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Combinar a Economia e o Direito:

A Análise Económica do Direito

Nuno Garoupa

1 – INTRODUÇÃO A Análise Económica do Direito, como disciplina do Direito, investiga a resposta a duas questões importantes: (a) uma questão positiva, qual o impacto das normas legais no comportamento dos agentes económicos em termos das suas decisões e bem-estar; (b) uma

questão normativa, quais as vantagens relativas de determinadas normas legais em termos de bem-estar social. Para responder a estas questões, a Análise Económica do Direito aplica

a metodologia da análise microeconómica. De forma sucinta, os agentes económicos

tomam as suas decisões de forma racional, comparando benefícios e custos, dado o conjunto de informação disponível. O bem-estar da sociedade é medido pela agregação do bem-estar dos seus membros. Sendo hoje uma das disciplinas com mais influência no pensamento jurídico norte-americano, a Análise Económica do Direito tem as suas origens nos escritos de Bentham (1789), mas foi com os artigos de Coase (1960) e Becker (1968), e os livros de Calabresi (1970) e Posner (1972) que ganhou notoriedade. Até 1960, Law and Economics era sinónimo de análise económica do Direito da Concorrência, Anti-trust Law, havendo algum trabalho pioneiro e exploratório no domínio da regulação de mercados e intervenção do Estado, Regulation of Public Utilities. Esta área de investigação continua hoje muito popular e intimamente associada à Economia Industrial. No entanto, o termo Law and Economics, após os trabalhos de Coase, Calabresi e Posner, alicerçou o seu domínio nas

áreas de contratos, propriedade, responsabilidade civil (torts), criminal, processual, família,

e constitucional. Existe todo um outro domínio mais recente designado de Law and

Finance que alargou a perspectiva económica às áreas comercial, mercados financeiros, e organização das sociedades comerciais.

Professor Catedrático – University of Illinois College of Law. Email: ngaroupa@law.uiuc.edu

2 – FUNDAMENTOS

A Análise Económica do Direito tem por base o método de trabalho da moderna

microeconomia. Os agentes económicos comparam os benefícios e os custos das diferentes alternativas antes de tomar uma decisão, seja ela de natureza estritamente económica, seja ela de natureza social ou cultural. Estes benefícios e custos são avaliados segundo as preferências dos agentes e o conjunto de informação disponível no momento da avaliação. Esta análise custo-beneficio é consequencialista porque tem em conta o quem vai acontecer (em termos probabilísticos) depois de tomada a decisão, e não as causas que levaram à necessidade de tomar uma decisão. Os agentes económicos preocupam-se com o futuro, e não com o passado (uma vez que este não pode ser modificado). Evidentemente que há limitações a este modelo. O modelo do agente racional interpreta tendências importantes do comportamento humano, mas não explica nem quer explicar desvios cognitivos ou psicológicos do agente marginal. Em alguns casos estes desvios psicológicos da tendência majoritária podem ser bastante importantes quer em termos da aplicação do Direito, quer na análise normativa. Por exemplo, a incapacidade que têm muitos grupos sociais de estimar ou mesmo entender a noção de risco pode ter um peso importante na forma de regular o mercado de seguros ou na imposição de determinadas regras de responsabilidade civil. Nos últimos anos surgiu a escola comportamental dentro

da Análise Económica do Direito (Behavioral Law and Economics) que procura avaliar até que ponto certos desvios cognitivos podem ter importância na análise positiva e normativa.

A avaliação custo-beneficio faz-se num determinado contexto de preferências que

se traduz num nível de bem-estar dos agentes. O bem-estar individual é medido pela

utilidade que o agente retira da sua decisão bem como das decisões que poderia ter tomado e não tomou (os designados custos de oportunidade). O conceito económico de utilidade é bastante abrangente, reflectindo não só bens materiais ou de consumo, mas também o grau de altruísmo que um indivíduo tem para com terceiros e incluindo bens não materiais (ou não mercantis) como a alegria, o amor ou a desilusão. Não há uma medida exacta da utilidade individual, mas antes um conjunto axiomático que estabelece uma ordem ou hierarquização nas escolhas.

O bem-estar social mede-se pela agregação do bem-estar dos indivíduos. Também

aqui não há uma medida única de agregação, sendo o utilitarismo puro (a soma simples e

não ponderada da utilidade individual) apenas uma possibilidade, talvez a mais habitual e não menos isenta de polémica. Outra medida possível é aquela que se designa por rawlsiano e consiste na preponderância absoluta dos indivíduos com menor utilidade na função de bem-estar social.

A escolha da medida de bem-estar social obedece essencialmente a dois critérios:

eficiência e desigualdade de utilidades. Geralmente, mas não exclusivamente, não é possível obter mais eficiência sem aumentar a assimetria distributiva. O critério utilitarista

prefere a eficiência à igualdade distributiva (em rigor, é neutro em relação à distribuição): a sociedade está melhor se em agregado tem um nível superior de utilidade. O critério rawlsiano prefere a igualdade distributiva: a sociedade está melhor se o grupo com menor utilidade está melhor.

É importante notar que os critérios de bem-estar social são medidos em utilidade e

não em rendimento. Falamos de desigualdade de utilidades e não de rendimento. Medir o bem-estar social por rendimento agregado ou distribuição de rendimento pressupõe outro tipo de hipóteses metodológicas que vão para além da análise de utilidades.

3 – UM EXEMPLO: A RESPONSABILIDADE CIVIL A responsabilidade civil governa a forma de relacionamento dos agentes

económicos, indivíduos e empresas, numa determinada sociedade. Consequentemente, as regras de responsabilidade civil afectam, de forma importante, as decisões e comportamentos dos indivíduos, e dessa forma o bem-estar social.

A área do Direito que trata a responsabilidade civil determina quem paga o quê

quando um determinado acidente ou acontecimento que gera danos e perdas ocorre. Desde o ponto de vista económico, as variáveis importantes são a perda derivada do acidente e as partes envolvidas. A análise económica da responsabilidade civil visa três áreas primordiais: o desenho de incentivos adequados para precaver ou evitar acidentes, a utilização de seguros tendo em vista a compensação das vitimas, e a solução de conflitos resultantes desses acidentes. Suponhamos que um determinado acidente ambiental pode provocar perdas no valor de três mil euros. Contudo, se determinada tecnologia for adoptada, essa perda pode ser reduzida para dois mil euros. O custo da tecnologia é de seiscentos euros. Por exemplo,

com uma regra de responsabilidade objectiva, qualquer empresa prefere adoptar a nova tecnologia uma vez que reduz o seu custo de três mil para dois mil e seiscentos euros. Igualmente, qualquer regra de negligência ou dolo levaria a idêntica decisão. Contudo, se o sistema judicial não é eficaz e só existe uma probabilidade de 50% de uma empresa realmente pagar pelo acidente que vier a causar, a empresa prefere não adoptar a nova tecnologia (pois terá uma perda esperada de mil e quinhentos euros enquanto adoptando essa nova tecnologia teria uma perda esperada de mil e seiscentos euros). A eficácia das regras de responsabilidade depende, pois, do contexto institucional e legal em que são aplicadas. Temos um resultado muito diferente se o custo da tecnologia for de mil e duzentos euros. Não é economicamente eficiente que a nova tecnologia seja adoptada uma vez que o beneficio gerado (uma redução em mil euros nas perdas provocadas por um acidente ambiental) não compensa o custo. O acidente ambiental deve provocar uma perda de três mil euros que a empresa causadora deve pagar. A prevenção de acidentes nem sempre é eficiente, apenas quando o benefício ex post facto supera o custo directo ex ante facto. Regressemos ao exemplo inicial e vejamos o que aconteceria se a empresa tivesse contratado um seguro que cobre as perdas contra terceiros. As perdas geradas pelo acidente seriam suportadas pela seguradora e apenas de forma indirecta pela empresa através do eventual agravamento do prémio de seguro. Tendo em conta os montantes envolvidos, o agravamento do prémio de seguro seria muito possivelmente inferior a seiscentos euros. Sendo assim, a empresa não adoptaria a nova tecnologia. O seguro tem a vantagem de garantir a indemnização das vitimas, mas dificulta a imposição de incentivos eficientes. Este resultado é conhecido na análise económica pelo problema do risco moral. Uma vez que o segurado passou o risco para a seguradora, ele tem agora menos incentivos a precaver e evitar a ocorrência de acidentes. Consequentemente, a existência deste tipo de seguro aumenta a probabilidade ex ante facto de haver um acidente, garantindo, porém, a indemnização ex post facto da vitima. O leitor poderá fazer uma aplicação imediata ao seguro automóvel. Os custos sociais de um acidente não se limitam à perda directa, incluem também os custos de determinação da responsabilidade e da indemnização, seja essa determinação feita através do sistema judicial ou de mútuo acordo privado. Por cada euro que a vitima

recebe, mais de um euro foi gasto em atribuir esse euro à vitima. Uma indemnização não é uma simples transferência de recursos de um indivíduo para outro. Desta forma, não é economicamente eficiente impor indemnizações excessivas que consumirão elevados recursos à sociedade em geral. Numa perspectiva económica, uma regra de responsabilidade civil é eficiente se os benefícios sociais superam os custos de determinação dessa mesma responsabilidade e da indemnização. O beneficio social de impor uma determinada regra de responsabilidade não é a compensação das vitimas, uma vez que existem formas mais eficientes (e.g., seguro privado num contexto de uma economia de mercado eficientemente regulada) de indemnizar a vitima do que o sistema legal, mas evitar ou dissuadir comportamentos que possam causar acidentes. Desta forma uma regra de responsabilidade é eficiente se tem uma influência assinalável na diminuição da taxa de acidentes. A visão mais tradicional da responsabilidade civil tem como preocupação primordial a compensação das vitimas. Esta visão é oposta à perspectiva económica. Não só a compensação das vitimas pode ser assegurada por sistemas alternativos mais eficientes, como pode não ter o impacto necessário para assegurar uma redução significativa do número de acidentes. Dai que a analise económica defenda a separação formal entre a indemnização a receber e a indemnização a pagar (decoupling liability) por forma a que ambas as partes, causador e vitima, tenham um comportamento eficiente. A diferença entre a indemnização a pagar e a indemnização a receber pode ser justificada pela imposição de uma indemnização punitiva (punitive damages) ou de uma indemnização ao Estado (state awards). O segundo aspecto da visão tradicional é a importância atribuída à ideia de quem causa um acidente deve pagar o dano ou a perda que causou. Numa perspectiva económica, esta ideia implica um comportamento ineficiente por parte dos agentes económicos. Por um lado, temos que ter em conta a procura de seguro que reduz o custo verdadeiramente suportado pelo causador. Por outro lado, os custos de litígio na determinação da responsabilidade e da indemnização têm um papel importante no comportamento dos agentes, o que é ignorado na visão tradicional. Finalmente, o nexo de causalidade é um elemento importante na determinação da responsabilidade civil. Na visão tradicional, importa determinar até que ponto o

comportamento de uma agente é causa próxima do acidente, isto é, se o dano não teria ocorrido se tivesse sido outro o comportamento do causador. Na visão económica, o nexo de causalidade é visto como um cálculo de probabilidades que limita o conjunto de agentes que podem ser responsabilizados por determinado acidente (scope of liability). Mais importante que a causalidade próxima é a capacidade de evitar o acidente ao menor custo. O agente que tem a capacidade de evitar o acidente ao menor custo não é necessariamente aquele que satisfaz o teste da causalidade mais próxima. Por exemplo, no contexto da manufactura de brinquedos, a fábrica, e não o consumidor, é provavelmente o agente económico que pode evitar o acidente ao menor custo.

4 – OUTRO EXEMPLO: CONTRATOS E A NOÇÃO DE INCUMPRIMENTO ÓPTIMO

O primeiro tema de contratos é a sua formalização (contract formation). A regra

essencial é que um contrato é legalmente reconhecido se ambas as partes manifestam explicitamente o seu consentimento. Este princípio é desejável porque não só permite a realização de contratos, bem como impede comportamentos estratégicos que visem manipular consentimentos implícitos ou tácitos. A consequência mais importante deste

princípio é que só há um contrato quando ambas partes acreditam que saem beneficiadas.

O facto de ambas partes acreditarem que saem beneficiadas não significa que

realmente o sejam. Em primeiro lugar, o conjunto de informação disponível é usualmente

assimétrico. De especial relevância é a obrigatoriedade ou não de as partes terem de revelar informação que diga directamente respeito ao objecto do contrato. Esta revelação nem sempre é eficiente. Por exemplo, defeitos de fabrico devem ser revelados porque podem evitar acidentes. Contudo, no contexto da industria petrolífera, a informação sobre a qualidade do subsolo de uma determinada propriedade que foi obtida a um custo elevado de prospecção nem sempre deve ser relevada. As companhias petrolíferas apenas comprariam propriedades já prosperadas, e no longo prazo teríamos um nível sub-óptimo de prospecção. Do ponto de vista económico, a revelação da informação deve obedecer a critérios de eficiência e não a uma necessidade premente de “dizer a verdade”.

O segundo aspecto importante diz respeito à evolução do conjunto de informação

disponível. Essa evolução pode levar a que uma das partes conclua que não obterá um

beneficio desse contrato e, portanto, pode preferir descumpri-lo. A noção de incumprimento óptimo resulta de em determinado momento pode ser melhor que uma parte descumpra e pague uma indemnização (damages for breach of contract) em vez de impor a obrigatoriedade do cumprimento (specific performance). Suponhamos que um supermercado encomenda um determinado produto a uma distribuidora. O custo unitário de produção é cem euros, o custo unitário de distribuição é de vinte euros, e o preço de venda unitário pode vir a ser entre duzentos e cinquenta euros (em expansão) ou dez euros (em recessão). O preço unitário esperado se existe uma distribuição simétrica das probabilidades é de cento e trinta euros. O supermercado poderia estar de acordo em fixar um preço unitário de cento e vinte e cinco euros a pagar à distribuidora. Em caso de expansão, a distribuidora teria um lucro de cinco euros por unidade (125-100-20) e o supermercado teria um lucro de cento e vinte e cinco euros por unidade (250-125). O problema está no caso de haver uma recessão. A distribuidora mantém um lucro de cinco euros por unidade, mas o supermercado perde cento e quinze euros por unidade (10-125). Ora o supermercado estaria melhor assegurando um lucro de cinco euros à distribuidora sem a distribuição realmente ocorrer, isto é, pagando uma indemnização de cento e cinco euros por unidade. A distribuidora é indiferente (105-100=125-100-20), mas o supermercado está melhor (-105>10-125). Neste exemplo, o incumprimento contratual com uma regra de indemnização de expectativas (expectation damages) é mais eficiente (ambas as partes podem estar melhor) do que uma regra de cumprimento obrigatório. A orientação da análise económica é, pois, forçar o incumprimento quando seja mais eficiente através da especificação adequada de uma regra de indemnização. Contrariamente à visão tradicional, a indemnização contratual tem como objectivo assegurar o incumprimento óptimo e não compensar a parte lesada. Por outro lado, o incumprimento não é visto como algo negativo, mas, antes, como parte de um desenho institucional eficiente. Note-se, no nosso exemplo, que a possibilidade de incumprimento aumenta o beneficio esperado do contrato. A distribuidora tem assegurado um lucro de cinco euros por unidade, e o supermercado tem um ganho esperado de dez euros por

unidade, e não de cinco euros por unidade como teria caso o incumprimento não seja possível.

5 – ÚLTIMO EXEMPLO: LITÍGIO A litigiosidade é um aspecto do sistema legal sobejamente estudado e analisado pela perspectiva económica. Importa perceber porque os indivíduos estão dispostos a processar outros indivíduos quando o custo de oportunidade é significativo, avaliar as probabilidades objectiva e subjectiva de cada uma das partes prevalecer, e estimar as indemnizações ou compensações decorrentes do litígio. Suponhamos que determinado indivíduo acha que foi difamado por outro. A respectiva indemnização compensatória é de mil euros. Os custos de um processo são duzentos euros para cada parte, difamador e difamado. Temos, pois, que o beneficio de litigar para o difamado é de oitocentos euros, enquanto o custo de litigar para o difamador é de mil e duzentos euros. Nestas condições, seria mais vantajoso para ambas as partes não litigar e chegar a um mútuo acordo privado, por exemplo, o difamador paga novecentos euros ao difamado. Existem várias teorias para explicar o facto de uma pequena percentagem dos casos chegarem de facto a tribunal. No nosso exemplo assumimos que a probabilidade de o difamado prevalecer é um, mas vamos supor que essa probabilidade é de 80% do ponto de vista do difamado, mas apenas de 30% do ponto de vista do difamador. Agora, o beneficio esperado do difamado é de seiscentos euros enquanto o custo esperado do difamador é de quinhentos euros. Não há acordo possível uma vez que o difamado requer pelo menos seiscentos euros enquanto o difamador não está disposto a pagar mais de quinhentos euros. A inexistência de acordo deve-se ao facto de ambas as partes estarem bastante confiantes na sua vitória. É vantajoso, do ponto de vista social, que o sistema legal reduza excessos de confiança, uma vez que estes têm um impacto negativo na possibilidade de acordos privados.

Existe do ponto de vista económico um número óptimo de casos em tribunal. Este número depende dos custos marginais de um processo (custos das partes e os custos suportados pelo Estado) e dos benefícios marginais (dissuasão de acidentes ou delitos). O problema está em que a decisão de processar é eminentemente individual e não social. Ora,

um indivíduo ignora geralmente todos os custos que não são suportados por ele, e não se preocupa com o benefício social que possa causar o seu processo, mas antes com a compensação que possa receber. Consequentemente, o número óptimo de casos em tribunal não será observado sem regular adequadamente o mercado. Numa situação de excessiva litigiosidade temos claramente um problema de má regulação com fixação de custos inferiores ao seu valor real para a capacidade do sistema. A análise económica do litígio tem também estudado como as regras processuais (discovery of evidence), a possibilidade de recurso, o funcionamento do tribunal, a organização do sistema judicial, bem como do mercado de advogados, afectam o número óptimo de processos.

6 – O DIREITO E A POLÍTICA SOCIAL A perspectiva económica vê o Direito como uma instituição que deve promover a eficiência contribuindo dessa forma a melhorar o bem-estar social. Contudo, o Direito não deve ser usado para corrigir aspectos de distribuição ou desigualdade social. A razão é muito simples: existem outros mecanismos, como a política fiscal ou orçamental, que podem corrigir esses aspectos com um menor custo social. Podemos fazer uma aplicação directa desta análise ao problema das custas judiciais. É absolutamente contraproducente que o acesso ao sistema de justiça se faça com preços baixos uma vez que dessa forma o Estado subsidia a procura de serviços de justiça e cria uma fila de espera (com o consequente backlog de processos bem conhecido em Portugal). A política eficiente é fixar o preço de acesso ao nível do custo marginal (isto é, o custo que um processo mais vai criar ao sistema de justiça). Se esse preço é considerado demasiado elevado do ponto de vista social, então o Estado deve utilizar uma política de redistribuição ao nível fiscal (imposto sobre rendimento) a favor do grupo prejudicado, ou estudar a expansão da capacidade do sistema. Existe ainda a possibilidade de desenhar políticas com vista a diminuir a procura de serviços de justiça através da redução dos conflitos ou contenciosos (e.g., alternative dispute resolutions, melhor regulação do mercado de advogados).

7 – A ANÁLISE ECONÓMICA DO DIREITO NO MUNDO DE DIREITO CODIFICADO Não passará despercebido a um observador cuidadoso e interessado que a Análise Económica do Direito tem tido uma recepção céptica senão mesmo difícil e hostil fora dos Estados Unidos. Uma das justificações mais popularizadas para este difícil processo de expansão da Análise Económica do Direito é a dicotomia entre os países de common law e civil law (direito costumeiro vs. direito codificado). Essencialmente, o argumento diz que a Análise Económica do Direito é mais adequada para um sistema de direito costumeiro como o norte-americano, e menos útil num sistema de direito codificado como o português ou o brasileiro. A tese baseia-se nas necessidades jurídicas de um poder judiciário mais realista e menos formalista, bem como naquilo que alguns autores caracterizam como um certo grau de under-theorizing do direito costumeiro (isto é, a ausência de uma teoria geral do direito nos países anglo-saxónicos). Contudo, a judicialização crescente das políticas públicas e da vida económica e social em muitos países (Portugal e Brasil são apenas exemplos neste contexto) colocou o poder judiciário numa situação qualitativamente diferente. A minha tese é de que a Análise Económica do Direito será um instrumento de análise jurídica útil e importante para o poder judiciário quando confrontado com essa crescente judicialização. Neste contexto, parece-me míope insistir que, num sistema de direito codificado, a Análise Económica do Direito deve limitar-se a uma metodologia legislativa e, até que o legislador a introduza de forma explicita na lei, não compete ao poder judiciário utilizá-la. Num mundo de políticas públicas judicializadas (independentemente do valor normativo que possa ter esse judicialização), ignorar o papel económico e social do poder judiciário é irrealista e corresponde a uma negação da realidade que temos. As considerações jurídicas puramente formalistas e dogmáticas sobre o papel do poder judiciário num sistema de direito codificado devem ser temperadas com uma certa dose de pragmatismo. Na verdade, não devemos maximizar, mas também não devemos minimizar a capacidade do poder judiciário de criar direito, influenciar o direito e as políticas públicas, isto é, ter um impacto significativo na vida económica e social. A ilusão dogmática das fontes do direito e a retórica tradicional sobre a interpretação da lei e a integração de lacunas escondem a realidade da influência das decisões do poder judiciário

no mundo e na sociedade em que vivemos. Sabemos que o conteúdo de muitas dessas

decisões, processuais e substantivas, é social e economicamente importante e requer uma reflexão sobre o seu impacto e as suas consequências. Uma análise consequencialista é tanto mais importante quando num mundo

globalizado e dinâmico a judicialização da vida pública opera não só directamente através

da integração de lacunas no direito substantivo, mas também indirectamente com o uso dos

confusos mecanismos processuais que permitem ao magistrado ganhar capacidade de influenciar o direito substantivo. Acresce a tudo isto a séria confusão legislativa em que os nossos países (Portugal e Brasil) se encontram devido a um legislador esquizofrénico que tudo quer legislar contra o tempo numa luta titânica que está destinado a perder. Goste-se ou não, a interpretação da lei e do direito é hoje feita num contexto económico e social de uma economia de mercado. Uma reflexão consequencialista é, pois, uma metodologia útil e importante para ultrapassar análises míopes. O exemplo típico é a correcção de uma injustiça social pontual (digamos a protecção da parte mais fraca num litígio contratual) que aumenta a iniquidade social e económica no longo prazo. Não se trata de dizer que existe uma divergência entre objectivos de eficiência e justiça social, mas sim de verificar que um objectivo de justiça social pontual ou casuística sacrifica a equidade e a igualdade social de longo prazo. Pode, pois, um magistrado, ao pretender corrigir uma percepção de injustiça social no caso em julgamento, criar ainda mais injustiça social.

A insistência no formalismo e na dogmática jurídica, numa perspectiva teleológica, e a recusa de uma análise consequencialista configuram, na minha perspectiva, um atentado potencial à independência do poder judiciário. O formalismo purista gera necessariamente um fosso entre a judicatura e o social, uma incompreensão profunda pela sociedade sobre as decisões do poder judiciário. Independentemente dos aspectos normativos, a judicialização da vida pública é uma realidade que não se coaduna com metodologias jurídicas que ignoram essa mesma realidade. A negação da realidade conduz

a um processo de deslegitimação democrática do poder judiciário que termina,

frequentemente, em intervenções redutoras pelo poder político que consubstanciam assaltos

à independência do poder judiciário.

Tenho a convicção de que a Análise Económica do Direito pode ser um instrumento importante no reforço da independência de um poder judiciário responsável e responsabilizado. A Análise Económica do Direito é uma metodologia instrumental, não substitui a legislação e a lei, mas pode e deve ajudar o poder judiciário a encontrar-se num mundo com maior judicialização da vida pública e onde a insuficiência do legislador é e será cada vez mais frequente.

8 – CONCLUSÃO Já aqui foi dito que a perspectiva económica vê o Direito como uma instituição que deve promover a eficiência, contribuindo, dessa forma, a melhorar o bem-estar social. No longo prazo podemos mesmo dizer que o Direito tende a ser eficiente. Esta teoria é bastante polémica dada a diversidade de sistemas jurídicos que existem no mundo. Evidentemente que não há apenas um sistema eficiente, isto é, pode haver muitas soluções eficientes para o mesmo problema, pelo que sistemas muito diversos podem ser igualmente eficientes. Contudo, existem na realidade muitas normas jurídicas e aspectos institucionais que não tem um conteúdo facilmente explicável pela perspectiva económica. E existem muitos aspectos do ordenamento jurídico que são claramente ineficientes. Até que ponto a evolução histórica do Direito corresponde realmente a um processo de melhoria do bem- estar social (será o Direito causa ou consequência das melhorias sociais?) é uma questão empírica para a qual ainda não há uma resposta.

9 – BIBLIOGRAFIA

BECKER, Gary. Crime and Punishment: An Economic Approach. Journal of Political Economy 76 (1968), pp. 169-217. BENTHAM, Jeremy. An Introduction to the Principles of Morals and Legislation, 1789. Reempresso em The Utilitarians. New York / Garden City: Anchor Books, 1973. CALABRESI, Guido. The Costs of Accidents. New Haven: Yale University Press, 1970. COASE, Ronald. The Problem of Social Cost. Journal of Law and Economics, 3 (1960), pp. 1-44. POSNER, Richard. Economic Analysis of Law. Boston: Little Brown, 1972.