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COLECAO “ENSAIO & TEORIA” Dirigida por Luis Felipe Baéta Neves (0 Jogo ea Consttuipao do Sujeito na Dialética Socal (Circe Vital Brasil) ‘Memérias do Social (Henri Pierre Jeudy) ‘Comportamento eContracontrole Social crénica do behaviorismo radical ide Skinner (Celso Pereira de Sa) ‘As Méscaras de Deus e @ Totalidade Totalitiria (Luis Felipe Basta Neves) Michel Maffesoli 0 Tempo das Tribos v 0 declinio do individualismo {B28 sociedades va a de massa Arosa e Late Felipe Bata Neves ‘Traduglo de Marta de Lourdes Menezes Revist erica de Arno Voge aot in epi aa oe ToWroRArousGeesvnasagia Para Raphaele, Sarah-Marie, Emmanuelle PREFACIO A SEGUNDA EDIGAO ‘ritos © Pés modernidade ‘Ja mencionei anteriormente que o que melhor poderia carac- terizar a pés-modernidade era o vinculo que estava sendo estabo- Tecido entre a ética ea estética.! O que pretendia dizer com isso 6 ‘queen via o novo vineulo social (ethos) surgindo a partir da emogao compartilhada ou do sentimento coletivo. Portanto, em ver de ver ai uma frivolidade qualquer & disposigao de alguns, vanguarda, boémia artistica, talvez estivéssemos mais inspirados se deseo: brissemos nesta coletivizagdo dos sentimentos um dos fatores essenciais da vida social que est em vias de (relnascer nas sociedades contempordneas, [Nao nos esquegamos que tal perspectiva se insere, hi muito tempo, na tradigdo intelectual francesa: os surrealistas, certa~ ‘mente, mas também G. Bataille e, mais recentemente, Michel Foucault, Em cada um desses casos, com nuangas de real impor- ‘aneia, o destaque é dado a uma perspectiva global, holistica, que integra a vivencia, a paixdo eo sentimento comum. Reconhecemos |i uma maudanga importante de paradigma: em ver de dominar 0 ‘mundo, em ver de querer transformé-lo.oumudé-lo trés atitudes prometeanas ~ n6s nos dedicamos a nos unirmos a ele através da “contemplago”. A prevaléncia da estética, a perspectiva ecolégi a, a ndo-atividade politica, as diferentes formas do souci de soi e (08 diversos cultos do corpo so, na realidade, nao importa 0 que possam parecer, formas desta “contemplagio™ Em cada um de todos esses easos, sera a ambientagao do tempo e do lugar que ira determinar a atividade, a eriagao: quer seja a eriagao maiiscula das obras de cultura, ou a criagio rmicrosedpica da vida do cotidiane. Mas, nao nos esquegamos, 0 Cf Avs Crus des Apparncs 190) tad prtuateB Vous 1986 que va de soi faz.comunidade. E nesse sentido que o que eu chamei dde “orgiasmo” & matricial. E verdade, so momentos em que ‘oboecados pelo “fazer”, 0 aspecto racional das coisas, 0 ativismo social, nés vamos minorizar esta abordagem “ambiental”. Dai em diante, tudo 0 que nao podemos contar, que nao conseguimos ‘medir, tudo o que € de ordem do evanescente e do imaterial € considerado como quantidade desprezivel. (Sao muito diferentes as épocas em que renascem a preocu pacio com o estar juntos e a estranha pressio que nos impulsiona para 0 outro, Historicamente, o barroco é da quantidade, e em rossos dias os diversos agrapamentos de vida corrente repetem a mesma coisa, Trata-se ai de um verdadeiro “uso dos prazeres” sobre o qual Michel Foucault soube to bem mostrar a importan- cia societal Assim, vemos que o ambiente tem uma fungéo: a de criar um corpo coletivo, de modelar um ethos. E 0 que nos ensina ‘historia da arte nao deixa de encontrar repercussio em outras situagies mais profanas, onde se exprime uma “ligagao” nao ‘menos importante. Quanto a isso, basta pensar nas reunides musicais, esportivas ou de consumo para medir esta fungao con- tempordnea, ‘Mudanga de cultura, ndo se dird mais o Stimmung de uma paisagem, ou de uma catedral, mas se falara de feeling de uma Telagao, do sentimento induzido por um lugar, ou de outras categorias no menos vaporosas para descrever um “situacionis- ‘mo” amorogo, profissional ou cotidiano de conseqdéneias nao despresiveis dentro da “eriagao", em sua aceitagao a mais extensa de uim periodo predeterminado. F assim que podemos compreen- er e analisar esse fendmeno espantoso que 6a moda, que nasce dda necessidade de se singularizar, mas que nao pode existir a ser seeretando a imitagao mais banal. A moda, no trajar, na ‘deologia ou no linguajarete., traduz bem esta “inflagao do senti mento" (G, Simmel) suscitada pela atmosfera ambiente, © individuo nao é, ou nao é mais, mestre de si. © que nao quer dizer que ele nao seja ator. Ele oé,naverdade, masa maneira daquele que recita um texto escrito por outra pessoa. Ele pode ‘acrescentar a entonacdo, com mais ou menos ealor, eventualmen- te introduzir uma réplica, no entanto, ele continua prisioneiro de ‘uma forma que ele nao pode, em nenhuma hipstese, madifiear por vontade prépria. Nesses tempos em que & de bom-tom falar sobre individualisme, quando é dificil questionar esse pensamento con- vencional, nao ¢ imitil lembrar a evidéneia empirica da imita furiosa, desse instinto animal que nos impulsiona em geral a “fazer como os outros”. Simmel via nisto um fendmeno sociologico dos mais instrutivos: “o individuo se sente conduzido pelo ambi- cente palpitante das massas como que por uma forga exterior, indiferente ao seu ser ou A sua vontade individuais. Mesmo que, contudo, esta massa seja constituida exclusivamente de tais indi. vidos"! ‘Ao elaborar a sua ética da simpatia, M. Scheler se dedica a ‘mostrar que ela nao é nem essencialmente, nem exclusivamente social. Ela seria uma forma englobante, matricial, de certo moda E esta hipétese que eu formularei por minha ver. Seguindo a ‘comparagao das histérias humanas, depois de terem sido minor zadas, esta forma estaria novamente presente, Bla privilegiaria « fungio emocional e os mecanismos de identificagho e de partici- pagao que vém a seguir. O que ele chama de “teoria de identifica 80 da simpatia” permite explicar as situagies de fusdo, esses momentos de éxtase que podem ser regulares, mas que podem ‘gualmente caracterizar 0 clima de uma época.t Esta teoria da identificagao, esta saida estatica de si esta em. perfeita congrudneia com o desenvolvimento da imagem, com aquele do espetdculo (do espetaculo stricto sensu nas paradas politicas) e, naturalmente, com aquele das multidées esportivas, {das multidoes de turistas ou simplesmente com as multidoes de esocupados. Em todos esses casos, assistimos & superagio do rincipium individuationis, que era © nome de ouro de toda organizagio e teorizagdo sociais, ‘Serd mesmo necessdrio, como sugere M. Scheler, uma grada- so entre “fustio”, “reprodugio” e “participagao” afetivas. Seria ‘melhor, a meu ver, e apenas a titulo heuristico, estabelecer uma nebulosa “afetual” de uma tendéncia orgidstica ou dionisiaca, AS explosdes orgidsticas, os cultos da possessao, as sitiagdes fusio- nais sempre existiram. Mas, as vezes, eles tomam um ar endémico Sine, Gore, Sil piatmotae Pai, 198, 16 "Sehlor Me Aauree rms dla Spat Pan Pa Wah p 19 ng, MBAS se tornam preeminentes na consciéncia coletiva. Sobre alguns ‘assuntos née vibramos em unissono, Halbwachs fala sobre isso ‘como “interferéacia coletiva”® Esta nebulosa “afetual” nos permite compreender a forma especifiea que toma a sociabilidade em nossos dias: 0 vaivém de ‘nossa tribos, De fato, diferentemente do que prevaleceu nos anos 170, se trata menos de se agrogar a um grupo, a uma familia ou a uma comunidade do que o ire vir de um grupo a outro E 0 que pode dar a impressdo de uma atomizagao, eo que pode fazer falar erroneamente em narcisismo, De fato, contraria- ‘mente a estabilidade induzida pelo tribalismo clssico, o neotri- balismno 6 caracterizado pela Muidez, as reunides pontuais e a dispersao. B assim que pademos descrever 0 espetdculo das ruas ‘das megalopoles modernas. O adepto do jogging, 0 punk, o look retro, 0 bom mogo elegante, os “apresentadores de televisdo” nos ‘onvidam a uma viagem incessante. Através de sedimentagies Ssucessivas, se forma um ambiente estético. E é no interior desses ‘ambientes que regularmente podem ocorrer estas “condensacoes instantaneas, res, mas que naguele momenin si objeto de ‘um grande investimento emocional. Besse aspecto sequiencial que permite falar de superagao do principio de individualizagio. is a constatagao que O Tempo das Tribos pretende propor. Como podemos ver, trata-se de uma proposta importante cujas consequéncias, epistemolégicas e sociais, ainda devem ser explo- rradas. Mas é a compreensiio que as ciéncias humanas saberdo ter desta proposta que Ihes permitiré, ou nao, responder aos intime- +08 desafios langados pola pis-modernidade neste fim de séeulo. O Autor APRESENTACAO Laie Felipe Batta Neves ‘A publicagio de um novo livro de Michel Maffesoll no Brasil suscita algumas reflexées sobre sua obra e... sobre n6s proprios. Quais os efeitos que o trabalho de Michel Matfesolt pode acarretar; o que ele revela de nés enquanto “poro”; 0 que exibe, por contraste, de nassas maneiras intelectuais de “tazer ciéncia”? Fico, nesta Apresentacso, especialmente voltado para os cefeltos que 0 tempo das tribos pode ter para a teoria social tal ‘como é (por muitos) praticada entre nés. Minha primeira observagio é sobre a critica (a pritica) ‘affesoliniana ao eariter normativo e judicativo que as “clén- clas sociais” tendem a assumir. Julgamentas de valor que, fina- listas, ve voltam para a “implantagéo do Futuro” e que, por ‘indole, menosprezam o presente (a vida) e 0 conjuntural. Como se a Historia, que tanto louvam, se desse fora do presente € da conjuntura; ¢ como se essa Deusa precisasse de arautos. ‘Arautos que, revestidos do manto do Saber (¢ de feu Poderes), ‘Bo querem falar apenas em seus préprlos nomes, mas que ‘teimam em falar em nome do Povo, da Justica, da Moral No lugar dessa palxio pelo ventriloquismo dos Demiurgos Cientistas, to conhecida quanto pouco estudada entre n6s, ‘M. Maffesou! prope uma outra: a palxio pelo social tal como fle é, tal como ele se dé, e nio como deveria ser. Esse respelto Pelo objeto (vivido e) analisado mio 6 sindnimo de apologia ‘pelo estabelecido ou elogio da inigildade. © movimento ests patente em todo 0 esforgo de compreensio felto; apenas ele ‘escapa aos teleologismes e 20s moralismas.