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DUNKER, C. I. L. - O Nascimento do Sujeito. Viver Mente e Cérebro (São Paulo). , v.2, p.

14 -
26, 2006.

O Nascimento do Sujeito

Christian Ingo Lenz Dunker

Quando uma criança vem ao mundo ela não é um ser inteiramente passivo. Logo
nas primeiras semanas é capaz de sorrir, reagir a sons e odores e até mesmo reconhecer
a freqüência dos batimentos cardíacos de sua mãe. Mas ao contrário de outros animais
ela não consegue sobreviver sozinha. Isso se deve ao fato de que quando nasce, o bebê
humano ainda não completou a formação de seu sistema neurológico e perceptivo. O
bebê humano é sempre prematuro, tanto se o comparamos ao estado em que outros
animais vem ao mundo quanto se o comparamos ao desenvolvimento do próprio de seus
próprios sistemas vitais. Tal fato, conhecido como neotenia, tem conseqüências para a
formação do que podemos chamar de consciência de si. Em outras palavras, ele percebe,
reage e até mesmo interage com os outros sem perceber que percebe, sem consciência
reflexiva.
Aqui entra a figura do adulto prestativo que diante de uma criança costuma
reconhecê-la como alguém. Diante de uma criança ele é capaz de, sem se dar conta,
afinar sua voz, modificar sua postura e, principalmente, antecipar qualidades e
capacidades que o bebê objetivamente não tem. A origem desta superestimação e
fascínio que as crianças exercem sobre nós remontam ao que elas representam: o que
fomos um dia, o que gostaríamos de ser (nossos sonhos) e o que reconhecemos como o
melhor em nós.
Portanto, apesar de estarmos diante de alguém que ainda não se reconhece como
sujeito nós o tratamos como se ele assim fosse. Isso se realiza a partir de quatro
atividades fundamentais: (1) nós falamos com a criança, interpretamos seu choro, sua
face, seus movimentos (ou ausência deles) como gestos dotados de sentido; (2) nós
cuidamos das crianças, isso inclui a presença constante de trocas corporais usualmente
investidas de carinho e satisfação; (3) nós reagimos ao que a criança faz com uma
atitude curiosamente semelhante à de um espelho, se ela faz algo nós tendemos a repetir
o que ela fez ou a inverter de forma simétrica o gesto realizado; e (4) nós pedimos e
oferecemos coisas às crianças, palavras antes de tudo, mas também manipulações
protetoras, impedimentos e experimentos pelos quais apresentamos o mundo ao novo
ser. Estes quatro modos de relação combinam-se, progressivamente, no processo de

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constituição do sujeito. Além disso podemos dividir este processo em três tempos. Os
três tempos do complexo de Édipo. A passagem de um tempo a outro implica em
resignificação dos tempos anteriores, ou seja, uma reformulação completa e regressiva
da lógica e dos problemas que vigoravam até então. Podemos dizer que o nascimento do
sujeito é um processo lógico no qual se tenta, progressiva e regressivamente lidar com o
que se perdeu.

Primeiro Tempo

Há então uma espécie de descompasso, uma “confusão de línguas” entre o que


adulto faz e o que a criança de fato recebe e interpreta disso. Há também uma diferença,
o adulto reconhece essa ilusão como uma ilusão e a sustenta como tal. Por isso
brincamos com nossas crianças. Para formar o eu a criança deve ser capaz de realizar
um ato psíquico, um novo ato psíquico, que transforma radicalmente sua realidade. Ou
seja, ela tem consciência das imagens sensoriais que a circundam, mas não tem
consciência de que possui consciência, nem de que essas imagens implicam uma ilusão
relativa. A formação do eu implica, dessa maneira, uma série de negações sobre o que
se verifica no início da experiência subjetiva infantil.

(1) Quando o adulto fala com a criança ele a introduz simultaneamente ao seu
desejo e à sua linguagem. Ele recebe dela sua própria mensagem, inconsciente, mas de
modo invertido. Para a criança a tarefa aqui é como assumir, em si e para si, essa
linguagem na qual, antes de tudo, ela é falada. Há certas partículas da linguagem que
são cruciais nessa operação, pois só podem ser interpretadas a partir da posição de quem
fala, por exemplo, eu, tu, aqui, ontem. Para assumir a língua pela qual ela é falada
criança deve ser capaz de saber “Quem é ‘eu’ ?” ou “Quando é ‘amanhã’ ?” ou ainda
“Onde é ‘lá’ ?”. Mas para chegar a perguntas desse tipo a criança passa por três relações
distintas com a sua própria fala. Primeiro, ela repete o que ouve dos adultos
(formulando frases às vezes complexas para sua idade); em seguida, ela parece regredir,
regredindo sua sintaxe e vocabulário, para depois disso chegar ao momento crucial em
que ela gagueja e é capaz de se corrigir. Quando “se corrige” ela mostra que é capaz de
negar sua própria fala, e portanto, a fala se tornou própria (de si mesmo). Este processo

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se inclui em um movimento mais amplo pelo qual a criança deve fazer deve fazer passar
as suas necessidades pela linguagem. Ela deve aprender a pedir e a colocar em palavras
aquilo que sente e o que quer. Mas estas palavras lhe vem do outro, portanto suas
demandas se criam à partir de uma alienação. Vemos assim que para se apropriar de sua
fala a criança deve reconhecer-se como alienada na linguagem. Alienação é uma
operação psíquica que implica exteriorização, estranhamento e desconhecimento. Ao
alienar-se na linguagem a criança se apropria de um universo simbólico (a cultura como
exteriorização humana), se identifica ao desejo de um outro (que a princípio é um
estranho), ao mesmo tempo que desconhece essa determinação na formulação de suas
demandas. Portanto, a formação do eu é contemporânea de uma pergunta: o que é este
Outro? O que ele quer? O Outro é o conjunto dos sistemas simbólicos, das formas
sociais e das regras de cultura que tornam possíveis nossas relações com os semelhantes
(outros). Como este conjunto está sempre estruturado pela linguagem dizemos que o
Outro é o campo da linguagem.

(2) Essa descoberta do desejo do Outro se apóia em um segundo grupo de


experiências, que tem relação direta com os cuidados dispensados à criança pelo adulto.
Esses cuidados, e particularmente o contato corporal que deles decorre, induzem
experiências de prazer e desprazer. Aqui a psicanálise mostra como a criança possui um
tipo de sexualidade caracterizada pelo fato de que qualquer parte de seu corpo pode vir
a ser fonte de satisfação. Sobre o organismo biológico se apóia uma outra forma de
corporeidade, chamada pulsional. Ao contrário do organismo, o corpo é uma entidade
sensível à palavra e às relações de troca mediadas pela fantasia. Ao contrário do
instinto, que prescreve objetos mais ou menos fixos para sua realização e funciona de
modo intermitente, a pulsão deve construir seu objeto agindo para tanto como uma força
constante. Vejamos o que isso importa para a formação do eu a partir de uma
conjectura. Quando a mãe amamenta seu filho isso implica uma experiência de grande
satisfação para a criança; não é só um evento nutricional necessário à sobrevivência, e
sim um evento de prazer. Mas a mãe não propicia essa experiência a qualquer hora,
geralmente ela vem associada a um gesto importante, e às vezes perturbador, da própria
criança: o choro. Podemos então imaginar que depois de uma primeira experiência de
satisfação a criança retém na memória um traço desse seio. Passado algum tempo há um

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aumento da tensão interna (fome). Mas antes do choro é possível que a criança realize
uma operação psíquica crucial, ela ativa os traços de memória correspondentes ao seio,
produzindo uma alucinação (semelhante à que experimentamos no sonho). Tal
alucinação é capaz de realizar precariamente uma satisfação, que logo em seguida é
rompida, desencadeando o choro. Quando a mãe aparece, em resposta a esse choro, tudo
o que ela poderá oferecer jamais corresponderá ao traço de memória formado pela
criança (daí o curioso fenômeno pelo qual as crianças eventualmente recusam o seio da
mãe, ou seus substitutos, mesmo que aparentemente sintam fome). O importante aqui é
o fato de o objeto desejado ser um objeto na memória, não um seio real do qual ele
sempre se distinguirá. Ou seja, a satisfação humana, e por extensão a sexualidade, se
organiza em torno de um objeto fantasiado, que por sua vez é um substituto de um
objeto ausente. Quando cuidamos de uma criança também estamos erotizando seu
corpo, ajudando-a a construir um corpo pulsional e não meramente biológico funcional.
Mas há uma segunda experiência crucial que ronda os cuidados: o desprazer. Ela se
verifica nos intervalos da pulsão, mas também sob uma outra forma: a dor. Segundo
Freud, a experiência da dor é fundamental para formação do eu. O eu se forma como um
sistema de inibição do desprazer e de ação reativa contra a dor. Mais uma vez
encontramos aqui o papel da negação, mas agora de outra maneira. Antes de se
reconhecer como si mesma a criança forma um eu que traduz a separação entre
interioridade e exterioridade. O eu associa-se ao prazer interiorizado, e o mundo, ao
desprazer exteriorizado. O que escapa a essa gramática recai como indiferença. É,
portanto, por um processo de expulsão (negação) e incorporação (afirmação) que se
forma essa face do eu. As experiências antes possuíam este valor (prazer ou desprazer)
e só depois adquirem o sentido de existência (ser ou não ser). Observe-se que até aqui
podemos falar de um eu capaz de atribuir sentido e valor à suas experiências, mas é
incapaz de julgar a própria realidade destas experiências. Algo, portanto deve
permanecer ou resistir à esta transição entre prazer e desprazer para que o eu adquira a
capacidade de reconhecer-se existindo e com isso contar com a permanência de seu
próprio corpo no tempo. A observação do grafismo infantil e de sua produção
representativa leva à crer que antes deste movimento a sua experiência subjetiva está
marcada pela fragmentação da imagem de seu próprio corpo e pela incerteza quanto aos
seus limites no tempo e no espaço.

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(3) Mencionei anteriormente que a relação da criança com os adultos funciona


à maneira de um espelho, sincronizando gestos e movimentos. Entre os 6 e os 18 meses
de idade há uma espécie de reviravolta subjetiva na relação dela com a imagem de seu
semelhante. Até então é possível que ela se deixasse ficar com qualquer pessoa, mas a
partir daqui começa a “estranhar” os outros, tem pesadelos e se mostra inquieta com seu
próprio corpo (angústia dos 8 meses). Isso faz parte do que Jacques Lacan chamou de
estádio do espelho, um dos momentos formativos do eu. A primeira forma de relação
que a criança mantém com a imagem de si mesma no espelho (e vimos que os outros
funcionam a partir dessa razão especular) é de estranhamento. Ela mostra curiosidade e
fascinação por essa imagem, percebe que esta lhe afeta, mas não se reconhece nela. No
complexo de desmame, pelo qual a criança elabora sua separação em relação ao corpo
da mãe, organiza-se o apelo e a fixação da criança à imagem, especialmente dos
semelhantes. Tal separação tem como efeito uma espécie de tendência ao
completamento de si pela imagem do outro. Quando a criança engatinha explorando um
novo território há sempre um ponto em que ela volta seu olhar para a mãe, para receber
desse olhar o que lhe falta para interpretar a experiência na qual se aventurou. Mas esse
completamento logo evolui para uma espécie de confusão entre a imagem e o próprio
eu, entre o sentido que ela é capaz de construir e o que ela recebe do outro. Surge aqui o
transitivismo pelo qual a criança pode dizer, por exemplo, que seu amigo lhe bateu
quando foi ela mesma que bateu nele. Ela não está mentindo; sua experiência subjetiva
é, realmente, de incerteza quanto ao agente da ação. É só em um terceiro tempo que essa
imagem será reconhecida como uma representação e um símbolo de si mesma. Neste
momento a criança pode assumir uma imagem, gesto que a cada vez produz uma nova
identificação. Mas no fundo uma imagem é apenas uma outra coisa que não um eu, a
imagem é uma projeção de sua superfície corporal. Todavia é por esse movimento, pelo
qual a criança se assume através da imagem de si que recebe do outro, que ela pode
realizar-se como si mesma. Isso modifica profundamente a relação da criança com a
formação da imagem em geral e coordena as relações do eu com os seus semelhantes,
que são, a partir de então, potencialmente tomados como “outros-eus”. Daí o fato de que
o eu é sempre uma espécie de outro interiorizado. Assumir uma imagem de si é um ato
psíquico importante e formativo, pois é a partir da unidade imagética que a criança
infere a unidade de si. Seu corpo experimenta satisfação e júbilo a cada vez que essa
unidade é reatualizada, e, inversamente, toda sorte de agressividade será provocada pela

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ameaça sentida contra a posse de tal imagem. Nesse aspecto, o eu se mostra uma
formação imaginária, sempre precária e instável, sujeita ao desequilíbrio induzido pelo
outro capaz de “desfocar” a imagem de si. O eu estará sempre sujeito a esse complexo
de intrusão, pelo qual algo ou alguém interfere na realização de si, fonte e origem do
sentimento de ciúmes. Pelos mesmos motivos o eu também estará sujeito à esta
experiência de fascínio hipnótico que é o apaixonamento. Todavia o transitivismo se
desdobra em um outro problema. A capacidade que as imagens possuem de portar o
desejo do outro fixam esse desejo em uma imagem a qual o eu se alienará. O impasse é
conhecido pelos pais. Uma criança quer o brinquedo que pertence ao vizinho, está
disposta a bater no amigo, por isso e não cederá a pressões. Os pais providenciam um
brinquedo similar ao desejado que no entanto não surte o menor efeito. A criança parece
dizer: “Eu quero aquele brinquedo porque ele é o brinquedo do outro, porque o outro
parece desejá-lo. Eu quero o brinquedo do outro porque quero o que ele quer.” O desejo
é o desejo de possuir o desejo do outro, que se fixa na imagem que o representa. É isso
que se mostra na oposição (sentida pelos pais como insensata), na recusa e teimosia em
comer, tomar banho, vestir-se etc. só porque é isso que o outro quer. Uma negação, que
agora se aplica ao desejo do outro, como contrariedade e discordância.

(4) A entrada na linguagem, a pulsionalização do corpo e a formação da imagem


de si se articulam com um quarto movimento responsável pela formação do eu: trata-se
dos primórdios da relação amorosa que a criança começa a estabelecer com os que a
cercam, particularmente com sua mãe ou quem exerce semelhante função. Aqui a
criança começa a perceber que há várias formas de querer, diversas maneiras de pedir e
principalmente recusar. Em sua investigação sobre o desejo do Outro ela constata que o
Outro mente (principalmente no que diz respeito à sexualidade), que o Outro pede uma
coisa quando quer outra e que há objetos os quais parecem dotados de um valor até
então desconhecido: o valor simbólico que os torna signo de amor. Subitamente, o valor
exagerado que as imagens dos objetos possuíam, como portadoras do desejo do Outro,
cede espaço ao ato que faz os objetos serem trocados. Além de ter o seu próprio desejo
coordenado pelo desejo do Outro a criança realiza o fato de que ela pode ser amada
(algo próximo, mas distinto de ser desejada). Esses objetos são chamados de objetos de
dom, e o ato de dar e receber, bem como o reconhecimento do valor desse ato, funciona
como matriz da relação de amor. Isso modifica a relação imaginária com os objetos;

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agora é necessário ter algo para ser amado e ser algo para obter amor de alguém. Esse
algo é de natureza intrigantemente simbólica, modifica a relação com o corpo erógeno.
A criança pode oferecer seus excrementos como “prova de amor” ou ainda fazer da
presença ou ausência da mãe um signo maior de seu amor ou desamor. Há ainda uma
transformação da forma como a criança quer ser reconhecida: não mais como um objeto
fixo e estável para o desejo do Outro, mas como alguém que precisa fazer algo para
conquistar esse reconhecimento e que, portanto, corre o risco de perdê-lo. Há uma
importante conjectura feita por Freud que permite integrar o processo simbólico da
criança rumo à formação de seu eu até esse ponto. Freud observou seu neto que
brincava no berço. A criança tinha um carretel, preso a um fio, e alternadamente o
jogava para fora do berço e o puxava para dentro, exprimindo uma vocalização
característica a cada um dos momentos. A hipótese é que com esse brincar a criança
realizava as quatro operações necessárias para a formação do eu: (1) substituía
simbolicamente a mãe pela imagem do carretel; assim como a mãe ia e vinha, dividida
entre seus afazeres domésticos e os cuidados ao bebê, o carretel aparecia e desaparecia
de seu campo visual; (2) substituía simbolicamente a experiência passiva de ser deixado
e de ser reencontrado pela mãe, pela experiência ativa de controle da situação,
assumindo a manipulação do fio; (3) substituía simbolicamente o desprazer gerado pela
ausência da mãe pelo prazer causado pelo brincar; e (4) substituía simbolicamente o
objeto inerte, representado por um carretel amarrado à um fio de linha, por um objeto
investido pelo dom amoroso da mãe. Temos aqui, portanto, quatro maneiras diferentes
de realizar uma negação: do objeto, da posição, da relação e do modo. Podemos dizer
que no conjunto esse é o primeiro grande movimento que a criança deve realizar para
formar um eu.

Segundo Tempo

Até aqui falamos das operações formativas do eu, mas o eu, essa instância capaz
de consciência, unidade, apropriação e reconhecimento reflexivo de si, será apenas o
primeiro momento da constituição do sujeito como tal. O eu não é sujeito. Até aqui a
criança está às voltas com a exploração da potência do Outro, representado
principalmente pela mãe. O que é modificado pela descoberta crucial de que a mãe e
seus correlatos, que até aqui incluem o pai e as figuras de apego secundário, não é toda

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suficiência. Isso marca a passagem do primeiro para o segundo tempo do complexo de


Édipo. O fato de que a mãe distribua sua atenção e suas demandas para além da criança
levanta uma suspeita: “Ela deseja algo além de mim; não sou, portanto, a única fonte de
seu amor e o exclusivo objeto de seu desejo.” Vejamos algumas conseqüências dessa
constatação:
(1) O fato de o Outro materno desejar algo além da criança indica que a mãe não
é toda autosuficiência. Isso faz com que a criança retome o estado de ilusão, ao qual nos
referimos antes, e o reconheça como tal. Ela percebe, retrospectivamente, que as
ausências da mãe, suas recusas e seus limites, bem como o desprazer que disso decorria,
já indicavam a presença de um lugar terceiro. Esse lugar terceiro torna-se de imediato
foco de curiosidade e interesse. Se a mãe não é toda, se lhe falta algo, isso quer dizer
também que a criança não é esse algo que falta à mãe. Surge assim um lugar
diferenciado, cujo ocupante é o pai. Observe-se que “o pai” é uma espécie de inferência
acerca do desejo da mãe e não deve ser associado apenas com a figura paterna. O pai é
uma função simbólica representada por tudo aquilo que captura o desejo da mãe e que a
torna, correlativamente, percebida como uma mulher. Quando a criança descobre a
importância do pai ela simultaneamente realiza que ele já estava lá desde o início e que
apenas ela não se dera conta disso antes. Como herdeiro da potência materna e da
descoberta da ilusão que isto representava, o pai surgirá como uma figura aterrorizante e
ameaçadora. A ele será atribuída a responsabilidade de a mãe encontrar-se nesse estado
de privação de algo. Ao mesmo tempo a ele serão atribuídos os efeitos de dano à
imagem narcísica de si.
(2) Esta constatação terá efeitos sobre a organização de fantasias que envolvem
o corpo. É comum que neste momento a criança comece a se perguntar de onde vêm os
bebês, como eles são feitos e qual a participação do pai nisso. Isso leva a uma pergunta
ainda mais complexa acerca da verdadeira distinção entre os sexos. As teorias sexuais
infantis são verdadeiras ficções estruturantes que a criança constrói para resolver tal
problema. Ela pode imaginar que os bebês nascem pelo ânus e são fruto da ingestão de
um tipo especial de alimento, por parte da mãe. A criança tende a conjecturar que todos
os seres possuem um pênis, que seria esse algo que o pai possui e do qual a mãe estaria
privada. Observe-se que o que está em jogo não é o pênis como órgão biológico, mas
uma atribuição de valor atribuída a ele, ele se torna esse algo, esse “x” que representa a
falta e o desejo do Outro. A esse elemento que articula simbólico e imaginário a

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psicanálise dá o nome de falo. Nesse contexto, a criança se interessa vivamente pela sua
filiação: seria ela filha daquele pai? Não seria ela adotada e aqueles que assim se
apresentam, na verdade, usurpadores? São duas as linhas de investigação que tentam
integrar os enigmas acerca do que é um pai e qual a diferença entre homens e mulheres.
A cada passo dessa investigação a transformação na vida de fantasia da criança tem
efeitos bem reais na sua relação com suas fontes de prazer. Se os bebês surgem de um
tipo mágico de alimento é possível que ela se torne ressabiada com relação à situação de
alimentação. Se ela imagina que a origem dos bebês tem alguma relação com o fato de
as pessoas ficarem nuas pode vir a manifestar resistência na hora do banho. Percebe-se
assim que a vergonha, o nojo e a curiosidade são afetos que se formam no contexto
destas fantasias e na sua posterior exclusão da consciência.
(3) A aparição do enigma paterno é recebida como uma ameaça à integridade da
imagem corporal de si, desencadeando uma crise narcísica na criança. Aquilo que antes
era sentido como frustração do amor materno torna-se agora efeito de uma ação do pai.
A presença paterna se torna problemática também porque reforça o antigo complexo
imaginário de intrusão, agora tornado realidade. Mas é uma intrusão dissimétrica, pois o
pai possui algo, que “tem força de lei”, capaz de impor-se à antiga onipotência materna
e interditar a relação desta com a criança. Se o pai possui (valor) ou é (existência) este
elemento chave do desejo a criança infere que ela o perdeu, bem como sua mãe. Para o
menino, isso representa uma experiência aguda de angústia (a angústia de castração),
pois ele deduz que há uma parte de seu corpo, que passa a representar a imagem
símbolo de sua unidade corporal, que pode ser posta em perigo pela presença do pai. Ao
mesmo tempo vê nesse pai a imagem daquilo que um dia ele poderá se tornar. Para a
menina, a crise narcísica tem outro destino, ela infere que há uma perturbação em seu
corpo, um defeito cuja origem é atribuído à mãe, reativando a separação vivida no
complexo de desmame. Ela passa assim a invejar aquilo que se apresenta como sendo o
senhor e soberano do desejo materno.
(4) Este segundo tempo do complexo de Édipo coloca algumas alternativas para
a constituição do sujeito. A criança pode, por exemplo, aceitar ou recusar essa privação
da mãe, o que correlativamente implicará modos específicos de relacionar-se com a lei e
com o desejo no processo de socialização. Aceitar a privação da mãe o convidará a
“esquecer” que um dia ele a desejou como seu complemento narcísico e pulsional. Esse
“esquecimento” corresponde a um modo de negação simbólica chamado de

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recalcamento e dará origem a uma relação de tipo neurótica com o desejo. Recusar a
privação da mãe, por outro lado, o convidará a um outro tipo de negação, pelo qual ele
se fará possuidor de um objeto capaz de reatualizar a potência materna, travestida agora
em “força de lei”. Essa outra forma de negação é chamada de desmentido ou recusa e
dará origem a um tipo de relação perversa com o desejo. A solução encontrada pela
criança para a insuficiência materna e sua integração à função paterna representa, nos
dois casos, uma separação entre a corrente amorosa e a corrente sensual, ambas
originalmente dirigidas à mãe. Ela implica ainda, nos dois sexos, a formação de um
novo tipo de identificação, a identificação ao pai. Na verdade ela apenas atualiza uma
identificação que já estava lá, junto com o pai, antes desconhecido. É comum que neste
momento a criança experimente uma oscilação de humor e uma alternância de afetos,
hostis e amorosos, dirigidos aos pais. Essa oscilação, que às vezes se desdobra em
mudanças na preferência e na distribuição do amor aos pais, recebe o nome de
ambivalência.
Vimos assim como no segundo tempo do complexo de Édipo a criança pratica
uma espécie de negação do objeto que é simultaneamente uma negação de sua posição
inicial relativa à mãe. Ela não é mais o objeto que realiza inteiramente o desejo da mãe.
Essa negação introduz uma reviravolta nas relações dela com os pais, que passa agora a
envolver quatro elementos (o pai, a mãe, a criança e o falo) e não apenas três.
Finalmente um novo modo de relação com a satisfação pulsional é induzido pelas
fantasias decorrentes destas transformações.

Terceiro Tempo

A crise narcísica e a reformulação das formas de desejo e de identificação,


próprias do segundo tempo do complexo de Édipo encontram um destino do terceiro
tempo do Édipo, tempo no qual se poderá dizer, enfim, que o sujeito estabiliza seu
processo de constituição, organizado agora pelo complexo de castração. Se no primeiro
tempo a questão chave é a da identificação formadora do eu, e se no segundo tempo a
questão se dirige ao problema da filiação, no terceiro tempo se encontrará uma solução
para o problema da sexuação. Como vimos, nosso corpo biológico está sujeito a uma
transcrição pela fantasia, pela pulsão e pelo desejo. Isso significa que nossa sexualidade
não se define pela anatomia dos corpos. Não se é homem ou mulher pelo destino

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imposto pelos genes, e a variedade de formas como escolhemos nossos objetos de amor
e de desejo (que nem sempre é heterossexual e monogâmica) é uma prova disso. Trata-
se, portanto, de uma conquista e o efeito de um trabalho psíquico. No terceiro tempo do
complexo de Édipo ocorre uma espécie de transmutação do objeto que representa o
desejo, transmutação que decorre de uma simbolização da relação entre os pais, destes
com a criança e desta com o que representa o desejo.
(1) A investigação da criança sobre o lugar do pai leva à conclusão de que apesar
de sua aparente potência ele também não é completo. Ele não é uma figura que está
acima da lei, uma vez que não é capaz de capaz de realizar certas proezas, não estando à
altura da perfeição antes imaginada pela criança. Mas além disso a criança realiza o fato
de que o pai é capaz de transmitir este algo que ele possui. Ele deixa de ser o mestre do
desejo da mãe e o senhor de todas as formas de satisfação e passa a compartilhar esta
potência com aqueles que a ele se ligam por uma espécie de dívida simbólica. Assim,
ele deixa de ser e passa a ter o elemento precioso que regia o desejo da mãe.
Inversamente, a mãe, antes tida como destituída, passa agora a ser o destino daquilo que
o pai é capaz de doar a ela. Portanto, a criança acaba por simbolizar não apenas a
ausência e a presença da mãe, a potência e a impotência do pai, mas o sentido dessa
transição. Introduz-se assim a idéia de que entre os pais há uma circulação da qual a
criança estava inicialmente excluída. O pai, que antes dizia “não” e representava a
interdição de suas vontades, passa agora a dizer “sim” para o desejo, que é agora um
desejo limitado. Essa operação é conhecida como castração. Dessa operação resta uma
espécie de matriz simbólica na qual a criança poderá apoiar seu desejo. Ela não é o pai,
mas pode vir a ser como ele para ter acesso a uma mulher como sua mãe. Este “como”
representa um novo tipo de negação, a mesma que nos possibilita formar ideais em
relação ao mundo real, regendo assim nossas aspirações. Esse como é a origem de uma
operação lingüística e simbólica conhecida como metáfora. Se no primeiro tempo a
criança se identificava como uma espécie de objeto metonímico para a mãe (uma
extensão de seu desejo e uma parte que fazia de seu corpo um todo); e se no segundo
tempo esta metonímia encontrava um obstáculo real, representado pelo pai; agora ela
constitui seu desejo à partir de uma metaforização da relação entre os pais. Nesta
metaforização o pai perde seu poder de opressão imagética e de força real em prol de
uma potência simbólica. Sua função se “impessoaliza” sendo reduzida à do nome que o
inscreve, ele próprio, em uma genealogia cuja origem não deixa de ser mítica.

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(2) A descoberta de que as relações desejantes são relações que envolvem a


circulação de elementos simbólicos é um passo decisivo para a socialização da criança.
Ela pode, a partir disso, entender que nos submetemos às leis e regras não porque haja
um elemento de força real que nos coage a isso (punição). A lei não se reduz à força ou
potência de seus representantes reais, mas à sua autoridade simbólica em promover a
circulação do desejo. Assim a autoridade real dos pais pode transferir-se para instâncias
sociais que, na origem, os representam (governantes, professores, médicos, juízes, etc.).
Isso implica a renúncia de uma parte da satisfação antes imaginada como complemento
imaginário da mãe e também à renúncia da satisfação atribuída ao pai todo poderoso,
que a criança sonhara arrebatar para si. Essa porção de prazer perdido será objeto de
inúmeras tentativas de recuperação. Uma parte desse prazer, do qual se abriu mão, dará
origem ao trabalho de sublimação, atividade psíquica pela qual o homem produz,
através de um uso especial de sua fantasia e de sua pulsão, a arte, a ciência e a cultura
que nos torna humanos. Outra parte dessa satisfação perdida, que se pretende
reencontrar, será objeto de uma espécie de vigilância permanente, responsável pela
nossa autocrítica, pelo sentimento de culpa e pela nossa consciência moral (superego).
Finalmente uma outra porção desse prazer, agora incorporado à lei da circulação do
desejo, será destinada à realização de nossas escolhas amorosas e desejantes (namoros,
casamentos e demais relações intersubjetivas).
(3) É pelo reconhecimento da lei da circulação do desejo, como regulador das
trocas sociais, que a criança encontra as condições para construir sua identidade sexual
primária. Para o menino, trata-se de preservar sua identificação com o pai à custa de
uma latente ameaça ao seu próprio ser. Podemos dizer então que ele resolve essa
precariedade do ser dirigindo-se ao ter, ou seja, seu desejo será orientado pela posse
daquilo que representa o desejo para o outro. Na menina, trata-se de fazer um segundo
deslocamento, passar da identificação ao pai para um processo conhecido como tornar-
se mulher, ou seja, encontrar uma espécie de contra-identificação que a tornará única e
apta ao desejo. Podemos dizer então que ela resolve essa precariedade do ter orientando
seu desejo para a dimensão do ser.
(4) A formação da identidade sexual passa ainda por um segundo momento, no
qual se determinará o tipo de objeto amoroso e sexual e o tipo de satisfação prevalente
para um sujeito. Isso não depende da disposição anatômica do corpo (macho ou fêmea),
nem da assunção de um tipo psíquico (masculino ou feminino), mas da forma como a

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DUNKER, C. I. L. - O Nascimento do Sujeito. Viver Mente e Cérebro (São Paulo). , v.2, p.14 -
26, 2006.

fantasia, que remanesce como organizadora do desejo, incidirá para cada sujeito. Tal
fantasia só encontrará sua formulação final após um período de relativa pacificação ou
latência, dos conflitos e enigmas que caracterizam a primeira infância. Pode-se dizer
que é apenas na adolescência, e às vezes ainda mais tarde, que essa fantasia encontrará
sua expressão final.
Neste terceiro tempo há uma modificação fundamental do objeto que coordena o
desejo, ele não é mais imaginário, nem real, mas se torna propriamente simbólico. Isso
decorre de uma mudança da posição dos pais em relação à própria ordem simbólica na
qual passam a ser, reconhecidamente, inseridos. Este movimento implica na formação
de um nova maneira de relacionar o sexual ao desejo (mediada pela lei), onde é
possível inscrever-se como homem ou como mulher anunciado assim um modo
prevalente de satisfação, agora mediada pela fantasia.
Vimos assim como o complexo de Édipo é uma espécie de encruzilhada
estrutural da subjetividade humana. Ele não deve ser entendido apenas como uma fase
infantil a ser superada ou não, mas como um conjunto de experiências que constitui
estruturas psíquicas e modos de relação que permanecem no sujeito. Entende-se por
sujeito não apenas a capacidade de ter consciência de si, nem a capacidade de agir e
reagir a problemas e conflitos, mas fundamentalmente o que nos torna responsáveis por
nosso próprio desejo, mesmo que uma parte dele permaneça inconsciente.

O AUTOR
CHRISTIAN INGO LENZ DUNKER é psicanalista, doutor em psicologia, professor do
Instituto de Psicologia da USP e do mestrado em Psicologia da Unimarco, membro do
Fórum do Campo Lacaniano e autor de O cálculo neurótico do gozo, Escuta, 2002, e
Lacan e a clínica da interpretação, Hacker, 1996.

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