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Central do Brasil

Beatriz Campos de Andrade


Gabriela Pena Chaves
Lucas Luciano Limberti
Roberta Corrêa Alvarenga

CENTRAL DO
BRASIL
Trabalho de Literatura

Professora Lena Passador

Instituto de Educação Costa Braga

Instituto de Educação Costa Braga – Trabalho de Literatura – Lena Passador – 2ºFB-B 1


Beatriz Campos de Andrade - Gabriela Pena Chaves - Lucas Luciano Limberti - Roberta Corrêa Alvarenga
Central do Brasil
Apresentação :

O filme Central do Brasil é uma das maiores obras do cinema brasileiro dos últimos
tempos. A perfeita harmonia entre diretores, produtores, atores e toda a equipe responsável
por esta grande obra, resultou em um filme emocionante, que tocou o coração de muitos
brasileiros e de telespectadores mundiais, por retratar a miséria mostrando a realidade do
Brasil.
Através de técnicas de filmagem, de cenários e músicas características de cada lugar
vivido pelos personagens, de rimas sonoras e visuais, a mensagem do filme foi sendo
passada, despertando o senso crítico, a sensibilidade humana .

Assim um projeto simples passou a ser uma obra grandiosa, concorrendo e


ganhando diversos prêmios mundiais
Com esse trabalho temos o intuito de desvendar as rimas sonoras e visuais , os
problemas retratados e muito mais .

Beatriz Campos de Andrade


Gabriela Pena Chaves
Lucas Luciano Limberti
Roberta Corrêa Alvarenga

Índice
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Beatriz Campos de Andrade - Gabriela Pena Chaves - Lucas Luciano Limberti - Roberta Corrêa Alvarenga
Central do Brasil

Identificação....................................................................................................................... 1

Apresentação..................................................................................................................... 2

Índice.................................................................................................................................. 3

Conteúdo
Identificação Filme....................................................................... 4

Prêmios................................................................................ 5 / 6 / 7

Enredo............................................................................................ 8

Personagens................................................................ 9 / 10 / 11 /12

Cenários................................................................................. 13 / 14

Tempo............................................................................................ 15

Narrativa....................................................................................... 15

Problemas Sociais........................................................... 16 / 17 / 18

Dissertação..............................................................................19 / 20

Entrevistas............................................................................. 21 á 44

Curiosidades...................................................... 45 / 46 / 47 / 48 / 49

Linguagem Cinematográfica parte I – Linha do tempo.... 50 á 55

Linguagem Cinematográfica parte II.......................................... 56

Fontes de Pesquisa......................................................................... 57

Inter-relações..................................................................................58

Fim............................................................................................ 59 / 60

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Central do Brasil
Identificação do Filme:

Cartazes produzidos
especialmente para a
divulgação no exterior.

Direção WALTER SALLES / Produção ARTHUR COHN MARTINE DE CLERMONT-


TONNERRE /
Produção Executiva ELISA TOLOMELLI LILLIAN BIRNBAUM / Produtor Associado
PAULO BRITO DONALD RANVAUD / Roteiro JOÃO EMANUEL CARNEIRO
MARCOS BERNSTEIN / Baseado em idéia original de WALTER SALLES / Direção de
Fotografia WALTER CARVALHO /Edição SABELLE RATHERY FELIPE LACERDA /
Direção de Arte CÁSSIO AMARANTE CARLA CAFFÉ / Música ANTÔNIO PINTO
JAQUES MORELEMBAUM / Som JEAN-CLAUDE BRISSON /Figurino CRISTINA
CAMARGO / Produção de Objetos MÔNICA COSTA / Assistente de Direção KÁTIA
LUND /Continuidade (Nordeste) ADELINA PONTUAL / Elenco SÉRGIO MACHADO /
Direção de Produção MARCELO TORRES AFONSO COARACY / Coordenação de
Produção BETO BRUNO / Maquiagem ANTOINE GARABEDIAN /Personagens:
Fernanda Montenegro (Dora) / Marília Pêra (Irene) / Vinicius de Oliveira (Josué) / Sôia
Lira (Ana) / Othon Bastos (Cesar) / Otávio Augusto (Pedrão) / Stella Freitas (Yolanda) /
Matheus Nachtergaele (Isaías) / Caio Junqueira (Moisés)

Genero : Drama Duração : 112 minutos Censura : Livre 35 mm / color

Produtora : Video Filmes Estúdio : Miramax Ano : 1998 País : Brasil

Investimento 1.700.000,00

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Prêmios
(até 18/04/99)
Em 1999:
No Brasil:

• PRÊMIO DA ESTAÇÃO BOTAFOGO 99: Os prêmios entregues no Rio de Janeiro


foram de melhor atriz, diretor, roteiro, fotografia, filme pelo público e júri.
• ASSOCIAÇÃO DA CRÍTICA DO RIO DE JANEIRO: Melhor filme.
• APCA 99: A premiação da crítica de São Paulo, rendeu ao filme os prêmios de melhor
filme, atriz, diretor e fotografia.
• MARGARIDA DE PRATA - Melhor filme nacional - CNBB
• PRÊMIO MINISTÉRIO DA CULTURA

no exterior

• BRITISH ACADEMY AWARD 99: Vencedor do prêmio de melhor filme estrangeiro.


• OSCAR - Indicados como melhor filme estrangeiro e melhor atriz para Fernanda
Montenegro – EUA
• GLOBO DE OURO - melhor filme estrangeiro. Fernanda Montenegro teve uma
indicação para melhor atriz de drama. - EUA.

Á direita
Fernanda no
Hall do Oscar
99, á esquerda
Fernanda
agradece o
Globo de Ouro
de melhor
filme.

Fernanda
agradecendo o
prêmio.

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• SATÉLITE DE OURO - Academia Internacional de Imprensa - EUA.

Em 1998:

• FESTIVAL DE CINEMA DE BERLIM - Urso do Ouro: melhor filme – Alemanha


• FESTIVAL DE CINEMA DE BERLIM - Urso de Prata: melhor atriz para Fernanda
Montenegro

Comemoração Walter Salles e Fernanda


Montenegro na premiação do Festilval de Berlim .
Cartaz de propaganda do Festival de Belim
. •

FESTIVAL DE CINEMA DE SAN SEBASTIAN –


Prêmio do público - Espanha
• FESTIVAL SUNDANCE - Prêmio "Cinema 100" - EUA.
• EURÁSIA FILM FESTIVAL - Prêmio especial pela contribuição de "Central do
Brasil"ao renascimento do cinema humanista – Cazaquistão
• FESTIVAL MANAKI BROTHERS - Câmera de Ouro - República da Macedônia
• FESTIVAL INTERNACIONAL DE CINEMA DE FORT LAUDERDALE - Melhor
atriz para Fernanda Montenegro – EUA
• FESTIVAL INTERNACIONA; DE CINEMA DE SARLAT - Prêmio do público –
França
• NATIONAL BOARD OF REVIEW (Associação Norte-americana dos Críticos de
Cinema) - Prêmio de Melhor Filme Estrangeiro - EUA
• FESTIVAL INERNACIONAL DA ARTE DA CINEMATOGRAFIA (Camerimage) -
Golden Frog – Polônia
• NATIONAL BOARD OF REVIEW (associação Norte Americana dos críticos de
cinema) – Prêmio de melhor filme estrangeiro - EUA
• PRIX DE LA FONDATION GAN - França
• FESTIVAL INTERNACIONAL DE CINEMA DE HAVANA – Cuba
Prêmio especial do júri: melhor filme
Melhor ator jovem: Vinícius de Oliveria
• LOS ANGELES FILM CRITICS - Melhor atriz do ano - Fernanda Montenegro – EUA

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Fernanda Montenegro concorreu ao Oscar de melhor atriz,


mas perdeu.
O importa é que ela chegou lá, levou o Brasil até o topo !

Elenco e diretor foto pré-premiação

Comemoração
indicação.

Sobre a história.
Elenco e diretor em agradecimentos
Enredo : após apresentação do filme.

O filme Central do Brasil tem um teor dramático, conta a história de mãe (Ana - Sôia Lira)
e filho que através de cartas procuram o pai. Imprevistos acontecem Ana morre

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acidentalmente e josué se vê sozinho no mundo até que encontra Dora (Fernanda
Montenegro) mulher que ganha a vida escrevendo cartas na central do Brasil no Rio de
Janeiro. E juntos cruzarão o Brasil inteiro em busca do pai que o garoto nunca conheceu.

Personagens :

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Dora (Fernanda Montenegro) : A Dora é uma professora aposentada que mora no
subúrbio do Rio de Janeiro e luta para sobreviver no Brasil do real. Para se sustentar, ela
trabalha como escrevedora de cartas na Central do Brasil. É uma mulher amarga e mau
caráter, não tem o mínimo de compaixão para com as pessoas, e isso fica bem evidente pelo
fato de ela não enviar as cartas que as pessoas lhe pedem para escrever . Não tem nenhuma
vaidade, usa roupas masculinas, está sempre despenteada e com os cabelos sujos.
O encontro com Josué, representa muitas mudanças na vida de Dora, com ele, ela aprendeu
a ter compaixão, descobriu o afeto, a importância de amar e ser amada, a importância de
ajudar o próximo e etc, e isso tudo fez com que suas características psicológicas mudassem
também, pois, Dora deixou de ser uma mulher amarga, mau caráter e infeliz, para ser uma
pessoa doce, compreensiva e com capacidade de amar.

Josué (Vinícius de Oliveira): Josué é um menino de 9 anos, que por causa de sua vida
miserável e difícil e pela ausência do pai acaba por ter um desenvolvimento precoce, tendo
um instinto de proteção em relação a mãe.
Conheceu Dora, nas vezes em que foi com sua mãe escrever cartas para seu pai, na
incansável busca para conhece-lo.
Sua mãe morre atropelada num acidente perto da Central do Brasil, e Josué vendo-
se abandonado se sente inseguro, perdendo todo o seu amadurecimento precoce. Para se
proteger das situações difíceis as quais ele passa em boa parte do filme(violência,
abandono, fome, solidão...) eles tem um comportamento violento e estúpido, mas nunca
perde a esperança de encontrar seu pai.
O encontro com Dora, também representa muitas mudanças na vida de Josué, pois,
ele vê nela, uma pessoa para se apegar, para fugir de todos os seus problemas, e acaba se
transformando numa criança mais dócil, que sabe dar e receber carinho.

Ana (Sôia Lira): Ana é uma migrante do Nordeste Brasileiro, que mora no Rio de Janeiro
com seu filho Josué. Desde que deixou sua terra, a única coisa que faz é tentar sobreviver

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em uma cidade grande, e tentar educar seu filho da melhor maneira possível. Ana morre
atropelada, deixando seu filho sozinho.

Irene (Marílha Pêra): Irene é uma amiga e vizinha de Dora, a única pessoa com quem ela
realmente conversa. Seu gênio e suas características são bem opostos aos de Dora,
enquanto Dora não se preocupa mais com os códigos morais e éticos, e é uma pessoa
pessimista e mau caráter, Irene sabe diferenciar o que é certo e o que é errado, acha que
toda luta pela sobrevivência tem limites e é uma pessoa otimista, alegre e comunicativa.

Pedrão (Otávio Augusto): Apesar de ser um policial (xerife) na Central do Brasil, ele é um
mau caráter e marginal, em troca do ponto e da “segurança”, ele cobra uma contribuição
regular de cada camelô. Tem um jeito canastrão, mas mesmo assim é temido, cria, impõe as
leis e os códigos da comunidade que ele governa.

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Yolanda (Stela Freitas): Yolanda, a princípio não parece ser marginal, parece sim, ser uma
mulher de classe média, por causa de sua aparência e de seu modo de vestir. É uma pessoa
impenetrável, a sua fala é descontínua e seus olhos custam para se fixar num ponto. Seu
“trabalho é pegar crianças abandonadas para a adoção.

César (Oton Bastos): César é um caminhoneiro de 60 anos, um evangelista solitário que


não conhece a vida fora da estrada.
Por trás de sua fala mansa e de seu jeito gentil, se esconde um homem de meia idade que
desconhece sua sexualidade e afetividade.

Isaías (Matheus Nachtergaele): Irmão de Josué que mora junto com um outro irmão
chamado Moisés em Pernambuco. Isaías tem 20 anos, é uma pessoa extrovertida,
comunicativa e popular, pois trabalha o dia inteiro na rua. Esta em paz com o seu passado, e
tem a esperança de ver sua família reunida de novo, e muitas saudades dos pais.

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Moisés (Caio Junqueira): Ao contrario de Isaías, Moisés é um rapaz solitário e


introvertido, não é nada popular, pois passa a maior parte do tempo trabalhando na
marcenaria que um dia foi de seu pai. É uma pessoa com um temperamento obsessivo.
Guarda muitos rancores do passado, em especial do pai.

Cenários

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O cenário do filme pode ser dividido em três partes, de acordo com a ordem de
acontecimento são elas: Primeira parte: A Central do Brasil e o apartamento de Dora, mais
aparecem também outros lugares como, as ruas perto da estação de trem, o prédio e o
apartamento de Yolanda e etc, essa parte se caracteriza pela cor, tons pastéis e ocres que
dão a impressão de sujeira e abandono. Segunda parte: as estradas e os lugares por onde
Josué e Dora vão passando até chegar à Pernambuco , restaurante, loja de alimentos e etc.
Terceira parte: a cidade Bom Jesus do Norte, cujo o nome real é Juazeiro do Norte, uma
cidade que se encontra em pleno sertão pernambucano. Essas duas últimas partes se
caracterizam pelas cores típicas do sertão e pela claridade, que é muito maior do que na
primeira parte.

ALGUMAS FOTOS DOS CENÁRIOS

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OS CENÁRIOS ESTÃO EM CONSTANTE MUDANÇA.

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Tempo da História de 13 á 15 , 20 dias

Narrativa :

Central do Brasil é um filme que retrata a realidade de muitos brasileiros que vivem em um
país cheio de desigualdades sociais e econômicas, aonde os mais prejudicados são os mais
pobres. Muitos desses vivem a pobreza em subúrbios e favelas de grandes cidades como
Rio de Janeiro e São Paulo, porque migraram de um Nordeste pobre para os grandes
centros urbanos, com a ilusão de uma vida melhor que na maioria das vezes não encontram,
e mesmo em meio desta dificuldade, lutam para continuar mantendo os laços com seus
entes queridos.
É baseado nesta realidade que o filme acontece, pois é esse o drama vivido por
Josué (Vinícius de Oliveira) um garotinho de 10 anos e sua mãe Ana ( Sôia Lira), que
procuram o pai do menino, através de cartas, escritas por Dora (Fernanda Montenegro),
uma professora aposentada que ganha a vida escrevendo cartas na Central do Brasil no Rio
de Janeiro, para pessoas analfabetas.
Ana acidentalmente morre atropelada, e Josué fica abandonado nos bancos da
grande estação de trem. Dora mesmo a contragosto leva o menino para sua casa, e
incentivada pela sua amiga Irene (Marília Pêra) se vê obrigada a levar o menino ao
encontro do pai no Nordeste. Aguçada por este instinto fraternal, acaba por se envolver com
Josué, iniciando uma grande amizade.

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Central do Brasil
Problemas abordados pelo filme:

O filme Central do Brasil mostra os problemas do Brasil de uma forma diferente. Ele
abrange os problemas gerais que acontece á todos , e os problemas psicológicos causados
pela conturbação da vida dos habitantes do subúrbio do Rio de Janeiro .É claramente
mostrado no filme que um problema é a causa ou consequência de outro, ou seja um é
decorrente do outro.
O tema central, o que dá início para conflito principal entre as personagens já é um
problema enfrentado pelo Brasil a muitos anos : o analfabetismo , que cada dia aumenta
mais, consequência da pobreza e da desigualdade social, hoje desde cedo as crianças estão
trocando a sala de aula pela exploração do trabalho infantil . O analfabetismo também
causa muitos outros problemas como a alienação de um povo, o desemprego, o êxodo e etc
. . . Para entender melhor alguns dos problemas físicos listados:

• Pobreza: causado principalmente pela diferença social que dá muito a poucos e pouco a
muitos e traz como consequência as dificuldades que a pobreza causa.
• Dificuldades da pobreza : existem muitas , entre elas o frio, a fome, o desemprego, o
analfabetismo, o desabrigo que vão dar início a violência urbana
• Violência urbana a população que não tem dinheiro para comer e viver pode acabar no
mundo da violência, principalmente no mundo dos assaltos. Para combater esses
assaltos a polícia vem ficando cada vez mais violenta, deixando de ser uma proteção ao
cidadão se tornando mais um tipo de violência urbana.
• Situação dos trabalhadores pobres: ainda como consequência das dificuldades da
pobreza, essa situação é precária fazendo com que cada vez mais os trabalhadores
optem por trabalhos alternativos usando o que se sabe, passando a trabalhar como
camelôs, prostitutas, escritor de cartas, e até trabalhos com a igreja, que irão ser causas e
consequências de outros problemas
• Menores abandonados: muitas crianças e adolescentes que abandonados por algum
motivo, como problemas com os pais ou família, acabam por ficarem vagando pelas
ruas sem caminho certo ou às vezes entram no caminho das drogas, do roubo, da
adoção, nunca se sabe o que pode acontecer
• Adoção e maus tratos: grande parte das associações de adoção do subúrbio estão em
situações precárias, com a desculpa de que a criança irá arranjar uma família rica ela é
vendida e pode acabar indo para famílias piores, para a prostituição e até serem mortas
para a obtenção de seus orgãos e quase nunca para um bom caminho
• Êxodo, dificuldades de transporte, seca e solo seco: muitos trabalhadores do campo
migram para as cidades em busca de melhores chances de vida que quase sempre não
encontram, esse tipo de êxodo é o êxodo rural que causa muitos problemas como a
superpopulação e o desemprego. Há tambem outro tipo de êxodo, o êxodo rural ao
contrário, que ocorre quando alguns trabalhadores não conseguem nada nas grandes
cidades e acabam por quererem voltar a terra natal encontrando outros muitos
problemas, como a dificuldade de transporte que por exemplo do Rio de Janeiro a Bom
Jesus do Norte são muitos, de péssimo estado e caros os ônibus são o único meio.
Chegando na sua terra vão começar a encontrar problemas como a seca nordestina que
prejudica o solo que fica impróprio para o plantio. O trabalhador não sabe onde é pior:
na cidade ou na terra natal.

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Através da análise desses problemas podemos perceber que muitas vezes um fato é uma
causa e consequência de outros problemas. Verifique o quadro para entender melhor:

QUADRO DOS PROBLEMAS FÍSICOS


PROBLEMA CAUSA CONSEQUÊNCIA
Pobreza Diferença Social Dificuldades da Pobreza
Dificuldades da Pobreza Pobreza Violência Urbana
Analfabetismo Pobreza Alienação, Desemprego,
Êxodo
Violência Urbana Dificuldades da Pobreza Situação precária dos
Trabalhadores
Situação precária dos Dificuldades da Pobreza Menores Abandonados
Trabalhadores
Menores Abandonados Situação precária dos Adoção e maus Tratos
Trabalhadores
Adoção e maus Tratos Situação Precária dos Violência Urbana
Trabalhadores
Êxodo, seca, solo seco, Diferença social e Pobreza e Desemprego
transporte precariedades da situação do
trabalhador

Esses foram os problemas físicos conheça agora os problemas psicológicos

• Solidão da criança abandonada: quando a criança está abandonada, ela se sente perdida
e dependendo da pessoas que irá ajuda-la ela pode escolher dois caminhos: a
agressividade e a esperança
• Agressividade X Esperança. A criança abandonada quando não encontra alguém que lhe
dê carinho e atenção, ela acaba por se tornar agressiva, sendo a agressão moral ou física,
um mecanismo de defesa contra a sociedade injusta. Caso contrário se a criança
encontrar uma pessoa que a ajude e acredite nela, ela vai ter esperança de que sua vida
pode melhorar, de que a realização de seus sonhos pode acontecer, e que ela pode se
tornar uma pessoa melhor a cada dia que passa, pode até descobrir que o amor, a
amizade e a esperança são necessárias para uma vida melhor .
• Crença na religião: hoje em dia as pessoas acreditam e dão muito valor a religião a
prova disso é a realização de ofertas e sacrifícios aos diversos santos. Essa fé é muito
parecida com a esperança, porque eles acreditam num desejo e quando é realizado eles
pagam a promessa, que é muito respeitada e divinizada de diferentes jeitos por diversos
povos culturais.

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QUADRO DOS PROBLEMAS PSICOLÓGICOS
PROBLEMA CAUSA CONSEQUÊNCIA
Solidão da criança Pobreza e dificuldades da Agressividade X esperança
abandonada pobreza
Agressividade X esperança Solidão da criança Violência urbana X bom
abandonada desenvolvimento da criança
Crença na religião A insegurança e cultura Alienação X esperança
popular

Através dos problemas psicológicos podemos relaciona-los com os problemas físicos e até
podemos dizer que muitos dos problemas psicológicos são decorrentes dos físicos. Essa
união de problemas foi mostrada muito bem no filme através de cenas marcantes e rápidas
como é a realidade brasileira, onde tudo aconteceu e muito rápido e vai marcando a história
da vida urbana brasileira.

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Dissertação

“ As crianças de hoje são o futuro de amanhã ! “ Quem nunca ouviu essa frase ?
certamente ninguém ! A poucos anos essa frase foi criada com o intuito de que a educação
brasileira fosse progredir a tal ponto que nos dias de hoje, o ano 2000 ou a virada do século,
as nossas crianças seriam grandes profissionais.
Bom, não foi bem isso que aconteceu, a cada dia que passa as pessoas ficam mais
pobres agravando inúmeros problemas brasileiros inclusive a educação. Hoje são poucos
que conseguem estudar em uma boa escola. E as escolas boas ficam cada vez mais difíceis
de se encontrar. Um exemplo claro disso é o caso das escolas públicas. Existem muitas pelo
Brasil a fora, só que a maioria não funciona ou não é suficiente.
As desculpas são múltiplas: Não há dinheiro para as obras, falta de professor, falta
de segurança para os alunos, dificuldade de vagas e infinitas outras que com o passar do
ano só regrediriam.
E as crianças ? Aquelas que seriam o futuro de amanhã ? Elas vão ser o futuro, mas
não do jeito que imaginávamos. Vai ser o futuro onde as crianças de 3, 4 anos que
descascando mandiocas lidam com facões maiores que suas mãozinhas, crianças que
abandonadas entram no mundo das drogas, crianças prostitutas, crianças que fazem de tudo
menos estudar.
A situação é crítica e parece que ninguém quer resolver o problema. Só se
preocupam com as aparências, tentando fazer do Brasil um grande país de exportações,
relações internacionais, ótima economia mas esquecem do principal : os problemas internos
do nosso país.
Como que o Brasil pode se tornar um grande país se a maioria da população é
pobre, não tem dinheiro para comer, muito menos para estudar. Hoje temos poucos que
serão grandes profissionais, e muitos que não sabem nem ler ou escrever o próprio nome.
Será que ninguém percebe que o problema é grave e que precisa de uma solução
rápida e eficiente ? Mas qual será essa solução ? Com certeza não é construir mais escolas e
colocar professor para dar aula .
Como diz o ditado “ O buraco é mais embaixo “ . O analfabetismo é decorrente de outros
problemas que sem a solução deles primeiro nada será resolvido.
É preciso ter mais empregos tanto nas grandes cidades como no campo, desse modo
é mais fácil evitar o êxodo e manter o equilíbrio da população, as pessoas precisam ser
melhor remuneradas para que não haja a exploração infantil. A educação precisa ser
valorizada, ou seja, o povo precisa ter consciência de que o estudo é fundamental para o
desenvolvimento de tudo e de todos. Só ai então podemos iniciar o programa de educação
do povo brasileiro.
Se todas essas atitudes fossem tomadas e se nossas escolas, inclusive as públicas tivessem
qualidade de ensino, vagas suficientes, segurança, nos teriamos nossa população
alfabetizada.

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Mas as pessoas não percebem que o analfabetismo é uma das barreiras mais graves
que influencia no desenvolvimento brasileiro, pois a cada dia diminui o número de
profissionais competentes. Quando cada brasileiro sentir na carne as consequências do
analfabetismo aí então as atitudes serão tomadas para a reversão da situação.
Enquanto isso ... “ as crianças de hoje são o futuro de amanhã “ . Esse amanhã está
longe de chegar para nos brasileiros.

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Entrevistas

Selecionamos algumas entrevistas

1 -Bate-papo com Walter Salles, diretor de “Central do Brasil”


Internet ao vivo / segunda feira, 06 de abril de 1998
Homepage Universo on line – www.uol.com.br

Como é uma entrevista que as pessoas perguntam o que querem selecionamos somente
algumas perguntas as mais interessantes

Walter como ficará o Vinícius daqui para frente ?


A Produtora do filme, Vídeo Filmes, vai assegurar a educação do Vinícius até a faculdade.
Habitação também. É uma maneira de agradecer pelo talento e seriedade que ele dedicou ao
filme.

Walter Como foi criada a personagem Dora ?


Dora foi surgindo a partir do nosso contato com os usuários da central. Foi um processo de
laboratório, por aproximação, e que contou com a sensibilidade incomum de Fernanda
Montenegro . Fernanda ia sumindo e pouco a pouco começou a surgir Dora, até que a
personagem passou a fazer parte do mundo da central, mesclou-se a ele.

Walter Qual a diferença entre Central do Brasil e Terra Estrangeira ?


Central é um filme sobre a busca : a busca do afeto, a busca implícita em toda troca de
cartas, a busca do pai, a busca do país ... Em termos formais, a câmera tenta estar
continuamente a serviço dos personagens e em busca deste outro Brasil. É uma sensação
bem diferente do clima de urgência, quase jornalístico, que se vivia no início dos anos 90 e
que Terra retrata. São dois filmes complementares e Central não teria existido sem Terra
Estrangeira.
Walter o que Central do Brasil tenta mostrar?
Central tenta mostrar o país real em oposição ao país do Real, aquele das estatísticas
oficiais.

2 – Entrevista com Walter Salles em coletiva no Recife Monte Hotel.


Dia 22/03/99
Fonte: Jornal Recife

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Você pode falar da recorrência do tema estrada na sua obra?

O cinema tem uma tradição de se apegar ao tema da estrada. Uma vez perguntaram para
Jean-Claude Carrière - roteirista dos filmes de Bruñel - qual era a sua definição de cinema e
ele disse: "Cinema é um homem que chega a cavalo numa cidade deserta". Porque ele tinha
começado a ver cinema vendo os filmes de western, que não deixam de ser filmes de
estrada. Na verdade, não existe um gênero de filme de estrada, existem gêneros que
utilizam o filme de estrada. Por exemplo, Vidas Secas, que é um filme sobre migração
interna no Brasil, sobre a situação fundiária, sobre a decomposição das relações humanas e
afetivas por causa desse desajuste social brasileiro, querendo ou não, é de estrada. Bye,
Bye, Brasil é um filme de estrada, sobre a desestruturação do Brasil, início do caos
brasileiro nos anos 70, com a imposição do milagre econômico que mostra o interior do
país. Neste ponto de vista é muito interessante porque se você mergulha em todas as
possibilidades que o filme de estrada dá, você mergulha numa geografia física e humana
que você talvez desconheça.

A segunda característica do filme de estrada, do ponto de vista dramatúrgico, é que ele


coloca os personagens principais em confronto com o desconhecido, com aquilo que eles
não mais conseguem dominar. A Dora, por exemplo, no meio dela, na casa dela, ela tem o
domínio sobre as cartas, ela domina aquelas pessoas, tem poder sobre elas. Na medida em
que ela se confronta com o desconhecido, ela perde esse controle, e é aí que se inicia o
processo de mudança. No cinema, os personagens que eu acho interessantes são os que tem
um grande arco psicológico, ou seja, começam num lugar e terminam noutro.

é uma simpatia especial sua em relação a essas temáticas?

Por isso mesmo, pelo fascínio histórico do Carrière por filmes assim e também por esssa
possibilidade dramatúrgica, de começar num lado e terminar em outro. E finalmente o John
Cassavetes, diretor de cinema independente americano, dizia o seguinte: "Eu sou na
verdade fascinado por tudo aquilo que eu não conheço". E eu subscrevo a tese. É mais
interessante falar daquilo que você ainda não conhece do que daquilo que você já conhece.
O filme de estrada é uma viagem iniciática ou abre as portas para uma viagem iniciática,
não somente para os personagens mas como para quem faz o filme. Então, cinema pode ser
uma forma de conhecimento também, inclusive para mim, que estou fazendo o filme, estou
aprendendo no filme.

Impressionou a maneira com que você retratou os locais de estrada, que só quem viaja,
quem tem aquela experiência, percebe. Como você conseguiu?

Nós rodamos dez mil quilômetros pelo interior desse país, pelo sertão. Na verdade, nós
voltamos várias vezes porque caiu uma chuva fora de época que nos obrigou a refazer todo
o processo de locação e com isso nós fomos ficando, muitas vezes dormindo com
habitantes em local que não tinha hotel. Aí a gente foi encontrando aquela que é a
descoberta central do filme, que é a descoberta do afeto. Esse é um filme sobre a
possibilidade de ainda existir algum afeto e isso é o que dá essa reversão ao personagem da
Dora. O afeto facilita, possibilita a ressensibilização do personagem principal do filme.

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Central do Brasil

Em relação à fotografia e aos ambientes. A gente sente que existe pouca intervenção
da fotografia nos ambientes, a idéia era essa mesma?

Absolutamente...

A fotografia se adapta aos ambeintes?

Sim. Aí eu acho que é uma homenagem que a gente faz para o Cinema Nnovo. O Hector
Babenco me ligou há pouco tempo, quando viu o filme - eu sou fã do Hector, ele é muito
generoso - e me disse: "Eu revi o rosto do Brasil na tela". O Cinema Novo fez isso, colocou
o rosto do país pela primeira vez na tela. É preciso lembrar que antes do Cinema Novo, a
representação que se tinha do Brasil era a de um país identificado cinematograficamente
entre quatro paredes, nos estúdios da Vera Cruz. E antes disso, através de um cinema muito
divertido mas paródico, o referencial de uma experiência americana que eram as
chanchadas da Atlântida.

Lembrando que há um tanto de neo-realismo também...

Claro. Mas o cinema novo se alimentava do neo-realismo que, por sua vez, abriu todo um
leque de possibilidades para o cinema. O neo-realismo tirou o cinema do estúdio
hollywoodiano e jogou a câmera na rua e se inspirou na rua para criar uma nova estética,
mas também e sobretudo, uma nova ética cinematográfica. Isso é, que vem do
neorealismo...

A utilização de não atores, como o garoto...

Também nisso. Então vamos lá: na utilização de não atores - o que não quer dizer que não
sejam atores de grande talento - também tem isso; na utilização de pouca ou nenhuma luz
artificial; na revisitação de uma geografia física, o filme passa por Milagres, por exemplo,
terra do Dragão (O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro, de Glauber Rocha); ou
uma geografia humana que são os rostos que a gente procurou desde o início; o filme
homenageia de alguma forma aquilo que veio antes, ou seja, ele é grávido dessa coisa. Eu
não estou em nenhum momento querendo comparar o filme aos clássicos que são dez vezes
melhores do que ele, eu não estou aqui fazendo isso. Mas estou prestando uma homenagem
a quem veio antes e abriu caminho para fazer isso que você perguntou. A fotografia é dessa
forma? É, é dessa forma e é porque outras pessoas fizeram isso antes e abriram caminho.

Porque especificamente aquelas locações?

Porque nós descobrimos ali as características que a gente buscava. Nós queríamos as casas
do interior e valorizar o mestre de obras do sertão. A gente estava procurando por isso mas
houve uma certa "beeneagaização" do Brasil. Aliás, uma coisa que a gente quis foi não opor
o urbano com o rural, dizer "olha, tudo o que acontece aqui é desinteressante e é aqui que
há uma possibilidade de redenção", tanto que no final a gente volta para uma estrutura que
para mim é tão desumanizada quanto no início, na Central: aquele conjunto habitacional
que na verdade joga, projeta uma desesperança em vista daquilo que é o de estacionar a

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gente no meio do nada, sem trabalho... E porque a Dora deixa o menino ali? Pela
possibilidade de descoberta do afeto, por isso que ela não se importa de deixar a criança
naquele momento. Então a gente buscou cidades que tinham alguma forma de preservação,
a gente precisava da oposição dessa cidade com aquele conjunto do BNH do final do filme.
E ali houve uma invasão, como foi dito no filme. O conjunto habitacional ficou pronto e,
pra se ter uma idéia, durante dois anos e meio aquilo ficou parado - é à margem de Vitória
da Conquista - e o político do PFL local, o prefeito, não entregou as casas para as pessoas
esperando as próximas eleições. E aí as pessoas invadiram, aquilo ali é tudo invasão. A fala
do personagem Isaías é calcada no que aconteceu. E essa injeção do real no filme foi
constante, ou seja, o documental foi irrigando a ficção e isso eu acho que só acontece
porque o filme tem uma estrutura de roteiro bastante sólida.

O roteiro foi escrito 20, 22 vezes mas sempre numa mesma direção. Nisso eu acho que os
roteirista foram muito felizes de conseguir avançar numa única direção; e isso é difícil.
Quando se rescreve é preciso ter desejo de um lado e humildade do outro, porque está
sempre se botando em cheque aquilo que você escreveu. E eles conseguiram, na verdade,
manter esse vetor de desenvolvimento do início ao fim e deu uma estrutura suficientemente
sólida para permitir a injeção do real lá dentro, para conseguir botar a improvisação, irrigar
e fazer com que o filme tivesse uma relação orgânica com o que estava acontecendo por
acaso.

Por melhor que seja o elenco, nem sempre o resultado é positivo como foi em Central do
Brasil. Fernanda Montenegro e Marília Pera, que são duas atrizes de capacidade
absolutamente reconhecidas, e você trabalhou também com não atores, que é o caso do
Vinícius. Eu gostaria que você falasse um pouco da condução dos atores que é
extremamente importante.

A partir do Terra Estrangeira, e isso eu devo à Daniela Thomas que foi um ponto
importantíssimo, nós desenvolvemos um método de trabalho para fazer face ao fato de que
nós só teríamos cinco semanas para filmar o Terra... e um orçamento de R$ 600 mil,
relativamente apertado. Então, foi criado um sistema em que nós ensaiamos o filme durante
dois meses antes dele ser filmado e isso possibilita duas coisas: primeiro, que você se
aproxime do roteiro e dos personagens e se aprofunde, ganhando em profundidade nesse
momento. E começa a consertar antes do taxímetro estar rodando tudo aquilo que às vezes
as pessoas consertam quando o filme está acontecendo. Então o roteiro do Terra foi todo
polido e rescrito antes, e isso permite também que os atores que não têm uma participação
muito grande - e no Terra... há várias participações especiais - esses atores começavam a vir
para os ensaios e começavam a perceber qual era a voltagem emocional do filme. Muitas
vezes, quando você faz um filme, as pessoas chegam para três ou quatro dias de filmagem e
caem de pára-quedas ali no meio e muitas vezes a forma de interpretação não se coaduna
com o todo. Agora, se você ensaia antes, todo mundo fica sabendo de que filme está
participando.

E esse método foi o mesmo utilizado em Central. Os atores e não atores ensaiaram e
transpiraram da mesma forma, e isso eu tenho que agradecer à generosidade das atrizes e
pela incrível busca, também, dessa unidade; porque isso passa também pela inteligência
interpretativa dos atores que têm uma experiência muito grande. Passa pela intuição e

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Central do Brasil
talento de quem está começando e passa pelo fato das atrizes importantes desse filme serem
realmente generosas e estarem procurando a mesma coisa. Então é o ensaio que possibilita
que todos os atores estejam fazendo o mesmo filme e isso também trouxe a possibilidade de
acabar mais rápido - no caso de Terra Estrangeira, a filmagem durou quatro semanas e
meia, menos tempo que tínhamos para filmar. Para Central tínhamos dez semanas e
filmamos em nove. E fazendo tudo o que a gente tinha que fazer. Esse método ajuda muito
e traz outra qualidade que é interessante: a possibilidade da improvisação, porque na
medida em que a gente sabe exatamente o que tem em mãos, porque ensaiou aquilo
exaustivamente dois meses, quando descobre alguma coisa na hora (e sempre descobre
alguma coisa na hora porque quando você coloca a câmera tem sempre um pequeno
milagre que acontece), você consegue julgar aquilo à luz do ensaio e você integra o que não
estava no roteiro.

A cena da romaria é um bom exemplo disso. É uma cena que foi...

Foi real?

Não, é uma reencenação de uma cena que nós vimos realmente em Juazeiro (do Norte).
Aquelas pessoas que começam a falar, os romeiros que pedem pela proteção de todos os
outros romeiros, aquela cena é totalmente documental. Aquelas pessoas ali não estavam
falando texto nenhum, elas simplesmente começaram a improvisar e aí, com a experiência
do documentário, rapidamente você chega com câmera, põe ali e registra aquele momento.

Com as cartas foi a mesma coisa...

é, foi a mesma coisa. Quando a gente instalou a mesinha da Dora na Central do Brasil, os
usuários da Central começaram a sentar, com uma inocência de câmera. As pessoas
começavam a sentar e não se importavam com o fato de que elas estavam no meio de todo
um aparato cinematográfico, elas esqueciam aquilo. E eu fiquei me perguntando porque
isso estava acontecendo. Há uma necessidade premente de ser ouvido por parte de quem
não é ouvido nunca. Voltando para aquilo que o Cinema Novo fez, ele cristalizou uma
escuta, deu voz a quem não tinha voz, e de certa maneira se for olhar bem, isso acontece na
literatura brasileira. Foi exatamente o que o Guimarães Rosa fez, ele cristalizou uma escuta,
botou no papel uma forma, uma linguagem, uma gramática que não era ouvida antes dele.
Não estou querendo comparar, novamente, estou dizendo que isso aconteceu antes e que
basta querer ouvir.

Nós não filmamos em Juazeiro, que é um lugar onde a câmera entra muito. Lá em Cruzeiro
do Nordeste, onde a gente estava, as câmeras não entram, é uma cidade que fica à margem
da estrada, uma cidade de romeiros mas não é um centro de romaria, as pessoas vão para
Juazeiro dali, na verdade elas estavam ali reproduzindo alguma coisa, mas pouco a pouco
aquilo foi adquirindo um sentido de realidade que só é possível porque aquelas pessoas têm
na verdade a fé que têm. E nesse momento da filmagem aconteceu uma coisa interessante
que foi o seguinte: nós filmamos com 700 pessoas e chegou um momento em que só para
fazer aquela entradinha na Casa de Milagres nós precisávamos de 50 pessoas, e nós já
tínhamos filmado durante 12 horas. Nós pensamos em quem seriam os 50 que ainda teriam
paciência de ficar aqui. Então pensamos em escolher as pessoas mais jovens que teriam

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uma resistência maior. O que acabou acontecendo é que quando fomos dizer para as
pessoas que tinha acabado a filmagem foi uma revolta! Todo mundo queria fazer parte das
50 pessoas que ficaram e isso é muito diferente daquilo que acontece numa filmagem no
Rio de Janeiro.

Eu tento não trabalhar com o que se chama de figurante profissional, as pessoas que fazem
novela, elas não sabem o que é o filme, não se importam e chegam fazendo duas perguntas:
quando acaba e a que horas é o lanche? (risos) E aqui foi exatamente o contrário; no
interior de Pernambuco houve uma relação de afeto, por isso que a gente está voltando lá
hoje, que foi de extrema generosidade com a gente. As pessoas abriram as portas. Tanto que
o dia mais difícil dessa filmagem toda foi o último dia na cidadezinha para a qual estamos
indo hoje (Cruzeiro do Nordeste).

Só vou contar uma rápida história: quando a filmagem estava acabando nós ficamos com o
que se chama de segunda unidade, só fazendo passagem de ônibus, de caminhão e a equipe
principal foi embora. Então ficamos em uns 15, o Vinícius ficou e mais 25 foram embora
(éramos uns 40 naquela cidade) e na hora de ir embora da cidade, nós fomos
cumprimentando todo mundo e o Vinícius tinha ficado amigo de um monte de gente, tinha
arrumado umas namoradas e ele tem um grande amigo na cidade que depois foi visitá-lo no
Rio que se chama Fred, o "Mordidinha", que se abraçou com Vinícius e foi uma cena muito
emotiva, com a presença da mãe e da família do Mordidinha. A gente entrou nos carros,
essas 15 pessoas em quatro ou cinco carros que estavam lá. Nessa cidade há umas 700
pessoas. A cidade chama Cruzeiro do Nordeste, mas eles ainda guardam o nome antigo,
Placas, e aí as pessoas foram se aproximando, as pessoas da cidade que haviam participado
da romaria,e cercaram os carros. Uma voz na capela começou a cantar uma música que está
no filme, que é um bendito da Nossa Senhora das Candeias que pede proteção para os que
estão na estrada. Na verdade, naquele momento eles nos colocavam como os romeiros
tomando a estrada. E aí então 700 vozes se levantaram...

Você chorou?

Ah sim. (risos)

Porque você também tinha que chorar depois de fazer tanta gente chorar com esse filme...

As pessoas saíram do carro e Vinícius foi colocado nos ombros. Alguém o carregou.

Foi registrado?

Não, porque eu acho que tem certas coisas que não devem ser registradas, você guarda com
você. Até quero falar sobre isso. Acho que a gente faz parte de uma sociedade visual onde
tudo se registra. Uma coisa que me deixou muito chocado... Vocês se lembram do acidente
do avião da TAM? O avião caiu em São Paulo, em cima de casas e uma das pessoas cuja
casa havia sido atingida com a família dele dentro, pegou uma VHS e começou a registrar
aquilo e vendeu para a Rede Globo, em vez de socorrer as próprias pessoas da família. Isso
faz parte de um desvio da cultura visual que é grave. Tem gente que fala disso melhor do
que eu.

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Win Wenders fala...

É, ele fala até um pouco demais sobre isso, agora. Fala de uma forma moralista mas ele tem
razão. Há um excesso de tudo ver. Acho que a gente guarda essa imagem justamente porque
ela não foi obrigatoriamente registrada, ela está dentro da gente. Eu sou a favor disso. A
favor de não tudo ver, não tudo registrar, não tudo mostrar. Acho que o cinema, inclusive,
às vezes é poderoso justamente porque as coisas acontecem fora de campo. Na época da
Nouvelle Vogue uma das mais fortes correntes era a que falava do off shore, do fora de
campo. As coisas importantes aconteciam fora de campo e eram intuídas e de alguma forma
aquilo chamava a atenção para o que você não via, mas que ficava dentro de você
justamente porque não estava vendo aquilo.

Falando disso que não se vê: parece que a experiência, ontem, da recepção da platéia foi
muito especial, não foi simplesmente a recepção a um bom filme. Tem alguma coisa além,
alguma química. Me parece então que esse filme está com uma sintonia com algo que o
país precisa, ou aspira, ou alguma coisa que o país não tem e quer ter. Como você vê isso,
que espécie de sintonia é essa que você alcançou talvez mesmo à sua revelia?

O Kiarostami, numa entrevista que ele deu há pouco tempo, aliás o Kitano numa outra
entrevista falou também, que tem coisas que pertecem à ordem do Indizível, que você não
consegue na verdade verbalizar e explicar. Eu posso tentar mas acho que não estarei lhe
dando uma resposta completa. O que toca as pessoas? Acho que a gente está cansado de
viver no país da individualidade e da impunidade. Esse é um filme sobre uma pessoa que
não manda cartas e num nível simbólico passa a mandá-las. Uma pessoa que se tornou
cínica e se dessensibilizou ao longo da história, mas ela procura - um pouco como todo
mundo, talvez - uma segunda chance e isso é trazido pela descoberta do afeto, pela
possibilidade do afeto. Portanto, pela descoberta do outro. Invertendo esse eixo de
migração Norte/Sul, o filme também penetra num Brasil talvez mais simples do que aquele
que tentam nos vender desde o milagre econômico, mas onde há uma possibilidade de
humanismo e daquilo que o Caetano Veloso chama de Fátria, em oposição à Pátria. Essa
talvez seja uma explicação, quer dizer, do público querer viver num país onde a
solidariedade e o humanismo são possíveis em oposição a um país da impunidade e ao país
de Sérgios Nayas.

Nesse sentido, o filme não pretende ser um filme político, nem normático, mas entra,
querendo ou não, nesta instância, porque ele discute a questão da ética. O que há no Brasil é
uma diferença crescente entre desejo e possibilidade de realização desse desejo. Eu acho
que tem um desejo claro de se viver num país mais ético do que esse que a gente consegue;
e por outro lado, nas instâncias política e jurídica isso não se configura. Então, há por um
lado uma indignação nacional generalizada quando aqueles meninos de classe média, filhos
de desembargador de Brasília, queimam um índio pataxó. Agora, isso é a reação da
população em geral, mas na instância de quem decide, aquilo vai cair no círculo vicioso da
impunidade. Então são dois países: um é o país real e outro é o oficial.

Talvez o filme funcione porque ele acredita no país real em oposição ao oficial. Isso talvez
explique a reação aqui dentro do país, mas a reação em Berlim foi parecida com a de
ontem; a reação em Sundance foi parecida com a de ontem. A reação nas salas ontem - eu

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estava falando com o Ademar (de Oliveira) em São Pualo, onde houve uma pré-estréia (no
Espaço Unibanco) e era para ser numa sala e acabou passando para três - e as pessoas
levantaram para aplaudir a tela, não tinham os atores. Então o filme toca em alguma coisa
que eu não consigo bem explicar, eu posso tentar. Fora do Brasil, com uma certa
generalização da ordem neo-liberal, eu acho que os critérios com os quais as pessoas vivem
passaram a ser aqueles em que todos os fins são utilizáveis para se atingir os meios. Os
critérios são os da eficiência industrial e não o da preocupação com o homem, então,
quando o filme entra nessa esfera talvez encontre um eco. Eu queria também dizer que
vários outros filmes no Sundance e em Berlim enveredavam por aí, ao contrário do cinema
cínico e com uma utilização acrítica da violência que imperou no início dos anos 90, e aí
não só no Tarantino mas acho que nos filhotes do Tarantino também. Tarantino tem muito
talento embora eu pessoalmente não seja um fã daquilo lá, mas o que veio depois eu acho
que instaurou uma ordem cínica na produção independente e vários filmes do Sundance,
inclusive o que foi premiado este ano, é um filme fortemente humanista. É como um
retorno dessa preocupação, em oposição à ordem cínica que imperava antes.

Também tem uma coisa interessante: voltando à questão do neo-realismo, esses valores
todos não têm valor de mercado, quer dizer, as palavras como fraternidade, solidariedade
não têm cotação em bolsa, isso não tem um valor tangível, a gente tá vivendo num mundo
que está regido pela ordem da eficiência, em que essas coisas deixaram de ser mencionadas
e, no entanto, são as que tornam a convivência entre as pessoas possível. Talvez seja por
isso que o filme está sendo recebido dessa forma.

No filme há uma professora que ao invés de alfabetizar aproveita o conhecimento dela


para enganar. Existiu essa preocupação em jogar a questão da desvalorização da
educação, um setor tão importante?

Pra falar a verdade, a preocupação mesmo ali era a de falar da importância de uma pessoa
que se esqueceu dos outros, que deixou de mandar as cartas e que percebeu, depois de um
certo momento, que ela tinha que mandar as cartas. O fato dela ser professora torna o filme
possível porque uma pessoa no Rio de Janeiro ganha entre um e dois salários mínimos de
aposentadoria, então uma decadência dramática nesse sentido. O Vinícius deu uma prensa
no Fernando Henrique Cardoso. Ele cobrou do presidente porque os professores não têm
aumento há três anos. E aí o presidente falou : "Malan, vem cá explicar!". O que acontece é
que há mesmo uma desvalorização da pessoa e o Vinícius tem razão, tem que começar pelo
professor, pela Educação, pela Cultura, essas são as saídas.

O que você achou da reação do público em Recife?

Foi a mesma reação de Sundance e Berlim, só que lá estavam ouvindo o som do filme.

O som do Teatro Guararapes prejudicou a exibição de Central do Brasil?

Não, mas é bom lembrar que o cinema é feito de som e luz, essa é a base, e de respeito ao
espectador. A gente não deve mais aceitar ouvir coisas como "o som do cinema brasileiro é
ruim". O som do cinema brasileiro não é ruim desde que as condições mínimas sejam
estabelecidas para isso. Ontem, depois da exibição, eu quase falei uma coisa e depois

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acabei não falando. Central do Brasil é um filme do país real em contraposição ao país do
Real, e eu esperava que com o filme o Festival saísse da sala de convenção e fosse para a
sala de projeção, que é onde o filme tem que ser visto e tem que ser visto em condições
para tanto. E não estou falando em relação a esse filme, mas em relação ao cinema em
geral.

As salas estão melhorando no Brasil, há uma melhora constante. A gente vê isso nos
grandes centros e há em outras salas sendo construídas com essa característica. A exemplo
das salas do Espaço Unibanco, em São Paulo e no Rio, estão sendo construídas em
Salvador salas de excelente qualidade. Os multiplex que estão vindo aí também têm essa
preocupação. O Festival é por definição um espaço em que o filme deveria ser mostrado
nas melhores condições. E não é questão de Central do Brasil, mas todos os filmes
deveriam ter a possibilidade de ser exibidos de uma forma digna. Acho que a gente tem que
lutar por um cinema brasileiro que seja digno e plural e tem que ser mostrado de uma forma
digna também. Essa é a grande questão.

3 – Entrevista de Walter Salles exclusiva para Revista Set

Fala-se muito do Oscar, que é um prêmio muito badalado, mas parece que as pessoas
se esquecem um pouco da importância de Central do Brasil ter ganho o Festival de
Berlim.
Sim, em 48 anos de história do Festival de Berlim, nunca um único filme havia ganho o
Urso de Ouro junto com o prêmio de melhor atriz. Foi muito emocionante! O público ficou
inteiramente do nosso lado. A torcida foi do público antes mesmo de ser do júri. Da parte da
"família" que fez o filme, a gente torceu muito pelo prêmio da Fernanda e no final tudo
acabou saindo melhor ainda do que a gente esperava.

Qual foi sua emoção na hora?


Foi uma emoção inesquecível subir naquele palco e ver todos aqueles alemães "muito bem
nutridos", como diz a Fernanda (risos) aplaudindo com satisfação. O filme comoveu
Berlim.

As platéias do exterior entenderam o conteúdo tão brasileiro do filme, ou no fundo ele


não é tão local assim?
Isso é muito interessante, porque Central do Brasil é intrinsecamente brasileiro. Ele
mergulha no interior do país e no entanto os alemães (e antes deles os americanos, em
Sundance) se encantaram com esta história que é tão brasileira. O Nelson Pereira dos
Santos – talvez o maior cineasta vivo do Brasil – diz uma frase que é muito verdadeira:
"Quanto mais local e regional você for, mas universal você será". Talvez seja isso que tenha
acontecido com Central do Brasil.

Já que você citou o Nelson, nota-se que Central do Brasil tem elementos de Vidas
Secas, mas na hora de rodar você não pensou em nada disso, não é?
Não. Quis fazer um filme comovente sobre a possibilidade do afeto. Sobre duas
personagens perdidas no mundo e que se encontram. Uma senhora já insensibilizada pela
vida e um garoto que perde a mãe e tenta encontrar o pai. A mulher, movida por um

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sentimento de culpa em relação ao menino, resolve pegá-lo, assumi-lo, e tentar fazer com
que ele encontre o pai. E à medida que eles caminham país adentro e se defrontam com o
desconhecido, eles vão se aproximando aos poucos de tal maneira que um não quer
abandonar o outro. Eles acabam virando um pouco mãe e filho. É uma história de amor
possível entre duas pessoas que já tinham perdido a esperança.

O argumento original é seu?


É meu, com a ajuda de dois jovens roteiristas que nunca tinham escrito um longa-metragem
antes e que melhoraram muito a minha idéia: João Emanoel Carneiro e Marcos Bernstein.
O Marcos inclusive já havia colaborado no roteiro de Terra Estrangeira, mas não tinha
nenhuma experiência com cinema. Ele estudou advocacia.

Na verdade é um filme premiado desde o seu início.


Sim. Em 1996 o Instituto Sundance instituiu o prêmio Cem Anos de Cinema para roteiros
do mundo inteiro. Eles receberam 2.004 roteiros para escolher cinco que seriam
parcialmente financiados pelo Instituto. E eu nunca poderia prever que um dia chegaria
uma carta, assinada pelo próprio Robert Redford, dizendo "Parabéns! Central do Brasil foi
escolhido".

E qual foi a maior dificuldade que você encontrou para fazer o filme?
Foi encontrar um menino ao mesmo tempo cativante e que tivesse algum conhecimento da
vida, noção de rua, sem perder a inocência e que ainda tivesse talento. E quanto a isso
demos muita sorte com o Vinícius de Oliveira. Encontramos um menino com intuição
cinematográfica incomum, um caráter fantástico, dignidade a toda prova, um
guerreirozinho.
Vinícius de Oliveira superou 1.500 candidatos. Todos com experiência.

E foi por acaso.


Foi. Para ajudar a família, ele havia largado os estudos e passado a engraxar sapatos no
aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro. Ele pediu dinheiro para um sanduíche e
naquele momento tive a intuição de que ele poderia ser o ator do filme. Já tínhamos testado
1.500 pequenos atores - todos com alguma experiência – e o teste do Vinícius foi de longe o
melhor.

Quanto à Fernanda...
(Rindo) Ela não precisou fazer nenhum teste...

Não estava engraxando sapatos (risos) ?


Não, não estava (mais risos).

Poucos países podem dizer que têm uma atriz do porte de uma Fernanda Montenegro.
Depois de um período de perda da auto/estima nacional, nos início dos anos 90, com o
Collor, hoje a gente faz justiça a algumas pessoas que merecem. E a Fernanda merece!

Você escreveu o roteiro pensando nela?


Sim. De certa forma estávamos há mais de dez anos tentando trabalhar juntos, tentando
encontrar o roteiro correto.

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Existe algum momento, durante as filmagens, que você pressente que o filme será um
sucesso, que ele será premiado?
Não. Se você pensa em fazer um filme para ganhar prêmios, você não faz nada. Você tem
que fazer um filme com honestidade, integridade, e torcer depois para que aquele desejo tão
pessoal possa ser um elo de comunicação com um público muito maior. Mas o primeiro
momento é seu com você mesmo. Não tem jeito.

E quanto às locações?
Nos apaixonamos pelo interior do Nordeste. Foi um processo de redescobrimento do Brasil.
Eu conhecia bem o litoral e mal o interior, e eu prefiro trabalhar em áreas que não conheço,
para poder manter um frescor no olhar. Olha-se melhor para aquilo que não se conhece.
Tanto que eu e Daniela Thomas optamos para fazer Terra Estrangeira em São Paulo, pois
minha cidade natal é o Rio de Janeiro. Eu me encantei com o afeto, dignidade e
simplicidade – dentro da carência – daquelas pessoas do Sertão. E me encantei com a
beleza seca e rude daquela geografia. Principalmente da geografia humana, aqueles rostos
tão significantes que eu conhecia da época do Cinema Novo. O Cinema Novo fez uma
coisa maravilhosa que foi colocar o rosto do brasileiro na tela. Tive vontade de me
aproximar disso e botar novamente o rosto do brasileiro nas telas, 40 anos depois, sem a
pretensão de me aproximar daqueles clássicos de qualidade inatingível. Aprendi com eles e
continuo aprendendo.

Foi necessário alterar alguma coisa nas locações ou o "cenário natural" já bastava?
Bom, numa pequena cidade chamada Cruzeiro do Nordeste, encontramos o lugar ideal para
a cena da romaria. Só que no final da rua havia uma rodoviária moderna, de arquitetura fria,
que poderia estar em Miami ou na Suíça, mas não ali. A um custo muito baixo, resolvemos
então construir uma fachada simulando a igreja que deveria estar ali, se não existisse aquela
droga de rodoviária (risos).

O mais divertido é que alguns motoristas de ônibus chegavam diante do cenário,


estacionavam, e davam marcha-a-ré, procurando a rodoviária que tinha "virado igreja"
(risos).

Inclusive no filme a gente perde a noção de quem é ator, quem é figurante ou pessoa
do povo. Perde-se a noção do que é realidade e do que é ficcional. É quase um
documentário.
O documental vai insuflando a vida à ficção. Não se pode fazer um filme de estrada com os
olhos fechados. Você tem que olhar em volta, e na medida em que alguma coisa aparece
para ajudar o filme, você tem de trazer aquilo para dentro do filme. Muitas seqüências são
improvisadas, ditadas pelo que aconteceu no momento.

Por exemplo?
Por exemplo, boa parte das pessoas que falam na cena da romaria. Parte das cenas das
cartas são de pessoas que viram a mesinha da Dora e passaram a falar com a Fernanda.
Eram pessoas com uma grande necessidade de expressão, porque elas têm a sensação de
que nunca são ouvidas. A gente sentei isso na pele.

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4 - Entrevista com Fernanda Montenegro em coletiva no Recife Monte Hotel.
Dia 22/03/99
Fonte: Jornal Recife

O que está acontecendo com a família Montenegro/Torres: você acabou de ganhar o


Urso de Prata de melhor atriz. O Fernando Torres está brilhando em A Ostra E O
Vento e Fernandinha (Torres) esteve concorrendo ao Oscar com O Que É Isso,
Companheiro? Alguma conjuntura astral ou é só o talento da família?

Fernanda: Primeiro tem que os deuses decidiram por nós nesse período. Acharam por bem
dar essa colher de chá. Por coincidência, ou eu sei lá como se chama isso, estamos em três
filmes muito bons, muito bem feitos, e presentes nessa hora de renascimento da proposta de
vida cinematográfica. E também não posso deixar de dizer que a gente até tem certo talento
(risos). Então parece que as coisas se combinaram e nós estamos usufruindo de um
momento - Deus seja louvado - de coisas positivas, com ressonância, com grande
repercussão dentro do país. A euforia, a gente sente nas ruas, as pessoas nos
cumprimentando, as flores, os telegramas, os faxes, isso tudo porque o nosso cinema teve
essa repercussão internacional, e teve porque nós somos bons, o problema é só chegar lá ou
possibilidades de chegar.

Seu filho,Cláudio Torres, também é cineasta...

Fernanda: Um filho meu e de Fernando, naturalmente, porque ninguém faz filho sozinho,
portanto com a profunda colaboração de Fernando Torres para o nascimento dessa criança
que hoje tem 33 anos. Ele é um cineasta, acabou de fazer um curta para juntar com mais
dois outros curtas e vai formar um longa chamado Traição. São três histórias de Nelson
Rodrigues onde eu e sua irmã (Fernanda Torres) também estamos, tudo nesse momento.

É tocante para mim e para Fernando também, isso de sempre ter sido gente de teatro e de
repente virar atriz e ator de cinema. Acho isso uma coisa maravilhosa porque nós somos
uma geração formada pelo cinema. É a geração por volta dos 60 anos, que não tinha
problema para ir no cinema. O pai ou a mãe levava e tudo bem, ainda mais nos cinemas de
bairro. Eu freqüento o cinema desde os três anos, três vezes por semana e no fim de semana
três vezes por dia. Era mais do que a televisão é hoje, porque a gente saía de casa e se
arrumava bonitinho e só se entrava no cinema de gravata. Imagine que tempo era esse! Era
o grande encontro do bairro, da comunidade (naquele tempo não existia essa palavra

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comunidade; existia mas não era tão gasta quanto hoje). Os encontros e amores aconteciam
todos no escurinho do cinema.

A grande imagem que a gente tinha de você no cinema, o grande papel, era a Zulmira
de A Falecida, filme que você carregava nas costas, entrava na primeira cena e
passava 99% do tempo na tela. Dora também é um papel que vai do começo ao fim.
São os seus dois grandes papéis no cinema? Ou há algum outro?

Fernanda: Tem o Tudo Bem também, onde a Elvira é uma grande coadjuvante ou até
protagonista, como você queira; esse papel me deu o prêmio de melhor atriz em Palmina,
na Itália. Foi o meu primeiro prêmio internacional. Eu adoro o cinema do Arnaldo Jabor, eu
acho o filme delicioso. Um elenco de ouro.

Nelson Rodrigues disse que detestou A Falecida mas que achava o seu trabalho
deslumbrante; a única coisa que ele amava no filme era o seu trabalho porque você
tinha tirado humor do personagem.

Fernanda: O que não é verdade, quem assiste vê que a gente ri com aquele filme. É uma
coisa tão louca que não dá para não rir. Não é filme que busca as cócegas debaixo do braço,
uma coisa proposital. É quase chegando numa farsa. Ele fez um filme amargo mas continua
com humor, porque o humor é inerente ao Nelson, faça ele a maneira que fizer, o humor
vem. Mas essa coisa é que no cinema brasileiro a coadjuvância feminina é muito forte,
muito importante, mas é um cinema de papéis masculinos. Quando as mulheres são boas de
briga elas aparecem também, mas geralmente os roteiros estão sob a visão masculina do
mundo.

Tem algum papel que você gostaria que algum cineasta escrevesse para você, que você
diria "esse eu faço".

Fernanda: Não, eu não tenho essas fantasias, eu fico esperando que a vida aconteça. Sei lá,
eu também ajo muito inconscientemente e as coisas vêm. De uma certa forma,
inconscientemente, sem que eu até percebesse, a coisa se organizou para mim, para me
trazer algo bom. Este filme Central do Brasil é uma prova disso. Eu não esperava que há
dois anos o Walter me trouxesse esse roteiro e trouxe e eu amei fazer, estou empenhada
nesse filme já há mais de dois anos. Agora estamos no processo de divulgação do filme,
estou indo pelas capitais, pelos espaços onde o filme está estreando com o maior carinho.

Você falou da visão masculina dos roteiros. Como você está vendo o trabalho das
cineastas brasileiras, que começa a aparecer agora?

Fernanda: Isso está acontecendo no mundo inteiro. As mulheres estão vindo para a direção
e os temas que elas pegam são temas no fio da navalha, nenhuma facilita. A cinematografia
de certas diretoras estrangeiras tem assuntos extremamente perigosos, delicados, uma visão
de mundo muito sensibilizada e muito particular. É interessante isso. E no Brasil também. A
coisa está se fazendo com mais presença, com mais personalidade. É isso mesmo, desde
que tem chance a gente vai. Tem que, de repente, tomar coragem, porque a gente tem que
fazer a chance da gente. Eu acho que as diretoras, as mulheres de cinema, estão começando

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a se posicionar muito bem. É interessante porque traz uma outra visão, nem melhor nem
pior, mas uma outra visão da humanidade. E graças a Deus não é igual senão seria uma
chatice.

Walter Salles define o país como uma mulher e um país em busca de suas identidades.
Você descobriu qual identidade do seu país? Descobriu alguma nova imagem?

Fernanda: Eu descobri uma coisa de sensibilização. Porque "descobrir" parece que a gente
já equacionou, entende? Eu vivo numa grande cidade com uma grande periferia de
migrados, possivelmente aqui em Recife também tem, os que vêm do Interior se organizam
e se desorganizam em torno da grande cidade. A grande tragédia é que essas pessoas
quando migram perdem o referencial cultural deles, em todos os sentidos, desde a
alimentação, o gosto musical e o processo de ofício mesmo, de realizar o que eles sabem
fazer. Se o homem do campo vem para a periferia, todo o referencial fica lá, porque na
cidade a realidade é outra, o asfalto é outro, o pai perde o centro de informação, de
transferência cultural para aqueles filhos. Lá na rua o malandro sabe mais que o pai e a
mãe.

A sociedade se desorganiza muito quando há essa migração em massa como tem havido
desde a construção de Brasília para cá. Houve uma transformação no país muito grande,
porque passou a existir um descrédito do homem do interior, sabe, o boboca do lavrador
que ficasse plantando feijão, milho, soja, que diabo fosse, lá no sertão dele, ou lá no
planalto dele, ou lá no interiorzão dele, era um desgraçado, ele tinha era que vir construir
prédio, fazer automóveis nos grandes centros, tá entendendo? Brasil grande, Brasil
industrializado, e esta política foi desordenada, foi leviana, isso esperando um segundo
período quando então se cuidaria da agricultura, do homem do interior, disso daquilo e não
houve o segundo período, só houve o primeiro que foi a construção de Brasília.

Você acha possível o retorno, o resgate da identidade?

Fernanda: Isso só pode acontecer se houver uma reforma agrária honesta, uma
reestruturação, um projeto real de transformação. Porque essa multidão que migrou, os
filhos e netos já estão na cidade, há um deslocamento já somado, porque já são quarenta
anos. Então já são duas ou três gerações, mas sempre a gente houve: "ah, estou com
vontade de ir pro Sul!". Há pouco tempo eu estive em São Luiz do Maranhão e,
conversando com o motorista que servia a gente, ele falava que a vontade dele era a de ir
para o Sul. "Mas o senhor quer fazer o que no Sul?". " Lá eu teria mais chances". "Mas o
senhor não está empregado?". " Estou". "Não tem três filhos?". "Tenho". "Então é aqui
mesmo, se o senhor for pra lá é outro clima, é outro lar, é outra comida, é outro estresse..."

O que eu encontrei de bonito, sem romantizar, nestes sertões tanto da Bahia quanto de
Pernambuco é que existe uma cultura sedimentada e um não-estresse. Isso não quer dizer
que não tenha miséria, mas não é aquela pré-loucura ou loucura definitiva daquela gente
enjaulada nos subúrbios distantes, morando em prédios assim de três por três e uma
cozinha, quando não é um barraco de três por três e nem cozinha e nem banheiro e nem
coisa nenhuma.

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Tem uma seqüência no filme em que você paquera o personagem do Othon Bastos e é
uma cena de muita ternura, a Dora passa um batom e tal e a tentativa não dá certo, e
isso se justifica porque ele é de uma religião evangélica e tal. Eu queria que você
contasse um pouco como foi a química daquela seqüência entre vocês dois porque você
teve que tirar poesia e sensualidade numa aridez terrível, cada gesto, cada coisa. Eu
sei que é difícil de contar mas eu queria que você descrevesse porque é uma seqüência
muito particular. Foi um erotismo até abstrato!

Fernanda: É difícil explicar essas coisas. O personagem do Othon Bastos é um personagem


muito bonito, muito delicado, muito complexo e ele faz maravilhosamente bem. É um
solitário também, um homem também carente. A gente sabe que na nossa cultura, o
evangélico geralmente é aquele que bate lá uma hora de profundo abandono, angústia e
desespero. Se você ouve esses programas evangélicos, sempre que eles falam do porquê
que receberam Jesus, chegou a Jesus, foi sempre numa hora em que não tinha mais nada,
nenhum apoio, nenhuma saída para as suas vidas. Aí então eles vão, eles entram na Igreja e
o pastor fala uma frase lá e Jesus Cristo se põe dentro dele e então ele renasce e sua vida se
organiza, acha trabalho, quem bebia não bebe, quem tem vício se cura, a vida engrena. Pelo
menos essa é a mecânica que os evangélicos usam pra dizer como a vida se resolve bem.

Olhando esse personagem do Othon, ele deve ter sido um homem que passou por uma
terrível hora dessa e se encontrou na sua crença, no evangelho. Mas também é um homem
solitário, cheio de normas, preconceitos. Imagina você, não tem como encontrar aquela
mulher com aquela criança no meio de uma estrada! E do lado dele, ela encontra um ser,
um homem que não é um massacre de machismo; ele é delicado, salva numa hora que ela
passa a mão nas coisas da loja, olha para ela com simpatia, sabe rir, tem uma risada aberta.
Então, pra gente fazer essa cena, ele se pega naquilo que eu posso dar a ele como atriz e eu
tirar dele como ator. Então, ele é generoso, ele deixa comer quando tem fome; de repente,
ele dá a essa mulher sem nada um certo ombro, um certo diálogo, não como aqueles
homens horríveis da Central do Brasil, não com aquela barra pesada. Mas mal ou bem um
homem que gosta dos seus espaços incertos, do seu caminhão, do homem sem pousada, do
cara que vai pelo mundo não confinado...

Para ela nem era para terminar em nada, mas apenas um calor de homem junto dela depois
de muitos anos. Então tem que ser algo muito delicado, porque não tem como ser grosseiro
com aquele ser macho que está dentro dela, que seria um anti-macho, tanto que depois o
garoto pergunta "ele é um homem viado, não é?". E quando o público ri, quase não se ouve
quando ela diz "não, não é não", porque se ele fosse um homem viado ela até entenderia,
mas ela não encontrou um ponto de contato com este homem que ela sabe que é homem.
São os desencontros da vida. Tudo isso eu estou explicando como é a cena porque é muito
difícil falar do mistério que há quando a lente pega você jogando com o colega e o colega
com você... A lente é muito poderosa, ela pega tua pele, você não sabe que está mexendo,
não é um relógio, uma ciência exata.

Você já falou que Central do Brasil é um filme sobre pessoas pobres mas não é um
filme pra baixo. Ele fala sobre a esperança...

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Central do Brasil

Fernanda: É que quando a gente fala de filme de gente pobre todo mundo fala "ih, meu
Deus, lá vem pobreza, lá vem feiura, não tem um vestido bonito, não tem um cabelo
bonito!". O cinema brasileiro sabe falar da pobreza e eu tenho falado muito sobre isso
porque os nossos grandes filmes sempre foram filmes que se passam numa camada menos
favorecida da população brasileira. Não tem filmes sobre as altas esferas, não tem filme
sobre a elite. Nós ainda não chegamos ao ponto de focalizar, de analisar com agudeza, com
clareza as nossas elites. Em primeiro lugar porque a verdadeira elite se esconde muito, você
não sabe a face dela, os homens de dinheiro, as nossas famílias quatrocentonas, a gente não
sabe como essa gente vive, tem os socialites, os emergentes, mas você não sabe essa alta
esfera que produziu esse país. O que é um alto diplomata, um chefe de estado, um alto
militar? Em primeiro lugar, o que diz respeito aos militares, durante todo o golpe, nós
tivemos em 11 anos a impossibilidade de usar uma farda em cena. A censura proibia
qualquer farda do Exército brasileiro e qualquer farda de qualquer exército do mundo. Nós
fizemos uma peça em que Fernando fazia um capitão do exército sueco e a roupa teve que
ser mais ou menos de domador de leão porque não podia usar nada. Não podia tocar um
hino de pátria nenhuma. Então é muito difícil pra gente roteirizar histórias nessa esfera.
Mas a miséria e a pobreza estão aí, a gente vê a toda hora, é o que mais tem em torno de
nós. Então nós sabemos fazer filme sobre a pobreza de uma forma sem saída e de uma
forma com saída.

De que maneira o filme Central do Brasil está na forma com saída? Não porque eles
enriqueceram, porque o menino fica lá com os irmãos. Mas na possibilidade do reencontro.
É encontrar essa gente. Eu acho que é mais do que um dever levar o filme lá para eles
verem (nas cidades dos sertões da Bahia e Pernambuco, onde cenas do filme foram
rodadas), exatamente porque a maioria nunca viu cinema, só um ou outro tem televisão.
Tem um telefone num raio de dois quilômetros e um telefonista que atende todo aquele
fundão de terra. Vocês conhecem isso melhor do que eu. Então é um prazer ir lá, é uma
dívida que a gente tem com eles. Mas isso agora é a nossa quermesse, um núcleo pequeno
de gente que esteve lá, que conviveu com eles uns 20 dias e agora a gente quer ter o prazer
de se juntar a eles e de uma certa forma se comungar com eles.

Você está assumindo a divulgação do filme com uma paixão desmedida. Passar por
esse sertão para as filmagens e depois voltar aqui, uma atriz que tem o seu status...
Você está vestindo a camiseta ou é mais um ato simbólico para dizer que o nosso
cinema está renascendo, precisa de credibilidade, de público e que as autoridades
vejam que é uma coisa séria? Tem um pouco de missionária?

Fernanda: Eu não sei fazer nada pela metade. Esse filme começou muito clandestinamente,
o Walter nunca quis a imprensa em cima, fazendo making-off e a gente ficou guardadinho,
segregadinho, fomos para o sertão da Bahia, como fomos para a Central, viemos para o
sertão de Pernambuco. Se sabia do filme mas muito à distância. Porque não é uma
peruagem, compreende? Até a gente conseguir fazer um filme no Brasil ou qualquer coisa
de arte no Brasil é um esforço, mas não falo isso com demagogia não, é esforço mesmo.
Então me veio às mãos um roteiro maravilhoso, uma produção séria, importante, um filme
lindo, que fala de uma país que é meu. Fala corajosamente mas sem demagogia, sem

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doutrinação, sem engajamentos partidários. Como não me envolver com esse filme? Como
não ir com ele pelo Brasil ou pelo mundo, onde me chamarem?

Mas de qualquer forma eu sou uma mulher principalmente de teatro, então quem faz teatro
não larga nunca nada porque se ele não estiver presente não acontece nada. Eu e Fernando
já cruzamos esse país há quarenta anos, então a gente conhece o Brasil de Norte a Sul, de
Leste a Oeste, capitais, cidades de meio porte, de pequeno porte, conhecemos indo lá,
representando, falando com as pessoas, então eu nem sei como é que é trabalhar de outra
maneira. E é preciso falar com a imprensa, é preciso divulgar o filme, porque a vida tá cara
e o cara tem que sair de casa; a vida tá chata... Então o cara tem que ser fustigado, tem que
ser motivado a sair novamente e ir para um cinema, não esperar que o vídeo apareça um dia
na casa dele, na televisão.

A senhora foi de uma elegância extraordinária lá em Berlim. Nem humildade nem


alumbramento exagerados. Acompanhando a sua carreira a gente vê que sempre
houve uma coerência intelectual e política muito sólida. Qual é a responsabilidade dos
artistas diante das transformações sociais?

Fernanda: É fazendo o seu ofício como qualquer trabalhador. Eu sinto profundamente que
qualquer profissão é uma arte. Não precisa estar no palco, tocar uma flauta, pintar um
quadro ou escrever um livro. Cada um de nós, com o seu ofício, é um artesão. É um ser que
tem uma aptidão para servir à sua vocação e prestar serviços ao seu grupo, à sua família e à
sociedade. Então eu não acho que o artista tenha que ter mais responsabilidade, ser um
porta-voz, enfim, ser um corneteiro da madrugada para levantar as tropas e ir à luta. Acho
que cada um de nós é um artista, tem um ofício e tem responsabilidades sociais.

De cidadão...

Fernanda: Exatamente. O resto é bondade do Senhor. A inspiração precisa ser alicerçada


com muitas horas de aplicação, de trabalho bruto, aí até a transpiração, como diz o ditado,
se transforma em arte, mas precisa suar, como qualquer trabalhador.

Além da Lei do Audiovisual, que vai acabar em 2003, você acha que é necessário a
criação de uma lei de reserva de mercado para o cinema brasileiro?

Fernanda: Eu não sei dizer. Eu acho que essas leis todas temos que vivenciá-las um tempo
para saber onde é que estão os furos, porque é tudo assim meio no evento. Eu tenho dito
isso há tanto tempo, a gente não tem projetos, a gente tem eventos, então cada vez que
muda o governo, muda a lei. Uma hora era o Sarney, depois não gostavam do Sarney então
acaba a lei Sarney. Aí vem um ministro da Cultura que é Rouanet, então ele bola uma lei e
uma comissão, ou o governo ou que diabo for faz uma lei. E essa lei é tão fiscalizante, tão
fiscalizante que nós temos temos a impressão que somos uns bandidos, uma máfia. Se todos
os ministérios tivessem aquela lei tão fiscalizante, o Brasil realmente pararia totalmente.
Mas não sei porque nós fomos contemplados com essa lei tão fiscalizante que ela foi
inoperante a ponto de ter que ser modificada e chegamos à lei do Audiovisual. A gente tem
que vivenciá-la e não zerá-la quando não funcionar ou alguém achar que não funciona. A lei
não funcionava porque não sei quem trouxe o Julio Iglesias pela lei Sarney. Então tá: é

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proibido trazer o Julio Iglesias para cantar e tudo bem. Fica mais fácil, mas não precisa
acabar com a lei.

Todas as leis tem que ter furos, por isso que tem um direito romano, vocês não acham que o
direito romano está aí até hoje por causa disso? Tem a lei e tem os furos da lei. Então se são
furos muito rebarbativos, vamos tamponá-los, acabar com eles. Então quando você me faz
essa pergunta, que a lei vai acabar e até lá terá que ser auto suficiente e tem essas coisas
todas... Posso saber o que vai acontecer no Brasil no ano 2003? Se esta lei vai resistir até
2003, não sei te dizer.

Por enquanto há um monte de produções sendo feitas, vamos ver. Eu não saberia dizer
porque não sou especialista, mas sei que é difícil levantar a produção, é difícil ter
patrocínios, é difícil ter um projeto sacramentado na Audiovisual ou Rouanet e depois tem
um outro grande processo de trabalho que é a procissão às empresas, e depois quando está
tudo bem vem um pacote, e depois outro, mas as coisas acontecem e até tem quem tenha
patrocínio. Um prêmio como esse, ineternacional, como é a ida do filme de Bruno ao Oscar,
vale para mostrar para esses homens que fazem as leis e para os homens que colaboram
economicamente para que essa lei funcione.

Esses prêmios lá fora provam, comprovam que não somos malucos, nós não somos donos
de aguaceiros, uns malucos românticos do século XIX, ás vezes até tossindo de tuberculose.
Nós somos pessoas capazes, atores, diretores, roteiristas, cenógrafos, enfim, somos pessoas
com qualidade comprovada. Porque nem foi aqui dentro - e às vezes é mais difícil aqui
dentro -, foi lá fora, foi no Primeiro Mundo, onde somos tratados como iguais. Eles mal
sabem o que é levantar três milhões de reais para fazer um filme. Três milhões lá é nos
créditos. Os créditos do Titanic acho que são dez produções brasileiras, só os créditos.
Então sobre leis, vamos vivendo. Eu peço apenas que se mudar o ministro da cultura ou se
por acaso o presidente não for eleito ou se vier outro presidente, que não se mexa em
profundidade, no cerne de estrutura da lei que está aí; vamos melhorar, vamos burilar,
vamos limpar. Se há possibilidade de corrupção dentro das leis, que isso seja revisto,
tamponado e que não seja zerado, porque aí vem um outro processo, um outro projeto que
vai ser julgado, que vai ser avaliado pelo Congresso e aí estamos perdidos.

O cinema brasileiro nunca parou. Há horas em que ele pode ser feito e há horas em que não
pode ser feito, por inúmeras razões. Mas o fluxo do cinema brasileiro sempre existiu, tanto
que quando aparecem as possibilidades por razões políticas e econômicas, imediatamente
afloram dezenas de filmes. Mesmo quando não pode ser feito ele é latente, fica lá meio
adormecido, fica latente esperando a hora de aflorar, sei lá, como uma semente,
compreende? Está pleno, inchado, entumecido, é só facilitar um pouco a superfície daquela
terra que ele vem, ele brota, porque ele tá inteiro naquele grão. Então o fenômeno que está
acontecendo agora não nasceu nesse momento zerado e daí para diante. Não, isso tudo está
lá, as pessoas continuam a fazer roteiros mesmo quando não vai filmar, convidam a gente
para fazer cinema mesmo quando a gente não vai filmar e há sempre uma esperança de que
daqui a pouco isso vem. Aí vem e acontece um fenômeno qualquer que corta e há um hiato
e depois começa tudo de novo. Mas o fluxo interno do cinema brasileiro é contínuo,
ninguém nasce da noite para o dia: "Agora eu vou fazer um filme, fazer 20 filmes do zero.
Os cineastas, roteiristas, atores, diretores de arte estão aí, as histórias estão aí, é que agora

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houve uma possibilidade. Na verdade isso está vindo desde o governo Itamar e se
completando com o governo do Fernando Henrique.

Com a retomada do cinema brasileiro há uns três anos, a gente percebe uma euforia.
Mas há uma dificuldade de se avaliar os filmes, seja no retorno de público e até na
linguagem. Como você faria essa avaliação?

Fernanda: As novas produções têm tido público, tem tido espectador, o que acontece é que
a maior parte da distribuição está na mão do cinema americano. O que nos informaram na
Alemanha é que 80% do cinema europeu está na mão do norte-americano. Não é num país
do Terceiro Mundo, pobrinho, na América do Sul, no fundo da África ou lá no fundo da
Índia, não, é na Alemanha, gente, na Inglaterra, na França, na Itália. Eles tem 80% do seus
espaços ocupados com cinema americano ou de distribuição americana e tem apenas 20%
para eles. O cinema alemão, aquela potência germânica lá, tem 20% de espaço para os seus
filmes e batalham e parece que somos nós conversando.

Talvez devamos fazer leis que determinem espaços, mas quando isso vai acontecer tem
sempre aí umas visitas importantes lá de cima, compreende? Porque minha gente, quem
tem um bom cinema, quem tem espaço no cinema, quem tem a cultura eletrônica, quem
tem a comunicação da cultura industrializada, esse tem o poder. Há muitos anos que o
americano está sabendo disso, e faz ele muito bem de lutar pelo que é dele, e nós somos,
enfim, aquele mercado que tem que se levantar, ou gritar para ter um pouco para a gente.
Porque cada um está lá no seu papel, eles sabem que o espaço de influência cultural deles
está profundamente ligado ao cinema, eles chegaram primeiro, se organizaram primeiro e
dominaram o espaço primeiro.

Eu não sei se algum dia a gente vai ter como indústria de cinema a importância e a
organização que a televisão brasileira já tem. Então, seria a comunhão do cinema brasileiro
com a tevê brasileira para se ter uma força de presença de imagem, de cultura, tanto no
Brasil quanto lá fora? É possível, são os embates dos mercados. O que nós não temos - só
alguns filmes tem - é a famosa, rápida e carinhosa distribuição. Tem um monte de filmes aí
que não está tendo vez para se apresentar. Alguns outros não sofreram isso. É algo
interessante de observar porque nessa divisão fica difícil às vezes a gente ter uma
organicidade de reivindicação, mas isso é o jogo da vida, o jogo do capital, o jogo do poder,
o americano entendeu antes que se ele tem 80% dos espaços para os seus filmes ou de seu
aval na distribuição ele tem o mundo, só um grande país pode ter isso. A gente é de uma
geração pré-guerra, a gente sabe o que era o mundo antes de 1945 e depois de 1945. É
totalmente diferente, porque há uma vivência cultural importante, avassaladora, até com
muita praticidade às vezes que encanta o mundo, que mudou totalmente a vida da gente.
Não estou nem avaliando se é melhor ou pior, se era melhor antes. Mudou em proveito de
uma cultura, isso na música, no modo de vestir, no modo de comer, de morar, de fazer
cinema. Então, o que nós temos de fazer é tentar os espaços para os nossos filmes.

A entrada de uma empresa como a Globo, que tem capital para produzir, um capital
que os realizadores não têm, pode de alguma forma prejudicar ou ter uma
concorrência injusta com o resto da produção cinematográfica nacional?

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Central do Brasil
Fernanda: Eu não tenho uma bola de cristal para ver isso. Eu acho que as televisões
deveriam colaborar, deveriam produzir juntas, porque precisam de matéria-prima, porque
repetem filmes dia e noite, está faltando filme. É preciso que essa produção não seja
confinada a uma visão fechada, ser apenas uma telinha de televisão ampliada,compreende?
É preciso que filmes sejam feitos mas que não se comece a produzir cinema como se
cinema fosse a telinha 20 polegadas. É claro que os artistas populares vão ter seus primeiros
filmes, tudo bem, mas que também haja uma colaboração para que outras experiências
sejam feitas, para que outros cineastas venham colaborar dentro daquilo que o cineasta
criativo acha que deva fazer com a sua linguagem, que não haja um bitolamento, uma
cartilha que se deva seguir, de fazer uma programação cinematográfica calcada nas
programações de televisão que já estão aí. É uma vontade minha que não aconteça isso, que
não seja uma indústria confinada nela mesma, que tenha uma abertura para quem não faz
parte daquela sociedade televisiva.

Como você vê essa experiência de trabalhos em película para a televisão, como em A


Justiceira?

Fernanda: Eu acho isso bom. O Daniel Filho é um homem que entende de cinema. Ele tenta
e faz uma aproximação muito particular. Eu acho que é uma coisa positiva, é uma
introdução do processo cinematográfico em cima dessa imagem "videotipada", que é menos
apurada do que a exigência que a película traz quando se faz uma história cinematográfica.

O que você pensa da proliferação dos festivais de cinema?

Fernanda: O festival é importante porque põe o cinema numa bandeja, oferece um


apanhando do que se está fazendo. Mal ou bem a gente se encontra, se vê, debate os
caminhos que o cinema possa ter, o processo de patrocínio e todo o sistema de atendimento
ao cinema. Acho que quanto mais a gente tiver possibilidade de encontros, de avaliação, de
presença de filmes brasileiros, acho que isso significa que nós estamos plenos de calor e de
energia para fazer alguma coisa.

5 – Entrevista Fernanda Montenegro


Jornal : JB
Dia : 23/02/99

"Não vou negar que estou feliz"


Apesar de um reconhecimento inquestionável em todo o país, Fernanda Montenegro ainda
não tinha recebido um prêmio internacional de peso com seu trabalho em cinema. O tabu
se quebra com esse Urso de Prata por sua atuação em Central do Brasil. "Não vou negar
que estou feliz", disse ao JB. O diretor Walter Salles também comemorou: "O prêmio que
eu mais queria se realizou: o de melhor atriz."

Quando recebeu a notícia do prêmio?


Ontem à noite, estava em Praga, e o Walter Salles me ligou dizendo que o festival estava
convocando alguns integrantes dos filmes concorrentes para a premiação, e que achava

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melhor eu ir para Berlim. A gente não sabia exatamente o que Central do Brasil levaria,
mas já suspeitava que ia ganhar alguma coisa. Não iam chamar à toa. Mas essa premiação
dupla foi uma grande surpresa. Em geral, quando premiam o melhor filme, já reconhecem o
trabalho do elenco.

O que esses dois troféus representam?


Prêmios como esses trazem a certeza de que a gente está no caminho certo e de que os
festivais de cinema olham para nós com a honestidade e o respeito que a gente merece.
Ajudam, ainda, a consolidar a imagem do cinema brasileiro junto ao próprio público do
país, que ainda tem uma visão meio desconfiada por causa de tantas interrupções na
produção. Espero, também, que seja mais um detalhe para solidificar as leis de incentivo
cultural, confirmando a qualificação de profissionais e artistas. Investir em cultura não é
caridade: é uma parceria que ajuda a projetar o Brasil internacionalmente.

Por que o filme, apesar de ser bastante brasileiro, se comunica com as platéias
estrangeiras?
Central do Brasil fala com profunda eficácia desse momento do país. Sua temática está nas
veias da gente, sai nos poros. Todo filme assim, em geral, encontra eco em qualquer canto.
O Walter sabia o que queria do filme dele. O elenco está coeso, harmonioso. Poucas vezes
trabalhei com uma equipe tão integrada. Havia uma integração fantástica entre o filme e o
cenário. Foi um alívio, logo depois do primeiro dia de filmagens, quando armamos a nossa
barraca na Estação da Central, perceber que não éramos excrescências naquele universo.

Dora, a sua personagem, praticamente conduz o filme.


O cinema brasileiro não costuma ser tão generoso com as mulheres. Sei que a Dora é uma
extraordinária personagem, um presentão que o Walter me ofereceu.

Central ainda permitiu uma viagem pelo Brasil...


Nunca tinha ido ao sertão, por exemplo. O cinema tem esse lado da aventura,
principalmente quando se sai do estúdio e vai para a locação, e se conhecem tantos cantos,
recantos e cidades.

Por que você, uma das maiores atrizes brasileiras, fez relativamente poucos filmes em
sua carreira?
- Sempre fiz cinema como uma visita, achando que não era propriamente o meu quintal. É
um trabalho delicado, que exige total paciência. Mas, depois dos dois últimos filmes que fiz
(Central do Brasil e Traição), sinto que finalmente entendi o fazer do cinema, a
necessidade de estar disponível para ser um total instrumento nas mãos de um diretor.

6 – Entrevista Fernanda Montenegro exclusiva revista Set

Nesta entrevista, Fernanda estava como sempre esteve: simples, sorridente, amigável,
extremamente simpática. A ovação em Berlim não lhe subiu à cabeça, nem os prêmios, nem
a consagração de Central do Brasil, um dos melhores filmes já feitos neste país. Mas
alguma coisa mudou nesta grande dama do teatro: ela já afirma que não tem mais nenhum

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Central do Brasil
peso na consciência ao "não fazer teatro para fazer cinema". E admite que a magia da tela
grande a tem seduzido cada vez mais.

A sua matéria-prima é a emoção. Você trabalha há anos com isso. Mas como é a
emoção de subir no palco de um Festival de Berlim e receber o prêmio de melhor
atriz?
Bom, eu não podia fraquejar. Eu tinha de estar à altura do momento. Tudo bem que eu
estava num palco, e disso eu entendo. Tudo bem também que havia mais de 1.500 pessoas
me olhando, pois eu já encarei platéias deste tamanho...

Mas não com aquele monte de alemães juntos..!


Não com tantos alemães juntos (risos). Então eu não podia fraquejar. Subi no palco e
mandei: "Danke, Berlim, Danke" (Obrigada, Berlim, obrigada). Era a única palavra em
alemão que eu sabia falar (risos).

Você não fala mais nada em alemão?


Falo. Beethoven (risos)... Fassbinder, Goethe (mais risos). Mas eu tinha de agradecer
porque foram eles que me deram o prêmio. Eu tinha de agradecer à terra deles.

Eles deram, mas foi você que conquistou.


(Pensativa) - É... foi. Mas... sei lá! Eu tinha de agradecer a eles. E lá é um Festival de
grande categoria, de primeiro mundo mesmo. Não é aquela peruagem do Oscar que a Globo
mostrou. Berlim é cultural, é fino. Não é como no Oscar, onde cinco mil pessoas votam nos
prêmios e você nem sabe quem votou ou quem não votou. Em Berlim o júri está lá, na sua
frente, e você sabe o que eles estão pensando.

Mesmo porque em Berlim os resultados são divulgados antes da festa, e não durante,
como acontece no Oscar.
É muito mais educado! Por mais interessante que seja para a perversidade humana a
televisão mostrar os cinco closes dos atores concorrentes, só para a gente ficar olhando a
cara de quem perdeu, isso é muito cruel. Tudo bem que aqueles envelopes valem milhões
de dólares, mas é desumano!

O esquema de Berlim é muito mais humano. Às duas da tarde eles avisam quem ganhou, e
você vai para a festa de entrega dos prêmios às sete da noite, já tendo comemorado com
todo mundo, bem mais tranqüila.

E quanto ao filme? Dá a impressão que o Walter Salles conseguiu realizar o filme


perfeito.
Bom, eu sou suspeita para dizer, mas não vi nenhuma crítica contrária a Central do Brasil.
E se ela existir, será a exceção que confirma a regra. Eu fico muito feliz com isso porque o
filme foi muito "guardado", ou seja, tudo foi produzido meio em segredo, sem estardalhaço,
com uma equipe tão pequena que nem continuísta tinha. Saímos sertão a fora sem
imprensa, sem ninguém fazendo o making of. Terminadas as filmagens, eu voltei para
minha casa, o Walter ficou finalizando o filme, e de repente veio a surpresa de Berlim.
Aliás, primeiro veio a grande repercussão do Festival Sundance, nos Estados Unidos, e logo
em seguida os prêmios em Berlim.

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Central do Brasil
Durante as filmagens você acabou vendo um Brasil que você não conhecia?
Um Brasil que eu não conhecia mas intuía. A gente lê, vê as pessoas na periferia, e acaba
mais ou menos intuindo como seria este Brasil. Mas só chegando lá que eu vi como as
noites do sertão são reparadoras. O céu vem aqui em baixo, o vento é reparador e as estrelas
são enormes! São noites deliciosas e dias terrivelmente quentes, quentes, quentes!
As pessoas olhavam pra mim e apontavam:
'olha lá, a Jacutinga'

Parece que muita gente até passou mal durante as filmagens, por causa do calor, não
é?
Muitos ficaram com febre, pegaram doenças. O elenco todo estava caindo de doente. Foi
todo mundo parar no ambulatório. Eu não fiquei doente nem sei por quê.

E as pessoas do sertão te reconheciam?


Reconheciam como a Jacutinga, da novela. Eu passava e eles apontavam: "olha lá, a
Jacutinga" (risos).

E como foi trabalhar com o garoto Vinícius de Oliveira?


O Vinícius é um fenômeno que Deus botou no meio do caminho da gente para viabilizar o
filme. É uma coisa que não se explica pela razão, mas só pelo destino, por Deus, pelos
deuses, sei lá. Eu não sei se ele vai ser ator, mas ele tem um dom nato que é muito difícil de
ser encontrado: ele encontra a onda, a freqüência, a sintonia com o colega. Existem atores
extraordinários que nunca encontram a freqüência com ninguém. Falam sozinhos, fingem
que olham mas não olham, fingem que se emocionam mas não se emocionam. Não entram
no jogo do espetáculo nem do filme.

O Vinícius e eu entramos numa imediata freqüência de cumplicidade, assim que a gente se


viu. E ele não tem vícios de representação, nunca fez novela, nunca a mãe dele ficou
dizendo como é que tem que fazer, como é que não tem. Foi um trabalho lindo, de grande
comunhão.

A sua personagem, a Dora, também é ótima, e você a encarnou com uma naturalidade
impressionante.
Uma pessoa que não te conhece, um gringo, por exemplo, que nunca tenha visto Fernanda
Montenegro, ele assiste ao filme e jamais vai dizer que aquela mulher é uma atriz. Parece
uma pessoa do povo.

A Dora é uma personagem bonita, vital, forte, repleta de cultura brasileira periférica, que
vive como pode. E se alguém achar que ela é mau caráter, que atire a primeira pedra. Ela é
um presente que o Walter Salles me deu. Um presente que a vida me deu. E um presente
que eu aceito com o maior prazer. Sou muito grata ao Walter e à vida, pois fazendo este
filme (bate na madeira) vivi um momento muito amoroso, muito especial. E é comovente
também ver como as pessoas estão se emocionando com Central do Brasil.

É verdade que se você pudesse escolher você faria agora só cinema?


É, é verdade.

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Central do Brasil
Por quê? O cinema é mais mágico?
(Pensa longamente) - Veja, eu tenho uma ligação de vida com o teatro. Tudo o que eu tenho
- de bom ou de ruim - foi ele que me deu, e eu sou muito grata ao teatro. Mas eu não sei por
que, recentemente deixei de ter sentimento de culpa por não estar fazendo teatro por estar
fazendo cinema.
Fazer Central do Brasil foi uma experiência muito boa também por causa da maneira que o
Walter filma. Ele coloca a câmera longe, discreta, sem nunca se aproximar muito, sem
agredir. Tanto que ele pôs a câmera em plena estação de trens do Rio de Janeiro e as
pessoas nem perceberam, nem ligaram.

É interessante ver como você, no filme, toma aquele trem lotado com a maior
naturalidade, como se fizesse isso todos os dias.
Era fazer isso ou morrer! Para mim, uma das maiores dificuldades do filme é que ele faz
vários closes das pessoas. A câmera focaliza bem de perto as pessoas do povo, e logo em
seguida faz um close meu. Então se eu represento uma pessoa do povo eu não posso ficar
preocupada se eu tenho rugas, bolsas debaixo dos olhos, nada disso. O filme tem que
mostrar minha cara de verdade, porque ele também é documental. E eu tenho de segurar
isso, senão fica muito Meryl Streep.
Eu tenho uma irmã que tem um humor do cão. Foi nela que eu me baseei para compor a
personagem Dora

Você também não gosta da Meryl Streep?


Ela é perfeita. Faz 500 sotaques, coloca os gestos de maneira certa, da forma precisa, tem
uma técnica apurada, mas sem emoção. Parece que ela está dizendo "olha como eu sei
fazer". Naquele filme do Babenco - Ironweed - você percebe que ela busca a realidade. E o
Jack Nicholson, maravilhoso, é real. Nem precisa buscar.

Em quem você se baseou para compor a personagem?


Eu tenho uma irmã, a Áurea, que tem um humor do cão, algo de bandida, mas não bandida
no sentido de roubar ou prejudicar alguém, pelo amor de Deus! Ela é forte, gorda, uma
potência de mulher, de um humor cortante, cheia de misericórdia mas sempre disposta a
analisar as pessoas de forma mais concreta. Foi nela que eu me baseei. Na verdade nós
somos sobreviventes de uma geração horrorosa. Somos a segunda geração de portugueses
com italianos que sobreviveram porque eram fortes. Nós, como segunda geração, já temos
mais os pés na terra, somos mais brasileiros, mas eles, se sobreviveram, tiveram de alguma
forma, em algum momento, uma Dora na vida deles.

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Curiosidades :

Coincidência ??
No Oscar Central do Brasil disputou a estatueta com o filme A VIDA É BELA . veja só a
coincidência !
A Vida é Bela Central do Brasil
Dora é mãe de Josué ( Giosué ) Dora é protetora e amiga de Josué
Nicoletta Braschi .......... Dora Fernanda Montenegro ......... Dora
Giorgio Cantarini ......... Giosué Vinícius de Oliveira ............... Josué

CRUZEIRO DO NORDESTE - Imagine uma cidade de poucas ruas, uma pequena igreja
e uma praça larga e desprovida de qualquer sombra. Em dias normais, Cruzeiro do
Nordeste, distrito de Sertânia, a 322 quilômetros do Recife, não passa de um povoado
pobre, distante, onde as pessoas têm que comprar água para beber e sofrem com a energia
elétrica, quando cai a noite. No último domingo, no entanto, Cruzeiro estava de roupa nova.
A cidade e seus moradores se vestiram para assistir a exibição do filme Central do Brasil,
de Walter Salles Júnior, que teve 30% de suas cenas gravadas na comunidade.
Quem conheceu a cidade antes do filme se surpreendeu ao entrar e dar de cara com grupos
de coco e bandas de pífano e forró animando as pessoas. As ruas foram decoradas com fitas
coloridas e várias barraquinhas davam um clima de quermesse de cidade do interior. Às
quatro horas da tarde, uma procissão de São José, o padroeiro de Cruzeiro, misturou-se ao
som profano da banda de pífanos e os devotos do santo seguiram com o andor para igreja. A
atenção voltou-se para a praça e, logo em seguida, para o clube da comunidade, onde os
atores Fernanda Montenegro e Fernando Torres distribuíam autógrafos e conversavam com
os poucos fãs que conseguiram barrar a segurança.
Um deles, o aposentado José Batista Sobrinho, havia escrito há dois meses uma carta para
Fernanda, contando de sua admiração e aproveitando para pedir uma ajuda à atriz. "Ela
nunca me respondeu a carta, mas hoje ela vai falar comigo, só me pediu para que esperasse
um pouco". Fernanda, depois de falar com mais alguns fãs e políticos, que estiveram todo o
tempo ao lado dos artistas, voltou-se para Batista Sobrinho e o agradou com R$ 200,00.
A admiração e o carinho que toda a população sentia ao ver um dos atores, ou o diretor
Walter Salles Jr., que chegou depois acompanhado pelo ator Vinícius de Oliveira, era
visível. O que não soava como tietagem era a aproximação de políticos, que aproveitaram a
festa em Cruzeiro do Nordeste como estratégia de campanha. O governador Miguel Arraes
(PSB) chegou cedo a Cruzeiro e fez discurso rápido, porém eficiente. Arraes dividiu
palanque com secretários, entre eles o da Fazenda, Eduardo Campos, e o de Imprensa,
Evaldo Costa, e os prefeitos de Sertânia, Ângelo Ferreira (PSB), e de Arcoverde, Rosa
Barros (PDT).
Depois de o governador assumir um compromisso de levar água para povoados de
Arcoverde, Sertânia e Flores, foi a vez de Fernanda Montenegro falar à população. Ela
agradeceu a recepção e chamou a todos para assistir Central do Brasil. Os cruzeirenses,
mais todo o povo dos municípios vizinhos, espalharam-se pela praça e por mais de duas
horas se deixaram encantar com o som, as imagens e histórias que ajudaram a criar.

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Momento de relaxamento.
“ Água de coco é sempre bem vinda “ disse
Walter.

Responsáveis pela maravilhosa trilha sonora do filme

DIA MAIS ALEGRE DO ANO

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Central do Brasil
CRUZEIRO DO NORDESTE Um ano após terem representado a si mesmos, os
habitantes de Cruzeiro do Nordeste (a 322 quilômetros do Recife) assistirão num telão de
17 metros de largura por sete de altura, ao filme Central do Brasil.

O comerciante Elias Pereira, conhecido na cidade como Matias fez um making-off do


longa às escondidas durante as gravações realizadas no vilarejo , 3 fitas foram gravadas.
Uma com depoimentos próprios e 2 com o making-off .
As filmagens foram exibidas pela rede bandeirantes .
Matias não cobrou nada pelo material será exibido na TV Bandeirantes em todo o Brasil,
nem se arrependeu quando outras pessoas lhe disseram que ele poderia ter ganho muito
dinheiro. "O que eu queria, se eles pudessem dar, era uma ambulância para doar à
paróquia", diz. O próprio Walter Salles Jr., quando soube do registro feito por Elias, ligou
para ele querendo comprar as fitas. Só que elas já estavam de posse da produtora. Até o
final da semana, o videomaker esperava que o material editado chegasse do Rio. Quer ver
se dá tempo de exibi-lo hoje, antes ou depois de longa. A produção do programa Jô Soares
Onze e Meia também se interessou pela história e pediu para que Elias enviasse umas
cópias. "Não quero nada, só mesmo uma ambulância, porque já cansei de levar gente
doente para Sertânia numa caminhonete F-1000.Até parto de mulher já fiz dentro dela",
conta. Também não quer ficar sem o vídeo. Guardará como lembrança dos melhores dias
que Cruzeiro do Nordeste já teve.
"Eu estou vivendo um instante muito feliz de minha vida. Não penso em fazer video nesta
fase, mas incentivo meu filho, que me ajudou na gravação", diz. Elias é um dos poucos do
povoado que vê, com olhos mais críticos, a situação atual do distrito. Por este mesmo
motivo prefere pedir apenas a ambulância, já que não pode resolver o problema crônico da
falta d'água e da queda de energia. "O prefeito de Sertânia prometeu a Walter Salles Jr.,
findada as gravações, que teria água encanada da próxima vez que ele viesse, mas
realmente nunca fez nada por esse povo", denuncia. Mas nada irá apagar o brilho do seus
olhos, nesta noite, quando o céu de Cruzeiro do Nordeste aparecer na tela do cinema do
jeitinho que ele é.

O menino Fred Santiago comprou um vestido novo para a mãe assistir o filme

Depois das filmagens Fred foi para o Rio de Janeiro passar férias na casa do ator Vinícius
de Oliveira. Depois foram para Disney

No carnaval Fred desfilou na escola Imperatriz Leopoldinense

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Central do Brasil
Miramax investiu US$ 8,7 milhões na campanha de A vida é bela contra menos de US$ 1
milhão com a campanha de Central do Brasil

Decote – Em relação a Fernanda Montenegro, como ela não levou o Globo de Ouro, fica
então a esperança de a maior atriz brasileira chegar ao prêmio mais cobiçado do cinema.
Fernanda pode não ter ganho, mas decididamente, sem nacionalismo, foi a mais elegante da
noite, em atitude e roupa. Num discurso emocionado, que sensibilizou gente do calibre de
Robin Williams, La Montenegro encantou a todos, mesmo tropeçando no inglês. "Estou
muito, muito feliz que o nosso filme tenha sido tão bem-recebido e tenha lhes tocado o
coração", finalizou ela, superando com galhardia um quase imperceptível incômodo na bela
roupa preta – jaqueta, pantalona e sapatos de veludo –, oferecidos pelo estilista italiano
Valentino. Não se sabe se o decote era propositadamente ousado ou se, por azar, a jaqueta
soltou um botão. O fato é que, antes de subir ao palco, Fernanda conviveu por segundos
com a câmera captando generosamente seu sutiã preto. Durante todo o tempo do discurso
manteve a estatueta junto ao peito. A aparente justificativa é que ela não teve tempo
suficiente para escolher um modelo feito sob medida por Valentino, que adorou sua atuação
e decidiu presenteá-la com o traje que foi pessoalmente buscar na loja do estilista, situada
na exclusiva Rodeo Drive, rua de Los Angeles. Comenta-se que os vendedores tentaram
convencê-la a levar um modelito brilhoso, destes que as atrizes americanas tanto adoram.
Chiquérrima, Fernanda não declinou do preto.
Durante a cerimônia, como bom cavalheiro, Salles abriu todo o espaço à atriz. Sua
felicidade estampada no rosto de galã era suficiente.

Que palhaçada !!
Este ano Central do Brasil concorreu ao
OSCAR de melhor filme
ESTRANGEIRO disputando a estatueta
com A VIDA É BELA , filme italiano
produzido pelo diretor Roberto Benigni
Na apresentação do vencedor a surpresa Até o momento, Central do Brasil
colocaram uma artista italiana para arrecadou nos Estados Unidos US$ 1,5
entregar o prêmio imagine quem milhão nas 23 salas onde está sendo
ganhou ??? exibido. Na França, Itália, Alemanha e
Suíça já foi visto por cerca de 717 mil
pessoas

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Central do Brasil

Símbolo divulgação no exterior.

Você sabia que Central do Brasil foi refilmado várias vezes ?


Eles tiveram que refilmar por causa das chuvas fora de época, foram obrigados a refazer
todo o processo de locação e com isso acabaram muitas vezes dormindo com habitantes
pois não tinha hotel !

Só para esclarecer. Que filme é esse que todo mundo fala, esse tal Terra Estrangeira?

TÍTULO DO FILME: Terra Estrangeira


PRODUTORA/EMPRESA: Videofilmes Produções Artísticas Ltda.
DIRETOR : Walter Salles Jr.
AGENTE FINANCEIRO: Unibanco S.A.
TIPO DE PROJETO: longa
TOTAL DE CERTIFICADOS DISPONÍVEIS:R$: 150.000
Sinopse :Em março de 1990, o Plano Collor faz com que o país mergulhe no caos. Milhares de pessoas
abandonarem suas casas e famílias para tentar a vida em outros países. Neste contexto está uma família de
descendentes de espanhóis.

Cartaz promocional do
filme, divulgação.

LINGUAGEM CINEMATOGRÁFICA I
Breve Relato da História do Cinema

Linha do tempo

1895
• Os irmãos Auguste Lumière (1862-1954) e Louis Lumière (1864-1948) criaram a câmara de
vídeo, futuramente patentiada. Em 28 de dezembro, eles promovem a primeira sessão pública
do cinematógrafo, no Grand Café do Boulevard des Capucines, em Paris, com a exibição de dez
filmes, entre eles A Saída dos Operários da Fábrica Lumière.
1896
• Charles, Émile, Jacques e Thêophile Pathé fundam a Pathé Frères, estúdio que em 1908 já é um
império internacional.
• The Kiss, de Edison, mostra em close-up um beijo entre John Rice e May Irwin.
• Em 8 de julho, é realizado no Rio de Janeiro a primeira sessão de cinema no Brasil.

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Central do Brasil

1897
• Inaugurada a primeira sala regular de cinema no Brasil, na rua do Ouvidor, no Rio de Janeiro.
1898
• Em 19 de julho, Afonso Segreto roda o primeiro filme brasileiro: a Baía de Guanabara
fotografada de navio.
• Surgem os primeiros filmes com trechos coloridos de maneira primitiva, sobre a película já
filmada.
1899
• Sai King John, a primeira das mais de 200 adaptações cinematográficas de Shakespeare.
• A Eastman Kodak estabelece o formato padrão de filme cinematográfico para uso profissional,
com 35mm de largura e quatro perfurações ao lado de cada fotograma. Em 1917, a Sociedade
dos Engenheiros Cinematográficos dos EUA adota essas dimensões como oficiais.
1902
• O filme Viagem à Lua, de Georges Méliès, introduz a ficção científica no cinema.
1903
• Edwin S. Porter faz O Grande Roubo do Trem, precursor dos faroestes que apresenta uma
seqüência colorida na própria película.
1905
• É fundado o Variety, jornal que se tornou a bíblia da indústria de espetáculos. A partir de 1930,
enfrenta a concorrência do Hollywood Reporter.
1906
• George Albert Smith patenteia o Kinemacolor, primeiro processo comercial para filmes
coloridos.
1907
• inauguram-se vinte salas no Rio (contra uma em S. Paulo), o que fomentou a expansão da
produção local e levou à cifra fantástica de 200 títulos realizados entre 1909 e o ano seguinte
1910
• Vida de João Cândido, de autor desconhecido, é o primeiro filme nacional a trazer um
personagem negro, um marinheiro que liderou a Revolta da Chibata, no Rio.
1911
• É lançado Little Nemo, de Winsor McCay, primeira tentativa autêntica de produzir um filme
animado com perspectiva e movimento.
1912
• Carl Laemmle funda a Universal Pictures, vendida em 1962 para a agência de talentos MCA,
por sua vez comprada em 1990 pelo grupo japonês Matsushita.
1913
• Hollywood, subdivisão política da cidade de Los Angeles, começa a tornar-se o centro da
produção cinematográfica dos EUA. Dos grandes estúdios, apenas a Paramount permanece ali
hoje; os demais transferiram-se para outras regiões de LA.
1914
Sai Darktown Jubille, o primeiro filme americano inteiramente realizado por negros.
1915
• O Nascimento de Uma Nação, realizado por D.W.Griffith, é uma apologia do racismo que reúne
inovações como uso de panorâmica e montagem alternada. Foi o primeiro filme a romper a
barreira dos US$ 10 milhões de bilheteria e a ser exibido na Casa Branca.
1916
• Intolerância, de Griffith, épico sobre o preconceito, explora ainda mais os recursos reunidos em
O Nascimento de uma Nação.

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• A fusão da Famous Players, criada por Adolph Zukor, em 1912, com a Jesse L. Lasky Feature
Players dá origem à Paramount.
1917
• Criada em 8 de dezembro a Universum Film (UFA), durante muitos anos o principal estúdio
alemão.
1918
• The Sinking of the Lusitania, de Winsor McCay, provavelmente o primeiro longa de animação.
1919
• Em 27 de agosto, Lênin assina decreto nacionalizando o cinema tzarista; em 1922, os estúdios
reabrem.
• Mary Pickford, Douglas Fairbanks, Charlie Chaplin, William S.Hart e D.W.Griffith fundam a
United Artists, em 1981 incorporada à MGM e desde então pertencente ao grupo australiano
Qintex.
• Robert Wiene realiza o filme-marco do expressionismo alemão, O Gabinete do Dr.Caligari.
1921
• 845 filmes norte-americanos são lançados nos cinemas dos EUA, recorde ainda não igualado.
1922
• É criada a Montion Picture Producers and Distributors of America, principal instrumento de
lobby do cinema nos EUA.
1923
• Harry, Albert, Jack e Sam Warner fundam a Warner Brothers. Em 1989, o grupo Warner
Communications uniu-se à Time, Inc. para criar a maior companhia de mídia do mundo.
• Walt e Roy Disney fundam a Disney Brothers Studio, que deu origem a The Walt Disney
Company.
1924
• A Metro Pictures, de Marcus Loew e Nicholas Schenk, incorpora a Goldwyn Pictures e associa-
se a Louis B. Mayer, dando origem à Metro-Goldwyn-Mayer, o mais famoso estúdio de
Hollywood nos anos 30.
• Os irmão Harry e Jack Cohn unem-se a Joseph Brandt para fundar a Columbia, adquirida em
1981, pela Coca-Cola Company.
1925
• Sergei M. Eisenstein realiza O Encouraçado Potemkin, clássico do cinema político, e coloca em
prática suas idéias sobre "montagem das atrações". Esteve proibido no Brasil de 1964 a 1980.
1927
• A Fox produz curtas e seu primeiro filme de atualidades utilizando o sistema Movietone, que
grava o som diretamente na película. Aurora, de Murnau, é lançado apenas com música na
trilha, sem diálogos. O Cantor de Jazz, que usa o Vitaphone (sistema de sonorização em discos),
tem cenas musicais sincronizadas e dois trechos com diálogos.
• Napoleão, de Abel Gance, introduz o sistema de projeção Polyvision, de tela tripla. Em 1956,
Gance registra outro sistema de projeção tripla, o Magirama. Napoleão é restaurado em 1981
com trilha de Carmine Coppola.
• Em 11 de janeiro, 36 profissionais, entre eles Harold Lloyd e Mary Pickford, fundam a
Academia de Artes e Ciências Cinematográfica de Hollywood. Hoje ela tem quase 5 mil
membros.
1928
• Steamboat Willie apresenta o personagem-símbolo de Walt Disney e introduz o som
sincronizado em cartoons.
• Joseph Kennedy e David Sarnoff fundam a RKO, adquirida por Howard Hughes em 1948 e
pelo grupo General Teleradio em 1955. Foi extinta em 1957.

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1929
• Em 6 de maio, a Academia realiza a primeira cerimônia de entrega do Oscar a filmes exibidos
em Los Angeles de agosto de 1927 a julho de 1928. Asas, de William Wellman, ganha o prêmio
de melhor filme.
• Após vários escândalos, os estúdios americanos adotam um "código de produção" moralista,
batizado Código Hays. Em 1934, cria-se um organismo para implantar a autocensura: a
Administração do Código de Produção.
• Um Cão Andaluz, dirigido por Luis Buñuel e co-escrito por Salvador Dali, torna-se o marco do
surrealismo no cinema.
1930
• Adhemar Gonzaga funda, no Rio de Janeiro, a Cinédia.
1932
• Quatro filmes dividem o Leão de Marcos na primeira edição do festival de Veneza, entre eles A
Nous la Liberté, de René Clair. Inaugurado, em 27 de dezembro, o Radio City Music Hall,
ainda hoje o maior cinema do mundo, com 5.874 lugares.
• Rouben Mamoulian torna-se precursor no uso do zoom com Ama-me Esta Noite.
1933
• O Desertor, de Vsevolod Pudovkin, é um dos precursores no uso do recurso da câmera lenta,
numa cena de suicídio.
1935
• Surge a 20th Century Fox, fruto da associação entre a Fox Film Corporation de William Fox e a
20th Century Pictures de Joseph Schenck e Darryl F. Zanuck.
• Vaidade e Beleza, de Rouben Mamoulian, é o primeiro longa inteiramente colorido. Usa o
processo Techicolor. Nos anos 50, surge o Eastmancolor, que exige menos luz durante as
filmagens e cujo processo é mais simples e barato.
• Mae West torna-se a mais bem paga mulher dos EUA, ao faturar durante o ano US$ 480 mil.
• Herbert J. Yates funda a Republic, fechada em 1958.
1936
• Início das transmissões públicas e regulares de TV em Londres.
1937
• Branca de Neve e os Sete Anões, primeiro longa de Walt Disney, rompe a barreira de US$ 50
milhões de bilheteira.
• O maior complexo do cinema europeu, Cinecittà, é fundado nas proximidades de Roma.
1939
• O ano de ouro de Hollywood:...E o vento levou, O Mágico de Oz, No Tempo das Diligências,
Adeus Mr.Chips, Ninotchka, O Morro dos Ventos Uivantes, Gunga Din, A Mulher faz o
Homem, Beau Geste, Duas Vidas...
1941
• É fundada a Atlântida, no Rio de Janeiro, que se especializa em chanchadas e durante muitos
anos concentra a maior parte da produção nacional.
• Orson Welles realiza Cidadão Kane, inovador pelo uso de profundidade de campo e
movimentos de câmera, entre outros aspectos, e a partir dos anos 60 eleito por cineastas e
críticos do mundo inteiro, em pesquisa da revista Sight and Sound, o melhor filme de todos os
tempos.
• John Huston lança Relíquia Macabra, mais tarde considerado o primeiro clássico do film noir.
1942
• Mowgli, o Menino Lobo, de Zoltan Korda, torna-se o primeiro filme a ter sua trilha sonora
(composta por Miklos Rozsa) lançada comercialmente.
1945
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Central do Brasil
• Roberto Rossellini dirige e Federico Fellini co-escreve o marco inicial do neo-realismo italiano,
Roma, Cidade Aberta.
1946
• A primeira edição do festival de Cannes dá o Grande Prêmio a A Batalha dos Trilhos, de René
Clément. A Palma de Ouro só é criada em 1955.
1949
• O estúdio Vera Cruz é fundado, em São Bernado dos Campo (SP).
1950
• A atriz Ida Lupino estréia na direção com Quem Ama Não Teme e torna-se a primeira mulher a
fazer carreira em Hollywood como produtora e diretora.
• Flechas de Fogo, de Delmer Daves, é a primeira produção classe A de Hollywood a tratar índio
como gente.
• Rashomon, de Akira Kurosawa, revela para o Ocidente o cinema japonês.
1952
• Bwana Devil é o primeiro filme em 3D lançado nos cinemas.
• Cantando na Chuva, de Gene Kelly e Stanley Donen, representa a quintessência dos musicais.
1953
• Estréia em Nova York O Manto Sagrado, primeiro filme rodado em CinemaScope, processo
registrado pela Fox.
• Lima Barreto ganha o prêmio de melhor filme de aventura no Festival de Cannes
1954
• François Truffaut publica nos Cahiers du Cinéma o artigo "Uma Certa Tendência do Cinema
Francês", que estabelece as bases da "política dos autores".
• Nelson Pereira dos Santos lança Rio, 40 graus, considerado o precursor do Cinema Novo.
1955
• O Homem do Braço de Ouro, de Otto Preminger, com Frank Sinatra no papel de um viciado em
drogas, desafia o Código Hays.
1956
• A primeira edição do Festival de Berlim dá o Urso de Ouro a Convite à Dança, de Gene Kelly.
1959
• O filme Ben-Hur, de William Wyler, recebe onze Oscar, recorde absoluto até hoje.
• O movimento francês da Nouvelle Vague entra em campo com Os incompreendidos, de
Truffaut; Hiroshima, Meu Amor, de Alain Resnais e Acossado, de Godard.
1961
• O Passado me Condena, com Dirk Bogarde, é a primeira produção classe A em língua inglesa a
falar abertamente de homossexualismo.
• Jerry Lewis usa o videotape para controlar movimentos de atores e câmera em O Terror das
Mulheres.
1962
• O Pagador de Promessas, de Anselmo Duarte, ganha o prêmio máximo no Festival de Cannes.
• O Satânico Dr. No, primeiro dos 18 filmes com James Bond, inicia a mais bem-sucedida série
da história do cinema.
1963
• Cleópata, de Joseph L. Mankiewicz, custou US$ 44 milhões e foi durante muitos anos o mais
caro filme da história
1964
• Os dois grandes filmes do Cinema Novo Brasileiro chegam as telas: Vidas Secas, de Nelson
Pereira dos Santos, e Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha.

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1965
• Glauber Rocha publica o manifesto "Estética da Fome", divisor de águas do cinema brasileiro.
1967
• A superprodução soviética Guerra e Paz teria custado US$ 100 milhões, o que a tornaria a mais
cara da história até a realização de True Lies, 1994, de James Cameron.
1968
• 2001, uma Odisséia no Espaço torna-se um marco da ficção científica e do próprio cinema
moderno.
• O sistema classificatório de filmes substitui o Código Hays
1970
• A Paramount e a Universal fundam empresa de distribuição para atuar no exterior, a Cinema
International Corporation (CIC), à qual se associam em 1981 a MGM e a United. Em 1982, ela
vira United International Pictures (UIP)
1971
• Stanley Kubrick gera polêmica em todo o mundo ao adaptar o romance Laranja Mecânica, de
Anthony Burgess, sobre a violência de uma sociedade futurista. O filme é censurado em vários
países, inclusive o Brasil
1972
• O Poderoso Chefão, filme de Francis Ford Coppola, inaugura a fase arrassa-quarteirão no
cinema americano: ou a fita é um grande sucesso, ou não é nada.
1975
• Tubarão, filme de Steven Spielberg, é o primeiro a romper a barreira de US$ 100 milhões de
bilheteria, e a produção estrangeira de maior público no Brasil (13 milhões de espectadores).
• A Industrial Light & Magic, gigante dos efeitos especiais, surge como um pequeno grupo
dedicado a criar truques visuais para o filme Guerra nas Estrelas, de George Lucas.
1976
• Dona Flor e seus Dois Maridos, de Bruno Barreto, é visto por 10,7 milhões de espectadores, o
maior sucesso de público na história do cinema nacional.
• Blound for Glory é o primeiro filme a usar Steadicam, sistema criado por Garret Brown e que
permite filmar levando a câmera na mão, com imagem estabilizada. O recurso foi notabilizado
por Stanley Kubrick, em O Iluminado.
• O som em Dolby Stereo chega ao cinema.
• O Império dos Sentidos, de Nagisa Oshima, é o primeiro filme "sério" com cenas de sexo
explícito.
1977
• A Matsushita introduz o formato VHS (Video Home-System), que passa a dominar o mercado
nos anos 80.
• Guerra nas Estrelas, filme de George Lucas, é um marco absoluto no desenvolvimento dos
efeitos especiais; torna-se recordista de bilheteria.
1982
• E.T, filme de Steven Spielberg, assume a liderança no ranking de bilheteria; em 1993, é
destronado por Jurassic Park, também de Spielberg.
• Tron, uma Odisséia Eletrônica, dos Estúdios Disney, é o primeiro filme a produzir seqüências
inteiras em computação gráfica.
1985
• A Color System Technologies lança um sistema de colorização de filmes, comercializado por
uma divisão da Turner, que introduziu um processo digital em 1987, através do qual a cor é
acrescentada eletronicamente em videotape.
1988
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Central do Brasil
• Robert Zemeckis integra atores de verdade e desenho animado à perfeição em Uma Cilada para
Roger Rabbit, que se torna um marco técnico.
1991
• O Exterminador do Futuro 2, de James Cameron, orçado extraoficalmente em US$ 95 milhões,
torna-se o mais caro filme da história (sem levar em conta os supostos US$ 100 milhões de
Guerra e Paz); Arnold Schwarzenegger teria recebido o cachê recorde de US$ 15 milhões.
• Final Approach, de Eric Steven Stahl, primeiro filme inteiramente gravado com tecnologia de
som digital.
1993
• Steven Spielberg lança Jurassic Park, o máximo - até então - em efeitos digitais e a maior
bilheteria de todos os tempos, com US$ 868 milhões.
1994
• Em 12 de outubro, Steven Spielberg, David Geffen e Jeffrey Katzenberg (ex-Disney) anunciam
sua parceria para a criação de um novo estúdio.
1995
• É lançado Toy Story, primeiro longa metragem feito totalmente em computação gráfica.
1996
• Chega ao cinema O Paciente Inglês, filme que ganhou nove oscar e que ganhou um número
muito alto de bilheteria.
1997
• Titanic chega as telas do cinema, ganha 11 oscar e bate o recorde de bilheteria de todos os
tempos.
1999
• Chega aos cinemas Brasileiros e de todo o mundo Central do Brasil. Filme de sucesso !

LINGUAGEM CINEMATOGRÁFICA II

Para se produzir um filme não basta ter uma história e o trabalho dos atores, é
preciso muito mais do que isso como por exemplo, o som, as rimas sonoras e visuais, os
cenários, a luz, e etc, que formam a linguagem cinematográfica, que é a forma como o
filme é contado.
No caso do filme Central do Brasil, a história vai sendo contada da forma mais
realista possível, pois consegue despertar a emoção real vivida pelos personagens naquele
determinado momento.

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Central do Brasil
A primeira parte do filme, que se passa basicamente dentro e ao redor da Central do
Brasil e na casa de Dora, a imagem é muito fechada, transmitindo uma sensação de
claustrofobia, as pessoas são filmadas bem de perto, o pouco de cenário que aparece atrás
deles, ou as poucas vezes que elas são filmadas mais de longe, é sempre um fluxo de
pessoas constante, que vem acompanhado de muitos barulhos (barulho de trem, de pessoas
falando sem parar, gritos e etc). Outro fato importante é a declinação de tons bejes, ocres,
cinzas e marrons, que dão a impressão de sujeira e abandono. Além desses efeitos têm
também as rimas sonoras: o barulho do pião de Josué que se emenda com o barulho do trem
e barulho de uma carta rasgada por Dora que se emenda também com o mesmo, e o som da
porta do trem fechando na cara de Dora que é praticamente o mesmo som da porta de seu
apartamento se abrindo e batendo na parede; e rimas visuais: a grade que está em volta de
uma Santa que Josué está vendo na Central se encaixa com a grade da janela do
apartamento de Dora e o vagão do trem que se encaixa com o corredor do prédio de Dora.
Todos essas técnicas nos causa a impressão de que Dora não consegue escapar do círculo
vicioso que é a sua vida ou ainda de que Josué não conseguirá sobreviver neste círculo.
À medida em que o tempo vai passando , que Dora e Josué criam um laço de
amizade e entram nas estradas rumo ao Nordeste brasileiro, os cenários vão se abrindo, as
imagens começam a respirar, novas cores aparecem, a luz se torna bem mais visível e os
barulhos antes constantes passam a ser cada vez mais raros. Isso tudo esta diretamente
relacionado com as mudanças psicológicas de Dora e de Josué, pois nessa altura Dora já
tem uma outra visão de mundo, aonde ela sabe a importância de ajudar o próximo, além
disso se torna uma pessoa menos amarga, mais dócil, compreensiva e etc. Josué também
começa a descobrir um novo mundo, e sempre fica na expectativa e na esperança de
conhecer seu pai e retornar a uma terra que não conheceu.
Quase no final do filme, quando Dora perde Josué em meio a uma multidão, a
sensação de claustrofobia retorna, o fluxo de pessoas e barulhos constantes reforçam ainda
mais essa sensação, é como se Dora tivesse voltado a vida de antes sem Josué. Nessa parte
do filme acontece uma rima visual: no momento em que Dora começa girar dentro da sala
cheia de velas, a imagem faz uma ligação com a luz de um fogo de artifício que também
gira em meio à multidão. Passado esse momento, quando Dora e Josué já estão juntos, ou
quando ela está voltando para o Rio de Janeiro, certa de que fez o melhor para o menino, a
imagem novamente volta a ser mais aberta e os barulhos raros.
E dessa forma, nós os telespectadores conhecemos a história de uma maneira bem
real.

BIOGRAFIA – FONTES DE PESQUISA

Fontes de Pesquisa :
Internet – arquivo jornais Folha de São Paulo
Estado de São Paulo
Diário de Pernanbuco
Revistas – SET
NET/Multicanal

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ÉPOCA
VEJA

Pesquisa na internet : www.altavista.com.br


www.zeek.com.br
www.cade.com.br
www.uol.com.br/miner

Interrelações :

O filme Central do Brasil de Walter Sales, dialoga com o filme Orfeu de Cacá
Diégues . Os dois mostram um tipo de pobreza muito freqüente nas grandes cidades
brasileiras. O primeiro mostra uma das causas desta pobreza, que é a migração nordestina
para os grandes centros urbanos, no caso do filme o Rio de Janeiro. Já o segundo, mostra
uma das conseqüências do problema apontado no primeiro filme, que é a pobreza das
pessoas que vivem em favelas no Rio de Janeiro.

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Como já dissemos, no filme de Walter Sales, o fato da migração, é um dos dramas
principais apontados na história, e é sem dúvida um dos importantes contribuintes para o
grande número de pessoas que vivem em condições precárias nas grandes cidades. Muitos
destes migrantes, são nordestinos que a procura de um trabalho e uma vida melhor, se
deslocam para os centros urbanos, mais quando chegam, percebem que a realidade é bem
diferente do que eles imaginavam, e por falta de ter o que comer e de ter aonde morar,
acabam indo morar em lugares precários, como favelas ou até mesmo em baixo de pontes .
E é exatamente esse o drama vivido pelos personagens Ana e Josué, migrantes
pernambucanos que se deslocaram para o Rio de Janeiro em busca de uma vida melhor,
mais que vivem precariamente. E essa idéia fica ainda mais caracterizada pelas falas de
muitas pessoas que pedem para Dora escrever cartas para o nordeste, tentando manter os
laços com amigos e parentes que ficaram lá.
O filme de Cacá Diegues, retrata às vésperas de um Carnaval, a grande dificuldade
de se viver dentro de uma favela, mostrando a vida miserável a qual os moradores são
submetidos, o péssimo estado em que se encontram as casas e as pessoas, a violência
caracterizada por tiroteios entre policiais e traficantes de droga, o envolvimento de
adolescentes e até crianças com a droga e o tráfico dela e etc,... E essa pobreza vem
crescendo cada vez mais, dentro de um Brasil grande, que tem espaço para as populações se
desenvolverem sem precisar superlotar algumas regiões, e fazer com que muitas pessoas
acabem sofrendo com isso. Este problema precisa ser solucionado, mais quando chegará a
solução?

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...FIM
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Texto gentilmente cedido por Roberta Alvarenga (mami@sti.com.br)

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