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Universidade Federal do Espírito Santo – Ufes

O Arcadismo em Portugal
O Arcadismo, Setecentismo (os anos 1700) ou Neoclassicismo é o período que caracteriza principalmente a segunda metade do século XVIII, tingindo as artes de uma nova tonalidade burguesa. Vive-se o Século das luzes, o Iluminismo burguês que prepara o caminho para a Revolução Francesa. O Arcadismo tem um espírito nitidamente reformista, pretendendo reformular o ensino, os hábitos, as atitudes sociais, uma vez que é a manifestação artística de um novo tempo e de uma nova ideologia. Se no século XVI Portugal esteve influenciado pela cultura italiana e no século XVII, pela cultura espanhola, no século XVIII a influência vem da França e,mias precisamente da emancipação política burguesa.

Arcádia Lusitana: 1756 – 1825
A Arcádia tinha como lema uma frase latina Inutilia truncat (cortar as inutilidades): Ruptura com os exageros, o rebuscamento e a extravagância cometidos pelo Barroco. O autor árcade busca inspiração na simplicidade.

Modelos seguidos:
Clássicos greco-latinos e os renascentistas; a mitologia pagã é retomada como elemento estético, razão pela qual a escola ficou conhecida também como Neoclássica.

Inspiração:
As frases horacianas fugerem urbem (fugir da cidade), carpe diem consiste em gozar o dia, viver o presente, e foi uma postura comumente assumida durante o Arcadismo.

Local da Arcádia
A Arcádia é uma região montanhosa do Peloponeso, Grécia. Um dos seus montes, o Mênalo, era celebrado pelos poetas por ser consagrado a Apolo, deus da inspiração e condutor das musas. A Arcádia era também uma região de pastores.

Autores Árcades portugueses:
António Diniz da Cruz e Silva Cruz e Silva (1731-1799) ocupa papel de destaque no Arcadismo português, entre outras razões, por ter sido o fundador da Arcádia Lusitana, em 1756, marco inicial do

Batendo o pé na casa. adotou o nome de Elpino Nonacriense. A partir de 1776. com a diferença que transformou essa realidade em tema de poesia: como se vê no poema que é dedicado a D. ou a criada: A filha. que o ar serena: . um novo pertendente. momentos de auto-ironia). realçando a futilidade dos costumes da burguesia a que ele próprio pertence (percebem-se. Lhe diz co’a doce voz. mas quer antes sentar-se humildemente num banco da Real Secretaria. a mãe ordena. Qual modesto capucho reverendo. Sobre alto trono há anos que regia de dócil povo turba obediente. 1801) e Obras póstumas (1836). que aborrece o que estima toda a gente: que é ter no mundo cargos e valia. Em mim conheço vocação igual: e co’a mesma humildade hoje pretendo passar de mestre a ser oficial. Nicolau Tolentino A obra de Nicolau Tolentino (1740-1811) apresenta como ponto alto a sátira. É autor de Obras poéticas (2 volumes. Que o furtado colchão. na Arcádia. melena desgrenhada. Tolentino foi um desses poetas. mesmo. que. e aperaltada. 2 O colchão dentro do toucado Chaves na mão. vedes. Estudou em Coimbra. Senhor. foi professor régio de Retórica em Lisboa e como poeta representa o que há de melhor na poesia satírica dos costumes da época. A filha o ponha ali. e Metamorfoses. moça esbelta. uma ativa participação no julgamento dos réus da Inconfidência Mineira. Tolentino analisa sarcasticamente o cotidiano. divide sua vida entre Portugal e Brasil. poema heróico-cômico. Com poemas marcados por uma profunda ironia. tendo. as chaves recebendo. De sua obra destacamse Hissope. para obter emprego na Real Secretaria: 1 Nesta cansada. José. poemas bucólicos tendo por fundo a natureza brasileira. fofo.Neoclassicismo em Portugal. em fim de guardiania trienal. triste poesia. e de pena. passa a porteiro. aliás.

Toucado: penteado . Lorena e Lencastre. notadamente na Inglaterra e Alemanha. Exercícios: 1 Podemos afirmar que o texto “O colchão dentro do toucado” de Nicolau Tolentino apresenta pontos de contato com obra de Bocage? Justifique 2 A que classe social podemos relacionar a moça do penteado extravagante do segundo soneto de Tolentino? Justifique sua resposta com elementos do próprio texto. Sonhei que tu me chamavas. Marquesa de Alorna Dona Leonor de Almeida de Portugal. Olhe não fique a casa arruinada. Arremete-lhe à cara e ao penteado. tirano. tu vens nos meus sonhos Acalmar-me o coração. sou ditosa. Amor. suas poesias são marcadas por características que denunciam o Romantismo: intimismo.. Sonho Sonhos meus.. adotou o pseudônimo árcade de Alcipe. E que sobre a relva branda Tu mesmo me acalentavas. sofrimento.” “Tu respondes assim? tu zombas disto? Tu cuidas que por ter pai embarcado1. Já a mãe não tem mãos?” E dizendo isto. Quando sonho. cruel! Quanto prometes Não passa de uma ilusão! Sonhei. Eis senão quando (caso nunca visto!) Sai-lhe o colchão de dentro do toucado2. Sem o ser na realidade. Mas. Suas poesias foram publicadas com o título genérico de Obras poéticas e apresentam os gêneros clássicos. Sois melhores que a verdade. 1 2 Pai embarcado: expressão que designava os pais de família que iam tentar a sorte em outro país. quanto aos temas.“Sumiu-se-lhe um colchão. Marquesa de Alorna (17501839). é forte pena. a valorização das paisagens noturnas. o fúnebre. suaves sonhos. esta noite. Sua vida muito atribulada permitiu-lhe tomar contato com vários poetas e teóricos do Romantismo nascente.

E abriu-se. sublime. Que me vais tu descobrir? Se é menos do que desejo. Nem sabe quanto custa um vil engano Traçado pela mão da formosura. mas foi o dia.“Abre. Que a desabrida voz do desengano O mais firme semblante desfigura. aproveitando para teorizar sobre a “imitação dos antigos”. Se o peito não tiver de rocha dura.“ Chave mágica. Acordei sobressaltada. Cultivou os vários gêneros greco-latinos.. A sua produção lírica foi reunida postumamente num volume intitulado Obras poéticas. Fuja de ouvir contar tamanho dano. . defendeu o racionalismo neoclássico e o pensamento burguês.” Dormi: neste dobre sono Me achei num palácio de ouro. Correia Garção (1742-1773). Sonetos 1 Quem de meus versos a lição procura. Depõe todos teus cuidados. . uma característica árcade e outra romântica..” . Alcipe” – qual trovão Brada o Deus que me vigia. Entregaram-me uma chave Para que abrisse um tesouro. Alcipe.Disseste-me: Dorme. sempre sob inspiração horaciana. 2 Aponte no poema “Sonho”. Amor sobre ti vigia. Será melhor não abrir. Exercícios: 1 A primeira estrofe do texto da Marquesa de Alorna apresenta uma característica típica do Romantismo. Os farpões nunca viu de Amor insano. Pedro António Correia Garção Um dos mais importantes membros da Arcádia Lusitana. adotou o pseudônimo de Córidon Erimateu. Comente-a. Mal podes temer os fados.

Que o coração. vendo patente. Imaginou que até pelos ouvidos Seus olhos o assaltavam de repente. ao ouvir a voz desta julga vê-los. E nos olhos. 2 Cantar Marília ouvi. 3 A sua mulher a Sr D. O pensamento entrépido voava Não se assombra de ventos insofridos.Olhe que há-de chorar. Eu. Verá levado à morte um inocente: E condenado a vergonhosa pena O mais fiel amor. quando rendidos Pisa desejos mil tiranamente. No rosto macerado. Na mão por palma os olhos seus trazia. Maria Ana Chavier de Sande e Salema a 3 Ao som dos duros ferros que arrastavam4. 4 Este soneto guarda uma emoção contida em obediência aos cânones literários e está repleto de um drama interior. O lagrimoso pranto reluzia. Em tão funesta e lagrimosa cena. no poema Marília de Dirceu. que enfiava. Mas no meio do canto soluçava. prostrados os sentidos. movidos Com formoso desdém. Que no peito em triunfo campeava. o poeta que vive dominado pela beleza dos olhos de Marília. Maria Doroteia. O poder milagroso da harmonia. De Márcia o doce nome repetia. Se era vê-la ou ouvi-la. (4) Sendo assim. que aos altos céus erguia. A lira de ouro Corydon tangia. Entrara a doce voz tão brandamente Quais entram na alma os olhos seus. mais generoso. tão docemente. (5) A ordem direta do verso é: quando pisa tiranamente mil desejos rendidos. O cadafalso infame e sanguinoso. não sabia: Sei que os novos grilhões não estranhava. que ao carro fatal atado andava. . e Bocage em vários sonetos. 3 (1) Marília: nome poético que Tomás António Gonzaga também usou para cantar a sua noiva.

4 Tu és. 1 Meu ser evaporei7 na lida8 insana9 Do tropel10 de paixões. duelo. a postura pastoril (daí seu pseudônimo Elmano Sadino: Elmano é um anagrama de Manoel. Dircea. Quando se fala de Bocage lírico.Nem com ousado lenho arar intenta O pólo do futuro nebuloso. E nele só premeias a ventura. se peles e lãs mais finas veste. por exemplo. aparência. reflexão madura: Vê que a virtude própria em mim premeias. a cabeça e o coração. Deixa vaidades da justiça alheias: Não desprezas afectos e ternura Por teres mais cabritos colméias Faze. normalmente empregado em sentido figurado. Mas nem por fado teu tal pai tiveste. evaporar foi usado no sentido de consumir-se 8 Lida:luta. Alceste e Alceno são nomes da literatura Greco-latina No robusto: na robustez 7 Evaporei: aqui. 5 6 Dircea. Eu. insensata . 9 Insana: sem razão. Bocage guardou do Neoclassicismo o apuro formal. Dircea5. o Arcadismo interessa apenas enquanto postura. qual cipreste Excede no robusto6 ao brando feno. Nem eu por culpa minha sou pequeno. para lutas morais. Bem sei que te pretende o rico Alceno. De pouco um peito grande se contenta: Antes quer ser honrado que ditoso. que me arrastava. Como poeta pré-romântico. pois no fundo o poeta foi um pré-romântico. Também no amor o venço. Manuel Maria Barbosa Du Bocage Destaca-se dois Bocages: o lírico e o satírico. Menos chora terrenos bens perdidos. combate. Sadino é referente ao rio Sado. um dos filhos sou do pobre Alceste. Bocage é marcado pela luta entre a Razão e o Sentimento. que considerava seu mestre). Mas. que corta Setúbal). um certo gosto pelo Renascimento (notadamente por Camões. o bucolismo. filha do Tirreno.

Ventura: destino. Não te imito nos dons da Natureza. 12 Falaz: enganadora. sorte.. 10 11 Tropel: grande confusão. Como tu. Também carpindo17 estou. saudoso amante. Mas. De que inúmeros sóis a mente ufana11 Existência falaz12 me não dourava! Mas eis sucumbe Natureza escrava Ao mal que a vida em sua origem dana. entregar-se a. tem o sentido de dirigir-se a. No abismo vos sumiu dos desenganos. seu vale é muito fértil e densamente povoado.Ah! Cego eu cria. Saiba morrer o que viver não soube. Deus. quão semelhante Acho teu fado13 ao meu. 17 Carpindo: queixando-se. oh tristeza!. Quando a morte à luz me coube. grande Camões. 18 Ludibrio: objeto de zombaria. ilusória 13 Fado: destino 14 Cotejo: comparo 15 Arrostar: defrontar. engano. junto ao Ganges16 sussurante. 16 Ganges: rio localizado na região setentrional da Índia.. lamentando-se. pela certeza De que só terei paz na sepultura. Se te imito nos transes da Ventura20. Ufana: vaidosa. Ganhe um momento o que perderam anos. O Ganges é o rio sagrado. Modelo meu tu és. que se vangloria. 19 20 Demando: demandar. encarar. . Prazeres. gostos vãos. Ludibrio18.tumulto. sócios meus e meus tiranos! Esta alma. que sedenta em si não coube. quando os cotejo14! Igual causa nos fez... que em vão desejo. aqui. ah! misero eu sonhava Em mim quase imortal a essência humana. olhar de frente. perdendo o Tejo Arrostar15 co’o sacrílego gigante. Da penúria cruel no horror me vejo.. oh! Deus!. 2 Camões. Como tu . da Sorte dura Meu fim demando19 ao Céu. como tu.. desprezo. lastimando-se.

A vária Deusa.”. a Sorte dura. Essa postura o identifica como perfeito árcade ou o aproxima do Romantismo? Justifique a resposta. grande Camões. que me nega abrigo! Tudo perdi: mas valha-me a ternura Amor me valha. . Eu da morte as angústias e os horrores Por mil vezes sem morrer tolero. o poeta fala numa “cega divindade”. 1 No texto (1). a) Qual é essa “cega divindade”? b) Que relação ela tem com o Arcadismo? 21 Gertrúria: pseudônimo de Gertrudes. a)Que gigante é? b)Que relação tem com Camões? 4 Comente o último terceto do texto (2).3 Eu deliro. o poeta afirma que se entregou às paixões. 6 No texto 3.. 2 Ainda em relação ao texto (1). e pague-me contigo Os roubos que me fez a má ventura.. Ah! não sejas também qual é comigo A cega divindade. por teus olhos te assevero Que ferve esta alma em cândidos amores. 5 Comente o segundo quarteto do texto (3). Pelo Céu. Gertrúria21. Bocage cita um certo “sacrílego gigante”. Longe o prazer de ilícitos favores! Quero o teu coração. qual a atitude assumida pelo poeta diante da vida e da morte? 3 No soneto “Camões. mais nada quero. eu desespero No inferno de suspeitas e temores.

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Marco Inicial do Romantismo: Poema Camões de Almeida Garrett .