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A

FALA

SAGRADA

A s B elas Pala v ras: assi m os i n dio s gu a r a n i de n o min a m as pa l a -

v r as q u e lhes ser v em par a se dirigir a se u s d e u ses . Be l a lin g u a gem ,

f ala sagrada , agradáv e l ao ou v ido dos di v i n o s, q u e as co n s id e r am d ignas de si .

Linguagem de u m desejo de s u pr a - hum a n id a d e , d ese jo de uma

gu a r a n i s oube r am

inventar o esplendo r sol ar d as pa l a vr as dign as d e se r e m di ri g i da s somente aos div i nos .

linguagem próximá d a do s de u s e s : o s sá bio s

lu g ar d e u m sa b e r es ot é rl c o qu e d es creve

n ta m e nto, a g ê nese

dos deuse s, do m undo e d os h om e n s . Tex to s d e essê n c i a r e l ig i osa

dos quais encont r a r e m o s

momentos principais d a co s m og ê ne se gu a r a nl .

sucessi v ame nt e ,

Belas Palavras -

e m uma li ngu a g e m d

e n c

aqui a m a io r p a rt e do

que tram os

11

11

R

.

E

A

FALA

SAGRADA

MIms E CAN1DS SAGRADOS DOS ÍNDIOS GUARANI

Tradu ç ão Nícia Adan Bonat t i

A Fala Sagrada

MITOS E CANTOS SAGRADOS DOS íNDIOS GUARANI

T í t ulo

orig i n a l e m franc ê s: · · L e gr and

parl e r - M y th es e t chant s sacr és d es

lndi e n s Guarani

© Edi t ions du Seuil , 1974 Tradução: Nícia Adan Bonatti Capa: Fran c is Rodrigues Equipe Editorial Coordena ç ão : Be a tri z M a rche s íni Copidesque : Níuz a M. Gonç a lve s Revisão: Josiane Pio Romer a Regina M a ri a Se c o Vera Lu e iana Mo r andim

D a do s de C atalogaç ã o na Publ i caç ã o (CIP) Internac i ona l (C â mara Bra s ile i ra do Livro , SP , Bra s il)

Cla s tr es, Pierre , 1934-1977 . A fala s agrada : mito s e c a ntos s a g r a dos do s índio s Gu a r a ni I Pierre Cl a stres ; t ra duç ã o Ní e i a A d a n Bonatti. - Camp i n a s , SP Papiru s, 1990. Bibl i o g ra fia .

1 . í nd i os da A r ic a do Sul -

Religi ã o e mitologia 2 . í n-

Religião e mitolo-

dios Gu ar an i -

gia 4 . í ndios Guarani -

Lendas 3 . í ndios Guarani -

Rito s e cerimônias I. Título . 11. Título :

Mitos e c a ntos sagrados dos índios Guarani.

C DD-390 . 09 8 -299 . 8

-980

3

índic e s pa ra c a t á lo g o s is t e m á ti c o :

1. Am é rica do Sul : í ndios : M itolog ia

299 8

2 . Guarani

í ndios

A rica

do Sul 980.3

3.

Guarani í ndios

Le nd as 390.098

4 . Guarani

í ndios

M i t o l og i a 299 . 8

5.

Gu a rani

í nd i o s

Ritos e cerimônias 299.8

6 . í ndios

Brasil · :

Religiõ e s 299 . 8

1=paptr Uf E DIT O RA

F

one:

(0192 ) 3 2 - 72 68 - C x . P os t a l 7 3 6

1 300 1 • Cam p ina s .

SP Brasil

pr o i bid a a rep r o d u ç ã o t o tal ou p a rc i al po r qualquer me i o de impress ã o , em form a idêntica , resumid a o u mo d i f i c ada , em ngu a portuguesa ou qualquer outro idiom a .

fílamandu pai verdadeiro primeiro ! é sobr e sua terra qu e Nam a ndu Grand e C or ão , divino espelho do sab e r d a s c o isa s ,

se anima . Você que faz com que se animem

aqueles que você prov e u do arco , eis: de novo nós nos an imamos .

A s coisas sendo assim: quanto às P alavra s ind e strutíveis,

a s quais nada , jamais, enfraquec e r á,

os pouco numerosos órfãos das coisas divina s , nós as repetiremos , animando-nos. Que possamos então nos animar e nos animar uma ve z mais , Namandu pai verdadeir o pr i m eiro!

1

O TEMPO DA ETERNIDADE

I

Aparecimento de :Namandu: os divinos

 

20

II

Fundamento da Palavra: os humanos

26

III Criação da primeira terra

 

34

IV Fim da idade de ouro: o dilúvio

 

46

 

2

O LUGAR DA INFELICIDADE

 

V

Y wy Pyau: a terra nova .

.

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.

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5 7

VI

As aventuras dos Gêmeos - Versões

 

6 0

V

I I

A o rig em d o f o g o - Ve rsõ es

 

1 0 2

3

O S ÚLTIMOS DAQUELES QUE FORAM

V

OS PRIMEIROS ADORNADOS

I

II Os belamente adornados

111

I

X Todas as coisas são um a

125

 

140

As B e l a s Palavras: a ss i m os índios gua r an i d e nomin a m as pala -

vra s q u e l h es serve m pa r a se diri g ir a seus de u se s. Bel a l i n g u a .

gem, fala sag rada, ag r adável a o ou vi do d os d ivinos , qu e as c o n sidera m

d i g na s d e s i. R i g o r de su a b e l eza n a bo ca d o s sac er d o tes insp ira do s

que as pr onunci am; e mbriagu ez de s u a gran d eza n o c o r ã o do s ho - mens e das m u lh eres q u e os esc ut am. Ess a s i í e' i j para , e s s a s Bela s Pala-

vra s , ec o am ainda no s l ug ares mais s ecretos d a f l or es t a qu e , d e sde se m-

p r e, a b r i g a a q uele s qu e , auto n o mean d o - se , A va , o s H omen s, s e af i r - mam assim d ep ositá rios a bsolutos d o h u mano . H om en s ve rdadeir o s

p o rtant o e , exa c er bados po r um org ul ho h eróic o , e l e i t o s d o s d e u s es,

m arca dos pe lo si n a l do div in o , e s s e s q u e se di z e m ig u alm ente o s Te gu a - kava, o s A do r n ad os . A s plumas d as co r o as qu e o r n am s u a s c a b a s

m u rmu ra m ao r i t mo da dan ça ce l e b ra da e m h omenage m aos d e u ses.

A co r o a r ep r odu z a chamejante c a b eleira do g r a nd e de u s R ama n d u .

Qu e m são os gua r an i ? Da g r and e n açã o cujas tri bo s , na amo ra do s é cu l o X V I , contavam seus m e mb r os à s ce n t e n as d e m i l h a re s , s ó subsist e m r uín a s hoje em di a : tal ve z c inco ou se i s mil í nd i o s , d isp er-

s a s e m minú s culas comunidad e s q u e tent a m sob re v i v e r à margem d o

mu n do bran c o. Estranha existência a d e l e s . A gr i c u l to re s de q u eimada , a ma ndioca e o milho de suas plan taç õ e s as s e g u ra m-l hes , be m o u mal ,

s u a s ub s i stênci a. E , quando p re c i sam d e d i nh e i ro, alu gam s eus b r aço s

ao s ri co s e x plo r ador e s m a d e ireir o s d a r e g o. U ma v ez decorrid o o

I ' Ill p nece~~ár io à aq ui s i çã o da soma desejada, voltam sil e n c iosam e n -

l e às es tr e it as trilhas que s e perdem no fundo da flor esta. Pois a ve r -

da d e ira v id a do s í ndios guarani d ese n r ola-s e não às marg e ns do mundo

b ran c o m as muito mais longe, ond e contin u am a r einar os antigo s

de us e s , onde n e nhum olhar profan a dor do estrangei r o d e boca grand e

c

o r r e o ri sc o d e a lt e r a r a m a j e stade dos rito s .

P

oúco s po v o s t es t e munh a m uma r e ligios i d a d e t ão i nt e nsament e

v

i v id a, vínculo s t ão profundos aos c ultos tr a dicion a is , v ontad é t ã o

r rea de m a nt er e m seg re do a part e sagr a da d e s eu ser . À s inv e st i da s

o ra mal- s uc e d i d a s , o ra b r ut a is do s mis s ion á rios opõ e m s empr e u ma

r e cus a a rro g ant e : " Gu ar d e m s e u Deu s ! Te mos os nos s os! " E t ã o po -

t e nt e e r a s e u z e lo e m pro te g er d e tod a conspu r ca çã o s eu u n i v e r so

relig i o s o , fon t e e f im d e s u a f o r ç a d e viver, qu e

o mu n do b ranc o pe rma n e ci a na t ot a l i g no nci a d e s se mundo di to

s e l vagem, d e s se p e n s am e nto do qu al n ã o

ad m irável, se s u a pr o f un di d a d e p r op r iam e n te meta f í s i ca ou a su nt uo s a

b e l eza da l in g u a g e m qu e o ex p r im e . Pa r a qu e o s gu ara n i c on sen t i ssem

em a bri r um a b rec h a n es s e fo r m i d ável m u r o d e si l ê nc i o com o qu al

e n vo l ve m o e dif í ci o d e s u as cre n ças e qu e o z e l o ob s t ina do d o s mi s sio -

n ári o s j a mai s c on seg u i u a bala r, f oi p recis o q u e u m branc o soub e s se

s e s ab e o qu e o t o r n a m a i s

até em d ata recente

m

e r e c er d e l es u ma c on fia n ça sem r e str i ções, f o i p reciso a desco b erta

e

a conquista d e um a gra nd e amiza d e, a qu e nasc e u d o enc o ntr o d o s

í

ndios e do p ara gu aio Leó n Cad o gan , a m izade q ue o de co rrer d o s

a no s j a m a i s e n fra qu ece u e qu e s ó cess o u n o an o pass a d o , c o m a m o rte

daqu e l e qu e os gu ara n i c h am a v a m de " nosso verdadeir o comp anheiro,

qu e t em se u l u g a r em n o ss o s lares" .

A ben ev ol ê nc ia ami g ável com qu e n o s ho n r ava este hom e m d e

tão rara ge n er o s idad e i nt e l ect ua l p er mit i u - n os o a c e sso aos s á b i os gu a -

r ani . A g a r a n ti a do nom e d e L n C a dog a n , a l i ás, n e m semp re era

s ufi c ien te p ar a r omp er s u a rec u sa e m fa l ar . À s ve z es no s f oi n e c e ssár io abandona r um a a l de i a indígena a o f im d e vár io s d i a s de esp era vã;

a p a r e nt e m e n te indi feren t e s à nos sa p rese n ça , o s g u ar an i p re p aravam ao nos s o re do r um a z on a de s il êncio que n ada o s lev a ria a qu e b rar.

L eón Cado ga n mo rr eu: é pr ov ável qu e ago ra o s g u ara n i n ã o pe r m itam

qu e tão c ed o um out r o b r an c o e s c ut e su as B el a s P a lavras .

A s ub s t â nc i a d a s oc ie dad e gu ar ani é s e u mu nd o r eli g i oso. Se o

se

u ancor a douro n es s e mundo se perd e r , ent ã o a s o c i e dade s e desmo -

ro

nará. A r ela çã o dos gu ar ani com s e us d e us e s é o que os mant ê m

como Eu coletivo , o que os re ú ne em u ma comun idad e d e cr e nt es . Es s a comu nidade não sobreviv e r i a u m só i n stante à p e rda d a crença .

O s índios sabem disso. E é porq u e , o b r i gados a pactu ar com o mundo

branc o em um traba l ho episó d ico com vistas a arru m a r um dinheiro

às v e z e s nec e ssár i o , contin u am in trans i gent e s diant e de t u do o qu e po s sa amea ç ar o e s paço de s u a f é, e s paço em que se encontra inte- gralmente restrito todo o ethos da tribo. O fato de serem impermeá -

ve i s às inv es t i d as ' do s mis sionários confere

a e s ses índio s u m l u ga r

part i c u lar n o hor i zonte etnocida q u e d e f i ni u , como sabemo s, o des t íno

dos i ndí g e n a s ame r icanos . É por qu e u ma m es m a f é o s r e ú n e q ue o s guarani contin u am como t r ibo; somente s ua re l igiosid a de anima seu

e

sp

í ri to de resistência. Mas de onde v e m a p ot ê n cia de s sa lig a ç ã o com

o

s deuses tra dicio n a is? On d e s e enr a í z a e ss a d i f e r e nça qu e t a n to dis-

ting u e os gu a rani dos out r os índios?

Quando , no iníc io do século X VI , o s p r i meiro s e u ropeu s p use-

os p é s na Am é ric a do Sul , o s portu g u eses e fra n ce se s e ntre o s

tupi , o s e s p a nhóis e ntre o s gu a r a ni , e n c ontrar a m e s s a s s oc i e d a d es . cul-

u ra lmente homo neas, profundam e nt e impregn a da s por uma s u r d a

inqui e t a ç ã o . De tribo s e m tri bo s . d e aldei a s e m a l d e i as . e rrava m ho-

mens d e nomin a do s k arai p e los índ i o s, q u e n ã o cessav a m de procla m a r a n e c essid a de d e ab a nd o n a r e sse m u ndo qu e r eputavam mau. a fim de g anha r a p á t r ia das coisas não - mortais . ltllwr do s d e u s es. Te rra se , ; , Mal . Tra t a -se do f e nômeno d as migraç õe s r elig i o s a s qu e lançava m mI-

lha re s de í nd i o s na e s t e ira dos k a rai, em um a bl1 s c a a p aix on ada d o

t

r a m

p a r a íso ter r es t r e , f re e nt e m e nt e do o e ste para o l es t e . n a direção d o sol nasc e nte, e às ve ze s no sentido inv er so , na direçã o do sol po e nt e .

Não podemos nos d e ter aqui s obr e a raz ã o de ser d esse p r of e tis-

m o t u pi-g u aran i , d e apa r i ç ão bem ante rior à cheg a da do s o c i dentais .

In d iq u emos s i mp l e sme nt e que ele trad u z ia, no pl a n o r e l ig io s o , um a

prof u nd a cris e d a sociedade e q u e e ssa mesm a cris e e s tav a c e rta m e nte muito ligad a à l e nta mas s egur a emerg ê ncia de pot ê n c i a s d e domin a -

ç ão t e rritoria l . E m outro s t e rmo s, a so c iedade tup i-guarani como so-

ci e dade primitiva , so c iedade sem E stado , via s u r gir d e s e u s e io e s s a

co i sa a b s olutam e nt e nova , u m pod e r pol í tico se p ar ado qu e, c omo t a l ,

am e a ç ava d e slocar a a ntiga ordem socia l e t r ansformar r adic alm e nte

a r e l acão en t r e os homens. Não se s ab e ria ex pl i car a a p ar i çã o do s

k a rai, ' o s profetas , s em arti c u lar com essa outra a p ar i çã o , a dos g r an-

d e s mburuvicha, os ch e fes. E a facilidad e , o f e rvo r com q u e os índios

n ; ' p o lldi U nl ao ~ ape l o s d o ~ pl ' i rn ' ir o s , r 'veht bem u p r rundidude

da

d e sord e m e m qu e o s m e r g ulhav a a inqui e t a nt e fi g ll l 'a do s c h e f es; os profetas de modo algum pregavam no deserto .

Esse profetismo selvagem envolvia assim uma significaç ã o pol í - tica em sua ess ê ncia . Mas é sua expressão religiosa e a lingu a g e m do profeta qu e dev e m deter nossa atenção. A pregação dos karai, nos séculos XV e XVI , pode cond e nsar-se em duas afirmações: o mundo tornou - se ruim demais p a ra que se fique nele mais tempo; devemos

abandoná- lo para nos instalarmos na te r ra onde o mal está ausente.

Ora, se compararmos o conteüdo d e ss e antigo discurso profético com a pregação dos . sábios guarani contemporâneos, percebemos que eles dizem · e x atam e nt e a m e sma cois a e que as Belas Palavras d e agora repetem a mensagem d e antigamente , com uma diferença: po r n ã o poder doravante reali z ar o sonho de atingir ywy mara éy, a T erra S em Mal, através da migraç ã o r eligiosa , os índios atuais esperam qu e o s deuses lhes falem, que os d e us e s . lhes anunciem a vinda dos tempos das coisas não - mort a is , d a completeza acabada , desse estado de p e r- feição no e através do qual os homens transcendem sua condição . Se eles não se colocam mais em marcha, permanecem à escuta dos deuses e sem repouso faz e m ouvir as Belas Palavras que interrogam os divinos .

Esse desejo de abandonar um mundo imperfeito Jamais dei x ou os guarani . Atrav é s d e qu a t r o s é culos de dolorosa histó r ia , ele n ã o cessou de inspirar os Índio s . Muito m a is: tornou-se quase qu e o único eixo em torno do qual s e o r g a niz a m a vida e o pensamento da so cie - dade , a ponto de ela det e rminar- se c laramente como comunid a d e r e li- giosa. A chegad a dos europeus n a América, a brutalidade da Conquis- ta, o esmag a mento das r e beliões indígenas , toda essa violência con- jugada abreviou o liv r e desenvolvimento da transformação social con - secutiva ao movimento profético. A migração religiosa maciça, como efeito concreto do discurso dos karai, tornou-se impossível . Fechado, conseqüentemente , do lado da práxis, o desejo de eternidade dos gua- rani procurou s e u e ncaminhamento no aprofundamento da Palavra e extravasou - se do lado do logos. O discurso dos karai atuais perma - nece seguramente na linha di r eta do discurso profético pré-colom- biano, mas toda a força do desejo que animava esses últimos voltou-se agora para a meditação. Houve , no limite , um movimento do ativismo migratório para o pensamento questionante , passagem da exterioridade do gesto concreto - da g e sta religiosa - à interioridade constante-

m e nt e e x p lo r ada de uma sab e doria conte mplativa . O d e sejo gu a rani

d e tr a n s c e nder a condição humana ultr a passou por sua v ez a histór i a e, c on servando intacta sua força atrav é s do tempo , investiu totalme nt e no e sforço do pensamento e de sua e x pressão falada .

Linguagem de um desejo de supra-humanidade, des e jo de uma

lingu ~ gem pró x ima da dos deus e s: os sábios guarani soubera m inven- tar o esplendor solar das palavras dignas de se re m dirigi das s omente aos divinos. E que ninguém se engane: o lirismo d a s B e l a s Palavras

d

e signa ao mesmo tempo a eclosão de um pensamento no s entido oci-

d

e ntal do termo . Se compararmos o c o rpus mitológico dos guarani

com o das outras populações indígen a s da A méri c a do Sul, ficaremos

s urpresos pela sua relativa pobrez a . Ele se compõe es sen c i a lmente do

gr a nd e mito dos Gêmeos , do mito da orig e m do fogo e do mito do

dilú v io uni ve r s al. Ficamos bem distante s da a l e gr e e x uber â n c ia que

m a rc a a c apa c idade de invenção mitológica dos povos selvagen s . Dev e -

mo s e nt ã o atribuir aos guarani uma imagin a ção po é tic a m e nos f é rtil,

um dom menor de criação? Não acreditamos nisso . P e n sa mos an t e s que e ssa diferença mitológica entre os guarani e seu s vizinhos med e

ex atamente a distân c ia que separa do mito o pen s amento reflexivo .

P e n s amos, em outros termos, qu e, pobr e s e m mitos, os gu a rani s ã o

ric os em pensamento , que sua pobreza e m mito s r e sult a d e um a pe r d a

c

onsecuti va ao nascimento de s e u p e nsame n t o. D esa brochado no rico

s

olo d a mitolo g i a antiga, esse p e ns a m e nto desdob ra-s e po r si próprio ,

liv ra -se d e s u a terr a natal , a metafísica s ub s titui o mitológico . S e os

guarani t ê m menos mitos para nos c ontar , é porqu e domin a m mai s pensamento para nos opor .

Que pensa o pensamento guarani? Pensa o mundo e a in f eli c i-

dade do mundo, coloca a questão das causas: por que os homen s sã o humanos demais? Ele tenta uma arqu e ologia do m a l, qu er f a z er uma genealogia da infelicidade. Por que nós, belos a dornados, o s ele i to s dos divinos, somos expostos a uma existência doente de imp e r f eição .

d e inac a bamento, incompleteza 1? Amargura da evid ê nc i a qu e se i mp õe aos pensadores guarani: nós, que nos sabemos dignos d e vi ve r a v i da dos que estão no alto , vemo-nos reduzidos a viv e r a quela do s animais doentes. Queremos ser deuses e só somos homens. Obj e to d e nosso

de s ejo: ywy mara ey~ a Terra

ywy mba ' e megua, a terra má. Como isso é poss í vel? Como poderemos

Sem Mal; e spaço de noss a c ondiçã o:

r e in ve st i r no s s a ve rdad e i ra natureza , recobrar a saúde d e um corpo

aére o , re conqui s ta r no ssa p á tr i a perdida ? QU e no ssa v oz se i mpr e gn e

d e pot ê nci a, e as p al a vr as q u e ela pronunc i a , d e b e l e za , a f i m d e qu e

p ossa a tin g i r o s se t e firmam e nto s s ob re os qu a i s r e in a no s so pai 2,

N am an du !

Essa bu sca p e r s ev era nt e à s ve ze s condu z os sábios gu a r a n i por

es t ranho s c a minho s . E s tr a nho s p ara s, e sp e ct a do re s do O c id e nt e,

qu

e fi ca mos p e rtu r b a do s c om o ec o fa miliar d e m a i s d e tal d eclara ç ã o ,

ou

vi d a ao ac as o , qu e cond e n s a a v i r ul ê nc ia de um af o ris mo. Um

d esses sá bio s no s c ontava um dia su a ve rsão d a ave ntur a do s Gê m e o s .

Ini c i a lm e nt e inco m odado co m a presen ça do g rava do r, pou c o a p ou c o

c e s s ou d e c on si d era r a m á quin a. Su a voz t o r n a v a -s e m ai s f o rte, o fl u x o

d e s u a n a rrati va, mai s ac util a do . E no s d e mo s cont a de q u e, p o r uma

vertent e muit o n a t u ral e nt re esse s p e n sador es i n d ígen a s, e l e d eixava

p r o gress i v am e n te o t erreno do m i to p ar a se ab an d onar a u ma re f lexã o

so br e o mi t o , a u ma i n t errogaçã o a pr opósi t o d e s e u sent i d o , a um

verdadeir o t ra b a lh o d e i nt er p re t açã o através do qua l te n tava res p on-

d

er à qu es t ã o qu e se col oca m , at é a ob ses o , os g u a ra ni: O n de está

o

mal, de ond e ve m a in fe li c id a d e? E e i s o qu e p r o fere, em uma

fresca noite d e i n ver no , n a s u a fl oresta do Parag u ai, j u nto a uma

f o g u e i ra qu e a t içava p e n sativ am e n te de vez em q uand o : /I As c o isas

e m s u a t ot a lid ade sã o u ma. E, p ara nós , q u e não havíamos desejado

i sso , e l as são más 3 " . E l e re un ia assim o mal dess e mu n do ruim e a

raz ã o d esse m al; a i n fe l icidade d a co n diçã o d os habitantes desse m u n -

d o e a or i ge m de s u a infe l icidade . e p or qu e a totalidade das c o isas

qu e com e m o m un d o p ode se dizer seg und o o Um e não seg u ndo

o mú lt ip l o qu e o mal está ins c ri to na s u perfície d o mu n do 4 . E qu anto

o s a do r n a d o s , n ã o é e s se mundo qu e d ese j áva mo s, n ã o somos

cul pa do s, s o frem o s o des t in o d o p eso do U m: o m a l é o Um: n o ssa

a n ós,

ex i s t ê n c i a es t á d o ente, achy , p o r se dese n r o lar s ob o sig no d o Um .

2

3. Cf. a se gu i r , pp. 13 4 e 135.

4 . De ss e as p ecto , o modo de ex i stê n cia

. Ex pr essã o

c o r re n te

de r es peito , dos j o ve n s ao s mais ve lho s.

do Um é o t r a ns i t óri o ,

o passageiro,

o efê m er o .

c er é c h a m ad o U m . Conde n ado

do Aca b a d o . É porq u e, em com p e n sação,

é um hom em,

não é o múlti p lo ,

des i g n a verdadeirame n te

O qu e n asce, c r esce e s e dese n v olve

c l aro, mas também

é o do i s, si mult a n ea m e n te

os seres c ompl et o s .

some nt e co m vistas a per e -

o Um t or n a - se si gno da Terra Sem Mal u m deus. O B em

d o lado d o c or rup tíve l ,

u m h a b ita n te

o out r o do h o mem,

o u m e se u out r o , o do i s qu e