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©  Teresa  Huertas,  Lava  Walks  

                                                                   

 

   

UMA VIDA DE ESCRITA

Ainda em Lisboa. A ida para a Bélgica traça um percurso de escrita que. na chamada Escola da Rua de Namur e na comunidade alternativa da Ferme Jacob. a «língua sem impostura». 1962). a figura de Témia. darão corpo de escrita ao nome Llansol. presente «na verticalidade e na maneira frontal de olhar».» No meio dessa experiência escreverá O Livro das Comunidades (1977). tão presente em Um Beijo Dado Mais Tarde (1990). ser capaz de tomar a palavra. Concluído o Curso de Direito em 1955 e o Curso de Ciências Pedagógicas em 1957. entre Lisboa e Alpedrinha. também. Dirá da sua ida para a Bélgica: «Não tinha mais do que trinta anos. Ninguém conseguirá ter uma pálida imagem da densidade do ar que. e desertara. mais tarde. no exíguo cubículo fechado das nossas vidas. a «vertente imaginária da linguagem» já se fazia sentir na escrita dos primeiros contos e diálogos. a que fará surgir um texto novo. com uma enorme sede de liberdade. a rapariga que temia a Maria Gabriela Llansol (1931-2008) impostura da língua. E a Escola da Rua de Namur propiciou a continuação dessa busca. no decurso da leitura silenciosa de um poema». se respirava. MGL inicia um trabalho de experiência pedagógica. se recusara a participar na guerra colonial. lá em baixo. ter com o Augusto [Joaquim] que. E esta casa é tanto a casa onde vivia como o país que a albergava. embora já concluído. o desbloqueio afectivo das crianças. a partir de então. de novo. Entre a infância e a adolescência. em 24 de Novembro. ainda inédito. em 1960. É a busca de uma língua nova. sem temor nem embaraço. Estamos em Lisboa (Campo de Ourique). os seus sentimentos. apenas esboçado em Portugal (Os Pregos na Erva. e o legado catalão que lhe vem dos bisavós maternos. exprimir. MGL parte em 1965 e só em 1985 regressa a Portugal. não se administrava bem a justiça da língua». acabara de me casar e vinha. reconheceria. o que fará surgir. sozinha. ao mesmo título que a aquisição de conhecimentos. A herança paterna. Eu procurava evadirme a escrever. em Lovaina (1971-79). deixava um livro publicado e outro.   [ 2[     «______ eu nasci em 1931. umas semanas antes. (…) Vim com muito temor e. vê crescer a consciência de que «na casa. o primeiro da Trilogia «Geografia de Rebeldes». pelo modo como punha em prática uma experiência inovadora com a linguagem: «era muito importante.» . de atingir o âmago do ser. que terá continuidade na Bélgica. um caminho singular na escrita portuguesa.

1991) o modo como. Mas esse silêncio e o isolamento que caracteriza essa aldeia da Bélgica não significam um afastamento da realidade. Herbais e Colares. A língua do texto llansoliano caminha cada vez mais com uma energia tensiva que procura dar a ver a coisa. mas pela sua presentificação. idênticos e evolutivos. São os anos da segunda Trilogia. que Herbais foi o lugar de encontro de Infausta.   [ 3[   Os anos da Bélgica têm nome de lugares – Lovaina (1965-75). Longe da sua língua. o não-Poder. enfim. nos seus extractos de época. esta passa a ser vivida de modo mais intenso. o sentido da posse tem de estar ausente. após vinte anos. já quotidiano e texto cruzam enxertias: tal como as páginas dos Diários são fragmentos de livros futuros. E em Jodoigne. Porque inútil. de Aossê e de Bach. Europália. não estaria mais presa a um território. Bach e Pessoa. e entrada em Portugal. De visita ao béguinage de Bruges. Na língua sem impostura. é que me encontro face a um texto que não pressentira – porque não me dera conta de quando queriam encontrar-se. distintos. texto que reúne Jodoigne. já que esta se define como um «lugar vibrante». A «justiça da língua» pressupõe a não-anulação. como reúne Lisboa e Leipzig. Ao reler-me. porém. apercebeu-se de que «vários . a mudança deu-se a 31 de Maio de 1980». Como se a realidade desse lugar geográfico correspondesse a uma idêntica realidade no texto – uma espécie de «cena fulgor». e do começo de Lisboaleipzig 1 – o encontro inesperado do diverso. Ao falar do seu texto nascente. a minha língua perderá definitivamente o possessivo. o lugar que permite «a vibração pelo vivo e pelo novo». e que em Colares acabaram por encontrar-se os membros dispersos da comunidade. os membros – visíveis e invisíveis – dessa comunidade». MGL fala do significado que. Para Herbais vai-se em busca da «esmola do silêncio». um «lugar de abrigo». na minha língua confrontada às vossas paisagens». essas passagens-metamorfose revelaram-me que Jodoigne foi a casa das beguinas. a «sobreimpressão» da paisagem com a língua que levara de Portugal. assumem essas mudanças de lugar a que chama «passagens-metamorfose»: «Como se eu investigasse. «O Litoral do Mundo». na casa onde plantou Prunus Triloba (o arbusto que será também figura dos seus livros). também as figuras do texto con-vivem com MGL na casa e no texto concomitantemente. Jodoigne (197580) e Herbais (1980-85). no texto. não através da representação. um «refúgio de uma inexpugnável beleza». MGL lembra (Bruxelas. é nela que evolui. no dia a dia de outrora. MGL recorda: «Lembro-me de ter dito: quando chegar a Herbais. na Bélgica. correspondências temáticas e de preocupação. um fio condutor. e desta para Colares. pelo contrário. sob a forma geral da partida e da mudança: saída de Jodoigne para Herbais. Neste livro./ E o mais curioso. desconhecendo (como diz nos anos de Lovaina) «o texto surpreendente que me espera». fez surgir o «Locus/Logos» do texto: «Entre vós. A língua que se tornaria lá transparente e verde.

E Bach e Pessoa num lugar – Lisboaleipzig. passei a Hadewijch. Nessa recusa. O caminho do texto continuará a ser o mesmo. Nesse tempo/lugar de todos os lugares e tempos. e em livros mais recentes (Parasceve. e nos dois últimos livros. tentaram abrir caminho à liberdade de consciência. Camões e Isabel de Portugal. mas também Teresa de Lisieux. É uma história que. a criação do mundo». «Grátis. e que a espécie pudesse ser fundada «na posse de uns sobre os outros». a Ruysbroeck. ainda hoje. e outros que a nossa memória ora esquece. à batalha de Frankenhausen e à cidade utópica de Münster. São muitas as linhas que mostram o percurso feito e a experiência que resultou em texto novo. o significado de cada palavra diz-se entoando-a. do Mundo e da Restante Vida. coexistindo sem nenhuma intervenção do tempo». Destes. e ao dom poético. ora lembra tão intensamente que me parece outra forma de os esquecer». de místicos. De graça». Nos restos fracassados destes homens. mas igualmente de metamorfose». no mundo. Fui conduzida por todos eles a Müntzer. a que lê e é. a não ser por graça». para que fosse possível uma nova paisagem humana. São figuras de escritores.   [ 4[   níveis de realidade ali aprofundavam a sua raiz. e n' Os Cantores de Leitura. Nietzsche. que não aceitaram «ver a sua vida amputada de vibração. nesse sentido. a mulher «a quem nunca se paga. na Vestefália. Espinosa. num mesmo tempo e lugar. Hölderlin. O signo deixa de ser arbitrário: a mulher de Amigo e Amiga é denominada «mulher». Comecei nas beguinas. 2001). essas figuras existem desde a primeira Trilogia. como a leitura. de rebeldes. E foi por sua mão que fui até Copérnico. que se transfiguram para que os «encontros inesperados» e «de confrontação» possam ter lugar : «Fez-se ali o nó de que depois desfiei o texto. Emily Dickinson. híbrida e «temível» porque «não só capaz de metabolismo. essa «geração sem-nome» ascende a um lugar/tempo onde as coisas e o nome pelo qual são conhecidas existem em perfeita sintonia. de intensidade e amplitude». Suso. Sem remuneração. destas. Pessoa. Giordano Bruno. esses seres do passado vêm do futuro. continua a fazer-se e. Sabiam da existência. Nos livros de MGL. Dessa experiência surgirá a sobreimpressão. publicados em 2005 e 2007 (Amigo e Amiga. encontrei Eckhart. ao direito à autonomia da sua vida. aparece com o nome de Gratuita. e que só esta permite dar à vida um sentido e uma fonte de alegria. essa linhagem dá origem a uma «geração sem-nome». e ao sentido chega-se pela música e pelo canto. Curso de Silêncio de 2004 e Os Cantores de Leitura). Ao longo dos Diários – Um Falcão no Punho (1985) Finita (1987) e Inquérito às Quatro Confidências (1996) – que transmigram . Jorge de Sena em Jorge Anés. a João da Cruz e a Ana de Peñalosa. que todos eles anunciavam Bach. para quem a resignação não faz sentido. de figuras arrancadas ao seu tempo histórico. entre outros. Rimbaud e Maria Gabriela Llansol. No texto de Llansol encontramos Fernando Pessoa mudado em Aossê (AOSSEP). continuando «com a sua consciência livre.

tão cara ao romance dito realista e à narratividade. Alargando a noção de ponto de vista do humano – «A mudança de olhar abre um campo vastíssimo ao vivo» – MGL mostra o caminho da liberdade de consciência e do dom poético. e que «pela mutação de estilo. a verosimilhança. ela abre caminho à emigração das imagens. é um obstáculo a essa mesma realidade textual. tudo é simultâneo e tem as mesmas raízes. Drama-Poesia? (2000). / que este caminha para o vivo. à verosimilhança contrapõe o fulgor. focos de luz que se vão acendendo no texto. há um mundo de mundos». com vida e morte previsível. são «vivos» como qualquer ser humano. no seu Texto. MGL não chama literatura./ dos afectos. mas figuras. uma frase. e se há técnica adequada para abrir caminho a outros». pela mutação frásica e pela mutação vocabular. e em livros como Lisboaleipzig 1 e 2 (1994) ou Onde Vais. MGL prefere fazer «deslizar» a narratividade para a textualidade. MGL mostra como a experiência do real se transfigura em realidade no texto – «eu não espero para escrever. de facto. «lugares vibrantes» que orientam quem lê: «O meu texto não avança por desenvolvimentos temáticos. que prolonga a escrita do texto porque pode suscitar a escrita de outros textos. Procurará sempre dar a ver que «neste mundo. desconstruindo assim questões de género. / e que o meu vivo é apenas uma forma dos vivos que. nem por enredo. sustentada por uma função de pujança _______ o vaivém da intensidade». mas segue o fio que liga as diferentes cenas fulgor». Quando se escreve só importa saber em que real se entra. hóspedes e peregrinos do texto (as mesmas figuras percorrem vários livros). escrever é o duplo de viver». «A escrita que cultivo (…) separa o inerte do fulgorizável. que podemos alargar o humano a todos os vivos. E o «legente» (que MGL contrapõe ao «leitor»). já que «a vida não é essencialmente nem principalmente humana» e que «ser-se humano é evolutivamente um progresso de leitura mas não é um . porque «não há literatura. nem deixo de escrever para passar pela experiência que produz a escrita. Tudo o que é fulgorizável integra o vivo». Mas. que não têm de ser necessariamente humanos.   [ 5[   para os outros livros. É através de indicações precisas como estas que nos podemos encontrar com a singularidade do texto llansoliano – a simplicidade e o efeito de estranheza – que pede ao leitor novos modos de ler (na predisposição para o conhecimento de uma gramática do sensível e de uma leitura de intensidades) e a disponibilidade de abertura ao novo. A essa experiência de escrita. um animal ou planta. Também por isso. é também uma das suas figuras./ e das zonas vibrantes da linguagem». existem». sendo que esta «tem por órgão a imaginação criadora. sendo que »o dom poético é a língua tocada pela expansão do universo. Uma pedra. Na textualidade llansoliana não há personagens. pelo tratamento do que mais universal foi dado ao homem – um lugar e uma língua – .

o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (em 1990. nem uma superioridade. e por duas vezes. Pedro Proença (pintura). da pintura e escultura à fotografia. Amílcar Vasques Dias. Julião Sarmento. com o livro Um Beijo Dado Mais Tarde. com Amigo e Amiga.   [ 6[   privilégio. que integraram várias formas de arte. Apollinaire. Maria Gabriela Llansol recebeu vários prémios literários portugueses. João Madureira. castelhano. As edições de livros e outros textos sobre a sua Obra (que o Espaço Llansol começou a fazer com a série «Jade-Cadernos Llansolianos») são desde 2008 asseguradas pela editora Mariposa Azual na colecção «Rio da Escrita». da qual faz parte um conjunto de poetas de língua francesa trazidos por MGL para a língua portuguesa (Verlaine. quatro Jornadas Llansolianas em Sintra (2009 a 2012) e uma grande exposição no CCB (2011). Duarte Belo (fotografia). e da responsabilidade do Espaço Llansol-Associação de Estudos Llansolianos. de onde começaram já a nascer novos livros (os diários da série «Livro de Horas»). o texto llansoliano permitiu já a realização de três colóquios. e ainda Lou de Resende e Wagner Schwarz (dança). Rimbaud. nem um dado adquirido». O combate a travar é pela não-hierarquização e pela mútua não-anulação entre os vivos. Pierre Louÿs e Teresa de Lisieux). onde já sairam seis volumes. Está traduzida em francês. Rilke. Baudelaire. Éluard. Ana Deus. 2003 e 2005). traduzidas na colaboração com artistas como Ilda David. A sua Obra tem suscitado intervenções várias. e em 2006. Obra aberta a várias linguagens. Vera Mantero. Curso de Silêncio de 2004). Maria Etelvina Santos . entre eles. da dança à música e do cinema à ópera. Gilda Oswaldo Cruz e Ana Telles (música). Deixou um imenso espólio manuscrito e dactiloscrito de dezenas de milhar de páginas. italiano e alemão. Rui Chafes (escultura). no Brasil e em Portugal (em 2002. Mallarmé. Miguel Gonçalves Mendes e Daniel Ribeiro (cinema). com edição de Assírio & Alvim.

de uma escolha da via do isolamento e da «despossessão» (que criou uma comunidade na diáspora. E que temos a enorme responsabilidade de assumir um contrato com o Vivo (que vem de Espinosa e deveria ir dar hoje ao protocolo de Kyoto e às políticas do ambiente!). a única possível para ela. nem autoridade. mas a da liberdade de consciência. lendo-a e insistindo na leitura. ou não tem lugar hoje. porque nela não há nem posse. e que hoje é grande. e que este não é metafísica. humanos. Quem chega a encontrar a resposta. daí derivada: o que é o humano? (depois do fim de todos os humanismos). 3. 2.   [ 7[   JOÃO BARRENTO CINCO BOAS RAZÕES PARA LER LLANSOL Ler Llansol 1. num momento em que o planeta está claramente ameaçado! E actualíssima é também a pergunta. da energia vital de onde tudo nasce! É este o combustível da linguagem de Llansol. são estes os temas dos seus livros. Porque esta aprendizagem pode ser um prazer. tal como escrever o era para Llansol. mas existe sempre «em dobra». e que a «literatura» (que identificamos quase sempre com o romance realista e social) não existe. que dominam hoje as nossas vidas. ou a psicológica. e não as estafadas histórias das vidinhas pessoais ou colectivas. para perceber que a dimensão «gregária» (social). não social. uma escritora cuja Obra nasceu da superação do medo. do carbono. Por isso. que ele é o «desconhecido que nos acompanha» e produz o novo que transforma. 4. pergunta central em Llansol. muda de vida. para compreender como nós. nem sempre são as mais importantes. para entender que o mundo não é o que ingenuamente julgamos que ele é. que há o visível e o invisível. para termos o prazer de reaprender a ler. não somos o centro de uma cadeia hierárquica. E isto inclui a despossessão da própria noção de «autor». se for máquina de produzir narrativas sempre iguais e derrames psicológicos esgotados. do poder de decisão próprio. toda a Obra coloca uma exigência única e dupla: reaprender uma estética (do fulgor da palavra e da língua sem impostura) e aceitar uma ética (não de grupos. Isto é actualíssimo. mas um elo na «grande cadeia do Ser» (já Shakespeare ou Dante têm de ser lidos a esta luz). que Llansol rejeitava. a dos esquecidos da História na «geografia de rebeldes» da Europa que os seus livros . e perceber o que é ser «legente» e não simples leitor. mas resulta de olhar o concreto e sentir a potência de um corpo: estamos perante um hiper-realismo da matéria. apesar de não parecer). que não se confunde com nenhuma espécie de seita nem partido.

 Alfredo  Costa. Isso está hoje patente no imenso espólio que deixou. Finalmente.blogspot.  3-­‐1º  F  –  2710-­‐524  Sintra   espacollansol@gmail. e de um ponto de vista mais exterior: porque é uma escritora que escreveu.   [ 8[   percorrem desde a Idade Média. só escreveu. escreveu sempre intensamente. manancial para muitos mais livros por vir… e que já começaram a nascer.pt   . como muito poucos: «escrever é o duplo de viver» (e vice-versa: a escrita é uma pulsão vital). 5. a dos inteiros e intensos): é esta a etistética ou a sensualética de Llansol.com   http://espacollansol.                                                             Rua  Dr.

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