Vous êtes sur la page 1sur 101

SSSE EE

OON

CCO

C

NNT TTI IIG GGO OO DDE EEV VVE EER RRE EEI II HHA

D

H

AAB BBI IIT TTA AAR RR

D D E E E V V V E E E R R R E E

Ricardo de Almeida Rocha

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

O solitude! If I must with thee dwell

John Keats

Era exatamente o mesmo de então. Talvez apenas ainda mais enamorado da solidão perpétua

Emily Brontë

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

Na janela junto à ponte a jovem se debruça absorta. A correntinha brilha em seu pescoço. Na trilha do parque por onde voltou, ereta como se nada tivesse acontecido, arde ainda, como um copo fervilhando, a devassidão das aparências. Havia lá nas árvores aves como essa. Canto de um mundo que a abandonou. Chega a ouvir o barulho do mar exatamente como se ainda estivesse dando sua caminhada matinal. Ali está ela sozinha tentando se alegrar na lembrança do sabor do quindim que comera de sobremesa. Em cores fortes e reflexos passam os automóveis. Inquieta, respira fundo. Afasta-se da paisagem com um impulso no parapeito e num último relance deixa o sol entrar na sala, filtrado, quase líquido sobre os móveis.

Gisele Drabska. Uma mulher jovem e simpática que todos achavam belíssima. Que vantagem existe nisso, se a beleza só traz tanta dor? Um dia morrerá e nada ficará além de seu caráter. Dos objetos pessoais impregnando de saudade uma pessoa amada. Os poemas que escreve nas horas de maior angústia. Meu irmão, o que te tornou assim tão corriqueiro e substituiu teu amor dedicado por lassidão tamanha? Nem imagina onde

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

ele esteja. Possivelmente foi para algum lugar no litoral europeu que adora. Sempre soube se virar longe dos grandes centros. Aqui na metrópole a vida é mesmo difícil e o mais bucólico dos recantos enganoso. Por mais que tenha ela tomado uma longa ducha, a sensação se mantém. Parece que ainda dorme. Seja como for é dia. Um novo dia. Precisa sair para o trabalho o último motivo para que levante da cama de manhã.

Sobre a cabeceira o relógio acusa seu atraso. Sobre a penteadeira o perfume e o creme que a disfarçarão. Veja no espelho o quanto você é de fato bela, lindíssima, dama triste do olhar perdido na sacada da empresa. As colegas a imaginam realizada com os homens que quer. E amaldiçoam, amaldiçoam sempre às vezes com gracejos, outras com simples e cruel maledicência. Sobre a cômoda antiga as bonecas de porcelana numa cena perfeita de reflexão da protagonista acerca de sua infância que chegou a ser tão boa durante algum tempo.

O tempo

Uma colina ao longe cuja neblina jamais se dissipa, mas o olhar discerne sempre alguma mudança porque de outro modo estar no espaço seria insuportável para a mediocridade humana. Seu desânimo inexistia. Agora a saia, vermelha e engomada. Uma última ajeitada no cabelo desdenha de qualquer tempo ou contratempo.

Ao sair, numa rápida olhada para cima, percebe que há ainda

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

orvalho nas folhas da árvore em frente, única do quarteirão. A grama ao redor está dourada. Até que horas durará esse brilho? No rosto pálido a resposta se manifesta imperceptivelmente. Não mais que alguns minutos, o tempo da alegria de alguém.

Um vermelho vivo reflete do carro que passa. Junto à distância marcada pelo motor, mistura-se o som do celular. Alô? Não esperava que ele fosse ainda capaz de ligar. Viu-a saindo, não gostaria ela que terminassem em algum lugar discreto o que haviam na trilha começado? Se tivesse dito o que pensava, Gisele decerto sentiria de novo o golpear de trevas com que seu coração a tortura. Mantém o andar rápido e decidido. Nem por doença falta ao trabalho e não costuma se atrasar.

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

Embora anacrônico, ele aceita as inovações tecnológicas. No caso específico de celulares porém preferia a vida antes. Portanto Gisele também leva consigo o seu apenas para caso de emergência. Sempre é bom ouvir a voz dele. Uma coisa tão rara. Rapaz sublime. Inacreditável. Para alguém como ela não se trata de uma força de expressão. Conheceu- o no ônibus. Numa festa é que não poderia ter sido. Um cinema que talvez não é um lugar que indique esse tipo de encontro. Na rua caminhando, outra alternativa. Enfim. Foi antes do lugar em que ele deveria saltar. Não tinha certeza. Gisele sabia? Ah, respondeu ela, vou descer nesse mesmo ponto.

Por outro lado ela se angustiava com a possibilidade de uma ligação. Como não é comum que ligue e como ela não costuma receber outras chamadas, quem poderá ser agora? De quem é esse número no visor? Sim? Um caminhão passa no exato momento. Terá de perguntar novamente. Não tem tempo entretanto. A seqüência é conhecida. Aconteceu assim. Foi levado para o hospital tal. Teve de ser posto em coma. Um pranto, um pranto desesperado. Camadas de desespero sobre camadas de pranto. Ali ela morreu. Continuou morrendo pelos meses seguintes enquanto as esperanças de que ele pudesse despertar iam sendo retiradas como bebês a fórceps não para a vida, natimortos.

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

Outrora tudo era uma festa. Seu coração exultava por tudo e por nada. Até o primeiro dia em que olhou fundo no rosto da vida e percebeu o que hoje é tão óbvio. Odiou. Até encontrar David. Todas as coisas passaram a existir em glória, como se houvessem alma. O corpo na cama deitou ao quarto a paz que emana da vida póstera. No rosto meigo de Gisele o sorriso é o Deus a quem se deveu em infantil consagração. A madrugada de sábado ronda a janela em lascivas celebrações embriagadas. Acordou consigo mesma ao despertar em nada pensar sobre a noite passada. Esqueceria o monstro. Tinha essa sorte, não morarem na mesma casa. É a miséria de tantas sobrinhas, enteadas e até filhas.

Através da neblina acrescida da chuva regressando a manhã as ruas cansadas, vazias, tristes, estavam cinzas. Sentada à beira da cama, correu à lembrança onírica. Onde estavam seus nove anos? os resplendores? a eternidade? O espelho lhe sorriu em cambraia com busto de algodão era essa a transcendência perseguida? A ironia transpareceu em sua tristeza. Era uma jovem forte que só mas estava um pouco cansada. Mal saíra do

prédio notou-o no ponto. Que rapaz bonito e simpático, que porte

O

que é isso, Gisele, nada de perder a compostura. A única conquista que jamais perdeu. Noite exaustiva. As olheiras sujam o redor dolorido dos olhos. Ainda dizem que isso lhe dá um charme especial.

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

Toda luz estava acesa, a das janelas e o dia, e havia ainda uma lua teimosa. Talvez um orvalho. Talvez uma garoa nos postes e até mesmo na fina percussão das vitrines. Independente do tio era o alvor de outra primavera. A saia de sarja sairia índiga em seus suaves quadris. Os seios pequenos apontavam para a idade completada no dia anterior e ele não pôde deixar de perceber, por discreto que fosse.

David Choi lutara contra limitações de saúde. Perdera a família. Não tinha amigos. Mas conseguiu ao que parece, ao menos isso, um bom trabalho. Um lugar como pesquisador. Refletiu contudo. Está feliz? Pode prescindir da oportunidade de conhecer essa moça? Turbilhona dentro deles ao descerem do ônibus um capricho profuso do destino. Toca-os com a delicadeza dos pingos e permanece com ela na segurança do prédio. Trabalho aqui, diz ela. Quem dera eu possa logo estar também trabalhando por aqui.

Mais do que acaso.

Lembrando, ela atendeu a ligação. Sombrias expectativas confirmadas, ela chorou. Chorou muito; chorou tudo. De novo sozinha. Para sempre. Não. Antes sozinha. Mas não: com o vizinho, o tio, o médico, o homem no metrô, o assaltante todos à solta a seu redor. Sozinha. Deve manter essa falsa companhia dele com sua vida ligada às máquinas? Essa

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

pergunta a perseguirá pelo resto da vida. Como era infeliz! Chegou a ser algum dia feliz? O que é ser feliz? Por algum tempo imaginou que felicidade se consistia nos mimos à criança bem-amada, nos agrados à inteligência da bela adolescente sem espinhas e nas piores lisonjas, irresistíveis: as que vaticinavam seu sucesso profissional como escritora.

Agora é o desespero que não poderá compartilhar com a mãe enferma. Depois do pai e do irmão, abandonou-a também o seu amor, partindo para esse limbo. O que será de mim?

A morte não existe para ele. A moça no monitor atende seu pedido de que tire mais uma peça. Sabia que com essa conseguiria logo no primeiro encontro. Virtual, dizem. Mas que importa? O que começa não deixa de terminar. Seus amigos de bar não partilhavam suas fantasias. Tampouco podiam imaginar nada de mal. O que tinha a perder? A vida não existe para ele, se isso não for vida.

Mas esse barulho incomoda. Grita com os vizinhos. Podem parar com isso, seus palhaços? Não escutam porque não estão em casa. Hum, que gostosa, vejamos o que digo para que tire o resto, pensa com a mão direita. Bendita tecnologia! Aposto que você se depila toda, dá para se notar. Ela mostra que não onde se destaca aquela marca de nascença. Não deu para segurar muito tempo e depois do gozo não há nada. Ela gosta

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

de se exibir e nem imagina que o faz agora para ninguém, ele foi se lavar. Ao contato da água fria o membro já pequeno se enruga.

O quê? Ele se assusta, o que não é do seu feitio. Vira-se para o lado do ruído. Não sabe se está vendo o que está vendo. Procura razões para a alucinação. Algo que comeu no almoço, a maconha do dia anterior, pensa até na possibilidade de estar sonhando. Do chuveiro o que se vê é um homem aterrorizado, prostrado. Um menino, poder-se-ia dizer. Mas quem entrasse naquele momento não veria a luminosidade de uma perna feminina à luz do basculante. Na pele lisa e luzente há um reflexo desfigurado do homem caído. Ele balbucia. Pelo ângulo, não mais se poderia ver além da perna; mas dela se deduzia que era uma mulher magnífica. As lembranças que provoca são diversas e envolvem mais que sexo. O menino no chão vê a mãe tão bonita, escuta o pai dizendo que vai embora, que não agüenta mais a mulher, vou embora, diz, desse inferno.

Está talvez se justificando?

Pede humildemente perdão, não pretendia. Estava estressado por causa do trabalho, ela podia imaginar o que era a rotina de um executivo? certamente terá uma idéia se fizer um esforço. Perdoe-me, por favor. Apesar de toda aparência, ele estava cheio de dívidas, não conseguia mais se concentrar no trabalho. Não tinha mais posses nem dinheiro e jamais teve amor. Encontrá-la no parque foi um refrigério. Ele sabe que não foi a maneira mais lisonjeira de demonstrar isso mas ela podia acreditar.

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

Não irá dar uma desculpa para justificar a mulher na tela do computador?

A moça no banheiro não se mexe e não fala. Na verdade nem poderia estar ali. Então do que se trata? É uma impressão correta a de que ela está a ponto de chorar? Sim. Os olhos estão marejados.

Perdoeme toda crueldade que fiz ao longo de minha vida. Dói demais. É consciência demais.

É o bem e o mal absolutos que por conveniência se prefere relativizar.

Fale, moça. Me faça compreender o que está acontecendo.

Que nada. Cada vez entende menos, na proporção exata da dor que cresce dentro dele, lentamente, como a visão, ela própria cresce a partir de seu peito, como se ali estivesse enraizada. Ah! A loucura! Quem disse que pessoas como ele não sentem remorso? O que é corpo e o que é alma? onde começa esse sofrimento inexorável?

Não, não é remorso. É alguma outra coisa. Todos afinal agem de forma semelhante e quando não fazem imaginam fazer, o que dá naturalmente no mesmo. Por que ele seria culpado? Mas os lábios que recebiam as lágrimas, lago sob a cascata, se movimentam agora em sentido inverso. Ameaçam sorrir. Um sorriso apavorante. O que está acontecendo comigo? Por que justamente comigo? São palavras

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

inteligíveis que agora saem desses lábios? Possivelmente não. Mas ele as entende com tanta clareza quanto sente esse pé que descalço em seu peito se apóia.

Junto ao olhar fulminante, uma sentença. Desista de sua vida ou essa dor crescerá ao infinito. O chuveiro pinga; a torneira da pia está aberta; há gotas na janela do banheiro tudo está chorando o pranto ao qual a visão renunciou. Ele está admitindo o que sua razão rejeita. A ponto de desistir da vida. Não há dúvida, é dela esse joelho. Como não seria? foi o que primeiro lhe chamou a atenção.

Mas não provém dela a dor desse remorso. Está dentro dele, de uma vida inteira a que não pode mais renunciar.

Prosseguiu o percurso e a dor crescia pelas coxas. Houve o momento terrível da pontada em pleno ventre. Ah, aquela floresta em que pela manhã se havia perdido, em que sua rigidez ignorou a secura sem que gritos houvesse, pois sua mão lhe tapava a boca. Aí chegou alguém. Aí ele fugiu. E agora nada tampa a minha boca, pensa; contudo tampouco posso gritar. Enquanto ela conta em detalhes as dores da beleza e a covardia da crueldade, ele simplesmente não suporta mais. É o fim, precisa ser. Seguidamente os momentos se pensam derradeiros até que sobre a total destruição se derrama a última agonia amplificada como o vento na planície. O vento que não se sabe de onde vem agora aonde irá?

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

Gisele saiu do espelho. Pancadas à porta, é sua mãe. A mesa está posta. O café, minha filha. A senhora Ewe fizera omelete de queijo com trigo. Vem logo, meu amor. Gisele já irá. Quando descer à mesa será com garbo mesmo que houvesse sombras na escada e ainda estivesse escuro na janela da sala de jantar. Trocara em sua alma os terrores noturnos por receios incapaz de a deixar paralisada e esquecera o ruído das correntes que deixava seu coração aos pulos. As síndromes haviam sido tragadas pelo abismo. Era uma mulher. Subira ao paraíso acadêmico pela dor inaudível cheia de segredos. Boas escolas e alimentação balanceada. Roupas quentes e tratamento de canal. Além das portas que sua beleza abria mais que sua simpatia singela e grande carisma. Uma jovem mulher, uma mulher forte. A garotinha crescera e não tinha mais medo. Mas alguma coisa se perdera no caminho.

Manhã chuvosa. As filas barulhentas estiveram durante muito tempo no pátio sem que os alunos pudessem entrar em suas respectivas salas de aula. As matrículas de última hora surpreenderam os donos do colégio e havia falta de professores. A excitação de meninos e meninas se media pela algazarra. Um garoto estava parado muito nervoso e arredio bem ao

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

lado de Gisele. Deve ter a minha idade, pensou ela. No máximo uns treze anos. Ela ouvia-lhe piedosamente o silêncio por experiência própria. A sorte era o irmão e os amigos e amigas do irmão ou também estaria ali sozinha, temerosa e tensa. Contemplou-o. Era um menino moreno como ela, com covinhas no sorriso perene desprovido de qualquer vestígio de alegria. Estavam se molhando. Atrapalhadamente ele cobriu a cabeça com o capuz do blusão e em seguida foram chamados a salas distintas. Não mais veria o rosto dele naqueles dias e nos seguintes. Esquecê-lo-ia. Não havia qualquer razão para lembra-lo.

Gisele era responsável pelo jornalzinho da escola. As matérias traziam entrevistas com professores, informações sobre a diretoria, eventos, lista dos melhores alunos, dos melhores atletas, e os que se destacavam em atividades extracurriculares. Aí, ela reinava absoluta. Escrevia peças de teatro e poesias, as mais belas. Uma menina linda e sensível. Todos tinham olhos para Gisele Drabska. Do menino moreno, por que alguém se lembraria? Também criava jornaizinhos em casa, sobre os campeonatos de futebol de botão que disputava sozinho.

Na noite de um dia chuvoso, após o primeiro dia do ano letivo, festejam o aniversário de Gisele Drabska. O pai, o senhor Pierce Drabska, é um homem bom, juiz, íntegro, religioso. Adora os filhos e especialmente Gisele, embora nunca vá admitir e diga que gosta dos dois irmãos por

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

igual. A senhora Ewe Drabska é mulher do lar, simples e feliz na medida em que a filha dava mostras claras que em pouco tempo conseguirá o que

a mãe sonhou a vida inteira sem conseguir: a realização profissional; a

independência; a admiração de todos pelo que faz. O irmão é um chamego só e os primos estão presentes também. Descendiam sem dúvida de valorosa estirpe: os homens inteligentes e fortes; as mulheres sensíveis e

bonitas. Mas Gisele em tudo a todos excedia.

Adorou o que ganhou. Um perfume dado pelo tio a deixou louca de vontade de que chegasse logo o dia seguinte na escola. Constrangeu-se um pouco com o corpete de rendas que lhe entregou tia Natacha com um sorriso maroto. Mas amou mesmo as sandálias de couro entrelaçado que recebeu dos pais e, embora costumasse baixar as músicas que gostava da internet, sentiu um diferente prazer ao receber do irmão aquele CD. Enquanto abria os presentes, alguém comentou na sala o quanto ela seria uma moça alta, o que ficou longe de se tornar realidade.

Diante do espelho alguns anos depois, a menina que recém perdera

o pai é ainda relativamente baixa embora esbelta e empertigada. A mãe

comenta durante o café o quanto lhe caiu bem o terninho creme. Está um dia frio fora dos padrões para essa época do ano. Ela pede que a mãe lhe passe um pedaço de quindim. Como consegue que fique com esse gosto?

É por causa da gelatina sem sabor.

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

O primeiro dia de trabalho e seu pai e seu irmão não estão ali para se orgulhar dela. O tio, que escapou do acidente, passou a noite apenas porque precisava sair cedo e a casa da irmã era mais próxima do lugar aonde ia. Transbordando em lágrimas silenciosas Gisele abraçou a senhora Ewe por trás da cadeira. Querida diz a mãe. Minha eterna menininha

UUm prédio sofisticado. Pode-se imaginar que todos os que vivem aqui tem seus desejos satisfeitos. Vultos na janela do segundo andar. O que terá acontecido? O rosto do homem grisalho se volta para a mulher ao lado mas deixa de dizer o que pensou. Sigamos nosso caminho. O que temos a ver com isso? Todavia é difícil imaginar que exista para o casal um caminho comum a seguir exceto salvaguardas inúteis que perderão mais cedo ou mais tarde o sentido. O homem assassinado é conhecido do policial responsável pela investigação. Por que assassinado? Não há vestígio de que tenha alguém estado com ele. Não há arma ou vestígio fora essa expressão terrificada em seu rosto. Nada aponta para um crime. Mas as pessoas se aglomeram. Sem o casal entre elas, por causa da viatura.

Pertiert passou a noite com uma garota nesse bar onde costumam ser rigorosos com a questão da identidade e não permitir a entrada de menores. Há essa construção ao lado onde ninguém poderá imaginar que

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

exista no fundo um quarto até agradável com alguma serventia. Não toque o corpo, diz o policial ao porteiro. O homem exigia o inverso de sua companhia havia bem pouco tempo. Não dá para ter certeza mas realmente parece não ter mais que quatorze anos, a idade da sobrinha quando descobriu pelo método mais cruel que ele não era assim digno de tanta admiração.

Vem cá, diz um policial ao outro. Houve segunda-feira passada uma morte com características muito parecidas. Quer dizer, com um cadáver muito parecido. Igualmente apavorado e próximo ainda em vida da região da sombra da morte. Que eu não precise ver um terceiro desses. Olhe. A tela do notebook mostra à luz do basculante a posição derradeira do vizinho de Gisele Drabska com a clareza digital que não dá uma verdadeira noção da luminosidade que ali havia, longe disso. Quem é, como foi, por quê? com que rapidez se deslocam as hipóteses entre o avanço tecnológico e a lerdeza da justiça humana! ―– Onde fica esse prédio?As coisas logo ficarão complicadas para essa moça. Mas um tempo eterno de sofrimento para os que sofrimento merecem não será o bastante para fazer com que tenha valido a pena? O vento lá fora geme e remexe coisas que deveriam ser apagadas para sempre.

Sim, Gisele se sentia bem com elogios. E esse agora, inesperado, entusiasmou-a além do que ela própria costumava se permitir. Sua beleza

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

e inteligência de nada lhe valiam mas agora é exaltada uma possível glória literária glória de homens do mesmo modo mas essa fé, de súbito, qual é mesmo a sua utilidade? O brilho da noite lembrava o brilho dos sonhos e afinal seu tio está ainda entre as raríssimas pessoas em quem acredita. Olhando-o ela aceitou o dom como de fato uma dádiva e não um fardo. E foi se deitar com uma nova perspectiva para o dia seguinte.

A motivação ou o desencanto sempre estão à frente, num lugar que

deveria pertencer à simples realidade. Portanto ela voou de um lugar a outro em poucas horas e quando percebeu o Sr. Pertiert no quarto, praticamente em sua cama. Passou da renovada esperança ao desespero pretensioso. Na verdade era apenas mais uma pessoa agindo de uma forma que julgava normal até aquela noite e que ao amanhecer mais que isso passou a crer que não há exceções. Nenhuma, pensou. Como viverei num mundo assim? Porém logo de novo o pêndulo faria seu trajeto ao conhecer David no ônibus. Despreocupada do amanhã, resolveu que iria simplesmente viver e não limitar a vida com conceitos acerca da vida.

A cruel decepção com o tio deixa de ser um choque. Revive num

desejo forte de conseguir um bom trabalho e o mais depressa possível se tornar independente. Porque ainda que exista no mundo um homem bom não irá pôr em risco o relacionamento com dependência. Assim que se vê de novo sozinha, Gisele enche o peito, se põe ereta e entra no prédio em que construirá uma carreira de sucesso. É aí que o delegado pessoalmente

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

pergunta se ela veio trabalhar e, pela resposta, forma dentro de si a convicção. Tem a sua suspeita.

Aqui tens, é tudo teu. Se é assim, não quero viver. Esse asco é também de mi mesma. Essa lama faz parte também de um caminho que, se por um lado foi ofertado, por outro escolhi ao me recusar a escolha. Agora a tenho. O que mais se me dará? nunca mais haverá um outro ônibus em que o reencontre. Nunca mais verá a luz do dia. Nunca mais verá. Nunca mais verei através de seus olhos. Ele pulou temerariamente a

cerca farpada, poderia ali ter posto tudo a perder, poderia ter sido um acidente feio; todavia ele cruzou o resto do caminho pelo bosque e chegou às gargalhadas antes da prima. Deu para vê-la chegar quase se arrastando, de quatro, se ficasse numa posição mais à esquerda da rama que lhe arranhava a cara com uma quase carícia poderia ver suas coxas saindo da calcinha, se voltasse à posição anterior se regozijaria com o rosto da menina entre os cabelos desgrenhados. Costumava pensar que foi ali que descobriu não ser o cara puro que todos supunham e o levavam

igualmente a crer. David se tornara a humanidade para ela e que vingança a da humanidade aprisiona-lo numa cama! O homem não é a soma de suas virtudes e defeitos dividida pelas oportunidades que a vida tenha lhe dado. Poderia ser assim mas o destino não lhe concede tal beneplácito. Não. É outra coisa. Uma saga cruel qual a de bobacs atravessando

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

desfiladeiros. É que procurei minha identidade mais verdadeira, a que me libertasse da torpeza, num caminho inútil ou útil para a morte, para que saibamos o que somos morte. Então o pranto de Gisele se fez ouvir. Assim. Morte e lágrimas e horror. Uma mulher bela em meio a homens depravados. Todos. E os que não, estão condenados. É isso? O que é o

homem? O que ele será quando crescer? Alguém em quem se possa confiar? Naquele momento, vendo a prima caída e humilhada, ele soube que não.

vendo a prima caída e humilhada, ele soube que não. ma hora que não chega. Se

ma hora que não chega. Se nada é passível de desejo, não vale a pena a bem-aventurança. As ruas correm ao sol pela janela do ônibus e ele já distingue o local em que deve descer. Tenho fé que dará certo e ficarei com a vaga. Preciso. Ele pensa assim mas a fé de há muito se lhe escapa. Perdera a família e com a orfandade ganhara um tipo de experiência de que não se agradava. Mas não a ilusão. Essa não foge. Que não seja a mesma coisa. Entretanto está calmo. O segredo, partilhado, perde o peso. E o que faz esse céu de azul assim translúcido senão receber o que tem guardado na alma?

Você à minha frente. Casta mensageira do nexo. Inocência inconteste a que guarda a eternidade na ausência da justiça e inviabilidade

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

dos sonhos pueris. Determinação indômita que expressará assim a flora negada e a desconhecida fauna sobrelevando-se à meiguice agora proibida. Fale comigo, terna menina que ilustra meus deleites. Depende de você a humanidade. Dependo igualmente. Seremos dois e afastados ou mal existiremos quando da ausência do outro porque não houve um adeus. Foi um anúncio, anunciação ou a desanuviada técnica de respiração e postura? Quantas vidas teremos antes do inevitável encontro nas colinas amenas? Há uma vingança santa? Uma fuga da morte para a vida?

Foi uma vez há séculos mas ela se lembra. Fazia frio como poucas vezes sentira apesar de estar acostumada. Amanheceu e havia geado. Ela olhava as folhas que súbito tomaram a forma de um caleidoscópio sob o som daquela flauta. Agora a imagem é nitidamente de um símbolo da paz esverdeado dos anos sessenta. Teria ele feito isso e quando e como? posto algum pó alucinógeno na xícara de seu café? Podia ser. Ela perdera a noção de outros perigos e armadilhas quando se viu outra noite sozinha na rua, ao relento, ao frio. O tronco da árvore entrelaçado ocupa toda a superfície da xícara. Assim desejará e não evitará o abrigo de uma casa e ele terá consumado seu plano. O amanhecer de pedra terá as cores transformadas de minuto a minuto como se fossem efeitos de um programa de edição de imagens, filtros e canais e agora até a aplicação de um outro amanhecer sobre o primeiro numa camada de desejo de morrer

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

sobre a original camada do desejo de ser feliz. Uma pintura digital da dor que ah sim pode ser bela. Naquela noite escreveu seu primeiro poema realmente relevante. Foi a primeira vez em que as coisas aconteceram sem que pudesse dizer que tinha sido algum tipo de abuso. Se David não aparecesse um dia é até provável que uma manhã acordasse meio esquecida e tomasse o rapaz que depois do cinema a convidara para um café por seu legítimo namorado.

Se não voltar a si rapidamente perderá o ponto de parada. Devaneio sobre devaneio e está longe agora. Nem percebe o olhar de Gisele. Meditando ou simplesmente fugindo. A última parada antes do lugar em que deve descer. O vento ondula a gola e esfriar-lheia o rosto se ele estivesse ali mas se derrama pela imaginação sombria enquanto passam agora lojas da zona comercial e mais além do burburinho uma fumaça que bem pode ser da fábrica procurada, cujo plano ecologicamente sustentável deve ter muitas falhas. Uma fumaça pegajosa e desagradável, pensa Gisele, que faz algum tempo em seu trabalho mantém as ligações comerciais entre as empresas.

Quando deu por si percebeu onde estava e tocou a campainha do ônibus. Agora é Gisele quem olha sem ver. Pensa no pai. Lembra que

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

costumava dizer que a beleza e a inteligência não a deixassem se enganar. É quase como perde-las, dizia. Ela então sorria mas não lhe dava verdadeiramente atenção. Achava que era coisa de seu zelo. Junte a coragem às virtudes. Junte a coragem em qualquer situação. Assim respondeu tranqüila à dúvida de David e seguiu olhando de cima. As luzes do teto são como cílios do carinho transcendental de papai. Ainda caminharam, David e Gisele, por um pequeno trecho do calçamento juntos, antes de deixarem para mais tarde o futuro.

Sentados à mesa do jantar sozinhos enquanto a senhora Drabska repousava após mais uma de suas crises, o pai pergunta o que Gisele tem. Não é bom para a saúde guardar as coisas para si mesma daquela forma. Como é impossível negar a tensão e a tristeza, admite para si mesma enfim falar. Pai, diz. E então começa, do princípio. Não, não terá coragem de falar do tio. Então conta sobre o médico sem os detalhes mais dolentes. Bem que o senhor Drabska tinha suas cautelas quanto a ele quando diziam que ele era um profissional competente e um homem maravilhoso e louvavam seu interesse pelas pacientes nas consultas. As palavras ainda procuram um caminho quando ela sente que não deveria ter falado. Olhando de soslaio para o rosto de seu pai, percebeu que podia mata-lo de desgosto. Mas sabe, pai, o senhor não deve se importar assim tanto. É um desclassificado. Não vale a pena sofrer por causa dele. O pai pensa

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

que se não vale a pena sofrer com tal motivo então qualquer sofrimento é escusado. Minha filha, minha querida filhinha, um dia cheguei a dizer para sua mãe: o que não vale a pena é colocar uma criança num mundo desses.

O sol estava alto e o dia quente quando o carro do senhor Drabska saiu da garagem parecendo gemer em cada manobra. Ele perdera a hora. Nunca acontecia. Só conseguiu adormecer pela manhã, o que tampouco era comum. O senhor Pertiert a seu lado, ao contrário, parece ter passado uma noite ótima. Na verdade ainda dorme. Apenas passou da cama para o banco do carona. Perdi a hora, Deus meu, não posso me atrasar. Dessa viagem depende a saúde de Ewe. Mas que ninguém imagine que na volta não mataria o canalha maldito, maldito. O que todavia súbito entende nada mudará quanto a Gisele. Antes irá acrescentar dor à sua dor e mais trágico será o seu futuro. Oh, o que pode motivar esses monstros? onde está o Deus em quem creu a vida inteira? como pode permitir essas coisas? E então lembra que tudo começou o desabafo da filha porque a lembrara sobre sua saúde e o mal de guardar as coisas para si. Não posso fazer isso, pensa. Mas alguma coisa precisava fazer. Ou talvez devesse apenas ter percebido que para criar uma filha é preciso um pouco mais de cuidado. Devia ter esse tipo de conversa antes que se tornasse mulher. Agora, na pior das hipóteses, o mal não a pegaria de tal sorte indefesa. Fazendo tanto estrago.

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

Então, pensa o senhor Pierce, talvez eu tenha sido mais culpado que

o próprio doutor. Nesse exato momento Gisele despertou num

sobressalto. Correu até a janela e viu apenas por uma fração de segundo o carro do pai fazendo a curva e pegando a avenida.

ercê de que capricho acontecera, jamais puderam entender. Por que não se conheceram antes. Por que o acidente aconteceu. As horrorosas conseqüências envoltas no inexaurível mistério. A concupiscência e crueldade dos homens. De nada servirá a Luz na janela do amanhecer. E a beleza dessa manhã para que serve? E pensar o quanto agradecia morar perto do parque. Poder correr e caminhar pelas trilhas antes e depois do trabalho. O que a senhora quer dizer? A senhora Ewe

Drabska, que a partir de um momento não escutava mais o policial, olhou-

o com olhos grandes e vazios. E minha filha é suspeita desses crimes? Não pode ser, meu bom homem. Ela até louva a diligência com que ele quer executar seu trabalho, mas simplesmente não pode ser.

quer executar seu trabalho, mas simplesmente não pode ser. Se o que quer é prender minha

Se o que quer é prender minha filha, prenda-a diz, meneando a cabeça dum jeito indecifrável. Sua voz ecoa em sua tristeza. Impregna-se por desconhecidos interstícios da casa. A mãe abraça a filha com desespero, e seu beijo naturalmente desconhece que ela vai apenas dar uma corridinha antes de ir trabalhar. Certamente sabe que alguma coisa aconteceu durante a noite, o que poderá ter sido? se pergunta, embora

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

em algum recôndito já saiba a resposta e já sabe que jamais será capaz de perdão. Laços sanguíneos não são nada. Apenas agravantes do mal no mundo. Em família tudo o que é apenas parece ser.

Então o delegado sentiu um horror vago, que poderia se passar por gozo, tristeza, saudade, ou enfim qualquer sensação psíquica. Está vendo sua primeira esposa, a falecida, o que é isso? Rápido demais. A mãe está de novo ali na sua frente em meio àquela estranhíssima escuridão em pleno dia numa casa que desde chegara à porta percebera o quanto deve ser iluminada. Não mostra qualquer resistência ou desagrado, não à idéia de uma filha criminosa. No silêncio que se faz, ele ainda não sabe, mas pressente, contra toda a lógica que indica que Gisele tenha matado os dois homens, por envenenamento decerto, não, que loucura, ela é inocente, tem de ser inocente, porque já estava morta.

é inocente, tem de ser inocente, porque já estava morta. uem sabe uma mudança essencial. Variedades

uem sabe uma mudança essencial. Variedades inequívocas de humor mostram a oscilação real das vicissitudes. O céu, o vento, as montanhas, o mar, a chuva, a cidade, o campo, tudo talvez tenha realmente sofrido uma transformação autêntica. Porque ele próprio mudara. De algum modo estar amando é isso, transformar o mundo.

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

Deparar com toda essa gente nervosa, angustiando-se por nada, não lhe causa agora estranheza passiva. Quer interferir e dizer: o que é isso? a vida é bonita, é para ser vivida todo o tempo em paz. Quem diria. David, o inquieto. Tendente à depressão. Nunca à euforia, nem agora. Seu sentimento é brando. Caminha, passeia jamais corre, jamais tem um destino. Tudo está agora destinado a seu amor, a Gisele.

Caminham pela rua como se não houvesse ao redor tudo o que há as pessoas passando, os carros, um avião aqui, ali um trovão distante, um cão em alguma casa, as batidas na construção, os trilhos do trem, a possibilidade de um trem, os ambulantes, o próprio sol, os próprios raios invernais de um sol atípico, a vizinhança interiorana dessa rua central. Corpos automáticos em destinos flexíveis. Um em relação ao outro. Os próprios destinos em relação ao destino do outro. Ainda são duas pessoas distintas? Passam e ninguém dá por eles mas é como se fossem o objeto da atenção de todos. As luzes acesas mal percebidas de fora serão apagadas. O dia será tudo, exceto de preferissem o eventual, o que não era definitivamente o caso, e não fizessem nascer aquela visão de mundo. O olhar de Gisele, seus movimentos de cabeça, mais contida do que o costume ela está todavia mais determinada.

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

Com a luz exterior vista de dentro, as fagulhas na chegada da lua e uma instabilidade que trouxe de volta a umidade do ar e o canto dos telhados, estava começando a última fase da madrugada, principiava o amanhecer das duas vidas. Apesar de toda a excitação, ele ainda se lembrou de que estava com o poema que escreveu para ela na escola e

lhe entregou. Carregava junto a si desde sempre. Como assim na escola? É claro que você não se lembra de mim nem daquela fila para entrar nas salas de aula sob a chuva. Agora está ali. Agora. Ali. Ondas que se perseguem. Dias após as noites. O espanto que tão rápido se transforma em regozijo. Agora está ali. Uma moça alta sem ser magra como a compleição da menininha indicava. Pálida e saudável como a imaginara. Em nenhum momento pensou se era bonita ou atraente porque sabia-o. Não é coisa que a aparência física possa mudar dentro de alguém após anos a fio de um amor tão intenso e estável. Existe algo em Gisele que

não tenha sobrevivido a

tivesse passado. Para ela entretanto tanto passara. Daquele menino insignificante brotou o ser que daria sentido à sua vida, seu eterno herói.

Por ele até a causa dela voltou a comover. Afinal ali estava alguém entregando sua vida. O mundo renasce porque ela é como é; porque ele que não existia também está ali.

o reencontro? É quase como se o tempo não

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

Lado a lado se afastam de si mesmos. Tanto mais perplexos quanto

já não o esperassem. A sutil saudação de alguns que a conhecem invade sua privacidade. Não podem ver? Ela se irrita, esperando que ele não perceba. Que bobagem, pensa ele. O ser amado não deve ser ideal ou não seria o ser amado mas apenas uma projeção de expectativas pessoais.

Todos precisamos de defeitos.

segredos se desvendam. Nas janelas, nas portas, nas fechaduras. Nas crianças que foram e nos círculos estonteantes de perguntas infantis irrespondíveis. Por que você é você? As extremidades se tocam como papéis de diferentes finalidades guardados por muitos e muitos anos em uma mesma gaveta. Ela e ele. Como ele a esperava desde sempre e ela não mais esperava por alguém.

Na escuridão por trás dos prédios os

Param numa banca. David compra uma barra de chocolate. Tira o invólucro e oferece o primeiro pedaço para Gisele. Ela morde e, mastigando, articula as palavras. Leva a mão ao ombro dele, sem se aperceber. É aqui que devo entrar, diz. Mas está pensando o quanto seria bom se fosse também o lugar que ele procura.

Bem cedo os peritos começaram. Em parte pela natural procura de

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

objetos e sinais que pudessem ligar o fato com um ato criminoso. Os médicos depois confirmariam ou não se foi morte natural. Mas mesmo se nada indicasse um crime, todos tinham uma sensação estranha ao olhar para o cadáver. Os vultos passam para lá e para cá. Falam entre si a cada poeira descoberta. Parece que ele estava se divertindo antes de acontecer. Acha que vale a pena localizar essa mulher? Não haveria tempo. Porque ela estava na Geórgia? Mas pode saber de alguma coisa. Nos laboratórios da polícia também haviam madrugado. Pincéis e líquidos. Fitas e ácidos. Uma ou outra ferramenta. A lanterna e o microscópio. Isso é nojento. Essa forma de ejaculação se popularizou por causa da internet ou sempre existiu? A internet é apenas um espelho do mundo: um espelho que aumenta mas ainda um espelho. Ninguém imaginava que aquele perito tão jovem pudesse conhecer Baudelaire. Quem? Hum. Aí está. É o que eu estava dizendo, a gente não imagina essas coisas. Quanto à menina, não sabiam como avaliar. É claro que o lugar foi preparado por um cafetão. Podiam até ir atrás dele e o prender. Mas em nada ajudaria na investigação. Quer dizer, de nada serviria para explicar o horror nas feições dos mortos.

Não parece coisa humana. Na verdade, o sexo virtual e a pedofilia tampouco lembram alguma coisa humana. Há um monstro inumano dentro de cada um. A gente desconhece porque prefere desconhecer.

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

Talvez pelo anseio de liberdade porque cada transgressão, quanto mais sórdida, mais se aproxime de um tipo de idéia de liberdade que aproxima dos deuses. Um dos homens se vira para a perita que falava. Você parece ver em tudo alguma coisa que confirme suas teorias piradas. Mas no fundo ele pensava de modo parecido. Que o pior de tudo não é descobrir pessoas anormais mas sentir que lá no fundo há uma afinidade entre nós e elas.

Os peritos são sombras na manhã. Este parece ter passado uma noite difícil, talvez insone. Talvez o cansaço do sexo ou ambos. O assoalho estala como as indas e vindas num estranho refrão. Se a prova pericial foi priorizada como ciência, e a ciência é irrefutável, o que faremos com os traços desses rostos? a ausência de digitais? esse inquérito de sombras? Nenhuma materialidade. Tampouco testemunhas (exceto noutras direções). Nenhum vestígio ou agente que suporte a existência do crime. Nenhum vento que dobre árvores nem água das nuvens carregadas. Rostos revestidos mais de pavor do que de pele. Nem autor, nem material, nem indício qualquer e assim nenhuma evidência. Todavia não é possível ignorar esses corpos retorcidos, não importa o que disser a autópsia. Assim o investigador se antecipa, descobre a relação entre os mortos, a relação que só se confirma quando a mãe da suspeita chora à possibilidade do irmão ter abusado da sobrinha. E todavia não tem nada. Por que não

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

desiste? Ela morreu sim. Naquele mesmo dia em que foi atacada no parque. Morreu por causa do ataque. Ao tentar se defender. Morreu porque ele fugiu. Que sonhos são esses de que forjou ela a própria morte para se livrar? Seguirá ele na caça de um fantasma?

Se precisa de um corpo e a cremação está documentada, o que terá? Mas é um homem competente e racional. O que temos? Dois corpos; uma jovem assediada pelos dois; uma mulher determinada, conforme os testemunhos no trabalho. De inteligência incomum. E agora o resultado da autópsia: ataque do coração nos dois casos. Sim, e o que comeram? Não é difícil provocá-los hoje em dia. Está muito próximo da aposentadoria. Jamais houve um desafio assim, será o fecho de ouro de sua carreira. Não se deixará ludibriar por uma mulher por inteligente que seja e ainda que seus motivos sejam justos.

Desde que conheceu Gisele, Eduard não consegue mais dormir depois que acorda, pouco antes do amanhecer. Agora desiste e se levanta. Chega à janela. Que mulher extraordinária. Por outro lado, é realmente obstinada, obsessiva, para não dizer um pouco louca. Olha a rua úmida

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

sem perceber qualquer detalhe. O orvalho nos cabos elétricos e nas folhas. O fio de água correndo ao longo da calçada. E o que talvez sejam os passos de uma mulher que vai apanhar o ônibus para o trabalho no ponto da esquina. Mas extraordinária sim, antes de qualquer outra coisa.

Uma vez ficaram conversando um bom tempo na cozinha da empresa. Ela até se mostrou acessível. Ele chegou uma ou duas vezes a insinuar seu interesse ou pelo menos pensou que sim. Que havia sido claro o suficiente apesar de toda sutileza. Não sei o que aconteceu contigo, mas você não pode viver a vida toda nessa concha. E por que não poderia? É ela, é a concha quem a protege de pessoas como ele: sinceramente interessado, um homem íntegro segundo o testemunho de todos, realizado na profissão, com os mesmos interesses no trabalho e fora dele.

Cinema, literatura, teatro.

Mas não, esses não são os reais interesses dela. Uma cortina de fumaça. O que eu realmente quero é encontrar alguém que cuide de mim mas que seja o oposto do que sou. Porque se aceitasse uma pessoa como ele, tão parecida com ela mesma, deixaria de descobrir as coisas que precisa saber a respeito da vida. Se é que alguma coisa ou alguém assim. Porque um legítimo amante tem esse dom de fazer com que, ao amarmos

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

o que está fora de nós, revele-se o que realmente nos vai dentro. Jamais será esse o caso de Eduard. Seria como se apaixonar por si mesma, homem. E sendo homem não teria o histórico de assédios que constituía boa parte do que ela é. E sem esse histórico, como haveria de compreendê-la?

Em determinado momento nesse dia ela tocou na mão dele, um resvalo. Olhou bem dentro de seus olhos e disse: Todos os homens são iguais, egoístas, irresponsáveis. Não se entregam. Foi o mais próximo que eles chegaram um do outro. Depois ela se encostou na parede, calada. Pensativa ou só queria fazer tipo? Ele ameaçou se aproximar uma ou duas vezes e ela esperou que ele o fizesse. Subitamente entretanto ele retornou para a planilha aberta na tela de seu terminal.

Sim. Foi uma prova de caráter. De que era diferente. Mas não o bastante para Gisele. Inspirou-lhe respeito, não amor. Sequer um desejo remoto. Nem mesmo o anseio de faze-lo amigo. Na belíssima dureza de seu rosto pálido, o terror de Gisele dominava todas suas virtudes, conscientes de que não há esperança. A que deve renunciar para tornar a viver? Não. Tudo está irremediavelmente perdido. Imersa em aversão,

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

também ela regressou à sua mesa de trabalho.

Nem imagina que ele tem insônia pensando nela. E se pensasse assim, que diferença faria? Aqui está ele, à janela. Vê agora a mulher madrugadora atravessando a rua para alcançar seu transporte. Poderíamos ter sido namorados, por que não afinal? Talvez ainda possamos. Porém todo pensamento desloca-se como um trem, com o caminho previamente determinado; como um trem, às vezes lento, às vezes desgovernado, aqui e ali apitando. Quando parte e ao chegar. E a cada apito se sucedem planos de uma família. Viagens. Prêmios. Crescem, elaboram-se em detalhes, para logo se dissiparem. Depois, restam os carros do ano, os projetos estressantes, as garotas de programa, corpos novos para a cobiça renovados.

Ninguém estava aqui no momento em que ele morreu, disse o perito ao delegado. Não há dúvida quanto a isso. Por que o senhor simplesmente não aceita? O legista determinou: simples síncope. Nada indica o contrário. Substância suspeita alguma ingerida. A dor no rosto dele infelizmente não há método que explique. Que razão haveria para continuarmos? perguntou o jovem, condescendente. Todos concordam que é apenas

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

uma coincidência ambos terem abusado da moça. Se pensarmos bem, foi feita justiça. A justiça divina. Vamos portanto tomar um café e depois eu levo o senhor em casa. Têm sido dias difíceis.

Estava deitado sobre os lençóis trocados, recusara o chamado da

mulher para jantar. Abdul, abdul, ela ainda insiste sem que ele ouça. É possível que não esteja morta, que tenha forjado a documentação e subornado os envolvidos. E as cinzas não deixam rastros. De um salto,

levantou-se. É claro! As cinzas

decerto. E se não houver, não será estranho? disse para si mesmo num sorriso sarcástico. Tudo de que precisa, um pretexto para seguir adiante. Descobrirá a intrincada verdade. Sua investigação terá sucesso, será um marco. Abdul, Abdul. Você é um gênio.

Onde foram jogadas? Haverá testemunhas

Todos estão convocados para a reunião. O pessoal da Instituto de Perícias não podia acreditar. Menos ainda os investigadores subordinados. A irritação se misturou à maledicência. Portas batem pesadamente, cadeiras são jogadas contra as mesas. Na sala o delegado nada ouve. As pessoas ainda estão entrando. Abdul está em outro mundo.

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

A

12

luz permeia a água em que ele descansa, na parte rasa do mar aberto.

Deixa-se entre o sol acima e a areia do fundo, corpo e pensamentos

flutuando no marulho suave rompido de quando em quando por um

motor distante. É transportado no tempo, para a sala de aula, no seu

primeiro dia. Agora a chuva em bátegas chora na vidraça as lágrimas que

à noite desejaria ter derramado por não ter se aproximado mais da moça

do ônibus. E o sono insiste sem sucesso na noite quente, entorpecida. Na

névoa do sonho que não se consuma, desenham-se os traços da jovem

através do tão absoluto silêncio. Talvez a reencontre algum dia no ônibus,

quem sabe a espere para um encontro casual quando saia do trabalho.

Esperará o canto do mesmo pardal numa diferente manhã? A possibilidade

de que ele na verdade sequer tenha se aproximado dela e perguntado

quanto ao lugar onde descer era grande que ele tenha escutado como

se viesse dela o canto de uma sereia. Mas foi tão gentil e simpática e

demonstrou sincero interesse. Em dar a informação?

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

As palavras trocadas ecoarão por toda parte aquela noite. Estará David Choi diante de Gisele Drabska nas horas seguintes e só quando o despertador tocou deteve-se em si mesmo, nas preocupações referentes ao primeiro dia de aula. Imaginava que um pesquisador da área de informática fizesse muitas coisas, mas dentre elas não estava dar aulas, com o didatismo quase maniqueísta que isso requer e sem a experiência proporcional adequada. Um devoto da sorte permaneceu durante todo o

dia perante os alunos, mas parece que o diretor do instituto está satisfeito

e disposto a mantê-lo na vaga aberta pela viagem de intercâmbio do

outro professor. Os carros chiam na chuva. O trânsito lá embaixo é apenas

o pano de fundo. A lembrança do dia anterior à tensão de falar em público

se confundem. De súbito sente o impulso. Abandonará a timidez e irá esperar Gisele na saída do trabalho. O que dirá, não faz idéia. Mas se deve ser assim, que comece agora. Sai da janela da sala de aula e olha firme para sua platéia e quando soa sua voz já não se mostra hesitante.

Ele está sorrindo para o céu. Voltou a sentir o prazer de estar sozinho em silêncio, porque não estava mais sozinho e tinha alguém com quem falar por toda a vida. Ali está ela. Sorrindo ao vê-lo. Ele veio. Quem é? perguntam as colegas. Ela vai silenciosa na sua direção. Num pensamento que de tão rápido nem deixou se registrar pela mente,

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

boiando nas marolas, David quase cogitou ter apenas feito uma troca, sua repulsa à vida e seus medos, por uma mera idolatria. Mas não parece mesmo uma deusa vindo na sua direção?

Via-a do mesmo modo que vejo esse céu azul, ela me deu a calma de que precisava para voltar a apreciar as coisas simples da vida, a textura de uma mesa de trabalho, o alívio de uma inspiração profunda, a gratificação de não sentir receio, a ousadia de pensar diferente do que pensam a seu redor, de ter respostas imprevistas e atitudes arrojadas para as legitimar. De flutuar no mar de sua infância, como agora. De dar aulas como quem conversa e aprende (foi isso que chamou a atenção do diretor

e o fez mudar a função de David no instituto). Esse sal é do mar ou estou chorando? Está chorando, chorando de felicidade.

Agora ele entra em casa e a casa adquire novos contornos e cores. Lancharam juntos no caminho de volta. Deixou-a em casa. Sorriu comovido e encabulado quando ela lhe deu a correntinha. Tinha uma amiga, talvez um amor. Renascera. Os tons sombrios de azul das luzes

apagadas transformam-se nas linhas claras e vigorosas no branco do teto

e no creme das paredes. Senta-se na sala, o sofá não parece o mesmo.

Repara o pó na estante, escutando o barulho das chaves que repousam

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

agora na mesa de centro. Sentiu a vontade antiga. Nadar a noite e, ao amanhecer, deixar que o sol o surpreendesse no mar. Gisele havia sorrido ao escutar isso, quando chegavam os hambúrgueres. Quando for, me convida disse ela. Agora, colocou o calção de banho e a camiseta. Era muito cedo e a quietude tornava possível a voz dos pombos. Há uma estrutura luminosa principal vinda da lua na superfície do mar, trêmula de vento. David entra na água. Quando voltasse no sábado, a chamaria.

Volta da aula de música. Gisele. Seus cabelos cresceram desde o verão, emprestam-lhe um toque de mulher. Que horas são? Está atrasada para o médico e não teve tempo de encontrar a mãe para irem juntas. Balança moderadamente os quadris ficando férteis e mordisca os lábios. Se não mais a encontram na noite, como reclamam os amigos, é por isso, responde, porque vive sem tempo, mas na verdade prefere usufruir da vida assim, estudando, logo terá um bom emprego, o que eles ganham com tanta madrugada insone e noites em claro jogando conversa fora? Quando porém lembrar desse dia, terá preferido um barzinho, uma festa nefasta, qualquer coisa que a fizesse perder a hora.

A tristeza não permite escape cristalizando-se como a tempestade no mais distante ponto celeste além do último prédio. Cobrindo de um negror inimaginável o que até então pudera ser como uma lágrima de

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

esperança. Quais serão as sublimes intenções que nutrirão a alma ao ocultar a dor atrás da outonal muralha? Terei ainda a esperança da noite mais escura. A linha de um arrebol no horizonte. O que é belo, sabe agora Gisele, à vida se refere. O que a voz de David diz no derradeiro momento é nada menos que tudo. O sopro de vida no que pedra se tornara.

Então? O que você está sentindo, perguntou o doutor, muito sério, imaginando que a mãe está na sala de espera acertando com sua secretária os detalhes relativos ao Plano. Logo entendeu que a senhora Drabska não fora com a filha. Havia perdido a noite de sono cuidando dela. A mãe estava se acabando, exausta, doente, disse Gisele numa confidência de que se arrependerá para sempre. Quanto ao doutor, havia tempo esperava esse dia. Ao chegar em casa atravessando as ruas perigosamente entre carros e palavras amalgamadas de concupiscência e maldição ela ainda está desalinhada. Seus olhos estão marejados e o ar lhe falta.

Ela evitou a cozinha e o beijo na senhora. Não contou à mãe, conforme prometera, da audição com o mestre italiano, que tal ele era, ela achava ter tocado bem? e quanto à consulta, o que vai dizer, Meu Deus, quando inevitavelmente elas se encontrassem? Dirá que foi tudo bem, naturalmente e precisará mentir de modo convincente porque a senhora Drabska é esperta demais apesar dos vácuos da doença, esperta demais.

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

Mas agora vai direto para o quarto e maquinalmente tira o violoncelo da caixa. O som se propaga melancólico pela casa e todos sabem que ela não gosta de ser interrompida quando treina.

Que música tão triste. É melhor deixa-la sossegada. À noite a gente pergunta, bem, você pergunta na verdade, porque eu não estarei aqui. Terminando de falar o pai entra e fecha a porta atrás de si. Depois do almoço ele e o cunhado irão viajar a negócios. A mulher relaciona a tristeza da música à seu pressentimento. Não diz nada, silêncio de que se arrependerá para sempre. Mas não se calará quanto ao irmão. Um dia haverá de falar o que passou a inundar a sua alma. Nem precisará ser muito clara. Um delegado perspicaz. A mãe indignada. Isso não irá ressuscitar a moça nem punir o irmão morto. Mas de algum modo a conforta.

O quadro na parede refrata a melodia, a lâmpada e a suavidade quente da tarde. Vozes através da porta do consultório. Em seguida a secretária sai levando o que parece ser alguns prontuários. Uma menina também espera o elevador. Nunca a viu por ali. Sorri e diz que vai chover. Naquele dia no quarto os quadros de Gisele também deslocavam luzes, sons e sentimentos sem porém lhes dar um destino. Agora o médico se

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

prepara para sair também. Não se sente muito bem. Apóia o queixo com a mão esquerda e súbito desvia o olhar antes perdido para o quadro na parede. O que está vendo?, se pergunta, preferindo que a resposta não se manifeste.

Tudo o que pensou naqueles momentos. A dor horrenda que esperava para si mesmo num louco ímpeto de justiça tardia. Nada precisava ter feito além de ser um homem direito. Não deturpar seu juramento em atos sórdidos. Tentar cuidar de seus pacientes com dedicação. Com amor. Como fazia na discussão de seus direitos com o Plano de Saúde não, não isso, mas levado por compaixão sincera pelos outros. Se fui um rapaz direito e cheio de idéias altruístas, por que minha existência terminará assim perseguido pelo destino por dele me afastei e em meio a tamanho transe expiatório que todavia não evitará o fim mais trágico. Tudo pensou naquela estrada perversa antes do abismo rosnando como um cão valente que foge diante de um monstro invisível.

Quando a polícia chegou, lá estava o doutor, caído, como se por horas houvesse se contorcido para além de qualquer explicação sensata. Meu Deus, murmura o delegado. Em seu olhar está escrito que ele começa a acreditar que existe alguma coisa além da vingança naquelas mortes. como irá dormir? Aonde levam essas alíneas? Escuta. Sonata ao luar lágrimas desesperadas abafadas por um violoncelo

Pagava talvez algum pecado?

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

O calor suave parece vir de uma tarde distante.

o saber, Eduard foi até a sala de Gisele, onde a viu pela primeira vez. Quando se apaixonou. Olharam-se e sentiram ambos algum tipo de conforto. Ele diz que lamenta de coração o que aconteceu com David. Ela sem nenhuma dificuldade acredita. Ele diz que imagina o que ela está sentindo. Ela se pergunta se é possível mas por fim não duvidou. Saíram juntos e ele a acompanhou até o shopping onde ela precisava fazer uma compra para o seu setor.

onde ela precisava fazer uma compra para o seu setor. Cai a noite. Em silêncio sobem

Cai a noite.

Em silêncio sobem a escada rolante e antes de entrarem na loja param numa lanchonete. Depois dão umas voltas até encontrarem o lugar que vendia a peça muito mais barata. Em dado momento ela sorri. Ele nem chega a tanto para corresponder ao aceno. Nossa! É a primeira vez que ela sorri para mim assim. Talvez nada aproxime tantos as pessoas quanto uma tragédia mas não é normal que aconteça esse tipo de triângulo, se é possível chamar assim. Ela jamais deu a Eduard qualquer esperança, nem ele agora se aproveita do momento. Apressam o passo ao atravessarem a rua para apanhar o metrô pois começa a chover.

Veja: a avenida não parece mais serena depois que chove? As luzes

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

molhadas não são mais bonitas? Ela, que tinha aceitado fossem a pé e ele

a acompanhasse, diz que pode ser a umidade do ar. Os níveis andavam

muito baixos, quase como num deserto. Tudo se ressente e as luzem podem estar refletindo esse alívio. Ela aceita a companhia e não evita a idéia de consolo. Por que não? É uma forma de enfrentar as profundezas

de sua dor. Da desolação que se fizera a seu redor. Mas não alcança sua motivação. Seu comportamento contradiz o que pensava ser a natureza de todos os homens, do que apenas David deveria ser a exceção. Está tão cansada que apenas aceita. Nada de mais.

Na saída do elevador uma sala-de-estar. Um sofá verde acompanha

a curvatura da mesa de centro onde destacam-se sempre flores naturais e,

depois da nova lei anti-fumo, o cinzeiro ficou não se sabe bem por que. Gisele demorou a encontrar esse prédio, que lhe parece ideal para todas as necessidades e conforto da mãe. Eduard procura ser discreto ao observar. O corredor é amplo e longo até o número 16. Os passos ecoam

e só então percebe que ela está de salto. Jamais imaginou que ela usasse. Foi uma noite muito agradável no meio de tantas em que ela já não sabia como fazer para seguir vivendo. Sua voz também ressoa mais grave e nítida. Doce e sinuosa. Até pararem.

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

Fazem parte um do outro de uma maneira nova. Então é possível a amizade entre um homem e uma mulher. Ainda assim, Eduard, gozando de plena saúde, com um ótimo salário e a aparência decantada entre as mulheres, sente inveja do pequeno e feioso David agora preso em uma cama de hospital. Não existe homem na face da terra que possa se dizer livre de em algum momento descobrir que, se existe, a felicidade não é feita dessas coisas. E ela, imagine, sente inveja da moça com quem um dia Eduard acabará casando. Será sem dúvida uma mulher afortunada. Passa a mão no rosto dele quando termina de abrir a porta. Eduard sorri o sorriso que antes não deu e tomou a mão que tão terna o acarinhava. Fechou os olhos. Um momento desses bem podia durar eternamente.

Os odores que envolvem esse tipo de ocasião. De homem e de mulher. De tapete, de paredes. Do mogno da porta. Evocam origem ou recomeço, decisões, compreensão. Sem tais aromas não se vive e quem não os sentiu com tamanha intensidade não pode dizer que viveu. A chave não pára de tilintar nas mãos dela. Olham-se nos olhos mas sem mais desafios. Porque as verdades que descobrimos provém de outras que demoramos a aceitar ou das que ainda rejeitamos. No morno elevador que desce há uma luz desconhecida, dolorosa, ancestral. Provavelmente Eduard nunca viverá um momento semelhante. Como se tivesse feito parte de uma redenção. Gisele ainda se manterá um tempo encostada do lado

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

de dentro da porta, após o longo suspiro. Eduard a tempos não tocava num cigarro. Procurou pelas gavetas algum que tivesse sobrado de sua decisão de largar. Pegou-o , acendeu-o na cozinha escura de sua casa. As luzes da cidade lembravam algum tipo de brinquedo iluminado além da varanda.

va m algum tipo de brinquedo iluminado além da varanda. música de um violino se faz

música de um violino se faz escutar por toda a rua. Corta sua alma. Podia ter dito. Estudei música aqui. Por que a vergonha? Como se tivesse culpa. No carro que engole a avenida, a voz de David é um murmúrio. Como se ele soubesse. Do perfume que ela um dia ganhara, do cheiro de álcool e cigarro. Do bater de seu coração adolescente, mais e mais forte à medida que os cheiros se misturavam. O motorista do táxi ri de uma piada no rádio. A risada do tio durante a noite na festa, conversando com o pai dela. Todavia agora, enquanto o corpete de rendas é afastado dos seios, o silêncio é absoluto. A sentença de seu quarto eterno de menina. Hoje ele se atreverá, pensa a senhora Drabska. O ronco do marido é pesado, também bebeu demais. Haverá uma tragédia se souber. A dor de mãe foi dada à luz. Uma dor da qual a mulher chegou a achar que estava livre. Não seria um padrão familiar se cedo ou tarde não acontecesse. Uma nota longa e bela desafina no final. Estudei música aqui. Quase diz. Mas teria sido apenas para trazer ainda mais nuances daquela dor. Então se cala e

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

David respeita o silêncio de Gisele. Teria preferido, é verdade, que ela lhe confiasse a dor, podia ser até num aperto mais forte das mãos dadas sobre

o banco do táxi, que não houve.

Não que ela sentisse prazer em carregar aquela dor sozinha. Mesmo

a vergonha tem sempre algum quê da repudiada auto-piedade. O que

sente é uma vergonha pura, pujante, quase um sentimento de vingança por nascer. Já estão no parque. Os pássaros cantam, os pombos rodeiam a árvore, não há sinal de qualquer pessoa além deles por ali. O sol de inverno é baixo e concede tonalidades inesperadas ao vermelho das flores. Não, ela não tem culpa, sequer de continuar mantendo o tio entre eles num lugar desses e na plena paz que deveria estar vivendo com David, a cada dia um companheiro mais perfeito. Não tem culpa da dor no estômago quando a mão do tio tornou o lindo traje que acabara de ganhar numa fazenda amarrotada sem sentido. Ou das sombras nascidas no espelho de seu quarto algumas vindas do vulto contra a lua, outras de lugar algum: sombras simplesmente, trevas as mais absolutas. quase pétreas apesar dos movimentos. Ou da pele muito lisa. Ou da exuberante juventude .

Anoitece e começam o caminho de volta. O esforço de David é tanto

e tão autêntico que ela praticamente riu junto à floração única do ipê.

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

Primavera! Dedos que afundam em seus cabelos lavados. Um beijo ou a fuga para o presente restaurado de tamanha ruína. Onde? Um abraço que acolhe tudo o que Gisele tem. Então seguem. Meu Deus. Faz tão pouco tempo. E agora estou aqui, feliz. Uma gota desce de sua testa. Sabe que não pode mais continuar a destruir sua vida com o passado ou descobre que não há como o passado morrer quando se renova na simples

memória ou pela repetição dos fatos. Que caminho é esse? Seu olhar perscruta a música muito além da vitrine da loja de instrumentos musicais na saída do parque. Seus cabelos esvoaçam e quando retorna para o lado de David sente-se exausta mas decidida a dali para frente jamais tornar a ausentar-se quando estiver ao lado dele. Por que não entramos, e você vê de perto, e perguntamos o preço? Ele sabe que o aniversário dela será dali

a um mês mas ignora que ela detesta aniversários. O vendedor se

aproxima e ele diz que só estão olhando e ela pergunta onde ficam os equalizadores digitais. O que seria dela se não fosse a música? O que seria de sua música se não fosse David?

a música? O que seria de sua música se não fosse David? uxou a saia e

uxou a saia e tentou interpor a bolsa ao sentir o indesejável contato

e se afastou o quanto foi possível no metrô cheio. Com a veemente insistência da mão, a certeza do abuso transformou-se em percepção

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

dentro dela. Fez-se sentimento. Deslocou-se para a região em que a estranha emoção ganha nítidos contornos que ela aceita como ódio. Está sendo subjugada em mais de um sentido não apenas pelos eventos exteriores. Deus, como todas as coisas são escuras por aqui! Ajuda-me. Então o ódio e a mão se misturaram. O corpo e a alma eram como a imagem diante do espelho. Ela não sabia o que era reflexo do quê. Porque seus nervos também estavam afetados.

O homem atrás dela perde, a cada movimento do vagão, eventual pejo que possa ainda. A cada tiquetaquear se permite maior avanço, saqueador na noite. O que sentir além da encosta sagrada sem que possa se vangloriar exceto entre pares que não verão a ignomínia? Não decerto a vergonha decretada por quem o dirá patético e solitário. O brado contém-se entre a ira e o constrangimento como se os que os rodeavam estivessem prontos não a socorrê-la mas a acusá-la. Por que esse vestido curto? Por que essa blusa justa? Por que esses quadris perfeitos?

Outro brado e som algum.

Apenas o trem está gritando. Ruge agora. Geme e se contorce na lenta e odiosa agonia borrifada no coração de um ser invisível. Ouviu os próprios dedos agarrarem-se à alça da bolsa e viu o próprio rosto tornar- se exangue. Uma inconcebível morte alastrou-se em triunfo pelo infame constrangimento. O escândalo transcendera a mera decência e mesmo o

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

crime jamais punido. Uma coisa que acontece em meio a tantas coisas que acontecem a serem tão somente acatadas jamais partilhadas. Assumiu a forma que também na representação futura abjeta será. Não há na morte sombra de poesia, teve certeza. Não sabe quando mas será tenebroso o fim dos pusilânimes. Não sabe quando. Um dia.

A eternidade sórdida teve seu fim anunciado pelo auto-falante. A próxima estação incompatibilizará o desejo de paz com o de vingança. E todavia que tempo será esse para alguém como ela incapaz de qualquer ira ou violência? Que tempo será esse para encontrar esse rosto visto com clareza num relance, se tudo o que deseja agora é jamais rever esse rosto?

Azáfama na plataforma. A multidão se derrama. Logo o gargalo da escada rolante em fila indiana a detém. Ninguém verá Gisele chorar. Ainda que todos os seus sonhos de um mundo puro estejam desabando sobre ela, ninguém a verá chorar.

puro estejam desabando sobre ela, ninguém a verá chorar. inda que ali às vozes se confundam,

inda que ali às vozes se confundam, ainda que dentro de si também se revelou o crime, a mulher a seu lado soa como um fio de sonho e condescendência que gostaria de manter. O silêncio não distingue entre o que é e o que deveria. Namoram há tanto tempo e ela não o conhece. Por que você está assim? ela insiste. Aconteceu alguma coisa?

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

Na lanchonete, onde há minutos se encontraram, a vida em cores se agita como esse milk-shake no canudo que ela brande com dedos nervosos e desconfiados. Iluminação baixa em lâmpadas discretas. Pessoas que entram e saem. Vozes, tantas. Serão mesmo humanas? Preciso ir ao banheiro.

Poucos antes do fim do expediente, decidiu sair e ir de metrô, obediente não sabia bem a que. Precisava. Por quê? Precisava. Se aconchega assim nas mulheres. É um vício. O que devo fazer, doutor? Tome cuidado, isso é um tipo de estupro. Tipo um estupro? Nunca havia pensado assim. Se cuide, rapaz, diz o psiquiatra ao puxar a receita do antidepressivo. Estava ainda em seu bolso quando chegou à estação, embora em algum momento ele tenha pensado em passar antes na farmácia. Não pode acreditar que esse seja seu mundo, ele tão afeito à correção e às evidências necessárias, não pode acreditar que seja um criminoso. Afinal elas parecem aceitar. Gostar até. Sobe no vagão. Se aproxima. A janela mostra o letreiro da penúltima estação, o início do mais demorado percurso.

Por que esta e não aquela nunca ficará claro. Quem sabe um dia ao se achegar entabule uma conversa. Que chuva! Ou: É um absurdo esses trens apertados. A certa altura ao olhar o livro nas mãos da estranha, perguntará se gosta também do anterior de Jelinek, Os Excluídos. Ela responderá que não e ele dirá que é muito bom. Não chegou a ser

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

adaptado para o cinema. Dir-lhe-á que os filmes costumam ser inferiores. Nesse caso, responderá ela, a qualidade é correspondente. Então terão um assunto e ele o pretexto necessário. Tão mais natural. Por que prefere essa aproximação fortuita e sem depois?

O banheiro da lanchonete. Amplo, iluminado. Observou mais. A luz tem uma espessura árdua. Uma solidez altiva. Semelhante à da noite passada em casa lá pelas nove. Luz com personalidade iluminando a solidão de seu quartinho de pensão. Tanta cultura. Tanto estudo. Não deveria a essa altura da vida morar num lugar decente e não neste pardieiro? Contemplou a flutuante luz ansiosa de defeitos, implacável na demonstração de suas culpas. Banhou as paredes sujas como uma pintura nova. Doía te-la ao redor. Doía terrivelmente. Mas súbita como veio sua culpa se dissipou. Agora ali está de novo. Por que aqui no banheiro de um bar? Seu vício o repugna. Mas não tem sequer tempo de se arrepender plenamente. Quanto mais de mudar.

Um rapaz que passa vê a moça pelo vidro da lanchonete. Sônia! Ela ainda mexe o canudinho em meio às vozes e luzes e só agora sente o peso do copo de papel. Agora quando o rapaz se aproxima. O reflexo dos dois está no vidro quando ele a cumprimenta efusivo e sem perder tempo fala que ela está sumida, que sentiu saudades, parece enfim decidido e tão direto que ela pede. Evandro, por favor, vá agora, meu namorado está no

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

banheiro e é muito ciumento. Está de fato no banheiro e se contorce em meio ao horror que ilumina tudo e pelos amplos espelhos se espalha.

Pensando bem, ele está demorando. Ela pede a Evandro que vá ao banheiro e o chame. Estão atrasados para o cinema. Seu pedido é uma ordem, diz o sorridente rapaz à namorada do outro. Trarei então seu amado. Mas quando vocês terminarem lembre-se de que sempre te amarei. Como ele é bobo. Como é bobo. Será que ela não precisaria exatamente de um bobo? rir assim em vez do relacionamento atribulado e sisudo que mantinha?

Ela ainda treme. Meu Deus

A polícia chegou e ninguém pode sair.

Então depõe. Conta o encontro marcado, o cinema. Ele chegou em

seguida, não se atrasou tanto como de costume. Meu Deus

Todos se perguntarão mais tarde na internet, quando Evandro postar aquele vídeo. Nem os mais acostumados com as bizarrices online deixariam de sentir uma pontinha que fosse daquele terror. Porque essa era a peculiaridade daquele sentimento, contaminava. A namorada assistiu da casa do amigo. Não tem o menor escrúpulo de publicar isso?

O que é isso?

Mais calma pergunta depois o que ele acha que aconteceu. O tremor está passando. Sei lá. O que pode ter acontecido? Tipo uma síncope, sei lá. As pessoas passam mal e morrem. Não tinham bebido

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

demais ou fumado alguma coisa? Você está parecendo o policial, Evandro. Mas o policial decerto não a ama. Mesmo em meio a tudo ele sorri. Estavam tão juntos e unidos pelo acontecimento que logo se acariciavam e ali mesmo, diante da tela negra que ocultava o horror do namorado ao morrer, ela se entregaria. Afinal todo mundo passa mal e todos nós morreremos.

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR ponte. Atravessa-a lentamente. Hoje ele apareceu na paisagem levado pelos seus próprios

ponte. Atravessa-a lentamente. Hoje ele apareceu na paisagem levado pelos seus próprios desejos, ardendo, igual a qualquer outro. Se sair desse quadro, deixará que atrás de si, ao piscar do semáforo, dois carros em sentido contrário se encontrem num cruzamento. Em momentos assim o ar parece estar em sua face. As cores da cidade e o sol que sobe no horizonte saem de dentro dele. Diluído em seu olhar, o amanhecer foge da terra. Poderia ser de tardinha, daria no mesmo. O que muda é a personalíssima perspectiva. O calçamento que avança conforme seus pensamentos entre a intensidade íntima de seu cálice. Os passos ecoarão até o alto da escada. Então haverá uma pausa ilusória. Sua vida hoje se assemelha sem dúvida a qualquer uma. Não que isso seja mau, pelo contrário. Sente-se sereno como um fantasma que caminha. O inquilino do andar de baixo pergunta se ele tem um pouco de açúcar. Acho que sim. A mão abre a porta que range em seus gonzos.

Eis aqui, diz quase para si mesmo. O pote de açúcar como um sol que se ergue atrás de uma cordilheira interior. Um dia como outros. Escravo dos sentimentos. Lá e acolá é sempre aqui. No fundo da sala, enquanto o vizinho sai, a janela está se abrindo e os duendes que fabricam esse David Choi voam por sobre os telhados. Tão elementar. A manhã respira nas cortinas. Um zíper. A descarga. Ela disse que me ama. Estamos

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

juntos há quase um ano e só hoje ela disse que me ama. Com a mesma convicção que amou todo esse tempo sem dizer. É essa franqueza, se pode chamar assim, que o comove. Que faz com que dele brote esse sentimento de dever, quase de missão, matéria de que é feito o seu amor, ainda quando escapa para regiões de onde só voltará após o êxtase.

Estranhos chegam para a missa. Diante do altar o padre ergue a hóstia irreprimível. Uma improvável ovelha atrás da igreja à saída fez estremecer o coração da mãe. Depois, à noite, o grito de um pássaro e pela manhã a flor que murchara. Violência sobre violência ou retira a vida ou a vontade de viver. Mas não foi esse o caso. Cada mácula é um canto agora. Beatitude entre beatitudes.

Um copo. Água. Bebe. A menina que Gisele foi um dia. Está sorrindo. Sorrindo para ele. Uma visão rara. O que está dizendo? Durante muito tempo escutará o inaudito no movimento dos lábios. Mas por que ele está tremendo? Não importa. Nada importa. Ela está ali. Está ali ainda. Diáfana em sua lembrança. Revivida em seu presente por um caprichoso acaso que ele tende a acreditar predestinação. Amor. O sorriso se espalha pelos nervos. Que sorriso? Pergunta-se. É ela que está sorrindo em mim ou sou eu mesmo? A menina encosta o braço no braço dele sobre a carteira que

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

pela primeira vez dividem, e será a única. O branco da blusa de seu uniforme irradia-se pelo futuro de David. Ilumina agora este aposento.

Quando se despediram no dia anterior, Gisele olhou para David entre apaziguada e temerosa. A que horas nos encontraremos amanhã? Não fazia sentido ser fulminada assim como se tivesse recebido uma má notícia justo agora que tinha superado os traumas e conseguira. Conseguiram. Na sala azul abrigada de seus demônios, os ininterruptos espasmos pareceram de súbito os últimos suspiros. Primeiro ela sentou-se. Passou-se o dia. À saída ela cantava. Parece a canção de uma fada, ele diz.

A luz da tarde que iluminava os enfeites na mesa de centro é a mesma agora no quarto dele. De manhãzinha como se fosse de tarde. Ele seca a boca com a manga da camisa. Alguma coisa está errada. Sentem no mesmo átimo. O gozo parando sobre eles o gozo há tanto esperado. Justo agora que as sombras se dissiparam, a premonição indesejada. Ele deveria ter dormido lá, com ela. Por que mesmo não o fez? Então este momento não poderia existir. Seus olhos ainda a estariam contemplando. Mas se o passado às vezes volta, o futuro jamais chega. Quem poderia

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

ontem imaginar? O que poderia ter sido não foi e agora é tarde. À sirene da ambulância cabe o grito alucinado da derradeira queixa. É tarde demais.

o grito alucinado da derradeira queixa. É tarde demais. lô? Escuta. O vizinho fala. Vi quando

lô? Escuta. O vizinho fala. Vi quando você saiu. Vamos terminar em algum lugar mais discreto o que começamos na trilha? O que haviam na trilha começado? Quem era? Esse tom de voz não deixa margem à dúvida em que a mãe prefere ficar. Silêncio. A senhora Drabska realmente preferiria que Gisele levasse o telefone quando fosse correr no parque. Agora a filha não volta. E essas ligações em nada a tranqüilizam. Se fosse um amigo apareceria o nome no visor. Quer ignorar os pressentimentos. Confia em Gisele. Sabe que não se envolverá com desqualificados. Mas não dá para viver hoje em dia de acordo com nossas convicções. Viu-a sair? Mas então ele próprio, seja quem for, pode dizer. Alô? Desligou. Agora os temores da mãe tomam conta, quase se pode dizer que são certezas. Certezas vagas e inexoráveis. Não. Ela sempre pede que a mãe não se preocupe assim. Que isso é sofrer por antecipação. Esperará a confirmação para sofrer.

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

A mulher sente que a filha está morta. Sente que ela está ali agora,

portanto não está em qualquer outro lugar. Mãe

dito. De por algum sinal poder dizê-lo. Que estava bem agora. Que sua vida se tornara um sofrimento insuportável e estava bem agora. Estará de novo próxima da mãe quando o delegado vier interrogá-la. O sofrimento da senhora Drabska é um sofrimento em tempo real. Na hora devida. A filha era uma menina cheia de fibra quando viva. Terá levado isso consigo para o lugar em que esteja. Até entende, mas não sabe se é certo. Enquanto estiver se vingando, seu espírito não terá sossego, filha. Gostaria de dizer e talvez esteja dizendo quando o delegado tiver saído. Filha, deixe-os. Entre na sua paz.

Gostaria Gisele de ter

O senhor Drabska deixou para a mulher o belo apartamento na

região da estação central do metrô. Talvez fizesse algum sentido continuar morando ali depois do acidente. Agora que também Gisele partiu, para que precisa tanto espaço e de que servirá essa linda vista? Aliás, o senhor Drabska não teria um meio de consolar a filha? afinal estão ambos no mesmo Hades. Ou será um lugar tão grande que não permita o contato entre eles? ou terá ido ele direto para o sono profundo, e apenas a vingança a mantém nessa terra de treva e injustiça.

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

Sim, filha, deixo-os.

Entretanto a própria senhora Drabska não sabe como se sentiria se fosse com ela. Ou no fundo sabe. Não havia sido assim com ela mesma com esse mesmo Pertiert? esse irmão e tio, expressão suprema da honorabilidade?

A sala está escura. É assim mesmo de dia. Talvez seja o grande

problema do apartamento, essa noite eterna, como Gisele a chama. Gisele. A senhora Drabska continua sentindo a presença dela e sabe que não mais a verá. Põe o celular sobre a mesa de passar ao entrar no quartinho de empregada. Talvez seja hora de chamar Alcina de volta. Estão com a mesma idade. Poderão fazer companhia uma à outra. A senhora Drabska pensa como se Gisele realmente não devesse voltar. Se tivesse de agora ir morar em outro e distante lugar. Como se fosse a coisa mais natural do mundo que ela realmente estivesse morta. A notícia chegará a qualquer momento, ela sabe, e está totalmente preparada. Apenas sentirá saudades, sentirá muitas saudades, filhinha querida.

O sonho de vida se corrompeu. As flores em sua mão, exuberantes,

todavia aí estão. Coloridas, tenras e viçosas. Não há como imaginá-las ligadas à morte, mas entram com Gisele no cemitério e a acompanham até

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

o túmulo do pai. Devolvem a luz ao dia enquanto pássaros esvoaçam do

prédio principal onde está a capela e a sala onde o corpo foi velado, pintados do branco funéreo em que ela continua a vê-lo como se cada rachadura daquela fachada guardasse um segredo a respeito dele ou dela mesma; como se a vida estivesse muito mais ali, na morte, no morto, do que na sua sobrevida caminhante, mais fraca cada vez, sabe Deus a que

apegada a uma esperança é que não, aqui está, pai, receba essa homenagem de quem o amou muito e sente tanto a tua falta.

Apegar-se quem sabe à manhã apenas. Silenciosa e pacífica. Onde não passam as inquietudes ou o cansaço e as poucas pessoas ao redor guardam entre si essa afinidade derradeira que têm porque estão vivas e talvez isso prove que existe um mundo fora dali e das recordações carregadas no ar. Ela sobe dos joelhos, apóia-se e levanta. Retorna às passagens estreitas e solitárias. Escuta os pássaros e os murmúrios nada escutando além da voz noturna em que entorpecida sua insônia se ampara. Mas o que dizer de desse céu de 2010? do luzidio verde dessa árvore? das nuvens escuras cujo contorno porém se mantém branco? Nesses últimos meses de um ano marcado por desastres naturais em todo

o mundo enchentes, terremotos, tsunamis parece a Gisele ter

entendido alguma coisa do sentido da existência. Vislumbre possivelmente restrito àqueles cuja existência perde o significado.

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

As coisas não tem razão de ser. Toda filosofia de vida é inútil. O acidente, a morte do pai e a sobrevivência do tio, a doença da mãe tudo adquire uma lógica alheia ao raciocínio humano. E naturalmente seu fado, fardo pesado e abominável. Já há algumas luzes no prédio. À saída, no ritmo de seus passos, as casas se acendem. Sua sombra lateral no caminho cresce agora em uma parede de sépia saturado.

Quando Gisele se aproximou de sua rua cerca de meia horas depois a luz dourava seu perfil e parecia uma orla reluzente em seu vestido até agora há pouco quando entrou no prédio numa linha reta e decidida até o elevador, sentindo que o ar lhe faltava, encostando-se ao metal frio bem debaixo da câmera de segurança, falando baixinho palavras de consolo para si mesma. Calma. Você não vai conseguir sobreviver a tanta tensão. Bom é ter esperança e esperar em silêncio. Suportar o jugo da juventude. Quem sabe não tenha que carregá-lo sozinha ao longo de toda vida. Quem sabe apareça alguém. Um amigo. Um companheiro. Um homem que tome conta de mim. Enquanto não acontece, farte-se de afrontas. Sentou-se na cama, tirou os sapatos, suspirou, tornou a levantar, chegou à janela. Ainda bem que não dá para nenhum vizinho, não gostava da maneira como esse do mesmo andar a olhava. Era bom pelo menos em algum momento ter essa liberdade, desabotoar o sutiã aureolada, imagine, uma santa, não, é uma coisa que não sou, pensa ao deixar a calcinha no assoalho. Solta os cabelos e uma explosão suave e prateada engole os intermináveis temores da noite que pulsando se aproxima.

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

Gostaria de por um short, uma camiseta e ir correr no parque junto à praia mas seria quase uma insulto à violência da cidade. Bem, deixará para assim que amanhecer. Excepcionalmente hoje as lembranças a deixaram com muito sono. Assim que dormir em seu sono sem sonhos, já será amanhã.

Deixa que a aragem traga a preciosa lembrança. Gisele e ele na adolescência. Brincando. O primo Joaquim junto. Procuram-na. A irmã dele, a prima Maria, foi quem contou que ela preferia os lugares escuros. A

mãe os olha pela janela. A tia. Pensativa. São crianças tão doces

imaginou onde ela poderia estar. Ninguém a conhece melhor do que ele. Um lugar escuro, descalça, sonhando. Ali estará. Atrás da casa. Dentro daquele pequeno túnel abandonado. Assim a encontrará, sua luminosa irmã. Gisele, chamou. Não adianta, sei que você está aí. Ela não saiu e Hadrien avançou ao seu encontro.

Hadrien

Alguém está chamando. Hadrien! A mulher de longe aparece requebrando de um jeito grosseiro. O que fiz de minha vida? Não é mulher para ele. É belíssima, às vezes demonstra sensibilidade e alguma

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

inteligência. Mas não será jamais como Gisele. É só uma potranca de voz esganiçada. Por quanto tempo estiveram ali no túnel não sabe dizer e tanto tempo depois, depois do assalto a Gisele, a lembrança perderá toda a doçura. Ele terá de fugir, o que mais lhe restava? Se não pode olhar nos olhos da irmã, melhor jamais tornar a vê-la. A própria mulher, Vanda, inutilmente insistiu para que fossem visita-la, preocupada. Deveria ir vê-la. Irmãos são para sempre. Eu a amava tanto, chorava Hadrien no quarto. E de fato, jamais tornará a amar assim.

Ele passa as fotos na sala após o jantar. Uma de Joaquim, outra de Maria e uma outra de todos juntos, os quatro. E seus primos, também nunca mais os viu? Hadrien olha para Vanda. Aí está a sensibilidade de que dá eventuais mostras. Não pôde renunciar ao prazer da primeira noite e agora não poderia abandonar todas as comodidades que juntos construíram. E assim a vida segue. Como a água para quem já não tem fôlego mas ama nadar. A umas braçadas pelo menos se arrisca e a um mergulho de quando em quando. Mas mergulhar mesmo era pensar nos tempos de menino e nenhum mar é mais profundo que a infância. Bem. Maria acho que foi fazer um intercâmbio na Europa e nunca mais voltou. Joaquim da última vez tentava um concurso público com a convicção de que uma vida estável termina por possibilitar outros sonhos, ao acabar com a preocupação da subsistência.

E a tia, a mãe deles, dona Francisca? Essa ficou por lá mesmo,

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

cuidando da comida e das roupas do senhor Pertiert, mesmo quando o câncer já a consumia.

Jamais seria capaz de um ato vergonhoso, muito menos contra a irmã, menos ainda por meio de violência. E no entanto foi muito mais violento do que o assaltante. Existe até uma lei que especifica isso. A violência contra o sangue é a pior e pior ainda quando não há chance de defesa. Porque o que Gisele tinha de forte em seu caráter, tinha de fraco no físico. Não era franzina, mas jamais pensou ter de usar a força para se defender. Naquele momento era como se ela tivesse uma arma descarregada, uma arma que não soubesse usar. Sequer gritou. O que poderia Hadrien fazer senão fugir de seus lindos olhos?

Alguns dias depois de ter ido à casa de Gisele e falado com a senhora Drabska, o delegado Abdul encontrou um antigo colega a quem muito respeitava e perguntou o que ele achava de tudo aquilo. Tem suas opiniões e algumas intuições porém vão de encontro umas às outras. Você sabe, Artur, não sou um homem místico; mas estou começando a crer que existe alguma conotação sobrenatural nessas mortes. O outro quis então saber detalhes e o delegado contou.

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

Gisele é ou era (quase admite) uma moça muito bonita, realmente atraente. Olhe. Ao mostrar a foto disse a si mesmo que não fazia justiça à jovem. Lembrou-se de repente que o colega teve um caso extraconjugal com uma moça dessa idade. Enfim. Havia começado e, paciência, continuou. Tudo indicava que ela se vingara do vizinho que a havia assediado no parque da praia na manhã de 29 de setembro de 2010, quando à noite ele foi assassinado em seu apartamento. Mas isso não pode ser porque ela morreu antes, nesse mesmo dia. Abdul chegou a pensar que ela simulara sua própria morte para se livrar, pois o porteiro de seu prédio disse que ela saíra à hora de sempre para trabalhar. Mas no escritório constatou que ela faltara o que aliás, testemunharam, jamais tinha acontecido antes. Artur a essa altura começa a se interessar e passa a dar uma atenção mais cuidadosa à narrativa do delegado.

É um homem de sessenta e dois anos, de poucos verdadeiros amigos e hábitos rigorosos. Aposentou-se tão logo pôde. Não suportava tanta perversidade e a forma como as leis terminavam por livrar sempre os culpados. A literatura deveria servir para que de algum modo fizesse a justiça a que os homens se recusavam. Se tivesse talento para tanto teria se dedicado completamente. Mas também no mundo dos livros, descobriu, a desconexão entre o que deveria ser e o que era se mostrava evidente:

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

mundo nefasto de lixo publicado e nobres anonimatos que só o tempo redime.

Bem, o que chamou a atenção dos policias, do pessoal da perícia e de todos o que chegaram a ter contato visual com o cadáver foi a aparência aterrorizada do morto. Alguma coisa muito próxima dos fantasmas acorrentados ao inferno nos filmes de terror. Um testemunho de unanimidade ainda mais relevante pelo gaguejar, pelo tremor e olhos esbagaçados. Artur abre mais os próprios olhos sem ousar de antemão esboçar qualquer tese. Quem sabe ali poderia estar a história de seu romance. Algo pelo que valha a pena viver os últimos anos de uma vida até então inócua. O que virá agora? Abdul não é homem de pedir opinião Se está fazendo isso agoraUma jovem assediada, um estarrecedor cadáver, o medo, a crueldade, o inferno, a desesperança e ódio. E agora?

Não um só cadáver.

Como assim?

Soubemos, meu amigo, de um caso em tudo muito semelhante: a ausência de provas, testemunhas ou vestígios; o horror na face; a súplica inaudita pelo fim. Artur tentava imaginar. Um homem rogando aos montes que o soterrassem. Isso e não a clemência como perdão para seus pecados. Não parecia coisa humana. Esse outro morto, imagine, era tio da

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

suspeita, quem agora creio estar mesmo morta. Mas não acabou. Falta falar de um rapaz que enfrentou a suspeita do delegado, um tal Eduard se esse detalhe a Artur interessar. Sim? Ele garantiu com consistente veemência a inocência da moça chamada Gisele. Ah, e falta falar da mãe dela, cuja doença não a impediu de desafiar a autoridade em sua casa para prender a sua filha. E falta sobretudo falar de outras vítimas. Não sei diz o quanto é válido usar esse termo.

Sim, o médico a quem a jovem durante um tempo consultou, sobre quem a própria família praguejou ao saber da morte e a esposa em especial parecia se sentir vingada. E um outro, encontrado no banheiro de uma lanchonete, tendo também algo em comum com a rotina dessa moça, quero dizer, costumavam pegar o mesmo metrô no mesmo horário. Assim aqui estão os delegados, um aposentado e outro quase, em meio a uma tal sorte de fatos e espectros, enquanto o garçom lhes traz mais duas xícaras de café.

Como se não bastasse tudo isso, há uma história trágica que não envolve diretamente essa moça, mas seu namorado, o que significa dizer que quase a envolve, tal a ligação dos dois, conforme Abdul pôde apurar.

O que aconteceu com ele?

Sofreu uma queda numa circunstância corriqueira. Parece que ia trocar a lâmpada de seu quarto e teve uma tontura. Não morreu, mas é

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

quase como se tivesse morrido. Está ligado a aparelhos, inconsciente. Os médicos acreditam que é remotíssima a possibilidade de um dia acordar.

E tinha mais, se Abdul quisesse se ater a detalhes, o acidente que matou o pai. O tio, Pertiert, se salvou. Apenas para fruir de uma morte mais macabra.

Artur intuíra saídas para o labirinto. A literatura poderia suprir o que faltasse. Não pode dizer isso ao amigo. Não é o que ele espera ou pediu. Beberam juntos um gole de café e Abdul apanhou o cigarro a que voltara após o caso. Olham-se. Suspiram. Ao contrário de você, Abdul, sou um homem místico. Um calendário na parede. Faz um mês que o vizinho da moça morreu. Desde então, toda segunda-feira. O quê? Alguém morre assim. Artur emergiu de seu mundo imaginado e cogitou o quanto poderia ser verdadeiro. Então, o que ele achava?

Pode ser que existam mais pontos em comum entre esses mortos e a partir deles tenhamos um caso, mesmo que, como tudo indica, a moça realmente esteja morta.

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

A sala está envolta na paz de uma névoa um tanto morta. Terá Gisele de viver para sempre em meio a essa saudade sombria? Acredita agora que o pai está bem onde está. Que descansou. Que logo estará com ele. Não, não assim tão depressa. Deu outro passo, tocando o sofá com os dedos, de leve, quase uma carícia. Os quadros da parede, os livros na estante, as flores naturais, serenamente se apresentam e lhe comunicam eternidade. No vidro da janela feito espelho a bela jovem, severa, a questiona.

Ontem voltou para casa. Acompanhou o Sr. Pierce até o fim. Ouviu o diagnóstico sobre a senhora Ewe dos mesmos doutores que primeiro apresentaram as condolências. Depois de tanto sofrimento poderá esperar algum descanso para a mãe? O médico não podia afirmar senão sua esperança. As agulhas de tricô e o agasalho inacabado produzem fragmentos de uma infância que é possível nem tenha existido. Enfim. Já não faz diferença. A vida e a imaginação são tão próximas que não raro se misturam.

Esse caderno agora aberto ela usou para seu primeiro diário; nessa mesa de estudos, quantas lições o irmão lhe ensinou. As cortinas que com o passar do tempo amarelaram remexem dentro dela os meandros do tempo e o destino. Em alguma outra época teve semelhante medo? Pode escutar aqui a voz de Joaquim; ali Maria por causa de uma piada boba

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

gargalhou. Venham jantar, diz tia Francisca. Todos estão felizes e em seus olhos afogam-se nas lágrimas. Ela compreende que não pode ficar ali por muito tempo. Desvia-se e entra no quarto. Você precisa dormir, minha filha.

O suor esfria todo o corpo. Olha ao redor e assustada percebe de fato ter dormido. Não foi um sonho. A morte do pai no acidente, a doença da mãe, a sala percorrida ou no quarto dela o beijo de boa-noite. Está bem. Então descanse também, mamãezinha. Há tanto respeito e admiração em sua voz que ninguém imaginaria uma dificuldade perene de relacionamento entre elas. Ninguém notaria uma mudança quase que de raça em Gisele com o passar dos anos.

Sem dar por si, está de novo na sala, junto ao aquário, onde antes ficava a escrivaninha do pai, e aqui a poltrona em que a senhora Ewe fazia suas costuras. Seja como for não pode ficar fugindo todo o tempo do passado. Ou talvez possa caso venda o apartamento e compre outro. É isso. Amanhã mesmo irá procurar o corretor. Há de fato alguma coisa que a incomoda nessas lembranças, embora nada do que tenha realmente acontecido. Uma intuição. À mesa, Hadrien diz que há verbos que admitem várias regências. Hoje eu sei, pensa Gisele. Talvez um dia venha a compreender. Gostaria de saber onde está o irmão e reencontrá-lo. Olhar de novo dentro dos seus olhos.

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

A senhora Ewe Drabska ainda dorme. Gisele lembra vagamente do que sonhou. Me procuraram hoje cedo? pergunta pelo interfone. O elevador passa pelo andar, levando seu coração. O sino está tocando como se espalhasse um segredo guardado durante séculos, ou talvez durante vidas de crianças inocentes que, forjadas pelas sombras, crescem e se transformam, se tornam duras, obstinadas e acalentam o desejo de vingança onde antes havia apenas tristeza inconformada.

de vingança onde antes havia apenas tristeza inconformada. or volta do meio-dia, com o cunhado adormecido

or volta do meio-dia, com o cunhado adormecido no banco do

carona, o senhor Pierce abriu o porta-luvas e apanhou alguma coisa na mão direita. Chega a esbarrar e Pertiert resmunga alguma coisa que o pai de Gisele não teria gostado nem um pouco de ouvir. De resto não gosta

mesmo dele, mas fazer o quê? Família

batidas. Preciso consertar esse porta-luvas. O homem dirige com a displicência de quem conhece bem a estrada e também por isso mal a olha, optando pela contemplação do objeto entre os dedos. Um céu limpo de inverno. Grandes pastos passam ao lado e passarinha lá longe um cavalo branco. Num instante assim fugidio não parece caber a grandeza

Um baque seguido de pequenas

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

de uma tragédia.

Valeu a pena, é claro. Ele nem acreditou a princípio que Ewe pudesse mesmo gostar dele. Mas é verdade, ela sente saudades, como disse na primeira vez que se separaram por mais tempo. Como era linda. Nem parecia irmã desse traste. E nem o tempo retirou dela essa beleza nobre que Gisele herdou. Como a amava, o que será que ela tem, essas dores, esses esquecimentos. Estará apenas ficando senil, ou será algo mais? Precisa faze-la aceitar se consultar com um médico, ele até compreende a ojeriza que ela tem de médico, mas simplesmente precisa. Pierce lembra com detalhes da primeira vez que ela usou esse broche. Essa voz maviosa vem do corredor do prédio em que ela morava, quando saíram pela vez. Quando a beijou naquele dia, a testa dela estava úmida.

Logo cedo tivera um dissabor na universidade e ao longo do dia as coisas apenas contribuíram para piorar o seu humor. Porém assim que ela abriu a porta soube que jamais na vida seria de novo sozinho e para sempre teria com quem partilhar alegrias e tristezas. Entrou mas não se demorou. Em seguida estavam se despedindo dos pais dela. Prometeu traze-la antes da meia-noite como convinha a uma moça de família e por muito pouco não quebra a palavra porque quinze minutos antes disso estavam ainda se vestindo no hotel.

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

Realmente, Gisele se parece muito com ela. Olhou no espelho como a perguntar se a jovem também com ele se parecia. Como amava a filha! Não seria capaz de colocar esse sentimento em palavras. Flui dentro dele agora como um rio, renovando a vida um rio, que leva todas as coisas e rega a terra dos vivos. É feliz! O sol ilumina mais que aquece e o cavalo está calmo agora embora já não seja possível discerni-lo na paisagem que voa. O carro devora a estrada mas seu condutor está realmente longe dali como pode pensar esse tipo de coisas após a confissão da filha na noite anterior? e só retorna quando do estrondo. Pertiert acorda assustado em meio às ferragens enfumaçadas.

Quando em seu caminhar as luzes encontram o espelho da parede, surgem a mesinha, a xícara, o abajur e uma ponta do sofá. Há agora o barulho de um chuveiro e um choro convulso. Os ladrilhos estão suando. Aconteceu de novo e dessa vez ultrapassou em violência todas as vezes anteriores. Houve uma violência real, na verdade. As batidas na porta do banheiro são da mãe, que não pode desconfiar, mas Gisele agora acha que não suportará o silêncio e terminará por se lançar a seus braços.

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

Tem o rosto inclinado e as mãos sobre os olhos, como a tentar impedir as imagens: não estivera sequer passando por ruas ermas em horário perigoso, mas simplesmente cortou caminho, num beco de poucos metros, na hora do almoço. Ainda assim, talvez não tenha sido prudente. Uma colega comentou alguma coisa sobre um homem chegando com atitude suspeita, mas Gisele não costumava se deter na conversa das colegas. Agora, fragmentado e inútil, emerge da memória o que ela então contava.

Sente a aproximação pelas costas e pelos lados, e o que vem na direção dela, tão galante, bem sabe o que está acontecendo. Acima céus sombrios e prédio em prédio recortado. Um frio cortante na garganta, uma voz trêmula. Passe o dinheiro e o celular. Cores fortes se formam em sua face, mas não teme a faca ou a morte. Misericórdia não espera nem quer. Hienas em torno de um cadáver. Os dedos machucam os mamilos, as mãos sufocam os seios meio expostos. Como dar vazão a esse vômito? Como não se curvar o suficiente? Como não envelhecer mais mil vidas em outros poucos minutos? O metal não penetra o vão no regaço. Teria sido menos doloroso.

O tempo que passou não saberá. Ao longo de minutos eternos, caminha resfolegando e amarrotada. Precisa chegar em casa, é tudo o que precisa. Que caminho a deixou nessa relva não saberá. Se esses jardins um dia a excitaram, em deslumbramentos de infância, distorcidos, não agora

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

ou em qualquer tempo futuro, serão sempre as flores da ignomínia. A juventude sentenciada, a ruína a porta que se abre a introduz num outro mundo em meio aos móveis escolhidos para aconchego. O que resta?

O quarto de Hadrien, seu melhor, único amigo, cresce em conformidade com o próprio desespero. O que foi, Gisele? Um feixe luminoso descansava no tapete com motivos egípcios, Nut sobressaindo no baixo-relevo. Meu Deus, o que houve, minha irmã? No encontro entre luz, tarde e a cama impecável, uma névoa sugestiva pairava, lentamente redemoinhando. É nesse clima fraternal, no nada entre o passado e o futuro, na fantasia que ganha corpo com a condescendência, os irmãos se olham e ressurgem um para o outro em novos papéis porque não há verdadeira ilusão que dispense um quê firme de realidade.

Como poderia ela imaginar? Não poderia. A mãe sido internada há dois dias. Correntes estranhas e portas que seguidamente batem, sem que haja vento.

Quase meia-noite. Gisele faz grande esforço para levantar o fardo da cama, pois era isso que seu corpo se havia tornado. Acabara de desabafar com o irmão, e convulsa adormeceu. Ele está ao lado e a contempla

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

calado. Parece meditar sobre os horrores que ela contou: assim ela o vê ao despertar. Mas aqui mudam algumas coisas, Hadrien a olha de um jeito estranho, com o olhar típico de quem bebeu. O que vê? É esse o seu irmão? Ele diz algo. Sim, é ele. Mudaram algumas coisas. O declínio da nobreza de um amor fraterno. Uma realidade inesperada. O que você está fazendo, Hadrien? Ele apenas a velava. Não assim.

Aproxima-se dela, que custa a dar por si, porque até um momento ainda poderiam ser carinhos de irmão. Ela percebe estar sem a blusa. Essa mão que a percorre é ainda a mão de Hadrien. Gisele se encolhe, chorosa, mas nada do escândalo que seria de supor. São movimentos castos, de evidente repúdio, mas não indignados, onde ficou sua capacidade de se escandalizar? Ele também não insiste. Apóia-se no cotovelo direito, recostado atrás dela, e ouve o pranto como se viesse de muito longe, como ecos do além. Eu te amo, ele diz, como se fosse algo normal de se dizer.

Ela se vira para ele e o olha no fundo de seus olhos. Abraça-o e sua voz sai com irreal compreensão. Meu querido, nós sempre fomos tão unidos, sempre pudemos contar um com o outro. O calor do corpo dela se irradia pelos nervos de Hadrien e talvez por fragmentos de seu espírito, num aroma entre o mar pela manhã e a nota da noite mais funérea. Irmã minha, amada minha, que irá receber o meu beijo, num último momento vira o rosto, desvia seu miraculoso hálito, de perfeitos perfumes

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

adocicados, sem qualquer nódoa apesar de tudo. Ele se inclina, e aperta-a contra si, perdendo pela primeira vez a sutileza. Segura com as duas mãos o rosto dela e fala, embora ela não esteja mais escutando.

Quem é esse homem, senão um a mais, permitindo-se perder por um prazer tão próximo que é abismo, uma perdição irreversível como a vela que consome não mais dará luz. O que mais a confunde é essa calma, onde deveria reinar uma indignação veemente. Gisele tranca os lábios e no queixo se multiplicam pontos de ab-rogação da confissão há pouco feita e aos laços puros do sangue e do afeto. Não, ele não está dizendo isso, tudo bem que bebeu e se deva entoa dar um desconto, mas quanto a uma tal heresia? Se quatro assaltantes que você nunca viu puderam, por que seu irmão amado não poderia?

Ela mais uma vez lutou o quanto pôde, e foi bastante visto que era forte. É que há um fim para toda resistência e não será isso com a própria existência? Os olhos fechados na banheira, após os um ao outro se ensaboarem os braços, e sobretudo a mão com a esponja desesperadamente esmerar-se em sua missão sob a água, os olhos fechados e ela o imagina, dormindo o sono de duplo amortecimento e múltiplas e perversas ramagens. Não se dirige ela mais a Deus por consolo ou direção. Fecha de novo os olhos, afunda sob a espuma, e vê emergir de súbito uma abelha selvagem e vermelha.

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR cabeça do gatinho se virou para lá e para cá, como se

cabeça do gatinho se virou para lá e para cá, como se alguém passeasse pela sala, alguém cujos passos uma outra pessoa não teria ouvido, e todavia aumentavam mais e mais. Está fazendo muito frio. Que tipo de primavera é essa? As bolinhas de vidro pelo chão caem e correm pelas frestas do assoalho, como quando Gisele brincava com ele. Ninguém irá arrolar naturalmente um gato como testemunha, todavia teria sido a única ocular. Ali está ela, sua dona e amiga, debruçada na janela. Por que tão triste? E por que solidão, ele não estava com ela, como sempre?

Não se trata de solidão. Apenas lembrou o poema, que começa assim. Mas é com outrem que ela terá de habitar dali para frente. Nem mesmo o gato escuta o mar; até para uma audição privilegiada como a dele, estavam longe demais. Quando o cérebro deixa de funcionar, o que exatamente deixa de existir? Decerto não o significado do tempo e as relações entre as pessoas. O anjo e a jumenta de Balaão. Saul angustiado faz com que Samuel se inquiete e apareça. O que exatamente sou nesse sonho? O que sabia ainda sei, pensa ela, e nem todas as pessoas haviam desaparecido, não ainda, não antes que se permitisse adormecer até o Juízo.

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

Que não seja um grande e obscuro caos. Que os assuntos pendentes se resolvam. Então ela mergulhou na fulgência terrível que se abria. Sweet, o gato, tornou a olhar e ela não estava mais ali. Um túnel. Um longo túnel e uma queda lenta. Ou é uma subida? Embora houvesse todo

o tempo para isso, o filme da vida de Gisele não estava passando. Não

consegue ver nada porque está muito escuro ou porque a demasiada luz a tudo ofuscou? Esse olhar infantil, que não se impressiona com a própria perplexidade, vê que algo está soando, como um sino, no lugar que acabara de deixar. Sim, jamais precisará de novo levantar da cama de manhã.

Está sonhando, dormindo ainda portanto? O relógio. O espelho.

Quem é essa que saiu para trabalhar? Sweet mia, espreguiça e se desloca.

A senhora Drabska entra e atende o celular. Passa-lhe pela mente, com

detalhes, toda a vida de sua filha.

S entam-se no sofá da pequena sala. É um ambiente abafado, insalubre. Falam sem parar e o mais velho pergunta ao menor se apanhou

a encomenda, conforme sua ordem. O menor diz que sim, entre risos,

contando que tivera de bater na mulher porque não queria colaborar. O terceiro, um moreno confirma a história enquanto acende o baseado. Diz que, olha, acho que a gente deve agora se concentrar nas joalherias, mas

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

aí, responde um quarto, o gordinho, a possibilidade de a gente tirar uma casquinha das funcionárias é quase nula. O mais velho concorda mas considera que abusar de moças como aquela Gisele é como um bônus, para compensar o lucro menor dos assaltos a transeuntes. ―Aquela Gisela‖? Como ele sabia o nome dela? O mais velho meneia a cabeça. Gisele, idiota, Gisele, não Gisela. Como senão pelos documentos na bolsa?

Não se passou muito tempo antes que o espelho do corredor começasse a refletir aquilo. Aphonsus, mais velho e chefe da quadrilha, demorou para acusar o impacto da visão, era assim que lidava com tudo, esperava até que pudesse ter uma reação adequada, que não comprometesse sua fama. Mas quando Kitaro, o mais novo, perguntou baixinho quem era aquela mulher. Já não era possível fingir que não havia ali nada estranho. Começaram então a falar uns com os outros. A princípio sobre a estranha na casa; depois sobre a estranheza da mulher; e finalmente sobre a semelhança com Gisela. Dessa vez Aphonsus não corrige o assecla.

Faz muitos meses que Aphonsus deixou de ter os sintomas da abstinência, então de certa forma é bom que os outros também estejam vendo o rosto pálido de fulgurante beleza, as feições vívidas e livres, leves como as de um algoz. Discernem um brilho eterno nos olhos vazios acima dos vermelhíssimos e carnudos mundos que, indecifráveis, sorriam. Há um

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

cheiro enjoativo na sala qual um incenso de flores apodrecidas, todos podem sentir. Todos malvados, muito malvados, estavam agora preparados para a consciência do mal?

Que bom estarem ali todos juntos na perversidade e no arrependimento. Não é uma benção essa sensação? Ela pretende que eles degustem isso até a última gota. Não irá privar-lhes de nenhum desses prazeres do remorso. Ter-lhes-ia dito quando do assalto que no fundo eles eram bons rapazes. Que os perdoava do pequeno deslize. Coisa da carne por que todos os homens uma vez ou outra passam. Todos olham paralisados. As hipóteses mais loucas se desenham. Em Kitaro hipótese alguma. Apenas a contempla, como a uma flor. Como a uma deusa. Talvez revele o verdadeiro motivo de estar ali. Quem sabe seja ele. Ele que demorou a participar do estupro; que até chegou a dizer que não deveriam.

O que é que esta visão enfim pretende, se é que uma visão possa algo pretender, está em que parte do processo? em seu final ou no começo? passará ou se cristalizará por toda a eternidade? Firme e lentamente, a brancura se move. Derrama-se e se transforma. Está nas paredes, nos móveis, no céu acinzentado na fresta entre os prédios na janela. Está em tudo, é tudo, fora e dentro deles. Dentro principalmente dor de um parto inimaginável; dor que tudo resume e nada permite além dela mesma. Dentro de cada um, por quê? Por isso e por aquilo e também

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

por essa outra razão. Agora podem morrer em paz, a paz possível aos abomináveis, aos fornicadores e aos idólatras.

duard pára ante a porta branca, enquanto passam pensamentos desconexos. Se David é mesmo o homem de sorte a quem inveja, está na hora de saber se faz algum sentido invejar alguém que esteve morto por tanto tempo, mas enfim, contra toda expectativa, reviveu. Todavia, Gisele está morta. Imagina-se ali, na cama do hospital. A encantadora namorada já não existe quando ele acorda. Sabe que um ano foi o tempo durante o qual dormiu. Agora não tem vinte e cinco anos, e fez aniversário ali, numa cama inclinada em que um depósito de urina está acoplado. Papagaio, parece que isso se chama. Então, no espaço limpo das reflexões, ao som do sino falso da capela, Eduard percebe seu engano.

ao som do sino falso da capela, Eduard percebe seu engano. Insistente sinal atmosfera o quarto

Insistente sinal atmosfera o quarto quando Eduard entra. Desconhecidos num momento descobrem afinidades e se respeitam: é hora de escutarem um ao outro. Então David fala com a espreita da lágrima anexada ao sinal. As noites são longas. De recolher um fragmento de sonho que a manhã dirá falso; de reviver a conquista que o despertar reverterá em fracasso. Eduard agora pode entender. Mas como se conheceram? Foi num ônibus, diz David. Eu ia para o primeiro dia de

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

trabalho. Saltamos juntos. O ápice de minha vida.

Nunca soube de nada das coisas que ela passara? Dos assédios?

David imagina o que se passa dentro da amada certas noites. Aquele suspiro junto à cabeceira. A mão que subitamente o afastou. O braço se movimenta e toma de novo a consciência dos tubos e mangueiras ou seja lá o que seja ligando-o ainda à morte. Tosse. Respira com dificuldade. O sinal leva tudo à tela que a tudo devolve em gráficos móveis junto a estatísticas azuis. Não há por que segurar essa lágrima, David.

Um instante volátil percebe quão enganoso é o coração. Conhecimento precioso trazido essencialmente pela dor e diluído pela ausência. Com isso, Eduard quer dizer o quanto está arrependido e o que pudesse faria pelo novo amigo. Obrigado, diz David. Mas o que ele poderia? Talvez estivesse viva se ele soubesse. Tomariam alguns cuidados, sobretudo com situações como as corridas matinais no parque.

Está mesmo certo que foi isso, Eduard? que foi assim?

Sim. Ah, permita-me que apresente a você o delegado Artur.

David leva o ar pelo dedo aprisionado e aspira uma nova esperança em meio à repetição agora calmante do sinal. Seu coração está mais calmo ao que parece. Nesse outro ser é que vê a jovem mulher pálida não mais como um fantasma. Quase palpável embora ainda inexplicável. Gisele, a violenta e súbita alegria bem próxima da loucura e o que mais não seria

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

loucura do que esse despertar após um ano do mais negro silêncio?

do que esse despertar após um ano do mais negro silêncio? uando a luz aflita entrou

uando a luz aflita entrou pela janela e banhou o assoalho, ela estava deitada. Os olhos abertos. Agora porém o espelho diante da cama já não guarda sua imagem. Levantara, abrira as cortinas. O amanhecer o quarto inteiro envolveu. Espáduas nuas, floridas, tocam o tecido. Visão completa do jardim. Diga-me em que está pensando, dissera uma vez David. Pensa nele. Em que mais poderia pensar? Sua esperança de que desperte algum dia, desgastada, está morrendo. O vidro devolve o olhar que questiona os cruéis caprichos do destino.

Gelada na alma. Senta-se e na penteadeira passa a se maquiar. O que adianta chorar? saberem que chorou? O rosto enquadrado chora ainda. As lágrimas se multiplicam tanto mais são reprimidas. Enfim se acalma. Não. Apenas se transforma a agitação da dor. Está correndo agora pela rua vazia. Os olhos borrados. Relembra. Amor, fica tranqüila. Não sei por que está assim triste e você tem o direito de guardar o segredo que quiser. Intimidade verdadeira permite que cada um tenha vida própria. Ela olhou David com ternura agradecida, mas sabia que não poderia mais

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

guardar para si aquelas coisas. Isso foi no dia anterior em que ele sofreu o acidente. Agora não tem mais com quem falar. A manhã cada vez mais brilhante concede a seu corpo um frescor que ela não sente.

Para que é essa fila enorme? Alguma coisa a ver com benefícios sociais do Estado. Que loucura. Esse mundo é louco. Gisele não quer mais viver embora jamais fosse capaz de tentar contra a vida. Continua correndo e o mar aparece, translúcido como se realmente tivesse luz própria. Os pombos na areia ainda podem ser ouvidos. Chega a pensar quem sabe ainda as coisas ainda se ajeitem. Parou defronte à praia. Um dia assim não pode conviver com o mal, pensa. O céu e o mar garantem isso. Ali passa a recordar.

Tenta adivinhar as horas pela posição da lua. Os olhos de David, fundos, a contemplam. O pior horário do trânsito já passou. Ela pede a ele que se sente. Pede que ele se sente e se abaixa para desabotoar a fivela do sapato. O movimento das folhas das árvores à janela é suave, quase inexiste. Que quadro magnífico, ele pensa. As sombras no rosto e no vestido de Gisele, a luz que se derrama pelo quarto. Um leve tremor nas mãos dele. Um tremor que as frustradas tentativas anteriores só aumentaram. Subitamente ele levanta e se aproxima.

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

Um dia tinha de acontecer. Foi como se algo se rompesse dentro dele. Não chegava a crer que ela pudesse estar brincando. Por uma desconhecida natureza que nele dormia entre biliosa e irascível sem contudo ter nada de uma coisa ou de outra (porque a virtude desconhece os extremos), David abraçou-a de modo inequívoco. Sua ternura não deveria ser confundida com fraqueza ou pusilanimidade. Se ela quisesse, podia lhe contar o que se passava nos momentos íntimos. Por que se tornava tão arredia justo no melhor momento. Como não contava, deu-lhe o direito de se impor assim.

Nada falaram enquanto durou. Quando os dedos dele tomaram o partido de Gisele embora ainda dentro dela pétreo e passivo, uma réstia brilhante passeou à frente dela e ela soube que era outono porque embora fizesse frio sentia-se aconchegada e no tempo firme havia muita umidade. Sinuoso silêncio. Então, se devia estar decepcionada com David, que se impusera como todos, seu sorriso todavia denuncia que está feliz e que não, ele não era como todos. Era único, murmurou ao pisar o mar. A ramaria ali perto dança suavemente.

ao pisar o mar. A ramaria ali perto dança suavemente. ma sombra na parede. A luz

ma sombra na parede. A luz amarela em torno se agitou como a

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

aura de alguém que estivesse à beira de um ataque alguém que de repente, depois de representar o papel de anjo, tornar-se-á demônio. Quando a esposa entrou, ele estava deitado, mas agora, zurzido, parece que vai se levantar. Quem sabe precise sofrer assim. Escuta a irmã em meio a percussão no assoalho do apartamento acima, no teto. Sente-se desgraçado. Gisele! Acorda em desespero. Sua mulher pergunta. O que foi? Hadrien não consegue falar. Olham um ao outro enquanto a sombra desliza para os lados da janela.

Os rins o estão matando. Pontadas de dentro o açoitam. Por que tem medo? precisa encontrar explicações. Ah! Ai! Eu devia ter aceitado a sugestão e ido ao médico. Não continuar a comer morango. Mas é tão gostoso. E as crianças comem. Ai! A dor desce pelo corpo. Ela o está tocando com o pênis. Está me tocando e dizendo que me ama. Quer mais e mais. Mas por Deus, Hadrien, do que você está falando? Ela quem? Uma mulher com pênis? A esposa pensava que ele tinha se curado. Qual o quê. De novo aqueles sonhos. Você está me assustando. Pare com isso. E pensar que era o homem mais bonito que ela jamais vira. Hoje acabado. Algo até pior. Muito pior. Como se fosse um morto que agora na direção dela caminha.

Que música é essa? É dolorosa demais. Um mundo de horrores em cada acorde. Eu sei que não fui o que você esperava num tempo em que esperava tanto e tanto precisava. Tão gostoso? Hadrien nada tem em

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

comum com as crianças senão a maldade que nasce em seus corações. Sem vara de correção porque o pai morreu e a doença da mãe ia adiantada. Um rosto fugaz. Poderá sobreviver a isso? Não quer, na verdade. Sua sentença. O caminho de seus pecados. A perversidade é o castigo do perverso.

As sombras da noite passam sem pressa; mulheres à janela do trem para o inferno; troves, uivos, a inconfundível palidez da raça degenerada. Esse rosto verdoengo tem a ver com as insônias, depressão ou com outra mulher? Quando Hadrien chegou perto dela, tremia toda sobre um majestoso calafrio e quase via o que, acorrentado pelo medo, ele via. Ele não tem medo de morrer. Seria banal, um castigo desejado. Diante da esposa, vê a irmã. Quem dera pudessem constatar que foi mesmo apenas outro sonho, um novo pesadelo e apenas isso. Tudo bem. Sei da minha maldade. Diga. Agora. O que posso fazer?

Deve haver alguma coisa, uma salvação, e ele a reconheceria de imediato. Seu coração contrito suplica. Saber o sortilégio com que afastará as dores. Tomam um e outro lado e o alto da cabeça. Ele a ama, Gisele. Jura que sim. Nas trevas que envolveram ele e tudo ao redor. Mil vezes repetirá que a ama. Não o fizesse sofrer assim. Não se nivele comigo. Você sempre foi um anjo. Então Hadrien e a esposa pensaram ao mesmo tempo que ele deveria ir procurá-la e pedir-lhe perdão. Talvez encontrasse a paz.

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

Procurarão na internet o endereço, o telefone, o e-mail. Irá pessoalmente. Embora não tenha certeza de ser capaz de olhar nos olhos da irmã outra vez.

Vanda percebe que ele está nu. Pensando bem, nem tão acabado assim. Passaram momentos inesquecíveis. Então ela tem certeza de que ele precisa mesmo entrar em contato com a irmã e acabar com isso. Acontece nas melhores famílias. Quem não tem um esqueleto no armário? Amor,

por favor, volte pra mim. Ele quer. Palavra de honra. Então pede que ela o ajude. A quem está pedindo? já não sabe. Esse não é o olhar de Vanda. Ok. Está bem. Você pode ler meus pensamentos. Vanda meneia a cabeça

e pensa que não, ele está louco. Nada mais há a fazer.

m homem renascido. No rosto perplexo de infância a customização das últimas luzes do dia. Ahn? Customização, repete ele para a enfermeira.

A forma como algo passa a existir segundo uma determinada forma

pessoal. Quando ela se afasta, pergunta a si mesmo se sua idéia não é loucura e não, é antes a afirmação do bom-senso e da vida, conclui. Seus passos soam no silêncio do hospital. O corredor vazio termina no balcão de atendimento. A mocinha, com os olhos marejados, sorri para ele. Adeus, David, não deixe de nos visitar de vez em quando. Pensa que ele bem poderia lhe pedir o endereço e ela passaria a criar essa expectativa,

Pensa que ele bem poderia lhe pedir o endereço e ela passaria a criar essa expectativa,

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

de que um dia ele apareça lá em casa. Seu rosto pálido lembra o de Gisele, mas imagina David a partir de hoje todos os rostos de mulher, de algum modo, lembrarão o rosto dela.

O mundo

A neblina submerge as construções. O sol renovado dá

às ruas desconhecidas um quê alegre de descoberta. Antes que se permitisse habituar, estaria longe. junto dela nesses lugares além. Indizível emoção de reencontrar o amor. Louca determinação de superar a morte. É como se lembrar de alguma coisa que não aconteceu. Ou tudo sempre

acontece outra vez exceto pela memória? Pode ser. O coração bate pesado. Desculpe-me, senhor, diz ao esbarrar no idoso. Me desculpe. E, meio rindo, diz para si que está distraído demais. Talvez isso não seja bom. Meu Deus, me guia, preciso ir. Está bem, talvez não precise, talvez seja mesmo loucura. Mas vou enlouquecer se não tentar.

Quando ele se vira, pensando que caminho seguir, os raios de um sol inclinado criam o efeito de um flash onisciente. As portas abertas de um galpão. Um suspiro. Acredita que conheceu o proprietário do lugar. Amigos comuns de Hadrien. É uma boa pessoa. Tem uma agência de viagem. Ainda que não entenda para que David quer saber aonde o cunhado foi e uma passagem para esse lugar, há de lhe conceder esse

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

favor. Todos estão espantados e comovidos com o despertar de um coma longo assim, é inacreditável. Antes conversam sobre os diversos negócios de Sebastian, é preciso hoje em dia, sabe-se lá quando a moeda sobe ou desce e as viagens se tornam privilégio. Farei isso apenas por você mesmo, lembre-se, porque definitivamente não acredito nessa tua loucura, meu amigo.

Discernindo a auréola de um outro rosto de Gisele na secretária do amigo, David espera que não seja loucura. Está quase certo de que não é, mas quem pode afirmar que os mortos ainda caminhem por aí? Ninguém. Mas ninguém tampouco afirmaria com plenitude de segurança que não. Ah, Gisele. Se pode me ver e escutar, também há de poder me guiar. Não foi quando acordou, mas agora sim está prestes a realmente renascer.

Um lugar inesperado, maravilhoso. Antes do sol surge a casinha envolta na névoa. David sente na umidade do ar a absurda e inelutável verdade. E agora? Agora os vizinhos absortos em suas lidas matinais, nas plantações e em suas casas, subitamente são arrastados pelo som de um sino. Para Hadrien porém o som é apenas uma outra concepção de sua irmã. Ela está aqui, pensa. Sei que está. Sim. Ela está ali. David pode sentir.

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

O que significa? Deve se deixar entregue a essa sensação que transcende os limites do corpo? Estará preparado? O desejo mais terrível, sem mudanças em relação ao sonho, se realiza. Seja como for. É tarde para recuar. É tarde também para Hadrien. Nem arrependimento é mais possível. Então os dois homens, num mesmo instante, no interior da casa e no alto da encosta, sentiram no prazer tremendo daquela presença a própria plenitude, a perfeição de cada um.

Outra badalada. Hadrien abre a porta e sai na neblina. David, ereto e inspirando pelo nariz. Vê de longe a figura de ombros largos a quem uma vez Gisele se referiu como único amigo ―antes de você‖. Com essa mesma voz. Com essas mesmas feições agora etéreas. Como conhaque que flamba a carne em uma frigideira. Sua amada para sempre, lembrança cuja vida não passará. Como um trem se aproxima do final do túnel. Ali está. Luz. Dia. O que se repetirá até o final dos tempos. Certeza do que se não vê. Gisele? Hadrien está gritando. Gisele! Então David entende e sussurra.

Gisele

Não

Ao se aproximar ela aproxima mundos. Haverá de ser impune? Não destruirá todo o equilíbrio impessoal que é o próprio tempo e os espaços?

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

Em algum lugar o futuro já existe. Em algum lugar existe o que não chegou jamais a existir. Ele está em pé e respira fundo mas não é daí que a vê. De onde sente o cheiro do corpo em efervescência. Em que difere esse arrabalde do real da realidade mesma cujo formato se dissolve naquele desejo? Ela não é ainda uma mulher? Ele não é o homem com que por toda a vida sonhou? Queixo firme, narinas pulsantes. É horror esse conhecimento da vida em sua mais primária origem? Está num sonho esse corpo que acaricia? Por que precisaria da morte ou da vida nessa entre terras? Ela é em demasia. É em demasia para conjecturar sobre o ser. Tanto o prazer quanto a dor são transição, e agora enfim o gozo a preenche. Estará pois voltando. Ela suga a boca que a recebe. Ele é o arrepio que o percorre, não mais o habita. É as veias que incham. Um relâmpago corta o céu.

Se precisa aprender antes de viver eis a oportunidade única. Não por meio de palavras, de doutrinas humanas. Pelo peremptório ensinamento da intuição. O sol surge e atravessa a névoa. Chega ao rosto e ao peito de David e a profundeza trêmula e quente de Gisele alastra-se em seu peito. Hadrien não sente mais nada. É como se a vida tivesse se retirado dele. Justamente por isso, porque a vida que vivera nos últimos meses era morte, era Gisele, lembra-se de Vanda e volta para dentro de casa. Abre a

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

porta do quarto e mergulha na cama, aconchegando-se no regaço da mulher.

Vida de animais, plantas e estrelas. Nada nem a luz entende David na subida do sol suporta a região de treva primordial que gerou a vida. O vazio. Desejável, silencioso, musical. Noturno e diurno. Transformação de tudo. O nada. Está exausto. Jamais sentiu tal solidão e todavia ela está ali. Na grama a seus pés. No raio em seu peito. No silêncio de vibrações do sino que se calou.

Todas as coisas enfim se acalmaram após o jorro.

Ela está ali, ainda está ali, solícita. Ele ouve a história da jovem morta que se recusava a partir. Lampejos do ano passado, do período em que dormia. Ela promete partir mas habitará ali para sempre não na morte, na solidão ou na vingança. Habitarei para sempre, diz ela. Em sua vida.

Agora ela entende. Tipos de silêncios na madrugada fazem o papel de um relógio. Há um bom tempo insiste na espera a manhã. Sabe sim é outra existência. Ali está estava, absorta, junto à mãe sozinha e preocupada. Não tem mais condições de consolá-la? Por que se

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

aparentemente pode tudo nessa repentina dimensão? Não é essa esfera que irá possibilitar sua vingança? A começar por ele, o vizinho como tem coragem de ligar e ainda sugerir que ela aquiesceu com o seu ato? deixar a senhora Drabska ainda mais atormentada? Se pode se ver refletida nos olhos de David agora depois de tanto tempo; se nesse olhar o espaço de sua eternidade se manifesta enfim; não há lugar para a mágoa que deteriora a fonte cristalina.

David, tão próximo e tão distante. Que respiração irregular, pobre querido. Procura um lugar em sua mente para deslocar dali o terror. O medo é por causa dela, não por ele próprio. Quantas vezes acreditou estarem quase integrados pela morte! Mas o leito desse rio serve apenas àqueles a quem é inexorável. Esses afluentes incertos ali não desembocam. Não hão de saber de uma presença no hades manifesta. Não era nada além de uma mudança de corpo e todo o resto igual permanecia. Um caos medonho imerso em construções assombrados por ela mesma. Não quer mais isso. Não pode querer o que não mais existe. Se tem de habitar aqui por todo o sempre, que possa ser seu descanso.

Apenas para quem a encontrou será visão. Com o fim único de apaziguar e depois disso o sono. E depois do Juízo a paz. As faculdades

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

aperfeiçoadas recebem a redenção.

Apesar de toda a excitação ainda se lembrou. Ilustra meus deleites. O que é belo à vida se refere. Um canto agora. Amor sentir e crer no renascimento. Você. Não se lembra de mim nem daquela fila sob a chuva. O vínculo que me liga à terra.

Termina assim. Numa galeria na cidadezinha próxima do campo onde Hadrien vivia. O rosto translúcido, o olhar transcendental. Gisele, sem dúvida. Nalguma loja próxima da barbearia. Os burburinhos sempre encheram David de inquietude e tamanho desconforto. Pensando no quanto deixaria de viver ao lado de seu amor, minimiza a perda e se consola imaginando que ela realmente descansou. Certeza? Sim. O pequeno anel na correntinha. A vida de Gisele através de sua vida. Passando pela trilha do parque escuta os pássaros e o mar. O caminho. Em certo momento fizera uma curva aguda seguida de íngreme subida. É plano agora e infinitamente sereno. O homem que vem em sentido contrário, curioso ou compassivo, recebe dela a certeza de que está tudo bem, não se preocupe, obrigado. Tem certeza? É que o homem também sabia tudo sobre aparências. Ela confirmou. Tudo bem. E seguiu. Debruçada vê a senhora Drabska atender o celular. Pobre mãe. Mas acredite, ela está bem, diz David da cabine no térreo. Desejaria decerto

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

que a senhora também ficasse. Porque algumas pessoas, quanto pior o mundo que as rodeia, melhores se tornam. Transformam-se em santos. Ainda mais, murmura a senhora Drabska ao desligar o telefone, depois de experimentar um renascimento como esse rapaz. Ainda mais quando, morto, torna a viver. Ela imagina que esse é o segredo de David. E o convida. Se meu filho não vai mesmo voltar. Seria maravilhoso, uma honra. Decerto uma forma de se confortarem da perda de Gisele. Combinado, diz ele. Repete mais alto, pois a mulher está perdendo a audição.

O avião está descendo. David fecha o livro e olha pela janela. Gisele olha para o alto da cabeça dele e sente o beijo em seu ventre olha para ele, respira fundo e joga a cabeça para trás. Ele sobe pela trilha do umbigo. Há um casaco marrom na guarda da cadeira ao lado da cama. Não se lembra desse casaco e todavia estremece à lembrança. Mais além, do outro lado do quarto, após ricochetearem no teto, estendem-se sombras velozes sobre os móveis. Ele praticamente as vê nas páginas do livro cuja leitura definitivamente abandonou. Senhores passageiros. O trem de aterrissagem toca a pista. Resvala, desliza agora.

David reconhecerá cheiros de mar, o rosto amado no espelho e objetos pessoais. Alguns que Gisele guardara no dia anterior de sua morte e desde então à sua espera, regozijantes. O gatinho se encosta em cada um, ronronando.

Ricardo de Almeida Rocha

102

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

Irei pelo aterro. Os carros velozes reais não terão a relevância das sombras e dos reflexos e pelo contraste será feliz. Verei o sol sobre as águas da baía, gaivotas apanharão comida. Mede o futuro em eternidades. Distingue à margem da pista o ritmo do outono e as avencas no parapeito. Não será o bastante, essa memória? Segue acima a umidade da trilha. Esses lábios selaram o pacto; essas nuvens levaram a lama. Entretanto deve pensar que ainda há o que ver e o que fazer. O que entender. Amanhã visitará o prédio do antigo trabalho. Se der tempo na noite de quarta visitará o senhor Abdul. Talvez no final de semana reencontre Eduard. Ainda que tudo esteja claro em seu coração, a explosão tremenda do relâmpago será sempre um lugar de reflexão.

Este mundo.

Estará em você preservada a beleza para sempre e em mim haverá um abrigo onde possa dormir à noite graças ao vínculo. A imagem inaudita da inocência violada está no sombrio pensamento recorrente que corresponde ao que não mais existe e nada significa exceto restos destinados ao fogo onde tudo o que não é bonito se consome sem deixar vestígio enquanto a zelosa intimidade se mantém sublimada nessa

Ricardo de Almeida Rocha

103

SE CONTIGO DEVEREI HABITAR

habitação exclusivamente para o estafermo inconcebível.

Aproxima-se da escada, sorri para a aeromoça. De noite sonhará com esse momento, na cama de Gisele. As mãos dadas flutuam sobre o abismo em que os corpos se divisam pela luz da nuvem descoberta. Movem-se e em breve são tragados pela vôo da ave renascida. A escada, o sonho. A vida conquistada no declínio. Olá, senhora, como vai? Olá, meu filho. Entre. A casa é sua.

Ricardo de Almeida Rocha

FIM

©2001,2010 Ricardo Rocha ricardrbrsp@gmail.com Copyright by Ricardo Rocha Texto protegido pela Lei de Propriedade Intelectual No. 9.610 de 19 de fevereiro de 1998 Versão para eBook Scribd.com

104

Centres d'intérêt liés