GRAMÁTICA DO PORTUGUÊS CULTO FALADO NO BRASIL

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Universidade Estadual de Campinas
Reitor
Fernando Ferreira Costa
Coordenador Geral da Universidade
Edgar Salvadori de Decca
Conselho Editorial
Presidente
Paulo Franchetti
Alcir Pécora – Arley Ramos Moreno
Eduardo Delgado Assad – José A. R. Gontijo
José Roberto Zan – Marcelo Knobel
Sedi Hirano – Yaro Burian Junior
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ORGANIZAÇÃO
MARY A. KATO
MILTON DO NASCIMENTO
COORDENAÇÃO GERAL
ATALIBA T. DE CASTILHO
GRAMÁTICA DO PORTUGUÊS
CULTO FALADO NO BRASI L
VOLUME 3
A CONSTRUÇÃO DA SENTENÇA
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Índices para catálogo sistemático:
1. Língua portuguesa – Gramática 469.5
2. Língua portuguesa – Português falado – Brasil 469.5
Copyright © by Organizadores
Copyright © 2009 by Editora da Unicamp
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ou outros quaisquer sem autorização prévia do editor.
Gramática do português culto falado no Brasil / coordenação Geral: Ataliba T. de
Castilho; organização: Mary Aizawa Kato, Milton do Nascimento. – Campinas, SP:
Editora da Unicamp, 2009.
Conteúdo: vol. 3. A construção da sentença.
1. Língua portuguesa – Gramática. 2. Língua portuguesa – Português falado – Brasil.
I. Castilho, Ataliba Teixeira de. II. Kato, Mary Aizawa. III. Nascimento, Milton do.
IV. Título.
cdd 469.5
isbn 978-85-268-0871-3
G761
Editora da Unicamp
Rua Caio Graco Prado, 50 – Campus Unicamp
Caixa Postal 6074 – Barão Geraldo
cep 13083-892 – Campinas – sp – Brasil
Tel./Fax: (19) 3521-7718/7728
www.editora.unicamp.br – vendas@editora.unicamp.br
ficha catalográfica elaborada pelo
sistema de bibliotecas da unicamp
diretoria de tratamento da informação
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SUMÁRIO
APRESENTAÇÃO
Mar y A. Kato, Mi l ton do Nasci mento ................................................................................................................. 7
SÍMBOLOS ..................................................................................................................................................................................... 17
1 A ARQUITETURA DA GRAMÁTICA
Mar y A. Kato, Carl os Mi oto .................................................................................................................................... 19
2 COMPLEMENTAÇÃO
Soni a Cyri no, Jai ro Nunes, Emi l i o Pagotto ................................................................................................. 43
3 PREDICAÇÃO
Rosane de Andrade Berl i nck, Mari a Eugêni a Lamogl i a Duarte,
Mari l za de Ol i vei ra ........................................................................................................................................................ 97
4 ADJUNÇÃO
Maura A. Frei tas Rocha, Ruth E. Vasconcel l os Lopes ........................................................................189
5 AS CONSTRUÇÕES-Q NO PORTUGUÊS BRASILEIRO FALADO
Mari a Lui za Braga, Mar y A. Kato, Carl os Mi oto .................................................................................. 237
6 A INTERAÇÃO ENTRE ADJUNTOSE DISCURSIVOS
Mari a Lui za Braga, Mi l ton do Nasci mento ................................................................................................291
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .....................................................................................................................................323
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7
APRESENTAÇÃO*
Mary A. Kato**
Milton do Nascimento***
1. Caracterização do volume
Assim como os demais volumes da série, este livro é parte de uma gramática
do Português Brasileiro Falado (PBF), revelada por estudos linguísticos do
subprojeto Relações Gramaticais no Português Brasileiro Falado (RGPBF),
que teve, como banco de dados, o corpus Nurc (Norma Urbana Culta). A
descrição se limita aos aspectos relativos às relações gramaticais, não incluindo
classes de palavras, morfologia e fonologia, aspectos textuais, objetos de outros
volumes da série. Contudo, por se tratar da gramática da língua falada, inclui
o estudo da interação de elementos sintáticos com os discursivos na ordem
linear dos enunciados.
O projeto RGPBF foi inicialmente coordenado por Fernando Tarallo e
Mary A. Kato, ambos da Unicamp, tendo sido conduzido, após o falecimen-
to de Fernando Tarallo, por Mary A. Kato, com a colaboração, em ocasiões
distintas, de Charlotte Galves (Unicamp) e Milton do Nascimento (UFMG).
Dele participaram, como pesquisadores, professores e alunos de pós-gradua-
ção, alguns hoje professores em instituições superiores do país. A lista inclui
apenas pesquisadores que tiveram autoria em algum trabalho publicado do
* Projeto temático Fapesp (Proc. n
o
91/1.024-0) coordenado por Mary A. Kato (1992-1996). Sobre esse
projeto, consultem-se os vols. I-VIII da série Gramática do Português Falado (Castilho, 1991; Ilari,
2002; Castilho, 1993; Castilho e Basílio, 1996; Kato, 1996b; Koch, 1996; Neves, 1999; Abaurre e
Rodrigues, 2002 ), em que aparecem, como autores, todos os que participaram nas versões originais
dos trabalhos de pesquisa. Sobre o corpus Nurc, consulte-se Castilho (1989).
** Universidade Estadual de Campinas/CNPq (Proc. n
o
303.274/2005-0).
*** Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais.
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MARY A. KATO

MILTON DO NASCIMENTO
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subprojeto. Aqui a vinculação desses participantes aparece como era na ocasião
do projeto. São eles:
1) da Unicamp: (professores) Fernando Tarallo, Mary A. Kato, Charlotte
Galves, Maria Bernadete Abaurre, Maria Luiza Braga; (alunos) Alvana
Boff, Carlos Mioto, Dercir P. de Oliveira, Emilio Paggotto, Eunice Nico-
lau, Jairo M. Nunes, Helena Britto, Maria Aparecida Lopes-Rossi, Maura
Alves de Freitas Rocha, Nilmara Sikansi, Nilza Barroso Dias, Rosana
de Andrade Berlinck, Ruth Moino, Sonia Cyrino, Vicente Cerqueira e
Vilma Reche Correa;
2) da UFRJ: (professores) Célia T. Oliveira, Dinah Callou, Giselle M. O.
Silva, João Morais, Yone Leite; (alunos) Andréa Rodrigues, Carmen Lúcia
de Castro, Cecília Moreira, Julia Fernandes Lopes, Julio César Souza de
Oliveira, Kátia Vitória Santos, Lílian C. Teixeira, Maria Annita Marques
dos Santos, Mônica E. de Lima, Mônica Orsini, Elenice Costa e Violeta
Rodrigues;
3) da UFMG: (professores) Maria Beatriz Decat, Michael Dillinger e Milton
do Nascimento.
O presente volume foi elaborado por um subgrupo de pesquisadores que
efetivamente participou do projeto RGPBF, com exceção de Maria Eugênia
Lamoglia Duarte e Marilza de Oliveira, que ajudaram a retrabalhar o capítulo
sobre predicação. O trabalho de reescritura dos tópicos desenvolvidos no
projeto foi feito com os seguintes objetivos em mente:
1) completar as lacunas descritivas e argumentativas dos trabalhos originais;
2) dar maior legibilidade aos textos para adequá-los ao público-alvo;
3) comparar os fenômenos estudados eventualmente com outros trabalhos
congêneres posteriores e com a própria reflexão teórica atual dos cola-
boradores do presente volume;
4) sistematizar formalmente os aspectos trabalhados para dar uma iniciação
àqueles não-familiarizados com a teoria formal subjacente às descrições.
O livro tem como destinatário um leitor não-especialista em linguística
formal, mas aberto a inovações conceituais, terminológicas e técnicas, que
fogem aos usos convencionais da gramática tradicional. Todos os capítulos
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APRESENTAÇÃO
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conterão, além da descrição de um tipo de relação gramatical, uma iniciação
aos aspectos estruturais subjacentes às relações estudadas.
O conteúdo do livro é o de uma gramática descritiva, não tendo caráter
normativo. Não há a preocupação em prescrever os usos bem-aceitos insti-
tucionalmente, mas sim em retratar o que se observa no Português do Brasil
(PB) falado por indivíduos cultos, em diferentes contextos discursivos, inde-
pendentemente de critérios valorativos de certo e errado. Ao incluir dados
de vários tipos, desde elocuções formais até conversações face a face, o livro
fornece alguns aspectos de variação que levam em conta a formalidade/in-
formalidade do discurso.
2. Objeto de estudo
As análises apresentadas neste e nos demais volumes da Gramática do
Português Falado são baseadas no corpus compartilhado do projeto da norma
linguística urbana culta do Brasil, que selecionou um tipo de inquérito por
capital, listados a seguir com seu número de catálogo. No corpo do texto,
os exemplos são identificados pelo tipo de inquérito: D2 (diálogo entre dois
informantes); DID (diálogo entre documentador e informante; EF (elocução
formal), seguidos da identificação da capital: REC (Recife), SSA (Salvador),
RJ (Rio de Janeiro), SP (São Paulo) e POA (Porto Alegre):
D2 REC 05, D2 SSA 98, D2 RJ 355, D2 SP 360, D2 POA 291
DID REC 131, DID SSA 231, DID RJ 328, DID SP 234, DID POA 45
EF REC 337, EF SSA 49, EF RJ 379, EF SP 405, EF POA 278
Na presente reescritura, apenas o capítulo 5 fez uso de um corpus expandido
de São Paulo e faz referências a exemplos retirados da imprensa.
Delimita-se como objeto de estudo deste volume o desempenho linguís-
tico dos falantes cultos na produção de enunciados constituintes de textos
orais, um objeto externo, observável através do corpus gravado de falantes
brasileiros. Entende-se que o que subjaz a esse produto é a capacidade desses
falantes de produzir enunciados a partir de um sistema complexo, de com-
ponentes multifacetados da faculdade da linguagem, que interagem entre si
de maneira ainda pouco compreendida. O uso parcial da metodologia da
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MILTON DO NASCIMENTO
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variação na fase da pesquisa permite, contudo, chegar a algumas generalizações
empíricas sobre o seu funcionamento, isto é, tais estudos podem ser um ca-
minho, indireto, para desvendar como se dá a interação de pelo menos alguns
desses componentes.
O objeto de estudo é, portanto, a língua produzida e registrada em corpus,
a que Chomsky (1986) chama de Língua-E (externa e extensional), mas utiliza-
se também a intuição dos falantes que participaram deste estudo, além dos
dados encontrados em artigos de natureza teórica e/ou empírica.
3. A concepção de gramática utilizada
Embora o objeto de estudo seja a Língua-E, encontrada em corpus, entende-
se que o desempenho linguístico do falante/ouvinte engloba necessariamente,
como um dos componentes mentais que a produziu, a gramática internalizada
(a Língua-I), como postula Chomsky (1999, p. 244), segundo o qual:
(1) A língua está encaixada em sistemas de performance que permitem que as suas
expressões sejam usadas para articular, interpretar, referir, perguntar, refletir
e exercer outras ações. Podemos considerar que cada DE é um complexo de
instruções para estes sistemas da performance, fornecendo informação relevante
para o seu funcionamento. Se bem que a ideia de que a linguagem é “desenhada
com vista ao uso” ou “bem adaptada às suas funções” não tenha um sentido
claro, esperamos encontrar conexões entre as propriedades da linguagem e a
maneira como é usada.
Nessa perspectiva, enfoca-se, neste volume, a Língua-I como o módulo
que alimenta, com instruções, o sistema de desempenho. Cada capítulo terá,
pois, em sua terceira parte, algumas Descrições Estruturais (árvores) pos-
tuladas para a gramática do português brasileiro. A importância desse tipo
de representação encontra-se nas palavras de Pinker (2002, p. 114), segundo
o qual:
(2) A diferença entre o sistema combinatório artificial, que encontramos nos me-
canismos de cadeias de palavras, e o natural, que encontramos no cérebro
humano, resume-se num verso do poema de Joyce Kilmer: “Só Deus pode
fazer uma árvore”. Uma sentença não é uma cadeia mas uma árvore. Numa
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APRESENTAÇÃO
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gramática humana, palavras se agrupam em sintagmas, como brotos num galho.
O sintagma recebe um nome — um símbolo mental — e pequenos sintagmas
podem ser reunidos em sintagmas maiores.
O que se afirma em (2) pode ser lido na pauta da distinção e correlação, que
se estabelecem, aqui, entre “sentença”, de um lado, e “enunciado” de outro.
Uma sentença não é uma cadeia de palavras, mas uma árvore, como vimos,
acima. Não é um constructo que se encontra de forma visível na materialidade
do enunciado: encontra-se “no cérebro humano”, “numa gramática humana”,
como uma das condições necessárias para a produção dos enunciados.
Segundo o pressuposto acima, um dos componentes da faculdade da lin-
guagem é a Gramática (ou Língua-I), entendida, conforme a visão chomskiana,
como um sistema de Princípios universais, que regem a forma das línguas
humanas, e de Parâmetros estabelecidos conforme a língua do ambiente. Os
primeiros excluem o que não é possível em uma língua natural e os últimos
definem o tipo de língua particular adquirida por um falante. Os padrões
sintáticos que os Parâmetros definem para o PB constituirão a base teórica
de nossa descrição.
O saber linguístico do adulto culto tem, entretanto, outra camada que
provém da escolarização e do seu conhecimento das formas da escrita, do
qual o falante tem até mais consciência do que a que tem da gramática que
adquiriu sem instrução, através dos valores dos Parâmetros selecionados. Em
muitos domínios gramaticais, o falante escolarizado passa, portanto, a con-
tar com formas competitivas para um mesmo sentido, em geral formas con-
servadoras de fases anteriores do português brasileiro, ou, ainda, empréstimos
de formas ditadas pelas normas portuguesas. Por exemplo, para o falante
culto do português brasileiro, a concordância é automática/categórica quan-
do o sujeito está antes do verbo, mas opcional quando aparece depois. Pro-
vavelmente, o falante fará uso da forma (3b), conservadora e aprendida na
escola, em contexto formal e da forma (3b’), inovadora, em fala descontra-
ída. Logo, a língua admite variação sintática, mas a consideração de fatores
externos a ela na descrição do fenômeno permite predizer quando cada for-
ma ocorre, em uma abordagem probabilística. O asterisco será usado quan-
do a ocorrência for impossível para o falante culto. Os exemplos metalin-
guísticos virão gravados em letra normal, enquanto os exemplos retirados
do corpus virão em itálico.
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MILTON DO NASCIMENTO
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(3) a) Os ovos chegaram. a’) *Os ovos chegou.
b) Chegaram os ovos. b’) Chegou os ovos.
A possibilidade de escolha não se limita a aspectos que, através da esco-
larização, podem deixar de ser usados, como o caso da forma (3b’), sem
con cordância, estigmatizada pela escola. Assim, o que temos com as inter-
rogativas (4a) e (4b) é um tipo de variação que pode ser encontrado antes da
escolarização:
(4) a) Onde a Maria mora?
b) A Maria mora onde?
A utilização de um corpus como o Nurc enfatiza o PB em uso como ineren-
temente variável e a descrição como um retrato dessa variação. Essa perspectiva
se justifica tendo em vista que:
1) a metodologia de coleta no Nurc operou com variáveis extragramati cais
como região e tipo de discurso, além de variáveis estritamente linguís-
ticas;
2) o PB falado apresenta, conforme pesquisas diacrônicas, inovações em sua
gramática ainda não absorvidas ou percebidas pelas gramáticas normati-
vas, o que faz prever a ocorrência de formas competitivas na fala de um
indivíduo culto;
3) uma gramática descrita a partir de corpus pode dar pistas concretas do uso
que o falante faz dos vários subsistemas da faculdade da linguagem.
O uso de corpus envolve, muitas vezes, uma assepsia dos dados para eliminar
segmentos típicos da fala, tais como hesitações, repetições, pausas, intromis-
são de elementos discursivos, sem função estritamente gramatical. Todavia,
a descrição de uma gramática da fala torna-se mais fiel a ela se inclui todos
esses itens. A descrição, neste livro, usou os dados em sua íntegra e o resultado
revela como tais elementos se inserem no fluxo da fala, competindo espaço
com outros constituintes gramaticais. Parte desses elementos discursivos são
exigidos pelo planejamento da fala (ex.: hesitações, repetições) ou para aten-
der ao requisito da clareza perceptual, mas muitos têm um estatuto, no nível
textual, de tornar o enunciado uma unidade do discurso. Da mesma forma
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APRESENTAÇÃO
13
que as palavras retiradas do léxico precisam da morfologia flexional para se
realizar na sintaxe, os preenchedores discursivos, juntamente com muitos
adjuntos, parecem ser o estofo necessário para o enunciado se tornar uma
unidade do texto/discurso. Este volume dedica um capítulo especial apenas
para esse tipo de elemento.
O livro privilegia as relações gramaticais no nível sentencial e verbal,
não incluindo relações no interior do sintagma nominal, objeto do volume
referente a classes de palavras.
4. Organização do volume
A apresentação das relações gramaticais neste volume privilegiou uma ordem
que vai da palavra ao discurso: complementação > predicação > adjunção >
construções com elementos deslocados > preenchedores. Nesse sentido, este
volume pressupõe a leitura do volume II da série, sobre classes de palavras e
processos de construção (Ilari e Neves (orgs.), 2008.
No capítulo da “Complementação”, começamos revendo a noção de com-
plementação nas gramáticas tradicionais e, a partir daí, discutimos:
1) a distinção entre argumento externo e argumento interno;
2) tipos de verbos em função de seus complementos;
3) a realização preenchida ou vazia (∅) desses complementos;
4) a forma e a ordem dos complementos foneticamente realizados;
5) a representação estrutural dos padrões de complementação estudados.
No capítulo da “Predicação”, discutimos:
1) a noção de sujeito na tradição gramatical;
2) a noção de sujeito adotada neste volume;
3) a ordem dos constituintes sentenciais e a concordância verbal entre sujeito
e verbo;
4) a tipologia de sujeito, com especial atenção à representação do sujeito
pronominal;
5) as construções de tópico marcado.
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MARY A. KATO

MILTON DO NASCIMENTO
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O capítulo também traz uma seção de análise sintática formal dos padrões
de predicação estudados.
No capítulo da “Adjunção”, definimos o que sejam adjuntos a partir do
que deles se fala na gramática tradicional, diferenciando-os de argumentos,
e discutimos:
1 forma;
2) função semântica;
3) posição dos diferentes adjuntos na estrutura sentencial.
Finalizamos o capítulo com a discussão sobre a representação estrutural
dos padrões de adjunção estudados.
No capítulo sobre “Construções-Q”, descrevemos:
1) as tradicionais orações relativas adjetivas restritivas e livres, sendo as restri-
tivas descritas em seus subtipos (a padrão, a cortadora e a com ressump-
tivo);
2) as orações clivadas e pseudoclivadas e seus subtipos;
3) as orações Interrogativas-Q e seus subtipos.
Cada uma dessas construções terá uma seção descritiva, com alguma refe-
rência ao que se diz sobre essas construções na gramática tradicional, e uma
de sistematização formal.
No capítulo 6, propomos uma perspectiva de análise da maneira como os
falantes operam com as instruções da Língua-I para integrar adjuntos e dis-
cursivos na organização dos enunciados. Começamos por enfocar a proposta
de análise dos discursivos apresentada pela NGB (Nomenclatura Gramatical
Brasileira). A partir daí:
1) descrevemos a interação entre adjuntos e discursivos em enunciados do
corpus analisado;
2) propusemos uma especificação do papel da operação de adjunção no
es tabelecimento da correlação adjuntos–discursivos na interface sin-
taxe–discurso.
Resumindo, o livro tenta mostrar como, a partir do verbo, o falante constrói
suas sentenças e, a partir destas, seu discurso/texto.
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APRESENTAÇÃO
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Para finalizar, gostaríamos de agradecer ao nosso companheiro Ataliba de
Castilho, que, além de nosso coordenador geral no Projeto da Gramática do
Português Falado e de coordenador geral deste novo volume, Gramática
do português culto falado no Brasil, foi um leitor cuidadoso e crítico de sua
versão final.
Agradecemos ainda ao CNPq pelas bolsas de produtividade em pesquisa
com que contaram muitos dos autores durante a confecção deste volume. Os
números dos processos aparecem mencionados nos capítulos relevantes.
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SÍMBOLOS
PB Português brasileiro
PBF Português brasileiro falado
GPBF Gramática do português brasileiro falado
RGPBF Relações gramaticais no português brasileiro falado
Nurc Norma Urbana Culta
EF Elocução Formal
D2 Diálogo entre Informantes
DID Diálogo com Entrevistador
S sentença (= juízo)
MO minioração
nom nominativo
acus acusativo
dat dativo
[ __ ] lacuna, traço ou vestígio deixado por deslocamento/movimento de
constituinte
θ1 θ2 papéis temáticos
X projeção mínima SX projeção máxima
X’ projeção intermediária
N nome SN sintagma nominal
V verbo SV sintagma verbal
V’ projeção intermediária do SV
A adjetivo SA sintagma adjetival
Prep preposição SPrep sintagma preposicional
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MARY A. KATO

MILTON DO NASCIMENTO
18
C conjunção, complementizador SC sintagma complementizador
Adv advérbio SAdv sintagma adverbial
Flex flexão SFlex sintagma flexional
Flex’ projeção intermediária de SFlex
Espec especificador
Top tópico STop sintagma tópico
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A ARQUITETURA DA GRAMÁTICA
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SUMÁRIO
1. Introdução ........................................................................................................................................................................... 23
2. As noções que herdamos dos gregos ............................................................................................................. 24
3. A contribuição estruturalista: o sintagma e a arquitetura dos constituintes
imediatos ............................................................................................................................................................................. 25
4. A lógica moderna de Frege e uma nova arquitetura:“No princípio era o V” .............. 27
5. A relação de predicação........................................................................................................................................... 28
5.1. A i nterface l éxi co- si ntaxe: o papel da morfol ogi a ............................................................................................. 28
5.2. Verbos de l i gação .............................................................................................................................................................. 31
6. A relação de complementação ............................................................................................................................ 33
7. A relação de adjunção ............................................................................................................................................... 35
8. A periferia à esquerda da sentença ............................................................................................................... 38
Resumo .......................................................................................................................................................................................... 41
Sugestões de leitura ........................................................................................................................................................... 41
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23
1
A ARQUITETURA DA GRAMÁTICA
Mary A. Kato*
Carlos Mioto**
1. Introdução
O estudo das relações gramaticais envolve tradicionalmente as funções de
sujeito e predicado, ou ainda de sujeito, de verbo e complemento e de adjunto.
Além delas, sempre foi considerado objeto da sintaxe o estudo da ordem
desses constituintes. Lembremos que, nesse sentido, os universais sintáticos
de Green berg (1963) eram generalizações indutivas sobre a correlação entre a
ordem dos constituintes maiores e dos menores nas línguas naturais. Por exem-
plo, um dos universais greenbergianos previa que uma língua com a ordem
verbo-objeto teria também a ordem preposição-nome.
Neste livro, vamos abordar as noções funcionais e a ordem sentencial pres-
supondo que ambos são derivados de conceitos estruturais mais primitivos.
Contudo, os termos tradicionais continuarão a ser usados como rótulos faci-
litadores.
Neste capítulo introdutório, fazemos um breve histórico dos conceitos gra-
maticais e mostramos as inovações e os refinamentos elaborados pelos gerati-
vistas a partir dessa herança. Procedendo assim, pretendemos fornecer suporte
conceitual aos outros capítulos que compõem este livro.
* Universidade Estadual de Campinas/CNPq (Proc. n
o
303.274/2005-0).
** Universidade Federal de Santa Catarina/CNPq (Proc. n
o
300.557/2005-1).
GRAMATICA 3.indb 23 6/11/2009 14:46:59
MARY A. KATO

CARLOS MIOTO
24
2. As noções que herdamos dos gregos
Os conceitos de sujeito e de predicado são tão antigos quanto o próprio
conceito de gramática e remontam, no Ocidente, a Aristóteles. Tais conceitos
não são, no início, independentes dos conceitos das classes gramaticais nome,
abreviado nas representações como (N), e verbo (V), os quais são definidos em
termos de suas funções lógicas de constituírem uma sentença (S) ou um juízo de
verdade-falsidade. Isso explica por que, para Aristóteles, o Adjetivo (A) também
é considerado verbo.
(1) S (= juízo)
V
Sujeito = N V/A = Predicado
Essas categorias substantivas, nome e verbo, foram concebidas indepen-
dentemente também por Platão, na Grécia, e por Panini, na Índia, ambos no
século V a.C. É também com Aristóteles que temos a descoberta de categorias
não-substantivas, como tempo (T) e gênero (G), as primeiras estritamente gra-
maticais na história da gramática, e, ainda, a hipercategoria conjunção (C), que
englobava todas as demais categorias. Outros termos usados para distinguir essas
duas subclasses são: para as categorias [+substantivas], classes lexicais, classes
abertas; para as categorias [-substantivas], classes funcionais ou gramaticais,
classes fechadas.
Enquanto o verbo e o adjetivo eram vistos como uma mesma classe por
Aristóteles e Platão, por causa de sua função predicativa, os estoicos, por sua
vez, descobrem o artigo (Art) e agrupam este e o adjetivo como subcatego-
rias nominais, o que nos leva a supor que o agrupamento foi motivado pelas
similaridades morfológicas de gênero e caso, este último também descoberto
pelos estoicos. É com eles, ainda, que temos a análise dos predicados em sub-
constituintes, com a classificação dos verbos em transitivos e intransitivos e das
sentenças em ativas e passivas. As categorias parecem definir-se formalmente
através de sua morfologia.
Finalmente, dos séculos IV a.C. a II d.C., os alexandrinos passam a con-
ceber o adjetivo como uma classe autônoma do nome e acrescentam ainda,
ao rol das categorias, as seguintes classes de palavras: o advérbio (Adv), a
preposição (Prep) e o pronome (Pron). São também os descobridores das
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A ARQUITETURA DA GRAMÁTICA
25
categorias gramaticais de número e modo. Advérbios e preposições parecem
até hoje constituir classes mistas, contendo subclasses lexicais e subclasses
gramaticais. Assim, enquanto os advérbios em -mente apresentam a mesma
produtividade de adjetivos, outros, como a negação, exibem características
típicas de classes gramaticais, isto é, a propriedade de não admitirem ino-
vações lexicais.
Temos, assim, as seguintes subclasses:
(2) Categorias
V
Lexicais (abertas) Funcionais (fechadas)
N T
V G
A Caso
Número
Pessoa
Pron
Modo
Adv Adv
Prep Prep
3. A contribuição estruturalista: o sintagma e a arquitetura
dos constituintes imediatos
Se os gregos levaram séculos para descobrir as categorias gramaticais vistas
acima, foi só com o estruturalismo que categorias intermediárias entre a pala-
vra e a sentença foram descobertas. Através de equivalências distribucionais,
linguistas estruturalistas estabelecem as combinações de palavras (sintagmas)
que equivalem, em contexto sintático, às palavras simples:
(3) Categoria Sintagma Símbolo
N Sintagma Nominal SN
V Sintagma Verbal SV
A Sintagma Adjetival SA
Prep Sintagma Preposicionado SPrep
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MARY A. KATO

CARLOS MIOTO
26
(4) a) [
SN
Chico] [
SV
sorriu].
b) [
SN
O cantor ] [
SV
dedilhou o violão].
c) [
SN
O cantor de olhos verdes] [
SV
cantou um novo samba].
(5) S
V
SN SV
Chico sorriu
O cantor dedilhou o violão
O cantor de olhos verdes cantou um novo samba
A partir dos estruturalistas, é postulado que a sentença (S) é composta de
sintagma nominal e sintagma verbal, em lugar de nome e verbo, ou de sujeito e
predicado. Enquanto o sujeito é considerado o constituinte SN imediatamente
dominado por S, o complemento é dominado pelo SV e pode ser um SN, um
SPrep, um SV ou mesmo uma S, como exemplificado em (6):
(6) a) O presidente ouviu [
SN
o boato].
b) O presidente acreditou [
SPrep
no boato].
c) O presidente resolveu [
SV
receber os grevistas].
d) O presidente achou [
S
que sua visita foi útil].
Na estrutura, o complemento seria o constituinte irmão do núcleo V, isto
é, um constituinte de SV não-dominado imediatamente pela sentença:
(7) S
V
SN SV
O presidente V
V SN (O boato)
SPrep (No boato)
SV (receber os grevistas)
S (que sua visita foi útil)
Sujeito Complemento
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A ARQUITETURA DA GRAMÁTICA
27
Note-se que, nessa representação, o verbo é o núcleo de SV, o sujeito é
um constituinte externo a SV, enquanto o complemento é um constituinte
interno a SV.
4. A lógica moderna de Frege e uma nova arquitetura:
“No princípio era o V”
Se para Aristóteles o conceito de sujeito era fundamental para estudar a
lógica das proposições, para Frege, o pai da lógica moderna, tal conceito é
dispensável. Abandonando os dois constituintes proposicionais aristotélicos
em (8), Frege passa a trabalhar com os conceitos em (9), eliminando a assi-
metria entre sujeito e complemento.
(8) SENTENÇA (JUÍZO) = SUJEITO (N) + PREDICADO (V)
(9) PREDICADO + Argumentos
Os predicados classificam-se conforme o número de lugares (argumentos)
que exigem para formar uma proposição. Os predicados não se limitam a ver-
bos, mas podem ser também adjetivos ou até nomes. Assim, podemos ter:
(10) a) predicados de um lugar Sorrir x
Cair x
Homem x
Grande x
b) predicados de dois lugares: Ver x y
Matar x y
Pai x y
Orgulhoso x y
c) predicados de três lugares: Dar x y z
Colocar x y z
Doação (doação do dinheiro
x
ao orfanato
y
pela viúva
z
)
Essa representação é absorvida pela sintaxe moderna, mas como represen-
tação dos itens no léxico, onde, em lugar de variáveis x, y, z, os argumentos
aparecem com papéis semânticos, os chamados papéis temáticos (θ) (agente,
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MARY A. KATO

CARLOS MIOTO
28
experienciador, instrumento etc.), além de se apresentarem como argumentos
externos ou internos (este marcado pelos parênteses em (11)).
(11) a) sorrir θ
b) matar θ
1

2
)
Quando há apenas um argumento, com papel θ em geral agentivo, este
é um argumento externo, como no caso de telefonar, viajar, pular, chorar, e
temos aí os chamados predicados inergativos. Já, no caso de um argumento
único com papel θ não-agentivo, o argumento é interno e temos os chamados
predicados inacusativos. É o caso de verbos como cair, aparecer, existir, que
têm o sujeito posposto como a ordem não-marcada.
(12) a) telefonar θ
agent
(V inergativo)
b) aparecer (θ
-agente
) (V inacusativo)
c) comprar θ
agente

-agente
) (V transitivo)
(13) a) Luiz telefonou.
b) Apareceu um fantasma.
c) Ele comprou o novo Harry Potter.
5. A relação de predicação
5.1. A interface léxico-sintaxe: o papel da morfologia
Embora os gregos estivessem mais interessados em lógica e retórica, o voca-
bulário criado para tratar de juízos de verdade e de falsidade era o da gramática,
donde sua contribuição enorme para a descoberta das classes de palavras e das
primeiras palavras funcionais/gramaticais. Compreen de-se também por que
tempo chamou logo a atenção de Aristóteles. Quando se lida com verdade e
falsidade de juízos, nota-se que é o tempo que lhes confere valor de verdade.
Uma sentença no infinitivo não é nem verdadeira nem falsa.
Chomsky e seus seguidores, utilizando-se de argumentos sintáticos e não-
lógicos, trataram a categoria tempo, desde o início, como um constituinte
central da sentença. Como a categoria tempo se manifesta como flexão (Flex)
em muitas línguas ocidentais, o núcleo sentencial passou a ser tratado ora
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A ARQUITETURA DA GRAMÁTICA
29
como flexão ora como tempo. A categoria flexão pode abrigar não apenas a
flexão de tempo, mas também a flexão de concordância.
(14) S
7
SN FLEX SV
V
V SN
Em uma ramificação arbórea binária, adotada a partir da década de 1980,
Flex e SV passam a ser irmãos e a sentença passa a ser uma projeção de Flex,
ou seja, um sintagma flexional (SFlex) com Flex como núcleo e Flex’ como
a categoria intermediária entre Flex e SFlex:
(15) Flex
V
SN Flex’
V
Flex SV
V
V SV
Nessa representação, o predicado é uma categoria aberta, que só se satura
quando preenchemos a sentença com o sujeito. O SN sujeito tem uma liga-
ção indireta com V, através de Flex. Considerando-se que a flexão temporal
vem muitas vezes somada com a flexão de concordância, pode-se dizer que o
sujeito nessa representação é o que tradicionalmente consideramos o sujeito
gramatical, isto é, aquele com que concorda o verbo e que, quando prono-
minal, exibe o caso reto (nominativo).
(16) a) [
SV
comprar o novo Harry Potter]
b) [
Flex’
Passado, 3
a
pessoa sing. [
SV
comprar o novo Harry Potter]]
c) [Ele
[+nomin]
[
Flex’
Passado, 3
a
pessoa sing. [
SV
comprar o novo Harry Potter]]]
d) Ele comprou o novo Harry Potter.
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30
Uma regra morfológica junta os morfemas de tempo e de pessoa ao verbo,
resultando daí a forma flexionada do verbo, como aparece em (16d).
Em línguas com caso morfológico, como o latim e o japonês, a função
de sujeito está eminentemente associada ao caso nominativo, e a ordem dos
constituintes é relativamente livre.
(17) a) Magistra puellam docet.
Mestra-nom menina-acus ensina
b) Puellam magistra docet.
(18) a) Jun-ga Hanako-o tsuretekita.
Jun-nom Hanako-acus trouxe
b) Hanako-o Jun-ga tsuretekita.
No português culto há ainda um resquício desse caso morfológico nos
pronomes, como se pode ver no contraste possível entre o nominativo e o
acusativo dos pronomes de primeira e terceira pessoas.
(19) a) Ele me viu perto de casa.
b) Eu o vi perto de casa.
As línguas naturais têm essencialmente duas formas de codificar funções
gramaticais: através da morfologia e através da ordem de constituintes. No
português falado no Brasil, a terceira pessoa singular ele/ela e plural eles/elas
assim como a segunda pessoa indireta (= você, com flexão de terceira pessoa)
apresentam comportamento de nomes, isto é, são invariáveis quanto à mor-
fologia de caso nas diversas funções e, como consequência, têm a mesma
dis tribuição posicional dos nomes, relativamente fixa.
(20) a) O policial viu o ladrão perto da vítima.
b) Ele viu o ladrão perto da vítima.
c) Você viu o ladrão perto da vítima.
nom
(21) a) O ladrão viu o policial perto da vítima.
b) O ladrão viu ele perto da vítima.
c) O ladrão viu você perto da vítima.
acus
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A ARQUITETURA DA GRAMÁTICA
31
(22) a) O ladrão viu a vítima perto do policial.
b) O ladrão viu a vítima perto dele.
c) O ladrão viu a vítima perto de você.
obl
O caso acusativo do objeto é tradicionalmente considerado como atri-
buído pelo verbo assim como o caso oblíquo é atribuído pela preposição. O
nominativo é o caso não-marcado.
O que se viu nesta seção é que o domínio em que um elemento se torna
parte da estrutura sintática, deixando sua forma de dicionário, é a sentença,
entendida como a projeção da categoria Flex, a qual estabelece a relação de
predicação através da concordância e do caso nominativo.
5.2. Verbos de ligação
Os chamados verbos de ligação como ser, estar, parecer têm uma proprie-
dade em comum: o sujeito de sentenças que os contêm não são argumentos
deles, mas do predicativo.
(23) a) O ator é talentoso.
b) A adolescente está grávida.
c) Os anéis parecem preciosos.
Assim, as sentenças em (24) são malformadas, não porque parecer não
possa ocorrer com o anel e o ator como sujeitos, já que podemos ter (23a, c),
mas porque talentoso não pode ser predicado de o anel e grávido não pode
ser predicado de o ator.
(24) a) *O anel parece talentoso.
b) *O ator está grávido.
O que ocorre, então, é que a relação temática se manifesta dentro do
com plemento dos verbos de ligação, em uma relação de predicação a que
chamamos minioração (MO) (small clause).
(25) a) [
MO
o ator [talentoso]]
b) [
MO
a adolescente [grávida]]
c) [
MO
os anéis [preciosos]]
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CARLOS MIOTO
32
Ao se combinarem com verbos de ligação, o sujeito da MO passa a ser o
sujeito gramatical da sentença, movendo-se de sua posição de origem onde
deixa uma lacuna. O verbo (assim como o predicativo, se for o caso) passa a
concordar com ele.
(26) a) [o ator é [
MO
[ __ ] [talentoso]]].
b) [a adolescente está [
MO
[ __ ] [grávida]]].
c) [os anéis parecem [
MO
[ __ ] [preciosos]]].
Mas uma MO pode ter predicados de outros tipos: um SPrep (sem graça),
um SN (um gênio) ou um SV (lutar).
(27) a) Essa atriz é sem graça.
b) Esse menino parece um gênio.
c) Viver é lutar.
Existem duas outras particularidades importantes na morfologia quando
temos sentenças com verbos de ligação. Uma delas, que se manifesta no
português, é que o predicativo concorda com o sujeito em gênero e número
quando ele é do tipo que espelha morfologia flexional. A outra, que se ma-
nifesta em línguas como o latim, é que o predicativo, se for um SN (ou um
adjetivo), espelha o mesmo caso do sujeito, um tipo de concordância de caso.
Essas particularidades podem ser consideradas indícios de que os verbos de
ligação, apesar de poderem apresentar-se com um SN à esquerda e outro à
direita, como em (27b), devem ter uma estrutura argumental diferente da de
um verbo transitivo. Comparemos as sentenças em (28):
(28) a) Este menino parece um leão.
b) Este menino aprisionou um leão.
O SN que se localiza à direita do verbo transitivo aprisionar em (28b) é
referencial e é o complemento desse verbo; o SN que se localiza à direita do
verbo de ligação parecer é um predicado (não é um argumento) e é apenas
parte de seu argumento complexo definido como uma MO.
GRAMATICA 3.indb 32 6/11/2009 14:46:59
A ARQUITETURA DA GRAMÁTICA
33
6. A relação de complementação
Em oposição à noção de sujeito, temos a noção de complemento. Vimos que
a sintaxe moderna assimilou a lógica fregeana, mas o fez mantendo a assimetria
entre o argumento externo e o interno. Se um verbo tem dois argumentos, o
externo acaba sendo o sujeito da sentença (ou da predicação). Se um verbo tem
apenas o argumento externo, este vai ser o sujeito. Se um verbo tem apenas
o argumento interno, este (ou, em certas situações como nas MOs, um SN
que faz parte dele) vai ser o sujeito. Por isso, é preciso estar atento para não
aplicar a noção de sujeito apenas ao que é argumento externo nem confundir a
noção de argumento interno com a de complemento. Um argumento interno
(29a,b), parte de um argumento interno (29c,d) ou, no limite, mesmo um
adjunto (29e,f ), pode acabar sendo o sujeito da sentença:
(29) a) Maria chegou [ __ ].
b) Maria foi assaltada __.
c) Maria parece [ __ ] cansada.
d) Maria parece ( [ __ ] ) estar __ cansada.
e) A Belina cabe muita gente [ __ ].
f ) Este apartamento bate bastante sol [ __ ].
O complemento de um verbo, por sua vez, é um argumento interno que
não foi ou não pôde ser promovido a sujeito, o que acontece sempre que o
verbo tem argumento externo. Os verbos podem ter no máximo dois com-
plementos, cunhados pela tradição como direto e indireto. Em línguas com
morfologia casual rica, como o latim e o japonês, o SN complemento direto
em geral exibe o caso acusativo, como vimos em (17a) e (18a). O indireto
é marcado por outros casos, como o dativo. Isto é, o complemento tem de
ser marcado por um caso diferente do caso do sujeito, marca que pode ser
considerada um reflexo da assimetria entre sujeito e complemento.
O PB, que não tem morfologia de caso (a não ser para os pronomes de
primeira e segunda pessoas), marca essa assimetria posicionando os comple-
mentos após o verbo, a não ser que eles sejam clíticos. A posição natural do
complemento direto é logo após o verbo do qual é irmão e do qual recebe o caso
acusativo. O complemento indireto é o último e tem de vir preposicionado,
pois, do contrário, não seria marcado por caso. Existem, ainda, verbos que
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MARY A. KATO

CARLOS MIOTO
34
têm apenas um complemento e, mesmo assim, regem idiossincraticamente
uma preposição, como gostar em (30):
(30) João gosta de Maria.
A presença obrigatória da preposição é atribuída à incapacidade de o verbo
atribuir acusativo ao seu complemento.
Certos verbos transitivos podem ter como complemento uma MO, como
exemplificado em (31):
(31) a) João considera [
MO
Maria inteligente].
b) O juiz julgou [
MO
Maria inocente].
O que acontece de interessante em (31) é que o sujeito da MO Maria
recebe caso acusativo dos verbos transitivos num processo de marcação de
caso excepcional: o verbo atribui acusativo para um SN que não é o comple-
mento dele.
Por fim, comparemos o contexto sintático em (31) com o que envolve um
verbo de ligação em (25) e (26), aqui repetidos:
(25) a) [
MO
o ator talentoso]
b) [
MO
a adolescente grávida]
c) [
MO
os anéis preciosos]
(26) a) o ator é [
MO
[ __ ] talentoso].
b) a adolescente está [
MO
[ __ ] grávida].
c) os anéis parecem [
MO
[ __ ] preciosos].
O SN sujeito da MO em (25) tem de se deslocar para virar o sujeito da
sentença. Em (31), a sentença já tem sujeito e, por isso, Maria não pode sofrer
deslocamento semelhante. Aqui se capta essa distinção em termos da categoria
caso: já que o verbo de ligação é incapaz de atribuir acusativo (é inacusativo),
o SN precisa deslocar-se para a posição de sujeito para ser marcado por nomi-
nativo; por outro lado, já que os verbos transitivos de (31) são atribuidores de
acusativo, o SN Maria se mantém in situ. A situação em (25)-(26) é reeditada,
se passamos as sentenças de (31) para a voz passiva:
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A ARQUITETURA DA GRAMÁTICA
35
(32) a) Maria é considerada [
MO
[ __ ] inteligente] pelo João.
b) Maria foi julgada [
MO
[ __ ] inocente] pelo juiz.
A voz passiva é um tipo de construção inacusativa: o agente é “retirado”
da posição de argumento externo e o particípio passivo não atribui acusativo.
Dessa forma, o SN sujeito da MO deve virar o sujeito da sentença ou deslocar-
se para a posição de sujeito para receber caso nominativo.
A noção de complemento pode ser generalizada de forma a envolver outros
núcleos. Em especial, vamos estendê-la afirmando que os demais núcleos
lexicais podem ter complemento:
(33) a) aptidão para o magistério
b) apto para o magistério
c) por preguiça
Em (33a), temos que para o magistério é complemento do nome aptidão,
assim como do adjetivo apto em (33b); em (33c), preguiça é o complemento
da preposição por.
7. A relação de adjunção
As sentenças podem ser expandidas por constituintes que, não tendo
propriedades de argumento, são adjuntos. Para distinguir argumentos de
adjuntos, comparemos as funções dos SPreps em (34) e (35):
(34) a) João gosta de Florianópolis.
b) João filmou a invasão de Roma.
(35) a) João telefonou para Maria de Florianópolis.
b) João visitou a cidade de Roma.
Como ensina a tradição gramatical, em (34) de Florianópolis e de Roma
são argumentos respectivamente do verbo gostar e do nome invasão, que lhes
atribuem a função temática que eles desempenham. Entretanto, os mesmos
SPreps funcionam como adjunto em (35): do SV em (35a) e do nome cidade
em (35b). Eles não recebem sua função temática de nenhum constituinte da
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MARY A. KATO

CARLOS MIOTO
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sentença, mas, ao contrário, realizam um tipo de predicação, sobre o SV em
(35a) (donde o rótulo tradicional de adjunto adverbial) e sobre o nome
em (35b) (donde o rótulo tradicional de adjunto adnominal).
Os adjuntos são acoplados a constituintes e a sentenças sem lhes modificar
o estatuto categorial nem a sua projeção. Assim, se adjungirmos um adjetivo ou
um Sprep a um nome, o conjunto resultante continuará sendo um nome:
(36) a) [
SN
livro]
b) [
SN
livro didático]
c) [
SN
bom livro didático]
d) [
SN
bom livro didático de estórias]
Como observamos em (36), o número de adjuntos que um constituinte
pode ter é indeterminado. Da mesma forma, se adjungirmos um advérbio
ou um sintagma preposicional a um verbo, o resultado continuará sendo um
verbo:
(37) a) [
SV
andar]
b) [
SV
andar

muito]
c) [
SV
andar com cuidado]
d) [
SV
andar todos os dias]
Também nesse caso o número de adjuntos é indeterminado:
(38) a) [
SV
andar muito todos os dias]
b) [
SV
andar muito habitualmente desde a última consulta médica]
Spreps ou advérbios também se adjungem a sentenças sem lhes alterar o
estatuto de sentenças:
(39) a) [
SFlex
Ontem [
SFlex
O Pedro andou muito]].
b) [
SFlex
[
SFlex
O Pedro chegou tarde ] infelizmente].

Os argumentos (Arg) expandem a projeção de um núcleo sintático, sendo
pendurados dentro de sua projeção máxima. Os adjuntos, ao contrário, não
expandem a projeção de um núcleo sintático, e são pendurados nas bordas
(da projeção máxima) de um sintagma. Compare como são pendurados os
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A ARQUITETURA DA GRAMÁTICA
37
adjuntos e como são pendurados os argumentos na representação arbórea
em (40):
(40) XP
V
Adjunto
1
XP
V
XP Adjunto
2
V
Arg
1
X’
V
X Arg
2
Quando combinamos Arg
2
com o núcleo X, o que vamos ter é a projeção
intermediária X’ de X; quando combinamos X’ com Arg
1
, o que temos é a pro-
jeção máxima XP de X. Entretanto, quando inserimos na árvore o adjunto, a
projeção XP não muda.
Porque os núcleos têm projeção máxima, o número de argumentos de um
núcleo é previsível: uma sentença tem no máximo um sujeito (sujeitos com-
postos, coordenados são um só) e no máximo dois complementos (valendo o
mesmo para complementos coordenados). No entanto, como não podem alterar
a projeção de um núcleo, o número de adjuntos é imprevisível. Assim, a sentença
em (41a) pode ser expandida pelo acréscimo de novos adjuntos:
(41) a) João trouxe a mesa.
b) João trouxe a mesa de Florianópolis.
c) João trouxe a mesa de Florianópolis de carro.
d) João trouxe a mesa de Florianópolis de carro na semana passada.
e) Felizmente João trouxe a mesa de Florianópolis de carro na semana passada.
Embora possa ser o caso, nem sempre a expansão se faz pelo acréscimo
de adjuntos ao mesmo XP. Em (41a), podemos conceber que de carro e de
Florianópolis sejam adjuntos do SV por especificarem o meio e o lugar da cena
encabeçada pelo verbo trazer. Em (41c), podemos conceber que felizmente,
por expressar uma opinião do falante, seja adjunto da sentença. Entretanto,
devemos conceber que na semana passada, por significar tempo, seja adjunto
GRAMATICA 3.indb 37 6/11/2009 14:47:00
MARY A. KATO

CARLOS MIOTO
38
de SFlex, a categoria que incorpora o tempo verbal. Procedendo assim, conse-
guimos explicar por que a sentença em (42b) é bem-formada, enquanto (42a)
não é: na semana passada não pode predicar ou especificar o tempo futuro
amalgamado ao verbo trazer.
(42) a) *João trará a mesa de Florianópolis de carro na semana passada.
b) João trará a mesa de Florianópolis de carro na semana que vem.
8. A periferia à esquerda da sentença
A área da sentença que fica à esquerda do sujeito, que é chamada de pe-
riferia esquerda, é um lugar especial por onde a sentença se expande. Além
de conter constituintes adverbiais, como felizmente em (41e), pode também
conter constituintes que desempenham duas outras funções. A primeira é a
função discursiva de codificar o tópico (42a) ou o foco (42b) da sentença:
(42) a) A Maria, [
SFlex
o João comprou flores para ela].
b) Para a Maria [
SFlex
o João comprou flores, não para a Joana].
A segunda é a função gramatical de possibilitar o encaixe de uma sentença
em outra:
(43) a) Ele comprou o novo Harry Potter.
b) Pedro disse [que [
SFlex
ele comprou o novo Harry Potter]].
c) Pedro perguntou [se [
SFlex
ele comprou o novo Harry Potter]].
d) João se empenhou

para [que [
SFlex
ele comprasse o novo Harry Porter]].
A sentença que formamos, ou derivamos, em (43a) se expande do lado
esquerdo, mediante o acréscimo dos itens que e se, para ser parte de uma outra
sentença superior. Para que a sentença [ele comprou/comprasse o novo Harry
Potter] possa ser o complemento dos verbos ou da preposição da sentença
matriz, é preciso que um elemento gramatical a introduza: a conjunção que
ou se, que hoje designamos complementizadores (C). O primeiro é o comple-
mentizador não-marcado e o segundo é o interrogativo. Os complementiza-
dores preenchem C, sendo o núcleo de sua própria projeção SC (Sintagma
Complementizador):
GRAMATICA 3.indb 38 6/11/2009 14:47:00
A ARQUITETURA DA GRAMÁTICA
39
(44) SC
V
C SFlex
que/se
(45) a) [
SFlex
ele comprou o novo Harry Potter].
b) Pedro disse [
SC
que [
SFlex
ele comprou o novo Harry Potter]].
c) Pedro perguntou [
SC
se [
SFlex
ele comprou o Harry Potter]].
d) João se empenhou

para [
SC
que [
SFlex
ele comprasse o novo Harry Porter]].
Outros elementos que podem aparecer introduzindo sentenças subor-
dinadas são os pronomes Q interrogativos ou relativos (quem, o que, qual,
quando, onde). Ao introduzir as sentenças subordinadas, os pronomes Q saem
de sua posição de origem para se colocar na periferia à esquerda da sentença,
deixando uma lacuna no lugar de origem:
(46) a) O jornalista perguntou [
SC
quem [
SFlex
as crianças viram [ __ ] correndo]].
b) O jornalista perguntou [
SC
onde [
SFlex
as crianças viram o ladrão [ __ ]]].
c) Esta é a pessoa [
SC
com quem [
SFlex
eu viajei [ __ ] no último verão]].
d) João mora [
SC
onde [
SFlex
as crianças viram o ladrão [ __ ]]].
Os pronomes Q interrogativos podem também encabeçar uma sentença
matriz:
(47) a) [
SC
Quem [
SFlex
as crianças viram [ __ ] correndo]]?
b) [
SC
Quando [
SFlex
as crianças viram o ladrão [ __ ]]]?
Em sua constituição sintática, os elementos interrogativos-Q podem formar
unidades complexas, que são chamadas de sintagmas-Q:
[48] a) [
SC
Que ator [
SFlex
o jornalista entrevistou [ __ ]]]?
b) [
SC
Em que dia [
SFlex
ele entrevistou o ator [ __ ]]]?
O português brasileiro coloquial tem sentenças que mostram que a po-
sição das palavras e dos sintagmas Q é em SC, já que eles podem preceder o
complementizador que:
GRAMATICA 3.indb 39 6/11/2009 14:47:00
MARY A. KATO

CARLOS MIOTO
40
(49) a) Pedro perguntou [
SC
quem que [
SFlex
[ __ ] comprou o novo Harry Potter]].
b) Pedro perguntou [
SC
que aluno que [
SFlex
[ __ ] comprou o novo Harry Potter]].
As formas em (49) mostram que a estrutura de SC é complexa, podendo
abrigar uma posição nuclear C, onde ficam os complementizadores que e se, e
uma posição sintagmática para onde podem mover-se elementos pronominais
e sintagmas.
(50) CP
V
XP C'
! V
g C SFlex
Quem
1
que 4
[que aluno]
1
que [ __ ]
1
comprou o novo Harry Potter
A posição XP em (50) não é ocupada apenas por elementos Q, mas também
por elementos focalizados, como os que aparecem em maiúsculas em (51):
(51) [
SC
O PEDRO que [
SFlex
[ __ ] comprou o novo Harry Potter, não o João]].
O que ocorre em SC tem a ver com a natureza ilocucional da sentença
(interrogativa, declarativa) ou ainda com a função discursivo-informacional
de foco.
Observamos, por fim, que função discursivo-informacional de tópico
(STop) é também codificada na periferia esquerda da sentença:
(52) a) [
STop
Meu carro [
SFlex
o pneu dele furou ]].
b) [
STop
Esse vinho [
SC
quanto [
SFlex
você pagou por ele]]]?
c) A Maria disse [
SC
que [
STop
os meninos [
SFlex
ela vai buscar (eles) à tarde]]].
Como o tópico coocorre com constituintes localizados em SC, como ve-
mos em (52b, c), deduzimos que se trata de um constituinte independente
de SC. A posição relativa entre STop e SC na periferia esquerda difere se a
sentença é matriz ou encaixada: naturalmente, na matriz STop precede SC e
na encaixada STop não pode preceder SC.
GRAMATICA 3.indb 40 6/11/2009 14:47:00
A ARQUITETURA DA GRAMÁTICA
41
Resumo
Neste capítulo, apresentamos brevemente a história dos conceitos grama-
ticais. Começamos pela antiguidade clássica, passamos pelos estruturalistas e
pela lógica fregeana e chegamos aos refinamentos e aos novos conceitos ela-
borados pela gramática gerativa. O que é posto em destaque são as relações
gramaticais que serão abordadas nos vários capítulos deste livro. A primeira
relação destacada é a de predicação (ver cap. 2), em que é destacado o papel
da morfologia mediando a relação entre o sujeito e o predicado. Além disso,
pôs-se em destaque o papel dos chamados verbos de ligação, verbos que “aju-
dam” a estabelecer a predicação. A segunda relação envolve a noção de com-
plementação (ver cap. 3) que, além de ser aplicada a constituintes que comple-
mentam o verbo, o nome e o adjetivo, foi estendida a constituintes que com-
plementam as preposições. Em seguida, foi abordada a noção de adjunção (ver
cap. 4), que procuramos caracterizar formalmente por oposição a argumentos
e funcionalmente por oposição a sujeitos e complementos. Os conceitos fun-
cionais que resultaram desse procedimento foram três. O primeiro foi o con-
ceito de sujeito que está correlacionado à noção de predicado. O que pode
acabar sendo sujeito de um predicado é a) o argumento externo, b) um argu-
mento interno e c) no limite, um elemento que não é argumento. A noção de
complemento coincide com a de argumento interno, muito embora o inverso
não se sustente. A noção de adjunto se aplicou a constituintes que não são
argumentos. E, por fim, foi mostrado brevemente como a periferia esquerda
da sentença é ativada quando a sentença é ou não encaixada.
Sugestões de leitura
Para a contribuição grega à teoria gramatical, consultem-se Robins (1964)
e Lyons (1971).
Para a contribuição estruturalista, leiam-se, por exemplo, Bloomfield (1933)
e Fries (1940).
Para a teoria da gramática em que se baseou boa parte deste capítulo,
leia-se Raposo (1992).
Para as noções fregeanas, consulte-se Pires de Oliveira (2001).
Sobre a periferia esquerda da sentença, consulte-se Rizzi (1997), e sobre a
da sentença do português brasileiro, consulte-se Mioto (2003).
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GRAMATICA 3.indb 42 6/11/2009 14:47:00
COMPLEMENTAÇÃO
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GRAMATICA 3.indb 44 6/11/2009 14:47:01
SUMÁRIO
1. Introdução ........................................................................................................................................................................... 47
2. A noção de complementação nas gramáticas tradicionais ........................................................... 48
3. A noção de complementação a ser adotada neste volume .......................................................... 50
4. Tipos de verbos em função de sua complementação ....................................................................... 57
4.1. Verbos sem argumentos ................................................................................................................................................. 57
4.2. Verbos transi ti vos .............................................................................................................................................................. 58
4.3. Verbos bi transi ti vos .......................................................................................................................................................... 58
4.4. Verbos i nacusati vos e i nergati vos ............................................................................................................................. 59
4.5. Verbos de al çamento ........................................................................................................................................................ 62
4.6. Verbos l eves ......................................................................................................................................................................... 64
5. Forma dos complementos ....................................................................................................................................... 66
5.1. Aspectos gerai s da compl ementação em PB ......................................................................................................... 66
5.2. Compl ementos sentenci ai s ............................................................................................................................................ 68
5.3. Compl ementos pronomi nai s .......................................................................................................................................... 71
5.3.1. Pri mei ra pessoa.................................................................................................................................................. 71
5.3.2. Segunda pessoa ................................................................................................................................................. 72
5.3.3. Tercei ra pessoa ................................................................................................................................................... 73
5.3.4. Ordem dos cl í ti cos ............................................................................................................................................ 74
5.4. Compl ementos foneti camente nul os ........................................................................................................................ 77
5.4.1. O obj eto nul o ...................................................................................................................................................... 79
5.4.2. Si ntagmas preposi ci onai s nul os ................................................................................................................. 82
6. Sistematização formal das estruturas de complementação ........................................................ 83
6.1. General i zando estruturas com verbos l eves: verbos transi ti vos ................................................................. 83
6.2. Verbos transi ti vos versus verbos i nacusati vos ..................................................................................................... 87
6.3. Verbos i nacusati vos versus verbos i nergati vos .................................................................................................... 89
6.4. Verbos bi transi ti vos .......................................................................................................................................................... 90
GRAMATICA 3.indb 45 6/11/2009 14:47:01
6.5. Verbos “transi ti vos” com doi s argumentos i nternos ........................................................................................ 92
6.6. Esquema geral da estrutura do si ntagma verbal ................................................................................................ 94
Sugestões de leitura ........................................................................................................................................................... 95
Notas ............................................................................................................................................................................................... 96
GRAMATICA 3.indb 46 6/11/2009 14:47:01
47
2
COMPLEMENTAÇÃO
Sonia Cyrino*
Jairo Nunes**
Emilio Pagotto***
1. Introdução
Vimos no capítulo 1 que, numa perspectiva fregeana, um predicado pode
subsidiar julgamentos sobre a verdade ou a falsidade de proposições somente
quando estiver conectado aos argumentos que ele requer. Diz-se nesse caso
que o predicado está saturado. Um predicador verbal como colocar, por exem-
plo, demanda três argumentos e é a sua saturação através da conexão com os
sintagmas eu, a e na [escola] maternal em (1), por exemplo, que permite que a
proposição associada a essa sentença seja julgada como verdadeira ou falsa.
(1) a minha menina tem três anos agora ela foi a escola com um ano e quatro meses...
eu a coloquei na maternal com um ano e quatro meses.
(DID SSA 231)
Observe que essa concepção estritamente lógica oblitera a clássica distinção
entre sujeitos e complementos, pois cada argumento tem uma relação direta
com o verbo. A questão que devemos contemplar é se essa distinção é relevante
do ponto de vista linguístico e, em caso afirmativo, como capturá-la.
Que essa distinção é pertinente para uma compreensão mais abrangente
da faculdade da linguagem é fato indiscutível. Basta uma breve olhada em
qualquer gramática para encontrarmos uma série de diagnósticos semânti-
cos e sintáticos que opõem sujeitos, de um lado, e complementos, de outro.
* Universidade Estadual de Campinas/CNPq (Proc. n
o
308.765/2006-0).
** Universidade de São Paulo/CNPq (Proc. n
o
401148/2006-8).
*** Universidade de São Paulo.
GRAMATICA 3.indb 47 6/11/2009 14:47:01
SONIA CYRINO

JAIRO NUNES

EMILIO PAGOTTO
48
Pode-se (e deve-se!) questionar se os diagnósticos são os mais adequados e se
são derivados da interação de propriedades mais básicas. Mas a ideia de que a
distinção sujeito-complemento deve ser capturada em algum nível de análise
é ponto pacífico nos estudos linguísticos.
Este capítulo enfocará as relações de complementação no português brasilei-
ro (PB), estando organizado da seguinte forma. A seção 2 retoma a concepção
de complementação existente na gramática tradicional e a seção 3 explicita a
noção de complementação que exploraremos aqui, introduzindo a distinção
entre argumentos externos e internos. A seção 4 apresenta uma tipologia de
verbos em função dos tipos de complementos que eles tomam, e a seção 5
discute as várias possibilidades de realização desses complementos no PB.
Finalmente, a seção 6 refina a estrutura geral do sintagma verbal com base na
tipologia apresentada na seção 4.
2. A noção de complementação nas gramáticas tradicionais
1
A gramática tradicional geralmente flutua entre dois eixos para estabe-
lecer a distinção entre sujeitos e complementos. Num eixo mais semântico,
privilegiando aspectos lexicais do verbo, o sujeito é tido como o elemento
que tipicamente pratica a ação expressa pelo verbo e o complemento, como
o paciente dessa ação. Embora capture de modo transparente os prototípicos
predicados de ação na voz ativa, como em (2), por exemplo, em que nós é
o agente da ação e o sujeito da sentença e muito xinxim de galinha...bobó de
camarão...acarajé é o paciente da ação e o complemento do verbo, essa noção
não se mostra adequada nos exemplos de (3).
(2) então nós comemos muito xinxim de galinha...bobó de camarão...acarajé.
(DID RJ 328)
(3) a) Quase sempre ela é procurada pelos alunos.
(D2 SP 360)
b) Nós fomos a um restaurante lá.
(DID RJ 328)
c) Eu gosto mais de laranja.
(DID RJ 328)
d) Nós passamos uma tarde num lugar onde eles serviram uma refeição.
(DID RJ 328)
GRAMATICA 3.indb 48 6/11/2009 14:47:01
COMPLEMENTAÇÃO
49
Em (3a), temos um caso em que o sujeito da sentença não corresponde
ao agente da ação expressa pelo verbo (os alunos), mas ao paciente (ela). Em
(3b), por sua vez, temos um verbo de ação que toma como complemento
um elemento locativo (a um restaurante lá), que não é entendido natural-
mente como o paciente da ação. Já em (3c) e (3d) não temos verbos de ação.
Verbos psicológicos como gostar podem ser analisados como requerendo
um experienciador e uma fonte desencadeadora da experiência psicológica,
enquanto verbos de estado como passar, como requerendo um tema, um
tempo e um lugar. Apesar da ausência de agentes e pacientes em (3c) e (3d),
ainda assim se observa a distinção entre sujeitos de um lado [eu em (3c) e nós
(3d)] e complementos de outro [de laranja em (3c) e uma tarde e num lugar
onde eles serviram uma refeição em (3d)]. Destaque-se também que em (3b)
e (3d) os complementos têm natureza adverbial, fato que é apontado por
inúmeros gramáticos, mas acabou ignorado pela Nomenclatura Gramatical
Brasileira de 1959, que vem pautando as gramáticas escolares a partir da
década de 1960.
O outro eixo que a gramática tradicional explora para distinguir sujeitos
de complementos é de natureza mais sintática. Nessa perspectiva, o sujeito
é tomado como o sintagma com o qual o verbo concorda e que exibe caso
reto (nominativo) quando pronominal. Uma vez identificado assim o sujei-
to, as gramáticas costumam então lidar com a relação de complementação
na descrição da sintaxe dos termos da sentença e nas listas de regência. No
caso específico da complementação verbal, levam-se em conta as relações de
complementação para classificar tipos de verbos (transitivos, intransitivos e
de ligação) e a forma dos complementos para distinguir sua função sintática
(objeto direto e objeto indireto). Já o termo regência tem sofrido mudanças
no seu emprego: já designou a relação entre um núcleo e seus especificadores
e complementos, passando a designar apenas as relações de complementação,
sendo por fim empregado mais recentemente como a subcategorização lexical
de cada verbo com relação à preposição. A regência de um verbo passa a ser,
assim, a presença ou não de preposição no seu complemento e a especificação
lexical dessa preposição.
Essa perspectiva mais sintática faz as distinções desejadas entre sujeitos
e complementos nos dados de (2) e (3), mas de certa forma perde-se agora
a generalização de que, passivas à parte, quando verbos de ação estiverem
associados a um agente e um paciente, o agente vai corresponder ao sujeito,
GRAMATICA 3.indb 49 6/11/2009 14:47:01
SONIA CYRINO

JAIRO NUNES

EMILIO PAGOTTO
50
e o paciente, ao complemento. Ou seja, uma visão estritamente sintática não
explica por que é o agente o elemento que desencadeia a concordância verbal
nessas construções.
A noção de complementação que vamos adotar neste capítulo vai tomar
os eixos semântico e sintático não como excludentes, mas como complemen-
tares. Como veremos na seção 3 abaixo, as generalizações semânticas serão
determinadas pela estruturação da relação do verbo com seus argumentos e
as questões pertinentes à concordância verbal estarão associadas à posição
estrutural dos argumentos dentro da sentença.
3. A noção de complementação a ser adotada neste volume
A informação constante na entrada lexical de um verbo envolve, entre
outras coisas, três especificações:
1) quantos (de zero a três) são os argumentos que esse verbo requer;
2) qual é o papel temático (agente, paciente, experienciador etc.) desses
argumentos;
3) qual é a realização sintática (sintagma nominal, sintagma preposicional
etc.) de tais argumentos.
Até certo ponto, essas especificações são independentes. Os verbos adorar
e gostar em (4), por exemplo, requerem o mesmo número de argumentos e o
mesmo tipo de papel temático para esses argumentos, mas exigem comple-
mentos sintáticos diferentes: enquanto adorar seleciona um sintagma nominal
(SN), gostar seleciona um sintagma preposicional (SPrep).
(4) a) eu adorei o tal do acarajé.
(DID RJ 328)
b) eu gosto de qualquer tipo de bebida... cachaça... desde a cachaça até o
vinho mais fino.
(DID RJ 328)
Do ponto de vista semântico, por outro lado, um verbo não somente de-
termina o número de argumentos a ser projetado na sintaxe, como também
especifica que tipos de relações semânticas se estabelecem entre tais argumentos
GRAMATICA 3.indb 50 6/11/2009 14:47:01
COMPLEMENTAÇÃO
51
e o processo descrito pelo verbo. Ao contrário do que poderia sugerir a abor-
dagem fregeana mencionada na seção 1, diferentes argumentos não interagem
com o verbo ou entre si da mesma maneira. Considere a demonstração com
o verbo tomar em (5), por exemplo.
(5) a) e também não tinha sal:: temperinho porque às vezes agora a gente precisa tomar
sopa de pedregulho né?
(EF SP 405)
b) TOdo o DIA pegava uma amiguinha pegava um:: bonde aqui (do) São João que
tinha..., e:: íamos tomar banho né? lá no:: no Barroso...
(DID POA 45)
c) essa parte estudantil que está se interessando para isso por isso... está tomando
assim:: ma/... maior impulso...
(DID SP 234)
d) os alunos parece que tomam conta... dos professores...
(DID POA 45)
e) é um milagre, foi uma economia... impelida a seguir o seu caminho, tendo que
tomá-lo tá claro?
(EF RJ 379)
f ) através DEle que o senhor presidente vai tomar pé... das questões... mais im-
portantes... desde as menores digamos assim até as mais relevantes...
(DID REC 131)
g) porque normalmente quando tem muitos... e um começa... [...] a... a a ((risos))
a tomar atitudes mais ou menos autoritárias.
(D2 SP 360)
h) essa questão... toma uma outra dimensão... porque DESAPARECE... por assim
dizer... a chamada relação... patrão... e empregado...
(DID REC 131)
i) mas o tipo de trote mesmo que eu tomei eu achei uma beleza...
(DID SSA 98)
Embora tomar selecione dois argumentos em todas as sentenças de (5), o
verbo parece formar uma unidade semântica com apenas um dos argumen-
tos. Ou seja, tomar sopa, tomar banho, tomar impulso, tomar conta, tomar um
caminho, tomar pé, tomar uma atitude, tomar uma dimensão e tomar trote em
(5) soam como unidades semânticas bem-formadas, na medida em que podem
ter seu valor semântico estabelecido independentemente do outro argumento
requerido pelo verbo; já sequências como a gente toma, nós tomávamos, essa
parte estudantil toma, os alunos tomam, uma economia tomou, o senhor presi-
GRAMATICA 3.indb 51 6/11/2009 14:47:01
SONIA CYRINO

JAIRO NUNES

EMILIO PAGOTTO
52
dente tomará, um toma, essa questão toma ou eu tomei só recebem interpretação
apropriada quando associados ao outro argumento do verbo.
O contraste entre as sentenças de (6) e (7) abaixo também aponta para
a mesma conclusão. Manteve-se como constante em (6) o segundo argu-
mento de tomar e em (7) o primeiro argumento. Em (6), a mudança do
pri meiro argumento de o João para o cachorro não acarreta diferença na in-
terpre tação do segundo argumento. Já em (7), embora o primeiro argumen-
to se mantenha constante, seu papel semântico muda à medida que muda
o segundo argumento. O João tem um papel semântico totalmente distinto
quando associado a tomar uma decisão e tomar um pescoção, por exemplo.
Dito de outra forma, a interpretação do primeiro argumento é composi-
cionalmente determinada não em função de uma relação direta com o ver-
bo, mas em função da relação previamente estabelecida entre o verbo e o
segundo argumento.
(6) a) O João tomou água.
b) O cachorro tomou água.
(7) a) O João tomou o ônibus.
b) O João tomou café.
c) O João tomou vergonha.
d) O João tomou uma decisão.
e) O João tomou um pescoção.
Fatos como os ilustrados em (5)-(7) estão, na verdade, em consonância
com a herança gramatical que se origina da gramática de Port-Royal, que
toma a complementação de um verbo como uma espécie de desdobramento
do elemento predicador. Sendo o verbo um predicador — aquele que diz
algo do sujeito —, o verbo intransitivo seria o predicador por excelência. O
verbo transitivo, por sua vez, constituiria com o seu complemento uma es-
pécie de predicador composto: é um predicador cuja raiz não traria toda a
informação necessária à predicação, precisando ser desdobrado.
Evitando-se as armadilhas a que o termo sujeito pode conduzir, assunto que
será discutido no capítulo 3, a assimetria entre diferentes argumentos vista
acima foi reinterpretada mais recentemente em função da oposição argumento
externo vs argumento interno. A ideia é que a relação de dependência semântica
entre os argumentos espelha uma assimetria sintática. Em (7a), por exemplo,
GRAMATICA 3.indb 52 6/11/2009 14:47:01
COMPLEMENTAÇÃO
53
tomou forma uma unidade sintática complexa com o sintagma nominal o
ônibus, excluindo o primeiro argumento, como representado em (8).
(8) SV
V
SN
1
V’
4 V
o João V SN
2
g 4
tomou o ônibus
Em (8), cada nó na árvore representa um constituinte sintático. Assim, a
conexão sintática entre o verbo e SN
2
forma um constituinte verbal, V’, cha-
mado de projeção intermediária para se distinguir do item lexical tomou e de
todo o sintagma verbal, e a conexão sintática de V’ com SN
1
, por sua vez,
resulta no sintagma verbal pleno (SV). A representação em (8) pode receber
agora uma interpretação semântica composicional adequada, baseada na es-
trutura sintática: o verbo estabelece uma relação semântica com SN
2
e V’
estabelece uma relação semântica com SN
1
. É por isso que, se mudamos o
segundo argumento das sentenças de (7), o valor semântico de o João pode se
alterar. Ao substituir o ônibus por outro sintagma nominal, o conteúdo de V’
em (8) vai ser diferente e, portanto, a relação semântica estabelecida entre
V’ e SN
1
é potencialmente diferente.
Chega-se, assim, à distinção entre argumentos internos e externos. Ar-
gumentos internos estabelecem uma relação sintática direta com o verbo no
interior de V’, enquanto argumentos externos são os elementos que estão
imediatamente dominados por SV e estabelecem uma conexão sintática com
V’. À oposição semântica argumento externo/argumento interno correspon-
de a distinção sintática especificador/complemento. Em (8), por exemplo,
dizemos que o João é o argumento externo/especificador de tomou, e o ônibus,
seu argumento interno/complemento.
Um argumento independente para a estrutura do sintagma verbal nos
moldes de (8) é fornecido por expressões idiomáticas. São inúmeros os casos
de expressões idiomáticas com o formato [
SV
SN
1
[
V’
V SN
2
]], em que o verbo
e o argumento interno sombreados formam uma expressão idiomática que
não inclui o argumento externo, como exemplificado em (9).
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SONIA CYRINO

JAIRO NUNES

EMILIO PAGOTTO
54
(9) a) O João pintou o sete . (~ ‘fez bagunça’)
b) O João bateu o pé . (~ ‘insistiu em sua posição’)
c) O João

esticou as canelas. (~ ‘morreu’)
d) O João

chutou o balde . (~ ‘fez besteira’)
Por outro lado, não existem casos com o formato [
SV

SN
1
[
V’
V

SN
2
]], que
deveriam corresponder a expressões idiomáticas envolvendo o argumento
externo e o verbo, excluindo o argumento interno. Essa lacuna encontra ex-
plicação se expressões idiomáticas tiverem de corresponder a um constituinte
sintático. Observe que SN
1
e V não formam um constituinte sintático nessas
estruturas. Em outras palavras, a inexistência de expressões idiomáticas com
o formato [
SV

SN
1
[
V’
V SN
2
]] mostra que o argumento externo não estabelece
uma relação semântica direta com o verbo, mas sim com V’.
Apesar de estar fundamentalmente alicerçada numa distinção estrutural,
observe que a oposição argumento externo/argumento interno está norteada
para o eixo semântico mencionado na seção 2. Subjaz a essa discussão a ideia
de que um argumento vai ocupar a posição de especificador ou de comple-
mento do verbo em função de seu papel temático. Assim, o papel temático
de agente será canonicamente atribuído à posição de especificador do verbo
e o de paciente, ao seu complemento. A exceção aparece quando construções
passivas entram em campo.
Considere, por exemplo, o par de sentenças em (10).
(10) a) Recife engoliu Olinda.
(D2 REC 05)
b) Olinda foi engolida pelo Recife.
(D2 REC 05)
Em termos semânticos, Olinda recebe o papel temático de paciente
em ambas as sentenças; portanto, deve estar associado à posição de com-
plemento do verbo. A distinção semântica mais fundamental entre ativas
e passivas na verdade diz respeito ao argumento externo. Em construções
ativas, o pa pel temático de agente é obrigatoriamente atribuído ao argu-
mento externo; já em construções passivas, o papel temático de agente é
opcional e, se presente, é realizado estruturalmente como um adjunto (o
agente da passiva na terminologia tradicional). As representações em (11)
GRAMATICA 3.indb 54 6/11/2009 14:47:02
COMPLEMENTAÇÃO
55
retratam essa diferença estrutural (a estrutura da adjunção será discutida
mais detidamente no cap. 4).
(11) a) SV
V
SN V’
4 V
Recife V SN
g 4
engoliu Olinda
b)
V
foi SV
V
SV SPrep
V 4
V’ pelo Recife
V
V SN
g 4
engolida Olinda
Uma diferença independente entre ativas e passivas que pode ter repercussões
para a realização do argumento interno é que o verbo transitivo, quando pas-
sivizado, perde sua capacidade de atribuir caso acusativo ao seu complemento.
Isso fica claro quando examinamos sentenças envolvendo clíticos (pronomes
pessoais átonos) acusativos. O argumento interno da estrutura em (11a) pode
ser realizado pelo clítico acusativo a, mas não o argumento interno de (11b),
como se pode ver em (12) (o asterisco é usado para registrar a inaceitabilidade
de uma sentença). O argumento interno de uma passiva na verdade funciona
como o sujeito sintático da sentença, determinando concordância com o verbo
auxiliar e exibindo caso nominativo [cf. ela em (12b)].
(12) a) O Recife a engoliu.
b) *Foi engolida-a pelo Recife/*Foi a engolida pelo Recife/*A foi engolida pelo
Recife/Ela foi engolida pelo Recife.
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SONIA CYRINO

JAIRO NUNES

EMILIO PAGOTTO
56
Embora as estruturas em (11) sejam adequadas para capturar o fato de
que em ambas as sentenças de (10) Olinda é, semanticamente, um argumento
interno, (11b) não dá conta da ordem em que esse sintagma aparece em (10b).
Isso, no entanto, não é na realidade um problema. Simplesmente reflete uma
das propriedades fundamentais da sintaxe das línguas humanas, comumente
referida como movimento de constituintes sintáticos: o fato de elementos
associados semanticamente a uma posição estrutural poderem ser realizados
em outra posição. Metaforicamente falando, é como se, depois de receber o
papel temático de paciente na posição de complemento em (11b), o SN os
meninos resolvesse dar uma voltinha pela sentença e acabasse estacionando
numa posição externa ao SV, como ilustrado em (13).
(13) [[
SN
Olinda] [ foi [
SV
[
SV
[
V’
engolida __ ]] [
SPrep
pelo Recife]]]]
"---------------m
E esse passeio estrutural definitivamente não é uma idiossincrasia de cons-
truções passivas. Em (14a), por exemplo, é demonstrado que um argumento
interno de uma construção ativa (nesse caso, o sintagma nominal quantos
[pastéis de nata]) também pode fazer passeio semelhante, como ilustrado em
(14b).
(14) a) quantos o senhor deseja?
(EF REC 337)
b) [[
SN
quantos] [o senhor deseja __ ]]
"------------m
Note que podemos agora resgatar a definição de sujeito dentro da perspec-
tiva eminentemente sintática (o termo que desencadeia concordância e que
exibe caso nominativo), reinterpretando-a em termos de uma posição estru-
tural específica. Para os nossos propósitos do momento (essas questões serão
retomadas em detalhe no cap. 3), basta dizer que (i) uma determinada posição
externa ao SV, a que nos referiremos como posição de sujeito, está associada à
realização de caso nominativo e à especificação da concordância verbal; e (ii) o
argumento na posição estruturalmente mais alta no SV é o que pode mover-se
para a posição de sujeito. Assim, em (11a) Recife é o argumento na posição mais
alta e, portanto, é o argumento que pode se mover para a posição de sujeito,
desencadeando concordância de terceira pessoa do singular e recebendo caso
GRAMATICA 3.indb 56 6/11/2009 14:47:02
COMPLEMENTAÇÃO
57
nominativo. Já em (11b), não há nenhum argumento em posição mais alta
que o SN Olinda, uma vez que pelo Recife é na verdade um adjunto. Olinda
pode então se mover para a posição de sujeito [cf. (10b)], determinando a
concordância do verbo e recebendo caso nominativo [cf. (12b)].
A abordagem delineada acima vem reconciliar, portanto, os eixos semân-
tico e sintático que norteiam as diferentes perspectivas sob as quais a gramá-
tica tradicional distingue sujeitos e complementos. No plano mais semântico,
o que é relevante é o tipo de papel temático que um determinado verbo deve
atribuir aos seus argumentos. Isso por sua vez conduz à distinção entre argu-
mentos externos, que ocupam a posição de especificador de SV e têm seu
papel semântico determinado por V’, e argumentos internos, que ocupam a
posição de complemento e têm seu papel semântico definido no interior de
V’. A noção de sujeito fica associada a uma posição estrutural externa ao SV
e, enquanto tal, é indiferente ao papel temático do sintagma que venha a
ocupá-la, admitindo tanto argumentos externos [cf. (10a)] quanto internos
[cf. (10b)]. A definição do argumento que pode ocupar essa posição se dá em
função da posição estrutural dos argumentos dentro de SV: o argumento
em posição estrutural mais alta é o eleito para ser alçado à condição de sujei-
to. A noção de complementação relevante para as seções que se seguem diz
respeito à relação entre verbos e seus argumentos internos.
4. Tipos de verbos em função de sua complementação
Uma vez estabelecida em linhas gerais a distinção entre argumentos ex-
ternos e argumentos internos na seção 3, os verbos podem ser classificados
não só em relação ao número de argumentos que requerem, mas também
em relação à natureza desses argumentos. Veremos abaixo que a distinção
argumento externo/argumento interno permite identificar tipos de verbos
não vislumbrados pela gramática tradicional.
4.1. Verbos sem argumentos
Verbos que expressam fenômenos climáticos como ventar, escurecer, ama-
nhecer e garoar, por exemplo, em geral não requerem nenhum argumento
(nem interno nem externo), como ilustrado em (15).
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(15) a) choveu muito uma temporada quando a gente ia com o SESC.
(DID POA 45)
b) SV
!
V’
!
V
!
choveu
4.2. Verbos transitivos
Os exemplos clássicos de verbos transitivos envolvem os verbos de ação
usados na voz ativa. O agente ocupa o especificador de SV e o paciente ocupa
o complemento de V, como exemplificado em (16).
(16) a) lá nós comemos um quindim por quinze cruzeiros também...
(DID RJ 328)
b) SV
V
SN V’
4 V
nós V SN
g 4
comemos um quindim
4.3. Verbos bitransitivos
Verbos bitransitivos — verbos que a gramática tradicional chama de transi-
tivos diretos e indiretos — envolvem um argumento externo e dois argumentos
internos. Representantes típicos dessa classe são os verbos de transferência de
posse e os verbos de posicionamento, como ilustrado em (17), que vão estar
associados às estruturas em (18) (ver seção 6.4 para mais detalhes).
(17) a) aí eu fico trabalhando em casa mas tomando conta toda hora preciso interromper
no meio de um negócio para::... levar um ao banheiro para dar uma comida
para outro::...
(D2 SP 360)
b) há um determinado momento em que eu vou colocar resumo na translação.
(EF POA 278)
GRAMATICA 3.indb 58 6/11/2009 14:47:02
COMPLEMENTAÇÃO
59
(18) a) SV
V
SN V’
4 8
[eu] V SN SPrep
g 4 5
dar uma para outro
comida
b) SV
V
SN V’
4 8
[eu] V SN SPrep
g 4 5
colocar resumo na translação
4.4. Verbos inacusativos e inergativos
Até o momento não nos distanciamos muito da gramática tradicional.
Apenas fornecemos uma representação estrutural para as classes de verbos
previamente identificadas na tradição gramatical. O mesmo não ocorre quando
verbos monoargumentais, os tradicionais verbos intransitivos, entram em cena.
Em termos de possibilidades lógicas, verbos monoargumentais deveriam poder
selecionar um argumento externo, como esquematicamente representado em
(19a), ou um argumento interno, como em (19b).
(19) a) SV
V
argumento V’
externo g
V
b) SV
g
V’
V
V argumento
interno
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60
De acordo como o que vimos na seção 3, estruturas como (19a) e (19b) não
só são sintaticamente diferentes, mas também codificam diferentes relações
semânticas com o verbo. Em outras palavras, a distinção entre argumentos
externos e internos prevê que os chamados verbos intransitivos na verdade
envolvam duas classes de verbos com propriedades distintas. Um dos mais
interessantes desenvolvimentos dos estudos gramaticais das últimas décadas
foi a comprovação de que essa previsão está de fato correta.
Para verificar como podemos testar essa previsão, vamos primeiro examinar
os dados em (20) e (21), em que # indica que a sentença não é condizente
com a construção transitiva ativa que introduz o paradigma.
(20) a) A Maria comprou as casas.
b) Compradas as casas, ...
c) #Comprada a Maria, ...
(21) a) A Maria comprou as casas.
b) As casas estão compradas.
c) #A Maria está comprada.
Os contrastes entre (20b) e (20c) e entre (21b) e (21c) mostram que cons-
truções de particípio absoluto (orações subordinadas adverbiais temporais
reduzidas de particípio) e passivas estativas (passivas com o verbo estar) se
constroem com o argumento interno de um verbo transitivo, não com seu
argumento externo.
Com isso em mente, consideremos agora os verbos monoargumentais de
(22a) e (23a) e seu comportamento em relação aos testes do particípio absoluto
e das passivas estativas.
(22) a) Os últimos combatentes sumiram/caíram/desapareceram.
b) Sumidos/caídos/desaparecidos os últimos combatentes, a batalha terminou.
c) Os últimos combatentes estavam sumidos/caídos/desaparecidos.
(23) a) A Maria tossiu/espirrou/dormiu.
b) *Tossida/*Espirrada/*Dormida a Maria, todos ficaram preocupados.
c) A Maria está *tossida/*espirrada/*dormida.
Em função de selecionarem apenas um argumento, verbos como sumir,
cair, desaparecer, tossir, espirrar e dormir são tradicionalmente classificados
GRAMATICA 3.indb 60 6/11/2009 14:47:02
COMPLEMENTAÇÃO
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indistintamente como intransitivos. O contraste entre os verbos de (22) e
os de (23), no entanto, evidencia que na verdade estamos lidando com duas
classes distintas de verbos: os verbos de (22a) são compatíveis com particípio
absoluto e passivas estativas, ao contrário dos verbos de (23a). Como visto
em (20) e (21), essas construções tomam como alvo o argumento interno de
um verbo. Portanto, o diferente comportamento dos verbos de (22a) e (23a)
está refletindo a assimetria prevista pelas duas estruturas apresentadas em
(19). Em outras palavras, verbos como sumir, cair e desaparecer selecionam
um argumento interno, como representado em (19b), e portanto podem estar
sujeitos a processos sintáticos que afetam argumentos internos; verbos como
tossir, espirrar e dormir, por outro lado, selecionam um argumento externo,
como representado em (19a), e são refratários a esses processos.
Observe que, como no caso das passivas [cf. (10b), (12b), (13)], o argumento
interno os últimos combatentes em (22a) precede o verbo relevante, desencadeia
concordância verbal e recebe caso nominativo ao invés de acusativo, como
ilustrado em (24).
(24) a) Eles sumiram/caíram/desapareceram.
b) *Os sumiram/caíram/desapareceram/*Sumiram-nos/*Caíram-nos/
*Desapareceram-nos.
É importante ressaltar que isso, entretanto, não o descaracteriza enquanto
argumento interno. Como vimos na seção 3, a concordância verbal e a rea-
lização de caso nominativo são desencadeadas a partir da posição de sujeito
(externa a SV), que pode hospedar tanto argumentos externos quanto internos.
Note que, na ausência de um argumento externo em (19b) para competir
pela posição de sujeito, o argumento interno é um candidato legítimo para
ocupar essa posição [à semelhança do que ocorre com passivas; cf. (11b)] e é
o que ocorre em (22a).
Ao adotarmos uma perspectiva em que os eixos semântico e sintático são
complementares e a noção de sujeito está desvinculada do caráter interno ou
externo de um argumento, abre-se espaço para uma necessária reclassificação
dos chamados verbos intransitivos, tendo em conta o tipo de seu argumento.
Verbos cujo único argumento está associado à posição de complemento [cf.
(19b)], como é o caso de sumir, cair e desaparecer, são referidos como verbos
inacusativos; já verbos cujo único argumento está associado à posição de
GRAMATICA 3.indb 61 6/11/2009 14:47:02
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especificador de SV [cf. (19a)] são designados como verbos inergativos. Os
exemplos (25) e (26) ilustram essa diferença estrutural:
(25) a) o grande mal das estradas brasileiras é o mesmo troço do sujeito fazer uma casa...
entendeu...com uma lajezinha bem fininha e botar em cima um depósito de/
de/ de PEso muito grande... a casa cai... entende...
(D2 SSA 98)
b) SV
g
V’
V
V SN
g 4
cai a casa
(26) a) se TEM AUla (ele diz) “DROga estou com sono quero dormir [...]”.
(D2 SP 360)
b) SV
V
SN V’
4 g
[eu] V
g
dormir
4.5. Verbos de alçamento
Os chamados verbos de alçamento são uma expansão dos tradicionais
verbos de ligação ilustrados em (27).
(27) a) Os meninos parecem felizes.
b) Os meninos acabaram doentes.
Como vimos no capítulo 1, verbos de ligação não selecionam um argu-
mento externo, e seu argumento interno contém uma estrutura de predicação.
Em (27), por exemplo, o SN os meninos não é um argumento do verbo, mas
do adjetivo. Prova disso é que sentenças como (28) são pragmaticamente
inadequadas não por serem incompatíveis com o verbo, como evidenciado
por (29), mas por serem incompatíveis com o adjetivo.
GRAMATICA 3.indb 62 6/11/2009 14:47:02
COMPLEMENTAÇÃO
63
(28) a) #Aquelas pedras parecem felizes.
b) #Aquelas pedras acabaram doentes.
(29) a) Aquelas pedras parecem frias.
b) Aquelas pedras acabaram congeladas.
Os verbos parecer e acabar, portanto, tomam como argumento interno
uma estrutura que contém uma predicação. Isso fica ainda mais claro quando
o argumento interno toma a forma de uma sentença finita, como em (30).
(30) a) parece que a gente se sente até mais... assim por fora.
(DID SP 234)
b) Acabou que nós não entramos na concorrência.
Considere agora as sentenças em (31), cuja sentença subordinada se en-
contra reduzida.
(31) a) A gente parece se sentir até mais por fora.
b) porque nós íamos entrar na concorrência acabamos não entrando.
(D2 SSA 98)
O sujeito da sentença principal em (31) não é um argumento do verbo
parecer ou acabar, mas sim dos verbos da sentença subordinada, como de-
monstrado pelas correspondentes paráfrases em (30). Metaforicamente, di-
zemos que o sujeito da sentença principal em (31), assim como o sujeito de
construções predicativas como em (27), foi “alçado” para essa posição a par-
tir da estrutura de predicação subordinada (ver também cap. 3). Verbos cujo
sujeito é argumento de outro predicador são, assim, chamados de verbos de
alçamento. Os verbos de alçamento vão, portanto, englobar os chamados
verbos de ligação, como os exemplificados em (32), e também os verbos au-
xiliares, como os exemplificados em (33), já que eles não estão associados a
papéis temáticos, e seus sujeitos são argumentos do verbo “principal”.
(32) a) eu sou assim meio chata pra essas coisas né?
(DID RJ 328)
b) eu acho que teatro está bem mais caro.
(DID SP 234)
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c) tem muita gente que fica chateada ou pelo menos desapontada... né?
(D2 SP 360)
d) sei lá ando muito cansada não tenho ido mais a teatro.
(DID SP 234)
e) ele permanece fiel a essa comunicação, mas utilizando as suas palavras, sem
alterar o sentido.
(EF POA 278)
(33) a) nós estamos aqui para esclarecer as dúvidas que vão surgindo.
(EF POA 278)
b) agora na escola ele aprendeu rapidamente a ler...e começou a ler os livros que
nós já tínhamos lido para ele.
(D2 SP 360)
c) quando nós falamos em instrumentos de avaliação nós logo devemos pensar que
níveis de pensamento esses instrumentos estão nos permitindo avaliar.
(EF POA 278)
d) mas realmente a cadeia de supermercados aqui é de de de de de Recife provavel-
mente é superior a qualquer uma do país... isso vocês podem julgar lá vendo...
(D2 REC 05)
A representação da estrutura temática de uma construção de alçamento
como em (34a), por exemplo, terá, portanto, o formato em (34b).
(34) a) eu se puder ainda acabo ca... pedindo transferência pra Universidade Federal
do Paraná...
(D2 RJ 355)
b) SV
g

V

V
V S
g 6
acabo [eu] pedindo transferência
pra Universidade Federal do Paraná
4.6. Verbos leves
Na seção 3, vimos que um argumento externo estabelece uma relação
semântica com V’, que no caso de construções transitivas envolve o verbo e
seu complemento. Como mencionamos, é como se o verbo e o complemento
formassem uma predicação complexa monoargumental que é então saturada
GRAMATICA 3.indb 64 6/11/2009 14:47:03
COMPLEMENTAÇÃO
65
pelo argumento externo. Evidência para essa relação complexa é fornecida
por uma classe de verbos que tem conteúdo semântico bastante esvaecido,
como ilustrado abaixo com os verbos dar e ter.
(35) a) e olha quando eu começo a dar risada vou te contar.
(DID SP 234)
b) e eu aproveito pra... fazer minhas comprinhas dar um passeio também.
(DID POA 45)
c) quer dizer que dá trabalho.
(D2 SP 360)
d) às vezes a gente dá uma fugiDlnha:: até a casa deles bater um papinho assim né?
(DID POA 45)
e) eu me lembro até que... quando nós fomos na:: (na viagem) era uma camionete...
dava um cheiro de balaca queimada.
(DID POA 278)
f ) então que que a gente fazia? a gente se agarrava NUM e dava impulso com pés
para se agarrar com o outro né?
(DID POA 278)
g) eu dei u::ma rápida olhada sabe? mas vi matérias assim interessantes para ela
dentro de outras... ah:: carreiras.
(D2 SP 360)
h) do aumento do custo de vida, então deu quarenta e, quarenta e poucos por cento,
né?
(D2 RJ 355)
i) a programação... havia sido planejada... mas não deu certo...
(D2 SP 360)
(36) a) as duas coisas fazem parte do mundo e têm e passam a ter uma existência.
(EF SP 405)
b) ele vai ter poder sobre a vida dele.
(EF SP 405)
c) e eu pensei que ela fosse ter problema porque ela não fala muito...
(D2 SP 360)
d) o professor não se relacionava com o estudante exatamente pro estudante ter
medo ter pavor dele e respeitar...
(DID SSA 231)
e) então se eu comer muito na hora do café não vou ter vontade de almoçar...
(DID RJ 328)
f ) ele tem uma capacidade de usar ao máximo os recursos, ou deles ou conseguidos
de fora.
(EF RJ 379)
GRAMATICA 3.indb 65 6/11/2009 14:47:03
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g) uma coisa é dizer que a arte na época... tinha fun-ção... pragmática... porque
é isso que a gente vem dizendo até agora certo?
(EF SP 405)
h) não tem importância que a gente chama de análise ou chama de interpretação
o importante é que o processo se realize.
(EF POA 278)
i) é FUNdo ali.., tinha uns três metros de profundidade...
(DID POA 45)
Verbos como dar e ter nas sentenças acima parecem adquirir sua significação
quase que exclusivamente de seu complemento. Isso fica transparente nos casos
em que a projeção de V’ nucleada por esses elementos pode ser parafraseada
por um único verbo, como em dar uma risada ~ rir, dar um passeio ~ passear,
ter existência ~ existir ou ter medo ~ temer, por exemplo. Denomina-se de verbo
leve esse tipo de verbo com conteúdo mais gramatical que semântico, cuja
função primordial é a de formar predicados complexos, associando proprie-
dades verbais (como tempo, por exemplo) a seu complemento. A estrutura
associada a verbos leves será discutida na seção 6.1.
5. Forma dos complementos
Tendo apresentado o funcionamento da complementação em seus princípios
gerais, passaremos a nos ocupar nesta seção de fatos gramaticais relativos à
forma de realização dos complementos no PB. Vamos enfocar especificamente
os complementos dos verbos transitivos e bitransitivos, uma vez que a reali-
zação sintática do argumento interno de verbos inacusativos e de alçamento
está em última instância associada à posição de sujeito externa a SV (a posição
associada à concordância verbal e caso nominativo), como visto na seção 4.
Esses casos serão abordados no capítulo 3.
5.1. Aspectos gerais da complementação em PB
Em termos gerais, podemos ter três tipos de complementos no que diz
respeito à sua estrutura sintática. Um argumento interno pode se apresentar
como uma sentença, como um sintagma nominal, ou como um sintagma
preposicional, como respectivamente exemplificado abaixo.
GRAMATICA 3.indb 66 6/11/2009 14:47:03
COMPLEMENTAÇÃO
67
(37) ... eu notei que o público era mais refinado, sabe?
(DID SP 234)
(38) eles preparam a peça.
(DID SP 234)
(39) e eu pensei em merenda fornecida pelo governo...
(DID RJ 328)
Como mencionado na seção 3, a seleção de um complemento preposicio-
na do, como em (39), ou não-preposicionado, como em (37) e (38), é até certo
ponto uma propriedade idiossincrática do verbo. Verbos que têm propriedades
temáticas semelhantes podem diferir em relação à realização sintática de seu
complemento, como ilustrado em (40) e (41), com adorar selecionando um com-
plemento não-preposicionado, e gostar, um complemento preposicionado.
(40) eu adoro aplicar em obra de arte.
(D2 RJ 355)
(41) não gosto de fazer um regime assim desses regimes brutos.
(DID RJ 328)
Entretanto, há também casos em que a presença da preposição é previsível.
No caso de verbos bitransitivos, se um argumento não é preposicionado, o
segundo necessariamente é, a não ser que se trate de um clítico dativo. Em
(42), por exemplo, o segundo complemento de colocar, trazer e ensinar é pre-
posicionado; já (43) envolve dois complementos não-preposicionados, pois o
complemento que seria preposicionado é realizado como um clítico dativo.
(42) a) os outros mesmos não se incumbem de colocá-la no lugar dela?
(D2 SP 360)
b) mas eu trago muito processo para casa.
(D2 SP 360)
c) como eu não tinha condição de ensinar MUIta coisa a ela.
(DID SSA 231)
(43) a) eu num posso no momento... lhe dar... uma resposta afirmativa sobre essa
questão...
(DID REC 131)
b) não sei o que te responder.
(DID SP 234)
c) Eduardo me diga uma coisa.
(EF REC 337)
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Um subtipo de complemento SN merece especial atenção, a saber, os com-
plementos envolvendo pronomes pessoais. O PB passou por profundas mu-
danças nos dois últimos séculos que afetaram substancialmente o quadro dos
complementos pronominais. Tais mudanças resultaram, entre outras coisas,
no desaparecimento de alguns pronomes clíticos, como o pronome o em (44),
que só ocorre em textos altamente formais, no surgimento de pronomes
plenos (não-átonos) na posição de objeto, como ilustrado em (45), e no es-
tabelecimento de um sistema essencialmente proclítico de colocação prono-
minal, como ilustrado em (46).
(44) Eu não acredito que o Pedro está doente, mas sua irmã o afirmou com todas
as letras.
(45) Acho que a es/ a criança deve ir o mais cedo possível a escola (né)?... e... uma coisa
que eu não me arrependi foi ter botado ela com um ano e quatro meses...
(DID SSA 98).
(46) mas me disseram que é uma miséria.
(D2 SSA 98)
Também merece destaque o fato de o PB admitir complementos foneti-
camente não realizados, como se pode ver em (47).
(47) então eu acho... válido botar a criança o mais cedo possível na escola... agora de-
PENde da escola (quer dizer) eu procurei uma escola bem::... menor... de POUcos
aLUnos... bem mais aconcheGANte o ambiente... não procurei escola muito grande
que a criança ficasse perDIDA... dentro da escola... que ela sentisse o carinho da
profesora a atenção poucos al/ os as crianças então ela vai cursar aí até o (prontidão)
que são cinco anos de colégio... daí ela sai pra ser alfabetizada... o meu problema
agora é ONde botar [ø] pra ser alfabetizada... se eu botaria [ø] logo num colégio
como eu fiz.
(DID SP 234)
Essas propriedades da complementação em PB estão retomadas em maior
detalhe nas seções que se seguem.

5.2. Complementos sentenciais
Quanto à estrutura sintática do complemento sentencial, podemos dis-
tinguir três tipos de estrutura: sentenças com tempo finito, sentenças com
GRAMATICA 3.indb 68 6/11/2009 14:47:03
COMPLEMENTAÇÃO
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o verbo no infinitivo e estruturas predicativas sem verbos, que chamaremos
de miniorações (MO).
Os complementos sentenciais com tempo finito são iniciados por um
complementizador (uma conjunção subordinativa), como exemplificado em
(48). Além disso, podem se apresentar tanto no modo indicativo, quanto no
modo subjuntivo, a depender do verbo que toma a sentença como comple-
mento, como ilustrado em (49).
(48) a) o senhor falou [que a enxada é diferente do enxadão].
(DID SP 234)
b) então ela vê [se as gavetas estão em orde/... em ordem].
(D2 SP 360)
(49) a) eu notei [que o público era mais refinado], sabe?
(DID SP 234)
b) ele vai desejar [que o aluno não fique apenas no nível de memorização].
(EF POA 278)
Os complementos sentenciais infinitivos, por outro lado, nunca são ini-
ciados por um complementizador, como exemplificado em (50).
(50) a) então vamos tentar [reconstruir a maneira de vida desse Povo].
(EF SP 405)
b) ... pretendia [ir pela Varig].
(D2 RJ 355)
Complementos sentenciais infinitivos e com tempo finito também con-
trastam em relação à manutenção da preposição selecionada pelo verbo que
toma a sentença como complemento. Enquanto os complementos infinitivos
mantêm a preposição, os complementos finitos podem dispensá-la, como
ilustrado em (51) e (52).
(51) eu gosto [de ficar em lugares isolados].
(D2 RJ 355)
(52) então eu gostaria [[Ø] que a presença fosse... mais: compacta melhor...].
(EF REC 337)
Em alguns casos, o verbo pode requerer uma preposição quando o com-
plemento é uma sentença com tempo finito, mas não quando o complemento
GRAMATICA 3.indb 69 6/11/2009 14:47:03
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é uma sentença com verbo no infinitivo ou simplesmente um SN. Esse é o
caso do verbo fazer, como ilustrado em (53):
(53) a) ... então... quan do ele não sabia ler ele lia mui/ ele via as figuras da pré-histó-
ria e gostava muito... então ele fazia [com que nós lêssemos... os livros] éh::
coleções:: uma e outra que a gente tem...
(D2 SP 360)
b) é difícil saber se se teria sido consequência de tradição oral...se eles teriam ab-
sorvido essa cultura no no no nos...nos embates de cantoria...ou se efetivamente
eles:: com a preocupação de querer:: éh::... fazer [parecer que conhecem efetiva-
mente mais do que conhecem] se eles teriam lido alguma coisa.
(D2 REC 05)
c) o grande mal das estradas brasileiras é o mesmo troço do sujeito fazer uma casa...
entendeu... com uma lajezinha bem fininha e botar em cima um depósito de/
de/ de PEso muito grande.
(D2 SSA 98)
Em outros casos, a preposição é mantida diante da sentença finita, como
em (54):
(54) ... eu até contribuo [para que eles não tenham essa alimentação pesada].
(DID RJ 328)
A preposição também pode ocorrer quando é parte de um constituinte
movido, como em (55), em que de que se move a partir da posição indicada
pela lacuna:
(55) até não sei [de que
i
[era feita __
i
a camisinha]].
(DID SP 234)
Finalmente, miniorações estabelecem relações de predicação sem a pre-
sença de um verbo, correspondendo a estruturas que a tradição gramatical
costuma chamar de predicados verbo-nominais. Trata-se de construções como
(56a), por exemplo, cuja paráfrase em (56b) deixa transparente a relação de
predicação estabelecida.
(56) a) eu achei [aquilo horroroso], viu?
(DID SP 234)
b) Eu achei [que aquilo era horroroso].
GRAMATICA 3.indb 70 6/11/2009 14:47:03
COMPLEMENTAÇÃO
71
5.3. Complementos pronominais
Os pronomes pessoais, além de veicular informações semânticas, possuem
comportamento sintático e fonológico bastante específico. Assim, além da
tradicional divisão entre retos e oblíquos, os pronomes pessoais também po-
dem ser classificados como clíticos (átonos) e pronomes plenos (não-átonos).
Os clíticos constituem uma classe especial de elementos gramaticais, pois têm
uma natureza ambivalente: são elementos átonos que se afixam às palavras e
têm, ao mesmo tempo, características de elementos independentes. Nesse
sentido, diferem de pronomes plenos, pois não são independentes; porém
não podem ser considerados como elementos afixais do tipo de des- em des-
montar, cuja colocação é fixa na palavra.
Abaixo, vamos analisar a ocorrência dos sintagmas pronominais e sua
co locação no PB.
5.3.1. Primeira pessoa
O pronome de primeira pessoa do singular, tanto em função acusativa
quanto em função dativa, realiza-se como o clítico me no PB (à exceção de
algumas variedades do português popular que admitem o pronome pleno eu
também na posição de complemento):
(57) a) a única função dela é me ajudar com eles.
(D2 SP 360)
b) eu preciso me defender.
(EF SP 405)
c) eu vou eu vou ver se o C. me dá alguma coisa.
(D2 SSA 98)
d) Eduardo me diga uma coisa.
(EF REC 337)
Já a primeira pessoa do plural é realizada tanto pelo clítico nos como pelo
pronome pleno a gente:
(58) a) ela está bem ordenada... mas:: ela não éh::... não tem maturidade... não é
ainda... claro... tem onze anos só para nos julgar.
(D2 SP 360)
GRAMATICA 3.indb 71 6/11/2009 14:47:03
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b) olha nós nos visitamos muito pouco.
(DID POA 45)
c) quando nós falamos em instrumentos de avaliação nós logo devemos pensar que
níveis de pensamento esses instrumentos estão nos permitindo avaliar.
(EF POA 278)
(59) a) toda hora é:: CHÁ da igreja aqui CHÁ do colégio ali CHÁ de... fuLAno e siCLAno
que::... que manda entradas para a gente.
(DID POA 45)
b) a gente nunca pode precisar o tempo... de ah ahn:: ( ) com as crianças... ne-
cessitando da gente não pode precisar mesmo...
(D2 SP 360)
c) e conseguem transmitir para a gente eXAtamente essa ideia de movimento...
através:: exclusivamente de linhas...
(EF SP 405)
d) Você vai encontrar a gente no cinema.
5.3.2. Segunda pessoa
No corpus compartilhado do Nurc, a segunda pessoa do singular na posição
de complemento se realizou majoriatariamente como o clítico te ou como o
pronome pleno você, como ilustrado em (60) e (61). Registrou-se também,
nas amostras relativas ao Recife e a Salvador, o clítico lhe sendo empregado
como segunda pessoa, conforme exemplificado em (62).
(60) a) e te pergunta do quarto dele se tem aula.
(D2 SP 360)
b) Quando eu te falei da peça Hair.
(DID SP 234)
(61) a) já outro dia também eu chamei você de: Fernando.
(EF REC 337)
b) eu confesso a você que acho que a única/ esse negócio de ( ) eu acho que tá
muito certo ele falou certo...
(D2 REC 05)
(62) a) bom essa questão... na na realidade eu não poderia lhe responder... porque
evidentemente se trata... de uma filigrana jurídica.
(DID REC 131)
b) bom aí é difícil eu lhe dizer por quê::
(DID SSA 231)
GRAMATICA 3.indb 72 6/11/2009 14:47:03
COMPLEMENTAÇÃO
73
Já para a segunda pessoa do plural só foram registradas ocorrências do
pronome vocês:
(63) a) embora embora seja lamentável a gente dizer a vocês o seguinte...de que o
Nordeste só cresce em termos absolutos.
(D2 REC 05)
b) aí vou explicar né? a vocês o que significa isso...
(EF REC 337)
5.3.3. Terceira pessoa
Duas observações são pertinentes em relação a pronomes de terceira pes-
soa. Em primeiro lugar, embora relativamente frequentes hoje na linguagem
coloquial, construções como (64), com um pronome pleno na posição de
objeto, foram bem raras na amostra analisada.
(64) seria muito mais importante vocês gravarem eles.
(D2 REC 05)
Em segundo lugar, deve-se assinalar que os clíticos o(s)/a(s) e lhe(s) têm
frequência bastante baixa no PB, chegando mesmo à total ausência em alguns
contextos. Esse é o caso do clítico o neutro (invariável), também chamado
de pronome demonstrativo pela gramática tradicional, que desapareceu de
contextos como (65), em que retoma a sentença que o Pedro está doente, e
também é o caso do dativo de posse, lhe, de uso raro no português do Brasil,
como em (66).
(65) Eu não acredito que o Pedro está doente, mas sua irmã o afirmou com todas
as letras. [o = que o Pedro está doente]
(66) ele pode atuar sobre a comunicação sem modificar-lhe o senti do, eu posso por
exemplo pedir.
(EF POA 278)
Quando empregados, os clíticos o(s)/a(s) praticamente só aparecem em
posição enclítica a um verbo no infinitivo, sendo realizado como -lo(s)/-la(s),
como ilustrado em (67). Construções com próclise como (68) são raras na
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74
amostra analisada, e formas enclíticas realizadas como -no(s)/-na(s) não foram
registradas.
(67) a) ... eu primeiro aplicaria sempre em obra de arte, eu adoro aplicar em obra de
arte mas não tê-las.
(D2 RJ 355)
b) precisa convencê-lo não é?
(D2 SP 360)
c) porque é uma tarefa assim... muito SEria o de encaminhá-la... para o... caminho
certo...
(D2 SP 360)
d) os outros mesmos não se incumbem de colocá-la no lugar dela?
(D2 SP 360)
e) não seria conveniente mudá-lo de período escolar?
(D2 SP 360)
(68) os dois estão na escola de manhã — porque eu trabalho de manhã — ... então eu
os levo para a escola... e vou trabalhar... depois saio na hora de buscá-los...
(D2 SP 360)
Esses resultados confirmam o que a literatura tem apontado: os clíticos
o(s)/a(s) praticamente desapareceram da gramática do PB, tendo sobrevivido
apenas com as formas -lo(s)/-la(s), em discursos mais formais.
5.3.4. Ordem dos clíticos
2
Por serem átonos, pronomes clíticos estão sujeitos tanto a restrições sin-
táticas quanto a restrições fonológicas. Por um lado, requer-se que os clíticos
se apoiem fonologicamente em um verbo; por outro, a sintaxe determina a
posição na sentença em que esse requerimento pode ser satisfeito. O resultado
dessa interação sintaxe-fonologia é que clíticos complementos podem ocu-
par posições que outros complementos em geral não podem ocupar. Numa
sentença como (69a), por exemplo, o complemento clítico te aparece antes
do verbo. Sua contraparte não-clítica pra você, no entanto, não pode ocupar
essa posição, tendo de aparecer na sua posição canônica pós-verbal, como se
vê em (69b) e (69c).
GRAMATICA 3.indb 74 6/11/2009 14:47:04
COMPLEMENTAÇÃO
75
(69) a) Não sei o que te responder.
(DID SP 234)
b) *Não sei o que pra você responder.
c) Não sei o que responder pra você.
Tema de intermináveis polêmicas normativas, a posição dos pronomes
clíticos com relação ao verbo é fundamental para uma caracterização da gra-
mática do PB. A amostra analisada replicou os resultados encontrados na
literatura, constatando uma prevalência quase absoluta da posição proclítica
ao verbo (92%, ou seja, 158 casos de próclise de um total de 172 dados), como
ilustrado em (70), independentemente do caráter argumental (em função de
complemento verbal) ou não-argumental do clítico.
(70) a) eu me preparei para ser... mãe de muitos filhos... sabe?
(D2 SP 360)
b) e:: daí me empolguei pelo magistério.
(D2 SP 360)
c) mas aí em que que tu te baseia, em dados reais exatamente, sim.
(EF POA 278)
d) quando eu te falei da peça do Hair e do Roda viva.
(DID SP 234)
e) olha nós nos visitamos muito pouco.
(DID POA 45)
A colocação eminentemente proclítica permite que um clítico figure como o
primeiro elemento de uma sentença, como ilustrado abaixo:
(71) a) Me chocou tremendamente.
(DID SP 234)
b) Se cala.
(D2 SP 360)
c) Se ressente... a gente se ressente muito disso.
(DID RJ 328)
Esses exemplos (bastante comuns) mostram que, embora condenados pela
gramática tradicional, a possibilidade de clíticos em primeira posição faz parte
da gramática internalizada de falante do PB.
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76
Finalmente, no caso de construções com dois verbos, o PB tem como po-
sição predominante a próclise ao chamado verbo principal, como nos exem-
plos abaixo.
(72) a) não tinha me lembrado...
(DID POA 45)
b) quando ele termina aí diz assim bem agora por favor quer me trazer a sopa?
(EF REC 337)
c) me lembro de ter escorregado... caído... dentro d’água e estava me afo-
GANdo...
(DID POA 45)
d) olha quando eu começo a dar risada vou te contar.
(DID SP 234)
No contínuo da fala, eventualmente pode não ser possível distinguir fa-
cilmente a posição de próclise ao segundo verbo em exemplos como (72).
Porém a possibilidade de ocorrência de advérbios ou sintagmas preposicionais
entre os dois verbos não deixa a menor dúvida quanto à posição que o clítico
ocupa, como ilustrado em (73).
(73) a) eu preferia deixar evidentemente essa questão... a um consultor jurídico que ele
poderia então lhe dar: uma resposta mais conclusiva... a esse respeito.
(DID REC 131)
b) Não posso no momento lhe dar uma resposta afirmativa sobre essa questão...
(DID REC 131)
Das 14 ocorrências (8%) de ênclise encontradas na amostra analisada, 6
envolvem ênclise a um verbo com tempo finito e 8, a um verbo no infinitivo.
Se observarmos de perto esses casos, perceberemos que todas as ocorrências de
ênclise com verbos finitos envolvem o clítico se, empregado em contextos dis-
cursivamente marcados, como receitas de culinária, ou o discurso didático:
(74) a) parte-se um ovo.
(D2 POA 291)
b) Então a isso, chama-se de ginecomastia.
(EF SSA 49)
Já as ocorrências com verbos no infinitivo envolvem dois casos com clí-
tico se (na fala do entrevistador) e seis casos envolvem o clítico acusativo de
GRAMATICA 3.indb 76 6/11/2009 14:47:04
COMPLEMENTAÇÃO
77
terceira pessoa, que, como vimos na seção 5.3.3, ainda sobrevive no PB sob
a forma de -lo(s)/-la(s):
(75) a) Doc.: e as e:: formas de despedir-se?...
(DID POA 45)
b) porque é uma tarefa assim muito séria de encaminhá-la para o caminho certo.
(D2 SP 360)
5.4. Complementos foneticamente nulos
Até o momento, abordamos os casos dos complementos verbais foneti-
camente realizados. Nesta seção, vamos abordar os casos de complementos
nulos.
Algumas línguas naturais permitem que, à exceção do verbo, todo o sin-
tagma verbal seja foneticamente nulo e temos, nesse caso, uma construção
chamada elipse de SV, possível no PB. O material elidido requer um ante-
cedente no contexto linguístico para receber a interpretação adequada. Em
(76), por exemplo, o que está ausente não é somente o SN complemento o
xixi dela, mas também o adjunto no sanitário, ambos recuperados a partir do
antecedente fazer o xixi dela no sanitário.
(76) aprendeu a fazer o xixi dela no sanitário... que ela não fazia [ø] ...
(DID SSA 231)
Alguns verbos que selecionam sentenças como complemento podem tam-
bém ocorrer com seu complemento nulo, recuperável no contexto linguístico.
Na amostra analisada, encontram-se exemplos com verbos modais como poder
e com verbos como querer e dizer:
(77) a) porque isso que eu (es)tou fazendo hoje aqu..., que eu cheguei em casa, vi televisão
e depois vim pra cá pra... pra conversar ou dessa maneira ou ir prum cinema
ou prum teatro... ter uma vida cultural... aprender línguas... fazer qualquer
coisa... logicamente eu gostaria de fazer... mas não posso [ø] porque eu tenho
que complementar o meu salário com o dinheiro dum... dum cargo à noite.
(D2 RJ 355)
b) porque lá você não tem problema de transporte porque a cidade é pequena você
se quiser [ø] vai a pé... a Universidade é no centro da cidade.
(D2 RJ 355)
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78
c) tudo indica que a resposta está: na: um dois... no terceiro parágrafo... da página
dezesseis... não deixe-me ver... normalmente vocês encontraram onde isso?... não
podem me dizer [ø]... não.
(EF REC 337)
O complemento sentencial nulo nas sentenças acima é recuperado do
con texto e interpretado como fazer qualquer coisa em (77a), ir a pé em (77b),
e onde vocês encontraram isso em (77c).
Além de admitirem complementos sentenciais, como visto em (77b) e
(77c), verbos como querer e dizer também admitem SNs como complemen-
tos, diferindo nesse ponto de verbos modais como poder, conforme ilustrado
em (78).
(78) a) *Eu não posso isso.
b) Eu não quero isso.
c) Eu não disse isso.
Além da elipse de SV, há uma construção comum nas línguas naturais e,
portanto, não específica do PB, que envolve os verbos bitransitivos, princi-
palmente os verbos dicendi (dizer, falar, perguntar, pedir etc.), em que o argu-
mento que representaria o destinatário não aparece realizado, como ilustrado
em (79).
(79) a) nós não podemos afirmar... categoricamente que as coisas se passaram as-
sim...
(EF SP 405)
b) disseram que vai ser estabelecido causa depois de estabelecido causa aí vai
ser::... automaticamente... necessário... uma atitude mais::... mais rápida pelo
menos...
(D2 SP 360)
c) quan:do... eu pergunto... o que estuda a sociologia do direito eu poderia per-
guntar também o que estuda a sociologia jurídica e eu estaria... fazendo a mes:
ma pergunta.
(EF REC 337)
A existência de construções como (79) em inúmeras línguas indica que
o destinatário nessas sentenças é, na verdade, uma espécie de adjunto (ver
cap. 4) e, como tal, é opcional na sentença. A análise do destinatário dessas
GRAMATICA 3.indb 78 6/11/2009 14:47:04
COMPLEMENTAÇÃO
79
construções como um adjunto captura a intuição da gramática tradicional
segundo a qual verbos dicendi podem ser transitivos ou bitransitivos.
Mais importante, essa análise permite explicar por que, ao contrário dos
objetos nulos anafóricos que discutiremos na seção abaixo, o destinatário não
realizado dessas construções pode também se referir à primeira ou à segunda
pessoa do discurso, como atestam os exemplos abaixo.
(80) a) ... não aceitou não me aceitou como professora ele me aceitá/ ele dizia que eu
era professora de fogão de cozinha.
(D2 SP 360)
b) então atenua um pouco... a hostilida:de que existe entre a tre três perspectivas...
que é a seguinte eu vou lê João depois... falamos... talvez até coloque para vocês...
isso é uma maneira também de pedir... que prestem atenção... não é?
(EF REC 337)
c) ... prometi também que a aula de ho:je seria... alguma coisa... num é? liga:da
a esse estudo que vocês fizeram... e prometi... também... prometi também...
que: diria a vocês se... eu iria exigir cobrar... algo do que vocês já fizeram... e
que deixaria isso para dizer hoje...
(EF REC 337)
O destinatário nulo se refere à primeira pessoa do singular em (80a), pois
a entrevistada está descrevendo uma conversa com o filho (= ele me dizia/ dizia
para mim), e a vocês (os alunos) em (80b). Já (80c) é particularmente inte-
ressante na medida em que o destinatário de segunda pessoa ora é reali zado,
ora não é. A interpretação do destinatário nulo desse tipo de construção é,
portanto, determinada fora dos limites da gramática e é compatível com
qual quer pessoa do discurso, desde que condizente com o contexto.
5.4.1. O objeto nulo
Há um tipo de construção envolvendo argumentos não realizados que
caracteriza de maneira muito especial a gramática do PB — é a construção
envolvendo o chamado objeto nulo, ilustrada em (81).
(81) a) eu recebi aqui meu ordenado e entreguei [ø], (es)tá... agora nesse mês, como a
UPC não aumentou e como diminuiu o número de UPCs, o que vai acontecer
é que, eu vou pagar um pouquinho menos no outro mês.
(D2 RJ 355)
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80
b) pra mim realmente é um sacrifício... às vezes vejo pastel... me dá vontade de
comer [ø], mas eu procuro evitar.
(DID RJ 328)
Em (81) o argumento interno dos verbos entregar e comer não está reali-
zado foneticamente; é interpretado no contexto como meu ordenado e pastel,
respectivamente.
Crucialmente, esse tipo de argumento não realizado foneticamente não é
fruto de deslocamento sintático, como é o caso de (82), ou de opcionalidade,
nem faz parte de um SV elidido como vimos em (76) acima.
(82) a) todo o dinheiro que eu ganhar
i
, eu primeiro aplicaria __ sempre em obra de
"---------__________--_____________--marte
(D2 RJ 355)
b) aquele arroz com frutos do mar, a minha mulher é incapaz de, de, de
provar __

"
------------------------m
(D2 POA 291)
No caso do objeto nulo, como em (83), o complemento de decorar é reto-
mado de um SN que ocorreu anteriormente na sentença, o assunto.
(83) o estudante pega o assunto e decora [ø]
(DID SSA 231)
Objetos nulos em PB ocorrem bem mais livremente que em português
europeu. Embora admitam limitadamente antecedentes animados e definidos/
específicos, como em (84), em que o antecedente é o cônsul alemão, Zinger, sua
ocorrência é substancialmente favorecida em contextos em que o antecedente
é indefinido/não-específico, como em (85), ou inanimado, como em (86).
(84) uma... uma ocasião... o, o cônsul alemão, Zinger... não sei se vocês conheceram
[ø]... que servia um prato... ele foi... ele ficou muitos anos... ele foi po/ inclusive
durante a... a ocupação ah... chinesa... eu sei que houve algum problema... eu
não sei exatamente... foi na Manchúria.
(D2 POA 278)
GRAMATICA 3.indb 80 6/11/2009 14:47:04
COMPLEMENTAÇÃO
81
(85) um banco precisa de um diretor de um banco chega para ele diz assim “eu preciso
de um diretor de banco para tal tal área para fazer isso assim assim assim assim”...
en tão ele vai procurar [ø]... certo?
(D2 SP 360)
(86) que aqui ainda se marca estrada com aqueles homens botando aquele negócio e
pintando [ø] à mão...
(D2 SSA 98)
No corpus em estudo, foram computados 280 dados com objeto direto
anafórico, que se distribuíram como representado na Tabela 1:
Tabela 1 – Realização do objeto direto anafórico
Objeto direto anafórico %
[ø] 158 56
SN 74 26
o(s)/a(s) 33 12
Demonstrativo 10 4
ele(s)/ela(s) 5 2
Total 280 100
A Tabela 1 mostra que complementos que retomam um antecedente no
discurso são preferencialmente realizados como objetos nulos (56%) e que,
em termos de preenchimento, há uma clara rejeição ao pronome pessoal
ele(s)/(ela(s).
Tomando-se em consideração a natureza [± animado] do antecedente,
obtém-se o seguinte:
Tabela 2 – Realização do objeto direto anafórico por animacidade do antecedente
[ø] SN o(s)/a(s) Demonstrativo ele(s)/ela(s) Total
+ animado 26 (38,2%) 14 (20,5%) 24 (35,2%) 0 (0%) 4 (5,8%) 68
-animado 132 (62,2%) 60 (28,3%) 9 (4,2%) 10 (4,7%) 1 (0,4%) 212
158 (56,4%) 74 (26,4%) 33 (11,7%) 10 (3,5%) 5 (1,7%) 280
A ocorrência de objetos nulos cai consideravelmente no caso de anteceden-
tes animados (38%). Nesse contexto, cresce consideravelmente a proporção
de uso de clíticos acusativos de terceira pessoa (35%). Isso quer dizer que,
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82
em não se empregando o pronome pleno na fala culta mais monitorada, os
clíticos acusativos, quando usados, vão ocorrer naqueles contextos em que
a realização foneticamente nula é rejeitada. Na fala menos monitorada do
PB, é o pronome ele(s)/ela(s) que costuma ir para essa posição. Mesmo assim,
note-se que o objeto nulo ainda é a forma mais empregada (26 casos em 68).
No contexto de antecedente [-animado], o emprego de clíticos cai conside-
ravelmente, enquanto cresce o uso de objeto nulo e demonstrativos, estes
últimos normalmente retomando proposições.
5.4.2. Sintagmas preposicionais nulos
O PB também permite construções em que verbos que normalmente to-
mariam um sintagma preposicional por complemento admitem um comple-
mento nulo, como exemplificado em (87):
(87) a) eu achei... mas eu tive pouco tempo viu com... com essa parte assim de balê
i

eu... eu estudei mas não me apresentei quase nada... apesar de gostar muito [ø]
i

... ter gostado [ø]
i
né?
(DID SP 234)
b) e entraram [com um novo mandado de segurança]
i

L1 sei...
L2 não sei exatamente alegando o quê mas entraram [ø]
i
.
(D2 SP 360)
c) eu gosto demais de lá
i
e gostaria de morar [ø]
i
.
(D2 RJ 355)
Na amostra analisada, 40 (60%) das 67 ocorrências de verbos transitivos como
gostar e precisar em que o complemento retomava algo previamente menciona-
do no discurso apresentaram um sintagma proposicional nulo. No entanto, é
possível a retomada de um SPrep pelo demonstrativo, como em (88):
(88) eu nunca me esqueço [do jeito dele de perguntar... quer sair?...]
i
olha eu estava
me afogando e ele me perguntou se eu queria sair da água... eu nem [...] pude falar
não é? (risos) ai eu nunca me esqueço disso
i
...
(DID SP 234)
A tendência à não-realização fonética foi também documentada com ver-
bos bitransitivos (não-dicendi) como pôr, colocar etc., como ilustrado em (89).
GRAMATICA 3.indb 82 6/11/2009 14:47:04
COMPLEMENTAÇÃO
83
Dos 27 casos de verbos bitransitivos cujo segundo complemento era recu-
perável no contexto, em 21 casos o segundo complemento não se realizou
foneticamente.
(89) Acho que a es/ a criança deve ir o mais cedo possível a escola (né)?... e... uma coisa
que eu não me arrependi foi ter botado ela [ø] com um ano e quatro meses...
(DID SSA 231)
SPreps em PB têm, portanto, funcionamento semelhante a SNs, pois tam-
bém têm preferência majoritária pela realização nula quando anafóricos. Isso,
no entanto, não impede que vários tipos de realização de um complemento
anafórico possam ser empregados ao mesmo tempo numa mesma sequência
discursiva, como ilustrado em (90).
(90) ...então eu estou procurando eh... encaminhá-la
i
para outra coisa não sei mas...éh
ginástica rítmica por exemplo... ela::... faz ginástica rítmica... então ainda::...eu
hesito em pôr [ø]
i
[no balé
j
] mas eu vou ter que pôr [ø]
i
[ø]
j
sabe?... éh não quis
pô-la
i
[ø]
j
até agora mas ela é MUIto::... quebradi::nha ela::faz os trejeitos e::
(DID SP 234)
Em (90), o tópico da conversação é a filha da locutora. O verbo encaminhar
tem o complemento direto realizado na forma do clítico e o segundo comple-
mento, na forma de um SPrep, contendo uma informação não-anafórica. Na
primeira ocorrência do verbo pôr (hesito em pôr no balé), o mesmo referente
vem recuperado na forma de um objeto nulo, sendo o segundo complemento
realizado como o SPrep no balé, recuperando uma informação anterior. Já
na sentença seguinte (mas eu vou ter que pôr, sabe?), ambos os complementos
não estão realizados foneticamente, mas são recuperados como -la (a filha)
e no balé. Logo em seguida, para o mesmo verbo pôr, o SN complemento
aparece realizado novamente na forma de um clítico e o SPrep não é realizado
foneticamente, sendo ambos complementos novamente anafóricos.
6. Sistematização formal das estruturas de complementação
Nesta seção, além de sistematizar a discussão das seções anteriores, vamos
proceder a uma reanálise de algumas das estruturas discutidas acima com
GRAMATICA 3.indb 83 6/11/2009 14:47:04
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84
base em recentes desenvolvimentos em teoria sintática, refinando as noções
de argumento externo e argumento interno.
6.1. Generalizando estruturas com verbos leves: verbos transitivos
Considere os pares de sentenças em (91) e (92).
(91) a) A Maria deu bofetadas.
b) A Maria deu bofetadas no João.
(92) a) A Maria deu beijos.
b) A Maria deu beijos no João.
À primeira vista, estamos aqui diante do uso bitransitivo do verbo dar.
Em primeiro lugar, (91a) e (92a) soam inaceitáveis fora de contexto, pois
“falta algo” nessas sentenças, o que sugere que o predicado não parece estar
saturado. Isso é confirmado pelo fato de a adição de um SPrep, como em (91b)
e (92b), tornar essas sentenças totalmente aceitáveis, independentemente do
contexto, sugerindo que o SPrep estaria saturando o predicado. A ser assim,
as sentenças em (91b) e (92b) deveriam estar associadas a uma estrutura nos
moldes de (93), como vimos na seção 4.3.
(93) SV
3
SN
1
V’
4 9
a Maria V SN
2
SPrep
g 4 4
deu bofetadas/ no João
beijos
Examinemos agora os pares em (94) e (95).
(94) a) A Maria deu bofetadas no João.
b) A Maria esbofeteou o João.
(95) a) A Maria deu beijos no João.
b) A Maria beijou o João.
GRAMATICA 3.indb 84 6/11/2009 14:47:05
COMPLEMENTAÇÃO
85
As sentenças (94a) e (95a) podem ser legitimamente parafraseadas por
(94b) e (95b), que, como vimos na seção 4.2, estão associadas à estrutura es-
quematizada em (96).
(96) SV
3
SN
1
V’
4 3
a Maria V SN
2

g 4
esbofeteou/ o João
beijou
Quando comparamos as estruturas em (93) e (96), verificamos que não há
base estrutural para capturar as propriedades temáticas comuns aos pares de
sentenças em (94) e (95) e isso é bastante problemático, uma vez que relações
semânticas similares devem estar calcadas em estruturas sintáticas similares,
como vimos na seção 3. Se o SN o João estabelece uma relação semântica com
bofetadas/beijos em (94a) e (95a) idêntica à relação semântica que estabelece
com esbofeteou/beijou em (94b) e (95b), deveria estar associado a uma mes-
ma configuração estrutural, ao contrário do que ocorre em (93) e (96). Em
outras palavras, se o João é o argumento interno de esbofeteou/beijou em (96),
deveria também ser o argumento interno de bofetadas/beijos em (93), como
representado na estrutura alternativa em (97).
(97) SV
3
SN
1
V’
4 3
a Maria V SN
2

g g
deu N’
3
N SPrep
g 4
bofetadas/ no João
beijos
GRAMATICA 3.indb 85 6/11/2009 14:47:05
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86
Uma vez que logramos harmonizar a relação semântica do paciente em
(96) e (97), observemos agora o agente. Um ponto que destoa na compara-
ção de (96) com (97) é que em (96) o SN a Maria é representado como o
agente de esbofetear/beijar, enquanto em (97) é representado como o agente
de dar. Entretanto, isso não condiz com as similaridades de significado entre
as sentenças de (94) e (95). Em outras palavras, a configuração estrutural em
que a Maria se encontra deve ser semelhante o suficiente para permitir que
os pares em (94) e (95) constituam paráfrases. Um ponto a se destacar é
que o verbo dar em (94a) e (95a) é na verdade um verbo leve (ver seção 4.6).
Em outras palavras, além de designar um evento de realização em que há um
agente, a descrição desse evento é feita pelo seu argumento interno. Pesquisas
recentes argumentam que estruturas transitivas como (94b) e (95b) também
envolvem um verbo leve abstrato que pode ser ou não associado a algum
morfema específico. A ideia é que sentenças como (94b) e (95b) estão, na
verdade, associadas a uma estrutura nos moldes de (98).
(98) Sv
3
SN
1
v’
4 3
a Maria v SV
g g
es- V’
Ø 3
V SN
g 4
“bofeteou” o João
beijou
Em (98), assim como em (97), o SN a Maria é o argumento externo de um
verbo leve (representado aqui por v) e é interpretado como o agente que detona
o evento descrito no interior do complemento do verbo leve. O paralelismo
sintático e semântico é finalmente obtido. Construções transitivas devem,
portanto, estar associadas a uma estrutura genérica como (99).
GRAMATICA 3.indb 86 6/11/2009 14:47:05
COMPLEMENTAÇÃO
87
(99) Sv
3
argumento v’
externo 3
v SX
g
X’
3
X argumento
interno
As diferenças específicas de uma construção transitiva para outra vão de-
pender da forma do complemento do verbo leve [se um SN como em (97)
ou um SV como em (98)] e das propriedades morfológicas do verbo leve. O
verbo leve pode ser realizado como um item lexical autônomo, como dar
em (97), ou por um afixo, como es- ou Ø em (98). Se for um afixo, o verbo
leve desencadeia movimento do núcleo de seu complemento para que suas
propriedades afixais sejam satisfeitas. No caso de (98), por exemplo, obtemos
o resultado em (100).
(100) Sv
3
SN
1
v’
4 3
a Maria v SV
g g
es-bofeteou V’
Ø-beijou 3

"
V SN
g g 4
z--m o João
Nas seções que se seguem, discutiremos consequências adicionais dessa
reinterpretação de estruturas transitivas em termos de verbos leves.
6.2. Verbos transitivos versus verbos inacusativos
A reanálise de estruturas transitivas permite agora lidar, de maneira elegante,
com o tipo de alternância exemplificada em (101)-(103).
GRAMATICA 3.indb 87 6/11/2009 14:47:05
SONIA CYRINO

JAIRO NUNES

EMILIO PAGOTTO
88
(101) a) A tempestade afundou o navio.
b) O navio afundou.
(102) a) O vento abriu a porta.
b) A porta abriu.
(103) a) O sol derreteu o gelo.
b) O gelo derreteu.
A análise tradicional dessas estruturas postulava uma ambiguidade lexical
para verbos como afundar, abrir e derreter, dotando-os de uma entrada lexi-
cal transitiva e outra inacusativa. Dentro da perspectiva desenvolvida na seção
6.1, trata-se na verdade da mesma entrada lexical associada a estruturas dis-
tintas. A estrutura inacusativa será como representado em (104) abaixo, com
o verbo selecionando um argumento interno. Já a construção transitiva en-
volve a subordinação de uma estrutura como (104) a uma estrutura nucleada
por um verbo leve, conforme ilustrado em (105).
(104) SV
g
V’
V
V argumento
g interno
afundou/abriu/derreteu
(105) Sv
3
argumento v’
externo 3
v SV
g g
Ø V’
3
V argumento
g interno
afundou/abriu/derreteu
A aparente ambiguidade lexical em (101)-(103) na verdade resulta do
fato de o verbo leve ser um morfema-Ø (foneticamente nulo) nesses casos.
GRAMATICA 3.indb 88 6/11/2009 14:47:05
COMPLEMENTAÇÃO
89
Podemos também a partir do contraste entre (104) e (105) prover uma ex-
plicação para o fato de verbos inacusativos, como o próprio nome diz, não
atribuírem caso acusativo (ver seção 4.4). Numa estrutura transitiva como
(106) abaixo, é o verbo leve dar que atribui caso acusativo ao SN um beijo
na Maria. Assumindo que essa é uma propriedade geral dos verbos leves,
há atribuição de caso acusativo em estruturas como (105), mas não (104).
O argumento interno de (104) pode, portanto, mover-se para a posição de
sujeito externa a SV, receber caso nominativo e determinar a concordância
verbal (ver seção 3), como exemplificado pelas sentenças em (101b), (102b)
e (103b).
(106) O João deu um beijo na Maria.
6.3. Verbos inacusativos versus verbos inergativos
Na seção 4.4, a distinção entre verbos inacusativos e inergativos foi captu-
rada em termos das estruturas em (107a) e (107b), respectivamente.
(107) a) SV
g
V’
V
V argumento
interno
b) SV
V
argumento V’
externo g
V
Tendo em vista a reanálise de argumentos externos como especificadores
de Sv, a estrutura de verbos inacusativos se mantém como representado em
(107a), mas a estrutra de verbos inergativos em (107b) deve ser reanalisada
nos moldes de (108).
GRAMATICA 3.indb 89 6/11/2009 14:47:05
SONIA CYRINO

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EMILIO PAGOTTO
90
(108) Sv
V
argumento v’
externo V
v SV
g g
Ø V’
g
V
g
tossiu/espirrou/riu
Observe que uma vez que é o verbo leve o responsável pela atribuição de
caso acusativo, a estrutura em (108) permite que o verbo tome um comple-
mento. Vêm daí os chamados “objetos cognatos”, que são possíveis com ver-
bos inergativos, como ilustrado em (109) abaixo. Note que uma vez que o
argumento de um verbo inacusativo já ocupa a posição de complemento [cf.
(107a)], não é possível acrescentar um objeto cognato a uma estrutura ina-
cusativa, como ilustrado em (110).
(109) a) O João tossiu uma tosse esquisita.
b) O João espirrou um espirro escandaloso.
c) O João riu uma risada escandalosa.
(110) a) *O João sumiu um sumiço inesperado.
b) *O João caiu uma queda feia.
c) *O João desapareceu um desaparecimento inusitado.

6.4. Verbos bitransitivos
Diante da reinterpretação da posição estrutural do argumento externo,
uma sentença contendo uma construção bitransitiva como (111) deveria estar
associada a uma estrutura como (112).
(111) O João mandou flores para a Maria.
GRAMATICA 3.indb 90 6/11/2009 14:47:05
COMPLEMENTAÇÃO
91
(112) Sv
3
SN v’
4 3
o João v SV
g g
Ø V’
9
V SN SPrep
g 4 4
mandou flores para a Maria
Considere agora as sentenças em (113) abaixo.
(113) a) O João levou a firma ao abismo.
b) O João mandou a sogra às favas.
c) A Maria mandou o namorado pra PQP.
O verbo e o “objeto indireto” constituem expressões idiomáticas em (113)
e, como vimos na seção 3, expressões idiomáticas devem corresponder a um
constituinte sintático. Entretanto, não é isso o que se vê numa estrutura
como (114).
A existência de expressões idiomáticas envolvendo verbo e objeto indireto
nos conduz a uma reformulação de estruturas bitransitivas como (113a), por
exemplo, nos moldes de (114):
(114) Sv
3
SN v’
4 3
o João v SV
g 3
Ø SN V’
4 3
a firma V SPrep
g 4
levou ao abismo
GRAMATICA 3.indb 91 6/11/2009 14:47:05
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EMILIO PAGOTTO
92
O exemplo (114) num certo sentido agrupa praticamente todas as pro-
priedades estruturais discutidas ao longo deste capítulo. Em primeiro lugar,
o argumento externo é gerado no especificador de Sv, à semelhança do que
ocorre em construções transitivas e inergativas. Em segundo lugar, (114)
pressupõe que o SN a firma não estabelece uma relação direta com o verbo,
mas com o V’; em outras palavras, a interpretação semântica do SN a firma
se dá em função de V e SPrep e, como tal, poderá ter seu valor semântico
alterado, se mudarmos o conteúdo do SPrep. Isso fica evidente se substi-
tuirmos ao abismo em (114) por à recuperação, por exemplo. Outro fator
presente na estrutura de (114) é a ramificação binária, que agora uniformiza
todas as estruturas. Finalmente, a ordem linear superficial é obtida através do
movimento do verbo para satisfazer as propriedades afixais do morfema-Ø,
como ilustrado em (115).
(115) Sv
3
SN v’
4 3
o João v SV
g 3
Ø-levou SN V’

"
4 3
g a firma V SPrep
g g 4
z--------m ao abismo
6.5. Verbos “transitivos” com dois argumentos internos
A seção 4.4 começou com a hipótese de que deveria haver, em princípio,
duas configurações estruturais para verbos monoargumentais e vimos que
as duas possibilidades lógicas correspondem de fato a duas classes distintas:
verbos inacusativos e verbos inergativos. Esses resultados nos levam a recon-
siderar a classe dos verbos transitivos, isto é, verbos com dois argumentos.
Na seção 6.1 tratamos desses casos como simplesmente envolvendo um
argumento de cada tipo: um argumento externo no especificador de Sv e
um argumento interno na posição de complemento de V, como ilustrado em
(116) abaixo. Vimos também na seção 6.4 que a estrutura de verbos bitransitivos
GRAMATICA 3.indb 92 6/11/2009 14:47:05
COMPLEMENTAÇÃO
93
admite dois argumentos internos, um na posição de especificador e outro na
posição de complemento de V, como representado em (117).
(116) Sv
3
argumento v’
externo 3
v SV
g
V’
3
V argumento
interno
(117) Sv
3
argumento v’
externo 3
v SV
3
argumento V’
interno 3
V argumento
interno
Tendo em vista as relações estruturais viabilizadas em (117), surge a pos-
sibilidade lógica de verbos de dois argumentos poderem também selecionar
apenas argumentos internos, como representado em (118) abaixo. Haveria,
então, uma classe de verbos transitivos com dois argumentos internos?
(118) SV
3
argumento V’
interno 3
V argumento
interno
De fato, quando comparamos predicados de ação como os de (119) abai-
xo com certos predicados psicológicos, como os de (120), por exemplo, veri-
ficamos que estamos diante de tipos de argumentos distintos. Verbos que
prototipicamente demandam um argumento externo, como em (119a), ge-
ralmente admitem construções passivas, como ilustrado em (119b). Verbos
GRAMATICA 3.indb 93 6/11/2009 14:47:05
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EMILIO PAGOTTO
94
psicológicos como os de (120a), por outro lado, são bastante refratários
à passivização, como se pode ver em (120b).
(119) a) O João beijou/beliscou a Maria.
b) A Maria foi beijada/beliscada pelo João.
(120) a) O João preocupou/entristeceu a Maria.
b) *A Maria foi preocupada/entristecida pelo João.
Assimetrias como essas têm levado à conclusão de que verbos de dois
argumentos podem não demandar que um desses argumentos seja externo.
Ou seja, verbos como preocupar e entristecer em (120a) podem selecionar
dois argumentos internos, como representado em (121).
(121) SV
3
SN V’
4 3
o João V SN
2

g 4
preocupou a Maria
entristeceu
A estrutura em (121) sugere, portanto, que o preenchimento das posições
de especificador e complemento dentro de SV depende fundamentalmente
das relações semânticas estabelecidas e é em certa medida independente da
presença de Sv na estrutura.
6.6. Esquema geral da estrutura do sintagma verbal
De acordo com o que vimos acima, sintagmas verbais podem, em princípio,
organizar-se em torno de duas camadas: uma camada nucleada por um verbo
semanticamente pleno e uma camada nucleada por um verbo leve, como
representado em (122) abaixo. A realização de cada camada bem como dos
argumentos a elas associados vai depender da informação temática lexicalmente
definida para cada verbo.
GRAMATICA 3.indb 94 6/11/2009 14:47:06
COMPLEMENTAÇÃO
95
(122) Sv
3
argumento v’
externo 3
v SV
3
argumento V’
interno 3
V argumento
interno
Nos próximos capítulos veremos como as informações encapsuladas em
(122) interagem com domínios maiores da sentença.
Sugestões de leitura
Para um panorama da distribuição dos complementos verbais no PB falado,
ver Dillinger, Galves, Pagotto e Cerqueira (1996).
Para a distinção argumento externo/argumento interno, ver Williams (1981)
e Marantz (1984). Sobre a posição do argumento externo dentro de SV, ver
Koopman e Sportiche (1991) e McKloskey (1997).
Para a distinção entre verbos inacusativos e inergativos, ver Perlmutter
(1978) e Burzio (1986). Para uma discussão dessa distinção com base nos
dados do português, ver Eliseu (1984) e Whitaker-Franchi (1989).
Para construções de alçamento em geral, incluindo verbos auxiliares, ver
Postal (1974).
Sobre verbos leves em diversas línguas, ver Hale e Keyser (1993), Chomsky
(1995) e Baker (1997); sobre verbos leves no PB, ver Neves (2002), Avelar (2004)
e Scher (2004).
Para estudos sobre clíticos no PB, ver, entre outros, Pagotto (1992, 1993),
Cyrino (1996), Galves (2001), Kato (2002b) e, comparando o PB com o por-
tuguês europeu, ver Galves, Torres Morais e Ribeiro (2005).
Sobre elipse de SV, complementos nulos e objetos nulos em outras línguas,
ver Huang (1984, 1989, 1991), Campos (1986), Raposo (1986), Rizzi (1986)
Chao (1987), Cole (1987), Landa (1991), Matos (1992) e Lobeck (1999).
Sobre o objeto nulo no PB, ver Duarte (1986), Galves (1987, 1989a,
b), Farrell (1990), Correa (1992), Nunes (1993), Kato (1994), Creus e Me-
GRAMATICA 3.indb 95 6/11/2009 14:47:06
SONIA CYRINO

JAIRO NUNES

EMILIO PAGOTTO
96
nuzzi (2005), Cyrino e Lopes (2005), Kato e Raposo (2005, 2007), Lopes e
Cyri no (2005).
Para estudos sobre os complementos nulos no português, ver Cyrino (1996,
1997, 1999, 2000, 2002, 2004, 2006), Cyrino, Duarte e Kato (2000), Cyrino
e Matos (2002, 2005, 2006).
Para a formulação original da organização do sintagma verbal em duas
camadas, ver Larson (1988). Para sua posterior reformulação em termos de
uma camada nucleada por um verbo leve, ver Chomsky (1995). Sobre verbos
psicológicos, ver Belletti e Rizzi (1988); para uma discussão sobre o português,
ver Cançado (1995).
Notas
1 A maioria das gramáticas pedagógicas brasileiras ainda se pauta pela Nomenclatura Gramatical Brasi-
leira (NGB), publicada pelo Ministério da Educação e Cultura por meio da Portaria n
o
36, de 28 de
janeiro de 1959. A NGB distingue somente dois tipos de complemento — objeto direto e indireto —,
não levando em conta complementos de natureza mais adverbial, chamados por Rocha Lima (1972)
de complementos circunstanciais. Para uma explicação da nomenclatura sistematizada pela NGB, ver
Kury, 1964.
2 Os resultados desta seção baseiam-se em Abaurre e Galves (1996).
GRAMATICA 3.indb 96 6/11/2009 14:47:06
PREDICAÇÃO
GRAMATICA 3.indb 97 6/11/2009 14:47:06
GRAMATICA 3.indb 98 6/11/2009 14:47:06
SUMÁRIO
1. Introdução .........................................................................................................................................................................101
1.1. A noção de suj ei to nas gramáti cas tradi ci onai s ...............................................................................................102
1.2. A noção de suj ei to a ser adotada neste vol ume .............................................................................................105
2. Ordem dos constituintes sentenciais e concordância verbal ....................................................111
2.1. Verbos transitivos e inergativos ...................................................................................................................112
2.2. Verbos inacusativos ................................................................................................................................................114
3. O sujeito pronominal e suas realizações .................................................................................................120
3.1. O suj ei to referenci al nas sentenças fi ni tas ........................................................................................................123
3.1.1. O suj ei to de referênci a determi nada .....................................................................................................123
3.1.2. O suj ei to de “referênci a estendi da” ......................................................................................................131
3.1.3. O suj ei to de referênci a i ndetermi nada .................................................................................................132
Nota ...............................................................................................................................................................................................138
3.2. O suj ei to referenci al nas sentenças não- fi ni tas ............................................................................................... 139
3.2.1. A posi ção do suj ei to em sentenças i nfi ni ti vas ..................................................................................139
3.2.2. A posi ção do suj ei to em sentenças reduzi das de gerúndi o ........................................................141
3.3. O suj ei to não- referenci al (as sentenças i mpessoai s) ....................................................................................143
3.3.1. As sentenças com verbos “cl i máti cos” .................................................................................................143
3.3.2. As sentenças com verbos de al çamento...............................................................................................144
Nota .............................................................................................................................................................................................147
3.3.3. As sentenças exi stenci ai s com ter/haver............................................................................................148
Nota ...............................................................................................................................................................................................151
4. Construções de tópico marcado .......................................................................................................................151
4.1. O anacol uto ou tópi co pendente .............................................................................................................................152
4.2. O Desl ocamento à Esquerda ......................................................................................................................................153
4.3. A topi cal i zação .................................................................................................................................................................156
4.4. O tópi co- suj ei to ................................................................................................................................................................160
4.5. O anti tópi co .......................................................................................................................................................................161
4.6. A i nterface si ntaxe–prosódi a: construções de tópi co/comentári o vs suj ei to/predi cado............163
GRAMATICA 3.indb 99 6/11/2009 14:47:06
Nota ...............................................................................................................................................................................................164
5. Sistematização formal das estruturas de predicação ....................................................................165
5.1. Os verbos auxi l i ares ser, estar e ter/haver ......................................................................................................165
5.2. Os verbos transi ti vos e i nergati vos (i ntransi ti vos) ........................................................................................167
5.3. Os verbos de l i gação “ser” e “estar” ..................................................................................................................169
5.4. Verbos i mpessoai s ..........................................................................................................................................................171
5.5. Os verbos i nacusati vos .................................................................................................................................................174
5.6. As construções de tópi co marcado .........................................................................................................................178
5.7. Esquema geral da estrutura do si ntagma fl exi onal .......................................................................................182
Nota geral.................................................................................................................................................................................183
Sugestões de leitura .........................................................................................................................................................184
Notas .............................................................................................................................................................................................186
GRAMATICA 3.indb 100 6/11/2009 14:47:06
101
3
PREDICAÇÃO
Rosane de Andrade Berlinck*
Maria Eugênia Lamoglia Duarte**
Marilza de Oliveira***
1. Introdução
Como vimos na Introdução ao capítulo 2, a distinção clássica entre o
sujeito e os complementos numa sentença, embora seja ponto pacífico nos
estudos linguísticos, fica obliterada numa perspectiva fregeana, uma vez que
cada argumento (sujeito e complementos) tem uma relação direta com seu
predicador. A seção 3 do referido capítulo, entretanto, mostra que esses argu-
mentos não interagem com o predicador ou entre si da mesma maneira. Ficou
claro que a relação semântica entre um predicador e seu argumento interno é
muito mais estreita do que a que se estabelece entre o predicador e seu argu-
mento externo, espelhando uma assimetria sintática entre esses argumentos.
Enquanto os argumentos internos se encontram em relação sintática com o
predicador no interior de V’, o argumento externo aparece imediatamente
dominado por SV, estabelecendo uma conexão sintática com V’.
Este capítulo discute a relação sujeito–predicado, o que significa caminhar
por um terreno movediço, uma vez que o termo a que nos referimos como
sujeito nem sempre coincide com o argumento externo da sentença. Na se-
ção 1.1, discutiremos brevemente a noção de sujeito na tradição gramatical
e levantaremos algumas questões que podem advir de tal noção, particular-
mente as relativas à distinção entre sujeito sintático e tópico marcado. Em 1.2,
estabelecemos a noção de sujeito adotada neste volume. A seção 2 discorre
sobre a ordem dos constituintes sentenciais e sobre a variação na concordância
* Universidade Estadual Paulista — Araraquara/CNPq (Proc. n
o
305.837/07-9).
** Universidade Federal do Rio de Janeiro/CNPq (Proc. n
o
350.731/99-3).
*** Universidade de São Paulo.
GRAMATICA 3.indb 101 6/11/2009 14:47:06
ROSANE DE ANDRADE BERLINCK

MARIA EUGÊNCIA LAMOGLIA DUARTE

MARILZA DE OLIVEIRA
102
entre sujeito e verbo na amostra analisada. A seção 3 é dedicada à tipologia de
sujeito, com especial atenção à representação do sujeito pronominal na amos-
tra analisada, mostrando a preferência dos falantes pelo sujeito pronominal
expresso, em detrimento do sujeito “oculto”. Na seção 4 faz-se uma análise
das construções de tópico marcado encontradas na amostra e, finalmente, a
5 traz uma sistematização formal do conteúdo do capítulo, em continuação
à apresentada no capítulo 2.
1.1. A noção de sujeito nas gramáticas tradicionais
1
As gramáticas tradicionais (GTs) conceituam a sentença como uma es-
trutura linguística constituída de sujeito e predicado, sendo o primeiro “o
ser sobre o qual se faz uma declaração” e o segundo “tudo aquilo que se diz
do sujeito” (Cunha e Cintra 2007, p. 122). Tal conceituação obedece a um
critério de cunho informacional, isto é, está relacionada à organização do
discurso, mas nem sempre esse “sujeito” coincide com “o ser sobre o qual se
faz uma declaração”. Veja as sentenças em (1) a seguir. Nelas, os constituintes
em negrito correspondem exatamente ao conceito de sujeito que acabamos
de transcrever. Utilizaremos um traço para representar uma posição vazia
vinculada a um tópico e outros constituintes possivelmente movidos de sua
posição de origem para a periferia da sentença (cf. cap. 1). O índice subscrito
(
i
) indica a correferência entre a posição vazia e o constituinte grifado.
(1) a) [Cada elemento, cada nódulo]
i
... ele
i
possui o seu conjunto.
(EF SSA)
b) E [carne]
i
, aqui em casa nós fazemos __
i
de várias formas.
(DID RJ)
c) [Olinda]
i
ninguém mora __
i
. Ninguém diz é lá que eu moro não diz é lá que
eu pernoito.
(D2 REC)
d) Drama, já basta a vida.
(DID SP)
e) Filme, eu gosto mais de comédia.
(DID SP)
Observe que os elementos sublinhados correspondem ao “ser sobre o qual
se faz uma declaração”, e os elementos em negrito, ao sujeito “sintático”, ter-
GRAMATICA 3.indb 102 6/11/2009 14:47:06
PREDICAÇÃO
103
mo que é selecionado por um predicador e entra em relação de concordância
com o verbo. Mesmo que o falante não use marcas explícitas de concordân-
cia verbal, considera-se que a desinência zero, ou a ausência de marcas, não
significa falta de concordância. É justamente esse elemento em negrito que
o estudante reconhece como sujeito da oração, apesar de a definição de su-
jeito, tal qual aparece nas gramáticas tradicionais, se aplicar, no conjunto de
sentenças, acima de outro elemento, a que vamos referir-nos como “tópico”.
Um exame atento de cada sentença nos revelará que existe conectividade
“referencial” ou “semântica” entre esse tópico e a sentença-comentário, que
o segue, mas a conectividade “sintática” pode ser “mais” ou “menos” estreita,
ou até mesmo não existir.
Em (1a), por exemplo, há conectividade referencial sintática entre o tópico
cada elemento, cada nódulo com um elemento interno da sentença-comentário,
o sujeito ele. Em (1b), o tópico carne tem um vínculo com uma posição vazia
no interior da sentença-comentário, o complemento (argumento interno)
de fazer (aqui em casa nós fazemos [carne]), representada pelo traço [ __ ]. A
partir de (1c), essa conectividade se torna menos transparente. Pode-se dizer
que Olinda mantém a conectividade referencial com a sentença-comentário,
pois identifica o argumento interno (complemento circunstancial) de morar
(ninguém mora [em Olinda]), mas veja que a preposição em não precede o
tópico. Nos dois últimos exemplos, (1d) e (1e), não há conectividade de
função sintática entre o tópico e qualquer elemento do comentário, apesar
da conservação de uma conectividade referencial/semântica. Drama e fil-
me cabem perfeitamente na definição de sujeito encontrada nas gramáticas
tradicionais: “o ser sobre o qual se faz uma declaração”, enquanto já basta a
vida e eu gosto mais de comédia se ajustam perfeitamente à definição de pre-
dicado: “tudo aquilo que se diz do sujeito”. [Acho que deveria ser salientado
que a conectividade referencial entre tópico e comentário existe em todas as
sentenças. O que as distingue é a conectividade de função entre o tópico e
um elemento comentário, presente em a/b/c e ausente em d/e. Basta mudar
as duas primeiras linhas.]
Vemos, então, que a conceituação de cunho informacional é mui-
to ampla, pois em todas as sentenças elementos externos a ela entram
em conexão referencial com um constituinte da sentença-comentário,
mantendo com essa sentença-comentário uma relação semântica. Vamos
referir-nos a essas construções neste capítulo como construções de tópico
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MARILZA DE OLIVEIRA
104
marcado (cf. Brito, Duarte e Matos, 2003) e dedicaremos a elas atenção
especial na seção 6.
Tanto o tópico marcado como o sujeito sintático podem veicular uma
informação nova ou dada (já mencionada no discurso). Só o exame cuidadoso
do texto pode-nos informar sobre o estatuto informacional (novo/dado) do
tópico marcado e do sujeito sintático. Ressaltamos que “tópico marcado” e
“sujeito sintático”, as categorias que serão objeto de análise neste capítulo,
não se confundem com o conceito de tópico discursivo
2
.
No trecho transcrito de um diálogo, apresentado em (2) a seguir, não há
construções de tópico marcado. Mas é possível notar que os sujeitos sintáticos
Olinda e ela correspondem a uma informação dada no contexto discursivo:
(2) – [...] e o patrimônio histórico tá restaurando as igrejas de Olinda... [...].
– Mas nós não sabemos por quanto tempo Olinda
i
vai viver porque ela
i
está
escorregando para o mar.
(D2 REC)
Entretanto, é preciso assinalar que nosso sujeito sintático pode ainda
aparecer em posição pós-verbal e, em tais casos, servirá, predominantemen-
te, para veicular uma informação nova, como mostra o último constituinte
destacado em (3):
(3) O “Fantástico”
i
eu acho que ___
i
é um programa muito... Muita coisa boa
aparece no “Fantástico”. Agora começam os programas de política.
(DID SP)
O trecho acima é bastante ilustrativo a respeito da discussão que começamos
aqui e que prosseguirá na seção seguinte e na 2. O constituinte o Fantástico é
uma informação nova codificada pela estrutura de tópico marcado, já ilustrada
em (1); muita coisa boa é igualmente uma informação nova, que aparece na
posição de sujeito sintático; os programas de política é um sujeito sintático que
traz uma informação nova, que aparece após o verbo.
Observamos, então, que o sujeito da sentença pode ser uma entidade que
codifica informação velha (2) ou uma entidade que codifica informação nova
(3). Isso mostra que não podemos basear a conceituação de sujeito exclusiva-
mente em uma análise do status informacional da entidade.
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PREDICAÇÃO
105
1.2. A noção de sujeito a ser adotada neste volume
Diante do exposto na seção anterior, que noção devemos, então, adotar
para o sujeito? O capítulo 2 mostra que o sujeito, em geral, coincide com o
argumento externo de um predicador. O exame dos predicadores grifados em
(4) confirma essa coincidência. Em (4a), temos um predicador nominal, e
em (4b, c, d, e), predicadores verbais, respectivamente núcleos dos predicados
nominais e verbais. De fato, são eles os responsáveis pela seleção semântica
do argumento externo, destacado em negrito, e interno(s), e a eles se ligam,
opcionalmente, os adjuntos, que serão tratados no capítulo 4.
(4) a) Agora eu estou muito sozinha lá na praia.
(DID POA)
b) ... realmente eles sensibilizam uma camada da população.
(D2 RJ)
c) Eu gostei de Pernambuco.
(DID RJ)
d) As minhas amigas vão sempre ao teatro, quase sempre.
(DI SP)
e) O governo, por exemplo, paga aos seus funcionários normalmente um reajuste
salarial no mês de março.
(DID REC)
Há, entretanto, dois tipos de estruturas em que o sujeito não coincide
com o argumento externo: as estruturas passivas e as sentenças com verbos
inacusativos. Em ambos os casos, a posição externa a SV está disponível para
receber o argumento interno. No caso das estruturas passivas, enquanto o
argumento interno aparece na função sintática de sujeito, o argumento externo
pode ou não aparecer sob a forma de um SPrep (Sintagma Preposicionado),
com a função tradicionalmente referida como agente da passiva:
(5) a) ... porque quase sempre ela é procurada pelos alunos...
(D2 SP)
b) Todas essas estradas aqui foram pintadas à máquina.
(D2 SSA)
Em (5a), o argumento interno do predicador procurar é ela (a professo-
ra) — os alunos procuram a professora —, que aqui aparece na função de
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106
sujeito, e o argumento externo os alunos, na função de agente da passiva,
uma função incluída em descrições mais recentes entre os termos oblíquos,
juntamente com os complementos relativos e circunstanciais (cf. nota 4). Em
(5b), o argumento interno igualmente cumpre a função de sujeito, enquanto
o argumento externo não aparece. Essa possibilidade de não realizar foneti-
camente o argumento externo nas estruturas passivas vem confirmar o que
se disse no capítulo 2 acerca da assimetria entre argumento externo e interno
e da diferente relação sintática entre eles e seu predicador.
No caso das sentenças com verbos inacusativos, vimos no capítulo 2 (se-
ção 4.4) que geralmente apenas um argumento interno é selecionado. Esse
argumento tem as mesmas características semânticas e estruturais do objeto
direto; mas, ao contrário do que ocorre com o objeto direto, desencadeia
concordância verbal e recebe caso nominativo ao invés de acusativo, tal como
o argumento externo. Observe o exemplo em (6):
(6a) ... de vez em quando aparecem as riscas no chão marcando o início da pista.
(D2 SSA)
Observe que o constituinte em negrito se encontra em posição pós-ver-
bal e que a falta de um argumento externo permite que ele entre em relação
de concordância com o verbo. Uma evidência de que esse elemento recebe
caso nominativo vem da possibilidade de ele ser anteposto ao verbo e de ser
substituído por um pronome do caso reto, como mostra a reescritura de (6a)
em (6b):
(6b) a) ... de vez em quando as riscas no chão aparecem marcando o início da
pista.
b) ... de vez em quando elas aparecem marcando o início da pista.
Ainda que, em geral, haja coincidência entre sujeito sintático e argumen-
to externo, o comportamento do argumento interno dos verbos inacusativos
e do argumento interno das estruturas passivas mostra que o sujeito não se
confunde com a noção de argumento externo. Nesses casos, o sujeito coin-
cide com o argumento interno, o que é explicitado pela concordância verbal,
ainda que o falante não utilize as marcas formais de concordância-padrão do
português. Isso significa que a concordância verbal é crucial para a definição
GRAMATICA 3.indb 106 6/11/2009 14:47:07
PREDICAÇÃO
107
de sujeito. Como mostra o capítulo 2, na ausência de um argumento externo
para compe tir pela posição de sujeito, o argumento interno é um candidato
legítimo para ocupar essa posição; daí entrar em relação de concordância com
o verbo.
Ao nos concentrarmos na concordância verbal, abandonamos o campo
semântico que determina o número de argumentos de um predicador e sua
projeção na sintaxe para adentramos no campo “mais gramatical”, que envolve
questões morfossintáticas.
Para a distinção entre esses dois campos, observe a sentença abaixo:
(7a) Paulo tinha dormido.
Temos um único argumento e dois verbos dormir e ter. O verbo dormir
seleciona um SN e o único candidato na sentença é Paulo. O verbo ter tem a
função de auxiliar do verbo dormir. Sendo um auxiliar, não seleciona argu-
mentos, isto é, não tem grade temática. A sua função é marcar tempo e pessoa,
traços verbais ausentes no particípio dormido. Além disso, ele recebe as mar-
cas de número. Se em lugar de Paulo tivéssemos os meninos, o verbo deveria
tomar a forma tinham, explicitando a concordância com o argumento. É
preciso, entretanto, notar que a “concordância” entre um especificador e o
núcleo de flexão não se deve confundir com a presença de marcas explícitas
de concordância verbal. Ela se dá mesmo que o sistema não disponha de
marcas morfológicas que explicitem tal relação, como é o caso do inglês ou
do chinês, ou até mesmo nos casos em que se observam perdas dessas marcas,
como ocorre no português brasileiro falado. A relação de concordância entre
sujeito e verbo é expressa sintaticamente, ou seja, o argumento com função
de sujeito ocupa uma determinada posição, o especificador de um nódulo
funcional, que expressa justamente tempo e concordância. Chamemos esse
nódulo de Sintagma Flexional (SFlex). Considerando a função argumental e
a função gramatical, passamos a ter a estrutura sentencial em (7b). A estru-
tura de SV está simplificada nesta seção
3
:
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108
(7b) SFlex
3
Espec Flex’
4 3
Os meninos Flex SV
g 3
tinham SN V’
g g
[ ]i V
g
dormido
Os meninos, argumento externo de dormir, tem sua origem na posição de
especificador de V, lugar em que recebe seu papel temático. Entretanto, para
entrar em relação de concordância com o verbo, o SN tem de se mover para a
posição de especificador de Flex. Nessa posição o argumento externo recebe
Caso Nominativo da Flexão. Lembre-se de que esta é a posição do sujeito
da sentença, que não se confunde com argumento externo, o qual ocupa a
posição de especificador de V. O sujeito entra em relação de concordância e
recebe Caso Nominativo da Flexão; o argumento entra em relação semântica
com o verbo, do qual recebe papel temático. Observe ainda que o verbo ter,
por ser um auxiliar e não um predicador, não se origina na posição do verbo,
mas na posição de núcleo da concordância verbal.
Tomemos agora o caso do verbo dormir na sua forma simples, dormiram,
que exibe marcas de tempo e modo < -ra > e de número e pessoa < -m >. O
verbo é gerado na posição de núcleo do SV, como no caso anterior, e projeta
sua estrutura argumental, ou seja, o seu único argumento, os meninos, é gerado
no especificador de V, onde recebe papel temático. Satisfeitas as exigências
semânticas (projeção do argumento e atribuição de papel temático), o verbo,
que tem as desinências modo-temporais e número-pessoais, deve mover-se
para o núcleo de SFlex, onde estão as marcas de concordância. O argumento
externo se move, como no caso anterior, para o especificador de Flex:
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PREDICAÇÃO
109
(8) SFlex
3
Espec Flex’
4 3
Os meninos
i
Flex SV
g 3
dormiram
k
SN V’
g g
[ ]i V
g
[ ]
k
Ressalte-se que, quando o sujeito ocupa a posição de especificador de Fle-
xão e o verbo flexionado ocupa a posição nuclear de Flexão, temos a ordem
superficial SV. Ou seja, a noção de sujeito, além de estar vinculada à questão
da concordância que se observa na relação entre especificador e núcleo de
Flex, está vinculada à ordem SV, obtida nessa mesma relação. No português,
entretanto, podemos ter um SN pós-verbal na função de sujeito. Na próxima
seção, trataremos da variação na presença/ausência de marcas morfológicas
de concordância verbal e da sua relação com a ordem do sujeito sintático na
amostra analisada.
Examinemos agora um verbo “climático”, como chover. Esse verbo não
seleciona nenhum argumento; portanto, sua estrutura argumental, conforme
vimos no capítulo anterior, é:
(9) SV
g
V’
g
V
g
choveu
Como se pode depreender da representação acima, a classificação tradi-
cional de oração sem sujeito encontra guarida na estrutura argumental do
verbo. Entretanto, a marca morfossintática (< -u >, terceira pessoa do singular
do pretérito perfeito) desencadeia o seu movimento para o núcleo de SFlex,
como no caso do verbo dormiram. No inglês e no francês, há um pronome
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110
expletivo it, il, respectivamente, que ocupa a posição de sujeito desses verbos
(it rains, il pleut). O termo “expletivo” se refere à falta de conteúdo semântico
do pronome. O português brasileiro não tem um pronome expletivo foneti-
camente realizado
4
, mas isso não nos impede de postular a existência de um
pronome foneticamente nulo (assim como ocorre para o sujeito oculto) para
ocupar a posição de especificador de Flex. Tem-se aí uma simetria de nulos
para a posição de sujeito: nulo referencial, que corresponde ao sujeito oculto
da gramática tradicional, e nulo não-referencial ou expletivo, uma categoria
não reconhecida pela tradição, mas que vem a suprir a falta de uma forma
para a posição de sujeito das estruturas que a GT denomina de “orações sem
sujeito”.
As estruturas em (10a) e (10b) ilustram um sujeito nulo referencial e um
nulo expletivo, respectivamente. No primeiro caso, o argumento externo de
“dormimos”, foneticamente não realizado, é representado por uma categoria
vazia pro (ou um sujeito oculto — nós — em termos tradicionais) na posição
de especificador de SFlex, que entra em relação de concordância com o ver-
bo; no segundo caso, o sujeito não-argumental de chover, um pro expletivo
(sem conteúdo fonético e sem conteúdo semântico) igualmente aparece na
mesma posição:
(10a) SFlex
3
Espec Flex’
g 3

i
] Flex SV
g 3
dormimos
k
SN V’
g g
[ ]i V
g
[ ]
k
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PREDICAÇÃO
111
(10b) SFlex
3
Espec Flex’
g 3

expl
] Flex SV
g g
Choveu
k
V’
g
V
g
[ ]
k
A proposição de um pronome expletivo nulo na posição de especificador
de Flexão está em consonância com a regra geral segundo a qual toda sentença
tem sujeito. O sujeito pode ser um elemento gerado na posição argumen-
tal (argumento externo ou argumento interno de verbos inacusativos e de
construções passivas), caso em que se move para a posição mais alta, ou um
elemento gerado na posição funcional, a saber, no especificador de Flexão,
como é o caso do sujeito expletivo.
Enfim, essas reflexões mostram que a noção de sujeito não se confunde de
modo algum com a de argumento externo. Nem tampouco com a de tópico.
Ambas as noções são necessárias para a compreensão da estrutura sintática
sentencial e desfazem o aparente paradoxo encontrado nas GTs, segundo as
quais o sujeito é um termo essencial da sentença, embora haja sentenças sem
sujeito. A seção 5 traz um tratamento formal mais detalhado da posição do su-
jeito referencial e expletivo, bem como das construções de tópico marcado.
2. Ordem dos constituintes sentenciais e concordância verbal
5
Em português, uma língua que, em geral, não traz marcas morfológicas
de caso, há dois recursos formais para explicitar a função de sujeito: a ordem
dos constituintes sentenciais e a concordância em número e pessoa que se
estabelece entre sujeito e verbo. Na presente seção veremos que os dois re-
cursos se manifestam diferentemente segundo o tipo de verbo que compõe
a sentença.
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112
2.1. Verbos transitivos e inergativos
6
Na fala culta, a ordem Sujeito-Verbo (S-V) e a presença de marcas de con-
cordância verbal são muito frequentes. Ainda que não atestado na amostra
analisada, um contexto que licencia a ordem Verbo-Sujeito (V-S) para os verbos
transitivos e inergativos é a presença de um SN pesado (um sintagma longo,
com modificadores e complementos do nome, que podem ser representados
por sintagmas simples ou sentenciais).

(11) a) Isso foi o que decidiram os deputados da bancada ruralista recém-che-
gados.
b) Só dormiram os meninos que chegaram do passeio ao Parque Ecológico.
Na ausência de um SN pesado, tem-se com tais tipos de verbos categori-
camente a ordem S-V, como mostram os exemplos abaixo:
(12) a) e agora o menino quer judô.
(D2 SP)
b) os veteranos ofereciam um piquenique aos... calouros então nós fomos até
Itaparica.
(DID SSA)
c) O pessoal joga muito aquelas raquetes assim.
(DID POA)
d) Os sindicatos devem levar adiante toda e qualquer reivindicação dos seus
associados.
(EF POA)
Quanto à concordância entre sujeito e verbo, o português culto tende a
explicitá-la na presença de sujeitos nominais (12), de sujeitos pronominais
plenos e nulos (13):
(13) a) Eu levei as minhas filhas
i
. Elas
i
adoraram, né? [∅]
i
não queriam ir, mas no fim
[∅]
i
foram, porque [∅]
i
sabiam que iam outros jovens também.
(DID POA)
b) Elas
i
gostam. Às vezes, quando elas
i
têm tempo assim, elas
i
pegam uma turmi-
nha. Elas
i
, então, pedem licença aqui no Colégio Maria Goretti aqui de cima
e [∅]
i
vão jogar vôlei.
(DID POA)
GRAMATICA 3.indb 112 6/11/2009 14:47:07
PREDICAÇÃO
113
Os dados analisados sinalizam que o português brasileiro culto privilegia o
uso de marcas de concordância verbal. Essa tendência à explicitação de marcas
formais afeta outras construções, nas quais a prescrição gramatical a rejeita:
(14) a) Não podíamos deixar de falarmos novamente no externo.
(EF SSA)
b) Então na hora em que fosse possível se viver em São Paulo como se vivem nas
pequenas comunidades interioranas.
(D2 SP)
c) Há muita riqueza quando vocês olham homens semelhantes e dessemelhantes
ou sejam homens bem diferentes.
(EF REC)
d) Quer dizer além de chegar ao plano muscular se retiram os elementos musculares
ou sejam os peitorais grandes e pequenos.
(EF SSA)
Em (14a), a concordância verbal é duplamente marcada. Aparece no ver-
bo auxiliar poder e no verbo falar, no grupo verbal poder deixar de falar. Em
(14b), a presença do se com verbo intransitivo deveria inibir a marca de plural
na sentença de sujeito indeterminado; em (14c, d), o verbo ser, na expressão
cristalizada ou seja, utilizada para introduzir uma explicação, parece estar-se
tornando passível de concordância verbal.
Há, porém, um contexto em que a não-concordância entre sujeito e verbo
parece superar a concordância. Trata-se das orações adjetivas. Ainda que o
antecedente do pronome relativo seja um SN plural, o verbo permanece no
singular, como se estabelecesse concordância com a forma do pronome rela-
tivo. Observe o contraste entre (15a-b), em que o verbo concorda com o SN
antecedente, e (15c-g), em que a relação de concordância com o antecedente
é obliterada pelo pronome relativo. Note que, em (15f ), o antecedente não
apresenta marcas morfológicas de concordância-padrão entre o substantivo e
o determinante. A ausência de marca de plural em balaca favorece a ausência
de marca no verbo da oração adjetiva:
(15) a) Esse povo todo que vai pra essas indústrias
i
que
i
estão se implantando.
(D2 SSA)
b) Os motivos especiais
i
que
i
tiveram foram só os aniversários.
(DID POA)
c) As UPC
i
que
i
quando eu comprei era de um valor mínimo.
(D2 RJ)
GRAMATICA 3.indb 113 6/11/2009 14:47:07
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114
d) Então, Bloom e outros colaboradores fizeram um, vários estudos
i
que
i
abrangeu
a, as três áreas da personalidade.
(EF POA)
e) O importante é que o professor proponha diferentes atividades
i
que
i
envolva
diferentes processos mentais.
(EF POA)
f ) Então, dava aquele cheiro, então era as balaca
i
que
i
tava queimando.
(DID POA)
g) Eu tenho sido procurado, como diretor do Colégio Sion, por alguns pais
i
que
i

estranha a circunstância.
(D2 SP)
A variação na concordância verbal se dá também na presença de um sujeito
coletivo; ora a concordância se faz com a forma singular do nome (16a-d) ora
se faz com o significado. Inversamente ao caso observado acima, a marca de
plural no verbo ocorre exatamente nas orações adjetivas (16d):
(16) a) A molecada adorou o filme.
(DID SP)
b) O pessoal começa a pegar todos os arranjos do salão.
(DID POA)
c) O pessoal joga muito aquelas raquetes assim.
(DID POA)
d) O pessoal gozou com aquela turma
i
, que
i
levaram o dia inteiro pra arrumar
a canoa.
(DID POA)
2.2. Verbos inacusativos
No capítulo 2, vimos que os verbos inacusativos se caracterizam por serem
monoargumentais, propriedade compartilhada com os verbos inergativos. A
diferença entre as duas espécies de verbos monoargumentais está na posição
em que é gerado o argumento. No caso dos verbos inergativos, o argumento
é gerado no especificador de V, sendo, portanto, um argumento externo; no
caso dos inacusativos, o argumento é gerado na posição de complemento de
V, ou seja, na posição de argumento interno. Distingue-se do argumento
interno de um verbo transitivo pelo fato de não receber Caso Acusativo.
A diferente natureza de seleção argumental dos dois tipos de verbos mo-
noargumentais responde pela diferente colocação do argumento na sentença.
GRAMATICA 3.indb 114 6/11/2009 14:47:08
PREDICAÇÃO
115
Os verbos inergativos, salvo no caso da presença de um SN pesado, exibem
categoricamente a ordem S-V, como vimos em (12); os verbos inacusativos
podem exibir a ordem S-V e V-S, como mostra o contraste a seguir:
(17) a) As gurias chegam, me dão um beijinho.
(DID POA)
b) quando chegou o balé russo aqui em São Paulo [...].
(DID SP)
Apesar das duas ordens possíveis, o argumento dos verbos inacusativos
tende a aparecer posposto ao verbo, posição em que é gerado. Na amostra
analisada, isso corresponde a cerca de 84% dos casos com argumento realizado
como um sintagma nominal pleno, conforme vem exemplificado em (17b)
acima. Essa preferência é ainda mais significativa se o predicador inacusativo
pertencer ao subtipo que poderíamos chamar de “existencial”, caso de existir,
aparecer, por exemplo, quando a tendência a manter o argumento depois do
verbo chega a 93% na amostra.
Embora os casos com argumento pré-verbal sejam pouco frequentes, ob-
serva-se que a ocorrência de uma ou outra ordem obedece a certas condições
contextuais: depende fortemente da natureza semântico-discursiva do argu-
mento dos verbos inacusativos. As características relevantes dizem respeito
ao fato de o argumento ser “definido”, ou seja, ter um referente previamente
dado no discurso, ou não. A análise do português falado revela que, quando
o argumento é “não-definido”, ou seja, “novo”, há uma forte tendência a que
ele ocorra em posição pós-verbal, como observamos em (18):
(18) a) Então existe uma época pra ter maçã.
(EF SP)
b) Ainda existe escola em que o estudante não pratica esporte.
(DID SSA)
Ao contrário, nos casos em que o argumento é “definido”, a tendência
predominante é que ele ocorra em posição pré-verbal, como ilustram as sen-
tenças em (19):
(19) a) Seria muito importante para o Brasil que o Nordeste crescesse.
(D2 REC)
GRAMATICA 3.indb 115 6/11/2009 14:47:08
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b) ... então a arte surge não em função de uma necessidade de auto-expressão... nem
em função de duma necessidade de embelezar o ambiente em que eu vivo...
(EF SP)
Esse contraste fica bastante evidente quando observamos casos em que o
referente, introduzido num determinado momento, é retomado mais além
no discurso, com o mesmo predicador. Observe a diferença entre as sentenças
(a) e (b) dos grupos (20) e (21):
(20) a) Existe diferença entre o sindicato dos trabalhadores e o sindicato patro-
nal?
b) Eu acredito que essa diferença entre patrões e empregados... entre sindicatos
patronais... e sindicatos de empregados... essas diferenças efetivamente só existem
em sistemas e em regimes que praticam a democracia.
(DID RE)
(21) a) Saem cinco comigo de manhã às sete horas.
b) Então esses cinco saem e vão para Pinheiros.
(D2 SP)
Vemos, então, que a posição ocupada pelo argumento dos predicadores ina-
cusativos está estreitamente associada à natureza semântico-discursiva daquele.
Se o argumento tiver estatuto informacional “novo”, tenderá a apresentar a
ordem V-S; se tiver estatuto informacional “velho”, exibirá a ordem S-V.
Da mesma forma que o argumento dos verbos inacusativos pode aparecer
antes ou depois do verbo, o uso de marcas de concordância entre verbo e
sujeito é passível de variação. Observe o par (22):
(22) a) De vez em quando aparecem as riscas no chão.
(D2 SSA)
b) Elas se atrofiam porque não existe aqueles elementos.
(EF SSA)
Enquanto em (22a) há concordância formal entre o verbo e seu argumento,
em (22b) o verbo permanece no singular. Nesse tipo de estrutura, os índices
de uso de marcas de concordância caem na fala culta, uma evidência de que
o falante nem sempre reconhece como sujeito um elemento pós-verbal. De
fato, se o argumento estiver na posição pré-verbal, a concordância verbal é
garantida, como em (17a) acima.
GRAMATICA 3.indb 116 6/11/2009 14:47:08
PREDICAÇÃO
117
Por outro lado, quando o argumento permanece em posição pós-verbal,
é sensível, na amostra analisada, a variação entre o uso de formas verbais
com e sem marcas de concordância, como mostram os grupos (23) e (24)
respectivamente:
(23) a) Ficaram todos muito sem jeito.
(D2 POA)
b) Agora saíram uns uns temperos mais mais novos digamos assim.
(D2 POA)
c) Se disseram que a vida de uma operária japonesa é humana, nasceriam flores
nos postes telegráficos, ta?
(EF RJ)
d) Depois... acabaram os bondes.
(D2 SP)
e) Quase sempre ela é procurada pelos alunos quando surgem os problemas, não é?
(D2 SP)
f ) onde é que estão os economistas?
(EF POA)
g) ... ainda existem bairros sem água.
(D2 REC)
(24) a) Você vê uma... peça que vá duas, três pessoas da família, eles acham caro.
(DID SP)
b) ainda veio o os os ônibus.
(D2 SP)
c) Aí então... começou a aparecer os vestidos feitos.
D2 SP)
d) diminuiu as UPCs.
(D2 RJ)
e) Falta-me condições para poder, digamos assim, me aprofundar nessa questão.
(DID REC)
As construções passivas (sintéticas e analíticas) se assemelham aos verbos
inacusativos, pois o argumento interno dos verbos na voz passiva assume a
função sintática de sujeito. Os dois tipos de passivas apresentam variação na
relação de concordância, de número e de gênero. Ao lado das formas que
manifestam concordância verbal em (25a e 26a), predominam as formas
que não exibem as marcas de concordância:
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118
(25) a) Se retiram os elementos musculares.
(EF SSA)
b) Se na mulher se retira os ovários, retirando portanto a fonte elaboradora do
hormônio feminino, as glândulas mamárias elas se atrofiam.
(EF SSA)
c) Não se usava botinhas.
(D2 SP)
d) Usava-se também os chapéus.
(D2 SP)
(26) a) Os produtos galactófagos são encontrados na porção central de coloração
branca da mama.
(EF SSA)
b) Aquelas carroças vinham cheias de defuntos para serem enterrado.
(D2 SP)
c) Reivindicações essa que são evidentemente as mais importantes... ou que devem
ser levados em consideração.
(DID REC)
d) Quer dizer essa pesquisa está baseado em função de serviços.
(D2 SP)
e) Senti um certo ciúmes ter sido escolhido uma mulher.
(D2 SP)
f ) Então é marcado uma entrevista.
(D2 SP)
A falta de concordância formal entre o SN e o verbo nas passivas sintéticas
(25 b-d) sinaliza que o falante não interpreta o SN como sujeito e sim como
objeto do verbo transitivo, privilegiando a leitura de voz ativa, aproximando
essas construções às de verbos intransitivos (Vive-se bem em São Paulo) e tran-
sitivos oblíquos (Precisa-se de carpinteiro) (Sobre o quadro de complementos
verbais, cf. nota 1 deste capítulo).
Nas passivas analíticas em (26b-f ), entra em jogo a posição do argumento
interno, que pode estar anteposto (b-d) ou posposto ao verbo (e, f ), contexto
que desfavorece ainda mais a presença de marcas de concordância. De fato, as
sentenças em (27) mostram que a concordância com o argumento pós-verbal
não é “natural” para o falante culto:
(27) a) Então aí mudou mudaram-se os hábitos.
(D2 SP)
GRAMATICA 3.indb 118 6/11/2009 14:47:08
PREDICAÇÃO
119
b) É o mesmo caso das estradas brasileiras. Dimensionou-se, foram dimensionadas
as estradas para um tráfego mais leve do que elas estão suportando.
(D2 SSA)
Nos dois casos, o falante reformula a flexão verbal: nota-se claramente a
hesitação do informante, que modifica a construção com se sem concordância
com os respectivos argumentos internos [os hábitos em (a); as estradas em (b)].
Em (27b) a reformulação é ainda mais profunda, já que a passiva pronominal
é substituída por uma construção passiva analítica, com concordância.
Uma análise mais atenta dos casos em (26) acima mostra que a concordância
entre o sujeito e o verbo que codifica a noção de pessoa é respeitada, como se
observa em (b) no par defuntos e serem e em (c) no par reivindicações e devem.
Nesses casos, não se dá a concordância entre o SN-sujeito e o particípio. Em
(26b), “falha” a concordância de número entre o sujeito e particípio; em (26c-
f ) é a concordância de gênero que deixa de se manifestar.
O comportamento variável da concordância entre o sujeito e o particípio
das passivas analíticas se repete nas construções que apresentam um predicativo
do sujeito, como mostra o contraste em (28):
(28) a) Eles como estudiosos não estão preocupados.
(EF REC)
b) Elas morreram sufocada.
(DID POA)
Na contramão dos verbos inacusativos em geral, os verbos haver e ter (exis-
tencial), cujo argumento interno é um objeto direto, mostram certa tendência
a acionar a concordância verbal, particularmente quando aparecem no preté-
rito imperfeito e perfeito, tomando seu argumento interno como sujeito. Em
(29a-b), verificamos seu comportamento como verbos transitivos, enquanto
os demais exemplos exibem o comportamento de verbos inacusativos:
(29) a) Então havia restaurantes que eles serviam assim um pouquinho de cada
coisa...
(DID RJ)
b) Tinha uns cinemas ótimos.
(DID SP)
c) Não haviam subsídios para auxiliar...
(D2 SP)
GRAMATICA 3.indb 119 6/11/2009 14:47:08
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MARILZA DE OLIVEIRA
120
d) Este sítio representa para mim, se outras coisas não houvessem, uma razão a
mais para viver.
(D2 SP)
e) Começaram a haver alguns enganos.
(D2 SP)
f ) Antigamente tinham filmes mais assim, com maior conteúdo.
(DID SP)
g) O público vai lá, mas percebe que não é uma coisa perfeita, que vai aparecer/vão
ter cortes, vão modificar...
(DID SP)
Sentenças como (29c-g) têm sido interpretadas como uma hipercorreção
baseada na propalada regra das gramáticas normativas, segundo a qual o
verbo existir deve concordar com o argumento interno e o verbo haver com
valor existencial (aliás, único significado que veicula no português brasileiro),
não. A interpretação se baseia na ideia de que a semântica comum aos dois
teria aproximado a sintaxe. No entanto, o fato de observarmos variação na
concordância verbal com o verbo existir, ilustrada nas sentenças em (30),
pode levar a outro tratamento dos casos de (29). Talvez a interpretação mais
abrangente seja considerar que, tanto em (29) como em (30), estamos diante
de uma variação característica dos verbos inacusativos.
(30) a) Existem fases em que as glândulas mamárias aumentam consideravelmente de
tamanho.
(EF SSA)
b) as glândulas mamárias... elas se atrofiam... elas se atrofiam porque não existe
aqueles elementos... ou seja aqueles hormônios responsáveis pelo seu desenvol-
vimento...
(EF SSA)
3. O sujeito pronominal e suas realizações
Uma vez que definimos a noção de sujeito usada neste volume — o ele-
mento que ocupa a posição de especificador de SFlex e exibe concordância
com o verbo, além do caso nominativo, o que é visível quando representado
por um pronome —, passaremos a examinar nesta seção a realização do su-
jeito na amostra analisada. Vemos nos conjuntos a seguir que o sujeito pode
GRAMATICA 3.indb 120 6/11/2009 14:47:08
PREDICAÇÃO
121
ter referência determinada, como em (31), indeterminada (ou arbitrária),
como em (32), ou pode não ter qualquer referência, isto é, o predicador pode
não selecionar um argumento externo, e a posição de especificador de SFlex
pode estar vazia, como em (33), por não existir um pronome expletivo (sem
conteúdo semântico) no português do Brasil. Os sujeitos nulos de referência
determinada e arbitrária serão representados, respectivamente, pelos símbolos
[ø] e [ø
arb
]. Quando se tratar de uma posição não-argumental, o símbolo será
seguido da abreviatura subscrita expl, significando “expletivo”: [ø
expl
].
(31) a) os sindicatos também devem levar... adiante... toda e qualquer... re reivin-
dicação... dos seus... associados...
(DID REC)
b) ... essas representações eram feitas sempre na parte escura das cavernas...
(EF SP)
(32) a) mas falava se muito sobre o o o alto custo de vida...
(DID SP)
b) ... [ø
arb
] dizem que o estatístico o estatístico é o homem que senta numa barra
de gelo e bota a cabeça dele dentro do forno.
(D2 REC)
c) A gente observa que as frutas de outros estados são totalmente diferentes.
(DID RJ)
(33) a) ... [ø
expl
] choveu muito uma temporada quando a gente ia com o SESC.
(DID POA)
b) [ø
expl
]

Parece que o Brasil tem quinze ou dezoito impostos.
(D2 RJ)
c) ... então [ø
expl
] havia restaurantes que eles serviam assim um pouquinho de cada
coisa...
(DID RJ)
Em (31) temos exemplos de sujeitos referenciais definidos, representados
pelos SNs os sindicatos, argumento externo de levar adiante, e essas representações,
argumento interno de fazer, que ocupa a posição de especificador de SFlex
na estrutura passiva. Esses sujeitos, quando retomados no discurso, podem
ser representados por um pronome pessoal, expresso ou nulo (os parênteses
aqui indicam essas duas possibilidades):
(34) a) (eles) também devem levar... adiante... toda e qualquer... re reivindicação...
dos seus... associados...
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122
b) ... (elas) eram feitas sempre na parte escura das cavernas...
Em (32a, b), o argumento externo de falava e dizem está indetermina-
do (Não se sabe quem falava. Não se sabe quem diz.), e as estratégias para
exprimir tal referência, o uso do verbo na terceira pessoa do singular com o
pronome se e o verbo na terceira pessoa do plural, respectivamente, estão em
consonância com o que recomendam as gramáticas descritivas e normativas
mais conservadoras. O exemplo (32c), por outro lado, mostra uma forma pro-
nominal a gente representando o argumento externo de observa e veiculando
também a noção de indeterminação. Tanto a gente quanto você, nós, tu e eu,
além do seu uso com referente definido, constituem importantes estratégias
para indeterminar o sujeito, como veremos nesta seção.
Em (33a), finalmente, temos um enunciado, cuja primeira oração apre-
senta um verbo que expressa um fenômeno climático. Verbos desse grupo,
como vimos no capítulo 2, não selecionam qualquer argumento e constituem
uma instância do que a tradição gramatical nomeia “oração sem sujeito”.
Da mesma forma, em (33b), o verbo da sentença matriz (oração principal)
parecer não seleciona um argumento externo, mas apresenta um argumento
interno: a predicação que o Brasil tem quinze ou dezoito impostos. O exemplo
(33c), finalmente, apresenta uma sentença existencial com o verbo haver,
que, igualmente, seleciona apenas um argumento interno. Essa ausência de
um argumento externo (ou de qualquer argumento) será importante para a
análise apresentada em 3.3.
Antes de passarmos à análise da representação (expressa/não-expressa)
dos sujeitos pronominais na amostra, é importante dizer que a possibilidade
de deixar um sujeito pronominal nulo não é uma característica geral das lín-
guas. Pelo contrário, há línguas, como o francês e o inglês, que representam
foneticamente o sujeito pronominal, utilizando mesmo um pronome sem
conteúdo semântico (chamado expletivo) diante de verbos que não selecio-
nam um argumento externo, como parecer (it seems that..., il semble que...)
e chover (it rains..., il pleut...), como vimos na seção 1; por outro lado, há
línguas que apresentam o sujeito não-argumental/não-referencial categori-
camente nulo como é o caso do italiano e do espanhol ([[ø
expl
] piove
,
[[ø
expl
]

llueve) e preferem igualmente o sujeito referencial nulo ([ø] parlo, [ø] hablo),
exceto em casos de ênfase e contraste. Pode-se dizer que o sujeito nulo nessas
últimas línguas é a forma não-marcada, em termos de frequência, para a
GRAMATICA 3.indb 122 6/11/2009 14:47:09
PREDICAÇÃO
123
representação do sujeito pronominal definido. O português brasileiro atual
apresenta um comportamento híbrido: prefere sujeitos referenciais expressos
e os não-referenciais nulos.
Esta seção é dedicada à representação dos sujeitos pronominais na amostra
compartilhada do projeto Nurc. Começaremos pelos sujeitos de referência
determinada, passando aos de referência indeterminada (ou arbitrária) e,
finalmente, faremos algumas observações sobre os sujeitos não-referenciais/
não-argumentais, as sentenças referidas como “sem sujeito”.
3.1. O sujeito referencial nas sentenças finitas
3.1.1. O sujeito de referência determinada
Examinemos inicialmente a realização do sujeito pronominal de referên-
cia determinada (de primeira, segunda e terceira pessoa) nas sentenças finitas,
isto é, aquelas que exibem o verbo flexionado em tempo, modo, número e
pessoa. Nosso objetivo será verificar se os falantes da amostra analisada pre-
ferem o sujeito pronominal expresso ou nulo. Os exemplos (35a, b) ilustram
um sujeito nulo de primeira e de terceira pessoa, respectivamente. Nos exem-
plos, o antecedente dos sujeitos de terceira pessoa aparece destacado entre
colchetes e um índice subscrito [
i
] indica, como referimos acima, a correfe-
rência entre ele e o sujeito pronominal nulo ou expresso.
(35) a) (Você costuma oferecer chá?)
Olha... isso não... porque [ø] nunca tenho tempo. [ø] Sempre estou lecionan-
do...
(DID POA)
b) Não tem nenhum valor artístico [esta representação]
i
, mesmo porque [ø]
i
é usa-
da por todas as crianças, acho que quase que do mundo inteiro, para desenhar
gatos...
(EF SP)
Foi analisado um conjunto de 1.085 dados (cerca de 200 por capital),
excluindo-se as ocorrências assinaladas em (36), nas quais o apagamento do
sujeito não parece distinguir as línguas. Trata-se de orações com verbo no
imperativo e de orações coordenadas, com sujeitos correferenciais:
GRAMATICA 3.indb 123 6/11/2009 14:47:09
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(36) a) Então [ø] vejam aqui, aqui, quando estiver trabalhando com compreen são ele
vai atuar sobre uma comunicação...
(EF POA)
b) Eu saí de lá de manhã e [ø] cheguei aqui de noitinha, mas [ø] não estava com...
com pressa.
(D2 SSA)
Foram ainda excluídos casos em que o pronome sujeito não pode ser
apagado por estar acompanhado de um elemento focalizador (a que a tradi-
ção gramatical se refere como partícula, ou palavra denotativa, de exclusão,
inclusão etc.), que se antepõe ao pronome (só ele, até eu) ou outros elementos
usados para ênfase (eu mesmo, eles próprios) e numerais (nós três). A análise
não computou, igualmente, formas verbais equivalentes a respostas afirma-
tivas (Você gostou? (eu) Gostei), denegativas (Você não gostou! (eu) Gostei sim) e
enfáticas (Você gostou! (eu) Gostei), por constituírem construções particulares,
que fogem ao ponto aqui tratado e que mereceriam um tratamento à parte,
além das ocorrências de (eu) (não) acho e (eu) (não) sei, tanto com o sujeito
expresso quanto com o sujeito nulo, que, por serem extremamente frequentes
nos inquéritos, poderiam mascarar os resultados. Finalmente, foram excluídas
as repetições, hesitações, frases interrompidas, expressões cristalizadas, ilus-
tradas em (37a) e formas verbais que funcionam como marcadores discursivos
interacionais (37b):
(37) a) Hoje em dia os filmes são mais vazios... sei lá... eu acho... não sei...
(DID SP)
b) ... não é uma casa grande né... apenas com com um jardim com planta, com
passarinho, com tudo quanto é bicho que pode existir... compreendeu?
(D2 REC)
Os resultados do levantamento feito mostram que, de cada 100 frases
analisadas, 78 têm o sujeito pronominal expresso. E o comportamento dos
falantes das cinco capitais é bastante semelhante, com o índice mais baixo
de sujeito expresso ficando com Recife (67%); seguem-se Salvador (74%),
Porto Alegre (77%), São Paulo (79%) e Rio de Janeiro (87%). Semelhante
também é o resultado em relação ao tipo de inquérito: 80% nas Elocuções
Formais, 77% nos Diálogos entre Informante e Documentador e 75% nos
Diálogos entre Dois Informantes. É digno de nota o fato de não se perceber a
GRAMATICA 3.indb 124 6/11/2009 14:47:09
PREDICAÇÃO
125
influência do grau de formalidade na representação do sujeito. Seria de esperar
maior frequência de uso de sujeitos nulos nos registros formais; entretanto,
os inquéritos de Elocução Formal da amostra analisada chegam a superar os
demais na preferência pelo sujeito expresso. Embora esses resultados venham
de um único inquérito de cada tipo e saibamos que uma análise que leve
em conta resultados quantitativos deve contemplar um universo maior de
informantes, estratificados segundo a faixa etária e outros fatores sociais, é
importante destacar que esses resultados estão muito próximos de análises
variacionistas feitas, segundo tais critérios, com base em amostras da fala culta
colhidas nas décadas de 1970 e 1990.
Examinemos separadamente cada pessoa gramatical. Em relação à primeira
pessoa do singular, a análise aponta 76% (261) de sujeitos expressos, como
ilustra (38a), ficando o sujeito nulo com 24% (82) das ocorrências (38b):
(38) a) Realmente eu tenho muito cuidado com esse problema de alimentação porque
eu tenho uma facilidade enorme para engordar, sabe?
(DID RJ)
b) [∅] tenho prazer de fazer determinados pratos. [ø] Gosto; [ø] me sinto bem.
(D2 POA)
Quanto à primeira pessoa do plural, fica clara a concorrência entre nós,
com 94 dados (53%), e a gente, com 84 (47%). Quanto à forma de expressão
do pronome nós, a análise revela que, mesmo tendo uma desinência distin-
tiva e foneticamente saliente < -mos >, os índices de pronomes expressos são
bastante altos na fala culta, alcançando 78%; os representados por a gente
chegam a 94% de pronomes expressos, uma forma de representação quase
categórica. Em um mesmo enunciado, é possível identificar as duas formas.
Quando isso acontece, inicia-se, em geral, com o pronome nós e avança-se
com a gente (39b, c):
(39) a) Nós estamos com muito trabalho.
(D2 SP)
b) Lembro um dia nós passamos no hotel, mas a gente não jogava a dinheiro
nada.
(D2 POA)
c) Nós não temos hábito justamente por nós não termos também condições financei-
ras. Aqui em casa a gente não tem por hábito de fazer quatro cinco seis pratos.
(DID RJ)
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Em relação à segunda pessoa do singular, foram computadas 43 ocor-
rências: 34 do pronome você e apenas 9 do pronome tu, estas registradas na
fala de Porto Alegre. Seis dessas ocorrências aparecem sem a marca canônica
de concordância (cinco com o sujeito expresso e uma com o sujeito nulo),
ilustradas em (40):
(40) a) Mas aí em que que tu te baseia?
(EF POA)
b) Onde é que se viu? Tu não lê esporte?
(DID POA)
c) Maria, tu qué dizer alguma coisa?
(EF POA)
d) ... mas aqui ele vai atuar sobre uma comunicação podendo ser essa sua atuação
de três diferentes maneiras. Tu fez alguma pergunta, André?
(EF POA)
e) Na tua casa mesmo uma ocasião tu fez um jantar aí.
(D2 POA)
f ) Por que tu disseste que [ø] acha que ali entra a compreensão?
(EF POA)
Veja que o sujeito nulo em (40e) se encontra numa sentença subordina-
da, que tem seu antecedente na sentença anterior (a oração principal), um
contexto em que ainda se pode observar a ocorrência de sujeitos nulos no
português do Brasil.
Quanto às desinências de segunda pessoa, observa-se a alternância entre
< ø > e < -s > (41a, b) no presente, enquanto o pretérito perfeito alterna < [ø]
>, < -ste > e a forma assimilada < -sse >, como mostra (41c, d, e):
(41) a) Mas aí em que que tu te baseia?
(EF POA)
b) ... não, tu vês, por exemplo, o peixe, peixe aqui no Rio Grande, eu tenho impressão
que se come peixe, exclusivamente na Semana Santa.
(EF POA)
c) Na tua casa mesmo uma ocasião tu fez um jantar aí.
(D2 POA)
d) Por que tu disseste que [ø] acha que ali entra a compreensão?
(EF POA)
e) (macaco) [ø] nunca comeste? Eu comi em São Borja.
(D2 POA)
GRAMATICA 3.indb 126 6/11/2009 14:47:09
PREDICAÇÃO
127
Apesar do número muito reduzido de dados, pode-se dizer que o pronome
tende a ser expresso, a menos que ocorra um sujeito de referência idêntica
na oração principal (41d) ou se tenha uma pergunta direta com a desinência
mais saliente (41e).
Nas demais capitais contempladas pela amostra compartilhada, a referência
à segunda pessoa é feita com você, que apresenta 85% de formas preenchidas
e apenas 15% de sujeitos nulos:
(42) a) Não vá dizer, muito menos agora, porque, com a criação do Bom Preço, uma
cadeia de supermercado da qual você é assessor...
(D2 REC)
b) Aí João se você justificar da maneira, como você me respondeu, eu coloco
correto.
(EF REC)
Os sujeitos nulos de segunda pessoa, como mostra (43), aparecem nor-
malmente em frases interrogativas:
(43) a) [ø] Só assistiu três vezes?
(DID SSA)
b) ... porque [ø] já pensou que que eu vou dizer para ele se ele não for?
(D2 SP)
c) [ø] sabia que pra conseguir sobreviver, tá? precisava ampliar a sua área de
atuação? tá claro isso?
(EF RJ)
Na segunda pessoa do plural, houve 54 dados (nos trechos examinados),
estes, em sua maioria, nas Elocuções Formais. Nesse conjunto, da mesma
forma que na segunda pessoa do singular, os sujeitos nulos (13%) estão con-
centrados em perguntas, mas, mesmo em tais casos, prefere-se o sujeito ex-
presso (87%):
(44) a) Bem, [ø] copiaram? [ø] Já copiaram tudo?
(EF SSA)
b) Vocês têm a pergunta aí, não é?
(EF REC)
c) ... uma, uma ocasião, o, o cônsul alemão, Zinger, não sei se vocês conhece-
ram...
(D2 POA)
GRAMATICA 3.indb 127 6/11/2009 14:47:09
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A tendência ao preenchimento do sujeito de segunda pessoa se faz notar até
mesmo nas sentenças imperativas, não-computadas no levantamento de dados
por não serem, tal como as orações coordenadas, um contexto em que a ocor-
rência de sujeito nulo diferencie as línguas. Mas é digno de nota o fato de que
grande parte dos imperativos observados nas EFs exibia o sujeito expresso:
(45) a) E vocês vejam... que é uma intervenção... muitas vezes tão traumatizante...
tão oscilante...
EF SSA)
b) ’Cês vejam que esse mecanismo (inaudível) aplicou também à Alemanha.
(EF/RJ)
c) Então [ø] vejam aqui, aqui, quando estiver trabalhando com compreen são ele
vai atuar sobre uma comunicação...
(EF/POA)
Quanto aos sujeitos de terceira pessoa, os dados levantados nesta análise
não revelam diferenças muito significativas em relação à primeira e à segunda
pessoa. A terceira pessoa do singular apresenta 78% de preenchimento (256
dados em 329) e a terceira do plural, 71% (98 dados em 138). Há, entretanto,
um importante fator a considerar em relação a tais sujeitos: se o seu referente
tem o traço semântico [+humano], o índice de preenchimento alcança um
índice global de 84%. Veja os exemplos a seguir, ilustrando a terceira pessoa
do singular e do plural com um sujeito [+humano]:

(46) a) Normalmente, quando a gente pede para [uma criança]
i
de por volta de quatro
a cinco anos desenhar uma mesa, ela
i
põe o tampo que ela
i
sabe que existe; ela
i

põe as pernas para todos os lados. Por quê? Ora, se ela
i
olhar de um determinado
lado, ela
i
vê duas pernas; se ela
i
andar meio metro, ela
i
vê outras duas pernas.
Então, ela
i
põe pernas para todos os lados, por quê? Porque ela
i
sabe que a mesa
tem um tampo, que é onde ela
i
põe as coisas e que a mesa está apoiada em cima
das pernas...Agora isso aqui ela
i
jamais vai poder ver: essa imagem da mesa.
Então isso aqui é o que ela
i
sabe. Ela está desenhando o que ela
i
tem na cabeça
e não o que ela
i
está vendo.
(EF SP)
b) Agora, é uma coisa curiosa o cantador do tipo [do Dimas e de Otacílio]
i
porque
eles são cultos. Eles
i
não são incultos não. Eles
i
cantam os repentes deles fazendo
referências culturais. Claro que eles
i
não têm uma cultura filtrada nem crista-
lizada...
(D2 REC)
GRAMATICA 3.indb 128 6/11/2009 14:47:09
PREDICAÇÃO
129
c) Eles não têm mais tempo mesmo de praticar algum esporte, porque [a minha
filha mais velha]
i
tá no científico. Ela
i
sai de manhã e [ø]
i
volta de noite. Tem
dias, né, [ø]
i
ainda estuda no Cultural.
(DID POA)
d) Agora [o pessoal]
i
, sei lá, eles
i
vão de qualquer jeito ao cinema do jeito que [ø]
i

estão, eles
i
emendam, [ø]
i
saem do trabalho, [ø]
i
vão ao cinema, [ø]
i
saem da
escola, [ø]
i
vão ao cinema.
(DID SP)
Como mostram os exemplos (46c, d), o sujeito nulo tende a aparecer
com orações justapostas e coordenadas, um procedimento mais geral entre
as línguas, mesmo as que não admitem um sujeito nulo em outros contextos
sintáticos. Os exemplos (46a, b) mostram que o sujeito pleno aparece nas
orações independentes e nas orações encaixadas (subordinadas adjetivas, ad-
verbiais e substantivas).
Se o traço do referente é [-humano], entretanto, os dados revelam neutrali-
dade entre a escolha do sujeito preenchido ou nulo: temos, na amostra, metade
de sujeitos expressos e metade de nulos, como mostram os exemplos:
(47) a) Mas nós não sabemos por quanto tempo Olinda
i
vai viver porque ela
i
está
escorregando para o mar.
(D2 REC)
b) ... em relação [àquele primeiro capítulo]
i
, que eu chamei de introdução, ali é
diferente, porque ele
i
é facílimo; ele
i
é... desde o início até o final, ele
i
é fácil.
(EF REC)
c) ... que [a imagem]
i
não tem vida nem sentido. Ela
i
existe mas ela
i
não é vivente.
(EF SP)
d) digamos, [o açúcar]
i
no mercado internacional é cotado a um preço X. No
mercado nacional [ø]
i
é cotado a um preço Y.
(DID REC)
e) ... é [a BR 262]
i
[...] ... agora [ø]
i
é uma estrada que tem muita curva, muita
subida, muita descida, porque [ø]
i
atravessa a serra do mar mesmo.
(D2 SSA)
Essa preferência por sujeitos pronominais preenchidos no português bra-
sileiro tem sido notada em inúmeras pesquisas, atingindo a fala culta e a fala
popular. A segunda pessoa, com 85% e 87% de preenchimento para o singular
e plural, respectivamente, confirma as pesquisas realizadas sobre o assunto.
A primeira e a terceira apresentam índices muito próximos, ao contrário da
GRAMATICA 3.indb 129 6/11/2009 14:47:09
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hierarquia encontrada em outras pesquisas, que colocam a terceira pessoa
como o contexto de resistência do sujeito nulo no português do Brasil. O
tamanho reduzido da amostra e a expressiva ocorrência de sujeitos com o traço
[+humano] podem explicar a aproximação dos índices de primeira e terceira
pessoa. Com o traço [-humano/-animado], o índice de sujeitos preenchidos,
embora mais baixo (54%), é muito expressivo no sentido de distanciar o
comportamento do português do Brasil daquele do espanhol, do italiano,
que rejeitam o uso de pronomes para seres inanimados.
Além disso, favorecem o preenchimento do sujeito as sentenças introdu-
zidas por um pronome relativo ou interrogativo (48), as que têm um tópico
marcado (49) e aquelas cujo sujeito tem seu antecedente em outra função ou
dele se distancia, graças à presença de elementos intervenientes (50):
(48) a) Aquilo de que tu te ressentiste para poder fazer uma extrapolação...
(EF POA)
b) Ele deve procurar o seu sindicato, buscando exatamente no departamento ju-
rídico ou na consultoria jurídica aqueles elementos que ele não dispõe eviden-
temente.
(EF REC)
c) Que é que eu vou dizer sobre o cumprimento?
(DID POA)
d) Como é que eles chamam?
(DID SP)
(49) a) Isso nós não tivemos oportunidade de comer não.
(DID RJ)
b) Engraçado, alguns tios eu trato de senhor.
(DID POA)
c) O tal pato no tucupi eu achei muito ruim.
(DID RJ)
d) Filme, eu gosto mais de comédia.
(DID SP)
e) Nossas provas nós usamos sempre teste.
(DID SSA)
(50) a) A única função dela é me ajudar [com eles]
i
, mas eles
i
não aceitam... O menino
porque quer fazer tudo sozinho, no que eu procuro deixar, e a menina porque
quer que seja a mamãe que faça, né?
(D2 SP)
GRAMATICA 3.indb 130 6/11/2009 14:47:10
PREDICAÇÃO
131
b) Não, no nível superior não. Medicina não, eu acho que ao menos medicina...
Bom, as deficiências que tem agora [os estudantes]
i
. Falam... nós também tí-
nhamos naquela época, não bradávamos tanto quanto eles
i
bradam, é questão
só de falar, reclamar, né?
(DID SSA)
Entretanto, mesmo nos padrões que favorecem o sujeito nulo em línguas
como o espanhol, o italiano e o português europeu, isto é, aqueles em que
o sujeito pronominal e seu antecedente têm a mesma função e se encon-
tram no mesmo período ou em sentenças adjacentes, o português brasileiro,
culto ou popular, prefere o sujeito expresso. O índice de sujeitos expressos
na amostra analisada é de 69% nos dois tipos de padrão de correferência
ilustrados em (51):
(51) a) Então se ele
i
está vendo de uma determinada perspectiva, em que ele
i
enxerga as
duas patas do outro lado, ele
i
vai pintar, desenhar, o animal só com duas patas
porque é só o que ele
i
podia ver.
(EF SP)
b) Bom, é a minha menina por experiência própria. [A minha menina]
i
tem três
anos agora. Ela
i
foi à escola com um ano e quatro meses.
(DID SSA)
Destaque-se, finalmente, que o sujeito nulo ainda encontra um ponto
de resistência nas estruturas com o verbo ser associado ao traço [-humano/-
animado] do antecedente do sujeito, mesmo que ele se encontre distante ou
em outra função. Os sujeitos nulos chegam a 50% quando se tem um verbo
ser como verbo principal:
(52) a) Eu me lembro [de vários filmes]
i
, não lembro os nomes. [ø]
i
Eram filmes que
tocavam mais as pessoas.
(DID SP)
3.1.2. O sujeito de “referência estendida”
As construções com o verbo ser merecem aqui uma observação breve, mas
relevante à discussão que seguirá em 3.3. Os sujeitos pronominais de terceira
pessoa apresentados na seção anterior têm um antecedente claramente definido
no discurso. O exemplo a seguir apresenta um antecedente desse tipo (uma
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132
merenda) em sentenças com o verbo ser, sendo retomado com um demons-
trativo aquilo e depois representado por um sujeito nulo:
(53) ... é [uma merenda]
i
... eu tenho a impressão de que inclusive aquilo
i
é importado...
[ø]
i
não é brasileiro não... [ø]
i
é um leite que eles... [ø]
i
parece com leite americano...
(DID RJ)
Ora, entre os sujeitos referenciais definidos, observamos um tipo de sujeito
referencial que não apresenta um antecedente idêntico no contexto prece-
dente, mas tem sua “referência estendida”, usando os termos da Halliday e
Hasan (1976), isto é, retomam porções maiores do discurso, como mostram
(54a, b):
(54) a) pedi demissão do meu serviço mas consciente de que aquilo era o melhor... para
aquela família que se iniciava. (D2 SP) (= o fato de eu ter pedido demis-
são)
b) ... e realmente você conclui agora que [ø] foi o melhor. (D2 SP) (= o fato de
você ter pedido demissão)
Sujeitos desse tipo ocorrem essencialmente com o verbo ser e, embora ainda
sejam muito frequentes os sujeitos nulos de referência estendida, é expressiva
sua retomada por um demonstrativo neutro (isso, aquilo)
7
.
3.1.3. O sujeito de referência indeterminada
Os 405 dados colhidos da amostra analisada ilustram as diversas estratégias
para representar o sujeito de referência indeterminada ou arbitrária em sen-
tenças finitas: o uso de se, o uso de formas pronominais nominativas, nulas ou
expressas: nós, a gente, você, uma estrutura com o verbo na terceira pessoa do
singular, sem qualquer marca de indeterminação e, mais raramente, o uso de
eu e uma única ocorrência de tu na fala de Porto Alegre. Embora essas formas
não sejam intercambiáveis, uma vez que eles exclui o falante e se pode ou não
incluir o falante, é importante salientar que, na sua seleção, há diferenças
significativas em relação a cada capital contemplada na amostra:
1) Porto Alegre prefere a gente e se, não revelando uma só ocorrência de
você;
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PREDICAÇÃO
133
2) São Paulo se divide entre a gente e eles (nulo ou expresso);
3) o Rio de Janeiro prefere a terceira pessoa do plural (eles) e você;
4) Salvador e Recife utilizam preferencialmente você e (nós).
Ainda que esses resultados com base no desempenho de um único tipo
de inquérito por região não permitam generalizações, a ausência de você in-
determinador e a presença, embora tímida, de tu indeterminador na fala de
Porto Alegre estão em consonância com a preferência por tu para a referência
à segunda pessoa do singular nessa cidade.
Quando se considera cada tipo de inquérito separadamente, a hierarquia
apontada acima se mantém para DID, enquanto, em D2, o uso de você supera
as demais formas e, em EF, é o uso de nós que supera os demais. Considerando-
se a amostra conjuntamente, vemos que os pronomes nós e a gente lideram a
preferência, com 22% de ocorrência de cada forma:
(55) então quando nós falamos, quando nós falamos em instrumentos de avalia ção
nós logo devemos pensar que níveis de pensamento esses instrumentos estão nos
permitindo avaliar, então, aí, nós chega mos ao estabelecimento de níveis de con-
secução dos objetivos.
(EF POA)
(56) a) bom eu gosto não dessas músicas modernas agora que a gente nem sabe como
dançar... eu gosto de fox... de tango... valsa, não é?... bolero também, mas agora a
gente não ouve mais isso nada, né?... e é tão engraçado, o pessoal dança, um aqui
outro lá, a gente procura, nem sabe quem é o par... da gurizada...
(DID POA)
A seguir temos o uso de você, com 18,5%, uma estratégia que vem con-
quistando espaço, conforme estudos com base em amostras mais recentes:
(57) Eu acho que a arte do retrato é muito difícil porque aí você exige a semelhança,
enquanto, se você está criando, você não precisa colocar nenhum padrão, a não ser
o padrão da própria obra, certo? Quando você cria um retrato, você está dentro da
função naturalista. Você quer criar uma semelhança, que todo mundo olhe e diga
“olha a Elisabete Segunda da Inglaterra, como está parecida”, certo? Então é mais
difícil do que você criar uma figura de mulher qualquer que você pode distorcer
da maneira que você bem entender, que você pode pintar de vermelho.
(EF SP)
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134
As estratégias eles e se aparecem a seguir com 17% e 14%, respectivamente.
Na estratégia com o verbo na terceira pessoa do plural, a expressão do pronome
supera, na amostra analisada, o uso do sujeito nulo:
(58) a) Eu comi em São Borja, na fazenda do meu sogro; [ø
arb
] mataram lá um jacaré
na ocasião.
(D2 POA)
b) Agora em Salvador tem assim restaurantes muito bons. Eles estão incrementando
muito o turismo lá e eles servem muito bem, sabe? (DID RJ) (Eles = sujeito
indeterminado)
Veja que essa estratégia, embora às vezes apareça em contextos que ex-
cluem o falante, geralmente se pode intercambiar com outras: o significado
das sentenças acima se manteria caso fossem usadas as formas matou-se em
vez de (eles) mataram, está se incrementando em vez de (eles) incrementaram
e serve-se em vez de (eles) servem. Da mesma forma, poderíamos ter em (57)
acima quando se cria um retrato ou quando (eles) criam um retrato, em vez de
quando você cria um retrato.
Em relação ao uso de se, além das ocorrências com verbos intransitivos e
transitivos indiretos (59a), a amostra revela preferência pela construção ativa
também com os verbos transitivos diretos; isto é, não se toma como sujeito o
argumento interno, como mostram (59c, d, e), em que o verbo não expressa
concordância formal com o argumento. A ausência de concordância formal
mostra que a fala culta prefere as construções ativas às passivas pronominais,
ou seja, a fala culta privilegia a leitura de sujeito indeterminado:
(59) a) ... mas quando nós falamos em instrumentos de avaliação, fala-se também em
níveis de consecução de objetos.
(EF POA)
b) Aquele conjunto de papéis e os: os títulos vão tendo valores à medida da... da
lei da oferta e da procura... Compra-se mais um título... etc...
(D2 RJ)
c) Se na mulher se retira os ovários, retirando portanto a fonte elaboradora do
hormônio feminino, as glândulas mamárias elas se atrofiam.
(EF SSA)
d) Tinha se esperanças... em que dona Ana Cândida tendo assumido a procuradoria
geral do Estado... em ela sendo mu lher... que ela defendesse um pouco mais a::
a classe não?
(D2 SP)
GRAMATICA 3.indb 134 6/11/2009 14:47:10
PREDICAÇÃO
135
e) é o mesmo caso das estradas brasileiras... dimensionou-se... as estradas para um
tráfego muito mais leve do que elas estão suportando...
(D2 SSA)
Esse procedimento é o mesmo que se observa nos casos de não-concor-
dância entre o verbo inacusativo e seu argumento interno, como mostramos
na seção 2, uma confirmação de que a ordem Verbo-Sujeito é cada vez mais
estranha ao português brasileiro. O exemplo a seguir ilustra a única ocorrência
de concordância do verbo transitivo direto com seu argumento interno na
amostra analisada, isto é, uma passiva pronominal:
(60) ... quer dizer então que nessa altura se formariam mais ou menos umas vagas
que seriam... seria o concurso para as cem vagas que entraria o pessoal novo como
nível um...
(D2 SP)
Não se pode falar exatamente em sujeito indeterminado em relação a esse
último caso, uma vez que o sujeito, tal qual o definimos na seção 3, é, nesse
caso, o argumento interno de formar (umas vagas). Note, porém, que, tanto
na sentença passiva (60) quanto nas ativas (59c, d, e), o argumento externo
das sentenças não está expresso. Assim, a referência ao se como indetermina-
dor ou apassivador é simplesmente o resultado de uma escolha sintática, que
só é visível/perceptível quando temos um verbo transitivo direto com um
argumento interno no plural.
Em percentuais pouco significativos na amostra se encontram as ocor-
rências de um sujeito indeterminado nulo com o verbo na terceira pessoa
do singular (4%). Essa estratégia é comum em discursos de procedimentos
(61a) e é também utilizada para expressar aspecto (ação habitual no passado
e presente) (61b) e modalidade (necessidade, obrigação) (61c, d):
(61) a) Aí vai ao forno (o camarão refogado) e junto vai também já preparado o arroz,
que foi feito à parte, e [ø
arb
] mistura então os frutos do mar que vêm é polvo,
mariscos, as, as mais variadas espécies, [ø
arb
] pode pôr tudo, carne de siri, lula,
então, naquele arroz [ø
arb
] mexe, [ø
arb
] quebra dois ovos aí e depois, então,

arb
] comprime esse arroz num pirex, bate-se um ovo, [ø
arb
] põe a gema, [ø
arb
]
derrama em cima e [ø
arb
] põe bastante pão torrado, então vai junto com o
camarão com queijo ao forno e os dois assam juntos...
(D2 POA)
GRAMATICA 3.indb 135 6/11/2009 14:47:10
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b) Aquela fruta-de-conde, que aqui é caríssima, lá [ø
arb
] vende por um preço
baratíssimo...
(DID RJ)
c) então pra receber as chaves do apartamento e aí começa, porque ... [ø
arb
] precisa
pagar mais isso, porque tem mais aquilo.
(D2 RJ)
d) L2 é uma questão de ética. [ø
arb
] não pode tirar das pessoas... dos seus próprios
clientes [ø
arb
] não pode tirar:::... elementos, [ø
arb
] não pode tirar pessoal quer
dizer então tem que ser de:: firmas estranhas... né?... e dessas firmas estranhas
também [ø
arb
] tem que... falar com essa pessoa e agir com essa pessoa dentro da
máxima ética... porque essa pessoa provavelmente será um cliente futuro... não é?
(D2 SP)
A indeterminação com o pronome eu alcança apenas 2,5% na amostra,
e duas (0,5%) ocorrências de tu, com referência indeterminada clara, foram
encontradas no inquérito D2 de Porto Alegre:
(62) a) então eu posso dar um conceito de liberdade e [ø
arb
] posso fazer o aluno inferir
o que é ser livre através de outras atividades.
(EF POA)
b) [Vocês acham que o brasileiro se alimenta bem em geral?]
Por exemplo, que o brasileiro pra, eu acho que, de um modo geral, nem o do sul,
que eu acho que tu come bem na tua casa. Eu como bem na minha casa.
(D2 POA)
Dois aspectos são dignos de nota em relação às formas de indeterminação
nas sentenças finitas. Um deles é a frequente mistura de formas, ilustrada a
seguir:
(63) a) Quando nós fazemos, por exemplo uma pesquisa, quando nós fazemos uma
consulta bibliográfica a rigor, eu tenho que dizer a rigor porque normalmente
a gente tira exatamente o pedaço do livro [...] então a gente tira retalhos.
(EF POA)
b) Falante 2: Você tem, em época de São João em Olinda, você ainda vê fogueira
e como se vê fogueira! O olindense faz fogueira até em cima do calçamento.
Falante 1: Também isso, isso você vê em qualquer bairro do Recife também...
nos outros bairros do Recife você também vê.
(D2 REC)
c) ... a gente ia com a turma... não se perdia um concerto...
(DID POA)
GRAMATICA 3.indb 136 6/11/2009 14:47:10
PREDICAÇÃO
137
d) Pronto o camarão, exatamente quando aquele queijo fica todo derretido, envol-
vendo o camarão, aí [ø
arb
] retira os dois e serve-se.
(D2 POA)
e) ... mas realmente nós estamos precisando de bastante gente... [ø
arb
] está preci-
sando demais.
(D2 SSA)
f ) É engraçado que você saindo do Brasil... a gente sente uma falta muito grande
dessa parte de verduras...
(DID RJ)
Outro aspecto se relaciona à ocorrência de você na forma de reduzida cê,
atestada nos inquéritos de Salvador e Rio de Janeiro:
(64) a) Aqui você tem o problema de trabalhar. Cê tem hora fixa pra almoçar [...]
porque depois de comer aquilo tudo cê tem que ter uma hora pra descansar.
(DID RJ)
b) E é muito interessante porque cê atravessa exatamente a serra. Agora é uma
estrada que tem muita curva [...] por causa da monotonia... é um trecho com-
pletamente deserto muito cheio de curva... a estrada não é:boa... então é:um
trecho monótono... cê cansa muito esse trecho de viagem...
(D2 SSA)
c) No início do século, a África e a América Latina... eram quase que ilustres
desconhecidos... cês viram aqui que o total da população... [...] era um total
bastante pequeno.
(EF RJ)
Observe no exemplo (65) a seguir que essa forma fraca
8
do pronome só
ocorre na posição de sujeito (especificador de SFlex). Numa posição externa
à sentença, que será analisada na seção seguinte, as formas pronominais não
são reduzidas:
(65) Então sucede que você [vendo as estatísticas de tráfego de distribuição de carga e de
peso por roda etc...] cê vê que as estradas brasileiras estão sendo muito solicitadas.
(D2 SSA)
Como mostram os resultados apresentados nesta seção, há, no português
culto falado das cinco capitais que compõem a amostra, clara preferência pelos
sujeitos pronominais expressos nas sentenças finitas, tenham eles referência
definida ou indeterminada. Embora os percentuais de preenchimento sejam
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altos, em nenhum dos contextos analisados ele é categórico. As interrogativas
globais (sim/não) e os sujeitos com o traço [-animado] ainda são contextos
que podem apresentar sujeitos nulos definidos; além disso, é possível inde-
terminar o sujeito com o verbo na terceira pessoa do singular, apesar de esta
não ser uma estratégia em crescimento e de ser bastante restrita à veiculação
das categorias aspecto e modalidade.
Nota
A análise dos sujeitos referenciais apresentada nesta subseção segue a me-
todologia utilizada em Duarte (1995, 2000), e os resultados obtidos são mui-
to próximos dos encontrados pela autora para amostra da fala culta carioca,
gravada em inícios da década de 1990, e para a fala popular, gravada em fins
da década de 1990 (Duarte 2003a). Em relação ao uso de a gente, análises
recentes revelam seu avanço na fala de grupos mais jovens (cf. Lopes, 1999;
Duarte, 1995; Omena, 2003, entre muitos outros). Falta-nos um mapeamen-
to do uso de tu em variação com você no território nacional. Investigações
feitas com base na amostra Varsul (cf. Menon e Loregian-Penkal, 2002) reve-
lam que das três capitais da região Sul apenas Curitiba não apresenta ocor-
rências de tu. Florianópolis e Porto Alegre apresentam os dois pronomes, mas
são mais conservadoras em relação ao uso de tu do que as cidades do interior,
em que há maior variação, com um expressivo aumento de falantes que já
têm ambos os pronomes em seu repertório. Isso não significa que o pronome
tu não ocorra em outras regiões em variação com você. Lemos Monteiro (1991,
1994) e Paredes Silva (2003) atestam a presença de tu em Fortaleza (na fala
culta) e no Rio de Janeiro (na fala popular), respectivamente.
Sobre a estratégia de indeterminação com a terceira pessoa do singular,
ver Galves (1987). Segundo a autora, é justamente a tendência a preencher
o sujeito com referência definida de terceira pessoa no português brasileiro
(*[[ø]]/Ele comprou um livro ontem) que permite dar uma interpretação
arbitrária/indeterminada a um sujeito nulo com o verbo na terceira pessoa
do singular ([ø
arb
] Está usando saia curta – ([ø
arb
]

Não vê mais amolador
de faca).
Finalmente, em relação ao uso de se, análises mais recentes da fala, tanto
culta quanto popular (cf. Duarte 1995, 2003), revelam índices mais baixos de
GRAMATICA 3.indb 138 6/11/2009 14:47:11
PREDICAÇÃO
139
ocorrências em sentenças finitas. No entanto, como se verá na seção seguinte,
seu uso tende a se expandir para as sentenças não-finitas.
3.2. O sujeito referencial nas sentenças não-finitas
3.2.1. A posição do sujeito em sentenças infinitivas
A posição de sujeito dos infinitivos controlados por um antecedente é
geralmente vazia, como mostra (66a). Caso contrário, o sujeito tende a ser
representado foneticamente, como mostra (66b):
(66) a) Seria muito melhor pra vocês
i
[[ø]
i
gravar gravar as cantorias deles] do que essa
besteira que a gente tá dizendo aqui...
(D2 REC)
b) ... seria muito mais importante [vocês
i
gravarem eles], eu acho.
(D2 REC)
Não nos deteremos nesta seção no uso do infinitivo flexionado/não-fle-
xionado com sujeitos referenciais (nulos ou expressos) definidos na amostra.
Nosso interesse particular aqui recai sobre o infinitivo cujo sujeito tem refe-
rência indeterminada, isto é, não é correferencial com um SN no contexto
discursivo. São conhecidas dos que se interessam pelas gramáticas normativas
as recomendações de que não se deve realizar foneticamente/graficamente o
sujeito de um infinitivo “impessoal”, uma vez que ele não se refere a qualquer
pessoa. Dos 79 dados coletados, 31 (ou 39%) de fato exibem a posição de
sujeito indeterminado vazia:
(67) a) O problema de [ø
arb
] morar em uma grande cidade é outra coisa.
(D2 REC)
b) É preciso [ø
arb
] marcar uma reunião pra gravar com essa gente.
(D2 REC)
c) Humanamente é impossível [ø
arb
] fazer tanto processo ao mesmo tempo.
(D2 SP)
d) Então é mais fácil [ø
arb
] mandar esses professores que ganham determinado, uma...
(D2 RJ)
e) Hoje eles têm muito mais meio de comunicação. É muito mais fácil [ø
arb
] fazer
cultura geral.
(DID SSA)
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No entanto, 48 dados (ou 61%) representam foneticamente essa posição,
lançando mão de quatro das estratégias para indeterminar o sujeito nas sen-
tenças finitas, como vimos na seção anterior. As preferidas são o uso de se
(com 18 ocorrências ou 37%) e o uso de você (com 17 ocorrências ou 36%),
como mostram (68) e (69), respectivamente:
(68) a) Eu não entendo se morar longe do mar.
(D2 REC)
b) Olinda é uma beleza de cidade para se morar.
(D2 REC)
c) Tá resumido aí no capítulo seis, sem se sair muito... da indústria de precisão.
(EF RJ)
d) Não há nem um meio de se chegar a esse tumor.
(EF SSA)
e) Eu acho que seria o lado mais fácil de se chegar ao público.
(DID SP)
f ) O objetivo da pesquisa bibliográfica, da consulta bibliográfica, seria a análise
de uma série de fontes para depois se apresentar um todo novo reformulado.
(EF POA)
g) É uma beleza de se ver aquele troço trabalhando.
(D2 SSA)
(69) a) Então é difícil se torna difícil você formular uma sentença rigorosamente fe-
chada.
(EF REC)
b) É muito difícil você chegar a esse tom de pele.
(EF SP)
c) Mas eu acho válido você botar a criança o mais cedo possível na escola.
(D2 SSA)
d) A banana é uma banana tão grande que não dá para você comer uma banana
inteira.
(D2 RJ)
Observe que a preferência pelo uso de se recai sobre sentenças subordinadas
regidas de preposição, enquanto o uso de você privilegia contextos não-pre-
posicionados, aparecendo em sentenças geralmente ligadas a predicadores
adjetivais.
As duas outras formas atestadas na amostra são nove ocorrências de a gente
(ou 19%), compartilhando os mesmos contextos preferidos por se e você, e
quatro ocorrências do pronome eu (ou 8%):
GRAMATICA 3.indb 140 6/11/2009 14:47:11
PREDICAÇÃO
141
(70) a) ao [ø
arb
] ver as imagens vai ficar muito mais fácil da gente perceber essas cate-
gorias.
(EF SP)
b) é muito difícil a gente desenhar estritamente o que a gente vê, a gente separar
a percepção do conceito.
(EF SP)
c) é assunto mesmo de praticamente a gente não sair da cidade.
(D2 SSA)
d) por isso é difícil a gente não entender como a economia americana chegou ao
fim.
(EF RJ)
(71) a) uma coisa é [ø
arb
] dizer que a arte boa época tinha função pragmática [...] outra
coisa é eu falar em estilo naturalista.
(EF SP)
b) enquanto representação, enquanto imagem, não tem sentido eu matar uma
imagem.
(EF SP)
Nota-se uma distribuição bastante irregular por capital. Rio de Janeiro e
São Paulo apresentam todos os pronomes, embora o Rio de Janeiro prefira
você e São Paulo, a gente. As capitais nordestinas apresentam variação entre
se e você, com preferência por se. Porto Alegre só utiliza se com muita parci-
mônia, preferindo, na amostra analisada, a posição de sujeito de infinitivo
vazia. Tal como em relação às sentenças finitas, Porto Alegre se mostra mais
conservadora.
3.2.2. A posição do sujeito em sentenças reduzidas de gerúndio
Nas orações reduzidas de gerúndio, todas com valor adverbial, o sujeito
nominal pode aparecer posposto ao verbo, como mostra (72):
(72) Eu lembro a vocês que sendo a glândula mamária uma glândula cutânea, nós
vamos encontrar nesse tecido subcutâneo os elementos responsáveis pela manutenção
dessa glândula.
(EF SSA)
Essa ordem, entretanto, é cada vez menos frequente no português brasi-
leiro, que prefere a ordem SN gerúndio, ilustrada em (73), a mesma que se
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observa em línguas que têm sujeito pronominal obrigatoriamente expresso,
como o inglês. Assim, a preferência encontrada nos dados parece acompanhar
as tendências apontadas na seção 2 e em 3.1.

(73) a) Os sociologistas né? entre aspas... do direito
i
sendo mais radicais, então [∅]
i

diriam não há de jeito nenhum complementaridade.
(EF REC)
b) Então a região apresentando esses limites é evidente que equivalem ao tamanho
da glândula mamária propriamente dita.
(EF SSA)
c) Então a glândula mamária elaborando leite, sairá através dos conjuntos esses
galactófagos.
(EF SSA)
Com os sujeitos pronominais já é categórica a posição anteposta, podendo
eles ter referência definida (74) ou indeterminada (75):
(74) a) Seria uma alternativa, quer dizer, vocês não tendo nenhum programa melhor...
vão por este (caminho).
(D2 SSA)
b) Tinha-se esperanças, em ela sendo mulher, que ela defendesse um pouco mais a
classe, não?
(D2 SP)
c) Um juiz mais aberto, ele tendo possibilidades ele possuindo argumentos científicos
para colocar na sua sentença, ele coloca.
(EF REC)
(75) a) Você
i
vendo as estatísticas de tráfego de distribuição de carga e de peso por roda
etc... cê
i
vê que as estradas brasileiras estão sendo muito solicitadas.
(D2 SSA)
b) Você
i
geralmente viajando você
i
não se prende muito ao horário.
(DID RJ)
c) É engraçado, que você
i
saindo do Brasil, a gente
i
sente muita falta muito grande
dessa parte de verduras.
(DID RJ)
Note que as estruturas com sujeito indeterminado + gerúndio apresen-
tam correferência com um pronome expresso na sentença matriz (oração
principal), o que as torna semelhantes às construções de tópico marcado que
apresentamos na seção 1 e que serão analisadas na seção 4.
GRAMATICA 3.indb 142 6/11/2009 14:47:11
PREDICAÇÃO
143
3.3. O sujeito não-referencial (as sentenças impessoais)
Retomemos em (76) a seguir os exemplos em (33) na introdução a esta
seção.
(76) a) ... [ø
expl
] choveu muito uma temporada quando a gente ia com o SESC.
(DID POA)
b) [ø
expl
]

Parece que o Brasil tem quinze ou dezoito impostos.
(D2 RJ)
c) ... então [ø
expl
] havia restaurantes que eles serviam assim um pouquinho de cada
coisa...
(DID/RJ)
Verbos que não selecionam um argumento externo deixam uma posição
vazia que pode hospedar argumentos internos movidos de sua posição origi-
nal, como vimos em 1.2. Em relação aos tipos de verbos em (76), entretanto,
observamos que, além do argumento interno, essa posição pode hospedar
outros elementos, de que passamos a tratar.
3.3.1. As sentenças com verbos “climáticos”
As sentenças com verbos relativos a fenômenos da natureza são raras
em amostras do tipo aqui analisado, mas a observação da fala espontânea
revela uma tendência a preencher a posição à esquerda do verbo com um
SAdv ou um SP locativo ou temporal (77a), às vezes sem a preposição (78b,
c), ou ainda com um demonstrativo (77d):
(77) a) Lá/em São Paulo tem chovido demais.
b) São Paulo chove. O Rio faz sol. (Fala de rádio)
c) O Carnaval choveu? (Fala espontânea)
d) Petrópolis é uma coisa! Aquilo chove demais! (Fala espontânea)
Da mesma forma que ocorre com os verbos “climáticos”, as expressões
relativas a tempo com ser, estar e fazer (é cedo, está frio, faz muito tempo) ten-
dem a exibir uma expressão como as ilustradas acima em posição inicial da
sentença (o Sul é frio, ali é muito quente, isso já faz dez anos, aquilo era muita
gente). Essa tendência se deve à rejeição que se observa em PB a construções
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144
#V (com verbo em primeira posição), apenas 15% dos dados analisados na
amostra
9
.
3.3.2. As sentenças com verbos de alçamento
O tipo de construção impessoal ilustrado em (76b) inclui um conjunto
de verbos que têm o verbo parecer como prototípico. O tratamento dado a
esse verbo na tradição gramatical é o mesmo que se dá a um intransitivo,
classificando-se a sentença que o segue como uma sentença subordinada subs-
tantiva subjetiva. Veja os exemplos em (78).
(78) a) Eu acho... [ø
expl
]

parece [que a gente se sente até mais… assim por fora].
(DID SP)
b) [ø
expl
] parece [que o Brasil tem quinze ou dezoito impostos].
(D2 RJ)
Ora, a impossibilidade de mover a sentença entre colchetes para a posição
do sujeito é uma evidência de que ela é um argumento interno do verbo,
como foi mostrado no capítulo 2:
(79) *[que o Brasil tem quinze ou dezoito impostos] parece.
No mesmo capítulo, esse verbo foi classificado entre os verbos de alçamento,
uma designação que advém da possibilidade de alçar o sujeito da sentença
subordinada para a posição vazia à sua esquerda. Uma evidência de que há
nas sentenças em (78) uma posição de sujeito que pode ser preenchida por
um sujeito expletivo lexical em outras línguas, como o francês e o inglês (il
semble que, it seems that...). Essa mesma posição pode ser preenchida pelo
sujeito da subordinada, que para lá se move. Trata-se de uma construção
conhecida como de “alçamento”, ou “alçamento padrão”, como ilustram os
exemplos em (80):
(80) a) Eu acho... a gente
i
parece [ __
i
se sentir até mais… assim por fora].
b) O Brasil
i
parece [ __
i
ter quinze ou dezoito impostos].
Uma evidência de que o sujeito da subordinada ocupa a posição de espe-
cificador de SFlex ou de sujeito de parecer está no fato de entrar em relação
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PREDICAÇÃO
145
de concordância com o verbo e receber caso nominativo, ficando o verbo da
sentença subordinada no infinitivo. Esse tipo de alçamento, embora frequente
na escrita-padrão, é mais raro na língua oral.
Há ainda a possibilidade de o sujeito da sentença subordinada se mover para
uma posição externa à sentença, uma posição de tópico, como se vê em (81):
(81) a) Os alunos
i
[[ø
expl
]

parece [que [ø]
i
tomam conta dos professores], ao menos é o
que eu ouço contar, né?
(DID POA)
b) Eu acho que diminuiu bem o pessoal que vai a cinema, não sei, o que eu noto é
que os cinemas
i
[[ø
expl
] parece [que não [ø]
i
estão também como antigamente].
(DID SP)
A falta de marcas de concordância entre o elemento deslocado e o verbo pa-
recer, numa amostra em que predomina a ocorrência de marcas de concordância
verbal, além da flexão dos verbos das subordinadas (tomam, estão), confirmam
a posição deslocada do SN, ou seja, externa ao SFlex. Nesse caso, a posição do
especificador de SFlex é ocupada por um pronome expletivo nulo.
Uma última possibilidade seria o alçamento do SN para a posição de es-
pecificador de SFlex (para a posição de sujeito de parecer), tal como vimos no
alçamento-padrão, ilustrado em (80), além da flexão no verbo da subordinada,
ilustrada em (82a’, b’), uma modificação de (81a, b) acima:
(82) a’) Os alunos
i
parecem [que [ø]
i
tomam conta dos professores], ao menos é o
que eu ouço contar né?
b’) Eu acho que diminuiu bem o pessoal que vai a cinema, não sei, o que eu noto é
que os cinemas
i
parecem [que não [ø]
i
estão também como antigamente].
Tal construção é conhecida na literatura linguística como uma instância
de “hiperalçamento” do sujeito, isto é, o sujeito da subordinada é “alçado”
para a posição à esquerda de parecer, com o qual entre em relação de con-
cordância, e o verbo da subordinada também aparece flexionado. Esse tipo
de estrutura, no entanto, não foi atestado de maneira inequívoca na amostra
analisada. Os exemplos da amostra, ilustrados em (83), apresentam todos os
SNs na terceira pessoa do singular, que se combina com a forma verbal sem
marca explícita de flexão. São, pois, dados que podem ter uma interpretação
de “hiperalçamento” (a’, b’) ou de sujeito deslocado à esquerda (a’’, b’’):
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146
(83) a) Chegou uma época que o cinema estava assim há uns seis anos ou oito. Agora
não, o pessoal
i
parece que entra e sai. É um burburinho ali no cinema, entra
e sai todo mundo.
(DID SP)
a’) Chegou uma época que o cinema estava assim há uns seis anos ou oito.
Agora não, o pessoal
i
parece [que [ø]
i
entra e sai]. É um burburinho ali no
cinema, entra e sai todo mundo.
a’’) ... o pessoal
i
[[ø
expl
] parece [que [ø]
i
entra e sai]...
b) Hoje eu paguei a gasolina a seis cruzeiros o litro... A azul
i
parece [que está a
sete cruzeiros].
(D2 RJ)
b’) Hoje eu paguei a gasolina a seis cruzeiros o litro... A azul
i
parece [que [ø]
i

está a sete cruzeiros].
b”) A azul
i
[[ø
expl
] parece [que [ø]
i
está a sete cruzeiros].
A ocorrência de dados com o SN na primeira pessoa e na terceira pessoa
do plural em outras amostras de língua oral não deixa dúvida, entretanto,
de que se trata de construções de “hiperalçamento”, como em “eu pareço que
vou pegar um resfriado”.
Outros verbos que só permitem as construções sem alçamento, como (78)
acima, ou com o alçamento-padrão do sujeito da subordinada, ilustrado em
(80), entre os quais os verbos custar, demorar, levar, faltar, acabar etc., revelam
ampla preferência pelo alçamento. Das 14 ocorrências observadas na amostra,
apenas uma aparece sem alçamento, como mostra (84), enquanto as demais
exibem o alçamento do SN sujeito da subordinada (esteja ele expresso ou
nulo), como mostra (85):
(84) eu tenho um conhecido, aliás, um amigo comum nosso que ele é especialista em
comida internacional então vai fazer uma comida chinesa, india na, qualquer
coisa, até incenso ele queima, ah, só falta música ambiental, [ø
expl
]

só falta [eu me
vestir a rigor].
(D2 POA)
(85) (eles)
i
levaram o dia inteiro [pra [ __ ]
i
arrumar a canoa.
(DID POA)
Com o verbo acabar, a preferência pelo alçamento é digna de nota. Os
exemplos em (86) mostram isso. Em vez de “[ø
expl
]

acabou que eu pedi transfe-
rência” ou “[ø
expl
]

acabou que nós não entramos na concorrência”, temos:
GRAMATICA 3.indb 146 6/11/2009 14:47:12
PREDICAÇÃO
147
(86) a) Dessa relação salário... é... aluguel... por exemplo... é completamente diferente...
por exemplo... em Curitiba... eu tive agora o fim-de-semana em Curitiba... por-
que eu
i
, se puder, ainda acabo [ __ ]
i
pedindo transferência pra Universidade
Federal do Paraná].
(D2/RJ)
b) ... agora não sei se depois mudaram qualquer coisa assim, mas eu vi esse projeto
inclusive porque nós íamos entrar na concor rência, [ø]
i
acabamos não [[ __ ]
i

entrando].
(D2 SSA)
Uma ocorrência com o verbo custar, ilustrada em (87), exibe a repetição
do sujeito alçado diante do infinitivo, o que está em consonância com a ten-
dência apontada em 3.3.2.1:
(87) Esse tipo de coisa que pai e mãe gostam eu acho que a gente não custa nada [a
gente satisfazer a vontade de pais e mães], mas pra nós estudantes que formamos
é muito cacete né?
(DID SSA)
Nota
As construções de alçamento-padrão tendem a diminuir na fala e, quando
ocorrem, ficam restritas a sentenças subordinadas com os verbos ser e estar. Duar-
te (2007) encontra numa amostra de fala popular uma única ocorrência:
1) Ele
i
parece [ __
i
ser uma exceção nessa história].
Ao contrário do que ocorre na fala, porém, o alçamento é a estrutura
pre ferida na escrita-padrão, como mostram os resultados de Duarte (2007),
trazendo interessantes evidências sobre a construção da gramática do letrado,
conforme proposta de Kato (2005).
As construções com “hiperalçamento do sujeito” (2a, b) concorrem com
as construções com “hiperalçamento de tópico” (2c, d, e) (para uma análise
das duas estruturas, cf. Nunes, 2008):
2) a) Tem ocasiões que eu
i
nem pareço que [ø]
i
sou brasileiro. (Fala popular, 1980)
b) As pessoas
i
pareciam que [ø]
i
iam cair do brinquedo. (Fala popular, 2000)
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148
c) Quando eu brigo, eu pareço até que eu vou explodir de tanta raiva. (Fala
popular, 1980)
d) ... mas você parece que você está se dividindo entre a medicina. (Fala popular,
1980)
e) Esse menino
i
parece que ele
i
sofreu muito quando era pequeno, quando era
criança. (Fala popular, 1980)
O “hiperalçamento do sujeito” já é atestado até mesmo na escrita-padrão
(cf. Duarte, 2006; Henriques e Duarte, 2006):
3) a) Com os anos as ideias
i
parecem que [ø]
i
vão ficando cada vez mais longe,
enquanto o seu poder de convocá-las diminui. (Crônica, O Globo)
Em relação aos verbos faltar, demorar, custar, por exemplo, até mesmo na
escrita-padrão o alçamento-padrão é preferido ao não-alçamento (cf. Duarte,
2006):
4) a) ... eu
i
só faltava [ø]
i
perguntar qual era a equipe brasileira. (Crônica, O
Globo)
3.3.3. As sentenças existenciais com ter/haver
Em relação às sentenças existenciais com haver/ter, dois aspectos merecem
atenção:
1) a substituição de haver por ter no português brasileiro falado;
2) a implementação de sentenças pessoais com ter.
Comecemos pelo primeiro aspecto. Considerados os três tipos de in-
quéritos, a análise da amostra revela 31% de ocorrências de haver e 69% de
ocorrências de ter, um resultado ainda bastante expressivo de ocorrências
de haver, já modificado em análises recentes da fala culta.
Apenas nas Elocuções Formais o uso do verbo haver (com 59%) supera
o uso de ter. Nos inquéritos do tipo D2, esse índice cai para 34%, e nos in-
quéritos DID, para 10%. A hesitação do falante ilustrada em (88) pode ser
interpretada como um sintoma da consciência que o falante revela ter, em
certos momentos, do caráter formal da entrevista.
GRAMATICA 3.indb 148 6/11/2009 14:47:12
PREDICAÇÃO
149
(88) [ø
expl
] Não tinha pis..., [ø
expl
] não havia quase piscina naquele tempo.
(DID POA)
Entre as capitais contempladas na amostra, Recife, com 51% de ocorrências
de ter sobre haver, aparece como a mais conservadora, seguida por São Paulo,
com 66%. Rio de Janeiro, Porto Alegre e Salvador se mostram mais inovadoras,
exibindo, respectivamente, 70%, 74% e 78% de uso do verbo ter impessoal.
(89) ... mas comer a... a imagem na pedra ia ser bem mais difícil; precisava de dentes
muito mais fortes que eu acho que [ø
expl
] não havia não... e também [ø
expl
] não
tinha sal, temperinho, porque às vezes agora a gente precisa tomar sopa de pedre-
gulho, né?
(EF SP)
Essa preferência por ter sobre haver favorece a implementação de uma
estrutura que permite evitar a posição vazia de sujeito: trata-se das sentenças
pessoais com ter. Observe nos exemplos a seguir que todas as sentenças com
ter pessoal exibem um claro sentido existencial. Os pronomes utilizados são os
mesmos que aparecem representando o sujeito indeterminado, predominando
o uso de você, nós, a gente e eu:
(89) a) agora a Salvador-Feira trinta e três quilômetros, mas principalmente rampa e
curva, piso pavimento, quer dizer, você sente porque você não tem curvas assim
muito fortes pra fazer... cê não sobe rampas violentas, entendeu?
(D2 SSA)
b) Olinda tem desenvolvido essas festas populares. Em Olinda você tem ciranda.
A ciranda é cantada durante o verão em toda Olinda. Isso é uma beleza.
(D2 REC)
c) você tem frutas... você tem frios, eles servem suco, depois ainda servem café com
leite...
(DID RJ)
d) por exemplo, numa igreja hoje você tem imagens que representam uma ideia
religiosa, uma série de coisas, mas que estão lá para ser vistas também.
(EF SP)
(90) a) [...] a gente observa que as frutas dos outros estados são totalmente diferentes...
com nomes estranhíssimos e os que nós temos aqui têm nomes diferentes noutras
regiões, né?
(DID RJ)
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150
b) então ele fazia com que nós lêssemos... os livros, coleções, uma e outra que a
gente tem... sobre a formação do mundo.
(D2 SP)
c) eu tenho um rapaz que trabalha conosco aí no Instituto de Biologia, Edílson,
que ele é de lá de Ituaçu.
(D2 SSA)
Além das sentenças com ter pessoal, cerca de 8% das ocorrências, por
capital, de sentenças com ter existencial revelam a presença de um sintagma
adverbial ou preposicionado com valor locativo à esquerda do verbo, como
mostra (91):
(91) a) mas como eu dizia há pouco a cada vantagem... a desvantagem corresponde a
uma vantagem também... aqui [ø
expl
] tem brisa marinha... então nós temos os
ventos alísios que vêm aqui... é... soprando aqui perto... temos a brisa terral de
manhãzinha cedo...
(D2 REC)
b) lá no Rio, na Praia Vermelha, [ø
expl
] tem um restaurante com o nome...
também não lembro o nome.
(DID SP)
Outros elementos costumam aparecer à esquerda do verbo ter existen-
cial, como marcadores discursivos
10
, outros adjuntos, além da negação e de
pronomes relativos e conjunções subordinativas, sendo menos frequentes as
sentenças com ter/haver em início absoluto:
(92) a) então [ø
expl
] tinha... uns... esses moirões assim... dentro d’água...
(DID POA)
b) geralmente [ø
expl
] tinha o baile de formatura.
(DID SSA)
c) bom, aí, brincadeira de praia que [ø
expl
] tinha era, era jogo. Naquele tempo
não tinha movimento.
(DID POA)
d) nós saíamos parece que às duas ou três horas da manhã porque [ø
expl
] tinha
estrela.
(DID POA)
A seção mostra que o português do Brasil tende a realizar foneticamente
os sujeitos pronominais referenciais, isto é, os sujeitos de primeira, segunda
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PREDICAÇÃO
151
e terceira pessoas, e os de referência indeterminada. No caso das sentenças
com sujeitos não-referenciais (ou não-argumentais), vimos que as estratégias
utilizadas para evitar um “expletivo nulo” são variadas, mas apresentam
um ponto comum: os dados da língua falada mostram a utilização de elemen-
tos referenciais, que passam a concorrer com o sujeito expletivo nulo. Em
outras palavras, o português brasileiro rejeita um expletivo lexical (como o it
do inglês e o il do francês) e prefere ocupar a posição de especificador de
SFlex com elementos que tenham conteúdo semântico, o que está em con-
sonância com sua orientação para o discurso, hipótese levantada por Pontes
(1987), Galves (1987) e Kato (1989), e utilizada para interpretar um con junto
de fenômenos superficiais observados no português brasileiro (Kato e Duarte,
2003, 2005). De fato, uma das características das línguas de tópico ou orien-
tadas para o discurso é não exibirem elementos expletivos lexicalmente rea-
lizados (cf. Li e Tompson, 1976).
Nota
A ocorrência de haver ainda resiste, embora em índices mais baixos que os
de ter, na fala dos indivíduos letrados, particularmente aqueles pertencentes
a faixas etárias mais altas (cf. Callou e Avelar, 2001). As gerações mais jovens
de indivíduos letrados, no entanto, alcançam índices próximos aos dos indi-
víduos com baixo índice de escolaridade, entre 10% e 2% de usos de haver em
relação a ter (cf. Callou e Duarte, 2005). A escrita, porém, consegue recuperar
essa forma em extinção na fala. Sobre considerações acerca da gramática do
indivíduo letrado, ver Kato (2005) e, especificamente sobre ter/haver na fala
e na escrita, ver Avelar (2006).
4. Construções de tópico marcado
No início deste capítulo, mencionamos a construção com um constituinte
externo à sentença seguido de uma sentença-comentário como uma forma de
organização do discurso. Há línguas que privilegiam esse tipo de construção
de “tópico marcado”, embora apresentem também o tópico numa relação
sujeito–predicado, na configuração de sentenças predicativas. São chamadas
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152
línguas de proeminência de tópico ou línguas orientadas para o discurso.
Outras privilegiam a relação predicativa entre sujeito e predicado. São lín-
guas de proeminência de sujeito ou orientadas para a sentença. O português
brasileiro apresenta os dois tipos de relação predicativa.
Esta seção é dedicada às construções de “tópico marcado”, também conhe-
cidas como de “duplo sujeito”, sendo o “sujeito externo” o tópico (ou o sujeito
do discurso) e o interno, o sujeito sintático, um argumento selecionado pelo
predicador (externo e, às vezes, interno, como vimos na seção precedente),
que entra em relação de concordância com o verbo. As chamadas construções
de tópico marcado não constituem, entretanto, um conjunto homogêneo,
diferenciando-se conforme a conectividade entre o tópico e a sentença-co-
mentário, como comentamos brevemente na seção 1.
4.1. O anacoluto ou tópico pendente
Examinemos, inicialmente, estruturas semelhantes às apresentadas em
(1d, e), aqui repetidas em (94a, b) juntamente com outras:
(93) a) Drama, já basta a vida.
(DID SP)
b) Filme, eu gosto mais de comédia.
(DID SP)
c) A BR-101 não precisa ir a Campos, cê dobre em Vitória... pega a Vitória-Belo
Horizonte...
(D2 SSA)
d) Bom, aí, brincadeiras de praia, tinha era jogo.
(DID POA)
Observe que há conectividade semântica entre os tópicos destacados e a
sentença-comentário, mas não há conectividade sintática com uma posição
interna à sentença-comentário. Nossas GTs costumam apresentar sentenças
semelhantes a essas, em geral denominadas como “anacolutos”, que significam
“quebra na sintaxe”, nas seções dedicadas às figuras de linguagem. Estudos
linguísticos recentes as tratam como “construções de tópico pendente” (cf.
Brito, Duarte e Matos, 2003). Uma língua prototipicamente orientada para
a sentença costuma introduzir o tópico de duas formas: ou numa construção
sujeito/predicado ou através de um Sintagma Preposicionado, utilizando as
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PREDICAÇÃO
153
locuções prepositivas “em relação a”, “quanto a”, igualmente encontradas na
amostra analisada.
(94) a) ... em relação àquela área que ele ia estudar... quer dizer medicina, entravam
três disciplinas: só química, física, e biologia...
(DID SSA)
b) Quanto às dimensões... quanto às dimensões... nós vamos notar que... na mulher...
existem fases... em que... as glându las mamárias... aumentam consideravelmente
de tamanho...
(EF SSA)
Uma língua orientada para o discurso, ao contrário, não exige os introdu-
tores (locução prepositiva) de tópico, como mostram as sentenças em (94).
4.2. O Deslocamento à Esquerda
Um segundo tipo de construção de tópico marcado, mostrado em (1a)
é conhecido como Deslocamento à Esquerda (DE), em que o constituinte
na posição de tópico tem seu correferente expresso na sentença-comentá-
rio. Naturalmente, apesar do nome “Deslocamento”, não há movimento de
constituinte, ou de parte dele, para a posição de tópico, pois nesses casos o
correferente ocupa posição sintática na sentença, como em (95):
(95) a) Cada elemento, cada nódulo
i
... ele
i
possui o seu conjunto.
(EF SSA)
b) É a categoria conhecimento
i
que
i
nós vamos separá-la
i
.
(EF POA)
Veja que, em (95a), a vinculação se faz com o sujeito da sentença-comentário,
e em (95b), com o objeto direto através de um clítico, construção muito rara
no português brasileiro
11
; nesse caso específico, temos uma hipercorreção, já
que o objeto se encontra “representado” na oração pelo pronome relativo que.
Essa construção, em que um tópico é vinculado a um clítico complemento,
é, tal como o anacoluto ou tópico pendente, tratada nas nossas GTs como
uma figura de linguagem, o chamado “pleonasmo”.
Tomando por base a amostra analisada, foram identificadas 68 ocorrên-
cias de construções de DE, em que o tópico se vincula ao sujeito, com 53
ocorrências de tópico representado por um SN vinculado a um pronome
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154
(78%) e 15 em que o tópico é igualmente um pronome (22%). Há ainda
construções de DE, menos frequentes e não contempladas nesta análise,
em que o tópico está vinculado a um SN anafórico ou a um demonstrativo,
como ilustra (96):
(96) Esse problema de puxar pela criança
i
[...] eu acho que isso
i
não funciona muito.
(DID SSA)
Comecemos por examinar as construções em que o SN é retomado por
um pronome. O SN em posição de tópico não parece sofrer qualquer tipo de
restrição quanto ao traço semântico [+/-animado] ou quanto à sua definitude,
podendo ser definido, como em (97), ou [-definido], como em (98), em que
temos um tópico [+genérico], e (99), em que o tópico é quantificado:
(97) a) Bom essas assembleias
i
habitualmente elas
i
tratam dos assuntos.
(DID REC)
b) O IBGE
i
, por exemplo, ele
i
já é do Estado.
(EF REC)
c) ... porque o meu marido
i
todos os meses ele
i
vai pra Caxias.
(DID POA)
(98) a) Por exemplo, o pessoal de teoria geral do estado
i
eles
i
como estudiosos não
estão preocupados em colher uma amostragem [...] não [há] uma preocupação
realmente científica...
(EF REC)
b) O pessoal
i
, sei lá, eles
i
vão de qualquer jeito ao cinema.
(DID SP)
c) A turma de brotos
i
, eles
i
preferem eu acho que filme de, sei lá, corrida.
(DID SP)
(99) a) Todas as categorias
i
, mesmo que tenham subcategorias, elas
i
terão dentro delas
próprias, níveis de gradação.
(EF POA)
b) Eu acho que todo sujeito que que trabalha e tem uma profissão no Brasil
i
ele
i

tem uma chance...
(D2 POA)
c) Cada elemento, cada nódulo
i
ele
i
possui o seu conjunto.
(EFSSA)
GRAMATICA 3.indb 154 6/11/2009 14:47:13
PREDICAÇÃO
155
Além disso, a construção de DE ocorre com ou sem pausa entre o tópico
e a sentença-comentário, com ou sem elementos intervenientes entre o tópi-
co e o pronome a ele coindexado. Os elementos intervenientes, que aparecem
em cerca de 40% dos dados, são, em geral, adjuntos adverbiais [simples, como
em (96), ou oracionais, como em (99a)], e orações relativas [subordinadas
adjetivas, que modificam o tópico, como em (99b) acima].
Entre as estruturas em que o tópico é representado por um pronome,
podemos encontrar tanto pronomes de referência definida, quanto de refe-
rência arbitrária ou genérica (indeterminada), como em (100) e (101), res-
pectivamente:
(100) a) Mas eu, eu gosto também de violino.
(DID POA)
b) Eu lá eu vi que período de manhã.
(D2 SP)
c) Ela de manhã ela sempre faz uma merenda pra mim.
(DID RJ)
(101) a) ... porque realmente você depois de comer aquilo tudo cê tem que ter uma hora
pra descansar.
(DID RJ)
b) Eu acho que a gente não custa nada a gente satisfazer a vontade dos pais.
(DID SSA)
c) Isso a gente nós já explicamos em classe.
(EF REC)
A mesma alternância entre nós e a gente ou mesmo entre você e a gente
apresentada na seção 3 pode ser novamente atestada nas construções de tópico
marcado.
Podemos ainda encontrar as construções com o sujeito anteposto de uma
oração reduzida de gerúndio retomado na matriz, que se assemelham às con-
truções de DE, como comentamos na seção anterior:

(102) a) Um juiz mais aberto
i
ele
i
tendo possibilidade, ele
i
possuindo argumentos cien-
tíficos para colocar na sua sentença, ele
i
coloca... no sentido de, digamos...
(EF REC)
b) Você geralmente viajando, você... não se prende muito ao horário.
(DID RJ)
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156
c) Então sucede que você vendo as estatísticas de tráfego de distribuição de carga
e de peso por roda etc... cê vê que as estradas brasileiras estão sendo muito
solicitadas.
(D2 SA)
Na seção 3.1.3, mencionamos a ocorrência da forma reduzida (fraca) do
pronome você. A estrutura em (c) acima ilustra bem a ocorrência de um pro-
nome forte na posição de tópico e um pronome fraco na posição de sujeito
da sentença-comentário. O português brasileiro desenvolveu um paradigma
de pronomes fracos, que substituem o sujeito nulo dentro de uma sentença-
comentário, opondo-se à série de pronomes fortes, localizados à margem
esquerda da sentença. Como as duas séries são quase homófonas em português
(ao contrário do francês e do inglês, por exemplo), essa oposição é mais fa-
cilmente percebida na realização do pronome fraco você como cê.
Essa oposição pode ainda ser vista na possibilidade de múltiplos tópicos;
nos exemplos a seguir o pronome forte (tópico) aparece grifado e o pronome
fraco (sujeito) aparece em negrito:
(103) a) Ora, ele
i
pra pagar um aluguel de mil cruzeiros, 1200 cruzeiros, ele
i
pra morar,
se ele
i
quisesse, um exemplo, na Zona Sul, um apartamento de mil cruzei ros,
mil e duzentos é apartamento de quê?
(D2 RJ)
b) então o Japão
i
... ele
i
, desde o seu início... desde o seu início... minha filhinha...
ele
i
contava como força fundamental (das suas colônias) os dois fatores.
(EF RJ)
c) A professora
i
, ela
i
... no fundo ela
i
é uma orientadora.
(D2 SP)
O uso das reticências pode levar a pensar em hesitação por parte do fa-
lante, mas a pausa é a mesma que a representada por uma vírgula e essa re-
tomada do tópico por um pronome forte tem sido observada com frequên-
cia na fala.
4.3. A topicalização
Passemos a um terceiro tipo de construção, ilustrado em (1b, c), aqui
r etomado em (105), que é aquele em que o tópico está vinculado a uma
GRAMATICA 3.indb 156 6/11/2009 14:47:13
PREDICAÇÃO
157
posição vazia dentro da sentença-comentário, ao contrário do que vimos nas
construções de DE:
(104) a) Aquele arroz com frutos do mar
i
, a minha mulher é incapaz de, de, de prova(r)
[ __ ]
i
.
(D2 POA)
b) E carne
i
, aqui em casa nós fazemos [ __ ]
i
de várias formas.
(DID RJ)
c) A passagem
i
eu compro [ __ ]
i
a prazo.
(D2 RJ)
d) Olinda
i
ninguém mora [ __ ]
i
. Ninguém diz é lá que eu moro; não, diz é lá
que eu pernoito.
(D2 REC)
e) Colei embaixo de cada prato assim... [...] sem eles ver, um papelzinho, né?
botei umas bobagens assim escritas, né?... e um premiado, né? [...] e os outros
i

eu botei umas bobagens [ __ ]
i
, né?
(DID RJ)
Os tópicos destacados em (104a, b, c) estão vinculados ao objeto direto
selecionado por provar, fazer e comprar, e ao complemento circunstancial se-
le cionado por morar e botar em (104d, e). Essas construções são conhecidas
como Topicalização, uma operação sintática que envolveria o movimento
de um constituinte para a posição de tópico, deixando um vestígio, aqui
representado por um traço [ __ ] na sua posição de origem. Veja, porém,
que o constituinte em função oblíqua (complemento regido de preposição)
pode aparecer sem a preposição (Olinda, os outros), o que não seria possível
se esses constituintes estivessem em sua posição de origem (*Ninguém mora
Olinda e *eu botei um papelzinho os outros). Esse mesmo comportamento é
observado em inúmeros adjuntos adverbiais na amostra (cf. cap. 4). Observe
as estruturas em (105):
(105) a) Paris
i
eu não pago hotel [ __ ]
i
. Paris
i
eu fico na casa de um amigo [ __ ]
i
.
(D2 RJ)
b) O Norte
i
, principalmente no Amazonas e no Pará, a influência indígena sobre
a alimentação é muito grande [ __ ]
i
.
(DID RJ)
c) Recife
i
nós comemos muitas coisas assim muito gostosas [ __ ]
i
.
(D2 RJ)
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ROSANE DE ANDRADE BERLINCK

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MARILZA DE OLIVEIRA
158
Da mesma forma que vimos com os complementos acima, a preposição,
ausente na estrutura dos tópicos, não poderia ser omitida caso os adjuntos
aparecessem em sua posição não-marcada:
(106) a) Eu não pago hotel em Paris. Eu fico na casa de um amigo em Paris.
b) A influência indígena sobre a alimentação é muito grande no Norte, prin-
cipalmente no Amazonas e no Pará.
c) Nós comemos muitas coisas assim muito gostosas em Recife.
A ausência de preposição parece afrouxar, de certa forma, o vínculo sintático
entre tópico e comentário, aproximando essas construções dos anacolutos,
apesar de as duas serem distintas pelas razões já apresentadas.
As análises realizadas com base na amostra compartilhada Nurc apontam,
entre as estruturas de topicalização, o movimento de parte de um SN, com
uma expressão partitiva na posição de especificador. Embora sejam construções
possíveis em línguas com clara orientação para o sujeito, nota-se, tal como em
(105), a ausência da preposição no elemento em posição de tópico:
(107) a) De primeira classe
i
aí tem [poucas [ __ ]
i
], tem a Castelo Branco...
(D2 SSA)
b) Verdura
i
na parte da Argentina nós não vimos [nada [ __ ]
i
].
(DID RJ)
c) Mas eu ah merenda escolar
i
eu tenho [pouca noção [ __ ]
i
].
(DID RJ)
Pelo que mostram os dados em 4.2 e 4.3, parece haver uma distribuição
“complementar” entre deslocamento à esquerda do sujeito e topicalização
do objeto. Essa complementaridade está relacionada à preferência pelos su-
jeitos pronominais expressos, como vimos na seção 3.1 deste capítulo, e pelo
objeto nulo, como ficou demonstrado no capítulo 2. Se levarmos em conta
o fato de que as línguas de sujeito nulo, como o italiano, o espanhol e o por-
tuguês europeu, não apresentam estruturas de sujeito deslocado à esquerda,
ou seja, retomados por um pronome, e de que essas estruturas são comuns
em línguas de sujeito obrigatoriamente preenchido, como o francês e o inglês,
podemos relacionar a frequência de tal construção no português brasileiro a
um efeito, ou consequência, da tendência a realizar foneticamente o sujeito
pronominal.
GRAMATICA 3.indb 158 6/11/2009 14:47:13
PREDICAÇÃO
159
Antes de passarmos à subseção seguinte, é importante mostrar que nem
sempre é fácil reconhecer um sujeito topicalizado. Veja a seguinte sentença:
(108) a) Na minha casa, por exemplo, se come verdura, eu como, minha mulher não
come. Meus filhos adoram, principalmente o guri.
(D2/POA)
O SN grifado acima poderia ter estatuto sintático ambíguo no português
brasileiro, podendo oscilar entre uma interpretação de predicação discursiva
e uma interpretação de predicação sentencial, respectivamente:
(109) a) Tópico [Sujeito nulo + Predicado]
Meus filhos
i
[[ø]
i
adoram verdura]
b) [Sujeito pleno + Predicado]
[Meus filhos adoram verdura]
A ambiguidade poderia ser desfeita pela presença/ausência de traços su-
prassegmentais: presença de pausa entre o tópico e a sentença comentário vs
ausência de pausa entre sujeito e predicado. Mas, como vimos acima, nem
sempre ocorre a pausa nas construções de tópico marcado e o sujeito nulo é
cada vez menos frequente no PB. Pode-se, pois, postular que uma sentença
como (109a), exibindo um tópico em correferência com um sujeito nulo
não deve ser frequente na fala, sendo mais comum, então, a interpretação
de uma predicação sentencial (109b). Entretanto, essa postulação não deve
ser categórica. Há casos em que a posição de sujeito é claramente vazia, pois
o elemento nominal, o tópico marcado, se acha na sentença precedente e o
sujeito nulo, numa subordinada:
(110) a) Porque o teatro
i
[eu acho [que [ø]
i
está tão caro]].
(DID SP)
b) Quer dizer o teatro
i
[eu acho [que [ø]
i
está caminhando]].
(DID SP)
c) Então a casa própria
i
[eu acredito [que [ø]
i
seria evidentemente uma medida
de larga repercussão social]].
(DID REC)
d) O acarajé
i
[eu acho [que [ø]
i
é de feijão]], não é?
(DID RJ)
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MARILZA DE OLIVEIRA
160
Observe que todas as ocorrências de sujeito nulo coindexado com o tópico
se encontram em uma subordinada substantiva objetiva direta, complemen-
to do verbo epistêmico achar/acreditar. A topicalização também pode ser
encontrada em construções de miniorações, as construções com o chamado
“predicativo do objeto” (ver discussão sobre predicativo do sujeito e do objeto
no cap. 4). As miniorações são constituídas de um sujeito e de um predicado
nominal. Na sentença (111) abaixo, o sujeito da minioração foi movido para
a posição de tópico:
(111) O tal pato no tucupi
i
[eu achei [[ __ ]
i
muito ruim]].
(DID RJ)
(Eu achei [o tal pato no tucupi muito ruim])
(Eu achei [que o pato no tucupi é muito ruim])
4.4. O tópico-sujeito
Há, finalmente, uma construção de tópico a destacar. É aquela em que
o tópico se encontra numa sentença com um sujeito nulo não-argumental,
como mostram os exemplos em (112):
(112) a) O Amazonas, [ø
expl
]

é impressionante o número de frutas, e frutas assim, tudo
duro, tudo tipo cajá-manga.
(DID RJ)
b) A televisão [ø
expl
] é horroroso quando eles estão fazendo programa.
(DID SP)
Essa proximidade, aliada à tendência de preenchimento do sujeito, pode
levar à reanálise do tópico como sujeito. Embora não tenham ocorrido na
amostra analisada, são comuns na fala culta e popular estruturas em que um
constituinte da sentença parece ocupar a posição de um sujeito expletivo
nulo. A orientação para o discurso e a preferência pelos sujeitos pronominais
preenchidos são certamente os fatores que têm levado ao preenchimento
da posição à esquerda do verbo que não seleciona um argumento externo,
como já mencionamos na seção 3. Além da presença de elementos adverbiais
e marcadores discursivos, podemos observar o movimento de constituintes
internos ao SV para a posição “disponível” de especificador de SFlex de verbos
inacusativos e impessoais. Assim, podemos encontrar na fala espontânea:
GRAMATICA 3.indb 160 6/11/2009 14:47:13
PREDICAÇÃO
161
1) o movimento de parte de um constituinte (SN) para a posição de SFlex
em (113b, 114b e 115b):
(113) a) [ø
expl
] acabou [
SN
a bateria do meu celular].
b) [Meu celular]
i
acabou [a bateria [ __ ]
i
]. (Fala espontânea)
(114) a) [ø
expl
] Disparou [
SN
a aceleração do ônibus].
b) [O ônibus]
i
disparou [a aceleração [ ]
i
]. (Rádio CBN)
(115) a) [ø
expl
] Não está [
SP
na época dessa manga].
b) [Essa manga]
i
num tá [na época [ __ ]
i
]. (Fala espontânea)
2) ou de um constituinte articulado ao predicador com função dativa
(116b) ou adverbial (117b e 118b):
(116) a) [ø
expl
] Faltou sorte [
SP
ao Fluminense] no segundo tempo.
b) [O Fluminense]
i
faltou [sorte [ __ ]
i
] no segundo tempo. (Rádio CBN)
(117) a) [ø
expl
] Vão sair dois brotos [
SP
na orquídea].
b) Ela
i
vai sair dois brotos [
SP
__]
i
. (Fala espontânea)
(118) a) [ø
expl
] Não ocorreu nenhum problema [
SP
na localidade].
b) [A localidade]
i
não ocorreu nenhum problema [
SP
__]
i
. (Assistência NET)
3) ou ainda ocorrências de difícil reconstrução, como em (119c):
(119) a) Vê se [ø
expl
] está chovendo dentro do quarto.
b) Vê se [ø
expl
] está entrando água pelas janelas do quarto lá de dentro.
c) Vê se aquelas janelas ’tão chovendo. (Fala espontânea)
Pode-se argumentar que as estruturas acima são construções de tópico mar-
cado, com o movimento de um constituinte para a posição externa à sentença,
mas a ocorrência de concordância em (119c) de estão chovendo com aquelas janelas
é sem dúvida um argumento a favor da reanálise do tópico como sujeito.
4.5. O antitópico
O tópico pode aparecer à direita da sentença, sendo denominado “anti-
tópico”. É o caso de sentenças como:
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MARILZA DE OLIVEIRA
162
(120) a) [ø]
i
Leva azeite de dendê, o acarajé
i
.
(DID RJ)
b) é... mas [ø]
i
não é tão sentido esse problema de idade
i
.
(D2 SP)
c) então aí nesse caso [ø]
i
deixa de ser tão importante o fator idade
i
...
(D2 SP)
d) Dizem que [ø]
i
tá tudo abandonado aquele troço
i
.
(D2 SSA)
Nessa construção, o SN ocupa uma posição não-argumental, externa à
sentença e simétrica àquela dos tópicos descritos até aqui. Três propriedades
caracterizam fundamentalmente essa estrutura. A primeira se refere ao fato de
o SN antitópico manter uma relação de predicação secundária sobre o sujeito
pronominal, que pode ser nulo, como nos exemplos em (120), mas também
pode ocorrer lexicalizado:
(121) a) Ele
i
leva azeite de dendê, o acarajé
i
.
b) mas ele
i
não é tão sentido esse problema de idade
i
.
Assim como as construções de tópico-sujeito apresentadas em 4.4, a
construção de antitópico com sujeito pronominal lexicalizado é pouco fre-
quente nas amostras de fala culta. Na amostra analisada, observamos uma
ocorrência:
(122) bom está numa idade de definição quanto ao segundo ciclo porque elas
i
já estão
na oitava série as mais velhas
i
não é?
(D2 SP)
A segunda propriedade diz respeito ao fato de o SN antitópico ser sem-
pre definido, ao contrário do que se observa em outras construções, como
as que descrevemos em 4.2. O exemplo em (123) ilustra bem essa segunda
propriedade: nele o SN antitópico tem sua referência estabelecida claramente
no contexto anterior.
(123) mas ele saiu dali toda a energia que ele acumulou ali naquele periodozinho
i
que
ele leu... que geralmente [ø]
i
não é pequeno esse período
i
...
(D2 SP)
GRAMATICA 3.indb 162 6/11/2009 14:47:14
PREDICAÇÃO
163
Por fim, a estrutura com antitópico é sensível à restrição de monoargu-
mentalidade, como observamos ao contrastar a aceitabilidade das sentenças
em (124), (125a’, b’), com a estranheza causada por (125a, b):
(124) a) Chegou cedo a chuva.
a’) Ela chegou cedo, a chuva.
b) Telefonou ontem o cliente.
b’) Ele telefonou ontem, o cliente.
(125) a) ? Mandou uma carta o cliente.
a’) Ele mandou uma carta, o cliente.
b) *Mandou uma carta para o hospital o cliente.
b’) Ele mandou uma carta para o hospital, o cliente.
A construção de antitópico com a posição do sujeito vazia pode contradizer
a tendência ao sujeito pronominal expresso. Essas ocorrências são, no entanto,
pouco frequentes e apresentam, muitas vezes, o verbo ser e um sujeito com
o traço [-animado], que ainda aceitam mais facilmente um sujeito nulo no
português brasileiro:
(126) [ø]
i
É muito difícil esse problema
i
.
4.6. A interface sintaxe–prosódia: construções de tópico/comentário
vs sujeito/predicado
Foram desenvolvidas, no âmbito da Gramática do Português Falado, investi-
gações empíricas pioneiras em relação às construções de tópico marcado, tanto
do ponto de vista tipológico, quanto no que tange à análise prosódica.
Callou et al. (1993) investigaram as ocorrências de topicalização (TOP) e
deslocamento à esquerda (DE), reunindo sob o rótulo “topicalização” tanto
construções em que a categoria vazia se vincula a uma posição argumental,
quanto as de anacoluto, em que se estabelece entre tópico e comentário apenas
um elo semântico. Além de apontar a complementaridade entre construções
de DE ligadas ao sujeito e de topicalização ligadas ao objeto, a análise revelou
que, por haver uma grande diversidade de padrões entonacionais, TOP e DE
não apresentam, do ponto de vista prosódico, uma distinção nítida, embora
a distribuição percentual permita vislumbrar que há maior incidência da
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MARILZA DE OLIVEIRA
164
curva ascendente entre as construções de TOP (73%). A curva descendente,
por outro lado, é cerca de duas vezes mais frequente em DE do que em TOP.
O fato de a distribuição percentual dos padrões para as duas construções
variar nas cinco capitais leva os autores a suspeitar de que os padrões devam
ser investigados com base no fator “região”, podendo não haver um “padrão
geral distintivo”.
Confrontando as construções de sujeito/predicado com as de tópico/co-
mentário, os resultados mostram um comportamento entonacional mais
regular para as primeiras, com 61% de ocorrência do padrão neutro (isto é,
sem modulação). Em ambos os tipos, porém, predomina a ausência de pausa
(74% das construções sujeito/predicado e 88% das construções de tópico/co-
mentário não apresentam pausa).
No que diz respeito à distinção entre construções de tópico marcado e
adjunção (Leite et al., 1996), o elemento prosódico mais marcante é a pausa,
mais longa na adjunção do que nas construções de tópico. O padrão ascendente
simples, tal como nas construções mencionadas acima, é o mais geral.
Nota
A tipologia das construções de tópico marcado aqui adotada é adaptada de
Brito, Duarte e Matos (2003). O interesse dos estudos linguísticos no Brasil
se voltou para as construções de tópico na década de 1980 com o trabalho
pioneiro de Eunice Pontes, reunido em Pontes (1987) e inspirado em estudos
sobre línguas orientadas para o discurso em oposição às línguas orientadas
para a sentença (Li e Tompson, 1976). Análises formais de tais estruturas
aparecem em Galves (1987, 1998) e Kato (1989). Estudos empíricos poste-
riores confirmam a complementaridade entre topicalização de objeto e DE
de sujeito apontada em Callou et al. (1993), relacionando-a
1) ao uso irrestrito do objeto nulo no português do Brasil; e
2) ao preenchimento do sujeito pronominal (Duarte, 1989, 1995; Cyrino,
1994, 1997; Vasco, 1999, 2006; Orsini, 2003, entre outros).
O aparecimento de uma série de pronomes fracos na posição de sujeito,
ainda em variação com um pronome nulo, ao lado da série de pronomes for-
GRAMATICA 3.indb 164 6/11/2009 14:47:14
PREDICAÇÃO
165
tes, analisado em Kato (1999) fica confirmado na descrição das construções
de DE aqui apresentadas.
Com base nas análises prosódicas pioneiras de Callou et al. (1993), Leite
et al. (1996) e Orsini (2003), estuda, do ponto de vista sintático e prosódico,
as três construções de tópico marcado mostradas nesta seção (anacoluto ou
tópico pendente, TOP e DE), além das de tópico-sujeito e de sujeito/predicado.
Sua análise entonacional aponta para existência de três padrões prosódicos
distintos e sistemáticos, reforçando a tese de que o português brasileiro re-
vela dois módulos independentes — um sintático e outro prosódico — que
interagem. Os padrões identificados são:
1) um padrão ascendente, sem pausa, recorrente entre as construções de
SUJ/PRED e de TOP/COM, evidenciando que o sistema não parece di-
ferenciar por meio da curva entonacional essas construções;
2) um padrão descendente, com pausa, próprio das construções de deslo-
camento à esquerda; e
3) um padrão ascendente, sem pausa, que se diferencia, porém, do padrão
(1) por apresentar, na postônica final do tópico, uma elevação de altura
maior (trata-se de um raised peak, segundo Ladd, 1996, apud Orsini,
2003).
Esse padrão se repete nas construções com valor contrastivo, independen-
temente da estratégia de construção de tópico empregada pelo falante.
5. Sistematização formal das estruturas de predicação
Neste capítulo, introduzimos mais um ramo na frondosa árvore que re-
pre senta a sentença. Além dos ramos argumentais que representam o SV e o
Sv, passamos a ter os ramos gramaticais, lugar de acolhida dos argumentos
que se movem na sentença para receber o estatuto de sujeito sentencial.
Esses ramos têm como núcleo a flexão, que detona a concordância com o
sujeito e lhe atribui Caso Nominativo, obedecendo ao princípio do caso,
segundo o qual todo sintagma nominal, foneticamente realizado, recebe
Caso Estrutural.
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166
5.1. Os verbos auxiliares ser, estar e ter/haver
Os auxiliares ter/haver e estar aparecem nas construções de voz ativa, na
presença, respectivamente, de um particípio e de um gerúndio (no caso es-
pecífico do português brasileiro, visto que o português europeu privilegia a
estrutura com infinitivo precedido da preposição a como estar a falar):
(127) a) A criança tem chorado.
b) A criança está chorando.
Nos dois casos, a relação de predicação se dá entre o argumento a criança
e o predicador chorado (127a) ou chorando (127b). Os auxiliares ter e estar
codificam tão somente as noções de tempo e número, portanto são gerados
na posição nuclear de Flexão:
(128) SFlex
3
4 Flex’
a criança
i
3
Flex MO
g 3
tem/está SN SV
4 g
[ _ ]
i
chorado/chorando
Na relação especificador–núcleo de Flexão, ocorre a concordância verbal
e a atribuição de Caso Nominativo ao SN “a criança” pelo auxiliar.
O auxiliar ser aparece comumente nas passivas analíticas. A estrutura
passi va com a ordem Sujeito-Verbo segue de perto o percurso dos demais
auxiliares, no sentido de que o verbo pleno (que tem grade temática) fica in
situ (em SV) e a inserção de ser, um auxiliar, se dá diretamente na posição
nuclear da Flexão, pois não é predicador. Sua função é puramente gramati-
cal: carrega as marcas de tempo, número e pessoa. Como os demais auxilia-
res, estabelece re lação de concordância com o sujeito e lhe atribui Caso
Nominativo. A di ferença está em que a posição de sujeito, que, neste capí-
tulo, identificamos como especificador de Flexão, é ocupada pelo argumen-
to interno do verbo:
GRAMATICA 3.indb 166 6/11/2009 14:47:14
PREDICAÇÃO
167
(129) A Maria foi ameaçada.
(129a) SFlex
3
4 Flex’
A Maria
i
3
Flex SV
g g
foi V’
3
V SN
g 4
ameaçada [ __ ]
i

Esses exemplos permitem visualizar a diferença entre estrutura argumen-
tal, tratada extensivamente no capítulo anterior, e estrutura gramatical, em
que se realiza a relação de concordância e a atribuição de Caso Nominativo
ao sujeito da oração, expediente que se realiza no nódulo Flexão. De fato, os
auxiliares codificam tão-somente as noções de tempo e pessoa responsáveis
pela relação de concordância e atribuição de Caso Nominativo. Por esse mo-
tivo, esses elementos aparecem na posição sintática que lhes é mais peculiar:
o núcleo do nódulo Flexão.
Nem sempre, porém, a língua apresenta um morfema independente de
flexão, como no caso dos verbos que acabamos de tratar. Antes, na maior
parte dos casos, a flexão é um morfema preso ao verbo. Nesses casos, como
se verá na seção seguinte, o verbo não é inserido diretamente em Flexão, mas
movido da posição mais baixa, a partir de Sv. Nos casos em que a flexão é uma
forma independente (caso dos auxiliares), o verbo que a explicita não pode
ser gerado em V, mas diretamente na posição nuclear Flex.
5.2. Os verbos transitivos e inergativos (intransitivos)

Considerando as discussões a partir dos dados analisados ao longo deste
capítulo e partindo do esquema geral da estrutura do Sv, apresentado no ca-
pítulo 2, passemos à representação da sentença que tem o verbo como predi-
cador. Observe as sentenças em (130-131):
GRAMATICA 3.indb 167 6/11/2009 14:47:14
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168
(130) A Maria abraçou o José.
(131) A Maria deu um abraço no José.
No capítulo anterior, vimos que, por paralelismo sintático e semântico,
o SN Maria, argumento externo do verbo leve dar (131) e do verbo leve
abstrato (130), aparece na posição em que recebe papel temático de agente
12
.
Analogamente ao que ocorre com o esquema geral da estrutura Sv, o nódulo
Flexão pode alocar um elemento abstrato. Nesse caso, o verbo sai do núcleo
de Sv e sobe para Flex. A configuração abaixo mostra a operação de subida
do verbo para o nódulo Flexão:
(130a) SFlex
3
4 Flex’
A Maria
i
3
Flex Sv
g 3
abraço-u
k
[ _ ]
i
v’
3
v SV
g g
[ _ ]
k
V’
3
V SN
g 4
[ _ ]
k
o José
GRAMATICA 3.indb 168 6/11/2009 14:47:14
PREDICAÇÃO
169
(131a) SFlex
3
4 Flex’
A Maria
i
3
Flex Sv
g 3
deu-u
k
[ _ ]
i
v’
3
v SN
g g
[ _ ]
k
N’
3
N SPrep
g 4
abraços no José
Na relação especificador–núcleo do nódulo Flexão, ocorre a relação de
concordância entre os elementos que ocupam essas posições; o verbo, munido
de afixo flexional, na posição nuclear de Flexão atribui o Caso Nominativo
do SN na posição de especificador desse mesmo nódulo.
O verbo inergativo segue o mesmo percurso. O verbo se move para a po-
sição nuclear de Flexão, onde serão lidas as informações relativas ao tempo
e pessoa, e o argumento do verbo se move para a posição de especificador
de Flexão. Lembre-se de que a diferença entre esses dois tipos de verbos está
na estrutura argumental, o verbo inergativo seleciona apenas o argumento
externo:
(132) A Maria trabalhou.
GRAMATICA 3.indb 169 6/11/2009 14:47:14
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170
(132a) SFlex
3
4 Flex’
A Maria
i
3
Flex SV
g 3
trabalho-u
k
[ _ ]
i
v’
3
v SV
g g
[ _ ]
k
V’
g
V
g
[ _ ]
k

5.3. Os verbos de ligação “ser ” e “estar ”
Observe as sentenças:
(133) a) A Maria é atriz.
b) A Maria está grávida.
As sentenças acima exibem um verbo que a tradição gramatical chama
de ligação, casos em que temos um predicativo do sujeito. Nessas sentenças,
os verbos ser e estar selecionam um complemento, uma minioração (MO),
no sentido de que temos um argumento (Maria) e um predicador (atriz,
grávida):
(134) [
MO
[argumento ] [predicado]]
Tendo em vista que o predicador atribui papel temático ao seu argumento,
estão cumpridas as exigências relativas à posição mais baixa da árvore. Temos,
portanto, uma minioração (MO), composta de argumento de predicador
não-verbal, em que o SN atriz e o SA grávida atuam como predicadores do
argumento, o SN Maria.
GRAMATICA 3.indb 170 6/11/2009 14:47:14
PREDICAÇÃO
171
(135) MO
3
A Maria atriz
grávida
Para receber o estatuto de uma estrutura oracional, o verbo ser (e estar),
que explicita marcas de tempo e pessoa, sobe para o núcleo de Flex. O SN
[Maria] sobe para o especificador do nódulo Flexão e entra em relação de
concordância com o verbo em Flex, do qual recebe Caso Nominativo:
(136) SFlex
3
4 Flex’
A Maria
i
3
Flex SV
g 3
é/está
k
V’
3
V MO
g 3
[ _ ]
k
SN Predicado (SN/SA)
[ _ ]
i
atriz
grávida
Essa representação capta a intuição por trás da ideia de verbo de ligação
da GT, ou seja, esse tipo de verbo não é um predicador. Tem uma função
puramente sintática, na medida em que codifica noções morfológicas de
tempo e pessoa, as quais são cruciais para a configuração de uma oração
absoluta.
5.4. Verbos impessoais
No início deste capítulo (1.2), mencionamos a existência de um pronome
expletivo no inglês e no francês (it/there e il, respectivamente), que ocupa a
posição de sujeito sentencial com verbos “climáticos” e inacusativos. Na seção
3.3, voltamos a essas estruturas ao tratar do sujeito não-referencial. Observe
as sentenças no inglês:
GRAMATICA 3.indb 171 6/11/2009 14:47:15
ROSANE DE ANDRADE BERLINCK

MARIA EUGÊNCIA LAMOGLIA DUARTE

MARILZA DE OLIVEIRA
172
(137) a) It rained all day.
b) Tere is a man in the room.
c) Tere came a man.
Como dissemos, o português brasileiro (bem como o espanhol e o italia-
no) não possui um pronome expletivo foneticamente realizado para ocupar a
posição de sujeito desses verbos. Entretanto, é possível postular um pronome
expletivo nulo que ocupe a posição de especificador de verbos climáticos e
de verbos existenciais.
No caso dos verbos “climáticos”, o verbo não possui estrutura argumen-
tal, mas nasce em V. Dessa posição, sobe para Flexão e entra em relação de
concordância com o sujeito expletivo (pronome expletivo) que se apresenta
nulo do ponto de vista fonético:
(138) [∅
expl
] choveu.
(138a) SFlex
3
Espec Flex’
g 3
[∅
expl
] Flex SV
g g
chove-u
k
V’
g
V
g
[ _ ]
k
A ausência de argumento externo, marcada na árvore pela ausência do
nódulo Sv, justifica a designação tradicional de oração sem sujeito. A estrutura
gramatical, que contém o nódulo Flexão e o expletivo nulo no (pro
expl
) seu
especificador, justifica, por sua vez, o princípio universal de que toda oração
tem sujeito, princípio este também observado pelas gramáticas tradicionais
quando postulam o sujeito como um dos termos essenciais da oração.
Observemos agora o comportamento do verbo parecer:
(139) O menino parece dormir.
GRAMATICA 3.indb 172 6/11/2009 14:47:15
PREDICAÇÃO
173
(140) Parece que o menino dormiu.
O SN o menino é argumento de dormir nas sentenças (139-140). A inexis-
tência de outro SN nas orações acima sinaliza que o verbo parecer não seleciona
um argumento externo, mas um argumento interno, representado por uma
sentença, como se vê a seguir:
(139a) *Parece [
S
o menino dormir].
(140a) Parece [
S
que o menino dormiu].
Ocorre que (139a) não é uma construção gramatical, ao contrário de (140a).
A diferença entre as duas sentenças está na ausência de flexão em (139a) e
sua realização em (140a). Conforme vimos neste capítulo, o nódulo Flex é
responsável pela ativação da concordância e atribuição de Caso Nominativo.
Logo, a agramaticalidade de (139a) decorre da ausência do afixo flexional,
ou melhor, da violação ao Filtro do Caso, segundo o qual todo SN realizado
foneticamente tem que receber Caso Estrutural. Para que o SN o menino em
(139a) receba caso, deve mover-se para a posição de especificador de Flex, lugar
em que receberá Caso Nominativo do verbo parecer, o qual, por ser munido
de afixo de tempo e pessoa, é alçado de V para Flex:
GRAMATICA 3.indb 173 6/11/2009 14:47:15
ROSANE DE ANDRADE BERLINCK

MARIA EUGÊNCIA LAMOGLIA DUARTE

MARILZA DE OLIVEIRA
174
(139b) SFlex
3
4 Flex’
O menino
i
3
Flex SV
g g
parec-e
y
V’
3
[ _ ]
y
Sv
3
[ _ ]
i
v’
3
dormir
k
SV
g
V’
g
V
[ _ ]
k
Na representação acima, há duas projeções de SV, uma para o verbo dor-
mir e outra para o verbo parecer. O verbo dormir sobe para o núcleo da es-
trutura Sv para a atribuição de papel temático, mas não ativa o nódulo Flex.
O verbo parecer não seleciona argumento externo e não ativa o nódulo Sv,
mas ativa Flex, por ser um verbo que apresenta afixo flexional. O SN o meni-
no, argumento externo do verbo dormir, na busca de um Caso Estrutural,
deve mover-se para o especificador de Flexão, onde é acionado o Caso No-
minativo.
Em (140a) o verbo dormir é flexionado, ocupando, portanto, a posição
nuclear de Flex. O SN o menino, para satisfazer o Filtro do Caso, se move
para o especificador de Flex, do qual recebe o Caso Nominativo. A posição
de especificador de Flex referente ao verbo parecer é, então, ocupada pelo
pronome expletivo nulo como no caso dos verbos impessoais acima:
GRAMATICA 3.indb 174 6/11/2009 14:47:15
PREDICAÇÃO
175
(140b) SFlex
3
Espec Flex’
g 3
[∅
expl
] Flex SV
g g
parec-e
y
V’
3
[ _ ]
y
S
3
que

SFlex
3
Espec Flex’
4 3
O menino
i
Flex Sv
g 3
dormi-u
k
[ _ ]
i

3
[ _ ]
k
SV
g
V’
g
V
[ _ ]
k
Na representação acima, introduzimos, para simplificar, o símbolo S para
alocar a conjunção que. O nódulo que abriga esse elemento será alvo de análise
no próximo capítulo com a designação de sintagma complementizador.
5.5. Os verbos inacusativos
Assim como ocorre nas sentenças com verbos inergativos, o verbo inacu-
sativo nasce em V e sobe para o núcleo de Flexão. A diferença entre os dois
tipos de verbos está na estrutura argumental: os inergativos selecionam um
argumento externo; os inacusativos, um argumento interno.
O argumento do verbo inacusativo pode permanecer in situ (em SV) ou
mover-se para a posição de sujeito da oração. Tratemos em primeiro lugar do
GRAMATICA 3.indb 175 6/11/2009 14:47:15
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MARILZA DE OLIVEIRA
176
movimento do argumento para o especificador de Flexão, desencadeando a
ordem Sujeito-Verbo:
(141) A Maria chegou.
(141a) SFlex
3
Espec

Flex’
4 3
A Maria
i
Flex SV
g g
chego-u
k
V’
3
V SN
g g
[ _ ]
k
[ __ ]
i

Tendo em vista que o argumento do verbo inacusativo é interno, não se
projeta a estrutura Sv, ao contrário do que vimos para o verbo inergativo (e
os transitivos), que precisa desse nódulo para alocar o argumento externo.
O SN A Maria, argumento interno na posição de especificador de Flexão,
recebe Caso Nominativo e entra em relação de concordância com o verbo.
No caso dos inacusativos, o argumento interno não precisa necessariamente
alçar para a posição de especificador de Flexão. Nesse caso, obtém-se a ordem
Verbo-Sujeito. O que se tem aqui é, como no caso dos verbos impessoais,
a inserção de um pronome expletivo nulo na posição de especificador de
Flexão:
(142) Ø
expl
chegou a(s) carta(s).
(143) Ø
expl
chegaram as cartas.
GRAMATICA 3.indb 176 6/11/2009 14:47:15
PREDICAÇÃO
177
(142a) SFlex
3
Espec Flex’
g 3
[∅
expl
] Flex SV
g g
chego-u
k
V’
3
V SN
g 4
[ _ ]
k
as cartas
y
Atente para o fato de que o sujeito da sentença na representação acima é
o pronome expletivo e não o SN a carta (as cartas), o que justifica a ausência
de marcas de concordância verbal entre o verbo e o seu argumento interno.
O SN as cartas é um elemento associado ao expletivo. Essa associação explica
os casos em que a concordância verbal espelha as marcas de número do SN
pluralizado, o que leva a gramática tradicional a interpretar o argumento
interno como o sujeito dos verbos inacusativos:
(143a) SFlex
3
Espec Flex’
g 3

expl y
] Flex SV
g g
chega-ram
k
V’
3
V SN
g 4
[ _ ]
k
as cartas
y
Os verbos existenciais (ter/haver) constituem uma subclasse dos verbos
inacusativos e, como tal, apresentam estruturas semelhantes. Tome as sen-
tenças abaixo:
(144) ∅
exp
havia/tinha gatos no telhado.
GRAMATICA 3.indb 177 6/11/2009 14:47:15
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MARILZA DE OLIVEIRA
178
O único argumento do verbo existencial tem a configuração de uma mi-
nioração, constituinte que expressa uma relação de predicação entre o SN
(gato) e o SPrep (no telhado):
(144a) SV
g
V’
3
V’ MO
g 3
havi-a SN SPrep
g 4
gatos no telhado
Observe que na estrutura acima há uma relação de complementação entre
o verbo haver e a minioração e uma relação de predicação entre o SN gatos
e o SPrep no telhado.
Carregando o afixo, o verbo haver se move para o núcleo de Flexão, em
cujo especificador é inserido um pronome expletivo nulo:
(144b) SFlex
3
Espec Flex’
g 3

exp y
]

Flex SV
g 3
havi-a
kk
V MO
g 3
[ _ ]
k
SN SPrep
4 4
gatos
y
no telhado
Assim como no caso das estruturas com verbo inacusativo que apresentam
a ordem VS, o sujeito sintático é um pronome não-referencial nulo, a que
damos o nome de pronome expletivo nulo. Essa proposta, além de distinguir
a função sintática de sujeito da função semântica de argumento externo,
tem a vantagem de criar um quadro simétrico de pronomes nulos para a
GRAMATICA 3.indb 178 6/11/2009 14:47:15
PREDICAÇÃO
179
posição de sujeito no português do Brasil: de um lado, temos o pronome nulo
referencial, chamado de sujeito oculto pela GT; de outro, temos o pronome
nulo não-referencial, que configura o pronome expletivo nulo que tem fun-
ção puramente sintática, ocupando a posição de sujeito de verbos climáticos,
existenciais e inacusativos que exibem a ordem V-S.
Vimos nesta seção que os inacusativos com argumento in situ, ou seja, na
ordem Verbo-Sujeito, podem ativar a concordância verbal com o SN, graças
ao elemento associado na posição de especificador de Flex. Essa mesma pro-
priedade explica a possibilidade de termos concordância do SN com o verbo
existencial (ter/haver), conforme observado nos dados da amostra comparti-
lhada, tratados na seção [3.3.3] deste capítulo.
5.6. As construções de tópico marcado
Retomemos as construções de tópico marcado, estruturas em que o tópico
é um elemento extrassentencial:
(145) Churrasco, eu como picanha.
(146) A minha mãe ela adora carne.
(147) Carne eu como.
O tópico ocupa uma posição acima da Flexão, ou seja, há uma ramifica-
ção acima do nódulo Flexão que abriga elementos que não fazem parte da
sentença, mas estão, de certo modo, vinculados aos constituintes sentenciais.
Vamo-nos referir a essa nova camada como Sintagma Tópico (STop), e, tendo
em vista a vinculação ou não desse STop com algum elemento no interior da
sentença, podemos ter os seguintes esquemas:
GRAMATICA 3.indb 179 6/11/2009 14:47:15
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MARIA EUGÊNCIA LAMOGLIA DUARTE

MARILZA DE OLIVEIRA
180
(145a) Churrasco [
SFlex
eu como picanha].
STop
3
Espec Top’
4 3
Churrasco Top SFlex
3
Espec Flex’
g 3
eu
i
Flex Sv
g 3
com-o
k
[ _ ]
i

3
[ _ ]
k
SV
g
V’
3
V SN
g g
[ _ ]
k
picanha
GRAMATICA 3.indb 180 6/11/2009 14:47:15
PREDICAÇÃO
181
(146a) A minha mãe [
SFlex
ela adora carne].
STop
3
Espec Top’
4 3
A minha mãe
i
Top SFlex
3
Espec Flex’
g 3
ela
i
Flex Sv
g 3
ador-a
k
[ _ ]
i

3
[ _ ]
k
SV
g
V’
3
V SN
g g
[ _ ]
k
carne
GRAMATICA 3.indb 181 6/11/2009 14:47:15
ROSANE DE ANDRADE BERLINCK

MARIA EUGÊNCIA LAMOGLIA DUARTE

MARILZA DE OLIVEIRA
182
(147a) Carne [
SFlex
eu como [ _ ]].
STop
3
Espec Top’
4 3
Carne
y
Top SFlex
3
Espec Flex’
g 3
eu
i
Flex Sv
g 3
com-o
k
[ _ ]
i

3
[ _ ]
k
SV
g
V’
3
V SN
g g
[ _ ]
k
[ _ ]
y
Os três esquemas representam um STop. Em (145a), temos uma instância
de anacoluto (ou tópico pendente), não vinculado sintaticamente a nenhuma
posição sentencial. Em (146a), o STop está vinculado ao especificador de SFlex,
sujeito da oração, ilustrando uma construção de Deslocamento à Esquerda;
em (147a), por outro lado, o STop se vincula ao argumento interno do verbo,
que se encontra vazio, uma instância de Topicalização. À diferença do nódulo
Flexão, não há na língua portuguesa um elemento foneticamente realizado
na posição nuclear do sintagma Tópico.
GRAMATICA 3.indb 182 6/11/2009 14:47:15
PREDICAÇÃO
183
Neste capítulo, tratamos apenas dos casos de construção de tópico marca-
do, mas há outras estruturas que exigem uma posição extrassentencial, como
é o caso das interrogativas e dos adjuntos, como se verá nos dois próximos
capítulos.
5.7. Esquema geral da estrutura do sintagma flexional
Podemos, agora, resumir as estruturas descritas em um esquema geral,
que apresenta as diferentes posições que o sujeito pode ocupar de modo a
estabelecer uma relação de predicação.
(148) SFlex
3
Espec Flex’
4 3
SN
1
Flex Sv
3
SN
2
v’
3
v SV
g
V’
3
V SN
3
O SN
2
é a posição em que é gerado o argumento externo de verbos transiti-
vos e inergativos, aquele que desempenha a função de sujeito desses verbos. O
SN
3
é a posição em que é gerado o argumento interno de verbos inacusativos.
Por fim, o SN1 é a posição para onde o sujeito se deve mover para receber
Caso da Flexão e desencadear concordância. Como vimos acima, essa posição
pode ser ocupada tanto por argumentos externos de verbos transitivos (130a)
e inergativos (132a), como por argumentos internos de verbos inacusativos
(141a) e de verbos transitivos, quando em construções passivas (129a).
Além das posições descritas em (148), para acolher os elementos topicali-
zados, o esquema geral inclui ainda uma posição externa ao SFlex (SN
4
):
GRAMATICA 3.indb 183 6/11/2009 14:47:16
ROSANE DE ANDRADE BERLINCK

MARIA EUGÊNCIA LAMOGLIA DUARTE

MARILZA DE OLIVEIRA
184
(149) STop
3
Espec Top’
4 3
SN
4
Top SFlex
3
Espec Flex’
4 3
SN
1
Flex Sv
3
SN
2

3
v SV
g
V’
3
V SN
3
Nos capítulos 4 e 5, esse esquema será enriquecido por meio da discussão
de construções de adjunção e de subordinação.
Nota geral
Este capítulo foi escrito a partir, principalmente, das análises desenvolvidas
ao longo do Projeto da Gramática do Português Falado, que constam de Kato,
Nascimento, Nicolau, Berlinck e Britto (1996), Callou et al. (1993) e Leite
et al. (1996). Os conceitos e a terminologia relativos à GT levam em conta
Kury (1964), Rocha Lima (1972) e Cunha e Cintra (2007). O levantamento
de dados e a análise da ordem SV/VS bem como das formas de representação
do sujeito pronominal seguem a metodologia e os pressupostos teóricos em
Berlinck (1989, 2000) e Duarte (1995, 2000, 2007). Na sistematização formal
foram utilizados Raposo (1992), Radford (1997a, b), Roberts (1997), Cecchetto
(2002), Graffi (1994), Mioto, Figueiredo Silva e Lopes (2004). Análises mais
recentes, que contribuem para a discussão dos resultados, são apresentadas
em notas de rodapé, e “Sugestões de leitura” complementares aparecem no
final do capítulo.
GRAMATICA 3.indb 184 6/11/2009 14:47:16
PREDICAÇÃO
185
Tanto o sistema pronominal do português do Brasil quanto a ordem SV/VS
têm merecido a atenção de pesquisadores envolvidos em projetos de pesquisa
com base em amostras de diferentes regiões do Brasil. Entre os diversos volumes
disponíveis com resultados dessas pesquisas relacionados ao conteúdo deste
capítulo, citam-se: Oliveira e Silva e Scherre (1996), Kato e Negrão (2000),
Zilles (2000), Vandresen (2002), Cohen e Ramos (2002), Roncarati e Abraçado
(2003), Paiva e Duarte (2003), Brandão e Mota (2003), Hora (2004), Guedes,
Berlinck e Murakawa (2006). Chamará a atenção do leitor a semelhança dos
resultados encontrados para esses fenômenos nas diferentes regiões do Brasil
(sobre um conjunto de pesquisas sobre o sujeito pronominal na fala popular,
cf. Paiva e Duarte, 2006).
Ressalte-se ainda que a representação do sujeito pronominal e a ordem
SV/VS têm sido objeto de estudos em uma perspectiva diacrônica. Entre eles,
podemos citar Duarte (1992, 1993), Berlinck (1989, 2000), Duarte (2003),
Duarte e Lopes (2002), Cavalcante (2001, 2002), Lopes (2001, 2002), Ribeiro
(2001) e Kato, Duarte, Cyrino e Berlinck (2006). Vários dos trabalhos citados
com data a partir de 2000 foram desenvolvidos no âmbito do Projeto para a
História do Português Brasileiro (PHPB).
Sugestões de leitura
No que se refere à seção 2:
Sobre a correlação entre monoargumentalidade e ordem V-S no português
brasileiro, ver Tarallo e Kato (1989), Kato e Tarallo (2003), Kato (2000a,
2000b), Berlinck (1989, 2000), Coelho (2000), Coelho et al. (2006). Para re-
lações entre foco, estatuto informacional, posposição e estrutura da sentença
no português brasileiro, ver, entre outros, Kato (1996a), Berlinck (1997),
Pilati (2002), Quarezemin (2006). Ver ainda, sobre as relações entre ordem e
concordância, Decat (1983), Pontes (1986), Coelho et al. (2006).
A correlação entre definitude e o comportamento do argumento de verbos
inacusativos tem sido analisada em relação a muitas línguas, desde o trabalho
pioneiro de Perlmutter (1978). Para discussões mais aprofundadas sobre esse
fenômeno em português, ver Nascimento e Kato (1995) e Kato (2002a). Ver,
ainda, Coelho (2000), para uma análise de dados do português falado em
Florianópolis, e Spano (2002), para uma comparação entre a fala culta bra-
GRAMATICA 3.indb 185 6/11/2009 14:47:16
ROSANE DE ANDRADE BERLINCK

MARIA EUGÊNCIA LAMOGLIA DUARTE

MARILZA DE OLIVEIRA
186
sileira e portuguesa. E, sobre as estruturas V-S em correlação com o sistema
dos clíticos na história do português brasileiro, ver Torres-Morais (1993),
e, sobre a perda da ordem V-S de tipo “germânica” no português brasileiro,
Ribeiro (2001).
Para análises sobre a passiva sintética, do ponto de vista sincrônico e dia-
crônico, ver Nunes (1990); para uma análise sincrônica da passiva analítica,
ver Moino (1989).
Com respeito à variação entre presença/ausência de marcas morfológicas de
concordância, a relação entre o grau de saliência fônica das marcas de plural
nos verbos e nomes e a perda dessas marcas na fala e na escrita, ver, entre
muitos outros trabalhos, Naro (1981), Naro e Scherre (1999, 2003a, 2007),
Scherre (1988, 1991), Scherre e Naro (1991, 1993, 1998, 2000).
Em relação à seção 3:
Sobre as respostas assertivas, excluídas na análise apresentada na seção 3,
ver Oliveira (2000), que analisa essas estruturas no português e no italiano,
com base em dados sincrônicos e diacrônicos; sobre os marcadores discursivos,
consulte o volume I da Gramática do português culto falado no Brasil (Jubran
e Koch, 2006), que trata da construção do texto oral e dedica aos marcadores
três capítulos.
Para um amplo estudo dos pronomes pessoais com base na Amostra Nurc-70,
ver Lemos Monteiro (1991, 1994). Sobre o processo de gramaticalização da
expressão nominal a gente no mais novo pronome a integrar o nosso quadro
pronominal, ver, entre outros, Omena e Braga (1996), Menon (1996), Vitral
e Ramos (1999) e Lopes (1999/2003). Sobre as estratégias de realização do
sujeito indeterminado na fala, ver Kato e Tarallo (1986).
No que diz respeito ao sujeito de “referência estendida”, ver Paredes Silva
(1986) e Oliveira (2005), que tratam da função coesiva do demonstrativo em
variação com uma categoria vazia em diferentes funções.
Para uma análise das construções de alçamento e hiperalçamento do sujeito e
do tópico na fala popular e sua relação com outras mudanças no português do
Brasil, ver Henriques e Duarte (2006) e Duarte (2007); para uma interpretação
teórica das construções de hiperalçamento, ver Martins e Nunes (2005; no
prelo) e Nunes (2008).
A respeito de análises teóricas e empíricas sobre as sentenças existenciais com
ter/haver, ver, entre muitos outros, Franchi, Negrão e Viotti (1998), Viotti
GRAMATICA 3.indb 186 6/11/2009 14:47:16
PREDICAÇÃO
187
(1999), Callou e Avelar (2001), Duarte (2003b), Avelar (2006). Para uma com-
paração entre as variedades culta e popular, ver Callou e Duarte (2005).
Sobre a posição do sujeito em sentenças não-finitas, ver Figueiredo Silva
(1996), Britto (1994), Cavalcante (2006). Sobre a inserção do se nas sentenças
não-finitas no português escrito culto brasileiro, ver Colsato (2007), e, sobre
as estratégias para o preenchimento do sujeito das sentenças infinitivas no
português brasileiro e europeu, nas modalidades oral e escrita, ver Duarte
(2008).
Em relação à seção 4:
Sobre os pronomes fortes, que ocupam a posição externa a sentenças, e os
pronomes fracos, quase homófonos, que aparecem na posição do sujeito gra-
matical, ver Kato (1999) e Kato (2002b). Ver, ainda, Duarte (1995) e Barbosa,
Duarte e Kato (2005).
Quanto à reanálise do tópico como sujeito, ver Pontes (1987), além de Kato
(1989) e Galves (1987, 1998); e, para uma análise mais elaborada das constru-
ções de antitópico, ver Tarallo e Kato (1989), Berlinck (1995, 2000) e Kato e
Tarallo (2003). Para análises minuciosas dos tipos de construções de tópico na
fala popular e na fala culta do Brasil e Portugal, ver Vasco (1999, 2006), Orsini
(2003) e Orsini e Vasco (2007).
Notas
1 Para uma crítica à incoerência presente nos conceitos das gramáticas tradicionais e ao divórcio entre
teoria e análise, conferir Perini (1985) e Mattos e Silva (1998). Sobre a Nomenclatura Gramatical
Brasileira (NGB), ainda utilizada na maioria das gramáticas pedagógicas, ver a nota 1 do cap. 2. Qua-
dros mais recentes (cf. Duarte 2003) distinguem três tipos de complementos: objeto direto, objeto
indireto e complementos oblíquos. Segundo esse quadro, o complemento relativo e o circunstancial
seriam classificados simplesmente como complementos oblíquos.
2 A esse respeito, ver vol. I, cap. 3.
3 Ver o cap. 2 e a seção 5 deste capítulo para uma representação mais minuciosa.
4 O português europeu revela a presença de ele como expletivo, em contextos bastante restritos, segundo
Carrilho (2001), limitando-se, na variedade-padrão, a usos enfáticos, como “Ele há cada coisa neste
mundo!”.
5 As informações aqui apresentadas se baseiam inicialmente na análise contida em Kato et al. (1996),
somada a uma ampliação da amostra ali estudada, que incluiu dados das capitais não analisadas no
primeiro estudo.
6 Para o conceito de inergativo, ver cap. 2, seção 4.4, e seção 2.1 deste capítulo.
7 A esse respeito, ver no vol. II o cap. 2, parte 2, seção 1.1.2.
GRAMATICA 3.indb 187 6/11/2009 14:47:16
8 A forma reduzida, ou fraca, do pronome você, apontada na fala mineira (Ramos, 1997), na fala carioca
(Paredes Silva, 2003) e na fala de cidades da região Sul (Menon e Loregian-Penkal, 2002), é também
notada em outras formas pronominais (eu/ô, eles/ez), particularmente em Minas Gerais (Corrêa, 2002).
Sobre os paradigmas de pronomes fortes e fracos no PB, ver Kato (1999).
9 Kato et al. (1996), no âmbito do Projeto da Gramática do Português Falado, apontam a preferência
na amostra analisada pelo padrão XVY, podendo X ser o sujeito. Na sua falta — isto é, se o sujeito
referencial é nulo ou se o predicador não seleciona um argumento externo — qualquer outro elemento
pode aparecer à esquerda do verbo, ocupando a primeira posição na sentença. Kato e Duarte (2005)
atribuem a resistência a ter uma posição vazia à esquerda de V no PB à sua proeminência para o tópico,
como o chinês e o japonês.
10 A esse respeito, ver vol. I, caps. 12-14.
11 A esse respeito, ver o cap. 2, seção 5.3.5, neste volume.
12 A esse respeito, ver também “verbos suporte”, vol. II, cap. 3, seção 1.6.
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ADJUNÇÃO
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SUMÁRIO
1. Introdução .........................................................................................................................................................................193
2. Os adjuntos na gramática tradicional ........................................................................................................195
3. O que define um adjunto ......................................................................................................................................199
3.1. Adj untos não são sel eci onados por um dado núcl eo .....................................................................................199
3.2. Adj untos expandem o el emento a que se adj ungem .....................................................................................200
3.3. Adj untos se adj ungem a um dado el emento .....................................................................................................202
4. Forma, função e posição dos adjuntos na amostra examinada ............................................205
4.1. Forma dos adj untos .......................................................................................................................................................205
4.1.1. Advérbi os .............................................................................................................................................................207
4.1.2. SPrep .....................................................................................................................................................................207
4.1.3. SPrep sem núcl eo ...........................................................................................................................................208
4.1.4. Sentenças fi ni tas .............................................................................................................................................209
4.1.5. Sentenças gerundi ai s ....................................................................................................................................210
4.1.6. Mi ni oração ..........................................................................................................................................................210
4.1.7. Subordi nada sem cabeça (sem núcl eo real i zado) ..........................................................................211
4.2. Função semânti ca dos adj untos ...............................................................................................................................212
4.2.1. SCs .........................................................................................................................................................................213
4.2.2. SPreps — Preposi ções compl ementadas por sentençasou por SNs ......................................213
4.2.3. Advérbi os .............................................................................................................................................................216
4.3. Posi ção dos adj untos ....................................................................................................................................................218
4.3.1. Sentenci ai s .........................................................................................................................................................218
4.3.2. SPreps ...................................................................................................................................................................220
4.3.3. Advérbi os .............................................................................................................................................................223
4.3.3.1. Advérbi os temporai s ....................................................................................................................................223
4.3.3.2. Advérbi os aspectuai s ..................................................................................................................................223
4.3.3.3. Advérbi os modal i zadores ..........................................................................................................................223
4.3.3.4. Operadores de foco .....................................................................................................................................224
GRAMATICA 3.indb 191 6/11/2009 14:47:16
5. Sistematização formal .............................................................................................................................................226
5.1. Negação ...............................................................................................................................................................................226
5.2. O si ntagma aspectual ...................................................................................................................................................231
5.3. Il has ......................................................................................................................................................................................234
Sugestão de leitura ...........................................................................................................................................................235
Notas .............................................................................................................................................................................................235
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193
4
ADJUNÇÃO
Maura A. Freitas Rocha*
Ruth E. Vasconcellos Lopes**
1. Introdução
Mostrou-se brevemente no capítulo 1 que a sentença pode ser expandida
por meio de elementos que não alteram a natureza categorial do constituinte
a que se juntam, pois não são selecionados por um núcleo. Assim, se (1a) é um
sintagma verbal, conforme se discutiu no capítulo 2, (1b), que contém também
o constituinte [a prazo] adjungido a ele, será ainda um sintagma verbal:
(1) a) [
SV
comer arroz].
b) [
SV
[
SV
compro] [a prazo]].
(D2 RJ)
Essa expansão pode dar-se em vários níveis da sentença e pode realizar-se
por meio de advérbios, como em (2), sintagmas preposicionados (SPrep),
sentenças subordinadas introduzidas por um sintagma complementizador
(SC), sentenças reduzidas ou o predicativo do sujeito — que trataremos,
adiante, por minioração.
No caso dos sintagmas preposicionados, ou seja, constituintes introduzidos
por uma preposição, o complemento da preposição pode ser um SN como
em (3), uma sentença finita como em (4) — marcada com tempo — ou uma
sentença infinitiva como em (5).
No caso das subordinadas, podem ser introduzidas por um sintagma com-
plementizador — cuja conjunção pode ser parafraseada por um SPrep (se =
* Universidade Federal de Uberlândia.
** Universidade Estadual de Campinas/CNPq (Proc. n
o
303.617/2004-7),
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MAURA A. FREITAS ROCHA

RUTH E. VASCONCELLOS LOPES
194
com a condição de que) como em (6) —, uma reduzida de gerúndio (ou de
particípio absoluto), como em (7), com gerúndio, que pode ser parafraseada
por uma sentença introduzida por um SC (quando utiliza um processo men-
tal...). Em (8) há um exemplo de predicativo do sujeito.
Retomando, temos:
– adjunto realizado por advérbio:
(2) ainda existe o individualismo marcado.
(EF SP)
– adjunto realizado por um SPrep, cujo complemento é um SN:
(3) então no teatro eu acho que é bem mais difícil.
(DID SP)
– adjunto realizado por um SPrep, cujo complemento é uma sentença
finita:
(4) eles me deram de volta uma série de duplicatas para que eu assinasse, eu e o
fiador.
(D2 RJ)
– adjunto realizado por um SPrep, cujo complemento é uma sentença
infinitiva:
(5) Ele não precisa ir à Universidade para se preparar para a vida profissional.
(DID SSA)
– adjunto realizado por uma sentença subordinada, ou seja, introduzida
por um SC:
(6) eu volto somente se tiver alguma pergunta.
(EF REC)
– adjunto realizado por uma sentença com gerúndio, igualmente intro-
duzida por um SC:
GRAMATICA 3.indb 194 6/11/2009 14:47:16
ADJUNÇÃO
195
(7) então o homem faz esta utilizando um processo mental já de compreensão.
(EF POA)
– adjunto realizado por uma minioração:
(8) De modo que eu vou tranquilo.
(D2 SSA)
Este capítulo trabalhará as relações de adjunção no português brasileiro,
definindo o que se entende por adjunção e descrevendo os lugares em que os
diversos tipos de adjuntos aparecem em relação aos elementos que compõem
a sentença. A apresentação e análise dessas relações, entretanto, será limitada
aos chamados “adjuntos adverbiais” pela gramática tradicional, desconside-
rando os adnominais. Será mostrado que, a despeito de adjuntos não serem
elementos selecionados pelos núcleos sentenciais, ainda assim apresentam
um comportamento previsível quanto aos lugares onde podem figurar na
sentença, contribuindo para refinadas distinções de sentido a partir da posição
que ocupem e dos elementos com os quais se juntem, como se observa no
contraste entre (9a, b, c):
(9) a) O João atravessou a rua.
b) O João quase atravessou a rua.
c) O João atravessou quase toda a rua.
Partiremos, na seção 2, da noção de adjunção na gramática tradicional,
apontando algumas de suas limitações, para, na seção 3, definirmos o que se
entende por adjunção neste livro. Na seção 4 veremos como se comportam os
adjuntos no português brasileiro falado e, finalmente, na 5 haverá uma seção
de sistematização formal sobre os adjuntos, contendo algumas discussões
específicas, como o caso da negação.
2. Os adjuntos na gramática tradicional
1
Tradicionalmente os adjuntos são definidos, a partir da Nomenclatura
Gramatical Brasileira (NGB), como “termos acessórios” da oração, em opo-
sição aos “termos essenciais” (sujeito e predicado) e “termos integrantes” (os
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MAURA A. FREITAS ROCHA

RUTH E. VASCONCELLOS LOPES
196
complementos). Várias gramáticas definem como acessórios os termos que se
juntam a um nome ou a um verbo para modificar-lhes o sentido. Afirmam
ainda que, embora os adjuntos tragam dados novos à sentença, não são in-
dispensáveis ao seu entendimento.
O que está por trás dessa intuição é o fato de os adjuntos não serem sele-
cionados pelo núcleo verbal, como são os complementos e os especificadores,
conforme já se viu em capítulos anteriores.
Vamo-nos deter por ora na definição acima, segundo a qual adjuntos se
juntam a nomes ou a verbos, examinando os exemplos em (10):
(10) a) A Rose deu os brinquedos para as crianças.
b) A Rose [provavelmente deu] os brinquedos para as crianças. (Mas não os
guardou depois).
c) A Rose deu [provavelmente os brinquedos] para as crianças. (Mas não as
roupas).
d) A Rose deu os brinquedos [provavelmente para as crianças]. (Mas não para
os adolescentes).
e) Provavelmente, a Rose deu os brinquedos para as crianças. (É provável que
o tenha feito, mas também pode ter-se esquecido de fazê-lo).
O advérbio provavelmente pode ocorrer em várias posições da sentença em
(a), juntando-se a um verbo em (b) e a um sintagma nominal em (c); contudo,
ao menos esse tipo de advérbio também se pode juntar a outros elementos,
no caso, um sintagma preposicionado, em (d), e a toda a sentença, em (e).
Além disso, o caso de (c) é problemático para a gramática tradicional, pois,
embora o advérbio esteja junto de um sintagma nominal, o que constituiria
um caso de adjunto adnominal ⎯ distinção que faremos logo abaixo ⎯,
gramáticos tradicionais não aceitam que tal advérbio possa ter essa função,
mas tão-somente a de adjunto adverbial. Isso torna a definição acima incapaz
de dar conta de todos os casos de adjunção na língua.
É preciso ter cuidado, também, com aquilo que a gramática tradicional
chama de elementos “dispensáveis” ao entendimento da sentença. Da perspec-
tiva estritamente sintática, são, de fato, elementos não-selecionados e, assim,
não-obrigatórios na estrutura da sentença. Porém, da perspectiva semântica,
é preciso considerar que, se o falante os colocou em uma dada sentença, é
porque certamente trazem algum tipo de informação que se quer veicular e,
dessa forma, não são dispensáveis. Veja-se que a distinção de sentido promovida
GRAMATICA 3.indb 196 6/11/2009 14:47:17
ADJUNÇÃO
197
pelo uso do advérbio nas diferentes sentenças em (10), por meio do contraste
estabelecido entre os parênteses, mostra a relevância desse elemento para a
interpretação semântica da sentença.
Os adjuntos são, ainda da perspectiva tradicional, divididos em verbais
(adjuntos adverbiais) e nominais (adjuntos adnominais), respectivamente (11)
e (12) — uma consequência da definição explorada acima:
(11) João [comprou um carro [a prazo]].
(12) João comprou [uma cadeira [de praia]].
Note-se que em (11) o adjunto [a prazo] diz respeito ao SV [comprou um
carro], já em (12) o adjunto [de praia] diz respeito exclusivamente ao SN [uma
cadeira], daí a distinção.
Neste capítulo, ocupar-nos-emos apenas daqueles considerados como
“adjuntos adverbiais”, conforme já apontamos na introdução. Como os adjun-
tos se podem juntar a outros elementos que não apenas o verbo, refinaremos
a classificação acima ao longo do capítulo. Por outro lado, incorporaremos à
classe dos adjuntos aquilo que a gramática tradicional trata como “predica-
tivo do sujeito”, ou seja, como um termo integrante, conforme em (13).
Vamos desconsiderar os casos de predicativo do objeto, porque esses casos
foram analisados no capítulo de “Complementação”, como miniorações.
(13) aprendeu a comer né? sozinha.
(DID SSA)
Notem que sozinha é um adjetivo, pois está flexionado, que se relaciona
com o SV que contém o verbo comer, já que descreve o modo como alguém
aprendeu a comer. Há em (13) uma minioração que contém o adjetivo e ela
se junta ao SV.
Todos os advérbios são tratados pela gramática tradicional como adjuntos,
o que inclui a negação, por exemplo. Porém trataremos aqui a negação como
uma categoria funcional (ver cap. 1), que faz parte do “esqueleto” sentencial,
desempenhando a função de um operador semântico capaz de reverter o valor
de verdade de uma proposição. Assim, se (14a) é uma declaração verdadeira
acerca de um dado estado do mundo, (14b) necessariamente será falsa, pois
a nega:
GRAMATICA 3.indb 197 6/11/2009 14:47:17
MAURA A. FREITAS ROCHA

RUTH E. VASCONCELLOS LOPES
198
(14) a) Rocha Lima é um gramático.
b) Rocha Lima não é um gramático.
A declaração (14b) pode ser parafraseada como “não é verdade que Rocha
Lima seja um gramático”. Reservaremos a discussão da negação igualmente
à seção de Sistematização formal.
Outro ponto a ser levantado, já discutido no capítulo sobre “Complemen-
tação”, envolve a reinterpretação de alguns complementos como adjuntos a
partir da adoção da Nomenclatura Gramatical Brasileira (NGB). Os elementos
em negrito nas sentenças abaixo eram considerados, pré-NGB, complementos
circunstanciais por muitos gramáticos:
(15) Vocês gostam de morar numa cidade de um milhão de habitantes?
(D2 REC)
(16) A festa durou uma hora.
(17) A criança pesa 20 quilos.
Após o advento da NGB, esses elementos passaram a ser considerados
adjuntos pela gramática tradicional. Conforme a discussão que se encontra
sobre o tema no capítulo 2, mantém-se a análise de que sejam de fato com-
plementos, portanto não serão aqui discutidos.
Pouco se fala na gramática tradicional sobre a realização categorial dos
adjuntos. Basicamente, consideram-se os advérbios e as orações subordinadas
adverbiais, mas muitos dos exemplos apresentados envolvem igualmente sin-
tagmas preposicionados, com ou sem a realização da preposição. Já vimos que
casos como (13), em que há um adjetivo internamente a uma minioração
adjungida ao sintagma verbal, não são tratados como adjuntos. De fato, a
noção de sintagma, como se viu no capítulo 1, é estranha à gramática tradi-
cional. É, contudo, essencial verificar a forma dos adjuntos, já que adjuntos
realizados por diferentes elementos terão comportamentos distintos. Alguns
podem ser “empilhados” nas margens da sentença, enquanto outros escolhe-
rão elementos muito específicos da estrutura a que se juntar. Ao tratá-los
como “termos acessórios”, podemos ser levados a imaginar que sejam elemen-
tos que têm um comportamento absolutamente livre na sentença, já que são,
da perspectiva sintática, dispensáveis. Veremos, passo a passo, que os adjun-
GRAMATICA 3.indb 198 6/11/2009 14:47:17
ADJUNÇÃO
199
tos, embora mais livres do que, por exemplo, os complementos, são ele mentos
bastante bem-comportados no que se refere a posições que possam ocupar na
sentença, à recursividade, à proibição de movimento de elementos que os
constituem. Esse último tópico será discutido na seção de Sistematização
formal do capítulo.
Passemos, então, à descrição dos adjuntos. Mas antes cabe uma nota: para
efeito da discussão geral do capítulo, vamos ignorar a distinção entre Sv e SV,
porque é irrelevante aqui. Deixaremos as representações com Sv para a seção
de Sistematização ao final do capítulo.
3. O que define um adjunto
2
3.1. Adjuntos não são selecionados por um dado núcleo
Discutiu-se, no capítulo 2, que a entrada lexical dos verbos conterá in-
formações acerca do número de argumentos que um dado verbo requer,
sua natureza semântica (papéis temáticos) e categorial. Os verbos, portanto,
selecionam diretamente seu(s) argumento(s) interno(s), e o verbo mais o(s)
complemento(s) selecionam indiretamente o argumento externo. A infor-
mação contida no léxico tem de se projetar na sintaxe, respeitando o número
de argumentos que um verbo requer e sua semântica, pois do contrário a
sentença se torna agramatical. Há um número exato de argumentos a serem
realizados (embora possam não se realizar foneticamente, como o objeto nulo,
por exemplo) e o mais interessante é que nenhum verbo em língua alguma
jamais seleciona mais do que três argumentos.
Entretanto, diferentemente dos argumentos, adjuntos não são selecionados
e, assim, não há na sintaxe nenhuma restrição quanto ao número de adjuntos
que possam ocorrer em uma dada sentença. Veremos mais abaixo, contudo, que
há restrições dos próprios adjuntos, especialmente os advérbios, em relação ao
tipo de elemento a que se vão adjungir. Comparemos as sentenças abaixo:
(18) a) Maria vendeu o vestido.
b) *Maria vendeu.
c) *Maria vendeu o vestido a grinalda.
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200
(19) Infelizmente, Maria quase vendeu o vestido [à vista] [no último domingo] [na
casa da tia] [depois do almoço] [com muita tristeza] [enquanto sonhava que o
noivo retornaria aos seus braços].
É pouco provável que usemos comumente sentenças como (19), mas as
limitações para isso não surgem de restrições impostas pela gramática da
língua e sim por razões de natureza externa, como memória, capacidade de
processamento do interlocutor etc.
O exemplo em (18) nos mostra que um verbo como vender, que requer
dois argumentos, deve ter os dois realizados e nada a menos (18b) ou a mais
(18c). Já em (19), temos a presença de oito adjuntos e poderíamos, com alguma
criatividade, acrescentar mais alguns.
Por não serem selecionados, os adjuntos não mantêm com o verbo nem
relação de concordância, nem realização de caso. Viu-se, no capítulo 1, que
verbos normalmente concordam com o sujeito de uma sentença e que sujeitos
normalmente têm caso nominativo, assim como objetos diretos têm caso acu-
sativo e os indiretos, dativo — todos aqui representados pelo uso de pronomes,
que preservam, de certa forma, a marcação de caso no português:
(20) Eles me viram.
| |
Nom Acus
(21) Ela sempre dava biscoito para mim.
|
Dativo

Essas relações não afetam os adjuntos. Mas vamos ver, na seção 4.2.2, que
eventualmente adjuntos podem confundir-se com complementos em algumas
funções realizadas por dativos.
3.2. Adjuntos expandem o elemento a que se adjungem
Adjuntos expandem uma categoria por meio do acréscimo de expressões
não projetadas pelo predicador. Em outras palavras, há um processo sintático,
chamado de adjunção, que tem a capacidade de agregar um elemento a uma
categoria já existente, apenas expandindo essa categoria. Mais especificamente,
GRAMATICA 3.indb 200 6/11/2009 14:47:17
ADJUNÇÃO
201
adjuntos não têm a capacidade de modificar a natureza categorial do elemento
com que se juntam, mas apenas a de acrescentar camadas hierárquicas sobre
tal categoria.
Talvez por isso é que adjuntos tenham formas tão distintas de realização
como sintagmas preposicionados, advérbios de diferentes naturezas, sentenças
subordinadas etc. Esse processo cria uma nova posição estrutural SX
2
, unindo-a
a um nódulo existente SX
1
, isto é, junta um termo ao topo de outro, por meio
de inserção de material lexical, como vemos esquematicamente em (22), em
que SZ seria um adjunto:
(22)
SX
2
SZ SX
1
3
X’
3
X .............
Vamos exemplificar o que ocorre em (22) com as sentenças em (23) e suas
representações arbóreas em (24):
(23) a) Maria cozinha feijão [na panela de pressão].
b) Maria [rapidamente] cozinhou o feijão.
(24) a)

SX
2
3
SV SPrep
1

b)

SX
2
3
SAdv SPrep
1


1
4

4
1
Maria V’ na panela de pressão rapidamente Maria V’

1 1

V SN V SN
cozinha feijão cozinhou o feijão
Representou-se, em (24), apenas a parte relevante da estrutura, ou seja,
o SV ao qual os diferentes adjuntos, na panela de pressão e rapidamente, se
juntam. Observe que a adjunção pode dar-se à direita ou à esquerda do SV.
GRAMATICA 3.indb 201 6/11/2009 14:47:17
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RUTH E. VASCONCELLOS LOPES
202
De fato, veremos adiante que alguns adjuntos preferem a direita, enquanto
outros preferem a esquerda. Há certa liberdade na posição dos adjuntos, mas
ela é ditada pela natureza do adjunto. Observe ainda que, em vez do SPprep
na panela de feijão, em (24a), poderíamos ter uma sentença adverbial plena,
uma SC, como em (25a), embora não necessariamente essa sentença se junte
ao SV, como veremos adiante. Observe também que o sintagma adverbial
(SAdv) em (23b) pode ser, ele mesmo, modificado, acomodando mais material
lexical, como em (25b):
(25) a) [
SFlex
... [
SV
Maria [
V’
cozinha feijão]] [
SC
quando os filhos aparecem em sua
casa]].
b) [
SV
[
SAdv
muito rapidamente [
SV
Maria [
V’
cozinhou o feijão]]]].
Finalmente, é possível reunirmos os dois adjuntos de (23) numa mesma
sentença, apenas expandindo o SV, em mais uma camada, como vemos na
representação em (26) abaixo:
(26) SV
3
SV SAdv
3 4
SV SPrep rapidamente
3 4
Maria V’ na panela de pressão
3
V SN
cozinha feijão
3.3. Adjuntos se adjungem a um dado elemento
É bastante interessante a situação dos adjuntos nas gramáticas das línguas
naturais e, obviamente, o português brasileiro não foge à regra. Adjuntos não
são selecionados — mantra repetido aqui algumas vezes —; contudo, gostam
de escolher os elementos aos quais se vão adjungir. Em certo sentido, é lícito
afirmar que adjuntos é que selecionam os elementos aos quais vão unir-se.
Isso se traduz pela metalinguagem utilizada até aqui no capítulo: adjuntos se
adjungem A..., se juntam COM...
GRAMATICA 3.indb 202 6/11/2009 14:47:17
ADJUNÇÃO
203
Veremos com mais vagar, na seção 4, quais são exatamente as escolhas que
os adjuntos fazem, reveladas por meio da análise da amostra examinada, mas
por ora observemos:
(27) a) Ontem João chorou.
b) *Ontem João chorou hoje.
c) *Ontem João vai chorar.
(28) a) Maria já trouxe o presente.
b) Maria sempre traz algum presente.
c) *Maria já sempre trouxe o presente.
Ontem e hoje são elementos que adicionam uma dimensão de tempo à
sentença. Contudo, como já se viu em capítulos anteriores, o sintagma fle-
xional também carrega informação temporal, realizada pela flexão verbal. É
preciso haver, então, uma paridade entre a dimensão temporal expressa pela
flexão e aquela expressa pelo adjunto. Isso indica que tais adjuntos escolhem o
sintagma flexionado a que se adjungir. Mas a disparidade de informação entre
o adjunto e a marca morfológica de tempo leva as sentenças a se tornarem
agramaticais, como vimos nos exemplos (b) e (c) em (27).
Já em (28) temos uma descrição sobre o modo como um dado evento — o
de Maria trazer um presente — ocorre. Em (a) parece haver um ponto final no
evento, ou seja, o evento culmina com “o presente trazido”. Já em (b) temos
uma descrição de um evento que ocorre e torna a ocorrer periodicamente
(eventualmente, toda vez que Maria é confrontada com a situação de ter de
trazer um presente). Não estamos mais na dimensão temporal da sentença,
mas em sua dimensão aspectual.
Tempo e aspecto são dimensões que se entrecruzam, embora conte-
nham informações distintas. O tempo, no caso do português, é marcado
morfologicamente no verbo. Trata-se de uma categoria dêitica, pois sua
interpretação se dá relativamente ao momento em que um enunciado é
feito. Pode, igualmente, ser veiculado lexicalmente por meio de adjuntos,
como ontem, amanhã, no próximo mês etc., o que nos interessa diretamente
aqui. Já o aspecto indica como um determinado evento ocorre no tem-
po: se é pontual ou não (João caiu vs João está construindo uma casa),
sua duração, seu começo, seu desenvolvimento e seu eventual fim (João
está lendo um livro vs João leu o livro todo)
3
. Não é nosso objetivo aqui
GRAMATICA 3.indb 203 6/11/2009 14:47:17
MAURA A. FREITAS ROCHA

RUTH E. VASCONCELLOS LOPES
204
tratar dessa questão, mas, apenas a título de exemplificação, vejamos as
sentenças abaixo:
(29) a) Ela chorou muito.
b) Ela esteve chorando por muito tempo.
Reparem que ambas as sentenças estão no passado, como as marcas morfo-
lógicas em chorou e no auxiliar esteve revelam. Ao enunciar as duas sentenças,
fica claro que o evento de chorar ocorreu antes do momento de sua enunciação.
Contudo, são eventos bastante distintos e é o aspecto que os diferencia: em
(a) não se faz referência ao desenvolvimento do evento, por exemplo, como
se faz em (b).
Voltando aos adjuntos, advérbios como já e sempre são considerados as-
pectuais porque escolhem essa dimensão da sentença, ou seja, são elementos
que demandam uma paridade também aspectual.
Em nossa língua, há uma forma bastante interessante de detectarmos ad-
juntos aspectuais, diferenciando-os dos temporais. Assim, podemos responder
a uma pergunta que requer uma resposta afirmativa com tais adjuntos, mas
apenas com eles (ou com o verbo), e nunca com advérbios temporais:
(30) a) – Você já foi ao zoológico?
– Já.
b) – Ontem você foi ao zoológico?
– *Ontem.
Na próxima seção discutiremos, com base na amostra examinada, justa-
mente que tipos de adjuntos escolhem quais tipos de categorias com que se
juntar. Mas vejamos, agora, uma clara distinção que se estabelece entre os
adjuntos: aqueles realizados por advérbios e os que chamaremos de adjuntos
“puros” — estes realizados, usualmente, por constituintes, como sintagmas
preposicionados (SPprep) ou orações subordinadas (SC).
Como vimos acima, advérbios são bastante restritivos em relação a que
pontos da estrutura sentencial vão unir-se. Também são restritivos em relação
a coocorrer com outros advérbios da mesma classe, como vimos em (27b)
e (28c). Esse tipo de efeito tem a ver com o escopo do advérbio. Informal-
mente, podemos definir escopo como o alcance de modificação que um de-
terminado elemento tem na sentença. Podemos pensar, ainda, em escopo
GRAMATICA 3.indb 204 6/11/2009 14:47:17
ADJUNÇÃO
205
como um feixe de luz produzido por uma lanterna: seu efeito terá uma certa
abrangência luminosa a depender da posição em que segurarmos a lanterna.
Os exemplos explorados em (10), e retomados aqui como (31), mostram
esse efeito com clareza:
(31) a) A Rose [provavelmente deu] os brinquedos para as crianças. (mas não os
guardou depois).
b) A Rose deu [provavelmente os brinquedos] para as crianças. (mas não as
roupas).
c) A Rose deu os brinquedos [provavelmente para as crianças]. (mas não para
os adolescentes).
d) Provavelmente, a Rose deu os brinquedos para as crianças. (É provável que
o tenha feito, mas também pode ter-se esquecido de fazê-lo).
Em cada uma das sentenças acima, o advérbio provavelmente tem um escopo
distinto, gerando diferentes interpretações. O mesmo podemos verificar na
comparação entre (32) e (33) abaixo. Embora os advérbios estejam na mesma
posição linear da sentença, podem produzir efeitos distintos de interpretação em
função de seu escopo, como podemos verificar pelas paráfrases utilizadas:
(32) Provavelmente, Maria está fugindo de suas obrigações.
(É provável que Maria esteja fugindo de suas obrigações).
(33) Cuidadosamente, João limpou o quarto.
(João foi cuidadoso ao limpar o quarto).
No primeiro caso, o advérbio parece ter escopo sobre toda a sentença,
enquanto no segundo, sobre João
4
. Há outros testes que confirmam essa di-
ferença de comportamento entre advérbios como provavelmente (também
chamados de “modalizadores”) e cuidadosamente, conforme se vê nas paráfra-
ses abaixo para (32) e (33), respectivamente:
(32’) *Maria está fugindo com probabilidade de suas obrigações.
(33’) João limpou com cuidado o quarto.
Não é possível, entretanto, mexer com a ordem de ocorrência desses elemen-
tos na sentença, sem lhes alterar o escopo. Vejamos a distinção em (34).
GRAMATICA 3.indb 205 6/11/2009 14:47:18
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206
Como provavelmente tem escopo sobre toda a sentença, deve, necessaria-
mente, estar em uma posição mais alta do que cuidadosamente:
(34) a) Provavelmente, João limpou o quarto cuidadosamente.
(É provável que João tenha sido cuidadoso ao limpar o quarto).
b) *Cuidadosamente, João provavelmente limpou o quarto.
Por outro lado, o que estamos aqui chamando de “adjuntos puros” pode-se
“empilhar”, preferencialmente, à direita dos sintagmas verbais, sem restrição
de colocação ou ordem preferencial entre eles, como em (35). Em outras
palavras, esses adjuntos não causam nenhum efeito aparente de escopo.
(35) a) João viajou [de carro] [para Curitiba] [pela BR-101] [no sábado] [com a
namorada] [após o lanche] [sem dinheiro algum]...
b) João viajou [sem dinheiro algum] [de carro] [no sábado] [pela BR-101] [para
Curitiba] [após o lanche] [com a namorada]...
O leitor poderá facilmente acrescentar inúmeras outras possibilidades de
ordenação entre os adjuntos acima. O que interessa aqui, entretanto, é que se
perceba a distinção de comportamento entre alguns advérbios e a classe que
chamamos, apenas a título de separação da anterior, de “adjuntos puros”.
4. Forma, função e posição dos adjuntos na amostra
examinada
5
4.1. Forma dos adjuntos
Para o elencamento das formas dos adjuntos, vamos contrapor aqueles
que se realizam como advérbios e aqueles que apresentam uma estrutura sin-
tagmática maior. Nesse último caso, há adjuntos que podem ter um núcleo,
realizado foneticamente ou não, seguido de complemento: SPrep = preposição
(núcleo) + SN (complemento) ou preposição (núcleo) + sentença; sentença
subordinada = complementizador (núcleo) + sentença (complemento). Abaixo
seguem as formas com os respectivos exemplos.
GRAMATICA 3.indb 206 6/11/2009 14:47:18
ADJUNÇÃO
207
4.1.1. Advérbios
Podem-se realizar sozinhos, (36) a (39), ou expandidos por outros advér-
bios, como em (40):
(36) Já vimos aqui quanto às dimensões...
(EF SSA)
(37) mas sempre tem um bom número na reunião.
(DID SSA)
(38) [...] primeira coisa primeiro ponto o homem simplesmente adquire a informação.
(EF POA)
(39) A criança vai ao maternal somente para brincar.
(DID SSA)
(40) ela... no fundo ela é uma orientadora... porque quase sempre ela é procurada
pelos alunos.
(D2 SP)
4.1.2. SPrep
Podem-se realizar apenas com a preposição seguida de um SN, nos exemplos
(41) e (42); podem ter junto de si um elemento dêitico (como aqui, lá etc.),
nos exemplos (43) e (44); ou podem, finalmente, introduzir uma sentença
finita ou infinitiva, como em (45) e (46), respectivamente:
(41) então no teatro eu acho que é bem mais difícil.
(DID SP)
(42) [...] eu em dois meses paguei dois dias de hotel em Madri [...].
(D2 RJ)
(43) Lá em Belém, por exemplo, era uma farinha misturada com água. [...].
(DID POA)
(44) Agora neste momento eu vou trabalhar com barro [...].
(EF SP)
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(45) Eles me deram de volta uma série de duplicatas para que eu assinasse, eu e o
fiador.
(D2 RJ)
(46) Ele não precisa ir à Universidade para se preparar para a vida profissional.
(DID SSA)
4.1.3. SPrep sem núcleo
São sintagmas que podem ocorrer com a preposição nula, ou seja, sem sua
realização fonológica. Esses sintagmas são também denominados de sintagmas
nominais adverbiais (ou SPreps sem cabeça) e podem ocorrer sem a preposição
quando os SNs são encabeçados por:
– nomes que indicam unidades do calendário (dia, mês, ano, minuto, hora);
(47) era sábado à noite.
(DID SP)
(48) Já outro dia eu chamei você de Fernando.
(EF REC)
(49) então infelizmente esse ano eu tive que fazer um outro empréstimo [...].
(D2 RJ)
– nomes comuns como tempo, vez, ocasião, férias, intervalo, período, época,
fase, momento, temporada etc.;
(50) Nós não ficamos muito tempo em Curitiba.
(DID RJ)
(51) Uma vez foi em Santa Cruz.
(DID POA)
(52) Uma ocasião, o, o cônsul alemão, Zinger, não sei se vocês conheceram...
(EF SP)
– nome comum ou próprio indicando lugar;
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ADJUNÇÃO
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(53) porque a televisão eu tenho ido...
(DID SP)
(54) Paris, eu fico na casa de um amigo.
(D2 RJ)
Como foi visto no capítulo 3, a posição de Tópico favorece particular-
mente o apagamento da preposição. Mas, mesmo não estando nessa posição,
a preposição pode aparecer apagada, como vemos em (47) a (52) de forma
inequívoca.
Voltemos aos casos de Tópico, examinando alguns exemplos:
(55) a) Eu fico na casa de um amigo em Paris.
b) *Eu fico na casa de um amigo Paris.
c) Em Paris, eu fico na casa de um amigo.
d) Paris, eu fico na casa de um amigo.
(56) a) Eu fico na casa de um amigo em agosto.
b) *Eu fico na casa de um amigo agosto.
c) Em agosto, eu fico na casa de um amigo.
d) Agosto, eu fico na casa de um amigo.
A sentença em (55b) indica que o adjunto não pode ter sua preposição
apagada quando em sua posição original. Contudo, quando o adjunto é movido
para posições externas à sentença, então o apagamento da preposição pode
ocorrer, como se verifica em (55d). Há, portanto, casos em que, mesmo em
sua posição original dentro da sentença [cf. (47) e (50)], o adjunto não ocorre
com a preposição, enquanto em outros casos o apagamento da preposição se
dá em função do movimento do adjunto, o que igualmente se verifica com os
complementos preposicionados. Essa discussão foi feita no capítulo 3.
4.1.4. Sentenças finitas
São os casos de sentenças com verbo flexionado para tempo que ocorrem
com o que chamamos, no capítulo 1, de SCs.
(57) Quando eu quero levar assim uma merenda, [...], eu geralmente eu levo maçã.
(DID RJ)
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4.1.5. Sentenças gerundiais
Como o nome denuncia, são adjuntos oracionais que ocorrem com verbo
no gerúndio:
(58) eu vim uma vez de Belo Horizonte pegando justamente Ipatinga dali da Usi-
minas.
(D2 SSA)
Reparem que separamos as sentenças gerundiais das infinitivas, evitando
o rótulo geral “sentenças reduzidas”, pois nossa preocupação nesta seção é
com a forma de realização do adjunto. O que separa essas sentenças é que as
gerundiais nunca admitem preposição, enquanto as infinitivas sempre são
complemento de uma preposição, portanto estão dentro de um SPrep, como
vimos acima no exemplo (46).
4.1.6. Minioração
É tratada na gramática tradicional como “predicativo do sujeito”, expressan-
do modo e sendo realizada por um adjetivo, conforme vimos na seção 2. Esses
casos são, na realidade, considerados como miniorações, em que o sintagma
adjetival (SA) está incluído numa estrutura que o relaciona ao sujeito.
(59) aprendeu a comer né? sozinha
(DID SSA)
(60) De modo que eu vou tranquilo.
(D2 SSA)
Vamos representar em (61) a estrutura relevante para (60). Observe-se
que o sintagma adjetival realizado por tranquilo é parte de uma estrutura de
predicação, a minioração (MO), relacionando-se ao argumento externo (eu)
selecionado pelo verbo ir.
GRAMATICA 3.indb 210 6/11/2009 14:47:18
ADJUNÇÃO
211
(61) SV
3
SV MO
3 3
eu
i
V’ [∅]
i
SA
3 tranquilo
vou [∅]
A estrutura de (59) seria semelhante, com a diferença de que o sujeito
“ela” vem oculto.
De alguma forma, um mesmo elemento em (60) — eu — está entrando
em duas relações distintas na sentença: uma com o verbo e outra com o adje-
tivo. Uma maneira de analisar essa relação é pressupor que há, como adjunto,
uma minioração contendo uma categoria vazia que remete ao sujeito, como
se representa em (60’) a versão linear de (61):
(60’) [eu
i
vou [∅] [
MO
[∅]
i
tranquilo]]
Trata-se, portanto, de uma categoria vazia que remete ao sujeito da sen-
tença — conforme os índices idênticos entre os dois elementos mostram —,
capturando o fato de que se trata de uma categoria que tanto é predicada por
tranquilo quanto por ir.
4.1.7. Subordinada sem cabeça (sem núcleo realizado)
Da mesma forma que o SPrep sem núcleo realizado, a subordinada sem
cabeça caracteriza-se por não ter um elemento subordinador, isto é, um núcleo.
Esse tipo de subordinada se apresenta com a função semântica de tempo.
(62) Eu sofri um acidente há coisa de vinte dias atrás.
(D2 RJ)
(63) eu também aprendi, mas no Barroso ainda, no tempo que tinha... uns trapiches
ali, há muitos anos, era guria... era no... no fundão mesmo.
(DID POA)
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212
4.2. Função semântica dos adjuntos
Quando falamos em relação de complementação ou de adjunção, referimo-
nos a uma descrição puramente sintática. Na relação de complementação,
quando um verbo se combina com um complemento, a projeção resultante
(V’) é diferente da projeção do verbo (V); ou quando o verbo + complemento
(V’) se combina com um especificador, a categoria resultante é SV.
Já na relação de adjunção, quando um adjunto se junta a um SV, o que
se tem é a projeção de mais uma camada de SV, conforme vimos na seção
3.2. Entretanto, o termo que foi adjungido ao SV acrescenta-lhe uma função
semântica, qualificando-o ou restringindo-o de alguma forma. Os adjuntos
têm, portanto, um domínio semântico de atuação que se traduz, entre outras
coisas, pela relação de escopo que possam tomar, conforme já se discutiu
anteriormente de forma breve.
Não vamos ocupar-nos aqui de uma classificação detalhada acerca das
funções semânticas dos adjuntos, mas, antes, exemplificar algumas das pos-
sibilidades. Vamos, contudo, explorar, com um pouco mais de detalhes, os
advérbios, já que a classificação que utilizaremos é inexistente na gramática
tradicional. Essa seção vai dividir-se em funções normalmente realizadas por
SCs, por SPreps e por advérbios. É preciso, entretanto, considerar que uma
mesma função semântica pode realizar-se pelas três formas, senão vejamos:
(64) a) Quando eu quero levar assim uma merenda, [...], eu geralmente eu levo
maçã.
(DID RJ)
b) a via de acesso pra lá atualmente é uma barbaridade...
(D2 SSA)
c) Nós não ficamos (por) muito tempo em Curitiba.
(DID RJ)
Todos os adjuntos em (64) expressam uma função temporal, entretanto
em (a) ela é realizada por uma sentença (uma SC), em (b), por um advérbio
e em (c), por um Sprep que pode, inclusive, ter seu núcleo apagado.
Assim, a classificação abaixo revela muito mais algumas funções prototi-
picamente realizadas por uma dada forma do que esgota a discussão sobre as
funções semânticas dos adjuntos.
GRAMATICA 3.indb 212 6/11/2009 14:47:18
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4.2.1. SCs
Podemos aqui agrupar aquelas funções já familiares como orações conse-
cutivas, condicionais, concessivas etc.
(65) E a gente gostou tanto que ficava todo o dia jogando.
(DID POA)
(66) A identificação se tiver assim um caráter já de uma pequena, um pequeno
exame, então já está num nível mais complexo.
(EF POA)
(67) Se ela for uma criança como parece que é totalmente desinibida e que no
ambiente que chega ela lidera, então eu tenho a impressão que eu vou botar
num colégio logo maior e que ela fique até a faculdade.
(DID SSA)
(68) eu não chego a ter ideia, embora eu lá conviva com brasileiros que trabalham
[...].
(D2 RJ)
Em (65) temos a chamada consecutiva, função que expressa a consequência
acarretada por uma causa apresentada na primeira oração, ou seja, a causa é [e
a gente gostou tanto], sendo sua consequência [que ficava o dia todo jogando].
Os exemplos (66) e (67) são condicionais, expressando uma relação de impli-
cação entre uma oração e outra. Já (68) exemplifica uma concessiva, em que
o adjunto expressa a relação de contraposição à oração que modifica.
4.2.2. SPreps — Preposições complementadas por sentenças
ou por SNs
O que nos leva a agrupar os exemplos abaixo é o fato de que é a prepo-
sição a responsável pela atribuição da função semântica em cada instância.
Vale ressaltar, ainda, que o elemento que segue a preposição é, portanto, seu
complemento — uma noção com que vimos trabalhando ao longo do capítulo
sem explicitá-la até o momento.
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(69) Estou sempre falando tudo depressa porque não dá tempo.
(D2 SP)
(70) Sabemos, por exemplo, nós que entramos aqui neste sindicato no ano de 1974, das
carências e das deficiências que o sindicato apresentava por não possuir uma sede
adequada já que evidentemente se tratava de um edifício antigo...
(DID REC)
(71) Ele não precisa ir à Universidade pra se preparar para a vida profissional.
(DID SSA)
(72) eles me deram de volta uma série de duplicatas para que eu assinasse, eu e o
fiador.
(D2 RJ)
(73) [...] se desenvolvem normalmente como se fossem mamas femininas.
(EF SSA)
Os exemplos (69) e (70) são de sentenças causais, cuja função é dada pela
preposição por, que atribui o sentido de causa, motivo, razão à sentença finita
ou infinitiva que introduz. Vale uma ressalva: o fato de a preposição ser escrita
junto com o complementizador é uma mera convenção ortográfica para o
português no Brasil. Sintaticamente, entretanto, a preposição é núcleo do
SPrep e o complementizador introduz a sentença que o complementa.
Já (71) e (72) são exemplos de sentenças de finalidade, exprimindo propósito
ou fim e, novamente, é a preposição para que atribui essa função semântica
às sentenças. O exemplo (73) é um adjunto comparativo, que expressa a
comparação por meio do estabelecimento de uma relação de inferioridade,
igualdade ou superioridade. Vejam que, novamente, a preposição tem um
papel na função semântica.
Não é de desconsiderar que os casos que agrupamos em 4.2.1 envolvem
SCs cujo núcleo pode ser parafraseado por expressões preposicionadas. Se há
uma generalização a fazer, portanto, é a de que as preposições são essenciais
na definição da função semântica dos adjuntos que introduzem.
Abaixo agrupamos casos de locativos (74) e (75), modo (76), companhia
(77), instrumento (78) etc., apenas a título de exemplificação, pois parecem
dispensar explicações.
GRAMATICA 3.indb 214 6/11/2009 14:47:18
ADJUNÇÃO
215
(74) Então no teatro eu acho que é bem mais difícil.
(DID SP)
(75) Em Manaus, por exemplo, eh, tudo, tudo tem, tem base com peixe.
(DID RJ)
(76) Eu compro a prazo.
(D2 RJ)
(77) eles acompanham com farinha, sabe?
(DID RJ)
(78) eu vou trabalhar com barro.
(EF SP)
Finalmente, resta-nos apresentar os chamados benefactivos ou dativos de
interesse, de posse, de opinião e dativos éticos, segundo a gramática tradi-
cional. Esse tipo de construção pode ocorrer como objeto indireto ou como
adjunto. Comparemos os exemplos abaixo:
(79) João deu o presente para Maria.
(80) E começou a ler os livros que nós líamos para ele, não é?
(D2 SP)
Em (79) para Maria é um sintagma selecionado pelo verbo dar, compor-
tando-se, portanto, como objeto indireto. Já, em (80), ler seleciona livros como
objeto direto (argumento interno) e nós como sujeito (argumento externo).
Para ele não é um elemento selecionado, mas antes um adjunto que denota
quem se “beneficia” no evento expresso pelo predicado.
Já, em sentenças como (81),
(81) Não me quebre o prato.
algumas gramáticas consideram o clítico me como adjunto adnominal,
porque interpretam a frase como “Não quebrem o meu prato”. Entretanto,
em todos os casos, o benefactivo indica, normalmente, algo em benefício/
malefício de alguém e não faz parte da predicação verbal.
GRAMATICA 3.indb 215 6/11/2009 14:47:18
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RUTH E. VASCONCELLOS LOPES
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4.2.3. Advérbios
Diferentemente das classificações exploradas acima, aqui nos vamos deter
mais pormenorizadamente nas funções semânticas dos advérbios, pois, como
vimos anteriormente, a depender de sua função eles vão juntar-se a um ou
outro elemento da sentença.
– Aspectuais (já, ainda, sempre, normalmente etc.)
Os adjuntos aspectuais indicam a frequência com que um evento ocorre,
indicam se o evento teve um ponto de culminância ou não etc., mas diferem
dos temporais, como vimos na seção 3.3.
(82) ainda existe o individualismo marcado.
(EF SP)
(83) porque eles já fazem no quinto ano de medicina.
(DID SSA)
– Intensificadores (muito, pouco, bastante, mais etc.)
Esses adjuntos, apesar de previstos pela gramática tradicional, apresentam
um domínio de modificação mais amplo do que o previsto. Por exemplo,
muito em (84) tem escopo sobre os substantivos que o seguem, em (85) mais
ou menos tem escopo sobre o adjetivo responsável e em (86) muito tem escopo
sobre o adjetivo sozinha.
(84) Então nós comemos muito xinxin-de-galinha, bobó de camarão, acarajé.
(DID RJ)
(85) ... e ainda agora que estão todos maiores, quer dizer, cada um já fica mais ou
menos responsável por si.
(D2 SP)
(86) agora eu estou muito sozinha lá na praia.
(DID POA)
GRAMATICA 3.indb 216 6/11/2009 14:47:19
ADJUNÇÃO
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– Modalizadores (talvez, realmente, provavelmente, possivelmente, pratica-
mente etc.)
Os adjuntos modalizadores não fazem parte do conteúdo proposicional
expresso pela sentença, mas atuam sobre esse conteúdo ou sobre a asserção feita.
Além de expressarem crença, opinião, expectativa, podem também delimitar
um ponto de vista. Em (87), por exemplo, infelizmente evidencia a atitude do
falante em relação ao que foi afirmado: ter de fazer um empréstimo.
(87) então infelizmente este ano eu tive que fazer um empréstimo para pagar os doze
mil.
(D2 RJ)
(88) os nomes realmente eu não guardei.
(DID RJ)
– Focalizadores (também, só, justamente etc.)
Esses adjuntos têm foco sobre adjetivos, numerais, advérbios etc. O que
se quer dizer com isso? Que tais elementos colocam “em destaque” alguma
categoria específica da sentença com que se juntam. Vamos aqui construir
um exemplo com o só, para que a comparação possa ser feita, já que exemplos
comparativos não surgem na amostra examinada. Apresentamos depois os
exemplos da amostra, para encerrar a seção.
(89) a) João trouxe carne para o almoço.
b) [Só João] trouxe carne para o almoço. (mas não o resto dos convidados)
c) João [só trouxe carne] para o almoço. (mas não foi buscar o pão)
d) João trouxe [só carne] para o almoço. (e não a salada)
e) João trouxe carne [só para o almoço]. (e não para o jantar também)
(90) as cooperativas também são entidades realmente bastante significativas.
(DID REC)
(91) ... tinha até um tempero azul.
(D2 POA)
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218
(92) vemos por aí que os sindicatos... uma assistência jurídica que é demasiadamente
importante, principalmente naquelas questões jurídicas relacionadas entre patrões
e empregados.
(DID REC)
4.3. Posição dos adjuntos
Embora não haja uma correlação absoluta entre forma, função semântica
e posição dos adjuntos, algumas funções privilegiam determinadas posições,
o que é previsível pela descrição que vínhamos fazendo. Espera-se encontrar,
por exemplo, advérbios aspectuais próximos aos verbos, modalizadores no
início (linear) das sentenças etc. Vamos organizar, novamente, a posição de
ocorrência dos adjuntos na amostra examinada em função de sua forma. Há
uma motivação para isso: aqueles realizados por sentenças tenderão a ocorrer
em posição inicial ou final, o que também se espera dos SPreps — o que justi-
ficaremos ao longo da discussão. Já os advérbios ocuparão posições várias por
se adjungirem ou a um elemento temporal na estrutura, ou a um aspectual etc.
Faz-se, assim, um cruzamento entre forma e função semântica dos adjuntos a
seguir, na tentativa de estabelecer preferências de posição entre eles.
4.3.1. Sentenciais
É preciso notar que a classificação dos “adjuntos sentenciais” aqui envolve
SCs e sentenças finitas ou infinitivas introduzidas por preposições, assim como
as subordinadas sem cabeça.
– Posição inicial
As condicionais ocorrem, principalmente, na posição inicial. Essa prefe-
rência pode ser eventualmente explicada pela relação semântica que se esta-
belece entre essas sentenças subordinadas em adjunção e a sentença a que se
adjungem: a premissa normalmente vem antes da conclusão.
Os exemplos a seguir evidenciam esse tipo de comportamento:
GRAMATICA 3.indb 218 6/11/2009 14:47:19
ADJUNÇÃO
219
(93) [mas se a gente está num nível de vida em que a preocupação inicial é se
manter vivo], qualquer atividade nossa vai estar relacionada com com essa pre-
ocupação...
(EF SP)
(94) [Se ela for uma criança como parece que é, totalmente desinibida, e que no
ambiente que chega ela lidera], então eu tenho a impressão que eu vou botar
num colégio logo maior e que ela fique até a faculdade.
(DID SSA)
Em (93) e (94), as sentenças em negrito expressam a premissa, isto é o
ponto ou ideia de que se parte para armar um raciocínio; as não-negritadas,
a conclusão.
– Posição final
As causais tendem a ocorrer em posição final, pois o efeito/consequência
vem antes da causa.
Os exemplos a seguir evidenciam esse tipo de comportamento:
(95) Andávamos em fila de seis, porque naquele tempo não tinha movimento.
(DID POA)
(96) me chocou tremendamente porque... eh por detrás dos bastidores é uma coisa
horrível, né...
(DID SP)
Em (95) e (96) as orações em negrito expressam a causa e as não-negrita-
das, o efeito.
Os adjuntos realizados por sentenças de finalidade (97 e 98), consecutivas
(99 e 100) e conformativas se caracterizam pela baixa frequência de ocorrência,
na amostra examinada, e privilegiam a posição final na sentença, isto é, após
o(s) complemento(s) — preenchidos ou nulos —, quando houver um.
(97) ... ela sai para ser alfabetizada...
(DID SSA)
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220
(98) eles me deram de volta uma série de duplicatas para que eu assinasse, eu e o
fiador.
(D2 RJ)
(99) A banana é uma banana tão grande que não dá para você comer inteira.
(DID RJ)
(100) E a gente gostou tanto que ficava todo o dia jogando.
(DID POA)
Também ocorrem em posição final as subordinadas sem cabeça:
(101) ... eu sofri um acidente há coisa de vinte dias atrás.
(D2 RJ)
– Posição inicial ou final
As sentenças temporais podem ocorrer no início ou no final da estrutura.
É preciso lembrar, contudo, que essa função semântica pode realizar-se através
de diferentes formas, como vimos em 4.2.
(102) ... até que fosse aprovado [∅] quando eles me abriram uma conta...
(D2 RJ)
(103) Quando ela começou a cursar em março ela tinha um ano e seis meses.
(DID SSA)
Quanto à posição dessas sentenças na configuração estrutural, assume-se
que sejam adjungidas a SFlex, tanto na margem à esquerda quanto na margem
à direita.
4.3.2. SPreps
Os adjuntos realizados por SPreps tendem a ocorrer ou em posição inicial
ou final. Apenas os locativos apresentam uma preferência maior pela posição
final.
GRAMATICA 3.indb 220 6/11/2009 14:47:19
ADJUNÇÃO
221
Podemos agrupar aqui os benefactivos (104), os de modo (instrumento,
meio, maneira e companhia) (105 a 108), os temporais (109) e os locativos
(110 e 111).
(104) para elas aquele... eh::ordenado é ótimo...
(D2 SP)
(105) eu vou trabalhar com barro.
(EF SP)
(106) e eles viviam basicamente da coleta.
(EF SP)
(107) pretendia ir pela Varig.
(EF RJ)
(108) então geralmente ele vai com um tio.
(D2 SP)
(109) ele deve ter sido formado em odontologia, por volta de 1917.
(D2 RJ)
(110) vocês leram isso nas páginas doze, treze e quatorze.
(EF REC)
(111) nós fizemos pernoite em Curitiba.
(DID RJ)
Note-se que os adjuntos de modo se concentraram maciçamente na posição
pós-verbal, o que parece constituir evidência de ocorrerem, preferencialmente,
em adjunção a SV.
Cabe, ainda, uma observação acerca dos temporais e locativos. Embora
privilegiem as posições inicial e final da sentença, conforme apontamos acima,
há ocorrências desses adjuntos antes de verbos, indicando que poderiam estar
entre o sujeito da sentença e o verbo propriamente.
Contudo, um exame mais rigoroso mostra que esses adjuntos ocorrem, de
fato, no início da sentença, não entre um sujeito e um verbo, mas entre um
tópico (cf. cap. 3) e um verbo, como em (112):
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MAURA A. FREITAS ROCHA

RUTH E. VASCONCELLOS LOPES
222
(112) até o professor naquele tempo queria que eu competisse.
(DID POA)
Em (112), o constituinte o professor constitui um tópico, em vez de consti-
tuir um sujeito, de tal forma que o que apresenta posição variável é o sujeito
e não o adjunto. Nessa análise, subjaz a assunção de que línguas de tópico,
como o português do Brasil, o que é interpretado como sujeito não é o SN na
posição de especificador da flexão, mas um sujeito mais externo — o tópico,
conforme se mostrou no capítulo 3. Pode-se constatar essa análise através da
“duplicação do sujeito”, como em “o professor, [naquele tempo] ele queria que
eu competisse”, exemplo que mostra com clareza que o adjunto está antes do
sujeito, portanto, em posição inicial da sentença.
Essa estrutura poderia ser assim representada:
(112’) até [o professor] naquele tempo [∅] queria que eu competisse.
Top (S) V Complemento
Assumiremos que os adjuntos temporais se juntem a SFlex e que os loca-
tivos possam juntar-se a SFlex e/ou SV.
Com ou sem cabeça, os Spreps também tendem a ocorrer nas posições ini-
cial e final. Os temporais distribuem-se proporcionalmente pelas posi ções
ini cial e final, conforme (113), (114) e (115), a seguir.

(113) esses últimos tempos eu tenho ido nesses programas de televisão.
(DID SP)
(114) e se reúne aquele dia, né?
(DID POA)
(115) eu preciso sair daqui sexta-feira de manhã.
(D2 SSA)
Por sua vez, os frequentativos ocorrem nas posições inicial, final e logo
depois do verbo, conforme (116), (117) e (118).
(116) quase todos os anos tem aqui no Rio Grande do Sul.
(DID POA)
GRAMATICA 3.indb 222 6/11/2009 14:47:19
ADJUNÇÃO
223
(117) vai trabalhar o dia inteiro.
(D2 SP)
(118) porque eu vim uma vez de Belo Horizonte.
(DID REC)
4.3.3. Advérbios
Vamos aqui destacar os tipos adverbiais de que vimos falando ao longo
do capítulo.
4.3.3.1. Advérbios temporais
Ocorrem como adjuntos a SFlex, em posição inicial ou final.
(119) a) [
SFlex
... atualmente [
SFlex
o governo estabelece os chamados reajustes salariais]].
(DID REC)
b) [
SFlex
[
SFlex
... isso é o que interessa] agora].
(D2 RJ)
4.3.3.2. Advérbios aspectuais
Os advérbios aspectuais ocupam preferencialmente uma de três posições:
a posição 1 (antes do verbo), (120a); a posição 2 (entre dois verbos), (120b);
e a posição 3 (após o verbo), (120c):
(120) a) Pedro ainda não tinha visto o filme.
b) Pedro não tinha ainda visto o filme.
c) Pedro não tinha visto ainda o filme.
Percebam que os efeitos de sentido serão distintos em função do escopo
que o advérbio tomar.
4.3.3.3. Advérbios modalizadores
Os modalizadores preferem a zona pré-verbal, harmonizando com outras
categorias modalizadoras, como os verbos modais, que aparecem antes de
todos os verbos (tive que fazer), como em (121):
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MAURA A. FREITAS ROCHA

RUTH E. VASCONCELLOS LOPES
224
(121) Então infelizmente esse ano eu tive que fazer um outro empréstimo para pagar
os doze mil.
(EF RJ)
A análise adotada para os aspectuais será estendida aos modalizadores.
Assim, eles podem ser gerados em adjunção a SV, mas podem-se adjungir,
igualmente, a projeções máximas mais altas, já que tendem a se concentrar
em posição pré-verbal.
Deve-se salientar que, entre os modalizadores, estão incluídos os advér-
bios denominados de orientados para o sujeito e orientados para o falante,
conforme apontamos anteriormente.
Como já discutimos, um dos diagnósticos para a identificação de tais
advérbios é o uso de paráfrases. Os advérbios orientados para o falante apre-
sentam a característica de, ao serem parafraseados, exigirem uma sentença
encaixada.
(122) a) Evidentemente, Maria está nos evitando.
b) É evidente que Maria está nos evitando.
Mas, por expressarem uma opinião do falante, é adequado considerar que
tais elementos sejam adjuntos de uma categoria mais alta da sentença, ou seja,
SC. Isso significa que tais adjuntos não estão dentro da sentença, mas acima
dela, pois vinculam-se a um discurso maior, já que remetem o advérbio a uma
manifestação daquele que enunciou a sentença.
Já os advérbios orientados para o sujeito caracterizam-se por, na paráfrase,
ocorrerem como um adjetivo e se adjungirem a SFlex. Estão, assim, dentro
da sentença, com escopo sobre o sujeito.
(123) a) Cuidadosamente, João colocou o leite no copo.
b) João foi cuidadoso ao colocar o leite no copo.
4.3.3.4. Operadores de foco
Como operadores de foco, englobamos os adjuntos focalizadores, in-
tensificadores e os de inclusão/exclusão, dada a característica de eles se
comportarem de modo similar no que se refere ao estabelecimento de
foco nos constituintes.
GRAMATICA 3.indb 224 6/11/2009 14:47:19
ADJUNÇÃO
225
Além disso, a distinção entre esses adjuntos quanto à função semântica
é bastante complexa, uma vez que, além da possibilidade de homonímia,
a distinção só é possível a partir da análise dos efeitos de sentido que tais
advérbios produzem, implicando a necessidade de uma análise bastante
detalhada e voltada para o papel discursivo que estes desempenham, o
que não faz parte do escopo deste trabalho.
Já no aspecto formal, esses adjuntos se adjungem a constituintes es-
pecíficos, a saber: ao sujeito, ao complemento e ao verbo ou a SFlex,
produzindo a sensação de que se distribuem por quase todas as posições.
Contudo, tendem a se concentrar entre o verbo e o complemento. Os exem-
plos abaixo ilustram a ocorrência desses adjuntos nas variadas posições, bem
como as possibilidades de adjunção:
– Adjunção a SFlex:
(124) ... sabiam que iam outros jovens também.
(DID POA)
– Adjunção a SV:
(125) eu vou adiantar um pouquinho a matéria.
(EF REC)
(126) O homem simplesmente adquire a informação.
(EF POA)
Abaixo há um quadro que resume, por ora, as principais possibilidades de
adjunção discutidas nesta seção; contudo, esse quadro será expandido na última
seção para acomodar uma nova categoria funcional que será apresentada.
SFlex SV
Operadores de foco Operadores de foco
Adjuntos sentenciais Modo
Locativos Locativos
Aspectuais Aspectuais
Modalizadores Modalizadores
Temporais SPreps sem cabeça
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MAURA A. FREITAS ROCHA

RUTH E. VASCONCELLOS LOPES
226
5. Sistematização formal
Vamos explorar, nesta seção, o caso da negação, conforme se prometeu na
introdução, assim como uma nova categoria funcional necessária para aco-
modar a representação da adjunção — o sintagma aspectual. Trata-se de dois
novos núcleos funcionais até agora não explorados neste livro, que se justifi-
cam quando se analisa a adjunção por diferentes motivos: no caso da negação,
para mostrar que os chamados “advérbios de negação” não são meros adjun-
tos, e no caso do aspecto, como uma categoria a que se adjungem os advérbios
aspectuais de que já tratamos. Passaremos, agora, a incorporar o Sv — sin-
tagma do verbo leve — em nossas representações.
Finalizaremos o capítulo apresentando uma característica dos adjuntos: de
dentro deles não se pode mover nenhum elemento. Esse fenômeno é universal
e tem sido chamado de “ilha”.
5.1. Negação
6
Um fato que chama a atenção sobre a negação, e que a diferencia dos demais
advérbios, é que tem posição fixa na sentença. Vejamos a sentença abaixo:
(127) Pedro (ainda) não tinha (ainda) visto (ainda) o carro (ainda).
Alguns advérbios como ainda podem aparecer em diversas posições da
sentença, contudo não podemos fazer o mesmo com a negação:
(128) a) *Pedro tinha não visto o carro.
b) *Pedro tinha visto não o carro.
Há dialetos do português brasileiro em que, em determinados contextos
sintáticos, a negação poderá vir no final da sentença, como em (129), mas esse
não é o retrato que temos na amostra analisada. Em todas as capitais estudadas,
a negação sentencial é sempre pré-verbal, como em (130):
(129) – Você viu Pedro?
– Vi não.
GRAMATICA 3.indb 226 6/11/2009 14:47:19
ADJUNÇÃO
227
(130) não como pão.
(DID RJ)
A pergunta que temos de fazer é o que diferencia o comportamento se-
mântico e sintático da negação em relação aos demais advérbios. Para além
de sua posição fixa, a negação tem como função inverter o valor de verdade
da sentença, diferentemente dos advérbios que se adjungem a elementos es-
pecíficos, modificando, por exemplo, a interpretação aspectual de uma sen-
tença, como em (131):
(131) a) João comprou castanha no Natal.
b) João sempre comprou castanha no Natal.
A diferença entre (a) e (b) é que o advérbio sempre incorpora ao evento
de “João comprar castanha no Natal” uma interpretação de frequência, rei-
terando o evento (João compra mais do que uma vez, se compra sempre).
A negação, por outro lado, mexe com o valor de verdade de uma sentença,
como afirmamos acima:
(132) a) Eu como pão.
b) Eu não como pão.
Se (a) é uma sentença verdadeira, (b) só pode ser falsa. A negação, portanto,
não se comporta como um mero adjunto, mas sim como um operador semân-
tico que determinará a referência da sentença: se é falsa ou verdadeira.
Tomando p para representar sentenças quaisquer, podemos inclusive cons-
truir uma tabela de valor de verdade para a negação:
(133)
p não p
V F
F V

Isso nada mais quer dizer que, se uma sentença é verdadeira, então sua
negação será falsa; se, por outro lado, é falsa, então sua negação será verdadeira
(se proferida pela mesma pessoa no mesmo contexto situacional). Assim, se
(132a) for falsa, (132b) será necessariamente verdadeira. Podemos traduzir
(132b) como (134):
GRAMATICA 3.indb 227 6/11/2009 14:47:20
MAURA A. FREITAS ROCHA

RUTH E. VASCONCELLOS LOPES
228
(134) não é verdade que eu como pão.
Como se viu no capítulo 1, estruturas sintáticas recebem interpretações
fonológica e semântica. Nesse sentido, é muito importante que a sintaxe já
reflita determinadas relações semânticas das línguas naturais, pois assim uma
sentença poderá ser interpretada a partir de informações obtidas das relações
sintáticas (diz-se: interpretação composicional). É preciso, portanto, distinguir
sintática e semanticamente a negação dos demais advérbios. Vimos que os
advérbios ocupam lugares específicos na sentença, provocando determinados
efeitos de escopo. A negação se distinguirá deles por constituir uma categoria
funcional no esqueleto estrutural na sentença: SNeg (o sintagma da negação),
em vez de se adjungir a um dado elemento. Como os advérbios, entretanto,
a negação também produz efeitos de escopo ilustrados abaixo. O mais rele-
vante é o de que só a uma sentença se atribui um valor de verdade, assim, a
negação deverá ter escopo sobre todo o material existente em uma SFlex, o
que se tentou traduzir em (134) acima.
Vejamos agora outro efeito da negação. O elemento negativo pode-se cliti-
cizar ao verbo, ou seja, pode sofrer uma modificação fonológica, necessitando
apoiar-se em outro elemento, o verbo.
(135) Não, Pedro não viu o João, não.
Em (135) há várias partículas negativas, porém as que estão nas bordas
da sentença não parecem comportar-se como a negação sentencial. Quando
cliticizamos a negação, a pronunciamos como “num”. Usando * para impos-
sível e 9 para possível, temos:
(136) a) Pedro 9num viu o João.
b) *Num, Pedro 9num viu o João.
c) 9Não, Pedro 9num viu o João, *num.
Observa-se que apenas a negação sentencial é cliticizável, as demais não,
como vemos pela estranheza das sentenças em (b) e (c) acima. Veremos, a
seguir, que esse comportamento é bastante previsível.
A proposta, portanto, é que a negação seja um núcleo funcional gerado
logo acima do Sv, e é por ser um núcleo funcional que tem o poder de ope-
GRAMATICA 3.indb 228 6/11/2009 14:47:20
ADJUNÇÃO
229
rar uma função semântica específica, a de mudar o valor de verdade de uma
sentença:
(137) a) SFlex
3
Flex’
3
g SNeg
-eu 3
Neg’
3
Neg Sv
g 3
não SN v’
g 3
ele v SV
3
V SN
com- o pão
O verbo irá para o núcleo do sintagma flexionado que carrega a informação
de tempo da sentença (além da concordância que não nos interessa aqui),
passando por v, conforme se discutiu no capítulo da “Complementação”.
Mas, com esse movimento, a ordem linear dos elementos não refletiria o que
ocorre no português, já que a sentença seria: ... comeu não o pão. Contudo,
como vimos acima, a negação se cliticiza ao verbo, o que mostra que, então,
ela também sobe e se junta a ele na posição de núcleo do sintagma flexionado,
como em (137b):
GRAMATICA 3.indb 229 6/11/2009 14:47:20
MAURA A. FREITAS ROCHA

RUTH E. VASCONCELLOS LOPES
230
(137) b) SFlex
3
ele
i
Flex’
3
não
k
+ com
j
-eu SNeg
3
Neg’
3
Neg Sv
[ _ ]
k
3
SN v’
[ _ ]
i
3
v SV
[ _ ]
j
3
V SN
[ _ ]
j
o pão
Porém, como dissemos acima, só a uma sentença se atribui valor de verdade
e, se o núcleo de SNeg tem esse efeito, então deve estar acima de SFlex para
ter escopo sobre esse nódulo, o que não é o caso da representação em (137b).
Vamos assumir aqui que, de fato, esse movimento ocorra, mas não como
uma operação sintática propriamente, e sim semântica. Em outras palavras,
esse movimento não é uma exigência da sintaxe, mas ocorre apenas para que
a sentença receba a interpretação desejada.
Voltando à discussão sobre escopo da negação, nem sempre ela terá que
se cliticizar ao verbo flexionado, podendo igualmente se cliticizar a um verbo
não-flexionado em uma sentença encaixada. Observemos (138):
(138) Acabamos não entrando.
(D2 SSA)
É fácil perceber que o verbo que carrega a informação temporal e de con-
cordância é o primeiro (acabar), porém a negação não está cliticizada a ele, e
sim ao verbo da sentença seguinte.
Como é um núcleo funcional sentencial, quando há várias sentenças, pode
ocorrer em todas elas, como em (139), em que tanto “confessar algo” quanto
“Olinda existir” são negadas:
GRAMATICA 3.indb 230 6/11/2009 14:47:20
ADJUNÇÃO
231
(139) [Por que essa besteira de não confessar [que Olinda não existe mais]]?
(D2 REC)
Finalmente, voltemos às sentenças com dupla negação do tipo de (135).
Há inúmeros exemplos na amostra analisada, como podemos observar:
(140) Eu não gostei, não.
(DID RJ)
(141) Eu não acredito em estatística, não.
(D2 REC)
Vejam que a negação sentencial tem a ver com (eu gostei de x) e (eu acredito
em x). Em ambos os casos, a segunda negação tem outro papel, mais discursivo,
no sentido de reforçar, de alguma forma, a negação sentencial, ou é simples-
mente um preenchedor discursivo mesmo como em (142):
(142) e nós havíamos programado nove ou dez filhos... não é?
(D2 SP)
Estabelecida a distinção entre advérbios e a negação
7
como núcleo funcional,
podemos agora voltar aos adjuntos, discutindo o sintagma aspectual.
5.2. O sintagma aspectual
Tendo discutido como se dá o processo de adjunção com diferentes catego-
rias, ao longo do capítulo, podemos, agora, chegar a uma representação mais
complexa. Para tanto, vamos introduzir mais uma categoria funcional, a de
aspecto — que se projeta como um sintagma aspectual (SAsp). A motivação
para essa categoria tem a ver com o fato de que as línguas naturais dividem
os eventos em perfectivos e imperfectivos, em outras palavras, aqueles que
chegam a um ponto de culminação, a um ponto final, e aqueles que não têm
um ponto final. Tecnicamente são chamados, respectivamente, de télicos e
atélicos. Em (143), percebe-se uma clara distinção aspectual:
(143) a) João tomou a sopa.
b) João estava tomando a sopa.
GRAMATICA 3.indb 231 6/11/2009 14:47:20
MAURA A. FREITAS ROCHA

RUTH E. VASCONCELLOS LOPES
232
Enquanto (a) indica que João terminou o evento de tomar a sopa, (b) in-
dica que isso ainda estava ocorrendo. Note-se que em (b) é o verbo auxiliar
estar que carrega as marcas de tempo e concordância, portanto é o elemento
que estará no núcleo do sintagma flexionado. Tomar é o verbo que seleciona os
argumentos João e a sopa; é, portanto, o núcleo do SV, mas sobe até o núcleo
aspectual para marcar a telicidade da sentença. Não nos vamos aprofundar
aqui sobre o tema, pois não é parte de nossos objetivos. Apenas queríamos
demonstrar a necessidade de postular a existência do núcleo aspectual.
Sempre é bom lembrar, também, que o núcleo do sintagma flexional
carrega tanto informação sobre concordância, como informação temporal.
Isso é relevante, pois discutimos a existência de adjuntos temporais que se
relacionarão, portanto, com tal categoria.
Diferentemente dos capítulos anteriores, não há como fazer uma repre-
sentação única em que todas as possibilidades de adjunção possam ocorrer,
pois vimos que há restrições em relação à coocorrência entre alguns adjun-
tos, há restrições em relação aos elementos a que os adjuntos vão juntar-se,
por exemplo, além de podermos empilhar inúmeros adjuntos à direita do
sintagma verbal.
Nesse sentido, a representação abaixo apenas retrata algumas das possi-
bilidades de adjunção:
GRAMATICA 3.indb 232 6/11/2009 14:47:20
ADJUNÇÃO
233
(144) SFlex
2
ontem SFlex
2
o João
i
Flex’
2
não
j
+tinha SNeg
2
Neg’
2
[ _ ]
j
SAsp
2
ainda SAsp
2
Asp’
2
visto
k
Sv
2
SN v’
[ _ ]
i
2
v SV
[ _ ]
k
2
SV SP
2 4
V SN na concessionária
[ _ ]
k
4
o carro
Nessa representação, há um adjunto temporal (ontem) adjungido ao SFlex;
um adjunto aspectual (ainda) adjungido ao SAsp e, finalmente, um adjunto
locativo (na concessionária), realizado por um SPrep, adjungido ao SV.
Em relação aos advérbios aspectuais, podemos agora formalizar melhor
sua posição. Eles ocuparão preferencialmente uma de três posições, como já
se afirmou anteriormente: posição 1 (antes do verbo), adjungindo-se a SFlex;
a posição 2 (entre dois verbos), adjungindo-se a SAsp; e a posição 3 (após o
verbo), adjungindo-se a SV.
Reapresentamos, agora, o quadro relativo às posições dos advérbios ante-
riormente mostrado em 4.3.3, agora acrescido da categoria funcional SAsp:
GRAMATICA 3.indb 233 6/11/2009 14:47:20
MAURA A. FREITAS ROCHA

RUTH E. VASCONCELLOS LOPES
234
SFlex SAsp SV
Operadores de foco Operadores de foco
Adjuntos sentenciais Modo
Locativos Locativos
Aspectuais Aspectuais Aspectuais
Modalizadores Modalizadores
Temporais SPreps sem cabeça
5.3. Ilhas
8
Um dos fenômenos mais interessantes em relação aos adjuntos é conhe-
cido como “efeito de ilha”. Trata-se de um fenômeno universal, ou seja, ob-
servado em todas as línguas naturais e não apenas em português. É uma ca-
racterística que distingue, inclusive, complementos complexos de adjuntos
complexos. Um adjunto é uma ilha, pois é um ambiente estrutural a partir
do qual não se pode mover nenhum elemento. Comparemos (145) com (146).
Em (145a) temos uma sentença completiva, com função de objeto direto. Em
(146b) temos um adjunto sentencial. Observemos o que ocorre quando se
tenta mover um elemento interrogativo (ver cap. 5, seção 4) de dentro das
sentenças subordinadas:
(145) a) [A Maria acha [que o João comprou o quê]]?
b) O que [A Maria acha [que o João comprou ___ ]]?
(146) a) [A Maria teve um ataque [porque o João comprou o quê]]?
b) *O que [A Maria teve um ataque [porque o João comprou ___ ]]?
Em (145a), o movimento da expressão interrogativa o que da sentença
subordinada produz (145b), uma sentença gramatical. Por outro lado, o mo-
vimento de o que da sentença subordinada em (146a) produz (146b), uma
sentença agramatical. A comparação entre os exemplos indica, então, que o
movimento de um elemento de dentro de uma sentença subordinada adjungida
não pode ocorrer, enquanto o mesmo movimento de dentro de uma sentença
subordinada completiva é lícito.
Assim, a possibilidade de realização de movimento de elementos de dentro
de uma sentença subordinada é um diagnóstico que pode ser também utilizado
para distinguir complementos de adjuntos complexos.
GRAMATICA 3.indb 234 6/11/2009 14:47:20
ADJUNÇÃO
235
A chamada configuração de “ilha”, para o que interessa neste capítulo,
nada mais é do que (147):
(147) SX
3
SX SZ
Onde se vê que o sintagma SZ se adjungiu ao sintagma SX, forçando sua
duplicação, sendo X e Y núcleos quaisquer. Assim, em estruturas dessa natureza,
nada que estiver dentro de SZ poderá ser movido para fora desse domínio.
Sugestão de leitura
Sugerimos, a seguir, a leitura de alguns textos que contribuem para o
aprofundamento dos assuntos discutidos neste capítulo.
Para o aprofundamento da noção de adjunção e de outras relações, sugerimos
a leitura de Mioto et al. (2004). Trata-se de um manual introdutório à sintaxe
gerativa, a partir do modelo conhecido como Regência e Ligação, em que o
leitor encontrará análises de vários exemplos e explicações sobre o tópico.
Para estudos sobre a negação e sobre a distinção tempo/aspecto e sua inter-
pretação, sugerimos a leitura do livro introdutório à semântica de Pires de
Oliveira (2001).
Para uma discussão e análise bastante compreensiva sobre adjunção e ad-
juntos nas modalidades oral e escrita, considerando a Teoria X-barra e outros
princípios que sustentam a Teoria Gerativa, sugerimos a leitura de Rocha
(2001).
Notas
1 As observações sobre a gramática tradicional baseiam-se em Cunha (1970) e, para análises pré-NGB
(especificamente em relação ao tratamento dos complementos circunstanciais), em Rocha Lima
(1972).
2 A análise aqui discutida baseia-se em parte e apenas através de alguns conceitos e ideias de autores
como Uriagereka (2006) — para a noção de “adjuntos puros” —, Hornstein e Nunes (2008) — para
o “comportamento previsível de alguns adjuntos” —, Alexiadou (1997), Cinque (1999) — que mos-
tram como os advérbios “escolhem” as categorias a que se vão adjungir (embora não se incorpore neste
GRAMATICA 3.indb 235 6/11/2009 14:47:20
volume a análise de que advérbios sejam sempre especificadores de categorias funcionais) — e Ernst
(2002). Suas análises não são aqui necessariamente assumidas tal qual originalmente formuladas.
3 Sobre Tempo e Aspecto, ver Castilho, Ilari e Neves (2008), cap. 3, seções 4, 5 e 6. Doravante, essa
obra será referida como “vol. II desta série”.
4 Sobre Advérbios, ver vol. II desta série, cap. 5.
5 A descrição da amostra baseia-se em Callou et al. (1996), Moino (1996), Kato e Nascimento (1996),
Rocha (1996, 2001), Kato et al. (1993).
6 A análise sobre “negação” inspirou-se em Zanuttini (2001) e Pires de Oliveira (2001).
7 Sobre a “negação”, ver também vol. II desta série, cap. 5, seção 8.
8 A discussão sobre “ilhas” inspirou-se em Mioto et al. (2004).
GRAMATICA 3.indb 236 6/11/2009 14:47:20
AS CONSTRUÇÕES-Q NO
PORTUGUÊS BRASILE IRO FALADO
GRAMATICA 3.indb 237 6/11/2009 14:47:20
GRAMATICA 3.indb 238 6/11/2009 14:47:20
SUMÁRIO
1. Introdução .........................................................................................................................................................................241
2. As sentenças relativas .............................................................................................................................................242
2.1. As rel ati vas com núcl eo nomi nal .............................................................................................................................243
2.2. As rel ati vas l i vres ...........................................................................................................................................................247
2.3. A vari ação nas sentenças rel ati vas ........................................................................................................................250
3. As sentenças clivadas ...............................................................................................................................................253
3.1. O foco ...................................................................................................................................................................................254
3.2. Ti pos de sentenças cl i vadas ......................................................................................................................................256
3.2.1. Cl i vadas canôni cas pessoai s e i mpessoai s ..........................................................................................256
3.2.2. Cl i vadas i nverti das .........................................................................................................................................257
3.2.3. Cl i vadas sem cópul a ou reduzi das ..........................................................................................................258
3.2.4. Pseudocl i vadas canôni cas ...........................................................................................................................258
3.2.5. Pseudocl i vadas reduzi das ............................................................................................................................259
3.2.6. Pseudocl i vadas i nverti das ...........................................................................................................................260
3.2.7. Pseudocl i vadas extrapostas .......................................................................................................................260
3.2.8. Cl i vadas apresentati vas ...............................................................................................................................261
3.3. Vari ação entre os ti pos de cl i vagem .....................................................................................................................261
4. As sentenças interrogativas-Q ...........................................................................................................................264
4.1. Os pronomes- Q i nterrogati vos ..................................................................................................................................266
4.2. Os ti pos de i nterrogati vas- Q ......................................................................................................................................268
4.2.1. As i nterrogati vas com Q i n si tu e desl ocado .....................................................................................268
4.2.2. As i nterrogati vas com ordem verbo- suj ei to ........................................................................................269
4.2.3. As i nterrogati vas cl i vadas ...........................................................................................................................270
4.2.4. Interrogati vas cl i vadas sem cópul a ........................................................................................................270
4.3. Vari ação nas i nterrogati vas- Q ...................................................................................................................................271
5. Análise formal das construções-Q ..................................................................................................................273
5.1. Introdução ..........................................................................................................................................................................273
5.2. Anál i se formal das rel ati vas ......................................................................................................................................273
GRAMATICA 3.indb 239 6/11/2009 14:47:20
5.3. A anál i se formal das cl i vadas ...................................................................................................................................280
5.3.1. As pseudocl i vadas ...........................................................................................................................................281
5.3.2. As cl i vadas ..........................................................................................................................................................283
5.4. Anál i se formal das i nterrogati vas- Q.......................................................................................................................285
Sugestões de leitura .........................................................................................................................................................288
Notas .............................................................................................................................................................................................289
GRAMATICA 3.indb 240 6/11/2009 14:47:21
241
5
AS CONSTRUÇÕES-Q NO PORTUGUÊS BRASILEIRO FALADO
Maria Luiza Braga*
Mary A. Kato**
Carlos Mioto***
1. Introdução
Este capítulo investiga as construções-Q, um conjunto de estruturas as-
sim denominadas porque contêm palavras do paradigma morfológico dos
pronomes-Q. Os pronomes-Q constituem uma classe fechada de itens e o
rótulo Q corresponde ao que poderia ser considerado a raiz da maioria deles,
à exceção de onde, cujo e como (nestes últimos ainda é perceptível a raiz na
consoante /k/).
(1) Os pronomes-Q: que, quem, qual, o que, onde, quando, como, quanto, cujo.
Os pronomes-Q podem aparecer introduzindo diversos tipos de sentença:
pergunta-Q matriz (2a), pergunta-Q encaixada (2b), relativa (2c) e relativa
livre (2d):
(2 a) quem não gosta de literatura de cordel?
(D2 REC)
b) nós não sabemos quanto tempo Olinda ainda vai viver porque ela tá escorre-
gando para o mar.
(DID REC)
c) ... nos locais onde tem assim mais facilidade até de comunicação...
(D2 REC)
d) quem trabalha fora acumula as coisas da ca::sa...
(D2 SP)
* Universidade Federal do Rio de Janeiro/CNPq (Proc. n
o
306.567/2006-7).
** Universidade Estadual de Campinas/CNPq (Proc. n
o
303.274/2005-0).
*** Universidade Federal de Santa Catarina/CNPq (Proc. n
o
300.557/2005-1).
GRAMATICA 3.indb 241 6/11/2009 14:47:21
MARIA LUIZA BRAGA

MARY A. KATO

CARLOS MIOTO
242
As construções-Q estudadas neste capítulo são as relativas, as clivadas e
as interrogativas.

2. As sentenças relativas
Uma relativa é uma sentença encaixada que se caracteriza por partilhar
com a sentença matriz um constituinte, que é o constituinte relativizado,
como exemplificamos em (3):
(3) a) então é muito mais fácil mandar [embora] esses professores que ganham... um
salário aula tal.
(D2 RJ)
b) bem, é diferente um pouco da maioria das pessoas que eu conheço.
(D2 REC)
c) Lourival, que eu conheço de perto,... Lourival não sabe escrever...
(D2 REC)
Em (3a) esses professores, que é o objeto do verbo mandar e, anaforicamente,
o sujeito do verbo ganhar, é o constituinte relativizado; em (3b) é a maioria
das pessoas; em (3c) é Lourival. O processo de relativização se realiza por meio
de um pronome-Q.
Os principais tipos de sentenças relativas são formalmente estabelecidos
de acordo com a presença ou ausência de um nome, chamado de núcleo, exter-
no a elas. Na presença do nome, como os que estão em negrito em (3a), (3b) e
(3c), a sentença relativa aparece adjacente a ele e é chamada de relativa com nú-
cleo. Nessa modalidade, a relativa pode funcionar como modificador desse
nú cleo (razão pela qual é chamada também de oração adjetiva e conside rada
adjunto adnominal pela tradição gramatical), como acontece em (3a), e nesse
caso é classificada como restritiva. A relativa pode funcionar ainda como apos-
to (razão pela qual são chamadas explicativas ou apositivas), como vemos em
(3c). Neste capítulo, apenas as restritivas serão abordadas detalhadamente.
Na ausência do núcleo nominal externo, temos as chamadas de relativas
livres, das quais temos um exemplo em (3d):
(3) d) [quem obedece à sinalização] evita acidentes, né?
(D2 SSA)
GRAMATICA 3.indb 242 6/11/2009 14:47:21
AS CONSTRUÇÕES-Q NO PORTUGUÊS BRASILEIRO FALADO
243
Nessa modalidade, pode-se dizer que toda a sentença funciona como um
argumento, em (3d) como argumento do verbo evitar.
2.1. As relativas com núcleo nominal
Existem vários tipos de relativas com núcleo nominal, cada um deles forma-
do por uma estratégia diferente. O primeiro tipo é exemplificado em (4):
(4) a) ... cadeia de supermercado [da qual você é assessor].
(D2 REC)
b) ... nos locais [onde tem assim mais facilidade até de comunicação].
(D2 REC)
c) carros muito pesados com cargas muito pesadas... trafeguem... acima, quer dizer,
acima do peso [para o que ela foi construída].
(D2 SSA)
d) uma carreira boa para mulher... a carreira [com que a gente pode resolver todos
os problemas... sem prejudi car nenhuma parte].
(D2 SP)
e) ele desenha todos os animais pré-históricos com todas as caracterís ticas, o nome
de cada um... a era [em que viveu].
(D2 SP)
f ) ela sai presa a esse tecido conjuntivo... [cujo tecido se prende à borda anterior
da clavícula]...
(EF SSA)
Nas construções em (4a-e), temos de admitir que as expressões-Q foram
removidas para a periferia esquerda da sentença relativa. Se elas permanecem
in situ, as sentenças são agramaticais, como mostra (5):
(5) a) *... cadeia de supermercado [você é assessor da qual].
b) *... nos locais [tem assim mais facilidade até de comunicação onde].
c) *carros muito pesados com cargas muito pesadas... trafeguem... acima, quer
dizer, acima do peso [ela foi construída para o que].
d) *uma carreira boa para mulher... a carreira [a gente pode resolver todos os
problemas com que... sem prejudi car nenhuma parte].
e) *ele desenha todos os animais pré-históricos com todas as caracterís ticas, o
nome de cada um... a era [viveu em que].

GRAMATICA 3.indb 243 6/11/2009 14:47:21
MARIA LUIZA BRAGA

MARY A. KATO

CARLOS MIOTO
244
Pelo fato de serem agramaticais as sentenças (5a-e), temos de admitir
também que os pronomes-Q relativos sempre se movem para uma posição
periférica à esquerda da sentença relativa, antes do sujeito, deixando na po-
sição de onde são movidos uma categoria vazia ([_]). Por dedução, o mesmo
deve acontecer quando o constituinte relativizado é o sujeito, como em (4f ).
Como exposto no capítulo 1, a posição que o pronome-Q ocupa na periferia
esquerda é o especificador de SC acima de SFlex. Assim, as relativas de (4)
têm as estruturas em (6):
(6) a) ... cadeia de supermercado [
SC
da qual
i
[
SFlex
você é assessor [ _ ]
i
]].
b) ... locais [
SC
onde
i
[
SFlex
tem assim mais facilidade até de comunicação
[ _ ]
i
]].
c) carros muito pesados com cargas muito pesadas... trafeguem... acima, quer
dizer, acima do peso [
SC
para o que
i
[
SFlex
ela foi construída [ _ ]
i
]].
d) uma carreira boa para mulher... a carreira [
SC
com que
i
[
SFlex
a gente pode
resolver todos os problemas [ _ ]
i
... sem prejudi car nenhuma parte]].
e) ele desenha todos os animais pré-históricos com todas as caracterís ticas, o
nome de cada um... a era [
SC
em que
i
[
SFlex
viveu [ _ ]
i
]].
f ) ela sai presa a esse tecido conjuntivo... [
SC
cujo tecido
i
[
SFlex
[ _ ]
i
se prende
à borda anterior da clavícula]].
O movimento do pronome-Q para o início da sentença subordinada,
que arrasta junto a preposição, forma as chamadas relativas-padrão. Como
resultado desse movimento, fica uma categoria vazia na posição de origem.
No português não ocorre, a não ser em situações muito especiais (Este é um
vinho
i
que eu não posso viver sem [ _ ]
i
), um tipo de relativa muito comum
em línguas como o inglês, na qual se move apenas o pronome-Q e se deixa
a preposição para trás (Tis is the person who
i
I talked about [ _ ]
i
). Note-se
que nenhum dos exemplos em (6) tem variantes com a preposição solta.
(6) e’) *Ele desenha todos os animais pré-históricos com todas as caracterís ticas, o
nome de cada um... a era [que
i
[viveu em [ _ ]
i
]].
Nos dois outros tipos de relativa com núcleo nominal, correntes no PB
falado, já não é tão claro que esteja envolvido o movimento do pronome. Um
deles consiste em ter um que na periferia esquerda da sentença e um pronominal
na posição do constituinte relativizado, como exemplificado em (7):
GRAMATICA 3.indb 244 6/11/2009 14:47:21
AS CONSTRUÇÕES-Q NO PORTUGUÊS BRASILEIRO FALADO
245
(7) a) eu tenho um rapaz que trabalha conosco, me esqueci o nome dele é D... que ele
é de lá de Ituaçu.
(D2 SSA)
b) eu preferia deixar evidentemente essa questão... a um consultor jurídico que ele
poderia então lhe dar: uma resposta mais conclusiva...
(DID REC)
Nas sentenças de (7), o constituinte relativizado é retomado pelo pronome
pessoal ele, que está na posição de sujeito (estamos atentos ao fato de que (7b)
admite também uma leitura causal, com o que podendo ser lido como porque).
Quando o constituinte relativizado é um SPrep, o pronome é precedido de
uma preposição. A ocorrência do resumptivo indica que não houve movimento
do pronome-Q, já que não há uma categoria vazia envolvida.
O terceiro tipo de relativa tem um que na periferia esquerda da sentença e
uma categoria vazia na posição do constituinte relativizado, como mostram
os dados em (8):
(8) a) Belo Horizonte... que é uma cidade
i
que eu pelo menos não gosto Æ
i
.
(D2 SSA)
b) um negro americano
i
que eu não

me recordo o nome Æ
i
agora... mas foi um dos
que mais gostei que ele cantou umas... umas músicas formidáveis.
(DID POA)
c) tem umas pessoas
i
que a gente tem mais intimidade Æ
i
também né.
(DID POA)
A relativa formada por essa estratégia, por dispensar a preposição, é conheci-
da como cortadora. Por não haver uma preposição seguida de um pronome-Q
na periferia esquerda da sentença, como acontece nas relativas-padrão em (6),
não se pode deduzir simplesmente que a categoria vazia é formada por mo-
vimento da expressão-Q. Essa situação cria uma incerteza (que será debatida
mais adiante) quanto à estratégia usada para formar as relativas de (9):
(9) a) porque as mulheres se acomodam com o salário... que se percebe.
(D2 SP)
b) então tem carreiras que seriam brilhantíssimas para a mulher...
(D2 SP)
c) vou aproveitar pra uma coisa que há muito tempo desejava ver... que é o ma-
quiné.
(D2 SSA)
GRAMATICA 3.indb 245 6/11/2009 14:47:21
MARIA LUIZA BRAGA

MARY A. KATO

CARLOS MIOTO
246
Não é possível saber se o que é um pronome-Q ou o complementizador
nem se a estratégia usada nas sentenças de (9) envolve ou não o deslocamento
de toda a expressão-Q.
O exemplo (10a), retirado da amostra, merece uma atenção especial:
(10) a) ... e alguns que às vezes eu não me lembro de todos.
(DID POA)
b) e alguns que às vezes eu não me lembro de todos eles.
c) *e alguns de todos os quais eu não me lembro.
d) *e alguns dos quais eu não me lembro o nome de todos.
Por um lado, ele não tem um pronome pessoal resumptivo depois de
todos, mas poderia conter tal pronome, como mostra (10b). A não ser que se
considerasse o quantificador todos como um resumptivo, a sentença (10a) não
poderia ser confundida com uma relativa resumptiva. Por outro, preserva a
preposição e não tem propriamente uma categoria vazia retomando o consti-
tuinte relativizado e, por isso, não pode ser considerada uma relativa cortadora.
Mas a questão ainda tem um terceiro lado: não existe uma contrapartida-
padrão para (10a), já que (10c) é agramatical. Também (10d) é agramatical,
pois um pronome-Q deve ser retomado necessariamente por uma categoria
vazia e a presença de de todos viola essa generalização. Assim, o fato de (10a)
envolver quantificações diferentes sobre o nome estudantes, que é o núcleo
nominal omitido da relativa, força o informante a recorrer a uma estratégia
de relativização que permite preservá-las: alguns quantifica sobre o núcleo da
relativa e todos, sobre a categoria vazia (10a) [ou o pronome (10b)].
Em resumo, podemos classificar as relativas do PB em padrão e não-padrão.
As primeiras são formadas por movimento de toda a expressão-Q (incluindo
a preposição no caso dos constituintes preposicionados); as expressões-Q
destas, às vezes, apresentam concordância de gênero e número (a qual, as
quais) e traços semânticos como [±humano] (quem, o que), [lugar] (onde),
[modo] (como), [quantia] (quanto). As segundas englobam dois tipos que, a
rigor, não parecem ser formados por movimento do pronome-Q. O primeiro
tipo formado pela estratégia resumptiva ou copiadora tem um que na periferia
esquerda da sentença relativa e um pronome resumptivo in situ. O segundo
tem apenas um que na periferia esquerda da sentença.
GRAMATICA 3.indb 246 6/11/2009 14:47:21
AS CONSTRUÇÕES-Q NO PORTUGUÊS BRASILEIRO FALADO
247
2.2. As relativas livres
As relativas livres constituem outro tipo de relativa, formalmente distinto
das relativas com núcleo nominal. Elas são chamadas de livres porque nunca
modificam um núcleo nominal. Comparemos as relativas com núcleo nominal
em negrito em (11) com as relativas livres de (12):

(11) a) ele é:: como é que se diz a pessoa que cuida do clube...
(DID POA)
b) agora aqui se vê que se trata de um caminhão prá trabalhar num canteiro
de serviço quer dizer num lugar onde tá se movimentando terra em grande
quantidade.
(D2 SSA)
c) esse é o único meio como a gente consegue...vê o aprendizado do estudante.
(DID SSA)
d) jogamos muito uma vez quando fiquei na praia... choveu muito uma temporada
quando a gente ia com o SESC.::... não não se perdia um concerto...naquele
tempo do... quando eu estava estudando...
(DID POA)
e) são as deficiências de tudo quanto é cidade... desse país.
(D2 REC)
(12) a) tem quem diga que não, que sociologia do direito é estudada por quem faz
ciência social... sociologia jurídica.
(EF REC)
b) eles devem aprender o que a gente ensinar.
(DID SSA)
c) eu acho que morar bem é morar fora da cidade... é morar onde você respi re...
onde você acorde de manhã como eu acordo e veja passarinho à vontade no
quintal.
(D2 REC)
d) então ficou muito bonito quando a gente entrou...
(DID POA)
e) Ele fez os bolinhos como manda a receita.
f ) Aquele advogado cobra quanto quer pelas consultas.
g) Faça uma boa apresentação das casas à venda, pois ele vai comprar qual a
filha escolher.
As relativas livres são introduzidas invariavelmente por um pronome-Q
que engloba as noções semânticas do tipo [±humano] (quem, o que), [lugar]
GRAMATICA 3.indb 247 6/11/2009 14:47:21
MARIA LUIZA BRAGA

MARY A. KATO

CARLOS MIOTO
248
(onde), [tempo] (quando), [modo] (como), [quantidade] (quanto) e por qual
(desde que o SN sobre o qual o pronome opera seja recuperado anaforicamen-
te, como em (12g)), mas não pelo pronome-Q que. Os pronomes-Q sempre
aparecem no início da relativa e, por isso, deduzimos que eles ali se posicionam
por movimento deixando uma categoria vazia na posição de origem.
Enquanto as relativas com núcleo nominal são consideradas adjunto nomi-
nal, as relativas livres funcionam como um argumento ou como um adjunto:
em (12a) a primeira relativa livre é complemento do verbo ter, e a segunda,
o agente da passiva; em (12b) é complemento do verbo aprender e em (12c)
é complemento do verbo morar; em (12f ) é complemento do verbo cobrar e
em (12g) é do verbo comprar; e em (12d) e (12e) as relativas livres são adjunto.
Em virtude de assumirem essas funções, as relativas livres são analisadas pela
tradição gramatical como orações substantivas, quando elas são argumentos,
ou como orações adverbiais, quando elas são adjuntos adverbiais. A análise
das relativas que funcionam como argumento como substantivas mantém
a classificação das palavras que introduzem as orações como pronomes-Q,
muito embora se lhes acrescente o rótulo de “indefinidos”. Essas relativas são
parafraseadas às vezes por relativas com núcleo nominal (quem... = a pessoa
que...; o que = a coisa que). Mas a análise das relativas que funcionam como
adjunto adverbial teve uma consequência indesejável: apesar de se admitir
que essas sentenças podem ser parafraseadas por relativas com núcleo nominal
(quando... = no momento em que...; como... = do modo que/como...), os itens
que introduzem essas sentenças migraram da classe dos pronomes-Q para a
das conjunções (quando = conjunção subordinativa temporal). Neste capítulo,
nós resgatamos o quando para a classe dos pronomes-Q.
Quando as relativas livres funcionam como complemento de verbos, elas se
assemelham a sentenças interrogativas-Q encaixadas. Compare, por exemplo,
a relativa em (13a) com a interrogativa em (13b):
(13) a) Ele comprou o que a Maria pediu.
b) eu poderia perguntar também o que estuda a sociologia jurídica.
(EF REC)
Nos dois casos, a sentença introduzida por o que funciona como comple-
mento de um verbo matriz, em (13a) comprar e em (13b) perguntar. Como
diagnosticar se a sentença encaixada é relativa livre ou interrogativa? Para um
GRAMATICA 3.indb 248 6/11/2009 14:47:21
AS CONSTRUÇÕES-Q NO PORTUGUÊS BRASILEIRO FALADO
249
diagnóstico seguro, recordemos que uma relativa partilha um constituinte
com a sentença matriz, que no caso da relativa livre de (13a) é o que. Esse
constituinte (como veremos com mais detalhes na seção 5.2) tem de satisfazer
as propriedades de subcategorização do verbo matriz: é o de acontece em (13a),
onde o que corresponde a SN, a categoria selecionada pelo verbo comprar.
Entretanto, uma interrogativa-Q encaixada não tem um constituinte relativi-
zado e, por isso, o constituinte-Q deve estar apenas para a sentença encaixada.
Assim, em (13b) o SN o que não está para satisfazer a subcategorização do
verbo perguntar, que seleciona uma pergunta como complemento sem que
importe a categoria do pronome-Q. Veja que, fazendo os ajustes necessários
dentro da interrogativa, se pode substituir o pronome-Q sem afetar o estatuto
de complemento nem a gramaticalidade da sentença da interrogativa, como
mostra (14a):
(14) a) Eu poderia perguntar onde/para que/por que/quando ele estudou socio-
logia.
b) Ele comprou onde/porque/quando a Maria pediu.
Porém, em (13a), a substituição do pronome-Q muda o estatuto de com-
plemento da sentença encaixada, como vemos em (14b): para que a sentença
seja gramatical, temos de aceitar que existe um objeto nulo como complemento
do verbo comprar e que a sentença introduzida pelas expressões em negrito é
um adjunto. Isso deve acontecer porque a expressão em negrito não satisfaz
a subcategorização do verbo comprar, que seleciona SN.
O que é interessante é que o PB possibilita um modo simples de diag-
nosticar se a sentença encaixada é uma relativa livre ou uma interrogativa-Q:
basta inserir um que logo após o pronome-Q. Onde a inserção é possível, a
sentença é interrogativa, como exemplificamos em (15a); onde não é possível,
a sentença é relativa livre, como em (15b):
(15) a) Eu poderia perguntar o que que a sociologia jurídica estuda.
b) *A sociologia do direito é estudada por quem que faz ciência social.
Outra forma de identificar uma relativa livre é substituir a expressão-Q o
que por o que quer que:
GRAMATICA 3.indb 249 6/11/2009 14:47:22
MARIA LUIZA BRAGA

MARY A. KATO

CARLOS MIOTO
250
(16) a) João vai comprar o que a Maria encomendar.
b) João vai comprar o que quer que a Maria encomende.
(17) a) A sociologia do direito é estudada por quem faz ciência.
b) A sociologia do direito é estudada por quem quer que faça ciência.
2.3. A variação nas sentenças relativas
1
Na seção anterior, mostramos como as sentenças relativas são construídas
no português brasileiro. Nesta, vamos apresentar alguns resultados obtidos a
partir do corpus do Nurc sobre a variação nas relativas. As relativas livres, para
as quais não se prevê variação, serão deixadas de lado. A atenção vai para as
relativas com núcleo nominal em que um SPrep está envolvido no processo
de relativização, pois é esse contexto que deixa patente qual das três estratégias
é utilizada pelo informante.
O primeiro resultado que realçamos é a frequência muito baixa de relativas
copiadoras ou resumptivas, como as de (7), aqui repetidas como (18):
(18) a) eu tenho um rapaz que trabalha conosco, me esqueci o nome dele é D... que ele
é de lá de Ituaçu.
(D2 SSA)
b) eu preferia deixar evidentemente essa questão... a um consultor jurídico que ele
poderia então lhe dar: um resposta mais conclusiva...
(DID REC)
c) ... e alguns que às vezes eu não me lembro de todos.
(DID POA)
Na amostra foram encontradas 10 resumptivas em 701 dados, sendo 6
com o pronome em posição de sujeito e 4 em posição de objeto direto. A
resumptiva em (7c), com o objeto indireto relativizado, foi coletada para
este volume e, como foi discutido, foge um pouco do padrão. Esse resultado
é correlacionado com a alta escolaridade das pessoas que serviram de infor-
mantes e é complementar ao de outros trabalhos que registraram incidência
alta desse tipo de relativa entre informantes menos escolarizados. Então, é
possível conjeturar que a escolarização atua diretamente na produção de
relativas sem resumptivo e que o Nurc é rico para estudar a variação entre
a relativa-padrão, que envolve o movimento de todo o SPrep que contém a
GRAMATICA 3.indb 250 6/11/2009 14:47:22
AS CONSTRUÇÕES-Q NO PORTUGUÊS BRASILEIRO FALADO
251
expressão-Q, e a relativa que tem o que na periferia esquerda da sentença e
uma categoria vazia na posição relativizada.
Nas relativas em que o sujeito ou o objeto é relativizado não é possível
perceber qual das duas estratégias está em jogo, a não ser quando ocorre o
relativo o qual. Como a ocorrência desse relativo nessa situação não é apon-
tada, talvez por praticamente não existir, a maioria dos dados não concorre
para explicitar o processo de relativização que é o mais recorrente no Nurc.
Isto é, sendo 82,5% (578/701) dos dados de relativização do SN sujeito e
objeto direto, o recurso é analisar os 17,5% (123/701), em que um SPrep é
relativizado, para desvendar a estratégia de relativização usada com maior
frequência por falantes escolarizados.
Essa investigação deve então se concentrar na região periférica da sentença
relativa, onde se pode observar se ocorre ou não a preposição: se ocorre a pre-
posição, está em jogo o movimento de todo o SPrep, a estratégia para formar
relativas-padrão; se não ocorre a preposição, trata-se da estratégia cortadora,
que tem o que na periferia esquerda. O que foi observado nas relativas com
SPreps relativizados foi a incidência bem menor da estratégia que move todo
o SPrep (35% ou 43/123 dados contra 65% ou 80/123). Essa diferença de
frequência é robusta e fornece indícios para concluir que, se a escola daqueles
falantes tentou atuar para que eles produzissem relativas-padrão, deslocando
todo o SPrep, o sucesso não foi notável.
Observemos a Tabela 1 em (19), que mostra como se distribuem as rela-
tivas que têm e as que não têm preposição na periferia esquerda por função
sintática:
(19)
Tabela 1 — Distribuição dos SPreps relativizados com e sem preposição por função sintática
Função sintática
Com Sem
N
o
% N
o
% Total
Adjunto adverbial 35 49 37 51 72
Objeto indireto 6 23 20 77 26
Complemento nominal 2 15 11 85 13
Complemento adverbial - - 5 100 5
Genitivo - - 7 100 7
Total 43 35 80 65 123
Apud Kato et al. (2002).
GRAMATICA 3.indb 251 6/11/2009 14:47:22
MARIA LUIZA BRAGA

MARY A. KATO

CARLOS MIOTO
252
Comecemos por ler verticalmente a primeira coluna: o número de prepo-
sições retidas é muito maior (35/43 ou 81% contra 8/43 ou 19%) com adjunto
do que com constituintes que não são adjuntos. Isso mostra que ser adjunto é
fator relevante na retenção da preposição. Que explicação poderíamos imagi-
nar para essa situação? A que aflora imediatamente é que a quase-metade de
retenção de preposição se deve ao fato de que as preposições que são núcleos
de adjunto são lexicais enquanto as outras são funcionais. As preposições
lexicais têm importe semântico (isto é, são capazes de atribuir papel temático
a seu argumento) e, por isso, são mais difíceis de serem “apagadas”, já que
seu apagamento pode incorrer em perda para a interpretação semântica da
sentença. Não é possível no momento fazer uma análise qualitativa dos 35
SPreps que retêm as preposições ou dos 37 que não retêm.
À guisa de conclusão, damos um passo projetando as conclusões retiradas
da observação da minoria dos dados sobre o universo dos dados analisados
(reconhecemos que essa extensão não é livre de riscos). O que conseguimos
da análise dos 123 dados com SPreps relativizados? Que 80 ou 65% deles dis-
pensam a preposição, enquanto 43 ou 35% a retêm, o que mostra uma forte
tendência a evitar a estratégia que move a expressão-Q inteira para formar as
relativas-padrão. Dos 43 dados, 35 ou 81% são de SPreps adjuntos e 8 apenas
ou 19% são de argumentos. Isto é, a preposição é mais retida quando o SPrep
relativizado é encabeçado por uma preposição lexical, que, como assumimos,
concorre para possibilitar a recuperação do constituinte relativizado (recupe-
ram-se, inclusive, traços como [+humano] em quem, plural como em quais e
feminino como em as quais). A estratégia de mover toda a expressão-Q parece
estar diretamente associada, como último recurso, à recuperação de constituin-
tes. Agora, o que acontece quando o SN sujeito ou objeto é relativizado com
que? Não sabemos se se trata ou não de movimento de toda a expressão-Q.
Mas como nesses casos o verbo (ou o nome/adjetivo) possibilita a recuperação
do constituinte, quer seja o sujeito ou o objeto direto, podemos concluir que
a estratégia do movimento é desnecessária e que, em consequência, não deve
ser ela que está em jogo nas relativas que relativizam um SN.
GRAMATICA 3.indb 252 6/11/2009 14:47:22
AS CONSTRUÇÕES-Q NO PORTUGUÊS BRASILEIRO FALADO
253
3. As sentenças clivadas
As gramáticas normativas do português não analisam o fenômeno da
clivagem. Algumas apresentam exemplos de sentenças clivadas, referindo-se
à palavra que ou à locução é que como partículas expletivas, ou de realce ou
ênfase.
Na literatura linguística, a clivagem é, muitas vezes, entendida como uma
operação que se aplica a uma sentença qualquer, como (20a), e a cinde em
duas, como exemplificamos em (20b) e (20c):
(20) a) O menino comeu a torta b) Foi [o menino] que comeu a torta.
c) O menino comeu a torta d) Quem comeu a torta foi [o menino].
O resultado dessa cisão é que ela produz um nível de encaixe, em (20b)
[que comeu a torta] e em (20c) [quem comeu a torta], ausente da sentença que
sofreu o processo de clivagem. A sentença em (20b) é identificada como uma
clivada e o que permite identificá-la como tal é o verbo ser e o complementi-
zador que; a de (20c) é identificada como uma pseudoclivada e o que permite
identificá-la como tal é, além do verbo ser, o pronome-Q quem.
A operação de clivagem é realizada necessariamente para destacar sintati-
camente um sintagma como foco, em (20) os constituintes entre colchetes.
Dizemos sintaticamente porque o foco é, por definição, o elemento prosodi-
camente saliente na sentença. Assim, por exemplo, a sentença complexa de
(20b) só pode ser uma clivada se o constituinte entre colchetes for o foco e,
por isso, marcado por um pico acentual [a sílaba que recebe o pico acentual
vai ser escrita em maiúsculas em (21)]. Nesse caso, (20b) pode responder a
uma pergunta como a que temos em (21a), com o menino sendo o foco da
resposta.
(21) a) Quem foi que comeu a torta? b) Foi [o meNIno] que comeu a torta.
c) Quem saiu correndo? d) Foi [o menino que comeu a TORta].
A pergunta em (21a) induz que o foco na resposta é [o menino], constituinte
sobre o qual recai o pico acentual e, nesse caso, a resposta é uma clivada: o
foco se localiza entre a cópula e o complementizador. Mas a pergunta em
(21b) induz que o foco na resposta é [o menino que comeu a torta], com o pico
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254
acentual sobre torta, e, nesse caso, a resposta não é uma clivada: agora o que
é um pronome relativo e não contribui para isolar o foco. Como a noção de
foco é fundamental para o estudo da clivagem, vamos mostrar rapidamente
como se identifica o foco de uma sentença.
3.1. O foco
É de regra que toda sentença veicula foco. Às vezes, toda a sentença é o
foco, caso em que temos o foco sentencial, largo; outras vezes apenas um dos
constituintes dela, caso em que temos foco de constituinte, estreito.
Uma estratégia para localizar o foco é utilizar um par contendo uma
pergunta-Q e a resposta. Dadas as perguntas em (22), o foco vai ser o cons-
tituinte entre colchetes na resposta, justamente aquele que dá o valor para o
pronome-Q:
(22) a) – Quem comeu a tua torta?
– [O Garfield] comeu a minha torta.
b) – O que o Garfield comeu?
– Ele comeu [a minha torta].
c) – O que o Garfield fez?
– Ele [comeu a minha torta].
O resto do material que a resposta contém, como já está presente na pergun-
ta, faz parte da pressuposição. Observe que o foco é marcado prosodicamente
por um pico acentual onde quer que ele apareça. Se aparece como último
constituinte da sentença, seu acento vai coincidir com o acento nuclear da
sentença, que em (22b) e (22c) recai sobre a palavra torta. Quando o foco é
o sujeito da sentença, ele vai puxar para si o pico acentual. Assim, em (22a),
não vai haver coincidência entre o acento nuclear e o acento focal e este vai
recair sobre Garfield.
Se, por outro lado, a pergunta é a que temos em (23), a resposta vai ser
toda ela o foco:
(23) – O que houve?
– [O Garfield comeu a minha torta].
GRAMATICA 3.indb 254 6/11/2009 14:47:22
AS CONSTRUÇÕES-Q NO PORTUGUÊS BRASILEIRO FALADO
255
Temos aí um caso em que toda a sentença é o foco, já que nada da pergunta
é repetido na resposta. Agora, o acento nuclear vai recair sobre a palavra torta,
embora o foco seja toda a sentença.
O foco informacional tal como reconhecido em (22) e (23) coincide com
a noção discursiva de informação nova e deve ser diferenciado do foco con-
trastivo (agora marcado por maiúsculas). Esse tipo de foco denega uma afir-
mação anterior, como a que temos em (24a), e a sentença pode ter acréscimo
da negação entre parênteses em (24b-f ):

(24) a) – O Garfield comeu a torta.
b) – Não, ele comeu [O HAMBÚRGUER] (não a torta).
c) – Não, ele [ESCONDEU] (não comeu) a torta.
d) – Não, (ele não comeu a torta) ele [TOMOU O LEITE].
e) – Não, [O JON] comeu a torta (não o Garfield).
f ) – Não, [o HAMBÚRGUER] ele comeu (não a torta).
O foco contrastivo no português se obtém com acento extra in situ. Em
certos casos, o constituinte focalizado contrastivamente aparece na periferia
esquerda da sentença, como exemplificamos com o objeto o hambúrguer em
(24f ). O foco contrastivo pode, ainda, corresponder a uma informação dada,
às vezes, a um subconjunto de um conjunto anteriormente mencionado:
(25) a) – O Garfield comeu a torta e o hambúrger.
b) – Não, ele comeu [O HAMBÚRGUER] (a torta não).
c) – Não, [O HAMBÚRGER] ele comeu (a torta não).
Como veremos, as sentenças clivadas correspondem a recursos para des-
tacar, na sentença, o foco da pressuposição, seja apenas para identificar o
foco informacional ou para contradizer algo afirmado ou pressuposto, caso
do foco contrastivo.
3.2. Tipos de sentenças clivadas
3.2.1. Clivadas canônicas pessoais e impessoais
Nas clivadas canônicas, o foco aparece depois da cópula e é seguido por
uma sentença encabeçada por um que invariável. O constituinte clivado pode
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ser foco informacional ou contrastivo, mas essa distinção será ignorada aqui.
Nas clivadas a cópula pode concordar com o elemento clivado em pessoa e
número, se ele for nominal, e com o tempo do verbo subordinado, como
vemos em (26a):
(26) a) Foram [as crianças] que viram a Gabriela.
b) É [o João] que saiu. (versus Foi o João que saiu)
c) É [os meninos] que vão comigo.
A modalidade atual do português brasileiro popular prefere a clivada sem
concordância de tempo ou de número e pessoa, tal como exemplificamos
em (26b, c), que chamamos de impessoal: em (26b) falta a concordância de
tempo e em (26c) falta a de número.
Abaixo se encontram exemplos de clivadas pessoais e impessoais encontrados
no corpus do Nurc. Os dois tipos são apresentados na mesma seção porque, na
maioria dos casos, os exemplos são ambíguos entre ser clivada pessoal e clivada
impessoal, quando o foco nominal é singular e o tempo é o presente.
(27) a) era [aí] que eu ia dormir.
(DID SP)
b) é [a família] que comprava o título.
(D2 SP)
c) é [por isso] que eu penso que em matéria de cinema... deveríamos explorar essa.
(EF SP)
d) é [isso] que o Chico Anísio está... ah... caçoando.
(D2 SP)
e) era [ela] que tomava conta da casa.
(DID SP)
f ) ... então é... são [essas profissões] que... porque qualquer pe/profissão.
(DID SP)
É curioso notar que em (27f ) o falante interrompeu a frase e mudou seu
padrão sintático de concordância, demonstrando certa hesitação, o que mostra
que ele passa da estratégia vernacular sem concordância para a estratégia-
padrão com concordância.
GRAMATICA 3.indb 256 6/11/2009 14:47:22
AS CONSTRUÇÕES-Q NO PORTUGUÊS BRASILEIRO FALADO
257
3.2.2. Clivadas invertidas
Esse tipo de clivada tem o foco movido para antes da cópula, que tende a
permanecer invariante. O foco tem sempre uma leitura contrastiva:
(28) a) [As crianças] é que viram a Gabriela, (não os vizinhos).
b) [A Gabriela] é que as crianças viram, (não a Margarida).
É esse o tipo mais frequente na amostra estudada, podendo o foco ser
tanto um argumento quanto um adjunto.
(29) a) [por isso] é que eu acho que a coisa é muito difícil de acontecer.
(D2 SP)
b) Porque o alvaiade de zinco não faz mal; [o alvaiade de chumbo] é que faz
mal.
(D2 SP)
c) quer dizer que [depois que eu... pude escolher o que eu queria fazer] é que eu...
tomei outras deliberações.
(DID SP)
d) e [nós] é que deveríamos conservar?
(D2 SP)
e) [As moças] é que usavam sapato... sem conforto.
(D2 SP)
f ) [Os organismos empresariais]*sobretudo é que têm necessidade de ter relações
digamos mais... éh... mais constantes.
(DID SP)
g) [Os futuros historiadores] é que vão poder aferir com precisão o que que acon-
teceu.
(D2 SP)
h) ... [ultimamente] foi que ele fez o curso de Direito e veio para São Paulo.
(DID SP)
O exemplo (29h) é o único em que a cópula aparece concordando com o
tempo do verbo subordinado.
3.2.3. Clivadas sem cópula ou reduzidas
As sentenças clivadas podem aparecer sem a cópula, como exemplificamos
com os dados em (30):
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(30) a) [Eu] que entro.
b) Um só nada faz, [o conjunto] que opera.
Pode-se dizer que este é um tipo inovador no português brasileiro. Veja
os exemplos extraídos da amostra analisada:
(31) a) [Por isso] que eu estou dizendo...
(D2 RJ)
b) [Aí] que entra o problema de dinheiro.
(D2 RJ)
c) Agora quando ele viu que os irmãos aprendiam francês e [ele só] que não falava
então ele quis aprender francês também.
(D2 SP)
d) esse daí aprende francês também... versinhos... vocabulário... mas [ele] que
pediu também.
(D2 SP)
e) [Por isso] que ele (o camarão) fica um pouco cor de rosa.
(D2 POA)
3.2.4. Pseudoclivadas canônicas
Trata-se de uma construção na qual o sujeito é uma relativa livre (em ne-
grito) e o predicado pós-cópula é o foco. Teoricamente qualquer pronome-Q
pode encabeçar a relativa livre, como nos exemplos abaixo:
(32) a) O que eu quero é [um cafezinho].
b) Quem telefonou foi [o João].
c) Onde a Gabriela mora é [aqui].
d) Quando a polícia vai fechar a Paulista é [amanhã].
O que ocorre nos dados da amostra, contudo, é que o pronome-Q da
relativa livre é sempre um SN argumento (sujeito ou objeto, quem ou o que).
O predicado focal, por sua vez, pode ser um constituinte da sentença, como
em (33a-e), ou uma sentença inteira, como em (33f, g):

(33) a) o que eu leio habitualmente é [o jornal].
(D2 SP)
GRAMATICA 3.indb 258 6/11/2009 14:47:23
AS CONSTRUÇÕES-Q NO PORTUGUÊS BRASILEIRO FALADO
259
b) descobrimos que o que Jean procurava na pintura não é [a própria pintura],
o que ele procurava na pintura é [a relação harmoniosa]
(EF SP)
c) quem fazia a roupinha era [eu e mamãe].
(D2 SP)
d) o que vamos encontrar ao longo do caminho... é [o sofrimento dos homens].
(EF SP)
e) o que eu observei... foi... naturalmente... [isso].
(DID SP)
f ) o que acontece é [que as épocas estão evoluindo].
(DID SP)
g) o que eu quero salientar é [que... no séc. XVIII existiram... indivíduos que...
defenderam esta ideia.].
(EF SP)

3.2.5. Pseudoclivadas reduzidas
As pseudoclivadas reduzidas são as construções que parecem ser uma pseu-
doclivada com o pronome-Q omitido, como vemos nas sentenças em (34)
obtidas a partir das sentenças em (33):

(34) a) eu leio habitualmente é [o jornal].
b) ele procurava na pintura... é [a relação harmoniosa]...
c) vamos encontrar ao longo do caminho... é [o sofrimento dos homens].
d) acontece é [que as épocas estão evoluindo].
e) eu observei... foi... naturalmente... [isso].
f ) eu quero salientar é [que... no séc. XVIII existiram indivíduos que...
defenderam esta ideia].
É curioso que nesse tipo temos a impressão de que a cópula pode “pas sear”
pela sentença marcando o constituinte, que é o foco. O formato do prono-
me-Q omitido é ditado pelo constituinte que se situa após a cópula:
(35) a) (O que ) o João quer é [sambar na Portela no próximo carnaval].
b) (Onde) o João quer sambar é [na Portela] no próximo carnaval.
c) (Quando) o João quer sambar na Portela é [no próximo carnaval].
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As pseudoclivadas reduzidas parecem ser mais facilmente encontradas e
aceitas com argumentos, embora no corpus ocorram casos de adjuntos com
como [cf. (36b)].
Os exemplos abaixo são de pseudoclivadas reduzidas encontrados na amos-
tra estudada:
(36) a) eu sinto é que, por dever do ofício, quer dizer, como professor, [eu tenho que
comentar o assunto...].
(D2 SP)
b) eu viajo mais é [fazendo turismo mesmo].
(D2 SP)
c) e a socialista União Soviética queriam mais é [que a Birmânia morresse].
(EF RJ)
d) eu me prendo mais é [à parte de frutas].
(DID RJ)
e) gostei bastante foi [a última (peça de teatro) que eu assisti] mas não me
lembro o nome dela.
(DID SP)
f ) aqui em casa geralmente a titia compra muito é [alcatra].
(DID RJ)
3.2.6. Pseudoclivadas invertidas
São construções raras no corpus. Seu foco vem preposto à copula, a qual
vem seguida da relativa livre que foi extraposta.
(37) [Isso] foi o que mais me impressionou.
(DID SP)
3.2.7. Pseudoclivadas extrapostas
São construções em que o constituinte focalizado aparece depois da có-
pula, com leitura de foco contrastivo, e a relativa livre aparece depois do
constituinte clivado.
(38) a) Foi [a Gabriela] quem as crianças viram.
b) É [aqui ] onde a Gabriela mora.
GRAMATICA 3.indb 260 6/11/2009 14:47:23
AS CONSTRUÇÕES-Q NO PORTUGUÊS BRASILEIRO FALADO
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Embora aceitos por falantes cultos, exemplos desse tipo também não são
encontrados na amostra de língua falada examinada.
3.2.8. Clivadas apresentativas
A clivagem, como vimos, é um recurso usado para focalizar um consti-
tuinte (argumento ou adjunto) de uma sentença. É possível, contudo, termos a
sentença toda como o elemento marcado como foco, sem que se configure
a situação de foco de constituinte. Esse tipo é o que se chama clivada apre-
sentativa e o exemplificamos no diálogo em (39):
(39) A “Você podia ir ao centro da cidade pagar estas contas para mim.”
B “(Acho que não. Acho que ninguém devia andar pelo centro. Está muito
perigoso.) É que [bandidos estão matando policiais].”
Não se deve confundir, contudo, esse tipo de sentenças com causativas
como a de (40), mesmo tendo em conta que (por) que os bandidos estão ma-
tando policiais é o foco:
(40) A “Por que está todo mundo correndo?”
B “É (por) que os bandidos estão matando policiais.”
Na seção seguinte, veremos os tipos encontrados na amostra do Nurc–SP.
Nossa análise se limita apenas ao corpus de São Paulo porque a variável “região”
não se revelou um fator relevante em outros estudos e pelo fato de a amostra
do corpus representativo das regiões não conter dados suficientes.
3.3. Variação entre os tipos de clivagem
2
A comparação em Kato et al. (2002) foi feita apenas entre os tipos mais
recorrentes, a saber: clivadas, clivadas invertidas e pseudoclivadas. O primeiro
quadro mostra a ocorrência dos três tipos de clivagem no corpus Nurc–SP,
conforme o tipo de discurso:
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262
(41)
Tabela 2 — Total de ocorrências dos tipos de clivagem em cada tipo de elocução dos dados do Nurc–SP
Pseudoclivada Clivada Clivada invertida Total
(N
o
) % (N
o
) % (N
o
) % (N
o
)
EF (9) 23,5 (2) 8,0 (7) 10,5 (18) 14,0
D2 (20) 53,0 (15) 60,0 (31) 47,0 (66) 51,0
DID (9) 23,5 (8) 32,0 (28) 42,5 (45) 35,0
Total (38) 100,0 (25) 100,0 (66) 100,0 (129)
Examinando a tabela acima, pode-se dizer que as sentenças clivadas ten-
dem a ser usadas mais frequentemente nas situações de fala menos formais,
vale dizer, D2s, sendo evitadas nas EFs a situação de fala que requereu maior
grau de planejamento e monitoração; os DIDs, que parecem ocupar posição
intermediária no que concerne à formalidade, ficam a meio do caminho no
que diz respeito à frequência de uso de sentenças clivadas.
As clivadas invertidas constituem a estratégia de focalização mais recorrente
e seu padrão distribucional conforma-se ao descrito acima: uso rarefeito nas
EFs em contraposição à utilização frequente nas situações de fala mais casuais,
D2s e DIDs. A distribuição a que nos referimos pode ser observada, também,
a propósito das clivadas, construções de baixa ocorrência nas amostras de fala
analisadas. As pseudoclivadas distinguem-se dos dois outros subtipos no que
diz respeito à correlação com situação de fala, já que, não obstante a predo-
minância nos D2s, apresentam percentagens idênticas para EFs e DIDs.
Quanto ao constituinte focalizado, os dados do Nurc–SP não contradizem
o que dizem estudos gerativos, que mostram que qualquer constituinte pode,
em princípio, ser focalizado por qualquer tipo de clivagem, mas indicam que
essa possibilidade não se confirma em termos quantitativos.
Assim, as pseudoclivadas focalizam predominantemente o objeto direto
(63%) e quase nunca os adjuntos; as clivadas focalizam muito tanto sujeito
(36%) quanto objeto direto (36%); e as clivadas invertidas focalizam predo-
minantemente sujeito (50%) e adjuntos (41%). O quadro abaixo apresenta
os números e as porcentagens de cada constituinte focalizado por cada tipo
de clivagem.
GRAMATICA 3.indb 262 6/11/2009 14:47:23
AS CONSTRUÇÕES-Q NO PORTUGUÊS BRASILEIRO FALADO
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(42)
Tabela 3 — Estatuto sintático do elemento focalizado em cada tipo de clivada dos dados do Nurc–SP
Clivadas Pseudoclivadas Clivadas invertidas Total
(N
o
) % (N
o
) % (N
o
) % (N
o
) %
Sujeito (9) 36,0 (11) 29,0 (33) 50,0 53
Objeto direto (9) 36,0 (24) 63,0 (3) 4,5 36
Objeto indireto (2) 8,0 (2) 5,0 (3) 4,5 7,0
Adjunto de tempo (2) 8,0 – – (18) 27,5 20
Adjunto de lugar (2) 8,0 – – (2) 3,0 4
Adjunto de causa (1) 4,0 – – (6) 9,0 7
Adjunto de modo – (1) 3,0 (1) 1,5 2
Total (25) 100,0 (38) 100,0 (66) 100,0
Apud Kato et al. (2002)
Uma explicação funcional diria que a escolha de uma alternante clivada
particular é sensível ao estatuto informacional e ordem neutra dos constituintes
sintáticos que são focalizados. Assim, a informação nova tende a ser introduzida
pelos objetos diretos que, não marcadamente, ocorrem na posição pós-verbal.
Ao focalizar um elemento na posição de objeto direto, por intermédio de uma
pseudoclivada, o falante preserva a ordem não-marcada dos constituintes e,
simultaneamente, atende ao requisito de que a informação velha preceda a
informação nova. A codificação da informação nova requer, usualmente, maior
quantidade de material linguístico e tal fato explica por que os constituintes
clivados por pseudoclivadas são, usualmente, mais “pesados” do que aqueles
focalizados por clivadas e clivadas invertidas.
Mas as explicações funcionais e formais nem sempre podem ser harmo-
nizadas. Por exemplo, a ausência de PCs que focalizam adjunto pode receber
uma explicação formal em termos de incompatibilidade de combinação, que
discutiremos mais adiante. Observe que a expressão Q da relativa livre tem de
satisfazer algum requerimento presente na sentença matriz: por exemplo, a
sentença [*Ele confia de quem ela desconfia] é agramatical porque a expressão de
quem não satisfaz as propriedades de subcategorização do verbo confiar. Como
a relativa livre das pseudoclivadas está em posição de sujeito, sua expressão Q
deve ser do tipo SN, para ser compatível com nominativo: por isso, a relativa
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livre vai muito bem se é encabeçada por o que ou quem. Ao focalizarmos um
adjunto, porém, a expressão Q deve ser do tipo SPrep (onde, quando, por onde,
de onde, como), incompatível com o caso nominativo da posição de sujeito:
veja que a sentença [Por onde a Maria passou foi por aqui] não é nada natural.
Entretanto, se o adjunto é focalizado em uma pseudoclivada reduzida, sem a
expressão Q, a sentença é perfeita: [A Maria passou foi por aqui]. Nas clivadas,
como não existe expressão Q, nenhuma incompatibilidade se verifica e um
SPrep pode ser focalizado normalmente.
4. As sentenças interrogativas-Q
As sentenças interrogativas podem ser de dois tipos, segundo as respos-
tas que lhes devem ser dadas. As do primeiro tipo pedem como resposta a
confirmação ou a desconfirmação de um fato e, por isso, são chamadas de
interrogativas sim/não, como exemplificamos em (43):
(43) a) Você gosta de literatura de cordel?
(D2 REC)
b) Mas não é aquela (estrada) que... ainda passa por Monlevade?
(D2 SSA)
c) A sua família é grande?
(D2 SP)
As do segundo tipo são chamadas de interrogativas-Q, pois contêm um
pronome-Q:

(44) a) Quem não é apaixonado por Olinda?
(D2 REC)
b) Qual é o pior... horário... dessa saída da cidade... de manhã?
(D2 SSA)
c) Que tipo de carreira... fora essa... seriam digamos convenien te...
(D2 SP)
d) Onde é que elas estão?...
(D2 SP)
As respostas adequadas a essas perguntas são induzidas pelos pronomes ou
pelas expressões-Q. Quando a pergunta é feita com o pronome quem o que se
GRAMATICA 3.indb 264 6/11/2009 14:47:23
AS CONSTRUÇÕES-Q NO PORTUGUÊS BRASILEIRO FALADO
265
espera como resposta é a identificação de uma pessoa; com o pronome onde
é um lugar; e com a expressão [que tipo de carreira] é um tipo de carreira. O
pressuposto que subjaz às perguntas-Q pode ser expresso de modo simplificado
pela fórmula em (45a):
(45) a) Existe um x que é pessoa em (44a), que é um horário em (44b), que é um
tipo de carreira em (44c), que é um lugar em (44d).
b) Para qual x é verdade que x não é apaixonado por Olinda em (44a), que x
é o pior horário em (44b), que x seria conveniente em (44c), que eles estão
em x (44d).
O pronome-Q opera sobre o pressuposto de tal forma que a pergunta pode
ser parafraseada simplificadamente por (45b). Por isso, os pronomes-Q são
operadores e a variável sobre a qual eles operam é x em (45).
As sentenças interrogativas podem ser matrizes ou encaixadas. As primeiras
são usadas para fazer uma pergunta direta [cf. (44)]. As últimas são depen-
dentes e sempre ocorrem para satisfazer as exigências de um item da sentença
matriz, em geral um verbo. Como o escopo da pergunta se circunscreve à
sentença encaixada, elas não fazem a sentença toda ser uma pergunta e isso é
representado na escrita pelo ponto final (46):
(46) a) nós não sabemos [quanto tempo Olinda ainda vai viver porque ela tá escor-
regando para o mar].
(DID REC)
b) eu não sei [se é pela dificuldade que eles têm...].
(DID RJ)
(47) eu acho [que aqui nós já temos certas estradas relativamente bem sinalizadas].
(D2 SSA)
A sentença encaixada em (47) contrasta com as de (46) por ser uma decla-
rativa, o que é marcado pelo complementizador que, que sozinho é incapaz
de marcar uma sentença como interrogativa. Para que seja interrogativa, a
sentença deve conter na periferia esquerda ou um pronome-Q, como quanto
em (46a), ou o complementizador interrogativo se, como em (46b).
Por fim, as interrogativas-Q podem ser infinitivas:
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CARLOS MIOTO
266
(48) a) o que falar agora sobre peças?
(DID SP)
b) não sei o que te responder.
(DID SP)
4.1. Os pronomes-Q interrogativos
Os pronomes-Q interrogativos podem ser distribuídos em duas classes
segundo a capacidade de embutir ou não em sua constituição morfológica o
universo sobre o qual eles operam. Os do primeiro tipo são exemplificados
em (49):
(49) a) ... quem não gosta [de literatura de cordel]? (D2 REC) Q > humano
b) o que as levou [a] escolher a carreira? (D2 SP) Q > coisa
c) onde é que elas estão?... (D2 SP) Q > lugar
d) como é que se transporta um... um caminhão desse tipo de um lugar para o
outro? (D2 SSA) Q > modo
e) quando é que ela [a vida estudantil] se formaliza?
(DID SSA) Q > tempo
Em (49) vemos que cada pronome-Q define o universo sobre o qual ele
opera, direcionando a resposta esperada: em (49a) quem determina que a
resposta é um ser humano; em (49b) uma coisa; em (49c) um lugar; e assim
por diante.
A classe de pronomes-Q contém também itens que não trazem embutido
o domínio de operação e, por isso, se combinam com um restritor nominal.
Esses pronomes-Q são exemplificados em (50):
(50) a) que serviços prestariam então uma cooperativa?
(DID REC)
b) quantos grupos estiveram... aqui presen:tes... fazendo aquele trabalho de:...
definição?
(EF REC)
b’) você já imaginou para ((ruído de garganta)) para fazer a peça Hair quanta
gente que não foi... éh éh::não foi éh::preparada.
(DID SP)
c) qual outro filme que... o público infantil ... gostou?
(DID SP)
GRAMATICA 3.indb 266 6/11/2009 14:47:23
AS CONSTRUÇÕES-Q NO PORTUGUÊS BRASILEIRO FALADO
267
Eles têm comportamento semelhante ao dos determinantes/quantificadores
nominais, pois operam semanticamente sobre um nome. Nesse caso, concor-
dam com o nome, concordância esta que é manifesta pelo menos com os que
são flexionáveis como qual, em número, como vemos em (50c), e quanto, em
gênero e número, como vemos em (50b, b’). Além da capacidade de concordar
com um nome, os itens interrogativos que/qual/quantos manifestam outro
indício de que são determinantes: eles estão em distribuição complementar
com outros determinantes como o ou este. O fato de qual e o determinante o
ocorrerem contíguos em exemplos como (51a) não contradiz a afirmação de
que eles estão em distribuição complementar:
(51) a) qual o prato mais exótico que já comeram?
(DID REC)
b) qual é o prato mais exótico que já comeram?
Em (51a) a contiguidade ocorre porque a cópula, presente em (51b), foi
apagada. Alegar isso é justificável, pois, se não, teremos uma interrogativa sem
verbo matriz: o verbo comer não pode ser o verbo da matriz, pois pertence à
sentença relativa.
Ademais, a classificação desses itens como determinantes poderia ser man-
tida para sentenças em que o que faz parte de um sintagma preposicional sem
ter um SN restritor pronunciado, como nos dados em (52):
(52) a) de que se compõe a universidade?...
(DID SSA)
b) por que é que não tem que se considerar [a sociologia jurídica] ciência?
(DID POA)
Nesses casos, o SN não-pronunciado/não-escrito é identificado pelo item
que seleciona o determinante-Q: em (52a) é o verbo compor e, por isso, o
restritor deve ser um nome que significa algo como partes; em (52b) deve ser
um nome como motivo selecionado pela preposição por.
Os pronomes qual e quanto podem quantificar também sobre um sintagma
preposicional, como mostram os dados em (53):

(53) a) qual dos dois é mais comple(to)?
(EF POA)
GRAMATICA 3.indb 267 6/11/2009 14:47:24
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268
b) dos instrumentos musicais qual você prefere?
(DID POA)
c) eu pago agora... não sei quanto de UPCs, vírgula zero, zero.
(D2 RJ)
O exemplo (53b) ilustra um caso em que o restritor sobre o qual o pronome
qual quantifica foi topicalizado. Em todos os dados de (53), não se verifica,
como é de se esperar, a concordância do pronome com o nome interno ao
sintagma preposicional. Entretanto, o pronome-Q pode aparecer flexionado,
como em (54), por exemplo:
(54) Dos instrumentos musicais, quais você prefere?
Nesse caso, supomos um SN não-pronunciado, como instrumentos, para desen-
cadear a concordância de número. Fenômeno semelhante se verifica em (55), onde
os pronomes-Q exemplificados em (50) também podem aparecer sozinhos:
(55) a) ... qual é o outro tipo de escola que a criança CHEga... depois do ma-
ternal?
(DID SSA)
b) ... a... classe não é grande... dos procuradores do Estado com quantos estão agora?
(D2 SP)
c) que é que um professor faz?...
(DID SSA)
Em (55a) qual é separado do sintagma sobre o qual opera pela cópula;
em (55b), quantos ocorre sozinho, mas da concordância e do contexto se
deduz que ele opera sobre procuradores; em (55c), que não parece operar so-
bre nenhum restritor específico e sua interpretação é semelhante à do pro-
nome-Q o que.
4.2. Os tipos de interrogativas-Q
4.2.1. As interrogativas com Q in situ e deslocado
As sentenças interrogativas do PB podem apresentar tanto a expressão-
Q in situ, como vemos em (56), quanto deslocada na periferia esquerda da
sentença, como mostram os dados de (57):
GRAMATICA 3.indb 268 6/11/2009 14:47:24
AS CONSTRUÇÕES-Q NO PORTUGUÊS BRASILEIRO FALADO
269
(56) a) cada::...formatura tinha o quê, além do do da colação de grau?
(DID SSA)
b) um apartamento de 1.000 cruzei ros... é apartamento de quê?
(D2 RJ)
(57) a) o que a senhora considera uma boa peça teatral?
(DID SP)
b) que tipo de assistência jurídica o sindicato presta?
(DID REC)
c) quem que a senhora acha que cuida de toda essa parte?...
(DID SP)
O lugar que a expressão-Q ocupa é, como foi afirmado para os pronomes
relativos, o especificador de SC. Às vezes, a posição de onde a expressão-Q é
deslocada pertence a uma sentença encaixada, como mostra (57c). Entretan-
to, se a interrogativa é encaixada, a expressão-Q não pode manter-se in situ,
como vemos em (58):
(58) a) eu poderia perguntar também o que estuda a sociologia jurídica.
(EF REC)
b) *Eu poderia perguntar também (que) a sociologia jurídica estuda o quê.
4.2.2. As interrogativas com ordem verbo-sujeito
Quando a expressão-Q está deslocada, o sujeito pode ocasionalmente se
apresentar depois do verbo finito, o que pode acontecer tanto na sentença
matriz como na encaixada:
(59) a) o que fizeram as economias industriais adiantadas da época... que ganharam
Segunda Grande Guerra?
(EF RJ)
b) de que se compõe a universidade?...
(DID SSA)
c) eu pergunto... o que estuda a sociologia do direito.
(EF REC)
GRAMATICA 3.indb 269 6/11/2009 14:47:24
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270
4.2.3. As interrogativas clivadas
As interrogativas podem ser estruturadas com a cópula e o complementiza-
dor que seguindo a expressão-Q e, por isso, serão chamadas de interrogativas
clivadas:
(60) a) que é que um professor faz?...
(DID SSA)
b) o que é que a gente fazia como é que era... a::a verificação no nosso tempo de
escola?
(DID RJ)
c) o que foi que vocês encontraram?
(EF REC)
d) ele pode... me dizer o que foi que o conferencista disse?
(EF POA)
Esse tipo de interrogativa tanto pode figurar como sentença matriz [cf.
(60a, b, c)] quanto como encaixada [cf. (60d)]. Às vezes, a cópula se apresenta
com o mesmo tempo do verbo principal, como vemos em (60a, c, d); outras
vezes, a cópula fica simplesmente no presente, em discordância com o tempo
do verbo principal, como vemos em (60b).
4.2.4. Interrogativas clivadas sem cópula
As interrogativas podem, ainda, ter uma expressão-Q na periferia esquerda
da sentença seguida pelo complementizador que, espelhando o fenômeno
conhecido como Comp duplamente preenchido:
(61) a) quem que a senhora acha que cuida de toda essa parte?...
(DID SP)
b) qual que seria o material?
(DID SSA)
c) por que que a senhora gostou dessa peça?
(DID SP)
d) você sabe o que que é UPC?
(D2 RJ)
Esse fenômeno se verifica tanto em sentenças matrizes [cf. (61a, b, c)]
como em encaixadas [cf. (61d)].
GRAMATICA 3.indb 270 6/11/2009 14:47:24
AS CONSTRUÇÕES-Q NO PORTUGUÊS BRASILEIRO FALADO
271
4.3. Variação nas interrogativas-Q
3
A variação nas interrogativas-Q se verifica nos seguintes pontos: a ordem
sujeito-verbo versus a ordem verbo-sujeito, pronome-Q in situ versus deslocado
e interrogativa clivada versus não-clivadas. A motivação para estudar esses
pontos parece ter duas fontes. Uma provém da observação de que o português
brasileiro sofreu mudanças sintáticas direcionadas da ordem verbo-sujeito à
sujeito-verbo, do pronome-Q deslocado à in situ e da interrogativa não-cli-
vada à clivada, à clivada reduzida. A outra motivação é comparativa e brota
da comparação do português brasileiro, que se põe do lado direito da seta,
com o português europeu, que parece não se colocar (mais) do lado direito
da seta. O que se presume é que os vários tipos de interrogativas convivem
“pacificamente” no português brasileiro falado atual.
Quanto à ordem sujeito-verbo versus verbo-sujeito, a análise da amostra
do Nurc mostra que os dados se distribuem equitativamente entre as duas.
O fator que influencia mais fortemente a frequência da ordem verbo-sujeito
é o tipo de verbo, como observamos na tabela em (62):
(62)
Tabela 4 — Porcentagem e peso relativo da ordem verbo-sujeito segundo o tipo de verbo
Tipo de verbo Porcentagem V-S Peso relativo V-S
Cópula 89% (51/57) .87
Intransitivo 45% (5/11) .72
Reflexivo 40% (4/10) .64
Transitivo 14% (8/57) .10
Apud Kato et al. (2002).
Dentre eles, existe uma oposição nítida entre os copulares e os transitivos,
os primeiros favorecendo fortemente a ordem verbo-sujeito. O outro fator que
influencia relevantemente essa ordem é a dimensão silábica do sujeito:
GRAMATICA 3.indb 271 6/11/2009 14:47:24
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272
(63)
Tabela 5 — Porcentagem e peso relativo da ordem V-S segundo a dimensão do sujeito
Dimensão do sujeito Porcentagem V-S Peso relativo V-S
9 ou mais sílabas 96% (24/25) .71
6 a 8 sílabas 93% (14/15) .93
3 a 5 sílabas 45% (25/55) .27
1 ou 2 sílabas 15% (6/41) .46
Apud Kato et al. (2002).
Sujeitos com maior número de sílabas tendem fortemente a vir pospostos
ao verbo. Assim, os dois fatores que têm maior influência no desencadeamento
da ordem verbo-sujeito residem no tipo de verbo e no tamanho do sujeito:
a ordem verbo-sujeito não parece um fenômeno tipicamente associado às
interrogativas-Q
No que diz respeito aos outros fenômenos observados na seção anterior,
numa amostra de textos jornalísticos, os autores deste capítulo encontraram
os resultados em (64):
(64)
Tabela 6 — Tipos de interrogativas-Q no português brasileiro
Tipos de interrogativas-Q
Q movido Q in situ Clivadas Clivadas reduzidas Total
N
o
% N
o
% N
o
% N
o
% N
o
%
238 65,75 32 8,84 72 21,95 4 1,10 362 100
Adaptado de Kato e Mioto (2005).
Nessa amostra, observa-se que os quatro tipos de interrogativas-Q são
encontrados. Podemos dizer que na Tabela 6 existem dois grupos em varia-
ção. O primeiro engloba interrogativas com o pronome-Q movido e in situ:
238/88% do total de 270 com deslocamento, contra 32/12% sem. O segundo
grupo engloba as interrogativas clivadas e as clivadas reduzidas: 72/95% de
um total de 76 de clivadas contra 4/5% de reduzidas.
GRAMATICA 3.indb 272 6/11/2009 14:47:24
AS CONSTRUÇÕES-Q NO PORTUGUÊS BRASILEIRO FALADO
273
5. Análise formal das construções-Q
5.1. Introdução
A parte descritiva deste capítulo deixou claro que, nas construções estudadas,
um pronome-Q está envolvido ou um que parecido com um pronome Q, e,
em grande parte de sua ocorrência, ele se desloca para o especificador de SC.
A análise formal desta seção é um detalhamento do que ocorre nesse domí-
nio, considerando a interface da sintaxe com o discurso. Há muitas análises
disponíveis na literatura gerativista, mas aqui elegemos uma perspectiva que
desse maior uniformidade de tratamento às três construções.
5.2. Análise formal das relativas
Uma relativa com núcleo nominal é tradicionalmente considerada um
modificador desse núcleo tendo função paralela à de um sintagma adjetival
(SA), como ilustramos em (65):
(65) a) então tem carreiras que seriam brilhantíssimas para a mulher...
(D2 SP)
b) então tem carreiras brilhantíssimas para a mulher...
Por isso, é considerada tradicionalmente um adjunto do núcleo nominal.
A forma usual de representar um adjunto é dobrar a categoria à qual o cons-
tituinte está adjungido, como vimos no capítulo 4. Assim, a representação
abreviada da parte relevante da relativa em (66a) é (66b):
(66) a) carros muito pesados com cargas muito pesadas... trafeguem... acima, quer dizer,
acima do peso [para o que ela foi construída].
(D2 SSA)
GRAMATICA 3.indb 273 6/11/2009 14:47:24
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274
b) SN
3
SN SC
4 3
peso
j
[para o que
j
]
i
C’
3
C SFlex
4
ela foi construída [__]
i
Em (66b) está anotada a categoria vazia [ _ ]
i
marcando o lugar de onde
o pronome-Q foi movido, análise que é aplicada a uma relativa-padrão. Que
houve movimento da expressão-Q nesse caso é geralmente admitido por
dois motivos: primeiro, a preposição aparece junto ao pronome deslocado;
segundo, o lugar onde a expressão-Q tem sua função gramatical é sistemati-
camente vazio. O movimento do pronome-Q, como aliás qualquer tipo de
movimento, pode ser formulado como exigência do seguinte princípio: existe
um traço atrator na área de pouso do constituinte movido. Como a área de pouso
do pronome-Q é o SC, dizemos que o traço, que podemos chamar de [+Q
rel
],
está em C. Por ser a relativa dependente, o traço [+Q
rel
] que atrai o pronome-
Q está subordinado à sentença matriz, mais propriamente ao núcleo nominal
da relativa. Por isso, se existe pronome-Q nos domínios do traço [+Q
rel
], ele
é obrigatoriamente atraído para o especificador de SC.
Entretanto, as relativas resumptivas e cortadoras apresentam indícios em
contrário à derivação que move o pronome-Q para SC. As primeiras porque
não contêm um vazio na posição de onde o pronome-Q seria movido; as
segundas porque o que elas contêm em SC é apenas um que, mesmo quando
o constituinte relativizado é um SPrep. Por isso, o que à esquerda se parece
muito mais com o complementizador do que com um pronome-Q. Associe-
mos a ambas a mesma representação como adjunto. O mesmo traço [+Q
rel
]
está presente em C, mas, como não há pronome-Q em seu domínio, nada de
visível é atraído para o especificador de SC.
Se assumimos que o que dessas relativas é um complementizador, a repre-
sentação da parte relevante da relativa resumptiva em (67a) é (67b):
(67) a) eu tenho um rapaz que... que ele é de lá de Ituaçu.
(D2 SSA)
GRAMATICA 3.indb 274 6/11/2009 14:47:24
AS CONSTRUÇÕES-Q NO PORTUGUÊS BRASILEIRO FALADO
275
b) SN
3
SN SC
4 3
rapaz
i
C’
3
C SFlex
g 4
que ele
i
é lá de Ituaçu
A de uma cortadora como (68a) é representada em (68b):
(68) a) tem umas pessoas
i
que a gente tem mais intimidade Ø
i
também, né?
(DID POA)
b) SN
3
SN SC
4 3
pessoas
i
C’
3
C SFlex
g 4
que a gente tem mais intimidade Ø
i
A estrutura em (68b) é semelhante a (67b), exceto por conter a categoria
vazia Ø
i
. Como é assumido que em (68) não há um pronome-Q, não se alega
que Ø
i
se tenha formado por movimento.
Como adiantamos na seção 2.1, as relativas-padrão e as cortadoras, por
apresentarem a categoria vazia descrita em (66b) e (68b), criam uma indefi-
nição para a análise de relativas que têm como constituinte relativizado um
SN (sujeito ou objeto direto): a sua periferia esquerda vai ser ocupada com
um que, como exemplificamos com (69):
(69) a) então tem carreiras que seriam brilhantíssimas para a mulher...
(D2 SP)
b) vou aproveitar pra uma coisa que há muito tempo desejava ver... que é o Ma-
quiné.
(D2 SSA)
GRAMATICA 3.indb 275 6/11/2009 14:47:24
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276
Tanto a análise que concebe o que como pronome-Q, aplicando-lhe mo-
vimento para o especificador de SC, como a análise que o concebe como
complementizador, gerando-o em C, são compatíveis com esses dados.
Em resumo, uma relativa com núcleo nominal funciona como adjunto do
nome, independentemente de ser padrão, cortadora ou resumptiva.
Por sua vez, uma relativa livre, que não pode ser adjunto do nome, é uma
sentença que desempenha várias funções sintáticas:

(70) a) quem trabalha fora acumula as coisas da casa.
(D2 SP)
b) tem quem diga que não, que sociologia do direito é estudada por quem faz
ciência social... sociologia jurídica.
(EF REC)
c) eles devem aprender o que a gente ensinar.
(DID SSA)
d) eu acho que morar bem é morar fora da cidade... é morar onde você respi re...
onde você acorde de manhã como eu acordo e veja passarinho à vontade no
quintal.
(D2 REC)
e) ... eu fico...com quem diz que... é igual... é igual...
(EF REC)
f ) então ficou muito bonito quando a gente entrou...
(DID POA)
Em (70a) a relativa livre encabeçada por quem é o sujeito do verbo acumular.
Em (70b) a primeira relativa livre é o complemento do verbo ter; a segunda
relativa é o complemento da preposição por, com a qual constitui o agente da
passiva. Em (70c) o que introduz uma relativa que é objeto do verbo aprender.
Em (70d) as relativas encabeçadas por onde são os complementos locativos do
verbo morar. A relativa de (70e) é o complemento preposicionado do verbo
ficar. E, por fim, a relativa livre de (70f ) é adjunto do predicado da sentença
matriz (cf. cap. 4).
As relativas livres que são complemento de verbo são representadas, de
acordo com o que foi estabelecido no capítulo 2, em (71):
GRAMATICA 3.indb 276 6/11/2009 14:47:25
AS CONSTRUÇÕES-Q NO PORTUGUÊS BRASILEIRO FALADO
277
(71) V’
3
V SC
g 3
tem quem
i
C’
aprender o que
i
3
morar onde
i
C SFlex
4
[__]
i
diga que não,...
a gente ensinar [__]
i

você respire [__]
i
Como o complemento do verbo ficar em (70e) é um SPrep, a relativa livre
deve ser formalmente o complemento da preposição com:
(72) V’
3
V SPrep
g g
fico P’
3
P SC
g 3
com quem
i
C’
3
C SFlex
4
[__]
i
diz que é igual.
A relativa que corresponde ao agente da passiva em (70b) é representada
em (73):
GRAMATICA 3.indb 277 6/11/2009 14:47:25
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278
(73) SV
3
SV SPrep
4 g
estudada P’
3
P SC
g 3
por quem
i
C’
3
C SFlex
4
[__]
i
faz ciência social
Em (73) está representado que SC funciona como complemento da pre-
posição por que encabeça um SPrep adjunto.
A relativa livre de (70f ) é um adjunto temporal e, por isso, vamos repre-
sentá-la em (74) como adjunto do SFlex:
(74) SFlex
3
SFlex SC
4 g
ficou muito bonito quando
1
C’
3
c SFlex
3
SFlex [__]
i
4
a gente entrou
O pronome-Q quando, que traz embutida a noção de tempo, relativiza o
tempo das duas sentenças: da sentença matriz por estar em SC e da sentença
encaixada por ser adjunto de SFlex.
Deixamos para representar por último a relativa sujeito de (70a), porque
ela ocupa a posição derivada de especificador de SFlex, que, como vimos no
capítulo 3, é a posição do sujeito:
GRAMATICA 3.indb 278 6/11/2009 14:47:25
AS CONSTRUÇÕES-Q NO PORTUGUÊS BRASILEIRO FALADO
279
(75) SFlex
3
SC
i
Flex’
3 4
quem
i
C’ [__]
i
acumula as coisas da casa
3
C SFlex
g 4
Ø [__]
i
trabalha fora
Em (75) estão envolvidos dois movimentos: o primeiro desloca o pronome-
Q quem para o especificador de SC, movimento presente em qualquer relativa
livre, como representamos em (71-74); o segundo desloca o SC da posição de
argumento externo de acumular para o especificador de SFlex (sujeito).
Nas representações (71) a (75), observamos que existe dentro de todas as
relativas livres uma categoria vazia que retoma o pronome-Q. Isso nos induz
a pensar que o pronome foi movido para o especificador de SC. Portanto, o
traço [+Q
rel
] está presente em C para atrair o pronome-Q. Entretanto, esse
movimento está sujeito a condições derivadas do fato de a expressão-Q estar
em relação tanto com a sentença matriz como com a relativa. Observe, por
exemplo, (75): quem tem todas as especificações para ser o sujeito do verbo
trabalhar e, no especificador de SC, para marcar a relativa como o sujeito do
verbo acumular. Isto é, o pronome-Q tem de ter forma compatível com as
duas funções que desempenha. Mesmo que a função sintática do pronome-
Q seja diferente nas duas sentenças, a relativa livre pode ser derivada, como
podemos ver voltando a (73): quem tem forma compatível com o sujeito do
verbo fazer (marcado por nominativo) e, no especificador de SC relativo, tem
forma compatível com o complemento da preposição por (marcado por caso
oblíquo). Assim, o pronome quem seria movido para o especificador de SC,
ficando contíguo à preposição. Podemos dizer que o mesmo acontece em
(70e), onde a preposição com é regida pelo verbo ficar:
(70) e) ... eu fico... com quem diz que... é igual... é igual...
(EF REC)
Também existe compatibilidade em exemplos como os de (76), onde a
mesma preposição é regida pelos dois verbos:
GRAMATICA 3.indb 279 6/11/2009 14:47:25
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280
(76) a) Ela sempre gosta de quem o João gosta.
b) Ela desconfia de quem o João gosta.
Em (76) deveria haver a mesma preposição de ocorrendo duas vezes, mas
não é isso que se verifica. Então, temos de supor que uma das ocorrências de
de é apagada nesse caso e, da observação de (77), que a preposição apagada é
aquela regida pelo verbo encaixado:
(77) a) ?João confia em quem a Maria desconfia.
b) *João confia de quem a Maria desconfia.
Em (77a) mantemos a preposição em, regida por confiar, e a sentença
parece aceitável; em (77b) mantemos a preposição de, regida por desconfiar,
e a sentença é inaceitável. Concluindo, pode-se admitir que uma relativa
livre é derivada por movimento do pronome-Q desde que as propriedades
de subcategorização do verbo matriz não sejam violadas.
5.3. A análise formal das clivadas
A clivagem é uma operação que cria sentenças copulares. Para analisá-las,
vamos distinguir dois tipos de cópula: a impessoal, exemplificada em (78), e
a cópula de alçamento, exemplificada em (79):
(78) a) É tarde.
b) É que eu vou viajar.
(79) a) O João é um poeta. a’) *Um poeta é o João.
b) O João é o chefe. b’) O chefe é o João.
Como mostra (78), o que a cópula impessoal seleciona não contém um
constituinte para ser alçado para a posição de sujeito. Por sua vez, a cópula de
alçamento seleciona uma minioração (MO), como representamos em (80):
(80) a) é [
MO
o João [
pred
um poeta]].
b) é [
MO
o João [o chefe]].
GRAMATICA 3.indb 280 6/11/2009 14:47:25
AS CONSTRUÇÕES-Q NO PORTUGUÊS BRASILEIRO FALADO
281
O predicado da MO em (80a), por ser um SN não-definido, é caracterizado
como atributivo. O diagnóstico para reconhecer a MO como atributiva é que
a sentença que a contém resiste ao alçamento do predicado, como mostrado
em (79a’). Já a MO de (80b) tem como predicado um SN definido e, por isso,
é caracterizada como equativa. O que permite diagnosticar esta MO como
equativa é que qualquer dos dois DPs pode ser alçado para a posição de sujeito.
Assim, a derivação das sentenças que contêm cópula de alçamento parte de
(80) e resulta no quadro (81), que obtemos após o alçamento:
(81) a) O João
i
é [
MO
[ _ ]
i
um poeta].
b) *Um poeta
i
é [
MO
o João [ _ ]
i
].
c) O João
i
é [
MO
[ _ ]
i
o chefe].
d) O chefe
i
é [
MO
o João [ _ ]
i
].
Tendo em mente os dois tipos de cópula, passemos à análise das clivadas.
5.3.1. As pseudoclivadas
Uma pseudoclivada, como já apontamos, é uma sentença formada por
uma relativa livre como sujeito e por um predicado que contém uma cópu-
la e um predicativo que pode ser de várias categorias, mesmo outra relativa
livre:
(82) a) [
relativa livre
O que eu quero] [
predicado
é [
SN
um cafezinho]].
b) [
relativa livre
O que Maria é] [
predicado
é [
SA
interessante]].
c) [
relativa livre
Do que estou farta] [
predicado
é [
SP
dessa palhaçada]].
d) [
relativa livre
O que eu quero] [
predicado
é [
SC
que você vá prá casa]].
e [
relativa livre
O que eu quero] [
predicado
é [
SFlex
ir pra casa]].
f ) [
relativa livre
O que Maria é] [
predicado
é [
relativa livre
o que o João foi]].
Uma pseudoclivada reduzida pode ser obtida de (82) pelo apagamento do
pronome-Q de uma pseudoclivada com a relativa livre como sujeito:
(83) a) [
relativa livre
O que eu quero] [
predicado
é [
SN
um cafezinho]].
b) [
relativa livre
O que Maria é [
predicado
é [
SA
interessante]].
c) [
relativa livre
De que estou farta] [
predicado
é [
SP
dessa palhaçada]].
d) [
relativa livre
O que eu quero] [
predicado
é [
SC
que você vá prá casa]].
GRAMATICA 3.indb 281 6/11/2009 14:47:25
MARIA LUIZA BRAGA

MARY A. KATO

CARLOS MIOTO
282
e) [
relativa livre
O que eu quero [
predicado
é [
SFlex
ir pra casa]].
f ) [
relativa livre
O que Maria é [
predicado
é [
relativa livre
o que o João foi]].
Entretanto, essa correlação nem sempre pode ser feita. Às vezes o apaga-
mento do pronome-Q de uma pseudoclivada não resulta numa boa reduzida,
como vemos em (84):
(84) Quem fazia a roupinha era eu e mamãe à *Fazia a roupinha era eu e mamãe.
Outras vezes, não se pode recuperar uma pseudoclivada como a fonte que
teria dado origem à reduzida:
(85) a) *O que o João parece é ser inteligente à O João parece é ser inteligente.
b) *O que o Lula tem é falado pouco e com poucos à O Lula tem é falado
pouco e com poucos.
Para derivar os outros tipos de pseudoclivadas, partimos da estrutura em
(86):
(86) [
IP
é [
MO
[
SN
um cafezinho] [
relativa livre
o que eu quero]]].
Se não alçamos nenhum constituinte, obtemos a pseudoclivada extra-
posta.
(87) É um cafezinho o que eu quero.
Se alçamos a relativa livre, obtemos a pseudoclivada canônica:
(88) O que eu quero é um cafezinho.
Se, por fim, alçamos o SN, temos a pseudoclivada invertida:
(89) Um cafezinho é o que eu quero.
Quanto ao lugar para onde os constituintes são alçados, normalmente
se assume que a relativa livre vai para a posição de sujeito. Entretanto, não
deve ser para a posição de sujeito que o foco deve ser alçado. Isso pode ser
GRAMATICA 3.indb 282 6/11/2009 14:47:25
AS CONSTRUÇÕES-Q NO PORTUGUÊS BRASILEIRO FALADO
283
comprovado por (90), onde se verifica que não pode haver concordância de
dois cafezinhos com a cópula:
(90) a) Dois cafezinhos é o que eu quero.
b) *Dois cafezinhos são o que eu quero.
Essa observação dá base para resolver a ambiguidade da sentença em (91),
que pode ser uma pseudoclivada invertida ou uma mera copular equativa:
(91) A Suzanita é quem quer casar.
(92) a) A Suzanita é quem quer casar e não a Anita.
b) Quem é a Suzanita?
Se a sentença (91) se encaixa no contexto em (92a), a Suzanita é o foco
contrastivo e, portanto, recebe o acento mais proeminente da sentença. Nes-
se caso, temos uma pseudoclivada invertida. Se a sentença (91) responde à
pergunta (92b), a Suzanita é o sujeito da sentença e o foco é a relativa livre.
Nesse caso, não temos uma pseudoclivada, mas uma copular equativa.
5.3.2. As clivadas
Vamos admitir que o que das clivadas pessoais em (93) é um pronome
relativo com o núcleo nominal nulo e que elas são semelhantes às sentenças
em (94), onde aparece entre parênteses o núcleo as e a da relativa.
(93) a) São as crianças ø que vão comigo.
b) É esta criança ø que vai comigo.
(94) a) São [
suj
as crianças [
pred
(as) que vão comigo]].
b) É [
suj
esta criança [
pred
(a) que vai comigo]].
A estrutura de ambas é semelhante, pois têm uma MO como complemento
da cópula. Dessa MO, nada é alçado.
As clivadas apresentativas são formadas de uma cópula impessoal e têm a
sentença introduzida pelo que sob o escopo da cópula:
GRAMATICA 3.indb 283 6/11/2009 14:47:25
MARIA LUIZA BRAGA

MARY A. KATO

CARLOS MIOTO
284
(95) a) É que os meninos saíram.
b) [
IP
É [
SC
que [os meninos saíram]]].
Essa clivada apenas junta a cópula impessoal a um SC iniciado com o
complementizador que, sendo a sentença-complemento que vai ser interpre-
tado como foco.
As clivadas inversas também são formadas de uma cópula impessoal que
tem sob seu escopo o SC introduzido pelo que, como mostramos em (96b):
(96) a) Os meninos é que saíram.
b) [
IP
É [
SC
que os meninos saíram]].
c) [
SC+F
Os meninos
i
[
IP
é [
SC
que [ _ ]
i
saíram]]].
Mas, nessas sentenças, o constituinte que é interpretado como foco (con-
trastivo) é movido para antes da cópula, como espelhado em (96c). Nessa
posição, o SN os meninos não está habilitado a desencadear a concordância com
a cópula. O que motiva esse movimento é um traço focal [+F] presente no SC
da sentença matriz. Note que esse traço [+F] contrastivo não está presente em
(95), onde nenhum movimento como o de (96) é desencadeado.
As clivadas impessoais canônicas são diferentes das apresentativas e das
inversas. O que as torna diferentes é que o traço [+F] agora se localiza no SC
encaixado, o que é representado em (97b):
(97) a) É os meninos que saíram.
b) [
IP
É [
SC+F
que os meninos saíram]].
c) [
IP
É [
SC+F
os meninos
i
que [ _ ]
i
saíram]].
Esse traço atrai o constituinte que vai ser focalizado, que se move da posição
de sujeito de saíram, como representado em (97c).
As clivadas impessoais canônicas ocorrem produtivamente com adjuntos.
Elas são produtivas com adjuntos porque esses constituintes não desencadeiam
a concordância de número e de pessoa:
(98) a) É que a Maria mora aqui.
b) É aqui que

a Maria mora.
(99) a) É que a Maria morou aqui.
b) É aqui que a Maria morou.
GRAMATICA 3.indb 284 6/11/2009 14:47:25
AS CONSTRUÇÕES-Q NO PORTUGUÊS BRASILEIRO FALADO
285
Das clivadas inversas derivam-se as clivadas reduzidas com o apagamento
da cópula, apagamento esse possível pelo fato de a cópula ser invariável:
(100) a) Os meninos é que saíram.
b) Aqui é que

a Maria mora.
c) Ontem é que a criança nasceu.
5.4. Análise formal das interrogativas-Q
As interrogativas-Q são sentenças que, ao contrário das relativas, podem
ser independentes, como vemos em (101):
(101) a) que serviços prestariam então uma cooperativa?
(DID REC)
b) quantos grupos estiveram... aqui presen:tes... fazendo aquele trabalho de:...
definição?
(EF REC)
c) você já imaginou para ((ruído de garganta)) para fazer a peça Hair quanta
gente que não foi... éh éh::não foi éh::preparada.
(DID SP)
d) qual outro filme que... o público infantil... gostou?
(DID SP)
e) o que falar agora sobre peças?
(DID SP)
Como os pronomes-Q podem aparecer deslocados no especificador de SC,
temos de admitir que existe lá um traço atrator, digamos [+Q
int
]. Esse traço,
que é paralelo ao traço [+Q
rel
], não é subordinado em (101). Entretanto, ele
pode ser subordinado, como em (102):
(102) a) nós não sabemos [quanto tempo Olinda ainda vai viver porque ela tá escor-
regando para o mar].
(DID REC)
b) não sei o que te responder.
(DID SP)
Em (102) as sentenças interrogativas são complementos dos verbos ma-
trizes e devem ser compatíveis com eles, isto é, os verbos selecionam um SC
interrogativo.
GRAMATICA 3.indb 285 6/11/2009 14:47:25
MARIA LUIZA BRAGA

MARY A. KATO

CARLOS MIOTO
286
Ser dependente ou independente é relevante para as sentenças interroga-
tivas-Q, porque no português brasileiro as expressões-Q podem permanecer
in situ. Mas isso ocorre apenas em sentenças matrizes, como as de (103):
(103) a) cada::... formatura tinha o quê, além do do da colação de grau?
(DID SSA)
b) um apartamento de 1.000 cruzei ros... é apartamento de quê [...].
(D2 RJ)
Nas subordinadas, a expressão-Q tem de estar no especificador de SC,
como mostra a agramaticalidade de (104b):
(104) a) eu poderia perguntar também o que estuda a sociologia jurídica.
(EF REC)
b) *Eu poderia perguntar também (que) a sociologia jurídica estuda o quê.
Quanto ao movimento da expressão-Q, as interrogativas subordinadas se
comportam como as relativas. Podemos, então, fazer uma generalização afir-
mando que nas sentenças-Q subordinadas o pronome-Q tem de se mover
para o especificador de SC. O traço-Q atrator é obrigatoriamente presente
como exigência do item que subordina o SC: do nome nas relativas com nú-
cleo nominal, do regente da relativa livre ou dos verbos nas interrogativas
encaixadas. Como as relativas são sentenças dependentes, a previsão é que o
pronome-Q sempre vai ser movido para o especificador de SC.
Quando as interrogativas são sintaticamente independentes, o movimento
do pronome-Q pode ocorrer, como em (101) ou não, como em (103). En-
tretanto, se se trata de uma interrogativa clivada, com cópula impessoal, o
pronome-Q é obrigatoriamente atraído para SC:

(105) a) que é que um professor faz?...
(DID SSA)
a’) *É que um professor faz quê?
b) o que é que a gente fazia como é que era... a::a verificação no nosso tempo de
escola?
(DID RJ)
b’) *É que a gente fazia o que, é que era a verificação como no nosso tempo
de escola?
GRAMATICA 3.indb 286 6/11/2009 14:47:26
AS CONSTRUÇÕES-Q NO PORTUGUÊS BRASILEIRO FALADO
287
c) o que foi que vocês encontraram?
(EF REC)
c’) *Foi que vocês encontraram o quê?
Como em (96), o traço [+F] desse tipo de clivada atrai o pronome-Q. Mas
existe uma diferença fundamental entre clivadas declarativas e interrogativas:
naquelas, qualquer constituinte pode ser clivado (atraído); nas interrogativas,
por sua vez, apenas o pronome-Q pode ser atraído. Isso acontece porque o
pronome-Q tem inerentemente as propriedades (focais) que fazem com que
ele seja atraído.
O tipo de sentença interrogativa em (105) pode, como ocorre com as
clivadas inversas, ter a cópula apagada:
(106) a) quem que a senhora acha que cuida de toda essa parte?...
(DID SP)
b) qual que seria o material?
(DID SSA)
c) por que que a senhora gostou dessa peça?
(DID SP)
Esse tipo é muito comum no português brasileiro falado, embora ainda
seja raro no escrito, mais sujeito aos ditames da norma.
Por fim, no que diz respeito à ordem entre o sujeito e o verbo nas interro-
gativas-Q, as análises associam a ordem VS obrigatória a alguma relação que
deve existir entre o complementizador e a flexão. O que resulta linearmente
dessa relação é que o pronome-Q e o verbo finito vão estar adjacentes, ficando
proibida a interferência do sujeito. O que resulta estruturalmente é que Flex
(com o verbo afixado) é atraída para C. Como no PB a ordem é variável nas
interrogativas-Q (meio a meio na amostra analisada, como vimos na seção
4.3), a ordem VS não deve ser atribuída ao movimento de Flex para C nem a
qualquer outro fator específico de uma sentença interrogativa-Q. Se a ordem
VS é atribuída a um conjunto de fatores como propriedades lexicais dos verbos,
tamanho ou indefinitude do sujeito, a previsão é que esses fatores atuam para
que VS ocorra também em sentenças interrogativas:
(107) a) Onde dormem os meninos?
b) o que é uma taxonomia?
(EF POA)
GRAMATICA 3.indb 287 6/11/2009 14:47:26
MARIA LUIZA BRAGA

MARY A. KATO

CARLOS MIOTO
288
c) ... de que instrumentos se compõe uma orquestra.
(DID POA)
(108) a) Neste quarto dormem os meninos.
b) Isto é uma taxonomia.
c) De vários instrumentos se compõe uma orquestra.
De fato, para cada interrogativa de (107) temos uma contraparte declarativa
gramatical em (108). Entretanto, uma diferença pode ser apontada: parece que
o conjunto de fatores atua com um pouco mais de força nas interrogativas.
Sugestões de leitura
Para a constituição sintática dos pronomes-Q, recomendamos Ambar (1988),
Mioto e Kato (2006) e Mioto (no prelo). Para a morfologia dos pronomes-Q,
sugerimos a leitura de Di Sciullo (2005), que afirma que a raiz desses pro-
nomes no inglês é /wh-/. Se transferimos a sugestão para o português, a raiz
seria /q/.
Para um estudo teórico sobre a tipologia das relativas, sugerimos a leitura
de De Vries (2002).
Sobre a sintaxe das relativas no português europeu, leia-se Brito (1991).
Para tratamentos das relativas no português brasileiro, recomendamos Tarallo
(1983) e Kato (1993a). Para um estudo mais recente, ver também Kenedy (2002).
Para um estudo da tipologia das relativas em aquisição, leia-se Correa (1997).
No que diz respeito às relativas livres, leiam-se Móia (1992), Medeiros
(2005) e Marchesan (2008) sobre o português. Sobre um estudo em outras
línguas, ver Grosu (2002).
Para uma visão exaustiva da noção de foco, cf. Zubizarreta (1998) e sua
resenha em Kato (2000c) e Mioto ( 2003).
Sobre o termo clivagem e sentença clivada, leia-se Jespersen (1937), em que
os conceitos e os termos aparecem pela primeira vez. Na literatura gerativista
as clivadas foram tratadas inicialmente por Akmajian (1970), Higgins (1973),
Chomsky (1977) e mais recentemente por Boskovic (1997). Um tratamen-
to recente não-gerativista é feito por Lambrecht (2001). No português, as
estruturas desse tipo têm sido estudadas tanto por formalistas [Casteleiro
(1979), Wheeler (1982), Lopes Rossi (1993), Kato et al. (2002), Kato e Raposo
GRAMATICA 3.indb 288 6/11/2009 14:47:26
AS CONSTRUÇÕES-Q NO PORTUGUÊS BRASILEIRO FALADO
289
(1996), Modesto (2001), Mioto e Negrão (2007), Mioto (no prelo), Kato e
Ribeiro (2007) e Resenes (2009)], quanto por funcionalistas [cf. Braga (1991)
e Oliveira e Braga, (1997)].
No que diz respeito às pseudoclivadas, plenas e reduzidas, leiam-se os estudos
de Higgins (1973) para o inglês e de Wheeler (1982), Kato et al. (2002), Kato
e Ribeiro (2007) e Resenes (2009).
Um estudo teórico importante que embasa os trabalhos sobre as interro-
gativas-Q é o de Rizzi (1997). Veja sua aplicação em Mioto e Kato (2006) no
português brasileiro. Para uma visão minimalista, ver Hornstein, Nunes e
Gorham (2005).
Sobre interrogativas no português, leiam-se: Kato (1987), Lobato (1988),
Ambar (1988), Kato (1992), Lopes Rossi (1993), Mioto (1994), Barbosa (2001),
Kato e Mioto (2005).
Notas
1 Os dados e as tabelas apresentados nessa seção foram adaptados de Kato et al. (2002).
2 Os dados e as tabelas apresentados nessa seção foram adaptados de Kato et al. (2002).
3 Essa seção relata os trabalhos de Kato et al. (2002) e Kato e Mioto (2005).
GRAMATICA 3.indb 289 6/11/2009 14:47:26
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A INTERAÇÃO ENTRE
ADJUNTOS E DISCURSIVOS
GRAMATICA 3.indb 291 6/11/2009 14:47:26
GRAMATICA 3.indb 292 6/11/2009 14:47:26
SUMÁRIO
1. Introdução .........................................................................................................................................................................295
2. Discursivos em A nova gramática do português contemporâneo
de Celso Cunha e Lindley Cintra .....................................................................................................................297
3. Pressupostos e hipótese .........................................................................................................................................300
4. Segmentos relacionados a dificuldades de planejamento ou
processamento linguístico ....................................................................................................................................303
5. Marcadores discursivos ...........................................................................................................................................305
6. Distribuição de adjuntos e discursivos .......................................................................................................308
Conclusões ................................................................................................................................................................................318
Sugestões de leitura .........................................................................................................................................................320
Notas .............................................................................................................................................................................................320
GRAMATICA 3.indb 293 6/11/2009 14:47:26
GRAMATICA 3.indb 294 6/11/2009 14:47:26
295
6
A INTERAÇÃO ENTRE ADJUNTOS E DISCURSIVOS
Maria Luiza Braga*
Milton do Nascimento**
1. Introdução
No capítulo 2, demonstrou-se que a seleção do(s) argumento(s) por parte
de um verbo deve projetar-se na sintaxe. Esta é uma restrição sintática forte,
categórica, que impõe condições relativas à distribuição dos constituintes
de uma sentença nos enunciados. Neste capítulo, vamo-nos referir a ela como
uma restrição relativa à projeção das funções sintáticas, categóricas, de pre-
dicação e complementação.
No capítulo 4, discutiu-se o fato de a sentença poder ser expandida por meio
de adjuntos que, não sendo selecionados por um núcleo, não se submetem, do
ponto de vista estritamente sintático, às mesmas determinações, categóricas,
dos argumentos. Mostrou-se, no entanto, que, apesar de não haver na sintaxe
nenhuma restrição quanto ao número de adjuntos que possam ocorrer em
uma dada sentença, há restrições que os próprios adjuntos, especialmente os
advérbios, colocam em relação ao tipo de elemento a que se vão adjungir:
como se afirmou em 3.3, os adjuntos “gostam de escolher os elementos aos
quais se vão adjungir”. Nessa escolha, conforme se destacou em 4.3, “embora
não haja uma correlação entre forma, função semântica e posição dos adjun-
tos, algumas funções privilegiam determinadas posições”, o que não impede
que os adjuntos se apresentem como “elementos bastante bem comportados
no que se refere a posições que possam ocupar na sentença, à recursividade,
à proibição de movimento de elementos que os constituem”. Nesse sentido,
as propriedades distributivas dos adjuntos na linearidade dos enunciados
* Universidade Federal do Rio de Janeiro/CNPq.
** Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais.
GRAMATICA 3.indb 295 6/11/2009 14:47:26
MARIA LUIZA BRAGA

MILTON DO NASCIMENTO
296
diferem da dos argumentos: como se observou em 4.2.3, eles obedecem a
uma condição sintática, a de sempre se ajuntar a constituintes nuclearmente
selecionados sem alterar-lhes a natureza, mas, “a depender de sua função”,
“alguns adjuntos vão juntar-se a um ou outro elemento da sentença”.
Essa possibilidade de escolhas por parte dos adjuntos, aliada ao fato de
eles não se caracterizarem por uma correlação entre forma, função semântica
e posição em que ocorrem, torna complexa e variável a distribuição geral dos
constituintes sentenciais na materialidade linear dos enunciados falados. Eles
devem obedecer a dois tipos de “instruções” advindas da Língua-I: de um
lado, as relativas à distribuição dos argumentos, categoricamente estabelecidas;
de outro, as relativas aos adjuntos, não-categóricas, mas com restrições de
várias naturezas. Na configuração dos enunciados, temos, ainda, a presença
necessária de um terceiro tipo de segmentos, os quais exercem funções especi-
ficamente discursivas, de caráter formulativo-interacional
1
, funções destinadas
a registrar, nos enunciados, as marcas da atividade enunciativa, funções estas
que também podem ser exercidas, cumulativamente, por determinados tipos
de adjuntos.
Diante desse quadro, a questão que se coloca é a seguinte: Na análise em-
pírica dos segmentos que se articulam na organização dos enunciados falados,
é possível chegar-se a alguma generalização que vá além da identificação,
descrição e classificação de suas respectivas formas, funções e posições? Esta é
a questão que será abordada neste capítulo, enfocando-se, primordialmente, a
interação entre adjuntos e discursivos, uma vez que esta deve levar em conta
as exigências distributivas dos argumentos categoricamente estabelecidas.
Constatar que determinados adjuntos podem exercer “um papel discursivo”,
como se observou, por exemplo, em 4.3.3.4, a respeito dos Operadores de
foco, corresponde a trazer para o âmbito de uma descrição sintática a tarefa
de especificar uma possível interação entre fatores sintáticos e discursivos na
configuração da ordem manifesta dos enunciados falados. Ou seja, além da
tarefa de explicitar como a sintaxe da predicação e da complementação integra
os adjuntos — o que se fez no capítulo 4 —, assume-se a de explicitar como
ela acolhe a interação entre adjuntos e discursivos na organização dos enun-
ciados. Realizar uma análise exaustiva dessa questão ultrapassa os objetivos
deste capítulo; limitar-nos-emos a:
GRAMATICA 3.indb 296 6/11/2009 14:47:26
A INTERAÇÃO ENTRE ADJUNTOS E DISCURSIVOS
297
1) apresentar alguns dos pressupostos teórico-metodológicos básicos ado-
tados na formulação e abordagem da questão;
2) ilustrar a proposta de utilização de tais pressupostos na análise do fenô-
meno;
3) verificar o alcance da hipótese central.
É o que se propõe fazer neste capítulo. Começamos por uma primeira
apresentação do problema, enfocando uma proposta de análise dos discursi-
vos apresentada por uma gramática tradicional.
2. Discursivos em A nova gramática do português
contemporâneo de Celso Cunha e Lindley Cintra
A nova gramática do português contemporâneo
2
, de Celso Cunha e Lind-
ley Cintra, traz, como último item do capítulo XIV, “Advérbio”, o seguinte
tópico:

PALAVRAS DENOTATIVAS
1) Certas palavras, por vezes enquadradas impropriamente entre os advérbios,
passaram a ter, com a Nomenclatura Gramatical Brasileira, classificação à parte, sem
nome especial. São palavras que denotam, por exemplo:
a) INCLUSÃO: até, inclusive, mesmo, também, etc.:
Tudo na Vida engana, até a Glória (A. Nobre, D, 114)
Os bichos sentem, o mato sente também, quando se fala sem modos, sem carinho
e sem perdão. (L. Jardim, AMCA, 52)
b) EXCLUSÃO: apenas, salvo, senão, só, somente, etc.:
Da família só elas duas subsistiam. (J. Montello, DP, 382)
Às vezes interrompia-o apenas com um gestozinho frio e elegante. (A. Bessa
Luís, AM, 360)
c) DESIGNAÇÃO: eis
Eis o dia, eis o sol, o esposo amado! (A. de Quental, SC, 4)
Subamos ainda e eis-nos na grande Praça de Vila-Rica. (A. Arinos, OC, 820)
GRAMATICA 3.indb 297 6/11/2009 14:47:26
MARIA LUIZA BRAGA

MILTON DO NASCIMENTO
298
d) REALCE: cá, lá, é que, só, etc.:
Pior eu sei lá, Manuel, pior que uma desgraça!
— Eu cá tenho mais medo do sol que dos leões. (Castro Soromenho, C, 204)
e) RETIFICAÇÃO: aliás, ou antes, isto é, ou melhor, etc.
— Sinto que ele me escapa, ou melhor: que nunca me pertenceu. (A. Abelaira,
CF, 226)
De repente nasci, isto é, senti necessidade de escrever. (C. Drummond de An-
drade, CA, 200)
f ) SITUAÇÃO: afinal, agora, então, mas, etc.:
Desculpe-me... Mas sente-se mal? (A. Abelaira, NC, 40)
Então conheceu o meu irmão? (É. Veríssimo, A, II, 463)
Afinal, ela não tem culpa de ser filha de ministro. (F. Sabino, EM, 85)
2) Como vemos, tais palavras não devem ser incluídas entre os advérbios. Não
modificam o verbo, nem o adjetivo, nem outro advérbio. São por vezes de classificação
extremamente difícil. Por isso, na análise, convém dizer apenas: “palavras ou locução
denotadora de exclusão, de realce, de retificação”, etc.
3) A Nomenclatura Gramatical Portuguesa admite a existência dos ADVÉRBIOS
DE EXCLUSÃO e DE INCLUSÃO e considera ADVÉRBIOS DE ORAÇÃO o que de-
nominamos PALAVRAS DENOTATIVAS DE SITUAÇÃO.
Em (1) e (2), acima, Cunha e Cintra postulam que os itens citados, no
tipo de enunciados apresentados como exemplos, não devem submeter-se a
uma classificação sintática, devendo receber “uma classificação à parte, sem
no me especial”. Isso pode ser entendido como uma proposição de que fa-
tores discursivos não devem, ou não podem, receber um tratamento sintá-
tico; ou de que a sintaxe nada tem a ver com o comportamento de elementos
discursivos. Note-se, no entanto, que há, dentre os exemplos citados pelos
dois gramáticos, itens e/ou expressões que são analisáveis como adjuntos
no quadro aqui adotado. Que a gramática tradicional exclua também adjun-
tos do âmbito da descrição sintática explica-se, como já se afirmou no capí-
tulo 4, pelo fato de eles não serem selecionados por um núcleo, como os
complementos e os especificadores. Além disso, como já se destacou naquele
mesmo capítulo, uma gramática tradicional, não operando com a noção de
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A INTERAÇÃO ENTRE ADJUNTOS E DISCURSIVOS
299
sintagma e de adjunção a unidades sintagmáticas, não tem mesmo como
tratar, de forma integrada, as relações de predicação, complementação e ad-
junção em termos de uma descrição puramente sintática
3
.
Note-se ainda que, nos exemplos de Cunha e Cintra, a maioria dos itens
destacados se distribuem na linearidade dos enunciados de uma maneira,
se não paralela, no mínimo semelhante à de segmentos analisados, no capí-
tulo 4, como adjuntos. Isso fica evidente, se confrontarmos os seus exemplos
com alguns outros já considerados naquele capítulo, que reapresentamos com
ou tra numeração:
(1) A criança vai ao maternal somente para brincar.
(DID SSA 231)
(2) então no teatro eu acho que é bem mais difícil.
(DID SP 234)
(3) Lá em Belém, por exemplo, era uma farinha misturada com água [...].
(DID POA 45)
(4) então infelizmente esse ano eu tive que fazer um outro empréstimo [...].
(D2 SP 360)
(5) Então nós comemos muito xinxin-de-galinha, bobó de camarão, acarajé.
(DID RJ 328)
(6) ... e ainda agora que estão todos maiores quer dizer cada um já fica mais ou
menos responsável por si.
(D2 SP 360)
(7) agora eu estou muito sozinha lá na praia.
(DID POA 45)
(8) então infelizmente este ano eu tive que fazer um empréstimo para pagar os doze
mil.
(D2 RJ 355)
(9) as cooperativas também são entidades realmente bastante significativas.
(DID REC 131)
(10) ... tinha até um tempero azul.
(D2 POA 291)
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MARIA LUIZA BRAGA

MILTON DO NASCIMENTO
300
(11) vemos por aí que os sindicatos... uma assistência jurídica que é demasiadamente
importante, principalmente naquelas questões jurídicas relacionadas entre patrões
e empregados.
(DID REC 131)
(12) ... mas sempre tem um bom número na reunião.
(DID SSA 231)
Nesses exemplos, foram colocados em negrito os termos e/ou expressões
do tipo dos itens considerados por Cunha e Cintra. Muitos deles (os subli-
nhados) já foram analisados como adjuntos no capítulo 4. Pode-se observar
que os demais (apenas em negrito) parecem competir com os adjuntos
no que concerne à localização e distribuição na linearidade dos enunciados.
Isso convida à busca de uma explicação unificada, de natureza sintática, ou
sintático-discursiva, para o comportamento de todos eles, adjuntos ou dis-
cursivos, na organização dos enunciados.
3. Pressupostos e hipótese
A interação entre adjuntos e discursivos na configuração da ordem linear
dos enunciados foi objeto de vários estudos orientados e/ou realizados por
Kato e Tarallo no âmbito do Projeto da Gramática do Português Falado
4
,
em alguns dos trabalhos que deram origem a este volume. É desses estudos
que tomamos alguns pressupostos teórico-metodológicos necessários para a
explicitação da função e distribuição de adjuntos e discursivos na organização
de enunciados orais. São eles:
(13) a) o objeto de análise é o desempenho linguístico dos falantes cultos na produção
de enunciados constitutivos de textos orais, um objeto externo, observável
através do corpus gravado de falantes brasileiros;
b) o desempenho linguístico dos falantes (Língua-E) engloba necessariamente,
como uma de suas condições de efetivação, a Gramática Internalizada (Lín-
gua-I), um sistema computacional que lhes fornece instruções necessárias à
integração som–sentido na produção/recepção de enunciados, no fluxo da
fala;
c) no desempenho linguístico, os falantes operam, de um lado, com formas
e/ou processos categóricos, resultantes de instruções da Língua-I, sobre os
GRAMATICA 3.indb 300 6/11/2009 14:47:27
A INTERAÇÃO ENTRE ADJUNTOS E DISCURSIVOS
301
quais eles não têm escolha; e, de outro, com fatores não-categóricos, que,
sendo passíveis de “escolhas”, lhes possibilitam configurar enunciados de
uma forma A ou B;
d) pressuposto básico: da mesma forma que a morfologia flexional é indispen-
sável para a realização das palavras na sintaxe, os adjuntos e os discursivos
são necessários para que as sentenças se concretizem em enunciados, como
partes do discurso.
Pelo que afirmam em (d), uma hipótese formulada a partir dos pressupostos
(a)-(c), Kato e Tarallo postulam, de forma inovadora e contundente, que a
articulação de adjuntos e discursivos no fluxo da fala é uma condição necessá-
ria para a produção e integração dos enunciados em um texto. Para os autores,
de acordo com (c), os falantes, seguindo “instruções” da Língua-I, operam, de
um lado, com formas e/ou processos categóricos e, de outro, com fatores não-
categóricos. Um corolário dessa proposição é que a essas duas modalidades de
operações discursivas — com formas e/ou processos categóricos, de um lado,
e com fatores não-categóricos, de outro — correspondem, respectivamente,
a duas propriedades necessárias dos enunciados:
(14) a) garantir a legibilidade da estrutura clausal abstrata que subjaz às orações,
possibilitando a recuperabilidade das funções sintáticas categóricas de pre-
dicação e complementação, determinadas pela Língua-I;
b) registrar as operações enunciativas responsáveis pela sua configuração e uso
como unidades constitutivas do discurso.
Tomar como objeto de estudo essas duas propriedades, ou funções, do
enunciado no processo enunciativo implica enfocar a maneira como os falantes
usam o conhecimento linguístico internalizado (Língua-I) na elaboração de
qualquer texto (Língua-E). Esse tipo de investigação pressupõe a concepção e
construção de uma metodologia específica. Kato e Tarallo recorreram a uma
articulação entre o quadro conceitual da Teoria de Princípios e Parâmetros e
o instrumental teórico-metodológico fornecido pelos estudos variacionistas,
da linha laboviana. O modo de operacionalização dessa metodologia e o tipo
de resultados obtidos serão ilustrados a seguir.
Tomou-se a correlação entre fatores categóricos e não-categóricos como
parâmetro básico para o estudo da maneira como os falantes operam com a
sintaxe da predicação/complementação para utilizar adjuntos e discursivos
GRAMATICA 3.indb 301 6/11/2009 14:47:27
MARIA LUIZA BRAGA

MILTON DO NASCIMENTO
302
na organização dos enunciados. Para identificar e descrever, na estrutura dos
enunciados, as marcas de operações de caráter sintático-discursivo permitidas
pelas determinações da Língua-I, decidiu-se por examinar a distribuição dos
adjuntos e discursivos pelas fronteiras de constituintes.
A hipótese que norteou a postulação das fronteiras foi o princípio da ad-
jacência de caso
5
, segundo o qual fronteiras de caso não permitem interrupção.
Seriam estas as fronteiras:
1) a fronteira entre o Verbo e seu Complemento (V...C): caso acusativo;
2) a fronteira entre a Preposição e seu Complemento (P...C): caso dativo ou
oblíquo;
3) a fronteira entre o elemento verbal flexionado e o sujeito: caso nominativo.
Desde o início deixou-se de lado a fronteira P...C, dado que essa fronteira
segue de forma estrita aquele princípio, não permitindo a intromissão de
nenhum elemento. Examinou-se, então, a distribuição dos adjuntos e dis-
cursivos pelas fronteiras de constituintes da estrutura clausal subjacente às
orações, apresentadas no quadro a seguir. No quadro, apenas 3 e 4 deveriam
desfavorecer interrupção.
Uma possível hipótese seria a de que os discursivos ligados exclusivamente a
processamento, tais como correções, hesitações, seriam imunes a tal princípio,
uma vez que não constituem elementos que ocupam fronteiras, que não avan-
çam na linearidade, constituindo uma elaboração vertical paradigmática.
Quadro 1 — Fronteiras de constituintes
1) Margem à esquerda ...TOP, ...S, ...(S)
2) Margem limite de SFlex TOP...(S), TOP...S
3) Margem limite de SV S…V, (S)… V
4) Fronteira central de regência V...Co, V...(Co)
5) Próximos à margem direita
(Co)...Co, (Co)... Ci, Co…Antitópico, Co…Co, V…
Antitópico, Co…(Ci), Co...Ci
6) Margem à direita Co..., Antitópico..., (Co)..., Ci..., (Ci)..., V..., Antitópico...
Co = complemento direto explicitado; (Co) = complemento direto não-explicitado; Ci = com-
plemento indireto explicitado; (Ci) = complemento indireto não-explicitado; Co...Co = dois
complementos em relação de minioração
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A INTERAÇÃO ENTRE ADJUNTOS E DISCURSIVOS
303
Nessa análise, os elementos não-categóricos enfocados foram distribuídos
em dois subgrupos: o primeiro consistiu de segmentos que sinalizam dificul-
dades no planejamento ou processamento linguísticos — correções, hesita-
ções, gaguejos, falsos inícios — e o segundo congregou adjuntos e discursivos.
Exemplos ilustrativos dos componentes de cada subgrupo serão oferecidos
ao longo da seção.
4. Segmentos relacionados a dificuldades de planejamento
ou processamento linguístico
As correções, os gaguejos, as hesitações e os falsos inícios compartilham a
propriedade de serem motivados por alguma dificuldade de processamento
que está sendo enfrentada pelo falante. As correções e os gaguejos caracteri-
zam-se pela repetição de elementos, o que, em princípio, pode tornar fluida
a distinção entre eles.
Foram denominadas como correções as substituições de um elemento por
um outro produzido com vistas a “reparar”, “consertar” a primeira emissão.
Incluem-se aqui correções que incidem sobre a concordância de gênero, sinali-
zada pela substituição de artigo definido, a concordância verbal e as correções
lexicais, conforme mostram os trechos a seguir:
(15) Então quer dizer a... o deslocamento mais a possibilidade não computados.
(DID RJ 338)
(16) O mesmo caso das estradas brasileiras: dimensionou-se… foram dimensionadas
as estradas para um tráfico muito mais leve do que elas estão suportando.
(D2 REC 05)
(17) Eu pretendo chegar... sair daqui sexta de manhã.
(D2 REC 05)
Os gaguejos distinguem-se das correções porque o segmento repetido não
altera a forma do segmento anterior. Além disso, tendem a coocorrer com
hesitações, conforme pode ser verificado em (18), a seguir:
GRAMATICA 3.indb 303 6/11/2009 14:47:27
MARIA LUIZA BRAGA

MILTON DO NASCIMENTO
304
(18) Não são hem não são esse tipo de frutos, né?
(DID RJ 328)
As hesitações caracterizam-se por alongamento da vogal. Incluem-se aqui
tanto os eh..., forma mais frequente de alongamento, quanto os bem... e
ahm..., quando não-interrogativos.
(19) Eh... das Olimpíadas também só olhei assim os cabeçalhos.
(DID POA 216)
Os falsos inícios geralmente interrompem e remodelam um determinado
trecho, com a consequente interrupção da curva entonacional associada àquela
porção textual.
(20) Então passa... tinha umas velhas, umas senhoras de mais idade.
(DID POA 216)
Os falsos inícios são motivados por falhas de planejamento no começo do
percurso e distinguem-se das correções, hesitações e gaguejos, que são motivados
por falhas de execução durante o percurso. Os três últimos apresentam um
comportamento semelhante, distribuindo-se equitativamente por todas as
fronteiras de constituintes, ao longo da oração, à exceção da margem direita,
que apenas ocasionalmente é preenchida por eles. Os falsos inícios fogem ao
padrão geral em virtude de sua maior concentração na margem esquerda.
No que diz respeito, portanto, à distribuição por fronteiras, esses discursivos
apresentam um perfil distinto daquele oferecido pelos adjuntos.
Pelos exemplos apresentados, observa-se que esses discursivos têm sua
ocorrência determinada por fatores estritamente ligados a fatores da Língua-
E, à atuação dos falantes no processamento on-line do fluxo da fala. Eles
não têm caráter categórico e, como previsto, não afetam a legibilidade da
estrutura clausal abstrata que subjaz às orações, permanecendo garantida a
recuperabilidade das funções sintáticas de predicação e complementação,
determinadas categoricamente pelos princípios da Língua-I. Mesmo nas
correções, em que a estruturação de um constituinte é interrompida, ou
abandonada, a correção efetuada garante a legibilidade da estrutura subja-
cente do constituinte em questão, bem como a de sua função na estrutura
em que ele se insere.
GRAMATICA 3.indb 304 6/11/2009 14:47:27
A INTERAÇÃO ENTRE ADJUNTOS E DISCURSIVOS
305
Esse princípio da legibilidade das estruturas categoricamente configuradas
por instruções da Língua-I será aqui tomado como uma explicação para o fato
de os discursivos ocorrerem sempre em fronteiras de constituintes.
5. Marcadores discursivos
Uma das implicações da hipótese de Kato e Tarallo pode ser assim formu-
lada: “As condições comunicativas que sustentam a ação verbal inscrevem-se
na superfície textual, de modo que se observam marcas do processamento
formulativo-interacional na materialidade linguística do texto”
6
. E essa ins-
crição das condições comunicativas na superfície textual deve, pela referida
hipótese, preservar o princípio da legibilidade das estruturas categoricamente
configuradas por instruções da Língua-I. Esse princípio, por hipótese, deve
delimitar também a distribuição dos marcadores discursivos na estrutura dos
enunciados. Denominam-se marcadores discursivos segmentos do seguinte
tipo, extraídos do corpus analisado:
(21) agora, ah!, então, agora então, aí, depois, aí depois, mas, mas aí, assim, bem,
bom, vamos dizer, digamos, digamos assim, quer dizer, por assim dizer, ou me-
lhor, ou seja, em outras palavras, não é bem assim, aliás, por sinal, por exemplo,
resumindo, mesmo, voltando ao assunto, como eu dizia, de modo que, logo, em
(primeiro) lugar, a seguir, para terminar, é óbvio, é claro, tudo bem, é isso aí,
inclusive, tatatá etc., Ave Maria, graças a Deus, deixover, né?, heim?, sabe?,
olha/e, entende/eu?, viu?, tá?; perdão, desculpe; os vocativos; alguns advérbios
em -mente, tais como: naturalmente, obviamente, realmente, primeiramente,
finalmente, provavelmente etc.
Os marcadores discursivos, dada sua recorrência, variabilidade de formas
e amplitude de funções textuais e interacionais, ocupam posição saliente no
conjunto dos discursivos. Eles têm como característica básica operar “no plano
da atividade enunciativa e não no plano do conteúdo [...]. Nessa qualidade,
estabelecem-se como embreadores dos enunciados com as condições da enun-
ciação, apontando para as instâncias produtoras do discurso e definindo a
relação dessas instâncias com a estrutura textual-interativa”
7
. Nessa função, sua
forma de ocorrência e distribuição nos enunciados falados é variada e muito
complexa. Sua identificação pode ser feita a partir de critérios que levam em
GRAMATICA 3.indb 305 6/11/2009 14:47:27
MARIA LUIZA BRAGA

MILTON DO NASCIMENTO
306
consideração a posição e a função. De acordo com a perspectiva funcional,
podem ser reagrupados em iniciadores, requisitadores de apoio discursivo, par-
tículas de extensão e anunciadores de complementos
8
.
As posições em que ocorrem os marcadores discursivos são, pela referida
hipótese, também delimitadas pelo princípio da preservação da legibilidade
das estruturas categoricamente configuradas por instruções da Língua-I: como
um todo, eles tendem a se dispor nas margens extremas das orações, tanto à
esquerda quanto à direita, como ilustram os iniciadores (aí, então, agora etc.),
por um lado, e os requisitadores de apoio discursivo (né?, sabe?, entendeu?
etc.) e partículas de expansão (e por aí vai etc.), por outro, respectivamente,
como se pode observar no seguinte trecho:
(22) ... então no teatro eu acho que é bem mais difícil eu tenho impressão que é mais
difícil [porque a televisão é horroroso quando eles estão fazendo um programa eu
tenho ido todas terças-feiras no programa que aparece no sábado... então é um
grupo que estão fazendo uma promoção do Lanjal então eu vou com eles é incrível
o que aparece lá os cortes que eles dão nas cenas e:: música que para, artista que
começa fora de de de de:: horário que eles batem tudo então e o que aparece para
nós na televisão é tudo muito:: organizado não::] E o teatro não, né? O teatro tem
que... eu acho que o trabalho deles é:: é medonho... quer dizer.
(DID SP 234)
Alguns marcadores fogem, no entanto, a essa distribuição nas margens
extremas. É o caso de certas palavras em -mente e da palavra assim, em em-
pregos como marcadores discursivos, como também dos advérbios aspectuais,
intensificadores, modalizadores e operadores de foco, que, dependendo da sua
função semântica, se ajuntam a um ou outro elemento da sentença
9
. Mas o
princípio da preservação da legibilidade das estruturas categoricamente espe-
cificadas por instruções da Língua-I não é violado: como ilustram os exemplos
de (23) a (29), abaixo, tais itens ocupam sempre posições de adjuntos, em
margens de constituintes categoricamente selecionados:
(23) quer dizer você sente porque você não tem curvas assim muito fortes pra fazer.
(D2 SAL 98)
(24) os nomes realmente eu não guardei.
(DID RJ 328)
GRAMATICA 3.indb 306 6/11/2009 14:47:27
A INTERAÇÃO ENTRE ADJUNTOS E DISCURSIVOS
307
(25) porque eles já fazem no quinto ano de medicina.
(DID SSA 231)
(26) agora eu estou muito sozinha lá na praia.
(DID POA 45)
(27) as cooperativas também são entidades realmente bastante significativas.
(DID REC 131)
(28) eu vou adiantar um pouquinho a matéria.
(EF REC 337)
(29) O homem simplesmente adquire a informação.
(EF POA 278)
Em termos das posições em que ocorrem, os itens do subgrupo que en-
globa hesitações, gaguejos e correções dispersam-se pelas variadas fronteiras das
orações, dispersão que se torna mais rarefeita nas proximidades da margem
direita. Essa distribuição se explica pela motivação cognitiva associada ao uso
desses elementos: dificuldades de planejamento e processamento linguísticos.
À medida que o enunciado se aproxima do seu término, os problemas de
processamento deixam de se colocar e, consequentemente, os discursivos
motivados por elas. A exceção a esse padrão, como foi adiantado previamen-
te, fica por conta dos falsos inícios, cujo nicho preferencial, como o nome
sugere, são as margens à esquerda.
Os itens da classe dos marcadores discursivos, por seu turno, se considerados
em conjunto, tendem a se aninhar nas margens, principalmente na margem
esquerda; as margens à direita e limite de SFlex constituem outros pousos
recorrentes. Ocorrências em outras fronteiras são escassas. Cumpre salien-
tar que a localização nas fronteiras de constituintes é um dos critérios que
permitem distinguir os vários estatutos categoriais associados a uma mesma
forma linguística, como ilustram os usos de palavras como agora, aí, então:
enquanto marcadores discursivos ocorrem na fronteira à esquerda; enquanto
adjuntos, advérbios, tendem a ocupar as fronteiras à direita ou mais próximas
da direita.
A distinção entre os dois subgrupos de discursivos, no que concerne à
localização em fronteiras de constituintes, explica-se pela diferente motivação
associada a seu uso. As hesitações, correções, gaguejos e falsos inícios constituem
GRAMATICA 3.indb 307 6/11/2009 14:47:28
MARIA LUIZA BRAGA

MILTON DO NASCIMENTO
308
índices de dificuldades de planejamento da fala; já os marcadores discursivos são
empregados com vistas a contribuir para a organização do texto e da interação.
Todavia, a distinção entre esses dois subgrupos não é absoluta, já que alguns
marcadores como assim e certas palavras em mente também podem indiciar
dificuldades de processamento ou funcionar como estratégias para ganhar
tempo enquanto se planeja um conteúdo linguístico mais problemático.
6. Distribuição de adjuntos e discursivos
O cotejo entre discursivos e adjuntos, quanto à sua distribuição por fron-
teiras de constituintes que são categoricamente selecionados, revela que cada
uma dessas duas classes tende a apresentar um perfil mais ou menos especí-
fico, não se podendo falar, portanto, em um espelhamento entre adjuntos
e discursivos. O que se verifica é que, embora as fronteiras mais internas do
enunciado possam ser ocupadas por discursivos, esse preenchimento é re-
lativamente escasso. E, quando isso acontece, os discursivos ocorrem como
adjuntos, exercendo simultaneamente uma função no nível sintático e outra
no nível textual/discursivo, como já se observou, por exemplo, a respeito
dos Advérbios modalizadores e dos Operadores de foco, em 4.3.3.3 e 4.3.3.4,
respectivamente, no capítulo sobre a “Adjunção”.
Há um tipo de discursivo que não acumula essas duas funções, distin-
guindo-se bem dos adjuntos: são os vocativos, de minguada ocorrência nas
entrevistas do Nurc, que operam claramente no nível formulativo-interacional.
Eles tendem a ocupar as fronteiras associadas à margem esquerda, como no
exemplo:

(30) Betina, já resolveu? Tudo bem...
(EF SP 405)
No geral, a respeito da distribuição de discursivos e adjuntos pelas fronteiras
dos constituintes categoricamente instituídos, pode-se afirmar:
(31) a) como se descreveu no capítulo 4, há subtipos de adjuntos, que se distribuem
pelas várias fronteiras de constituintes, de modo previsível, de acordo com
sua forma e função semântica;
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A INTERAÇÃO ENTRE ADJUNTOS E DISCURSIVOS
309
b) os discursivos, de modo previsível, tendem a se distribuir pelas margens
sentenciais, ocorrência que decresce do início para o fim da sentença;
c) as fronteiras mais resistentes ao acolhimento de adjuntos e discursivos são as
mesmas: as posições entre complementos e a fronteira Top...S, justamente
fronteiras não-atribuidoras de caso, contra a hipótese central de adjacência
de caso.
d) verifica-se que, na distribuição de ambos, nem sempre há correlação biuní-
voca entre forma e função.
Essas propriedades distributivas de adjuntos e discursivos indicam que
uma teoria que vise explicar a distribuição dos adjuntos, ou, pelo menos,
de alguns adjuntos específicos, deve incluir em sua explicação propriedades
distributivas dos discursivos. É o que se pretende fazer aqui, adotando-se a
hipótese (13d) de Kato e Tarallo. Começaremos por considerar os casos de
adjuntos que, conforme se destacou no capítulo 4, acumulam propriedades
de discursivos. Antes, porém, será necessário examinar como a Adjunção, uma
operação sintática, pode especificar adjuntos que acumulam propriedades
discursivas. Em outras palavras, examinar como a própria Adjunção pode
integrar propriedades de adjuntos e de discursivos na especificação da função
de alguns tipos de adjuntos.
A partir da hipótese de Kato e Tarallo, assume-se que a distribuição de ad-
juntos e discursivos, na configuração dos enunciados, obedece a um princípio
geral que rege o processo de linearização das sentenças, objetos da Língua-I, em
sua realização fonética, na materialidade dos enunciados, objetos da Língua-E.
Nesse contexto, entenda-se por linearização um conjunto de operações que,
no seu desempenho linguístico, os falantes realizam para produzir enuncia-
dos/textos, incluindo as referidas em (13d).
O comportamento de ambos, discursivos e adjuntos, reflete restrições
impostas pela Língua-I associadas a escolhas por ela permitidas. Por um lado,
a ocorrência previsível de ambos, adjuntos e discursivos, restringe-se formal-
mente a fronteiras de constituintes categoricamente selecionados. Por outro,
tais fronteiras, por sua vez, podem, para efeitos de sentido, ser funcional
e pragmaticamente escolhidas/preenchidas com adjuntos e/ou discursivos.
Considerem-se, a título de ilustração, os seguintes dados discutidos em 4.3,
aqui retomados sob outra numeração
10
:
(32) a) Ontem João chorou.
GRAMATICA 3.indb 309 6/11/2009 14:47:28
MARIA LUIZA BRAGA

MILTON DO NASCIMENTO
310
b) *Ontem João chorou hoje.
c) *Ontem João vai chorar.
(33) a) Maria já trouxe o presente.
b) Maria sempre traz algum presente.
c) *Maria já sempre trouxe o presente.
Na análise da correlação dos dados de (32) e (33), apresentada no capítu-
lo 4, destacou-se a necessidade de garantir “uma paridade entre a dimensão
temporal expressa pela flexão e aquela expressa pelo adjunto”, o mesmo va-
lendo para a dimensão aspecto. Essa restrição sobre a correlação distributiva
de adjuntos em enunciados pode ser generalizada em termos da atuação do
princípio (14), pois, “garantir a recuperabilidade das funções sintáticas ca-
tegóricas de predicação e complementação, determinadas pela Língua-I”,
implica garantir que haja a paridade entre a dimensão Tempo/Aspecto, ex-
pressa pela flexão, e aquela expressa pelo(s) adjunto(s), como se postulou
em 3.3. Em outras palavras, obedecendo a (14), a escolha e a correlação de
adjuntos na configuração dos enunciados devem preservar a natureza dos
elementos constitutivos da predicação/complementação, dentre eles, a do sin-
tagma flexional.
Note-se que aceitar que a correlação de adjuntos no enunciado é restringida
pelo princípio (14) implica assumir que tal princípio atua sobre a Adjunção e
seus resultados, podendo restringi-los em função de fatores tais como a natureza
dos elementos a serem adjungidos, as posições no enunciado em que adjuntos
possam ocorrer, a correlação de adjuntos num mesmo enunciado etc.
Note-se, ainda, que colocar a Adjunção sob a ação de (14) corresponde a
caracterizá-la como uma operação de caráter sintático, que, em si, codifica
“instruções” para o seu próprio uso. Essa caracterização, na verdade, já foi
contemplada no capítulo 4. Naquele capítulo, por exemplo em 3.3, destacou-se
que os adjuntos “gostam de escolher os elementos aos quais se vão adjungir”.
Isso implica admitir que a Adjunção, uma operação sintática, possibilita
escolhas, o que, como prevê a hipótese de Kato e Tarallo (13c), evidencia a
dupla face determinação versus escolhas possíveis em escolhas com restrição:
os adjuntos, não sendo selecionados por um núcleo, “escolhem” os elementos
aos quais se vão adjungir, podendo exercer, como se constatou no capítulo
4, variadas funções semânticas; mas, deterministicamente, comportam-se de
acordo com suas especificações como itens lexicais, e não podem alterar a
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A INTERAÇÃO ENTRE ADJUNTOS E DISCURSIVOS
311
natureza categorial dos constituintes a que se juntam, tendo de aninhar-se em
suas fronteiras, preservando no enunciado a legibilidade das funções sintáticas
categóricas de predicação e complementação. Dessa forma, pode-se afirmar
que, operando sob (14), a Adjunção se caracteriza como uma operação que
conecta propriedades da Língua-I a maneiras de seu uso
11
.
Caracterizar a Adjunção como uma operação que, por si, conecta pro-
priedades da Língua-I a maneiras de seu uso implica concebê-la como uma
operação sintática de dupla face: uma operação que instancia a Língua-I, de
um lado, e o uso da Língua-I, de outro; processos categóricos, de um lado,
fatores não-categóricos, de outro; restrições, de um lado, escolhas, de outro;
sintaxe e discurso, ou processamento discursivo com restrições sintáticas.
Essa dupla face da Adjunção já foi, de certa forma, destacada no item 2 do
capítulo 4: “Da perspectiva estritamente sintática, (os adjuntos) são, de fato,
elementos não-selecionados e, assim, não-obrigatórios na estrutura da senten-
ça. Porém, da perspectiva semântica, é preciso considerar que, se o falante os
colocou em uma dada sentença, é porque certamente trazem algum tipo de
informação que se quer veicular e, dessa forma, não são dispensáveis”.
Análises de adjuntos apresentadas naquele capítulo também deixam evi-
dente essa dupla face da Adjunção. Considere-se, por exemplo, a análise da
distribuição dos advérbios aspectuais (ainda, sempre, nunca, às vezes etc.)
apresentada em 4.3.3.2, que reproduzimos aqui, adaptando a numeração dos
exemplos:
Os advérbios aspectuais ocupam preferencialmente uma de três posições: a posição
1 (antes do verbo), (34a); a posição 2 (entre dois verbos), (34b); e a posição 3 (após
o verbo), (34c):
(34) a) Pedro ainda não tinha visto o filme.
b) Pedro não tinha ainda visto o filme.
c) Pedro não tinha visto ainda o filme.
Percebam que os efeitos de sentido serão distintos em função do escopo que o
advérbio tomar.
Essa análise mostra que, na distribuição de itens como ainda, sempre,
nunca, às vezes etc., interferem fatores que instanciam a dupla face da
Adjunção: de um lado, as determinações léxico-sintáticas de cada item, que
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MILTON DO NASCIMENTO
312
envolvem a questão da natureza e modo de efetivação de seu escopo; de ou-
tro, as possibilidades de escolha quanto a efeitos de sentido pretendidos, que
envolvem a questão da realização do seu escopo na linearidade do enunciado.
Detenhamo-nos, por um momento, nessa última questão, uma vez que o escopo
de advérbios sobre os quais opera a Adjunção é um dos fatores envolvidos na
distribuição de adjuntos e discursivos na configuração dos enunciados, pois,
como se afirmou em 4.2.3, a depender da função semântica dos advérbios,
eles vão-se juntar a um ou outro elemento da sentença.
Sobre a noção de escopo, retomemos o que se afirmou em 4.3: “In-
formalmente, podemos definir escopo como o alcance de modificação
que um determinado elemento tem na sentença. Podemos pensar, ainda,
em escopo como um feixe de luz produzido por uma lanterna: seu efei-
to terá uma certa abrangência luminosa a depender da posição em que
segurarmos a lanterna”. Tal efeito foi exemplificado, em 3.3, através dos
seguintes dados
12
:
(35) a) A Rose [provavelmente deu] os brinquedos para as crianças.
(mas não os guardou depois).
b) A Rose deu [provavelmente os brinquedos] para as crianças.
(mas não as roupas).
c) A Rose deu os brinquedos [provavelmente para as crianças].
(mas não para os adolescentes).
d) Provavelmente, a Rose deu os brinquedos para as crianças.
(É provável que o tenha feito, mas também pode ter-se esquecido de fazê-lo).
Em cada uma das sentenças acima, o advérbio provavelmente tem um escopo
distinto, gerando diferentes interpretações.
Essa análise do advérbio modalizador provavelmente mostra que o manejo
da lanterna do escopo, gerando diferentes interpretações, é uma operação que
conecta determinações da Língua-I a possibilidades de seu uso, o que evidencia
a dupla face da Adjunção.
Com sua dupla face, é natural que a Adjunção opere podendo integrar
propriedades sintáticas e discursivas na interface sintaxe–discurso. Não sur-
preende que ela, sob o princípio (14), possa produzir configurações de enun-
ciados em que ocorram itens e/ou expressões que, como adjuntos, evidenciem,
simultaneamente, propriedades sintáticas e discursivas.
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A INTERAÇÃO ENTRE ADJUNTOS E DISCURSIVOS
313
Os adjuntos modalizadores (talvez, provavelmente, possivelmente, prati-
camente, naturalmente, realmente, obviamente, primeiramente, finalmente
etc.) são expressões típicas da dupla face da Adjunção. Como se observou em
4.3.3.3, entre os modalizadores estão incluídos os advérbios orientados para o
sujeito e os orientados para o falante, que acumulam a função de marcadores
discursivos, à qual nos referimos anteriormente. Eles podem denotar crença,
opinião, expectativa, ponto de vista do falante, como já se destacou em 4.2.3,
na análise dos seguintes exemplos
13
:
(36) então infelizmente este ano eu tive que fazer um empréstimo para pagar os
doze mil.
(D2 RJ 355)
(37) os nomes realmente eu não guardei.
(DID RJ 328)
Por outro lado, esses mesmos adjuntos modalizadores realmente, natural-
mente, obviamente podem atuar como meros preenchedores ou marcadores,
que atuam como itens planejadores de fala. Observa-se essa função em falan-
tes que repetem o mesmo item em -mente várias vezes em seu discurso, sem
querer dar a ele um sentido de modalizador.
Conforme se demonstrou em 4.3.3, além da classe dos advérbios aspectuais
e modalizadores, também a dos operadores de foco — que englobam “adjuntos
focalizadores, intensificadores e os de inclusão/exclusão” — acolhe itens que
acumulam as funções de adjuntos e discursivos. Exercendo essa dupla fun-
ção, esses três tipos de advérbios evidenciam distributivamente, de maneira
bastante clara, a dupla face da Adjunção.
Ao insistir nessa propriedade da Adjunção, quer-se chamar a atenção para
o fato de que as propriedades distributivas de adjuntos e discursivos na es-
trutura dos enunciados podem ser mais bem compreendidas a partir da ca-
racterização da Adjunção como uma operação que, por si, conecta proprie-
dades da Língua-I a maneiras de seu uso. Sob (14), a Adjunção não só efetiva
determinadas distribuições de adjuntos e/ou discursivos, como também li-
mita a sua correlação na configuração dos enunciados, como vimos, ao con-
siderar a análise dos dados de (32) e (33) acima.
Outro exemplo de restrição a possibilidades de correlação de advérbios
num enunciado efetuada pela Adjunção, sob (14), é o caso da ordem entre
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provavelmente e cuidadosamente, discutido em 4.3, exemplo (34), aqui renu-
merado:
(38) a) Provavelmente, João limpou o quarto cuidadosamente.
(É provável que João tenha sido cuidadoso ao limpar o quarto).
b) *Cuidadosamente, João provavelmente limpou o quarto.
Semelhantemente ao que se propôs sobre a análise dos dados de (32) e (33),
acima, pode-se atribuir isso à exclusão de (38b), à ação de (14): colocar-se o
advérbio provavelmente, que tem escopo sobre toda a sentença, sob o escopo de
cuidadosamente, cujo escopo incide sobre um constituinte interno da mesma
sentença, configura-se como uma violação do princípio de preservação das
funções sintáticas categóricas de predicação e complementação determinadas
pela Língua-I.
A ação do princípio (14) sobre a Adjunção é importante na especificação
das possibilidades de distribuição e correlação de adjuntos e discursivos na
estrutura dos enunciados. Ele deve garantir que a Adjunção, como uma
operação que, por si, conecta propriedades da Língua-I a maneiras de seu
uso, configure adjuntos e/ou discursivos na organização dos enunciados,
levando sempre em conta esses dois aspectos: de um lado, as propriedades
deterministicamente especificadas dos itens lexicais com que ela venha
a operar e, de outro, as respectivas possibilidades de uso de tais itens.
O que o princípio (14) faz é colocar a Adjunção e, presumivelmente,
outras operações envolvidas na configuração dos enunciados sob o filtro
das relações sintáticas categóricas de predicação e complementação; em
outras palavras, sob o filtro das relações sintáticas temática e casualmente
estabelecidas.
Nessa perspectiva, sob o princípio (14), pode acontecer, inclusive, que a
Adjunção opere sobre itens já especificados na morfossintaxe para funções
tipicamente constitutivas do processo enunciativo, de modo que eles também
venham a funcionar como marcadores discursivos na interface sintaxe–discurso.
É o caso de verbos e/ou expressões dicendi, que, por si, já denotam operações
de caráter formulativo-interacional em exemplos como:
(39) ... tratam realmente, como já disse, das vantagens.
(DID REC 131)
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A INTERAÇÃO ENTRE ADJUNTOS E DISCURSIVOS
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(40) não... quer dizer eu não afirmo que sai... mas não... é o que sai de Governador
mesmo daquele trevo que tem ali perto de...
(D2 SSA 98)
(41) não, mas eu li... quer dizer um projeto que eu vi acabarem inclusive naquele
viaduto do rio Doce... agora não sei se depois muDAram qualquer coisa assim, mas
eu vi esse projeto inclusive porque nós íamos entrar na concor rência [...] acabamos
não entrando...
(DA SSA 98)
(42) houve uma tentativa de se limitar a carga por roda, quer dizer, de evitar que
carros muito pesados com cargas muito pesadas... trafeguem... acima, quer dizer,
acima do peso para o que ela foi construída... então sucede que você vendo as esta-
tísticas de tráfego de distribuição de carga e de peso por roda et cete ra... cê vê que
as estradas brasileiras estão sendo muito solici tadas... a tal ponto que não poderão
resistir TECnicamente.
(DID SSA 231)
(43) acontece o seguinte a sinalização... é um/ uma etapa cara da estrada... mas... é
indispen sável à segurança de tráfego... quer dizer... aquele/aquela sinalização
feita na Salvador Feira é exatamente um/uma sinali zação feita para estradas e
GRANde movimento...
(DID SSA 231)
O exemplo (39) ilustra bem como uma operação de linearização, sinta-
ticamente condicionada, pode atender a possibilidades/necessidades espe-
cíficas de uso: a expressão como já disse exerce uma função discursiva, ou
metadiscursiva, do mesmo modo que a expressão quer dizer, nitidamente
um marcador discursivo, nos exemplos de (40) a (43).
Os exemplos de (39) a (43) caracterizam-se como discursivos propria-
mente ditos, considerados no volume I desta série (Jubran e Koch (orgs.),
2006). Eles não foram incluídos na classe de adjuntos e discursivos, cujas
propriedades distributivas foram sintetizadas em (31). A razão pela qual eles
foram considerados aqui é mostrar que, como se pode observar, eles também
se comportam distributivamente, obedecendo ao princípio (14) no que con-
cerne à recuperabilidade das funções sintáticas categóricas de predicação e
complementação, determinadas pela Língua-I.
No entanto, uma questão que se coloca é a seguinte: Dados como os
apresentados em (39)-(43), que não foram analisados no capítulo 4, podem
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ser atribuídos à aplicação da Adjunção? O mesmo pode-se perguntar a respeito
de alguns dos dados enumerados por Cunha e Cintra no começo deste capí-
tulo. Ou, ainda, sobre alguns outros que foram considerados na análise cujos
resultados foram resumidos em (31), mas que também não foram analisados no
capítulo 4. É importante colocar esse tipo de questão pelo seguinte: o fato de
tais discursivos se comportarem distributivamente obedecendo ao princípio (14)
não garante que eles tenham sido configurados pela Adjunção. É possível que,
apesar de poder constituir adjuntos com propriedades discursivas, a Adjunção
seja apenas uma das operações de linearização que conectam propriedades da
Língua-I a maneiras de seu uso, submetendo-se ao princípio (14).
É possível, ainda, que a Adjunção, com sua dupla face, uma operação que
conecta propriedades da Língua-I a maneiras de seu uso, se submeta também
a propriedades da língua concernentes ao nível rítmico/prosódico, conforme
postula Kato (2002c).
Nesse texto, Kato chega à conclusão de que, na configuração dos enunciados,
o PB prefere o padrão XVY, (X–Verbo–Y), podendo X e Y serem constituintes
gramaticais ou, em sua ausência, elementos discursivos. A partir dessa cons-
tatação, a autora chega às seguintes generalizações:
1) O PB apresenta, em sua estrutura de complementação, preferentemente
a estrutura VX, sendo X um complemento, ou adjunto/discursivo, com valor
de foco:
(44) a) Eles servem comida boa, né?
b) Eles servem muito bem, né?
(DID RJ 328)
[+F]
2) Relativamente à inversão sujeito-verbo, a incidência de V1 (verbo na
primeira posição) é baixíssima: 85% das ocorrências são de XV, podendo X
ser um discursivo em 61,7% dos casos, como em (45a):
(45) a) [...] ainda existe o individualismo marcado.
(EF SP 405)
b) [...] e nessa conta bancária estavam depositados não o dinheiro que eles me
emprestaram, que [...].
(D2 RJ 355)
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A INTERAÇÃO ENTRE ADJUNTOS E DISCURSIVOS
317
3) Relativamente à ordem SV, se o sujeito é elíptico, ou nulo, o adjun-
to/discursivo pode aparecer nessa posição, sendo, então, interpretado como
tópico:
(46) a) Isso já basta.
b) Drama já basta a vida.
(DID SP 234)
[+Top]
4) Na ausência de sujeito explícito, a ocorrência de discursivos pode ser
um recurso para evitar V1
14
:
(47) a) por falar nisso ganhei uma gravura do Adir hoje.
(D2 RJ 355)
b) só assistiu três vezes?
(DID SP 234)
c) agora tem o seguinte aspecto, a nossa conversa está em torno de dinheiro, de
inflação, de desvalorização de moeda e eu acho que...
(D2 RJ 355)
d) daí vamos fazer um curso.
(D2 RJ 355)
e) quer dizer somos de famílias GRANdes e::... então ach/ acho que::... dado esse
fator nos acostumamos a::muita gente.
(D2 SP 360)
Após estabelecer essas generalizações, Kato (2002c), na linha de (13d),
levanta a hipótese segundo a qual “o padrão rítmico/prosódico configura-se
como um parâmetro, do mesmo modo que o tipo de morfologia, não sendo,
por conseguinte, totalmente determinante da gramática, mas tendo um papel
importante ao reduzir suas possibilidades”.
É notório que as generalizações a que chega Kato (2002c), além de mos-
trarem a necessidade de investir mais na busca de explicitação das operações
de linearização que conectam propriedades da Língua-I a maneiras de seu
uso, convidam a considerar tais operações, incluindo a Adjunção, como mera
manifestação de princípios mais gerais que implementam e gerenciam o pro-
cessamento discursivo. Avançar nessa direção foge ao alcance deste volume,
mas fica aqui a sugestão de um caminho a ser trilhado, visando alcançar o
objetivo a que aludimos no início deste capítulo: na análise empírica dos
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segmentos que se articulam na organização dos enunciados falados, buscar
generalizações que vão além da identificação, descrição e classificação de suas
respectivas formas, funções e posições.
Conclusões
A perspectiva inicialmente adotada para o modo de organização e realização
do trabalho apresentado neste capítulo pode ser assim descrita: “Assumimos, pois,
que por detrás de um aparente caos sintático, expresso na Língua-E do corpus
analisado, possamos depreender uma organização, no nível da Língua-I, que
revelará, em última instância, a sistematicidade variável da sintaxe falada”
15
.
Com isso em mente, partimos de uma análise dos dados do corpus, já rea-
lizada por autores citados no capítulo, na qual se tomou a correlação entre
fatores categóricos e não-categóricos como parâmetro básico para o estudo da
maneira como os falantes operam com a sintaxe da predicação/complementa-
ção para integrar adjuntos e discursivos na organização dos enunciados. Em
relação à distribuição entre adjuntos e discursivos, as conclusões teoricamente
mais instigantes são:
1) o aparecimento de adjuntos em posições usualmente ocupadas por argu-
mentos ocorre na posição à direita do verbo, quando os complementos
são pressupostos, sendo nesse caso o adjunto interpretado como foco. O
mesmo pode ser dito para a posição à esquerda do verbo. Se o sujeito é
elíptico ou nulo, um adjunto pode assumir a posição, que é interpretada
como tópico;
2) a hipótese de que a fronteira de adjacência entre regente e regido seria
desfavorável a preenchimento, seja de adjuntos ou de discursivos, não
foi confirmada. Contudo, estranhamente, em relação aos discursivos
verificou-se que, até certo ponto, essa hipótese inicial é referendada pelos
discursivos na fronteira entre o sujeito e o verbo flexionado;
3) as fronteiras mais desencorajadas para preenchimento são as mesmas
para os adjuntos e os discursivos, a saber, as posições entre argumentos
(C
o
…C
1
;

C
O
...C
0
), a fronteira Top...S. Isso indica que uma teoria que
explique a distribuição dos adjuntos deve explicar também, ao menos, a
distribuição de alguns tipos de preenchedores discursivos.
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A INTERAÇÃO ENTRE ADJUNTOS E DISCURSIVOS
319
Um dos desafios dessa teoria, a ser desenvolvida, é o de explicar com que
princípios os falantes operam para linearizar as estruturas clausais hierárqui-
cas, objetos da Língua-I, na materialidade dos enunciados, objetos da Língua-
E. Levando isso em conta e partindo dos pressupostos elencados em (13),
postulamos que a regularidade verificada nas propriedades distribucionais de
adjuntos e discursivos advém do fato de as operações de linearização, na in-
terface sintaxe–discurso, submeterem-se necessariamente a um princípio do
tipo de (14), que garanta, na organização dos enunciados, a legibilidade da
estrutura clausal abstrata que subjaz às orações, de modo a possibilitar recu-
perabilidade das funções sintáticas de predicação e complementação, deter-
minadas categoricamente pela Língua-I.
Visando justificar a plausibilidade e o modus operandi de tal princípio,
adotou-se a seguinte linha de reflexão:
1) em vez de nos aprofundarmos no estudo das propriedades distribucionais
de adjuntos, de um lado, e de discursivos, de outro, visando comparar,
em detalhe, o comportamento das duas categorias, optamos por procurar
entender melhor o que há na natureza da Adjunção, que lhe possibili-
ta integrar propriedades de adjuntos e discursivos na organização dos
enunciados;
2) para a realização dessa tarefa, baseamo-nos na análise das propriedades
distribucionais dos adjuntos, efetuada no capítulo 4;
3) chegamos à conclusão de que a Adjunção pode ser caracterizada como
uma operação de dupla face, que conecta propriedades da Língua-I a
maneiras de seu uso;
4) considerando essa natureza dual da Adjunção e o seu modo de operação,
concluímos que ela se configura como um mecanismo forte capaz de inte-
grar, em termos de operacionalização de um princípio, (14), propriedades
categóricas e não-categóricas da Língua-I na especificação do modo de
interação entre adjuntos e discursivos na configuração dos enunciados,
na interface sintaxe–discurso.
Em outras palavras, enquanto os adjuntos têm papéis semântico-formais
bem definidos, os discursivos atendem às necessidades de planejamento da
fala, de requisitos pragmáticos como o de clareza, ou ainda à necessidade de
integrar a sentença a uma unidade maior do discurso. Apesar das diferentes
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320
funções, ambos contribuem para o ritmo canônico da língua, e a operação que
permite que todos os segmentos apareçam juntos no momento da enunciação
é a de sua adjunção a categorias linearizadas via instruções da Língua-I.
Sugestões de leitura
Para as noções de Língua-I (Interna, Individual, Intensional) e Língua-E
(Externa, Estensional), leia-se Chomsky (1986).
Sobre o pressuposto básico que norteou o projeto de Kato e Tarallo, leia-se
Tarallo e Kato (1993, p. 92), em que os autores dizem explicitamente em
inglês que: “Assim como a morfologia (caso e concordância) é necessária
para que os itens lexicais se realizem na sintaxe, assumimos que os preenche-
dores — sejam adjuntos ou marcadores discursivos — interagem na saída
fonética, tornando a sentença pronunciável, como partes do discurso”.
Para a teoria da adjacência de caso, que inspirou inicialmente o projeto
coordenado por Kato e Tarallo, leia-se T. Stowell (1981).
Quanto aos trabalhos sobre preenchimento discursivo, consultar Tarallo et
al. (2002a, b, c).
Para uma comparação entre adjuntos e discursivos, consulte-se Kato e Nas-
cimento (2002).
Para uma leitura do projeto de Tarallo e Kato, leia-se Nascimento (2005).
Para as conclusões do projeto de Kato e Tarallo, leia-se Kato (2002c).
Para a noção de Princípios e Parâmetros na primeira formulação, leia-se
Chomsky (1981).
Para uma caracterização e classificação funcional mais completa e refinada
dos marcadores discursivos, consultem-se os três últimos capítulos do volume
I desta série (Jubran e Koch (orgs.), 2006).
Notas
1 Conferir vol. I desta série (Jubran e Koch (orgs.), 2006), p. 29.
2 Cunha e Cintra, A nova gramática do português contemporâneo, 3
a
ed. Rio de Janeiro: Lexikon Infor-
mática, 2007, pp. 552-3.
3 Sobre o tratamento dado aos advérbios nesta gramática, ver vol. II, cap. 5.
4 Ver referências na Apresentação.
5 Esse princípio é baseado em Stowell (1981).
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321
6 Conferir vol. I desta série (Jubran e Koch (orgs.), 2006), p. 29.
7 Idem, op. cit., p. 424.
8 Para uma caracterização e classificação funcional mais completa e refinada dos marcadores discursivos,
consultem-se os três últimos capítulos do vol. I desta série (Jubran e Koch (orgs.), 2006).
9 Ver cap. 4, itens 4.2.3 e 4.3.3, dos quais foram retomados os exemplos aqui renumerados como (24)-
(29).
10 Trata-se dos exemplos (27) e (28), apresentados em 3.3, no cap. 4.
11 Conferir Chomsky, 1996, p. 168.
12 Trata-se de exemplos apresentados em (31), no item 3.3 do cap. 4.
13 Os exemplos foram, aqui, renumerados. Trata-se dos exemplos (87) e (88) do cap. 4.
14 Isso também se observa em Duarte (1995).
15 Tarallo et al., 2002a, p. 32.
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esta obra foi impressa na gráfica _______
para a editora da unicamp em de 2009.
Gramática do Português Culto Falado no Brasil
Volume III: A construção da sentença
Mary A. Kato
Milton do Nascimento
Ataliba T. de Castilho
José Emílio Maiorino
Ricardo Lima
Eva Maria Maschio Morais
Ednilson Tristão
Vilma Aparecida Albino
Grazia Maria Quagliara
Silvia Helena P. C. Gonçalves
Ricardo Assis
16 x 23 cm
Ofset 75 g/m
2
– miolo
Cartão supremo 250 g/m
2
– capa
Garamond Premier Pro
344
Título
Organização
Coordenação geral
Assistente técnico de direção
Coordenador editorial
Secretária editorial
Secretário gráfco
Preparação dos originais
Revisão
Editoração eletrônica
Design de capa
Formato
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Tipologia
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GRAMATICA 3.indb 342 6/11/2009 14:47:31
GRAMATICA 3.indb 343 6/11/2009 14:47:31
GRAMATICA 3.indb 344 6/11/2009 14:47:31

Universidade Estadual de Campinas Reitor Fernando Ferreira Costa Coordenador Geral da Universidade Edgar Salvadori de Decca

Conselho Editorial Presidente Paulo Franchetti Alcir Pécora – Arley Ramos Moreno Eduardo Delgado Assad – José A. R. Gontijo José Roberto Zan – Marcelo Knobel Sedi Hirano – Yaro Burian Junior

GRAMATICA 3.indb 2

6/11/2009 14:46:56

ORGANIZAÇÃO

M ARY A. K ATO M ILTON DO N ASCIMENTO
COORDENAÇÃO GERAL

A TALIBA T.

DE

C ASTILHO

GRAMÁTICA DO PORTUGUÊS CULTO FALADO NO BRASIL
VOLUME 3

A CONSTRUÇÃO DA SENTENÇA

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ficha catalográfica elaborada pelo sistema de bibliotecas da unicamp diretoria de tratamento da informação G761 Gramática do português culto falado no Brasil / coordenação Geral: Ataliba T. de Castilho; organização: Mary Aizawa Kato, Milton do Nascimento. – Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2009. Conteúdo: vol. 3. A construção da sentença. 1. Língua portuguesa – Gramática. 2. Língua portuguesa – Português falado – Brasil.
I. Castilho, Ataliba Teixeira de. II. Kato, Mary Aizawa. III. Nascimento, Milton do. IV. Título.

isbn 978-85-268-0871-3 Índices para catálogo sistemático: 1. Língua portuguesa – Gramática 2. Língua portuguesa – Português falado – Brasil

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SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO

Mary A. Kato, Milton do Nascimento ................................................................................................................. 7
SÍMBOLOS ..................................................................................................................................................................................... 17 1 A ARQUITETURA DA GRAMÁTICA

Mary A. Kato, Carlos Mioto .................................................................................................................................... 19
2 COMPLEMENTAÇÃO

Sonia Cyrino, Jairo Nunes, Emilio Pagotto ................................................................................................. 43
3 PREDICAÇÃO

Rosane de Andrade Berlinck, Maria Eugênia Lamoglia Duarte, Marilza de Oliveira ........................................................................................................................................................ 97
4 ADJUNÇÃO

Maura A. Freitas Rocha, Ruth E. Vasconcellos Lopes ........................................................................189
5 AS CONSTRUÇÕES-Q NO PORTUGUÊS BRASILEIRO FALADO

Maria Luiza Braga, Mary A. Kato, Carlos Mioto .................................................................................. 237
6 A INTERAÇÃO ENTRE ADJUNTOSE DISCURSIVOS

Maria Luiza Braga, Milton do Nascimento ................................................................................................291
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .....................................................................................................................................323

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por se tratar da gramática da língua falada. 1999. tendo sido conduzido. que teve. Castilho. por Mary A. alguns hoje professores em instituições superiores do país. após o falecimento de Fernando Tarallo. ambos da Unicamp. professores e alunos de pós-graduação. em que aparecem. morfologia e fonologia. o corpus Nurc (Norma Urbana Culta). Kato (1992-1996).024-0) coordenado por Mary A. 1996. Dele participaram. ** Universidade Estadual de Campinas/CNPq (Proc. Ilari. Kato. objetos de outros volumes da série. Kato. aspectos textuais. Caracterização do volume Assim como os demais volumes da série. 2002.274/2005-0). revelada por estudos linguísticos do subprojeto Relações Gramaticais no Português Brasileiro Falado (RGPBF). não incluindo classes de palavras. como pesquisadores. consulte-se Castilho (1989). em ocasiões distintas. este livro é parte de uma gramática do Português Brasileiro Falado (PBF). Abaurre e Rodrigues. Kato. Contudo. Koch. O projeto RGPBF foi inicialmente coordenado por Fernando Tarallo e Mary A. 1991. I-VIII da série Gramática do Português Falado (Castilho. como autores. no 91/1. Neves. 1996. todos os que participaram nas versões originais dos trabalhos de pesquisa. 7 GRAMATICA 3. A lista inclui apenas pesquisadores que tiveram autoria em algum trabalho publicado do * Projeto temático Fapesp (Proc. Kato ** Milton do Nascimento *** 1. consultem-se os vols. no 303. inclui o estudo da interação de elementos sintáticos com os discursivos na ordem linear dos enunciados. como banco de dados. com a colaboração.indb 7 6/11/2009 14:46:57 . *** Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. 1993. 1996b. Castilho e Basílio. 2002 ). A descrição se limita aos aspectos relativos às relações gramaticais. Sobre esse projeto. de Charlotte Galves (Unicamp) e Milton do Nascimento (UFMG).APRESENTAÇÃO * Mary A. Sobre o corpus Nurc.

Carmen Lúcia de Castro. Helena Britto. de Lima. Todos os capítulos 8 GRAMATICA 3. Eunice Nicolau. de Oliveira. O presente volume foi elaborado por um subgrupo de pesquisadores que efetivamente participou do projeto RGPBF. Yone Leite. da UFRJ: (professores) Célia T. Vicente Cerqueira e Vilma Reche Correa. da UFMG: (professores) Maria Beatriz Decat. Charlotte Galves. São eles: 1) 2) 3) da Unicamp: (professores) Fernando Tarallo. João Morais. Elenice Costa e Violeta Rodrigues. Maria Bernadete Abaurre. O trabalho de reescritura dos tópicos desenvolvidos no projeto foi feito com os seguintes objetivos em mente: 1) 2) 3) 4) completar as lacunas descritivas e argumentativas dos trabalhos originais. mas aberto a inovações conceituais. com exceção de Maria Eugênia Lamoglia Duarte e Marilza de Oliveira. Carlos Mioto. Michael Dillinger e Milton do Nascimento. Julia Fernandes Lopes. Oliveira. Giselle M. Nilza Barroso Dias. terminológicas e técnicas. sistematizar formalmente os aspectos trabalhados para dar uma iniciação àqueles não-familiarizados com a teoria formal subjacente às descrições. Aqui a vinculação desses participantes aparece como era na ocasião do projeto. Dercir P. Teixeira. dar maior legibilidade aos textos para adequá-los ao público-alvo. (alunos) Andréa Rodrigues. Silva. O. Maria Aparecida Lopes-Rossi. Rosana de Andrade Berlinck. Sonia Cyrino. Kato. (alunos) Alvana Boff. Maria Luiza Braga. Lílian C. Kátia Vitória Santos. O livro tem como destinatário um leitor não-especialista em linguística formal. Mary A. Mônica E. Ruth Moino. Maria Annita Marques dos Santos. Jairo M. que fogem aos usos convencionais da gramática tradicional. comparar os fenômenos estudados eventualmente com outros trabalhos congêneres posteriores e com a própria reflexão teórica atual dos colaboradores do presente volume. KATO • MILTON DO NASCIMENTO subprojeto. Nilmara Sikansi.MARY A . Julio César Souza de Oliveira. Cecília Moreira. Nunes. Dinah Callou. Maura Alves de Freitas Rocha. Emilio Paggotto. que ajudaram a retrabalhar o capítulo sobre predicação.indb 8 6/11/2009 14:46:58 . Mônica Orsini.

observável através do corpus gravado de falantes brasileiros. seguidos da identificação da capital: REC (Recife). não tendo caráter normativo. desde elocuções formais até conversações face a face. listados a seguir com seu número de catálogo. D2 POA 291 DID REC 131. Não há a preocupação em prescrever os usos bem-aceitos institucionalmente. DID SP 234. SSA (Salvador). Delimita-se como objeto de estudo deste volume o desempenho linguístico dos falantes cultos na produção de enunciados constituintes de textos orais. DID RJ 328. Objeto de estudo As análises apresentadas neste e nos demais volumes da Gramática do Português Falado são baseadas no corpus compartilhado do projeto da norma linguística urbana culta do Brasil. EF POA 278 Na presente reescritura.APRESENTAÇÃO conterão. 2. Ao incluir dados de vários tipos. DID (diálogo entre documentador e informante. D2 RJ 355. que selecionou um tipo de inquérito por capital. um objeto externo. que interagem entre si de maneira ainda pouco compreendida. além da descrição de um tipo de relação gramatical. de componentes multifacetados da faculdade da linguagem. uma iniciação aos aspectos estruturais subjacentes às relações estudadas. O uso parcial da metodologia da 9 GRAMATICA 3. EF RJ 379. EF SSA 49. DID POA 45 EF REC 337.indb 9 6/11/2009 14:46:58 . os exemplos são identificados pelo tipo de inquérito: D2 (diálogo entre dois informantes). em diferentes contextos discursivos. SP (São Paulo) e POA (Porto Alegre): D2 REC 05. D2 SSA 98. DID SSA 231. D2 SP 360. Entende-se que o que subjaz a esse produto é a capacidade desses falantes de produzir enunciados a partir de um sistema complexo. RJ (Rio de Janeiro). EF (elocução formal). independentemente de critérios valorativos de certo e errado. mas sim em retratar o que se observa no Português do Brasil (PB) falado por indivíduos cultos. O conteúdo do livro é o de uma gramática descritiva. No corpo do texto. apenas o capítulo 5 fez uso de um corpus expandido de São Paulo e faz referências a exemplos retirados da imprensa. EF SP 405. o livro fornece alguns aspectos de variação que levam em conta a formalidade/informalidade do discurso.

fornecendo informação relevante para o seu funcionamento. segundo o qual: (1) A língua está encaixada em sistemas de performance que permitem que as suas expressões sejam usadas para articular. além dos dados encontrados em artigos de natureza teórica e/ou empírica.indb 10 6/11/2009 14:46:58 . Cada capítulo terá. chegar a algumas generalizações empíricas sobre o seu funcionamento. 244). segundo o qual: (2) A diferença entre o sistema combinatório artificial. O objeto de estudo é. que encontramos no cérebro humano. com instruções. portanto. neste volume.MARY A . como um dos componentes mentais que a produziu. resume-se num verso do poema de Joyce Kilmer: “Só Deus pode fazer uma árvore”. a gramática internalizada (a Língua-I). refletir e exercer outras ações. 3. a Língua-I como o módulo que alimenta. e o natural. que encontramos nos mecanismos de cadeias de palavras. 114). A concepção de gramática utilizada Embora o objeto de estudo seja a Língua-E. em sua terceira parte. Uma sentença não é uma cadeia mas uma árvore. esperamos encontrar conexões entre as propriedades da linguagem e a maneira como é usada. entendese que o desempenho linguístico do falante/ouvinte engloba necessariamente. indireto. p. o sistema de desempenho. Nessa perspectiva. isto é. Se bem que a ideia de que a linguagem é “desenhada com vista ao uso” ou “bem adaptada às suas funções” não tenha um sentido claro. referir. tais estudos podem ser um caminho. como postula Chomsky (1999. contudo. enfoca-se. Podemos considerar que cada DE é um complexo de instruções para estes sistemas da performance. encontrada em corpus. mas utilizase também a intuição dos falantes que participaram deste estudo. Numa 10 GRAMATICA 3. a que Chomsky (1986) chama de Língua-E (externa e extensional). perguntar. A importância desse tipo de representação encontra-se nas palavras de Pinker (2002. p. pois. interpretar. para desvendar como se dá a interação de pelo menos alguns desses componentes. KATO • MILTON DO NASCIMENTO variação na fase da pesquisa permite. a língua produzida e registrada em corpus. algumas Descrições Estruturais (árvores) postuladas para a gramática do português brasileiro.

como vimos. que se estabelecem. que regem a forma das línguas humanas. O sintagma recebe um nome — um símbolo mental — e pequenos sintagmas podem ser reunidos em sintagmas maiores. Não é um constructo que se encontra de forma visível na materialidade do enunciado: encontra-se “no cérebro humano”. ou. ainda. de um lado. mas a consideração de fatores externos a ela na descrição do fenômeno permite predizer quando cada forma ocorre. para o falante culto do português brasileiro. como um sistema de Princípios universais. e de Parâmetros estabelecidos conforme a língua do ambiente. a língua admite variação sintática. enquanto os exemplos retirados do corpus virão em itálico. Os padrões sintáticos que os Parâmetros definem para o PB constituirão a base teórica de nossa descrição. Segundo o pressuposto acima.APRESENTAÇÃO gramática humana. Logo. como uma das condições necessárias para a produção dos enunciados. O asterisco será usado quando a ocorrência for impossível para o falante culto. Uma sentença não é uma cadeia de palavras. e “enunciado” de outro. inovadora. em uma abordagem probabilística. Os exemplos metalinguísticos virão gravados em letra normal. o falante fará uso da forma (3b). entretanto. em geral formas conservadoras de fases anteriores do português brasileiro. a contar com formas competitivas para um mesmo sentido. conforme a visão chomskiana. do qual o falante tem até mais consciência do que a que tem da gramática que adquiriu sem instrução. entre “sentença”. portanto. acima. Em muitos domínios gramaticais. entendida. aqui. outra camada que provém da escolarização e do seu conhecimento das formas da escrita. a concordância é automática/categórica quando o sujeito está antes do verbo.indb 11 6/11/2009 14:46:58 . através dos valores dos Parâmetros selecionados. Os primeiros excluem o que não é possível em uma língua natural e os últimos definem o tipo de língua particular adquirida por um falante. em contexto formal e da forma (3b’). empréstimos de formas ditadas pelas normas portuguesas. o falante escolarizado passa. palavras se agrupam em sintagmas. O saber linguístico do adulto culto tem. Por exemplo. um dos componentes da faculdade da linguagem é a Gramática (ou Língua-I). conservadora e aprendida na escola. 11 GRAMATICA 3. como brotos num galho. mas uma árvore. O que se afirma em (2) pode ser lido na pauta da distinção e correlação. em fala descontraída. Provavelmente. mas opcional quando aparece depois. “numa gramática humana”.

tais como hesitações. KATO • MILTON DO NASCIMENTO (3) a) Os ovos chegaram. pausas. como o caso da forma ( 3b’). estigmatizada pela escola. muitas vezes. Da mesma forma 12 GRAMATICA 3. através da escolarização. O uso de corpus envolve. Essa perspectiva se justifica tendo em vista que: 1) 2) 3) a metodologia de coleta no Nurc operou com variáveis extragramaticais como região e tipo de discurso. o que temos com as interrogativas (4a) e (4b) é um tipo de variação que pode ser encontrado antes da escolarização: (4) a) Onde a Maria mora? b) A Maria mora onde? A utilização de um corpus como o Nurc enfatiza o PB em uso como inerentemente variável e a descrição como um retrato dessa variação. mas muitos têm um estatuto. b) Chegaram os ovos. podem deixar de ser usados. sem função estritamente gramatical. uma assepsia dos dados para eliminar segmentos típicos da fala. competindo espaço com outros constituintes gramaticais.: hesitações. repetições. Assim. intromissão de elementos discursivos. o que faz prever a ocorrência de formas competitivas na fala de um indivíduo culto. o PB falado apresenta. repetições) ou para atender ao requisito da clareza perceptual. Todavia. de tornar o enunciado uma unidade do discurso.indb 12 6/11/2009 14:46:58 . a’) *Os ovos chegou. uma gramática descrita a partir de corpus pode dar pistas concretas do uso que o falante faz dos vários subsistemas da faculdade da linguagem. sem concordância. usou os dados em sua íntegra e o resultado revela como tais elementos se inserem no fluxo da fala.MARY A . Parte desses elementos discursivos são exigidos pelo planejamento da fala (ex. inovações em sua gramática ainda não absorvidas ou percebidas pelas gramáticas normativas. conforme pesquisas diacrônicas. b’) Chegou os ovos. a descrição de uma gramática da fala torna-se mais fiel a ela se inclui todos esses itens. neste livro. A descrição. A possibilidade de escolha não se limita a aspectos que. além de variáveis estritamente linguísticas. no nível textual.

objeto do volume referente a classes de palavras. a tipologia de sujeito. juntamente com muitos adjuntos. as construções de tópico marcado. discutimos: 1) 2) 3) 4) 5) a distinção entre argumento externo e argumento interno. 13 GRAMATICA 3. a ordem dos constituintes sentenciais e a concordância verbal entre sujeito e verbo.indb 13 6/11/2009 14:46:58 . Organização do volume A apresentação das relações gramaticais neste volume privilegiou uma ordem que vai da palavra ao discurso: complementação > predicação > adjunção > construções com elementos deslocados > preenchedores.).APRESENTAÇÃO que as palavras retiradas do léxico precisam da morfologia flexional para se realizar na sintaxe. 4. a realização preenchida ou vazia (∅) desses complementos. não incluindo relações no interior do sintagma nominal. este volume pressupõe a leitura do volume II da série. a noção de sujeito adotada neste volume. os preenchedores discursivos. tipos de verbos em função de seus complementos. a representação estrutural dos padrões de complementação estudados. discutimos: 1) 2) 3) 4) 5) a noção de sujeito na tradição gramatical. a partir daí. parecem ser o estofo necessário para o enunciado se tornar uma unidade do texto/discurso. sobre classes de palavras e processos de construção (Ilari e Neves (orgs. 2008. a forma e a ordem dos complementos foneticamente realizados. com especial atenção à representação do sujeito pronominal. Este volume dedica um capítulo especial apenas para esse tipo de elemento. No capítulo da “Predicação”. O livro privilegia as relações gramaticais no nível sentencial e verbal. No capítulo da “Complementação”. começamos revendo a noção de complementação nas gramáticas tradicionais e. Nesse sentido.

3) posição dos diferentes adjuntos na estrutura sentencial. com alguma referência ao que se diz sobre essas construções na gramática tradicional. diferenciando-os de argumentos. e uma de sistematização formal. as orações clivadas e pseudoclivadas e seus subtipos. descrevemos: 1) 2) 3) as tradicionais orações relativas adjetivas restritivas e livres. a cortadora e a com ressumptivo). Finalizamos o capítulo com a discussão sobre a representação estrutural dos padrões de adjunção estudados. Resumindo. 2) função semântica. propusemos uma especificação do papel da operação de adjunção no estabelecimento da correlação adjuntos–discursivos na interface sintaxe–discurso. o livro tenta mostrar como.MARY A . as orações Interrogativas-Q e seus subtipos. A partir daí: 1) 2) descrevemos a interação entre adjuntos e discursivos em enunciados do corpus analisado. No capítulo da “Adjunção”. Cada uma dessas construções terá uma seção descritiva. No capítulo sobre “Construções-Q”. a partir do verbo. KATO • MILTON DO NASCIMENTO O capítulo também traz uma seção de análise sintática formal dos padrões de predicação estudados. definimos o que sejam adjuntos a partir do que deles se fala na gramática tradicional. Começamos por enfocar a proposta de análise dos discursivos apresentada pela NGB (Nomenclatura Gramatical Brasileira). No capítulo 6. e discutimos: 1 forma. 14 GRAMATICA 3. seu discurso/texto. sendo as restritivas descritas em seus subtipos (a padrão. propomos uma perspectiva de análise da maneira como os falantes operam com as instruções da Língua-I para integrar adjuntos e discursivos na organização dos enunciados.indb 14 6/11/2009 14:46:58 . o falante constrói suas sentenças e. a partir destas.

que. 15 GRAMATICA 3. Os números dos processos aparecem mencionados nos capítulos relevantes. gostaríamos de agradecer ao nosso companheiro Ataliba de Castilho. Gramática do português culto falado no Brasil. foi um leitor cuidadoso e crítico de sua versão final.indb 15 6/11/2009 14:46:58 . além de nosso coordenador geral no Projeto da Gramática do Português Falado e de coordenador geral deste novo volume.APRESENTAÇÃO Para finalizar. Agradecemos ainda ao CNPq pelas bolsas de produtividade em pesquisa com que contaram muitos dos autores durante a confecção deste volume.

GRAMATICA 3.indb 16 6/11/2009 14:46:58 .

SÍMBOLOS PB PBF GPBF RGPBF Nurc EF D2 DID S MO Português brasileiro Português brasileiro falado Gramática do português brasileiro falado Relações gramaticais no português brasileiro falado Norma Urbana Culta Elocução Formal Diálogo entre Informantes Diálogo com Entrevistador sentença (= juízo) minioração nominativo acusativo dativo lacuna.indb 17 6/11/2009 14:46:58 . traço ou vestígio deixado por deslocamento/movimento de constituinte papéis temáticos projeção mínima projeção intermediária nome verbo projeção intermediária do SV adjetivo preposição SX SN SV SA SPrep nom acus dat [ __ ] θ1 θ2 X X’ N projeção máxima sintagma nominal sintagma verbal sintagma adjetival sintagma preposicional V V’ A Prep 17 GRAMATICA 3.

KATO • MILTON DO NASCIMENTO C Adv Flex Flex’ Espec Top conjunção.MARY A . complementizador advérbio flexão projeção intermediária de SFlex especificador tópico SC sintagma complementizador SAdv sintagma adverbial SFlex sintagma flexional STop sintagma tópico 18 GRAMATICA 3.indb 18 6/11/2009 14:46:58 .

indb 19 6/11/2009 14:46:58 .A ARQUITETURA DA GRAMÁTICA GRAMATICA 3.

indb 20 6/11/2009 14:46:58 .GRAMATICA 3.

.......................................................................................... A periferia à esquerda da sentença ............................................................................................................. A relação de predicação ...... Introdução .SUMÁRIO 1................................................................................ A relação de adjunção ........................................................ Verbos de ligação ................................................................................................ 24 3................................. As noções que herdamos dos gregos ........................................................................... 28 5..................................................... 23 2.................................... 31 6...............................................................................................1....... A interface léxico-sintaxe: o papel da morfologia ........................................................................................................................................................................ 25 4....................................................................................................................................... 41 GRAMATICA 3....................2............................................................................................. A contribuição estruturalista: o sintagma e a arquitetura dos constituintes imediatos ............................................ 27 5.................................... 35 8............................... A relação de complementação ............................................................ 33 7.......................... 28 5............................................................................................indb 21 6/11/2009 14:46:58 ...... 41 Sugestões de leitura .............................................. A lógica moderna de Frege e uma nova arquitetura:“No princípio era o V ” ............................................... 38 Resumo .................................................

GRAMATICA 3.indb 22 6/11/2009 14:46:59 .

os universais sintáticos de Greenberg (1963) eram generalizações indutivas sobre a correlação entre a ordem dos constituintes maiores e dos menores nas línguas naturais. sempre foi considerado objeto da sintaxe o estudo da ordem desses constituintes. Kato * Carlos Mioto ** 1. no 300. Além delas. Introdução O estudo das relações gramaticais envolve tradicionalmente as funções de sujeito e predicado. Contudo. Neste livro. Por exemplo. os termos tradicionais continuarão a ser usados como rótulos facilitadores. de verbo e complemento e de adjunto. * Universidade Estadual de Campinas/CNPq (Proc. nesse sentido. Neste capítulo introdutório. Lembremos que.1 A ARQUITETURA DA GRAMÁTICA Mary A. Procedendo assim.274/2005-0).557/2005-1). vamos abordar as noções funcionais e a ordem sentencial pressupondo que ambos são derivados de conceitos estruturais mais primitivos. um dos universais greenbergianos previa que uma língua com a ordem verbo-objeto teria também a ordem preposição-nome. fazemos um breve histórico dos conceitos gramaticais e mostramos as inovações e os refinamentos elaborados pelos gerativistas a partir dessa herança.indb 23 6/11/2009 14:46:59 . pretendemos fornecer suporte conceitual aos outros capítulos que compõem este livro. ** Universidade Federal de Santa Catarina/CNPq (Proc. no 303. ou ainda de sujeito. 23 GRAMATICA 3.

Isso explica por que. o Adjetivo (A) também é considerado verbo. abreviado nas representações como (N). Enquanto o verbo e o adjetivo eram vistos como uma mesma classe por Aristóteles e Platão. classes lexicais. classes abertas. É com eles. por causa de sua função predicativa. a II d.. São também os descobridores das 24 GRAMATICA 3. ainda. e verbo (V). que englobava todas as demais categorias. como tempo (T) e gênero (G). foram concebidas independentemente também por Platão. as primeiras estritamente gramaticais na história da gramática. As categorias parecem definir-se formalmente através de sua morfologia. a hipercategoria conjunção (C). no início. os quais são definidos em termos de suas funções lógicas de constituírem uma sentença (S) ou um juízo de verdade-falsidade. classes fechadas. para as categorias [-substantivas]. ainda.MARY A .C.C. Tais conceitos não são. e por Panini. as seguintes classes de palavras: o advérbio (Adv). classes funcionais ou gramaticais. ao rol das categorias. Finalmente.C. a preposição (Prep) e o pronome (Pron). As noções que herdamos dos gregos Os conceitos de sujeito e de predicado são tão antigos quanto o próprio conceito de gramática e remontam. os alexandrinos passam a conceber o adjetivo como uma classe autônoma do nome e acrescentam ainda.indb 24 6/11/2009 14:46:59 . para Aristóteles. É também com Aristóteles que temos a descoberta de categorias não-substantivas. na Índia. no Ocidente. por sua vez. na Grécia. ambos no século V a. e. a Aristóteles. este último também descoberto pelos estoicos. independentes dos conceitos das classes gramaticais nome. (1) Sujeito = N S (= juízo) V V/A = Predicado Essas categorias substantivas. KATO • CARLOS MIOTO 2. dos séculos IV a. descobrem o artigo (Art) e agrupam este e o adjetivo como subcategorias nominais. que temos a análise dos predicados em subconstituintes. com a classificação dos verbos em transitivos e intransitivos e das sentenças em ativas e passivas. nome e verbo. o que nos leva a supor que o agrupamento foi motivado pelas similaridades morfológicas de gênero e caso. os estoicos. Outros termos usados para distinguir essas duas subclasses são: para as categorias [+substantivas].

indb 25 6/11/2009 14:46:59 . Temos. como a negação. A contribuição estruturalista: o sintagma e a arquitetura dos constituintes imediatos Se os gregos levaram séculos para descobrir as categorias gramaticais vistas acima. exibem características típicas de classes gramaticais. Advérbios e preposições parecem até hoje constituir classes mistas.A ARQUITETURA DA GRAMÁTICA categorias gramaticais de número e modo. foi só com o estruturalismo que categorias intermediárias entre a palavra e a sentença foram descobertas. a propriedade de não admitirem inovações lexicais. as seguintes subclasses: (2) Categorias Lexicais (abertas) N V A V Funcionais (fechadas) T G Adv Prep Caso Número Pessoa Pron Modo Adv Prep 3. linguistas estruturalistas estabelecem as combinações de palavras (sintagmas) que equivalem. enquanto os advérbios em -mente apresentam a mesma produtividade de adjetivos. isto é. outros. Assim. às palavras simples: (3) Categoria N V A Prep Sintagma Sintagma Nominal Sintagma Verbal Sintagma Adjetival Sintagma Preposicionado Símbolo SN SV SA SPrep 25 GRAMATICA 3. contendo subclasses lexicais e subclasses gramaticais. assim. Através de equivalências distribucionais. em contexto sintático.

o complemento seria o constituinte irmão do núcleo V. o complemento é dominado pelo SV e pode ser um SN. [SPrep no boato]. um SPrep. em lugar de nome e verbo. Enquanto o sujeito é considerado o constituinte SN imediatamente dominado por S. (5) SN V SV Chico O cantor O cantor de olhos verdes sorriu dedilhou o violão cantou um novo samba A partir dos estruturalistas. [S que sua visita foi útil]. ou de sujeito e predicado. um SV ou mesmo uma S. um constituinte de SV não-dominado imediatamente pela sentença: (7) SN S V SV O presidente V V SN SV S (O boato) (receber os grevistas) (que sua visita foi útil) SPrep (No boato) Sujeito Complemento 26 GRAMATICA 3.indb 26 6/11/2009 14:46:59 . como exemplificado em (6): (6) a) O presidente b) O presidente c) O presidente d) O presidente ouviu acreditou resolveu achou [SN o boato]. [SV dedilhou o violão]. [SV receber os grevistas]. [SV cantou um novo samba]. é postulado que a sentença (S) é composta de sintagma nominal e sintagma verbal. isto é.MARY A . KATO • CARLOS MIOTO (4) a) [SN Chico] b) [SN O cantor ] c) [SN O cantor de olhos verdes] S [SV sorriu]. Na estrutura.

Frege passa a trabalhar com os conceitos em (9). os argumentos aparecem com papéis semânticos.indb 27 6/11/2009 14:46:59 . o verbo é o núcleo de SV. os chamados papéis temáticos (θ) (agente. podemos ter: (10) a) predicados de um lugar Sorrir x Cair x Homem x Grande x Ver x y Matar x y Pai x y Orgulhoso x y Dar x y z Colocar x y z Doação (doação do dinheirox ao orfanatoy pela viúvaz) b) predicados de dois lugares: c) predicados de três lugares: Essa representação é absorvida pela sintaxe moderna. eliminando a assimetria entre sujeito e complemento. para Frege. tal conceito é dispensável. 4. em lugar de variáveis x. Abandonando os dois constituintes proposicionais aristotélicos em (8). o sujeito é um constituinte externo a SV. y. onde. mas como representação dos itens no léxico. z. Assim. Os predicados não se limitam a verbos. nessa representação. (8) (9) SENTENÇA (JUÍZO) = SUJEITO (N) + PREDICADO (V) PREDICADO + Argumentos Os predicados classificam-se conforme o número de lugares (argumentos) que exigem para formar uma proposição. 27 GRAMATICA 3.A ARQUITETURA DA GRAMÁTICA Note-se que. mas podem ser também adjetivos ou até nomes. o pai da lógica moderna. enquanto o complemento é um constituinte interno a SV. A lógica moderna de Frege e uma nova arquitetura: “No princípio era o V ” Se para Aristóteles o conceito de sujeito era fundamental para estudar a lógica das proposições.

1. com papel θ em geral agentivo. instrumento etc. KATO • CARLOS MIOTO experienciador. 5. viajar. o vocabulário criado para tratar de juízos de verdade e de falsidade era o da gramática.indb 28 6/11/2009 14:46:59 . que têm o sujeito posposto como a ordem não-marcada. (12) a) telefonar θagent b) aparecer (θ-agente) c) comprar θagente (θ-agente) (V inergativo) (V inacusativo) (V transitivo) (13) a) Luiz telefonou. pular. donde sua contribuição enorme para a descoberta das classes de palavras e das primeiras palavras funcionais/gramaticais. Já. como um constituinte central da sentença. no caso de um argumento único com papel θ não-agentivo.). c) Ele comprou o novo Harry Potter. Compreen de-se também por que tempo chamou logo a atenção de Aristóteles. além de se apresentarem como argumentos externos ou internos (este marcado pelos parênteses em (11)). É o caso de verbos como cair. como no caso de telefonar. e temos aí os chamados predicados inergativos. chorar. desde o início. trataram a categoria tempo. o argumento é interno e temos os chamados predicados inacusativos. este é um argumento externo. Chomsky e seus seguidores. (11) a) sorrir θ b) matar θ1 (θ2) Quando há apenas um argumento.MARY A . A relação de predicação 5. A interface léxico-sintaxe: o papel da morfologia Embora os gregos estivessem mais interessados em lógica e retórica. o núcleo sentencial passou a ser tratado ora 28 GRAMATICA 3. nota-se que é o tempo que lhes confere valor de verdade. existir. utilizando-se de argumentos sintáticos e nãológicos. Uma sentença no infinitivo não é nem verdadeira nem falsa. Quando se lida com verdade e falsidade de juízos. aparecer. b) Apareceu um fantasma. Como a categoria tempo se manifesta como flexão (Flex) em muitas línguas ocidentais.

[SV comprar o novo Harry Potter]]] d) Ele comprou o novo Harry Potter. um sintagma flexional (SFlex) com Flex como núcleo e Flex’ como a categoria intermediária entre Flex e SFlex: (15) SN Flex V Flex Flex’ V V SV V SV Nessa representação. exibe o caso reto (nominativo). pode-se dizer que o sujeito nessa representação é o que tradicionalmente consideramos o sujeito gramatical. isto é. aquele com que concorda o verbo e que. (16) a) [SV comprar o novo Harry Potter] b) [Flex’Passado. 3a pessoa sing. [SV comprar o novo Harry Potter]] c) [Ele[+nomin] [Flex’Passado. adotada a partir da década de 1980. através de Flex. mas também a flexão de concordância. Considerando-se que a flexão temporal vem muitas vezes somada com a flexão de concordância.A ARQUITETURA DA GRAMÁTICA como flexão ora como tempo. que só se satura quando preenchemos a sentença com o sujeito.indb 29 6/11/2009 14:46:59 . O SN sujeito tem uma ligação indireta com V. (14) S SN FLEX 7 V SV V SN Em uma ramificação arbórea binária. quando pronominal. o predicado é uma categoria aberta. 3a pessoa sing. A categoria flexão pode abrigar não apenas a flexão de tempo. Flex e SV passam a ser irmãos e a sentença passa a ser uma projeção de Flex. 29 GRAMATICA 3. ou seja.

(19) a) Ele me viu perto de casa. No português falado no Brasil. relativamente fixa. b) Ele viu o ladrão perto da vítima. com flexão de terceira pessoa) apresentam comportamento de nomes. são invariáveis quanto à morfologia de caso nas diversas funções e.indb 30 6/11/2009 14:46:59 . a terceira pessoa singular ele/ela e plural eles/elas assim como a segunda pessoa indireta (= você. como o latim e o japonês. como se pode ver no contraste possível entre o nominativo e o acusativo dos pronomes de primeira e terceira pessoas. isto é. têm a mesma distribuição posicional dos nomes. como consequência. (17) a) Magistra puellam docet. Em línguas com caso morfológico. a função de sujeito está eminentemente associada ao caso nominativo. As línguas naturais têm essencialmente duas formas de codificar funções gramaticais: através da morfologia e através da ordem de constituintes. como aparece em (16d). c) O ladrão viu você perto da vítima. e a ordem dos constituintes é relativamente livre. KATO • CARLOS MIOTO Uma regra morfológica junta os morfemas de tempo e de pessoa ao verbo. (20) a) O policial viu o ladrão perto da vítima. resultando daí a forma flexionada do verbo. c) Você viu o ladrão perto da vítima. Jun-nom Hanako-acus trouxe b) Hanako-o Jun-ga tsuretekita. ensina No português culto há ainda um resquício desse caso morfológico nos pronomes. Mestra-nom menina-acus b) Puellam magistra docet. acus 30 GRAMATICA 3. (18) a) Jun-ga Hanako-o tsuretekita. b) Eu o vi perto de casa.MARY A . b) O ladrão viu ele perto da vítima. nom (21) a) O ladrão viu o policial perto da vítima.

é a sentença. deixando sua forma de dicionário. então. (25) a) [MO o ator [talentoso]] b) [MO a adolescente [grávida]] c) [MO os anéis [preciosos]] 31 GRAMATICA 3. c) Os anéis parecem preciosos. estar. mas do predicativo. (23) a) O ator é talentoso. as sentenças em (24) são malformadas.indb 31 6/11/2009 14:46:59 . (24) a) *O anel parece talentoso. b) O ladrão viu a vítima perto dele. é que a relação temática se manifesta dentro do complemento dos verbos de ligação. parecer têm uma propriedade em comum: o sujeito de sentenças que os contêm não são argumentos deles. Assim.2. c). não porque parecer não possa ocorrer com o anel e o ator como sujeitos. em uma relação de predicação a que chamamos minioração (MO) (small clause). b) *O ator está grávido. mas porque talentoso não pode ser predicado de o anel e grávido não pode ser predicado de o ator. a qual estabelece a relação de predicação através da concordância e do caso nominativo. obl O caso acusativo do objeto é tradicionalmente considerado como atribuído pelo verbo assim como o caso oblíquo é atribuído pela preposição.A ARQUITETURA DA GRAMÁTICA (22) a) O ladrão viu a vítima perto do policial. O que ocorre. já que podemos ter (23a. entendida como a projeção da categoria Flex. c) O ladrão viu a vítima perto de você. b) A adolescente está grávida. O que se viu nesta seção é que o domínio em que um elemento se torna parte da estrutura sintática. Verbos de ligação Os chamados verbos de ligação como ser. O nominativo é o caso não-marcado. 5.

c) [os anéis parecem [MO [ __ ] [preciosos]]]. o sujeito da MO passa a ser o sujeito gramatical da sentença. b) Este menino aprisionou um leão. devem ter uma estrutura argumental diferente da de um verbo transitivo. Essas particularidades podem ser consideradas indícios de que os verbos de ligação. 32 GRAMATICA 3.MARY A . A outra. é que o predicativo concorda com o sujeito em gênero e número quando ele é do tipo que espelha morfologia flexional. (27) a) Essa atriz é sem graça. KATO • CARLOS MIOTO Ao se combinarem com verbos de ligação. se for um SN (ou um adjetivo). O verbo (assim como o predicativo. Mas uma MO pode ter predicados de outros tipos: um SPrep (sem graça). se for o caso) passa a concordar com ele. b) [a adolescente está [MO [ __ ] [grávida]]]. que se manifesta no português. um tipo de concordância de caso. que se manifesta em línguas como o latim. O SN que se localiza à direita do verbo transitivo aprisionar em (28b) é referencial e é o complemento desse verbo. Existem duas outras particularidades importantes na morfologia quando temos sentenças com verbos de ligação. um SN (um gênio) ou um SV (lutar). é que o predicativo. espelha o mesmo caso do sujeito. b) Esse menino parece um gênio. apesar de poderem apresentar-se com um SN à esquerda e outro à direita. Comparemos as sentenças em (28): (28) a) Este menino parece um leão. (26) a) [o ator é [MO [ __ ] [talentoso]]]. o SN que se localiza à direita do verbo de ligação parecer é um predicado (não é um argumento) e é apenas parte de seu argumento complexo definido como uma MO. Uma delas. movendo-se de sua posição de origem onde deixa uma lacuna. c) Viver é lutar.indb 32 6/11/2009 14:46:59 . como em (27b).

verbos que 33 GRAMATICA 3. Isto é.indb 33 6/11/2009 14:47:00 . Este apartamento bate bastante sol [ __ ]. em certas situações como nas MOs. A relação de complementação Em oposição à noção de sujeito. como o dativo. marca que pode ser considerada um reflexo da assimetria entre sujeito e complemento. o complemento tem de ser marcado por um caso diferente do caso do sujeito. Um argumento interno (29a. Existem. por sua vez. não seria marcado por caso.f ). Se um verbo tem apenas o argumento interno. este vai ser o sujeito. Os verbos podem ter no máximo dois complementos. o externo acaba sendo o sujeito da sentença (ou da predicação). este (ou. como vimos em (17a) e (18a). cunhados pela tradição como direto e indireto. parte de um argumento interno (29c. um SN que faz parte dele) vai ser o sujeito. A Belina cabe muita gente [ __ ].d) ou. Por isso. Maria parece ( [ __ ] ) estar __ cansada. O PB. mesmo um adjunto (29e. Se um verbo tem dois argumentos. marca essa assimetria posicionando os complementos após o verbo. Maria parece [ __ ] cansada. do contrário. temos a noção de complemento. Se um verbo tem apenas o argumento externo. O complemento de um verbo. é preciso estar atento para não aplicar a noção de sujeito apenas ao que é argumento externo nem confundir a noção de argumento interno com a de complemento. Vimos que a sintaxe moderna assimilou a lógica fregeana. pois. mas o fez mantendo a assimetria entre o argumento externo e o interno. como o latim e o japonês. o SN complemento direto em geral exibe o caso acusativo. no limite. que não tem morfologia de caso (a não ser para os pronomes de primeira e segunda pessoas). A posição natural do complemento direto é logo após o verbo do qual é irmão e do qual recebe o caso acusativo. O indireto é marcado por outros casos. o que acontece sempre que o verbo tem argumento externo. a não ser que eles sejam clíticos. ainda. O complemento indireto é o último e tem de vir preposicionado. Maria foi assaltada __. é um argumento interno que não foi ou não pôde ser promovido a sujeito.A ARQUITETURA DA GRAMÁTICA 6. pode acabar sendo o sujeito da sentença: (29) a) b) c) d) e) f) Maria chegou [ __ ]. Em línguas com morfologia casual rica.b).

o SN precisa deslocar-se para a posição de sujeito para ser marcado por nominativo. o SN Maria se mantém in situ. por isso. A situação em (25)-(26) é reeditada. Maria não pode sofrer deslocamento semelhante. b) a adolescente está [MO [ __ ] grávida]. como gostar em (30): (30) João gosta de Maria. Certos verbos transitivos podem ter como complemento uma MO.MARY A . Por fim. A presença obrigatória da preposição é atribuída à incapacidade de o verbo atribuir acusativo ao seu complemento. regem idiossincraticamente uma preposição. comparemos o contexto sintático em (31) com o que envolve um verbo de ligação em (25) e (26). Aqui se capta essa distinção em termos da categoria caso: já que o verbo de ligação é incapaz de atribuir acusativo (é inacusativo). O que acontece de interessante em (31) é que o sujeito da MO Maria recebe caso acusativo dos verbos transitivos num processo de marcação de caso excepcional: o verbo atribui acusativo para um SN que não é o complemento dele. KATO • CARLOS MIOTO têm apenas um complemento e. mesmo assim. se passamos as sentenças de (31) para a voz passiva: 34 GRAMATICA 3. b) O juiz julgou [MO Maria inocente]. por outro lado. a sentença já tem sujeito e. Em (31). c) os anéis parecem [MO [ __ ] preciosos]. aqui repetidos: (25) a) [MO o ator talentoso] b) [MO a adolescente grávida] c) [MO os anéis preciosos] (26) a) o ator é [MO [ __ ] talentoso].indb 34 6/11/2009 14:47:00 . como exemplificado em (31): (31) a) João considera [MO Maria inteligente]. O SN sujeito da MO em (25) tem de se deslocar para virar o sujeito da sentença. já que os verbos transitivos de (31) são atribuidores de acusativo.

são adjuntos. Como ensina a tradição gramatical. Para distinguir argumentos de adjuntos. Em especial. 7. A relação de adjunção As sentenças podem ser expandidas por constituintes que. A voz passiva é um tipo de construção inacusativa: o agente é “retirado” da posição de argumento externo e o particípio passivo não atribui acusativo. vamos estendê-la afirmando que os demais núcleos lexicais podem ter complemento: (33) a) aptidão para o magistério b) apto para o magistério c) por preguiça Em (33a). b) João filmou a invasão de Roma. (35) a) João telefonou para Maria de Florianópolis. em (33c). temos que para o magistério é complemento do nome aptidão. b) Maria foi julgada [MO [ __ ] inocente] pelo juiz. em (34) de Florianópolis e de Roma são argumentos respectivamente do verbo gostar e do nome invasão. Entretanto. o SN sujeito da MO deve virar o sujeito da sentença ou deslocarse para a posição de sujeito para receber caso nominativo. Eles não recebem sua função temática de nenhum constituinte da 35 GRAMATICA 3. b) João visitou a cidade de Roma. A noção de complemento pode ser generalizada de forma a envolver outros núcleos. assim como do adjetivo apto em (33b). não tendo propriedades de argumento. que lhes atribuem a função temática que eles desempenham.A ARQUITETURA DA GRAMÁTICA (32) a) Maria é considerada [MO [ __ ] inteligente] pelo João. Dessa forma.indb 35 6/11/2009 14:47:00 . comparemos as funções dos SPreps em (34) e (35): (34) a) João gosta de Florianópolis. preguiça é o complemento da preposição por. os mesmos SPreps funcionam como adjunto em (35): do SV em (35a) e do nome cidade em (35b).

Assim. mas. o resultado continuará sendo um verbo: (37) a) b) c) d) [SV andar] [SV andar muito] [SV andar com cuidado] [SV andar todos os dias] Também nesse caso o número de adjuntos é indeterminado: (38) a) [SV andar muito todos os dias] b) [SV andar muito habitualmente desde a última consulta médica] Spreps ou advérbios também se adjungem a sentenças sem lhes alterar o estatuto de sentenças: (39) a) [SFlex Ontem [SFlex O Pedro andou muito]]. se adjungirmos um adjetivo ou um Sprep a um nome. sendo pendurados dentro de sua projeção máxima. ao contrário. realizam um tipo de predicação. Os adjuntos. o número de adjuntos que um constituinte pode ter é indeterminado. sobre o SV em ( 35a) (donde o rótulo tradicional de adjunto adverbial) e sobre o nome em (35b) (donde o rótulo tradicional de adjunto adnominal). o conjunto resultante continuará sendo um nome: (36) a) b) c) d) [SN livro] [SN livro didático] [SN bom livro didático] [SN bom livro didático de estórias] Como observamos em (36). não expandem a projeção de um núcleo sintático. KATO • CARLOS MIOTO sentença. ao contrário.indb 36 6/11/2009 14:47:00 . b) [SFlex [SFlex O Pedro chegou tarde ] infelizmente]. e são pendurados nas bordas (da projeção máxima) de um sintagma.MARY A . Os argumentos (Arg) expandem a projeção de um núcleo sintático. se adjungirmos um advérbio ou um sintagma preposicional a um verbo. Da mesma forma. Compare como são pendurados os 36 GRAMATICA 3. Os adjuntos são acoplados a constituintes e a sentenças sem lhes modificar o estatuto categorial nem a sua projeção.

Entretanto. Porque os núcleos têm projeção máxima. o número de argumentos de um núcleo é previsível: uma sentença tem no máximo um sujeito (sujeitos compostos. Embora possa ser o caso. quando inserimos na árvore o adjunto. nem sempre a expansão se faz pelo acréscimo de adjuntos ao mesmo XP. podemos conceber que de carro e de Florianópolis sejam adjuntos do SV por especificarem o meio e o lugar da cena encabeçada pelo verbo trazer. o que vamos ter é a projeção intermediária X’ de X. a projeção XP não muda. o número de adjuntos é imprevisível. seja adjunto 37 GRAMATICA 3. devemos conceber que na semana passada. como não podem alterar a projeção de um núcleo. quando combinamos X’ com Arg1. João trouxe a mesa de Florianópolis de carro na semana passada. Em (41c). João trouxe a mesa de Florianópolis. a sentença em (41a) pode ser expandida pelo acréscimo de novos adjuntos: (41) a) b) c) d) e) João trouxe a mesa. Em (41a). João trouxe a mesa de Florianópolis de carro. Felizmente João trouxe a mesa de Florianópolis de carro na semana passada. Assim. No entanto. Entretanto.A ARQUITETURA DA GRAMÁTICA adjuntos e como são pendurados os argumentos na representação arbórea em (40): (40) Adjunto1 XP V XP XP V X’ Arg1 V X Adjunto2 V Arg2 Quando combinamos Arg2 com o núcleo X. seja adjunto da sentença.indb 37 6/11/2009 14:47:00 . podemos conceber que felizmente. por expressar uma opinião do falante. por significar tempo. coordenados são um só) e no máximo dois complementos (valendo o mesmo para complementos coordenados). o que temos é a projeção máxima XP de X.

não para a Joana]. O primeiro é o complementizador não-marcado e o segundo é o interrogativo. sendo o núcleo de sua própria projeção SC (Sintagma Complementizador): 38 GRAMATICA 3. João se empenhou para A sentença que formamos. b) Para a Maria [SFlex o João comprou flores. que é chamada de periferia esquerda. [SFlex o João comprou flores para ela]. ou derivamos. a categoria que incorpora o tempo verbal. A periferia à esquerda da sentença A área da sentença que fica à esquerda do sujeito. Pedro perguntou [se [SFlex ele comprou o novo Harry Potter]]. Procedendo assim.indb 38 6/11/2009 14:47:00 . Pedro disse [que [SFlex ele comprou o novo Harry Potter]]. Para que a sentença [ele comprou/comprasse o novo Harry Potter] possa ser o complemento dos verbos ou da preposição da sentença matriz. b) João trará a mesa de Florianópolis de carro na semana que vem. é preciso que um elemento gramatical a introduza: a conjunção que ou se. (42) a) *João trará a mesa de Florianópolis de carro na semana passada. A segunda é a função gramatical de possibilitar o encaixe de uma sentença em outra: (43) a) b) c) d) Ele comprou o novo Harry Potter. pode também conter constituintes que desempenham duas outras funções.MARY A . como felizmente em (41e). [que [SFlex ele comprasse o novo Harry Porter]]. Os complementizadores preenchem C. A primeira é a função discursiva de codificar o tópico (42a) ou o foco (42b) da sentença: (42) a) A Maria. que hoje designamos complementizadores (C). Além de conter constituintes adverbiais. 8. é um lugar especial por onde a sentença se expande. enquanto (42a) não é: na semana passada não pode predicar ou especificar o tempo futuro amalgamado ao verbo trazer. em (43a) se expande do lado esquerdo. mediante o acréscimo dos itens que e se. conseguimos explicar por que a sentença em (42b) é bem-formada. para ser parte de uma outra sentença superior. KATO • CARLOS MIOTO de SFlex.

os pronomes Q saem de sua posição de origem para se colocar na periferia à esquerda da sentença. [SFlex eu viajei [ __ ] no último verão]]. que são chamadas de sintagmas-Q: [48] a) [SC Que ator [SFlex o jornalista entrevistou [ __ ]]]? b) [SC Em que dia [SFlex ele entrevistou o ator [ __ ]]]? O português brasileiro coloquial tem sentenças que mostram que a posição das palavras e dos sintagmas Q é em SC. [SFlex ele comprou o Harry Potter]]. já que eles podem preceder o complementizador que: 39 GRAMATICA 3. [SFlex ele comprasse o novo Harry Porter]]. o que. onde). os elementos interrogativos-Q podem formar unidades complexas. qual. [SFlex as crianças viram o ladrão [ __ ]]]. Outros elementos que podem aparecer introduzindo sentenças subordinadas são os pronomes Q interrogativos ou relativos (quem.A ARQUITETURA DA GRAMÁTICA (44) C que/se SC V SFlex (45) a) b) Pedro disse [SC que c) Pedro perguntou [SC se d) João se empenhou para [SC que [SFlex ele comprou o novo Harry Potter]. [SFlex ele comprou o novo Harry Potter]]. [SFlex as crianças viram o ladrão [ __ ]]]. deixando uma lacuna no lugar de origem: (46) a) b) c) d) O jornalista perguntou O jornalista perguntou Esta é a pessoa João mora [SC quem [SC onde [SC com quem [SC onde [SFlex as crianças viram [ __ ] correndo]]. Os pronomes Q interrogativos podem também encabeçar uma sentença matriz: (47) a) [SC Quem [SFlex as crianças viram [ __ ] correndo]]? b) [SC Quando [SFlex as crianças viram o ladrão [ __ ]]]? Em sua constituição sintática. Ao introduzir as sentenças subordinadas. quando.indb 39 6/11/2009 14:47:00 .

na matriz STop precede SC e na encaixada STop não pode preceder SC. como vemos em (52b. A posição relativa entre STop e SC na periferia esquerda difere se a sentença é matriz ou encaixada: naturalmente.indb 40 6/11/2009 14:47:00 . não o João]]. onde ficam os complementizadores que e se. (50) XP CP V C C' ! g Quem1 [que aluno]1 que que V 4 SFlex [ __ ]1 comprou o novo Harry Potter A posição XP em (50) não é ocupada apenas por elementos Q. como os que aparecem em maiúsculas em (51): (51) [SC O PEDRO que [SFlex [ __ ] comprou o novo Harry Potter. O que ocorre em SC tem a ver com a natureza ilocucional da sentença (interrogativa. que função discursivo-informacional de tópico (STop) é também codificada na periferia esquerda da sentença: (52) a) [STop Meu carro [SFlex o pneu dele furou ]]. declarativa) ou ainda com a função discursivo-informacional de foco. e uma posição sintagmática para onde podem mover-se elementos pronominais e sintagmas. deduzimos que se trata de um constituinte independente de SC.MARY A . b) [STop Esse vinho [SC quanto [SFlex você pagou por ele]]]? c) A Maria disse [SC que [STop os meninos [SFlex ela vai buscar (eles) à tarde]]]. podendo abrigar uma posição nuclear C. 40 GRAMATICA 3. Como o tópico coocorre com constituintes localizados em SC. b) Pedro perguntou [SC que aluno que [SFlex [ __ ] comprou o novo Harry Potter]]. Observamos. As formas em (49) mostram que a estrutura de SC é complexa. c). KATO • CARLOS MIOTO (49) a) Pedro perguntou [SC quem que [SFlex [ __ ] comprou o novo Harry Potter]]. por fim. mas também por elementos focalizados.

apresentamos brevemente a história dos conceitos gramaticais. E. O primeiro foi o conceito de sujeito que está correlacionado à noção de predicado. Sugestões de leitura Para a contribuição grega à teoria gramatical. A noção de adjunto se aplicou a constituintes que não são argumentos. foi estendida a constituintes que complementam as preposições. passamos pelos estruturalistas e pela lógica fregeana e chegamos aos refinamentos e aos novos conceitos elaborados pela gramática gerativa. Em seguida. leiam-se. o nome e o adjetivo. A segunda relação envolve a noção de complementação (ver cap. além de ser aplicada a constituintes que complementam o verbo. A primeira relação destacada é a de predicação (ver cap. muito embora o inverso não se sustente. 41 GRAMATICA 3. foi abordada a noção de adjunção (ver cap.A ARQUITETURA DA GRAMÁTICA Resumo Neste capítulo. consulte-se Mioto (2003). um elemento que não é argumento. pôs-se em destaque o papel dos chamados verbos de ligação. por exemplo. verbos que “ajudam” a estabelecer a predicação. 4). b) um argumento interno e c) no limite. Os conceitos funcionais que resultaram desse procedimento foram três. que procuramos caracterizar formalmente por oposição a argumentos e funcionalmente por oposição a sujeitos e complementos. Começamos pela antiguidade clássica. Sobre a periferia esquerda da sentença. O que é posto em destaque são as relações gramaticais que serão abordadas nos vários capítulos deste livro. consultem-se Robins (1964) e Lyons (1971). O que pode acabar sendo sujeito de um predicado é a) o argumento externo. Bloomfield (1933) e Fries (1940). Para a contribuição estruturalista. A noção de complemento coincide com a de argumento interno. e sobre a da sentença do português brasileiro. consulte-se Rizzi (1997). Para a teoria da gramática em que se baseou boa parte deste capítulo. 2). leia-se Raposo (1992). consulte-se Pires de Oliveira (2001). por fim. Para as noções fregeanas. Além disso. 3) que. foi mostrado brevemente como a periferia esquerda da sentença é ativada quando a sentença é ou não encaixada.indb 41 6/11/2009 14:47:00 . em que é destacado o papel da morfologia mediando a relação entre o sujeito e o predicado.

GRAMATICA 3.indb 42 6/11/2009 14:47:00 .

indb 43 6/11/2009 14:47:00 .COMPLEMENTAÇÃO GRAMATICA 3.

GRAMATICA 3.indb 44 6/11/2009 14:47:01 .

....... Forma dos complementos ........ A noção de complementação a ser adotada neste volume ................... 47 2......................1 ................................................. 71 5......................................................................................................................................................... Primeira pessoa .... A noção de complementação nas gramáticas tradicionais .................4.....................6.......................................... 77 5........... 74 5......................................... Aspectos gerais da complementação em PB ........................... 48 3............................................................... 72 5..........3............................... 82 6........3................................. 57 4............................................................ O objeto nulo .................................................... 50 4.......................................................................................1....... 68 5.................1..................................... Verbos de alçamento ............... Verbos transitivos .............................................. 59 4........................................ 58 4............................................... Verbos inacusativos versus verbos inergativos ......................................................2 .................................3.................... Verbos bitransitivos ......................... 66 5.....................................................................2...........................................................................................................................................5....................................4.................................... 79 5..........................................................2......................................................3 ........................................................................................................................................................... 87 6..............................................................................2..................................4...........................................3........... Generalizando estruturas com verbos leves: verbos transitivos ................................. Introdução ..... Tipos de verbos em função de sua complementação ......................... 83 6..... 66 5...................................................................................3................................................................ Verbos sem argumentos ............................. Verbos bitransitivos ....................................................2............. Terceira pessoa ...................................... 71 5............................................................4.................................................. 89 6............ 62 4................................................ 57 4..................................................................................................................... Complementos sentenciais .............. Verbos transitivos versus verbos inacusativos ......................................................... Sistematização formal das estruturas de complementação ............................... Complementos pronominais .................................. Verbos leves ..................1.......... Ordem dos clíticos ...................... 83 6............................................4............... 73 5...................1................. 90 GRAMATICA 3...........................................................3......indb 45 6/11/2009 14:47:01 .............................................................................................. 58 4........................................................................... Verbos inacusativos e inergativos ............ Segunda pessoa .................................................................... 64 5...............................4... Sintagmas preposicionais nulos ..................................................................................... Complementos foneticamente nulos .SUMÁRIO 1.............3..........................................................................................

5................................................................................... Esquema geral da estrutura do sintagma verbal ................ 92 6................................................................................6............................... Verbos “transitivos” com dois argumentos internos ................................ 94 Sugestões de leitura ............................................................indb 46 6/11/2009 14:47:01 .................................................. 95 Notas .........................................................................................................................................................6.............. 96 GRAMATICA 3.................

Que essa distinção é pertinente para uma compreensão mais abrangente da faculdade da linguagem é fato indiscutível. *** Universidade de São Paulo. de outro. a e na [escola] maternal em (1). por exemplo. eu a coloquei na maternal com um ano e quatro meses. numa perspectiva fregeana. demanda três argumentos e é a sua saturação através da conexão com os sintagmas eu. e complementos. em caso afirmativo.. Basta uma breve olhada em qualquer gramática para encontrarmos uma série de diagnósticos semânticos e sintáticos que opõem sujeitos. de um lado. (1) a minha menina tem três anos agora ela foi a escola com um ano e quatro meses.765/2006-0). * Universidade Estadual de Campinas/CNPq (Proc. no 401148/2006-8). pois cada argumento tem uma relação direta com o verbo.2 COMPLEMENTAÇÃO Sonia Cyrino * Jairo Nunes ** Emilio Pagotto *** 1. 47 GRAMATICA 3. Introdução Vimos no capítulo 1 que.indb 47 6/11/2009 14:47:01 . ** Universidade de São Paulo/CNPq (Proc. como capturá-la.. Um predicador verbal como colocar. que permite que a proposição associada a essa sentença seja julgada como verdadeira ou falsa. A questão que devemos contemplar é se essa distinção é relevante do ponto de vista linguístico e. por exemplo. um predicado pode subsidiar julgamentos sobre a verdade ou a falsidade de proposições somente quando estiver conectado aos argumentos que ele requer. (DID SSA 231) Observe que essa concepção estritamente lógica oblitera a clássica distinção entre sujeitos e complementos. no 308. Diz-se nesse caso que o predicado está saturado.

bobó de camarão. A noção de complementação nas gramáticas tradicionais 1 A gramática tradicional geralmente flutua entre dois eixos para estabelecer a distinção entre sujeitos e complementos. e a seção 5 discute as várias possibilidades de realização desses complementos no PB. privilegiando aspectos lexicais do verbo. Finalmente.. como em (2)..acarajé é o paciente da ação e o complemento do verbo. A seção 4 apresenta uma tipologia de verbos em função dos tipos de complementos que eles tomam. Embora capture de modo transparente os prototípicos predicados de ação na voz ativa. (DID RJ 328) c) Eu gosto mais de laranja. (DID RJ 328) d) Nós passamos uma tarde num lugar onde eles serviram uma refeição. (DID RJ 328) 48 GRAMATICA 3..acarajé.bobó de camarão. a seção 6 refina a estrutura geral do sintagma verbal com base na tipologia apresentada na seção 4. 2. o sujeito é tido como o elemento que tipicamente pratica a ação expressa pelo verbo e o complemento. (DID RJ 328) a) Quase sempre ela é procurada pelos alunos. como o paciente dessa ação.. em que nós é o agente da ação e o sujeito da sentença e muito xinxim de galinha.SONIA CYRINO • JAIRO NUNES • EMILIO PAGOTTO Pode-se (e deve-se!) questionar se os diagnósticos são os mais adequados e se são derivados da interação de propriedades mais básicas. Mas a ideia de que a distinção sujeito-complemento deve ser capturada em algum nível de análise é ponto pacífico nos estudos linguísticos. por exemplo. A seção 2 retoma a concepção de complementação existente na gramática tradicional e a seção 3 explicita a noção de complementação que exploraremos aqui... essa noção não se mostra adequada nos exemplos de (3). Num eixo mais semântico..indb 48 6/11/2009 14:47:01 . estando organizado da seguinte forma. (D2 SP 360) b) Nós fomos a um restaurante lá. (2) (3) então nós comemos muito xinxim de galinha. Este capítulo enfocará as relações de complementação no português brasileiro (PB). introduzindo a distinção entre argumentos externos e internos..

mas ao paciente (ela). O outro eixo que a gramática tradicional explora para distinguir sujeitos de complementos é de natureza mais sintática.COMPLEMENTAÇÃO Em (3a). No caso específico da complementação verbal. assim. Verbos psicológicos como gostar podem ser analisados como requerendo um experienciador e uma fonte desencadeadora da experiência psicológica. que não é entendido naturalmente como o paciente da ação. o sujeito é tomado como o sintagma com o qual o verbo concorda e que exibe caso reto (nominativo) quando pronominal. Apesar da ausência de agentes e pacientes em (3c) e (3d). por sua vez. Já em (3c) e (3d) não temos verbos de ação. Uma vez identificado assim o sujeito. fato que é apontado por inúmeros gramáticos. enquanto verbos de estado como passar. as gramáticas costumam então lidar com a relação de complementação na descrição da sintaxe dos termos da sentença e nas listas de regência. Em (3b). ainda assim se observa a distinção entre sujeitos de um lado [eu em (3c) e nós (3d)] e complementos de outro [de laranja em (3c) e uma tarde e num lugar onde eles serviram uma refeição em (3d)]. 49 GRAMATICA 3. o agente vai corresponder ao sujeito. a presença ou não de preposição no seu complemento e a especificação lexical dessa preposição. Nessa perspectiva. Essa perspectiva mais sintática faz as distinções desejadas entre sujeitos e complementos nos dados de (2) e (3). que vem pautando as gramáticas escolares a partir da década de 1960. mas de certa forma perde-se agora a generalização de que. intransitivos e de ligação) e a forma dos complementos para distinguir sua função sintática (objeto direto e objeto indireto). sendo por fim empregado mais recentemente como a subcategorização lexical de cada verbo com relação à preposição. temos um verbo de ação que toma como complemento um elemento locativo (a um restaurante lá). mas acabou ignorado pela Nomenclatura Gramatical Brasileira de 1959. quando verbos de ação estiverem associados a um agente e um paciente. passando a designar apenas as relações de complementação. Destaque-se também que em (3b) e (3d) os complementos têm natureza adverbial. passivas à parte. temos um caso em que o sujeito da sentença não corresponde ao agente da ação expressa pelo verbo (os alunos). um tempo e um lugar.indb 49 6/11/2009 14:47:01 . A regência de um verbo passa a ser. como requerendo um tema. Já o termo regência tem sofrido mudanças no seu emprego: já designou a relação entre um núcleo e seus especificadores e complementos. levam-se em conta as relações de complementação para classificar tipos de verbos (transitivos.

gostar seleciona um sintagma preposicional (SPrep).) de tais argumentos. um verbo não somente determina o número de argumentos a ser projetado na sintaxe. (DID RJ 328) b) eu gosto de qualquer tipo de bebida. sintagma preposicional etc. experienciador etc. por outro lado. entre outras coisas. Ou seja. (4) a) eu adorei o tal do acarajé. cachaça.. qual é o papel temático (agente. Os verbos adorar e gostar em (4).indb 50 6/11/2009 14:47:01 .. como também especifica que tipos de relações semânticas se estabelecem entre tais argumentos 50 GRAMATICA 3. requerem o mesmo número de argumentos e o mesmo tipo de papel temático para esses argumentos. as generalizações semânticas serão determinadas pela estruturação da relação do verbo com seus argumentos e as questões pertinentes à concordância verbal estarão associadas à posição estrutural dos argumentos dentro da sentença.. 3. por exemplo.) desses argumentos. ao complemento. mas como complementares. Até certo ponto.SONIA CYRINO • JAIRO NUNES • EMILIO PAGOTTO e o paciente. uma visão estritamente sintática não explica por que é o agente o elemento que desencadeia a concordância verbal nessas construções. paciente. desde a cachaça até o vinho mais fino. Como veremos na seção 3 abaixo.. qual é a realização sintática (sintagma nominal. (DID RJ 328) Do ponto de vista semântico. A noção de complementação que vamos adotar neste capítulo vai tomar os eixos semântico e sintático não como excludentes. três especificações: 1) 2) 3) quantos (de zero a três) são os argumentos que esse verbo requer. mas exigem complementos sintáticos diferentes: enquanto adorar seleciona um sintagma nominal (SN). A noção de complementação a ser adotada neste volume A informação constante na entrada lexical de um verbo envolve. essas especificações são independentes.

.. tomar um caminho. o senhor presi- 51 GRAMATICA 3. desde as menores digamos assim até as mais relevantes..... (DID POA 45) e) é um milagre.. (DID SSA 98) Embora tomar selecione dois argumentos em todas as sentenças de (5). Ou seja. e empregado.. foi uma economia.] a... (D2 SP 360) h) essa questão. mais importantes.. e um começa.. tomar uma atitude. tomar pé.. está tomando assim:: ma/. a a ((risos)) a tomar atitudes mais ou menos autoritárias.. das questões. tendo que tomá-lo tá claro? (EF RJ 379) f ) através DEle que o senhor presidente vai tomar pé. tomar uma dimensão e tomar trote em (5) soam como unidades semânticas bem-formadas. impelida a seguir o seu caminho.. tomar banho.... tomar impulso.... e:: íamos tomar banho né? lá no:: no Barroso.... por assim dizer. maior impulso. Ao contrário do que poderia sugerir a abordagem fregeana mencionada na seção 1. (DID POA 45) c) essa parte estudantil que está se interessando para isso por isso..... (DID SP 234) d) os alunos parece que tomam conta. essa parte estudantil toma. patrão. nós tomávamos.. os alunos tomam. (5) a) e também não tinha sal:: temperinho porque às vezes agora a gente precisa tomar sopa de pedregulho né? (EF SP 405) b) TOdo o DIA pegava uma amiguinha pegava um:: bonde aqui (do) São João que tinha. toma uma outra dimensão. dos professores...COMPLEMENTAÇÃO e o processo descrito pelo verbo.indb 51 6/11/2009 14:47:01 .. (DID REC 131) g) porque normalmente quando tem muitos.. (DID REC 131) i) mas o tipo de trote mesmo que eu tomei eu achei uma beleza. uma economia tomou.. o verbo parece formar uma unidade semântica com apenas um dos argumentos... a chamada relação. na medida em que podem ter seu valor semântico estabelecido independentemente do outro argumento requerido pelo verbo........ tomar sopa. diferentes argumentos não interagem com o verbo ou entre si da mesma maneira. porque DESAPARECE. [. já sequências como a gente toma. por exemplo. tomar conta... Considere a demonstração com o verbo tomar em (5).....

A ideia é que a relação de dependência semântica entre os argumentos espelha uma assimetria sintática. a mudança do primeiro argumento de o João para o cachorro não acarreta diferença na interpretação do segundo argumento.SONIA CYRINO • JAIRO NUNES • EMILIO PAGOTTO dente tomará. Em (7a). precisando ser desdobrado. a interpretação do primeiro argumento é composicionalmente determinada não em função de uma relação direta com o verbo. assunto que será discutido no capítulo 3. um toma. b) O cachorro tomou água. O João tomou café. embora o primeiro argumento se mantenha constante. (6) a) O João tomou água. O João tomou vergonha. na verdade. O João tem um papel semântico totalmente distinto quando associado a tomar uma decisão e tomar um pescoção. O João tomou uma decisão. a) b) c) d) e) O João tomou o ônibus. essa questão toma ou eu tomei só recebem interpretação apropriada quando associados ao outro argumento do verbo. mas em função da relação previamente estabelecida entre o verbo e o segundo argumento. constituiria com o seu complemento uma espécie de predicador composto: é um predicador cuja raiz não traria toda a informação necessária à predicação. Dito de outra forma. Evitando-se as armadilhas a que o termo sujeito pode conduzir. Em ( 6 ). em consonância com a herança gramatical que se origina da gramática de Port-Royal. o verbo intransitivo seria o predicador por excelência. que toma a complementação de um verbo como uma espécie de desdobramento do elemento predicador. seu papel semântico muda à medida que muda o segundo argumento. 52 GRAMATICA 3. O João tomou um pescoção. Sendo o verbo um predicador — aquele que diz algo do sujeito —. Manteve-se como constante em (6) o segundo argumento de tomar e em ( 7 ) o primeiro argumento. O verbo transitivo.indb 52 6/11/2009 14:47:01 . a assimetria entre diferentes argumentos vista acima foi reinterpretada mais recentemente em função da oposição argumento externo vs argumento interno. por exemplo. por exemplo. Já em (7). (7) Fatos como os ilustrados em (5)-(7) estão. por sua vez. O contraste entre as sentenças de (6) e (7) abaixo também aponta para a mesma conclusão.

cada nó na árvore representa um constituinte sintático. Um argumento independente para a estrutura do sintagma verbal nos moldes de (8) é fornecido por expressões idiomáticas. Ao substituir o ônibus por outro sintagma nominal. por sua vez. resulta no sintagma verbal pleno (SV). Argumentos internos estabelecem uma relação sintática direta com o verbo no interior de V’. assim. excluindo o primeiro argumento. a conexão sintática entre o verbo e SN2 forma um constituinte verbal. à distinção entre argumentos internos e externos. a relação semântica estabelecida entre V’ e SN1 é potencialmente diferente. dizemos que o João é o argumento externo/especificador de tomou. 53 GRAMATICA 3. e a conexão sintática de V’ com SN1. Em (8). (8) SN1 SV V V V’ 4 o João V tomou g SN2 o ônibus 4 Em (8). como representado em (8). por exemplo. Assim. se mudamos o segundo argumento das sentenças de (7). Chega-se. A representação em (8) pode receber agora uma interpretação semântica composicional adequada.indb 53 6/11/2009 14:47:01 . baseada na estrutura sintática: o verbo estabelece uma relação semântica com SN2 e V’ estabelece uma relação semântica com SN1. em que o verbo e o argumento interno sombreados formam uma expressão idiomática que não inclui o argumento externo. enquanto argumentos externos são os elementos que estão imediatamente dominados por SV e estabelecem uma conexão sintática com V’. chamado de projeção intermediária para se distinguir do item lexical tomou e de todo o sintagma verbal. o valor semântico de o João pode se alterar. portanto. seu argumento interno/complemento.COMPLEMENTAÇÃO tomou forma uma unidade sintática complexa com o sintagma nominal o ônibus. À oposição semântica argumento externo/argumento interno corresponde a distinção sintática especificador/complemento. como exemplificado em (9). É por isso que. e o ônibus. São inúmeros os casos de expressões idiomáticas com o formato [SV SN1 [V’ V SN2]]. o conteúdo de V’ em (8) vai ser diferente e. V’.

As representações em (11) 54 GRAMATICA 3. observe que a oposição argumento externo/argumento interno está norteada para o eixo semântico mencionado na seção 2. esticou as canelas. Considere. excluindo o argumento interno. Observe que SN1 e V não formam um constituinte sintático nessas estruturas. mas sim com V’.SONIA CYRINO • JAIRO NUNES • EMILIO PAGOTTO (9) a) b) c) d) O João O João O João O João pintou o sete .indb 54 6/11/2009 14:47:02 . (D2 REC 05) b) Olinda foi engolida pelo Recife. se presente. Subjaz a essa discussão a ideia de que um argumento vai ocupar a posição de especificador ou de complemento do verbo em função de seu papel temático. Essa lacuna encontra explicação se expressões idiomáticas tiverem de corresponder a um constituinte sintático. é realizado estruturalmente como um adjunto (o agente da passiva na terminologia tradicional). o papel temático de agente é opcional e. o papel temático de agente será canonicamente atribuído à posição de especificador do verbo e o de paciente. Olinda recebe o papel temático de paciente em ambas as sentenças. por exemplo. o par de sentenças em (10). portanto. bateu o pé . a inexistência de expressões idiomáticas com o formato [SV SN1 [V’ V SN2]] mostra que o argumento externo não estabelece uma relação semântica direta com o verbo. (D2 REC 05) Em termos semânticos. Apesar de estar fundamentalmente alicerçada numa distinção estrutural. (10) a) Recife engoliu Olinda. não existem casos com o formato [SV SN1 [V’ V SN2]]. o papel temático de agente é obrigatoriamente atribuído ao argumento externo. (~ ‘fez bagunça’) (~ ‘insistiu em sua posição’) (~ ‘morreu’) (~ ‘fez besteira’) Por outro lado. Assim. A distinção semântica mais fundamental entre ativas e passivas na verdade diz respeito ao argumento externo. Em outras palavras. ao seu complemento. deve estar associado à posição de complemento do verbo. Em construções ativas. que deveriam corresponder a expressões idiomáticas envolvendo o argumento externo e o verbo. A exceção aparece quando construções passivas entram em campo. chutou o balde . já em construções passivas.

(12) a) O Recife a engoliu. quando passivizado.COMPLEMENTAÇÃO retratam essa diferença estrutural (a estrutura da adjunção será discutida mais detidamente no cap. Isso fica claro quando examinamos sentenças envolvendo clíticos (pronomes pessoais átonos) acusativos. mas não o argumento interno de (11b). como se pode ver em (12) (o asterisco é usado para registrar a inaceitabilidade de uma sentença). determinando concordância com o verbo auxiliar e exibindo caso nominativo [cf. b) *Foi engolida-a pelo Recife/*Foi a engolida pelo Recife/*A foi engolida pelo Recife/Ela foi engolida pelo Recife. (11) a) SN SV V V V’ 4 Recife V SN engoliu b) foi g Olinda 4 V SV SV V SPrep V’ V V pelo Recife SN 4 V engolida Olinda g 4 Uma diferença independente entre ativas e passivas que pode ter repercussões para a realização do argumento interno é que o verbo transitivo. 55 GRAMATICA 3. perde sua capacidade de atribuir caso acusativo ao seu complemento. O argumento interno de uma passiva na verdade funciona como o sujeito sintático da sentença.indb 55 6/11/2009 14:47:02 . 4). O argumento interno da estrutura em (11a) pode ser realizado pelo clítico acusativo a. ela em (12b)].

é o argumento que pode se mover para a posição de sujeito. Para os nossos propósitos do momento (essas questões serão retomadas em detalhe no cap. no entanto. em (11a) Recife é o argumento na posição mais alta e. reinterpretando-a em termos de uma posição estrutural específica.SONIA CYRINO • JAIRO NUNES • EMILIO PAGOTTO Embora as estruturas em (11) sejam adequadas para capturar o fato de que em ambas as sentenças de (10) Olinda é. está associada à realização de caso nominativo e à especificação da concordância verbal. portanto. por exemplo. (14) a) quantos o senhor deseja? (EF REC 337) b) [[SN quantos] [o senhor deseja __ ]] "------------m Note que podemos agora resgatar a definição de sujeito dentro da perspectiva eminentemente sintática (o termo que desencadeia concordância e que exibe caso nominativo). o sintagma nominal quantos [pastéis de nata]) também pode fazer passeio semelhante. a que nos referiremos como posição de sujeito. (11b) não dá conta da ordem em que esse sintagma aparece em (10b). Metaforicamente falando. o SN os meninos resolvesse dar uma voltinha pela sentença e acabasse estacionando numa posição externa ao SV. Em (14a). e (ii) o argumento na posição estruturalmente mais alta no SV é o que pode mover-se para a posição de sujeito. como ilustrado em (14b). comumente referida como movimento de constituintes sintáticos: o fato de elementos associados semanticamente a uma posição estrutural poderem ser realizados em outra posição. semanticamente. um argumento interno. Assim. basta dizer que (i) uma determinada posição externa ao SV. Simplesmente reflete uma das propriedades fundamentais da sintaxe das línguas humanas. é demonstrado que um argumento interno de uma construção ativa (nesse caso. desencadeando concordância de terceira pessoa do singular e recebendo caso 56 GRAMATICA 3.indb 56 6/11/2009 14:47:02 . Isso. 3). não é na realidade um problema. como ilustrado em (13). depois de receber o papel temático de paciente na posição de complemento em (11b). é como se. (13) [[SN Olinda] [ foi [SV [SV [V’ engolida __ ]] [SPrep pelo Recife]]]] "---------------m E esse passeio estrutural definitivamente não é uma idiossincrasia de construções passivas.

admitindo tanto argumentos externos [cf. o que é relevante é o tipo de papel temático que um determinado verbo deve atribuir aos seus argumentos.COMPLEMENTAÇÃO nominativo.indb 57 6/11/2009 14:47:02 . uma vez que pelo Recife é na verdade um adjunto. por exemplo. No plano mais semântico. portanto. (12b)]. como ilustrado em (15). escurecer. Já em (11b). Isso por sua vez conduz à distinção entre argumentos externos. que ocupam a posição de complemento e têm seu papel semântico definido no interior de V’. Verbos sem argumentos Verbos que expressam fenômenos climáticos como ventar. A noção de sujeito fica associada a uma posição estrutural externa ao SV e. os verbos podem ser classificados não só em relação ao número de argumentos que requerem. enquanto tal. A abordagem delineada acima vem reconciliar. não há nenhum argumento em posição mais alta que o SN Olinda. (10b)]. é indiferente ao papel temático do sintagma que venha a ocupá-la. Veremos abaixo que a distinção argumento externo/argumento interno permite identificar tipos de verbos não vislumbrados pela gramática tradicional. 4. Tipos de verbos em função de sua complementação Uma vez estabelecida em linhas gerais a distinção entre argumentos externos e argumentos internos na seção 3. em geral não requerem nenhum argumento (nem interno nem externo). 4. (10b)]. os eixos semântico e sintático que norteiam as diferentes perspectivas sob as quais a gramática tradicional distingue sujeitos e complementos.1. A definição do argumento que pode ocupar essa posição se dá em função da posição estrutural dos argumentos dentro de SV: o argumento em posição estrutural mais alta é o eleito para ser alçado à condição de sujeito. Olinda pode então se mover para a posição de sujeito [cf. 57 GRAMATICA 3. que ocupam a posição de especificador de SV e têm seu papel semântico determinado por V’. amanhecer e garoar. mas também em relação à natureza desses argumentos. A noção de complementação relevante para as seções que se seguem diz respeito à relação entre verbos e seus argumentos internos. determinando a concordância do verbo e recebendo caso nominativo [cf. (10a)] quanto internos [cf. e argumentos internos.

levar um ao banheiro para dar uma comida para outro::.3. O agente ocupa o especificador de SV e o paciente ocupa o complemento de V.... como ilustrado em (17). como exemplificado em (16). (17) a) aí eu fico trabalhando em casa mas tomando conta toda hora preciso interromper no meio de um negócio para::.2..SONIA CYRINO • JAIRO NUNES • EMILIO PAGOTTO (15) a) choveu muito uma temporada quando a gente ia com o SESC. (DID RJ 328) b) SN SV V V’ 4 nós V V comemos g SN um quindim 4 4. (D2 SP 360) b) há um determinado momento em que eu vou colocar resumo na translação.. Verbos bitransitivos Verbos bitransitivos — verbos que a gramática tradicional chama de transitivos diretos e indiretos — envolvem um argumento externo e dois argumentos internos. que vão estar associados às estruturas em (18) (ver seção 6. (16) a) lá nós comemos um quindim por quinze cruzeiros também. Representantes típicos dessa classe são os verbos de transferência de posse e os verbos de posicionamento. (EF POA 278) 58 GRAMATICA 3.. (DID POA 45) b) SV ! V’ ! V ! choveu 4.indb 58 6/11/2009 14:47:02 .4 para mais detalhes). Verbos transitivos Os exemplos clássicos de verbos transitivos envolvem os verbos de ação usados na voz ativa.

Em termos de possibilidades lógicas.4. (19) a) SV argumento externo V V’ V g b) SV V’ V g V argumento interno 59 GRAMATICA 3. Verbos inacusativos e inergativos Até o momento não nos distanciamos muito da gramática tradicional. como em (19b). O mesmo não ocorre quando verbos monoargumentais. entram em cena.indb 59 6/11/2009 14:47:02 . os tradicionais verbos intransitivos.COMPLEMENTAÇÃO (18) a) SN SV V V V’ 4 [eu] 8 SN SPrep dar g 4 5 uma para outro comida b) SN SV V V V’ 4 [eu] 8 SN SPrep g 4 5 colocar resumo na translação 4. verbos monoargumentais deveriam poder selecionar um argumento externo. Apenas fornecemos uma representação estrutural para as classes de verbos previamente identificadas na tradição gramatical. ou um argumento interno. como esquematicamente representado em (19a).

estruturas como (19a) e (19b) não só são sintaticamente diferentes. verbos como sumir. c) A Maria está *tossida/*espirrada/*dormida. mas também codificam diferentes relações semânticas com o verbo. espirrar e dormir são tradicionalmente classificados 60 GRAMATICA 3.indb 60 6/11/2009 14:47:02 . não com seu argumento externo. (20) a) A Maria comprou as casas. em que # indica que a sentença não é condizente com a construção transitiva ativa que introduz o paradigma. Em função de selecionarem apenas um argumento. Para verificar como podemos testar essa previsão. a batalha terminou. Com isso em mente. c) #Comprada a Maria. (23) a) A Maria tossiu/espirrou/dormiu. todos ficaram preocupados. Um dos mais interessantes desenvolvimentos dos estudos gramaticais das últimas décadas foi a comprovação de que essa previsão está de fato correta. b) Compradas as casas. b) Sumidos/caídos/desaparecidos os últimos combatentes. (21) a) A Maria comprou as casas. a distinção entre argumentos externos e internos prevê que os chamados verbos intransitivos na verdade envolvam duas classes de verbos com propriedades distintas. (22) a) Os últimos combatentes sumiram/caíram/desapareceram.. vamos primeiro examinar os dados em (20) e (21). . . desaparecer..SONIA CYRINO • JAIRO NUNES • EMILIO PAGOTTO De acordo como o que vimos na seção 3. c) #A Maria está comprada.. cair. c) Os últimos combatentes estavam sumidos/caídos/desaparecidos. tossir. b) As casas estão compradas. Em outras palavras.. consideremos agora os verbos monoargumentais de (22a) e (23a) e seu comportamento em relação aos testes do particípio absoluto e das passivas estativas. Os contrastes entre (20b) e (20c) e entre (21b) e (21c) mostram que construções de particípio absoluto (orações subordinadas adverbiais temporais reduzidas de particípio) e passivas estativas (passivas com o verbo estar) se constroem com o argumento interno de um verbo transitivo. b) *Tossida/*Espirrada/*Dormida a Maria.

(11b)] e é o que ocorre em (22a). espirrar e dormir. Ao adotarmos uma perspectiva em que os eixos semântico e sintático são complementares e a noção de sujeito está desvinculada do caráter interno ou externo de um argumento. como representado em (19a). Note que. que pode hospedar tanto argumentos externos quanto internos. cf. (19b)]. como representado em (19b). no entanto. são referidos como verbos inacusativos. verbos como sumir. (24) a) Eles sumiram/caíram/desapareceram. por outro lado. evidencia que na verdade estamos lidando com duas classes distintas de verbos: os verbos de (22a) são compatíveis com particípio absoluto e passivas estativas. (10b). desencadeia concordância verbal e recebe caso nominativo ao invés de acusativo. na ausência de um argumento externo em (19b) para competir pela posição de sujeito. cair e desaparecer.indb 61 6/11/2009 14:47:02 . O contraste entre os verbos de (22) e os de (23). Verbos cujo único argumento está associado à posição de complemento [cf. como é o caso de sumir. É importante ressaltar que isso. o argumento interno é um candidato legítimo para ocupar essa posição [à semelhança do que ocorre com passivas. b) *Os sumiram/caíram/desapareceram/*Sumiram-nos/*Caíram-nos/ *Desapareceram-nos. o diferente comportamento dos verbos de (22a) e (23a) está refletindo a assimetria prevista pelas duas estruturas apresentadas em (19). não o descaracteriza enquanto argumento interno. Portanto. como no caso das passivas [cf. entretanto. abre-se espaço para uma necessária reclassificação dos chamados verbos intransitivos. Observe que. e são refratários a esses processos. cair e desaparecer selecionam um argumento interno. verbos como tossir. tendo em conta o tipo de seu argumento. essas construções tomam como alvo o argumento interno de um verbo. selecionam um argumento externo. já verbos cujo único argumento está associado à posição de 61 GRAMATICA 3. como ilustrado em (24). e portanto podem estar sujeitos a processos sintáticos que afetam argumentos internos. o argumento interno os últimos combatentes em (22a) precede o verbo relevante.COMPLEMENTAÇÃO indistintamente como intransitivos. Em outras palavras. (12b). a concordância verbal e a realização de caso nominativo são desencadeadas a partir da posição de sujeito (externa a SV). ao contrário dos verbos de (23a). (13)]. Como visto em (20) e (21). Como vimos na seção 3.

62 GRAMATICA 3. (27) a) Os meninos parecem felizes.. e seu argumento interno contém uma estrutura de predicação. Os exemplos (25) e (26) ilustram essa diferença estrutural: (25) a) o grande mal das estradas brasileiras é o mesmo troço do sujeito fazer uma casa. Prova disso é que sentenças como (28) são pragmaticamente inadequadas não por serem incompatíveis com o verbo..indb 62 6/11/2009 14:47:02 . entendeu. mas por serem incompatíveis com o adjetivo.SONIA CYRINO • JAIRO NUNES • EMILIO PAGOTTO especificador de SV [cf. (D2 SSA 98) b) SV V’ V g V SN cai g 4 a casa (26) a) se TEM AUla (ele diz) “DROga estou com sono quero dormir [.. o SN os meninos não é um argumento do verbo.. entende.. (D2 SP 360) b) SN SV V V’ 4 [eu] g V dormir g 4. Verbos de alçamento Os chamados verbos de alçamento são uma expansão dos tradicionais verbos de ligação ilustrados em (27).]”.. por exemplo... mas do adjetivo.. (19a)] são designados como verbos inergativos...com uma lajezinha bem fininha e botar em cima um depósito de/ de/ de PEso muito grande.. Em (27). b) Os meninos acabaram doentes. verbos de ligação não selecionam um argumento externo.5. a casa cai. Como vimos no capítulo 1. como evidenciado por (29).

(32) a) eu sou assim meio chata pra essas coisas né? (DID RJ 328) b) eu acho que teatro está bem mais caro. portanto. como os exemplificados em (32). cuja sentença subordinada se encontra reduzida.. (29) a) Aquelas pedras parecem frias. já que eles não estão associados a papéis temáticos. 3). portanto. dizemos que o sujeito da sentença principal em (31). Metaforicamente.indb 63 6/11/2009 14:47:02 .COMPLEMENTAÇÃO (28) a) #Aquelas pedras parecem felizes. englobar os chamados verbos de ligação. e seus sujeitos são argumentos do verbo “principal”. e também os verbos auxiliares. Os verbos de alçamento vão. (DID SP 234) 63 GRAMATICA 3. b) #Aquelas pedras acabaram doentes.. b) porque nós íamos entrar na concorrência acabamos não entrando. assim. Verbos cujo sujeito é argumento de outro predicador são. como em (30). chamados de verbos de alçamento. assim por fora. (31) a) A gente parece se sentir até mais por fora. b) Aquelas pedras acabaram congeladas. tomam como argumento interno uma estrutura que contém uma predicação. assim como o sujeito de construções predicativas como em (27). como demonstrado pelas correspondentes paráfrases em (30). Considere agora as sentenças em (31). foi “alçado” para essa posição a partir da estrutura de predicação subordinada (ver também cap. (30) a) parece que a gente se sente até mais. como os exemplificados em (33). mas sim dos verbos da sentença subordinada. Os verbos parecer e acabar. Isso fica ainda mais claro quando o argumento interno toma a forma de uma sentença finita. (DID SP 234) b) Acabou que nós não entramos na concorrência. (D2 SSA 98) O sujeito da sentença principal em (31) não é um argumento do verbo parecer ou acabar.

SONIA CYRINO • JAIRO NUNES • EMILIO PAGOTTO c) tem muita gente que fica chateada ou pelo menos desapontada. mas utilizando as suas palavras. é como se o verbo e o complemento formassem uma predicação complexa monoargumental que é então saturada 64 GRAMATICA 3.e começou a ler os livros que nós já tínhamos lido para ele. terá.. (D2 RJ 355) b) SV V’ g V V acabo g S 6 [eu] pedindo transferência pra Universidade Federal do Paraná 4.. vimos que um argumento externo estabelece uma relação semântica com V’. Verbos leves Na seção 3. (D2 SP 360) c) quando nós falamos em instrumentos de avaliação nós logo devemos pensar que níveis de pensamento esses instrumentos estão nos permitindo avaliar. por exemplo.. que no caso de construções transitivas envolve o verbo e seu complemento..6. né? (D2 SP 360) d) sei lá ando muito cansada não tenho ido mais a teatro. (D2 REC 05) A representação da estrutura temática de uma construção de alçamento como em (34a). portanto.. pedindo transferência pra Universidade Federal do Paraná... (DID SP 234) e) ele permanece fiel a essa comunicação... isso vocês podem julgar lá vendo. (34) a) eu se puder ainda acabo ca. o formato em (34b).indb 64 6/11/2009 14:47:03 . sem alterar o sentido. (EF POA 278) b) agora na escola ele aprendeu rapidamente a ler.. Como mencionamos. (EF POA 278) (33) a) nós estamos aqui para esclarecer as dúvidas que vão surgindo... (EF POA 278) d) mas realmente a cadeia de supermercados aqui é de de de de de Recife provavelmente é superior a qualquer uma do país.

(EF RJ 379) 65 GRAMATICA 3. (D2 SP 360) d) às vezes a gente dá uma fugiDlnha:: até a casa deles bater um papinho assim né? (DID POA 45) e) eu me lembro até que. quarenta e poucos por cento.. ah:: carreiras.. (D2 SP 360) h) do aumento do custo de vida. (D2 SP 360) (36) a) as duas coisas fazem parte do mundo e têm e passam a ter uma existência... né? (D2 RJ 355) i) a programação.... (DID POA 278) f ) então que que a gente fazia? a gente se agarrava NUM e dava impulso com pés para se agarrar com o outro né? (DID POA 278) g) eu dei u::ma rápida olhada sabe? mas vi matérias assim interessantes para ela dentro de outras.. (EF SP 405) b) ele vai ter poder sobre a vida dele.. então deu quarenta e... fazer minhas comprinhas dar um passeio também.. (DID POA 45) c) quer dizer que dá trabalho. ou deles ou conseguidos de fora..indb 65 6/11/2009 14:47:03 . como ilustrado abaixo com os verbos dar e ter. mas não deu certo.... (DID RJ 328) f ) ele tem uma capacidade de usar ao máximo os recursos. quando nós fomos na:: (na viagem) era uma camionete. (EF SP 405) c) e eu pensei que ela fosse ter problema porque ela não fala muito.. (35) a) e olha quando eu começo a dar risada vou te contar.. (DID SP 234) b) e eu aproveito pra. havia sido planejada. (D2 SP 360) d) o professor não se relacionava com o estudante exatamente pro estudante ter medo ter pavor dele e respeitar.. (DID SSA 231) e) então se eu comer muito na hora do café não vou ter vontade de almoçar. dava um cheiro de balaca queimada. Evidência para essa relação complexa é fornecida por uma classe de verbos que tem conteúdo semântico bastante esvaecido.COMPLEMENTAÇÃO pelo argumento externo..

. podemos ter três tipos de complementos no que diz respeito à sua estrutura sintática.indb 66 6/11/2009 14:47:03 . associando propriedades verbais (como tempo. ou como um sintagma preposicional. Forma dos complementos Tendo apresentado o funcionamento da complementação em seus princípios gerais. como respectivamente exemplificado abaixo.SONIA CYRINO • JAIRO NUNES • EMILIO PAGOTTO g) uma coisa é dizer que a arte na época. como um sintagma nominal. Um argumento interno pode se apresentar como uma sentença. Aspectos gerais da complementação em PB Em termos gerais. Esses casos serão abordados no capítulo 3..1. porque é isso que a gente vem dizendo até agora certo? (EF SP 405) h) não tem importância que a gente chama de análise ou chama de interpretação o importante é que o processo se realize.. 5. dar um passeio ~ passear. Isso fica transparente nos casos em que a projeção de V’ nucleada por esses elementos pode ser parafraseada por um único verbo. tinha uns três metros de profundidade.1.. A estrutura associada a verbos leves será discutida na seção 6. (EF POA 278) i) é FUNdo ali. Vamos enfocar especificamente os complementos dos verbos transitivos e bitransitivos. como visto na seção 4.. (DID POA 45) Verbos como dar e ter nas sentenças acima parecem adquirir sua significação quase que exclusivamente de seu complemento. tinha fun-ção. pragmática. uma vez que a realização sintática do argumento interno de verbos inacusativos e de alçamento está em última instância associada à posição de sujeito externa a SV (a posição associada à concordância verbal e caso nominativo). 5. 66 GRAMATICA 3. por exemplo) a seu complemento.. Denomina-se de verbo leve esse tipo de verbo com conteúdo mais gramatical que semântico.. ter existência ~ existir ou ter medo ~ temer.... cuja função primordial é a de formar predicados complexos. como em dar uma risada ~ rir. passaremos a nos ocupar nesta seção de fatos gramaticais relativos à forma de realização dos complementos no PB. por exemplo.

uma resposta afi rmativa sobre essa questão.. é até certo ponto uma propriedade idiossincrática do verbo. o segundo complemento de colocar. eu notei que o público era mais refinado.. há também casos em que a presença da preposição é previsível. (DID RJ 328) Como mencionado na seção 3.. (EF REC 337) 67 GRAMATICA 3. (DID SP 234) (39) e eu pensei em merenda fornecida pelo governo.. um complemento preposicionado. pois o complemento que seria preposicionado é realizado como um clítico dativo. como em (39). a não ser que se trate de um clítico dativo.. ou não-preposicionado. o segundo necessariamente é. a seleção de um complemento preposicionado.. (DID REC 131) b) não sei o que te responder. lhe dar. como em (37) e (38). já (43) envolve dois complementos não-preposicionados. (DID SP 234) c) Eduardo me diga uma coisa. como ilustrado em (40) e (41). trazer e ensinar é preposicionado. e gostar.. Em (42). por exemplo. (40) eu adoro aplicar em obra de arte.. (D2 SP 360) c) como eu não tinha condição de ensinar MUIta coisa a ela..indb 67 6/11/2009 14:47:03 .COMPLEMENTAÇÃO (37) . (42) a) os outros mesmos não se incumbem de colocá-la no lugar dela? (D2 SP 360) b) mas eu trago muito processo para casa. se um argumento não é preposicionado. Verbos que têm propriedades temáticas semelhantes podem diferir em relação à realização sintática de seu complemento. sabe? (DID SP 234) (38) eles preparam a peça. (DID SSA 231) (43) a) eu num posso no momento. com adorar selecionando um complemento não-preposicionado. (D2 RJ 355) (41) não gosto de fazer um regime assim desses regimes brutos.. (DID RJ 328) Entretanto. No caso de verbos bitransitivos.

(DID SSA 98). como se pode ver em (47)..... Complementos sentenciais Quanto à estrutura sintática do complemento sentencial...indb 68 6/11/2009 14:47:03 ..SONIA CYRINO • JAIRO NUNES • EMILIO PAGOTTO Um subtipo de complemento SN merece especial atenção.. o meu problema agora é ONde botar [ø] pra ser alfabetizada. a saber.. como ilustrado em (45).. bem mais aconcheGANte o ambiente... como ilustrado em (46).. menor. (46) mas me disseram que é uma miséria.. não procurei escola muito grande que a criança ficasse perDIDA. podemos distinguir três tipos de estrutura: sentenças com tempo finito. entre outras coisas.. e no estabelecimento de um sistema essencialmente proclítico de colocação pronominal.2. que só ocorre em textos altamente formais... como o pronome o em (44). (DID SP 234) Essas propriedades da complementação em PB estão retomadas em maior detalhe nas seções que se seguem. válido botar a criança o mais cedo possível na escola. (D2 SSA 98) Também merece destaque o fato de o PB admitir complementos foneticamente não realizados. no desaparecimento de alguns pronomes clíticos. se eu botaria [ø] logo num colégio como eu fiz. O PB passou por profundas mudanças nos dois últimos séculos que afetaram substancialmente o quadro dos complementos pronominais.. daí ela sai pra ser alfabetizada. no surgimento de pronomes plenos (não-átonos) na posição de objeto.. agora dePENde da escola (quer dizer) eu procurei uma escola bem::. (47) então eu acho.. 5.. de POUcos aLUnos... (45) Acho que a es/ a criança deve ir o mais cedo possível a escola (né)?.. (44) Eu não acredito que o Pedro está doente. os complementos envolvendo pronomes pessoais. sentenças com 68 GRAMATICA 3... Tais mudanças resultaram... e. mas sua irmã o afirmou com todas as letras. uma coisa que eu não me arrependi foi ter botado ela com um ano e quatro meses. dentro da escola. que ela sentisse o carinho da profesora a atenção poucos al/ os as crianças então ela vai cursar aí até o (prontidão) que são cinco anos de colégio.

(EF SP 405) b) . Enquanto os complementos infinitivos mantêm a preposição.. que chamaremos de miniorações (MO).]. (D2 RJ 355) (52) então eu gostaria [[Ø] que a presença fosse. sabe? (DID SP 234) b) ele vai desejar [que o aluno não fique apenas no nível de memorização]. como exemplificado em (48).. a depender do verbo que toma a sentença como complemento. (EF POA 278) Os complementos sentenciais infinitivos. (48) a) o senhor falou [que a enxada é diferente do enxadão]. pretendia [ir pela Varig]. os complementos finitos podem dispensá-la. (51) eu gosto [de ficar em lugares isolados]. o verbo pode requerer uma preposição quando o complemento é uma sentença com tempo finito... nunca são iniciados por um complementizador. quanto no modo subjuntivo. Os complementos sentenciais com tempo finito são iniciados por um complementizador (uma conjunção subordinativa). (D2 RJ 355) Complementos sentenciais infinitivos e com tempo finito também contrastam em relação à manutenção da preposição selecionada pelo verbo que toma a sentença como complemento. (D2 SP 360) (49) a) eu notei [que o público era mais refinado]. (EF REC 337) Em alguns casos. em ordem]. como exemplificado em (50). como ilustrado em (49). (50) a) então vamos tentar [reconstruir a maneira de vida desse Povo].indb 69 6/11/2009 14:47:03 . como ilustrado em (51) e (52). Além disso. por outro lado.. mais: compacta melhor.COMPLEMENTAÇÃO o verbo no infinitivo e estruturas predicativas sem verbos.. mas não quando o complemento 69 GRAMATICA 3.. podem se apresentar tanto no modo indicativo.. (DID SP 234) b) então ela vê [se as gavetas estão em orde/.

como em (55)...SONIA CYRINO • JAIRO NUNES • EMILIO PAGOTTO é uma sentença com verbo no infinitivo ou simplesmente um SN. por exemplo. (56) a) eu achei [aquilo horroroso]. a preposição é mantida diante da sentença finita.ou se efetivamente eles:: com a preocupação de querer:: éh::.. (D2 SP 360) b) é difícil saber se se teria sido consequência de tradição oral. Trata-se de construções como (56a)... cuja paráfrase em (56b) deixa transparente a relação de predicação estabelecida.. com uma lajezinha bem fininha e botar em cima um depósito de/ de/ de PEso muito grande.. (DID RJ 328) A preposição também pode ocorrer quando é parte de um constituinte movido.. entendeu.... viu? (DID SP 234) b) Eu achei [que aquilo era horroroso]. como em (54): (54) . (D2 REC 05) c) o grande mal das estradas brasileiras é o mesmo troço do sujeito fazer uma casa.indb 70 6/11/2009 14:47:03 . (DID SP 234) Finalmente...nos embates de cantoria... eu até contribuo [para que eles não tenham essa alimentação pesada]. então ele fazia [com que nós lêssemos.. fazer [parecer que conhecem efetivamente mais do que conhecem] se eles teriam lido alguma coisa. como ilustrado em (53): (53) a) .. 70 GRAMATICA 3. então. Esse é o caso do verbo fazer. (D2 SSA 98) Em outros casos.se eles teriam absorvido essa cultura no no no nos..... quando ele não sabia ler ele lia mui/ ele via as figuras da pré-história e gostava muito.. miniorações estabelecem relações de predicação sem a presença de um verbo. os livros] éh:: coleções:: uma e outra que a gente tem. correspondendo a estruturas que a tradição gramatical costuma chamar de predicados verbo-nominais... em que de que se move a partir da posição indicada pela lacuna: (55) até não sei [de quei [era feita __i a camisinha]].

Os clíticos constituem uma classe especial de elementos gramaticais. (EF REC 337) Já a primeira pessoa do plural é realizada tanto pelo clítico nos como pelo pronome pleno a gente: (58) a) ela está bem ordenada. tem onze anos só para nos julgar. pois não são independentes... porém não podem ser considerados como elementos afixais do tipo de des. não tem maturidade. (D2 SP 360) 71 GRAMATICA 3. me dá alguma coisa. pois têm uma natureza ambivalente: são elementos átonos que se afixam às palavras e têm. cuja colocação é fixa na palavra.... Primeira pessoa O pronome de primeira pessoa do singular. os pronomes pessoais também podem ser classificados como clíticos (átonos) e pronomes plenos (não-átonos). realiza-se como o clítico me no PB (à exceção de algumas variedades do português popular que admitem o pronome pleno eu também na posição de complemento): (57) a) a única função dela é me ajudar com eles. (EF SP 405) c) eu vou eu vou ver se o C. possuem comportamento sintático e fonológico bastante específico.. 5.indb 71 6/11/2009 14:47:03 .. além de veicular informações semânticas.. além da tradicional divisão entre retos e oblíquos. tanto em função acusativa quanto em função dativa. diferem de pronomes plenos. não é ainda. características de elementos independentes.em desmontar. Complementos pronominais Os pronomes pessoais. Abaixo. (D2 SSA 98) d) Eduardo me diga uma coisa.1. (D2 SP 360) b) eu preciso me defender. mas:: ela não éh::..3. claro. ao mesmo tempo..COMPLEMENTAÇÃO 5. vamos analisar a ocorrência dos sintagmas pronominais e sua colocação no PB.3. Nesse sentido. Assim.

.. ) eu acho que tá (D2 REC 05) (62) a) bom essa questão. Segunda pessoa No corpus compartilhado do Nurc.. (DID POA 45) b) a gente nunca pode precisar o tempo. (DID REC 131) b) bom aí é difícil eu lhe dizer por quê:: (DID SSA 231) 72 GRAMATICA 3.indb 72 6/11/2009 14:47:03 .... porque evidentemente se trata. (DID SP 234) (61) a) já outro dia também eu chamei você de: Fernando... na na realidade eu não poderia lhe responder. (60) a) e te pergunta do quarto dele se tem aula.. de ah ahn:: ( cessitando da gente não pode precisar mesmo.. que manda entradas para a gente. 5.. o clítico lhe sendo empregado como segunda pessoa.2.. através:: exclusivamente de linhas.. (EF REC 337) b) eu confesso a você que acho que a única/ esse negócio de ( muito certo ele falou certo. ) com as crianças.. (D2 SP 360) b) Quando eu te falei da peça Hair... nas amostras relativas ao Recife e a Salvador. a segunda pessoa do singular na posição de complemento se realizou majoriatariamente como o clítico te ou como o pronome pleno você. ne(D2 SP 360) c) e conseguem transmitir para a gente eXAtamente essa ideia de movimento.3.. conforme exemplificado em (62). (EF SP 405) d) Você vai encontrar a gente no cinema. fuLAno e siCLAno que::. Registrou-se também.. (EF POA 278) (59) a) toda hora é:: CHÁ da igreja aqui CHÁ do colégio ali CHÁ de..SONIA CYRINO • JAIRO NUNES • EMILIO PAGOTTO b) olha nós nos visitamos muito pouco. de uma filigrana jurídica.. como ilustrado em (60) e (61).. (DID POA 45) c) quando nós falamos em instrumentos de avaliação nós logo devemos pensar que níveis de pensamento esses instrumentos estão nos permitindo avaliar..

os clíticos o(s)/a(s) praticamente só aparecem em posição enclítica a um verbo no infinitivo. (65) Eu não acredito que o Pedro está doente. (64) seria muito mais importante vocês gravarem eles. com um pronome pleno na posição de objeto. Terceira pessoa Duas observações são pertinentes em relação a pronomes de terceira pessoa. (EF POA 278) Quando empregados. e também é o caso do dativo de posse. mas sua irmã o afirmou com todas as letras. foram bem raras na amostra analisada. deve-se assinalar que os clíticos o(s)/a(s) e lhe(s) têm frequência bastante baixa no PB. (D2 REC 05) Em segundo lugar. também chamado de pronome demonstrativo pela gramática tradicional. como ilustrado em (67). 3 .. (D2 REC 05) b) aí vou explicar né? a vocês o que significa isso. construções como (64). lhe. chegando mesmo à total ausência em alguns contextos. Construções com próclise como (68) são raras na 73 GRAMATICA 3. que desapareceu de contextos como (65).de que o Nordeste só cresce em termos absolutos.indb 73 6/11/2009 14:47:03 .COMPLEMENTAÇÃO Já para a segunda pessoa do plural só foram registradas ocorrências do pronome vocês: (63) a) embora embora seja lamentável a gente dizer a vocês o seguinte. como em (66).. eu posso por exemplo pedir. [o = que o Pedro está doente] (66) ele pode atuar sobre a comunicação sem modificar-lhe o sentido. sendo realizado como -lo(s)/-la(s).. embora relativamente frequentes hoje na linguagem coloquial. 3 . Em primeiro lugar. (EF REC 337) 5 .. Esse é o caso do clítico o neutro (invariável). em que retoma a sentença que o Pedro está doente. de uso raro no português do Brasil.

.. (D2 SP 360) Esses resultados confirmam o que a literatura tem apontado: os clíticos o(s)/a(s) praticamente desapareceram da gramática do PB. tendo sobrevivido apenas com as formas -lo(s)/-la(s). a sintaxe determina a posição na sentença em que esse requerimento pode ser satisfeito. depois saio na hora de buscá-los.. 74 GRAMATICA 3. (67) a) . 5. pronomes clíticos estão sujeitos tanto a restrições sintáticas quanto a restrições fonológicas... Sua contraparte não-clítica pra você... e vou trabalhar. Por um lado. em discursos mais formais.. Numa sentença como (69a).. como se vê em (69b) e (69c).SONIA CYRINO • JAIRO NUNES • EMILIO PAGOTTO amostra analisada..... (D2 SP 360) d) os outros mesmos não se incumbem de colocá-la no lugar dela? (D2 SP 360) e) não seria conveniente mudá-lo de período escolar? (D2 SP 360) (68) os dois estão na escola de manhã — porque eu trabalho de manhã — .4. tendo de aparecer na sua posição canônica pós-verbal. Ordem dos clíticos 2 Por serem átonos. e formas enclíticas realizadas como -no(s)/-na(s) não foram registradas. eu adoro aplicar em obra de arte mas não tê-las. para o.. eu primeiro aplicaria sempre em obra de arte.. O resultado dessa interação sintaxe-fonologia é que clíticos complementos podem ocupar posições que outros complementos em geral não podem ocupar..3.. caminho certo. requer-se que os clíticos se apoiem fonologicamente em um verbo. por exemplo. muito SEria o de encaminhá-la. então eu os levo para a escola. no entanto. não pode ocupar essa posição.indb 74 6/11/2009 14:47:04 . (D2 RJ 355) b) precisa convencê-lo não é? (D2 SP 360) c) porque é uma tarefa assim. o complemento clítico te aparece antes do verbo.. por outro.

A amostra analisada replicou os resultados encontrados na literatura..indb 75 6/11/2009 14:47:04 .. sabe? (D2 SP 360) b) e:: daí me empolguei pelo magistério.COMPLEMENTAÇÃO (69) a) Não sei o que te responder. Tema de intermináveis polêmicas normativas. c) Não sei o que responder pra você. (70) a) eu me preparei para ser. (D2 SP 360) c) mas aí em que que tu te baseia.. embora condenados pela gramática tradicional.. em dados reais exatamente. (EF POA 278) d) quando eu te falei da peça do Hair e do Roda viva. (DID RJ 328) Esses exemplos (bastante comuns) mostram que. ou seja. a gente se ressente muito disso.. (D2 SP 360) c) Se ressente. mãe de muitos filhos. sim. (DID SP 234) b) *Não sei o que pra você responder. 158 casos de próclise de um total de 172 dados).. como ilustrado abaixo: (71) a) Me chocou tremendamente. a possibilidade de clíticos em primeira posição faz parte da gramática internalizada de falante do PB. a posição dos pronomes clíticos com relação ao verbo é fundamental para uma caracterização da gramática do PB. (DID SP 234) b) Se cala. independentemente do caráter argumental (em função de complemento verbal) ou não-argumental do clítico. como ilustrado em (70). 75 GRAMATICA 3. (DID POA 45) A colocação eminentemente proclítica permite que um clítico figure como o primeiro elemento de uma sentença. constatando uma prevalência quase absoluta da posição proclítica ao verbo (92%. (DID SP 234) e) olha nós nos visitamos muito pouco.

a um consultor jurídico que ele poderia então lhe dar: uma resposta mais conclusiva.. eventualmente pode não ser possível distinguir facilmente a posição de próclise ao segundo verbo em exemplos como (72).. o PB tem como posição predominante a próclise ao chamado verbo principal.... (73) a) eu preferia deixar evidentemente essa questão... caído... chama-se de ginecomastia. no caso de construções com dois verbos. (D2 POA 291) b) Então a isso. (DID POA 45) d) olha quando eu começo a dar risada vou te contar. como nos exemplos abaixo. 6 envolvem ênclise a um verbo com tempo finito e 8. empregado em contextos discursivamente marcados. dentro d’água e estava me afoGANdo. Se observarmos de perto esses casos.. (DID SP 234) No contínuo da fala. ou o discurso didático: (74) a) parte-se um ovo. Porém a possibilidade de ocorrência de advérbios ou sintagmas preposicionais entre os dois verbos não deixa a menor dúvida quanto à posição que o clítico ocupa..indb 76 6/11/2009 14:47:04 . como ilustrado em (73).. (EF SSA 49) Já as ocorrências com verbos no infinitivo envolvem dois casos com clítico se (na fala do entrevistador) e seis casos envolvem o clítico acusativo de 76 GRAMATICA 3. a um verbo no infinitivo. como receitas de culinária... (DID REC 131) Das 14 ocorrências (8%) de ênclise encontradas na amostra analisada. (DID REC 131) b) Não posso no momento lhe dar uma resposta afirmativa sobre essa questão. perceberemos que todas as ocorrências de ênclise com verbos finitos envolvem o clítico se. (72) a) não tinha me lembrado.SONIA CYRINO • JAIRO NUNES • EMILIO PAGOTTO Finalmente. a esse respeito. (DID POA 45) b) quando ele termina aí diz assim bem agora por favor quer me trazer a sopa? (EF REC 337) c) me lembro de ter escorregado.

ainda sobrevive no PB sob a forma de -lo(s)/-la(s): (75) a) Doc. (DID POA 45) b) porque é uma tarefa assim muito séria de encaminhá-la para o caminho certo. dum cargo à noite.. que eu cheguei em casa.3.. aprender línguas.. Algumas línguas naturais permitem que... que ela não fazia [ø] . abordamos os casos dos complementos verbais foneticamente realizados..COMPLEMENTAÇÃO terceira pessoa... o que está ausente não é somente o SN complemento o xixi dela. (D2 RJ 355) b) porque lá você não tem problema de transporte porque a cidade é pequena você se quiser [ø] vai a pé. nesse caso. (D2 RJ 355) 77 GRAMATICA 3. como vimos na seção 5. Nesta seção... ambos recuperados a partir do antecedente fazer o xixi dela no sanitário. por exemplo. (76) aprendeu a fazer o xixi dela no sanitário. Em (76). todo o sintagma verbal seja foneticamente nulo e temos. mas também o adjunto no sanitário.. fazer qualquer coisa. encontram-se exemplos com verbos modais como poder e com verbos como querer e dizer: (77) a) porque isso que eu (es)tou fazendo hoje aqu. ter uma vida cultural... recuperável no contexto linguístico.: e as e:: formas de despedir-se?. (DID SSA 231) Alguns verbos que selecionam sentenças como complemento podem também ocorrer com seu complemento nulo. a Universidade é no centro da cidade. Complementos foneticamente nulos Até o momento.. vamos abordar os casos de complementos nulos.. à exceção do verbo.3..4.. uma construção chamada elipse de SV. pra conversar ou dessa maneira ou ir prum cinema ou prum teatro.. logicamente eu gostaria de fazer. Na amostra analisada. que. O material elidido requer um antecedente no contexto linguístico para receber a interpretação adequada.. vi televisão e depois vim pra cá pra.indb 77 6/11/2009 14:47:04 . mas não posso [ø] porque eu tenho que complementar o meu salário com o dinheiro dum... (D2 SP 360) 5..... possível no PB.

SONIA CYRINO • JAIRO NUNES • EMILIO PAGOTTO

c) tudo indica que a resposta está: na: um dois... no terceiro parágrafo... da página dezesseis... não deixe-me ver... normalmente vocês encontraram onde isso?... não podem me dizer [ø]... não.
(EF REC 337)

O complemento sentencial nulo nas sentenças acima é recuperado do contexto e interpretado como fazer qualquer coisa em (77a), ir a pé em (77b), e onde vocês encontraram isso em (77c). Além de admitirem complementos sentenciais, como visto em (77b) e (77c), verbos como querer e dizer também admitem SNs como complementos, diferindo nesse ponto de verbos modais como poder, conforme ilustrado em (78).
(78) a) *Eu não posso isso. b) Eu não quero isso. c) Eu não disse isso.

Além da elipse de SV, há uma construção comum nas línguas naturais e, portanto, não específica do PB, que envolve os verbos bitransitivos, principalmente os verbos dicendi (dizer, falar, perguntar, pedir etc.), em que o argumento que representaria o destinatário não aparece realizado, como ilustrado em (79).
(79) a) nós não podemos afirmar... categoricamente que as coisas se passaram assim...
(EF SP 405)

b) disseram que vai ser estabelecido causa depois de estabelecido causa aí vai ser::... automaticamente... necessário... uma atitude mais::... mais rápida pelo menos...
(D2 SP 360)

c) quan:do... eu pergunto... o que estuda a sociologia do direito eu poderia perguntar também o que estuda a sociologia jurídica e eu estaria... fazendo a mes: ma pergunta.
(EF REC 337)

A existência de construções como (79) em inúmeras línguas indica que o destinatário nessas sentenças é, na verdade, uma espécie de adjunto (ver cap. 4) e, como tal, é opcional na sentença. A análise do destinatário dessas

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COMPLEMENTAÇÃO

construções como um adjunto captura a intuição da gramática tradicional segundo a qual verbos dicendi podem ser transitivos ou bitransitivos. Mais importante, essa análise permite explicar por que, ao contrário dos objetos nulos anafóricos que discutiremos na seção abaixo, o destinatário não realizado dessas construções pode também se referir à primeira ou à segunda pessoa do discurso, como atestam os exemplos abaixo.
(80) a) ... não aceitou não me aceitou como professora ele me aceitá/ ele dizia que eu era professora de fogão de cozinha.
(D2 SP 360)

b) então atenua um pouco... a hostilida:de que existe entre a tre três perspectivas... que é a seguinte eu vou lê João depois... falamos... talvez até coloque para vocês... isso é uma maneira também de pedir... que prestem atenção... não é?
(EF REC 337)

c) ... prometi também que a aula de ho:je seria... alguma coisa... num é? liga:da a esse estudo que vocês fizeram... e prometi... também... prometi também... que: diria a vocês se... eu iria exigir cobrar... algo do que vocês já fizeram... e que deixaria isso para dizer hoje...
(EF REC 337)

O destinatário nulo se refere à primeira pessoa do singular em (80a), pois a entrevistada está descrevendo uma conversa com o filho (= ele me dizia/dizia para mim), e a vocês (os alunos) em (80b). Já (80c) é particularmente interessante na medida em que o destinatário de segunda pessoa ora é realizado, ora não é. A interpretação do destinatário nulo desse tipo de construção é, portanto, determinada fora dos limites da gramática e é compatível com qualquer pessoa do discurso, desde que condizente com o contexto.
5.4.1. O objeto nulo

Há um tipo de construção envolvendo argumentos não realizados que caracteriza de maneira muito especial a gramática do PB — é a construção envolvendo o chamado objeto nulo, ilustrada em (81).
(81) a) eu recebi aqui meu ordenado e entreguei [ø], (es)tá... agora nesse mês, como a UPC não aumentou e como diminuiu o número de UPCs, o que vai acontecer é que, eu vou pagar um pouquinho menos no outro mês.
(D2 RJ 355)

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SONIA CYRINO • JAIRO NUNES • EMILIO PAGOTTO

b) pra mim realmente é um sacrifício... às vezes vejo pastel... me dá vontade de comer [ø], mas eu procuro evitar.
(DID RJ 328)

Em (81) o argumento interno dos verbos entregar e comer não está realizado foneticamente; é interpretado no contexto como meu ordenado e pastel, respectivamente. Crucialmente, esse tipo de argumento não realizado foneticamente não é fruto de deslocamento sintático, como é o caso de (82), ou de opcionalidade, nem faz parte de um SV elidido como vimos em (76) acima.
(82) a) todo o dinheiro que eu ganhari, eu primeiro aplicaria __ sempre em obra de "---------__________--_____________--marte
(D2 RJ 355)

b) aquele arroz com frutos do mar, a minha mulher é incapaz de, de, de provar __ "------------------------m
(D2 POA 291)

No caso do objeto nulo, como em (83), o complemento de decorar é retomado de um SN que ocorreu anteriormente na sentença, o assunto.
(83) o estudante pega o assunto e decora [ø]
(DID SSA 231)

Objetos nulos em PB ocorrem bem mais livremente que em português europeu. Embora admitam limitadamente antecedentes animados e definidos/ específicos, como em (84), em que o antecedente é o cônsul alemão, Zinger, sua ocorrência é substancialmente favorecida em contextos em que o antecedente é indefinido/não-específico, como em (85), ou inanimado, como em (86).
(84) uma... uma ocasião... o, o cônsul alemão, Zinger... não sei se vocês conheceram [ø]... que servia um prato... ele foi... ele ficou muitos anos... ele foi po/ inclusive durante a... a ocupação ah... chinesa... eu sei que houve algum problema... eu não sei exatamente... foi na Manchúria.
(D2 POA 278)

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COMPLEMENTAÇÃO

(85) um banco precisa de um diretor de um banco chega para ele diz assim “eu preciso de um diretor de banco para tal tal área para fazer isso assim assim assim assim”... então ele vai procurar [ø]... certo?
(D2 SP 360)

(86) que aqui ainda se marca estrada com aqueles homens botando aquele negócio e pintando [ø] à mão...
(D2 SSA 98)

No corpus em estudo, foram computados 280 dados com objeto direto anafórico, que se distribuíram como representado na Tabela 1:
Tabela 1 – Realização do objeto direto anafórico

Objeto direto anafórico [ø] SN o(s)/a(s) Demonstrativo ele(s)/ela(s) Total 158 74 33 10 5 280

% 56 26 12 4 2 100

A Tabela 1 mostra que complementos que retomam um antecedente no discurso são preferencialmente realizados como objetos nulos (56%) e que, em termos de preenchimento, há uma clara rejeição ao pronome pessoal ele(s)/(ela(s). Tomando-se em consideração a natureza [± animado] do antecedente, obtém-se o seguinte:
Tabela 2 – Realização do objeto direto anafórico por animacidade do antecedente

[ø] + animado -animado
26 (38,2%) 132 (62,2%) 158 (56,4%)

SN
14 (20,5%) 60 (28,3%) 74 (26,4%)

o(s)/a(s)
24 (35,2%) 9 (4,2%) 33 (11,7%)

Demonstrativo
0 (0%) 10 (4,7%) 10 (3,5%)

ele(s)/ela(s)
4 (5,8%) 1 (0,4%) 5 (1,7%)

Total
68 212 280

A ocorrência de objetos nulos cai consideravelmente no caso de antecedentes animados (38%). Nesse contexto, cresce consideravelmente a proporção de uso de clíticos acusativos de terceira pessoa (35%). Isso quer dizer que,

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SONIA CYRINO • JAIRO NUNES • EMILIO PAGOTTO

em não se empregando o pronome pleno na fala culta mais monitorada, os clíticos acusativos, quando usados, vão ocorrer naqueles contextos em que a realização foneticamente nula é rejeitada. Na fala menos monitorada do PB, é o pronome ele(s)/ela(s) que costuma ir para essa posição. Mesmo assim, note-se que o objeto nulo ainda é a forma mais empregada (26 casos em 68). No contexto de antecedente [-animado], o emprego de clíticos cai consideravelmente, enquanto cresce o uso de objeto nulo e demonstrativos, estes últimos normalmente retomando proposições.
5.4.2. Sintagmas preposicionais nulos

O PB também permite construções em que verbos que normalmente tomariam um sintagma preposicional por complemento admitem um complemento nulo, como exemplificado em (87):
(87) a) eu achei... mas eu tive pouco tempo viu com... com essa parte assim de balêi eu... eu estudei mas não me apresentei quase nada... apesar de gostar muito [ø]i ... ter gostado [ø]i né? b) e entraram [com um novo mandado de segurança]i L1 sei... L2 não sei exatamente alegando o quê mas entraram [ø]i. c) eu gosto demais de lái e gostaria de morar [ø]i.

(DID SP 234)

(D2 SP 360) (D2 RJ 355)

Na amostra analisada, 40 (60%) das 67 ocorrências de verbos transitivos como gostar e precisar em que o complemento retomava algo previamente mencionado no discurso apresentaram um sintagma proposicional nulo. No entanto, é possível a retomada de um SPrep pelo demonstrativo, como em (88):
(88) eu nunca me esqueço [do jeito dele de perguntar... quer sair?...]i olha eu estava me afogando e ele me perguntou se eu queria sair da água... eu nem [...] pude falar não é? (risos) ai eu nunca me esqueço dissoi...
(DID SP 234)

A tendência à não-realização fonética foi também documentada com verbos bitransitivos (não-dicendi) como pôr, colocar etc., como ilustrado em (89).

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COMPLEMENTAÇÃO

Dos 27 casos de verbos bitransitivos cujo segundo complemento era recuperável no contexto, em 21 casos o segundo complemento não se realizou foneticamente.
(89) Acho que a es/ a criança deve ir o mais cedo possível a escola (né)?... e... uma coisa que eu não me arrependi foi ter botado ela [ø] com um ano e quatro meses...
(DID SSA 231)

SPreps em PB têm, portanto, funcionamento semelhante a SNs, pois tam-

bém têm preferência majoritária pela realização nula quando anafóricos. Isso, no entanto, não impede que vários tipos de realização de um complemento anafórico possam ser empregados ao mesmo tempo numa mesma sequência discursiva, como ilustrado em (90).
(90) ...então eu estou procurando eh... encaminhá-lai para outra coisa não sei mas...éh ginástica rítmica por exemplo... ela::... faz ginástica rítmica... então ainda::...eu hesito em pôr [ø]i [no baléj] mas eu vou ter que pôr [ø]i [ø]j sabe?... éh não quis pô-lai [ø]j até agora mas ela é MUIto::... quebradi::nha ela::faz os trejeitos e::
(DID SP 234)

Em (90), o tópico da conversação é a filha da locutora. O verbo encaminhar tem o complemento direto realizado na forma do clítico e o segundo complemento, na forma de um SPrep, contendo uma informação não-anafórica. Na primeira ocorrência do verbo pôr (hesito em pôr no balé), o mesmo referente vem recuperado na forma de um objeto nulo, sendo o segundo complemento realizado como o SPrep no balé, recuperando uma informação anterior. Já na sentença seguinte (mas eu vou ter que pôr, sabe?), ambos os complementos não estão realizados foneticamente, mas são recuperados como -la (a filha) e no balé. Logo em seguida, para o mesmo verbo pôr, o SN complemento aparece realizado novamente na forma de um clítico e o SPrep não é realizado foneticamente, sendo ambos complementos novamente anafóricos.

6. Sistematização formal das estruturas de complementação
Nesta seção, além de sistematizar a discussão das seções anteriores, vamos proceder a uma reanálise de algumas das estruturas discutidas acima com

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b) A Maria deu bofetadas no João. A ser assim. 6. 84 GRAMATICA 3. (95) a) A Maria deu beijos no João. estamos aqui diante do uso bitransitivo do verbo dar. (91) a) A Maria deu bofetadas. independentemente do contexto.1. as sentenças em (91b) e (92b) deveriam estar associadas a uma estrutura nos moldes de (93). como vimos na seção 4. refinando as noções de argumento externo e argumento interno. (92) a) A Maria deu beijos. b) A Maria esbofeteou o João. como em (91b) e (92b). Generalizando estruturas com verbos leves: verbos transitivos Considere os pares de sentenças em (91) e (92). (93) SN1 SV 3 V 4 a Maria 9 deu V’ g 4 bofetadas/ beijos SN2 SPrep 4 no João Examinemos agora os pares em (94) e (95). tornar essas sentenças totalmente aceitáveis. À primeira vista. o que sugere que o predicado não parece estar saturado. b) A Maria deu beijos no João. Isso é confirmado pelo fato de a adição de um SPrep.3. Em primeiro lugar.indb 84 6/11/2009 14:47:05 . sugerindo que o SPrep estaria saturando o predicado. (94) a) A Maria deu bofetadas no João.SONIA CYRINO • JAIRO NUNES • EMILIO PAGOTTO base em recentes desenvolvimentos em teoria sintática. b) A Maria beijou o João. pois “falta algo” nessas sentenças. (91a) e (92a) soam inaceitáveis fora de contexto.

estão associadas à estrutura esquematizada em (96). como vimos na seção 4. uma vez que relações semânticas similares devem estar calcadas em estruturas sintáticas similares. ao contrário do que ocorre em (93) e (96).COMPLEMENTAÇÃO As sentenças (94a) e (95a) podem ser legitimamente parafraseadas por (94b) e (95b). que. verificamos que não há base estrutural para capturar as propriedades temáticas comuns aos pares de sentenças em (94) e (95) e isso é bastante problemático. deveria também ser o argumento interno de bofetadas/beijos em (93). (97) SV 3 4 a Maria SN1 V’ 3 V deu N g SN2 N’ g 3 bofetadas/ beijos g SPrep 4 no João 85 GRAMATICA 3.2. deveria estar associado a uma mesma configuração estrutural. Em outras palavras. como vimos na seção 3. Se o SN o João estabelece uma relação semântica com bofetadas/beijos em (94a) e (95a) idêntica à relação semântica que estabelece com esbofeteou/beijou em (94b) e (95b). se o João é o argumento interno de esbofeteou/beijou em (96).indb 85 6/11/2009 14:47:05 . (96) 3 SV 4 SN1 V’ 3 V a Maria esbofeteou/ beijou g 4 o João SN2 Quando comparamos as estruturas em (93) e (96). como representado na estrutura alternativa em (97).

A ideia é que sentenças como (94b) e (95b) estão. o SN a Maria é o argumento externo de um verbo leve (representado aqui por v) e é interpretado como o agente que detona o evento descrito no interior do complemento do verbo leve. Um ponto que destoa na comparação de (96) com (97) é que em (96) o SN a Maria é representado como o agente de esbofetear/beijar. assim como em (97). Pesquisas recentes argumentam que estruturas transitivas como (94b) e (95b) também envolvem um verbo leve abstrato que pode ser ou não associado a algum morfema específico.SONIA CYRINO • JAIRO NUNES • EMILIO PAGOTTO Uma vez que logramos harmonizar a relação semântica do paciente em (96) e (97). enquanto em (97) é representado como o agente de dar. 86 GRAMATICA 3. a descrição desse evento é feita pelo seu argumento interno. observemos agora o agente. estar associadas a uma estrutura genérica como (99). na verdade. Em outras palavras. Em outras palavras. portanto. (98) 3 SN1 v’ Sv 4 a Maria 3 v SV V’ esØ g g 3 V 4 “bofeteou” o João beijou g SN Em (98). Construções transitivas devem. isso não condiz com as similaridades de significado entre as sentenças de (94) e (95). O paralelismo sintático e semântico é finalmente obtido. Entretanto. Um ponto a se destacar é que o verbo dar em (94a) e (95a) é na verdade um verbo leve (ver seção 4. além de designar um evento de realização em que há um agente. a configuração estrutural em que a Maria se encontra deve ser semelhante o suficiente para permitir que os pares em ( 94) e ( 95) constituam paráfrases.indb 86 6/11/2009 14:47:05 .6). associadas a uma estrutura nos moldes de (98).

ou por um afixo.indb 87 6/11/2009 14:47:05 . No caso de (98).ou Ø em (98). discutiremos consequências adicionais dessa reinterpretação de estruturas transitivas em termos de verbos leves. O verbo leve pode ser realizado como um item lexical autônomo. 6. Se for um afixo. como es. o verbo leve desencadeia movimento do núcleo de seu complemento para que suas propriedades afixais sejam satisfeitas. 87 GRAMATICA 3. (100) 3 SN1 v’ Sv 4 a Maria 3 v SV g g es-bofeteou V’ Ø-beijou 3 " V SN g g 4 z--m o João Nas seções que se seguem. de maneira elegante. como dar em (97). por exemplo.2. obtemos o resultado em (100). com o tipo de alternância exemplificada em (101)-(103).COMPLEMENTAÇÃO (99) Sv 3 argumento v’ externo 3 v SX X’ X g 3 argumento interno As diferenças específicas de uma construção transitiva para outra vão depender da forma do complemento do verbo leve [se um SN como em (97) ou um SV como em (98)] e das propriedades morfológicas do verbo leve. Verbos transitivos versus verbos inacusativos A reanálise de estruturas transitivas permite agora lidar.

com o verbo selecionando um argumento interno. conforme ilustrado em (105). Dentro da perspectiva desenvolvida na seção 6. (102) a) O vento abriu a porta. A análise tradicional dessas estruturas postulava uma ambiguidade lexical para verbos como afundar. b) A porta abriu. b) O navio afundou. Já a construção transitiva envolve a subordinação de uma estrutura como (104) a uma estrutura nucleada por um verbo leve. b) O gelo derreteu. (103) a) O sol derreteu o gelo. trata-se na verdade da mesma entrada lexical associada a estruturas distintas. A estrutura inacusativa será como representado em (104) abaixo.1. 88 GRAMATICA 3.SONIA CYRINO • JAIRO NUNES • EMILIO PAGOTTO (101) a) A tempestade afundou o navio. dotando-os de uma entrada lexical transitiva e outra inacusativa. (104) SV V’ g argumento interno afundou/abriu/derreteu V V g (105) Sv 3 argumento v’ externo 3 v g SV g Ø V V’ 3 g argumento interno afundou/abriu/derreteu A aparente ambiguidade lexical em ( 101)-(103) na verdade resulta do fato de o verbo leve ser um morfema-Ø (foneticamente nulo) nesses casos. abrir e derreter.indb 88 6/11/2009 14:47:05 .

(107) a) SV V’ V g V SV argumento interno b) argumento externo V V’ g V Tendo em vista a reanálise de argumentos externos como especificadores de Sv. não atribuírem caso acusativo (ver seção 4. Numa estrutura transitiva como (106) abaixo. mas não (104).3. Assumindo que essa é uma propriedade geral dos verbos leves. 6. portanto. como o próprio nome diz.indb 89 6/11/2009 14:47:05 . como exemplificado pelas sentenças em (101b).COMPLEMENTAÇÃO Podemos também a partir do contraste entre (104) e (105) prover uma explicação para o fato de verbos inacusativos. O argumento interno de (104) pode. 89 GRAMATICA 3.4). (106) O João deu um beijo na Maria. mas a estrutra de verbos inergativos em (107b) deve ser reanalisada nos moldes de (108). mover-se para a posição de sujeito externa a SV. Verbos inacusativos versus verbos inergativos Na seção 4. é o verbo leve dar que atribui caso acusativo ao SN um beijo na Maria. há atribuição de caso acusativo em estruturas como (105). a distinção entre verbos inacusativos e inergativos foi capturada em termos das estruturas em (107a) e (107b).4. receber caso nominativo e determinar a concordância verbal (ver seção 3). a estrutura de verbos inacusativos se mantém como representado em (107a). (102b) e (103b). respectivamente.

6. c) *O João desapareceu um desaparecimento inusitado. uma sentença contendo uma construção bitransitiva como (111) deveria estar associada a uma estrutura como (112). como ilustrado em (110). (110) a) *O João sumiu um sumiço inesperado. Verbos bitransitivos Diante da reinterpretação da posição estrutural do argumento externo. 90 GRAMATICA 3. que são possíveis com verbos inergativos.indb 90 6/11/2009 14:47:05 . Vêm daí os chamados “objetos cognatos”. Note que uma vez que o argumento de um verbo inacusativo já ocupa a posição de complemento [cf. como ilustrado em (109) abaixo.4. (109) a) O João tossiu uma tosse esquisita. (107a)]. não é possível acrescentar um objeto cognato a uma estrutura inacusativa. a estrutura em (108) permite que o verbo tome um complemento.SONIA CYRINO • JAIRO NUNES • EMILIO PAGOTTO (108) Sv argumento externo v V v’ V SV g Ø g V’ g V g tossiu/espirrou/riu Observe que uma vez que é o verbo leve o responsável pela atribuição de caso acusativo. (111) O João mandou flores para a Maria. b) O João espirrou um espirro escandaloso. b) *O João caiu uma queda feia. c) O João riu uma risada escandalosa.

Entretanto. nos moldes de (114): (114) 3 SN v’ Sv 4 o João 3 v SV Ø g 3 SN V’ 4 3 a firma V SPrep g 4 levou ao abismo 91 GRAMATICA 3. por exemplo. (113) a) O João levou a firma ao abismo. expressões idiomáticas devem corresponder a um constituinte sintático. c) A Maria mandou o namorado pra PQP. não é isso o que se vê numa estrutura como (114).indb 91 6/11/2009 14:47:05 . A existência de expressões idiomáticas envolvendo verbo e objeto indireto nos conduz a uma reformulação de estruturas bitransitivas como (113a). O verbo e o “objeto indireto” constituem expressões idiomáticas em (113) e. b) O João mandou a sogra às favas.COMPLEMENTAÇÃO (112) 3 SN v’ Sv 4 o João 3 v SV V’ Ø g g 9 V SN SPrep 4 4 mandou flores para a Maria g Considere agora as sentenças em (113) abaixo. como vimos na seção 3.

Esses resultados nos levam a reconsiderar a classe dos verbos transitivos. Em segundo lugar. se mudarmos o conteúdo do SPrep. (115) 3 SN v’ Sv 4 3 SV o João v Ø-levou " 3 SN V’ 4 3 g a firma V SPrep g g 4 z--------m ao abismo g 6.4 que a estrutura de verbos bitransitivos 92 GRAMATICA 3.4 começou com a hipótese de que deveria haver. Em primeiro lugar.indb 92 6/11/2009 14:47:05 . que agora uniformiza todas as estruturas. o argumento externo é gerado no especificador de Sv. em princípio. a ordem linear superficial é obtida através do movimento do verbo para satisfazer as propriedades afixais do morfema-Ø. verbos com dois argumentos. por exemplo. em outras palavras. à semelhança do que ocorre em construções transitivas e inergativas. mas com o V’. Outro fator presente na estrutura de (114) é a ramificação binária.5. Na seção 6. a interpretação semântica do SN a firma se dá em função de V e SPrep e. poderá ter seu valor semântico alterado. isto é.1 tratamos desses casos como simplesmente envolvendo um argumento de cada tipo: um argumento externo no especificador de Sv e um argumento interno na posição de complemento de V. Isso fica evidente se substituirmos ao abismo em (114) por à recuperação. Verbos “transitivos” com dois argumentos internos A seção 4. Finalmente. (114) pressupõe que o SN a firma não estabelece uma relação direta com o verbo. Vimos também na seção 6. como ilustrado em (116) abaixo. como tal. duas configurações estruturais para verbos monoargumentais e vimos que as duas possibilidades lógicas correspondem de fato a duas classes distintas: verbos inacusativos e verbos inergativos. como ilustrado em (115).SONIA CYRINO • JAIRO NUNES • EMILIO PAGOTTO O exemplo (114) num certo sentido agrupa praticamente todas as propriedades estruturais discutidas ao longo deste capítulo.

verificamos que estamos diante de tipos de argumentos distintos. como os de (120). Verbos que prototipicamente demandam um argumento externo.indb 93 6/11/2009 14:47:05 . como ilustrado em (119b). como em (119a). Haveria. um na posição de especificador e outro na posição de complemento de V. então. quando comparamos predicados de ação como os de (119) abaixo com certos predicados psicológicos. Verbos 93 GRAMATICA 3. por exemplo. surge a possibilidade lógica de verbos de dois argumentos poderem também selecionar apenas argumentos internos. geralmente admitem construções passivas. como representado em (118) abaixo.COMPLEMENTAÇÃO admite dois argumentos internos. como representado em (117). uma classe de verbos transitivos com dois argumentos internos? (118) SV 3 argumento V’ interno 3 V argumento interno De fato. (116) Sv 3 argumento v’ externo 3 v SV g V’ V 3 argumento interno (117) Sv 3 argumento v’ externo 3 v SV 3 argumento V’ interno 3 V argumento interno Tendo em vista as relações estruturais viabilizadas em (117).

(120) a) O João preocupou/entristeceu a Maria. Assimetrias como essas têm levado à conclusão de que verbos de dois argumentos podem não demandar que um desses argumentos seja externo. (121) 3 SN V’ SV 4 o João 3 V preocupou entristeceu g 4 a Maria SN2 A estrutura em (121) sugere.SONIA CYRINO • JAIRO NUNES • EMILIO PAGOTTO psicológicos como os de ( 120a). verbos como preocupar e entristecer em (120a) podem selecionar dois argumentos internos. b) A Maria foi beijada/beliscada pelo João. 94 GRAMATICA 3.indb 94 6/11/2009 14:47:06 . como se pode ver em (120b). são bastante refratários à passivização. que o preenchimento das posições de especificador e complemento dentro de SV depende fundamentalmente das relações semânticas estabelecidas e é em certa medida independente da presença de Sv na estrutura. por outro lado. b) *A Maria foi preocupada/entristecida pelo João. como representado em (122) abaixo. em princípio. Esquema geral da estrutura do sintagma verbal De acordo com o que vimos acima. organizar-se em torno de duas camadas: uma camada nucleada por um verbo semanticamente pleno e uma camada nucleada por um verbo leve. como representado em (121). sintagmas verbais podem. 6. A realização de cada camada bem como dos argumentos a elas associados vai depender da informação temática lexicalmente definida para cada verbo. portanto. Ou seja. (119) a) O João beijou/beliscou a Maria.6.

ver Dillinger. ver Eliseu (1984) e Whitaker-Franchi (1989). Sobre o objeto nulo no PB. ver Huang (1984. Pagotto e Cerqueira (1996). ver Williams (1981) e Marantz (1984). ver Perlmutter (1978) e Burzio (1986). ver. ver Duarte ( 1986 ). Sobre elipse de SV.COMPLEMENTAÇÃO (122) Sv 3 argumento v’ externo 3 v SV 3 argumento V’ interno 3 V argumento interno Nos próximos capítulos veremos como as informações encapsuladas em (122) interagem com domínios maiores da sentença. ver Hale e Keyser (1993). Sugestões de leitura Para um panorama da distribuição dos complementos verbais no PB falado. 1989 a. Nunes (1993). comparando o PB com o português europeu. 1991). 1993). Chomsky (1995) e Baker (1997). Para a distinção entre verbos inacusativos e inergativos. Farrell (1990). b). Para a distinção argumento externo/argumento interno. ver Neves (2002). Raposo (1986). ver Koopman e Sportiche (1991) e McKloskey (1997). Rizzi (1986) Chao (1987).indb 95 6/11/2009 14:47:06 . Sobre a posição do argumento externo dentro de SV. Landa (1991). Galves (2001). Para estudos sobre clíticos no PB. Para construções de alçamento em geral. Cole (1987). complementos nulos e objetos nulos em outras línguas. Correa (1992). Sobre verbos leves em diversas línguas. incluindo verbos auxiliares. Para uma discussão dessa distinção com base nos dados do português. Pagotto (1992. ver Galves. ver Postal (1974). Creus e Me- 95 GRAMATICA 3. Avelar (2004) e Scher (2004). Campos (1986). Kato (1994). 1989. Galves. Cyrino (1996). Galves ( 1987 . entre outros. Kato (2002b) e. Matos (1992) e Lobeck (1999). Torres Morais e Ribeiro (2005). sobre verbos leves no PB.

não levando em conta complementos de natureza mais adverbial. ver Belletti e Rizzi (1988). Para sua posterior reformulação em termos de uma camada nucleada por um verbo leve. 2005. Para a formulação original da organização do sintagma verbal em duas camadas. de 28 de janeiro de 1959. ver Larson (1988). Duarte e Kato (2000). Sobre verbos psicológicos. Cyrino e Lopes (2005).SONIA CYRINO • JAIRO NUNES • EMILIO PAGOTTO nuzzi (2005). 2000. 1997. Cyrino. ver Kury. Para estudos sobre os complementos nulos no português. Lopes e Cyrino (2005). 2007). A NGB distingue somente dois tipos de complemento — objeto direto e indireto —. Os resultados desta seção baseiam-se em Abaurre e Galves (1996).indb 96 6/11/2009 14:47:06 . Para uma explicação da nomenclatura sistematizada pela NGB. ver Chomsky (1995). 2006). 1999. publicada pelo Ministério da Educação e Cultura por meio da Portaria no 36. ver Cançado (1995). 2002. 2006). chamados por Rocha Lima (1972) de complementos circunstanciais. 2004. Kato e Raposo (2005. ver Cyrino (1996. Notas 1 2 A maioria das gramáticas pedagógicas brasileiras ainda se pauta pela Nomenclatura Gramatical Brasileira (NGB). 96 GRAMATICA 3. Cyrino e Matos (2002. para uma discussão sobre o português. 1964.

indb 97 6/11/2009 14:47:06 .PREDICAÇÃO GRAMATICA 3.

GRAMATICA 3.indb 98 6/11/2009 14:47:06 .

...........................................2............................................................................................................ A posição do sujeito em sentenças reduzidas de gerúndio ... O tópico-sujeito ...............................2..................SUMÁRIO 1..................................3........................................................... A topicalização ..............120 3.....................................................................................................................2...................................................................... 105 2................................... 139 3...................................................................................................................1......... O sujeito de “referência estendida” ...............................2............................... 156 4................................... Introdução .....1.................................................. 153 4...................................................................................................................................................... As sentenças com verbos “climáticos” ...................................................3............................. 143 3..........................................3.............................................1................... As sentenças com verbos de alçamento .. O sujeito referencial nas sentenças não-finitas .......................................................................................................................................................... 123 3....................... 163 GRAMATICA 3..1............... Verbos transitivos e inergativos ...................................................3................................................................indb 99 6/11/2009 14:47:06 .....131 3............................ A interface sintaxe–prosódia: construções de tópico/comentário vs sujeito/predicado ..... 152 4...........................................................132 Nota .................... 102 1...........................................................................1.........................................................123 3.....................................................................1.................... O sujeito referencial nas sentenças finitas ....151 4........................................................................................................................ 114 3...............................................................................1...... O sujeito de referência determinada ................................................... Construções de tópico marcado .................................................1..........................138 3...................3................................. 139 3............. Ordem dos constituintes sentenciais e concordância verbal . 143 3........................................................................................2........4.......1......................................2.......................... O sujeito de referência indeterminada .....151 4..... A noção de sujeito nas gramáticas tradicionais ...............................101 1..............148 Nota ..111 2...............................147 3..................2................................5..........3.......... 141 3........................................ O antitópico ........................................ As sentenças existenciais com ter/haver ............................................................................................................... O Deslocamento à Esquerda ......................................................................................................................................................................................3............... Verbos inacusativos ............. A noção de sujeito a ser adotada neste volume .........2 ...6.......................... 161 4..................................................................... A posição do sujeito em sentenças infinitivas .................................... O sujeito pronominal e suas realizações ......2........................1................................................ O sujeito não-referencial (as sentenças impessoais) ............................................... 144 Nota ........................... 160 4........................................ 112 2............... O anacoluto ou tópico pendente .....

.......................................................................................................................................................................164 5.................186 GRAMATICA 3............ 167 5................................................................................................................................................................... Os verbos transitivos e inergativos (intransitivos) ..................................................................7...............3...... 178 5............................................................ 171 5........................................................ Verbos impessoais .....................2.......................................................................................................... Os verbos inacusativos ..................6......................................... Os verbos auxiliares ser......... 182 Nota geral ..............5.............................................................................................................................................................................................................................................165 5.................................indb 100 6/11/2009 14:47:06 ................................................................ Esquema geral da estrutura do sintagma flexional ............... 169 5.........................................1............................................... Sistematização formal das estruturas de predicação ............183 Sugestões de leitura .....Nota ................................................................................. As construções de tópico marcado ...................................................... Os verbos de ligação “ser” e “estar” ....... 165 5........................................................................................... estar e ter/haver ....................184 Notas .............................................4............................. 174 5.......................................................

1. *** Universidade de São Paulo. o que significa caminhar por um terreno movediço. estabelecendo uma conexão sintática com V’. no 350. A seção 2 discorre sobre a ordem dos constituintes sentenciais e sobre a variação na concordância * Universidade Estadual Paulista — Araraquara/CNPq (Proc.3 PREDICAÇÃO Rosane de Andrade Berlinck * Maria Eugênia Lamoglia Duarte ** Marilza de Oliveira *** 1 .indb 101 6/11/2009 14:47:06 . Este capítulo discute a relação sujeito–predicado. Na seção 1. A seção 3 do referido capítulo.2. discutiremos brevemente a noção de sujeito na tradição gramatical e levantaremos algumas questões que podem advir de tal noção. mostra que esses argumentos não interagem com o predicador ou entre si da mesma maneira. espelhando uma assimetria sintática entre esses argumentos. entretanto. ** Universidade Federal do Rio de Janeiro/CNPq (Proc. uma vez que o termo a que nos referimos como sujeito nem sempre coincide com o argumento externo da sentença.837/07-9). 101 GRAMATICA 3.731/99-3). embora seja ponto pacífico nos estudos linguísticos. no 305. estabelecemos a noção de sujeito adotada neste volume. Introdução Como vimos na Introdução ao capítulo 2. uma vez que cada argumento (sujeito e complementos) tem uma relação direta com seu predicador. Enquanto os argumentos internos se encontram em relação sintática com o predicador no interior de V’. particularmente as relativas à distinção entre sujeito sintático e tópico marcado. o argumento externo aparece imediatamente dominado por SV. fica obliterada numa perspectiva fregeana. a distinção clássica entre o sujeito e os complementos numa sentença. Em 1. Ficou claro que a relação semântica entre um predicador e seu argumento interno é muito mais estreita do que a que se estabelece entre o predicador e seu argumento externo.

(DID RJ) c) [Olinda]i ninguém mora __ i. Ninguém diz é lá que eu moro não diz é lá que eu pernoito. Na seção 4 faz-se uma análise das construções de tópico marcado encontradas na amostra e. ter- 102 GRAMATICA 3. eu gosto mais de comédia. Veja as sentenças em (1) a seguir. finalmente. (DID SP) e) Filme. Tal conceituação obedece a um critério de cunho informacional. A noção de sujeito nas gramáticas tradicionais 1 As gramáticas tradicionais (GTs) conceituam a sentença como uma estrutura linguística constituída de sujeito e predicado. já basta a vida. elei possui o seu conjunto. Utilizaremos um traço para representar uma posição vazia vinculada a um tópico e outros constituintes possivelmente movidos de sua posição de origem para a periferia da sentença (cf. p. cada nódulo]i .ROSANE DE ANDRADE BERLINCK • MARIA EUGÊNCIA LAMOGLIA DUARTE • MARILZA DE OLIVEIRA entre sujeito e verbo na amostra analisada. mas nem sempre esse “sujeito” coincide com “o ser sobre o qual se faz uma declaração”. (DID SP) Observe que os elementos sublinhados correspondem ao “ser sobre o qual se faz uma declaração”.. (EF SSA) b) E [carne]i. Nelas. cap. 122). está relacionada à organização do discurso. com especial atenção à representação do sujeito pronominal na amostra analisada. mostrando a preferência dos falantes pelo sujeito pronominal expresso.. em continuação à apresentada no capítulo 2. (D2 REC) d) Drama. em detrimento do sujeito “oculto”.indb 102 6/11/2009 14:47:06 . e os elementos em negrito. aqui em casa nós fazemos __ i de várias formas.1. (1) a) [Cada elemento. 1). 1. O índice subscrito (i) indica a correferência entre a posição vazia e o constituinte grifado. isto é. A seção 3 é dedicada à tipologia de sujeito. ao sujeito “sintático”. os constituintes em negrito correspondem exatamente ao conceito de sujeito que acabamos de transcrever. sendo o primeiro “o ser sobre o qual se faz uma declaração” e o segundo “tudo aquilo que se diz do sujeito” (Cunha e Cintra 2007. a 5 traz uma sistematização formal do conteúdo do capítulo.

não há conectividade de função sintática entre o tópico e qualquer elemento do comentário. Mesmo que o falante não use marcas explícitas de concordância verbal. [Acho que deveria ser salientado que a conectividade referencial entre tópico e comentário existe em todas as sentenças. o tópico carne tem um vínculo com uma posição vazia no interior da sentença-comentário. essa conectividade se torna menos transparente.] Vemos. enquanto já basta a vida e eu gosto mais de comédia se ajustam perfeitamente à definição de predicado: “tudo aquilo que se diz do sujeito”. tal qual aparece nas gramáticas tradicionais. que o segue. não significa falta de concordância. Pode-se dizer que Olinda mantém a conectividade referencial com a sentença-comentário. Basta mudar as duas primeiras linhas. É justamente esse elemento em negrito que o estudante reconhece como sujeito da oração. ou até mesmo não existir. cada nódulo com um elemento interno da sentença-comentário. no conjunto de sentenças. mas veja que a preposição em não precede o tópico. o sujeito ele. apesar de a definição de sujeito. Em (1b). representada pelo traço [ __ ]. pois em todas as sentenças elementos externos a ela entram em conexão referencial com um constituinte da sentença-comentário.indb 103 6/11/2009 14:47:06 . então. que a conceituação de cunho informacional é muito ampla. Um exame atento de cada sentença nos revelará que existe conectividade “referencial” ou “semântica” entre esse tópico e a sentença-comentário. se aplicar. o complemento (argumento interno) de fazer (aqui em casa nós fazemos [carne]). a que vamos referir-nos como “tópico”. há conectividade referencial sintática entre o tópico cada elemento. considera-se que a desinência zero. O que as distingue é a conectividade de função entre o tópico e um elemento comentário. mantendo com essa sentença-comentário uma relação semântica. por exemplo.PREDICAÇÃO mo que é selecionado por um predicador e entra em relação de concordância com o verbo. pois identifica o argumento interno (complemento circunstancial) de morar (ninguém mora [em Olinda]). ou a ausência de marcas. mas a conectividade “sintática” pode ser “mais” ou “menos” estreita. (1d) e (1e). apesar da conservação de uma conectividade referencial/semântica. Nos dois últimos exemplos. Vamos referir-nos a essas construções neste capítulo como construções de tópico 103 GRAMATICA 3. Em (1a). A partir de (1c). presente em a/b/c e ausente em d/e. Drama e filme cabem perfeitamente na definição de sujeito encontrada nas gramáticas tradicionais: “o ser sobre o qual se faz uma declaração”. acima de outro elemento.

(D2 REC) Entretanto..]. Agora começam os programas de política. 104 GRAMATICA 3. que aparece na posição de sujeito sintático. [. servirá..indb 104 6/11/2009 14:47:07 . (DID SP) O trecho acima é bastante ilustrativo a respeito da discussão que começamos aqui e que prosseguirá na seção seguinte e na 2. para veicular uma informação nova. Brito. Duarte e Matos. já ilustrada em (1).. 2003 ) e dedicaremos a elas atenção especial na seção 6. Ressaltamos que “tópico marcado” e “sujeito sintático”. Isso mostra que não podemos basear a conceituação de sujeito exclusivamente em uma análise do status informacional da entidade. Muita coisa boa aparece no “Fantástico”. as categorias que serão objeto de análise neste capítulo. os programas de política é um sujeito sintático que traz uma informação nova. é preciso assinalar que nosso sujeito sintático pode ainda aparecer em posição pós-verbal e. então. como mostra o último constituinte destacado em (3): (3) O “Fantástico”i eu acho que ___ i é um programa muito. não há construções de tópico marcado. Tanto o tópico marcado como o sujeito sintático podem veicular uma informação nova ou dada (já mencionada no discurso). que aparece após o verbo. – Mas nós não sabemos por quanto tempo Olindai vai viver porque elai está escorregando para o mar. em tais casos. que o sujeito da sentença pode ser uma entidade que codifica informação velha (2) ou uma entidade que codifica informação nova (3). muita coisa boa é igualmente uma informação nova. Mas é possível notar que os sujeitos sintáticos Olinda e ela correspondem a uma informação dada no contexto discursivo: (2) – [.] e o patrimônio histórico tá restaurando as igrejas de Olinda. No trecho transcrito de um diálogo.ROSANE DE ANDRADE BERLINCK • MARIA EUGÊNCIA LAMOGLIA DUARTE • MARILZA DE OLIVEIRA marcado (cf... Só o exame cuidadoso do texto pode-nos informar sobre o estatuto informacional (novo/dado) do tópico marcado e do sujeito sintático.. O constituinte o Fantástico é uma informação nova codificada pela estrutura de tópico marcado. não se confundem com o conceito de tópico discursivo2.. Observamos. apresentado em (2) a seguir.. predominantemente.

(DID POA) b) . os adjuntos. dois tipos de estruturas em que o sujeito não coincide com o argumento externo: as estruturas passivas e as sentenças com verbos inacusativos. que noção devemos. d. O exame dos predicadores grifados em (4) confirma essa coincidência. A noção de sujeito a ser adotada neste volume Diante do exposto na seção anterior. (D2 SSA) Em (5a). por exemplo. o argumento interno do predicador procurar é ela (a professora) — os alunos procuram a professora —. (D2 SP) b) Todas essas estradas aqui foram pintadas à máquina.. quase sempre. e em (4b. realmente eles sensibilizam uma camada da população.. que serão tratados no capítulo 4. paga aos seus funcionários normalmente um reajuste salarial no mês de março. o argumento externo pode ou não aparecer sob a forma de um SPrep (Sintagma Preposicionado).. entretanto. enquanto o argumento interno aparece na função sintática de sujeito.PREDICAÇÃO 1. são eles os responsáveis pela seleção semântica do argumento externo. c. (DID REC) Há.. temos um predicador nominal. coincide com o argumento externo de um predicador. e interno(s).. porque quase sempre ela é procurada pelos alunos. e a eles se ligam. a posição externa a SV está disponível para receber o argumento interno. e). em geral. Em (4a). De fato.indb 105 6/11/2009 14:47:07 . Em ambos os casos. No caso das estruturas passivas. com a função tradicionalmente referida como agente da passiva: (5) a) . (D2 RJ) c) Eu gostei de Pernambuco.. respectivamente núcleos dos predicados nominais e verbais. então. (4) a) Agora eu estou muito sozinha lá na praia. (DI SP) e) O governo.2. destacado em negrito. que aqui aparece na função de 105 GRAMATICA 3. opcionalmente. (DID RJ) d) As minhas amigas vão sempre ao teatro. predicadores verbais. adotar para o sujeito? O capítulo 2 mostra que o sujeito.

uma função incluída em descrições mais recentes entre os termos oblíquos. ao contrário do que ocorre com o objeto direto. nota 4). o sujeito coincide com o argumento interno. Essa possibilidade de não realizar foneticamente o argumento externo nas estruturas passivas vem confirmar o que se disse no capítulo 2 acerca da assimetria entre argumento externo e interno e da diferente relação sintática entre eles e seu predicador. de vez em quando aparecem as riscas no chão marcando o início da pista. desencadeia concordância verbal e recebe caso nominativo ao invés de acusativo. de vez em quando elas aparecem marcando o início da pista. Nesses casos. Observe o exemplo em (6): (6a) . haja coincidência entre sujeito sintático e argumento externo. ainda que o falante não utilize as marcas formais de concordância-padrão do português. enquanto o argumento externo não aparece. em geral. Isso significa que a concordância verbal é crucial para a definição 106 GRAMATICA 3.4) que geralmente apenas um argumento interno é selecionado. na função de agente da passiva. mas.indb 106 6/11/2009 14:47:07 . b) . Esse argumento tem as mesmas características semânticas e estruturais do objeto direto. tal como o argumento externo. Em (5b). como mostra a reescritura de (6a) em (6b): (6b) a) . o que é explicitado pela concordância verbal.. e o argumento externo os alunos.. o argumento interno igualmente cumpre a função de sujeito. juntamente com os complementos relativos e circunstanciais (cf. No caso das sentenças com verbos inacusativos. Ainda que.ROSANE DE ANDRADE BERLINCK • MARIA EUGÊNCIA LAMOGLIA DUARTE • MARILZA DE OLIVEIRA sujeito. vimos no capítulo 2 (seção 4. o comportamento do argumento interno dos verbos inacusativos e do argumento interno das estruturas passivas mostra que o sujeito não se confunde com a noção de argumento externo.. de vez em quando as riscas no chão aparecem marcando o início da pista. (D2 SSA) Observe que o constituinte em negrito se encontra em posição pós-verbal e que a falta de um argumento externo permite que ele entre em relação de concordância com o verbo... Uma evidência de que esse elemento recebe caso nominativo vem da possibilidade de ele ser anteposto ao verbo e de ser substituído por um pronome do caso reto..

A relação de concordância entre sujeito e verbo é expressa sintaticamente.indb 107 6/11/2009 14:47:07 . como ocorre no português brasileiro falado. O verbo dormir seleciona um SN e o único candidato na sentença é Paulo. A sua função é marcar tempo e pessoa.PREDICAÇÃO de sujeito. Como mostra o capítulo 2. o verbo deveria tomar a forma tinham. o argumento interno é um candidato legítimo para ocupar essa posição. não seleciona argumentos. explicitando a concordância com o argumento. Sendo um auxiliar. que expressa justamente tempo e concordância. Temos um único argumento e dois verbos dormir e ter. Ela se dá mesmo que o sistema não disponha de marcas morfológicas que explicitem tal relação. ou até mesmo nos casos em que se observam perdas dessas marcas. o especificador de um nódulo funcional. abandonamos o campo semântico que determina o número de argumentos de um predicador e sua projeção na sintaxe para adentramos no campo “mais gramatical”. É preciso. passamos a ter a estrutura sentencial em (7b). Para a distinção entre esses dois campos. Se em lugar de Paulo tivéssemos os meninos. O verbo ter tem a função de auxiliar do verbo dormir. Considerando a função argumental e a função gramatical. observe a sentença abaixo: (7a) Paulo tinha dormido. ou seja. traços verbais ausentes no particípio dormido. Chamemos esse nódulo de Sintagma Flexional (SFlex). ele recebe as marcas de número. notar que a “concordância” entre um especificador e o núcleo de flexão não se deve confundir com a presença de marcas explícitas de concordância verbal. o argumento com função de sujeito ocupa uma determinada posição. que envolve questões morfossintáticas. como é o caso do inglês ou do chinês. isto é. daí entrar em relação de concordância com o verbo. Ao nos concentrarmos na concordância verbal. Além disso. não tem grade temática. A estrutura de SV está simplificada nesta seção3: 107 GRAMATICA 3. entretanto. na ausência de um argumento externo para competir pela posição de sujeito.

que exibe marcas de tempo e modo < -ra > e de número e pessoa < -m >. o qual ocupa a posição de especificador de V. mas na posição de núcleo da concordância verbal. como no caso anterior. do qual recebe papel temático. ou seja. o argumento entra em relação semântica com o verbo. dormiram. para o especificador de Flex: 108 GRAMATICA 3. lugar em que recebe seu papel temático. Satisfeitas as exigências semânticas (projeção do argumento e atribuição de papel temático). para entrar em relação de concordância com o verbo. o seu único argumento. e projeta sua estrutura argumental. que tem as desinências modo-temporais e número-pessoais.ROSANE DE ANDRADE BERLINCK • MARIA EUGÊNCIA LAMOGLIA DUARTE • MARILZA DE OLIVEIRA (7b) SFlex 3 Espec Flex’ 4 3 Os meninos Flex SV g 3 tinham SN V’ [ ]i g V dormido g g Os meninos. que não se confunde com argumento externo. tem sua origem na posição de especificador de V. o verbo. O verbo é gerado na posição de núcleo do SV. não se origina na posição do verbo. como no caso anterior. argumento externo de dormir. Lembre-se de que esta é a posição do sujeito da sentença. o SN tem de se mover para a posição de especificador de Flex.indb 108 6/11/2009 14:47:07 . deve mover-se para o núcleo de SFlex. os meninos. por ser um auxiliar e não um predicador. O argumento externo se move. onde estão as marcas de concordância. Nessa posição o argumento externo recebe Caso Nominativo da Flexão. O sujeito entra em relação de concordância e recebe Caso Nominativo da Flexão. Observe ainda que o verbo ter. é gerado no especificador de V. Entretanto. Tomemos agora o caso do verbo dormir na sua forma simples. onde recebe papel temático.

Examinemos agora um verbo “climático”. é: (9) SV V’ V choveu g g g Como se pode depreender da representação acima. Ou seja. quando o sujeito ocupa a posição de especificador de Flexão e o verbo flexionado ocupa a posição nuclear de Flexão. temos a ordem superficial SV. podemos ter um SN pós-verbal na função de sujeito. No português. portanto. trataremos da variação na presença/ausência de marcas morfológicas de concordância verbal e da sua relação com a ordem do sujeito sintático na amostra analisada. No inglês e no francês. sua estrutura argumental. entretanto.indb 109 6/11/2009 14:47:07 . a noção de sujeito. há um pronome 109 GRAMATICA 3. Na próxima seção. está vinculada à ordem SV. obtida nessa mesma relação. como no caso do verbo dormiram. como chover. a classificação tradicional de oração sem sujeito encontra guarida na estrutura argumental do verbo. Entretanto. além de estar vinculada à questão da concordância que se observa na relação entre especificador e núcleo de Flex. Esse verbo não seleciona nenhum argumento. a marca morfossintática (< -u >. conforme vimos no capítulo anterior. terceira pessoa do singular do pretérito perfeito) desencadeia o seu movimento para o núcleo de SFlex.PREDICAÇÃO (8) Espec 3 Flex SFlex Flex’ SV V’ Os meninosi 4 3 g g dormiramk SN 3 V [ ]k [ ]i g g Ressalte-se que.

O português brasileiro não tem um pronome expletivo foneticamente realizado4. O termo “expletivo” se refere à falta de conteúdo semântico do pronome. mas que vem a suprir a falta de uma forma para a posição de sujeito das estruturas que a GT denomina de “orações sem sujeito”. o argumento externo de “dormimos”. Tem-se aí uma simetria de nulos para a posição de sujeito: nulo referencial. foneticamente não realizado. No primeiro caso. uma categoria não reconhecida pela tradição. il. no segundo caso. e nulo não-referencial ou expletivo. respectivamente. As estruturas em (10a) e (10b) ilustram um sujeito nulo referencial e um nulo expletivo. é representado por uma categoria vazia pro (ou um sujeito oculto — nós — em termos tradicionais) na posição de especificador de SFlex. mas isso não nos impede de postular a existência de um pronome foneticamente nulo (assim como ocorre para o sujeito oculto) para ocupar a posição de especificador de Flex. o sujeito não-argumental de chover.ROSANE DE ANDRADE BERLINCK • MARIA EUGÊNCIA LAMOGLIA DUARTE • MARILZA DE OLIVEIRA expletivo it. il pleut). um pro expletivo (sem conteúdo fonético e sem conteúdo semântico) igualmente aparece na mesma posição: (10a) Espec [Øi] 3 Flex SFlex Flex’ SV V’ g 3 g g dormimosk SN 3 V [ ]k [ ]i g g 110 GRAMATICA 3. que entra em relação de concordância com o verbo. respectivamente. que corresponde ao sujeito oculto da gramática tradicional. que ocupa a posição de sujeito desses verbos (it rains.indb 110 6/11/2009 14:47:07 .

em geral. Ambas as noções são necessárias para a compreensão da estrutura sintática sentencial e desfazem o aparente paradoxo encontrado nas GTs. Ordem dos constituintes sentenciais e concordância verbal 5 Em português. no especificador de Flexão.indb 111 6/11/2009 14:47:07 . embora haja sentenças sem sujeito. como é o caso do sujeito expletivo. não traz marcas morfológicas de caso. essas reflexões mostram que a noção de sujeito não se confunde de modo algum com a de argumento externo. bem como das construções de tópico marcado. caso em que se move para a posição mais alta. uma língua que. Nem tampouco com a de tópico. ou um elemento gerado na posição funcional. O sujeito pode ser um elemento gerado na posição argumental (argumento externo ou argumento interno de verbos inacusativos e de construções passivas). 2. segundo as quais o sujeito é um termo essencial da sentença. a saber. Na presente seção veremos que os dois recursos se manifestam diferentemente segundo o tipo de verbo que compõe a sentença. Enfim.PREDICAÇÃO (10b) Espec [Øexpl] 3 Flex SFlex Flex’ SV g 3 g g Choveuk V’ V [ ]k g g A proposição de um pronome expletivo nulo na posição de especificador de Flexão está em consonância com a regra geral segundo a qual toda sentença tem sujeito. há dois recursos formais para explicitar a função de sujeito: a ordem dos constituintes sentenciais e a concordância em número e pessoa que se estabelece entre sujeito e verbo. A seção 5 traz um tratamento formal mais detalhado da posição do sujeito referencial e expletivo. 111 GRAMATICA 3.

como mostram os exemplos abaixo: (12) a) e agora o menino quer judô. que podem ser representados por sintagmas simples ou sentenciais). então. mas no fim [∅]i foram.indb 112 6/11/2009 14:47:07 . (DID SSA) c) O pessoal joga muito aquelas raquetes assim. (D2 SP) b) os veteranos ofereciam um piquenique aos. quando elasi têm tempo assim. (DID POA) b) Elasi gostam.1. de sujeitos pronominais plenos e nulos (13): (13) a) Eu levei as minhas filhasi. um contexto que licencia a ordem Verbo-Sujeito (V-S) para os verbos transitivos e inergativos é a presença de um SN pesado (um sintagma longo. Às vezes.ROSANE DE ANDRADE BERLINCK • MARIA EUGÊNCIA LAMOGLIA DUARTE • MARILZA DE OLIVEIRA 2. né? [∅]i não queriam ir.. tem-se com tais tipos de verbos categoricamente a ordem S-V. (11) a) Isso foi o que decidiram os deputados da bancada ruralista recém-chegados. Elasi adoraram. (DID POA) 112 GRAMATICA 3. pedem licença aqui no Colégio Maria Goretti aqui de cima e [∅]i vão jogar vôlei. calouros então nós fomos até Itaparica. o português culto tende a explicitá-la na presença de sujeitos nominais (12). Verbos transitivos e inergativos 6 Na fala culta. Na ausência de um SN pesado. porque [∅]i sabiam que iam outros jovens também. a ordem Sujeito-Verbo (S-V) e a presença de marcas de concordância verbal são muito frequentes.. elasi pegam uma turminha. b) Só dormiram os meninos que chegaram do passeio ao Parque Ecológico. Elasi. com modificadores e complementos do nome. (DID POA) d) Os sindicatos devem levar adiante toda e qualquer reivindicação dos seus associados. (EF POA) Quanto à concordância entre sujeito e verbo. Ainda que não atestado na amostra analisada.

no grupo verbal poder deixar de falar. porém. Há. Note que. Observe o contraste entre (15a-b). c) As UPCi quei quando eu comprei era de um valor mínimo. a concordância verbal é duplamente marcada. (EF SSA) Em (14a). um contexto em que a não-concordância entre sujeito e verbo parece superar a concordância. em que o verbo concorda com o SN antecedente. Aparece no verbo auxiliar poder e no verbo falar. (EF SSA) b) Então na hora em que fosse possível se viver em São Paulo como se vivem nas pequenas comunidades interioranas. utilizada para introduzir uma explicação. em que a relação de concordância com o antecedente é obliterada pelo pronome relativo. (D2 SP) c) Há muita riqueza quando vocês olham homens semelhantes e dessemelhantes ou sejam homens bem diferentes.PREDICAÇÃO Os dados analisados sinalizam que o português brasileiro culto privilegia o uso de marcas de concordância verbal. b) Os motivos especiaisi quei tiveram foram só os aniversários. como se estabelecesse concordância com a forma do pronome relativo. Ainda que o antecedente do pronome relativo seja um SN plural. Essa tendência à explicitação de marcas formais afeta outras construções. a presença do se com verbo intransitivo deveria inibir a marca de plural na sentença de sujeito indeterminado. parece estar-se tornando passível de concordância verbal. o antecedente não apresenta marcas morfológicas de concordância-padrão entre o substantivo e o determinante. (D2 SSA) (DID POA) (D2 RJ) 113 GRAMATICA 3. em (14c. e (15c-g). Em (14b). A ausência de marca de plural em balaca favorece a ausência de marca no verbo da oração adjetiva: (15) a) Esse povo todo que vai pra essas indústriasi quei estão se implantando. d). o verbo permanece no singular. nas quais a prescrição gramatical a rejeita: (14) a) Não podíamos deixar de falarmos novamente no externo. o verbo ser.indb 113 6/11/2009 14:47:07 . na expressão cristalizada ou seja. em (15f ). Trata-se das orações adjetivas. (EF REC) d) Quer dizer além de chegar ao plano muscular se retiram os elementos musculares ou sejam os peitorais grandes e pequenos.

a marca de plural no verbo ocorre exatamente nas orações adjetivas (16d): (16) a) A molecada adorou o filme. portanto. então era as balacai quei tava queimando. (EF POA) e) O importante é que o professor proponha diferentes atividadesi quei envolva diferentes processos mentais. Distingue-se do argumento interno de um verbo transitivo pelo fato de não receber Caso Acusativo. como diretor do Colégio Sion. vimos que os verbos inacusativos se caracterizam por serem monoargumentais. o argumento é gerado no especificador de V. as três áreas da personalidade. (DID POA) d) O pessoal gozou com aquela turmai. no caso dos inacusativos. propriedade compartilhada com os verbos inergativos. na posição de argumento interno. o argumento é gerado na posição de complemento de V. Bloom e outros colaboradores fizeram um. Inversamente ao caso observado acima. (DID SP) b) O pessoal começa a pegar todos os arranjos do salão. A diferença entre as duas espécies de verbos monoargumentais está na posição em que é gerado o argumento. vários estudosi quei abrangeu a. quei levaram o dia inteiro pra arrumar a canoa. 114 GRAMATICA 3. No caso dos verbos inergativos. sendo. (DID POA) g) Eu tenho sido procurado. ou seja. por alguns paisi quei estranha a circunstância. (DID POA) c) O pessoal joga muito aquelas raquetes assim. um argumento externo. ora a concordância se faz com a forma singular do nome (16a-d) ora se faz com o significado. (DID POA) 2. dava aquele cheiro. Verbos inacusativos No capítulo 2.2.ROSANE DE ANDRADE BERLINCK • MARIA EUGÊNCIA LAMOGLIA DUARTE • MARILZA DE OLIVEIRA d) Então. (D2 SP) A variação na concordância verbal se dá também na presença de um sujeito coletivo.indb 114 6/11/2009 14:47:08 . (EF POA) f ) Então. A diferente natureza de seleção argumental dos dois tipos de verbos monoargumentais responde pela diferente colocação do argumento na sentença.

A análise do português falado revela que. por exemplo. como observamos em (18): (18) a) Então existe uma época pra ter maçã.. Na amostra analisada. ter um referente previamente dado no discurso. a tendência predominante é que ele ocorra em posição pré-verbal. Essa preferência é ainda mais significativa se o predicador inacusativo pertencer ao subtipo que poderíamos chamar de “existencial”. ou não.]. isso corresponde a cerca de 84% dos casos com argumento realizado como um sintagma nominal pleno. aparecer. As características relevantes dizem respeito ao fato de o argumento ser “definido”. os verbos inacusativos podem exibir a ordem S-V e V-S. posição em que é gerado. como mostra o contraste a seguir: (17) a) As gurias chegam. (DID SP) Apesar das duas ordens possíveis. nos casos em que o argumento é “definido”. Embora os casos com argumento pré-verbal sejam pouco frequentes. (EF SP) b) Ainda existe escola em que o estudante não pratica esporte.indb 115 6/11/2009 14:47:08 . caso de existir. como ilustram as sentenças em (19): (19) a) Seria muito importante para o Brasil que o Nordeste crescesse. ou seja. exibem categoricamente a ordem S-V. (DID POA) b) quando chegou o balé russo aqui em São Paulo [. ou seja. como vimos em (12). “novo”. o argumento dos verbos inacusativos tende a aparecer posposto ao verbo. salvo no caso da presença de um SN pesado. (D2 REC) 115 GRAMATICA 3. quando o argumento é “não-definido”.. há uma forte tendência a que ele ocorra em posição pós-verbal. quando a tendência a manter o argumento depois do verbo chega a 93% na amostra. (DID SSA) Ao contrário. observa-se que a ocorrência de uma ou outra ordem obedece a certas condições contextuais: depende fortemente da natureza semântico-discursiva do argumento dos verbos inacusativos. conforme vem exemplificado em (17b) acima.PREDICAÇÃO Os verbos inergativos. me dão um beijinho.

a concordância verbal é garantida.. Nesse tipo de estrutura. em (22b) o verbo permanece no singular.. nem em função de duma necessidade de embelezar o ambiente em que eu vivo.indb 116 6/11/2009 14:47:08 ... (EF SSA) Enquanto em (22a) há concordância formal entre o verbo e seu argumento. que a posição ocupada pelo argumento dos predicadores inacusativos está estreitamente associada à natureza semântico-discursiva daquele.. o uso de marcas de concordância entre verbo e sujeito é passível de variação. e sindicatos de empregados. os índices de uso de marcas de concordância caem na fala culta.. entre sindicatos patronais. (DID RE) (21) a) Saem cinco comigo de manhã às sete horas. Observe a diferença entre as sentenças (a) e (b) dos grupos (20) e (21): (20) a) Existe diferença entre o sindicato dos trabalhadores e o sindicato patronal? b) Eu acredito que essa diferença entre patrões e empregados. se tiver estatuto informacional “velho”. então a arte surge não em função de uma necessidade de auto-expressão. com o mesmo predicador. b) Então esses cinco saem e vão para Pinheiros.. introduzido num determinado momento.. exibirá a ordem S-V. essas diferenças efetivamente só existem em sistemas e em regimes que praticam a democracia. (EF SP) Esse contraste fica bastante evidente quando observamos casos em que o referente. (D2 SP) Vemos.. Se o argumento tiver estatuto informacional “novo”.. Observe o par (22): (22) a) De vez em quando aparecem as riscas no chão. De fato. então. se o argumento estiver na posição pré-verbal. tenderá a apresentar a ordem V-S. (D2 SSA) b) Elas se atrofiam porque não existe aqueles elementos.ROSANE DE ANDRADE BERLINCK • MARIA EUGÊNCIA LAMOGLIA DUARTE • MARILZA DE OLIVEIRA b) .. é retomado mais além no discurso.. como em (17a) acima. Da mesma forma que o argumento dos verbos inacusativos pode aparecer antes ou depois do verbo. uma evidência de que o falante nem sempre reconhece como sujeito um elemento pós-verbal. 116 GRAMATICA 3.

. de número e de gênero.indb 117 6/11/2009 14:47:08 .. predominam as formas que não exibem as marcas de concordância: 117 GRAMATICA 3. nasceriam flores nos postes telegráficos.. (D2 REC) (24) a) Você vê uma. pois o argumento interno dos verbos na voz passiva assume a função sintática de sujeito. (D2 RJ) e) Falta-me condições para poder.. peça que vá duas. Ao lado das formas que manifestam concordância verbal em (25a e 26a). acabaram os bondes. (D2 POA) b) Agora saíram uns uns temperos mais mais novos digamos assim. (DID SP) b) ainda veio o os os ônibus. (D2 POA) c) Se disseram que a vida de uma operária japonesa é humana. ainda existem bairros sem água. ta? (EF RJ) d) Depois. é sensível.. D2 SP) d) diminuiu as UPCs. a variação entre o uso de formas verbais com e sem marcas de concordância. (D2 SP) e) Quase sempre ela é procurada pelos alunos quando surgem os problemas. digamos assim.. três pessoas da família. eles acham caro. como mostram os grupos (23) e (24) respectivamente: (23) a) Ficaram todos muito sem jeito. (D2 SP) c) Aí então.. não é? (D2 SP) f ) onde é que estão os economistas? (EF POA) g) . na amostra analisada. quando o argumento permanece em posição pós-verbal. me aprofundar nessa questão. Os dois tipos de passivas apresentam variação na relação de concordância.. (DID REC) As construções passivas (sintéticas e analíticas) se assemelham aos verbos inacusativos. começou a aparecer os vestidos feitos.PREDICAÇÃO Por outro lado.

entra em jogo a posição do argumento interno. (D2 SP) (26) a) Os produtos galactófagos são encontrados na porção central de coloração branca da mama.ROSANE DE ANDRADE BERLINCK • MARIA EUGÊNCIA LAMOGLIA DUARTE • MARILZA DE OLIVEIRA (25) a) Se retiram os elementos musculares. retirando portanto a fonte elaboradora do hormônio feminino. De fato. aproximando essas construções às de verbos intransitivos (Vive-se bem em São Paulo) e transitivos oblíquos (Precisa-se de carpinteiro) (Sobre o quadro de complementos verbais. (EF SSA) b) Aquelas carroças vinham cheias de defuntos para serem enterrado.indb 118 6/11/2009 14:47:08 . (D2 SP) f ) Então é marcado uma entrevista. nota 1 deste capítulo). privilegiando a leitura de voz ativa.. ou que devem ser levados em consideração. (DID REC) d) Quer dizer essa pesquisa está baseado em função de serviços. (D2 SP) A falta de concordância formal entre o SN e o verbo nas passivas sintéticas (25 b-d) sinaliza que o falante não interpreta o SN como sujeito e sim como objeto do verbo transitivo. cf. (EF SSA) c) Não se usava botinhas.. (D2 SP) c) Reivindicações essa que são evidentemente as mais importantes. (D2 SP) d) Usava-se também os chapéus. f ). as sentenças em (27) mostram que a concordância com o argumento pós-verbal não é “natural” para o falante culto: (27) a) Então aí mudou mudaram-se os hábitos. Nas passivas analíticas em (26b-f ). contexto que desfavorece ainda mais a presença de marcas de concordância. (D2 SP) e) Senti um certo ciúmes ter sido escolhido uma mulher. as glândulas mamárias elas se atrofiam. que pode estar anteposto (b-d) ou posposto ao verbo (e. (D2 SP) 118 GRAMATICA 3. (EF SSA) b) Se na mulher se retira os ovários.

tomando seu argumento interno como sujeito.. enquanto os demais exemplos exibem o comportamento de verbos inacusativos: (29) a) Então havia restaurantes que eles serviam assim um pouquinho de cada coisa. com concordância. que modifica a construção com se sem concordância com os respectivos argumentos internos [os hábitos em (a).. (EF REC) b) Elas morreram sufocada. particularmente quando aparecem no pretérito imperfeito e perfeito.PREDICAÇÃO b) É o mesmo caso das estradas brasileiras. as estradas em (b)].. cujo argumento interno é um objeto direto. já que a passiva pronominal é substituída por uma construção passiva analítica.indb 119 6/11/2009 14:47:08 . o falante reformula a flexão verbal: nota-se claramente a hesitação do informante. foram dimensionadas as estradas para um tráfego mais leve do que elas estão suportando. mostram certa tendência a acionar a concordância verbal. Em (29a-b). O comportamento variável da concordância entre o sujeito e o particípio das passivas analíticas se repete nas construções que apresentam um predicativo do sujeito. Em (26b). (D2 SSA) Nos dois casos. como se observa em (b) no par defuntos e serem e em (c) no par reivindicações e devem. “falha” a concordância de número entre o sujeito e particípio. em (26cf ) é a concordância de gênero que deixa de se manifestar. Uma análise mais atenta dos casos em (26) acima mostra que a concordância entre o sujeito e o verbo que codifica a noção de pessoa é respeitada. (DID RJ) b) Tinha uns cinemas ótimos. não se dá a concordância entre o SN-sujeito e o particípio. como mostra o contraste em (28): (28) a) Eles como estudiosos não estão preocupados. (DID POA) Na contramão dos verbos inacusativos em geral. Em (27b) a reformulação é ainda mais profunda.. verificamos seu comportamento como verbos transitivos. (D2 SP) 119 GRAMATICA 3. os verbos haver e ter (existencial). Nesses casos. (DID SP) c) Não haviam subsídios para auxiliar. Dimensionou-se.

(30) a) Existem fases em que as glândulas mamárias aumentam consideravelmente de tamanho.. com maior conteúdo. estamos diante de uma variação característica dos verbos inacusativos.. ilustrada nas sentenças em (30). elas se atrofiam. (DID SP) g) O público vai lá. A interpretação se baseia na ideia de que a semântica comum aos dois teria aproximado a sintaxe. se outras coisas não houvessem. Talvez a interpretação mais abrangente seja considerar que. segundo a qual o verbo existir deve concordar com o argumento interno e o verbo haver com valor existencial (aliás.. (EF SSA) b) as glândulas mamárias. (D2 SP) e) Começaram a haver alguns enganos.... tanto em (29) como em (30). O sujeito pronominal e suas realizações Uma vez que definimos a noção de sujeito usada neste volume — o elemento que ocupa a posição de especificador de SFlex e exibe concordância com o verbo.. passaremos a examinar nesta seção a realização do sujeito na amostra analisada. vão modificar.. não. Vemos nos conjuntos a seguir que o sujeito pode 120 GRAMATICA 3.. que vai aparecer/vão ter cortes. (D2 SP) f ) Antigamente tinham filmes mais assim. mas percebe que não é uma coisa perfeita. o fato de observarmos variação na concordância verbal com o verbo existir. pode levar a outro tratamento dos casos de (29).. elas se atrofiam porque não existe aqueles elementos. ou seja aqueles hormônios responsáveis pelo seu desenvolvimento. No entanto. (EF SSA) 3. único significado que veicula no português brasileiro).indb 120 6/11/2009 14:47:08 . além do caso nominativo. uma razão a mais para viver. (DID SP) Sentenças como (29c-g) têm sido interpretadas como uma hipercorreção baseada na propalada regra das gramáticas normativas. o que é visível quando representado por um pronome —.ROSANE DE ANDRADE BERLINCK • MARIA EUGÊNCIA LAMOGLIA DUARTE • MARILZA DE OLIVEIRA d) Este sítio representa para mim.

adiante. dos seus.. associados. argumento interno de fazer... (D2 REC) c) A gente observa que as frutas de outros estados são totalmente diferentes. Esses sujeitos. argumento externo de levar adiante.indb 121 6/11/2009 14:47:08 . dos seus. ou pode não ter qualquer referência. Os sujeitos nulos de referência determinada e arbitrária serão representados. o predicador pode não selecionar um argumento externo. quando retomados no discurso.. associados. (DID POA) b) [øexpl ] Parece que o Brasil tem quinze ou dezoito impostos.... (DID SP) b) .. expresso ou nulo (os parênteses aqui indicam essas duas possibilidades): (34) a) (eles) também devem levar. como em (32). podem ser representados por um pronome pessoal....... pelos símbolos [ø] e [øarb ]. respectivamente. por não existir um pronome expletivo (sem conteúdo semântico) no português do Brasil. (EF SP) (32) a) mas falava se muito sobre o o o alto custo de vida. toda e qualquer. 121 GRAMATICA 3... re reivindicação. como em (31). [øarb ] dizem que o estatístico o estatístico é o homem que senta numa barra de gelo e bota a cabeça dele dentro do forno. então [øexpl ] havia restaurantes que eles serviam assim um pouquinho de cada coisa. que ocupa a posição de especificador de SFlex na estrutura passiva. representados pelos SNs os sindicatos.. como em (33).. toda e qualquer..... significando “expletivo”: [øexpl ].. isto é. e a posição de especificador de SFlex pode estar vazia.. e essas representações.PREDICAÇÃO ter referência determinada...... adiante. (DID RJ) (33) a) . indeterminada (ou arbitrária).. re reivindicação. o símbolo será seguido da abreviatura subscrita expl. (DID REC) b) ..... (D2 RJ) c) .... (DID RJ) Em (31) temos exemplos de sujeitos referenciais definidos. (31) a) os sindicatos também devem levar.. Quando se tratar de uma posição não-argumental. essas representações eram feitas sempre na parte escura das cavernas. [øexpl ] choveu muito uma temporada quando a gente ia com o SESC.

O exemplo (33c). temos um enunciado. que representam foneticamente o sujeito pronominal. respectivamente.indb 122 6/11/2009 14:47:09 . como veremos nesta seção. que. por outro lado. como vimos na seção 1. seleciona apenas um argumento interno.).. il pleut.. finalmente. Pelo contrário.. cuja primeira oração apresenta um verbo que expressa um fenômeno climático. em termos de frequência. em (33b).. como o francês e o inglês.. Verbos desse grupo. Pode-se dizer que o sujeito nulo nessas últimas línguas é a forma não-marcada. é importante dizer que a possibilidade de deixar um sujeito pronominal nulo não é uma característica geral das línguas. Tanto a gente quanto você. il semble que. apresenta uma sentença existencial com o verbo haver. [ø] hablo). estão em consonância com o que recomendam as gramáticas descritivas e normativas mais conservadoras. por outro lado. não selecionam qualquer argumento e constituem uma instância do que a tradição gramatical nomeia “oração sem sujeito”. constituem importantes estratégias para indeterminar o sujeito. o argumento externo de falava e dizem está indeterminado (Não se sabe quem falava. exceto em casos de ênfase e contraste.3. Essa ausência de um argumento externo (ou de qualquer argumento) será importante para a análise apresentada em 3. como parecer (it seems that.. igualmente. nós... além do seu uso com referente definido.. (elas) eram feitas sempre na parte escura das cavernas.) e chover (it rains. tu e eu. Não se sabe quem diz. Da mesma forma. mostra uma forma pronominal a gente representando o argumento externo de observa e veiculando também a noção de indeterminação. há línguas. finalmente..ROSANE DE ANDRADE BERLINCK • MARIA EUGÊNCIA LAMOGLIA DUARTE • MARILZA DE OLIVEIRA b) .). o uso do verbo na terceira pessoa do singular com o pronome se e o verbo na terceira pessoa do plural. há línguas que apresentam o sujeito não-argumental/não-referencial categoricamente nulo como é o caso do italiano e do espanhol ([[øexpl ] piove.. o verbo da sentença matriz (oração principal) parecer não seleciona um argumento externo. utilizando mesmo um pronome sem conteúdo semântico (chamado expletivo) diante de verbos que não selecionam um argumento externo.. b). O exemplo (32c). Em (32a.. como vimos no capítulo 2. Antes de passarmos à análise da representação (expressa/não-expressa) dos sujeitos pronominais na amostra. para a 122 GRAMATICA 3. e as estratégias para exprimir tal referência. [[øexpl ] llueve) e preferem igualmente o sujeito referencial nulo ([ø] parlo. mas apresenta um argumento interno: a predicação que o Brasil tem quinze ou dezoito impostos.. Em (33a).

. respectivamente. para desenhar gatos.. Começaremos pelos sujeitos de referência determinada. b) ilustram um sujeito nulo de primeira e de terceira pessoa.1. Nos exemplos. acho que quase que do mundo inteiro. com sujeitos correferenciais: 123 GRAMATICA 3. faremos algumas observações sobre os sujeitos não-referenciais/ não-argumentais.. nas quais o apagamento do sujeito não parece distinguir as línguas. Trata-se de orações com verbo no imperativo e de orações coordenadas. a correferência entre ele e o sujeito pronominal nulo ou expresso.1. (DID POA) b) Não tem nenhum valor artístico [esta representação]i. as sentenças referidas como “sem sujeito”.1..indb 123 6/11/2009 14:47:09 . 3. Os exemplos (35a. aquelas que exibem o verbo flexionado em tempo.. O sujeito referencial nas sentenças finitas 3. finalmente. modo. o antecedente dos sujeitos de terceira pessoa aparece destacado entre colchetes e um índice subscrito [i] indica. como referimos acima. excluindo-se as ocorrências assinaladas em (36).085 dados (cerca de 200 por capital).. porque [ø] nunca tenho tempo. O português brasileiro atual apresenta um comportamento híbrido: prefere sujeitos referenciais expressos e os não-referenciais nulos. mesmo porque [ø]i é usada por todas as crianças. (35) a) (Você costuma oferecer chá?) Olha. segunda e terceira pessoa) nas sentenças finitas. isto é.PREDICAÇÃO representação do sujeito pronominal definido. Esta seção é dedicada à representação dos sujeitos pronominais na amostra compartilhada do projeto Nurc.. passando aos de referência indeterminada (ou arbitrária) e.. O sujeito de referência determinada Examinemos inicialmente a realização do sujeito pronominal de referência determinada (de primeira. isso não. [ø] Sempre estou lecionando. (EF SP) Foi analisado um conjunto de 1. número e pessoa. Nosso objetivo será verificar se os falantes da amostra analisada preferem o sujeito pronominal expresso ou nulo.

ROSANE DE ANDRADE BERLINCK • MARIA EUGÊNCIA LAMOGLIA DUARTE • MARILZA DE OLIVEIRA

(36) a) Então [ø] vejam aqui, aqui, quando estiver trabalhando com compreensão ele vai atuar sobre uma comunicação...
(EF POA)

b) Eu saí de lá de manhã e [ø] cheguei aqui de noitinha, mas [ø] não estava com... com pressa.
(D2 SSA)

Foram ainda excluídos casos em que o pronome sujeito não pode ser apagado por estar acompanhado de um elemento focalizador (a que a tradição gramatical se refere como partícula, ou palavra denotativa, de exclusão, inclusão etc.), que se antepõe ao pronome (só ele, até eu) ou outros elementos usados para ênfase (eu mesmo, eles próprios) e numerais (nós três). A análise não computou, igualmente, formas verbais equivalentes a respostas afirmativas (Você gostou? (eu) Gostei), denegativas (Você não gostou! (eu) Gostei sim) e enfáticas (Você gostou! (eu) Gostei), por constituírem construções particulares, que fogem ao ponto aqui tratado e que mereceriam um tratamento à parte, além das ocorrências de (eu) (não) acho e (eu) (não) sei, tanto com o sujeito expresso quanto com o sujeito nulo, que, por serem extremamente frequentes nos inquéritos, poderiam mascarar os resultados. Finalmente, foram excluídas as repetições, hesitações, frases interrompidas, expressões cristalizadas, ilustradas em (37a) e formas verbais que funcionam como marcadores discursivos interacionais (37b):
(37) a) Hoje em dia os filmes são mais vazios... sei lá... eu acho... não sei...
(DID SP)

b) ... não é uma casa grande né... apenas com com um jardim com planta, com passarinho, com tudo quanto é bicho que pode existir... compreendeu?
(D2 REC)

Os resultados do levantamento feito mostram que, de cada 100 frases analisadas, 78 têm o sujeito pronominal expresso. E o comportamento dos falantes das cinco capitais é bastante semelhante, com o índice mais baixo de sujeito expresso ficando com Recife (67%); seguem-se Salvador (74%), Porto Alegre (77%), São Paulo (79%) e Rio de Janeiro (87%). Semelhante também é o resultado em relação ao tipo de inquérito: 80% nas Elocuções Formais, 77% nos Diálogos entre Informante e Documentador e 75% nos Diálogos entre Dois Informantes. É digno de nota o fato de não se perceber a

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PREDICAÇÃO

influência do grau de formalidade na representação do sujeito. Seria de esperar maior frequência de uso de sujeitos nulos nos registros formais; entretanto, os inquéritos de Elocução Formal da amostra analisada chegam a superar os demais na preferência pelo sujeito expresso. Embora esses resultados venham de um único inquérito de cada tipo e saibamos que uma análise que leve em conta resultados quantitativos deve contemplar um universo maior de informantes, estratificados segundo a faixa etária e outros fatores sociais, é importante destacar que esses resultados estão muito próximos de análises variacionistas feitas, segundo tais critérios, com base em amostras da fala culta colhidas nas décadas de 1970 e 1990. Examinemos separadamente cada pessoa gramatical. Em relação à primeira pessoa do singular, a análise aponta 76% (261) de sujeitos expressos, como ilustra (38a), ficando o sujeito nulo com 24% (82) das ocorrências (38b):
(38) a) Realmente eu tenho muito cuidado com esse problema de alimentação porque eu tenho uma facilidade enorme para engordar, sabe?
(DID RJ)

b) [∅] tenho prazer de fazer determinados pratos. [ø] Gosto; [ø] me sinto bem.
(D2 POA)

Quanto à primeira pessoa do plural, fica clara a concorrência entre nós, com 94 dados (53%), e a gente, com 84 (47%). Quanto à forma de expressão do pronome nós, a análise revela que, mesmo tendo uma desinência distintiva e foneticamente saliente < -mos >, os índices de pronomes expressos são bastante altos na fala culta, alcançando 78%; os representados por a gente chegam a 94% de pronomes expressos, uma forma de representação quase categórica. Em um mesmo enunciado, é possível identificar as duas formas. Quando isso acontece, inicia-se, em geral, com o pronome nós e avança-se com a gente (39b, c):
(39) a) Nós estamos com muito trabalho.
(D2 SP)

b) Lembro um dia nós passamos no hotel, mas a gente não jogava a dinheiro nada.
(D2 POA)

c) Nós não temos hábito justamente por nós não termos também condições financeiras. Aqui em casa a gente não tem por hábito de fazer quatro cinco seis pratos.
(DID RJ)

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Em relação à segunda pessoa do singular, foram computadas 43 ocorrências: 34 do pronome você e apenas 9 do pronome tu, estas registradas na fala de Porto Alegre. Seis dessas ocorrências aparecem sem a marca canônica de concordância (cinco com o sujeito expresso e uma com o sujeito nulo), ilustradas em (40):
(40) a) Mas aí em que que tu te baseia?
(EF POA)

b) Onde é que se viu? Tu não lê esporte?
(DID POA)

c) Maria, tu qué dizer alguma coisa?
(EF POA)

d) ... mas aqui ele vai atuar sobre uma comunicação podendo ser essa sua atuação de três diferentes maneiras. Tu fez alguma pergunta, André?
(EF POA)

e) Na tua casa mesmo uma ocasião tu fez um jantar aí.
(D2 POA)

f ) Por que tu disseste que [ø] acha que ali entra a compreensão?
(EF POA)

Veja que o sujeito nulo em (40e) se encontra numa sentença subordinada, que tem seu antecedente na sentença anterior (a oração principal), um contexto em que ainda se pode observar a ocorrência de sujeitos nulos no português do Brasil. Quanto às desinências de segunda pessoa, observa-se a alternância entre < ø > e < -s > (41a, b) no presente, enquanto o pretérito perfeito alterna < [ø] >, < -ste > e a forma assimilada < -sse >, como mostra (41c, d, e):
(41) a) Mas aí em que que tu te baseia?
(EF POA)

b) ... não, tu vês, por exemplo, o peixe, peixe aqui no Rio Grande, eu tenho impressão que se come peixe, exclusivamente na Semana Santa.
(EF POA)

c) Na tua casa mesmo uma ocasião tu fez um jantar aí.
(D2 POA)

d) Por que tu disseste que [ø] acha que ali entra a compreensão?
(EF POA)

e) (macaco) [ø] nunca comeste? Eu comi em São Borja.
(D2 POA)

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PREDICAÇÃO

Apesar do número muito reduzido de dados, pode-se dizer que o pronome tende a ser expresso, a menos que ocorra um sujeito de referência idêntica na oração principal (41d) ou se tenha uma pergunta direta com a desinência mais saliente (41e). Nas demais capitais contempladas pela amostra compartilhada, a referência à segunda pessoa é feita com você, que apresenta 85% de formas preenchidas e apenas 15% de sujeitos nulos:
(42) a) Não vá dizer, muito menos agora, porque, com a criação do Bom Preço, uma cadeia de supermercado da qual você é assessor...
(D2 REC)

b) Aí João se você justifi car da maneira, como você me respondeu, eu coloco correto.
(EF REC)

Os sujeitos nulos de segunda pessoa, como mostra (43), aparecem normalmente em frases interrogativas:
(43) a) [ø] Só assistiu três vezes?
(DID SSA)

b) ... porque [ø] já pensou que que eu vou dizer para ele se ele não for?
(D2 SP)

c) [ø] sabia que pra conseguir sobreviver, tá? precisava ampliar a sua área de atuação? tá claro isso?
(EF RJ)

Na segunda pessoa do plural, houve 54 dados (nos trechos examinados), estes, em sua maioria, nas Elocuções Formais. Nesse conjunto, da mesma forma que na segunda pessoa do singular, os sujeitos nulos (13%) estão concentrados em perguntas, mas, mesmo em tais casos, prefere-se o sujeito expresso (87%):
(44) a) Bem, [ø] copiaram? [ø] Já copiaram tudo?
(EF SSA)

b) Vocês têm a pergunta aí, não é?
(EF REC)

c) ... uma, uma ocasião, o, o cônsul alemão, Zinger, não sei se vocês conheceram...
(D2 POA)

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A tendência ao preenchimento do sujeito de segunda pessoa se faz notar até mesmo nas sentenças imperativas, não-computadas no levantamento de dados por não serem, tal como as orações coordenadas, um contexto em que a ocorrência de sujeito nulo diferencie as línguas. Mas é digno de nota o fato de que grande parte dos imperativos observados nas EFs exibia o sujeito expresso:
(45) a) E vocês vejam... que é uma intervenção... muitas vezes tão traumatizante... tão oscilante...
EF SSA)

b) ’Cês vejam que esse mecanismo (inaudível) aplicou também à Alemanha.
(EF/RJ)

c) Então [ø] vejam aqui, aqui, quando estiver trabalhando com compreensão ele vai atuar sobre uma comunicação...
(EF/POA)

Quanto aos sujeitos de terceira pessoa, os dados levantados nesta análise não revelam diferenças muito significativas em relação à primeira e à segunda pessoa. A terceira pessoa do singular apresenta 78% de preenchimento (256 dados em 329) e a terceira do plural, 71% (98 dados em 138). Há, entretanto, um importante fator a considerar em relação a tais sujeitos: se o seu referente tem o traço semântico [+humano], o índice de preenchimento alcança um índice global de 84%. Veja os exemplos a seguir, ilustrando a terceira pessoa do singular e do plural com um sujeito [+humano]:
(46) a) Normalmente, quando a gente pede para [uma criança]i de por volta de quatro a cinco anos desenhar uma mesa, elai põe o tampo que elai sabe que existe; elai põe as pernas para todos os lados. Por quê? Ora, se elai olhar de um determinado lado, elai vê duas pernas; se elai andar meio metro, elai vê outras duas pernas. Então, elai põe pernas para todos os lados, por quê? Porque elai sabe que a mesa tem um tampo, que é onde elai põe as coisas e que a mesa está apoiada em cima das pernas...Agora isso aqui elai jamais vai poder ver: essa imagem da mesa. Então isso aqui é o que elai sabe. Ela está desenhando o que elai tem na cabeça e não o que elai está vendo.
(EF SP)

b) Agora, é uma coisa curiosa o cantador do tipo [do Dimas e de Otacílio]i porque eles são cultos. Elesi não são incultos não. Elesi cantam os repentes deles fazendo referências culturais. Claro que elesi não têm uma cultura filtrada nem cristalizada...
(D2 REC)

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PREDICAÇÃO

c) Eles não têm mais tempo mesmo de praticar algum esporte, porque [a minha filha mais velha]i tá no científico. Elai sai de manhã e [ø]i volta de noite. Tem dias, né, [ø]i ainda estuda no Cultural.
(DID POA)

d) Agora [o pessoal]i, sei lá, elesi vão de qualquer jeito ao cinema do jeito que [ø]i estão, elesi emendam, [ø]i saem do trabalho, [ø]i vão ao cinema, [ø]i saem da escola, [ø]i vão ao cinema.
(DID SP)

Como mostram os exemplos (46c, d), o sujeito nulo tende a aparecer com orações justapostas e coordenadas, um procedimento mais geral entre as línguas, mesmo as que não admitem um sujeito nulo em outros contextos sintáticos. Os exemplos (46a, b) mostram que o sujeito pleno aparece nas orações independentes e nas orações encaixadas (subordinadas adjetivas, adverbiais e substantivas). Se o traço do referente é [-humano], entretanto, os dados revelam neutralidade entre a escolha do sujeito preenchido ou nulo: temos, na amostra, metade de sujeitos expressos e metade de nulos, como mostram os exemplos:
(47) a) Mas nós não sabemos por quanto tempo Olindai vai viver porque elai está escorregando para o mar.
(D2 REC)

b) ... em relação [àquele primeiro capítulo]i, que eu chamei de introdução, ali é diferente, porque elei é facílimo; elei é... desde o início até o final, elei é fácil.
(EF REC)

c) ... que [a imagem]i não tem vida nem sentido. Elai existe mas elai não é vivente.
(EF SP)

d) digamos, [o açúcar]i no mercado internacional é cotado a um preço X. No mercado nacional [ø]i é cotado a um preço Y.
(DID REC)

e) ... é [a BR 262]i [...] ... agora [ø]i é uma estrada que tem muita curva, muita subida, muita descida, porque [ø]i atravessa a serra do mar mesmo.
(D2 SSA)

Essa preferência por sujeitos pronominais preenchidos no português brasileiro tem sido notada em inúmeras pesquisas, atingindo a fala culta e a fala popular. A segunda pessoa, com 85% e 87% de preenchimento para o singular e plural, respectivamente, confirma as pesquisas realizadas sobre o assunto. A primeira e a terceira apresentam índices muito próximos, ao contrário da

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O tamanho reduzido da amostra e a expressiva ocorrência de sujeitos com o traço [+humano] podem explicar a aproximação dos índices de primeira e terceira pessoa. Além disso. O menino porque quer fazer tudo sozinho. graças à presença de elementos intervenientes (50): (48) a) Aquilo de que tu te ressentiste para poder fazer uma extrapolação..ROSANE DE ANDRADE BERLINCK • MARIA EUGÊNCIA LAMOGLIA DUARTE • MARILZA DE OLIVEIRA hierarquia encontrada em outras pesquisas. as que têm um tópico marcado (49) e aquelas cujo sujeito tem seu antecedente em outra função ou dele se distancia. alguns tios eu trato de senhor. (DID SP) e) Nossas provas nós usamos sempre teste. (EF REC) c) Que é que eu vou dizer sobre o cumprimento? (DID POA) d) Como é que eles chamam? (DID SP) (49) a) Isso nós não tivemos oportunidade de comer não. favorecem o preenchimento do sujeito as sentenças introduzidas por um pronome relativo ou interrogativo (48). (DID RJ) b) Engraçado. no que eu procuro deixar.. Com o traço [-humano/-animado]. mas elesi não aceitam. e a menina porque quer que seja a mamãe que faça.. (DID SSA) (50) a) A única função dela é me ajudar [com eles]i. do italiano. eu gosto mais de comédia. (DID POA) c) O tal pato no tucupi eu achei muito ruim. é muito expressivo no sentido de distanciar o comportamento do português do Brasil daquele do espanhol. buscando exatamente no departamento jurídico ou na consultoria jurídica aqueles elementos que ele não dispõe evidentemente. o índice de sujeitos preenchidos.indb 130 6/11/2009 14:47:10 . (DID RJ) d) Filme. que rejeitam o uso de pronomes para seres inanimados. (EF POA) b) Ele deve procurar o seu sindicato. embora mais baixo (54%). que colocam a terceira pessoa como o contexto de resistência do sujeito nulo no português do Brasil. né? (D2 SP) 130 GRAMATICA 3..

Medicina não.. Falam. no nível superior não.2. O exemplo a seguir apresenta um antecedente desse tipo (uma 131 GRAMATICA 3. aqueles em que o sujeito pronominal e seu antecedente têm a mesma função e se encontram no mesmo período ou em sentenças adjacentes. Os sujeitos nulos chegam a 50% quando se tem um verbo ser como verbo principal: (52) a) Eu me lembro [de vários filmes]i. [A minha menina]i tem três anos agora. Bom. O índice de sujeitos expressos na amostra analisada é de 69% nos dois tipos de padrão de correferência ilustrados em (51): (51) a) Então se elei está vendo de uma determinada perspectiva.1. o animal só com duas patas porque é só o que elei podia ver.PREDICAÇÃO b) Não. não bradávamos tanto quanto elesi bradam. Elai foi à escola com um ano e quatro meses. elei vai pintar. reclamar.3. finalmente. culto ou popular. as deficiências que tem agora [os estudantes]i. o italiano e o português europeu. O sujeito de “referência estendida” As construções com o verbo ser merecem aqui uma observação breve. que o sujeito nulo ainda encontra um ponto de resistência nas estruturas com o verbo ser associado ao traço [-humano/animado] do antecedente do sujeito. isto é. mesmo que ele se encontre distante ou em outra função. em que elei enxerga as duas patas do outro lado.. (DID SSA) Destaque-se. é a minha menina por experiência própria. o português brasileiro. mas relevante à discussão que seguirá em 3. prefere o sujeito expresso. desenhar. (DID SP) 3..indb 131 6/11/2009 14:47:10 .. nós também tínhamos naquela época. eu acho que ao menos medicina. (EF SP) b) Bom. é questão só de falar. né? (DID SSA) Entretanto. não lembro os nomes. Os sujeitos pronominais de terceira pessoa apresentados na seção anterior têm um antecedente claramente definido no discurso. mesmo nos padrões que favorecem o sujeito nulo em línguas como o espanhol. [ø]i Eram filmes que tocavam mais as pessoas.

a gente.1. (D2 SP) (= o fato de você ter pedido demissão) Sujeitos desse tipo ocorrem essencialmente com o verbo ser e. mais raramente. 3. b): (54) a) pedi demissão do meu serviço mas consciente de que aquilo era o melhor. é importante salientar que.. o uso de eu e uma única ocorrência de tu na fala de Porto Alegre. embora ainda sejam muito frequentes os sujeitos nulos de referência estendida. retomam porções maiores do discurso.. é expressiva sua retomada por um demonstrativo neutro (isso. [ø]i não é brasileiro não. não revelando uma só ocorrência de você.. para aquela família que se iniciava. (DID RJ) Ora.ROSANE DE ANDRADE BERLINCK • MARIA EUGÊNCIA LAMOGLIA DUARTE • MARILZA DE OLIVEIRA merenda) em sentenças com o verbo ser.indb 132 6/11/2009 14:47:10 . [ø]i parece com leite americano. sendo retomado com um demonstrativo aquilo e depois representado por um sujeito nulo: (53) . há diferenças significativas em relação a cada capital contemplada na amostra: 1) Porto Alegre prefere a gente e se. sem qualquer marca de indeterminação e. observamos um tipo de sujeito referencial que não apresenta um antecedente idêntico no contexto precedente. (D2 SP) (= o fato de eu ter pedido demissão) b) .. nulas ou expressas: nós. uma vez que eles exclui o falante e se pode ou não incluir o falante. na sua seleção. [ø]i é um leite que eles. isto é... Embora essas formas não sejam intercambiáveis.. entre os sujeitos referenciais definidos. mas tem sua “referência estendida”. O sujeito de referência indeterminada Os 405 dados colhidos da amostra analisada ilustram as diversas estratégias para representar o sujeito de referência indeterminada ou arbitrária em sentenças finitas: o uso de se. o uso de formas pronominais nominativas.. usando os termos da Halliday e Hasan (1976).. é [uma merenda]i. aquilo)7. uma estrutura com o verbo na terceira pessoa do singular. como mostram (54a. você... e realmente você conclui agora que [ø] foi o melhor....3... eu tenho a impressão de que inclusive aquiloi é importado. 132 GRAMATICA 3.

Você quer criar uma semelhança. conforme estudos com base em amostras mais recentes: (57) Eu acho que a arte do retrato é muito difícil porque aí você exige a semelhança. Salvador e Recife utilizam preferencialmente você e (nós).. certo? Quando você cria um retrato.. vemos que os pronomes nós e a gente lideram a preferência..5%. em EF. a gente procura. é o uso de nós que supera os demais. enquanto.. a não ser o padrão da própria obra. (DID POA) A seguir temos o uso de você.. quando nós falamos em instrumentos de avaliação nós logo devemos pensar que níveis de pensamento esses instrumentos estão nos permitindo avaliar. Ainda que esses resultados com base no desempenho de um único tipo de inquérito por região não permitam generalizações.. (EF POA) (56) a) bom eu gosto não dessas músicas modernas agora que a gente nem sabe como dançar.. que todo mundo olhe e diga “olha a Elisabete Segunda da Inglaterra. você não precisa colocar nenhum padrão. bolero também. de tango. da gurizada. um aqui outro lá. então. se você está criando.PREDICAÇÃO 2) 3) 4) São Paulo se divide entre a gente e eles (nulo ou expresso).. Considerandose a amostra conjuntamente.. nem sabe quem é o par. de tu indeterminador na fala de Porto Alegre estão em consonância com a preferência por tu para a referência à segunda pessoa do singular nessa cidade. embora tímida..indb 133 6/11/2009 14:47:10 . uma estratégia que vem conquistando espaço. a hierarquia apontada acima se mantém para DID. você está dentro da função naturalista. em D2. com 18.. né?... aí. o Rio de Janeiro prefere a terceira pessoa do plural (eles) e você.. como está parecida”. o uso de você supera as demais formas e. eu gosto de fox. certo? Então é mais difícil do que você criar uma figura de mulher qualquer que você pode distorcer da maneira que você bem entender. nós chegamos ao estabelecimento de níveis de consecução dos objetivos. e é tão engraçado. Quando se considera cada tipo de inquérito separadamente. o pessoal dança. (EF SP) 133 GRAMATICA 3. enquanto. a ausência de você indeterminador e a presença. com 22% de ocorrência de cada forma: (55) então quando nós falamos. não é?. valsa. mas agora a gente não ouve mais isso nada. que você pode pintar de vermelho.

respectivamente. (EF POA) b) Aquele conjunto de papéis e os: os títulos vão tendo valores à medida da. Eles estão incrementando muito o turismo lá e eles servem muito bem. as glândulas mamárias elas se atrofiam. que ela defendesse um pouco mais a:: a classe não? (D2 SP) 134 GRAMATICA 3... (D2 POA) b) Agora em Salvador tem assim restaurantes muito bons. a amostra revela preferência pela construção ativa também com os verbos transitivos diretos. na fazenda do meu sogro. poderíamos ter em (57) acima quando se cria um retrato ou quando (eles) criam um retrato... [øarb] mataram lá um jacaré na ocasião..ROSANE DE ANDRADE BERLINCK • MARIA EUGÊNCIA LAMOGLIA DUARTE • MARILZA DE OLIVEIRA As estratégias eles e se aparecem a seguir com 17% e 14%. como mostram (59c..... além das ocorrências com verbos intransitivos e transitivos indiretos (59a). a fala culta privilegia a leitura de sujeito indeterminado: (59) a) .. não se toma como sujeito o argumento interno.. etc. ou seja. Da mesma forma. Na estratégia com o verbo na terceira pessoa do plural. Em relação ao uso de se. A ausência de concordância formal mostra que a fala culta prefere as construções ativas às passivas pronominais. a expressão do pronome supera. fala-se também em níveis de consecução de objetos. da lei da oferta e da procura. retirando portanto a fonte elaboradora do hormônio feminino. em que o verbo não expressa concordância formal com o argumento. está se incrementando em vez de (eles) incrementaram e serve-se em vez de (eles) servem. embora às vezes apareça em contextos que excluem o falante. e).indb 134 6/11/2009 14:47:10 . d. mas quando nós falamos em instrumentos de avaliação.. (EF SSA) d) Tinha se esperanças... geralmente se pode intercambiar com outras: o significado das sentenças acima se manteria caso fossem usadas as formas matou-se em vez de (eles) mataram. em vez de quando você cria um retrato. o uso do sujeito nulo: (58) a) Eu comi em São Borja... isto é. Compra-se mais um título. em que dona Ana Cândida tendo assumido a procuradoria geral do Estado. na amostra analisada. sabe? (DID RJ) (Eles = sujeito indeterminado) Veja que essa estratégia. (D2 RJ) c) Se na mulher se retira os ovários. em ela sendo mulher.

[øarb ] comprime esse arroz num pirex. [øarb ] quebra dois ovos aí e depois. tanto na sentença passiva (60) quanto nas ativas (59c. (D2 SP) Não se pode falar exatamente em sujeito indeterminado em relação a esse último caso. mariscos.. e)... uma confirmação de que a ordem Verbo-Sujeito é cada vez mais estranha ao português brasileiro. nesse caso. [øarb ] derrama em cima e [øarb ] põe bastante pão torrado. que só é visível/perceptível quando temos um verbo transitivo direto com um argumento interno no plural.. naquele arroz [øarb ] mexe. as mais variadas espécies. o argumento externo das sentenças não está expresso..PREDICAÇÃO e) é o mesmo caso das estradas brasileiras. d. dimensionou-se... Note. o argumento interno de formar (umas vagas)... Em percentuais pouco significativos na amostra se encontram as ocorrências de um sujeito indeterminado nulo com o verbo na terceira pessoa do singular (4%)... é. (D2 POA) 135 GRAMATICA 3. lula. seria o concurso para as cem vagas que entraria o pessoal novo como nível um. quer dizer então que nessa altura se formariam mais ou menos umas vagas que seriam. Assim. porém. (D2 SSA) Esse procedimento é o mesmo que se observa nos casos de não-concordância entre o verbo inacusativo e seu argumento interno. então vai junto com o camarão com queijo ao forno e os dois assam juntos. então. e [øarb ] mistura então os frutos do mar que vêm é polvo. a referência ao se como indeterminador ou apassivador é simplesmente o resultado de uma escolha sintática. bate-se um ovo. as. como mostramos na seção 2. tal qual o definimos na seção 3. d): (61) a) Aí vai ao forno (o camarão refogado) e junto vai também já preparado o arroz. [øarb ] pode pôr tudo. uma passiva pronominal: (60) . carne de siri... isto é. [øarb ] põe a gema. que.indb 135 6/11/2009 14:47:10 . as estradas para um tráfego muito mais leve do que elas estão suportando. Essa estratégia é comum em discursos de procedimentos (61a) e é também utilizada para expressar aspecto (ação habitual no passado e presente) (61b) e modalidade (necessidade. então. O exemplo a seguir ilustra a única ocorrência de concordância do verbo transitivo direto com seu argumento interno na amostra analisada. uma vez que o sujeito. obrigação) (61c. que foi feito à parte..

porque essa pessoa provavelmente será um cliente futuro.ROSANE DE ANDRADE BERLINCK • MARIA EUGÊNCIA LAMOGLIA DUARTE • MARILZA DE OLIVEIRA b) Aquela fruta-de-conde. (D2 POA) Dois aspectos são dignos de nota em relação às formas de indeterminação nas sentenças finitas. porque tem mais aquilo.5% na amostra. ilustrada a seguir: (63) a) Quando nós fazemos... com referência indeterminada clara.... e dessas firmas estranhas também [øarb] tem que.indb 136 6/11/2009 14:47:10 . porque . quando nós fazemos uma consulta bibliográfica a rigor. a gente ia com a turma. falar com essa pessoa e agir com essa pessoa dentro da máxima ética.. Eu como bem na minha casa. (EF POA) b) Falante 2: Você tem. e duas (0... né?. [øarb] não pode tirar pessoal quer dizer então tem que ser de:: firmas estranhas. (D2 RJ) d) L2 é uma questão de ética. Um deles é a frequente mistura de formas. (D2 REC) c) .. eu acho que. (EF POA) b) [Vocês acham que o brasileiro se alimenta bem em geral?] Por exemplo. eu tenho que dizer a rigor porque normalmente a gente tira exatamente o pedaço do livro [.. isso você vê em qualquer bairro do Recife também. que aqui é caríssima. não se perdia um concerto.... elementos. que eu acho que tu come bem na tua casa.... foram encontradas no inquérito D2 de Porto Alegre: (62) a) então eu posso dar um conceito de liberdade e [øarb] posso fazer o aluno inferir o que é ser livre através de outras atividades.. de um modo geral. [øarb] não pode tirar das pessoas.... (DID POA) 136 GRAMATICA 3. por exemplo uma pesquisa. dos seus próprios clientes [øarb] não pode tirar:::. não é? (D2 SP) A indeterminação com o pronome eu alcança apenas 2.. nem o do sul. você ainda vê fogueira e como se vê fogueira! O olindense faz fogueira até em cima do calçamento... em época de São João em Olinda.... que o brasileiro pra..5%) ocorrências de tu. lá [øarb] vende por um preço baratíssimo.. nos outros bairros do Recife você também vê. Falante 1: Também isso. (DID RJ) c) então pra receber as chaves do apartamento e aí começa.] então a gente tira retalhos. [øarb] precisa pagar mais isso.

a África e a América Latina. há. que será analisada na seção seguinte.. (D2 POA) e) . (DID RJ) b) E é muito interessante porque cê atravessa exatamente a serra...] era um total bastante pequeno.] porque depois de comer aquilo tudo cê tem que ter uma hora pra descansar. (EF RJ) Observe no exemplo (65) a seguir que essa forma fraca8 do pronome só ocorre na posição de sujeito (especificador de SFlex)......... (D2 SSA) f ) É engraçado que você saindo do Brasil. a gente sente uma falta muito grande dessa parte de verduras. Embora os percentuais de preenchimento sejam 137 GRAMATICA 3. a estrada não é:boa.. então é:um trecho monótono.. (D2 SSA) c) No início do século. [øarb] está precisando demais... atestada nos inquéritos de Salvador e Rio de Janeiro: (64) a) Aqui você tem o problema de trabalhar.. envolvendo o camarão. mas realmente nós estamos precisando de bastante gente.. Numa posição externa à sentença.. eram quase que ilustres desconhecidos. cês viram aqui que o total da população..] cê vê que as estradas brasileiras estão sendo muito solicitadas.. clara preferência pelos sujeitos pronominais expressos nas sentenças finitas.. aí [øarb] retira os dois e serve-se. [.] por causa da monotonia. exatamente quando aquele queijo fica todo derretido.. (DID RJ) Outro aspecto se relaciona à ocorrência de você na forma de reduzida cê..... Cê tem hora fixa pra almoçar [. as formas pronominais não são reduzidas: (65) Então sucede que você [vendo as estatísticas de tráfego de distribuição de carga e de peso por roda etc. (D2 SSA) Como mostram os resultados apresentados nesta seção.. tenham eles referência definida ou indeterminada.. no português culto falado das cinco capitais que compõem a amostra.indb 137 6/11/2009 14:47:11 . cê cansa muito esse trecho de viagem. Agora é uma estrada que tem muita curva [..... é um trecho completamente deserto muito cheio de curva.PREDICAÇÃO d) Pronto o camarão.

mas são mais conservadoras em relação ao uso de tu do que as cidades do interior. respectivamente. Sobre a estratégia de indeterminação com a terceira pessoa do singular. com um expressivo aumento de falantes que já têm ambos os pronomes em seu repertório. entre muitos outros). Florianópolis e Porto Alegre apresentam os dois pronomes. Investigações feitas com base na amostra Varsul (cf. Duarte. 2003. Lemos Monteiro (1991. e os resultados obtidos são muito próximos dos encontrados pela autora para amostra da fala culta carioca. Omena. Nota A análise dos sujeitos referenciais apresentada nesta subseção segue a metodologia utilizada em Duarte (1995. análises mais recentes da fala. tanto culta quanto popular (cf. As interrogativas globais (sim/não) e os sujeitos com o traço [-animado] ainda são contextos que podem apresentar sujeitos nulos definidos. análises recentes revelam seu avanço na fala de grupos mais jovens (cf. Lopes. além disso. Menon e Loregian-Penkal. é justamente a tendência a preencher o sujeito com referência definida de terceira pessoa no português brasileiro (*[[ø]]/Ele comprou um livro ontem) que permite dar uma interpretação arbitrária/indeterminada a um sujeito nulo com o verbo na terceira pessoa do singular ([ø arb ] Está usando saia curta – ([ø arb ] Não vê mais amolador de faca). Em relação ao uso de a gente. 1995. e para a fala popular. ver Galves (1987). 2002) revelam que das três capitais da região Sul apenas Curitiba não apresenta ocorrências de tu. Duarte 1995. apesar de esta não ser uma estratégia em crescimento e de ser bastante restrita à veiculação das categorias aspecto e modalidade. em que há maior variação. 1994) e Paredes Silva (2003) atestam a presença de tu em Fortaleza (na fala culta) e no Rio de Janeiro (na fala popular). Falta-nos um mapeamento do uso de tu em variação com você no território nacional. Segundo a autora.indb 138 6/11/2009 14:47:11 . Finalmente.ROSANE DE ANDRADE BERLINCK • MARIA EUGÊNCIA LAMOGLIA DUARTE • MARILZA DE OLIVEIRA altos. é possível indeterminar o sujeito com o verbo na terceira pessoa do singular. em nenhum dos contextos analisados ele é categórico. 1999. revelam índices mais baixos de 138 GRAMATICA 3. gravada em fins da década de 1990 (Duarte 2003a). 2000). em relação ao uso de se. 2003). gravada em inícios da década de 1990. Isso não significa que o pronome tu não ocorra em outras regiões em variação com você.

isto é.1. (D2 SP) d) Então é mais fácil [øarb ] mandar esses professores que ganham determinado. (DID SSA) 139 GRAMATICA 3.. como mostra (66b): (66) a) Seria muito melhor pra vocêsi [[ø] i gravar gravar as cantorias deles] do que essa besteira que a gente tá dizendo aqui. (D2 REC) b) .. Dos 79 dados coletados. (D2 REC) Não nos deteremos nesta seção no uso do infinitivo flexionado/não-flexionado com sujeitos referenciais (nulos ou expressos) definidos na amostra. seu uso tende a se expandir para as sentenças não-finitas. O sujeito referencial nas sentenças não-finitas 3. (D2 RJ) e) Hoje eles têm muito mais meio de comunicação. Caso contrário. uma. não é correferencial com um SN no contexto discursivo.. (D2 REC) c) Humanamente é impossível [øarb ] fazer tanto processo ao mesmo tempo. eu acho. seria muito mais importante [vocêsi gravarem eles]. São conhecidas dos que se interessam pelas gramáticas normativas as recomendações de que não se deve realizar foneticamente/graficamente o sujeito de um infinitivo “impessoal”. (D2 REC) b) É preciso [øarb ] marcar uma reunião pra gravar com essa gente. É muito mais fácil [øarb ] fazer cultura geral. A posição do sujeito em sentenças infinitivas A posição de sujeito dos infinitivos controlados por um antecedente é geralmente vazia. como se verá na seção seguinte. como mostra (66a). 3.PREDICAÇÃO ocorrências em sentenças finitas.. No entanto... Nosso interesse particular aqui recai sobre o infinitivo cujo sujeito tem referência indeterminada. 31 (ou 39%) de fato exibem a posição de sujeito indeterminado vazia: (67) a) O problema de [øarb ] morar em uma grande cidade é outra coisa.2.2.indb 139 6/11/2009 14:47:11 . uma vez que ele não se refere a qualquer pessoa. o sujeito tende a ser representado foneticamente.

As duas outras formas atestadas na amostra são nove ocorrências de a gente (ou 19%). da consulta bibliográfica.. (EF REC) b) É muito difícil você chegar a esse tom de pele. sem se sair muito.indb 140 6/11/2009 14:47:11 . (D2 REC) b) Olinda é uma beleza de cidade para se morar. (D2 SSA) (69) a) Então é difícil se torna difícil você formular uma sentença rigorosamente fechada. como mostram (68) e (69). As preferidas são o uso de se (com 18 ocorrências ou 37%) e o uso de você (com 17 ocorrências ou 36%). lançando mão de quatro das estratégias para indeterminar o sujeito nas sentenças finitas. da indústria de precisão. (EF POA) g) É uma beleza de se ver aquele troço trabalhando. seria a análise de uma série de fontes para depois se apresentar um todo novo reformulado. aparecendo em sentenças geralmente ligadas a predicadores adjetivais. (DID SP) f ) O objetivo da pesquisa bibliográfica. e quatro ocorrências do pronome eu (ou 8%): 140 GRAMATICA 3. como vimos na seção anterior. (D2 RJ) Observe que a preferência pelo uso de se recai sobre sentenças subordinadas regidas de preposição. 48 dados (ou 61%) representam foneticamente essa posição. (EF RJ) d) Não há nem um meio de se chegar a esse tumor. (D2 SSA) d) A banana é uma banana tão grande que não dá para você comer uma banana inteira.ROSANE DE ANDRADE BERLINCK • MARIA EUGÊNCIA LAMOGLIA DUARTE • MARILZA DE OLIVEIRA No entanto. (EF SSA) e) Eu acho que seria o lado mais fácil de se chegar ao público. (D2 REC) c) Tá resumido aí no capítulo seis.. compartilhando os mesmos contextos preferidos por se e você. enquanto o uso de você privilegia contextos não-preposicionados. respectivamente: (68) a) Eu não entendo se morar longe do mar. (EF SP) c) Mas eu acho válido você botar a criança o mais cedo possível na escola.

(EF SP) Nota-se uma distribuição bastante irregular por capital.indb 141 6/11/2009 14:47:11 . 3. é cada vez menos frequente no português brasileiro. o sujeito nominal pode aparecer posposto ao verbo. (EF SP) b) enquanto representação. entretanto.. (EF SSA) Essa ordem. como mostra (72): (72) Eu lembro a vocês que sendo a glândula mamária uma glândula cutânea. (EF SP) b) é muito difícil a gente desenhar estritamente o que a gente vê. (EF RJ) (71) a) uma coisa é [øarb] dizer que a arte boa época tinha função pragmática [. ilustrada em (73). As capitais nordestinas apresentam variação entre se e você. Rio de Janeiro e São Paulo apresentam todos os pronomes.2. A posição do sujeito em sentenças reduzidas de gerúndio Nas orações reduzidas de gerúndio.PREDICAÇÃO (70) a) ao [øarb ] ver as imagens vai ficar muito mais fácil da gente perceber essas categorias.2. a posição de sujeito de infinitivo vazia. com preferência por se. Porto Alegre só utiliza se com muita parcimônia.. na amostra analisada. Porto Alegre se mostra mais conservadora.] outra coisa é eu falar em estilo naturalista. embora o Rio de Janeiro prefira você e São Paulo. nós vamos encontrar nesse tecido subcutâneo os elementos responsáveis pela manutenção dessa glândula. a gente. enquanto imagem. (D2 SSA) d) por isso é difícil a gente não entender como a economia americana chegou ao fim. todas com valor adverbial. a gente separar a percepção do conceito. preferindo. Tal como em relação às sentenças finitas. (EF SP) c) é assunto mesmo de praticamente a gente não sair da cidade. a mesma que se 141 GRAMATICA 3. que prefere a ordem SN gerúndio. não tem sentido eu matar uma imagem.

(D2 SSA) b) Vocêi geralmente viajando vocêi não se prende muito ao horário.. que vocêi saindo do Brasil. o que as torna semelhantes às construções de tópico marcado que apresentamos na seção 1 e que serão analisadas na seção 4.. vocês não tendo nenhum programa melhor. (EF REC) b) Então a região apresentando esses limites é evidente que equivalem ao tamanho da glândula mamária propriamente dita. então [∅]i diriam não há de jeito nenhum complementaridade. como o inglês. a gentei sente muita falta muito grande dessa parte de verduras.1. não? (D2 SP) c) Um juiz mais aberto.indb 142 6/11/2009 14:47:11 ... do direitoi sendo mais radicais. (DID RJ) c) É engraçado. em ela sendo mulher. (73) a) Os sociologistas né? entre aspas..ROSANE DE ANDRADE BERLINCK • MARIA EUGÊNCIA LAMOGLIA DUARTE • MARILZA DE OLIVEIRA observa em línguas que têm sujeito pronominal obrigatoriamente expresso. ele tendo possibilidades ele possuindo argumentos científicos para colocar na sua sentença. (DID RJ) Note que as estruturas com sujeito indeterminado + gerúndio apresentam correferência com um pronome expresso na sentença matriz (oração principal). (EF SSA) c) Então a glândula mamária elaborando leite. quer dizer. ele coloca. podendo eles ter referência definida (74) ou indeterminada (75): (74) a) Seria uma alternativa. Assim. (EF SSA) Com os sujeitos pronominais já é categórica a posição anteposta.. (EF REC) (75) a) Vocêi vendo as estatísticas de tráfego de distribuição de carga e de peso por roda etc. 142 GRAMATICA 3. vão por este (caminho). que ela defendesse um pouco mais a classe. cêi vê que as estradas brasileiras estão sendo muito solicitadas. a preferência encontrada nos dados parece acompanhar as tendências apontadas na seção 2 e em 3. (D2 SSA) b) Tinha-se esperanças. sairá através dos conjuntos esses galactófagos.

(DID POA) b) [øexpl] Parece que o Brasil tem quinze ou dezoito impostos.indb 143 6/11/2009 14:47:11 . aquilo era muita gente). Em relação aos tipos de verbos em (76). ou ainda com um demonstrativo (77d): (77) a) b) c) d) Lá/em São Paulo tem chovido demais.. O sujeito não-referencial (as sentenças impessoais) Retomemos em (76) a seguir os exemplos em (33) na introdução a esta seção.1. Essa tendência se deve à rejeição que se observa em PB a construções 143 GRAMATICA 3.3. entretanto.PREDICAÇÃO 3. isso já faz dez anos.. faz muito tempo) tendem a exibir uma expressão como as ilustradas acima em posição inicial da sentença (o Sul é frio. ali é muito quente. estar e fazer (é cedo.. às vezes sem a preposição (78b. O Rio faz sol. c). então [øexpl] havia restaurantes que eles serviam assim um pouquinho de cada coisa. essa posição pode hospedar outros elementos. as expressões relativas a tempo com ser. além do argumento interno. (Fala de rádio) O Carnaval choveu? (Fala espontânea) Petrópolis é uma coisa! Aquilo chove demais! (Fala espontânea) Da mesma forma que ocorre com os verbos “climáticos”.2.. observamos que. São Paulo chove. (DID/RJ) Verbos que não selecionam um argumento externo deixam uma posição vazia que pode hospedar argumentos internos movidos de sua posição original. está frio. (D2 RJ) c) . de que passamos a tratar. As sentenças com verbos “climáticos” As sentenças com verbos relativos a fenômenos da natureza são raras em amostras do tipo aqui analisado..3. 3. como vimos em 1. (76) a) . [øexpl] choveu muito uma temporada quando a gente ia com o SESC.. mas a observação da fala espontânea revela uma tendência a preencher a posição à esquerda do verbo com um SAdv ou um SP locativo ou temporal (77a).

. As sentenças com verbos de alçamento O tipo de construção impessoal ilustrado em (76b) inclui um conjunto de verbos que têm o verbo parecer como prototípico. como foi mostrado no capítulo 2: (79) *[que o Brasil tem quinze ou dezoito impostos] parece. (78) a) Eu acho.indb 144 6/11/2009 14:47:11 . a impossibilidade de mover a sentença entre colchetes para a posição do sujeito é uma evidência de que ela é um argumento interno do verbo. esse verbo foi classificado entre os verbos de alçamento. [øexpl] parece [que a gente se sente até mais… assim por fora].. apenas 15% dos dados analisados na amostra9.. 3. como ilustram os exemplos em (80): (80) a) Eu acho.3. classificando-se a sentença que o segue como uma sentença subordinada substantiva subjetiva. Essa mesma posição pode ser preenchida pelo sujeito da subordinada. (D2 RJ) Ora. No mesmo capítulo.. Uma evidência de que há nas sentenças em (78) uma posição de sujeito que pode ser preenchida por um sujeito expletivo lexical em outras línguas. Uma evidência de que o sujeito da subordinada ocupa a posição de especificador de SFlex ou de sujeito de parecer está no fato de entrar em relação 144 GRAMATICA 3. que para lá se move. Veja os exemplos em (78).. a gentei parece [ __i se sentir até mais… assim por fora]. Trata-se de uma construção conhecida como de “alçamento”. it seems that. como o francês e o inglês (il semble que.2. (DID SP) b) [øexpl] parece [que o Brasil tem quinze ou dezoito impostos]. ou “alçamento padrão”. uma designação que advém da possibilidade de alçar o sujeito da sentença subordinada para a posição vazia à sua esquerda..ROSANE DE ANDRADE BERLINCK • MARIA EUGÊNCIA LAMOGLIA DUARTE • MARILZA DE OLIVEIRA #V (com verbo em primeira posição). O tratamento dado a esse verbo na tradição gramatical é o mesmo que se dá a um intransitivo.). b) O Brasili parece [ __i ter quinze ou dezoito impostos].

isto é. apresentam todos os SNs na terceira pessoa do singular. b’) ou de sujeito deslocado à esquerda (a’’. uma modificação de (81a. e o verbo da subordinada também aparece flexionado. o que eu noto é que os cinemasi [[øexpl ] parece [que não [ø]i estão também como antigamente]. numa amostra em que predomina a ocorrência de marcas de concordância verbal. Esse tipo de alçamento. uma posição de tópico. que se combina com a forma verbal sem marca explícita de flexão. ilustrada em (82a’. São. embora frequente na escrita-padrão. ao menos é o que eu ouço contar né? b’) Eu acho que diminuiu bem o pessoal que vai a cinema. como se vê em (81): (81) a) Os alunosi [[øexpl ] parece [que [ø]i tomam conta dos professores]. confirmam a posição deslocada do SN. o sujeito da subordinada é “alçado” para a posição à esquerda de parecer. pois. b’’): 145 GRAMATICA 3. além da flexão dos verbos das subordinadas (tomam. ilustrados em (83). estão). dados que podem ter uma interpretação de “hiperalçamento” (a’. Os exemplos da amostra. não sei. ficando o verbo da sentença subordinada no infinitivo. a posição do especificador de SFlex é ocupada por um pronome expletivo nulo.indb 145 6/11/2009 14:47:12 . b) acima: (82) a’) Os alunosi parecem [que [ø]i tomam conta dos professores]. Nesse caso. tal como vimos no alçamento-padrão. Tal construção é conhecida na literatura linguística como uma instância de “hiperalçamento” do sujeito. ao menos é o que eu ouço contar. no entanto. Uma última possibilidade seria o alçamento do SN para a posição de especificador de SFlex (para a posição de sujeito de parecer). com o qual entre em relação de concordância. Esse tipo de estrutura. não sei. Há ainda a possibilidade de o sujeito da sentença subordinada se mover para uma posição externa à sentença. b’). além da flexão no verbo da subordinada. é mais raro na língua oral.PREDICAÇÃO de concordância com o verbo e receber caso nominativo. (DID SP) A falta de marcas de concordância entre o elemento deslocado e o verbo parecer. externa ao SFlex. ilustrado em (80). não foi atestado de maneira inequívoca na amostra analisada. ou seja. o que eu noto é que os cinemasi parecem [que não [ø]i estão também como antigamente]. né? (DID POA) b) Eu acho que diminuiu bem o pessoal que vai a cinema.

. o pessoali parece [que [ø]i entra e sai]. (DID SP) a’) Chegou uma época que o cinema estava assim há uns seis anos ou oito.ROSANE DE ANDRADE BERLINCK • MARIA EUGÊNCIA LAMOGLIA DUARTE • MARILZA DE OLIVEIRA (83) a) Chegou uma época que o cinema estava assim há uns seis anos ou oito. entra e sai todo mundo. (D2 POA) (85) (eles)i levaram o dia inteiro [pra [ __ ]i arrumar a canoa. (DID POA) Com o verbo acabar. entra e sai todo mundo. acabar etc. faltar. como mostra (84). Outros verbos que só permitem as construções sem alçamento. a preferência pelo alçamento é digna de nota.. ilustrado em (80). apenas uma aparece sem alçamento. qualquer coisa. Os exemplos em (86) mostram isso..... como em “eu pareço que vou pegar um resfriado”.. ou com o alçamento-padrão do sujeito da subordinada. Agora não. enquanto as demais exibem o alçamento do SN sujeito da subordinada (esteja ele expresso ou nulo). um amigo comum nosso que ele é especialista em comida internacional então vai fazer uma comida chinesa. [øexpl] só falta [eu me vestir a rigor].. até incenso ele queima. aliás. É um burburinho ali no cinema. a’’) . entre os quais os verbos custar. b”) A azuli [[øexpl] parece [que [ø]i está a sete cruzeiros]. ah. como mostra (85): (84) eu tenho um conhecido. b) Hoje eu paguei a gasolina a seis cruzeiros o litro. (D2 RJ) b’) Hoje eu paguei a gasolina a seis cruzeiros o litro. É um burburinho ali no cinema. Das 14 ocorrências observadas na amostra. A azuli parece [que está a sete cruzeiros]. como (78) acima. indiana. temos: 146 GRAMATICA 3. revelam ampla preferência pelo alçamento. levar. o pessoali parece que entra e sai. Agora não. A ocorrência de dados com o SN na primeira pessoa e na terceira pessoa do plural em outras amostras de língua oral não deixa dúvida.. Em vez de “[øexpl] acabou que eu pedi transferência” ou “[øexpl] acabou que nós não entramos na concorrência”. demorar. só falta música ambiental. o pessoali [[øexpl] parece [que [ø]i entra e sai]. A azuli parece [que [ø]i está a sete cruzeiros].indb 146 6/11/2009 14:47:12 . de que se trata de construções de “hiperalçamento”. entretanto.

ainda acabo [ __ ]i pedindo transferência pra Universidade Federal do Paraná]. Ao contrário do que ocorre na fala. porque eui.. b) concorrem com as construções com “hiperalçamento de tópico” (2c. por exemplo. em Curitiba.. mas eu vi esse projeto inclusive porque nós íamos entrar na concorrência.. aluguel... se puder. trazendo interessantes evidências sobre a construção da gramática do letrado. o que está em consonância com a tendência apontada em 3. [ø]i acabamos não [[ __ ]i entrando].. 2000) 147 GRAMATICA 3.3.indb 147 6/11/2009 14:47:12 . e) (para uma análise das duas estruturas... Duarte (2007) encontra numa amostra de fala popular uma única ocorrência: 1) Elei parece [ __i ser uma exceção nessa história].. conforme proposta de Kato (2005). porém. por exemplo.. (Fala popular. ilustrada em (87).. exibe a repetição do sujeito alçado diante do infinitivo. cf..1: (87) Esse tipo de coisa que pai e mãe gostam eu acho que a gente não custa nada [a gente satisfazer a vontade de pais e mães].. (D2 SSA) Uma ocorrência com o verbo custar. eu tive agora o fim-de-semana em Curitiba. é completamente diferente.. d. ficam restritas a sentenças subordinadas com os verbos ser e estar. é... quando ocorrem. (Fala popular. 1980) b) As pessoasi pareciam que [ø]i iam cair do brinquedo. As construções com “hiperalçamento do sujeito” (2a. (D2/RJ) b) . o alçamento é a estrutura preferida na escrita-padrão. Nunes.PREDICAÇÃO (86) a) Dessa relação salário.. como mostram os resultados de Duarte (2007). agora não sei se depois mudaram qualquer coisa assim.2. 2008): 2) a) Tem ocasiões que eui nem pareço que [ø]i sou brasileiro. mas pra nós estudantes que formamos é muito cacete né? (DID SSA) Nota As construções de alçamento-padrão tendem a diminuir na fala e..

já modificado em análises recentes da fala culta. 1980) O “hiperalçamento do sujeito” já é atestado até mesmo na escrita-padrão (cf. por exemplo. 2006): 4) a) . em certos momentos. Nos inquéritos do tipo D2. quando era criança. Henriques e Duarte. enquanto o seu poder de convocá-las diminui. O Globo) 3. um resultado ainda bastante expressivo de ocorrências de haver.indb 148 6/11/2009 14:47:12 . 1980) d) .ROSANE DE ANDRADE BERLINCK • MARIA EUGÊNCIA LAMOGLIA DUARTE • MARILZA DE OLIVEIRA c) Quando eu brigo. e nos inquéritos DID. As sentenças existenciais com ter/haver Em relação às sentenças existenciais com haver/ter. (Fala popular. esse índice cai para 34%. (Fala popular. A hesitação do falante ilustrada em (88) pode ser interpretada como um sintoma da consciência que o falante revela ter.. Comecemos pelo primeiro aspecto. 148 GRAMATICA 3. 2006. Apenas nas Elocuções Formais o uso do verbo haver (com 59%) supera o uso de ter. 2006): 3) a) Com os anos as ideiasi parecem que [ø]i vão ficando cada vez mais longe. eui só faltava [ø]i perguntar qual era a equipe brasileira. do caráter formal da entrevista. Duarte.. 1980) e) Esse meninoi parece que elei sofreu muito quando era pequeno. demorar. custar. dois aspectos merecem atenção: 1) 2) a substituição de haver por ter no português brasileiro falado.. mas você parece que você está se dividindo entre a medicina. Considerados os três tipos de inquéritos. (Crônica. (Fala popular.3. (Crônica. Duarte. eu pareço até que eu vou explodir de tanta raiva. até mesmo na escrita-padrão o alçamento-padrão é preferido ao não-alçamento (cf. a implementação de sentenças pessoais com ter. O Globo) Em relação aos verbos faltar. para 10%.3.. a análise da amostra revela 31% de ocorrências de haver e 69% de ocorrências de ter.

Os pronomes utilizados são os mesmos que aparecem representando o sujeito indeterminado. respectivamente. predominando o uso de você. 74% e 78% de uso do verbo ter impessoal. com nomes estranhíssimos e os que nós temos aqui têm nomes diferentes noutras regiões. aparece como a mais conservadora. cê não sobe rampas violentas. seguida por São Paulo. quer dizer. porque às vezes agora a gente precisa tomar sopa de pedregulho. eles servem suco. piso pavimento. mas principalmente rampa e curva.. Isso é uma beleza. mas comer a.. mas que estão lá para ser vistas também.. numa igreja hoje você tem imagens que representam uma ideia religiosa.. a gente e eu: (89) a) agora a Salvador-Feira trinta e três quilômetros. Porto Alegre e Salvador se mostram mais inovadoras. [øexpl] não havia quase piscina naquele tempo... Rio de Janeiro. com 66%. com 51% de ocorrências de ter sobre haver. depois ainda servem café com leite.. (DID RJ) d) por exemplo. (89) . Observe nos exemplos a seguir que todas as sentenças com ter pessoal exibem um claro sentido existencial. né? (DID RJ) 149 GRAMATICA 3.. uma série de coisas. Em Olinda você tem ciranda. exibindo.indb 149 6/11/2009 14:47:12 . nós.. Recife. (DID POA) Entre as capitais contempladas na amostra. você sente porque você não tem curvas assim muito fortes pra fazer... 70%. temperinho. e também [øexpl] não tinha sal... (EF SP) (90) a) [.. A ciranda é cantada durante o verão em toda Olinda... a imagem na pedra ia ser bem mais difícil.] a gente observa que as frutas dos outros estados são totalmente diferentes. né? (EF SP) Essa preferência por ter sobre haver favorece a implementação de uma estrutura que permite evitar a posição vazia de sujeito: trata-se das sentenças pessoais com ter. você tem frios.PREDICAÇÃO (88) [øexpl] Não tinha pis. (D2 REC) c) você tem frutas.. precisava de dentes muito mais fortes que eu acho que [øexpl] não havia não... entendeu? (D2 SSA) b) Olinda tem desenvolvido essas festas populares.

. segunda 150 GRAMATICA 3. os sujeitos de primeira.. é.... aí. (DID POA) b) geralmente [øexpl] tinha o baile de formatura. isto é. era jogo... (DID POA) A seção mostra que o português do Brasil tende a realizar foneticamente os sujeitos pronominais referenciais. (D2 SSA) Além das sentenças com ter pessoal. coleções. [øexpl] tem um restaurante com o nome.. outros adjuntos. uns..ROSANE DE ANDRADE BERLINCK • MARIA EUGÊNCIA LAMOGLIA DUARTE • MARILZA DE OLIVEIRA b) então ele fazia com que nós lêssemos. brincadeira de praia que [øexpl] tinha era. aqui [øexpl] tem brisa marinha. além da negação e de pronomes relativos e conjunções subordinativas.. cerca de 8% das ocorrências..indb 150 6/11/2009 14:47:12 .. uma e outra que a gente tem... sobre a formação do mundo. como marcadores discursivos10. soprando aqui perto..... temos a brisa terral de manhãzinha cedo. Naquele tempo não tinha movimento. a desvantagem corresponde a uma vantagem também. Edílson.. que ele é de lá de Ituaçu. (D2 REC) b) lá no Rio. sendo menos frequentes as sentenças com ter/haver em início absoluto: (92) a) então [øexpl] tinha. (D2 SP) c) eu tenho um rapaz que trabalha conosco aí no Instituto de Biologia.. na Praia Vermelha. dentro d’água... os livros.. por capital. (DID SSA) c) bom. de sentenças com ter existencial revelam a presença de um sintagma adverbial ou preposicionado com valor locativo à esquerda do verbo... então nós temos os ventos alísios que vêm aqui.... como mostra (91): (91) a) mas como eu dizia há pouco a cada vantagem. esses moirões assim. (DID SP) Outros elementos costumam aparecer à esquerda do verbo ter existencial. também não lembro o nome. (DID POA) d) nós saíamos parece que às duas ou três horas da manhã porque [øexpl] tinha estrela.

o que está em consonância com sua orientação para o discurso. e os de referência indeterminada. Há línguas que privilegiam esse tipo de construção de “tópico marcado”. mencionamos a construção com um constituinte externo à sentença seguido de uma sentença-comentário como uma forma de organização do discurso. e utilizada para interpretar um conjunto de fenômenos superficiais observados no português brasileiro (Kato e Duarte. particularmente aqueles pertencentes a faixas etárias mais altas (cf. De fato. Callou e Avelar. consegue recuperar essa forma em extinção na fala. Li e Thompson. porém. 2005). No caso das sentenças com sujeitos não-referenciais (ou não-argumentais). ver Kato (2005) e. na configuração de sentenças predicativas. Nota A ocorrência de haver ainda resiste. na fala dos indivíduos letrados. Construções de tópico marcado No início deste capítulo. vimos que as estratégias utilizadas para evitar um “expletivo nulo” são variadas. A escrita. que passam a concorrer com o sujeito expletivo nulo. 4. embora apresentem também o tópico numa relação sujeito–predicado. entre 10% e 2% de usos de haver em relação a ter (cf. alcançam índices próximos aos dos indivíduos com baixo índice de escolaridade. As gerações mais jovens de indivíduos letrados. 2001).indb 151 6/11/2009 14:47:12 . mas apresentam um ponto comum: os dados da língua falada mostram a utilização de elementos referenciais. Callou e Duarte. o português brasileiro rejeita um expletivo lexical (como o it do inglês e o il do francês) e prefere ocupar a posição de especificador de SFlex com elementos que tenham conteúdo semântico. 2003. no entanto. São chamadas 151 GRAMATICA 3. uma das características das línguas de tópico ou orientadas para o discurso é não exibirem elementos expletivos lexicalmente realizados (cf. especificamente sobre ter/haver na fala e na escrita. Sobre considerações acerca da gramática do indivíduo letrado. hipótese levantada por Pontes (1987). ver Avelar (2006). 2005).PREDICAÇÃO e terceira pessoas. embora em índices mais baixos que os de ter. Em outras palavras. 1976). Galves (1987) e Kato (1989).

Estudos linguísticos recentes as tratam como “construções de tópico pendente” (cf. que significam “quebra na sintaxe”. Uma língua prototipicamente orientada para a sentença costuma introduzir o tópico de duas formas: ou numa construção sujeito/predicado ou através de um Sintagma Preposicionado. cê dobre em Vitória.. aqui repetidas em (94a. Brito. que entra em relação de concordância com o verbo. diferenciando-se conforme a conectividade entre o tópico e a sentença-comentário. um conjunto homogêneo. como vimos na seção precedente). (DID POA) Observe que há conectividade semântica entre os tópicos destacados e a sentença-comentário.1. (D2 SSA) d) Bom. b) juntamente com outras: (93) a) Drama. inicialmente. Esta seção é dedicada às construções de “tópico marcado”. Nossas GTs costumam apresentar sentenças semelhantes a essas. 4. nas seções dedicadas às figuras de linguagem. também conhecidas como de “duplo sujeito”. tinha era jogo. pega a Vitória-Belo Horizonte. já basta a vida. interno. um argumento selecionado pelo predicador (externo e.indb 152 6/11/2009 14:47:12 . aí.ROSANE DE ANDRADE BERLINCK • MARIA EUGÊNCIA LAMOGLIA DUARTE • MARILZA DE OLIVEIRA línguas de proeminência de tópico ou línguas orientadas para o discurso. O anacoluto ou tópico pendente Examinemos. brincadeiras de praia. (DID SP) c) A BR-101 não precisa ir a Campos. entretanto. e). São línguas de proeminência de sujeito ou orientadas para a sentença. O português brasileiro apresenta os dois tipos de relação predicativa. sendo o “sujeito externo” o tópico (ou o sujeito do discurso) e o interno.. às vezes. o sujeito sintático. Outras privilegiam a relação predicativa entre sujeito e predicado. eu gosto mais de comédia. (DID SP) b) Filme. utilizando as 152 GRAMATICA 3. mas não há conectividade sintática com uma posição interna à sentença-comentário. Duarte e Matos. As chamadas construções de tópico marcado não constituem. 2003). como comentamos brevemente na seção 1... em geral denominadas como “anacolutos”. estruturas semelhantes às apresentadas em (1d.

para a posição de tópico. cada nóduloi.. construção muito rara no português brasileiro11. já que o objeto se encontra “representado” na oração pelo pronome relativo que. e em (95b). em que o constituinte na posição de tópico tem seu correferente expresso na sentença-comentário. (94) a) . Tomando por base a amostra analisada.PREDICAÇÃO locuções prepositivas “em relação a”. como em (95): (95) a) Cada elemento..2. as glândulas mamárias. tal como o anacoluto ou tópico pendente. em que um tópico é vinculado a um clítico complemento... como mostram as sentenças em (94). mostrado em (1a) é conhecido como Deslocamento à Esquerda (DE). Naturalmente..... física. aumentam consideravelmente de tamanho. (DID SSA) b) Quanto às dimensões. igualmente encontradas na amostra analisada. (EF SSA) Uma língua orientada para o discurso. O Deslocamento à Esquerda Um segundo tipo de construção de tópico marcado. “quanto a”. entravam três disciplinas: só química. a vinculação se faz com o sujeito da sentença-comentário. temos uma hipercorreção.. Essa construção. ao contrário... 4. ou de parte dele.... o chamado “pleonasmo”. em que. foram identificadas 68 ocorrências de construções de DE. nesse caso específico.. existem fases. em relação àquela área que ele ia estudar.. em (95a).indb 153 6/11/2009 14:47:13 . nós vamos notar que. pois nesses casos o correferente ocupa posição sintática na sentença.. quer dizer medicina. é.. quanto às dimensões. apesar do nome “Deslocamento”. em que o tópico se vincula ao sujeito. e biologia.. elei possui o seu conjunto. com 53 ocorrências de tópico representado por um SN vinculado a um pronome 153 GRAMATICA 3. com o objeto direto através de um clítico.. não há movimento de constituinte.. na mulher.. (EF SSA) (EF POA) Veja que. tratada nas nossas GTs como uma figura de linguagem... b) É a categoria conhecimentoi quei nós vamos separá-lai. não exige os introdutores (locução prepositiva) de tópico.

sei lá.. (EF REC) b) O pessoali. elesi preferem eu acho que filme de. corrida. O SN em posição de tópico não parece sofrer qualquer tipo de restrição quanto ao traço semântico [+/-animado] ou quanto à sua definitude. (DID SP) c) A turma de brotosi. sei lá. (DID SP) (99) a) Todas as categoriasi.indb 154 6/11/2009 14:47:13 .] eu acho que issoi não funciona muito.. em que o tópico está vinculado a um SN anafórico ou a um demonstrativo. (EF POA) b) Eu acho que todo sujeito que que trabalha e tem uma profissão no Brasili elei tem uma chance.. porque o meu maridoi todos os meses elei vai pra Caxias. cada nóduloi elei possui o seu conjunto. ou [-definido].. (DID REC) b) O IBGEi. em que temos um tópico [+genérico]. como em (97).] não [há] uma preocupação realmente científica. como em (98). elei já é do Estado. elasi terão dentro delas próprias. (DID POA) (98) a) Por exemplo. o pessoal de teoria geral do estadoi elesi como estudiosos não estão preocupados em colher uma amostragem [. elesi vão de qualquer jeito ao cinema.. e (99). por exemplo.ROSANE DE ANDRADE BERLINCK • MARIA EUGÊNCIA LAMOGLIA DUARTE • MARILZA DE OLIVEIRA (78%) e 15 em que o tópico é igualmente um pronome (22%). Há ainda construções de DE.. menos frequentes e não contempladas nesta análise... (EFSSA) 154 GRAMATICA 3... (EF REC) c) . podendo ser definido. níveis de gradação. mesmo que tenham subcategorias. (DID SSA) Comecemos por examinar as construções em que o SN é retomado por um pronome. como ilustra (96): (96) Esse problema de puxar pela criançai [. em que o tópico é quantificado: (97) a) Bom essas assembleiasi habitualmente elasi tratam dos assuntos. (D2 POA) c) Cada elemento.

digamos. (DID RJ) (101) a) . quanto de referência arbitrária ou genérica (indeterminada). Podemos ainda encontrar as construções com o sujeito anteposto de uma oração reduzida de gerúndio retomado na matriz.. que aparecem em cerca de 40% dos dados. a construção de DE ocorre com ou sem pausa entre o tópico e a sentença-comentário. porque realmente você depois de comer aquilo tudo cê tem que ter uma hora pra descansar.. que modificam o tópico..indb 155 6/11/2009 14:47:13 . não se prende muito ao horário. (EF REC) b) Você geralmente viajando. (D2 SP) c) Ela de manhã ela sempre faz uma merenda pra mim. (DID RJ) b) Eu acho que a gente não custa nada a gente satisfazer a vontade dos pais. com ou sem elementos intervenientes entre o tópico e o pronome a ele coindexado.. você. como em (96). (EF REC) A mesma alternância entre nós e a gente ou mesmo entre você e a gente apresentada na seção 3 pode ser novamente atestada nas construções de tópico marcado..PREDICAÇÃO Além disso. elei possuindo argumentos científicos para colocar na sua sentença. como comentamos na seção anterior: (102) a) Um juiz mais abertoi elei tendo possibilidade. em geral. Os elementos intervenientes. adjuntos adverbiais [simples. no sentido de... e orações relativas [subordinadas adjetivas. como em (99b) acima]. (DID SSA) c) Isso a gente nós já explicamos em classe. eu gosto também de violino. que se assemelham às contruções de DE. Entre as estruturas em que o tópico é representado por um pronome. elei coloca. (DID RJ) 155 GRAMATICA 3. respectivamente: (100) a) Mas eu. são. como em (99a)].. podemos encontrar tanto pronomes de referência definida. (DID POA) b) Eu lá eu vi que período de manhã. ou oracionais. como em (100) e (101).

1200 cruzeiros. Como as duas séries são quase homófonas em português (ao contrário do francês e do inglês. um apartamento de mil cruzeiros.. localizados à margem esquerda da sentença. um exemplo. Essa oposição pode ainda ser vista na possibilidade de múltiplos tópicos.. desde o seu início. (EF RJ) c) A professorai.. elei pra morar. A estrutura em (c) acima ilustra bem a ocorrência de um pronome forte na posição de tópico e um pronome fraco na posição de sujeito da sentença-comentário. essa oposição é mais facilmente percebida na realização do pronome fraco você como cê.3.. na Zona Sul. elei. elei pra pagar um aluguel de mil cruzeiros.. (D2 SP) O uso das reticências pode levar a pensar em hesitação por parte do falante.. 4.ROSANE DE ANDRADE BERLINCK • MARIA EUGÊNCIA LAMOGLIA DUARTE • MARILZA DE OLIVEIRA c) Então sucede que você vendo as estatísticas de tráfego de distribuição de carga e de peso por roda etc. ilustrado em (1b. aqui retomado em (105). mencionamos a ocorrência da forma reduzida (fraca) do pronome você. (D2 SA) Na seção 3. no fundo elai é uma orientadora. A topicalização Passemos a um terceiro tipo de construção. elai. se elei quisesse. cê vê que as estradas brasileiras estão sendo muito solicitadas. opondo-se à série de pronomes fortes. mas a pausa é a mesma que a representada por uma vírgula e essa retomada do tópico por um pronome forte tem sido observada com frequência na fala.3. que é aquele em que o tópico está vinculado a uma 156 GRAMATICA 3.. minha filhinha.1... c). desde o seu início.. mil e duzentos é apartamento de quê? (D2 RJ) b) então o Japãoi.. que substituem o sujeito nulo dentro de uma sentençacomentário. elei contava como força fundamental (das suas colônias) os dois fatores.. por exemplo).indb 156 6/11/2009 14:47:13 . nos exemplos a seguir o pronome forte (tópico) aparece grifado e o pronome fraco (sujeito) aparece em negrito: (103) a) Ora. O português brasileiro desenvolveu um paradigma de pronomes fracos.

(DID RJ) c) A passagemi eu compro [ __ ]i a prazo.. ao contrário do que vimos nas construções de DE: (104) a) Aquele arroz com frutos do mari. e um premiado. cap. que o constituinte em função oblíqua (complemento regido de preposição) pode aparecer sem a preposição (Olinda. o que não seria possível se esses constituintes estivessem em sua posição de origem (*Ninguém mora Olinda e *eu botei um papelzinho os outros). aqui representado por um traço [ __ ] na sua posição de origem.] sem eles ver. de. né? [. Veja. diz é lá que eu pernoito. uma operação sintática que envolveria o movimento de um constituinte para a posição de tópico. de prova(r) [ __ ]i.. (D2 REC) e) Colei embaixo de cada prato assim. b. 4). (D2 RJ) 157 GRAMATICA 3.PREDICAÇÃO posição vazia dentro da sentença-comentário. a influência indígena sobre a alimentação é muito grande [ __ ]i. os outros). Essas construções são conhecidas como Topicalização. né?. (D2 RJ) d) Olindai ninguém mora [ __ ]i.. Esse mesmo comportamento é observado em inúmeros adjuntos adverbiais na amostra (cf. (DID RJ) c) Recifei nós comemos muitas coisas assim muito gostosas [ __ ]i.. fazer e comprar. né? botei umas bobagens assim escritas.. um papelzinho.] e os outrosi eu botei umas bobagens [ __ ]i. aqui em casa nós fazemos [ __ ]i de várias formas. (D2 RJ) b) O Nortei. porém. Ninguém diz é lá que eu moro. a minha mulher é incapaz de.. (D2 POA) b) E carnei. não. deixando um vestígio.. né? (DID RJ) Os tópicos destacados em (104a. e). [. Parisi eu fico na casa de um amigo [ __ ]i. e ao complemento circunstancial selecionado por morar e botar em (104d. Observe as estruturas em (105): (105) a) Parisi eu não pago hotel [ __ ]i.indb 157 6/11/2009 14:47:13 . c) estão vinculados ao objeto direto selecionado por provar.. principalmente no Amazonas e no Pará.

como o italiano. não poderia ser omitida caso os adjuntos aparecessem em sua posição não-marcada: (106) a) Eu não pago hotel em Paris.. ausente na estrutura dos tópicos. o movimento de parte de um SN. e de que essas estruturas são comuns em línguas de sujeito obrigatoriamente preenchido. parece haver uma distribuição “complementar” entre deslocamento à esquerda do sujeito e topicalização do objeto. Embora sejam construções possíveis em línguas com clara orientação para o sujeito. tal como em (105).ROSANE DE ANDRADE BERLINCK • MARIA EUGÊNCIA LAMOGLIA DUARTE • MARILZA DE OLIVEIRA Da mesma forma que vimos com os complementos acima. (DID RJ) c) Mas eu ah merenda escolari eu tenho [pouca noção [ __ ]i]. Eu fico na casa de um amigo em Paris. Essa complementaridade está relacionada à preferência pelos sujeitos pronominais expressos. A ausência de preposição parece afrouxar. com uma expressão partitiva na posição de especificador. e pelo objeto nulo. o vínculo sintático entre tópico e comentário. de certa forma. entre as estruturas de topicalização. nota-se. c) Nós comemos muitas coisas assim muito gostosas em Recife. a preposição. a ausência da preposição no elemento em posição de tópico: (107) a) De primeira classei aí tem [poucas [ __ ]i]. principalmente no Amazonas e no Pará. ou seja. apesar de as duas serem distintas pelas razões já apresentadas. podemos relacionar a frequência de tal construção no português brasileiro a um efeito. aproximando essas construções dos anacolutos. da tendência a realizar foneticamente o sujeito pronominal. o espanhol e o português europeu. 158 GRAMATICA 3. não apresentam estruturas de sujeito deslocado à esquerda..indb 158 6/11/2009 14:47:13 . retomados por um pronome. tem a Castelo Branco. como ficou demonstrado no capítulo 2.2 e 4. b) A influência indígena sobre a alimentação é muito grande no Norte.3. ou consequência. como vimos na seção 3. como o francês e o inglês. Se levarmos em conta o fato de que as línguas de sujeito nulo. As análises realizadas com base na amostra compartilhada Nurc apontam. (D2 SSA) b) Verdurai na parte da Argentina nós não vimos [nada [ __ ]i]. (DID RJ) Pelo que mostram os dados em 4.1 deste capítulo.

respectivamente: (109) a) Tópico [Sujeito nulo + Predicado] Meus filhosi [[ø]i adoram verdura] b) [Sujeito pleno [Meus filhos + Predicado] adoram verdura] A ambiguidade poderia ser desfeita pela presença/ausência de traços suprassegmentais: presença de pausa entre o tópico e a sentença comentário vs ausência de pausa entre sujeito e predicado. é importante mostrar que nem sempre é fácil reconhecer um sujeito topicalizado. exibindo um tópico em correferência com um sujeito nulo não deve ser frequente na fala. (DID SP) b) Quer dizer o teatroi [eu acho [que [ø]i está caminhando]]. se acha na sentença precedente e o sujeito nulo. Veja a seguinte sentença: (108) a) Na minha casa. Meus filhos adoram. numa subordinada: (110) a) Porque o teatroi [eu acho [que [ø]i está tão caro]]. principalmente o guri. não é? (DID RJ) 159 GRAMATICA 3. nem sempre ocorre a pausa nas construções de tópico marcado e o sujeito nulo é cada vez menos frequente no PB. (D2/POA) O SN grifado acima poderia ter estatuto sintático ambíguo no português brasileiro. essa postulação não deve ser categórica. se come verdura. Entretanto. então. o tópico marcado. minha mulher não come. pois o elemento nominal.indb 159 6/11/2009 14:47:13 . como vimos acima. (DID SP) c) Então a casa própriai [eu acredito [que [ø]i seria evidentemente uma medida de larga repercussão social]]. sendo mais comum. Pode-se. por exemplo.PREDICAÇÃO Antes de passarmos à subseção seguinte. Mas. a interpretação de uma predicação sentencial (109b). postular que uma sentença como (109a). eu como. podendo oscilar entre uma interpretação de predicação discursiva e uma interpretação de predicação sentencial. (DID REC) d) O acarajéi [eu acho [que [ø]i é de feijão]]. pois. Há casos em que a posição de sujeito é claramente vazia.

A topicalização também pode ser encontrada em construções de miniorações. (DID RJ) b) A televisão [øexpl] é horroroso quando eles estão fazendo programa. O tópico-sujeito Há. finalmente. como já mencionamos na seção 3. como mostram os exemplos em (112): (112) a) O Amazonas. podemos encontrar na fala espontânea: 160 GRAMATICA 3. e frutas assim.4. podemos observar o movimento de constituintes internos ao SV para a posição “disponível” de especificador de SFlex de verbos inacusativos e impessoais. É aquela em que o tópico se encontra numa sentença com um sujeito nulo não-argumental. Além da presença de elementos adverbiais e marcadores discursivos. (DID RJ) (Eu achei [o tal pato no tucupi muito ruim]) (Eu achei [que o pato no tucupi é muito ruim]) 4. [øexpl] é impressionante o número de frutas. o sujeito da minioração foi movido para a posição de tópico: (111) O tal pato no tucupii [eu achei [[ __ ]i muito ruim]]. as construções com o chamado “predicativo do objeto” (ver discussão sobre predicativo do sujeito e do objeto no cap.ROSANE DE ANDRADE BERLINCK • MARIA EUGÊNCIA LAMOGLIA DUARTE • MARILZA DE OLIVEIRA Observe que todas as ocorrências de sujeito nulo coindexado com o tópico se encontram em uma subordinada substantiva objetiva direta. 4). complemento do verbo epistêmico achar/acreditar.indb 160 6/11/2009 14:47:13 . pode levar à reanálise do tópico como sujeito. uma construção de tópico a destacar. tudo tipo cajá-manga. A orientação para o discurso e a preferência pelos sujeitos pronominais preenchidos são certamente os fatores que têm levado ao preenchimento da posição à esquerda do verbo que não seleciona um argumento externo. Embora não tenham ocorrido na amostra analisada. Na sentença (111) abaixo. aliada à tendência de preenchimento do sujeito. tudo duro. são comuns na fala culta e popular estruturas em que um constituinte da sentença parece ocupar a posição de um sujeito expletivo nulo. (DID SP) Essa proximidade. As miniorações são constituídas de um sujeito e de um predicado nominal. Assim.

(Rádio CBN) (117) a) [øexpl] Vão sair dois brotos [SP na orquídea].PREDICAÇÃO 1) o movimento de parte de um constituinte (SN) para a posição de SFlex em (113b. (Fala espontânea) 2) ou de um constituinte articulado ao predicador com função dativa (116b) ou adverbial (117b e 118b): (116) a) [øexpl] Faltou sorte [SP ao Fluminense] no segundo tempo. como em (119c): (119) a) Vê se [øexpl] está chovendo dentro do quarto.5. (Fala espontânea) (114) a) [øexpl] Disparou [SN a aceleração do ônibus]. c) Vê se aquelas janelas ’tão chovendo.indb 161 6/11/2009 14:47:14 . 114b e 115b): (113) a) [øexpl] acabou [SN a bateria do meu celular]. mas a ocorrência de concordância em (119c) de estão chovendo com aquelas janelas é sem dúvida um argumento a favor da reanálise do tópico como sujeito. b) [O Fluminense]i faltou [sorte [ __ ]i] no segundo tempo. É o caso de sentenças como: 161 GRAMATICA 3. O antitópico O tópico pode aparecer à direita da sentença. (Assistência NET) 3) ou ainda ocorrências de difícil reconstrução. b) [Essa manga]i num tá [na época [ __ ]i]. (Fala espontânea) Pode-se argumentar que as estruturas acima são construções de tópico marcado. (Fala espontânea) (118) a) [øexpl] Não ocorreu nenhum problema [SP na localidade]. b) Vê se [øexpl] está entrando água pelas janelas do quarto lá de dentro. b) [A localidade]i não ocorreu nenhum problema [SP__]i. 4. b) Elai vai sair dois brotos [SP __]i. com o movimento de um constituinte para a posição externa à sentença. (Rádio CBN) (115) a) [øexpl] Não está [SP na época dessa manga]. b) [Meu celular]i acabou [a bateria [ __ ]i ]. sendo denominado “antitópico”. b) [O ônibus]i disparou [a aceleração [ ]i].

externa à sentença e simétrica àquela dos tópicos descritos até aqui. mas também pode ocorrer lexicalizado: (121) a) Elei leva azeite de dendê. 4 . Assim como as construções de tópico-sujeito apresentadas em 4 .indb 162 6/11/2009 14:47:14 . (123) mas ele saiu dali toda a energia que ele acumulou ali naquele periodozinhoi que ele leu. o acarajéi.. (D2 SP) c) então aí nesse caso [ø]i deixa de ser tão importante o fator idadei. O exemplo em (123) ilustra bem essa segunda propriedade: nele o SN antitópico tem sua referência estabelecida claramente no contexto anterior. A primeira se refere ao fato de o SN antitópico manter uma relação de predicação secundária sobre o sujeito pronominal.. que pode ser nulo.. o SN ocupa uma posição não-argumental. mas [ø]i não é tão sentido esse problema de idadei. (D2 SSA) Nessa construção.ROSANE DE ANDRADE BERLINCK • MARIA EUGÊNCIA LAMOGLIA DUARTE • MARILZA DE OLIVEIRA (120) a) [ø]i Leva azeite de dendê. como nos exemplos em (120).. como as que descrevemos em 4.. (D2 SP) 162 GRAMATICA 3... a construção de antitópico com sujeito pronominal lexicalizado é pouco frequente nas amostras de fala culta. observamos uma ocorrência: (122) bom está numa idade de definição quanto ao segundo ciclo porque elasi já estão na oitava série as mais velhasi não é? (D2 SP) A segunda propriedade diz respeito ao fato de o SN antitópico ser sempre definido. Na amostra analisada. Três propriedades caracterizam fundamentalmente essa estrutura. (D2 SP) d) Dizem que [ø]i tá tudo abandonado aquele troçoi. b) mas elei não é tão sentido esse problema de idadei.. que geralmente [ø]i não é pequeno esse períodoi. o acarajéi. (DID RJ) b) é.2. ao contrário do que se observa em outras construções.

investigações empíricas pioneiras em relação às construções de tópico marcado. como observamos ao contrastar a aceitabilidade das sentenças em (124). o cliente.6. pouco frequentes e apresentam. (125a’. muitas vezes.PREDICAÇÃO Por fim. que ainda aceitam mais facilmente um sujeito nulo no português brasileiro: (126) [ø]i É muito difícil esse problemai. (1993) investigaram as ocorrências de topicalização (TOP) e deslocamento à esquerda (DE). a chuva. por haver uma grande diversidade de padrões entonacionais. no âmbito da Gramática do Português Falado. A construção de antitópico com a posição do sujeito vazia pode contradizer a tendência ao sujeito pronominal expresso. com a estranheza causada por (125a. a’) Ele mandou uma carta. TOP e DE não apresentam. quanto as de anacoluto. uma distinção nítida. em que se estabelece entre tópico e comentário apenas um elo semântico. b) Telefonou ontem o cliente. a estrutura com antitópico é sensível à restrição de monoargumentalidade. 4. Callou et al.indb 163 6/11/2009 14:47:14 . tanto do ponto de vista tipológico. o verbo ser e um sujeito com o traço [-animado]. A interface sintaxe–prosódia: construções de tópico/comentário vs sujeito/predicado Foram desenvolvidas. b’). a análise revelou que. a’) Ela chegou cedo. b): (124) a) Chegou cedo a chuva. b’) Ele telefonou ontem. b) *Mandou uma carta para o hospital o cliente. do ponto de vista prosódico. (125) a) ? Mandou uma carta o cliente. o cliente. no entanto. b’) Ele mandou uma carta para o hospital. reunindo sob o rótulo “topicalização” tanto construções em que a categoria vazia se vincula a uma posição argumental. o cliente. Essas ocorrências são. quanto no que tange à análise prosódica. embora a distribuição percentual permita vislumbrar que há maior incidência da 163 GRAMATICA 3. Além de apontar a complementaridade entre construções de DE ligadas ao sujeito e de topicalização ligadas ao objeto.

O fato de a distribuição percentual dos padrões para as duas construções variar nas cinco capitais leva os autores a suspeitar de que os padrões devam ser investigados com base no fator “região”. 2003. Duarte e Matos (2003). e ao preenchimento do sujeito pronominal (Duarte. 2006. 1995. podendo não haver um “padrão geral distintivo”. A curva descendente. Análises formais de tais estruturas aparecem em Galves (1987.ROSANE DE ANDRADE BERLINCK • MARIA EUGÊNCIA LAMOGLIA DUARTE • MARILZA DE OLIVEIRA curva ascendente entre as construções de TOP (73%). 1998) e Kato (1989). Orsini.. Cyrino.indb 164 6/11/2009 14:47:14 . porém. relacionando-a 1) 2) ao uso irrestrito do objeto nulo no português do Brasil. 1976). Confrontando as construções de sujeito/predicado com as de tópico/comentário. entre outros). predomina a ausência de pausa (74% das construções sujeito/predicado e 88% das construções de tópico/comentário não apresentam pausa). 1994. com 61% de ocorrência do padrão neutro (isto é. O aparecimento de uma série de pronomes fracos na posição de sujeito. o elemento prosódico mais marcante é a pausa. 1997. Nota A tipologia das construções de tópico marcado aqui adotada é adaptada de Brito. reunido em Pontes (1987) e inspirado em estudos sobre línguas orientadas para o discurso em oposição às línguas orientadas para a sentença (Li e Thompson. ainda em variação com um pronome nulo. O padrão ascendente simples. os resultados mostram um comportamento entonacional mais regular para as primeiras. (1993). Vasco. é o mais geral. O interesse dos estudos linguísticos no Brasil se voltou para as construções de tópico na década de 1980 com o trabalho pioneiro de Eunice Pontes. é cerca de duas vezes mais frequente em DE do que em TOP. ao lado da série de pronomes for- 164 GRAMATICA 3. 1989. No que diz respeito à distinção entre construções de tópico marcado e adjunção (Leite et al. 1996). mais longa na adjunção do que nas construções de tópico. Em ambos os tipos. por outro lado. Estudos empíricos posteriores confirmam a complementaridade entre topicalização de objeto e DE de sujeito apontada em Callou et al. 1999. sem modulação). tal como nas construções mencionadas acima.

as três construções de tópico marcado mostradas nesta seção (anacoluto ou tópico pendente. porém. 165 GRAMATICA 3. evidenciando que o sistema não parece diferenciar por meio da curva entonacional essas construções. analisado em Kato (1999) fica confirmado na descrição das construções de DE aqui apresentadas. foneticamente realizado. que detona a concordância com o sujeito e lhe atribui Caso Nominativo. recebe Caso Estrutural. Sua análise entonacional aponta para existência de três padrões prosódicos distintos e sistemáticos. recorrente entre as construções de SUJ/PRED e de TOP/COM. além das de tópico-sujeito e de sujeito/predicado. segundo o qual todo sintagma nominal. do padrão (1) por apresentar. um padrão descendente. que se diferencia. (1996) e Orsini (2003). Os padrões identificados são: 1) 2) 3) um padrão ascendente. 2003). lugar de acolhida dos argumentos que se movem na sentença para receber o estatuto de sujeito sentencial. (1993). com pausa. Além dos ramos argumentais que representam o SV e o Sv. reforçando a tese de que o português brasileiro revela dois módulos independentes — um sintático e outro prosódico — que interagem. próprio das construções de deslocamento à esquerda. apud Orsini. 1996. sem pausa. do ponto de vista sintático e prosódico. uma elevação de altura maior (trata-se de um raised peak. independentemente da estratégia de construção de tópico empregada pelo falante. Esses ramos têm como núcleo a flexão. e um padrão ascendente. Sistematização formal das estruturas de predicação Neste capítulo. TOP e DE). obedecendo ao princípio do caso.PREDICAÇÃO tes. Esse padrão se repete nas construções com valor contrastivo. segundo Ladd.indb 165 6/11/2009 14:47:14 . estuda. Com base nas análises prosódicas pioneiras de Callou et al. passamos a ter os ramos gramaticais. introduzimos mais um ramo na frondosa árvore que representa a sentença. sem pausa. 5. Leite et al. na postônica final do tópico.

identificamos como especificador de Flexão. estabelece re lação de concordância com o sujeito e lhe atribui Caso Nominativo. na presença. Como os demais auxiliares. Nos dois casos. respectivamente. Os verbos auxiliares ser.1. visto que o português europeu privilegia a estrutura com infinitivo precedido da preposição a como estar a falar): (127) a) A criança tem chorado. é ocupada pelo argumento interno do verbo: 166 GRAMATICA 3. A diferença está em que a posição de sujeito. se dá diretamente na posição nuclear da Flexão. que. estar e ter/haver Os auxiliares ter/haver e estar aparecem nas construções de voz ativa.ROSANE DE ANDRADE BERLINCK • MARIA EUGÊNCIA LAMOGLIA DUARTE • MARILZA DE OLIVEIRA 5. a relação de predicação se dá entre o argumento a criança e o predicador chorado (127a) ou chorando (127b).indb 166 6/11/2009 14:47:14 . de um particípio e de um gerúndio (no caso específico do português brasileiro. A estrutura passiva com a ordem Sujeito-Verbo segue de perto o percurso dos demais auxiliares. ocorre a concordância verbal e a atribuição de Caso Nominativo ao SN “a criança” pelo auxiliar. um auxiliar. b) A criança está chorando. Sua função é puramente gramatical: carrega as marcas de tempo. O auxiliar ser aparece comumente nas passivas analíticas. no sentido de que o verbo pleno (que tem grade temática) fica in situ (em SV) e a inserção de ser. portanto são gerados na posição nuclear de Flexão: (128) 4 3 Flex’ Flex SFlex a criançai 3 g SN MO SV tem/está 3 chorado/chorando 4 [ _ ]i g Na relação especificador–núcleo de Flexão. neste capítulo. pois não é predicador. número e pessoa. Os auxiliares ter e estar codificam tão somente as noções de tempo e número.

Antes. porém. o verbo não é inserido diretamente em Flexão.PREDICAÇÃO (129) A Maria foi ameaçada. na maior parte dos casos. como no caso dos verbos que acabamos de tratar. o verbo que a explicita não pode ser gerado em V. em que se realiza a relação de concordância e a atribuição de Caso Nominativo ao sujeito da oração. mas movido da posição mais baixa. a flexão é um morfema preso ao verbo. a língua apresenta um morfema independente de flexão. 5. Os verbos transitivos e inergativos (intransitivos) Considerando as discussões a partir dos dados analisados ao longo deste capítulo e partindo do esquema geral da estrutura do Sv.indb 167 6/11/2009 14:47:14 . passemos à representação da sentença que tem o verbo como predicador. e estrutura gramatical. Nesses casos. Nem sempre. os auxiliares codificam tão-somente as noções de tempo e pessoa responsáveis pela relação de concordância e atribuição de Caso Nominativo. Nos casos em que a flexão é uma forma independente (caso dos auxiliares). De fato. (129a) SFlex 4 3 Flex’ Flex foi V A Mariai 3 g g SV V’ 3 SN g ameaçada 4 [ __ ]i Esses exemplos permitem visualizar a diferença entre estrutura argumental. expediente que se realiza no nódulo Flexão. como se verá na seção seguinte. esses elementos aparecem na posição sintática que lhes é mais peculiar: o núcleo do nódulo Flexão. Observe as sentenças em (130-131): 167 GRAMATICA 3. apresentado no capítulo 2. mas diretamente na posição nuclear Flex. tratada extensivamente no capítulo anterior. a partir de Sv. Por esse motivo.2.

o nódulo Flexão pode alocar um elemento abstrato. (131) A Maria deu um abraço no José. argumento externo do verbo leve dar (131) e do verbo leve abstrato (130). vimos que. A configuração abaixo mostra a operação de subida do verbo para o nódulo Flexão: (130a) SFlex 4 3 Flex’ Flex A Mariai 3 g [ _ ]i Sv 3 v’ v abraço-uk 3 g g SV [ _ ]k V’ V 3 SN g [ _ ]k 4 o José 168 GRAMATICA 3. Nesse caso. No capítulo anterior. por paralelismo sintático e semântico. aparece na posição em que recebe papel temático de agente12.ROSANE DE ANDRADE BERLINCK • MARIA EUGÊNCIA LAMOGLIA DUARTE • MARILZA DE OLIVEIRA (130) A Maria abraçou o José.indb 168 6/11/2009 14:47:14 . Analogamente ao que ocorre com o esquema geral da estrutura Sv. o verbo sai do núcleo de Sv e sobe para Flex. o SN Maria.

indb 169 6/11/2009 14:47:14 . O verbo inergativo segue o mesmo percurso. ocorre a relação de concordância entre os elementos que ocupam essas posições. na posição nuclear de Flexão atribui o Caso Nominativo do SN na posição de especificador desse mesmo nódulo.PREDICAÇÃO (131a) 4 3 Flex’ Flex SFlex A Mariai 3 g [ _ ]i Sv 3 v’ v deu-uk 3 g g SN [ _ ]k N’ N 3 g 4 SPrep abraços no José Na relação especificador–núcleo do nódulo Flexão. Lembre-se de que a diferença entre esses dois tipos de verbos está na estrutura argumental. O verbo se move para a posição nuclear de Flexão. onde serão lidas as informações relativas ao tempo e pessoa. o verbo inergativo seleciona apenas o argumento externo: (132) A Maria trabalhou. 169 GRAMATICA 3. o verbo. e o argumento do verbo se move para a posição de especificador de Flexão. munido de afixo flexional.

170 GRAMATICA 3.indb 170 6/11/2009 14:47:14 . uma minioração (MO).ROSANE DE ANDRADE BERLINCK • MARIA EUGÊNCIA LAMOGLIA DUARTE • MARILZA DE OLIVEIRA (132a) SFlex 4 3 Flex’ Flex A Mariai 3 g SV 3 v’ trabalho-uk [ _ ]i 3 v g SV g [ _ ]k V’ V g g [ _ ]k 5. grávida): (134) [MO [argumento ] [predicado]] Tendo em vista que o predicador atribui papel temático ao seu argumento. Nessas sentenças.3. no sentido de que temos um argumento (Maria) e um predicador (atriz. casos em que temos um predicativo do sujeito. Os verbos de ligação “ser” e “estar” Observe as sentenças: (133) a) A Maria é atriz. portanto. As sentenças acima exibem um verbo que a tradição gramatical chama de ligação. em que o SN atriz e o SA grávida atuam como predicadores do argumento. o SN Maria. estão cumpridas as exigências relativas à posição mais baixa da árvore. composta de argumento de predicador não-verbal. b) A Maria está grávida. Temos. uma minioração (MO). os verbos ser e estar selecionam um complemento.

Tem uma função puramente sintática. o verbo ser (e estar).PREDICAÇÃO (135) A Maria MO 3 atriz grávida Para receber o estatuto de uma estrutura oracional. na medida em que codifica noções morfológicas de tempo e pessoa. Observe as sentenças no inglês: 171 GRAMATICA 3. Verbos impessoais No início deste capítulo (1. sobe para o núcleo de Flex. mencionamos a existência de um pronome expletivo no inglês e no francês (it/there e il. ou seja. O SN [Maria] sobe para o especificador do nódulo Flexão e entra em relação de concordância com o verbo em Flex.4. que ocupa a posição de sujeito sentencial com verbos “climáticos” e inacusativos. Na seção 3. voltamos a essas estruturas ao tratar do sujeito não-referencial.3.2). 5. que explicita marcas de tempo e pessoa. respectivamente). as quais são cruciais para a confi guração de uma oração absoluta. do qual recebe Caso Nominativo: (136) SFlex 4 3 Flex’ Flex A Mariai 3 g SV 3 V’ V é/esták 3 MO [ _ ]k SN [ _ ]i g 3 Predicado (SN/SA) atriz grávida Essa representação capta a intuição por trás da ideia de verbo de ligação da GT.indb 171 6/11/2009 14:47:15 . esse tipo de verbo não é um predicador.

o princípio universal de que toda oração tem sujeito. Como dissemos. sobe para Flexão e entra em relação de concordância com o sujeito expletivo (pronome expletivo) que se apresenta nulo do ponto de vista fonético: (138) [∅expl] choveu.ROSANE DE ANDRADE BERLINCK • MARIA EUGÊNCIA LAMOGLIA DUARTE • MARILZA DE OLIVEIRA (137) a) It rained all day. marcada na árvore pela ausência do nódulo Sv. o verbo não possui estrutura argumental. Dessa posição. justifica. (138a) Espec 3 Flex SFlex Flex’ SV g [∅expl] 3 g g chove-uk V’ V g g [ _ ]k A ausência de argumento externo. Observemos agora o comportamento do verbo parecer: (139) O menino parece dormir. A estrutura gramatical. 172 GRAMATICA 3. c) There came a man. que contém o nódulo Flexão e o expletivo nulo no (proexpl) seu especificador. princípio este também observado pelas gramáticas tradicionais quando postulam o sujeito como um dos termos essenciais da oração. por sua vez. justifica a designação tradicional de oração sem sujeito. Entretanto. é possível postular um pronome expletivo nulo que ocupe a posição de especificador de verbos climáticos e de verbos existenciais.indb 172 6/11/2009 14:47:15 . mas nasce em V. b) There is a man in the room. No caso dos verbos “climáticos”. o português brasileiro (bem como o espanhol e o italiano) não possui um pronome expletivo foneticamente realizado para ocupar a posição de sujeito desses verbos.

da violação ao Filtro do Caso. representado por uma sentença. A diferença entre as duas sentenças está na ausência de flexão em (139a) e sua realização em (140a). O SN o menino é argumento de dormir nas sentenças (139-140). Logo. Conforme vimos neste capítulo. deve mover-se para a posição de especificador de Flex. Ocorre que (139a) não é uma construção gramatical. como se vê a seguir: (139a) *Parece [S o menino dormir].indb 173 6/11/2009 14:47:15 . segundo o qual todo SN realizado foneticamente tem que receber Caso Estrutural. (140a) Parece [S que o menino dormiu]. ao contrário de (140a). o qual. A inexistência de outro SN nas orações acima sinaliza que o verbo parecer não seleciona um argumento externo. a agramaticalidade de (139a) decorre da ausência do afixo flexional. por ser munido de afixo de tempo e pessoa. ou melhor. é alçado de V para Flex: 173 GRAMATICA 3. Para que o SN o menino em (139a) receba caso. mas um argumento interno. lugar em que receberá Caso Nominativo do verbo parecer.PREDICAÇÃO (140) Parece que o menino dormiu. o nódulo Flex é responsável pela ativação da concordância e atribuição de Caso Nominativo.

O verbo parecer não seleciona argumento externo e não ativa o nódulo Sv. onde é acionado o Caso Nominativo. A posição de especificador de Flex referente ao verbo parecer é. do qual recebe o Caso Nominativo. ocupada pelo pronome expletivo nulo como no caso dos verbos impessoais acima: 174 GRAMATICA 3. então. deve mover-se para o especificador de Flexão. há duas projeções de SV. portanto. a posição nuclear de Flex. mas ativa Flex. Em (140a) o verbo dormir é flexionado. se move para o especificador de Flex. O SN o menino. uma para o verbo dormir e outra para o verbo parecer. O SN o menino. na busca de um Caso Estrutural. por ser um verbo que apresenta afixo flexional. para satisfazer o Filtro do Caso. argumento externo do verbo dormir.indb 174 6/11/2009 14:47:15 .ROSANE DE ANDRADE BERLINCK • MARIA EUGÊNCIA LAMOGLIA DUARTE • MARILZA DE OLIVEIRA (139b) 4 3 Flex’ Flex SFlex O meninoi 3 g g SV V’ parec-ey 3 [ _ ]y Sv 3 [ _ ]i v’ 3 dormirk SV g V’ g V [ _ ]k Na representação acima. O verbo dormir sobe para o núcleo da estrutura Sv para a atribuição de papel temático. mas não ativa o nódulo Flex. ocupando.

O nódulo que abriga esse elemento será alvo de análise no próximo capítulo com a designação de sintagma complementizador. O argumento do verbo inacusativo pode permanecer in situ (em SV) ou mover-se para a posição de sujeito da oração.PREDICAÇÃO (140b) Espec SFlex 3 g Flex Flex’ SV 3 g g parec-ey V’ [∅expl] 3 [ _ ]y S 3 que Espec SFlex 3 Flex’ 4 O meninoi 3 Flex Sv g 3 [ _ ]i v´ dormi-uk 3 [ _ ]k SV V’ V g g [ _ ]k Na representação acima. o símbolo S para alocar a conjunção que. 5. um argumento interno. o verbo inacusativo nasce em V e sobe para o núcleo de Flexão. A diferença entre os dois tipos de verbos está na estrutura argumental: os inergativos selecionam um argumento externo. Os verbos inacusativos Assim como ocorre nas sentenças com verbos inergativos. os inacusativos. Tratemos em primeiro lugar do 175 GRAMATICA 3.5. introduzimos.indb 175 6/11/2009 14:47:15 . para simplificar.

ROSANE DE ANDRADE BERLINCK • MARIA EUGÊNCIA LAMOGLIA DUARTE • MARILZA DE OLIVEIRA

movimento do argumento para o especificador de Flexão, desencadeando a ordem Sujeito-Verbo:
(141) A Maria chegou. (141a) SFlex

3
Espec Flex’

4
A Mariai

3
Flex

g

SV

g

chego-uk

V’

V

3
g

SN

g
[ _ ]k

[ __ ]i

Tendo em vista que o argumento do verbo inacusativo é interno, não se projeta a estrutura Sv, ao contrário do que vimos para o verbo inergativo (e os transitivos), que precisa desse nódulo para alocar o argumento externo. O SN A Maria, argumento interno na posição de especificador de Flexão, recebe Caso Nominativo e entra em relação de concordância com o verbo. No caso dos inacusativos, o argumento interno não precisa necessariamente alçar para a posição de especificador de Flexão. Nesse caso, obtém-se a ordem Verbo-Sujeito. O que se tem aqui é, como no caso dos verbos impessoais, a inserção de um pronome expletivo nulo na posição de especificador de Flexão:
(142) Øexpl chegou a(s) carta(s). (143) Øexpl chegaram as cartas.

176

GRAMATICA 3.indb 176

6/11/2009 14:47:15

PREDICAÇÃO

(142a)

Espec

3
Flex

SFlex

Flex’
SV

g
[∅expl]

3
g g
chego-uk
V’

V

3

SN

g
[ _ ]k

4
as cartasy

Atente para o fato de que o sujeito da sentença na representação acima é o pronome expletivo e não o SN a carta (as cartas), o que justifica a ausência de marcas de concordância verbal entre o verbo e o seu argumento interno. O SN as cartas é um elemento associado ao expletivo. Essa associação explica os casos em que a concordância verbal espelha as marcas de número do SN pluralizado, o que leva a gramática tradicional a interpretar o argumento interno como o sujeito dos verbos inacusativos:
(143a)

Espec

3
Flex

SFlex

Flex’
SV

g
[Øexpl y]

3
g g
chega-ramk
V’

V

3

SN

g
[ _ ]k

4
as cartasy

Os verbos existenciais (ter/haver) constituem uma subclasse dos verbos inacusativos e, como tal, apresentam estruturas semelhantes. Tome as sentenças abaixo:
(144) ∅exp havia/tinha gatos no telhado.

177

GRAMATICA 3.indb 177

6/11/2009 14:47:15

ROSANE DE ANDRADE BERLINCK • MARIA EUGÊNCIA LAMOGLIA DUARTE • MARILZA DE OLIVEIRA

O único argumento do verbo existencial tem a configuração de uma minioração, constituinte que expressa uma relação de predicação entre o SN (gato) e o SPrep (no telhado):
(144a)
SV

g

V’

3
V’ MO SN

havi-a

g

3

SPrep

g
gatos

4
no telhado

Observe que na estrutura acima há uma relação de complementação entre o verbo haver e a minioração e uma relação de predicação entre o SN gatos e o SPrep no telhado. Carregando o afixo, o verbo haver se move para o núcleo de Flexão, em cujo especificador é inserido um pronome expletivo nulo:
(144b)

Espec

3
Flex

SFlex

Flex’
SV MO

[Øexp y]

g

3
g
V

3
g
[ _ ]k

havi-akk

3
SN SPrep

4
gatos y

4
no telhado

Assim como no caso das estruturas com verbo inacusativo que apresentam a ordem VS, o sujeito sintático é um pronome não-referencial nulo, a que damos o nome de pronome expletivo nulo. Essa proposta, além de distinguir a função sintática de sujeito da função semântica de argumento externo, tem a vantagem de criar um quadro simétrico de pronomes nulos para a

178

GRAMATICA 3.indb 178

6/11/2009 14:47:15

PREDICAÇÃO

posição de sujeito no português do Brasil: de um lado, temos o pronome nulo referencial, chamado de sujeito oculto pela GT; de outro, temos o pronome nulo não-referencial, que configura o pronome expletivo nulo que tem função puramente sintática, ocupando a posição de sujeito de verbos climáticos, existenciais e inacusativos que exibem a ordem V-S. Vimos nesta seção que os inacusativos com argumento in situ, ou seja, na ordem Verbo-Sujeito, podem ativar a concordância verbal com o SN, graças ao elemento associado na posição de especificador de Flex. Essa mesma propriedade explica a possibilidade de termos concordância do SN com o verbo existencial (ter/haver), conforme observado nos dados da amostra compartilhada, tratados na seção [3.3.3] deste capítulo.
5.6. As construções de tópico marcado

Retomemos as construções de tópico marcado, estruturas em que o tópico é um elemento extrassentencial:
(145) Churrasco, eu como picanha. (146) A minha mãe ela adora carne. (147) Carne eu como.

O tópico ocupa uma posição acima da Flexão, ou seja, há uma ramificação acima do nódulo Flexão que abriga elementos que não fazem parte da sentença, mas estão, de certo modo, vinculados aos constituintes sentenciais. Vamo-nos referir a essa nova camada como Sintagma Tópico (STop), e, tendo em vista a vinculação ou não desse STop com algum elemento no interior da sentença, podemos ter os seguintes esquemas:

179

GRAMATICA 3.indb 179

6/11/2009 14:47:15

ROSANE DE ANDRADE BERLINCK • MARIA EUGÊNCIA LAMOGLIA DUARTE • MARILZA DE OLIVEIRA

(145a) Churrasco [SFlex eu como picanha]. STop Espec

3

Top’ SFlex

4

3 3
Espec Flex’

Churrasco Top

g
eui

3
Flex Sv

g

3

com-ok [ _ ]i

3
[ _ ]k
SV V’ V

g

3

SN

[ _ ]k

g

picanha

g

180

GRAMATICA 3.indb 180

6/11/2009 14:47:15

PREDICAÇÃO

(146a) A minha mãe [SFlex ela adora carne]. STop Espec

3

Top’ SFlex

4

3 3
Flex’

A minha mãei Top

Espec

g g

3
Sv

elai Flex

3

ador-ak [ _ ]i

3
[ _ ]k
SV V’ V

g

3

SN

[ _ ]k

g

carne

g

181

GRAMATICA 3.indb 181

6/11/2009 14:47:15

temos uma instância de anacoluto (ou tópico pendente).indb 182 6/11/2009 14:47:15 . À diferença do nódulo Flexão. Em (145a). 182 GRAMATICA 3. em (147a). ilustrando uma construção de Deslocamento à Esquerda. que se encontra vazio. não vinculado sintaticamente a nenhuma posição sentencial. não há na língua portuguesa um elemento foneticamente realizado na posição nuclear do sintagma Tópico. sujeito da oração. o STop se vincula ao argumento interno do verbo. por outro lado.ROSANE DE ANDRADE BERLINCK • MARIA EUGÊNCIA LAMOGLIA DUARTE • MARILZA DE OLIVEIRA (147a) Carne [SFlex eu como [ _ ]]. uma instância de Topicalização. STop Espec 3 Top Top’ SFlex 4 Carney 3 3 Espec Flex’ g g 3 Sv eui Flex 3 v´ com-ok [ _ ]i 3 [ _ ]k SV V’ V g 3 SN g [ _ ]k g [ _ ]y Os três esquemas representam um STop. o STop está vinculado ao especificador de SFlex. Em (146a).

como por argumentos internos de verbos inacusativos (141a) e de verbos transitivos.PREDICAÇÃO Neste capítulo. para acolher os elementos topicalizados. mas há outras estruturas que exigem uma posição extrassentencial. o esquema geral inclui ainda uma posição externa ao SFlex (SN4): 183 GRAMATICA 3. 5. Como vimos acima. essa posição pode ser ocupada tanto por argumentos externos de verbos transitivos (130a) e inergativos (132a). agora.indb 183 6/11/2009 14:47:16 . como é o caso das interrogativas e dos adjuntos. aquele que desempenha a função de sujeito desses verbos. Esquema geral da estrutura do sintagma flexional Podemos. quando em construções passivas (129a). O SN3 é a posição em que é gerado o argumento interno de verbos inacusativos. Por fim. resumir as estruturas descritas em um esquema geral. tratamos apenas dos casos de construção de tópico marcado. o SN1 é a posição para onde o sujeito se deve mover para receber Caso da Flexão e desencadear concordância. Além das posições descritas em (148).7. como se verá nos dois próximos capítulos. (148) SFlex Espec 3 Flex Flex’ Sv 4 SN1 3 SN2 3 v’ 3 v SV g V’ 3 V SN3 O SN2 é a posição em que é gerado o argumento externo de verbos transitivos e inergativos. que apresenta as diferentes posições que o sujeito pode ocupar de modo a estabelecer uma relação de predicação.

Radford (1997a. esse esquema será enriquecido por meio da discussão de construções de adjunção e de subordinação. Rocha Lima (1972) e Cunha e Cintra (2007). O levantamento de dados e a análise da ordem SV/VS bem como das formas de representação do sujeito pronominal seguem a metodologia e os pressupostos teóricos em Berlinck (1989.indb 184 6/11/2009 14:47:16 . Berlinck e Britto (1996). que contribuem para a discussão dos resultados. (1996). Os conceitos e a terminologia relativos à GT levam em conta Kury (1964). Mioto. Cecchetto (2002). Na sistematização formal foram utilizados Raposo (1992). Graffi (1994). e “Sugestões de leitura” complementares aparecem no final do capítulo. 2000. são apresentadas em notas de rodapé. b). Análises mais recentes. 184 GRAMATICA 3. Roberts (1997). principalmente. que constam de Kato. Nicolau. das análises desenvolvidas ao longo do Projeto da Gramática do Português Falado.ROSANE DE ANDRADE BERLINCK • MARIA EUGÊNCIA LAMOGLIA DUARTE • MARILZA DE OLIVEIRA (149) Espec STop 3 Top Top’ SFlex 4 SN4 3 3 Espec Flex’ 4 SN1 3 Flex 3 SN2 Sv 3 v SV V’ v´ g 3 V SN3 Nos capítulos 4 e 5. Nascimento. Figueiredo Silva e Lopes (2004). (1993) e Leite et al. 2007). Callou et al. Nota geral Este capítulo foi escrito a partir. 2000) e Duarte (1995.

Duarte (2003). Berlinck e Murakawa (2006). Cyrino e Berlinck (2006). entre outros. Guedes. Coelho (2000). ainda. para uma comparação entre a fala culta bra- 185 GRAMATICA 3. Ressalte-se ainda que a representação do sujeito pronominal e a ordem SV/VS têm sido objeto de estudos em uma perspectiva diacrônica. ver Tarallo e Kato (1989). Kato (1996a). desde o trabalho pioneiro de Perlmutter (1978). Berlinck (1989.PREDICAÇÃO Tanto o sistema pronominal do português do Brasil quanto a ordem SV/VS têm merecido a atenção de pesquisadores envolvidos em projetos de pesquisa com base em amostras de diferentes regiões do Brasil. Para discussões mais aprofundadas sobre esse fenômeno em português. Entre eles. Ver ainda. Coelho et al. Kato e Tarallo (2003). Quarezemin (2006). e Spano (2002). Chamará a atenção do leitor a semelhança dos resultados encontrados para esses fenômenos nas diferentes regiões do Brasil (sobre um conjunto de pesquisas sobre o sujeito pronominal na fala popular. sobre as relações entre ordem e concordância. Vários dos trabalhos citados com data a partir de 2000 foram desenvolvidos no âmbito do Projeto para a História do Português Brasileiro (PHPB). Paiva e Duarte (2003). Paiva e Duarte. Berlinck (1997). Pontes (1986). Cavalcante (2001. Berlinck (1989. ver Nascimento e Kato (1995) e Kato (2002a). 2000). Roncarati e Abraçado (2003). 2006). Duarte e Lopes (2002). 2000). Coelho (2000). Lopes (2001.indb 185 6/11/2009 14:47:16 . Cohen e Ramos (2002). estatuto informacional. para uma análise de dados do português falado em Florianópolis. Ribeiro (2001) e Kato. Ver. Decat (1983). A correlação entre definitude e o comportamento do argumento de verbos inacusativos tem sido analisada em relação a muitas línguas. Kato e Negrão (2000). Hora (2004). Vandresen (2002). 1993). Para relações entre foco. Entre os diversos volumes disponíveis com resultados dessas pesquisas relacionados ao conteúdo deste capítulo. posposição e estrutura da sentença no português brasileiro. (2006). Duarte. Zilles (2000). Kato (2000a. 2002). podemos citar Duarte (1992. (2006). Pilati (2002). cf. 2002). Brandão e Mota (2003). Sugestões de leitura No que se refere à seção 2: Sobre a correlação entre monoargumentalidade e ordem V-S no português brasileiro. ver. citam-se: Oliveira e Silva e Scherre (1996). Coelho et al. 2000b).

do ponto de vista sincrônico e diacrônico. entre muitos outros. com base em dados sincrônicos e diacrônicos. Para um amplo estudo dos pronomes pessoais com base na Amostra Nurc-70. excluídas na análise apresentada na seção 3. 1994). entre outros. para uma interpretação teórica das construções de hiperalçamento. E. Naro (1981). Negrão e Viotti (1998). Para uma análise das construções de alçamento e hiperalçamento do sujeito e do tópico na fala popular e sua relação com outras mudanças no português do Brasil. 1998. ver Martins e Nunes (2005. sobre a perda da ordem V-S de tipo “germânica” no português brasileiro. 1993. ver. Sobre as estratégias de realização do sujeito indeterminado na fala. ver Torres-Morais (1993). ver Moino (1989). ver Nunes (1990). Sobre o processo de gramaticalização da expressão nominal a gente no mais novo pronome a integrar o nosso quadro pronominal. Naro e Scherre (1999. ver Paredes Silva (1986) e Oliveira (2005). No que diz respeito ao sujeito de “referência estendida”. para uma análise sincrônica da passiva analítica. Com respeito à variação entre presença/ausência de marcas morfológicas de concordância. ver. ver Oliveira (2000). sobre as estruturas V-S em correlação com o sistema dos clíticos na história do português brasileiro. Para análises sobre a passiva sintética. Scherre (1988. Scherre e Naro (1991. Omena e Braga (1996). Franchi. e. ver Kato e Tarallo (1986). Viotti 186 GRAMATICA 3. 1991). Vitral e Ramos (1999) e Lopes (1999/2003). que trata da construção do texto oral e dedica aos marcadores três capítulos. a relação entre o grau de saliência fônica das marcas de plural nos verbos e nomes e a perda dessas marcas na fala e na escrita. Em relação à seção 3: Sobre as respostas assertivas. que tratam da função coesiva do demonstrativo em variação com uma categoria vazia em diferentes funções. que analisa essas estruturas no português e no italiano. A respeito de análises teóricas e empíricas sobre as sentenças existenciais com ter/haver. 2003a.indb 186 6/11/2009 14:47:16 . 2000). no prelo) e Nunes (2008). sobre os marcadores discursivos. Menon (1996).ROSANE DE ANDRADE BERLINCK • MARIA EUGÊNCIA LAMOGLIA DUARTE • MARILZA DE OLIVEIRA sileira e portuguesa. ver. 2006). ver Henriques e Duarte (2006) e Duarte (2007). 2007). consulte o volume I da Gramática do português culto falado no Brasil (Jubran e Koch. ver Lemos Monteiro (1991. Ribeiro (2001). entre muitos outros trabalhos.

1. Duarte 2003) distinguem três tipos de complementos: objeto direto. seção 1. Ver o cap. somada a uma ampliação da amostra ali estudada. ver no vol. parte 2. Cavalcante (2006). 2. além de Kato (1989) e Galves (1987. e.2. Para análises minuciosas dos tipos de construções de tópico na fala popular e na fala culta do Brasil e Portugal. ver Tarallo e Kato (1989). As informações aqui apresentadas se baseiam inicialmente na análise contida em Kato et al. Segundo esse quadro. (1996). Berlinck (1995. 187 GRAMATICA 3. sobre as estratégias para o preenchimento do sujeito das sentenças infinitivas no português brasileiro e europeu. e. para uma análise mais elaborada das construções de antitópico. que incluiu dados das capitais não analisadas no primeiro estudo. Duarte (2003b). ver Pontes (1987). que ocupam a posição externa a sentenças. A esse respeito. ver Figueiredo Silva (1996).1 deste capítulo. Em relação à seção 4: Sobre os pronomes fortes. Para uma comparação entre as variedades culta e popular. II o cap. segundo Carrilho (2001). 2006). a usos enfáticos. e os pronomes fracos. I. Duarte e Kato (2005). Orsini (2003) e Orsini e Vasco (2007). Ver.indb 187 6/11/2009 14:47:16 .4. ver vol. ainda. Quadros mais recentes (cf. 3. cap. como “Ele há cada coisa neste mundo!”. na variedade-padrão. Duarte (1995) e Barbosa. Britto (1994). Quanto à reanálise do tópico como sujeito. 2 e a seção 5 deste capítulo para uma representação mais minuciosa. 2. Para o conceito de inergativo. ver cap. em contextos bastante restritos. limitando-se. Notas 1 2 3 4 5 6 7 Para uma crítica à incoerência presente nos conceitos das gramáticas tradicionais e ao divórcio entre teoria e análise. Sobre a inserção do se nas sentenças não-finitas no português escrito culto brasileiro. ainda utilizada na maioria das gramáticas pedagógicas. conferir Perini (1985) e Mattos e Silva (1998). Avelar (2006). seção 4. ver a nota 1 do cap. ver Kato (1999) e Kato (2002b). ver Vasco (1999. e seção 2. que aparecem na posição do sujeito gramatical. Sobre a Nomenclatura Gramatical Brasileira (NGB).PREDICAÇÃO (1999). 1998). ver Callou e Duarte (2005). ver Duarte (2008). ver Colsato (2007). A esse respeito. 2000) e Kato e Tarallo (2003). nas modalidades oral e escrita. O português europeu revela a presença de ele como expletivo. Sobre a posição do sujeito em sentenças não-finitas. 2. quase homófonos. o complemento relativo e o circunstancial seriam classificados simplesmente como complementos oblíquos. objeto indireto e complementos oblíquos. Callou e Avelar (2001).

8

9

10 11 12

A forma reduzida, ou fraca, do pronome você, apontada na fala mineira (Ramos, 1997), na fala carioca (Paredes Silva, 2003) e na fala de cidades da região Sul (Menon e Loregian-Penkal, 2002), é também notada em outras formas pronominais (eu/ô, eles/ez), particularmente em Minas Gerais (Corrêa, 2002). Sobre os paradigmas de pronomes fortes e fracos no PB, ver Kato (1999). Kato et al. (1996), no âmbito do Projeto da Gramática do Português Falado, apontam a preferência na amostra analisada pelo padrão XVY, podendo X ser o sujeito. Na sua falta — isto é, se o sujeito referencial é nulo ou se o predicador não seleciona um argumento externo — qualquer outro elemento pode aparecer à esquerda do verbo, ocupando a primeira posição na sentença. Kato e Duarte (2005) atribuem a resistência a ter uma posição vazia à esquerda de V no PB à sua proeminência para o tópico, como o chinês e o japonês. A esse respeito, ver vol. I, caps. 12-14. A esse respeito, ver o cap. 2, seção 5.3.5, neste volume. A esse respeito, ver também “verbos suporte”, vol. II, cap. 3, seção 1.6.

GRAMATICA 3.indb 188

6/11/2009 14:47:16

ADJUNÇÃO

GRAMATICA 3.indb 189

6/11/2009 14:47:16

GRAMATICA 3.indb 190

6/11/2009 14:47:16

SUMÁRIO

1. Introdução .........................................................................................................................................................................193 2. Os adjuntos na gramática tradicional ........................................................................................................195 3. O que define um adjunto ......................................................................................................................................199 3.1. Adjuntos não são selecionados por um dado núcleo ..................................................................................... 199 3.2. Adjuntos expandem o elemento a que se adjungem ..................................................................................... 200 3.3. Adjuntos se adjungem a um dado elemento ..................................................................................................... 202 4. Forma, função e posição dos adjuntos na amostra examinada ............................................205
4.1. Forma dos adjuntos ....................................................................................................................................................... 205 4.1.1. Advérbios ........................................................................................................................................