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KITTY AOS 22:

DIVERTIMENTO

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REINALDO SANTOS NEVES

KITTY AOS 22:

DIVERTIMENTO

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romance

R EINALDO S ANTOS N EVES KITTY AOS 22: DIVERTIMENTO Kitty.pmd romance Ilha de Vitória, 2006

Ilha de Vitória, 2006

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  Dedicatória Para Renato Pacheco. Ressalva Esta é uma fábula de amor, e a ação
  Dedicatória Para Renato Pacheco. Ressalva Esta é uma fábula de amor, e a ação
 

Dedicatória

Para Renato Pacheco.

Ressalva

Esta é uma fábula de amor, e a ação se passa em primórdios do terceiro milênio. Ainda assim, é uma fábula; ainda assim, de amor.

Lembrete

Todo personagem tem o romance que merece.

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  Divertissement ( divertimento , em italiano) é um gênero musical cuja origem remonta ao
  Divertissement ( divertimento , em italiano) é um gênero musical cuja origem remonta ao
 

Divertissement (divertimento, em italiano) é um gênero musical cuja origem remonta ao século XVIII. Suas peças, geralmente compostas para conjuntos

de

câmara, têm de um a nove movimentos e seu clima (por serem tocadas em

banquetes e outras ocasiões sociais) é despreocupado, sereno, lépido e alegre.

O

gênero parece não ter uma forma específica, embora suas peças em grande

parte constituam uma suíte para dança ou assumam a forma de outros gêneros de música de câmara do seu século. Há outros termos, como serenata e noturno, para descrever músicas similares. Mozart compôs diferentes tipos de divertissement, às vezes em forma de pequena sinfonia, como as Sinfonias de Salzburgo, KV 136, 137, 138. Outros compositores do gênero incluem Haydn, Leopold Mozart, Carl Stamitz e Boccherini. Entre os poucos exemplos do século XX estão obras de Béla Bartók e de Igor Stravinsky (em seu balé O

beijo da fada).

 
 

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Certas coisas que o autor acha que deve dizer

A origem deste romance está num sonho. Sonhei com uma jovem de seus vinte anos: ela sai do carro do namorado – com quem, bem o sei, acaba de se desiludir — e afasta-se na penumbra. É madrugada. O local é ermo e silencioso. Há uma colina com algumas casas e um grande número de árvores que me parecem casuarinas ou eucaliptos. Uma ladeira asfaltada leva ao alto da colina. A moça caminha através

desse cenário. De repente pára e põe-se, entre surpresa e deslumbra- da, a escutar alguma coisa. Eu sei o que ela está escutando: é o silêncio.

A moça está fazendo a descoberta do silêncio.

Esse foi o sonho, e agora vejo o papel que faço nele; é o papel de narrador. A moça é minha personagem. Vem-me ao sonho para que eu tome ciência dela e a tire do sonho e a ponha onde deve ser posta: numa história. Silêncio é para mim um fator de interesse pessoal. Concordo com Fellini em que uma das coisas de que este mundo precisa é um pouco mais de silêncio. Comecei, portanto, a pensar nas possibili- dades de aproveitar o sonho literariamente. Ora, o que o sonho me deu foi uma única cena de um possível romance. Tive de me virar

para descobrir o resto da história e poder contá-la. Fiz, parece-me,

o que costumam fazer os paleontólogos que reconstituem o esqueleto

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  de um animal a partir de um único osso: reconstituí o romance a partir
  de um animal a partir de um único osso: reconstituí o romance a partir
 

de um animal a partir de um único osso: reconstituí o romance a partir de uma única cena. Como procedi? A personagem era e havia que ser jovem; o mun- do era e havia que ser o mundo dos jovens de hoje. Então procurei- os onde estavam ao meu alcance: nos blogs disponíveis na Internet. Ali fiz meu trabalho de pesquisa e dali extraí informações sobre a minha personagem e sobre o seu mundo: material suficiente para criar o cenário do romance e imaginar a mentalidade dos persona- gens e para produzir a linguagem narrativa. Batizei a personagem de Kitty — boa parte dos jovens de hoje usa diminutivos em inglês à

guisa de apelidos. Daí, Kitty. A gatinha Hello Kitty, portanto, não

é

causa mas conseqüência dessa escolha. O romance — a que dei o título provisório de Livro do silêncio

e

o tratamento meio que de fábula — deixou-se escrever sem me

criar maiores embaraços. Tendo começado o trabalho em julho de 2005, em outubro já foi possível pôr nas mãos de pessoas do círculo familiar e de alguns amigos uma primeira versão, com outro título provisório — Kitty: Hello, Goodbye. Depois foi só incorporar su- gestões feitas por esses leitores prévios e fazer mais duas leituras “autorais” e o livro estava pronto para sair à rua: primeiro roman- ce que publico desde Sueli, ou seja, desde 1989. Aqui apresso-me a esclarecer que a grafia incorreta de certas palavras ditas de baixo calão foi uma opção consciente: pareceu-me que tinha mais a ver com o tipo de narrativa e de narrador. Quanto ao perfil musical da personagem, foi construído se não às cegas cer- tamente às surdas, já que rock não faz parte do meu mundo. Vitó- ria, que Kitty e sua tribo chamam de Mic, é Vitória, ES, mas sem maior compromisso. Não há, por exemplo, nem na cidade nem no estado, uma universidade católica; da mesma forma, nem sei nem quis saber se já houve nestas paragens algum evento de moda na di- mensão do Victoria Fashion Week. Inventei uma coisa aqui, ignorei outra ali, colocando acima de tudo o interesse literário. Também no interesse literário, como tenho feito em outros textos, alterei o

 

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nome de ruas de Vitória, porque os nomes que lhes pespegam os vereadores têm o dom de poluir qualquer texto de literatura. Nos muitos blogs que tive ocasião de visitar está a fonte princi- pal deste romance. A Internet me deu também algumas informa- ções sobre desfiles de moda e a definição de divertimento, que é a que está na Wikipedia Encyclopedia, muito melhor, pelo menos para os meus propósitos, que a do grave Dicionário Grove de Música. E grande parte dos itens de consumo que aparecem no romance en- contrei em edições da revista Monet que recebo mensalmente, guar- dadas que foram como possíveis fontes de pesquisa para trabalhos escolares do meu filho João, de nove anos. E, em termos propriamente literários, onde estão as inspirações deste romance? Phil se chama Phil em homenagem a Philip Marlowe, o honesto detetive durão de Raymond Chandler — e, se Phil não é hones- to, ao menos é durão, ou assim me pareceu. A mancha no rosto de Bruno é irmã da que desfigura o rosto de Flory, em Dias na Birmânia, de George Orwell. E o mito de Cinderela é o mito de Cinderela. Ainda sobre Phil, a princípio cogitei confiar-lhe o ofício de narrador da história, mas logo vi que ele não poderia, sem o uso de soluções intrincadas, narrar os muitos episódios de que estaria au- sente. Apelei então para a alternativa do narrador na terceira pes- soa, mas alguma influência de Phil permaneceu comigo, de modo que sinto que é a ele que devo o tom narrativo do romance.

RSN

Vila Velha, ES, janeiro de 2006.

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  Kitty aos 22: Divertimento . Capítulo 1: sábado. Kitty chegou lá, o cemitério já
  Kitty aos 22: Divertimento . Capítulo 1: sábado. Kitty chegou lá, o cemitério já
 

Kitty aos 22: Divertimento. Capítulo 1: sábado. Kitty chegou lá, o cemitério já estava assim de gente. Lu veio, abraçou-se a ela. Lu chorava. Kitty fez força pra chorar também. Fungou, mas lágrima, nenhuma. Mas estava de óculos escuros. Como todo mundo, aliás, inclusive Lu. Que nem precisava. Lágrimas irrigavam-lhe o rosto.

Que foda, hein, — Kitty disse. A irritação como expressão de

luto.

Bota foda nisso, — disse um carinha que estava ali perto,

 

olhando pra ela. Kitty tirou os óculos e apontou bem pro olho dele a mira do seu olhar. Era pra ser um daqueles seus célebres olhares de ponta afiada, próprios pra furar olho de carinha e deixá-lo sem chão e fazê-lo voltar correndo ao colo materno de sua insignificân- cia, mas o carinha era alto, bonito, sarado, e sabia se vestir. Os óculos de acetato preto — Calvin Klein — ele trazia, displicente, erguidos à testa. Tinha verde o olho, carnudo o lábio, bonito o

cabelo. Era um pouquinho velho, trinta anos, por aí, mas isso não chega a ser um defeito. Olhar desdenhoso de Kitty virou olhar de surpresa. Carne nova no pedaço. E filé de primeira. Ou quase: pois Kitty viu no rosto dele, cagando-lhe a face esquerda, uma feia man- cha escura. Ninguém é perfeito, pensou Kitty, perdendo o tesão.

 

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  — Vem, — Lu disse. — Vem ver o pessu. — Como é que
  — Vem, — Lu disse. — Vem ver o pessu. — Como é que
 

— Vem, — Lu disse. — Vem ver o pessu.

— Como é que tá o astral? — Kitty disse, indo na corrente com Lu.

— Daquele jeito, — Lu disse.

 

— Que merda, — Kitty disse. De novo a irritação como expres-

 

são de luto. — Nunca pensei

Você conhece aquele carinha, Lu?

— Qual carinha? — disse Lu.

— Aquele que falou bota foda nisso, — Kitty disse.

 

— Vi não, — disse Lu. — Tá aonde?

Lá atrás, — Kitty disse. — Camisa amarela. Mó gato, se não fosse aquela mancha no rosto. Lu olhou por cima do ombro.

Conheço não, — disse. — Deve de ser gay. Vai por mim. De

cada dez gatos que tão aqui, nove são. É aquela história de noves fora. Vem. Vem ver Tânia.

Que Tânia? — Kitty disse.

 

Irmã de Benjy, — disse Lu. — Já esqueceu? Até te cantou daquela vez lá em Guarapa. —Ah, — Kitty disse.

 

* * *

Cemitério era pra Kitty o mais inusitado dos lugares. Estava ali só porque tinha o maior dos motivos de força maior: funeral de gente muito querida: um casal de amigos: Roberto e Benjamim: Bobby e Benjy, para os íntimos, como ela. Morte trágica. Abrigaram em casa três bofes e não deu outra: os três que fizeram o serviço. Casa bonita, no alto de uma pedra, num bairro bonito da cidade. Sem dúvida que, de dia, era um puta calor, por causa do sol batendo em cheio na testa da pedra. Mas a piscina era um balneário; vinte pessoas dentro e espaço de sobra pra mais oitenta. Kitty era uma que não faltava aos churrascos de sábado que esticavam em festas de embalo. Foi três quatro vezes, leva- da por Guto como princesa, recebida como rainha pelos donos da casa. De besta, deixou de ir depois que terminaram o namoro, ela e

 
 

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  Guto. Por uma questão de brio besta: não queria ver Guto na sua frente
  Guto. Por uma questão de brio besta: não queria ver Guto na sua frente
 

Guto. Por uma questão de brio besta: não queria ver Guto na sua frente nem pintado. Depois isso passou, mas ela perdeu um pouco a disposição, sabe-se lá por quê. E não foi mais. Falar no mal. Guto, de óculos escuros, veio chegando e deu um

beijo fraterno na testa de uma e de outra. É alto, bonito, sarado, mas não tem olho verde nem, porém, mancha escura no rosto. Fez discurso:

Eu sinto muito o que aconteceu, mas a única certeza da vida

é o fim da vida, por mais que seja indesejável pra cacete. Não pode- mos esquecer de viver, porque a vida continua. E temos que fazer a vida valer a pena, que assim, quando chegar a nossa vez, vamos ser lembrados e não esquecidos. Fora isso, é o seguinte: Bobby morreu, Benjy morreu, antes eles do que eu.

Como é que eu pude, pensou Kitty, namorar sete meses com um

babaca desses? Não devia ter namorado com ele nem sete minutos.

Cadê a galera? — Guto perguntou. Referia-se a essa coisa

abstrata mas concreta que é o grupo, o clã, a tribo, a que pertencia ele e pertenciam Kitty e Lu.

Tá todo mundo viajando, — Kitty disse. É julho, mês de férias: quem pôde revoou pro sul: Rio e Sampa.

Ah, bem, — disse Guto, que não faz faculdade e está sempre em férias. — E você, ficou por quê?

— Não interessa, — Kitty disse.

 

— Você viu os corpos, Guto? — disse Lu.

Sim. Guto teve a sorte e a honra de ver os corpos. Infelizmente não foi ele quem descobriu o crime. Outro aventureiro, rapaz da casa ao lado, chegou antes e chamou a polícia. Mesmo assim Guto foi testemunha ocular do fato consumado. Contou minuciosos de- talhes. A cabeça de Bobby foi parar dentro do aquário, maior trau- ma pros peixes. Benjy foi largado, feito em postas, sobre a cama do casal; vísceras vazaram sobre os lençóis de cetim. O estúdio, com todo o carésimo equipamento de áudio e vídeo e a riquésima filmoteca, foi destruído de fora a fora. Mensagens obscenas foram pinceladas nas paredes com sangue e com fezes.

 
 

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  — Que coisa horrível, — disse Lu, com uma careta de nojo: pro sangue
  — Que coisa horrível, — disse Lu, com uma careta de nojo: pro sangue
 

Que coisa horrível, — disse Lu, com uma careta de nojo: pro

sangue ou pras fezes? Kitty teve um arrepio de mórbida emoção: na mesma cama de casal, talvez entre os mesmos lençóis de cetim, num fim de festa, foi ela parar, cheia de tesão, na companhia de Guto. Ali fizeram uma batalha de travesseiros e depois treparam até raiar o dia e cantarem os passarinhos. Bobby e Benjy, as gracinhas, lhes trouxeram café na cama.

*

* *

Mas os caras da funerária até que tinham feito um bom traba- lho. Kitty examinou com a maior atenção os plácidos rostos de Bobby e de Benjy: não havia ali rastro algum do tormento que ti-

 

nham sofrido antes de morrer. Podiam ser dois desses mortos de sorte a quem a morte, natural e indolor, tivesse tomado com cari- nho pela mão durante o sono.

— Esses caras são uns artistas, — Kitty disse, com certa decepção.

— Tão bonitos, — disse Lu, referindo-se aos mortos.

— Gente boa, — Guto disse, referindo-se também aos mortos.

Cara, que cinismo é esse? — Kitty disse. — Desde quando você gosta deles? Desde que viu os corpos?

Qual é, Kitty? — Guto disse. — Tá de ressaca ou de TPM?

Uma coisa sim, outra não, mas Kitty não respondeu. Porre era

levantar de um porre às dez da manhã pra ir a um enterro às onze. Horário de enterro é cinco da tarde.

— Horário de enterro é cinco da tarde, — disse ela.

— Isso não é enterro, — corrigiu Lu. — É queimação.

— Cremação, — Guto disse. — Tosca, você, hein?

— Cremação, enterro, — Kitty disse. — É tudo a mesma merda.

O pó ao pó, — Guto disse.

*

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Pêsames de mão em mão às famílias enlutadas. Mãe de Bobby, coitadinha, inconsolável. Irmão mais na dele; meio com vergonha de ter irmão bicha assassinado por bofe. Irmãs de Benjy: à direita, a magra Sônia, à esquerda, a gorda Tânia. Lu diz: Meus respeitos. Kitty prefere: Meus sentimentos. Tânia, mesmo de óculos escuros, ainda assim consegue comer Kitty com os olhos. Não quer separar- se da mão dela: Obrigada, obrigada, muita gentileza. E segura-lhe a mão com a direita e cofia-lhe o braço com a esquerda. E sussurra- lhe ao ouvido: Tá lindinha de cabelim curto. Por fim, beijo gosmento nos cantos dos lábios, de um lado e de outro. Quem pode atirar a primeira pedra? Kitty era e é — pois vai sobreviver à história — bonita pra caralho. Olho azul, cabelo superlouro, pele dourada de sol; vinte e dois aninhos de idade. Cor- po em que tudo que veste cai bem, desde o vestido longo de seda até o short cavado de jeans; desde a rósea camisola de alça até a nudez de teor absoluto. Voz grave; sorriso inestimável; riso de cristal. Guto, em raro momento de inspiração, descreveu-a assim: Se ser bela can- sasse, Kitty viveria exausta. Como se não bastasse, ainda é aluna de Comunicação Social em faculdade católica, três salários mínimos de mensalidade; porque passou no vestibular, ano retrasado, ga- nhou de Daddy um Audi A-3 vermelho. Que está ali no estaciona- mento do cemitério, cintilando ao sol morno de final de julho. E Lu? Lu, coitada, não era nem tão bonita nem tão bem-nasci- da; mas pra quem gosta era bem mais sexy, com toda aquela luxuri- ante sensualidade. Tinha olho de um castanho mel, pele de um cas- tanho claro, crina de um castanho escuro. Não era à toa que tinha o sobrenome de Castanheira. Estudar não estuda, trabalhar não tra- balha: acaba de largar um trampo numa firma de transporte esco- lar: Ah, justificou ela pra Kitty, e Kitty concordou, esse babado de tirar criança de dentro de Kombi e botar criança dentro de Kombi tá abaixo de mim: eu mereço coisa melhor. Tinham-se conhecido, Kitty e ela, nas quebradas da noite de Mic — a cidade onde moram, também conhecida por Mictown, Victown, Faketown e um plural

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  de outros nomes mais — e gostado uma da outra. Chegaram certa vez a
  de outros nomes mais — e gostado uma da outra. Chegaram certa vez a
 

de outros nomes mais — e gostado uma da outra. Chegaram certa vez a ensaiar uns beijos na boca, uns toques íntimos, pra ver se dava jogo, mas não deu: nenhuma das duas curtiu. Em comum, pra con- solidar a amizade, tinham metido um piercing no umbigo: Kitty e Lu e, de xereta, a mãe de Lu. Mó barato.

 

* * *

 

Na hora de levarem os corpos pro crematório, Kitty viu-se diante do carinha de camisa amarela e mancha negra. Que lhe deu de bande- ja um sorriso risonho e franco. Ela não sorriu de volta. É muito ciosa de seus sorrisos: obras de arte: só dá a quem os merece, e quando. Desviou o olhar com desdém e cutucou a amiga com o cotovelo.

 
 

Já vi esse cara não sei aonde, — disse Lu.

Repórteres estavam em toda parte, seguidos de cinegrafistas que

 
 

filmavam tudo pra uma posteridade de um ou dois dias. Kitty fez semblante de profunda tristeza. Um repórter abordou-a. Como, a

não ser em sendo gay, deixar de entrevistar a mais bela enlutada do pedaço? Kitty considerou a tragédia pela perspectiva familiar:

 

Eu vim prestar solidariedade à família deles e dizer que fi-

 

quei supertriste pelo que aconteceu. E fiquei conhecendo a mãe de

Bobby, e quero pedir a Deus que ajude a essa mãe porque o sofri- mento maior dela vai ser de agora em diante e peço força e fé pra

essas duas famílias seguir em frente e conseguir continuar a viver, que isso é o mais importante. Em off, o repórter:

 

— Pode me dizer seu nome e profissão?

 

— Kitty Leme, estudante. — Kitty disse. — Faço jornalismo.

 
 

Vai sair quando?

 
 

Hoje à noite, — disse o repórter. E, mais em off ainda: —

 
 

Você vai ser uma linda jornalista, Kitty. Se precisar da gente lá na tevê, é só ligar. Meu nome é Breno.

 

Que coincidência. Meu namorado também se chama Breno.

 

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  Lá se foi Breno repórter, cheio de emoção batendo no peito. Lu disse:  
  Lá se foi Breno repórter, cheio de emoção batendo no peito. Lu disse:  
 

Lá se foi Breno repórter, cheio de emoção batendo no peito. Lu disse:

 

— Pô, Kitty, o cara parou na tua.

 

— Falei direitinho, Lu?

 

— Falou dez. Minha amigucha na tevê, que barato!

 
 

Sai um Breno, entra outro. Breno repórter de tevê não se com- para a Breno namorado de Kitty. Este é artista multimídia e decorador; seus projetos custam uma nota; suas belas artes tam- bém. É figura obrigatória em todo evento sócio-cultural de Mic; em toda festa que se preze. É um esteta: o que ama em Kitty é sobretudo a alta qualidade plástica de seu rosto e de seu corpo. O que Kitty ama em Breno é a notoriedade que vem junto com a honra de na-

morar um vip como ele.

 
 

Meu bem, — Breno disse, ao chegar; disse e deu em meu bem

 
 

um beijo leve nos lábios. Não é de perder tempo nem latim com

expressões ociosas como “que horror” ou “que tristeza”.

 

Breno, — Kitty disse, pousando a cabeça contra o forte peito

 

dele. Ali, naquele momento, sentiu-se esmorecida e fragilizada, e de permeio uma gostosa pontadinha de dor. Duas lágrimas correram- lhe rosto abaixo. Sentiu-se então recompensada. Retirou os óculos pra ficarem bem à vista as duas pérolas. Voltou o rosto pra Breno ver. Breno, filho da mãe, enxugou-as com o dedo antes que o resto do mundo as pudesse ver também.

 

* * *

 

Na antecâmara do crematório uma derradeira oração pelas al- mas do casal. O pastor é de uma dessas igrejas evangélicas que é a seita de ambas as famílias e que Bobby e Benjy eram de freqüentar dia sim, mês não: mais por onda que por outra coisa. Nem todo mundo coube lá dentro. Kitty e Lu ficaram lá fora; Kitty amparada não por Breno mas em Breno. Ouvindo a voz de falsete do pastor pregando no ar as garatujas de praxe.

 
 

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  Finda a oração, empregados do crematório se apossaram dos   carrinhos e levaram os
  Finda a oração, empregados do crematório se apossaram dos   carrinhos e levaram os
 

Finda a oração, empregados do crematório se apossaram dos

 

carrinhos e levaram os corpos pros bastidores. A platéia ficou sem saber o que fazer. A cultura do sepultamento é coisa clara: faz senti- do ficar até que caia a última pá de terra, ou mais tarde ainda. Cremação é outra cultura: não se vê nunca o fim do filme. Mas a hesitação não dura muito tempo. Sempre há quem diga algo como: Bem, é isso aí. E é isso aí mesmo. O resto é entre os mortos e o fogo. Vivo está fora.

 

— Veio de carro? — perguntou Kitty a Breno, o namorado.

— Vim com Piter, — disse Breno. — Vamos ver um apê no

 

caminho. Piter, como por encanto, aparece ao lado. É louro e forte: um

adônis, como se dizia nos bons velhos tempos.

 
 

E você? — Breno disse.

 

Vim no Cláudio. — Cláudio é o nome do carro: o Audi A-3 puro-sangue, presente de Daddy.

 
 

Então tá, — Breno disse.

Kitty sentiu-se de novo frágil; pediu:

 

— Me telefona.

 

— Hoje à noite, — Breno disse. — Te amo.

 

—Também, — Kitty disse, toda cheia de amor pra dar a Breno.

 
 

Beijinhos. Breno começou a se afastar com Piter. Dois adônis, como se dizia antigamente.

 

— Breno, — Kitty chamou, fazendo uso de sua bela voz grave.

— Sim? — Breno estacou. Olhar de paciente impaciência de

 

Piter. Kitty veio até Breno. Abraça-o; o belo rosto pressiona-lhe o ombro. Aí, num murmúrio:

 

— Valeu a força, Breno. Não sei o que seria de mim sem você.

— Bobagem, — Breno disse. — Você seria o que é.

E o que é que Kitty é? — deve ter pensado Piter.

 

* * *

 

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  Lu vai voltar pra casa de carona com Kitty. Antes, porém, quis tomar  
  Lu vai voltar pra casa de carona com Kitty. Antes, porém, quis tomar  
 

Lu

vai voltar pra casa de carona com Kitty. Antes, porém, quis tomar

 

um café. Estava em jejum: Senão desmaio. A contragosto, Kitty acompa- nhou-a a esse lugar exótico que é lanchonete de cemitério. Sentaram a uma das mesas. Lu tomou seu café de xicrinha. Kitty tomou água mineral com canudinho. Uma olhou pra cara da outra. Lu disse: Vai ter balada hoje? Kitty disse: Por que não? Morte é uma coisa, vida é outra. Lu disse:

Só é. Aí pediu um suco de laranja e um salgado. Veio um croquete escroto de camarão que Kitty olhou com desconfiança. Lu bateu o croquete com gosto e sem classe. Kitty, crítica, se perguntou que que ela via nessa mulher de subúrbio pra deixar que fosse sua amiga. Mas logo se recriminou: Que é isso, sua vaca; ela não tem culpa de ser de subúr- bio; e é amiga sincera; isso é que é o mais importante. Lu olhou pra ela,

com farelo de croquete no lábio: Kitty sorriu-lhe seu mais inestimável sorriso. Dali ainda passaram no toalete pra uma mijada de Lu. Kitty até que mijaria também, mas não ali: não está apertada não: dá pra segurar até em casa. Mas olha-se no espelho, e até em espelho de banhei- ro de cemitério vê que continua uma bela de uma bela mulher.

 

* * *

O

cemitério se esvaziara entrementes. Um jardineiro aparava o

 
 

pêlo e as unhas de umas roseiras. Outro jardineiro regava um cantei- ro de dálias. Um pássaro não visto e não sabido abria a goela em algum lugar. Alguns caras sem nome aparente, ligados aos mortos sabe-se lá por que vias transversas, concluíam uma conversa de negó- cios. Vida que é vida continua. O olhar azul de Kitty resvalou por cima do crematório. O ar por ali estava claro e límpido. A cerimônia secreta, apenas pros iniciados, ainda não começara. Kitty lembrou de alguém ter dito que leva horas pra reverter ao pó um ser humano. Pois é isso mesmo, Kitty: somos indigestos até pro fogo a mil graus. Foram indo em direção ao carro. O cemitério ficava sobre uma colina. Lá adiante jazia o mar. Dava pra ver a vista de cabo a rabo: as areias da praia, as ondas brancas, o verde mar azul, o alto mar, o ocea-

 

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  no, a quilha do horizonte, o profundo céu azul com ondas de nuvens brancas.
  no, a quilha do horizonte, o profundo céu azul com ondas de nuvens brancas.
 

no, a quilha do horizonte, o profundo céu azul com ondas de nuvens brancas. Era uma puta vista; mas de Kitty não mereceu atenção, nem de Lu: mar em Mic é coisa do dia-a-dia: está ali pra ser usado como

piscina ou banheira, não pra ser venerado só porque é bonito pra caralho. À margem do estacionamento estende-se uma ampla várzea com dezenas de lápides marcando a sepultura de Deus e o mundo, povo e governo, que ninguém é imortal de viver pra todo o sempre ja- mais. Kitty apontou um dedo vago e disse:

— Minha avó tá enterrada aí.

 

— Sua avó morreu? — Lu disse. — Mãe do teu pai ou da tua mãe?

 

— Mãe de Mummy. Tem um ano.

 

— Morreu de quê? — Lu disse.

Câncer de mama. Lu teve um esgar de repulsa. Depois disse:

— Me mostra a sepultura dela. Aonde que é?

— Sei lá. É por aí. Tem de procurar.

— Nome dela era como? — Lu disse.

— Catarina Scarpini.

 

Cada uma foi pra um lado. Procuraram daqui e dali. Lu achou.

 

Kitty juntou-se a ela diante de uma lápide igualzinha a todas as outras. De exclusivo apenas o nome da avó, e as datas de nascimen- to e morte. Morreu tem cinco anos, não um, como pensava Kitty:

tempo passa a gente nem nota.

 

Que nome estranho, — Lu disse. — Catarina é nome de macaco. Kitty sorriu:

 

Né não, boba. De onde você tirou essa idéia? É meu nome também.

— Seu nome não é Kitty não? — Lu disse, abismada.

— Maria Catarina. Kitty é apelido. Mas vale como nome.

Lu riu:

Maria Catarina. Que hilário. Se eu morresse hoje nunca que

 

ia saber.

Ri não, — Kitty disse: — minha avó tá morta bem aí embaixo.

 
 

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  Lu voltou o olho pra sepultura. As datas lhe chamaram a aten- ção. Ela
  Lu voltou o olho pra sepultura. As datas lhe chamaram a aten- ção. Ela
 

Lu voltou o olho pra sepultura. As datas lhe chamaram a aten- ção. Ela fez as contas e disse:

— Morreu com cinqüenta e oito anos.

 

— Pô, não sabia que tinha vivido tanto assim, — Kitty disse. E acres-

 

centou: — Será que eu vou viver até ficar velha que nem ela? Quero não.

Eu também não, — disse Lu. — Quero viver intensamente e

morrer aos trinta e seis.

 

Trinta e nove, — Kitty disse. — Quarenta é que não dá pra

 

encarar.

É isso aí, — disse Lu. — Mulher de quarenta, se quiser ho-

 

mem, tem de pagar. Deus que me livre.

 

Vamos nessa, — Kitty disse. — Este lugar é muito deprê. Esta

 

merda de silêncio. — Sorriu. — Já pensou, Lu, uma banda de rock tocando bem aqui, por cima dessas covas todas?

Maneiro, — disse Lu. — O Linkin Park. Pô, que barato. Ia

acordar uma porção de morto.

 

O que este lugar precisa, — Kitty disse, — é um pouco mais de barulho. Um pouco mais de vida.

 

* * *

Cláudio fez cu doce e recusou-se a pegar.

 

Mas que caralho, — Kitty disse. — Que que deu em você, Cláudio, seu filho da puta?

 

Saltaram do carro. Kitty ficou ali, inerme, sem saber o que fa- zer. Pensou: Pô, vou ter que mijar nesse banheiro fudido?

Liga pro socorro, — disse Lu.

Vai demorar séculos. Pô, não quero ficar aqui neste lugar esperando socorro não. Só morta.

 

Nem morta, — disse Lu.

Mas o carinha de camisa amarela surgiu do nada e ofereceu ajuda. Kitty ficou meio cabreira, como lady que é; Lu, proletária, aceitou de tampa a gentil oferta. O carinha levou-as até onde estava a sua pickup

 
 

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  Toyota Hilux prata ônix, placa de São Paulo, e abriu, cortês, a porta do
  Toyota Hilux prata ônix, placa de São Paulo, e abriu, cortês, a porta do
 

Toyota Hilux prata ônix, placa de São Paulo, e abriu, cortês, a porta do carona. Kitty pensou em entrar, valendo-se de suas prerrogativas:

mais bonita e mais bem-nascida. Lu, mais rápida que o pensamento de Kitty, entrou e se aboletou no assento do carona. Kitty ficou puta, mas não demonstrou. O carinha abriu pra ela, cortês, a porta trasei- ra. Ela entrou que nem uma princesa de Mônaco. O carinha chamava-se Bruno. O mundo está cheio de Brunos, Brenos e Felipes. Antes de ligar o carro, abriu o porta-luvas e tirou dali — justificando o nome — um par de luvas negras, que calçou sob o olhar atento das moças. Depois, de um compartimento entre os bancos, retirou dois bombons Serenata de Amor — produto local. As moças reluziram de dar gosto ver. Lu começou, com as duas mãos, quase solene, a abrir o invólucro. O carinha acompa- nhou com interesse aquele maneirismo.

 

Gostei dos anéis, — disse ele.

 

Lu usava anel assim: na mão esquerda, três anéis: um no míni- mo, um no médio, um no polegar; na mão direita, dois: um no anular, um no indicador.

 
 

Gostou? — disse Lu, senhora dos anéis, ronronando de pra-

 

zer. Kitty, na arquibancada, sentiu uma farpa de ciúme; não estava interessada no carinha, com aquela mancha negra na cara, mas essa casta de ciúme não tinha nada a ver com o carinha: é coisa de mu- lher com mulher, é isso que é: não é não, Kitty?

 

Deixa ver, — disse o carinha. Lu estendeu as mãos; ele exami-

 

nou-as como um joalheiro jóias. — Gostei da dissimetria, que aca- ba sendo uma simetria.

 

Obrigado, — disse Lu, sentindo-se como se fosse uma artista.

 

É tão ignorante, pensou Kitty, que nem diz obrigada mas obrigado.

 

E o que querem ver durante o vôo? — perguntou Bruno. E do

 

painel fez brotar uma telinha: nossa, o cara tinha um dvd player na

sala do carro: que Kitty chama, porque Breno chama, de David player.

Que show, — exclamou Lu. — Mas como é que você pode assistir e dirigir ao mesmo tempo?

 

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  — Um olho na estrada, o outro na telinha, — respondeu ele. E ligou
  — Um olho na estrada, o outro na telinha, — respondeu ele. E ligou
 

Um olho na estrada, o outro na telinha, — respondeu ele. E

ligou o aparelho. O som de uma sinfonia inundou a Toyota. Não era a música favorita nem de Lu, nem de Kitty; mas num David

player embutido no painel de uma Toyota Hilux prata ônix elas até cantores de Cristo seriam capazes de encarar.

A

Toyota desceu a ladeira do cemitério ao som de Beethoven.

Que música é essa? — perguntou Lu, vendo, na telinha, uma

porção de violinistas, tudo de fraque, e tudo coroa; e, lá na frente, o maestro desmunhecando com sua varinha de condão.

— É a quinta de Beethoven, — disse Bruno.

 

— Ah, — disse Lu, sem saber quinta o quê. Mas saiu-se bem: —

 

Lembra de Pri, Kitty? Ela falou Besthoven. Lembra? — E, pro

carinha: — Amiga nossa. Meio burrinha, coitada.

 

Ela falou só de sacanagem, Lu, — Kitty esclareceu.

 

Ela que disse que falou só de sacanagem, — Lu disse. — Mas duvido muito.

— Vocês curtem música clássica? — perguntou Bruno.

— Muito, — disse Lu. — É tão, é tão assim, tão

interessante.

— Eu prefiro rock sinfônico, — disse Kitty, franca.

Lu tomou um susto, como se a franqueza de Kitty pudesse res- pingar nela. Mas:

 

Eu também, — disse Bruno. — Só que música clássica tam-

bém tem seu lugar. Pra ouvir dirigindo, por exemplo. Relaxa. Des- cansa. Tira os podres. Igual uma boa massagem.

*

* *

Bruno fez o retorno lá adiante pra voltar pra Vila Velha. Até aí a Toyota não fizera outra coisa senão taxiar pela pista; deixava-se ul- trapassar com fingida humildade por outros carros. Feito o retorno, nariz apontado pro norte, a Toyota decolou. Bruno afundou o pé no acelerador; ponteiro do velocímetro saltou pra cento e cinqüenta. A Toyota ia comendo um carro atrás do outro como num jogo de

 
 

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  damas rodoviário: parecia passar por cima deles todos. Lu, com a emoção da corrida,
  damas rodoviário: parecia passar por cima deles todos. Lu, com a emoção da corrida,
 

damas rodoviário: parecia passar por cima deles todos. Lu, com a

emoção da corrida, sentia-se cheia de amor pra dar — a Bruno, de preferência. Kitty via a mão de Bruno pousar, às vezes, pontuando a conversa, sobre o braço de Lu.

 

Então você é de Sampa? — Quando Kitty percebeu, já estava

 

dito.

 

— Notou pelo sotaque? — Bruno disse.

— Pela placa do carro, — Kitty disse.

— Tá de passagem? — Lu disse.

— Mais ou menos, — Bruno disse.

— Sabe o que a gente diz pra gente que vem de fora como você?

 
 

Kitty disse. — Venha a Mic pagar mico.

 

— Mic? — Bruno estranhou.

— Abreviatura de Mictória, — Kitty disse.

 

Isso não é justo, — Bruno disse, rindo. — Vitória é uma cidade muito bonita.

 
 

Vista do alto, — Kitty disse.

Num instante chegaram a Vila Velha.

— Alguma de vocês mora aqui nesta aldeia de índio? — disse Bruno.

 

— Deus me livre, — disseram as duas.

— Pois eu moro, — disse Bruno. Riram os três.

— Pode nos deixar onde for melhor pra você, — Kitty sugeriu.

 
 

A gente pega um táxi pra ir pra Mic.

Faço questão de levar vocês em casa, — disse Bruno. — Nem que eu tenha de seqüestrar as duas.

 

Lu riu, feliz. Tirou a fivela que lhe prendia os cabelos atrás da cabeça, soltou, sacudiu: jorro de cabelos castanhos, de grossos fios. Que cabelo bonito, disse Bruno, engolindo a isca. Obrigado, disse Lu. A filha da puta já tá se abrindo toda, resmungou Kitty, em pensamento. Houve uma pausa na conversa. Beethoven aprovei- tou pra se fazer ouvir um pouquinho.

É bonito, — disse Lu, — mas não se compara ao Linkin Park. É minha banda favorita, e Chester é meu ídolo favorito.

 

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  — Outro dia, — disse Bruno, — eu vi uma entrevista dele na tevê.
  — Outro dia, — disse Bruno, — eu vi uma entrevista dele na tevê.
 

Outro dia, — disse Bruno, — eu vi uma entrevista dele na

tevê. Ele disse que quando era criança sofreu muita violência de tudo que é lado.

— Ah, é?!? — exclamaram Kitty e Lu.

 

— É, — confirmou Bruno. — Aí na entrevista ele pôs os óculos e

 

começou a chorar, foi uma coisa muito

Mostrou a sensibilidade dele.

Eu acho que é por isso que algumas letras dele são tão revoltadas.

 

Fala sério, — Lu disse. — Esse mundo é mó cruel.

Kitty meteu a colher:

 

Mas é nessas horas que eu vejo que Mic é mesmo o fim do

 

mundo. Quando que o Linkin Park quando veio no Brasil se lem- braria de dar um show aqui?

Eu fui no show deles em Sampa, — disse Bruno.

Foi? — exclamou Lu. — Nossa, cara, por que que você não me chamou? Eu dava o mundo pra tá lá.

Kitty morreu de vergonha, como se a sonsice de Lu pudesse res- pingar nela. Mas:

Próxima vez eu te chamo, — disse Bruno. E, pra Kitty: — E você, lourinha, quer ir também com a gente?

Só se for pra ver o Iron Maiden de novo, — disse a lourinha.

Você tava lá no show do Iron? — Bruno exclamou. — Pois eu também.

Não me lembro de ter visto você lá não, — Kitty disse.

* * *

Kitty morava numa bela casa na Mata da Praia, perto de um bosque de eucaliptos onde a criançada da República, um bairro próximo, de classe meio que média, costuma se iniciar na maconha. Lu morava em Jardim Camburi: outro bairro de classe média pra baixo, uns cinco seis quilômetros ao norte. Bruno ia voltar depois pra Vila Velha. Tanto podia deixar Kitty primeiro e levar Lu, como levar Lu e deixar Kitty depois: tudo era caminho. A escolha era dele,

 
 

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  e ele escolheu a cronologia geográfica: deixar Kitty primeiro. Mas, na hora dela saltar,
  e ele escolheu a cronologia geográfica: deixar Kitty primeiro. Mas, na hora dela saltar,
 

e

ele escolheu a cronologia geográfica: deixar Kitty primeiro. Mas,

na hora dela saltar, pediu-lhe o telefone. Kitty ditou os oito dígitos, que Bruno registrou no celular. Um belo cell, aliás, que, não satis- feito de ser apenas um celular, contém a maioria dos recursos de um computador, incluindo acesso sem fio pra Internet.

 

— Cuidado pra não trocar os dois últimos números, — Lu disse.

— Ué, por quê? — Bruno disse.

 

Lu! — exclamou Kitty. Lu riu de moleca:

 

Porque é o telefone de uma garota de programa que também

 
 

se chama Kitty. Mó coincidência. Kitty 50 paus. E ainda se vende barato, a piranha, né, Kitty?

 

Kitty apeou da Toyota uma fera; Bruno piscou o olho pra ela e

 

a

pickup prata ônix zarpou ao som de Beethoven e num instante

desapareceu de vista. Era mais de meio-dia. Pra piorar as coisas, havia um casal de mendigos plantado bem na frente do portão da casa. Já deviam ter tocado a campainha, mas a coisa mais difícil é alguém atender cam- painha em casa de Kitty. O casal cercou Kitty com suas petições de miséria. Kitty abriu o portão sem nem dar resposta, como se fosse um casal de cães latindo pra ela. Entrou e bateu o portão na cara dos dois. Deus te abençoe, menina, o homem disse, com raiva. Kitty pensou entre dentes: Drop dead, you son of a bitch. O inglês de Kitty até que chega a ser muito bom, provindo, como provém, 10% de aulas em instituto de línguas e 90% de letras de rock. Sua casa estava ali, sempre a mesma de sempre. Ou melhor, a casa de Mummy. Kitty sabia tudo que estava rolando ali dentro naquela hora. Mummy dormindo. Déia, a irmã mais nova, nave- gando na Internet. Irene ouvindo rádio na cozinha. A gata miando na varanda. O cão mijando na varanda. A hera alastrando-se pelas paredes, entrando de penetra na casa aqui e ali por algum desvão de janela. Phil, o namorado de Mummy, dando uma de gigolô, que é sua profissão e especialidade e ofício vinte e quatro horas por dia.

 

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  Gigolô é o caralho, diria Phil, se ouvisse. Diria: Sou o faz-tudo da porra
  Gigolô é o caralho, diria Phil, se ouvisse. Diria: Sou o faz-tudo da porra
 

Gigolô é o caralho, diria Phil, se ouvisse. Diria: Sou o faz-tudo da porra desta casa. Motorista, lavador de carro, vigilante, forne- cedor de sexo e de álcool, crítico literário, aquele que quebra os galhos e limpa as cagadas, inclusive do maldito cachorro. E, sobre- tudo, enfermeiro de Mummy. Quero vodka, diz Mummy. Phil dá vodka. Quero colo, diz Mummy. Phil dá colo. Quero beijo, diz Mummy. Phil dá beijo. Quero transa, diz Mummy. Phil mete nela o pau e faz por onde até Mummy gozar em estertores. Mas Kitty não derrubou todos os pinos: Mummy, mais ou menos desperta, está à mesa da copa, tomando café com Phil. Kitty ouviu-lhe a voz ao entrar no lavabo pra fazer o devido xixi. Ali sentiu que punha pra fora uma parte da negativa energia da ma- nhã: cemitério, traição do Cláudio, traição de Lu, essa mendicân- cia que está em toda hora e em todo lugar. Sábado, o mais afrodisíaco dos dias da semana, desta vez começara broxante e continuava broxante. Juntando-se à família na copa, contou a sacanagem do Cláudio.

 

Ligou pra seguradora? — perguntou Mummy: parece al-

 

guém que bebeu todas e mais algumas ontem à noite; ou seja, a Mummy de sempre.

Ainda não, — disse Kitty, dando um jeito de insinuar que esperava alguém fazer isso por amor a ela.

 

O carro é seu, — Mummy disse. Não parecia estar de bom

 

humor. — Liga você mesma, ou então pede a teu pai pra ligar. Cinismo: Daddy não está em Mictória, mas em Buenos Aires, onde vive, trabalha e dá o cu pro seu príncipe consorte — razão da fuga pro sul, seis anos atrás. Phil, seu sucessor, só se refere a ele, longe do ouvido das filhas, como o Aviador: não porque seja piloto internacional, coisa que não é, mas porque, segundo Phil, aviadou. Mummy ouve e ri, mas pune com um tapinha a falta de respeito de Phil. Porque, aviador ou não, é Daddy que sustenta a casa e paga as contas, que a pensão das filhas é gorda o bastante pra toda a família, gigolô incluído, viver com fartura e conforto.

 

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  — Deixa que eu ligo, — Phil disse: o dublê de fac-totum da casa
  — Deixa que eu ligo, — Phil disse: o dublê de fac-totum da casa
 

— Deixa que eu ligo, — Phil disse: o dublê de fac-totum da casa

 

e namo de Mummy. Kitty passou-lhe o cartão com o número da seguradora; Phil saiu pra varanda de trás já de celular no ouvido.

 

A

figura chamava-se Felipe; Mummy e todo mundo chamavam-no

 

Phil — com ph. Era advogado que deixou de advogar pra ser corretor de imóveis, e corretor de imóveis que deixou de corretar imóveis pra ser gigolô de mocréia — termo injusto: Mummy, aos quarenta e dois, tiran- do a bebida, ainda dá um caldo. Mas o principal ofício de Phil naquela casa era olhar Kitty: sabia olhar Kitty como ninguém. Era desses que se justificavam: Olhar não tira pedaço; embora o dele, em Kitty, igual água mole em pedra dura, quem sabe um dia ainda não há de tirar. De onde Mummy, que quase não sai de casa, foi tirar criatura tão multidisciplinar? Da Internet, lógico; com a ajuda de Déia, lógico. Phil foi o segundo date dela. O primeiro foi um português de Portugal, e a redundância se justifica porque o português morava em Portugal, e por amor a ele Mummy não só saiu de casa mas foi ao aeroporto e

tomou um avião rumo a Lisboa. Deu certo enquanto deu certo: um mês de Lisboa, um mês de Mictown, que Francisco Ortigão, com passa- gem paga por Mummy, veio com ela de Lisboa pra cá. Aqui tudo aca- bou dando merda, porque Ortigão não resistiu aos encantos de Kitty e passou-lhe uma cantada em sotaque lusitano. Mummy ficou tão res- sentida que queimou no quintal um grande galo de Barcelos presente do namo português. Daí estreitou as fronteiras de seus namoros virtu- ais: não só Brasil, não só Espírito Santo, mas ainda por cima só Mictown — com preferência pra zona norte da cidade. Que foi de onde saiu Felipe Inglez de Souza, que, apesar do nome, era brasileiro e morador de Jardim da Penha, o bairro de classe um tanto quanto média que se limita ao norte com Mata da Praia. Sete meses de pastor já serve esse Felipe à mãe e à família. Um mês antes da sua chegada a casa fora assaltada já pela segunda vez. Coincidência ou não, nunca mais se viu assaltada de novo. Mas Kitty não gosta do cara e não lhe dá confiança.

 

*

* *

 

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  Uma das empregadas da casa — a dos fins-de-semana — surgiu da cozinha. Irene.
  Uma das empregadas da casa — a dos fins-de-semana — surgiu da cozinha. Irene.
 

Uma das empregadas da casa — a dos fins-de-semana — surgiu da cozinha. Irene. Dela Kitty gosta. É esperta, despachada, toleran- te. Tem longo cabelo negro que consegue juntar todo num coque

pra fazer o seu trabalho. Evangélica? É não, graças a Deus. Se fosse, não ia agüentar o clima: não se dá muita bola pra Deus nesta casa.

 

Vai comer alguma coisa, Kitty? — perguntou Irene.

 

Kitty meteu os cotovelos na mesa, cobriu os olhos com a palma das mãos, soltou um denso suspiro.

 

— Que foi? — perguntou Mummy, maternal sem querer.

— Merda de vida, — Kitty disse. Aí, a Irene: — Só um sanduíche.

Serve de peru? — perguntou Irene. Kitty disse que serve. Lá se foi Irene; lá se veio Felipe.

Tudo resolvido, — disse ele a Kitty. — Mas não conta com o

 

carro nem hoje nem amanhã. Só segunda. Kitty agradeceu com um risco de sorriso. Mummy levantou-se da mesa e os dois, ela e Phil, subiram pro quarto: lá pras quatro

devem descer pra almoçar um café com pão. Kitty ficou ali pensati- va: vai ter que descolar alguém com quem ir pras baladas e, claro, com quem voltar delas pra casa. Depois de um tempinho Irene trouxe o sanduíche de peru.

 

Que cara é essa, mulher? — perguntou.

 

Kitty soltou outro denso suspiro. Na verdade não sabia por que estava assim. Repassou as contrariedades do dia: manhã em cemité-

 

rio; carro enguiçado; amiga furando olho de amiga. A vida, Kitty, é feita de contrariedades, não é não?

 

— Você gostava muito deles, não é? — disse Irene.

— Deles quem? — Kitty disse. Mas seus óculos escuros jaziam

 

sobre a mesa e ela se lembrou.

 
 

Muito, — respondeu. Quis chorar um pouquinho na frente de

 
 

Irene, pra provar o que sentia; mas as lágrimas se negaram a colabo- rar. Meteu os belos dentes no sanduíche, arrancou-lhe um bocado, começou a moê-lo bem moído entre os molares. Irene sentou à frente dela, assistindo. É uma morena até que bonita; e de gostos refinados

 

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  se comparar com a outra empregada, Rosa, a da semana: o pôster de Cazuza
  se comparar com a outra empregada, Rosa, a da semana: o pôster de Cazuza
 

se comparar com a outra empregada, Rosa, a da semana: o pôster de Cazuza na parede do quarto delas foi ela Irene que pôs.

Dei entrevista pra tevê, — Kitty disse. — Deve passar hoje à

noite.

É mesmo? — Irene disse, impressionada mais por cortesia.

 

É. E o repórter também se chamava Breno, vê que coincidência.

* * *

Kitty dormiu até meados da tarde. Acordou com telefonema de Lu. Que, com voz excitada, disse: Acho que tá pintando, Kitty: tá pintan- do! E contou que ela e Bruno pararam na orla de Camburi e tomaram água de coco num quiosque, olhando o mar e conversando sobre mil coisas. Depois, sentados na areia, ao pé de um coqueiro, conversaram sobre outras mais mil coisas. O gato é culto pra cacete, disse Lu. Sabe tudo. Sabe até dizer bom dia em japonês: me ensinou, mas já esqueci. Depois, disse Lu, ainda passearam descalços na areia, molharam os pés nas ondas: mó romântico. Kitty fez um esforço pra dizer: Hoje à noite você me conta os detalhes. Hoje à noite não, Lu disse. Vou sair com Bruno. Kitty conteve-se a tempo pra não dizer: Mas e a balada? Pois e Lu lá ia querer saber de balada com Kitty se tinha na mão um gato culto pra cacete e legítimo proprietário de uma Toyota. Ama- nhã te conto o próximo capítulo da novela, Lu disse, e riu, e desligou. Kitty voltou a estender-se na cama, a abraçar-se à almofada de fuxico que a acompanhava desde que tinha dez anos; presente de Daddy, como tudo que de bom lhe viera na vida, inclusive o dimi- nutivo nome, Kitty. Dois minutos depois rendeu-se à evidência: im- possível dormir. Sentia-se traída: ela que vira o carinha primeiro. Verdade que não estava interessada nele, por causa daquela man- cha na cara, não é, Kitty, mas e daí? E se estivesse? Lu, até que Kitty desse sinal verde, tinha mais é que respeitar a hierarquia. É o que ela faria, no lugar de Lu; portanto, traição houvera, e feia. E traição, como tomate, era coisa que Kitty não conseguia digerir.

 
 

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Impossível, assim, retomar o soninho da tarde. Sentou-se na cama, olhou a hora, cedo ainda, que que eu faço da vida. O macaquinho de pelúcia — presente de Breno quando fizeram, ago- ra em 4 de julho, três meses de namoro — olhava-a de cima da estante de bichinhos com um sorriso sardônico: seu nome é Caco. Em moldura na parede havia um belo retrato a crayon que um artista de rua fizera dela certa vez. Kitty ama de montão aquele retrato: o carinha captara as sutilezas estéticas de seu belo rosto. Dava de dez a zero nos artistas de Mic, que, com suas mãos de pilão, não têm traço: Kitty ouviu isso de algum alguém e incorporou à sua coleção de firmes opiniões. E olha que esse era um artista de rua, nômade como o vento: onde andaria nos dias de hoje em dia? Kitty abandonou o barco da cama e ergueu-se. Está de camiseta e short: como já foi dito, qualquer coisa no corpo, até camiseta e short, lhe cai bem: está linda. De pé no meio do quarto fez alguns minutos de alongamento. Seu quarto é uma suíte com tudo de que necessita pra sua auto-suficiência: além de computador, que nesta casa não é nada de mais, tem closet e banheiro próprios: mordomia de primogênita, que Déia não tem nem terá até que Kitty venha a casar e mudar ou meramente a mudar: Daddy já lhe prometeu um apartamento pra quando concluir o curso na faculdade, ano que vem, se Deus quiser. No banheiro, onde Kitty está agora, predomina um branco vir- ginal e um toque clean. Na bancada do lavatório você vê toda uma legião de produtos de beleza que Kitty compra mais pela compulsão de comprar e acaba que pouco ou nada usa boa parte deles: loções hidratantes, hidratantes faciais, hidratantes labiais, cremes pras mãos, polpas hidratantes pros pés, cremes transformadores pra área dos olhos, máscaras de recuperação pros cabelos, sabonetes líqui- dos, óleos pra banho, três ou quatro frascos de colônia, inclusive a Original Água de Colônia 4711, e todo tipo de perfumes, como este, em frasco revestido em xadrez, que contém notas de lima italiana, pêra e amêndoa verde, e aquele, em frasco vermelho ilustrado por cinco bocas sobrepostas, que é um floral frutal amadeirado com

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  notas de orquídea, sândalo e mel. O kit de maquiagem inclui base, trio de
  notas de orquídea, sândalo e mel. O kit de maquiagem inclui base, trio de
 

notas de orquídea, sândalo e mel. O kit de maquiagem inclui base,

trio de sombras e, para os lábios, além dos batons, brilhos em tubo

e

gloss em cubo, sem contar estojinhos com espelhinhos e pompons.

Aninhados numa cestinha rústica de madeira, há toda uma paren- tela de sabonetes em barra de todos os cheiros e cores e marcas e formatos, de que Kitty é obsessiva colecionadora. Servem como objetos de decoração, além de cumprirem os seus deveres de limpar o corpo sem agredir a barreira de proteção natural da pele: um é esfoliante, elaborado com fibra vegetal; outro, de maracujá, con-

tém óleos essenciais; outro tem aroma de rosas; outro é glicerinado

e

contém extrato de algas; outro é feito com massa vegetal e enri-

quecido com óleo de arroz; outro hidrata, perfuma e oferece prote- ção antibacteriana; outro, que Kitty acha uma graça, tem formato de abelhinha e possui mel puro. Kitty lavou o rosto com um de seus preferidos: um belo sabonete redondo que contém vitamina C e damasco e que combate o envelhecimento da pele: que, pra comple- tar, tem um grande C — de Catarina — entalhado na carne. Agora, sentada diante do computador, eis Kitty indecisa entre fazer o trabalho da faculdade, que ficara de fazer durante as férias e — Preferiu a segunda opção. Ligou o computador, digitou a senha — que, a quem interessar possa, é f-o-f-a — e abriu Meus Documentos. Ali foi direto ao seu diário secreto e escreveu, no estilo que adquirira nos tempos antigos mas nem tanto em que mantinha um blog no ar:

Pensamento do dia: Moh prova de amizade entre 2 mulheres é uma deixar o kminho livre pra outra conkistar o gato q tb ker.

 

Depois fez o registro dos acontecimentos do dia:

 

Agora q voltei do cemitério é q vejo como a morte dos amigos me deixou s/ chão. Keria q estivessem aki. Keria v eles sorrindo, tinham sorrisos lindos, brincando o tempo todo como brincavam. Se amavam tanto, mais q mto casal certinho q tem por aí. Naum

 

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mereciam morrer assim. Naum mereciam morrer. Consolo é q morreram juntos, pq naum sei se um agüentaria viver s/ o outro. E foram enterrados juntos, ker dizer, cremados juntos, ah, naum sei, sei lá se pode. Devia t ido à festa q Jujuba me chamou pra ir na ksa deles. Foi sábado. Foi a última festa q deram. Me disseram q foi a moh zoeira. Rolou a moh balada. Todo mundo na pilha. Os 2 tão felizes. Pelo menos se despediram deste mundo c/ mta birita, mto riso e mto rock. Agora espero q estejam lá do ladinho de Deus, no paraíso lá deles.

Foi tudo que conseguiu escrever. Depois entrou na Internet, abriu um ou outro blog dos amigos, que espiou sem maior interes- se. Viv, colega de faculdade, postara algumas fotos do churrasco de fim de semestre. Kitty viu a foto da turma toda nos degraus da va- randa. Mó zona. Os gatos, todos eles, fizeram com o dedo médio e seus vizinhos o gesto fálico, que um deles, que é do interior, chama de avião. As minas, Kitty inclusive, levantaram as blusas e se deixa- ram fotografar de peitos de fora: os dela são uma beleza: altos, rijos, redondos, de mamilos aguçados. Lu estava lá, convidada dela: se- gurava os grandes peitos nas mãos, projetando-os pra diante; mon- tada, a piranha, sobre a perna de um dos gatos. Dali Kitty foi pro banho. Encheu de água quente a banheira e deixou-se jazer ali por mais de uma hora, ouvindo música a todo volume: Audioslave, System of a Down. De repente mergulhou a cabeça n’água e ficou assim o tanto que pôde. Quando sentiu sauda- des do ar, pôs a cabeça pra fora e, aspirando grandes goles de oxigê- nio, teve um arrepio de prazer com a forte sensação de estar viva.

* * *

Sete horas lembrou de assistir ao noticiário local na tevê. Re- portagem do cemitério foi a última de todas. Tomadas da multidão, das famílias, do par de caixões; até do pastor da igreja evangélica

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grasnando suas abobrinhas. Outras pessoas entrevistadas apelaram pro choro fácil e pra lamúria estéril. Ela, não: foi sóbria, discreta e, é claro, modéstia à parte, muito bonita. Gostou de se ver e de ver o nome embaixo: Kitty Leme: universitária. Logo depois dela, sur- preendeu-se de ver Bruno, com camisa amarela e mancha negra e tudo. Até que falou bem, ela achou, detendo-se mais no aspecto criminológico: duplo homicídio, requintes de crueldade, mundo violento em que vivemos. Bruno Hodiak: empresário. Hodiak, que diabo de nome é esse? E empresário de quê? No final, Breno Queiroz, repórter, fez um apanhado da investigação policial: polícia estava fechando o cerco aos três suspeitos, um dos quais, Quico de Tal, fora visto num balneário do norte do estado, onde comprara algu- mas latas de cerveja e um saco plástico com gelo na loja de conveni- ência de um posto de gasolina. Kitty viu as imagens desfocadas da câmara de segurança da loja; conhecia Quico; podia ser Quico e podia ser qualquer bofe de toda a Grande Mictória e de fora dela.

* * *

Mummy estranhou: Vai sair hoje não? Kitty disse que achava que não. Mummy disse: Tudo isso é tristeza? Déia implicou: Esque- ceu que hoje é sábado? O que será da noite de sábado sem a musa das baladas? Déia é, já se sabe, a irmã mais nova, dezessete anos, piercing na língua, meio por enquanto feiosa, a intelectual da família por- que divulga em blog próprio “poesias e textos pensativos” depois da abalizada apreciação crítica de Phil. Kitty não deu resposta. Continua de camiseta branca e short ver- melho, o qual lhe deixa à mostra mais que um belo palmo de coxa pra tirar o sossego de Phil. Vamos pedir uma pizza, disse o fac-totum, e pegar um filme. Mais uma noite de filme e pizza, pensou Kitty: é só o que esse bolha é capaz de imaginar pra uma noite de sábado. Mas Déia, como sempre, aprovou com entusiasmo, e Mummy, como sem- pre, sem, mas aprovou. Já estava enchendo a cara com aquela vodka

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  sueca preferida sua, cujo sabor tem matizes de frutas e ervas. Duzen- tos paus
  sueca preferida sua, cujo sabor tem matizes de frutas e ervas. Duzen- tos paus
 

sueca preferida sua, cujo sabor tem matizes de frutas e ervas. Duzen- tos paus a garrafa. Uma bela garrafa, por sinal, de vulto esguio e cor leitosa; três quatro delas você encontra com água na geladeira:

Mummy tem pena de botar no lixo tais obras de arte utilitária. Phil e Déia foram à locadora pegar um filme. Trouxeram uma

comédia romântica, Sideways. Kitty pegou o estojo do filme, leu a resenha, criticou a escolha. Preferia um filme de ação. Déia retrucou:

Então por que não foi com a gente? E Phil disse: Esse filme foi indicado pro Oscar. Quase que Kitty disse: Grandes merdas; mas não teria sido, de sua parte, coerente: Oscar é coisa respeitável e ela respeita. Pouco depois a pizza chegou: metade aliche, pra Phil e Déia, metade quatro queijos, pra Kitty: pra Mummy tanto faz nem uma como nem outra. Phil recebeu, pagou, abriu, enquanto Déia deu uma ajudinha trazendo pratos, copos, talheres, guardanapos, ketchup, gelo, Coca- Cola. A rainha-mãe e a herdeira da coroa nem se mexem do sofá. Phil trinchou a pizza, depositou em cada prato uma fatia. Mummy disse:

Pra mim só um pedacinho. Phil disse: Come, querida; faz um esforço. Eis então sentado o trio de fêmeas no vasto sofá, pratos no colo. Em frente, o home theater familiar: a tevê de plasma de 42 polegadas sobressai acima de um rack com três prateleiras de vidro onde se aco- modam o David player, o receiver, e as caixas de som, sem falar de dois caules de metal magriço, um à esquerda do sistema, outro à direita, que brotam de base circular no chão e equilibram na ponta cada qual mais uma caixa de lambujem. Phil ligou o sistema, meteu o disco na bandeja, digitou os comandos e escolheu as configurações de sempre: áudio em inglês e legendas em português. O filme começou. Da esquerda pra direita, a família no sofá: Kitty, Déia, Phil e Mummy. No chão, no tapete, a gata. Mummy disse: Família que

come pizza unida

Phil completou: Permanece unida. Unida o

caralho, rosnou Kitty, lá dentro de si. Déia reagiu em voz alta: Que babaquice é essa? Família não é pra permanecer unida não. Não vê Daddy? E eu, podendo, caio fora. E Kitty também, é lógico. E você, tio Phil, se é que você é da família, vai ficar até quando?

 

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  — Maria Andréia! — gritou Mummy, impondo sua ditadura   maternal.     —
  — Maria Andréia! — gritou Mummy, impondo sua ditadura   maternal.     —
 

Maria Andréia! — gritou Mummy, impondo sua ditadura

 

maternal.

 
 

Ah, que merda, também, — devolveu Déia. — As coisas que

 
 

a

gente tem de ouvir nessa casa.

 

O mesmo digo eu, — Mummy disse, saindo da discussão pela saída honrosa mais próxima.

 
 

* * *

Déia comia sua fatia de pizza na mão, à americana, besuntando-

 
 

a

de ketchup. Kitty equilibrava o prato nas coxas juntinhas; Mummy,

o

seu, no braço do sofá, de onde acabou caindo ao chão, assustando a

gata. Phil levantou pra limpar a lambança. Depois ofereceu a Mummy uma fatia de sua fatia, que Mummy recusou, mas pediu mais uma dose de vodka. Phil foi à copa, abriu a geladeira e serviu mais uma dose de vodka pra Mummy: pura e gelada. Ninguém se preocupou em interromper o filme por causa dele; nem ele em pedir. Traçada a pizza, a família dedicou-se unida inteiramente ao fil- me. Kitty fumou e Mummy bebeu; Déia alojou a gata no colo e a perna sobre a perna de Phil. É gesto de criança — olha só os pés dela, calçados naquelas meias coloridas com dedinhos que Kitty acha ridículas — mas se Déia é criança, Phil tem tempo que deixou de ser. Mas tudo bem: não é essa a perna que enche Phil de tesão. Mummy chiou que o pessoal do filme só bebe vinho o tempo todo — vinho é bebida de viado, segundo ela. Mas não negue, Kitty, que você até riu seu riso de cristal em alguns pontos do filme: a surra, por exemplo, que Stephanie, com seu capacete de motoqueira, dá no mulherengo da história quase te matou de rir: pra muda e humilde felicidade de Phil, que gosta de ver contente seu objeto de tesão. Tanto, Kitty, que você até xingou quando o celular tocou: Puta merda. Maria Catarina, olha essa linguagem, censurou Mummy. Era Breno — o namorado, não o repórter. Talvez a noite ainda se salve, Kitty pensou. Mas Breno: Tô em Linhares num jantar de

 

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negócios; altos negócios. Você tá bem? — referindo-se ao luto. Kitty estava bem. Vai sair não? Kitty ainda não sabia. Te ligo amanhã. Tá bem. Te amo. Também. Terminado o filme, como esquecer que, lá fora, o mundo todo é sábado à noite? Como não pensar em tudo que está rolando em tudo que é boate da ilha de Mic e do continente? Como não pensar no que será que está rolando entre Lu e o gato da Toyota? Kitty acendeu outro cigarro: o último. Saco, exclamou. Vou ter que sair pra comprar cigarro. Déia disse, pra ninguém em especial: Queria pegar um câncer de pulmão pra ver se assim minha irmã parava de fumar. Mummy disse: Não fala isso não, meu bem. Phil, fac-totum, sem uma palavra, estendeu um maço novinho pra Kitty. Phil, você podia ser nosso mordomo, Kitty disse, à guisa de agradecimento. Eu sou vosso mordomo, replicou Phil, sorrin- do: às suas ordens. Babaca, resmungou Kitty, pra si própria. Mais tarde chegou Pri, amiga de Déia. Pri tem só dezoito anos e piercing na têmpora e — como Déia — na língua, mas é foda em programação visual. Veio dormir e, de tabela, trocar o template do blog de Déia, que não dá pra ficar mais de quinze dias com a mesma cara, que a visitação baixa. Lá se foram as duas mais a gata pro quarto de Déia. — Acho que essa menina é, — Phil disse, referindo-se a Pri. Kitty: É nada, Phil. Mummy: É o quê? Phil: Boto a mão no fogo por ela não. Mummy: É o quê? Phil, baixando a voz: Acho que ela é sapatão. Mummy: Será? Kitty: É não, Mummy. Mummy: Acho bom, Phil, você ter uma conversinha com Déia. Kitty: Se tem alguma sapata aí, Mummy, é mais capaz de ser Déia do que Pri. Mummy: Maria Catarina! Fala mal não de sua irmã. Que ab- surdo. E eu não conheço minha filha não?

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  Kitty deu de ombros. Mummy e Phil, de mãos dadas no sofá, começaram a
  Kitty deu de ombros. Mummy e Phil, de mãos dadas no sofá, começaram a
 

Kitty deu de ombros. Mummy e Phil, de mãos dadas no sofá, começaram a ver um show de MPB na tevê a cabo; ele fumando, ela matando sua vodka de duzentos paus. Antes bebia uma outra vodka sueca, mais barata, de oitenta paus a garrafa: mas enjoou do sabor baunilha e aderiu a essa. Kitty torceu o nariz praquele namoro de sofá e subiu pra seu quarto. Ali foi logo abrindo o computador,

com a firme intenção de fazer o trabalho da faculdade: mas não teve tesão. Ficou ali brincando com sua miniatura de cadeira de balan- ço, fazendo-a balançar, enquanto o pensamento balançava longe, num éter qualquer.

 

O

jeito foi ouvir música no computador. Kitty adora música;

 

música sempre fez parte da sua vida e da sua cabeça; está pra nas-

cer o dia em que fique sem música; e música, pra ela, é claro, é

rock. E, se lhe perguntarem que tipo de rock gosta, dirá: gosto do rock que eu gosto. Isso significa que curte de um tudo, até mesmo pop rock, em especial Avril Lavigne, que, segundo Guto, não tem personalidade. No cu que não tem, sustentava Kitty, nos idos do seu namoro com ele.

 

O

computador é ao mesmo tempo banco de música e aparelho

 

de som. — Olha só, por sinal, o detalhe das caixinhas de som: uma

é

preta e tem forma de diabinho com chifrinho e tudo; outra é bran-

ca e tem forma de anjinho com asas nas costas e halo sobre a cabeça. — Ali dentro, dentro daquela caixa de música, Kitty já armazenou gigas e mais gigas de rock, dentre zilhões de coisas que baixou da Internet. Ouve música fazendo ao mesmo tempo outra coisa e ouve música só ouvindo música e mais nada. Ouve música deitada na cama ou no tapete, ou tomando banho, ou sentada ali na cadeira, com ou sem fones de ouvido nos ouvidos. Às vezes abre suas Minhas Músicas e fica horas ouvindo um cd específico atrás de outro ou en-

tão, de diferentes cds, uma faixa a esmo atrás de outra. Às vezes prefe- re acessar uma dessas rádios virtuais da Net pra ver o que está rolando

e

pra ouvir coisas que nunca ouviu antes. Às vezes, por incrível que

pareça, simplesmente mete um cd no drive e deixa rolar. Foi o que fez

 

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  essa noite. Pam lhe deu há alguns dias uma cópia do cd Songs for
  essa noite. Pam lhe deu há alguns dias uma cópia do cd Songs for
 

essa noite. Pam lhe deu há alguns dias uma cópia do cd Songs for the Deaf, da banda Queens of the Stone Age: uma banda californiana de desert rock que Pam anunciou como a mais versátil do planeta.

Kitty abriu um site com as letras do disco e foi ouvindo as faixas de olho nas letras. Rock English é com ela mesma. No que cansou de ouvir música ligou a tevê, que ela tem também sua tevê pessoal no claustro do seu quarto. Zapeou os canais. Deu sorte: estava passando uma entrevista com o ator Adam Rodriguez, do seriado C.S.I. Miami. Mó gato. A entrevistadora perguntou:

 

Depois de trabalhar no C.S.I. Miami e se envolver com tantos

 

crimes de mentirinha, você ainda consegue ficar surpreso com a violência do dia-a-dia?

 

Na vida real, — respondeu o ator, — a gente, infelizmente,

 

vê muitas coisas ruins. Nós todos nos deparamos com esses tristes acontecimentos. Algumas pessoas vêem mais, outras menos. Para mim, é muito espantoso e assustador o que o ser humano pode fazer com o outro motivado por diversas razões: vingança, racismo, di-

nheiro, paixão. É muito triste. Fico sempre muito surpreso ao ver a que extremo uma pessoa pode chegar para tentar atacar alguém. Isso é inacreditável e muito chocante, sempre.

 

É isso aí, gato, — murmurou Kitty. — Você disse tudo.

* * *

 

Quando decidiu dar uma chance ao sono eram quase duas horas. Estava friozinho, mas Kitty não consegue dormir sem ar condicionado, mesmo no frio. Ligou o aparelho, apagou a luz e meteu-se debaixo do edredom, cobrindo-se até as orelhas. Este foi um dos sábados mais miados da minha vida, pensou. Nesse exato momento alguém — uma voz de mulher — gritou desesperada- mente lá na rua: pareceu a Kitty o grito de alguém procurando por outro alguém: ou por alguém que perdeu ou por alguém que nunca encontrou.

 
 

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  Kitty aos 22: Divertimento . Capítulo 2: domingo. Kitty dormiu até às dez. Acordou,
  Kitty aos 22: Divertimento . Capítulo 2: domingo. Kitty dormiu até às dez. Acordou,
 

Kitty aos 22: Divertimento. Capítulo 2: domingo. Kitty dormiu até às dez. Acordou, viu que o dia estava bonito pra um dia de julho: solzi- nho gostoso ciscando na janela. Ligou o rádio dublê de relógio digi- tal. Estava tocando uma música do bom e velho Aerosmith: “Hole in My Soul”. Essa música é pra mim, pensou Kitty. Ao som da músi- ca fez o seu xixi matinal, passou uma demão de papel higiênico, viu que não havia rastro de corrimento insalubre, regou o lugar com um esguicho de mangueirinha, enxugou com outra demão de papel higiênico, ergueu-se do trono, lavou o rosto, vestiu o biquíni preto, cobriu-se com uma canga estampada e, ouvindo a frase “Seu amor é como um espinho sem rosa”, abriu a porta do quarto e desceu. De Mummy, de Phil, de Déia, de Pri, nem sinal: melhor assim. Irene fez pra ela um suco de acerola, que Kitty tomou no quin- tal, deixando-se lamber o pé pelo cachorro. Um pássaro não identi- ficado cantava alguma coisa entre as folhas do pé de carambola. Lá de cima, do seu quarto, pela janela aberta, vinha o som do rádio:

Britney Spears: “Adoro rock porque me dá sossego à alma”. Você e eu, Britney, pensou Kitty; que seria de nossas almas sem o rock? Virou de um gole o resto do suco. Irene: Vai comer nada não, meni- na? Kitty pegou um biscoito cream cracker com gergelim, pincelou

 

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ali um dedo de geléia de morango, começou a comer. Depois comeu outro, depois um terceiro. Phil chegou, bom dia, tem café pronto, Irene? E, vendo Kitty vestida a caráter: Vai na praia? Kitty olhou pra ele de soslaio e nem deu resposta. Phil percebeu a nerdice da pergunta. Tentou corrigir: Quer dizer, vai em que praia? Kitty, sem nem olhar pra ele: Aqui perto mesmo. Quer que eu te levo, Phil perguntou. Pra quê, respondeu Kitty. Aí subiu, escovou os dentes ao som de “Someday”, com o Nickelback, depois pegou filtro solar e óculos escuros — celular não — e lá se foi a pé pra praia. O que não falta em Mic é praia, inclusive a de Camburi, a não mais que duzentos passos da casa de Mummy. São três quatro quilômetros de praia em forma de enseada: na extremidade sul, a ponta Formosa, com, no topo, o Sacré Coeur, onde Kitty estudou; na extremidade norte, o porto de Tubarão, aonde navios do mundo inteiro vêm bus- car ferro e grãos. Camburi é praia semi-artificial. Uma redundância de praia. Puseram areia sobre areia pra fazer uma praia sobre outra, que a praia original tinha pouca área pra atender às demandas de lazer e turismo de uma futura metrópole como Mic. Nos terrenos adjacentes construíram um bairro popular, Jardim da Penha, e um bairro de elite, Mata da Praia. Jardim da Penha tem casas e tem edifí- cios de quatro andares. Mata da Praia tem casas e tem edifícios de dez andares: aquelas mais pra dentro, estes, só nos quarteirões da orla. No jornaleiro da esquina Kitty comprou o jornal, futura jorna- lista não pode deixar de ler jornal nem que seja só no domingo. Atra- vessou a avenida de seis pistas e chegou ao calçadão que margeia a praia ao longo de seus três quatro quilômetros. Havia, como sempre, muita gente trotando pelo calçadão em busca de saúde saudável e de vida vitalícia. A loura de óculos escuros e canga estampada não pas- sou despercebida entre os caminhantes masculinos de qualquer idade que fosse; muito pelo contrário; mas, como diria Phil, olhar não tira pedaço. A praia em si, naquele ponto, não estava nem muito vazia nem muito cheia de gente: afinal, apesar do sol, não deixa de ser inver- no. De uma pickup — não uma Toyota mas uma Montana da

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  Chevrolet — estacionada junto ao meio-fio vinha o som desmesurado de um rock de
  Chevrolet — estacionada junto ao meio-fio vinha o som desmesurado de um rock de
 

Chevrolet — estacionada junto ao meio-fio vinha o som desmesurado de um rock de peso, que Kitty não deixou de ouvir com bons ouvidos. Diga-se, a bem da verdade, que Camburi não é de Kitty a praia favorita: mas hoje está sem o Cláudio e com um buraco na alma:

tudo que quer é um mar de areia onde aquecer-se ao fogo brando do sol. Tirou as sandálias e desceu ao piso da praia: seus pés se imis- cuíram com volúpia na areia morna. Escolheu um lugar nem tanto ao mar nem tanto à terra, tirou a canga, expondo por quase inteiro o seu belo corpo de falsa magra, estendeu a canga sobre a areia e sentou-se de pernas dobradas numa versão estilizada da posição de lótus. Phil ali ficaria doido. Aí, abrindo o jornal e dobrando-o ao meio por causa do vento nordeste, que soprava forte, foi direto ao caderno dois ler a coluna “Super-Zíper”pra ver as fofocas juvenis de Mic; pra ver quem dos amigos e amigas foi citado ali; pra ver se ela mesma não foi, mais uma vez. Depois mergulhou na leitura de ma- téria sobre a banda Leela: foto feita durante a gravação de um clipe mostrava a moça e os três rapazes, com instrumentos e tudo, pen- durados no ar em correias de alpinista, lembrando marionetes pre- sos a seus fios: depois de sete horas de flutuação, saíram do estúdio com hematomas e escoriações: tudo pela arte. Não deu cinco minutos, Lu apareceu, repentina e inesperada, fincando os joelhos na areia fofa: Nháááá: cheguei! Estava de shortinho por cima do biquíni, belas coxas morenas de fora. E sor- riu, e colheu nas suas as mãos de Kitty, e disse: Lu tá xonada, Kitty. Pronto: estava dito tudo sobre a noite anterior: tinha sido show. Kitty extraiu as mãos do agarramento de Lu, tirou do maço um cigarro, meteu entre os lábios, protegeu a boca pro vento não apa- gar a chama do isqueiro. Lu esperava uma palavra de entusiasmo, de incentivo. Kitty cortou-lhe o barato:

 

— Isso quer dizer que você já deu?

— Qual é, lacraia, — disse Lu e, desapontada, afastou-se de

 
 

Kitty um palmo ou dois. — Mas quer saber de uma coisa? Só não dei porque ele não pediu.

 

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Kitty, injuriada: O quê? Se ele te pedisse, você teria dado? Teria dado logo no primeiro encontro? Lu, com a fleuma e a candura da mulher xonada: Teria, sim. E numa boa. O cara é dez, Kitty. Mó respeito. Mó cavaleiro. Kitty: Não quero saber. Que foi que eu te ensinei pra você parar de quebrar a cara, hein, galinha? Que que eu te ensinei sobre o pri- meiro encontro? Lu: Eu sei, eu sei, mas Bruno é diferente. Bruno Kitty, autoritária: Que que eu te ensinei, me diz, quero ouvir você dizer. Lu cedeu: Tá bom. Quer que eu digo, eu digo. No primeiro en- contro você dá o peito pra ele mamar e pega no pau dele. Kitty: É isso aí. Que negócio é esse de só não dei porque ele não quis? Isso não existe, mulher. Se você dá no primeiro encontro, você tá fudida. Não te passou por essa tua cabeça que esse cavalheirismo todo pode ser armação? Lu, com uma careta de descrença: Armação? Armação pra quê? Pra deixar pra comer hoje o que podia comer ontem? Kitty: Vai lá saber o que que esses caras têm na cabeça. Lu, toda ternura: Ah, Kitty, o gato é gente muito boa. Você acredita que ele até me beijou a mão! E mostrou a palma da mão como se o beijo de Bruno estivesse impresso ali pra sempre forever como prenda de amor. As unhas estavam pintadas de azul marinho, decoradas com pequenas figuras brancas que a princípio Kitty não identificou. Aí, tomando a mão de Lu e aproximando-a do olho, viu que eram flores: copos de leite. Kitty: Que merda é essa? Lu: Copos de leite, oras. Me deu vontade de ser diferente. Kitty, rindo: Mas logo copos de leite, sua anta? É flor de defunto. Lu,surpresa,depoisrindotambém:Putamerda;nãoéqueémesmo. Juntaram as cabeças, num impulso de camaradagem. Aí Lu fi- lou um cigarro, que Kitty, contra a vontade do vento, acendeu. Ah, Kitty, suspirou Lu, ontem foi o dia. Me conta tudo, Kitty disse.

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  Aí, ao som da zoeira da pickup, Lu contou e Kitty ouviu o relato
  Aí, ao som da zoeira da pickup, Lu contou e Kitty ouviu o relato
 

Aí, ao som da zoeira da pickup, Lu contou e Kitty ouviu o relato

 

dos felizes babados da véspera: aonde ela e Bruno foram, o que fizeram, o que beberam, o que comeram, e a que hora ele a deixou em casa: três e meia da matina.

 

Não quiseram saber de balada não? — Kitty perguntou: por-

 

que Lu e Bruno ficaram quase o tempo todo numa choperia ali perto da ponte de Camburi.

Bem que eu queria, — Lu disse, — mas ele não disse nada, eu fiquei na minha.

 

E amasso?

Só uns beijinhos no carro. O carinha é meio marcha lenta,

 
 

Kitty.

 
 

Marcha lenta ou ponto morto?

Ah, Kitty, não tô nem aí. O que importa é que nós tamos se

 
 

dando muito bem. O gato me olha só falta babar. Acho que desta

vez a coisa é pra valer. Acho que meu Deusinho se lembrou de mim,

já lembrou tarde, o filho da puta. Vinte e quatro anos nas costas e não tenho porra nenhuma, qual é? Fala sério. Kitty não disse nada. Mas Lu não estava querendo ouvir, mas

e

falar:

 
 

Sabe o que mais, Kitty? Chega dessa vida de à toa. Acho que

 
 

encontrei alguém pra trocar sonhos, dividir tristezas e multiplicar alegrias.

 

— De onde foi que você tirou isso?

 

— Bruno, — Lu disse. — Ele que disse isso. Uma gracinha, ele. É

 
 

o

que ele quer da vida, e eu também.

 
 

— Então ele se declarou?

— Não se declarou assim claramente, — Lu disse. — Mas insi-

 
 

nuou umas coisas. Ah, Kitty, eu tenho uma boa esperança que hoje o gato se declara.

 

Vai sair com ele hoje de novo? — A voz grave de Kitty veio

 

entrecortada de despeito. Aquela história: ciúme gratuito; ciúme por ciúme.

 

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  — Claro, — Lu disse. — Me convidou, eu ia dizer que não? Ah,
  — Claro, — Lu disse. — Me convidou, eu ia dizer que não? Ah,
 

Claro, — Lu disse. — Me convidou, eu ia dizer que não? Ah,

Kitty, chega de ser pé frio. E amanhã, sabe a primeira coisa que eu vou fazer? Exame de HIV. Essa semana ainda quero chegar pra Bruno com o exame na mão, mostrar pra ele, e não quero nem saber de transar com camisinha. Pra puta que pariu. Não posso perder tempo

mais não. Kitty, se esse gato faz um filho ni mim, tá salva a pátria. Um

cara desses, cheio da grana

É minha independência, minha e de Ina.

Ina é a filha de Lu, um acidente de percurso que hoje tem cinco anos.

 

Você falou de Ina pra ele? — Kitty perguntou.

Você tá é doida, — disse Lu. — É cedo ainda. Sei lá o que o gato vai pensar disso.

Você vai enrolar o cara? — Kitty perguntou, e se sentiu care- ta. A vida é assim mesmo. Todo mundo enrola todo mundo.

Ué, qual o problema? — disse Lu. — Não tô mentindo não, o

gato não perguntou nada. Tô só na minha, pensando ni mim primei- ro, depois na torcida do Flamengo. Vamos lá dar um mergulho. Kitty não estava a fim. Lu tirou o short e lá se foi curvilínea em direção ao mar. Kitty observou-lhe o corpo. Era um belo corpo de mulher, mas já dava pra discernir uns pontos de celulite na parte interna das coxas e na bunda bem torneada. Lu entrou n’água e ficou ali no raso, patinhando feito criança, deixando-se fustigar pelas on- das; não sabia nadar. Logo estava de volta, toda molhada e salina, molhada e sexy. Estendeu uma toalha e sentou-se ali pra passar o pente nos bastos cabelos castanhos; dos cabelos e do pente gotas de água do mar pingavam na areia, abrindo pardas craterinhas. Pediu outro cigarro, que Kitty acendeu pra ela entre os próprios lábios. Depois as duas passaram filtro solar uma na outra; veja-se que Lu tem um belo totem de um palmo de comprimento tatuado a partir da nuca; Kitty, mais discreta, só tem uma flor de lis no ombro esquerdo. Aí se estenderam na areia e dormitaram um pouco en- quanto o sol fazia o que lhe cabia; Lu pensando em Bruno, Kitty pensando em Lu: sentindo por ela umas ternuras. Deixou de lado o

 

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despeito e quis, de verdade, que Lu se desse bem com o carinha da Toyota. Nunca recebeu nada da vida, a pobre: só merda. Se apaixo- nava com facilidade, e seu relacionamento com os gatos não tinha estratégia nenhuma. Desde que a conhecera, quantas vezes Kitty vira Lu xonada? Investia forte nos caras, e uma semana depois lá vinha chorar no seu ombro, chutada pra escanteio. E não era só o dano emocional: às vezes ainda vinha com dano físico também. Nego caía de porrada em cima dela sem razão nenhuma. Ou então rola- vam umas coisas ainda mais estranhas. Como aquela vez com o filho da puta do Marcão. Pediu pra gozar no rosto dela, Lu deixou:

não tinha nem uma semana de namoro e ainda assim deixou. O primeiro jato pegou bem no olho, bem na pupila, cara, foi uma merda. Dia seguinte Kitty teve de levar Lu no oftalmo: Lu ficou de olho vermelho mais de mês. Tudo por causa de um filho da puta que na mesma semana deu o fora nela. Esses gatos não valem porra nenhuma. Tomara que esse seja diferente, pensou Kitty. Mas não pôde evitar um cisco de ceticismo: Só que duvido muito. Aí aconteceu uma coisa desagradável numa barraca próxima:

briga de casal. Os dois foram se encrespando, trocando desaforo, até que o cara deu na cara dela. Aí pegou a camisa e saiu dali e lá se foi pisoteando a areia cheio de moral até o calçadão. Aí entrou na pickup e partiu cantando pneu. Algumas pessoas chegaram até à mulher, pra dar solidariedade. Lu disse: Pô, que cara estúpido. Ba- ter na gente nem com uma rosa. Kitty disse: Vou sentir falta da música: tava rox. Lu riu: É mesmo. Mas depois Kitty viu no episódio uma espécie de aviso. O cara tinha uma pickup. Bruno também. O cara batia em mulher. Bruno também? Apertou forte os olhos pra afastar aquele mau agouro.

* * *

Pouco depois resolveram levantar acampamento. Juntaram as coisas e lá se foram indo. Aí, esperadamente, Lu pediu a Kitty que

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  emprestasse vestido e sapato pra ela sair com Bruno à noite. Kitty disse: Tudo
  emprestasse vestido e sapato pra ela sair com Bruno à noite. Kitty disse: Tudo
 

emprestasse vestido e sapato pra ela sair com Bruno à noite. Kitty disse: Tudo bem. No calçadão, o ponto de ônibus estava cheio de gente esperando condução pra voltar da praia pra casa: os ônibus nessa merdópole que é Mic se rarefazem no fim de semana. Ver aque- les pais carregados de guarda-sóis e de cadeiras de praia, aquelas mães de caras e corpos disformes, aquelas crianças escrotas, aquelas adolescentes fudidas, aqueles adolescentes mal acabados, que arre- galavam os olhos à passagem das duas gostosas, tudo isso incomo- dou Kitty pra cacete. Lu pertencia àquele mundo, ela não. Não era à toa que Lu queria a todo custo se dar bem, porque senão ia acabar que nem uma daquelas mães ali. Uma moça naquele bolo de gente disse: Oi, Lu. Lu respondeu:

Oi, Diana; tudo em cima? A moça era bonita: o subúrbio tem o dom de produzir belos espécimes de mulher, que de uma forma ou de outra acabam chegando junto à elite e aí seja o que Deus achar que deve ser.

 

Lembra dela não? — Lu perguntou.

 

Não me diga que é Diana, a castradora? — Kitty intuiu nem sabe como.

 
 

A própria, — Lu disse.

Kitty não resistiu e olhou pra trás. A moça estava de olho posto

 
 

em cima dela. Eram olhos grandes e tristes. Kitty acompanhara, como todo mundo, o caso Diana Sangiorgi. A moça da periferia

namorara um rapaz da classe média alta. A velha história: ela que- ria compromisso, o rapaz não. Terminaram. Alguns dias depois Diana procurou o rapaz e acabaram num motel, pra uma transa básica. Diana começou logo chupando; aí, de repente, no melhor da festa, cortou fora o pau do carinha com um golpe de faca.

 

— Pô, Lu, essa mulher tá fudida, não tá? — Kitty disse.

— É isso aí. Quem vai querer correr o risco de ficar sem o pau?

 

Eu que não ia. Em casa, no closet de Kitty, Lu escolheu um vestido curto ver- melho, cor da paixão, uma bolsa com bordado de borboleta e um

 

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par de sapatos vermelhos de salto agulha: ficaram meio justos no pé, mas é uma noite só, dá pra agüentar. Aceitou também uma pulseira e um par de brincos. Mas recusou o convite pra almoço. Tenho muito que fazer, inclusive achar alguém pra me fazer uma escova básica no cabelo; e dormir um pouco, que não sou de ferro. Kitty se ofereceu pra levar Lu em casa de carro. Lu ensaiou uma recusa só por elegância. Lá se foram as duas no Corsa de Mummy. Lu mora lá pra dentro de Jardim Camburi, num conjunto habitacional que tem algo — ou será exagero? — de campo de con- centração. Kitty parou o Corsa diante da guarita. Lu disse: Obriga- do, amigucha. As duas beijaram-se. Antes de sair, Lu segurou a mão de Kitty: Tá com muita raiva de mim? Kitty meio que fingiu espan- to: Eu? Claro que não. Devia estar? Lu respondeu: Olha só, Kitty, você não me falou se tava interessada no gato, eu achei que não tava. Kitty: E não tava mesmo. Afinal, eu tenho namorado. E, pra ser franca, não fui com aquela mancha negra que ele tem na cara. Lu: Então posso ficar tranqüila? Kitty disse que pode. Lu: E tá feliz por mim? Kitty, sincera: Tô. Lu, comovida e comovente: Nega, eu agradeço a Deus todos os dias por você existir e fazer parte da mi- nha vida. E espero de coração que dê tudo certinho pra nós e que a gente seja muito, muito feliz. Kitty, encabulada: Vai em frente e amanhã me conta tudo.

* * *

Domingo sempre mexe com o meu psicológico, dizia Kitty. Na- quele domingo, depois do almoço, ela teve uma crise de tédio. Diga- se de passagem: isso vinha acontecendo com certa freqüência ulti- mamente. Aí deitava na cama olhando pro teto ou punha-se a comer chocolate: ou as duas coisas, como nessa tarde: de olho posto no teto, consumiu todo um tablete de chocolate meio amargo. Tenho mais medo de morrer de tédio do que de bala perdida, já disse ela uma vez, e a frase fez grande sucesso.

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  Lá pelas quatro Daddy ligou, lá das argentinas. Faça sol ou faça chuva, Daddy
  Lá pelas quatro Daddy ligou, lá das argentinas. Faça sol ou faça chuva, Daddy
 

Lá pelas quatro Daddy ligou, lá das argentinas. Faça sol ou faça chuva, Daddy não esquece do telefonema dominical pras filhotas. Tudo bem, fofa? Falaram-se uns cinco minutos de tudo bem pra cá, tudo bem pra lá, e depois foi a vez de Déia. Tudo bem, Daddy, disse Déia. Com Déia a conversa foi mais prolongada, Déia fez o relató- rio da semana, até recomendou o filme da véspera: Você vai gostar, todo mundo bebe vinho o tempo todo. Pega aí numa locadora e vê. Depois passaram a assunto de negócios. Déia está querendo trocar de celular: O meu já saiu de moda, Daddy. Tenho até vergonha de usar: mó mico. Tô pensando num que eu achei demais, mó graça, todo coberto de cristais azuis e brancos, Daddy. Mas não é barato não. Daddy deve ter perguntado quanto. Déia disse quanto. Daddy deve ter achado caro. Déia disse: Mas pode ficar de presente de ani- versário adiantado. Parece que Daddy disse que então tudo bem, porque Déia exclamou: Brigada, Daddy, você é muito jóia. Te adolo. Adolo, adolo, adolo. E deu uns trezentos beijinhos ao telefone. Mais tarde Deb ligou chamando Kitty pra ver um filme no Metrópolis, o cinema da Federal: Depois a gente estica nalgum ba- bado aí. Tô sem o Cláudio, Kitty foi logo avisando. Deb disse: En- tão vou pedir a Jujuba pra levar a gente. Sessão era às cinco e meia. Kitty tomou um banho básico, vestiu uma blusa cinza e uma calça jeans e se produziu com moderação:

nos passantes da calça pendurou uma corrente enfeitada com péro- las; na cabeça chegou a pensar em pôr sua boina de tricô azul safira, mas acabou que preferiu um boné bordado, que Pam, que fazia essas coisas, lhe dera de aniversário. Estou pronta: vamos lá, e to- mara que hoje seja dia de meia-noite. Por fim, meteu no pulso seu relógio de pulseira cromada e desenho de flores no mostrador: Daddy que deu. Tipo cinco e quinze a galera passou pra pegá-la: a louquinha da Deb estreando seu cabelo verde e mais Jujuba e sua nova namorada, Pri — não confundir com a amiga de Déia. Lá se foram direto pro campus. Que, em sendo domingo, estava um desertão. O filme era

 

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  Dogville , com Nicole Kidman. Jujuba e Pri não viram nada, ocupa- dos na
  Dogville , com Nicole Kidman. Jujuba e Pri não viram nada, ocupa- dos na
 

Dogville, com Nicole Kidman. Jujuba e Pri não viram nada, ocupa- dos na beijação e na pegação. Deb, safada como sempre, uma hora pegou no pau dele e apertou. Jujuba deu um grito. Só queria saber se tava duro, justificou Deb, a sonsa. Os quatro tiveram um acesso de riso; um cavalheiro austero olhou pra trás e fez chiu! Depois do cinema sentaram num boteco ali na Lama, perto do campus, pra decidir o que fazer da vida. Jujuba era ruivo e era sar- dento. Pri, a namorada, era ruiva e era sardenta. Deb era do tipo gordinha gostosa. Tinha pele alva como leite de rosa e cabelo negro como asa de corvo. Tinha cinco piercings no corpo e um sorriso crônico que parecia ter-se empedrado em seus lábios. As inimigas chamavam-na de Coringa, por causa do personagem de Batman. Está usando uma bela pulseira de prata, com um fino cadeado que serve de fecho. Teve de tirar pra Pri pegar na mão, colocar no pulso. Mil reais, Deb disse. Presente de Mams. Caralho, disse Jujuba. Dava pra tomar porre um mês inteiro com essa grana. Pri, instigada por Deb, conta como é que foi que aconteceram as

coisas entre ela e Jujuba. Ele é baterista de uma banda de rock. Pri era, pra dar o termo técnico, uma groupie, isto é, uma das fiéis tietes da banda, dessas que vão a todo lugar onde a banda toca, até se for na casa do caralho. Jujuba nunca dera a mínima pra ela — e eu, Pri diz, sempre fui louca por batera. Curte uma baqueta, Deb contri- bui. Até que uma noite, uma madrugada, depois de um show na Barra, ele chegou e puxou conversa. Aí a coisa rolou. Eu adoro a madrugada, Pri diz: é aí que o sonho se torna realidade. O que ela não sabe é que Jujuba só chegou e puxou conversa porque soube que aquela doidinha era filha de pais podres de ricos e tinha um baralho de cartões de crédito.

 

Deixa ver a língua, — Deb disse a Pri.

Pri abre a boca e mostra a língua.

 

Recomendo um piercing nessa língua, filha, — Deb disse. E

 
 

abre a boca e mostra a própria língua: — Igual o meu. De titânio, pra não infeccionar.

 

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  — Quero furar minha língua não, — Pri replicou. E pra Jujuba:   —
  — Quero furar minha língua não, — Pri replicou. E pra Jujuba:   —
 

Quero furar minha língua não, — Pri replicou. E pra Jujuba:

 

— Né, amor?

 
 

Olha aqui, neném, — Deb disse. — Uma boca é uma boca,

 
 

uma boca gostosa é uma boca gostosa, um beijo gostoso é um beijo gostoso, mas uma boca gostosa com um beijo gostoso e ainda por cima com um piercing é tudo que pode existir de bom nessa vida. Pri quer ouvir uma segunda opinião:

 

— Você acha, Kitty? — perguntou.

 

— Nesse ponto Kitty é careta, — Deb disse. — Só tem piercing

 
 

no umbigo. Eu tenho cinco piercings no corpo: aqui no alto da orelha, na língua, no bico do peito, no umbigo e lá.

 

— Lá? Você quer dizer ? — Pri perguntou.

 

— É, — Deb respondeu. — Na buceta.

 

Nisso chega um engraxate mirim todo janota num terno também mirim, a que não falta nem uma gravatinha borboleta. Deb se derrete toda pelo menino: deve ter uns onze doze anos. Tem até cartão de visita, e dá um a Deb. Ah, que graxinha, exclama Deb: tem até cartãojinho! É uma graxinha mesmo, diz Jujuba. Deixa ele engraxar teu sapato, Jujuba, Deb propõe. Tô de tênis, Jujuba contrapõe. Deb tira a mó onda com o menino, e o menino com ela. Então Deb oferece um real por um beijo. Dois real, diz o menino. Deb ri: Mas eu quero na boca, diz ela. Na boca é três real, diz o menino. Então vem cá, diz Deb, e assesta um beijo carnudo e risonho na boca do menino, que sai do beijo meio zonzo. Deb diz: Alguma mulher já te beijou na boca antes? O menino diz que não. Deb se gaba pro resto da mesa: Esse cabaço eu tirei dele. Depois despacha o menino: Vou ligar pra você pra te levar pros rocks. Rocks é dez real, diz o menino. Aquela onda toda fez sorrir um coroa sentado bebendo sozinho a uma mesa do canto. Tem todo o jeito de ser professor na Federal, Kitty pensa. O cara tem traços finos que agradam a Kitty. Mas deve ter uns quarenta anos, o cabelo já começa a agrisalhar. E, além do mais, encarar um coroa da Federal é foda: esses intelectuais não têm conversa.

 
 

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  — Olha lá o coroa azarando a gente. — Deb notou também. —  
  — Olha lá o coroa azarando a gente. — Deb notou também. —  
 

Olha lá o coroa azarando a gente. — Deb notou também. —

 

Vamos lá sentar com ele, Kitty?

 
 

Eu, hein? — Kitty disse. — Deve ser professor na Federal:

 
 

esses intelectuais não têm conversa.

 
 

É mesmo, — Deb disse. — Não sabe Mi? Namorou o profes-

 
 

sor dela dois meses. Ainda bem que o semestre terminou e ela pas- sou com dez, porque já não agüentava mais a babaquice do cara. Você acredita que o cara teve o desplante de levar ela pra lançamen- to de livro numa livraria? Esses caras são tudo doente. Veio uma segunda rodada de cerveja. Cada qual atacou a sua. Prizinha bebe no mesmo copo que Jujuba. Deb de repente deixa de sorrir pra dar um hiante bocejo.

 

Pô, ainda tô com o sono atrasado, — disse ela. — Ontem tive

 

de levantar sete da matina pra ir com Mams num churras aí em Bem, não sei o nome da cidade, mas sei que é aí no interior. Tinha carne bagarai, biritas, músicas com dj e tudo, chope maravilhoso e todo mundo descontraído. Comi bagarai, e ainda tive de encarar

uns altos doces depois. Putz, que castigo! Logo eu, que preciso per- der peso. Pri, a namorada de Jujuba, também curte o interior:

 

Mó astral ficar num sítio assim de bobeira, vendo carnei-

 

ro pastar, vaquinha mugir, miquinho na árvore, cheirinho de verde Deb olhou pra Kitty, Kitty olhou pra Deb: olhar de vai ser sem

noção assim na puta que pariu. Aí ficaram os quatro ali na cerveja, comendo batata frita com queijo ralado e lingüicinha calabresa. Daí a pouco passou um conhecido de Jujuba e chegou junto. Cha- maram-se um ao outro de filho da puta, bateram-se os punhos em sinal de respeito.

 

Qual é a boa de hoje à noite, brother? — perguntou Jujuba.

 

Ah, meu, — disse o brother, — aqui tá tudo muito palha; a boa hoje é lá em Guarapa, na Glee.

 

Mas hoje é domingo, — Jujuba disse. — Termina cedo.

 

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  — Que nada, — disse o brother. — Pessoal de Cachoeiro vai   descer
  — Que nada, — disse o brother. — Pessoal de Cachoeiro vai   descer
 

Que nada, — disse o brother. — Pessoal de Cachoeiro vai

 

descer todo pra comemorar sei lá o quê aí. Hoje aquilo vai bombar até o sol nascer. Aí filou um último gole da cerva de Jujuba e se foi. Jujuba fez a pergunta: Vamos pra Guarapa? Deb topou na hora: esteve na Glee ontem, mas não se incomoda de voltar lá hoje: Adoro a Glee. Se eu fosse homem eu já entrava lá de pau duro. Kitty fez que tanto fazia.

Pagaram a conta, pararam no posto de gasolina ali perto pra en- cher o tanque, e Jujuba disse: Eu pago a gasosa, vocês pagam o resto. Não vou nem coçar a carteira.

 

— Que carteira, bem? — disse Pri. — Você não tem carteira

— Então não vou nem coçar o saco, — disse Jujuba.

 

Pri pagou a gasolina com cartão de crédito. Dali saíram em direção ao sul. Tem som nesse carro não, Jujuba, Kitty pergun- tou. Roubaram, Jujuba respondeu. Passaram pela ponte da Pas- sagem, essa pinguela que dá acesso à ilha de Mic pra quem vem do norte, pegaram a avenida Nossa Senhora da Penha. Pri disse:

Ah, vamos ver como é que tá a Detroit. Aí passaram em frente da boate, onde se formara uma fila básica à porta: tudo criança, assim que nem Pri. Jujuba reduziu a marcha. As minas estavam ali, de calças compridas ou saias curtas, esbanjando casacos, ja-

quetas, suéteres, pulôveres, estolas, gorros, boinas, botas de cano curto e de cano longo, e até luvas. Deb meteu a cabeça pra fora da janela e berrou:

 

Tá na hora da mamadeira, criançada!

Jujuba arrancou.

 

Quem elas pensam que são? — Deb disse. — Tão pensando

 
 

que já são mulheres só porque já tão dando ou querendo dar? Tem muita quilometragem pela frente ainda, né, Kitty? Depois pegaram a terceira ponte. Kitty pagou o pedágio. Iam

começando a subir a rampa quando viram, lá na frente, alguns car- ros parados e alguma gente do lado de fora.

 

Suicídio, — Deb foi logo dizendo.

 

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  Mas não. Pois viram vir correndo rampa abaixo um cãozinho marrom, com um sujeito
  Mas não. Pois viram vir correndo rampa abaixo um cãozinho marrom, com um sujeito
 

Mas não. Pois viram vir correndo rampa abaixo um cãozinho marrom, com um sujeito correndo atrás.

 

Pára, pára! — Deb gritou, com medo de Jujuba passar por

 

cima do bichinho. Mas o cãozinho, que não era burro, desviou-se do carro e conti-

nuou a descer a ponte: se feliz da vida ou cheio de pavor não deu pra Kitty ver.

 

Pára, pára, — Deb gritou de novo, — temos que salvar o

 

bichinho! Jujuba não parou: o bichinho que se foda. Deb procurou maça- neta pra abrir a porta e saltar fora pra socorrer o cãozinho, mas não havia como, o carro não é de quatro portas mas de duas. Ela e Kitty acompanharam a fuga do cãozinho pelo vidro de trás: lá se ia ele, desviando de um carro após outro, e o sujeito correndo que nem doido atrás. Jujuba reduziu a marcha ao passar pelos carros parados na ponte: eram três e tinham-se engavetado bonito. Uma coroa, na pista, torcia as mãos meio catatônica, olhando rampa

abaixo: só podia ser a dona do bichinho que, na confusão, aprovei- tara pra pular fora e cair no mundo.

 

— Será que ele tem alguma chance? — Pri disse, preocupadinha.

— Nenhuma, — Jujuba disse. — E se bobear o cara também

 

não. É bom, pra deixar de ser besta. Aí Deb referiu-se a um tumulto que ocorrera ali dias antes. Panaca invadiu a ponte a pé, conseguiu correr até o meio dela e ficou ameaçando se jogar lá de cima. Deb estava indo pra Vila Ve- lha. Ficou puta: Trânsito ficou parado duas horas, tudo por causa desse babaca que acabou nem teve coragem de se jogar. Eu não entendo esses caras: tanto prédio dando sopa na cidade pra eles se

jogarem lá de cima, pra que vir cá pra ponte encher o saco de quem não tem nada com isso?

 

— É a mística da terceira ponte, — Jujuba disse.

 

— Falta de respeito, isso sim, com a gente, — Deb disse.

 

— E por que o cara queria se jogar? — Pri perguntou.

 

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  — Porque tá sem emprego, o coitadinho, — Deb disse. — Quem não tá?
  — Porque tá sem emprego, o coitadinho, — Deb disse. — Quem não tá?
 

— Porque tá sem emprego, o coitadinho, — Deb disse.

— Quem não tá? — disse Jujuba, que, tirando a banda, está.

 

Convento da Penha estava todo iluminadinho lá no coco do morro. Tempão que eu não vou no convento, pensou Kitty; tam- bém, que que eu tenho de importante pra fazer lá? Mas Pri, pra surpresa de Kitty, fez o sinal da cruz. Kitty pensou: Essa garota é uma retardada. Desceram a ponte, meteram-se pelos fundilhos de Vila Velha, saíram na rodovia do Sol. O mar apareceu ali do lado, com seu negro pijama de todas as noites. Deb falava sem parar; ninguém prestava atenção, nem ela prestava atenção à falta de aten- ção de ninguém. Logo aproximaram-se do posto da polícia rodovi- ária. Jujuba, que vinha pisando fundo, reduziu a marcha. Pri estava

pendurada nele como uma trepadeira, cofiando-lhe os cachos.

Desencarna, cerejinha, disse Jujuba, que não quer confusão com polícia. Pri desencarnou. Passado o perigo, encarnou nele de novo e mais que antes; como Jujuba conseguia mudar de marcha com aquela cerejinha no caminho é um mistério. Deixaram pra trás o acesso pra Barra do Jucu, onde teve início o grande amor de Pri e Jujuba. Deixaram pra trás a Morada do Sol:

da estrada dá pra ver lá em baixo as casinhas de boneca à beira da lagoa. Todo fim de semana alguém morre afogado aí, Deb disse. Depois passaram o cemitério onde cremaram Benjy e Bobby na véspera.

 

Também quero ser cremada quando morrer, — Deb disse.

 

— Melhor o fogo me comer de uma vez só do que o verme aos bocadinhos. Mencionaram o crime, a violência gratuita, a ingratidão dos meninos, e onde será que eles estão? Mencionaram a polícia, que não é de nada, e as festas de Benjy e Bobby, que vão deixar saudades. Pri nunca chegou a freqüentar. Jujuba e Deb, como Kitty, eram habitués. Lembraram várias ocasiões memoráveis. Os réveillons eram do caralho, mas os aniversários de Bobby e de Benjy eram do outro mundo. Num deles houve até a lambujem de um suicídio:

 

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Deb contou pra Pri a história de Carol, uma sapata, magra que nem agulha, tinha anorexia, não comia nada: pra ela, azeitona era refei- ção. Estava lá com a namorada. No meio da festa subiu ao andar de cima, foi até o quarto de hóspedes, Deb estava lá em pleno ménage com Rê e um carinha de Beagá. Vocês me dão licença, Carol disse. Deb pensou que ela quisesse se juntar à putaria e disse, Pode vir. Não, ela explicou. Eu queria que vocês saíssem pra eu fazer uma coisa. Deb disse: Faz o que você quiser e foda-se. Aí Carol tirou um revólver da bolsa e deu um tiro na cabeça. — Isso é que é empatar uma foda, — Jujuba disse. Deb continuou emendando um assunto no outro. Kitty nem ouvia: os olhos fixos no lento caleidoscópio da paisagem noturna lá fora. Está sentada à direita. O que vê são campos, são mangues, são morros e colinas, um que outro sítio ou fazenda, uma que outra casinha iluminada, um que outro posto de gasolina. Aí de repente passaram por um parque de diversões à margem da estrada. Foi uma visão fugaz, mas Kitty percebeu as silhuetas de uma roda gi- gante e de um triste carrossel com tristes cavalinhos de madeira. Tudo calado, sombrio, em completo abandono: tudo sem som e sem luz e sem vida. Um parque de diversões em que os fantasmas das crianças que hoje são adultos vêm se divertir nos brinquedos e co- mer algodão doce. A boate Glee fica ao sul de Guarapa, numa área erma, cortada por ruas de areia. Chegaram lá, as ruas mais próximas estavam repletas de carros estacionados à margem de terrenos baldios, co- bertos de vegetação de restinga. Jujuba teve de ir até à orla e meter o carro em cima do mato rasteiro que serve de topete à praia. Vieram logo dois moleques querendo tomar conta do carro. Jujuba enxo- tou-os: Quem vai querer roubar essa merda? Saíram caminhando. Kitty observou que os carros, mais da metade deles, tinham placa de Cachoeiro. Deb disse: Kitty, vê se arranja um peguete que nem o que você arranjou aí daquela vez, lembra? Pri de curiosa quis saber o que que rolou. Rolou, Deb disse,

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  que o cara ficou tão doido por Kitty que aí eu cheguei e disse:
  que o cara ficou tão doido por Kitty que aí eu cheguei e disse:
 

que o cara ficou tão doido por Kitty que aí eu cheguei e disse: Já que você pegou minha amiga emprestada, me empresta a sua comanda?

o otário emprestou, né, Kitty? E aí eu bebi até ficar torta, tudo na comanda dele! Nós é nós, hein, Kitty? Grandes aventuras juntas,

E

hein, diz aí. Havia uma fila enorme esperando pra entrar na boate. Kitty desanimou; os outros três não. Já que tamos aqui, Jujuba disse. Entraram na fila. Deb foi lá na frente pra ver a cara do porteiro. Voltou dizendo que não era ninguém que ela conhecia. Tamos fer- rados; o jeito é esperar. Um carinha à frente deles ouviu aquilo e se queixou pra Jujuba:

Mó discriminação. Nego de Cachoeiro entra direto e a gente, que é

da capital, tem de esperar na fila. Jujuba rebateu: Mas eles são da capital secreta do mundo.

 

Lá dentro deve tá que nem ontem: cheio bagarai, — Deb

 

disse. — Teve uma hora que eu fui fazer pipi, a fila do banheiro tava impossível, aí fui fazer lá fora mesmo. Quando voltei, fui atravessar

a

pista, fiquei agarrada. Me agarraram e não soltaram mais

Como

se eu quisesse ser solta, né?

 
 

— Ficou com alguém? — quis saber Pri.

 

— Vou te dizer uma coisa, — Deb disse, com seu sorriso fóssil:

 
 

— antes eu ficava com seis ou sete numa noite só, mas agora tô mais seletiva com meus peguetes. Ontem fiquei só com dois: dois opos- tos: um de dezoito, outro de trinta e dois; um moreno, outro louro;

um fazendo vestibular, só que não sabe direito o que quer, outro já foi meu professor na faculdade.

 

— Você faz faculdade? — Pri disse.

 

— Terceiro ano de Direito, — Deb disse, com brio.

 

— Na Federal? — Pri disse, talvez de inocente, talvez de sonsa.

 

— A Federal é uma merda federal, — Deb disse. — Toda hora

 

tem greve naquela porra: é um atraso de vida. Da Federal eu só gosto é das festas. Êêêê, Federal! Quanta sacanagem boa naqueles cantinhos! Né, Kitty? Kitty sabe.

 

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  — Meu primeiro baseado, — informou Jujuba, — eu fumei lá na pedra da
  — Meu primeiro baseado, — informou Jujuba, — eu fumei lá na pedra da
 

Meu primeiro baseado, — informou Jujuba, — eu fumei lá

na pedra da caixa d’água. Meu primeiro doce foi lá também.

— Foi, amor? — Pri disse. — Que caixa d’água?

 

— Lá do campus da Federal, — Jujuba disse. — E sabe o que

 

mais, cerejinha? Tá aí um lugar que a gente ainda não transou. Vou levar você lá dia desses.

— Adoro quando você me chama de cerejinha, — Pri disse.

— Delicada cerejinha, — Jujuba disse, dando-lhe um beijim;

Pri se derrete toda. Chegou um bando de moças e rapazes, todos eles muito produ- zidos e em diferentes degraus de porre. Chegaram cantando para- béns pra uma das moças:

Parabéns pra você, nesta data querida, muitas caipiroskas,

muita cerva e pinga! Era tudo gente de Cachoeiro, porque chegaram lá na porta e começaram a cantar “Meu pequeno Cachoeiro”. Foram todos pos- tos pra dentro no ato.

Estava ventando frio ali fora. Deb chamou um rapaz que trazia a tiracolo uma caixa de isopor.

— Você só tem cerveja aí? — disse ela.

 

— Tenho uma cachacinha também, — disse o rapaz.

 

— Manda, — Deb disse. — Quem vai querer?

 

Deb pagou duas doses, uma pra ela, outra pra Jujuba. Os dois

 

tocaram um no outro os copos de plástico e viraram de um gole. Deb soltou fogo pela boca:

Ê troço forte! Agora eu agüento o tranco desse frio. Aí Jujuba disse que ia voltar pro carro com Pri.

Qual é, Ju, — Kitty se queixou. — Vai deixar nós duas aqui sozinhas?

Vou, por quê? Algum problema? — Jujuba disse, de repente

truculento. — Tô a fim de uma chupada. Quer me dar uma chupa- da, eu levo você e deixo Pri aqui. Tá a fim?

Não, amor, — Pri reclamou. — Eu é que vou com você.

 

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  Então vem, cerejinha, — disse Jujuba. E pra Kitty: — Na hora de entrar,
  Então vem, cerejinha, — disse Jujuba. E pra Kitty: — Na hora de entrar,
 

Então vem, cerejinha, — disse Jujuba. E pra Kitty: — Na hora de entrar, liga pra mim.

— Que folga, hein, bastardo? — queixou-se Deb.

— Ô vadia, quem foi que trouxe vocês aqui? — rebateu Jujuba.

Vai pegar teu boquete, vai, porra, — Deb disse. — E você, guria, não vai engasgar, hein?

Engasgo não, — disse Pri. — Já tô até acostumada.

* * *

Tem brilho aí nessa bolsa não, Kitty? — Deb disse.

 

Tô fora, — disse Kitty. — Esqueceu do que rolou lá em

Porto?

Kitty tomou uma overdose uma vez lá em Porto Seguro: foi o que bastou pra ela virar careta.

 

Caralho, tô seca por um cheiro, — Deb disse. — Jujuba é

capaz de ter. Vou lá ver com ele. Kitty ficou ali sozinha. A fila andou dois metros depois parou. Tinha redezenas de pessoas patetando ali na frente da boate. Kitty

caiu em si que era muito sacrifício, ainda que por uma nobre causa. De súbito, começou um alvoroço lá adiante e uma voz de mulher gritou que estavam furando fila. Kitty viu uma confusão, dois três carinhas se engalfinhando na porrada, um deles caindo no chão. O segurança, na porta da boate, não deu nem bola. Aquilo não lhe dizia respeito: era fora do recinto. Daí a pouco chegou um carinha perto dela e disse: Kitty. Ela olhou bem pro carinha, aí reconheceu Nênis, colega da Católica que foi apaixonado por ela no segundo ano. Beijinhos no rosto. Tudo em cima? Tudo em cima.

— Largou o curso? — Kitty disse.

 

— Tranquei, — Nênis disse. — Tá caro pra caralho, tá dando

 

não. Tô atrás de algum trampo. Tô levando currículo pra tudo que é lugar, consegui nada não. Coisa difícil é emprego. Mais fácil

 

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  ganhar na loteria. Mas e você, hein? Cada dia mais bonita, hein? Cabelinho curto:
  ganhar na loteria. Mas e você, hein? Cada dia mais bonita, hein? Cabelinho curto:
 

ganhar na loteria. Mas e você, hein? Cada dia mais bonita, hein? Cabelinho curto: tá show. Nênis tomou a liberdade de passar a mão no cabelinho de Kitty.

— Que que você me conta?

 

— Tô lá na Católica, estudando, — Kitty disse. Sentiu um des-

 

concerto. Era essa a sua vida: ser bonita e estudar? Não, tinha a

noite, também, a galera, Breno, a praia, o cinema, o rock e os rocks. — Tô sempre aí na noite, também, com a galera, ou então vendo um filminho. Hoje fui ver Dogville lá no Metrópolis. Já viu?

Vi não. É bom?

É com Nicole Kidman. Eu gostei. Muito legal. Não tem cenário.

 

Tem não? — Nênis disse. E perguntou: — Tá namorando,

Kitty?

Tô, com Breno. — Kitty sentiu um desconforto. Que namo-

 

ro é esse? Há quanto tempo não dava uma metida com Breno?

— Cadê ele, tá aqui não? — estranhou Nênis.

 

— Mó ocupado, — Kitty suspirou. — É decorador, essas coisas.

 

Decorador? — estranhou Nênis. — Deve ser o único que não é viado.

É. — Kitty sentiu um descontrole. Mas Breno não é viado.

Pode ser bissexual, mas viado não. E justificou para si própria: a humanidade do futuro será toda bissexual. Sem limites nem fron- teiras: sexo total, completo, sem inibições nem preconceitos. O ser humano é por natureza investigador, experimentador. O sexo está

aí pra ser bebido até à borra. Ela é que era meio careta: precisava ser mais ousada e mais aberta.

Veio sozinha? — perguntou Nênis. O interrogatório já esta- va dando nos nervos de Kitty. Respondeu:

— Vim com Jujuba e com Deb.

 

— Deb? Que Deb? — perguntou Nênis.

Deb, cara. Deb louquinha. Conhece não? Faz Direito lá na Católica.

 

Conheço não, — disse Nênis. — Só vendo a cara dela.

 

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  — Você tava lá dentro? — Kitty perguntou. Não, cheguei agora. — Nênis disse.
  — Você tava lá dentro? — Kitty perguntou. Não, cheguei agora. — Nênis disse.
 

Você tava lá dentro? — Kitty perguntou.

Não, cheguei agora. — Nênis disse. — Mas rapaz sozinho não entra. Sei se vou ficar não. Que que você acha?

 

— Sei não. Eu vou ficar. Tô de carona.

 

— Ué, — Nênis disse. — E o possante?

— Ficou em casa.

Nisso chegou Deb. Na mão esquerda trazia um baseado aceso.

 

Nênis exclamou:

 

Ah, é você que é Deb? — E pra Kitty: — Eu conheço ela, sim.

 

Me conhece? — Deb disse, sem sorrir, e sem sorriso parecia outra pessoa. — Tem certeza? Daonde?

A gente ficou jogando pingue-pongue numa mesa de sinuca

cinco e meia da manhã lá em Nova Almeida. Lembra não? O sorriso de Deb se reacendeu.

Ah, bem, pensei que a gente tivesse transado por aí. — E pra

Kitty: — Com Ju só consegui esta merda aqui. Quer dar um tapa?

Kitty deu um tapa no baseado pra esquentar. Depois foi a vez de Nênis. Depois Deb se apossou do baseado de novo.

— Vai entrar com a gente? — Deb perguntou a Nênis.

— Sei não, — Nênis disse. — Tô meio sem grana.

Pô, cara, então dá linha, — Deb disse; o sorriso continuou no lugar, mas cheio de hostilidade. — Tá esperando o quê?

Eu pago a dele, — Kitty disse, num impulso que nem ela

entendeu.

Qual é, Kitty, — censurou Deb. — Irmã de caridade? Sai

 

dessa. Deu as costas pros dois e puxou forte no baseado.

Valeu, Kitty, — Nênis disse. — Mas eu acho que eu já vou indo mesmo.

Tá de carro aí? — perguntou Kitty.

Não exatamente, — Nênis disse. — Tô com o fusqueta do meu irmão. Kitty voltou-se pra Deb:

 
 

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  — Vamos aproveitar a carona e ir embora, Deb, — sugeriu ela. — Isso
  — Vamos aproveitar a carona e ir embora, Deb, — sugeriu ela. — Isso
 

Vamos aproveitar a carona e ir embora, Deb, — sugeriu ela.

— Isso aqui tá um lixo. Tá muito miado.

 

Cê tá louca? Eu quero é entrar naquela boate e me acabar lá dentro.

 

— A gente vai ficar mais um pouco, Nênis, — Kitty disse.

— Quer que eu espero, eu espero, — Nênis se ofereceu.

Deb perdeu o sorriso e a paciência:

 

Ô, cara, vê se te manca. Desgruda, tá? A gente tá ni outra.

 

Nênis deu beijinhos em Kitty. Boa noite pra Deb, que nem res-

pondeu. A gente se vê por aí, pra Kitty. Sai Nênis.

 

Qual é, Deb? — Kitty disse. — Custava ter um pouco mais de educação?

 

Qual é, Kitty? — Deb disse. — Quer pagar mico andando de

fusquinha, porra? E esse Nênis, Pênis, sei lá, é estranho bagarai. Vir

pra cá sem grana, qual é? Daonde você conhece essa porra? Kitty contou que ano passado, na faculdade, em plena sala de

aula, Nênis se ajoelhou diante dela e fez uma declaração de amor e a pediu em casamento.

Quê? — Deb rompeu numa golfada de riso. — Kitty, esse

cara é muito comédia! Kitty prendeu o riso e riu pra dentro. Lembrando a cena, tam-

bém achou tudo muito engraçado. Mas lá, na sala, diante da turma toda, enrubesceu de constrangida. Afinal, romantismo tem hora; hora e remetente; dependendo de uma coisa e outra, acaba sendo uma boa merda.

Nênis é um carinha sem noção, — disse ela.

 

E nem ficou só naquilo. Dia seguinte Nênis telefonou à tarde e disse que era pra ela ligar na Rádio Comunitária que ia ouvir coisa de seu interesse. Kitty ligou. Era Nênis, dando entrevista, falando, entre outras coisas, da paixão por ela. Disse o nome de Kitty e tudo. Aí o carinha da rádio perguntou se ele tinha uma frase pra dedicar pra sua amada. Aí ele disse que tinha. Aí o carinha, com voz de

 
 

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  locutor de parque de diversões: E agora, de Nênis Manhães pra Kitty Leme, uma
  locutor de parque de diversões: E agora, de Nênis Manhães pra Kitty Leme, uma
 

locutor de parque de diversões: E agora, de Nênis Manhães pra Kitty Leme, uma declaração de amor sincero e verdadeiro. Manda lá, Nênis. Aí Nênis recitou, todo seriozinho: Ontem, quando dormi, sonhei que escrevia seu nome sobre a linha do equador. Mas quan- do acordei percebi que a linha era imaginária, mas o meu amor por você, não. Kitty achou — e ainda achava — aquela frase do caralho. Pra desmistificá-la, acabou contando também esse episódio pra Deb. Esperava outra golfada de riso. Mas até Deb reconheceu que a frase era do caralho.

 

Você acha, Deb? — disse Kitty.

Deb disse que achava.

 

Eu também achei rox demais, quando ouvi, — Kitty disse.

 
 

Imaginou uma frase dessas na boca de alguém mais charmoso e menos otário que Nênis. Não seria ela que resistiria.

 

— E o que que rolou depois? — perguntou Deb.

— Não rolou mais nada. Ficou por isso mesmo. Ele ficava lá, na

 

sala, com aquela cara de cachorro pidão. Mas não faz o meu gênero.

 

E, além do mais, não tem grana. Não faz o gênero de ninguém.

* * *

 

O som da balada chegava até ali com toda a força. Algumas meninas acabaram começando o agito ali fora mesmo. Deb, por exemplo. Kitty não: Hoje tô sem inspiração, pensou. De vez em quando passavam conhecidos, alguns saindo da boa- te, outros margeando a fila só pra ver quem estava ali. Tá lotadaço, diziam os que saíam. Deve tá lotadaço, diziam os que chegavam. Entre os que saíam, de repente, Kitty viu Lu e Bruno. Passaram mais ao largo: Lu não viu Kitty. Os dois iam abraçados, ele com o braço sobre os ombros dela. Metida no vestido vermelho de Kitty, longas pernas morenas de fora, Lu estava uma coisa. Kitty sentiu uma dor de corno no coração. Deb viu Lu também.

 
 

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  — Foi Lu que passou ali, Kitty?   — Foi. — Quem é o
  — Foi Lu que passou ali, Kitty?   — Foi. — Quem é o
 

— Foi Lu que passou ali, Kitty?

 

— Foi.

— Quem é o gato?

— Carinha aí que ela conheceu ontem.

 

— Nome e telefone, — Deb exigiu.

Bruno não sei de quê, — disse Kitty. — Telefone não sei não. Mas parece que mora em Vila Velha.

 

Gente, — Deb disse, — como é que uma nerd como Lu con-

segue agarrar um gato daqueles e eu não? Olha, Kitty, eu sei que é

tua amiga, mas vai dizer que não é uma nerd?

 

— Eu gosto dela, — disse Kitty.

— Bom, tenho de admitir: se é preciso ser uma nerd pra sair

 

com aquele gato, quero ser a nerd das nerds de Mic, — Deb disse.

* * *

Jujuba e a cerejinha reapareceram lá pelas tantas. Jujuba desa- nimou só de ver que a fila continuava daquele tamanho. Ah, não agüento esperar mais não.

 

Qual é, meu, — Deb disse. — Volta lá no carro que Pri te dá outra chupada.

Ela já me deu outra chupada, — Jujuba disse. — Três eu não agüento não.

— Nem eu, — disse Pri.

 

— Tchau pra quem fica. — E Jujuba foi se afastando com Pri.

 

— Pera lá, Ju, — Kitty chamou. E pra Deb: — Vambora, Deb.

Vou nada, — Deb disse. — Quero tudo que eu tenho direito. Hoje é domingão, e amanhã começa a merda toda de novo.

Deb tem um trampo numa loja de presentes no Centro da Praia.

— E aí, Kitty? — Jujuba disse.

 

— Vai abandonar sua amiga, Kitty? — Deb disse. — Sua amiga

 

que sempre apóia as tuas loucuras e segura teu braço quando você tropeça?

 

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  Chantagem emocional: pois é assim que em seu blog Kitty defi- niu a amiga
  Chantagem emocional: pois é assim que em seu blog Kitty defi- niu a amiga
 

Chantagem emocional: pois é assim que em seu blog Kitty defi- niu a amiga Deb.

 

Pode ir, Ju. Eu vou ficar, — Kitty disse.

Jujuba não discutiu. Pegou Pri pela mão e lá se foi.

 

É isso aí, migucha, — Deb disse. E levanta a mão pra Kitty

 

bater, palma contra palma. Daí mais um tempo chegou a vez de Kitty e Deb entrarem. Já era mais de uma e meia da matina. Afe Maria, Deb disse. Ninguém me- rece. O porteiro, quando elas passaram, disse a Kitty: Pô, moça linda, tu tava lá na fila tem muito tempo? Não, Kitty disse; só a vida inteira. O porteiro, com cara de dó: Pois era só mostrar essa carinha aqui pra mim que eu botava você pra dentro na hora. Lá dentro, o som agasalhou-as como um vendaval. Tá lotadaço, gritou Kitty na orelha de Deb. E Deb, na orelha de Kitty: E isso é proble- ma? Claro que não, gritou Kitty, sentindo o astral subir de elevador até à cobertura. A balada estava bombando que era uma beleza. O som estava a mil: puro tech house. Guardaram as bolsas na chapelaria, pegaram no balcão uma cerva cada uma e foram espiar a balada. Uma dj fêmea comandava o som. Os gatos de Cachoeiro você podia reconhecer por aquele look desleixado arrumadinho que Kitty achava uma merda, mas mesmo assim ainda tinha muita gente rox ali na pista. Deb estava na pilha: em três tempos enxugou o copo, e aí se jogou na pista e começou a se acabar de dançar. E Kitty? Kitty, sabe-se lá o que deu nela, o vibe se foi como alegria de pobre. Ficou ali de nerd, olhando Deb, olhando toda aquela alegria e felicidade fervilhando à sua volta. Sentia-se a única pessoa de mal com a vida ali dentro. Sentia-se mais perdida do que agulha em palheiro. Aí, em vez de se jogar na pista, como sempre fizera, tantas vezes, virou as costas e voltou ao balcão como a um porto seguro. Ali atracou e pediu outra cerveja. É, Kitty, disse ela pra si mesma: é isso aí: tem um buraco na tua alma.

 

* * *

 

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  O tempo passava, todo mundo zoando e aloprando, e Kitty só   bebia, bebia,
  O tempo passava, todo mundo zoando e aloprando, e Kitty só   bebia, bebia,
 

O

tempo passava, todo mundo zoando e aloprando, e Kitty só

 

bebia, bebia, e continuava a beber. E a fumar. De vez em quando chegava de manso algum carinha e tentava passar uma cantada nela.

Kitty era bonita pra caralho, de chamar a atenção até — ou princi- palmente — quando o que menos queria era chamar a atenção. Veio um carinha, veio outro, um terceiro; em uma hora, meia dúzia pelo menos de aventureiros em vão tentaram a sorte com a loura bonita pra caralho de bonezinho bordado que só fazia beber, beber

e

continuar a beber. E pensar também. Por mais que negasse dar

ponto a todo aquele rodízio de pretendentes, o significado daquilo não lhe passava despercebido. Ela era notada e desejada; era, se bobear, a mulher mais desejada do pedaço. Então, na sua cabecinha,

tentava entender por que Bruno Hodiak, empresário, proprietário

de uma pickup Toyota prata ônix com David player embutido no painel, preferira Lu, a anta da Lu, a nerd da Lu, a ela; por que prefe- rira a suburbana de Jardim Camburi à princesa de Mata da Praia. Só se tem tara por cabelo. Porque, pensou Kitty, tirando o tama- nho do cabelo, no que é que Lu leva vantagem sobre mim? Arrepen- deu-se, então, de ter mandado podar a sua bela e farta cabeleira loura dois meses atrás.

 

A

balada era uma zoeira só, mas na cabecinha de Kitty, bem lá

 

dentro, havia uma calmaria, a mesma calmaria que grassa no cen- tro do furacão. E era nessa calmaria que Kitty se refugiara pra pen-

sar. Pra fazer umas confissões a si própria. Ali confessou três coisas.

A

primeira coisa que confessou foi que na verdade não queria que

Lu ganhasse o gato. Não achava justo nem direito; achava um ab- surdo, e acharia um absurdo mesmo que não estivesse interessada em Bruno. Pois a segunda coisa que confessou foi que, apesar do defeito que era aquela mancha negra no rosto, estava interessada em Bruno. Estava muito interessada; estava gamada, como dizia Mummy, ao falar do tempo em que conhecera Daddy; estava, quem sabe, xonada, como dizia Lu. E a terceira coisa que confessou foi que precisava fazer alguma coisa, mas o quê? Aí, na calmaria que tinha

 

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  lugar dentro de sua cabecinha, Kitty pensava, pensava, mas não sabia o que fazer.
  lugar dentro de sua cabecinha, Kitty pensava, pensava, mas não sabia o que fazer.
 

lugar dentro de sua cabecinha, Kitty pensava, pensava, mas não sabia o que fazer. Não via saída pra ela que não passasse pela sacanagem, pela traição, por extremos como furar o olho da amiga que lhe furara o olho. Kitty pode ser o que for, mas não é que até que tem seus brios, seus princípios, sua ética: coisas que o pai, que hoje é sodomita em Buenos Aires, incutiu nela em criança: e que ela, em- bora seguir nem sempre siga, esquecer não esquece nunca.

 

*

* *

 

Deu vontade de mijar, e Kitty teve de esperar vinte minutos na fila. Estava tão pra baixo que nem a tia do banheiro sorriu pra ela. Depois, no corredor, deu de cara com Deb, esfuziante, sorriso maior que nun- ca. Tava te procurando, disse ela a Kitty. Descolara dois lugares na mesa de um carinha de Cash — abreviatura de Cachoeiro, nem a prazo nem a cash. Vamos pra lá, propôs. Quero não, disse Kitty. Que banzo é esse, Deb perguntou; vir na Glee e não zoar nem dançar é pior que ir em Roma e não ver o papa. Não tô no meu melhor, disse Kitty. Que é isso, migucha, Deb disse. Vamos lá. Tem dois carinhas na mesa: todos dois muito lindos, apesar do cabelinho de Mamãe vou pra zona. Não quero ninguém não, disse Kitty. Deb: Eh, que que é isso, gata? Deixa de ser complicada e multi-sentimental. Isso aqui tá bom demais, sabe não? Kitty: Tô achando uma boa merda. Deb, passando a mão no cabelinho de Kitty: Você precisa aprender uma filosofia que eu já aprendi há muito tempo: a amar tua vida mesmo quando tua vida tá uma merda. Se você não aprender isso, Kitty, você tá fudida.

 
 

*

* *

 

Mas Kitty acabou indo pra mesa com Deb, melhor que ficar mofando ali no balcão. Só que foi logo anunciando pra todo o plená- rio que não estava legal e que queria continuar a não estar legal. Os caras de Cachoeiro disseram que tudo bem. O carinha que estava

 
 

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  com Deb chamava-se Tony; o outro, que não estava com Deb, cha- mava-se Vítor,
  com Deb chamava-se Tony; o outro, que não estava com Deb, cha- mava-se Vítor,
 

com Deb chamava-se Tony; o outro, que não estava com Deb, cha- mava-se Vítor, e era a cara e o cabelo de Tony; deviam ser irmãos. Deb ficou na pegação com Tony, Kitty ficou enchendo a cara, Vítor ficou ali só de bob: bebendo um pouco e olhando pra Kitty deslum- brado e perplexo. Só uma vez tentou uma comunicação por escrito. Num guardanapo de papel escreveu pra ela: Sabe o que quer dizer Kitty? Ela respondeu por escrito: Gatinha. Ele devolveu o guarda- napo: Vaquinha. Ela olhou pra ele e, fazendo um avião com os dedi- nhos, deu-lhe um piparote com o dedo médio bem na ponta do nariz. Vítor gritou-lhe ao ouvido: Sério. É vaquinha. Fazer uma vaquinha, uma cotinha, pra pagar alguma coisa. Kitty pôs as mãos em concha em torno da boca e fez: Muuu! Beberam pra cacete. Às quatro da manhã, Kitty declarou que esta- va praticamente bêbada, porém virtualmente sóbria. Aí pediu as co- mandas de cada um, fez um levantamento, acrescentou o que tinham bebido em Mic e escreveu o resultado num guardanapo de papel:

 

Número de chopes consumidos por pessoa:

 

Kitty –

11

Deb –

10

Tony –

9

Vítor –

8

Total: 40 copos (aproximadamente 10 litros).

 

E

escreveu em baixo: vitória da dupla feminina Kitty e Deb de

 
 

Mic contra a dupla masculina Tony e Vítor de Cash. Que vergonha! Que vergonha! Mas o prêmio não foi nada rox. Filho da puta de um garçom derrubou um copo de cerva na calça jeans de Kitty. E o pior de tudo foi o comentário infeliz que o safado lançou depois da cagada: Ain- da bem que não quebrou o copo.

 

*

* *

 

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  Às quatro e meia Deb convenceu Kitty a ir embora. Os irmãos cachoeirenses já
  Às quatro e meia Deb convenceu Kitty a ir embora. Os irmãos cachoeirenses já
 

Às quatro e meia Deb convenceu Kitty a ir embora. Os irmãos cachoeirenses já não estavam mais na mesa: alguma atitude de Deb ofendeu Tony, e os irmãos foram procurar sua turma. Aí as duas exa- minaram as comandas. Fizeram um cálculo por alto, a despesa ficava nuns quarenta contos. Quanto você tem, Kitty perguntou. Deb disse

que só tinha uns dez reais. Kitty: E eu tenho uma nota de cinqüenta. Vai sobrar a continha pra gente voltar de ônibus. Só que, na calculadora da casa, a conta deu mais de cinqüenta. E pior: depois que retiraram as bolsas na chapelaria, Kitty deu por falta da nota de cinqüenta contos, que tinha guardado num escaninho da bolsa. Aí ficou puta; já queria fazer um escândalo. Deb ficou inesperadamente sóbria e lógica:

 

Como é que a gente pode provar que foi aqui? Quem pode

 

dizer que não foi o safado do Jujuba lá no bar em Mic quando a

gente foi no banheiro? Jujuba não tem moral não, é capaz de matar a mãe pra pagar traficante. Kitty resmungou:

 

— Tá bom. Mas como é que a gente vai pagar essa conta?

— E teu cartão de crédito, criatura?

 

— Deixei em casa. Já perdi essa porra na noite uma vez. E o teu?

 

— Mams me cassou. Tava gastando bagarai.

 

— Deixa a pulseira aí como garantia, — Kitty sugeriu.

 
 

Qual é, Kitty, — Deb disse. — Essa pulseira vale mil reais. Deixa teu relógio, que é mais barato.

 

— No way. É presente de Daddy.

 

— Então deixa comigo, — Deb disse. — Tá vendo Tony por aí?

 
 

Ele tava insistindo pra mim fazer um boquete nele. Vou lá e ofereço um boquete em troca da despesa. Enquanto isso você liga pro Rubião. Rubião é o motorista de táxi que atende Kitty e as outras minas

em situações de emergência. Kitty foi até à varanda e ligou pra ele. Só que Rubião estava trampando lá na puta que pariu. Mas Deb chegou e disse:

 

— Cancela o Rubião.

 

— Por quê?

 

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  Aqueles dois são irmãos gêmeos, Kitty. O que um faz, o outro quer porque
  Aqueles dois são irmãos gêmeos, Kitty. O que um faz, o outro quer porque
 

Aqueles dois são irmãos gêmeos, Kitty. O que um faz, o outro quer porque quer fazer também.

— Que que você aprontou, Deb?

 

— Eu chupo um pela despesa, você chupa o outro pela carona.

 

— Chupo porra nenhuma. Prefiro ir pra Mic a pé.

Kitty, deixa de frescura. Tá querendo que eu chupo os dois, é? Kitty encheu o saco e soltou os cachorros:

Por que não? Pra você é fácil, você é piranha mesmo.

Piranha é você, que eu sei de muita putaria que você já andou fazendo por aí.

Faço putaria com namorado. Não sou igual a você que chu-

pa por dinheiro.

Vai te fuder, donzela. E vai a pé pra casa, vai. A carona dos

 

gêmeos é só pra mim. Nem chega perto, senão te rebento o focinho.

* * *

Depois que recebeu o chamado de Kitty, Phil não levou mais que trinta minutos pra chegar da Mata da Praia, em Victown, à Enseada Azul, em Guarapa. O dia estava ameaçando amanhecer quando ele chegou à praia próxima à boate: eram cinco e vinte. Ali viu Kitty sentada num banquinho de madeira no alto da praia, toda encolhida por causa da friagem do ar. Phil sentiu uma emoçãozinha. Ela parecia uma garotinha inocente e indefesa, ainda mais com aquele bonezinho bordado na cabeça. Phil sentiu uma paixão de protegê-la, de ajudá-la, de pegá-la no colo. De tão emoci- onado teve até uma ereção. Havia outras pessoas na praia, esperando o nascer do sol: gente de Cachoeiro — aonde o mar não chega — que queria fechar com chave de ouro a balada da noite inteira. Phil aproximou-se de Kitty. Ela ouviu o farfalhar dos passos na areia, virou-se, viu que era quem esperava. Phil cobriu-lhe os ombros com um casaco que, previden- te, trouxera consigo.

 
 

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  — Me espera no carro que eu já vou, — Kitty disse, com sua
  — Me espera no carro que eu já vou, — Kitty disse, com sua
 

Me espera no carro que eu já vou, — Kitty disse, com sua bela

 

voz grave. Phil não se moveu. Será que achou que podia esperar sentado ali

ao

lado dela?

 

— Tá surdo, cara? Quero você aqui não. Vai pro carro.

 

— Você tá legal?

— Tô legal pra caralho. E só saio daqui depois que ver o sol

 
 

nascer. Phil voltou ao carro e, deixando a porta aberta, sentou-se no assento do motorista com as pernas pro lado de fora. Acendeu um cigarro. No horizonte havia uns baços borrões de rosa sobre um rodapé de azul fosco. O mar trajava ainda o seu noturno azul fecha-

do; jazia manso, plácido, lacustre; o que vinha dar à praia eram umas marolas de um branco azulado. Phil ligou o rádio do carro e se dispôs a esperar. Pianinho ma- neiro encheu-lhe de bom som os ouvidos. Daí a pouco uma mulher, vinda vai lá saber de onde, chegou e disse:

 

— Que beleza, né? — Referia-se ao amanhecer.

 

— É, — Phil concordou.

O

cenário se iluminava aos poucos, quase imperceptivelmente.

 
 

Uns tons leitosos já se misturavam ao azul marinho do mar, e umas

primeiras estrias de vívido rosa surgiam no céu acima do horizonte.

O

dia já está claro, mas ainda manchado de crepúsculo. Falta a

grande estrela do show, que se faz esperar, como outras estrelas:

uma noiva, um músico de rock. As ondas sentem na pele que a sua chegada está próxima e parecem despertar: soerguem-se na ressaca e espreguiçam-se na praia.

Veio aqui só pra ver o sol? — perguntou a mulher, que já se encostou ao flanco do carro e filou um cigarro de Phil.

 

O

sol que se foda, pensou Phil. Mas disse: Não. E apontou a

 

figura de boné no banquinho.

 
 

— A menina tava aí nas baladinhas? — disse a mulher.

 

— Tava, — disse Phil.

 

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  Eu sei como são essas coisas, — disse a mulher. — Também sou mãe.
  Eu sei como são essas coisas, — disse a mulher. — Também sou mãe.
 

Eu sei como são essas coisas, — disse a mulher. — Também sou mãe.

 

Sou mãe não, — disse Phil.

A mulher riu e desculpou-se:

 

Claro que não. Eu quis dizer que também tenho filha.

 

Acima do horizonte algumas nuvens começavam a refletir o

 

brilho do sol. Por alguma razão meteorológica o ar esfriou um pouco mais. Phil sentiu a mulher tremer.

 

Posso entrar um pouquinho? — ela pediu. — Sol chegando,

 

tá esfriando. Vê se pode.

 
 

A natureza é cheia de paradoxos, — disse Phil, mostrando

 
 

cultura. Afinal, é ou não é o crítico literário dos textos pensativos de

Déia?

 

Abriu a porta do carona pra ela entrar. Ficaram ali fumando, ouvindo o pianinho maneiro no rádio.

 
 

— É Richard Clayderman? — perguntou a mulher.

— Sei não, — disse Phil.

 

— Adoro ele, — disse a mulher.

Os borrões de cor no horizonte vão perdendo a consistência. O

 
 

dia já está todo aí, mas sol que é bom, nada. Ainda se faz esperar, e olha que não passa de uma estrela de quinta grandeza.

 

— Vai pra Vitória? — a mulher perguntou.

 

— Vou, — Phil disse. Aí virou-se pra mulher e deu-lhe uma boa

 
 

olhada. Tinha seus quarenta anos e era uma loura encardida por

décadas de praia. Estava de short; tinha coxas grossas; como Mummy, ainda dava um caldo. De onde será que saiu essa puta?

 

— Pode me levar?

 

— Pra onde você vai?

— Pra Fátima.

— Te deixo em Camburi, — Phil disse, terminante.

 

— Tá beleza.

 
 

O horizonte se ruboriza em pinceladas de ruge. Num ponto mais pra nordeste as coisas parece que vão finalmente acontecer.

 
 

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  De repente pinta ali um topete de sol, que logo logo se transforma diante
  De repente pinta ali um topete de sol, que logo logo se transforma diante
 

De repente pinta ali um topete de sol, que logo logo se transforma diante dos olhos de Phil numa cintilante moeda de ouro.

 

Que maravilha, — a mulher exclama. — Nunca me canso de

 

ver.

 

É um olho de ciclope, não passa disso, mas a luz que emite é tão

 
 

forte, e tão cada vez mais forte, que não dá pra encarar: o olho humano não agüenta a visão da divindade.

 

Ra, — diz a mulher. — Ra. Ra. Ra.

Phil aproveita pra pousar a mão na coxa da mulher. Ela se cala

 
 

e olha pra ele com desagrado.

 
 

— Que é isso?

— Pode não? — disse Phil, tirando a mão.

— Sou uma mulher decente, — diz a mulher, abrindo a porta

 
 

do carro. — Tá a fim de sexo, por que não come a tua filha?

 

— Bem que eu gostaria, — Phil diz.

 

— Pervertido, — diz a mulher, batendo a porta do carro.

 
 

O sol, lançado fora do ventre materno, só faz subir feito um balão. Phil fixa nele o olho. O sol é um núcleo de vital e mortal brancura cercado de ouro puro em grau de fissão. É um ponto de luz, mas brilha pra caralho. Phil tenta sustentar aquele olhar cha- mejante mas não consegue. Fecha os olhos e vê, no meio das mais negras trevas, da mais cega escuridão, um átomo de luz de matizes laranja e amarelo.

 

* * *

 

Phil e Kitty viajando de volta a Mic. Kitty mudou o canal do rádio pra ouvir rock: deixou onde estava tocando uma música do

 

Grease, “You’re the One that I Want”: muito velhinha mas muito maneira.

 

— Como é que foi a noite? — Phil.

 

— Beleza. — Kitty.

— E o que que aconteceu? — Phil.

 

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  — Como assim? — Kitty.   — Pra você não ter como voltar. —
  — Como assim? — Kitty.   — Pra você não ter como voltar. —
 

— Como assim? — Kitty.

 

— Pra você não ter como voltar. — Phil.

 
 

Quem disse que eu não tinha como voltar? — Kitty. — Eu disse que eu não tinha como voltar?

 
 

— Não. — Phil.

 

— Então cala a boca e dirige. — Kitty.

 
 

Phil calou a boca e dirigiu. Kitty inclinou o banco pra trás e acabou dormitando. Phil parou num semáforo e ficou só olhando pra ela. Kitty era bonita pra caralho. Era uma princesa, era uma rainha, era uma deusa; era pro bico de uma porção de idiotas tatua- dos, mas não pro dele, que não era idiota nem tinha tatuagem. Sinal verde, Phil demorou a sair, buzinaram atrás. Kitty acor-

 

dou.

 
 

— Já passamos o parque de diversões? — perguntou.

 

— Que parque de diversões? — Phil disse.

 
 

Kitty olhou em volta e viu que já estavam nos subúrbios de Vila Velha.

 
 

Esquece, — disse ela.

 

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  Kitty aos 22: Divertimento . Capítulo 3: segunda-feira. Olha que era o primeiro dia
  Kitty aos 22: Divertimento . Capítulo 3: segunda-feira. Olha que era o primeiro dia
 

Kitty aos 22: Divertimento. Capítulo 3: segunda-feira. Olha que era o primeiro dia da última semana de férias, e Kitty já perdeu a ma- nhã toda dormindo até onze e meia. Acordou surda com o som da véspera. E de ressaca: sentia-se verde e nauseada. Foi direto ao ba- nheiro, ajoelhou-se feito devota no chão em frente ao vaso, meteu, resoluta e intrépida, o dedo na garganta e botou pra fora todo o redemoinho de lixo que girava em seu estômago. Nas contrações o xixi aproveitou e veio junto: Kitty se mijou toda na calcinha e no chão também. Que bosta, gritou, puta. Arrancou calcinha, arran- cou camiseta, jogou tudo longe, entrou no box do chuveiro, abriu as comportas, ajoelhou-se no chão, nádegas pousadas sobre os cal- canhares, e ali ficou meia hora deixando a água quente e copiosa encharcar-lhe o corpo e a alma e levar-lhe os podres ralo abaixo. Desceu, pediu a Rosa pra fazer um chá; Rosa é a empregada que fica durante a semana; uma bela negra — que Phil chama de produ- to africano — de cabelo cortado rente.

 

— Lu ligou? — perguntou.

 

— Ligou não, — Rosa respondeu. — Só quem ligou foi um rapaz.

 
 

Jujuba? — Kitty perguntou. Foi o primeiro rapaz que lhe veio à mente.

 

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  Quis deixar nome não, — Rosa disse, e riu-se de que alguém, ainda por
  Quis deixar nome não, — Rosa disse, e riu-se de que alguém, ainda por
 

Quis deixar nome não, — Rosa disse, e riu-se de que alguém, ainda por cima rapaz, se chamasse Jujuba. Pela janela da copa Kitty viu que Mummy estava no jardim,

fingindo distrair-se com as suas jardinagens. Phil estava lá com ela, fingindo ajudar. Kitty lembrou da madrugada e quase sentiu um remorso pela maneira como tratara Phil, mas cortou o remorso pela raiz que nem erva daninha. Estalou a língua: foda-se. Também o cara é um intruso aqui em casa, se a gente não dá duro ele toma conta. Veio o chá, que ela tomou acompanhado de algumas torradas sem manteiga. Aquilo lhe abrandou o mal estar. Phil entrou.

Tá passando mal? — perguntou, vendo essa raridade em casa que é chá.

— Já tô melhor. Contou a Mummy?

 

— Não, — Phil disse. Pelo amor de Deus, pensou Kitty, não

 

diga que é nosso segredo. Phil acrescentou: — É nosso segredo. Definitivamente, pensou Kitty, esse babaca não tem jeito. E replicou:

Não é segredo nada. Deixa que eu mesma conto.

Mummy entrou daí a pouco, de jardineira jeans. Estava quase uma graça. Era só cortar dez anos de idade, dez quilos de peso e dez mil doses de birita.

Chá? — estranhou.

Tomei um porre ontem na balada. Mas já pus tudo pra fora. Já tô bem.

 

Olha lá, — Mummy disse, maternal sem querer. — Rosa,

traz um pouco de chá pra mim também. É diurético. Acho que tô

tendo alguma retenção de líquido. Líquido? Leia-se vodka sueca.

 

Houve uma confusão lá por causa de carona, — Kitty conti-

 

nuou, falando mais pra Phil do que pra Mummy. — Acabou fiquei sem pai nem mãe. Modo de dizer. Rubião tava na casa do chapéu, fazendo uma corrida. Aí chamei Phil pra me buscar.

 

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  — Phil é um amor, — Mummy disse, passando os dedos no   rosto
  — Phil é um amor, — Mummy disse, passando os dedos no   rosto
 

Phil é um amor, — Mummy disse, passando os dedos no

 

rosto de Phil. — Mas precisa fazer a barba. Foi pra quê que eu te dei de presente aquele aparelho?

 

Vou fazer, — Phil prometeu. E acrescentou, babaca, erguen-

 

do juntinhos três dedos da mão: — Palavra de escoteiro. Kitty deixou Mummy e Phil ali na copa e saiu pro jardim. O cachorro veio correndo lamber-lhe os pés. Chamava-se Dick, mas

Kitty pensou, sem pestanejar, que bem podia é chamar-se Phil. Abriu

o

celular e ligou pra casa de Lu.

 

Alô, — disse uma voz de criança. Ina, a filha de Lu: o acidente de percurso.

 
 

— É tia Kitty, linda. Sua mãe tá aí?

 

— Tá.

— Chama ela pra mim? Beijinho pra você. Tô com saudade,

 
 

viu?

 
 

Kitty ouviu Ina gritar: Mãe, telefone. Mas quem veio atender

 
 

não foi Lu mas Neuza, a mãe de Lu. Kitty esquecera que, naquela casa, do ponto de vista de Ina, Neuza era a mãe e Lu era Lu.

 

— Oi, Neuza. Lu tá aí?

 

— Tá nada. Chegou de manhã cedo, se trancou no quarto, não

 
 

deu dez minutos saiu de novo.

 
 

— Aonde ela foi, Neuza?

— E essa menina fala alguma coisa pra mãe dela? Só ouvi a porta

 
 

da rua batendo. Nem sei se saiu nua ou vestida. Diz pra ela ligar pra mim quando voltar, Kitty pediu, e desli-

gou, e ficou pensativa. Lu saiu com Bruno de novo, só pode, pen- sou, com o coração oprimido; desse jeito, vão casar no sábado e eu vou ter de ser a porra da madrinha. Teve de dar um pontapé no lombo de Phil — de Dick, melhor dizendo — pra ele deixar-lhe os pés em paz. O cão soltou um ganido

e

afastou-se com uma triste cauda encabulada entre as pernas.

 

* * *

 

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  De almoço Kitty não quis saber. Comeu uma banana prata en-   quanto assistia
  De almoço Kitty não quis saber. Comeu uma banana prata en-   quanto assistia
 

De almoço Kitty não quis saber. Comeu uma banana prata en-

 

quanto assistia ao noticiário local da uma hora. Um bloco foi todo só sobre o Victoria Fashion Week, que abre na quinta. Breno repór- ter mostrou os preparativos do evento, a montagem das passarelas.

É

a primeira vez que Vitória abriga um mega-evento de moda, dis-

cursou Breno, e patati patatá. No final uma repórter toda patricinha que Kitty conhecia de vista dos tempos do Sacré Coeur entrevistou

organizador do evento, um tal Frank Azambuja. A repórter não cabia em si de deslumbrada.

o

 

Frank, — disse ela, — estamos aí na expectativa do Victoria

 

Fashion Week, né? E o que você pode nos dizer sobre o evento? O que deu origem a ele, o objetivo, quais as atrações que vêm de fora

 

Tudo nasceu, — Frank disse, — da constatação de que o

 

design de moda em Vitória, e no Espírito Santo como um todo, tem crescido muito em quantidade e principalmente em qualidade. Tá na hora de mostrar essa produção e esse estilo regional pro resto do país. Daí surgiu o Victoria Fashion Week. Oitenta por cento das

coleções que vão ser vistas aqui é trabalho de designers locais. O que vem de fora é pra descaracterizar um pouco o caráter regional do evento e também pra que o público possa comparar o produto lo- cal com o produto de fora e perceber que já estão praticamente em pé de igualdade.

 

— E Vitória tem público pra um evento como esse?

— Nós estamos apostando que sim, — Frank disse. — Eu estou

 

muito impressionado com a mulher do Espírito Santo. Posso dizer

que é uma das mais belas do Brasil. — A patricinha se assanhou toda, quase disse obrigada pela parte que lhe toca. — E, pelo que tenho visto nos shoppings, nas praias, nas ruas, é uma mulher de muito bom gosto, que gosta de se vestir bem e que sabe se vestir bem. É especialmente pra essa mulher que nós criamos o Victoria Fashion Week.

Frank, — disse a patricinha, — e por que o evento se chama Week se vão ser apenas três dias?

 

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  Azambuja responde que por várias razões. Uma delas é que se trata de uma
  Azambuja responde que por várias razões. Uma delas é que se trata de uma
 

Azambuja responde que por várias razões. Uma delas é que se

trata de uma clara referência ao São Paulo Fashion Week — ao ouvir as palavras mágicas, o rosto da patricinha iluminou-se em sinal de respeito —, que é a nossa fonte de inspiração.

Sei. E vocês pretendem que o público veja no nome do evento

uma espécie de garantia que vai encontrar no Victoria Fashion Week

o

mesmo nível do São Paulo Fashion Week?

 

Não exatamente o mesmo nível, — esclareceu Azambuja, — mas certamente o mesmo espírito.

 

Azambuja grifou bem a palavra. A patricinha soltou a língua:

Um espírito bem Espírito Santo.

Azambuja surpreendeu-se, mas segurou as pontas:

 

É, pode-se dizer que sim. Porque, como eu disse antes, oiten- ta por cento das coleções são trabalho dos designers locais.

E a outra razão, Frank?

A outra razão, esclareceu Frank, é que o tempo de um evento de moda não é cronológico mas metafísico. Na verdade o evento dura bem mais de três dias ou de uma semana, porque começa seis meses

 

antes e termina, se é que termina, seis meses depois, quando se tem o resultado prático do evento nos padrões e nas peças que vão circu- lar na temporada seguinte.

Que no nosso caso é a temporada primavera-verão, — frisou

a

patricinha.

 

— Exatamente, — confirmou Frank.

— Porque cada evento de moda, — informou a patricinha aos

 

telespectadores, — dita a moda da temporada que vem depois. As- sim, o evento do inverno dita a moda da primavera-verão, e o even- to do verão dita a moda do outono-inverno. Não é assim, Frank?

— Isso mesmo, — confirmou Frank.

 

— E tem também uma terceira razão, Frank? — perguntou a

 

patricinha.

 

Tem, — disse Frank. — A terceira razão é que pretendemos

 

consolidar o Victoria Fashion Week como evento regular e, talvez

 

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  no próximo, daqui a dois anos, a gente já possa ter um evento com
  no próximo, daqui a dois anos, a gente já possa ter um evento com
 

no próximo, daqui a dois anos, a gente já possa ter um evento com uma semana inteira de desfile.

 

Esperemos que sim, né, Frank? — pontuou a patricinha. — E

 

agora me diga, Frank, uma coisa que todo mundo tá me perguntan- do. Por que Victoria e não Vitória? Tem alguma coisa a ver com numerologia? Frank coçou o canto do olho antes de responder:

 

Não, na verdade não nos ocorreu consultar um especialista

 

em numerologia quando optamos por Victoria com c. O que nos levou a decidir foi que o nome Victoria, com c, tem mais a ver com

as palavras em inglês que compõem o nome do evento, Fashion

Week. Além disso, Victoria com c tem mais classe, e tem uma tradi- ção de muitos séculos. Nossos publicitários decidiram que combina melhor com um evento de moda, porque a moda está sempre olhan- do pra frente, pro futuro, mas pra trás também, pra tradição, pro passado.

 

— Se inspirando no passado, — disse a patricinha.

— Sim, — disse Frank. — E o passado tanto pode ser um passa-

 

do bem remoto, por exemplo, a rainha Nefertiti, ou a rainha

Cleópatra, como alguma coisa mais próxima, como Betty Boop, Carmen Miranda, Marilyn Monroe.

 

— São símbolos eternos, — disse a patricinha.

 

— Exatamente, — Frank concordou. — Tiveram a sua época

 
 

mas continuam aí. Vieram pra ficar. Um exemplo disso, no caso do Victoria Fashion, é a gatinha Hello Kitty. Kitty teve um arrepio: odiava a porra daquela gatinha, sua maldita homônima. Mas a patricinha abriu ainda mais o sorriso e se derreteu toda.

 

Já vi, pela sua reação, — disse Frank, — que você curtiu

 

muito a Hello Kitty.

 
 

Demais, — disse a patricinha. — Colecionei tudo: chaveiro,

 
 

porta-moeda, bloquinho, correntinha, pulseira, tudo que você pos- sa imaginar.

 

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  — Pois é, — disse Frank, — a gatinha fez trinta anos no ano
  — Pois é, — disse Frank, — a gatinha fez trinta anos no ano
 

Pois é, — disse Frank, — a gatinha fez trinta anos no ano

 

passado e o estilista Luciano Babelbaum vai homenagear ela aqui no Victoria Fashion Week.

 

É mesmo? — A patricinha já ia esquecida que era repórter.

 

— Adoro Luciano. É tão ousado, tão transgressivo. Ah, eu tenho de ver o desfile dele. — E pros, ou melhor, pras telespectadoras: — Olha aí, gente. Não percam, todas vocês que curtem ou curtiram a mais famosa gatinha da história, Hello Kitty, o desfile de Luciano Babelbaum, sexta-feira, no Victoria Fashion Week. Obrigada, Frank. É com você, Breno.

 

* * *

 

Cláudio chegou lá pelas duas. Kitty ficou feliz de revê-lo: como se fosse um sinal de que as coisas começavam a consertar. Qual foi o problema, perguntou a Phil. Phil deu uma explicação politécni- ca. Ah, disse Kitty. E vai me deixar na mão de novo não? Phil disse:

 

Vai não. De novo motorizada, Kitty resolveu aproveitar pra ir ao shopping: bater pernas, fazer umas compras, rangar, e quem sabe pegar um cineminha. Ligou pra casa de Lu. Neuza disse que Lu não tinha voltado ainda. Tentou no celular? Kitty tentara, mas só caía na caixa postal. Kitty ligou então pra Pri — não confundir nem com a amiga de Déia nem com a namorada de Jujuba — e Pri topou ir com ela ao shopping: É até bom, que já tem dias que eu tô pra levar meu currículo numa loja lá. Sem falar que segunda é sempre um caralho: não tem nada pra gente fazer. Kitty se arrumou ao som de U2 — inclusive “Beautiful Day” — e saiu: estava linda num conjunto de bermuda e casaquinho cáqui. No Cláudio, foi ouvindo o cd Jagged Little Pill, de Alanis Morissette, a começar por “Hand in My Pocket”. Em vez de pegar a orla de Camburi, preferiu seguir pelo labirinto de Jardim da Penha e descer direto na Praia do Canto pela ponte Ayrton Senna. Se você perguntar a Kitty

 

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qual é o maior herói brasileiro de todos os tempos, ela dirá que é Ayrton Senna. Não tinha mais que doze anos quando ele morreu pela pátria, mas chorou de soluçar nos braços do pai e, por sugestão dele, pregou na lapela do uniforme uma tarja de tecido negro e lá foi de luto pro colégio: no dia seguinte a turma toda estava também de tarja negra na lapela: no outro dia seguinte, o colégio inteiro estava de luto: luto que Kitty fora a primeira a assumir publicamente. Agora, porém, cruzando a ponte que leva o nome do herói, ela não lembra de lembrar dele. Correu pela avenida Rio Branco, depois tomou a rua Sodré, pra fazer o retorno e entrar na Presvot. Tipo três e meia parou diante do edifício onde morava Pri. Lógico que Pri não descera ainda. Kitty saltou do carro e pediu ao porteiro pra chamá-la. De volta ao carro, acendeu um cigarro e esperou sentada, na companhia de Alanis: “Wake Up”. Pri, também conhecida como Prizinha, pra diferenciar de outra Pri da patota, Big Pri, maior que ela, era uma menina da Praia do Canto pra quem a vida era beleza pura. Prizinha é zen, é o que todo mundo dizia dela. É uma zen-mané, dizia Guto, que achava ela um pé no saco. Uma coisa ou outra, não importa: era de fato a mais alegre, mais pra cima das minas de Mic. Vivia rindo, brincando, zoando: companhia ideal pra quem estivesse de astral baixo. Em dez minutos lá veio aquela coisinha cute, com aquele sorriso de anjinho endiabrado: Pri tem vinte anos mas ninguém diz. Está ves- tindo um saiote jeans e blusinha vermelha: o sutiã ela lembrou de esquecer de pôr: a saliência dos mamilos marca o pólo magnético dos peitinhos. Kitty sente, como sempre, prazer em vê-la. — Pô, Kitty, — diz Pri: — que maneiro. Plena segunda, nada pra fazer, nada planejado, ninguém querendo nada comigo. Pensei que ia ficar na nerd a tarde inteira, só baixando umas musiquinhas na Internet, mas não. Ainda tem alguém neste mundo que gosta de Pri. Kitty atira o cigarro pela janela, põe na boca um chiclete de canela e oferece outro a Pri. Aí liga o Cláudio e lá se vão as duas mascando pra Enseada do Suá. Coisa de nem dez minutos e chegam

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  no Shopping Vix. O estacionamento do shopping tem bastante som- bra só à noite:
  no Shopping Vix. O estacionamento do shopping tem bastante som- bra só à noite:
 

no Shopping Vix. O estacionamento do shopping tem bastante som- bra só à noite: de dia aquilo parece um deserto de Saara: veja-se como o sol da tarde caustica a seu bel-prazer os pobres carros ali abandonados pelos donos pra fritar. Nos primeiros anos depois de inaugurado o shopping alguns coqueiros magricelos penaram ali pra fornecer um arremedo de sombra que dava mal e mal pra pro- teger do sol os limpadores de pára-brisa: mas os coqueiros foram transplantados sabe Deus pra onde e agora nem os limpadores de pára-brisa escapam do olho de fogo do sol — o mesmo sol que Kitty viu neném hoje de madrugada. Lá dentro, no ar condicionado feito sob medida, primeira coisa que elas viram, na vitrine de uma loja, foi um sapato de salto agulha com plumas vermelhas costuradas de um lado e de outro no couro. Pri cacarejou-se de riso: Parece mais um casaco que um sapato: um casaco pro pé. Kitty também não se conteve diante da extravagância:

 

Só conheço Deb que teria coragem de botar um troço desses

 

no pé.

 

Afixado na mesma vitrine havia um enorme pôster do Victoria Fashion Week.

 
 

— Você vai? — perguntou Pri, subitamente séria.

— Breno prometeu me levar, — Kitty disse. — E você?

— Pô, se eu não for eu morro. Já fiz até meu enxoval. Uma

 

roupa doida diferente pra cada dia. No primeiro dia eu vou sabe como? Vou toda de branco, com uma saia imitando uma carta de baralho: a dama de copas. Kitty ri, só de imaginar a cara da saia.

 

Às vezes eu acho que eu dou pra modelo. Que que você acha,

 

Kitty?

 
 

Olha, Pri, pra ser sincera, falta um pouco de altura. — Pri é

 
 

mignon; os gatos dizem que Pri não é pra transar; é pra jogar bilboquê.

Que merda, né. Eu acho que, se não fosse isso, eu daria uma boa modelo.

 

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  — Também acho, — disse Kitty. Dali foram direto a uma butique tirada a
  — Também acho, — disse Kitty. Dali foram direto a uma butique tirada a
 

Também acho, — disse Kitty.

Dali foram direto a uma butique tirada a elegante, forrada tam- bém de pôsteres do Victoria Fashion. Ali é que Pri deixou o currícu- lo. Mãe de Pri conhece a dona da butique; é muito capaz de pintar um trampo ali: já está na hora de Pri ganhar alguma grana pra pagar uma parte de suas despesas. Você acha que eu dou pra vendedora, Kitty? Kitty foi honesta: Com esse teu jeitinho, Pri, você vende até sorvete pra esquimó. Kitty adora, e Pri também, o shopping. Ali não tem mendigo nem camelô, nem polícia nem bandido, nem poeira nem fumaça: é proibida a entrada das mazelas da civilização. Tudo ali é bonito, nada é feio. Exceto, é claro, o pessoal da terceira idade e, às vezes,

 

um paraplégico numa cadeira de rodas ou uma gorda obesa devo- rando seu Big Mac. Mas isso dá pra ignorar numa boa. E, pensando bem, mesmo a velharia com sua velhice, o paraplégico com sua ca- deira e a gorda com sua gordura parece que ficam mais bonitos só por fazerem parte daquele paraíso de requinte e beleza. Kitty e Pri circularam sem pressa pelo shopping, vendo as mo-

das, vendo os gatos e vendo as gatas, e Prizinha fazia Kitty rir com as menores coisas: uma coroa de uns trinta anos vestida de rosa da cabeça ao pé, que Pri disse que parecia a mãe da Barbie. Quando passaram diante de uma loja de brinquedos, Pri parou de repente e puxou Kitty pelo braço pra olhar a vitrine. Kitty deu de cara com o conjunto Hello Kitty abelhinha. Pri se dobrou de rir. Kitty mal agüentou olhar: Pô, Pri, nobory deserves. A gatinha vestia uma roupinha de listras pretas e amarelas e trazia preso à cintura um potinho de mel. Como acessórios, havia um pote de mel tamanho família e um aparelhinho de tevê, também listrado de preto e ama- relo, pousado sobre uma banqueta de florzinha.

Essa porra dessa gata me persegue, — Kitty disse, afastando-

se dali.

Que implicância, Kitty, — Pri disse. — Sabia que aquela atriz

 

de Shakespeare apaixonado, sabe qual, ela usa colar de Hello Kitty?

 

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  — Quero que as duas se fodam, — Kitty replicou. — Olha, Pri,  
  — Quero que as duas se fodam, — Kitty replicou. — Olha, Pri,  
 

Quero que as duas se fodam, — Kitty replicou. — Olha, Pri,

 

meus aniversários de criança eu só ganhava troço de Hello Kitty. Era cruel demais. Até que um dia Daddy mandou escrever nos con-

vites: Favor não trazer presente de Hello Kitty. E mesmo assim ain- da ganhei uns três ou quatro. É por isso que eu odeio essa filha da puta. Ela cagava as minhas festas de aniversário.

 

E como é que foi seu finde, Kitty? — Pri perguntou, passando

 

a

outro assunto de pauta.

 
 

Uma merda. Teve até cemitério.

 
 

Quem morreu ? — Pri dá à pergunta uma inflexão que tira da morte toda a sua pompa.

 
 

— Bobby e Benjy.

 

— Ah, é. Pude ir lá não. Viajei. Fui no Rio com meu pai. Fui na

 
 

quinta, voltei sábado. Mó hotel, Kitty. Tinha até Internet no quar- to. Me esbaldei.

 

— E o namoro, Pri, como é que tá?

 

— Tá demais, Kitty. Tá se dimensionando muito. Tô tão apai-

 
 

xonada pelo Nai. Ele é muito fofo. É perfeito. Só às vezes é que ele

nem me dá bola

Mas eu não tô nem aí também. Quando ele não

me dá bola aí eu vou e faço outra coisa. Entraram numa butique pra Pri ver umas calcinhas estofadas que aumentam o relevo da bunda: o que falta em Pri, além de altu- ra, é bunda: não tem nenhuma alguma. Tá louca, Pri, Kitty disse:

você vai usar esse troço? É bizarro demais. Pri fica indecisa. É propa- ganda enganosa, diz Kitty. Ué, diz Pri: gato é pra enganar mesmo:

eles também não enganam a gente de todo jeito? Tá certo, pensou Kitty: toda hora eu esqueço: tem mais é todo mundo que enganar todo mundo. Aí entraram uns gringos na butique, falando em estrangeiro uns com os outros. Imediatamente Pri começou também a engrolar

a

língua, falando pra Kitty uns garranchos sem sentido, pra fingir

que as duas também eram gringas. As moças da butique se esforça- vam pra conter o riso. Kitty, então, teve de pegar a primeira peça

 

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  que viu e se asilar numa das cabines. Pri entrou logo atrás e as
  que viu e se asilar numa das cabines. Pri entrou logo atrás e as
 

que viu e se asilar numa das cabines. Pri entrou logo atrás e as duas se pocaram de rir lá dentro um tempão. Na saída da butique cruzaram com dois carinhas maneiros, pri- meiro um, depois outro. Na camisa do primeiro estava escrito: Je- sus é Massa. E na do segundo: I Fuck On The First Date.

 

Você fica com o primeiro que eu fico com o segundo, — Pri

 

disse.

 
 

Ó aqui pra evangélico, — Kitty disse, rindo, e fazendo avião

 
 

com os dedos. Mas a mensagem na camisa do segundo carinha fez ela lembrar de Lu. Afastou-se até o guarda-corpo — estavam no segundo piso — pra ligar pra casa dela. Ina atendeu e disse que Lu estava não. No celular, ninguém atendeu. Kitty desligou e olhou em volta pra ver cadê Pri. Havia um banco ali perto com um velhinho sentado, len- do alguma coisa lá dele numa folha de papel. Kitty viu que Prizinha estava de pé por trás do banco, pescoço esticado, lendo junto com o velhinho, fazendo caras e bocas: ora bocejava, ora levava a mão aos lábios em sinal de espanto, ora fazia biquinho de beijo, ora menea- va a cabeça em sinal de reprovação. Kitty, de longe, começou a rir. Pior que o velhinho viu Kitty rindo e não sabia por quê: aí ela teve de sair chispada dali, quase se mijando de rir. Pri juntou-se a ela, com um sorriso de todo tamanho. Pri, você é muito comédia, Kitty

disse. Quer me matar de rir, palhaça? Ué, Kitty, disse Pri: rir é o que

a

gente faz de melhor, não é não?

 
 

* * *

 

As butiques já estão apresentando os modelos pra primavera e pro verão, até mesmo compelidas pelo Fashion Week, de que todas

 

elas estão cheias de pôsteres. Kitty e Pri saíram vistoriando tudo que

vitrine de butique. Pri ficou vidrada numa blusa de alça com apli- cação de miçangas e pedrarias que um manequim usava com uma minissaia jeans com paetês e bainha desfiada. Kitty gostou mais de

é

 

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  um conjunto de jaqueta jeans cinza por cima de duas camisetas ne- gras, sobrepostas
  um conjunto de jaqueta jeans cinza por cima de duas camisetas ne- gras, sobrepostas
 

um conjunto de jaqueta jeans cinza por cima de duas camisetas ne- gras, sobrepostas uma à outra, com paetês pretos e dourados que combinavam com uma faixa de paetê dourado na cintura. A ten- dência parece que era essa: miçangas, pedrarias e paetês, e bordados também: difícil ver uma peça em vitrine de qualquer butique que não estivesse semeada de uns e de outros. Numa sapataria ficaram ambas encantadas com uma sandália de couro branco com palmilha estampada com acerolas e uma delicade- za de aplique de crochê na forma da fruta. Kitty experimentou no pé, ficou uma graça. Compra, Kitty, compra, dizia Pri, como se ela é que fosse usar e não Kitty. Indecisa, Kitty provou uma outra sandália:

uma Melissa carmesim com salto Anabela. Também ficou uma graça. Kitty, compra, compra, gemia Pri. Kitty comprou os dois pares. Depois passaram na perfumaria predileta de Kitty, parada obri- gatória em toda visita dela ao shopping. As opções de perfume eram dezenas. Kitty e Pri cheiraram todas. Kitty acabou levando, sem precisar, mais um perfume pra sua coleção: In Love Again, com notas de pomelo, flor de tulipa e amora. A vendedora opinou que a escolha não podia ser melhor: com esse perfume a Yves Saint-Laurent está comemorando quarenta anos de criação de essências. Pelo fras- co — louro como ela — de 100 ml Kitty pagou mais do que Mummy paga por 700 ml de vodka sueca.

 

Depois eu quero o frasco, — Pri disse. É que ela coleciona

 

frascos vazios de perfume, são todos tão bonitos, tão artísticos, tão irados. As amigas guardam os frascos pra dar pra ela: já tem mais de cinqüenta. No caminho pra praça do rango — pra usar o termo de Guto — viram exposto numa vitrine um vestido de noiva. Era branco e sim- ples, sem maiores atavios nem rococós. Pri pôs-se reverentezinha diante do vestido.

 

Dia que me casar, — disse, — quero que o vestido seja pare-

 

cido com este

Gostei muito. Adoro vestido de noiva com poucos

detalhes. Esse não tem muitos enfeites. É perfeito.

 
 

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  Vestido branco é pra quem casa virgem, tonta, — Kitty disse, de onda. —
  Vestido branco é pra quem casa virgem, tonta, — Kitty disse, de onda. —
 

Vestido branco é pra quem casa virgem, tonta, — Kitty disse, de onda.

 

Então não é mais pra ninguém, — Pri disse, de tampa.

 

Na praça do rango sentaram-se a uma mesinha sob a abóbada transparente pra tomar alguma coisa. Kitty tomou um milk shake de morango; Pri, um sundae de baunilha com cobertura de choco-

late quente. Pri tem, como Deb, a volúpia de falar: falava uma coisa atrás da outra. Contou que perdeu o cell, aquele de caveirinha, tão bonitinho, e a mãe não quer comprar outro: Tô me sentindo nua sem meu cell, Kitty, que sensação horrível! Depois acrescentou que o provedor deu pau, não queria conectar de maneira nenhuma.

 

Precisei ligar pro atendimento, ainda bem que mandaram

 

um cara lá em casa hoje de manhã mesmo. Aí ele falou que o proble- ma era sabe o qual? Que o meu cachorro, o safado do Gelo, tinha roído o fio. Era por isso que não estava conectando. Agora já tá jóia. Ah, Kitty, posso ficar sem Internet não, meu mundo tá ali. Prizinha tem um blog chamado Tô nem aí. No texto do seu perfil consta que ela adora beijar, balada, meus amigos, sexta-feira, homem cheiroso, o tudo de bom do Tom Cruise, Hellacopters, Crash Bash e PaC MaN, perfumes, girafas, verão, andar peladete dentro de casa, meu piercing, meu blog, o bolinho responsa que minha mãe faz (de doce de leite recheado com doce de leite em pasta), viajar, dormir, tomar banho e ficar bem cheirosa, mais do que já sou; odeia falsidade, gente que se acha, ficar esperando, futilidade, química, feijoada (eca), estudar, “aqueles dias”, segunda-feira, criancice, dor de garganta. Frase com que se define: Eu me amo e preciso achar alguém parecido comigo pra nossas almas se anexa- rem e nossos corpos se atropelarem. Nisso que estão ali conversando bulhufas, sentaram-se a uma mesa próxima um menino de uns dezesseis anos com uma menina que tinha cara de dez. Kitty, num pensamento de passagem, dedu- ziu que eram irmão e irmã. Mas daí a pouco lá estavam os dois se beijocando. Pri viu também:

 

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  — Olha lá, Kitty. Vê se pode uma coisa dessas.   — Quantos anos
  — Olha lá, Kitty. Vê se pode uma coisa dessas.   — Quantos anos
 

— Olha lá, Kitty. Vê se pode uma coisa dessas.

 

— Quantos anos você dá praquela garota?

— Não dou mais que dez.

— Foi o que eu achei também.

O menino olhou bem na hora que elas estavam olhando e viu que elas estavam olhando. Elas desviaram o olhar, mas depois olha- ram de novo: queriam ver direito a cara da menina, pra confirmar a idade dela. De novo o menino estava de olho nelas. Elas começa- ram a rir. Na outra vez que olharam, viram o menino sussurrar alguma coisa na orelha da menina; ela se virou de repente e pilhou o olhar risonho das duas; o filho da puta chamou a atenção da namo- rada pra se valorizar. Pri desviou o olhar e começou a rir na palma

 

da mão. Kitty, resoluta e intrépida, sustentou o olhar da menina. Que fez um gesto com as mãos: Qual é? Kitty fez o mesmo gesto:

Qual é? A menina levantou da mesa, desvencilhou-se do namo, que

tentou detê-la, e investiu contra a mesa de Kitty, disposta a duelo.

Tá azarando meu namo, é, piranha?

Piranha é você, — replicou Kitty. — E tá começando cedo, hein? Quantos anos você tem? Dez?

 

Não tenho que te dar satisfação. E vê se pára de azarar meu namo, senão o pau vai quebrar.

Quero lá saber do teu namorado, — Kitty disse. — Ele não é esse padrão todo de beleza que você acha não, tá?

Então por que não tira esse olho de cima dele, ham?

Não é isso não, — interveio Pri, conciliadora. — A gente só tava curiosa de saber a tua idade.

— Minha idade é minha idade, — a menina disse.

— Não, é que a gente achou que você tinha só uns dez anos, —

Pri explicou.

 

Dez anos o quê, — disse a menina. — Eu já fiz treze, tá? Por

 

quê? Com treze vocês ainda eram cabaço? Vai pra porra, suas care- tas de merda, e me deixa em paz. Sou dona do meu nariz e da minha bunda. Não enche meu saco não.

 

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  O namorado conseguiu levá-la de volta à mesa, e ainda tomou   um esporro
  O namorado conseguiu levá-la de volta à mesa, e ainda tomou   um esporro
 

O

namorado conseguiu levá-la de volta à mesa, e ainda tomou

 

um esporro básico no caminho. Mas nem deu pra rir, porque resso- aram no ar os acordes de “Smoke on the Water”, do Deep Purple: o celular de Kitty estava tocando. Pri assistiu extasiada Kitty extrair da bolsa o seu cell, que ela, Pri, cultua de montão: um celular fofi- nho, negro como ébano, que possui câmera fotográfica com flash e mais um porrilhão de recursos. Kitty apertou a devida tecla e disse, com sua bela voz grave: Alô.

 

*

* *

 

Era quem: Lu. E foi minimalista: não falou muito; nem muito ouviu. Cortou as interjeições de Kitty e disse apenas que precisava falar com ela: Preciso falar com você. Passa aqui em casa. Kitty per- guntou se tinha a ver com Bruno: Tem a ver com Bruno? Lu, auto- ritária que nem uma princesa, disse: Passa aqui agora. E desligou. Kitty sentiu, era muito óbvio, que Lu não estava nada bem. Lu não está nada bem, disse ela a Pri, justificando por que tinha de ir vê-la. Pri foi supercompreensiva: Vai lá, vai dar uma força a Lu. A gente tem que ser amável e doce com os amigos, porque amizade é uma coisa tão legal. Kitty apertou a mãozinha de Pri. Ofereceu-se pra deixá-la em casa no caminho, mas Pri não quis: Vou ficar por aqui mesmo. Acho que vou jogar um pouco de Age of Empires. E aí abriu aquele sorriso gaiato e feliz: E se bobear eu ainda paquero aquele carinha que diz que fode no primeiro encontro. Antes de ir cada qual pro seu lado, uma algazarra vinda do andar térreo chamou-lhes a atenção. Quem morreu, disse Pri, e as duas chegaram ao guarda-corpo pra olhar. Lá embaixo viram um casal de top models cercado de curiosos por todos os lados. A moça vestia uma espécie de terninho com chapéu de Zorro e uma capa de tule de seda toda bordada de pedras e canutilhos. Os dois mal e mal podiam andar. Algumas adolescentes gritavam fora de si. Outras extorquiam autógrafos do casal.

 
 

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  Deve de ser gente que vai desfilar no Fashion, — Pri deduziu o óbvio.
  Deve de ser gente que vai desfilar no Fashion, — Pri deduziu o óbvio.
 

Deve de ser gente que vai desfilar no Fashion, — Pri deduziu o óbvio.

Ninguém merece ver essa histeria, — Kitty disse. — Tá me

dando vontade de vomitar.

 

Ni mim também, — Pri disse, doida pra estar lá embaixo no

 

meio do movimento. Alguns seguranças tentaram abrir caminho pro casal passar. Aí Kitty viu, no fundo da cena, uns três quatro sujeitos bem vestidos, todos eles de casaco esporte. Um deles tinha uma mancha negra no lado do rosto e era Bruno. Ele sentiu-lhe o toque do olhar e olhou pra cima e a viu. Aí disse alguma coisa a um dos outros e se afastou. Kitty seguiu-o com os olhos e viu-o subir a escadaria que trazia ao segundo

andar. Lá vem o outro lado do problema, e que que eu tenho a ver com isso? Dava tempo, mas recusou-se a sumir do mapa. Voltou a acompanhar com fingido interesse o escarcéu que rolava lá embaixo.

Logo sentiu no ar a chegada de Bruno: só podia ser ele que exalava o perfume amadeirado que captou com seu olfato de felino.

Quem diria, — Bruno disse.

Pri surpresa, Kitty não, viraram-se ambas.

 

— Olá. — É o cumprimento que Kitty reserva pros indesejáveis.

 

— Como vai? — Bruno perguntou. E estendeu-lhe a mão. Que

Kitty deixou pairar dez segundos no vácuo antes de estender a sua. Ele estava muito elegante em sua jaqueta de couro; em suas bo- tas de napa; em seu relógio com pulseira de aço escovado e pontei- ros luminosos, assinado por um golfista famoso, de que só quinze peças foram vendidas no Brasil; em seu olho verde, que ganhou de graça da mãe Natureza. Pri estava boquiaberta de assombro. Kitty fez as apresentações:

Priscila, Bruno, Bruno, Priscila.

Os dois se apertaram as mãos, dizendo-se muito prazer, essas coisas. Aí Kitty, com sua bela voz grave:

 

Bruno, me desculpe, eu tenho um compromisso. Pri, por favor, faz sala pra Bruno.

 

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  E se afastou, altiva como uma princesa de Mônaco, deixando   olho verde, relógio
  E se afastou, altiva como uma princesa de Mônaco, deixando   olho verde, relógio
 

E

se afastou, altiva como uma princesa de Mônaco, deixando

 

olho verde, relógio de golfista, botas de napa e jaqueta de couro tudo de bandeja à disposição de Prizinha.

 

*

* *

O edifício em que Lu mora, já se sabe, fica num conjunto

 
 

habitacional no extremo faroeste do bairro de Jardim Camburi:

daí pra diante é tudo um ermo coalhado de sambaquis. O conjunto

é

uma cidade murada, a versão moderna de um burgo medieval; a

versão light de um campo de concentração. Você entra pela guarita e, se estiver de carro, como Kitty, desce por uma rua interna que circunda todo o condomínio. Ali dentro se erguem uns dez ou doze edifícios de quatro andares, todos eles cara de um, focinho de ou- tro, como gêmeos univitelinos que são. Kitty parou no estaciona- mento de visitantes e saltou do Cláudio. Uns rapazolas que estavam ali curtindo um ócio com dignidade meteram o olho em cima dela e

do carro dela. Um deles aspirou ar entre os dentes, em sinal de te- são; outro apertou o saco com a mão cheia de dedos. Kitty nem deu bola. Não estava nem aí praqueles babacas: quem eles pensam que são: não têm presente nem futuro — nem passado, se bobear. Mas ainda ouviu às suas costas um dos fedelhos emitir um sibilo: Goss-

toss-ssa

Parecia até Gollum falando. Gollum, de O senhor dos

anéis. Só que Gollum era menos repelente.

 
 

*

* *

O

edifício de Lu chama-se Bela Vista — significando a erma paisa-

 
 

gem de vegetação rasteira e esquálida que cobre os restos mortais de

antigos tupiniquins e temiminós. Apartamento dela fica no terceiro andar. Neuza que abriu a porta; tem a mesma idade de Mummy mas

a

aparência é de quem foi muito devastada por uma vida inteira de

frustração e vulgaridade. Kitty entrou. A sonoplastia de um desenho

 

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  animado na televisão penetrou-lhe ouvidos adentro. Ina veio corrida dar-lhe um abraço. Tia Kitty,
  animado na televisão penetrou-lhe ouvidos adentro. Ina veio corrida dar-lhe um abraço. Tia Kitty,
 

animado na televisão penetrou-lhe ouvidos adentro. Ina veio corrida dar-lhe um abraço. Tia Kitty, atenciosa, comprara uns caramelos pra ela no shopping. A menina adora quando Kitty vem visitar. Abra-

ça e beija. Kitty retribui meio sem jeito: sua relação com criança é mais diplomática que outra coisa. Não foi boa mãe nem pra irmã mais nova.

Agora tia Kitty vai conversar um pouquinho com Lu, — Neuza disse.

 

Lu tá dodói, — Ina disse.

 

E desgarrou-se de Kitty e sentou-se diante da tevê com o saco de caramelos no colo. Pra Ina, isso é o paraíso: caramelos e desenho animado: por enquanto: pois, salvo um milagre, vai pelo mesmo caminho que a mãe e que a avó: é só uma questão de tempo, e tempo

 

coisa inexorável: não deixa um só instante de passar. O apartamento tem sala, dois quartos, cozinha, banheiro, uma área de serviço com um tanque pouco maior que uma pia; você entra no apartamento e já acabou. Note-se que já na sala Kitty des- toa do ambiente, onde os móveis — divã, pufe, aparelho de tevê, um velho aparelho de som, com pickup e tudo, uma mesa de fórmica

é

guarnecida por quatro cadeiras — são todos velhos e surrados, além do quê ainda disputam o espaço vital e dificultam a circulação. Kitty vê tudo isso e finge pra si mesma que não vê. Se por um lado aquilo

é

um pardieiro, por outro é o lugar onde a amiga mora; por isso

Kitty não só despercebe como sublima: um dia tudo isso vai mudar:

é

só uma questão de tempo, e tempo é coisa compassiva: não deixa

um só instante de passar. Quarto de Lu pega o sol da tarde; é quente pra cacete. Kitty bateu à porta e entrou. Lu jazia largada na cama, coberta por um

lençol. Parecia mal; parecia péssima; parecia à morte. Kitty chegou- se. Lu virou a cara pra parede.

 

Lu, — Kitty disse, e sentou-se na beirada da cama.

 

Lu não deu sinal de resposta. Sua mão jazia sobre o peito. As unhas ainda tinham os copos de leite pintalgados nelas. Os anéis,

 

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  porém, jazem espalhados a esmo sobre a mesinha de cabeceira. Kitty segurou-lhe a mão.
  porém, jazem espalhados a esmo sobre a mesinha de cabeceira. Kitty segurou-lhe a mão.
 

porém, jazem espalhados a esmo sobre a mesinha de cabeceira. Kitty segurou-lhe a mão.

Não me toca não, porra, — rosnou Lu.

Kitty retirou a mão e recuou.

 

— Pô, Kitty, tô mal, tô mal, tô muito mal.

— Ô, meu amor, que que deu em você? — Kitty disse, com carinho.

 

— Tô podre, — Lu disse. — Tô toda podre. Olha só a porra do

meu lábio. Lu mostrou e Kitty viu-lhe, no lábio inferior, os sinais de herpes.

Tinha tempo que essa porra não me aparecia, — Lu disse. —

Aí hoje me veio essa porra e mais uma porra de uma gripe. Tô po- dre. Tudo me dói, Kitty: garganta, coluna, dente. Até pra pentear o

cabelo dói.

Kitty fez menção de tocá-la.

 

Fica longe, — Lu rosnou. — Não quero passar nada podre de mim pra você.

 

Tá bem, tá bem. Eu sei que isso é uma merda, mas não é pra sempre. Daqui a pouco você tá aí boa de novo, diz pra mim.

Boa? — Lu disse. — Pois o pior você não sabe. Olha, Kitty,

game over pra mim. Acabou. Acabou. Lu fez uma careta de choro. Lágrimas mijaram-lhe dos olhos.

— Acabou o quê? — Kitty disse, já suspeitando.

 

— Bruno. Acabou. Tá acabado. Fim. The end. E nada happy.

 

— Pô, Lu, que merda foi que aconteceu?

 

Lu escondeu o rosto nas mãos e começou a soluçar.

 

Ah, Lu, não faz isso comigo não, pelamor de Deus, — Kitty

dizia, enquanto Lu está que soluça. Ficaram nisso uns cinco minu- tos: Lu soluçando, Kitty repetindo a mesma frase com ligeiras vari- ações, os olhos secos e azuis, as mãos querendo mas não ousando tocar o corpo proibido da amiga: mãos que, dançando no ar sobre Lu, podem parecer as mãos de uma artista que já não tem poder sobre a marionete: romperam-se, pra desespero de ambas as partes, os cordões umbilicais entre criadora e criatura.

 

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  Até que, com um esforço, Lu retirou as mãos do rosto e disse: —
  Até que, com um esforço, Lu retirou as mãos do rosto e disse: —
 

Até que, com um esforço, Lu retirou as mãos do rosto e disse:

O que que aconteceu? Sei lá o que que aconteceu. Pergunta a

 

ele. Num instante tava tudo bem, no outro tava tudo mal. Foi isso

que aconteceu.

 
 

E

Lu soltou um suspiro que lhe subiu do osso da alma. Kitty

 
 

tentou impor a autoridade da Razão:

 
 

Calma. Fica calma. — Lu fica meio calma. Kitty prossegue

 
 

seu discurso, escandindo cada palavra: — Tem de haver uma expli- cação. Me conta. Me conta tudo direitinho. O que que rolou afinal?

 

*

* *

 

Eis a súmula do que que rolou afinal na noite anterior entre Marluce Castanheira e Bruno Hodiak. Jantar, jantaram num restau- rante chique numa rua sossegada da Enseada do Suá. Lu estava muito elegante no vestido vermelho de Kitty, nos sapatos de salto agulha de Kitty. Bruno estava também muito elegante em seu blazer negro, em sua gravata de seda vermelha salpicada de pequenas imagens de asinhas de anjo e flechinhas de Cupido, e em suas botas negras de couro de bezerro tratado, com zíper pra abrir e fivelas pra enfeitar. Conversa- ram; riram; trocaram olhares em silêncio. Bruno disse coisas maravi- lhosas. Ela perguntou se ele tinha gostado do seu brinco — de Kitty na verdade e não dela, mas quem precisava saber? Ele respondeu: Só um homem de muito mau gosto olharia pro seu brinco. Lu teve de tomar um gole de vinho pra disfarçar a emoção. Bruno pediu escargots na manteiga de alho e ervas; Lu, um risoto de frutos do mar, ervas e tomate seco. Ela esperava mais: não da qualidade, que achou o prato uma delícia, mas da quantidade, que achou que veio pouca comida. A sobremesa é que compensou: uma tulipa ao creme de milho, que vem numa cestinha crocante com gergelim. Lu nunca que comera coisa mais divina. Quis saber a re- ceita. Bruno convocou o garçom, que revelou o segredo: o creme é composto de chocolate meio amargo, milho, gengibre e conhaque,

 
 

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  tudo bem quente, embebido numa espessa calda de vinho, e com um toque final
  tudo bem quente, embebido numa espessa calda de vinho, e com um toque final
 

tudo bem quente, embebido numa espessa calda de vinho, e com um toque final de croûtons de tapioca. Depois do jantar, enquanto esperava o garçom voltar com o cartão de crédito, Bruno perguntou o que Lu queria fazer agora. O que você quiser, ela disse, coquete mas entregue. Não, ele disse; você escolhe: te dou duas opções: esticar numa boate ou conhecer a minha casa. Lu quase desmaiou de emoção: esperava no máximo um convite pra motel e não pra casa do gato. Apoiou os cotovelos na mesa, entrecruzou as mãos, deixando bem à vista nos dedos anéis e nas unhas copos de leite desenhados nelas, e pôs-se pensati- va. Na véspera, na choperia, tinha muita gente, mas tudo turista de fora. Naquela noite, no restaurante, tinha pouca gente, e ne- nhum conhecido. Ninguém vira ela na invejável companhia de Bruno. Faltava, portanto, o que faltar não podia: desfilar com o gato pela noite pra todo mundo ver: aí, sim, seria a hora de se meter entre quatro paredes pra consagração de uma transa. En- tão perguntou, feito criança que não consegue escolher um só den- tre dois presentes maravilhosos: Posso escolher as duas coisas? Ele olhou as horas, viu que era cedo ainda: Por que não? Temos a noite toda ainda pela frente. Mas deixa que a boate eu escolho. Foi assim que foram parar na Glee. Nesse ponto Kitty interrompeu o relato pra dizer:

— Eu vi vocês dois. Eu tava na fila quando vocês foram embora. Lu disse: — Ah, é? Eu não vi você. Eu não vi nada. Eu não tava vendo nada. Eu não queria ver nada. No caminho, quando entendeu pra onde iam, Lu receou que tivessem de enfrentar horas de fila. Isso não estava em seu progra- ma: não era numa fila de boate que ela queria ser vista com Bruno. Gato, disse ela, a Glee tem um problema. E disse qual era o problema. Bruno riu. Fila? Que é isso. Sabe como é que se diz fila em português de Portugal? Lu disse que sabia não. Bicha. Lu estranhou: Bicha ? E riu. Pois é, Bruno disse. E foi curto e lógico: Por aí você vê: eu não sou bicha, por isso não entro em fila.

 

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  E não entrou mesmo. Foi chegando à porta, chamou o porteiro com um dedo,
  E não entrou mesmo. Foi chegando à porta, chamou o porteiro com um dedo,
 

E não entrou mesmo. Foi chegando à porta, chamou o porteiro com um dedo, sussurrou alguma coisa no ouvido dele, o cara foi logo abrindo caminho pra eles entrarem. Lu nunca vira coisa igual. Entra- ram como se ele fosse um príncipe da Inglaterra e ela a sua namorada oficial. Lá dentro foi um barato. Tinha muita gente de Cachoeiro, mas tinha também gente de Mic em quantidade suficiente pra ver Lu com o gato. Mesmo naquela meia-luz, Bruno chamava a atenção:

olhos cheios de olhares percorriam-lhe o rosto, o corpo, a roupa, o relógio, e até virtudes mais abstratas como gestos decididos e postura autoconfiante, e finalmente chegavam em sua companheira. É Lu que tá com ele, Lu ouviu, no aguçado ouvido da imaginação, sussurra- rem a três por dois. No centro das atenções, os dois beberam, dança- ram, deram-se uns beijos. Quando se sentiu mais que totalmente sa- tisfeita, Lu pediu: Agora, gato, me leva pra conhecer sua casa. Ele disse: Tá bem. Enquanto Bruno pagava a conta, ela deu um jeito de tirar a calcinha por baixo da mesa e guardar na bolsa. Foi aí que saíram e Kitty, na fila do lado de fora, viu os dois passando juntos agarradinhos. Entraram na Toyota, Bruno ligou o carro. Lu desligou a chave: já queria um amasso ali dentro como aperitivo. Aninhou-se no colo dele, levantou o vestido, pegou-lhe a mão e fez-lhe os dedos sentirem a xota nuzinha e marejada. Aí me- teu-lhe na boca a língua e deixou-a passear lá dentro à vontade. Dizem que é assim que beija o ariano, no caso, Lu: pulsa, se entrega e ao mesmo tempo domina. Desprezando beijocas superficiais, per- corre a boca desejada com fogo e paixão. Foi o que Lu fez, ali, com Bruno. Mas logo sentiu que havia algo de muito errado: algo de muito desastroso: completa falta de tesão em Bruno.

 

Que que foi, gato? — perguntou, com voz de mel. Temeu ter

 

estragado as coisas indo com muita sede ao pote. Ele, gentil mas firme, fez com que ela voltasse ao seu devido lugar: o assento do carona. E disse:

Olha, Lu, não dá não. — Parecia um empresário falando com a secretária. Polido mas patronal.

 

Não dá não o quê? — Lu estranhou.

 

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  — Entre a gente, — o gato disse. — Dá não. Tô forçando a
  — Entre a gente, — o gato disse. — Dá não. Tô forçando a
 

Entre a gente, — o gato disse. — Dá não. Tô forçando a

barra. Dá não. Tenho que ser sincero contigo e sincero comigo. Vamos parar por aqui.

Lu ficou apatetada. A princípio nem entendeu direito a mensagem.

Não vai me levar pra tua casa não? — Foi o que Lu disse.

O gato meneou a cabeça:

 

— Não posso.

— Gato, que é isso? Tu tá me dizendo que tá tudo terminado? —

 

É só ficar puta ou nervosa que Lu passa ao tratamento em segunda

pessoa. — A coisa nem começou e já terminou, cara?

— Foi um erro, Lu. Eu errei. Sinto muito.

 

— Tu broxou, gato? — Lu sugeriu. — Isso acontece. É por

 

causa da birita, da paixão. Vai me dizer que tu não sabe que pai- xão broxa?

Broxei porra nenhuma. — O gato ficou puto. — Broxei foi aqui, tá? — E bateu com o dedo sobre o coração.

Mas como, cara? Tava tudo bem, e de repente vira tudo pelo avesso?

Eu sou assim, — Bruno explicou. — Não posso ser diferente do que sou.

Ah, meu Deus, — Lu disse. — Que que tá rolando? Que que

eu faço agora? Bruno não disse nada. Lu recusou-se a desistir:

 

A gente nem transou, cara. Tu nem sabe se eu sou boa de

 

cama. Não quero me elogiar não, gato, mas eu faço de um tudo:

todo mundo diz que eu sou um fodão. Bruno não disse nada. Mas Lu pensou discernir um meio sorriso nos seus lábios. Aí se achou no direito de ficar puta.

Tá rindo, cara? Tá rindo do quê? Tu acha que pra mim é fácil

de lhe dar com isso que tu tá fazendo comigo?

 

— Sei que não é.

— Ah, é? E como é que tu sabe? Já passou por isso antes? Já foi

 

mulher em outra reencarnação? Mas eu já entendi. Vai ver que tu

 

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  tem é medo de xota. Vai ver que tu é gay. Que que tu
  tem é medo de xota. Vai ver que tu é gay. Que que tu
 

tem é medo de xota. Vai ver que tu é gay. Que que tu tava fazendo ni enterro de bicha, hein, cara? Bruno não gostou daquilo:

 

— Vou te levar em casa, — disse.

 

— Casa? Casa de quem? Minha ou sua? — Lu disse. — Se for a

 
 

minha, muito obrigado. Precisa se incomodar não. Me bota num táxi, só isso, tá? Mas me faz o favor de me dar algum dinheiro, que eu saí sem nenhum. Bruno ligou o carro e foi saindo devagar. Nenhum dos dois falou mais nada. Lágrimas em corredeira desciam dos olhos de Lu. Chega- ram à praia, pegaram o asfalto, Bruno dirigiu sem pressa até Guarapa. Ali parou no primeiro ponto de táxis que lhe apareceu pela frente.

Contratou a corrida com um dos motoristas, pagou em dinheiro vivo. Lu saiu da Toyota e entrou no táxi. De despedida, nem nenhuma pala- vra nem nenhum olhar. Mas Bruno veio e quis falar alguma coisa; bateu de leve na janela com os nós dos dedos. Lu não baixou o vidro.

 

* * *

 

Essa foi mais ou menos a história que Lu contou a Kitty. Termi- nado o relato, Lu perguntou:

 
 

O que que eu fiz de errado, Kitty? Eu fiz alguma coisa de

 

errado?

 
 

— Não sei. Pelo que você contou, acho que não.

 

— Pois é. O que foi que eu fiz? Eu sentei no colo do gato e meti a

 

língua lá na goela dele. Só. Não fiz mais nada. Nem tive tempo. Ah, e meti a mão dele na minha xota. Pensei que ele ia gostar. Não era pra ele gostar, Kitty? Não é isso que gato gosta?

 

— É, acho que é.

 

— Então que que eu fiz de mais? Ah, que merda: quando será

 
 

que eu vou parar de tomar no cu sem ter feito nada de mais?

 

Só se ele é doido, Lu. Ou careta. Ou as duas coisas. Todo

 

careta é doido, eu acho. Talvez foi até bom você não ter ido na casa

 

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  dele. Que que a gente sabe sobre esse cara? Ele pode ser um assassino,
  dele. Que que a gente sabe sobre esse cara? Ele pode ser um assassino,
 

dele. Que que a gente sabe sobre esse cara? Ele pode ser um assassino, Lu. Já pensou nisso? Se você tivesse ido lá, vai ver você tava morta hoje, Lu.

 

Eu tô morta hoje, — Lu disse. — E sabe de uma coisa? Eu

 

pagava pra ver. Por Deus do céu, se fosse o caso de cinqüenta por cento de chance dele ser um cara normal e cinqüenta dele ser um

assassino, eu pagava pra ver, Kitty. Podia até morrer, mas eu ficava sabendo. Do jeito que tá, eu não vou saber é nunca. Kitty não sabia mais o que dizer: queria dizer alguma coisa ex- pressiva, mas, por mais que tentasse, tudo que disse foi:

 

— É foda.

 

— Bota foda nisso, — Lu disse, e Kitty estranhou: porque Lu

 
 

repetiu, conscientemente ou não, a frase do carinha de camisa ama-

rela. Aí Lu fez um esforço heróico pra tirar por menos, nem que fosse só pra Kitty ver: — Mas tá tudo bem. Esse é o meu carma. Você sabe tão bem quanto eu que essa é a minha história e não vai mudar nunca. Já é de praste na minha vida. Eu tenho mais é que botar o pé no chão. Já tô velha demais pra me iludir com desvaneios. Porque uma coisa é certa, Kitty: eu não dou pra isso.

 

— Pra isso o quê?

 

— Pra ser feliz. Príncipe encantado não é pra mim. Príncipe pra

 
 

mim é o sapo da lagoa, que não desencanta nem se eu chupar o pau dele.

 

— Deixa de bobagem, Lu. Você um dia vai ser muito feliz.

— Quando eu for um cadáver metido num caixão. Igual aquele

 

filme antigo que a gente viu: vou ser o cadáver mais feliz do mundo inteiro.

 

— Que coisa horrível, Lu! Pára com isso, mulher!

— Falei o que eu tô sentindo.

 

— Já esqueceu a música do Renato? Escuridão já vi pior, mas é

 
 

claro que o sol vai voltar amanhã mais uma vez. Já esqueceu, Lu?

 

Isso é só uma música, Kitty, e música não vai curar meu her-

 

pes nem a desgraça da minha vida. Eu sou feita de carne, osso e

 

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  coração. Sou de papel não, meu amor. Moral da história: eu tava muito bem
  coração. Sou de papel não, meu amor. Moral da história: eu tava muito bem
 

coração. Sou de papel não, meu amor. Moral da história: eu tava muito bem onde eu tava, mas agora voltei ao meu mundo. Kitty deu vontade de ir embora. Lu parece que também queria que ela fosse embora, quem sabe pra dormir um pouco ou fazer alguma outra coisa parecida: tipo morrer, quem sabe.

Agora me deixa descansar, Kitty. Tô aqui tentando segurar

as pontas, mas não é mole não, Kitty. Eu investi toda a minha espe- rança nesse cara. Tô arrasada. Tá doendo pra cacete. Até minha imunidade foi lá embaixo. Por isso que me veio essa gripe e essa porra desse herpes.

Você precisa de alguma coisa, Lu? Se precisa, me diz, que eu faço.

Preciso não. Pera lá, preciso, sim. Já que você perguntou, preciso de dinheiro pra comprar remédio. Preciso passar alguma coisa nesse lábio. Nesta casa não tem dinheiro nem pra isso. Kitty abriu a bolsa e tirou uma nota de vinte.

Isso dá?

Quero seu dinheiro não. Já tô humilhada demais. Deixa com Neuza.

 

Kitty levantou. Queria ir, mas ainda lhe batia um remorso de ir; mas Lu também queria que ela fosse: por isso decidiu que estava indo mais por Lu do que por ela mesma.

Se precisar de mim, Lu, me liga. Estarei à sua disposição.

A frase doeu-lhe no ouvido assim que veio à luz: formal, pedan- te e falsa. Mas já estava dita; e ouvida.

Leva teu vestido, — Lu disse. — Tá aí nessa sacola. Vestido,

bolsa, pulseira, brinco, tá tudo aí. E me desculpa, Kitty, mas só tem um sapato. O outro eu perdi.

— Perdeu como, porra? — Kitty, ríspida.

 

— Perdi na confusão, porra, — Lu, ríspida. — Tavam me ma-

 

tando os pés, aí eu tirei no carro de Bruno. Na hora que eu saí do carro, acho que um deles caiu da mão e eu nem notei. Ou se notei, nem quis saber. Eu só queria pegar o táxi e me mandar dali. Será que dá pra entender?

 

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  — Porra, Lu, essa foi meio foda.   — Algum dia eu pago a
  — Porra, Lu, essa foi meio foda.   — Algum dia eu pago a
 

— Porra, Lu, essa foi meio foda.

 

— Algum dia eu pago a você.

 

Esquece, — Kitty disse. E pensou: Sapato caro desses; vai pagar como, fudida que é e sempre vai ser?

 

*

* *

No caminho pro carro, sacola nos braços, Kitty parou junto a uma lata de lixo e atirou dentro o sapato órfão. Depois foi direto pra casa. Asilada em seu quarto, tentou organizar seus pensamen- tos sobre Lu. Chegou à conclusão que aquela fora a gota d’água. Não dá pra manter uma amizade com alguém assim. Lu é uma da- quelas que estão sempre se afogando e que chega um dia afoga a gente com elas. Dá pra mim não. Já fiz tudo que pude por ela. Mas agora tenho que pensar em mim. Ela que aprenda a se virar sozinha. Celular tocou. Voz masculina perguntou se era Kitty que estava falando. Kitty disse que era.

 

— Queria combinar uma hora com você.

 

— Uma hora? Como assim? Quem tá falando aí?

 

Me diz uma coisa. Você faz anal? Não tá no anúncio. Kitty entendeu.

— Cara, não sou essa Kitty que você tá querendo não.

— Quer dizer que não faz anal? E oral?

 

— Não sou puta não, cara. Você ligou errado. Vai tomar no seu cu.

 

E

desligou. Imediatamente o celular tocou de novo. Kitty quis

desligar, mas o celular travou. No desespero ela abriu-lhe o ventre e estripou-lhe a bateria.

Pronto. Quero ver esse filho da puta me encher a paciência

agora. Aquilo serviu pra sacudi-la de volta à rotina. Vestiu sua roupa de malhar, saiu com o Cláudio e lá se foi pra academia, que fica numa ruela movimentada pra cacete próximo à ponte do herói. A rua Martins é uma merda pra estacionar: é uma rua estreita, originalmente

 

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residencial, mas tem duas academias, dois colégios, um instituto de inglês, e um restaurante italiano, miscelânea que só a prefeitura de Mic entende como é que pode. Certa vez Kitty estacionou na frente da garagem de uma das duas três residências sobreviventes e acabou que o garotão que morava lá teve o desplante de rebocar o Cláudio pro meio da rua, onde o pobre fechou o trânsito: foi uma buzinação do caralho e um desgaste do cacete. Kitty deixou o Cláudio na João da Cruz e andou a pé até a acade- mia. Fica uma graça de barriguinha de fora, e mais ainda quando, como agora, usa a calça que tem uma abertura do lado deixando à vista, por entre tiras de tecido, nacos de coxa. Sammy, seu personal trainer, recebeu-a com beijinhos. Sammy é um amor. Não só ajuda Kitty nos pontos mais difíceis da musculação como também lhe traz copinho d’água e enxuga-lhe o suor do rosto com toalha. Malhação fez bem a Kitty. Voltou pra casa com fome. Ao entrar na copa, flagrou Déia e Phil sentados à mesa jogando escravos de Jó na maior animação. Phil nem se toca pro ridículo da coisa. Toca-se, sim, pros nacos de coxa que a calça de Kitty deixa entrever. Rosa saiu com o namo. Se Kitty pedisse, Phil até que lhe prepararia um lanche. Mas ela tem sua pose pra manter. Aí abre a geladeira pra ver o que pode improvisar. Abriu vários potes até achar uma bela fatia da pizza de sábado. E mais: por trás das garrafas de vodka sueca degradadas à condição de garrafas d’água achou também uma lata de guaraná ainda pela metade. Então põe o prato de pizza no forno micro-ondas. Ao som dos guerreiros com guerreiros fazem zigue, zigue, zá, e da percussão cadenciada das caixas de fósforo sobre a mesa, três minutos parecem-lhe longos demais. Assim que o forno termina a sua tarefa, Kitty enche um copo de guaraná e leva copo e prato pra sala, bem longe das crianças. Ali se dedica a saborear um de seus rangos favoritos: pizza de três dias requentada no micro- ondas regada a guaraná com pouco gás.

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* * *

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Mais tarde viu com Déia um filme de lobisomem na televisão. Aquelas coisas de sempre. Lua cheia, dolorosas transformações viabilizadas por efeitos especiais, vítimas dilaceradas e o final infeliz de sempre, porque essa doença não tem cura: morre o lobisomem e vai gradualmente, pra espanto geral de circunstantes, retomando a sua dimensão humana. Na morte, prevalece o homem sobre o lobo; o humano sobre o bestial e monstruoso. De volta ao quarto, Kitty lembrou que tinha o trabalho da fa- culdade pra fazer. Aí deu um sono do cacete e Kitty foi pra cama dormir.

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Kitty aos 22: Divertimento. Capítulo 4: terça-feira. Dia seguinte amanheceu nublado. Kitty ficou de molho no quarto, fumando e ouvindo música no computador: Rancid, Blink 182, Red Hot Chili Peppers: afinal, música é um lugar onde se pode ir a qual- quer hora e com qualquer tempo. Deu onze e o sol não abriu. Aí, vedada a praia, resolveu sair pra fazer uma coisa que vinha adi- ando há algum tempo: levar um tecido pra costureira fazer uma saia pra ela. Foi no Cláudio, é claro, companheiro fiel mas, como todo com- panheiro fiel, não de todo confiável. Parou pra abastecer logo ali naquele posto da orla de Camburi. O posto fica na esquina de uma rua que corta Jardim da Penha de fora a fora, contornando uma praça que outra no caminho. Enquanto esperava ser atendida, Kitty ia ouvindo “Patience”, com os Guns N’ Roses, no rádio. Dali Kitty viu, do outro lado da rua, uma imagem bizarra. Rapaz de uns vinte anos ia caminhando pela calçada, carregando uma bicicleta. Kitty logo entendeu o que acontecera: quebrara-se a haste que sus- tenta a roda da frente, de modo que o rapaz carregava sobre o om- bro esquerdo a parte maior da bicicleta e na mão direita a roda da frente. Era o mico do século.

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  Kitty não é desprovida de bons sentimentos. Sentiu pena do rapaz pelo mico que
  Kitty não é desprovida de bons sentimentos. Sentiu pena do rapaz pelo mico que
 

Kitty não é desprovida de bons sentimentos. Sentiu pena do rapaz pelo mico que lá ia pagando naquelas tristes circunstâncias. Tanque cheio, mudou seu itinerário: em vez de seguir pela avenida Camburi, como pretendia, entrou em Jardim da Penha pra alcan- çar o rapaz. Parou-lhe ao lado. O rapaz parou também. Kitty ofere- ceu carona. O rapaz era corpulento, e feioso de rosto, e não disse sim nem não. A bicicleta conjugada ao corpo dava-lhe um visual de monstro mitológico. Kitty sabe que quem cala consente. Saltou do carro, abriu o porta-malas; ali acomodaram como foi possível as duas partes da bicicleta. Kitty fechou o porta-malas. O rapaz deu um suspiro de alívio: o mico jazia onde deviam jazer todos os micos:

oculto aos olhos do mundo. Entraram no carro.

 
 

Aonde você mora? — Kitty perguntou, ligando o carro e

 
 

partindo.

 
 

Perto da pedra da Cebola, — o rapaz respondeu, sem olhar

 
 

pra ela. Sentia-se meio que constrangido; era objeto de pena pra

uma mulher bonita pra caralho, e isso não é coisa fácil de digerir.

 

— Como é seu nome? — Kitty perguntou.

 

— Sérgio, — Sérgio respondeu. Kitty ficou à espera dele per-

 
 

guntar o nome dela. Não veio pergunta alguma. Rádio do Cláudio é que tocava pelos cotovelos uma música do Iron Maiden:

“Wickerman”. Mas logo o rapaz caiu em si e perguntou: — E o teu?

 

— Kitty, — Kitty respondeu.

 

— Acho que já te vi aí nos rocks, — Sérgio disse.

 

— Pode ser, — disse Kitty.

 
 

O rapaz estava de bermudas e camiseta, e boné na cabeça, e tênis fedidos nos pés. Apesar daquela corpulência toda, devia ter menos de vinte anos: dezoito, dezessete: fedelho. Ouvindo a música, ele disse:

 
 

— Eu gosto do Iron.

 

— Eu também, — Kitty disse.

— É fodástico, — Sérgio disse.

 

— Até que é, — Kitty disse.

 
 

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  Adoro música, — Sérgio disse. — Tem um rádio na minha cabeça que toca
  Adoro música, — Sérgio disse. — Tem um rádio na minha cabeça que toca
 

Adoro música, — Sérgio disse. — Tem um rádio na minha cabeça que toca rock o dia inteiro.

Legal, Sérgio, — Kitty disse.

Estavam em pleno território de Jardim da Penha: bairro de gran-

 

des praças circulares que atraem muita gente de casa pra rua. Nessas praças dá de tudo: desde novenas matinais pra Virgem Maria até feiras de comes e bebes em fins-de-semana. Kitty pára nas faixas pra deixar pedestres passarem: este é um bairro civilizado, nem que seja só nesse ponto.

Por mim eu teria largado na rua a merda dessa bike, — Sér-

gio disse.

E por que não largou? — Era o que Kitty teria feito: ou então

 

ligar pra seguradora pedindo socorro: ou, se não tem seguradora que socorra uma bike, até pra Phil, fazer o quê?

— É que meu pai não ia acreditar nem pelo cacete, — Sérgio disse.

— Acreditar em quê?

 

— Que a bike quebrou. Ia pensar que eu vendi pra comprar crack.

 

— Você já tá nessa?

 

— Tu tá não, loura? — Sérgio já parecia um pouco mais à vontade.

 

Nem quero. — O trauma da overdose em Porto tolhe em Kitty o espírito de aventura.

Pois eu recomendo. Na hora que quiser provar, é só falar

comigo. É só gritar que eu venho rapidex. Kitty entrou por uma rua e saiu por outra até desaguar na ave-

nida Leão e, mais à frente, à direita, na Lírio, aquela que liga os bairros de Jardim da Penha e República. Por esse caminho se chega à pedra da Cebola. Pensou: Logo aonde esse cara tinha de morar. Pois por ali é que ficava também a casa de Bobby e Benjy. Tristeza me quer perto dela, Kitty pensou, fazendo drama pra si mesma.

Não pensa que eu sou otário só porque me viu pagando mico,

— Sérgio disse. Já estava completamente à vontade.

Claro que não. — Kitty sorriu, divertida com a preocupação do cara.

 

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  — Porque eu sou foda. Sabe quem que eu sou? Eu vou te contar,
  — Porque eu sou foda. Sabe quem que eu sou? Eu vou te contar,
 

Porque eu sou foda. Sabe quem que eu sou? Eu vou te contar,

mas não fala pra ninguém, nem pro teu pai nem pra tua mãe. Eu sou o Relinchador. Kitty sabia quem era o Relinchador. Era um rapaz que zoava nas madrugadas rindo e relinchando que nem cavalo. Era uma pra- ga pra essa burguesia de Jardim da Penha, de Mata da Praia e até de Jardim Camburi que se tranca em casa à noite em busca de paz e silêncio. Que paz nem silêncio porra nenhuma. Qualquer noite, qualquer hora, entre zero e cinco da manhã, o Relinchador viola

paz e silêncio a poder de tétricos relinchos. É criativo: impõe, com a mesma arma, o terror e o deboche.

É você? — Kitty disse, incrédula. Havia uma migalha de ad- miração em sua voz. Que Sérgio ficou feliz de notar.

Eu mesmo. Se quiser, uma dessas noites eu vou lá na frente da tua casa e relincho pra tu ouvir.

Pode até ser, — Kitty disse. — Pô, cara, legal isso que você me contou.

Mas não conta pra ninguém. Pode contar que encontrou o

Relinchador, mas não diz que sou eu. Olha lá, loura, não vai sacanear comigo não.

Fica frio, sua identidade secreta está segura comigo, — Kitty

gracejou. O rapaz sorriu. Achou Kitty espirituosa pra caralho. Nessa altura já estavam subindo a ladeira que depois desce em to- bogã até o campus da Federal. Kitty seguia as orientações do rapaz. Agora entra aí à esquerda, disse ele. Kitty ficou surpresa: Pô, essa vida é mesmo cheia de coincidências. Era a mesma rua da casa de Benjy e Bobby. Quantas vezes fizera esse trajeto na expectativa, nunca frustra- da, de grandes baratos. Lá no fim, disse o rapaz. Kitty foi até o fim da rua, que não tinha saída: um barranco de terra cor de abóbora inter- rompia-lhe o avanço. Eu moro aqui, Sérgio disse, apontando pra pe- núltima casa à direita. A última era a casa de Benjy e Bobby. Kitty ficou em transe, ali, revendo pela primeira vez aquela casa, de que guardava tantas lembranças alegres e felizes. Sérgio notou-lhe o transe:

 

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  — Foi aí que morreram aquelas bichas, — disse. É, eu sei, — Kitty
  — Foi aí que morreram aquelas bichas, — disse. É, eu sei, — Kitty
 

Foi aí que morreram aquelas bichas, — disse.

É, eu sei, — Kitty disse, sem tirar da casa os olhos azuis. — Eram muito meus amigos. Eu vinha aqui sempre.

Quer entrar? — Sérgio disse.

Entrar aonde? — Kitty perguntou, saindo do transe. — Na sua casa?

 

Na casa deles, — Sérgio disse. E, diante do olhar de espanto dela: — Eu tenho chave. Eu trabalhava pra eles. Limpava a piscina e fazia outros trabalhinhos. Cuidava do estúdio. Me pagavam em coca e crack, hihauiahiuahiuahui. A risada social de Sérgio era digna do Relinchador. Kitty não viu a graça.

Fui eu que achei os corpos, — Sérgio continuou. — Eu que

chamei a polícia. Vi tudo, tudinho. Quer dar uma olhada lá dentro? Com sorte ainda não limparam a casa. Deve ter suco de sangue nas paredes, farofa de cérebro, huahauhahhahah. Quer ir ver? Kitty não quer não. Explica que tem de ir à costureira levar um tecido pra fazer uma saia.

Loura, tu de saia deve ficar gatíssima, hein? — Sérgio disse. Kitty sugere que tirem a bike do porta-malas. Faz menção de abrir a porta.

Não, não, ainda não, — Sérgio disse, segurando-lhe o braço.

Me dá um tempo, loura. É importante. Tô decidindo aqui se te conto ou não um segredo. Que que tu acha? Devo contar?

— Você já me contou um segredo, — Kitty disse.

— Que eu sou o Relinchador? — Sérgio disse. — É, eu acho isso

legal, mas o outro segredo é muito mais

fodástico. Devo contar

ou não? Se tivesse um malmequer aqui eu tirava as pétalas pra sa- ber. Mas eu acho que devo, sim, porque tu me ajudou num momen-

 

to que eu mais precisava. Tu merece eu te contar esse segredo. Diz aí, loura, o que que tu acha?

Cara, eu não posso dizer nada, — Kitty disse, meio agastada.

Você é que sabe. E resolve logo que eu tenho de ir na costureira.

 

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  — Então eu vou te contar, — Sérgio disse. — Me diz, loura, tu
  — Então eu vou te contar, — Sérgio disse. — Me diz, loura, tu
 

Então eu vou te contar, — Sérgio disse. — Me diz, loura, tu

 

pensa que foi quem que matou as bichas?

 
 

Foram os meninos, — Kitty disse. Pressentiu que aí devia ter

 
 

merda, e já ficou apreensiva. — Quico e os outros dois. Mataram e fugiram. A polícia tá procurando eles lá em São Mateus.

 

Lá em São Mateus? — Sérgio disse. E riu de gargalhar: —

 

Hauiahuihauihauuauaiuahuauahuai! — E disse: — Mas não foram eles não, loura. A polícia não sabe de nada. Só eu é que sei quem foi que matou as bichas. Kitty começou a sentir o que raramente sente: medo: não tanto de que Sérgio fosse o assassino de Benjy e Bobby — não tinha dúvi- da de que os bofes é que fizeram o serviço — mas de que fosse doido

a

ponto de achar que era.

 
 

Quer saber quem foi, loura? — Sérgio disse. — Precisa cora-

 
 

gem pra querer saber, mas vale a pena. Quer saber? Hein? Quer saber?

 

Kitty teve medo da loucura ao seu lado. Teve medo de dizer não

 

Sérgio e ser estrangulada ali mesmo dentro do Cláudio só pelo erro de dizer não a Sérgio.

a

 

— Quero, — ela disse, em voz baixinha.

 

— Jura que não fala com ninguém, loura? — Sérgio disse. —

 
 

Nem com teu pai, com tua mãe, com teu avô, com tua avó, nem com

ninguém? Jura?

 
 

— Juro, — Kitty disse, com a mesma voz baixinha.

 

— Pois fui eu, loura, — Sérgio disse, com um sorriso triunfal. —

 

Fui eu mesmo. Eu, Sérgio, o Relinchador. Tava pensando que eu só faço é relinchar por aí? Hein? Que que tu me diz? A polícia toda procurando os bofes em São Mateus e quem matou tá bem aqui do lado. Que comédia, hein, loura? Que que tu me diz?

 

Sérgio, — Kitty disse, apavorada. — Você vai me matar

 

também?

 

Te matar? — Sérgio achou que Kitty estava louca. — Por quê? Tu não tá pensando em falar nada pra ninguém, tá?

 
 

Não, — Kitty disse.

 

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  — Porque é segredo, loura, — Sérgio disse. — Nosso segredo. E   segredo
  — Porque é segredo, loura, — Sérgio disse. — Nosso segredo. E   segredo
 

Porque é segredo, loura, — Sérgio disse. — Nosso segredo. E

 

segredo é pra guardar e não pra espalhar. Se espalhar, deixa de ser segredo. É igual a cabaço: se furar, deixa de ser cabaço.

 

— Eu vou guardar segredo, cara, — Kitty disse, com convicção.

— Tu é a única pessoa que sabe, — Sérgio disse. — Não contei

 

pra mais ninguém. Se alguém descobrir eu vou saber quem foi que

contou. E não vou gostar nada disso: se tem coisa que eu não gosto

traição. Viu, loura? Eu não sou traidor. Eu sou o Relinchador do pedaço. Eu sou o Matador de Bichas do pedaço. Tá sabendo?

é

 

Tô sabendo, cara, — Kitty disse.

 

Mas Sérgio não é desprovido de bons sentimentos. Notou o ter- ror nos olhos azuis de Kitty e fez por onde sossegá-la:

 
 

Mas pode ficar tranqüila, loura. Gostei de ti. Por isso é que eu

 

te contei meus dois segredos. E sei que tu não vai contar pra nin- guém. Tu não é de trair ninguém, que eu sei. Tu é gente boa. Me deu carona num momento difícil. Tu é dez, loura.

 

— Foi por isso que você matou eles?

 

— Por isso o quê?

— Porque eles fizeram alguma traição?

— Tu é foda, loura. Tu foi em cima. Aquelas bichas não presta-

 
 

vam não. Eram duas bichas traiçoeiras pra cacete. Traíram a minha

confiança e de mais muita gente mais. Por isso mereceram morrer. Vai ver que traíram até a tua confiança também, loura.

 

— A minha? Como assim? — Kitty estranhou.

 

— Tu não era amiga deles? — Kitty disse que era. — Tu não

 
 

vinha nos rocks aí na casa deles? — Kitty disse que vinha. — Loura, essas bichas traíram todo mundo que vinha aí. Eram duas cobras criadas, loura. Traíram todo mundo. Por isso é que se fuderam, por isso é que viraram cinza. Sérgio deu por encerrada a cena do confessionário. Abriu a por- ta e saiu do carro. Kitty desvencilhou-se do torpor como de uma teia de aranha e saiu também. Abriu o porta-malas. Sérgio retirou

a

bicicleta bipartida, que depositou na calçada.

 
 

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  — É Kitty o teu nome, né, loura? Então, Kitty, valeu a força. Eu
  — É Kitty o teu nome, né, loura? Então, Kitty, valeu a força. Eu
 

É Kitty o teu nome, né, loura? Então, Kitty, valeu a força. Eu

 

não esqueço esse tipo de coisa. Não sou ingrato não. Anota aí meu telefone. Kitty não ousava contrariar o doido. Tirou o celular, Sérgio

deu o número do dele, ela anotou direitinho e ainda repetiu os alga- rismos, pra demonstrar naturalidade. Aí ele foi e pediu o número dela. Kitty hesitou. Mas também não teve coragem de negar. Aí cantou os algarismos, só que os dois últimos, num impulso, ela in- verteu. O doidinho gravou no celular o número de Kitty 50 Paus.

 

Qualquer coisa, pode me ligar, — Sérgio disse. — O que eu

 

puder fazer por ti, loura, pode contar que eu faço. Se quiser crack, se quiser coca, se quiser que eu relincho pra você, se quiser que eu

mato alguém, é só me chamar que eu apareço rapidex.

Estendeu a mão, que Kitty apertou. Ela entrou no carro, girou a chave, foi até o fim da rua, fez a manobra, voltou. Sérgio pôs-se no meio da pista, com a mão levantada que nem guarda de trânsito. Ah, meu Deus, pensou Kitty. Que que foi agora. Ela parou o carro, ele veio até à janela e disse:

Diz aí, loura, Sérgio é ou não é putamerdalmente foda? Diz aí, loura.

 

— Tu é foda, Sérgio, — Kitty disse, tuteando o doido.

— Vai com Deus, loura, — Sérgio disse.

 
 

Afastou-se do carro e Kitty engatou a primeira e lá foi. Olhou pelo retrovisor: Sérgio estava acenando pra ela. Kitty pôs a mão do lado de fora da janela e acenou de volta.

 
 

***

 

Kitty ficou tão assombrada com toda aquela história que esque- ceu até de ir à costureira e voou direto pra casa. A cabeça estava cheia de tudo que ouvira da boca do doidinho. Chegada em casa, passou por Phil, que estava regando o jardim da frente, e subiu correndo pro quarto e ligou o computador e começou a ouvir o cd dos Queens of

 
 

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the Stone Age. A banda mais versátil do planeta bombou nas caixas de som: o anjinho e o diabinho. Kitty acendeu um cigarro e se atirou na cama. Não acreditava ou não queria acreditar na história de Sér- gio. Quico e os outros dois estavam fugidos. Quem não tem culpa não foge. Além disso, o duplo assassinato era obra de mais de um assassi- no. Não seria Sérgio sozinho quem daria conta daquela matança. Ou seria? Na verdade, Kitty não sabia se Benjy e Bobby tinham sido mor- tos ao mesmo tempo ou primeiro um, depois outro. Não parara pra pensar nisso. Mas, em separado, não seria difícil um só assassino matá- los; não seria difícil, portanto, um só Sérgio matá-los. Ainda assim recusava-se a acreditar na confissão que ouvira. O cara era doido. Talvez nem fosse o Relinchador. O que ele quis, pensou consigo mesma, foi se fazer de importante. Tinha de com- pensar de alguma forma o mico que pagara diante dela. Por isso revelou que era o Relinchador. Mas deve ter achado que foi pouco. Aí, vendo Kitty em transe diante da casa onde se dera o duplo assas- sinato, resolveu assumir o crime. Fazia sentido: era vizinho do ca- sal: trabalhava pra eles: achara os corpos. Kitty se arrependeu da boa ação que tinha feito. Bem que me disseram, lembrou ela, que o diabo não gosta de boas ações. Bem que me disseram que ele não demora de castigar quem faz uma boa ação. No meu caso, não deu outra. E o pior é que eu não posso contar nada a ninguém. Sabe lá se o cara não é o assassino mesmo? Se eu contar, eu tô fudida. Aí chegou à sacada. Phil ainda estava lá embaixo, no jardim, regando a grama. Passou pela cabeça de Kitty contar a ele o caso; Phil era advogado, tinha experiência de vida, saberia o que fazer. Mas só passou-lhe pela cabeça e mais nada. Preferiu guardar segre- do: parecia mais seguro. E esquecer aquela merda. Ao som dos Queens acabou adormecendo. Déia teve de vir chamá- la pra almoçar.

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***

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  No noticiário da tevê, Kitty viu dois blocos inteiros sobre o Victoria Fashion Week.
  No noticiário da tevê, Kitty viu dois blocos inteiros sobre o Victoria Fashion Week.
 

No noticiário da tevê, Kitty viu dois blocos inteiros sobre o Victoria Fashion Week. A reportagem entrevistou o casal de tops durante o café da manhã no Hotel da Ilha do Boi, com a bela paisa- gem da zona norte de Vitória desdobrada no fundo lá em baixo; filmou-os circulando pelo calçadão de Camburi; e, depois, toman- do um sorvete caseiro num bar tradicional de Jucutuquara — pra terminar no passeio triunfal pelo Shopping Vix. Kitty ficou saben- do que o traje usado pela moça, com sua capa preta de tule de seda, era de inspiração espanhola: evocava a mulher toureira de um filme de Pedro Almodóvar. Depois mostraram uma entrevista com a designer Elvira Caia- do. Elvira é a responsável pela coleção que vai ser apresentada por um grupo de adolescentes que foi literalmente tirado das ruas de

Mic e instruído na arte de desfilar. A entrevistadora era, de novo, a patricinha do Sacré Coeur.

Como foi esse lance de usar adolescentes de rua no Victoria Fashion, Elvira?

 

Nós quisemos mostrar que moda também pode ter uma fun-

 

ção social, — respondeu Elvira. — Que moda redime. Algumas

dessas adolescentes têm ficha criminal, têm passagem pela Febem. Duas das moças tiveram experiência na baixa prostituição. A patricinha fez cara e boca de consternada. A câmera mostrou, sentadas ao lado de Elvira, duas moças: duas das adolescentes redimidas pela moda: ambas abriram um sorriso quando se viram na tela.

 

Tivemos que trabalhar um ano inteiro, — Elvira continuou,

 

— pra colocá-las em condição de desfilar. Tivemos uma relação difícil esse tempo todo, não é, crianças? — As crianças sorriram. —

Só faltou a gente sair no tapa. Mas elas têm muita força de vontade, e muito talento também. O público vai verificar que valeu a pena.

 

Deixa eu conversar um pouquinho aqui com elas, — disse a

 

patricinha. E, dirigindo-se às meninas, perguntou-lhes os nomes. Elas se embaraçaram. Uma delas perguntou: De verdade ou de

 

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  mentirinha? Elvira respondeu: Seus nomes artísticos, meninas. Aí elas responderam: Adriana, uma; Fabrícia,
  mentirinha? Elvira respondeu: Seus nomes artísticos, meninas. Aí elas responderam: Adriana, uma; Fabrícia,
 

mentirinha? Elvira respondeu: Seus nomes artísticos, meninas. Aí elas responderam: Adriana, uma; Fabrícia, outra.

Vocês gostariam de desfilar em primeira mão pros nossos telespectadores? — disse a patricinha.

As duas hesitaram: aquela história de primeira mão confundiu- as um pouco.

 

Vamos desfilar, meninas, — Elvira instigou-as.

 

As adolescentes ergueram-se e Kitty viu-as desfilar pelo estúdio meio desengonçadas. A patricinha elogiou. Elvira disse:

 

Ainda falta a tarimba das profissionais, é claro, mas elas têm

 

um charme rústico que eu tenho certeza que vai encantar o público. Têm um drama, uma nostalgia da sarjeta, que eu acho comovente. É

a lenda de My Fair Lady que a gente vai estar trazendo pra passarela.

 

É isso mesmo, Elvira, — exclamou a patricinha. — A lenda

 

de My Fair Lady vai desfilar no Victoria Fashion Week. É com você,

Breno. A reportagem fez Kitty esquecer um pouco o lance da confissão de

Sérgio. Ligou pra Breno, o namorado. A ligação caiu na caixa postal. Kitty deixou mensagem. Três minutos depois Breno ligou de volta. Kitty foi pra varanda de trás em busca de intimidade. Sentada na rede, cobrou de Breno quando é que eles iam no Fashion Week:

 

— Quando é que a gente vai no Fashion Week?

 

— Amanhã na abertura não vai dar não, — Breno disse. — Tô

 
 

indo pra Sampa hoje à noite, só volto sexta. A gente vai sexta ou sába- do. Mais provável sábado. Vai por mim, é o melhor dia. Tá bem assim, amor? Era só isso? Então deixa eu ir que eu tô indo almoçar. Te amo.

 

Também, — Kitty disse.

 

Rosa trouxe um prato de cana cortada em pedaços. Kitty aco- modou-se na rede e, desligando o pensamento, dedicou-se à tarefa de chupar toda aquela cana. A cana estava docinha que era maravi- lha. Kitty metia cada pedaço entre os dentes fortes, mascava, mas- cava, mascava, até deixar só o bagaço. O bagaço jogava na lixeira que Rosa pusera ao alcance dela.

 
 

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  Foi interrompida pelo celular tocando.   Kitty? — disse uma voz masculina. — É
  Foi interrompida pelo celular tocando.   Kitty? — disse uma voz masculina. — É
 

Foi interrompida pelo celular tocando.

 

Kitty? — disse uma voz masculina. — É Kitty que está falan- do? — Parecia a voz do filho da puta da véspera.

 

Tá querendo falar com puta, não é aqui não, — Kitty foi logo dizendo.

— Hã? — disse a voz.

 

— Quem tá falando? — Kitty perguntou.

 

— É Bruno, Kitty.

 

Foi mal, Bruno. É que confundem meu telefone com o de uma garota de programa. Isso enche meu saco.

 

Eu sei.

Explicado o equívoco, Kitty se inteiriçou. Não podia dar mole

 

com aquele carinha. Devia isso a Lu e a si própria.

 

— Tá ligando pra mim pra quê?

— Kitty, não estranha não, mas eu preciso conversar com você.

 

— Conversar o quê, cara? Nós temos alguma coisa pra conversar?

— É sobre Lu.

 

— Sobre Lu ? — Kitty saltou fora da rede. — Quer conversar

 

sobre Lu, procura Lu, cara. Isso não me diz respeito não. Isso é entre você e ela.

Você já deve saber o que houve entre a gente.

 

Kitty ficou andando de um lado pra outro com o cell no ouvido:

 

Lu me contou. Você deu um chute nela, sem nenhuma expli-

cação. Qual é, cara? Não tem nada mais cruel que deixar que al-

guém se apaixone por você se você não tá a fim. Isso não se faz.

Eu queria explicar pra você por que que eu eu tive de fazer

isso. Kitty estacou pra responder:

 

Pra mim? Cara, você deixa a figura arrasada e quer explicar

 

pra mim? Vai explicar pra ela. Ela tá precisando de uma explicação mesmo.

— Acho que não é pra ela que eu devo explicar não.

— Então, meu caro, vai te catar. Porque eu tô fora dessa história.

 

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  Kitty desligou e suspirou fundo. Sentiu-se bem. Sentiu-se justa e forte. Sentiu-se de novo
  Kitty desligou e suspirou fundo. Sentiu-se bem. Sentiu-se justa e forte. Sentiu-se de novo
 

Kitty desligou e suspirou fundo. Sentiu-se bem. Sentiu-se justa e forte. Sentiu-se de novo amiga da amiga. Aquele cara tá pensando o quê? Deixa Lu na merda e vem se fazer de bom moço pra cima de mim? Vai tomar no cu. Ficou tão satisfeita consigo mesma que tor- ceu pro celular tocar de novo. Queria dizer mais desaforo ao carinha. E de fato tocou. Mas era Sérgio.

***

Puta que pariu. O doidinho da bicicleta. Kitty esfriou toda por dentro.

 

Ei, loura. Mó comédia. O número que tu me deu é do celular

de uma puta que também se chama Kitty.

 

Fala sério. — Kitty teve de fingir que não sabia de nada. — É

 

que eu tava meio que confusa, me desculpa. E como é que você con-

seguiu o número certo?

 

A puta me deu. Ela já te conhece. Às vezes ligam pra ela te

 

procurando. Mó comédia, hein? Mas no início eu passei até um susto. Pô, loura, pensei que tu fosse garota de programa.

— Sou não, Sérgio. Que é isso.

 

— Eu sei, bobagem minha. Tu é uma deusa. É minha deusa.

 

Minha poderosa Afrodite. Viu o filme?

 

— Vi não. Com quem?

 

— Com aquela gostosa da Mira Sorvino. Ela faz papel de puta

 

no filme. Ela teve um filho e doou e aí chega uma hora que o cara que adotou o menino quer conhecer a mãe verdadeira e aí fica co- nhecendo Mira Sorvino. Mó enrolo. Viu esse filme não?

Vi não.

Dia que quiser ver, é só ligar pra mim, loura. A gente podia ver junto.

 

Olha, Sérgio, as aulas da faculdade vão começar semana que vem, eu vou tá muito ocupada. É foda: prova toda semana, monografia, o cacete a quatro.

 

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  — Você faz que curso, loura?   — Comunicação.   — Legal, loura. Huahuahuauh.
  — Você faz que curso, loura?   — Comunicação.   — Legal, loura. Huahuahuauh.
 

— Você faz que curso, loura?

 

— Comunicação.

 

— Legal, loura. Huahuahuauh. Viu aquele filme, Legalmente

 

loura, com aquela, como é mesmo o nome dela? Drew Barrymore?

Acho que foi com Reese Witherspoon. — Kitty pronuncia

Waizerpum.

 

Foi com Reese? É, acho que tu tem razão. Eu confundo as

 

duas até na punheta. Penso numa e é a outra. E tu viu Legalmente loura 2 também?

Vi.

Eu também vi, e adorei. Mó barato ela defendendo os ca- chorrinhos.

 

— Também gostei, Sérgio.

 

— Me diz, loura, tu contou pra alguém?

 

Kitty levou só um segundo pra entender a que que Sérgio estava

 

se referindo; teve um sobressalto, mas a voz saiu bela e grave, e firme:

Claro que não, cara. Pode confiar em mim.

 

Eu sei, — ele disse. E desligou. Kitty apertou o celular entre os dedos como se quisesse esmagá-lo. Puta merda, pensou, esse cara não vai mais largar do meu pé não? Só faltava a merda de um louco perigoso na minha vida.

 

***

Telefone de Kitty tinha dia que era assim: não dava sossego. Prizinha ligou dez minutos depois.

 

Kitty, você é foda, hein? Como é que você esnoba um gatão daqueles? Me ensina, quero aprender.

Pri, não vem zoar comigo não, por favor. Não tô muito bem das pernas.

— Então me diz, aonde que você conheceu aquele carinha?

— No cemitério.

 
 

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  Qual é, vou dar pra freqüentar enterro então. O cara é uma graça, Kitty.
  Qual é, vou dar pra freqüentar enterro então. O cara é uma graça, Kitty.
 

Qual é, vou dar pra freqüentar enterro então. O cara é uma graça, Kitty.

— E aquela mancha negra na cara, hein?

 

— Achei um charme. O cara parece um pirata mas é muito dez.

 

Me convidou se eu queria tomar alguma coisa com ele, aí me levou a uma chocolateria e me comprou um bauzinho de doces. Kitty, o bauzinho é um mimo, e tudo gostoso pacas. Tem dois pães-de-mel,

duas coisas lá que eu nem sei pronunciar o nome, e umas balinhas do cacete de deliciosas. Me esbaldei. Depois sentamos pra conversar um pouquinho e ele me fez uma porção de pergunta sobre você.

— E você respondeu, Pri?

 

— Não era pra responder não? Mas eu fui bem discreta, Kitty.

 

— Que que ele perguntou?

 

Onde você estuda, onde malha, se você trampa, se tem namo- rado, e até o dia do teu aniversário.

 

— Pri, você deu a minha ficha toda pra esse cara?

— Ué, tá tudo no teu blog. E dei também o teu e-mail.

Puta que pariu, Pri, esse cara sacaneou com Lu. Sabe lá pra quê ele tá querendo a minha ficha?

Acho que ele tá a fim de você.

Se for isso, ele vai ver que comigo o buraco é mais embaixo. Quero lá saber de paquerar ninguém de mancha negra na cara!

 

— Ah, Kitty, ele é mó educado.

 

— Foi isso que Lu pensou também.

***

Kitty desligou puta. Uma coisa era Sérgio encher o saco dela

 

com doideira. Outra coisa era esse cafajeste ficar fazendo perguntas sobre a vida dela. Viu na memória do celular o número do cara e ligou pra ele.

Kitty? — o carinha disse. E bota agradavelmente surpreso

nisso.

 

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  — Olha aqui, cara, — Kitty disse, cortando o barato dele. — Eu  
  — Olha aqui, cara, — Kitty disse, cortando o barato dele. — Eu  
 

Olha aqui, cara, — Kitty disse, cortando o barato dele. — Eu

 

soube que você tá aí se metendo na minha vida. Vamos parar com isso, tá? Não sei pra que que você tá fazendo isso, mas já me encheu o saco. Primeiro a história de Lu, agora isso. Qual é a tua, cara?

 

Deixa eu explicar, Kitty.

 

Não tem que explicar porra nenhuma. Só tem que me deixar em paz.

 
 

***

 

De noite Kitty foi à academia: foi com aquela malha que tem uma redinha cingindo a coxa pouco acima do joelho: mó sexy. Fez vinte minutos de aquecimento na esteira e depois passou à musculação com Sammy. De volta em casa, deu uma de irmã mais velha e ajudou Déia a se

 

produzir pra uma festa de aniversário. Foi até o quarto da irmã e se tocou que havia séculos que não entrava ali. Havia algo de novo entre os pôsteres presos à parede: a imagem de uma jovem boca feminina: a língua, exposta pra fora, cruamente perfurada pela agu- lha de uma seringa hipodérmica. Tudo no pôster era branco e ver- melho: a nesga de pele do rosto que se via ao redor do foco de vio- lência era alva e gelada como neve, os dois dentinhos incisivos também, e os lábios, anêmicos e mortiços. O sangue contrastava com toda aquela palidez mortuária: de um vermelho pisado na se- ringa e de um vívido vermelho sobre a língua e na baba que sangra- va pelo lábio inferior pra formar no queixo o que pareceu a Kitty a rubra sombra de uma chupeta.

 

Gostou? — perguntou Déia.

A última coisa que Kitty queria era mostrar um moralismo careta:

 

— Meio forte, mas do caralho.

 

— Sabe, Kitty, uma imagem dessas pode ser um pouco chocante

 
 

pra algumas pessoas, mas sinceramente já não me impressiono mais com essas coisas.

 

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  — Mummy viu? — Quase vomitou toda a vodka que bebeu na semana, —
  — Mummy viu? — Quase vomitou toda a vodka que bebeu na semana, —
 

— Mummy viu?

— Quase vomitou toda a vodka que bebeu na semana, — Déia

 
 

disse. — Queria que eu tirasse, mas tiro não. Esse espaço é meu; aqui quem manda sou eu e mais ninguém. Depois Kitty dedicou-se à tarefa que lhe cabia. Vistoriou o guar- da-roupa de Déia até achar certas peças que lhe pareceram condi- zentes com o tipo de festa e com a idade de Déia. Assessorada por Kitty, Déia vestiu uma saia azul-marinho plissada de cintura baixa que lhe batia no joelho, uma blusa branca de linho de manga com- prida, e um suéter de lã branco e rosa. Nos pés, meias soquetes beges e tênis de camurça mostarda e rosa. Ficou rox. Daí Kitty levou-a ao seu próprio quarto pra ser penteada e maquiada. Especialidade de Kitty é pentear-se e maquiar-se a si própria, mas o resultado satisfez até a própria Déia. Como toque final, Kitty meteu-lhe nas mãos duas luvas de lã de um roxo claro. Nem esqueceu de tirar, com seu cell, algumas fotos da nova beldade do pedaço, que Déia achou ótimas. Deu em Kitty um abraço que Kitty recebeu meio troncha e desceu pra sala pra se mostrar a Mummy e a Phil.

 

***

Kitty percebeu a ironia da coisa: a irmã tinha programa pra

 
 

noite e ela não. Aí disse pra seu próprio retrato a crayon desenhado por artista de rua: Sabe de uma coisa, nega? Vou comer uma empa- da lá em Jardim da Penha. Estava saindo no Cláudio quando o celular tocou. Era Nênis.

 

— Queria só conversar um pouquinho, se você não tiver ocupada.

— Tô saindo pra rangar ali na Empadaria. Sabe onde? Me en-

 

contra lá. Tinha algum tempo que Kitty não dava um chego ali: achou o lugar um pouco decadente. Tudo em Mic é modismo mesmo. Hoje tá cheio, é o point; amanhã, nem mosca prestigia. Kitty escolheu uma mesa interna, por causa da friagem, e logo depois chegou Nênis.

 

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  Estava escabriado de felicidade. Pediram empadas de bacalhau e de palmito, e uma cerva
  Estava escabriado de felicidade. Pediram empadas de bacalhau e de palmito, e uma cerva
 

Estava escabriado de felicidade. Pediram empadas de bacalhau e de palmito, e uma cerva pra acompanhar. Então Kitty disse:

 

E aí, cara?

Nênis foi logo dizendo que não parou mais de pensar nela desde

 
 

o

encontro na fila da boate. Falou umas coisas e outras e depois

evocou em detalhe os lances de um ano atrás, quando se declarou a Kitty na faculdade e depois na rádio comunitária. Kitty deixou-o falar. Normalmente não tem tanta paciência com ninguém, mas com Nênis segue o ditame do pequeno príncipe e acha que tem res- ponsabilidade com ele: pessoa a quem, ainda que sem querer, sedu- ziu. Por isso ouviu-lhe o papo mas em silêncio, até que ele se tocou que estava tipo falando no deserto. Aí calou-se e olhou pra ela à

espera de uma palavra, qualquer que fosse, que, qualquer que fosse, não veio. Aí ele disse, em sua defesa:

 

— Eu tava muito apaixonado, Kitty. E, se bobear, eu tô ainda.

— Mas você tá legal? — Kitty puxou o menino pra longe daque-

 

le

assunto.

Tô na área, tô seguindo a minha vida. Semana que vem eu volto pra academia e pra informática.

 
 

Que bom, Nênis, — Kitty disse, com a boca cheia de empada.

 

É, — Nênis disse. — Vou ocupar um pouco a minha mente, pelo menos eu paro um pouco de pensar na vida.

 

Come uma empada, Nênis. Senão eu é que vou ter de comer

 

tudo Nênis levou uma empada à boca e deu uma mordida.

 
 

— O mundo é mesmo muito complicado, né, Kitty? — Nênis disse.

 

— Pode ser, mas dá pra levar.

 

— Olha, Kitty, é foda admitir isso, mas tô começando a não

 
 

gostar de mim mesmo, meu perfil não se enquadra muito bem no

mundo de hoje em dia, as pessoas fazem muita onda com gente como

eu

E vou te dizer, tô vendo uns defeitos em mim que me deixam

puto, principalmente não ter nem um pingo de amor próprio

Não

viu lá na fila da boate? Aquela tua amiga me destratou à toa, à toa,

 
 

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  e eu não fui capaz de mandar ela tomar no cu. Isso me enoja
  e eu não fui capaz de mandar ela tomar no cu. Isso me enoja
 

e

eu não fui capaz de mandar ela tomar no cu. Isso me enoja em

mim, Kitty. Tem hora que dá vontade de pegar a vida e fazer uma brincadeirinha de roleta russa pra ver o que que rola.

 

Não vai fazer besteira não, Nênis, — Kitty disse, meio que

 

pra constar.

 
 

Você acha que é besteira, Kitty? Mas, se eu fizer, será que você

 
 

vai ao meu enterro, hein? Porque o que é foda não é a morte, o que

é

foda é ninguém dar a mínima se você morrer.

 
 

— Nênis, não me faça ir a enterro não, cara. Odeio cemitério.

 

— Eu também. Mas tô sentindo o tempo todo um trauma do

 

passado, um ódio do presente e um medo muito grande do futuro, sabe, Kitty? Um futuro que são páginas em branco, que está muito

incerto, que anda me desanimando a cada dia que passa

Nunca

fui de sentir medo de nada que não fosse a velhice, mas tenho que admitir, tenho muito medo de fazer uma besteira nos dias de ama- nhã e acabar pondo um fim nisso tudo

 
 

Nênis, escuta aqui, cara. Se você fizer uma besteira, eu vou

 

ficar muito decepcionada com você. Se tiver vontade de fazer uma

besteira, liga pra mim pra gente conversar, tá? Não vai fazer bestei- ra sem ligar primeiro pra mim, tá bom?

 

— Eu tô achando que a vida não vale nada, Kitty.

 

— A vida é um bem muito precioso. A gente tem por obrigação

 
 

fazer tudo pra nossa vida ser maravilhosa. Se você fizer uma bestei- ra, eu vou ficar puta com você. Nênis virou o copo e ficou olhando pra Kitty.

 

— Essa empada já foi melhor, — disse ela.

 

— Kitty, — Nênis disse. — Eu tava com uma saudade da porra

 
 

de você. Porque não tem jeito, eu gosto de você pra porra.

 
 

Assunto proibido, Nênis, — alertou Kitty, com sua bela voz

 
 

grave. Nênis pousou a mão sobre a mão de Kitty. Kitty deixou. Nênis começou a acariciar-lhe a mão devagarinho. Kitty deixou. E não só:

pois sua outra mão foi e pousou sobre a mão dele, que ficou que

 

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  nem hambúrguer entre duas fatias de pão. Kitty acariciou-lhe a mão durante um tempinho.
  nem hambúrguer entre duas fatias de pão. Kitty acariciou-lhe a mão durante um tempinho.
 

nem hambúrguer entre duas fatias de pão. Kitty acariciou-lhe a mão durante um tempinho. Nênis baixou a cabeça e se entregou ao momento mais feliz de sua vida. Kitty teve o pressentimento de que

talvez esse cara fosse o cara ideal pra ela. Mas logo chamou-se às falas: Não dá mole não, que pena e romantismo são duas das piores pragas de qualquer relação. Nênis não estava nem estudando nem trampando. Era um fudido: ele mesmo era o primeiro a reconhecer isso. Era como Lu: sério candidato ao troféu de loser do ano. Kitty retirou as mãos. Nênis sentiu que se acabara pra sempre o momento mais feliz de sua vida. Fez cara de quem não tinha mais razão pra viver.

 

Qual é, Nênis? Isso aqui não leva a lugar nenhum não. Você é um

 

carinha muito rox, mas não é a tampa da minha panela não, entendeu? Os olhos de Nênis ameaçaram marejar. Kitty bateu pesado:

 

Olha aqui, seu viado. Se chorar uma lágrima que seja eu me

 

levanto daqui e vou-me embora.

 
 

Deixa eu ir no banheiro, — Nênis disse. Levantou e se foi.

 
 

Kitty pensou: Sabe o que mais? Se eu ficar aqui mais um minuto eu vou acabar me fudendo.

Levantou, pagou a conta e saiu. Mas, na hora em que passou com o Cláudio em frente ao bar, Nênis já estava lá, à porta, de pé, olhando pra ela com aquela cara de cachorro pidão. Puta que pa- riu, resmungou Kitty. Mas não teve coragem de abandonar o náu- frago à própria sorte. Parou o carro e fez sinal pra Nênis vir.

 

Só vou te deixar em casa, — Kitty disse, depois que Nênis entrou.

 

Nênis acenou com a cabeça. Kitty ligou o rádio e dirigiu em silêncio. Nênis morava na parte mais labiríntica de Jardim da Pe- nha. No caminho, Kitty sentiu uma vontade danada de jogar toda a prudência pro alto e parar em alguma rua tranqüila e ficar beijan- do aquele menino na boca até cansar. Tinha tempo que não fazia nem isso: estava cheia de tesão acumulado, e aquela passação de mão lá no boteco deixara-lhe a libido em fogo. Mas conteve-se:

melhor deixar pra botar tudo pra fora depois a sós em casa.

 

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O trajeto, repita-se, foi todo feito em silêncio. Chegaram em frente ao edifício de Nênis, o rádio estava tocando uma velha can- ção dos Beatles: “Hello, Goodbye”. Aquela que é de Lennon sem McCartney, e que diz coisas assim: “You say goodbye and I say hello. Hello, hello, I don’t know why you say goodbye I say hello.” Kitty parou o Cláudio e não desligou o motor. Nênis ficou imóvel, espe- rando a música terminar. Quando terminou, ele abriu a porta e olhou pra Kitty. — Te cuida, cara, — Kitty disse. Nênis disse: — Me promete uma coisa? Me promete que me tele- fona o dia que você sonhar comigo? Mas não esperou que Kitty prometesse nada. Fechou a porta do Cláudio e se mandou.

***

De volta a casa Kitty abriu seu diário secreto e registrou os acon- tecimentos do dia: o encontro com Sérgio, o Relinchador; o telefo- nema de Bruno, o Mancha Negra; a conversa na Empadaria com Nênis, o carinha da Católica. Depois concluiu:

Pqp, desde sábado q só tem merda em volta de mim. A última semana de férias tá me saindo um cu. Primeiro Lu, depois o doidinho da Cebola, depois o Mancha Negra, depois o candidato a suicida. Kra, qm sou eu? Pára-raio dos problemas dos outros? Naum eh assim q eu espero curtir mha última semana de férias. Mha espe- rança é o Fashion. E estou sentindo q Breno ainda vai negar fogo e eu naum vou v nem o cheiro do Fashion. C/ amiga eu naum vou. Nem c/ amigo viado. Ou eu vou c/ Breno ou naum quero ir. Num evento desses, onde é q fica a mha imagem?

Depois resolveu espairecer navegando um pouco pela Internet. Tateando a esmo, entrou no blog de uma professora secundária. O

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  que a interessou ali foram as diretrizes básicas da campanha “Na- more uma mãe
  que a interessou ali foram as diretrizes básicas da campanha “Na- more uma mãe
 

que a interessou ali foram as diretrizes básicas da campanha “Na- more uma mãe solteira”:

1) Nós não temos pressa de casar, porque já temos filho; 2) Nós não temos pressa de ter filho, porque já temos filho; 3) Nós não temos tempo de grudar no seu pé, porque já temos filho; 4) Se você quiser ter filho, tudo bem, porque já temos filho; 5) Se você não quiser ter filho, tudo bem também, porque já temos filho.

Kitty achou aquilo muito engraçado. Pensou logo em Lu. Era o tipo de texto que imprimiria pra ela em dias normais. Mas aqueles não eram dias normais. E, pensando bem, nem todas aquelas dire-

trizes se aplicavam a Lu. Ela tem pressa de casar, ela tem pressa de ter filho, ela tem tempo de grudar no pé. Não, Kitty pensou: não é esse o tipo de mãe solteira que Lu é. Continuou a viagem. Entrou no blog — Lovely Gina — de uma paulista pouco mais velha que ela. Agradou-lhe em Gina ser revol- tada e irreverente: a começar pela frase com que se anuncia: Sou como sou e quem não gosta foda-se. Agradou-lhe também a lista do que Gina ama e odeia. Gina ama namorar, ficar, fazer amigos, car- ros turbinados, my computer, my blog, bebidas destiladas, Internet, msn, mandar torpedos pelo celular, comer pavê de chocolate com

sorvete ouvindo os Scorpions

Odeia mau-humor, Internet lenta,

que sempre cai, gente sem noção, engarrafamento, chocolate bran- co, ex-namorado que é só a ex ficar bem pra chegar e atrapalhar tudo, gente que me queima pelas costas, provincianismo, tomar chuva, acordar cedo (mas dormir tarde tudo bem). Logo abaixo da geral declaração de amor e ódio Gina armou um painel de ícones pra mostrar tudo aquilo de que era fã na Internet — tendência normal nos blogs de agora. No caso de Gina, eram ícones de mais de sessenta sites de tudo quanto é tipo. Kitty passeou pelo painel o cursor, que fazia pipocar legendas em inglês. O primeiro

 
 

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  ícone mostrava uma menina negra abraçada ao que parecia a som- bra de uma
  ícone mostrava uma menina negra abraçada ao que parecia a som- bra de uma
 

ícone mostrava uma menina negra abraçada ao que parecia a som- bra de uma mulher gorda ou grávida; a legenda era: “Fã de Ma- mãe”. O segundo era uma confissão de fé sexual: “Sou feminista mas não sou lésbica”. Os ícones eróticos predominavam. Aqui o de sexo oral, ali, o de pênis — um pau duro heraldicamente sobreposto a um rubro coração —, ao lado, o de sexo de porre, mais abaixo os de sexo tântrico e de homens italianos. Aqui o de sexo no carro, ali, o de pedofilia, mais abaixo a dobradinha mente suja e boca suja. Al- guns dos ícones eróticos remetiam especificamente a posições de trepar. Eram bem poucas, se se levarem em conta as dezenas de variedades sugeridas por um manual milenar como o Kama Sutra:

só quatro. Em duas delas o casal trepa de pé: numa, homem e mu- lher cara a cara; na outra, o homem ataca por trás. Nas outras duas, trepa deitado: a posição missionária — que Kitty conhece em por- tuguês como “papai e mamãe” — e seu avesso, mulher por cima. Este ícone mostra uma mulher montada em cima de um homem e está situado, no painel, logo à direita da imagem do Cristo Reden- tor, porque Lovely Gina também é fã do Rio de Janeiro. Vê-se que Gina é polivalente pra cacete em seus objetos de inte- resse. Kitty viu que ali havia ícones de filmes como Spider-Man, Fahrenheit 9/11, e Kill Bill. Diz-me os filmes que curtes e te direi quem és, Kitty pensou. E pensou: Gina era mesmo parecida com ela:

menina o bastante pra se encantar com a fantasia dos quadrinhos, adulta o bastante pra se amarrar na violência como arte de Quentin Tarantino, politizada pra se revoltar com a agressão terrorista a Nova York. E havia ali também ícones de séries de tevê: Friends e Charmed, por exemplo; de atores de cinema, como Ben Stiller, de quem Kitty não gosta muito, e Tobey Maguire; e de algumas bandas como The Corrs, Limp Bizkit e Lasgo. Esses ícones correspondem a clubes virtuais. É só clicar em cima dos ícones que você vai dar no site de cada um desses clubes. Kitty voltou a sentir o tesãozinho que sentira no carro com Nênis. Abro ou não abro? Temeu uma enxurrada de vírus. Por outro lado, confiou

 

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  em Gina: ela não faria uma sacanagem dessas no próprio blog em que, por
  em Gina: ela não faria uma sacanagem dessas no próprio blog em que, por
 

em Gina: ela não faria uma sacanagem dessas no próprio blog em que, por assim dizer, reside. Mas resolveu fazer hora com o tesão:

entrou primeiro nos sites mais anódinos. No site I Love Sushi foi recebida pela figura de um ursinho de boa cepa comendo sushi com pauzinhos. No Southpaw encontrou produtos pra gente canhota, que não é o seu caso, mas deve ser o de Gina. Num terceiro achou-se entre fãs da canção “Ex-girlfriend”, da banda No Doubt. Uma das exigências pra se tornar sócia era ter sido detonada pelo namo. Ela não era elegível: ela que detona todos os seus namorados e paqueras. Já Lu talvez pudesse ser a presidente do clube, pela rapidez com que fora chutada pro alto por Bruno. Kitty continuou o passeio. O Paris Hilton Hatelisting é um clube formado por duzentas e uma pessoas que têm ódio oficial à célebre herdeira da cadeia de hotéis Hilton. A mensagem de abertura diz:

Bem-vindo à lista de ódio contra a “modelo/atriz/prostituta” Paris Hilton. Não sabe o que é uma lista de ódio? É um site que reúne todas as pessoas que odeiam uma determinada coisa, e neste caso o ódio é dirigido a Paris Hilton. Estamos de saco cheio de sermos obrigadas a ver nos noticiários com quem ela dormiu durante a semana. Ela pre- cisa controlar o cão, o celular e talvez o cérebro também.

 

O site Evolution reúne fãs de homens metrossexuais e tem trinta

 

e

seis membros em catorze países. O que será que fez Kitty entrar

nesse site? Metrossexual ela sabe que é o homem que vive com classe:

é

jovem, bem educado, heterossexual, metropolitano, ganha muito

dinheiro e infringe códigos masculinos, cuidando de sua aparência

e

lidando muito bem com as mulheres. Mesmo assim algo levou-a a

entrar no site. Na página de abertura havia uma bela foto de Brad Pitt, mas o texto de apresentação, assinado pela presidente do clu- be, não lhe trouxe novidade alguma. Kitty sabe que até em Mic, esse cu de mundo, há homens metrossexuais. Ela mesma já andou ficando com uns, namorando

 

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com outros. Guto não, é claro: Guto era o exato oposto do metrossexual. Seus atributos eram os músculos, sobretudo o do pau. Faltavam-lhe classe, dinheiro e tudo mais. Mas Júnior, Barney, Tom, se encaixavam no perfil. O próprio Breno, quando ela o conheceu, impressionou-a pelas gritantes características metrossexuais que viu nele. Depois, quando caiu em si que Breno era bissexual, foi obriga- da a cassar-lhe o título — a menos que houvesse, e quem sabe se não há, neste mundo todo departamentalizado, uma categoria de metrobissexuais. E o misterioso Bruno? — lembrou-se ela. Esse tem chance, admitiu. Depois, num ímpeto, Kitty clicou num dos ícones eróticos: o de sexo oral. Saibam quantos lerem esta fábula de amor que Kitty — não é, gata? — tem uma quedinha por sexo oral. Não é de surpreen- der, se se considerar que chupou muito pau quando mais nova, antes de se decidir a dar aquela buceta. Mas a galeria do clube oral não tinha nada demais, até porque não há nada de novo sob o céu, e muito menos no que diz respeito a sexo oral. Kitty ficou excitadinha, mas nada impressionada: já vira tudo aquilo mais de mil vezes na Internet e em filminho pornô com as amigas: moça chupando rapaz, rapaz chupando moça — e o previsível caralho esguichando em caras e bocas de moça. Que é uma das coisas entre homem e mulher em que não há vice-versa: nem as papisas do feminismo, tipo Betty Friedan e Gloria Steinem, conseguiram dar um jeito nisso. Porque, tirando Deb, que tem o raro dom de verter uma estranha baba que lhe vaza vagina abaixo quando goza, não há registro de mulher capaz desse feito, masculino por natureza, que é esporrar. Kitty pusera os fones de ouvido porque era tarde: estava ouvin- do System of a Down: “Question!”. De repente, uma mão pousou- lhe sobre o ombro. Voltou-se, brusca. Era Phil. A tela mostrava uma moça deitada de costas numa cama; em pé, ao seu lado, um cara de pau na mão acabara de gozar-lhe em plena boca; via-se o sumo leitoso na língua dela, e escorrendo-lhe pelo queixo. Kitty arrancou dos ouvidos os fones de ouvido.

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  — Não se bate mais na porta nesta casa não? — sibilou, furiosa.  
  — Não se bate mais na porta nesta casa não? — sibilou, furiosa.  
 

Não se bate mais na porta nesta casa não? — sibilou, furiosa.

 

Eu bati, — Phil disse. E, apontando pra tela: — Será que Hello Kitty aprovaria você ver essas coisas?

 

— E que que você quer, caralho?

— Também não ia aprovar você falar palavrão. Mas só vim ver

 

se

você não dormiu de cigarro aceso. Senti cheiro de fumaça.

Qual é, Phil. Você veio é bisbilhotar. Tá satisfeito? E não me venha dar sermão, que você não é meu pai nem minha mãe.

 

— E boa noite, eu posso dar?

— Vai dar boa noite a seu cu, — Kitty rosnou.

 

— Mesmo assim, boa noite, Kitty.

 

Phil foi saindo. Kitty seguiu-o até à porta e trancou a porta à chave. Depois voltou ao posto diante do computador e ficou ali,

puta, olhando aquele caralho em riste e aquela boca cheia de porra.

A

chegada de Phil tirou-lhe todo o tesão. Com um clique do mouse,

fechou a janela; mais um clique e estava de volta ao blog de Gina. Uma mensagem atraiu-lhe o olhar. Kitty leu:

 

Que tristeza, que raiva

Que vontade de sair pra dançar muito

 

e beber todas!!!! Pra espairecer

Pq tá mt fodaaaaaaaa!

 

Kitty sentiu-se tocada, quase comovida. Aquela mensagem podia

 
 

ter sido escrita por ela. Aí foi fechando janela após janela. Já ia desli- gar o computador, mas num impulso clicou em cancelar. Esquecera de ver a caixa de correio. Entrou no Outlook. Kitty tem dois endere- ços em diferentes servidores: o mais antigo é kittydoida@vix.com.br;

o

mais recente, kittyleme@chanaan.com.br, é pros assuntos mais sé-

rios. Neste não tinha quase nada. No outro, o lixo de sempre: venda de Viagra, está chovendo homem, como cancelar multa de trânsito, como aumentar seu pênis, aprenda marcenaria, além das mensagens obviamente viróticas, que ela reconhece pela presença de um [re] no assunto. Abriu duas três mensagens de amigas que estavam no Rio ou em São Paulo passando as férias. O de sempre: se divertindo muito,

 

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  com muitas saudades. Nesse momento pingou uma mensagem na caixa de entrada de kittydoida,
  com muitas saudades. Nesse momento pingou uma mensagem na caixa de entrada de kittydoida,
 

com muitas saudades. Nesse momento pingou uma mensagem na

caixa de entrada de kittydoida, caída desse espaço sideral eletrônico aparentemente feito de nada, feito de coisa sem coisa, feito de porra nenhuma, que é a Internet. O remetente era bmhodiak@humpf.com.

O

assunto dizia: 5 minutos. O teor era o seguinte:

Kitty. Prizinha, amor de pessoa, me deu seu endereço. PRECISO con- versar com você. Me dá uma chance de falar com você 5 minutos. Depois que me ouvir, você pode fazer o que quiser. Eu já podia adiantar aqui sobre o que eu quero falar, pra você entender minha insistência, mas não é assim que eu acho que deve ser. Porque é coisa muito intrapessoal. Tem de ser olho no olho: o meu no teu e o teu no meu. Bruno.

 

Kitty leu e releu a mensagem várias vezes. Até quis se convencer que o gato queria falar com ela alguma coisa grave sobre Lu. Podia ter notado em Lu alguma doença terminal que não pode ser revela- da à doente, só a um parente ou a uma pessoa amiga; ou algum sinal de neurose brava. Depois descartou aquilo: a única doença termi-

nal de Lu é o herpes: a única neurose, o fracasso. Não era sobre Lu que o gato precisava falar com ela. Tudo parecia indicar que Pri tinha razão: o gato tá a fim de mim. Deixa o filho da puta comigo.

mandou pra bmhodiak@humpf.com esta mensagem:

Amanhã, se fizer sol, estarei na praia do Norte, na ilha do Boi, tipo dez e meia.

Fez questão de omitir ambos os nomes, dela e dele. Era como se não houvesse remetente nem destinatário. Apenas uma mensagem numa garrafa lançada às águas siderais da Internet. Eram quase duas da manhã. Armou o despertador pra tocar às nove e meia. Ligou o ar condicionado. Tomou um remédio pra dormir. Mesmo assim não dormiu sem pagar um pedágio de meia hora à insônia.

 

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  Kitty aos 22: Divertimento . Capítulo 5: quarta-feira. Kitty acordou de manhã cedo com
  Kitty aos 22: Divertimento . Capítulo 5: quarta-feira. Kitty acordou de manhã cedo com
 

Kitty aos 22: Divertimento. Capítulo 5: quarta-feira. Kitty acordou de manhã cedo com Déia batendo forte e gritando alto à sua porta. Saltou da cama, correu à porta e abriu. Déia entrou em pranto, trazendo o piercing na palma da mão: palma e piercing tudo baba- do de sangue.

 

— Que bosta é essa, Déia? — exclamou Kitty.

 

— Briga comigo não, Kitty, — chorou Déia. — Tive culpa não

 
 

Tive culpa não

 
 

— Como é que isso foi acontecer, porra? — exclamou Kitty.

 

— Sei não, Kitty, como é que eu vou saber? — chorou Déia. —

 

Acordei, o bichinho tava no chão. Só se eu dormi de boca aberta e aí desenroscou. Só se foi isso, Kitty.

 

— E agora, anta? Não dá pra meter de novo no lugar não?

— Ah, Kitty, não tô conseguindo de jeito nenhum. O bichinho

 

não entra. Formou uma pelinha por cima do furo. Me ajuda, Kitty,

pelamor de Deus. E estendeu a Kitty uma agulha. Kitty estremeceu.

 

Espera aqui, — disse.

 

Saiu do quarto de camisola mesmo, subiu até o terceiro nível da casa, onde fica o quarto de Mummy. Bateu à porta. Phil veio abrir.

 
 

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  Vestia só a parte de baixo do pijama, um pijama listrado brega que Mummy
  Vestia só a parte de baixo do pijama, um pijama listrado brega que Mummy
 

Vestia só a parte de baixo do pijama, um pijama listrado brega que Mummy comprou pra ele: a barriga nua era redonda e vultosa. Kitty foi logo dizendo:

— Problema pra você resolver.

— Que que você aprontou agora?

— Eu, não: Déia.

Kitty deu-lhe as costas e voltou correndo ao quarto, seguida por Phil. Déia era uma figurinha patética sentada à beira da cama:

 

abraçara-se a um sapinho de pelúcia, presente de Guto pra Kitty, e chorava em silêncio. Janela do quarto tem largo peitoril. Phil mandou-a sentar no nicho da janela e, antes de qualquer coisa, teve o cuidado de aquecer

na chama do isqueiro de Kitty a ponta da agulha. Depois, seguran- do firme o queixo de Déia com uma das mãos, pousou-lhe a ponta da agulha na língua bem em cima do furo e foi forçando, forçando, na tentativa de reabri-lo. Déia berrava de dor, mas Phil, agulha firme entre os dedos, não se deixava intimidar: é o fac-totum desta casa, não há pra ele missão por mais impossível que não realize com sucesso, e isso de perfurar a porra de uma língua com a porra de

uma agulha pode ser complicado mas não chega nem aos pés de ser impossível. Mas a coisa custava e Déia só fazia berrar, berrar e con- tinuar berrando de dor. Vontade de Kitty era fugir da presença de toda aquela agonia, nem que fosse ali pra sacada do quarto, mas fugir era coisa que Kitty Leme, filha de Daddy, não faria nunca: por isso agüentou firme. De repente Phil fez uma pausa e mudou um pouco de posição.

Aí avisou: Se segura que é agora ou nunca

Déia, com um grunhi-

do, pediu socorro a Kitty. Kitty viu a língua empapada de sangue, a boca, o queixo. Que merda, pensou: ninguém merece. Mas bem que deu as mãos à irmã, que se agarrou a elas com toda a força. Aí Phil voltou à carga e Déia voltou a berrar. Kitty não tinha nem como tapar os ouvidos, mas desviava o olhar pra não ter que ver o filme daquela tortura. Phil, porém, tanto fez que acabou que conseguiu

 

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  na marra abrir o furo de novo. Passou a Kitty — como cirurgião a
  na marra abrir o furo de novo. Passou a Kitty — como cirurgião a
 

na marra abrir o furo de novo. Passou a Kitty — como cirurgião a enfermeira — a agulha ensangüentada e com todo jeitinho enros- cou o piercing na abertura. Pronto, disse: acabou. Agora vai lavar essa boca. Déia correu pro banheiro. Kitty e Phil ficaram ali ambos

em silêncio, deixando a tensão dissipar-se aos poucos. Ele foi até que respeitoso: ficou na dele, poupando-lhe de embaraço a camisola transparente. Déia voltou, boca entreaberta, meio torta ainda de dor. Phil entrou no banheiro pra lavar o sangue das mãos. Déia começou a soluçar. Kitty foi áspera:

— Que que foi agora?

 

— Nada não, — Déia tinha dificuldade pra articular as pala-

 

vras. — Tô chorando de alegria. — E chorou mais um pouco, e depois disse: — Pô, Kitty, tava com medo de não ter mais jeito. Ah,

doeu pra cacete, eu vi estrelas, mas agora já tô numa boa. Você não faz nem idéia, Kitty, do tanto que eu amo o meu piercinho. Sem ele não dá mais pra viver não. Believe me. Phil voltou de mãos lavadas.

E a festa ontem? Como é que foi? — perguntou, pra distrair a

mina.

Déia sorriu entre as lágrimas. E disse, do jeito que pôde:

 

Muito irada

Regada

Vários martinis e chopes. Música

boa, decoração boa, salgadinhos e docinhos. Nem agüentei comer o bolo. Mas nada é perfeito: só tinha viado. Phil deu risada. Kitty pensou: É, talvez Déia não seja sapata não. Ou então já está se preparando pro futuro e joga nas duas posições.

 

* * *

 

Eram sete e quarenta. Kitty voltou pra cama só pra constar. Depois daquele drama todo, não conseguiu mais dormir. Até que desistiu e atirou longe o edredom e sentou-se diante do computa- dor. No Outlook não havia — nem precisava haver — mensagem de bmhodiak@humpf.com. Ligou o rádio dublê de relógio. Zapeou

 
 

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  os canais até topar com uma música do Silverchair: “Without You”. Deixou lá. Abriu
  os canais até topar com uma música do Silverchair: “Without You”. Deixou lá. Abriu
 

os canais até topar com uma música do Silverchair: “Without You”.

Deixou lá. Abriu a janela e durante algum tempo ficou ali passando no cabelinho um pente distraído. Música cessou, entrou falação. Devia ser a Universitária com seus flashes de notícias sem maior interesse:

 

O filósofo Gilles Lipovetsky veio ao Brasil divulgar seu livro

 

O luxo eterno: da idade do sagrado ao tempo das marcas. Segundo

o filósofo, o atual ícone máximo do luxo não é a compra de produ- tos mas a compra de emoções. O milionário que pagou vinte mi- lhões de dólares para passar dez dias numa estação espacial seria a maior representação desse luxo moderno, ou hipermoderno, que é como Lipovetsky define nosso tempo. Ele diz que hoje o grande ícone do luxo é alguém gastar uma soma considerável unicamente para pagar sensações. Depois não fica nada, a pessoa não adquiriu um produto nem um objeto, mas só a experiência de sentir uma emoção. Que idiota, pensou Kitty: vinte milhões de dólares jogados fora. Quanta coisa eu não faria com vinte milhões de dólares? Teria a minha própria banda, a minha própria boate, o meu próprio

estilista. Sorriu seu sorriso inestimável: Eu sim saberia o que fazer com vinte milhões de dólares.

 

É preciso armar os jovens, diz o filósofo, para que possam

 

encontrar um sentido para a existência que não seja unicamente ir a um templo da moda e comprar tal ou tal marca. O que acontece hoje, segundo Lipovetsky, é que não temos mais muitos sonhos. Por isso, o consumo para muitas pessoas funciona como um sonho: de beleza, de coisas de qualidade, de estética, de felicidade, de distanciamento. O homem não foi feito só para consumir, ele tam- bém foi feito para criar, para progredir, para melhorar. O consu- mo é muito bom, mas não pode preencher a vida. Se não há outro valor além do consumo, é muito triste, conclui o filósofo. Aí eu concordo, pensou Kitty. Eu, por exemplo, gosto de consu- mir, mas não me considero viciada em consumo, como Deb, por

 

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exemplo, e tantas outras que tem por aí. Consumo pra mim não é um sonho. É uma realidade. Sonho pra mim é outra coisa. E o que é sonho pra você, Kitty? A pergunta veio não soube de onde. Sonho pra mim? Sonho pra mim é amar muito e ser muito amada, é viver minha vida sem preocupações e sem dar bola pra ninguém, é viver intensamente cada minuto, porque os minutos vão e não voltam mais. Sonho pra mim é isso, concluiu, satisfeita com a precisão da resposta.

* * *

Kitty diante do espelho, experimentando os seus biquínis. De- pois de vestir e desvestir um dois três quatro, optou foi pelo verme- lho. Olhou-se de novo de frente, de lado, de trás (com a ajuda de um espelho de mão) e viu-se gostosa em todos os ângulos. Voltou a olhar-se de frente. As curvas do seu corpo não são como as de Lu, mas não deixam nem um pouco a desejar. Graúdos são os peitos, a ponto de quase tudo acima dos bicos ficar exposto pra quem quiser ver. Mas qual o problema? Não é bonito não? Saiu no Cláudio e foi direto pra ilha do Boi. Gostava da praia do Norte, que era tranqüila e pacata, e o mar ali um remanso. Era quarta-feira e não tinha quase ninguém. Um casal de idosos, uma mãe com três crianças pequenas, um riponga tomando banho de barba e bermudas; no lombo da pedra, um pescador lançando seus anzóis. Kitty chegou e tomou posse de uma gleba de praia no limite entre a areia úmida e a areia seca: entre a areia grossa e a areia fina. Ali lembrou de uma das histórias que ouvira na infância, que lhe fora contada não pelo pai, o contador oficial de histórias, mas pela mãe: era a história — que a mãe lera na infância — de uma menina chamada Laura Jane que atirava sobre a cabeça uma areia mágica, dizendo as palavras: Areia da grossa, areia da fina; areia me faça ficar pequenina. E, tornada pequenina, Laura Jane metia-se, na com- panhia dos bichinhos do jardim, em perigosas aventuras de final

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  feliz. A história era só isso: era só isso que Mummy lembrava: mas Kitty
  feliz. A história era só isso: era só isso que Mummy lembrava: mas Kitty
 

feliz. A história era só isso: era só isso que Mummy lembrava: mas Kitty criança achou o maior barato. Chegou a dar o nome Laura Jane a uma de suas barbies favoritas. Kitty deitou-se ali de barriguinha pra cima e deixou o sol lam- ber-lhe todo o corpo. Não estava nela ficar olhando toda hora lá pra cima pra ver se chegava uma Toyota prata ônix. Sua espera se fazia no asilo de si mesma. O coração, apesar de tudo, batia um

pouquinho mais forte do que de costume. Natural, refletiu Kitty. É

a

expectativa do duelo. Porque pretendia duelar com Bruno. Ele

vinha com a arma branca de seu charme metrossexual pra tentar rendê-la. Ela não queria ser rendida: queria é rechaçá-lo com a arma de fogo de seu feminino desdém. Natural o coração bater um pouquinho mais forte. Dera as costas ao sol pro sol queimar quando ouviu o ronrom do motor de um carro. Conteve-se de olhar. De bruços jazia, de bruços ficou. Ouviu bater a porta do carro, ouviu o som agudo do alarme acionado por controle remoto. Ouviu passos metrossexuais pisando firme a areia dócil, fazendo-a chiar. Ouviu a areia fazer silêncio. O carinha estava ali. Ela fingiu que cochilava. Não quis facilitar em nada

as coisas. Mas foi pior pra ela: sentiu o bico do olhar dele ciscando-lhe as costas, a bunda, as pernas. Aí, depois de um minuto que lhe pare- ceu insuportável de tão longo, ouviu a voz de Bruno:

— Kitty? — Sussurro de alguém que teme sobressaltar quem está dormindo. Kitty abriu um olho. Ele estava de cócoras ali ao lado. O que ela viu, plantado diante do seu olho, foi um sapato preto de formas arredondadas, entremeado de straps e argolas e sublinhado de cos- turas feitas à mão: discreto e ao mesmo tempo ousado. Pé calçado, ainda mais metrossexualmente, Bruno destoava do cenário de areia

e

água salgada. Kitty ergueu a cabeça mas continuou deitada, meio

de lado, apoiando-se num cotovelo fincado na areia. Percebeu que

olho dele deu uma escapada até seus peitos e voltou correndo, com medo de ofender.

o

 

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  Que trajes são esses, cara? — disse ela, quase sorrindo. — Isso aqui é
  Que trajes são esses, cara? — disse ela, quase sorrindo. — Isso aqui é
 

Que trajes são esses, cara? — disse ela, quase sorrindo. — Isso aqui é uma praia. Apesar do sarcasmo, ela achou-lhe o look muito original: vesti-

ra um paletó preto sobre uma camisa dessas de time de futebol ame- ricano, com o número 71.

Pra mim, — respondeu ele, — isso aqui são só cinco minutos de praia.

Tem razão, — disse ela.

Aí mudou de posição, sentando-se com as pernas dobradas jun-

 

tas em forma de lambda, braços cingindo as pernas, cabeça posta sobre o cume dos joelhos. E ordenou:

— Pode fazer o seu discurso.

 

— Em primeiro lugar, Kitty, eu quero agradecer

Kitty interrompeu:

 

Não, não, não! Corta os agradecimentos. Direto ao assunto, por favor.

 

Kitty, você acredita em amor à primeira vista? Kitty fez uma careta:

 

Ih, cara, essa é velha. Não tem coisa mais hipermoderna não?

 

É velha mas é eterna, — Bruno disse. — E foi o que aconteceu comigo quando vi você lá no cemitério.

Que que você tem nessa cabeça, cara? Não se fala em cemité- rio numa cantada.

Eu não tô te cantando, — Bruno disse. — Tô te explicando

por que que eu tive de terminar com Lu.

 

— Terminar sem começar.

 

— É a melhor hora de terminar, — Bruno disse, — quando não

 

se pode dar amor sincero. Kitty pensou um pouco antes de retrucar. As crianças brinca-

vam nas águas plácidas. Ser criança é fácil: crescer é que dói e dá trabalho.

— Então era de mim que você tava a fim e não de Lu?

 

— Era, — Bruno disse.

 
 

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  — Desde aquela hora que você falou bota foda nisso? — Desde aquela hora,
  — Desde aquela hora que você falou bota foda nisso? — Desde aquela hora,
 

— Desde aquela hora que você falou bota foda nisso?

— Desde aquela hora, — Bruno disse.

 

— Então por que você tinha que fazer aquela palhaçada toda

 
 

com Lu, cara?

 
 

É isso que eu quero explicar, — disse Bruno. — Eu reconheço

 
 

que fui na onda de Lu. Ela me envolveu de tal maneira que eu me deixei levar: é uma pessoa muito envolvente, um amor de pessoa.

Mas era você que eu queria. Só que eu vi na tua cara que você não queria nada comigo. Vi na tua cara que isso aqui te repeliu.

 

E

Bruno tocou com os dedos a mancha negra do rosto. Kitty

 

ficou em silêncio.

 
 

— Não é verdade? — cobrou ele.

 

— Não sei, — Kitty disse. A cantada não estava saindo do jeito

 
 

que ela esperava. A referência aberta à mancha no rosto era coisa constrangedora; era como que uma infração de regras; uma quebra

de etiqueta; uma coisa de que se diz: isso não é coisa que se faça. Mas não era essa uma das atitudes típicas dos metrossexuais, infringir códigos?

 

Mas eu sei, — Bruno disse. — Você pensa que foi a primeira

 

mulher que me olhou daquele jeito? Era de você que eu tava a fim, mas você não tava a fim de mim. Lu tava ali, dando ponto. Que que você queria que eu fizesse? Esse é o tipo de pergunta que Kitty sabe responder:

 

— Não tenho de querer que você faça nada não, cara. A vida é tua.

— Foi mal, — Bruno disse. — Mas deixa eu explicar as coisas

 

direitinho, antes que terminem os meus cinco minutos. Eu tive dois dias legais com Lu. Achei até que ia dar jogo. Ela é uma mulher bonita, alegre, carinhosa, espontânea. Só vi qualidades nela. Mas

eu tava me enganando. E quando vi você na fila da boate eu desabei. Fiquei com raiva de mim, de você, e de Lu, de todo mundo. Fiquei com raiva disso aqui.

 

E

tocou de novo com os dedos a mancha negra. Kitty não conse-

 

guiu ficar indiferente:

 
 

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  — Cara, você é um gato muito boa pinta. Isso aí não quer dizer
  — Cara, você é um gato muito boa pinta. Isso aí não quer dizer
 

Cara, você é um gato muito boa pinta. Isso aí não quer dizer

nada. Não vê Lu? Não vê como ela parou na tua e não deu a mínima pra isso aí?

Mas as mulheres que eu mais quero, — Bruno disse, — não

conseguem aceitar esse defeito. É a minha sina. As que eu quero de verdade, como você, todas parece que têm horror de mim por causa disso. Kitty pôs-se a rabiscar a areia úmida com o dedo. Depois apa- gou com o pé o que tinha escrito: É foda.

Bom, Kitty, — Bruno disse, — é isso aí. Agora você entende?

Eu podia contar pra Lu que tava chutando ela por causa de você? Como é que você acha que ela ia receber uma coisa dessas? Por isso

que eu não contei, e por isso que eu resolvi contar pra você.

Você tinha por obrigação contar pra ela, — Kitty disse. —

Eu tiro por mim: eu não gosto que ninguém resolva o que eu devo

saber ou deixar de saber. Se tem a ver comigo, seja o que for, eu quero saber e pronto.

— E você, vai ter coragem de contar pra ela? — Bruno disse.

— Claro, — Kitty mentiu, com a maior cara de pau.

— Mas não vai ser fácil.

 

Não. Ela pode achar que eu tô Como dizer aquilo? Bruno ajudou-a:

— Dando uma de gostosa. E tá?

— Não sei. Tô?

E fixou o olho em desafio no olho de Bruno. Verde contra azul. Azul ganhou.

 

Bem, — Bruno disse, desviando o olho, — acho que meus cinco minutos já passaram. Já vou indo.

Kitty não disse nada. Só pensou: Quer ir, vai, quem é que tá te impedindo? Mas Bruno disse:

Só queria te pedir mais um favor.

Aí meteu a mão no bolso lateral do paletó e dali tirou um sapato vermelho de salto agulha. Kitty viu que era o pé direito do

 
 

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  par que emprestara a Lu: o que Lu perdera. Bruno pousou-o so- bre a
  par que emprestara a Lu: o que Lu perdera. Bruno pousou-o so- bre a
 

par que emprestara a Lu: o que Lu perdera. Bruno pousou-o so-

bre a areia entre os dois. Kitty achou maneiro aquele sapato social vermelho plantado sobre o tapete ocre de areia fina. Merecia até uma foto.

Devolve a Lu pra mim? — Bruno disse. — Caiu quando ela

saltou do carro e não deu tempo de devolver. Kitty continuou de olho preso no sapato.

 

Sabe o que que isso me lembra? — disse ela, com sua bela voz

 

grave.

Cinderela, — Bruno disse.

É, — Kitty disse.

Não gosto da comparação, — Bruno disse. — Isso faz de

 

mim um príncipe, e eu não sou um príncipe. Kitty pensou só um pouquinho antes de contestar:

É isso que você é, pra Lu. Ela é Cinderela: ela encontra o

príncipe e perde o sapato. Só ficou faltando você levar o sapato e calçar no pé dela pra Cinderela ser feliz.

Essa história tá mal contada, — Bruno disse. — O sapato

ficou apertado no pé de Lu, ela teve de tirar fora e ficar descalça. Por isso é que perdeu um deles.

Eu sei. O sapato é meu. Eu sou a fada madrinha, que empres- tei vestido e sapato.

O sapato é seu?

Kitty parecia ter voltado aos velhos tempos de teatrinho no co-

 

légio. Viajava na fantasia. Parecia repetir falas escritas pra ela, per- sonagem principal, repetir.

É, — disse ela, — mas não posso provar que é meu. Joguei fora o outro. Que que eu ia fazer com um sapato só?

Me dá o pé, — Bruno pediu, em voz baixa.

O que foi que fez Kitty levantar um pouco a perna esquerda e

 

deixar que Bruno, de cócoras, lhe calçasse o sapato no pé? Nem ela saberia dizer. O sapato serviu, é claro, perfeitamente.

Encontrei a verdadeira Cinderela, — Bruno disse.

 

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  — A verdadeira não está a fim de príncipes, — Kitty disse. Sen-  
  — A verdadeira não está a fim de príncipes, — Kitty disse. Sen-  
 

A verdadeira não está a fim de príncipes, — Kitty disse. Sen-

 

tindo-se ridícula, retirou do pé o sapato e o repôs no chão, fincan- do-lhe fundo o salto na areia. Estava confusa; daí, irritada.

 

— A história tá mesmo muito mal contada, — Bruno disse.

— Tá mesmo, — Kitty disse. — Todo mundo sai perdendo.

 

Menos você. Tá aqui seu prêmio. E atirou-lhe o sapato, que Bruno recebeu entre as mãos e, perdendo o equilíbrio, caiu sentado na areia. Ela achou graça mas não lembrou de rir. Virou-lhe as costas e ficou ali de olho posto nas crianças, sem ver criança alguma. Bruno supôs que a audiência terminara. Kitty ou- viu-o erguer-se; ouviu-o afastar-se: o sapato metrossexual pisando macio sobre o dócil tapete de areia. Kitty sabia que devia deixar que

ele fosse. Chegou a murmurar no microfone do pensamento: Deixa ele ir, pelamor de Deus, deixa ele ir. Mas não deixou. Sem olhar pra trás, chamou-lhe o nome. Bruno estacou. Sem olhar pra trás, Kitty deu-lhe uma ordem: Vem cá. Ele veio. Veio, obediente, e se pôs de novo de cócoras diante dela: não de cócoras como um jeca, ou como um índio, mas como um gentleman: a descrição possível não lhe faz

justiça: peso do corpo assenta sobre calcanhar esquerdo, braço direito apóia-se sobre joelho direito. A expressão é serena: é assim que Bruno espera as contra-ordens. Kitty olhou-o de relance depois repousou so- bre o trio irrequieto de crianças o profundo olhar azul: sem vê-las.

 

E então, Kitty? — Bruno disse.

 

Ela voltou-se pra olhá-lo. Daquele ângulo não dava pra ver-lhe plenamente a face esquerda. Com dois dedos impertinentes Kitty

 

virou-lhe o rosto um pouco mais pra direita. A mancha mostrou-se toda como era: soturna e indelével, e estranha pra caralho.

 

— Você nasceu assim, cara? — Kitty perguntou.

— Nasci. É coisa de família. Minha irmã nasceu com isso nas

 

costas. Ela pode esconder, mas não esconde. Eu infelizmente não posso esconder. Kitty correu os dedos devagar sobre o local mal-assombrado. Devagar e cautelosa, como se alguma coisa nociva, maligna, pudesse

 

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  saltar dali e picar ou morder-lhe os dedos. Bruno inteiriçou-se todo. A pele era
  saltar dali e picar ou morder-lhe os dedos. Bruno inteiriçou-se todo. A pele era
 

saltar dali e picar ou morder-lhe os dedos. Bruno inteiriçou-se todo.

A

pele era lisa e macia. Não havia nada ali a não ser uma mancha

escura. Kitty retirou os dedos e disse:

 

Podemos nos encontrar hoje pra fazer um lanche, tomar um chá?

 
 

— Por que você tá dizendo isso? — ele perguntou.

— Ah, não sei não. — E não sabia mesmo não.

— Podemos, — Bruno disse.

 

Sem compromisso, — Kitty disse. — Só quero conversar com você.

 
 

Sem compromisso, — Bruno disse.

Kitty ergueu-se.

— Luar de agosto, — disse ela.

— Como? — perguntou ele.

— Uma casa de chá, — disse ela. — Na rua Aleixo, na Praia do

 
 

Canto. Cinco horas.

 

Tá bem, — disse ele. E não se moveu. Kitty deixou-o ali e saiu altiva e gostosa em direção ao mar.

 
 

Bruno teve pernas pra erguer-se mas não pra ir embora. Ficou ali,

 

de

pé, de sentinela. Viu Kitty descer a praia até o mar, bela como uma

estrela de cinema. Viu-a entrar n’água como uma náiade e abrir ca- minho por entre a camada de mar até que a água lhe chegou ao busto; viu-a desaparecer num súbito mergulho, voltar à tona, nadar com braçadas elegantes de lá pra cá, de cá pra lá. Depois de um mergulho

final, eis que a ninfa retorna à praia. Bruno imóvel não se move. Kitty

se

inclina, recolhe a canga, se enrola nela, passa o pente no cabelo

como se não houvesse ninguém ali ao seu lado, mas tão-somente uma estátua de pedra. Depois, porém, com um simples toque de olhar azul, converte de novo em Bruno o que era pedra e aí afasta-se e deixa a praia, sem olhar pra trás. Mas lá dentro do peito o coraçãozinho batia-lhe alvoroçado, tique-taque, tique-taque, tique-taque.

 

* * *

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Kitty pareceu apatetada, quase autista, o resto do dia. Ela mesma não sabia o que estava querendo fazer. Às vezes dizia-se que o que que- ria era puxar o tapete debaixo dos pés do carinha e fazê-lo provar do próprio remédio. É: dar-lhe um dia inteiro, ou até mais, de esperança, e de repente dizer-lhe, como ele disse a Lu: Bruno, não dá não. Às vezes, porém, tudo virava pelo avesso e ela via-se beijando-lhe a boca: curio- so, via-se beijando-lhe a boca não no futuro, mas no passado, ali mes- mo naquele momento em que lhe correra os dedos sobre a pele denegrida. Queria tê-lo beijado ali, arrependia-se de ter deixado o momento passar em branco. A própria mancha provocava-lhe con- traditórias reações: ora não via nela nada de mais, ora, porém, parecia- lhe incompatível com o seu ideal estético, que exigia, como principal — ou único — atributo, que a beleza fosse impecável. Chegava então qua- se ao fundo de crer que aquilo fosse o sinal de algo de podre que houves- se nas entranhas da pessoa do cara. Quem era ele, afinal? Hodiak? Achava feio o nome. Achava-o digno de uma das criaturas sinistras e sanguiná- rias de O senhor dos anéis. Pronunciou-o sem aspirar o agá e viu que havia ódio no nome. Mas, ao lembrar-se do carinha, da conduta dele na praia, tímido, humilde, delicado, e ao evocar a nítida paixão que lhe brilhava no olho verde, paixão nascida no primeiro momento em que pousara os olhos nela, Kitty Leme — aí o coração dentro dela se enter- necia: porque tudo fazia sentido: tudo rolava como numa história de fantasia: a falsa Cinderela fora desmascarada, o absurdo fora cortado pela raiz, e o príncipe encontrara a verdadeira Cinderela.

* * *

O celular tocou: era Lu: Kitty preferia que fosse até Sérgio, o doidinho. Não atendeu. Aí, no desconcerto que se seguiu, não se lembrou do telefone fixo que havia em seu quarto: Kitty tem seu próprio aparelho e seu próprio número. O telefone tocou. Kitty ainda deixou tocar umas cinco vezes antes de atender em desespero de causa. Só podia ser Lu; era Lu.

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  — Pô, Kitty, você tava aonde?   — Foi mal, Lu. Não deu pra
  — Pô, Kitty, você tava aonde?   — Foi mal, Lu. Não deu pra
 

— Pô, Kitty, você tava aonde?

 

— Foi mal, Lu. Não deu pra atender logo. Você tá bem?

 

— Mais ou menos. Pelo menos deu pra ir no centro rezar um

pouquinho, pedir proteção pra mim e pra todo mundo. Mas você ficou de me ligar ontem e não ligou.

Lu, não deu. Ontem só me aconteceu foi merda. À tarde não

me deixaram em paz. Até Nênis ligou.

 

— Que que ele queria? — Lu acompanhou de perto o caso Nênis.

 

— Até dei uma saída com ele. O cara tá pensando em fazer role-

ta russa.

— Diz pra ele ligar pra mim que a gente faz junto.

 

— Começa não, Lu. Você ainda tá com aquele cara na cabeça?

— Só tô. Com um ódio danado, mas tô. Se eu tivesse uma chance,

Kitty, eu fazia igual Diana: nhoque no pau dele. E no dente, precisa- va nem faca não. Aí Kitty cedeu ao impulso de ser imprudente:

— Tá a fim de sair?

 

— Tô não. Essa porra desse herpes tá me torrando o saco.

 

Quer conversar? Quer que eu vá aí? — Que é isso, Kitty? Pura solidariedade ou uma forma enviesada de escapar de Bruno?

Ainda não. Quero ficar quietinha. Tô é pensando em voltar pra Guaçuí. Acho que é lá que é meu lugar.

Lu é mineira, mas a família se mudou pra Guaçuí quando ela era pequena. Tem uma porrada de irmãos morando lá até hoje.

Pensa bem, Lu. Se é por causa de Bruno, acho que você deve

pensar melhor.

Bruno foi só a gota d’água, Kitty. Eu tenho que cair na real. É

 

a minha vida que tá toda pelo avesso. Se eu quero conseguir alguma coisa, antes um simplório de Guaçuí do que porra nenhuma aqui em Mic. Aqui em Mic eu só tenho é uma decepção atrás da outra.

Tô dizendo pra você pensar bem antes de ir, Lu. Quem sabe Mic não tá guardando alguma coisa legal pra você? Kitty se sentiu cínica; mas Lu não notou nada:

 

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  — Às vezes, Kitty, quando eu tô esperando ônibus ali em   Camburi ou
  — Às vezes, Kitty, quando eu tô esperando ônibus ali em   Camburi ou
 

Às vezes, Kitty, quando eu tô esperando ônibus ali em

 

Camburi ou então na reta da Penha, eu fico olhando a quantidade de carro que passa ali, Kitty, e você sabe que carro não pára de

passar. Aí eu penso: num desses carros deve de estar a pessoa que vai cuidar de mim e me fazer feliz. Alguém pra me dar calor, pra me tratar com respeito, pra ser amigo e companheiro. Só que os carros não param, Kitty. Nunca vão parar. Kitty dignou-se a ficar em silêncio e não dizer nenhuma merda.

 

Eu preciso mesmo, — disse Lu, — é ir pra um lugar que o

 

trânsito é mais lento. Tipo Guaçuí. Porque eu acredito piamente, Kitty, que o amor é a solução de todos os problemas.

 

Eu também, Lu, eu também, — disse Kitty.

 
 

Deixa eu desligar, Kitty, — Lu disse. — Tô gastando muito impulso.

 
 

Quem sabe amanhã a gente sai pra bater um papo, Lu? —

 

Kitty disse. — Amanhã? — Lu disse. — Amanhã é amanhã, Kitty. Né não?

 

* * *

A consciência Kitty subornou com três doses de Martini e uma fuga

 
 

sono adentro. Acordou eram mais de quatro horas. Não se importou com a possibilidade de um atraso: se Bruno não esperar, melhor: tudo fica resolvido e todo mundo de bem com todo mundo. Tomou seu banho, escolheu com deliberação a roupa com que ia sair: nada que uma princesa se arvorasse a usar: um vestidinho pueril que, quadricu- lado em vermelho e branco, lembrava uma toalha de mesa. No pé, uma sapatilha chique, esportiva e bem-humorada, de bico redondo e lacinho de fita vermelha, que ela gostava de usar no batente do dia-a-dia. Saiu de casa no Cláudio às cinco em ponto. Sem pressa, foi até à rua Aleixo, na Praia do Canto. Sem pressa, procurou um lugar pra estaci- onar. Sem pressa, andou os cem metros ou mais ou menos até a Luar de Agosto. Eram cinco e vinte e cinco quando entrou na casa de chá.

 

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  Bruno ergueu-se pra recebê-la. Estava vestido com o mesmo traje da manhã na praia.
  Bruno ergueu-se pra recebê-la. Estava vestido com o mesmo traje da manhã na praia.
 

Bruno ergueu-se pra recebê-la. Estava vestido com o mesmo traje da manhã na praia. Puxou a cadeira pra ela sentar. Não fez nenhuma referência, nem mesmo indireta — Pensei que você não viesse — nem mesmo tácita — um franzir de sobrolho — ao atra- so dela. Parecia estar nada mais que simplesmente feliz dela estar ali: só isso. A moça trouxe os cardápios. Kitty pôs-se a vistoriar o seu, em-

bora já soubesse o que queria: era habituée ali. Bruno, porém, dei- xou o dele fechado sobre a mesa: vistoriava o rosto de Kitty.

— Não vai escolher não? — Kitty perguntou.

 

— Eu quero o que você quiser.

— Acho isso muita falta de personalidade.

Bruno deixou passar, como quem não estivesse nem aí pra bes-

 

teiras como personalidade ou falta de: personalidade de quem está apaixonado é estar apaixonado. Kitty escolheu um café gelado com biscoitos dinamarqueses. A moça reveio. Kitty fez o pedido. Bruno disse, sem deixar de olhar pra Kitty: Pra mim também. A moça foi, Kitty disse, de estalo:

— Tá apaixonado por mim, cara?

 

— Tô, — Bruno disse, também de estalo.

— Assim sem mais nem menos? Sem nem me conhecer direito?

 

Sem saber se eu mordo, se eu ronco, se eu tenho herpes?

Amor à primeira vista é assim, — Bruno disse. — Senão não é amor à primeira vista.

Cara, romantismo já era. Você não tem vergonha de falar essas coisas não?

Nem um pouco.

Olha aqui, essa pode ser a maneira errada de me conquistar. Já pensou nisso?

 

Não tô preocupado com estratégias. Só tô respondendo suas

perguntas com honestidade. Prefere que eu finja e minta? Kitty calou-se. Bruno aproveitou pra estender-lhe uma rosa ver- melha. Era uma rosa de papel: uma graça. No vão entre as pétalas

 

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  havia um bombom de gianduia. Kitty levou-a ao nariz e fingiu aspi- rar o
  havia um bombom de gianduia. Kitty levou-a ao nariz e fingiu aspi- rar o
 

havia um bombom de gianduia. Kitty levou-a ao nariz e fingiu aspi-

rar o perfume. Depois retirou o bombom, abriu-o e deu-lhe uma dentada básica. Deixou o pedacinho de chocolate dissolver-se gosto- so na boca.

— De onde você tirou esse nome, Hodiak?

 

— É o meu nome de família, — Bruno respondeu. — Meu avô

 

veio da Tcheco-Eslováquia pra cá depois da primeira guerra.

Onde é que fica isso mesmo? — Kitty já esqueceu toda a geo- grafia que aprendeu no Sacré Coeur.

— Na Europa. Hoje são dois países, a Tcheca e a Eslováquia.

— E seu avô veio de qual das duas?

 

— Ah, isso eu não sei não. Veio de uma cidade chamada Pilsen.

 

Isso é nome de cerveja, — Kitty disse: cerveja é a sua praia. — A cidade tem esse nome por causa da cerveja? Ou é o contrário?

— Acho que é a cerveja que tem esse nome por causa da cidade.

— E você é de Sampa, cara?

 

Sou de Lajes, Santa Catarina, mas me criei em São Paulo. Posso dizer que sou paulistano.

 

Já fui em São Paulo umas três ou quatro vezes. Tenho umas primas lá. Moram na avenida Pompéia. Sabe onde é?

Claro, — Bruno disse. — Na zona oeste.

A moça trouxe o pedido. Kitty bebericou o café e mordiscou um biscoito dinamarquês. Aí retomou o inquérito:

 

— E que que te fez trocar São Paulo por Mic?

 

— Você, — Bruno disse. E, diante do espanto dela: — Tô brin-

 

cando, Kitty. Ou melhor, mais ou menos. Quando eu decidi vir pra Vitória eu quis saber como eram as pessoas daqui. Aí entrei nos

blogs de Vitória. Entrei no seu. Primeira coisa que eu vi foi uma foto sua que você tá de perfil, sentada num sofá, vendo televisão. Seriazinha, de cenho franzido, muito linda. Foi ali que eu me apai- xonei por você à primeira vista, e não no cemitério.

Melhor assim, — Kitty disse, com um sorriso. — Mas eu

parei com meu blog. Tava tomando muito tempo. Quis tirar do ar,

 

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  mas o pessu reclamou. Disseram que era uma parte da minha histó- ria de
  mas o pessu reclamou. Disseram que era uma parte da minha histó- ria de
 

mas o pessu reclamou. Disseram que era uma parte da minha histó- ria de vida que tava ali.

Ainda bem. Quando eu vi tua foto, eu disse: Mais uma razão pra ir pra Vitória. Quero conhecer essa moça.

Veio a Kitty a lembrança de certas fotos e certos textos que pos- tara no blog: ficou quase que meio que encabulada.

— Tem muita besteira ali, e fotos horríveis.

 

— Não tem besteira, tem espontaneidade. E as fotos, bem, umas

 

são melhores que outras, mas não é assim com todo mundo, até com as atrizes de cinema? Kitty ficou decepcionadinha com a opinião sincera de Bruno, mas não ressentida. É que amigos como Rafa, por exemplo, só ti- nham comentários entusiásticos sobre qualquer foto que ela pos-

tasse no blog. Mas sinceridade costuma ser uma virtude, não é, Kitty?

— Gostei do seu vestido, — Bruno disse.

 

— É simplezinho.

Eu gosto das coisas simples. Gosto de luxo, também, mas a verdadeira simplicidade não tem preço.

 

— Mas afinal, Bruno, você trabalha com quê?

 

— Eu trabalho com muitas coisas. Mas sou principalmente um

 

empresário da noite: do ramo de diversões, de entretenimentos.

Boates, festas, shows, essa é a minha praia. Kitty ficou, sem demonstrar, impressionada.

 

Mas e Mic? Você tá se mudando pra Mic? Tem quanto tempo

 

que você tá aqui?

Tem quatro meses que eu tô morando aqui, mas indo e vindo

 

tem quase um ano. Vitória me interessa muito como mercado. Isso

aqui vai desenvolver muito, Kitty.

 

Por causa do petróleo, eu sei. — Kitty estudava jornalismo:

 

estava bem informada.

 

É isso aí. Vai jorrar dinheiro aqui, e eu quero uma parte desse dinheiro pra mim. Meu primeiro projeto já tá aí dando fruto: o Victoria Fashion Week.

 
 

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  — O Fashion Week é coisa tua? — Queixinho de Kitty quase caiu. —
  — O Fashion Week é coisa tua? — Queixinho de Kitty quase caiu. —
 

— O Fashion Week é coisa tua? — Queixinho de Kitty quase caiu.

— Minha só, não. Eu tive a idéia e captei investimentos. Mas eu

fico só por trás, não entendo de moda. Mas o que eu quero ver se implanto aqui é um projeto mais ambicioso, um complexo de en- tretenimento que junta uma porção de coisa: restaurante, boate, cinema, teatro, motel, bingo, escuna, serviço de limusine, e mais alguma coisinha. Tô discutindo o projeto com investidores, com

políticos, com a prefeitura. Se der certo, vai ser coisa digna de Las Vegas, exceto que não vai ter cassino, é claro. Vai se chamar Nínive.

— Nínive? De onde você tirou esse nome?

 

— Da história antiga. Nínive era a capital do império da Assíria.

 

Nunca fui muito boa em história antiga. E você acha que o nome tem marketing?

Basta repetir cinco vezes um nome que qualquer idiota é

capaz de guardar na cabeça. Principalmente se for nome de alguma coisa grandiosa. Ela ficou em silêncio. O cara era mesmo um príncipe. Um prín- cipe das Assírias da vida. E estava ali, caído de quatro por ela. É mole?

* * *

Deu sete horas. Kitty estava arrematando uma guloseima de que nunca abre mão na Casa de Chá do Luar de Agosto: brigadeiro de colher: drágeas recheadas com marshmallow e servidas em copinho

 

feito com chocolate branco no sabor de frutas vermelhas. Já estava no meio de devorar o copinho, feliz que nem criança. Aí disse:

Quer dizer que você é catarinense de Santa Catarina.

Praticamente só nasci lá. Minha família se mudou pra São Paulo eu não tinha nem seis meses.

Eu também sou catarinense. Meu nome é Catarina. Maria Catarina.

Imaginei que fosse. Mas prefiro Kitty.

 

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  Kitty ficou um pouquinho desapontada: esperava que ele apro- veitasse pra viajar na coincidência.
  Kitty ficou um pouquinho desapontada: esperava que ele apro- veitasse pra viajar na coincidência.
 

Kitty ficou um pouquinho desapontada: esperava que ele apro-

veitasse pra viajar na coincidência. Afinal, era uma coisa que ti- nham de nascença em comum entre os dois: o nome Catarina. Mas não deixou transparecer nada:

Ah, eu também. Kitty é bem mais leve.

 

Quando Kitty terminou de comer o copo do brigadeiro, Bruno

 

passou-lhe o lenço pra que limpasse lábios e queixo. Depois disse que precisava ir. Tinha uma reunião às sete.

— Preciso ir. Tenho uma reunião às sete.

 

— Então já tá atrasado.

 

— Tô mesmo. Se essa não fosse a reunião das cinco que eu passei

 

pras sete, pedia pra adiar pras nove. Se você não se oposse, é claro.

O

erro clamoroso de português não doeu nos ouvidos de Kitty,

que aliás não chegou nem a notá-lo.

 

É uma reunião pra resolver uns pepinos aí do Fashion, —

 

disse ele, como se ela tivesse perguntado. — Você tá pensando em ver o desfile?

Olha, Bruno, meu namorado disse que vai me levar, mas não garanto não.

É aquele carinha que tá no teu blog?

 

Não, aquele é Guto. Já terminei com ele tem tempo. Agora eu tô namorando com Breno. Um arquiteto.

 

E por que você acha que ele vai te deixar na mão?

Porque ele tá em Sampa e só volta sexta. E pra emendar o finde e só voltar na segunda não custa. — Quer ir comigo, Kitty? — Bruno perguntou. — Quer ir comigo amanhã? Kitty não se deu tempo pra pensar:

Quero.

Ah! — Bruno deu um suspiro gostoso. — Você não imagina o prazer que você vai me dar.

 

perguntou se Kitty se importava de encontrá-lo no Shopping

Vix. Tinha uma reunião lá, tipo seis horas; sete e meia estaria liberado.

 

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  A gente podia fazer um lanche lá mesmo no shopping e de- pois ir
  A gente podia fazer um lanche lá mesmo no shopping e de- pois ir
 

A gente podia fazer um lanche lá mesmo no shopping e de- pois ir direto pro Fashion, — sugeriu ele.

— Encontro você sete e meia aonde?

 

— Pode ser na praça de alimentação mesmo.

A moça trouxe a conta. Kitty fez um gesto de abrir a bolsa. Bruno ergueu a mão.

 

— Por favor, — disse ele.

 

— Cara, qual é? Não sou dessas não, que deixam o rapaz pagar

 

tudo.

Só hoje, — Bruno disse. — Da próxima a gente racha.

 

Bruno pagou com cheque. Tirou do bolso interno do paletó uma bela e clássica caneta Parker: a base é feita de prata de lei

toda trabalhada com desenho em xadrez preto, a pena é em ouro

maciço de dezoito quilates: uma verdadeira jóia, que deixou Kitty encantada. Isso é que é caneta metrossexual, pensou ela. Bruno, que não deixa passar nada, não deixou passar o encantamento de Kitty.

Preenche o cheque pra mim, — pediu.

Kitty aquiesceu, toda toda. Esmerou-se na letra. Preenchidos os campos, devolveu caneta e talão de cheque pra Bruno assinar.

 

— É uma delícia de caneta, — disse ela.

 

— Assina por mim, — disse ele.

— Por que isso, cara? — disse ela.

Só de rock, — disse ele. — Banco não verifica assinatura de cheque de valor baixo. Kitty assinou: Kitty Leme. Bruno tomou o cheque, examinou com atenção, depois disse:

 

Ah, nem pensar. Esse cheque eu vou guardar pra mim de

lembrança. Aí recolheu caneta e talão, pagou a conta em dinheiro vivo e ainda acrescentou como gorjeta uma nota de vinte reais, que dei-

xou a moça de sorriso feliz. Saíram juntos. Lá fora, Bruno disse:

Teu carro tá muito longe?

 

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  — Tá aqui perto. — Kitty esperou que Bruno a acompanhasse, cavalheiro, até o
  — Tá aqui perto. — Kitty esperou que Bruno a acompanhasse, cavalheiro, até o
 

Tá aqui perto. — Kitty esperou que Bruno a acompanhasse,

cavalheiro, até o carro, mas ele despediu-se ali mesmo. Devia real- mente estar com muita pressa.

* * *

Mesmo com a cabeça meio no ar, Kitty não deixou de ir à acade- mia. Fica especialmente linda em seu top e short vermelhos, barri- guinha toda de fora e umbiguinho todo rox com seu piercing. Sammy deu-lhe especial atenção e especiais copos d’água. Mas ela malhou que nem autômata: a cabeça longe do corpo. De volta a casa, o cheiro de bolo de aveia e grãos recém-chegado do forno tirou-a de seu devaneio. Kitty sentou-se à mesa da copa

 

pra papar um pedaço: é um bolo que Rosa faz com trigo integral, gostoso pra cacete. Déia e Phil chegaram, seguidos pela gata; atraí- ra-os o cheiro do bolo. Sentaram-se também.

Que beleza, Rosa, — Phil elogiou.

Seu Phil, — Rosa disse, — esse só levou linhaça e gergelim. Passa e semente de girassol acabou.

 

Põe na lista, Rosa. — É Phil também que faz as compras de supermercado.

Dona Sandra vem não? — Rosa perguntou. Dona Sandra é

Mummy. Antes de ser uma coisa e outra era simplesmente Sandra, Sandra Scarpini, uma das moças mais bonitas de Vitória, que do

Sacré Coeur foi direto pra igreja pra casar com um dos melhores partidos da cidade.

Tá indisposta, — Phil disse. Eufemismo que significa que

Mummy está em depressão e, provavelmente, passou o dia enchen- do o talo.

Ali na copa encheu-se o talo de bolo, que foi quase todo consu- mido. Aí Phil e Déia levantaram-se. Déia disse pra Kitty:

— Quer jogar The Sims com a gente?

 

— Sou criança mais não, — Kitty disse.

 

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  — The Sims não é só pra criança, — Déia disse. — Você monitora
  — The Sims não é só pra criança, — Déia disse. — Você monitora
 

The Sims não é só pra criança, — Déia disse. — Você monitora

a vida de pessoas. Mó responsa. Saem Déia e Phil. A gata continua ali, focinho erguido, na ex-

pectativa de uma migalha de bolo: também é filha de Deus. Kitty argumenta com ela:

Isso não é ração, Baby. Você não vai gostar.

A

gata continua pedinte. Kitty transporta em palma de mão um

 

farelo de bolo até o alcance da gata. Baby dá umas lambidinhas inconseqüentes. Depois vira as costas e se afasta rebolando.

Eu avisei, — Kitty disse. E, pra Rosa: — Baby é a única nesta casa que não curte o teu bolo, Rosa.

Não tá com nada, — Rosa disse.

* * *

A rosa de papel que ganhou de presente Kitty meteu num jarrinho

 

de boca estreita e deixou sobre a mesa do computador, ao lado da cadeirinha de balanço. E aquela noite não resistiu e visitou o seu velho blog: “Every Little Thing She Does”. Visitou-o movida pela curiosi- dade de ver o que Bruno havia visto; de tentar um feito impossível:

captar as impressões que fotos e textos teriam provocado nele. Era como visitar o sótão de casa. Tinha tempo que não ia lá. O blog em si era muito simples, até porque era mais um fotolog que outra coisa. Cada inserção — post, em blog-language — tinha uma foto, um texto curto, escrito por ela mesma, e os comentários dos amigos em rodapé. Cobria um período de três semestres mais ou menos. Ela era uma Kitty de vinte anos quando abriu o blog com a maior empolgação, e abdicou dele agora no começo do ano. Ficou ali mais de duas horas clicando em cada foto, abrindo o arquivo, examinando a foto, lendo seu texto e os comentários dos amigos. Primeiro abriu o arquivo da foto que Bruno mencionara — uma foto de que ela mesma gostava muito. Kitty fora fotografa- da — por Pam — de perfil, sentada no sofá de casa, vestida com

 

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  camiseta branca e short, o olhar totalmente absorto em alguma coisa fora do campo
  camiseta branca e short, o olhar totalmente absorto em alguma coisa fora do campo
 

camiseta branca e short, o olhar totalmente absorto em alguma coisa fora do campo da foto — o que poderia ser: o seu futuro ou meramente uma novela ou um filminho? Kitty leu o texto:

Isso aih na foto foi um tempinho q eu tive pra sentar e ver um

pokinho de tv. Mas dá pra ver q eu tava meio devagar. Pq pra variar

eu tava super cansada. Tô estudando pakas

Ontem fikei até 10 da

noite nakela pocilga

ngm merece

NC!!! Mas sei q no final tudo

vai dah certo. Mas hoje o dia foi legalzinho. Depois da facul fui no

shopping com Deb. Conversamos horrores e demos altas risadas. Hauhauhauahauh. Voltei pra ksa e fiquei aki com Guto ateh 1 hora. Ele eh moh carinhoso, atencioso, a gente troca moh idéia. Foi isso aih, galera. Obrigada pelo krinho de todos vcs. Guto te amo. Beijoooos!! Fuiz!

Depois passou aos comentários. O querido Rafa, como sempre,

o primeiro: Oi lourinha linda

menina tu é linda de frente de perfil

de qualquer jeito

olha só o narizinho dela que coisa mais linda

todo bemfeitinho, empinadinho

minha amiga é o que é

é gata

demais

hauhauahuah

beijos linda!

 

Prizinha: Kitty

afff

a facul não tah dando nem tempo pa vc

se coçar

eh?? afff

deus eh mais

cuidado

pode ateh ser q estu-

do não mata, mas q te vai deixar um buraco negro na cabeça, isso

vai (vamos t q te internar) hauhauauhauh

brinkadeira

mas Dra.

Pri tem remédio do baralho. Kuando vc tiver um tempinho temos

 

ki sair pra botar pra kebrar ga. **Saudades** BjOkAs.

hauahuahu

Te AdorOooooo ami-

Deb: Oiii Kit

ohh amiga tah stressadinha neah??? Pooo eh cha-

to qd n temos tempo pa nd

mas eh seu futuro neah??? Te adoro!!!

BjuxXxXx no coraxaum Viv: Mó visu, hem, show de bola, tah linda. Léa: Seja sempre essa Kitty que eu adoro: Kitty que te quero Kitty. Beijos mil.

 

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  ki carinha de enfezada eh exxa amiga??? nã nã nã ateh Cam: Eiii axim
  ki carinha de enfezada eh exxa amiga??? nã nã nã ateh Cam: Eiii axim
 

ki carinha de enfezada eh exxa amiga??? nã nã nã

ateh

Cam: Eiii axim eh linda

xD

ooowww

temos ki marcar mais vezes isso msm

 

=P e com bebida neH?? jah pensou a gente subindo de novo na mesa do

xops pra danxar hein biriteira

huauhuha

e ciuminhos? Huahuahuh

º## falo nd viu

=X

ahhh

eu tenho babados sobre o amiguinho

hummm

€£°¬ sem noxaum

hihi

sabe akele presentinho ki vc keria

me dá? uHu!!! vou precisar

uhauhauhuha¬¬ altas dexisões

huahuha^^ beijos

¢£3^^~ te dolo lorinha do meu coreh

xP

* * **;

Kitty teve um pouquinho de dificuldade, relendo a mensagem de Cam, pra lembrar o que jazia por trás dos ditos não ditos: ciuminhos de quem, por exemplo, e babados sobre amiguinho — que amigui- nho? O presentinho ela lembrava o que era: dinheiro pra pagar um aborto: não um presente mas um empréstimo de que, lembrava tam- bém, só vira o cheiro de uma primeira suave prestação de quarenta paus. Também lembrava do dia em que, bêbadas até o talo, as duas subiram na mesa da choperia pra dançar, com a galera toda cantan- do e batendo palmas em volta — e dois três celulares tirando fotos do show. As duas foram se animando e Cam começou a fazer um strip. Kitty não ficou atrás. O pessu na mó torcida por ela. Mas no cômputo geral Cam levou ligeira vantagem: as duas empataram em botar os peitos de fora; empataram em tirar a saia e ficar de calcinha; aí, na última peça, Kitty amarelou e saltou pro chão, enquanto Cam conti- nuou até dançar nua em pêlo em cima da mesa. A lembrança lhe fez correr um arrepio pelo corpo. Pô, Kitty, segredou pra si própria, você era muito doida mesmo. Abriu, como foi dito, um por um, quase todos os arquivos. O querido Rafa, coitado, com a sua preocupação em ser sempre o primeiro a postar um comentário. Quanta amizade sincera naque- las palavras. Nanda, Rê, Deb, Big Pri, Prizinha, todas tinham uma palavra carinhosa pra lhe enviar. Até Jujuba estava ali. E o loser do Nênis, na época da declaração de amor e do pedido de casamento.

 

* * *

 

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  Kitty viu-se fazendo ali um exame crítico de uma Kitty que não   era
  Kitty viu-se fazendo ali um exame crítico de uma Kitty que não   era
 

Kitty viu-se fazendo ali um exame crítico de uma Kitty que não

 

era mais a Kitty que ela era hoje: como eu era sem noção, fala sério.

A

Kitty crítica censurou em especial a Kitty apaixonada por Guto: o

blog registrara emoções e declarações que hoje ela não conseguia mais entender. O namoro com Guto, embora só tivesse durado sete meses, era coisa que, em retrospecto, ela repudiava. Lembrou com uma pontada de vergonha a primeira vez que foi ao apart dele. Apart uma merda. Era a porra de uma kitchenette. Eu devia mesmo estar um pouco in love com esse cara, pra pagar esse mico. Que logo vazou pra tudo que é ouvido da galera. Até na Católica, uma vez, no banheiro, na porta de um dos cubículos, Kitty ficou chocada de ler estes versos:

 

Kitty mete, Kitty mete, Lá na minha kittynette. Quem se mete a ser coquete, No carpete faz boquete. Quem se mete a gostosete, Dá o cu no toalete.

 

Quem teria sido esse poeta filho da puta? Ela não sabia até hoje. Suspeitara de Jujuba, letrista de banda de rock. Jujuba negara com a displicência que usava como estilo de vida. Ah, foda-se, disse Kitty pra si mesma: tudo isso é passado. Aí concentrou-se em examinar as fotos. Ela era, é claro, presença obrigatória em todas. Às vezes (e sobretudo) só; às vezes com Guto; às vezes com uma amiga ou duas ou mais; às vezes em grupo de ambos os gêneros. Em casa; na rua; na balada; no Cláudio; no shopping; na praia. Deteve-se numa foto em que aparecia entre Deb e Viv. Foi no inverno do ano passado. As três

 

abraçadas, todas de suéter. Kitty viu que todas as três tinham peitos grandes, em alto relevo sob a lã dos suéteres: empate técnico. Vendo-

se

ali ainda de cabelo comprido, teve saudades daquele jorro de ouro

que lhe vinha até o meio das costas. Mas tudo bem: é só deixar que

 

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  cresce de novo, longo e liso e louro e lindo que nem antes. Viu
  cresce de novo, longo e liso e louro e lindo que nem antes. Viu
 

cresce de novo, longo e liso e louro e lindo que nem antes. Viu tam- bém, com um tique de saudade, alguns rostos de gente que, de uma forma ou de outra, já se fora: como o próprio Rafa, por exemplo, que se rebentara bêbado em seu terceiro e último acidente de carro; como Patti, que estava morando na Suíça e ralando de babá pra um casal brasileiro; como Ronnie, que fora espancado por pitboys no show da Ivete e fora morrer no hospital; como Sá, que brigara com ela por causa de Guto: que besteira: como se Guto valesse a pena duas amigas brigarem por ele: mas naquele tempo nenhuma das duas sabia disso. Lu aparecia em algumas fotos também. Tão risonha e bonita. Tão radiante de esperança de se dar bem na vida. Mas é: algumas fotos eram mesmo uma merda: não lhe faziam nem um pingo de justiça. Outras, porém, Kitty achou lindas pra cacete. Achou que tinha mudado, em parte pra melhor. Emagrece- ra uns quilates. Sua beleza amadurecera e se refinara, inclusive por causa do cabelinho curto. Mas uma certa faceirice, uma certa leve- za, uma certa frescura de rosa branca, que se viam ali naquelas fo- tos, tinham ficado pelo caminho. No todo, perdera umas coisas e ganhara outras. Bruno se apaixonara pela Kitty do blog, mas não se decepcionara com a Kitty do cemitério. Esta consolidava aquela. A beleza de uma era uma beleza em bruto; a da outra, uma beleza lapidada. A de uma era uma beleza em botão; a da outra, uma beleza já desabrochada. Se aquela era uma promessa, esta cumpria a promessa muito além do prometido. Mas houve uma coisa que a incomodou mais que tudo ali naquela releitura de seu passado. Ela abriu mais um arquivo; o texto dizia isto:

 

Oi gente

Tudo bem aí com vcs?? Pois eu me sinto ótima!!! Me sinto

 

nova, jovem de verdade, com pique e energia pra correr atrás de tudo q eu kero. Só tem uma coisa q me incomoda: não ter muito tempo pra

passar junto com meus amigos

Mas não é a distância q irá nos separar

né, mas a amizade q nos aproxima. Bom vou ficando por aki. Adoro

 

vcs

Obrigada pelo krinho, adoro muito todos vcs!! Fuiz galera.

 

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  O primeiro comentário era anônimo: anônimo e incômodo. Ela esquecera aquilo, mas durante todo
  O primeiro comentário era anônimo: anônimo e incômodo. Ela esquecera aquilo, mas durante todo
 

O primeiro comentário era anônimo: anônimo e incômodo. Ela esquecera aquilo, mas durante todo esse tempo aquelas palavras fica- ram ali registradas pra posteridade: e a posteridade agora era ela. O cara não tivera coragem de se identificar. E fora, por acaso, o primei- ro a postar um comentário: antecipara-se até mesmo ao pressuroso Rafa. Kitty releu, com certo mal estar, aquelas palavras:

Você se acha mesmo muito gostosa, mas eu não vejo nada em você.

Kitty nunca soube quem escrevera aquilo. Lembra-se de ter gasta- do boas horas discutindo possibilidades com Lu, com Deb, com Pri, com Cam, com Nanda, mas tudo era hipotético, nada conclusivo. Podia ser qualquer um. Podia ser algum Judas da própria galera, ou alguém da Católica, ou algum visitante casual do blog. Podia ser al- guém que tivesse ciúme do namoro dela com Guto, alguém que esti- vesse apaixonado por ela, ou, na pior das hipóteses, alguém que fora realmente sincero e dissera o que realmente pensava a respeito de Kitty. O fiel Rafa saíra logo em sua defesa num comentário que pos- tou dez minutos depois:

E alguém pediu sua opinião seu idiota??? Olha aí Kitty. Esse

cara fica aí se roendo todo de inveja e manda essa mensagem pra te magoar. Tenho certeza q não tem o privilégio de ser seu amigo como eu ou então keria muito estar no lugar de Guto. Manda esse invejo-

so tomar no ku

Vc é uma graça, é uma princesa, e é muito especial.

E pra tudo q vc precisar, estarei sempre aki.

 

Mas o comentário de Rafa não serviu de grande consolo. Aquelas duas frases (que se podem ler como versos decassílabos) incomoda- ram-na muito mais que todo o poema da kitchenette. Tentando ler as palavras com os olhos de Bruno, Kitty perguntou-se o que ele teria achado daquilo. Teria ficado surpreso? Indiferente? Indigna- do? Teria tido algum pensamento sarcástico a respeito? Kitty tentou

 
 

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  imaginar que resposta Bruno teria dado ao autor daquele comentá- rio. Alguma coisa massacrante,
  imaginar que resposta Bruno teria dado ao autor daquele comentá- rio. Alguma coisa massacrante,
 

imaginar que resposta Bruno teria dado ao autor daquele comentá- rio. Alguma coisa massacrante, certamente. Alguma coisa bem mais contundente do que o comentário passional do saudoso Rafa.

 

Você se acha mesmo muito gostosa, mas eu não vejo nada em você.

 

Na época, segundo se lembrava, ela quis pra cacete saber quem escrevera aquilo não pra colocá-lo contra a parede, espinafrar com ele, desancá-lo de alto a baixo. Queria, sim, conversar com a figura, mostrar que ela Kitty não era o que ele pensava que ela era. Queria conhecer as razões da crítica. Saber o que, no blog, ou na vida real, levara aquela pessoa a pensar aquilo sobre ela. Porque Kitty não

achava que se achava muito gostosa. Nem naquela época nem ago- ra. Ela era só e apenas Kitty. Era bonita, sim, era charmosa, sim, era benquista e popular, sim, era ao mesmo tempo forte e delicada, sim, mas era sobretudo e principalmente Kitty. Especial, sim, mas não mais especial do que tantas outras minas especiais de Mic. Aí ela ouviu, vindo da rua, perfurando a calada do silêncio, um grito medonho:

 

Hihohihohohohihohihohihohihohohohihohihoh!!!!

Seu coração só faltou parar dentro do peito. Pulou da cadeira e

 

foi direto à janela olhar a rua. Não havia ali ninguém mais à vista, mas o relincho continuava, diminuindo ao longe:

 

Hihohohihohohihihohohihohihohohihihohohoh!!!! Kitty não teve dúvida: era o Relinchador.

 

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  Kitty aos 22: Divertimento . Capítulo 6: quinta-feira. Kitty acor- dou, como se diz,
  Kitty aos 22: Divertimento . Capítulo 6: quinta-feira. Kitty acor- dou, como se diz,
 

Kitty aos 22: Divertimento. Capítulo 6: quinta-feira. Kitty acor- dou, como se diz, toda girassol: Apesar de tudo, tenho que admi- tir que tô muito felizinha. Pra começar bem o dia, ouviu “Erotomania”, com o Dream Theater: sete minutos totalmente instrumentais, só com os caras quebrando na guitarra, baixo, ba-

tera e teclado. Daí passou à tarefa de toda quinta: regar seu casal de cactos, Lois e Clark. Acabara de servir a cada um a sua dose semanal de uma colher de água quando o celular tocou. Era Lu. Kitty pensou: Essa vaca não me deixa mais em paz? Mas atendeu. Lu foi logo ao alvo do assunto:

Kitty, eu vou te fazer uma pergunta direta e quero uma res- posta direta.

 

— Ahn? — fez Kitty.

 

— Tu teve com Bruno ontem?

 

O tom de voz era glacial. Kitty entendeu que Lu já soubera de

 
 

alguma coisa. Mic é assim: cidade de fuxicos e mexericos: Fofocópolis.

 

— Tive. Quem te contou?

 

— Não interessa. Interessa é que tu tá furando meu olho, não é,

 
 

amigucha? Mas tudo bem: olho por olho, não é isso que tá na Bí- blia? Eu furo o teu, tu fura o meu, e tamos conversados.

 

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  Olha aqui, Lu, se alguém furou teu olho foi Bruno. Eu não tenho nada
  Olha aqui, Lu, se alguém furou teu olho foi Bruno. Eu não tenho nada
 

Olha aqui, Lu, se alguém furou teu olho foi Bruno. Eu não tenho nada com isso. Ele é que me procurou.

Te procurou, te encontrou e os dois pombinhos acabaram numa casa de chá.

Então alguém os vira juntos na Luar de Agosto. Quem teria sido? Lu adivinha os pensamentos de Kitty:

Tá querendo saber quem foi que viu? Tá bom, vou te dizer,

que senão tu não sossega. Foi a garçonete que serviu vocês, Kitty. Tu não conhece ela, é claro, como é que tu podia conhecer uma simples garçonete? Mas eu conheço. Mora aqui no conjunto, Kitty. Que cidade pequena, hein?

O cara me procurou pra devolver o sapato. Ele pensou que o sapato era teu, e queria que eu devolvesse a você.

— E, lógico, tu disse quem era a dona do sapato.

— Não tive intenção. Saiu na conversa.

 

— Ah, tudo bem, pra quem tá na merda, mais merda, menos

 

merda, dá no mesmo. Mas por que que Bruno não devolveu a porra do sapato pra mim, se ele pensou que era meu ?

Kitty jogou pro alto a porra da caridade:

 

Porque ele não queria mais ver você. Era eu que ele queria

 

ver, deu pra sacar, Lu? Ele terminou com você por minha causa. É

isso aí. Essa é que é a verdade. Lu parece que deixou até de respirar do outro lado da linha.

Mas depois achou de novo o ar, a voz, e a capacidade de juntar uma palavra com outra:

É claro. Que ingenuidade a minha, querer competir logo

com quem, com Kitty Leme, a queridinha de Mictown. É claro que

eu tinha que me fuder.

Eu não tive nada com isso. De repente nem quero ter. O que

 

eu quero é fazer a coisa certa.

 

E fazer a coisa certa é ir com ele numa casa de chá?

 

Fazer a coisa certa é fazer o que me der na cabeça, é isso aí. Lu fez silêncio do outro lado da linha.

 

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  — Kitty, — disse ela, num fiapo de voz.   — O quê? —
  — Kitty, — disse ela, num fiapo de voz.   — O quê? —
 

— Kitty, — disse ela, num fiapo de voz.

 

— O quê?

— Tu já tem um puta namorado, Kitty.

 

— Meu namorado é puta mesmo, Lu. Meu namorado é mais gay

 
 

do que straight. Nós duas sabemos disso, mas você nunca falou nada comigo. Mas e daí? Se eu paquerar Bruno ou não, que diferença isso faz pra você? Acorda: ele não quer nada com você não, garota.

 

— Kitty. — Novamente o fiapo de voz.

 

— O quê?

— Olho por olho, Kitty. O gato sacaneou comigo. Sacaneia

 
 

com o gato, Kitty. Tu não quer nada com ele, não é? Nunca quis. Aquela mancha, e talz. Então faz isso por mim, Kitty: dá ponto pra

ele, e aí, quando ele achar que te ganhou, fura o olho do gato, pelamor de Deus.

 

Olha, Lu, eu acho que isso não é coisa que você devia me

 

pedir, mas quem sabe de repente eu faço é isso mesmo. Mas tudo depende.

 

Depende do quê, Kitty? Tu não viu o que o cara fez comigo?

 

Sabe lá se ele não quer fazer com você a mesma coisa? Esse cara é

doido, Kitty. Vai ver que tá até ligado aí ao sobremundo das drogas

e

a gente nem sabe.

 

Não garanto nada não, Lu. Vamos ver o que vai rolar.

 
 

Kitty, — Lu disse, — se tu não fizer o que eu tô pedindo, Kitty, Deus que me perdoe, mas nossa amizade terminou.

 

Grande merda, — Kitty disse. E desligou o celular.

* * *

Fim da manhã Kitty trajou-se de escuro — vestido e óculos —

 
 

em sinal de luto e foi à cerimônia de lançamento das cinzas de Benjy

e

Bobby no lago do campus. Benjy e Bobby tinham estudado na

Federal; tinham-se conhecido ali; depois cada um foi pro seu lado, mas, dez anos depois, se reencontraram e resolveram viver juntos;

 

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  e, quem diria, acabou sendo um casamento à antiga, do tipo até que a
  e, quem diria, acabou sendo um casamento à antiga, do tipo até que a
 

e, quem diria, acabou sendo um casamento à antiga, do tipo até que

a

morte nos separe. A escolha — nem da cremação nem do destino final das cinzas

— não foi deles: foi das famílias, por sugestão de Tânia. Que estava lá, no meio de um pequeno grupo de amigos e parentes dos mortos,

e

veio logo abraçar Kitty e babar-lhe o rosto de uns beijos, ao mes-

mo tempo em que lhe elogiava o pretinho básico. Tomou-a pela mão e trouxe-a até à margem do lago, dizendo: Cuidado onde pisa:

tá tudo cagado de cocô. Kitty perguntou: Cocô de quê? De marre- co, Tânia respondeu. Kitty, de olho sobre a grama, evitou pisar na merda com seu sapato preto. Sobre um banco de pedra à margem do lago estavam de pé, em sua austeridade funerária, as duas urnas. Tânia solene mostrou-as a Kitty sem dizer palavra. Kitty solene olhou-as também sem dizer palavra. Lembrou-se de Benjy, lem- brou-se de Bobby: achava difícil acreditar que corpo e alma de cada um deles não passavam agora de um punhado de pó cabível com folga dentro de uma urna daquelas. Tânia não lhe queria largar a mão. Por ela, ficariam de mãos dadas a cerimônia toda. Com firmeza, porém, Kitty se desvenci- lhou e postou-se a certa distância. Lu não estava lá. Nem muito menos Bruno. Nem a imprensa: o caso da pedra da Cebola, sem fatos novos, tinha esfriado. Mas estava Prizinha. Que se apaixonou pelos marrecos que singravam as águas do lago, indiferentes a todo aquele ritual de luto humano: sabem, melhor que nós, que tudo é nada mais que pura e simples vaidade. Alguém fez um discurso babaca em homenagem aos mortos. Elogiou-lhes as virtudes — sobretudo a alegria e a hospitalidade — sem apontar-lhes nenhum dos defeitos. Kitty lembrou-se do que lhe

dissera Sérgio: Eles traem a nossa confiança. Foi só lembrar-se disso

e

viu Sérgio por ali também, ouvindo de cabeça baixa a tocante

oração. Kitty já ouviu dizer que o criminoso sempre volta ao lugar do crime. Sérgio, porém, se é que é o criminoso, acaba voltando também ao lugar onde são lançadas as cinzas das vítimas.

 

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  Foi preciso chegar bem próximo à beira do lago pra consumar a cerimônia. A
  Foi preciso chegar bem próximo à beira do lago pra consumar a cerimônia. A
 

Foi preciso chegar bem próximo à beira do lago pra consumar a cerimônia. A Sônia, a irmã magra, coube lançar as de Benjy; as de Bobby, a seu irmão, que continuava envergonhado do parentesco com bicha assassinada por bofe. Kitty procurou por Sérgio: lá esta- va ele, à beira do lago, contrito. Seu olhar cruzou com o de Kitty; pôs o dedo no lábio em sinal de psiu. Algumas pessoas soltaram ohs de emoção quando irmão de um e irmã de outro espargiram sobre as águas a primeira mancheia de cinzas. Ciscos de cérebro, de pele, de carne, de osso, de músculo, de sangue, do caralho a quatro, de um morto e de outro, misturaram- se romanticamente no ar antes de caírem como chuva seca sobre o úmido seio do lago. Irmão e irmã mandaram uma segunda mancheia de pó. Brisa marota soprou de volta sobre a platéia enlutada quase todo aquele lote de cinzas. Kitty sentiu no olho um cisco de Benjy, ou de Bobby: como saber de qual dos dois? Pôs-se a mexer no olho com o dedo, mas não conseguia tirar o cisco de jeito nenhum.

Que merda, — exclamou. A irritação como expressão de

luto.

— Que que foi, Kitty? — perguntou a solícita Prizinha.

 

— Cinza na porra do olho, — Kitty disse. De novo a irritação

como expressão de luto. Pri começou a rir. Kitty olhou séria pra ela. Pri tentou tirar o cisco soprando o olho de Kitty. Kitty afastava bem as pálpebras, Pri

soprava forte como vento sul. De tanto que soprou, o cisco de Benjy, ou de Bobby, como saber, acabou deixando em paz o olho azul de Kitty. Pri voltou de carona com Kitty. De Sérgio, graças a Deus, nem sombra.

É hoje, — Pri disse, com voz excitadinha.

Kitty pensou que Pri — mas como podia? — estivesse se referin-

 

do ao encontro dela com Bruno. Mas não: era à abertura do Victoria Fashion Week. Pri conseguiu descolar um ingresso.

E você? — perguntou.

 

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  — Eu vou também, — Kitty disse, com a maior naturalidade, mas sem entrar
  — Eu vou também, — Kitty disse, com a maior naturalidade, mas sem entrar
 

Eu vou também, — Kitty disse, com a maior naturalidade,

mas sem entrar em detalhes do tipo com quem. — Também descolei um ingresso. Kitty deixou Pri na Presvot, pegou a Rio Branco, atravessou a ponte que tem nome de herói e daí a mais um pouco estava em casa. Era meio-dia e meia.

*

* *

Depois do almoço deu uma descansadinha ouvindo The Strokes. Levantou tipo duas e saiu pra depilar axilas, pernas e virilha. Vol- tou pouco depois de três e meia. Mal entrou em casa, telefone tocou. Kitty atendeu. Era Penha, prima dela. As duas não se dão muito bem; dão-se, aliás, muito mal.

 

Kitty, fala com sua mãe que papai caiu do telhado. Tá no hospital.

E

disse em que hospital.

 

Kitty subiu até o terceiro nível e entrou no quarto de Mummy. Era enorme e mórbido como um mausoléu, e abafado, e escuro —

 

cortinas sempre hermeticamente fechadas. Mummy jazia na cama, sozinha com sua depressão: o rato do Phil estava ausente. Kitty deu o recado a Mummy. Pra sua surpresa, Mummy quicou da cama e começou a berrar: Paulinho morreu, Paulinho morreu!

— Morreu não, Mummy. Só caiu do telhado.

 

— Morreu, sim, morreu, eu sei que ele morreu.

A

depressão passou num instante. Mummy, cheia de uma súbita

 

energia que a Kitty pareceu malsã, quis ir imediatamente pro hospi- tal. Kitty sentiu-se desolar. Pronto: lá se foi o Fashion pras picas. Pior: a porra do Phil tinha ido não se sabe onde, e a chamada pro celular caiu na caixa postal. Resumo da ópera: Kitty é que teve de levar Mummy ao hospital, lá em Maruípe. Mummy é Scarpini, é descendente de italianos, essa coisa de família ainda é muito forte na geração dela.

 

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  — Tio Paulo não tinha nada que subir em telhado, — Kitty   disse,
  — Tio Paulo não tinha nada que subir em telhado, — Kitty   disse,
 

Tio Paulo não tinha nada que subir em telhado, — Kitty

 

disse, durante o trajeto. Queria dizer: Não tinha nada que estragar meu programa. Seria difícil, se não impossível, ir ao Fashion com o tio estendido no caixão, chumaço de algodão no nariz e rosário de contas entre os dedos.

 

Ele não subiu em telhado nenhum, — Mummy disse. Já está

 

mais calma, juntando reservas de desespero pra liberar no hospital, diante do morto. — Na nossa família, quando a gente tem que pre- parar o espírito de alguém pra morte de um parente, a gente come- ça dizendo que caiu do telhado. Um embrião de esperança começou a formar-se na alma de Kitty.

 

— Liga pra Penha, pra confirmar, — sugeriu.

 

— Não precisa, — Mummy disse. — Eu sei. Paulinho morreu.

 

O

resto do trajeto Kitty pediu a Deus que interviesse: que a histó-

 

ria fosse outra, que o tio não tivesse morrido coisa nenhuma. Ou até que levasse alguns dias pra morrer, como o pobre Ronnie, espancado por pitboys, que agüentara uma semana de hospital antes de pifar. Só de pensar em não ir ao Fashion Week dava-lhe vontade de gemer; só de pensar em ir de novo a um cemitério dava-lhe vontade de ganir. Mas Deus ouviu-lhe a prece ou, em se tratando de Kitty, que nome tenha. Pois chegaram ao hospital, subiram ao apartamento, Paulinho estava lá, vivo, desperto, de perna engessada. Kitty teve um sentimento de pura emoção: não acreditava muito nessas coi-

sas, mas pareceu-lhe que o tio estivera realmente morto e só ressus- citara graças ao pedido que ela, Kitty, fizera a Deus.

 

O

que aconteceu foi que Paulinho subiu ao telhado pra cortar

 

um galho de árvore, escorregou, e o tombo foi feio mas não foi fatal.

Em torno do leito estavam a mulher e Penha, a filha, que não se dá muito bem com Kitty, nem Kitty com ela. Riram-se todos muito do susto de Mummy, inclusive Mummy. Kitty não chegou a achar gra- ça: sorriu, no entanto, felizinha.

 

E

ainda mais felizinha ficou quando viu entrar Phil. Quem diria

 

que alguma vez pudesse ficar feliz de ver o babaca do Phil. Mummy

 

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  também ficou feliz: abraçou-se a ele e chorou, aliviando a tensão. Contaram o equívoco;
  também ficou feliz: abraçou-se a ele e chorou, aliviando a tensão. Contaram o equívoco;
 

também ficou feliz: abraçou-se a ele e chorou, aliviando a tensão. Contaram o equívoco; Phil meneou a cabeça e deu um meigo beijo em Mummy. Kitty sentiu que já podia se mandar: sua presença não era mais necessária. Alegou compromisso, deu um beijo no tio e:

Mummy, Phil tá aí, eu tô liberada, né? Mummy nem prestou muita atenção, envolvida que estava naquela situação de família. Família

é

bom pra isso: pra gente se sentir pertencente: casamentos vêm e

vão, mas família é pra sempre. Penha acompanhou Kitty até o corredor. Prepara, Kitty, as unhas. As duas não se dão: desde crianças, nos aniversários de uma ou de outra, sempre chegava um momento em que Kitty e Penha tinham de se atracar aos tapas e pontapés e puxões de cabelo. Ago-

ra, adultas, odeiam-se ainda mais: Kitty odeia em Penha a capaci-

dade de se dar bem nos estudos; Penha, em Kitty, a impecável beleza sem mácula.

 

— Aposto que você vai ao desfile, — Penha disse.

— E vou mesmo.

— Você se deslumbra mesmo com toda essa futilidade, não é?

 
 

Isso é um picadeiro de luxo, Kitty, cheio de alfaiate bicha e de mu- lher anoréxica desfilando que nem égua.

 

— Isso é fashion, Penha. Você não entende de fashion não.

— Pra mim, fashion não é uma coisa que fica mudando de uma

 

estação pra outra não. Mas não quero ficar falando mal do mundo da moda, até porque o maior problema não é o mundo da moda, mas as pessoas que ficam mendigando em volta e querendo fazer parte. Não é, Kitty? Eu, graças a Deus, não sou fashion nem quero ser. E não iria a um desfile desses nem que me pagassem. Pior é que Kitty sabe que nada disso é inveja nem despeito. Pe-

nha é tirada a intelectual. Gosta de estudar e de ler, essas ecas. Faz Engenharia Mecatrônica na Federal. Sucesso dela no vestibular foi um dos momentos negros da vida de Kitty. O orgulho de Mummy com a sobrinha, essas coisas. A censura indireta: por que Kitty não

é

como Penha?

 

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  Cada qual na sua, — Kitty disse. — Você gosta de livro, eu gosto
  Cada qual na sua, — Kitty disse. — Você gosta de livro, eu gosto
 

Cada qual na sua, — Kitty disse. — Você gosta de livro, eu gosto de agito. Eu tô vivendo, você não tá não.

Isso é vida, Kitty? Isso é uma falsa realidade. Todo mundo

quer confete, todo mundo quer flash, todo mundo quer dar autó- grafo. Acorda, patricinha.

Patricinha é o caralho, — retrucou Kitty.

Tinha de baixar o nível, — disse Penha, risonha por ter feito Kitty perder a classe.

 

*

* *

Kitty foi pra casa pensando que roupa usar na Fashion. Alguma coisa do bate-boca com Penha ajudou-a a decidir. Decidiu que ia, como na véspera, primar pela simplicidade. Melhor ainda: ia com o mesmo vestido que usara pra ir à casa de chá. Bruno que se fudesse se achasse uma merda. Mas ela, Kitty, achou que o máximo da ori- ginalidade num desfile de moda era ir vestida com um traje descara- damente simples. Se era pra competir com as tops e com as pris da vida, ela competiria por meio de simplicidade absoluta. Quando deu seis horas começou a se produzir. Tomou seu banho ao som do cd A Rush of Blood, do Coldplay. A letra de uma das músicas, “Green Eyes”, aplicava-se a Bruno com perfeição. Vestiu-se ao som do cd de Avril Lavigne, Complicated. Olhou-se no espelho e aprovou o que viu. Estava uma maravilha de coisa simples. A única mudança que fez no traje da véspera foi trocar a sapatilha pela sandá- lia Melissa de salto Anabela que comprara na segunda-feira. Mummy e Phil ainda não tinham voltado quando ela saiu no Cláudio. Mummy devia estar aproveitando até à borra a ocasião de estar em família — ainda mais com Phil ao lado: podia mostrar que tinha um companheiro, que não estava entregue às baratas como muita gente da família podia pensar.

 

*

* *

 

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  No sinal trifásico perto do McDonald’s um pedinte abordou-a. Era um rapaz de mais
  No sinal trifásico perto do McDonald’s um pedinte abordou-a. Era um rapaz de mais
 

No sinal trifásico perto do McDonald’s um pedinte abordou-a. Era um rapaz de mais ou menos sua idade, que veio com a velha conversa de portador de HIV. Kitty negou-lhe esmola, mas o cara

insistiu; Kitty negou com mais rispidez, mas o cara ainda assim in- sistiu. Kitty ficou puta:

Qual é, cara, vê se te manca. Quer dinheiro, vai assaltar al- guém, mas não me enche o saco, tá?

— Qual é, patricinha, precisa engrossar não.

 

— Patricinha é a puta que pariu.

— Marquei você, tia. Qualquer dia eu ainda te assalto mesmo.

 

— Tô te esperando, filho da puta.

 

— Vou comer seu cu, dondoca.

— Você não é de porra nenhuma, cara. — E disparou com o

 

Cláudio no sinal verde. Agora Kitty ei-la de volta ao território familiar do Shopping Vix. Acabou chegando mais cedo do que pretendia. Deus que a livre de chegar primeiro a encontro com um cara. Por isso nem pensou

em ir pra praça do rango. Passeou de lá pra cá e de cá pra lá, olhan- do vitrine. Vagueou ali pela área de expansão do shopping, que não conhecia tão bem como a área mais antiga. Ali deu de cara com uma mulher enorme de grávida e reconheceram-se ao mesmo tempo:

Judy, disse Kitty; Kitty, disse Judy. Tinham sido colegas de turma no Sacré Coeur. Abraços e beijinhos.

Mas que que é isso aí? — perguntou Kitty, rindo, apontando pra barriga de Judy.

— É o Paulo Henrique, — respondeu Judy, rindo também.

— Fala sério, Judy, — disse Kitty. — Como é que pode?

— Mas pode, — disse Judy. As duas riram.

 

— Pô, Judy, como é que as coisas acontecem rápido pra algu-

 

mas pessoas, hein? Outro dia a gente lá no colégio e agora você aí quase parindo. Tem tempo que casou?

Quatro anos. Meu marido é francês. Tô lá com ele. Só voltei pra ter meu filho aqui.

 

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  — Que chique, Judy, — disse Kitty, referindo-se ao marido francês. E você não
  — Que chique, Judy, — disse Kitty, referindo-se ao marido francês. E você não
 

Que chique, Judy, — disse Kitty, referindo-se ao marido francês.

E você não mudou nada, — disse Judy. — Continua linda de morrer.

Você também não mudou nada, — disse Kitty. E, apalpan- do-lhe a barriga: — Só aqui.

Sabe, Kitty, tem vez que eu sinto falta das nossas brincadeiras, do tempo que a gente era menina, que não havia problema nenhum na nossa vida, nem nenhuma preocupação de gente grande.

Eu sei como é que é, — Kitty disse.

Judy sugeriu sentarem e tomarem alguma coisa. Kitty fez cara de que pena: tinha compromisso: Vou encontrar com Bruno daqui a pouco.

 

Uhmmm! — fez Judy, com cara de quem entendeu tudo.

* * *

Judy se foi com Paulo Henrique na bolsa do ventre; Kitty ficou com uma sensação de tempo perdido que procurou afogar com um tratamento à base de vitrine. Parou aqui, parou ali, parou lá e mais adiante também. Diante de cada vitrine executa um show que co- meça e termina restrito aos pés — calçados, convém lembrar, em elegantes sandálias vermelhas: são os silenciosos movimentos minimalistas de uma dança pedestre: um giro pra cá, um giro pra lá, um toque de bico de sandália no piso, um cruzar de tornozelos. Tudo tão meigo, tão suave, tão belo e acima de tudo tão inconscien- te como o monólogo de um gato que se banha de língua. Agora Kitty chega diante da vitrine de uma butique que não é uma butique, mas um reino da fantasia. Ali um grupo de manequins acéfalos veste pra ela ver modelos que lhe parecem todos esplêndidos; ela olha um, olha dois, olha três, mas, num piscar de olho, tudo é relegado pra lá: porque há ali no meio um modelo que, de tão especi- al, chamou-lhe de tal modo a atenção que Kitty não só esqueceu tudo que vira antes mas esqueceu até da vida pra contemplá-lo. Era um

 
 

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  belo vestido negro, sua cor favorita, de corte simples e tal, mas o que
  belo vestido negro, sua cor favorita, de corte simples e tal, mas o que
 

belo vestido negro, sua cor favorita, de corte simples e tal, mas o que

a

deslumbrou foi que o decote do lado esquerdo deixava o seio do

manequim todo de fora. Kitty, se nunca sentira antes, sentiu ali o que

era amor à primeira vista. Ela era pro vestido e o vestido pra ela: feitos um pro outro. Pois era vestido talhado pra pôr à mostra um dos melhores trunfos que seu corpo tinha: o peito: o peito meio que gran- de, e redondo, e firme, e arrebitado. Isso em termos estéticos. Em termos práticos, era vestido talhado pra primeiro encontro de Kitty com carinha: o peito já vinha descoberto: já vinha acessível aos beijos

às carícias. Kitty viu-se vestida naquele vestido: exibindo-se naquele vestido: dançando naquele vestido: jazendo morta, se preciso fosse, naquele vestido. Só faltava uma coisa: coragem pra usá-lo. Bruno brotou-lhe ao lado pra contracenar com ela. Ao voltar- se pra ele, Kitty viu que seus olhos verdes moviam-se em vaivém: do corpo de Kitty pra vitrine da loja e de volta ao corpo de Kitty: do vestido simplezinho pro vestido irreverente e de volta ao vestido simplezinho. Os olhos, se perguntados, não saberiam dizer qual dos dois vestidos os havia impressionado mais.

e

— Você vai assim? — perguntou ele, afinal.

 

— Por quê? Não pode não? — disse Kitty, desafiante.

 

Por mim, tudo bem. Até acho legal. Mas tem certeza que é isso que você quer?

É isso que eu quero, — Kitty sem dúvida alguma disse.

E esse outro aí? — Bruno perguntou, indicando o vestido da vitrine.

— Acho lindo, mas nunca teria coragem de usar.

— O problema desse vestido, — Bruno disse, — é que você não

pode usar em qualquer lugar. Tirando isso, é um vestido feito sob medida pra você.

— Que que você quer dizer?

 

— Teus seios são lindos, Kitty, — Bruno disse, escolhendo a

 

dedo a respeitosa palavra seios. — Acho que nunca vi seios tão lin- dos como os seus.

 

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  Kitty sentiu o ego inflar.   — E pode-se saber onde é que você
  Kitty sentiu o ego inflar.   — E pode-se saber onde é que você
 

Kitty sentiu o ego inflar.

 

E pode-se saber onde é que você viu meus seios?

 
 

Na Internet, é claro, — Bruno disse. — Naquela foto da turma da faculdade.

Instintivamente Kitty tocou os peitos com a palma das mãos. Um gesto de proteção ou de vaidade: nem ela saberia dizer.

 

— Como é que você soube daquela foto? — perguntou.

— Prizinha me deu a dica, — Bruno disse.

 
 

Filha da puta, pensou Kitty, mas sem rancor. O que está na Internet qualquer um pode ver. Então por que que esse carinha não pode também?

 
 

* * *

Dali saíram pra praça do rango. Kitty aceitou a primeira suges-

 
 

tão que Bruno fez: comida chinesa. Não estava a fim de perder tem- po com algo de tão fisiológico como rangar. Foram até o balcão, fizeram o pedido, esperaram um pouco, e Bruno aceitou que cada qual pagasse a sua conta. Saíram dali transportando o prato na bandeja. Sentaram-se na primeira mesa vaga que viram. Provaram a comida. Uhmmm, fez Kitty, pro forma. Bruno não fez Uhmmm nenhum; foi logo dizendo:

 

Ontem eu falei de mim. Hoje quero ouvir você falar de você.

Kitty fez charme:

— Falar o quê? Não tenho nada de interessante pra falar de mim.

 

— Fala como é que você se vê.

 

Por que terá passado pela mente de Kitty aquela frase anônima:

 
 

Você se acha mesmo muito gostosa, mas eu não vejo nada em você.

 

Tem gente que diz que eu me acho muito gostosa. Mas não é

 

assim que eu me vejo. Eu sou uma criatura simples, eu dou duro, eu estudo, eu quero me formar, arrumar um emprego, quero ganhar o meu dinheiro, ser independente. Quero casar, ter filhos, quem não quer? Quero o que todo mundo quer: ser feliz.

 

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  — E é nessas coisas que tá a felicidade pra você?   — É,
  — E é nessas coisas que tá a felicidade pra você?   — É,
 

— E é nessas coisas que tá a felicidade pra você?

 

— É, — Kitty disse, com firmeza.

—Entãovocêémesmoumacriaturasimples,—concordouBruno.

 

Sou, — Kitty disse, com firmeza, mas só da boca pra fora: na

 

verdade soou-lhe mal o adjetivo aplicado a ela por outra pessoa.

 

Pois não é não, — Bruno disse, desmentindo de um só golpe

 

a

ela e a si próprio. — Acho que você é uma criatura muito comple-

xa. Acho que você ainda não se encontrou. Acho que um dia você ainda vai se surpreender muito com você mesma. Aquelas palavras agradaram a Kitty. Sentiu-se muito especial- mente especial: mais do que achava que era. Lembrou-se da expres- são que Sérgio, o doidinho, usara: Eu sou putamerdalmente foda.

Achou que a expressão podia se aplicar a ela também.

Lembrar do mal. Kitty espantou-se de ver, na franja da praça, imó- vel, olhando pra eles, ninguém menos que o próprio Sérgio, o doidinho. Seu espanto foi tal que Bruno reparou e olhou na mesma direção. Aí deu-se um lance da mais pura fantasia. Bruno fez um gesto brusco com

a

mão e Sérgio imediatamente puxou o carro e desapareceu de vista.

 

— Você conhece aquele carinha? — Kitty perguntou, surpresa.

— Conhecer é modo de dizer, — Bruno disse. — Encontrei com

 

ele uma vez. Na casa de Benjy. Ele fazia uns biscates lá. E você, co-

nhece de onde?

 
 

— Você chegou a ir à casa de Benjy?

 

— Umas duas ou três vezes, — Bruno disse. — Kitty, já esque-

 
 

ceu? Tem muito tempo que eu tô aqui em Vitória. Mas e você, co- nhece de onde aquele cara?

Conheci esta semana. Dei carona a ele. Tava com a bicicleta quebrada.

 

— Boa samaritana? Não esperava isso de você.

 

— Não fiz por mal. Fiquei com pena. Só isso.

 

Por um instante Kitty pensou em confiar a Bruno o segredo que levava caladinho no coração. Mas foi só um instante. Confiar, só em Deus, e olhe lá.

 
 

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  Aí ficaram em silêncio, só comendo aquela comida em fiapos e frangalhos. Depois Bruno
  Aí ficaram em silêncio, só comendo aquela comida em fiapos e frangalhos. Depois Bruno
 

Aí ficaram em silêncio, só comendo aquela comida em fiapos e frangalhos. Depois Bruno voltou à carga:

Vou fazer um inquérito com você, — disse ele. — Eu digo uma

palavra e você diz a primeira coisa que te vier à cabeça. Pode ser?

Quer dar uma de psicanalista comigo?

Só pra te conhecer um pouquinho mais. Tá bem? Vou come- çar. Filosofia de vida.

 

A vida tá aí; se não vivermos intensamente a nossa, quem vai viver pela gente?

— Filme.

 

Dogville.

— Atriz.

— Nicole Kidman.

— Ator.

— Brad Pitt.

— Diretor.

— Steven Spielberg. — E ela sabe o nome de algum outro?

 

Escritor. Aí Kitty teve de parar pra pensar.

 

— Jorge Amado. — Nunca leu um livro dele.

— Livro.

Outra pausa. Qual o último livro que tinha lido mesmo? Harry

 

Potter vinha-lhe à cabeça, porque Déia lia. Mas achou pueril de- mais pra uma criatura complexa como ela.

O Guarani, — disse. De quem era mesmo?

 

— Frase.

— Deus não usa desodorante.

— Como é que é?

Kitty alegrou-se de tê-lo surpreendido:

— É isso aí, doutor. Vamos em frente.

— Frase que te define.

— Sou como sou e quem não gosta foda-se.

— Cidade.

 

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  — Sampa. — Depois acrescentou, pra não parecer que estava puxando o saco dele:
  — Sampa. — Depois acrescentou, pra não parecer que estava puxando o saco dele:
 

Sampa. — Depois acrescentou, pra não parecer que estava

puxando o saco dele: — E Rio.

 

O que você mais gosta em Vitória?

As praias.

Droga.

Tô fora. — E estava mesmo, desde a histórica overdose em

 

Porto.

Diversão.

Dançar.

Sexo.

Nunca no primeiro encontro.

 

Futuro.

Negro.

Ambos se espantaram com a resposta. Bruno ficou olhando fixo pra ela. Kitty achou que devia dizer alguma coisa:

 

Acho que eu tava pensando em outra pessoa. — Em Lu, é

claro. — Mas vamos parar por aqui, esse jogo é foda. Como é que eu me saí?

Muito bem. Mas que negócio é esse de não fazer sexo no pri-

meiro encontro?

 

Ah, já saquei. Me fez todas essas perguntas só pra saber o que

 

eu penso de sexo. Mas eu não me importo. Sou uma mulher libera- da. Falo de sexo como falo de sorvete.

— Então me diz: é reprimida?

 

— Reprimida, não. Só não faço o que não curto.

 

— O quê, por exemplo?

 

—Não curto anal.

— Aposto que oral também não.

— Oral, pra mim, só em ocasiões muito, muito especiais. Tem

 

de haver um clima muito gostoso, uma notícia maravilhosa, um

presente fantástico, muito amor e carinho. Só pela sacanagem, nem pensar.

Você fala de sacanagem como se fosse pecado.

 

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  — Pecado? Pecado é matar o outro. Eu gosto de sacanagem.   Quem não
  — Pecado? Pecado é matar o outro. Eu gosto de sacanagem.   Quem não
 

Pecado? Pecado é matar o outro. Eu gosto de sacanagem.

 

Quem não gosta? Mas não pode ser com qualquer carinha. Kitty percebeu, ali, que aquela conversa a excitava. Esse cara é perigoso, pensou. Daqui a pouco me deixa doida pra transar, e aí quem está mais perto é ele.

 

Acho bom a gente ir, — lembrou. Eram oito e meia.

 

Levantaram e foram. Na saída cruzaram com um sujeito todo grunge com uma mensagem escrita na camisa: Fuck the Fashion.

* * * Bruno, taticamente, viera pro shopping de táxi: deixara a Toyota numa garagem do centro, perto do escritório onde tivera uma reu-

nião antes de vir pro shopping: achara mais prático irem pro Fashion os dois num só carro. Elogiou o Cláudio de alto a baixo, por dentro e por fora. Per- guntou se não dera mais problema depois daquele enguiço no cemi- tério. É um carrão, opinou, enquanto o Cláudio singrava a Nossa Senhora dos Navegantes rumo ao norte. Num semáforo deteve-se a olhar a motorista. Com o rabo do olho, Kitty notou.

 

— Que que você tá olhando?

 

— A coisa mais bonita de Vitória, — Bruno disse.

 
 

Olha aqui, Bruno, tá pensando que vai conseguir alguma coisa com elogio desse tipo?

 

— Não vou não? — ele riu.

 

— Não vai não, — ela riu.

— Pois já consegui ver você rir, — ele disse.

 

Kitty suspendeu o riso. Aquele cara tinha a capacidade de fazê-

 
 

la baixar a guarda.

 
 

— Que que você tá querendo de mim, hein, cara?

 

— Tô querendo o que já consegui: me apaixonar por você.

 

Kitty respirou fundo. E pisou fundo também. Cláudio empinou e galopou pela avenida Camburi até que um semáforo avermelhou no seu caminho. Kitty freou a tempo.

 

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  Não pensa que eu tô gostando disso, — disse ela, com sua bela voz
  Não pensa que eu tô gostando disso, — disse ela, com sua bela voz
 

Não pensa que eu tô gostando disso, — disse ela, com sua bela voz grave. Mas será que não está não, Kitty?

Não tô pensando nada, — Bruno disse. — Só tô pensando isso que eu te disse: tô apaixonado por você.

Aí não se conteve e passou a mão no cabelinho de Kitty.

Tira essa mão daí, seu Mancha Negra, — Kitty exclamou.

A mão esvoaçou dali. Bruno baixou a cabeça, magoado e hu-

milde. Kitty se tocou que exagerara: agora fudeu. O jeito foi dar uma guinada no Cláudio e parar junto ao calçadão de Camburi.

Eu não precisava ter dito isso. — Foi a maneira que achou de

pedir desculpas. Bruno não disse nada. A mancha no lado esquerdo do rosto iluminava-se no facho de luz dos faróis dos carros. Kitty viu

que precisava dizer mais alguma coisa: — Caguei a noite, não foi?

Também, pensou ela, o cara fica me enchendo o saco fazendo declaração que eu não estou a fim de ouvir e depois ainda me passa a mão no cabelo. Tá pensando o quê?

Você fez bem, — Bruno disse. — Eu às vezes esqueço da porra

dessa mancha. É bom me lembrar que ela existe.

 

— Não faz drama não, Bruno, — Kitty disse.

— Eu já te contei a história da minha vida. Toda mulher que eu

 

quero é a mesma coisa: não encara essa mancha nem pelo cacete.

Eu não tô nem aí pra essa tua mancha, Bruno. Mas não vou

nessa história de amor à primeira vista não. Quem é você? Eu não sei quem é você.

Eu sou essa mancha na minha cara.

Kitty soltou um suspiro de desdém.

 

Deixa de ser criança, cara.

Foi o que bastou pra Bruno se fazer mais criança:

 

Você gosta pelo menos um pouco de mim, Kitty?

Eu taria aqui, cara, se não gostasse? — Irritou a Kitty ser força- da a dizer aquilo. — Agora me diz: ainda tem clima pra gente ir ao

Fashion ou quer que eu te leve lá no centro pra você pegar teu carro?

Você é que tá dirigindo. Vai pra onde você quiser.

 

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  — Então vamos pro Fashion. — E Kitty tentou aliviar o clima:   Ou
  — Então vamos pro Fashion. — E Kitty tentou aliviar o clima:   Ou
 

— Então vamos pro Fashion. — E Kitty tentou aliviar o clima:

 

Ou você acha que eu vou perder esse barato só por causa das tuas frescuras?

 

* * *

No território do Victoria Fashion Week — um centro de conven-

 
 

ções no planalto serrano, a meros vinte quilômetros de Mata da Praia

Bruno cresceu de repente e mudou-se de Bruno em Bruno Hodiak.

Estava em seu elemento: aquilo que rolava ali era fruto de palpite seu e de empenho seu e de trabalho seu. Ele ajudara a captar — em certos casos a extorquir — o dinheiro que tornara possível tudo aquilo.

Kitty, ao lado dele, não teve dificuldade pra entrar em lugar algum, a começar pelo estacionamento pra convidados. Foi só o segurança vislumbrar a cara manchada de Bruno ao lado da moto- rista e pronto: eis o caminho liberado pro Cláudio entrar. Salta- ram. Do estacionamento, através de um istmo de concreto, você passa ao saguão superior do edifício. Misturaram-se a outros con- vidados que seguiam por ali. No meio do istmo Kitty parou pra olhar a multidão que se juntara lá em baixo, contida por cordões de isolamento e enxames de seguranças pra não invadir os acessos do rés-do-chão. Kitty viu acotovelar-se ali o que lhe pareceu uma grande horda de bugres: nem eram propriamente bugres de nascença, por- que a escória de Mic não estava ali, mas bugres de ocasião, isto é, gente de classe média que se degenerava por conta da proximidade com a beleza e o estilo do Fashion World. Na verdade, Kitty, essa gente tem uma relação de amor e de ódio com o Mundo Fashion. Tem amor porque sabe que é um mundo maravilhoso, onde fama, beleza, arte e dinheiro circulam de mãos dadas; e tem ódio porque sabe, da mesma forma, que nunca fará parte desse mundo. Lá fora, em benefício dos bugres, fora instalado um telão. Mas o telão, em que Kitty viu a imagem daquela gente toda no paroxismo do empurra-empurra, era pouco pros bugres: queriam juntar-se à

 

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realeza dos vips, à elite dos convidados, e assistir ao desfile ao pé da passarela. Não fosse o enxame de seguranças, a multidão, em nome de sagrados ideais democráticos, tomaria de assalto a Bastilha da moda. Kitty exclamou, pra Bruno ouvir: Cadê os bombeiros pra tacar água nessa putada; só queria ver se num instante todo mundo não se mandava daí. De repente, no telão, a imagem da turba deu lugar a um close do istmo: mais exatamente, a um close dela, Kitty, em seu vestidinho de toalha de mesa, ao lado de Bruno. Foi um choque: ela pareceu aces- sível, vulnerável e, apesar de Bruno, indefesa. Quis sair dali; mas, antes que se pudesse mover, ouviu uma voz no meio da multidão, uma voz não, um rugido cavernoso, chamar bem alto: Louraaah! Instintivamente voltou-se pra olhar; a Kitty do telão voltou-se pra olhar também. Ouviu de novo: Louraaaah! E uma terceira vez:

Louraaaaah! O rugido soava lá em baixo e ressoava no telão. Kitty não pôde, no meio da horda, reconhecer ninguém. Mas só podia ser uma pessoa: Sérgio, o doidinho. Kitty foi saindo dali. Sua imagem no telão imitou-a. Aí, deu-se o imprevisível: a horda toda aderiu ao chamado e passou a gritar: Lourah! Lourah! Lourah! Era, de certo modo, uma consagração; mas assustou Kitty; pois ela se lembrou do cântico sincopado de uma primitiva cerimônia de sacrifício; lem- brou-se de outra loura, linda e gostosa que nem ela, Jessica Lange, carregada em triunfo pra ser em triunfo imolada a um divino e monstruoso gorila tamanho-família.

* * *

No saguão belas moças e belos rapazes de uniforme recepcionam os convidados e encaminham-nos a seus devidos lugares. Bruno, porém, e Kitty com ele, não pertencem ao comum dos mortais convidados. Bruno desvia pra esquerda, entra por uma porta, sai por outra, até dar de cara com um segurança. O carinha o reconhe- ce: sorri: deixa-os passar. Aonde a gente tá indo, Kitty pergunta.

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Bruno levanta a mão como quem diz: Deixa comigo. Não está mais criança: está homem feito: firme e forte. Entram de novo por uma porta, saem por outra, sobem alguns degraus, descem outros, coli- dem com tripulantes do evento, atravessam corredores, despencam de mãos dadas por uma rampa abaixo. Kitty tem a suspeita de que não estão indo a lugar nenhum. Que tudo aquilo é só uma forma de Bruno mostrar que está em casa: que conhece tudo aquilo como a palma da mão: que ali ele manda e desmanda. Até que Kitty foi adiante subindo uns degraus e, quando deu pela coisa, deparou-se com uma bicha imponente barrando-lhe a passagem. A bicha torceu o nariz pro que viu: loura de cabelinho curto, vestida de toalha de mesa. Aí, com voz totalitária, cobrou- lhe convite e, em face do feminino silêncio dela, decretou como um juiz: Não pode entrar. Kitty olhou pra trás, em busca do apoio de Bruno, mas Bruno perdera-se em algum ponto do labirinto que haviam percorrido nos últimos minutos de trajeto. Volta, volta, enxotou a bicha. Kitty indecisa: de que adianta ser bonita pra caralho numa hora dessas? Pensou em mandar o cara tomar no cu, mas o cara era um guardião do Mundo Fashion, o que o põe muito acima de um porteiro de boate e, quem sabe, até de um arcanjo de guarda à porta do paraíso. Vamos, vamos, insiste a bicha: aqui, só quem tem convite especial. Kitty ficou imóvel. Parecia a criança que no Teatro Glória disparou adiante dos pais rumo ao camarote pra assistir à peça No reino do rei reinante. Barrou-a a moça que era a dona dos camarotes: Não pode entrar. Kitty viveu ali três segundos de pasmo e angústia. Salvou-a o pai, o rei reinante, que vinha logo atrás, de braço dado com a mãe. Pode entrar, sim, disse ele à moça, com voz majestática, empunhando os bilhetes entre os dedos. Kitty viveu ali diante da bicha pasmo e angústia semelhantes. Salvou-a Bruno, que enfim apareceu: Qual o problema? A bicha ainda não sabe com quem está falando. Não cede: Sem convite não pode entrar. Pode entrar, sim, Bruno disse. E não mostra convite; exibe uma credencial verde que pouco falta pra bicha fazer uma reverência.

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  A porta abre-se sem um pio e Bruno e Kitty são admitidos na área
  A porta abre-se sem um pio e Bruno e Kitty são admitidos na área
 

A

porta abre-se sem um pio e Bruno e Kitty são admitidos na área

vip do Victoria Fashion Week. Quem os recebe lá dentro é uma menina com um radinho à orelha. Veste o uniforme das recepcionistas do Fashion e é muito

bonita, apesar de meio transfigurada pelo stress. Kitty e ela se mais ou menos conhecem daí das baladas. A menina se surpreende em ver Kitty ali:

 

Kitty? Como é que

?

— Mas logo abre um sorriso: — Só

 

você mesmo pra

Ou tá aqui de penetra?

 
 

Tô com Bruno Hodiak, — Kitty explica. Fica encabulada de

 

se

sentir tão bem.

 

Bruno Hodiak? — a moça exclama. Aí é que se toca que o

 
 

próprio Bruno Hodiak é que está ali à sua frente, com uma bela e sinistra mancha negra na face.

 

— Como é que tão indo as coisas, moça? — diz Bruno Hodiak.

— Muito trabalho, — diz a moça, que parece realmente moída

 

de fadiga. — Tô aqui desde meio-dia. Mas tudo bem. Exceto uma cantada de baixo escalão de vez em quando. Bruno se faz paternal:

 

Se alguém te cantar e você não gostar, moça, liga pra mim

 

que eu dou um jeito na hora. — E dá à moça o seu cartão. A moça

olha pra Kitty maravilhada e depois pra Bruno: o defensor das fra- cas e oprimidas. Aí mostra logo serviço: pelo radinho chama al- guém pra acompanhar o casal até os seus lugares. Aparece uma outra moça, de moletom rosa, que escolta Bruno e Kitty até à pri- meira fileira, bem à frente da passarela.

Pô, Bruno, — Kitty murmurou, quando viu onde vão sen- tar. — Tem gente que mataria por um lugar desses.

 

* * *

 

Kitty deixa-se cair na cadeira e sente um alívio imenso e aí perce- be por quê: seus pés estão doendo pra cacete. Agora que ela se deu

 
 

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  conta: as emoções da viagem até ali anestesiaram-lhe a dor. E o que é?
  conta: as emoções da viagem até ali anestesiaram-lhe a dor. E o que é?
 

conta: as emoções da viagem até ali anestesiaram-lhe a dor. E o que é? É a porra da Melissinha. Porque, convém lembrar, ela estava lá com a sua Melissa vermelha de salto Anabela no pé. Lindíssima. Chiquérrima. Elegantésima. E desconfortável pra caralho. A coisa mais desconfortável que Kitty tinha calçado em toda a sua vida. Mas fazer o quê? O jeito agora é agüentar heroicamente até o fim. Os vizinhos das três quatro fileiras da frente, gente ligada ao mundo da moda, tanto de Mic como de fora, caíram de olho em cima deles tentando entender quem diabos eram aqueles dois des- conhecidos sentados bem ali na frente. As adolescentozóides senta- das à extrema esquerda da mesma fileira todo mundo sabia que eram a filha do governador e suas três melhores amigas: nem o Victoria Fashion Week está livre de um traficozinho de influência. Mas e esse casal? O vestidinho simplezinho de Kitty os intrigava. Tem nada a ver. Ou, pelo contrário, tem? Será essa moça alguma celebridade a quem um vestido de toalha de mesa confere total ano- nimato? Ela é loura e tem o olho azul de Nicole Kidman, mas não pode ser Nicole Kidman. Não teria havido algum engano? Não es- tariam esses dois ali de bobeira? Mas, se esse fosse o caso, cadê os verdadeiros donos daqueles lugares? Fotógrafos tiraram fotos, por via das dúvidas, nunca se sabe. Aqueles dois estavam na primeira fileira; ergo, deviam ser gente muito very important people. Se é que — sim, será que não foram ao extremo de matar pra conseguir aqueles lugares privilegiados pra ver o desfile? Bom, se for isso, me- lhor ainda: que furo!

* * * Frank Azambuja surge no centro da passarela. É o mestre de cerimônias do desfile. Palmas. Frank inclina a cabeça. Palmas. Frank ergue as mãos pra sustar o aplauso. As palmas bruxuleiam e se ex- tinguem. Frank dirige duas três palavras de agradecimento ao go- verno do estado — algumas vaias —e às prefeituras de Vitória e da Serra, e também aos nossos parceiros, entre eles o Shopping Vix e o

 

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Hotel da Ilha do Boi, e muito em especial a uma pessoa que sine qua non teria sido impossível realizar este mega-evento. Kitty espera ouvir o nome de Bruno Hodiak. Mas não: é o nome de Elvira Caia- do que Frank menciona. Palmas. Elvira brota do nada como uma holografia. Palmas. Buquê de rosas cor de rosa pra Elvira. Palmas. Elvira recebe, diz que só vai dizer muito obrigada porque sabe que está todo mundo impaciente pra ver o desfile. Muito obrigada, Frank. Muito obrigada a todos vocês que aqui estão. Espero que o evento agrade a todos: foi preparado com muito carinho e dedica- ção. Muito obrigada. Palmas. Sai Elvira, e Frank anuncia o desfile da coleção masculina de Omar Effendi Malik pra próxima temporada primavera-verão. Malik é um dos estilistas de fora especialmente convidados pra enri- quecer o evento. Frank apresenta Malik — que não dá as caras — como o enfant terrible da moda brasileira, que já está se tornando conhecido em redutos fechados da moda internacional tipo Lon- dres, Paris, e Nova York. Algumas das suas peças já apareceram em números da edição francesa da revista Elle e em episódios da série Sex and the City. Frank explica que com sua coleção masculina Effendi Malik aposta numa combinação urbana de cores e tecidos, propondo um homem seguro e autoconfiante, que não tem medo de usar roupas sobrepostas, nem de exibir estampas suaves e delica- das, tudo de acordo com um clima de espírito livre e desinibido. Aí começa o desfile da coleção de Effendi Malik. Apagam-se as luzes, exceto as que iluminam a passarela. Lá vem um rapaz magro, de pele muito alva, olhos claros fitando o nada, e nem mesmo o nada ele poupa de agredir com seu olhar arrogante e desdenhoso. O rapaz veste um paletó, abotoado apenas no primeiro botão, sobre uma camisa estampada e uma provocante calça de pele de cobra — fake, é claro. A platéia feminina, encabeçada pela filha do governa- dor e suas amiguchas, recebe-o com gritos, uivos e assovios. O rapaz passa em frente a Kitty. Ela percebe que tem alguma coisa no rosto dele, alguma coisa estranha, indevida, fora de propósito.

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  — Que que é isso no rosto dele, Bruno?   Mal perguntou é que
  — Que que é isso no rosto dele, Bruno?   Mal perguntou é que
 

Que que é isso no rosto dele, Bruno?

 

Mal perguntou é que se toca que perguntou à pessoa errada. Mas Bruno responde sem trauma:

 

É uma mancha de graxa ou de fuligem. Viadagem. Só pra dizer que o cara é macho.

 

— Olha a inveja, Bruno, — Kitty diz.

 

— Inveja de uma calça de pele de cobra? — Bruno diz.

 
 

Outros rapazes sucedem-se na passarela. Todos trazem nos olhos olhares arrogantes e desdenhosos e manchas de graxa no rosto. Quase todos desfilam de mãos nos bolsos ou nos quadris: um misto de displicência e de insolência que faz parte do show. Kitty acha belíssimos todos eles e não saberia dizer qual dentre tantos escolhe-

ria como presente de aniversário ou de casamento. Admira-lhes as vestimentas também: Effendi Malik é foda. O forte da coleção está em paletós bordados, com lapelas pontudas, abotoados no primei- ro botão ou no do meio ou até abertos ao peito, que se sobrepõem a camisas estampadas multicoloridas e de alguma forma se concili- am com calças jeans, bermudas xadrez ou shorts estampados. Kitty acha o maior barato quando vê que alguns dos rapazes trazem o paletó metido por dentro das calças na parte de trás do corpo. Apre- cia a variedade e o bom gosto de Malik na criação de acessórios, que os rapazes incorporam com a maior naturalidade: desde faixas de tecido amarradas à cabeça até medalhões ao pescoço, desde dobradinha de cinto e faixa até dobradinha de cinto e corrente, desde pulseiras de pano até, nos pés, botas curtas e folgadas que lembram as botas do gato de botas. Aperta, sem notar, o braço de Bruno diante de tantas maravilhas. Seus preferidos são, porém, os rapazes de macacão e de jardineira: irresistíveis: apaixona-se por um rapaz de macacão de gabardine aberto ao peito com camisa de mangas arregaçadas até o cotovelo, e saboreia o detalhe das pernas do traje atochadas dentro de botas vermelhas; depois apaixona-se mais ainda por um rapaz de jardineira jeans em lavagens diferencia- das sobre camisa estampada e boné com a mesma estampa da camisa.

 

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  Por fim desfilam os rapazes todos juntos, com Effendi Malik em êxtase no meio
  Por fim desfilam os rapazes todos juntos, com Effendi Malik em êxtase no meio
 

Por fim desfilam os rapazes todos juntos, com Effendi Malik em êxtase no meio deles. Palmas de ensurdecer um surdo. Gritos histé- ricos das adolescentozóides da fileira da frente e de mais uma por- ção de pris, debs, rês, e outras tantas pams, cams, e vivs da vida.

* * *

Terminou o desfile da primeira coleção da noite. Kitty está con- valescendo do deslumbramento. Os pés, no entanto, é que nem es- tão nem aí pra tanta classe e beleza. Só querem saber é de doer e latejar na elegante prisão das sandálias: se bobear, bolhas de sangue já estarão brotando como frutos das plantas dos pés de Kitty. O

 

jeito é tirar as sandálias e ficar descalça. Que é o que ela faz, pra ficar feliz da cabeça aos pés. Bruno deixa-a descalça consigo mesma e sai em busca de cerve- ja. Nesse meio ínterim, surge Prizinha e desaba na cadeira de Bruno. Está de pingente na testa, preso a dois fios de prata que lhe cingem os cabelos. No colo, uma bolsa no formato de casa de boneca:

telhadinho vermelho, janelinhas com florzinhas.

 

Kitty, sua filha da putinha, — Pri exclama. — Na primeira fila! Pra quem você deu, mulher, pra estar sentada aqui?

 

Pri, tô aqui com Bruno, — Kitty explica. — Ele tem alguma

ligação com o desfile, mas não é bicha não. E acho que você tava certa, sua surtadinha.

— Ele tá a fim de você, não tá?

 

— Até que tá, — Kitty não nega.

Eu não disse? — Pri diz. E logo, intrigada: — Mas e esse vestidinho aí? Que idéia maluca foi essa?

 

Capricho, — Kitty diz. — Quis vir assim só de rock.

Bruno chegou, trazendo dois copos de cerveja, um pra Kitty,

outro pra ele. Pri salta da cadeira como uma bonequinha de mola.

Você lembra de Pri, Bruno? — Kitty diz. E, por via das dúvi- das, dá uma ajuda à memória dele: — Lá do shopping.

 

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  Ele lembra. Prizinha estende a mão. Bruno não tem mãos dispo- níveis pra apertar
  Ele lembra. Prizinha estende a mão. Bruno não tem mãos dispo- níveis pra apertar
 

Ele lembra. Prizinha estende a mão. Bruno não tem mãos dispo-

níveis pra apertar seja o que for. Estende um dos copos a Kitty e aí aperta a mãozinha de Pri.

Toma pra você, — diz, oferecendo a Pri um dos copos. Pri diz

que não, que é isso, etc. Bruno insiste: — Depois eu pego outro pra mim. — Pri aceita.

Que linda a sua bolsa, Pri, — Kitty diz, por amizade. — Deve tá fazendo mó sucesso.

Até que nem tanto, — Pri diz, com um sorrisinho melancó-

lico. — Já vi outras duas minas com bolsas iguaizinhas no pedaço.

— E o pingente? — Kitty diz. — É uma graça.

 

— Mas não chama tanta atenção, — Pri diz. — Eu confiava

 

mais na minha bolsinha. Kitty e Bruno fazem um silêncio solidário.

 

Mas tudo bem, — Pri diz. — Espera só até amanhã. Porque pode crer: amanhã Prizinha vai arrasar.

 

* * *

A coleção de Elvira Caiado causou frisson. As meninas de rua

 

estavam limpas, lavadas, bem vestidas e bem comportadas, mas o

que causava frisson na platéia é saber que a história pregressa delas passava pela fome, pelo abandono, pela sarjeta e principalmente pela prostituição. Elvira Caiado fazia questão de insistir que apenas duas três das meninas — não direi, dizia ela, quais — tinham sido prostitutas, mas o povo, que não é besta, sabia muito bem que não apenas duas três mas todas elas não só tinham sido como continua- riam a ser putas assim que acabasse o sonho do desfile. E era talvez nisso que o público pensava ao ver as meninas desfilar com muita falta de jeito: foram, são e serão. E aplaudia as putinhas excitada e entusiasticamente.

A

coleção de Elvira tinha um apelo pop e urbano: vestidos, tops,

saias e blusas com rendas artesanais tingidas em cores vibrantes,

 

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peças em tules e lamês vermelho e azul em efeito origami e mil folhas, além de roupas com embornais e sacolinhas. Elvira investiu pesado no jeans — lavagens desgastadas, com bainhas em corte a fio — e nas camisas: além de bordados e aplicações e de listras e bolinhas, o que se viu foi uma série de estampas com imagens do folclore do Espírito Santo: casacas — os famosos reco-recos regionais de cabeça esculpida — e tambores de bandas de congo, barcos e bandeiras de São Benedi- to, cabeças de negros do ticumbi, palhaços de folias de reis, essas coi- sas. Foi longe nas cores: misturou marrons, beges e crus com diversas tonalidades de rosa, amarelo, laranja, vermelho, azul e branco. Bruno e Kitty assistiram ao desfile dessa e de mais duas das cole- ções programadas pra primeira noite. No intervalo Kitty deu von- tade de fazer xixi: teve de calçar outra vez as sandálias, que aprovei- taram o ensejo pra moer-lhe os pés. Na volta, Kitty já veio com decisão tomada. Assim que apontou no horizonte Bruno a viu. Ela vem que vem, ele olha que olha. Aí Kitty parou ao lado de uma bojuda lata de lixo. Bruno olhando. Aí Kitty ergueu o pé direito e tirou a sandália, Bruno olhando, depois ergueu o esquerdo e tirou a outra. Aí, sob o olhar arregalado de Bruno, ergue pelos calcanha- res, entre três dedos de cada mão, o par de Melissinhas de salto Anabela e — sim — e deixa-as cair no abismo da lata de lixo com uma expressão de travesso prazer. Repórter materializou-se ao seu lado. Por que você fez isso, moça? Porque essa merda tava massa- crando meus pés. Repórter: Quer dizer que uma coisa é a grife, ou- tra o conforto? Kitty: Nesse caso sim. Elas são lindas, mas nunca, que eu me lembro, botei nada mais desconfortável no meu pé. Re- pórter: Qual seu nome, moça? Kitty: Kitty Leme, 22, universitária.

* * *

Não ficaram pra ver o desfile das três últimas coleções. Kitty caminhou descalça até o saguão. Ali Bruno, sem pedir licença, to- mou-a nos braços pra levá-la o resto do trajeto até o estacionamento.

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  Se chamou a atenção aquela dupla, rapaz levando moça nos braços, é óbvio que
  Se chamou a atenção aquela dupla, rapaz levando moça nos braços, é óbvio que
 

Se chamou a atenção aquela dupla, rapaz levando moça nos braços, é óbvio que sim. Pra caralho. Uns pensavam uma coisa, outros pen- savam outra. Kitty pensava duas coisas conflitantes: que mico e que romântico. Atravessando o istmo de concreto, lamentou — sacanagem — que as câmeras estivessem todas voltadas pra passa- rela. Ela nos braços de Bruno: Kitty teria curtido ver aquela ima- gem monitorada no telão.

*

* *

Pra poupar os pezinhos de Kitty, Bruno se ofereceu pra dirigir até Vitória. Kitty recusou:

 

O Cláudio pode estranhar.

Voltaram pra Vitória falando do desfile: Kitty defendendo pelo ângulo da beleza e do bom gosto, Bruno atacando pelo ângulo da viadagem e da porra-louquice: chamando o evento de Mic Fashion Week.

 

Você tá cuspindo no prato que você mesmo preparou, — Kitty disse.

Tô, — Bruno concordou. — Mas isso é aqui entre nós. O que me interessa mesmo são os números do balancete final.

O

centro de Mic, àquela hora, sem trânsito nem camelôs, pare-

ceu até bonito a Kitty. Um destacamento de garis fazia a limpeza das ruas, catando a sujeira acumulada num dia inteiro de azáfama urbana. A garagem onde Bruno deixara a Toyota ficava perto do Parque Moscoso. Quando menina, Kitty viera ao parque algumas poucas vezes. Tentou lembrar de alguma coisa que a tivesse marca- do, mas não ficara nada a não ser o lugar em si, uma espécie de país de Oz, mas sem mágicos nem bruxas nem homens de lata. Parou o carro à porta da garagem. Bruno saltou, deu a volta e deteve-se ao lado da janela. O vigia da garagem acompanhava a cena com o olho: Cara de sorte esse: come uma mulher dessas e ainda ganha uma carona.

 

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  — E amanhã? — Bruno disse.   — Isso é um convite pro Fashion?
  — E amanhã? — Bruno disse.   — Isso é um convite pro Fashion?
 

— E amanhã? — Bruno disse.

 

— Isso é um convite pro Fashion? Se é, eu aceito.

 

— Eu te ligo, — Bruno disse.

 

Aí fez que ia se afastar mas não se afastou:

 

Não vai sozinha por aí não. Espera que eu vou atrás até a tua

 
 

casa. Kitty não gostou: isso era o tipo de coisa que Phil diria. Engatou uma ré, pisou no acelerador e o Cláudio arrancou cantando pneu e recuou em ziguezague mugindo pela avenida Cleto até à rua Vinte e Três. Ainda bem que não havia movimento. Kitty desceu a Vinte e Três até à avenida Vargas, e dali partiu em disparada margeando o cais do porto. Ia furando um sinal atrás de outro, pra evitar assalto:

bandido tem o dom de se materializar do quando menos se espera. Na avenida Beira-mar deu rédea livre ao Cláudio. Mais à frente, porém, percebeu atrás de si a Toyota de Bruno. O filho da puta. Afundou no acelerador o pé descalço. Voou pela Beira-mar até à altura de Bento Ferreira. Mas a Toyota não lhe desgrudava do cal- canhar. Entrou na Nossa Senhora dos Navegantes a mil: quase per- deu o controle na curva, mas o Cláudio agüentou o tranco sem tombar. Bem ali mesmo, Kitty lembrou, duas amigas e seus namo- rados se tinham fudido num Fusca uns três anos antes. Nem por isso ela reduziu a marcha. Mas o Cláudio não era páreo pra Toyota. E ela teve de engolir a porra daquela escolta até à porta de casa. Aí, enquanto o portão, acionado pelo controle remoto, corria sobre os trilhos, a Toyota ronronava junto à calçada, esperando com paci- ência de guarda-costas. Kitty rompeu garagem adentro sem um to- que sequer de buzina em sinal de agradecimento. Eram quase três da manhã. Ouvindo Alice in Chains — “Heaven Beside You” — Kitty deu um trato nos pés, tripudiados pela falecida Melissinha. Viu, porém, que o dano fora superficial. Quando terminou, estava morrendo de sono. Capotou sem nem escovar os dentes.

 

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  Kitty aos 22: Divertimento . Capítulo 7: sexta-feira. Quem ligou logo cedo foi Breno:
  Kitty aos 22: Divertimento . Capítulo 7: sexta-feira. Quem ligou logo cedo foi Breno:
 

Kitty aos 22: Divertimento. Capítulo 7: sexta-feira. Quem ligou logo cedo foi Breno: o namorado, não o repórter. Kitty estava podre de sono. Breno falou umas coisas que ela não entendeu direito. Breno, me dá um minuto. Foi até o banheiro, encheu de água as mãos em concha, aspergiu o rosto uma duas três vezes. Aí voltou ao celular. Breno estava em Mic. Chegara na véspera, à noite. Perguntou:

Já viu o jornal? Pergunta idiota: Kitty, mesmo sonolenta, pensou: se ainda nem acordei direito. Mas mais não disse do que não. Breno disse: Você tá no jornal. Eu tô? Tá; em duas fotos. Aquilo despertou Kitty na hora. Breno disse: Você foi com quem? Kitty disse: Fui com Bruno. Breno disse: Bruno que Bruno? Kitty disse: Bruno Hodiak. Um segundo de silêncio da outra parte. Aí Breno disse: Foi o que eu pensei: ele tá do seu lado numa das fotos. E hoje? Você vai comigo ou o quê? Kitty viu que chegara a hora da escolha. Breno ou Bruno. E ou U. Não se pense que não lhe passou pela cabeça o recado de Lu: bem que podia aceitar o convite de Breno e desfilar com ele diante de Bruno: furar-lhe bem furado o olho, como ele furara o de Lu. Pas- sou-lhe pela cabeça como diáfana borboleta mas nem pousou: do jeito que veio, foi.

 

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  Já tenho compromisso, — disse Kitty, ríspida: a rispidez em legítima defesa. —  
  Já tenho compromisso, — disse Kitty, ríspida: a rispidez em legítima defesa. —  
 

Já tenho compromisso, — disse Kitty, ríspida: a rispidez em legítima defesa.

 

— Kitty, esse cara é uma fria, — Breno disse. — Sai dessa.

— Olha aqui, Bruno, — Kitty disse, e consertou: — Olha aqui,

 

Breno, me deixa na minha, tá? Agora eu já sei que eu sou a melhor pessoa pra me dar conselhos.

 

Tô te avisando pra teu bem, — Breno disse. — Esse cara vai

 

aprontar com você. Esse cara é doido.

 
 

E você é gay, — Kitty disse, insolente: a insolência em legíti-

 
 

ma defesa. Não era sua intenção: escapuliu: o sono a meio, o saco cheio. Do outro lado ela ouviu gotejar um silêncio. Contou os pingos: um,

dois, três, até oito. Aí Breno disse:

 
 

— Tudo de bom pra você, Kitty.

— Pra você também, Breno.

 

* * *

Kitty vestiu-se de qualquer jeito — sem deixar nem por isso de

 
 

ser menos bonita pra caralho do que sempre — e despejou-se escada abaixo. Gritou pra Rosa:

 

— Rosa, vou no jornaleiro e já volto!

 

— O jornal tá aí na mesa, — Rosa gritou. — Seu Phil já trouxe

 
 

pra você ver. Ah, é: Phil todo dia faz a sua caminhada matinal e passa em frente

banca de jornais e espia as manchetes. Mas Kitty nem se deu o traba- lho de associar uma coisa a outra. Agarrou-se ao jornal e, enquanto voava rumo à rede, viu na primeira página — na primeira página —

à

a

sua foto: tinham-na fotografado justamente na hora em que se pre-

parava pra deixar cair na lata de lixo o par de Melissinhas. Deitada na rede, Kitty sentiu-se inundar de emoção. Sua foto na primeira página do jornal — isso é que era glória. E ainda por cima em atitude de protesto explícito. Depois falam das babacas que lançam

 

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ketchup sobre roupas de peles nos desfiles de moda. Ela fora, pelo que dizia a legenda da foto, a coisa mais original e surpreendente da aber- tura do Victoria Fashion Week. Veja mais sobre o mega-evento da moda a partir da página 16. Kitty foi à página 16: havia um box inteiro dedicado à sua proeza: Kitty leu a matéria com olhos dinâmi- cos. A rejeição da moda enquanto grife. Kitty Leme, 22, universitá- ria, já chamava a atenção no templo da moda pela herética simplici- dade do vestuário. Chamou ainda mais a atenção quando, num gesto impulsivo, atirou à lixeira o par de belíssimas sandálias da linha Melissa que usava nos pés. E o fez numa despretensiosa atitude de protesto pessoal, sem qualquer intenção de causar espécie ou de provocar po- lêmica. A atitude, na hora, passou quase despercebida a não ser da reportagem, que num desses felizes momentos de intuição jornalística pôde registrar numa foto o seu protesto. Indagada sobre a razão do ato, Kitty Leme foi tão simples e direta como sua indumentária: “Elas estavam torturando meus pés.” O repórter perguntou: “Quer dizer que são bonitas mas não são confortáveis?” A resposta da charmosa universitária foi: “São lindas, mas nunca botei nada mais desconfortável no pé.” A declaração traz à baila um debate altamente polêmico em relação à moda: o que é mais importante: a grife ou o conforto? Para Kitty Leme, a resposta está expressa com toda a firme- za no seu gesto resoluto e intrépido. Havia outra fotografia na página 17 em que ela aparecia, sentada descalça na primeira fila, ao lado de Bruno. Kitty nem perdeu tempo em ler a cobertura do desfile. Não precisava: ela fora, sem nem notar, o que todo mundo estava louco pra ser: destaque no Fashion. Arrasa- ra. Roubara o show. Eclipsara aqueles alfaiates bichas e aqueles belíssimos rapazes de jardineira e macacão e tudo o mais. Imaginou a cara de Penha quando ela desse uma olhada no jornal. Porque isso — ela dar uma olhada no jornal — era coisa líquida e certa: a mecatrônica Penha é daquelas que lêem jornal todo santo dia.

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  Pra estragar o seu prazer, Lu ligou.   — Eu vi tua foto no
  Pra estragar o seu prazer, Lu ligou.   — Eu vi tua foto no
 

Pra estragar o seu prazer, Lu ligou.

 

— Eu vi tua foto no jornal. Tu é muito filha da puta, hein?

 

— Começa não, Lu.

 

— Vou começar e vou acabar. Se tem coragem, ouve. Tu nasceu

 

mesmo com o cu pra lua. Tudo dá certo pra você. Tu se acha a gostosa do pedaço e pensa que vai se dar bem em todas. Mas eu

acho, eu sinto, que a realidade tá preste a te dar um murro no meio das fuças. E tu sabe qual é o nome da realidade, não sabe?

Tem alguma coisa de positivo a dizer? — Kitty disse. — Por- que não tô a fim de ouvir merda não.

Só uma coisa, — Lu disse. — Esse tempo todo que eu fui tua

amiga, meu amor, não pensa que eu fui amiga de verdade não, porque não fui não, tá? Tu não imagina o esforço que me custou.

Tu me dava vontade de vomitar o tempo todo com teu jeitinho de princesa. Acorda, Kitty: cai na real. Isso de príncipe e princesa é coisa de conto de fada. O que a gente vive é só um conto de foda. Porque fodem a gente de tudo que é jeito e maneira. E vão fuder você também, porque tu não é tudo isso que tu acha que é não, viu, Kitty? E não é um retrato ni jornal que vai mudar porra ne- nhuma não.

— Acabou? — Kitty disse.

 

— Acabei, — Lu disse.

Então deixa eu te dizer uma coisa, — Kitty disse: — você tá cheia de herpes é na cabeça.

 

* * *

A foto de Kitty no jornal fez o maior sucesso em família. Até

 

Mummy saiu do marasmo e leu o texto do box e elogiou o protesto de Kitty. Déia chegou a chamar a irmã de meu ídolo: Vou pregar a página do jornal no painel do meu quarto. Phil não ficou atrás: Essa foto é fantástica: vou conseguir uma cópia nem que tenha de mor- rer em cem reais por ela.

 

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  O noticiário da tevê, infelizmente, não trouxe nada sobre o ges- to de Kitty.
  O noticiário da tevê, infelizmente, não trouxe nada sobre o ges- to de Kitty.
 

O noticiário da tevê, infelizmente, não trouxe nada sobre o ges- to de Kitty. A ênfase era sobre o desfile de Effendi Malik, com seus gatos de botas, e o de Elvira Caiado, com suas putinhas de rua. Quanto a Kitty, ela aparecia, num triz, ao lado de Bruno, numa tomada da platéia, mas só. Kitty, futura jornalista, ponderou que a imprensa escrita — e fotografada — ainda tem vantagens sobre a televisiva. Decidiu que depois de formada seria repórter de jornal. Ali é que está a verdade dos fatos. Televisão é coisa pra patricinha do tipo daquela que entrevistara Frank Azambuja. O que ligaram pra Kitty durante a tarde não está no gibi. Prizinha, Pam, Rê, até Deb e mais gente ainda que tinha tempo que não ligava pra ela. Até Kátia, a recepcionista de radinho à orelha. Kátia disse que caiu pra trás quando viu a foto na primeira página. Você é foda, hein, Kitty, disse ela. E as duas conversaram um pouco. Kátia tá atrás de emprego. Mas explicou que só o que aparece na frente dela é coisa eventual como o trampo no Victoria Fashion:

nada de fixo nem de permanente, que o lance de emprego tá difícil pra cacete. E disse: Bom, pelo menos ainda não tenho que andar por aí rodando bolsinha, né. Pintou uma simpatia mútua. Combina- ram sair pra jogar conversa fora dia desses. A menina virou minha fã, pensou Kitty, com modéstia. Que dupla: Kitty e Kátia. Kit-Kat. Aonde foi que viu esse nome antes mesmo? Não lembrou que tinha sido no filme Cabaret, com Liza Minnelli. Kit-Kat é o nome do ca- baré. Lembra não, Kitty? Também, há quanto tempo você viu esse filme? Três anos? Por aí. Você pegou na locadora, na prateleira de clássicos, e viu — lembra mais não? — com sua amiga Lu. Foi de lá, moça, que Lu tirou aquela imagem: o cadáver mais feliz do mundo inteiro. Bruno ligou logo depois de Kátia. Eu falei que você ia se surpre- ender um dia, só não esperava que fosse tão depressa. E depois acres- centou: Gostei que fui eu que te levei ontem ao Fashion. Kitty tor- ceu o nariz arrebitadinho: isso queria dizer que ela devia o seu sucesso ao Mancha Negra? O caralho. Mas depois Bruno disse:

 

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  — Tá chegando aí uma encomenda pra você. Depois eu ligo pra saber se
  — Tá chegando aí uma encomenda pra você. Depois eu ligo pra saber se
 

— Tá chegando aí uma encomenda pra você. Depois eu ligo pra saber se você gostou.

 

Kitty passou vinte minutos morrendo de curiosidade: toda hora

 

ia

à janela dar uma olhada na rua pra ver se chegava alguma entrega.

Quando viu o motoboy apontar na esquina, desceu correndo e saiu ao jardim e abriu o portão antes mesmo que o rapaz tocasse a campa- inha. Recebeu dois pacotes: um deles, pelo formato e tamanho, é cla- ro que o que tinha dentro era um par de calçados. O outro era mais largo e mais chato, e vinha embrulhado em papel azul marinho com fita vermelha. Preso sob a fita havia um envelope cor de mostarda. Sobraçando os pacotes, Kitty subiu correndo pro lar de seu quarto e se trancafiou lá dentro. Aí abriu o envelope. Dentro havia uma cópia

ampliada da foto histórica de Kitty. O danado do Bruno se antecipa- ra ao babaca do Phil. No verso, uma inscrição: Obrigado por tudo. E

a

assinatura de Bruno. Mas Kitty ali não quis muito saber de foto,

ainda que dela, ainda que linda, ainda que histórica. Abriu o pacote menor: era um belíssimo par de sapatos pretos de salto agulha; dez centímetros de salto de metal, a coisa mais linda — no gênero — que Kitty já vira; dentro, um cartão dava o recado de Bruno: Pra substi- tuir o par que Cinderela perdeu. Kitty viu que eram seu número:

calçou-os: cabiam-lhe perfeitamente no pé. Andou um pouco pelo

quarto e sentiu-se pra cima; sedutora; irresistível; capaz de provocar

e

experimentar grandes emoções. Aí sentou-se na cama e tomou nas

mãos o pacote embrulhado em papel azul marinho. Seu coração pal- pitou mais forte. Ela já adivinhava o que era, mas a expectativa era uma agonia: e se não fosse? Obrigou-se a abrir o pacote com mãos gentis, sem rasgar o papel. Lá dentro jazia o vestido negro que vira na vitrine da butique: o que deixava exposto o peito. Era exatamente o que ela adivinhara que era: mas o esperado, o previsível, atingiu-a como a concretização de um sonho. Kitty arrancou a roupa e meteu o vestido no corpo e postou-se diante do espelho. Deslumbrou-se com o que viu: uma nova Kitty, de salto de dez centímetros e peito de fora. O vestido ficou-lhe muito

 

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  bem e o peito parecia uma jóia. No ombro esquerdo destacava-se a sua tatuagem
  bem e o peito parecia uma jóia. No ombro esquerdo destacava-se a sua tatuagem
 

bem e o peito parecia uma jóia. No ombro esquerdo destacava-se a sua tatuagem de flor de lis. E o que ela percebeu foi que o decote expunha o peito com tanta naturalidade que atenuava a ousadia do traje. Achou-se sexy, sim, mas nem mais nem menos sexy do que quando usava uma blusa bem decotada ou uma malha com fenda

no flanco da coxa. E, resoluta e intrépida, declarou ao espelho: Sabe de uma coisa? Eu encaro usar esse troço numa boa. Bruno ligou. Então, que que achou dos presentes? Adorei, Kitty disse, incontida.

 

— Pois eu queria que você usasse o vestido hoje à noite.

— No Fashion?

— No Fashion.

— Sei não, Bruno.

 

— Já provou? Prova, pra ver como fica em você.

 

Kitty não quis dizer que já provara e que o vestido ficara um sonho.

— Mesmo que vista bem, Bruno, esse vestido é muito ousado.

— Mais ousada que o vestido é você, Kitty. E pensa bem. Só esse

 

vestido é capaz de superar o sucesso que você fez ontem. Se for pra ir vestida de outra maneira, é melhor nem ir. Kitty continuava diante do espelho, abeberando os olhos na própria imagem. Sentiu que Bruno tinha toda razão. Ainda assim, preferiu fazer um pouco de gênero:

 

Vou pensar no seu caso, — disse, sem se comprometer. Aí

 

Bruno sugeriu pegá-la em casa pra irem juntos pro Fashion: Ontem você me levou; hoje eu levo você. Kitty aceitou sem vacilo.

 

* * *

 

Kitty deixou bem claro a Rosa que não queria ser incomodada por ninguém a não ser se fosse Bruno, desligou o cell, desplugou o telefone fixo, e deitou-se pra um merecido repouso. Pensou que fos- se ter dificuldade pra dormir, com tanta coisa na cabeça, mas pelo contrário: foi bater na cama e apagou no ato.

 
 

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  O despertador chamou-a de volta a si às cinco. Sentiu-se refeita, pronta pra mais
  O despertador chamou-a de volta a si às cinco. Sentiu-se refeita, pronta pra mais
 

O despertador chamou-a de volta a si às cinco. Sentiu-se refeita, pronta pra mais uma vez arrasar naquele picadeiro de luxo. Aí me- teu-se de novo no vestido negro e ficou uns dez minutos ocupada em admirar-se ao espelho. Depois passou a uma tarefa mais prática:

tirou do closet todo o seu sortimento de jaquetas e casacos e come- çou a experimentá-los um a um sobre o vestido. Levou um tempão pra escolher qual deles combinava melhor com o vestido e melhor cumpria a função de ocultar o peito nu até o momento oportuno pra exibi-lo. Depois de quase uma hora de bota e tira e tira e bota, não achou nada que lhe agradasse. Aí, numa inspiração, lembrou- se de um xale de Mummy, um belo xale colorido de que ela, Kitty, se apropriara há tempos. Achou-o deitadinho numa das gavetas do closet. Experimentou-o diante do espelho: o xale cobria ombros e busto do jeito que ela queria: e suas multicores combinavam com o negro do vestido. Pronto: o vestuário estava completo. Kitty Leme, 22, universitária, bonita pra caralho, estava pronta pra mais uma vez roubar o show no Victoria Fashion Week. Não tinha tempo nem saco pra ir à academia. Desceu foi pra fazer um lanche reforçado. Rosa preparou pra ela um sanduíche de carne assada com queijo prato e repolho, que Kitty traçou pensativa. Pen- sativa em nada, na verdade: sua mente estava em branco, como se

fosse a longa página onde se escreveria um grande romance. Estava se refestelando com um pote de morangos recobertos de leite condensado quando Déia apareceu, vinda da rua, com Pri a tiracolo.

 

Já matei os morangos, — Kitty foi logo avisando. Mas dei-

 

xou a irmã roubar-lhe unzinho e depois, pra Pri, outro. Prizinha — não confundir com a amigucha de Kitty nem com a namorada de Jujuba — pregou em Kitty um olhar de veneração.

 

— Você vai lá hoje também? — perguntou.

 

— Tô pretendendo.

 

— Que que você vai aprontar hoje, hein? — Prizinha perguntou.

 

— Ué, tem que aprontar todo dia?

 

— Déia, tua irmã é foda, — Prizinha disse.

 

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  — Minha irmã uma subversiva, quem diria, — Déia disse. Ain- da admira o
  — Minha irmã uma subversiva, quem diria, — Déia disse. Ain- da admira o
 

Minha irmã uma subversiva, quem diria, — Déia disse. Ain-

da admira o gesto de Kitty, mas o fogo inicial já arrefeceu. Rosa está por ali. Também mete a colher na conversa:

Ligaram pra cá o dia inteiro. Até da tevê, um tal de Breno.

Da tevê? — Kitty exclamou. — Rosa, que merda, ligam da tevê e você não me chama!

Não vem não, Kitty, — Rosa se defendeu. — Você falou que

não tava pra ninguém a não ser pra Bruno. Quem ligou foi Breno e não Bruno. Breno é uma coisa, Bruno é outra.

Que Bruno? — perguntou Déia.

Puta que pariu, — Kitty disse. — Mas você devia saber que a tevê é uma exceção, imbecil.

 

Que Bruno? — perguntou Déia.

A exceção era Bruno, — Rosa disse. — E imbecil é você, que não dá as ordens direito.

 

Que Bruno? — perguntou Déia.

Não faz mal, — Kitty disse. — Garanto que amanhã ele tele- fona de novo.

 

— Que Bruno? — perguntou Déia.

 

— Viu, Déia? — Prizinha disse. — Tua irmã vai aprontar de

 

novo hoje à noite. Queria tá lá só pra ver.

 

— Que Bruno, porra? — perguntou Déia.

— Carinha aí que eu tô saindo com ele, — Kitty disse.

 

— Namo novo? — Déia disse. — Quero saber de tudo. Me con-

ta, me conta

 

Amanhã eu conto, — Kitty disse. — Se é que eu vou ter algu- ma coisa pra contar.

 

* * *

Sete horas Kitty começou a se produzir. Fez um cocô básico, to- mou um banho rox, e de roupão procedeu à sua maquiagem. Fez um belo trabalho: base, trio de sombras, e, por fim, o batom vermelho

 
 

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  novo: seu sofisticado efeito mate dá um toque chique à boca e mais exuberância
  novo: seu sofisticado efeito mate dá um toque chique à boca e mais exuberância
 

novo: seu sofisticado efeito mate dá um toque chique à boca e mais exuberância aos lábios. Depois passou aqui e ali, lá nela, algumas gotas do perfume que também comprara na segunda: In Love Again:

notas de pomelo, tulipa e amora. Penteou-se com ternura. Quando ficou satisfeita com o visual do cabelinho, aí foi pro closet vestir-se e calçar-se. O que mais demorou foi olhar-se no espelho: Kitty estava apaixonada por si própria naquele vestido que lhe deixava o peito de fora: apaixonada por seu look ao mesmo tempo romântico, pin- up e alto astral. Podia ter lembrado — mas nem lembrou — da música dos Lords of Acid: Sou bonita pra caralho: sou a coisa mais bonita que já vi. Deu oito e meia Bruno ligou. Já estava lá na rua esperando. Kitty foi ao banheiro e fez um xixi. Passou lá uma demão de papel higiênico e jogou dentro do vaso e apertou a válvula. Lembrou-se de Nicole Kidman na cena do banheiro no começo do filme De olhos bem fechados. Sentiu-se como se câmeras invisíveis a estivessem fil- mando: como se ela fosse a bela atriz principal de um belo filme de amor. Por fim, cobriu-se com o xale. Foi a contragosto que o fez. Por ela, já sairia vestida pra arrasar: mas o que diria Mummy ou, pior ainda, o enxerido do Phil? Não estava a fim de lhe encherem o saco. Desceu, portanto, com o recato de uma virgem.

 

— Êêêê, minha irmã tá ninda, — exclamou Déia.

— Que vestido é esse? — Mummy perguntou.

 

— Comprei segunda no shopping, — Kitty mentiu.

 

— O sapato também? — Mummy disse. — Tá me saindo muito

 

gastadeira, hein? Bom, mas que que eu tenho com isso? É seu pai que paga mesmo.

 

Mas Mummy não pôde deixar de aprovar o conjunto, apesar de

 

que, segundo disse, o xale destoava um pouco: Mas quem quer sa- ber da minha opinião? Não tem problema, Kitty disse. É só pra proteger do frio. Lá dentro eu tiro. Déia admirou-se do compri- mento do salto.

 

Eu vou ter que aprender a andar nisso aí?

 

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  — Se quiser ser elegante, — Mummy respondeu. — Deus que me livre, —
  — Se quiser ser elegante, — Mummy respondeu. — Deus que me livre, —
 

— Se quiser ser elegante, — Mummy respondeu.

— Deus que me livre, — Déia disse. — O que mulher tem de

fazer pra chamar a atenção de homem. Acho que vou ser sapata

quando crescer.

 

Maria Andréia, — censurou Mummy. — Vamos parar com esse papo.

 

Tchau, Mummy, — Kitty disse.

Juízo, hein, Kitty, — Mummy disse, trocando de canal com o controle remoto pra ver se a novela já começou.

 

— Vai no Audi? — Phil disse.

 

— Não. Minha carona já tá lá fora, — Kitty disse.

 

Déia ficou toda excitada, querendo conhecer o gato. Outro dia,

outro dia, Kitty disse. Mas Déia saiu junto com ela, quicando-lhe à roda que nem uma cadelinha. No jardim, Kitty não resistiu. Parou,

e

Déia parou. Dá uma olhada, Kitty disse, e, num gesto rapidex,

abriu e fechou as asas do xale na cara de Déia. Déia arregalou olho

boca: formou-se-lhe nos lábios um sorriso torto de surpresa e de encantamento. Exclamou: Kitty! Cobriu a boca com as mãos pra abafar um grito: Ahuahuahaha! Depois, num deslumbre: Irmã, tu é

e

foda, é foda, é foda! Kitty pôs o dedo sobre os lábios dela: Nem uma palavra lá dentro, viu, neném. Déia até esqueceu que queria ver o gato e ficou por ali mesmo, emocionada de orgulho da irmã. Kitty saiu e bateu o portão. Lá fora, pra sua surpresa, não estava a pickup Hilux prata ônix, mas um Corolla bege âmbar novinho em folha. Bruno veio recebê-la. Estava muito elegante: paletó, jeans, e — o que deixou Kitty mara- vilhada — um belíssimo sapato de cor prata e bico fino. Ele estacou pra contemplar a obra de arte que era Kitty. Ela repetiu o gesto de abrir e fechar as asas do xale: mostrou o peito desnudo e escondeu-

o

de novo.

Não acredito! — Bruno disse, acreditando piamente. — Gata, você tá muito linda!

 

Cadê a Toyota? — Kitty perguntou.

 

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  — Deixei em casa, — Bruno respondeu. — A Toyota é mais rústica, acha
  — Deixei em casa, — Bruno respondeu. — A Toyota é mais rústica, acha
 

Deixei em casa, — Bruno respondeu. — A Toyota é mais

rústica, acha não? O Corolla é mais adequado pra uma princesa, apesar de que não é uma Mercedes. Mas a Mercedes que se cuide, porque eu ainda vou chegar lá. Abriu a porta do carro pra Kitty entrar. Kitty entrou e sentou. Bruno fechou a porta, deu a volta, abriu a outra porta, entrou,

sentou, fechou a porta. As travas automáticas fizeram, em unísso- no: taque! Antes de girar a chave, Bruno ainda olhou pra Kitty e disse:

Obrigado.

Eu que agradeço, — Kitty disse. E, estendendo a mão, passou os dedos de mansinho no rosto dele.

 

*

* *

O

desfile de sexta-feira no Victoria Fashion Week foi semelhante

 

ao de quinta-feira, que desfile de moda, pra leigos ignorantes como a gente, é assim: cara de um, focinho de outro. E Kitty? Diga-se, desde logo, que Kitty arrasou de novo. Xale de Mummy ocultando-lhe o peito nu, entrou de braço dado com Bru- no, pra ocupar os mesmos lugares da véspera, lá na fileira da frente. Foi reconhecida pela imprensa e pela platéia. Ouviu seu nome pro- nunciado pelas pris, debs, rês, pams, cams, e vivs da vida — com a mesma veneração com que pronunciam o nome das tops e dos estilistas. O burburinho até diminuiu quando ela desfilou nave abaixo com Bruno. E cessou totalmente quando, de pé diante da sua pla- téia, antes de sentar, a danada deixou que Bruno lhe retirasse o xale. Nudez, maior ou menor, é o que não falta num desfile de moda, quanto mais da temporada primavera-verão. Mas uma coisa é nu- dez lá na passarela, outra, bem diferente, é nudez aqui na platéia. Além disso, o que Kitty trouxe ao Victoria Fashion Week foi uma nudez especial: nudez de peito de princesa. Era como se uma prince- sa de Mônaco mostrasse o peito ali pra todo mundo ver; ou, melhor

 

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ainda, uma Branca de Neve ou uma Bela Adormecida ou até mesmo uma Fada Azul, que, como fada, vale bem mais que uma princesa. Olhos e bocas se abriram arregalados que nem os de Déia; não fize- ram som algum, mas Kitty ouviu o som algum que não fizeram. E tripudiou: mantendo-se em pé, trocou umas palavras com Bruno, apontou pra um ponto qualquer nas sombras, escutou com falsa atenção alguma bobagem que ele, cúmplice, lhe soprou ao ouvido. Enquanto isso, deixou-se olhar e filmar e fotografar à vontade. Quando sentou, houve um suspiro geral de desapontamento. Mas as pessoas que estavam mais próximo, entre outras a filha do gover- nador e suas amigas, mantiveram o olhar fixo naquela bela amazo- na com um belo peito de fora. Depois do show que Kitty deu com seu decote o desfile de qual- quer das sete coleções programadas pra noite de sexta no Victoria Fashion Week só podia ser e de fato foi tão-somente um pálido an- ticlímax. Talvez não tanto pras pessoas que estavam lá, que afinal de contas sete coleções assinadas por eméritos estilistas e designers e apresentadas por belíssimos rapazes e moças de olhar arrogante e desdenhoso não podem ser totalmente eclipsadas por um mero pei- to nu de mulher, por mais belo que seja o peito e mais bela que seja a mulher. Mas que valha a afirmativa pras pessoas que estão aqui, agora, lendo esta fábula de amor em que o Victoria Fashion Week não passa de uma locação eventual em que uma certa Kitty Leme estava fadada — e cumpriu seu fado — a fazer um puta sucesso em duas noites consecutivas. Que se passe então o mais por alto possível a primeira coleção da noite, que foi a coleção feminina de Sebastian Loy — né Sebastião Loyola. Diga-se apenas, em poucas e boas palavras, que as roupas maravilhosas que Loy trouxe pra mostrar a Mic primavam por es- tampas florais delicadas em cetim, voal, meia malha e seda rústica, sobrepostas a tecidos ultrafinos e transparentes, ou ainda numa com- binação dramática de xadrez com flores ou imagens óticas em preto e branco. Em termos de alfaiataria, Loy brincou com a subversão das

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  formas, trazendo recortes inesperados, viés coloridos e contrastes, ressaltando ainda pequenos detalhes como uma
  formas, trazendo recortes inesperados, viés coloridos e contrastes, ressaltando ainda pequenos detalhes como uma
 

formas, trazendo recortes inesperados, viés coloridos e contrastes, ressaltando ainda pequenos detalhes como uma manga princesa ou mesmo ¾, como um casaco com cinto de laço de tecido ou com um bolero romântico e jovial. Em termos de material, realizou com su- cesso o mix de tecidos ultra-sensíveis, articulando o encontro do

tricoline e do chiffon e, sobretudo, do látex com o georgette. Em ter- mos de maquiagem, as meninas surpreenderam pela ousadia das máscaras brancas com que lhes haviam caiado por inteiro os rostos, padronizando-os pela anulação das feições e, assim, permitindo ao público concentrar o olhar naquilo que realmente interessa: os trajes

acessórios. No primeiro intervalo Kitty circulou e fez a festa. Pior é que conseguia agir com a maior naturalidade, como se não estivesse

e

dando um show, como se não estivesse vestindo nada de mais, como se não fosse linda de se morrer e de se matar por ela. Tomou a cerve- ja fraca e light que serviram de graça, fumou dois três dos cigarros de Bruno, fez tudo que é pose e foi fotografada de tudo que é ângulo

e

nas mais diferentes posturas. Olhava em volta sem ver quase nada:

mas na verdade vendo: tanto que viu Pri, de longe, coitadinha, ten- tando fazer vista metida na sua melhor produção: a tal saia com a figura de uma carta de baralho. Pri também viu Kitty, mas foi sain- do de mansinho: não teve coragem de se aproximar: não quis sub- meter sua dama de copas a tamanha humilhação. Da mesma forma a presença de Kitty parece que intimidou uma drag queen que veio pro show com peruca e maquiagem de Marilyn Monroe e um vestido com as cores do Espírito Santo — azul e rosa — e nos pés uns sapatos enormes com a terceira ponte desenhada neles. Como intimidou também a freak da noite, uma estudante da Federal que, não satisfeita com bata indiana rosa sobre camiseta de listras pretas e amarelas (homenagem a Hello Kitty abelhinha?), cabelo rachado em quatro trancinhas e acessórios que não acaba- vam mais, ainda exibia nada menos que trinta e três piercings espa- lhados pelo corpo. Tanto uma como outra — e certamente muitas

 

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  mais — tomaram cuidado pra não chegar muito perto de Kitty pra não se
  mais — tomaram cuidado pra não chegar muito perto de Kitty pra não se
 

mais — tomaram cuidado pra não chegar muito perto de Kitty pra não se queimarem. Bruno é que aproveitou pra exibir Kitty o quanto pôde. Fez

questão inclusive de apresentá-la a dois três assistentes de estilistas famosos — provavelmente os estilistas famosos de amanhã. A bele-

za

dela e a ousadia do decote, uma coisa e outra os deixou tontos:

apenas uma reação estética, porque nenhum dos dois três era che-

gado. Um deles, que trazia à cabeça um boné listrado multicolorido, perguntou: Você é modelo? Kitty respondeu modestamente que não.

O

cara do boné perguntou: E já pensou em ser modelo? Kitty res-

pondeu modestamente que já: Qual a mulher que nunca pensou? Mas tô com vinte e dois anos. Não dá mais pra mim. O cara do boné disse: Olha, não tenho tanta certeza disso não. Do intervalo Kitty voltou a seu lugar com relutância: qual o sentido de assistir a mais uma rodada de rostos e corpos e braços e pernas que vêm e que vão, exibindo roupas, sapatos, adereços?

Achou injusto que ela, Kitty, o centro das atenções, tivesse de ceder

vez àquela ciranda de moças que — deu razão à sua prima Penha — trotavam ao longo da passarela como éguas.

a

Não quis ficar até o fim. Chegou um momento em que aquilo começou a encher-lhe o saco até o limite. E saiu no que lhe pareceu

a

hora certa: o desfile da coleção de Luciano Babelbaum. Assim que

foi anunciada a homenagem à gatinha Hello Kitty e, sob salvas de palmas, as modelos desandaram pela passarela vestindo blusas, sai- as, batas, e o caralho a quatro, em que se via bordada a sacrossanta efígie da gatinha, Kitty disse a Bruno que queria ir embora. Bruno acatou-lhe a ordem como um lugar-tenente. Kitty ergueu-se, deu as

costas ao desfile e desfilou ela mesma em direção à saída: e fez ques- tão de desfilar sem o xale — pra competir com as manecas que qui- cavam na passarela. A imprensa assestou sobre ela os refletores, iluminando-lhe a saída triunfal; um repórter interpelou-a: Mais um protesto, Kitty? Quer falar sobre isso? Kitty driblou-o com clas-

se

e enveredou pelo corredor que levava ao saguão e à saída. Bruno

 

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  Hodiak veio atrás, trazendo o xale colorido de Mummy enrolado no braço. Lá fora,
  Hodiak veio atrás, trazendo o xale colorido de Mummy enrolado no braço. Lá fora,
 

Hodiak veio atrás, trazendo o xale colorido de Mummy enrolado no braço. Lá fora, na friagem, Kitty consentiu em cobrir-se.

* * *

Entraram na loja de conveniência de um posto de gasolina pra beber e comer alguma coisa. Sentaram-se a uma mesa, Kitty, é cla-

 

ro, peito coberto com o recatado xale de Mummy. Um deficiente físico, que bebia com dois amigos a uma outra mesa, não tirava de cima dela olho e sorriso.

— Tá feliz? — Bruno disse.

 

— Tô, — Kitty respondeu, sem rodeios. Estava mesmo.

 

— Só quero ver os jornais amanhã, — Bruno disse.

— E a televisão, — lembrou Kitty.

 

— Você tá famosa, — Bruno disse.

— Por quinze minutos, — Kitty disse.

— Que podem virar quinze anos, — Bruno disse, — se você

 

souber administrar.

— Quer ser meu empresário? — Kitty, meio séria, meio rindo.

 

— Quer ser minha empresária? — Bruno disse.

 

— Como assim?

Na Nínive. Vou precisar de gente como você: bonita, forte, atrevida.

 

— Não sei nada sobre a noite não, Bruno.

 

— Como não? Você vive na noite.

É diferente. Não sou capaz de administrar uma casa noturna. Minha praia é o jornalismo.

 

— Então tá. Vai ser minha assessora de imprensa.

— Aí já é outra história. Tá falando sério?

 

— Claro.

— Mas e se me chamarem pra ser modelo?

 

— Eu te libero, — Bruno disse. E, erguendo três dedos juntinhos: — Palavra de escoteiro.

 
 

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  Curioso: não era babaquice em Bruno o que era babaquice em Phil.   *
  Curioso: não era babaquice em Bruno o que era babaquice em Phil.   *
 

Curioso: não era babaquice em Bruno o que era babaquice em Phil.

 

*

* *

Tomaram duas cervejas de verdade, comeram umas bolachas de

 
 

provolone. Pra mascar, Kitty pediu chiclete de hortelã. Lá fora, quando iam saindo, viram o deficiente na calçada da loja, apoiando-se em sua bengala e no ombro de um dos amigos. Ao descer da calçada, perdeu

equilíbrio: lá foram os três, deficiente, bengala e amigo, num bolo só pro chão. Bruno acorreu e ajudou o cara a levantar. Kitty chegou junto também. O cara não estava nem aí pro tombo: sorria um sorri- so de todo tamanho. Encheu os olhos com a beleza de Kitty, tomou- lhe a mão e beijou-a. E disse, aspirando-lhe o perfume:

o

 

— In Love Again?

 

— Sim, — disse Kitty, surpresa.

 

— É muito bom, — ele disse.

 

— É, — Kitty concordou.

Saíram dali, Bruno dirigiu algum tempo sem tomar rumo certo al-

 
 

gum. Parecia meio perdido, o que não era de estranhar, tratando-se de um paulistano em Mic. Kitty não disse nada. Estava bem consigo mes- ma — e com Bruno. Se ele dissesse, naquele instante, vamos dar uma chegada em minha casa de Sampa, ela toparia. Era só encher o tanque

e

pegar a estrada e foda-se família e fodam-se amigos e foda-se Mic.

 

— Quer ir pra casa? — Bruno disse.

 

— Depende de qual casa você tá falando.

Bruno calou-se pra assimilar a dica.

— Quer conhecer a minha casa? — disse.

— Quero, — Kitty disse. E acrescentou: — Qualquer das duas.

 

Bruno entendeu direitinho: — A de Sampa fica pra outra vez.

E

não disseram mais nada, nem ela nem ele. Bruno, de repente

 

esperto, num instante achou o caminho pra terceira ponte. Para- ram na cabine de pedágio. Kitty deu palpite:

 

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  — Se você vai ficar muito tempo em Mic, bota a tag da via
  — Se você vai ficar muito tempo em Mic, bota a tag da via
 

Se você vai ficar muito tempo em Mic, bota a tag da via ex-

pressa, cara. Aí a gente passa direto, sem ter que parar nas cabines.

Você tem toda razão, — Bruno disse.

O

Corolla foi indo com calma, dando a outros carros o gostinho

 

de ultrapassá-lo e deixá-lo pra trás. Kitty viu o conventinho da Pe- nha todo iluminado no alto da pedra. Lembrou-se de Prizinha — namorada de Jujuba — fazendo o sinal da cruz. Num impulso que não deu pra conter, fez também.

Você é devota?

Sou nada. Fiz o pelo sinal mais de onda. Tem séculos que eu não faço.

 

A

muralha dos edifícios de Vila Velha surgiu-lhes à frente. Dava

pra contar, em cada um deles, o número de janelas iluminadas:

duas três, em média. Tudo que é panaca na cama e a vida pulsando aqui fora, na grande dimensão da noite. De repente, cedendo a um impulso, Kitty ajeitou-se de encontro ao corpo de Bruno. Ele pas- sou-lhe o braço sobre o ombro e acomodou-a melhor junto a si. Kitty pensou: Sou uma mulher feliz. É isso aí. Sentia-se livre: de Breno, de casa, da tribo, de Mic, e até mesmo de Daddy: livre, solta, quite: quite como nunca, ou, se se permite o trocadilho, Kitty como nunca: não devia nada a ninguém, só a si mesma: a dívida de ser feliz: dívida que estava a fim de começar a pagar, pontualmente, dali em diante, até morrer. Bruno tomou o caminho que passa pelo centro de Vila Velha e pela Praia da Costa. Seguiu pela avenida Champagnat, depois do- brou à direita na Musso. Vila Velha dormia. Nas proximidades da rua Ceará, acesso natural pra pegar a terceira ponte e voltar a Vitó- ria, Kitty pensou: Último retorno pra Mic. Última chance de voltar pra casa. Mas quem quer voltar pra casa? Pegaram a orla da praia mais adiante, e seguiram pro sul com o mar à esquerda. Passaram a zona dos pescadores, marcada pelo chei- ro de peixe, e chegaram à zona dos quiosques à beira do calçadão:

ainda havia movimento ali. Num daqueles edifícios que dão frente

 

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  pro mar morava uma antiga paquera dela, um tal de Tadeu. O carinha era
  pro mar morava uma antiga paquera dela, um tal de Tadeu. O carinha era
 

pro mar morava uma antiga paquera dela, um tal de Tadeu. O carinha

era estranho pra caralho: tinha uma biblioteca de tudo que é tipo de livro em casa e mais de três mil cds de jazz — quem quer ouvir essa porra? Mas foi rox acordar de manhã com o mar desfraldado diante dos olhos, chamando-a pra um mergulho. Kitty meneou a cabeça pra afastar aquele fantasma. Quem queria saber de Tadeus, de Gutos, de Brenos, num momento desses? Ela fora infeliz com todos eles e mais alguns; agora queria beber a felicidade até à borra. Chegaram ao limite da área habitada de Itapuã. Bruno conti- nuava dirigindo.

— Você mora longe, hein, Bruno.

 

— Pra um paulistano não é longe não, — Bruno disse.

 

— Onde é que você mora afinal?

 

— Sabe o posto de pedágio da rodovia do Sol? — Bruno disse.

 

— Sei.

— Pouquinho antes, — Bruno disse.

 

Sorte sua. Se fosse um pouquinho depois, você ia ter de mor- rer em dois pedágios todo dia pra ir pra Mic.

 

Passaram o cemitério onde Benjy e Bobby foram cremados. Kitty lembrou do carinha de camisa amarela e mancha negra no rosto dizendo: Bota foda nisso.

— Foi aí, — Kitty disse.

 

— Que nós nos conhecemos? — Bruno completou. — Melhor:

 

que você me conheceu. Eu já conhecia você, de certo modo.

— Ah, é, do blog.

— E do filme, também.

 

Que filme? — Kitty estranhou: não lembrava de ter partici- pado de filme algum.

 

Filme que eu vi uma vez na casa de Benjy. É o filme de uma

daquelas festas que eles davam. Você aparece toda hora, bebendo todas, colada num cara o tempo todo.

Guto. Um babaca. Me diz, Bruno, que que a gente faz pra não ser tão sem noção?

 

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  — Tira por menos, Kitty. No filme você parecia feliz com ele. Tudo tem
  — Tira por menos, Kitty. No filme você parecia feliz com ele. Tudo tem
 

Tira por menos, Kitty. No filme você parecia feliz com ele.

Tudo tem sua hora. Aquela era a hora desse cara na tua vida. Hoje não é mais, mas não fica puta por causa disso. Kitty viu que Bruno estava certo: pra que amargar as babaquices

de outrora? O que ficou no passado é passado e o passado está mor- to e não volta mais.

Sabe o que é, Kitty? O universo opera através de trocas dinâ-

micas: dar e receber são diferentes aspectos do fluxo da energia uni- versal. Em nossa própria capacidade de dar tudo aquilo que alme- jamos está a chave pra atrair a abundância do universo, o fluxo da energia universal, pra nossa vida. Kitty achou aquilo muito profundo. O cara estava se revelando

um intelectual: no bom sentido. Aconchegou-se um pouco mais em

seu corpo. A mão direita dele aninhou-se sob o braço direito dela, e os dedos fizeram pressão ali sob o seu peito. Kitty deixou. Passaram o posto da polícia rodoviária sem que Bruno se preo- cupasse em mudar a posição em que iam. Passaram em frente à entrada de Barra do Jucu.

Aí tem um lugar que serve uma moqueca que é rox, — Kitty

disse.

Moqueca? — Bruno disse. — Adoro. Me chama que a gente vai aí comer um dia.

 

Aí falou de um restaurante capixaba em Sampa, onde servem mais de trinta tipos diferentes de moqueca.

Minha preferida é a de garoupa com banana-da-terra e abó- bora. Vou te levar lá um dia pra provar.

Mas tira a abóbora. Pra mim, abóbora só serve pra fazer

doce.

Por falar em doce, eles têm um doce lá que até eu, que não

 

curto doce, adorei: banana-da-terra com mel e sorvete de creme, coberta com muita canela.

Eu quero, — Kitty disse, que nem criança na hora da gula. — Você come a moqueca e eu como o doce.

 

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  Passaram a Morada do Sol, que é onde jaz a lagoa que tem o
  Passaram a Morada do Sol, que é onde jaz a lagoa que tem o
 

Passaram a Morada do Sol, que é onde jaz a lagoa que tem o mau costume de afogar banhistas incautos em suas águas mansas. Passaram a entrada de Ponta da Fruta, que tem uma capelinha no alto de um promontório. Kitty sentia-se anestesiar pela viagem:

quase queria que durasse pra sempre: que a eternidade fosse uma viagem de Corolla no aconchego do corpo de Bruno Hodiak. Mas tudo nessa vida tem um fim. Mais um pouco adiante Bruno

saiu pro acostamento e esperou que passasse um outro carro solitá- rio que vinha em direção oposta. Kitty então viu, bem ali mesmo, o parque de diversões abandonado que lhe atraíra a atenção no do- mingo anterior.

 

Tem um parque de diversões ali, — ela disse, sentando-se

 

ereta pra olhar melhor.

 
 

— Tá abandonado, — Bruno disse.

 

— É tão triste isso, — ela disse, — um parque de diversões aban-

 
 

donado. Meu pai Lembrava-se do dia em que montara um cavalinho de carrossel. Era criança. Lembrava-se do pai sentado atrás dela, dos braços dele enlaçados sobre a sua barriga, protegendo-a pra não cair. Lembra-

va-se até do cheiro da colônia que o pai usara nesse dia. Ouviu-lhe a voz, cheia de paternal meiguice: Tá gostando, Fofa?

 

É lá em cima que eu moro, — Bruno disse.

 
 

Bruno atravessou a rodovia e subiu uma ladeira asfaltada que levava ao alto de uma colina. Renques de casuarinas cobriam a ver- tente da colina. Havia um par de casas na ladeira, e, lá no alto, no platô, mais duas três. Uma ribanceira despenhava-se quase a pique até o terreno plano lá embaixo. A cem duzentos metros à frente jaziam a praia e o mar. Casa de Bruno ficava no fim da rua. Era um prédio grande, sem graça, em forma de caixote. O Corolla deteve-se diante da casa, Bruno acionou o controle remoto, o portão da ga- ragem abriu-se obediente. O Corolla entrou. A garagem era um vasto porão, de pé direito alto. A Toyota estava lá, em repouso, e um jipe clássico, de capota de lona e tudo, e uma moto. Kitty nem se

 
 

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  deixou impressionar: nada mais que viesse de Bruno podia ser uma surpresa. Saltaram. Bruno
  deixou impressionar: nada mais que viesse de Bruno podia ser uma surpresa. Saltaram. Bruno
 

deixou impressionar: nada mais que viesse de Bruno podia ser uma surpresa. Saltaram. Bruno conduziu-a até uma escada em caracol no fundo da garagem. Naquele canto ele montara uma academia pra uso próprio. Da ponta de uma haste presa à parede pendia uma punching-ball. De um lado havia vários halteres largados pelo chão.

Do outro lado, uma esteira eletrônica pra exercícios. Bruno foi logo justificando:

 

Sei que é um monstrengo, mas não tenho tempo pra acade-

 

mia. Tenho de malhar em casa mesmo. Subiram em caracol os degraus da escada, Kitty tomando cui- dado por causa do salto. Lá em cima Bruno abriu uma porta de madeira maciça. Entraram num corredor escuro. Bruno girou um interruptor na parede e o corredor iluminou-se de uma luz azul

mortiça. Kitty sentiu-se numa boate: em seu elemento, portanto.

 

À

direita do corredor havia duas portas, à esquerda, uma. Bru-

 

no abriu esta uma porta à esquerda, entrou e acendeu a luz. Kitty seguiu-o. Achou-se então num loft de todo tamanho, iluminado indiretamente por dezenas de spots afixados às paredes vermelhas da cor de vinho tinto.

 

Meu mundinho, — Bruno disse.

*

* *

O

espaço era vasto e aberto, e ainda mais vasto porque aberto. Um

 
 

mar aberto salpicado de ilhas mobiliadas aqui e ali. No fundo, junto à parede, uma escada subia pra um mezzanino que servia de dormitório:

a cama podia ser vista de longe como numa vitrine suspensa.

 

Comprei isso aqui ano passado, — Bruno disse. — Já foi um

 

puteiro. Onde está a garagem era o salão de dança. Aqui em cima eram os quartos. Mandei botar tudo abaixo, abrir tudo. Sete meses de reforma, pagando arquiteto e engenheiro em tempo integral. Mas valeu a pena. O que eu exijo de uma casa em primeiro lugar é amplitude.

 

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  — Ficou muito rox, — Kitty elogiou. — Falta decorar direitinho, botar uns quadros
  — Ficou muito rox, — Kitty elogiou. — Falta decorar direitinho, botar uns quadros
 

— Ficou muito rox, — Kitty elogiou.

— Falta decorar direitinho, botar uns quadros nas paredes, —

 
 

Bruno disse. — Mas isso eu tô fazendo com calma. E a varanda também não tinha. Mandei abrir. De onde estava fez correr as cortinas do lado leste: através de uns janelões Kitty viu uma larga varanda e, lá no fundo, parecendo uma extensão da varanda, o mar noturno: pleno e imenso. Atraída,

Kitty desfilou até lá. No meio dos janelões uma porta de vidro dava acesso à varanda. Na varanda havia uma mesa de madeira branca, cercada por quatro cadeiras da mesma família, e duas espreguiça- deiras. Dali, de encontro ao guarda-corpo de alumínio, Kitty olhou

mar como nunca o olhara antes. O céu piscava de estrelas. O vento nordeste soprava frio. Bruno, ao seu lado, disse:

o

 

— Quer pra você? É todo seu.

— Tá me dando esse mar, Bruno?

— Tô. Seus olhos merecem.

Kitty pousou a mão sobre a mão dele, que jazia sobre o guarda-

 
 

corpo. Ele tomou-lhe a mão, levou-a aos lábios e beijou-a. Kitty lem- brou-se de Lu um instante e esqueceu-se de Lu um instante depois. Estremeceu. De frio? De emoção? De alguma outra coisa indefinível?

 

— Quer beber alguma coisa? — Bruno disse.

— Uma vodka, pra esquentar, — Kitty disse.

Voltaram pra dentro. Bruno conduziu Kitty em direção ao bar.

 
 

O loft era todo composto de ambientes: o ambiente que correspondia

à

sala de estar tinha dois sofás de diferentes comprimentos postados

em L e um balcão comprido sobre o qual ficava o televisor. Sobre uma mesinha no ângulo do L havia uma bela estatueta, em bronze, de um deus mitológico com asas nos calcanhares. Kitty perguntou quem era, Bruno respondeu que era Mercúrio: deus dos comerciantes e dos ladrões, o que é a mesma coisa. As asas nos pés são pra fugir da polícia, acrescentou, brincando. Kitty achou que devia rir, e riu. O piso do loft era de cerâmica vermelha cor de tijolo, que se cobria de tapetes cor de cáqui em cada um dos ambientes. Entre o

 

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  ambiente do living e o de refeições, junto à parede, ficava o bar. Era
 

ambiente do living e o de refeições, junto à parede, ficava o bar. Era um simulacro de quiosque coberto por um simulacro de telhado e Kitty teve de fazer um esforço pra não achá-lo brega. Bruno entrou no bar levantando uma aba do balcão. Kitty acomodou-se num dos bancos acolchoados de couro macio. Do forro de madeira pendiam taças de todos os tipos e tamanhos, dormindo de cabeça pra baixo que nem morcegos. Bruno abriu o refrigerador e tirou dali uma garrafa que tra- zia gravada no vidro a imagem de uma mansão sobre a qual pairavam os galhos secos de uma árvore enorme. Kitty pediu pra olhar.

É uma vodka polonesa, — Bruno disse. — Isso aí é o palácio do governo da Polônia.

 

— É muito lindo, — Kitty disse.

 

— Vai pura ou com limão?

 
 

Era um desperdício misturar com limão aquela vodka especial, mas Kitty não quis nem saber:

 
 

Você faz pra mim? — Seria uma caipiroska especial.

 

De uma prateleira em baixo do balcão Bruno retirou os apetre- chos que precisava pra fazer a caipiroska. Do refrigerador tirou gelo e limão. Com mãos hábeis, como um prestidigitador, rapida- mente preparou a bebida. Aí tirou de outra prateleira um copo que

parecia ele próprio feito de gelo. Bruno encheu o copo e passou às mãos de Kitty.

 

— E você? — disse ela.

 

— Vou tomar uma dose de uísque, — disse ele.

 
 

Kitty não ficou ali pra esperar. Saiu desfilando pelo salão, to- mando golinhos da bebida, que estava uma delícia embora um pou- co forte. Imaginou as festas do caralho que podiam ser dadas ali:

 

quem sabe ela convence Bruno a abrir aquele espaço pra galera se esbaldar numa balada? Já se via como anfitriã, metida naquele ves- tido ou em outro ainda mais ousado: que mostrasse ambos os pei- tos, quem sabe, e não um só.

 

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  A mesa de jantar era de vidro. Sobre ela Kitty viu, largada dis-  
  A mesa de jantar era de vidro. Sobre ela Kitty viu, largada dis-  
 

A mesa de jantar era de vidro. Sobre ela Kitty viu, largada dis-

 

plicentemente, uma beleza de notebook: sua espessura não ia além de um dedo, e não pesaria mais de três quilos. Bruno, recém-che- gando ao seu lado, copo de uísque na mão, explicou:

 

É a minha jóia mais preciosa. Tem bateria pra quinze horas,

 

entradas pra dvd e cd e saída pra filmadora digital, e ainda conexão de rede sem fios.

 

Você devia andar com essa jóia no pescoço, — Kitty disse.

 

Bruno lançou-lhe um olhar de surpresa, depois riu: um riso curto, trêmulo, feito nas coxas. Kitty continuou o passeio. Numa prateleira afixada à parede um ursinho cor de esmeralda acenou pra ela com o bracinho. Que cute, disse ela. Em outra prateleira

havia um porta-retratos digital, desses que funcionam à base de

slides. Kitty viu ali a foto de uma moça que lhe lembrou a filha do poderoso chefão três, aquela que morre com um tiro na escadaria da ópera.

 

— É minha irmã, — Bruno disse.

 

— Qual o nome dela?

 

— Amanda, — Bruno disse.

 

Logo a imagem na tela mudou: apareceu outro retrato da mes- ma moça: depois um terceiro.

 
 

— Sua irmã parece a filha do poderoso chefão três, — disse ela.

— Sofia Coppolla, — disse Bruno. — Na vida real ela é filha do

 

diretor do filme. E agora também deu pra ser diretora. Você viu

Encontros e desencontros ?

 
 

— Cara, você entende pacas de cinema, hein?

 

— Nada, só o básico, — Bruno disse.

— É ela que tem uma mancha nas costas? — Kitty perguntou.

 
 

Sofia Coppolla? — Bruno disse; e logo riu: — Tô brincando com você. Amanda. É ela sim. Só tenho essa irmã.

 

— E irmão?

— Tive, mas morreu. Morreu de overdose com dezenove anos.

 

— Puta merda, Bruno. — A irritação como expressão de luto.

 

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  Pensou em falar, por uma espécie de solidariedade, de sua   overdose em Porto,
  Pensou em falar, por uma espécie de solidariedade, de sua   overdose em Porto,
 

Pensou em falar, por uma espécie de solidariedade, de sua

 

overdose em Porto, mas não deu tempo: Bruno, com voz áspera, disse:

Autodestruição, sabe como é? E o filho da puta nem tinha mancha nenhuma no corpo.

 

* * *

Cirandaram pelo loft. Chegaram ao sopé do mezzanino. No

 
 

espaço em baixo fizera-se um lavabo. À direita uma porta de correr, aberta a meio, deixava entrever uma parte da cozinha.

 

— Você tem empregada, Bruno?

 

— Tem um casal aí da região que vem todo dia. Ela prepara meu

 
 

café e arruma a casa. Ele não faz nada. É só uma espécie de garantia.

 

— Garantia?

— O cara é bandido. É uma garantia pra ninguém assaltar a

 
 

casa. Nem sei se é preciso, o pessoal já me conhece, e sabe que se assaltar minha casa tá fudido.

 

— Como assim, Bruno?

 

— Conexões, gata. Quem tem conexões tem segurança.

 
 

Kitty decidiu que não queria saber que conexões eram essas, até porque: Quer ver como é lá em cima, Bruno perguntou. Kitty queria. Presos à parede, grossos degraus de mogno levavam ao mezzanino. Não havia corrimão nem os degraus tinham qualquer ligação uns com os outros: parecia que levitavam, por si sós, no ar. Subiram os degraus, Kitty de novo tomando cuidado por causa do salto. Um anteparo de vidro corria à beira do mezzanino, como pro- teção contra um passo em falso e uma queda de três metros. Kitty soltou os olhos pelo espaço do mezzanino. Das três paredes, todas três cegas, sem janela, duas eram vermelhas — que só podia ser a cor favorita de Bruno — e uma era branca. A cama era enorme, com guarda de madeira entalhada, e à sua direita havia uma estante com prateleiras cheias de variedades. À direita da cama Kitty viu um

 

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  refrigerador anão de menos de um metro de altura. Calçava rodinhas nos pés e
  refrigerador anão de menos de um metro de altura. Calçava rodinhas nos pés e
 

refrigerador anão de menos de um metro de altura. Calçava rodinhas nos pés e tinha na porta um painel que ela achou muito bonito: as palavras BOA SORTE!, em verde sobre preto, encimavam um enor- me trevo negro de quatro folhas sobre campo verde. Em cada uma das folhas negras havia, impresso em amarelo, um símbolo de sorte:

uma estrela de cinco pontas, um número sete, uma ferradura e, à falta de opção, outra estrela de cinco pontas.

 

Que fashion, — Kitty disse. — Mas podiam ter posto um

 

trevo na última folha, melhor que repetir a estrela, não acha não? Na estante chamou-lhe a atenção uma variedade de filmes em dvd e ela se aproximou pra ver o que havia ali de bom: um dos filmes

era Náufrago, com Tom Hanks, e ela sorriu ao lembrar da bola de vôlei chamada Wilson; outro, American Psycho, com Christian Bale,

que ela não tinha visto; outro, De olhos bem fechados, com Nicole Kidman: este ela retirou da estante e mostrou a Bruno.

 

— Você gosta, cara? — disse ela. — Eu adoro.

 

— Eu também, — Bruno disse. — Parece um pesadelo.

 

Havia também uma caixa contendo a trilogia do poderoso

 

chefão; outra, a série completa de Indiana Jones; uma terceira, os filmes de James Bond.

 

— 007? Você gosta?

 

— Muito. Principalmente das mulheres.

 
 

Na parede branca do fundo do mezzanino havia duas portas, pintadas no mesmo vivo vermelho de todo o loft. Kitty imaginou que uma delas era a porta do banheiro. Vou dar uma chegadinha no toalete, disse ela. É a porta da esquerda, Bruno disse. Kitty desfi- lou até lá, abriu a porta e entrou. Achou-se num closet três vezes mais amplo que o seu. Pra chegar ao banheiro tinha de atravessar o

 

closet. Admirou-se da quantidade de vestimentas e de calçados que se perfilavam ali, num apuro de arrumação essencialmente metrossexual. O banheiro era amplo e todo de azulejo vermelho. De uma das paredes pendia, olha só, um pôster do filme De olhos bem fechados:

 

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  esse cara curte mesmo um bom pesadelo. Kitty examinou a imagem do pôster: num
  esse cara curte mesmo um bom pesadelo. Kitty examinou a imagem do pôster: num
 

esse cara curte mesmo um bom pesadelo. Kitty examinou a imagem do pôster: num espelho com moldura de metal trabalhado vêem-se os rostos circunscritos de Nicole Kidman e de Tom Cruise: ele, pres- tes a beijar-lhe a boca entreaberta; ela, com a atenção azul do olhar desviada de soslaio pra longe. Essa mulher é mesmo linda, pensou Kitty: não achou defeito nenhum no rosto que viu ali. O fundo grená do pôster combinava com o ambiente vermelho do banheiro. Aí, olhando em torno, Kitty aprovou a banheira circular, o amplo box do chuveiro, as toalhas rubras e felpudas pendendo de hastes de metal. Aprovou o largo espelho sobre a bancada: olhou-se nele:

não achou defeito nenhum no rosto que viu ali. Seu olhar azul, diferente do de Nicole Kidman, não tinha nele nenhum matiz de medo nem de apreensão. Deteve-se a olhar os objetos que havia sobre a bancada. Era outro aspecto que comprovava a metrossexualidade de Bruno: Kitty viu ali gel de limpeza, protetor solar, e todo o aparato de barbear:

aparelho, pincel, sabão de barbear em pote, e loção após-barba. O frasco de desodorante tinha a figura de um jogador de pólo monta- do em seu cavalo e pronto pra dar uma tacada em bola invisível. Havia um tubo de esfoliante e dois frascos de hidratante, um pro rosto, outro pra área dos olhos. Era um exército de produtos: havia também um fixador de cabelo e um xampu pra cabelo e corpo. Um pequeno aparelho fez Kitty sorrir: era um cortador de pêlos de na- rina e orelha. E, largado a um canto, Kitty viu um bracelete pra homem: a pulseira era de resina elástica e o fecho em ouro branco. Ela experimentou no pulso, mas ficava folgado. Mas era muito rox. Kitty fez um xixi retórico, lavou-se, saiu do banheiro. Bruno ergueu-se da beira da cama onde sentara pra esperá-la e veio recebê- la. Kitty perguntou:

 

— E a outra porta? Dá pra onde?

 

— Quer abrir pra ver? — Bruno disse.

Kitty estendeu a mão em direção à maçaneta.

E se for o quarto do lobisomem? — Bruno disse.

 
 

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  — Eu pago pra ver, — Kitty disse.   E girou a maçaneta e
  — Eu pago pra ver, — Kitty disse.   E girou a maçaneta e
 

Eu pago pra ver, — Kitty disse.

 

E girou a maçaneta e entrou. A luz se acendeu. Era uma sala com paredes revestidas como as de um estúdio de rádio. Havia ali um amplo e confortável sofá e todo um ambiente de home theater: qua-

 

tro caixas de som esguias e compridas brotavam do piso e cercavam uma enorme televisão de tela plana de 52 polegadas. Era uma puta aparelhagem de tevê e som.

 

— Que rox, Bruno, parece um cinema! — Kitty exclamou.

— É o meu cinema, — Bruno disse.

 
 

Bruno digitou um comando num controle remoto e o som de uma banda de rock encheu o ar: Kitty reconheceu imediatamente:

 

era o Linkin Park. Kitty começou instintivamente uma dançazinha lá dela. Bruno aproximou-se e, com gentileza, quase meiguice, reti- rou-lhe o xale dos ombros. Aí beijou-lhe no ombro nu a flor de lis. Eu te amo, Kitty, disse ele. Ela não disse nada; só parou de dançar. Ele cobrou: E você? Me ama também? Ela ficou pensativa. Com Guto, com Breno, era tão fácil dizer eu te amo. E ela não os amava, é claro: como poderia realmente amar alguém como Guto ou um gay como Breno? Já com Bruno era tão difícil dizer as coisas. Lem- brou da música de Avril Lavigne: Que que há de errado com a mi- nha língua? Então disse, com sua bela voz grave: É fácil dizer eu te amo quando não se ama; quando se ama, é bem mais difícil. Não pra mim, Bruno disse: eu te amo e passaria a noite toda dizendo isso pra você. Kitty correu meiga a mão no braço dele. Bruno reagiu colhendo na mão o peito nu da amazona. Kitty soltou um gemido. Tesão irradiou-se por todos os quadrantes de seu corpo. Bruno abraçou-se a ela e beijou-lhe a boca. Foi um beijo suave e fugaz, um mero roçar de lábio em lábio: Kitty veio, sôfrega, de boca aberta e olho fechado, querendo muito mais que isso. O taurino tem um beijo guloso, profundo, altamente sensual. Aprecia o sabor, o ca- lor, a textura da outra boca. Não tem pressa e é capaz de ficar lon- gos minutos desfrutando o gosto da pessoa amada. Ali, embutidos ele nela, ela nele, beijaram-se pra valer. As línguas lamberam-se

 

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  uma à outra. Aquela beijação toda durou algum tempo, enquanto o rock vazava em
  uma à outra. Aquela beijação toda durou algum tempo, enquanto o rock vazava em
 

uma à outra. Aquela beijação toda durou algum tempo, enquanto o rock vazava em alto volume das caixas de som. Kitty sentiu-se desfale- cer de êxtase. Bruno impediu-a de escorregar até o chão. Ela virou a cabeça pra trás, ele correu a língua fluente pelo seu belo pescoço. Kitty sentiu arrepiar-se a pele. Bruno levou-a até o sofá e ali senta- ram-se. Houve mais beijos, e mais, e mais. Kitty curte beijar: seria capaz de passar uma noite inteira beijando. Foi capaz, com Guto, de estender um beijo durante trinta minutos, sem descolar os lábios, no banco de trás do carro de Deb: de Nova Almeida até a Mata da Praia, o beijo mais longo da história do Espírito Santo. Mas Bruno quis diversificar. Deixou-se escorregar até o chão e, de joelhos, pousou os lábios no peito descoberto de Kitty e ocupou-se em lambê-lo, depois em chupá-lo, depois em mordê-lo e de novo lambê-lo e chupá-lo, até que Kitty sentiu-se a um triz do orgasmo, mas isso não é possível, gozar com um carinha mamando-lhe o peito, é possível isso? Era, e

foi. Pois de repente partiu-se o último triz e a torrente de prazer veio e veio forte, e Kitty gozou, ali no sofá, tudo a que tinha direito — e, ainda mais depois de tanto tempo, foi gostoso pra caralho. Bruno veio e sentou-se ao lado dela e deu-lhe um beijo no rosto. Kitty sorriu. Sabia que era a sua vez de retribuir e era isso mesmo que pretendia fazer. Foi tateando entre as pernas de Bruno até sen- tir-lhe o volume do pau duro. Começou a apalpar o bruto; Bruno sibilou de prazer.

 

Põe pra fora, amor, — pediu ele.

Kitty desabotoou-lhe a braguilha e o pau emergiu. Safadinho

 
 

do Bruno alguma coisa aprendeu com Lu, pois já veio sem nada por baixo da roupa, pra facilitar as coisas — e Kitty gostou de ver que o que tinha ali era um nobre exemplar de pau. Abrigou-o na concha da mão e começou, maneira, sem pressa, a tocar em Bruno uma punheta; Bruno começou a gemer por todos os poros.

 

Assim você me deixa doido, — murmurou ele.

 

Kitty sentiu a felicidade de deixá-lo doido. Sentiu-se recompen- sada com o prazer do outro: o prazer que ela plantava em Bruno e

 

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  fazia brotar e crescer mais e mais. Afinal, o universo opera através de trocas
  fazia brotar e crescer mais e mais. Afinal, o universo opera através de trocas
 

fazia brotar e crescer mais e mais. Afinal, o universo opera através de trocas dinâmicas: dar e receber.

— Tá bom? — perguntou ela.

 

— Demais, — gemeu ele.

Pau de Bruno já não cabia em si de tão duro e teso. Kitty acele- rou o ritmo, prevendo a qualquer momento a erupção de esperma:

 

a mão esquerda assistia, pronta pra intervir: pra cobrir a cabeça do pau e receber toda a porra em plena palma.

Põe na boca, meu amor, — Bruno pediu.

Kitty fez que não ouviu; não se pense que ela não gostaria de pôr na boca aquele pau; já foi dito que ela tem uma quedinha por uma chupada; mas acreditava piamente que, se logo no primeiro encon-

 

tro caísse de boca, estaria fudida: cadê que Bruno a respeitaria como mulher e como amante? — dentro de um mês, depois de trinta chu- padas e outras tantas metidas, daria bem dado um chute na bunda dela e é isso aí, Kitty: goodbye. Assim, continuou diligente o que estava fazendo.

Na boca, amor, na boca, — Bruno insistiu.

Kitty largou de mão o pau dele e saltou do sofá.

 

— Que que foi? — Bruno estranhou.

— Cheguei ao meu limite.

Bruno ficou ali imóvel. Arfava ainda. Mas batimento do cora- ção, fluxo sangüíneo, ereção, tudo ia diminuindo aos poucos. Quan-

 

do ele falou, sua voz era a voz do freguês insatisfeito com o serviço:

Pensei que esta fosse uma ocasião especial. Pensei que você estivesse feliz. Isso não muda os limites e as regras?

Também não é tão aritmético assim, né, Bruno.

Ele pôs o pau pra dentro de casa, levantou do sofá e desligou o som. Aí disse, puto:

Garanto que com os Gutos da vida você não foi tão rígida. E depois diz que eles são uns babacas. Babaca quem é sou eu.

Tem nada a ver, — Kitty disse, preparando-se pra uma cena da pior das histerias, a masculina.

 

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  — Como não tem nada a ver? Eu te falei, cara. Tem certas coisas
  — Como não tem nada a ver? Eu te falei, cara. Tem certas coisas
 

Como não tem nada a ver?

Eu te falei, cara. Tem certas coisas que eu não faço no primei- ro encontro. Não faz meu gênero.

 

Eu te conheço, Kitty, — Bruno disse. — Não vem se fazer de pura pra cima de mim não, que eu te conheço. Kitty fez cara de cansaço. Cara de ai, que tédio.

Conheço muito bem, — Bruno disse. — Já vi você com um

pau na boca, tá? Já vi você babando porra, cuspindo porra, tá? Ou será que você tem uma irmã gêmea? Kitty empertigou-se.

— Que que você tá falando aí, cara?

 

— Tô falando da filmoteca daquelas bichas. Tem de tudo lá.

 

Tem gente cheirando, tem gente se picando, tem homem fudendo com homem, tem mulher fudendo com mulher, tem até mulher dando um tiro na cabeça. E no meio disso tudo tem você fudendo com seu namorado. Tem vocês dois fazendo desde guerra de traves-

seiros até coito anal. São umas três horas de filme, e termina com um bem merecido café da manhã na cama. Kitty sentiu faltar-lhe o tapete e o chão embaixo dos pés.

Você quer ver? É um pornozinho básico, muito instrutivo.

Kitty não conseguia se situar naquela brusca mudança de rotei-

ro: parecia que tinha saído de uma história e entrado em outra

completamente diferente. Bruno, esse outro e nunca visto Bruno, apontou o controle remoto pra tela de 52 polegadas:

Vamos pular as criancices e ver logo o que interessa.

A tela iluminou-se: em suas 52 polegadas apareceu o rosto de uma loura de cabelo comprido chupando um pau com gosto e es-

mero: com lábia e apuro. Algo na mente de Kitty sussurrou-lhe: É você. Algo respondeu, também num sussurro: Sou eu. A voz de Bruno ressoou estrídula no pavilhão de sua mente:

Você me enganou, sua vaca. A Kitty que tá no blog não exis-

te. A que existe é essa piranha que tá ali com um pau na boca. É essa que tá aqui de peito de fora.

 

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  Kitty caiu em si: viu que estava numa sala fechada, fria, hostil, que mais
  Kitty caiu em si: viu que estava numa sala fechada, fria, hostil, que mais
 

Kitty caiu em si: viu que estava numa sala fechada, fria, hostil, que mais parecia um túmulo, em companhia de um sujeito de man- cha negra no rosto que ela não sabia quem era, nem do que era capaz. Sentiu uma vontade imensa de ir correndo pra casa: de lan-

çar-se na cama, apertar ao peito a almofada de fuxico que o pai lhe dera, dormir durante seis meses com direito a prorrogação por mais seis meses.

 

— Me leva pra casa, cara.

 

— É cedo, meu bem. Primeiro você tem de pagar.

 

— Pagar? Eu não devo nada a você nem a ninguém. Pagar o quê,

 

cara.

 

O resgate. O pedágio. A multa. A palavra não importa, dá tudo

 
 

no mesmo. Eu é que não vou ficar na mão: nem na sua nem na minha. Só te levo em casa depois da gente acertar as contas direitinho.

 

— Que que você quer de mim, porra. Fala de uma vez.

— Quero só o que eu tenho direito: o que tá no filme. Menos a

 

guerra de travesseiros e o café na cama. Isso eu dispenso.

 

— Você é doente, cara? Que foi que eu te fiz? Eu não te fiz nada.

— Nada? Nada o caralho. Você me esnobou, me desprezou, me

 

chamou de Mancha Negra, já esqueceu? Você se acha gostosa demais, né, Kitty? Pois eu adoro acabar com a pose de putas como você, que se acham mais gostosas do que são. Você não é porra nenhuma, Kitty. Sabe o que você é? Um corpo com peito e buceta. Que que tem de especial num peito e numa buceta, Kitty? Diz pra mim. Kitty se encheu de brio:

Pois eu sou especial, sim. E a minha foto na primeira página do jornal, já esqueceu, cara? Bruno riu:

 

Que porra de jornalista você é que não sabe o que é jornal?

 

Jornal, Kitty, é a coisa mais nova hoje e a coisa mais velha amanhã. Kitty Leme, amanhã, ninguém mais vai saber quem é. Na tela, a loura de cabelo comprido virou de costas pro carinha. Kitty teve um sobressalto. Fez um movimento com os dedos, como

 

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  se os dedos tivessem o poder de desligar aquela porra que rolava lá na
  se os dedos tivessem o poder de desligar aquela porra que rolava lá na
 

se os dedos tivessem o poder de desligar aquela porra que rolava lá na tela de 52 polegadas.

Não faz isso comigo não, Bruno, — disse ela. Não era uma súplica, mas uma ordem. — Desliga essa merda.

Não, deixa rolar, que essa é a melhor parte, — Bruno disse.

Cara! — Kitty gritou. — Eu já tava começando a gostar de você, cara!

— Porra nenhuma! — Bruno gritou.

 

— Tava sim, porra, tava sim! — Gritando isso, você chegou

 

perto de chorar de desespero, não foi, Kitty? Acreditava piamente

no que dizia, não é? Mas será que o que dizia era a verdade? O que é

verdade? É aquilo em que a gente acredita ou algo mais complexo, acima de nossa crença e de nossa descrença?

a

Chega de papo, — Bruno disse, patronal. — Vou te fazer

uma proposta decente. Quer que eu te leve em casa? Eu levo. Vamos

lá, eu juro que levo.

Kitty respirou fundo. Não acreditou que a coisa pudesse ficar só nisso. Porque aquilo era um pesadelo: só que quem estava vivendo

 

o

pesadelo não era Tom Cruise mas Nicole Kidman.

 

Basta você dizer pra mim o seguinte: Eu, Kitty Leme, me acho

 

muito gostosa mas não passo de uma vagabunda metida a besta. Kitty não disse nada: só meteu em Bruno um daqueles seus céle-

bres olhares de ponta afiada, próprios pra furar olho de carinha e deixá-lo sem chão.

É a sua chance, Kitty. É só você dizer isso que eu juro que te levo em casa e pronto. Vamos. Não vai doer. E, além disso, é a verdade e nada mais que a verdade. Kitty não disse nada: só manteve sobre Bruno um daqueles seus

célebres olhares de ponta afiada, próprios pra fazer carinha voltar correndo ao colo materno de sua insignificância. Só que Bruno, diferente do comum dos carinhas, não estava nem aí:

Vamos lá, eu ajudo. Repete comigo: eu, Kitty Leme, me acho muito gostosa

 

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  Kitty Leme continua calada: recusa-se a colaborar. Não quer? Tá bem. Então vai ter
  Kitty Leme continua calada: recusa-se a colaborar. Não quer? Tá bem. Então vai ter
 

Kitty Leme continua calada: recusa-se a colaborar.

Não quer? Tá bem. Então vai ter de pagar pedágio. O que vai ser? Te dou a opção: na boca ou no cu? Kitty não deu resposta.

Responde, sua vaca.

Kitty não deu resposta; nem podia, rilhando os dentes como estava.

 

Então tá. Vou ter de estuprar você. Alguma coisa contra?

Aí Kitty disse uma coisa:

 

Você é um filho da puta. Me enganou, me levou na conversa. Fingiu pra mim o tempo todo.

 

Como fingi, — Bruno disse, apontando pro próprio rosto,

— se tá na cara? Kitty viu que a mancha negra parecia mais negra e mais medo- nha. Meu Deus do céu, pensou ela: tá na cara mesmo: eu vi mas deixei de ver e agora tô fudida. Bruno deu um bote sobre ela. Kitty tentou esquivar-se, mas Bruno agarrou-a e atirou-a sobre o sofá. Ali se deba- teram os dois por algum tempo, cada qual tentando segurar os bra- ços do outro. Bruno achou por bem, então, dar-lhe um soco no ros- to. Kitty ficou momentaneamente sem ação. Bruno aproveitou pra

baixar-lhe a calcinha até os joelhos. Antes que ele pudesse fazer qual- quer outra coisa, Kitty cuspiu-lhe no rosto. Bruno reagiu com outro soco, desta vez no narizinho dela arrebitado. Aquilo doeu pra cacete:

Kitty viu estrelas; sangue desceu. Bruno cobriu-a e tentou meter-lhe o pau na buceta. Kitty sentiu o estupro à porta: recuou por instinto e, desvencilhando-se, lançou-se do sofá ao abismo: tombou de peito sobre o tapete, mas não de todo livre: uma das pernas, que Bruno conseguiu agarrar pelo tornozelo, continuava em poder do inimigo.

Vem cá, minha vaquinha, vem, — Bruno disse.

Aí Kitty fez o que deu pra fazer: virando o corpo de lado, reco- lheu a perna livre até tocar o joelho no queixo e, soltando-a com a força bruta de um coice, sentou o pé bem no rosto de Bruno. Bruno urrou de dor. O salto do sapato, dez centímetros de aço inoxidável, penetrou-lhe feito agulha olho adentro.

 

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  Kitty aos 22: Divertimento . Epílogo: sábado. Phil cedo madruga, mas nesse dia madrugou
  Kitty aos 22: Divertimento . Epílogo: sábado. Phil cedo madruga, mas nesse dia madrugou
 

Kitty aos 22: Divertimento. Epílogo: sábado. Phil cedo madruga, mas nesse dia madrugou mais cedo ainda. Sonhara com Kitty, um sonho erótico que abortou a meio caminho. Acordou cheio de te- são. Mummy, máscara de dormir cobrindo-lhe os olhos, ressonava a seu lado. Phil, como Kitty, é daqueles que metem o dedo na gar- ganta pra vomitar. Resolveu vomitar o tesão. Foi pro banheiro, trancou a porta, sentou-se no vaso, fechou os olhos e tentou dar continuidade ao sonho. Estava no meio da punheta, murmurando o nomezinho de Kitty, quando o celular

tocou. Só podia ser, e era, a própria. O que será desta vez, pensou Phil, atendendo de pau duro na mão.

É Kitty, Phil. — A voz de Kitty soava minúscula, fragílima, assustadinha. Nem parecia a voz de Kitty.

Que que houve, Kitty? — Phil disse. O pau começou a mur- char-lhe entre os dedos.

Vem me buscar, Phil, pelo amor de Deus, — disse a voz que nem parecia a voz de Kitty.

— Onde você tá?

— Na casa de Bruno.

 

— E onde é que é isso?

 

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  — Phil A voz dela diluiu-se. Phil receou que se apagasse como uma chama.
  — Phil A voz dela diluiu-se. Phil receou que se apagasse como uma chama.
 

Phil

A

voz dela diluiu-se. Phil receou que se apagasse como uma chama.

 

— Fala, Kitty, onde é que é? Como é que eu chego aí?

— Na rodovia do Sol. Antes do posto.

 

— Que posto?

 

O posto de pedágio. Um pouco antes. Vem logo, Phil, que eu tô Tá o quê — desesperada? A palavra mascou-lhe nos lábios.

 

— Kitty, eu preciso de um ponto de referência. Fica perto de quê?

— Tem um parque na beira da estrada.

 

— Um parque?

 

A

voz de Kitty criou algum ânimo:

 

De diversões. Roda gigante, carrossel. Mas tá abandonado.

 

Tá todo escuro. Tem uma ladeira do outro lado. No alto do morro. A última casa. Parece um caixote. Vem logo, Phil, pelo amor de Deus.

Tem alguém aí com você?

Não houve resposta.

 

— Kitty? Kitty?

— Eu acho que ele tá morto, Phil, — disse a voz que nem parecia

 

a voz de Kitty. Phil sentiu que a coisa era muito séria ou então era delírio, alu- cinação, que também era coisa muito séria: ecstasy, será? A porra da droga: taí o tesouro dessa juventude, murmurou. Vestiu uma bermuda sobre o calção do pijama, passou a mão numa jaqueta e, de chinelos mesmo, saiu às carreiras de casa. Previdente, não esque- ceu foi de levar o berro que comprou de um amigo policial: a arma pertenceu a um bandido morto pela polícia. Dirigiu zunindo pela avenida Camburi, depois pela Nossa Senhora dos Navegantes até chegar à terceira ponte. Pagou o pedágio com uma nota de cinco reais e nem esperou pelo troco. Kitty ligou de novo duas vezes: na primeira, Phil estava atraves- sando a ponte; na segunda, já quase chegando ao posto da polícia rodoviária. Tentou tranqüilizá-la: Tô indo, Kitty. Calma, calma,

 

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  tô quase chegando. Em vinte minutos já passara a entrada de Ponta da Fruta.
  tô quase chegando. Em vinte minutos já passara a entrada de Ponta da Fruta.
 

tô quase chegando. Em vinte minutos já passara a entrada de Ponta da Fruta. Aí reduziu um pouco a marcha, pra prestar atenção na estrada e localizar o parque de diversões. Kitty ligou mais uma vez. Onde é que você tá, Phil? Phil disse que já devia estar perto do par- que. Aí viu, lá na frente, a silhueta de uma mirrada roda gigante. Tô vendo, Kitty. Tô vendo a roda gigante. Já tô chegando. Você pode sair da casa? Pode ficar na porta, na varanda, no que for? Vem, Phil, pelo amor de Deus, Kitty disse. Phil quase rodopiou na estrada ao guinar à esquerda pra subir a ladeira. Passou uma segunda pra subir, a porra do carro lá pela metade não agüentou, Phil passou uma primeira e chegou ao topo da colina. Disparou até o fim da rua. Lá estava a casa em forma de caixote: um retângulo alto e comprido. Havia uma porta no alto de uma escadaria lateral e um portão de garagem. Isso parece até um puteiro, pensou. De Kitty nem sinal. Mas de repente a porta no alto

da escadaria se abriu e ela apareceu. Phil saltou do carro e foi-lhe ao encontro. Ela veio na direção dele, e vinha mancando. Os dois se encontraram. Kitty caiu nos braços dele.

 

Phil, que merda, Phil, que merda! — A irritação como sinal

 

de, sinal de quê? Kitty não queria soltar-se dos braços de Phil. Phil, porém, sabia que não dava pra ficar ali assim. Com um gesto brusco, tomou-lhe o corpo nos braços e levou-a pra dentro do carro. Nisso observou que havia hematomas no rosto dela, e sangue escorrido do nariz, e que o peito esquerdo estava de fora. Curraram a menina. Filhos da puta! Viu também por que Kitty estava mancando: faltava-lhe no pé direito o sapato. Acomodou-a no banco de trás. E disse:

 

Kitty. Eu vou ter de entrar lá. Tem alguém na casa?

Kitty olhou muda pra Phil e os olhos, azuis, marejaram.

Você vai ficar aqui dentro. Eu vou trancar o carro. Se alguém

 

aparecer, buzina feito doida, Kitty. Tá bom? Entendeu? Kitty fez que sim com a cabeça. Phil saiu do carro. Aí Kitty disse, num murmúrio:

 

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  — Phil, meu sapato Meu sapato ficou lá. Pega pra mim, por   favor.
  — Phil, meu sapato Meu sapato ficou lá. Pega pra mim, por   favor.
 

Phil, meu sapato

Meu sapato ficou lá. Pega pra mim, por

 

favor. Phil entendeu que a coisa estava feia, pra Kitty pedir alguma coisa por favor.

 
 

Onde é que tá, Kitty?

 

Em cima, no quarto. Na sala de tevê. Cuidado, Phil. Bruno tá lá. Tá morto lá dentro.

 
 

Deixa comigo, Kitty. — De morto é que eu não vou ter medo,

 

pensou. — Fica aí quietinha. Eu volto logo. Phil trancou o carro e subiu a escadaria. Já subiu de berro na mão,

e

destravado: pronto pra atirar no primeiro filho da puta que lhe apa-

recesse pela frente. Quem mostrar o rosto leva tiro na cara. Ninguém que estivesse naquela casa naquela noite era inocente. Subiu rápido e silencioso. Kitty deixara a porta aberta. Phil seguiu por um corredor que foi dar em outro corredor. Ali, de um lado, havia uma porta de madeira maciça. Do outro, uma meia luz vermelha manava pro corre- dor por uma porta aberta. Phil correu até lá, berro em punho. Entrou de chofre no salão e, num décimo de segundo, viu que não havia ali vivalma. O mezzanino chamou-lhe a atenção do olho. Só pode ser lá. Percorreu com ágeis chinelos o sinistro deserto banhado pela meia luz vermelha. Os degraus de mogno embutidos na parede chamaram-no:

Sobe, Phil: é por aqui. Phil subiu até o dormitório. A cama estava intacta:

Estou inocente, Phil, disse ela, e os travesseiros e a colcha, tudo arruma- do por mãos hábeis, comprovavam a inocência da cama. Aqui não rolou nada. Aí Phil percebeu as portas gêmeas ao fundo. Correu até lá. A da direita murmurou: Você está quente, Phil. Phil abriu a porta e entrou, o dedo no gatilho da arma, doidos, o dedo e ele, pra meter uma bala na primeira testa que aparecesse. Sim, então Phil abriu a porta e entrou, como foi dito, e lá dentro

que lhe tomou de assalto os olhos foi um filme pornô rolando em tela de 52 polegadas. Levou cinco segundos pra entender que a pira- nha loura trepando adoidado com o garanhão era Kitty. Puta que pariu, resmungou; que porra é essa? Ficou ali paralisado, vendo. Se

o

 

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  houvesse alguém vivo naquele quarto, Phil estava fudido, com ou sem dedo no gatilho
  houvesse alguém vivo naquele quarto, Phil estava fudido, com ou sem dedo no gatilho
 

houvesse alguém vivo naquele quarto, Phil estava fudido, com ou sem dedo no gatilho do berro. Mas não pôde evitar: ficou ali imóvel uns cinco minutos, olhos fixos nas imagens que corriam na tela: eis Kitty como ele nunca vira nem pensava que jamais veria: nua em pêlo, bela em pêlo, puta em pêlo, e fudendo, e fudendo, e não paran- do de fuder. Teve de fazer um esforço pra desviar dali o olho e dar atenção às coisas mais urgentes. Não posso demorar muito aqui. Tenho de agir depressa. Daqui a pouco vai amanhecer. Aí correu o olho pela sala e viu as pernas de um corpo estiradas junto ao sofá. Aproximou-se. Bastou uma olhada pra ter certeza de que o cara estava morto pra caralho. Sapato de Kitty estava ali, cravado até à sola no olho dele. Nem escapou a Phil o detalhe da braguilha aberta: o cara quisera currar a menina e ela, que não é

fácil, meteu-lhe o salto do sapato no olho. Phil disse ao morto: Essa menina é foda, bicho, tá pensando o quê? Posto de cócoras ao lado do corpo, arrancou do olho do sujeito o sapato, limpou na camisa dele o grosso da sujeira do salto e guardou o sapato no bolso da jaqueta. Aí, esquadrinhando a cara da figura, viu que parecia o sujeito que na foto do jornal sorria sentado ao lado de Kitty; só que

o

sujeito do jornal tinha uma mancha negra no lado do rosto e este

aqui não tinha mancha nenhuma. Phil apalpou o corpo em busca da carteira. Localizou-a num dos bolsos traseiros da calça. Abriu-a. Pela cédula de motorista ve- rificou que esse era o tal de Bruno a que Kitty se referira: Bruno Maurício Hodiak, pra dar o nome completo, nascido em Lajes, Santa

Catarina, em 9 de junho de 1974. Veio de tão longe pra fazer merda:

olha aí no que que deu. A carteira continha outras coisas de interes- se, como cerca de quinhentos reais em três notas de cem, três de cinqüenta e algumas notas menores. Continha também um cheque, mas o valor era baixo — e a assinatura não era a assinatura de Bruno Hodiak mas de Kitty Leme. Que merda é essa, pensou Phil, intrigado. Aí embolsou tudo, inclusive as notas menores e o cheque,

e

largou a carteira sobre o peito do morto.

 

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  O relógio chamara-lhe a atenção assim que se ajoelhara ao lado do corpo. Era
  O relógio chamara-lhe a atenção assim que se ajoelhara ao lado do corpo. Era
 

O

relógio chamara-lhe a atenção assim que se ajoelhara ao lado

do corpo. Era o relógio de pulseira de aço escovado e ponteiros lumi- nosos, assinado por um golfista famoso, de que só quinze peças foram vendidas no Brasil. Phil tirou-o do pulso do morto, sopesou-o, admi- rou-o junto ao olho, depois colocou no próprio pulso, onde achou que ficava muito bem: deixou-o ali: morto precisa ver horas pra quê? No bolso da camisa, projetando-se pra fora, alguma coisa chamou- lhe a atenção do olho: era uma caneta tinteiro: a bela e clássica caneta Parker com que Kitty assinara o cheque na casa de chá. A base, não custa repetir, é feita de prata de lei toda trabalhada com desenho em xadrez preto, a pena é em ouro maciço de dezoito quilates: uma ver- dadeira jóia, de que Phil não hesitou em tomar posse.

Phil ergueu-se. Percebeu no pé do morto o sapato cor de prata e murmurou com desprezo: Isso é sapato de boiola. Vamos indo, Phil, sua prudência sussurrou-lhe ao ouvido. Ainda falta uma coi- sa, respondeu Phil à sua prudência. Havia um controle remoto lar- gado sobre o tapete. Phil usou-o pra desligar o David player. Aí, movendo-se na direção do aparelho, acionou o comando open- close. Tirou da bandeja o cd, guardou-o num estojo que jazia sobre uma das prateleiras do rack e por fim guardou o estojo no outro bolso da jaqueta. Aí então Phil saiu da sala e desceu veloz os de- graus. Sobre a mesa de jantar chamou-lhe a atenção o notebook de Bruno. Imaginou que aquilo devia valer uns dez mil reais no míni- mo. Passou a mão e levou consigo. Seguindo o caminho por que viera, em pouco tempo estava de volta à rua.

*

* *

Kitty continuava exatamente na mesma posição em que Phil a deixara.

 

Kitty, — ele disse. — Trouxe o teu sapato. É só isso mesmo? É só isso ou tem mais alguma coisa?

Hein?

 

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  — Teu sapato tá aqui no bolso. Tem mais alguma coisa sua lá dentro?
  — Teu sapato tá aqui no bolso. Tem mais alguma coisa sua lá dentro?
 

Teu sapato tá aqui no bolso. Tem mais alguma coisa sua lá

dentro? Pensa bem, Kitty, a gente precisa se mandar logo daqui.

Meu xale. Esqueci meu xale, Phil.

Puta que pariu, Kitty. Por que não me disse isso antes?

 

Só lembrei agora, cara.

Então pensa aí: é só isso? É só o xale ou tem mais alguma

 

coisa?

Você trouxe o sapato? Então não tem mais nada não, Phil. É

 

só isso. Phil subiu de volta à casa: não fechara a porta ao sair, justamen- te porque nunca se sabe. Kitty ficou ali, dentro do carro, questão de minutos. Depois, sabe-se lá o que deu nela, saiu do carro e foi cami-

nhando descalça pela rua. As asperezas do asfalto picavam-lhe os pés, mas ela não se importou com isso. O ar da madrugada estava frio, fazendo crispar-lhe a pele dos braços e do peito nu, mas ela também não se importou com isso. Lá na linha do horizonte o sol fazia que ia nascer mas não nascia: fazia cu doce. Kitty lembrou do sol que vira nascer numa praia, alguns dias atrás: não lembrava direito quando fora, nem onde. Quanta coisa acontecera desde en- tão. Quanta gente morrera: como diz na música do Audioslave, ela estava perdida nas páginas de um livro cheio de morte. Lá foi Kitty caminhando pelo asfalto, e sua mente era uma ca- verna cheia de rock — cheia de guitarras, baixos, baterias e vozes furiosas bombando lá dentro. Era um som abençoado: que seria de mim sem o rock e os roqueiros: eu estaria doida ou morta ou, pior ainda, careta. Mas aí sentiu que não era aquela sonzeira que ela queria ouvir naquele momento, mas outra coisa. Preciso de outra coisa, mas não sei o quê. Então, de repente, alguém desligou o rádio em que, lá dentro de sua cabeça, tocava todo aquele rock. Alguém? Alguém ou Deus? Porque, já disseram os Queens, Deus está no rádio e controla a estação. E aí, desligado o rádio, baixou ali uma outra coisa, um som que era na verdade uma ausência de som. Que que é isso, que som é esse que Kitty nunca ouviu antes? Que som é esse que

 

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  é o avesso do som — um som que não tem som? Ou melhor,
  é o avesso do som — um som que não tem som? Ou melhor,
 

é

o avesso do som — um som que não tem som? Ou melhor, tem,

mas são pequenos sons, miúdos, diminutos, milimétricos: o som de insetos solitários, o som do vento gemendo em ramo de casuarina,

o

som da grama crescendo, o som de Kitty respirando, o longínquo

som do mar batendo na praia, de estrelas brilhando no espaço e da lua correndo no céu. Que som é esse que é um som sem som? Phil encontrou-a já descendo a ladeira. Ela não quis entrar no car- ro. Phil desceu atrás dela, controlando o carro no freio de mão. Kitty atravessou a pista e, abrindo o portãozinho roído de maresia, entrou no parque de diversões. Phil deixou o carro no acostamento, saltou e seguiu-a. Kitty escolheu o mais bonito dos carcomidos cavalinhos do carrossel e, num impulso, pôs-se sentada, de lado, à sela. Phil, chegan-

do, viu que ela sorria um sorriso de menina. Até parece uma criança,

pensou ele. Automaticamente apalpou o bolso da jaqueta pra sentir a presença do estojo do filme. Kitty se deixassem ficaria montada ali até o sol nascer. Com o belo peito desnudo, parecia uma espécie de versão hipermoderna de uma lady Godiva de cabelim curto.

 

Vamos embora, fofa, — Phil disse.

 

Kitty deixou-se deslizar até o chão e estendeu a mão a Phil. Que seria dessa boneca se não fosse o tio Phil? — pensou Phil.

 
 

* * *

 

Olha que está quase terminada a fábula. O sol já nascera quan- do Phil chegou a Vila Velha. O dia veio com a intenção de ser um

 

belo dia. Como na música do U2, dava pra ver o mundo todo de azul e verde; dava pra ver a China bem ali à frente; dava pra ver o pássaro com a folha no bico e todas as cores de volta depois do dilúvio. Pararam num semáforo. Um jornaleiro oferecia ali os jornais de sábado.

Compra o jornal, Phil, — Kitty disse. — Quero ver se saiu foto minha.

 

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  Phil comprou — cético — o jornal: olha que merda: o sucesso subiu à
  Phil comprou — cético — o jornal: olha que merda: o sucesso subiu à
 

Phil comprou — cético — o jornal: olha que merda: o sucesso subiu à cabeça da menina. Na primeira página, mais uma vez, pra surpresa do queixo dele, lá estava a foto de Kitty: vestida no mesmo

vestido que vestia ali a seu lado. O peito desnudo era um desafio de rainha de amazonas. Kitty tomou o jornal das mãos dele tontas.

 

— Tô bonita, Phil? Que que você acha?

 

— Tá muito linda, Kitty.

 

Ela contemplou-se na foto alguns minutos, depois perguntou:

 

— Você me acha especial, Phil?

 

— Bota especial nisso, linda, — Phil disse, e automaticamente

 
 

apertou o pau com a mão esquerda. Lá mais adiante o tráfego se tornou mais lento: há uma feira por

ali todo santo sábado.

 
 

— Phil, — Kitty disse.

— Sim? — Phil disse.

— A semana passou tão depressa, — Kitty disse.

 

— É verdade, — Phil disse.

 

— Acabou-se a moleza, — Kitty disse. — Segunda começa o

 
 

sufoco de novo.

 
 

É verdade, — Phil disse. — Mas vale a pena: o futuro te espera.

 
 

É verdade, — Kitty disse, com sua bela voz grave. — O futuro me espera.

 

*

*

*

 

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REINALDO SANTOS NEVES

Nascido em Vitória, Espírito Santo, em 3 de dezembro de 1946. Graduado em Letras (Português e Inglês) pela Universidade Fede- ral do Espírito Santo, 1968. Servidor técnico, desde 1970, da Ufes, onde dirigiu a Divisão de Editoria da Fundação Ceciliano Abel de Almeida (1978-89) e a Coordenação de Literatura da Secretaria de Produção e Difusão Cultural (1992-95) e dirige, desde 1996, o Nú- cleo de Estudos e Pesquisas da Literatura do Espírito Santo, vincu- lado ao Programa de Pós-graduação em Letras da Ufes. Publicou os romances Reino dos medas, Rio, 1971; A crônica de

Malemort, Rio, 1978; As mãos no fogo: o romance graciano, Vitó-

ria, 1984; Sueli: romance confesso, Vitória, 1989; o livro de contos

Má notícia para o pai da criança, encarte do jornal A Gazeta, Vitó-

ria, 1995; Muito soneto por nada, poesia, Vitória, 1998; A confis-

são, novela, Vitória, 1999; Dois graus a leste, três graus a oeste,

trinta narrativas tendo como tema central o jazz, em fascículos mensais na Internet, Vitória, 1997-99; Dois graus a leste, três graus a oeste, segunda parte, em curso de publicação no site Estação

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  Capixaba, Vitória; Crinquinim e o convento da Penha , literatura para crianças, Vitória, 2001.
  Capixaba, Vitória; Crinquinim e o convento da Penha , literatura para crianças, Vitória, 2001.
 

Capixaba, Vitória; Crinquinim e o convento da Penha, literatura para crianças, Vitória, 2001. Organizou as antologias Daqui mes-

mo: 34 poetas, Vitória: encarte de A Gazeta, 1995; Porto final: An- tologia poética, de Renato Pacheco, Rio, 1998; Reino conquistado:

Estudos em homenagem a Renato Pacheco, em parceria com

Fernando Achiamé, Vitória, 2003; Instantâneo: poesia e prosa, em parceria com Erly Vieira Jr., Vitória, 2005; e Bravos companheiros

e fantasmas: O autor capixaba em análise, Vitória, 2006.

Recebeu menção honrosa no Prêmio Nacional de Ficção do Ins- tituto Nacional do Livro, categoria obra publicada, com o roman- ce Reino dos medas, 1973, e o Prêmio Almeida Cousin por conjunto de obra conferido pelo Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, 1996. Tanto o romance Sueli: romance confesso como o livro de poemas Muito soneto por nada foram adotados como textos de leitura em vestibulares da Universidade Federal do Espírito Santo. Tem prontos para publicar os romances A longa história e A

folha de hera: romance bilíngüe, além do livro de contos Chovia em quase todas as páginas.

 

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  © 2006 Reinaldo Santos Neves Todos os direitos reservados. A reprodução de qualquer parte
  © 2006 Reinaldo Santos Neves Todos os direitos reservados. A reprodução de qualquer parte
 

© 2006 Reinaldo Santos Neves

Todos os direitos reservados. A reprodução de qualquer parte desta obra, por qualquer meio, sem autorização do autor, constitui violação da LDA 9610/98.

EDITORES

Miguel Marvilla

Christoph Schneebeli

PROJETO GRÁFICO, CAPA E EDITORAÇÃO ELETRÔNICA

Miguel Marvilla / Hans

IMPRESSÃO E ACABAMENTO

Cromosete Gráfica e Editora Ltda.

Neves, Reinaldo Santos.

Kitty aos 22: Divertimento. Vitória: Flor&cultura; Cultural-ES, 2005. 240 p.; 21 cm. (Coleção Asas de Cera)

ISBN 85-88909-48-0

HELVÉTICA PRODUÇÕES GRÁFICAS E EDITORA LTDA.

Rua Antônio Aleixo, 645, Consolação 29050-150 Vitória, ES (27) 3322-4777 || 9979-1987 florecultura@gmail.com

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Caixa postal 517 29000-000 Vitória, ES estacaocapixaba@terra.com.br

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