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pulsional > revista de psicanálise > ano XVII, n. 177, março/2004

> clínica do social

Ilka Franco Ferrari

Anorexia: forma de dizer que o desejo é o motor da vida

Este texto aborda aspectos relativos à história da anorexia situando, desde sua origem até o momento atual, questões teóricas que marcaram o papel de autores como Lasègue, Gull, Freud e Lacan. Pequenos fragmentos do tratamento de um difícil caso clínico estão inseridos no trabalho. > Palavras-chave: Anorexia, objeto nada do amor, demanda, desejo

This article is about the history of anorexia, and discusses theoretical questions, from its origins to the present day, that have distinguished the role of authors such as Lasègue, Gull, Freud and Lacan. Excerpts from the clinical treatment of a difficult case are also presented. > Key words: Anorexia, “nothing as object of love”, demand, wish

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A psicanálise ensina que aquilo que se

costuma chamar de “atualidade” tem sem- pre a ver com as coordenadas do discur- so de uma época.

Por essa lógica, não é incorreto dizer que

a contemporaneidade traz a marca do

predominante discurso neocapitalista, cercado de grande avanço científico-téc- nico, preocupado em controlar os laços sociais, em prever, prevenir-se para o fu- turo, promovendo, em nome do bem-es- tar, globalização de formas de viver. Freud já afirmava, no entanto, em ”O mal- estar na civilização” (1930 [1929]), momen- tos de pensador da cultura, que o mal-es- tar estaria sempre na estrutura da civili-

zação, pois nela existem três impossíveis de dominar plenamente: o corpo, a natu- reza e as relações entre os homens. Não é necessário ser um observador as- tuto para perceber que muitos fatos, com freqüência, mostram acontecimen- tos que são da ordem do impossível de controlar. Uma das particularidades des- te momento histórico, por exemplo, é o que se chama primazia do corpo. São criados ideais de corpos e artifícios va- riados para que sejam obtidos tais ideais, inclusive com a ajuda da intervenção mé- dica, que ampliou seu domínio em dire- ção a numerosas intervenções: plásticas, medicamentosas, relacionadas à anatomia

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e ao funcionamento sexual, entre outras.

Até mesmo a clonagem de animais e se- res humanos vem sendo anunciada como uma forma de garantir vida melhor e mais duradoura. Está aí, no entanto, uma certa epidemia de anoréxicas que desfi-

lam pela vida, e não só pelas passarelas,

o protesto em nome do desejo que esse

discurso ditado pelo gozo autista quer fa- zer desaparecer em meio a tantos objetos

ofertados.

Fatos da história

O “problema” da anorexia está na moda e

nos consultórios. Atrai atenção de espe- cialistas, fragiliza o saber médico e favo- rece classificações que têm pretensão de universalizar a comunicação, como aque- las baseadas em descrições de transtor- nos alimentares, encontradas na Classifi- cação de Transtornos Mentais e de Com- portamento (CID-10). Pode-se assegurar, no entanto, que todo esse interesse pelo tema não se deve ao fato de ele ser novo. Como “fenômeno clí- nico” ele também foi descrito em épocas remotas. Segundo Escayola (1997), já no século XI, Avicena relata o tratamento de uma jovem princesa em quadro depressi- vo com anorexia; e sabe-se, ainda, de mais de 250 casos de ascetismo religioso com inanição entre os séculos XI e XVII. Segundo essa autora, no século XIII, um homem chamado Claude A. Seraut era apresentado em público para que fosse visto “um esqueleto vivo” e, no século XIV, encontra-se o caso de Catarina de Siena, enquanto no século XVII, está o caso des- crito por Pedro Mexio sobre Jeanne Ba-

lan. Escayola (ibid.) relata que foi um mé- dico da corte, chamado Richard Morton (1694), quem realizou a primeira descri- ção do quadro de anorexia mental, na- quela época chamada Phisis Nerviosa, sendo que uma descrição sintomatológi- ca igual à encontrada em nossos dias só foi feita por Whyte (1767) e Nadeau

(1789).

Observa-se, no entanto, que foram Lasègue em 1873 e Gull em 1874 (Raimbault

e Eliacheff, 1991), os responsáveis pela en- trada da anorexia na nosologia psiquiá-

trica, solidária à histeria e a problemas do trato digestivo. O inglês Gull limitou-se a descrever a enfermidade, enquanto Lasègue, na França, dedicou-se a escutar

o que as histéricas falavam. Ouvindo-as,

foi o primeiro a fazer a equivalência en- tre “amor e comer”, equivalência esta de- senvolvida depois por Lacan (1995). Lasègue, que antes de ser médico psiquia- tra era homem das letras, identifica esse fenômeno de auto-inanição como uma das características mais próprias da histe-

ria e, por isso, ele a denomina anorexia his- térica e, logo após, “anorexia mental”; Gull,

a partir de quadros de “apepsia”, nos quais

não havia achados de “pespina gástrica”, associa essa doença aos estados mentais mór- bidos, denomina-a primeiro de apepsia histérica e, depois, de “anorexia nervosa”. Os dois já mostravam a influência do meio em que viviam as pacientes, mas a idéia de separar a paciente de sua família, em algumas situações, só aconteceu com Charcot. Quando se buscam os fatos da história, parece que não importa a época, nota-se

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que, perante o corpo esquálido e a mor-

te que se avizinha da anorexia, ali está em jogo a pulsão escópica. Escayola (1997) relata, por exemplo, que durante a Pri- meira Guerra Mundial, em alguns cabarés, homens-esqueleto eram exibidos aos pre- sentes e chamados de “artistas da fome”. Em geral, os olhares são capturados pelo horror da cena e, no assombro, as pesso- as são movidas pela urgência de buscar atribuições sobre as responsabilidades ou explicações para o espanto suscitado. Na atual tentativa de compreender a questão e dar sentido aos possíveis moti- vos que levam certas pessoas a optarem por acercar-se da morte, deixando de in- gerir alimentos que abundam em seu en- torno, além de explicações místicas ou religiosas que ainda podem ser encontra- das, estão as explicações de cunho cultu- ralista ou sociológico. Por meio dessas últimas, propala-se que, em nossa época,

o ideal de beleza da mulher magérrima é

o vilão da história e culpabiliza-se os mei- os de comunicação que popularizam esse ideal. Diz-se da pressão social da moda, do culto ao corpo, análises que não con- seguem explicar questões simples tais como o porquê de alguns se tornarem anoréxicos e outros não, frente ao ideal de beleza dominante em uma determina- da época; ou, então, onde estaria o ideal de beleza no corpo esquálido da anoréxi- ca, corpo que, com sua pouca carne, pouca forma, pouca curva e muito osso, mais parece se rebelar e debochar de tal ideal de beleza; ou, ainda, qual é mesmo

o estatuto que tem a imagem corporal

daqueles que sofrem de anorexia, já que

bonitos eles não se acham quando se olham no espelho?

O pai de uma paciente que chamarei de

M., e por mim atendida, levantava ques- tões tais como as citadas anteriormente:

“M. é vaidosa, mas sua irmã também o é.

Por que só ela tem então essa coisa de fi- car magra? É que eu procurei comprar li- vros, ler o que dizem sobre o assunto e vi que falam dessas modelos, dos progra- mas que mostram só moças magras ”

A psicanálise também tem discutido o

tema, voltando sua atenção para a cultu- ra. Na referência de que “estar na moda” é forma de fazer existir o Outro, já que a moda é a estética que vela o mal-estar do momento, a psicanálise lembra que este funcionamento, a partir de significantes mestres, nada mais visa que as relações lógicas de homogeneização e segregação. Por esse ângulo, a anoréxica, mais do que envolvida em sua luta por um ideal de beleza da época, é aquela que diz do retorno da verdade recalcada pela socie- dade consumista e globalizante do mun- do atual. Sociedade que prioriza a ética

da satisfação e não a ética do desejo. Ela

é aquela que expõe um gozo resistente a

toda a conveniência social, que diz ao Mestre moderno que, apesar de tudo o que ele possa oferecer-lhe de mais evo- luído, não pode satisfazê-la. É o sujeito que diz aos pais (aqueles que procuram tampar as hiâncias que o desejo dos fi- lhos lhes causam, oferecendo-lhes obje- tos de consumo, dinheiro, cartões de crédito, etc.) que objeto algum que pos- sa ser consumido cala o desejo. Ela diz, então, de um nada que não é só da ordem

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do objeto oral, mas é também da alçada do objeto escópico, como já se falou. Freud já havia falado sobre as zonas eró- genas e seus respectivos objetos e tam- bém havia marcado a importância do ob- jeto oral, nos casos de anorexia. Lacan

(1995) acrescentou aos objetos freudianos

o olhar, a voz e também o objeto nada, o

qual, segundo ele, é aquele de que se ser- ve, a cada dia, o anoréxico. Vale ressaltar,

como bem lembra Monseny (1997), que não se trata de, por meio da psicanálise, se postular um tipo de “anorexia social” em relação aos avanços da ciência, aos avanços da tecnologia. Trata-se de, por meio dela, o desejo poder ser elevado a outra potência que a do negativismo, subsidiário da sustentação do Outro, ain-

da que seja para contradizê-lo: “

se de poder articular o desejo ao motor

da pulsão, sem o Outro, o que implica a instauração de uma ética que subordine

os êxitos da ciência e os avanços técnicos

à realização da particular versão do dese-

jo, que é a vida de cada sujeito (ibid., p. 27) Também é decisivo recordar Tizio (1997, p. 5), quando diz que o esvaziamento do objeto, a hiperatividade gerada pela de- senfreada pulsão de morte e todas as es- tratégias para encarnar o nada, próprios dos casos anoréxicos, devem ser estuda- dos na particularidade de cada caso, ain- da que exista toda a situação social em questão. Dessa forma, observa-se que a própria palavra “anorexia”, que vem do grego e quer dizer falta de apetite, empregada desde o século XIX, já não é mais apropria- da. Faz tempo que se sabe que anorexia

trata-

não é falta de apetite. Gilles de Tourette, logo após Lasègue e Gull (Raimbault e Eliacheff, 1991), já dizia que a anorexia não se tratava de uma falta de apetite e, sim, de uma recusa do alimento. Freud, ao inventar a psicanálise, poucos anos depois dos escritos de Lasègue e Gull, também falou sobre a anorexia, sem que tenha escrito texto algum dedicado exclusivamente ao tema. Sempre que o aborda, coloca a anorexia na vertente do sintoma. Ou seja, fala sobre o sintoma anoréxico e não sobre as anoréxicas. Em seus artigos “O método psicanalítico de Freud” (1904 [1903]) e “Sobre a psicotera- pia” (1905 [1904]), ao mencionar os sinto- mas que são indicados para serem trata- dos pela psicanálise, deles exclui a anore- xia. Isto porque, segundo Freud, a ”psica- nálise não deve ser tentada quando se re- quer a rápida remoção de sintomas peri- gosos” (1905 [1904], p. 274), uma vez que nessa prática clínica trata-se de escutar o sintoma e não de suprimi-lo. Para ele, to- das as expressões somáticas da histeria, que exijam o pronto atendimento do médi- co para o afastamento dos sintomas, como considera ser a anorexia, precisa aguar- dar uma fase mais calma para a interven- ção do psicanalista (1904 [1903], p. 261). Tais afirmações foram feitas depois que ele já havia falado sobre sintomas anoré- xicos em outras épocas: em 1889, no co- nhecido caso “Emmy von N.”, mulher de quarenta anos – na historiografia oficial, Ernest Jones lhe atribui a invenção da clí- nica da escuta –, histérica anoréxica que jogava a comida pela janela depois da morte de seu marido; em 1892-93, em

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“Um caso de cura pelo hipnotismo”, des- creve o tratamento que realizou de uma “histérica de ocasião”, ou seja, uma mu- lher que parava de alimentar-se sempre que tinha que amamentar seus filhos re- cém-nascidos; ainda em 1895, no “Rascu- nho G”, Freud a coloca paralela à melan- colia, complicando a questão; em 1896, ao fazer os “Novos comentários sobre as neuropsicoses de defesa”, no momento em que comenta a análise de um caso de paranóia crônica, uma vez mais dificulta a situação, pois a paranóia surge como neurose de defesa e os sintomas anoréxi- cos como retorno de um detalhe repug- nante, associado às cenas sexuais infantis recalcadas. Depois de reafirmar essa im- possibilidade de tratamento do sintoma anoréxico pela psicanálise, ele continua estudando o assunto como, por exemplo, no caso Dora (1905), Homem dos lobos (1914), Luto e melancolia (1915) e não vol- ta a falar das restrições que havia menci- onado. Lendo o “Rascunho G” (1895), um ma- nuscrito enviado a Fliess, vê-se que Freud coloca a perda de apetite equiva- lente à perda de libido e aproxima a ano- rexia da melancolia, dizendo: “A famo- sa anorexia nervosa de moças jovens, segundo me parece (depois de cuidadosa observação), é uma melancolia em que a sexualidade não se desenvolveu” (p. 276). Para Freud, então, o sentido etimológi- co do termo “anorexia” mostrava-se ex- tremamente inadequado: o problema passava pela libido. Também a afirma- ção de que a anorexia era um quadro clínico próprio de mulheres, em geral

jovens e histéricas, não era correta. Lacan, nas trilhas de Freud, dá preferên- cia à expressão anorexia mental, reafirma que a anorexia é um sintoma e que esse sintoma pode acontecer em homens, pois seu fundamento se encontra na relação do sujeito com o Outro e sua articulação se dá com o que chamou de objeto nada.

Necessidade, demanda, desejo

Todo o ensino de Lacan, anterior a 1964,

baseava-se na importância da articulação entre necessidade, demanda, desejo para

a constituição psíquica do sujeito e, con- seqüentemente, para aquilo que dessa

articulação dizia respeito ao sintoma ano- réxico. Falando de outro modo, preocu- pava-se em esclarecer a já mencionada equivalência “amor-comer”. Ilustrativa dessa época é sua tão comentada frase

em “A direção do tratamento”: “

criança alimentada com mais amor que recusa o alimento e usa sua recusa como um desejo” (p. 634). Para Lacan, é a frus- tração da demanda de amor que faz com

que a organização de uma satisfação pul- sional possa acontecer. Desta forma, no caso da frase citada, alimentar com mais amor não se trata de amar. Segundo ele, amar tem a ver com o dom de nada, de dar o que não se tem, dar nada do obje-

é a

to perdido. Sem dúvida, isso é diferente de não dar nada. É não dar tudo, é trans- mitir a falta. Dar nada é transmitir o não todo, o não tudo, a castração.

A mãe de M. era reconhecida pelos fami-

liares como o exemplo da mãe dedicada e, no início do tratamento, para cada pe-

quena queixa que M. fazia sobre os cui-

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dados maternos, seguiam-se milhares de

O

que acontece é que, na anorexia, exis-

elogios sobre os mesmos. Em determina-

te

um grande paradoxo: ao afastar-se da

do momento do tratamento, considerou- se indicado pedir a ajuda de uma psiquia- tra infantil. Ao perceber que sua mãe fi- cou muito contente com a receita, M. pe- diu-lhe que não comprasse os remédios porque, antes, iria pensar se os tomaria.

cadeia significante para introduzir algo do desejo com esse não à comida, o anoré- xico faz do desejo algo impossível, já que ele é encontrado na demanda, ou me- lhor, entre o que, com Lacan, chamamos de demanda transitiva e intransitiva. De-

de passa pela cadeia significante é, assim,

e

o objeto que é nada.

A

mãe os comprou e os deixou à sua vis-

mandar, fazer pedidos ao Outro, todos

ta. Certo dia, quando M. esboçou uma li- geira intenção de seguir o tratamento psi- quiátrico, sua mãe, “sorrindo e de forma bondosa”, segundo contou M., trouxe-lhe

imediatamente a água e o comprimido:

construídos por aquilo que da necessida-

condição para desejar. Lacan elabora dois tipos de demandas as- sociadas a duas versões do Outro. A de-

“Está aqui, querida filhinha. Basta tomar”. Por meio do ensino lacaniano, observa- se que, na anorexia, o Outro primordial, ao ser convocado do lugar que diz daqui-

manda transitiva é aquela que se dirige ao Outro dos bens, porque é demanda de objeto, de algo ligado às necessidades. A demanda intransitiva não convoca obje-

lo

que não tem, responde com a “papinha

to de necessidade; ela é demanda de

que sufoca”, com aquilo que tem, ou

amor, de nada. Se existe um objeto aqui,

seja, “confunde seus cuidados com o dom de seu amor”. Desta forma, o sujei- to, massacrado pelos cuidados do Outro, recusa o objeto oral, esvazia-o e diz a esse Outro que busque um objeto de desejo além dele, fora dele, porque assim encon- trará a via rumo ao desejo que é desejo do Outro. Recusar o alimento é, portan- to, uma forma de assegurar que, ao Ou- tro, algo lhe falta; é um modo de sair da posição de tampão dessa falta e uma ten- tativa de se perguntar sobre o que quer

ele é o que Lacan chamou de objeto nada, signo de amor. Essa é a demanda que se dirige ao Outro que, diferente daquele que tem bens, tem o dom do amor e, portanto, não satisfaz demanda alguma. Responde com a falta, com aquilo que não tem e, assim, mantém a demanda e permite que surja a dimensão do desejo. Desejo que, dessa forma, se localiza exa- tamente entre as duas demandas, ou seja, mais além da satisfação e mais aquém da insatisfação do objeto; mais além do Ou-

o

Outro, de desejar. Quando Lacan diz

tro dos bens e mais aquém do Outro do

que a anoréxica joga com esse não como se fosse um desejo, parece que esse

amor; entre o objeto que é alguma coisa

“como se” aponta para o fato de que não se trata de verdadeiro desejo. Trata-se da

Estar entre as duas demandas supõe que entre elas existe sincronia, ou seja, que no

férrea vontade de gozo que parece um desejo.

mesmo material significante existe a si- multaneidade das duas demandas. Então,

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mais valioso do que o objeto que o Outro tem e dá, é o plus de significação que o acompanha, transformando o objeto de necessidade em prova de amor. Dessa maneira, ao desaparecer a possibi- lidade de demandar, como acontece na anorexia, desaparece o espaço do desejo

e a fantasia fica à beira do fracasso de sua

função, que é a de apoiar o desejo. É a fantasia, resposta do sujeito ao desejo do Outro, que sustenta o desejo. Se o Outro insiste em se fazer completo, se não leva

a perguntas sobre seu desejo, não há

nada que buscar como resposta ao que quer esse Outro. Assim, ao sujeito anoré- xico, um sujeito a ponto de desaparecer, resta-lhe introduzir um não saber no Ou- tro, torná-lo faltoso para que possa man- ter a função da fantasia fundamental, ar- rimo do desejo, vontade de gozo. No caso de M., segundo contavam ela e sua mãe, desde que parou de comer – fi- lha de pais economicamente favorecidos, neta de avós ricos, cheia de objetos de consumo – desenvolveu um gosto muito peculiar: ia sempre ao supermercado com a mãe e ali comprava tudo o que gostava de comer, mas não comia o que havia escolhido. “Eu me sento à mesa para satisfazer a meus pais. Ali eu os ob- servo comer e me satisfaço”, dizia ela. O comer nada fazia com que os outros, principalmente a mãe, ficassem totalmen- te dependentes dela. M. se torna o mes- tre onipotente e sua mãe, como desejan- te, ficava à mercê de seus caprichos. Existe também outra frase de Lacan, ain- da em “A direção do tratamento”, a qual, embora muito decisiva e muito citada,

não é facilmente compreensível. Ali ele escreve que é na anorexia que se “apreen- de, como em nenhum outro lugar, que o ódio retribui à moeda do amor, mas onde a ignorância não é perdoada” (p. 634). De qual ignorância se trata? Parece que po- demos pensá-la pelo viés do Outro pri- mordial, o qual, ao dar o que tem, é um ig- norante sobre o desejo, sobre um não querer saber que é faltoso, o que leva ao ódio e acaba por colocar o Outro na mira da destruição. Do lado do sujeito, tam- bém é possível pensar que seu ofereci- mento para completar o Outro, que seu pacto com o Outro fundamental que o coloca na posição de ser o falo, acaba por mantê-lo em condição de certa ignorân- cia, em relação ao objeto nada do amor, pagando o preço da relação mortífera com o ideal. Não se trata, então, do ideal de ser tal ou qual estrela de TV ou cinema, mas, sim, de ser tal qual o ideal materno. Logo, como parte de seu paradoxo, ao se separar da cadeia significante, identifica- se com o nada que não tem e, com esse nada, tenta ganhar amor e desejo. Só sendo reconhecido por aquilo que repre- senta e não por aquilo que é, quando se rebela contra o pacto, o sujeito busca, por outro lado, manter o ideal imaginário de perfeição e não perder os privilégios de ser excepcional. A referida “ignorância que não pode ser perdoada” parece apli- car-se, também, à ignorância de todos aque- les que imaginam que comer é da ordem da pura necessidade, sejam eles os pais, os educadores, os médicos, os terapeutas Desses escritos de Lacan se depreende que, nos casos de anorexia, a metáfora

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paterna chegou a operar e, desde o prin-

cípio, ele se refere aos fantasmas fálicos da mesma. O pai faz parte do pacto fáli- co já mencionado no parágrafo anterior, sendo cúmplice desse pacto. Em muitas ocasiões, inclusive, coloca a filha como cúmplice para acalmar a angústia da mãe.

O pai da paciente M. era um bom exem-

plo de tal ocorrência. Nos últimos tem- pos, ele trabalhava em outro Estado do país e só voltava para casa nos fins de se- mana e, em mais de uma ocasião, colocou essa filha como anteparo, frente à angús- tia da mãe.

Alienação e separação

Em 1964, ao trabalhar aquilo que chamou “Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise”, Lacan desenvolve os concei-

tos de alienação e separação e propicia a ampliação das construções que havia fei-

to sobre a anorexia. Laurent, em seu ar-

tigo “Improvisión-Anorexias” (2000), reto- ma o assunto à luz dessa nova teorização e fala de dois tipos de anorexia, partindo

do que Lacan havia trabalhado em “A di- reção do tratamento (1958)” e em “Duas

notas sobre a criança” (1969): aquela que

se dá por inibição intelectual (caso Ernest

Kris) é uma anorexia literalmente mental;

e a outra que acontece com recusa à ali-

mentação, recurso na sustentação do de- sejo. Nesse momento, diz que o homem que come miolos frescos come o que não come seu cérebro com inibição intelec- tual, ou seja, nada. Sua posição subjetiva pode ser deduzida da cadeia significante, pela função de alienação, e o sintoma é efeito de verdade do par parental. Já as

anorexias de separação são aquelas rela- tivas aos casos em que o sujeito está pre- so na cadeia fantasmática do Outro pri- mordial, em que o ser do sujeito se con- funde com um falo, mas ele quer ir além do objeto da necessidade que se impõe como real no fantasma materno. Tudo in- dica que as anorexias de alienação são as formas mais acessíveis à intervenção psi- canalítica, já que são literalmente men- tais. Na realidade, a direção do tratamento pode encontrar fortes obstáculos nessa posição de “não”, típica dos sujeitos ano- réxicos. Isso porque essa é uma posição que tende a se generalizar para outras demandas, diferentes daquelas envolvi- das no ato de comer. Os estudos clínicos têm mostrado que, quase sempre, o paci- ente confunde o desejo do analista com uma demanda como, por exemplo, de- manda de falar. Se isso acontece, perma- necerá sessão atrás de sessão em absolu- to silêncio. Tal fato sucedeu no caso de

M. Situação bastante difícil e, tudo indica, alguma dificuldade no manejo da transfe- rência facilitou a interrupção do trata- mento. Frente às manifestações da pa- ciente de que não estava com vontade ir

à sessão (embora jamais houvesse faltado

a sessão alguma), de que já havia falado

tudo que havia para falar, a mãe lhe com- prou um quarto. Trocaram de apartamen- to e o novo foi escolhido por M., porque ela queria um quarto só para si. Ali esta- vam as frustrações amorosas compensa- das com a satisfação de necessidades ou com enveredamentos no circuito repeti- tivo da demanda. Tratar-se-ia, nesse caso,

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de uma satisfação pulsional que, ao não encontrar o objeto, traz dele sua sombra e erotiza o nada? 1 Na época em que M. abandonou o trata- mento – olhar de certa perplexidade, abraço tenso no dia em que se foi – ela já se sentava à mesa para comer, um pou- co, e não mais apenas para observar. Se no início das sessões a perda de peso ha- via se intensificado, naquele momento M. já não perdia peso. Sabe-se, no entanto, que nesses casos não basta normalizar a relação do sujeito com a comida, por mais que isso seja importante para a sua sobrevivência. Afinal, na direção da cura, ainda que M. se permitisse comer, um pouco, ainda não lhe havia sido possível reencontrar a possibilidade de comer de forma a experimentar, efetivamente, que essa satisfação pulsional não implica a sa- tisfação total que anularia seu desejo e sua particular existência como sujeito.

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Artigo recebido em setembro de 2003 Aprovado para publicação emjaneiro de 2004

1> A idéia de que a satisfação pulsional, ao não encontrar o objeto, traz dele sua sombra é de Celso Rennó Lima e deverá ser objeto de algum trabalho teórico futuro.

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