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EDIÇÃO LISBOA DOM 17 MAR 2013

Semedo: candidatura a Lisboa é para recuperar vereador para o Bloco p13

a Lisboa é para recuperar vereador para o Bloco p13 COMO LIDAMOS COM O ERRO SOCIEDADE
COMO LIDAMOS COM O ERRO SOCIEDADE ELES ESCOLHERAM PORTUGAL E NEM A CRISE OS AFASTA
COMO LIDAMOS COM O ERRO SOCIEDADE ELES ESCOLHERAM PORTUGAL E NEM A CRISE OS AFASTA

COMO LIDAMOS COM O ERRO

SOCIEDADE

COMO LIDAMOS COM O ERRO SOCIEDADE ELES ESCOLHERAM PORTUGAL E NEM A CRISE OS AFASTA REPORTAGEM

ELES ESCOLHERAM PORTUGAL E NEM A CRISE OS AFASTA

REPORTAGEM

ESCOLHERAM PORTUGAL E NEM A CRISE OS AFASTA REPORTAGEM Governo quer disciplinar prescrição de antibióticos

Governo quer disciplinar prescrição de antibióticos

Governo lançou plano para combater o uso excessivo de antibióticos e o aumento das infecções hospitalares. Autoridades de saúde preocupadas com as consequências da perda de eficácia dos antibióticos Destaque, 8/9

ALBERTO PIZZOLI/AFP VATICANO A IMPORTÂNCIA DE SE CHAMAR FRANCISCO: POLÍTICOS E CRENTES RESPONDEM A reportagem
ALBERTO PIZZOLI/AFP
VATICANO
A IMPORTÂNCIA DE SE CHAMAR
FRANCISCO: POLÍTICOS
E CRENTES RESPONDEM
A reportagem de Sofia Lorena, em Roma
Destaque, 4 a 8

O Papa Francisco disse ontem que queria ter “uma igreja pobre e para os pobres”

CHIPRE EUROPA IMPÕE TAXA SOBRE DEPÓSITOS BANCÁRIOS SEM PRECEDENTE PARA AVANÇAR COM RESGATE FINANCEIRO E

CHIPRE EUROPA IMPÕE TAXA SOBRE DEPÓSITOS BANCÁRIOS SEM PRECEDENTE PARA AVANÇAR COM RESGATE FINANCEIRO

Economia, 16/17

Papel da polícia em morte de jovem gera tensão em Setúbal

Adolescente morreu ontem depois de alegada perseguição pela polícia. PSP não confirma acusações de moradores de que disparou sobre ele. p12

Um ano sabático entre o 12.º ano e a universidade?

Os ingleses chamam-lhe gap year e o PS quer que seja introduzido um ano sabático que permita aos jovens conhecer o mundo p10/11

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que permita aos jovens conhecer o mundo p10/11 PUBLICIDADE Ano XXIV | n.º 8376 | 1,60€
que permita aos jovens conhecer o mundo p10/11 PUBLICIDADE Ano XXIV | n.º 8376 | 1,60€

2 | PÚBLICO, DOM 17 MAR 2013

DOMINGOPÚBLICO

EDITORIAL

O novo Papa e o poder do simbólico Igreja, essa Igreja anacrónica, minada por dentro

O novo Papa e o poder do simbólico

Igreja, essa Igreja anacrónica, minada por dentro por intrigas, pela corrupção e pelo escândalo da pedofilia, ainda consegue atrair as atenções do mundo todo. Talvez isso aconteça porque o mundo inteiro está neste momento num impasse. E esse impasse é político ou, melhor dizendo, tem a ver com um impasse da política. Nomeadamente nesta Europa que perde agora para a América do Sul o monopólio do papado que ciosamente preservou durante mais de um milénio. Fustigados pela austeridade, pelas troikas e pelas dívidas soberanas que é preciso pagar, os cidadãos europeus deixaram de ter capacidade de intervir politicamente nas suas sociedades. E isso não decorre apenas do facto de viverem sob um diktat exterior (um diktat alemão). Decorre do facto de a política ter sido substituída por um jogo de números, os números da economia, aparentemente inexoráveis e realistas. Ainda que, na verdade, eles sejam falaciosos e enganadores, como o atestam as previsões regularmente erradas do ministro das Finanças português. Supostamente, os números dizem que não é possível outra

política que não a dos números, que afinal de contas estavam errados. Por trás desta matemática, e da sua falsa objectividade, estão convicções, uma teoria económica, que, assumindo

a

verdade de um dogma, se sobrepõe ao

O dogma teocrático já não existe, mas vivemos sujeitos ao dogma tecnocrático dos números

O Papa Bergoglio explicou ontem, de forma minuciosa, aos jornalistas que acompanham a transição no Vaticano, o caminho que o levou a escolher o nome de Francisco e o significado

político. E fá-lo à escala transnacional das políticas europeias ou pela forma como os mercados controlam em última análise as democracias. Noutro tempo, o papado e a Igreja eram fonte de dogmas absolutos pelos quais os homens do Ocidente estavam obrigados

a

reger-se. O aggiornamento da Igreja

desse nome. “Para mim, é o homem da pobreza, o homem da paz, o homem que ama e protege a criação, com o qual hoje temos uma relação que não é tão boa, não é?”, disse o Papa sobre Francisco de Assis, em nome de quem se propõe devolver a Igreja à sua missão original, uma igreja que ele quer que seja pobre e dos pobres. Muitos dos jornalistas que o ouviram na Aula Paulo VI eram não-crentes ou crentes de outras religiões e a todos o Papa saudou, no final, reconhecendo as diferenças entre todos os que ali estavam. Afinal, a

ainda está longe de ser completo, mas ela

habituou-se a viver com as diferenças, a partilhar o espaço do simbólico que antes queria para si como um monopólio. Nas democracias europeias, desapareceu

a

capacidade de mudar o quotidiano

através do simbólico, das ideias, do político. Passámos do dogma teocrático ao dogma tecnocrático. Por isso um Papa se torna parte de uma esperança — que, um dia, as palavras voltem a valer mais que os números. Até porque as palavras podem ter mais do que um significado.

CARASDASEMANA

podem ter mais do que um signifi cado. CARASDASEMANA Fernando Pinto O aterrado Aterrado com as

Fernando Pinto O aterrado

Aterrado com as consequências da greve, fez os sindicatos aterrar

O presidente da TAP estava

certamente aterrado com o

crescimento do volume de reservas que iam sendo canceladas à medida que a greve na companhia

se aproximava. Através da arte bem

portuguesa de dar a volta ao texto,

e com uma mãozinha do Governo,

encontrou maneira de contornar

os cortes salariais impostos

pelo Orçamento do Estado, que

o falhanço na privatização da

empresa tornara incontornáveis.

O homem que estava aterrado

conseguiu assim fazer aterrar a greve. Para benefício da empresa que lidera, sem dúvida. Mas, quanto ao Governo, fica de novo provado que quem pode, pode, e quem não pode leva um corte.

provado que quem pode, pode, e quem não pode leva um corte. Alice Vieira A candidata

Alice Vieira

A candidata

Ao apresentar-se pelo PS em Mafra, fez uma opção de cidadania

A autora de Às Dez a Porta Fecha

parece não ter medo que o Partido Comunista, onde milita há anos, lhe feche a porta, por ter aceite apresentar-se como candidata à presidência da Assembleia Municipal de Mafra pelo PS, na lista liderada por Elísio Summavielle. Em comunicado, os comunistas queixam-se de quebra de confiança. Na resposta,

a escritora diz não pagar quotas há anos e que, em eleições autárquicas, valem as pessoas

e não os partidos. Subscrevem-

se o princípio e a liberdade de Alice Vieira, que conhece Mafra há muitos anos, em escolher um

projecto político em consciência.

É uma maneira de abrir portas.

que conhece Mafra há muitos anos, em escolher um projecto político em consciência. É uma maneira

PÚBLICO, DOM 17 MAR 2013 | 3

OSSERVATORE ROMANO/AFP

“O meu prognóstico é simples: as actuais políticas da zona euro terão de ser modificadas”

“Quando se atribui um rendimento de 20 mil euros [a Filipe Pinhal], é extorsão”

“Neste momento, há uma fusão quase co-governativa entre a banca e o poder político

Kenneth Rogoff

Silva Lopes

Pacheco Pereira

Expresso

Dinheiro Vivo

I

QuemosviuequemosvêJorgeBergoglio

2007
2007

Não consta dos anais que o Papa Gregório XII, ao renunciar no distante ano de 1415, tenha alguma vez conversado com o seu sucessor, Martinho V. Por isso, quando o Papa Francisco anunciou, após ter sido eleito bispo de Roma, ter conversado com o seu antecessor, Bento XVI (como se de uma mera sucessão de cargos políticos se tratasse), estava a relatar uma conversa sem qualquer precedente. Pela primeira vez, dois papas tinham falado entre si. Na imagem ao lado, captada em 2007, o cardeal Bergoglio, actual Papa em funções, cumprimenta o Papa Bento XVI, actual Papa emérito. A conversa que os dois homens tiveram, agora terá tido toda uma outra carga simbólica. De que terão falado? E se o Papa Francisco seguir o exemplo de Bento XVI e renunciar, mas com Ratzinger ainda vivo? Teríamos três papas. Um clube?

com Ratzinger ainda vivo? Teríamos três papas. Um clube? Ricardo Gusmão O preventor O suicídio é

Ricardo Gusmão O preventor

O suicídio é um tema tabu. Este psiquiatra está a combatê-lo

A primeira aplicação em Portugal de um programa europeu de combate ao suicídio (o OSPI) permitiu reduzir em 23,3% a taxa de tentativas de suicídio no concelho de Amadora, onde foi implementado. O psiquiatra por trás dos resultados positivos deste plano, baseado numa abordagem multidisciplinar, chama-se Ricardo Gusmão. O suicídio é um tema tabu nas nossas sociedades e o psiquiatra deixou recomendações sobre grupos etários e concelhos que exigem vigilância especial. Os media são parte desta conversa:

Gusmão critica o efeito mimético das notícias. Há um debate a ter aqui. Também sem tabus. Todas as notícias? Algumas notícias?

Também sem tabus. Todas as notícias? Algumas notícias? Rei Abdullah O carrasco A execução de sete

Rei Abdullah O carrasco

A execução de sete jovens é um atentado aos direitos humanos

Nasser al-Qathani tinha 15 anos quando assaltou uma joalharia em Abha, na Arábia Saudita. É um dos sete jovens executados há dias por roubos que cometeram quando era menores. Foram fuzilados, perante o silêncio sufocante da comunidade internacional. O rei Abdullah, que autorizou as execuções, foi insensível aos apelos das organizações de defesa dos direitos humanos. O petróleo parece ser o biombo perfeito para manter ocultos os crimes de regimes como o saudita, que se rege por leis fundamentalistas e onde a justiça não existe. As execuções envergonham a Arábia Saudita e todos os que fizeram de conta que não as viram.

e todos os que fi zeram de conta que não as viram. Laura Boldrini A presidente

Laura Boldrini A presidente

Candidata em nome das mulheres, vai presidir ao Senado italiano

As eleições de Fevereiro não levaram a Itália para o pós- Berlusconi, mas a eleição de

Laura Boldrini, de 52 anos, para

a presidência do Senado é uma

bofetada de luva branca no Cavaliere. Antes das eleições, disse ao PÚBLICO que a Itália tinha chegado ao Ano Zero da civilização e que as conquistas das mulheres tinham desaparecido.

Só os eleitos pelo partido do

Cavaliere se recusaram a aplaudir

a candidata do centro-esquerda,

que, no discurso de posse, disse que o Senado “defenderá os direitos das mulheres vítimas da violência mascarada de amor”. Há um pouco de Itália que entrou na era pós-Berlusconi.

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DESTAQUE

| PÚBLICO, DOM 17 MAR 2013

O NOVO PAPA

A Igreja existe “para

comunicar

a

verdade,

a

bondade

e

a beleza”

“Foi por causa dos pobres que pensei em Francisco”, disse o Papa Francisco na audiência aos jornalistas. “Queria tanto ter uma Igreja pobre e para os pobres”

“Queria tanto ter uma Igreja pobre e para os pobres” Sofia Lorena, em Roma D e

Sofia Lorena, em Roma

D e João Paulo II disse-se que tinha carisma, tanto que foi um Papa poster. Os 27 longos anos do seu pontificado, o segundo mais longo de sempre, foram passados a

viajar pelo globo, a falar a multidões e

a ser aclamado por elas, nas décadas

da televisão e ainda da Internet. Quando o Papa da popularidade morreu, Bento XVI chamou-lhe “o grande Papa João Paulo II”. Ratzinger foi o intelectual, o teólogo de quem se

diz não ter querido nunca ser político

— até que o mundo se surpreendeu

com a mais política das decisões, a da renúncia. Francisco herda a Igreja de um e de outro. E recebe-a com sentido de

humor e com a grandeza de tudo o que é simples.

Quando foi eleito, disse que que- ria rezar “pelo nosso Papa emérito”. Depois, o Papa que veio “do fim do mundo” despediu-se dos peregrinos em Roma a desejar-lhes “boa noite

e bom descanso”. Entretanto, pre-

sidiu a uma missa perante os carde- ais para lhes dizer que, “sem cruz, somos mundanos, bispos, padres, cardeais, mas não somos discípulos

do Senhor”. Na sexta-feira, ainda na compa- nhia dos que o elegeram, voltou a prestar homenagem ao “gesto cora- joso e humilde” da renúncia e afir- mou que pensa no magistério do antecessor com “grande afecto”,

sublinhando a sua “bondade, humil- dade e doçura”. Saudou os cardeais, um a um, e fez-lhes um pedido: que encontrem “novos meios de levar

perior-geral da Companhia de Jesus. Telefonou para a Companhia, em Roma, e o recepcionista pensou que era uma piada. Não era, e Andrea lá acabou por perceber que estava ao

telefone com Francisco. Ontem, ao terceiro dia do pontifi- cado que só será oficialmente inau- gurado na missa de terça-feira, foi a vez de os jornalistas fazerem fila para o Papa os receber. Em 2005, Ratzinger já recebera os jornalistas que trabalham no Va- ticano e todos os que aqui tinham vindo para acompanhar o funeral de João Paulo II e a sua eleição. Des- ta vez, há ainda mais jornalistas em Roma, 5600 pediram e receberam acreditações temporárias. Muitos vieram com a família e, assim, a Aula Paulo VI, o auditório que se ergue

e, assim, a Aula Paulo VI, o auditório que se ergue Para mim, [Francisco de Assis]

Para mim, [Francisco de Assis] é o homem da paz, o homem da pobreza, o homem que ama e protege a criação

o homem da pobreza, o homem que ama e protege a criação encheu-se de gente adulta

encheu-se de gente adulta e também de crianças e de bebés de colo. A audiência, um encontro infor- mal, juntou 6000 pessoas numa sala de 12 mil lugares e aconteceu entre aplausos e sorrisos, com a assistên-

cia dividida entre os que tiravam no- tas, gravavam imagens e fotografa- vam o Papa e os que se fotogravam

a si mesmos e aos filhos, com o Papa em pano de fundo.

“Vocês trabalharam, eh”

Riso fácil, espontaneidade e boa dis- posição, empatia. Assim se diz que era Jorge Bergoglio, quando vivia em Buenos Aires e andava de metropo- litano, assim se mostrou o Papa na meia hora quase certa que passou com os jornalistas. Chegou, acenou e depois, sempre

a

evangelização aos confins da Ter-

mesmo ao lado de São Pedro e por

a

sorrir, sentou-se na cadeira que

ra”. No mesmo dia, quis agradecer

onde se entra logo depois das colu-

o

esperava, no centro do palco do

a

“bela carta” que recebera do su-

nas laterais à esquerda da Basílica,

auditório, e começou por ler uma

PÚBLICO, DOM 17 MAR 2013 |

DESTAQUE |

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GIUSEPPE CACACE/AFP

O Papa deixou uma bênção a todos os jornalistas, crentes ou não crentes

 

“Queria tanto ter uma Igreja po- bre e para os pobres”, disse Bergo- glio. “A Igreja, mesmo sendo uma instituição histórica, não tem uma natureza política, é essencialmente

deveria chamar Adriano porque [o Papa] Adriano VI foi um verdadeiro reformador, e é preciso reformar… Outros disseram-me que me cha- masse Clemente, para me vingar de

nhia de Jesus”, acrescentou o jesuí-

espiritual: é o povo de Deus, o santo povo de Deus, que caminha em di- recção a Jesus Cristo”, continuou.

Clemente XIV, que aboliu a Compa-

ta. “Francisco de Assis, da pobreza

Como fizera nos dois dias anterio-

e

da paz”, preferiu o arcebispo de

res, quis sublinhar a centralidade de Cristo, “a referência fundamental, o coração da Igreja”: “Sem Ele, Pedro

Buenos Aires. No fim, o Papa levantou-se e dei- xou-se ficar por mais uns minutos a

 

e

a Igreja não existiriam nem teriam

partilhar o palco com alguns jorna-

lar estava Giovanna Chirri, a jornalis-

 

razão de existir”. A seguir, quis dedicar mais umas palavras a Bento XVI, que irá visitar no próximo sábado a Castel Gandol- fo. “Como repetiu várias vezes Ben-

to XVI, Cristo está presente e guia a sua Igreja. Em tudo o que acontece,

listas que saudou, um a um. Ontem, foi a vez de os jornalistas fazerem fila para o cumprimentarem. Entre os que subiram para lhe fa-

ta da agência italiana ANSA que foi a primeira a dar a notícia da renúncia

 

o

protagonista, em última análise, é

de Bento XVI, anunciada pelo agora

 

sempre o Espírito Santo. Ele inspi- rou a decisão de Bento XVI para o bem da Igreja; Ele falou na oração

Papa emérito sem aviso, no meio de uma intervenção em latim. Depois de noticiar a decisão de Ratzinger,

 

e

na eleição aos cardeais. É impor-

contou entretanto Giovanna Chirri, a

 

tante, caros amigos, ter em conta este horizonte interpretativo, esta hermenêutica, para podemos pôr os acontecimentos destes dias em foco no coração”.

jornalista chorou. Ontem de manhã, sorriu, enquanto estendia a mão ao Papa e os colegas aplaudiam. Houve aplausos fortes para Gio- vanna Chirri e também para o últi-

Nem Adriano nem Clemente

mo homem da fila, Alessandro For- lani, jornalista da televisão pública

Francisco quis depois explicar pela sua própria voz a escolha do nome.

“Eu conto-vos a história. Na eleição, tinha o meu lado o arcebispo emé- rito de São Paulo e também o pre- feito emérito da Congregação pa- ra o Clero, Cláudio Hummes, um

italiana Rai que é cego e levava o seu cão pela mão. Francisco cum- primentou o jornalista e deu festas ao cão. Seguiu-se um aplauso e o momento das despedidas. Antes de deixar a Aula Paulo VI, acompanhado de um novo aplauso,

grande amigo. Que, quando a coisa

o

Papa quis deixar uma “bênção não

se tornava um pouco perigosa, me confortava. Aos dois terços, houve

solene”, “do coração”. “Como mui- tos de vocês não pertencem à Igreja

 

o

aplauso, porque tinha sido eleito o Papa. E ele abraçou-me e beijou-me

Católica, outros não são crentes, é do coração que vos dou esta bên-

curta intervenção preparada — in-

de improviso e de olhares dirigidos

tando os olhos das notas para olhar

dizer, mundanas, e mesmo por isso

e

disse-me ‘não te esqueças dos po-

ção em silêncio, a cada um de vocês,

terrompida aqui e ali por momentos

os jornalistas e se rir com eles. Como também riu, ao ouvi-lo, o porta-voz

não é fácil interpretá-las e comuni- cá-las a um público vasto e variado”,

bres’. Aquela palavra entrou aqui”, contou Francisco, tocando na sua

respeitando a consciência de cada um” e para que “cada um a receba”.

à

audiência e não aos papéis que se-

do Vaticano, padre Lombardi, que

descreveu.

cabeça. “Os pobres, os pobres.”

“Mas sabendo que cada um de vocês

gurava na mão. “Caros amigos, estou contente por

tantas conferências de imprensa deu nas últimas semanas, como riram e

Esta tríade existencial

“Alguns não sabiam por que tinha escolhido o nome Francisco, e inter-

é

filho de Deus.” Vestido de branco, sapatos pretos

vos encontrar no início do meu ma-

aplaudiram os jornalistas.

“Para o vosso trabalho são precisos

rogavam-se se seria por Francesco

de atacadores e sola gasta, deixou

gistério na cadeira de Pedro, a vocês que trabalharam aqui em Roma nes-

Francisco quis deixar um “agrade- cimento sentido a todos os que sou-

estudos, sensibilidade, experiência, como em tantas outras profissões,

Saverio [jesuíta expulso das coló- nias espanholas, conhecido como

a

se. Hoje, o Papa volta a dirigir-se aos

“bênção do coração” e recolheu-

te

período tão intenso, iniciado com

beram observar e apresentar estes

mas é precisa uma grande atenção

Francisco Xavier], Francisco de Sa-

peregrinos e ao mundo, no seu pri-

o

surpreendente anúncio do meu

acontecimentos da história da Igreja

à

verdade, à bondade e à beleza, e

les [bispo de Génova] ou Francisco

meiro Angelus, a oração que o Su-

venerado predecessor Bento XVI, no último 11 de Fevereiro. Saúdo

tendo em conta a perspectiva mais correcta em que devem ser lidos, a

nisto estamos próximos porque tam- bém a Igreja existe para comunicar

de Assis”, descreveu. “Foi por causa dos pobres que pensei em Francis-

mo Pontífice reza a cada domingo ao meio-dia.

cordialmente a cada um de vocês”,

da fé”. Os acontecimentos da histó-

a

verdade, a bondade a beleza”, afir-

co. Depois, enquanto o escrutínio

A Câmara de Roma avisou que a

disse Francisco. “O lugar dos mass media foi cres-

ria, afirmou, “pedem quase sempre uma leitura complexa, que por vezes

mou Francisco. “Deve ficar bem cla- ro que somos todos chamados não

prosseguia, até aos votos finais, pen- sei nas guerras. E Francisco é o ho-

área em redor de São Pedro estará fechada ao trânsito — alguns anteci-

cendo sempre nos últimos tempos,

pode até incluir a dimensão da fé”.

a

comunicar nós próprios, mas esta

mem da paz. E assim surgiu o nome

pam uma multidão superior à que

tanto que se tornou indispensável para narrar ao mundo os aconteci- mentos da história contemporânea. Um agradecimento especial a vocês,

“Os acontecimentos eclesiásticos não são certamente mais complica- dos do que os políticos e os econó- micos. Mas têm uma característica

tríade existencial que é formada pe- la verdade, a bondade e a beleza.” Sabia-se que a audiência seria des- contraída. Mas antecipava-se igual-

e

aproveitasse para explicar, uma vez

no meu coração: Francisco de Assis. Para mim, é o homem da pobreza, o homem da paz, o homem que ama

chegará para a missa de terça-feira, dia em que o metro será gratuito até às 14h. Em Roma, hoje é domingo de

pelo vosso qualificado serviço nos últimos dias. Vocês trabalharam, eh? Trabalharam!”, disse o Papa, levan-

de fundo particular: respondem a uma lógica que não é principalmen- te a daquelas categorias, podemos

mente que o novo Sumo Pontífice

mais, ao que vem.

protege a criação, com o qual hoje temos uma relação que não é tão boa, não é?”, afirmou. “Depois, muitos disseram que me

Angelus com novo Papa e domingo de maratona. Desde ontem, já se podem comprar posters do Papa Francisco.

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O NOVO PAPA

to: “Vai Francisco e repara a minha Igreja”. Nove séculos depois, a figu- ra de Francisco, a sua missão, pode transformar-se no programa para o pontificado do Papa Francisco? “Na escolha do nome, está todo um programa, há uma intencionali- dade profunda”, responde Anselmo Borges, sacerdote e professor de Filo- sofia na Universidade de Coimbra. “Ao chamar-se Francisco, quis fa- zer um corte com a opulência, quis mostrar que estar ao serviço da Igreja não é ter poder, é servir a humanida- de. O Papa mostra que quer que os

religiosos estejam ao serviço da Igreja

e que não estejam na Igreja para se

servirem em proveito próprio”, inter- preta Carreira das Neves, franciscano

e professor catedrático da Universi-

dade Católica Portuguesa (UCP). São Francisco tem uma mensagem “de grande modernidade e actuali- dade”, começa por dizer Vítor Melí- cias, superior da Ordem dos Frades Menores, os franciscanos, lembran- do que o “espírito de Assis” é o da “fraternidade cósmica, da paz uni- versal, do ecumenismo e da abertura às mulheres”. “Santa Clara pode ser uma mulher que inspire este Papa a tomar medidas de dar igualdade de condições às mulheres no exercício dos ministérios”, espera Melícias. São Francisco teve uma grande abertura ao universo feminino e lai- co (permitindo as ordens terceiras), nota João Luís Inglês Fontes, investi- gador em História na Universidade Nova de Lisboa e na UCP. “Tinha um grande acolhimento à diversi- dade”. “Esperemos que ponha em prática

a opção pelos pobres e que, tal como aconteceu em São Damião, este Papa repare a Igreja que, neste tempo, está tão vacilante na sua fé”, diz Maria da Glória, superiora das Franciscanas Missionárias de Maria, em Lisboa.

Um “jesuíta franciscano”

Francisco é um “jesuíta francisca- no”? Manuel Rito Dias, superior da comunidade dos Capuchinhos, em Fátima, outro ramo dos francisca- nos, considera que, apesar das du- as ordens terem estilos muito dife- rentes – os franciscanos apostados no trabalho com os mais pobres; os jesuítas com um “estilo mais inte- lectual, virados para a cultura e a ciência” – é possível ter “um jesuíta com um estilo de vida franciscano, sem renunciar ao seu carisma”. Ou seja, um homem que se inspire em São Francisco de Assis e em São Francisco Xavier, o jesuíta evange- O Papa Francisco transmitiu, desde logo, uma mensagem de simplicidade lizador. “Os dois completam-se na-

Bárbara Wong, Lurdes Ferreira e São José Almeida

A dúvida ficou desfeita. Jorge Mario Bergoglio escolheu o nome de Francisco em ho- menagem a São Francisco de Assis, o homem que na Idade Média confrontou a

Igreja por causa da opulência em que vivia, o homem que abraçou a pobreza na sua totalidade, aquele que deu os primeiros passos para compreender o outro ao ir ao Egipto e encontrar-se com o sultão Al-Kamil, que os cruzados se preparavam para atacar. Francisco, o homem que aco- lheu Clara e as suas companheiras, mulheres que queriam seguir o seu estilo de vida. Aquele que tratava por “irmão” todas as criaturas e coisas. Diz a tradição que um dia Francis- co foi rezar à igreja de São Damião, fora das portas da cidade italiana de Assis, e que, prostrado diante do crucifixo, ouviu a voz de Cris-

Francisco, o programa de acção de um Papa jesuíta

O que há na escolha do nome que presta homenagem a São Francisco de Assis? Um projecto de uma Igreja mais simples e virada para os pobres? Prognóstico de reconstrução?

ELISEO FERNANDEZ/REUTERS
ELISEO FERNANDEZ/REUTERS

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quilo que deve ser um Papa”, define. Até porque na “espiritualidade ina- ciana”, de Santo Inácio de Loyola, o fundador dos jesuítas, “há muito de

São Francisco”, aponta Vítor Melícias. O modo como nasceram as duas ordens – fransciscana e jesuíta – é muito distinta. No século XII, com

o renascimento urbano, com uma

sociedade urbana em explosão e a

importância crescente do dinheiro, Francisco rompe com as normas, optando pela pobreza e pela pe- nitência. “Uma opção que lhe dá grande liberdade para acolher os que mais sofrem”, explica João Lu-

ís Inglês Fontes.

Inicialmente, Francisco de Assis é um homem que atrai muitos segui- dores, num movimento de homens que não são consagrados. Francisco

de Assis nunca foi padre, foi um leigo até que Roma proibiu a pregação de pessoas não-consagradas e, por isso, aceitou ser diácono. Origem diferente tem a Companhia de Jesus, que surgiu no século XVI, como resposta ao protestantismo:

eram sacerdotes que se propuseram ser um “exército dentro da Igreja pa-

ra defender o Papa” através da filoso-

fia, da teologia e da ciência, descreve Carreira das Neves. Foram também grandes evangelizadores que com- preenderam que a palavra de Deus se espalha através do respeito pela cultura dos outros. Também os franciscanos evangeli- zaram, recorda Vítor Melícias, mas, enquanto os jesuítas trabalhavam com as elites, os franciscanos esta- vam ao lado do povo, repara. Para o jesuíta Miguel Almeida, di- rector do Centro Universitário Padre António Vieira, em Lisboa, o grande desafio é o de ouvir os cristãos que não estão na Europa e entrar em diá- logo com os muçulmanos. E, dentro da Igreja, “encontrar maneiras de ser mais comunidade, mais comu-

nhão”, dando aos leigos um papel mais participativo.

Importância da pobreza

Oriundo da América Latina, o Papa eleito na quarta-feira é um homem que sabe o que é a pobreza e a rela- ção da Igreja com o poder político, nota Inglês Fontes. Depois do Concílio Vaticano II,

a Companhia de Jesus assumiu a

vanguarda da Igreja e promoveu a Teologia da Libertação na América Latina, chegando mesmo a envolver- se politicamente. A figura do cardeal Óscar Romero, um teólogo jesuíta assassinado por militares em São Sal- vador, em 1980, enquanto celebrava

missa, marcou a Igreja na América Latina. Outro nome marcante foi o do teólogo Leonardo Boff, um fran-

ciscano brasileiro que acabou por se desvincular da Igreja. No seu blog, Boff afirma que, tal como Francisco de Assis, o Papa Francisco “se deu conta de que a

Igreja está em ruínas pela desmo- ralização dos várias escândalos que atingiram o que tinha de mais precioso: a moralidade e a credibi- lidade”. “Francisco não é um nome. É um projecto de Igreja pobre, simples, evangélica e destituída de todo o

poder. É uma Igreja que anda pelos caminhos, junto com os últimos; que cria as primeiras comunidades de irmãos que rezam o breviário debaixo de árvores junto com os passarinhos. É uma Igreja ecológica que chama a todos os seres a doce palavra ‘irmãos e irmãs’. Francisco mostrou-se obediente à Igreja dos Papas e, ao mesmo tempo, seguiu

o seu próprio caminho com o evan-

gelho da pobreza na mão”, continua Boff. O teólogo vê o novo Papa como um homem que tem a experiência

da pobreza e, como tem uma “nova visão das coisas, a partir de baixo, poderá reformar a Cúria, descentra- lizar a administração e conferir um rosto novo e crível à Igreja.” Para reconstruir “o rosto de uma igreja que está desfigurado”, tal como no tempo de Francisco de Assis, Anselmo Borges valoriza os primeiros gestos e palavras de Jor- ge Mario Bergoglio e acredita que apontam genuinamente para um programa “franciscano” em qua- tro pontos essenciais: o retorno ao Evangelho, que “é a constituição da Igreja, não a Cúria nem o direito canónico”; a descentralização, ao reafirmar-se como “bispo de Roma perante os outros bispos” e “não co- mo monarca absoluto”; o diálogo

inter-religioso e cultural; e “alguma inclusão” para as mulheres, porque “Jesus tratava bem as mulheres”, tal como Francisco. E a mensagem do que é consi- derado o santo mais amado pelos católicos e também o mais radical

é recuperada, como programa de

acção de um Papa? Para o sacerdo- te-filósofo, sim. “Vivemos uma cri-

se mundial, procuramos um novo macroparadigma, não só na Euro- pa ou em Portugal, mas no mun- do policêntrico, multipolar, pode- rosamente tecnológico. O mundo está a reconfigurar-se e as pessoas procuram a simplicidade, o amor e sentido para a vida, por paradoxal

a simplicidade, o amor e sentido para a vida, por paradoxal A escolha do nome Francisco

A escolha do nome Francisco “é uma atitude de simplicidade, mas de proposta para mudança da Igreja”, uma “proposta de grande radicalidade”

Isabel Allegro de Magalhães Ex-secretária geral do Graal

Isabel Allegro de Magalhães Ex-secretária geral do Graal “O programa do pontificado terá implicações

“O programa do pontificado terá implicações práticas, a questão social vai ser uma prioridade, bem como o equilíbrio Norte-Sul e as assimetrias”

Paulo Rangel Eurodeputado do PSD

e as assimetrias” Paulo Rangel Eurodeputado do PSD que pareça”. O modelo de Francisco de Assis

que pareça”. O modelo de Francisco de Assis que o novo bispo de Ro- ma promete “é luz de esperança”.

Os políticos

“A escolha de São Francisco de Assis

é a escolha de uma atitude espiritual

e cósmica que hoje em dia ganha uma realidade nova, é a preocupa-

ção com os outros e com a natureza,

a ideia de que não podemos explo-

rar tudo”, afirma a professora cate-

drática de Literatura e ex-secretária- geral do Graal, Isabel Allegro de Ma- galhães, para quem “São Francisco de Assis pode ser recuperado como programa para a vida da polis e co- mo atitude espiritual em relação à apropriação que se faz da terra”. Por isso Isabel Allegro de Maga- lhães considera que a escolha do nome Francisco “é uma atitude de simplicidade, mas de proposta para mudança da Igreja”, pelo que “é, nesse sentido, uma proposta de grande radicalidade”. Por sua vez, o professor universi- tário e ex-líder parlamentar do BE, José Manuel Pureza, considera que “o ideário franciscano, que é o amor pelos pobres e pelo que é frágil, tem uma dimensão política fortíssima”,

PSD que se assume como “cristão de cultura católica”, considera que esta escolha do Papa não trará uma “perspectiva política”, mas sim “consequências políticas”. Ou seja, “o programa do pontificado terá im-

plicações práticas, a questão social

vai ser uma prioridade, bem como

o equilíbrio norte-sul e as assime-

trias”. E lembra que “é um Papa que

vem de um país, a Argentina, que há mais de uma década está sob resgate

e onde apoiou os pobres”. Defende assim que “haverá o re- forço de uma mensagem social com

mais clareza e visibilidade, que lhe dará tom político”. Mas acrescenta que o Papa já declarou que a Igre-

ja “não era uma ONG”. O que, para

Rangel, significa que o novo Papa “contextualizou a questão social na mensagem religiosa, não a desva- lorizou”. Advinha que “a doutrina social da Igreja vai passar para a frente, assim como a luta contra as injustiças”. E “haverá também uma consequência interna de purificação de despojamento da Igreja”. O eurodeputado avança ainda com um outro ângulo de análise. “A Igreja tem sido atacada pelas posi- ções em relação às questões morais,

e

prevê consequências. “É uma op-

ao centrar a mensagem na questão

ção pelo estilo de vida, não é ape-

social e ao pôr na penumbra a ques-

nas discursos, é uma prática política que está a aparecer numa estrutura de poder como o Vaticano”, o que

tão moral de vida de cada um, este Papa poderá conseguir um espírito que gerará maior consenso”.

a

torna “ainda mais interessante”.

E

assume: “Estou com grande ex-

Franciscanos versus jesuítas

pectativa sobre como se vai resolver este impacto de uma mensagem de defesa dos pobres numa estrutura de poder como a Igreja Católica.” Isto porque Pureza considera que “só será de facto operante se houver um discurso forte contra as estrutu- ras do pecado, que são as estruturas de exploração e opressão, sobre a precarização”. E afirma: “O Papa vai ter que fazer mais do que um discur-

Quanto ao facto de o Papa poder abraçar um programa de inspiração franciscana quando tem uma forma- ção de jesuíta, Isabel Allegro de Ma- galhães considera que “é exagerado pôr os jesuítas no topo da hierarquia intelectual da Igreja, outros grupos têm preparação”. Se há o hábito de “vê-los ligados à Inquisição e liga- dos às elites, há muitos jesuítas na América Latina que têm apostado

so piedoso sobre o que é o sistema financeiro.” Não escamoteando que o Papa tem já 76 anos e “perdeu parte dos pulmões”, o deputado do CDS João

na causa dos pobres”. Conclui: “Os jesuítas têm uma forte convergência de pensamento, mas há uma grande pluralidade, como, por exemplo, o padre Arrupe e muitos outros casos

Rebelo diz que “poderá pôr as pes- soas e a fé no centro da sua acção

na Europa e mesmo em Portugal”. José Manuel Pureza recorda que “a

e

não tanto a preocupação com a

história dos jesuítas na América La-

organização e com os agentes”. E com alguma ironia, conclui: “Neste

tina é uma história e um património de luta, logo no seculo XVII estive-

sentido podemos dizer, como ou-

ram ao lado dos guaranis”.

vi ao meu pai, que o Espírito Santo

estava a olhar para os cardeais e os inspirou. Para quem acredita que a Igreja é combate pelas pessoas e um olhar para as pessoas, esta nomea- ção é uma vitória.”

Paulo Rangel, eurodeputado do

Por sua vez, Paulo Rangel diz que ser jesuíta e seguir o ideário fran- ciscano “é compatível” e que “os franciscanos também têm cultu- ra”, lembrando Santo António de Lisboa, um doutor da Igreja que era franciscano.

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DESTAQUE

| PÚBLICO, DOM 17 MAR 2013

SAÚDE

Governo vai dar prioridade ao controlo das infecções

Portugal está entre os países da Europa onde a resistência aos antibióticos mais tem aumentado e onde a prevalência de infecções hospitalares é maior. O Governo lançou um programa nacional prioritário para combater o problema

um programa nacional prioritário para combater o problema Andrea Cunha Freitas O Governo atribuiu, no passado

Andrea Cunha Freitas

O Governo atribuiu, no passado mês de Fevereiro, o estatuto de programa nacional prioritário ao combate às infecções e às resistências aos antibióticos

que, desta forma, passa a integrar

a lista das (até agora) oito áreas

prioritárias sob a responsabilidade da Direcção-Geral da Saúde. O despacho do secretário de Es- tado Adjunto do Ministro da Saúde, Fernando Leal da Costa, passou quase despercebido. O que se pre- tende é controlar o fenómeno pre- ocupante do aumento das infecções hospitalares através de uma melhor monitorização e de acções concre- tas que disciplinem a utilização dos

antibióticos, nomeadamente através

da prescrição feita pelos médicos. “Há uma subida preocupante destes níveis e não podemos ficar

a assistir sem fazer nada. Precisa-

mos de acções programáticas efi- cazes”, justifica Francisco George, director-geral da Saúde. “Estamos confrontados com a iminência de termos infecções que não podem ser controladas e tratadas por anti- bióticos”, confirma. Apesar disto, Francisco George não subscreve os cenários catas- tróficos defendidos recentemente por uma especialista do Reino Uni- do que comparou esta ameaça ao terrorismo.

A

influente directora médica no

regressar a um tempo em que qual-

O

plano de acção deste programa

Resistência aos antibióticos

departamento de Saúde do Reino

quer infecção nos pode matar.

ainda não foi apresentado, mas

dos objectivos é “tomar um conjun-

pode ter consequências

Unido e conselheira do Governo bri- tânico, Dame Sally Davies, fez um

Novos antibióticos

Francisco George adianta que um

desastrosas, se nada for feito, num prazo de vinte anos

apelo ao Governo para que inclua

O

que fazer? A responsável de saú-

to

de medidas concretas que ajudem

as resistências aos antibióticos na lista oficial de ameaças nacionais da qual constam o terrorismo, uma pandemia de gripe ou o perigo de inundação da zona costeira.

de britânica reclama um investi- mento da indústria farmacêutica no desenvolvimento de uma nova classe de antibióticos. “O pipeline es- tá praticamente vazio. Desde finais

a disciplinar a utilização de antibió- ticos pelos médicos (através da pres- crição) e pelos doentes”. Sabe-se que dois terços das pres- crições de antibióticos são feitos em

uma tendência de aumento ao lon- go da primeira década do século)”, constata o despacho do Ministério da Saúde.

espectro (Klebsiella pneumoniae re-

O

crescente aumento das resistên-

da década de 80 que não há uma

ambulatório, fora de ambiente hos-

No preocupante aumento das

cias aos antibióticos é uma “bomba- relógio” defendeu. E, se nada for fei- to, a uma escala internacional, no prazo de vinte anos, uma simples infecção após uma pequena cirurgia de rotina pode ser fatal. “Não será possível fazer muitos dos nossos tra- tamentos para cancro ou transplan- tes”, acrescentou. As estimativas mais recentes sobre terrorismo divulgadas pela União

nova classe de antibióticos”, refe- re. Segundo defende, deve ser dado um incentivo aos laboratórios, que actualmente preferem apostar no desenvolvimento de fármacos para doenças crónicas a apostar em anti- bióticos que, na maioria das vezes, são tomados por períodos de oito ou dez dias. Mas, afinal, como é que os antibió- ticos – uma das maiores descobertas

pitalar, nomeadamente em centros de saúde. O despacho do secretário de Estado da Saúde estabelece ainda que “todos os hospitais do Serviço Nacional de Saúde e os demais que integrem a rede nacional de presta- ção de cuidados de saúde devem ga- rantir a existência de uma Comissão de Controlo de Infecção (CCI) imple- mentada no prazo de 60 dias”. Francisco George confirma a ne-

resistências aos antibióticos, tam- bém somos líderes, sobretudo no que se refere aos casos de infecção pela bactéria MRSA (Staphylococcus aureus resistentes à Meticilina). “Es- tamos entre os países com taxa mais elevada”, lamenta José Artur Paiva, que coordenava a comissão exclusi- vamente dedicada aos antibióticos e que ficará a coordenar o agora cria- do Programa de Prevenção e Con-

Europeia apontam para um registo

fardo bem mais pesado. Se nos cen-

da

medicina – se tornaram o “mau

cessidade de um reforço da moni-

a

aumentar e as resistências das

trolo de Infecções e de Resistência

de 30 mil vítimas de ataques, entre

da

ta” ou a parte mais fraca neste

torização que compete às CCI, mas

aos Antimicrobianos.

as quais 10 mil mortes. As resistên- cias aos antibióticos carregam um

trarmos apenas nos casos de tuber- culose multirresistente reportados, estamos a falar, segundo dados da Organização Mundial de Saúde, de mais de 440 mil casos que causam

retrato pessimista? A verdade é que a culpa é só nossa. O uso indevido e excessivo dos antibióticos fez com que perdessem força na guerra que travam com as bactérias. Tantas ve- zes os usamos desnecessariamente que deixam de ser eficazes. Nos relatórios do Sistema Euro-

sublinha que estas “têm de ter im- portância nas unidades de saúde e ter meios, instrumentos, espaço e recursos para cumprir a missão”. As infecções hospitalares estão

bactérias aos antibióticos também. Este é um facto que constitui uma

Além dos elevados números da bactéria MRSA, Portugal também acompanha a tendência europeia de um aumento de casos de uma resistência a antibióticos de largo

sistente a carbapenemos, por exem- plo) usados para tratar pneumonias

150 mil mortes. Por ano.

peu de Vigilância da Resistência aos

preocupação a nível internacional.

e

infecções urinárias. Apesar de

E

se é impossível adivinhar o im-

Antimicrobianos (EARS), Portugal

“Portugal é um dos países da UE

manter valores reduzidos (entre 1%

pacto de um ataque terrorista, no

surge, ano após ano, no grupo dos

com maior taxa de prevalência de

e

5%), Portugal contribui para este

caso dos antibióticos o futuro é mais do que previsível. No pior dos cená-

dez países europeus que mais con- somem antibióticos. Esse consumo

infecções nosocomiais [adquiridas em meio hospitalar] (o mais recen-

preocupante fenómeno registando um aumento de casos que duplica

rios – se nada for feito para mudar

excessivo será, precisamente, um

te

estudo da DGS concluiu que em

os valores encontrados nos anos an-

a actual situação – corremos o risco de recuar muitos anos na história e

dos principais alvos do programa nacional prioritário agora criado.

9,8% dos doentes foi identificada infecção nosocomial, mostrando

teriores (menos de 1%). No relatório Saúde em Números,

PÚBLICO, DOM 17 MAR 2013 |

9

JOÃO GUILHERME

PÚBLICO, DOM 17 MAR 2013 | 9 JOÃO GUILHERME publicado em Janeiro deste ano pe- la

publicado em Janeiro deste ano pe- la DGS, há um capítulo dedicado às infecções nosocomiais da corren- te sanguínea (INCS) nos hospitais portugueses onde se conclui que a prevalência aumentou de 3,2% em 1988 para 5,9% em 2010. O “apare- cimento crescente de microrganis-

mos multirresistentes” não é a única explicação para este aumento, mas

é uma delas. No total, entre Janeiro

de 2010 e Dezembro de 2011 foram registados 3744 episódios de INCS. Nos escassos dados sobre o nível de resistência é possível verificar que em quase metade dos episódios reportados 62,4% dos casos foram causados pela bactéria MRSA.

Um “novo impulso”

“Temos um problema internacional, com uma expressão variável de país

para país, e que em Portugal existe de forma significativa”, resume José Artur Paiva, que não abdicade fazer a “defesa da honra” dos antibióticos:

“É um património da Humanidade, aumentou a esperança média de vi- da, diminuiu a mortalidade neona- tal e possibilitou a realização com sucesso de cirurgias muito compli- cadas como transplantes”. No en- tanto, apesar de não subscrever a “linguagem desnecessária e que não

é científica” de Dame Sally Davies,

José Artur Paiva considera que este património “indispensável na práti- ca clínica está em riscos de extinção”

(sem o desenvolvimento de novas classes de antibióticos) e que está a

perder eficácia. Mas, para que todas

as catástrofes que a médica britâni- ca anuncia acontecessem era pre- ciso que não se fizesse mais nada a partir deste momento. O que não é

o caso, garante o especialista. “Há

uma consciência do problema e ele tem agora, em Portugal, um carácter prioritário”, nota, lembrando que as autoridades de saúde fazem uma

vigilância epidemiológica da taxa de infecções, da percentagem de alguns dos mais importantes micro-orga- nismos resistentes e do consumo de antibióticos. “Queremos dar um novo impulso a esta questão. Temos um número crescente de infecções hospitalares e não podemos ficar pa- rados”, reforça Francisco George. Mas além de todos os factos pro- vados e comprovados sobre a ques- tão dos antibióticos na saúde das

pessoas, Emídio Gomes, professor

catedrático e director da Escola Su- perior de Biotecnologia da Univer- sidade Católica do Porto, fala ain- da do domínio na alimentação dos animais e da segurança alimentar. Aqui, apesar de ainda haver muito

a fazer como comprovam os escân-

dalos mais recentes, o especialista assegura que nunca a segurança ali- mentar (no que se refere ao uso de antibióticos também) foi tão contro-

lada como é hoje. “As intoxicações de origem bio- lógica caíram de níveis aberrantes nos últimos anos”, diz. O que hoje é notícia, antes era algo que acontecia todos os dias.

SINDICATO DOS BANCÁRIOS DO SUL E ILHAS União Geral de Trabalhadores MECODEC Union Network International
SINDICATO DOS BANCÁRIOS DO SUL E ILHAS
União Geral de Trabalhadores
MECODEC
Union Network International
CONSELHO GERAL
CONVOCATÓRIA
Nos termos do Artigo 30.º dos Estatutos, convoco o colega para a sessão do Conselho Geral
do Sindicato dos Bancários do Sul e Ilhas, que se realiza no próximo dia 21 de março de
2013, com início pelas 9.00 horas, nas Instalações do SBSI, sitas na Rua Marquês da
Fronteira, 14 em Lisboa, com a seguinte
ORDEM DE TRABALHOS
Ponto Um - Apreciação e votação, nos termos da alínea f) do n.º 1 do Artigo 29.º dos
Estatutos, do Relatório e Contas do Sindicato relativo ao exercício de 2012:
a) Atividade Sindical;
b)SAMS;
c) USP;
d)Relatório e Contas do SBSI relativo ao exercício de 2012 (Decreto-Lei 36-
A/2011 de 9 de março).
Ponto Dois - Deliberar e autorizar a Direcão do SBSI, a adquirir ao abrigo da alínea h) do
n.º 1 do artigo 29.º do Estatutos, à Parque Escolar, E.P.E., pelo preço de €
64.000,00 (sessenta e quatro mil euros), o prédio urbano constituído por parcela
de terreno para construção com a área de 233 m², sito na Rua Dr. Júlio Dantas,
em Lisboa.
Lisboa, 12 de março de 2013
O Presidente da Mesa Coordenadora dos Órgãos Deliberativos Centrais
a) Arménio dos Santos
Nota: O relatório a que se refere alínea d) do O.T. resulta do facto de o SBSI pela sua atividade
e personalidade jurídica estar abrangido pelo Sistema de Normalização Contabilística
para as Entidades do Setor Não Lucrativo (SNC - ESNL), de acordo com o Decreto-Lei
36-A/2011 de 9 de março.
Número Nacional/Chamada Local
Número Nacional/Chamada Local

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PORTUGAL |

PÚBLICO, DOM 17 MAR 2013

Depois do 12.º ano, u

Velha em muitos países, a ideia de fazer um ano sabático, entre o ensino secundário e o superior, está a ganhar adeptos em Portugal. O tema já chegou à Assembleia da República

Educação Graça Barbosa Ribeiro

Dois anos depois de um empresário

ter desafiado dois jovens a interrom- perem os estudos e a viajarem pelo mundo, “para crescerem”, a discus- são sobre as vantagens de uma pausa na actividade académica chega à As- sembleia da República. Os ingleses, que há décadas criaram o conceito

e a prática, chamam-lhe gap year.

Os deputados do PS traduzem para “ano sabático” e pedem o apoio do Governo para o promover entre os alunos do ensino secundário. Foi um acaso. Chamado a partici- par numa iniciativa organizada pelo Agrupamento de Escolas de Carre- gal do Sal, Gonçalo Azevedo Silva, que estava no 12.º ano, lembrou-se, “porque achava a ideia gira”, de fa- lar sobre um tema que estudara no

ano anterior, nas aulas de Inglês. No auditório da Fundação Lapa do Lo- bo (FLL), requisitado para o Encon- tro da Oralidade, o rapaz discorreu sobre as vantagens do ano sabático, ou, em inglês, gap year – um ano de pausa nas actividades de rotina, neste caso lectivas, normalmente entre o ensino secundário e o supe- rior, para viajar, fazer voluntariado

e, eventualmente, trabalhar, em am-

bientes diferentes daqueles em que se nasceu e cresceu. Não pensou mais no assunto até ao dia em que, umas semanas depois, Carlos Torres, o empresário e presi-

dente da fundação onde decorrera

o encontro, lhe telefonou. Estremu-

nhado, ouviu: “Queres passar da te- oria à prática?” Hoje Gonçalo não pode dizer, com honestidade, que, ao convidá-lo a escolher um companheiro de via- gem e ao dar-lhe meios para correr 24 países em seis meses, o presiden- te da FLL lhe permitiu concretizar um sonho: “É que nem me tinha passado pela cabeça sonhar com tal coisa”, afirma, a rir. Carlos Torres, administrador do grupo Resul, Equipamentos de Ener- gia, sonhou por ele. “Estava a ouvir o Gonçalo a falar e a pensar: ‘O que eu adorava ter feito uma coisa destas’”.

Como empresário, Carlos Tor- res “acredita que, desde que bem organizado, um gap year pode ser um elemento valiosíssimo no cur- rículo”. “Faz com que estes miúdos cresçam imenso. E depois”, acres-

centa, “nesta fase, adiar por um ano

a entrada no mercado de trabalho

não altera nada – que diferença faz acabar uma licenciatura com 21 ou com 22 anos?” Tudo se enquadrava. Para além da

ideia e do jovem que a apresentara,

o empresário dispunha já dos meios

para a colocar em prática – os da pró- pria fundação, “uma entidade priva- da, que nunca recebeu um cêntimo do Estado” (como faz questão de fri- sar). Sediada na aldeia dos seus avós, na povoação da Lapa do Lobo, a FLL tem objectivos culturais, educativos

e de preservação do património nos

concelhos de Nelas e do Carregal do Sal. Foi com facilidade que no item “actividades e apoios” se acrescen- tou “Gap Year”.

“Horizontes abertos”

Gonçalo escolheu Tiago Marques, da mesma idade, para o acompanhar na “experiência-piloto” da FLL. O programa de viagem foi cuidadosa- mente delineado pelo empresário e pelos dois jovens que, meses mais

tarde, partiram com algumas obriga- ções, como fazerem voluntariado e partilharem as suas experiências no blogue Um Mundo a Aprender (http:// fllgapyear.wordpress.com). Os dois “pioneiros”, que, como exigira Carlos Torres, já se tinham

candidatado e haviam sido admitidos no ensino superior, voltaram diferen- tes. “Com horizontes mais abertos, mais capazes de resolver problemas com rapidez, de dar mais valor às coisas, de respeitar a diferença, mais solidários”, enumera Gonçalo, agora com 19 anos e a frequentar o 1.º ano do curso Economia, em Lisboa. Gonçalo e Mário também vol- taram determinados a contribuir para que outros jovens pudessem beneficiar de uma experiência se- melhante. Enquanto a FLL e Carlos Torres prosseguiam o seu caminho, criando o regulamento do concur- so que este ano lançou mais quatro

regulamento do concur- so que este ano lançou mais quatro O PS apresentou uma proposta de

O PS apresentou uma proposta de projecto de resolução que levará o tema gap year ao Parlamento

rapazes ao mundo, Gonçalo e Tiago constituíram a Associação Gap Year Portugal (AGYP). Depois de criarem uma página na Internet (http://gapyear.pt/) que ali- mentam com informações úteis aos futuros “gaps”, os dirigentes da AGYP pediram audiências a várias entida- des, para promover a iniciativa. No dia 5 de Março, conseguiram cativar os deputados da Comissão Parlamen- tar de Educação, que os receberam em audiência; e, há pouco mais de uma semana, o PS apresentou uma proposta de projecto de resolução que levará o tema ao plenário. “O Estado não tem de financiar este tipo de iniciativa, claro – para mais, nesta fase. Mas pode e deve envolver-se criando circunstâncias favoráveis à sua realização e, prin-

“No plano teórico, um ano a viajar é interessantíssimo. Mas não pode ser aconselhado a toda gente, muito menos a todos os jovens de 17, 18 anos.”

Pedro Rosário

psicólogo

cipalmente, promovendo a escola informal, a escola da vida, como al- go que os jovens devem valorizar”, considera Rui Duarte, deputado so- cialista e subscritor da proposta. Entre outros aspectos, o PS reco- menda que o Ministério de Educa- ção disponibilize meios adequados “à promoção do conceito e à disse- minação” da “cultura de ano sabáti- co” nas escolas; e ao Ministério dos Negócios Estrangeiros que disponi- bilize os recursos da rede consular portuguesa no mundo, com vista a uma maior facilidade na certificação dos circuitos de voluntariado e ao acompanhamento dos movimentos dos jovens. A ideia não é pacífica. “No plano teórico, um ano a viajar, a fazer vo- luntariado ou a trabalhar, é interes-

PÚBLICO, DOM 17 MAR 2013 | PORTUGAL |

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ma pausa para viajar

NELSON GARRIDO

RUI GAUDENCIO
RUI GAUDENCIO

Depois do seu “ano sabático”, Gonçalo Azevedo Silva lançou uma associação, a Gap Year Portugal

 

Margarida Gaspar de Matos, psicó- loga e coordenadora em Portugal do Health Behaviour in School-Aged Chil- dren (um levantamento dos compor- tamentos e estilos de vida dos adoles- centes levado a cabo de quatro em quatro anos pela Organização Mun- dial de Saúde), tem a mesma opinião sobre a pouca autonomia dos jovens portugueses, em regra. À semelhança de Alexandra Bar- ros, esta especialista aponta como

de dois, na América Latina. “Estes são casos excepcionais. É possível fazer um gap year com mais ou com menos despesas e estarmos a indi- car um valor poderia desincentivar quem tem menos meios”, justifica o empresário. Gonçalo, que criou uma fórmula de cálculo de custos “absolutamente rigorosa” na página da Internet da associação, compara: “Um estudan-

“Não se trata de um ‘Chau, mãe, vemo-nos daqui a um ano’”, diz

Cristina Pedrosa, professora do 3.º ciclo e do ensino secundário e mãe de Diogo, que neste momento viaja pela América Latina com financia- mento e apoio da FLL. Se “a maior dificuldade ainda é combater os medos dos pais”, co- mo diz Gonçalo, Cristina pode ser considerada uma “embaixadora” da AGYP. Afirma que, graças à Internet

termo de comparação o programa de mobilidade Erasmus, para alunos

te de fora de Lisboa gasta, em nove meses lectivos (incluindo quarto, transportes, propinas, alimenta-

e

que não saiba do filho. Quanto aos

às redes sociais, não há um dia em

do ensino superior e, por isso, mais

ção

)

cerca de 5004 euros. O mes-

riscos, “são relativamente contro-

 

tradição das classes alta e média-alta

velhos. “Nestes casos, a mobilidade está enquadrada, é um passo num percurso de desenvolvimento que é orientado pelas faculdades, que tem determinados objectivos e é dado no âmbito de uma rede institucional

mo período na Índia, incluindo as viagens de avião de ida e volta, cus- ta 3722.” Demasiado, ainda assim? “No limite, até se podem organizar as coisas de maneira a que o jovem trabalhe durante alguns períodos da

lados”, porque os jovens saem de Portugal com a viagem planeada, diz. Já prometeu à filha, de 14 anos, que, se puder, lhe proporcionará o seu gap year aos 18. A correr as Américas desde Outu-

santíssimo. Mas não pode ser acon- selhado, de forma genérica, a toda a gente, e muito menos a todos os jo-

o que se reflecte tanto na possibili- dade de financiar a viagem como de

que, em caso de necessidade, garan- te o apoio indicado. E, ainda assim,

viagem, para que o gap year fique a custo zero”, diz Carlos Torres.

bro, João Paiva também pensa que, se estiver “bem planeado e organiza-

vens de 17, 18 anos”, comenta Pedro

a

organizar, garantido a segurança e

há pessoas para quem a experiência

Sobre a falta de maturidade dos

do”, “o gap year tem tudo para dar

o

ano. Mas está convencido de que a

Rosário, coordenador da Unidade de

o

apoio aos estudantes que, caso se

é

negativa ”, diz.

em que se diz que os jovens chegam

jovens, o empresário contrapõe

certo”. Conta que começou a viagem

Investigação Aplicada em Aprendiza- gem e Realização da Escola de Psico- logia da Universidade do Minho.

dêem mal, podem regressar a casa no dia seguinte”. Alexandra Barros, especialista

Coloca, como Pedro Rosário, a questão dos custos: “Num momento

que esta é, precisamente, uma ex- periência que os faz amadurecer, e recorda que para fazer um gap ye-

apoiada pela FLL “com uma certa ansiedade”, sem a certeza de que estaria “à altura do que estava para

em Psicologia do Desenvolvimento

a

desmaiar de fome nas escolas, que

ar não é preciso “papar países’ ou

vir”. Hoje, sente-se “mais crescido”,

Portugueses imaturos?

e

Aconselhamento da Carreira da

sentido faz o ministério promover

Mais barato do que estudar

correr riscos. “Uma única acção de

“mais seguro”, “mais preparado para

Tal como outros psicólogos ouvidos pelo PÚBLICO, preocupa-se menos com um eventual desvio da carreira

Universidade de Lisboa, sublinha ou- tras diferenças culturais em relação às sociedades que encaram o gap ye-

uma iniciativa deste género?”

voluntariado, numa instituição de um único país, já será uma experi- ência valiosa.”

os desafios”. No sítio da Internet da AGYP já se inscreveram 64 pessoas que dizem

académica do que com a possibili- dade de os adolescentes não terem

ar com naturalidade. “Nos países do Norte da Europa os jovens começam

Foram respostas às questões levanta- das pelos psicólogos que a AGYP ten-

Gonçalo Azevedo Silva acrescen- ta que a associação – com a qual

ter intenções de fazer o gap year no próximo ano”. Gonçalo Azevedo Sil-

maturidade e estrutura emocional

a

trabalhar e saem de casa dos pais

tou promover por antecipação. Car-

colaboram viajantes experimenta-

va diz não poder dizer quantos por-

para lidar com a experiência. “O que pode ser excelente para uns pode ser extremamente doloroso para outros”, alerta Pedro Rosário, que

muito cedo, o que lhes garante uma autonomia e uma maturidade que os jovens portugueses, de uma forma genérica, estão longe de possuir, aos

los Torres e Gonçalo Azevedo Silva não revelam quanto custou a viagem dos pioneiros ou as dos quatro estu- dantes também apoiados pela FLL,

dos, mais velhos, como conselhei- ros – procura, precisamente, dar o apoio de que os “gaps” necessitam no planeamento e organização da

tugueses já fizeram o gap year entre o secundário e a universidade ou quan- tos vão, efectivamente, fazê-lo para

lembra que o gap year inglês “é uma

17, 18 anos”, considera.

que há dias se cruzaram, em grupos

viagem.

tendência “vai mesmo pegar”.

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PORTUGAL |

PÚBLICO, DOM 17 MAR 2013

Papel da polícia em morte de jovem gera violência no bairro da Bela Vista

Setúbal Ricardo Vilhena

O rapaz seguia ontem sem capacete, numa moto, e terá morrido quando era perseguido pela polícia. Bairro a ferro e fogo

Um grupo de polícias passa e ouve-se no rádio: “Reforços, rápido, estamos

a ser fortemente apedrejados!” Há

pedras e insultos e os agentes dis- param várias vezes para o ar. Há fu- mo por toda a rua, cheira a plástico queimado. Há mães que gritam pelos filhos das janelas — têm receio que se-

jam detidos. Ou atingidos pelos tiros. Foi assim ontem à noite, no Bairro da Bela Vista, em Setúbal.

A violência seguiu-se à morte de

um jovem de 18 anos durante a tarde.

Vários moradores garantiam que o jovem tinha morrido depois de ser atingido pela polícia, numa alegada

perseguição. Mas nem a PSP de Setú- bal nem a direcção nacional da PSP confirmaram essa informação.

A morte do jovem “terá acontecido

na sequência de um acidente de mo- to”, afirmou o subcomissário Vieira, da direcção nacional da PSP, em de- clarações ao PÚBLICO. E da esquadra em Setúbal veio a mesma certeza: “A morte foi causada pelo acidente.” Mas a TSF citava também a direc- ção nacional da PSP para avançar que chegou a haver disparos, com

balas de borracha, para tentar travar

que estava a reunir informação. Várias pessoas concentraram-se junto à esquadra local da PSP. No ex- terior estava um dispositivo de agen- tes munidos de material de protec- ção, como escudos e capacetes. Outros moradores insultavam a

polícia, das varandas, e outros ainda, na rua, desaprovavam, em surdina,

a queima dos caixotes do lixo e os

distúrbios. Por volta das 22h ouviram-se tiros

do corpo de intervenção. Um grupo de jovens que estava entre o Mercado

2 de Abril, o bairro vizinho e a Bela Vista dispersaram. Mas reagruparam- se rapidamente e incendiaram mais caixotes na Rua do Sacramento, se- guindo depois pela Rua do Padre José Maria Nunes da Silva, um dos limites do bairro, a poucos metros da esqua-

dra de polícia. Pelo caminho derru- baram mais caixotes, ecopontos e pontos de recolha de roupa, entre assobios e gritos contra a PSP.

A polícia agia com precaução,

acompanhada por câmaras de te-

levisão e jornalistas. Enquanto isso, algumas pessoas tentavam retirar os

seus carros da zona, para os levar para longe do bairro e da confusão. Várias viaturas foram atingidas por pedras.

O Bairro da Bela Vista foi palco, há

alguns anos, de incidentes do géne- ro. Em Maio de 2009, um jovem ali residente morreu em Alvor, no Al- garve, na sequência de um disparo

da polícia que o havia surpreendido

a cometer um roubo.

o

jovem.

O

resultado deste incidente foram

O

rapaz seguiria sem capacete

três dias de confrontos, com caixo-

e

na sequência de uma persegui-

tes incendiados, pedras e troca de

ção ou de uma fuga terá caído e morrido, adiantou ainda a direc- ção nacional da PSP, sublinhando

tiros e um ambiente de tensão que demorou a dissipar-se. com Andreia Sanches

NUNO FERREIRA SANTOS
NUNO FERREIRA SANTOS

Em 2009 o bairro também foi palco de confrontos (foto de arquivo)

NUNO FERREIRA SANTOS
NUNO FERREIRA SANTOS

Governo deve reforçar com urgência o orçamento da Segurança Social, diz Eugénio Fonseca

Cáritas diz que pobreza vai aumentar e pede mais

apoio para emergências

Crise Graça Barbosa Ribeiro

Ministro Mota Soares anunciou novos contratos locais para combater desemprego. Envolvem 10 milhões de euros

Ao mesmo tempo que o presidente da Cáritas Diocesana pedia ao Go- verno que assegurasse o “urgente reforço de meios” para o combate ao “inevitável aumento da pobreza”, o ministro da Solidariedade e da Se- gurança Social, Pedro Mota Soares, prometia disponibilizar, “ao longo dos próximos meses”, dez milhões de euros de verbas comunitárias para o combate ao desemprego em zonas mais vulneráveis do país.

O anúncio de ontem do ministro,

que informou que aquele montante será aplicado na celebração de 80 Contratos Locais de Desenvolvimen- to Social (CLDS), foi feito no final da visita a um lar de idosos de Cinfães, um dia depois de o Governo ter ad-

mitido, na sequência da sétima ava-

liação da troika, o aumento da reces- são e da taxa de desemprego, que poderá atingir um pico de 19%.

A notícia de que as consequências

da crise se iriam agravar já havia

provocado o alerta do presidente da Cáritas, Eugénio Fonseca, que à

margem do conselho geral daquela organização, em Bragança, afirmou que o Governo deveria reforçar com urgência o orçamento do Ministério da Solidariedade e Segurança Social, sob pena de a situação se tornar “ainda mais dramática”. Defendeu, em concreto, o aumen- to das verbas disponibilizadas aos centros distritais de solidariedade e segurança social para os chamados subsídios eventuais, que permitem fazer face a situações de emergên- cia, como a compra de medicamen- tos ou o pagamento de rendas ou de electricidade. Não foi possível obter um co- mentário de Eugénio Fonseca aos anunciados CLDS, que envolverão câmaras municipais e instituições particulares de solidariedade social. Mas o PÚBLICO sabe que, quando fez aquelas afirmações, o presidente

da Cáritas não tinha conhecimen- to da mais recente promessa do ministro. “São cerca de 10 milhões em verbas comunitárias que nós cre- mos, juntamente com o poder local e acima de tudo com as instituições sociais, poder fazer gerar um con- junto de projectos que criem postos de trabalho”, disse Mota Soares, ci- tado pela Lusa. Os CLDS contemplam um modelo

de gestão que prevê a concentração de recursos em zonas vulneráveis e em projectos que visem a criação de emprego, a formação e a qualifica-

ção; a “intervenção familiar e paren- tal”; “a capacitação da comunidade

e das instituições” e “a informação

e acessibilidade”. Segundo a Lusa, as zonas afectadas por desemprego

e pobreza elevados poderão benefi-

ciar de um apoio até 300 mil euros, durante dois anos, e as áreas enve- lhecidas ou fortemente afectadas por calamidades podem receber até 200 mil euros. Actualmente estão em curso 79 projectos inseridos nos CLDS, abran- gendo 18 concelhos. Há um mês, o secretário de Estado da Segurança Social, Marco António Costa, já tinha anunciado uma nova fase de CLDS, focalizada na empregabilidade. O socialista Nuno Sá classificou o anúncio de Mota Soares como “pro-

paganda barata” feita com “progra- minhas de 200 mil euros”. O coor- denador da bancada do PS para as questões do trabalho disse à Lusa que se está a assistir a uma atitude

de “insólito atrevimento”. Em decla- rações ao PÚBLICO, sublinhou que

a medida anunciada não resolve o

problema. “O Governo limita-se a prosseguir com medidas de política social dos Governos do PS e dá-se por satisfeito por combater um mi- lhão de desempregados com pro- gramas de 200 mil euros”, acusou, lembrando que quando o PS lançou este tipo de contratos locais, a taxa de desemprego era muito inferior. com Lusa

PÚBLICO, DOM 17 MAR 2013 | 13

BE lança Semedo à presidência de Lisboa para recuperar vereador

Autárquicas

Maria Lopes

Ana Drago é a candidata à presidência da assembleia municipal. Semedo rejeita coligação, mas acordos pós- eleições “logo se verá”

Ambição com realismo: é assim que João Semedo, coordenador do Blo- co de Esquerda, encara a proposta que o próprio fez à comissão polí- tica e à concelhia do partido, para que o seu nome fosse o candidato à presidência da Câmara de Lisboa nas próximas autárquicas do Ou- tono. A proposta foi acolhida com uma votação “superexpressiva”, descreve o próprio, na reunião de sexta-feira à noite. De onde saiu também o nome da deputada Ana Drago para encabeçar a lista para disputar a presidência da assem- bleia municipal. Estas decisões vêm encerrar um período de algu- ma celeuma dentro do BE sobre os nomes a indicar para a autarquia da capital. “Achei que a melhor so- lução era eu”, diz, sem rodeios, o coordenador bloquista. O realismo de João Semedo assen- ta no pressuposto de assumir desde já que o objectivo político principal da sua campanha é a “recuperação de um vereador” no município lis- boeta. “É uma visão realista do qua- dro político português e de Lisboa”, assume João Semedo ao PÚBLICO, recusando partir para a corrida com um horizonte limitado. “Não ando distraído, conheço o tabuleiro do jogo. Por isso assumimos que

conheço o tabuleiro do jogo. Por isso assumimos que Semedo rejeita coligações que não incluam “toda

Semedo rejeita coligações que não incluam “toda a esquerda”

não disputamos a câmara, mas o regresso do Bloco de Esquerda à câ- mara.” Ainda não fez as contas do que isso significa, mas lembra que, há quatro anos, “faltaram poucos votos para que Luís Fazenda fos- se eleito”. Em 2009, Fazenda teve 12.806 votos, e o PCP, o último a eleger, teve 22.575. O BE perdia as- sim oficialmente o lugar de verea- dor que, na prática, já não era seu, uma vez que José Sá Fernandes que, com estatuto de independente, fora eleito pelo Bloco, perdera o apoio do partido. E uma coligação? “Independente- mente do que o PS nos propuser [os dois partidos ainda vão reunir-se, na sequência da carta que os socia- listas enviaram na passada semana ao BE e ao PCP a propor encontros para discutir coligações em alguns municípios], não abdicaremos de uma candidatura só nossa em Lis- boa”, esclarece Semedo, justifican- do que o partido quer “uma forte disputa e discussão política” para o

município. Já alianças pós-eleitorais será assunto para mais tarde. “Pri- meiro, a campanha, depois os resul- tados”, diz Semedo. Mas aqui não faz recusas. “O BE assumirá todas as responsabilidades do programa com que se apresentar às eleições. Seremos parte da solução — ou não

— se essa solução for enquadrável com o programa.” O coordenador

bloquista esclarece que é favorável

a “coligações de toda a esquerda”,

mas para esse cenário nem o PCP nem o PS se mostram interessados. “O país beneficiaria de uma coliga- ção de toda a esquerda. Não é de meia esquerda; é de toda a esquer- da”, defende Semedo, esperando, no entanto, para ver o que o PS vai colocar em cima da mesa. Questionado sobre as áreas em que a cidade precisa de medidas urgentes, Semedo aponta o apoio social e a habitação. “O grande de- safio é, nesta situação de grande austeridade, a autarquia ter capa- cidade para responder à grande fragilidade da cidade que é a de ter uma população envelhecida e em muitos casos assolada pela po- breza.” Não sendo o apoio social uma responsabilidade em primeiro lugar do município, este “não pode ficar de braços cruzados”. Daí ser preciso contornar os espartilhos da nova lei das finanças locais e “reo- rientar as necessidades e os recur- sos municipais” para responder às inúmeras situações de “emergência social” que a cidade encerra, diz Semedo.

Seguro recusa falar de moção, BE desafia PS

Partidos

Maria Lopes

João Semedo desafia líder do PS a concretizar a ameaça de “ruptura” com o Governo que fez na sexta- feira. Costa não comenta

António José Seguro recusou-se on- tem a falar numa moção de censu- ra ao Governo, apesar de, na sexta- feira à noite, ter anunciado que a sétima avaliação da troika marca a ruptura das relações do PS com o Governo, mesmo não explicando de que forma fará esse corte. Ques- tionado à margem de um encontro com empresários em Castelo Branco sobre se vai apresentar uma moção de censura ao Governo, o líder so- cialista refutou esse cenário. “Faço

oposição construtiva e séria: escuto os portugueses, os seus problemas

e apresento soluções”, respondeu,

considerando desempenhar o papel

“que se exige ao líder da oposição:

que apresente alternativas”, o que

o PS tem feito.

Horas depois, o coordenador do Bloco de Esquerda, João Semedo,

desafiou o líder do PS a assumir essa ruptura, alinhando numa moção de

censura contra o Governo. “Fiquei surpreendido com o anúncio da rup- tura, que é tardio, mas chegou, mas

estranho que não se traduza em na- da de concreto”, disse ao PÚBLICO João Semedo. “É o momento opor- tuno, até pela gravidade das previ- sões e das medidas anunciadas - que representam mais três anos de aus- teridade, de recessão e desemprego

-, para o PS alinhar numa moção de

censura para clarificar a sua posi- ção sobre a troika. Para que se saiba onde está a direita e a esquerda em Portugal e quem está do lado da aus- teridade”, defende o coordenador do BE. Seguro até “pode perguntar qual é a pressa. Pois a pressa é exac- tamente apresentar uma moção de censura”, desafia Semedo. “O anúncio desta avaliação marca definitivamente uma clara ruptura entre o PS e o Governo, porque o PS não se revê nesta receita de em- pobrecimento, que não resolve ne- nhum problema”, disse o líder do PS na sexta-feira. Questionado ontem sobre a atitude de Seguro, António Costa, que defende há muito este corte, limitou-se a dizer que “o re- nascer pressupõe rupturas”, talvez inspirado pelo facto de estar numa plantação de árvores. com Lusa

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LOCAL |

PÚBLICO, DOM 17 MAR 2013

Casa da Música bate Torre dos Clérigos e já é a preferida dos turistas no Porto

Num estudo realizado para a Fundação de Serralves pela Porto Business School, 350 turistas colocam o edifício de Rem Koolhaas no topo de uma lista, na qual os shoppings surgem em 5.º lugar

Porto Patrícia Carvalho

Os turistas que visitam a cidade do Porto colocam, no topo da lista dos

locais a visitar, a Casa da Música, do arquitecto holandês Rem Koolhaas.

O edifício da Porto 2001 – Capital

Europeia da Cultura ultrapassa a Torre dos Clérigos ou as caves do vinho do Porto, de acordo com os resultados de um estudo realizado pela Fundação de Serralves. A fun- dação, projecto do arquitecto por- tuguês Álvaro Siza Vieira, ocupa o quarto lugar na lista. Os resultados constam do capí- tulo A Fundação de Serralves como

pólo de atracção turística do estudo Impacto Económico da Fundação de Serralves, realizado pela Porto Bu- siness School. O top 5 das atracções turísticas do Porto foi construído através de um inquérito a 350 tu- ristas, nacionais e estrangeiros,

a julgar pelos dados obtidos, a

imagem que o Porto hoje projecta vai para lá do centro histórico que, em 1996, lhe garantiu o galardão da Unesco de Património Mundial da Humanidade. Na lista de 23 locais previamente definidos e que os turistas já tinham visitado, ou pretendiam visitar, es- tão a Sé Catedral (6.º lugar), o Pa- lácio da Bolsa (8.º), a Igreja de São

Francisco (11.º) ou a Ribeira (12.º), símbolos do centro histórico, mas estão também muitos outros espa- ços que remetem para um Porto diferente, de modernidade e con- sumo.

O resultado mais surpreendente

talvez seja o facto de o item “cen-

tros comerciais” surgir na 5.ª posi- ção da lista, logo a seguir a Serral- ves e antes da Sé Catedral. Melchior Moreira, presidente do Turismo do Porto e Norte de Portugal, arrisca uma hipótese para este destaque. “Um dos nossos produtos estraté- gicos é precisamente o City Break, e penso que será nesse contexto que esse resultado surge. Acredito que este indicador se prenda mais com

o turismo interno, dos portugue-

ses que vão à cidade e sabendo da oferta e qualidade dos produtos, aproveitam para ir às compras”, diz este responsável.

A verdade é que o estudo de Ser-

ralves refere que “não se registaram

e,

diferenças estatisticamente signifi- cativas entre nacionais e estrangei- ros no que respeita aos locais top 5 mais visitados da cidade do Por- to” — top encerrado, precisamente, pelos centros comerciais, com 42% dos inquiridos a garantir que os vi- sitou ou pretende visitá-los, na sua

estadia na cidade.

Serralves tem outro estudo

A directora-geral da Fundação de Serralves, Odete Patrício, também não encontra explicação para este dado e diz que vai esperar pelos resultados de um outro estudo que a instituição espera apresentar em Maio, centrado na questão dos pú- blicos, para tirar conclusões mais concretas. “O objectivo deste estudo não era avaliar quais as principais atracções da cidade, mas quantificar o valor económico de Serralves. Os auto- res resolveram alargar um pouco o

Outros pontos de interesse

Estádio do Dragão à frente de cruzeiros no rio

O s 23 locais de interesse

seleccionados para o

inquérito promovido por

Serralves incluem espaços

Palácio da Bolsa (8.ª), o Museu de Soares dos Reis (9.ª), o Museu do Carro

Palácio da Bolsa (8.ª), o Museu de Soares dos Reis (9.ª), o Museu do Carro Eléctrico (10.ª), o Sea Life (13.ª) e a Livraria Lello (14.ª). A Estação de São Bento, recentemente destacada por publicações internacionais como um dos sítios a não perder no Porto, não fazia parte da lista definida pela equipa técnica.

tão distintos como o Jardim Botânico (19.ª posição) ou o Estádio do Dragão. A casa do F. C. Porto ocupa a 16.ª posição das preferências dos inquiridos, à frente dos cruzeiros pelo Douro (17.ª), da Foz (18.ª), do Palácio de Cristal (20.ª), das pontes (21.ª), da Avenida dos Aliados (22.ª) ou das Galerias de Paris (23.ª). Os restantes locais da lista são ocupados pelas viagens de autocarro e eléctrico da Citytours (7.ª posição), o

âmbito e introduzir estas questões. Nós, claro, ficamos contentes por aparecer em 4.º lugar, mas acho que estes resultados dependem sempre muito da amostra. No [site] Trip Advisor, por exem- plo, que valorizo muito, por ser aberto a todos, hoje [quinta-feira] aparecemos em 8.º [à frente da Casa da Música, em 9.º] , mas já houve dias em que estávamos em primeiro”, diz. Já Melchior Moreira não se mos- tra surpreendido com o top 5 do es- tudo de Serralves (com excepção da presença dos centros comerciais) nem com o facto de a Casa da Músi- ca ultrapassar a Torre dos Clérigos, que este ano está a celebrar os seus 250 anos. “Isto vem confirmar um conjunto de dados que já tínhamos em relação à cidade do Porto, de procura muito grande do touring ligado à Cultura e ao património”, assinalou.

PAULO PIMENTA
PAULO PIMENTA

Preferência pela Casa da Música confirma procura de turismo cultural, acredita o presidente do Turismo do Porto e Norte de Portugal

Breves Açores Famílias de Porto Judeu começam a regressar a casa A maior parte das

Breves

Açores

Famílias de Porto Judeu começam a regressar a casa

A

maior parte das famílias

desalojadas na freguesia de

Porto Judeu, na ilha Terceira, devido às enxurradas, já começou a regressar às suas habitações, mas entre cinco

e

seis agregados ainda vão

continuar a residir em casas

de familiares, segundo a Lusa.

A

freguesia de Porto Judeu,

em Angra do Heroísmo, foi uma das mais afectadas pelo mau tempo de quarta-feira, devido às fortes chuvadas que fizeram transbordar o leito de uma ribeira, provocando inundações em cerca de 40 moradias e danificando caminhos e viaturas.

O

presidente da junta de

freguesia, João Tavares, adiantou que a circulação rodoviária “nas vias principais” da freguesia “está toda restabelecida”.

Lisboa

Lisboa recebe cerimónia de prémio de arquitectura

O

prémio de arquitectura

da Fundação Aga Khan, no valor de um milhão de dólares

(cerca de 770 mil euros), vai este ano ser entregue numa cerimónia que decorre no Castelo de São Jorge, em Lisboa, noticiou o semanário Expresso. A cerimónia decorrerá em Setembro. Este é um dos mais prestigiados prémios na área,

atribuído de três em três anos. De acordo com o semanário,

a

escolha de Lisboa foi

negociada com o Ministério dos Negócios Estrangeiros

e

a cidade vai receber ainda

um seminário internacional.

O

prémio distingue projectos

“que impõem novos standards de excelência na arquitectura, nas práticas de planeamento, na conservação do património

na arquitectura paisagista”, lê-se no site.

e

PÚBLICO, DOM 17 MAR 2013 | 15

Relação manda repetir julgamento de queda de viaduto na A15, nas Caldas da Rainha

Acidente

O Tribunal da Relação de Lisboa

considerou nula a condenação dos 13 arguidos no processo do colapso do viaduto da A15, na freguesia de

S. Gregório de Fanadia, Caldas da Rainha, em que morreram quatro operários, e determinou a repeti- ção do julgamento. A decisão teve por base a apre- ciação de dezena e meia de recur-

sos intercalares interpostos pela defesa ao longo do processo, a

que, em parte, o tribunal veio ago-

ra dar razão, considerando dever

ser “realizado novo julgamento e proferido novo acórdão em que o tribunal aprecie a eventual respon-

sabilidade criminal e civil dos con- denados”. Entre as irregularidades estão a “valoração de prova que o não podia ser, perda de eficácia da prova produzida e indeferimento de toda a prova requerida na se-

quência das comunicações efec- tuadas sem que tenha sido dada a possibilidade aos requerentes de esclarecerem os fundamentos da sua pretensão”, refere o acórdão, a que a Lusa teve acesso. Entre as nulidades apontadas está

o facto de alguns despachos terem

sido proferidos apenas na presen- ça do juiz-presidente, quando de- veriam ter sido feitos na presença de todo o colectivo, e de o acórdão ter sido proferido “vários meses” após as alegações finais, quando o prazo legal é de um mês. Na deci-

são, proferida a 13 de Março, e de que os advogados foram notificados

na sexta-feira, são referidas “várias

nulidades que a defesa sempre en- tendeu que eram susceptíveis de pôr em causa a justiça da decisão final”, disse César Pratas, advogado de cinco arguidos do processo, que à data do acidente trabalhavam na empresa Mecanotubo.

A repetição do julgamento sem

“os elementos que vieram causar uma situação de injustiça” aumen- ta, para os 11 condenados, “a espe-

rança de que a justiça seja feita”.

O acórdão, com mais de 400 pá-

ginas, que condenou 11 de 13 argui- dos no processo do colapso de um viaduto da A15 (Óbidos-Santarém), foi conhecido em Setembro de 2011, dez anos depois do acidente, que provocou a morte de quatro operá- rios e ferimentos noutros 12.

O caso envolveu mais de 200 tes-

temunhas, 17 advogados e esten- deu-se por mais de meia centena de sessões, já que foi iniciado no

final de 2007, adiado sine die — para dar tempo ao Laboratório Nacional de Engenharia Civil de elaborar um relatório para apurar as causas da queda do viaduto — e retomado em Março de 2008.

A decisão da Relação só será de-

finitiva depois de esgotado o prazo de recurso (20 dias). Se o Ministério Público não apre- sentar recurso ou se o mesmo for considerado improcedente, o julga- mento será repetido no Tribunal Ju- dicial das Caldas da Rainha. Lusa

EDUARDO ANTÓNIO FERREIRA CONSTANTINO Missa de 7º Dia e Agradecimento Sua Família participa que amanhã

EDUARDO ANTÓNIO

FERREIRA CONSTANTINO

Missa de 7º Dia e Agradecimento

Sua Família participa que amanhã pelas 19.00, na Igreja de S. Sebastião da Pedreira, será celebrada Missa pelo seu eterno descanso. Agradecem, desde já a todos quantos se dignem assistir a este piedoso acto, bem como aqueles que o acompanharam à sua última morada.

P.N.

A.M.

Agência Funerária de Alcântara e Sto. Amaro Telefones: 213 643 436 / 919 237

01 André Carrilho 02 03 04 05 06 07 08 09 10 11 12 13
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André Carrilho
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ECONOMIA |

PÚBLICO, DOM 17 MAR 2013

Depositantes bancários vão pagar parte do resgate financeiro de Chipre

Decisão europeia sem precedentes rebenta com a protecção dos depósitos até 100 mil euros. Governo cipriota vai receber apoio financeiro de 10 mil milhões de euros

Crise da dívida Isabel Arriaga e Cunha, Bruxelas

A zona euro entrou ontem em ter-

reno movediço ao impor de forma inédita a todos os depositantes dos bancos de Chipre uma taxa sobre as suas poupanças no quadro de um programa de assistência financeira de 10.000 milhões de euros. Este novo modelo de resgate foi decidido pelos ministros das Finan- ças da zona euro na madrugada de ontem, depois de 12 horas de nego- ciações que se seguiram a nove me-

ses de hesitações sobre como socor- rer a pequena ilha do Mediterrâneo do risco de bancarrota. A decisão de impor uma “taxa de estabilidade” aos depositantes permitiu baixar o montante do pro- grama de ajuda dos 17.000 milhões de euros pedidos por Nicósia, para 10.000 milhões como era exigido pelo FMI e alguns países do Norte.

A diferença será assegurada pelos de-

positantes (5.800 milhões), por um aumento do imposto sobre os lucros

das empresas (IRC) e por receitas das privatizações de várias empresas. Sem precedentes nos outros pro- gramas, o envolvimento dos depo- sitantes quebra uma regra de ouro europeia assente na protecção de to- dos os depósitos até 100.000 euros.

A nova “taxa de estabilidade” ciprio-

ta será de 6,75% para os depósitos

inferiores a 100.000 euros e de 9,9%

para os restantes. Magra consolação,

os depositantes receberão acções dos

bancos no valor do montante que vai ser retirado das suas contas. Jeroen Dijsselbloem, ministro ho- landês das Finanças que preside ao Eurogrupo, considerou que a medi-

da se tornou necessária para salvar

o sector bancário cipriota, cuja di-

mensão é mais de oito vezes maior do que o PIB nacional. “Enquanto contribuição para a estabilidade financeira de Chipre, é justo pedir uma contribuição de todos os depo- sitantes”, justificou. “Gostava de não ser o ministro a fazer isto”, confessou por seu lado Michael Sarris, ministro cipriota das

Finanças, que tomou posse com o novo Governo em Nicósia há apenas 15 dias. Sarris procurou, no entanto, atenuar o efeito da decisão ao afirmar

que evitará cortes de salários e pen-

sões como acontece nos outros paí- ses sob programa de ajuda externa. “Tínhamos uma escolha entre o cenário-catástrofe de uma bancarro- ta não controlada e uma gestão do- lorosa, mas controlada, da crise que põe um fim à incerteza”, afirmou por seu lado em comunicado Nicos Anas- tasiades, o presidente conservador cipriota empossado há duas sema- nas, que se dirigirá hoje ao país.

A decisão da zona euro foi, em

contrapartida, fustigada por Sharon Bowles, presidente da comissão dos assuntos económicos e monetários do Parlamento Europeu, que ontem se manifestou “horrorizada”. “Esta retirada do dinheiro dos depositan- tes é classificada como um imposto

para tentar contornar as regras euro- peias de garantia de depósitos” mas “rouba os pequenos investidores da

protecção que lhes foi prometida. Se fosse um banco, estariam em tribu- nal por venda enganosa!”, acusou.

A decisão dos 17 ministros, anun-

ciada às primeiras horas de ontem, apanhou de surpresa os cipriotas que se precipitaram para os distribuido- res de dinheiro para tentar esvaziar as contas. Sem sucesso: o Governo já tinha tomado disposições para con-

gelar os montantes correspondentes

ao valor da taxa. O resto do dinheiro está disponível, garante Nicósia.

Terça-feira de manhã, na abertura

dos bancos (segunda-feira é feriado), as contas já terão sido amputadas do valor do imposto, cujas modalidades deverão ser hoje ou amanhã aprova- das pelo parlamento nacional. Chipre começou por pedir à zona euro, em Junho passado, uma ajuda

de 17.000 milhões de euros, equiva- lente à totalidade da riqueza anual do país. Deste montante, 10.000 mi- lhões eram destinados aos bancos em risco de falência, nomeadamente em resultado da reestruturação da dívida grega imposta pela zona euro no ano passado.

O FMI, que financia um terço de

todos os programas de ajuda, e os pa-

nancia um terço de todos os programas de ajuda, e os pa- O ministro cipriota das

O ministro cipriota das Finanças, à direita, mereceu as atenções dos parceiros do euro

Empréstimos europeus

 

Luz verde para extensão dos prazos a Portugal e Irlanda

A zona euro formalizou

ontem o acordo de

princípio que já dera há

duas semanas à extensão

que “estão determinados a

que “estão determinados a

dos seus programas de ajuda. Neste contexto, o Eurogrupo, liderado pelo holandês Jeroen Dijsselbloem, afirma que acordou “um ajustamento das maturidades” do FEEF (Fundo Europeu de Estabilidade Financeira) para “suavizar os perfis de amortização da dívida destes países”. A identificação

dos prazos de reembolso de parte dos empréstimos concedidos a Portugal e à Irlanda, embora deixando as modalidades concretas para decidir mais tarde. Numa declaração emitida pelos ministros das Finanças no final da reunião dedicada

apoiar os esforços da Irlanda

e

de Portugal para recuperar

dos empréstimos visados e a

o

acesso pleno ao mercado

duração do prolongamento das suas maturidades serão discutidas em Abril.

[de financiamento da dívida] e

a Chipre, os 17 sublinham

saírem de forma bem sucedida”

PÚBLICO, DOM 17 MAR 2013 | ECONOMIA |

17

ERIC VIDAL/REUTERS

DOM 17 MAR 2013 | ECONOMIA | 17 ERIC VIDAL/REUTERS íses do Norte do euro, consideraram

íses do Norte do euro, consideraram este montante excessivo porque ca- tapultaria a dívida pública para 150% do PIB, um nível em que o reembolso é considerado impossível. Mas não só: a Alemanha, que pre- cisa da autorização do parlamento para o programa de ajuda a Chipre, resistiu à ideia de salvar a cerca de metade de depositantes não residen- tes, sobretudo russos, que aflui ao país visto como um paraíso fiscal. Além de ter rebentado com a pro- tecção dos depósitos até 100.000 eu- ros, a decisão dos 17 do euro quebra outra regra sagrada: até ontem, os seus membros garantiram firmemen- te que a participação dos privados no programa de ajuda à Grécia — através de perdas impostas aos detentores privados de dívida — constituía um

caso único e irrepetível nos outros países sob programa de ajuda. Questionado sobre a possibilidade de a medida cipriota poder ser es- tendida a outros países com bancos mais frágeis (como a Espanha) ou com possível necessidade de mais dinheiro (como Portugal), Dijsselblo- em afirmou que medidas semelhan- tes não estão a ser equacionadas para outros países. Saber se os depositantes nos ou- tros países acreditam é a questão que começará a ter resposta a partir de segunda-feira. Para Karl Whelan, professor de Economia da University College de Dublin, “esta decisão tem o potencial de espoletar uma corrida em toda a linha aos bancos na zona euro” e “pôr em causa a própria exis- tência do euro”.

Breves Energia Preço dos combustíveis desce um cêntimo O preço dos combustíveis deverá descer a

Breves

Energia

Preço dos combustíveis desce um cêntimo

O

preço dos combustíveis

deverá descer a partir de amanhã um cêntimo por litro, com uma redução semelhante na gasolina e no gasóleo, acompanhando a evolução das cotações dos produtos petrolíferos. Segundo fonte do sector, esta semana as cotações mantiveram a tendência de desvalorização face à média da semana anterior, sendo que é a

terceira semana em que existe uma descida consecutiva dos combustíveis. No acumulado,

e

confirmando-se estas

descidas, o gasóleo estará

4

cêntimos mais barato e a

gasolina 5 cêntimos abaixo do preço de há três semanas.

O

preço médio do gasóleo na

quinta-feira era de 1,425 euros por litro e o valor da unidade de gasolina 95 fixava-se em 1,606 euros.

Moeda

Novas notas de cinco euros não afastam as antigas

O

Banco de Portugal

esclareceu anteontem que

a

entrada em circulação

de novas notas de cinco

euros, com um layout gráfico diferente, no próximo dia

2

de Maio, não terá como

consequência a retirada das actuais. O esclarecimento do banco foi emitido, segundo o comunicado, após terem sido referidos casos de alegadas burlas com as notas de cinco euros em circulação.

O

supervisor lembra que

as

duas notas poderão ser

utilizadas ao mesmo tempo,

o

que significa que a actual

não deixará de ter valor. As novas notas, precisa o Banco de Portugal, fazem parte de uma nova série, Europa, que será gradualmente introduzida em todos os países que pertencem ao arco da moeda única.

Madeira obrigada a novas medidas de contenção

Contas públicas Tolentino de Nóbrega

Ministério das Finanças diz que a região cumpriu

metas de 2012, mas tem novos desafios, este ano, de ajuste orçamental

A Madeira cumpriu, no ano passado,

as metas com que se tinha compro- metido no âmbito do processo de ajustamento financeiro, mas vai ter que assumir “a responsabilidade de implementar medidas adicionais” para ultrapassar os desafios orça- mentais, cumprir os limites do pro- grama para 2013 e contribuir para a recuperação gradual da sua autono- mia financeira. Estas são as principais conclusões do Ministério das Finan-

ças no relatório da quarta avaliação do Programa de Ajustamento Econó-

mico e Financeiro (PAEF) da região. Entre as medidas adicionais, a Madeira comprometeu-se em obter

“poupanças com contratos de parce- rias público-privadas” na rede rodo- viária e a continuar a executar medi- das no sector da Saúde no sentido da sua racionalização. Obrigou-se, igual- mente, a apresentar um programa de privatizações e reestruturações de empresas públicas regionais. De acordo com a quarta avaliação,

a Madeira “debate-se ainda com im- portantes desafios para 2013, incluin- do em matéria orçamental”. Foram também identificados “determinados

riscos orçamentais relacionados com obras em curso”, cujo impacto está

ainda por aferir devidamente. O ministério, que só tinha divulga- do a primeira das quatro avaliações trimestrais do ano passado, concluiu,

no exame relativo a Dezembro, que

“a trajectória e a consolidação orça- mental percorridas pela região até ao momento, mesmo num contexto macroeconómico particularmente adverso, permitiram cumprir com os limites” previstos para 2012. Contribuíram ainda para “melho- rar substancialmente a qualidade e

a pontualidade da disponibilização

de informação relativa às contas da

região”, as quais se caracterizaram durante anos “por falta de disciplina

e transparência”. O relatório refere que o cumpri- mento do programa foi alcançado sobretudo através da contenção da despesa no último trimestre de 2012, tendo para o efeito contribuído a re- dução do investimento do tecto de

150 para 72 milhões de euros [ou seja, para um décimo da média dos anos anteriores], a contenção das despe- sas com pessoal e no sector da saúde

e os benefícios resultantes do acordo

alcançado com fornecedores para o pagamento de dívida comercial. A despesa caiu 16,3% e as receitas fis- cais registaram uma quebra de 3,1%, apesar do agravamento das taxas em 25%, resultante da sua equiparação com as do continente, tendo ficado por pagar cerca de 2,4 mil milhões de euros de encargos assumidos em 2012. Para o secretário das Finanças, as avaliações comprovam que a re- gião “está a cumprir positivamente

com tudo o que foi acordado” no pla- no, sendo “resultado dos esforços e sacrifícios realizados pela Madeira e pelos madeirenses”. Perante tal resultado, o ministério decidiu desbloquear as tranches refe- rentes aos terceiro e quarto trimes- tres de 2012, no montante de 243,2 milhões — de um empréstimo global de 1500 milhões de euros.

PEDRO CUNHA/ARQUIVO
PEDRO CUNHA/ARQUIVO

Gestão de João Jardim continua muito condicionada

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ECONOMIA |

PÚBLICO, DOM 17 MAR 2013

A SEMANA

-0,03

É a segunda vez, no espaço de

quase 40 anos, que a taxa de inflação homóloga em Portugal cai para um valor negativo.

Primeiro, foi em 2009, quando

o índicador esteve em -1,7%.

No mês passado, voltou ao vermelho, embora num nível mais suave, de -0,03%. A diferença é que, em 2009, o

resultado era consequência de uma descida significativa dos preços internacionais dos alimentos e petróleo. Desta vez, é resultado da política

de redução de custos em toda a economia, o que pode prenunciar um período longo de inflação negativa, com os riscos inerentes.

AS CINCO MAIS

Sonaecom Var. 1,77 9,40% 1,71 1,65 1,55 1,59 1,689 1,53 Valor das acções em euros
Sonaecom
Var.
1,77
9,40%
1,71
1,65
1,55
1,59
1,689
1,53
Valor das acções em euros
8 Mar
11
12
13
14
15
Apesar do recuo registado no

último dia de negociação (0,57%),

a Bolsa de Lisboa terminou a

semana com um ganho robusto,

de 1,81%, mais uma vez a mostrar que os investidores confiam que

o pior da crise da dívida está

passado e que a economia vai começar a mexer-se. O recuo de sexta-feira passada surge como natural reacção ao quadro negro traçado pelo ministro das Finanças, Vítor Gaspar, na sequência da realização da 7.ª

EDP Var. 2,50 4,80% 2,45 2,40 2,35 2,35 2,43 2,30 8 Mar 11 12 13
EDP
Var.
2,50
4,80%
2,45
2,40
2,35
2,35
2,43
2,30
8 Mar
11
12
13
14
15
avaliação da troika de credores

internacionais. Dos 20 títulos que

integram o PSI20, 13 fecharam anteontem no vermelho, seis no verde e um manteve-se inalterado.

No deve e haver da semana, em que se acentuou o temor de um quadro de deflação, o BPI foi um dos perdedores, apesar de

o banco ter anunciado que vai

devolver mais 200 milhões de euros da ajuda que recebeu do Estado para se recapitalizar.

Sonae Var. 0,78 4,10% 0,75 0686 0,72 0,73 0,69 0,66 Valor das acções em euros
Sonae
Var.
0,78
4,10%
0,75
0686
0,72
0,73
0,69
0,66
Valor das acções em euros
8 Mar
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PSI 20
Índice em pontos Var. 7000 1,81% 6500 6000 5442,84 6185,96 5500 Última semana 5000 19
Índice em pontos
Var.
7000
1,81%
6500
6000
5442,84
6185,96
5500
Última semana
5000
19 Out
15 Mar
EDP Renováveis Var. 4,40 4,00% 4,25 3,97 4,10 4,11 3,95 3,80 Valor das acções em
EDP Renováveis
Var.
4,40
4,00%
4,25
3,97
4,10
4,11
3,95
3,80
Valor das acções em euros
8 Mar
11
12
13
14
15

Numa semana marcada por várias apresentações de resultado, o ES Financial também assumiu uma desvalorização, o mesmo acontecendo à Cofina, que apresentou o seu novo projecto na área da comunicação social — a Correio da Manhã TV. Banif, com o problema da recapitalização, e Portucel estão igualmente no grupo dos cinco mais perdedoras. Do lado dos ganhos, o destaque vai para dois dos mais

Jerónimo Martins Var. 16,5 3,80% 16,1 15,7 15,65 15,05 15,3 14,9 Valor das acções em
Jerónimo Martins
Var.
16,5
3,80%
16,1
15,7
15,65
15,05
15,3
14,9
Valor das acções em euros
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14
15

importantes grupos económicos portugueses. De um lado, a Sonae (holding e Sonaecom), e, do outro, a EDP (casa-mãe e Renováveis). O grupo de Belmiro de Azevedo apresentou contas na semana finda, com o resultado líquido a cair quase 70%, mas um com um vigoroso Ebitda. Surge também no pelotão dos ganhadores a Jerónimo Martins, numa semana em que o grupo lançou o projecto Colômbia no terreno.

AS CINCO MENOS

ES Financial Var. 5,50 -7,10% 5,35 5,01 5,20 5,28 5,05 4,90 Valor das acções em
ES Financial
Var.
5,50
-7,10%
5,35
5,01
5,20
5,28
5,05
4,90
Valor das acções em euros
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BPI Var. 1,21 1,113 -7,00% 1,18 1,197 1,15 1,12 1,09 Valor das acções em euros
BPI
Var.
1,21
1,113
-7,00%
1,18
1,197
1,15
1,12
1,09
Valor das acções em euros
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Cofina

 

0,58

0,56

Var. -3,90%
Var.
-3,90%

0,54

0,54

0,52

0,519

0,543
0,543

0,50

Valor das acções em euros

8 Mar

11

12

13

14

15

Banif

 

0,1350

 
 

0,131

Var. -2,20%
Var.
-2,20%

0,1335

 
0,1320
0,1320

0,1320

 

0,1305

 
0,1305  
 

0,134

0,1290

 

Valor das acções em euros

8 Mar

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13

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15

Portucel Var. 2,950 -1,40% 2,875 2,800 2,724 2,725 2,768 2,650 Valor das acções em euros
Portucel
Var.
2,950
-1,40%
2,875
2,800
2,724
2,725
2,768
2,650
Valor das acções em euros
8 Mar
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13
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A FIGURA VÍTOR GASPAR

em euros 8 Mar 11 12 13 14 15 A FIGURA VÍTOR GASPAR O ministro das

O ministro das Finanças arrisca arruinar, para sempre, nesta passagem pelo Governo português, a reputação de técnico de alto nível e de especialista em finanças públicas. Por muito que custe ao orgulho nacional, Vítor Gaspar é visto, actualmente, mais como um especialista em ficção, ainda por cima de fraca qualidade. Como a conferência de imprensa de anteontem largamente comprovou, o quadro macro- económico em que o ministro assentou a proposta de Orçamento do Estado para

2013 (apresentada em Outubro passado) era pura ilusão.

Confirmou-se seis meses depois.

O problema é que a distância

entre as previsões do ministro e a

realidade nua e crua do país paga- se com mais sacrifícios. Em primeiro lugar, para os mais 300 mil desempregados que resultam da diferença entre

a previsão de 2011 e a que foi

apresentada na conferência de imprensa onde o ministro fez o balanço da 7.ª avaliação da troika.

Depois, o que irá resultar para a generalidade da população como consequência do descontrolo em

que caiu o défice público. Com base no quadro que o Governo traçou em 2011 traçou, aos portugueses foi proposto um contrato de dois anos de sacrifícios sérios. Terminado esse período, o crescimento regressaria. Agora, resulta claro que, afinal, a via penosa irá manter-se por muitos mais anos, os equivalentes ao espaço de uma geração. Mas nem o facto de os sucessivos balanços à execução do programa de ajustamento mostrarem que o problema está na receita prescrita — mais e mais recessão — leva os

responsáveis governamentais a equacionarem outros caminhos.

É a ortodoxia no seu melhor.

Na semana passada, o Instituto

Internacional de Finança, onde se agrupam os grandes investidores em dívida pública, revelou um estudo que mostra que uma excessiva dose de austeridade está a “matar” a Grécia. Com

a economia portuguesa em

clara derrapagem, seria bom meditar-se sobre este trabalho dos investidores que já foram obrigados a perdoar uma parte da dívida helénica. Eles sabem do que falam. José Manuel Rocha

PÚBLICO, DOM 17 MAR 2013 | ECONOMIA |

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Mistolin vira-se para o mercado dos detergentes no Médio Oriente

Empresa de Vagos vende já 30% da produção no estrangeiro e prepara a entrada em novos mercados, com a China incluída. Detergentes são feitos ao gosto local, que aprecia cheiros mais frutados e menos florais

Internacionalização Ana Rute Silva

Não é só olhar para o mapa e ver os números. Entrar num novo país

implica estudar hábitos de consumo

e alterar embalagens e fórmulas de

produtos. A portuguesa Mistolin já exporta 30% dos detergentes que fabrica na unidade industrial em Vagos, é líder de mercado em Ca- bo Verde, está em Angola, Espanha ou França. Agora, enviou as pri- meiras encomendas para a Arábia Saudita, o Egipto e o Iémen. Com cheiros “mais frutados e fortes”, diz Paulo Mendes, director-geral da Mistolin. “No ano passado, formalizámos o modelo de representação para estes países. Se conseguirmos vendas de 50 mil euros, que é o nosso objecti-

vo, ficaremos satisfeitos. É o primei- ro ano, mas dará para ganharmos conhecimento [sobre o mercado] para os anos seguintes”, conta. No laboratório da Mistolin, a direcção de investigação e desenvolvimento gastou “milhares e milhares de ho- ras” em testes. No ano passado, fo- ram 66 fórmulas e nem todas vão ser comercializadas. As preferências e a cultura do Médio Oriente obrigaram