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A Estratégia Da Guerra Prolongada De Mao Tsé-Tung E O Caso Da Guerra De Independência Do Vietnã

Introdução

Fernando Velôzo Gomes Pedrosa

No final da tarde do dia 7 de maio de 1954, sem munição e completamente exauridas após dois meses de batalha desesperada em um vale remoto nos confins da fronteira entre o Laos e o Tonquim, as forças francesas sucumbiram frente ao Exército de Libertação do Vietnã. A batalha de Dien Bien Phu foi o epílogo de um enredo improvável, no qual um exército irregular asiático, pobre e mal equipado, que jamais dispôs de blindados ou de aeronaves, e contando com um apoio logístico rudimentar, ousou desafiar e vencer o poder econômico e militar da França, firmemente apoiada pelos Estados Unidos. O propósito deste ensaio é examinar a guerra da Indochina contra o domínio francês entre 1946 e 1954. Nesse conflito, o movimento Vietminh, sob a liderança de Ho Chi Minh, enfrentou e derrotou as forças coloniais francesas no Vietnã após o encerramento da 2 a Guerra Mundial. O objetivo do trabalho é identificar e descrever a aplicação da estratégia da guerra prolongada de resistência, cuja teoria havia sido proposta por Mao Tsé-tung na década de 1930, verificando sua relevância no desenlace favorável da guerra para os vietnamitas. Inicialmente, será feita uma revisão bibliográfica dos textos por meio dos quais Mao Tsé-tung lançou as bases da citada estratégia. Em seguida, serão descritos, em linhas gerais, os eventos políticos e militares ocorridos na Indochina entre o final da II Guerra Mundial e a assinatura dos acordos de Genebra em julho de 1954. Paralelamente, serão apresentadas considerações quanto à adoção da teoria maoísta da guerra prolongada por parte das lideranças políticas e militares vietnamitas, e os objetivos alcançados.

A Guerra Prolongada Segundo Mao Tsé-Tung

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A estratégia da Guerra Prolongada foi proposta formalmente por Mao Tsé-tung em uma série de conferências proferidas em Yunan entre 26 de maio e 3 de junho de 1938, na Associação Para o

Estudo da Guerra de Resistência contra o Japão, e depois publicadas com o título de Sobre a Guerra Prolongada. 1 Nesse livro, o líder chinês fez uma análise bastante detalhada da guerra contra o Japão, que invadira a China em 1937 e ocupara importantes partes do seu território. Mao já havia apresentado os Problemas Estratégicos da Guerra Revolucionária da China, 2 em um texto anterior, publicado em dezembro de 1936, no qual lançara as bases de seu pensamento estratégico. Estas obras têm servido como guias doutrinários da guerra prolongada e como modelo a ser aplicado em conflitos de natureza semelhante.

O Método

A fim de orientar a condução concreta da guerra prolongada contra o Japão, Mao seguiu um roteiro que também seria observado, mais tarde, pelos seus discípulos vietnamitas. Tal método parte de uma análise das condições objetivas de ambos os contendores, consideradas como a base do problema. O objetivo dessa avaliação é a identificação de pontos fortes e fracos de ambas as partes. 3 Em sequência, procura-se visualizar a evolução da guerra prolongada em etapas estratégicas bem definidas: a defensiva estratégica, o equilíbrio estratégico e a contra-ofensiva. 4 Na primeira etapa, o agressor avança sobre o país submetido a fim de controlar a maior parcela possível de território e de recursos. A postura adequada ao defensor é conservar as forças próprias e causar o máximo de desgaste às inimigas. Em um país de largas dimensões como a China, Mao chegava a admitir grandes perdas territoriais para evitar o engajamento em combate sob condições desvantajosas. A segunda etapa – de equilíbrio estratégico – inicia-se quando o agressor, já debilitado e impossibilitado de ocupar todo o país, passa a consolidar os territórios conquistados. Nessa fase, cabe ao movimento de resistência empregar principalmente a guerra de guerrilha para desgastar o inimigo e levá-lo a adotar uma atitude taticamente defensiva em torno das cidades e centros ocupados. Ao mesmo tempo deverá dedicar-se a estabelecer um governo unificado, melhorar as técnicas de combate, transformar o exército, mobilizar todo o povo e preparar-se para a contra- ofensiva. Finalmente, na terceira etapa – contra-ofensiva estratégica –, as mudanças na correlação de forças vão permitir ao partido inicialmente subjugado assumir uma atitude estrategicamente ofensiva.

1 MAO TSE-TUNG, 1968b.

2 MAO TSE-TUNG, 1961.

3 MAO TSE-TUNG. 1968b. pp.122-124.

4 Ibid. pp.139-142.

2

Força Na Fraqueza

Na visão de Mao, a guerra prolongada poderia ser definida como estrategicamente defensiva, de

longa duração, conduzida em flagrante inferioridade de forças e sob o cerco estratégico do

adversário, ou seja, em linhas interiores. O seu objetivo seria o desgaste estratégico do adversário em todos os campos do poder – político, econômico, psicossocial e militar. O prolongamento do conflito debilitaria progressivamente o inimigo, invertendo a relação inicial de forças, e abalando a sua determinação de prosseguir na luta, até oferecer-se a oportunidade da contra-ofensiva estratégica. 5 Para obter o efeito do desgaste estratégico, o líder chinês recomendava, no nível tático, a realização de operações ofensivas de decisão rápida, com a finalidade de aniquilar o inimigo. Para isso seria necessário obter uma esmagadora superioridade local e dar combate a cada uma das colunas inimigas que se encontravam dispersas, cercando-as e destruindo-as. A acumulação de sucessivas vitórias táticas em combates de aniquilamento acarretaria o desgaste estratégico desejado. Segundo este preceito, mais vale arrancar um dedo do adversário do que ferir seus dez dedos; afugentar dez divisões não é tão eficaz quanto aniquilar uma delas. 6 Entretanto, a idéia de engajamento em uma batalha decisiva, em que estivesse em jogo o destino da nação, estava

descartada: (

Assim frustramos o plano do inimigo

para uma decisão rápida, e este se verá obrigado a sustentar uma guerra prolongada. 7

A obtenção de indiscutível superioridade local implicava na concentração de forças e na

manutenção da iniciativa estratégica, embora o lado mais fraco estivesse lutando em desvantagem e em uma postura estrategicamente defensiva. Mao reconhecia a dificuldade de manter a iniciativa em uma guerra defensiva, mas propunha que a guerra defensiva, ainda que passiva quanto à forma, podia compreender a iniciativa quanto ao conteúdo. 8 A concentração de forças poderia transformar a superioridade estratégica do inimigo em superioridade tática ou operacional para o lado mais fraco. Sua máxima era: nossa estratégia é “Um contra dez”, enquanto nossa tática é “Dez contra um”. 9 Resumindo sua visão sobre a concentração de forças, ele propunha 10 :

Podemos transformar a superioridade estratégica do inimigo em superioridade nossa sobre ele, de um ponto de vista tático e operacional. Podemos reduzir a posição estrategicamente forte do inimigo a uma posição fraca no sentido operacional e tático. Ao mesmo tempo, podemos reduzir a nossa fraqueza

)

simplesmente não a empreenderemos (

).

5 Ibid. pp.136-148.

6 MAO TSE-TUNG. 1961. p. 243

7 MAO TSE-TUNG. 1968. p.187-188.

8 MAO TSE-TUNG. 1961. p. 227.

9 Ibid. p. 230. 10 Ibid. p. 228.

3

estratégica conseguindo uma forte posição operacional e tática. Isto é o que chamamos operações de linhas exteriores dentro de linhas interiores, cerco e aniquilamento dentro de “cerco e aniquilamento”, bloqueio dentro de bloqueio, ofensiva na defensiva, superioridade na inferioridade, força na fraqueza, vantagem na desvantagem, e iniciativa na passividade. Obter a vitória numa defensiva estratégica depende assim, fundamentalmente, de fazer um simples movimento – concentrar as forças. 11

Guerra De Interpenetração

Na visão maoísta, uma das características mais notáveis da guerra de resistência contra o Japão era seu caráter de interpenetração, que se manifestava nos seguintes traços: 12

Combinação entre linhas interiores e linhas exteriores, pois enquanto as tropas regulares

operavam em linhas interiores, as forças de guerrilha operavam em linhas exteriores, atuando sobre

amplas áreas da retaguarda inimiga.

Simultânea existência e ausência de retaguarda. As tropas regulares tinham sua frente de

operações nos limites exteriores do território ocupado pelo inimigo, e se apoiavam na parcela não ocupada do país. Para as guerrilhas, a frente era a retaguarda do inimigo, mas estavam separadas das partes não ocupadas do país, tendo que constituir suas próprias pequenas zonas de retaguarda. Havia também o caso das colunas guerrilheiras que operavam sem nenhum apoio de retaguarda. Essas “operações sem retaguarda” constituíam um traço peculiar da guerra revolucionária da “nova época”.

Dinâmica entre o cerco estratégico imposto pelo inimigo e o contra-cerco operacional e tático

ao qual se podia submetê-lo, empregando forças numericamente superiores em nível local para atacar suas colunas e forças isoladas. Em outro nível, podia-se considerar que, embora o inimigo operasse em linhas exteriores, as diversas bases de apoio guerrilheiras dispersas sobre amplo território, mas em estreita vinculação e cooperação, eram capazes de envolver grande quantidade de forças do inimigo.

Contraste entre as amplas zonas sobre as quais o inimigo teria que se desdobrar e sua

incapacidade de ocupar efetivamente essas zonas, permitindo às forças de resistência manter grande

liberdade de ação na maior parte do território nominalmente ocupado pelo inimigo.

4

11 A importância que Mao atribuía à concentração de forças coincidia com a recomendação que o estrategista britânico Sir Basil H. Liddell Hart viria a fazer em seu livro The Strategy Of Indirect Aproach, publicado em 1941. Nele, Liddell Hart reduzia todos os princípios de guerra a uma única palavra: concentração; e destacava: concentração da força contra a fraqueza. Ver a tradução brasileira da edição de 1954: LIDDELL HART, 1982. p. 421. 12 MAO TSE-TUNG, 1968b. pp. 148-151.

Guerra E Política

Seguindo a máxima clausewitziana de que a guerra é a continuação da política por outros meios, Mao entendia que, neste sentido, a guerra é política, e é em si mesma uma ação política. Assim, a guerra não pode separar-se nem um só instante da política. 13 A definição do objetivo político da guerra era condição indispensável para sua condução segura. Como líder revolucionário, discordava frontalmente da visão profissional militar, que menosprezava a política, separando-a da guerra em si, e entendendo a guerra como algo absoluto. Ao contrário, propunha a mobilização política do povo e do exército para a resistência, formando uma frente única em torno do objetivo político. 14

Os Objetivos Da Guerra

Mao via os objetivos da guerra em dois níveis. No mais alto estava o objetivo político da guerra, que era expulsar o imperialismo japonês. Mas “o objetivo da guerra, da guerra como política com

derramamento de sangue” [

era “conservar as forças próprias e destruir as do inimigo”. 15 Essa

era “a essência da guerra e a base de todas as atividades bélicas,” permeando-as “desde a técnica

de combate até a estratégia”. 16

]

Iniciativa, Flexibilidade E Planejamento

5

A condução de uma guerra de resistência prolongada dependia de três fatores: iniciativa, flexibilidade e planejamento. Iniciativa entendida como liberdade de ação, em contraste com a passividade imposta pela inferioridade de meios. Entretanto, uma liderança correta é capaz de obter a iniciativa na inferioridade, reduzindo um inimigo poderoso à passividade. A flexibilidade é a expressão concreta da iniciativa nas operações militares. 17 Para um comando flexível, é importante mudar de tática oportuna e apropriadamente, segundo as condições das tropas e do terreno, tanto do inimigo quanto as nossas. 18 O planejamento deveria dar uma estabilidade relativa à condução da guerra, mas os planos deveriam ser capazes de sofrer adaptações para se ajustar às mudanças das circunstâncias e do curso

13 Ibid. pp.156-157.

14 Ibid. pp.158-159.

15 Ibid. pp. 159-160.

16 Ibid. p. 161.

17 Ibid. p. 172.

18 Ibid. p. 173.

da guerra. Essa variabilidade deveria ser limitada, a fim de garantir certa regularidade ao desenvolvimento das operações.

Guerra De Movimentos, Guerra De Guerrilhas E Guerra De Posições

A teoria maoísta identificava três formas de luta: a guerra de movimentos, a guerra de guerrilhas,

e a guerra de posição. A guerra de movimentos seria aquela em que exércitos regulares realizam campanhas ou combates ofensivos de decisão rápida em linhas exteriores ao longo de amplos frentes e vastas zonas de guerra. Compreenderia também a ‘defesa móvel’, que se aplica em caso de necessidade para facilitar aquelas operações ofensivas. As características da guerra de movimentos seriam: exércitos regulares, superioridade de forças em campanhas e combates, caráter ofensivo e mobilidade. 19 A guerra de movimento era vista como a principal forma de luta no quadro de uma guerra de resistência, seguida em importância pela guerra de guerrilha. O desenlace da guerra dependeria essencialmente da guerra de movimento. 20

A guerra de guerrilha teria um papel subsidiário, embora de importância estratégica para o quadro

geral da guerra de resistência. A guerra de guerrilha deveria evoluir progressivamente até

transformar-se em guerra de movimento, exercendo um papel duplo: apoiar a guerra regular e transformar-s ela mesma em guerra regular. 21 Sobre o papel estratégico da guerra de guerrilha, Mao escreveu Problemas Estratégicos da Guerra de Guerrilha contra o Japão. Nesse texto, aprofunda a discussão dos seis problemas estratégicos específicos da guerra de guerrilha contra o Japão: 1º) a questão da iniciativa, flexibilidade e planejamento, acima apresentada; 2º) a coordenação da guerrilha com a guerra regular; 3º) a criação das bases de apoio; 4º) a defensiva e a ofensiva estratégicas na guerra de guerrilhas; 5º) a transformação da guerra de guerrilhas em guerra de movimentos; e 6º) a questão das corretas relações de comando dentro da guerra de guerrilhas. 22

A terceira forma de luta seria a guerra de posições, ou seja, o ataque ou defesa de posições

fortificadas e a batalha contra fortes formações inimigas. Essa forma de luta teria um papel secundário, vindo após a guerra de movimentos e a de guerrilhas. À medida que o conflito evoluísse para a etapa da contra-ofensiva estratégica, a guerra de posições ganharia maior importância, tendo em vista que as forças inimigas, desgastadas, aferrar-se-iam a suas posições e seria necessário atacá- las para recuperar o território perdido. 23

19 Ibid. p. 176.

20 Ibid. p. 178.

21 Ibid. p. 178.

22 MAO TSE-TUNG, 1968a.

23 MAO TSE-TUNG, 1968b. p. 180

6

Guerra De Desgaste E Guerra De Aniquilamento

Em termos de alcançar o objetivo fundamental da guerra – conservar as forças próprias e destruir as do inimigo – Mao observou que as três formas de guerra – de movimentos, de guerrilhas e de posições – não dão os mesmos resultados. Por isso fez uma distinção entre guerra de aniquilamento e guerra de desgaste, e concluiu que a guerra de resistência é uma guerra simultaneamente de desgaste e de aniquilamento, pois as campanhas de aniquilamento são o meio para obter o objetivo de desgaste estratégico. E o principal método para desgastar o inimigo é aniquilar suas forças, embora o desgaste estratégico também possa ser obtido por meio de campanhas de desgaste. 24 Em termos gerais, o estrategista chinês verificou que a guerra de movimentos cumpre a tarefa de aniquilamento, a guerra de posições, a de desgaste, e a guerrilha, ambas as tarefas. 25

A Estratégia Maoísta Da Guerra Prolongada Em Resumo

As orientações estratégicas e táticas de Mao Tsé-Tung podem ser sumarizadas no quadro abaixo:

GUERRA

   

PROLONGADA

NÍVEL ESTRATÉGICO

NÍVEL TÁTICO

ATITUDE

Defensiva

Ofensiva

DURAÇAO

Guerra Prolongada

Operações de Decisão Rápida

EFEITO DESEJADO

Desgaste Estratégico

Combates de Aniquilamento

RELAÇÃO DE

   

FORÇAS

Inferioridade

Superioridade Local

FORMA DE

   

MANOBRA

Linhas Interiores

Linhas Exteriores

1. Antecedentes E Causas Da Guerra Da Indochina

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Em final de 1944, com a libertação da França e a queda do governo de Vichy, os japoneses, que haviam ocupado as colônias francesas da Indochina, percebendo que não tardaria uma reação do novo governo da França livre, destituíram a administração colonial francesa, com a qual conviviam, desarmaram e aprisionaram as forças militares e policiais francesas. O líder comunista Ho Chi Minh

24 Ibid. p. 181

25 Ibid. p. 181.

aproveitando-se da nova situação e da debilidade das forças japonesas no país, assumiu o controle do norte do Vietnã e proclamou a independência, à frente de um Governo Popular Provisório respaldado pelo Vietminh, ou Liga para a Independência do Vietnã. Quando acabou a 2 a Guerra Mundial, o norte do país foi ocupado pelas forças nacionalistas chinesas de Chiang Kai-Chek, enquanto o sul ficou sob o controle das forças britânicas. Os vietnamitas mal haviam proclamado independência e já viam suas esperanças de autodeterminação ameaçadas. Quando o general britânico Douglas Gracey chegou a Saigon, em setembro de 1945, o poder do Governo Popular Provisório de Ho Chi Minh era apenas nominal. Havia disputas entre facções e a administração pública estava em colapso. O general britânico decretou lei marcial, mas em 25 de setembro grupos armados nativos promoveram um massacre entre a população francesa de Saigon. Houve grande número de mortos, feridos e reféns. O general Gracey decidiu agir pela força. Para restabelecer a ordem na região de Saigon, pôs em ação um insólito grupamento de forças: tropas inglesas, indianas e gurkhas, soldados franceses, recém-libertados dos campos de prisioneiros e até soldados do derrotado exército japonês.

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9 Fig 1 – Mapa do Vietnã Fonte: http://www.lib.utexas.edu/maps/middle_east_and_asia/vietnam_rel01.jpg. Acesso em 07 de

9

Fig 1 – Mapa do Vietnã Fonte: http://www.lib.utexas.edu/maps/middle_east_and_asia/vietnam_rel01.jpg. Acesso em 07 de fevereiro de 2011

Em princípios de outubro o General Leclerc desembarcou em Saigon com os primeiros elementos do Corpo Expedicionário Francês (CEF). Sua missão era reassumir o controle das colônias e obter a retirada dos britânicos e chineses. Unindo esforços aos britânicos, o CEF passou à ação. O Governo Popular foi desautorizado e o Vietminh expulso de Saigon. As operações estenderam-se por todo o

sul do Anam – região central do atual Vietnã – e pela Cochinchina – região sul do atual Vietnã, em

torno do delta do Rio Mekong. Em fins de dezembro, os franceses já controlavam grande número de

aldeias e pequenas cidades da região. No final de janeiro de 1946, os britânicos passaram a responsabilidade sobre a região ao General Leclerc e começaram a retirar suas forças. No Camboja e

no Laos a situação foi resolvida satisfatoriamente durante o ano de 1946, com o reconhecimento da “independência” desses países dentro da União Francesa.

 

A

fim de obter a retirada do tradicional inimigo chinês do norte do país, Ho Chi Minh assinou, a 6

de

março de 1946, um acordo preliminar com um representante do governo francês. Por esse acordo

o

Governo Popular Provisório do Vietnã aceitava que um pequeno contingente francês fosse

reintroduzido na região para, juntamente com tropas do Vietminh, substituírem o exército nacionalista chinês. A França, por sua vez, reconhecia a independência da República Democrática do Vietnã, como integrante de uma Federação Indochinesa, que faria parte da União Francesa. Após uma série de desentendimentos entre as autoridades francesas e o governo vietnamita, que culminaram quando o cruzador francês Suffren bombardeou o porto de Haiphong, matando cerca de 6.000 civis, Ho Chi Minh e seu comandante militar Vo Nguyen Giap avaliaram que o incipiente exército Vietminh, contando com o fator surpresa e com o apoio maciço da população, poderia

liderar um levante geral e neutralizar as forças francesas no Tonquim – região norte do atual Vietnã.

A 19 de dezembro de 1946, Ho Chi Minh desencadeou a rebelião, dando início à Guerra da

Indochina. As previsões do general Giap revelaram-se incorretas. Os franceses reagiram prontamente e esmagaram o levante em poucas horas. Em guerra aberta contra as tropas coloniais francesas e em evidente desvantagem militar, não restava alternativa a Giap senão abandonar as cidades e aldeias do Delta do Rio Vermelho e retirar-se para suas bases nas montanhas do Norte do país.

2. Estratégias Adotadas Pelas Forças De Resistência

10

O fracasso da revolta de dezembro demonstrou a Ho Chi Minh e a Giap que a solução por um

golpe de força estava descartada. Só restava o caminho da resistência prolongada, segundo o modelo

proposto por Mao Tsé-tung.

Seguindo o modelo maoísta, Giap previu o desenvolvimento da guerra em 3 fases: a defensiva, a

do equilíbrio de forças e a da contra-ofensiva. Na prática, ele admitia que, segundo as condições

particulares próprias, seu desenrolar pode ser, mais vivo e complexo. 26 Procurou, também, fixar

26 GIAP. 1968. p. 29.

uma orientação operacional a partir da definição de formas de combate apropriadas ao país e às forças disponíveis. Para isso, apegou-se ao princípio a que Mao chamou de objetivo fundamental da guerra: conservar as forças próprias e destruir as do inimigo. Assim como Mao Tsé-tung, Giap preconizou o emprego de três formas de combate: guerra de guerrilha, guerra de movimento e guerra de posições. Divergindo de Mao, Giap propunha que, no início, a mais importante seria a guerra de guerrilha, que deveria dedicar-se ao combate de usura (desgaste) ou de aniquilamento segundo as circunstâncias. A guerra de movimento pode ser definida como um meio termo entre a luta de guerrilhas e a guerra convencional, 27 e seu aparecimento marcaria um novo período da resistência, mas não eliminaria a guerrilha. A guerra de movimento surgiria por evolução da guerrilha e com esta conviveria durante a segunda fase da guerra, exigindo grande esforço para a coordenação das duas formas de luta. Com o desenrolar da segunda fase, a guerra de movimento cresceria de importância, até assumir o lugar de relevo em relação à guerrilha. 28 A preponderância da guerra de movimento assinalaria a terceira etapa da guerra prolongada, a fase da contra ofensiva. Nesse estágio, permaneceria a guerra de guerrilha e apareceria, eventualmente, a guerra de posições, ou seja, o ataque ou a defesa de posições organizadas ou fortificadas. Essa fase começaria com contra-ofensivas localizadas e evoluiria até o momento de ser lançada a ofensiva final. 29 As forças do Vietminh foram organizadas em três tipos de formações: as tropas populares, as tropas regionais e o exército regular. As tropas regulares tinham por missão fazer a guerra de movimento, em um vasto teatro de operações, para aniquilar as forças inimigas. As tropas regionais operavam em suas regiões em coordenação com as tropas regulares e com os guerrilheiros. Estes últimos deviam defender suas aldeias, participar na produção e unir-se às tropas regulares e às regionais para preparar e para efetuar o combate. 30 No campo político, os líderes do Vietminh deram grande atenção à mobilização interna, fazendo da guerra de libertação contra o domínio francês uma guerra do povo, e à obtenção de legitimidade internacional, por meio da propaganda e dos laços de solidariedade ideológica que os uniam a líderes políticos de esquerda em todo o mundo e, particularmente na França. Ao apontar os fatores de êxito

da guerra de libertação, Giap citou, entre outros, o apoio dos povos progressistas do mundo inteiro,

[inclusive] do próprio povo francês. 31 Era aquilo que o general Beaufre, ao descrever a

] [

27 PYKE. 1967. p. 30.

28 Ibidem. pp. 94-95.

29 GIAP. op. cit. pp. 94-95 passim.

30 Ibidem. p. 111.

31 Ibidem. p. 35.

11

estratégia indireta, chamou de manobra exterior, por meio da qual se busca assegurar o máximo de liberdade de ação, colocando em jogo o respeito às formas legais e do Direito interno e internacional, invocando valores morais e humanitários, e procurando criar no adversário uma consciência pesada que o leve a duvidar da sua causa. 32

3. Desenvolvimento Do Conflito

O programa de guerrilha e a mobilização política das massas obtiveram grande sucesso no norte do país, em parte pela proximidade das bases Vietminh, mas também pelo fato das populações do Tonquim e do Norte do Amam serem mais politizadas. O processo de gradual perda do controle sobre situação foi chamado, pelos franceses, pourrissment (apodrecimento), e seus resultados causaram tal impressão que, em fins de 1950, o alto comando planejava recuar o CEF para o sul do Paralelo 17, onde a população, se não era cordialmente pró-francesa, pelo menos não fora totalmente subvertida pelo “Vietminh”. 33 Apesar de sua grande debilidade militar inicial, o Vietminh conduziu uma série de campanhas militares a partir de meados de 1950 e, embora com resultados variados, suas forças foram progressivamente aumentando a capacidade militar e a liberdade de ação no nível operacional. Entre setembro e outubro de 1950, o Vietminh desencadeou uma série de ataques a guarnições ao longo da rodovia colonial 4 (RC-4), no norte do Tonquim. Após perderem a fortaleza de Dong Khe e a guarnição de Cao Bang, os franceses, dominados pelo pânico, evacuaram That Khe e a grande guarnição de Lang Son, abandonando, aos vietnamitas, munição de artilharia suficiente para dois anos de luta. Giap obtivera uma vitória esmagadora. As perdas francesas chegaram a 6.000 homens. Essa primeira vitória seria um marco. A partir daí o Vietminh assumiria a iniciativa das ações, deixando os franceses em uma situação de passividade e defensiva. Na tentativa de reverter essa situação, o governo francês exonerou o General Carpentier do cargo de comandante-em-chefe francês na Indochina e nomeou, em seu lugar, o General Jean de Lattre de Tassigny, um verdadeiro ídolo no exército francês. De Lattre levou para a Indochina uma excepcional equipe de oficiais de estado-maior, entre eles o General André Beaufre. Sua primeira providência foi isolar o Delta do Rio Vermelho com uma série de redutos fortificados de concreto, que ficou conhecida como Linha de Lattre. Animado pelo sucesso das operações na RC-4 e fortalecido pela ajuda militar chinesa, Giap avaliou que seria hora de partir para a ofensiva geral. Durante o primeiro semestre de 1951, lançou

32 BEAUFRE. 1998. pp. 123-124. 33 KEEGAN. 1979. p. 59.

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sucessivamente três ofensivas em grande escala contra a Linha de Lattre. O resultado foi desastroso para o Vietminh, com um enorme número de baixas. Em novembro daquele ano, animado com os sucessos obtidos, De Lattre decidiu passar à ofensiva, conquistando a aldeia de Hoa Binh, localizada a oeste do Delta. Após sucessivos ataques do Vietminh que isolaram as forças francesas, a aldeia foi abandonada em fevereiro de 1952, com pesadas perdas francesas. Nessa altura, tomado por um câncer, o Gen De Lattre havia regressado à França, onde veio a falecer. Após os reveses sofridos em 1951, Giap percebeu que ainda não havia chegado a hora da ofensiva final. Decidiu então adotar uma estratégia mais indireta, atacando posições francesas fora do Delta do Rio Vermelho e forçando o inimigo a dispersar suas forças. A área de operações selecionada foi a região Thaí no oeste do Tonquim. Em 11 de outubro de 1952, três divisões do Vietminh cruzaram o Rio Vermelho e iniciaram a ofensiva. Após atacar e tomar alguns postos isolados na cordilheira de Nghia-lo, Giap cruzou o Rio Negro, enviou a 316 a Divisão para ocupar o vale de Dien Bien Phu e empregou as 308 a e 312 a para cercar e atacar a guarnição francesa de Na San. Apressadamente, os franceses levaram reforços de tropas e artilharia, transformando Na San em uma poderosa fortaleza suprida pelo ar. Quando o Vietminh atacou, a posição francesa já estava consolidada e o assalto fracassou. Na primavera de 1953, Giap ampliou seu raio de ação, penetrando em território do Laos com três divisões na primeira quinzena de abril. Apressadamente, os franceses deslocaram, por via aérea, grande número de tropas. As vanguardas Vietminhs chegaram a menos de 20 km de Luang Prabang, mas Giap decidiu retroceder, pois não estava disposto a travar combate em situação desvantajosa. Preocupado em impedir uma iminente invasão vietminh no Laos, o General Navarre, novo comandante-chefe das forças francesas na Indochina, decidiu bloquear a principal via de acesso entre a região Thaí vietnamita e o norte do Laos, instalando uma base de operações aeroterrestre a cavaleiro da rota mais provável. O local escolhido foi a aldeia de Dien Bien Phu, localizada no principal vale a oeste do Tonquim, caminho natural para o Laos. Um fator decisivo para a escolha de Dien Bien Phu foi o campo de pouso lá existente, que permitiria, na visão de Navarre, manter indefinidamente uma linha de suprimento e evacuação aérea. Dien Bien Phu foi ocupada no dia 20 de novembro de 1953, com o lançamento de três batalhões paraquedistas. Nos dias subseqüentes chegaram mais três batalhões paraquedistas e iniciaram-se os preparativos para a defesa da posição. A organização do campo fortificado assumiu proporções assustadoras. 34 Havia necessidade da recuperação de dois aeródromos, construção de pontes, abrigos

34 FALL. 1967. p. 40, 44 e 479.

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subterrâneos, trincheiras, redes de arames, espaldões, etc. As necessidades em material para a fortificação eram de mais de 30.000 toneladas, enquanto que as entregas aéreas não passavam de 150 toneladas por dia, incluindo os itens de mais alta prioridade, que eram rações e munição. 35 Após considerar aspectos militares e políticos, como a proximidade de uma conferência em Genebra para tratar do problema da Indochina, e o interesse em levar para a mesa de negociação um quadro militar desfavorável à França, a liderança vietminh decidiu atacar o campo fortificado francês. Como medida preliminar, entretanto, desencadeou uma série de operações diversionárias contra o médio do Laos, a Cordilheira Anamita e o Norte do Laos, obrigando os franceses a dispersar suas forças. Essa série de manobras preparatórias de caráter dispersivo foi uma aplicação brilhante da máxima de Liddell Hart nossa dispersão, a dispersão do inimigo, nossa concentração – tal é a sequência a ser seguida e cada uma dessas ações é consequência, da anterior. A verdadeira concentração é fruto de uma dispersão planejada. 36 De acordo com Liddell Hart:

Uma concentração eficiente só pode ser conseguida quando as forças inimigas estão dispersas e, em geral, para se obter isso é necessário que nossas próprias forças estejam amplamente desdobradas. Assim, por um paradoxo aparente, a verdadeira concentração é produto da dispersão. 37

14

O ataque ao campo fortificado iniciou-se a 13 de março de 1954. Aos poucos, as posições francesas foram sendo tomadas uma a uma. No final de abril, o perímetro estava reduzido a uns poucos pontos-fortes em torno do Posto de Comando. Às vésperas do início das discussões sobre a situação da Indochina em Genebra, Giap decidiu lançar o assalto final. Na noite de 6 para 7 de maio, duas divisões de infantaria, precedidas por pesado fogo de artilharia, investiram contra as últimas posições francesas. Naquela tarde os franceses cessaram a resistência. A vitória de Dien Bien Phu não significava para o Vietminh a eliminação do poder militar francês no Vietnã. O CEF perdeu apenas cerca de seis por cento do total de suas forças. Contudo, quando se iniciavam as negociações em Genebra o prestígio político da França estava arruinado.

35 KEEGAN. op. cit. p. 78.

36 LIDDELL HART. 1982. pp. 421-422.

37 Ibid. p. 416.

4. Objetivos Alcançados

A União Soviética e a China, temendo uma intervenção norte-americana, convenceram Ho Chi

Minh a aceitar uma proposta de divisão do Vietnã, na altura do Paralelo 17. Os aliados comunistas

argumentaram que o país seria reunificado, assim que fossem realizadas as eleições livres previstas pelos acordos de Genebra.

O artificialismo da divisão do Vietnã e a inexistência de autênticas lideranças nacionalistas no

Sul, em oposição à figura de Ho Chi Minh, levaram os Estados Unidos a se envolverem,

progressivamente para apoiar governos ilegítimos e corruptos no Vietnã do Sul.

O governo sul-vietnamita, que não participara da Conferência de Genebra, jamais aceitou a

realização das eleições gerais previstas para 1956. Sentindo-se ludibriados, os comunistas não hesitaram em fomentar a insurreição no Vietnã Sul. Começando com ações de propaganda, terrorismo e assassinatos de líderes, a partir de 1958 o país mergulharia em uma insidiosa guerra revolucionária que perduraria por mais de 15 anos. Embora o objetivo alcançado por Ho Chi Minh tenha sido limitado por condições impostas pelo cenário internacional, há que se reconhecer que a adoção de estratégias políticas e militares de inspiração maoísta foi amplamente exitosa, transformando-se num caso paradigmático de sucesso de uma guerra prolongada de resistência. Entretanto, vários fatores e condições peculiares contribuíram para isso, e seria uma simplificação primária atribuir a vitória alcançada exclusivamente à adoção da estratégia da guerra prolongada de resistência concebida por Mao Tsé-tung. Em primeiro lugar, Ho Chi Minh lutava por uma causa que era a causa do seu tempo. Depois da carnificina mútua promovida entre as potências imperialistas européias entre 1914 e 1918, e de mais uma guerra mundial, travada em defesa da democracia e da repulsa a pretensões de supremacia étnicas, o mundo não reconhecia qualquer legitimidade ao imperialismo colonial. Como observou o filósofo francês Raymond Aron, O que tornava irresistível, no Vietname, a dita guerra revolucionária, em realidade de liberação nacional, não era o partido comunista, nem os métodos de subversão e de insurreição, nem a pequena guerra, mas sim a fraqueza da resistência, a da França, apenas liberada, que tentava contra a razão restabelecer sua autoridade. 38

38 ARON. 1986. p. 191.

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Sobre a justiça de sua causa e a legitimidade da luta, Giap observou: eles [os franceses] haviam capitulado vergonhosamente diante dos japoneses, mas, terminada a guerra, julgavam que tinham o direito de voltar como senhores na sua antiga colônia. 39

O apoio à causa da descolonização foi amplo e variado, indo de governos a grupos políticos de

amplo espectro ideológico. Refletiu-se fortemente na opinião pública francesa. As ligações de Ho Chi Minh com os socialistas e comunistas franceses lhe permitiram a divulgação de notícias e rumores sobre a corrupção que grassava na administração colonial da Indochina. O resultado foi a indiferença da população quanto aos destinos da guerra, chegando à hostilidade aos feridos que regressavam de licença, à sabotagem dos equipamentos destinados à Indochina e à recusa da população em participar de coletas de sangue para socorrer os soldados do Corpo Expedicionário.

A opinião pública francesa refletiu-se inclusive na composição do CEF. O cidadão francês não

aceitaria que seus filhos fossem mortos em uma guerra colonial remota e, a seu ver, desnecessária. Assim, o governo de Paris jamais enviou unidades do Exército Metropolitano para o Extremo Oriente, limitando-se a empregar tropas coloniais africanas e indochinesas e da Legião Estrangeira. Como afirmou o general Beaufre, a exploração das contradições internas do inimigo é um dos instrumentos da manobra exterior, 40 e a guerra da Indochina era em si, uma contradição aos princípios da civilização francesa. Nas palavras de Aron:

Um país de democracia liberal não conduz indefinidamente uma guerra colonial com o único fim de manter, contra seus próprios princípios, uma soberania custosa e contestada, sobre uma população inassimilável. 41

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A posição dos EUA também foi determinante para o resultado final do conflito, particularmente

em função do agravamento da guerra fria e da adoção de uma estratégia de contenção. Ao final da 2 a Guerra Mundial, a política norte-americana era radicalmente anticolonialista e o governo dos EUA determinou a todos os comandantes militares no Extremo Oriente que negassem qualquer ajuda aos franceses na Indochina. À medida que a situação na China se definia favoravelmente aos comunistas, os norte-americanos avaliaram que o Vietminh penderia para a esfera chinesa, mas viram-se num dilema: o apoio à França favoreceria a luta anticomunista, mas a Casa Branca não desejava aliar-se a uma causa colonial. Somente com a irrupção da Guerra da Coréia o Presidente Truman anunciou a aceleração do fornecimento de assistência militar à França e a ida de uma missão militar de observação para a Indochina.

39 GIAP. op. cit. p. 17.

40 BEAUFRE. op. cit. pp. 123-124.

41 ARON. op. cit. p.188.

Outro fator que favoreceu o esforço militar de Giap foi a vitória do Exército Vermelho Chinês sobre as forças nacionalistas de Chiang Kai-Chek, no final de 1949. A partir daí, a recém- estabelecida República Popular da China passou a prestar vigorosa e crescente ajuda militar ao Exército de Libertação do Vietnã (ELVN), mantendo-a até o final da guerra. Deve-se observar também que, embora a assimetria de poder entre os contendores fosse enorme, por ocasião da Guerra da Indochina, a França não era uma grande potência. Ao fim II Guerra Mundial a França estava política, econômica e militarmente enfraquecida. Suas forças armadas estavam mal armadas e mal equipadas. Exceto pelo armamento leve, grande parte de seu material bélico era norte-americano – viaturas, blindados, artilharia, equipamento de comunicações, metralhadoras, aeronaves, e até equipamentos individuais, como capacetes, cintos e cantis, eram fornecidos pelos EUA. O esforço militar francês no Sudeste da Ásia dependia fundamentalmente da ajuda norte-americana. A França tampouco dispunha de um grande poder aéreo. Os EUA chegaram a apoiar os esforços de transporte aéreo francês para as tropas de Dien Bien Phu, empregando suas aeronaves C 119 baseadas em Taiwan, e doaram 82.000 paraquedas que seriam utilizados para o apoio ao campo fortificado francês. 42 Com o agravamento da situação indochinesa, a ajuda dos Estados Unidos cresceu consideravelmente e é provável que em 1954 a participação norte-americana tenha se aproximado de 80% dos gastos com material bélico, conforme avaliou Giap. 43 No final das contas, a debilidade militar francesa, a inconsistência de seu objetivo político, a indiferença da opinião pública doméstica, a pressão da opinião pública mundial e a determinação da população vietnamita e de suas lideranças moldaram o quadro ideal para a estratégia maoísta da guerra prolongada de resistência e conduziu a um desenlace inexorável.

42 KEEGAN, op. cit. p. 129. 43 GIAP. op. cit. p. 25.

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