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Cohen Gerald A. (2010) Critica Marista, n° 31. Sao Paulo: Fundagio Editora UNESP. For¢as produtivas e relagdes de producgaéo" GERALD A. COHEN Na primeira seco deste artigo, apresentarei de forma sucinta a interpretacaio do materialismo histérico presente no meu livro Karl Marx's Theory of History (1978).! Defino ¢ relaciono os conceitos de forcas produtivas e relacées de pro- dugao, defendendo a tese de que as explicacées centrais do materialismo histérico so aquelas que vém sendo chamadas de explicagdes funcionais. A segunda seco introduz a ideia de que toda historia é a historia da luta de classes, de acordo com 0 quadro teérico exposto na primeira segdo. A segdo 3 constitui um interlidio pessoal, de acordo com 0 qual explico a razio pela qual escrevi um livro sobre 0 materialismo histérico e 0 que me aconteceu apés té-lo escrito. Na tiltima seco confronto as ambiguidades da nogao crucial das relagdes de produgao que entravam as forgas de produgao e proponho uma versio revisada das formulagSes centrais do materialismo histérico.? toi Em meu livro, postulo que, para Marx a historia é, fundamentalmente, o cresci- mento do poder produtivo humano e que formas de sociedade surgem e desapare- cem conforme possibilitem e promovam ou inibam e dificultem esse crescimento. Uma apresentacio do materialismo * Este ensaio foi originalmente publicado em Mattheus (1983a). Uma parte dele (p.1-16) possui uma versao em espanhol (COHEN, 1989). Na revisdo técnica do texto, utilizamos a versio espanhola como uma fonte comparativa. (N. O.) 1 Doravante referenciado como KMTH. 2 As secoes Ve Il apresentam uma versdo de certa maneira revisada e ampliada do contetido que também esta presente em Cohen (1982a) e (1982b). Agradeco aos editores desses periddicos por me permitirem atualizar aqui o seu contetido relevante. Forgas produtivas e relagdes de producao * 63 O texto canénico para essa interpretagao é 0 famoso “Prefacio de 1859” para a sua Contribui¢do a critica da economia politica, do qual em breve analisare- mos algumas passagens. Argumento [na se¢ao 3 do capitulo VI de KMTH] que 0 Preficio explicita o ponto de vista de Marx sobre a sociedade e a historia, 0 qual podera ser encontrado nos seus escritos de maturidade, independentemente de qualquer forma razoavel de estipular 0 momento no qual ele alcancou sua maturidade intelectual. Ao nos dedicarmos ao Prefiicio, devemos compreender que nao estamos simplesmente analisando um texto entre outros, mas o texto que apresenta com a maior clareza a formulagao da teoria do materialismo historico. A apresentagao da teoria no Prefacio se inicia da seguinte maneira: --- Na produgao social da sua prorpia existéncia, os homens entram em relagdes determinadas, indispensaveis, independentes de sua vontade; essas relagdes de produgdo correspondem a um grau determinado do desenvolvimento de suas forgas produtivas materiais. O conjunto dessas relagdes constitu a estrutura econdmica da sociedade, a base real sob a qual se eleva uma superestrutura juridica e politica Essas sentengas mencionam trés conceitos ~ as forgas produtivas, as relacdes de produgao ea superestrutura —, entre os quais se dao certas relagdes explicativas (indicadas aqui em itilico). Primeiramente, devo dizer 0 que significam esses conceitos, em minha opiniao, para em seguida descrever as relagées explicativas entre eles (tudo que segue esté fundamentado em KMTH, mas nao ofereco no presente ensaio a argumentacdo completa, 0 que pode dar ao leitor uma impressao errénea de dogmatismo). As forgas produtivas sio as edificagdes ¢ os meios utilizados no processo de producao: meios de produgao, de um lado, ¢ forga de trabalho, de outro. Os meios de produgao sao recursos produtivos fisicos: ferramentas, maquinaria, matéria- -prima, espago fisico etc. A forga de trabalho inclui nao apenas a forga fisica dos produtores, mas também suas habilidades e seu conhecimento técnico (que eles necessariamente nao dominam), aplicados quando trabalham. Marx diz — ¢ estou de acordo com ele — que esta dimensdo subjetiva das forcas produtivas é mais importante do que a dimensao objetiva ou dos meios de producio: e, no interior da dimensao mais importante, a parte mais apta ao desenvolvimento é 0 conhecimento, Logo, em seus estigios posteriores, o desenvolvimento das forgas produtivas é, em grande medida, uma fungao do desenvolvimento produtivamente itil da ciéncia, Observem que Marx pressupde no Prefiicio algo que ele afirmara abertamente €m outros textos: que “existe um continuo movimento de crescimento das forgas 3. Prefacio a Contribuicao para a critica da economia politica, varias edigées, itélicos meus. [Nota da Organizadora): a traducao baseou-se, para fins comparativos, na seguinte versio em portugues do “Prefacio de 1859” (1982, p.82-3). 64 © Critica Marxista, n.31, p.63-82, 2010. produtivas” (1976, p.166). Argumento (na segao 6 do cap. Il de KMTH) que o padrao relevante para medir esse crescimento deve ser quanto (ou, melhor dizen- do, 0 quao pouco) trabalho deve ser gasto com dadas forgas para produzir 0 que é exigido para a satisfac’o das necessidades fisicas iniludiveis dos produtores imediatos.‘ Esse critério de produtividade social é menos ambiguo do que outros que podem ocorrer, mas a razo decisiva para escolhé-lo nao é a sua relativa cla- Teza, € sim a sua adequagao tedrica: se as relagées de produgao correspondem. como afirma a teoria, aos niveis de desenvolvimento do poder produtivo, entao esse modo de medir 0 poder produtivo torna a tese da correspondéncia formulada nessa teoria mais plausivel.* Nao estou afirmando que a tinica caracteristica explicativa do poder produti- vo esteja relacionada a sua quantidade: as caracteristicas qualitativas das forgas produtivas também ajudam a explicar o cardter das relagées de produgao. Meu argumento é que, a medida que a quantidade do poder produtivo é 0 que importa, a quantidade-chave é a quantidade de tempo gasto para (re)produzir os produtores, ou seja, para produzir 0 que eles devem consumir para poderem continuar traba- Ihando (em oposigao ao que eles verdadeiramente consomem, o que geralmente e cada vez mais na sociedade capitalista contemporanea — ultrapassa 0 que eles devem consumir). E a quantidade de tempo disponivel para além do trabalho requerido ou trabalho excedente® (0 qual se reduz pela histéria), o que resulta to determinante para a forma do segundo conceito que devemos descrever: as relagdes de producao. As relagdes de produgao sao relagdes de poder econdmico’ sobre a forga de trabalho e os meios de producao, de cujo privilégio alguns gozam, enquanto os demais carecem. Em uma sociedade capitalista, as relagdes de producao incluem 0 poder ecendmico que os capitalistas detém sobre os meios de produgiio, 0 po- der econémico que os trabalhadores (ao contrario dos escravos) possuem sobre sua propria forca de trabalho e a auséncia de poder econdmico dos trabalhadores sobre os meios de produgao. Os produtores imediatos podem nao possuir poder econémico, possuir algum poder econémico ou possuir total poder econdmico sobre a sua propria forca de trabalho e sobre os meios de produgao que utilizam. Se nos permitirmos um grau de idealizagao, podemos construir um quadro que 4 Ao contririo, por exemplo, de suas necessidades socialmente desenvolvidas, que nao precisam ser mencionadas neste contexto. 5. Para um conjunto de correspondéncias entre relacdes de producao e forcas de produgao, ver Cohen (1978, p.198). 6 Este nao é 0 conceito de excedente mais importante no marxismo, mas utilizo aqui por se tratar de tum conceit sobre algo puramente material e porque concebo o materialismo historico como uma tentativa de explicar 0 social por meio da referéncia ao material: ver Cohen (1978, p.6t; 98) e Cap. IV, passim, para uma defesa da distingao entre as propriedades sociais e materiais da sociedade. Chamo tal poder de “econémico", em virtude de que é poder sobre ¢ independentemente dos meios de obteng’o, de manutencao ou de exercicio do poder, que nao & necessariamente econdmico (Cohen, 1978, p.223-4) Forgas produtivas e relacdes de produgao * 65