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Fundamento dos

Direitos Humanos

Fábio Konder Comparato

Texto disponível em www.iea.usp.br/artigos
As opiniões aqui expressas são de inteira responsabilidade do autor, não refletindo necessariamente as posições do IEA/USP.

Fundamento dos Direitos Humanos1

Fábio Konder Comparato2

Na “era dos extremos” deste curto século XX, o tema dos direitos humanos afir-
mou-se em todo o mundo sob a marca de profundas contradições. De um lado, logrou-se
cumprir a promessa, anunciada pelos revolucionários franceses de 1789, de universaliza-
ção da idéia do ser humano como sujeito de direitos anteriores e superiores a toda organi-
zação estatal. De outro lado, porém, a humanidade sofreu, com o surgimento dos Estados
totalitários, de inspiração leiga ou religiosa, o mais formidável empreendimento de supres-
são planejada e sistemática dos direitos do homem, de toda a evolução histórica. De um
lado, o Estado do Bem-Estar Social do segundo pós-guerra pareceu concretizar, definiti-
vamente, o ideal socialista de uma igualdade básica de condições de vida para todos os
homens. De outro lado, no entanto, a vaga neoliberal deste fim de século demonstrou quão
precário é o princípio da solidariedade social, base dos chamados direitos humanos da se-
gunda geração, diante do ressurgimento universal dos ideais individualistas.
Tudo isto está a indicar a importância de se retomar, no momento histórico atual, a
reflexão sobre o fundamento ou razão de ser dos direitos humanos.

A NOÇÃO FILOSÓFICA DE FUNDAMENTO E SUA
IMPORTÂNCIA EM MATÉRIA DE DIREITOS HUMANOS

Na linguagem filosófica clássica, não se falava em fundamento e sim em princí-
pio. Em conhecida passagem de sua Metafísica,3 Aristóteles, exercitando o gênio analítico
e classificatório que o celebrizou, atribui à αρχη (arquê) várias acepções. Em primeiro
lugar, o sentido de começo de uma linha ou de uma estrada, ou então, o de ponto de partida
de um movimento físico ou intelectual (o ponto de partida de uma ciência, por exemplo). É
também considerado princípio, segundo Aristóteles, o elemento primeiro e imanente do
futuro, ou de algo que evolui ou se desenvolve (as fundações de uma casa, o coração ou a
cabeça dos animais). O filósofo lembra, igualmente, que se fala de princípio para designar
a causa primitiva e não imanente da geração, ou de uma ação (os pais em relação aos fi-
lhos, o insulto em relação ao combate). Assinala, ainda, que a palavra pode ser usada para
indicar a pessoa cuja vontade racional é causa de movimento ou de transformação; como,

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em outras palavras. diz respeito à possibilidade de um conhecimento a priori de objetos. ela visa a encontrar a justificação (Rechtfertigung) da validade objetiva e geral de um fundamento determinante (Bestimmungsgrund) da vontade. no pensamento kantiano tem origem num raciocínio tipicamente jurídico. ou seja. as premissas em relação à conclusão. com A Religião nos Limites da Sim- ples Razão. O desenvolvimento da noção de princípio para fundamento. Como se vê. em matéria de direito ele cuida de encontrar e demonstrar as razões justificativas. Ora. ou. o qual não é outro senão o que Kant denominou imperativo categórico. afirmando que princípio é sempre “a fonte de onde derivam o ser. apresentado na Crítica da Razão Pura. É a partir de Kant que ela começa a ser empregada também nesse campo. enquanto a “dedução transcendental”. ou o regime político de modo geral. os governantes no Estado.5 que serve de fundamento último para todas as ações humanas. a condição primei- ra da existência de algo. a dedução transcendental no campo ético toma claramente a acepção de razão justificativa. Em sua introdução geral à filosofia ética. entre a questão jurídica (quid iuris) e a questão de fato (quid facti). uma “lei prática incondicio- nal” ou absoluta. em torno da noção de dedução transcendental (transzendent Deduktion). a noção de princípio ético. numa demonstração lógica. no campo da razão sensitiva pura. foi inteiramente substituída pela de fundamento (Grund). considerou princípio. significativamente denominada Funda- mentos para uma Metafísica dos Costumes. Kant afirma que a resposta a essa indagação só pode ser en- 2 . quando tratam de autorizações ou pretensões de agir. Interrogando-se. isto é. e visa a encontrar.6 Ao concluir sua reconstrução da filosofia ética. que formam a legitimidade (Rechtsmässigkeit) da conclusão. enquanto em questões de fato o profissional do direito procura provas. sob a acep- ção de razão justificativa de nossas ações. Assim. unificou todas essas acepções da palavra. no sentido de razão justificativa. a noção de arquê. semelhante à causalidade do campo da natureza. uma razão justificativa para a lei moral. Arrematando. denominando a demonstração da quaestio iuris uma dedução. a geração. em matéria de razão prá- tica. ou o conhecimento”. pouco tinha a ver com a ética. sobre a bondade ou a maldade da natureza humana. assim. em cada caso. distinguem. em última instância. Esse fundamento último da moralidade só pode ser a liberdade.4 Lembra Kant que os juristas. no pensamento aristotélico.por exemplo. Ademais. o “su- premo princípio da moralidade” (das oberste Prinzip der Moralität).

hoje. isto é. sem preconcei- tos de origem. IV . IV .garantir o desenvolvimento nacional. A Constituição Federal de 1988. por sua vez. qual o fundamento último do poder constituin- te? Ainda estaremos. II . de uma família.o pluralismo político” (art. ou então num princípio ético. a organização social baseada exclusi- 3 . o direito positivo brasileiro. ainda que superficialmente. como bem observaram os pensadores políticos. aí. no sentido de ser pos- to como algo que antecede a todo o uso da liberdade. tendo por fundamento a Constituição. de um estamento. deve ser tido como inato. Mas. se analisarmos. no campo do direito? Não parece haver dúvida de que o poder constituinte encontra seu fundamento úl- timo. que transcende a autoridade dos constituintes.a dignidade da pessoa humana.Por que a norma vale e deve ser cumprida? É unanimemente aceita. indubitavelmente. sob a forma de máximas (subjetivas) de comportamento. sob a forma de “objetivos fundamentais”: “I . sexo.a cidada- nia. Esse primeiro fundamento. a qual se fun- da. ou num fato . verificaremos que o termo fundamento é empregado sempre com o sentido nuclear de ra- zão justificativa ou de fonte legitimadora. a noção de fundamento diz respeito à vali- dade das normas jurídicas e à fonte da irradiação dos efeitos delas decorrentes.. numa razão justificativa de conduta.os valores sociais do trabalho e da livre inici- ativa. V . levando a indagação até o fim. a idéia de que o ordenamento jurídico interno forma um sistema hierarquizado de normas. III . isto é. idade e quaisquer outras formas de discriminação”. Pois bem. não poden- do ser um fato apreciável pela experiência. justa e solidá- ria. as fontes legitimadoras de nossa organização política. na filosofia ética de Kant passa a significar razão justificativa. cor. Essas razões justificativas da República brasileira são explicitadas. de um partido político.erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais. tem como fundamentos: I . por exemplo.. II . (. no art. a força dominadora de um indivíduo. 3º. Ora.construir uma sociedade livre. a razão de ser de toda a organi- zação estatal. no chamado poder constituinte. Já no campo da teoria geral do direito.). raça. 1º). que enquanto em Aristóteles princípio ou fundamento significa essen- cialmente a fonte ou origem de algo. ou de uma classe social -.contrada num “primeiro fundamento” da aceitação pelo homem do bem ou do mal.7 Temos.promover o bem de todos. Indicam-se nessa norma. abre-se com a declaração de que “a República Federativa do Brasil. III .a soberania.isto é. Em outras palavras: . pois.

encontra-se na filosofia estóica. aquele que quer levar uma vida feliz. inflama sua alma com o fogo da desmedida (hubris). Ela é sempre se- guida de perto pela Justiça. convencido de que não precisa de um chefe. a grande explicação teísta do homem e do mundo se encontra na última fase do pensamento de Platão. ou não.716 b). a completa revolução. fazer ou pensar o homem sábio? CLIN. Na filosofia grega clássica. que deve. um homem desses é abandonado pela Divindade. enquanto muitos i- maginam que ele é alguém importante. e que ele possui tudo o que é necessário para conduzir seus seme- lhantes.vamente na força não tem condições de subsistir. segundo outros. realiza. o grande exemplo clássico de justificação ética da conduta humana. enquanto o outro. segundo uns. A moral dos estóicos. Até a Idade Moderna. de um guia.: Ao menos isto fica claro: é que todo homem deve se dizer em pensamen- to que ele cerrará fileiras com aqueles que cortejam a Divindade! Sem dúvida.: ‘Cidadãos’ (eis o que deveríamos dizer-lhes). exaltado pelo orgulho. ele fica só consigo mesmo. o meio e o fim de tudo o que e- xiste. a justificativa ética que servia de fundamento ao direito vi- gente apresentava-se sempre como transcendente: a divindade. semeia em todo lugar a desordem e a confusão. ou ainda pela beleza de suas formas ao mesmo tempo que pela inexperiência de sua juventude e pelo desatino. nesse abandono. cujos passos segue humildemente. figurou ele o momento decisivo da fundação da nova cidade pelo diálogo seguinte: O ESTRANGEIRO ATENIENSE: Depois disso. que diremos então? Não deve- mos supor nossos colonos reunindo-se em nossa presença? E não seria o caso de eles prosseguirem nesse propósito até o fim? CLÍNIAS: Por que não. segun- do antiga tradição. ajuizadamente. ou a natureza. Na frase lapidar de Rousseau. sem o recurso à divindade. que mui- 4 . Mas. uma pena irre- corrível: ele se arruína completamente e. que vinga a lei divina ao castigar os que dela se sepa- ram: a Justiça. por exemplo. sob a força do braço vingador da Justiça. tem em suas mãos o começo. portanto. juntamente com ele. ele convoca outros homens. o princípio ético. se não faz da sua força um direito e da obediência um dever". que tranqüilize a consciência social. "o forte não é nunca bastan- te forte para ser sempre o senhor. Ora. no entanto. diante de uma situação dessas. pois carece de uma justificativa ética. com efeito? ATEN. entendida como princípio fundamental de todos os seres. ao cabo. pela via reta da Natureza.8 Resta. excitado pe- las riquezas ou pelas honrarias. e. ele avança insensa- tamente. sua própria casa e a Cidade a que pertence. ‘a Divindade. de um tempo não muito longo ele sofre. que. No diálogo As Leis (715 b .

ao oferecer o espetáculo de uma impressionante variedade de costumes. a ressurreição da moral naturalista estóica e a construção do chamado jusnaturalismo (as leis positivas. o colossal esforço tomista de conciliação da razão humana com a revelação divina. sempre igual a si mesmo). mas se encontra no pressuposto lógico (o “contrato social”. legitimada de acordo com princí- pios também anteriormente estabelecidos e aceitos. porém. quando forem editadas segundo um processo regular (isto é. Essa pesquisa orientou-se em dois sentidos: de um lado. o antinaturalismo ou volunta- rismo de Hobbes. o fundamento do direito não é transcendental ao homem e à sociedade. tinha como princípio supremo. sem dúvida como reação ao escândalo das guerras de religião (católicos v. que irrompe no campo ético-religioso com a "crise da consciên- cia européia" do séc. torna difícil a aceitação de uma única revelação divina como funda- mento absoluto da ética. XIX. já no séc. deu à lei natural uma posição eminente. XVII. têm a sua validade fundada no direito natural. segundo o qual a sociedade política funda-se na ne- cessidade de proteção do homem contra os riscos de uma vida segundo o "estado da natu- reza". XVII. É a explicação formal da validade do direito. É certo que a atual ascensão das tendên- cias fundamentalistas representa uma reação importante contra o laicismo moral. que se tornou concepção predominante a partir do séc.to influenciou os juristas romanos. iniciou-se na Europa Ocidental a pesquisa de um fundamento exclusivamente terreno para a validade do direito. a criação de uma rede universal de informações. Segundo a teoria positivista. protestantes). graças ao progresso das telecomunicações.9 A Idade Moderna.10 assistiu ao esfacelamento dos fundamentos divinos da ética. de outro lado. é a sua incapacidade (ou formal recusa) em encontrar um fundamento ou razão justificativa para o direito. onde prevalece a insegurança máxima. ou a norma fundamental) de que as leis são válidas e devem ser obedeci- das. "viver segundo a nature- za" (Zenão). sem recair em mera tautologia. ao mesmo tempo. organizado por regras aceitas pela comunidade) e pela autoridade competente. A grande falha teórica do positivismo. Mas. da sabedoria clássica com a iluminação cristã. O fun- 5 . de formação judaico-cristã. na cultura ocidental. Na Idade Média. Ela seria “a participação da lei eterna pela criatura racional” (patet quod lex naturalis nihil aliud est quam participatio legis aeternae in rationali creatura). como as experiências totalitárias do século XX cruamente demonstraram. Seja como for. crenças e religiões. Locke e Rousseau. em todos os países. Esse antinaturalismo é a matriz do positivismo jurídico.

não encontra outra razão justifi- cativa ética. como sua causa transcendente. Analogamente. Para corroborar essa opinião. 6 . na ausência de uma razão justificativa exterior e superior ao sistema jurídico. ainda que esta se baseie numa Constituição formalmente promul- gada. pois a sua validade deve assentar-se em algo mais profundo e permanente que a ordenação estatal. A argumentação é. enquanto tal. em segundo lugar. Ora. ou a legitimidade da criação de um novo Estado. a questão do fundamento dos di- reitos humanos. os direitos humanos formam uma categoria heterogênea. em seu conjunto. um regime de terror. não podendo pois nunca. porque tais valores não se justifi- cam. o fundamento de todos os valores: o próprio homem. a razão justificativa última dos valores supremos encontra-se no ser que constitui. muito fraca e não honra a celebrada argúcia lógica do seu autor. não se pode fundar os direitos humanos nos valores supremos da convivência humana.damento ou princípio de algo existe sempre fora dele.12 Norberto Bobbio sustenta que toda pesquisa sobre um fundamento absoluto dos direitos humanos é. mas numa causa que os transcende. não se encontram em si mesmos. ademais. Em conferência pronunciada em 1967. apresenta três argumentos principais: em primeiro lugar. quando todo o problema situa-se numa esfera mais profunda. A importância dos direitos humanos é tanto maior. é justamente aí que se põe. sob o aspecto lógico e ontológico. além de indefinível e variável. senão a sua própria subsistência.11 Assim. assumem-se. ser confundido com um de seus elementos componentes. a expressão “direitos humanos” é muito vaga e mesmo indefinível. o fundamento do poder constituinte. Mas porventura já se chegou a apresentar uma definição precisa e indisputável do que seja direito? Para Bobbio. Ora. quanto mais louco ou celerado o Estado. Sem dúvida. trata-se de uma categoria variável conforme as épocas históricas. imposto por autoridades estatais investidas segundo as regras constitucionais vigentes. e que exercem seus poderes dentro da esfera formal de sua competência. a rigor. Tudo isto significa. infundada. sobretudo após uma revolução vitoriosa. O positivismo contenta-se com a validade formal das normas jurídicas. correspondente ao valor ético do direito. que a afirmação de autênticos direitos humanos é in- compatível com uma concepção positivista do direito. a ciência jurídica ainda não logrou encontrar uma definição rigorosa do conceito de direito humano. por ocasião de um congresso sobre o fun- damento dos direitos humanos. em si mesmo. de forma aguda.

já não deve ser procurado na esfera sobrenatural da revelação religiosa. A Constituição da República Ita- liana. em dignidade e direitos" (art. Porventura a catego- ria geral dos direitos subjetivos não é reconhecidamente heterogênea? Por causa disso. considerado em sua dignidade substancial de pessoa. senão o próprio ho- mem. todos direitos. a sua referibilidade em conjunto ao homem todo e a todos os homens tem sido incontestavelmente invariável. Uma das tendências marcantes do pensamento moderno é a convicção generalizada de que o verdadeiro fundamento de validade . de 27 de dezembro de 1947. Dizer que não se pode dar um fundamento absoluto a direitos historicamente relati- vos é laborar em sofisma. O próprio autor reconhece que há direitos que valem “em qual- quer situação e para todos os homens indistintamente: são os direitos que se exige não se- jam limitados nem na ocorrência de casos excepcionais nem com relação a esta ou aquela categoria. se a identificação dos diferentes direitos humanos varia na História. diante da qual as especifica- ções individuais e grupais são sempre secundárias. ainda que restrita. O que significa que esse fundamento não é outro. o seu valor deriva. nem tampouco numa abstração metafísica . nenhuma surpresa pode suscitar o fato de que a categoria geral dos di- reitos humanos compreende direitos específicos de diversa natureza. Por último. direitos abso- lutos. por exemplo. Se o direito é uma criação humana. de pertencentes ao gênero humano. como se dirá mais abaixo.como essência imutável de todos os entes no mundo. Os grandes textos normativos.a natureza . como. abre-se com a afirmação de que "todos os seres humanos nascem livres e iguais. o direito de não ser escravizado e de não ser torturado”.é um ser es- sencialmente histórico. e não apenas os fundamentais. posteriores à 2ª Guerra Mundial. 1º).a pessoa humana . portanto. aprovada pela Assembléia Geral das Nações Unidas em 1948.do direito em geral e dos direitos humanos em particular . Na verdade. consagram essa idéia. E de qualquer maneira. ou rejeitar como logicamente im- prestável esse conceito? A DIGNIDADE DO HOMEM COMO FUNDAMENTO DOS DIREITOS HUMANOS. declara que “todos os cidadãos têm a mesma dignidade 7 . são historicamente relativos porque a sua fonte primária . justamente.13 Estes são. haveremos de negar a existência de direitos subjetivos. A Declaração Universal dos Direitos do Homem. da- quele que o criou.

III). Os deuses antigos. proclama solene- mente em seu art. por sua vez. tinha sempre conotação positiva: significava mérito e indicava também cargo honorífico no Estado. ela própria desenvolvida a partir da crítica aos conhecimentos cientí- ficos acumulados em torno de três pólos epistemológicos fundamentais: o pólo das formas simbólicas. no campo das ciências da cultura. Em resposta aos queixumes de Jó. que procurava julgar os atos divinos segundo os critérios da justiça humana. o respeito à lei e aos direitos alheios são o fundamento da ordem política e da paz social” (art. “são como a relva: ele floresce como a flor do campo. de certa forma. é adjetivo ligado ao verbo defectivo decet (é conveniente. como super-homens. e o da natureza. A nossa Constituição de 1988. Diante dele. de toda a história humana. o do sujeito. decoro). uma das maiores. no campo das ciências do indi- víduo e da ética.social” (art. baseada na dignidade da pessoa humana e na vontade popular e empenhada na construção de uma sociedade livre. foi usado tanto para louvar quanto para depreciar: dignus lau- de. 1º . Iahweh. Dignus. 3º). como disse o salmista. a dignidade humana? Para responder a essa pergunta é preciso tomar posição sobre a essência do ser hu- mano. de 1949. ao contrário. é apropriado) e ao substantivo decor (decência. na língua latina. 8 . põe como um dos fundamentos da República "a dignidade da pessoa humana" (art. justa e solidária”. Para a Constituição Espanhola de 1978. os direi- tos invioláveis que lhe são inerentes. dignus supplicio. Respeitá-la e protegê-la é dever de todos os Poderes do Estado". aliás. este deveria ser apresentado como o fundamento do Estado brasileiro e não apenas como um dos seus fundamentos. A teoria fundamental dos direitos do homem funda-se. mui- to ao contrário. No sentido qualificativo do que é conveniente ou apropriado. Analogamente. o livre desenvolvimento da personalidade. implacável e soberbo: “Onde estavas. roça-lhe um vento e já desaparece. e ninguém mais reconhece seu lugar” (Sal- mo 103). como criador de tudo o que existe. numa an- tropologia filosófica. “a dignidade da pessoa. os dias do homem. A grande (e única) invenção do povo da Bíblia. ao certo. o pensamento ocidental é herdeiro de duas tradi- ções parcialmente antagônicas: a judaica e a grega. Iahweh interpela. é anterior e superior ao mundo. faziam parte do mundo. Na verdade. necessariamente. A Constituição da República Federal Alemã. 1º: "A dignidade do homem é inviolável. no campo das ciências biológicas. O substantivo dignitas. foi a idéia da criação do mundo por um Deus único e transcendente. 10).15 A respeito da dignidade humana. a Constituição Portuguesa de 1976 abre-se com a proclamação de que “Portugal é uma República soberana.14 Mas em que consiste.

Graças às suas habilidades. cruéis para quem não possui outro teto se- não o céu. pelo homem de espírito engenhoso. entre as aclamações dos astros da manhã e o aplauso de todos os filhos de Deus? (.e que relativiza por isso mesmo a transcendência de Deus -. Ele é o ser que trabalha a deusa augusta entre todas.. na declama- ção do Coro. ao construir um abrigo.): Há muitas maravilhas no mundo. Os pássaros aturdidos são apreendidos e capturados. mas a maior é o homem. o homem tem uma dignidade própria e indepen- dente. ou passeaste pelo fundo do abismo? Foram-te in- dicadas as portas da Morte. apenas. ainda que já tenha sabido. durante os anos de exílio do povo eleito em Babilô- nia. se sabes tudo isso” (38. tudo isto ele aprendeu sozinho. segue seu caminho por sobre os abismos que lhe abrem as ondas levantadas. encontrar vários remédios. Contra a morte.quando lancei os fundamentos da terra? Quem lhe fixou as dimensões? . tal como se pode ver no relato da criação do mundo que se encontra no chamado Documento Sacerdotal do Gênesis (1. ou quem estendeu sobre ela a régua? Onde se encaixam suas bases. não poderá escapar por nenhum sortilégio. Sófocles expressou com emoção essa idéia. A idéia de uma certa participação do homem na essência divina .parece o resultado da influência dos mitos mesopotâmicos. nas malhas de suas redes. em Antígona (332 e segs. a Terra eterna e incansável. 4-18).16 Na tradição grega. Ele é o ser que. e a lavra pelas crias de suas éguas. contra as doenças mais renitentes. com suas charruas que a sulcam ano a ano sem ces- sar. aspirações donde nascem as cidades. assim como a caça dos campos e os peixes que povoam os mares. diferentemente. assenhoreia-se do animal selvagem que percorre as serranias. pensamento rápido como o vento. 9 . não se acha desarmado contra nada que lhe possa reser- var o futuro. Prevenido contra tudo.se o sabes -. assim como soube. ou viste os porteiros da terra da Sombra? Examinaste a exten- são da terra? Conta-me. Palavra. e no momento azado subjuga tan- to o cavalo de crina espessa quanto o infatigável touro das montanhas. como nossa semelhança”) . ou quem assentou sua pedra angular. sabendo atravessar o mar cinzento na hora em que sopram o ven- to do sul e suas tempestades. evitar os ataques do gelo e da chuva.Façamos o homem à nossa imagem.. 26: “Deus dis- se: . a Terra. acima de todas as criaturas.) Entraste pelas fontes do mar.

eu os fiz seres de razão. memória de todas as coisas. dis- pensando-se a intermediação do mito do dom prometeano. na pessoa do titã Prometeu. a primeira de todas. no entanto. como ágeis formigas. capaz de tomar a si mesmo como objeto da própria reflexão. Ao se formular a indagação central de toda a filosofia . A característica da racionalidade. Depois. como por exemplo. os quais permitem aos ma- 17 rinheiros correr os mares. a sua inesgotável capacidade de criação artística. com que se ornamenta o fasto opulento. semelhantes às formas oníri- cas.já se está postulando a singularidade eminente deste ser. e. ele pode em seguida tomar o caminho do mal como o do bem. faziam tudo sem recorrer à razão. e conduzi às carruagens os cavalos dóceis às rédeas. Para eles. não para denegrir os homens. No início eles enxergavam sem ver. à qual jurou fidelidade! Ascenderá então às mais elevadas posições em seu Estado. as leis do seu Estado e a justiça dos deuses. labor que engendra as artes. ouviam sem compreender. observar que em Ésquilo o elogio indireto à humanida- de. aí apenas a poiesis. sob a inspiração do belo. do ser humano. Deixou de lado outras propriedades úni- cas do homem. foi a vez da ciência dos números. submetendo-os aos arreios ou a um cavaleiro. até o momento em que eu lhes ensinei a ár- dua ciência do nascente e do poente dos astros. no entanto. A reivindicação de autonomia em relação à divindade já não precisa de intermedi- ários no Olimpo. não havia sinais seguros nem de inverno nem de primavera florida nem de verão fér- til. viviam sua longa existência na desordem e na confusão. De qualquer modo. Mas. que a tradição ocidental sempre consi- 10 . assim como a das letras combinadas. Fui assim o primeiro a subjugar os animais. Quero dizê-lo aqui. É interessante. mas para lhe mostrar minha bondade para com eles. no fundo de grotas sem sol. segundo o valor da utilidade. é mais completo que em Sófocles: Ouça agora as misérias dos mortais e perceba como. viviam de- baixo da terra. Eles desconheciam as casas de tijolo ensolaradas. Que ele inclua pois. o elogio do homem já é feito aí diretamente. ao se tornar assim senhor de um saber cujos engenhosos recursos ultrapas- sam toda esperança. dotados de pensamento. que inventei para eles. de modo a substituir os homens nos grandes trabalhos agrícolas. de crianças que eram.que é o homem? . ao passo que dele pode ser banido no dia em que deixar o crime contaminá-lo por bravata. ignoravam os trabalhos de carpintaria. Sófocles realçou. nesse saber. isto é. Fui o único a inventar os veículos com asas de tecido. como se vê em seu antecessor Ésquilo. a aptidão a fazer ou fabri- car.

ressaltar que a razão humana está essencialmente ligada à sua capa- cidade expressional. mas em preferências axiológicas muito concretas.18 Foi justamente a partir do realce posto no mundo dos valores. a partir do qual. apenas. Prometeu realizou o seu último e mais audacioso desafio ao Olimpo: entregou ao ho- mem o domínio sobre o processo criador da própria vida. Ora. É claro que a racionalidade propriamente humana reside na capacidade de inventar e não pode ser reduzida ao simples comportamento intuitivo e mimético dos animais. que é a razão axiológica. ou os objetivos a alcançar pela sua atividade. que o ser humano tem a faculdade de escolher livremente os seus próprios fins. Com isto. não há técnicas imutáveis nem tampouco limitadas em numerus clausus: a evolução é cons- tantemente dirigida pela aptidão inventiva do ser humano. estéticos. mas nunca ninguém viu esse primata fabricar um instru- mento por ele especialmente inventado.éticos. sobretudo. na vida pacífica ou em combate com outros animais. ao contrário. Importa. Por isso mesmo. A des- coberta do chamado código genético. isso só se realiza em vir- tude de outra característica essencial do homem. Os pássaros constroem seus ninhos. já não é possível fundar a ética em princípios puramente formais.derou como atributo essencial do homem. com efeito. Na espécie humana. Como o é. também. por mais extraordinária que ela apareça quando comparamos o homem com os primatas. religiosos . ditadas também pela emoção e pelo sen- 11 . com uma técnica basicamente sempre igual a si mesma. a capacidade inventiva do homem acabou por levá-lo a intervir em seu próprio processo genético. desde a primeira fase de sua evolução como espécie. utilitários. mas e- motiva. Mas. ou capacidade de apreciação de valores . que a idéia atual de racionalidade humana passou a se distinguir nitidamente do racionalismo triunfante do século das luzes. que põe livremente os fins e inventa os meios mais aptos a alcançá-los. mais acima. Os valores. aliás. Foi dito.e de livre escolha entre eles. a fim de conseguir certo resultado. O chimpanzé serve-se habitualmente de seixos como instrumento ou ferramenta. não são objeto de uma percepção lógica. Descartes deu início a toda a filosofia moderna. O logos do homem é sempre uma expressão de racionalidade. nos anos 50 do século XX. foi o ponto de partida para a mais radical revolução técnica de todos os tempos: a era da bioengenharia. transformando-o em deus ex machina de si mesmo. deve ser entendida. de resto. sobretudo nesse sentido re- flexivo. de emotividade ou sensibilidade. É que a razão humana não se limita. à racionalidade lógica ou geométrica.

separando. como chegou a sugerir pro- vocativamente Unamuno. a oposição metafísica entre o bem e o mal traduziu-se na idéia de perpétua tensão conflitiva entre corpo e alma. de indignação e enternecimento. menos a razão”. no julgamento mo- ral. matéria e espírito. o universo ético de todo contato impuro com o mundo material. cuidadosamente. através dos primeiros Doutores da Igreja. a fonte de todo o mal. O Apóstolo Paulo.timento. no 12 . A crítica contemporânea. Para os racionalistas. No maniqueísmo. Descartes levantou seu edifício filosófico so- bre a separação radical entre a res cogitans e a res extensa. Da mesma forma. Aliando. no pensamento ocidental. a concepção dualista do homem foi muito evidente entre gnósticos e maniqueus. No cristianismo primiti- vo. como sabido. em Platão. como enfatizou Kant na conclusão da Crítica da Razão Prática. sobretudo. no pensamento judaico. é o valor próprio do homem.20 é o sentimento e não a racionalidade. “louco não é o homem que perdeu a razão. Segundo ele. A inteligência. louco é o ho- mem que perdeu tudo. sem dúvida por influência do zoroastrismo. um ser em que a lei moral manifesta uma vida independente da animalidade e mesmo de todo o mundo físico. quanto um ani- mal rationale. e a partir dele confluiu com a vertente reli- giosa do cristianismo nascente. ele é tanto um animal affectivus.21 Já quanto ao dualismo da concepção do homem. como disse Chesterton em paradoxo famoso. mas que chora e ri. a dissociação do ser humano no antagonismo entre alma e cor- po atingiu o seu ápice. de onde a sua preocupação em separar. 14-25). ele mani- festou-se tardiamente. evidente- mente. notadamente Santo Agostinho. parece temperar a compreensão tradi- cionalmente radical do platonismo. como ser composto de alma e corpo em estado de perpétua tensão. O que mais nos diferencia dos outros animais. resulta da confluência. que é capaz de amor e ódio.19 O homem não é apenas um ser que pensa e raciocina. sendo o corpo. porém. a animalidade do homem sempre foi uma fonte de escândalo. Na Grécia clássica. Ou então. A concepção dualista do homem. como figuração simbólica da oposição en- tre a lei mosaica e a graça divina difundida através de Jesus Cristo. o esprit de géometrie ao esprit de finesse. a fim de torná-los essencialmente puros. na Epístola aos Romanos (7. acen- tuou o dualismo agônico entre carne e espírito. nesse particular. da filosofia grega clássi- ca e do judaísmo. os elementos racionais dos elementos empíricos aos quais porventura estejam ligados. não há negar. a ética deve proceder como a química. como advertiu Pascal.

22 Quão estranho é. 10). porque a limitação da nossa existência através da morte é decisiva para a compreensão e a avaliação da vida”. Para a neurobiologia de nossos dias. Heidegger enxerga na morte. um duplo 13 . o conjunto do organismo humano. a morte de outrem. 15. mas é impossível viver. Podemos morrer por uma causa. não é por acaso que a reflexão sobre a morte situa-se no cerne da filosofia existencialista. A vida é considerada como um efeito do espírito de Deus. que é a fonte de toda vida (Salmo 36. realmente esse animal. é a sede conjunta. de resto. é justamente em razão de nossa condição corporal que a morte está sem- pre presente. Na Bíblia.24 Aprofundando esse pensamento. 5-6.25 De acordo com a sua idéia de que a essência do ser humano é um autêntico “poder-ser”. ou seja. considerado o reino do Maligno. Os últimos avanços da ciência. a morte se apresenta como a separação radical entre o homem e Deus. e a morte sobrevém quando Deus retira seu espírito do homem (Jó 34. por assim dizer. 14. De onde o fato de que todo contato com o cadáver provoca a impureza litúrgi- ca (Levítico 21. ou em lugar de uma pessoa. ela é essencialmente a mi- nha morte”.). com o amplo reconhecimento de que a condição corporal é parte inte- grante da subjetividade humana. e não apenas o cérebro. Eclesi- astes 12. a culminar com o furor da crítica nietzschea- na. justamente. como dos sentimentos e das emoções. sublinha-se a separação entre o mundo da carne. porém. para o homem. 7). a partir de sua concepção do homem como ente em estado de permanente inacaba- mento (ständige Unabgeschlossenheit). em contínua e suprema interrogação sobre o sentido da vida. “a relação que caracteriza de modo mais profundo e geral o sentido de nosso ser é a da vida com a morte. têm demonstrado a inconsistência de uma separação absoluta entre corpo e mente. No mundo contemporâneo. Como observou Wilhelm Dilthey. assim do pensamento e da memória.Evangelho de João.23 Ademais. Heidegger sublinhou o caráter existencialmente único da morte. seu grande precursor. 1 e ss. Esse inveterado repúdio à nossa condição animal. “Na medida em que a morte é. para a qual o discípulo deve renascer (3. e a vida do Espírito. capaz de inventar a “má consciência” e de introduzir no mundo a maior e mais inquietante de todas as moléstias: a doença em relação a si mesmo! A diatribe de Nietzsche prenunciou uma mudança sensível na antropologia filosófi- ca contemporânea. acabou indo longe demais e suscitou a inevitável reação dos modernos. 18-27). como condição iminente da existência. “Ninguém pode assumir a morte de outrem”.

essencialmente. um “ser para a morte” (Sein zum Tode). O CORIFEU . livrei os homens da obsessão da morte. nos grandes poetas trágicos gregos. antes. sem dúvida. que todo o seu comportamento consciente e racional é sempre sujeito a um juízo sobre o bem e o mal. uma iminência (ein Bevorstand)”. a sa- ber. tomando-se agora a palavra no seu sentido ambíguo. tanto de louvor quanto de reprovação. para definir a especificidade ontológica do ser humano. na história da antropologia filosófica. a sociabilidade. Para Kant. pode ser apreciado em termos de dever ser. ainda mais longe? PROMETEU .Sim. não cessa de se dar explicações sobre esse seu destino inexorável. temporal e ontológico. já não é mais um ente em estado de poder-ser. de bondade ou maldade. não menos evidente. O filósofo não tem dúvidas em sustentar que a natureza humana é radicalmente má. a historicida- de e a unicidade existencial do ser humano.27 O homem é. almejando incansavelmente a imortalidade. o impulso religioso .Que remédio descobriste para esse mal? 28 PROMETEU . se o homem tem uma predisposição origi- nária para o bem. sem descontinuar. como assinalado acima.acabamento. Nenhum outro ser. pode o homem esperar restabelecer a sua originária predisposição ao bem. podemos opor a visão pessimista de uma certa parte do cristianismo moderno. Ésquilo registrou-o. a animalidade da natureza humana não nos pode fazer esquecer o fa- to. portanto.como esperança de superação do absurdo existencial. Há mesmo. a autoconsciência. aos elogios antes citados do homem. completado por uma não merecida inter- venção divina.29 De qualquer modo. correntes de opinião que sustentam ora o caráter radicalmente mau. Assim é que. ou seja. quando cessa de existir tempo- ralmente e. mas. ela se vê totalmente anulada pela sua natural inclinação para o mal.Instalei neles cegas esperanças. O horizon- te da morte alimenta. por ela apresentado na língua latina.26 “A morte não é uma presença ainda não realizada. no mundo. em diálogo célebre: O CORIFEU . Somente mediante um constante esforço de auto-reforma. pois.Foste. a antropologia filosófica hodierna vai aos poucos estabelecendo um largo consenso sobre algumas características próprias do homem. por exemplo. O homem deixa de ser. a liberdade como fonte da vida ética.outra característica essencial do ser humano! . de que o homem é um ser essencialmente moral. sobre a qual fundar a sua dignidade no mundo. Somos o único ser que sabe que vai morrer e que. 14 . E este é mais um elemento componente da dignidade humana. não é uma ultimidade reduzida ao mínimo (nicht der auf ein Minimum reduzierte letzte Ausstand). ora a índole essencialmente boa do ser humano. Seja como for.

vale dizer. ou seja. em todas as épocas. A liberdade é a fonte da consciência moral. isto é. ora destas. É sobre o fundamento último da liberdade que se assenta todo o universo axiológi- co. Nin- guém nasce criminoso ou santo. ora daqueles. por fatores genéticos ou hereditários. da capacidade de agir livremen- te.a. sem ser conduzido pela inelutabilidade dos instintos. “O lugar do homem”. isto é. 5) a verdadeira vida humana . Vem a propósito assinalar que no mito bíblico do paraíso terrestre (Gênesis 3.na alegria e na dor. os homens passaram a ser “como deuses”. no amor e no ódio . alguns homens asse- 15 . Não é sem importância lembrar. não podemos deixar de reconhecer que nossa consciência ética é sempre trabalhada por tendências antagônicas. observou Plotino. a viver em plano superior ao de todas as demais criaturas. da faculdade de julgar as ações huma- nas segundo a polaridade entre bem e mal. que ethos significa justamente caráter ou tempera- mento. as quais. a esse respeito. É um ser curioso. ele tende a se aproximar. necessariamente. de capacidade para ditar suas pró- prias normas de conduta. acima referi- do. “é entre os deuses e as feras. a liberdade de juízo ético opõe-se à idéia de que o comportamento humano seja determinado. Sem precisar aceitar o velho maniqueísmo da oposição moral entre alma e corpo. em relação a tendências ou disposições caracteriais. Essa ambivalência ética essencial tem sido reconhecida pelos espí- ritos mais argutos. isto é. que é o mistério dos mistérios. apresentam-se sempre como preceitos suscetíveis de consciente violação. contrariamente ao que sucede com as leis naturais. Liberdade O homem é o único ser dotado de vontade. e que os antigos sempre distinguiram as pessoas segundo a sua disposição caracte- rial. diz Deus. 30 Porque nele atua a liberdade. como disse o tentador. Conheço bem o homem. bem como toda a ética de modo geral.só principiou a partir do momento em que o primeiro casal provou do fruto pro- ibido da árvore da ciência do bem e do mal. A partir de então. sob o aspecto ético. o mundo das normas. Fui eu quem o fez. Mas a liberdade tampouco significa que a vontade opera com total independência. Sem dúvida. o mundo das preferências valorativas.31 A verdade é que a natureza humana é sempre ambivalente. É a liberdade que faz do homem um ser dotado de autonomia.

à sociedade de classes e à classe operária em particular. a permanência consciente na identidade do ser. toda a sociedade seria en- fim humanizada. em situação de permanente heteronomia. Marx aplicou tal conceito.32 O tema. Autoconsciência Contrariamente aos outros animais. enquanto o homem inca- paz de viver em sociedade. como enfatizou Feuerbach. reto- mado por Montaigne em pleno Renascimento. ele há de se relacionar com a pólis como um todo. um animal reflexivo. afirma ele que a pólis é. ser ou uma besta ou um deus”. sobretudo. mas a argumentação do grande estagirita nos parece.34 A autoconsciência opõe-se ao estado de alienação. essencialmente. em cada um de nós. “Pois se cada indivíduo. assim como as partes devem sê-lo em relação ao todo. Partindo da premissa lógico-metafísica de que o todo precede sempre as partes que o compõem. portanto. demasiadamente formalista. outros a feras. Sociabilidade O caráter essencialmente sociável do ser humano foi enfatizado por Aristóteles em sua Política35. b. que é a negativa da especifici- dade humana. ou aquele que é tão auto-suficiente a ponto de não ter necessi- dade disto. incorporada ao mecanismo de seus instintos. de certo modo. segundo a fórmula célebre de Ortega y Gasset. 16 . capaz de se enxergar como sujeito no mundo - o “eu e sua circunstância”. O homem é. c.33 foi tragicamente ilustrado nos romances de Dostoiewski e constituiu. anterior ao indivíduo. A evolução vital e a acumulação da memória histórica não apagam nun- ca. e deve. a partir do momento em que a classe operária lograsse adquirir autoconsci- ência e superar dialeticamente seu estado de objetiva alienação. portanto. no tempo e no espaço. como sabido. por natureza. Alienado diz-se do homem que é incapaz de exercer sua liberdade e que vive. mas possui a consciência de sua própria subjetividade.melham-se a deuses. por- tanto. hoje. a base da teoria psicanalítica de Freud. consciência de sua condição de ser vivente e mortal. Entendeu que. uma vez isolado. não é auto-suficiente. no princípio do século XX. o homem não tem apenas memória de fatos exteriores. não é parte da pólis. mas a maioria mantêm-se no centro”.

Historicidade A substância da natureza humana é histórica. mas compreende também uma alteração essencial do pró- prio sujeito histórico. O belo verso de Lamartine exprime o sentimento que acode a todos os a- mantes. isto é. A especificidade da condição humana. O que se deve reconhecer é que o indivíduo humano somente desenvolve as suas virtualidades de pessoa. aliás. necessariamente. É preciso não esquecer que as qualidades eminentes e próprias do ser humano . essa concepção mecanicista do homem. intuída pela sensibi- lidade poética. quando separados no tempo ou no espaço: “un seul être vous manque et tout est dépeuplé”. Tal significa dizer que o ser próprio do homem é um incessante devir. o amor . A idéia dessa unicidade da pessoa humana. porém. A ciência biológica contemporânea acabou con- 17 . à conclusão da supremacia ética da sociedade em relação ao indivíduo. a capacidade de criação estética. desde que o mundo é mundo. vive em perpétua transforma- ção. pois ela conduz.diverso do homem da Idade Média.e não apenas em sua condição ou circunstância existencial . O homem aparece.a razão. portanto.são essencialmente comunica- tivas. outra característica essencial da condição humana é o fato de que cada um de nós se apresenta como um ente único e rigorosamente insubstituível no mundo. como parte do todo social. modificando-se pela experiência acumulada e o projeto de novos ensaios de vida. quando vive em sociedade. do Renascimento ou do Século das Luzes. de homem capaz de cultura e auto-aperfeiçoamento. Daí poder-se dizer que o homem contemporâneo é em sua essência .com a substituição do pacto entre Iahweh e o povo eleito. ao longo da História. a cada criatura . não se esgota na mera transformação do mundo circunstancial. e. com a acu- mulação da “cultura objetiva”. cuja concepção original parece ser do cristianismo . d. individualmente. isto é. Mas um de- vir que se desenvolve e transforma deixando sempre rastros de sua trajetória. de resto.sempre fora. mas que vai. como um ente cujo ser não se completa nem se consuma jamais (o permanente inacabamento de que falou Heidegger). numa inces- sante acumulação de invenções culturais de todo gênero. razão justificativa dos mais bestiais totalita- rismos. O pensamento moderno rejeita. pela memória do passado e o projeto do futuro. pela oferta de sal- vação divina. Unicidade Existencial Finalmente.

não deixou de voltar ao assunto: “É Deus que seria para nós. no mun- do. ou qualquer outra. nacionalidade. na aptidão para formular as próprias regras de vida. é única. é: “o homem é medida de todas as coisas: para as que são. 716 c). não pode ser trocado por coisa alguma. nenhum ser de valor igual. isto é. que se encontra em seu tratado A Verdade. em razão dos rearranjos complexos e aleatórios de cromos- somas durante a meiose. toda possi- bilidade lógica de existir a ciência ou a ética. um fim em si e nunca um meio para a consecução de outros fins. fundado no mundo das idéias ou arquétipos. segundo entendo. tanto no campo do saber. raça. medida de seu não-ser”. consti- tui um valor absoluto. é propriamente insubstituível: não tem equivalente. como assi- nalou Kant. porque destituídos de liberdade. isto é. com isto. e não um preço. medida de seu ser. A frase completa de Protágoras. em todos os tempos. religião. Todos os demais seres. e cada homem em sua individualidade. a dignidade do homem consiste em sua autonomia. Ou. Vista ainda sob outro ângulo. a dignidade humana. A dignidade transcendente é um atributo essencial do homem enquanto pessoa. para as que não são. independentemente das qualificações específicas de sexo. É por isto que o homem não encon- tra no mundo nenhum ser que lhe seja equivalente. ou com o realis- mo aristotélico. como é.firmando o fundamento natural dessa grande verdade. antes que. que todo homem tem dignidade. como pretendem alguns” (IV. sobretudo. no mais alto grau. este ou aquele homem. em si mesma. invariável e irreprodutível.37 Mais ainda: o homem é não só o único ser capaz de orientar suas ações em função de finalidades racionalmente percebidas e livremente desejadas. do homem em sua essência.38 Ainda em sua velhice. reformulando a expressão famosa de Protágoras. isto é. a medida de todas as coisas. Ele. quanto no do agir. que Kant denomina imperativo categó- 18 . em última análise. Daí decorre a lei universal de comportamento humano. A idéia do grande sofista é a de um relativismo individual absoluto. A combinação de genes que cada um de nós recebe de nossos pais. segundo a expressão de uma grande helenista contempo- rânea. O homem como espécie. são heterônomos. o único ser cuja existência. posição social. isto é.36 Esse conjunto de características diferenciais do ser humano demonstra. o homem é a medida de valor de todas as coisas. O contraste não pode ser maior com o abso- lutismo universal de Platão. Daí por que Platão dedicou todo um diálogo (Teeteta) para refutar essa perigosíssima idéia da tábua rasa. Desapareceria. como as coisas. ao escrever As Leis. Todos os demais seres valem como meios para a plena realização humana. É nisto que reside.

de religião. um ser cujo valor ético é superior a todos os demais no mundo. de fortuna. essencialmente. A Declaração Universal de 1948. sublinha esse caráter de igualdade fundamental dos direitos humanos. 2º. das Nações Unidas. 1. como um fim e jamais como um meio". porque se trata de exigências de comportamento fundadas essencialmente na partici- pação de todos os indivíduos no gênero humano. que só existem e são reco- nhecidos. à diferença dos demais direitos. ao dispor. não criou o Direito em geral e muito menos os direitos humanos em particular.39 O CONCEITO DE DIREITO HUMANO OU DIREITO DO HOMEM Como se acaba de ver. 19 . de nascimento ou de qualquer ou- tra situação”. de sexo. a existência do homem. não só em tua pessoa. NOTAS 1 Artigo apresentado ao Instituto de Estudos Avançados da USP em 1997. em suma. ou direitos do homem. que representam o sentido axial de toda a História. pela sua própria natureza. 2 Professor Titular da Faculdade de Direito da USP e membro do Conselho da Cátedra UNESCO-USP de Educação para a Paz. sem distinção de espécie alguma. é assim justifi- cado. pois. da mesma forma a eventual su- pressão do Estado-nação contemporâneo não impedirá o reconhecimento universal da dignidade da pessoa humana e dos direitos fundamentais dela decorrentes. em seu art. notada- mente de raça. sem atenção às diferenças concretas de ordem individual ou social. uma pessoa. ou diferenciais. mas na de todos os outros homens. de cor. que “cada qual pode se prevalecer de todos os direitos e todas as liberdades proclamadas na presente Declaração. É que os direitos humanos são direitos próprios de todos os homens. em função de particularidades individuais ou sociais do sujeito. Assim como o Estado moderno. inerentes a cada homem. os Direitos Humanos. O pleonasmo da expressão direitos humanos. 3 Livro Δ. a dignidade de cada homem consiste em ser. que o fato sobre o qual se funda a titularidade dos direitos huma- nos é. de opinião pública ou de qualquer outra opinião. Trata-se. enquanto homens. Percebe-se. pura e simplesmente. de origem nacional ou social. de língua.rico: "age de modo a tratar a humanidade. a Democracia e a Tolerância. isto é. que é um produto histórico. sem necessidade alguma de qualquer outra precisão ou concretização. de direitos universais e não localizados.

§ 121). La Crise de la Conscience Européenne 1680-1715. Editora Mestre Jou. que a evolução cultural exerce hoje um papel muito mais importante na transformação do homem do que o processo darwiniano de evolução bioló- gica (cf. Y acaso lo que de los demás animales le diferencia sea más el sentimiento que no la razón. CHRISTIAN de DUVE. CAPLAN. cit. Fayard. p. 12 Sul fondamento dei diritti dell’uomo. Turim (Einaudi). 1986. Embora não pareça haver dúvidas. A. segunda seção. Frankfurt (Suhrkamp). in Die Metahysik der Sitten. 12. op.. nº 16. The Sociobiology Debate. de outra coisa” (Enciclopédia das Ciências Filosóficas. por Wilhelm Weischel. pp. 7ª ed. Más veces he visto razonar a un gato que no reír o llorar. pp. IMMANUEL KANT. 1961. 1916) continua substancialmen- te válida. contrariamente à concepção prevalecente desde KANT. 8 Do Contrato Social.. tese IV. 23 É a tese brilhantemente sustentada pelo neurobiólogo luso-americano ANTONIO R. 15 É a proposição introdutória do Padre HENRIQUE C. 3ª ed. Prometeu Encadeado 445-470. proêmio e conclusão. JEAN BOTTERO. No sé por que no se haya dicho que es un animal afectivo o sentimental. 3ª ed.Une histoire du vivant. L.. no mais completo tratado sobre o as- sunto em língua portuguesa: Antropologia Filosófica. Frankfurt (Suhrkamp). and the Human Brain. pp. 1992. 21 Apud HENRIQUE C. 6 Kritik der praktischen Vernunft. Harvard University Press. 666/667. 20 “El hombre. Paris (Librairie C. ERNOUT e A. pp. 9 Suma Teológica. livro primeiro. ed. III. Paris. I. contra o racionalismo ético de KANT (Der Formalismus in der Ethik und die materiale Wertethik. “fundamento só existe como fundamento de algo. 16 cf. 155 ss. Mass. 1ª parte da 2ª parte. II. dicen.. ed. pp. verbete morte.. 8 e 91. publicada no volume L’Età dei Diritti. Poussière de Vie . ed. 13 op. 11. I. Dicionário de Filosofia. por Wilhelm Wischedel. pp. Dictionnaire Etymologique de la Langue Latine . Tem-se observado. 10ª ed. L. 1996. 24 cit. 10 cf. quanto à ligação essencial entre nature- za e cultura. 1913). 1990. WILSON. 20 . 37/38. questão XCI. no princípio do século. 22 Genealogia da Moral.Histoire des Mots. art.La Bible et l’Historien. A. org. pp. Naissance de Dieu . 19 A densa argumentação desenvolvida por MAX SCHELER. VAZ. 1994.. a verdade é que a diferença de qualida- de (e não apenas de grau) entre o comportamento dos animais e do ser humano torna impossível reduzir um e outro a simples espécies do mesmo gênero. Harper & Row. p. pero por dentro acaso tam- bién el cangrejo resuelva ecuaciones de segundo grado” (Del sentimiento tragico de la vida. Nova York. § 8. Sociobiology: The New Synthesis. PAUL HAZARD. 21 ss. Paris (Librairie Arthème Fayard). Werkausgabe. § 13. 1975. 1993. 125 e ss. em Des- cartes’ Error . S. 1951. São Paulo.. 426/427). Cambridge. cit.J. vol. Acaso llore o ría por dentro. pp. E.. 5 e ss. 7 Die Religion innerhalb der Grenzen der blossen Vernunft. MEILLET. New York (Putnam). primeira parte. por NICOLA ABBAGNANO. 1994. 17 ÉSQUILO. O. Suhrkamp. vol. 1993. São Paulo (Edições Loyola). 197/198). DAMASIO. 1993. capítulo terceiro. Paris (Gallimard). Hamburgo (Felix Meiner). VAZ. sustentando a tese de que o comportamento ético do ser humano é também um resultado do processo evolutivo vital. 18 A chamada escola sociobiológica contemporânea (cf. 1970. Klincksieck. 241 ss.. es un animal racional. 11 Como salientou HEGEL. 5 Grundlegung zur Metaphysik der Sitten. pp. L. 14 cf.4 I. hoje. 1978) rejeita a idéia de uma separação radical entre o mundo da natureza e o da cultu- ra ou dos valores.. Reason. aliás. editada por Karl Vorländer. primeira parte.Emotion. 12ª ed.

Hon- teux. cit. cap. p. § 7 (ed. 30 CHARLES PÉGUY. p. ingenieux.. I). Tübingen (Max Niemeyer Verlag). d’autres deux puissances qui nous accompagnent et agitent. livre II. 34 Meditaciones del Quijote. Sinn und Not” (Das Buch von der Armut und vom Tode). de um dos quatro humores: sangue. 27 idem.. 1993. Si je parle diversement de moy. et prodigue. selon que je me vire. 29 Der Religion innerhalb der Grenzen der blossen Vernunft. menteur. sçavant. livro primeiro. p. Je sonne à mon ame tantost un visage. pp. Les Grands Sophistes dans l’Athènes de Périclès. 28 Prometeu Acorrentado. dass die Maxime deines Willens jederzeit zugleich als Prinzip einer allgemeinen Gesetzgebung gelten könne). tout cela. hebeté.). a norma subjetiva) de tua vontade possa sempre valer como princípio de uma legislação universal” (handle so. 31 HIPÓCRATES classificou os indivíduos conforme a predominância. p. 21 . chagrin. 37 “Im Reiche der Zwecke hat alles entweder einen Preis oder eine Würde. 246-249. IV. 36 cf. was dagegen über allen Preis erhaben ist. Toutes les contrarietez s’y trouvent selon quelque tour et en quelque façon. gieb jedem seinen eignen Tod. op.. Paris (Éditions de Fallois). si souple. Was einen Preis hat. primeira seção (Von der Einwohung des bösen Prinzips neben dem guten: oder das radikale Böse in der menschlichen Natur). 236. insolent. 250. Kritik der praktischen Vernunft. cit. c’est que je me regarde diversement. taciturne. ignorant. 1253a. fleumáticos. 26 idem. l’autres vers le mal. laborieux. 1914. a saber: “age de tal maneira. an dessen Stelle kann auch etwas anderes als Äquivalent gesetzt werden. une si brusque diversité ne se pouvant bien assortir à un subjet simple (. 38 JACQUELINE DE ROMILLY.. cit. 35 I. delicat.. bavard. Le Mystère des Saints Innocents. cette volubilité et discordance” (Essais. 140). CHRISTIAN de DUVE. mithin kein Äquivalent verstattet. op. 33 “Cette variation et contradiction qui se void en nous. chaste. et quiconque s’estudie bien attentifvement trouve en soy. das hat eine Würde” (Grundlegung zur Metaphysik der Sitten. darin er Liebe hatte. em seu organismo.. De onde as correspondentes classes de indivíduos sanguíneos. 437. 39 Grundlegung zur Metaphysik der Sitten. selon le costé où je la couche. 7ª ed. debonaire. tantost un autres. esse imperativo categórico é apresentado como a “lei fundamental da razão prática pura” (Grundgesetz der reinen praktischen Vernunft). 240. 1988. p.25 Sein und Zeit. verbete homem. das aus jenem Leben geht. que o máxima (ou seja. 32 apud NICOLA ABBAGNANO. seção principal. 34 ss. je le vois en moy aucunement. luxurieux. Vale lembrar a invocação poética de RILKE: “O Herr.. Wilhelm Weischedel. biliosos e melancólicos. cit. Das Sterben. bile e atrabile. cap. 27. p. Em outra formulação. voire et en son jugement mesme. veritable. primeira parte. chacune à sa mode vers le bine l’une.. 58). a faict qu’aucuns nous songent deux ames. fleuma. 1. cit. et liberal et avare.