Sumário..........................................................................................................1 “A gente comia farinha do engenho...”.........................................................2 O engenho como espaço de memória. Tradição, folclore, imagens...........2 Vida e trabalho no engenho de farinha: imagem de tradição e folclore .2 O engenho como legado açoriano: imagem do turismo cultural...........10 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.........................................................18
“A gente comia farinha do engenho...”
O engenho como espaço de memória. Tradição, folclore, imagens.
No dia 21 de setembro de 1996, um crime abalou os moradores do Sertão do Ribeirão da Ilha: a morte de Francisco Tomás dos Santos, o seu Chico. Preocupado com o destino do engenho deste, um leitor escreve ao jornal:
“ Seu Chico Seu Chico se foi, barbaramente. Assim parou o último engenho de cachaça e farinha tocado a boi ainda existente na Ilha de Santa Catarina. No entanto, não podemos deixar seu engenho abandonado ao tempo ou, simplesmente, que vire peça de decoração de alguma casa de praia. Ali podemos ter uma visão completa de como funcionava uma das principais atividades dos colonos açorianos. Atenção Fundação Franklin Cascaes, Floram, Fundação Catarinense de Cultura, UFSC, UDESC, enfim, autoridades relacionadas a nossa cultura: criem condições para que esse engenho volte a funcionar lá no próprio local.” (Arante José Monteiro Filho. Carta ao Diário Catarinense, 28/10/96).
O texto acima reproduzido indica alguns pontos interessantes a ser desenvolvidos. Nele, aparecem o fim do engenho, a apropriação de sua imagem no turismo cultural e sua associação com o assentamento de colonos açorianos na Ilha de Santa Catarina, os quais adaptaram a produção da farinha e construíram em volta desta sua vida e relações sociais. Mostra, também, uma certa mudança no discurso sobre o engenho: de centro produtor da farinha a símbolo da cultura açoriana e, recentemente, como produto a ser vendido no turismo cultural. A imprensa, a memória e a historiografia tecem suas imagens do engenho, onde tal mudança pode ser detectada. Se antes o andar do progresso matou o engenho, agora ele está sendo saudado como portador legítimo da tradição e da cultura. Já não se aceita, como a carta deixa claro, que o engenho morra com seu dono... Vida e trabalho no engenho de farinha: imagem de tradição e folclore A importância econômica da farinha foi muito grande, na região de Florianópolis, por mais de duzentos anos. Em torno de sua produção, diversas práticas e discursos se ergueram, muito embora nem sempre a tenham atingido, como pode verificar-se com relação às preocupações com a modernização e higiene do início do século XX1. O fim do engenho, como centro produtor, está situado num período posterior àquela etapa da modernidade. Ele está muito mais ligado ao avanço da cidade, à descontinuidade das práticas rurais e artesanais: “O filho não queria nada com nada, né... Morava na cidade, só queria negociar. Não queria saber de lavoura ” (José Victorino, apud Andermann, anexos).
Mas o engenho, o tipo de vida e de trabalho nele desenvolvido deixou marcas profundas na memória das pessoas. O tipo de cultura em torno dele erguida tem sido alvo de diversos tipos de estudo, e também de propaganda, na imprensa, que usa o estereótipo do manezinho da ilha, do
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Conferir: Relatórios da Inpectoria de Hygiene (vide referências) e leis sanitárias do período de 1917-1920. Ver também: Andermann, 1996- cap. 2.
doa 300 sacos do produto às damas de caridade de Laguna.Ajudava. não é apenas na imprensa atual que se encontram notícias sobre o engenho. num lugar. Isso já vem.É. bem como a publicação dos preços assim propostos pelos comerciantes (O Estado. no trato da gonorréia. aparecem no Estado. tá. encarregada do “Natal dos Pobres”. vô? JV . sei. adicionada a água e açúcar. O sr. Então esse remédio.. pela Junta Republicana.. anúncios e reclamações. devido a 2 Eduardo Horn era proprietário de uma firma de importação e exportação de diversos produtos.Ah. numa chácara. o Estado publica a doação de farinha de mandioca (20 sacos). artigos.. mandioca. ou com vinagre. 5/2/20.Não me alembra. ASA .. JV . Referências à mandioca e sua farinha. JV .. que dava pra fazer. cuja venda seria revertida aos flagelados da seca do Nordeste (4/5/20). A utilização medicinal da farinha também aparece na memória: “ASA . algum tipo de remédio? JV . relata diversas doações e anuncia que aceita propostas em carta fechada para o fornecimento de diversos produtos 3. vindo a falecer em decorrência de seu consumo. sobre feridas supuradas (24/03/17). 12 e 15/12/19). bem como a doação desse e outros gêneros a instituições como o Hospital de Caridade e Asilo Irmão Joaquim (25/12/19). tu conhece o. governador recém eleito de Santa Catarina (O Estado. colheu. isso ajudava a curar.. a farinha de mandioca e o polvilho (anúncios do Estado: 3/11/18. por exemplo. entre eles. para que sejam distribuídos os pobres.Ãh. No período de 1917 a 1920. pois “constatou-se o envenenamento pela mandioca cozida que restava na panela” (23/05/17). né. O mesmo jornal noticia a doação de farinha. sendo que. né. . misturada com vinagre. Já é velho.. uma delas descreve formas medicinais do uso da farinha de mandioca: como refresco. o gesto é louvado pela redação do jornal O Estado(19/ 12/17). pra botar em cima de ferida. Mostrando que a distribuição de alimentos por políticos e seus partidários não é uma atitude recente. e se botava em cima do machucado. valorizada na época por sua qualidade (O Estado... O contexto dá a entender que o fato foi investigado. (Entrevista com José Victorino. paupérrimo”. incluindo a farinha de mandioca “dos Barreiros”. E se botava um papel pardo. Não tenho recordação. Eduardo Horn 2. anexos) Outra notícia encontrada no Estado relata um envenenamento: um “preto velho. ASA .. 3 A solicitação de preços de mantimentos . Noticia-se. daquela massa.Sim. Contudo. e o oferecimento da farinha de Barreiros a duzentos e vinte réis o quilo (17/12/19). por exemplo. aquele da Bahia.. o que mostra a importância do produto. se dá pra fazer algum remédio com a farinha de mandioca. e botavam em cima das feridas. apud Andermann.Sabe por quê? Porque eu vi. com não sei o quê que eu não me lembro.Ah. de diversos alimentos aos pobres.Se fazia aquele.Ah.. que era uma atitude também tomada pelo Hospital de Caridade a pela Irmandade do Senhor dos Passos. para ser distribuída aos necessitados em diversas ocasiões.”. em carta fechada. pela freguesia de Santo Antônio (de Lisboa) . incluindo a farinha de mandioca (20 sacos). emplastro de farinha de mandioca bem escaldadinha. mas era misturada com azeite... O vô ouviu falar dessa história. ASA . pra secar mais rápido. onde seu uso “afina” o sangue e diminui os ardores da doença [febre?]. e que constrói sua imagem de engenho nesse sentido. tanto na economia como na alimentação. azeite de dendê? ASA . incluindo a mandioca. ou não? JV .. Misturada com.. há também espaço para acontecimentos do cotidiano.descendente e mantenedor da cultura açoriana.Aí depois botava o. Uma comissão. noticia-se. de antigamente.. ainda.... também. eu já tô muito zaranzo da cabeça. a doação de farinha de mandioca. ié! Aquele azeite se falhava ali em cima daquele. confundindo-a com aipim. em honra de Hercílio Luz. ASA . Ainda referente a este assunto... como anti-séptico e cicatrizante. O sr. apesar do “preço elevadíssimo” da farinha. e diversas outras datas). 20/12/18 e 20/11/19). 28/09/18). o vô conhece? JV Conheço.. neste sentido.. a doação. sabe se tinha. ãh. entre notícias.
fora da época da farinhada).Não. depois de uma farinhada. né. o quintal. talvez não me chamasse atenção. o conjunto dos objetos domésticos.. os tipitis). econômica. como é que era feito assim. lá na Ilha.Outra coisa que eu tenho curiosidade de saber com relação a isso. É. como camas (cochos.. Conforme pondera Flores. commemorando o fim da safra da farinha de mandioca. Iltolomeu Victorino..” ( Sr. apud Schroeder. era importante tanto no aspecto econômico quanto no social.). deveria. op. as pedras da cidade. de acordo com D. porque eu li num jornal que um. um pedaço da rua e do bairro. esta notícia e as demais encontradas nesta época não têm este sentido. que alguns donos de engenho. talvez. não. eu ouvi falar que alguns donos de engenho. Sendo ou não usado para festas. para guardar objetos de metal (paióis com farinha). Benta Victorino Schroeder (apud Andermann..Ah. ver aquele boi ali..Ah.) . na paiolagem.. A infância... compareceu á brilhante festa. Etelvina Silva Heinrich (apud Pereira.. são lugares de memória da infância e da juventude. eles davam festa no final da farinhada. certamente que sim.” (A Época. cit. E ele[ o sr.É ? BVS . entretanto...Aqui não tinha disso. Mesmo o convívio com os bois que tocavam o engenho marcou a memória das pessoas. além da produção de farinha: nas brincadeiras (esconde-esconde: a parte interior do engenho. não. por exemplo.. Estes objetos eram utilizados para fins diversos..É. O pessoal mais conspicuo.. Os assuntos do cotidiano também freqüentam o jornal A Época.” (Entrevista com Benta Victorino Schroeder. se ele fosse a motor. ASA .. apud Andermann. Aqui por perto.. eu acho que nem tinha. ASA .:307). Bento Ouriques. o trabalho e até mesmo a morte estão ligados à rotina do engenho.diversas dificuldades relativas à venda da mesma. a elite riotavarense. para pôr galinhas a chocar (tipitis velhos). tinham o costume de festejar. Nilza Damásio (id.. foi doada às casas de Caridade de Florianópolis (20/05/18). É... ficar andando em volta. Inclusive os objetos auxiliares do engenho estão bem presentes nessas memórias.. . abriu os vastos salões de sua residência para um retumbante fandango. ou pelo menos. o namoro. Aparece. BVS . mas ainda não pertencia ao folclore.. como o fragmento de entrevista a seguir deixa claro: “ASA . etc. BVS . ibid...Mas a senhora já ouviu falar disso? BVS . op. segundo o depoimento de D. não gostava de. ASA .. eu... sim. de fazer despesa extra. então era aquilo que me cativava. que alguns enge. conforme a entrevista com D. residente na séde da freguezia [Rio Tavares]. 4/12/20) A notícia acima indica que o engenho.” (1991:189-190). cit. o engenho constitui-se como cenário para os acontecimentos desenrolados na vida das pessoas. como percebemos pelo trecho abaixo: “Era um engenho que. davam festa assim.. então. o casamento. Nem todos os donos de engenho. é. 1991:3) e até mesmo como esconderijo. dono do engenho] era uma pessoa muito. uma festa: “Um senhor de engenho. assim. de ter. os objetos do engenho eram também parte dessa interação entre a produção e o convívio social bem como os demais espaços da socialização: “A casa materna. mas porque ele era movido por um boi. a prensa. anexos). estando fortemente marcada às imagens e sons que evocam a infância.
. E. os carros de boi 4. o André ouviu bem clara no ar a voz melancólica e sonora e sonora do forneador..Alguma alma. né... onde o engenho do tio Luís Dutra. dedicando-se mais à importância do seu produto do que a estudar o tipo de relações em torno dele estabelecidas..A fazer farinha. todos fazem parte do conjunto do engenho.A massa. (.” (Transcrito em Várzea. que se projetava através da porta. bem mesclados. as danças.Ahã.Do quê? BVS .) o barulho. por trabalhar tanto tempo..188) Assim. Várzea faz este tipo de descrição: “O rosado vivo do crepúsculo esmaiava já uma palidez que um azul-ferrete invadia. ASA .. .De manhã... de porrete em punho e chapéu à banda. mesmo esses autores trazem os aspectos culturais do engenho embutidos em suas linhas. quando o André...) Brincava-se a cabra-cega. Por isso... barulho dentro do engenho. porque a madeira. especialmente a ligação do engenho com a cultura açoriana. entre uma e meia e duas horas já começava a trabalhar. mesmo. de fornalha acesa.. ASA . significa um produto de má qualidade.. do barulho que fazia. não tava trabalhando. Mesmo em seus escritos ficcionais. sim. né? Então estalava. a massa que tinha sobrado do outro dia.. Um autor que trouxe. ASA . no caso. o clarão avermelhado do forno do engenho. pra. entremeados com o trabalho do engenho. ela. mas a gente tava acostumada com aquilo. ASA . logo adiante. a massa que já tava pronta do outro dia. 20) O canto e a dança aparecem em diversos outros autores. era muito bom mexer (. ansioso por chegar de uma vez. BVS . bulhando de alegria. o atraso tecnológico. anexos). com a tradição — que.. Em Santa Catarina — A Ilha.. ASA . então o barulho. 1962/1963:71. à primeira aragem fria da alvorada” (Várzea. BVS . quando ele ano. o processo produtivo.. né. BVS . significa uma qualidade a mais da farinha — com explicações de fundo cultural para o atraso tecnológico ou para o tradicional sistema de produção. Medo.. a gente sempre dizia: “Olha o barulho dentro do engenho... né? BVS . Então as pessoas supersticiosas botavam medo na gente. Não fosse bom. largo e suavíssimo. 4 Sobre a importância e tradições envolvendo este meio de transporte. Ainda em caminho. Crispim Mira (1920). os aspectos econômicos e culturais foi Virgílio Várzea.. embora uma boa parte deles veja o engenho mais pelo ângulo econômico.quando. Mas. Talvez não sei.. são elementos do quadro cultural que o autor procura descrever. que mal ramalham pelas frondes.. ASA . é.. 1990.No trecho de entrevista a seguir. ela.). percebe-se que até mesmo os sons insinuaram-se pelas lembranças das pessoas. enquanto que para outros. tinha que tar tudo quase pronto. assim (. Uma coisa boa era raspar a mandioca. a gente tinha.É. iluminando transversalmente o terreiro arenoso e branco (.[Fiquei triste quando o engenho foi desmontado ]Porque a gente se apegou muito. né.. ao descrever uma brincadeira de dança e desafio. a alegria.. encaminhou-se cantando para a Várzea de Baixo.Apesar do frio? BVS . por exemplo.. com as estrelas a piscarem no alto do azul-ferrete do céu no seu crivo de ouro vivo. porque dizia que aquilo ali era.!” e a gente escutava.. trazendo consigo memórias de medos. para uns. conferir: Crema.” (Benta Victorino Schroeder... 1985...ss. e as frescas e tintilantes risadas das moças (. Entre os autores catarinenses. avistou. sei lá. estugando logo o passo..). e a gente acordar de madrugada.. me apegava muito. ela estalava. estes espaços do cotidiano estão bem demarcados nas linhas do tradicional e do folclórico. a torrar.. apud Andermann. a madeira trabalha. ficava. da roda girando. como se diz.. A sombra sepulta ainda os vegetais. p.. cantando a Bela Menina.Da madrugada. a gente tinha medo..Era alma. já quase ao chegar à encruzilhada que ia dar ao engenho. ele descreve de forma às vezes poética. o ambiente da produção e do trabalho no engenho: “Tudo isso [o trabalho do engenho] se faz ainda escuro. com o barulho do engenho. depois de arrumar o gado. de alegrias e mesmo de limitações pelos quais as pessoas passavam: “BVS . né. farinhava para todo lado.No caso. era muito gostoso.Ah..).
. Que sabe pisar na rua.11. Barriga de ‘saburá’. que tem realmente um cheiro acre..ss. um cavalheiro e uma dama. Rapaz (responde) (. com as quais dançava o sarrabalho. já bem velhinha e confusa.) _______ (') O cantador refere-se á massa da mandioca. que devia 5 Em entrevista informal com a sra. para “apressar o tempo” (informação que coincide com o registrado nas entrevistas. Câmara Cascudo cita o sarrabalho como um tipo de dança que faz parte do fandango. lembrava da mocidade. a que foi feita com o sr. ao ser informada sobre o sarrabalho. pessoas com quem tinha convivido na juventude. José Victorino em 04/05/91. cit. Também era uma espécie de desafio.) Quem é aquele que vem lá Cai aqui. onde o (a) mais rápido (a) detinha a vitória. Uma pessoa raspava a metade da raiz.. Via.” (Pereira .) Barriga de ‘saburá’. 5 Pereira cita algo semelhante. a ratoeira.. Cabeça de ‘tipiti’. confirmando a descrição de Várzea: “Desafio no sarrabalho No sarrabalho dançam em ligeiro passeado na ponta dos pés. cita quadras onde aparece uma referência ao trabalho no engenho. Quantas vê. O capote consistia em uma espécie de aposta na roda raspagem. e 1992:445-455) e Pereira (1991: 189-218) . informou o seguinte : que sua mãe. Cabeça de ‘tipiti’.. op. Ela responde e trava-se o desafio. no Rio Grande do Sul (1954) . quantas namora (. desta vez indiretamente.) apresentamos um pequeno ‘desafio’. 1991: 203). jogando-a para outra pessoa. Ella Não quero moço do sitio. Moça (começa) (. e colhido no Alto Ribeirão em 1971. mencionado.(. apud Schroeder.” (Mira. Uma outra dança de roda. oferta de namoro entre um moço e uma moça.. onde novamente o trabalho no engenho é. p. desagradável. Quero moça da cidade. O cavalheiro a convida e lhe atira um verso. Vá embora sua boba Que este não é pra ti. . cujos versos podiam ser cantados na hora do capote.. também aparece nas descrições de autores como Piazza ( 1951. cai acolá. Benta Victorino Schroeder. 1920:132-133 — incluindo a nota do autor).o sarrabalho. Maria de Campos Victorino. então. chamado pelo autor de desafio. Elle Não quero moça do sitio Que catinga á massa (') crua. Quero só moço de fóra. e insinua um certo namoro entre os desafiantes. através da comparação da cabeça com o tipiti (usado para secar a massa da mandioca): “DESAFIO .). lhe contava que uma bisavó dessa. como por exemplo. feita em abril de 1996. Pois o nosso matutino.
como o capote. colhidos por Pereira (1993: 72-73) de versos da ratoeira. era também uma forma de passar o tempo e de acelerar a produção. mostram esta ligação entre o trabalho e a convivência no engenho. além de um jogo. Moça que peneira a massa Separa bem a caroeira Trata logo de casar Que é triste ficar solteira! Eu coloquei os tipitis Muito certo em camadinha Pra mostrar ao meu bem Como se faz farinha.106-108). oi.. ai Deve ter três cantadô. Alguns exemplos.. e referências ao namoro e ao casamento: “Eu marquei meu casamento Pro tempo da farinhada Hai muita tainha e laranja Hai fogaréu na moçada.ai m pra prensa outro pro forno oi.” 7 Variante anotada por Pereira (1983:73) . Ó Maria pega a faca E vai chamar o Migote Que já está chegando gente Mode jogar o capote [6 ]. bem como um espaço privilegiado de convívio e socialização.. traz a faca E vai chamar o Migote Que está fazendo frio E está na hora do capote. o capote. com a ratoeira): “Num engenho de farinha.dar conta da velocidade da primeira. ai 6 Cascaes ((198l. O boi preso na manjarra Usa óculo pra não vê O coitado do meu bem Usa óclo pra mode lê! O tempo da farinhada É um tempo divertido É quando as moças solteiras Tentam arranjar marido! Vou fazer minha farinha Pra fazê o meu biju E oferecer a um amor Queira Deus sejas tu (ou não sejas tu) [ 7 ] Peneirei massa ralada Mode tirar a caroeira Ó meu amor casa comigo Cansei de ficar solteira” Na mesma pesquisa (p.. de “melodia perdida no tempo” (mas que têm suas semelhanças.. O vencedor era quem ficava com menos capotes para raspar. Pereira cita também a cantoria do engenho. 64) cita a quadra assim: “Maria.. onde aparecem algumas brincadeiras. oi. pela forma das quadrinhas.
183-188) até Pereira (1993: 147). op. Esse aspecto também aparece nas quadrinhas acima transcritas..” (Flores. Anda. Costa (1995: 29). os cuidados na produção com a interação e social os jogos amorosos. Diversos autores tratam da questão do capote. ai Vai pro pasto descansá... 1992.: 191).” Além do canto e da dança...). onde a vida dessas pessoas desenrolavam-se. oi. palavras encontradas com freqüência nesses autores. Schroeder (1991: 23-44). a descansar no pasto. [9]” As quadrinhas citadas por Piazza (1951 e 1956) são mais de fundo amoroso. oi. mesclando o trabalho à brincadeira. 13-26 e entrevista com Benta Victorino Schroeder. onde a raspagem.. anda meu boizinho.) e outro especialmente sobre o carro de bois (Crema. a aposta em si.. Oivirá! Oivirá! E outro pro cevadô! Oivirá! Oivirá!” 9 Os bois eram levados. do engenho em si (a casa do engenho) até os tipitis e os carros de boi 11 . ai. desde Várzea (p. é descrita e apresentada dentro do contexto do tradicional e do folclórico. Cada uma delas. São “as lembranças da dimensão cômica do cotidiano e do sagrado... a produtividade do engenho e diversas brincadeiras. as trocas de informações. os cuidados com esta e as relações sociais e lúdicas. Vide: Prost. 11 Há um artigo especialmente escrito sobre os tipitis (Blaske.O melhor pro sevadô oi. na qual o capote é envolvido. o jogo do capote na farinhada (.ss. comuns ao ambiente artesanal (1989:25-30).. oivirá! Um pra prensa e um pro forno. apud Andermann. onde ficavam .. e apontam a esta convivência do trabalho com as brincadeiras.). Um último exemplo de quadrinha onde há essa mescla é uma citada por Cascaes (1981:57): “Quando o engenho de farinha Está coberto de poeira É sinal que neste ano Foge muita moça solteira. de apressar o trabalho eram incorporadas à faina do engenho..ai Cuidado com o dedo na roda.).. as conversas e causos. diversas outras formas de passar o tempo. 1962/63: 71-72) .ai! [8 ] Menino que tás sevando.ai. é chamada de mutirão. ai Que está bem no inverno oi. Sendo uma produção manual e demorada. como lembra Benjamin.. às vezes pelas crianças.. 8 A mesma quadrinha . aparecendo de forma intensa na memória. Oivirá. a ligação do engenho com a colonização luso-açoriana aparece com muita força. onde interligava-se o cuidado com a limpeza da farinha.ss. ligados ao trabalho do engenho. A alegria e o convívio social fazem parte da lida. a cantoria e a ratoeira (.. transcrita por Oswaldo Ferreira Melo e citada por Piazza (1956:31). de acordo com diversos que tratam do tema 10. 1962/1963: 25. o trabalho no engenho abria espaço para essas interações entre a produção. após a fornada de farinha. 10 Conferir. e mesmo em alguns que têm um ponto de vista mais ligado à economia. oi..ai Não te canse de andá. ai Terminada a farinha... Oivirá! Oivirá! Deve ter três cantadô. Oi. oi. ligadas (como uma grande parte das músicas de ratoeira) a frustrações ou alegrias do namoro. op. A mais significativa talvez seja a aposta do capote. oi... cit. Piazza (1956: 31. ou quando eram revezados. é apresentada com variações: “Num engenho de farinha.. por exemplo: Cascaes (1981: 64-65). Oi.ai Não é mais tempo de poda. cit. Dentro desse aspecto de tradição e folclore. Outra preocupação dos autores catarinenses é a descrição das peças dos engenhos.
.. ficou muito esquisito..”( Iltolomeu Victorino. o que se percebe.. com relação ao tipo de vida no engenho. anexo) ... Inclusive. op.. quando eu cheguei... eu achei que ia encontrar o engenho. (. Então.) O avô do meu pai tinha. porque hoje não tem mais isso.. ajudavam a raspar a mandioca. Nem engenho.. cit. cit. os bisavós da minha mãe.. São coisas que não voltam mais. ele tava funcionando não. Bento [ 12 ]. assim. o trabalho e as brincadeiras. também.) Eu não tenho certeza se. nem nada.. então você observou que eu deixei ele assim de chão batido pra manter assim a memória..Nos textos levantados dos autores catarinenses.. Isso eu tenho memórias vivas assim da gente.” (Miguel Saturnino da Silva.. op. não sei se Rio ou Natal. op. nem a casa não tinha mais. congregava em torno de si e de seu dono toda uma rede de trabalhadores: dos empregados a pessoas da comunidade que a ele acorriam na época da farinhada.. o Ribeirão era o lugar de mais lavoura da Ilha de Santa Catarina. aquilo ali é um negócio que vem acompanhando os nossos antepassados..). era até bonito de se ver os telhados dos engenhos branquinhos como neve. entre o trabalho e a brincadeira.. Nos meses que não têm ‘r’ (maio. quando eu fui pra Marinha. aquela mulherada que iam lá em casa que iam lá em casa pedir farinha. Só aqui.(. apud Schroeder.. o grande problema hoje em dia é a manutenção dessas pecinhas. tava tudo desmanchado. eles chegaram a ser senhor do engenho. ou de sentimento de perda pelas “coisas que não voltam mais”. mas eu acho que não funcionava mais. Eu não sabia.).... tataravô. em alguns. Pessoas pobres.. o espaço de memória.. cit. para ajudar na lida e ganhar seu quartinho de farinha até a forma de pagamento (de meia... (.) Outra coisa que chamava a minha atenção era que o engenho não era encimentado. Aparecem. na minha infância. porque as partes que eram pra utilizar no plantio tinham sido loteadas (.. sendo um bem difícil de ser adquirido.. quando eu.. 13 12 13 Bento Ouriques.. na nossa família.) Ah.. elas iam lá. eu estava fora daqui. (. onde a descontinuidade do trabalho artesanal e o avanço da cidade parece ter a culpa pelo desaparecimento do engenho: “ Eu estava no Rio de Janeiro.) porque eu gostaria que ele estivesse ali. o engenho. eu consigo descrever tudo que for possível..).. pra ganhar. já encontrei aquele engenho. as razões e explicações desse fim também freqüentam as recordações. nenhum engenho era encimentado. bisavô. pela parte da minha mãe.. os avós.. nem nada. né. op. conforme a função ou trabalho desempenhado).. junho. porque eles tinham escravos. é igualmente a associação entre os aspectos econômicos e sociais com a tradição.. Era da poeira da farinha....) O trabalho morreu com ele. que olhei. cuja lembrança evoca os sons.. não tinha mais nada.).) e com Benta Victorino Schroeder. proprietário do engenho onde o entrevistado viveu sua infância) Conferir com as entrevistas feitas com José Victorino e Miguel Saturnino da Silva (Apud Schroeder.) o sr. 1991) O engenho é. Este tipo de informação ..). das coisas.. assim. porque não tem. O engenho morreu com ele. Pedro Vieira. Quando eu cheguei. quando eu tomei consciência da vida.. terça e quarta parte da produção ou do alqueire. Depois que ele morreu.. ligada à importância social e econômica. havia 65 engenhos de farinha. apud Schroeder. cit. também consta na memória: “Além daquilo que eu já descrevi. e aquilo eu quero manter porque é uma coisa raríssima..) “É. o meu avô tinha e meu pai continuou. como verificamos nos dois trechos a seguir: “No tempo que eu era moço.. pra poder ter direito de ganhar massa pra fazer beijú. eu sei que o engenho ainda tava ali. ainda(.. só tinha a área. foi uma decepção. Então. além da interação. (. julho e agosto) todos os engenhos estavam trabalhando. Miguel Saturnino da Silva. aquela parte vaga. indicações de um certo orgulho das pessoas por esta importância do engenho (talvez fruto do atual interesse acadêmico e da imprensa pelo mesmo) que desperta também o desejo de preservar o engenho.) É. aquilo me deu uma tristeza.. apud Pereira. quando eu cheguei lá. desperta o sentimento de importância. não existe mais.”( Sr. (. O “fim do engenho”. que iam fazer beijús. você não consegue pessoas pra repor aquelas peças (. nem casa. apud Schroeder. Mostrando sua importância social. não houve mais trabalho.(.. e sempre veio passando de pai para filho. né.. que também aparece na memória. fiquei triste (.. de manter o engenho..”( Sr.em face da morte do primeiro dono (. isso pela parte materna.)..
..) Ele ia de madrugada para lá. o engenho tava funcionando sozinho. Talvez por estar tão interligado à vida das pessoas..O engenho é. A mulher dele estava apanhando berbigão ali na praia.. à própria morte: “Esta casa que eu moro é que era a casa do Cadete e o Engenho aí na frente foi onde ele se enforcou(. as pessoas descrevem com detalhes sua vida e seu trabalho.” (Iltolomeu Victorino. algumas vezes. A gente corria pelas ruas. apud Schroeder. e a cidade cresceu.. ele parava no. que sentia lá pra cima do engenho. pelo progresso. a gente ficava só ouvindo. aniversário de emancipação do município de São José. e quando voltou pra casa passando por dentro do engenho. que trabalhou muito tempo com ele. à sua sociabilidade. algumas vezes. o Cadete.. uma hora e meia. eles ficavam contando esses causos assim. que morreu um empregado dele. É aqui que o açorianismo aparece. e a gente cresceu. referências a fantasmas de pessoas trabalhando no engenho: “(. O seu Manoelzinho. pois. enfim.” (Concilino Tristão... os engenhos deram lugar às indústrias. com os seguintes dizeres: “ERA UMA VEZ UMA CIDADE QUE NÃO TINHA IDADE.... do namoro ao casamento. naquela época e se chamava de causo. o carro de boi deu lugar ao automóvel.). Como bem destaca Flores (1991. encontrou o marido pendurado e enforcado. e onde a imprensa vem buscar um engenho que possa ser vendido como produto de turismo cultural. esta praias com este baixio dá muito. da infância à morte. op. encontrar suas origens e destacar suas especificidades. É.. isso tudo ele contava antigamente. até mesmo o ranger das engrenagens. mas interligado aos aspectos de uma vida que foi deixada para trás. Das cantorias e brincadeiras na hora do capote. tomava banho de mar. nos causos. Este anúncio . 1991). depois. comia farinha no engenho. foi publicado no jornal Diário Catarinense um anúncio em comemoração ao acontecimento.” O engenho de farinha aparece nessas palavras não apenas como centro produtor.. ao seu aprendizado. existam.) “A memória do trabalho é tão viva e tão presente que se transforma no desejo de repetir o gesto com as mãos e ensinar o ofício a quem escuta. 1991: 290). e quando ele abria a porta. uma hora. Com cuidado às vezes pictórico. era um homem bom e trabalhador.”. os caminhos viraram ruas. Era uma vez uma cidade.).). às recordações da infância e. morria de medo. as ruas avenidas [sic]. ele chegava lá. música. buscando interpretá-las. O engenho como legado açoriano: imagem do turismo cultural Em dezenove de março de 1991. deixando-lhes uma certa nostalgia por ser agora todo esse convívio perdido no tempo. (. reproduzindo. o lugar ligado à vida cotidiana das pessoas. uma hora da manhã começava. Fez muito açúcar. fez muita farinha(.. a vida no engenho marcou essas lembranças. ao comércio. na névoa doce do passado. Dessas lembranças e imagens os autores tem se apropriado para construir sua própria imagem do engenho. ele parava no mesmo lugar onde ele tinha deixado. Era uma vez uma cidade que não tinha idade. apud Pereira. cit. Ele contava muito caso que viram fantasmas. lá.
Entre os dias 25 de agosto a 1º de setembro de 1996. No ano de 1948. mas este é o preço do progresso”. passados quarenta e oito anos daquele evento. nas raízes açorianas da história local. Algumas pessoas têm essa noção de herança. à bravura açoriana em construíla. ocorreu.. tanto no próprio monumento. de açúcar e alambique. na casa que hoje é do Doutor Modesto. o I Encontro Sul Brasileiro de Comunidades Luso-Açorianas.) 14 Pereira expõe a necessidade de se estudar os pontos de contato entre a cultura açoriana e a litorânea catarinense e acrescenta : “(. do tipo de cultura nele desenvolvido. em Florianópolis. por ocasião do primeiro Congresso Catarinense de História. Tinha um outro. . ocasião em que foi inaugurado um outro monumento à colonização. op.. assim. o próprio engenho em si. mergulhando.)” (1992: 59-60).). contudo.. e outros chegam a referir-se à sua origem: “Como começou isto aqui? Bom. no legado cultural.” O engenho parece. o anúncio parece refletir um pensamento que aceita o fim do engenho. apud Pereira. começou com os portugueses e os açorianos. Atenção(. e algumas vezes a própria memória. sua construção e maquinário. mais que um legado cultural.) não podemos deixar seu engenho abandonado ao tempo ou. (. à cabeceira da ponte Pedro Ivo Campos. se o primeiro monumento foi erguido à brasilidade. desde sua origem.” (Antônio Antunes Cruz.. logo assim que acaba a Freguesia. Ali podemos ter uma visão completa de como funcionava uma das principais atividades dos colonos açorianos. incorporando-o ao açorianismo e sua herança. e o colonizador açoriano foi erguido à condição de portador oficial dessa brasilidade. Dizem que um tal Manoel da Nóbrega foi quem deu início ao Ribeirão isto há mais de duzentos anos. de um sentido de sua origem. era que tinha muitos engenhos de farinha. tinha um engenho que era tudo ‘tocado à mão’. este pode tomar a forma do papel da história (. é menos recente. A mudança de discurso sobre o engenho e sobre essa cultura. os autores talvez estejam tentando utilizar-se de um dos propósitos da história.. Ao discutir a origem do engenho. que vire peça de decoração de alguma casa de praia.) O estudo que desenvolvo em relação aos engenhos tem essa linha de abordagem” (1989:321). O Alto Ribeirão. Perto da casa do Padre.. deixam seduzir-se pela sereia açorianista. passando pela sua evolução tecnológica. foi inaugurado um obelisco em homenagem à colonização açoriana. A carta citada já reflete um outro tipo de discurso: “(. na porta de entrada da Ilha de Santa Catarina. cit. já são todos nascidos aqui. Portugueses e açorianos não têm mais nenhum. é a imagem de uma cultura a ser preservada e vendida. como se dissesse “é uma pena que o engenho se foi. para usar um termo empregado por Piazza (s/d: título). passou a ser envolvido nessa herança 14.) autoridades relacionadas a nossa cultura: criem condições para que esse engenho volte a funcionar lá no próprio local.. comemorando os 250 anos do decreto Real que deu início à colonização luso-açoriana (baixado em 31 de agosto de 1646). mas um deles é prover aqueles que a escrevem ou a lêem de um sentido de identidade. o segundo parece ter sido erguido à cultura açoriana desses brasileiros e aos ícones dessa cultura. às vezes com exagero — como lembra Pereira (1989:317-321). hoje estão desaparecendo. como na imprensa e na historiografia ligada à esse tipo de construção da imagem do engenho. que também reflete-se na carta citada sobre a morte de Seu Chico. Em um nível mais amplo. A imprensa.. Começava a preocupação dos autores catarinenses em destacar a singularidade e brasilidade da cultura catarinense. Entretanto.. “ O nosso engenho de farinha estava lá no Alto Ribeirão. Os alemães eram muitos. como lembra Jim Sharpe: “Os propósitos da história são variados. O engenho tem sido alçado entre estes ícones. simplesmente. onde uma roda de carro de bois e uma representação do boi (elementos fortemente ligados ao engenho) foram colocados. Entretanto. Tudo começou com aquela igrejinha lá no Barro Vermelho. que representa para alguns a vitória da cultura açoriana. A partir do I Congresso Catarinense de História.representa bem a visão mais comum do engenho na imprensa atual.
. Por ordem de El-Rei! Não partimos isolados para nos integrarmos em sociedades pacificadas. Também envolvido nesse discurso está o aspecto de rusticidade e beleza que evoca (ou ultimamente tem evocado) o campo. não deixou esconder a cordialidade da boa matuta que é. como se percebe no texto a seguir: “No Sertão dos Indaiás vive Seo ‘Chico’ e sua companheira ‘Sinhá Alaíde’.) Fundamos cidades. quando sucessivas levas se dirigem para o Brasil. Ao chegarmos lá. Esta foi uma imigração planeada. que nos cativou.” (Waldemar J. levando o progresso e desmontando o engenho.. 26 e 27 de Agosto [de 1996]. uma edição dedicada aos 250 anos da imigração açoriana foi lançada. (. e um alambique. as histórias. e a imprensa. as nuvens. às origens e à memória do passado. e convidou-nos a entrar. o tempo voando.” (Etelvina L. as peculiaridades e “costumes tão bonitos e perdidos no tempo”. e também outras. na segunda metade do século XVIII.). mas também na música e na dança. eles se confessavam e tomavam comunhão. na culinária nos usos e nos costumes. O cheiro daquele lugar era contagiante. começaram a nos molhar. Aqui partimos com uma missão previamente definida: povoar e defender os agricultores e soldados.. Na casa encontramos duas relíquias remanescentes da época da colonização — o engenho de farinha de mandioca. são discutidas. Mas ainda remete-se ao legado açorianista.). viemos ‘cangados’ com coisas boas do Sertão e felizes por estarmos novamente em contato com a natureza. antes de saírem.. eles metiam o arpão com a mão e iam bem perto do bicho. Silva Heidenreich. Sobraram do engenho as lembranças. a presença do Presidente do Governo da Região Autônoma dos Açores e de uma numerosa caravana cultural testemunhará o orgulho e a gratidão dos açorianos de .). existem seções especialmente dedicadas ao resgate cultural. publicado pela Fundação Catarinense de Cultura (FCC). já organizadas. op. preparamos a chegada de outros povos com quem hoje. Por outro lado. temos um exemplo: “É hoje um lugar comum dizer-se que os açorianos são um povo de imigrantes. foi substituído pelo correr dos automóveis. Como encaram os próprios açorianos todas essas questões? Abaixo. pelas rodas do carro de boi. apud Pereira. Numa mão a enxada. Recentemente (julho/agosto de 1996). Desde logo na arquitetura. como vimos. que é o único em atividade em todo o Desterro. Mostrou-nos sua morada. do qual têm se utilizado os historiadores.A minha mãe contava. op. Lá bebemos uma água muito gostosa que dá em todos os cantos por essas Bandas do Ribeirão. na outra o fuzil. Pelo perigo. Deixamos nossa marca.) A 25. De facto. marcamos uma presença cultural e ajudamos à construção de grandes e prósperos países. A cachacinha era a mais pura que já tomamos. (.. é interessante que a memória se aproprie desse discurso açorianista. nos levou até Santa Catarina. Fomos pioneiros. em meados do século XVIII. no artesanato. Entretanto. transcrito. Sinhá Alaíde nos apresentou ao alambique e nos serviu cachaça de um barril. ainda em uso. e há jornais específicos. das quais a imprensa apropria-se para formar outra imagem do engenho. apud Pereira.. É o caso do jornal Ô Catarina! . a História registra saídas de açorianos para se fixarem noutras terras logo após o povoamento das Ilhas. as cantorias. Uma imigração para nós é porém especial. A cada porteira fechada sentíamos que voltávamos à civilização.). acima transcrito... da Silva Neto e Maria Albertina Emerim. cit.. convivemos e ajudamos a prosperar o Estado de Santa Catarina. em Santa Catarina. Com os naturais. Além do anúncio em homenagem ao aniversário de São José. que quando eles iam para o mar pescar baleia. Apesar da pressa. E hoje por todo o Brasil Meridional podemos encontrar sobrevivências culturais que ligam essa Região aos Açores. (. Em alguns. e as origens açorianas de nossa cultura novamente levantadas. com outras línguas e outras culturas onde seríamos mais uma minoria a juntar com outras minorias. onde essa questão. encontramos Sinhá prontinha para dar trato aos animais.. Era assim como lá nos Açores. Nossos corações começaram a chorar. É difícil descobrir se essa noção de herança açoriana é expontânea ou se foi adquirida com leituras ou informações. cit. Aquela que. (. O andar lento do tempo. Na volta. como acompanhando nosso choro. agora os descendentes.) (. que possa ser vendida. outras idéias referentes à história catarinense também freqüentam as páginas dos jornais contemporâneos.
. no âmbito do turismo. Mendes. sem a observância de critérios ambientais. parece ser uma inflamação bastante útil ao marketing turístico. as festas. a autora lembra que: “ No começo do século.. particularmente. A açorianitite. que definisse a brasilidade do Sul do Brasil. e que define um exagero de entusiasmo com a questão açorianista (1989:317-321). aponta o açorianismo como pertencente à invenção e criação historiográficas. Procurou-se remexer na memória guardada nos arquivos e ‘resgatar’ as tradições que legitimassem a história: a língua. ou pelo menos alguns deles. A história da população do litoral catarinense originária doa casais açorianos. O sítio dotado de singular base de atrativos naturais e/ou culturais. Uma ressurreição do conhecimento da origem.. necessitam ser concebidos e operados sob a dimensão interativa. e escreveu este artigo especialmente para o jornal Ô Catarina! . esta festa comemorativa do bicentenário da colonização açoriana. tem como maior desafio. a partir do Primeiro Congresso de História Catarinense (1948). que fala da preservação desta tradição açoriana como importante ao turismo cultural: “A incorporação da atividade turística. os ofícios e as letras. quando as elites ansiavam por modernizar a cidade.) Nesse contexto.” (Luis Moretto Neto. O incremento do turismo cultural. necessariamente. Agora. num artigo enviado ao jornal citado. dos sucessos e fracassos. passará a receber contínuos fluxos de visitantes que provocarão inúmeros impactos sócio . de modo a representar a história viva dos povos. a construção de grandes obras. Ô Catarina! . envolvendo direta ou indiretamente o engenho e a farinha.) .culturais. o açorianismo. sem que estes venham a sucumbir frente a dimensão da modernidade. no espaço. era uma história quase silenciada. B. onde residente e visitante permitam conhecimento. com isso. a preservação dos elementos de referência. op. A preservação da dimensão cultural. segundo depreendemos do texto a seguir. Uma concepção que possibilitasse ao litoral e seus habitantes. surgidos num momento específico como contraponto ao germanismo (não querendo afirmar. o caráter das regiões colonizadas pelos alemães” (Flores. Os atores sociais responsáveis por esta prática.. 15 Duarte Manuel Bettencourt Mendes é diretor do Gabinete de Apoio às Comunidades açorianas. ainda não se aperceberam que o turista que viaja está em contínua busca de aspectos culturais e geográficos diversos daqueles existentes no seu espaço habitual. Ô Catarina! .) Portanto. Flores (1995:4). no contexto desse Congresso. no período de instalação da República.. pautadas pelos ideais e práticas da modernidade. representarem-se como portadores da História de Santa Catarina . O tipo de discurso detectado no texto citado e na pesquisa da referida autora é comum entre os autores que tratam de questões relativas à cultura de Florianópolis. em nosso país. causará inúmeros impactos. configurada como indolente e incapaz de abraçar as causas do progresso. no âmbito da atividade turística. passa pela via da sua incorporação sustentada como componente do produto turístico: (.) Os Museus.. na Região Autônoma dos Açores. (. Situando este discurso historicamente. em se tratando de autores catarinenses. dentro da política de nacionalização. era um fenômeno de construção de uma unidade cultural. os objetos artesanais. que resume sua análise do assunto (vide: Flores. já incorporaram esse nosso produto intelectual. inclusive sob o ponto de vista cultural. necessita abandonar a dimensão contemplativa . cit. mudanças históricas clamavam pela criação de um novo homem-habitante do litoral catarinense. e definiu culturalmente a identidade açoriana. Foi a realização do congresso que tematizou a colonização açoriana. 1996:2)15 Parece que os próprios açorianos. as árvores genealógicas. op. portanto. A preservação dos aspectos culturais dos povos. produziu-se uma imagem negativa da população litorânea. Esse discurso não modifica muito. Levantou as questões das realizações.” (Duarte M. e também faz parte do discurso da imprensa sobre o tema. para usar um termo empregado por Pereira..hoje pela bela página da História que os nossos antepassados souberam escrever em terras do sul do Brasil.. do legado cultural. 1995: 4). mas situando historicamente o discurso açorianista). fundamentada numa ascendência comum. (. em locais que abrigavam edificações de cunho histórico regional e/ou internacional é usual. tendo como eixo polemizador. 1991. valores e crescem juntos.espetáculo e em prol da interativa. a inexistência de uma cultura. Os aspectos gastronômicos necessitam estar disponíveis em espaços que permitam o contínuo acesso dos visitantes. após ser descoberto pelo mercado. enquanto alternativa ao desenvolvimento econômico. cit).
à cultura e a debates desses aspectos. serão colhidos exemplos do jornal Diário Catarinense. A farinha. qualificados como “artesanato de referência cultural”. que una.(. Os artigos foram escritos por professores ligados à pesquisa e ao debate desta questão.. por outros que têm no peixe e na farinha de mandioca os ingredientes básicos. transformando alguns dos seus valores básicos e adaptando outros que encontrou em uso na região. ela incorporou-se. (Vilson F. da Universidade Federal de Santa Catarina.. e foi desenvolvida graças à criatividade dos povoadores açorianos. procuram a união através da identidade cultural. lançado pelo jornal em séries (sendo este o quinto número) em homenagem à capital. tais como: beiju. um conjunto de produtos. aos engenhos de farinha. Mas o jornal Ô Catarina! é editado com um fim especifico. de cinco de março de 1996. A maior parte deles se encontram no suplemento Florianópolis. uma manchete anuncia: “ CHEGAM OS AÇORIANOS Em 1749 [sic]. dentro do discurso açorianista. são raros os que conhecem a existência de uma população tão numerosa. tanto em qualidade quanto na produtividade. Entre eles. usada pelos nativos muito antes de sequer suspeitarem os europeus da existência deste continente. grande parte. Os textos acima são muito significativos. conforme lembra o texto abaixo: “ Trouxeram para Santa Catarina uma bagagem de conhecimentos técnicos. fruto da diáspora espontânea empreendida pelos moradores do arquipélago em meados do sec. pela semelhança cultural.. substituiu-se muitos dos pratos gastronômicos dos Açores. Esta tecnologia é exclusiva do litoral catarinense. Rapidamente desenvolveu mecanismos de adaptações. Mas ela não pode ser chamada de herança açoriana. uma delas. os quais revolucionaram o processo produtivo da farinha de mandioca. Conseqüentemente. Será o jornal um bom exemplo do que a imprensa traz. (. pois a mandioca é nativa das Américas e sua farinha. op. só agora tomando consciência das suas origens culturais. (. Nos Açores. Sebrae e FCC).). costumes. hoje. por uma fundação ligada ao governo (FCC). por produtos abundantes na região. um saco de farinha de mandioca. que construíram em torno dessa produção toda uma cultura. cit.) Que este mergulho no tempo sirva de motivação a uma aproximação efetiva entre os habitantes dos Açores e os do litoral Catarinense. Ô Catarina! . no ‘Novo Mundo’. Origens e Destinos de Uma Cidade à Beira-Mar.) 16. onde vários deles morrem — muitos sonhos e quase nenhum direito. um vencedor.. abrindo perspectivas à criação de um corredor turístico. é ilustrado por duas fotografias. assim. — A aplicação da tecnologia dos moinhos de trigo. acima transcrito em parte. desembarcaram na Ilha de Santa Catarina os primeiros colonos açorianos e madeirenses. pois o trigo não se prestava ao cultivo e a mandioca era já utilizada pela população local como um dos principais alimentos. que somada a seus donos foram fundamentais na consolidação do processo povoador da região. caldo de peixe e camarão(. Trazem na bagagem — depois de uma dura travessia oceânica..O artigo. havendo uma progressiva substituição dos cereais (trigo e cevada) e carne. XVIII. entre os seus 250 mil habitantes. neste sentido? Para ilustrar este questionamento. foram mantidos pela cozinha dos descendentes dos açorianos.. de Farias. Neste número.. os descendentes de açorianos somam mais de um milhão de indivíduos.). rosca de polvilho. Aqui. 16 O professor Vilson Francisco de Farias é Coordenador do Núcleo de Estudos Açorianos. de uso no arquipélago. entre outros. O conjunto dos suplementos traz artigos referentes à história. — A mudança do padrão alimentar. que fazem parte de um projeto chamado Valorização do Produto Artesanal Catarinense (do SENAI/LBDI. Dentre as transformações perceptíveis que tiveram reflexos profundos nas suas vidas e dos seus descendentes aponta-se: — A quase toda substituição da farinha de trigo pela da de mandioca. estes dois pontos do globo” . que nem o tempo foi capaz de apagar. Entretanto. Em Santa Catarina. inclusive dos açorianos. Superou os desafios em adaptar os seus tradicionais cultivos e presença de novas doenças tropicais. tradições. O açoriano mostrou-se forte. como substituta do trigo. ao cardápio dos colonizadores. como a farinha de mandioca e o peixe. .) Estes açorianos que o tempo separou por mais de duzentos anos. e representam bem a busca das raízes e origens. ou por outras pessoas diretamente envolvidas nela. São produtos comestíveis. esperam encontrar o eldorado que lhes foi descrito: terra fértil. como padrão alimentar básico. está inserida no contexto das referências culturais.
praticamente inalterado por mais de um século. mudando de lugar. É o engenho de Francisco Tomás dos Santos — Seu Chico. Essa busca desemboca. O engenho. (. a roda cevadeira e a hélice do forno. bem como pela matéria publicada no Diário Catarinense em 16 de outubro de 1996. informa com jeito de quem aprendeu ligeirinho a lição da cidade. sob o título Portugal x Alemanha: Confronto resgatou memória.. adaptando a tecnologia das atafonas. ele está na raiz cultural que precisa ser buscada. o texto continua informando sobre Seu Chico: “(. Mas o questionamento desse tema também está presente no suplemento do Diário Catarinense. farinha e dinheiro.implementos agrícolas. pela força elétrica. eu cobro pelo meu’. e apresenta um foco de resistência às mudanças. explicando que ele “mantém no Sul da Ilha de Santa Catarina um engenho movido por tração animal. personagem erigido como foco de resistência de uma cultura. e tem mais duas chamadas que servirão para exemplificar o tipo de imagem feita tanto do engenho como das discussões sobre as origens açorianas: “Colonos implantam os engenhos de farinha” e “Resgate da memória tem origem em confronto”. atrai a visita de turistas. ou como um artigo de decoração? Ou o engenho. uns 3000 sacos de farinha. apenas um engenho resistiu à chegada da eletrificação nas zonas interioranas. e. só sobrou eu. ( o Seu Chico.) O engenho. Desde a vinda dos açorianos.. o engenho do sr. como nos velhos tempos. Explica.) ‘distante da cidade’. Nela. Isso conduz a duas idéias básicas: o tempo da tradição e a importância econômica do produto. morrendo. que substituíram o trigo pela mandioca. como é conhecido — que ali vive e trabalha há mais de 50 anos. ‘Todo mundo cobra pelo seu trabalho. Hoje produz 35 a 40 sacos de 44 quilos por ano. a manchete é ilustrada com uma fotografia colorida de uma das ilhas do arquipélago dos Açores. poucas foram cumpridas. o tema “não deixe o engenho morrer” vem à tona. morto recentemente) no sul da Ilha: “Na parte Sul da Ilha de Santa Catarina.. hoje Florianópolis. os usos e costumes têm raízes açorianas.). sucumbiu diante do apelo turístico. No engenho moravam e trabalhavam 12 pessoas. Seu Chico começou a ajudar no serviço desde os sete anos e não parou mais. antes força econômica pela produção. ainda.00 para tirar fotografias do meu engenho’. A primeira chamada leva a uma reportagem com o título : O tempo gira da roda do engenho. herdado do avô. . no açorianismo.. Ele é o representante de uma cultura. com o boi cangado. representante do legado açoriano. que morre como centro produtor e reencarna como peça de museu. De todas as promessas. a reportagem. reaparece nas buscas às raízes da cultura e da história da Ilha? O recente assassinato de Seu Chico. de porta em porta. Com o subtítulo O último senhor de engenho da cidade. através do turismo.”.” O artigo é ilustrado com uma fotografia de Seu Chico no engenho.) ‘Agora estou cobrando R$ 40. também na imprensa. ‘As pessoas iam casando. como nos velhos tempos.. azenhas e moinhos à produção da farinha até a evolução tecnológica. moendo cana. como era o trabalho no engenho.’. Estaremos assistindo ao renascimento do engenho. ao mesmo tempo. Restou aos colonizadores a tarefa de fazer prosperar a Vila de Nossa Senhora do Desterro..(. entretanto.” Essa resistência. à qual poucos resistiram. encimada pela expressão engrenagem econômica.. hoje a farinha tem pouco valor econômico. manifestação cultural. mantendo suas características originais e tradicionais. Sinal dos tempos. Os engenhos. finalmente. como a carta transcrita anteriormente.... fazendo girar com tração animal velhas engrenagens com nomes esquisitos — ‘a almanjarra faz girar a roda bolandeira que move. mais uma vez.” Apropriadamente. mantendo o uso da tração animal. são estas as idéias trabalhadas no texto. Francisco Tomás dos Santos. Apresenta também a substituição da tração humana pela animal. com a intuição de que já se transformou em atração turística.. (. suscitou uma série de preocupações neste sentido. Há 15 anos vendia.(. vai avisando.’ Soçobrou! Ironia para uma atividade que caiu em declínio a partir da década de 60. agora pode ser fonte de renda.) Seu Chico vive (.) A vida já foi diferente lá para aqueles lados do Sul da Ilha.. compradores — principalmente de cachaça — e pesquisadores universitários. animais..
representa sobretudo o esforço de alguns intelectuais para ressaltar sua própria importância e singularidade. Mas a sereia açorianista é encantadora. em dois pontos principais: a especificidade e a originalidade. incluindo aí a região de Florianópolis. aqui ou em qualquer outro lugar do planeta. Apresenta um debate atual da questão. Participam desta seção estão os professores Vilson Francisco de Farias e Luiz Felipe Falcão. a começar pela chamada: “Memória CANTO DA ALMA AÇORIANA Antigas tradições já recebem a atenção após o resgate das cantorias com três ilhoas que as apresentam em Catharina” Em seguida. filhos). Também destaca que a “meta era redefinir a imagem” do povo litorâneo. no interior deste debate. explica de que tipo de cantorias são apresentadas: . que também busca integrar-se com a linguagem popular. é inegável que a descoberta da açorianidade. transformando-o qualitativamente e incorporando em seu processo a população local. ao noticiar o fato. É o exemplo do musical Catharina. na cultura refinada. por outros grupos ou indivíduos (é o caso entre outros. dotados de conhecimentos técnicos. mãe. o que permitiu adaptarem-se ao sistema de produção local. abre-se um novo ângulo ao debate açorianista: o primeiro foi a busca da identidade. deixa bem claras estas intenções. porém. pode-se afirmar que este assunto traz consigo várias dificuldades. eram numericamente superiores. Neste contexto. e não apenas a “preocupação com a sobrevivência de uma cultura”. visto até então como indolente e preguiçoso. de grande apelo religioso e místico. A visão do professor Farias já foi pontuada acima. devido ao fato de terem vindo com estruturas familiares completas (pai. Em Santa Catarina. inclusive contrapondo pontos de vista distintos. Os problemas aparecem quando se percebe que algumas dessas tradições são também partilhadas. em meio aos impactos da modernidade e á ascensão sócio-econômica de elites provenientes das zonas de colonização alemã e italiana. E busca sua legitimidade tanto no debate intelectual (do qual tivemos uma amostra. como os textos deixam a entender. ou como estimar e conceituar a especificidade açoriana no contexto da cultura portuguesa (Uma outra cultura? Uma cultura regional?). onde levanta a questão A cultura açoriana é realmente predominante na Ilha?. e o segundo mergulha na legitimidade desta busca. De imediato.O artigo traz à tona as origens açorianistas. como deixa claro seu texto: “É um tanto difícil avaliar com precisão o significado da chamada ‘cultura açoriana’ entre a população residente na faixa litorânea do Estado de Santa Catarina. através da seção Ponto de Vista. da valorização açoriana como contraponto à teuto-germânica.” Assim. situadas no I Congresso de História Catarinense. onde procurou definir-se o caráter brasileiro de Santa Catarina. ele apoia-se nas estatísticas populacionais e imigratórias. uma Ópera da Ilha. em oposição ao avanço do germanismo. a partir de meados deste século. O engenho e sua farinha estão. Além disso. acima). certamente com variações. É claro que não existem motivos para colocar em dúvida as tradições genuínas preservadas pelas pessoas mais velhas. como.” Já o professor Luís Felipe Falcão apresenta usa dúvidas com relação ao açorianismo. Trouxeram ainda valores culturais fortes. que fundiu-se com os valores assemelhados já praticados na região. no Diário Catarinense (de doze de julho de 1996). na qual apresentou-se um trio de senhoras cantando versos da ratoeira. o curioso é esta população litorânea ter sido muito criticada por sua suposta indolência ou aversão ao progresso. como por exemplo distinguir hábitos e costumes já praticados anteriormente pelos vicentistas (como o uso da farinha de mandioca ou a construção de canoas) daqueles que teriam sido introduzidos pelos açorianos. o que facilitou a transmissão cultural e a ampliação da população pelos anos seguintes. Na sua resposta à questão. O texto da coluna Variedades. e pondera: “ Os açorianos são os responsáveis pela marca cultural da Ilha de Santa Catarina. do tema do boi em divertimentos populares de várias partes do Brasil). recentemente.
” Feitas as explicações. Rosalina e Maria no elenco teve dois bons motivos. direta ou indiretamente. não se interessam em preservá-la. uma Ópera da Ilha. Até que o grupo apresentou-se no Centro Integrado de Cultura. 17 É interessante observar que Orleans não possui o açorianismo como foco de identidade. até mesmo restaurantes (que usam suas peças na decoração) e uma manufatura de bijú e outros derivados da mandioca (Engenho dos Açores) remetem a ele. engenhos esuas peças estão presentes em outros locais de colonização não açoriana. Existem. infelizmente.. a partir da apresentação das cantadeiras no teatro. Mas. participando de um musical peculiar: Catharina. criticarem. cedia tempo e lugar aos folguedos exclusivamente femininos da ratoeira. seria ideal’. que não fosse apenas uma releitura. Houve quem perguntasse : “como é que no teatro ficou tão bonito?”. Em troca. se acostumaram a cantar logo que terminavam de raspar a mandioca.” O artigo acima não faz parte do suplemento em homenagem à capital. e até (por que não?) se posicionarem. A propósito. de alívio. e o acima transcrito de identificar um interesse na tradição. a tradição legitima a Ópera: “Marisa Naspolini. ‘Do ponto de vista humano. Maria e Rosalina. e nos colhidos do jornal Ô Catarina! . conta que a opção de inserir Dorília. acham-na feia. o lamento da descontinuidade da tradição é abordado: os jovens não compreendem a tradição.. reclamarem. bares (na região de Paulo Lopes. montado ao ar livre).. uma Ópera da Ilha.. Foi lá também que criaram seus filhos. Em princípio. coordenadora geral de Catharina. elas viveram esta tradição em seu cotidiano. de prece. portanto. de lá saíram para mostrar um pouco da tradição açoriana no palco. o Peninha. Sempre discreta. nestes momentos.“ A cantilena de roda é um misto de choro. ‘Queríamos mostrar as coisas como elas realmente são. Não apenas a imprensa utiliza-se do engenho como imagem da cultura local. reproduções de engenhos na UFSC (pertencente ao conjunto do Museu de Antropologia) e na cidade de Orleans (Museu ao Céu Aberto) 17.. entre outras cidades. E neles aparecem. Talvez porque o palco tenha legitimado a tradição. o engenho e seu produto. permanece o discurso em torno do açorianismo. como no anúncio citado do aniversário de São José. difere dos textos anteriormente colhidos na intenção: o suplemento foi elaborado com o fim de se montar um caderno de artigos sobre a capital. há um bar com o nome Engenho. e para isso um elemento nativo. roda bolandeira e canga como lustres. Em princípio a direção do espetáculo pensou em transmitir estas manifestações através de atores profissionais. Agências de propaganda. A ratoeira está entre as tradições que já não encontram muito espaço na sociedade. peças do engenho estão em exposição em diversos locais. . Desde meninas. E hoje. complementa Marisa. solicitarem.). ainda. edifícios e escolas (Escola Engenho) o usam como nome. Dorília.. No Canto da Lagoa. quer para exaltá-lo. entre 69 e 75 anos. Mas acabou se decidindo por uma linguagem mais popular. algumas delas são usadas como enfeites de jardins e pavilhões de exposição (fusos da prensa como suporte de vasos. quer para debatê-lo. nestes textos. tendo ao seu lado o próprio. Os aplauso foram generalizados. As mulheres se uniam para lamentarem. mas artisticamente. como Urussanga (onde fotos de um engenho enfeitam um restaurante). A lida do engenho.. ‘Entretanto a identificação ocorrida entre a platéia e as senhoras do Canto da Lagoa é um exemplo de que elas ainda são capazes de aflorar uma alma bem açoriana’. mas sim o “italianismo”. viram nascer seus netos. outro motivo foi a preocupação em preservar este tipo de expressão folclórica’. salienta o museólogo Gelsi José Coelho.
Como diria o sr. o engenho não pode mais morrer com seu dono..” (Folder da VII Festa da Farinha de 6 a 9 de junho de 1996. monumento da vitória açoriana. Toda essa preocupação com o engenho. Primeiramente.) OUTRAS ATRAÇÕES • • Parque de diversões Rosca. os eventos culturais. tem muita coisa pra contar.. os ingleses vão começar a achar que há sinais de vida inteligente no Sul do Brasil ”.(Diário Catarinense.) A Festa é(. Antônio A. de. depois. ainda tem muita história para contar. como é o caso da iluminação das cataratas do Niagara. Muito mais que marketing turístico. Santa fé. a melhor farinha de engenho já foi produzida). ele comenta na crônica “Luz sobre as águas”: “O dia em que Floripa [Florianópolis] iluminar um simples engenho de farinha ou as dunas da [Lagoa da] Conceição.) farinha • Peças de Engenho com explicações sob [sic] funcionamento. não apenas sobre o engenho. É preciso iluminá-lo e erguer em torno dele eventos. da Cruz (apud Pereira:264): “Bom. Cleide M. articulista do Diário Catarinense. É preciso salvá-lo. e mesmo um grupo musical catarinense já teve o nome de Engenho. em Barreiros (onde. (. desde objetos até acidentes naturais.. organizando um programa em torno dessas atrações. o seu produto ganhou uma festa temática. produzida pela paróquia da Igreja Católica: “POR QUE A FESTA DA FARINHA? A Festa dos Sagrados Corações na Paróquia vem sendo comemorada desde 1990. de acordo com diversas informações. “ Trabalho e lazer numa localidade pesqueira . sobre o engenho. Rosca de Massa.. assumiu o caráter de defensora da brasilidade e agora vem sendo usada no turismo cultural . C. mas sobre a própria cultura local. Lembramos a seguir alguns dos produtores da época: • Vitalino • Belarmino • José Zuíno • Antônio França • Antônio Cândido • José Antônio • Guilherme Zuíno • Domingos Pedro Hermes (. recentemente (a partir de 1990). foram destaques no passado. em erguê-lo como chamariz para um turismo cultural mostra. 12/11/96) Símbolo de uma cultura. Fazendo um comentário de como são hábeis os ingleses e norteamericanos em aproveitar ao máximo dotes turísticos.” REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALBUQUERQUE. Cuscus [sic] Melado e todos os produtos derivados de (.São José. E. ela foi qualificada como atrasada. agora isto é uma questão de sinal de vida inteligente.. Farinha. A produção de farinha e seus derivados na região de Barreiros . Um exemplo forte desse último aspecto foi levantado por Sérgio da Costa Ramos. na realidade..) a confraternização especial que desfruta da memória dos produtores de farinha da região. uma mudança de discurso..Ainda há as feiras especiais. É sinal de que.).. P. mas vou parar por aqui.. Beijú. cujo idealizador foi o Padre Agostinho Staelhein..
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