designação oficial de Comunidades Carmelitas: Historia de la Orden del Cármen, 2 vols., as confrarias e as pias uniões, apesar de se rege-
da Ordem Secular dos Carmelitas Descalços (OCDS), Madrid, Biblioteca de Autores Cristianos (B.A.C.), rem pelas mesmas normas, a par das obrigações

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ORDENS E CONGREGAÇÕES MASCULINAS CARMELITAS TERCEIROS OBSERVANTES

específicas (cânones antigos 702-706), que as ramo, no caso português, parece não ser anterior
distinguem daqueloutras. ao ciclo tridentino, por volta de 1600, apesar da
Uma das diferenças entre Ordem Terceira regular e reivindicação de que a Confraria do Bentinho
Ordem Terceira secular é a de que no modelo regular (Escapulário) de Lisboa, do tempo do Beato Nuno,
os respectivos membros dedicam-se inteiramente à já servia uma comunidade terceira. De facto, o
vida apostólica, enquanto que no modelo secular primeiro sodalício documentado é de 1629, com
os respectivos membros têm cada um a sua vida e capela na Igreja de N. Sr.a do Carmo. Noutras partes
não vivem em comunidade regular. Todos os Terceiros do mundo, os Terceiros apareceram mais cedo, até
gozam, porém, do privilégio de vestir o hábito da na forma regular, mas no caso português houve
ordem a que se agregam, cuja Regra estão dificuldades a vencer, pois as ordens mendicantes
autorizados a seguir. Dependem, por isso, através mais fortes (Agostinhos, Dominicanos e
das Cúrias Generalícias de cada ordem em Roma, Franciscanos) contestaram a legitimidade da Ordem
da Sagrada Congregação para os Institutos e Vida Terceira Carmelita, considerando que o Carmelo é
Consagrada e das Sociedades de Vida Apostólica. essencialmente monástico, pelo que não teria espaço
A origem do nome é cronológica e refere-se à ordem para seculares. Tal situação obrigou os Carmelitas a
fundacional. A primeira ordem a surgir é a dos frades, longas contendas canónico-teológicas, tendo ficado
por isso esta designa-se também como Primeira registada a intervenção de Fr. João da Silveira, no
Ordem. Depois, ao abrigo da Primeira, surgiram as Tractatus de Tertiariis quos possunt habere Carmelitas
professas femininas, ou monjas de clausura, que (1630). Por fim, o Tribunal da Legacia deu sentença
constituem a Segunda Ordem. Por fim, pessoas favorável, que as outras ordens, de princípio,
situadas no mundo secular, desejando viver, segundo contestaram, acabando por desistir da diligência.
o Estado, a Regra da Primeira Ordem, mas não Várias Regras foram redigidas e publicadas no decurso
Casa Beato Nuno, Fátima (JAM)
estando vocacionadas para a Segunda, levaram ao do tempo. A primeira, de 1630, foi escrita por Fr.
aparecimento da Ordem Terceira, por sua vez distinta, Pedro de Melo, à qual outras seguiram, sendo as
conforme o grau de consagração, em regular ou mais populares as de Pedro Juzarte e o Tesouro Sem prejuízo da Ordem Terceira Secular de agregação
secular. Carmelitano (com edições desde 1705 a 1763), de à Ordem dos Carmelitas Descalços, os principais
As confrarias propriamente ditas, como associações Fr. de Jesus Maria, também as de Miguel de Azevedo, sodalícios observantes do país foram fundados em
de fiéis cuja principal finalidade é a promoção de ambas muito seguidas no Brasil, e, mais tarde (1904, Abrantes, Almada, Alverca do Ribatejo, Beja, Angra
um culto, não se inscrevem nos Terceiros, mas deles 1922), a do P.e Santos Farinha. As exigências con- do Heroísmo (Açores), Camarate, Colares, Coimbra,
constituem um prolongamento, qual espécie de ciliares obrigaram as Ordens Terceiras à reformu- Évora, Faro, Funchal (Madeira), Horta (Açores), Lagoa,
Quarta Ordem. Aliás, no trânsito histórico, e quanto lação da Regra, o que demorou muitos anos a se Lisboa, Moura, Penafiel, Pombal, Serpa, Setúbal,
às Ordens Terceiras seculares, bastantes houve que, conseguir, não obstante os Congressos Internacionais Tavira, Tentúgal, Torres Novas, Vidigueira, Vila Franca
por deficiente empenho dos membros, viveram como da Família Carmelita (Aylesford, Inglaterra, 1991, e de Xira e Viseu. A fundação em Abrantes terá sido
simples confrarias, enquanto algumas destas, por Nantes, 1994), com discussões centradas no nome ligeiramente posterior à de Torres Novas, da qual
eficiência e compromisso, se constituíram em Ordens (Ordem Secular ou Terceira?), no grau de compro- recebia a direcção espiritual, conhecendo-se o nome
Terceiras, que, em geral, recebem a dignidade de misso (propósitos ou votos?) e na adequação às leis do P. e Luís Saraiva como confessor dos terceiros
Venerável. civis dos países. Por Decreto de 16 de Julho de 2003, abrantinos. Do Sodalício de Almada, apesar de
No que à Ordem Terceira Carmelita se refere, tanto o P.e Geral Joseph Chalmers promulgou a nova Regra mencionado como existente por Fr. Manuel da
no ramo antigo, ou observante, como no ramo da Ordem Terceira do Carmo, já aprovada, a 11 de Encarnação (Compendio da Regra, 1685), mais nada
reformado, descalço ou teresiano, a origem é a Abril de 2003, pela Santa Sé. se sabe. Quanto ao de Alverca do Ribatejo, existem
mesma, quer dizer, a Primeira Ordem foi a dos Frades No mundo, quanto ao ramo secular, há diversas documentos alusivos a este sodalício, datados dos
ou Irmãos da Bem-Aventurada Virgem Maria do instituições, sendo a mais conhecida a Família anos de 1739 e 1755, antes do terramoto. Em Beja,
Monte Carmelo, na Palestina. Uma vez expulsos do Missionária Fidei Donum, criada em Paris (1950), a fundação terá acontecido nos princípios do séc.
lugar da fundação e esparsos pela Europa, os que gere a cadeia de restaurantes apostólicos Eau XVII, sendo o documento mais antigo, a conceder
Carmelitas fundaram conventos, junto dos quais se Vive, e se agregou à Ordem do Carmo, em 1987. uns privilégios aos Terceiros, datado de 1690. Na
constituíram grupos de leigos e de seculares, As Ordens Terceiras regulares parecem não ter sido Capela de N. Sr.a da Piedade, da igreja do convento
enquanto que, em diversas partes da Europa, muitas fundadas em Portugal, embora haja algumas carmelita, havia sepulturas de Terceiros. Em 1736,
senhoras mostraram interesse em viver a Regra estrangeiras, de obediência observante e/ou descalça, os Carmelitas e os Terceiros de Beja assinaram um
Carmelita em estrita obediência. No tempo do Geral trabalhando no país. Pelo menos duas, de obediência contrato acerca das obras a fazer na Igreja de S.ta
João Soreth, pela Bula Cum Nulla (1452), o que em observante, abriram casas: as Irmãs Carmelitas do Catarina, que serviria de cemitério aos Irmãos
verdade se funda é a Segunda Ordem (Monjas), Sagrado Coração de Jesus e as Irmãs da Virgem Terceiros, enquanto que os frades se comprometiam
enquanto que só pela Bula Dum Attenta (1476) se Maria do Monte Carmelo, originárias de Espanha. a celebrar ofícios e missas pelos Terceiros. Além
autorizava a existência de grupos que incluíssem A Casa Beato Nuno, em Fátima (inaugurada em disso, a Ordem nomeou um Comissário para os
homens e mulheres casados. Embora já antes se 1957), foi projectada para funcionar como Centro assistir, para o qual foi criado um hospício. Não
notasse a existência destas agregações seculares, só Internacional das Ordens Terceiras do Carmo (CITOC). obstante a Igreja de S.ta Catarina, a Ordem Terceira
depois de 1476 é que elas são oficializadas, pois O mais significativo movimento tem sido o secular, decidiu avançar com a fundação de uma outra, a
até aí eram informais. apesar da falta de assistência carmelita directa aos de N. Sr.a do Carmo, aberta em 1755, um dos mais
O vínculo fundamental dos Terceiros com a Ordem sodalícios, dada a falta de frades na província, pelo belos templos da cidade alentejana. A avaliar por
do Carmo é a profissão pela qual o fiel se consagra que a assistência e, até, a administração, nas sequelas documentação de 1918 e de anos seguintes, esta
segundo o próprio estado. O desenvolvimento deste de 1834 e 1910, foram asseguradas pelo Ordinário. Ordem Terceira ter-se-á transformado em confraria,

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ORDENS E CONGREGAÇÕES MASCULINAS CARMELITAS TERCEIROS OBSERVANTES

mas não consta que esteja activa. Existe, no entanto, com o Convento dos Carmelitas, para que os funerais casa para residência do frade carmelita presbítero
um projecto de restauração. dos irmãos fossem acompanhados por um padre que haveria de ser assistente da Ordem Terceira.
A fundação em Angra do Heroísmo (Açores) foi carmelita. As relações entre a Ordem Terceira e a Não obstante alguns atrasos, o templo ficou decente
estabelecida em 1766, na Igreja da Misericórdia, na Primeira Ordem foram excelentes, pelo que esta para o culto, sendo benzido com grande solenidade,
qual, num dos altares laterais, se entronizou a cedeu àquela, em 1761, a Capela do SS. mo a 3 de Abril de 1719. A nova imagem da Senhora
imagem da Padroeira do Carmelo. No ano de 1800, Sacramento, juntamente com nove sepulturas. Na foi transladada da Igreja da Esperança, no dia 15
a Ordem Terceira transitou para a igreja de um Igreja de N. Sr. a do Carmo vê-se um grandioso de Julho de 1719, para a nova igreja dos Terceiros,
colégio, para onde a imagem também foi levada. A retábulo, atribuído a um irmão terceiro, o entalhador pelo que, em conformidade com o costume carmelita,
partir de Angra, foram criados sodalícios noutras Luís João Botelho. Este sodalício teve boa fama, no dia seguinte se celebrou a festa litúrgica de N.
localidades, sobretudo desde 1865. A ordem terceira sendo estimado pelas ordens terceiras dominicana Sr.a do Carmo. No ano de 1720, a rainha determinou
angrense é muito devota e participativa e, todos os e franciscana, também presentes na cidade. Estava que o Senado fosse todos os anos, na festa da
anos, o Comissariado da Ordem do Carmo portuguesa ainda activo na primeira metade do séc. XIX. Senhora, em procissão à igreja e, pouco depois, um
envia um visitador que, entre outras coisas, orienta alvará régio criava a Feira de N. Sr.a do Carmo, a
o tríduo da festa de N. Sr.a do Carmo e confessa os ocorrer no terreiro do templo, entre 16 e 18 de
irmãos. Um grupo, composto por mais de 50 Julho de cada ano, sendo feira franca, cujos
elementos, costuma ser assíduo ao Encontro da rendimentos seriam aplicados nas obras pias dos
Família Carmelita que, na Quaresma, ocorre em Terceiros. Ciosos do seu património, os mesários
Fátima (Casa Beato Nuno). Em Camarate, hoje vila ajustaram notarialmente com o entalhador farense,
do Concelho de Loures, outrora do Concelho dos Gaspar Martins, a feitura de um retábulo para a
Olivais, se fundou, em terras herdadas do património imagem da Padroeira, retábulo esse terminado por
de Nuno Álvares Pereira, no ano de 1602, um volta de 1739 e, além deste, a tribuna e o sacrário.
convento dos Carmelitas Observantes, numa quinta A igreja da ordem terceira de Faro é um modelo de
que, mais tarde, foi arrasada por causa do aeroporto obras-primas em talha, tanto em altares como em
de Lisboa. À sombra conventual surgiu um sodalício imagens, sendo a sacristia considerada uma das mais
de Terceiros, já activo em 1654. Incorporava belas do nosso país. Merecem registo outras obras,
Igreja da Ordem Terceira do Carmo, Faro (DB)
numerosas senhoras, isto é, Terceiras, várias delas incluindo as pinturas da Virgem do Leite, de Cristobal
pertencentes a nobres famílias, algumas das quais Gomez e a Sagrada Família, de um pintor chamado
deixaram testemunho de caridade, ascese e piedade. A fundação em Faro é uma das principais, tendo Coello e que um irmão terceiro (Dr. Amadeu Ferreira
A ordem terceira de Camarate manteve-se activa, sido criada a instância do Bispo D. António Pereira de Almeida) achou e adquiriu no Chile e ofertou à
mesmo depois da expulsão dos Monges Carmelitas, da Silva, em 1712, e aprovada pelo Vigário Provincial Ordem. No complexo dos Terceiros há também uma
ainda se registando a profissão de uma senhora em Fr. José de Jesus Maria, que se deslocou a Faro, famosa capela dos ossos, construída gratuitamente
1920, pelo que o sodalício venceu as dificuldades onde preparou os candidatos, aos quais pregou sete em 1816 por vários irmãos pedreiros, que
da Lei da Separação de 1911. Não consta que esteja sermões no mês de Abril daquele mesmo ano. Lançou aproveitaram as ossadas de um cemitério adjunto.
activa. À sombra do Convento de Sant’Ana de então o hábito terceiro a inúmeras pessoas de todas Teve uma existência moral e regular até à
Colares, terá existido um sodalício da Ordem Terceira, as condições sociais, incluindo eclesiásticos, não só exclaustração das ordens religiosas, ficando na
cuja actividade terá cessado com a exclaustração da cidade mas de localidades suburbanas. Logo se memória as grandes procissões ou triunfos que, nos
dos monges recolectos ali residentes. Quanto a constituiu a primeira Mesa, tendo sido eleito o sécs. XVIII e XIX, se levavam a efeito em honra de
Coimbra, dada a presença dos Carmelitas mencionado Bispo para Prior Perpétuo, enquanto santos carmelitas. Quanto ao terreiro da Feira, a sua
Observantes nesta cidade (Colégio e Igreja da que o sobrinho, Francisco Pereira da Silva, Coronel propriedade foi confirmada à Ordem, em 1719, dele
Conceição ou do Carmo), alguns autores referem a de Infantaria, foi eleito Superior. Os Estatutos foram podendo dispor segundo os seus interesses, bastando
existência de uma ordem terceira sediada na mesma aprovados a 3 de Junho de 1712, pelo mesmo vigário deixar serventia para passagem do povo, e das
igreja e assistida pelos frades colegiais, mas há falta provincial, envolvendo as funções de Comissário, viaturas. Mantendo obras pias, a ordem terceira
de documentação que ateste a sua existência. Se Prior, Vice-Prior, Secretário, quatro Definidores, um farense conserva um importante arquivo documental,
de facto existisse, e como seria lógico, a seguir à Tesoureiro da Cera e três Zeladores de Culto Divino. relativo à instituição, sempre gerida por irmãos
lei de Joaquim António de Aguiar a igreja seria A jurisdição espiritual cabe ao Padre Comissário esclarecidos e empenhados, que são muitos.
entregue à Ordem Terceira Carmelita, quando, na nomeado pela Ordem dos Carmelitas (Primeira Administra o Centro Social de N. Sr.a do Carmo.
verdade, foi consignada (1835) à Ordem Terceira de Ordem), a jurisdição temporal encontra-se incumbida O Sodalício do Funchal foi fundado em 1652, pelo
São Francisco de Coimbra. à Mesa e aos Irmãos, sendo as decisões tomadas P.e Luís do Rosário, na Igreja de N. Sr.a da Encarnação,
Na cidade de Évora, a par do Convento Carmelita, por votação. Os Estatutos definem também as normas que veio a pertencer ao Convento das Clarissas.
criou-se, em 1691, um sodalício servido pelas pessoas de admissão e os direitos e deveres dos Irmãos. Logo A primeira Mesa (Prior, Tesoureiro, Secretário,
de maior distinção da cidade. Todavia, aquela data se instituiu o costume da procissão solene, que se Procurador, Enfermeiro-Mor, Vigário do Culto Divino,
pode ser a da instituição canónica, porque já antes, realizou pela primeira vez a 26 de Maio de 1712, Mestre de Noviços, Mordomo dos Presos e Andador)
em 1679, aparece documentação relativa às eleições levando a imagem da Senhora do Carmo (pertença tomou posse a 25 de Junho de 1653, sendo evidente,
de juízes e de mordomos. Do compromisso, faziam do bispo), que foi entronizada (Agosto de 1712) na pelos cargos que a compunham, que a Ordem
parte as obrigações relativas aos sermões nas quartas- mesma Igreja da Esperança, onde a Ordem Terceira, Terceira previa dedicar-se ao serviço de apoio a
-feiras de Quaresma e as procissões dos Passos e do para todos os efeitos, tinha a sede provisória. Com doentes e a presos. Três anos depois da fundação,
Triunfo (Domingo de Ramos). O sodalício foi visitado, efeito, logo em 1713, foi lançada a primeira pedra em 1656, iniciou-se a construção de uma igreja
em 1694, pelo P.e Geral Feijó de Villalobos, que o da igreja da ordem terceira de Faro, mesmo sem própria, cujos custos foram, em grande parte,
confirmou e motivou os irmãos para a união. prévia licença régia, apenas com o beneplácito suportados por irmãos de posses. No conjunto,
A ordem terceira eborense assinou um protocolo episcopal, ao mesmo tempo que se construía uma sobressai o altar-mor, o retábulo, os altares laterais

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ORDENS E CONGREGAÇÕES MASCULINAS CARMELITAS TERCEIROS OBSERVANTES

e os tocheiros de prata, além de diversas imagens. tempo de Nuno de Santa Maria. Contudo, Lisboa se deve a iniciativa do processo de beatificação,
Mediante compromissos de devotos, a igreja foi documentação credível afere o início da sua existência em 1918, de Nuno Álvares Pereira e, mais tarde, da
dotada de várias capelanias, tendo alguns dos irmãos ao ano de 1629, sendo a capela sede no ano de sua canonização. Relativamente a Moura, apesar da
fundadores e os mais importantes sido enterrados 1638, no próprio Convento do Carmo. Além disso, sua antiguidade na história do Carmelo Lusitano,
dentro da igreja, em sepulturas próprias identificadas. já antes de 1629 funcionava lá uma irmandade, admite-se que uma ordem terceira local só foi criada
Com vista a atender espiritualmente a Ordem Terceira, cujos irmãos se chamavam Terceiros, ainda que sem por volta do terceiro decénio do séc. XVII, dela tendo
fundou-se o Hospício de N. Sr.a do Carmo. Nascida rigor canónico. Os Estatutos foram redigido