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Motricidade, Cognição e Analfabetismo Motor

Paradoxo educacional

Para ele. da imagem e esquema corporais. evidenciando uma realidade na qual educar um ser integral não é uma prática comum ao professor desses segmentos. a educação escolar infantil e dos anos iniciais do ensino fundamental ainda dá pouca importância à atividade motora. e. tradicionalmente a sociedade tem o domínio da leitura. com a atualização do termo “debilidade motriz” para “debilidade psicomotora”. Não obstante. a palavra. da escrita e do cálculo como ápice do processo educacional. em 1909. O autor chama a atenção para o fato de ser o cognitivo um fator consequente e dependente do aspecto motriz. que. o status que a “inteligência” possui na educação tem gerado a necessidade da busca por ocupar o tempo fora da escola com reforço em . por fim. o aluno que por algum motivo não conseguir se destacar na escrita. construção espacial. não têm propiciado estímulos variados e nem reforçado as pouquíssimas aquisições motoras do aluno. traduzindo tal capacidade como principal parâmetro para se definir o grau de educação. passa por um processo de discriminação que começa na própria escola. o que Dupré. Isto nos leva a ressaltar a necessidade de reflexão sobre as atuais práticas educacionais.Introdução Mesmo com as várias referências científicas e a ênfase que vários autores dão ao movimento humano como fator importante no desenvolvimento cognitivo. Na verdade. já preconizava. o desenvolvimento psicomotor caracteriza-se por uma maturação que integra movimento. ritmo. propagando-se posteriormente para todo o seu meio social. o reconhecimento dos objetos. das posições. Para Coste (1992). De acordo com Guerrero (2002). falhas no desenvolvimento psicomotor estão sempre associadas a déficits intelectuais. de uma forma preocupante.

p. tv.. em sua afirmação: “[. de um lado. No que tange ao ofício de educar crianças. afeta em muito a capacidade de desenvolver até mesmo movimentos simples. a realidade apresenta-se. o que é retratado por Fonseca. constituindo-se em um analfabeto não apenas intelectual. De outro lado.21). acaba por reduzir a atividade natural infantil a poucas ações motoras livres. . também. somado às vantagens tecnológicas da vida contemporânea (computadores. da escrita e do cálculo. Isto. motor. Esta realidade de propensão à inatividade proporcionada inclusive pela própria escola na fase onde a motricidade é fator imprescindível. ou cursinhos específicos. numa pedagogia que ignora o fato do educando ser muito mais do que intelecto. videogames. mas.] a ausência de espaço e a privação de movimento é uma verdadeira talidomida da atual sociedade..matérias específicas. limitado a atividades que estão muito aquém de suas necessidades de educação integral. A não aceitação da necessidade de movimento e da experiência corporal da criança põe em causa as atividades instrumentais que organizam o cérebro” (Fonseca. com uma prática educacional fundamentada na busca do domínio da leitura. 1987. continuando na família (urbanização) e na escola. um ser biopsicossocial fragmentado. mergulhando a criança num mal tipicamente adulto nos dias atuais: o sedentarismo. etc).

vem a vida e muda todas as perguntas.Quando você pensa que sabe todas as respostas. Luís Fernando Verissimo .

não se pode falar em desenvolver no ser humano um processo de estímulos voltados à projeção de seus potenciais sem considerar o mais natural de seus dons: o movimento. Por outro lado. que as demais habilidades humanas são estimuladas e desenvolvidas. MOTRICIDADE E COGNIÇÃO EDUCAÇÃO E MOTRICIDADE Atualmente. . na medida em que o ser humano amadurece. estimulando suas inúmeras propensões de capacidades que o tornam um ser complexo. É através dessa natureza motriz. discussões sobre educação sugerem necessariamente uma abordagem de processo holístico direcionado à formação do ser humano em sua totalidade. manifestada ainda na vida intrauterina.DISCUTINDO EDUCAÇÃO.

como Wallon. não se pode falar de educação sem considerar a importância do desenvolvimento motor. Sem dúvida. é na infância que a motricidade enquanto estímulo ao desenvolvimento do ser integral se manifesta mais notoriamente. aos outros e aos objetos. que comprovam a importância do movimento no desenvolvimento infantil. temos que considerar um fator muito importante que não pode ser negado e precisa ser bastante discutido: a diferença entre desenvolvimento infantil e desenvolvimento motor. Faz-se necessário ressaltar aqui que investigações laboratoriais. sendo pelo movimento que a criança começa a conhecer a si própria. Recorreremos. No entanto. mas ao mesmo tempo afirmarmos que essa criança não precisaria ser estimulada em seu aspecto motor. este último com uma obra até hoje muito utilizada. contraditórios. principalmente nos cursos de formação de professores da educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental. estaremos sendo. Vygotsky. autor que se destaca pelo fato de direcionar seus estudos a todas as etapas da vida do ser humano.Mas. Tais afirmações vão de encontro aos vários estudos e doutos atuais. Neste sentido. com tecnologia específica e atual. este processo que está diretamente ligado às modificações observáveis no comportamento motor desde a vida intrauterina. obtidos a partir de pesquisas e experimentos neuroanátomo-fisiológicos. então. no mínimo. não se limitando apenas . a trabalhos específicos na área do desenvolvimento motor. têm se tornado cada vez mais presentes em pesquisas na área da educação. poderíamos recorrer a inúmeros autores. tendo como referência inicial David Gallahue. Gesell. por exemplo. Alguns especialistas em desenvolvimento infantil têm escrito repetidamente sobre o desdobramento "natural" do movimento e das habilidades motoras infantis e a ideia de que as crianças desenvolvem essas habilidades simplesmente por ficarem mais velhas. fugindo ao contexto tipicamente pedagógico. Portanto. ou Piaget. se reconhecemos que a criança tem na motricidade uma necessidade básica.

e os reflexos posturais. Buscaremos fundamentação também em Vitor da Fonseca. o movimento desenvolve-se ao longo da vida do indivíduo por etapas que representam o atingir da fase maturativa em relação à fase anterior. etc). Isto significa que motricidade e cognição são indissociáveis. cognição e dificuldades de aprendizagem. ocorrem os reflexos primitivos ou de sobrevivência (preensão plantar. Estes formam a base para as fases do desenvolvimento motor. apesar de este estar diretamente relacionado com o objeto central do trabalho. Fase motora reflexiva Movimentos reflexos caracterizam-se por ações involuntárias. . salivação. proporcionando ao bebê obter informações sobre o ambiente imediato. que não podem ser alterados. Estágio de codificação de informações. apresentando-se naturalmente ao longo do processo de maturação do sujeito. em resposta a um estímulo específico. como nos referenciais normalmente adotados pela comunidade educacional. respiração. subcorticalmente controladas. uma das maiores autoridades em motricidade humana e referência mundial em motricidade. Para Gallahue (2005). 2. observados normalmente durante a infância. a partir do 4º mês de vida até 1 ano de idade. O autor destaca a existência dos aspectos e fatores físicos e mecânicos. a partir da 8ª semana de vida intrauterina até o 4º mês de nascimento. ficando nossas considerações a esse respeito apenas nos aspectos e conteúdos necessários à melhor compreensão do contexto abordado.à infância e à adolescência. Neste período. que influenciam o desenvolvimento motor ao longo das etapas. Divide-se em dois estágios: 1. que permitem ao bebê o reagir à gravidade e mudanças no equilíbrio (reflexo de moro. Nesta obra não abordaremos o desenvolvimento motor de forma ampla. Estágio de decodificação de informações. por exemplo).

2.Fase motora rudimentar Os movimentos rudimentares constituem a base sobre a qual se desenvolvem e se aperfeiçoam os padrões de movimentos fundamentais. a fase pode ser dividida em três estágios: 1. Fase motora fundamental Nesta fase. divide-se em dois estágios que representam progressivamente ordens superiores de controle motor: 1. Observe que as fases aqui abordadas apresentam-se intercaladas. Estágio de inibição de reflexos. Estágio inicial (de 2 a 3 anos). Assim. a criança sofre mudanças graduais que a levam a desenvolver formas de movimento bem eficientes e comparáveis à execução de movimentos adultos. caracterizado pelas primeiras tentativas observáveis de um padrão de movimentos. que compreende o período dos 2 aos 7 anos. Estas competências motoras são exploradas isoladamente e na medida em que vão sendo dominadas. Esta fase. desempenhando uma variedade de movimentos estabilizadores. locomotores e manipulativos. que compreende o período do primeiro ano aos dois anos de idade. mais adiante. ligadas ao controle da estabilidade. Este é o momento das descobertas. no qual a criança encontra-se aprendendo a reagir com controle motor e competência motora a vários estímulos. sendo as primeiras formas de movimentos voluntários. da locomoção e da manipulação. . que compreende a fase propriamente dita. Estágio de pré-controle. o que poderá ser melhor compreendido na ampulheta heurística de Gallahue. a criança passa a combiná-las para formar as competências motoras especializadas. que inicia-se no nascimento.

Estágio elementar (de 4 a 5 anos). como consequência da sofisticação cognitiva crescente e da ampliada base de experiências. É dividida em três estágios: 1. 3. que compreende o período de 7 a 14 anos. Estágio de utilização permanente (a partir dos 14 anos em diante). Estágio maduro (de 6 a 7 anos). Caracteriza-se pelas habilidades progressivamente refinadas. porém. Fase motora especializada Esta fase. quando o sujeito torna-se capaz de tomar inúmeras decisões de aprendizado e de participação. no qual ocorre a integração de todos os movimentos componentes das etapas anteriores. os padrões de movimento são ainda geralmente restritos ou exagerados. este representa o ápice de todos os estágios. com maior precisão. a partir da própria tarefa. individuais e ambientais. devendo ser . no qual há um maior controle e melhor coordenação rítmica dos movimentos fundamentais. quando a criança combina e aplica habilidades motoras fundamentais para as habilidades especializadas esportivas e recreacionais. porém. Estágio transitório (7 aos 10 anos). é o momento em que o movimento se aplica a muitas atividades complexas da vida diária. da recreação e dos objetivos esportivos. Estas habilidades transitórias contêm os mesmos elementos encontrados nos movimentos fundamentais. controle e forma. coordenados e controlados. 2. Estágio de aplicação (dos 11 aos 13 anos). combinadas e elaboradas para a vivência de situações cada vez mais exigentes.2. que é caracterizado pelo uso do repertório de movimentos adquiridos pelo indivíduo por toda a vida. com desempenhos mecanicamente eficientes. Em outras palavras. 3.

destacando que estes podem ser hereditários e ambientais. instalações e limitações físicas e mentais. As fases do desenvolvimento motor Figura 1 .Ampulheta heurística. . equipamento. o sujeito é afetado diretamente por fatores como tempo disponível. poderia ser conduzido pelo educador de forma a ter considerados todos os seus aspectos particulares. Desta forma o sujeito em desenvolvimento. dinheiro. adquiridos por influência do meio ou mesmo os genéticos.considerado continuação do processo permanente. o educando. Aqui. em nosso caso. Fonte: Gallahue & Ozmun (2005) Gallahue chama a atenção para os fatores que influenciam o processo de desenvolvimento.

Figura 2 – Modelo de desenvolvimento motor durante o ciclo de vida. o gráfico do desenvolvimento do ser humano não é eternamente crescente. Desta forma. o que significa que o seu conteúdo é estrutura genética determinada. Para a maioria dos indivíduos. a areia pode ser acrescentada tanto ao recipiente quanto à ampulheta. . O ambiental não tem tampa. vinda de dois recipientes diferentes: o hereditário e o ambiental. A ampulheta é enchida com a areia (vida). diferente do hereditário. vindo a sofrer as consequências do processo natural do envelhecimento. Mas. ou seja. Fonte: Gallahue & Ozmun (2005) A imagem acima representa o processo de desenvolvimento motor. segundo David Gallahue. O hereditário tem tampa. este recipiente pode ser enchido com areia no ambiente.

a ampulheta inverte-se e a "areia" começa a escorrer no final da adolescência e no início dos 20 anos. Figura 3 – A ampulheta heurística invertida. Isto significa que o processo de desenvolvimento motor continua ao longo da vida do indivíduo. sofrendo. Fonte: Gallahue & Ozmun (2005) A inversão da ampulheta depende mais de fatores sociais e culturais do que de fatores físicos e mecânicos. ocupando seu tempo com a rotina das responsabilidades familiares e outras tarefas que consomem tempo. pois se trata de um momento em que muitos indivíduos ingressam no mundo adulto do trabalho. a aprendizagem é . no entanto. Portanto. influências internas e externas.

Prova disto são as várias possibilidades de se avaliar em idosos os mesmos aspectos psicomotores comumente avaliados em crianças. resguardadas. o puxar. que consiste no movimento do braço e da mão em direção ao alvo. o segurar. em relação a qualquer outro segmento corporal. De acordo com o autor. Desta forma. . mas também social.Operações de escrutínio e investigação visual. o bater. entre outros. o catar.contínua e permanente. O apanhar.Captura manual do objeto. persistindo na idade adulta jovem e idosa. o que é fundamental não apenas no desenvolvimento escolar. o captar. Fonseca (1988) destaca que a mão dispõe de funções de palpação. discriminação tátil e de um repertório sem igual. as devidas proporções. não se encerrando seu desenvolvimento na adolescência. . Este fator psicomotor subdivide-se em quatro fases: . a criança experimenta o mundo. o empurrar. A praxia fina revela no indivíduo a capacidade construtiva manual e a dominância bilateral como componentes psicomotores reveladores para todos os processos de aprendizagem. podendo o processo ser alterado. o que nos alerta sobre a importância do estímulo à coordenação precisa das duas mãos. . obviamente. ao longo dos anos o movimento humano tende a se desenvolver por tempo mais prolongado e especializar-se cada vez mais.Manipulação do objeto. Tomemos como exemplo a praxia fina.Captura visual do objeto e fixação do olhar. o riscar. sem a qual o seu desenvolvimento micromotor não se distinguiria. são o resultado da cooperação com a visão. os objetos e desenvolve noções simbólicas. em seu desenvolvimento. . o lançar. refeito e melhorado.

Teste do labirinto Fonte: Rosa Neto (2009) .MÃO MOTRICIDADE UTILIZAÇÃO DE INSTRUMENTOS TRABALHO FABRICAÇÃO DE INSTRUMENTOS LINGUAGEM CONSCIÊNCIA COMUNICAÇÃO SOCIALIZAÇÃO ASSOCIAÇÃO CULTURA GENERALIZAÇÃO VALORES ABSTRAÇÃO MEMÓRIA RETENÇÃO Figura 4 – A mão humana surgindo como o instrumento corporal privilegiado e materializado da evolução cerebral. Fonte: Fonseca (1982) A seguir. sobre os quais o leitor pode buscar mais detalhes nas várias referências disponíveis sobre o assunto. listaremos alguns exemplos de testes em avaliação motora.

Prova de rapidez Fonte: Rosa Neto (2009) Imitação de gestos simples Fonte: Bèrges e Lénzine (1987) .

Teste de ritmo e concentração (Mira Stamback) Estruturas rítmicas Erro Acerto Total ______ ______ Teste de sighting (“telescópio” e cartão) Fonte: Rosa Neto (2009) .

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