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CURSO DE BIOÉTICA
Primeira aula
Pe. Luiz Carlos Lodi da Cruz
Disponível em www.providaanapolis.org.br

A VIDA

Vida é a capacidade de ação imanente. Um ser vivo, ao contrário de um ser bruto, é


causa e fim da própria ação: isto significa “ação imanente” ou “movimento imanente”.
As propriedades de um ser vivo incluem:
- a dinâmica do sistema e seu autocontrole (homeostase)
- excitabilidade (resposta a estímulos de diferentes naturezas e origens)
- auto-reprodutividade
- hereditariedade de caracteres
- tendência evolutiva (nutrição e crescimento)
O princípio unificador do organismo vivo é chamado alma. A alma é o princípio
vital.
Há três níveis de vida, correspondentes a três níveis de almas:
- a vida vegetativa, que consiste na nutrição, crescimento e reprodução
- a vida sensitiva, que acrescenta a sensibilidade
- a vida intelectiva, que acrescenta a inteligência e a vontade. A alma intelectiva ou
racional é intrinsecamente independente da matéria e, por isso, tem natureza espiritual.
Sobrevive à dissolução do organismo e é imortal.

Fundamentos bíblicos sobre a origem da vida:


Gn 1,11: “‘Que a terra verdeje de verdura: ervas que dêem semente e árvores
frutíferas que dêem sobre a terra, segundo sua espécie, frutos contendo sua semente’ e assim
se fez.”
Note-se que a vida é criada depois da criação dos seres brutos (o firmamento, a terra,
o mar...). A primeira vida é a puramente vegetativa. Tais seres vivos têm origem em uma
semente e são capazes, por sua vez, de produzir sementes. Está assim completo o ciclo de
reprodução.
Após a vida vegetativa, tem lugar a vida sensitiva, própria dos animais.
Gn 1,20: “‘Fervilhem as águas um fervilhar de seres vivos e que as aves voem acima
da terra, sob o firmamento do céu’ e assim se fez”.
Gn 1,24: “Deus disse: ‘Que a terra produza seres vivos segundo sua espécie: animais
domésticos, répteis e feras segundo sua espécie’ e assim se fez”.
Mas o cume da criação será a criação da vida humana, que é intelectiva:
Gn 1, 26: “Façamos o homem como nossa imagem, como nossa semelhança”
O homem é semelhante a Deus por ser composto, não apenas de um corpo, mas de
uma alma espiritual, dotada de inteligência e vontade, à semelhança de Deus, que é um puro
espírito. A semelhança ainda aumenta quando Deus decide elevar o homem à participação da
natureza divina, por um dom sobrenatural chamado graça.
O plural “façamos” indica a vocação do homem a imitar a Santíssima Trindade: a ser
uma comunidade. O homem será criado, mas não sozinho: “Não é bom que o homem esteja
só” (Gn 2,18).
Gn 1,27: “Deus criou o homem a sua imagem,
à imagem de Deus ele o criou,
homem e mulher ele os criou”.
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Esta comunidade, que é a comunidade conjugal, é abençoada por Deus com a missão
de transmitir a vida!
Gn 1,28: “Deus os abençoou e lhes disse: sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a
terra e submetei-a; dominai sobre os peixes do mar, as aves do céu e todos os animais que
rastejam sobre a terra”.

Deus quis que a transmissão da vida humana se desse mediante a união de dois
corpos complementares:
Gn 2,24: “Por isso o homem deixa seu pai e sua mãe, se une à sua mulher, e eles se
tornam uma só carne”.

Em resumo:
1) A vida humana foi criada num ato de amor.
Deus deseja que ela seja transmitida num ato de amor: o ato conjugal ou ato sexual.

2) A vida humana é sagrada e inviolável (“Não matarás” – Ex 20,13)


A união conjugal em que a vida é gerada também é sagrada.

O SEXO É TÃO SAGRADO QUANTO A VIDA POR ELE GERADA


RESPEITAR O SEXO É RESPEITAR A VIDA

PROFANAR O SEXO É PROFANAR A VIDA

3) O matrimônio é uma união perpétua pela qual homem e mulher doam mutuamente
seus corpos para:
a) completarem-se mutuamente: “eles se tornam uma só carne”.
b) gerarem novas vidas humanas: “sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra”.

4) É antinatural (e portanto, pecaminoso) privar o ato sexual de sua abertura à vida.


Tal pecado chama-se anticoncepção.

5) A missão dos esposos e pais não se reduz a transmitir a vida natural aos filhos,
mas oferecer-lhes a vida sobrenatural – a graça – através do Batismo e da formação religiosa.
A graça vale mais do que a vida natural, por ser a vida de Deus em nós.
“A tua graça vale mais do que a vida” (Sl 62,4).

A ÉTICA

Ética é a ciência normativa dos atos humanos.


Atos humanos são aqueles praticados pela vontade humana iluminada pela sua
inteligência.
Exemplos de atos humanos: andar, comer, sorrir, trabalhar, roubar, matar...
Exemplos de atos “do homem”, mas que não são atos humanos: o levantamento
involuntário da perna quando o joelho sofre uma martelada (ato reflexo), o fechar dos olhos
quando sopra um vento com poeira, o batimento do coração, a excitação sexual involuntária, a
polução noturna, o aborto espontâneo...
Sendo o homem racional, seus atos humanos devem ser regulados pela razão. Se,
além disso, ele recebeu a graça sobrenatural, seus atos devem ser regulados pelo Espírito
Santo.
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“Todos os que são conduzidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” (Rm 8,14).
A Bioética é a parte da Ética que regula o comportamento humano no que se refere à
vida e à saúde.

A MORALIDADE DOS ATOS HUMANOS


(transcrito do Catecismo da Igreja Católica, números 1749 a 1761)

1749. A liberdade faz do homem um sujeito moral. Quando age de forma deliberada,
o homem é, por assim dizer, o pai de seus atos. Os atos humanos, isto é, livremente
escolhidos após um juízo da consciência, são qualificáveis moralmente. São bons ou maus.
I. As fontes da moralidade
1750. A moralidade dos atos humanos depende:
- do objeto escolhido;
- do fim visado ou da intenção;
- das circunstâncias da ação.
O objeto, a intenção e as circunstâncias constituem as “fontes” ou elementos
constitutivos da moralidade dos atos humanos.
1751. O objeto escolhido é um bem para o qual se dirige deliberadamente a vontade.
É a matéria do ato humano. O objeto escolhido especifica moralmente o ato de querer,
conforme a razão o reconheça e julgue estar de acordo ou não com o bem verdadeiro. As
regras objetivas da moralidade enunciam a ordem racional do bem e do mal, atestada pela
consciência.
1752. Perante o objeto, a intenção se coloca do lado do sujeito agente. Pelo fato de
ater-se à fonte voluntária da ação e determiná-la pelo objetivo, a intenção é um elemento
essencial na qualificação moral da ação. A finalidade é o primeiro termo da intenção e designa
a meta visada na ação. A intenção é o um movimento da vontade em direção a um objetivo;
ela diz respeito ao fim visado pela ação. É a meta do bem que se espera da ação praticada.
Não se limita à direção de nossas ações singulares, mas pode orientar para um mesmo
objetivo ações múltiplas; pode orientar toda a vida para o fim último. Por exemplo, um
serviço prestado tem por fim ajudar o próximo, mas pode ser também inspirado pelo amor a
Deus, fim último de todas as nossas ações. Uma mesma ação também pode ser inspirada por
várias intenções, como, por exemplo, prestar um serviço para obter um favor ou para
vangloriar-se.
1753. Uma intenção boa (por exemplo, ajudar o próximo) não torna bom nem justo
um comportamento desordenado em si mesmo (como a mentira e a maledicência). O fim não
justifica os meios. Assim, não se pode justificar a condenação de um inocente como meio
legítimo para salvar o povo. Por sua vez, acrescentada uma intenção má (como, por exemplo,
a vanglória), o ato em si bom (como a esmola) torna-se mau.
1754. As circunstâncias, incluídas as conseqüências, são os elementos secundários
de um ato moral. Contribuem para agravar ou diminuir a bondade ou maldade moral dos atos
humanos (por exemplo, o montante de um furto). Podem também atenuar ou aumentar a
responsabilidade do agente (agir, por exemplo, por temor da morte). As circunstâncias não
podem por si modificar a qualidade moral dos próprios atos, não podem tornar boa ou justa
uma ação má em si.
II. Atos bons e maus
1755. O ato moralmente bom supõe a bondade do objeto, da finalidade e das
circunstâncias. Uma finalidade má corrompe a ação, mesmo que seu objeto seja bom em si
(como, por exemplo, rezar e jejuar “para ser visto pelos homens”).
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O objeto da escolha por si só pode viciar o conjunto de determinado agir. Existem
comportamentos concretos – como a fornicação – cuja escolha é sempre errônea, pois
escolhê-los significa uma desordem da vontade, isto é, um mal moral.
1756. É errado, pois, julgar a moralidade dos atos humanos considerando só a
intenção que os inspira ou as circunstâncias (meio ambiente, pressão social, constrangimento
ou necessidade de agir etc.) que compõem o quadro. Existem atos que por si mesmos e em si
mesmos, independentemente das circunstâncias e intenções, são sempre gravemente ilícitos,
em virtude de seu objeto: a blasfêmia e o perjúrio, o homicídio e o adultério. Não é permitido
praticar um mal para que dele resulte um bem.
RESUMINDO
1757. O objeto, a intenção e as circunstâncias constituem as três “fontes” da
moralidade dos atos humanos.
1758. O objeto escolhido especifica moralmente o ato do querer, conforme a razão o
reconheça e julgue bom ou mau.
1759. “Não se pode justificar uma ação má, embora feita com boa intenção” (Sto
Tomás de Aquino, Decem. Praec. 6). O fim não justifica os meios.
1760. O ato moralmente bom supõe, ao mesmo tempo, a bondade do objeto, da
finalidade e das circunstâncias.
1761. Existem comportamentos concretos cuja escolha é sempre errônea, porque
escolhê-los significa uma desordem da vontade, isto é, um mal moral. Não é permitido fazer o
mal para que daí resulte um bem.

CASOS CONCRETOS

1) Juiz ordena separação de irmãs siamesas


“A Justiça britânica autorizou ontem cirurgiões a separar gêmeas siamesas, apesar
da resistência dos pais. Eles são contra a operação porque sabem que uma das crianças
morrerá. Jodie e Mary nasceram em 8 de agosto unidas pelo abdômen.
Enquanto Jodie é ativa e alerta, Mary depende das funções pulmonares e do
coração da irmã para sobreviver.
Sem a cirurgia, os médicos dizem que as crianças têm entre três e seis meses de vida.
Jodie tem chances de levar uma vida normal se for separada da irmã, segundo os
cirurgiões.” FOLHA DE SÃO PAULO (26/08/2000).

No caso em questão, seria lícito matar Mary a fim de salvar Jodie?

2) Uma mulher, incapaz de sobreviver por outros meios, resolveu entregar-se à


prostituição. Não o fez por preguiça, mas unicamente para sustentar a si e a seus filhos. Seu
ato é, no caso, justificado?

3) Um casal tem muita dificuldade de aprender o método Billings. O médico advertiu


que uma eventual gravidez pode pôr em risco a saúde ou a vida da mulher. Assim, eles
resolveram temporariamente usar anticoncepcionais, até que aprendam a usar um método
natural. Seu comportamento é lícito?
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LEITURA

TRATADO SOBRE AS BOAS E MÁS INTENÇÕES.


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Existem dois provérbios muito famosos que se difundiram por diferentes culturas,
mas cujo significado é sempre o mesmo. Em alguns países se diz: "A Estrada do Inferno é
pavimentada por boas intenções" e em outros, simplesmente: "De boas intenções o Inferno
está cheio".
Naturalmente que existem aqueles que afirmam : "Quem somos nós para julgar as
intenções do coração!!". E não deixam de ter razão! O problema é que tal expressão
geralmente é muito usada para justificar o erro, quando não para explicitamente apoiá-lo. De
fato, só Deus pode fazer um julgamento sobre nossos atos e intenções subjetivos. Portanto o
mais apropriado seria dizermos: "Não sei com que intenção tal pessoa fez ou disse isso", pois
ao dizermos que ela agiu bem intencionada estamos também emitindo um julgamento que
muito bem pode ser um julgamento errôneo ou injusto. Mas voltando ao provérbio em
questão, só para termos uma idéia de como ele é verdadeiro, tomaremos por objeto de análise
os 10 Mandamentos da Lei de Deus e veremos como em nome "das boas intenções" esses
Mandamentos tem sido continuamente transgredidos e escarnecidos.
1. No primeiro Mandamento da Lei, Deus ordena categoricamente que devemos
amá-lo sobre todas as coisas e que não devemos ter outros deuses em sua presença. Ora, mas
se lá na Epístola de São João está escrito que Deus é Amor e São Paulo em uma das suas
cartas, diz-nos que o amor não é egoísta, então rapidamente nossa mente e coração, que pelo
pecado se tornaram facilmente inclinados para o mal, começam logo a construir uma outra
imagem de Deus bem diferente do Deus do Decálogo. Imaginamos então que não é bem
assim: " Deus não pode ser tão rigoroso, claro que o homem é livre para ter o deus que quiser
e Deus respeita essas escolhas porque o homem tem uma capacidade de amar muito ampla e
manifesta o seu amor de diversas maneiras. Aí já começamos a dizer que os ídolos dos pagãos
são apenas uma outra manifestação cultural, mas que no fundo representam o mesmo Deus
que adoramos. Daí começamos a dizer que todas as religiões têm o mesmo valor... e assim
começamos a pavimentar a estrada do Inferno.
2. No segundo Mandamento, Deus ordena-nos que respeitemos com suma reverência
o Seu Santíssimo Nome, bem como a dignidade do seu Ser e sua ação no mundo. E hoje ao
vermos o nome de Deus ser vilipendiado em peças teatrais sacrílegas, em filmes e novelas
blasfemas, quantos de nós não apenas nos permitimos assistir a tais obras como também
elogiá-las? Se alguém protesta, há quem diga que este não passa de um radical que quer violar
a liberdade de expressão. Há sempre quem diz que a intenção do autor foi a melhor possível,
tentam justificar tais iniciativas alegando motivos de arte, cultura, história. E os próprios
autores dessas obras sacrílegas ainda têm o cinismo de vir a público declarar que não tinham a
menor intenção de ofender a fé ou religião de ninguém... e assim se vai pavimentando a
estrada do Inferno.
3.No terceiro Mandamento, Deus nos ordena a guardar os Domingos e Festas Santas,
dedicando esses dias ao seu culto e louvor. A Igreja, em sua sabedoria milenar e divina,
ordena que a melhor forma de cumprir esse preceito é participando do Santo Sacrifício da
Missa aos Domingos e Dias Santos. Mas nem precisamos fazer aqui uma lista das desculpas
mais comuns usadas por aqueles que, abusando de sua liberdade de cristãos, sempre arranjam
um modo de burlar esse Mandamento. A verdade é que o Domingo para a maioria dos cristãos
se transformou em Dia da Praia, Dia da Pelada, Dia do Cinema, Dia do Namoro, Dia do
Clube... enfim dia de tudo e de todos, menos o Dia do Senhor... a intenção? Apenas se divertir,
afinal ninguém é de ferro! E assim mais um trecho da estrada do Inferno vai sendo
pavimentado!
4.O quarto Mandamento prescreve a obediência e o respeito por nosso pais. Entre
tantos exemplos de como esse preceito vem sendo transgredido em "nome das boas
intenções", citaremos apenas o exemplo dos filhos que durante a velhice de seus pais, os
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isolam em casas de repouso, asilos ou outras "facilidades", alegando que ali eles terão "maior
liberdade", "mais privacidade" e pessoas especializadas para dedicar-lhes cuidados
apropriados. Na sociedade materialista e consumista em que vivemos, a maioria das pessoas
concorda que tal atitude é sempre movida pelas "boas intenções" e não pelo egoísmo e pelo
comodismo. Para agravar ainda mais essa situação, agora há também aqueles que advogam
em favor do direito à morte com dignidade pela "eutanásia". Isso para não falar nos famosos
"Mercy Killers", ou seja; aqueles que matam os próprios pais doentes, "por amor", "para não
vê-los sofrer de uma doença degenerativa"... e é assim que mais uma avenida é pavimentada
para o Inferno.
5. O quinto Mandamento é muito claro ao ordenar "Não matar". Mas o que dizermos
então das desculpas mais estapafúrdias que se usam para justificar a morte de um bebê ainda
no útero materno pelo aborto? Imagine que existem até grupos que se autodenominam
"Católicos", advogando o direito que cada mulher tem de decidir se cumpre ou não esse
Mandamento!! Pasmem!!! Na Conferência do Cairo sobre População uma das maiores
discussões foi exatamente no sentido de fazer constar na Carta dos Direitos Humanos, o
"Direito ao Aborto" como sendo um dos direitos humanos!!! Deus não faz concessões ao
prescrever o quinto Mandamento, mas os homens " bem-intencionados" encontraram
incontáveis justificativas para ab-rogar a Sua Lei. Mata-se por misericórdia, mata-se para
evitar o sofrimento, mata-se até por amor!!! Imagine se no Inferno haverá lugar para os
assassinos que mataram por motivos passionais!!! Para os advogados das "boas-intenções",
esses com certeza devem estar gozando da Luz do Paraíso, afinal mataram por amor e não por
ódio!!
6. O sexto Mandamento nos ordena não pecar contra a castidade, mas de uns tempos
para cá sexo virou sinônimo de amor. E aqui não estamos falando do ato sexual lícito dos
esposos, mas sim de toda a sorte de depravação sexual. Tudo é justificado em "nome do
amor": homossexualismo, fornicação, pedofilia... e muitas outras aberrações. Com todas essas
"boas intenções", o Inferno vai se povoando a uma velocidade incrível, pois segundo o que
Nossa Senhora revelou aos pastorezinhos de Fátima ao mostrar-lhes o Inferno, um dos
pecados que mais tem levado pessoas para o Fogo Eterno, é justamente o pecado contra a
Castidade.
7. No sétimo Mandamento, Deus nos proíbe prejudicar o próximo nos seus haveres e
assim prescreve o Mandamento: "não roubar". Por incrível que pareça, esse é um dos
mandamentos que mais encontra justificativas para a transgressão com base nas "boas
intenções". Rouba-se porque está com fome, rouba-se porque o vizinho possui mais bens do
que o outro, o que sem dúvida é uma injustiça!! Rouba-se por causa do desemprego... enfim,
motivos é o que não falta. Se fôssemos fazer um levantamento em todas as penitenciárias dos
mundo, veríamos que todos os ladrões possuem excelentes justificativas para seus delitos e
facilmente chegaríamos à conclusão de que todos agiram com as melhores intenções, pois não
tinham como objetivo prejudicar o próximo, mas sim saciar uma necessidade pessoal e
urgente.
8. No oitavo Mandamento, Deus nos proíbe diretamente dar testemunho falso contra
alguém e por extensão proíbe-nos qualquer lesão à fama do próximo por detração ou calúnia.
Quantas vezes ouvimos pessoas dizerem que não agiram por mal depois de terem
praticamente destruído a reputação do próximo. Os meios de comunicação são mestres nessa
arte! Os jornalistas alegam que estão apenas cumprindo seu "dever profissional", que não
havia a intenção pessoal de prejudicar esse ou aquele indivíduo, mas apenas de se conseguir
"um furo de reportagem", ser bem sucedido profissionalmente... Mas será que tem que ser
sempre às custas da reputação alheia? Pois é exatamente assim que se pavimenta um longo
trecho da estrada para o Inferno... com esse tipo de boa intenção!!
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9. No nono Mandamento, Deus proíbe explicitamente o adultério e Jesus é mais
rigoroso ainda quando diz que se um homem abandona sua mulher e se casa com uma outra,
comete adultério e se a mulher que foi abandonada pelo adúltero se casar com outro,
igualmente se torna adúltera. Infelizmente parece que esse mandamento foi apagado das
mentes cristãs depois que a maioria dos países legalizou o divórcio. Hoje o motivo mais
comum para o adultério é justamente "o amor". Um homem abandona sua esposa e vice-
versa, não porque tinha a "intenção" deliberada de prejudicar sua família, mas simplesmente
porque se "apaixonou" por uma outra pessoa!!! Como podemos ver, rompe-se com o
compromisso matrimonial, desestrutura-se a unidade familiar e a sociedade, abandonam-se os
filhos e causam-se imensos sofrimentos ao cônjuge com a melhor das boas intenções... tudo
por amor!!!
10. Finalmente chegamos ao décimo Mandamento, onde Deus expressamente nos
proíbe cobiçar as coisas alheias, incluindo a explícita ou implícita intenção de adquiri-los por
meios ilícitos. Novamente aqui encontramos as mesmas justificativas usadas para o roubo...
tudo com a melhor das intenções!! Como dizer que o ladrão, um indivíduo que sequer nos
conhece pessoalmente, pode nutrir algum ódio no coração contra nós? Como dizer que ele nos
roubou de propósito, apenas por sentimentos de vingança? E quando se trata de latrocínio,
como dizer que ele tinha a intenção premeditada de matar a vítima se sequer a conhecia ?
Certamente se fôssemos usar o critério das "boas intenções" em todos os
julgamentos, não existiriam presídios na face da terra e nem tampouco o Inferno existiria,
como ousam supor os infernovacantistas! Infelizmente, ainda que esses tenham apenas a "boa
intenção" de exaltar a Misericórdia Divina, a Justiça Divina também é infalível e possui o
mesmo peso da Sua Misericórdia. Eis porque o Inferno existe e de boas intenções, certamente
está superlotado.
(Una Vox – Torino)

CURSO DE BIOÉTICA
Segunda aula
Pe. Luiz Carlos Lodi da Cruz

O DIREITO À VIDA

CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA


2258. “A vida humana é sagrada porque desde sua origem ela encerra a ação
criadora de Deus e permanece para sempre numa relação especial com o Criador, seu único
fim. Só Deus é o dono da vida, do começo ao fim; ninguém, em nenhuma circunstância, pode
reivindicar para si o direito de destruir diretamente um ser humano inocente” (Instrução
Donum Vitae, n.º 5)

Comentário:
O que é intrinsecamente mau não é simplesmente “matar”, mas “matar diretamente
um inocente”.
Há casos em que é legítimo matar um agressor.
E há casos em que é legítimo causar indiretamente a morte de um inocente.

LEGÍTIMA DEFESA
2264. O amor a si mesmo permanece um princípio fundamental da moralidade.
Portanto, é legítimo fazer respeitar seu próprio direito à vida. Quem defende sua vida não é
culpável de homicídio, mesmo se for obrigado a matar o agressor:
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Se alguém, para se defender, usar de violência mais do que o necessário, seu ato será ilícito. Mas, se a
violência for repelida com medida, será lícito... E não é necessário para a salvação omitir este ato de comedida
proteção para evitar matar o outro, porque, antes da de outrem, se está obrigado a cuidar da própria vida (Sto
Tomás de Aquino, S. Th. II-II, 64,7, ed. Leon. 9,74)

2265. A legítima defesa pode não ser somente um direito, mas um dever grave, para
aquele que é responsável pela vida dos outros. Preservar o bem comum da sociedade exige
que o agressor seja impossibilitado de prejudicar a outrem. A este título os legítimos
detentores da autoridade têm o direito de repelir pelas armas os agressores da sociedade civil
pela qual são responsáveis.

Comentário: para que haja legítima defesa, é preciso que haja uma agressão injusta
e atual ou iminente. O agressor perde o direito à vida pelo simples ato que tentar matar. O
agredido, porém, deve agir com moderação, procurando, sempre que possível, poupar a vida
do agressor.

PENA DE MORTE
(extraído de HÖFFNER, Cardeal Joseph, Doutrina Social Cristã, versão de acordo
com a 8ª edição alemã, São Paulo, Edições Loyola, 1986, páginas 191 a 192)
(Argumentos contrários)
“Hoje tornou-se muito vivo o debate em torno da pena de morte. Alguns a rejeitam
com grande vigor: nenhuma instituição humana teria o direito de dispor da vida de uma
pessoa, direito que Deus reservou para si. Nenhum juiz poderia arrogar-se o direito de decidir
se alguém cometeu um delito digno de morte. Muitos criminosos seriam condicionados pelas
circunstâncias sociais e assim uma boa política social seria também a melhor política contra o
crime. Resíduo medioevo dos castigos físicos e capitais, a pena de morte contrariaria a idéia
moderna do humanitarismo e deveria ser repudiada, já pela simples possibilidade de erros
judiciários. A experiência teria anulado a freqüente afirmação de que a ameaça da pena capital
intimidaria, evitando novos crimes. Aliás, a prisão perpétua seria proteção eficaz da sociedade
contra novos ataques de facínoras.
(Argumentos favoráveis)
Outros consideram a pena de morte necessária também na sociedade moderna: a
Sagrada Escritura e a tradição teológica são unânimes em reconhecer ao poder civil o direito
de condenar à morte. Ela seria a afirmação explícita e eficaz e o restabelecimento da santidade
da ordem divina que o crime teria lesado gravemente. Além do mais, a suspensão da pena de
morte ameaçaria os carcereiros com a morte, porque abater um guarda não prolongaria a pena
de prisão perpétua, mas poderia dar a chance da evasão. De resto, houve criminosos que se
converteram em face da morte, enquanto uma detenção prolongada esgotaria em vez de se
transformar em favorável “tempo de conversão”.
(O que diz a doutrina social cristã)
A doutrina social cristã apresenta três princípios referentes ao poder do gládio civil:
a) Ao Estado, e somente a ele, cabe o direito de condenar à pena capital e de
executar a sentença para punir crimes graves. É claro o que ensina a Sagrada Escritura:
“Quem verte o sangue do homem, pelo homem terá seu sangue vertido” (Gn 9,6). “Não é à
toa que (a autoridade) traz a espada: ela é instrumento de Deus para fazer justiça e punir quem
pratica o mal” (Rm 13,4). Apesar de condenar a vingança de sangue, o magistério eclesiástico
reconheceu o poder do gládio da autoridade civil. O Papa Inocêncio III prescreveu aos
valdenses a seguinte profissão: “Reconhecemos que o poder civil pode infligir a pena de
morte, sem pecado grave, contanto que o faça, não por ódio, mas por causa de um julgamento;
não arbitrariamente, mas após madura reflexão”. Pio XII declarou que cabe à autoridade
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profana “privar o réu de sua vida para expiar o seu crime, depois de ele já ter desistido do seu
direito à vida, através do seu crime” (13 de setembro de 1952).
b) O poder do gládio da autoridade profana é um claro reconhecimento da
intocabilidade dos bens humanos supremos, em primeiro lugar da vida. A santidade da divina
ordenação também ser revela como “poderosa” neste mundo através da pena capital. Esta
representa um ato de autodefesa do Estado. Em última análise, ela se justifica por ser a única
maneira de preservar o bem comum.
c) Embora tenha o direito do gládio, o Estado pode renunciar à sua aplicação. Abrir
mão da aplicação da pena de morte vai depender das circunstâncias concretas, isto é, das
necessidades do bem comum no contexto real da situação. O Estado moderno costuma dispor
de um aparato policial rápido e de um sistema carcerário seguro. Por isso hoje há mais
motivos contra a pena de morte que na Idade Média, sendo, porém, de notar que facínoras
perigosos, não raro, são libertados pelos cúmplices, por meio de seqüestros e de reféns,
podendo assim continuar a sua vida de crimes.”
(termina aqui a citação do Cardeal Joseph Höffner)

CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA


“2266. Corresponde a uma exigência da tutela do bem comum o esforço do Estado
destinado a conter a difusão de comportamentos lesivos aos direitos humanos e às regras
fundamentais de convivência civil. A legítima autoridade pública tem o direito e o dever de
infligir penas proporcionais à gravidade do delito. A pena tem como primeiro objetivo reparar
a desordem introduzida pela culpa. Quando essa pena é voluntariamente aceita pelo culpado
tem valor de expiação. Assim, a pena, além de defender a ordem pública e de tutelar a
segurança das pessoas, tem um objetivo medicinal: na medida do possível, deve contribuir à
correção do culpado.
2267. O ensino tradicional da Igreja não exclui, depois de comprovadas cabalmente a
identidade e a responsabilidade do culpado, o recurso à pena de morte, se essa for a única via
praticável para defende eficazmente a vida humana contra o agressor injusto.
Se os meios incruentos bastarem para defender as vidas humanas contra o agressor e
para proteger a ordem pública e a segurança das pessoas, a autoridade se limitará a esses
meios, porque correspondem melhor às condições concretas do bem comum e estão mais
conformes à dignidade da pessoa humana”

GUERRA
2307. O quinto mandamento proíbe a destruição voluntária da vida humana. Por
causa dos males e das injustiças que toda guerra acarreta, a Igreja insta cada um a orar e agir
para que a Bondade divina nos livre da antiga escravidão da guerra.
2308. Cada cidadão e cada governante deve agir de modo a evitar as guerras.
Enquanto, porém, “houver perigo de guerra, sem que exista uma autoridade internacional
competente e dotada de forças suficientes, e esgotados todos os meios de negociação pacífica,
não se poderá negar aos governos o direito de legítima defesa” (Gaudium et Spes 79,4).
2309. É preciso considerar com rigor as condições estritas de uma legítima defesa
pela força militar. A gravidade de tal decisão a submete a condições rigorosas de legitimidade
moral. É preciso ao mesmo tempo que:
- o dano infligido pelo agressor à nação ou à comunidade de nações seja durável,
grave e certo;
- todos os outros meios de pôr fim a tal dano se tenham revelado impraticáveis ou
ineficazes.
- estejam reunidas as condições sérias de êxito.
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- o emprego das armas não acarrete males e desordens mais graves do que o mal a
eliminar. O poderio dos meios modernos de destruição pesa muito na avaliação desta
condição.
Estes são os elementos tradicionais enumerados na chamada doutrina da “guerra
justa”.

ALGUNS PRINCÍPIOS ÉTICOS


Quando se trata da morte indireta e involuntária de um inocente, é preciso conhecer
alguns princípios éticos.

O PRINCÍPIO DO MAL MENOR

Deve-se distinguir entre mal físico e mal moral.


O mal moral, por ser uma desordem no plano de Deus, nunca pode ser escolhido.
Um mal físico (como bater em um filho) pode ser praticado para evitar um mal
moral (uma falta grave cometida por ele).
Diante da imposição de cometer o mal moral (como oferecer incenso aos ídolos)
deve-se preferir o sacrifício da própria vida (martírio, por crucifixão ou decapitação), que é
um mal físico. E isso não equivale a um suicídio, pois a culpa recai sobre quem impôs esse
conflito (o perseguidor).
Quando se trata de dois males morais, a obrigação é de rejeitar os dois, pois o mal
moral nunca pode ser objeto de escolha. E isso até mesmo quando, ao se rejeitar o mal menor,
se provocar (involuntariamente) um mal maior.
Exemplo: na sua repartição pública, você recebe a ordem de furtar ou falsificar
documentos. Caso você não o faça, haverá violência sexual ou a morte de certas pessoas.
Como o furto é um mal moral, ele não deve ser praticado, ainda que dessa rejeição
resulte, como vingança, males maiores. Se tais males vierem a acontecer, isso não seria
imputável a quem decidiu não realizar o mal.
“Mas o exemplo mais fácil e freqüente é o do médico de família ou do ginecologista
que se vê diante do dilema posto pelo paciente que pede a prescrição de contraceptivos para
não pôr em prática a idéia de aborto (um mal maior diante da contracepção). A eventualidade
de um aborto não seria imputável ao médico, especialmente quando este tivesse explicado ao
paciente que era má tanto uma coisa como outra e que existiam meios de evitar ambas as
situações” (ELIO SGRECCIA, Manual de Bioética; I – Fundamentos e Ética Biomédica, São
Paulo, Edições Loyola, 1996, p.170).

O PRINCÍPIO DA TOTALIDADE

As partes estão submetidas ao todo. É lícito (e às vezes até obrigatório) amputar uma
das partes do organismo a fim de evitar a morte da pessoa.
Pode-se extrair um braço que está gangrenado, um apêndice que está infeccionado,
um útero que está canceroso, a fim de salvar o organismo.
Algumas condições para a aplicação do princípio da totalidade:
1) que se trate de uma intervenção sobre a parte doente ou que é diretamente a causa
do mal, para salvar o organismo são;
2) que não haja outros modos ou meios para fugir da doença;
3) que haja boa chance, proporcionalmente grande, de sucesso;
4) que se tenha o consentimento do paciente.
11
Pergunta: a mutilação de um órgão sadio (como a ligadura de trompas) feita com o
fim de evitar uma nova gravidez que, com muita probabilidade resultaria na morte da mãe
e/ou do bebê, pode ser justificada pelo princípio de totalidade? Por quê?

O PRINCÍPIO DA CAUSA COM DUPLO EFEITO

Não temos o direito de praticar atos moralmente maus, nem sequer com boa
intenção. Mas freqüentemente, ao praticarmos um ato bom, com um fim bom, deparamo-nos
com um efeito secundário mau. Assim, por exemplo, tomamos uma aspirina (ato bom) para
curar uma dor de cabeça (fim bom), mas sabendo que ela poderá atacar o estômago (efeito
secundário mau). Podemos praticar tais atos, que tenham duplo efeito: um bom e outro mau?
Sim, mas com algumas condições.
Pode-se praticar um ato moralmente bom que tenha dois efeitos: um bom e outro
mau, desde que:
a) a intenção do agente seja obter o efeito bom, e não o mau;
b) que o efeito bom seja obtido diretamente da ação, e não através do efeito mau;
c) que o efeito bom seja proporcionalmente superior ou ao menos equivalente ao
efeito mau;
d) que não haja outro meio de se obter tal efeito bom, a não ser praticando a ação
boa que produz tal efeito secundário mau.
Note-se bem que não se trata de “praticar um ato mau com boa intenção”. Isso nunca
é moralmente lícito. O fim não justifica os meios, embora Maquiavel tenha dito o contrário.
No princípio em questão, trata-se de praticar um ato bom com boa intenção, mas
que produz um efeito colateral mau.

No caso do paciente que toma aspirina.


a) a intenção do agente é curar sua dor de cabeça (efeito bom) e não causar dano ao
seu estômago (efeito mau).
b) a cura da dor de cabeça (efeito bom) é obtida diretamente da ação de tomar
aspirina, e não através do dano causado ao estômago. Se, absurdamente, a pessoa não tomasse
a aspirina mas danificasse seu próprio estômago, tal dano não iria causar a cura de sua dor de
cabeça.
c) como a chance de danificar o estômago é remota, especialmente se a aspirina é
ingerida com leite, o efeito bom (a cura da dor de cabeça) é proporcionalmente superior ao
possível efeito mau.
d) poderia haver outros analgésicos com o mesmo efeito bom, mas talvez eles
tenham outros efeitos colaterais maus, igualmente remotos.

Um outro caso: uma mulher grávida descobre que está com o útero canceroso. O
médico lhe diz que é preciso fazer uma histerectomia (remoção do útero) para extirpar o
tumor. Diz também que o tumor está em rápida expansão, de modo que essa cirurgia deve ser
feita urgentemente, e não após o nascimento da criança, senão a mulher morrerá em
pouquíssimo tempo. Analisemos moralmente este caso:
a) a intenção do médico é salvar a vida da gestante (efeito bom) e não causar a morte
da criança (efeito mau). Tal cirurgia seria feita ainda que a mulher não estivesse grávida.
b) a salvação da vida da gestante (efeito bom) é obtida diretamente da histerectomia,
e não através da morte da criança. Se, absurdamente, o médico não extirpasse o tumor, mas
simplesmente matasse a criança, não salvaria a vida da mãe.
c) no caso, o efeito mau (a morte do bebê) não é superior, mas pelo menos
equivalente ao efeito bom (a salvação da vida da mãe).
12
d) não há outro meio de se salvar a gestante, a não ser praticando (com urgência, sob
pena de metástase) a histerectomia, que terá como efeito secundário e indesejado a morte do
bebê.

Verifique se se aplica o caso do princípio da causa com duplo efeito nos seguintes
exemplos:
1) Para aliviar as dores agudas de um doente de tumor ósseo, deve-se recorrer ao uso
de morfina, surgindo daí um efeito negativo, ou seja, o hábito (que exige doses cada vez mais
fortes para acalmar a dor) e um possível abreviamento da vida e da resistência física do
sujeito.

2) Um médico opera um tumor em órgãos ligados à procriação e, indiretamente,


causa a esterilidade.

3) Um médico prescreve um anticoncepcional, não para inibir a ovulação (e tornar a


mulher infértil) mas para regular as disfunções de uma policistose ovárica. No entanto, tal
droga causará uma infertilidade temporária (cf. ELIO SGRECCIA, Manual de Bioética; I –
Fundamentos e Ética Biomédica, São Paulo, Edições Loyola, 1996, p.330).

4) Uma mulher grávida sofre de uma infecção renal. O médico prescreve-lhe um


antibiótico. Há, porém, o perigo remoto de a droga causar danos ao nascituro. No entanto, não
há outro antibiótico que seja menos nocivo ao bebê e nem é possível esperar o nascimento da
criança para iniciar o tratamento.

5) Uma mulher grávida sofre de enjôo e resolve tomar talidomida. O objetivo não é
causar deformação no bebê (que é um efeito da droga), mas tão-somente curar seu enjôo.

6) Um médico (obviamente ignorante) acredita que a cura de uma cardiopatia só será


obtida se a mulher grávida for submetida a um aborto. Tal aborto, conhecido como “aborto
terapêutico” ou “aborto necessário” é feito com a intenção de curar a gestante.

7) Um médico, cheio de boas intenções, recomenda a uma mulher pobre, mãe de


doze filhos, que se submeta a uma laqueadura (ligadura de trompas), a fim de evitar que ela
conceba um filho que teria dificuldade de sustentar.

8) Um navio está para atacar uma cidade. Como legítima defesa, um avião sobrevoa
o mar com a intenção de bombardear o agressor. No entanto, antes de lançar a bomba, observa
que há crianças inocentes brincando no convés. O piloto deve ou não deve lançar a bomba
sobre o navio?

CURSO DE BIOÉTICA
Terceira aula
Pe. Luiz Carlos Lodi da Cruz

O INÍCIO DO INDIVÍDUO HUMANO

O indivíduo humano começa com a concepção.


Concepção ou fertilização é a união dos dois gametas: o óvulo (gameta feminino) e
o espermatozóide (gameta masculino).
13

“O primeiro dado incontestável, esclarecido pela genética, é o seguinte: no momento


da fertilização, ou seja, da penetração do espermatozóide no óvulo, os dois gametas dos
genitores formam uma nova entidade biológica, o zigoto, que carrega em si um novo projeto-
programa individualizado, uma nova vida individual.” (ELIO SGRECCIA, Manual de
Bioética; I – Fundamentos e Ética Biomédica, São Paulo, Edições Loyola, 1996, p.342).

“As duas respectivas células gaméticas têm em si um patrimônio bem definido, o


programa genético, reunido em torno dos 23 pares de cromossomos: cada uma das células
gaméticas tem a metade do patrimônio genético em relação às células somáticas do organismo
dos pais e com uma informação genética qualitativamente diferente das células somáticas dos
organismos paterno e materno. Esses dois gametas diferentes entre si, diferentes das células
somáticas dos pais, mas complementares entre si, uma vez unidos ativam um novo projeto-
programa, pelo qual o recém-concebido fica determinado e individuado.
Sobre essa novidade do projeto-programa resultante da fusão dos 23 pares de
cromossomos não existe a menor dúvida, e negá-lo significaria rejeitar os resultados certos da
ciência.” (idem).

“Para resumir e confirmar o que foi dito até aqui, relembro o conteúdo do documento
"Identidade e estatuto do embrião humano" do Centro de bioética da Universidade Católica,
que assim se pronuncia a esse respeito: "A primeira ordem de dados deriva do estudo do
zigoto e de sua formação. Desses dados conclui-se que, durante o processo de fertilização,
mal o óvulo e o espermatozóide - dois sistemas celulares teleologicamente programados —
interagem, imediatamente se inicia um novo sistema, que tem duas características
fundamentais:
1. O novo sistema não é uma simples soma de dois subsistemas, mas é um sistema
combinado, que, a seguir à perda da própria individuação e autonomia por parte dos dois
subsistemas, começa a operar como uma nova unidade, intrinsecamente determinada a atingir
sua forma específica terminal, se forem postas todas as condições necessárias. Daí a clássica e
ainda corrente terminologia de `embrião unicelular' (one cell embryo).
14
2. O centro biológico ou estrutura coordenadora dessa nova unidade é o novo
genoma de que está dotado o embrião unicelular, ou seja, os complexos moleculares -
visivelmente reconhecíveis em nível citogenético nos cromossomos - que contêm e
conservam como que na memória um desenho-projeto bem definido, com a ‘informação’
essencial e permanente para a realização gradual e autônoma desse projeto. É esse genoma
que identifica o embrião unicelular como biologicamente humano e especifica sua
individualidade. É esse genoma que confere ao embrião enormes potencialidades
morfogenéticas, que o próprio embrião irá executando gradualmente durante todo o
desenvolvimento, por meio de uma contínua interação com seu ambiente tanto celular como
extracelular e das quais recebe sinais e materiais"” (idem, página 343, citando CENTRO DE
BIOÉTICA, Universidade Católica del Sacro Cuore, Identità e statuto dell’embrione umano,
22.06.1989, “Medicina e Morale”, 1989, 4 (supl.), pp. 665-666).

“O fato que se deve notar de modo especial é que esse novo programa não é inerte
nem ‘executado’ por órgãos fisiológicos maternos, os quais se serviriam do programa do
modo como um arquiteto se serve do projeto, ou seja, como um esquema passivo, mas é um
novo projeto que se constrói a si mesmo e é o ator principal de si. Ainda que permaneçam
ativos por algum tempo os sistemas de informação de origem materna que tinham levado o
óvulo à maturação, entram em ação, todavia, desde o primeiro momento da fertilização, os
sistemas de controle do zigoto, que assumem totalmente seu controle antes mesmo da
implantação: da formação dos blastômeros por replicação-duplicação até a formação do
blastocisto e a nidação, o piloto ou o arquiteto da construção é constituído pelo que vem da
informação genética intrínseca à nova realidade” (ELIO SGRECCIA, Manual de Bioética; I
– Fundamentos e Ética Biomédica, São Paulo, Edições Loyola, 1996, p.343-344).

O DESENVOLVIMENTO EMBRIONÁRIO

Propriedades do desenvolvimento embrionário:

1. Coordenação. Em todo o processo da formação a partir do zigoto, há uma


sucessão de atividades moleculares e celulares sob a guia da informação contida no genoma e
sob o controle de sinais originários de interações que se multiplicam incessantemente em
todos os níveis, dentro do próprio embrião e entre este e seu ambiente. Justamente dessa guia
e desse controle é que deriva a expressão coordenada de milhares de genes estruturais que
implica e confere um vínculo estreito com o organismo que se desenvolve no espaço e no
tempo.
2. Continuidade. O ‘novo ciclo vital’ que se inicia com a fertilização prossegue sem
interrupção - se se verificam as condições exigidas. Os eventos, p. ex. a replicação celular, a
determinação celular, a diferenciação dos tecidos e a formação dos órgãos, aparecem,
obviamente, como sucessivos. Mas o processo em si mesmo da formação do organismo é
contínuo. É sempre o mesmo indivíduo que vai adquirindo sua forma definitiva. Se esse
processo fosse interrompido, a qualquer momento, teríamos a morte do indivíduo.
3. Gradação. É uma lei intrínseca do processo de formação de um organismo
pluricelular o fato de ele adquirir a sua forma final através da passagem de formas mais
simples a formas cada vez mais complexas. Essa lei da gradação na aquisição da forma
terminal implica que o embrião, a partir do estado de célula, mantenha permanentemente sua
própria identidade e individualidade através de todo o processo (cf. ELIO SGRECCIA,
Manual de Bioética; I – Fundamentos e Ética Biomédica, São Paulo, Edições Loyola, 1996,
p.344-345).
15
A Fecundação ou Concepção ou Fertilização
A fecundação do óvulo pelo espermatozóide se dá, de 12 a 24 horas após a ovulação.
O zigoto avança para o útero, ao mesmo tempo que se iniciam no seu interior as primeiras
divisões celulares.
A Implantação ou Nidação
Cerca de seis dias depois da fertilização, o processo de multiplicação da célula está
em curso e o embrião (agora chamado blastócito) começa a implantar-se no revestimento
nutriente do útero, o endométrio.
A implantação no útero se completa em torno do 12º dia após a fertilização.

Resumo da vida intra-uterina


Esta fase intra-uterina da vida foi muito bem descrita pelo Dr. William A. Liley,
conhecido como o "Pai da Fetologia", nos seguintes termos:
“O jovem ser, organizando seu ambiente e dirigindo seu destino com tenaz
determinação, se implanta na parede esponjosa. E, numa manifestação de vigor fisiológico,
suprime o período menstrual da mãe.
"Aquela será sua casa durante os próximos 270 dias e, para torná-la habitável, o
embrião desenvolve para si uma placenta e um envoltório protetor com o líquido
amniótico....
"Sabemos que o feto está sempre se movimentando em seu exuberante mundo, de tal
modo que o conforto do feto determina sua posição.
“Ele é reativo à dor, ao toque, ao frio, ao som e à luz.
Ele se alimenta do fluido amniótico, ingerindo-o em maior quantidade se este é
adoçado artificialmente, e em menor quantidade se tem um gosto que não lhe agrada.
"Ele soluça e chupa o dedo. Ele dorme e acorda. Não lhe agradam sinais repetitivos,
mas ele pode ser ensinado a distinguir dois sinais sucessivos.
E, finalmente, ele mesmo é quem determina o dia em que vai nascer, porque, sem
sombra de dúvida, o início do parto é uma decisão unilateral do feto.
"Este é pois o feto que conhecemos e que nós próprios fomos um dia. Este é o feto
que tratamos na obstetrícia moderna, o mesmo bebê do qual cuidamos antes e depois do
nascimento, e que, antes de ver a luz do dia, pode ficar doente e necessitar de diagnóstico e
tratamento como qualquer outro paciente”. 1

O Nascimento
Como observa o Dr. Jack Willke:
“Nascimento é a saída da criança do ventre materno, a secção do cordão umbilical,
e o começo da existência do filho, destacado fisicamente do corpo da mãe.
"A única mudança que se verifica com o nascimento é no sistema de apoio à vida
exterior do filho. O filho não é diferente antes e depois do nascimento, exceto no fato de ter
mudado o método de alimentação e de obtenção de oxigênio.
"Antes do nascimento, a alimentação e o oxigênio eram obtidos da mãe, através do
cordão umbilical. Após o nascimento, o oxigênio é obtido de seus próprios pulmões, e a
nutrição através de seu estômago, se ele está suficientemente desenvolvido para alimentar-se
dessa maneira”2

1
A. Witliam Liley, MD, A Case Against Abortion. Liberal Studies, Whitcombe & Tomb Ltd.,
1971. apud The Womb Becomes a Tomb, Pleasantville (NY), The American Society for the
Defense ot Tradition, Family and Property, 1992, p. 33. Ver também Liley, The Foetus in
Control of His Environment, in Hilgers e Horan, Abortion and Social Justice, pp. 27-36.
16

ABORTO
O MAIS COVARDE DE TODOS OS ASSASSINATOS

1. O que é o aborto?
"O aborto provocado é a morte deliberada e direta, independentemente da forma
como venha a ser realizada, de um ser humano na fase inicial de sua existência, que vai da
concepção ao nascimento"
(S.S. João Paulo II, Encíclica Evangelium Vitae, nº 58)

2.O que diz a Doutrina da Igreja sobre o aborto?


"O aborto direto, isto é, querido como fim ou como meio, constitui sempre uma
desordem moral grave, enquanto morte deliberada de um ser humano inocente"
(S.S. João Paulo II, Encíclica Evangelium Vitae, nº 62)

3. Podemos matar a criança para salvar a vida da mãe?


Não, assim como não podemos matar a mãe para salvar a vida da criança. Se
teoricamente tivéssemos que escolher entre dois assassinatos (matar a mãe versus matar a
criança) nada poderíamos fazer.
"Nunca é lícito, nem sequer por razões gravíssimas, fazer o mal [por exemplo, matar
a criança], para que daí provenha o bem [a saúde da mãe]" (S.S. Paulo VI, Encíclica
Humanae Vitae, nº 14)
Em outras palavras, um fim bom, por mais sublime que seja, não justifica um meio
mau.

4. O que vale mais: a vida da mãe ou a vida da criança?


O valor é absolutamente igual, enquanto ambos são seres humanos criados à
imagem e semelhança de Deus, possuidores de uma alma imortal e de um destino
sobrenatural. Não se pode dizer que a vida de um sadio vale mais do que a de um doente, que
a de um adulto vale mais que a de uma criança, que a de um inteligente vale mais do que a de
um débil mental. A vida é sagrada em si mesma e seu valor não se mede pela utilidade, pela
inteligência, pela idade ou por qualquer outro critério.

5. E se a mãe precisar tomar um remédio ou fazer uma cirurgia durante a


gravidez, e se isto resultar na morte da criança?
Neste caso a morte da criança não é diretamente provocada nem sequer desejada,
mas somente tolerada como efeito secundário de uma ação boa.
Por exemplo: uma intervenção cirúrgica cardiovascular em uma mulher grávida pode
ter como conseqüência a morte do nascituro. Em tal caso, a morte do inocente não é um fim
visado pela cirurgia (o fim é a cura da cardiopatia). Também não é um meio (pois não é a
morte da criança que “causa” a cura da mãe). É simplesmente um segundo efeito.
Para que se possa, porém, tolerar um efeito secundário mau, é preciso que o bem a
ser alcançado seja proporcionalmente superior ou ao menos equivalente a ele. No caso
relatado, a cirurgia não seria lícita se fosse possível esperar até o nascimento do bebê ou se
houvesse outro meio terapêutico que fosse inofensivo para a criança.
Nota :a mãe pode livremente e heroicamente, renunciar à cirurgia para preservar a
vida da criança. Em 1962 a Bem-aventurada Gianna Beretta Mola, médica pediatra italiana,

2
Dr. & Mrs. J.C. Wilke, Handbook on Abortion, Cincinnati (OH), Hayes Publishin Co., 1975,
pp. 24-25.
17
estando grávida, recusou submeter-se à extração do útero canceroso. Deu à luz e morreu uma
semana após o parto. Sua filha, Gianna Emmanuela, é hoje médica como a mãe.

6. Existe na medicina algum caso em que o aborto direto seja “necessário” para
salvar a vida da mãe?
Não existe. Houve tempo em que os médicos, mais por ignorância do que por falta de
recursos, faziam abortos em gestantes vítimas de tuberculose pulmonar, hipertensão arterial,
cardiopatias, vômitos incoercíveis e perturbações mentais. Porém, já na década de 50
verificou-se que as gestantes enfermas submetidas ao aborto tinham maior índice de óbitos e
agravamentos que aquelas que levavam a gravidez adiante. O aborto é não apenas um
assassinato covarde, mas ele é totalmente inútil para melhorar a saúde de uma gestante
enferma.

7. E se a gravidez resulta de estupro é lícito praticar o aborto?


Nunca! O estupro é uma circunstância acidental que não muda a moralidade do ato.
Do mesmo modo não se pode matar uma criança nascida de um adultério ou de um ato de
prostituição.
"Nenhuma circunstância, nenhum fim, nenhuma lei no mundo poderá jamais tornar
lícito um ato que é intrinsecamente ilícito, porque contrário à Lei de Deus, inscrita no
coração de cada homem, reconhecível pela razão, e proclamada pela Igreja" (S.S. João Paulo
II, Encíclica Evangelium Vitae, nº 62).
Aliás, que culpa tem a criança para merecer a morte? Quem deve ser punido é o
estuprador! Transferir a pena para a criança inocente é uma injustiça monstruosa. Mais
monstruosa que o próprio estupro! Alguém mataria uma criança de três anos concebida em
um estupro? Se não podemos matá-la após o nascimento, por que então será lícito matá-la no
útero materno?
Se legalizarmos o aborto em caso de estupro, deveremos logicamente autorizar o
assassinato de todos os adultos nascidos de um estupro.
A repugnância contra o crime nunca pode converter-se em repugnância contra um
inocente concebido neste crime. A vida é sempre um dom de Deus, ainda que gerada em
circunstâncias pecaminosas.

8. Se a mulher fizer uma ultra-sonografia e descobrir que a criança está doente,


pode fazer o aborto?
Nunca. A criança doente deve ser mais amada pelos pais, e não ser assassinada por
eles.

9. E se a criança estiver com uma doença incurável, e só vá sobreviver por


alguns dias?
Nenhum de nós pode matar alguém, só porque está à beira da morte. Poderíamos, por
exemplo, matar um aidético ou um canceroso? Todos nós vamos morrer, mas ninguém pode
nos matar dizendo que quer apenas “antecipar a nossa morte”.

10. Uma criança sem cérebro tem vida?


É claro que tem! Se não tivesse vida, ela nunca morreria. Mas se ela morre é porque
tem vida. E se tem vida, não podemos matá-la.

11. Qual é a pena que sofre alguém que pratica aborto?


Sofre a pena de excomunhão, que só pode ser absolvida pelo bispo diocesano ou
pelos padres a quem o bispo tiver dado a delegação de absolver tal excomunhão.
18

A ANTICONCEPÇÃO
(transcrito da encíclica Humanae Vitae, do Papa Paulo VI, 1968)

O ato sexual deve ser aberto à procriação.


11.“... a Igreja ensina que qualquer ato matrimonial (quilibet matrimonii usus) deve
permanecer aberto à transmissão da vida.”
Inseparáveis os dois aspectos: união e procriação
“12. Esta doutrina, muitas vezes exposta pelo Magistério, está fundada sobre a conexão
inseparável que Deus quis e que o homem não pode alterar por sua iniciativa, entre os dois
significados do ato conjugal: o significado unitivo e o significado procriador.”
Aborto, esterilização e anticoncepção
“14. Em conformidade com estes pontos essenciais da visão humana e cristã do
matrimônio, devemos, mais uma vez, declarar que é absolutamente de excluir, como via
legítima para a regulação dos nascimentos, a interrupção direta do processo generativo já
iniciado, e sobretudo, o aborto querido diretamente e procurado, mesmo por razões
terapêuticas.
É de excluir de igual modo, como o Magistério da Igreja repetidamente declarou, a
esterilização direta, tanto perpétua como temporária, e tanto do homem como da mulher; é,
ainda, de excluir toda ação que, ou em previsão do ato conjugal, ou durante sua realização, ou
também durante o desenvolvimento de suas conseqüências naturais, se proponha, com fim ou
como meio, tornar impossível a procriação.”
Não vale o princípio do mal menor
“Não se podem invocar, como razões válidas, para a justificação dos atos conjugais
tornados intencionalmente infecundos, o mal menor, ou o fato de que tais atos constituiriam
um todo com os atos fecundos, que foram realizados ou que depois se sucederam, e que,
portanto, compartilhariam da única e idêntica bondade moral dos mesmos. Na verdade, se é
licito, algumas vezes, tolerar o mal menor para evitar um mal maior, ou para promover um
bem superior, nunca é lícito, nem sequer por razões gravíssimas, fazer o mal, para que daí
provenha o bem; isto é, ter como objeto de um ato positivo da vontade aquilo que é
intrinsecamente desordenado e, portanto, indigno da pessoa humana, mesmo se for praticado
com intenção de salvaguardar ou promover bens individuais, familiares. ou sociais.
É um erro, por conseguinte, pensar que um ato conjugal, tornado voluntariamente
infecundo, e por isso intrinsecamente desonesto, possa ser coonestado pelo conjunto de uma
vida conjugal fecunda.”
A regulação natural da fertilidade
“16. [...] Se, portanto, existem motivos sérios para distanciar os nascimentos, que
derivem ou das condições físicas ou psicológicas dos cônjuges, ou de circunstâncias
exteriores, a Igreja ensina que então é lícito ter em conta os ritmos naturais imanentes às
funções geradoras, para usar do matrimônio só nos períodos infecundos e, deste modo, regular
a natalidade, sem ofender os princípios morais que acabamos de recordar”
(termina aqui a transcrição da encíclica Humanae Vitae)

UMA QUESTÃO TERMINOLÓGICA


Que é planejamento familiar?
Nenhum documento oficial da Igreja usou o termo “planejamento familiar”, nem
“planejamento familiar natural”. Usa-se sim, várias vezes, o termo “paternidade responsável”
ou “procriação responsável”.
19
Planejamento familiar é um eufemismo para “controle de natalidade” e inclui o uso de
todos os meios (inclusivo a anticoncepção, a esterilização e o aborto) para o casal, por sua
própria vontade (não necessariamente pela vontade de Deus) decidir o número e o
espaçamento de seus filhos. A maior rede privada de anticoncepção ,esterilização e aborto
chama-se IPPF (Federação Internacional de Paternidade Planificada), tendo como filial
brasileira a BEMFAM.
Paternidade responsável é um termo comum na Igreja Católica, embora também seja
mal usado por seus inimigos.
“Em relação às condições físicas, econômicas, psicológicas e sociais, a paternidade
responsável exerce-se tanto com a deliberação ponderada e generosa de fazer crescer uma
família numerosa, como com a decisão, tomada por motivos graves [cuidado com esta
palavra!] e com respeito à lei moral, de evitar temporariamente, ou mesmo por tempo
indeterminado, um novo nascimento” (Humanae Vitae, n.º 10).

PODERIA A IGREJA ALGUM DIA ACEITAR A ANTICONCEPÇÃO?

“A Igreja ensinou sempre a malícia intrínseca da contracepção, isto é, de todo ato


conjugal tornado, intencionalmente infecundo. Deve reter-se este ensinamento como uma
doutrina definitiva e irreformável. A contracepção opõe-se gravemente à castidade
matrimonial, é contrária ao bem da transmissão da vida (aspecto procriativo do matrimônio),
e à doação recíproca dos cônjuges (aspecto unitivo do matrimônio), lesa o verdadeiro amor e
nega a função soberana de Deus na transmissão da vida humana” (PONTIFÍCIO CONSELHO
PARA A FAMÍLIA, Vademecum para os confessores sobre alguns temas de moral
relacionados com a vida conjugal, 1997, n.º 4)

PODE-SE USAR UM “MÉTODO NATURAL” POR QUALQUER MOTIVO?

“...será conveniente [para o confessor] averiguar a solidez dos motivos que se têm para
a limitação da paternidade ou maternidade e a liceidade dos métodos escolhidos para
distanciar e evitar uma nova concepção” (PONTIFÍCIO CONSELHO PARA A FAMÍLIA,
Vademecum para os confessores sobre alguns temas de moral relacionados com a vida
conjugal, 1997, n.º 12)

DIDATICAMENTE, EM FORMA DE PERGUNTAS E RESPOSTAS

1. Para que serve a união sexual?


Para exprimir o amor entre os cônjuges e para transmitir a vida humana.
2. Toda relação sexual tem que gerar filhos?
Não necessariamente. Mas é ela deve estar sempre aberta à procriação. Senão ela deixa
de ser um ato de amor para ser um ato de egoísmo a dois.
3. Uma mulher depois da menopausa não pode mais ter filhos. Ela pode continuar
a ter relações sexuais com seu marido?
Pode. Pois não foi ela quem pôs obstáculos à procriação. Foi a própria natureza que a
tornou infecunda.
4. Um homem que tenha o sêmen estéril não pode ter filhos. Mesmo assim ele pode
ter relação sexual com sua esposa?
Pode. Pois não foi ele quem pôs obstáculos à procriação. Foi a própria natureza que o
tornou infecundo.
5. E se o homem ou a mulher decidem por vontade própria impedir que a relação
sexual produza filhos?
20
Neste caso eles estarão pecando contra a natureza. Pois é antinatural separar a união da
procriação.
6. Quais são os meios usados para separar a união da procriação?
Há vários meios, todos eles pecaminosos:
a) o onanismo ou coito interrompido: consiste em interromper a relação sexual antes da
ejaculação (ver Gn 38,6-10)
b) os métodos de barreira, como o preservativo masculino (condom ou “camisinha de
vênus”), o diafragma e o preservativo feminino.
c) as pílulas e injeções anticoncepcionais, que são substâncias tomadas pela mulher para
impedir a ovulação.
7. Como é que a pílula anticoncepcional funciona?
A pílula anticoncepcional é um conjunto de dois hormônios - o estrógeno e a
progesterona - que a mulher toma para enganar a hipófise (uma glândula situada dentro do
crânio) e impedir que ela produza o hormônio FSH, que faz amadurecer um óvulo. A mulher
que toma pílula deixa de ovular, pois a hipófise está sempre recebendo a mensagem falsa de
que ela está grávida.
8. A pílula é um remédio para não ter filhos?
Não é um remédio, mas um veneno. Você não chamaria de remédio a um comprimido
que alguém tomasse para fazer o coração parar de bater ou para fazer o pulmão deixar de
respirar. O que a pílula faz é que o ovário (que está funcionando bem) deixe de funcionar.
Logo ela é um veneno.
9. Quais são os efeitos deste veneno?
Além de fechar o ato sexual a uma nova vida, a pílula traz graves conseqüências para a
saúde da mulher. São elas:
- doenças circulatórias: varizes, tromboses cerebrais e pulmonares, tromboflebites,
trombose da veia hepática, enfarto do miocárdio
- aumento da pressão arterial
- tumores no fígado
- câncer de mama
- problemas psicológicos, como depressão e frigidez
- obesidade
- manchas de pele
- cefaléias (dores de cabeça)
- certos distúrbios de visão
- aparecimento de caracteres secundários masculinos
- envelhecimento precoce

10. É verdade que as pílulas de hoje têm menos efeitos colaterais do que as de
antigamente?
É verdade. Para reduzir os efeitos colaterais, os fabricantes diminuíram a dose de
estrógeno e progesterona presentes na pílula. Isto significa que cada vez menos a pílula é
capaz de impedir a ovulação.
11. Assim as mulheres de hoje que usam pílula podem ovular?
Podem. E caso tenham relação sexual podem conceber. Mas quando a criança concebida
na trompa chegar ao útero, não encontrará um revestimento preparado para acolhê-la. O
resultado será um aborto.
12. Então a pílula anticoncepcional é também abortiva?
Sim. Este é um dos seus mecanismos de ação: impedir a implantação da criança no
útero. Isto está escrito, por exemplo, na bula de anticoncepcionais como Evanor e Nordette:
“mudanças no endométrio (revestimento do útero) que reduzem a probabilidade de
21
implantação (da criança)”. A bula de Microvlar diz: “Além disso, a membrana uterina não
está preparada para a nidação do ovo (a criança)”.
13. Em resumo, quais são os mecanismos de ação das pílulas ou injeções
anticoncepcionais?
a) inibir a ovulação;
b) aumentar a viscosidade do muco cervical, dificultando a penetração dos
espermatozóides;
c) impedir a implantação da criança concebida (aborto).
14. Existem dias em que a mulher não é fértil. Nesses dias o casal pode ter relação
sexual?
Pode. Pois ao fazer isso eles não colocam nenhum obstáculo à procriação. A própria
natureza é que não é fértil naqueles dias.
15. O casal pode procurar voluntariamente ter relações sexuais somente nos dias
que não são férteis, a fim de impedir uma nova gravidez?
Pode, mas deve ter razões sérias para isso. Pois em princípio um filho não deve ser
“evitado”, mas desejado e recebido com amor. Uma família numerosa sempre foi considerada
uma bênção de Deus.
16. Dê um exemplo de razões que seriam válidas para se limitar ou espaçar os
nascimentos.
Problemas sérios de saúde, que poriam em risco a vida da mulher em uma nova
gravidez; ou problemas financeiros sérios (que impedissem de fato que o casal sustentasse
uma família numerosa).
17. Um casal poderia utilizar um método natural sem ter nenhum motivo sério
para ter poucos filhos?
Não. Se fizesse isso estaria frustrando o plano de Deus, que disse: “Crescei e
multiplicai-vos”. O normal para um casal é ter muitos filhos.
18. É mais fácil educar um só filho do que muitos?
Não. Um filho único está arriscado a ser uma criança problema. Recebe toda a atenção
dos pais e não está acostumado a dividir. Poderá ter dificuldade no futuro ao ingressar na
sociedade. Já um filho com muitos irmãos acostuma-se desde pequeno às regras do convívio
social. Os irmãos maiores ajudam a cuidar dos menores, e todos crescem juntos.
19. Quantos métodos naturais existem para regulação da fertilidade?
a) o método Ogino Knauss, ou método da tabela. É o mais antigo de todos e supõe que a
mulher tenha um ciclo menstrual regular. Hoje seu uso está abandonado. Estranhamente, a
Pastoral da Criança resolveu ressuscitá-lo sob o nome de “método do colar”.
b) o método da temperatura: baseia-se na observação da temperatura da mulher, que
varia quando ocorre ovulação. Inconvenientes: necessidade de se ter um termômetro, saber
usá-lo, lembrar-se de usá-lo diariamente à mesma hora e saber fazer um gráfico. Além disso, a
temperatura pode variar por outros motivos, como uma gripe ou a ingestão de um analgésico.
O aparelho Mini-Sophia é uma versão eletrônica e computadorizada do uso deste método.
c) o método Billings, que se baseia na observação do muco cervical, que torna-se fluido
e úmido nos dias férteis, e seco nos dias inférteis. Não exige que o ciclo menstrual seja
regular. Pode ser usado pelos casais mais pobres e mais incultos.

20. É verdade que o método Billings “não funciona”?


“Não funciona” para os fabricantes de anticoncepcionais, que não querem perder seus
lucros. Mas a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou que a eficiência do método é
de 98,5 %. Ele foi testado em diversos países como Filipinas, Índia, Nova Zelândia, Irlanda e
El Salvador.
22
21. Mas não é muito mais cômodo tomar a pílula anticoncepcional do que abster-se
de relações sexuais em certos dias?
Sem dúvida é mais cômodo. Mas o verdadeiro amor se prova pelo sacrifício.
22. E se a mulher engravidar apesar de usar o método natural?
O filho deve ser recebido com amor e alegria. Aliás, o casal já deveria estar contando
com esta possibilidade. A atitude de abertura à vida é fundamental para o verdadeiro amor.

ESTERILIZAÇÃO

1. O que é a esterilização?
É a mutilação de um órgão reprodutor, feita a fim de que ele não mais possa funcionar.
2. Que tipos de esterilização existe?
A esterilização do homem é feita pela vasectomia. A esterilização da mulher é feita pela
ligadura de trompas.
3. Como a vasectomia estraga o aparelho reprodutor masculino?
Através de um corte nos vasos e canais que conduzem os espermatozóides dos testículos
para a vesícula seminal.
4. Como a ligadura de trompas estraga o aparelho reprodutor feminino?
As trompas são ligadas ou extirpadas, e assim o óvulo não pode mais caminhar para o
útero nem se encontrar com o espermatozóide.
5. Nós temos o direito de amputar um órgão do nosso corpo?
Não, a menos que seja um órgão doente e que ponha em risco a saúde de todo o
organismo (por exemplo, um braço com gangrena). Mas amputar um órgão sadio é sempre um
pecado. Por exemplo, não podemos pedir a um médico para arrancar nossos olhos ou nossas
mãos, se estiverem sadios.
6. E se alguém pede a um médico para mutilar e estragar um órgão reprodutor?
O pecado é maior, pois trata-se de um órgão criado por Deus para a sublime missão de
transmitir a vida.
7. E se a mulher por problemas de saúde for desaconselhada de ter mais filhos,
pode fazer ligadura de trompas?
De jeito nenhum. Não podemos estragar seus órgãos reprodutores, se eles estão sadios.
8. Mas se ela não se operar, vai acabar morrendo na próxima gravidez...
E quem disse que ela é obrigada a engravidar? A gravidez não vem por acaso, mas é
sempre fruto de uma relação sexual. E a relação sexual é um ato livre. Ninguém é “obrigado”
a praticá-la. Se não convém para a saúde uma nova gravidez, o casal pode muito bem abster-
se das relações sexuais no período fértil. Nunca é necessário nem lícito mutilar os órgãos
reprodutores.
9.Nem depois de uma certa idade a mulher tem o direito de se operar para não ter
mais filhos?
Não. A esterilização é pecado em qualquer idade em que seja praticada.
10. Nem o homem pode fazer vasectomia, se a esposa concordar?
Mesmo que a esposa concorde, Deus não concorda. Nunca é lícito estragar um órgão
sadio criado para transmitir a vida.
11. O que acontece com o casal que voluntariamente se esteriliza?
Ele passa a viver fechado no seu egoísmo, sem qualquer abertura à uma nova vida. Um
já não pode mais dizer para o outro “Eu te amo” sem dizer mentira. Pois o verdadeiro amor é
fecundo.
12. O casal que já se esterilizou não tem salvação?
Tem, desde que se arrependa sinceramente do pecado que cometeu. Convém que eles se
lembrem que o poder de procriar sempre foi considerado pela Bíblia uma bênção de Deus, e
23
que eles rejeitaram esta bênção. Mas todo pecado tem perdão, desde que o arrependimento
seja sincero.
13. Que pode fazer o casal esterilizado para compensar o pecado cometido?
Para evitar que o corpo de um se torne para o outro um simples brinquedo ou objeto de
prazer a ser usado a qualquer hora e sem nenhum custo, o casal poderia, de comum acordo,
decidir abster-se de relações sexuais durante alguns dias do mês. Poderia também, por
exemplo, adotar crianças, ensinar os outros casais a valorizar o dom da vida, lutar contra o
aborto... Há ainda a chance remota de reversão da esterilização.
CURSO DE BIOÉTICA
Quarta aula

Pe. Luiz Carlos Lodi da Cruz

EUTANÁSIA

(Encíclica Evangelium Vitae, do Papa João Paulo II, 25/03/1995)

Definição de eutanásia
“65. Para um correto juízo moral da eutanásia, é preciso, antes de mais, defini-la
claramente. Por eutanásia, em sentido verdadeiro e próprio, deve-se entender uma ação ou
uma omissão que, por sua natureza e nas intenções, provoca a morte com o objetivo de
eliminar o sofrimento. «A eutanásia situa-se, portanto, ao nível das intenções e ao nível dos
métodos empregados».

Renúncia ao excesso terapêutico


Distinta da eutanásia é a decisão de renunciar ao chamado «excesso terapêutico», ou
seja, a certas intervenções médicas já inadequadas à situação real do doente, porque não
proporcionadas aos resultados que se poderiam esperar ou ainda porque demasiado gravosas
para ele e para a sua família. Nestas situações, quando a morte se anuncia iminente e
inevitável, pode-se em consciência «renunciar a tratamentos que dariam somente um
prolongamento precário e penoso da vida, sem, contudo, interromper os cuidados normais
devidos ao doente em casos semelhantes». Há, sem dúvida, a obrigação moral de se tratar e
procurar curar-se, mas essa obrigação há de medir-se segundo as situações concretas, isto é,
impõe-se avaliar se os meios terapêuticos à disposição são objetivamente proporcionados às
perspectivas de melhoramento. A renúncia a meios extraordinários ou desproporcionados não
equivale ao suicídio ou à eutanásia; exprime, antes, a aceitação da condição humana defronte
à morte.

Cuidados paliativos
Na medicina atual, têm adquirido particular importância os denominados «cuidados
paliativos», destinados a tornar o sofrimento mais suportável na fase aguda da doença e
assegurar ao mesmo tempo ao paciente um adequado acompanhamento humano. Neste
contexto, entre outros problemas, levanta-se o da licitude do recurso aos diversos tipos de
analgésicos e sedativos para aliviar o doente da dor, quando isso comporta o risco de lhe
abreviar a vida. Ora, se pode realmente ser considerado digno de louvor quem
voluntariamente aceita sofrer renunciando aos meios lenitivos da dor, para conservar a plena
lucidez e, se crente, participar, de maneira consciente, na Paixão do Senhor, tal
comportamento «heróico» não pode ser considerado obrigatório para todos. Já Pio XII
afirmara que é lícito suprimir a dor por meio de narcóticos, mesmo com a conseqüência de
limitar a consciência e abreviar a vida, «se não existem outros meios e se, naquelas
24
circunstâncias, isso em nada impede o cumprimento de outros deveres religiosos e morais». É
que, neste caso, a morte não é querida ou procurada, embora por motivos razoáveis se corra a
risco dela: pretende-se simplesmente aliviar a dor de maneira eficaz, recorrendo aos
analgésicos postos à disposição pela medicina. Contudo, «não se deve privar o moribundo da
consciência de si mesmo, sem motivo grave»: quando se aproxima a morte, as pessoas devem
estar em condições de poder satisfazer as suas obrigações morais e familiares, e devem
sobretudo poder preparar-se com plena consciência para o encontro definitivo com Deus.

Condenação da eutanásia
Feitas estas distinções, em conformidade com o Magistério dos meus Predecessores e
em comunhão com os Bispos da Igreja Católica, confirmo que a eutanásia é uma violação
grave da Lei de Deus, enquanto morte deliberada moralmente inaceitável de uma pessoa
humana. Tal doutrina está fundada sobre a lei natural e sobre a Palavra de Deus escrita, é
transmitida pela Tradição da Igreja e ensinada pelo Magistério ordinário e universal.
A eutanásia comporta, segundo as circunstâncias, a malícia própria do suicídio ou do
homicídio.”

SUICÍDIO

“66. Ora, o suicídio é sempre moralmente inaceitável, tal como o homicídio. A


tradição da Igreja sempre o recusou, como opção gravemente má. Embora certos
condicionalismos psicológicos, culturais e sociais possam levar a realizar um gesto que tão
radicalmente contradiz a inclinação natural de cada um à vida, atenuando ou anulando a
responsabilidade subjetiva, o suicídio, sob o perfil objetivo, é um ato gravemente imoral,
porque comporta a recusa do amor por si mesmo e a renúncia aos deveres de justiça e
caridade para com o próximo, com as várias comunidades de que se faz parte, e com a
sociedade no seu conjunto. No seu núcleo mais profundo, o suicídio constitui uma rejeição da
soberania absoluta de Deus sobre a vida e sobre a morte, deste modo proclamada na oração do
antigo Sábio de Israel: «Vós, Senhor, tendes o poder da vida e da morte, e conduzis os fortes à
porta do Hades e de lá os tirais» (Sl 16,13; cf. Tb 13,2).

Suicídio assistido
Compartilhar a intenção suicida de outrem e ajudar a realizá-la mediante o chamado
«suicídio assistido», significa fazer-se colaborador e, por vezes. autor em primeira pessoa de
uma injustiça que nunca pode ser justificada, nem sequer quando requerida. «Nunca é lícito -
escreve com admirável atualidade Santo Agostinho - matar o outro: ainda que ele o quisesse,
mesmo se ele o pedisse, porque, suspenso entre a vida e a morte, suplica ser ajudado a libertar
a alma que luta contra os laços do corpo e deseja desprender-se; nem é lícito sequer quando o
doente já não estivesse em condições de sobreviver». Mesmo quando não é motivada pela
recusa egoísta de cuidar da vida de quem sofre, a eutanásia deve designar-se uma falsa
compaixão, antes uma preocupante «perversão» da mesma: a verdadeira «compaixão», de
fato, torna solidário com a dor alheia, não suprime aquele de quem não se pode suportar o
sofrimento. E mais perverso ainda se manifesta o gesto da eutanásia, quando é realizado por
aqueles que - como os parentes - deveriam assistir com paciência e amor o seu familiar, ou
por quantos - como os médicos -, pela sua específica profissão, deveriam tratar o doente,
inclusive nas condições terminais mais penosas.”
(fim da transcrição da encíclica Evangelium Vitae)

SOBRE A CHAMADA “REPRODUÇÃO ASSISTIDA”


25

Costumam-se chamar técnicas de Reprodução Assistida (RA) aquelas que importam


na implantação artificial de gametas ou embriões humanos no aparelho reprodutor de
mulheres receptoras com a finalidade de facilitar a procriação. Que dizer a respeito disso? É
bom e louvável ajudar os casais inférteis a terem filhos. Os meios utilizados para isso, no
entanto, nem sempre são moralmente aceitáveis.
Diz o Catecismo da Igreja Católica: “As pesquisas que visam diminuir a esterilidade
humana devem ser estimuladas, sob a condição de serem colocadas ‘a serviço da pessoa
humana, de seus direitos inalienáveis, de seu bem verdadeiro e integral, de acordo com o
projeto e a vontade de Deus’”(Catecismo... n.º 2375).
Dizia Pio XII, por exemplo, em seu discurso às parteiras, que é lícito o uso de meios
artificiais encaminhados unicamente a facilitar a realização natural do ato sexual ou, uma vez
este ato realizado normalmente, que seja alcançado o seu fim. No entanto, a Igreja ensina que
nunca é lícito “fabricar” um filho fora do ato sexual. Todo ser humano tem o direito de ser
gerado em uma união física de amor, dentro do matrimônio. O matrimônio não dá aos
cônjuges o direito a terem filhos, custe o que custar, mas lhes dá o direito a realizar os atos
naturais que podem ter como resultado a procriação. Se assim não fosse, o matrimônio em
que um ou os dois cônjuges fosse estéril seria antinatural.
A esterilidade não deve levar o casal ao desespero de “fabricar” um filho em
laboratório. “O Evangelho mostra que a esterilidade física não é um mal absoluto. Os esposos
que, depois de terem esgotados os recursos legítimos da medicina, sofrerem de infertilidade,
unir-se-ão à Cruz do Senhor, fonte de toda fecundidade espiritual. Podem mostrar a sua
generosidade adotando crianças desamparadas ou prestando relevantes serviços em favor do
próximo” (Catecismo... n.º 2379).

INSEMINAÇÃO ARTIFICIAL
A introdução artificial do esperma dentro do organismo da mulher, ainda que o
esperma tenha sido produzido por seu marido (inseminação artificial homóloga) é um ato
gravemente desordenado. A malícia aumenta quando o esperma é proveniente de um terceiro
(inseminação artificial heteróloga), pois, neste caso, trata-se de um adultério.

FERTILIZAÇÃO IN VITRO
A fertilização in vitro (FIV) — seja ela homóloga ou heteróloga —, na qual o óvulo e
o esperma são juntados em um tubo de proveta e posteriormente se introduzem alguns
embriões no aparelho reprodutor da mulher, constitui também uma ofensa à dignidade do
matrimônio e à transmissão da vida.
Tanto a inseminação artificial como a fecundação in vitro têm um agravante: o
esperma do homem é obtido mediante a masturbação, que é um pecado grave.
No caso da fecundação in vitro, ocorre ainda outro problema: o excesso de embriões.
Para garantir êxito, o médico estimula uma super-ovulação, com injeções diárias de
hormônios durante dez dias. A mulher produz, então, cerca de 15 óvulos, ao invés de um. Os
óvulos, então, são postos em contato com os espermatozóides e são fecundados. Há agora
quinze ovos ou zigotos, ou seja, quinze seres humanos, como eu ou você, dentro de um tubo
de ensaio. Dos quinze, cerca de dez chegam ao estágio de embrião. Obviamente não se
colocam os dez embriões dentro do útero da mãe. Transferem-se normalmente quatro, dos
quais vários vão morrer sem conseguir ser implantados no endométrio. O eventual
sobrevivente desse holocausto nascerá, será fotografado e exibido em capa de revista, como
uma resultado glorioso da tecnologia.
26
E agora, uma pergunta crucial: o que fazer com os outros seis embriões que não foram
transferidos? A “solução” encontrada tem sido congelá-los em nitrogênio líquido
(criopreservação).
27

Resolução Normativa 1.358/92 do Conselho Federal de Medicina


"Normas Éticas para a Utilização das Técnicas de Reprodução Assistida".
"V - Criopreservação de Gametas ou Pré-Embriões3
1 - As clínicas, centros ou serviços podem criopreservar espermatozóides, óvulos e
pré-embriões.
2 - O número total de pré-embriões produzidos em laboratório será comunicado aos
pacientes, para que se decida quantos pré-embriões serão transferidos a fresco, devendo o
excedente ser criopreservado, não podendo ser descartado ou destruído."

Mas... congelar até quando? A crioconservação é cara e nem sempre os pais estão
dispostos a implantar os embriões excedentes. “Não se sabe exatamente quantos embriões
congelados existem no país. Mas pode-se ter uma idéia: três das maiores clínicas em São
Paulo reúnem, cada uma, cerca de mil embriões. Foram obrigadas a dobrar o espaço nas
geladeiras” (Excessos de Proveta, Época, 30 de agosto de 1999, p. 86).
Há no Congresso Nacional projetos de lei tentando “regulamentar” a chamada
“reprodução assistida”. Lamentavelmente, há a tendência de se permitir, ou até obrigar o
descarte dos embriões humanos excedentes.

CURSO DE BIOÉTICA
Quinta aula

Pe. Luiz Carlos Lodi da Cruz

A CASTIDADE

O respeito à vida exige o respeito à sua fonte, que é o ato sexual.


O sexo é tão sagrado quanto a vida por ele gerada.
Quem respeita o sexo, respeita a vida.
Quem profana o sexo, profana a vida.

Instinto é a tendência natural de um ser vivo a um objeto.


O instinto que leva o ser humano a alimentar-se chama-se instinto alimentar.
O instinto que leva o ser humano a atrair-se pelo de outro sexo chama-se instinto
sexual ou instinto reprodutor.

Os animais irracionais são escravos de seus instintos.


O cachorro, ao ver um pedaço de carne, avança para devorá-lo, ainda que não seja
hora da refeição ou que o pedaço não seja seu.
O homem, ainda que sinta fome e tenha o instinto de comer, sabe controlar-se para
esperar a hora da refeição. Sabe também não apropriar-se do alimento alheio.
No homem, o instinto alimentar é controlado pela razão.

3
O termo “pré-embrião” é preconceituoso. Designa os embriões já concebidos, mas ainda não implantados no
útero. O motivo pelo qual recentemente se têm chamado tais embriões de “pré-embriões” é sugerir que não se
tratam de seres humanos e que, portanto, podem ser descartados ou manipulados. Apesar disso, a Resolução
Normativa ainda não autoriza o seu descarte ou destruição.
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Na época do cio, os irracionais, como os gatos e cachorros, sentem-se atraídos pelos
indivíduos do outro sexo e acasalam-se. O acasalamento mais parece uma briga. Não há
promessa de fidelidade nem formação de uma família.
O homem, embora tenha instinto sexual, não é escravo dele. Pode sentir atração pela
pessoa do outro sexo, mas nem por isso está autorizado a unir-se ao corpo dela, a menos que
ela seja o seu cônjuge.

Castidade é a virtude de que regula o instinto sexual do homem segundo a razão.

Todos são chamados à castidade, pelo simples fato de serem racionais.


Os cristãos, porém, têm um motivo a mais para serem castos. Seus corpos foram
comprados por Cristo por um alto preço e tornaram-se templos do Espírito Santo.
Para um cristão, pecar contra a castidade equivale a cometer um sacrilégio.
“Ou não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo, que está em vós e que
recebestes de Deus? ... e que, portanto, não pertenceis a vós mesmos? Alguém pagou alto
preço pelo vosso resgate; glorificai, portanto, a Deus em vosso corpo” (1Cor 6,19-20)

PECADOS CONTRA A CASTIDADE

O vício oposto à castidade é a luxúria.


“A luxúria é um desejo desordenado ou um gozo desregrado do prazer venéreo. O
prazer sexual é moralmente desordenado quando é buscado por si mesmo, isolado das
finalidades de procriação e união” (Catecismo da Igreja Católica, n.º 2351).

Masturbação: é a excitação voluntária dos órgãos genitais a fim de se obter prazer


isoladamente, fora de uma união sexual. Reduz o próprio corpo a um objeto de prazer, fora de
uma união de amor e aberta à vida.

Fornicação: é a união sexual entre um homem e uma mulher solteiros. É um pecado


contrário à justiça, uma vez que, se o corpo alheio não me pertence, ao unir-me a ele, estou
praticando algo como um roubo. Mas, repita-se, não é o roubo de uma coisa qualquer: é de
algo sagrado, pelo qual Cristo pagou um alto preço.

Adultério: é a união sexual entre uma pessoa casada e outra que não seja o seu
cônjuge. Tem uma gravidade a mais sobre a fornicação: a traição do cônjuge.

Atos antinaturais: se a união carnal é realizada através da boca ou do ânus


(sodomia), comete-se um pecado contra a natureza, ainda que os dois sejam casados. O
casamento dá a um o direito ao corpo do outro, mas não faz com que o corpo do outro deixe
de ser sagrado ou deixe de merecer seu respeito.

Homossexualismo: é a união carnal de pessoas do mesmo sexo: dois homens


(pederastia) ou duas mulheres (lesbianismo). É um pecado contra a natureza. Sua gravidade é
tão grande que “clama a Deus por castigo”:
“Disse então Iahweh: ‘o grito contra Sodoma e Gomorra é muito grande! Seu pecado
é muito grave!’” (Gn 18,20). Por este pecado, hoje tão comum e motivo de passeatas de
“orgulho”, as duas cidades foram destruídas.

Bestialidade: é a união carnal entre um ser humano e um animal. Obviamente,


também é um pecado contra a natureza.
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O NAMORO

Pelo matrimônio, homem e mulher doam seus corpos, tornam-se uma só carne para
se completarem mutuamente e para se completarem mutuamente e para gerar filhos para
Deus.
Mas antes de doar os corpos é preciso aprender a doar as almas. Para isso existe o
namoro.

O namoro existe para conhecer, não o corpo, mas a alma do outro.


O namoro existe para eu doar, não meu corpo, mas minha alma ao outro.
O namoro é tão sagrado quanto o matrimônio que ele prepara, quanto a família que
vai-se constituir e quanto a vida que será gerada. Portanto,

O respeito á vida exige que o namoro seja santo.

Como conhecer a alma do outro? Através do diálogo.


Neste conhecimento de almas, que é o namoro, o contato entre os corpos geralmente
atrapalha.

Dois “namorados” procuram um lugar escuro (apesar de ser em batizados e “filhos


da luz”), escondem-se dos outros (pois sabem que o que pretendem fazer é vergonhoso, dão
abraços agarrados e beijos na boca. Ao fazer isso, eles estão-se conhecendo?
Claro que não. Pois a carne está falando tão alto, as paixões estão gritando tanto, que
o espirito fica surdo e mudo. Naquele momento, um não conhece o outro . mas apenas sua
carne.
Se eles não se conhecem, também não se amam, pois ninguém ama aquilo que não
conhece. Se um diz ao outro “Eu te amo” está mentindo. Eles poderiam dizer “Eu gosto de
você”. ou, melhor ainda, “Eu gosto do seu corpo”. Gostar é diferente de amar. Quem gosta de
uma coxinha de galinha devora-a e depois joga fora o osso. Assim, os dois “namorados”
praticam um ato de egoísmo a dois, cada um querendo sugar do outro a máximo de prazer.
Depois, é hora de descartar o bagaço.
Além disso, com tal “namoro”. os dois não se santificam, mas pecam gravemente.
Como se pode preparar para algo tão santo como o matrimônio e a família. com um pecado
tão grave? De uma semente defeituosa pode surgir uma árvore sadia? Quem semeia vento,
colhe tempestade.
O padre não é mágico, nem tem varinha de condão. Não é capaz de, na hora do
casamento, transformar repentinamente dois prostitutos em marido e mulher. Se eles se
comportaram como animais durante o namoro, não devem esperar um matrimônio feliz.

Excitação é a preparação do organismo humano para o ato sexual. Pela excitação o


organismo do homem prepara-se para produzir os espermatozóides e o organismo da mulher
prepara-se para os receber.

Mas que sentido tem a excitação durante o namoro? Por que preparar um ato que não
posso completar (pois o corpo alheio não me pertence)? Que sentido tem aproximar da boca
uma maçã (e assim acionar as glândulas salivares) se ela não me pertence e eu não posso
comê-la? Que sentido tem esquentar o motor de um automóvel se eu não posso andar nele? A
excitação durante o namoro é um contra-senso. Provocá-la voluntariamente é um pecado
grave.
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“Ouvistes que foi dito: Não cometerás adultério. Eu, porém, vos digo: todo aquele
que olha para uma mulher com desejo libidinoso já cometeu adultério com ela em seu
coração” (Mt 5,27-28).

Há atos que são intrinsecamente excitantes, como os abraços agarrados e o beijo na


boca. Por isso, constituem pecado grave, ainda que a fornicação não se venha a completar.

Provas de amor
Durante o namoro, é fundamental pedir e dar prova de amor;
— Você me ama? Então vamos esperar. Pois o amor resiste ao tempo.
— Você me ama? Então vamo-nos distanciar. Pois o amor resiste à distância.
— Você me ama? Então vamo-nos sacrificar. Pois o amor se prova pelo sacrifício.

— Mas meu amor por você é tão grande, que eu não agüento esperar, não agüento
distanciar-me, não agüento sacrificar-me. Eu quero você aqui e agora!
— Pare! Você não me ama. Você é apenas um animal na época do cio.

Como namorar
Sendo o namoro o encontro de dois templos sagrados que desejam conhecer-se e
amar-se interiormente, os namorados deveriam agir à semelhança de um rito litúrgico:
— rezar antes e depois do namoro;
— namorar apenas em lugar visível, para evitar ocasião de pecar. Nada há para
esconder;
— durante o namoro evitar ir além de conversar e dar as mãos;
— ter sempre em mente : “Eu estou diante de um templo sagrado. Ai de mim se eu
profanar este templo até por um pensamento”.

E se o outro não aceitar namorar cristãmente?


É preciso renunciar ao namorado (à namorada).
“Aquele que ama pai ou mãe mais do que a mim não é digno de mim. E aquele que
ama filho ou filha mais do que a mim não é digno de mim” (Mt 10,37).
E Jesus poderia acrescentar :
“Aquele que ama o namorado ou a namorada mais do que a mim não é digno de
mim”.
Para conservar a graça que Cristo nos conquistou com o preço de seu sangue,
devemos renunciar até à própria vida .
Mas há um consolo. Se outro não aceitar namorar senão através de beijos e abraços
escandalosos, na verdade ele não ama você, mas deseja gozar do prazer que você pode
oferecer. O verdadeiro amor sabe esperar.

É preciso ser diferente de todo o mundo?


Sim. O cristão deve ser sal da terra (Mt 5,13), luz do mundo (Mt 5,14), fermento na
massa (Mt 13,33).
“Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos, renovando a vossa
mente, a fim de poderdes discernir a qual é a vontade de Deus, o que é bom, agradável e
perfeito” (Rm 12,2).

A alegria da pureza
Aquele que procura o prazer, encontra o prazer. Mas depois vem o vazio, o remorso
de consciência e a tristeza.
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Aquele que se abstém do prazer por amor encontra a alegria . Os puros de coração
são capazes desde já conhecer as coisas de Deus muito melhor do que os outros. A pureza se
expressa no olhar. Ao olharmos para os olhos de uma pessoa pura, vemos algo de Deus em
sua alma.
Se os que buscam o prazer na impureza conhecessem a alegria da pureza, desejariam
ser puros mesmo que fosse por egoísmo . A alegria da pureza está acima do prazer da
impureza assim como o céu está acima da terra. Experimente e diga-me se não é assim.

Pe. Luiz Carlos Lodi da Cruz

Oração para antes do namoro


Senhor,
Estou aqui diante de um templo santo onde vós habitais . Amo-vos presente neste
templo e prefiro morrer a profanar este santuário mesmo por um pensamento.
Fazei que com este namoro eu aprenda a amar a vós presente no outro e assim
descubra se foi este (esta) quem escolhestes para estar ao meu lado por toda a minha vida.
São Rafael Arcanjo, que conduzistes Tobias a Sara e lhes ensinastes a pureza do
coração, fazei-nos namorar de tal modo que os anjos possam estar presentes e glorificar a
Deus conosco .
Virgem puríssima, dai-nos a pureza do vosso Imaculado Coração.
Depois do namoro
Convém fazer um exame de consciência:
“Estou agora amando a Deus mais do que antes?”