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Clínica e biopolítica na experiência do contemporâneo

Clinic and biopolitics: contributions of Foucault’s later work to the field of clinic

Títulos abreviados: Clínica e biopolítica Clinic and biopolitics

Clínica e biopolítica na experiência do contemporâneo

Clinic and biopolitics: contributions of Foucault’s later work to the field of clinic

Títulos abreviados: Clínica e biopolítica Clinic and biopolitics

Finally. the idea of freedom in Foucault stands as an important guideline in our definition of the clinical work. Contemporariness Clínica e biopolítica na experiência do contemporâneo A relação de Foucault com a clínica está presente desde o início de sua obra. Foucault’s thought is taken as a critique of contemporariness on the grounds not only of his own texts but also of those of his commentators who carry on with the questions put forth by him. Destacamos as noções de “biopolítica” e de “sociedade da regulamentação”. Foucault para o campo da clínica. formulated by Foucault in the mid-1970s.Resumo O artigo discute algumas contribuições da última fase da obra de M. Já em Doença mental e Psicologia (1975/1954). Por fim. já deixando pistas dos textos-intervenções que viria fazer. . a idéia de liberdade em Foucault nos serve como importante orientação em nossa definição do trabalho da clínica. assim como sua reavaliação do projeto da modernidade proposto no Esclarecimento do século XVIII. as well as his reassessment of the project of modernity held forth by eighteenthcentury Enlightenment. seguindo o Partido Comunista Francês ao definir a doença mental como decorrente de condições materiais. Biopolitics. formuladas pelo autor em meados da década de 1970. Keywords: Clinic. Among those are the notions of “biopolitics” and “ruling society”. A atualidade do pensamento de Foucault como crítico da contemporaneidade é considerada com base não só em seus textos como também em autores que comentam a sua obra e dão continuidade às questões formuladas por ele. em 1961 ao publicar sua tese de Estado História da loucura na idade clássica (1991/1961). Entre 1955 e 1958 vive em Upsalla (Suécia) pesquisando documentos e. defende a análise existencial contra o organicismo psíquico e critica Freud tomando Pavlov. Palavras-chave: Clínica. Biopolítica. Foucault desponta como um importante pensador do contemporâneo. Contemporaneidade Abstract: The present article discusses some of the contributions of Michel Foucault’s later work to the field of clinic.

Esse é o paradoxo do tempo que. entendemos o ato clínico como a produção de um desvio (clinamen). uma do espaço (utopia) e a outra do tempo (intempestividade). com a abertura para o que ainda não somos. Entretanto. o que nos convoca a uma ação clínica. ao caírem no vazio em virtude de seu peso e de sua velocidade. Clínica enquanto experiência de desvio. do clinamen que faz bifurcar um percurso de vida na criação de novos territórios existenciais. ou o que se produz como uma demanda de análise. repouso”. portanto. não podemos também dizer que ela . para nós. filosofia. sob o risco de ser acusada de adaptacionista. É nele que estamos em via de nos diferir pois aqui o tempo comporta. se chocarem articulando-se na composição das coisas. nos põe sempre numa situação crítica. É na afirmação desse desvio. O contemporâneo. constantemente forçada a habitar esse espaço-tempo marcado por sua instabilidade. como se poderia supor a partir do sentido etimológico da palavra derivada do grego klinikos (“que concerne ao leito”. utilitária. É por esta razão que podemos afirmar que a clínica é sempre uma figura do contemporâneo. são características tanto da clínica quanto do contemporâneo. no presente. explicações deterministas). na acepção que dá a essa palavra a filosofia atomista de Epicuro (1965). pois. do clinamen. “leito. De fato. o passado e o futuro. de klíno “inclinar. Mais do que essa atitude de acolhimento de quem demanda tratamento. buscamos na história aquela força propulsora que nos permite dela desviar. numa mesma espessura. forçando-nos a perguntar que intercessões transdisciplinares (Passos & Benevides de Barros. Nesse sentido.Passados 40 anos da publicação da História da Loucura. Diferentemente. sendo a um só tempo o que foi e o que será. se entrelaçam pela característica comum da instabilidade. desestabilização. Seguindo a inspiração foucaultiana. é uma clínica necessariamente utópica e intempestiva. entendemos por contemporâneo essa experiência sempre desestabilizadora que convoca a nos deslocar de onde estamos. No contemporâneo experimentamos a bifurcação produtora da novidade já que nele nos defrontamos com o horizonte do inantecipável. tomada aqui. Esse conceito da filosofia grega designa o desvio que permite aos átomos. não pode ser pensado fora desta situação crítica. 2000) existem entre clínica. que a clínica se faz. Essa cosmogonia epicurista atribui a esses pequenos movimentos de desvio a potência de geração do mundo. não se reduz a esse movimento do inclinar-se sobre o leito do doente. dobrar”). não podemos e não reivindicamos o livrar-se da história. mas sobre ela retornando produzindo diferença. Pois a clínica não está nem completamente aqui nem completamente agora. fazendo-a desviar de si. 1988/1874) – e quebrando todas as cadeias causais que conferem importância ao passado (fascínio pelas origens. supondo o seu fim. ortopédica. na experiência do contemporâneo. O sentido da clínica. portanto. de klíne. dela se distinguindo. Essas duas figuras. Desvio. a relação entre Foucault e a clínica não perdeu sua contemporaneidade. Daí sua relação com a clínica. o contemporâneo guarda essa relação complexa com a história. em sua dupla acepção: exercício crítico do instituído e experiência de crise. história e política. A clínica do contemporâneo/no contemporâneo. não pára de passar. a pôr em questão o que somos e a nos livrar das cadeias causais que nos tornam figuras da história. intempestivamente (Nietzsche.

Sua intervenção se dá num tempo intempestivo. que o tema da vida assume uma posição de destaque. nem está lá. Assim é que ela também não pode ser uma ação do presente ou do passado. seja na história. é porque ela se localiza em um espaço a ser construído. Pois argüir a história é poder dela extrair seus processos de produção. o que exige de nós a busca de estratégias eficazes contra o conservadorismo das imagens identitárias. é desnaturalizar seus eventos fazendo aparecer este jogo de forças que dá corpo à realidade. pois. como ainda conceber a sua força de intervenção em um mundo dominado pelo poder que mimetiza a vida? Essa discussão da criação de si e do mundo ganha uma relevância especial no pensamento contemporâneo quando a analítica do poder foucaultiana nos conduz à descrição de . sob o risco de aprisionar as forças produtivas do desejo seja nas estruturas arqueológicas. é preciso investigar o sentido da clínica como política no contemporâneo. que efeitos-subjetividade instaura. da criação de si. Em defesa da sociedade (1999/1997). Eis. 1996/1980) e por Guattari (1992). se a política da clínica é uma política da produção da subjetividade. A operação histórica que Foucault tão bem realizou em sua obra indica esse plano que Deleuze e Guattari (1996/1980) chamaram de micropolítico. pois o paradoxo no contemporâneo parece que se realiza agora colocando a vida ao mesmo tempo como ponto de incidência do exercício do poder e ponto de resistência. o conceito clínico para nós mais importante não é o de sujeito. podemos dizer que ela habita uma utopia. impulsionado pelo que rompe as cadeias do hábito para constituição de novas formas de existência. Este compromisso clínico só se faz pondo em questão nossos especialismos. É nesse sentido que nos servimos da força intercessora do conceito filosófico (Deleuze & Guattari. extemporâneo. 1992 ) que vem nos ajudar a fugir do lugar onde estamos instituídos. Assumir a dimensão política da clínica é apostar na força de intervenção sobre a realidade efetuada apostando nos processos de produção de si e do mundo. Articulando clínica e história somos levados também a incluir a dimensão política da clínica. Nesse sentido. propondo os conceitos de biopoder e biopolítica. uma vez que é pela afirmação do não-lugar (u-topos) que ela se compromete com os processos de produção da subjetividade. Portanto. Acreditamos que a clínica está comprometida com este plano de produção ou de individuação sempre coletivo e que é indissociável do domínio da realidade individuada. mas o de produção de subjetividade. 1997/1980. ou melhor. Foucault dedicou-se à análise da incidência das novas formas de poder sobre a vida. com as práticas históricas e seus efeitos. A partir do seminário de janeiro de 1975 a março de 1976. Daí se colocar para nós como importante acompanhar a análise de Foucault no que ela nos permite deslindar as engrenagens do presente. Este tema do biopoder se coloca como inevitável criando uma dificuldade especial para a clínica. Se defendemos a clínica como uma política temos sempre que nos perguntar qual política tal clínica produz. Se a clínica não está aqui. Com esse propósito é estratégico também problematizar nossa relação com a história. Neste sentido. plano de engendramento das palavras e das coisas. então. tal como ele é proposto por Deleuze e Guattari (1976/1972.seja uma clínica de lá ou do passado.

p. 1999/1997) em cujas redes parece que estamos definitivamente enredados e capturados. religiosa ou moral). a polícia. Pois. segundo a avaliação do juiz ou do júri. um novo tema ganha expressão no discurso penal. Esse controle das virtualidades. Esse panoptismo apresenta-se sob um tríplice aspecto: vigilância. Entre eles uma mesma função. à margem da justiça. 1974. uma penalidade não prevista na reforma do legislativo e do judiciário tornou-se a forma por excelência de a sociedade disciplinar reagir às infrações: tratava-se da prisão. Entre essas instituições da sociedade disciplinar. iniciada na década de 1970. que este autor se dedica a pensar a vida em sua relação com o poder. agora. a aplicação da lei em função do indivíduo em julgamento. quando proferiu na PUC/RJ as seis conferências intituladas A verdade e as formas jurídicas (1974). Em 1974. 1974). É o tema das circunstâncias atenuantes. os teóricos da reforma (Bentham. como também redefinia o criminoso como o inimigo social ou como aquele que teria rompido o pacto social. nesse desvio. circunstâncias essas que podem modificar. ou isso que Foucault identificou como panoptismo: forma de poder que se exerce como foco de luz que a tudo ilumina sem ser ele mesmo visto. Chama a atenção a mudança de foco da legislação penal que se desvia do tema da utilidade social para visar o ajustamento ao indivíduo. O que se investiga portanto não é mais um fato. que surge e se generaliza como uma instituição no início do século XIX (Foucault. discute a distinção entre os regimes de poder que ele designa como disciplinar e de regulamentação e que compõem a trama do contemporâneo. que é a de corrigir virtualidades. Foucault destaca que. Para tal. 1977/1975). das potencialidades dos indivíduos passa a ser exercido não mais apenas por um poder autônomo – o judiciário – mas por uma rede de “poderes laterais”. Essa reforma parecia não só uma redefinição do ato infrator. É o princípio da universalidade da lei representando interesses sociais que é alterado quando o discurso penal se interessa. Entretanto. Surpreendentemente. mas sim por ligá-los a um “processo de produção. Foucault apresentava a tese sobre a microfísica do poder expressa em diferentes regimes ao longo da história. pode-se verificar o que Deleuze (1992a/1990) chamou de uma analogia de função. As instituições disciplinares não se caracterizam por excluir os indivíduos. se no início do século XVIII a prisão era uma instituição de reclusão que excluía os . Para a infração e seu agente. controle e correção/produção. o asilo. e quando terminava a preparação de seu livro Vigiar e Punir (1977/1975). trabalho forçado.92). Beccaria) conceberam várias maneiras de punir (deportação. nenhuma dessas formas vingou. É na fase genealógica de sua obra. humilhação e lei de talião). Trata -se de garantir a produção ou os produtores em função de uma determinada norma” (Foucault. o hospital. de formação ou de correção dos produtores. mas uma “periculosidade”. entendido agora como transgressão à lei civil (e não mais infração a uma lei natural. uma personalidade infratora (Foucault. A pesquisa genealógica localiza na passagem do século XVIII para o século XIX a formação da sociedade disciplinar atrelada à reforma do sistema penitenciário e judiciário. que vigiam e corrigem: a escola. pelas circunstâncias subjetivas do ato infrator.uma “sociedade da regulamentação” (Foucault.

se excluem o indivíduo de um certo convívio. “Controle e devir” (Deleuze. de ortopedia. Este se capilariza formando um tecido microfísico onde a verticalidade do exercício do poder é substituída por uma horizontalidade ou lateralidade de suas práticas. Na sociedade disciplinar encontramos essa tendência à invisibilização do exercício do poder. O primeiro sentido diz respeito ao simples fato do viver comum a todos os seres vivos ou isso que Agamben chama de a “vida nua”. a partir do século XIX as instituições disciplinares caracterizam-se por uma inclusão por exclusão. 1992b/1990) e “Post scriptum sobre as sociedades de controle” (Deleuze. sobretudo. Já a sociedade de controle se apresenta como um espaço liso no qual as instituições se volatilizaram perdendo suas fronteiras e mantendo entre si uma relação de modulação num continuum regulador. nesse esquema disciplinar o exercício do poder se faz guardando ainda uma distância entre os focos do poder (instituições disciplinares) e os corpos a eles submetidos. Podemos dizer que há aí uma relação de transcendência (Hardt. As discussões que têm sido atualmente encaminhadas com base nessas breves indicações se organizam em torno da questão-eixo acerca da relação entre poder e vida. mas de geração dos indivíduos. Deleuze caracteriza a sociedade disciplinar como um espaço estriado no qual suas instituições exercem um poder de moldagem dos corpos. 1992a/1990). refere-se à vida como forma ou maneira específica de viver. no viver. A vida.indivíduos do círculo social. Deleuze se utiliza de uma expressão de W. o fazem incluindoo em um aparelho de produção ou de normalização. 2000/1998) já que o poder se exerce incidindo sobre os corpos que são dele separados. a grande novidade do último Foucault foi “a . Pois. O biopoder se caracteriza por uma nova aposta das políticas e das estratégias econômicas na vida e. a vida qualificada do indivíduo ou do grupo. isto é. Segundo Deleuze. isto é. tem um sentido preciso que Agamben inicia por esclarecer propondo a distinção feita no grego clássico entre zoe e bios. isto é. Mas. Giorgio Agamben no seu livro Homo Sacer: le pouvoir souverrain et la vie nue (1997/1995). um poder não só de gerência. O que precisamos entender é essa relação de imanência do biopoder que exige um reequacionamento das formas de luta e de intervenções clínico-políticas quaisquer que sejam elas. contemporaneamente as relações de poder incidem sobre o próprio processo da vida. toma como problemática a ser desenvolvida a questão tal como formulada por Foucault (1980/1976) em A vontade de saber: a integração da vida nos mecanismos e nos cálculos do poder estatal. Nestes textos densos e só indicativos de uma importante discussão. Daí a articulação entre o aspecto produtivo do poder disciplinar e a sua função de correção. como vimos. fazendo da política uma biopolítica. se na sociedade disciplinar. Burroughs – sociedade de controle – para caracterizar o mundo em que vivemos. Acompanhamos uma alteração da análise do poder que deixa de ser entendido como repressivo para ser produtivo. esta teria sido uma indicação das análises feitas por Foucault acerca da passagem da sociedade disciplinar para essa realização contemporânea do capitalismo. que Foucault toma agora como alvo de incidência do poder. O segundo sentido. Segundo o autor. Em dois pequenos textos publicados em 1990. o exercício do poder se fazia sobre corpos individuados submetidos a moldagens ortopédicas ou corretivas.

1997/1994. então. Essa consigna de Kant indica i .15). É este plano que Foucault descreveu como o plano das práticas discursivas e não discursivas da história. anônimo. De nosso ponto de vista sobre a clínica. se esta se apresenta como isso que deve ser incluído por uma exclusão?” (ibidem. isto é. A crítica foucaultiana se assenta na perspectiva da liberdade e da criação. da vida qualificada. Agamben pergunta.introdução da zoe na esfera da polis. interessa então pensar uma biopolítica. como resistência/criação. Foucault identifica tal atitude crítica à Aufklarung. Passos. se ele se faz biopoder. tenha coragem. a politização da vida nua como tal”. Eis que nos deparamos. é uma distinção entre biopoder e biopolítica. O sujeito. 1997/1995. novamente. pois se o biopoder investe sobre a vida. p. O encaminhamento que Agamben dá à discussão do biopoder vai no sentido da análise do procedimento característico do ocidente que estabelece entre o político (domínio da vida especificada. o último momento do pensamento de Foucault se caracterizou por uma aposta na força de resistência da própria vida tornada obra de arte. que corresponda a esta outra distinção entre assujeitamento e subjetivação definida. mas é sempre efeito dela. das práticas de si e o da liberdade. emergindo de um plano de produção coletivo. com o paradoxo de nossa experiência contemporânea: como ativar formas de resistência a um biopoder já que seu exercício se dá na imanência do vivo? É certo que a descrição que Foucault nos oferece de nossos tempos pode nos levar a um pessimismo frente ao poder de regulamentação/controle alcançado pelo capitalismo contemporâneo. Mas com isso não fugimos do paradoxo já que a ele retornamos quando pensamos essa dimensão ético-estético-política da clínica. enquanto forma de resistência ao assujeitamento. Afirmar que a resistência se dá por uma prática de si não pode significar a pressuposição de um fundamento dessa autopoiese em um sujeito. Em um texto publicado originalmente em inglês em 1984 e reeditado em francês na Magazine Littéraire de 1993 (Foucault. se o poder toma a vida como objeto de seu exercício. caracteriza-se como expressão da potência da vida para resistir às formas de dominação. aqui. No entanto. a audácia de saber. O que propomos. Essa resistência se faz biopoliticamente através de práticas de si. Daí a ênfase em temas como os da estética da existência. “qual é a relação entre a política e a vida. da relação entre os indivíduos e os grupos) e o plano do viver (zoe) uma relação de exclusão assim como de implicação. 1997). impessoal. 1993/1984) Foucault retoma o artigo de Kant de 1734 Was ist Aufklarung para daí destacar o que considera o mais importante: aud sapere.12) . isto que “constitui o acontecimento decisivo da modernidade e marca uma transformação radical das categorias político-filosóficas do pensamento clássico” (Agamben. De fato. desestabilizando o presente nisso que ele se dá como conjunto de verdades constituídas. temos que nos armar contra o efeito paralisante desse pessimismo. A ele só chegamos por um exercício crítico que desnaturaliza o instituído. O si não é um agente da criação. baseados na leitura de Foucault. p. estética e ética. a biopolítica é a livre expressão da potência autopoiética da vida. de uma estética da existência que investe na capacidade de auto-organização ou de autopoiese da vida (Maturana & Varela. em suas dimensões política.

mais importante do que definir os limites desse período moderno frente às épocas pré e pós-modernas.69). o modo como a modernidade é tomada menos como um período da história e mais como atitude. uma escolha voluntária feita por alguns. Foucault nos adverte que esta atitude-limite do ethos filosófico se complementa com uma atitude experimental que confere à liberdade uma consistência diferente da do sonho e mais próxima das produções materiais da história. esse ethos é uma “atitude-limite” ou de experiência dos limites. p. em uma crítica de nós mesmos ou do que dizemos. p. pois se em Kant a tarefa era identificar os limites do conhecimento renunciando ultrapassá-los. história de pseudo-objetos que dissipa “a espécie de rotina. segundo Rajchman (1987/1985) é o fio condutor do pensamento de Foucault. O tema da liberdade. p. Interessa-lhe. Mas.67). naquele momento (século XVIII). em especial. a questão agora retorna em sua versão positiva. o modo de ser histórico. Esta atitude crítica é por ele designada como uma “ontologia histórica de nós mesmos”. 1993/1984. em linhas gerais. E se há um fio que nos liga à Aufklarung é menos o que se pode preservar da doutrina e mais “a reativação permanente de atitude. a autoconfiança instituída que as pessoas alimentam a respeito da realidade de entidades tais como as desordens mentais. é definida como uma interrogação filosófica que problematiza tanto a relação com o presente. enfim. a razão iluminista tinha alcançado a possibilidade de fazer o homem sair de seu estado de minoridade. de que temem . A Aufklarung. na experiência da liberdade. forçando -os em um processo de diferenciação de si. nesse texto. Foucault define como “modo de relação com a atualidade. quanto a constituição de si mesmo como sujeito autônomo. faz dela uma experiência de liberdade. a novidade deste pequeno texto de Kant é o fato de o filósofo ali articular sua teoria do conhecimento com uma reflexão sobre a história e. uma análise de seu momento contemporâneo.66). A Aufklarung é. Experimentar o limite é apreender os pontos em que a mudança é possível e desejável e determinar a forma precisa para estas mudanças. ultrapassandonos enquanto forma vivida: trabalho de nós mesmos sobre nós mesmos.sua aposta de que. portanto. quer dizer de um ethos filosófico. no risco de experimentar os limites. necessariamente. portanto. Segundo Foucault. para Kant uma “saída” o que. que se poderia caracterizar como crítica permanente de nosso ser histórico” (ibidem. pensamos e dizemos. Foucault propõe como atitude filosófica a reflexão sobre o presente numa investigação histórica que nos apresenta o plano de produção de nós mesmos ou isto que nos fez constituir e nos reconhecer como sujeitos do que fazemos. Foucault dá uma definição positiva ao ethos filosófico que consiste. então. Trata-se. Verifica-se que Foucault modula o sentido da crítica proposto no século XVIII. o autor sublinha que a atitude da modernidade se forma no século XVIII sendo convocada a combater atitudes de contramodernidade. No lugar de buscar estruturas universais que limitariam o pensamento. E. Esta atitude ou este ethos. de uma reflexão “sobre o hoje como diferença na história e como motivo para uma tarefa filosófica particular” (Foucault. Nesse sentido. A proposta foucaultiana de construção permanente de uma ontologia histórica de nós mesmos aponta saídas que devemos investir. pensamos e fazemos. Esse comentador descreve a obra foucaultiana como uma história nominalista. uma maneira de pensar e sentir” (ibidem.

e porque não existe nenhuma relação ’autêntica’ com o nosso próprio eu a que tenhamos de nos ajustar” (ibidem. como entendemos. se alcança por um exercício crítico ou. . indagando seu processo de constituição. Esta não pode ser alcançada ou instituída como fundamento já que somos “realmente livres porque podemos identificar e mudar aqueles procedimentos ou formas através dos quais as nossas histórias tornam-se verdadeiras. uma libertação. Libertamo-nos quando colocamos em questão a naturalidade ahistórica de categorias com as quais nos identificamos. agora. p. p. se a atitude filosófica nos convoca a uma experiência-limite. retomar aquela questão inicial: se a política da clínica é uma política da produção da subjetividade. ou as necessidades sexuais internas que acreditam ter que descarregar” (ibidem. A noção de liberdade tem um sentido nominalista e um sentido real. indagando a história que subjaz a estas categorias. desviando-nos da natureza humana que acreditamos nos definir. A liberdade. isto é.47-48). Para cada concepção instituída de liberdade. porque podemos questionar e modificar aqueles sistemas que tornam possíveis (somente) certas espécies de ação. como ainda conceber a sua força de intervenção em um mundo dominado pelo poder que mimetiza a vida? Acreditamos que Foucault nos dá uma indicação fecunda para avançarmos em nossa tarefa. Clínica e filosofia como clinamen. isto é. sua intercessão com a clínica se dá nesse ponto em que ambas se desviam em seus percursos. É por uma história nominalista dos sentidos da liberdade que podemos alcançar uma liberdade real.104). produzindo bifurcações. desestabilizando o já-dado. Pois. portanto. não sendo efetivamente liberdade real. da criação de si. O nominalismo de Foucault faz da liberdade não uma coisa ou um estado. para cada liberdade alcançada ou estabelecida. Nesses movimentos de desvio pelos quais a história vai se fazendo estamos irremediavelmente comprometidos com uma certa política. por um exercício clínico. é preciso realizar a “inversão nominalista” que consiste em afirmar criticamente que o que se alcançou tem tão somente um nome de liberdade. Trata-se de construir uma política em favor da vida – uma biopolítica. mas um processo. Tal atitude clínico-crítica nos permite.estar sofrendo. já que em constante embate com as forças de assujeitamento.

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.NOTAS i As traduções dos textos citados no presente artigo são de inteira responsabilidade dos autores.