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Émile Durkheim

As Regras
do Método Sociológico

Tradução
PAULO NEVES
Revisão da tradu\'ão
EDUARDO BRANDÃO

Martins Fontes
São Paulo 2007
INDICE
Esta obra foi publicada originalmente em francês com o título
LES REGLES DE LA METHODE SOClOLOG/QUE.
Copyright © Flammarion, 1988, para o aparelho crítico.
Copyright © 1995, Livraria Martins Fontes Editora Ltda ..
São Paulo, para a presente edição.

I' edição /995


3' edição 2007

Tradução
PAULO NEVES

Revisão da tradução
Eduardo Brandão
Revisões gráficas
Luzia Aparecida dos Santos
Maria Cecilia Vannucchi
Dinarte Zorzanelli da Silva
Produção gráfica
Nota sobre esta edição............................................... VII
Geraldo Alves f'refácio da primeira edição ..................................... XI
Composição
Renato C. Carbone
f'refácio da segunda edição...................................... XV
{Iltroduçào ........................................... ...................... XXXIII
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CW)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) I. O que é um fato social? ......................................... . 1
Durkheim. Émile. 1858-1917. 11. Regras relativas à observação dos fatos sociais ..... . 15
As regras do método sociológico I Émile Durkheim ; tradução
Paulo Neves; revisão da tradução Eduardo Brandão. - 3ª ed. - São
111. Regras relativas à distinção entre normal e pato-
Paulo: Martins Fontes, 2007. - (Coleção tópicos) lógico ....................................................................... . 49
Título original: Les regles de la méthode sociologiq ue. IV. Regras relativas à constituição dos tipos sociais ... . 77
ISBN 978-85-336-2364-4
V. Regras relativas à explicação dos fatos sociais ...... . 91
1. Sociologia - Metodologia 1. Título. JI. Série.
VI. Regras relativas à administração da prova ............ . 127
07-1664 CDD-301.018
índices para catálogo sistemático:
1. Metodologia: Sociologia 301.018
c<mclusào....................................................................... 145
2. Métodos sociológicos 301.018 N()tas ................................................. .............................. 153

Todos os direitos desta edição reservados à


Livra,*, Martins Fontes Editora LIda.
Rua Conselheiro Ramalho. 330 01325-000 São Paulo SP Brasil
Tel. (lI) 3241.3677 Fax (lI) 3105.6993
e-mail: info@martinsfonteseditora.com.br http://www.martinsfonteseditora.com.br
NOTA SOBRE ESTA EDIÇÃO

A presente tradução foi baseada na primeira edição,


de 1895, considerada texto de referência para As regras do
método sociológico. Esta primeira edição, no entanto, dife-
re em alguns pontos da versão inicial publicada na Revue
fJhilosophique. As modificações que constituem acréscimos
ou implicam reformulações do texto estão assinaladas sis-
tematicamente através de asteriscos que indicam e delimi-
tam o texto corrigido, fornecendo-se em nota de rodapé a
redação inicial. As duas notas acrescentadas à edição de
1901, a 2ª, publicada ainda em vida de Durkheim, foram
também assinaladas.
O trabalho do professor Jean-Michel Berthelot, da
Universidade de Toulouse II (Flammarion, 1988), serviu de
hase para o estabelecimento da presente edição.
À memória de Raymond LEDRUT

Fundador do Institut de sciences sociales e do Centre de


recherches sociologiques da Universidade de Toulouse.
PREFÁCIO DA PRIMEIRA EDIÇÃO

É tão pouco habitual tratar os fatos sociais cientifica-


mente que algumas das proposições contidas nesta obra
correm o risco de surpreender o leitor. Entretanto, se exis-
te uma ciência das sociedades, cabe esperar que ela não
consista em uma simples paráfrase dos preconceitos tradi-
cionais, mas nos mostre as coisas diferentemente de como
as vê o vulgo; pois o objeto de toda ciência é fazer desco-
hertas, e toda descoberta desconcerta mais ou menos as
opiniões aceitas. Portanto, a menos que se atribua ao sen-
so comum, em sociologia, uma autoridade que há muito
ele não possui nas outras ciências - e não se percebe de
(mde lhe poderia advir essa autoridade -, cumpre que o
sociólogo tome decididamente o partido de não se intimi-
dar com os resultados de suas pesquisas, se estas foram
metodicamente conduzidas. Se buscar o paradoxo é pró-
prio de um sofista, fugir dele, quando imposto pelos fatos,
denota um espírito sem coragem ou sem fé na ciência.
Infelizmente, é mais fácil admitir essa regra em prin-
cipio e teoricamente do que aplicá-la com perseverança.
XII /jS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO / 'N/:FÁCJO DA PRIMBRA Ef)JÇ'ÂO XIII

Ainda estamos por demais acostumados a resolver essas ()I lstante, um ser que não o conhecesse seria um monstro.
questões com base nas sugestões do senso comum para ( ) caráter normal de uma coisa e os sentimentos de aver-
que possamos facilmente mantê-lo a distância das discus- ~;I(} que ela inspira podem inclusive ser solidários. A dor é
sões sociológicas. Quando nos cremos livres dele, ele nos IIIll fato normal, contanto que não seja apreciada; o crime
impõe seus julgamentos sem que o percebamos. Somente " normal, contanto que seja odiado l . Nosso método, por-
uma prática longa e especial é capaz de prevenir seme- LlI1to, nada tem de revolucionário. Num certo sentido, é
lhantes lapsos. Eis o que pedimos ao leitor para não per- ,Itl' essencialmente conservador, pois considera os fatos
der de vista. Que tenha sempre presente no espírito que ~'lciais como coisas cuja natureza, ainda que dócil e maleá-
suas maneiras de pensar mais costumeiras são antes con- \VI, não é modificável à vontade. Bem mais perigosa é a
trárias do que favoráveis ao estudo científico dos fenôme- ,I, lutrina que vê neles apenas o produto de combinações
nos sociais e, por conseguinte, que se acautele contra suas Illentais, que um simples artifício dialético pode, num ins-
primeiras impressões. Se se entregar a elas sem resistên- tante, subverter de cima a baixo!
cia, arrisca-se a julgar-nos sem nos haver compreendido. Do mesmo modo, como é habitual representar-se a
Assim, pode acontecer que nos acusem de ter querido ab- vida social como o desenvolvimento lógico de conceitos
solver o crime, sob pretexto de fazermos dele um fenô- ideais, julgar-se-á talvez grosseiramente um método que
meno de sociologia normal. No entanto, a objeção seria Llz a evolução coletiva depender de condições objetivas,
pueril. Pois, se é normal que em toda sociedade haja cri- (Iefinidas no espaço, e não é impossível que nos acusem
mes, não é menos normal que eles sejam punidos. A insti- (Ic materialista. Entretanto, poderíamos com maior justiça
tuição de um sistema repressivo não é um fato menos I'l'ivindicar a qualificação contrária. Com efeito, não está
universal que a existência de uma criminalidade, nem me- 11;1 essência do espiritualismo a idéia de que os fenôme-
nos indispensável à saúde coletiva. Para que não houves- 110S psíquicos não podem ser imediatamente derivados
se crimes, seria preciso um nivelamento das consciências dos fenômenos orgânicos? Ora, nosso método não é, em
individuais que, por razões que veremos mais adiante, parte, senão uma aplicaçào desse princípio aos fatos so-
não é possível nem desejável; mas, para que não houves- ('iais. Assim como os espiritualistas separam o reino psico-
se repressão, seria preciso uma ausência de homogenei- I,'lgico do reino biológico, separamos o primeiro do reino
dade moral que é inconciliável com a existência de uma S( lcial; da mesma forma que eles, recusamo-nos a explicar
sociedade. Todavia, partindo do fato de que o crime é de- () mais complexo pelo mais simples. Na verdade, nem
testado e detestável, o senso comum conclui erradamente lima nem outra denominação nos convém exatamente; a
que ele deveria desaparecer por completo. Com seu sim- lú1ica que aceitamos é a de racionalista. Nosso principal
plismo costumeiro, não concebe que uma coisa que re- (lhjetivo, com efeito, é estender à conduta humana o racio-
pugna possa ter uma razão de ser útil. No entanto, não há nalismo científico, mostrando que, considerada no passa-
nenhuma contradição nisso. Não há no organismo funções do, ela é redutível a relaçôes de causa e efeito que uma
repugnantes cuja atividade regular é necessária à saúde ()peração nào menos racional pode transformar a seguir
individual? Acaso não detestamos o sofrimento? E, não ('Ill regras de ação para o futuro. O que chamamos nosso
XIV AS REGRAS DO MÉTODO SOC1OLÓGICO

positivismo não é senão uma conseqüência desse racio- PREFÁCIO DA SEGUNDA EDIÇÃO
nalism0 2 . Só podemos ser tentados a superar os fatos, seja
para explicá-los, seja para dirigir seu curso, na medida em
que os julgarmos irracionais. Se forem inteiramente inteli-
gíveis, eles bastam à ciência e à prática: à ciência, pois
não há motivo para buscar fora deles suas razões de ser; à
prática, pois seu valor útil é uma dessas razões. Parece-
nos portanto, sobretudo nesta época de misticismo renas-
cente, que tal empreendimento pode e deve ser acolhido
sem inquietude e mesmo com simpatia por todos aqueles
que, embora divirjam de nós em certos pontos, partilham
nossa fé no futuro da razão.

Quando foi publicado pela primeira vez, este livro


suscitou controvérsias bastante fortes. As idéias correntes,
como que desconcertadas, resistiram a princípio com tal
energia que, durante um tempo, nos foi quase impossível
fazer-nos ouvir. Até nos pontos em que nos expressára-
mos mais explicitamente, atribuíram-nos gratuitamente
idéias que nada tinham em comum com as nossas, e acre-
ditaram refutar-nos ao refutá-las. Embora tenhamos decla-
rado várias vezes que a consciência, tanto individual
quanto social, nào era para nós nada de substancial, mas
apenas um conjunto mais ou menos sistematizado de fe-
nômenos sui generis, tacharam-nos de realismo e de onto-
logismo. Embora tenhamos dito expressamente e repetido
de todas as maneiras que a vida social era inteiramente
feita de representações, acusaram-nos de eliminar o ele-
mento mental da sociologia. Houve até quem chegasse a
restaurar contra nós procedimentos de disçussão que po-
diam se considerar definitivamente desaparecidos. Impu-
taram-nos, com efeito, certas opiniões que não havíamos
XVII
XVI AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO PREFÁCIO DA SEGUNDA EDIÇÃO

sustentado, sob pretexto de que elas estavam "de acordo mos de aproveitar esta segunda edição para acrescentar
com nossos princípios". A experiência já havia mostrado, • algumas explicações a todas aquelas que já demos, res-
porém, todos os perigos desse método que, permitindo ponder a certas críticas e fazer sobre alguns pontos novos
construir arbitrariamente os sistemas em questão, permite esclarecimentos.
também triunfar deles sem esforço.
Não acreditamos nos enganar ao dizer que, desde
então, as resistências progressivamente diminuíram. Claro
que mais de uma proposição nos é ainda contestada. Mas
não poderíamos nos surpreender nem nos queixar dessas A proposição segundo a qual os fatos sociais devem
contestações salutares; não resta dúvida de que nossas ser tratados como coisas - proposição que está na base
fórmulas estão destinadas a ser reformadas no futuro. Re- de nosso método - é das que mais têm provocado contra-
sumo de uma prática pessoal e forçosamente restrita, elas dições. Consideraram paradoxal e escandaloso que assi-
deverão necessariamente evoluir à medida que se adquira milássemos às realidades do mundo exterior as do mundo
uma experiência mais ampla e aprofundada da realidade social. Era equivocar-se singularmente sobre o sentido e o
social. Em matéria de método, aliás, jamais se pode fazer alcance dessa assimilação, cujo objeto não é rebaixar as
senão o provisório, pois os métodos mudam à medida formas superiores do ser às formas inferiores, mas, ao
que a ciência avança. Apesar disso, nestes últimos anos, e contrário, reivindicar para as primeiras um grau de reali-
a despeito das oposições, a causa da sociologia objetiva, dade pelo menos igual ao que todos reconhecem nas se-
específica e metódica ganhou terreno sem interrupção. A gundas. Não dizemos, com efeito, que os fatos sociais são
fundação da revista Année sociologique certamente contri- coisas materiais, e sim que são coisas tanto quanto as coi-
buiu em muito para esse resultado. Por abarcar a uma só sas materiais, embora de outra maneira.
vez todo o domínio da ciência, a Année pôde, melhor do O que vem a ser uma coisa? A coisa se opõe à idéia
que qualquer obra especial, dar uma idéia do que a socio- assim como o que se conhece a partir de fora se opüe ao
logia pode e deve se tornar. Deste modo foi possível ver que se conhece a partir de dentro. É coisa todo objeto do
que ela não estava condenada a permanecer um ramo da conhecimento que não é naturalmente penetrável à inteli-
filosofia geral, sendo capaz, por outro lado, de entrar em gência, tudo aquilo de que não podemos fazer uma no-
contato com o detalhe dos fatos sem degenerar em pura ção adequada por um simples procedimento de análise
erudição. Por isso, nunca seria demais homenagear o ar- mental, tudo o que o espírito não pode chegar a com-
dor e a dedicação de nossos colaboradores; foi graças a rreender a menos que saia de si mesmo, por meio de ob-
eles que essa demonstração pôde de fato ser tentada e servações e experimentações, passando progressivamente
pode prosseguir. dos caracteres mais exteriores e mais imediatamente ace~
No entanto, por reais que sejam tais progressos, é in- síveis aos menos visíveis e aos mais profundos. Tratar os
contestável que os enganos e as confusões passadas ain- fatos de uma certa ordem como coisas não é, portanto,
da não se dissiparam completamente. Eis por que gostaría- classificá-los nesta ou naquela categoria do real; é obser-
XVIII AS REGRAS DO MÉTODO SOCTOLÓGICO I'REFÁCTO DA SEGUNDA EDIÇÃO XIX

var diante deles uma certa atitude mental. É abordar seu tudar os fatos mentais a partir de fora, isto é, como coisas.
estudo tomando por princípio que se ignora absoluta- () mesmo deve ser dito dos fatos sociais, e com mais ra-
mente o que eles são e que suas propriedades característi- zào ainda; pois a consciência não poderia ser mais com-
cas, bem como as causas desconhecidas de que estas de- petente para conhecê-los do que para conhecer sua vida
pendem, não podem ser descobertas pela introspecção, própria 3 . Objetar-se-á que, como eles são obra nossa, só
mesmo a mais atenta. precisamos tomar consciência de nós mesmos para saber
Assim definidos os termos, nossa proposição, longe () que neles pusemos e de que maneira os formamos.
de ser um paradoxo, poderia ser quase considerada um Mas, em primeiro lugar, a maior parte das instituições so-
truísmo, se ainda não fosse com muita freqüência desco- ciais nos são legadas inteiramente prontas pelas gerações
nhecida nas ciências que tratam do homem, sobretudo anteriores; não tomamos parte alguma em sua formação
em sociologia. Com efeito, pode-se dizer, neste sentido, e, por conseqüência, não é nos interrogando que podere-
que todo objeto de ciência é uma coisa, com exceção tal- mos descobrir as causas que lhes deram origem. Além
vez dos objetos matemáticos; pois, quanto a estes, como disso, mesmo que tenhamos colaborado na gênese delas,
nós mesmos os construímos, dos mais simples aos mais só vislumbramos da maneira mais confusa, e muitas vezes
complexos, é suficiente, para saber o que são, olhar den- mais inexata, as verdadeiras razões que nos determinaram
tro de nós e analisar interiormente o processo mental de a agir e a natureza de nossa ação. Mesmo quando se trata
que resultam. Mas, quando se trata de fatos propriamente simplesmente de nossas atitudes privadas, conhecemos
ditos, eles são para nós, no momento em que empreende- bastante mal as motivações relativamente simples que nos
mos fazer-lhes a ciência, necessariamente coisas ignora- guiam; cremo-nos desinteressados e na verdade agimos
das, pois as representações que fizemos eventualmente como egoístas, julgamos obedecer ao ódio quando cede-
deles ao longo da vida, tendo sido feitas sem método e mos ao amor, à razão quando somos escravos de precon-
sem crítica, são desprovidas de valor científico e devem ceitos irrefletidos, etc. Assim, como teríamos a faculdade
ser deixadas de lado. Os próprios fatos da psicologia indi- de discernir com maior clareza as causas, muito mais
vidual apresentam esse caráter e devem ser considerados complexas, de que procedem as atitudes da coletividade?
sob esse mesmo aspecto. Com efeito, ainda que nos se- I'ois, de mais a mais, cada um só participa dela numa ínfi-
jam interiores por definição, a consciência que temos de- ma parte; temos uma multidão de colaboradores e o que
les não nos revela nem sua natureza interna nem sua gê- se passa nas outras consciências nos escapa.
nese. Ela nos faz conhecê-los bem até um certo ponto, Nossa regra nào implica portanto nenhuma concep-
mas somente como as sensações nos fazem conhecer o ~.·ào metafísica, nenhuma especulação sobre o âmago dos
calor ou a luz, o som ou a eletricidade; ela nos oferece seres. O que ela reclama é que o sociólogo se coloque no
impressões confusas, passageiras, subjetivas, mas não no- mesmo estado de espírito dos físicos, químicos, fisiologis-
ções claras e distintas, conceitos explicativos desses fatos. tas, quando se lançam numa região ainda inexplorada de
E é precisamente por essa razão que se fundou neste sé- seu domínio científico. É preciso que; ao penetrar no mun-
culo uma psicologia objetiva, cuja regra fundamental é es- do social, ele tenha consciência de que penetra no desco-
xx AS REGRAS DO MÉTODO S0G70LÓGICO PREFÁG10 DA SEGUNDA EDIÇÃO XXI

nhecido; é preciso que ele se sinta diante de fatos cujas ção, mas a concepção que dela tem o grupo; somente essa
leis são tão insuspeitas quanto podiam ser as da vida, concepção é socialmente eficaz. Ora, ela não pode ser co-
quando a biologia não estava constituída; é preciso que nhecida por simples observação interior, uma vez que não
ele esteja pronto a fazer descobertas que o surpreenderão está inteira em nenhum de nós; é preciso, pois, encontrar
e o desconcertarão. Ora, a sociologia está longe de ter alguns sinais exteriores que a tornem sensível. Além do
chegado a um grau de maturidade intelectual. Enquanto o mais, ela não surgiu do nada; ela própria é um efeito de
cientista que estuda a natureza física tem o sentimento causas externas que é preciso conhecer, para poder apre-
muito vivo das resistências que ela lhe opõe e que só são ciar seu papel no futuro. Seja como for, é sempre ao mes-
vencidas com dificuldade, parece que o sociólogo se mo- mo método que é necessário voltar.
ve em meio a coisas imediatamente transparentes para o
espírito, tamanha a facilidade com que o vemos resolver
as questões mais obscuras. No estado atual da ciência, não II
sabemos verdadeiramente o que são nem sequer as princi-
pais instituições sociais, como o Estado ou a família, o di- Outra proposição não foi menos vivamente discutida
reito de propriedade ou o contrato, a pena ou a responsa- que a precedente: a que apresenta os fenômenos sociais
bilidade; ignoramos quase completamente as causas de como exteriores aos indivíduos. Concedem-nos de bom
que dependem, as funções que cumprem, as leis de sua grado, atualmente, que os fatos da vida individual e os da
evolução; apenas começamos a vislumbrar algumas luzes vida coletiva são heterogêneos em certo grau; pode-se até
em certos pontos. No entanto, basta percorrer as obras de dizer que um entendimento, se não unânime, pelo menós
sociologia para ver como é raro o sentimento dessa igno- muito geral, está em via de se formar sobre esse ponto.
rância e dessas dificuldades. Os sociólogos não somente Quase não há mais sociólogos que neguem à sociologia
se consideram como que obrigados a dogmatizar sobre to- toda e qualquer especificidade. Mas, como a sociedade
dos os problemas ao mesmo tempo, mas acreditam poder, não é composta senão de indivíduos", o senso comum jul-
em algumas páginas ou em algumas frases, atingir a essên- ga que a vida social não pode ter outro substrato que a
cia mesma dos fenõmenos mais complexos. Vale dizer consciência individual; sem isso, ela parece solta no ar e
que semelhantes teorias exprimem, não os fatos que não pairando no vazio.
poderiam ser esgotados com tal rapidez, mas a prenoção Entretanto, o que se julga tão facilmente inadmissível
que deles tinha o autor, anteriormente à pesquisa. Certa- quando se trata dos fatos sociais é normalmente admitido
mente a idéia que fazemos das práticas coletivas, do que nos outros reinos da natureza. Toda vez que elementos
elas são ou do que devem ser, é um fator de seu desenvol- quaisquer, ao se combinarem, produzem, por sua combi-
vimento. Mas essa idéia mesma é um fato que, para ser naçào, fenômenos novos, cumpre conceber que esses fe- o

convenientemente determinado, deve igualmente ser estu- ntl1nenos estão situados, não nos elementos, mas no todo
dado desde fora. Pois o que importa saber não é a manei- r( JrInado por sua uniào. A célula viva nada contém senão
ra como tal pensador individualmente concebe tal institui- partículas minerais, assim como a sociedade nada mais
XXII AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO PREFÁCIO DA SEGUNDA EDIÇÃO XXIII

contém além dos indivíduos; no entanto, é evidentemente cias minerais que compõem o ser vivo. Não se pode reab-
impossível que os fenômenos característicos da vida resi- sorvê-los nos elementos sem que haja contradição, uma
dam em átomos de hidrogênio, de oxigênio, de carbono e vez que, por definição, eles supõem algo mais do que es-
de azoto. Pois de que maneira os movimentos vitais pode- ses elementos contêm. Assim se acha justificada, por uma
riam se produzir no seio de elementos não vivos? De que razão nova, a separação que estabelecemos mais adiante
maneira, além disso, as propriedades biológicas se reparti- entre a psicologia propriamente dita, ou ciência do indiví-
riam entre esses elementos? Elas não poderiam se verificar duo mental, e a sociologia. Os fatos sociais não diferem
igualmente em todos, já que eles não são da mesma natu- apenas em qualidade dos fatos psíquicos; eles têm outro
reza; o carbono não é o azoto, portanto não pode adquirir substrato, não evoluem no mesmo meio, não dependem
as mesmas propriedades nem desempenhar o mesmo pa- das mesmas condições. O que não quer dizer que não se-
pel. Também não é admissível que cada aspecto da vida, jam, também eles, psíquicos de certa maneira, já que to-
cada um de seus caracteres principais, se encarne num dos consistem em modos de pensar ou de agir. Mas os es-
grupo diferente de átomos. A vida não poderia se decom- tados da consciência coletiva são de natureza diferente
por desta forma; ela é una e, em conseqüência, só pode dos estados da consciência individual; são representações
ter por sede a substância viva em sua totalidade. Ela está de uma outra espécie. A mentalidade dos grupos não é a
no todo, não nas partes. Não são as partículas não vivas dos particulares; tem suas próprias leis. Portanto as duas
da célula que se alimentam, se reproduzem, em suma, que ciências são tão claramente distintas quanto podem ser
vivem; é a própria célula, e somente ela. O que dizemos duas ciências, não importam as relações que possam exis-
da vida poderia ser dito de todas as sínteses possíveis. A tir entre elas.
dureza do bronze não está nem no cobre, nem no esta- Todavia, convém fazer sobre esse ponto uma distin-
nho, nem no chumbo que serviram para formá-lo e que ção que talvez lance alguma luz sobre o debate.
são corpos brandos ou flexíveis; está na mistura deles. A Que a matéria da vida social não possa se explicar
fluidez da água, suas propriedades alimentares e outras por fatores puramente psicológicos, ou seja, por estados
não estão nos dois gases que a compõem, mas na substân- da consciência individual, é o que nos parece de todo evi-
cia complexa que formam por sua associaçào. dente. Com efeito, o que as representações coletivas tradu-
Apliquemos esse princípio à sociologia. Se, como nos zem é o modo como o grupo se pensa em suas relações
concedem, essa síntese sui generis que constitui toda socie- com os objetos que o afetam. Ora, o grupo não é constituí-
dade produz fenômenos novos, diferentes dos que se do da mesma maneira que o indivíduo, e as coisas que o
passam nas consciências solitárias, cumpre admitir que ;lfetam são de outra natureza. Representações que não ex-
esses fatos específicos residem na sociedade mesma que primem nem os mesmos sujeitos, nem os mesmos objetos,
os produz, e não em suas partes, isto é, em seus mem- 11;10 poderiam depender das mesmas causas. Para com- .
bros. Neste sentido, portanto, eles são exteriores às cons- preender a maneira como a sociedade representa a si mes-
ciências individuais, consideradas como tais, assim como ma e o mundo que a cerca, é a natureza da sociedade, e
os caracteres distintivos da vida são exteriores às substân- 11;10 a dos particulares, que se deve considerar. Os símbo-
XXIV AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO PREFÁCIO DA SEGUNDA EDIÇÃO :x:x'V

los com os quais ela se pensa mudam conforme o que ela pensar, por exemplo, que a contigüidade e a semelhança,
é. Se, por exemplo, ela se concebe como originada de um os contrastes e os antagonismos lógicos atuam da mesma
animal epônimo, é que constitui um desses grupos espe- forma, quaisquer que sejam as coisas representadas? Che-
ciais chamados clãs. Se o animal é substituído por um an- ga-se assim a conceber a possibilidade de uma psicologia
tepassado humano, mas igualmente mítico, é que o clã inteiramente formal, que seria uma espécie de terreno co-
mudou de natureza. Se, acima das divindades locais ou fa- mum à psicologia individual e à sociologia; e talvez esteja
miliares, ela imagina outras das quais julga depender, é aí a causa do escrúpulo que sentem certos espíritos em
que os grupos locais e familiares que a compõem tendem distinguir com demasiada nitidez essas duas ciências.
a se concentrar e a se unificar, e o grau de unidade que No estado atual de nossos conhecimentos, a questão
apresenta um panteão religioso corresponde ao grau de assim colocada não poderia, a rigor, encontrar solução ca-
unidade atingido no mesmo momento pela sociedade. Se tegórica. Com efeito, tudo o que sabemos, por um lado,
ela condena certos modos de conduta, é que eles ofen- sobre a maneira como se combinam as idéias individuais
dem alguns de seus sentimentos fundamentais; e esses se reduz a algumas proposições, muito gerais e muito va-
sentimentos estão ligados à sua constituição, assim como gas, que chamamos comumente leis de associação de
os do indivíduo a seu temperamento físico e à sua organi- idéias. E, quanto ãs leis da ideação coletiva, elas são ain-
zação mental. Deste modo, mesmo que a psicologia indi- da mais completamente ignoradas. A psicologia social,
vidual não tivesse mais segredos para nós, ela não poderia que deveria ter por tarefa determiná-las, não é mais do que
nos dar a solução de nenhum desses problemas, já que uma palavra que designa todo tipo de generalidades, vari-
eles se relacionam a ordens de fatos que ela ignora. adas e imprecisas, sem objeto definido. Seria preciso in-
Mas, uma vez reconhecida essa heterogeneidade, po- vestigar, pela comparação dos temas míticos, das lendas e
de-se perguntar se as representações individuais e as re- tradições populares, das línguas, de que forma as repre-
presentaçôes coletivas não se assemelham pelo fato de sentações sociais se atraem ou se excluem, se fundem
ambas serem igualmente representações, e se, devido a es- umas nas outras ou se distinguem, etc. Ora, se o proble-
sas semelhanças, certas leis abstratas não seriam comuns ma merece tentar a curiosidade dos pesquisadores, mal se
aos dois reinos. Os mitos, as lendas populares, as concep- pode dizer que ele foi abordado; e enquanto não se tiver
ções religiosas de toda espécie, as crenças morais, etc. ex- encontrado algumas dessas leis, será evidentemente im-
primem uma realidade diferente da realidade individual; possível saber com certeza se elas repetem ou não as da
mas poderia acontecer que a maneira como essas realida- psicologia individual.
des se atraem ou se repelem, se agregam ou se desagre- Entretanto, na falta de cçrteza, é pelo menos prová-
gam, fosse independente de seu conteúdo e se devesse vel que, se semelhanças existeVl entre essas duas espécies.
unicamente à sua qualidade geral de representações. Em- de leis, as diferenças não devem ser menos acentuadas.
bora feitas de uma matéria diferente, elas se comportariam Parece inadmissível, com efeito, que a matéria de que são
em suas relações mútuas como fazem as sensações, as feitas as representações não influencie a maneira como
imagens ou as idéias no indivíduo. Acaso não se pode elas se combinam. É verdade que os psicólogos falam às
XXVI AS REGRAS DO MÉTODO SOG1OLÓGICO PREFÁCIO DA SEGUNDA EDIÇÃO XXVII

vezes das leis de associação de idéias como se elas fos- III


sem as mesmas para todos os tipos de representações in-
dividuais. Mas nada é mais inverossímil do que isso; as Resta-nos dizer algumas palavras da definição que
imagens não se compõem entre si como as sensações, demos dos fatos sociais em nosso primeiro capítulo. Dis-
nem os conceitos como as imagens. Se a psicologia fosse semos que consistem em maneiras de fazer ou de pensar,
mais avançada, ela certamente constataria que cada cate- reconhecíveis pela particularidade de serem capazes de
goria de estados mentais possui leis formais que lhe são exercer sobre as consciências particulares uma influência
próprias. Sendo assim, deve-se a fortíorí esperar que as coercitiva. Sobre esse ponto produziu-se uma confusão
leis correspondentes do pensamento social sejam tão es- que merece ser assinalada.
pecíficas como esse pensamento mesmo. Na verdade, por É tão habitual aplicar às coisas sociológicas as formas
pouco que se tenha praticado tal ordem de fatos, é difícil do pensamento filosófico, que muitos viram nessa defini-
não ter o sentimento dessa especificidade. É ela, com efei- ção preliminar uma espécie de filosofia do fato social.
to, que nos faz parecer estranha a maneira tão especial co- Disseram que explicávamos os fenômenos sociais pela
mo as concepções religiosas (que são coletivas por exce- coerção, do mesmo modo que Gabriel Tarde os explica
lência) se misturam, ou se separam, se transformam umas pela imitação. Não tínhamos uma tal ambição e não nos
nas outras, dando origem a compostos contraditórios que ocorreu sequer que pudessem atribuí-la a nós, por ser
contrastam com os produtos ordinários de nosso pensa- contrária a todo método. O que propúnhamos era, não
mento privado. Se, portanto, como é presumível, certas antecipar por uma visão filosófica as conclusões da ciên-
leis da mentalidade social lembram efetivamente algumas cia, mas simplesmente indicar em que sinais exteriores é
daquelas estabelecidas pelos psicólogos, não é que as pri- possível reconhecer os fatos que ela deve examinar, a fim
meiras são um simples caso particular das segundas, mas de que o cientista saiba percebê-los onde se encontram e
que entre ambas, ao lado de diferenças certamente impor- não os confunda com outros. Tratava-se de delimitar o
tantes, há similitudes que a abstração poderá extrair, e campo da pesquisa tanto quanto possível, não de se en-
que são ainda ignoradas. Vale dizer que em caso nenhum volver numa espécie de intuição exaustiva. Assim aceita-
a sociologia poderia tomar pura e simplesmente de em- mos de muito bom grado a censura feita a essa definição,
préstimo à psicologia esta ou aquela de suas proposições, de não exprimir todos os caracteres do fato social e, por
para aplicá-la tal e qual aos fatos sociais. O pensamento conseguinte, de não ser a única possível. Não há nada de
coletivo inteiro, em sua forma e em sua matéria, deve ser inconcebível, com efeito, em que o fato social possa ser
estudado em si mesmo, por si mesmo, com o sentimento caracterizado de várias maneiras diferentes; não há razão
do que ele tem de específico, e cabe deixar ao futuro a ta- para que ele tenha apenas uma propriedade distintiva 6 .
refa de saber em que medida ele se assemelha ao pensa- Tudo o que importa é escolher a que parece a melhor pa- .
mento individual. Esse é inclusive um problema relacio- ra o objetivo proposto. É bem possível, até, empregar si-
nado antes à filosofia geral e à lógica abstrata do que ao multaneamente vários critérios, conforme as circunstâncias.
estudo científico dos fatos sociais 'i . Nós mesmos reconhecemos ser às vezes necessário isso
XXVIII AS REGRAS DO MinaDO SOCIOLÓGICO PREFÁCIO DA SEGUNDA EJ)JÇ'ÀO XXIX

em sociologia, pois há casos em que o caráter de coerção teiros em cada um de nós. Ao contrário, as crenças e as
não é facilmente reconhecível. O que é preciso, já que se práticas sociais agem sobre nós desde fora; assim, a in-
trata de uma definição inicial, é que as características utili- fluência exercida por uns e por outras é, no fundo, muito
zadas sejam imediatamente discerníveis e possam ser per- diferente.
cebidas antes da pesquisa. Ora, é essa condição que não Aliás, não devemos nos surpreender de que os de-
cumprem as definições que ãs vezes opusemos ã nossa. mais fenômenos da natureza apresentem, sob outras for-
Foi dito, por exemplo, que o fato social é "tudo o que se mas, o mesmo caráter pelo qual definimos os fenômenos
produz na e pela sociedade", ou ainda "aquilo que interes- sociais. Essa similitude decorre simplesmente de ambos
sa e afeta o grupo de alguma forma". Mas só é possível sa- serem coisas reais. Pois tudo o que é real tem uma nature-
ber se a sociedade é ou não a causÇl de um fato ou se esse za definida que se impõe, com a qual se deve contar e
fato tem efeitos sociais quando a ciência já avançou. Tais que, mesmo quando se consegue neutralizá-la, jamais é
definições não poderiam, pois, determinar o objeto da in- completamente vencida. E, no fundo, aí está o que há de
vestigação que começa. Para que se possa utilizá-las, é pre- mais essencial na noção de coerção social. Pois tudo o
ciso que o estudo dos fatos sociais já tenha avançado bas- que ela implica é que as maneiras coletivas de agir e de
tante e, portanto, que tenha sido descoberto algum outro pensar têm uma realidade exterior aos indivíduos que, a
meio preliminar de reconhecê-los lá onde se encontram. cada momento do tempo, conformam-se a elas. São coi-
Ao mesmo tempo que consideraram nossa definição sas que têm sua existência própria. O indivíduo as encon-
demasiado estreita, acusaram-na de ser demasiado vasta e tra inteiramente formadas e não pode fazer que elas não
de compreender quase todo o real. Com efeito, disseram, existam ou que sejam diferentes do que são; assim, ele é
todo meio físico exerce uma coerção sobre os seres que obrigado a levá-las em conta, sendo mais difícil (não dize-
sofrem sua ação, pois estes são obrigados, numa certa me- mos impossível) modificá-las na medida em que elas par-
dida, a adaptar-se a ele. Mas entre esses dois modos de ticipam, em graus diversos, da supremacia material e mo-
coerção existe toda a diferença que separa um meio físico ral que a sociedade exerce sobre seus membros. Certa-
de um meio moral. A pressão exercida por um ou vários mente o indivíduo desempenha um papel na gênese delas.
corpos sobre outros corpos, ou mesmo sobre vontades, Mas, para que haja fato social, é preciso que vários indiví-
não poderia ser confundida com aquela que exerce a duos, pelo menos, tenham juntado sua ação e que essa
consciência de um grupo sobre a consciência de seus combinação tenha produzido algo novo. E, como essa sín-
membros. O que a coerção social tem de inteiramente es- tese ocorre fora de cada um de nós (já que envolve uma
pecial é que ela se deve, não à rigidez de certos arranjos pluralidade de consciências), ela necessariamente tem por
moleculares, mas ao prestígio de que seriam investidas al- efeito fixar, instituir fora de nós certas maneiras de agir e
gumas representações. É verdade que os hábitos, indivi- certos julgamentos que não dependem de cada vontade-
duais ou hereditários, têm, sob certos aspectos, a mesma particular isoladamente. Tal como foi assinalad0 7 , há uma
propriedade. Eles nos dominam, nos impõem crenças ou palavra que exprime bastante bem essa maneira de ser
práticas. Só que nos dominam desde dentro, pois estão in- muito especial (contanto que se estenda um pouco sua
xxx AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO PREFÁCIO DA SEGUIVDA EDIÇ'ÀO XXXI

acepção ordinária} é a palavra instituição. Com efeito, lado antropocêntrico, o qual, aqui como alhures, barra o
sem alterar o sentido dessa expressão, pode-se chamar caminho à ciência. Desagrada ao homem renunciar ao
instituição todas as crenças e todos os modos de conduta poder ilimitado que por muito tempo ele se atribuiu sobre
instituídos pela coletividade; a sociologia pode então ser a ordem social, e, por outro lado, parece-lhe que, se exis-
definida como a ciência das instituições, de sua gênese e tem realmente forças coletivas, ele estaria necessariamen-
de seu funcionamentos. te condenado a sofrê-las sem poder modificá-las. É isso
Sobre as outras controvérsias que este livro suscitou, que o leva a negá-las. Em vão, experiências repetidas lhe
parece-nos inútil voltar a falar, pois não se referem a nada ensinaram que essa onipotência, em cuja ilusão se man-
de essencial. A orientação geral do método não depende tém complacentemente, sempre foi para ele uma causa de
dos procedimentos que se prefira empregar, seja para fraqueza; que seu domínio sobre as coisas realmente só
classificar os tipos sociais, seja para distinguir o normal do começou a partir do momento em que reconheceu que
patológico. Aliás, essas contestações com muita freqüên- elas têm uma natureza própria, e se resignou a aprender
cia resultaram da recusa em admitir, ou de não se admitir com elas o que elas são. Expulso de todas as outras ciên-
sem reservas, nosso princípio fundamental: a realidade cias, esse deplorável preconceito se mantém obstinada-
objetiva dos fatos sociais. É nesse princípio, afinal, que tu- mente em sociologia. Portanto, não há nada mais urgente
do repousa e se resume. Por isso nos pareceu útil colocá- do que buscar libertar nossa ciência definitivamente dele.
lo uma vez mais em evidência, separando-o de toda ques- É esse o principal objetivo de nossos esforços.
tão secundária. E estamos seguros de que, ao atribuir-lhe
tal preponderância, permanecemos fiéis à tradição socio-
lógica, pois, no fundo, é dessa concepção que a sociolo-
gia inteira emergiu. Com efeito, essa ciência só podia nas-
cer no dia em que se pressentisse que os fenômenos so-
ciais, embora não sejam materiais, não deixam de ser coi-
sas reais que comportam o estudo. Para se chegar a pen-
sar que havia motivos de pesquisar o que são, era preciso
ter compreendido que eles existem de uma forma defini-
da, que têm uma maneira de ser constante, uma natureza
que não depende do arbítrio individual e da qual derivam
relações necessárias. Assim a história da sociologia é ape-
nas um longo esforço para precisar esse sentimento, apro-
fundá-lo, desenvolver todas as conseqüências que ele im-
plica. Mas, apesar dos grandes progressos que foram fei-
tos neste sentido, veremos pela continuação deste traba-
lho que ainda restam numerosas sobrevivências do postu-
INTRODUÇÃO

Até o presente, os sociólogos pouco se preocuparam


em caracterizar e definir o método que aplicam ao estudo
dos fatos sociais. É assim que, em toda a obra de Spencer,
o problema metodológico não ocupa nenhum lugar; pois
a Introdução ã ciência social, cujo título poderia dar essa
ilusão, destina-se a demonstrar as dificuldades e a possibi-
lidade da sociologia, não a expor os procedimentos que
ela deve utilizar. Stuart Mill, é verdade, ocupou-se longa-
mente da questão!; mas ele não fez senão passar sob o
crivo de sua dialética o que Comte havia dito, sem acres-
centar nada de verdadeiramente pessoal. Um capítulo do
Curso de filosofia positiva, eis praticamente o único estu-
do original e importante que possuímos sobre o assunt0 2 .
Essa despreocupação aparente, aliás, nada tem de
surpreendente. De fato, os grandes sociólogos cujos no-
mes acabamos de mencionar raramente saíram das gene-
ralidades sobre a natureza das sociedades, sobre as relà-
ções do reino social e do reino biológico, sobre a marcha
geral do progresso; mesmo a volumosa sociologia de
XXXIV AS REGRAS DO MÉTODO SOG7OLÓGICO

Spencer quase não tem outro objeto senão mostrar como CAPÍTULO I
a lei da evolução universal se aplica ãs sociedades. Ora, O QUE É UM FATO SOCIAL?
para tratar essas questôes filosóficas, não são necessários
procedimentos especiais e complexos. Era suficiente, por-
tanto, pesar os méritos comparados da dedução e da in-
dução e fazer uma inspeção sumária dos recursos mais
gerais de que dispõe a investigação sociológica. Mas as
precauções a tomar na observação dos fatos, a maneira
como os principais problemas devem ser colocados, o
sentido no qual as pesquisas devem ser dirigidas, as práti-
cas especiais que podem permitir chegar aos fatos, as re-
gras que devem presidir a administração das provas, tudo
isso permanecia indeterminado.
Uma série de circunstâncias felizes, entre as quais é
justo destacar a iniciativa que criou em nosso favor um Antes de procurar qual método convém ao estudo dos
curso regular de sociologia na Faculdade de Letras de fatos sociais, importa saber quais fatos chamamos assim.
Bordéus, o qual possibilitou que nos dedicássemos desde A questão é ainda mais necessária porque se utiliza
cedo ao estudo da ciência social e inclusive fizéssemos essa qualificação sem muita precisão. Ela é empregada
dele o objeto de nossas ocupações profissionais, nos fez correntemente para designar mais ou menos todos os fe-
sair dessas questões demasiado gerais e abordar um certo nõmenos que se dão no interior da sociedade, por menos
número de problemas particulares. Assim, fomos levados, que apresentem, com uma certa generalidade, algum inte-
pela força mesma das coisas, a elaborar um método que resse social. Mas, dessa maneira, não há, por assim dizer,
julgamos mais definido, mais exatamente adaptado ã na- acontecimentos humanos que não possam ser chamados
tureza particular dos fenômenos sociais. São esses resulta- sociais. Todo indivíduo come, bebe, dorme, raciocina, e a
dos de nossa prática que gostaríamos de expor aqui em sociedade tem todo o interesse em que essas funções se
conjunto e de submeter à discussão. Claro que eles estão exerçam regularmente. Portanto, se esses fatos fossem so-
implicitamente contidos no livro que publicamos recente- ciais, a sociologia não teria objeto próprio, e seu domínio
mente sobre A divisão do trabalho social. Mas nos parece se confundida com o da biologia e da psicologia.
interessante destacá-los, formulá-los à parte, acompanha- Mas, na realidade, há em toda sociedade um grupo
dos de suas provas e ilustrados de exemplos tomados tan- determinado de fenômenos que se distinguem por ca-
to dessa obra como de trabalhos ainda inéditos. Assim racteres definidos daqueles que as outras ciências da n{l-
poderão julgar melhor a orientação que gostaríamos de tureza estudam.
tentar dar aos estudos de sociologia. Quando desempenho minha tarefa de irmão, de ma-
rido ou de cidadão, quando executo os compromissos
2 AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOlÓGiCO () QUE É {IM FATO SOCIAl' 3

que assumi, eu cumpro deveres que estão definidos, fora eu o expie, se não puder ser reparado de outro modo. Em
de mim e de meus atos, no direito e nos costumes. Ainda se tratando de máximas puramente morais, a consciência
que eles estejam de acordo com meus sentimentos pró- pública reprime todo ato que as ofenda através da vigilân-
prios e que eu sinta interiormente a realidade deles, esta cia que exerce sobre a conduta dos cidadãos e das penas
não deixa de ser objetiva; pois não fui eu que os fiz, mas especiais de que dispõe. Em outros casos, a coerção é
os recebi pela educação. Aliás, quantas vezes não nos menos violenta, mas não deixa de existir. Se não me sub-
ocorre ignorarmos o detalhe das obrigações que nos in- meto ãs convençôes do mundo, se, ao vestir-me, não levo
cumbem e precisarmos, para conhecê-las, consultar o Có- em conta os costumes observados em meu país e em mi-
digo e seus intérpretes autorizados! Do mesmo modo, as nha classe, o riso que provoco, o afastamento em relação
crenças e as práticas de sua vida religiosa, o fiel as encon- a mim produzem, embora de maneira mais atenuada, os
trou inteiramente prontas ao nascer; se elas existiam antes mesmos efeitos que uma pena propriamente dita. Ade-
dele, é que existem fora dele. O sistema de signos de que mais, a coerção, mesmo sendo apenas indireta, continua
me sirvo para exprimir meu pensamento, o sistema de sendo eficaz. Não sou obrigado a falar francês com meus
moedas que emprego para pagar minhas dívidas, os ins- compatriotas, nem a empregar as moedas legais; mas é
trumentos de crédito que utilizo em minhas relaçôes co- impossível agir de outro modo. Se eu quisesse escapar a
merciais, as práticas observadas em minha profissão, etc. essa necessidade, minha tentativa fracassaria miseravel-
funcionam independentemente do uso que faço deles. Que mente. Industrial, nada me proíbe de trabalhar com pro-
se tomem um a um todos os membros de que é composta cedimentos e métodos do século passado; mas, se o fizer,
a sociedade; o que precede poderá ser repetido a propósi- é certo que me arruinarei. Ainda que, de fato, eu possa li-
to de cada um deles. Eis aí, portanto, maneiras de agir, de bertar-me dessas regras e violá-las com sucesso, isso ja-
pensar e de sentir que apresentam essa notável proprieda- mais ocorre sem que eu seja obrigado a lutar contra elas.
de de existirem fora das consciências individuais. E ainda que elas sejam finalmente vencidas, demonstram
Esses tipos de conduta ou de pensamento não ape- suficientemente sua força coercitiva pela resistência que
nas são exteriores ao indivíduo, como também são dota- opõem. Não há inovador, mesmo afortunado, cujos em-
dos de uma força imperativa e coercitiva em virtude da preendimentos não venham a deparar com oposiçôes
qual se impõem a ele, quer ele queira, quer não. Certa- desse tipo.
mente, quando me conformo voluntariamente a ela, essa , Eis portanto uma ordem de fatos que apresentam ca-
coerção não se faz ou pouco se faz sentir, sendo inútil. racterísticas muito especiais: consistem em maneiras de
Nem por isso ela deixa de ser um caráter intrínseco des- agir, de pensar e de sentir, exteriores ao indivíduo, e que
ses fatos, e a prova disso é que ela se afirma tão logo ten- são dotadas de um poder de coerção em virtude do qual
to resistir. Se tento violar as regras do direito, elas reagem esses fatos se impõem a ele. Por conseguinte, eles não
contra mim para impedir meu ato, se estiver em tempo, poderiam se confundir com os fenômenos orgânicos, já
ou para anulá-lo e restabelecê-lo em sua forma normal, se que consistem em representações e em ações; nem com
tiver sido efetuado e for reparável, ou para fazer com que os fenômenos psíquicos, os quais só têm existência na
r

4 AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGiCO () QUE É UM FATO SOC1AL? 5

consciência individual e através dela. Esses fatos consti- lugar de origem nenhuma consciência particular. Eles nos
tuem portanto uma espécie nova, e é a eles que deve ser vêm, a cada um de nós, de fora e são capazes de nos arre-
dada e reservada a qualificação de sociais. Essa qualifica- batar contra a nossa vontade. Certamente pode ocorrer
ção lhes convém; pois é claro que, não tendo o indivíduo que, entregando-me a eles sem reserva, eu não sinta a
por substrato, eles não podem ter outro senão a socieda- pressão que exercem sobre mim. Mas ela se acusa tão lo-
de, seja a sociedade política em seu conjunto, seja um dos go procuro lutar contra eles. Que um indivíduo tente se
grupos parciais que ela encerra: confissões religiosas, es- opor a uma dessas manifestações coletivas: os sentimentos
colas políticas, literárias, corporações profissionais, etc. que ele nega se voltarão contra ele. Ora, se essa força de
Por outro lado, é a eles só que ela convém; pois a palavra coerção externa se afirma com tal nitidez nos casos de re-
social só tem sentido definido com a condição de desig- sistência, é porque ela existe, ainda que inconsciente, nos
nar unicamente fenômenos que não se incluem em ne- casos contrários. Somos então vítimas de uma ilusão que
nhuma das categorias de fatos já constituídos e denomi- nos faz crer que elaboramos, nós mesmos, o que se impôs
nados. Eles são portanto o domínio próprio da sociologia. a nós de fora. Mas, se a complacência com que nos entre-
É verdade que a palavra coerção, pela qual os definimos, gamos a essa força encobre a pressão sofrida, ela não a
pode vir a assustar os zelosos defensores de um individua- suprime. Assim, também o ar não deixa de ser pesado,
lismo absoluto. Como estes professam que o indivíduo é embora não sintamos mais seu peso. Mesmo que, de nos-
perfeitamente autônomo, julgam que o diminuímos sem- sa parte, tenhamos colaborado espontaneamente para a
pre que mostramos que ele não depende apenas de si emoção comum, a impressão que sentimos é muito dife-
mesmo. Sendo hoje incontestável, porém, que a maior rente da que teríamos sentido se estivéssemos sozinhos.
parte de nossas idéias e de nossas tendências não é ela- Assim, a partir do momento em que a assembléia se dis-
borada por nós, mas nos vem de fora, elas só podem pe- solve, em que essas influências cessam de agir sobre nós e
netrar em nós impondo-se; eis tudo o que significa nossa nos vemos de novo a sós, os sentimentos vividos nos dão
definição. Sabe-se, aliás, que nem toda coerção social ex- a impressão de algo estranho no qual não mais nos reco-
clui necessariamente a personalidade individuaP. nhecemos. Então nos damos conta de que sofremos esses
Entretanto, como os exemplos que acabamos de citar sentimentos bem mais do que os produzimos. Pode acon-
(regras jurídicas, morais, dogmas religiosos, sistemas finan- tecer até que nos causem horror, tanto eram contrários ã
ceiros, etc.) consistem todos em crenças e em práticas nossa natureza. É assim que indivíduos perfeitamente ino-
constituídas, poder-se-ia supor, com base no que precede, fensivos na maior parte do tempo podem ser levados a
que só há fato social onde há organização definida. Mas atos de atrocidade quando reunidos em multidão. Ora, o
existem outros fatos que, sem apresentar essas formas cris- que dizemos dessas explosões passageiras aplica-se identi-
talizadas, têm a mesma objetividade e a mesma ascendên- camente aos movimentos de opinião, mais duráveis, qHe
cia sobre o indivíduo. É o que chamamos de correntes so- se produzem a todo instante a nosso redor, seja em toda a
ciais. Assim, numa assembléia, os grandes movimentos de extensão da sociedade, seja em círculos mais restritos, so-
entusiasmo ou de devoção que se produzem não têm por bre assuntos religiosos, políticos, literários, artísticos, etc.
6 AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGiCO o QUE É UM FA TO SOCiAl? 7

Aliás, pode-se confirmar por uma experiência carac- são fatos sociais. *Se se contentaram com esse caráter para
terística essa definição do fato social: basta observar a ma- defini-los, é que os confundiram, erradamente, com o que
neira como são educadas as crianças. Quando se obser- se poderia chamar de suas encarnações individuais. O que
vam os fatos tais como são e tais como sempre foram, sal- os constitui são as crenças, as tendências e as práticas do
ta aos olhos que toda educação consiste num esforço grupo tomado coletivamente; quanto às formas que assu-
contínuo para impor à criança maneiras de ver, de sentir mem os estados coletivos ao se refratarem nos indivíduos,
e de agir às quais ela não teria chegado espontaneamen- são coisas de outra espécie.* O que demonstra categorica-
te. Desde os primeiros momentos de sua vida, forçamo- mente essa dualidade de natureza é que essas duas ordens
las a comer, a beber, a dormir em horários regulares, for- de fatos apresentam-se geralmente dissociadas. Com efei-
çamo-las à limpeza, à calma, à obediência; mais tarde, to, algumas dessas maneiras de agir ou de pensar adqui-
forçamo-las para que aprendam a levar em conta outrem, rem, por causa da repetição, uma espécie de consistência
a respeitar os costumes, as conveniências, forçamo-las ao que as precipita, por assim dizer, e as isola dos aconteci-
trabalho, etc., etc. Se, com o tempo, essa coerção cessa de mentos particulares *'que as refletem**. Elas assumem as-
ser sentida, é que pouco a pouco ela dá origem a hábitos, sim um corpo, uma forma sensível que lhes é própria, e
a tendências internas que a tornam inútil, mas que só a constituem uma realidade sui generis, muito distinta dos
substituem pelo fato de derivarem dela. É verdade que, fatos individuais que a manifestam. O hábito coletivo não
segundo Spencer, uma educação racional deveria repro- existe apenas em estado de imanência nos atos sucessivos
var tais procedimentos e deixar a criança proceder com que ele determina, mas se exprime de uma vez por todas,
toda a liberdade; mas como essa teoria pedagógica jamais por um privilégio cujo exemplo não encontramos no reino
foi praticada por qualquer povo conhecido, ela constitui hiológico, numa fórmula que se repete de boca em boca,
apenas um desideratum pessoal, não um fato que se pos- que se transmite pela educação, que se fixa através da es-
sa opor aos fatos que precedem. Ora, o que torna estes crita. Tais são a origem e a natureza das regras jurídicas,
últimos particularmente instrutivos é que a educação tem morais, dos aforismos e dos ditos populares, dos artigos
justamente por objeto produzir o ser social; pode-se por- de fé em que as seitas religiosas ou políticas condensam
tanto ver nela, como que resumidamente, de que maneira suas crenças, dos códigos de gosto que as escolas literárias
esse ser constituiu-se na história. Essa pressão de todos os estabelecem, etc. ***Nenhuma dessas maneiras de agir ou
instantes que sofre a criança é a pressão mesma do meio de pensar se acha por inteiro nas aplicações que os parti-
social que tende a modelá-la à sua imagem e do qual os
pais e os mestres não são senão os representantes e os in- , "Tanto não é a repetição que os constitui, que eles existem fora
termediários. dos casos particulares nos quais se realizam. Cada fato social consiste
(lU numa crença, ou numa tendência, aLI numa prática. que é a do
Assim, não é sua generalidade que pode servir para grupo tomado coletivamente e que é muito distinta das formas em que
caracterizar os fenômenos sociológicos. Um pensamento "Ia se refrata nos indivíduos." (Revue philosophique, tomo' XXXVII,
que se encontra em todas as consciências particulares, um 1:II1./jun. 1894, p. 470.)
** "em que elas se encarnam todo dia". (RP., p. 470.)
movimento que todos os indivíduos repetem nem por isso ,,* Frases que não figuram no texto inicial.
8 AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGiCO () QUE É UM FAlO SOCIAL? 9

culares fazem delas, já que elas podem inclusive existir privadas, elas têm claramente algo de social, já que repro-
sem serem atualmente aplicadas. '" duzem em parte um modelo coletivo; mas cada uma delas
Claro que essa dissociação nem sempre se apresenta depende também, e em larga medida, da constituição or-
com a mesma nitidez. Mas basta que ela exista de uma ma- gânico-psíquica do indivíduo, das circunstâncias particu-
neira incontestável nos casos importantes e numerosos que lares nas quais ele está situado. Portanto elas não são fe-
acabamos de mencionar, para provar que o fato social é nômenos propriamente sociológicos. Pertencem simulta-
distinto de suas repercussões individuais. Aliás, mesmo que neamente a dois reinos; poderíamos chamá-las sociopsí-
ela não seja imediatamente dada à observação, pode-se quicas. Essas manifestações interessam o sociólogo sem
com freqüência realizá-la com o auxílio de certos artifícios constituírem a matéria imediata da sociologia. No interior
de método'; é inclusive indispensável proceder a essa ope- do organismo encontram-se igualmente fenômenos de na-
ração se quisermos separar o fato social de toda mistura tureza mista que ciências mistas, como a química biológica,
para observá-lo no estado de pureza'. Assim, há certas cor- estudam.
rentes de opinião que nos impelem, com desigual intensi- Mas, dirão, um fenômeno só pode ser coletivo se for
dade, conforme os tempos e os lugares, uma ao casamen- comum a todos os membros da sociedade ou, pelo me-
to, por exemplo, outra ao suicídio ou a uma natalidade nos, ã maior parte deles, portanto, se for geral. Certamen-
mais ou menos acentuada, etc. 'Trata-se, evidentemente, te, mas, se ele é geral, é porque é coletivo Cisto é, mais ou
de fatos sociais.' À primeira vista, eles parecem insepará- menos obrigatório), o que é bem diferente de ser coletivo
veis das fonuas que assumem nos casos particulares. Mas a por ser geral. Esse fenômeno é um estado do grupo, que
estatística nos fornece o meio de isolá-los. Com efeito, eles se repete nos indivíduos porque se impõe a eles. Ele está
são representados, não sem exatidão, pelas taxas de natali- em cada parte porque está no todo, o que é diferente de
dade, de nupcialidade, de suicídios, ou seja, pelo número estar no todo por estar nas partes. Isso é sobretudo evi-
que se obtém ao dividir a média anual total dos nascimen- dente nas crenças e práticas que nos são transmitidas in-
tos, dos casamentos e das mortes voluntárias pelo total de teiramente prontas pelas gerações anteriores; recebemo-
homens em idade de se casar, de procriar, de se suicidar2. las e adotamo-las porque, sendo ao mesmo tempo uma
Pois, como cada uma dessas cifras compreende todos os obra coletiva e uma obra secular, elas estão investidas de
casos particulares sem distinção, as circunstâncias indivi- uma particular autoridade que a educação nos ensinou a
duais que podem ter alguma participação na produção do reconhecer e a respeitar. Ora, cumpre assinalar que a
fenômeno neutralizam-se mutuamente e, portanto, não imensa maioria dos fenômenos sociais nos chega dessa
contribuem para determiná-lo. 'O que esse fato exprime é forma. Mas, ainda que se deva, em parte, à nossa colabo-
um certo estado da alma coletiva. ração direta, o fato social é da mesma natureza. Um senti-
Eis o que são os fenômenos sociais, desembaraçados mento coletivo que irrompe numa assembléia não exp,i-
de todo elemento estranho.' Quanto às suas manifestações me simplesmente o que havia de comum entre todos os
sentimentos individuais. Ele é algo completamente distin-
* Frases que não figuram no texto inicial. to, conforme mostramos. É uma resultante da vida co-
10 AS REGRAS DO MÉTODO SOOOLcJGICO () QUE E UM FATO SOCIAL? 11

mum, das ações e reações que se estabelecem entre as outra forma da primeira; pois, se uma maneira de se con-
consciências individuais; e, se repercute em cada uma de- duzir, que existe exteriormente às consciências indivi-
las, é em virtude da energia social que ele deve precisa- duais, se generaliza, ela só pode fazê-lo impondo-se 3 .
mente à sua origem coletiva. Se todos os corações vibram Entretanto, poder-se-ia perguntar se essa definição é
em uníssono, nào é por causa de uma concordância es- completa. Com efeito, os fatos que nos forneceram sua ba-
pontânea e preestabelecida; é que uma mesma força os se são, todos eles, maneiras de fazer; são de ordem fisio-
move no mesmo sentido. Cada um é arrastado por todos. lógica. Ora, há também maneiras de ser coletivas, isto é,
Podemos assim representar-nos, de maneira precisa, fatos sociais de ordem anatômica ou morfológica. A socio-
o domínio da sociologia. Ele compreende apenas um gru- logia não pode desinteressar-se do que diz respeito ao
po determinado de fenômenos. Um fato social se reco- substrato da vida coletiva. No entanto, o número e a natu-
nhece pelo poder de coerçào externa que exerce ou é ca- reza das partes elementares ele que se compôe a socieda-
paz de exercer sobre os indivíduos; e a presença desse de, a maneira como elas estão dispostas, o grau de coales-
. poder se reconhece, por sua vez, seja pela existência de cência a que chegaram, a distribuição da população pela
alguma sanção determinada, seja pela resistência que o superfície do território, o número e a natureza das vias de
fato opõe a toda tentativa individual de fazer-lhe violên- comunicação, a forma das habitações, etc. não parecem
cia. *Contudo, pode-se defini-lo também pela difusão que capazes, num primeiro exame, de se reduzir a modos de
apresenta no interior do grupo, contanto que, conforme agir, de sentir ou de pensar.
as observações precedentes, tenha-se o cuidado de acres- Mas, em primeiro lugar, esses diversos fenômenos
centar como segunda e essencial característica que ele apresentam a mesma característica que nos ajudou a defi-
existe independentemente das formas individuais que as- nir os outros. Essas maneiras de ser se impõem ao indiví-
sume ao difundir-se.* Este último critério, em certos casos, duo tanto quanto as maneiras de fazer de que falamos.
é inclusive mais fácil de aplicar que o precedente. De fa- De fato, quando se quer conhecer a forma como uma so-
to, a coerção é fácil de constatar quando se traduz exterior- ciedade se divide politicamente, como essas divisões se
mente por alguma reação direta da sociedade, como é o compôem, a fusão mais ou menos completa que existe
caso em relação ao direito, à moral, às crenças, aos costu- l'ntre elas, nào é por meio de uma inspeção material e
por observaçôes geográficas que se pode chegar a isso;
mes, inclusive às modas. Mas, quando é apenas indireta,
pois essas divisões são morais, ainda que tenham alguma
como a que exerce uma organização econômica, ela nem
hase na natureza física. É somente através do direito pú-
sempre se deixa perceber tão bem. A generalidade com-
hlico que se pode estudar essa organização, pois é esse
binada com a objetividade podem então ser mais fáceis
direito que a determina, assim como determina nossas re-
de estabelecer. Aliás, essa segunda definição não é senão
LI,,'ôes domésticas e cívicas. Portanto, ela não é menns
* "Pode-se defini-lo igualmente: uma maneira de pensar ou de
(lhrigatória. Se a população se amontoa nas cidades em
agir que é geral na extensáo do grupo, mas que existe independente- Vl'Z de se dispersar nos campos, é que há uma corrente
mente de suas expressões individuais." (R.P., p. 472,) dl' opinião, um movimento coletivo que impõe aos indiví-
12 AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO o QUE i,' UM FA1D SOC1AU 13

duos essa concentração. Não podemos escolher a forma estruturais mais caracterizados às correntes .livres da vida
de nossas casas, como tampouco a de nossas roupas; pe- social ainda não submetidas a nenhum molde definido. É
lo menos, uma é obrigatória na mesma medida que a ou- que entre os primeiros e as segundas apenas há diferen-
tra. As vias de comunicação determinam de maneira im- ças no grau de consolidação que apresentam. Uns e ou-
periosa o sentido no qual se fazem as migrações interio- tras são apenas vida mais ou menos cristalizada. Claro
res e as trocas, e mesmo a intensidade dessas trocas e que pode haver interesse em reservar o nome de morfoló-
dessas migrações, etc., etc. Em conseqüência, seria, quan- gicos aos fatos sociais que concernem ao substrato social,
do muito, o caso de acrescentar à lista dos fenômenos mas com a condição de não perder de vista que eles são
que enumeramos como possuidores do sinal distintivo do da mesma natureza que os outros. Nossa definição com-
fato social uma categoria a mais; e, como essa enumera- preenderá portanto todo o definido se dissermos: É fato
ção não tinha nada de rigorosamente exaustivo, a adição social toda maneira de fazer, fixada ou não, suscetível de
não seria indispensável. exercer sobre o indivíduo uma coerção exterior; ou ainda,
Mas ela não seria sequer proveitosa; pois essas ma- toda maneira de fazer que é geral na extensão de uma so-
neiras de ser não são senão maneiras de fazer consolida- ciedade dada e, ao mesmo tempo, possui uma existência
das. A estrutura política de uma sociedade não é senão a própria, independente de suas man{festações individuais4.
maneira como os diferentes segmentos que a compõem
se habituaram a viver uns com os outros. Se suas relações
são tradicionalmente próximas, os segmentos tendem a se
confundir; caso contrário, tendem a se distinguir. O tipo
de habitação que se impõe a nós não é senão a maneira
como todos ao nosso redor e, em parte, as gerações ante-
riores se acostumaram a construir suas casas. As vias de
comunicação não são senão o leito escavado pela própria
corrente regular das trocas e das migrações, correndo
sempre no mesmo sentido, etc. Certamente, se os fenô-
menos de ordem morfológica fossem os únicos a apresen-
tar essa fixidez, poderíamos pensar que eles constituem
uma espécie à parte. Mas uma regra jurídica é um arranjo
não menos permanente que um modelo arquitetônico, e
no entanto é um fato fisiológico. Uma simples máxima
moral é, seguramente, mais maleável; porém ela possui
formas bem mais rígidas que um simples costume profis-
sional ou que uma moda. Há assim toda uma gama de
nuances que, sem solução de continuidade, liga os fatos
CAPÍTI lLO II
REGRAS RELATIVAS À OBSERVAÇÃO
DOS FATOS SOCIAIS

A primeira regra e a mais fundamental é considerar


os./àtos sociais como coisas.

No momento em que uma nova ordem de fenôme-


nos torna-se objeto de ciência, eles já se acham represen-
tados no espírito, não apenas por imagens sensíveis, mas
por espécies de conceitos grosseiramente formados. Antes
dos primeiros rudimentos da física e da química, os ho-
Illens já possuíam sobre os fenômenos físico-químicos no-
,'(les que ultrapassavam a pura percepção, como aquelas,
por exemplo, que encontramos mescladas a todas as reli-
giôcs. É que, de fato, a reflexão é anterior à ciência, que
;1 penas se serve dela com mais método. O homem não

pode viver em meio às coisas sem formar a respeito delas


idéias, de acordo com as quais regula sua conduta. Acon-
tl'Ce que, como essas noçôes estão mais próximas de nós
16 AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO NEGRAS RELAT7VAS Ã OBSERVAÇÃO DOS FATOS SOCIAIS 17

e mais ao nosso alcance do que as realidades a que cor- tam essa justeza prática de uma maneira aproximada e so-
respondem, tendemos naturalmente a substituir estas últi- mente na generalidade dos casos. Quantas vezes elas são
mas por elas e a fazer delas a matéria mesma de nossas tão perigosas como inadequadas! Não é portanto elabo-
especulações. Em vez de observar as coisas, de descrevê- rando-as, pouco importa de que maneira o façamos, que
las, de compará-las, contentamo-nos então em tomar chegaremos a descobrir as leis da realidade. Tais noções,
consciência de nossas idéias, em analisá-las, em combiná- ao contrário, são como um véu que se interpõe entre as
las. Em vez de uma ciência de realidades, não fazemos coisas e nós, e que as encobre tanto mais quanto mais
mais do que uma análise ideológica. Por certo, essa análi- transparente julgamos esse véu.
se não exclui necessariamente toda observação. Pode-se Tal ciência não é apenas truncada; falta-lhe também
recorrer aos fatos para confirmar as noções ou as conclu- matéria de que se alimentar. Mal ela existe, desaparece,
sões que se tiram. Mas os fatos só intervêm então secun- por assim dizer, transformando-se em arte. De fato, supõe-
dariamente, a título de exemplos ou de provas confirma- se que essas noções contenham tudo o que há de essenci-
tórias; eles não são o objeto da ciência. Esta vai das idéias al no real, já que são confundidas com o próprio real.
ãs coisas, não das coisas às idéias. Com isso, parecem ter tudo o que é preciso para que seja-
É claro que esse método não poderia dar resultados mos capazes não só de compreender o que é, mas de
objetivos. Com efeito, essas noções, ou conceitos, não im- prescrever o que deve ser e os meios de executá-lo. Pois é
porta o nome que se queira dar-lhes, não são os substitu- hom o que está de acordo com a natureza das coisas; o
tos legítimos das coisas. Produtos da experiência vulgar, (Iue é contrário a elas é mau, e os meios para alcançar um
I' evitar o outro derivam dessa mesma natureza. Portanto,
eles têm por objeto, antes de tudo, colocar nossas ações
Sl' a dominamos de saída, o estudo da realidade presente
em harmonia com o mundo que nos cerca; são formados
n~l() tem mais interesse prático, e, como esse interesse é a
pela prática e para ela. Ora, uma representação pode ser
capaz de desempenhar utilmente esse papel mesmo sen- razão de ser de tal estudo, este se vê desde então sem fi-
do teoricamente falsa. *Copérnico*, há muitos séculos, nalidade. A reflexão é, assim, incitada a afastar-se do que é
dissipou as ilusões de nossos sentidos referentes aos mo- () objeto mesmo da ciência, a saber, o presente e o passa-
I I(), para lançar-se num único salto em direção ao futuro.
vimentos dos astros; no entanto, é ainda com base nessas
ilusões que regulamos correntemente a distribuição de I':m vez de buscar compreender os fatos adquiridos e reali-
1.:ldos, ela empreende imediatamente realizar novos, mais
nosso tempo. Para que uma idéia suscite exatamente os
('( mformes aos fins perseguidos pelos homens. Quando se
movimentos que a natureza de uma coisa reclama, não é
(T0 saber em que consiste a essência da matéria, parte-se
necessário que ela exprima fielmente essa natureza; basta
Illgo em busca da pedra filosofaI. Essa intromissão da arte
que nos faça perceber o que a coisa tem de útil ou de
11:1 ciência, que impede que esta se desenvolva, é aliás faci- .
desvantajoso, de que modo pode nos servir, de que modo
líl:lda pelas circunstâncias mesmas que determinam o des-
nos contrariar. Mas as noções assim formadas só apresen-
jllTtar da reflexão científica. Pois, como esta só surge para
* "Galileu" (R.P., p. 476.) ,~:llisbzer necessidades vitais, é natural que se oriente para
I 18 AS REGRAS DO MÃTODO SOCIOLÓGICO NEGRAS RELATIVAS Ã OBSERVAÇÃO DOS FA1DS SOCIAIS 19

a prática. As necessidades que ela é chamada a socorrer um simples desenvolvimento das idéias que temos sobre
são sempre prementes, portanto a pressionam para obter a sociedade, o Estado, a justiça, etc. Em conseqüência, es-
resultados; elas reclamam, não explicaçôes, mas remédios. ses fatos e outros análogos só parecem ter realidade nas e
Essa maneira de proceder é tào conforme à tendência pelas idéias que são seu germe e que se tornam, com is-
natural de nosso espírito que a encontramos inclusive na so, a matéria própria da sociologia.
origem das ciências físicas. É ela que diferencia a alquimia O que reforça essa maneira de ver é que, como os
da química, bem como a astrologia da astronomia. É por detalhes da vida social excedem por todos os lados a
ela que Bacon caracteriza () método que os sábios de seu consciência, esta não tem uma percepçào suficientemente
tempo seguiam e que ele combate. As noçôes que acaba- forte desses detalhes para sentir sua realidade. Não tendo
mos de mencionar são aquelas notiones vulgares ou prae- em nós ligaçües bastante sólidas nem bastante próximas,
notiones1 que ele assinala na base de todas as ciências 2 , tudo isso nos dá facilmente a impressão de não se pren-
nas quais elas tomam o lugar dos fatos 5 . São os idola, fan- der a nada e de flutuar no vazio, matéria em parte irreal e
tasmas que nos desfiguram o verdadeiro aspecto das coi- indefinidamente plástica. Eis por que tantos pensadores
sas e que, no entanto, tomamos como as coisas mesmas. E não viram nos arranjos sociais senão combinaçôes artifi-
é por esse meio imaginário não oferecer ao espírito ne- ciais e mais ou menos arbitrárias. Mas, se os detalhes, se
nhuma resistência que este, não se sentindo contido por as formas concretas e particulares nos escapam, pelo me-
nada, entrega-se a ambiçôes sem limite e julga possível nos nos representamos os aspectos mais gerais da exis-
construir, ou melhor, reconstruir o mundo com suas forças tência coletiva de maneira genérica e aproximada, e são
apenas e ao sabor de seus desejos. precisamente essas representações esquemáticas e sumá-
Se foi assim com as ciências naturais, com mais forte rias que constituem as prenoções de que nos servimos
razão tinha de ser com a sociologia. Os homens não espe- para as práticas correntes da vida. Não podemos portanto
raram o advento da ciência social para formar idéias sobre pensar em pôr em dúvida a existência delas, uma vez que
o direito, a moral, a família, o Estado, a própria socieda- ;1 percebemos ao mesmo tempo que a nossa. Elas nào
de; pois não podiam privar-se delas para viver. Ora, é so- ;Ipenas estào em nós, como também, sendo um produto
bretudo em sociologia que essas prenoçôes, para retomar de experiências repetidas, obtêm da repeti<,'ão - e do há-
a expressão de Bacon, estão em situação de dominar os I lito resultante - uma espécie de ascendência e de autori-
espíritos e de tomar o lugar das coisas. Com efeito, as coi- (Lide. Sentimos sua resistência quando buscamos libertar-
sas sociais só se realizam através dos homens; elas são !lOS delas. Ora, não podemos deixar de considerar como
um produto da atividade humana. Portanto, parecem não rl'al o que se opôe a nós. Tudo contribui, portanto, para
ser outra coisa senão a realização de idéias, inatas ou não, (llIC vejamos nelas a verdadeira realidade social.
que trazemos em nós, senão a aplicação dessas idéias às
diversas circunstâncias que acompanham as relaçôes dos E, de fato, até o presente, a sociologia tratou mais ou
homens entre si. A organização da família, do contrato, da Illl'nOS exclusivamente não de coisas, mas de conceitos.
repressão, do Estado, da sociedade é vista assim como ( :( ll11te, é verdade, proclamou que os fenômenos sociais
20 AS REGRAS DO MÉ7DDO SOCiOLÓGICO NHeRAS RELA77VAS Ã OBSERVAÇÃO DOS FATOS SOCiAIS 21

são fatos naturais, submissos a leis naturais. Deste modo, fundir numa mesma série contínua, nem, sobretudo, nu-
ele implicitamente reconheceu seu caráter de coisas, pois ma série única. Pois a seqüência das sociedades não po-
na natureza só existem coisas. Mas, quando, saindo dessas deria ser figurada por uma linha geométrica; ela asseme-
generalidades filosóficas, ele tenta aplicar seu princípio e lha-se antes a uma árvore cujos ramos se orientam em
extrair a ciência nele contida, são idéias que ele toma por sentidos divergentes. Em suma, Comte tomou por desen-
objeto de estudo. Com efeito, o que faz a matéria princi- volvimento histórico a noção que dele possuía e que não
pal de sua sociologia é o progresso da humanidade no difere muito da que faz o vulgo. Vista de longe, de fato, a
tempo. Ele parte da idéia de que há uma evolução contí- história adquire bastante claramente esse aspecto serial e
nua do gênero humano que consiste numa realização simples. Percebem-se apenas indivíduos que se sucedem
sempre mais completa da natureza humana, e o problema uns aos outros e marcham todos numa mesma direção,
que ele trata é descobrir a ordem dessa evolução. Ora, su- porque têm uma mesma natureza. Aliás, como não se
pondo que essa evolução exista, sua realidade só pode concebe que a evolução social possa ser outra coisa que
ser estabelecida uma vez feita a ciência; portanto, só se nào o desenvolvimento de uma idéia humana, parece na-
pode fazer dessa evolução o objeto mesmo da pesquisa tural defini-la pela idéia que dela fazem os homens. Ora,
se ela for colocada como uma concepção do espírito, não procedendo assim, não apenas se permanece na ideolo-
como uma coisa. E, de fato, é tão claro que se trata de gia, mas se dá como objeto à sociologia um conceito que
uma representação inteiramente subjetiva que, na prática, nada tem de propriamente sociológico.
esse progresso da humanidade não existe. O que existe, a Esse conceito, Spencer o descarta, mas para substituí-
única coisa dada à observação, são sociedades particula- lo por outro que não é formado de outro modo. Ele faz
res que nascem, se desenvolvem e morrem independen- das sociedades, e não da humanidade, o objeto da ciência;
temente umas das outras. Se pelo menos as mais recentes ~(.) que ele dá em seguida, das primeiras, uma definição
continuassem as que as precederam, cada tipo superior (IUC faz desaparecer a coisa de que fala para colocar no lu-
poderia ser considerado como a simples repetição do tipo g:lr a prenoção que possui dela. Com efeito, ele estabelece
imediatamente inferior, com alguma coisa a mais; poder- ('( )1110 uma proposição evidente que "uma sociedade só
se-ia, pois, alinhá-las umas depois das outras, por assim di- ('xiste quando à justaposição acrescenta-se a cooperação",
zer, confundindo as que se encontram no mesmo grau de ~('ndo somente então que a união dos indivíduos se torna
desenvolvimento, e a série assim formada poderia ser vis- Illlla sociedade propriamente dita 4 . Depois, partindo do
ta como representativa da humanidade. Mas os fatos não princípio de que a cooperação é a essência da vida social,
se apresentam com essa extrema simplicidade. Um povo <'Iv distingue as sociedades em duas classes, conforme a
que substitui outro não é simplesmente um prolongamen- ILlIureza da cooperação que nelas predomina. "Há, diz
to deste último com algumas características novas; ele é ('ll', uma cooperação espontânea que se efetua sem pre-'
outro, tem algumas propriedades a mais, outras a menos; ll11'ditação durante a perseguição de fins de caráter priva-
constitui uma individualidade nova, e todas essas indivi- (l(): há também uma cooperação conscientemente instituí-
dualidades distintas, sendo heterogêneas, não podem se (LI que supõe fins de interesse público claramente reco-
r 22 AS REGRAS DO MÉTODO SOGOLÓGiCO REGRAS RELATiVAS À OI3StiRVAÇ'ÀO DOS FATOS SOGAIS 23

nhecidos."'> Às primeiras, ele dá o nome de sociedades in- Não é somente na base da ciência que se encontram
dustriais; às segundas, de militares, e pode-se dizer dessa essas noções vulgares; vemo-las a todo instante na trama
distinçào que ela é a idéia-mãe de sua sociologia. dos raciocínios. No estado atual de nossos conhecimen-
Mas essa definição inicial enuncia como coisa o que tos, não sabemos com certeza o que é o Estado, a sobera-
é tão-só uma noção do espírito. Com efeito, ela se apre- nia, a liberdade política, a democracia, o socialismo, o co-
senta como a expressão de um fato imediatamente visível munismo, etc.; o método aconselharia, portanto, a que
e que basta à observação constatar, já que é formulada nos proibíssemos todo uso desses conceitos, enquanto
desde o início da ciência como axioma. No entanto, é im- eles não estivessem cientificamente constituídos. Entretan-
possível saber por uma simples inspeção se realmente a to, as palavras que os exprimem retornam a todo momen-
cooperação é a essência da vida social. Tal afirmação só to nas discussões dos sociólogos. Elas são empregadas
é cientificamente legítima se primeiramente passarmos correntemente e com segurança como se correspondes-
em revista as manifestações da existência coletiva e se sem a coisas bem conhecidas e definidas, quando apenas
mostrarmos que todas são formas diversas da coopera- despertam em nós noções confusas, misturas indistintas
ção. Portanto, é ainda certa maneira de conceber a reali- de impressões vagas, de preconceitos e de paixões. Zom-
dade social que substitui essa realidade!>. O que é assim bamos hoje dos singulares raciocínios que os médicos da
definido não é a sociedade, mas a idéia que dela faz o sr. Idade Média construíam com as noções de calor, de frio,
Spencer. E, se ele não tem o menor escrúpulo em proce- de úmido, de seco, etc., e não nos apercebemos de que
der deste modo, é que, também para dc, a sociedade continuamos a aplicar esse mesmo método à ordem de
não é e não pode ser senão a realização de uma idéia, is- fenômenos que o comporta menos que qualquer outro,
to é, dessa idéia mesma de cooperação pela qual a defi- por causa de sua extrema complexidade.
ne 7 . Seria fácil mostrar que, em cada um dos problemas Nos ramos especiais da sociologia, esse caráter ideo-
particulares que aborda, seu método permanece o mes- lógico é ainda mais pronunciado.
mo. Assim, embora dê a impressão de proceder empiri- É o caso sobretudo da moral. De fato, pode-se dizer
camente, como os fatos acumulados em sua sociologia que não há um único sistema em que ela não seja repre-
são empregados para ilustrar análises de noções e não sentada como o simples desenvolvimento de uma idéia
para descrever e explicar coisas, eles parecem estar ali inicial que a conteria por inteiro em potência. Essa idéia,
apenas para figurar como argumentos. Em realidade, tu- LIns crêem que o homem a encontra inteiramente pronta
do o que há de essencial na doutrina de Spencer pode dentro dele desde seu nascimento; outros, ao contrário,
ser imediatamente deduzido de sua definição da socieda- que ela se forma mais ou menos lentamente ao longo da
de e das diferentes formas de cooperação. Pois, se só pu- história. Mas, tanto para uns como para outros, tanto para
dermos optar entre uma cooperação tiranicamente im- ()S empiristas como para os racionalistas, ela é tudo o que .

posta e uma cooperação livre e espontãnea, evidente- há de verdadeiramente real em moral. No que concerne
mente esta última é que será o ideal para o qual a huma- ~IO detalhe das regras jurídicas e morais, elas não teriam,
nidade tende e deve tender. por assim dizer, existência por si mesmas, mas seriam
24 AS REGRAS DO MÉTODO SOGlOLÓG1CO REGRAS REJA 77VAS Ã OBSERVAÇ'ÃO DOS FATOS SOGlAIS 25

apenas essa noção fundamental aplicada às circunstâncias por qual sinal é possível reconhecer aqueles que satisfa-
particulares da vida e diversificada conforme os casos. zem essa condição. Ora, no início da ciência, não se tem
Portanto, o objeto da moral não poderia ser esse sistema sequer o direito de afirmar que existe algum, muito me-
de preceitos sem realidade, mas a idéia da qual decorrem nos ainda se pode saber quais são. Em toda ordem de
e da qual não são mais que aplicações variadas. Assim, pesquisas, com efeito, é somente quando a explicação
todas as questões que a ética se coloca ordinariamente se dos fatos está suficientemente avançada que é possível
referem, não a coisas, mas a idéias; o que se trata de sa- estabelecer que eles têm um objetivo e qual é esse objeti-
ber é em que consiste a idéia do direito, a idéia da moral, vo. Não há problema mais complexo nem menos suscetí-
e não qual a natureza da moral e do direito considerados vel de ser resolvido de saída. Portanto, nada nos garante
em si mesmos. Os moralistas ainda não chegaram à con- de antemão que haja uma esfera da atividade social em
cepção muito simples de que, assim como nossa repre- que o desejo de riqueza desempenhe realmente esse pa-
sentação das coisas sensíveis provém dessas coisas mes- pel preponderante. Em conseqüência, a matéria da eco-
mas e as exprime mais ou menos exatamente, nossa re- nomia política, assim compreendida, é feita não de reali-
presentação da moral provém do próprio espetáculo das dades que podem ser indicadas, mas de simples possí-
regras que funcionam sob nossos olhos e as figura esque- veis, de puras concepções do espírito; a saber, fatos que
maticamente; de que, conseqüentemente, são essas re- o economista concebe como relacionados ao fim conside-
gras, e não a noção sumária que temos delas, que formam rado, e tais como ele os concebe. Digamos, por exemplo,
a matéria da ciência, da mesma forma que a física tem co- que ele queira estudar o que chama a produção. De saí-
mo objeto os corpos tais como existem, e não a idéia que da, acredita poder enumerar os principais agentes com o
deles faz o vulgo. Disso resulta que se toma como base auxílio dos quais ela ocorre e passá-los em revista. Por-
da moral o que não é senão o topo, a saber, a maneira tanto, ele não reconheceu a existência desses agentes ob-
como ela se prolonga nas consciências individuais e nelas servando de quais condições dependia a coisa que ele es-
repercute. E não é apenas nos problemas mais gerais da tuda; pois então teria começado por expor as experiências
ciência que esse método é seguido: ele permanece o mes- de que tirou essa conclusão. Se, desde o início da pesqui-
mo nas questões especiais. Das idéias essenciais que estu- sa e em poucas palavras, ele procede a essa classificação,
da no início, o moralista passa às idéias secundárias de fa- é que a obteve por uma simples análise lógica. Parte da
mília, de pátria, de responsabilidade, de caridade, de justi- idéia da produção; decompondo-a, descobre que ela im-
ça; mas é sempre a idéias que se aplica sua reflexão. plica logicamente as de forças naturais, de trabalho, de
Não é diferente com a economia política. Ela tem por instrumento ou de capital, e trata a seguir da mesma ma-
objeto, diz Stuart Mill, os fatos sociais que se produzem neira essas idéias derivadas 9 .
principalmente ou exclusivamente em vista da aquisição A mais fundamental de todas as teorias econômicas, .
de riquezas H. Mas, para que os fatos assim definidos pu- a do valor, é manifestamente construída segundo o mes-
dessem ser designados, enquanto coisas, à observação do mo método. Se o valor fosse estudado como uma realida-
cientista, seria preciso pelo menos que se pudesse indicar de deve sê-lo, veríamos primeiro o economista indicar em
26 AS REGRAS DO Mt"J'ODO SOCiOLÓGICO REGNAS RELA71VAS À 08SERVAÇ'ÃO DOS FATOS SOCiAIS 27

que se pode reconhecer a coisa chamada com esse nome, ceitos práticos disfarçados. Eis, por exemplo, a famosa lei
depois classificar suas espécies, buscar por induções me- da oferta e da procura. Ela jamais foi estabelecida induti-
tódicas as causas em função das quais elas variam, com- vamente, como expressão da realidade econômica. Jamais
parar enfim os diversos resultados para obter uma fórmu- uma experiência, uma comparação metódica foi instituída
la geral. A teoria portanto só poderia surgir quando a ciên- para estabelecer, de/ato, que é segundo essa lei que pro-
cia tivesse avançado bastante. Em vez disso, encontramo- cedem as relações econômicas. Tudo o que se pôde fazer
la desde o início. É que, para fazê-la, o economista con- e tudo o que se fez foi demonstrar dialeticamente que os
tenta-se em recolher, em tomar consciência da idéia que indivíduos devem proceder assim, caso entendam bem
ele tem do valor, ou seja, de um objeto suscetível de ser seus interesses; é que qualquer outra maneira de proce-
trocado; descobre que ela implica a idéia do útil, do raro, der lhes seria prejudicial e implicaria, da parte dos que se
etc., e é com esses produtos de sua análise que constrói entregassem a isso, uma verdadeira aberração lógica. É
sua definição. Certamente ele a confirma por alguns lógico que as indústrias mais produtivas sejam as mais
exemplos. Mas, quando se pensa nos inumeráveis fatos procuradas; que os detentores dos produtos de maior de-
que semelhante teoria deve explicar, como atribuir o me- manda e mais raros os vendam ao mais alto preço. Mas
nor valor demonstrativo aos fatos, necessariamente muito essa necessidade inteiramente lógica em nada se asseme-
raros, que são assim citados ao acaso da sugestão? lha ãquela que apresentam as verdadeiras leis da nature-
Por isso, tanto em economia política como em moral, za. Estas exprimem as relações segundo as quais os fatos
a parte da investigação científica é muito restrita; a da ar- se encadeiam realmente, e não a maneira como é bom
te, preponderante. Em moral, a parte teórica se reduz a al- que eles se encadeiem.
gumas discussões sobre a idéia do dever, do bem e do di- O que dizemos dessa lei pode ser dito de todas as
reito. Mesmo essas especulações abstratas não constituem que a escola econômica ortodoxa qualifica de naturais
uma ciência, para falar exatamente, já que têm por objeto e que, por sinal, não são muito mais do que casos parti-
determinar não o que é, de fato, a regra suprema da mo- culares da precedente. Elas são naturais, se quiserem, no
ralidade, mas o que ela deve ser. Do mesmo modo, o que sentido de que enunciam os meios que é ou que pode
mais preocupa os economistas é a questão de saber, por parecer natural empregar para atingir determinado fim su-
exemplo, se a sociedade deve ser organizada segundo as posto; mas elas não devem ser chamadas por esse nome,
concepções dos individualistas ou segundo as dos socia- se, por lei natural, se entender toda maneira de ser da na-
listas; se é melhor o Estado intervir nas relações industri- tureza, indutivamente constatada. Elas não passam, em
ais e comerciais ou abandoná-las inteiramente ã iniciativa suma, de conselhos de sabedoria prática, e, se foi possí-
privada; se o sistema monetário deve ser o monometalis- vel, mais ou menos especiosamente, apresentá-las como a
mo ou o bimetalismo, etc., etc. As leis propriamente ditas expressão mesma da realidade, é que, com ou sem razão,'
são pouco numerosas nessas pesquisas; mesmo as que acreditou-se poder supor que tais conselhos eram efetiva-
nos habituamos a chamar assim geralmente não merecem mente seguidos pela generalidade dos homens e na gene-
essa qualificação, não passando de máximas de ação, pre- ralidade dos casos.
28 AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO NlX;RAS RELATIVAS À OBSERVAÇÃO DOS FA1DS SOCIAIS 29

No entanto, os fenômenos sociais são coisas e devem sem afinal todos os caracteres intrínsecos da coisa, deve-se
ser tratados como coisas. Para demonstrar essa proposi- primeiro tratá-los como se os tivessem. Essa regra aplica-se
ção, não é necessário filosofar sobre sua natureza, discutir portanto à realidade social inteira, sem que haja motivos
as analogias que apresentam com os fenômenos dos rei- para qualquer exceção. Mesmo os fenômenos que mais
nos inferiores. Basta constatar que eles são o único da- parecem consistir em arranjos artificiais devem ser consi-
tum oferecido ao sociólogo. É coisa, com efeito, tudo o derados desse ponto de vista. O caráter convencional de
que é dado, tudo o que se oferece ou, melhor, se impôe à lima prática ou de uma instituição jamais deve ser presu-
observação. Tratar fenômenos como coisas é tratá-los na mido. Aliás, se nos for permitido invocar nossa experiên-
qualidade de data que constituem o ponto de partida da cia pessoal, acreditamos poder assegurar que, procedendo
ciência. Os fenômenos sociais apresentam incontestavel- dessa maneira, com freqüência se terá a satisfação de ver
mente esse caráter. O que nos é dado não é a idéia que os fatos aparentemente mais arbitrários apresentarem,
os homens fazem do valor, pois ela é inacessível; são os ;lpÓS uma observação mais atenta dos caracteres de cons-
valores que se trocam realmente no curso de relaçôes t:mcia e de regularidade, sintomas de sua objetividade.
econômicas. Não é esta ou aquela concepção da idéia De resto, e de uma maneira geral, o que foi dito an-
moral; é o conjunto das regras que determinam efetiva- teriormente sobre os caracteres distintivos do fato social é
mente a conduta. Não é a idéia do útil ou da riqueza; é .~uficiente para nos certificar sobre a natureza dessa objeti-
toda a particularidade da organização econômica. É possí- vidade e para provar que ela não é ilusória. Com efeito,
vel que a vida social não seja senão o desenvolvimento reconhece-se principalmente uma coisa pelo sinal de que
de certas noçôes; mas, supondo que seja assim, essas no- 11<10 pode ser modificada por um simples decreto da von-
çôes não são dadas imediatamente. Não se pode portanto t;lde. Não que ela seja refratária a qualquer modificação.
atingi-las diretamente, mas apenas através da realidade fe-
Mas, para produzir uma mudança nela, não basta querer,
nomênica que as exprime. Não sabemos a príorí que idéias
l' preciso além disso um esforço mais ou menos laborio-
estão na origem das diversas correntes entre as quais se
so, devido à resistência que ela nos opõe e que nem sem-
divide a vida social, nem se existe alguma; é somente de-
pre, aliás, pode ser vencida. Ora, vimos que os fatos sociais
pois de tê-las remontado até suas origens que saberemos
t0m essa propriedade. Longe de serem um produto de
de onde elas provêm.
IH )ssa vontade, eles a determinam de fora; são como mol-
É preciso portanto considerar os fenômenos sociais
em si mesmos, separados dos sujeitos conscientes que os des nos quais somos obrigados a vazar nossas ações. Com
concebem; é preciso estudá-los de fora, como coisas exte- freqüência até, essa necessidade é tal que não podemos
riores, pois é nessa qualidade que eles se apresentam a ('scapar a ela. Mas ainda que consigamos superá-la, a
nós. Se essa exterioridade for apenas aparente, a ilusão se (lposição que encontramos é suficiente para nos advertir
dissipará à medida que a ciência avançar e veremos, por (k que estamos em presença de algo que não depende
assim dizer, o de fora entrar no de dentro. Mas a solução (k- nós. Portanto, considerando os fenômenos sociais co-
não pode ser preconcebida e, mesmo que eles não tives- I!lO coisas, apenas nos conformaremos à sua natureza.
30 AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO REGRAS REJA 77VAS Ã OBSERVAÇÃO DOS FATOS SOCIAIS 31

Em suma, a reforma que se trata de introduzir em so- que se efetuou nesse tipo de estudos. Todos os procedi-
ciologia é em todos os pontos idêntica à que transformou mentos particulares, todos os métodos novos que enri-
a psicologia nos últimos trinta anos. Do mesmo modo queceram essa ciência, não são mais que meios diversos
que Comte e Spencer declaram que os fatos sociais são de realizar mais completamente essa idéia fundamental. É
fatos de natureza, sem no entanto tratá-los como coisas, o mesmo progresso que resta fazer em sociologia. É pre-
as diferentes escolas empíricas há muito haviam reconhe- ciso que ela passe do estágio subjetivo, raramente ultra-
cido o caráter natural dos fenômenos psicológicos, 'em- passado até agora, à fase objetiva.
bora continuassem a aplicar-lhes um método puramente Essa passagem, aliás, é menos difícil de efetuar do
ideológico'. Com efeito, os empiristas, "não menos que que em psicologia. Com efeito, os fatos psíquicos são na-
seus adversários, procediam exclusivamente por intros- turalmente dados como estados do sujeito, do qual eles
pecção". Ora, os fatos que só observamos em nós mes- não parecem sequer separáveis. Interiores por definição,
mos são demasiado raros, demasiado fugazes, "'demasia- parece que só se pode tratá-los como exteriores violen-
do maleáveis para poderem se impor às noções corres- tando sua natureza. É preciso não apenas um esforço de
pondentes que o hábito fixou em nós e estabelecer-lhes a abstração, mas todo um conjunto de procedimentos e de
lei. Quando estas últimas não são submetidas a outro con- artifícios para chegar a considerá-los desse viés. Ao con-
trole, nada lhes faz contrapeso; por conseguinte, elas to- trário, os fatos sociais têm mais naturalmente e mais ime-
mam o lugar dos fatos'" e constituem a matéria da ciên- diatamente todas as características da coisa. O direito
cia. Assim, nem Locke, nem Condillac consideraram os fe- existe nos códigos, os movimentos da vida cotidiana se
nômenos psíquicos objetivamente. Não é a sensação que inscrevem nos dados estatísticos, nos monumentos da his-
eles estudam, mas uma certa idéia da sensação. Por isso, tória, as modas nas roupas, os gostos nas obras de arte.
ainda que sob certos aspectos eles tenham preparado o Em virtude de sua natureza mesma eles tendem a se cons-
advento da psicologia científica, esta só surgiu realmente tituir fora das consciências individuais, visto que as domi-
bem mais tarde, quando se chegou finalmente à concep- nam. Para vê-los sob seu aspecto de coisas, não é preciso,
ção de que os estados de consciência podem e devem ser portanto, torturá-los com engenhosidade. Desse ponto de
considerados de fora, e não do ponto de vista da cons- vista, a sociologia tem sobre a psicologia uma séria vanta-
ciência que os experimenta. Tal foi a grande revolução gem que não foi percebida até agora e que deve apressar
seu desenvolvimento. Os fatos talvez sejam mais difíceis
• "e declarado que eles deviam ser estudados segundo o método de interpretar por serem mais complexos, mas sào mais
das ciências físicas. Entretanto, na realidade, todos os trabalhos que
fáceis de atinar. A psicologia, ao contrário, não apenas
lhes devemos reduzem-se a puras análises ideológicas, nào menos que
os da escola metafísica". (R.P., p. 486.) tem dificuldade de elaborá-los, como também de perce-
"também só empregavam o método introspectivo". (R.F., p. bê-los. Em conseqüência, é lícito imaginar que, no dia em
486.)
O"~ "para controlar eficazmente as noçôes correspondentes que o
que esse princípio do método sociológico for unanime-
hábito fixou em nós. Estas permanecem portanto sem contrapeso; em mente reconhecido e praticado, veremos a sociologia pro-
conseqüência, elas se interpõem entre os fatos e nós" (R.P., p. 487.) gredir com uma rapidez que a lentidão atual de seu de-
32 AS REGRAS DO MÉTODO SOG70LÓGICO REGRAS RELA77VAS À OBSERVAÇ40 DOS FA TOS SOCIAIS 33

senvolvimento não faria supor, e inclusive reconquistar a que se formaram fora da ciência e por necessidades que
dianteira que a psicologia deve unicamente à sua anterio- nada têm de científico. É preciso que ele se liberte dessas
ridade histórica 10 falsas evidências que dominam o espírito do vulgo, que
se livre, de uma vez por todas, do jugo dessas categorias
empíricas que um longo costume acaba geralmente por
II tornar tirânicas. Se a necessidade o obriga às vezes a re-
correr a elas, pelo menos que o faça tendo consciência de
Mas a experiência de nossos predecessores nos mos- seu pouco valor, a fim de não as chamar a desempenhar
trou que, para assegurar a realização prática da verdade na doutrina um papel de que não são dignas.
que acaba de ser estabelecida, não basta oferecer uma de- O que torna essa libertação particularmente difícil em
monstração teórica nem mesmo compenetrar-se dela. O sociologia é que o sentimento com freqüência se introme-
espírito tende tão naturalmente a desconhecê-la que re- te. Apaixonamo-nos, com efeito, por nossas crenças polí-
cairemos inevitavelmente nos antigos erros, se não nos ticas e religiosas, por nossas práticas morais, muito mais
submetermos a uma disciplina rigorosa, cujas regras prin- do que pelas coisas do mundo físico; em conseqüência,
cipais, corolários da precedente, iremos formular. esse caráter passional transmite-se à maneira como conce-
1) O primeiro desses corolários é que: É preciso des- bemos e como nos explicamos as primeiras. As idéias que
cartar sistematicamente todas as prenoções. Uma demons- fazemos a seu respeito nos são muito caras, assim como
tração especial dessa regra não é necessária; ela resulta de seus objetos, e adquirem tamanha autoridade que não su-
tudo o que dissemos anteriormente. Aliás, ela é a base de portam a contradição. Toda opinião que as perturba é tra-
todo método científico. A dúvida metódica de Descartes, tada como inimiga. Por exemplo, uma proposição não es-
no fundo, não é senão uma aplicação disso. Se, no mo- tá de acordo com a idéia que se faz do patriotismo, ou da
mento em que vai fundar a ciência, Descartes impõe-se dignidade individual? Então ela é negada, não importam
como lei pôr em dúvida todas as idéias que recebeu ante- as provas sobre as quais repousa. Não se pode admitir
riormente, é que ele quer empregar apenas conceitos cien- que seja verdadeira; ela é rejeitada categoricamente, e a
tificamente elaborados, isto é, construídos de acordo com paixão, para justificar-se, não tem dificuldade de sugerir
o método que ele institui; todos os que ele obtém de uma razões que são consideradas facilmente decisivas. Essas
outra origem devem ser, portanto, rejeitados, ao menos noções podem mesmo ter tal prestígio que não toleram
provisoriamente. Já vimos que a teoria dos Ídolos, em Ba- sequer um exame científico. O simples fato de submetê-
con, não tem outro sentido. As duas grandes doutrinas las, assim como os fenômenos que elas exprimem, a uma
que freqüentemente foram opostas uma à outra, concor- análise fria e seca, revolta certos espíritos. Quem decide
dam nesse ponto essencial. É preciso, portanto, que o so- l'studar a moral a partir de fora e como uma realidade ex-
ciólogo, tanto no momento em que determina o objeto de terior é visto por esses delicados como desprovido de
suas pesquisas, como no curso de suas demonstraçôes, Sl'nso moral, da mesma forma que o vivissecionista pare-
proíba-se resolutamente o emprego daqueles conceitos l 'l' ao vulgo desprovido da sensibilidade comum. Em vez
34 AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGiCO NliGRAS RELA7lVAS À OBSERI'Aç:40 DOS FATOS SOCIAIS 35

*de admitir que esses sentimentos são do domínio a* da cientes e luminosas da razão. O sentimento é objeto de
ciência, é a eles que se julga dever apelar para fazer a ciên- ciência, não o critério da verdade científica. De resto, não
cia das coisas às quais se referem. "Infeliz o sábio", escre- há ciência que, em seus começos, não tenha encontrado
ve um eloqüente historiador das religiôes, "que aborda as resistências análogas. Houve um tempo em que os senti-
coisas de Deus sem ter no fundo de sua consciência, no mentos relativos às coisas do mundo físico, tendo eles
fundo indestrutível de seu ser, lá onde dorme a alma dos próprios um caráter religioso ou moral, opunham-se com
antepassados, um santuário desconhecido do qual se ele- não menos força ao estabelecimento das ciências físicas.
va por instantes um perfume de incenso, uma linha de Pode-se portanto supor que, expulso de ciência em ciên-
salmo, um grito doloroso ou triunfal que, criança, lançou cia, esse preconceito acabará por desaparecer da própria
ao céu junto com seus irmãos e que o repôe em súbita sociologia, seu último refúgio, para deixar o terreno livre
comunhão com os profetas de outrora lll " ao cientista.
Nunca nos ergueremos com demasiada força contra 2) Mas a regra precedente é inteiramente negativa.
essa doutrina mística que - como todo misticismo, aliás - Ela ensina o sociólogo a escapar ao domínio das noçôes
não é, no fundo, senão um empirismo disfarçado, nega- vulgares, para dirigir sua atenção aos fatos; mas não diz
dor de toda ciência. Os sentimentos que têm como obje- como deve se apoderar desses últimos para empreender
tos as coisas sociais não têm privilégio sobre os demais, um estudo objetivo deles.
pois não é outra sua origem. Também eles são formados Toda investigação científica tem por objeto um grupo
historicamente; são um produto da experiência humana, determinado de fenômenos que correspondem a uma
mas de uma experiência confusa e inorganizada. Eles não mesma definição. O primeiro procedimento do sociólogo
se devem a não sei que antecipação transcendental da rea- deve ser, portanto, definir as coisas de que ele trata, a fim
lidade, mas são a resultante de todo tipo de impressões e de que se saiba e de que ele saiba bem o que está em
de emoções acumuladas sem ordem, ao acaso das cir- questão. Essa é a primeira e a mais indispensável condi-
cunstâncias, sem interpretação metódica. Longe de nos (,;ào de toda prova e de toda verificação; uma teoria, com
proporcionarem luzes superiores às luzes racionais, eles efeito, só pode ser controlada se se sabe reconhecer os
são feitos exclusivamente de estados fortes, é verdade, fatos que ela deve explicar. * Além do mais, visto ser por
mas confusos. Atribuir-lhes tal preponderância é conceder essa definição que é constituído' o objeto mesmo da ciên-
às faculdades inferiores da inteligência a supremacia so- cia, este será uma coisa ou não, conforme a maneira pela
bre as mais elevadas, é condenar-se a uma logomaquia qual essa definição for feita.
mais ou menos oratória. Uma ciência feita assim só pode Para que ela seja objetiva, é preciso evidentemente
satisfazer os espíritos que gostam de pensar com sua sen- que exprima os fenômenos, não em função de uma idéia
sibilidade e não com seu entendimento, que preferem as do espírito, mas de propriedades que lhe são inerentes. É
sínteses imediatas e confusas da sensação ãs análises pa-
• "Concebe-se facilmente a importância dessa definição inicial já
• "de submeter esses sentimentos ao controle" (R.P., p. 489,) que é ela que constitui" (R.P., p. 490.)
36 AS REGRAS DO MfTODO SOCIOLÓGICO "N/RAS RElATlVASÀ OBSERVAÇÀO DOS FATOS SOOAIS 37

preciso que ela os caracterize por um elemento integrante 1110 modo, observamos, no interior de todas as sociedades
da natureza deles, não pela conformidade deles a uma conhecidas, a existência de uma sociedade parcial, reco-
noção mais ou menos ideal. Ora, no momento em que a nhecível pelo sinal exterior de ser formada de indivíduos
pesquisa vai apenas começar, quando os fatos não estão consangüíneos uns dos outros, em sua maior parte, e que
ainda submetidos a nenhuma elaboração, os únicos des- l'stão unidos entre si por laços jurídicos. Fazemos dos fa-
ses caracteres que podem ser atingidos são os que se los que se relacionam a ela um grupo particular; são os
mostram suficientemente exteriores para serem imediata- fenômenos da vida doméstica. Chamamos família todo
mente visíveis. Os que estão situados mais profundamen- agregado desse tipo e fazemos da família assim definida o
te são, por certo, mais essenciais; seu valor explicativo é (lbjeto de uma investigação especial que ainda não rece-
maior, mas nessa fase da ciência eles são desconhecidos e heu denominação determinada na terminologia sociológi-
só podem ser antecipados se substituirmos a realidade ca. Quando, mais tarde, passarmos da família em geral
por alguma concepção do espírito. Assim, é entre os pri- aos diferentes tipos familiares, aplicaremos a mesma re-
meiros que deve ser buscada a matéria dessa definição gra. Quando abordarmos, por exemplo, o estudo do clã,
fundamental. Por outro lado, é claro que essa definição ou da família maternal, ou da família patriarcal, começare-
deverá compreender, sem exceção nem distinção, todos mos por defini-los, e de acordo com o mesmo método. O
os fenômenos que apresentam igualmente esses mesmos objeto de cada problema, geral como particular, deve ser
caracteres; pois não temos nenhuma razão e nenhum constituído segundo o mesmo princípio.
meio de escolher entre eles. Essas propriedades são, en- Ao proceder dessa maneira, o sociólogo, desde seu
tão, tudo o que sabemos do real; em conseqüência, elas primeiro passo, toma imediatamente contato com a reali-
devem determinar soberanamente a maneira como os fa- dade. Com efeito, o modo como os fatos são assim classi-
tos devem ser agrupados. Não possuímos nenhum outro ficados não depende dele, da propensão particular de seu
critério que possa, mesmo parcialmente, suspender os espírito, mas da natureza das coisas. O sinal que possibili-
efeitos do precedente. Donde a regra seguinte: jamais to- ta serem colocados nesta ou naquela categoria pode ser
mar por objeto de pesquisas senão um grupo de fenômenos mostrado a todo o mundo, reconhecido por todo o mun-
previamente d~finidos por certos caracteres exteriores que do, e as afirmações de um observador podem ser contro-
lhes são comuns, e compreender na mesma pesquisa todos ladas pelos outros. É verdade que a noção assim constituí-
os que correspondem a essa definição. Por exemplo, cons- da nem sempre se ajusta, ou, até mesmo, em geral não se
tatamos a existência de certo número de atos que apre- ajusta, à noção comum. Por exemplo, é evidente que, pa-
sentam, todos, o caráter exterior de, uma vez efetuados, ra o senso comum, os casos de livre pensamento ou as
determinarem de parte da sociedade essa reação particu- faltas à etiqueta, tão regularmente e tão severamente pu-
lar que é chamada pena. Fazemos deles um grupo sui ge- nidos numa série de sociedades, não são vistos como crt-
neris, ao qual impomos uma rubrica comum; chamamos mes, inclusive em relação a essas sociedades. Assim tam-
crime todo ato punido e fazemos do crime assim definido hém, um clã não é uma família, no sentido usual da pala-
o objeto de uma ciência especial, a criminologia. Do mes- vra. Mas não importa; pois não se trata simplesmente de
38 AS REGRAS DO MÉ7'()f)O SOG7OlcJGICO NHGRAS RHA 77VAS Ã OBSERVAÇÃO DOS FATOS SOCiAIS 39
descobrir um meio que nos permita verificar com suficien- rias espécies animais e em certas sociedades inferiores,
te certeza os fatos a que se aplicam as palavras da língua não de forma esporádica, mas com a mesma generalidade
corrente e as idéias que estas traduzem. O que é preciso é como se fosse imposta por lei. Quando a população está
constituir inteiramente conceitos novos, apropriados ãs dispersa numa vasta superfície, a trama social é mais frou-
necessidades da ciência e expressos com o auxílio de xa, portanto os indivíduos vivem isolados uns dos outros.
uma terminologia especial. Não, certamente, que o con- Por isso, cada homem busca naturalmente obter uma mu-
ceito vulgar seja inútil ao cientista; ele serve de indicador. lher e uma só, porque, nesse estado de isolamento, lhe é
Por ele, somos informados de que existe em alguma parte difícil ter várias. A monogamia obrigatória, ao contrário,
um conjunto de fenômenos reunidos sob uma mesma de- só se observa nas sociedades mais elevadas. Essas duas
nominação e que, portanto, devem provavelmente ter ca- espécies de sociedades conjugais têm portanto uma signi-
racterísticas comuns; inclusive, como o conceito vulgar ja- ficação muito diferente, no entanto a mesma palavra ser-
mais deixa de ter algum contato com os fenômenos, ele ve para designá-las; pois é comum dizer de certos animais
nos indica éls vezes, mas de maneira geral, em que dire- que eles são monógamos, embora nada exista entre eles
çélo estes devem ser buscados. Mas, como ele é grosseira- que se assemelhe a uma obrigação jurídica. Ora, o sr.
mente formado, é natural que não coincida exatamente Spencer, abordando o estudo do casamento, emprega a
com o conceito científico, instituído em seu lugar l2 . palavra monogamia, sem defini-la, com seu sentido usual
Por mais evidente e importante que seja essa regra, e equívoco. Disso resulta que a evolução do casamento
ela não é muito observada em sociologia. Precisamente lhe parece apresentar uma incompreensível anomalia, já
por esta tratar de coisas das quais estamos sempre falan- que ele crê observar a forma superior da união sexual já
do, como a família, a propriedade, o crime, etc., na maio- nas primeiras fases do desenvolvimento histórico, ao pas-
ria das vezes parece inútil ao sociólogo dar-lhes uma defi- so que ela parece desaparecer no período intermediário
nição preliminar e rigorosa. Estamos télo habituados a ser- para retornar a seguir. Ele conclui daí que não há relação
vir-nos dessas palavras, que voltam a todo instante no regular entre o progresso social em geral e o avanço pro-
curso das conversaçôes, que parece inútil precisar o senti- gressivo em direção a um tipo perfeito de vida familiar.
do no qual as empregamos. As pessoas se referem sim- Uma definição oportuna teria evitado esse crro 13 .
plesmente ã noção comum. Ora, esta é muito freqüente- Em outros casos, toma-se o cuidado de definir o ob-
mente ambígua. Essa ambigüidade faz que se reúnam sob jeto sobre o qual incidirá a pesquisa; mas, em vez de
um mesmo nome e numa mesma explicação coisas, em abranger na definição e de agrupar sob a mesma rubrica
realidade, muito diferentes. Daí provêm inextricáveis con- todos os fenômenos que têm as mesmas propriedades ex-
fusões. Assim, existem duas espécies de uniões monogâ- teriores, faz-se uma triagem entre eles. Escolhem-se al-
micas: umas o são de fato, outras de direito. Nas primei- guns, espécie de elite, que são vistos como os únicos CGm
ras, o marido só tem uma mulher, embora, juridicamente, () direito a ter esses caracteres. Quanto aos demais, são
possa ter várias; nas segundas ele é legalmente proibido considerados como tendo usurpado esses sinais distinti-
de ser polígamo. A monogamia de fato verifica-se em vá- vos e não são levados em conta. Mas é fácil prever que
40 AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO REGRAS RELAl1VASÀ OBSER'é4ÇÃO DOS FATOS SOCIAIS 41

dessa maneira só se pode obter uma noção subjetiva e me iras passaram testemunham apenas que as próprias
truncada. Essa eliminação, com efeito, só pode ser feita coisas variaram. Em zoologia, as formas específicas às es-
com base numa idéia preconcebida, uma vez que, no co- pécies inferiores não são vistas como menos naturais do
meço da ciência, nenhuma pesquisa pôde ainda estabele- que as que se repetem em todos os graus da escala ani-
cer a realidade dessa usurpação, supondo-se que ela seja mal. Do mesmo modo, os atos tachados de crimes pelas
possível. Os fenômenos escolhidos só o podem ter sido sociedades primitivas, e que perderam essa qualificação,
porque estavam, mais do que os outros, de acordo com a sào realmente criminosos para essas sociedades, tanto
concepção ideal que se fazia desse tipo de realidade. Por quanto os que continuamos a reprimir hoje em dia. Os
exemplo, o sr. Garofalo, nó começo de sua Criminologie, primeiros correspondem às condições mutáveis da vida
demonstra muito bem que o ponto de partida dessa ciên- social, os segundos às condições constantes; mas uns não
cia deve ser "a noção sociológica do crime"14. Só que, pa- sào mais artificiais que os outros.
ra constituir essa noção, ele não compara indistintamente E tem mais: ainda que esses atos tivessem adquirido
todos os atos que, nos diferentes tipos sociais, foram re- indevidamente o caráter criminológico, nem por isso deve-
primidos por penas regulares, mas apenas alguns dentre riam ser separados radicalmente dos outros; pois a nature-
eles, a saber, os que ofendem a parte média e imutável za das formas mórbidas de um fenômeno não é diferente
do senso moral. Quanto aos sentimentos morais que de- da natureza das formas normais e, por conseqüência, é ne-
sapareceram durante a evolução, eles não lhe parecem cessário observar tanto as primeiras quanto as segundas
fundados na natureza das coisas, por não terem consegui- para determinar essa natureza. A doença não se opõe à
do se manter; por conseguinte, os atos que foram consi- saúde; trata-se de duas variedades do mesmo gênero e
derados criminosos porque os violavam, lhe parecem de- que se esclarecem mutuamente. Essa é uma regra há mui-
ver essa denominação apenas a circunstâncias acidentais to reconhecida e praticada, tanto em biologia como em
e mais ou menos patológicas. Mas é em virtude de uma psicologia, e que o sociólogo não é menos obrigado a res-
concepção inteiramente pessoal da moralidade que ele pcitar. A menos que se admita que um mesmo fenômeno
procede a essa eliminação. Ele parte da idéia de que a possa ser devido ora a causa, ora a uma outra, isto é, a
evolução moral, tomada em sua fonte mesma ou nos arre- l11enos que se negue o princípio de causalidade, as causas
dores, arrasta todo tipo de escórias e de impurezas, que (Iue imprimem num ato, mas de maneira anormal, o sinal
ela elimina a seguir progressivamente, e de que somente distintivo do crime não poderiam diferir em espécie das
hoje ela conseguiu desembaraçar-se de todos os elemen- (IUC produzem normalmente o mesmo efeito; elas distin-
tos adventícios que, primitivamente, perturbavam-lhe o guem-se apenas em grau ou porque não agem no mesmo
curso. Mas esse princípio não é nem um axioma evidente ('( lIljunto de circunstâncias. O crime anormal ainda é, por-
nem uma verdade demonstrada; é apenas uma hipótese, 1;lI1to, um crime e deve, por conseguinte, entrar na defini"
que nada inclusive justifica. As partes variáveis do senso ~;I() do crime. Assim, o que ocorre? O sr. Garofalo toma
moral não são menos fundadas na natureza das coisas do 1)( >1" gênero o que não é senâo a espécie ou mesmo uma
que as partes imutáveis; as variaçôes pelas quais as pri- .~ill1ples variedade. Os fatos aos quais se aplica sua fórmu-
42 AS REGRAS DO Mf-TOJ)O SOG1OLÓGICO REGRAS RELATIVAS À OBSERVAÇÀO DOS FATOS SOG1AIS 43

la da criminalidade não representam senão uma ínfima mi- acusado de querer derivar o crime da pena ou, conforme
noria entre os que ela deveria compreender; pois ela não uma citação bem conhecida, de ver no patíbulo a fonte
convém nem aos crimes religiosos, nem aos crimes contra da vergonha, não no ato expiado. Mas a objeção repousa
a etiqueta, o cerimonial, a tradição, etc., que, se desapare- sobre uma confusão. Como a definição cuja regra acaba-
ceram de nossos códigos modernos, preenchem, ao contrá- mos de dar está situada no começo da ciência, ela não
rio, quase todo o direito penal das sociedades anteriores. poderia ter por objeto exprimir a essência da realidade;
É a mesma falta de método que faz que certos obser- ela deve apenas nos pôr em condições de chegar a isso
vadores recusem aos selvagens qualquer espécie de mo- ulteriormente. Ela tem por única função fazer-nos entrar
ralidade l ". Eles partem da idéia de que nossa moral é a em contato com as coisas e, como estas não podem ser
moral; ora, é evidente que ela é desconhecida dos povos atingidas pelo espírito a não ser de fora, é por seus exterio-
primitivos ou que só existe neles em estado rudimentar. res que ela as exprime. Mas isso não quer dizer que as
Mas essa definição é arbitrária. Apliquemos nossa regra e explique; ela apenas fornece o primeiro ponto de apoio
tudo se modifica. Para decidir se um preceito é moral ou necessário às nossas explicações. Claro, não é a pena que
não, devemos examinar se ele apresenta ou não o sinal faz o crime, mas é por ela que ele se revela exteriormente
exterior da moralidade; esse sinal consiste numa sanção a nós, e é dela portanto que devemos partir se quisermos
repressiva difusa, ou seja, numa reprovação da opinião chegar a compreendê-lo.
pública que vinga toda violação do preceito. Sempre que A objeção só seria fundada se esses caracteres exte-
estivermos em presença de um fato que apresenta esse riores fossem ao mesmo tempo acidentais, isto é, se não
caráter, não temos o direito de negar-lhe a qualificação de estivessem ligados às propriedades fundamentais. De fato,
moral; pois essa é a prova de que ele é da mesma nature- nessas condições, a ciência, após tê-los assinalado, não
za que os outros fatos morais. Ora, regras desse gênero teria meio algum de ir mais adiante; não poderia aprofun-
não só se verificam nas sociedades inferiores, como são dar-se mais na realidade, já que não haveria nenhuma re-
mais numerosas aí do que entre os civilizados. Uma quan- lação entre a superfície e o fundo. Mas, a menos que o
tidade de atos atualmente entregues à livre apreciação princípio de causalidade seja uma palavra vã, quando ca-
dos indivíduos são, então, impostos obrigatoriamente. racteres determinados se encontram identicamente e sem
Percebe-se a que erros somos levados quando não defini- nenhuma exceção em todos os fenômenos de certa or-
mos, ou quando definimos mal. dem, pode-se estar certo de que eles se ligam intimamen-
Mas, dirão, definir os fenômenos por seus caracteres te ã natureza destes últimos e que são solidários com eles.
aparentes não será atribuir às propriedades superficiais Se um grupo dado de atos apresenta igualmente a parti-
uma espécie de preponderância sobre os atributos funda- cularidade de uma sanção penal estar a eles associada, é
mentais? Não será, por uma verdadeira inversão da ordem que existe uma ligação íntima entre a pena e os atributos.
lógica, fazer repousar as coisas sobre seus topos, e não constitutivos desses atos. Em conseqüência, por mais su-
sobre suas bases? É assim que, quando se define o crime perficiais que sejam, essas propriedades, contanto que te-
pela pena, corre-se quase inevitavelmente o risco de ser nham sido metodicamente observadas, mostram clara-
NEGRAS RELATIVAS À OBSERVAÇÃO DOS FATOS SOOA!S 45
44 AS REGRAS DO MÉTODO SOOOLÓGICO

dos quais ele define o objeto de suas pesquisas devem ser


mente ao cientista o caminho que ele deve seguir para
penetrar mais fundo nas coisas; elas são o primeiro e in- tão objetivos quanto possível.
Pode-se estabelecer como princípio que os fatos so-
dispensável elo da cadeia que a ciência irá desenrolar a
ciais são tanto mais suscetíveis de ser objetivamente re-
seguir no curso de suas explicações.
presentados *quanto mais completamente separados dos
Visto ser pela sensação que o exterior das coisas nos
é dado, pode-se portanto dizer, em resumo: a ciência, pa- fatos individuais que os manifestamo.
De fato, uma sensação é tanto mais objetiva quanto
ra ser objetiva, deve partir, não de conceitos que se for-
maram sem ela, mas da sensação. É dos dados sensíveis maior a fixidez do objeto ao qual ela se relaciona; pois a
que ela deve tomar diretamente emprestados os elemen- condição de toda objetividade é a existência de um ponto
tos de suas definições iniciais. E, de fato, basta pensar em de referência, constante e idêntico, ao qual a representa-
que consiste a obra da ciência para compreender que ela ção pode ser relacionada e que permite eliminar tudo o
não pode proceder de outro modo. Ela tem necessidade que ela tem de variável, portanto, de subjetivo. Se os úni-
de conceitos que exprimam adequadamente as coisas tais cos pontos de referência dados forem eles próprios variá-
como elas são, não tais como é útil ã prática concebê-las. veis, se forem perpetuamente diversos em relação a si
Ora, aqueles conceitos que se constituíram fora de sua mesmos, faltará uma medida comum e não teremos meio
ação não preenchem essa condição. É preciso, pois, que algum de distinguir em nossas impressões o que depende
ela crie novos e que, para tanto, afastando as noções co- de fora e o que lhes vem de nós. **Ora, a vida social, en-
muns e as palavras que as exprimem, volte à sensação, quanto não chegou a isolar-se dos acontecimentos parti-
matéria-prima necessária de todos os conceitos. É da sen- culares que a encarnam para constituir-se à parte, tem jus-
sação que emanam todas as idéias gerais, verdadeiras ou tamente essa propriedade, pois, como esses acontecimen-
falsas, científicas ou não. Portanto, o ponto de partida da tos não têm a mesma fisionomia de uma vez a outra, de
ciência ou conhecimento especulativo não poderia ser um instante a outro, e como ela é inseparável deles, estes
outro que o do conhecimento vulgar ou prático. É somen- transmitem-lhe sua mobilidade. Ela consiste então em li-
te além dele, na maneira pela qual essa matéria comum é vres correntes** que estão perpetuamente em via de trans-
elaborada, que as divergências começam. formação e que o olhar do observador não consegue fi-
3) Mas a sensação é facilmente subjetiva. Assim é de xar. Vale dizer que não é por esse lado que o cientista po-
regra, nas ciências naturais, afastar os dados sensíveis que de abordar o estudo da realidade social. Mas sabemos
correm o risco de ser demasiado pessoais ao observador, que esta apresenta a particularidade de, sem deixar de ser
para reter exclusivamente os que apresentam um suficien- ela mesma, ser capaz de cristalizar-se. Fora dos atos indi-
te grau de objetividade. Eis o que leva o físico a substituir
, "quanto mais estiverem consolidados". (RP., p. 497.)
as vagas impressões que a temperatura ou a eletricidade " "Ora, a vida social, no estado de liberdade, é infinitamente
produzem pela representação visual das oscilações do ter- Illóvel e fugaz. Ela nào está isolada, pelo menos imediatamente, dos
mômetro ou do eletrômetro. O sociólogo deve tomar as fenômenos particulares nos quais se encarna, e estes diferem de uma
vez a outra, de um caso a outro. Sào correntes" (R.P., p. 497.)
mesmas precauções. Os caracteres exteriores em função
46 AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO N/iGRAS REIA77VAS À OBSERVAÇÃO DOS FATOS SOCIAIS

viduais que suscitam, os hábitos coletivos exprimem-se minológicos quantas forem as formas diferentes que essa
sob formas definidas, regras jurídicas, morais, ditos popu- organizaçào apresenta. Para identificar os costumes, as
lares, fatos de estrutura social, etc. Como essas formas crenças populares, recorreremos aos provérbios, aos dita-
existem de uma maneira permanente, *como não mudam dos que os exprimem. Certamente, ao proceder assim, dei-
com as diversas aplicaçôes que delas são feitas,* elas xamos provisoriamente fora da ciência a matéria concreta
constituem um objeto fixo, um padrão constante que está da vida coletiva, e no entanto, por mais mutável que esta
sempre ao alcance do observador e que não dá margem .~eja, nào temos o direito de postular a priori sua ininteligi-
às impressões subjetivas e às observaçôes pessoais. Uma hilidade. Mas, se quisermos seguir uma via metódica, pre-
regra de direito é o que ela é, e nào há duas maneiras de cisaremos estabelecer os primeiros alicerces da ciência so-
percebê-Ia. Por outro lado, visto que essas práticas nada hre um terreno firme e nào sobre areia movediça. É preci-
mais sào que vida social consolidada, é legítimo, salvo in- .~o abordar o reino social pelos lados onde ele mais se
dicaçôes cemtrárias](', estudar esta através daquelas. :Ihre à investigação científica. Somente a seguir será possí-
Quando, portanto, o sociólogo empreende a explora- vellevar mais adiante a pesquisa e, por trabalhos de apro-
ção uma ordem qualquer defatos sociais, ele deve esforçar- ximaçào progressivos, cingir pouco a pouco essa realidade
se em considerá-los por um lado em que estes ** se apresen- fugidia, da qual o espírito humano talvez jamais possa se
tem isolados de suas mantfestações individuaL~*. É em vir- : I poderar completamente.

tude desse princípio que estudamos a solidariedade social,


suas formas diversas e sua evolução através do sistema das
regras jurídicas que as exprimem!7. Do mesmo modo, se
se tentar distinguir e classificar os diferentes tipos familia-
res com base nas descrições literárias que deles nos ofere-
cem os viajantes e, às vezes, os historiadores, corre-se o
risco de confundir as espécies mais diferentes, de aproxi-
mar os tipos mais afastados. Se, ao contrário, tomar-se por
base dessa classificação a constituição jurídica da família e,
mais especificamente, o direito sucessório, ter-se-á um cri-
tério objetivo que, sem ser infalível, evitará no entanto mui-
tos erroslH. Queremos classificar os diferentes tipos de cri-
mes? Então nos esforçaremos por reconstituir as maneiras
de viver, os costumes profissionais praticados nos diferen-
tes mundos do crime, e reconheceremos tantos tipos cri-

• Elemento que não figura no texto inicial.


.. "apresentam um grau sl~riciente de crmsolidação". (RP., p. 497.)
CAPÍTULO IH
REGRAS RELATIVAS À DISTINÇÃO
ENTRE NORMAL E PATOLÓGICO

A observação, conduzida de acordo com as regras que


precedem, confunde duas ordens de fatos, muito desseme-
Ihantes sob certos aspectos: os que são o que devem ser e
()5 que deveriam ser de outro modo, os fenômenos nor-

1l1ais e os fenômenos patológicos. Vimos inclusive que era


Iwcessário abrangê-los igualmente na definição pela qual
(leve se iniciar toda pesquisa. Mas, se eles, em certa medi-
da, são da mesma natureza, não deixam de constituir duas
\';Iriedades diferentes, que é importante distinguir. A ciên-
(ia dispõe de meios que permitem fazer essa distinção?
A questão é da maior importância; pois da solução
qUl' se der a ela depende a idéia que se faz do papel que

t()111 pete ã ciência, sobretudo à ciência do homem. De


.I('()rdo com uma teoria cujos partidários se recrutam nas
('scolas mais diversas, a ciência nada nos ensinaria sobre
'''Iuilo que devemos querer. Ela só conhece, dizem, fatos
(Pll' têm o mesmo valor e o mesmo interesse; ela os ob-

~('r\'a, os explica, mas não os julga; para ela, os fatos nada


1('I'iam de censurável. O bem e o mal não existem para
50 AS REGRAS DO Mi:TODO SOOOLÓGICO mSTlNç'ÃO hiV1NE NOR1V!AL E PA TOLÓGICO 51

ela. A ciência pode perfeitamente nos dizer de que ma- não viam nos fenômenos, tomados em si mesmos e inde-
neira as causas produzem seus efeitos, não que finalida- pendentemente de todo dado subjetivo, nada que permi-
des devem ser buscadas. Para saber, não o que é, mas o tisse classificá-los segundo seu valor prático. Parecia por-
que é desejável, deve-se recorrer às sugestões do incons- tanto que o único meio de julgá-los seria relacioná-los a
ciente, não importa o nome que se dê a ele: sentimento, algum conceito que os dominasse; com isso, o emprego
instinto, impulso vital, etc. A ciência, diz um escritor já ci- de noções que presidiram à comparação dos fatos, em
tado, pode muito bem iluminar o mundo, mas ela deixa a vez de derivar deles, tornava-se indispensável em toda so-
noite nos corações; compete ao coração mesmo fazer sua ciologia racional. Mas sabemos que, se nessas condiçôes
própria luz. A ciência se vê assim destituída, ou quase, de a prática se torna refletida, a reflexão, assim empregada,
toda eficácia prática, não tendo portanto grande razão de não é científica.
ser; pois, de que serve trabalhar para conhecer o real, se O problema que acabamos de colocar nos permitirá
o conhecimento que dele adquirimos não nos pode servir reivindicar os direitos da razão sem cair de novo na ideo-
na vida? Acaso dirão que ela, ao nos revelar as causas dos logia. Com efeito, tanto para as sociedades como para os
fenômenos, nos fornece os meios de produzi-los a nosso indivíduos, a saúde é boa e desejável, enquanto a doença
gosto e, portanto, de realizar os fins que nossa vontade é algo ruim e que deve ser evitado. Se encontrarmos por-
persegue por razôes supracientíficas? Mas todo meio é ele tanto um critério objetivo, inerente aos fatos mesmos, que
próprio um fim, por um lado; pois, para empregá-lo, é nos permita distinguir cientificamente a saúde da doença
preciso querê-lo tanto como o fim cuja realização ele pre- nas diversas ordens de fenômenos sociais, a ciência será
para. Há sempre vários caminhos que levam a um objeti- capaz de esclarecer a prática, sem deixar de ser fiel a seu
vo dado; é preciso, portanto, escolher entre eles. Ora, se próprio método. É verdade que, como não consegue pre-
a ciência não pode nos ajudar na escolha do objetivo me- .~entemente atingir o indivíduo, ela só é capaz de forne-
lhor, como é que ela poderia nos ensinar qual o melhor cer-nos indicações gerais que não podem ser convenien-
caminho para chegar a ele? Por que ela nos recomendaria temente diversificadas, a não ser que se entre diretamente
o mais rápido de preferência ao mais econômico, o mais l'm contato com o particular através da sensação. O esta-
seguro em vez do mais simples, ou vice-versa? Se não é do de saúde, tal como ela o define, não poderia convir
capaz de nos guiar na determinação dos fins superiores, l'xatamente a nenhum sujeito individual, já que só pode
ela não é menos impotente quando se trata desses fins se- Sl'f estabelecido em relação às circunstâncias mais co-
cundários e subordinados que chamamos meios. Illuns, das quais cada um se afasta em maior ou menor
O método ideológico permite, é verdade, escapar a grau; ainda assim, esse é um ponto de referência precioso
esse misticismo, e foi aliás o desejo de escapar a ele o res- p:lra orientar a conduta. Do fato de ser preciso ajustá-lo a
ponsável, em parte, pela persistência desse método. Os .~vguir a cada caso especial, não se conclui que não haja
que o praticaram eram, com· efeito, demasiadamente racio- Ill'nhum interesse em conhecê-lo. Muito pelo contrário,
nalistas para admitir que a conduta humana não tivesse l ,Iv é a norma que deve servir de base a todos os nossos

necessidade de ser dirigida pela reflexão; no entanto, eles Llciocínios práticos. Nessas condições, não se tem mais o
52 AS REGRAS DO MÉTODO SOG1OLÓGICO IJ1S77NÇ'ÀO ENTRE NORMAL E PATOLÓGICO 53

direito de dizer que o pensamento é inútil à ação. Entre a algum estado externo. Além do mais, e mesmo que esse
ciência e a arte não existe mais um abismo, mas se passa critério fosse realmente distintivo do estado de saúde, ele
de uma à outra sem solução de continuidade. A ciência, é próprio teria necessidade de outro critério para poder ser
verdade, só pode descer aos fatos por intermédio da arte, reconhecido; pois seria preciso, em todo caso, que nos
mas a arte não é senão o prolongamento da ciência. Po- dissessem de acordo com que princípio se pode decidir
de-se também perguntar se a insuficiência prática desta que tal modo de se adaptar é mais perfeito que outro.
última não deverá diminuir, ã medida que as leis que ela Será de acordo com a maneira como um e outro afe-
estabelece exprimam cada vez mais completamente a rea- tam nossas chances de sobrevivência? A saúde seria o es-
lidade individual. tado de um organismo em que essas chances estão em
scu máximo, enquanto a doença seria tudo o que tem por
ddto diminuí-las. Não há dúvida, de fato, de que em ge-
r;d a doença tem realmente por conseqüência um enfra-
quecimento do organismo. Só que ela não é a única a
Vulgarmente, o sofrimento é visto como o indicador produzir esse resultado. As funções de reprodução, em
da doença, e é certo que, em geral, existe entre esses dois ('crtas espécies inferiores, ocasionam fatalmente a morte
fatos uma relação, mas que carece de constância e de pre- (', mesmo nas espécies mais elevadas, comportam riscos.
cisão. Há graves diáteses que são indolores, ao passo que N<) entanto elas são normais. A velhice e a infância têm os
perturbações sem importância, como as que resultam da IlIcsmos efeitos; pois o velho e a criança estão mais ex-
introdução de um grão de poeira no olho, causam um 1)( )stos ãs causas de destruição. São eles, então, doentes e
verdadeiro suplício. Em certos casos, inclusive, a ausência l1;lO se admitirá outro tipo são a não ser o adulto? Eis o
de dor ou ainda o prazer é que são os sintomas da doen- domínio da saúde e da fisiologia singularmente encolhi-
ça. Há uma certa invulnerabilidade que é patológica. Em ( 1<)1 Aliás, se a velhice já for, por si só, uma doença, como
circunstâncias nas quais um homem são sofreria, acontece distinguir o velho saudável do velho doentio? Do mesmo
ao neurastênico experimentar uma sensação de gozo cuja I li mto de vista, será preciso classificar a menstruação en-
natureza mórbida é incontestável. Inversamente, a dor tl'l' os fenômenos mórbidos; pois, pelas perturbações que
acompanha muitos estados, como a fome, a fadiga, o par- , I( 'I crmina, ela aumenta a receptividade da mulher à doen-
to, que são fenômenos puramente fisiológicos. V;l. Entretanto, como qualificar de doentio um estado cuja
Diremos que a saúde, consistindo num desenvolvi- ,1\I.'>t'ncia ou desaparecimento prematuro constituem in-
mento favorável das forças vitais, se reconhece pela pcr- , "I1ll'stavelmente um fenômeno patológico? Raciocina-se
feita adaptação do organismo a seu meio, e chamaremos, ~"I )rl' essa questão como se, num organismo sadio, cada
ao contrário, doença tudo o que perturba essa adapta\.';\()~ d<'l;tlhe, por assim dizer, tivesse um papel útil a desempe-
Mas em primeiro lugar - mais adiante teremos de voltar a 111); Ir; como se cada estado interno correspondesse exata-
esse ponto - de modo nenhum está demonstrado que ('a. IIl<'l1tl' a uma condição externa e, por conseguinte, contri-
da estado do organismo esteja em correspondência COIl1 111 IIS.'>l' para assegurar, por sua parte, o equilíbrio vital e a
54 AS REGRAS DO MirrODO SOCIOLÓGICO / J/STlNÇ'ÀO El"TRE NORMAL E PATOLÓGICO 55

redução das chances de morte. É legítimo supor, ao con- L'l11 que o problema causado pela doença é insignificante
trário, que certas disposiçôes anatômicas ou funcionais comparado com as imunidades que ela confere.
não servem diretamente para nada, mas simplesmente são Enfim, e sobretudo, esse critério é na maioria das ve-
porque são, porque não podem deixar de ser, dadas as zes inaplicável. Pode-se muito bem estabelecer, a rigor,
condiçôes gerais da vida. Não se poderia no entanto qua- (Iue a mortalidade mais baixa que se conhece encontra-se
lificá-las de mórbidas; pois a doença é, antes de tudo, al- ('m determinado grupo de indivíduos; mas não se pode
go evitável que não está implicado na constituição regular dcmonstrar que não pnderia haver outra mais baixa.
do ser vivo. Ora, pode acontecer que, em vez de fortale- <)uem nos diz que não são possíveis outras disposiçôes
cer o organismo, tais disposiçôes diminuam sua força de (Iue teriam por efeito diminuí-la ainda mais? Esse mínimo
resistência e, conseqüentemente, aumentem os riscos (IL' fato não é portanto prova de uma perfeita adaptação,
mortais. !lem, por conseguinte, um indicador seguro do estado de
Por outro lado, não é seguro que a doença tenha .~:Iúde, se nos basearmos na definição precedente. Além
sempre o resultado em função do qual se quer defini-la. (Iis.~o, um gmpo dessa natureza é muito difícil de se cons-
Acaso não há uma série de afecções demasiado leves para tituir e de se isolar de todos os outros, como seria necessá-
que possamos atribuir-lhes uma inf1uência sensível sobre I'i( l, para que se pudesse observar a constituição orgânica
as bases vitais do organismo? Mesmo entre as mais graves, dl' que ele tem o privilégio e que é a suposta causa dessa
há algumas cujas conseqüências nada têm de deplorável, ~llperiorielade. Inversamente, se é óbvio, quando se trata
se soubermos lutar contra elas com as armas de que dis- (k' uma doença cujo desdobramento é geralmente mortal,
pomos. Quem sofre de problemas gástricos, mas segue 'llIl' as probabilidades de sobrevivência do indivíduo são
uma boa dieta, pode viver tanto quanto o homem sadio. Ililllinuídas, a prova é singularmente difícil quando a afec-
Claro que é obrigado a ter cuidados; mas não somos todos I.;!( > não é de natureza a ocasionar diretamente a morte.
obrigados a isso, e acaso pode a vida manter-se de outro ( :( >111 efeito, só há uma maneira objetiva de provar que in-
modo? Cada um de nós tem sua higiene; a do doente não divíduos situados em condições definidas têm menos
se assemelha ãquela praticada pela média dos homens de I 11:lI1ces de sobreviver que outros: é demonstrar que, de
seu tempo e ele seu meio; mas essa é a única diferença LII(), a maior parte deles vive menos tempo. Ora, se essa
que existe entre eles elesse ponto de vista. A eloença nem dl'lllonstração é freqüentemente possível nos casos de
sempre nos deixa elesamparados, num estado ele inadapta- ,I, )1 '11,,'as puramente individuais, ela é inteiramente imprati-
ção irremeeliável; ela apenas nos obriga a adaptar-nos de 1,1\'(,1 em sociologia. Pois aqui não temos o ponto de refe-
modo diferente do da maior parte de nossos semelhantes. 11 '1ll'ia de que dispôe o biólogo, a saber, o número da
Quem nos eliz, inclusive, que não existem doenças que IIII >I't:didade média. Não sabemos sequer distinguir com
acabam por se mostrar úteis? A varíola que nos inocula- 1'\,ltid:l0 simplesmente aproximada em que momento nas-
mos através da vacina é uma verdadeira doença que nos 11' Ill11a sociedade e em que momento ela morre. Todos
damos voluntariamente; no entanto ela aumenta nossas I'.~.~('S problemas que, mesmo em biologia, estão longe de
chances ele sobrevivência. Talvez haja muitos outros casos 1,,1.11' claramente resolvidos, permanecem ainda, para o so-
56 AS REGRAS DO MfnODO SOG1OLÓGICO / J/Sl1NÇ'ÀO ENTRE NORMAL E PATOLÓGICO 57

ciólogo, envoltos em mistério. Aliás, os acontecimentos por vantagens que não se percebem. Além do mais, há
que se produzem no curso da vida social e que se repetem ;Ipenas uma razão que permitiria chamá-la de funesta: ela
mais ou menos identicamente em todas as sociedades do perturbar o desempenho normal das funçôes. Mas tal pro-
mesmo tipo são demasiadamente variados para que seja V:I supõe o problema já resolvido; pois ela só é possível
possível determinar em que medida um deles pode ter ~l' determinarmos previamente em que consiste o estado
contribuído para apressar o desenlace final. Quando se IH mnal e, portanto, se soubermos sob que sinal ele pode

trata de indivíduos, como eles são muito numerosos, po- ~l'l' reconhecido. Tentar-se-á construí-lo integralmente e a
de-se escolher aqueles que são comparados de maneira a /u'jori? Nào é necessário mostrar o que pode valer tal
que tenham em comum apenas uma única e mesma 'ano- "mstrução. Eis como, tanto em sociologia como em histó-
malia'; "esta é assim isolada de todos os fenômenos con- riJ, os mesmos acontecimentos podem vir a ser qualifica-
comitantes c, portanto, pode-se estudar a natureza de sua ,I, lS, conforme os sentimentos pessoais do estudioso, de
influência sobre o organismo". Se, por exemplo, um gru- .~:illltares ou de desastrosos. Assim, acontece a todo mo-
po de mil reumáticos, tomados ao acaso, apresenta uma 11Il'nto que um teórico incrédulo assinale, nos restos de fé
mortalidade sensivelmente superior à média, há boas razôes 'Illl' sobrevivem em meio ao desmoronamento geral das
para atribuir esse resultado à diátese reumática. Mas, em 'Tl'nçaS religiosas, um fenômeno mórbido, enquanto, para
sociologia, como cada espécie social conta apenas um pe- ,) crente, é a incredulidade mesma que é hoje a grande
queno número de indivíduos, o campo das comparaçôes é ,I, ll'nça social. Do mesmo modo, para o socialista, a orga-
demasiado restrito para "'que agrupamentos desse gênero "i/.ação econômica atual é um fato de teratologia social,
,I') pJSSO que, para o economista ortodoxo, as tendências
possam ser demonstrativos"'.
Ora, na falta dessa prova de fato, nada mais é possí- '" >l'ialistas é que são, por excelência, patológicas. E cada
vel senão raciocínios dedutivos cujas conclusôes só po- 11111 encontra em apoio de sua opinião silogismos que

dem ter o valor de conjeturas subjetivas. Demonstrar-se-á, ")Ilsidera bem construídos.


não que tal acontecimento enfraquece efetivamente o or-
ganismo social, mas que ele deve ter esse efeito. Para is- o erro comum dessas definições é querer atingir pre-
so, mostrar-se-á que ele não pode deixar de ocasionar es- mlluramente a essência dos fenômenos. Elas supõem co-
111') Jdmitidas proposições que, verdadeiras ou não, só
ta ou aquela conseqüência que se julga nociva à socieda-
de e, por esse motivo, ele será declarado mórbido. Mas 1)( )( 1l'111 ser provadas se a ciência já estiver suficientemen-
mesmo supondo que ele engendre de fato essa conse- 1<' :Ivançada. É o caso, porém, de nos conformarmos à re c

qüência, pode ocorrer que os inconvenientes que esta ~1.1 l'stabelecida anteriormente. Em vez de pretendermos

apresente sejam compensados, e até mais do que isso, d,'ll'I'lllinar de saída as relações do estado normal e de
',,'li contrário com as forças vitais, busquemos simples-
* "doença" (R.P., p. '582,) 1I\t'lIll' algum sinal exterior, imediatamente perceptível,
*. Frase que nào tlgura no texto inicial. III,IS ()hjetivo, que nos permita distinguir uma da outra es-
"que se possa proceder a agmpamentos desse gênero". (R.I'"
p. '582,) ~,I.~ dllas ordens de fatos.
58 AS REGRAS DO MÉTOIJO SOC'!OLÓGICO / J/S77iVçÀO ENTRF NORMAL E PA10lé)GICO 59

Todo fenômeno sociológico, assim como, de resto, distinguir as espécies sociais umas das outras - tratamos
todo fenômeno biológico, é suscetível de assumir formas mais adiante a questão -, é sempre possível descobrir
diferentes conforme os casos, embora permaneça essen- (IUal a forma mais geral que apresenta um fenômeno nu-
cialmente ele próprio. Ora, essas formas podem ser de ma espécie determinada.
duas espécies. Umas são gerais em toda a extensão da es- Vê-se que um fato só pode ser qualificado de patoló-
pécie; elas se verificam, se não em todos os indivíduos, gico em relação a uma espécie dada. As condições da
pelo menos na maior parte deles e, se não se repetem .~;!úde e da doença não podem ser definidas in ahstractu
identicamente em todos os casos nos quais se observam, (' de maneira absoluta. A regra não é contestada em bio-
mas variam de um sujeito a outro, essas variações estão I( >gia; jamais ocorreu a alguém que o que é normal para
compreendidas entre limites muito próximos. Há outras, IIIll molusco o é também para um vertebrado. Cada espé-
ao contrário, que são excepcionais; elas não apenas se ('iL' tem sua saúde, porque tem seu tipo médio que lhe é
verificam só na minoria, mas também acontece que, lá Ilr(>prio, e a saúde das espécies mais baixas não é menor
mesmo onde elas se produzem, muito freqüentemente (Ille a das mais elevadas. O mesmo princípio aplica-se à
não duram toda a vida do indivíduo. Elas são uma exce- ~(>ciologia, embora freqüentemente ele seja ignorado aí. É
ção tanto no tempo como no espaçol. Estamos, pois, em Ilreciso renunciar a esse hábito, ainda muito difundido, de
presença de duas variedades distintas de fenCm1enos que Illigar uma instituição, uma prática, uma máxima moral,
devem ser designadas por termos diferentes. Chamaremos ( '( 11110 se elas fossem boas ou más em si mesmas e por si

normais os fatos que apresentam as formas mais gerais e IllVsmas, para todos os tipos sociais indistintamente.
daremos aos outros o nome de mórbidos ou patológicos. Visto que o ponto de referência em relação ao qual
Se concordarmos em chamar tipo médio o ser esquemáti- .~l' pode julgar o estado de saúde ou de doença varia com
co que constituiríamos ao reunir num mesmo todo, numa ,I~ espécies, ele pode variar também para uma única e
espécie de individualidade abstrata, os caracteres mais IIll'sma espécie, se esta vier a mudar. É assim que, do
freqüentes na espécie com suas formas mais freqüentes, 1)( >11 to de vista puramente biológico, o que é normal para
poderemos dizer que o tipo normal se confunde com o ti- I) s('\vagem nem sempre o é para o civilizado, e vice-ver-
po médio e que todo desvio em relação a esse padrào da ~,I'. Há sobretudo uma ordem de variações que é impor-
saúde é um fenômeno mórbido. É verdade que o tipo I.1l1le levar em conta, porque elas se produzem regular-
médio não poderia ser determinado com a mesma clareza Illl'nle em todas as espécies: são aquelas relacionadas à
que um tipo individual, já que seus atributos constitutivos Ill;lde. A saúde do velho não é a do adulto, assim como
não estão absolutamente fixados, mas são suscetíveis de l'sl:l não é a da criança; e o mesmo ocorre com as socie-
variar. Todavia o que nào se pode pôr em dúvida é que d,ldL's'. Um fato social não pode portanto ser dito normal
ele possa ser constituído, já que é a matéria imediata da 1 ,11':1 uma espécie social determinada, a não ser em rela-
'
ciência; pois ele se confunde com o tipo genérico. O que ~,I( > a uma fase, igualmente determinada, de seu desen-
o fisiologista estuda são as funções do organismo médio, "Illvimento; em conseqüência, para saber se ele tem direi-
e com o sociólogo não é diferente. Uma vez que se sabe II 1:1 L'ssa denominação, não basta observar sob que forma
60 AS REGRAS DO MÉTODO S0G10LÓGICO / J/S17NÇ'À O ENTRE NORMAL E PA TOLÓGICO 61

ele se apresenta na generalidade das sociedades que per- generalidade é ela mesma um fato que tem necessidade
tencem a essa espécie; é preciso também ter o cuidado de de ser explicado e que, para tanto, reclama uma causa.
considerá-las na fase correspondente de sua evolução. ()ra, ela seria inexplicável se as formas de organização
Parece que acabamos de proceder simplesmente a IIl~LÍS difundidas não fossem também, pelo menos em seu
uma definição de palavras; pois nada mais fizemos senão ,()}zjunto, as mais vantajosas. Como teriam elas podido se
agrupar fenômenos segundo suas semelhanças e suas di- Illanter numa tão grande variedade de circunstâncias, se
ferenças e impor nomes aos grupos assim formados. Mas, 11;10 capacitassem os indivíduos a resistir melhor às causas
em realidade, os conceitos que constituímos, ao mesmo (k- destruição? Ao contrário, se as outras são mais raras, é
tempo que têm a grande vantagem de ser reconhecíveis ('videntemente porque, na média dos casos, os indivíduos
por caracteres objetivos e facilmente perceptíveis, não se (llIl' as representam têm mais dificuldade de sobreviver. A
afastam da noção que se tem comumente da saúde e da "';Iior freqüência das primeiras é portanto a prova de sua
doença. Com efeito, não é a doença concebida por todo o ~II perioridade 4 .
mundo como um acidente, que a natureza do ser vivo
certamente comporta, mas não costuma engendrar? É o
que os antigos filósofos exprimiam ao dizer que ela não 11
deriva da natureza das coisas, que ela é o produto de
uma espécie de contingência imanente aos organismos. Essa última observação fornece inclusive um meio de
Tal concepção, seguramente, é a negação de toda ciência; ( ('!ltrolar os resultados do precedente método.
pois a doença não possui nada mais miraculoso que a lJma vez que a generalidade, que caracteriza exterior-
saúde; ela está igualmente fundada na natureza dos seres. 111('nte os fenômenos normais, é ela própria um fenômeno
Só que não está fundada na natureza normal; não está im- ('''plicável, compete, depois que ela foi diretamente esta-
plicada no temperamento ordinário dos seres, nem ligada I" 'Il'cida pela observação, procurar explicá-la. Certamente
às condiçôes de existência das quais eles geralmente de- 1)( Illcmos estar seguros de antemão de que ela tem uma
pendem. Inversamente, para todo o mundo, o tipo da ( ,III.~;I, mas o melhor é saber com precisão qual é essa cau-
saúde se confunde com o da espécie. Inclusive não se po- '"I (:, J!l1 efeito, o caráter normal do fenômeno será mais
de, sem contradição, conceber uma espécie que, por si II\(, 11ltestável se demonstrarmos que o sinal exterior que o
mesma e em virtude de sua constituição fundamental, fos- II.IVI:I revelado a princípio não é puramente aparente, mas
se irremediavelmente doente. Ela é a norma por excelên- '01111 fundado na natureza das coisas; em uma palavra, se
cia e, portanto, nada de anormal poderia conter. 1'11' Il'rll1os erigir essa normalidade de fato em normalidade
É verdade que, correntemente, entende-se também di' direito. Essa demonstração, de resto, nem sempre con-
por saúde um estado geralmente preferível à doença. Mas ~htlf';1 ctn mostrar que o fenômeno é útil ao organismo,
essa definição está contida na precedente. De fato, se os ,11".1:1 que este seja o caso mais freqüente, pelas razões
caracteres cuja reunião forma o tipo normal puderam se '1"(' :1l':lhamos de mencionar; mas pode ocorrer também,
generalizar numa espécie, há uma razão para isso. EsslI 111111' I assinalamos mais acima, que uma disposição seja
62 AS REGRAS no MÍ<.Tono SOCiOLÓGICO DiS7JNÇ'ÀO FJViRE NORMAL E PATOLÓGICO 63

normal sem servir a nada, simplesmente porque está ne- cega do hábito, ela não é mais o indicador de que o fenCJ-
cessariamente implicada na natureza do ser. Assim, talvez meno observado está intimamente ligado às condiç()es
fosse útil que o parto não causasse problemas tão violen- gerais da existência coletiva. Essa dificuldade, aliás, é es-
tos ao organismo feminino; mas isso é impossível. Em pecífica à sociologia. Ela não existe', por assim dizer, para
conseqüência, a normalidade do fenômeno será explicada o biólogo. Com efeito, é muito raro que as espécies ani-
pelo simples fato de estar ligada às condições de existên- mais ~;ejam obrigadas a tomar formas imprevistas. As úni-
cia da espécie considerada, seja como um efeito mecanica- cas modificaçôes normais pelas quais elas passam são
mente necessário dessas condições, seja como um meio aquelas que se reproduzem regularmente em cada indiví-
que permite aos organismos adaptarem-se a elas". duo, principalmente sob a int1uência da idade. Portanto
Essa prova não é simplesmente útil a título de cem- elas sào conhecidas ou podem sê-lo, já que se realizaram
trole. Convém não esquecer, com efeito, que, se há inte- numa grande quantidade de casos; em vista disso se pode
resse em distinguir o normal do anormal, é sobretudo saber, a cada momento do desenvolvimento do animal, e
com vistas a esclarecer a prática. Ora, para agir com co- mesmo nos períodos de crise, em que consiste o estado
nhecimento de causa não basta saber o que devemos normal. O mesmo acontece em sociologia em relação às
querer, mas por que o devemos. As proposições científi- .~ociedades que pertencem às espécies inferiores. Como

cas, relativas ao estado normal, serão mais imediatamente muitas delas já cumpriram toda a sua carreira, a lei de sua
aplicáveis aos casos particulares quando estiverem acom- l'volução normal está ou pelo menos pode ser estabeleci-
panhadas de suas razões; pois então saberemos reconhe- da. Mas, quando se trata das sociedades mais elevadas e
cer melhor em que casos convém modificá-las, ao aplicá- mais recentes, essa lei é desconhecida por definição, já
las, e em que sentido. (ILle elas ainda não percorreram toda a sua história. O so-
Há inclusive circunstâncias em que essa verificação é ciúlogo pode, assim, ter dificuldades para saber se um fe-
rigorosamente necessária, porque o primeiro método, se Il<)meno é normal ou não, estando privado de qualquer
fosse empregado sozinho, poderia induzir a erro. É o que 1)( lllto de referência.
acontece nos períodos de transição em que a espécie in- Ele sairá da dificuldade procedendo como acabamos
teira está em via de evoluir, sem estar ainda definitiva- .](' dizer. Após tcr estabelecido pela observação que o fa-
mente fixada em uma forma nova. Nesse caso, o único ti- I,) l' geral, ele remontará às condições que determinaram

po normal que se encontra desde já realizado e dado nos ,·.~.~a generalidade no passado e procurará saber, a seguir,

fatos é o do passado; no entanto ele não está mais em ',(' lais condições ainda se verificam no presente ou, ao
harmonia com as novas condições de existência. Um fato ")Illr;üio, se alteraram. No primeiro caso, ele terá o direi-
pode assim persistir em toda a extensão de uma espécie, I' I til' qualificar o fenômeno de normal e, no segundo, de

embora não mais corresponda às exigências da situação. 1I'(IISar-lhe esse caráter. Por exemplo, para saber se o es-
Nesse caso, portanto, ele só tem as aparências da normali- 1.1\ I,) l'Conômico atual dos povos europeus, com a ausên-

dade; a generalidade que apresenta não é senão um rótu- , 1.1 (1(' organizaçã0 6 que é a sua característica, é normal

lo mentiroso, posto que, mantendo-se apenas pela força 1111 Ilao, investigar-se-á aquilo que, no passado, deu ori-
64 AS REGRAS DO MÉTODO S0C10LÓGICO mS77Nç'ÀO ENTRE NORMAL E PATOLÓGICO 65

gem a ele. Se essas condições são ainda aquelas nas quais essa utilidade. Portanto só podemos servir-nos desse mé-
se encontram atualmente nossas sociedades, é porque a todo se o tipo normal estiver constituído, e isso somente é
situação é normal, a despeito dos protestos que provoca. possível por outro procedimento. Enfim, e sobretudo, se é
Se, ao contrário, verificar-se que ela está ligada a essa ve- verdade que tudo o que é normal é útil, com a condição
lha estrutura social que qualificamos alhures de segmen- de ser necessário, é falso que tudo o que é útil seja nor-
tar7 e que, após ter sido a ossatura essencial das socieda- mal. Podemos ter certeza de que os estados que se gene-
des, vai-se apagando cada vez mais, deveremos concluir ralizaram na espécie são mais úteis do que os que perma-
que ela constitui presentemente um estado mórbido, por neceram excepcionais, mas não de que os mais úteis é
mais universal que seja. É de acordo com o mesmo méto- que existem ou que podem existir. Não temos nenhuma
do que deverão ser resolvidas todas as questões contro- razão para acreditar que todas as combinações possíveis
versas desse gênero, como as de saher se o enfraqueci- foram tentadas no curso da experiência e, entre aquelas ja-
mento das crenças religiosas ou se o desenvolvimento mais realizadas, mas concebíveis, talvez muitas sejam mais
dos poderes do Estado são fenômenos normais ou não H• vantajosas que as que conhecemos. A noção de útil exce-
Contudo, esse método não poderia, em caso nenhum, de a de normal; ela está para esta assim como o gênero es-
suhstituir o precedente, nem mesmo ser empregado pri- tá para a espécie. Ora, é impossível deduzir o mais do me-
meiro. A começar porque ele levanta questões que tere- nos, a espécie do gênero. Mas pode-se encontrar o gênero
mos de examinar adiante e que só podem ser ahordadas na espécie, já que esta o contém. Por isso, uma vez cons-
quando a ciência já avançou suficientemente; pois ele im- tatada a generalidade do fenômeno, podem-se confirmar
plica, em suma, uma explicação quase completa dos fenô- os resultados do primeiro método, mostrando como ele
menos, na medida em que supõe sejam determinadas suas serve') Podemos assim formular as três regras seguintes:
causas ou suas funções. Ora, é importante que, desde o
início da pesquisa, se possam classificar os fatos em nor- 1) Um fato social é normal para um tipo social deter-
mais e anormais, ressalvando-se alguns casos excepcio- minado, considerado numa fase determinada de seu de-
nais, a fim de poder atribuir à fisiologia e à patologia os senvolvimento, quando ele se produz na média das socie-
respectivos domínios. Em seguida, é em relação ao tipo dades dessa espécie, consideradas na fase correspondente
normal que um fato deve ser considerado útil ou necessá- de sua evolução.
rio para poder ele próprio ser qualificado de normal. Caso 2) Os resultados do método precedente podem ser veri-
contrário, poder-se-ia demonstrar que a doença se confun- ficados mostrando-se que a generalidade do fenômeno se
de com a saúde, já que ela deriva necessariamente do or- deve ãs condições gerais da vida coletiva no tipo social
ganismo afetado; é apenas com o organismo médio que considerado.
ela não mantém a mesma relação. Do mesmo modo, a 3) Essa verificação é necessária quando esse fato se
aplicação de um remédio, sendo útil ao doente, poderia relaciona a uma espécie social que ainda não consumou
ser vista como um fenômeno normal, quando é evidente-, sua evolução integral.
mente anormal, pois só em circunstâncias anormais tem
66 AS REGRAS DO MÉTODO SOC70LcJGICO f)JSl1NÇ'ÃO bNTRE NORMAL E PATOLcJGICO 67

III minalidadc. Esta muda de forma, os atos assim qualifica-


dos não são os mesmos em toda parte; mas, sempre e em
Estamos tão habituados a resolver com uma palavra toda parte, houve homens que se conduziram de maneira
essas questões difíceis e a decidir rapidamente, a partir de a atrair sobre si a repressão penal. Se, pelo menos, à medi-
observações sumárias e à base de silogismos, se um fato da que as sociedades passam dos tipos inferiores aos mais
social é normal ou não, que esse procedimento talvez vá elevados, o índice de criminalidade - isto é, a relação en-
ser considerado inutilmente complicado. Não parece pre- tre o número anual dos crimes e o da população - tendes-
ciso dar-se tanto trabalho para distinguir a doença da saú- se a diminuir, poder-se-ia supor que, embora permaneça
de. Acaso não fazemos diariamente distinções desse tipo? um fenômeno normal, o crime tende, no entanto, a perder
É verdade; mas resta saber se as fazemos devidamente. O esse caráter. Mas não temos razão nenhuma que nos per-
que nos mascara as dificuldades desses problemas é que mita acreditar na realidade dessa regressão. Muitos fatos
vemos o biólogo resolvê-los com relativa facilidade. Mas pareceriam antes demonstrar a existência de um movi-
esquecemos que é muito mais fácil para ele do que para mento no sentido inverso. Desde o começo do século, a
o sociólogo perceber como cada fenômeno afeta a força l'statística nos fornece o meio de acompanhar a marcha da
de resistência do organismo e com isso determinar seu ca- criminalidade; ora, por toda parte ela aumentou. Na Fran-
ráter normal ou anormal com uma exatidão praticamente <.;a, o aumento é de cerca de 300 por cento. Não há por-
suficiente. Em sociologia, a complexidade e a mobilidade tanto fenômeno que apresente da maneira mais irrecusá-
maiores dos fatos obrigam a muitas precauções, como vel todos os sintomas da normalidade, já que ele se mostra
provam os julgamentos contraditórios feitos sobre o mes- intimamente ligado às condições de toda vida coletiva. Fa-
mo fenômeno por diferentes partidos. Para mostrar bem o zer do crime uma doença social seria admitir que a doença
quanto essa cautela é necessária, façamos ver, por alguns nào é algo acidental, mas, ao contrário, deriva, em certos
exemplos, em que erros se incorre quando ela não é res- casos, da constituição fundamental do ser vivo; seria apa-
peitada e sob que luz nova os fenômenos mais essenciais gar toda distinção entre o fisiológico e o patológico. Certa-
aparecem quando são tratados metodicamente. mente pode ocorrer que o próprio crime tenha formas
Se há um fato cujo caráter patológico parece incon- anormais; é o que acontece quando, por exemplo, ele
testável, é o crime. Todos os criminologistas estão de ;Itinge um índice exagerado. Não é duvidoso, com efeito,
acordo nesse ponto. Ainda que expliquem essa morbidez que esse excesso seja de natureza mórbida. O que é nor-
de maneiras diferentes, eles são unânimes em reconhecê- mal é simplesmente que haja uma criminalidade, contanto
la. O problema, porém, deveria ser tratado com menos (Iue esta atinja e não ultrapasse, para cada tipo social, cer-
presteza. t() nível que talvez não seja impossível fixar de acordo
Apliquemos, com efeito, as regras precedentes. O cri- ('om as regras precedentes 10.
me não se observa apenas na maior parte das sociedades Eis-nos em presença de uma conclusão, aparente-
desta ou daquela espécie, mas em todas as sociedades de IIIl'nte, bastante paradoxal. Pois não devemos iludir-nos
todos os tipos. Não há nenhuma onde não exista uma cri- qllanto a ela. Classificar o crime entre os fenômenos de
68 AS REGRAS DO MÉTODO SOC!OLÓGICO lJISTTNÇÀO ENJ'RE NORil1AL E PATOLÓGICO 69

sociologia normal é não apenas dizer que ele é um fenô- até então lhes eram mais refratários. Para que os assassi-
meno inevitável ainda que lastimável, devido à incorrigí- nos desapareçam, é preciso que o horror do sangue der-
vel maldade dos homens; é afirmar que ele é um fator da ramado torne-se maior naquelas camadas sociais em que
saúde pública, uma parte integrante de toda sociedade sa- se recrutam os assassinos; mas, para tanto, é preciso que
dia. Esse resultado, à primeira vista, é bastante surpreen- ele se torne maior em toda a extensão da sociedade. Aliás,
dente para que tenha desconcertado a nós próprios e por a ausência mesma do crime contribuiria diretamente para
muito tempo. Entretanto, uma vez dominada essa primei- produzir esse resultado; pois um sentimento mostra-se
ra impressão de surpresa, não é difícil encontrar as razões muito mais respeitável quando ele é sempre e uniforme-
que explicam essa normalidade e, ao mesmo tempo, a mente respeitado. Mas não se percebe que esses estados
confirmam. fortes da consciência comum não podem ser assim refor-
Em primeiro lugar, o crime é normal porque uma so- çados sem que os estados mais fracos, cuja violação dava
ciedade que dele estivesse isenta seria inteiramente im- antes origem apenas a faltas puramente morais, sejam
possível. igualmente reforçados; pois os segundos são apenas o
O crime, conforme mostramos alhures, consiste num prolongamento, a forma atenuada dos primeiros. Assim, o
ato que ofende certos sentimentos coletivos dotados de roubo e a simples indelicadeza não ofendem senão um
uma energia e de uma clareza particulares. Para que, numa único e mesmo sentimento altruísta: o respeito à proprie-
sociedade dada, os atos reputados criminosos pudessem dade de outrem. Só que esse mesmo sentimento é ofendi-
deixar de ser cometidos, seria preciso que os sentimentos do de modo mais fraco por um desses atos do que pelo
que eles ferem se verificassem em todas as consciências in- outro; e como, além disso, ele não tem na média das
dividuais sem exceção e com o grau de força necessário consciências uma intensidade suficiente para sentir viva-
para conter os sentimentos contrários. Ora, supondo que mente a mais leve dessas duas ofensas, esta será objeto
essa condição pudesse efetivamente ser realizada, nem por de uma maior tolerância. Eis por que se censura simples-
isso o crime desapareceria, ele simplesmente mudaria de mente o indelicado, ao passo que o ladrão é punido. Mas
forma; pois a causa mesma que esgotaria assim as fontes se o mesmo sentimento tornar-se mais forte, a ponto de
da criminalidade abriria imediatamente novas. fazer calar em todas as consciências aquilo que inclina o
Com efeito, para que os sentimentos coletivos prote- homem ao roubo, ele se tornará mais sensível às lesões
gidos pelo direito penal de um povo, num momento de- que, até então, apenas o tocavam levemente; ele reagirá
terminado de sua história, consigam penetrar nas consciên- portanto com mais firmeza contra elas; tais lesões serão
cias que lhes eram então fechadas ou ter mais influência ()bjeto de uma reprovação mais enérgica que fará passar
lá onde não tinham bastante, é preciso que eles adquiram :tlgumas delas, de simples faltas morais que eram, ao esta-
uma intensidade superior ã que possuíam até então. É do de crimes. Por exemplo, os contratos indelicados ou .
preciso que a comunidade como um todo os sinta com indelicadamente executados, que implicam apenas uma
mais ardor; pois eles não podem obter de outra fonte a reprovação pública ou reparações civis, se tornarão deli-
força maior que lhes permite impor-se aos indivíduos que (os. Imaginem uma sociedade de santos, um claustro
DIS'J1NÇÀO ENTRE NORMAL E PATOLÓGICO 7l
70 AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO

exemplar e perfeito. Os crimes propriamente ditos nela nula. Assim, como não pode haver sociedade em que os
serão desconhecidos; mas as faltas que parecem veniais indivíduos não divirjam em maior ou menor grau do tipo
ao vulgo causarão o mesmo escândalo que produz o deli- coletivo, é também inevitável que, entre essas divergências,
to ordinário nas consciências ordinárias. Portanto, se essa haja algumas que apresentem um caráter criminoso. Pois
sociedade estiver armada do poder de julgar e de punir, o que confere a elas esse caráter não é sua importância
ela qualificará esses atos de criminosos e os tratará como intrínseca, mas a que lhes atribui a consciência comum.
tais. É pela mesma razão que o homem honesto julga suas Se esta é mais forte, se tem suficiente autoridade para tor-
menores fraquezas morais com uma severidade que a nar essas divergências muito fracas em valor absoluto, ela
multidão reserva aos atos verdadeiramente delituosos. será também mais sensível, mais exigente, e, reagindo
Outrora, as violências contra as pessoas eram mais fre- contra os menores desvios com a energia que manifesta
qüentes do que hoje, porque o respeito pela dignidade alhures apenas contra dissidências mais consideráveis, irá
individual era menor. Como este aumentou, esses crimes atribuir-lhes a mesma gravidade, ou seja, irá marcá-los co-
tornaram-se mais raros; em compensação, muitos atos mo criminosos.
que lesavam esse sentimento entraram no direito penal, O crime é portanto necessário; ele está ligado ãs con-
no qual primitivamente não constavam ll . dições fundamentais de toda vida social e, por isso mes-
Talvez se pergunte, para esgotar todas as hipóteses mo, é útil; pois as condições de que ele é solidário são
logicamente possíveis, por que essa unanimidade não se elas mesmas indispensáveis ã evolução normal da moral e
estenderia a todos os sentimentos coletivos sem exceção; do direito.
por que mesmo os mais fracos não adquiririam suficiente De fato, não é mais possível hoje contestar que não
energia para prevenir qualquer dissidência. A consciência apenas o direito e a moral variam de um tipo social a ou-
moral da sociedade se manifestaria por inteiro em todos tro, como também mudam em relação a um mesmo tipo,
os indivíduos e com uma vitalidade suficiente para impe- se as condições da existência coletiva se modificam. Mas,
dir todo ato que a ofendesse, tanto as faltas puramente para que essas transformações sejam possíveis, é preciso
morais como os crimes. Mas uma uniformidade tão uni- que os sentimentos coletivos que estão na base da moral
versal e tão absoluta é radicalmente impossível; pois o não sejam refratários ã mudança, que tenham, portanto,
meio físico imediato no qual cada um de nós se encontra, apenas uma energia moderada. Se fossem demasiado for-
os antecendentes hereditários, as influências sociais de tes, deixariam de ser plásticos. Todo arranjo, com efeito, é
que dependemos variam de um indivíduo a outro e, por um obstáculo a um novo arranjo, e isso tanto mais quanto
.conseguinte, diversificam as consciências. Não é possível mais sólido for o arranjo primitivo. Quanto mais fortemen-
que todos se assemelhem nesse ponto, pela simples razão te pronunciada for uma estrutura, mais resistência ela opo-
de que cada um tem seu organismo próprio, e esses orga- rá a qualquer modificação, e isso vale tanto para os arran-
nismos ocupam porções diferentes do espaço. Por isso, jos funcionais como para os anatômicos. Ora, se não hou-
mesmo nos povos inferiores, nos quais a originalidade in- vesse crimes, essa condição não seria preenchida; pois tal
dividual é muito pouco desenvolvida, ela não chega a ser hipótese supõe que os sentimentos coletivos teriam chega-
72 AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO mS77Nç'ÃO FNTRE NORMAL E PA7DLÓGICO 73

do a um grau de intensidade sem exemplo na história. Na- abolidas. Entretanto, naquele momento, essa violação era
da é bom indefinidamente e sem medida. É preciso que a um crime, já que era uma ofensa a sentimentos ainda mui-
autoridade que a consciência moral possui não seja exces- to fortes na generalidade das consciências. Todavia esse
siva; caso contrário, ninguém ousaria contestá-la e muito crime era útil, pois preludiava transformações que, dia
facilmente ela se cristalizaria numa forma imutável. Para após dia, tornavam-se mais necessárias. A livre filosofia
que ela possa evoluir, é preciso que a originalidade indivi- teve por precursores os heréticos de todo tipo que o bra-
dual possa vir à luz; ora, para que a do idealista que sonha ço secular justamente perseguiu durante toda a Idade Mé-
superar seu século possa se manifestar, é preciso que a do dia, até as vésperas dos tempos contemporâneos.
criminoso, que está abaixo de seu tempo, seja possível. Desse ponto de vista, os fatos fundamentais da crimi-
Uma não existe sem a outra. nologia apresentam-se a nós sob um aspecto de todo no-
E não é tudo. Além dessa utilidade indireta, o próprio vo. Contrariamente às idéias correntes, o criminoso não
crime pode desempenhar um papel útil nessa evolução. mais aparece como um ser radicalmente insociável, como
Não apenas ele implica que o caminho permanece aberto uma espécie de elemento parasitário, corpo estranho e
às mudanças necessárias, como também, em certos casos, inassimilável, introduzido no seio da sociedade 12 ; ele é um
prepara diretamente essas mudanças. Não apenas, lá on- agente regular da vida social. O crime, por sua vez, não
de ele existe, os sentimentos coletivos encontram-se no deve mais ser concebido como um mal que não possa ser
estado de maleabilidade necessário para adquirir uma for- contido dentro de limites demasiado estreitos; mas, longe
ma nova, como ele também contribui às vezes para pre- de haver motivo para nos felicitarmos quando lhe ocorre
determinar a forma que esses sentimentos irão tomar. descer muito sensivelmente abaixo do nível ordinário, po-
Quantas vezes, com efeito, o crime não é senão uma an- demos estar certos de que esse progresso aparente é ao
tecipação da moral por vir, um encaminhamento em dire- mesmo tempo contemporâneo e solidário de alguma per-
ção ao que será! De acordo com o direito ateniense, Só- turbação social. Assim, o número de agressões e de feri-
crates era um criminoso e sua condenação simplesmente mentos jamais cai tanto como em tempos de penúria!:l. Ao
justa. No entanto seu crime, a saber, a independência de mesmo tempo e por via indireta, a teoria da pena se mos-
seu pensamento, era útil, não somente à humanidade, tra renovada, ou melhor, por renovar. Com efeito, se o cri-
mas à sua pátria. Pois ele servia para preparar uma moral me é uma doença, a pena é seu remédio e não pode ser
e uma fé novas, das quais os atenienses tinham então ne- concebida de outro modo; assim, todas as discussões que
cessidade, porque as tradições segundo as quais tinham da suscita têm por objeto saber o que ela deve ser para
vivido até então não mais estavam em harmonia com suas cumprir seu papel de remédio. Mas, se o crime nada tem
condições de existência. Ora, o caso de Sócrates não é de mórbido, a pena não poderia ter por objeto curá-lo e
isolado; ele se reproduz periodicamente na história. A li- .~lla verdadeira função deve ser buscada em outra parte.
berdade de pensar que desfrutamos atualmente jamais Portanto as regras precedentemente enunciadas estão
poderia ter sido proclamada se as regras que a proibiam longe de terem como única razão de ser a satisfação de
não tivessem sido violadas antes de serem solenemente UlIl formalismo lógico sem grande utilidade, uma vez que,
74 AS REGRAS DO MÉTODO SOC70LÓGICO / J/ST/iVÇÀO ENTRE NORMAL E PA TOLÓGICO 75

ao contrário, conforme as apliquemos ou não, os fatos so- responsabilidade, tais como existem na história, não são
ciais mais essenciais mudam totalmente de caráter. Se es- senão um produto da ignorância e da barbárie, de que
se exemplo, aliás, é particularmente demonstrativo - e Jdianta dedicar-se a conhecê-Ias para determinar suas for-
por isso julgamos que era preciso nos determos nele -, há mas normais? Assim, o espírito é levado a afastar-se de
muitos outros que poderiam ser utilmente citados. Não uma realidade desde então sem interesse, voltando-se so-
existe sociedade na qual não seja de regra que a pena de- hre si mesmo e buscando dentro de si os materiais neces-
ve ser proporcional ao delito; entretanto, para a escola .~jrios para reconstruí-Ia. Para que a sociologia trate os fa-
italiana, esse princípio não passa de uma invenção de ju- los como coisas, é preciso que o sociólogo sinta a neces-
ristas, desprovida de qualquer solidez14 Inclusive, para sidade de aprender com eles. Ora, como o objeto princi-
esses criminologistas, é a instituição penal inteira, tal co- pal de toda ciência da vida, tanto individual como social,
mo funcionou até o presente em todos os povos conheci- C" em suma, definir o estado normal, explicá-lo e distin-
dos, que é um fenômeno antinatural. Já vimos que, para o gui-lo de seu contrário, se a normalidade nào acontecer
sr. Garofalo, a criminalidade específica às sociedades infe- nas coisas mesmas, se, ao contrário, ela for um caráter
riores nada tem de natural. Para os socialistas, é a organi- que imprimimos desde fora nestas ou que lhes recusamos
zação capitalista, apesar de sua generalidade, que consti- por razões quaisquer, acaba-se essa salutar dependência.
tui um desvio do estado normal, produzido pela violência () espírito se acha à vontade diante do real, que nada de
e o artifício. Para Spencer, ao contrário, é nossa centrali- muito importante tem a lhe ensinar; ele não mais é conti-
zação administrativa, é a extensão dos poderes governa- do pela matéria à qual se aplica, uma vez que é ele, de
mentais o vício radical de nossas sociedades, e isso apesar certo modo, que a determina. As diferentes regras que es-
de ambas progredirem de maneira mais regular e univer- tabelecemos até o presente são portanto intimamente soli-
sal à medida que avançamos na história. Não cremos que (brias. Para que a sociologia seja realmente uma ciência
em nenhum desses casos se aceite como critério sistemáti- de coisas, é preciso que a generalidade dos fenômenos
co decidir do caráter normal ou anorma.l dos fatos sociais .~L'ja tomada como critério de sua normalidade.
com base no grau de generalidade deles. É sempre à for- Nosso método, aliás, tem a vantagem de regular a
ça de muita dialética que essas questões são decididas. :I~.·ào ao mesmo tempo que o pensamento. Se o desejável
Entretanto, não respeitado esse critério, incorre-se IÜO é objeto de observaçào, mas pode e deve ser determi-
não somente em confusões e em erros parciais, como os nado por uma espécie de cálculo mental, nenhum limite,
que acabamos de lembrar, mas a ciência mesma torna-se por assim dizer, pode ser imposto às livres invenções da
impossível. Com efeito, esta tem por objeto imediato o es- imaginação em busca do melhor. Pois, como atribuir à per-
tudo do tipo normal; ora, se os fatos mais gerais podem I'('ic,;ào um termo que ela não pode ultrapassar? Ela escapa,
ser mórbidos, é possível que o tipo normal jamais tenha por definição, a qualquer limite. O objetivo da humanidade'
existido nos fatos. Sendo assim, de que serve estudá-los? rl'l'ua portanto ao infinito, desencorajando uns por seu
Eles podem apenas confirmar nossos preconceitos e en- :ll'astamento mesmo, estimulando e apaixonando outros
raizar nossos erros, já que deles resultam. Se a pena, se a qllL', para dele se aproximar um pouco, aceleram o passo e
76 AS REGRAS DO Mi'TO[)O SOCIOLÓGICO

se precipitam nas revoluções. Escapamos desse dilema prá- CAPÍTULO IV


tico se o desejável for a saúde, e se a saúde for algo de de- REGRAS RELATIVAS À CONSTITUIÇÃO
finido e de dado nas coisas, pois o termo do esforço é da-
DOS TIPOS SOCIAIS
do e definido ao mesmo tempo. Nào se trata mais de per-
seguir desesperadamente um fim que se afasta à medida
que avançamos, mas de trabalhar com uma regular perse-
verança para manter o estado normal, para restabelecê-lo
se for perturbado, para redescohrir suas condições se elas
vierem a mudar. O dever do homem de Estado nào é mais
impelir violentamente as sociedades para um ideal que lhe
parece sedutor, mas seu papel é o do médico: ele previne
a eclosào das doenças mediante uma hoa higiene e, quan-
do estas se manifestam, procura curá-Iasl';.

Visto que um fato social só pode ser qualificado de


normal ou de anormal em relação a uma espécie social
determinada, o que precede implica que um ramo da so-
ciologia é dedicado à constituição dessas espécies e à sua
classificação.
Essa noção de espécie social tem, aliás, a grande van-
tagem de nos fornecer um meio-termo entre as duas con-
cepções contrárias da vida coletiva que por muito tempo
dividiram os espíritos: refiro-me ao nominalismo dos his-
toriadores l e ao realismo extremo dos filósofos. Para o
historiador, as sociedades constituem individualidades he-
terogêneas, incomparáveis entre si. Cada povo tem sua fi-
sionomia, sua constituição específica, seu direito, sua mo-
raI, sua organização econõmica que convêm só a ele, e
toda generalização é praticamente impossível. Para o filó-
sofo, ao contrário, todos esses agrupamentos particulares,
que chamamos trihos, cidades, nações, não são mais que
comhinações contingentes e provisórias sem realidade
própria. Apenas a humanidade é real e é dos atributos ge-
78 AS RHGRAS DO MATaDO SOCIOLÓGICO NEGRAS RELA'llVAS À CONS77TUlç:40 DOS 77POS SOCIAIS 79

rais da natureza humana que decorre toda a evolução so- consecutivas observadas nas populações distintas"2. É que,
cial. Para os primeiros, portanto, a história não é senão de fato, se existe apenas uma única espécie social, as socie-
uma seqüência de acontecimentos que se encadeiam sem. dades particulares não podem diferir entre si a não ser em
se reproduzir; para os segundos, esses mesmos aconteci- graus, conforme apresentem mais ou menos completa-
mentos só têm valor e interesse como ilustração das leis mente os traços constitutivos dessa espécie única, confor-
gerais que estão inscritas na constituição do homem e que me 'exprimam' mais ou menos perfeitamente a humanida-
dominam todo o desenvolvimento histórico. Para aqueles, de. Se, ao contrário, existem tipos sociais qualitativamente
o que é bom para uma sociedade não poderia aplicar-se distintos uns dos outros, não se poderá fazer que eles se
às outras. As condições do estado de saúde variam de um unam exatamente como as seções homogêneas de uma re-
povo a outro e não podem ser determinadas teoricamen- la geométrica, por mais que os aproximemos. O desenvol-
te; é uma questão de prática, de experiência, de tentati- vimento histórico perde deste modo a unidade ideal e sim-
vas. Para os outros, essas condições podem ser calculadas plista que lhe atribuíam; ele se fragmenta, por assim dizer,
de uma vez por todas e para o gênero humano inteiro. numa infinidade de pedaços que, por diferirem especifica-
Parecia, portanto, que a realidade social ou seria o objeto mente uns dos outros, não poderiam ligar-se de maneira
de uma filosofia abstrata e vaga, ou de monografias pura- contínua. A famosa metáfora de Pascal, retomada depois
mente descritivas. Mas escapamos a essa alternativa tão por Comte, mostra-se assim desprovida de verdade.
logo reconhecemos que, entre a multidão confusa das so- Mas como fazer para constituir tais espécies?
ciedades históricas e o conceito único, mas ideal, da hu-
manidade, existem intermediários: são as espécies sociais.
Na idéia de espécie, com efeito, acham-se reunidas tanto
a unidade que toda pesquisa verdadeiramente científica
exige, como a diversidade que é dada nos fatos, já que a À primeira vista, pode parecer que não haja outra
espécie é a mesma em todos os indivíduos que 'dela fa- Illaneira de proceder senão estudar cada sociedade em
zem parte' e, por outro lado, as espécies diferem entre si. particular, fazer dela uma monografia tão exata e tão
Continua sendo verdade que as instituições morais, jurídi- (.( lmpleta quanto possível, a seguir comparar todas essas
cas, econômicas, etc. são infinitamente variáveis, mas es- Illonografias entre si, ver em que ponto elas concordam e
sas variações não são de natureza a não permitir nenhu- ('111 que ponto divergem e, então, conforme a importância
ma apreensão pelo pensamento científico. n'lativa dessas similitudes e dessas divergências, classifi-
Foi por ter desconhecido a existência de espécies so- (';If os povos em grupos semelhantes ou diferentes. Em
ciais que Comte julgou poder representar o progresso das .I!)()io a esse método, faz-se notar que ele só é admissível
sociedades humanas como idêntico ao de um povo único Illlma ciência de observação. A espécie, com efeito, é o
"ao qual seriam idealmente referidas todas as modificações n'.~lImo dos indivíduos; portanto, como constituí-Ia se não

* "a encarnam" (RP, p. 599.) • "encarnem" (RP, p. 599.)


80 AS REGRAS no MÉ'TOnO SOCIOLÓGICO REGRAS RElA1lVAS À CONS77TUlÇÀO nos 77POS SOCIAIS 81

se começa por descrever cada um deles e por descrevê-lo Mas ainda que uma classificação fosse possível com
inteiramente? Acaso não é uma regra a de somente elevar- base nesse método, ela teria o grande defeito de não pres-
se ao geral após se ter observado o particular e todo o tar os serviços que são sua razão de ser. Com efeito, ela
particular? Foi por essa razão que se quis às vezes adiar a deve, antes de tudo, ter por objeto abreviar o trabalho cien-
sociologia até uma época indefinidamente remota, em que tífico ao substituir a multiplicidade indefinida dos indiví-
a história, no estudo que realiza das sociedades particula- duos por um número restrito de tipos. Mas ela perde essa
res, terá chegado a resultados suficientemente objetivos e vantagem se esses tipos só forem constituídos após todos
definidos para poderem ser proveitosamente comparados. os indivíduos terem sido passados em revista e analisados
Mas, em realidade, essa cautela só aparentemente é inteiramente. Uma tal classificação não facilitará muito a
científica. É inexato, com efeito, que a ciência só possa ins- pesquisa, se não fizer mais que resumir as pesquisas já fei-
tituir leis após ter passado em revista todos os fatos que tas. Ela só será verdadeiramente útil se nos permitir classi-
elas exprimem, ou só formar gêneros após ter descrito, em ficar outros caracteres que não aqueles que lhe servem de
sua integralidade, os indivíduos que eles compreendem. O base, se nos proporcionar quadros para os fatos futuros.
verdadeiro método experimental tende, antes, a substituir Seu papel é o de nos munir de pontos de referência aos
os fatos vulgares - que só são demonstrativos com a condi- quais possamos relacionar outras observações que não
ção de serem numerosos e que, portanto, permitem apenas aquelas que nos forneceram esses próprios pontos de re~
conclusões sempre suspeitas - por fatos decisivos ou cru- ferência. Mas, para isso, é preciso que ela seja feita, não a
ciais, como dizia Bacon-\ que, por si mesmos e indepen- partir de um inventário completo de todos os caracteres
dentemente de seu número, têm um valor e um interesse individuais, mas a partir de um pequeno número deles,
científicos. É sobretudo necessário proceder deste modo cuidadosamente escolhidos. Nessas condições, ela não
quando se trata de constituir gêneros e espécies. Pois fazer servirá apenas para pôr um pouco de ordem nos conheci-
o inventário de todas as características de um indivíduo é mentos já obtidos; servirá para produzir outros. Ela poupa-
um problema insolúvel. Todo indivíduo é um infinito e o r:l muitos passos ao observador, porque irá guiá-lo. Assim,
infinito não pode ser esgotado. Iremos nos ater às proprie- lima vez estabelecida a classificação sobre esse princípio,
dades mais essenciais? Mas com base em que princípio fa- para saber se um fato é geral numa espécie, não será ne-
remos a triagem? Para isso é preciso um critério que supere cessário ter observado todas as sociedades dessa espécie;
o indivíduo e que as monografias mais bem-feitas não po- algumas serão suficientes. Inclusive, em muitos casos, bas-
deriam, portanto, nos fornecer. Mesmo sem levar as coisas tará somente uma observação bem-feita, assim como uma
a esse rigor, pode-se prever que, quanto mais numerosos vxperiência bem conduzida é suficiente, muitas vezes, pa-
os caracteres que servirão de base à classificação, tanto ra o estabelecimento de uma lei.
mais difícil será que as diversas maneiras como eles se Devemos portanto escolher para nossa classificação
combinam nos casos particulares apresentem semelhanças ('aracteres particularmente essenciais. É verdade que não se
bastante claras e diferenças bastante nítidas para permitir a 1)( lde conhecê-los a não ser que a explicação dos fatos es-
constituição de gmpos e subgmpos definidos. Ivia suficientemente avançada. Essas duas partes da ciência
82 AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO 'UX ;RAS HEIA 77VAS À CONSl1171!ÇÀO DOS 77POS SOCIAIS 83

são solidárias e progridem uma através da outra. No entan- ,~vmelhantes a eles para formar agregados ainda maiores,
to, mesmo sem avançar muito no estudo dos fatos, não é Nossa classificação deve portanto começar por sociedades
difícil conjeturar onde é preciso buscar as propriedades ca- da primeira ordem, isto é, da mais simples,"!]
racterísticas dos tipos sociais, Sabemos, com efeito, que as Infelizmente, para pôr esse princípio em prática, seria
sociedades são compostas de partes reunidas umas às ou- preciso começar por definir com precisão o que se enten-
tras. Já que a natureza de toda resultante depende necessa- l Iv por sociedade simples, Ora, essa definição, não apenas

riamente da natureza, do número dos elementos compo- ,'ipencer não a dá, como também a considera mais ou me-
nentes e de seu modo de combinação, esses caracteres são nos impossívelS. É que a simplicidade, tal como ele a en-
evidentemente aqueles que devemos tomar por base, e ve- Icnde, consiste essencialmente numa certa rudeza de orga-
remos a seguir, com efeito, que é deles que dependem os nização. Ora, não é fácil dizer com exatidão em que 1110-
fatos gerais da vida social. Por outro lado, como eles são tllento a organização social é suficientemente rudimentar
de ordem morfológica, poderíamos chamar Mm/ologia so- para ser qualificada de simples; é uma questão de aprecia-
cial a parte da sociologia que tem por tarefa constituir e do, Assim, a fórmula que ele oferece é tão vaga que ce)il-
classificar os tipos sociais. v0m a todo tipo de sociedades, "Nada de melhor temos a
Pode-se inclusive precisar ainda mais o princípio Lizer, diz ele, do que considerar como sociedade simples
dessa classificação, Sabe-se, com efeito, que as partes :Iquela que forma um todo não subordinado a outro e cu-
constitutivas de que é formada toda sociedade são socie- j:ls partes cooperam com ou sem centro regulador, tendo
dades mais simples do que ela. Um povo é formado pela l'm vista certos fins de interesse público,"() Mas há muitos

reunião de dois ou vários povos que o precederam, Por- povos que satisfazem a essa condição. Disso resulta que
tanto, se conhecêssemos a sociedade mais simples que l-lc confunde, um pouco ao acaso, sob essa mesma rubri-
até hoje existiu, precisaríamos apenas, para fazer nossa (':1, todas as sociedades menos civilizadas, Imagine-se o

classificação, seguir a maneira como essa sociedade se que pode ser, com semelhante ponto de partida, o resto
compõe consigo mesma e como seus compostos se com- ll(' sua classificação. Vemos aproximadas nela, na mais es-

põem entre si. p:lntosa confusão, as sociedades mais diversas: os gregos


IH lméricos postos ao lado dos feudos do século X e abaixo
dos bechuanas, dos zulus e dos fijianos, a confederação
II :tll'niense ao lado dos feudos da França do século XIII e
.")aixo dos iroqueses e dos araucanos.
Spencer compreendeu muito bem que a classificação A palavra simplicidade só tem sentido definido se
metódica dos tipos sociais não podia ter outro fundamento, ,~ignificar uma ausência completa de partes, Por sociedade
"Vimos, diz ele, que a evolução social começa por ,~il1lples, portanto, deve-se entender toda sociedade que
pequenos agregados simples; que ela progride pela união tl:lO encerra outras, mais simples do que ela; que não
de alguns desses agregados em agregados maiores e que, .Ipenas está atualmente reduzida a um segmento único,
após se consolidarem, esses grupos se unem com outros IlIas também que não apresenta nenhum traço de uma
84 AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO NRGRAS RELATiVAS À CONSTiTTTIÇ'ÀO DOS TiPOS SOOAIS 85

segmentação anterior. A horda, tal como a definimos duziam à horda propriamente dita e a fazer desta o tronco
alhures 7 , corresponde exatamente a essa definição. Trata- de onde saíram todas as espécies sociais.
se de um agregado que não compreende e jamais com- Uma vez estabelecida essa noção de horda ou socie-
preendeu em seu seio nenhum outro agregado mais ele- dade de segmento único - seja ela concebida como uma
mentar, mas que se decompõe imediatamente em indiví- realidade histórica ou como um postulado da ciência -,
duos. Estes não formam, no interior do grupo total, gru- tem-se o ponto de apoio necessário para construir a esca-
pos especiais e diferentes do precedente; eles se justapõem la completa dos tipos sociais. Iremos distinguir tantos ti-
à maneira de átomos. Concebe-se que não possa haver pos fundamentais quantas maneiras houver, para a horda,
sociedade mais simples; esse é o protoplasma do reino de se combinar consigo mesma dando origem a socieda-
social e, conseqüentemente, a base natural de toda classi- des novas, e, para estas, de se combinarem entre si. En-
ficaçào. contraremos primeiramente agregados formados por uma
É verdade que talvez nào exista sociedade histórica simples repetição de hordas ou de clãs (para dar-lhes seu
que corresponda exatamente a essa identificação; mas, tal novo nome), sem que esses clãs estejam associados entre
como mostramos no livro já citado, conhecemos uma si de maneira a formar grupos intermediários entre o gru-
quantidade delas que são formadas, imediatamente e sem po total que compreende a todos e cada um deles. Eles
outro intermediário, por uma repetição de hordas. Quan- estão simplesmente justapostos como os indivíduos da
do a horda se torna, assim, um segmento social em vez horda. Encontram-se exemplos dessas sociedades, que
de ser a sociedade inteira, ela chama-se clã; mas conserva poderiam ser chamadas polissegmentares simples, em cer-
os mesmos traços constitutivos. O clã, com efeito, é um tas tribos iroquesas e australianas. O arch, ou tribo da Ca-
agregado social que não se decompõe em nenhum outro, Ilília, tem o mesmo caráter; trata-se de uma reunião de
mais restrito. Poderão talvez assinalar que, geralmente, lá d;ls fixados em forma de aldeias. Muito provavelmente,
onde o observamos hoje, ele encerra uma pluralidade de houve um momento na história em que a cúria romana e
famílias particulares. Mas, em primeiro lugar, por razões ;1 fratria ateniense eram sociedades desse gênero. Acima

que não podemos desenvolver aqui, cremos que a forma- \'iriam as sociedades formadas por uma reunião de socie-
ção desses pequenos grupos familiares é posterior ao clã; (!aLies da espécie precedente, isto é, as sociedades polis-
além disso, essas famílias não constituem, para falar com ,'(',f!,mentares simplesmente compostas, Tal é o caráter da
exatidão, segmentos sociais porque elas não são divisões ('( lnfederação iroquesa, daquela formada pela reunião das
políticas. Onde quer que o encontremos, o clã constitui a trihos cabilas; o mesmo aconteceu, na origem, com cada
última divisão desse gênero. Em conseqüência, ainda que IlllIa das três tribos primitivas cuja associação deu origem,
não tivéssemos outros fatos para postular a existência da 111;lis tarde, à cidade romana. Encontraríamos a seguir as
horda - e eles existem, como teremos a· ocasião de expor ,,,ciedades polissegmentares duplamente compostas, que
um dia -, a existência do clã, isto é, de sociedades forma- 1<',~lIltam da justaposição ou da fusão de várias sociedades
das por uma reunião de hordas, nos autoriza a supor que IlI.1 issegmentares simplesmente compostas, É o caso da
houve primeiramente sociedades mais simples que se re- ,i,lade, agregado de tribos, que são elas próprias agrega-
86 AS RHGRAS DO MÉTO[)O SOCWLÓGlCO !(f!(;RAS RHfA 71VAS À CONS7171JfÇ'ÀO DOS 71POS SOCIAfS 87

dos de cúrias, que, por sua vez, se decompôem em gentes mais ou menos estreitamente concentrados. Deveremos
ou clãs, e da tribo germânica, com seus condados, que se portanto investigar se, num momento qualquer, se produz
subdividem em centenas, os quais, por sua vez, têm por uma coalescência completa desses segmentos. Reconhece-
unidade última o clã transformado em aldeia. remos que ela ocorre se a composição original da socieda-
Não precisamos desenvolver nem levar mais adiante de não mais afetar sua organização administrativa e políti-
essas poucas indicaçôes, já que não é o caso de efetuar ca. Desse ponto de vista, a cidade distingue-se nitidamente
aqui uma classificação das sociedades. Esse é um proble- das tribos germânicas. Nestas últimas, a organização à ba-
ma demasiado complexo para poder ser tratado assim, de se de clãs se manteve, embora apagada, até o término de
passagem; ele supôe, ao contrário, todo um conjunto de sua história, ao passo que, em Roma, em Atenas, as gentes
longas e especiais pesquisas. Quisemos apenas, por al- l' as yÉvll deixaram muito cedo de ser divisôes políticas
guns exemplos, precisar as idéias e mostrar como deve para se tornarem agrupamentos privados.
ser aplicado o princípio do método. Inclusive não se de- No interior dos lineamentos assim constituídos, po-
veria considerar o que precede como sendo uma classifi- der-se-á buscar introduzir novas distinçôes a partir dos ca-
cação completa das sociedades inferiores. Simplificamos racteres morfológicos secundários. Entretanto, por razoes
um pouco as coisas para maior clareza. Supusemos, com que daremos mais adiante, não julgamos muito possível
efeito, que cada tipo superior era formado por uma repe- superar com proveito as divisoes gerais que acabam de
tição de sociedades de um mesmo tipo, a saber, do tipo ser indicadas. Além disso, não precisamos entrar nesses
imediatamente inferior. Ora, não é impossível que socie- detalhes, bastando-nos ter estabelecido o princípio de
dades de espécies diferentes, situadas em diferentes ní- classificação que pode ser assim enunciado: Começar-se-á
veis da árvore genealógica dos tipos sociais, se reúnam de I)()r class~ficar as sociedades de acordo com o grau de
maneira a formar uma espécie nova. Sabe-se de pelo me- cumposiçào que elas apresentam, tomando por base a so-
nos um caso: o Império romano, que compreendia em ciedade pe~feitamente simples ou de segmento único; no
seu interior povos das mais diversas naturezasH. illterior dessas classes, distinguir-se-ào variedades diferen-
Mas, uma vez constituídos esses tipos, será preciso /es conforme se produza ou nào uma coalescência com-
distinguir em cada um deles variedades diferentes, confor- li/ela dos segmentos iniciais.
me as sociedades segmentares, que servem para formar a
sociedade resultante, conservem uma certa individualida-
de, ou então, ao contrário, sejam absorvidas na massa to- III
tal. Compreende-se, com efeito, que os fenômenos sociais
devem variar, não apenas segundo a natureza dos elemen- Essas regras respondem implicitamente a uma questão
tos componentes, mas segundo seu modo de composição; (Iue o leitor talvez se tenha colocado ao nos ver falar de es-
eles devem sobretudo ser muito diferentes, conforme cada 11L'cies sociais como se elas existissem, sem termos direta-
um dos grupos parciais conserve sua vida local ou sejam lIlente estabelecido sua existência. Essa prova está contida
todos arrastados na vida geral, isto é, conforme estejam 11<) princípio mesmo do método que acaba de ser exposto.
88 AS REGRAS DO MfTODO SOClOLÓGICO /(/;'GRAS RELA 11 VAS À CONSrrTlJIç'Ào DOS 1JPOS SOCIAIS 89

Acabamos de ver, com efeito, que as sociedades não que as sociedades geradoras, porque estas últimas, ao se
eram mais que combinações diferentes de uma mesma e combinarem, dão origem a arranjos inteiramente novos.
única sociedade original. Ora, um mesmo elemento só Somente a colonização poderia ser comparada a uma
pode compor-se consigo mesmo, e os compostos que de- geração por germinação; mesmo assim, para que a com-
le resultam só podem, por sua vez, compor-se entre si, se- paração seja exata, é preciso que o grupo de colonos não
gundo um número de modos limitado, sobretudo quando se misture com uma sociedade de outra espécie ou de
os elementos componentes são pouco numerosos, como outra variedade. Os atributos distintivos da espécie não
é o caso dos segmentos sociais, A gama de combinações recebem portanto da hereditariedade um acréscimo de
possíveis é portanto finita e, por conseguinte, a maior força que lhe permita resistir às variações individuais.
parte delas, pelo menos, deve se repetir. Do que se con- I·:les se modificam e se matizam ao infinito sob a ação
clui que há espécies sociais, É possível, aliás, que algumas das circunstâncias; assim, quando se quer atingi-los, de-
dessas combinações se produzam apenas uma vez, Isso pois de afastadas todas as variantes que os encobrem,
não impede que haja espécies, Apenas se dirá, nesse ca- com freqüência se obtém apenas um resíduo bastante in-
so, que a espécie tem somente um indivíduo 9 , determinado. Essa indeterminação cresce naturalmente
Há portanto espécies sociais pela mesma razão que Unto mais quanto maior for a complexidade dos caracte-
existem espécies em biologia, Estas, com efeito, devem-se res; pois, quanto mais complexa uma coisa, mais as partes
ao fato de os organismos não serem senão combinações que a compõem podem formar combinações diferentes.
variadas de uma mesma unidade anatômica. Há todavia, I )isso resulta que o tipo social específico, para além dos
desse ponto de vista, uma grande diferença entre os dois l'aracteres mais gerais e mais simples, não apresenta con-
reinos. Pois, entre os animais, um fator especial confere lornos tão definidos como em biologia 10,
aos caracteres específicos uma força de resistência que os
outros não têm: é a geração. Os primeiros, por serem co-
muns a toda a linhagem dos ascendentes, estão bem mais
fortemente enraizados no organismo. Portanto eles não se
deixam facilmente afetar pela ação dos meios individuais,
mas se mantêm idênticos a si mesmos, apesar da diversi-
dade das circunstâncias exteriores. Há uma força interna
que os fixa a despeito das solicitações para variar que po-
dem vir de fora: a força dos hábitos hereditários. Por isso
eles são claramente definidos e podem ser determinados
com precisão. No reino social, falta-lhes essa causa inter-
na. Os caracteres não podem ser reforçados pela geração,
porque duram apenas uma geração. É de regra, com efei-
to, que as sociedades engendradas sejam de outra espécie
CAPÍTULO V
REGRAS RELATIVAS À EXPLICAÇÀO
DOS FATOS SOCIAIS

Mas a constituição das espécies é antes de tudo um


meio de agrupar os fatos para facilitar sua interpretação; a
morfologia social é um encaminhamento para a parte real-
mente explicativa da ciência. Qual o método próprio des-
ta última?

A maior parte dos sociólogos acredita ter explicado os


fenômenos uma vez que mostrou para que eles servem e
que papel desempenham. Raciocina-se como se tais fenô-
menos só existissem em função desse papel e não tives-
sem outra causa determinante além do sentimento, claro
ou confuso, dos serviços que são chamados a prestar. Por
isso julga-se ter dito tudo o que é necessário para torná-los
inteligíveis, quando se estabeleceu a realidade desses ser-
viços e se mostrou a que necessidade social eles satisfa-
zem. Assim Comte reduz toda a força progressiva da espé-
92 AS REGRAS DO MÉTODO SOC70LÓGICO !aX;RAS RELAT7VAS À EXPLICAÇÃO DOS FATOS SOCIAIS 93

cie humana à tendência fundamental "que impele direta- Icm uma natureza que lhe é própria, ter desejo ou vonta-
mente o homem a melhorar sempre e sob todos os aspectos de deles nào poderia ser suficiente para conferir-lhes exis-
sua condiçào, seja ela qual for l ", e Spencer, à necessidade lência. É preciso também que forças capazes de produzir
de uma maior felicidade. É em virtude desse princípio que essa força determinada, que naturezas capazes de produ-
ele explica a formação da sociedade pelas vantagens que I.ir essa natureza especial, sejam dadas. Somente em tal
resultam da cooperação, a instituição do governo pela uti- condiçào o fato social será possível. Para reanimar o espí-
lidade que há em regularizar a cooperação militar 2 , as rito da família onde ele se acha enfraquecido, não basta
transformações pelas quais passou a família pela necessi- que todos compreendam as vantagens disso; é preciso fa-
dade de conciliar cada vez mais perfeitamente os interes- I.cr agir diretamente as causas que são as únicas capazes
ses dos pais, dos filhos e da sociedade. de engendrá-lo. Para devolver a um governo a autoridade
Mas esse método confunde duas questões muito dife- que lhe é necessária, não basta sentir a necessidade disso;
rentes. Mostrar em que um fato é útil não é explicar como o preciso recorrer às únicas fontes de que deriva toda au-
ele surgiu nem como ele é o que é. Pois os usos a que loridade, ou seja, constituir tradições, um espírito comum,
serve supõem as propriedades específicas que o caracteri- etc., etc.; para tanto, é preciso também remontar mais aci-
zam, mas não o criam. A necessidade que temos das coi- ma na cadeia das causas e dos efeitos, até se encontrar
sas não pode fazer que elas sejam deste ou daquele jeito um ponto em que a ação do homem possa se inserir efi-
e, conseqüentemente, não é essa necessidade que pode cazmente.
tirá-las do nada e conferir-lhes o ser. É a causas de um O que mostra bem a dualidade dessas duas ordens
outro gênero que elas devem sua existência. O sentimen- de pesquisas é que um fato pode existir sem servir a na-
to que temos da utilidade que elas apresentam pode mui- da, seja porque jamais esteve ajustado a algum fim vital,
to bem nos incitar a pôr em ação essas causas e a obter os seja porque, após ter sido útil, perdeu toda utilidade e
efeitos que elas implicam, não a suscitar do nada esses efei- continuou a existir pela simples força do hábito. Com
tos. Essa proposição é evidente quando se trata apenas efeito, há bem mais sobrevivências na sociedade do que
dos fenômenos materiais ou mesmo psicológicos. Ela no organismo. Há casos, inclusive, em que uma prática
tampouco seria contestada em sociologia se os fatos so- ou uma instituição social mudam de funções sem por is-
ciais, por causa de sua extrema imaterialidade, não nos so mudar de natureza. A regra is pater est quem justae
parecessem, erradamente, destituídos de toda realidade Iluptiae declarant [é pai aquele que as núpcias indicam]
intrínseca. 'Como neles se vêem apenas combinações pu- permaneceu materialmente em nosso Código, tal como
ramentc mentais, parece que devem se produzir esponta- L'xistia no velho direito romano. Mas, se essa regra tinha
neamente tão logo os concebemos, desde que os consi- então por objeto salvaguardar os direitos de propriedade
deremos úteis.' Mas, visto que cada um desses fatos é do pai sobre os filhos provenientes da esposa legítima, é
uma força e essa força domina a nossa, visto que cada um antes o direito dos filhos que ela protege hoje. O jura-
mento começou por ser uma espécie de prova judiciária,
• Frase que não figura no texto inicial. para tornar-se apenas uma forma solene e imponente do
94 AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO NEGRAS RELA77VAS Ã EXPLICAÇÃO DOS FATOS SOCIAIS 95

testemunho. Os dogmas religiosos do cristianismo conti- tendências cuja oportunidade haveria de se fazer sentir na
nuam os mesmos há séculos; mas o papel que desempe- seqüência da evolução. Ora, uma tendência é também
nham em nossas sociedades modernas não é mais o mes- lima coisa; ela não pode portanto se constituir nem se
mo que na Idade Média. É assim, ainda, que as palavras modificar pelo simples fato de a julgarmos útil. É uma for-
servem para exprimir idéias novas sem que sua contextu- (;a que tem sua natureza própria; para que essa natureza
ra se modifique. De resto, é uma proposição verdadeira ,~eja suscitada ou alterada, não basta que nela encontre-
tanto em sociologia como em biologia que o órgão é in- mos alguma vantagem. *Para determinar tais mudanças, é
dependente da função, ou seja, que pode servir a fins di- preciso que atuem causas que as impliquem fisicamente.*
ferentes embora permaneça o mesmo. Portanto, as cau- Por exemplo, explicamos os progressos constantes da
sas que o fazem existir são independentes dos fins aos divisão do trabalho social ao mostrar que eles são necessá-
quais ele serve. rios para que o homem possa se manter nas condições no-
Não queremos dizer, aliás, que as tendências, as ne- vas de existência nas quais se vê colocado à medida que
cessidades, os desejos dos homens jamais intervenham, :lvança na história; atribuímos portanto a essa tendência,
de maneira ativa, na evolução social. *Ao contrário, certa- que muito impropriamente é chamada de instinto de con-
mente lhes é possível, conforme a maneira como agem ,~ervação, um papel importante em nossa explicação. Mas,
sobre as condiçc)es de que depende um fato, acelerar ou c'!ll primeiro lugar, ela não poderia por si só explicar a es-
conter o desenvolvimento deste. Só que, além de não po- pecialização, mesmo a mais rudimentar. Pois ela nada po-
derem, em caso nenhum, tirar alguma coisa do nada, sua de, se as condições de que depende esse fenômeno não
própria intervenção, sejam quais forem os efeitos dela, só \'.~tiverem já realizadas, isto é, se as diferenças individuais
pode ocorrer em virtude de causas eficientes.* De fato, 11:10 tiverem aumentado suficientemente em conseqüência
mesmo nessa medida restrita, uma tendência só pode da indeterminação progressiva da consciência comum e
concorrer para a produção de um fenômeno novo se ela ,!;IS influências hereditárias 3. Inclusive foi preciso que a di-
própria for nova, quer se tenha constituído a partir de Ze- ,'is:l0 do trabalho já tivesse começado a existir para que
ro, quer seja devida a alguma transformação de uma ten- ~IU utilidade fosse percebida e sua necessidade se fizesse
dência anterior. Pois, a menos que se postule uma harmo- ~\'ntir; e somente o desenvolvimento das divergências in-
nia preestabelecida verdadeiramente providencial, não Sl' ,Iividuais, ao implicar uma maior diversidade de gostos e
poderia admitir que, desde a origem, o homem trouxessl' ti" aptidões, haveria necessariamente de produzir esse pri-
em si, em estado virtual, mas inteiramente prontas para Illc'iro resultado. Além disso, não foi por si mesmo e sem
despertar com o concurso das circunstâncias, t"odas aS , ,I lisa que o instinto de conservação veio fecundar esse

• "Se eles não podem tirar alguma coisa do nada, lhes é possiV\'l, Ilrilllciro germe de especialização. Se ele se orientou e nos
ao agirem sobre as condições de que depende um fato, acell'rar 011
conter o desenvolvimento dele. Só que essa própria intervenç;lo ocorr'" • "Mas é preciso algo bem diferente da representação dos
em viItude de causas eficientes." (Revue philosophique, tomo XXXVIII, ""l\'ico" que elas podem prestar para determinar tais mudanças." (RP.,
julho a dl'zembro de 1894, p. 16.) I' I<>.l
96 AS REGRAS DO MÁTODO SOOOLÓGJCO REGRAS RELATTVAS Ã EXPLICAÇÃO DOS rA 70S SOOAI)' 97
orientou nesse novo caminho, foi em primeiro lugar por- desejos. Para chegar a um mesmo objetivo, quantos cami-
que o caminho que ele seguia e nos fazia seguir anterior- nhos podem ser e são efetivamente seguidos! Portanto, se
mente se viu como que barrado, pois a intensidade maior fosse verdade que o desenvolvimento histórico se fez em
da luta, devida à maior condensaçào das sociedades, tor- vista de fins claramente ou obscuramente sentidos, os fa-
nou cada vez mais difícil a sobrevivência dos indivíduos tos sociais deveriam apresentar a mais infinita diversida-
que continuavam a se dedicar a tarefas gerais, Foi assim de, e qualquer comparaçào haveria de ser quase impossí-
necessário mudar de direção. Por outro lado, se esse ins- vel. Ora, o contrário é que é a verdade. Claro que os
tinto faz uma volta e virou principalmente nossa atividade, acontecimentos exteriores, cuja trama constitui a parte su-
no sentido de uma divisão do trabalho sempre mais de- perficial da vida social, variam de um povo a outro. Mas é
senvolvida, é porque esse era também o sentido da menor assim que cada indivíduo tem sua história, embora as ba-
resistência. As outras soluções possíveis eram a emigração, ses da organizaçào física e moral sejam as mesmas em to-
o suicídio, o crime. Ora, na média dos casos, os laços que dos. Na verdade, quando entramos um pouco em contato
nos ligam a nosso país, à vida, a simpatia que temos por com os fenômenos sociais, surpreendemo-nos, ao contrá-
nossos semelhantes, são sentimentos mais fortes e mais re- rio, com a espantosa regularidade com que estes se repro-
sistentes que os hábitos capazes de nos afastar de uma es- duzem nas mesmas circunstâncias. Mesmo as práticas
pecialização mais estreita. São esses últimos portanto que mais minuciosas e aparentemente mais pueris repetem-se
haveriam necessariamente de ceder a cada nova arremeti- com a mais espantosa uniformidade. Uma cerimônia nup-
da. Assim, não se cai, nem mesmo parcialmente, no fina- cial que parece puramente simbólica, como o rapto da
lismo pelo fato de se aceitar dar um lugar às necessidades noiva, verifica-se exatamente em toda parte em que há
humanas nas explicações sociológicas. Pois estas só po- certo tipo familiar, ligado ele próprio a toda uma organi-
dem ter influência sobre a evoluçào social se elas próprias zação política. Os costumes mais bizarros, como a couva-
evoluírem, e as mudanças que elas atravessam só podem de, o levirato, a exogamia, etc., observam-se nos povos
ser explicadas por causas que nada têm de final. mais diversos e sào sintomáticos de certo estado social. O
Mas o que é mais convincente ainda que as conside- direito de testar aparece numa fase determinada da histó-
rações que precedem é a prática mesma dos fatos sociais. ria e, a partir das restriçôes mais ou menos consideráveis
Lá onde reina o finalismo, reina também uma contingên- que o limitam, pode-se dizer em que momento da evolu-
cia maior ou menor; pois não existem fins, e muito menos ,';10 social nos encontramos. Seria fácil multiplicar os
meios, que se imponham necessariamente a todos os ho- l'xemplos. Ora, essa generalidade das formas coletivas se-
mens, ainda que os suponhamos situados nas mesmas cir- ria inexplicável se as causas finais tivessem em sociologia
cunstâncias. Sendo dado um mesmo ambiente, cada indi- :1 preponderância que se atribui a elas.
víduo, conforme seu humor, adapta-se a ele à sua manei- Portanto, quando se procura explicar um fenômeno'
ra, que ele prefere a qualquer outra. Um procurará modi- SIieial, é preciso pesquisar separadamente a causa eficiente
ficá-lo para colocá-lo em harmonia com suas necessida- '11Ie () produz e a função que ele cumpre, Servimo-nos da
des; outro preferirá modificar a si mesmo e moderar SClJ.'1 p:davra função de preferência às palavras fim ou objetivo,
98 AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO I<HGRAS RELAT7VAS À EXPLlCAÇÀO DOS FATOS SOCIAIS 99
precisamente porque os fenômenos sociais não existem, obrigados a fornecer um trabalho mais intenso, os produ-
de modo geral, tendo em vista os resultados úteis que pro- tos desse trabalho tornam-se mais numerosos e de melhor
duzem. O que é preciso determinar é se há correspondên- qualidade; mas esses produtos mais abundantes e melho-
cia entre o fato considerado e as necessidades gerais do res sào necessários para reparar o desgaste ocasionado
organismo social, e em que consiste essa correspondência, por esse trabalho mais consideráveP. Assim, longe de a
sem se preocupar em saber se ela foi intencional ou não. causa dos fenômenos sociais consistir numa antecipação
Todas as questões de intenção, aliás, são demasiado subje- mental da função que eles são chamados a desempenhar,
tivas para poderem ser tratadas cientificamente. essa função consiste, ao contrário, pelo menos num bom
Essas duas ordens de problemas não apenas devem número de casos, em manter a causa preexistente da qual
ser separadas, mas convém, em geral, tratar a primeira an- des derivam; 'portanto, descobriremos mais facilmente a
tes da segunda. Esta ordem, com efeito, corresponde à dos primeira se a segunda já for conhecida*.
fatos. É natural investigar a causa de um fenômeno antes Mas, ainda que só em segundo lugar devamos proce-
de tentar determinar seus efeitos. Esse método é ainda der à determinação da função, ela não deixa de ser neces-
mais lógico porquanto a primeira questão, uma vez resol- sária para que a explicação do fenômeno seja completa.
vida, ajudará a resolver a segunda. De fato, o laço de soli- Com efeito, se a utilidade do fato não é aquilo que o faz
dariedade que une a causa ao efeito tem um caráter de re- existir, em geral é preciso que ele seja útil para poder se
ciprocidade que não foi suficientemente reconhecido. Cer- manter. Pois, para ser prejudicial, é suficiente que ele não
tamente o efeito não pode existir sem sua causa, mas esta, tenha serventia, uma vez que, nesse caso, ele custa sem
por sua vez, tem necessidade de seu efeito. É dela que o produzir benefício algum. Portanto, se a generalidade dos
efeito tira sua energia, mas ele também lha restitui eventual- fenômenos sociais tivesse esse caráter parasitário, o orça-
mente e, em vista disso, não pode desaparecer sem que mento do organismo estaria em déficit, a vida social seria
ela disso se ressinta 4. Por exemplo, a reação social que impossível. Em conseqüência, para proporcionar desta
constitui a pena é devida à intensidade dos sentimentos lima compreensão satisfatória, é necessário mostrar como
coletivos que o crime ofende; mas, por outro lado, ela tem ()s fenômenos que formam sua substância concorrem en-
por função útil manter esses sentimentos no mesmo grau t re si, de maneira a colocar a sociedade em harmonia
de intensidade, pois estes não tardariam a se debilitar se as consigo mesma e com o exterior. Certamente, a fórmula
ofensas que sofrem não fossem castigadas 'i . Do mesmo llsual, que define a vida como uma correspondência entre
modo, à medida que o meio social torna-se mais comple- () meio interno e o meio externo, é apenas aproximada;
xo e mais móvel, as tradições e as crenças estabelecidas !lO entanto, ela é verdadeira em geral, e portanto, para

são abaladas, adquirem um caráter mais indeterminado l' l'Xplicar um fato de ordem vital, não basta explicar a cau-
mais flexível, e as faculdades de reflexão se desenvolvem; .sa da qual ele depende, é preciso também, ao menos na
mas essas mesmas faculdades são indispensáveis para as Illaior parte dos casos, encontrar a parte que lhe cabe no
sociedades e os indivíduos se adaptarem a um meio mais ('stabelecimento dessa harmonia geral.
móvel e mais complex0 6 . À medida que os homens sào • Frase que nào figura no texto inicial.
100 AS REGRAS DO MinODO SOCIOLÓGICO REGRAS RELAT7VASÀ EXPLICAÇ'ÀO DOS FATOS SOCIAIS 101

II por outro lado, o progresso depende de um fator exclusi-


vamente psíquico, a saber, a tendência que leva o homem
Distinguidas essas duas questões, devemos determi- a desenvolver cada vez mais sua natureZa. Os fatos sociais
nar o método pelo qual elas devem ser resolvidas. derivariam inclusive tão imediatamente da natureZa hu-
Ao mesmo tempo que é finalista, o método seguido mana que, nas primeiras fases da história, poderiam ser
geralmente pelos sociólogos é essencialmente psicológi- diretamente deduzidos sem necessidade de recorrer à ob-
co. Essas duas tendências são solidárias uma da outra. De servação9 . É verdade que, como Comte reconhece, é im-
fato, se a sociedade não é senão um sistema de meios ins- possível aplicar esse método dedutivo aos períodos mais
tituídos pelos homens tendo em vista certos fins, esses avançados da evolução. Mas essa impossibilidade é pura-
fins só podem ser individuais; pois, antes da sociedade, mente prática. Deve-se ao fato de a distância entre o pon-
não podia haver senào indivíduos. É portanto do indiví- to de partida e o ponto de chegada ser muito grande para
duo que emanam as idéias e as necessidades que deter- que o espírito humano, se resolvesse percorrê-la sem
minaram a formação das sociedades, e, se é dele que tu- guia, não corresse o risco de se extraviar 1o . Mas a relação
do procede, é necessariamente por ele que tudo deve se entre as leis fundamentais da natureza humana e os resul-
explicar. Aliás, não há nada na sociedade senão consciên- tados últimos do progresso não deixa de ser analítica. As
cias particulares; é nestas últimas portanto que se acha a formas mais complexas da civilização não são senão vida
fonte de toda a evolução social. Por conseguinte, as leis psíquica desenvolvida. Assim, ainda que as teorias da psi-
sociológicas só poderão ser um corolário das leis mais ge- cologia não sejam suficientes como premissas ao raciocí-
rais da psicologia; a explicação suprema da vida coletiva nio sociológico, elas são a pedra de toque capaz de pro-
consistirá em mostrar como ela decorre da natureza hu- var sozinha a validade das proposições indutivamente es-
mana em geral, seja por dedução direta e sem observação tabelecidas. "Nenhuma lei de sucessão social, diz Comte,
prévia, seja por associação à natureza humana depois de indicada pelo método histórico, mesmo com toda a auto-
feita a observação. ridade possível, deverá ser finalmente admitida senão
Esses termos são mais ou menos textualmente os que após ter sido racionalmente ligada, de uma maneira direta
Augusto Comte utiliza para caracterizar seu método. "Uma ou indireta, mas sempre incontestável, à teoria positiva da
vez, diz ele, que o fenômeno social, concebido em totali- natureza humana."ll Portanto é sempre a psicologia que
dade, não é, no fundo, senão um simples desenvolvimento terá a última palavra.
da humanidade, sem nenhuma criação de faculdades Tal é igualmente o método seguido por Spencer. Se-
quaisquer, tal como estabeleci anteriormente, todas as gundo ele, os dois fatores primários dos fenômenos sociais
disposições efetivas que a observação sociológica puder sào o meio cósmico e a constituição física e moral do indi-
sucessivamente revelar deverão portanto se verificar, pelo víduo l2 . Ora, o primeiro não pode ter influência sobre a .
menos em germe, nesse tipo primordial que a biologia sociedade a não ser através do segundo, que acaba sendo
construiu de antemão para a sociologia."8 É que o fato ;Issim o motor essencial da evolução social. Se a sociedade
dominante da vida social, segundo ele, é o progresso l', ~e forma, é para permitir ao indivíduo realizar sua nature-
102 AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO REGRAS RELA77VAS À EXPLICAÇ'ÀO DOS FATOS SOCIAIS 103

za, e todas as transformações pelas quais ela passou não primeiros; a instituição do casamento, pelas vantagens que
têm como único objeto tornar essa realização mais fácil e apresenta para os esposos e sua descendência; a pena, pe-
mais completa. É em virtude desse princípio que, antes de la cólera provocada no indivíduo por toda lesão grave a
proceder a alguma pesquisa sobre a organização social, seus interesses. Toda a vida econômica, tal como a conce-
Spencer acreditou dever dedicar todo o primeiro tomo de bem e a explicam os economistas, sobretudo os da escola
seus Princípios de sociologia ao estudo do homem primiti- ortodoxa, depende, em última instância, deste f~ltor pura-
vo físico, emocional e intelectual. "A ciência da sociologia, mente individual: o desejo de riqueza. Trata-se de explicar
diz ele, parte das unidades sociais, submetidas às condições a moral? Faz-se dos deveres do indivíduo para consigo
que vimos, constituídas física, emocional e intelectualmen- mesmo a base da ética. A religião? Vê-se nela Utll produto
te, e de posse de certas idéias cedo adquiridas e dos senti- das impressões que as grandes forças da natureza ou certas
mentos correspondentes."13 E é nestes dois sentimentos, o personalidades eminentes despertam no homem, etc., etc.
temor dos vivos e o temor dos mortos, que ele encontra a Mas tal método só é aplicável aos fenômenos socioló-
origem do governo político e do governo religioso 14 . Ele gicos desnaturando-os. Para ter a prova disso, basta repor-
admite, é verdade, que, uma vez formada, a sociedade re- tar-se à definição que demos desses fenômenos. Visto que
age sobre os indivíduosl'í. Mas disso não se segue que ela sua característica essencial consiste no poder que eles têm
tenha o poder de engendrar diretamente o menor fato so- de exercer, de fora, uma pressão sobre as consciências in-
cial; ela não tem eficácia causal desse ponto de vista, a
dividuais, conclui-se que eles não derivam destas e, por
não ser por intermédio das mudanças que determina no conseguinte, a sociologia não é um corolário da psicolo-
indivíduo. Portanto é sempre da natureza humana, seja
gia. Esse poder coercitivo testemunha *que eles exprimem
primitiva, seja derivada, que tudo decorre. Aliás, a ação
uma natureza diferente da nossa, uma vez que só pene-
que o corpo social exerce sobre seus membros nada pode
tram em nós pela força ou, pelo menos, pesando mais ou
ter de específico, já que os fins políticos nada são em si
menos sobre nós*. Se a vida social fosse apenas um pro-
mesmos, sendo uma simples expressão resumida dos fins
longamento do ser individual, não a veríamos remontar
individuais ló . Ela só pode ser portanto uma espécie de re-
deste modo à sua fonte e invadi-la impetuosamente. Se a
torno da atividade privada a si própria. Sobretudo, não se
:Iutoridade diante da qual se inclina o indivíduo, quando
percebe em que pode consistir tal ação nas sociedades in-
('ste age, sente ou pensa socialmente, o domina a tal pon-
dustriais, que têm precisamente por objeto restituir o indi-
to, conclui-se que ela **é um produto de forças que o su-
víduo a si mesmo e a seus impulsos naturais, desembara-
peram e que ele não poderia, conseqüentemente, expli-
çando-o de toda coerção social.
(·ar**. Não é dele que pode provir essa pressão exterior
Tal princípio não está apenas na base dessas grandes
doutrinas de sociologia geral; ele inspira igualmente um * "que eles provêm de algo que não apenas está fora de nós, mas
número muito grande de teorias particulares. É assim CjUl' l.illlhém é de uma natureza diferente da nossa, já que lhe é superior"
se explica a organização doméstica pelos sentimento,'! I lU'" p. 23,)
** "não emana dele, mas é um produto de forças que o superam e
que os pais têm em relação aos filhos e os segundos a( IN '1'1<', portanto, não podem ser deduzidas dele". (R.P., p. 23.)
104 AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO REGRAS RELA77VASÀ EXPllCAÇÀO DOS FATOS SOCIAIS 105

que ele sofre, 'portanto não é o que se passa dentro de- qualquer um dos elementos associados. Um todo não é
le que pode explicá-la'. É verdade que nâo somos incapa- idêntico à soma de suas partes, ele é alguma outra coisa
zes de coagir a nós mesmos; podemos conter nossas ten- cujas propriedades diferem daquelas que apresentam as
dências, nossos hábitos, até mesmo nossos instintos, e de- partes de que é formado. A associação não é, como se
ter seu desenvolvimento por um ato de inibiçâo. Mas os acreditou algumas vezes, um fenômeno por si mesmo es-
movimentos inibidores não poderiam ser confundidos téril, que consiste simplesmente em colocar em relaçües
com aqueles que constituem a coerção social. O processo exteriores fatos realizados e propriedades constituídas.
dos primeiros é centrífugo; o dos segundos, centrípeto. Não é ela, ao contrário, a fonte de todas as novidades que
Uns são elaborados na consciência individual e tendem se produziram sucessivamente no curso da evolução geral
em seguida a exteriorizar-se; outros são primeiramente ex- elas coisas? Que diferenças existem entre os organismos in-
teriores ao indivíduo e tendem em seguida a modelá-lo feriores e os demais, entre o ser vivo organizado e o sim-
desde fora à sua imagem. A inibição, se quiserem, é o ples plastídio, entre este e as moléculas inorgânicas que o
meio pelo qual a coerção social produz seus efeitos psí- compõem, senão diferenças de associação? Todos esses
quicos; ela não é essa coerção. seres, em última análise, decompõem-se em elementos da
Ora, descartado o indivíduo, resta apenas a socieda- mesma natureza; mas esses elementos são, aqui, justapos-
de; é portanto na natureza da própria sociedade que se tos, ali, associados; aqui, associados de uma maneira, ali,
deve buscar a explicação da vida social. Como ela supera de outra. É lícito inclusive perguntar se essa lei não pene-
infinitamente o indivíduo tanto no tempo como no espa- tra até o mundo mineral, e se as diferenças que separam
ço, concebe-se, com efeito, que seja capaz de impor-lhe os corpos inorganizados não têm a mesma origem.
as maneiras de agir e de pensar que consagrou por sua Em virtude desse princípio, a sociedade não é uma
autoridade. Essa pressão, sinal distintivo dos fatos sociais, simples soma de indivíduos, mas o sistema formado pela
é aquela que todos exercem sobre cada um. associação deles representa uma realidade específica que
Mas, dirão, visto que os únicos elementos de qu~ é tem seus caracteres próprios. Certamente, nada de coletivo
formada a sociedade são indivíduos, a origem primeira pode se produzir se consciências particulares não são da-
dos fenômenos sociológicos só pode ser psicológica. Racio- das; mas essa condição necessária não é suficiente. É pre-
cinando deste modo, pode-se também facilmente estabele- ciso também que essas consciências estejam associadas,
cer que os fenômenos biológicos se explicam analitica- combinadas, e combinadas de certa maneira; é dessa com-
mente pelos fenômenos inorgânicos. Com efeito, é bastan- binação que resulta a vida social e, por conseguinte, é essa
te certo que na célula viva há apenas moléculas de matéria combinação que a explica. Ao se agregarem, ao se pene-
bruta. Só que estas se encontram ali associadas, e essa as- trarem, ao se fundirem, as almas individuais dão origem a
sociação é que é a causa dos fenômenos novos que carac- um ser, psíquico se quiserem, mas que constitui uma indi-.
terizam a vida e cujo germe é impossível descobrir em vidualidade psíquica de um gênero novo l7 . Portanto, é na
natureza dessa individualidade, não na das unidades com-
, Frase que nào figura no texto inicial. ponentes, que se devem buscar as causas próximas e de-
106 AS REGRAS DO MÉTODO SOaOLÓGICO REGRAS RELAl1VAS À EXPLlCAÇ'ÀO DOS FA10S S()OAIS 107

terminantes dos fatos que nela se produzem. O grupo entanto, determina o presente: eu não quis a educação
pensa, sente e age de maneira bem diferente do que o fa- que recebi; ora, é ela que, mais do que qualquer outra
riam seus membros, se estivessem isolados. Assim, se par- causa, me fixa ao solo natal. Enfim, ela não poderia ter
tirmos desses últimos, nada poderemos compreender do valor moral em relação ao futuro, na medida em que este
que se passa no grupo. Em uma palavra, há entre a psico- é desconhecido. Nem sequer conheço todos os deveres
logia e a sociologia a mesma solução de continuidade que que podem me incumbir um dia ou outro em minha qua-
entre a biologia e as ciências físico-químicas. Em conse- lidade de cidadão; como poderia eu aquiescer a eles de
qüência, toda vez que um fenômeno social é diretamente antemão? Ora, tudo o que é obrigatório, conforme de-
explicado por um fenômeno psíquico, pode-se ter a certe- monstramos, tem sua fonte fora do indivíduo. Assim, en-
za de que a explicação é falsa. quanto não sairmos da história, o fato da associação apre-
Responderão talvez que, se a sociedade, uma vez for- sentará o mesmo caráter que os demais e, conseqüente-
mada, é de fato a causa próxima dos fenômenos sociais, mente, explica-se da mesma maneira. Por outro lado, co-
as causas que determinaram sua formação são de nature- mo todas as sociedades nasceram de outras sociedades
za psicológica. Concedem que, quando os indivíduos es- sem solução de continuidade, podemos estar certos de
tão associados, sua associação pode dar origem a uma vi- que, no curso de toda a evolução social, não houve um
da nova, mas dirão que ela só pode ocorrer por razões in- momento em que os indivíduos tenham realmente neces-
dividuais. Todavia, em realidade, por mais longe que se sitado deliberar para saber se entrariam ou não na vida
remonte na história, o fato da associação é o mais obriga- coletiva, e se nesta e não naquela. Para que a questào pu-
tório de todos; pois ele é a fonte de todas as outras obri- desse se colocar, seria preciso remontar até as origens pri-
gações. Por meu nascimento, estou obrigatoriamente liga- meiras de toda sociedade. Mas as soluções, sempre duvi-
do a um povo determinado. Diz-se que, daí por diante, dosas, que podem ser dadas a tais problemas, de modo
uma vez adulto, dou minha aquiescência a essa obrigação nenhum poderiam afetar o método segundo o qual de-
pelo simples fato de continuar a viver em meu país. Mas vem ser tratados os fatos dados na história. Não precisa-
que importa? Essa aquiescência não retira ao fato seu ca- mos portanto discuti-las.
ráter imperativo. Uma pressão aceita e suportada de boa Mas seria um estranho equívoco sobre nosso pensa-
vontade não deixa de ser uma pressão. Aliás, qual pode mento se, do que precede, tirassem a conclusão de que a
ser a importância de tal adesão? Em primeiro lugar, ela é sociologia, para nós, deve ou mesmo pode fazer abstra-
forçada, pois, na imensa maioria dos casos, nos é material ção do homem e de suas faculdades. Ao contrário, nào há
e moralmente impossível despojar-nos de nossa nacionali- dúvida de que os caracteres gerais da natureza humana
dade; 'tal mudança é inclusive considerada, geralmente, entram no trabalho de elaboração de que resulta a vida
uma apostasia'. Em segundo lugar, ela não pode concer- social. Só que não são eles que a suscitam nem que lhe·
nir ao passado que não pôde ser consentido e que, no dão sua forma especial; eles apenas a tornam possível. As
representaçôes, as emoções, as tendências coletivas não
, Frase que não figura no texto inicial. têm por causas geradoras certos estados da consciência
108 AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO REGRAS RElATIVAS À FXPlJCAÇÀO DOS FATOS SOCIAIS 109

dos indivíduos, mas sim as condições em que se encontra de, são a conseqüência deles. Assim, considerou-se inato
o corpo social em seu conjunto. Certamente, estas só po- no homem certo sentimento de religiosidade, um certo mí-
dem se realizar se as naturezas individuais não forem re- nimo de ciúme sexual, de piedade filial, de amor paterno,
fratárias a elas; mas as naturezas individuais são apenas a etc., e deste modo se quis explicar a religião, o casamento,
matéria indeterminada que o fator social determina e a família. Mas a história mostra que essas inclina<;ôes, longe
transforma. Sua contribuição consiste exclusivamente em de serem inerentes à natureza humana, ou estão totalmente
estados muito gerais, em predisposições vagas e, por con- ausentes em certas circunstâncias sociais, ou, de uma socie-
seguinte, plásticas que, por si mesmas, não poderiam ad- dade a outra, apresentam tais variações que o resíduo obti-
quirir as formas definidas e complexas que caracterizam do ao se eliminarem todas essas diferenças, o único a po-
os fenômenos sociais, se outros agentes não interviessem. der ser considerado como de origem psicológica, se reduz
Que abismo, por exemplo, entre os sentimentos que a algo vago e esquemático que deixa a uma distância infi-
o homem experimenta diante de forças superiores ã sua e nita os fatos a serem explicados. É que esses sentimentos,
a instituição religiosa, com suas crenças, suas práticas tão longe de serem a base da organização coletiva, resultam
variadas e complicadas, sua organização material e moral; dela. Inclusive não está de todo provado que a tendência à
entre as condições psíquicas da simpatia que dois seres sociabilidade tenha sido, desde a origem, um instinto con-
do mesmo sangue sentem um pelo outro 1H e esse emara- gênito ao gênero humano. É muito mais natural ver nele
nhado de regras jurídicas e morais que determinam a es- um produto da vida social, que lentamente se organizou
trutura da família, as relações das pessoas entre si, das em nós; pois é um fato de observação que os animais são
coisas com as pessoas, etc.! Vimos que, mesmo quando a sociáveis ou não conforme as disposições de seus hábitats
sociedade se reduz a uma multidão não organizada, os (lS obriguem à vida em comum ou dela os afastem. E cabe
sentimentos coletivos que nela se formam podem, não ~Iinda acrescentar que, mesmo entre essas inclinações mais
apenas não se assemelhar, mas ser opostos à média dos determinadas e a realidade social, a distância permanece
sentimentos individuais. Quão mais considerável ainda considerável.
deve ser a distância quando a pressão que o indivíduo so- Existe aliás um meio de isolar mais ou menos com-
fre é a de uma sociedade regular, na qual se acrescenta, à pletamente o fator psicológico, de maneira a poder preci-
ação dos contemporâneos, a das gerações anteriores e da sar a extensão de sua ação: é saber de que forma a raça
tradição! Uma explicação puramente psicológica dos fatos ;Ifeta a evolução social. Com efeito, os caracteres étnicos
sociais só pode portanto deixar escapar tudo o que elt's S;IO de ordem orgânico-psíquica. A vida social deve por-
têm de específico, isto é, de social. (;Into variar quando eles variam, se os fenômenos psicoló-
O que mascarou aos olhos de tantos sociólogos a in- gicos tiverem sobre a sociedade a eficácia causal que lhes
suficiência desse métod, é que freqüentemente, tomando () ,lIrihuem. Ora, não conhecemos nenhum fenômeno social'
efeito pela causa, lhes ocorreu atribuir como condições dl'- qlll' esteja colocado sob a dependência inconteste da raça.
terminantes dos fenômenos sociais certos estados psíqui- (:l'rtamente, não poderíamos atribuir a essa proposição o
cos, relativamente definidos e especiais, mas que, na vt'rda- \,;tlor de uma lei; mas podemos pelo menos afirmá-la co-
110
AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO REGRAS REIAl1VAS Ã EXPLlCAÇ'ÃO DOS FA TOS SOCIAIS 111

mo um fato constante de nossa prática. Formas de organi- be como ela teria podido se produzir. Pois então seria
zação as mais diversas verificam-se em sociedades da mes- preciso admitir que ela tem por motor algum impulso in-
ma raça, enquanto similitudes impressionantes observam- terior ã natureza humana. Mas qual poderia ser esse im-
se entre sociedades de raças diferentes. A cidade existiu pulso? Seria aquela espécie de instinto de que fala Comte
tanto entre os fenícios como entre os romanos e os gregos; e que leva o homem a realizar cada vez mais sua nature-
vemo-la em via de formação entre os cabilas. A família pa- za? Mas isso é responder à pergunta com a pergunta e ex-
triarcal era quase tão desenvolvida entre os judeus quanto plicar o progresso por uma tendência inata ao progresso,
entre os hindus, mas ela não se verifica entre os eslavos, verdadeira entidade metafísica cuja existência, de resto,
que, não obstante, são de raça ~riana. Em compensação, o nada demonstra; pois as espécies animais, inclusive as
tipo familiar que aí se encontra também existe entre os mais elevadas, de maneira nenhuma são movidas pela ne-
árabes. A família materna e o clã se observam em toda cessidade de progredir, e, mesmo entre as sociedades hu-
parte. Certos detalhes das provas judiciárias, das cerimônias manas, há muitas que se comprazem em permanecer in-
nupciais são os mesmos nos povos mais dessemelhantes definidamente estacionárias. Seria esse impulso, como pa-
do ponto de vista étnico. Se isso ocorre, é porque a contri- rece acreditar Spencer, a necessidade de uma maior felici-
buição psíquica é demasiado geral para predeterminar o dade, que as formas cada vez mais complexas da civiliza-
curso dos fenômenos sociais. Como essa contribuição não ção estariam destinadas a realizar sempre mais completa-
implica que haja uma forma social e não outra, ela não po- mente' Seria preciso então estabelecer que a felicidade
de explicar nenhuma. É verdade que há um certo número aumenta com a civilização, e expusemos alhures todas as
de fatos que se costuma atribuir ã influência da raça. É as- dificuldades que essa hipótese levanta 19 . Não é tudo. Ain-
sim que se explica, por exemplo, por que o desenvolvi- da que um ou outro desses dois postulados devesse ser
mento das letras e das artes foi tão rápido e intenso em admitido, nem por isso o desenvolvimento histórico se
Atenas, e tão lento e medíocre em Roma. Mas essa inter- tornaria inteligível; pois a explicação resultante seria pura-
pretação dos fatos, apesar de clássica, jamais foi metodica- mente finalista, e mostramos mais acima que os fatos so-
mente demonstrada; ela parece tirar quase toda a sua au- ciais, assim como todos os fenômenos naturais, não são
toridade da mera tradição. Não se examinou sequer se se- L'xplicados pelo simples fato de se mostrar que eles ser-
ria possível uma explicação sociológica dos mesmos fenô- vem a algum fim. Quando se provou que as organizações
menos, e estamos convencidos de que esta poderia ser sociais cada vez mais elaboradas que se sucederam ao
tentada com sucesso. Em suma, quando se relaciona com longo da história tiveram por efeito satisfazer sempre mais
tal rapidez o caráter artístico da civilização ateniense a fa- \ '.~ta ou aquela de nossas inclinações fundamentais, nem
culdades estéticas congênitas, procede-se mais ou menos por isso se fez compreender como elas se produziram. O
como fazia a Idade Média quando explicava o fogo pelo rato de serem úteis não nos ensina o que as fez existir.
flogisto e os efeitos do ópio por sua virtude dormitiva. Ainda que se explicasse como chegamos a imaginá-las,
Enfim, se realmente a evolução social tivesse sua ori- I raçando como que o plano antecipado capaz de nos re-
gem na constituição psicológica do homem, não se perce- I lresentar os serviços que poderíamos esperar delas - e o
112 AS REGRAS no MÉTODO S0G10LÓGICO REGRAS RELATIVAS Ã EXPliCAÇÃO DOS FAIDS SOOAlS 113

problema já é difícil -, o desejo do qual elas seriam assim lacionadas; se a segunda não pode explicar a primeira, ela
o objeto não teria a virtude de tirá-las do nada. Em uma pode, pelo menos, facilitar sua explicação. Conforme mos-
palavra, admitindo-se que essas inclinações são os meios tramos, é incontestável, em primeiro lugar, que os fatos
necessários para atingir o objetivo perseguido, a questão sociais são produzidos por uma elaboração sui generis de
permanece inteira: como, isto é, de que e através de que fatos psíquicos. Além disso, essa própria elabora(,;ão não
esses meios foram constituídos? deixa de ter analogia com a que se produz em cada cons-
Chegamos portanto à regra seguinte: A causa deter- ciência individual e que transforma progressivamente os
minante de um fato social deve ser buscada entre os fatos elementos primários (sensações, reflexos, instintos) de que
sociais antecedente~~ e nâo entre os estados da consciência ela é originalmente constituída. Não é sem razão que se
individual. Por outro lado, concebe-se facilmente que tu- pôde dizer do eu que ele próprio constituía uma socieda-
do o que precede se aplica tanto à determinaçào da fun- de, tanto quanto o organismo, ainda que de outra manei-
ção quanto à da causa. A função de um fato social não ra, e os psicólogos há muito já mostraram a importância
pode ser senão social, isto é, ela consiste na produção de do fator associação para a explicação da vida do espírito.
efeitos socialmente úteis. Certamente pode ocorrer, e Uma cultura psicológica, mais ainda que uma cultura bio-
acontece de fato, que, por via indireta, o fato social sirva lógica, constitui portanto para o sociólogo uma propedêu-
também ao indivíduo. Mas esse resultado feliz não é sua tica necessária; mas ela só lhe será útil se ele libertar-se
razão de ser imediata. Podemos portanto completar a pro- dela após tê-la recebido e a superar, completando-a por
posição precedente, dizendo: Afunçâo de um./àto social uma cultura especialmente sociológica. É preciso que ele
deve sempre ser buscada na relação que ele mantém com renuncie a fazer da psicologia, de certo modo, o centro de
algum fim social. suas operações, o ponto de partida e de chegada de suas
Foi por terem os sociólogos ignorado freqüentente es- incursões no mundo social, e que se estabeleça no núcleo
sa regra e considerado os fenômenos sociais de um ponto mesmo dos fatos sociais, a fim de observá-los de frente e
de vista demasiado psicológico, que suas teorias afiguram- sem intermediário, solicitando à ciência do indivíduo ape-
se a numerosos espíritos excessivamente vagas, vacilantes nas uma preparação geral e, se preciso, úteis sugestões 20 .
e distantes da natureza especial das coisas que eles crêem
explicar. O historiador, em particular, que vive na intimi.
dade da realidade social, não pode deixar de sentir forte. III
mente o quanto essas interpretações demasiado gerais sào
incapazes de coincidir com os fatos; e certamente foi isso Uma vez que os fatos de morfologia social são da
que produziu, em parte, a desconfiança que a história se. mesma natureza que os fenômenos fisiológicos, eles de-
guidamente demonstra em relação à sociologia. O que nüo vem se explicar segundo a mesma regra que acabamos de
quer dizer, por certo, que o estudo dos fatos psíquicos n:10 l'nunciar. Todavia, de tudo o que precede resulta que eles
seja indispensável ao sociólogo. Se a vida coletiva não dl'. desempenham um papel preponderante na vida coletiva
riva da vida individual, uma e outra estão intimamente rl'. L', por conseguinte, nas explicações sociológicas.
114 AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO Rb'GRAS RELATlVAS À hXPLICAÇ'ÀO DOS FATOS SOCIAIS 115

Com efeito, se a condição determinante dos fenôme- menos SOClalS. Até o presente, encontramos duas séries
nos sociais consiste, como mostramos, no fato mesmo da de caracteres que correspondem de uma maneira eminen-
associação, eles devem variar com as formas dessa associa- te a essa condição: o número das unidades sociais ou, co-
ção, isto é, conforme as maneiras como são agrupadas as mo dissemos também, o volume da sociedade, e o grau
partes constituintes da sociedade. Por outro lado, já que o de concentração da massa, ou o que denominamos a den-
conjunto determinado, que os elementos de toda natureza sidade dinâmica. Por esta última palavra, convém enten-
que entram na composição de uma sociedade formam der não o estreitamento puramente material do agregado
por sua reunião, constitui o meio interno dessa sociedade, que não pode ter efeito se os indivíduos, ou melhor, os
assim como o conjunto dos elementos anatômicos, pela grupos de indivíduos, permanecem separados por vazios
maneira como estão dispostos no espaço, constitui o morais, mas o estreitamento moral do qual o precedente
meio interno dos organismos, poderemos dizer: A origem não é senão o auxiliar e, de maneira gastante geral, a con-
primeira de todo processo social de alguma importância seqüência. A densidade dinâmica pode ser definida, para
deve ser buscada na constituição do meio social interno. um volume igual, em função do número de indivíduos
É possível até precisar ainda mais. De fato, os ele- que estão efetivamente em relações não apenas comerciais,
mentos que compôem esse meio são de dois tipos: há mas morais; ou seja, que não apenas trocam serviços ou
coisas e pessoas. Entre as coisas, é preciso incluir, além se fazem concorrência, mas que vivem uma vida comum.
dos objetos materiais que são incorporados à sociedade, Pois, como as relações puramente econômicas deixam os
os produtos da atividade social anterior, o direito constituí- homens exteriores uns aos outros, essas relações podem
do, os costumes estabelecidos, os monumentos literários, ser muito freqüentes sem com isso participarem da mes-
artísticos, etc. Mas é claro que não é nem de uns nem de ma existência coletiva. Os negócios contratados por cima
outros que pode provir o impulso que determina as trans- das fronteiras que separam os povos não fazem com que
formações sociais; pois eles não contêm nenhuma capaci- essas fronteiras não existam. Ora, a vida comum só pode
dade motora. Seguramente, há que levá-los em considera- ser afetada pelo número dos que nela colaboram eficaz-
ção nas explicações que tentarmos. Com efeito, eles pe- mente. Por isso, o que exprime melhor a densidade dinâ-
sam de alguma forma sobre a evolução social, cuja veloci- mica de um povo é o grau de coalescência dos segmentos
dade e mesmo a direção variam conforme o que forem; sociais. Pois, se cada agregado parcial forma um todo,
mas eles não possuem nada daquilo que é necessário pa- uma individualidade distinta, separada das outras por uma
ra colocá-la em movimento. Eles são a matéria sobre a barreira, é porque a ação de seus membros, em geral,
qual se aplicam as forças vivas da sociedade, mas, por si permanece aí localizada; se, ao contrário, essas socieda-
mesmos, não liberam nenhuma força viva. Resta portanto, des parciais se confundem todas no seio da sociedade to-
como fator ativo, o meio propriamente humano. tal ou tendem a nela se confundir, é porque, na mesma
O esforço principal do sociólogo será portanto pro- medida, 'o círculo da vida social se ampliou'.
curar descobrir as diferentes propriedades desse meio
suscetíveis de exercer uma ação sobre o curso dos fen(l- * "a vida social se generalizou". (R.P., p. 32.)
116 AS REGRAS DO MÉTODO SOCiOLÓGICO
REGRAS RELA71VAS Ã EXPLICAÇÃO DOS FATOS SOCIAIS 117

Quanto à densidade material - se entendermos por


coberto todas as particularidades do meio social suscetíveis
isso não apenas o número de habitantes por unidade de
de desempenhar um papel na explicação dos fatos sociais.
superfície, mas o desenvolvimento das vias de comunica-
Tudo o que podemos dizer é que essas são as únicas que
çào e de transmissão -, ela marcha ordinariamente no
percebemos e que não fomos levados a buscar outras.
mesmo passo que a densidade dinâmica e, em geral, po-
Mas essa espécie de preponderância que atribuímos
de servir para medi-la. Pois, se as diferentes partes da po-
ao meio social e, mais particularmente, ao meio humano,
pulaçào tendem a se aproximar, é inevitável que elas
não implica que se deva ver aí algo como um fato último
abram caminhos que permitam essa aproximação, e, por
e absoluto para além do qual não é preciso remontar. É
outro lado, só podem se estabelecer relações entre pontos
distantes da massa social se essa distância não for um evidente, ao contrário, que o estado no qual se encontra
obstáculo, isto é, se ela de fato for suprimida. Há no en- esse meio a cada momento da história depende ele pró-
tanto exceções 21 , e incorreríamos em sérios erros se jul- prio de causas sociais, algumas inerentes à própria socie-
gássemos sempre a concentração moral de uma socieda- dade, enquanto outras se devem às ações e reações entre
de com base no grau de concentração material que ela essa sociedade e suas vizinhas. Aliás, a ciência não co-
apresenta. As estradas, as vias férreas, etc., podem servir nhece causas primeiras, no sentido absoluto da palavra.
mais ao movimento dos negócios do que à fusão das po- Para ela, um fato é primário simplesmente quando for su-
pulações, que elas então só exprimem muito imperfeita- ficientemente geral para explicar um grande número de
mente. É o caso da Inglaterra, cuja densidade material é outros fatos. Ora, o meio social é certamente um fator
superior à da França, e onde, não obstante, a coalescência desse gênero; pois as mudanças que nele se produzem,
dos segmentos é muito menos avançada, 'como demons- sejam quais forem suas causas, repercutem em todas as
tra a persistência do espírito local e da vida regional*. direções do organismo social e nào podem deixar de afe-
Mostramos alhures como todo aumento no volume e tar em maior ou menor grau todas as suas funções.
na densidade dinâmica das sociedades, ao tornar a vida so- O que acabamos de dizer do meio geral da socieda-
cial mais intensa, ao estender o horizonte que cada indiví- de pode ser dito dos meios específicos a cada um dos
duo abarca com seu pensamento e preenche com sua ação, grupos particulares que ela encerra. Por exemplo, confor-
modifica profundamente as condições fundamentais da me a família for mais ou menos volumosa, mais ou menos
existência coletiva. Não precisamos falar de novo da aplica- voltada para si mesma, muito diferente será a vida domés-
ção que fizemos então desse princípio. Acrescentemos ape- tica. Do mesmo modo, se as corporações profissionais se
nas que ele nos serviu para tratar não somente a questão organizarem de maneira a que cada uma delas se ramifi-
ainda muito geral que era o objeto daquele estudo, mas que em toda a extensão do território, em vez de permane-
muitos outros problemas mais específicos, e que pudemos cer encerrada, como outrora, nos limites de uma cidade, a
assim verificar sua exatidão por um número já respeitável ação que irão exercer será muito diferente da que exerce-
de experiências. Todavia, estamos longe de pensar ter des- ram outrora. De uma maneira mais geral, a vida profissio-
nal será completamente diferente se o meio próprio a ca-
* Frase que nào figura no texto inicial.
da profissão for fortemente constituído ou se sua trama
118 AS REGRAS DO MÉTODO SOGlOLÓGICO
REGRAS RELA TIVAS Ã EXPLICAÇÃO DOS FATOS SOCIAIS 119

for frouxa, como é hoje. Todavia, a ação desses meios que a civilização se encontra num momento dado poderia
particulares não poderia ter a importância do meio geral; ser a causa determinante do estado seguinte. As etapas
pois eles próprios suhmetem-se à influência deste último. que a humanidade percorre sucessivamente n<lo se en-
É sempre a este que se deve voltar. É a pressão que ele
gendram umas às outras.* Compreende-se hem que os
progressos realizados numa época determinada na ordem
exerce sobre os grupos parciais que faz variar a constitui-
jurídica, econômica, política, etc, tornem possíveis novos
ção destes.
progressos; mas em que os primeiros predeterminam os
Tal concepção do meio social como fator determi-
segundos? Eles são um ponto de partida que permite ir
nante da evolução coletiva é da mais alta importância.
mais adiante; mas o que é que nos incita a ir mais adian-
Pois, se a rejeitarmos, a sociologia será incapaz de estabe-
te? Seria preciso admitir então uma tendência interna que
lecer qualquer relação de causalidade.
leva a humanidade a ultrapassar constantemente os resul-
De fato, descartada essa ordem de causas, não há
tados adquiridos, seja para se realizar completamente, se-
condições concomitantes das quais possam depender os
ja para aumentar sua felicidade, e o objeto da sociologia
fenômenos sociais; pois, se o meio social externo, isto é,
seria descobrir a ordem segundo a qual se desenvolveu
aquele formado pelas sociedades ao redor, é suscetível de
essa tendência. Mas, "sem voltar às dificuldades que se-
exercer alguma ação, só a exerce sobre as funç()es que
melhante hipótese implica", a lei que exprime esse de-
têm por ohjeto o ataque e a defesa; além disso, ele só po- senvolvimento nada teria de causal. Uma relação de cau-
de fazer sentir sua influência por intermédio do meio so- salidade, com efeito, só pode se estabelecer entre dois fa-
cial interno. As principais causas do desenvolvimento his- tos dados; ora, tal tendência, que se supõe ser a causa
tórico não estariam portanto entre as coisas, circunfusas, desse desenvolvimento, não é dada; é apenas postulada e
mas estariam todas no passado. Elas próprias fariam parte construída pelo espírito com base nos efeitos que se atri-
desse desenvolvimento, do qual constituiriam simples- huem a ela. Trata-se de uma espécie de faculdade motora
mente fases mais antigas. Os acontecimentos atuais da vi- que imaginamos sob o movimento, a fim de explicá-lo;
da social derivariam não do estado atual da sociedade, mas a causa eficiente de um movimento só pode ser um
mas dos acontecimentos anteriores, dos precedentes his- outro movimento, não uma virtualidade desse gênero.
tóricos, e as explicaçôes sociológicas consistiriam exclusi- Portanto, tudo o que obtemos experimentalmente, aqui, é
vamente em ligar o presente ao passado. uma série de mudanças entre as quais não existe vínculo
Isso pode parecer, de fato, suficiente. Não se costu- causal. O estado antecendente não produz o conseqüen-
ma dizer que a história tem precisamente por objeto enca- te, mas a relação entre eles é exclusivamente cronológica.
dear os acontecimentos segundo sua ordem de sucessão? Assim, nessas condições, toda previsão científica é impos-
'Mas é impossível conceher de que maneira o estado em sível. Podemos' perfeitamente dizer como as coisas se su-
cederam até o presente, não em que ordem elas se suce-
* "M3S, se é certo que toda mudanp. uma vez realizada. deve ter
repercussões que ela explica. o que não se percebe, nessa concepção,
*' Elemento que não figura no texto inicial.
é de que maneira a própria mudança é possíveL" CR.P., p. 34,)
120 AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO REGRAS RELATIVAS À /;XPLICAÇÀO DOS FATOS SOCIAIS 121

derào daqui por diante, porque a causa de que suposta- Por outro lado, é igualmente em relação a esse mes-
mente dependem não é cientificamente determinada, nem mo meio que se deve medir o valor útil ou, como disse-
determinável. Geralmente, é verdade, admite-se que a mos, a função dos fenômenos sociais. Entre as mudanças
evolução prosseguirá no mesmo sentido do passado, mas de que é a causa, servem aquelas que estão em relação
isso em virtude de um simples postulado. Nada nos ga- com o estado no qual esse meio se encontra, já que ele é
rante que os fatos realizados exprimam de maneira bas- a condição essencial da existência coletiva. Também des-
tante completa a natureza dessa tendência para que se se ponto de vista, acreditamos, a concepção que acaba-
possa prejulgar o termo a que ela aspira com base naque- mos de expor é fundamental; pois só ela permite explicar
les pelos quais passou sucessivamente. Inclusive, por que como o caráter útil dos fenômenos sociais pode variar
seria retilínea a direção que ela segue e imprime? sem no entanto depender de arranjos arbitrários. Se, de
Eis aí, de fato, a razão de o número das relações cau- fato, representa-se a evolução histórica como movida por
sais, estabelecidas pelos sociólogos, ser tão restrito. Com uma espécie de vis a tergo [força propulsora] que impele
poucas exceções, das quais Montesquieu é o mais ilustre os homens para a frente, já que uma tendência motora só
exemplo, a antiga filosofia da história limitou-se unica- pode ter um objetivo e apenas um, não pode haver senão
mente a descobrir o sentido geral em que se orienta a hu- um ponto de referência em relação ao qual se calcula a
manidade, sem procurar ligar as fases dessa evolução a al- utilidade ou a nocividade dos fenômenos sociais. Disso
guma condição concomitante. Por mais que Comte tenha resulta que só pode haver um único tipo de organização
prestado alguns grandes serviços ã filosofia social, os ter- social perfeitamente adequado ã humanidade e que as di-
mos nos quais ele coloca o problema sociológico não dife- ferentes sociedades históricas são apenas aproximações
rem dos precedentes. Assim, sua famosa lei dos três esta- sucessivas desse modelo único. Não é necessário mostrar
dos nada possui de uma relação de causalidade; ainda que o quanto semelhante simplismo é hoje inconciliável com
fosse exata, ela não é e não pode ser mais que empírica. a variedade e a complexidade reconhecidas das formas
Trata-se de uma visão sumária da história transcorrida do sociais. Se, ao contrário, a conveniência ou não das insti-
gênero humano. É muito arbitrariamente que Comte consi- tuições só puder ser estabelecida em relação a um meio
dera o terceiro estado como o estado definitivo da huma- dado, e como esses meios são diversos, haverá então uma
nidade. Quem nos diz que não surgirá outro no futuro? Do diversidade de pontos de referência e, por conseguinte,
mesmo modo, a lei que domina a sociologia de Spencer de tipos que, embora qualitativamente distintos uns dos
não parece ser de outra natureza. Ainda que fosse verdade outros, estão todos igualmente fundados na natureza dos
que tendemos atualmente a buscar nossa felicidade numa meios sociais.
civilização industrial, nada assegura que, posteriormente, A questão que acabamos de tratar está assim estreita-
não venhamos a buscá-la em outra parte. Ora, o que faz a mente vinculada ã que diz respeito ã constituição dos ti-
generalidade e a persistência desse método é que na maio- pos sociais. Se há espécies sociais, é porque a vida coleti-
ria das vezes se viu no meio social uJ1l meio pelo qual () va depende antes de tudo de condições concomitantes
progresso se realiza, não a causa que o determina. que apresentam uma certa diversidade. Se, ao contrário,
122 AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO REGRAS RELAl1VAS À EXPLICAÇÃO DOS r~ 70S S( )ClAIS 123

as principais causas dos acontecimentos sociais estives- Para uns, como Hobbes e Rousseau, hei solu~:;lo de
sem todas no passado, cada povo não seria mais que o continuidade entre o indivíduo e a sociedade. O homem
prolongamento daquele que o precedeu, e as diferentes é portanto naturalmente refratário à vida comum, somente
sociedades perderiam sua individualidade para se torna- forçado pode resignar-se a ela. Os fins sociais nào S;IO
rem apenas momentos diversos de um mesmo e único simplesmente o ponto de encontro dos fins individuais;
desenvolvimento. Uma vez que, por outro lado, a consti- sào antes contrários a eles. Assim, para fazer o indivíduo
tuição do meio social resulta do modo de composição dos buscar esses fins, é necessário exercer sobre ele uma coe r-
agregados sociais e que essas duas expressões são, elas çào, e é na instituiçào e na organização dessa coerção que
próprias, no fundo, sinônimas, temos agora a prova de consiste, por excelência, a obra social. Só que, como o in-
que não há caracteres mais essenciais do que aqueles que divíduo é visto como a única e exclusiva realidade do rei-
atribuímos como base para a classificação sociológica. no humano, essa organização, que tem por objeto cons-
Enfim, deve-se compreender agora, melhor do que trangê-lo e contê-lo, não pode ser concebida senão como
antes, o quanto seria injusto apoiar-se nas palavras "condi- artificial. Ela não está fundada na natureza, uma vez que
ções exteriores" e "meio" para acusar nosso método e bus- se destina a fazer-lhe violência impedindo-a de produzir
car as fontes da vida fora do que é vivo. Muito pelo contrá- suas conseqüências anti-sociais. Trata-se de uma obra de
rio, as considerações que acabam de ser lidas resumem-se arte, de uma máquina construída inteiramente pela mão
na idéia de que as causas dos fenômenos sociais são inter- dos homens e que, como todos os produtos desse gêne-
nas à sociedade. É antes a teoria que deriva a sociedade do ro, é o que é apenas porque os homens a quiseram assim;
indivíduo que se poderia justamente recriminar por querer um decreto da vontade a criou, um outro decreto pode
tirar o interior do exterior, já que ela explica o ser social transformá-la. Nem Hobbes nem Rousseau parecem ter
por outra coisa que não ele mesmo, e por querer tirar o percebido tudo o que há de contraditório em admitir que
mais do menos, já que ela empreende deduzir o todo da o indivíduo seja ele próprio o autor de uma máquina
parte. Os princípios que precedem ignoram tão pouco o que tem por tarefa essencial dominá-lo e constrangê-lo,
caráter espontâneo de todo vivente que, se aplicados à bio- ou pelo menos lhes pareceu que, para fazer desaparecer
logia e à psicologia, dever-se-á admitir que também a vida essa contradição, bastava dissimulá-la, aos olhos daqueles
individual se elabora por inteiro no interior do indivíduo. que são suas vítimas, pelo hábil artifício do pacto social.
Foi na idéia contrária que se inspiraram tanto os teó-
ricos do direito natural quanto os economistas e, mais re-
IV centemente, Spencer22 . Para eles, a vida social é essencial-
mente espontãnea e a sociedade uma coisa natural. Mas,
Do grupo de regras que acabam de ser estabelecidas re- se conferem a ela esse caráter, não é porque lhe reconhe-
sulta certa concepção da sociedade e da vida coletiva. çam uma natureza específica; é porque encontram sua ba-
Sobre esse ponto, duas teorias contrárias dividem os se na natureza do indivíduo. Do mesmo modo que os
espíritos. precedentes pensadorés, eles não vêem na sociedade um
124 AS REGRAS DO MÉTODO SOClOLÔGICO REGRAS RELAllVAS À bXPLICAÇ'ÀO nos FATOS SOCIAIS 12'5

sistema de coisas que exista por si mesmo, em virtude de um justo emprego. A reflexão, fazendo o homem com-
causas que lhe sejam específicas. Mas, enquanto aqueles preender o quanto o ser social é mais rico, mais comple-
a concebiam apenas como um arranjo convencional que xo e mais duradouro que o ser individual, não pode dei-
nenhum vínculo prende à realidade e que se sustenta, por xar de revelar-lhe as razões inteligíveis da subordina\';10
assim dizer, no ar, estes lhe dão por base os instintos fun- que dele é exigida e dos sentimentos de apego e de res-
damentais do coração humano. O homem tende natural- peito que o hábito fixou em seu coraçã0 25 .
mente à vida política, doméstica, religiosa, às trocas, etc., Portanto, somente uma crítica singularmente superfi-
e é dessas inclinações naturais que deriva a organização cial poderia acusar nossa concepção da coerção social de
social. Em conseqüência, sempre que for normal, esta não reeditar as teorias de Hobbes e de Maquiavel. Mas, se,
tem necessidade de impor-se. Quando ela recorre à coer- contrariamente a esses filósofos, dizemos que a vida social
ção, é porque não é o que deve ser ou porque as circuns- é natural, não é por encontrarmos sua fonte na natureza
tâncias são anormais. Em princípio, basta deixar as forças do indivíduo; é porque ela deriva diretamente do ser co-
individuais desenvolverem-se em liberdade para que elas letivo, que é, por si mesmo, uma natureza sui generis; é
se organizem socialmente. porque ela resulta dessa elaboração especial à qual estão
Nenhuma dessas duas doutrinas é a nossa. submetidas as consciências particulares devido à sua as-
Certamente, fazemos da coerção a característica de sociação e da qual se desprende uma nova forma de exis-
todo fato social. Só que essa coerção não resulta de uma tência 24 . Portanto, se reconhecemos com uns que a vida
maquinaria mais ou menos engenhosa, destinada a mas- social apresenta-se ao indivíduo sob o aspecto da coer-
carar aos homens as armadilhas nas quais eles próprios se ção, admitimos com os outros que ela é um produto es-
pegaram. Ela simplesmente se deve ao fato de o homem pontâneo da realidade; e o que liga logicamente esses
estar em presença de uma força que o domina e diante da dois elementos, aparentemente contraditórios, é que a rea-
qual se curva; mas essa força é natural. Ela não deriva de lidade da qual ela emana supera o indivíduo. Vale dizer
um arranjo convencional que a vontade humana acres- que as palavras coerção e espontaneidade não têm, em
centou completamente ao real; ela provém das entranhas nossa terminologia, o sentido que Hobbes confere à pri-
mesmas da realidade; é o produto necessário de causas meira e Spencer à segunda.
dadas. Assim, para fazer o indivíduo submeter-se a ela de Em resumo, à maior parte das tentativas que foram
boa vontade, não é preciso recorrer a nenhum artifício; feitas para explicar racionalmente os fatos sociais, pôde-
basta fazê-lo tomar consciência de seu estado de depen- se objetar ou que elas faziam desaparecer toda ideia de
dência e de inferioridade naturais - quer ele faça disso disciplina social, ou que só conseguiam manter essa idéia
uma representação sensível e simbólica pela religião, quer com o auxílio de subterfúgios mentirosos. As regras que
chegue a formar uma noção adequada e definida pela ciên- acabamos de expor permitiriam, ao contrário, fazer uma
cia. Como a superioridade que a sociedade tem sobre ele sociologia que visse no espírito de disciplina a condição
não é simplesmente física, mas intelectual e moral, ela na- essencial de toda vida em comum, embora fundando-o na
da tem a temer do livre exame, contanto que deste se fac;<I razão e na verdade.
CAPÍTULO VI
REGRAS RELATIVAS À ADMINISTRAÇÃO
DA PROVA

Temos apenas um meio de demonstrar que um fenô-


meno é causa de outro: comparar os casos em que eles es-
tão simultaneamente presentes ou ausentes e examinar se
as variaçôes que apresentam nessas diferentes combinações
de circunstâncias testemunham que um depende do outro.
Quando eles podem ser artificialmente produzidos pelo
observador, o método é a experimentação propriamente
dita. Quando, ao contrário, a produção dos fatos não está à
nossa disposição e só podemos aproximá-los tais como se
produziram espontaneamente, o método empregado é o
da experimentação indireta ou método comparativo.
Vimos que a explicação sociológica consiste exclusi-
vamente em estabelecer relações de causalidade, quer se
trate de ligar um fenômeno à sua causa, quer, ao contrá-
rio, uma causa a seus efeitos úteis. Uma vez que, por ou-
tro lado, os fenômenos sociais escapam evidentemente à
ação do operador, o método comparativo é o único que
128 AS REGRAS DO Mf'TODO SOCIOLÓGICO REGRAS RElATIVAS À ADMINlSTRAÇÀO nA PROVA 129

convém à sociologia. É verdade que Comte não o consi- monstrar que a química e a biologia sú podem ser ciências
derou suficiente; julgou necessário completá-lo por aquilo experimentais. Portanto não há razão para que suas críti-
que ele chama o método histórico; mas isso se deve à sua cas sejam mais bem fundamentadas no que concerne ~l
concepção particular das leis sociológicas. Segundo Com- sociologia; pois os fenômenos sociais distinguem-se dos
precedentes apenas por uma maior complexid~lde. Essa
te, estas devem principalmente exprimir, não relações de-
diferença pode de fato implicar que o emprego do racio-
finidas de causalidade, mas o sentido em que se dirige a
cínio experimental em sociologia ofereça mais dificulda-
evolução humana em geral; assim elas não podem ser
des ainda que nas outras ciências; mas não se percehe
descobertas com o auxílio da comparação, *pois, para po-
por que ele seria radicalmente impossível nesse caso.
der comparar as diferentes formas que um fenômeno so-
De resto, toda a teoria de Mill repousa sobre um pos-
cial assume em diferentes povos, é preciso tê-lo separado
tulado que, sem dúvida, está ligado aos princípios funda-
das séries temporais a que pertence. Ora, se se começa
mentais de sua lógica, mas que está em contradição com
por fragmentar deste modo o desenvolvimento humano, todos os resultados da ciência. Com efeito, ele admite que
surge a impossibilidade de reencontrar sua seqüência. Pa- nem sempre um mesmo conseqüente resulta de um mes-
ra chegar a ela, não é por análises, mas por largas sínteses mo antecedente, mas que pode ser devido ora a uma cau-
que convém proceder. O que é preciso é aproximar uns sa, ora a outra. Essa concepção do vínculo causal, retiran-
dos outros. e reunir numa mesma intuição, de certo mo- do-lhe toda determinação, torna-o praticamente inacessí-
do', os estados sucessivos da humanidade de maneira a vel à análise científica; pois introduz tal complicação na
perceber "o crescimento contínuo de cada disposição físi- trama das causas e dos efeitos que o espírito nela se per-
ca, intelectual, moral e política"l. **Tal é a razão de ser de sem retorno. Se um efeito pode derivar de causas dife-
desse método que Comte chama histórico e** que, por rentes, para saber o que o determina num conjunto de
conseguinte, é desprovido de qualquer objeto, tão logo se circunstâncias dadas, a experiência teria de ser feita em
rejeitou a concepção fundamental da sociologia comtiana. condições de isolamento praticamente impossíveis, sobre-
Também é verdade que Mil! declara a experimenta- tudo em sociologia.
ção, mesmo indireta, inaplicável ã sociologia. Mas o que Mas esse pretenso axioma da pluralidade das causas
já é suficiente para retirar de sua argumentação grande é uma negação do princípio de causalidade. Certamente,
parte de sua autoridade é que ele a aplicava igualmente se supusermos com Mill que a causa e o efeito são abso-
aos fenômenos biológicos, e mesmo aos fatos físico-quí- lutamente heterogêneos, que nào há entre eles nenhuma
micos mais complexos 2 ; (xa, hoje não é mais preciso de- relação lógica, não há nada de contraditório em admitir
que um efeito possa acompanhar ora uma causa, ora ou-
• "já que estas têm por objeto considerar isoladamente os pares tra. Se a relação que une C a A é puramente cronológica,
formados por cada fenômeno social com o grupo de suas condiçôes. É ela não exclui uma outra relação do mesmo gênero que
preciso, ao contrário, aproximar uns dos outros e reunir numa mesma uniria C a B, por exemplo. Mas, se, ao contrário, o víncu-
síntese" (R.P., p. 169.)
** "Tal é o papel desse método histórico" (R.P., p. 169.) lo causal tem algo de inteligível, ele não poderia ser indl'-
130 AS REGRAS DO MÉ"lDDO SOCiOLÓGICO REGRAS RELA 11 VAS À ADMJNISTRAÇ'ÀO DA PROVA 131

terminado a esse ponto. Se ele consiste numa relação que mais diversas causas; que o mesmo acontece com o suicí-
resulta da natureza das coisas, um mesmo efeito só pode dio, com a pena, etc. Praticando-se com esse espírito o ra-
manter essa relação com uma única causa, pois não pode ciocínio experimental, por mais que se reúna um número
exprimir mais que uma só natureza. Ora, somente os filó- considerável de fatos, jamais se poderão obter leis preci-
sofos puseram em dúvida a inteligibilidade da relação sas, relações determinadas de causalidades. Apenas se
causal. Para o cientista, ela não se questiona; ela é supos- poderá atribuir vagamente um conseqüente mal definido
ta pelo método da ciência. Como explicar de outro modo a um grupo confuso e indefinido de antecedentes. Portan-
o papel tão importante da dedução no raciocínio experi- to, se quisermos empregar o método comparativo de ma-
mental, assim como o princípio fundamental da proporcio- neira científica, ou seja, conformando-se ao princípio de
nalidade entre a causa e o efeito? Quanto aos casos que causalidade tal como ele se depreende da própria ciência,
são citados e nos quais se pretende observar uma plurali- deveremos tomar como base das comparações que insti-
dade de causas, para que eles fossem demonstrativos, se- tuímos a proposição seguinte: A um mesmo efeito corres-
ria preciso ter estabelecido preliminarmente ou que essa ponde sempre uma mesma causa. Assim, para retomar os
pluralidade não é simplesmente aparente, ou que a uni- exemplos citados mais acima, 'se o suicídio depende de
dade exterior do efeito não recobre uma real pluralidade. mais de uma causa, é porque, em realidade, há várias es-
Quantas vezes aconteceu ã ciência reduzir à unidade cau- pécies de suicídios. O mesmo acontece com o crime. Em
sas cuja diversidade, à primeira vista, parecia irredutível! relação à pena, ao contrário, se se acreditou que ela se
O próprio Stuart Mill dá um exemplo disso ao lembrar explicava da mesma forma por causas diferentes, é por-
que, segundo as teorias modernas, a produção de calor que não se percebeu o elemento comum que se verifica
pelo atrito, pela percussão, pela ação química, etc. deriva
em todos esses antecedentes e em virtude do qual eles'
de uma mesma e única causa. Inversamente, quando se
produzem seu efeito comum).
trata do efeito, o cientista distingue com freqüência o que
o vulgo confunde. Para o senso comum, a palavra febre
designa uma mesma e única entidade mórbida; para a ciên-
II
cia, há uma quantidade de febres especificamente dife-
rentes e a pluralidade das causas está em relação com a
Contudo, se os diversos procedimentos do método
dos efeitos; e, se entre todas essas espécies nosológicas
comparativo não são inaplicáveis à sociologia, nem todos
há não obstante algo em comum, é que essas causas,
igualmente, se confundem por alguns de seus caracteres. têm, nela, uma força igualmente demonstrativa.
É importante exorcizar esse princípio da sociologia,
sobretudo porque muitos sociólogos sofrem ainda sua in- * "se o crime, se o suicídio admitem causas diferentes, é que, em
realidade, há espécies muito diferentes de crimes e de suicídios. Em
fluência, e isso apesar de não fazerem objeção contra o
relação à pena, ao contrário, é em virtude de um elemento comum a
emprego do método comparativo. Assim, costuma-se di- todas as causas aparentemente diferentes que lhe atribuem" (R.P.,
zer que o crime pode ser igualmente produzido pelas p. 171.)
132 AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO REGRAS RELA77VAS À ADMINISTRAÇÃO DA PROVA 133

o método dito dos resíduos, se é que ele constitui superiores às de não negligenciar nenhum. Em conse-
uma forma de raciocínio experimental, não tem, por as- qüência, tal método de demonstração só pode dar origem
sim dizer, nenhuma utilidade no estudo dos fenômenos a conjeturas que, reduzidas a elas só, são quase desprovi-
sociais. Além de só poder servir às ciências bastante avan- das de todo caráter científico.
çadas, uma vez que ele supõe já conhecidas um número Muito diferente é o que acontece com o método das
importante de leis, os fenômenos sociais sào demasiado variações concomitantes. Com efeito, para quc clc scja
complexos para que, num caso dado, se possa exatamen- demonstrativo, não é necessário que todas as varia(:Clcs
te suprimir o efeito de todas as causas menos uma. diferentes daquelas que se comparam tenham sido rigoro-
A mesma razão torna dificilmente utilizáveis tanto o samente excluídas. O simples paralelismo dos valorcs pe-
método de concordância como o de diferença. Eles su- los quais passam os dois fenômenos, contanto quc tcnha
põem, com efeito, que os casos comparados ou concor- sido estabelecido num número suficiente de casos suficien-
dam só num ponto, ou diferem num só. Sem dúvida, não temente variados, é a prova de que existe entrc eles uma
há ciência que alguma vez tenha podido instituir experiên- relação. Esse método deve esse privilégio ao fato de atin-
cias em que o caráter rigorosamente único de uma con- gir a relação causal, não a partir de fora como os prece-
cordância ou de uma diferença fosse estabelecido de ma- dentes, mas a partir de dentro. Ele nào nos mostra sim-
neira irrefutável. Jamais estamos seguros de não ter deixa- plesmente dois fatos que se acompanham ou que se ex-
do escapar algum antecedente que concorda ou difere cluem exteriormente 4 , de sorte que nada prova direta-
como o conseqüente, ao mesmo tempo e da mesma ma- mente que estejam unidos por um vínculo interno; ao
neira que o único antecedente conhecido. Entretanto, em- contrário, tais fatos nos são mostrados participando um
bora a eliminação absoluta de todo elemento adventício do outro e de maneira contínua, pelo menos no que diz
seja um limite ideal que não pode ser realmente atingido, respeito à sua quantidade. Ora, essa participação, por si
as ciências físico-químicas e mesmo as ciências biológicas só, é suficiente para demonstrar que eles não são estra-
aproximam-se bastante dele para que, num grande núme- nhos um ao outro. A maneira como um fenômeno se de-
ro de casos, a demonstração possa ser vista como pratica- senvolve exprime sua natureza; para que dois desenvolvi-
mente suficiente. Mas isso já não ocorre em sociologia de- mentos se correspondam, é preciso que haja também uma
vido à complexidade demasiado grande dos fenômenos, correspondência nas naturezas que eles manifestam. A
acrescida da impossibilidade de qualquer experiência arti- concomitância constante é portanto, por si mesma, uma
ficial. Como não se poderia fazer um inventário, ainda lei, seja qual for o estado dos fenômenos que permanece-
que só aproximadamente completo, de todos os fatos que ram fora da comparação. Assim, para invalidá-la, não bas-
coexistem no interior de uma mesma sociedade ou que se ta mostrar que ela é posta em xeque por algumas aplica-
sucederam ao longo de sua história, jamais se pode estar ções particulares do método de concordância ou de dife-
seguro, mesmo de maneira aproximada, de que dois po- rença; seria atribuir a esse tipo de provas uma autoridade
vos concordam ou diferem sob todos os aspectos, exceto que ele não pode ter em sociologia. Quando dois fenô-
um. As chances de deixar um fenômeno escapar são bem menos variam regularmente tanto um como o outro, é
134 AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO REGRAS REJA 77VAS À ADMINISTRAÇÃO nA I'R()VA 135

preciso manter essa relação ainda que, em alguns casos, mos em busca de um terceiro fenômeno dos quais os dois
um desses fenômenos se apresentasse sem o outro. Pois outros dependam igualmente ou que tenha podido servir
pode ocorrer, ou que a causa tenha sido impedida de de intermediário entre eles. Por exemplo, pode-se estabe-
produzir seu efeito pela ação de alguma causa contrária, lecer da maneira mais certa que a tendência ao suicídio
ou que ela se encontre presente, mas sob uma forma dife- varia de acordo com a tendência à instrução. Mas é im-
rente daquela anteriormente observada. Sem dúvida, é o possível compreender como a instrução pode conduzir ao
caso de conferir, como se diz, de ~xaminar os fatos de suicídio; tal explicação está em contradição com as leis da
novo, mas não de abandonar de vez os resultados de uma psicologia. A instrução, sobretudo reduzida aos conheci-
demonstração regularmente conduzida. mentos elementares, não atinge senão as regiões mais su-
É verdade que as leis estabelecidas por esse procedi- perficiais da consciência; ao contrário, o instinto de con-
mento nem sempre se apresentam de imediato sob a for- servação é uma de nossas tendências fundamentais. Por-
ma de relações de causalidade. A concomitância pode ser tanto, este não poderia ser sensivelmente afetado por um
devida, não a um fenômeno ser a causa do outro, mas a fenômeno tão distante e de tão fraca repercussão. Assim
serem ambos efeitos de uma mesma causa, ou então por somos levados a perguntar se um e outro fato não seriam
existir entre eles um terceiro fenômeno, intercalado, mas a conseqüência de um mesmo estado. Essa causa comum
despercebido, que é o efeito do primeiro e a causa do se- é o enfraquecimento do tradicionalismo religioso que re-
gundo. Os resultados a que esse método conduz têm por- força ao mesmo tempo a necessidade de saber e a ten-
tanto necessidade de ser interpretados. Mas qual o méto- dência ao suicídio.
do experimental que permite obter mecanicamente uma Mas há outra razão que faz do método das variações
relação de causalidade sem que os fatos que ele estabele- concomitantes o instrumento por excelência das pesquisas
ce precisem ser elaborados pelo espírito? Tudo o que im- sociológicas. Com efeito, mesmo quando as circunstâncias
porta é que essa elaboração seja metodicamente conduzi- lhes são mais favoráveis, os outros métodos só podem ser
da, e eis aqui de que maneira se poderá proceder a isso. empregados proveitosamente se o número de fatos com-
Em primeiro lugar procuraremos saber, com o auxílio da parados for muito considerável. Se não é possível encon~
dedução, como um dos dois termos foi capaz de produzir trar duas sociedades que diferem ou que se assemelham
o outro; a seguir, nos esforçaremos por verificar o resulta- apenas num ponto, pode-se pelo menos constatar que
do dessa dedução com o auxílio de experiências, isto é, dois fatos ou se acompanham, ou se excluem de maneira
de novas comparações. Se 'a dedução é possível e a veri- muito geral. Mas, para que essa constatação tenha um va-
ficação bem-sucedida, poderemos considerar a prova co- 10r científico, é preciso que tenha sido feita um grande nú-
mo feita. Se, ao contrário', não percebemos entre esses mero de vezes; seria preciso estar quase seguro de que to-
fatos nenhum vínculo direto, sobretudo se a hipótese de dos os fatos foram passados em revista. Ora, não apenas
semelhante vínculo contradiz leis já demonstradas, saire- um inventário tão completo é impossível, mas também os
fatos assim acumulados jamais podem ser estabelecidos
* Frase que não figura no texto inicial. com uma precisão suficiente, justamente por serem dema-
136 AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO REGRAS RELAl1VAS Ã ADMINISTRAÇÃO nA PROVA 137

siado numerosos. Nào apenas se corre o risco de omitir al- não apenas circunscreverá, com mais discernimento, a ex-
guns essenciais e que contradizem os que são conhecidos, tensão de suas comparações, mas as conduzirá com mais
mas também não se tem certeza de conhecer bem estes úl- crítica; pois, exatamente por se prender a uma ordem res-
timos. Na verdade, o que muitas vezes desacreditou os ra- trita de fatos, poderá controlá-los com maior cuidado. Cla-
ciocínios dos sociólogos é que, por terem empregado de ro que ele não precisa refazer a obra dos historiadores;
preferência o método de concordância ou o de diferença, mas também não pode receber passivamente e indiscrimi-
sobretudo o primeiro, eles se preocuparam mais em acu- nadamente as informações de que se serve.
mular documentos do que em criticá-los e escolhê-los. É Mas não se deve pensar que a sociologia esteja num
assim que lhes acontece a todo momento colocar no mes- estado de sensível inferioridade em face das outras ciências
mo plano as observações confusas e rápidas dos viajantes por não poder utilizar muito mais que um único procedi-
e os textos precisos da história. Diante de tais demonstra- mento experimental. Esse inconveniente, com efeito, é
ções, não apenas somos levados a afirmar que um único compensado pela riqueza das variações que se oferecem
fato poderia ser suficiente para invalidá-las, mas também espontaneamente às comparações do sociólogo e da qual
que os próprios fatos sobre os quais são estabelecidas não se encontra nenhum exemplo nos outros reinos da
nem sempre inspiram confiança. natureza. As mudanças que ocorrem num organismo ao
O método das variações concomitantes não nos obri- longo de uma existência individual são pouco numerosas
ga nem a essas enumerações incompletas, nem a essas ob- e muito restritas; as que podem ser provocadas artificial-
servações superficiais. Para que ele dê resultados, poucos mente sem destruir a vida situam-se também dentro de
fatos são suficientes. Tão logo se prova que, em um certo estreitos limites. É verdade que outras mais importantes se
número de casos, dois fenômenos variam um de acordo produziram na seqüência da evolução zoológica, mas elas
com o outro, podemos ter a certeza de estar em presença só deixaram raros e obscuros vestígios, e é ainda mais di-
de uma lei. Não tendo necessidade de ser numerosos, os fícil descobrir as condições que as determinaram. Ao con-
documentos podem ser escolhidos e, mais do que isso, es- trário, a vida social é uma série ininterrupta de transfor-
tudados de perto pelo sociólogo que os emprega. Portanto mações, paralelas a outras transformações nas condições
ele não só poderá como deverá tomar por objeto principal da existência coletiva; e temos à nossa disposição não so-
de suas induções as sociedades cujas crenças, tradições, mente as que se relacionam a uma época recente, pois
costumes e direito se materializaram em monumentos es- um grande número daquelas pelas quais passaram os po-
critos e autênticos. Certamente, ele não desdenhará as in- vos desaparecidos também chegaram até nós. Apesar de
formações da etnografia (não há fatos que possam ser des- suas lacunas, a história da humanidade é bem mais clara
denhados pelo cientista), mas irá colocá-las em seu verda- e completa que a das espécies animais. Além disso, existe
deiro lugar. Em vez de fazer delas o centro de gravidade uma quantidade de fenômenos sociais que se produzem
de suas pesquisas, só as utilizará em geral como comple- em toda a extensão da sociedade, mas que assumem for-
mento daquelas que deve à história, ou pelo menos se es- mas diversas conforme as regiões, as profissões, as confis-
forçará por confirmá-las através destas últimas. Assim ele sões, etc. Tal é o caso, por exemplo, do crime, do suicí-
138 AS RHGRAS DO MÉTODO SOC!OLÓGICC ,RFX;RAS RE1Al1VASÀ ADMIN1STRAÇÀO nA I'R()VA 139

dia, da natalidade, da nupcialidade, da poupança, etc. D3 III


diversidade desses meios especiais resultam, para cada
uma dessas ordens de fatos, novas séries de variaçôes, Mas *a maneira como devem ser formadas essas séries*
além daquelas que a evoluçào histórica produz. Portanto, difere conforme os casos. Elas podem compreender fatos
se o sociólogo não pode empregar com igual eficácia to- tomados ou de uma única sociedade - ou de várias socieda-
dos os procedimentos da pesquisa experimental, o único des da mesma espécie -, ou de várias espécies sociais dis-
método que ele deve utilizar, quase com exclusão dos ou- tintas.
tros, pode, em suas mãos, ser muito fecundo, pois, para O primeiro procedimento pode ser suficiente, a rigor,
fazê-lo funcionar, ele dispôe de recursos incomparáveis. quando se trata de fatos de uma grande generalidade e
*Mas esse método só produz os resultados que com- sobre os quais temos informaçôes estatísticas bastante ex-
porta se for praticado com rigor. Nada se prova quando, tensas e variadas. Por exemplo, aproximando-se a curva
como acontece com freqüência, apenas se mostra, por que exprime a evolução do suicídio, durante um período
exemplos mais ou menos numerosos, que, nesses casos de tempo suficientemente longo, das variações que apre-
esparsos, os fatos variaram como previa a hipótese. Des- senta o mesmo fenômeno segundo as províncias, as clas-
sas concordâncias esporádicas e fragmentárias não se po- ses, os hábitats rurais ou urbanos, os sexos, as idades, o
de tirar nenhuma conclusão geral. Ilustrar uma idéia não estado civil, etc., pode-se chegar, mesmo sem estender a
pesquisa para além de um único país, a estabelecer ver-
é demonstrá-la. O que é preciso é comparar, nào variaç()es
dadeiras leis, ainda que seja sempre preferível confirmar
isoladas, mas séries de variaçôes, regularmente constituí-
esses resultados através de outras observações, feitas so-
das, cujos termos se ligam uns aos outros por uma grada-
bre outros povos da mesma espécie. Mas só é possível
ção tão contínua quanto possível e que, ademais, tenham
contentar-se com comparaçôes tão limitadas quando se
uma extensão suficiente. Pois as variações de um fenôme-
estuda uma dessas correntes sociais que se espalham em
no só permitem induzir sua lei se elas exprimem clara-
toda a sociedade, embora variem de um ponto a outro.
mente a maneira como ele se desenvolve em circunstâncias
Quando, ao contrário, trata-se de uma instituição, de uma
dadas. Ora, para tanto é preciso que haja entre elas a
regra jurídica ou moral, de um costume organizado, que
mesma seqüência que entre os momentos diversos de
são idênticos e funcionam da mesma maneira em toda a
uma mesma evolução natural e, além disso, que essa evo- extensão do país e que só se modificam com o tempo,
lução que elas representam seja suficientemente prolon- não é possível restringir-se ao estudo de um único povo;
gada para que seu sentido não seja duvidoso. * pois, nesse caso, ter-se-ia como elemento da prova ape-
nas um único par de curvas paralelas, a saber, as que ex-
primem a marcha histórica do fenômeno considerado e .
da causa conjeturada, mas nessa única e exclusiva socie-

• Esse parágrafo, em seu conjunto, está ausente do texto inicial. • "a natureza mesma das comparações sociológicas·· (R.P.. p. 175.)
140 AS REGRAS DO MÉTODO S0C10LÓGICO REGRAS RELA77VAS À AfJMINISTRAÇÀO nA IJNOVA 141

dade. Certamente, mesmo esse único paralelismo, se for recebe pronta, em parte, das sociedades que a precetk-
constante, já é um fato considerável, mas não poderia, ramo O que lhe é assim transmitido, no decorrer de sua
por si só, constituir uma demonstração. história, não é o produto de um desenvolvimento seu,
Fazendo entrar em consideração vários povos da portanto não pode ser explicado se não sairmos dos limi-
mesma espécie, dispõe-se já de um campo de compara- tes da espécie de que ela faz parte. Somente os acrésci-
ção mais extenso. Primeiramente, pode-se confrontar a mos que se juntam a esse fundo primitivo e o transfor-
história de um com a dos outros e ver se, em cada um de- mam podem ser tratados dessa maneira. Porém, quanto
les isoladamente, o mesmo fenômeno evolui no tempo mais nos elevamos na escala social, tanto menor é a im-
em função das mesmas condições. A seguir, podem-se es- portância dos caracteres adquiridos por cada povo com-
tabelecer comparações entre esses diversos desenvolvi- parados aos caracteres transmitidos. Aliás, essa é a condi-
mentos. Por exemplo, determinar-se-á a forma que o fato ção de todo progresso. Assim, elementos novos que intro-
estudado adquire nessas diferentes sociedades no mo- duzimos no direito doméstico, no direito de propriedade,
mento em que ele chega a seu apogeu. Como essas socie- na moral, desde o começo de nossa história, são relativa-
dades, embora pertençam ao mesmo tipo, são individua- mente pouco numerosos e pouco importantes, compara-
lidades distintas, a forma em questão não é em toda parte dos aos que o passado nos legou. As novidades que se
a mesma'; ela é mais ou menos pronunciada conforme os produzem não poderiam portanto ser compreendidas se
casos'. Deste modo se terá uma nova série de variações primeiro não fossem estudados aqueles fenômenos mais
que serão aproximadas daquelas que apresenta, no mes- fundamentais que são suas raízes, *e estes só podem ser
mo momento e em cada um desses países, a condição estudados com o auxílio de comparações muito mais ex-
'*presumida". Assim, após ter seguido a evolução da fa- tensas. Para poder explicar o estado atual da família, do
mília patriarcal através da história de Roma, de Atenas, de casamento, da propriedade, etc., seria preciso conhecer
Esparta, essas mesmas cidades serão classificadas confor- quais são suas origens, quais os elementos simples que
me o grau máximo de desenvolvimento que atinge em ca- compõem essas instituições, e, sobre esses pontos, a his-
da uma delas esse tipo familiar, e a seguir se verá, em re- tória comparada das grandes sociedades européias não
lação ao estado do meio social do qual parece depender nos daria grandes esclarecimentos. É preciso remontar
o tipo familiar de acordo com a primeira experiência, se mais acima.
elas se classificam ainda da mesma maneira. Conseqüentemente, para explicar uma instituição so-
Mas mesmo esse método não pode ainda ser suficien- cial, pertencente a uma espécie determinada, iremos com-
parar as formas diferentes que ela apresenta não apenas
te. Ele só se aplica, com efeito, aos fenômenos que têm
nos povos dessa espécie, mas em todas as espécies anterio-
origem durante a vida dos povos comparados. Ora, uma
res. Trata-se, por exemplo, da organização doméstica?
sociedade não cria completamente sua organização; ela a
Constituiremos primeiramente o tipo mais rudimentar que
* Frase que nào figura no texto inicial.
•• "conjeturada." (R.P., p. 176.) * Elemento que nào figura no texto inicial.
142 AS REGRAS no MÉTODO SOC70LÓGICO REGRAS RElATlVAS À AlJMINIS'f7<AÇ;ij() IM I'N()VA 143

possa ter existido, para em seguida acompanhar passo a dades que ela substitui, mas proVl'lll l'lll parte dessa pr()-
passo a maneira como ele progressivamente se complicou. pria juventude que impede que os produtos das experi0n-
Esse método, que poderíamos chamar genético, efetuaria cias feitas pelos povos anteriores seja III todos iIlled ia ta-
de uma só vez a análise e a síntese do fenômeno. Pois, por mente assimiláveis e utilizáveis. Assilll, a crianl.·a recehc
um lado, nos mostraria em estado dissociado os elementos de seus pais faculdades e predisposiçC)cs que sú tardia-
que o compôem, pelo simples fato de nos mostrar esses mente entram em jogo em sua vida. Portanto é possível,
elementos acrescentando-se sucessivamente uns aos ou- para retomar o mesmo exemplo, que o retorno do tradicio-
tros; ao mesmo tempo, graças ao extenso campo de com- nalismo observado no começo de cada história seja devi-
paração, ele seria bem mais capaz de determinar as condi- do, não ao fato de que um recuo do mesmo fenômeno só
çôes de que dependem a formação e associação desses pode ser transitório, mas às condições especiais em que
mesmos elementos. Conseqüentemente, só se pode explicar se acha colocada toda sociedade que começa. A compara-
um fato social de alguma complexidade se se acompanhar ção só pode ser demonstrativa se eliminamos esse fator
seu desenvolvimento integral através de todas as e~pécies so- da idade, que a perturba; para tanto, bastará considerar
ciais. A sociologia comparada não é um ramo particular da as sociedades comparadas no mesmo período de seu de-
sociologia; é a sociologia mesma, na medida em que ela senvolvimento. Assim, para saber em que sentido evolui
deixa de ser puramente descritiva e aspira a explicar os um fenômeno social, iremos comparar o que ele é na ju-
fatos. ventude de cada espécie com aquilo em que se transfor-
No decorrer dessas comparaçôes extensas, comete-se ma na juventude da espécie seguinte, e, conforme apre-
com freqüência um erro que falseia os resultados. Algu- sentar, de uma etapa a outra, maior, menor ou igual in-
mas vezes, para julgar em que sentido se desenvolvem os tensidade, diremos que ele progride, recua ou se mantém.
acontecimentos sociais, simplesmente se comparou o que
se passa no declínio de cada espécie com o que se pro-
duz no começo da espécie seguinte. Procedendo deste
modo, acreditou-se poder afirmar, por exemplo, que o
enfraquecimento das crenças religiosas e de todo tradicio-
nalismo nunca podia ser mais que um fenômeno passa-
geiro da vida dos povos, porque ele só aparece no último
período de sua existência para cessar assim que uma no-
va evoluçào recomeça. Mas, com semelhante método,
corre-se o risco de tomar como marcha regular e necessá-
ria do progresso o que é efeito de uma causa muito dife-
rente. De fato, o estado em que se encontra uma socieda-
de jovem nào é simplesmente o prolongamento do estado
em que haviam chegado no final de sua carreira as socie-
CONCLUSÃO

Em resumo, as características desse método são as


seguintes.
Em primeiro lugar, ele é independente de toda filo-
sofia. Por ter nascido das grandes doutrinas filosóficas, a
sociologia conservou o hábito de se apoiar em algum sis-
tema do qual se acha, pois, solidária. Assim, ela foi suces-
sivamente positivista, evolucionista, espiritualista, quando
deve contentar-se em ser sociologia e nada mais. Inclusi-
ve hesitaríamos em qualificá-la de naturalista, a menos
que com isso se queira simplesmente indicar que ela con-
sidera os fatos sociais como explicáveis naturalmente;
nesse caso, o epíteto é inútil, pois significa apenas que o
sociólogo pratica a ciência e não é um místico. Mas repe-
limos a palavra, se lhe quiserem dar um sentido doutrinai
sobre a essência das coisas sociais, se, por exemplo, dis-
serem que elas são redutíveis às outras forças cósmicas. A
sociologia não tem de tomar partido por uma das grandes
hipóteses que dividem os metafísicos. Ela não precisa afir-
mar a liberdade nem o determinismo. Tudo o que ela pe-
146 AS REGRAS DO MÉTODO S0G10LÓGICO CONCLUSÃO 147

de que lhe concedam é que o princípio de causalidade se reflexão filosófica. O q uc prccede P foi ca paz de fazer
aplique aos fenômenos sociais. E, ainda assim, esse prin- entrever de que maneira no(:()es essencia is, U is como as
cípio é por ela estabelecido não como uma necessidade de espécie, de órgão, de fun(,'ão, de saúde l' dl' t!oen(:a,
racional, mas somente como um postulado empírico, pro- de causa e de fim, apresentam-sc ncla soh luzes inteira-
duto de uma indução legítima. Visto que a lei da causali- mente novas. Aliás, será que a sociologia não estarj dest i-
dade foi verificada nos outros reinos da natureza e que nada a realçar plenamente uma idéia que podcria muito
progressivamente ela estendeu seu domínio do mundo fí- bem ser a base não apenas de uma psicologia, mas de to-
sico-químico ao mundo biológico, e deste ao mundo psi- da uma filosofia, a idéia de associação?
cológico, é lícito admitir que ela igualmente seja verdadei- Em face das doutrinas práticas, nosso método permite
ra para o mundo social; e é possível afirmar hoje que as e requer a mesma independência. A sociologia, assim en-
pesquisas empreendidas sobre a base desse postulado tendida, não será nem individualista, nem comunista, ném
tendem a confirmá-lo. Mas a questão de saber se a nature- socialista, no sentido que se dá vulgarmente a essas pala-
za do vínculo causal exclui toda contingência nem por is- vras. Por princípio, irá ignorar essas teorias, às quais não
so está resolvida. poderia reconhecer valor científico, já que elas tendem di-
De resto, a própria filosofia tem todo o interesse nes- retamente, nào a exprimir os fatos, mas a reformá-los. Pelo
sa emancipação da sociologia. Pois, enquanto o sociólogo menos, se se interessa por elas, é somente na medida em
não se separou suficientemente do filósofo, ele só consi- que as vê como fatos sociais capazes de ajudá-la a com-
dera as coisas sociais por seu lado mais geral, aquele pelo preender a realidade social, ao manifestarem as necessida-
qual elas mais se assemelham às outras coisas do univer- des que movem a sociedade. Isso não quer dizer, porém,
so. Ora, se *a sociologia assim concebida pode servir para que a sociologia deva se desinteressar das questões práti-
ilustrar com fatos curiosos uma filosofia, ela não poderia cas. Põde-se ver, ao contrário, que nossa preocupação
enriquecê-la com idéias novas, uma vez que ela nada as- constante era orientá-la de maneira que pudesse alcançar
sinala de novo no objeto que estuda. Mas, em realidade, resultados práticos. Ela depara necessariamente com esses
se* os fatos fundamentais do~ outros reinos se verificam problemas ao término de suas pesquisas. Mas, exatamente
no reino social, é sob formas **especiais que fazem com- por só se apresentarem a ela nesse momento e por decor-
rerem portanto dos fatos e nào das paixões, pode-se pre-
preender melhor sua natureza, por serem sua expressão
ver que tais problemas devam se colocar para o sociúlogo
mais elevada**. Só que, para percebê-los sob esse aspec-
em termos muito diferentes do que para a Illul! id;ío, l' qlll'
to, é preciso sair das generalidades e entrar no detalhe
as soluções, aliás parciais, que ele é capaz de propor n;I()
dos fatos. É deste modo que a sociologia, à medida que
poderiam coincidir exatamente com nenlilllll;1 d;lqlll'l;IS
se especializar, irá fornecer materiais mais originais para a
nas quais se detêm os partidos. O papel lh s()ci()l()gia,
* Desenvolvimento que não flgura no texto inicial.
desse ponto de vista, devc justamcnte c()nsist ir l'lll n()s li-
*' "novas e que por isso mesmo fazem compreender melhor sua bertar de todos os partidos, não tanto por ()por lIlll;1 d()ll-
natureza". (R.P., p. 179,) trina às doutrinas, e sim por fazcr os espíritos asslllllirclll,
148 AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO CONCLUSÃO 149

diante de tais questões, uma atitude especial que somente outras, como são demonstradas de outro modo, ou me-
a ciência pode proporcionar pelo contato direto com as lhor, é somente então que se sente a necessidade de de-
coisas. Com efeito, somente ela pode ensinar a tratar com monstrá-las. Se os fenômenos sociolúgicos forem apenas
respeito, mas sem fetichismo, as instituições históricas se- sistemas de idéias objetivas, explicá-los é repens;i-Ios em
jam elas quais forem, fazendo-nos perceber o que elas têm sua ordem lógica e essa explicação é sua prúpria prova;
ao mesmo tempo de necessário e de provisório, sua força quando muito será o caso de confirmá-la por alguns
de resistência e sua infinita variabilidade. exemplos. Ao contrário, somente experiências metúdicas
Em segundo lugar, nosso método é objetivo. Ele é in- são capazes de arrancar das coisas seu segredo.
teiramente dominado pela idéia de que os fatos sociais são Mas, se consideramos os fatos sociais como coisas, é
coisas e como tais devem ser tratados. Certamente, esse como coisas sociais. É um terceiro traço característico de
princípio se encontra, sob forma um pouco diferente, na nosso método o de ser exclusivamente sociológico. Mui-
base das doutrinas de Comte e de Spencer. Mas esses tas vezes se pensou que tais fenômenos, por causa de sua
grandes pensadores deram muito mais sua fórmula teórica extrema complexidade, ou eram refratários à ciência, ou
do que o puseram em prática. Para que ela não permane- só poderiam entrar nela reduzidos a suas condições ele-
cesse letra morta, não bastava promulgá-la; era preciso tor- mentares, sejam psíquicas, sejam orgânicas, isto é, despo-
ná-la a base de toda uma disciplina que se apoderasse do jados de sua natureza própria. Procuramos estabelecer, ao
cientista no momento em que ele abordasse o objeto de contrário, que era possível tratá-los cientificamente sem
suas pesquisas e que o acompanhasse em todos os seus nada retirar-lhes de seus caracteres específicos. Inclusive
passos. Foi a instituir essa disciplina que nos dedicamos. recusamos reduzir a imaterialidade sui generis que os ca-
Mostramos como o sociólogo deveria afastar as noções an- racteriza àquela, nào obstante já complexa, dos fenôme-
tecipadas que possuía dos fatos, a fim de colocar-se diante nos psicolqgicos; com mais forte razão nos proibimos de
dos fatos mesmos; como deveria atingi-los por seus carac- absorvê-Ia, como faz a escola italiana, nas propriedades
teres mais objetivos; como deveria requerer deles próprios gerais da matéria organizada 1. Mostramos que um fato so-
o meio de classificá-los em saudáveis e em mórbidos; co- cial só pode ser explicado por outro fato social, e, ao
mo, enfim, deveria seguir o mesmo princípio tanto nas ex- mesmo tempo, indicamos de que maneira esse tipo de
plicações que tentava quanto na maneira pela qual prova- explicação é possível ao assinalarmos *no meio sodal in-
va essas explicações. Pois, quando se tem o sentimento de terno o motor principal da evolução coletiva". A sociolo-
estar em presença de coisas, nem sequer se pensa mais gia, portanto, não é o anexo de nenhuma outra cii'nda;
em explicá-las por cálculos utilitários ou por raciocínios de ela própria é uma ciência distinta e auttH1ollla, l' () sl'nti
qualquer espécie. Compreende-se muito bem a distância
que há entre tais causas e tais efeitos. Uma coisa é uma * "uma ordem de causas dotadas dl' sul"ki"I1I,' "'1<'1"11<'1'1 1',11,1
tornar inteligível a produ\;ào dos l'fl'ilos '1Ul' 111<',' ai lÍ"lIl11 11 ", ,. ",1"1,1111,,
força que não pode ser engendrada senão por outra força.
próximas desses efeitos para podl'r l'xplicí-Ios ,"'111 '111l' "'1,1 lu""',,,,"III, I
Buscam-se então, para explicar os fatos sociais, energias desnaturá-los por uma simplificl~':io arlilki,lI: Irala M' ela" pr"l"f,'e1,"I<'"
capazes de produzi-los. As explicações não apenas são do meio social". (R.P., id., p. lHU
150 AS REGRAS DO MÉTODO S0G10LÓGICO CONCLUS'ÃO 1')1

mento da especificidade da realidade social é inclusive ao contrário, que chegou, para a sociologia, o momento
tão necessário ao sociólogo, que somente uma cultura es- de renunciar aos sucessos mundanos, por assim dizer, e
pecificamente sociológica é capaz de prepará-lo para a de assumir o caráter esotérico que cOIwl'm a toda ci0ncia.
compreensão dos fatos sociais. Ela ganhará assim em dignidade e em autoridade o que
Consideramos que esse progresso é o mais importan- perderá talvez em popularidade. Pois, enquanto lwrmane-
te dos que restam a ser feitos em sociologia. Certamente, cer misturada às lutas dos partidos, enquanto se contentar
quando uma ciência está por nascer, somos obrigados, pa- em elaborar, com maís lógica do que o vulgo, as idl'ias
ra formá-la, a nos referir aos únicos modelos existentes, ou comuns e, por conseguinte, enquanto não supuser nl'-
seja, às ciências já constituídas. Existe aí um tesouro de ex- nhuma competência especial, ela não estará habilitada a
periências proQtas que seria insensato não aproveitar. En- falar suficientemente alto para fazer calar as paixôes e os
tretanto, uma ciência só pode considerar-se definitivamen- preconceitos. Seguramente, ainda está distante o tempo
te constituída quando conseguir formar-se uma personali- em que ela poderá desempenhar essé papel com eficácia;
dade independente. Pois ela só terá razào de ser, se tiver no entanto, é para torná-la capaz de representá-lo um dia
por objeto uma ordem de fatos que as outras ciências não que precisamos, desde agora, trabalhar.
estudam. Ora, é impossível que as mesmas noções possam
convir identicamente a coisas de natureZa diferente.
Tais nos parecem ser os princípios do método socio-
lógico.
Esse conjunto de regras talvez parecerá inutilmente
complicado, se o compararmos aos procedimentos cor-
rentemente utilizados. Todo esse aparato de precauções
pode parecer muito trabalhoso 'para uma ciência que, até
aqui, reclamava dos que a ela se consagravam pouco
mais do que uma cultura geral e filosófica,' e é certo que
põr em prática tal método não poderia ter por efeito vul-
garizar a curiosidade das coisas sociológicas. Quando se
pede às pessoas, como condição de iniciação prévia, para
se desfazerem dos conceitos que têm o hábito de aplicar
a uma ordem de coisas para repensá-las com novos esfor-
ços, nào se pode esperar recrutar uma clientela numerosa:
Mas esse não é o objetivo que almejamos. Acreditamos,

, "quando se sahe com que facilidade espíritos elegantes e sutis


se divertem em meio aos fenômenos sociais," (R.P., p. 182.)
NOTAS

Prefácios

1. Mas, objetam-nos, se a saúde contém elementos execrá-


veis, como apresentá-la, tal como fazemos mais adiante, como o
objetivo imediato da conduta? Nisso não há nenhuma contradi-
ção. Acontece a todo instante que uma coisa, embora prejudicial
por algumas de suas conseqüências, seja, por outras, útil ou
mesmo necessária à vida; ora, se os maus efeitos que ela tem
são regularmente neutralizados por uma influência contrária, ve-
rifica-se de fato que ela serve sem prejudicar, não obstante con-
tinue sendo execrável, pois nào deixa de constituir por si mes-
ma um perigo eventual que só é conjurado pela ação de uma
força antagônica. É o caso do crime; o mal que ele faz à socie-
dade é anulado pela pena, se esta funcionar regularmente. Por-
tanto, o crime mantém com as condições fundamentais da vida
as relações positivas que veremos a seguir, sem produzir o mal
que implica. Só que, como ele se torna inofensivo contra sua
vontade, por assim dizer, os sentimentos de aversão que suscita
não deixam de ter fundamento.
2. O que significa que ele nào deve ser confundido com a
metafísica positivista de Comte e de Spencer.
154 AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO NOTAS 1'i 'i

3. Vê-se que, para admitir essa proposição, não é necessá- de nós o colore ã sua maneira, e que sujeilos dikrellles se adap-
rio afirmar que a vida social é feita de algo mais do que repre- tam diferentemente a Ulll mesmo meio físico. Por is"o, l'lll cerLl
sentações; basta estabelecer que as representações, individuais medida, cada um de nós faz sua mora!, sua religi;lo, sua Il'Cllicl.
ou coletivas, só podem ser estudadas cientificamente com a con- Não há conformismo social que nào comporte loda uma g;IIlU
dição de serem estudadas objetivamente. de nuances individuais. Não obstante, o campo das v;lriae;(lL'S
4. A proposição, aliás, é só parcialmente exata. Além dos permitidas é limitado. Ele é nulo ou muito pequeno no círculo
indivíduos, há as coisas que são elementos integrantes da socie- dos fenômenos religiosos e morais, onde a variaçào torna-se fa-
dade. É verdade, porém, que os indivíduos são seus únicos ele- cilmente um crime; é mais amplo em tudo o que concerne ;, vi-
mentos ativos. da econômica. Mas, cedo ou tarde, mesmo nesse último caso,
5. É inútil mostrar como, desse ponto de vista, a necessida- chega-se a um limite que não pode ser franqueado.
de de estudar os fatos a partir do exterior afigura-se ainda mais
evidente, uma vez que eles resultam de sínteses que ocorrem fo-
ra de nós e das quais não temos sequer a percepção confusa Introdução
que a consciência pode nos dar dos fenômenos interiores.
6. O poder coercitivo que lhe atribuímos não representa a 1. .s:Vsteme de Logique, I, VI, capo VII-XII.
totalidade do fato social, tanto assim que este pode apresentar 2. Ver Cours de philosophie positive, 2ª ed., pp. 294-336.
igualmente o caráter oposto. Pois, ao mesmo tempo que 'as insti-
tuições se impõem a nós, aderimos a elas; elas nos obrigam e as
amamos; elas nos constrangem e vemos vantagens em seu fun- Capítulo I
cionamento e nesse constrangimento mesmo. Essa antítese é a
que os moralisLls com freqüência assinalaram entre as noções 1. O que não quer dizer, todavia, que toda cocrçào seja
do bem e do dever, que exprimem dois aspectos diferentes, mas normal. Voltaremos mais adiante a esse ponto.
igualmente reais, da vida moral. Ora, talvez não haja práticas co- 2. As pessoas não se suicidam em qualquer idade, nem em
letivas que não exerçam sobre nós essa dupla ação, que só é todas as idades. com a mesma intensidade.
contraditória, aliás, em aparência. Se não as definimos por essa 3. Vê-se o quanto essa definiçàodo fato social distancia-se
adesão especial, ao mesmo tempo interessada e desinteressada, da que serve de base ao engenhoso sistema de Gabriel Tarde.
é simplesmente porque esta não se manifesta por sinais exterio- Primeiramente, devemos declarar que nossas pesquisas n;ío !10S
res, facilmente perceptíveis. O bem tem algo de mais interno, de fi~eram constatar em parte alguma essa influência preponderallll'
mais íntimo que o dever, portanto de menos discernível. que o sr. Tarde atribui à imitação na gênese dos falos cole! iVCl,~,
7. Ver o artigo "Sociologie" da Grande Encyc!opédie, redigi- Ademais, da definic,;ão precedente, que n;lo é uma Il'oria, 111;\.'
do por Fauconnet e Mauss. um simples resumo dos dados imediatos da o!lSl'rV;I,'ao, p;m'('('
8. Do fato de que as crenças e as práticas sociais nos pene- resultar claramente que não apenas a il1li!a~';lo IH'III M'l1lpl'l' ('X
tram a partir do exterior, não se segue que as recebamos passi- prime, mas inclusive também jamais exprillll' () qlll' lia d(' ('"",'11
vamente e sem lhes imprimir modificação. Ao pensarmos as ins- cial e característico no fato social. Claro qlll' ICldCl LI!Cl ,'CI('i;iI ('
tituiçües coletivas, ao assimilá-Ias internamente, nós as individua- imitado; ele possui, como acahalllo,~ dl' 111(),~!rar, 11111;1 1('IHIl'I1l'ia ,I
lizamos, conferimos a elas, em maior ou menor grau, nossa mar- generalizar-se; mas isso por de ser s()l'Íal, i.~!cl (', ClhrigalClriCl, ,"11,1
ca pessoal; é assim que, ao pensar o mundo sensível, cada um força de expansào é, n;ío a causa, Illas a (,Cl!1Sl'qiil"I1l'i;1 dl' ,~('II (';1
156 AS REGRAS DO MfTODO S0G10LÓGICO NOTAS 157

ráter sociológico. Se os fatos sociais fossem os únicos a produzir 10. É verdade que a complexidade maior dos fatos sociais
essa conseqüência, a imitação poderia ainda servir, senão para torna sua ciência mais árdua. Mas, em compensa~:,ío, precisa-
exprimi-los, ao menos para defini-los. Mas um estado individual mente porque a sociologia é a última a chegar, ela est:l em con-
que é imitado nem por isso deixa de ser individual. Além disso, dições de aproveitar os progressos realizados pelas ciências in-
pode-se perguntar se a palavra imitação é exatamente a que con- feriores e de instruir-se na escola delas. Essa utilização das expe-
vém para designar uma propagação devida a uma influência coer- riências realizadas não pode deixar de acelerar seu desenvolvi-
citiva. Sob essa expressão única, confundem-se fenômenos muito mento.
diferentes e que precisariam ser distinguidos. 11. J. Darmesteter, Les prophetes d'L'irai.H, p. 9 .
4. Esse íntimo parentesco da vida e da estrutura, do órgão • 12. Na prática, é sempre do conceito vulgar e da palavra
e da função, pode ser facilmente estabelecido em sociologia vulgar que se parte. Busca-se saber se, entre as coisas que essa
porque, entre esses dois termos extremos, existe toda uma série palavra confusamente conota, há 'algumas que apresentam carac-
de intermediários imediatamente observáveis e que mostra a li- teres comuns exteriores. Se houver. e se o conceito formado pelo
gação entre eles. A biologia não dispõe do mesmo recurso. Mas grupamento dos fatos assim aproximados coincidir, se não total-
é lícito supor que as induções da primeira dessas ciências sobre mente (o que é raro), pelo menos na maior parte, com o concei-
tal questão são aplicáveis ã outra e que, tanto nos organismos to vulgar, poder-se-á continuar a designar o primeiro pela mesma
como nas sociedades, existem apenas diferenças de grau entre palavra que o segundo e conservar na ciência a expressão em-
essas duas ordens de fatos. pregada na língua corrente. Mas, se a distância for muito consi-
derável, se a noção comum confundir uma pluralidade de noções
distintas, a criação de termos novos e especiais se impõe.
Capítulo II • Essa nota não figura no texto inicial.
13. É a mesma ausência de definição que fez dizer, às ve-
1. Novum organum, I, p. 26. zes, que a democracia se encontrava igualmente no começo e
2. Ibid., I, p. 17. no fim da história. A verdade é que a democracia primitiva e a
3. Ibid., p. 36. atual são muito diferentes uma da outra.
4. Sociol., tr. fr., I1I, pp. 331, 332. 14. Criminologie, p. 2.
5. Ibid., p. 332. 15. Ver Lubbock, Les origines de la civilisation, capo VIII.
6. Concepção, aliás, controversa. (Ver Division du travail Mais geralmente ainda, diz-se, não menos falsamente, que as re-
social, 11, p. 2, < > 4,) ligiões antigas são amorais ou imorais. A verdade é que elas têm
7. "A cooperação não poderia portanto existir sem socieda- uma moralidade própria.
de, e é o objetivo para o qual uma sociedade existe." (Principes 16. Seria preciso, por exemplo, ter razões para acreditar
de Sociol., m, p. 332.) que, num momento dado, o direito não mais exprima o estado
8. Systeme de Logique, 111, p. 496. verdadeiro das relações sociais, para que essa substituição não
9. Esse caráter sobressai das expressões mesmas emprega- seja legítima.
das pelos economistas. A todo instante se trata de idéias, da 17. Ver Division du travail social, 1. I.
idéia do útil, da idéia de poupança, de emprego do dinheiro, de 18. Cf. nossa Introduction à la Sociologie de la famille, in
despesa. (Ver Gide, Principes d'économie politique, liv. m, capo Annales de la Faculté des lettres de Bordeaux, ano de 1889.
I, < > 1; capo 11, < > 1, capo m, < > 1.)
158 AS REGRAS DO MÉ7DDO SOClmÓGICO NOTAS 159

Capítulo 1II ra todo o genus homo. Acahamos de moslrar, a() conlJ';Íri(), que
muitas vezes o que é múrhid() para o selvagem n;úl o l' para o
* 1. Pode-se distinguir desse modo a doença da monstruo- civilizado. As condi,;<'les da saúde física variam c()m ()s mei()s.
sidade. A segunda só é uma exceção no espaço; ela não se veri- • Essa nota não figura no texto inicial.
fica na média da espécie, mas dura toda a vida dos indivíduos 5. Pode-se perguntar, é verdade, se, quand() um kntlllll'n()
nos quais se manifesta. Percebe-se, de resto, que essas duas or- deriva necessariamente das condiç<les gerais da vida, ele n;i() l'
dens de fatos só diferem em graus e são, no fundo, da mesma útil por isso mesmo. Não podemos tratar essa quesl;i() de fiI()SO-
natureza; as fronteiras entre elas são muito indecisas, pois a doen- fia, mas iremos abordá-la um pouco mais adiante.
ça não é incapaz de qualquer fixidez, nem a monstruosidade de 6. Ver sobre esse ponto uma nota que publicamos na N('-
qualquer transformação. Não podemos portanto separá-las mui- vue philosophique (novembro de 1893) sobre "A defini~';io do
to radicalmente quando as definimos. A distinção entre elas não socialismo" .
pode ser mais categórica do que entre o morfológico e o fisioló- 7. As sociedades segmentares, notadamente as sociedades
gico, uma vez que, em suma, o mórbido é o anormal na ordem segmentares com base territorial, são aquelas cujas articula\;<les
fisiológica, assim como o teratológico é o anormal na ordem essenciais correspondem ãs divisões territoriais. (Ver Divisiol1
anatômica. du travail social, pp. 189-210,)
* Essa nota não figura no texto inicial. 8. Em certos casos, pode-se proceder um pouco diferente-
2. Por exemplo, o selvagem que tivesse o tubo digestivo mente e demonstrar que um fato cujo caráter normal é suspeito
reduzido e o sistema nervoso desenvolvido do civilizado sadio merece ou não essa suspeita, mostrando-se que ele está intima-
seria um doente em relação a seu meio. mente ligado ao desenvolvimento anterior do tipo social consi-
3. Abreviamos essa parte de nossa exposição; pois não pode- derado e, mesmo, ao conjunto da evolução social em geral, ou,
mos senão repetir aqui, a propósito dos fatos sociais em geral, o ao contrário, que contradiz a ambos. Foi dessa maneira que pu-
que dissemos alhures a propósito da distinção dos fatos morais em demos demonstrar que o enfraquecimento atual das crenças reli-
normais e anormais. (Ver Divisirm du trauail social, pp. 33-39,) giosas e, de maneira mais geral, dos sentimentos coletivos por
*4. O sr. Garofalo tentou, é verdade, distinguir o mórbido objetos coletivos é apenas normal; provamos que esse enfraque-
cio anormal (Criminologie, pp. 109, 110). Mas os dois únicos ar- cimento torna-se cada vez mais pronunciado à medida que as
gumentos sobre os quais ele apóia essa distinçào são os seguin- sociedades se aproximam de nosso tipo atual e que este, por
tes: 1) A palavra doença significa sempre algo que tende à des- sua vez, é mais desenvolvido (Division du travail social, pp. 73-
truição total ou parcial do organismo; se não houver destruição, 182). Mas, no fundo, esse método é apenas um caso particular
há cura, jamais estabilidade como em várias anomalias. Mas aca- do precedente. Pois, se a normalidade desse fenômeno pôde ser
bamos de ver que também o anormal é uma ameaça ao ser vivo estabelecida dessa forma, é que, com isso, ele foi associado às
na média dos casos. f: verdade que nem sempre é assim; mas os condições mais gerais de nossa existência coletiva. De fato, por
perigos que a doença implica só existem igualmente na genera- um lado, se essa regressào da consciência religiosa é tanto mais
lidade das circunstâncias. Quanto à ausência de estabilidade que acentuada quanto mais determinada for a estrutura de nossas so-
distinguiria o mórbido, é esquecer as doenças crônicas e separar ciedades, é que ela se deve não a uma causa acidental, mas à
radicalmente o teratológico do patológico. As monstruosidades constituição mesma de nosso meio social; e como, por outro la-
são fixas. 2) O normal e () anormal variam com as raças, dizem, do, as particularidades características desta última são certamen-
enquanto a distinção do fisiológico e do patológico é válida pa- te mais desenvolvidas hoje do que um tempo atrás, é normal
160 AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOLÓGICO NOTAS 161

que os fenômenos que delas dependem sejam eles próprios am- da, no qual nào pode ser substituída. 'Seria portanto desnaturar
plificados. Esse método difere do anterior somente no fato de singularmente nosso pensamento apresentá-lo COIllO ullla apolo-
que as condições que explicam e justificam a generalidade do gia do crime. Nào pensaríamos sequer em protestar contra tal in-
fenômeno sào induzidas e nào diretamente observadas. Sabe-se terpretação, se nào soubéssemos a que estranhas acusa~'()es e a
que esse fenômeno está ligado à natureza do meio social sem que mal-entendidos alguém se expõe, quando empreende estu-
saber em que nem como. dar os fatos morais objetivamente e falar deles numa linguagem
9. Mas nesse caso, dirào, a realização do tipo normal nào é que não é a do vulgo.'
o objetivo mais elevado que se pode propor, e, para superá-lo, • Frases que não figuram no texto inicial.
é preciso também superar a ciência. Não precisamos tratar aqui 14. Ver Garofalo, Criminologie, p. 299.
essa questão ex professo; respondamos apenas: 1) que ela é in- , 15. Da teoria desenvolvida neste capítulo concluiu-se ãs
teiramente teórica, pois, na verdade, o tipo normal, o estado de vezes que, em nossa opinião, a marcha ascendente da criminali-
saúde, já é bastante difícil de realizar e muito raramente alcança- dade ao longo do século XIX era um fenômeno normal. Nada
do para que façamos funcionar a imaginaçào em busca de algo mais distante de nosso pensamento. Vários fatos que indicamos
melhor; 2) que esses melhoramentos, objetivamente mais vanta- a propósito do suicídio (ver Le Suicide, p. 420 e ss.) nos levam a
josos, nem por isso sào objetivamente desejáveis; pois, se não pensar, ao contrário, que esse desenvolvimento é, em geral,
correspondem a alguma tendência latente ou em ato, eles nada mórbido. Contudo, poderia ocorrer que certo crescimento de al-
acrescentariam ã felicidade, e, se correspondem a alguma ten- gumas formas de criminalidade fosse normal, pois cada estado
dência, é porque o tipo normal não está realizado; 3) enfim que, de civilizaçào tem sua criminalidade própria. Mas a esse respeito
para melhorar o tipo normal, é preciso conhecê-lo. Portanto, se- não se podem emitir mais que hipóteses.
, Nota introduzida na ediçào de 1901.
ja como for, só se pode superar a ciência apoiando-se nela.
10. Do fato de o crime ser um fenômeno de sociologia nor-
mal, nào se segue que o criminoso seja um indivíduo normal-
Capítulo IV
mente constituído do ponto de vista biológico e psicológico. As
duas questões sào independentes uma da outra. Compreender-
1. Chamo-o assim porque ele foi freqüente entre os historia-
se-á melhor essa independência quando tivermos mostrado,
dores, mas não quero dizer que se verifique em todos.
mais adiante, a diferença existente entre os fatos psíquicos e os 2. Cours de philos. pos., IV, p. 263.
fatos sociológicos.
3. Novum organum, n, < > 36.
11. Calúnias, injúrias, difamação, dolo, etc. 4. Sociologie, n, p. 135.
12. Nós mesmos cometemos o erro de falar assim do crimi- 5. "Nem sempre podemos dizer com precisào o que consti-
noso, por não termos aplicado nossa regra CDivision du travail tui uma sociedade simples." CIbid., pp. 135, 136.)
social, pp. 39\ 396). 6. Ibid., p. 136.
13. Aliás, de que o crime seja um fato de sociologia normal 7. Division du travail social, p. 189.
nào se segue que não se deva odiá-lo. Também a dor nada tem 8. Todavia é provável que, em geral, a distância entre as
de desejável; o indivíduo a odeia assim como a sociedade odeia sociedades componentes nào fosse muito grande; caso contrá-
o crime, e não obstante ela tem a ver com a fisiologia normal. rio, nào poderia haver entre elas nenhuma comunidade moral.
Ela não apenas deriva necessariamente da constituiçào mesma 9. Não é esse o caso do Império romano, que parece nào
de todo ser vivo, mas também desempenha um papel útil na vi- ter equivalente na história?
162 AS REGRAS DO Mh7'ODO SOClOLC)GICO NOTAS 163

• 10. Ao redigirmos este capítulo para a primeira edição desta 4. Não gostaríamos de levantar questôes de filosofia geral, .
obra, nada dissemos do método que consiste em classificar as socie- que não estariam aqui em seu lugar apropriado. Notemos po-
dades segundo seu estado de civilização. Naquele momento, com rém que, mais bem estudada, essa reciprocidade da causa e do
efeito, não existiam classificações desse gênero que fossem propos- efeito poderia proporcionar um meio de reconciliar o mecanis-
tas por sociólogos autorizados, exceto talvez aquela, evidentemente mo científico com o finalismo que a existência e sobretudo a
arcaica, de Comte. Desde então, várias tentativas foram feitas nesse persistência da vida implicam.
sentido, notadamente por Vierkandt (Die Kulturtypen der Mens- 5. Diuision du travail, 1. lI, capo lI, e notadamente pp. lOS
cheit, in Archiv. .f A nthropologie, 1898), por Sud1erland (The Orígin e ss.
and Growth 0/ the Moral Instinct) e por Steinmetz (Cla":'i'/lcation 6. Ibid., pp. 52, 53.
des t}pes sociaux, in Année sociologique, m, pp. 43-147). Todavia, 7. Ibid., pp. 301 e ss.
não nos deteremos a discuti-las, pois não respondem ao problema 8. Cours de philos. pos., IV, p. 333.
colocado neste capítulo. Nelas são classificadas, não espécies sociais, 9. Ibid., p. 345.
mas, o que é bem diferente, fases históricas. A França, desde suas 10. Ihid., p. 346.
origens, passou por formas de civilização muito distintas: começou 11. Ihid., p. 335.
12. Príncipes de sociologie, I, 14, p. 14.
por ser agrícola, passando a seguir ao artesanato e ao pequeno co-
1.3. Op. cit., I, p. 583.
mércio, depois ã manufatura e finalmente ã grande indústria. Ora, é
14. Ibid., p. 582.
impossível admitir que uma mesma individualidade coletiva possa
15. Ibid., p. 18.
mudar de espécie três ou quatro vezes. Uma espécie deve ser defi-
16. "A sociedade existe para o proveito de seus membros,
nida por caracteres mais constantes. O estado econômico, tecnoló-
os membros não existem para o proveito da sociedade ... : os di-
gico, etc., apresenta fenômenos demasiado instáveis e complexos
reitos do corpo político nada são em si mesmos, eles só se tor-
para fornecer a base de uma classificação. É possível, inclllsive, que nam alguma coisa se encarnarem os direitos dos indivíduos que
uma mesma civilização industrial, científica, artística possa se verifi-
o compõem." (Op. cit., lI, p. 20,)
car em sociedades cuja constituição congênita seja muito diferente. *17. Eis em que sentido e por que razões se pode e se deve
O Japão pode vir a incorporar nossas artes, nossa indústria, até falar de uma consciência coletiva distinta das consciências indi-
mesmo nossa organização política; nem por isso deixará de perten- viduais. Para justificar essa distinção, não é necessário hipostasiar
cer a uma espécie social diferente das da França e da Alemanha. a primeira; ela é algo de especial e deve ser designada por um
Acrescentemos que essas tentativas, embora conduzidas por soció- termo especial, simplesmente porque os estados que a constituem
logos de valor, forneceram apenas resultados vagos, contestáveis e diferem especificamente daqueles que constituem as consciências
de pouca utilidade. particulares. Essa especificidade decorre de esses estados não
• Nota introdU7:ida na edição de 1901. serem formados dos mesmos elementos. Uns, com efeito, resul-
tam da natureza do ser orgânico-psíquico tomado isoladamente,
os outros da combinação de uma pluralidade de seres desse ti-
Capítulo V po. As resultantes não podem portanto deixar de diferir, visto
que os componentes diferem a tal ponto. Nossa definição do fa-
l. Cours de philos. pos., IV, p. 262. to social, aliás, apenas assinalava de outra maneira essa linha de
2. Sociologie, m, p. 336. demarcaçao .
3. Division du travail, 1. lI, capo III e IV. • Essa nota não figura no texto inicial.
164 AS REGRAS DO MÉTODO SOCIOlÓGICO NOTAS 165

18. Se é que ela existe antes de toda vida social. Ver sobre doutrina, a vida coletiva só é natural na medida em que pode
esse ponto Espinas, Sociétés animales, p. 474. ser deduzida da natureza individual. Ora, somente as formas
19. Division du travail social, 1. lI, capo I. mais gerais da organização social podem, a rigor, ser derivadas
20. Os fenômenos psíquicos só podem ter conseqüências dessa origem. Quanto aos detalhes, encontram-se muito afasta-
sociais quando se encontram tão intimamente unidos a fenôme- dos da extrema generalidade das propriedades psíquicas para
nos sociais que a ação de ambos se confunde. É o caso de cer- poderem ser ligados a elas; assim eles parecem, para os discípu-
tos fatos sociopsíquicos. Assim, um funcionário é uma força so- los dessa escola, tão artificiais quanto para seus adversários. Pa-
cial, mas é ao mesmo tempo um indivíduo. Disso resulta que ele ra nós, ao contrário, tudo é natural, mesmo os arranjos mais es-
pode servir-se da energia social que detém, num sentido deter- peciais; pois tudo está fundado na natureza da sociedade.
minado por sua natureza individual e, deste modo, ter uma in-
fluência sobre a constituição da sociedade. É o que acontece
com os homens de Estado e, de maneira mais geral, com os ho- Capítulo VI
mens de gênio. Estes, mesmo que não cumpram uma função so-
cial, extraem dos sentimentos coletivos de que são objeto uma 1. Cours de philosophie positive, IV, p. 328.
autoridade que constitui, ela própria, uma força social, que eles 2. Systeme de Logique, II, p. 478.
podem, em certa medida, pôr a serviço de idéias pessoais. Mas 3. Diuision du travail social, p. 87.
percebe-se que esses casos são devidos a acidentes individuais *4. No caso do método de diferença, a ausência da causa
e, por conseguinte, não poderiam afetar os traços constitutivos exclui a presença do efeito.
da espécie social, que é o único objeto de ciência. A restrição ao * Essa nota não figura no texto inicial.
princípio enunciado mais acima não é portanto de grande im-
portância para o sociólogo.
21. Cometemos o erro, em nossa Division du travail, de real- Conclusão
çar a densidade material como a expressão exata da densidade
dinâmica. Todavia, a substituição da primeira pela segunda é *1. Portanto, não há motivo para qualificar nosso método
absolutamente legítima em relação a tudo o que concerne aos de materialista.
efeitos econômicos desta, por exemplo, a divisão do trabalho * Essa nota não figura no texto inicial.
como fato puramente econômico.
22. A posição de Comte sobre esse assunto é de um ecletis-
mo bastante ambíguo.
23. Eis por que nem toda coerção é normal. Somente mere-
ce esse nome a que corresponde a alguma superioridade social,
isto é, intelectual ou moral. Mas a que um indivíduo exerce so-
bre outro por ser mais forte ou mais rico, sobretudo se essa ri-
queza não exprime seu valor social, é anormal e só pode ser
mantida pela violência.
24. Nossa teoria é inclusive mais contrária à de Hobbes que
a do direito natural. Com efeito, para os defensores desta última