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O JUDEU

ROMANCE HISTORICO

POli

CAMILLO CASTELLO-BRANCO

!a.o VOLUME

a>CI)t&VCI)

EM CASA DE VIUVA MORÉ-EDITORA

PRAÇA DB Do PEDRO

1866

P(Y·I.t~CJ~5": c:c/. ~5-

.;

HARVARD COLLEGE LIBRARY FROM THE LIBRARY OF FERNANDO PALHA OECEMBER 3, 1928

f

OJUDEU

PARTE TERCEIRA

CAPITULO I

;Coucluiu formatura em ·caoones Antonio José da

Sil.a 1por t'7i6. Seu pae, o mBinente jurisoonsulto Joao Mendes da Silva, contava setenta annos feitos,

-e VSIJMl· .ao peso cia idade e ela moita e principal

·ólitldila .que pmsean com o seu talento jor:idicG -e

destremada boarada. Chamou, por isso, o filbo

a lfiOHjo'lfloe pa11a, mais tard~, o ficar !Substituiado.

'F'OIIÇaftBo " i8JlBOibo e reposnmcia que .os aatoB

6

,

(HUDIU

lhe faziam, o reoonte bacharel abantou no escripto- rio de seu pae, coagindo o espirita inquieto a pres- tar attenção ás enfadosas exposições consultivas, e ás aridas respostas do velho, que era um poço nas Institutas de Justiniano e Decretaes. As tres horas, que Antonio José sacrificava de cada dia ã pratica forense, eram-lhe remuneradas com a plena liberdade das outras. O uso, que elle fazia do seu tempo, com quanto desagradasse ao pae, não lhe era contrariado. Escrevia comedias, vesiia de melhor linguagem umas que tinha urdido no mais verde dos annos, e architectava outras para refazer mais tarde. Propensão aprazível para estudos tinha uma só : era o theatro, nãO já modelado pela escó- la franceza, que então dava ao mundo policiado as regras dramaticas ; mas acostado algum tanto á fei- ção comica de Gil Vicente, com as inverosímeis pe- ripecias de Lopo de Vega e dos filiados â grande e

ainda vividoura escóla

criminar a índole litteraria de Antonio José, cogno- minado co judeu» seria impertinencia n'esta narra- tiva, onde raro leitor antepõe o lucro da instruC(.'iO

ao deleite da curiosidade. A seu tempo, farei conhecidos, de relanee, al- guns passos da breve carreira litteraria do filho ·de Lourença Coutinho. Então julgará o leitor do mere- cimento d'elle, sem que o ensinem a destrin(iar sys- &emas; escólas, metbodos, e centenares de subtilezas

castelhana.

.Ponderar e des-

ROMANCK BIBTORICO

7

improprias d'.este eseripto, e aliás importantes aquem estuda e de mui lustroso tracto para quem as pro- -fessa .eompetErt&emente. É sabido que o mais familiar amigo de Anto- .Dio José da Silva era, desde os alvores da mocidade, Francisco. Xavier de Oliveira, o filho da dilecta ami-

p de Looreoça Coutinho. . Silva tinha vinte e um annos quando se formou,

e Oliveira oorria entao nos dezanove. O bacharel fioou maravilhado, quando de volta de Coimbra, encontrou o seu amigo, não mais des- .moralisado que os mancebos da soa geração, mas muitíssimo mais desempoado que todos, em matarias de crença religiosa. Era muito n'este espanto o caso de ter sido Francisco Xavier educado pelo devotissi- mo fr. Francisco do Menino Jesus, tio d'elle, e mui- to a miudo confessado com o oratoriano Ignacio Fer- reira, e com o coneso de Santo Agostinho padre Lou- renço Justiniano, como Lourença Coutinho referia · n'uma das cartas a Sára, escriptas treze annos antes. Desde os dezeseis annos~ o filho do eontador-

JilÓJ' José de Oliveira revelou imperiosa vocação para

a vida dissoluta ; sem embargo, a piedade, os acces-

sos de fervor cbristão, entremettiam-se nas -extrava- gancias do rapaz. Ainda entao Francisco Xavier se eQ.nfessava todos os mezes, aproveitava quantos jubi- leus a magnanima Santa Sé. proporciona-ça á salvação das almas, e não consentia a Antonio José a mini-

IIJUDIU

JDa plllofa das oousas ~eoerabadas da igreja ·eatbo-

-ica

N'esse tempo ainda, época do seu primeiro a-

am,

~o dle om irrefrapvel teatemuullo -4e.ueo-

deim ·piada&. Contava elle, .cinooellta .-s dapoit, -que tinha, o'aquelle .tempo jmeoil, um onWrio toa umas vinte imaieos de Santos ·de sua particular • ·.taa. Entre todoJ, es .ais .rogados e ~ eram Santo Antonio e S. Gonçalo -d~Amarallte•.1Jma I'M:, lhes pediu que tclcae8em o eoraçte-~a-helle- -za ·rebelde. -cOa dons Santos, -dw -elle, premaelm• 1te ooou,pados em aegooio -de mail ·impPI11Beia, 818 meram aso- OOs •us requerimentos. Despllitaclo oom o -meoospreço, a&ei-ts um ·ao .owtro, -e pai--os fóra do santuario, destemad&-OS -pan -debaixo da minha .eama. Come, perém, os Dlo seosibilisasle oca Cil mau traetamento, •isto que a minha -deidade coDtiJ:Ulava em seus rigores, eoodemnei-os a desce- rem ao fOÇO ; -e logo os -fui baixaado, com ellleiÇI6 .de afopl-os, se me dle fizessem e favor. Acooteoen eotle .qge a MOÇa me respondeu a muitas eartas, 6fue lbe .eu tinha esoripto, e assim salvoo as chRs imagens do naufragio; e -eu aoreditei que delia aos dons Sansos a minha fGnnna. • 1

t O extracto é da obra de Francisco Xavier de Oliveira mal-

tas Yllze& citada: Amwemmt f'ér4oàúl•· O mais que se fOr diJeDdo

respeito á vida particular de Oliveira e ;aeus eoritempoi'BIIe08, ainda que se não demarque o lugar em que a noticia foi colhida, tenha o leitor a certeza que é quasi sempre exacta cópia do que retere aque1la obra.

ROMAiflm JIJ8TORICO

i~ntro signal de sua nzo~Wel ,piedade: Francisco

x.a.ier -eoibarooo n'um bote ·para ir á P"oa, ciDeo

ieps 6Mante de üeboa, á marse&a •

Tejo. Sv-

~ DIBI IJorruGI, deffoate de .Sita118111. 8

iM1co'88tna .em

tle mOih'ar a"fUillla. Fraa-

filoo aj8elha e ·m.oea a IJIÜalrOSI Seàoaa 4a Penha.

o 'Yéo&o, fi coosepe l() mrco abioar a tei'IL

-os

~ qtte obegoa a 'Lisboa, o ID8ÇO fli á Peoha •

trnmça eom 'Ieda a parentela agradeoer i Senhora o ·milaF,e. llez ·dizer moi&as miaus em aaçlo de p (.lU. Deo dinheiro aos frades da casa, e pendurou um painel que represeota.a o ~. c Este painel,- diz elle, e DÓS 1rlsladiiMOs as palrwas do devoto pa- ra que algum curiose pusa -amda vér na capella da SeQhora da Penha ·O •·•M1o 8o ,mWJbeiro d'Olivei- n- este painel foi pendurado Óo muro da igreja, e «eeo que ainda lá. eRiri. , 1 Estes e outros easos &OOnnam o espanto de Aa- tcmio :José ·da Sil,a, qaando, 'Da volta de Coimbra, lhe· pergontna-:

-Que é feito da tua fé, meu Fraacisw '!

- Perpata-me antes o que feE a min1aa razão.

almoiada pelo estodo·-·respoodia Franeiséo Xavier.

- Pois que te disse a tua razão a respeito d'a-

_quell~ paúl.el wu.e e.u le. vj levar â igeja t1a 'Penha' Lembras-te que me chamaste iapio (iQique .eu .me

'Como foi gue a tua raz!o te falloo 'I

ri do caso·?

t

EMreria -

1751.

to

O IUDBU

-Disse-me que os ehristAos imitavam os idoAa.·

tras n'estes votos de paioeis e qaejandas otfereodas. É

a mesma historia

fio, eregido por Jason, depois que os ar~utas se ·

salvaram d'uma tempestade, ao recolherem* de Col--

É a mesma usança dos ex-votos no .templo

de Hierapolis, o mais milagroso .dos de.nses.syriacos.

É a meama necedade dos enfermo.s curados q~ pea- doravam paineis no templo de Esculapio. Hora- eio fallou d'esta costumeira, como sabes da ode 5.• :

chos.

do templo d'Apollp na. ilha de Nao.-

Me tabula saoer

Votiva parles itJdicat humida

Suspendisse potenti

Vestimema maris Deo. t

Tibullo tambem costumava, como eu, recorrer

á Deusa em cujo templo se penduravam paineis. i -Sabes tu- continuou o moço Oliveira -o que respondeu o philosopbo Diãgoras a·.um sujeito.? -Nada, nlo sei. -O sujeito, apontando-lhe para muitos paineis de· naufragios, â imitação do meu, disse-lhe : « Pre-

t A 16{/rada parede de que pmde o meu votado painel, tule- trnmha que eu alli pendurei as minhas VfJIIU humidas, em honra llo poaante Devs do ttUW.

li Nune Dea, nune succurre mUai, nam posu mederl Piela docet Templi& multa tabella tui&.

ROIIAIIGB HIR'ORICO

til

somes que os deuses nao fazem caso dos negocias da humanidade. Ora Dlo vês tu este grande numero de peineis, provando que tanta gente se salvou de na. frapry em virtude dos lotos feitos aos deuses 't • - Sim, respondeu Diágoras, vejo isso; mas tambem vejo que os afogados 'nAo se fizeram pintar. -Mas.•• - redarguiu o bacharel Silva - a que se deve a transformação moral em que te encon- tro? Quando com~ram as tuas duvidas sobre a cega de teu tio fr. Francisco do Menino Jesus'! -Eu te conto. Um dia fui de peregrinação a Nossa Senhora do Cabo com o padre Antonio Go- mes, e com o doutor José Antunes Cardoso. O pa-

drn gostava igualmente do bom e do mau vinho ;

porém, um Yinbo, que lã lhe deram para dizer a missa, era tao mau, que o padre, quando estava a

desparamentar-se na sacristia, soltou estas colericas palavras : c O vinho do calix tinha um sabor de to- dos os diabos I Meus amigos, recommendo-vos que

niQ bebaes

que não seja d'aquelle que eu consagrei. • Aqui tens tu conw e quando principiaram as minhas duvidas sobre o dogma da transubstanciação. Parece incrível que ta.o pouco ar levantasse tamanha tempestade no meu espírito! Entrei a pensar como aquelle vinho, que era vinagre, se transformára em sangue de Cbris- to I Confessei-me d'isto, porque me atormentavam os escropulos. Os confessores, todos â uma, medis-

vinho ao jantar, a não vos darem algum

••

IIUH1J

qoe o clemon•anrán·IIB teeo~reorm.ip.

oQuado oo-~~p,~~~,,aiBIIliYa

ea wspeita·de·que

e ·engolia um hocado À >ctbreia I De,ois. quando

leekaVI •

cartas, pnbNie a dlhlr 'PIRl as obreias, .

"' a dizer: .c Quanto '90s a-tote, 1111inbas p9bres

obreias I Um padn .aransf-~vos4lia em Deus, -e

•es torollria objeãos de

• !fUe ·eu vos mollo de ·satita., •e "VIB obrigo atfecbar

cartas t Sois tod&S da mesma especie e da mesma fa- rinha ; ptJI'ém, o 'VOSSO destino varia até ao infitJi

&61••• etc. • D'est.es desalentos, d!este 'btm"ivel des- -arer, :ainda eu pude algom tempo arrancar -a miuha .tum, e ·submEfttêl-a ãs -consolações reanimadoras dos

Lia

.pedres .,.e me oomm e combatiam as dmidas.

1 Malleb~e, 'JM terminantemente me diáa : t

1miverSII; 110 pas-

preciso er~ no .dofMa ·dtJ Ir~

,.

ftlltMr ent«ulel-o. E eu ]ia muito Mallebrandle -pa-

n aada •ez eotewler menos o dogma e o aotàor.

Ealfim, meo caro Antonio José, para te nao enfatler

~ hastl ·dim--ae qoe, ptriida a fé n'om dota&, -perdi·a -em todos. Depois, vienm aqoeUes terri\18is

ilGIDIMltes com a hypoorisGI, em que sahi mortaknen-

de Catharina .•• bem

le lembras. • • ha IODOS••• O leitor precisa saber qoe morte foi eMit de Ga- hiBa. Será propriamente Francisco Xavier fi Oli- 1llila .-em lb'a re6ra: c O conde de PovQJide e

rno-

•ia doas familiaNS do Sl8l6 officiG qulli me

:te

ferido no cor.açao. A roorte

u

~d•· ~

·tMIDB.in:·arM.,

a-* qee eo atDMa sae-.

npde.vinte

HDOS, mil~

p8hiea do que :bella, e. tio espirituosa qaaoto belr

feia. Bn mBa diriMA papista~ exagerada em sou

eo ·o liat. sido. lia á llli818, ao 0011-

fessionario e á OODUDanhio; orava á Virgem e aos. Simtos; e as almu do pargatorio eram as 801& ad~

dnotões como

pàs predilectas. Comia de todo, gostava de pre-

saato, e muito de chouriças de porco. N'oma pat.

, a moça guardava o domingo, nonea abrira a Di·

btia ; e bem longe de saber o que era aab6rath e ja

dias, iBDorava qoe tivesse existido o'este mondo mD Moisés. Como baTia de· saber Catharina qne Moisés· legislára '! Ora, todo isto, junto ao amor que eo lhe- tinha<, fez que eu despropositasse em bndos contra

semelhante· prislo. Impozeram

amigO& traetaram de me vexar por me verem apai~ x.uadto por uma judia encarcerada no saato otBciOI. Duóito mer;es depois, fez•se auto da fé em qoe a. rapoip devia appareoer, e oo'rir lêr soa sentel)\!8 piiWioament&. Claro é qoe nao faltei ao ooncurs~ Qual foi, porém, meu espanto, quando oovi & presa ceJJfessar qae' tinha guardado inviolavelmente o sab- btldt. qoe Dto havia comido carne de porco, e qoe se-absti• d& certas oomidas, que eu lhe vira- eo-- a• lllilhlo• de WJEes eom· furioso appetite I A minha surprer;a redobrou ao ouvir lêr a- sentença, que a• mandoU.'I' queimar, porque tinha sido dimi,.

me silencio, e os meoa

,

la na oonftsslo, quer dizer, qoe nao tinha podido aebar ou •divinhar os nomes du fllsas testemunhas

qae depozeram contra ella

noite, como a condemnada fosse entregue ao braoo secular, conduziram-na á Relaçao, ·cujos ministros até hoje usaram sempre a covardia de confirmar ce-

gamente as sentenças todas da inquisiçAo, sem que

peçam ou revejam os processos dos

Ás dez horas da

condemnados. ·

Como aqui me era permittido fallar á desgraçada, perguntei-lhe como podéra ella mentir tanto para provavelmente salvar a vida, e se deixava morrer por nao querer denunciar os cumplices, ou antes os aecosadores. Respondeu-me : ·a: Sondo os meus aeco- sadores falsas testemunhas, que eu nunca vi talvez, era-me impossível nomeai-os. Deus me é testemu- nha de que morro innocente; tu melhor que nin- guem sabes que eu soo christa, e todo o mundo o ficará sabendo pelo formal desmentido que dou ago- ra a tudo que confessei na inquisiçlo, a respeito do meu judaísmo, protestando diante d'este juiz que mais professei fé que nao fosse a de Jesus Christo, na sua santa religião quero morrer. a: Pouco depois, entraram os ministros a interro- gai-a. Publicamente sustentou que morria na lei de Jesus Christo, nem soubera nunca da existencia d'oo- ti'B. Esta confissao não a salvava de morrer, e assás o sabia ella. Não obstante, insistiu o'este sentimento· até ao derradeiro momento de sua vida, que lhe foi

ROIIANCK BISTOIUCO

ta

tirada da meia ooite para uma hora, sendo estran- gulada por mio do carrasco, e logo lhe levaram o cadaver para ser queimado no local em Lisboa des- tinado a semelhantes execuções. • Continua o cavalheiro de Oliveira, com a sere- nidade dolorosa em que a desgraça de longos annos lhe tinha congelado o coração:

c Bem que eu n'aquelle tempo respeitasse o tri- bunal da inquisição, nem por isso deixei de me ex- pôr a toda a ferocidade de seus ministros, bradando altamente contra a barbaridade do seu proceder. Se- jam-me testemunhas dous inquisidores ainda vivos, os snrs. Silva e Gomes, a quem eu fiz severas cen- suras, e os quaes, como bons amigos, me aconse- lharam silencio, figurando-me o perigo a que a mi- nha imprudencia me exponha. Segui o conselho acompanhado das ameaças d'aqoelles senhorei. Ca- lei meus queixumes; todavia, os meus amigos sabem que, desde aquelle dia, formei pessima opiniao do processar d'este maldito santo officio. •

CAPITULO II

-Outra cousa I - perguntou Antonio José - Tu eras sebastianista, ha um anno. Esperas ainda o rei? -Não me falles n'isso, que é a minha grande Tergooha I Imaginas ·tu que amizades perdi de pa- rentes, e graves amigos que endeusavam o meu ta- lento, e lhe queimavam incensos no altar do Bandar- ra? Minha mãe ainda hoje chora, quando se lembra · que eu não sou sebastianista I E eu choro, quan- do me lembro que. me deixei seduzir por aquelle

~ franciscano Vioonte Duarte, cujas ·historias toa mãe ouvia com uma fingida dôr de dentes para que J.be. não vissem o impio riso I

- Entao agora em que crês'! - perguntou o

hebreu.

{8

O JUDEU

-Na vinda do Messias, de certo nao-respon-

deu com chocarreiro riso Francisco Xavier - E tu esperas"!

- Espero que não venha confundir-se com os

patifes d'este globo; mas que elle não veio é cer- to;

- D'accordo comtigo. Não veio, com o nome que lhe deram. Jã tinha vindo, e chamava-se Socrates; tornou a vir, e chamou-se Luthero.

-

Estás protestante 'l

- Sim I protesto contra todos os embusteiros e

hypocritas ; protesto, em nome de Deus, contra to- dos os que lhe infamam o nome. -Isso é justo. E d'amores, como te corre a vida 'l quem amas 'l Dura ainda o reinado da Joanna . Victorina ? A cigana de certo deslumbrou a memoriá da pobre estrangulada da inquisição, e d'aquella An- tonia Clara

t

t Os amores d' Antonia Clara devem ser contados por elle :

« D. Antonio Manoel, irmão do conde de Villa-Flôr possuiu, tres annos completos, a encantadora Antonia. Um transporte de ciume ia- dispôl-os a ponto de ser despedida a formosa manceba por D. Antonio. Cahiu-me em sorte; e, posto que D. Antonio se arrependesse de a ter assim tractado, o mal não tinha remedio. Antoninha não quiz mais ou- vir fallar d'elle, e elle não ousava nem podia reclamar um bem, cujo lejp- timo possuidor eu era, porque lh'a não tirei por força ou velhacaria. «Antonia, como fosse um dia confessar-se ao cura da sua freguezia, o confessor propoz-lhe que me abandonasse, e consentisse em fazer u pazes com D. Antonio. A moça extremamente magoada com tal conselho no confessionario, negou-se a aceitai-o, e de volta revelou-me tudÕ. Cus- tou-me a Cl'êl-a, porque o confessor era pessoa muito de meu lOOnheci-

ROIIANG ·SfOIU~

49

Fatal

eomo todas as da soa tribo.: .Traz-me o coraçao de- baixo dos pés. É a mais vergonhosa e mais dôee es- cravidão da minha vida. Minha mAe chora muito por mim ; porém as lagrimas que eu tenho chorado pela

A Joanoa é fatal ! -

disse Oliveira -

.,

mento •• Além de que suspeitei que Antonía me estava encarecendo os favores, querendo mostrar-me que por amor de mim desprezava um pie-' gas suspiroso da estofa e meritos de D. Antonio. Sem embargo, como

eu sabia que este homem era convencer-me da verdade da

cerlificava. N'este proposito, mandei-a, pas~os dias, procurar o padre, e dizer-lhe, que estando de mal commigo, e reflectindo no que lhe convi- nha, resolvera aceitar o seu conselho, e voltar para D: Antonio ; e por isso pedia ao cora que fosse a casa d'eDa ao outro dia ·entre dez e onze

horas da manhã, asseverando-lhe que eu, a tal hÕra, estava no tribunal ••. ·

O pobre cura ·cahiu na esparrela, chegou á hora combinada, e decla-

rou a Antoninba qual era a fÔrça. da paixão que D. Antonio por ella con- servava, acre5centando que ninguem J!lelhor do que elle a merecia, e d'al6 ,

se ia logo a levar-lhe a hoa e ine~perada nova.

N'isto, sahi eu d'nm escondrijo, e disse-lhe que para ir mais· depres-

sa, saltasse pela

o padre, de certo o mataria; mas atarantai-o tanto como

não. Ajoelhou-se-me aos pés, pedindo-me em nome de Jesus Christo e de sua Santíssima Mãe que lhe perdoasse o nltrage e desgosto que me elle queria dar. Eu estava iradissimo, e resolvera castigai-o deveras, porque estava em minha mão perdêl-o. Não obstante, deixei-o ; e d'isso me não arrependo. Quatro annos depois fez-me uma grosseria na sua igreja, of- fendeu-me, e deu aso a que en contasse o r.aso a dons amigos d'elle:

elle ficou de certo

janella, o infame recoveiro ! Um raio, se cahisse sobre

particular amigo do cura dos Anjos, quiz solici~ão que a moça com juramento me

logo que o soube, tractou de reconciliar-se commigo. Desprezei-o então, e ainda o desprezo se está vivo, muito mais por sua ingratidão que por o8 ·

seus outros desregramentos.•

Amusement périodique- 2.• vol. pag. 389 e seguintes,

' era o oura da parochia de · Nossa Senhora dos A'!ios de

Lisboa, situada na estrada de Arroyos. Ett servia então o rei no tribunal de contas, do qual meu

• •

pae era contàdor ou conselheiro.

t)ipaa • • . sAo inoomparavelmeme maia. l!llobe-me o

pejto de brazas a maldita com os ciumes que me faz !

-

Olha lá •.• -

atalftou Aatonio José

Coomo

foi aqaella passagem de expulsares o diabo do. corpo

4a-. mAe d'ella ? Fanaram-me n'isso em Coimbra• Crês, ao menos, que o diabo entra nos corpos'! -Entra, e sabe facilmente pelo processo que eu ~mpreguei na mãe d.e Joanna. Ahi. v.aj a rece,ta,.

orria f

como cousa aiVeriguada que a Yelha estan in-.

cliba.da de demonio. o~. tregeitos e desternpêros, que ella fazi~ em casa, eram pavorosos. Nao ma deixava parar meia hQra socegado com a filha. De

fitlE!Dle, come(lava a. esenmar, a rolar os olhos, a

ranger com os dentes, e a caretear visagens d·e ta- m,anho horror, que se me arrepiavam os cabellos.

· Os criados andavam de dia e

de noite a chamar con-

fessores e ex.orcistas. Eatrei a suspeitar que a ener- gomeaa era uma perversissima impostora. Entendi-

D,le com a filha, communiquei-lhe as mesmas descon-

fianças, e

«tisse eu a Joanna. Vespera de natal, entra o tal de- DJDnio com ella por volta de ooze horas da noite. Escàbujava nos braços da filha, dava pontapés de

dei,'rear um elepbante, colleava-se como serpente e pinchava como uma cegonha no soprado. Depois. ca- biu e.m lethargia apparentemente mortal. Eu me tinha preparado para a cora. Levava commigo dons ti- jolos que mandei aquecer até os abrazear , e depois

ella concordou. « Havemos de coral-a»

ROIIA!ICI -.oRJCO

ordenei a Jclaflna·-.e os 1ohlpsse ris solls dos pis

da mie, os quaes· es&anm ooa e fón do lei&b, onde

ea a lilln~ par. Parece que o demo&io d'eJia • tava ·âlérJa; porqoe asaim -qt.a ea fallei em tijiiM quentes, recobrou os sentidos de golpe, seawa-sea

fAIIII, th~

barblato algGZt • disee OOiilr.t a fi·

lha ioeoleneias diabolioas. O eet10 é, amiso Antoaio.

qat i veltla DUnea mais 6H vexada de diabo neahum.

e passa regularmente. Aqui tens como foi.

-E CObl a loanoa, eoano te •ae& dandp 't ·

-Já te 4i518 : 5empre trasplseado das aanlllu do ciume.· .Agora, eslá abi e• Lisbóa um castelhano 'fDt me dá que faMr. .lhe segoi de noite o vulto

mortificações,

para o atravessar com a espada; mas as

que' eu tenho causado a meus paes, são tantas, que

1M elo i)OUO .resol-v.er·• _,.r u 'homem. loauna &eve

odêsamtrJ de tne dlter que onlb attta feio nem·c!e~

zàvel. Eu quiz ·Be93r li'eLla a minha ,r:aiv.a ~.mas deo-

~ ~bet'q~ 3 mgcm' é Wtôltier faca, e dlt) '8~

eDsalàiia ein .mim se me estaqneasse, porque o exem-

pt& jâ •

~ '<let1 oom nm

dos meus pre~~

na posse d'aquélle 'formoso seio, cofre d•um pessimó

~"'

-'! á'tnàs a·s-sim1111111 'lnfilh~l''1-··a'tàibou Ah-

teoia JOié da Sil'VI.

-Amo, amo miseravelmente r Pergu~ 'àb ft 11 que de Cadaval porque .ama elle a Paulina que o atraiçoa todos .os dias ; f*ililll&a te «Hldt de Arouca

O.lt!DEU

porque ama aquella impodentissima Rocha, que o oobre de ·irrisoria igoominia ; pergunta ao rei porque amou com tao cega paixao a dissoluta Margarida do .Gnte que morret~ ftoeira no convento ·da. Rosa, .o anno passado I t · - Teos um sestro 'fataU - obserfOU Antonio JoSé-E quando tu, ha tres annos; faUnas êm mor- rer ethico d'amores pela aetriz bespanbola 2Jabel Ga- marra I

·

-

E' verdade .•' • sabes que

ella professou

Monieà '/

nas Agostinhas no eonvenlo de Santa

, -Já sei. E o marido professou tambem '/ -Não: foi-se embora, ~epois de receber-· seis

l

O amante de

Paulina . era D. Jaime Pereira, cunhado de el-rei

duque

foi

ceba do conde de Tarouca, mulher da iiÍfima plebe, chamava-se a PelÍes de alcunha ; mas como casasse com um fulano Rocha, criado do conde de Tarouca, tomou-lhe o appellido.· Como .BOII ·homem, que era este mori-

do, diz o r.avalheiro de 'Oliveira, comeguíu ser criado supranumerario

da imperatrí5 Amelia •. O canlheiro referia-se á imperatriz d'Austria, oode o conde de Tarouca pae do conde em questão foi ministro portu- cuez. A tal Rocha ou Pelles fugiu ao conde para os braços do padre Do- mingos rl'Araujo Soares, capellão particular, que tinha sido, do conde.

Este padre, diz Oliveira, nunca disse missa : uníca virttulc que eUe pmJicou. ~ra um sceler!ldo de profUsão Cumpre saber que o conde

tinha tirado a Rocha ao pae, insulto de que o padre vingou o velho. O chronista, a respeito d'esta balburdia de perlidlas, eulama· com UJ

um dos Jllais respeitaveis. e respe4ados fidalgos do seu .tempo, A man-

D. João v. Tirante a miseriá d·aquelles escandalosos amores, o

po5a francez :

·· Amour, amour, quand tu nous tiem, Onpeut bfen dfre, adfeu, Prudence I

llOIIAl'fOI. IUSTOIUCO

Jlil, enuades, q&·lba.deu em troca da esposa~ o

•NJUtz -iJe GCHWêa. ~. '· ·,.

·"; -* • t3al'l' ~

disse An&onio José -

Quanto

acbas;to qoe.laJQO de ljlor.tupl aqoella Petronilla do

D.,Jolo "'

-. ·.-·É UDloolaMI. O libido e .~ao&orioé que ella

,. damps .da .p-iaeira plena de Hespanba, quando a vi-

• mi'Npda de· joias no tbeatro de Madrid, asaom

llnraiiHe do •M> .dQs ·brilban&es. tu onde fôram eahir .as .joias das .rainhas de Portugal, e as

mais precioaas, CJile vieram do Oriente no reinado

:Volt.aodo Gamam, deixa-me

oootar-:-t.e episodios pao~ que iam desca.mbando em tngedia, e póde. ser. qwt afinal disparem em ter- rival catastrophe. O marquez de Gouvêa bebe os

pela qolher, principalmente depois que a

metteu no. eonven&o e lhe v~tiu o. habito. Soror Isa- IJBl {olga de ter acorrentado as srades do mosteiro o pde seDbor. Aconteceu, ba mezes, mandai-o cba- IUr à ;Gamarra, ao mesmo tempo que o rei. Omar- qnez vacillava affiicLIImeDCe, sem saber decidir-se. Sabe. omarquez. entr.a no ®ehe,. e diz ao cocheiro que

o leve á côrte ; oaas, a maio caminho, manda desan-

dlr.pqra

.de Lisl»a. fliala •tas carregadas, e que as

de D. ~ro Dr

UJs -

o. convento d~ Santa. Monica. Para encarecer

o eeu amor, diz. á freira que el-rei o estava esperan- do; porém, antes desa~dar ao rei que ã sua ama- da. c Se nao procedesses assim, nao me verias mais •

disleolbe soror IAbeL. -

~

·•·~

calculas q~nto arrisco

111'iar- relalgaiu ella -- -

por IIDOf Ide â 't - •·~-

;qtli

,,

,

IIIi

·~ ajuntou ena, em àespaáboJ,.cOIIl:o 1ilulo da comedia de Calderon -· Quem s.e nlo satlifillr:.l*'

mim nAo -me ama, nefll •

.agllllda. • :.--se dar-

làe o marquu o· sem cftttlto _,.Mido. amt!ciroalo

Oepoil.

de brilbantas, e

jQrar

ekli.a

com o oooaentimento d'ella ~·foi110

ouri'-0 eu da grade pran., ,

ella quando se annoooiGo ó marqaez. • • ·

.iei.

.&te ·dialoft

eu· en

·

·la

·

-

Entao é certo

qwe ·a

aJD18· e él

.•

'IDMG.

como os outros

- NAo. Soo coofidellte t1t Uliioo 'boiMill .qoe

ella 8inceramente ama. Goubeoes o aneu imigo V.

lentim da Costa ~e Noronba 't .- Tambem esse I casado I pae de q1Mltro iRldu8

filbos f

io!aerrompeo A~Bic:l fds~J. ·' ·

espose d'oma 'VirtOosissima senhora f

-Tudo lhe ~

4 fooe&t:l aolller I· EBtl

sem amigos, sem ooasi4eraçAo, sem fi.lb~ sema

lber, e reoeio muito que Jwmt esteja sem -vicia~ a

duas vezes os tioarios do ·mtrquez III!& 'fUizeNIIl Nllbar. D'.ama ve2 o ajadei eu 1 defillder~ ~

quatro assassinos. Se 6 DAObtmla,mais bêje mail amanha., algtma 'OI'dein do 1'ei o() tnabdl .fechar bW.

pa torre••• A despejada IDUiber, dep0is-qu~

quez sabiu da grade, f8HIIê portador elo T81111to é

M bri1h31MBdoo aiDIIIlet eomo presente a Valeolia ·

de Nottollba f •.• • t

-Agora, faDemos de ai.

A jucfilsiDlta teaHa

1t8Cript~ Coula·me atpma ~ da ~.quisita l,ed.

ner dOJ

teu&

Pottugal't. ·

soiJbaa••• Que .-

d'e&&a

't Vem para

- V81B -~mente. A ultima' car&a· de SáN

para minha mãe diz que por esties seis ~e~es,

t Estas DDtieiu, extrahldas dos d1adoslimJ& 4e Ftalldsco Jatilr

de Oliveira, deYem ser aqui competentemente encerradas COBl o remate · da biographia da freira agostiuha. Com referencia ao merito d'eila como

aelril, · eSCM'e·e tiMIIheiro:

ir GctMN'a éloit Mr~

14 plu ,

qom tiÜ eur le thiatre de Li&llotW; elle_ez.u

jeune, enjoueé, engageante: elle avoit beaucoup d'uprlt, de vi.va-

dté, et · de grand& channe1 d1J11t toutu au tniJ!Iibu. Acerca do&

le actrla !fU4 ~

se. cos'umes• diz: .EJle CffOit wa m4rl et wn galant üclaré. :eu.

n'avmt donc qu'un seul défaut, c'étoil celui d'être ou atfÚtée, ou infidek : elk trahissmt également et son marl et ron gàlant: elle cVfit fie l'~UJeriÚJn pow l'rm, et seuletnent de l'ulime poar la.

tre •

O amigo de Antonio Jostl da Silva previra o desliDo de Valentim de

NorOilha em uma das duas hypothtl!es. Por ordeaa retla, NOI'Oiba foi

eacarc~ 110 Limoeiro, a pedido do rnanJUel de Gouvêa. Ao fina de

nove mezes

marquez no vigor da idade. Não obatante, D. Gaspar 4e lloscoso e 8t:.

~Dto, e sullillter da corliaa de eJ.ni D. Joio v,

"" lio do ~e&

embargou por muito tempo o fivraménto do preso, para assim vinpr o

amontado sobrmho.

'

de prisão rigorosa, teve o preso a boa sorte de ·morrer o

'

A freira, assim.

.-e o.J181118U eqiÜ'IMI, qail vollar P.,.o maridr,

que representava nos theatros de Hespanba. Obstaram-lhe as leis á re- nunciação dos votos com que professãra. Gamarrà tomou o mais sl1lllllla-

rio dos expedieott!$. ~ 4o !MaveDto, ligoHe ao Blll'ido que tlllll ido furtivamente a Lisboa, passou a Hespanba, e voltou á vida antip do theatro. Eis aqui uma creatura á espera d'um romance em ·tres volu- mes, sraças ás illformações de Francisco Xavier d'Ofiveira.

O IIJDlU

:um a nevada Hollaoda em que o coração da pobre menina morre de frio I Olha que ainda me não es- ereveo palavra que não venha entanguida do frio da terra I Aos vensos responde na mais chan e so- "fina prosa que inventaram. mulheres ~moraveis. -To és um tolo sincero I -exclamou de gol-

Pois tu pódes amar seria-

pe Francisco Xavier-

mente a moça, qo.e nunca viste, por que te dis- se toa mãe que ena, muitos annos antes de nascer, ji era destinada tua mulher'! -Posso e amo -disse Antonio José- Phanta- siei-a. Não sabes tu ó que é pbantasiar~oieu sebastia- nista'! Pois tn não imaginavas,· ha·poueo tempo, um

Ni D. Sebastião que tinhá morrido seculo e mei~ antes '! Entao qu~ tem que eu espere a felicidade d'tima rnulher, que vive, e se veste das· cOres celes-

tes que a minha phantasia lhe ? Sei que

ella é

formosa :· que tem que eu a .imagine formosíssima'? Sei qÚe é inslrnida : que faz que e.o. a pbant;lsie uma

das irmãs Sigeas '! Se os meus sonhos baode aca-

bar, quando me elia

adornos, que a minha imaginativa lhe deu, sãO pro- priedade minha ; posso dâl-os a quem eu. quizer de- pois. Isto que tem de extraordinario '!

-Pois- tornou Oliveira - se não queres ser · lolo extraordinario, serás um tolo vulgal'.

:.

aPJ>arecer~ poucp perdi : os

.

CAPITULO III

Antonio José da Stlft gnaceara fama de abali- zado engenho. As soas jocosidades metricas andavam

mánoscriptas. por mlos dos entendidos, que as en-

careeiam, ·por mm OU meDOS aquinhoarem das gra~ ças litterarias da época, em nossos dias consideradas aleijões.contagiosos das escólas italiana e bespanbola.

D. Fnooisco Xavier de Meaezes, quarto conde d8

Ericeira, o mais fecundo e menos contaminado es- . eriptor portuguez d'aqoelle tempo, recebia Antonio José em sua casa, folgava d'ouvil-o recitar as suas

eomedias entremeadas de chistosas arias, recitava-lhe cantos· da soa iosolsiiSima Henriqoeida, e aconselha-

9.0 transviar.:.ae da imitação senil dos bespanhoes

em composiqUes thntraes, e dos trocadilhos de <JoD. gora DOS poemas grives, em que apenas· o bacharel por aea10 se.-eotretiohl.-

!8

O JUDEU

Francisco Xavier de Oliveira, reputado mancebo

de rara inventiva e copiosa leitura nas intercadencias

das notorias travessuras, era tambem das palestras

e saráos litterarios do conde da Ericeira. Um dia, Antonio José e Francisco Xavier en- contraram na livraria do conde; folheando nos livros, em quanto o fidalgo nllo entrava, um Bartbolomeu Lobo Corrt~a. sujeito dado ãs letras, com o infortn- nio deploravel de se DiiiO darem: 11s letras com elle.

O conde, como amigo de gente ledôra, ou porque

nllo estremasse os incapazes,· ou por se compadecer dos inintelligentes, acolhia Bartbolomeu, dizendo aos mais íntimos qoo e f'Cà'e ejeito nAe ·tillM ·culpa de

sabir milagrosamente mais l!lodea :q'Ue • pae'

O pae d'este !B&rtiiM>Iemeo·&ioba·sido um hJra

LobO Corria-· Mt1rmo•

eaa i 108•.Jlste stajeilo eatnira ·no temp1o ·das .lttras

CCill o. off«tor.io d'um

oontadoria :geral, :flllooWo

li.Yro de. swt lnra, in&notado

fidtz

de AQão

e ~

'conlra a1 tmnpêMadet. O

&Kulo sóm•te. ··sem ajnda dM :parvoioadas intfricril · do livro, tinha eidG o epiüpbie do litttrato• to~~Klo ao 11ascedonro Passados armos, oomo a paitlo das :1etl'88 o • pioaça81e, dea-se ·a tradoclor do hespanhol~ oe sahio a mais .OOito tnoae com o NUJiaB'IItOi vida -t

·

fiM1Iie ünirtlnil do grande 1ert10 de Deus Gregn ·

tops, '*urcU·d• UMa à ÜIIIMrf!l: ·OOIIIptWIO pilo

licmceado Francisco Losa, t,

:ido

M ~m,

pw•

~ ' acr~ (ttjim a tent&IIO 4o. dem&-

nio da originalidade !) o ~m e primeiro capitulo Ora. & fim e fll'imairo, capiqalo do llvro era sobre modo

telb\

Além d'outras tr.atioeQÕeS, Pedro Lobo, queren- do ctar test.emnnho publico de sua piedade, das ex- celleaeias- do seu christianismo, e assanhado rancor á raça hebraica, traduziu do castelhano um livro re- wlsivo,. intitulado: Sentit2ella contra jrdetu~ posta em a torre da igreja de DefJS~ fc. Feito isto, e mais alguns seniços á religiao da caridade e ás letras por- togoezas, morreu Pedro Lobo, deixando ainda um ~lu100, o peor e mais brutal de todos, que era o filho Bartbolomeu. Estava, pois, Bartholomeu Lobo folheando os

preciosos livros do conde da Ericeira, quando entra- • ram Antonio José da Silva e Francisco Xavier. De-

pós estes, entrou o padre I

·prior de S. Jorge, homem de sessenta annos e ale- gre sombra de v.elbo em cujos olhos lampejavam ainda os clarões da juventude. Antonio José, que sinceramente odiava Bartho- lomeu, já pela estopideE herdada pela propria, nao perdia lanco de o metter a riso com salgadas galhofas na presença da fina e algum tanto livre so- ciedade do conde. Casualmente, relançando os olhos ã livraria, o hebreu enxergou o livro em s.•, intitu-

uiz

Alvares d'Aguiar,

30

o liDA'

lado: SentineUa conwa j~ «c. Tirou Q livro,. e disse:

Francisco Xavier, Jêste um diaQl3ntio~ livrinho traduzido pelo pae aqui do snr. Bartholo-

meu?. A sentinella contra judeus I

cacarejou gargalhando o

padre Luiz Alvares- Isso é uma obra que faz co-

cegas nos pés ã gente.

-Oh t ••• oh t ••• -

- Entao porquê"/- perguntou o abespinhado

filho do defunto traductor. -Porque? 1- tomou o padre- porque é obra

recheada de saqdices, e immoralmente porca e torpe:

-retorquiu Bar-

tholomeu-mas vm.oe, que é padre, e homem bem. nascido I

- Que outro dissesse isso

-Quer vm.oe-tornou. o presbytero- que os

padres e homens mo o senhor seu

rança dos pobres de espirito ? Antonio José e Francisco Xavier riram. Bartho- lomeu, em harmonia com a sua costumada parvoice, riu tambem ; todavia, o onagro, que fareja a femea nas brizas de Maio, ri com mais espirito.

bem nascidos sejam tão alarves co pae, que Deus haja na bemaventu-

O filho de Joao Mendes abriu ao acaso o livro, leu mentalmente algumas linhas, e disse:

- Ú snr. Bartholomeu, vm. c• estará na persua- · são em que morreu seu engenhoso pae a respeito das doutrinas d'este livro?

ROKAND-IIIS'I'ORICO

-Eu enio todo em que meu pae creu. Tudo

qu.e elte escreveu ou traduziu sio verdades- res- pondeu o sujeito. -Bem. :Então defende o que se diz aqui, res-

peito á raca hebraica? -Defendo, sim, senhor. São as doutrinas da igreja ; e por assim o entender, mandei reimprimir esse livro ba quinze annos. -. Fez vm.c• muito bem, snr. BartboJomeu-·

obtemperou Francisco Xavier

n•um paiz em que o livrinho de seu ainda terceira vez impresso 1 • ·

d'Oiiveira -Estamos

pae· had~ ser

da Silva

-Ora digam-me, se a immortaJidade· não é pequeno galardão para um livro, ·onde se leem estas cousas.

Attendam :

Se os hume:ns pozera~ cuidado em

si'IW.lar os judeus, ptJra que fossem conhecidos por suas traições, não menos cuidou Deus de os sinalar para confusão sua, e castigo do que mer:eceram seu~ antepassados. Não são em alguns mui patentes os signaes que por sua mão lhes põe a natureza; mtJB em outros se descobrem claros e evidentes, sem f[!1B á geme os possa seu cuidado esconder ou encobrir~·· Digo pois que ha muitos sinalados pela mão :deDeus depois que crucificaram a sua divina .magestade;

- Merece-o 1- ajuntou Antonio

José

uns•••

·

t Foi etrectivamente reimpresso em 1748.

O·~D;

exoiamou Antooio José·

interrompendo a leitura -Reparem, por hoora 4la historia natural e do defunto Lobo mert.o, e do Lobo

moi

· -Deparem o'isto I -

E proseguiu na leitura : Uns tem uns rahinlws

gue lhes soltem do seu corpo do remate do espinha-

PJ; outros lançam e derramam sangue. ••

-Alto lã l -atalhou o padre Luiz Alvares- Estão senhora~ na sala proxima: quem quizer, vã lêr ã rua o restante da immnndieia t.

-Eu já li -disse Francisco Xavier apertando as cartilagens do nariz - Isto vapora miasmas de latrina. -E com que então -repetiu o hebreu - está vm. ce persuadido, snr. Lobo, que alguns judeus tem uns rabinhos que lhes sabem do seu corpo do re- mate do espinhaço? -Estou, sim, senhor.

- Jã viu d'essas cousas com os seus olhos pe-

netrantes? Agora vejo eu tambem que não é chime- rico o anexim respectivo aos entendidos que 'mettem

o nariz em tudo f Que grande alcance e que profun- das investigações por lugares tão desfrequentados tem feito o seu nariz de sabio, snr. Bartholomeu!

 

O

padre Luiz Alvares de Aguiar, desabafados

t

Oleitor, se não prescinde de v~r o restante da immundicia, como

judiciosamente dizia o prior de S. Jorge, veja a pag. 171, da ediç. de

ROMANCE IIISIORICO

33

os impulsos de riso, (lompoz o semblante, e disse:

grandíssimo. desdouro para Portugal que esae e quejandos monstros da Joucura humana cor- um impressos. Lastimo, sor. Lobo, que vm.ce ande

a fazer ganancia com estes excrementos das pobres

e servis vigilias de seu pae, cuja capacidade intelle- etual estã medida por esta producçao, que elle foi buscar, para traduzir, aos escoadouros de Castella. Veja, por honra sua, amigo e snr. Bartholomeu, se póde chamar a si todos os exemplares d'esta vergo- nhosa obra, e queime-os; queime este opprobrio de seu pae e seu. Queime-os

- Ou dê~os-acrescentou Antonio José- para alimentar as fogueiras d'algum judeu

-Póde ser

-murmurou Bartholomeu, a

ponto que vinha entrando o jovial conde da Ericeira,

pedindo desculpa da demora.

. -Que livro lê o nosso moderno Gil Vicente 'l

- perguntou o conde- Ah

Isso é 'galante livro, que prova o adianta- mento da historia natural nas Hespanhas. Falia abi d'uns rabinhos -Com elles nos entretínhamos-acudiu o prior de S. Jorge. -E viram, tornou o conde, o porquê de terem rabinbos alguns israelitas 'l A explicaçao está duas paginas adiante. -Cá estã -disse Antonio José, e leu : Os que

SentineUa contra

llJDBU

tem os rabifWJI no remale do espiMaço, são por li-

nha direittJ descendenlieS d'aqNilles que entre elles eram mestres, a quem chamtJvam ralM~ e nós no- meamos rabinos; esus se tentarom a julgar. e lwje ensinam sua lei como mestres e jNizes, e para pena sua, e sentados não possam estar sem fiUJlestia e tra- balho, lhes sahem aquelles rahinhos no proprio lugar que lhe póde causar penalidade. -Parece que o snr. Bartbolomeu Lobo esti com azeda sombra I-atalhou o conde- ú n~'\80

amigo, seu pae não tem que vêr com a nossa criti- ca. A um traductor tão sómente se pede contas da

lealdade da versão; e, a meu vêr, esta versão

hespanbol é fidelissima. Da substancia do livro estã seu pae inculpado, amigo Lobo.

-Meu pae, snr. conde-disse Bartholomeu- não pede desculpa de ter feito um bom serviço ã religião. Aos judeus é que elle não fez grande favor, traduzindo este religioso livro, de que estes senho- res estão zombando. Bartbolomen feriu com os olhos as costas de Antonio José da Silva, quando proferiu as palavras:

aos judeus•

do

O filho de Lourença Coutinho apanhou-lhe no ar o tiro, volveu-se rapido para elle, e disse :

-Os judeus que tiveram a desventura de nas- cerem em territorio portuguez tem quinhão na igno- minia d'este livro, por estar em linguagem que se

ROIIANCB HISTOIUCO

31

parece tanto ou quanto eom a portugueza ; em quan- to ao mais, Deus nos livre que o santo officio acre-

rabinbos t • • • A penersi-

dade, em geral, costuma ser menos estupida. Hoje nao haveria ninguem que quizesse inspeccionar as taes excreeencias a nlo ser vm.ce, snr. Bartholo-

ditasse na existencia dos

meu

O conde fez a Antonio José um expressivo gesto de silencio. Bartholomeu deteve-se alguns instantes, e pediu licença para retirar-se, comprimentando profunda- mente o padre, o judeu e o filho do contador-mór. -Faz mal, snr. Silva- disse o conde grave- mente depois que Bartholomeu sahiu - faz mal em disparar tão certeiras flechas contra a cabeça dura d'este homem I Vm.ce esquece-se de que ha no Ro- cio um palacio, que se chamou dos Estãos, e hoje se chama vuleao de fogueiras. Tenha prudeocia.

a favor de Moisés

e contra S. Paulo ; mas do maior numero de sujei- tos, que entram n'estas salas, guarde-se.

Diante de mim, diga o que quizer

CAPITULO IV

Quinze dias volvidos, aos 6 d'Agosto de 17i6, entrava Antonio José da Silva, segundo o seu. costu- mo quotidiano, no escriptorio de seu pae, quando tres familiares do santo offioio lhe ordenaram que os seguisse ao tribunal. O hebreu hesitou alguns instan- tes, meditando no mais facil meio de escapar-se. Um dos familiares, entrando-lhe no animo, descerrou um riso -de escarneo, e disse :

-Nilo pense em. fugir, que as avenidas da soa casa estio vigiadas. Em toda a parte ha sentinellas

COfltra judeas.

Antonio José ·da Silva entendeu a allosllo. Pediu que o deixas~ despedir de seu velho pae e de sua llllle, obrigando-se a subir acompanhado. Negaram- lhe a licenÇa, solicitada com lagrimas.

38

O JCD&U

Antonio José sahiu na frente dos tres familiares, e pediu ao mercieiro visinho que avisasse seus pa<'s de que elle ia preso. No mesmo dia e á mesma hora, foi tambem pre- soo prior de S. Jorge, Luiz Alvares d'Aguiar, e con- duzido aos carceres da inquisição. A captura do filho de ·Lourença Coutinho Dlo fez estranheza. A· inquisição e os devotos lembravam- se ainda da judia, que sabira absolta d'onde a pieda- de requeria que sabisse de r.arooba e sambenito. Grande parte do publico estava escandalisado d'aquelle singular caso de indulgencia, que, até certo ponto, amooçava quebranto na inteireza dos inquisidores. Por isso, com a noticia da prislo de Antonio José da Silva, os pios e.scandalisados sentiram a satisraoao desaggravante.

Em

quanto ao prior de S. Jorge, m.uita e •

gente se espantou. O padre Alvares d'Aguiar, orian- do de mui illustre familia, em limpeJa de sape por- dia pleitear antiguidade com a mais primorosa ~ de christãos. Corria fama de qoe elle, desde os quia- ze até .aos sessenta e tantos anoos que tinha então, se diatiJlinira em fetueaes muadanidades, amaDdo as mais formosas e fidalgas com requintado e veraa&il amor nem sempre ideal. Á volta d'eUe. DO diz,r do seu amigo Fraooisoo Xavier d'Oliveira, floreeia. 1Ql

especie de t.rem espiritual, composto de tearas •

juvenis

bellezas, das qoa~~S elle SQ danolillinava ~

1\0MANCa MIS1'01Ut:O .

3t

SfJIMlo, ao JDeStDO tempo. dono e galan. Este bom pa- dre- diz o cootempoi'HdC) -. que outra quebra não

liaha senão a paillo db amor, .olo de.ixava ressomar a soa &endeoeia D8lll por obras nem por palavras.

Apenas sustentava. que oamor to complememo e epi-

chamada caridade nas

IDnte de toda a

lei; e qw

_,lJS' acriptums lião t lmOO a amw, lfgtmdo S.

Jeronymo. Bem que amasse idolatricamente as mu- lheres formosas e as de. mais loslrosa raça, nunca fallua senle do amor de Deus; e d'este amor pare- cia desbordal'-lhe o oora(.llo, se atten&armos nas ma- IRBS obras de caridade que elle eonstaotemente exer- àeiYa. Diz mais o cavalheiro d'Oliveira :· c Eu vivi muito na sol intimidade. Tio exceJlentes no amago eram as qualidades d'eUe, QIIB toda geote o estimava, sem distincçao das mais gradas pessoas de Portugal, quer pela qualidade de soa fidalguia, quer por seu eopioso saber •. Todos, pois, se maravilharam e condoeram. Nin- pem sabia conjeetorar o motivo de semelhante pri- slo. Quem, com effeito, mais cabalmente podia in- formar a curiosidade do publico, seria o filho do tra-

ductor da Sentinllla cuntra judetu.

Esperemosoolhe a sentença. loAo Mendes da ~va, IAo depreasa pôde trans- portar ao leito soa mulher· desmaiada e como morta pelo golpe da noticia, correa a casa do conde da

Ericeira a pedir a redempçAo ·de seu ilho. O cOlide ouviu ater~do a nova. e disse :

- Eu previ isto. • • Sei d'onde ptrtia a denun- cia•.• com Deus, que e11 começodesde·jA a tra- balhar na salvação do pobre mocn. D'aqui, foi Joao Mendes em cata do contador.

pae de Francisco Xavier d'Oiivein. Encontrou-o af- fticto.

- Tambem meu filho, disse José d'Oiivein .e

Sousa, esteve em risco de ser boje preso. Salwoo-o hontem sua mle, ajoelhada aos pés do inquisidor,

porque um conselheiro do santo officio se apiedou . das minhas ·cans, e me avisou. Não sei que beide

fazer em seu auxilio, snr. Joao

sou tambem suspeito. Quando a inquisição prendeu o_prior .de S. Jorge, nAo sei que haja ninguem defê- so

João Mendes sahiu desanimado. Foi ainda soo- correr-se d'aque11e Diogo de Barros, santo valador de infelizes. O ancião algumas esperaocas verteu no co- ração do septagenario, dizendo-lhe que ainda era fa- miliar.

ajuntou Diogo de Barros

- agora que vinha ahi a filha do meu Jorge para se

effectuar o casamento ! É .preciso salvarmol-o antes que ella chegue. Eu nao lh'o faço saber a e)la nem a Sára. Recommende á snr.• Lourença Coutinhoqoo

Eu

MendesJ

- E entao agora -

ROKALIICa JIISTORJCO

nio diga nada pan Ãmsterdam; ou, a diaer-lb·o,qoe as dissuada de lirem a Portugal. .Antooio .losé·da Silva foi coodozülo:ao chlmado correM~" IIIBÍHIOOO. wcere numero seis. Ao oitavo dia foi levado a perguntas á chamada tntlt.l do santo~· Estava adiantada a instaunçlo do proeesao. Lenm-lhe o depoimento das teslelllu- nbas que o capitulavam de judaisante. Antonio Joaé dine francamente que nlo tinha vivido como cbri&- Uo nem éomo israelita ; mas, se lhe concedessem vida pàra o arrependimento, faria inteira abjoraçiO de seus erros. * Aceitaram-lhe o abjurar ; todavia, como elle nao confessasse que em casa de seus paes se jodaisaa, pozeram-no a tractos, chamados do torniquete. A tortura exerceram-lh'a nas maos, até lhes esbrnpr

a carne dos ossos. O padecente, consoante consta ·da ooosignação dos autos, no mais cruel remoer do tor- no sobre os dedos, invocava Deus, e nao a Virgem, nem algum Santo do reino do céo. Ao tempo d'este supplicio lento, CC)m intercaden- cia de trevas na masmorra, que fazia Francisco Xa- vier d'Oliveira '! Padecia traetos d'outra natureza. .AqueJla Joanna Vietorina, tao da sua alma, a ci:- gana requestada pelo fatídico hespanhol, desappare- oeu·lbe um dia, fiixando a mae com a condiçio de

a mandar buscar. Francisco Xavier, com dons mem~

••

o .IUD8U

bradeis oriados, aprroo da velha. a ameaçou-a de a pôr a tormentos até lbe arrancar o segredo do dei- tiDO da filha. A demoniaca d'011tr'bra. ao lembrar-se dos tijolos ardentes, revelou que a sua Joonoa fugi- ra p1r3 Valhadolid com um hespanhol, que lhe pro-

Uera

palacios na sua

terra e a Dilo de esposo.

O allucinado moço esqueeeu o pobre amigo pre- so, a mãe angustiada, o pae que de puro medo da inquisiçao cahira enfermo, ludo esqueeeu, porqoe a

serpente do ciume se lhe enroscou no peito, e ver- teo peçonha aos seios da alma até lhe queimar as febras todas da amizade e filial amor. Pediu o dinheiro que não pôde furtar dos conta- dores paternos, e foi caminho de Hespanha. Entrou em Valhadolid, onde não conhecia ninguem; mas a seu pae ouvira dizer que D. Rapbael Hernándes de Bobadilha, alcaide de Valhadolid, era seu amigo, e parente do marido de uma sua irmã, casada em Bar- celona. Apresentou-se ao alcaide : disse-lhe quem era e

ao -que ia. D. Raphael acolheu-o com benignas risa- du, exclamando :

- Eu sei onde pára

paz!

-E o covarde que

Xatier.

a cigana, meu ditoso ra-

m'a roubou? -

acudin

-Esse foi hontem preso:

estâ no castello, e

de lá veremos para onde as leis mandam os cau

ROIIANCI. BISIOaJCO

dühos de Sll&tadores. Fioa vm.• aabealo qae a sua htaoDa tete a halra. de hospedlr no largo peito

o eoraoao- dG atis temeroso bandido das A8lllriaL ••

a creatura eof8f'I'UICadl

Agora r.;.

li ae

lhe

CQJD tAo àjactos IIDOreB.

- ODde a eocoatro 't - o portuguez.

disse cem vebeDilDiil

-Na estaialem onde o salteador foi pnao. Que

qaer nu. oe fazer á mulher 't

-Matal!'ll

muito bem feito I -

accedeu gravememe o

alcaide- Vã matal-at qoe é uma devassa a mulher!

Faz um serviço ã humanidad~ D. Fnnciaeo I Ea.

se DAo tivesse que fazer, ia tambem dar

ehiJada DO pescoço. ••

- D. 1\aphael es&ã a zombar eom a miaba - ventura 't -interrompeu o moço. -Nilo senhor. Es&ou a recrear-me eom Tm.o•, em quanto nao chega o chocolate que mandei pre. par.ar••• Abi "em o chocolate. Sente-se pal'f aqui, rapu Merende, e depois irá perpetrar o cipnicidio, a DUI8 hora proptia d'essas atrocidades Deixe DISto cer a lua, para os poetas de Hespan'ba terem azo de fallarem na lua, 81.1 cantarem·. em funerea dlacara a DlOI'te da cigau ãs maoa do. trabido paladill D. Fran- ciseo- o portaguez I Ai I que grilharia Dlo vto fazer as musas I que poemas a pingar sangue nao Tio •

Jbe

uma eu.

hir

peito 81fafiiJNdo de JOIDill r Que lm a bre-

O 'ODIU

ca tal noaae r Nunca vi

que ella se nlo possa ehrismar ames de lllOriW, ea-- talheiro r Se me licença, D. Francisco, ainda 'fOU, ·

por IIBor di poesia castelhana, entender-me com o bispo, a vêr se a podemos obr.ismar. Faça-me o fa- vor de nao matar a rapariga até ãmanhA por estas horas r F.raociaoo Xavier tomava o chocolate, e ria-se, quando nao cravejava os dentes no beiço inferier.

D. ·Rapbael Hernandes de

Bobadilba apitou o aspeito gravemente, e disse:

Estivemos

Joaona em Teno ! É pena

Te~inada a refeição,

-Foi, sou e serei amigo de seo pae.

em·Fiandres ba trinta annos: aramos ambos secretarios dos ministros de nossas patrias. Seu pae era honra- do, e fidalgo da velha estõfa. Vm. ce ainda eotao se gerava ou entranhas do nada, snr. D. Francisco. O

resultado

berto de neve. Estas caos devem-lhe incutir a idéa de que eu jã tive cabellos pretos, e experimentei tantas paixões quantos cabeilos tenho. Estã vm.ce diante d'um velho que lê nos refolhos do oo~. A eig3DI, que o trouxe a Valhadolid, é mais aiB8da boje do que era antes de lhe fugir.••

é estar vm. ce ahi quasi imberbe, e ea co-

- Ob r-

atalhou Francisco Xavier.

-Nada de rhetoricas nem de theatro, D. Fran- cisco. Pergunto: quer levar a cigana 't Vamos: res-

ponda r

-Preciso vinpr-me rquero mataJ

a, amando-a r

ROMANCE BISTOIICO

--N'esse caso, mate-a!- tomou o alcaide, no tom da primeira galhofa- Eu vou mandar comsigo - á estalagem quem lh'a ensine. Morra embora a Joan- na, e fiquem os poetas tolhidos por causa do mais villao nome que ainda se ouviu em tragedias I Vã, vã, dom assassino f Ergueu-se o alcaide, chamou da janella um qua- drilheiro, e ordenou-lhe que conduzisse o seu hos- pede ã estalagem que indicou.

CAPITULO V

É minha opinião que ha umas lagrimas, que tem

a mirifica virtude de lavarem as manchas da perfidia

BO rosto da mulher amada. Estas lagrimas são magicas, são os filtros do sor- tilegio com que a sciencia de nossos antepassados andou ãs voltas e com que a piedade alimentou a vo- racidade das fogueiras. São lagrimas. que tem e en-

cerram virtudes luciferinas : sahiram de laboratorio infernal; não sao o sangue d'alma, como o padre Bernardes as definia. ' loanna Victorina, quando Francisco Xavier en- trou ao quarto em que ella estava escrevendo, tinha

o rosto aljofrado d'aquellas lagrimas. A ira do moço

afogou-se n'ellas. Cruzados os braços, crispantes os beiços, accendidos os olhos, Francisco Xavier d'Oli-

.&8

O JUDEU

veira parou no limiar do quarto. Joanna ergueu-se, lançou mAo do punhal que estava sobre um. bofete, despiu-o da bainha, tomou-o pela ponta, caminhou solemne para o cavalheiro com os olhos no pavimen- to, offereceu-lh'o, e disse-lhe:

-Mata-me, que é um beneficio matar uma mu- lber que os remorsos hàode matar vagarosamente. Francisco Xavier passou por diante d'ella, apro-

ximou-se da mesa em que ella estava escrevendo, cun·ou-se sobre o papel, e leu. Era carta que a dgana escrevia ã mae, pedindo- lhe que a mandasse buscar, porque se via desampa- rada em Valhadolid. Do homem, com quem fugira, apenas dizia que fôra atrozmente illudida por um infame. Está vingado, escrevia ella, o bom moço que eu sacrifiquei; se o vir, diga~lhe que me não deseje maior desventura

Francisco Xavier, lido aquillo, voltou o rosto ã cigana, que ainda permanecia queda com o punha]. Depois, sentou-se, a chorar, arquejante, affiicto, com o rosto abafado entre as mAos. Joanna abeirou-se d'elle, e ajoelhou, com o rosto pendido para o seio, braços pendentes, e o punhal na mao direita. Fran- cisco Xavier viu-a assim ; ergueu-se de golpe; quiz •

fugir impetuosamente. Ninguem lhe estorvou o pas-

so; podia fugir ã sua vontade; mas

ço, a

pelas

. cadeia magnetica parecia arrancar-lhe

o fatal enli-

o coraçao

costas, quando elle ia fugindo. Era a

cigana!

BOIWfCB BISTORICO

49

o amor infernal d'aquella raça maldita de Deus, que

tem por si a omnipotencia de Lucifer. O moço girou sobre os calcanhares como mane- quim. Parecia nma cousa phantastiea : de real ape-

nas se sentia, n'aqueUe quadro, a ridiculez dos olha- res, das posturas e do silencio. Estava isto assim n'este curioso lance de se deverem rir um do outro, quando Joanna se lhe atirou ao peito, espedindo um ai estridulo, um como grito do coração que morre. Se a nAo amparassem, cabiria ; mas n:ID eahiu. Os braços d'elle apertavam-na muito, muito ; e, se os braços não bastassem a sustei-a, creio que elles se segurariam um n'outro pela identificação dos labios. Como se amavam I E, depois, não ha mais que dizer no tocante á reconciliação. Oalcaide chegou a lançar o jantar com

o riso, quando o portugoez lhe contava a passagem

com os tregeitos e transportes que deram em resul- tado o jurarem-se reciprocamente um eterno amor de mais algumas semanas. No dia seguinte, quando Francisc.o Xavier anda- va curando dos aprestos para a jornada, é que elle se encontrou com as duas perseguidas bebreas no adro da igreja. O leitor póde recordar-se. Deteve-se ainda tres dias em Valhadolid Fran- cisco Xavier de Oliveira á espera d'alguma boa nova, com referencia ás presas. Com as boas esperanças

1J8

tUUifi,

(\e D. Raphael, sabia Ómoco, ~paüado da oi~ na, para Lisboa.

SoCQgado de cor&ÇAo, c~ •· tMibar no

salvamento de Antonio José da. Siw•·· Des~ prQ,

tecção seria a d'eUe, já ·~- raal visto do santo

cio, que os paes, incessantemoote lhe pediamque fu-. gisse de Portugal. Diogo de Barros despersoadiu-o de solicitar a miserieordia de S. Dominp a fal81' do seu amigo, como patronato inconveniente ao pre-- so, a menos que o não quizesse sobrecarregar. Os valadores do filho de João· Mendes, com quan• to poderosos, ignoravam e temiam a sentença no fa'!' tal dia 13 de Outubro, designado para o auto da fé. Contavam Diogo de Barros e o conde da Ericeira com as favoraveis allegações dos qualificadores do santo officio ; desconfiavam, porém, do inquisidor geral. Soaram os sinos á chamada dos fieis para assis- tirem ás sentenças na igreja de S. Domingos. Entre os réos da vanguarda ia Antonio José com o sambe- oito, descalço, cabeça rapada, ao lado do padrinho que lhe fôra nomeado. Ir elle entre os primeiros réos, era já signal de grande jubilo para os seus. Os que marchavam depós o Crucificado, erguido em meio da procissão, esses já podiam de antemão con- tar com as agonias da fogueira, porque jã não viam a face do Christo. Antonio José da Silva ouviu o ser- mão dos labios piedosos d'um frade dominicano, que se esteve sempre em extasis diante da misericordia

6

OOID que a aan&a iDqoisiçlo aadna em· Cita das al-

11118 tresmalhadas do caminho da gloria. para as re&- ti&air ao seu creador. ConeluidG o sermAo, dons frades subiram ao palpito para lerem a summa dos proeesaos, e decla· nr as penas em que haviam sido eon4emnados A primeira sentença lida foi a do padre Loiz Alvares d'Agoiar, accosado de prostituir as suas de- votas no eonfessionario, crime que na tortura confes- sãra. Privado do exercício das funcções ecelesiasti· cas, foi condemoado a desterro perpetuo. Antonio José da Silva, n'esta occasião sómente, soube que o prior de S. Jorge fôra lambem vietima da denuncia de Bartbolomeu Lobo Corrêa. Seguiram-se outros réos. Depois, um familiar conduziu pela mão Antonio José ao meio das galerias, occupadas por frades, bis- pos, qualificadores. e famiJiares. Ouviu lêr o proces- so, que o aceusava de ter bebraisado. A sentença era absolutoria, visto que o réo confésso abjurava as doutrinas dos dogmas judaicos. Em seguida leva- ram-no ao tope do altar, onde o fizeram ajoelhar, e pôr a mão sobre um ~issaJ. N'esta postura, recitou um protesto de fé, e esperou que o inquisidor o . absolvesse da excommunhão e lhe impozesse a pe- nitencia. 1

t Estes pormenores das oeremonias dos autos da fé, e outros que vierem ao intento n'este livro, encontrei-os authorisadamente escri-

11

.o.JUDIU

Ultimada a ltitura das ll88leDÇas, Antonio José, ao s:ihir do templo para entrar na oaBIHiJrll4, 1 -cir- cumvagou os olhos pela multidão, e viu Francisco Xavier de Oliveira, -ao par de sua mae, que cobria o rosto.·e as lagrimas com a mantilha. Entrou no

tribunal, despiu o sambenito, os

ta parda listrada de raios brancos : entregou ao al- caide da inquisição a vestimenta, e esperou que o inquisidor, duas horas depois, lhe designasse em lista manuscripta os artigos da penitencia, e lhecm- zasse a ultima benção misericordiosa. Ao anoitecer, o filho de João Mendes entrou na liteira do contador-mór, e foi conduzido a casa de seus paes. Lourença Coutinho, quando lhe viu os dedos macerados, e as articulações das phalanges ainda chagadas da tortura, perdeu os sentidos nos braços do filho. O ancião, com as mãos erguida~ abafava de soluços, desviando os olhos das mal fe- chadas cicatrizes, que o moço mostrava. Francisco Xavier, a praguejar, blasphemava da Providencia,

Galções

e a jaque-

ptos n'um raro livrinho da excellente livraria do meu douto amigo José Gomes Monteiro. Intitula-se o livro, escripto em francez, e impresso flDl

O narrador foi um medico

francez que padeceu dous annos de carcere como herege, e veio para Portugal condemnado a cinco annos de galés, d'onde o salvou um medico francez, que o era da rainha D. Maria Francisca de Saboya, mulher de D. Pel]ro n. Opportnnamente darei mais ampla noticia do contexto do

1688, Relation de l'lnquisition de Goa.

livro, t: Era assim denominado o tribunal da inquisição.

dd'riftandô qae ella mstisse, e illlpl88ivelmeote se

refiJse· nas atrocidades d'este

Antonio ·Jolé da Silva, nos primeiros dia de li· herdade, fez suspeitar desooneer&o de juizo, Aeonta

d'11DS ares SGIDbrios e semblante empedernido • que se deixan estar, loops bons, n'am tenivel quietismo. Á primeira vez que sabia de casa, foi ao

CODfeoto de S. Domingos tna&ar eoaaas espiritoaes oom ftldes de boa nomeada em virtude e 1aber. F - gia os seus antigos conhecidos, e nomeadamente Fra• cisco Xavier d'Oiivein, que IDii& que todos· se com- padecia da estrapJa cabeça do pobre Antonio. Quan- do oallllllte de Joanna Vie&orioa tbe queria contar os successos de Valhadolid, Antonio José cortava a nar- rativa, pedindo que lhe nlo desnorteasse o espírito. Oliveira ria-se ã socapa dos tregeitos pios do amigo,

o ~nal, por vezes, era na verdade irrisorio, referindo serapbicamente as suas visões e sonhos beati&os. Esta enfermidade cerebn1, etfeito das trevas, da

insulaçlo e tormentos da santa easa, goareceo

tameote o correr

rêm, nAo impedia que Antonio José, om dia por ou- tro, fosse ao convento de S. Domingos conversar, instruir-se e roborar a sua piedade com os frades. Entretanto, Loorença Coutinho e João Mendes, grandemente auxiliados pelo tio de Jorge de Barros, convam. incansaveis do livnmento daSára e Leonor. Ao• principio, Antonio José ouftl faülr d'ellas.com

odo.

a

leo-

do tempo. Este melhoramento, po-

·

·

OIUDBIJ

uma quasi es&ranheza, .e depOis com piedadé. Dilia . elle que a desgraça era necessaria, qoaudo nos sabia ao.encontro fóra da eE!trada direita, porque, sem.ella,

oonoa nos rasgatariamos de atalhos perigosos e (X)f)~

daetores i

perdição. Osalá -

ajunta•a elle-oo:-~

Sára e Leomor apreodam·a verdadeira religião, co.-o

a mim lll6 acon~eu I

Lour.ença cborata quando isto oufia. Francisco

Xa1ier olhaM-o em rosto com sincera amarguí"a, e

de

D. Rapbael Demandes avisou o seu velba aiJÜ. go J~ de Oliveira 'Ne as duas presas sahiriam in~

fallitelmente. no primeiro auto da fé-; pelo que,

es-

tavam sendo superfinos os empenhos que iam de

Portugal para o inquisidor e qualificadores do santo

qae o santo otlieio .em lf6t.

si para si dizia : « endoudeeeram-oo I •

o n i

.

ssever va-

as

it enos rigoroso que. o tribunal por· caso d s duas mulheres, nao huia oa-

, da u s n o a prislo de mais doos mftles, em um quar.to bem aiWDiade e provido de tudo que etlas á sua casta mandavam procurar. Ao aproximar-se o dia 26 de Janeiro, ·Diogo de Barros, earrepdo de aonos e virtudes, quiz prestar

aiuda os bons offieios

de parente á &lha de seu so-

brinho .Jorge, indo a Valhadolid buscar as dou se-

nhoras., para d'alli as ooaduzir para o aeie da sua

família.

nesco, afigur-mdo-se-lbe ea•alheirosa bizarria lfpl•

b

u u z ,

Franoisco Xavier d'Oiiveira, o moço roma

MIIANCB BJSTOIICO

reeer n'uma hora feliz ás damas~ que o viram em aftlictissimos momentos, acompanhou o anciAo, mui- to a beneplacito do pae, que se atormentava com medo das iras do filho contra os inquisidores. E chegados estamos, pois, ao ponto em que Sára e Leonor sahiram absoltas e penitenciadas da inqui- sição de Valhadolid, no auto da fé, de 26 de Janei- ro de t727.

CAPITULO VI

Aposentou-se Sára em casa do tio de seu ma- rido. Loureoça Cootinllo e a sua amip eoeannnH8 e duvidaram uma da outra. Na desfigonçlo d'estas atormentadas mulheres a continuada remioisceD-

cia poderia eotmer omu sombras da antip formo.

sura. Sára quiz vêr Antonio José, o homem formado d'aquella creancinba que andan na Covilhl com SUl filha ao collo, e tanto chorara por ella na despedida.

O moço eooaron estupefacto em Leonor. A viagem

1110 era bem de espanto: estava alti o quer que f0188

do idiota, que se procura no seu passado a um raio de luz, da apafclda luz da sua razao, do seu amor, de soas esperanças.

OJUDBU

Leonor contemplava-o triste da commum tristeza das piedosas almas. Nlo o tinha amado ; mas affize- ra-18 a pensar n'elle. Imaginava-o moco de muitos espíritos, de airosa presença, sympathieamente melan- oolico ; e via alli um homem como entangoido de frio d'alma, em spasmos de santa introversão, olhan- do para ella com assombro, e para os outros com certo ar de quem pede que lhes alumiem as eseuri- dades da memoria do seu eoraçao. Leonor, avisada .p0r Lourença, do estado lasti- moso em que a tortura lhe transformara o filho, cha- mava-o ãs recordações do passado, recitava-lhe os Yersos d'elle que recebera em Amsterdam, pedia-lhe

lhe dillseue poeaias novas ; e coavidou-o, uma

Yez, a glossar-lhe uma quadra. Antonio José da.Sij-

•.aootdeu·COIB um IOI'riao, e 4is&a:

- Uma quacki eipiritaal••• Seja I Diga que eu 'fOU fJICI'ttêl-a. • •

Mas. áo curvar 01 dedei. para seprar a permat

soltou um leve gemido, e murmurou :

-Eaqoeoia-me.que n1o po880 wcrever••• Te- Ilho os illlles q•ebrados r t

IDfaiMS frades r-eldamou Leonor.

-Por

per q0811l é r

-

êr••• -

uudiu AIKooio José

,.

oao r.ue :assim. Leonor r. DiO "'-

« • • •• torturado tão cruelmente que os dedos

lhe flciram em tal

Cesta e

lllado que por muito tempo Dão pMe 11e111 assipar o seu neme

Silva- Euaio biocraph. T. to, par. 831.

llOIIAI.'fCB

CO

le•.•• que eu posiO"&er seuaeonlldor •

&ortultaL ••

Bl1 tmba desejo de

etos; por isso Dlt

IDOl'l'll'. <JtWldo me deram os w-

aacusei mH pea e miou

,

mas aqueDes ct•e .Die podem COIIl a d6r .nem com.e terror da IDOJite•• \ esses acoaum p~e. mie, espo~~.

e ·filtros. • •

chouncia

·~m-se, ooad

se

,

a &i, Cllumai•m·se, - a iofemo tan ftm, ,.,.

Dlo SfDtil'elll· o repuxar e estalar de cada· fibra do

seo arpo, e o ~

e o ipapNJe compassado, len&o. horreo4iasime de

de cada gota do seu sanpe,

cada flisàa luminosa do seu espírito•••

-E como eram as torturas

• como foi que lhe.

pozeram as Idos n'eate estado 't- PeriQDf.ou Leoaer. Antonio José da Silfa &ou-a como espanladô.da pergunta, e diase:

-Nooca reme o que viu DI inquisiÇio de v

lbadoiid, Leonor: o1be · que Dão ha perdia para a

boeca imprudente qee cleixou passar uma pilavra.re.

veladon do que vai n'aqaelles infernos! •••

E, dito isto, eom torva e mysteriosa solemoiH-

de, o filho de Loarença Cou&iào sabiu impetuoea-

meote d'eotre as familias hebnieas e cbrietls que o viam e oul'ilm com os olhos marejados ele Jagrirus.

-E aqaeUes DOIIIOS p1aDGS, Loureaça- dilae

'teu

Sclra- tu como a delgraça n'ol-os desfe~l

filho, se auim Ylti••• podemos perder a espenll(a de

o truer a uma ngular vida em que possa reaUsar- se o casamento••. Elle nada ~ diz 't

e JIDIU

-Se ea lhe faHo-n1Ma. dlHM qee esU morto

para a felioidade, e CJdO lbe

restaurar Mda do que perdeu. D'1otes en triste ;·

agora esti oontinuameote cbonado. Nlo p6de M6f8oo ·

•· •• é o maior iorortunio.•• Nlo séi como beide·

diMrabil-o. Anda de convento em

chamam-lhe hypoeri1a ao meu pohre Ilho••• O qae el1e esti é quasi demente, se a Di•ila ProYideocia o

DIÓ socoorre. • • A minha

-exclamou Loutença, beijando a filha de Jorge de Barros -To é que hasde salvar o meu Antoaio, o

n10 neta espel'ldoa· de •

CODleDto.

.Por abi,

esper1001 és to, Leonor f

Dá-lhe tu calor ao eo~o que se

oooceloo DO frio dos calabouços. AeonJa.o, filha; oba- ma-o ás alegrias d'este mundo.•.

teu esposo I

-Eu nlo as tenho•.• -

balboeiou Leoaor- ·

Nlo tenho mais calor no eoraç:Ao que elle. ••

- Entlo nlo o amas'! r- replieou Lourença,

como admirada da frieza de Leonor. -Como pedem amar-se pessoas que apenas se

viram 'Da

infaneia f- tornou a ·filha de Sára- mas

com· isto,

snr.• Lourença, nlo quero eu dizer que

me esquivo a ser esposa de seu filho, se tal é a •oo-

tade de minha inae, e se esse destino me havia dado meu .querido pae. Sem idéa de casamento, mi- nha amiga, heide fazer quanto podér por distrabir

o Aotoninbo das suas amarguns ; creia-me•••

Lourença levou a mio de Leonor aos labios, e reparando, disse:

ftOMAMK

OBICO

8t

-Cá es&á ,o alei de &ea pae, menina!. • • Nlo

o--p8I'CIS. • • Dei1.11'811H'e

Portugal não é costume restituir aos absolvidos as

cousas, que lhe enooatram, quando os prendem. A

mim nunca me restituíram doos aooeis de pedras e

uma manilbá que eu trouxe do

oortaram os cabellos na inquisieão de Valhadolid'!

os .da inquisi(jo '! Cã •

i Nao liOS

- Não, nem nos mudaram os vestidos- disae

Sára.

A

vossa prisllo foi suave; o Deus compadecido dos in-

E o the-

souro '/- proseguiu Lourenca -quando havereis á

mão a vossa riqueza, filhas 'I

- Nem pensamos em riquezas- disse Sâra

-O tio do meu Jorge presume que o cofre não existe.

t Quaesquer preciosidades encontradas aos réos, no acto de os raparem, e entrajarem com a libré da inquisição, •uaca se devolviam ao preso, propriamente livre como innocente ou reconciliado. O author e martyr da «Inquisição de Goa» livro que, pouco ha, citei, inventariando as ganancias dos inquisidores, diz : • Além da honra, authoridade, e lu- cros annexos ao cargo de inquisidores, de duas diferentes maneiras lhes cresce a pitanra; a primeira é, quando se faz leilão do espolio dos pre- sos, em tudo que é bom mandam os inquisidores licitar por ·algum de seus criados, lanço com que ninguem concorre, desde que o criado se faz conhecer; e os objectos s~o adjudicados pelo mais baixo prero ; a se- gunda maneira é que o producto dos bens· confiscados, posto que seja le- vado ao erario, devolve-se logo ãs mãos dos Íl}quisidores, porque elles o requisitam, para costeamento das despezas secretas do santo officio, e ninguem lhes ousa pedir contas : de modo que o producto das confisca- ções reverte n'elles. •

felizes sem culpa não vos

• -Então, filhas, não digaes que soffrestes

- Ha um 8DDO- tornou Loarença- que meu Jllll'ido soube do eapellão da Bemposta que tal cousa IM100I appareoera. -Isso me disseste para Amsterdam.

E o filho do

verdade: bem me lembro

eepeiiAo, que é o almoxarife dos infantes, se souber que vós viestes de Hollanda, é capaz de vos proeo- l'lr a vêr se descobre o segredo. Tende cautela

com elle, que eu nao lhe tenho muita fé, apesar de se mostrar muito compadecido do. meu Antonio, e me dizer que pedira por elle aos infantes. Chama-se Duarte Cottinel Franco, andou com os meus filhos é com o Francisquinho Xavier na escóla, e Deus sabe que elle foi causa de muitos desgostos da minha ami- ga D. Isabel, levando-lhe o filho para as noitadas da Bemposta, onde vllo todos os perdularios e mulheres

perdid;ls de Lisltoa. Eu não gosto

o que me diz o coração d'aquelle homem, que me

não fez mal nanhum I São ~cismas de quem anda

sempre a tremer de falsos

consta-me que elle é familiar do santo officio, e o pae é qualificador. Tudo isto vos conto, filhas, para que vos não confieis do tal Duarte Cottinel : basta- lhe ser filho de cigana, segundo dizem. O padre, que boje goza boa fama, foi um dos mais libertinos clerigos de Lisboa. Agora, escolheram-no para qua- lificar· e avaliar as culpas dos cbristãos novos, here- ges e feiticeiros.

Nllo sei

De mais a mais

CAPITULO VII

Francisco Xavier de Oliveira, desde a hora em que foram presos Antonio José e o prior de S. Jor- ge, fez ao demonjo da vingança um tão fervoroso voto como, annos antes, em perigo de naufragar, fizera ã Senhora da Penha de França. A victima, que eHe prometteu sacrificar na hecatomba do diabo, era aquel- Ie Bartholomeu, filho do traductor da Sentinella con- tra judeus, e propugnador dos rabinhos dos mesmos. Era incapaz de matar traicoeiramente um homem Francisco ~avier. A sua robustez, muitas vezes pro- vada com grandíssimo dissabor dos seus adversarios . deslombados, instigava-o a encarar de frente os ini- migos, e esmagai-os, se a vietima ficava entre elle e uma parede. Um só homem, em Lisboa, lhe dispu- tava primazias em força : era um D. Henrique Hen-

O IDDBU

riques d'Arroyos que sustentava durante quatro mi· natos na palma da mAo a mó d'um moinho, e, arre. messando-a depois, a fazia rolar a distancia de dez a quinze .passos. Em corridas de touros, um outro homem lhe competia em destreza e força : era o marquez d'Ale- grete, Manoel Telles da Silva, que, n'uma festa da Senhora da Piedade, no pateo do duque de Cadaval, estando presente o rei, cortãra cerce a cabeca a um touro d'uma cutilada. De si diz o cavalheiro de Oliveira que, aos vinte annos, agarrava um boi e o subjugava em singu- lar combate. Ajunta que ninguem o venceu no ati- rar ao alto uma bala de ferro, que recebia na que- da, e tres vezes successivas arrojava á mesma altu- ra. Ora, um ~mem que assim brincava com uma bala de ferro devia de conjecturar "que a cabeca de Bartholomeu em suas mãos não pesaria mais que uma avellã. O.seu maximo cuidado era sahir-se limpamente da empreza para nAo desgostar sua família nem in- commodar amigos no livramento. Bartholomeu tinha uma quinta em Oeiras, sobre o mar, onde costumava passar o estio, em saborosa companhia dos seus livros, relendo e commentando as obras ineditas do pae, no intento de as estam- par, quando a illustração publica merecesse tamanho brinde.

ROMANCB IIISTOBICO

Franeisco Xavier farejava~Ihe a li&ta, sem rev~ lar a niogoem o proposito com que miudamente ga~ lopava na estrada de Pedroiços. Uma tarde, quando se recolhia, lu~fosco, enxergou na praia do Dá-fundo o pensativo Bar- lholomeu que se passeava pbilosophando á beira- mar. Francisco Xavier descavalgou, depois de ter relançado os olhos por sobre a praia deserta. Avisi- nbou-se de Bartholomeu, e perguntou-lhe se achára nas suas meditações a causa efficiente d'ons rabi- nbos que surdiam do fim do espinhaço de certos judeus. Bartholomeu tremia e balbuciava. Francisco Xa- vier, sofrego da opportunidade, perguntou-lhe se o não abrasavam remorsos de fazer desterrar inqui- sitorialmente um velho de sessenta e cinco annos, e de fazer esmagar na tortura os dedos de Antonio José da Silva. Bartholomeo preparava-se para arran- car aJsuns gritos do peito anciado, quando Francisco Xavier lhe disse, segurando-o pelo pescoço :

-Vm.ce precisamente arde de remorsos, e cd- rece de refrigerio. Dito isto, filou-o pelas roupas do costado, sacu- diu-o para ganhar impulso com o balan~.o. e remes- sou-o ao Tejo. O homem escabujou alguns segundos á tona d'agua, sumiu-se, mostrou as pernas mais longe onde a resaca o levou, e nAo deu mais conta de si aos olhoS attentos de Francisco Xavier, qu~

·

VOL.D

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O JUDEU

invocava as e!trellas e a lua como testemunhas d'a- quella boa acção de sua vida. O moço canlgou pia. cidamente, e, como quem depois d'um feito brioso tira a l~mpo os eorollarios excellentissimos do acto, ia dizendo comsigo: «Se os christãos depuram os hereges no fogo, porque não bAode os homens ra- cionaes depurar os fanaticos na apa 't Façamos tam- bem aquaticamente nossos autos da fé. Na madrugada do dia seguinte, a maré revessou o cadaver de Bartholomeu ao sopé da torre de S. Gião. A noticia chegou logo a Antonio José da Sil- va, que não sabia se devia folgar, se temer-se da pas- sivei imputação do homicídio. Francisco x_avier en- controu-o n'esta vacillação, e disse-lhe:

-Não temas, parvo, que o infame denunciante morreu sem a mais leve contusão. Peguei-lhe geito- samente pelo estofo dos vestidos, e apertei-lhe o pes- coço com tal cuidado, que o homem apenas passou pelo incommodo de beber agua á proporção das la- grimas que fez· chorar. Estás vingado, é o grande caso. Se não te pude livrar da inquisição, livrei a humanidade d'uma fera·.

- E estarei eu livre das outras'!- perguntou

Antonio José, com temeroso aspeito. -Estás, se continuares n'essa tua hypocrisia sa- lutar de te gastares por conventos de frades. Faz isso que é bom; mas a mim não me enganes.

ROIIANC.B IIISTORICO

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aeudiu o judeu- Cala-te que eu ·

-Fazes muito bem, meu amigo; diz isso a toda

-Cala-te I -

creio em Jesus Cbristo e na Virgem.

a gente; diz-m'o tambem a

mim.

.•

-Se tu ouvisses o fr. Antonio Esteves de S.

Domingos•

me, reduziu-me ao puro christianismo com razões inexpugoaveis. Meu amigo, torna-te á tua fé antiga.

Eu pedirei á Senhora da Penha que te illumine e converta áquelle fervor com que lhe pediste reme- dio quando as ondas te sossobravam -Pois sim, -atalhou Francisco Xavier- pede lá o que quizeres ; mas conta-me alguma cousa d'a- quella peregrina Leonor, formosa a mais nao poder. Casas ou não casas? Olha que eu, se lhe não acodes depressa, vou galanteai-a I A fé I não me leves isto em graça! -Faz a tua vontade- disse triste e serenamen-

te o Silva- Eu perdi

o gosto da vida. O sangue, que

Qaeria que o ouvisses I•.• Convenceu-

me tiraram, era o do coração. Quebraram-me corpo e alma. A luz de esperança em cousas d'esta vida, apagaram-m'a. Não vês a minha tristeza sem inter- mittencia de satisfação? Tudo me enfastia, cobrei te-

dio de tudo I Como heide eu ir associar á minha desgraça aquella menina, tão de lucto no coração

Para mim e para ella ha vul-

de quinze annos I

cões que nos referYem debaixo dos pés. D'um mo- mento para outro, cahiriamos abraçados no abysmo

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de fogo. Um inimigo basta para nos perder; um inimigo que disponha d'algnmas eonseiencias vendi· das Que se não casem homem e mulher em cuja fronte a sociedade abriu a ferro o estigma da maldt- çAo I Dous malditos que- se reproduzem em filhinhos amaldiçoados do mundo I A mae- hade arrancar o peito da bocca da creanca para seguir o enviado do santo officio ; a creança, agonisando de fome, não terã seio de christã que se lhe abra I Tu não vês uns meninos esfarrapados, que se aconchegam uns dos outros no coberto de S. Domingos 'l Sao os fi- lhos dos hebreus, que morreram queimados, e d'ou-

tros, cujos gemidos elles poderiam ouvir, se collas- sem os ouvidos ás paredes negras da casa santa, e

se os guardas dos calabouços nao cortassem com um

tagante as carnes dos que gemem. Aquelles meninos não deviam ter nascido I Foram gerados na maldi- çao. Foi perversidade dos paes darem a este mundo aquelles padecentes, que vão alli estender as mãosi- nhas descarnadas -Aos verdugos de seus paes- atalhou Fran- cisco Xavier. Antonio José da Silva fitou com penetrantes olhos

o

amigo, deixou depois cahir o rosto sobre o seio,

e

murmurou:

assim.•. é assim. Os paes e mães d'aquel- las creancas mataram-nos elles ; esmagaram-nos de- baixo do madeiro do Crucificado •••

ROIAMGI.IIrNNUCO

de vertiplosc) salto, exclaiMo :

- Seelerados.! scelendos r qoa mal fiz ea para

IMityrio tao kltgo r Se ta Yiaes como estes 01808

di& miOl me raQiiaa entre doas llllinas de ferro que se queriam ajuntar llnvez das fibnls ••• E o saosue a espirrar debaixo da pressão do torniquete Olha r•

- . K,

E mostrava-lhe as fendas da carne esphacelada,

e por entre ellas o roixo dos ossos, com laivos de

sangue e o amarellido dos tendões que pareciam cancerados. -E podes ainda levantar essas mlos ao Deus de Domingos de Gusmlo r '! - perguntou ironica- mente Francisco Xavier, voltando o rosto do espe- ctacolo nauseento das feridas ressumando pus san-

goineo.

Antonio José pensou por momentos, e disse:

- NAo me tentes r• • • deixa-me crêr

para ter

. Este mondo, sem fé, sem

Mperança, é um horror inconcebível. -Pois crê 1- voltou Xavier- mas crê como homem que rejeita Moisés e o divino Christo. Crê em Moisés como n'um legislador barbaro, e em Chris- to como n'om reformador dulcificado pelas doutrinas de Socrates e de Philon. Crê no destino do homem para além d'esta vida. Crê na virtude sA dos secta- rios de todas as religiões : crê que o verdadeiro Deus está no coração do mahometano virtuoso, do hebreu

vontade d'outra vida

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O .JUIBU

honradO, do christlo cuitltivo, elo brablllllll indlen-

se te é precisa i