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Gestão Eficiente da Merenda Escolar

Histórias gostosas de ler e boas de copiar

VOLUME II

Gestão Eficiente da Merenda Escolar Histórias gostosas de ler e boas de copiar VOLUME II

Gestão Eficiente da Merenda Escolar — Histórias gostosas de ler e boas de copiar – Volume II

é uma publicação distribuída gratuitamente pelos seus realizadores.

Realização Ação Fome Zero Rua Matias Aires, 402, 1.º andar, Consolação CEP 01309-020 – São Paulo – SP www.acaofomezero.org.br www.premiomerenda.org.br

Autoria:

Vinicius Souza e Maria Eugênia Sá escreveram as histórias das prefeituras premiadas em 2005 Rogerio Furtado escreveu as histórias das prefeituras premiadas em 2006 Fatima Menezes e Waldemar Zaidler colaboram com outros textos

Revisão Técnica

Fatima Menezes

Waldemar Zaidler

Revisão

Kátia Gouveia

Ilustrações Mapas IDHM – Atlas do Desenvolvimento Humano – PNDU/ ONU – Brasil (2000)

Fotografias Maria Eugênia Sá (págs. 9-17, 39, 41-51, 53-63, 65-74, 85, 87-93, 105, 107-115, 117-125, 127-134, 147, 149-159, 161-169) Rogério Furtado (págs. 21-29, 31-38, 75, 77-83, 95, 97-102, 139-143) João Fiorim (pág. 59 – foto de fundo, 160) As demais fotos foram gentilmente cedidas pelas cidades Foto da capa: Angelo Lorenzetti

Projeto e produção gráfica:

Planeta Terra Design (Waldemar Zaidler, William Haruo)

Impressão Margraf Editora e Indústria Gráfica

Agradecimentos

A todos os envolvidos nas histórias que dispuseram tempo e esforços para fornecer dados,

dar depoimentos, abrir arquivos de forma a possibilitar a realização deste trabalho.

Tiragem: 5 mil exemplares São Paulo, outubro de 2007

É permitida a reprodução parcial desde que citada a fonte.

Experiências bem-sucedidas das prefeituras vencedoras das 2.ª e 3.ª edições do Prêmio Gestor Eficiente da
Experiências bem-sucedidas das prefeituras vencedoras das 2.ª e 3.ª edições do Prêmio Gestor Eficiente da

Experiências bem-sucedidas das prefeituras vencedoras das 2.ª e 3.ª edições do Prêmio Gestor Eficiente da Merenda Escolar

das prefeituras vencedoras das 2.ª e 3.ª edições do Prêmio Gestor Eficiente da Merenda Escolar OUTUBRO

OUTUBRO 2007

INTRODUÇÃO

OUTRO DIA, em uma conversa entre amigos em que eu contava sobre meu trabalho, percebi que

nenhum dos presentes sabia da existência do programa de merenda escolar das escolas públicas

A conversa, entremeada de casos que

conheci e de explicações sobre como funciona tal programa, acabou por despertar em todos eles uma enorme curiosidade e até uma

certa perplexidade, demonstrada na reflexão final: numa época em que julgamos ter acesso a todo tipo de informação, quanta coisa boa

e interessante acontece silenciosamente em nosso país

boa e interessante acontece silenciosamente em nosso país ESSA EXPERIÊNCIA PESSOAL me chamou a atenção para

ESSA EXPERIÊNCIA PESSOAL me chamou a atenção para a oportu-

nidade do livro Histórias gostosas de ler e boas de copiar, que foi idealizado para divulgar as boas práticas de administração do progra-

ma de merenda escolar reveladas por meio da metodologia do prêmio Gestor Eficiente da Merenda Escolar. Concluí que há um novo

público que merece conhecer este livro: aquele que não freqüentou o sistema público de ensino e que não tem a chance de saber, por

sua própria experiência, da importância estratégica, da complexidade de execução e da amplitude do programa.

da complexidade de execução e da amplitude do programa. NO SEGUNDO volume de Histórias gostosas de

NO SEGUNDO

volume de Histórias gostosas de ler e boas de copiar você vai conhecer o percurso dos municípios premiados pela gestão do Programa

Nacional de Alimentação Escolar — PNAE em 2005 e 2006. Além de um referencial didático, este livro conta histórias de pessoas, grupos

e dirigentes que conseguiram intervir na realidade de suas cidades apenas executando de forma criativa, ética e honesta um programa

público de amplitude nacional.

ética e honesta um programa público de amplitude nacional. ESTE LIVRO REFLETE a adesão de várias

ESTE LIVRO REFLETE a adesão de várias empresas associadas ao programa que, com sua

contribuição, possibilitam o financiamento do projeto Gestão Eficiente da Merenda Escolar e comprovam que quando a iniciativa priva-

da apóia o desenvolvimento de uma boa política pública quem ganha é o país.

de uma boa política pública quem ganha é o país. VERIFIQUE QUE há um país silencioso

VERIFIQUE QUE há um país silencioso acontecendo

Muito obrigada,

QUE há um país silencioso acontecendo Muito obrigada, LEIA. COMOVA-SE. APRENDA , se for o caso.

LEIA. COMOVA-SE. APRENDA, se for o caso.

Muito obrigada, LEIA. COMOVA-SE. APRENDA , se for o caso. Fatima Menezes Em tempo: Se você,

Fatima Menezes

Em tempo: Se você, leitor, não encontrar neste volume a história de alguns municípios premiados nesses anos de 2005 e 2006, não se espante. Certamente elas ajudaram a compor o primeiro volume do livro com o mesmo nome, pois já haviam sido premiadas anteriormente. Porque é assim: uma boa prática pode ser levada adiante. Basta querer

PEDRA DO INDAIÁ

FERNANDES PINHEIRO

JUSSARA

DOIS IRMÃOS

CONCÓRDIA

ARAXÁ

PATOS

ÍNDICE

JUSSARA DOIS IRMÃOS CONCÓRDIA ARAXÁ PATOS ÍNDICE DIVERSIDADE E PARTICIPAÇÃO 9 CRIATIVIDADE: PONTO
JUSSARA DOIS IRMÃOS CONCÓRDIA ARAXÁ PATOS ÍNDICE DIVERSIDADE E PARTICIPAÇÃO 9 CRIATIVIDADE: PONTO
JUSSARA DOIS IRMÃOS CONCÓRDIA ARAXÁ PATOS ÍNDICE DIVERSIDADE E PARTICIPAÇÃO 9 CRIATIVIDADE: PONTO
JUSSARA DOIS IRMÃOS CONCÓRDIA ARAXÁ PATOS ÍNDICE DIVERSIDADE E PARTICIPAÇÃO 9 CRIATIVIDADE: PONTO
JUSSARA DOIS IRMÃOS CONCÓRDIA ARAXÁ PATOS ÍNDICE DIVERSIDADE E PARTICIPAÇÃO 9 CRIATIVIDADE: PONTO
JUSSARA DOIS IRMÃOS CONCÓRDIA ARAXÁ PATOS ÍNDICE DIVERSIDADE E PARTICIPAÇÃO 9 CRIATIVIDADE: PONTO
JUSSARA DOIS IRMÃOS CONCÓRDIA ARAXÁ PATOS ÍNDICE DIVERSIDADE E PARTICIPAÇÃO 9 CRIATIVIDADE: PONTO

DIVERSIDADE E PARTICIPAÇÃO

9

CRIATIVIDADE: PONTO FINAL NO MARASMO

19

GRANDE DISTÂNCIA, CAMINHO CURTO

29

QUEM PLANTA, COLHE

39

PARCERIAS PARA ENFRENTAR O NOVO

51

VONTADE, INVESTIMENTO E RESULTADOS

63

ESTRATÉGIA PARA REVERSÃO

75

APUCARANA

CASTANHAL

CRICIÚMA

BLUMENAU

FLORIANÓPOLIS

JOINVILLE

GOIÂNIA

PORTO ALEGRE

BLUMENAU FLORIANÓPOLIS JOINVILLE GOIÂNIA PORTO ALEGRE EM TEMPO INTEGRAL 85 VAIVÉM NA COZINHA 95 SEM
BLUMENAU FLORIANÓPOLIS JOINVILLE GOIÂNIA PORTO ALEGRE EM TEMPO INTEGRAL 85 VAIVÉM NA COZINHA 95 SEM
BLUMENAU FLORIANÓPOLIS JOINVILLE GOIÂNIA PORTO ALEGRE EM TEMPO INTEGRAL 85 VAIVÉM NA COZINHA 95 SEM
BLUMENAU FLORIANÓPOLIS JOINVILLE GOIÂNIA PORTO ALEGRE EM TEMPO INTEGRAL 85 VAIVÉM NA COZINHA 95 SEM
BLUMENAU FLORIANÓPOLIS JOINVILLE GOIÂNIA PORTO ALEGRE EM TEMPO INTEGRAL 85 VAIVÉM NA COZINHA 95 SEM
BLUMENAU FLORIANÓPOLIS JOINVILLE GOIÂNIA PORTO ALEGRE EM TEMPO INTEGRAL 85 VAIVÉM NA COZINHA 95 SEM
BLUMENAU FLORIANÓPOLIS JOINVILLE GOIÂNIA PORTO ALEGRE EM TEMPO INTEGRAL 85 VAIVÉM NA COZINHA 95 SEM
BLUMENAU FLORIANÓPOLIS JOINVILLE GOIÂNIA PORTO ALEGRE EM TEMPO INTEGRAL 85 VAIVÉM NA COZINHA 95 SEM

EM TEMPO INTEGRAL

85

VAIVÉM NA COZINHA

95

SEM MÁGICA

105

FORA DO ESQUADRO

115

CONTROLE SOCIAL

125

MERENDA FORTE

137

A MERENDA FAZ PARTE DO SUCESSO

147

DEDICAÇÃO PROFISSIONAL E HUMANA

159

PEDRA DO INDAIÁ (MG)

DIVERSIDADE E PARTICIPAÇÃO

Os conselhos de alimentação escolar podem causar inclusão social. De que jeito? Pedra do Indaiá é um bom exemplo disso.

Pedra do Indaiá (MG) População 3.814 Área da unidade territorial (km²) 349 Fonte: IBGE, Resultados

Pedra do Indaiá (MG)

População

3.814

Área da unidade territorial (km²)

349

Fonte: IBGE, Resultados da Amostra do Censo Demográfico 2000 — Malha municipal digital do Brasil: situação em 2001. Rio de Janeiro: IBGE, 2004

do Brasil: situação em 2001. Rio de Janeiro: IBGE, 2004 Índice de Desenvolvimento Humano Municipal, 2000

Índice de Desenvolvimento Humano Municipal, 2000

Municípios do estado de Minas Gerais

0,568 a 0,667 (171)Humano Municipal, 2000 Municípios do estado de Minas Gerais 0,668 a 0,707 (171) 0,708 a 0,743

0,668 a 0,707 (171)Municípios do estado de Minas Gerais 0,568 a 0,667 (171) 0,708 a 0,743 (175) 0,744 a

0,708 a 0,743 (175)de Minas Gerais 0,568 a 0,667 (171) 0,668 a 0,707 (171) 0,744 a 0,770 (173) 0,771

0,744 a 0,770 (173)0,568 a 0,667 (171) 0,668 a 0,707 (171) 0,708 a 0,743 (175) 0,771 a 0,841 (163)

0,771 a 0,841 (163)0,668 a 0,707 (171) 0,708 a 0,743 (175) 0,744 a 0,770 (173) Maior IDHM do Estado

Maior IDHM do Estado

0,841

Menor IDHM do Estado

0,568

IDHM de Pedra do Inadiá

0,755

Fonte: Atlas do desenvolvimento Humano no Brasil, 2000 – PNUD/ONU.

do desenvolvimento Humano no Brasil, 2000 – PNUD/ONU. Experiência premiada na categoria Região Sudeste – 2005

Experiência premiada na categoria Região Sudeste – 2005

A participação de representantes da terceira idade como conselheiros deu novo significado ao Conselhos de Alimentação Escolar. Outro fator de destaque é a diversificação de cardápios para atender às necessidades individuais dos alunos. É um município pequeno mas tem escolas rurais que são atendidas por um bom trabalho de distribuição dos alimentos.

Oferece merenda orgânica adquirida de pequenos produtores locais.

Número de escolas municipais (pré-escola e ensino fundamental)

6

Receita municipal

R$ 3.839.456,33

Recursos transferidos pelo FNDE

R$ 13.827,60

Complementação do município para compra de alimentos

R$ 12.465,11

Alunos atendidos

511

Refeições servidas

100.200

Fonte: Prêmio Gestor Eficiente da Merenda Escolar, 2ª edição (2005) — dados referentes a 2004.

DIVERSIDADE

E

PARTICIPAÇÃO

DIVERSIDADE E PARTICIPAÇÃO UM CARDÁPIO PARA CADA TURMA Imagine preparar uma refeição diferente, variada e ade-

UM CARDÁPIO PARA CADA TURMA

Imagine preparar uma refeição diferente, variada e ade- quada para cada aluno, levando em conta suas necessidades nutricionais, peso e altura, perfil de atividades físicas e hábi- tos alimentares da família. Obviamente, isso é impossível numa rede pública com centenas de milhares de crianças. Mas numa cidade pequena, com uma equipe comprometida e profissional, dá para chegar bem perto. Em Pedra do Indaiá, município localizado no Triângulo Mineiro, existem sete cardápios diferentes para uma rede de apenas quatro escolas e uma creche. Como uma das escolas oferece aulas em três turnos, cada turma possui sua própria lista de pratos a serem servidos durante a semana e o cardápio muda periodicamente. Com menos de 5 mil habitantes, a cidade teve de buscar uma nutricionista em outro município. O Conselho de Alimentação Escolar — CAE e o Setor de Merenda Escolar, contu- do, são formados por gente genuinamente da terra, assim como alguns produtores locais que fornecem legumes, frutas e verduras para as escolas. No CAE, aliás, vale destacar a forte atuação do grupo da terceira idade da cidade. Até dez anos atrás, as refeições distribuídas aos alunos de Pedra do Indaiá não diferiam das oferecidas em outros milhares de pequenos municípios pelo País afora. O próprio prefeito da cidade, Itamar José da Costa,

O próprio prefeito da cidade, Itamar José da Costa , morou até os sete anos na

morou até os sete anos na zona rural do município e lembra bem o quão pouco apetitosos eram os pratos de mingau ou arroz industrializa- do da merenda escolar da rede pública nos anos 1980. “Não tem nem comparação com o que se serve hoje, tanto que eu mesmo raramente comia na escola”, diz. Tudo começou a mudar quando ele ainda era chefe de gabinete do prefeito ante- rior, no final dos anos 1990. Na época, a administração conseguiu aumentar o volume e melhorar um pouco a qualidade

PEDRA

DO

INDAIÁ

da merenda. Mas ainda faltava uma gestão mais profissional, já que a alimentação estava a cargo diretamente da secretária

de Educação, Maria José Benito da Silva Oliveira, que contava então apenas com uma auxiliar.

O primeiro passo na profissionalização foi a criação do Setor de Merenda Escolar e a contratação de uma coordenadora

específica para a função. A escolhida foi a professora Solange Tavares Silva Lemos,

A escolhida foi a professora Solange Tavares Silva Lemos , com 18 anos de expe- riência

com 18 anos de expe- riência em sala de aula e nenhum conhecimento prévio em administração pública. “No início deu muito medo, foram um choque a quantidade de papel e o tamanho da burocracia. O que me ajudou muito foi um livrinho editado pela FNDE chama- do É Hora da Merenda. Mas eu lia tudo o que caía nas minhas mãos e repassava as informações ao CAE para que os conselhei- ros também aprendessem mais e ganhassem poder”, recorda. Com a mudança de governo para o primeiro mandato do atual

prefeito em 2001, toda a responsabilidade pela alimentação das 531 crianças atendidas recaiu sobre suas costas. “Nós não tínha- mos uma nutricionista, nem um CAE atuante. As hortas eram fracas e não havia contato com os produtores locais. A pauta de alimentos era formada basicamente por arroz, batata, pão e molho. Verduras eram muito poucas e as frutas não faziam parte

da lista de compras. Eu queria mudar tudo aquilo, mostrar a todos que as crianças mereciam uma alimentação melhor. E aos

poucos fomos criando as mudanças”, diz Solange.

NUTRICIONISTA UMA VEZ POR SEMANA

Depois do Setor de Merenda

Escolar, a segunda grande vitória foi a contratação da nutricionista Giselle Cristina Teixeira.

contratação da nutricionista Giselle Cristina Teixeira . Moradora da vizi- nha Divinópolis, Giselle trabalha de

Moradora da vizi- nha Divinópolis, Giselle trabalha de terça a sexta em uma clínica psiquiátrica. Com as segundas-feiras livres, ela fechou um acordo com a Prefeitura de Pedra do Indaiá para prestar seus serviços primeiro quinzenalmente e agora uma vez por semana. Para ela, é incrível um município desse tamanho com uma preocupação tão grande em contratar um profissional de nutrição para melhorar a qualidade da alimentação escolar. “E ainda mais admirável é, num país varrido pela corrupção e pelo desvio de verbas de programas sociais, encontrar pessoas honestas, responsáveis com o dinheiro público e dispostas a criar instâncias de fiscalização que realmente funcionem como o CAE. Isso me deixou muito entusiasmada para trabalhar aqui”, explica Giselle. Ela considera a merenda escolar oferecida antes de 2002 não como “terrível”, apenas “monótona”, devido principalmente à

DIVERSIDADE E PARTICIPAÇÃO falta de variedade na pauta de produtos. “Mas é importante lembrar que
DIVERSIDADE
E
PARTICIPAÇÃO
falta de variedade na pauta de produtos. “Mas é importante lembrar que o alimento não é só o
valor nutricional. A merenda escolar é uma oportunidade única de a criança ter um espaço
para começar a valorizar o que ela come e por que ela come. Não adianta nada ter um pra-
to colorido e com os alimentos adequados, se não trabalhar o que a criança tem em casa.
Pode ser bonito e nutritivo, mas ela recusa. Tem que fazer esse vínculo entre o almoço
no refeitório e o jantar em casa, uma experiência próxima de sua vida comum. A escola
tem que cumprir o seu papel de oferecer educação para a vida. E não é só matemática e
português. É aprender a se relacionar, a se comportar à mesa, a pedir, a se socializar…”,
analisa. “E nesse processo, claro, temos que inserir também os pais, para ter um reforço e
uma continuidade do trabalho em casa.” É exatamente para deixar a merenda o mais pró-
A experiência
com os alimentos que a
criança traz de sua casa e da
herança cultural de sua família
não pode ser desconsiderada na
escola. Para oferecer novos sabores
é conveniente partir da experiência
que a criança conhece e introduzir
aos poucos alimentos diferentes.
Contextualizar o novo alimento em
atividades escolares ou nas hor-
tas desperta a curiosidade e
incentiva o consumo.
ximo possível da realidade e da necessidade dos alunos que Giselle monta um cardápio dife-

rente para cada turma. Assim, a escola rural da comunidade de Betânia, onde a população é mais

carente, recebe uma lista de pratos mais reforçados e em maior quantidade. Na de Mata dos Lemos, onde estudam nove

crianças, é fundamental servir um café da manhã antes das aulas e mais o almoço. Nas escolas do Lambari e do Centro de

Indaiá, comidas como sopa de macarrão simplesmente não são aceitas. E quem estuda à tarde recebe um lanche mais leve.

Outra importante atividade que vem sendo realizada com a ajuda da nutricionista é a avaliação antropométrica dos alunos

da rede pública para verificar possíveis problemas de saúde. A primeira aferição ocorreu em 2004 e vem se repetindo desde

então. Os casos verificados de baixo peso, que poderiam indicar subnutrição, foram poucos. Preocupante foi um início de

aparecimento de crianças com sobrepeso e obesidade. “Infelizmente é para isso que estamos caminhando. Por isso, a par-

tir de 2007 teremos vários grupos de trabalho em nutrição dentro das escolas, especialmente um de controle de peso, com

medições mensais, palestras, etc. Nesse grupo, as crianças poderão discutir suas dificuldades e comentar as melhoras de

cada um. E vamos contar também com a ajuda dos pais auxiliando em casa”, diz Giselle. “Afinal, se mudar o hábito ali-

mentar de um, muda o de todos. Queremos uma redução de peso, mas com uma alimentação saudável, o que corrige todos

os problemas, seja de pouco peso, sobrepeso ou outros. Sempre de uma forma que não discrimine, com muito cuidado para

não reforçar estigmas e preconceitos.”

CAE NA MELHOR IDADE

O “pulo do gato” do Setor de Merenda Esco-

lar, no entanto, foi a reformulação do CAE. Entre 2004 e 2005 o conselho passou a se reunir com maior freqüência, de uma

média de oito reuniões por ano para 15 encontros anuais. Os representantes dos professores passaram a ser eleitos nos

PEDRA DO INDAIÁ conselhos de classe, e os dos pais em reuniões nas escolas. O
PEDRA
DO
INDAIÁ
conselhos de classe, e os dos pais em reuniões nas escolas. O prefeito nomeou o representante do
Os conselhei-
ros de alimentação
escolar devem trabalhar
em parceria com a nutri-
cionista, os secretários
de governo e o prefeito.
Com um trabalho de
equipe harmonioso
quem ganha são
os alunos.
Poder Executivo e a Câmara Municipal indicou os nomes do Legislativo. Faltava a sociedade
civil. Um dos poucos grupos organizados na cidade era o Grupo da Melhor Idade Bem Viver,
com cerca de 80 membros. “Ligamos para Brasília, para perguntar se podíamos convidar o
pessoal da terceira idade para participar do CAE, e eles acharam uma grande idéia”, conta
Solange. “Assim estaríamos estimulando atividades e resgatando a auto-estima. Fizemos o
convite, explicamos o que era o CAE, como funcionava, quais eram as funções dos conse-
lheiros e eles também adoraram.” Em poucos dias foram indicados dois representantes da
sociedade civil, um efetivo e um suplente.

Funcionário da prefeitura aposentado por invalidez aos 60 anos e atualmente com 65,

Braulio Esteves Rodrigues

aos 60 anos e atualmente com 65, Braulio Esteves Rodrigues sempre achou que não veio ao

sempre achou que não veio ao mundo para “pesar na terra que nem pedra”. Para

ele, enquanto Deus permitir, a vida é sinônimo de trabalho. “Quando eu me aposentei, eu pensei comigo que tinha que

procurar alguma coisa pra fazer. Eu tomando meu remédio, tô bem. E vendo as pessoas em volta trabalhando, tudo bem,

fico melhor ainda. Eu estudei ainda um pouco no tempo da palmatória. Mas agora tenho cinco netos e uma filha na esco-

la pública e acho que devo ajudar no que puder. Por isso, quando houve o convite de trabalhar com a merenda eu achei

que tinha que mergulhar de cabeça nesse negócio. Eu não tenho hora, estou disponível dia e noite pro que precisar. Para

mim é uma honra trabalhar no CAE. É o que eu tenho mais prazer na vida. Eu ajudo nas hortas, nas escolas, o que tiver

de fazer. Participo das reuniões, visito as escolas. Antes a gente fazia só bailes, forró, coral, missas, uma ginasticazinha…

A ginástica me ajudava na coluna, mas a enxada ajuda mais.”

Com o grupo da melhor idade no CAE, as escolas não só ganharam conselheiros atuantes e totalmente disponíveis como

também suas reivindicações passaram a ter maior credibilidade e a serem atendidas com mais agilidade. Um caso típico

é o da Escola Municipal Cachoeira do Lambari, uma unidade rural com 48 alunos. Apesar de bem representada — a

diretora Delieny Rodrigues da Silva foi presidente do CAE e outra professora, Carmem Aparecida Ribeiro, também faz

parte do conselho junto com uma mãe —, a escola pedia já há algum tempo a construção de um refeitório e um fogão

novo porque o velho, a lenha, estava quebrado. Com o novo CAE, bastou um ofício enviado ao prefeito pela presiden-

DIVERSIDADE E PARTICIPAÇÃO ta do conselho, Célia das Dores Silva (representante dos professores, mas também
DIVERSIDADE
E
PARTICIPAÇÃO
ta do conselho, Célia das Dores Silva (representante dos professores, mas também membro
do Bem Viver), para que a reforma fosse agilizada. De quebra, a escola ganhou ainda uma
cozinha também reformada e mais adequada. “O pessoal da melhor idade tem um res-
peito maior da sociedade e do poder público”, atesta Solange. “Sua atuação no conse-
lho é tão importante que eles foram os que mais vibraram com a vitória de Pedra do
Indaiá no prêmio “Gestão Eficiente da Merenda Escolar”, afinal são eles os principais
atores desse processo.”
MINGAU DE
MARITACA
O trabalho
do CAE deve ser
conhecido pelos cidadãos.
Os conselheiros devem ouvir
os pais de alunos, os profes-
sores, as merendeiras,
os gestores. Também devem
organizar as propostas
e levá-las à Câmara
de Vereadores e à
prefeitura.
Já que estamos falando da escola Cachoeira

do Lambari, vale a pena conhecer o depoimento de Maria do Carmo Borges, merendeira há oito anos nessa unidade. Ela

conta que quando entrou para trabalhar na rede pública, a merenda ainda era formada por arroz, almôndegas enlatadas

e “mingau de maritaca”. “A gente chamava assim porque parecia aquela comida de dar pra passarinho. E as crianças não

gostavam. A gente jogava muita comida fora. Hoje eles comem tudo. O que mais pedem é pão com molho e arroz com

frango.” A outra merendeira da escola, Wanda Maria da Costa, também atesta a qualidade das refeições, bem aceitas

pelas crianças, e a diminuição do des-

perdício. Com bem menos tempo de

função, ela ainda não passou por

nenhum treinamento específico, mas

nem por isso deixou de receber as

orientações básicas sobre higiene pes-

soal e dos alimentos e utensílios.

“Gostaria de fazer um curso de culiná-

ria para aprender novas receitas por-

que saber nunca é demais.” Na reali-

dade, o Setor de Merenda Escolar

reúne as merendeiras a cada dois

meses para atividades de auto-estima,

orientações, palestras, comemoração

a cada dois meses para atividades de auto-estima, orientações, palestras, comemoração todos na fila para a

todos na fila para a merenda

PEDRA

DO

INDAIÁ

de aniversários, etc. Mas como a Cachoeira do Lambari fica muito longe e as reuniões são feitas em dias que não há aulas, fica difícil para Wanda participar. Desde a entrada da nutricionista, em 2002, o Setor de Merenda Escolar passou a pegar no pé das merendeiras estipulando

regras rígidas de limpeza, higiene e comportamento em serviço. “Às vezes a gente se torna até chata por fazer exigências como touca, unhas cortadas, uniforme”, diz Solange. “O maior problema foi quando proibimos a entrada de outras pes- soas na cozinha durante a manipulação dos alimentos”, complementa Giselle. “Quando falamos que os professores tinham de entrar na fila junto com os alunos, fazer o prato e sentar à mesa com eles, sem uma comida diferente, sem o cafezinho, eles queriam nos matar, mas são educadores e têm que dar o exemplo.” Para quem aceitou as novas regras, contudo, também houve um bom retorno em valorização das merendeiras. “Elas são as estrelas da alimentação escolar, por isso quando pediram uma camiseta com o logotipo do Setor de Merenda Escolar, por exemplo, tivemos que providen- ciar sem chiar…”, brinca Solange. Segundo ela, o problema do transporte das merendeiras para os cursos e capacitações deve estar resolvido ainda em 2007 com a aquisição de um carro para o setor já prometido pelo prefeito. “O que é gasto com o Setor de Merenda Escolar é um investimento que vale a pena. Estou muito satisfeito com os resultados, não só nas crianças, mas também com os prêmios que estão dando visibilidade para um município pequeno como o nosso”, afirma o prefeito. “É muito gratificante ser exemplo para outras cidades. Mas, para isso, temos uma grande preocupação com a cobrança dos impos- tos. A arrecadação é pequena, mas o município também é pequeno e precisamos disso para investir em educação.” Uma alternativa para aumentar a arrecadação, estimular a economia do município e ainda melhorar a qualidade e variedade dos produtos oferecidos na merenda escolar é a aquisição de frutras e verduras diretamente dos produtores da região. Pedra do Indaiá tem um programa com esse objetivo desde 1997, mas só com a criação do Setor de Merenda é que se fechou o ciclo com a alimentação escolar. Até recentemente o município adquiria produtos de cinco fornecedores, mas, com as fortes chuvas ocorridas no final de 2006, três deles perderam a safra e só voltarão a entregar os alimentos pro-

vavelmente na metade de 2007.

NOTA FISCAL AVULSA

“No futuro esperamos envolver mais produtores e diversificar a

oferta. Os que vieram e começaram a fornecer viram que é interessante. Afinal, ganham em volume e têm um dinheiro garantido todo mês que é muito importante para quem está na roça”, afirma o prefeito. “Compramos por um preço menor e com melhor qualidade do que se fôssemos trazer de fora e ainda geramos renda e ICMS. Quando começamos a comprar

DIVERSIDADE E PARTICIPAÇÃO do produtor, outros fornecedores de fora do município diziam que não podia.
DIVERSIDADE
E
PARTICIPAÇÃO
do produtor, outros fornecedores de fora do município diziam que não podia. Mas nós usamos
uma nota avulsa, comprovamos que compramos com menor preço e portanto estamos tra-
balhando de forma legal. Tanto que outros municípios da região estão seguindo pelo
mesmo caminho. Pelo menos seis cidades nos procuraram diretamente para saber como
fazer. Estamos usando o bom senso. Tenho certeza de que não vamos ser questionados
judicialmente por isso. De qualquer forma, usamos o dinheiro da contrapartida do muni-
cípio, que é em geral um valor semelhante ao repassado pelo FNDE.”
A aquisição direta realizada por Pedra do Indaiá é inovadora, principalmente porque os
As hortas
escolares propiciam o
uso de alimentos naturais
e saudáveis na merenda esco-
lar, diminuem o custo de
aquisição de alimentos e possi-
bilitam um trabalho multidisci-
plinar de educação alimentar.
De quebra, as sobras podem
ser utilizadas pelos horteiros
e pela comunidade.
produtores não estão organizados em associações ou cooperativas com registro de pessoa
jurídica. Como não ultrapassa R$ 8 mil por ano, não precisa passar por concorrência públi-

ca, só por um processo licitatório mais simples. Mesmo assim, Solange ligou diversas vezes para

o FNDE perguntando sobre possíveis procedimentos e problemas até estar totalmente segura sobre o

método de compra. “Acabei ficando ‘íntima’ da pessoa que responde por Minas Gerais no FNDE”, brinca. “E com isso

descobri que o produtor precisa apresentar a escritura do terreno, o cartão do produtor rural, mais os documentos pes-

soais como identidade, CPF, etc. para conseguir a nota fiscal avulsa emitida pela Administração Fazendária do estado.

Ela vem com carimbo, nome e CPF do produtor e com isso ele pode responder à carta-convite da licitação da prefeitura.

No começo ficaram com medo, mas eu assumi a responsabilidade. O interessante foi que até o pessoal dos armazéns

que vendem pra gente aceitaram isso, porque eles compram os produtos in natura da Ceasa e não conseguem competir

em preço com o pequeno produtor local.”

Os principais fornecedores desse tipo hoje são o casal Maria Aparecida dos Santos

desse tipo hoje são o casal Maria Aparecida dos Santos e Julio Aparecido dos Santos .

e Julio

Aparecido dos Santos. Proprietários de um sítio de cinco alqueires quase dentro da área urbana de Pedra do Indaiá, eles

plantam quiabo, couve, pepino, abóbora, inhame, batata-doce, tomate cereja e milho verde para vender nas ruas da cidade.

Por isso já conheciam Solange e acreditaram nela quando ouviram a proposta de vender seus produtos para a merenda esco-

lar. “Teve uma burocraciazinha. Leva algum tempo pra receber. Mas como sou aposentado, um dinheiro a mais sempre ajuda,

e hoje a venda para a prefeitura representa um terço da minha renda total. Cerca de R$ 200 por mês”, calcula Julio. “É bom

PEDRA

DO

INDAIÁ

fornecer pra merenda, porque a verdura é pura, só usa adubo orgânico. Eu não trabalho com agrotóxico e produzo cenoura, beterraba, alface, repolho e mandioca para as escolas.” Com o tempo a parceria e a confiança mútua cresceram. Hoje a Emater entrega ao produtor bandejas e substrato para as mudas. Ele, por sua vez, já recebeu três turmas de dez alunos sorteados para uma visita ao sítio com a chance de aprender a lidar com as verduras diretamente com quem conhece o assunto a fundo. Julio, aliás, foi um dos juízes do concurso “A Melhor Horta Escolar”, que no final premiou todas as quatro escolas do muni- cípio. A idéia é estimular alunos e pais a desenvolver hortas comunitárias que serviriam tanto para complementar a merenda como para diversificar os produtos nas mesas das famílias.

FERNANDES PINHEIRO (PR)

CRIATIVIDADE:

PONTO FINAL NO MARASMO

Fernandes Pinheiro ilustra que em questão de merenda, tamanho não é documento. O pequeno município faz um trabalho grande de educação alimentar.

Fernandes Pinheiro (PR) Índice de Desenvolvimento Humano Municipal, 2000 Municípios do estado do Paraná População
Fernandes Pinheiro (PR) Índice de Desenvolvimento Humano Municipal, 2000 Municípios do estado do Paraná População

Fernandes Pinheiro (PR)

Índice de Desenvolvimento Humano Municipal, 2000

Municípios do estado do Paraná

População

6.368

Área da unidade territorial (km²)

407

Fonte: IBGE, Resultados da Amostra do Censo Demográfico 2000 — Malha municipal digital do Brasil: situação em 2001. Rio de Janeiro: IBGE, 2004

0,620 a 0,707 (85)do Brasil: situação em 2001. Rio de Janeiro: IBGE, 2004 0,708 a 0,732 (82) 0,733 a

0,708 a 0,732 (82)em 2001. Rio de Janeiro: IBGE, 2004 0,620 a 0,707 (85) 0,733 a 0,751 (79) 0,752

0,733 a 0,751 (79)de Janeiro: IBGE, 2004 0,620 a 0,707 (85) 0,708 a 0,732 (82) 0,752 a 0,774 (81)

0,752 a 0,774 (81)0,620 a 0,707 (85) 0,708 a 0,732 (82) 0,733 a 0,751 (79) 0,775 a 0,856 (72)

0,775 a 0,856 (72)0,708 a 0,732 (82) 0,733 a 0,751 (79) 0,752 a 0,774 (81) Maior IDHM do Estado

Maior IDHM do Estado

0,620

Menor IDHM do Estado

0,856

IDHM de Apucarana

0,711

Fonte: Atlas do desenvolvimento Humano no Brasil, 2000 – PNUD/ONU.

do desenvolvimento Humano no Brasil, 2000 – PNUD/ONU. Experiência premiada na categoria Desenvolvimento Local

Experiência premiada na categoria Desenvolvimento Local – 2006

Entre as receitas regionais incluídas no cardápio está o virado feito com feijão, farinha de milho e temperos. Para a compra da merenda, o município utilizou o Programa de Aquisição de Alimentos do Governo Federal, que beneficiou oito produtores rurais da região. A prefeitura auxilia os agricultores familiares. As merendeiras participaram de cursos que abordam ética profissional, noções sobre nutrição e alimentação, reaproveitamento de alimentos, armazenamento e higiene.

Os alunos também receberam educação nutricional por meio de peças de teatro.

Número de escolas municipais (pré-escola e ensino fundamental)

7

Receita municipal

R$ 7.907.965,13

Recursos transferidos pelo FNDE

R$ 31.361,40

Complementação do município para compra de alimentos

R$ 19.614,25

Alunos atendidos

1.043

Refeições servidas

188.600

Fonte: Prêmio Gestor Eficiente da Merenda Escolar, 3ª edição (2006) — dados referentes a 2005.

CRIATIVIDADE:

PONTO

FINAL

NO

MARASMO

CRIATIVIDADE: PONTO FINAL NO MARASMO METAMORFOSE ESSENCIAL Em certo dia de maio de 2007, por volta

METAMORFOSE

ESSENCIAL

Em certo dia de maio de 2007, por volta de 10h, Eleandro da Rocha, de sete anos de idade, comemorava sua cota diária de satisfação. Como desconhece luxos, tudo se resumiu a andar de ônibus e depois saborear a merenda na escola rural que freqüenta, no município paranaense de Fernandes Pinheiro. Para a foto- grafia na sala de aula, o menino indicou com três dedos quantas vezes havia se servido na refeição matinal. Na outra mão segurava uma folha de papel, com o desenho de um boneco que enfeitara. Um retrato de suas viagens exploratórias ao território das cores e formas. Embora titubeantes, é de esperar que essas incursões também lhe sejam prazerosas. Isso impor- ta: do mundo, Eleandro com certeza já acumulou o quinhão suficiente de impressões amargas. Até 2006, caminhava sozinho cerca de 40 minutos para tomar o ônibus escolar. Outras contrariedades ainda presentes no seu cotidiano não devem ser comentadas. Até certo ponto são perceptíveis em sua fisionomia e nas roupas. Agora Eleandro mora com avós, a cinco quilômetros da escola, e a condução passa quase na porta. A situação melhorou um pouco, mas para trás ficaram a mãe e cinco irmãos — um é recém-nascido —, mergulhados na realidade sombria das famílias carentes. Ao comer à vontade na escola, pelo menos Eleandro afasta o espectro da fome. E talvez possa sonhar com coisas próprias de sua idade. Quanto à alimentação, é possível que crianças que o antecederam nas escolas de Fernandes Pinheiro tenham sofrido priva- ções mais agudas. No município, a merenda escolar foi mesquinha durante anos. Dos tempos em que a cidade era distrito de Teixeira Soares, até bem depois da emancipação, ocorrida em 1998. Eliane Marcele Mendes,

da emancipação, ocorrida em 1998. Eliane Marcele Mendes , funcionária da prefeitura, conta que suportou a

funcionária da prefeitura, conta que suportou a mesmice de uma dieta exclusiva de sopas industrializadas no período escolar. Mas nem

FERNANDES

PINHEIRO

mesmo aqueles caldos pouco consistentes marcavam presença todos os dias. Diante disso, os alunos também não eram lá

tão assíduos

Educação, com 20 anos de magistério.

Marlei

Outras pessoas confirmam essas informações. Uma delas é Marlei Viegandt de Meira, atual secretária de

Uma delas é Marlei Viegandt de Meira, atual secretária de acrescenta que eram comuns as promoções

acrescenta que eram comuns as promoções nas escolas para garantir a merenda. Como a população não é rica, esse recurso só podia ser utilizado com alguma parcimônia. A rotina era quebrada quando as crianças traziam legumes e verduras de casa, para engrossar as sopas. Agora Eliane Mendes ajuda a preparar a merenda na escola onde estu- dou — a Floresval Ferreira — para 400 alunos, a maior do município. Ela atesta que a alimentação escolar passou por metamorfose essencial, como resultado de uma política responsável inaugurada em janeiro de 2005. O professor Francisco Carlos Zittel, veterano que dirige essa unidade de ensino, assina embaixo.

Ele diz que os elogios à qualidade da merenda são recorrentes, partindo de pais e alunos. “Desde que a alimentação escolar deixou de ser errática, as crianças passaram a se alimentar com prazer. Muitas delas precisam comer na escola, enchendo

o prato várias vezes. A merenda é farta o bastante para isso. A primeira coisa que muitos alunos fazem ao chegar é consul-

tar o cardápio, afixado em um mural.”

A professora Noeli Filus de Meira orgulha-se de ter comandado o processo até março de 2007, como secretária de Educação

no período. Noeli, que hoje leciona na Escola Costa e Silva, onde está matriculado o pequeno Eleandro da Rocha, abando- nou os estudos aos 15 anos de idade. Morava longe e não havia como se deslocar até a escola. Casada, com dois filhos pequenos, voltou a estudar. Cursou magistério e pedagogia. Quando recebeu o convite para assumir a Secretaria de Educação, não tinha experiência administrativa. No entanto, conhecia bem as falhas da estrutura sob o seu comando. Soube montar uma equipe competente e deu conta do recado. Para começar, eliminou as deficiências do transporte escolar. A prefeitura comprou dois ônibus e criou onze linhas para servir os estudantes. Assim conseguiu conter a evasão dos alunos, principalmente as faltas nos dias chuvosos. Durante a gestão de Noeli, o município capacitou professores e merendeiras. Hoje ela se dedica a uma turma de Educação Infantil. Experimenta a merenda com as crianças e as incentiva a comer: “Vejam como está gostosa!”. Para muitos alunos da rede pública esse tipo de incentivo é desnecessário: algo em torno de 15% da população escolar recebe aulas de reforço, com direito a refeições suplementares. A maioria desses estudantes costuma manter olhos e ouvidos atentos nas salas de aula. Os professores sabem que tal fome de saber também está relacionada com a cozinha. É de lá que o olfato

CRIATIVIDADE:

PONTO

FINAL

NO

MARASMO

da meninada costuma captar notícias estimulantes. A qualidade dessas mensagens se deve ao trabalho da nutricionista Mauricila de Campos França. “A presença dela é uma benção”, diz Noeli. HORA DE

REFORMAR

Mauricila se formou

em Curitiba, em 2001. Depois veio para a Santa Casa do município vizinho de Irati, onde trabalhou por quase quatro anos. Além de cuidar da nutrição clínica, administrava a cozinha do hospital. Mas sempre esteve interessada em atuar em esco- las. “Minha intenção era trabalhar com crianças que, em princípio, formam uma comunidade sadia. Assim eu teria a pos-

sibilidade de contribuir para a formação de cidadãos com hábitos alimentares adequados desde a infância.” A nutricionis-

ta chegou em março de 2005 para organizar e coordenar a merenda.

Por vários anos, o sistema de alimentação escolar fora coordenado por um professor ou por um funcionário da Secretaria de Educação. O cargo não exigia muito do responsável. Por ser bastante singela, restrita às sopas industrializadas, a meren- da também não dava muito trabalho às cozinheiras. Para sacudir o marasmo, Mauricila

trabalho às cozinheiras. Para sacudir o marasmo, Mauricila foi conhecer todas as escolas, e logo providenciou

foi conhecer todas as escolas, e logo providenciou um primeiro encontro com as merendeiras. O objetivo era ensinar alguns conceitos básicos, sem os quais seria impossível estruturar o serviço. Não foi difícil. O município tem apenas cinco escolas, onde trabalham 25 pessoas contratadas para as tarefas de apoio. Todas elas passavam pelas cozinhas, em sistema de rodízio. O arranjo funcionava, mas não com a suavidade desejada. Algumas das funcionárias não morrem de amores por panelas e fogões, algo que transparece na comida que preparam. A saída foi escolher as que têm veia culinária e deixá-las ocupar o posto de forma permanente. Maria Poposky é uma dessas cozinhei- ras fixas. Trabalhou 12 anos na creche municipal. Depois de passar pela Secretaria de Saúde, agora está definitivamente na Escola Floresval Ferreira, onde tem Jussara Aparecida Lerner

Floresval Ferreira, onde tem Jussara Aparecida Lerner e Eliane Mendes como ajudantes eventuais. O rodízio vai

e Eliane Mendes como ajudantes eventuais.

O

rodízio vai continuar para as auxiliares, que poderão substituir as merendeiras titulares em caso de necessidade. Assim,

as

cozinhas jamais ficarão desguarnecidas e as substitutas no mínimo terão uma boa idéia de como preparar os alimentos,

FERNANDES

PINHEIRO

na quantidade certa. Instruções para trabalhar de forma correta estão disponíveis no Manual do Manipulador de Alimentos, que tem duas versões. Uma para a creche e outra para as escolas. Os conteúdos são semelhantes, diferindo apenas na parte que trata do preparo de mamadeiras e alimentos para os bebês. Os treinamentos têm sido contínuos. O último aconteceu no começo de 2007, quando Maria Poposky

último aconteceu no começo de 2007, quando Maria Poposky e suas colegas fizeram o curso do

e suas colegas fizeram o curso do Cozinha Brasil, programa

patrocinado pelo Serviço Social da Indústria — Sesi. Mauricila tem reunido o pessoal duas vezes por ano, durante as férias de janeiro e julho. Os encontros de julho se destinam a resolver assuntos pendentes e à reapresentação de conhecimentos e práticas que as merendeiras ainda não conseguiram absorver a contento. São oportunidades para o repasse de muitos conceitos, com ênfase nas questões de higiene. Quando começou, Mauricila temia sofrer restrições na montagem dos cardápios em vista do custo de alguns itens. O temor era infundado: “Para minha surpresa, minha atenção nunca foi chamada por causa disso. Os gestores municipais me apoia- ram. Eles também querem qualidade”, diz a nutricionista. As experiências com o cardápio também são contínuas. Em maio, os alunos da rede pública experimentaram granola. Para muitos esse foi o primeiro contato com essa rica mistura de cereais, frutas secas e outros ingredientes. Contudo, Mauricila observa que todas as medidas possíveis são tomadas para evitar desperdícios. O reaproveitamento de alimentos é uma constante, e um capítulo importante dos treinamentos. Como medida de economia, o cardápio muda todos os meses, para permitir a compra de produtos de época, a preços mais baixos. Principalmente frutas e hortícolas. As verduras são fornecidas por agricultores locais, em quantidade suficiente para o abastecimento das escolas. As frutas, nem sempre. É o caso da banana, que o município não produz. À variação da cesta de alimentos corresponde um grande número de pratos, bem ao gosto da criançada. Comida regional: viradinho de feijão com chá de hortelã, arroz com carne moída e salada orgânica, polenta com músculo, nhoque de batata com carne moída, macarrão com frango e salada, etc. A lista dos lanches doces também revela grande número de opções: bolo de cenoura com limonada, sagu (feito na escola) com suco de maracujá, mingau de aveia com banana, arroz-doce com sementes de abóbora, canjica com amendoim e assim por diante. Sempre que possível, os alimentos são naturais, com frutas e verduras para completar a dieta. As sopas industrializadas não desertaram da merenda. Mas agora só aparecem uma vez por mês, ao lado de pudins e bebi- das lácteas. A despeito da variedade do cardápio, a logística impede que produtos perecíveis sejam consumidos nos dois primeiros dias da semana. Supermercados de Irati, cidade mais próxima, vêm ganhando as licitações para o fornecimento

CRIATIVIDADE:

PONTO

FINAL

NO

MARASMO

dos gêneros alimentícios. E eles recebem produtos frescos na segunda-feira. A Secretaria de Educação de Fernandes Pinheiro manda buscá-los no mesmo dia e, à tarde, a coordenadoria da merenda divide os suprimentos para a distribuição, realiza- da no dia seguinte. É difícil encontrar alimentos passados. A nutricionista fez marcação cerrada no início, inclusive sobre os produtores de hortaliças. A carne vem resfriada, em caixas térmicas, já dividida em pacotes para cada escola, e é congelada antes de seguir para o consumo. Além de músculo bovino, que é um corte mais barato, a merenda utiliza carne moída e frango. No princípio, a prefeitura comprava frangos inteiros. Depois mudou para coxas e sobrecoxas, ao constatar que havia algum desperdício. Embora a merenda passasse por transformação radical no decorrer de 2005, as escolas continuaram a sofrer o desconforto provocado pela falta de utensílios. Não havia panelas, talheres e pratos em quantidade suficiente. Mas a prática de dois turnos para o lanche acabou de vez em 2006, com a compra do material que faltava. Hoje as escolas podem se dar ao luxo de ter alguma sobra de utensílios básicos em estoque. As próprias cozinhas passam por reformas, que já foram concluídas na Escola Floresval Ferreira, para a satisfação de Maria Poposky. Ela, que gosta de exibir seus talentos em cozinha impecável, havia herdado uma estrutura precária: “Antes não dava para exigir limpeza”. Das cozinhas restantes, duas ganharão apenas azulejos nas paredes, pois estão em bom estado. As demais serão inteira- mente reconstruídas até 2008. EDUCAÇÃO

À MESA

Em 2006, as crianças de Fernandes Pinheiro receberam visitas do “Zé

Tomatão”. O personagem acompanhou sua criadora, a nutricionista Mauricila França, numa turnê educativa pelas escolas. Mauricila falou sobre a tradicional “pirâmide dos alimentos”, explicando a importância das funções de cada conjunto de produtos como fontes de carboidratos, vitaminas, proteínas, etc. Entre outras atividades, “Zé Tomatão” respondia pergun- tas, enquanto mostrava os alimentos dispostos sobre mesinhas. O retorno do personagem estava previsto para o final do primeiro semestre de 2007. Nesse novo ciclo de palestras e brincadeiras, a fantasia seria vestida por Regina Pereira Zanlourensi,

a fantasia seria vestida por Regina Pereira Zanlourensi , diretora do Centro de Educação Infantil Tia

diretora do Centro de Educação Infantil Tia Aurora. Regina, é claro, apresenta boas credenciais para assumir o papel, pois tem 70 crianças sob sua responsabilidade. É também presidenta do Conselho de Alimentação Escolar — CAE, cargo ocupado pela professora

FERNANDES

PINHEIRO

Islea Farias em 2005/2006. Nas gestões anteriores, o CAE só fazia figuração, pois as atas das reuniões provam que os antigos conselheiros se encontravam formalmente apenas uma ou duas vezes por ano, conta Islea. E a merenda era o que se viu. Islea,

por ano, conta Islea. E a merenda era o que se viu. Islea , que hoje

que hoje é vice-presidente do CAE, avalia a experiência dos conselheiros como muito positiva a partir de

2005. “Todos estávamos conscientes de nossas responsabilidades. Visitamos as escolas com freqüência, examinando cozi-

nhas e despensas. Também acompanhamos as licitações e verificamos se os cardápios incluíam os alimentos comprados.

E enviamos críticas e sugestões à coordenadoria da merenda.” A comunicação era imediata: para ouvir Islea e os demais

conselheiros, Mauricila compareceu a todas as reuniões do CAE. Além de coordenar a merenda e inspecionar regularmente as escolas, ela orienta alguns cidadãos que precisam de dieta especial, segundo um acordo que fez com a prefeitura. Na rede pública de ensino, o pessoal já está habituado a seguir suas recomendações. O primeiro a tomar uma iniciativa importante foi o professor Jeferson Alves Pires, que organizou uma horta com alunos da Escola Rural Costa e Silva, em

2006. Havia um terreno disponível ao lado. Jeferson preparou o solo com as crianças, depois fez vários canteiros em forma

de triângulo, retângulos e outras figuras geométricas. E ali plantou cenouras, com adubação orgânica. O experimento foi explorado ao máximo como recurso didático em aulas de diversas disciplinas, principalmente de ciências e matemática. Serviu também para comentários sobre questões ambientais.

E terminou em bolo, feito em sala de aula, acompanhado de explicações sobre a necessidade de higiene na cozinha: os

pequenos mestres-cucas usavam toucas enquanto preparavam a receita. Todos os que estavam na escola comeram ao menos um pedaço. O professor Jeferson parece ter notável aptidão para o ensino de crianças, particularmente as do meio rural. Ele também veio de lá: é filho caçula de agricultores, e o único dos irmãos a estudar. Como ele diz, a caminhada em busca dos diplomas foi um tanto penosa, mas valeu a pena. Com apenas nove anos de idade, saiu para morar com tios que não conhecia, em Irati. Tinha saudades da família, mas ficou com os parentes até completar 18 anos e conquistar o título de técnico em contabilidade. Com esse diploma, na época era possível ingressar no magistério. Formado, Jeferson

era possível ingressar no magistério. Formado, Jeferson fez concurso e ganhou o cargo de professor. Após

fez concurso e ganhou

o cargo de professor. Após a capacitação necessária, foi designado para a mesma escola em que cursou o segundo ano (antiga

CRIATIVIDADE:

PONTO

FINAL

NO

MARASMO

primeira série) do Ensino Fundamental. A sala onde estudou lhe serviu de residência por dez longos anos, até que pudesse comprar sua própria casa. Nesse período, além de dar aulas, fez graduação e pós-graduação em pedagogia. O tempo e a prá-

tica ajudaram o professor a desenvolver um talento insuspeitado até certa altura: o de escrever, com rapidez, ótimas peças infantis sobre temas abordados em aula. Jeferson também cuida do cenário e da montagem. Um sucesso. As crianças se diver-

tem aprendendo. No meio delas, naturalmente, o menino Eleandro da Rocha.

À FRENTE, SEMPRE

Uma horta escolar não

prosperou em Fernandes Pinheiro. A que era cultivada pelo pessoal da escola de Bituva dos Machados, uma comunidade rural do Distrito de Angaí, o mais distante da sede do município. Os pequenos plantios realizados na escola se tornaram supérfluos: a prefeitura agora compra os hortícolas de agricultores que utilizam métodos orgânicos, informa o diretor da

escola, Carlinhos Moreira de Jesus.

informa o diretor da escola, Carlinhos Moreira de Jesus . A iniciativa de organizar a compra

A iniciativa de organizar a compra direta desses produtos foi do ex-se- cretário de Agricultura, o técnico florestal Clóvis Medeiros. Entre os fornecedores, 25 ao todo, está o casal Ione e Sebastião Góes, com a filha Gilda, que vivem em uma chácara de 4 hectares, nas proximidades. Ali a família planta para consumo próprio e para a merenda. Os cultivos mais importantes são os de milho, feijão, mandioca, abóbora, cebola, amendoim e diversas hortaliças, inclusive temperos. A introdução de boa variedade de hortícolas na merenda tem dois efeitos óbvios: melhora a qualidade da alimentação das crianças e proporcio- na renda aos produtores familiares. O primeiro passo foi convencer uma parcela considerável dos alunos de que as verduras são fundamentais, daí os esforços na esfera da educação nutricional. Nesse ponto, Fernandes Pinheiro tem colhido bons resultados. No princípio, crianças foram flagradas jogando verduras do prato no lixo. Hoje já não desprezam esses alimentos. Às vezes são contrariadas. Bom exemplo foi o que aconteceu com os morangos, consumidos na forma de pudins, ou servidos com mingau, pratos muito bem recebidos em 2006. A coordenação da merenda resolveu eliminar essa fruta do cardápio, a pedido dos produtores de hortaliças orgânicas. Os pastéis de carne moída fritos também saíram de linha. Dessa vez para atender as cozinheiras: dão muito trabalho para fazer. A volta dos morangos e dos pastéis, contudo, não está descartada. Para isso, o cultivo da fruta terá de ser orgânico, e os pastéis, assados — nada que signifique um grande obstáculo.

FERNANDES

PINHEIRO

Também não será difícil avançar com a merenda, agora que está bem estruturada. De acordo com a Secretaria de Educação,

é possível que mais ou menos a metade das famílias do município não possa dar café da manhã para os filhos em idade

escolar. Não se trata apenas de falta de recursos. Às vezes, por causa das grandes distâncias, certo número de crianças pre- cisa sair muito cedo de casa para alcançar as escolas. Seja porque não têm apetite, ou por falta de tempo, acabam sem o desjejum. Diante disso, a Secretaria de Educação formulou um projeto para oferecer lanches antes das aulas. Nem que seja apenas um chá com biscoitos.

A idéia já foi apresentada ao prefeito, Nei Rene Schuck. Para fornecer o lanche adicional aos mais de 900 alunos do muni-

cípio, a despesa não seria grande. O pessoal da secretaria está otimista: a prefeitura tem sido generosa — além de mudar a merenda, já deu uniforme para a criançada e para as cozinheiras, que antes nem tinham toucas para trabalhar. De toda forma, alguns projetos já estão garantidos: a retomada do programa de hortas escolares para fins didáticos; a mudança da coordenadoria da merenda para novo prédio, onde haverá espaço mais adequado para a guarda de alimentos e utensílios;

e a compra de um veículo exclusivo para o serviço de alimentação escolar.

JUSSARA (GO)

GRANDE DISTÂNCIA, CAMINHO CURTO

A merenda escolar pode ser um bom pretexto para desenvolver a região. Os recursos federais podem ser aplicados na aquisição de alimentos produzidos localmente. Com isso o dinheiro circula entre os pequenos agricultores que, além de fornecerem alimentos mais frescos aos alunos, podem desenvolver sua produção. Como fazer isso?

Jussara (GO) População 20.034 Área da unidade territorial (km²) 4.092 Fonte: IBGE, Resultados da Amostra
Jussara (GO) População 20.034 Área da unidade territorial (km²) 4.092 Fonte: IBGE, Resultados da Amostra

Jussara (GO)

População

20.034

Área da unidade territorial (km²)

4.092

Fonte: IBGE, Resultados da Amostra do Censo Demográfico 2000 — Malha municipal digital do Brasil: situação em 2001. Rio de Janeiro: IBGE, 2004

Índice de Desenvolvimento Humano Municipal, 2000

Municípios do estado de Goiás

0,600 a 0,710 (48)Humano Municipal, 2000 Municípios do estado de Goiás 0,711 a 0,729 (49) 0,730 a 0,742 (49)

0,711 a 0,729 (49)2000 Municípios do estado de Goiás 0,600 a 0,710 (48) 0,730 a 0,742 (49) 0,743 a

0,730 a 0,742 (49)do estado de Goiás 0,600 a 0,710 (48) 0,711 a 0,729 (49) 0,743 a 0,761 (47)

0,743 a 0,761 (47)0,600 a 0,710 (48) 0,711 a 0,729 (49) 0,730 a 0,742 (49) 0,762 a 0,834 (49)

0,762 a 0,834 (49)0,711 a 0,729 (49) 0,730 a 0,742 (49) 0,743 a 0,761 (47) Maior IDHM do Estado

Maior IDHM do Estado

0,600

Menor IDHM do Estado

0,834

IDHM de Jussara

0,740

Fonte: Atlas do desenvolvimento Humano no Brasil, 2000 – PNUD/ONU.

do desenvolvimento Humano no Brasil, 2000 – PNUD/ONU. Experiência premiada na categoria Região Centro-Oeste –

Experiência premiada na categoria Região Centro-Oeste – 2006

O município utilizou o Programa de Aquisição de Alimentos, do Governo Federal, para comprar frutas, frango, ovos, carne bovina, mel, polvilho e queijo; o que beneficiou 67 pequenos produtores rurais. A merenda contou, ainda, com produtos adquiri- dos no Horto Municipal. A prefeitura também desenvolveu

o projeto “Polpa de Fruta”, por meio do qual as escolas receberam

doações de frutas da estação, utilizadas na preparação de sucos.

O esforço financeiro da prefeitura foi de cerca de 90% dos recursos

federais transferidos para a merenda.

Número de escolas municipais (pré-escola e ensino fundamental)

21

Receita municipal

R$ 15.391.522,25

Recursos transferidos pelo FNDE

R$ 53.386,20

Complementação do município para compra de alimentos

R$ 48.525,43

Alunos atendidos

1.706

Refeições servidas

312.200

Fonte: Prêmio Gestor Eficiente da Merenda Escolar, 3ª edição (2006) — dados referentes a 2005.

GRANDE

DISTÂNCIA,

CAMINHO

CURTO

GRANDE DISTÂNCIA, CAMINHO CURTO CREDIBILIDADE RESGATADA Ao que parece, o Brasil é o único país que

CREDIBILIDADE

RESGATADA

Ao que parece, o Brasil é o único país que tem nome de árvore. E Jussara, em Goiás, é o único município brasileiro que tem nome de miss. Em homenagem à goiana Jussara Marques de Amorim, vencedora de um concurso nacional de beleza realizado em 1949. Um retrato da moça não demorou a chegar ao então povoado de Água Limpa, que pertencia a Goiás, antiga capital do estado. A fotografia acabou entronizada na parede de um boteco. O barzinho rural ocupava ponto estratégico na confluência de algumas estradas que levavam a diversas fazendas. Ali a peonada das vizinhanças costumava se reunir todos os dias, ao final da tarde, obede- cendo a uma convocação geral: “Está na hora de ver a nossa Jussara”. Na era do rádio, eleição de miss nesta Terra de Santa Cruz tinha gosto de Copa do Mundo. Assim, não demorou a se formar uma comissão para transformar a devoção geral a Jussara Marques em algo substantivo. Requerimento à Câmara de Goiás resultou na mudança do nome de Água Limpa, em 1950. Jussara se tornaria independente em 1958. Quem conta a histó- ria é Joaquim Alves de Castro Neto,

Quem conta a histó- ria é Joaquim Alves de Castro Neto , prefeito da cidade desde

prefeito da cidade desde 2001. Porém, Castro Neto avisa que não há como provar que tudo tenha acontecido dessa forma. Não tem importância. De tão saborosa, fica valendo essa versão. Jussara se desenvolveu em grande parte graças ao afluxo de migrantes nordestinos. Cidade interiorana, mantém a tradição de contar boas histórias. Uma delas é a da merenda escolar, que deu um salto de qualidade nos últimos tempos. O marco da virada foi 2001. Antes, a situação era um tanto difícil. Principalmente porque a verba federal para a alimentação esco-

JUSSARA

lar tinha valor per capita muito baixo, como é do conhecimento geral. Com o tempo, as várias correções dessa “tabela” aumentaram a disponibilidade de recursos, junto com a contrapartida da municipalidade. Os administradores que assumiram a prefeitura no primeiro ano do milênio decidiram investir na educação de forma consistente, com o apoio da comunidade. Até a geografia do município exige tal ajuda, pois Jussara tem grande extensão territorial. Esparramadas, algumas das escolas rurais estão distantes da sede do município. Assim, fazendeiros ou seus fun- cionários, e mesmo os professores, acabam transportando os produtos para a alimentação escolar. A natureza também colabora. Na área rural pode-se complementar a merenda com peixes apanhados nos rios, e o cerrado, generoso, produz frutas em quantidade. Melhorar a merenda exigiu dedicação e persistência, conta Darlene Souza e Silva Cardoso,

e persistência, conta Darlene Souza e Silva Cardoso , secretária de Educação. Darlene veio da Bahia

secretária de Educação. Darlene veio da Bahia há duas décadas. Antes de assumir o cargo estudou pedagogia, especializando-se em ges- tão educacional, e lecionou durante vários anos em escolas estaduais. A situação em sua área era bastante complicada no início do milênio. Desacreditada, a rede municipal atendia apenas 780 alunos. As escolas pediam reformas urgentes. Nessas circunstâncias, o professorado, desmotivado, andava cabisbaixo. Segundo Darlene, alguns mestres hoje admitem que ficavam um tanto envergonhados por darem aulas na rede municipal. Em poucos anos, o quadro geral mudou. Jussara fechou 2006 com cerca de 1.900 alunos nas escolas municipais. O aumen- to de 144% em relação a 2001 superou em muito o incremento populacional registrado no período, que se deu a uma taxa média comedida. Também não havia muitas crianças fora das escolas ao iniciar-se o século 21. O número de alunos aumentou exponencialmente porque a rede pública recuperou a credibilidade, comemora a secretária. E sem dúvida sub- traiu alunos da rede estadual e até das escolas particulares, das quais há cinco na cidade. Para que isso fosse possível, houve investimentos em infra-estrutura e na qualificação dos professores. Surgiram novas escolas e as demais passaram por reformas e ampliações. Antes, os professores só tinham o magistério. Por meio de con- vênios com a Universidade do Estado de Goiás, a prefeitura patrocinou a formação de todos eles, que somam pouco mais de uma centena. Hoje a metade tem curso superior, e os demais são também pós-graduados. Nesse período, a educação por vezes absorveu mais de 25% das verbas municipais, chegando a abocanhar até 29% do total. No que diz respeito à merenda, Jussara investiu na construção ou reforma de cozinhas, que agora estão totalmente equi- padas com geladeiras, congeladores, fornos e fogões. A oferta de material básico como panelas, vasilhames diversos, mesas

GRANDE

DISTÂNCIA,

CAMINHO

CURTO

para refeitórios e outros utensílios aumentou na escala adequada. E as pouco mais de 40 merendeiras vêm passando por diversos cursos, sendo muito dedicadas — o que resulta em alto grau de aproveitamento, diz a secretária, que aproveita para elogiar as ações do Conselho de Alimentação Escolar. O CAE está muito próximo da merenda. Isso porque é presidido pela professora Irene Lúcia Marques.

porque é presidido pela professora Irene Lúcia Marques . Formada em História, Irene lecionou durante dois

Formada em História, Irene lecionou durante dois anos, mas depois foi para a Secretaria de Educação cuidar da alimentação escolar, como gerente, em meados dos anos 1990. Ali continua até hoje, tendo sido eleita presidenta do CAE como representante dos professores. Ocupou a vice-presidência na chapa anterior, liderada por Irmã Maria Elina Bustus, religiosa católica que dirigia uma creche na cidade. Irene informa que, embora não seja uma exigência legal, a gerência da merenda faz quatro prestações de contas por ano ao conselho. Os conselheiros, dois a dois, visitam regularmente as escolas e apresentam relatórios detalhados sobre o que vêem.

No total, são 12 escolas e cinco creches. Nem sempre a tarefa é fácil, pois as escolas rurais são distantes. Uma delas fica a mais

de 100 quilômetros de Jussara, nas proximidades do município de Britânia.

FARINHA DE BARU

Um passo importante

da atual administração foi chamar o nutricionista André Luiz de Castro de volta para casa. Nascido em Jussara,

André

de Castro de volta para casa. Nascido em Jussara, André deixou a cidade para estudar em

deixou a cidade para estudar em Goiânia. Depois ficou anos num restaurante industrial, em Barra do Garças (MT). Em 2002, ao receber o convite da prefeitura para trabalhar com a merenda, fez as malas sem demora. O emprego anterior era bom, mas ele queria ficar perto da família e dos amigos. O nutricionista chegou em boa hora, diz a pedagoga Selma Pinheiro, uma das gerentes da merenda. Na época ela cuidava da alimentação em uma das escolas. “O governo goiano mandava alguns cardápios prontos, o que deixava a desejar, já que o pessoal especializado em nutrição estava em Goiânia, distribuindo as mesmas sugestões para todo o estado. Fazíamos tudo meio a olho, não sabíamos calcular as quantidades per capita”, conta Selma. Em contrapartida, já havia certo padrão de organização nas cozinhas, onde as merendei- ras usavam uniformes e tinham nível razoável de conhecimentos. Foi sobre essa base que André começou a trabalhar.

JUSSARA

JUSSARA Agora que as dificuldades ficaram para trás, Jussara tem cinco creches e duas escolas que

Agora que as dificuldades ficaram para trás, Jussara tem cinco creches e duas escolas que oferecem três refeições por dia. Uma delas é a escola agrícola municipal. A outra fica no setor urbano, atendendo crianças carentes de um bairro periférico. A prefeitura construiu essa unidade para receber de 250 a 300 estudantes do Ensino Fundamental. André de Castro renova os cardápios de dois em dois meses. A sazonalidade da oferta dos produtos alimentícios define as mudanças. “Procuramos bons preços, sempre levando em conta a aceitabilidade”, diz o nutricionista. Merecem destaque as preparações que incluem produtos regionais, entre eles a farinha de baru, usada com freqüência. O baru, árvore típica da região Centro-oeste, produz frutos em abundância. Da semente, torrada e triturada, obtém-se a farinha de alto teor calórico: são 500 quilocalorias por 100 gramas. Além disso, a semente contém muitas proteínas e minerais, como o potássio e o magnésio. Como o fruto pode ser estocado por vários anos, tem-se oferta constante de uma farinha com gosto semelhante ao do amendoim, usada em bolos, canjicas, nas vitaminas de frutas e na feitura de preparações salgadas. As farofas são um bom exemplo. A merenda também consome o pequi — tradicional na culinária goiana — mel, leite e seus derivados. Para faci-

litar a vida das responsáveis pela alimentação em cada escola, a secretaria oferece dez cardápios por bimestre. A responsá- vel pela merenda escolhe cinco, de acordo com a realidade do estabelecimento.

Os sucos naturais de frutas predominam nos meses mais quentes: acerola, manga, goiaba, caju, maracujá, limão

A comu-

nidade se envolve com a merenda, fazendo doações. Afinal, os beneficiados serão seus próprios filhos. O projeto de apro- veitamento das frutas de época foi desenvolvido há tempos, para evitar desperdícios. E vem apresentando bons resultados. Nas refeições quentes há diversos pratos, como a galinhada, feita de carne de frango com arroz e legumes (ou pequi). A merenda também serve carne suína e bovina. Para as compras, realizadas no mercado local, a Secretaria de Educação faz pesquisas de preços em diversos estabeleci- mentos antes da montagem bimestral dos cardápios. A compra é feita pelas gerentes de merenda das escolas, também responsáveis pela qualidade, recepção e guarda dos alimentos. Dessa forma, elimina-se a necessidade de um depósito

GRANDE

DISTÂNCIA,

CAMINHO

CURTO

central. A rotina é diferente no caso das escolas rurais, que são abastecidas com o suficiente para dois meses. “A gente depende do apoio dos donos das fazendas, e segue um calendário que seja conveniente para eles também”, diz Selma Pinheiro.

seja conveniente para eles também”, diz Selma Pinheiro . O comprador retira um vale na prefeitura

O comprador retira um vale na prefeitura e leva os produtos. As carnes seguem resfriadas, em embalagens apropriadas. Depois ficam nos congeladores. O cardápio é diferenciado, porque a população do campo tem suas próprias opções — é o caso do peixe. Enquanto reorganizava a merenda, o município de Jussara desenvolveu um programa de avaliação nutricional dos alunos

da rede pública, por iniciativa de André de Castro. A primeira coleta de dados — peso, altura e idade — foi realizada em 2003, para descobrir alunos com necessidade de dieta especial. Esse levantamento levou à adoção de período integral e

alimentação farta para as crianças do bairro Nova Jussara.

ESCOLA NOTA 10

Jussara surgiu e cresceu por obra de

brasileiros vindos de diversos estados. Até o prefeito, Joaquim de Castro, é forasteiro. Ele teve a sorte de nascer e viver em Goiás, a antiga capital do estado, a tempo de prestar serviços de datilografia para uma velhinha extraordinária, confeiteira de doces e de poemas. Na ocasião, começo dos anos 1970, Cora Coralina ainda não havia espalhado seu encanto pelo país,

e ainda não sabia usar a máquina de escrever que comprara. Joaquim passou manuscritos a limpo durante um mês. Entrado na adolescência, com a cabeça nas nuvens, não prestava atenção no conteúdo dos escritos, que então não lhe diziam muito. Esqueceu-se até de cobrar pelo serviço. Ao menos aproveitou os doces de Cora Coralina, que ela dizia serem melho- res que seus poemas. E guardou uma boa história para contar aos netos. Joaquim também se orgulha do Prêmio Gestor Eficiente da Merenda Escolar, e diz que a prefeitura se esforça para progredir ainda mais nesse campo. A próxima iniciativa será a implantação de uma cozinha comunitária para oferecer cursos às merendeiras — inclusive as da rede estadual — e às donas-de-casa. A idéia é melhorar o padrão nutricional de toda a comu- nidade. Há projetos em curso em outras áreas. Um deles para organizar a produção local de carne. “Estamos trabalhando com as cadeias produtivas de bovinos, suínos e aves para aperfeiçoá-las. A criação de animais é um dos pontos fortes da região. Com mais oito municípios, temos o apoio do Sebrae e do governo estadual.” Nesse contexto, a escola agrícola de Jussara sempre terá um papel importante.

JUSSARA

A escola merece destaque não apenas por causa de seus vínculos com a merenda escolar, da qual é fornecedora, mas tam-

bém por se tratar do melhor exemplo de recuperação do ensino público municipal. O professor Luiz Mário Lopes Cardoso, pós-graduado em matemática e estatística, assumiu a direção em 2001. A escola atravessava uma fase difícil, com apenas 37 alunos matriculados. Como se trata de instituição muito importante para navegar sem rumo, Luiz agarrou o timão com

energia para colocá-la na rota original. Fundada em 1991, a unidade se destinava a filhos de produtores rurais. Além das disciplinas básicas do Ensino Fundamental, sempre ofereceu aulas sobre técnicas agrícolas e práticas de zootecnia, com o objetivo de formar mão-de-obra qualificada e fixá-la no campo.

A primeira tarefa do novo diretor e sua equipe foi repensar o papel da escola, para adequá-la às condições da produção

agropecuária atual, seguindo os parâmetros da educação moderna. Hoje a escola tem 160 alunos, que fizeram teste voca- cional, cursando do 6.º ao 9.º ano, em período integral. O diretor comenta: “No início aqui só ingressavam filhos de pro- dutores rurais, mas como a qualidade do ensino melhorou muito, passamos a aceitar alunos que vivem na cidade. A procura é muito grande”. Em Jussara, as preocupações com o ambiente levaram à formatação de bons projetos. A escola agrícola produz grande quantidade de mudas de diversas espécies nativas para distribuição gratuita. Entre elas seringueiras, baru, aroeira, ipê e uma acácia que dá flor o ano inteiro, excelente para a apicultura. Antes as pessoas pegavam as mudas e as plantavam de forma aleatória, ou as doavam a terceiros. Então surgiu um projeto de arborização da área urbana – algo que interessa a todos, pois a região é muito quente. Os alunos plantam sementes, cuidam das mudas e depois as levam para casas de moradores que se cadastram para participar do projeto.

O professor Luiz Mário explica que a iniciativa tem grande

valor educativo e desdobra-se em três vertentes. “Primeiro,

o ensino passa a ter melhor qualidade. Com a prática, o

aluno aprende conceitos de matemática, geografia e portu- guês, pois escreve textos de maneira prazerosa, narrando suas experiências. Depois, descobre que a questão ambien- tal é muito complexa, que não se resolve por meio de pales- tras dadas uma vez por ano. Da produção da semente ao plantio da muda, o aluno toma consciência do quanto o processo pode ser demorado, até ver a árvore crescida.” Em outra vertente há a questão da auto-estima. “Geralmente

pode ser demorado, até ver a árvore crescida.” Em outra vertente há a questão da auto-estima.

GRANDE

DISTÂNCIA,

CAMINHO

CURTO

trabalhamos com meninos de poucos recursos financeiros. Cada um se vê apenas como mais um indivíduo, e não como cida-

dão que pode ser útil à comunidade. O projeto, de grande aceitação, elevou a auto-estima de todos. Já plantamos perto de 2 mil mudas na cidade. Para participar, o morador assina um termo de compromisso, obrigando-se a cuidar da muda. Os estudantes voltam sempre para fazer avaliações. E dão uma cutucada no dono da casa se ele não estiver seguindo as recomendações.” Para consumo próprio e para oferecer produtos à merenda municipal e a instituições beneficentes, a escola agrícola cultiva boa parte de seus 51 hectares. Dali saem frutas, legumes, verduras, leite, mel, frangos, ovos e suínos. O volume produzido oscila de acordo com as estações do ano, como é natural. Na horta, os estudantes trabalham sob a supervisão

de José Flávio Lima,

trabalham sob a supervisão de José Flávio Lima , chefe de jardinagem e olericultura. José Flávio,

chefe de jardinagem e olericultura. José Flávio, um veterano que está no ramo desde 1983, recebe alunos de outras unidades da rede municipal para ensinar-lhes técnicas agrícolas, e também colabora na implantação de hortas nas escolas estaduais. Da horta, os vegetais passam para os domínios de Maria das Graças de Mesquita, gerente da merenda na escola. Maria das Graças ocupa o cargo há 13 anos, apoiada por cinco cozinheiras. Ela coordena e fiscaliza o trabalho, encarrega-se das pres- tações de contas e faz compras. Como se recorda, um dos itens da merenda é a farinha de baru, produzida por Vilmar Alves Rabelo, um jussarense que se dispôs a explorar as potencialidades da árvore. Vilmar inaugurou o negócio em 2005, tocan- do a produção com a ajuda da esposa e de seis funcionários. E tem feito experiências interessantes: a casca do baru dá carvão, e o fruto, fermentado, cachaça. Os resíduos da fer- mentação viram adubo de qualidade, podendo servir de alimento para o gado. O óleo de baru tem aplicações na indús- tria de cosméticos e, mais recentemente, surgiu a boa notícia de que a castanha é um autêntico “viagra” natural. Vilmar

a castanha é um autêntico “viagra” natural. Vilmar produz de forma artesanal bombons, doce de leite

produz de forma artesanal bombons, doce de leite e rapadura, com adição de castanha triturada. Na

forma de farinha, a merenda absorve cerca de 30% da produção total de castanhas, que anda pela casa dos 15 quilos por dia.

O município também estimula a produção agrícola familiar. Em maio de 2007, 67 produtores estavam cadastrados no

Programa de Aquisição de Alimentos, criado pelo governo federal. Há uma contrapartida de recursos da prefeitura, que se encarrega de prover assistência técnica e manter as estradas em ordem. Dentre os fornecedores estão os 22 sócios de uma

JUSSARA

cooperativa — a Coopernova —, um núcleo de produção rural instalado a 43 quilômetros da sede do município. O proje- to da Coopernova foi iniciado em 2001, com financiamento do Banco da Terra. Cada associado tem 12 hectares de terra. Um deles é Eliaquim Rodrigues dos Santos, casado com Silma Pereira de Freitas.

dos Santos , casado com Silma Pereira de Freitas . O casal construiu casa no terreno

O casal construiu casa no terreno e dedica-se, como os demais sócios, aos plantios de subsistência e à produção leiteira. Planta mandioca, mamão, batata-doce, bananas, cria aves e tem pequeno rebanho. Os excedentes vão para o mercado ou para a merenda. José Lino Guimarães (o Zé Lino) é o funcionário da prefeitura que coordena o Programa Compra Direta Local da Agricultura Familiar, com recursos do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar — Pronaf. Ele explica que uma das vantagens do programa é afastar os atravessadores e garantir preços melhores para os agricultores. Antigo peão de fazendas, Eliaquim está satisfeito com seu novo status de proprietário, ainda que tenha um financiamento a pagar durante os próximos 20 anos. Zé Lino

a pagar durante os próximos 20 anos. Zé Lino sabe valorizar os esforços dos produtores. Solidário,

sabe valorizar os esforços dos produtores. Solidário, compreende as dificuldades enfrentadas por todos no trato com a terra, principalmente por aqueles que vieram de fora, em busca de vida melhor, como Eliaquim, que nasceu em Montes Claros (GO). O próprio Zé Lino migrou do Rio Grande do Norte com a família, a bordo de um pau- de-arara. Foram dois meses de viagem. Ele se lembra de alguma coisa da jornada. Inclusive do primeiro picolé, que pretendeu poupar a todo custo. Na inocência de seus quatro anos, percebeu que seria impossível conservá-lo só depois de ter a camisa molhada pelo gotejar constante do sorvete, imposto pelo sol de Brasília. Na época, a capital do país estava em construção. E o município de Jussara prestes a aparecer no mapa do Brasil.

Na época, a capital do país estava em construção. E o município de Jussara prestes a

DOIS IRMÃOS (RS)

QUEM PLANTA, COLHE

Como regar, nutrir e podar as boas

idéias para que elas frutifiquem?

Dois Irmãos (RS) População 22.435 Área da unidade territorial (km²) 65 Fonte: IBGE, Resultados da

Dois Irmãos (RS)

População

22.435

Área da unidade territorial (km²)

65

Fonte: IBGE, Resultados da Amostra do Censo Demográfico 2000 — Malha municipal digital do Brasil: situação em 2001. Rio de Janeiro: IBGE, 2004

do Brasil: situação em 2001. Rio de Janeiro: IBGE, 2004 Índice de Desenvolvimento Humano Municipal, 2000

Índice de Desenvolvimento Humano Municipal, 2000

Municípios do estado do Rio Grande do Sul

0,666 a 0,753 (95)Municipal, 2000 Municípios do estado do Rio Grande do Sul 0,754 a 0,776 (96) 0,777 a

0,754 a 0,776 (96)do estado do Rio Grande do Sul 0,666 a 0,753 (95) 0,777 a 0,797 (92) 0,798

0,777 a 0,797 (92)do Rio Grande do Sul 0,666 a 0,753 (95) 0,754 a 0,776 (96) 0,798 a 0,816

0,798 a 0,816 (95)Sul 0,666 a 0,753 (95) 0,754 a 0,776 (96) 0,777 a 0,797 (92) 0,817 a 0,870

0,817 a 0,870 (89)0,754 a 0,776 (96) 0,777 a 0,797 (92) 0,798 a 0,816 (95) Maior IDHM do Estado

Maior IDHM do Estado

0,870

Menor IDHM do Estado

0,666

IDHM de Dois Irmãos

0,812

Fonte: Atlas do desenvolvimento Humano no Brasil, 2000 – PNUD/ONU.

do desenvolvimento Humano no Brasil, 2000 – PNUD/ONU. Experiência premiada na categoria Continuidade – 2005 A

Experiência premiada na categoria Continuidade – 2005

A categoria continuidade visa premiar prefeituras que mantiveram em seu município experiências bem-sucedidas de administrações anteriores da merenda escolar, a despeito de mudança de governo.

A prefeitura de Dois Irmãos elaborou um manual da alimentação escolar em parceria com a Emater. Com isso as boas decisões sobre a merenda escolar podem ter continuidade. Há uma preocupação com a introdução de alimentos regionais na merenda dos alunos.

Número de escolas municipais (pré-escola e ensino fundamental)

16

Receita municipal

R$ 22.984.166,75

Recursos transferidos pelo FNDE

R$ 82.386,00

Complementação do município para compra de alimentos

R$ 36.862,56

Alunos atendidos

3.247

Refeições servidas

597.000

Fonte: Prêmio Gestor Eficiente da Merenda Escolar, 2ª edição (2005) — dados referentes a 2004.

QUEM

PLANTA,

COLHE

EVOLUÇÃO

CONSTANTE

Roma não foi feita em um dia! Tudo o que vale a pena na vida precisa ser construído ao

longo do tempo, com planejamento, dedicação e competência. Isso é ainda mais verdadeiro nos serviços públicos, onde

as mudanças na administração podem prejudicar bons projetos se não houver um compromisso com a continuidade e o

bom atendimento à população. Um exemplo a ser seguido é o de Dois Irmãos, município de forte influência da imigração

alemã e considerado “portal” da serra gaúcha. Tendo recebido os primeiros trabalhadores da antiga Colônia São Leopoldo

em 1825 e com fundação oficial em 1959, a cidade conta com a mesma secretária de Educação desde 1989. Assim, os

membros da equipe de merenda escolar vivenciaram juntos todas as grandes transformações pelas quais passou o Programa

Nacional de Alimentação Escolar — PNAE nos últimos 15 anos e transformaram essa experiência em projetos inovadores,

de grande sucesso e alguns pioneiros. São iniciativas como a construção de hortas nas escolas e de um hortão para fornecer

vegetais fresquíssimos a baixos custos; a introdução de alimentos orgânicos e integrais; o apoio do sistema de Vigilância

Sanitária da cidade para o cadastramento de fornecedores da região; avaliações nutricionais e de risco de obesidade nos

alunos; e muito mais. Sem dúvida, foi um longo caminho para transformar escolas que nem sequer tinham quem prepa-

rasse a merenda em um modelo premiado. As crianças, claro, agradecem.

“Quando entrei para a secretaria, nos final dos anos 1980, não tínhamos merendeiras ou serventes e as próprias professo-

ras preparavam a comida para os alunos com os produtos enviados pelo Governo Federal”, lembra a secretária municipal

de Educação, Cultura e Desporto

a secretária municipal de Educação, Cultura e Desporto Hilária Arnold Kreuz . “As escolas também não

Hilária Arnold Kreuz. “As escolas também não possuí-

A construção de hortas nas escolas possibilita um trabalho de educação multidisciplinar.
A construção de hortas
nas escolas possibilita um
trabalho de educação
multidisciplinar.

am cozinhas, refeitórios e nem despensas apropriadas.” “Muitas vezes os alimentos vinham com o

prazo de validade quase vencido e as crianças não aceitavam bem as bebidas lácteas muito doces,

com forte gosto de soja, as sopas industrializadas e a comida enlatada, que não fazem parte de

nossa tradição alimentar”, acrescenta a coordenadora da merenda escolar Lucimar dos Santos

Engelmann. “O estado fornecia apenas os pratos de plástico e algumas panelas. Para o restante

tínhamos que contar com a contribuição voluntária da comunidade.” Os agricultores da região

doavam esporadicamente frutas e verduras de modo a tornar a merenda mais palatável, e os açou-

DOIS

IRMÃOS

gues enviavam ossos bovinos para reforçar a sopa em algumas escolas, apesar do alto risco de contaminação. É também dessa época o chamado Projeto Ovo, em que as crianças eram estimuladas a trazer de casa, um dia por semana, um ovo

para ser acrescentado à merenda. Tempos difíceis.

PROFISSIONAIS E INFRA-ESTRUTURA

Tudo começou a mudar

a partir de 1992, com a decisão da prefeitura de aumentar o investimento em infra-estrutura das escolas, com a aquisição

de fogões, geladeiras e outros equipamentos para as cozinhas. Mesmo não havendo um cargo específico para a área de alimentação, a secretaria requisitou a transferência de uma professora concursada, Guizela Steier Meier, para ajudar a criar uma coordenadoria para a alimentação escolar. O primeiro salto, no entanto, viria em 1994 com a municipalização da merenda. A nova lei já previa então a formação de um Conselho de Alimentação Escolar e a contratação de um nutricio- nista para o desenvolvimento de cardápios que respeitassem os hábitos alimentares de cada localidade e sua vocação agrí- cola, dando preferência aos produtos in natura, além da prioridade na aquisição de “produtos de cada região, visando a redução dos custos”. Os administradores, contudo, não sabiam ainda como realizar essas contratações e aquisições, já que não havia modelos, experiências anteriores e nem legislações municipais para isso. “Mas houve uma mudança de menta- lidade com foco em uma melhor nutrição das crianças, e a prefeitura passou a contribuir com 30% a mais do que os valo- res enviados pelo Governo Federal, sendo que 20% eram destinados à compra de alimentos e 10% para equipamentos de cozinha”, conta a coordenadora

e 10% para equipamentos de cozinha”, conta a coordenadora Lucimar . CHEGAM AS MERENDEIRAS A secretária

Lucimar.

CHEGAM AS MERENDEIRAS

A secretária montou então o embrião do que hoje é a

Coordenação de Merenda Escolar, ligada ao Departamento de Administração da Secretaria de Educação. Com isso foi possível contratar as primeiras merendeiras e serventes para as escolas, que adaptavam cardápios enviados por fax pela Prefeitura de São Paulo. A primeira turma de merendeiras trabalhava apenas nas 10 maiores das 33 escolas da rede com cerca de 1.200

alunos. Na época, a secretária de Dois Irmãos ainda era responsável pelas unidades educacionais dos distritos de Morro Reuter

e Santa Maria do Herval, que mais tarde se tornariam municípios independentes. Hoje são 35 serventes/merendeiras atuando

em 16 unidades educacionais (das 13 escolas de Educação Fundamental da cidade, apenas uma é particular) e atendendo a mais de 3 mil alunos, sendo que 350 estudam em período integral e recebem três refeições diárias. “A decisão sobre quem vai

QUEM

PLANTA,

COLHE

trabalhar com comida e quem vai cuidar da limpeza dos estabelecimentos é feita nas escolas, levando em conta a aptidão que cada funcionária demonstra”, esclarece Lucimar. “Somos como uma grande família, na qual o relacionamento e o diálogo estão em primeiro lugar”, atesta a secretária Hilária. “Se surge algum problema, de qualquer tipo, sentamos e conversamos para solucioná-lo.” A criação do CAE, ainda em 1994, também ajudou na organização e fiscalização das cozinhas. Desde aquele ano, o conselho se reúne mensalmente e visita as escolas periodicamente. Os primeiros produtos comprados diretamente pela prefeitura em 1994 foram os básicos: arroz, feijão e leite em pó. Aos pou- cos, conforme as escolas recebiam geladeiras, também eram entregues carne bovina moída e carne de frango. Em 1996 a secre- taria iniciou a construção de um “Núcleo de Controle de Qualidade” da alimentação escolar. Ao mesmo tempo, a merendeira Anastácia Flech, que tinha muito contato com a Pastoral da Saúde da Igreja Católica na cidade, sugeriu a introdução de pro- dutos naturais e passou para as colegas, durante os cursos de capacitação, apostilas sobre a utilização integral dos alimentos e informações sobre a farinha multimistura. “Não chegamos a introduzir a farinha porque tínhamos um pouco de medo de usar produtos muito novos que ainda não haviam sido liberados para a compra com a verba federal”, afirma Lucimar. “Mas vimos claramente a necessidade de melhorar a qualidade da alimentação e introduzimos no Projeto Preparação para o Trabalho — PPT a construção de hortas em todas as escolas. As crianças plantavam e colhiam as verduras para a merenda e podiam levar o excedente para casa.” Com o aumento no número de alunos nos anos seguintes, contudo, muitas escolas tiveram de ser ampliadas, com novas salas de aula tomando o lugar dos canteiros. Atualmente, apenas cinco unidades educacionais ainda mantêm as hortas. Mas isso não significa que as crianças deixaram de comer vegetais frescos. Aos poucos, os legumes e as verduras plantados nas escolas foram substituídos por outros vindos das propriedades rurais da região e mais tarde pelos vege- tais produzidos no hortão da prefeitura. APOIO AOS

PRODUTORES LOCAIS

“Como determina a lei, fomos

procurar os produtores da região para comprar frutas, verduras e legumes, mas eles não possuíam nota fiscal e, portanto, não podiam participar das licitações”, relembra Hilária. Outro problema era a falta de opções de compra em um município que hoje tem menos de 30 mil habitantes. “Quando fui contratada pela secretaria, em 1999, somente os dois maiores supermercados da cidade supriam as condições legais para fornecer alimentos à merenda escolar”, recorda a nutricionista Rozane Marcia Triches.

escolar”, recorda a nutricionista Rozane Marcia Triches . “Na verdade, nós nem sequer sabíamos o que

“Na verdade, nós nem sequer sabíamos o que se produzia na zona rural de Dois

DOIS IRMÃOS Irmãos, muito menos o caminho para viabilizar as compras.” Sem pressa e com
DOIS
IRMÃOS
Irmãos, muito menos o caminho para viabilizar as compras.” Sem pressa e com muito cuidado, a
Coordenação de Merenda Escolar passou a pesquisar quais produtos poderia adquirir no muni-
A certificação de
qualidade do produto
ajuda muito o pequeno
produtor. A Vigilância
Sanitária pode orientar
quanto aos padrões de
higiene exigidos.
cípio ou nas cidades vizinhas. Eles também buscaram a ajuda do Sindicato dos Produtores
Rurais, da Emater/RS — Associação Riograndense de Empreendimentos de Assistência Técnica
e Extensão Rural — Ascar e da Associação Sulina de Crédito e Assistência Rural. A idéia de
Rozane era aprofundar a relação entre os agricultores e as entidades. Com isso elas poderiam
assessorá-los e capacitá-los a participar dos processos licitatórios. Esse trabalho deu origem à
cartilha intitulada Manual sobre Alimentação Escolar, editado em 2005, que dá um panorama do

setor, mostra em detalhes os processos de compra de alimentos pelas prefeituras e pelo Programa de

Aquisição de Alimentos da Conab, e traz ainda um resumo das experiências realizadas nas cidades de

Rolante, Sapiranga, Parobé e Dois Irmãos.

Realizadas em 2000 e 2001, as pesquisas para o manual atestaram o imenso potencial de produção da agricultura familiar. Os

principais problemas desses produtores eram exatamente descobrir o mercado consumidor correto e superar a burocracia

necessária para atingi-lo. Alguns precisavam também de apoio para certificar seus produtos junto à Vigilância Sanitária. Mas

o fato de os 24 municípios da região investirem juntos cerca de R$ 16 milhões anualmente para alimentar mais de 175 mil

alunos enchia os olhos de qualquer agricultor. Com esses dados em mãos, a prefeitura de Dois Irmãos decidiu fortalecer o

Serviço de Inspeção Municipal — SIM para que pudesse atender os produtores locais interessados em vender sua produção

para a merenda escolar com a devida autorização da Vigilância Sanitária. “A parceria entre o Sindicato dos Produtores Rurais,

Emater/RS — Ascar e SIM permitiu nos anos seguintes, por exemplo, que dois produtores de leite passassem a pasteurizar seu

produto, que hoje é consumido nas escolas e creches do município”, afirma Rozane. Mais tarde, outros produtores de geléias,

biscoitos coloniais, mel, granola, açúcar mascavo e sucos naturais também viriam a receber apoio dessas entidades e selo de

certificação do SIM para fazerem parte da merenda escolar do município. Para os próximos anos, piscicultores e até criadores

de coelhos também devem ser beneficiados.

DE CALÇADISTA A AGRICULTOR E INVENTOR

Um dos produto-

res que já conta com esse apoio é o pequeno sitiante Cláudio Roberto Falkoski, que até dez anos atrás era proprietário de

uma indústria de calçados em Novo Hamburgo. Com a crise no setor calçadista no início dos anos 1990, ele decidiu fechar

a empresa e se mudar para o sítio de veraneio que possuía há mais de 30 anos. “Queríamos viver num local com mais saúde

QUEM

PLANTA,

COLHE

e melhor qualidade de vida, mas não tínhamos realmente nenhuma experiência com plantação e por isso o começo foi

muito duro”, conta. “Ficamos dois anos aprendendo a trabalhar. Já tínhamos um pomar, iniciamos uma horta e fomos

pegando gosto pela coisa.” Hoje a propriedade de 1,5 hectare produz verduras para consumo próprio e para venda, galinhas

e ovos caipiras, doces e compotas artesanais, e uvas para suco e vinho. Foi numa das andanças de Rozane com o pessoal

da Emater que ela “descobriu” a propriedade dos Falkoski. “Além de orgânico, o suco de uva produzido aqui se distingue dos demais por causa da forma artesanal de extração do sumo pelo vapor d’água em panelas especiais”, conta a nutricio- nista. “Isso permite que o suco tenha um alto grau de resveratrol, uma substância muito importante para diminuir o colesterol e evitar doenças cardiovasculares.” Por meio do apoio da Emater e da Coordenação de Merenda Escolar, Falkoski

da Emater e da Coordenação de Merenda Escolar, Falkoski conseguiu o cadastro no SIM em 2004

conseguiu o cadastro no SIM

em 2004 e passou a fornecer seus produtos para a Secretaria de Educação. Com isso, ele pôde investir no aumento e na melho- ria da produção. Para homogeneizar o produto e tornar o sítio auto-sustentável, Falkoski desenvolveu um bio-digestor ino- vador que transforma o esterco das galinhas, porcos e bovinos em um fertilizante natural para as plantações e ainda fornece

o gás metano utilizado para ferver a água nas panelas para a fabricação do suco. O processo é tão interessante que atraiu a

atenção de dezenas de outros produtores, até da China, durante o Fórum Social Mundial realizado em Porto Alegre em 2005.

Naquele mesmo ano, quase metade dos 12 mil litros de suco de uva produzidos na propriedade, além de doce de leite, geléias

e cerca de mil dúzias de ovos caipira, foram entregues para o consumo dos alunos da rede pública. “Nosso filho mais novo,

Giovani Ramon, tomava o suco na escola e tinha muito orgulho de dizer aos colegas que era o pai que fazia”, conta a esposa, Claudete Falkoski, responsável pelas conservas e doces. “E ele comentava em casa que a merenda toda estava mudando, com muitos produtos integrais, que nós não tínhamos costume de consumir. Então eu tive de ir à escola para ver o que era e

aprender a cozinhar porque ele pedia sempre.”

CRIANÇAS GORDINHAS E INSATISFEITAS

A opção preferencial não só por ali-

mentos orgânicos e naturais, mas também por arroz, farinha e outros produtos integrais surgiria também entre 2003 e 2004, depois da primeira avaliação nutricional das crianças da rede pública. “Em 2003 fizemos uma ampla pesquisa dos hábitos alimentares de todos os alunos entre oito e dez anos de idade, incluindo perguntas para os pais, para aferirmos,

DOIS

IRMÃOS

além de peso e altura, seus conhecimentos sobre a importância de uma nutrição correta, a prática ou não de atividades físicas e ainda o nível de satisfação com o próprio corpo”, conta Rozane. O diagnóstico não foi dos melhores. Apesar de não haver desnutrição, 5% dos alunos estavam abaixo do peso ideal. Bem mais preocupante, no entanto, era o número de crianças acima do peso padrão para sua idade e altura: 18,3%. Pior do que isso somente a quantidade de meninos e, prin- cipalmente, de meninas insatisfeitos com sua forma física: incríveis 70%! “Ficou claro na pesquisa o alto nível de práticas alimentares inadequadas, como não tomar café da manhã e grande consumo de salgadinhos, refrigerantes e bolachas recheadas. Além disso, boa parte dos meninos queria subir de peso para ‘ficarem mais fortes’ e quase todas as meninas gostariam de emagrecer para ‘ficarem mais bonitas’”. A pesquisa do ano seguinte, com foco maior nas atividades físicas, foi ainda mais assustadora. O índice de crianças com sobrepeso pulou para 25%. “A qualidade da alimentação servida nas escolas já vinha melhorando, mas ao mesmo tempo os alunos estavam cada vez mais sedentários, entretidos em casa principalmente com TV e videogames”, analisa. “Com o susto, decidimos reformular completamente o cardápio e trocar alguns alimentos básicos como arroz, farinha de trigo e açúcar por seus equivalentes integrais.” Para conseguir uma aceitação acima de 85% para os novos produtos, conforme exige a legisla- ção, a Coordenação de Merenda Escolar teve que fazer um grande investimento na capacitação das merendeiras, que em geral não sabiam como preparar esses alimentos. É aí que entra uma nova parceria, desta vez com a empresária Ilsi Rowedcler Gassen Boll,

desta vez com a empresária Ilsi Rowedcler Gassen Boll , proprietária do restaurante e mercearia Casa

proprietária do restaurante e mercearia Casa Natural. Ex-funcionária de uma indústria da região, Ilsi largou tudo e foi atrás do sonho de uma melhor qualidade de vida pela alimentação natural. Por causa da tradição alemã, não havia na cidade nenhuma opção para quem procurasse refeições vegetarianas ou mesmo ali-

mentos mais saudáveis, orgânicos e integrais. Ao longo dos anos, sua loja de produtos naturais passou por diversos endere-

ços na cidade e tornou-se referência no setor.

ALIMENTOS INTEGRAIS ENTRAM NA PAUTA

“Há vários anos já vínha-

mos trabalhando na conscientização da população sobre os benefícios da alimentação natural. Por isso, em 2004 a prefeitura nos procurou para montarmos um programa de palestras e treinamentos visando capacitar as merendeiras da cidade a pre- pararem pratos mais gostosos, atraentes e nutritivos com base em produtos integrais”, resume Ilsi. Praticamente todas as cozinheiras em atividade hoje na rede pública já passaram por seus cursos teóricos e práticos usando sempre a pauta de pro-

QUEM

PLANTA,

COLHE

dutos adquiridos pela Secretaria de Educação. “Nós falamos sobre as diferenças nos valores nutricionais dos produtos integrais

e a importância da criatividade na montagem dos pratos, que acabam contribuindo muito para a mudança da cultura ali-

mentar das crianças”, relata Ilsi. “E nas aulas práticas ensinamos, por exemplo, a maneira correta de cozinhar o arroz integral, como preparar uma feijoada vegetariana em que a proteína animal é substituída por algas e proteína de soja, e como fazer uma ‘nega gaúcha’, que é como uma ‘nega maluca’ feita com cacau e açúcar mascavo no lugar do chocolate.”

Márcia Saueressig Wendling,

no lugar do chocolate.” Márcia Saueressig Wendling , diretora da Escola Municipal de Ensino Fundamental Arno

diretora da Escola Municipal de Ensino Fundamental Arno Nienow, concorda. “De uns tempos para cá nossas merendeiras estão tendo, graças a Deus, vários cursos de capacitação nos quais elas buscam, com a orientação da Coordenação de Alimentação e da nutricionista, oferecer um cardápio mais variado com pratos da cul- tura alemã feitos com produtos integrais”, diz. Uma das profissionais que passou por esses cursos foi Rosana Conrad, uma ex-auxiliar de escritório que foi trabalhar na escola por amor às crianças e à cozinha. “A merenda foi um desafio novo na minha vida. Estou crescendo bastante, só em 2006 fiz três cursos em que aprendi, por exemplo, a fazer esse arroz de carretei- ro integral que estamos servindo hoje”, conta. “Um dos motivos pelos quais trouxe meu filho para estudar aqui é a comida natural, porque em casa só comemos produtos integrais.” Já Maria Helena Felix da Trindade,

produtos integrais.” Já Maria Helena Felix da Trindade , merendeira há sete anos, confessa que de

merendeira há

sete anos, confessa que de início não acreditava na possibilidade de os alunos gostarem da alimentação integral. “Eu mesma nunca tinha experimentado, e só de olhar achava ruim”, lembra. “Mas aqui na nossa escola as crianças se adaptaram facil- mente e, como a gente tinha que dar o exemplo, eu também acabei aprendendo a comer e hoje compro alguns produtos como cereais, granola e arroz integral para a minha casa.” Um dos principais desafios da Coordenação de Alimentação foi substituir na merenda um produto típico do sul do Brasil: a rosca doce chamada de ‘cuca’. “A cuca tradicional é praticamente só amido e açúcar, então tivemos de pesqui- sar muito e tentar várias combinações para conseguir uma rosca parecida, só que mais saborosa e nutritiva”, conta Ilsi. “A receita atual leva iogurte de soja, suco de laranja natural, farinha de milho orgânica, polvilho e óleo de girassol. O problema é que fica complicado demais preparar as cucas na cozinha das escolas, por isso a prefeitura optou por comprar

a nossa produção.” Desde março de 2006 a Casa Natural fornece cerca de 300 cucas por mês para a prefeitura de Dois

DOIS

IRMÃOS

Irmãos a R$ 5,70 a unidade. O preço para o público da loja é R$ 8,90. “Neste caso, nossa preocupação não é com o aspecto financeiro, já que para as escolas a cuca sai quase a preço de custo, mas sim com os benefícios sociais que a introdução desses alimentos traz na saúde das crianças”, diz. “No começo eu não imaginava a abrangência e o sucesso que essa parceria com a prefeitura teria. Hoje, tenho certeza de que os alunos estão mais dispostos, mais saudáveis e aprendendo melhor. E também por causa disso muita gente que pensava que esta era uma casa de produtos para diabé- ticos, agora sabe do trabalho que realizamos. Afinal, este é mais do que um ponto comercial, é um lugar de convivência

e troca de informações. Acredito que se todas as lojas que comercializam refrigerantes, cigarros e bebidas alcoólicas pas- sassem a vender alimentos naturais, viveríamos num mundo muito melhor. E eu certamente não os veria como concor-

rentes, mas sim como aliados.”

PRODUZINDO AS PRÓPRIAS VERDURAS

Sem dúvida a introdução de produ-

tos integrais mudou o perfil do consumo alimentar dos alunos da rede pública de Dois Irmãos e até de suas famílias. Mas só isso não era o suficiente para derrubar os altos índices de sobrepeso das crianças em idade escolar. Além disso, os ali- mentos integrais são sempre mais caros que seus equivalentes comuns e sua aquisição poderia causar um forte impacto financeiro no orçamento da merenda escolar. A solução encontrada pela prefeitura foi simples e brilhante: produzir ela mesma todas as verduras, legumes e, no futuro, as frutas consumidas nas escolas do município. O responsável pelo proje-

to é João Alberto Stoffel,

O responsável pelo proje- to é João Alberto Stoffel , que por 12 anos foi secretário

que por 12 anos foi secretário municipal de serviços urbanos. “Toda pessoa tem que saber a hora de sair. Eu trabalhei na roça com meu pai por mais de 20 anos antes de ser secretário. Por isso, quando avisei ao prefeito que iria largar a secretaria em 2004, ele me perguntou se eu não queria reativar o horto da cidade, que estava aban- donado há mais de 10 anos. Eu aceitei. Estava tudo destruído, cheio de mato. Então roçamos, passamos o trator e fizemos os canteiros. Levei três meses para começar a produzir e seis meses para regular direitinho o que as escolas precisam e pedem. Hoje temos 11 tipos de verduras, legumes e temperos. Temos couve-flor, alface, nabo, rabanete, radicci, rúcula, couve, cenou- ra, beterraba, milho, pepino, aipim, batata-doce, alho, cebola, chicória, salsinha, cebolinha, vargem… Forneço para os 3 mil alunos das escolas, 350 do Global (período integral) e mais umas 2 mil crianças da creche. Tudo sai daqui.” O secretário que voltou a ser agricultor tem apenas um ajudante para cuidar do hortão de dois hectares de Dois Irmãos.

QUEM

PLANTA,

COLHE

É bastante trabalho, mas ele não reclama. “O segredo mais importante é ter amor ao que se faz. Não pode ter vergonha

de estar sujo, usar bota, chapéu de palha… Se não fizer isso não adianta. Eu não tenho hora nem dia pra pegar e largar no serviço. E não ganho hora extra. Faço porque gosto. Nunca falhei uma entrega, nem uma semana. Estou satisfeito e orgulhoso, principalmente porque sei que estou fornecendo um produto saudável para as crianças. É tudo natural, sem agrotóxico. Não digo isso só porque a gente mesmo planta. Mas a qualidade é bem melhor do que as verduras que se vendem nos mercados. Usamos só esterco de galinha misturado na água como adubo. Quando se usa agrotóxico, o pro- duto pode até ficar mais vistoso para quem não conhece. O nosso às vezes não fica tão grande… Mas veja só como estão bonitas as minhas verduras. Olha o peso desse repolho! A gente tem nossos segredinhos. Olha, esse é pra colher agora. Ali mais adiante a gente colhe na semana que vem.” A coordenadora Lucimar concorda com ele e acrescenta: “Nunca mais as crianças e merendeiras reclamaram das verduras. Nosso telefone tocava toda semana por causa dos elogios. E o

sabor não tem comparação”.

PREÇOS ABAIXO DO MERCADO

Para Stofell, o problema de se adquirir as verduras de

produtores que também fornecem à Ceasa, às feiras livres e ao supermercados é que fica mais difícil controlar a qualidade. “É natural do ser humano, é um negócio. A pessoa que ganha uma licitação com preços baixos vai naturalmente entregar as sobras, o que não conseguiu vender para os supermercados. Aqui, não. Tudo é repartido igualzinho para as escolas. E tudo da melhor qualidade”, diz. Mas nem por isso os custos do hortão são maiores do que o das verduras do mercado. Aliás, acontece exatamente o contrário. Segundo os cálculos da Emater/RS, se um supermercado fosse comprar toda a pro- dução do hortão no ano de 2005 teria gasto o equivalente a R$ 34 mil. Se fosse revender para a prefeitura, o preço seria ainda maior. O investimento total no hortão naquele ano, incluindo sementes, insumos e os salários dos dois funcionários, foi de cerca de R$ 25 mil. Uma economia, por baixo, de R$ 9 mil. Isso sem contar que a produtividade vem crescendo ano após ano (a previsão de fechamento de 2006 estava em R$ 40 mil), enquanto os custos permanecem praticamente os mes- mos. “Esse é outro orgulho que a gente tem. A horta dá lucro!”, brinca Stofell. E a nutricionista Rozane confirma a infor- mação: “Esse é um dos motivos pelos quais não percebemos o impacto dos preços mais altos dos produtos integrais, que são mais caros, no orçamento da merenda”. Com o sucesso da experiência, as plantações da prefeitura para abastecer as escolas devem continuar. “Temos um projeto para limpar esse terreno para cima da horta, que também é do município, e plantar árvores frutíferas. Pretendemos ter laranja de vários tipos, bergamota, pêra, abacate e caqui. Já temos 85 pés de laranja e bergamota e queremos fazer a pri-

DOIS

IRMÃOS

meira colheita em dois anos. Outra idéia é fazer um canteiro só para plantas medicinais, pra fazer chá pras crianças”, adianta Stofell. “É assim que a gente faz educação nutricional: não forçando a comer, mas produzindo alimento que tem sabor, é bonito, estimula a criança a querer experimentar”, conclui a nutricionista. “Até os anos 1990, a merenda não passava de um apêndice, uma coisa a mais que o estado oferecia. Hoje a alimentação escolar é parte integrante e funda- mental do ensino. Essa é a verdadeira escola: preparar as pessoas para a vida! O ser humano não vem pronto, ele tem que aprender. Se a família tem que trabalhar e não pode dar a orientação correta, é obrigação dos professores falar, falar e falar de novo. Ensinar a plantar, a colher, dar educação alimentar e ambiental para os alunos”, afirma a secretária Hilária. “Desse modo, tentamos evoluir junto com o próprio FNDE, nos ajustando para fazer tudo dentro da ordem.”

CONCÓRDIA (SC)

PARCERIAS PARA ENFRENTAR

a

Além de uma alimentação com qualidade

merenda escolar pode trazer enriquecimento

O NOVO

e desenvolvimento ao município.

De que maneira isto pode acontecer?

Concórdia (SC) População 63.058 Área da unidade territorial (km²) 797 Fonte: IBGE, Resultados da Amostra

Concórdia (SC)

População

63.058

Área da unidade territorial (km²)

797

Fonte: IBGE, Resultados da Amostra do Censo Demográfico 2000 — Malha municipal digital do Brasil: situação em 2001. Rio de Janeiro: IBGE, 2004

do Brasil: situação em 2001. Rio de Janeiro: IBGE, 2004 Índice de Desenvolvimento Humano Municipal, 2000

Índice de Desenvolvimento Humano Municipal, 2000

Municípios do estado de Santa Catarina

0,680 a 0,762 (60)Municipal, 2000 Municípios do estado de Santa Catarina 0,763 a 0,787 (58) 0,788 a 0,802 (58)

0,763 a 0,787 (58)Municípios do estado de Santa Catarina 0,680 a 0,762 (60) 0,788 a 0,802 (58) 0,803 a

0,788 a 0,802 (58)de Santa Catarina 0,680 a 0,762 (60) 0,763 a 0,787 (58) 0,803 a 0,818 (59) 0,819

0,803 a 0,818 (59)0,680 a 0,762 (60) 0,763 a 0,787 (58) 0,788 a 0,802 (58) 0,819 a 0,875 (58)

0,819 a 0,875 (58)0,763 a 0,787 (58) 0,788 a 0,802 (58) 0,803 a 0,818 (59) Maior IDHM do Estado

Maior IDHM do Estado

0,875

Menor IDHM do Estado

0,680

IDHM de Concórdia

0,849

Fonte: Atlas do desenvolvimento Humano no Brasil, 2000 — PNUD/ONU.

do desenvolvimento Humano no Brasil, 2000 — PNUD/ONU. Experiência premiada na categoria Desenvolvimento Local

Experiência premiada na categoria Desenvolvimento Local – 2005

A compra de alimentos da produção local pela prefeitura de Concórdia movimenta cerca de 12% do gasto com gêneros alimentícios. São adqui- ridos vários produtos da cooperativa de produção agroindustrial familiar que envolve 163 produtores.

Número de escolas municipais (pré-escola e ensino fundamental)

58

Receita municipal

R$ 59.026.263,96

Recursos transferidos pelo FNDE

R$ 188.259,60

Complementação do município para compra de alimentos

R$ 211.903,65

Alunos atendidos

7.693

Refeições servidas

1.364.200

Fonte: Prêmio Gestor Eficiente da Merenda Escolar, 2ª edição (2005) — dados referentes a 2004.

PARCERIAS

PARA

ENFRENTAR

O

NOVO

PARCERIAS PARA ENFRENTAR O NOVO TRADIÇÃO E REVOLUÇÃO Para muitos municípios, a continuidade — sem sobressaltos

TRADIÇÃO E REVOLUÇÃO

Para muitos municípios, a continuidade — sem sobressaltos — de projetos e pessoal de administrações anteriores é fundamental para o bom funcionamento de várias áreas sob res-

ponsabilidade da prefeitura. Mas quando grupos políticos antagônicos se sucedem, às vezes é preciso recomeçar do zero.

A experiência de Concórdia, no oeste de Santa Catarina, é exemplar. A atual administração, depois de uma difícil batalha

eleitoral em 2000, decidiu trocar totalmente as equipes de gestão nos vários níveis da administração. Os processos de compra, licitações e parcerias também tiveram de ser completamente reformulados, sem que houvesse alguém do governo anterior para ensinar como fazê-los. Mesmo assim, a nova equipe da Secretaria Municipal de Educação — SME, apesar de contar com profissionais de pouca experiência no setor público, encarou o desafio. Todas as escolas foram reformadas ou receberam novos equipamentos, incluindo utensílios de cozinha. Hoje existem refeitórios nas 45 instituições de ensino, muitas com auto-serviço, e 36 pos- suem hortas. Foi contratada uma nutricionista, o Conselho de Alimentação Escolar — CAE tornou-se mais atuante e todas as merendeiras estão passando por cursos de capacitação periódicos. O governo local investe anualmente na merenda um valor superior ao entregue pelo FNDE e possui ainda uma forte parceria com o Programa Fome Zero para fornecimento de

frutas, verduras e outros alimentos orgânicos produzidos por 71 famílias da região sem custo para a prefeitura, já que a verba para a compra vem direto do governo federal por meio do Programa de Aquisição de Alimentos — PAA da Companhia Nacional de Abastecimento — Conab. “Nós entendemos que a escola tem que funcionar como um todo. Todas as atividades que envolvam alunos, pais, professores

e funcionários têm que ser trabalhadas no coletivo com base na realidade de cada unidade educacional”, afirma Santo

Hermínio de Luca, secretário municipal de Educação. “A alimentação escolar é importante para o processo de formação e também de aprendizado do aluno, integrando em sala de aula os conteúdos das diversas áreas e disciplinas. Além, claro, da certeza de que uma criança bem alimentada aprende melhor. É preciso destacar ainda a integração e parceria da SME com

CONCÓRDIA

O Conselho de Alimentação Escolar tem um importante papel na fis- calização da merenda; os
O Conselho de
Alimentação Escolar tem
um importante papel na fis-
calização da merenda; os con-
selheiros devem visitar as esco-
las, experimentar a merenda
servida aos alunos e conferir
a qualidade e a quanti-
dade dos alimentos.

secretarias como a de Agricultura no fornecimento de técnicas e servidores para formar as hortas,

de Urbanismo nos consertos e infra-estrutura, a de Comunicação para divulgação dos feitos, etc.

Também é fundamental a atuação do CAE, que está muito bem estruturado e ativo, tanto que

tem sido convidado a participar de seminários e palestras em eventos do FNDE para mostrar

nossa experiência. Para isso, aumentamos a cobrança sobre todos os departamentos e adota-

mos uma política de visitas pessoais a todas as escolas e participação nas assembléias de pais

e professores. É lá que fazemos as prestações de contas, com total transparência. Por último, o

prefeito atual decidiu, desde que assumiu a administração, investir na educação sempre mais do

que os 25% definidos por lei. Deste modo, em 2001 aplicamos na área 28,22% do orçamento total

do município; no ano seguinte foram 30,91%; em 2003, 27,66%; 2004 teve 27,34%; 29,84% em 2005 e

a previsão para 2006 era de 28% a 29%, o que significa quase R$ 2 mil por ano por aluno. Esses recursos melhoraram não só

a alimentação como também a infra-estrutura, com reformas e compras de equipamentos, e refletiu até nos bons resultados que

obtivemos na Prova Brasil de 2005.”

APRENDENDO COM A PRÁTICA

Antes de entrar para a Prefeitura de Concórdia,

a hoje chefe do Departamento Administrativo da Secretaria de Educação, Neusa Schmidt Gugel,

da Secretaria de Educação, Neusa Schmidt Gugel , havia traba- lhado por muitos anos em uma

havia traba-

lhado por muitos anos em uma concessionária de veículos da cidade. Seu único contato com a política se dava por meio da

atuação em movimentos sociais. Por isso, ela estranhou muito o convite do prefeito Neodi Saretta para fazer parte da equipe

da SME. “Eu não tenho formação em pedagogia, nunca trabalhei no setor público e não imaginava como as coisas funciona-

vam no município”, conta. “Para piorar, não ficou quase ninguém da administração anterior pra ensinar, pra dizer como

fazer. Não tínhamos noção nem de quanto dinheiro viria do Governo Federal. Só sabíamos que as aulas iam começar, que

tínhamos que alimentar 7 mil alunos e ainda distribuir material escolar, porque fazia parte do nosso programa de governo.”

O primeiro passo foi buscar apoio do governo da cidade vizinha de Chapecó. “Eles nos indicaram o site do FNDE para ver

que produtos podíamos comprar, como funcionam as licitações, etc. Eles também nos deram pastas e apostilas sobre alimen-

tação escolar. Eu lia o tempo todo, dia e noite, porque tinha medo de fazer alguma coisa errada. Nossa maior preocupação

era encher as despensas para alimentar as crianças naquele primeiro período de 2001”, recorda. “Na primeira licitação não

PARCERIAS

PARA

ENFRENTAR

O

NOVO

tínhamos nutricionista e, por inocência, não pedimos amostras dos alimentos. Com o tempo aprendemos e começamos a exigir sempre amostras, alvarás sanitários, etc.” Neusa afirma que no início houve muita chiadeira dos fornecedores. “Nessas horas eu sempre perguntava: ‘O senhor tem filho na escola? O senhor gostaria de ver seu filho comendo um produto sem inspeção sanitária? Então! O que a gente não quer pra gente não deve entregar para os outros’”, conta. “Havia ainda muitos problemas com as quantidades. Tivemos que começar a mandar auditores atrás dos caminhões para pesar os volumes entregues e depois cobrávamos a diferença. Hoje somos muito rígidos com isso. Se foi licitada uma determinada marca, tem que entregar aquela! Em 2004 veio o pessoal do Tribunal de Contas auditar nossas licitações e não acharam absolutamente nada errado.” Ela explica que atualmente a prefeitura conta com uma comissão para análise das amostras formada por representantes do CAE e da secretaria e pela nutricionista. Com o produto aprovado, o responsável pelo almoxarifado guarda as amostras durante todo o tempo da licitação para comparar com as entre-

gas. “Ele é o primeiro a fazer o aceite ou a recusa. Se tiver alguma dúvida, entra em contato com a administração ou, preferen- cialmente, com a nutricionista. Recentemente, por exemplo, tivemos o caso do vinagre. Estava licitado um determinado tipo e

a primeira entrega veio correta, mas da segunda em diante o fornecedor quis entregar outro produto, inclusive com álcool que não compramos de jeito nenhum. A marca era a mesma, mas o produto, não.”

A orientação dada às merendeiras é semelhante. “Se elas perceberem algum problema, também podem chamar a gente ou o

CAE para verificar. Em toda capacitação sempre falamos para terem cuidado e atenção, especialmente com os hortifrútis.

Explicamos que não temos fôlego para acompanhar todas as entregas e, quando elas assinam a ficha de recebimento, tornam-

se as responsáveis pelos alimentos que serão distribuídos aos alunos. Por isso, mandamos para as escolas a relação de produtos

bem especificada, com toda a descrição detalhada. Por exemplo: tomate fresco, semimaduro, sem batidas, tamanho médio, peso 120 gramas”, comenta Neusa. “Se não estiver de acordo, mandam devolver. No começo os fornecedores reclamavam muito, mas viram que não adiantava e quem queria continuar fornecendo se adaptou. Tem fornecedor também que desistiu, mas esses

é melhor que nem venham mesmo participar das licitações.”

TRADIÇÃO DE COOPERATIVISMO

Sede de um dos

maiores frigoríficos do Brasil, Concórdia é líder nacional na produção de suínos e aves e possui a maior bacia leiteira de Santa Catarina. Mas, diferente de outras regiões do país devido ao modelo de colonização dos descendentes de italianos e alemães vindos do Rio Grande do Sul a partir de 1920, lá não existem latifúndios. O sistema de produção é baseado em pequenas propriedades familiares e granjas que abastecem os grandes frigoríficos por meio de cooperativas de produção. Se por um lado o sistema mantém o homem no campo e distribui a renda pelas famílias, por outro “amarra” o produtor

CONCÓRDIA

a contratos de fornecimento e permite poucas alternativas de produção. E pior, se a necessidade da grande agroindústria

está suprida, o produtor não tem para quem vender. “Desde os anos 1980, com o chamado ‘novo sindicalismo’ e o apoio

das pastorais da Igreja Católica, os movimentos sociais se intensificaram tanto na cidade como no campo”, conta

Ruimar Scortegagna,

tanto na cidade como no campo”, conta Ruimar Scortegagna , encarregado da seção de agregação de

encarregado da seção de agregação de valor da Secretaria de Agricultura. “Na

zona rural, a tradição das pequenas propriedades e do cooperativismo ajudou muito nesse processo, especialmente

depois do lançamento do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar – Pronaf. Consideramos a

cooperativa tradicional muito mais uma estrutura de fornecimento para a grande agroindústria do que um instru-

mento voltado para a melhoria na qualidade de vida do pequeno produtor. Por isso, o objetivo principal das novas

cooperativas que estamos apoiando é a legalização dos produtos para o mercado, viabilizando as pequenas agroin-

dústrias familiares para que possam alcançar o consumidor diretamente, sem a necessidade de ‘amarrar’ os agricul-

tores em contratos apenas com os grandes frigoríficos.”

“Quando viemos para o governo tínhamos uma grande angústia do ponto de vista administrativo e do suprimento de

alimentos do município, porque comprávamos produtos vindos do Paraná ou do Rio Grande do Sul e não podíamos com-

prar dos agricultores que trabalhavam em nossa própria região. O impedimento era a Lei de Licitações. O produtor não

tinha capacidade de concorrência com os supermercados e grandes atacadistas”, explica Alziro Mezalira Corassa, assessor

de planejamento da prefeitura. “Com a implantação do Programa de Aquisição de Alimentos da Conab, vencemos o pro-

blema jurídico da necessidade de concorrência pública. Em 2003, depois da vinda do Presidente Lula e do

Ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Patrus Ananias, montamos o Conselho

O Programa de Aquisição de Alimentos permite a compra direta da agricul- tura familiar, sem
O Programa
de Aquisição de
Alimentos permite a
compra direta da agricul-
tura familiar, sem passar
pelo processo tradicional de
licitação. Procure a Conab
para mais informações:
www.conab.gov.br.

Municipal de Segurança Alimentar para discutir com a sociedade organizada como poderíamos

utilizar o PAA da melhor forma possível. Era um grande desafio, porque tínhamos que mudar

toda a cultura do produtor, de quem fazia o gerenciamento e do consumidor, para que cada

um assumisse sua parte no processo. Por meio de muito diálogo e paciência, enfrentamos as

resistências e, apesar da desconfiança nos programas do poder público, conseguimos conven-

cer 46 produtores a aceitar o desafio. O critério nesse momento, até para derrubar a barreira

da falta de credibilidade, foi que poderiam aderir com o que pudessem produzir. Com as enti-

dades consumidoras foi bem mais fácil, afinal elas tinham a necessidade.”

PARCERIAS PARA ENFRENTAR O NOVO O SUCESSO DA COMPRA DIRETA O primeiro projeto de Compra
PARCERIAS
PARA
ENFRENTAR
O
NOVO
O SUCESSO DA COMPRA DIRETA O primeiro
projeto de Compra Direta Local da Agricultura Familiar – CDLAF conseguiu reunir uma pauta
de 27 produtos distribuídos para 10 entidades que até então não recebiam apoio direto da
prefeitura. Mas foi a partir do segundo CDLAF, em 2004, contando já com a criação da
Cooperativa de Produção Agroindustrial Familiar de Concórdia — Copafac, agregando 34
produtos de 59 agricultores, que o programa passou a fornecer alimentos também à meren-
A compra de ali-
mentos produzidos pelo
pequeno agricultor possibil-
ita a circulação de recurso
na região, ajuda no desenvol-
vimento e permite a oferta
de produtos frescos no
cardápio escolar.
da escolar. O valor total do programa também subiu de R$ 111 mil para quase R$ 140 mil.
“No segundo CDLAF, mudamos um pouco o viés de utilização dos produtos. Além das entida-

des, passamos também a oferecer uma suplementação de produtos para merenda escolar aos 13

Centros Municipais de Educação Infantil — CMEIs (num total de 1.079 crianças de zero a seis anos) e 24

escolas de Ensino Fundamental (7.773 alunos)”, diz Corazza. “Obviamente ainda não temos capacidade para suprir todas as

necessidades de alimentos da Secretaria de Educação, mas é um complemento importante, que deu fôlego ao orçamento da

SME; ao mesmo tempo, conseguimos viabilizar um volume maior de produção para os agricultores.” Desse modo, o tercei-

ro projeto, de 2006, contemplou 71 produtores familiares com um investimento total de R$ 174 mil. Mas o grande salto

deve ser dado em 2007, com 186 agricultores e um valor perto de meio milhão de reais.

Com a distribuição dos produtos do PAA na merenda escolar, houve certo impacto no orçamento da área. “O valor em dinheiro

nem é assim tão significativo. Em 2005, por exemplo, economizamos cerca de R$ 32 mil principalmente com hortifrutigranjeiros

que deixaram de ser adquiridos por licitação com nossos fornecedores tradicionais”, calcula Neusa. “Como não houve diminuição

no orçamento total para o setor de alimentação das escolas, esse dinheiro ‘extra’, que faz parte da contrapartida da prefeitura e

não da verba do FNDE, pôde ser investido em melhorias nas cozinhas e na compra de eletrodomésticos e utensílios. Mas a me-

lhor parte é a qualidade dos alimentos provenientes do Programa Fome Zero na mesa das crianças e o estímulo à economia rural

de nossa região.” Sem dúvida, a trajetória de sucesso na parceria da Prefeitura de Concórdia com a Conab e o governo federal

no PAA mudou não somente a pauta de produtos disponíveis para a merenda escolar, como também a vida de dezenas de

pequenos produtores cujo futuro não parecia nada promissor.

VIDA NOVA NO CAMPO

“Era imensa a quantidade de

famílias sendo desagregadas, com as pessoas vindo para a cidade trabalhar como empregados, sem perspectiva de voltar para o

campo, propriedades perdendo seu valor e gente perdendo sua história…”, recorda Corazza. “Não temos nenhum estudo cien-

CONCÓRDIA

tífico, mas sabemos de pelo menos oito famílias que teriam migrado para a cidade entre 2005 e 2006 se não fossem os projetos do PAA. São pessoas dizendo claramente que não vêm mais para a cidade porque agora têm qualidade de vida no campo. É muito bonito ver gente que, em vez de precisar do auxílio dos programas sociais da prefeitura, hoje está produzindo alimentos para esses mesmos programas sociais e adquirindo bens e serviços. Só a instalação das nossas 34 pequenas agroindústrias fami- liares tem um imenso impacto econômico e social. Este é um dos motivos por que nós não temos desemprego em Concórdia. Ao contrário, nós temos uma migração grande de pessoas de fora que vêm buscar trabalho aqui.” Um bom exemplo disso é a família Battistela. A matriarca Angelina

disso é a família Battistela. A matriarca Angelina conta que os três filhos adultos e forma-

conta que os três filhos adultos e forma- dos deixaram recentemente a cidade para voltar ao campo e ajudar na produção de beterraba, cenoura, chicória, alface, repolho, laranja… “Nenhum deles quis ficar na cidade e até vendemos a casinha que tínhamos lá para comprar outro lote

aqui”, diz. “No sítio temos de tudo um pouco e só usamos adubo orgânico, já que criamos algum gado em outra propriedade.”

O agricultor Plínio Dannebrok, por sua vez, vendia alho na Casa do Produtor, mas o volume não permitia uma segurança

financeira. “Às vezes o comércio ficava fraco, tinha muita produção e a gente acabava perdendo dinheiro”, comenta. “Com o

Fome Zero, não. Sempre dá pra fechar bem a cota e às vezes tirar até um pouco mais. Se não tivesse esse dinheiro garantido a gente ia estar bem amarrado. Então estamos produzindo laranja, bergamota e alho. Tinha iniciado também mandioquinha, mas perdi por causa da estiagem. Tenho dois filhos na escola municipal que estão comendo o que a gente produz. Antes isso não acontecia porque a prefeitura comprava dos distribuidores. E daqui é melhor porque a gente sabe como produz.” Outros agricultores saíram da simples produção agrícola para a agroindústria, como o senhor João Volpini. Ele e mais oito amigos formaram uma associação para plantar cana e produzir açúcar e melado. “No início a gente pensava apenas em fazer cachaça pra vender, mas aí os técnicos da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina

— Epagri/SC, da Secretaria de Agricultura e o pessoal do Sindicato dos Trabalhadores Rurais passaram a nos incentivar

a produzir o açúcar mascavo e o melado. Eles diziam que tinha mercado, mas a gente não via. Em 2003, com recurso do Pronaf, financiamento do BNDES e mais R$ 4 mil do bolso de cada um construímos o engenho. Mas foi com a entra- da do Programa Fome Zero em 2004 que a produção e a venda aumentaram, inclusive nos supermercados da cidade”, conta Volpini. “Sem a compra direta da Conab isso não seria possível. Com eles temos garantida a venda de 554 quilos de açúcar por mês. Desses, 210 quilos vão direto para a merenda escolar. O açúcar é fonte de vitaminas, um produto natural e muito saudável. Eu mesmo tenho um filho, hoje com 30 anos, que teve muitos problemas de intestino quan-

PARCERIAS

PARA

ENFRENTAR

O

NOVO

do tinha quatro anos. Naquela época a gente já produzia um pouco de açúcar mascavo pra consumo próprio e o médi-

co disse que esse era o melhor remédio pra ele. Hoje, as crianças da escola pública consomem o açúcar mascavo, o que

não acontecia com meu filho.” ALIMENTOS MAIS

FRESCOS E NATURAIS

“Os produtos adquiridos diretamente

dos produtores locais se tornaram muito importantes na merenda, porque são naturais e vieram diversificar o lanche das

crianças”, comenta a nutricionista da Secretaria de Educação, Sirlei Michelotti.

da Secretaria de Educação, Sirlei Michelotti . “Temos, por exemplo, o melado de cana, que é

“Temos, por exemplo,

o melado de cana, que é um alimento natural, o açúcar mascavo, que é fonte de vitaminas, a laranja, que sabemos exata-

mente de onde vem e é produzida de forma orgânica, além das verduras bem mais frescas, livres de agrotóxicos, sem as

batidas de transporte e com uma qualidade e valor nutricional muito melhores. Agora podemos oferecer frutas numa fre-

qüência bem maior e introduzimos as saladas no cardápio diário. Os dois únicos produtos de nossa pauta que continuam

vindo enlatados são a sardinha e a ervilha. O restante é tudo in natura. Com isso, estamos mudando os hábitos alimenta-

res das crianças, acostumadas com comidas industrializadas que não fazem bem à saúde. Muitos alunos simplesmente não

conheciam o mel, que recebemos também do Programa Fome Zero. Tínhamos que insistir para provarem.” Como nutri-

cionista é um cargo recente na SME de Concórdia, instituído somente em 2002, fica difícil ter uma idéia de como era a

situação nutricional das refeições servidas aos alunos antes disso. Mas os relatos de quem já alimentava essa criançada

trazem dados interessantes.

Neusa Fávero é merendeira há seis anos. Ela conta que quando começou a trabalhar na Escola

Santa Cruz não havia um cardápio definido. “As tias faziam um lanche com o que tinha.

Agora tem mais frutas, verduras, carnes. A gente não tinha esses derivados de leite, queijo,

açúcar mascavo, mel. Mudou muita coisa. E as crianças gostam bastante do que a gente

faz. Esta semana mesmo, teve torta de bolacha e em duas servindo a gente quase não

vencia. Afinal, são 370 alunos! Nós também não tínhamos cursos de reciclagem e aperfei-

çoamento pra aprender o que as crianças devem comer nas escolas. Eu aprendi muita coisa

com as nutricionistas. Como utilizar os alimentos, armazenar e conservar. E aprendi tam-

Cardápio variado faz da hora da merenda um momen- to especial! Mas a oferta de
Cardápio
variado faz da hora
da merenda um momen-
to especial! Mas a oferta de
um prato novo deve ser
acompanhada de observação
e controle de sobras para
verificar a aceitação dos
alimentos por parte dos
alunos.

CONCÓRDIA

Mudar hábitos de higiene não é muito fácil; por isso, é preciso estar sempre observan-
Mudar hábitos de higiene
não é muito fácil; por isso, é
preciso estar sempre observan-
do e avaliando o trabalho dos
manipuladores de alimentos e
ir introduzindo os novos
hábitos.

bém a fazer receitas novas. Quando colocaram a carne suína nas escolas, todas as merendeiras

aprenderam a fazer um prato e todas experimentamos para ajudar na aceitação das crianças.

Por exemplo: pizza de carne suína. Ai! Quando me falaram isso eu não achei que dava certo,

não. Depois vi que fica até mais gostosa do que pizza de carne ou de frango. Fica muito

boa mesmo. Outra mudança foi na cozinha, que era pequena, não tinha lugar pra guardar

as panelas, nem armário com telinha pra proteger os alimentos. Ficava tudo assim numas

prateleiras abertas. Eu gosto de trabalhar com comida e graças a Deus nunca uma criança

veio me dizer que não gostou do almoço ou que fez mal.”

Ainda mais antiga na rede municipal de Concórdia, Terezinha Luísa Hikt trabalha há 16 anos

como merendeira e zeladora. Ela já passou por escolas de todo tipo, desde pequenas unidades

educacionais rurais até as maiores escolas do município. “A melhoria hoje é de 100%, não só em

matéria de alimentos, mas também das próprias cozinhas. Agora a higiene é total, não entra uma merendeira pra cozinhar

se não estiver com a touca na cabeça e vestindo jaleco. Teve época, na Escola Santa Rita, que a gente tinha que lavar toda

a louça pra depois poder servir o lanche. Nós forrávamos as prateleiras com papel de bobina, mas cansei de jogar comida

fora porque o pacote estava furado. Eu tenho um filho que fez faculdade e ele me dizia pra não usar farinha ou arroz de

saco que estivesse com furinho porque algum rato podia ter passado e feito xixi ali. Isso não poderia acontecer. Hoje é tudo

com acompanhamento da nutricionista seguindo o controle de data de validade. Antes não tinha uma cenoura, uma fruta,

nada. No começo, quando eu entrei pra trabalhar, vinha tudo em pacote: uma carne de sol que tinha de usar três panelas

de água quente para conseguir amolecer, tirar o sal, o cheiro e a criança comer. Vinha também um arroz de carreteiro

pronto que a gente colocava um pacote na panela e enchia até a tampa. E às vezes atrasava meses e a gente tinha que ligar

no supermercado pra pegar os ossos ou então a Sadia doava miúdos de galinha e de porco congelados. Quase não tinha

carne, era só carcaça e gordura. Hoje a prefeitura manda sobrecoxa de galinha, carne suína, bovina, queijo, leite, margari-

na, mel, açúcar mascavo. Antigamente não tinha nada disso.”

Outra mudança grande foi a introdução, a partir de 2003, do sistema de auto-serviço, em que os alunos escolhem o que e

quanto querem comer. A escola pioneira na rede foi o Grupo Escolar Parque das Exposições. Lá a merendeira Marta

Lorenzetti trabalha há mais de 14 anos e também comenta as melhorias em infra-estrutura e variedade de alimentos. “Eu

acho uma coisa maravilhosa as crianças se servirem. Cria independência e tem menos desperdício. Eu oriento sempre eles

para não pegarem mais do que vão comer e eles fazem isso em casa também”, diz. “Antigamente não havia um cardápio

aqui na escola e a gente tinha que inventar junto com a diretora o que ia servir usando o que mandavam. Nunca vinham

PARCERIAS

PARA

ENFRENTAR

O

NOVO

coisas como batata-doce, alface, farinha integral, mel. Agora usamos esse forno a lenha para fazer pão, pizza e torta salga- da, que as crianças pedem sempre. Elas gostam também das verduras da nossa horta. Hoje mesmo comeram repolho e amanhã vou colher beterraba. Eu é que cuido da horta, mas cada um tem uma plantinha ou uma florzinha. Temos alface, couve, alho, milho branco, salsa, cebolinha, manjerona…” A VOLTA DO

PARAFUSO

Com a equipe agora já experiente,

a infra-estrutura melhorada e os programas governamentais fazendo sucesso, o novo desafio do prefeito de Concórdia, Neodi Saretta, é exatamente o oposto do que encontrou no início de seu primeiro mandato: garantir a continuidade dos bons projetos e conquistas, independentemente de quem vier a administrar o município no futuro. Trata-se de transformar as ações de um governo em políticas públicas permanentes. Para isso, a sociedade civil do município precisa contar com sua própria capacidade de organização e fiscalização. E, para isso, é fundamental o fortalecimento dos Conselhos de Alimentação Escolar e de Segurança Alimentar. Afinal, eles têm não somente a função como também a responsabilidade de manter a qualidade das refeições consumidas dentro e fora das escolas.

ARAXÁ (MG)

VONTADE, INVESTIMENTO E RESULTADOS

Melhorar a qualidade da merenda depende da decisão política. O município de Araxá, complementa com 3,5 vezes o valor que é repassado pelo FNDE. O que mais pode ser feito?

Araxá (MG) – Nacional População 78.997 Área da unidade territorial (km²) 1.165 Índice de Desenvolvimento

Araxá (MG) – Nacional

População

78.997

Área da unidade territorial (km²)

1.165

78.997 Área da unidade territorial (km²) 1.165 Índice de Desenvolvimento Humano Municipal, 2000

Índice de Desenvolvimento Humano Municipal, 2000

Municípios do estado de Minas Gerais

Fonte: IBGE, Resultados da Amostra do Censo Demográfico 2000 — Malha municipal digital do Brasil: situação em 2001. Rio de Janeiro: IBGE, 2004

0,568 a 0,667 (171)do Brasil: situação em 2001. Rio de Janeiro: IBGE, 2004 0,668 a 0,707 (171) 0,708 a

0,668 a 0,707 (171)em 2001. Rio de Janeiro: IBGE, 2004 0,568 a 0,667 (171) 0,708 a 0,743 (175) 0,744

0,708 a 0,743 (175)Janeiro: IBGE, 2004 0,568 a 0,667 (171) 0,668 a 0,707 (171) 0,744 a 0,770 (173) 0,771

0,744 a 0,770 (173)0,568 a 0,667 (171) 0,668 a 0,707 (171) 0,708 a 0,743 (175) 0,771 a 0,841 (163)

0,771 a 0,841 (163)0,668 a 0,707 (171) 0,708 a 0,743 (175) 0,744 a 0,770 (173) Maior IDHM do Estado

Maior IDHM do Estado

0,841

Menor IDHM do Estado

0,568

IDHM de Araxá

0,799

Fonte: Atlas do desenvolvimento Humano no Brasil, 2000 — PNUD/ONU.

do desenvolvimento Humano no Brasil, 2000 — PNUD/ONU. Experiência premiada na categoria Nacional – 2005 A

Experiência premiada na categoria Nacional – 2005

A

prefeitura compra frutas, legumes e verduras

da

Associação dos Produtores de Hortifrutigran-

jeiros de Araxá (Asshorgran) para a alimentação escolar. O município instituiu a Lei nº 3651, em 2000, que cria o Programa Municipal de Incentivo à Produção de Hortifrutigranjeiros de Araxá, o Pró Horta, visando beneficiar os produtores locais. Do cardápio fazem parte produtos regionais como canjiquinha e tutu de feijão. Araxá foi também vencedora na categoria Região Sudeste na edição 2006 do Prêmio Gestor Eficiente da Merenda Escolar.

Número de escolas municipais (pré-escola e ensino fundamental)

28

Receita municipal

R$ 90.724.455,42

Recursos transferidos pelo FNDE

R$ 229.549,20

Complementação do município para compra de alimentos

R$ 803.633,61

Alunos atendidos

16.092

Refeições servidas

1.663.400

Fonte: Prêmio Gestor Eficiente da Merenda Escolar, 2ª edição (2005) — dados referentes a 2004.

VONTADE,

INVESTIMENTO

E

RESULTADOS

TRADIÇÃO, PARCERIAS E INOVAÇÃO

INVESTIMENTO E RESULTADOS TRADIÇÃO, PARCERIAS E INOVAÇÃO Estância hidromineral locali- zada entre as serras da

Estância hidromineral locali- zada entre as serras da Bocaina e da Canastra, Araxá é famosa por suas águas termais, bom clima para agricultura e mulhe- res fortes como Dona Beja. Segundo a lenda, foi sua influência sobre o então ouvidor da Coroa Portuguesa, com quem mantinha um caso amoroso, que levou Goiás a devolver as terras do Triângulo Mineiro para o estado de Minas Gerais. A cozinha de Araxá também tem longa tradição histórica, misturando influências portuguesa, de escravos, de índios e mais recentemente dos chefs internacionais contratados pelo Grande Hotel, onde estão localizadas as fontes minerais. Atual- mente com cerca de 80 mil habitantes, o município mantém como motores econômicos a agropecuária e o turismo, além da mineração desde os anos 1950. Com o progresso e o aumento da população, foram construídas 17 unidades de ensino na rede pública municipal, sendo cinco escolas rurais, para atender aos quase 9 mil alunos. Desde 2001 as escolas contam com o apoio de uma nutricionista para a criação de quatro cardápios balanceados diferentes, respeitando os hábitos alimentares da população e as necessidades específicas de cada região do município. O tempero caseiro dos pratos é fabricado pela Associação de Assistência ao Deficiente de Araxá — FADA. As merendeiras passam por capacitações periódicas inclusive com cozinheiros de destaque nacional. As verduras, legumes e até algumas frutas e quei- jo são adquiridos diretamente de 40 produtores familiares organizados na Associação dos Hortifrutigranjeiros de Araxá — Asshorgran. O Conselho de Alimentação Escolar é atuante, fiscalizador e está engajado na luta pelo fim das cantinas escolares, que já não comercializam mais doces e guloseimas. Enfim, um projeto de evolução constante que deve incluir em breve outras inovações, como o leite materno para os bebês mais necessitados nas creches.

ARAXÁ

PLANEJAMENTO, PRIORIDADES E PARCERIAS Para o prefeito

E PARCERIAS P a r a o p r e f e i t o Antonio

Antonio Leonardo Lemos de Oliveira, o Toninho, a ampliação dos recursos destinados à merenda escolar é uma questão de vontade política soma-

da a fatores práticos como leis de incentivo e parceiros dispostos a colaborar. “Quando assumimos a prefeitura, em 2001, já havia uma lei municipal prevendo uma série de parcerias para incrementar a merenda. O que nós fizemos foi colocar a lei em prática”, diz. “Nós reunimos esses parceiros para modernizar nossa ação administrativa na área da educação com a contratação de nutricionistas, ampliação da participação dos produtores locais no fornecimento de alimentos in natura e procuramos criar cursos de aperfeiçoamento para as cantineiras, que são as pessoas diretamente envolvidas na produção da merenda.” Com isso, a prefeitura de Araxá investe na alimentação escolar quase quatro vezes o montante repassado pelo FNDE e pretende, em 2007, ultrapassar o valor de R$ 0,80 por aluno por dia. Estudante da rede pública e beneficiário da merenda escolar durante todo o seu período de Ensino Fundamental, Toninho diz que o segredo para se conseguir esse feito com os parcos recursos destinados aos municípios no Brasil se resume a planejamento de médio e longo prazo e escala de prioridades de acordo com o definido no orçamento parti- cipativo. “Eu acredito na educação como instrumento transformador da sociedade”, afirma. “E num país de desigualda- des sociais como o nosso, principalmente nas regiões mais carentes, a maioria das crianças tem na merenda muitas vezes

a única refeição do dia. Então isso é tão ou mais importante do que a qualidade do ensino em si.” Sabedor de que as

boas políticas públicas devem permancer independentemente de quem ocupa a cadeira no Executivo, Toninho agora se preocupa com a continuidade do atual projeto para a alimentação escolar. Para isso, ele se apóia totalmente na rede de servidores (principalmente as nutricionistas e cantineiras), na independência dos conselheiros do CAE e nos parceiros da Asshorgran e da FADA. NUTRICIONISTAS

CONCURSADAS

A secretária de Educação, Dona Marlene Borges Pereira,

também acredita na continuidade das parcerias e projetos se eles forem transformados em políticas públicas. Antes de ocupar

o cargo, nas duas gestões do prefeito Toninho, ela atuou por 10 anos como professora e foi diretora de escolas de rede estadu-

VONTADE,

INVESTIMENTO

E

RESULTADOS

al por 18 anos. “A alimentação escolar antes de 2001 era boa, tinha um certo cuidado, mas não havia uma nutricionista para supervisionar a merenda”, relata. “A profissional é muito importante para dar um suporte técnico para gastarmos melhor o dinheiro público, com uma nutrição saudável e alimentos balanceados de acordo com a necessidade das crianças. A criação do cargo lotado por concurso público foi um grande ganho. Demos apenas o direcionamento do que queríamos e as meninas deslancharam, procuraram opções, abriram caminhos e novas parcerias.” A primeira nutricionista contratada pela prefeitura em 2001, Lilia Cunha, tinha um trabalho paralelo e dava expediente na rede pública apenas alguns dias por semana. Com o aumento na demanda de serviços, ela convidou outra nutricionista para acompanhar os trabalhos e que acabaria por prestar concurso e assumir o cargo em tempo integral em 2002: Adriana Leite. A instituição do concurso para o cargo visa exatamen- te manter a função e o bom profissional independentemente de quem venha a assumir o governo no futuro. Formada na Universidade Federal de Ouro Preto, Adriana tinha paixão pela alimentação escolar dos tempos em que esta- giou no setor em Ribeirão Preto, em 1995. “Desde o início foi colocada como preocupação principal a qualidade da ali- mentação escolar, e por isso eu me interessei tanto”, lembra. “Mas não existiam cardápios, os estoques eram mal organi- zados, havia um grande desperdício de alimentos e a razão disso tudo era principalmente falta de treinamento e conheci- mento por parte das cantineiras.” Detectado o problema, Adriana foi à luta com paciência e dedicação, dia após dia, para mostrar que ela era uma aliada das cantineiras e não apenas a pessoa com a responsabilidade da cobrança. “O principal era ouvir o que elas tinham a dizer, e muitas vezes as sugestões eram excelentes”, recorda. “E eu, por outro lado, tentava conscientizá-las de seu papel como educadoras. Afinal, se o ambiente fosse limpo e agradável, a comida bem-feita e gos- tosa, a experiência das refeições para os alunos seria uma aula de higiene e educação alimentar.”

CAPACITAÇÃO NO RESTAURANTE

E NA MINERADORA Ao mesmo tempo, Adriana implantou um cronograma de capacitações

semestrais para todas as cantineiras com cursos de conservação e preparação de alimentos, higiene pessoal e do local de tra- balho, utilização total dos vegetais, etc. Mas o ponto alto foram as palestras realizadas em 2003 e 2004 com dicas de etique- ta e de pratos internacionais com o cozinheiro Fernando Braga, autor da série de livros Araxá põe a mesa. “Foi incrível, ele é um showman e abria o espaço para a participação ativa das cantineiras”, conta. “No final eles criaram juntos mais de 50 pratos diferentes utilizando apenas a pauta de alimentos normal da prefeitura, como arroz, feijão, carnes e macarrão.” Mesmo com a saída de Adriana alguns anos depois, as capacitações continuam com a nova nutricionista, Daniella Porto Reis, que assumiu em 2006. No final daquele ano, por exemplo, os cursos para as cantineiras e auxiliares foram realizados

ARAXÁ

nas salas de uma universidade. “Às vezes ainda encontro um pouco de dificuldade na introdução do uso da touca e do uniforme”, admite Daniella. “Mas por outro lado é interessante ver a integração dos pratos e hábitos culturais da região, como tutu de feijão, canjiquinha e arroz com galinha no cardápio das escolas.” Depois das aulas teóricas as merendeiras visitaram o refeitório da Companhia Brasileira de Mineração e Metalurgia — CBMM, a maior de Araxá. A idéia era mos- trar as semelhanças entre as instalações da mineradora e as cantinas escolares. “Assim elas perceberam que em um res- taurante corporativo profissional os funcionários seguem exatamente as mesmas regras de higiene e vestuário que exigi- mos delas. E se sentiram mais valorizadas”, afirma Daniella.

delas. E se sentiram mais valorizadas”, afirma Daniella . Para um futuro próximo, ela espera montar

Para um futuro próximo, ela espera montar um concurso de receitas entre as cantineiras utilizando apenas os produtos da pauta de alimentos adquiridos pela Secretaria de Educação. O resultado poderá ser editado num livro para mostrar, valorizar e incentivar ainda mais a cria- tividade das cantineiras. UM CARDÁPIO PARA

CADA TIPO DE ESCOLA

A criatividade permite variar bastante

o cardápio e a apresentação dos alimentos, fundamentais para manter o interesse das crianças pela merenda. Nesse sentido,

aliás, Adriana realizou em 2004 uma pesquisa com os alunos da rede pública para saber o que eles mais gostavam na merenda, o que não gostavam e quais alimentos gostariam que fossem introduzidos. Perguntar o que as crianças querem

e o que recusam não custa muito e pode trazer boas dicas para os gestores da alimentação escolar. “Fizemos descobertas

interessantes, como a baixa aceitação de sopas, polenta e macarrão ao alho e óleo”, diz. “Entre as sugestões havia, claro, alguns absurdos como coxinha de galinha e outras frituras. Mas muitos também pediram mais frutas e sucos naturais.” Além de pequenas alterações nas aquisições de alimentos, a pesquisa foi a base para a criação de quatro cardápios adapta- dos às diferentes necessidades de cada escola. O primeiro, distribuído nos Centros Municipais de Educação Infantil — CMEIs (ou creches), prevê café da manhã, almoço, lanche e jantar para os maiorzinhos, e sucos, papinhas e mamadeiras para os menores. O cardápio das escolas de Educação Infantil, com aulas em apenas um período, traz uma ou duas vezes por semana alimentos mais leves, como bolo de cenoura, sucos, vitaminas e gelatinas, em vez de refeições sólidas todos os dias. Já nas escolas rurais e em unidades localizadas nos bairros mais carentes, é oferecido sempre um lanche reforçado na entrada das crianças para somente depois ser servido o almoço ou o jantar dependendo do turno. Nas demais escolas segue

VONTADE,

INVESTIMENTO

E

RESULTADOS

o cardápio “normal” composto por uma refeição sólida e mais algum produto com

leite (como achocolatado ou vitamina) uma vez por semana. Um bom exemplo é o cardápio do CMEI Doralice Afonso de Azevedo. A diretora,

Maria Aparecida dos Santos Dalfior, explica que as mais de 200 crianças atendidas são divididas em turmas, que comem em turnos de 30 minutos para não superlotar

o refeitório. Enquanto as menores recebem papinhas e mamadeiras várias vezes ao

dia, as maiores têm horários mais definidos. Às 7h30 as primeiras turmas começam

a receber leite com chocolate ou puro. Depois, começam os turnos do almoço, quan-

do são servidas as refeições sólidas bem equilibradas com folhas, legumes, arroz, macarrão e carnes acompanhadas de sucos de polpa natural e frutas como maçã, banana, abacate e melancia. A partir das 13h30 é a hora do lanchinho com sucos, biscoitos e leite. Em seguida vem o jantar e para as crianças que ficarem até mais tarde é servida mais uma mamadeira. “Como estamos no meio de uma comunidade bastante carente, temos também a farinha multimistura como reforço, e as crianças com subnutrição recebem uma alimentação diferenciada”, conta Maria Aparecida. Na escola rural Eunicer Weaver, com cerca de 240 alunos em dois turnos, o leite com pão na entrada também é fundamental. “Tenho crianças que saem de casa às cinco horas da manhã e não poderiam esperar até o almoço em jejum”, diz a diretora Isabela Maria de Oliveira Martins. “Mesmo no período da tarde, as que moram mais longe ficam muito tempo dentro do transporte escolar e chegam famintas. Por isso temos que ter refeições reforçadas, com arroz, feijão, carne e salada, todos os dias.” Para não cair na mesmice, a escola conta com a criatividade da cantineira

na mesmice, a escola conta com a criatividade da cantineira Celimar Cristina Vieira . “A gente
na mesmice, a escola conta com a criatividade da cantineira Celimar Cristina Vieira . “A gente

Celimar Cristina Vieira. “A gente não pode dar os alimentos básicos preparados sempre do mesmo jeito para as crianças não enjoarem”, analisa. “No caso da batata, por exemplo, eu inventei um purê que é um sucesso quando eu faço. Eu preparo ele bem grosso, coloco molho de tomate por cima e salpico com queijo meia-cura ralado. É uma beleza e a gente fica feliz de ver a crian- çada comendo bem!” A nutricionista Daniella aplaude a idéia. “Se tiver o produto suficiente na despensa, pode inovar, sim”, diz. “Vamos escrever a receita e compartilhar com as outras cantineiras na próxima capacitação.”

ARAXÁ

MANTENDO O HOMEM NO CAMPO Outra iniciativa que ganhou força com o trabalho da antiga nutricionista Adriana foi a parceria com os pequenos produtores da Asshorgran, entidade que agrega 45 agricultores e é responsável por cerca de 35% a 40% do consumo de hortaliças do município de Araxá. A asso- ciação existe desde os anos 1980, mas a parceria com a prefeitura começaria apenas em 1992. Até 2001, no entanto, a qualidade e a variedade dos produtos entregues não eram as ideais. “Recebíamos as verduras na segunda com cara de resto da feira de domingo”, acusa Adriana. “Tivemos de fazer um longo trabalho também de conscientização e mudança cultu- ral, com conversas e palestras sobre a importância da boa nutrição para que os produtores se tornassem nossos aliados”. Muitas vezes ela chegou a recusar cargas inteiras de alface, tomate, batata, cenoura, repolho e beterraba. Com o tempo, os produtores passaram a entender que tinham uma responsabilidade social e a relação melhorou muito. A partir de 2003 e 2004 a pauta dos hortifrútis cresceu junto com a confiança mútua. A prefeitura passou a comprar também chicória, couve, brócolis, couve-flor, banana, maracujá, batata-doce, inhame, mandioca, mexerica, milho verde… “Com isso variamos mais o cardápio e as crianças passaram a consumir alimentos aos quais raramente têm acesso.” Atualmente, quase 100% dos hortifrútis consumidos nas escolas vêm da Asshorgran. São entre 2 mil e 2.500 quilos de vegetais por semana, que representam quase 30% da produção total da associação. O restante é vendido para a Cantina da Prefeitura, nas feiras livres manti- das pelos próprios produtores e even- tualmente na Ceasa. “Se hoje estamos no campo e animados é porque temos esse apoio da administração munici- pal”, afirma o vice-presidente da Asshorgran, Marcos Antonio Soares Lopes. “O preço que a gente cobra da prefeitura é mais justo do que o pago pela Ceasa, que judia muito do produ- tor. Se tiver que depender de Ceasa ele está perdido”, completa o presidente da associação, Jordelino José Carneiro Neto. “Por isso, levamos os produtos

perdido”, completa o presidente da associação, Jordelino José Carneiro Neto. “Por isso, levamos os produtos 70

VONTADE,

INVESTIMENTO

E

RESULTADOS

da melhor qualidade. Os filhos da gente também estudam na escola pública e temos orgulho de produzir para eles. Não chega a ser uma produção orgânica ainda, mas usamos o mínimo de inseticida possível e mesmo onde usamos defensivos temos apoio técnico total e orientação da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais — Emater/MG para proteger tanto o produtor como o consumidor.” Em 2007, a Asshorgran pretende vender seus produtos também para o Programa de Aquisição de Alimentos — PAA da Companhia Nacional de Abastecimento — Conab, que irá repassar parte da compra para a merenda escolar. “Com isso podemos ajudar a prefeitura a economizar ainda mais e man- ter a oferta de vegetais.” MAIS ECONOMIA E

MELHOR QUALIDADE

Jordelino explica que a associação partici-

pa de um processo de licitação para vender à prefeitura. O custo mais baixo, ou o “justo e solidário”, segundo ele, é garan- tido por meio de um levantamento de preços médios de mercado feito nas Ceasas de Uberlândia e de Belo Horizonte, mais um custo estimado de frete, e de três ou quatro grandes supermercados da praça. A tabela é revista toda semana sob a supervisão da Emater, do Procon e da Secretaria da Agricultura. “Nós vendemos um pouco abaixo e garantimos a qualida- de”, assegura. Hoje quem “vai às compras” na associação é a nova nutricionista da prefeitura. Toda quarta-feira os produ- tores se reúnem na feira para verificar o que poderão fornecer para a prefeitura na semana seguinte. A secretária da Asshorgran leva a relação para Daniella, que informa o que pretende comprar na semana seguinte e em que quantidade. Geralmente são adquiridos um tipo de verdura e três de legumes. Quando disponível, também são encomendadas frutas. A cada 15 dias há ainda uma compra de queijos meia-cura produzidos por alguns associados. Os produtores então verificam quem pode entregar os alimentos solicitados e se programam. Existe sempre uma margem de negociação, se for necessário. Por exemplo: a nutricionista pede 700 quilos de cenoura, mas os produtores só têm capacidade para entregar 500 quilos. Daniella, então, pode complementar a compra com 200 quilos de beterraba. A entrega é feita toda segunda-feira na Secretaria de Educação e de lá distribuída para as escolas e creches do município. E se algum produto não está rigorosamente dentro do esperado, a nutricionista devolve na hora. “Dá mais trabalho centralizar o recebimento, mas com isso garantimos que os produtos entregues sejam os mais frescos e de melhor qualidade. Temos que valorizar o que é nosso, produzido na nossa terra”, argumenta a secretária Marlene. “Tivemos algu- ma dificuldade com os outros comerciantes do município que também queriam vender para a prefeitura, mas eles trazem os alimentos de outras cidades e não conseguem entregar produtos tão frescos. Vocês precisam ver que beleza é uma segunda-feira de manhã aqui!”

ARAXÁ

TEMPERO FILANTRÓPICO E ECONÔMICO Também da época de

Adriana, a parceria com a FADA é mais um orgulho da administração de Araxá. A associação, fundada em 1984 para ajudar pessoas com deficiências de todo tipo, sempre teve problemas em levantar dinheiro para suas atividades, como acontece com a maioria das ONGs. Mesmo assim, desde 1999 proporciona atendimento psicológico, clínico, dentário, fonoaudio- lógico e fisioterápico para centenas de pessoas. A FADA também mantém diversas oficinas de artesanato cujos produtos são vendidos em bazares e ajudam a divulgar a causa e a sustentar o trabalho. Outra fonte de renda é a administração dos estacionamentos rotativos, a chamada Zona Azul, nas ruas da cidade. “Quando assumimos a Zona Azul, descobrimos que a prefeitura poderia, se quisesse, adquirir produtos de entidades assistenciais sem a necessidade de concorrências ou lici- tações”, explica a diretora administrativa e fundadora da associação, Maria da Conceição de Aguiar Santos. “A prefeitura faz simplesmente uma carta-convite, nós apresentamos uma proposta e fechamos um contrato de fornecimento.” De posse dessa informação, a coordenadora de projetos da FADA, Liliane Fonseca Stefano, buscou uma receita de tempero

caseiro de sua avó que poderia ser fabricado em larga escala dentro das instalações da associação. “Fizemos as contas e demons- tramos por meio de planilhas de custo que a prefeitura economizaria tempo e dinheiro se em vez de comprar alho e cebola in natura utilizasse o nosso tempero”, afirma Liliane. “A Secretaria de Educação testou, comprovou e aprovou. Hoje eles compram 500 quilos de tempero pronto por mês para a merenda escolar e a prefeitura adquire mais 300 a 400 quilos para a sua cantina. Com isso, conseguimos manter sempre quatro ou cinco pessoas, entre funcionários e atendidos, trabalhando na fábrica. E ainda temos um subsídio público garantido para continuar prestando cerca de 350 atendimentos por dia.” Por enquanto, a

prefeitura de Araxá é o único cliente dos temperos da FADA.

CAE X CANTINAS

O último e talvez mais importan-

te de todos os parceiros da Secretaria de Educação é o Conselho de Alimentação Escolar — CAE. O presidente do órgão,

Jair Braga Fernandes,

— CAE. O presidente do órgão, Jair Braga Fernandes , nunca teve qualquer relação com educação,

nunca teve qualquer relação com educação, escolas e nem sequer tem filhos estudando na rede pública. Mas, como lojista do ramo de materiais de construção, ele fazia parte do Sindicato dos Comerciantes de Araxá, e a Associação Comercial é uma das entidades que indica representantes para o CAE. Jair entrou para o conselho em 2003 e, desde as primeiras visitas, percebeu a seriedade com que eram realizadas as atividades do CAE e se entusiasmou. “Eu

VONTADE,

INVESTIMENTO

E

RESULTADOS

conhecia merenda escolar da minha terra, Presidente Olegário, onde funciona de forma muito precária”, admite. “E fiquei impressionado como as pessoas aqui levam a sério o uso do dinheiro público, acompanham as prestações de contas, fazem relatórios, sugestões e são sempre ouvidas e respeitadas pela secretaria”. O CAE faz uma reunião e quatro visitas por mês. Para não haver qualquer tipo de acobertamento de irregularidades, os nomes das escolas a serem visitadas são definidos aleatoria- mente na hora da visita, já dentro do carro cedido pela Secretaria de Educação. O acompanhamento das licitações, parcerias e prestações de contas também é feito mensalmente para poderem corrigir qualquer eventual problema logo no início. “Somos verdadeiramente parceiros da secretaria e principalmente das nutricionistas no trabalho cotidiano de conscienti- zação das cantineiras para questões como higiene, preparo dos alimentos e vestuário”, afirma Jair. “Eu acho que quando o CAE realmente funciona ele dá até força para as solicitações da nutricionista.” A grande briga que o CAE comprou em Araxá foi contra as “vendinhas ou cantinas” que comercializavam refrigerantes, guloseimas e frituras dentro das escolas. “Nós participamos de um curso para conselheiros com o pessoal do FNDE em Belo Horizonte há algum tempo, e a questão das vendinhas era o assunto número dois da discussão, só perdia para a merenda em si”, conta. O trabalho do CAE e das nutricionistas por uma alimentação mais saudável nas escolas pode ser totalmente comprometido se as crianças tiverem acesso fácil dentro do ambiente escolar a produtos de grande apelo comercial e sem nenhuma preocupação com a saúde. “Teve uma hora em que algumas diretoras de escola queriam ver o capeta mas não me ver na frente delas, porque elas diziam que a cantina era importante para arrecadar dinheiro para pequenas despesas da escola e para dar liberdade de escolha aos alunos”, lembra Jair. “Mas com muita luta, e para não sermos chamados de radicais, conseguimos limitar as vendinhas para apenas duas vezes por semana e cortamos praticamente a zero os doces, refrigerantes e frituras.” Um exemplo de escola que ainda tem vendinha é o antigo Centro de Atenção Integral à Criança — CAIC e atual Escola Municipal Professora Leonilda Montandon. Do projeto original dos CAICs, escolas de tempo integral implanta- das na década de 1990, restaram apenas os grandes pré- dios de concreto. No caso da EM Profa. Leonilda Montandon, as dezenas de salas são hoje ocupadas por mais de mil alunos em três turnos. Como é muita gente para alimentar no refeitório, as turmas são divididas em vários horários de almoço e jantar. “Estou há 18 anos na rede pública e posso afirmar que a alimentação realmente melhorou muito de uns seis ou sete anos para cá”, afirma

rede pública e posso afirmar que a alimentação realmente melhorou muito de uns seis ou sete

ARAXÁ

a diretora, Sueli Aparecida Ramos Silva. “Tanto é assim que há dez anos só uns 40% ou 50% dos alunos comiam na esco-

la e hoje é quase a totalidade. A gente faz propaganda do lanche da escola para os pais, informando que o cardápio aqui

é nutritivo e saudável.” Sueli também elogia o trabalho das cantineiras, que estão mais bem preparadas e mais motivadas.

“Elas servem bem os pratos e preparam os alimentos com amor”, atesta. “São verdadeiras educadoras, tratando o aluno com respeito e carinho. Se a criança se sente acolhida, vai querer experimentar a comida da escola.” De fato, a maior parte das crianças entra na fila da merenda gratuita, mas algumas preferem pagar R$ 2 por um hambúrguer com alface e toma- te e um copo de suco artificial. Sueli

com alface e toma- te e um copo de suco artificial. Sueli explica que a carne

explica que a carne é assada, não frita, e justifica a atividade: “Procu-

ramos vender sempre alimentos naturais e sucos, e o dinheiro é utilizado para consertos e outras atividades na escola”. O argumento, contudo, é rejeitado pela Secretaria de Educação e pelo CAE, que afirmam existirem outras verbas próprias para esses fins, sem a necessidade das vendinhas. Como se vê, o trabalho com alimentação escolar em Araxá está muito bem encaminhado, mas há sempre alguns pontos

a acertar e inovações a serem implementadas. “Temos orgulho do nosso pioneirismo em várias áreas, inclusive no cuidado

com a alimentação”, afirma o prefeito Toninho. “Somos, por exemplo, a primeira cidade de Minas Gerais a implantar um Conselho de Segurança Alimentar. Temos uma estrutura paralela à prefeitura de grande envolvimento comunitário e fun- cionando bem. Isso facilita muito o trabalho do administrador, porque ninguém resolve os problemas sozinho.” As par- cerias com organizações da sociedade civil que atuam com crianças e adolescentes devem avançar ainda mais. O prefeito tem na manga três novos projetos a serem implantados em 2007. Por enquanto ele divulga apenas um: a introdução do leite materno na pauta de alimentos distribuídos aos bebês mais necessitados dos CMEIs. Isso é possível devido à instala- ção de um moderno banco de leite no Centro de Atendimento à Mulher e a um convênio com o Corpo de Bombeiros, que recolhe o leite na casa das doadoras.

PATOS (PB)

ESTRATÉGIA PARA REVERSÃO

Uma alimentação escolar com qualidade nutricional significa muitas vezes investir em higiene e em infra-estrutura. Como melhorar a merenda?

Patos (PB) População 91.761 Área da unidade territorial (km²) 513 Índice de Desenvolvimento Humano

Patos (PB)

População

91.761

Área da unidade territorial (km²)

513

91.761 Área da unidade territorial (km²) 513 Índice de Desenvolvimento Humano Municipal, 2000

Índice de Desenvolvimento Humano Municipal, 2000

Municípios do estado da Paraíba

Fonte: IBGE, Resultados da Amostra do Censo Demográfico 2000 — Malha municipal digital do Brasil: situação em 2001. Rio de Janeiro: IBGE, 2004

0,494 a 0,555 (47)do Brasil: situação em 2001. Rio de Janeiro: IBGE, 2004 0,556 a 0,575 (44) 0,576 a

0,556 a 0,575 (44)em 2001. Rio de Janeiro: IBGE, 2004 0,494 a 0,555 (47) 0,576 a 0,602 (45) 0,603

0,576 a 0,602 (45)de Janeiro: IBGE, 2004 0,494 a 0,555 (47) 0,556 a 0,575 (44) 0,603 a 0,626 (44)

0,603 a 0,626 (44)0,494 a 0,555 (47) 0,556 a 0,575 (44) 0,576 a 0,602 (45) 0,627 a 0,783 (43)

0,627 a 0,783 (43)0,556 a 0,575 (44) 0,576 a 0,602 (45) 0,603 a 0,626 (44) Maior IDHM do Estado

Maior IDHM do Estado

0,494

Menor IDHM do Estado

0,783

IDHM de Patos

0,678

Fonte: Atlas do desenvolvimento Humano no Brasil, 2000 — PNUD/ONU.

do desenvolvimento Humano no Brasil, 2000 — PNUD/ONU. Experiência premiada na categoria Região Nordeste –

Experiência premiada na categoria Região Nordeste – 2006

Das 70 escolas do município de Patos, 25 estão na zona rural. O cardápio contém alimentos e pratos típicos do nordeste, como rapadura e ruba- cão (baião de dois). O município fez parcerias com a Vigilância Sanitária para a realização de palestras educativas e pesquisas sobre a utilização do xique-xique, planta típica do semi-árido nordestino, na alimentação humana.

Número de escolas municipais (pré-escola e ensino fundamental)

78

Receita municipal

R$ 38.491.257,38

Recursos transferidos pelo FNDE

R$ 321.103,80

Complementação do município para compra de alimentos

R$ 48.489,71

Alunos atendidos

10.079

Refeições servidas

1.797.800

Fonte: Prêmio Gestor Eficiente da Merenda Escolar, 3ª edição (2006) — dados referentes a 2005.

ESTRATÉGIA

PARA

REVERSÃO

“BOLACHA E RAPADURA”

Na segunda metade do século 17, a criação de gado bovino esparramava-se pelos sertões

do Nordeste. Foi quando se deu a ocupação do lugar onde surgiu, um pouco mais adiante, a cidade de Patos, no interior da Paraíba. O local se revelaria estratégico no futuro. Hoje, com cerca de 100 mil habitantes, o município é um importan- te entreposto comercial que exerce influência e atração sobre dezenas de municípios próximos. Mas não foi por isso que ganhou notoriedade há poucos anos. E sim por ter se tornado uma das capitais nordestinas da prostituição infantil, do tráfico e do consumo de drogas. Na época, o noticiário despertou Brasil afora, em pessoas dignas, um previsível sentimen- to de repulsa. Mas, como sempre, o assunto não tardou a resvalar das manchetes dos jornais para o esquecimento.

Os negócios ilegais, longe de ser privilégio de Patos, seguem imperturbáveis, fora os acidentes de percurso. Ninguém igno- ra. Mas a maioria silenciosa permanece de braços cruzados. Embora raivosa, parece reduzida à impotência diante da for- midável coleção de mazelas do país. Contudo, em Patos, uma nova administração municipal assumiu em 2005 decidida

a cumprir suas obrigações e fazer o que estivesse a seu alcance para combater o crime. Como o arsenal das prefeituras é

limitado para esse tipo de enfrentamento, a primeira providência seria tirar as crianças da terra de ninguém, que são as ruas, e dar-lhes a proteção das salas de aula. Nessa estratégia, a alimentação escolar teria papel de destaque, enquanto chamariz para as mais carentes. No município, a merenda não valia grande coisa até o final de 2004. Para os críticos, que tendem a exagerar, o cardápio da rede pública se restringia “a bolachas e pedaços de rapadura”. Se o problema fosse apenas a escassez de gêneros e a monoto- nia da merenda, a solução seria bastante simples. Contudo, o vereador José Mota Victor,

bastante simples. Contudo, o vereador José Mota Victor , secretário de Educa- ção do município em

secretário de Educa- ção do município em 2005 e 2006, descreve o quadro geral do setor como lastimável no início da nova gestão. Tudo

estava para ser feito ou recuperado. Assim, a prefeitura forneceu uniformes e material escolar para as crianças, construiu quadras esportivas nas unidades de ensino, reformou e ampliou cozinhas, que ganharam pisos de cerâmica, azulejos nas paredes, pias de aço inoxidável e despensas. E canalizou água para onde não havia.

A estrutura da merenda mudou de forma radical, com a adoção de um modelo descentralizado: os recursos para a aquisição

de alimentos são depositados nas contas dos conselhos escolares. As diretoras se encarregam das compras, procurando pro-

PATOS

dutos de qualidade no mercado local pelo menor preço. Para implantar o sistema, primeiro foi necessário sacudir os conse- lhos escolares da letargia em que viviam mergulhados. O conjunto dessas e de outras ações deu resultados significativos em pouco tempo. Graças a eles, antes de retornar à Câmara Municipal, Mota Victor pôde comemorar a redução da taxa de eva- são escolar e a conquista de dois prêmios: o Cata-Vento, concedido à Secretaria de Educação de Patos pelo Fórum Estadual de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil, em parceria com a Organização Internacional do Trabalho, e o Gestor Eficiente da Merenda Escolar, da Ação Fome Zero. BOA

PARCERIA

A nutricionista Lamara Moura de Araújo esta-

va no Tocantins, trabalhando em um hospital, às vésperas do ciclo de mudanças que passaria a limpo a merenda de Patos. Em fins de 2004, ela e o noivo, ambos patoenses, resolveram se casar na terra natal. E acabaram desistindo do Tocantins:

Lamara foi contratada pela prefeitura para coordenar o sistema de alimentação escolar do município. Ao assumir as novas funções, levou um susto com o estado das escolas. Segundo ela, a falta de higiene era particularmente chocante. O melhor exemplo foram os reservatórios de água. Mobilizados para a inspeção e limpeza das caixas, funcionários da Vigilância Sanitária mergulharam até às canelas em sedimentos formados pela acumulação de barro e material orgânico. Outra marca do descaso eram os ratos e insetos, encontrados em profusão nas escolas. Enquanto formulava um cardápio unificado para a rede pública, a primeira de suas metas, Lamara

para a rede pública, a primeira de suas metas, Lamara explicou ao secretário Mota Victor que,

explicou ao secretário Mota Victor que, além das medidas sanitárias, a reforma das cozinhas se impunha como tarefa essencial e urgen- te. Essas obras seriam concluídas no final de 2006. Em sua área de atuação, a nutricionista desenvolveu o trabalho com o apoio de cozinheiras, professores e diretoras. Das merendeiras exigiu o uso de touca e avental, passando em seguida à capacitação dessas profissionais. O primeiro curso foi dado logo em abril de 2005: “Alimente-se bem com 1 real”, do Serviço Social da Indústria – Sesi, que ensina normas de higiene e como fazer merenda saborosa e barata. No cardápio, Lamara procurou introduzir diversos itens regionais. Bolachas e rapadura não sumiram, mas passaram a ter companhia:

arroz com leite, mungunzá (canjica de milho doce ou salgada) e o arrubacão, que se traduz como baião-de-dois incremen- tado com leite, carne bovina e queijo — o verdadeiro prato de resistência da cozinha local. A merenda também mudou em termos de logística. A “escolarização” eliminou a necessidade de se ter um grande armazém

ESTRATÉGIA

PARA

REVERSÃO

central, além da preocupação com a guarda de produtos perecíveis. Mesmo assim, a Secretaria de Educação providenciou um depósito exclusivo para os gêneros alimentícios destinados às escolas rurais e à Educação de Jovens e Adultos – EJA, que continuam sob sua responsabilidade direta. Antes, os escassos mantimentos para a alimentação escolar ficavam arma- zenados junto com materiais de limpeza e outros produtos — prática nada recomendável, sob vários aspectos. E Lamara Moura agora tem mais duas colaboradoras: a nutricionista Maria Margarida Gonçalves, que ficou encarregada das creches da prefeitura, e Denise Dantas de Morais,

das creches da prefeitura, e Denise Dantas de Morais , como fiscal. Denise é bem familiarizada

como fiscal. Denise é bem familiarizada com o ambiente escolar,

pois já foi diretora-adjunta em uma escola. O núcleo da merenda tem ainda a colaboração permanente de dois bons parceiros — a Vigilância Sanitária e o Conselho de Alimentação Escolar — CAE. Até 2004, o CAE só existia no papel. Agora é presidido pelo pedreiro José Ilton Batista, que não tem vocação para ser mero figurante no cenário: fora o CAE, participa do Conselho de Segurança Alimentar, do Conselho Municipal de Saúde e preside a União das Associações Comunitárias de Patos e Região, que reúne cerca de 70 dessas entidades. José Ilton confessa que nada sabia sobre alimentação escolar. Mas não demorou a aprender. Com os demais conselheiros, implantou um calendário para as reuniões do grupo, visitou escolas, apontou falhas na armazenagem dos alimentos, deu sugestões para o cardápio e degustou pratos. Reeleito em 2007, por mais dois anos, quer intensificar as ações do conselho. Para isso já pediu apoio à prefeitura. A atual secretária de Educação, Márcia Araújo Mota,

A atual secretária de Educação, Márcia Araújo Mota , pensa de modo semelhante: pretende manter o

pensa de modo semelhante: pretende manter o que está funcionando bem e avan- çar, pois ainda há muito o que fazer nas escolas da rede pública. Ao todo são 70 unidades, freqüentadas por 12 mil alunos, mais oito creches. FÁBRICA

COMUNITÁRIA

Na área urbana, a descentralização da merenda trouxe

mais trabalho para as escolas. No entanto, esse acréscimo de tarefas não é encarado como transtorno, pelo menos no caso da professora Jusilene Pereira Tibúrcio, diretora da Escola Maria das Chagas Candeia. “A comunidade é pobre, mas nossa merenda tem alta qualidade, essencial para o bom desempenho dos alunos em sala de aula.” No tocante à merenda,

PATOS

Jusilene definiu suas próprias atribuições com o Conselho Escolar, no início de 2005, quando assumiu a direção da unida- de. Ela organiza as licitações anuais para a compra de alimentos, realizadas por meio de cartas-convite, endereçadas às casas comerciais de Patos, que se obrigam a entregar as compras. Jusilene

de Patos, que se obrigam a entregar as compras. Jusilene faz os pedidos uma vez por

faz os pedidos uma vez por semana, de acordo com o cardápio, pagando ao final do mês, contra a

emissão de notas fiscais. Para isso, os recursos do PNAE e a contrapartida da prefeitura são depositados em conta bancária do Conselho Escolar. Jusilene diz que o sistema funciona muito bem: “Nossos produtos são de primeira, porque compramos como se fossem alimentos para nossa família”. E a família escolar dessa professora, que ingressou no magistério em 1985, é bem numerosa — são 230 crianças dos primeiros anos do Ensino Fundamental, mais 40 alunos da EJA. Recém-chegado, o mais velho, com 80 anos, estava orgulhoso no começo de 2007, pois aprendera a escrever seu nome em poucos dias.

A prefeitura responde pelo abastecimento das 24 escolas rurais, pelas quais circula a supervisora

das 24 escolas rurais, pelas quais circula a supervisora Rita de Cássia Alves , encarregada da

Rita de Cássia Alves, encarregada da orientação pedagógica e do planejamento didático nessas unidades. Seu trabalho também está vinculado à

merenda. Ela traz sugestões e notícias do campo para a nutricionista. Nas escolas, estimula os professores a seguir o cardápio

e verifica a aceitação dos pratos pelas crianças, sugerindo mudanças, eventualmente. Essas ocasiões são raras, segundo ela,

pois a merenda tem sido bem aceita. A 18 quilômetros de Patos, no distrito de Santa Gertrudes, a cozinheira Terezinha Quirino de Lima diz que é isso mesmo. Veterana, Terezinha atravessou o reinado das “bolachas com rapadura”, mas agora serve pratos apetitosos à minúscula turma da professora Cássia Maria da Silva, na Escola Francisco Melquíades. São dez alunos do 2.º ao 5.º ano (antiga 1.ª à 4.ª série) do Ensino Fundamental, que têm o arrubacão como um de seus favoritos. Ali, os arrombamentos constituem o único motivo de preocupação atualmente. A escola já foi invadida algumas vezes, conta

a professora Cássia. O fato é compreensível, pois se trata de escola do sertão nordestino, sujeito a secas e a carências profun- das. A despeito do pequeno número de alunos, a manutenção da unidade se justifica, pois ela primeiro existiu como sonho para a comunidade, durante 30 anos. Além disso, construída em 1993, com duas salas de aula, a Francisco Melquíades tem sido o centro da vida comunitária. “Por isso cuidamos bem dela”, diz a faxineira Josimar Fernandes Rodrigues. Na escola se realizam reuniões e cerimônias religiosas. E uma das salas serve de ambulatório para atendimento médico e dentário.

ESTRATÉGIA

PARA

REVERSÃO

Em instalação contígua funciona a fábrica de polpas de frutas da Associação Comunitária do Fechado, que tem Manoel Pereira da Silva na presidência, e Luzinete Quirino da Silva

da Silva na presidência, e Luzinete Quirino da Silva como secretária. A associação, fundada em 1988,

como secretária. A associação, fundada em 1988, foi inaugurada com 40 sócios. Restam 24. Os demais foram levados pelo êxodo rural, diz Manoel. Os remanescentes alimentam a fábrica com cajá, goiaba, acerola, manga e graviola, de acordo com a estação. A instalação é modesta, mas efi- ciente, tendo sido construída pela administração municipal anterior, em 2002, por meio de desembolso a fundo perdido. As máquinas, embora pequenas, ainda funcionam com certa margem de capacidade ociosa, o que permitiria um aumento da produção sem novos investimentos. O principal cliente tem sido a merenda escolar do município. Do faturamento total, 5% se destinam ao caixa da associação. O restante compõe parcela expressiva da renda dos sócios, todos produtores

familiares, dedicados aos cultivos de subsistência – milho, feijão e arroz são os mais importantes. Cerca de 200 pessoas se beneficiam das atividades da fábrica, calcula Manoel. Como os demais sócios, ele nasceu no Fechado, e afirma que dali

não pretende sair, pois as cidades já não têm muito a oferecer.

XIQUEXIQUE NA COZINHA

Em 2007, na Comunidade

de Conceição de Baixo, a dez quilômetros de Patos, alguns membros da associação local iniciaram a primeira experiência com o Programa de Aquisição de Alimentos — PAA, uma das ações do Fome Zero. O coordenador do programa é Ozenildo da Nóbrega Pereira, funcionário público que se esforça para difundir a modalidade Compra Direta do Agricultor. A prefei- tura cadastra os interessados. Os aprovados têm uma cota anual de produtos a entregar, de acordo com determinados padrões de qualidade. O preço é definido segundo os níveis praticados no mercado. A presidenta da associação, Edmunda Alves de Medeiros, com o marido, Damião, e o filho, Marcos, produzem doce de leite, feijão e mel, que é considerado medicinal. As abelhas se nutrem das floradas de angico, muçambê e aroeira. A família assumiu o compromisso de

medicinal. As abelhas se nutrem das floradas de angico, muçambê e aroeira. A família assumiu o

PATOS

fornecer mel e doce de leite à Secretaria de Ação Social do município, para distribuição entre as instituições filantrópicas como a APAE e a Casa do Idoso. A merenda escolar consumirá o feijão. Ao PAA somam-se outras iniciativas da prefeitura com o objetivo de evitar o êxodo rural. A evidência de que as cidades já esgotaram sua capacidade de absorver os migrantes persegue o prefeito Nabor Wanderley da Nóbrega Filho. “Manter o homem no campo deve ser uma das preocupações dos responsáveis pela administração pública, em qualquer nível”, diz ele. O transporte escolar, a eletrificação rural, a construção de açudes e o apoio às atividades no campo ajudam. Em Patos,

a prefeitura também prepara a terra e dá assistência técnica aos pequenos agricultores. Mas a dificuldade persiste. “Moramos numa região onde há dois anos de chuva, alternados com outros tantos de seca, fator que já agrava a situação. Se não houver um mínimo de condições, as pessoas abandonam a terra e vão para as cidades.” Foi o que aconteceu nas últimas décadas. Primeiro com a destruição das lavouras de algodão pela praga do bicudo, que desempregou muita gente. Patos simplesmente inchou, ao exercer forte atração sobre as populações vizinhas. As cidades do entorno perderam cerca de metade dos habitantes, enquanto ela crescia na mesma proporção. Nabor exemplifica: “O município de São José de Espinharas, que tinha cerca de 12 mil habitantes em 1980, hoje tem cinco mil. Ao mesmo tempo, a população de Patos dobrou. Parte das pessoas que deixaram o campo e as cidades vizinhas veio para cá, onde é difícil conseguir emprego. A prostituição, as drogas e a violência vêm daí”. O prefeito avalia que nesse aspecto a cidade melhorou. Os pontos notórios de prostituição foram eliminados, com a ajuda do Ministério Público. A Secretaria de Ação Social tem agido principalmente na retirada de crianças das ruas, apoiada por algumas entidades, como as pastorais da Igreja Católica. O município se prepara para abrir uma casa e cuidar desses meninos e meninas, sem deixar de chamar os pais às suas responsabilidades. A alimentação escolar, promete Nabor, continuará a receber atenção especial de todos os envolvidos. Inclusive dele mesmo, que costuma ir a escolas na hora da merenda, quando aproveita para examinar as cozinhas, provar a comida e conversar com as merendeiras e as crianças. O CAE seguirá como peça importante do sistema. “A prefeitura não interferiu na formação e nem nas ações do conselho, que é independente e tem funcionado muito bem. Isso se dá, da mesma forma, com os Conselhos de Educação, Saúde e Segurança Alimentar.” Segurança alimentar, crucial na vida das populações pobres, tem um capítulo interessante na história de Patos. O agrôno- mo Francisco Soares de Lima (o Chico Velho), funcionário da Secretaria de Agricultura, encasquetou a idéia de experimen- tar o xiquexique na cozinha, para oferecê-lo como alimento aos habitantes da região. Como se sabe, as cactáceas em geral,

e o xiquexique em particular, desenvolvem-se muito bem no semi-árido nordestino. São plantas extraordinárias, armadas

pela evolução para enfrentar as asperezas de solos pobres e secos. Já existe uma série de trabalhos técnicos sobre o apro- veitamento do xiquexique na alimentação do gado. E a palma é cultivada com essa finalidade.

ESTRATÉGIA

PARA

REVERSÃO

ESTRATÉGIA PARA REVERSÃO Chico Velho ouvira de pessoas mais velhas que muita gente havia escapado da

Chico Velho ouvira de pessoas mais velhas que muita gente havia escapado da morte por inanição comendo xiquexi-

que durante a terrível seca de 1877, talvez a mais desastrosa de que se tem notícia. Os flagelados daquela época colhiam

a planta, tiravam os espinhos, cortavam a polpa em fatias e

a cozinhavam com água e sal, como se faz com as batatas.

Preparavam também uma sopa, enriquecida com a carne de alguma caça eventual: tatus, teiús e outros lagartos meno- res. Informado pela tradição, Chico Velho, com o técnico agrícola Francisco Duarte de Lima, consultou a bibliografia disponível, reuniu dados e convidou a nutricionista Lamara Moura a participar dos experimentos, também como res-

ponsável pelas análises nutricionais. A cozinha experimental produziu dois pratos salgados: um cuscuz e uma sopa, enriquecida com temperos, couve e um pouco de costela bovina. De lá saíram ainda alguns doces e um surpreendente sucedâneo para o café. O xiquexique, rico em fibras e carboidratos, apresenta bom teor de proteínas e nenhum lipídio. Lamara diz que a sopa tem gosto de repolho, embora não se possa exagerar na quantidade de polpa de xiquexique, que tem sabor forte. “Já o doce é realmente muito bom, parecido com o de mamão.” Realizada a proeza, Chico Velho não deixou por menos e lançou um desafio, bem ao modo do sertão: “Há quem diga, sim senhor, / que o Nordeste é sem valor. / Oxalá que venha ver: / sua façanha, sua riqueza; / na sapiência o brilho, / na consciência, a grandeza”.

APUCARANA (PR)

EM TEMPO INTEGRAL

A decisão política de priorizar a educação aumentou o investimento da prefeitura na merenda escolar. Como se faz isso?

Apucarana (PR) População 107.827 Área da unidade territorial (km²) 558 Fonte: IBGE, Resultados da Amostra
Apucarana (PR) População 107.827 Área da unidade territorial (km²) 558 Fonte: IBGE, Resultados da Amostra

Apucarana (PR)

População

107.827

Área da unidade territorial (km²)

558

Fonte: IBGE, Resultados da Amostra do Censo Demográfico 2000 — Malha municipal digital do Brasil: situação em 2001. Rio de Janeiro: IBGE, 2004

Índice de Desenvolvimento Humano Municipal, 2000

Municípios do estado do Paraná

0,620 a 0,707 (85)Humano Municipal, 2000 Municípios do estado do Paraná 0,708 a 0,732 (82) 0,733 a 0,751 (79)

0,708 a 0,732 (82)2000 Municípios do estado do Paraná 0,620 a 0,707 (85) 0,733 a 0,751 (79) 0,752 a

0,733 a 0,751 (79)do estado do Paraná 0,620 a 0,707 (85) 0,708 a 0,732 (82) 0,752 a 0,774 (81)

0,752 a 0,774 (81)0,620 a 0,707 (85) 0,708 a 0,732 (82) 0,733 a 0,751 (79) 0,775 a 0,856 (72)

0,775 a 0,856 (72)0,708 a 0,732 (82) 0,733 a 0,751 (79) 0,752 a 0,774 (81) Maior IDHM do Estado

Maior IDHM do Estado

0,620

Menor IDHM do Estado

0,856

IDHM de Apucarana

0,799

Fonte: Atlas do desenvolvimento Humano no Brasil, 2000 — PNUD/ONU.

do desenvolvimento Humano no Brasil, 2000 — PNUD/ONU. Experiência premiada na categoria Região Sul – 2005

Experiência premiada na categoria Região Sul – 2005

Apucarana oferece 3 refeições aos alunos pois eles permanecem em horário integral nas escolas públicas; adquire frutas e legumes dos produtores assentados na vila rural. O município desenvolve projetos de pesquisa para introduzir novos alimentos e faz campanha para evitar o desperdício.

Número de escolas municipais (pré-escola e ensino fundamental)

70

Receita municipal

R$

61.183.178,21

Recursos transferidos pelo FNDE

R$ 485.014,80

Complementação do município para compra de alimentos

R$ 721.852,06

Alunos atendidos

18.959

Refeições servidas

3.399.600

Fonte: Prêmio Gestor Eficiente da Merenda Escolar, 2ª edição (2005) — dados referentes a 2004.

EM TEMPO

INTEGRAL

EM TEMPO INTEGRAL EDUCAÇÃO E ALIMENTAÇÃO EM TEMPO INTEGRAL Considerada a “capital nacional do boné”, com

EDUCAÇÃO E ALIMENTAÇÃO EM TEMPO INTEGRAL

Considerada a “capital nacional do boné”, com metade da produção brasileira, além de outras importantes atividades econômicas como calçados de segurança, derivados de milho, café, brindes, produtos têxteis e um movimentado entroncamento ferroviário que leva aos portos de Santos e de Paranaguá, o município de Apucarana, no norte do Paraná, tem atraído pessoas de toda a região em busca de oportunida- des. Mesmo com mais de 120 mil habitantes e crescendo rapidamente, não há crianças pedindo esmolas nas ruas, que são

limpas e bem cuidadas, e os índices de violência são relativamente baixos. Os programas sociais atendem os cidadãos desde o ventre da mãe na chamada Escola da Gestante, onde são feitos exames pré-natais e as mulheres atendidas gratuitamen-

te recebem lanche, farinha multimistura e informações sobre a importância de amamentar os filhos por pelo menos seis

meses. Na outra ponta está o Clube da Sabedoria, onde os idosos também recebem alimentação e atendimento e podem

conviver mais de perto com os alunos da rede pública para transmitir os conhecimentos acumulados por toda uma vida.

O ponto de partida para essa “revolução silenciosa”, como denomina o prefeito Valter Pegorer,

silenciosa”, como denomina o prefeito Valter Pegorer , foi o Pacto pela Educação firmado entre a

foi o Pacto pela Educação firmado entre a prefeitura e diversas entidades da sociedade civil em 2001 e que prevê uma série de progra- mas articulados em torno da implantação do período de estudo integral nas escolas municipais. Desde o início do milênio o município outorgou a si o título de “Cidade Educação” e tem buscado com afinco fazer jus à expressão. Todo material de divulgação da prefeitura, os prédios oficiais, viaturas, propaganda e memorandos trazem o logotipo azul e amarelo do cidadão com um livro aberto à sua frente de modo a reforçar a imagem. Iniciativas de repassar informações, conhecimento e capacitação aos moradores da cidade estão por toda parte, atingindo das mulheres gestantes às crianças, jovens,

APUCARANA

adultos e idosos. Mas para educar o cérebro é preciso alimentar o corpo. E a merenda escolar se insere neste contexto de várias formas, seja diretamente nas três refeições diárias oferecidas aos alunos do 2.º ao 5.º ano (antiga 1.ª a 4.ª série) da rede pública (todos estudam das 7h30 às 16h30), por meio de projetos como o Prato Limpo (para evitar desperdício de alimentos), do Hortão Comunitário (onde a população carente pode pagar cestas básicas e serviços municipais com trabalho), da aquisição de verdu- ras e legumes das Vilas Rurais do município, da parceria com o Governo Federal para a Compra Direta de produtos da agricul- tura familiar na região pela Conab, ou ainda da capacitação permanente das merendeiras para o aproveitamento total dos ali- mentos e da inclusão no cardápio das escolas de produtos diferenciados, como rapadura, iogurte de soja, pão com farinha multimistura e a planta ora-pro-nóbis. NÚMEROS PRA NINGUÉM

BOTAR DEFEITO

Ex-padre, pedagogo e pela terceira vez à

frente do município, o prefeito Padre Valter tem na educação a grande estrela de sua administração. E os resultados são mesmo impressionantes. Segundo o secretário de Desenvolvimento Humano e responsável pela área de educação, Cláudio Aparecido da Silva,

pela área de educação, Cláudio Aparecido da Silva , a evasão escolar, por exemplo, caiu 27,7%

a evasão escolar, por exemplo, caiu 27,7% nos últimos cinco anos. Enquanto a média nacional de crianças que abandonam os estudos é de 6,8% e a do Paraná bate em 5,4%, em Apucarana ela não passa de 0,5%. Já o índice de alunos reprovados no município é de apenas 6,8% (12,5% de queda desde 2001), muito abaixo das médias nacional (19,2%) e estadual (14,8%). Ao mesmo tempo, o grau de aprendizado das crianças tem crescido substan- cialmente de acordo com os resultados da Prova Brasil, realizada pelo MEC em novembro de 2005 em mais de 40 mil escolas públicas de todo o país para avaliar o nível de conhecimento dos alunos em português e matemática. “Em Língua Portuguesa, a média da cidade de São Paulo para os alunos do 5.º ano foi de 160,42, a nacional, 172,91, e a de Campo Grande, que tirou o primeiro lugar, 191,15, sendo que a média das nossas escolas está próxima a isso, com 189,84, e as nossas oito escolas destaque chegaram a somar 215,6 pontos”, comemora Silva. “Em matemática estamos bem acima: a campeã das capitais foi Curitiba, com 195,34, São Paulo teve 166,86, a média nacional foi de 179,98, enquanto a média das nossas escolas foi de 198,44, e as nossas oito melhores escolas chegaram a 205,82.” Quem faz questão de explicar o conceito por trás do Pacto pela Educação e como sua visão humanista abrange toda a socieda- de é o próprio prefeito Padre Valter: “A educação é o grande instrumento de mudança de qualidade de vida da população.

EM TEMPO

INTEGRAL

É a porta de entrada para o desenvolvimento, que está calcado sobre quatro pontos: educação, produção, alimentação e saúde.

As pessoas educadas têm mais capacidade para produzir, seja numa empresa, numa cooperativa ou na zona rural. Produzindo,

elas têm condições de comprar os alimentos e também consumir cultura e conhecimento. Alimentadas, as pessoas têm mais

saúde. A saúde é o ponto de chegada, e estamos falando não apenas de ausência de doença física, mas, no conceito da

Organização Mundial da Saúde, o completo bem-estar físico, mental, espiritual, social, etc. É a realização pessoal, a felicidade.

E a missão do poder público, especialmente o municipal, é interpretar os sonhos da população e ajudá-la a alcançá-los. Quem

realiza é o próprio povo. Isso pode parecer uma utopia. A utopia, contudo, não é algo impossível de se realizar, mas o ideal

que se persegue. ESCOLAS ESTIMULANDO A ECONOMIA E A AÇÃO SOCIAL

Para o prefeito, a alimentação

escolar é um aspecto da educação. Não dá para analisar separadamente a merenda e os estudos, ainda mais quando se

estuda em período integral. Ele conta que, no início, algumas famílias não aprovavam a idéia do turno integral, dizendo

que teriam menos contato com os filhos, que não faltava comida em casa e que as crianças não precisavam ir à escola

para comer. “Tivemos de convencê-las de que os alunos comem porque estão na escola, e não o contrário”, diz Padre

Valter. “Além disso, a alimentação faz parte da educação, com a mudança dos hábitos alimentares para refeições balan-

ceadas com verduras e legumes que as crianças normalmente não comem em casa, mas sempre com cardápios compos-

tos por alimentos simples, que estão ao alcance das famílias.” A própria economia do município foi dinamizada com o

período integral, já que as mães têm agora mais tempo livre para trabalhar, estudar, etc. As escolas passaram a ensinar

o currículo normal pela manhã e desenvolveram 37 atividades extracurriculares no período da tarde, entre as quais estão

as hortas comunitárias já presentes em 15 das 37 instituições educacionais da prefeitura. A maior parte

Quando as secretar- ias municipais realizam um trabalho interdisciplin- ar os benefícios gerais são muito
Quando as secretar-
ias municipais realizam
um trabalho interdisciplin-
ar os benefícios gerais são
muito grandes. A qualidade
da alimentação escolar pode
ser a interseção entre as
várias secretarias.

das hortaliças consumidas nas escolas, contudo, não vem dos pátios escolares, mas do Hortão

Comunitário e das Vilas Rurais.

Dentro do mesmo conceito do Pacto pela Educação, em 2001 a administração de Apucarana

decidiu montar uma grande horta em um terreno que já pertencia à prefeitura mas estava sem

uso há anos. O objetivo principal era fornecer legumes e verduras frescos e sem agrotóxico para

a rede pública. Hoje 90% das beterrabas, cenouras, couves, mandiocas, carás, abóboras e alfaces

produzidos no Hortão são destinados à merenda dos quase 19 mil alunos das 70 escolas (incluin-

do as estaduais) atendidos pela prefeitura. O restante é levado para casa pelos próprios “agriculto-

APUCARANA

res”, isto é, cerca de 15 a 20 pessoas que trocam algumas horas de trabalho no campo por cestas básicas, remédios ou serviços como emissão de documentos e passagens de ônibus. A idéia é não dar o peixe, mas ensinar a pescar. “O Hortão é um pro- jeto da Secretaria de Ação Social, em conjunto com as Secretarias de Agricultura e de Desenvolvimento Humano, para ajudar os cidadãos mais necessitados — sem um assistencialismo que prende as pessoas ao governo — e ao mesmo tempo fornecer quase 20% das verduras e legumes consumidos nas escolas e creches do município”, explica o diretor do Departamento de Merenda Escolar, Disnei Leugi.

diretor do Departamento de Merenda Escolar, Disnei Leugi . Um único funcionário contratado pela prefeitura, o

Um único funcionário contratado pela prefeitura, o técnico agrícola Reginaldo Soler Fazio, cuida da horta e ajuda os cidadãos que aderem ao Programa de Assistência Social com Dignidade a plantar e colher os alimentos. “É um trabalho 95% manual, mas é simples e não precisa ser pesado”, explica. “Enquanto os homens podem capinar o mato e fazer o serviço mais duro, as mulheres podem, por exemplo, ajudar a lavar os legumes ou montar

as mudas no viveiro. FAMÍLIAS PLANTANDO E CRIANÇAS FORA DAS RUAS

Outra importante parcela dos

vegetais consumidos nas escolas, quase 80%, vem de cerca de 30 produtores das quatro Vilas Rurais de Apucarana. Desen- volvido pelo governo do Paraná nos anos 1990 para distribuir lotes de 5 mil metros quadrados com casinhas simples e man- ter os bóias-frias do estado morando na zona rural, o programa foi uma boa oportunidade para alguns agricultores cultivarem mais do que uma pequena roça de subsistência. Uma dessas pessoas é Ademir Pagotto,

de subsistência. Uma dessas pessoas é Ademir Pagotto , que há dez anos vive e trabalha

que há dez anos vive e trabalha na pioneira Nova Ucrânia. Diferente de seus vizinhos, desde o início ele preferiu ter sua própria horta e tentar vender a produção na cidade. “Foi a forma que eu achei de ter um pedacinho de terra para plantar milho verde e piaçava pra fazer vassouras, que eu oferecia de porta em porta. Era difícil porque a cidade é longe e a gente não consegue competir na feira com os grandes e com o pessoal da Ceasa. Também não tinha segurança nenhum a. Por isso, quando a prefeitura veio em 2001 querendo comprar verduras, só tinha uns quatro ou cinco agricultores em condição de produzir. Depois, vendo que pagavam direitinho, outros se interessaram. Só aqui na nossa vila temos uns 15 que vendem para a prefeitura.

EM TEMPO INTEGRAL Hoje tenho produção de repolho, pepino, mandioca e beterraba que vendo para
EM TEMPO
INTEGRAL
Hoje tenho produção de repolho, pepino, mandioca e beterraba que vendo para a Conab no
município de Mandaguari e forneço alface para a merenda em Apucarana. Mas se não fosse
a prefeitura comprar da gente eu não sei como ia ser, porque só com o Compra Direta
íamos passar apertado. A Conab paga no máximo R$ 2.500 por ano e eu já cheguei a
receber da prefeitura de Apucarana até R$ 2.800 em um mês. A média é de R$ 1.500
a R$ 1.800, dependendo da época.”
Pagotto explica que a cultura de alface é muito delicada, especialmente nos meses
de verão, quando o sol forte e as chuvas destroem as folhas frágeis da verdura.
“Aí tem que entender da arte e ter apoio de financiamento do Pronaf para comprar o
O armazena-
mento dos alimentos
exige cuidados técnicos e
higiênicos: o alimento não deve
ficar apoiado sobre o chão, o
ambiente tem que ser ventilado,
mas as entradas de ar protegidas por
telas para evitar a entrada de inse-
tos. A entrega direta do produto nas
escolas permite um alimento mais
fresco e diminui seu custo, mas
exige maior controle de
quem recebe.
sombrite que protege a plantação”, diz orgulhoso. “Não é aquele valor de estourar, mas
é
o justo porque a prefeitura faz uma cotação entre os preços do mercado, das quitandas e

da Ceasa. Quando eu estava correndo atrás de feira, não conseguia segurar um centavo. Agora

dá pra fazer uma previsão certinha pra não passar necessidade e contar com isso. No começo, quando o prefeito Padre

Valter quis fazer isso, teve muita gente que falou que não ia dar certo. Mas hoje você não vê mais criança pedindo em

supermercado, e não está pedindo porque está comendo na escola. Ver o depósito de alimentos da prefeitura enche a

Nossa parte, nós estamos fazendo e a melhor coisa

gente de alegria. Tem de tudo, verdura, legumes, arroz, macarrão

do mundo é você saber que está produzindo para um monte de criança comer!” O depósito do Departamento de

Merenda Escolar de Apucarana, coordenado pela chefe de divisão Benedita da Silva Tamura, centraliza todo o recebi-

mento dos alimentos adquiridos pela prefeitura, menos pão, leite, carne e alguns legumes entregues diretamente nas

escolas e creches. Os produtos do Hortão e das Vilas Rurais são retirados nos locais de produção — evitando que

os produtores tenham que se deslocar até a cidade —, passam pelo depósito e são distribuídos no dia seguinte para

as escolas.

A variedade de produtos que compõem a merenda na cidade é bastante grande e inclui ainda mel, pão caseiro, bolacha,

agrião, milho verde, rapadura, carnes de porco e de boi e doce de banana produzidos por 66 pequenos agricultores

familiares da região. Todos esses produtos são entregues sem custo para a prefeitura por meio do Programa de Aquisição

Direta de Alimentos da Conab, em parceria com o Governo Federal. Mesmo assim, e também por causa das aulas em

período integral, o município repassa para a alimentação escolar cerca de uma vez e meia o valor enviado mensalmen-

te pelo PNAE. Ao todo, a prefeitura investe 32% de sua arrecadação no setor de educação, o que permite várias outras

APUCARANA

inovações na merenda, como a introdução do iogurte de leite de soja, açúcar mascavo, pão enriquecido com farinha

multimistura e da plantinha ora-pro-nóbis. “Essa planta é uma espécie de ‘bifinho vegetal’, porque é composta em mais

de 25% por proteína”, explica a nutricionista Vera Lúcia São José Bormio.

explica a nutricionista Vera Lúcia São José Bormio . “Ela tem ainda vitaminas A, B e

“Ela tem ainda vitaminas

A, B e C, minerais como cálcio, fósforo e ferro e é uma grande fonte de ômega-3, uma substância importante na pre-

venção de infartos e no fortalecimento do sistema imunológico.” O vegetal e seu uso na culinária, aliás, têm sido um

dos principais assuntos dos cursos de capacitação realizados anualmente com todas as merendeiras da rede pública,

junto a temas mais tradicionais, como higiene na cozinha e aproveitamento de talos, folhas e sementes no cardápio

das escolas. PRATO LIMPO E ECONOMIA NO ORÇAMENTO

Todas essas inovações, contudo, pode-

riam representar apenas gastos extras para a prefeitura se os alunos não aprovassem as mudanças ou desperdiçassem os ali-

mentos. É aí que entra mais um programa inédito: o Projeto Prato Limpo. Coincidentemente ou não, o projeto também

começou devido à mudança do horário das aulas para o período integral. Em março de 2005, a professora Elsa Maria Vieira,

da Escola José Brasil Camargo, passou a dar aulas também à tarde, assumindo a Oficina de Formação Humana e almoçando

na escola. Vendo que as crianças estavam deixando muita comida no prato, ela decidiu passar para as classes um filme de

curta metragem chamado Ilha das Flores, feito em 1989 pelo cineasta Jorge Furtado. No documentário, os humanos têm que

esperar os porcos revirarem primeiro um lixão próximo a Porto Alegre para somente depois, por poucos minutos, receberem

O impacto nas crianças foi

imediato! Nas semanas seguintes, ela esperava as turmas terminarem de comer, pegava a bacia vermelha

onde eram jogados os restos do almoço e levava de sala em sala para mostrar o quanto se desperdiça-

va todos os dias: de dois a três quilos numa escola com 135 alunos. “A idéia era conscientizar os

alunos de que enquanto eles desprezavam alimentos frescos e de qualidade, tão importantes para

autorização dos seguranças do local para buscar restos de comida descartada

A comunidade escolar deve estar envolvida no projeto da prefeitura.
A comunidade escolar
deve estar envolvida no
projeto da prefeitura.

seu desenvolvimento, tinha gente disputando comida com os bichos”, diz Elsa.

Na mesma época, a nutricionista da prefeitura Vera Bórmio foi à escola para dar uma palestra

sobre boa alimentação e conheceu a experiência. “O grande problema era que as merendeiras pre-

EM TEMPO INTEGRAL paravam os pratos das crianças e muitas vezes punham mais comida do
EM TEMPO
INTEGRAL
paravam os pratos das crianças e muitas vezes punham mais comida do que elas queriam ou alimen-
tos de que elas não gostavam”, relembra. “O destino só podia ser mesmo o lixo.” Com o apoio
da Secretaria de Desenvolvimento Humano, elas conseguiram vasilhas para que os próprios
alunos se servissem de acordo com sua escolha de produtos dentro do cardápio e em quanti-
dade que não permitisse sobras, podendo repetir quantas vezes quisessem. A escola também
foi uma das pioneiras na introdução de garfo e faca de metal (até então as crianças usavam
Deve fazer parte do
trabalho de educação ali-
mentar a aprendizagem de
modos de comer, de escolha
dos alimentos e de preparo
dos pratos.
colheres), marcando uma grande evolução no respeito aos alunos e na educação alimentar.
Estava pronto o núcleo do Projeto Prato Limpo —Responsabilidade Social e Qualidade de Vida.
“Lembro-me bem do primeiro dia com os novos talheres”, conta a diretora da escola, Leila da Silva

Piacentini de Souza. “Eles ficaram emocionados, solenes, parecia que estavam em uma festa muito

chique.” Hoje é a bacia vermelha que foi descartada. Ela só é usada para os ossinhos quando é dia de frango. E os alunos

de Elsa criaram duas apresentações, uma de rap com percussão no próprio corpo e outra com uma paródia de uma música

sertaneja, para conscientizar os colegas de outras escolas sobre a importância de não desperdiçar comida e se alimentar

corretamente. O Projeto Prato Limpo já atinge 15 unidades educacionais e representa uma enorme economia no orçamen-

to do Departamento de Merenda Escolar. A Escola Juiz Luis Fernando Araújo, com 450 alunos, por exemplo, deixa de

cozinhar por dia em média sete quilos de arroz que não vão mais para o lixo!

Devido à boa qualidade dos alimentos, o preparo eficiente e o pouco desperdício, a prefeitura de Apucarana acabou aten-

dendo mais do que as 37 escolas de educação básica e fundamental e as 19 creches municipais. O Departamento de

Merenda Escolar da cidade também é o responsável pela alimentação dos alunos de 13 unidades da rede estadual no muni-

cípio e de quatro entidades assistenciais: o Abrigo do Menor, o Centro Educacional Profissionalizante Esperança — Cepes,

que atende meninos de rua, a creche Cemil e também a Associação de Pais e Amigos de Excepcionais — APAE. Nesta últi-

ma, por exemplo, 320 deficientes físicos e mentais (de bebês a idosos) também recebem ao menos três refeições por dia.

“Para o programa de merenda escolar, somos classificados como Escola de Educação Especial, e portanto nossos alunos

sempre tiveram direito à alimentação”, explica a diretora da instituição, Izabel Ortega.

explica a diretora da instituição, Izabel Ortega . “Mas como também somos uma entidade assistencial,

“Mas como também

somos uma entidade assistencial, recebemos doações e verbas de outras fontes, que complementam nossas necessidades.”

Ela conta que a qualidade, a quantidade e a variedade de produtos fornecidos pela prefeitura de Apucarana melhoraram

APUCARANA

muito nos quatro últimos anos. “Hoje recebemos carnes, verduras, frutas e até mel e açúcar mascavo, que são artigos mais difíceis. Portanto, temos que comprar apenas algumas bebidas e alimentos diferentes quando temos comemorações.” O departamento entrega ainda adoçantes e produtos dietéticos para as refeições de alunos diabéticos e suplementos ali- mentares especializados para atender a pacientes especiais. Com as crianças o dia inteiro na escola e os adultos mais pobres tendo a possibilidade de trabalhar no Hortão Comunitário para ter suas necessidades atendidas com dignidade, há anos as entidades do município não precisam mais fazer campanhas de doação de alimentos e roupas para os menos favorecidos. Quantos municípios no Brasil podem mostrar o mesmo?

CASTANHAL (PA)

VAIVÉM NA COZINHA

Quando a área territorial do município é grande, a distribuição da merenda é mais complexa. Como fazer em casos assim?

Castanhal (PA) População 134.496 Área da unidade territorial (km²) 1.029 Fonte: IBGE, Resultados da Amostra

Castanhal (PA)

População

134.496

Área da unidade territorial (km²)

1.029

Fonte: IBGE, Resultados da Amostra do Censo Demográfico 2000 — Malha municipal digital do Brasil: situação em 2001. Rio de Janeiro: IBGE, 2004

do Brasil: situação em 2001. Rio de Janeiro: IBGE, 2004 Índice de Desenvolvimento Humano Municipal, 2000

Índice de Desenvolvimento Humano Municipal, 2000

Municípios do estado do Pará

0,525 a 0,630 (30)Humano Municipal, 2000 Municípios do estado do Pará 0,631 a 0,662 (28) 0,663 a 0,680 (28)

0,631 a 0,662 (28)2000 Municípios do estado do Pará 0,525 a 0,630 (30) 0,663 a 0,680 (28) 0,681 a

0,663 a 0,680 (28)do estado do Pará 0,525 a 0,630 (30) 0,631 a 0,662 (28) 0,681 a 0,711 (30)

0,681 a 0,711 (30)0,525 a 0,630 (30) 0,631 a 0,662 (28) 0,663 a 0,680 (28) 0,712 a 0,806 (27)

0,712 a 0,806 (27)0,631 a 0,662 (28) 0,663 a 0,680 (28) 0,681 a 0,711 (30) Experiência premiada na categoria

0,663 a 0,680 (28) 0,681 a 0,711 (30) 0,712 a 0,806 (27) Experiência premiada na categoria

Experiência premiada

na categoria Região Norte – 2006

O município de Castanhal por meio do Programa de Incentivo à Comunidade Agrícola, comprou alimentos regionais, como farinha de tapioca, farinha de mandioca e açaí dos produtores rurais da região. Desenvolve a região e promove a cultura regional.

Maior IDHM do Estado

0,806

Menor IDHM do Estado

0,525

IDHM de Castanhal

0,746

Fonte: Atlas do desenvolvimento Humano no Brasil, 2000 — PNUD/ONU.

Número de escolas municipais (pré-escola e ensino fundamental)

91

Receita municipal

R$ 62.919.046,25

Recursos transferidos pelo FNDE

R$ 979.111,80

Complementação do município para compra de alimentos

R$ 187.958,58

Alunos atendidos

30.859

Refeições servidas

6.157.000

Fonte: Prêmio Gestor Eficiente da Merenda Escolar, 3ª edição (2006) — dados referentes a 2005.

Ovos e verduras foram adquiridos da Associação dos Moradores do Residencial Rouxinol. Há hortas em 15 das escolas, onde são realizadas atividades pedagógicas como semeadura, rega e colhei- ta. No cardápio, a valorização de hábitos regionais fica por conta da utilização de polpa de frutas regionais como cupuaçu, caju, acerola, manga e goiaba.

VAIVÉM

NA

COZINHA

VAIVÉM NA COZINHA

VAIVÉM NA COZINHA VAIVÉM NA COZINHA Alguns especialistas em nutrição e educação costumam dizer que não

Alguns especialistas em nutrição e educação costumam dizer que não é boa prática servir refeições a estudantes nos intervalos entre as aulas. Os alunos da Escola Municipal São João Bosco, no município de Castanhal, Pará, têm opinião diferente sobre o assunto, além de visível preferência por alguns itens da merenda. Dentre os mais votados figuram a sopa de carne moída com legumes, o baião-de-dois e a “maria isa- bela” — charque frito, cortado em pedacinhos, refogado com arroz e hortaliças. Uma delícia, garante a diretora Terezinha Barros da Silva.

delícia, garante a diretora Terezinha Barros da Silva . Não é de duvidar. Ali, quando um

Não é de duvidar. Ali, quando um dos sucessos do cardápio está na mira, os jovens das diversas turmas do 6.º ao 9.º ano do Ensino Fundamental sempre voltam à cozinha para reabastecer os pratos. O vaivém só pára quando as conchas ou escumadeiras, manejadas pelas merendeiras, nada mais resgatam do fundo de dois ou três panelões, antes repletos de um cozido fumegante. Mas, em Castanhal, onde também há grande variedade de alimentos mais leves na merenda, o gosto generalizado por refeições substanciosas se justifica por outros motivos. Cerca de 92% dos mais de mil alunos da São João Bosco, por exem- plo, moram na área rural. Pela manhã, parte desse contingente faz a viagem de casa à escola, que pode chegar a quase 50 quilômetros, com o estômago vazio. Os primeiros ônibus saem às 5h dos locais mais distantes, consumindo duas horas para completar o trajeto. A jornada também pode ser longa para os que estudam à tarde. Nesse contexto, fica um tanto difícil sustentar a tese da inconveniência de se servir um almoço a crianças ou adolescentes entre 9h e 10h. Ou um jantar por volta de 15h. Essa rotina foge dos padrões culturais brasileiros, mas se impõe pela necessidade. Poderá mudar mais adiante, caso venha a ser introduzido o café da manhã nas escolas. A diretora Terezinha sonha com isso.

CASTANHAL

Por enquanto ela faz o possível para evitar que os alunos mais carentes sofram distúrbios por falta do desjejum. Professores

e cozinheiras foram instruídos para observar os sintomas — estudantes de “cara branca”, principalmente — e providenciar

um lanche rápido. Pode ser um suco, leite, bolachas — o que estiver à mão. O café da manhã ainda não é uma realidade, mas a merenda em Castanhal progrediu de maneira notável a partir de 1997. Por coincidência, foi quando a professora Terezinha assumiu a direção da escola, onde começou a lecionar em 1991, o ano da inauguração da unidade. Naquela época, o sistema de alimentação dos estudantes era péssimo no município. Não havia merenda todos os dias, pois as des- pensas escolares se esvaziavam antes do final do mês. As provisões nem sempre eram de qualidade. Distribuíam-se cargas de suprimentos envelhecidos, além de produtos de gosto duvidoso, sem qualquer respeito para com os alunos. Eles costu- mavam rejeitar, por exemplo, certa mistura fabricada supostamente com banana, que deixava no ar um cheirinho indefi- nível, mas suspeito. De vez em quando acontecia de a despensa ter comida, mas não haver gás para cozinhar. Orientação técnica de nutricio- nistas? Nenhuma. Cursos para as cozinheiras? Nem pensar. Em tempos mais recuados, as coisas eram piores, conforme