Renato Monseff Perissinotto DECISO-UFPR Apresentação Observações preliminares O objetivo deste artigo é identificar no 18 Brumário de Louis Bonaparte2 algumas idéias esboçadas por Marx que se tornaram fundamentais para o desenvolvimento da teoria marxista contemporânea do Estado. Antes disso, entretanto, é necessário fazer algumas rápidas observações. Primeiramente, embora a importância desta obra para o desenvolvimento da teoria marxista do Estado tenha sido amplamente reconhecida3, não há, salvo engano, estudos que tenham como objetivo identificar sistematicamente os vínculos temáticos entre a análise de Marx e os trabalhos de meados do século XX que pretendiam dar forma a uma “teoria marxista do Estado capitalista”. Penso – e aqui anuncio a tese geral do presente texto - que a maioria dos autores marxistas contemporâneos que escreveram sobre o Estado capitalista circulam dentro de um conjunto de preocupações semelhantes e que é exatamente este “campo comum” que podemos encontrar esboçado na obra de Marx. Em segundo lugar, é preciso dizer que a leitura que proponho aqui se vale apenas de uma dentre várias outras “portas de entrada” existentes no texto de Marx. A relação entre Estado e classes sociais é certamente um tema capital dentro desta obra, mas ligado a ele surgem vários outros. Marx foi bastante sugestivo ao abordar questões que não costumamos vincular ao elenco de preocupações da tradição marxista, como, por exemplo, o peso da tradição e da simbologia na ação política, a relação entre representantes e representados, o papel da liderança carismática na luta política, dentre outros. Portanto, limitar-se a uma dessa vias de acesso ao texto certamente não faz justiça à multiplicidade de sugestões presentes na análise encontrada em O 18 Brumário. Por último, não me deterei aqui na infinidade de detalhes fatuais presentes na análise marxiana do golpe de 1851, a não ser quando isso for importante para o meu objetivo. Da mesma forma, não pretendo discutir as teses propriamente históricas de Marx, isto é, saber se as informações fornecidas e as suas explicações dos acontecimentos estão ou não corretas. Interessa-me, como disse, as sugestões teóricas ali presentes e as suas conseqüências para a teoria marxista do Estado capitalista. A estrutura do trabalho O presente texto se divide da seguinte maneira. Numa primeira parte, pretendo mostrar que O 18 Brumário de Louis Bonaparte é, do ponto de vista do problema do Estado, uma obra importante não apenas para
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Este texto é uma versão modificada de minha apresentação no evento “Os 150 anos de O 18 Brumário de Louis Bonaparte”, organizado pelos centros acadêmicos de Ciências Sociais e História da UFPR. Todas as referências apresentadas ao longo do texto foram retiradas de O 18 Brumário de Louis Bonaparte, Lisboa, 2a edição, Editora Avante, 1984. Nas citações aqui reproduzidas indico apenas as páginas entre parênteses. Ver, por exemplo, Nicos Poulantzas, 1986, p. 131 e Miliband, 1981, pp. 134-137.
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desenvolvimento posterior do marxismo, mas representa também um avanço qualitativo das considerações do próprio Marx sobre o Estado capitalista. A segunda parte do texto dedica-se a mostrar como os avanços presentes na obra em questão (no que diz respeito estritamente ao problema do Estado capitalista) foram objeto de sistematização teórica por parte dos autores marxistas contemporâneos (os chamados neo-marxistas). Não tenho a intenção de rastrear passo a passo a apropriação das sugestões teóricas presentes n‟O 18 Brumário pelas produções atuais, mas apenas indicar rapidamente quais são elas, como Marx as trabalhou e como elas foram sistematizadas pelos autores contemporâneos.
O 18 Brumário de Louis Bonaparte no conjunto da produção clássica
Qual o significado de O 18 Brumário de Louis Bonaparte no interior da produção do próprio Marx? A resposta a esta questão exige um esclarecimento prévio. Quando falamos das idéias de Marx sobre o Estado é impossível não levar em conta os textos de juventude, reconhecidamente aqueles em que o autor mais se dedicou à análise do “Estado moderno” e da burocracia. Não gostaria de encampar integralmente a tese althusseriana da “ruptura epistemológica” existente entre as obras de juventude e as obras da maturidade. Penso, entretanto, que essa tese tem validade no que diz respeito especificamente ao tema do Estado4. As considerações do jovem Marx estão ainda impregnadas pela “problemática teórica” que entende o Estado como um poder pairando acima de indivíduos atomizados na sociedade civil. Ao criticar a existência do Estado enquanto realidade política abstrata, separada dos homens reais, o jovem Marx revela uma perspectiva normativa que compreende a política como esfera do interesse geral, locus de existência do cidadão e do homem genérico, em oposição à “sociedade civil”, entendida esta como o reino das particularidades, do indivíduo privado, do “homem egoísta” (o burguês). A “problemática teórica” das obras imediatamente posteriores, em especial A Ideologia Alemã e O Manifesto Comunista, é diversa. É certo que nesses textos a expressão “sociedade civil” continua aparecendo, porém dotada de um conteúdo radicalmente diferente. O que temos agora não são mais os indivíduos, mas sim o “processo real de produção”, as “relações de produção”, as “forças produtivas”, as “classes sociais” e a luta de classes como o “motor da história”5. Por sua vez, o Estado não será mais uma entidade que, separada da sociedade civil, cai presa de uma burocracia que o utiliza para realizar os seus próprios interesses, mas sim uma instituição a serviço da dominação de classe. Agora, a política não será mais entendida como a esfera do homem genérico que, na sociedade burguesa, degrada-se em função da alienação política e da sua submissão a interesses privados (a burocracia, os direitos “homem egoísta”)6. Ao contrário, numa sociedade assentada em relações de produção que distribuem os homens em posições coletivas antagônicas, isto é, em classes conflitantes, a política e o Estado não podem ser outra coisa senão as esferas em que a classe economicamente dominante garante politicamente o seu predomínio. O Manifesto Comunista enuncia de forma admiravelmente sintética esta que poderia ser chamada de a teoria marxista geral do Estado: “O poder político é o poder organizado de uma classe para a opressão de outra” (Marx e Engels, s/d, vol. 1, p. 38). Por essas razões é que vou me limitar a analisar o conceito de Estado exclusivamente durante o período da maturidade, argumentando que O 18 Brumário de Louis Bonaparte ocupa ai um lugar central.
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Quanto a este ponto, ver Louis Althusser, 1973, pp. 81, 108-110. Ver também Décio Saes; 1994, pp. 53-74. Expressões como essa, ausentes nas obras de juventude, podem ser encontradas, por exemplo, em A ideologia Alemã, p. 55 e ss. e por todo Manifesto Comunista. Ver, por exemplo, Marx, A questão judaica, p. 58-9. 2
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Podemos encontrá-la em A origem da família. vol. vol. Quando Marx e Engels se referem ao Estado como uma organização que defende os “negócios comuns” de toda a classe burguesa. como explicar o fato de que o primeiro opera no sentido de atender aos interesses desta última? Vejamos. pp. Segundo esse receituário. 37). em si. 1. Para eles. A frase encontra-se. Miliband (1988. parece-me que a interpretação instrumentalista é reforçada pelo receituário revolucionário que podemos encontrar no próprio Manifesto Comunista (s/d. a favor da transformação socialista da sociedade. O conteúdo da sentença. 7 Traduzi essa sentença do texto em inglês retirado do sítio na internet http://www. Marx e Engels. mas também politicamente. pode ser entendida de maneira mais complexa. Essa perspectiva “instrumentalista” foi certamente dominante no campo marxista. essa frase condensa de maneira especialmente clara a compreensão simplista que Marx teria do Estado ao defini-lo como um mero comitê executivo das ordens burguesas. isto é. p. Paul Boccara. Se o Estado é o Estado da classe economicamente dominante. 3. como notaram Marx e todos os demais marxistas. Essa orientação parece reforçar a idéia de que para Marx e Engels o Estado é. em que Engels se refere ao Estado representativo como o “instrumento de que se serve o capital para explorar o trabalho assalariado”. da propriedade privada e do Estado. Se o Estado capitalista se constitui enquanto esfera separada das relações de produção e. Embora essa abordagem seja plausível. a solução sugerida no próprio Manifesto Comunista. A versão em português editada pela Alfa-Ômega substitui a palavra “Estado” por “governo”. o Estado de uma sociedade cuja característica fundamental é.marxists. acabou dando origem aquilo que os críticos do marxismo chamaram de “instrumentalismo”. portanto.A importância do 18 Brumário de Louis Bonaparte para a teoria marxista contemporânea do Estado capitalista A tese apresentada por Marx e Engels em A ideologia Alemão e n‟O Manifesto Comunista sugere imediatamente uma questão. que pela sua brevidade se prestou a incontáveis simplificações. seja pela aliança entre o governo e a Bolsa (s/d. o Estado deve ser tomado de suas mãos e usado. em textos publicados entre 1966 e 1976. um instrumento neutro e que o “sentido social” de sua ação depende da classe que está à frente do seu leme.htm. 137-38). vol. para que o Estado seja burguês é preciso que a burguesia “controle” diretamente o aparelho.org/archive/marx/works/1848/communist-manifesto/ch01. enfim. p. apresentado de forma tão direta. primeiramente. quando o debate sobre o Estado capitalista no campo do marxismo sofisticou-se. isto é. Por exemplo. conseqüentemente. Cf.marxists. entretanto. Dessa forma. portanto. da própria classe dominante. No entanto. 23. chamou a atenção para o fato de que essa frase. a sua transformação em Estado socialista se dá pela expulsão da burguesia do seu interior.org/archive/marx/. p. isto é. Até meados da década de 1960. como um Estado controlado pela bur guesia seja por meio da corrupção direta dos funcionários. 135). podemos encontrá-la também em obras bem posteriores. 3 . um mero instrumento que a classe economicamente dominante utilizaria para impor a sua política ao resto da sociedade. s/d. 1. obra de 1895. pressupõe -se que o faz em detrimento dos negócios particulares desta ou daquela fração de classe e. no endereço http://www. pela expropriação política dessa classe. sentença esta tão famosa quanto aquela anteriormente citada: “O Executivo do Estado moderno não é senão um comitê para gerir os negócios comuns de toda a classe burguesa”7. este mesmo Estado. essa frase forneceu a orientação teórica mais geral que estava por trás da maior parte das teses marxistas sobre o Estado. como devemos pensar a relação entre ambos? Questão ainda mais importante quando se tem em mente o Estado capitalista. com um razoável grau de autonomia em relação aos interesses parciais da classe dominante. a revolução proletária deve expropriar a burguesia não apenas economicamente. Nesse texto há uma outra sentença em que Marx e Engels se referem especificamente ao Estado moderno. mais especificamente. a separação (a autonomização) do Estado em relação à economia.
“códigos provinciais”. o Estado burguês surgido com a revolução francesa assemelha-se ao Estado pré-burguês da monarquia absolutista no que se refere à centralização. É interessante notar que também faz parte do receituário político de Boccara. tratava-se de se apropriar do aparelho de Estado a fim de utilizá-lo em benefício da revolução proletária. Mas em que contexto Marx apresenta essa sugestão? Ele o faz no momento em que está analisando o Estado francês de 1848. Esta teve que destruí-la e o fez por meio da “escova gigantesca da Revolução Francesa do século XV III [que] varreu todas essas relíquias de tempos passados. 124). Referindo-se à centralização estatal promovida pela primeira Revolução Francesa. trata-se de uma instituição que inscreve a dominação de classe na sua própria organização interna. mas ao mesmo tempo a extensão. “privilégios locais”. a novidade encontrada n‟O 18 Brumário de Louis Bonaparte? A novidade reside numa outra breve frase em que Marx revela uma alteração qualitativa de sua compreensão acerca do Estado capitalista. territoriais. É verdade que. 396). numa interpretação muito próxima da de Alexis de Tocqueville. tendo em vista a tese de “destruição” do aparelho estatal enunciada acima. limpando assim. para utilizar a expressão de Hal Draper (1977. para criar a unidade burguesa da nação. desse modo. 38). os atributos e os servidores do poder e do governo” (p. a revolução proletária deveria tratar o Estado capitalista. pautado pelo reformismo e pela transição pacífica ao socialismo. p. mas aquele só pôde surgir na medida em que “quebrou” os restos feudais deste. Marx avalia que “todas as revoluções aperfeiçoavam esta máquina [centralizada do Estado] em vez de a destruir” (p. antes da Revolução Francesa existia uma estrutura estatal de tipo feudal. como vimos. é preciso destruir o aparelho estatal. pois este aparelho não é mais visto como um instrumento neutro. portanto. 125). a expropriação política dos grandes monopólios e o uso do Estado pelo “movimento operário e democrático” que. essa tese sugere que os aparelhos de Estado não são instrumentos neutros. De acordo com o novo receituário. itálico meu). estaria repetindo o procedimento das revoluções anteriores e. Segundo Marx. segundo ele. N‟O Manifesto Comunista. 1978. denunciava aquilo que considerava a fusão entre o Estado e os grandes monopólios “numa totalidade orgânica única” e atacava o uso do Estado pela oligarquia monopo lista (Boccara. A mudança mais perceptível reside na diferença com que. caso a revolução proletária se limitasse a fazer uso do antigo aparelho estatal. mas inscrevem na sua organização interna formas de dominação de classe características de uma determinada época. parece que a tese da destruição só valeria para o futuro Estado socialista. com a sua imensa organização burocrática e militar. p. fica claro pela passagem em itálico na mesma citação acima que Marx não se permite cair em tal formalismo. com seu imenso “poder executivo. Mas de acordo com a passagem acima. 41). do ponto de vista da relação entre Estado e classe economicamente dominante. surgiu no tempo da monarquia absolutista e “a primeira revolução francesa.Renato Monseff Perissinotto economista francês. Marx avalia que esse “gigantismo” do aparelho estatal. Essa estrutura estatal representava um obstáculo político e jurídico ao avanço da burguesia. com a sua tarefa de quebrar todos os poderes particulares locais. Como afirmamos. Esta é à primeira vista uma estranha passagem. tinha de desenvolver aquilo que a Monarquia absoluta havia iniciado: a centralização. organizada com base em “direitos senhoriais”. municipais e provinciais. p. segundo Marx. visto que à burguesia bastou aprofundar o processo de centralização criado pela Monarquia absolutista. estaria apenas reproduzindo uma forma de dominação previamente existente. 1978. o 4 . “monopólios municipais”. Ao contrário. poderia colocá-lo a serviço dos interesses da maioria (Boccara. No entanto. Qual seria. numa série de análises sobre o “capitalismo monopolista de Estado”. já em Guerra Civil em França (1871). Em O 18 Brumário Marx percebe que. 124. com a sua extensa e engenhosa maquinaria de Estado” (p. ao mesmo tempo.
Por essa razão é que “a classe operária não pode limi tar-se simplesmente a se apossar da máquina do Estado tal como se apresenta e servir-se dela para seus próprios fins” (Marx. abre-se o período de luta entre o poder executivo e a Assembléia Legislativa. pois. Por fim. em especial pp. exército permanente a serviço do Estado e não da sociedade. Essa vocação não é aleatória. Essa mudança é fundamental. não poderia aproveitar-se dessa antiga estrutura estatal porque ela era uma estrutura de classe. pp. s/d. cap. abre mão do seu “poder político” (107). mas deve-se ao fato de que “o interesse material da burguesia francesa está precisamente entretecido do modo mais íntimo com a conservação dessa extensa e 8 O primeiro autor a perceber a originalidade de O 18 Brumário em relação ao Manifesto Comunista foi Lenin. do que em identificar as conseqüências teóricas implícitas em O 18 Brumário para a teoria do Estado no marxismo. Mas quais são os resultados dessa autonomização? É o próprio Marx quem afirma: a burguesia pôde. ou a revolução proletária em geral. à paralisia decisória em função das divisões realistas do Partido da Ordem e ao distanciamento da “burguesia extraparlamentar” em relação aos seus representantes no Parlamento. liberdade e igualdade puramente formais. Lenin estava muito mais interessado em utilizar o novo receituário revolucionário presente no texto de Marx para criticar o reformismo político da social-democracia alemã. p. “entregar-se plenamente confiante aos seus negócios privados sob a proteção de um governo forte e ilimitado” (p. e de Kautisky. por razões sobejamente conhecidas. vol. a perspectiva instrumentalista presente n‟ O Manifesto Comunista sofre de uma evidente limitação: se a natureza de classe de um Estado depende da origem social dos indivíduos que o controlam. A Comuna. A tese de que o aparelho estatal traz inscrito na sua própria organização interna a natureza de classe da sociedade em que ele opera sugere uma outra: para que o Estado atenda aos interesses da classe dominante não é condição necessária que os membros desta classe “controlem” os cargos estatais. 35-39. caindo por terra a tese geral do caráter de classe de todo e qualquer Estado. necessariamente. Tudo isso gera “intranqüilidade” e a burguesia extraparlamentar. Há várias passagens em O 18 Brumário de Louis Bonaparte em que Marx parece se dar conta de que o Estado burguês e a sociedade burguesa mantêm entre si uma relação que transcende as influências subjetivas que a burguesia e seus membros possam eventualmente exercer sobre os membros do aparelho estatal. descontente com a ameaça que tal intranqüilidade gera para os seus negócios. Esse processo.A importância do 18 Brumário de Louis Bonaparte para a teoria marxista contemporânea do Estado capitalista solo da sociedade dos últimos obstáculos que se erguiam ante a superestrutura do edifício do Estado moderno”. Cf. 30. este não poderia ser adjetivado de burguês. representação política sem responsabilidade e insubstituível. Basta relembrar aqui a característica mais essencial do processo que leva ao golpe de dezembro de 1851 e ao crescente cerceamento do “poder político” da burguesia por Bonaparte. vem o golpe e Marx diz: “somente sob o segundo Bonaparte parece ter-se o Estado autonomizado completamente” (125). centralizada e despótica. do ponto de vista de uma teoria marxista geral do Estado. no seu O Estado e a Revolução. cap. separada da sociedade e não controlada por ela. enfim. em particular. II. 5 . reproduzir as formas burguesas de dominação correspondentes aos elementos burgueses da estrutura do Estado8: burocracia extensa. em especial pp. III. Utilizá-la implicaria. e “a força do poder executivo autonomizada. como sabemos. 78). Lenin. separação entre executivo e legislativo e ausência de eleições para todos os cargos. então seria preciso aceitar a conclusão que decorre dessa afirmação. 109). 2. 45-50. sente como vocação sua assegurar a „ordem burguesa‟” (133). As considerações de Lenin sobre a Guerra civil em França servem ao mesmo propósito. leva à conturbação política. a de que em situações históricas em que a burguesia não controla o Estado. 43-4. Como mostra Marx. 1983. qual seja. em geral. quando a “burguesia parlamentar” vê o seu domínio político consolidado (depois de dissolvida a Constituinte em Janeiro de 1849 e derrotados os republicanos burgueses e a Montagne em junho do mesmo ano). No entanto.
Renato Monseff Perissinotto ramificadíssima máquina do Estado” (p. que o Estado cumpriu a sua função de garantir a ordem material da sociedade burguesa sem que para tanto fosse necessário que a burguesia estivesse à frente do leme do Estado. duas coisas diferentes. Sua indústria e seu comércio adquiriram proporções gigantescas. pois a realidade pode de fato ser mais complexa. a própria revolução de 1848 é um exemplo disso. a capacidade de controlar diretamente os postos do aparelho estatal. fortaleceu o poder político burguês ao reproduzir a sociedade em que a burguesia ocupava posição material privilegiada. tornam-se discutíveis as várias passagens em que Marx diz que a burguesia perdeu o seu “poder político” ou. Mais do que isso. O Estado é a organização da sociedade”. muitos dos acontecimentos não são ditados pelas necessidades funcionais da sociedade capitalista. Ora. Draper. que existe entre essa sociedade e o aparelho estatal um vínculo que transcende as relações de controle direto ou influência indireta entre a classe economicamente dominante e o Estado9. livre de preocupações políticas. 67). poderiam ameaçar a reprodução da “ordem burguesa”. no limite. Não meramente e certamente não simplesmente. pp. vol. esta idéia ainda não estava vinculada a uma teoria classista do Estado. falso e vil. Sob sua égide. Como veremos. Cf. a análise histórica de Marx deixa claro. torna-se lícito supor. 9 Hal Draper também atribui ao 18 Brumário esta inovação acerca do Estado. Segundo este autor: “Marx e Engels não fizeram do Estado uma mera extensão da classe dominante. isto é. s/d. que. 1977. Marx afirma: o Império foi aclamado de um extremo a outro do mundo como o salvador da sociedade. que essa reprodução da sociedade burguesa à revelia da própria burguesia. Se entendermos o poder político como a “capacidade” de ter os seus interesses mais amplos assegurados. num sentido simplista e passivo. Draper observa.” Draper indica ainda que essa idéia já estava esboçada nos primeiros textos. Ao contrário. por outra. do ponto de vista político. perdeu a sua “capacidade de dominar” (p. a autonomia do Estado e a supressão do “poder político” da burguesia conjugam-se com um desenvolvimento da sociedade burguesa “que nem ela mesma esperava”. muito mais claro do que a análise produzida por alguns teóricos contemporâneos do Estado capitalista. que aparentemente flutuava acima da sociedade. desde que exista uma classe dominante nas relações sócio-econômicas. era de fato o seu maior escândalo e o viveiro de todas as suas corrupções (Marx. sua ferramenta. pelas citações acima. poderíamos dizer que o Segundo Império. Certamente. a sociedade burguesa. Se isso é verdade. portanto. ou mero reflexo. como numa carta anterior a 1845. É inegável. 318-19. o que a burguesia perdeu foi a sua “influência política”. possibilitada por vínculos objetivos entre a sociedade e o Estado. Por fim. p. o Estado surge e expressa uma necessidade real e geral de organização da sociedade – necessidade esta que existe qualquer que seja a estrutura de classe particular. Na verdade. em que Marx afirma que “o Es tado e a organização da sociedade não são. mas são o resultado da conduta estratégica dos atores envolvidos e que. naquele momento. Portanto. atingiu um desenvolvimento que nem ela mesma esperava. entretanto. como mostrou o estudo de Marx sobre o Bonapartismo. a miséria das massas ressaltava sobre a ultrajante ostentação de um luxo suntuoso. a especulação financeira realizou orgias cosmopolitas. ocorre dentro de uma dinâmica política que produz as suas próprias conseqüências para a configuração da sociedade francesa do período. Porém. ao avaliar o papel do Segundo Império já em Guerra Civil em França. 80). ao contrário. 2. O poder estatal. 91). seu fantoche. 6 . ela utilizará esta necessidade para moldar e controlar o Estado de acordo com as orientações de classe.
expressa por meio de um novo receituário político. 7 . Em segundo lugar. Será nesse registro geral que a teoria marxista contemporânea do Estado capitalista se moverá. Desse modo. de forma teoricamente sistemática. de que o aparelho de Estado não é uma forma institucional neutra. percebe-se que a ação do Estado como garantidor da “ordem burguesa” não depende do controle direto da burguesia sobre o mesmo. não é o controle pela burguesia que define o caráter burguês de um Estado. ao lado do direito burguês. uma “coincidência” entre as funções do Estado e os interesses da classe economicamente dominante (Poulantzas. como essa tese geral se vincula a uma outra – a da autonomia do processo político frente aos interesses imediatos das classes . observaremos que a tese mais geral de que o Estado é uma instituição que reproduz a ordem social e que registra na sua forma de organização interna as relações de classe da sociedade em que opera apareceu na teoria marxista contemporânea do Estado por meio do trabalho pioneiro de Nicos Poulantzas. para desorganizar os trabalhadores como classe e. maneira pela qual ele se diferencia dos outros tipos históricos de Estado? Segundo Poulantzas.A importância do 18 Brumário de Louis Bonaparte para a teoria marxista contemporânea do Estado capitalista Estado O 18 Brumário de Louis Bonaparte e a teoria marxista contemporânea do O avanço fundamental que O 18 Brumário de Louis Bonaparte representa para as considerações clássicas sobre o Estado reside. mas por ser a instituição responsável pela reprodução do sistema social em que aquela classe ocupa posição dominante. 1986. De acordo com esta perspectiva. nesse sentido. mesmo que esta não esteja à frente do aparelho estatal (Poulantzas. entendiam o Estado como mero reflexo da “infra-estrutura” e como simples objeto controlado pela classe dominante. de um lado. de outro. Cabe colocar agora duas questões: primeira. pela reprodução das relações de classe que caracterizam uma dada sociedade. beneficiariam a classe dominante não por ser um instrumento em suas mãos. 119-133).tanto em O 18 Brumário como nos autores contemporâneos? Os dois itens seguintes visam a responder essas questões. mas sim a sua “materialidade específica” e a sua relação “estrutural” (Marx não utiliza nenhuma das duas expressões) com o mundo material da sociedade em que opera. o Estado. pp. Poder Político e Classes Sociais. Haveria. De forma mais condizente com o materialismo histórico. dois procedimentos deveriam ser fundamentais. portanto. portanto. entendendo-o como a instituição responsável pela coesão social e. como esse novo registro se manifestou. produz “efeitos ideológicos” que contribuem. Primeiramente. 42-54). na nova percepção. Para se estudar o Estado capitalista. uma teoria marxista do Estado deveria abandonar de vez as posições economicistas e instrumentalistas que. a estrutura estatal passa a ser vista como uma “forma política” que corresponde a um tipo específico de sociedade. com um tipo específico de estrutura de classe. pp. adotar uma perspectiva funcional acerca do Estado em geral. respectivamente. Para Poulantzas. na teoria contemporânea do Estado capitalista? Segunda. o Estado capitalista possui uma organização interna – o “burocratismo” – que corresponde à forma assumida pelas relações de produção capitalistas e que. A natureza de classe do Estado capitalista como um atributo “objetivo” e a oposição entre “interesses gerais” e “interesses imediatos” da classe burguesa No que se refere à primeira questão. e suas diversas ações. 1986. o analista deveria perguntar-se: qual é a maneira específica do Estado capitalista realizar essa função geral. para organizar a dominação política da classe burguesa. Como complemento.
Holloway and Picciotto. 122. Em Poulantzas. “parte[m] do pressuposto de que o Estado em absoluto favorece interesses específicos. Poulantzas elaborou o seu famoso conceito de “autonomia relativa do Estado capitalista”. 1987. 1982. pp. Sobre este ponto. ao fazerem a crítica da visão instrumentalista do Estado. Holloway e Picciotto. também aqui o caráter de classe do Estado capitalista é tido como um atributo objetivo e não como fruto da influência direta que a burguesia exerce sobre a burocracia estatal. Os textos produzidos geraram um debate teórico que ficou conhecido como o “debate alemão”. por intelectuais alemães no início dos anos 1970. 5. que n‟O 18 Brumário de Marx. 1978. Cf. p. ser uma “teoria geral” e não a teoria de um Estado específico numa conjuntura particular10. basicamente. ver também Göran Therborn. Holloway e Picciotto: “Poulantzas critica Miliband corretamente por negligenciar os vínculos estruturais essenciais entre a burguesia e o Estado capitalista. Desse modo. isto é. a autonomia do Estado em relação às classes e frações dominantes está situada no contexto mais geral da organização interna do modo de produção capitalista. que situa o caráter de classe do Estado na função sistêmica que ele exerce dentro de uma sociedade dividida em classes e não nas motivações dos atores que o controlam.Renato Monseff Perissinotto Essa “perspectiva objetivista”. p. como se sabe. Entretanto. de Lênin. de sua constituição enquanto esfera separada das relações de produção. foram críticos contundentes do “funcionalismo” ou do “politicismo” poulantziano. Offe e Ronge. desde o início crítico contundente dessa perspectiva. 8 11 12 . 1983. portanto. A escola derivacionista foi formada. Nos autores posteriores a Poulantzas encontramos este tema especialmente nos “derivacionistas”12. isto é. se o Estado é uma instituição que opera para atender aos interesses da burguesia. é claro. 1986. Ralph Miliband. esta autonomia deixa de ser um elemento puramente conjuntural para tornar-se um traço constitutivo (estrutural) do Estado capitalista.”. entretanto. embora. 125). inspira-se diretamente em algumas passagens d‟ O 18 Brumário em que Marx se refere à oposição entre o Estado e a sociedade civil e à crescente capacidade do Estado se “destacar” da sociedade (p.. Em vez disso. por meio do problema da “autonomização” do Estado capitalista. cabendo ao Capital este último papel. aparece mais como ilustração do que como fonte teórica propriamente dita. essa perspectiva se funda nas sugestões presentes em O 18 Brumário.. por sua vez. é interessante a afirmação de Offe e Ronge de que a interpretação instrumentalista do Estado no campo do marxismo “pode apoiar -se com mais razão em O Estado e a revolução. ele protege e sanciona instituições e relações sociais que. evidentemente. Em reforço a essa idéia. caracterizado pela separação entre o “econômico” e o “político” (Poulantzas. O que torna o Estado na sociedade capitalista um Estado capitalista não é a composição de classe do pessoal do aparelho de Estado mas a posição ocupada pelo Estado no modo de produção capitalista”. Claus Offe e Volker Ronge. Sua estrutura e atividade consistem na imposição e na garantia duradoura de regras que institucionalizam as relações de classe específicas de uma sociedade capitalista”. Como vimos. p. O Estado nem está a serviço nem é o „instrumento‟ de uma classe contra outra. constituem o requisito institucional para a dominação de classe do capital. Não pretendo dizer com isso que os autores posteriores a Poulantzas tenham subscrito integralmente a sua abordagem do Estado. É certo que O 18 Brumário. 1982. Como decorrência dessa nova perspectiva teórica. Seus autores buscaram elaborar uma teoria materialista do Estado capitalista em geral a partir do método utilizados por Marx em O Capital. No entanto. por exemplo. Este conceito. Ver. Muito pelo contrário. grande parte deles adotou essa perspectiva mais geral de que uma teoria marxista do Estado capitalista deveria identificar o caráter de classe em elementos estruturais e não conjunturais e. 123. como lidar teoricamente com os conflitos historicamente observáveis entre esta classe e o “seu” Estado? As análises históricas de Marx revelam ser essa uma situação 10 Excluo. 254-256). com um grau de sistematização infinitamente superior ao presente naquela obra11. Offe e Ronge. foi hegemônica no campo teórico marxista a partir do livro de Poulantzas. De qualquer forma. A crítica de Miliband à identificação entre poder de Estado e poder de classe pode ser encontrada em Miliband. 1978. 1989 e diversos textos de Block. no que se refere a esta escola.
O interesse geral da classe burguesa.. Marx se pergunta o que foi que permitiu a derrota deste Partido para o presidente. é essencialmente um “interesse político” (pp. por cansaço.. Cf. quarta seção. I. mais especificamente no estudo das leis fabris impostas pelo Estado aos capitalistas ingleses no século XIX. que um bando de deputados tinha deserdado do seu campo por fanatismo da conciliação. vol. em seguida. Ou. todas as opções do burguês individual são orientadas em função da lucratividade imediata de suas atividades econômicas. à luz da análise de Marx em O 18 Brumário. que se tinha rebelado já contra a luta puramente parlamentar e literária a favor da dominação da sua própria classe e traído os chefes desta luta. definir esses dois interesses? O interesse imediato (“mesquinho”. isto é.A importância do 18 Brumário de Louis Bonaparte para a teoria marxista contemporânea do Estado capitalista muito recorrente13. Nesse sentido. “tacanho”.! (109. A resposta está na passagem a seguir: Provou-se. capítulo XIII. pois. mas também que nos conflitos com Bonaparte tinha perdido igualmente a sua maioria parlamentar independente. Trata-se. Vejamos. quando aborda o crescente distanciamento entre a burguesia parlamentar e a burguesia extraparlamentar no conflito com o executivo: E esta burguesia extraparlamentar. o seu interesse político. ao destituir Changarnier. atreve-se agora a acusar o proletariado por não se ter lançado por ela numa luta sangrenta. pelos vencimentos de Estado de parentes seus. inglesa e alemã. Esta contraposição entre “interesse geral” e “interesse imediato” parece indicar que o interesse geral da classe não se constitui na mera somatória dos diversos interesses privados dos seus membros particulares. itálico nosso). ao mais sórdido interesse privado . porém. a importância dessa solução para a teoria contemporânea do Estado? Quando analisa o processo em que Bonaparte. O exemplo mais marcante. que o partido da ordem não só tinha perdido o ministério e o exército. por considerações de família. 93. por medo da luta. para usar uma expressão que em Marx parece transcender a 13 Situações em que as decisões do Estado geram reações adversas por parte da burguesia estão nas análises que Marx faz das histórias francesa. por especulação com os postos de ministros deixados vagos (Odilon Barrot). encontra-se em O Capital. que a cada momento sacrificou o seu interesse geral de classe. a garantia da “ordem material” em que essa classe ocupa situação privilegiada ou. a meu ver. de uma preocupação exclusiva com os seus “negócios privados”. itálico nosso). por esse mesquinho egoísmo com que o burguês comum se inclina sempre a sacrificar o interesse geral da sua classe a este ou àquele motivo privado (p. 9 . isto é. apodera-se do poder militar e consegue provocar defecções no Partido da Ordem. numa luta de vida ou morte! Ela. “egoísta”) parece residir na orientação da conduta do capitalista exclusivamente em direção ao seu lucro enquanto agente econômico. 1973. 67 e 109). item 9 “Legislación fabril (cláusulas sanitarias y educativas) Su generalización en Inglaterra”. por sua vez. ao mais tacanho. primeiramente. Como poderíamos. como Marx resolveu essa questão em O 18 Brumário e. destruindo a maioria parlamentar deste. Marx.
em O 18 Brumário de Louis Bonaparte. na análise de Marx. por meio de um Estado cada vez mais autonomizado e centralizado. como vimos nas citações acima) e. como já dissemos.Renato Monseff Perissinotto economia. num pressuposto teórico irrefutável. tal tarefa coube. em Poulantzas. Essa distinção entre “interesse geral” e “interesse egoísta” foi absolutamente fundamental para a teoria marxista contemporânea do Estado capitalista. necessariamente refletir as vontades e os movimentos da classe que nele reina soberana. a burguesia) como também suprime o espaço para a autonomia da política. É importante observar. A autonomia do processo político Passemos à segunda questão deste item. Foi por meio dela que todos os neomarxistas. Este passa a ser claramente definido. A luta de classes pode ser o grão de areia no inabalável mecanismo funcional previsto pela teoria contemporânea do Estado. as considerações sobre a função geral do Estado. a garantia da “ordem burguesa” (p. sobre a necessidade de destruir o aparelho estatal. a despeito dos constantes conflitos com a burguesia. nessas condições. são logicamente dependentes desta distinção. garantiu. conseguiu por um ponto final na revolução e manter a ordem burguesa (p. comprometer o interesse geral da classe burguesa. movidos pela sua recusa categórica ao “instrumentalismo”. Por essa razão. a reprodução do capitalismo de uma forma que nem mesmo essa classe esperava. o “interesse geral” não é uma motivação consciente dos burgueses particulares. O que O 18 Brumário sugere é que se. não raro. Não cabe aqui entrar nas discussões teóricas e metodológicas que essa apropriação da tese de Marx gerou. mas foi ele quem. Também para esses autores. podem inviabilizá-la e. Bonaparte feriu os interesses imediatos dos burgueses particulares. ela. no texto de Marx. não se constitui num objetivo político conscientemente perseguido por ele. qual seja. então. é exercida em contextos históricos de luta que. pois o processo político deve. As afirmações. por outro lado. Desse modo. portanto. Na verdade. podem ameaçar os interesses gerais de sua classe. o Estado pode atender aos interesses dessa classe mesmo que separado dela e mesmo que para isso tenha que gerar conflitos acirrados com sua frações particulares. isto é. Com freqüência. e sobre o Estado como “capitalista coletivo ideal”. a meu ver. conjugar a tese da autonomia com a tese do caráter de classe do Estado capitalista14. como o representante do interesse geral da classe burguesa (a manutenção dos traços fundamentais do sistema capitalista) e não como o porta-voz dos seus interesses tais como articulados por seus membros individuais. exatamente ao Estado bonapartista que. uma característica que salta aos olhos do leitor. mas é importante dizer que os teóricos contemporâneos deram pouca atenção às análises históricas. Uma perspectiva em que o Estado precisa ser diretamente capturado e controlado pelos membros da burguesia para reproduzir a dominação de classe não só enfraquece a tese da separação entre Estado e “sociedade civil” (já que ambos se fundem no controle instrumental do Estado por parte da sociedade civil. conseguiram. Ao contrário. a autonomia da dinâmica dos acontecimentos políticos frente à dinâmica dos eventos 14 Por exemplo. pela sua própria natureza. Há. cada um a sua maneira. impediriam levar a autonomia do processo político em consideração. entre os derivacionistas. sobre a separação entre Estado e “sociedade civil” e sobre a crescente autonomização do Estado geram. na verdade. passou-se a impressão de que a funcionalidade do Estado para os interesses gerais da classe constituía-se. 125). de um lado. que esse “interesse geral” não se encontra presente na mente do burguês individual (cujos interesse privados. por conseguinte. proposições acerca daquilo que poderíamos chamar de a “autonomia do processo político”15. mas um atributo do sistema social com o qual o Estado mantém uma relação funcional. entretanto. o Estado tem de fato essa “função”. as teses opostas. 10 15 . a meu ver. 130 e 133).
Nessa passagem. advogados. É verdade que essa clique política foi derrotada no decorrer do processo político. os republicanos burgueses são representantes de classe não pelos interesses econômicos imediatos que defendem. Marx diz: 16 Esta “autonomia da política” nas sociedades capitalistas. não são uma “fração da burguesia mantida coesa por grandes interesses comuns e delimitada por condições peculiares de produção. 2003. Mas em que momentos esse reconhecimento da “autonomia do processo político” aparece na obra em questão? A meu ver. Por essa razão. 11 . mas em função de uma “visão de mundo” que via a “ordem burguesa” como a única ordem social possível. 34). Parece-me claro que a compreensão da sociedade francesa como uma sociedade marcada pela separação entre economia e Estado. ao mesmo tempo. portanto. ver Wood. A primeira. revela a autonomia da política na análise de Marx. Ao contrário. Essa última posição representa. ela se constitui no efeito necessário das relações de produção que caracterizam essa sociedade. 1989. não se constituem em classes sociais na acepção marxista do termo. escritores. por outra. o desenvolvimento do capitalismo francês. Estou me referindo. que o movimento produzido na esfera política não deve ser visto como um efeito mecânico produzido pelo movimento das classes na esfera da produção. Mas se essa clique de republicanos não constitui uma classe. para o materialismo. (i) Grupos políticos sem base produtiva O primeiro deles. 33). ao mesmo tempo. quando analisa a representação pequeno-burguesa na Assembléia Nacional Legislativa. que consiste em ver a prática política como uma esfera totalmente autônoma. não contradiz as teses fundamentais do materialismo histórico. Sobre este último ponto. de junho a dezembro de 1848. Quanto aos condicionantes materiais da vida política. uma capitulação empiricista frente às aparências criadas pela sociedade capitalista. segundo Marx. A diferença mais significativa residia na forte presença de um “partido feudal” na Alemanha em função do estágio pouco avançado do capitalismo naquele país. levar em consideração os condicionantes (e limites) materiais da ação política sem reduzi-la à condição de mero reflexo dos interesses de classe. em que o representado manipula o representante obrigando-o a verbalizar os seus interesses no interior das instituições políticas. e talvez o mais evidente. oficiais e funcionários de idéias republicanas” (p. porque então adjetivá-los de “burgueses”? (ii) a representação política de classe A resposta a essa questão exige tratar do segundo tema que. Cf. a análise materialista tem que. os republicanos não eram burgueses em função do seu vínculo econômico. A “representação de classe” em Marx não é vista como um exercício de ventriloquia. Podemos perceber que a configuração da cena política alemã. Marx. como observa Marx em O 18 Brumário. mas desempenhou papel politicamente estratégico na condução da Assembléia Constituinte. cujo objetivo político fundamental era a instauração da República (p. refere-se à existência de grupos politicamente estratégicos que não têm uma base produtiva e. 201. a meu ver. Marx discute esse problema em duas importantes passagens. Desse ponto de vista. Nesse sentido. e os seus limites políticos. p. Segundo Marx. a Montagne. aos republicanos burgueses do National que. pensar a dinâmica política como algo que não deve ser visto como mero reflexo da economia ou. no que se refere aos seus principais atores políticos.A importância do 18 Brumário de Louis Bonaparte para a teoria marxista contemporânea do Estado capitalista econômicos e frente aos interesses imediatos de classe16. mas pela “ideologia” que professam. tão equivocado quanto o mecanicismo seria o “politicismo”. sugere. uma comparação das análises de Marx sobre a França e a Alemanha de 1848 pode ser ilustrativa. era bastante diferente da encontrada na França. Ao contrário. Era uma camarilha de burgueses. quando Marx analisa quatro temas. vale observar. é claro. já tinha aburguesado completamente a antiga propriedade feudal e retirado das casas reais qualquer vínculo efetivo com o antigo regime. isto é. pela constituição deste último como esfera cada vez mais “destacada” da sociedade.
Não fosse assim. aquele. pelos seus insultos ao parlamento. a relação existente entre os representantes políticos e literários de uma classe e a classe que eles representam (p. se declarava a dominação política da burguesia incompatível com a segurança e a existência da burguesia.Renato Monseff Perissinotto . a aniquilar a parte dela que falava e escrevia. isto é. atuariam como porta-vozes dessa classe. são teoricamente impulsionados para as mesmas tarefas e soluções para as quais o interesse material e a situação social impulsionaram. se condenava a si próprio à tranqüilidade. buscando em cada caso. levava Bonaparte a oprimir.. do regime parlamentar. em cada assunto. Marx diz: Se o partido da ordem parlamentar.. Tal é. faz deles uma “categoria” que não raro toma decisões à revelia da classe que representam. Na verdade. com a sua gritaria pela tranqüilidade. a massa extraparlamentar da burguesia. A passagem acima é ainda mais interessante porque revela que esses representantes podem estar a “um mundo de distância” da situação vivida pelos membros da classe que representam. a representação de classe reside numa “correspondência” de “visões de mundo” que leva o “representante político e literário” da pequena burguesia a se colocar problemas e soluções que são. os mesmos que habitam o mundo pequeno burguês. A representação da pequena burguesia não se faz por meio da presença direta de pequenos burgueses no interior da Assembléia Legislativa que. 12 . praticamente. O fato de esses representantes atuarem numa esfera específica. pelo mau trato brutal da própria imprensa. Mais uma vez. assim. isso sugere que tais visões de mundo podem ser sistematizadas e absorvidas a partir de posições outras que não a posição no processo produtivo.. Podem estar a um mundo de distância deles. na luta contra as restantes classes da sociedade. aniquilava pela sua própria mão todas as condições do seu próprio regime. . No auge dos conflitos entre o Partido da Ordem e o chefe do Executivo. pelo seu servilismo face ao presidente. A expressão “representante político e literário”. em cada lei e projeto discutidos promover os seus ganhos econômicos imediatos. na medida em que. O que os faz representantes do pequeno burguês é que sua cabeça não ultrapassa os limites que aquele não ultrapassa na vida.. pela sua cultura e pela sua situação individual. Ora. o que explicaria que homens que não são pequenos burgueses do ponto de vista de sua situação econômica pudessem adotar uma “perspectiva ideológica” de uma classe a qual não pertencem objetivamente? Essa forma complexa de entender a representação de classe repete-se na análise da relação entre a burguesia e os seus representantes políticos e literários. a meu ver. Esse tema é abordado por Marx por meio da famosa distinção entre “burguesia parlamentar” e “burguesia extraparlamentar”. visa a conjugar o lugar estratégico que as classes sociais ocupam na explicação de Marx com a idéia de autonomia da atividade política. não se deve imaginar que os representantes democráticos são todos shopkeeper [lojistas. que. 55). em termos gerais. em geral. entrando em conflito com ela. pequenos proprietários] ou pessoas que se entusiasmam com eles. na política e não no mercado. eles representam a burguesia no sentido acima descrito e não como meros porta-vozes dos interesses imediatos de suas frações. portanto.
como também o partido da ordem no parlamento se tinha dissociado do partido da ordem fora do parlamento. 13 . a sua tribuna e a sua imprensa. pressupõe ser ele capaz de orientar a sua conduta seguindo exclusivamente as suas próprias racionalizações. como se percebe. Os representantes políticos e literários dessa classe. enfim. Segundo Marx. Penso ainda que é exatamente a partir dessa percepção intuitiva de que a representação de classe não deve ser vista como uma relação direta e mecânica entre o representante e o representado que podemos entender o sentido da expressão “cretinismo parlamentar”. para se desfazer dos cuidados e perigos da dominação” (109). como vimos. de toda a compreensão do rude mundo exterior” (94). a burguesia extraparlamentar não hesitou em sair de cena para apoiar Bonaparte e demandar a sua proteção. os representantes e os representados estavam divorciados uns dos outros e já não se entendiam mais (106). os ideólogos da burguesia e a própria burguesia. de toda a memória. eram um grupo político sem qualquer vínculo direto com o setor produtivo. 35). mas também os republicanos burgueses que. Segundo Marx. Diz Marx. isto é. A expressão é excessivamente retórica e pejorativa. vale também para a representação da classe burguesa. representam os interesses da burguesia na medida em que vêem a “ordem burguesa” como a única forma possível de se organizar a sociedade. Os porta-vozes e escribas da burguesia. As lutas internas ao Partido da Ordem e as tensas relações do Parlamento com o Executivo criavam uma situação de intranqüilidade que levava a burguesia fora do parlamento a se afastar da burguesia parlamentar (87). Declarava inequivocamente que suspirava por se desfazer da sua própria dominação política. numa palavra. ardorosos defensores da ordem burguesa. A lógica do raciocínio. mas. ao mesmo tempo. mas parece descrever uma dimensão importante da compreensão que Marx tem da relação entre política e luta de classes. dispostos a transformar aquele que poderia ser o acontecimento mais revolucionário da Europa no mais contra-revolucionário (p. foi o comportamento irresponsável dessa “burguesia dentro do parlamento” que irritou a “burguesia fora do parlamento”. a aniquilar fisicamente os combatentes revolucionários e mesmo a não suportar os arroubos oposicionistas do partido pequeno burguês. a sua tribuna e a sua imprensa. essa “doença” pressupõe o distanciamento do parlamentar em relação ao “mundo exterior”.A importância do 18 Brumário de Louis Bonaparte para a teoria marxista contemporânea do Estado capitalista os seus políticos e os seus literatos. Em nome da ordem e da tranqüilidade menosprezadas pela burguesia parlamentar. 34). Não preciso lembrar aqui quão importante foi esta cisão para o encaminhamento do próprio golpe de dezembro de 1851. o “cretinismo parlamentar” é uma “doença que aprisiona como por encanto os contagiados num mundo imaginário e os priva de todo o senso. a sua parte “que falava e escrevia”. dispostos a excluir do governo provisório qualquer elemento socialista (p. Nesse sentido. a poder assim entregar-se plenamente confiante aos seus negócios privados sob a proteção de um governo forte e ilimitado. Evidentemente. não apenas os legitimistas e orleanistas do Partido da Ordem são representantes da burguesia. O partido parlamentar não só se tinha desintegrado nas suas duas grandes frações e cada uma destas não só se tinha desintegrado ela própria no seu interior.
contrario a avaliação que o próprio Marx faz do golpe de 1851. eis o elemento fundamental da conduta estratégica. a presença de elementos políticos e ideológicos na relação entre legitimistas e orleanistas.. como um processo cujo resultado não pode ser previsto de antemão. em grande parte. de uma decisão da burguesia francesa de afastar de forma radical. por 14 . em geral. Marx’s Theory of Politics. no fundo. segundo este autor. diz Marx. o golpe de 1851 . que os indivíduos fazem na realidade escolhas e tomam decisões que poderiam ter sido diferentes” (1984. A meu ver.no caso. isto é. pp. em particular. preconceitos e ilusões.?” (p. Primeiramente. Marx lembra que o enfraquecimento do parlamento na França foi fruto. como representantes de diversas frações da classe burguesa. Enfim. temores e esperanças. mas não universal nem „essencial‟ e que aceita. 1984. permitem a Marx ver o processo político analisado nas obras históricas.. produzido pela interdependência entre as diversas opções e decisões estratégicas tomadas pelos agentes. “a explicação que Marx fornece da ação política é instrumental racional. ainda que de forma ligeira. um resultado não pretendido. para Marx a motivação econômica não é a única a orientar a conduta dos atores políticos. “Decisões que poderiam ter sido diferentes”. A análise contida no texto como um todo autoriza dizer que esses elementos não-econômicos também se constituíam em importantes motivações a orientar a ação política dos membros do Partido da Ordem (Maguire. mas na relação entre ambas também “havia velhas recordações. Foi essa opção. antes e depois do acontecido. e em O 18 Brumário. não é menos verdade que Marx reconheceu. 137). inimizades pessoais. isto é. não passa pela realização de interesses econômicos imediatos. pela repressão violenta. o processo político é permeado por motivações várias e sua dinâmica depende de decisões estratégicas feitas em situação de grande incerteza. segundo ele. ao entregar vários deputados da Montagne aos tribunais. “se houve alguma vez um acontecimento que projetou diante de si a sua sombra muito tempo antes de se dar. Além disso. Gostaria de defender essa tese a partir das contribuições presentes no livro de John M. 113). qualquer força popular (operários e social-democracia) daquela instituição. valores políticos etc. o significado material das duas casas é fundamental. que poderia não ter ocorrido se as decisões fossem outras. à simbologia e à tradição política e de como ambas são fundamentais para a definição do comportamento dos atores políticos. artigos de fé e princípios que os mantinham unidos a uma ou outra casa real. mas pela adesão ideológica a uma ordem social. foi o golpe de Estado de Bonaparte” (p. Em segundo lugar. 52). Neste ponto. Se os atores políticos poderiam fazer diferente do que fizeram. também esses elementos superestrutrais (tradição. de acordo com Maguire. 131-32). a forma como Marx analisa o período de 1848 a 1851 na França desmente cabalmente essa interpretação. se é verdade que as duas casas reais que compunham o Partido da Ordem eram vistas. simbologia. Essa frase nos dá a impressão de que o golpe de 1851 já estava inscrito nos acontecimentos de fevereiro de 1848. uma explicação que considera fundamental a motivação econômica. Maguire identifica duas razões que. Assim como a representação de classe. p.é um resultado possível dentre vários outros. nas páginas iniciais da obra em questão.Renato Monseff Perissinotto (iii) Ação política e resultado histórico A “autonomia da política” em O 18 Brumário expressa-se também por meio do caráter “aberto” dos acontecimentos históricos. Por exemplo. A meu ver.) só têm um caráter de classe na medida em que traduzem em princípios gerais as características fundamentais de um determinado tipo de sociedade. Maguire. isso quer dizer que o resultado histórico . a idéia de que o “fato político” é. Segundo ele. que contribui para enfraquecer o parlamento face ao poder executivo e face aos olhos do povo. Lembre-se ainda todas as referências de Marx. convicções. como vimos. Nesse sentido. simpatias e antipatias. em grande parte. Há exemplos abundantes em O 18 Brumário que corroboram essa interpretação.
cujo objetivo era revogar o artigo 45. que prorrogasse os poderes do presidente. O cálculo estratégico dos atores. pois as condições para uma restauração bourbônica e para uma restauração orleanista não só eram diferentes como se excluíam mutuamente” (p. com um presidente que tinha perdido a sua autoridade . qualquer conflito como fruto do “socialismo” e. Os bonapartistas. Duas eram as alternativas mais plausíveis: enfrentar Bonaparte e recuperar de vez o poder para a Assembléia Nacional. 105). como uma ameaça à tranqüilidade social. a burguesia e seus representantes decidiram estigmatizar qualquer reivindicação. a social-democracia volta a ameaçar o predomínio do Partido da Ordem elegendo vários deputados. sabia que votava em vão e que os seus votos fracassariam necessariamente face ao veto constitucional dos republicanos. A partir das revoltas operária e pequeno-burguesa. aparece de forma contundente quando Marx analisa a proposta de revisão constitucional. a burguesia colocou em risco a sua própria imunidade parlamentar (p. Uma revisão geral. Se votasse pela revisão constitucional. abria o caminho à usurpação imperial.A importância do 18 Brumário de Louis Bonaparte para a teoria marxista contemporânea do Estado capitalista ocasião da revolta de junho de 1849. 100). por medo da “intranqüilidade” que optou freqüentemente por fazer concessões políticas importantes a Bonaparte e. o partido da ordem encontrava-se metido em inextricáveis contradições. Por exemplo. à anarquia revolucionária. Uma revisão apenas parcial. Segundo Marx. respectivamente em junho de 1848 e junho de 1849. “o Partido da Ordem não soube aproveitar este momento único. àquela altura já bastante enfraquecida. curvou-se ao partido da Ordem. Em todo o livro Marx critica a burguesia francesa por optar sempre por não enfrentar Bonaparte. punha em perigo os status quo. Face a estas posições tão claras. os republicanos burgueses eram contra e contavam ainda com um número importante de deputados para frustrar a revisão. 15 . Em vez de tomar audazmente o poder que lhe ofereciam. anticonstitucionalmente. cavar a sua própria sepultura (pp. por isso. assim. não deixando a Bonaparte senão uma saída. em especial da burguesia parlamentar. em grande parte. com um parlamento que há já muito que a não tinha e com um povo que pensava em reconquistá-la. Se rejeitasse a revisão. ou simplesmente submeter-se. que proibia a reeleição de Bonaparte. para recuperar o apoio da Assembléia Nacional. por ocasião das eleições parciais de março de 1850. só podia confiar em dominar a revolução submetendo-se incondicionalmente às ordens do poder executivo e tornava Bonaparte senhor da Constituição. a da violência. entregando a França no segundo domingo do mês de maio de 1852. apoiavam. Este. por não fortalecer a Assembléia. declarasse válida a simples maioria de votos. inclusive com o apoio do exército. apresentada em maio de 1851. Os deputados do Partido da Ordem decidiram submeter-se a Bonaparte e deram mais um passo em direção ao fortalecimento do poder executivo (p. 60). evidentemente. 70-71). da revisão e do próprio partido da ordem. Se. que encurtasse a existência da república. levantava um conflito inevitável entre as pretensões dinásticas. no momento decisivo. Foi. a fim de evitar a instabilidade política. o que muito assustou Bonaparte.
pela segunda alternativa. Entretanto. trata-se. 192-238. 114). 28).Renato Monseff Perissinotto não obrigou sequer Bonaparte a repor o ministério destituído em 1 de novembro [ministério Barrot-Falloux. quando Bonaparte propõe. Marx. a tese implícita da autonomia da prática política se faz presente por meio de um quarto tema bastante recorrente na obra em questão. É dessa forma que devemos entender a frase de Marx. Nos textos em que aborda esse processo político. ao menos permitiu alçar o conjunto desta classe à cena política. Não era isso. De saída. os republicanos burgueses. . Cf. Esses são rápidos exemplos que mostram como. desde o início. para usar a expressão de Antoine Artous (1999. ao lado do proletariado. uma inevitabilidade criada e alimentada pelas próprias reações racionais (talvez imperfeitamente racionais) dos indivíduos frente às suas posições” (1984. Marx costuma dizer que a revolução alemã não foi o que deveria ter sido por exclusiva opção da burguesia local ou. no final das contas. 66). a oposição dinástica e a pequena burguesia democrático-republicana. a transformação desta de um evento revolucionário num acontecimento contra-revolucionário. a meu ver corretamente. “com armas na mão. na verdade. 73 e p. mostrou-se disposto a discutir seriamente. p. 16 . não raro são essas classes que buscam se adaptar às novas condições políticas produzidas à sua revelia. imprimiu-lhe o seu selo e proclamou-se a república social” (p. É certo que na derrocada da Monarquia de Julho. os problemas sociais (p. participaram. Segundo Maguire. Essa possibilidade fomenta questões 17 A análise que Marx faz da revolução alemã de 1848 também é marcada por essa característica. qual seja. A análise contida em O 18 Brumário mostra que “a inevitabilidade [do golpe] aumenta devido ao tipo de decisão e de opção que os indivíduos tomam no tipo de situação em que se encontram. a revisão da Constituição. o desejado pelas diversas facções burguesas. p. 4. Optou-se. pouco a pouco. mas das opções que os atores políticos escolheram a cada momento depois de desencadeada a revolução. portanto. em maio de 1851. o golpe de 1851 é o resultado não de 1848. 1989. o caminho para o golpe17. a dialética das formas políticas Por fim. ao contrário. coloca-se ao mesmo tempo a possibilidade do fim da República. Por essa razão. como diz o autor. Ambas as casas reais odiavam a República. certamente. Assim. as opções feitas na esfera da luta política foram desenhando. 168). seguindo a análise de Marx. 27). o desenrolar da revolução de 1848 é. Mas se a República não foi criação exclusiva da classe burguesa. por exemplo. mas o mais importante para se entender a dinâmica do processo político imediatamente posterior é ter em mente que o processo revolucionário abriu as portas para a participação do movimento operário radical que. o que podemos perceber na análise que Marx faz do período que vai de 1848 a 1851 é que o movimento das formas políticas não é o reflexo mecânico da vontade das classes economicamente dominantes. para ser mais exato. por pura hesitação entre fazer avançar a revolução ou cair nos braços da velha burocracia prussiana. A burguesia e seus representantes políticos e literários dedicaram todos os seus esforços a expulsar da cena política as forças populares (operários e pequenos burgueses). Ao contrário.. o primeiro e último ministério parlamentar]” (p. Segundo este autor. É. era preciso depurá-la dos seus elementos perigosos. de uma “crescente inevitabilidade”. é preciso notar que a revolução de 1848 não foi criada pela classe burguesa... o primeiro momento da revolução coloca o operariado na linha de frente do processo político que. mas como seu advento não pode ser sustado. Tanto os orleanistas como os legitimistas sabiam que só podiam atuar conjuntamente sob essa forma de governo. A burguesia monarquista não desejava a República. como lembra Marx. 144-5). mas só nela poderiam garantir a sua coexistência. segundo a qual o golpe foi “o resultado necessário e inevitável do processo anterior” (p. a “dialética das formas políticas”.
Nesse sentido. de conjunturas específicas. esse conceito não pretende dar conta da “história”. 17 . Por sua vez. Portanto. A aproximação da burguesia parlamentar com Bonaparte viabiliza o golpe. Resta saber em que medida a “autonomia do processo político” se fez presente na teoria contemporânea do Estado.A importância do 18 Brumário de Louis Bonaparte para a teoria marxista contemporânea do Estado capitalista em torno de uma restauração monárquica. os princípios 18 Creio que a autonomia do processo político em O 18 Brumário expressa-se também por meio das considerações de Marx sobre a importância dos aspectos propriamente institucionais do aparelho de Estado francês. Enfim. não é a burguesia que reivindica o fim da república e o golpe de 1851. primeiramente. p. descreve um “traço constitutivo” do Estado. Fica claro que. Por motivos editoriais. É certo que esses elementos estruturais são fundamentais na constituição de um processo político autônomo.e. O grau de autonomia do processo político depende. numa palavra. somente numa sociedade em que a política se apresenta como uma esfera separada das relações de produção é que o movimento na esfera política pode aparecer como um movimento autônomo em relação à economia. por sua vez. de conjunturas específicas. mas o advento da república que permite a unificação da burguesia. 99-101). De fato. 166-67). a sua intensidade. e a burguesia extraparlamentar nunca foi das mais tranqüilas (Artous. afinal de contas. mas a paralisia decisória produzida pelos embates entre os representantes políticos da classe burguesa que leva esta classe a aderir ao golpe. portanto.. na medida em que retira apoio do Parlamento. O termo “relativa” na expressão “autonomia relativa do Estado” refere-se aqui à relação entre o Estado e as classes dominantes (i. fruto da estrutura interna do modo de produção capitalista. 2001 e 2002. Segundo Poulantzas. o ritmo desse processo. quão autônomo ele será. mas também a configuração das formas políticas afeta o movimento estratégico das classes18. não são os interesses parciais de determinadas frações burguesas que produzem a crise da república. como vimos. para Marx. não é a burguesia unificada que constrói a república. Nesse sentido. não estruturais. relativamente autônomo em relação à classe dominante). o processo político torna-se ainda mais importante quando começa a ameaçar a tranqüilidade social e os negócios privados. gera crises no interior da burguesia.. não é possível desenvolver essa argumentação no presente texto. não são apenas as estratégias das classes que afetam a configuração das formas políticas. o “processo político” nos remete necessariamente a situações históricas que se desenvolvem no interior desse limite estrutural do modo de produção que é a separação entre o Estado e as relações de produção. ao recolocar na ordem do dia a possibilidade de uma restauração monárquica. que. isto é. No entanto. O leitor interessado pode consultar Codato e Perissinotto. a relação entre o presidente. gera as conhecidas divisões entre as casas reais que compunham o Partido da Ordem (pp. tudo isso dependerá de elementos conjunturais. em grande parte. mas a crise da república que. pois. o que não quer dizer que o “bonapartismo” seja produto direto da vontade desta classe. Essas divisões foram. fazer uma distinção entre a “autonomia do Estado capitalista” e a “autonomia do processo político”. responsáveis pela paralisia decisória no Parlamento que tanto irritaram a burguesia extraparlamentar e que aproximaram-na de Bonaparte. depois imperador. Para responder essa pergunta é preciso.. de como a luta de classes se desenvolve num determinado país e das opções concretamente feitas pelos grupos políticos que compõem uma cena política. o processo político refere-se à “história imediata” e não aos traços estruturais do Estado e do modo de produção. 1999. O primeiro conceito. situadas no tempo e no espaço. Ao contrário. é interessante reproduzir aqui a resposta que Poulantzas dirige à seguinte questão de Miliband sobre o conceito de autonomia relativa do Estado: “quão relativa é esta autonomia?”.
.. de outro. com referência a um Estado capitalista dado e a uma conjuntura precisa da luta de classes correspondente . das opções estratégicas dos agentes políticos e dos seus efeitos coloca problemas de natureza teórica. A meu ver.. a extensão. durante todo o século XX. só pode corresponder aos interesses políticos da classe ou das classes dominantes. dentro desses limites. Conclusão A teoria social foi. pp. toda a análise do livro orienta-se pelo espírito contido nessa frase. Nela podemos ver “atores sociais” engajados em condutas estratégicas. travado nas páginas da New Left Review. Marx. produzir. i. a ausência. no longo prazo. no longo prazo. oligopolista). as formas etc. dependendo da luta política. 1982. Ora. itálico do autor).. o grau. (quão relativo e como o Estado operacionaliza essa autonomia) dessa autonomia relativa do Estado só podem ser examinados . De um lado. (1976.e. Porém. Como toda contraposição carente de nuanças. para se entender o movimento da história. isto é. apresentou caminhos que já sinalizavam uma alternativa a essa oposição infrutífera entre estrutura e ação.. recusando a “problemática dos atores sociais” e insistindo na importância das “conexões objetivas” entre o Estado e o sistema capitalista. ao seu dedicar à análise de um processo político concreto. só pode corresponder aos interesses políticos da classe dominante?”. 21). 72. O Estado (capitalista). suas características e opções. Refiro-me à famosa passagem em que Marx diz: “os homens fazem a sua própria história. monopolista. Poulantzas. Por exemplo. não centraram sua atenção nas estratégias dos agentes políticos e nos impactos que suas opções causaram sobre o processo histórico. mas não a fazem segundo a sua livre vontade. A necessidade de se combinar a análise estrutural com a análise histórica parece evidente na passagem acima. porém atuando em contextos político. mesmo quando analisaram conjunturas específicas. simbólico e econômico não escolhidos por eles. mas nas circunstâncias imediatamente encontradas. No campo específico da teoria marxista do Estado esta dicotomia se expressou de forma particularmente aguda no famoso debate entre Nicos Poulantzas e Ralph Miliband.. Em sua análise. Por essa razão. p.. em circunstâncias escolhidas por eles próprios. mesmo os textos históricos desses autores operam sempre num altíssimo nível de abstração. esta também se mostrava simplificadora (Blackburn. a citação acima parece conter um excessivo funcionalismo que a análise presente em O 18 Brumário não autorizaria. Se o processo político pode seguir o seu curso com razoável autonomia e se ele pode produzir resultados inesperados. No entanto. Em O 18 Brumário de Louis Bonaparte. resultados desestabilizadores (e não antecipados) para a ordem burguesa. nada impede que as ações estatais possam. por que dizer que “o Estado capitalista.. dadas e transmitidas” (p. Ralph Miliband defendendo a importância de se levar em consideração os agentes políticos. perpassada pela dicotomia entre estrutura e ação. nessas análises. Contudo. a longo prazo. 219-241). em geral marcados pelo objetivo de identificar as macro-relações entre as formas assumidas pelo Estado e os estágios de desenvolvimento do capitalismo (competitivo. Marx mistura elementos que independem da racionalização dos atores com outros que remetem18 .Renato Monseff Perissinotto fundamentais da teoria marxista do Estado indicam os limites negativos dessa autonomia. tanto Poulantzas como os autores marxistas seguintes se preocuparam fundamentalmente em elaborar uma teoria geral do Estado capitalista e.
Essência e Causa. O imposto. o que o coloca numa situação de dependência “estrutural” frente aos recursos materiais da ordem burguesa. No entanto. também os efeitos funcionais da ação estatal não podem ser tomados como um mero pressuposto de qualquer análise histórica.] Se a compreensão do caráter classista do Estado só pode resultar da descoberta prática de sua seletividade de classe. Cf. indicando-lhe o caminho (Offe. em vez de dele se apropriar..A importância do 18 Brumário de Louis Bonaparte para a teoria marxista contemporânea do Estado capitalista nos a interações sociais em que as opções desses mesmos atores são fundamentais para definir o resultado final do processo histórico. Nesse sentido. é a base material da “autoridade política”. De um lado. da mesma forma que o dezembro de 1851 não estava inscrito nos acontecimentos de fevereiro de 1848. Althusser. “como Origem. os homens não se constituem no “Sujeito” da história. agentes que agem e escolhem dentro de determinadas condições que independem da vontade deles. se esse Estado garante a ordem social. opera num contexto político de lutas e contradições que perpassam a sua organização interna e podem afetar o desempenho de sua função reprodutora. como lembra Marx. A meu ver essa orientação de pesquisa já estava esboçada nas considerações de Marx em O 18 Brumário de Louis Bonaparte. 19 Nesse sentido. p. Além disso. mas como uma função no interior do sistema social. mas sim o garantidor da “ordem burguesa”. que independem da vontade dos homens.e. daí a necessidade de a revolução proletária destruí-lo.. com o olhar atento sobre a conduta estratégica dos agentes políticos que. ele. pensar o Estado capitalista não como um instrumento. 1982. por exemplo. 66-71. fica ainda mais claro que o Estado do Segundo Império não é o Estado da burguesia. Como isso se apresenta no que diz respeito ao Estado? Penso que Marx consegue conjugar de maneira instigante dois níveis de análise. 1978. por razões que sugerimos antes. São. capaz de responder sempre adequadamente às exigências funcionais da acumulação privada. Como diz Claus Offe: O caráter de classe do Estado comprova-se post faestum. pp. Porém.. reproduz a ordem burguesa à revelia da própria burguesia. esses autores pouco se dedicaram a aplicar essas teorias à análise de situações concretas e se mostraram pouco dispostos a conjugar a perspectiva estrutural com uma sociologia dos atores. tornando-se ao mesmo tempo visíveis para o conhecimento objetivante [. Quem lê os interessantes trabalhos da escola derivacionista. isto é. fazem a história19. nesse sentido. torna-se questionável o estatuto lógico das teorias que pretendem antecipar-se a essa realização prática. representou um salto de qualidade na teoria marxista do Estado. i. mais especificamente. fica com a nítida impressão de que o Estado capitalista funciona como um engrenagem plenamente “azeitada”. 161). A meu ver. um retorno ao 18 Brumário é importante para mostrar como a “política” pode causar problemas para o funcionamento desta engrenagem. depois que os limites de suas funções transparecem nos conflitos de classe. ele percebe claramente que o Estado capitalista opera em condições materiais determinadas. mas que podem ser alteradas pelas suas ações. contudo. Nesse sentido. responsável em sua interioridade por todas as determinações do „Objeto‟ exterior”. separado da “sociedade civil”. no sentido apontado por Althusser. depois do golpe. A ação estatal deve ser avaliada a partir do seu impacto sobre os agentes políticos e da reação destes por meio de lutas que podem ou não afetar a ordem social. como propuseram os autores contemporâneos. o que se manifesta numa visão analítica que expressamente pretende conjugar a atenção às “dimensões objetivas” da ordem social. isso sim. 19 .
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