Caderno Povos da Floresta 2
Chico
O Homem da floresta
Mendes
Dezembro/2008
Natália Jung
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Semente de Mulungu (Erythrina speciosa)
Caderno da Floresta
Chico Mendes
Caderno da Floresta
Chico Mendes
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Chico Homem
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Literatura de cordel |
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Menino véio buchudo |
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Sábia senhora da floresta |
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Quem é o Raimundão |
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Chico Sindicalista |
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Doce como uruçú |
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Reza e empate na Amazônia |
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Displicente com a morte |
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O tiro que foi ouvido no mundo todo |
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A testemunha |
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Quando o fim é o começo |
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Legado |
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Recados da floresta |
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Floresta: a diferença entre ter valor e dar lucro |
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Artes |
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Saiba mais sobre Chico |
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CADERNO DA FLORESTA 2 DEZEMBRO DE 2008 - RIO BRANCO - ACRE
CHICO MENDES - O HOMEM DA FLORESTA
Comitê Chico Mendes Centro dos Trabalhadores da Amazônia - CTA
Governo do Estado do Acre Secretaria de Comunicação
Secretário Jorge Henrique de Queiroz
Fundação de Cultura Elias Mansour
Diretor Presidente Daniel Queiroz Sant’Ana
Biblioteca da Floresta Marina Silva
Coordenador Carlos Edegard de Deus
Edição e textos: Elson Martins e Natália Jung; Design: Gean Cabral
Colaboradores: Marina Silva, Dom Moacyr Grechi, Thiago de Mello, Mary Allegretti, Raimunda Bezerra, Zuenir Ventura
Organização: Júlia Feitoza e Andréa Zílio
Fotos: Sérgio Valle, Gleison Miranda, Elson Martins, Carlos Ruggi, Rafael Johann, Olavo Rufino, Acervo Comitê Chico Mendes, Acervo família Mendes, Biblioteca, Secom
Contato: Secretaria Executiva do Comitê Chico Mendes
Av. Epaminondas Jácome, 1994, Cadeia Velha – Caixa Postal 69 – CEP 69908-420 - Rio Branco – Acre.
comitê@chicomendes.org
www.chicomendes.org
Caderno da Floresta
Chico Mendes
O Acre celebra em 2008, decretado Ano Chico Mendes pelo governador Binho Marques (PT), a memória do seringueiro assassinado há 20 anos no quintal de sua casa em Xapuri. A programação tem seu ápice entre 15 e 22 de dezembro, semana trágica para o homem que, em 1988, já se transformara no grande defensor da Amazônia contra o desmatamento e as queimadas.
Esta edição de Cadernos da Floresta trata da vida e morte desse líder que apresentou um modelo de desenvolvimento para a região contrariando os cálculos da chamada modernidade.
Muito se tem falado, escrito e filmado sobre Chico Mendes, no Brasil e em vários países que hoje reconhecem nele um símbolo do ambientalismo global. Para os acreanos, entretanto, a importância desse seringueiro, sindicalista e também ambientalista transcende ao
que foi produzido, porque sua história está intrincada com a história
Herança
saudável
dos Povos da Floresta, expressão que ele ajudou a cunhar.
Chico nasceu e se criou na floresta, o que significa dizer: se educou através da intuição e da vivência tornando-se um sábio das ciências
da tradição. Aos 9 anos de idade, cortava seringa e andava sozinho pela mata. A partir de 1975, com 31 anos, conduziu o movimento de seringueiros, ribeirinhos, posseiros e
índios do Acre nas discussões avançadas do ambientalismo.
Ao ser assassinado, em 22 de dezembro de 1988, ele já se tornara um risco para os agressores da Amazônia.
Cadernos da Floresta narra sua trajetória usando o testemunho
e a linguagem de quem fez parte dela, e que conhecem detalhes
desconhecidos. Parentes, amigos e companheiros de luta - entre estes alguns acadêmicos, militantes políticos e religiosos –ajudam a desenhar o perfil desse homem incomum. Alguns, como a senadora Marina Silva, o arcebispo de Porto Velho D. Moacyr Grechi e a militante dos direitos humanos Raimunda Bezerra fizeram relatos comoventes, que mereceram destaque.
Para esses narradores Chico Mendes foi e continua sendo (em espírito) um construtor da paz, um porta-voz da Amazônia que busca
o diálogo político, econômico, científico, social e cultural para salvar
a vida natural no planeta. Sua mensagem aponta para um ambiente saudável no presente e no futuro.
Caderno da Floresta
Chico Mendes
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Chico Mendes
Chico Mendes
Por Medeiros Braga
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Vou falar de um brasileiro |
Ele, a mulher e seus filhos Estiveram no Pará, |
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De caráter e maior brilho, Era o seu nome completo Francisco Alves Mendes Filho Quer na poesia ou na crônica Foi na floresta amazônica Os Mendes nas estiagens |
Nos seringais algum tempo Puderam ali trabalhar, Depois, sem qualquer mobília, Pegou toda sua família |
Teve o pai de Chico Mendes Dezessete filhos, então, |
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O mais ilustre andarilho. |
Sempre foram precavidos, Guardavam em silo alimentos |
E |
foi no Acre morar. |
Um morreu acidentado |
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A riqueza da borracha |
Para serem consumidos Durante a seca prevista |
O |
Acre há bem pouco tempo |
Com um tiro no pulmão, Nove outros foram mortos |
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Atraiu pra região, |
Já pertencera á Bolívia, |
Por doença e não ter postos |
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Principalmente, pra o Acre, Pela sua produção, Caso não houvesse em vista Eram grátis distribuídos. |
Porém, por ser habitado Por brasileiros em via, |
De saúde na região. |
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O |
avô de Chico Mendes |
Foi assinado o “Tratado |
Não havia em Xapuri |
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Que após pensar se rende Ao fragor de uma ilusão. No entanto, aconteceu De ter sua casa invadida, Foram seus bens saqueados, |
De Petrópolis” e anexado Ao Brasil com garantia. |
Uma escola ou hospital, Só contava o povo ali Com a planta medicinal |
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O Já estivera no Pará, avô de Chico Mendes |
Arruinaram sua vida Tendo o velho como fim Que fugir pra Camucim, |
Embora sua produção Gerasse muita riqueza |
E |
as suas experiências Que bem longe das ciências |
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Foi ali um seringueiro, |
Depois |
a |
grande partida. |
Pelos impostos cobrados |
Já combatiam algum mal. |
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Mas, voltou pra o Ceará, |
E |
divisas sobre a mesa |
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Onde com pouca riqueza |
Essa viagem se deu |
O |
governo injusto, rude, |
Apesar das esperanças |
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Uma linda portuguesa Ele veio a se casar. |
No ano ainda de mil Novecentos e vinte e seis Por sob um céu cor de anil |
Não investiu em saúde Nem educação, com firmeza. |
No Seringal Santa Fé Nenhum Mendes conseguiu De meia fazer um pé, |
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O |
patriarca dos Mendes |
Para se ter uma idéia Muitos que ali residiam, |
Tudo era caro, um horror, |
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Vivendo ali no sertão Por conta de uma seca Quando inundava no Norte Tudo era seca, era morte, Faltava o arroz, o feijão, |
Desse descaso geral |
E |
tinha o atravessador |
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Com a esposa e seis filhos No Nordeste do Brasil. |
De diarréia, malária, |
Pra levar todo filé. |
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Na mais feliz comunhão, Viu de forma surpreendente Mudar tudo de repente, Ser forçado à migração. Foi obrigado a partir, Tudo mais o que comer, A água do cacimbão Já não dava pra beber, Animais nos descampados Com fome, frágeis, cansados, |
De tanta causa fatal Muitas famílias perdiam Os seus filhos que morriam Sem assistência vital. Mesmo sendo precavidos, |
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Vendeu todos seus pertences, Deu adeus a tudo ali, De burro, carro e navio, Caiam ali pra morrer. |
com toda experiência Pelos seus óbitos havidos, Não conseguiam evitar E |
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E |
por terra, mar e rio |
Que a tragédia do lar |
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Foi parar em Xapuri. |
Poupasse os entes queridos. |
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Mas o pai de Chico Mendes, Já casado com Iracê, Condenava a extorsão Com todo aval do poder Em cima dos seringueiros, Do produtor castanheiro Que era feita pra valer.
Casados nascia Chico Mendes, em dia febril, Em um quinze de dezembro Do ano ainda de mil Novecentos quarenta quatro Balançando o anfiteatro Das florestas do Brasil
No Seringal Porto Rico Foi onde Chico nasceu, Mas depois aos onze anos Sua mudança se deu Pra o Seringal Equador Sendo já trabalhador Cujo ofício ele aprendeu.
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Caderno da Floresta
Chico Mendes
Acervo Família Mendes
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Chico expressava carinho especial com as crianças
véio
e
Menino
P elos seringais afora e mesmo seus moradores
migrados na cidade costumam usar a expres-
Menino véio
buchudo
são “menino véio buchudo” como referência
às crianças, especialmente quando estão brincando
arengando umas com as outras no terreiro, fazen-
do as costumeiras artes não permitidas pela mãe que logo descobre e solta um “esse menino véio buchu- do tá é bom de peia”. Sebastião Mendes Teixeira, conhecido por Tião,
é primo de Chico Mendes, apenas um ano mais
novo. Nos tempos de menino véio buchudo brinca- va com Chico e os demais irmãos, que não são pou- cos – dezoito do Sebastião e oito do Chico (seriam também 18, se não tivessem morrido a metade no
buchudo
parto, de acidente na mata, ou de doença como a malária). Tião conta sobre a lida das crianças no seringal, numa época em que não existiam escolas e a educa- ção era exercida pela própria família, a qual instruía seus filhos desde pequenos ao trabalho, aos valores familiares, à sobrevivência na floresta com suas téc- nicas e ciência própria, apoiando e incentivando a se tornarem responsáveis em seus serviços e pela família a ser formada.Desde pequenas, as meninas já ajudam a mãe na cozinha e a cuidar dos irmãos mais novos. Os meninos vão para o roçado com o pai e auxiliam nos trabalhos gerais da casa. Chegando a adolescência a responsabilidade au-
Caderno da Floresta
Chico Mendes
Caderno da Floresta
Chico Mendes
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vou lhe dizer. Se você conhecesse hoje, fazia de conta que conhecia há dez anos. Porque ele come- çava a conversar e a pessoa começava a achar bom e já chegava pra perto. Ele era muito risonho, muito brincalhão, findava tirando prosa um com outro.” “Ele tinha um defeito muito grande: às vezes ele tava numa melhor palestra, às vezes numa entrevis-
ta e ele conseguia parar no meio de uma entrevista e
dizer uma brincadeira. Então assim, ninguém gosta
de certo tipo de brincadeira. Às vezes ele tava numa conversa séria e soltava uma brincadeira. Eu lem- bro de uma que ele fez: a gente estava com o Mil- ton Nascimento e dois americanos acompanhando e
o pessoal da Globo, e quando ele tava ali no meio
Caderno da Floresta
Chico Mendes
de uma caminhada falando de coisa séria, ele ti- rou uma casca de Quina-quina - vocês chamam de canarana, é uma coisa amargosa - e deu pra um americano. Ele botou na boca e não gostou. Então assim, o excesso de brincadeira é uma coisa que a gente tem que utilizar pra às vezes passar o tempo, mas não é muito bom, então era uma das coisas que
ele gostava de fazer, certas brin- cadeirinhas, mas ele não tinha muito defeito não.” (Nilson)
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Chico Mendes
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Fotos: Acervo Família Mendes
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Casamentos
Entre tantas histórias sobre a vida junto ao irmão 10 anos mais velho, Zuza conta sobre o primeiro casamento de Chico, o qual gerou sua primeira filha – Ângela Maria.
“Nós fomos crescendo e aí começamos a cortar seringa junto com meu pai e já tinha meieiro junto com a gente. O meireiro é aquele que corta serin- ga por metade. Meu pai cuidando da lavoura e o Chico Mendes começava a trabalhar nas colocações dos vizinhos de meia também, mas toda tarde ele estava em casa, porque as colocações eram perto. Ele tinha a maior preocupação da gente não passar mal. Ajudava nos ranchos porque tinha essa grande preocupação. Aí ele passou a trabalhar numa colo- cação chamada Pontão, no seringal Cachoeira. Ali ele começou a trabalhar de meia e passou a namo- rar a Eunice, que era filha da Dona Doca e a partir
Chico, Elenira e Ilzamar grávida de Sandino
desse namoro eles noivaram e casaram. Casaram e casaram no civil. Têm muitos que provam aqui que o casamento dele foi civil e foram testemunhas de casamento.” Porém, este casamento durou poucos anos e se- gundo D. Cecília, tia de Chico Mendes, o casal se separou por “ignorância de casal, nada assim sobre outros assuntos”. Chico e Eunice tiveram ainda ou- tra filha, que faleceu aos 11 meses de vida. Zuza comenta que um certo dia, Chico pediu-lhe um conselho: deveria ou não pedir a Ilzamar em ca- samento? Zuza era casado com a irmã mais velha de Ilzamar e já conhecia bem a família. Chico ensaiou por duas vezes pedir a moça em casamento, con- seguindo na terceira vez, tendo sim como resposta. Deste casamento nasceram Elenira e Sandino.
Caderno da Floresta
Chico Mendes
Ilzamar, Elenira com sua filha e Sandino 20 anos depois da morte de Chico Mendes
Ilzamar: olhar apaixonado
Trecho de entrevista de Ilzamar à Vera Barroso no documentário “De lá pra Cá” (TV Brasil 2008).
Vera: Quando é que você conheceu o Chico Mendes? Ilzamar: A data agora ta difícil de lembrar, mas eu era muito, muito jovem, era uma menininha mes- mo né?! Eu conheci o Chico quando ele veio tra- balhar com os pais, ele era seringueiro e eu muito criança, foi quando veio a idéia de alfabetizar eu e meus irmãos menores. Enfim, eu tinha na época uns 5 a 7 anos e ele já era rapaz. Causa de que naquela época tivesse uns 18 a 19 anos. Vera: Aí vocês voltaram a se encontrar, você já tinha Ilzamar: eu tinha 14 pra 15 anos. Aí já foi um outro olhar. Já foi um olhar apaixonado mesmo. Vera: ai você se apaixonou mesmo? E ele ficou encantadíssimo? Ilzamar: Ele eu não sei. Depois foi com um tempo, acho que foi com 16 anos que acho que ele me percebeu né; pelo meu olhar. Aí veio a idéia de namorar, a gente namorou pouco tempo, 1 ano aí já casamos.
Chico, Ilzamar e Sandino
Caderno da Floresta
Chico Mendes
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Sandino e Elenira
Chico e Elenira
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Os filhos
Ângela Maria Mendes
Filha do primeiro casamento
O destino separou meu pai de mim muito cedo.
Ele casou com minha mãe em 1967 ou 1968, não sei ao certo, e a situação financeira deles era precária, de extrema pobreza mesmo. Ele já estava envolvido no movimento, e eles não tinham nenhuma renda. Eles só tinham a mim e à minha irmã, que veio a falecer com 11 meses de vida devido à precariedade do local onde a gente vivia, muito distante da cida- de e sem condição de tratamento médico, e onde as doenças afligiam as pessoas que não tinham como realmente serem socorridas. Depois de algum tem- po, tive que vir morar com outros familiares em Rio Branco, porque a situação era difícil. Aí meu pai se separou da minha mãe e o destino separou nós todos. Mas desde pequena eu sempre tive conta- to com o meu pai porque ele sempre vinha me ver quando passava por Rio Branco.
Elenira Mendes
A recordacão que tenho do meu pai é um pouco
vaga, meio distante. Mas me lembro bem do dia 22 de dezembro de 1988. Daquele dia eu me lem- bro muito bem. Acho que foi como uma espécie
de despedida quando ele levou a mim e ao San- dino naquele caminhão novo para passear. Eu me lembro daquela noite, por volta das 18 horas, nós estavamos na sala e minha mãe dava de comer a mim e ao Sandino no mesmo prato. Lembro-me que meu pai saiu para tomar ba- nho e aconteceu aquela confusão, com os policiais correndo na direção contrária à nossa, a gente cor- rendo para a cozinha e, de repente, ele vem e cai ali, bem na porta do nosso quarto. Ele tenta, mas não consegue falar o meu nome. Me lembro dele, ali, no chão, ensangüentado, tentando dizer o meu nome. Esta é uma pergunta que sempre vai viver dentro de mim – o que ele queria me dizer naquele momento? Cresci com essa cena na minha mente e eu acho que ela jamais vai ser apagada. Também cresci com uma revolta muito gran- de contra o Movimento Social, porque na minha concepção - cuja única lembrança do meu pai era vendo ele, ali, no chão, morrendo - era de que o movimento tinha causado a perda do meu pai. O sentimento que eu tinha era de que perdi meu pai por essa luta dos povos da floresta, e isso me ma- goava muito. Eu era incapaz de compreender como essa luta foi importante e bonita. Esse sentimento perdurou até o dia do meu aniversário de 19 anos. Nesse dia, minha tia me mostrou algumas fotos minhas com dedicatórias do meu pai. No verso de uma delas estava escri- to: «És a vanguarda da esperança. Elenira, darás
Caderno da Floresta
Chico Mendes
continuidade um dia à luta que seu pai não conse- guirá vencer». Foi como se aquela bala que tocou no peito dele, que provocou a perda física da vida dele, estivesse entrando fundo no meu peito. Foi como se ele tivesse me dizendo que era a minha hora de acordar, porque eu tinha uma missão para cumprir. Então, fiquei pensando que talvez ali esti- vesse pelo menos parte da resposta para o que ele tentou e não conseguiu me dizer na hora em que estava morrendo. Isso mexeu muito comigo.
Sandino Mendes
Os netos
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“Quando eu nas- |
|
|
ci |
meu avô já havia |
morrido mas eu sei que ele foi uma pes- soa muito importan- te para a preservação da floresta e muitas outras pessoas ten- tam ser igual a ele. Só espero que não tenham uma morte tão dolorosa como a dele”
Sérgio Vale
Da morte do meu pai para cá o Acre passou por um grande processo de desenvolvimento econômi- co e social. Meu pai sempre sonhou em ver um Acre mais desenvolvido mas que também respei- tasse os direitos dos trabalhadores rurais, dos ín- dios, dos extrativistas, dos povos da floresta. Esse foi o seu objetivo enquanto esteve vivo, mesmo este objetivo indo contra o projeto político daquela época. Meu pai nos deixou vários ensinamentos, entre eles o de que somente unidos poderemos re- alizar os nossos objetivos, e que é possivel, sim, Progredir sem Destruir. Infelizmente meu pai não pôde viver para ver que alguns de seus sonhos fo- ram realizados. Mas se existe uma coisa da qual tenho certeza depois desses 20 anos, é de que a morte do meu pai não foi em vão, e de que os seus ideais ainda estão vivos.
Caderno da Floresta
João Gabriel Mendes com sua mãe Ângela Mendes
“Eu penso que a luta do meu avô não pode nunca aca- bar, que cada geração precisa assumir a responsabilidade pela parte que ainda falta por fazer, para que o legado de Chico Mendes sirva sempre de inspiração para as gera- ções presentes e futuras. Eu, quando terminar os meus estudos de Biologia na Universidade Federal de Mato Grosso, volto para o Acre para militar pela causa pela qual meu avô lutou, viveu, e ainda vive. ”
Angélica
Mendes
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Gleilson Miranda
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penso nessa destruição da mata, secando água, se aca-
bando tudo. Antigamente era uma beleza. As águas boas, as águas bonitas, um “sombrio” beleza. Tudo era bom. Muito calmo. Ainda ontem eu tava conversando com as meninas aqui, lembrando como antigamente era tão ani-
O pessoal brincava a noite inteira. Botava uns
três paus assim, um saco de carregar borracha, a cachaça vinha naquele frasqueirão; aí era um caneco dentro e o pessoal cantando e dançando, e de vez em quando o ca- neco no saco de cachaça, que nem água. Hoje vai fazer isso que morre gente
mado
E não morria ninguém antes?
Não. Nem brigavam.
não podia nem com a gente, ainda mais pagar emprega- da. Agora vim ter ajuda das minhas filhas quando elas ficaram grandinhas.
Quantas mulheres e homens a senhora teve? Eu tive 10 mulheres e 9 homens. Uma mulher nasceu de sete meses, nasceu morta. Hoje tem 14 vivos.
É muita sorte a senhora ter 14 ainda vivos
O senhor sabe que eu agradeço muito a Deus por ter sido uma mãe feliz. E digo por consciência: por causa dos meus filhos. Porque sempre acontece alguma coisa com um ou com outro, mas, Graças a Deus, nunca acon- teceu nada muito grave.
Era fácil casar e separar no seringal?
Não era fácil não. Separar assim uma vez
só por um
Pelo menos do meu alcance não existia essa
danação! A gente ouve muita história do que acontece na mata. Fala-se que a pessoa atira num animal e ele fica olhando, parado. Acredita nessas coisas? Isso daí é ver- dade. Da mata o senhor não duvide de nada, porque na mata tudo tem.
descuido
Já passou por alguma situação dessas? Não senhor, graças a Deus.
A senhora ainda teme que a devastação da floresta ameace vocês? Eu não acho difícil. Mas até agora ainda não soube. Mas tenho medo. Tenho um filho que é soldado lá em Rio Branco, e outro que trabalha lá. Com esses eu me preo- cupo e tenho medo, porque é na cidade que acontecem as coisas. O restante vive aqui em paz.
E agora já têm escola e saúde aqui?
Já. O Chico quando morreu já deixou escola aqui. Saúde tá meio lá, meio cá. Volta e meia falta um remé- dio.
Sábia senhora da floresta
A senhora cuidou da saúde de seus 19 filhos com que remédios? Remédios da mata. Com chá, lambedor, eu sei que tratava dos filhos assim.
Teve algum contato com índios? Não. Aprendi com minha mãe. Ela que sabia vários remédios do mato, medicina da mata.
Elson Martins
N a chegada do ano 2008 teve muita festa para dona
Cecília Mendes, madrinha símbolo das boas coi-
sas que acontecem no seringal Cachoeira, nas
proximidades de Xapuri. Ela recebeu o prêmio que leva
o nome do sobrinho querido, Chico Mendes (assassinado
em dezembro de 1988), e dia 1º de janeiro completou 82 anos, alegre, esperançosa, cheia de vida. Não, não, a vida dela nunca foi fácil. Aos 11 anos de idade, trocou a cidade pela floresta e casou muito jovem.
Teve 19 filhos, todos com parteira, criados no peito e sem conhecer médico. Viúva há 13 anos, a imagem que faz do marido, Jo- aquim Mendes, irmão do pai do Chico, é a imagem dela mesma: só o pai deles pra trabalhar e criar todos eles! Naquele tempo o pobre morria de trabalhar e não pagava
a conta, não sei por quê. O que aquele homem trabalha-
va! Cortava seringa o ano todinho. Quando terminava a seringa começava a quebrar castanha, e quando termina- va tudinho ainda estava devendo um monte. Não tinha
castanha, não tinha borracha, não tinha nada que pagasse
a conta. A casa em que vive no seringal, hoje, é mais movi-
mentada que a sede da associação local dos extrativistas.
É um entra-e-sai o tempo todo, de parentes, amigos ou
visitantes que vão pedir conselho, entrevistá-la, tomar a bênção ou, simplesmente, tomar café com farofa de ovo e, se tiver sorte, saborear um guisado de paca com fari- nha. A sala é o cômodo menor e menos importante: mal cabe um sofá e uma TV no canto, alem dos quadros da família pendurados na parede. É ligada à cozinha por um corredor estreito, com janelas à esquerda, e portas de en-
trada para dois ou três quartos à direita. A cozinha, claro, é ampla, com jirau e porta que dão
para o quintal. É o reinado de dona Cecília. Tem uma mesa grande no centro com bancos corridos laterais e tamboretes nas cabeceiras. Sobre ela permanecem pra-
tos, xícaras, copos, garrafa de café, farinheira
o tempo
todo. Resumindo: a cozinha é um centro de cultura onde se ouve e aprende os segredos da floresta.
Cidade
só pra batizar menino!
A senhora acha que o seringal está melhor agora ou antes? Agora. Na verdade, nunca foi ruim. O que era ruim
no seringal era o patrão. Antigamente, aqui era bom por- que não tinha essas derrubadas, essa acabação de mata,
a destruição doida que tá uma coisa triste. Todo dia eu
Caderno da Floresta
Chico Mendes
Mas tem medo da mata? Todo mundo tem medo, né, seu Elson? Porque é na
mata que moram os bichos. Eu tinha medo, sim, de andar na mata, e nem ando ainda!
O que a senhora teme?
Tenho mais medo da cobra. Mais do que da onça. Viu alguma onça?
Morta, já, mas viva, não. Com 19 filhos, sobrou tempo pra senhora trabalhar na roça, ou algo assim?
Coitada! Se eu fosse lhe contar minha vida era pior que a vida do Chico Mendes. Eu pra criar esses filhos sofri muito. Ainda ontem eu conversava com um deles dizendo: “Ah, meu filho, as coisas hoje em dia estão mui- to boas”. Sofrer, sofri eu. Que eu não vou contar riqueza porque eu não era rica.
Como era o seu dia-a-dia na floresta, no começo? Minha luta de casa era lavar roupa pra fora, costurar pra fora, cuidar de um bando de menino, cuidar do taba- cal, arrancar feijão, apanhar arroz. Tudo isso eu fazia.
Quantos netos a senhora têm? Ah, meu filho, aí nós não podemos nem conversar. Passo o dia todinho e não acabo de contar [risos]. Já te- nho três tataranetos.
Quando a senhora fala que o seringal antes era melhor, está se referindo a quê? Segurança? Antigamente era melhor nos seringais porque era tudo à vontade. Não tinha quem mexesse nas matas. Quando a gente mexia era pra fazer um “roçadozinho” pra plantar um milho, um arroz. Era muito bom de caça. Cidade era aquilo em que ninguém falava, a não ser pra batizar me- nino. Era uma vida bem tranqüila.
E televisão, rádio e luz, a senhora não gosta?
Eu gosto de luz. Televisão é coisa que não faço ques- tão. Mas rádio eu gosto, porque fico sabendo as notícias, e se tiver uma família minha passando mal eu já sei aqui.
Entrevista feita em julho de 2005 com a participação de Jú- lia Feitoza e Marcos Dias e publicada na coluna Almanacre, do
Jornal Página 20 em 20/01/2008.
E cozinhava também
Cozinhava. Empregada da onde, né (risos). Se a gente
Caderno da Floresta
Chico Mendes
Gleilson Miranda
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Um nasceu no Bom Lugar do Porto Rico. O outro, no Deserto do Santa Fé. Além de primos, foram grandes amigos e companheiros de luta. No texto a seguir ele fala dele mesmo como se fosse outra pessoa. Bastou perguntar:
Quem Quem é é o o
Raimundão? Raimundão?
O Raimundão acima de tudo é um seringuei- ro, que nasceu e se criou no seringal, numa época que não tinha escola. O que o Rai-
mundão aprendeu foi pelo pai, pela mãe, leitura mui- to pouca, mas graças a Deus, orientação de ser um cidadão, de viver de seu trabalho, de um dia possuir família, ter responsabilidade por sua família. No dia que assumisse determinado serviço, ser responsável também pelo seu serviço. E foi uma pessoa que vi- veu com o Chico desde os primeiros momentos, de nascimento, de criança, adolescência e de adulto. Viveu o movimento das comunidades eclesiais de base, viveu o movimento sindical, participando dos empates, de seminários, workshops, encontros mu- nicipais, encontros na floresta, encontros estaduais, nacional e internacional. Então, o Raimundão, mesmo depois de todas as conquistas, isto é, da terra e de tantas outras coi- sas, ainda não se deu por satisfeito, ainda sonha que muita coisa pode acontecer: principalmente dos nossos companheiros seringueiros, que foram a ra- zão de existir este Estado, que foi a razão do nosso país viver por muitos e muitos anos de um produto que quem começou primeiro a explorar, foram aqui os acreanos. Então o Raimundão é herdeiro de toda esta trajetória, e faço questão de nunca negar, até porque eu não tenho porque nunca negar, que con- tinuo sendo seringueiro e se Deus quiser vou mor- rer sendo seringueiro, mesmo tendo já convivido no parlamento mirim por 16 anos: já fui vereador 4
Caderno da Floresta
Chico Mendes
vezes, mas isso não me envaidece, isso não me dá
o direito de ter outro status, de querer ser outra ca- tegoria. Acho que cada momento desses contribuiu para tudo isso que a gente tem conseguido.
Relação com o Chico
O silêncio dentro da casinha azul incomoda Raimundão
A nossa relação se deu ainda criança, porque o pai do Chico com a minha mãe eram irmãos e a gen- te era primo legítimo assim como a minha mãe era
tia legítima do Chico. Mesmo o Chico sendo mais velho que eu, era coisa pouca: 7 meses e dias. E nós nascemos e nos criamos no seringal. Eu nasci no seringal Santa Fé e o Chico no Seringal Porto Rico; eu na colocação Deserto e ele na colocação Bom Lugar. E minha mãe com a mãe do Chico, se en- contrava muitas vezes, com nós ainda nos cueiros.
E depois, com 3 anos, 4 anos, nos passeios que se
fazia nos finais de semana, tanto os pais do Chico na minha casa, quanto os meus pais na casa do Chico.
Eu e o Chico a gente viveu a vida de criança, né? E depois, como era praxe a muda dos seringuei- ros, meu pai mudou-se pro seringal Filipina e nós passamos alguns anos sem se encontrar e fomos
nos encontrar novamente com uns 11, 12 anos de idade; e aí fomos se encontrando nas festas aqui na cidade (Xapuri). 20 de janeiro era uma das festas mais tradicionais da cidade e ainda é, mas na época era ainda mais e era onde muitos seringueiros e se- ringueiras se encontravam, porque era a época que tinha a maior festa e os seringueiros vinham pra ci- dade pra pagar suas promessas. Com a mentalidade da época, o seringueiro com toda a exploração fazia se pegar com as promessas com São Sebastião pra, se no decorrer do ano conseguisse gozar saúde, co- lher muita castanha e não acontecesse nada de grave com a família, nenhum acidente, nem de picada de cobra; então no dia 20 de janeiro, que se venera o padroeiro da nossa cidade – São Sebastião – eles se encontravam pra acompanhar o santo, pagar pro- messa, trazer uma borracha, mil e uma coisas. Então
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Chico Mendes
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a gente passou a se encontrar de ano em ano. E de-
pois voltamos a se encontrar com mais freqüência quando a gente se juntou através do Sindicato pra resistir contra a expulsão dos nossos companheiros.
o pai dele mesmo. E o Chico se dispõe mesmo a
tomar a iniciativa de assumir o papel de liderança
e aglutinar forças, a partir da participação dele no
Sindicato de Brasiléia, onde ele foi o primeiro se-
cretário do Sindicato e depois ele veio pro Sindicato de Xapuri tornando-se presidente do Sindicato de Xapuri, trazido inclusive por nós. No assassinato do Wilson Pinheiro em Brasiléia (1980), a direção do Sindicato daqui (de Xapuri),
a gente sentiu que ela se envolveu num clima de
medo e nós tivemos muita preocupação e naquele momento, tudo o que a gente tava iniciando em de-
fesa dos seringueiros, ia pra vala do lixo, ia se aca- bar. Ai, como a gente sabia da coragem do Chico, da firmeza do Chico, da vontade do Chico, nós fizemos
tudo pra trazer o Chico pra cá. (
momento o Chico , no nosso linguajar, se deslancha a nível de Estado, mesmo com todas as dificulda- des. Porque era um desejo das autoridades do Es- tado que o Chico não se projetasse, não assumisse, não se reconhecesse a capacidade de liderança do Chico, porque isso era um perigo para os interes- ses deles, mas a nível nacional e internacional ele se torna uma grande liderança.
) A partir deste
Uma boa lembrança
Uma das lembranças que me bate demais é que ele nunca comia sentado na mesa, ele sempre comia sentado na tábua com a Elenira e o San- dino sentados ao redor dele. Esta é uma passa- gem que deixa uma saudade e uma lembrança muito, muito grande dele. Eu tenho uma lem- brança de quando o Chico vivia com a Eunice lá no Cachoeira, que ainda agora eu falei pra TV Senado, que seria tão bom se a gente tivesse uma fotografia daquele dia do Chico. Eu cheguei na casa do Chico, na colocação Laguinho, e o Chico tinha chegado da estrada de seringa com um saco de leite, tinha arriado no degrau da esca-
da, e tava pisando um pilão de arroz. Isso era duas horas da tarde, e ele tava pilando esse arroz que era pra fazer alimentação pra ele almoçar, porque
a
Gildo, disse: Chico, rapaz, se eu tivesse uma mulher preguiçosa desse jeito - ele não sabia que a mulher tava doente - eu não queria ter mulher, eu ficava era sozinho. Então o Chico ali, pilando arroz e com o saco de leite dentro da estopa no pé da escada, a sua
Eunice tava doente. E o meu irmão mais velho, o
Chico Mendes
espingarda de caça, porque todo seringueiro anda na estrada com a sua espingarda pra matar a mistura do feijão, matar nhambu, matar jacu, cotia, quatipuru, e ele com aquela roupinha suja, rasgada, o sapatinho de seringa, ficou foi quieto meio de
O que você sente quando entra na casa do Chico?
Eu sinto um vazio. Por mais que eu entre com pessoas que a gente vai num bom papo, estas coi- sas, eu sinto um vazio na casa; aquela criatura que um dia foi o dono dela, que ali vivia com a família, que ali recebia a gente, com aquela simpatia, com aquele jeito de amigo, que pedia pra mulher trazer um cafezinho pra gente, hoje não existe mais. E não existe não foi porque a velhice, a doença, coisa des- sa natureza o tenha afastado da gente, mas por causa de uma covardia. Então cria um vazio muito grande na gente, por mais que a gente esteja com as pesso- as, mas aquela pessoa da qual é a razão, inclusive, de se estar entrando, de estar conversando, não exis- te mais devido a maldade. Então esse é um vazio muito grande.
Quem foi o Chico?
O Chico, primeiro de tudo, foi um seringueiro
criado, assim como eu e outros milhares que nas- ceram e foram criados em seringais, começando a trabalhar ainda criança com sete, oito anos. O Chi- co foi um dos seringueiros que se deu o direito de ser um dos maiores sonhadores de que um dia o
seu povo seria libertado da exploração dos patrões. Seria libertado do abandono da educação, da do- cumentação. E o Chico foi um amigo, o Chico foi uma pessoa que só construiu amizade, só produziu
o bem. O Chico precisava, se não fosse a maldade,
a ganância do ser humano, o Chico precisava estar
vivo com nós, ajudando a construir estas coisas boas
que ele sonhou e planejou junto com nós e começou
a fazer algumas coisas. Infelizmente ele não teve a
possibilidade e a sorte de se beneficiar como eu to me beneficiando, os meus filhos, os filhos dos nos- sos companheiros, a nossa categoria, né? O Chico merecia estar vivo pra poder desfrutar de tudo que ele construiu junto com nós.
Chico tinha o hábito de comer no chão com os filhos
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O dom que ele tinha
O Chico já nasceu com um dom de ser defensor
de seu povo. Veja bem, com 15, 16 anos, o Chico leu uma carta bem próximo de nós, numa praça no dia 19 de janeiro que ele fez dirigida ao governo do Acre - eu não me lembro quem era o governador do Acre na época - pedindo que olhasse para a explora-
ção que estava vivendo seu povo, o baixo preço da borracha, do alto preço das mercadorias. Então ele já começava a se despontar e começava a ter o in- teresse de defender a causa de seu povo. Mas, com
certeza, ele começa a ter mais consciência e começa
a se dispor mais quando começa a conviver com o
trabalho das Comunidades Eclesiais de Base, dele ter tido a oportunidade de ter vivido com o Eucli- des, que era um refugiado político e ficou na casa dele, junto com o pai dele e que orientou e conver- sou muito com ele. Inclusive a leitura, foi ele quem ajudou a fazer com que o Chico avançasse mais, porque o Chico tinha aprendido um pouquinho com
Caderno da Floresta
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Caderno da Floresta
Chico Mendes
Marina Silva
DOCE
COMO
URUÇU*
Frade, como o irmão Leonardo Boff, foi um dos grandes expoentes da teologia da libertação * Abelha sem ferrão muito conhecida na Ama- zônia, cujo mel é de extraordinário sabor.
Conheci o Chico quando eu tinha 17 anos de ida- de. Uma menina ainda muito tímida, morando num convento. Ficava ouvindo pessoas mais conserva- doras dizerem que o bispo Dom Moacir Grecchi era um comunista que, junto com a Contag e “aquele tal de Chico Mendes”, estimulava as pessoas a fazer movimento contra os fazendeiros. Ouvi isso mui- tas vezes. E me causava certa estranheza porque eu sabia que o Chico Mendes era um seringueiro de Xapuri e o fato de ser filha de seringueiros e ter vin- do de seringal, me deixava curiosa pra entender por que quem lutava contra a derrubada e a queima das casas, contra a expulsão das pessoas e contra a vio- lência, que era muita, era considerada uma pessoa ruim, comunista e, obviamente, contra Deus. Um belo dia estava na missa, com minha Ma- dre Mestra, quando vi na porta da igreja um cartaz em cartolina, escrito com pincel atômico: “Curso de liderança rural da CPT, sábado e domingo, com a presença do Clodovis Boff e Chico Mendes”. Fi- quei com aquilo na cabeça durante toda a missa. As- sim que terminou, fui até a sacristia e me inscrevi. Falei com minha Madre Mestra, da maneira mais genérica possível, do meu desejo de fazer um curso na igreja, sábado e domingo, e coisa e tal. Ela quis
Caderno da Floresta
Ferenando Dias
Chico Mendes
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saber que curso era aquele, e eu: “é um curso que o padre quer que a gente faça.” Permissão concedida, levantei muito cedo pra fazer todos os deveres do convento antes de sair. O curso era dado no salão paroquial, nos fundos da igreja. Quando cheguei, havia umas 25 pessoas, vá- rias lideranças rurais. Eu era uma das mais jovens. Frei Clodovis foi o primeiro a falar, fazendo uma correlação entre o sermão da montanha – a idéia de que a fé tinha que produzir frutos, senão era uma fé morta – e as lutas sociais que aconteciam no Bra- sil, mais especificamente a resistência do povo do Acre. Ele explicava como uma fé viva tinha que se comprometer com a defesa de quem estava sendo expulso de sua terra. Fiquei encantada com aquela abordagem. E pen- sava: “se é isso que o Dom Moacir faz, por que é uma coisa ruim?” Comecei a ver que, pelo contrá- rio, era muito bom. E a partir desse momento minha fé foi tomando outro rumo, ganhando uma significa- ção empolgante, muito viva. A segunda parte do curso estava a cargo do Chi- co Mendes. Ele fez um relato sobre como se faziam reuniões para organizar sindicatos e explicou como conseguia, ao mesmo tempo, ajudar a CONTAG e a formação dos sindicatos e liderar uma comunidade de base. Ele dizia, em tom de brincadeira, que fazia um trabalho que eu chamaria de 3 em 1. “São as mesmas pessoas. Primeiro a gente reúne todo mun- do e diz: agora é a reunião da comunidade de base. Aí termina e a gente esquece tudo pra começar a reunião sindical. E depois esquece de novo, que vai |
rente, de lutas e ideais, mudou a minha trajetória de vida. Até ali eu imaginava que meu destino era ser freira, mas passei a me fazer um monte de ques- tionamentos. Quando ia para a missa, gostava mais quando era celebrada pelo Dom Moacir ou pelo pa- dre Cláudio, enfim, pelas pessoas que falavam dife- rente do estilo tradicional. Ainda fiquei um ano e oito meses no convento, até que um dia a Madre Superiora me disse que eu me preparasse porque estava na hora de ir para o Rio de Janeiro, fazer o pré-noviciado. Quando me vi realmente diante da decisão de tomar esse caminho, entrei num conflito danado. Depois de uma semana de reflexão, pedi pra falar com a Madre Superiora e anunciei que não queria mais ir, que gostaria de sair do convento para trabalhar com as comunidades de base. Ela ficou surpresa, mas teve uma atitude aco- lhedora. Daí fui para o bairro da Estação Experimen- tal, morar na casa do tio Aurélio, irmão de minha mãe. A primeira coisa que fiz foi procurar o padre João Carlos, na Paróquia do Cristo Ressuscitado, e comecei a trabalhar como monitora da comunidade de base que era a mais ativa de Rio Branco. Depois de seis meses me colocaram como Coordenadora de Base da paróquia e aí então já participava mais das reuniões, entrei na faculdade, me aprofundei nas questões sociais e a convivência com o Chico, cada vez mais frequente, se transformou numa forte ami- zade. Foi através dele que, juntamente com o Binho, entrei no PRC. Perguntei quem eram os teóricos do PRC na Amazônia e ele respondeu: “são vários Barros bém o Pensou um pouco e continuou: “tem tam- |
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começar a reunião de reflexão política, pra pensar na criação de um partido”. |
companheiros, todos muito bons! Tem o Marcos ” Marcos Barros.” O Marcos, que era pro- |
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Tudo aquilo foi me cativando. E teve também um teatrinho. Participei com muito entusiasmo e, |
fessor da Universidade Federal do Amazonas, era o |
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no final, fui escolhida pra fazer um relato. Como tinha a tradição de meu pai e de minha avó, de fazer cordel, fiz o relato como história de cordel. O Chico gostou muito, sentou do meu lado, pegou o telefone do convento e perguntou se podia me mandar mais |
intelectual que ele usava como referência pra tudo! Eu conheci o Marcos pelo Chico, muito antes de tê- lo conhecido de fato. Geralmente se tem uma escuta muito intoleran- te e um olhar muito passageiro sobre a ansiedade |
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informações sobre a luta dos trabalhadores. E co- |
e a inquietude dos jovens. Minha experiência com |
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meçou a mandar boletins, o jornal Varadouro, outro |
o Chico foi uma lição, nesse sentido. O olhar dele |
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jornal chamado Movimento, que circulava no Brasil inteiro. E ficava tudo escondido no meu quartinho. Depois do curso, perdi contato com todos da CPT, menos com o Chico. Aquela reunião e a atenção que o Chico me deu, o fato dele me alimentar com aquele mundo dife- |
era genuinamente interessado, paciente, cuidadoso, estimulante. Ele conseguia ver qual era o teu poten- cial. A minha história, a história do Binho e de tan- tas pessoas que conviveram com ele, mostra como respeitava os mais jovens e se preocupava o tempo todo em puxar a juventude para estar junto. |
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Caderno da Floresta
Chico Mendes
Pra mim, isso demonstrava enorme sensi- bilidade de uma pessoa que vivia numa situ-
ação social e econômica muito difícil, estava
o tempo todo, por assim dizer, numa corda
bamba de pressão e de ameaças, mas era de uma extrema leveza. Acho que a forma dele
se manter jovem era se relacionando com os jovens. Eu sentia nele uma mistura de pai
e irmão. Era paterno quando transmitia a
firmeza da maturidade, dos compromissos, das responsabilidades. E era irmão porque colocava as coisas de igual para igual. Não impunha um pensamento, dialogava com as nossas idéias. Além do mais, tínhamos a afinidade de ser gente da floresta. Uma afinidade que nem precisava ser dita. A conversa fluía porque era o mesmo universo, a gente sabia quem a gente era, qual era a nossa raiz, o nosso lugar. Acho que isso me ajudou mui- to a não desconstituir minhas raízes. Me lembro quando fui fazer minha certidão de nascimento no cartório. A moça perguntou local de nascimento, eu respondi: seringal Bagaço. Ela insistiu para colocar Rio Bran- co: “Não diga que nasceu no seringal, minha filha, isso é muito feio, as pessoas vão man- gar de você.” Como eu resisti, ela acabou aceitando, mas muito contrariada. Em parte, devo isso ao Chico, que criti- cava as pessoas que vinham para a cidade e ficavam escondendo a origem, com vergo- nha de ser considerado feio, analfabeto, ig- norante, mocoronga. Para ele, ser seringuei- ro tinha uma grande dignidade e isso devia ser exibido com orgulho. Para mim, o fato de uma pessoa como ele pensar assim, só reforçou o sentimento que sempre tive, de nunca esconder minhas origens.
Chico Político
CHICO POLÍTICO
Em 85 fizemos uma reunião para discu- tir candidaturas pelo PT, principalmente a candidatura do Chico a deputado estadual. Não tenho boa recordação desse momento porque já estava claro na cabeça de todo mundo que o Chico tinha de sair candida-
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Chico Mendes
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PTAcervo
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to em 86 por dois motivos principais: ele teria um
papel importante na institucionalização de nossas causas; e uma vez eleito, poderia contar com mais segurança, já que estava sob constantes ameaças de morte. Achávamos que seria mais difícil matar um deputado. Quando penso nisso agora acho tudo muito triste. Como estava tão claro de onde a morte vinha, como era inexorável e como estávamos des- protegidos diante da violência. E em meio a tudo
isso, nossos sonhos de liberdade, de justiça, de va- lorização da vida. Decidimos que sairíamos em dobradinha. O Chico para deputado estadual e eu a federal, para a Assembléia Nacional Constituinte. Não tínhamos experiência de campanha nem estrutura e nem di- nheiro. O Jorge Viana veio de férias da UnB, pega-
va o carro e a gasolina do pai dele e circulava sem
parar. O Binho tinha um fusca que quase se acabou na campanha. Pichávamos muros, fazíamos carta- zes criativos com o nosso slogan: “Marina e Chico Mendes, oposição pra valer!”. O programa eleitoral era feito ao vivo. Tínhamos um minuto. O Chico falava 30 segundos e eu os outros 30. O Chico tinha um estilo que não era muito de palanque. Ele era muito bom pra conversar, mas não era bom de discurso. Discursava como quem conversa. Falava muito com as mãos, com gestos. Subia ao palanque, ficava conversando com aquele monte de gente lá embaixo. Ele gostava de contar histórias, “causos”, tinha umas crenças, umas his- tórias de mato. Uma vez chegou uma pessoa de fora, uma lide-
rança de esquerda, pra conversar com o líder serin- gueiro Chico Mendes. E ficou muito decepcionada!
O Chico começou a contar histórias de assombra-
ção, de uma viagem que fez de noite e de repente escutou uns barulhos estranhos. Que se arrepiava todo, e o mato se mexia em redemoinho. Que com certeza era o “caboclo da mata”, e ele sem tabaco pra aplacar a fúria do Caipora. E conforme ele fa- lava, a pessoa ia ficando sem-graça, sem entender como um comunista, que deveria ser materialista,
podia ser tão mítico e dar importância àquelas coi- sas! Foi muito engraçado. Tivemos enormes dificuldades. Não dava pra
ir a todos os locais do estado. Chico nem foi para
Cruzeiro do Sul, porque ali chegava muita difama- ção proveniente de Manaus, do pessoal do Gilberto Mestrinho, que pregava a distribuição de motoser-
inspirada pelo contato do Chico com um líder co- munista refugiado na floresta, que o alfabetizou no seringal, com os livros que trouxera. Inicialmente a luta era de resistência contra a ex- pulsão da terra. Só que não se queria a terra da ma- neira tradicional, apenas para a agricultura. A gente queria a terra com o mato, com a floresta, com rios e igarapés. Quando o Chico, em conversas com as pessoas de fora, entendeu que o movimento poderia
ter outra dimensão, passou a falar de reforma agrá-
ras. Diziam, inclusive nas rádios, que o Chico era um agitador perigoso. Mas nossa campanha começou a ter uma reper- cussão muito boa, tanto é que o Chico Mendes qua- se foi eleito. Faltaram cerca de 150 votos. Eu fui a 5ª mais votada, mas o PT não fez legenda.
Ambientalismo
O AMBIENTALISMO
O Chico tinha contatos no Rio de Janeiro como
o Sirkis, o Minc, a Rosa Roldan, a Lucélia Santos, o
Gabeira: em São Paulo ele conversava com o então sindicalista Lula, o Genuíno, o Fábio Feldman e ain-
da com a Mary Alegretti, de Curitiba. Essas pessoas trouxeram um novo olhar, um novo significado para
a luta originada do exemplo das lutas camponesas
que aconteciam no sul, no sudeste e no nordeste e
ria especifica pra Amazônia, e que na Amazônia não
se deveria repetir os modelos usados nas outras re-
giões.
Isso não era muito bem aceito. Começaram con- versas de “desvio ideológico”, que o Chico estava embarcando num discurso pequeno burguês e que ambientalismo era “coisa de americano”. De cer- ta forma, o Binho e eu assumimos a tarefa de não permitir que o Chico ficasse tão exposto a isso. De minha parte, tinha grande curiosidade a respeito da- quela maneira nova de ver as coisas e me esforçava para acompanhar o raciocínio dele, mesmo ouvin-
Marina acompanha entre amigos o julgamento dos assassinos de Chico Mendes
do, pelo outro lado, que ele estava descambando para uma coisa meio estranha. Mas o Chico, ao mesmo tempo em que buscava ajuda no PT e conversava muito com a gente, con- versava com muitas pessoas, fossem do Acre ou de fora. Aos poucos fomos fazendo a mesma inflexão, junto com ele. Fomos também nos descolando da- quela visão puramente sindical. Pra mim foi muito bom. Um grande aprendizado sobre a importância da escuta, da procura de vários pontos de vista, de respostas diversificadas, da busca de alianças com outros segmentos, outras pessoas. O nosso proble- ma não era só nosso, se interligava com muita coi- sa e tinha que ter muito diálogo para chegar a uma solução. Quando o Chico foi para os Estados Unidos, pen- samos nisso só como algo que poderia beneficiar a nossa causa. Ele foi fazer uma denúncia sobre os prejuízos à floresta e aos povos da floresta causados pela ação do Banco Interamericano, que financia- va estradas feitas sem nenhum cuidado ambiental. Depois disso o banco mudou completamente sua metodologia.
Caderno da Floresta
Chico Mendes
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sim, o Fábio e eu só conseguimos chegar para a mis-
sa de sétimo dia. Já tinham se passado sete dias mas
os telefones do PT, do sindicato, não paravam de tocar. Era gente do país e do mundo inteiro queren- do informações sobre o Chico. Num desses momen- tos, estávamos no salão paroquial da catedral de Rio Branco e chegou um grupo de parlamentares ameri- canos. Um deles era Al Gore. Vieram se solidarizar com o movimento seringueiro, com a família. As autoridades locais ficavam muito incomoda- das porque, em vez de procurar os palácios e gabi- netes, os visitantes importantes iam para a igreja, onde Dom Moacyr se reunia com os comunidades e com o sindicato. O clima era meio pesado por isso. A postura do Al Gore foi muito marcante para mim. Aquele homem alto, muito branco mas prati- camente roxo de tanto calor, com a camisa toda mo- lhada de suor, liderava o grupo. Perguntava, queria
saber como ajudar, mas de maneira muito simples, sem ostentação, respeitando as pessoas e as circuns- tãncias. Passava sinceridade. Quando, agora, ele fez o documentário “Uma verdade inconveniente” e ganhou o prêmio Nobel, muitas pessoas acharam que ele só estava usando a causa ambiental para
se promover. Por questão de justiça, sempre dei o
testemunho de que ele está nessa estrada há muito tempo. E me parece que o envolvimento com os te- mas ambientais realmente faz parte central do seu trabalho político. Há o ambientalista político e o “político” am-
bientalista. O “político” ambientalista é aquele que usa a bandeira ambiental no seu próprio interesse.
O ambientalista político usa corretamente a política
para mediar e fazer avançar a causa ambiental. Isso faz uma diferença muito grande porque, no segundo caso, a pessoa se expõe em situações que nem sem-
pre são as mais vantajosas do ponto de vista eleito- ral tradicional. O Chico foi um exemplo desse tipo
de pessoa.
éticos e inovadores quando tudo parecia impossível. Imaginar que um dia o Lula chegaria à presidência da República, que o Jorge seria governador do Acre; e o Binho, que era um menino do Projeto Seringueiro, seria também governador; o Nilson Mourão, deputa- do federal e eu, que já seria difícil me imaginar vere- adora de Rio Branco, quanto mais senadora. Como seriam as conversas com o Chico, com tanta coisa tendo acontecido? Como ele veria o que estamos fazendo? No governo do Acre, no Ministé- rio do Meio Ambiente, nos parlamentos, nas reser- vas extrativistas, no Brasil? Seu grande legado é algo que pode parecer óbvio: se você quer construir o futuro, faça isso agora. O Chico ajudou a fazer acontecer uma grande mudança. Ninguém mais ga- nha eleição na Amazônia dizendo que vai distribuir motoserra para destruir a floresta. Hoje, as forças do Estado já não dão ordem de prisão para as pessoas que defendem a floresta e nem podem, impunemen- te, incentivar os desmatadores. O Chico é símbolo de uma força que veio de muita gente, como num grande encontro. Dos povos da floresta, de pesqui- sadores, de pensadores, de ativistas, das comunida- des, dos índios, dos seringueiros, de muitos lugares e pessoas. Ele teve a coragem de fazer diferente na hora certa. Não sei se, o tempo todo, ele tinha cons- ciência da dimensão do que estava acontecendo. O que sei é que precisou ter muita visão e coragem para se afastar do destino de líder sindical, dentro da cartilha tradicional da esquerda. Existem deter- minadas causas que parecem tomar conta de nós, porque fazem tanto sentido que nada mais te segura, não existem amarras. O Chico poderia ter ido passar um tempo fora do Acre para fugir das ameaças de morte. Convites não faltaram, inclusive vindos de outros países. Poderia, pelo menos, ter passado aquele Natal de 1988 no Rio de Janeiro, como os amigos de lá insistiam. Mas ele
não conseguia se imaginar exilado do Acre, de Xa-
A falta que o Chico faz
A
O
FALTA QUE
CHICO FAZ
Hoje, pensando em tudo o que aconteceu depois
da morte do Chico, faz muita falta o olhar e a presen-
ça de uma pessoa que constituía processos políticos
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Caderno da Floresta
puri, sobretudo no Natal, porque a Ilza e as crianças
ficariam sozinhas. E também teria a missa, a reunião,
os companheiros que sempre vinham do mato para a
cidade nessa época do ano e seria uma ótima opor-
tunidade para conversar. Ele poderia ter feito outra
escolha, mas existe um lugar de desejo, de vontade,
que às vezes é tão forte que passa por cima até mes-
mo da sua própria condição de sobrevivência. E se ele ouvisse só a pura razão da conveniência ou da auto-preservação, não teria sido o Chico.
Chico Mendes
Da esquerda para a direita, na frente: Antonio Alves, Suede Chaves, Elson Martins, Sílvio Marinelo e Luiz Carvalho. fila de trás: Albertu Furtado, Abrahim Farhat e Arquilau de Castro Melo (foto de 1997)
A turma do jornal
Varadouro
E ntre maio de 1977 e março de 1981 cir-
culou em Rio Branco o jornal Varadouro,
que encampou a luta dos seringueiros e
índios do Acre em defesa da floresta e dos po- vos que vivem em suas entranhas. A atitude dos editores implicava em riscos frente aos militares, que impunham censura à imprensa nacional, e também aos fazendeiros do sul que aliados às eli- tes locais tentavam transformar o Acre em pastos
para o boi. Com apoio da Prelazia do Acre e Purus, o jor- nal alternativo fez corajosa co- bertura dos conflitos exis- tentes na época, tomando partido dos seringueiros, dos índios, dos posseiros e das famílias expulsas dos seringais. O jornal tornou-se importante aliado de Chico Mendes e do movimento que
este liderava contra o desmatamento e queima- da da floresta acreana. Também chamou atenção para os valores construídos pelos povos da flo- resta em um século de extrativismo. Passados mais de 30 anos de sua circulação, o jornal continua atraindo pesquisadores e estu- dantes que se interessam pelos acontecimentos das décadas setenta e oitenta do século XX. A publicação gerou uma tese de doutorado e conti- nua sendo citada em estudos acadêmicos no Acre e em outras regiões do país. Em 1997, portanto 20 anos depois do lançamento do jornal, a turma do Varadouro se reuniu para uma conversa sobre a rica experiência vivida naqueles tempos conflituosos. O encon- tro foi registrado pelo fotógra- fo Edson Caetano. (Veja foto acima)
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Acervo Biblioteca da Floresta
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Dom Moacyr Grechi
Reza e empate na Amazônia
A igreja de Dom Moacyr foi amparo para os povos da floresta
C heguei ao Acre em 1971, para cuidar Pre-
lazia do Acre e Purus, hoje Diocese de Rio
Branco, justo no momento em que começa-
va a reação dos seringueiros e posseiros para ficar nas suas terras. Sou natural de Santa Catarina, mas nessa época eu era o superior da ordem religiosa dos Servos de Maria, com sede em São Paulo, e era também o provincial responsável pelo Acre. Com a morte do bispo, o Papa me indicou para ser o novo bispo da Prelazia. Sorte minha, porque foi o povo do Acre que me ensinou a ser cristão, a ser bispo, a me comprometer com o lado justo. Esse povo que eu hoje considero como a minha própria família. O Acre me quer muito e me honra com muitas homenagens. Tem um instituto do governo com o meu nome, tem também um povoado, uma vila, um lugar do povo chamado Vila Dom Moacyr, onde acontece uma história engraçada, porque na placa do ônibus que vai para essa vila está escrito só Dom Moacyr. Então o povo fica falando: cadê o Dom Moacyr? o Dom Moacyr já vem? o Dom Moacyr já passou? E hoje deve estar diferente, mas no começo muita gente ficava em dúvida se era o bispo ou o ônibus que estava demorando, que estava vindo, ou que estava voltando. Essa é apenas uma das muitas histórias da minha amizade e da minha aprendiza- gem com o povo do Acre. Lembro-me da vez em que um grupo de mães foi me pedir para visitar um Seringal perto de Rio Branco, o Ipiranga, onde o dono estava sendo de- nunciado por cometer atos de violência contra os seus filhos e os seus maridos. As mães, os parentes,
vieram três vezes à minha casa pedir socorro, e eu nunca ia. Até que, na terceira visita deles, um dos homens mais velhos, um senhor de mais de 80 anos, olhou bem pra mim e disse: Dom Moacyr, o senhor
é o bispo, o senhor é a autoridade, senhor é quem
sabe, mas eu sou mais velho, e se eu fosse o senhor
eu já tinha ido lá conferir se o que estamos falando é verdade ou não. Eu pra não ficar de frouxo fui, e essa visita mudou muito a minha vida. Em Rio Branco, tomei como missão organizar as Comunidades Eclesiais de Base por toda a Prelazia. As CEBs eram células de evangelização, de oração
e de fraternidade, mas eram também onde se forma-
va a consciência para a organização sindical e, um pouco mais tarde, para a formação do Partido dos Trabalhadores. Foram as CEBs que prepararam as bases do movimento social para a construção dos sindicatos e do Partido. Com o tempo, em todo lu- gar da Prelazia havia uma CEB. Em Assis Brasil, as CEBs eram tão fortes que esse acabou sendo o único lugar onde o Lula nunca perdeu uma eleição. Nos tempos difíceis ele perdia no Brasil todo, mas em Assis Brasil o Lula sempre ganhou. Com tudo isso a Igreja Católica acabou sendo uma espécie de útero materno para a gestação de um sindicalismo independente e lutador, cujos líde- res depois formaram o PT. Alguns me diziam, mas Dom Moacyr, não pode, o senhor tem que ser um bispo de todos, o senhor não pode ser um bispo do PT. Em resposta, eu sempre dizia e digo que apenas prestava meu apoio às pessoas generosas que exer- ciam sua fé cristã lutando por paz e por justiça so-
Caderno da Floresta
Chico Mendes
cial. Eu entendia aquele povo pobre que fazia o PT para conquistar mais direitos, porque eles já tinham percebido que o sindicato só vai até certo ponto. E deu certo, porque até hoje o Acre tem um dos PTs mais bonitos do Brasil, um PT que conseguiu mudar o rosto do Acre, que foi capaz de chegar ao poder sem se afastar do povo e das lutas populares. Assim que, quando chegou o João Maia para fundar os Sindicatos, o pessoal já estava preparado. Nesse tempo as reuniões do sindicato eram feitas sempre em ambiente de igreja, a polícia era corrupta até o osso, os políticos uns incapazes, e o Exército um bando de gente com medo do comunismo e da subversão, a maioria deles sem saber o que era isso, mas com medo. Era um tempo em que a violência contava com a total conivência das autoridades, em que a polícia era corrupta e vendida, e em que o Exército vivia apavorado. O João Maia é uma pes- soa que não pode nunca ser esquecida, porque ele foi um homem corajoso que teve o valor de orga-
nizar os seringueiros dentro dessa conjuntura total- mente desfavorável. O João Maia era um Delegado da CONTAG que veio ao Acre para fundar os sindicatos. Ele era um ex-seminarista alegre e brincalhão que gostava de falar em Latim comigo. Ele tinha uma marca, que era o diálogo com todos, e ele sempre me dizia:
Dom Moacyr, aprende isso – o diálogo é a chave da sobrevivência nessa terra. Ele lutava por um sindi- calismo independente, mas nem por isso deixava de conversar com o governador, com a polícia, com o Exército. Ele formou excelentes lideranças, fundou muitos sindicatos, era destemido e ousado. Foi dele a idéia criativa de prender os jagunços durante o Mutirão que os sindicatos fizeram em Boca do Acre. Junto com o João Maia estava sempre o Pedro Mar- ques, advogado muito bom de luta, muito didático, que tinha um jeito muito especial de ensinar o Esta- do da Terra e o Código Civil para os seringueiros. Eu me lembro do dia em que o João Maia me
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Chico Mendes
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pediu para emprestar um salão da Igreja para fazer
a assembléia de fundação do Sindicato dos Traba-
lhadores Rurais de Rio Branco. Como eu sabia que vinham muitos, como de fato chegaram mais de 1000 seringueiros e posseiros, eu acabei cedendo
a própria Catedral. Do lado de dentro estavam os
trabalhadores, e do lado de fora estava o Exército armado com escudos e metralhadoras, cercando os trabalhadores como se estivessem cercando bandi- dos. Como se os seringueiros não estivessem apenas lutando com compromisso e com fé para mudar um pouco o rumo das coisas que afetavam suas vidas. Era um tempo muito duro, com o Exército encima, sempre tentando intimidar. Teve uma reunião na minha casa, do CPT com
importante porque fazia a ligação da fé com o as- pecto político, o Padre Paulino e o Padre Pacífico, junto com os comunistas e com um advogado do INCRA chamado Juraci que fizeram o Catecismo da Terra, um folheto barato e simples, com apenas cinco perguntas e cinco respostas, mas que foi o pri- meiro instrumento de resistência dentro da flores- ta. Quem não sabia ler pregava na parede da casa e quando chegava um capataz dizendo – o senhor tem que sair, porque essa terra agora tem outro dono, a resposta sempre era: não senhor, eu não saio, o senhor veja aí o que meu direito está escrito no Ca- tecismo da Terra.
Ovelha desgarrada
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CIMI, que o Exército tentou gravar. Uma freira |
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muito esperta viu um gravador pequeninho na ja- nela, e esse gravador era do Exército. Como eu era Presidente Nacional da CPT – passei oito anos da |
Quando conheci o Chico Mendes, ele era um participante das CEBS, mas sem grande fervor reli- gioso. Algumas vezes ele acompanhava a mim e às |
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ditadura militar como presidente da CPT -- o Mino Carta deu uma nota no jornal “A República” regis- trando o incidente. Anos depois as denúncias de que eu vivia marcado para morrer se confirmaram. Muito doente, o Tufik Assmar, dono da Rede Globo no Acre, por uma necessidade de consciência man- dou me chamar e disse – Dom Moacyr, o senhor é meu amigo, e eu não posso morrer sem que o senhor saiba que teve um momento em que um militar me visitou para informar que estavam se preparando |
irmãs nas visitas pastorais, outras vezes ele até reza- va o terço conosco nas comunidades, mas o que ele queria mesmo era falar de política e de organização. Desde a primeira vez que o vi já estava claro que ele tinha uma certa formação. Depois ele mesmo me contou como foi alfabetizado e iniciado na políti- ca por uma certa pessoa que viveu na região. Mas como sindicalista era praticamente um desconheci- do até ser eleito secretário do Sindicato dos Traba- lhadores Rurais de Brasiléia, durante a assembléia |
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para matar o senhor, e eu disse a ele que não, que nem pensar, que se matassem o senhor eu botava |
de fundação, em 1973, e ele só se tornou a principal liderança do movimento depois do assassinato do |
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boca no mundo, eu contava para o Brasil inteiro. |
Wilson Pinheiro em 1980. |
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E |
imagina que a Globo começou lá na minha casa, |
O Chico Mendes começou na luta como todo |
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uma emissora muito pobre. Vinha Copa com todo mundo querendo ver os jogos e o Assmar, que era um grande propriedade proprietário de terras, mas que estava começando no campo da comunicação, me pediu para instalar os seus equipamentos de |
seringueiro, brigando pela posse, para permanecer na terra. Foram um pouco as circunstâncias que fi- zeram dele essa liderança tão excepcional. Além do preparo ideológico, ele tinha aquele jeito natural de falar e de se entender com todo mundo. Em Xapuri |
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baixa qualidade no quarto da minha casa, que era o ponto mais alto da cidade. Esse foi um tempo em que cristãos e não cristãos |
nessa época tinham três padres, o padre José, o pa- dre Otávio e o padre Cláudio. O padre José sempre foi contra ele, mas os padres Otávio e Cláudio eram |
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no Centro de Defesa dos Direitos Humanos tinha até um ateu confesso, e tinha o Abrahim Farhat, o nosso Llé, de origem libanesa, e em Xapuri tinha – |
seus amigos, sempre favoreceram o favoreceram. Mesmo assim, ele falava igual com os três, ele fazia questão de dialogar também com o padre José que |
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Bacurau, um hanseniano que não tinha mão nem |
não se engraçava com ele. Mas o Chico Mendes foi |
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pé, totalmente dedicado, enfim, pessoas que se jun- taram aos seringueiros e posseiros para lutar pela manutenção da terra. Foi o povo da igreja, o Nilson Mourão, um meninão que depois se tornou muito |
fruto também de um momento de sensibilidade am- biental pela qual o mundo estava passando. No começo nem o Chico Mendes, nem ninguém falava de defesa da floresta como um todo. Nessa |
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Caderno da Floresta
Chico Mendes
Dom Moacyr Grechi foi bispo da prelazia do Acre e Purus nas décadas de 70 e 80. As Co-
munidades Eclesiais de Base que ele organizou
a partir de 1971 com acessoria dos irmãos Boff
(Leonardo e Clodovis) serviram de base para os Sindicatos dos Trabalhadores Rurais cria- dos pela CONTAG a partir de 1975, e também para a fundação do Partido dos Trabalhadores no Acre. A prelazia do Acre e Purus assumiu a
luta dos seringueiros e índios da região contra
o desmatamento e as queimadas. Atualmente
é arcebispo da Diocese de Porto Velho.
evolução para o aspecto ecológico, para levar o pen- samento dos seringueiros para as pessoas de fora da floresta, o Chico Mendes contou com um apoio muito importante da Mary Allegretti. Eu nem sem- pre concordei com ela, mas para ser justo eu tenho que reconhecer que a Mary contribuiu muito para que o Chico Mendes se transformasse nesse símbo- lo de luta pacífica em defesa da Amazônia conheci- do no mundo todo. Imediatamente depois da morte dele eu fui convidado para a Europa e na Itália eu quase não dava conta de tanta gente querendo saber mais sobre a luta dele. Em Paris, participei de uma
Caderno da Floresta
Um bispo com o pé na lama
grande conferência pela paz, onde o Chico Mendes foi colocado junto com Desmond Tutu, Gandhi e Martin Luther King como um dos quatro grandes defensores da paz no mundo. E pensar que o Chico Mendes tantas vezes foi
me ver, foi na minha casa dizer que estava para mor- rer, que se sentia muito ameaçado, que tinha certeza
que não ia viver
re nada, Chico, esses cabras não tem coragem de te pegar. Mas ele começou a fuçar fundo, e acabou en- contrando provas contra as pessoas que ameaçavam ele. Um dia o Chico Mendes chegou lá em casa com uma carta precatória de prisão preventiva contra o Darli Alves, o mesmo que depois assumiu como mandante do assassinato dele. “Dom Moacyr, pra quem é que a gente entrega isso?” Eu fui com ele
entregar a tal carta precatória para a Polícia Federal que, em vez de agir rápido, acabou demorando até que a coisa transpirou, chegou nos ouvidos do Darli,
e pouco tempo depois o Chico assassinado. Hoje sou o Arcebispo da Diocese de Porto Velho, que tem 84.000 km2. Aqui também os povos das lu- tas têm muito carinho por mim, mas a organização popular ainda não cresceu tanto quanto cresceu no Acre. Aqui houve uma colonização heterogênea e só agora, dez anos depois da minha chegada, vejo
as primeiras lideranças nascidas no Estado. Aqui te- mos pela frente uma dura caminhada, porque agora vêm as usinas hidrelétricas, e a Amazônia continua sendo tratada como colônia pelo resto do Brasil, que
é menor do que a Amazônia. O resto do Brasil está
acostumado a tirar tudo da Amazônia, e a não deixar nada. Com as usinas do Madeira, está acontecendo o mesmo de sempre. Vão ser feitos 4.000 km de rede para levar toda a energia das usinas direto para o sul do Brasil, enquanto que nós aqui vamos continuar usando energia a óleo diesel para levar a luz até o Acre. Essa nova geração que vai ter que lutar muito para que a energia vinda da Amazônia ilumine pelo menos um pequeno pedaço da floresta. Só assim a energia tirada da água dos nossos grandes rios pode- rá evitar o triste destino da madeira, do boi e da soja, cuja exploração sempre destrói e sempre maltrata a Amazônia.
E eu brincava com ele, dizia mor-
Chico Mendes
Elson Martins
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Caderno da Floresta
Chico Mendes
O que é um empate?
No dia 9 de dezembro de 1988, Chico Mendes concedeu sua última entrevista à imprensa. Ele foi entrevistado no Rio de Janeiro pelo jornalista acreano Edílson Martins, que na época trabalhava no Jornal do Brasil e já tinha feito um documentário sobre a luta dos seringueiros para a rede Manchete de televisão. Na ocasião Chico prenunciava a emboscada que iria sofrer 13 dias depois. No depoimento, que somente foi publicado após sua morte, o seringueiro explica o que é “um empate”.
“É uma forma de luta que nós encontramos para impedir o desmatamento. É forma pacífica de resistência. No início, não soubemos agir. Começavam os desmatamentos e nós, ingenuamente, íamos à Justiça, ao Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF), e aos jornais denunciar. Não adiantava nada. No empate, a comunidade se organiza, sob a liderança do sindicato, e, em mutirão, se dirige à área que será desmatada pelos pecuaristas. A gente se coloca diante dos peões e jagunços, com nossas famílias, mulheres, crianças e velhos, e pedimos para eles não desmatarem e se retirarem do local. Eles, como trabalhadores, a gente explica, estão também com o futuro ameaçado. E esse discurso, emocionado sempre gera resultados. Até porque quem desmata é o peão simples, indefeso e inconsciente.”
Caderno da Floresta
Chico Mendes
Acervo Comitê Chico Mendes
Raimunda Bezerra
Displicente com a morte
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O " Chico quando morreu tinha uma bolsa da
ASHOKA. Coisa que conseguiu pouco antes de morrer. Assim ele passou a ter
apoio financeiro para se manter, porque ele não ti- nha nem renda. Eram os amigos que tinham o com- promisso de colaborar, desde o leite para as crianças até o cigarro. Dentre os colaboradores tinha desde professores universitários a militantes. Somente as- sim o Chico tinha condições de continuar o trabalho junto aos movimentos sindicais e sociais. Como para qualquer outro militante, isso trazia dificuldades pessoais e familiares também para o Chico. Como toda mulher, a esposa dele tinha aspi- rações de ter uma casa, uma televisão. Isso era difí- cil para ele. Então, o apoio dos amigos ajudava um pouco ele a resolver essas questões. O Chico não era um ser fora da vida. Era um homem que tinha sua família, seus filhos, não deixava de ter vida pessoal porque tinha uma militância forte.
Tudo é muito cruel na morte do Chico. Eu perce- bia nele mudanças importantes, aquelas mudanças do homem meio machista que estava percebendo outras dimensões da vida, deixando o conceito de
O Sindicato era também o lar de Chico Mendes
que a mulher deve tomar conta dos filhos, da casa e ele estar no movimento. Algumas vezes ele vinha para Rio Branco e trazia a Elenira, que ficava co- migo enquanto ele participava de reuniões. Nessas ocasiões até ajudava no serviço da casa. Ele estava vivendo essas mudanças, o que era muito interes- sante para o homem do seringal, filho de nordesti- nos, que era homem de trabalho fora, mas não de trabalho doméstico. Infelizmente não foi permitido ao Chico viver por mais tempo as experiências de um homem que compreendia a luta dos trabalhadores, mas também buscava ser um ser humano mais completo, mais
Caderno da Floresta
Chico Mendes
comprometido com as outras dimensões da vida, como a de ser pai. A Elenira e o Sandino eram muito pequenos, e a convivência com eles foi tirada dele com uma grande brutalidade. O Chico era muito generoso, todo mundo fala dele politicamente, por isso eu gosto de falar dele como pessoa. Quando o Chico morreu, meu filho caçula é um pouco mais novo que o Sandino e eles tinham a liberdade de montar cavalinho no Chico. Aquela cena dele sentado no chão dando comida para o Sandino é muito real, um homem que no meio da turbulência da luta política, no meio de um enfrentamento no qual não podia dizer onde esta-
va, encontrava tempo para alimentar o filho e para brincar com os filhos dos amigos da mesma forma que fazia com os seus próprios filhos. Matar alguém assim, por causa de interesses econômicos foi de uma violência que não tem justificativa. Passados 20 anos eu ainda não consigo esquecer. Nos últimos dias dele, eu estava doente, inclusi- ve não o vi morto. Ele chegou lá em casa, creio que foi dia 19 ou 20, o Paulo não estava e ele precisava ir embora, mas não queria me deixar só. Então pedi que fosse buscar meu pai, ele foi. Ele quase nunca se despedia antes de sair. Naquele dia ele se despe- diu, desejou Feliz Natal pra todo mundo e só depois
Caderno da Floresta
Chico Mendes
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Acervo CDDHEP
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para ele mudar a cabeça para o outro lado, assim, se atirassem, pegaria no pé. O Paulo sempre pegava a lanterna, olhava pelo quintal, olhava tudo. Uma vez ele deixou um bilhete para a Amine no CTA, dizendo que estava sendo seguido, que estava num táxi e que ia tentar ir para a nossa casa porque lá era um lugar seguro. Quando ele chegou, entrou, deixou o portão aberto, a porta aberta e foi ao ba- nheiro, quando saiu, tomou café, acendeu um ci- garro, aí falou que aquele havia sido um dia difícil. Perguntei por que e ele disse que havia sido seguido até a esquina, quando conseguiu desviar os que o seguiam. Fiquei nervosa, fiquei braba porque ele não falou quando entrou, estava tudo aberto, falei que poderiam tê-lo matado no meu banheiro. Ele era assim, calmo demais para quem era tão perseguido. Eu não sei se ele tinha consciência disso, ele vivia tenso, mas o comportamento dele era de quem sa- bia, mas não acreditava. Quando ele fez a carta que dizia quem eram as pessoas que participaram da reunião onde decidiram matá-lo, ele deu-me para ler. Até hoje me arrependo de não ter feito um esforço maior para que aquela carta não fosse publicada. Eu li a carta e falei: você acha que deve publicar? Ele disse: “eu vou para o tudo ou nada, vou dizer o que sei e vou ver o que acontece”. Falei que achava que ele não devia publi- car, se estava querendo a minha opinião. Ele disse que não, que era só para conferir os erros de portu- guês. Falei que os erros de português, naquela carta, era o de menos, o problema era o conteúdo dela. Nesse mesmo dia sugeri que ele fosse para Goiás ou qualquer outro lugar. Ele falou que Goiás e Mato Grosso era a terra da UDR se fosse para lá, também não estaria protegido. Conversamos várias vezes so- bre isso e ele sempre dizia: “vão dizer que eu fugi, que estou abandonando a luta do povo, os compa- nheiros”. Ele tinha esse tipo de preocupação. Nesse tempo já existia o Conselho Nacional de Seringuei- ros e o apoio do Professor Cristovam Buarque ao movimento. A UNB apoiou o I Encontro Nacional dos Seringueiros, falei que ele deveria procurar o Cristovam. Mas ele achava muito esquisito, que se- ria uma fuga, não concordava. Ele era muito con- vencido do papel dele na luta social.
Chico Mendes
"
Raimunda Bezerras saiu das Comunidades Eclesiais de Base para o Centro de Defesa dos Direitos Humanos criado com o apoio da igreja de Dom Moacyr. Ainda hoje permanece trabalhando neste setor, no CDDHEP – Centro de Defesa dos Direitos Humanos e Educação Popular.
pegou a estrada. Essa foi a última vez que eu o vi. Uns 20 dias antes do assassinato, ele e o Rai- mundo Barros estavam lá em casa, quando ele foi chamado para ir a Sena Madureira e Raimundo via- jou para São Paulo. Contrariando o previsto, nem ele e nem Raimundo dormiram lá naquela noite. Na manhã seguinte percebemos que tinham sumido duas toalhas da área de serviço. Olhando, vimos que as toalhas estavam próximas da cerca e que tinha rastros de calçado masculino e um maço vazio de cigarros. O irmão do Chico morava em frente a nossa casa, a cunhada dele mora lá até hoje. Quando o Chico dormia lá em casa levantava cedo, abria a porta, atravessava a rua para ir tomar café com o irmão. Provavelmente os pistoleiros sabiam dessa rotina. Se ele tivesse dormido lá aquela noite, ele poderia ter morrido lá em casa. A gente não percebeu que aquilo era uma tocaia, pensamos que era ladrão co- mum, só nos demos conta disso depois. Nos últimos tempos o Chico andava acompa- nhado pela polícia, e quando dormia lá em casa, o teimoso sempre dormia numa rede perto da jane- la, de forma que se alguém atirasse acertava bem na cabeça dele. Toda vez eu ou o Paulo pedíamos
Caderno da Floresta
Aliança dos
Povos da Floresta
“A melhor maneira de se entender um pouco o significado da luta de Chico Mendes é prestar atenção num pequeno episódio da nossa, índios e seringueiros, história recente. O Acre é uma região da Amazônia onde até a década de 70 não havia qualquer reconhecimento da existência das populações indígenas. As antigas áreas indígenas das doze tribos daquela região tinham se transformado em seringais sob controle dos coronéis da borracha e os índios em escravos des-
tes seringais. Os seringueiros, historica- mente, tinham se constituído numa es- pécie de guarda dos patrões no processo de domesticação dos índios e chegaram
a ser aliciados para fazerem guerras pu- nitivas contra grupos indígenas que se opunham aos patrões.
Nos últimos dez anos, com a luta do movimento indígena pelo resgate de sua condição e retomada do domínio de seus
territórios, o movimento dos seringuei- ros, liderado por Chico Mendes, teve
a sensibilidade de superar esta históri- ca inimizade manipulada pelos patrões
e lançar as bases da atual aliança dos
povos da floresta, que o Chico resumia assim: “Nosso povo é o mesmo povo, nós não somos mais brancos. Temos uma cultura diferente da dos brancos
e pensamos diferente dos civilizados.
Aprendemos com os índios e com a flo- resta uma maneira de criarmos os nos- sos filhos. Atendemos a todas as nossas necessidades básicas e já criamos uma cultura própria, que nos aproxima muito mais da tradição indígena do que da tra- dição dos ‘civilizados’. Nós já sabemos
disto, agora o Brasil precisa saber dis- to. Nunca mais um companheiro nosso vai derramar o sangue do outro, juntos nós podemos proteger a natureza que
é o lugar onde nossa gente aprendeu a
viver, a criar os filhos e a desenvolver suas capacidades, dentro de um pensa- mento harmonioso com a natureza, com o meio ambiente e com os seres que ha- bitam aqui.”
Ailton Krenak Coordenador da União das Nações Indígenas em 1989 e fundador da Aliança dos Povos da Floresta.
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Chico Mendes
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Foto Elson Martins
O tiro que foi ouvido no mundo todo
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Zuenir Ventura
N o dia em que Chico Mendes ia morrer, 22 de dezembro de 1988, Ilzamar Mendes queria assistir à morte de Odete Roitman.
Durante aqueles últimos oito meses, o Brasil parava às 8h30 da noite – 6h30 no Acre – para se revol- tar com as maldades da megera sem escrúpulos e sem caráter que se transformara no símbolo de um país que terminava o ano com 900% de inflação, o naufrágio do Bateau Mouche e uma sensação de impunidade generalizada – um país do Vale Tudo, como sugeria o título da novela da TV Globo de que Odete era a vilã. Se soubesse que a morte anunciada para aque- la noite só iria ocorrer na verdade dois dias depois, quase na hora da ceia de Natal, Ilzamar não se apres- saria tanto em interromper o jogo de dominó entre o marido Chico Mendes e os seus seguranças, o cabo Roldão e o Soldado Lucas. Os três sentados no ban- quinho da mesa retangular da cozinha, coberta de fórmica, jogavam desde às cinco da tarde, assistidos por d. Maria Rocha, amiga do casal Mendes. Ilzamar aproximou-se da mesa e disse: “Vocês me desculpem, mas vou servir o jantar agora, já são seis e meia, tá na hora da novela e hoje ninguém me
faz perder esse capítulo”. Eles sabiam que aquele capítulo, o 191, ela e outros 60 milhões de brasi- leiros não queriam perder. Chico ainda pediu “um minutinho” – que foi o tempo para o cabo Roldão ganhar aquela rodada. Em seguida, desfez o jogo, mandou que os companheiros fossem comendo – feijão, arroz e peixe – e chamou a Ilzamar ao quar- to: “Vou tomar banho e quero a toalha nova, a que tinha ganhado no dia 15. Justo ele que não ligava para estas coisas! “Eu, hein”, pensou Ilzamar, mas a pressa na hora era maior que a curiosidade. Que ele estreasse o presente, contanto que Le a deixasse livre para a novela. Com a toalha sobre o ombro direito, como ti- nha mania de fazer, Chico partiu em direção ao ba- nheiro, do lado de fora da casa, a uns três metros da porta da cozinha que se desce quase aos saltos, através de três degraus desiguais, toscos, numa altu- ra de oitenta centímetros. Não resistindo aos apelos de Sandino, de dois anos, que correndo atrás pedia para ir também, Chico pegou o menino no colo, foi até a porta, que se abria de dentro para fora, da es- querda para a direita, puxou o ferrolho, entreabriu-a rapidamente, assustou-se com a escuridão e voltou para pegar a lanterna. Do lado de fora, atrás do coqueiro, a uma dis- tância de 8,2 metros da entrada da cozinha, Darci
Caderno da Floresta
Chico Mendes
Alves Pereira não chegou a perceber o rápido abrir e fechar da porta. Não estava ali há muito tempo, uns
quinze, vinte minutos. Sem relógio, ele só pôde cal- cular o tempo quando fez a reconstituição do crime porque se lembrou de que, ao entrar para a tocaia, ouviu o sino da igreja tocar. Haveria uma missa de formatura de oitava série às 19h30 e, nesses casos, como informou o seminarista Miguel da Rocha Rodrigues no seu depoi- mento no dia 1º de janeiro de 1989, era costume o sino dar uma primeira chamada às 18h30. A segunda era às 19h e a última às 19h15. Com essas informações, os peritos calcularam a hora do crime: 18h45. Enquanto Darci espreitava na to- caia, Chico voltava, com Sandino no colo, para apanhar a lanterna, di- zendo: “Amanhã boto uma luz neste quintal”. Foi quando Ilzamar se lem- brou da gripe do filho. - Num pode levar, não, o menino
tá gripado, Chico!
- Ah, deixa ir, o bichinho tá que- rendo. Mas Ilzamar não abriu mão: “ Além do mais, ele tem que jantar”. Arrancou o menino do braço direi-
to do pai – o braço que dali a pouco
seria perfurado por dezoito grãos de chumbo – e foi dar-lhe de comer na sala em frente à televisão. Já estava sentada, quando ouviu a explosão. “Foi um estouro, um tiro tão vio- lento que estremeceu a casa”, não se esquecerá nunca Ilzamar. Ouviu a
“zoada”, mas não sabia de onde vi- nha. Chegou a ficar zonza. Correu
então à janela, mas não viu ninguém:
a rua vazia, a delegacia quase em
frente, a sessenta passos, incompre- ensivelmente quieta. Os dois policiais sentados em cadeiras na calçada, impassíveis, da- vam a suspeita impressão de que só eles não tinham ouvido o tiro. Nesse momento Ilzamar teve um pressentimen- to: “O Chico ta no banheiro e atiraram nele”. Uma fração de segundo foi suficiente para que de pressentimento ela passasse à certeza de que
aquele estouro, fosse o que fosse, tinha como alvo o marido. Saiu correndo, com Sandino no colo, pelo corredor que leva à cozinha, e nessa corrida ainda sofreu o esbarrão do soldado Lucas, que gritava:
“Atiraram no Chico!”. Estranhamente ele corria na direção contrária, rumo à rua – não em direção ao homem cuja vida
Jorge Viana na posição em que Chico Mendes recebeu o tiro
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Chico Mendes
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tinha por tarefa proteger nem em direção ao quin- tal de onde o pistoleiro tinha atirado. Por ordem do cabo Roldão, o soldado ia ao quartel da PM pegar uma metralhadora. Os dois estavam armados de re- vólver, mas, soubesse depois, com pouca munição. Ao chegar à porta do quarto, Ilzamar viu o ma- rido cambaleando, tentando se agarrar em alguma coisa, caindo. O sangue que cobria seu peito não deixava dúvida quanto à extensão do ferimento. Além das dezoito perfurações no braço, ele fora atingido no peito direito por 42 grãos de chumbo. “Me acertaram”, gemeu. “Ele vinha com as mãos na cabeça, todo verme- lho de sangue”, relembra Ilzamar. “Quando eu quis pegar no seu braço, ele caiu e ficou se debatendo. Aí vi que estava morrendo.” A filha, então com quatro anos, quis segurá-lo, mas só conseguia gritar: “Ma- mãe, socorre papai, ele tá sujo de sangue!”. Ilzamar abraçou-se com o marido, puxou-o para dentro do quarto e saiu gritando por socorro. Ela te- mia que, em vez de correr pelo mato, como fizeram, o pistoleiro ou pistoleiros subissem a escada da co- zinha para acabar de liquidar com o marido e toda a família, ela e os dois filhos. “Ele queria dizer alguma coisa, mas não conse- guia”, recorda quase dois anos depois Elenira, que ficou agarrada ao pai, esperando em vão que ele dis- sesse o que queria. “Ele olhava para mim, mexia com a boca, mas não saía nada.” À tarde, depois de passear com as crianças no caminhão que, por doação, conseguira para o seu sindicato, Chico encenou uma espécie de premoni- ção desta cena. No chão, rolando e brincando com Elenira, ele perguntara sem mais nem menos: ”Se seu pai morrer, você vai chorar?”. A filha disse que sim, claro, e ele tentou convencê-la a não fazer isso. “Se seu pai morrer, você tem que ser forte, tem que estudar pra continuara a luta dele.” Ao ouvir aquilo, Ilzamar se irritou: “Mas que conversa, Chico. Pára com isso!”. Agora ali, já na porta da rua, ela estava deses- perada e impotente. “Era incrível. Eu olhava para a delegacia e os dois policiais continuavam sentados. Eu gritava ‘mataram Chico Mendes, mataram Chico Mendes’ e eles nem olhavam. Eu gritava tanto e tão alto que o meu irmão, que estava distante, na casa da sogra dele, ouviu meus gritos.” Se os dois policiais tivessem se movimentado, poderiam prender Darci, que nesse momento esta-
Caderno da Floresta
va fugindo a pé em direção à Fazenda Paraná, de seu pai, onde umas duas horas depois chegou anun- ciando: “O serviço tá feito” – e feito rapidamente. “Quando ele [Chico] abriu a porta”, contou Darci na sua confissão, “o foco da lâmpada da casa dele bateu no rosto dele.” Sentado sobre uma pilha de
tijolos, Darci só teve o trabalho de levantar a es- pingarda CBC de cano longo e disparar o cartucho Gauge, calibre.20. Não precisou mirar. Acostumado
a caçar, principalmente onça, ele confessaria depois que atirou como quem atira numa caça, “porque não dá tempo de mirar”. Se a porta da cozinha não abrisse da esquerda
para a direita, mas ao contrário, o pistoleiro teria o seu trabalho dificultado. O alvo não se apresenta- ria tão visível nem tão iluminado de trás por aquele corredor de luz. Com o trabalho facilitado por esse acaso que desconhecia, Darci não precisou conferir
o serviço. “Disparei a arma e saí correndo”. Sessen-
ta grãos de chumbo haviam se alojado no corpo de Chico – dois atingiram a porta e outros poucos se dispensaram. Ao receber a carga, Chico disse “ai”, amparou-se no cabo Roldão e ainda caminhou quatro metros – a distância que separava a porta da cozinha da porta do quarto. Aí caiu. O primeiro vizinho a chegar foi o vereador do PT Júlio Nicasso, que morava três casas adiante, no mesmo lado da rua. Ele estivera com o amigo até pouco antes e fora jantar correndo para ir dar sua aula no segundo grau e em seguida voltar para continuarem o jogo. Chico ainda estava se debaten- do quando Nicasso o colocou sobre sua perna. “Ele ficou ali até que morreu”, contou ao delegado Melo Neto no dia 1º de janeiro de 1989. Na véspera do crime, Chico dissera a Nicasso que tinha chegado à conclusão de que dificilmente chegaria até o dia 30. “Ele foi categórico em dizer isso; ele disse isso pra mim e pra irmã dele”, con- tou. Impressionado por essa confidência, Nicasso voou de sua casa já sabendo: “Quando ouvi o tiro, pra mim não tinha mais dúvida nenhuma”. Chico Mendes acertou quando anunciou que ia ser morto, mas errou ao achar que sua morte poderia ser inútil. Aquele estouro que Ilzamar ouviu, no co- meço da noite de 22 de dezembro de 1988, chegou
ao mundo todo. Nunca um tiro dado no tão longe – até hoje.
Chico Mendes
Uma questão de liderança
“Eu acho que uma liderança tem um monte de qualidade, tem monte de requisitos pra poder ser realmente uma liderança, porque eu conheço muitas lideranças, mas eu acho que um dos maiores requisitos é ele ter consciência de que ele não tá naquilo por sobrevivência, mas com um objetivo de vencer, de construir algo que não é individual, e sim que é coletivo. Uma liderança tem que demonstrar clareza para os seus seguidores da categoria pela qual ele tá trabalhando, essa segurança, essa preocupação em ajudar a defender. A liderança não pode mentir, não pode ser alguém que se envolve em atos ilícitos, fazer dívida, ser alcoólatra, procurar briga. A liderança tem que ser uma pessoa que sua categoria e os demais acreditem e admirem a sua vontade de ver as coisas acontecer e não esmorecer na hora das dificuldades, seja que dificuldade for. A liderança tem que ter consciência de enfrentar diante da dificuldade que for. O Chico um dia me chamou aqui na casa dele e disse: Raimundo, nós vamos montar um esquema porque os cabra já tão atrás de nós e corre o risco deles pegarem nós dois. Eu já tô mais conhecido, já tô dominando mais essas discussões na cidade e tu domina mais essa coisa do mato, das reuniões, de mobilizar o pessoal pros empates, as reuniões da delegacia sindical. Vamos fazer isso: tu cuida dessa parte, eu vou cuidar dessa daqui, nós vamos sentar e ficar se encontrando de quinze em quinze dias que é pra estar avaliando as coisas como é que vão, porque senão esses cabra vão findar pegando nós dois e aí, se pegam nós dois, como é que as coisas vão ficar? E aí a gente teve que fazer justamente isso. Eles pegaram o Chico aqui e a informação que eu tive na véspera foi que iam me pegar lá na minha colocação. Mas graças aos cuidados que eu tive, hoje eu tô aqui, revelando essas coisas, conversando com vocês. Mas uma liderança tem que ter essas precauções, essas qualidades. Tem que ser acima de tudo um grande sonhador também, daquilo que não ele como indivíduo precisa, mas que a sua categoria precisa,
principalmente uma categoria injustiçada como era a nossa.” (Raimundão)
“Se hoje estou relatando o que ouvi é para demonstrar que estou falando do meu amigo, um ser humano normal, comum, com erros, mas com uma enorme dedicação a uma causa, a uma luta e, principalmente, com uma visão muito à frente de seu tempo Andei muitas vezes com Chico Mendes pelos seringais, onde o vi coordenar reuniões, discursar em comícios, falando sempre de forma clara e objetiva, num linguajar que era próprio dos seringueiros. Quando ele falava todos entendiam. Era uma liderança, na acepção da palavra.”
Gomercindo Rodrigues, advogado militante e amigo de Chico, é atualmente membro do Comitê Chico Mendes, atuando em prol dos trabalhadores extrativistas.
“Não podemos deixar que os que roubaram sua vida, nos roubem também sua memória. (
Me vem uma saudade, do companheiro, das suas andanças por vários seringais. E são nesses momentos que vejo que não podemos abandonar um ideal, pelo qual muitos já ficaram pelo meio
do caminho. Então, seguimos em frente, para que
)
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a |
luta dos companheiros não tenha sido em vão. |
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O |
sonho ainda é o mesmo, conseguimos construir |
algumas coisas, mas ainda estamos distantes do sonho de Chico e para realizá-lo, precisamos manter viva sua memória.”
Júlia Feitosa, historiadora, militante do PT e assessora especial do atual governo do Acre.
Elson Martins
A testemunhaA testemunha
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Trecho do capítulo “como se criam pistoleiros” do livro Chico Mendes Crime e Castigo de Zuenir Ventura
G enésio, catorze anos, dos quais sete vivendo na fazenda do maior inimigo de Chico Mendes, o pistoleiro Darly Alves da Silva, é depois do pró-
prio Chico, o personagem mais interessante desse pro- cesso. Dez minutos depois de depositar Rambo no quartel
e jogar as malas no hotel, estávamos de volta para entre-
vistar o garoto Genésio num banco na praça em frente à PM. O advogado, seu xará, contara como, na acareação com os pistoleiros, aquele quase menino enfrentara os dois com acusações contundentes e uma coragem fora do comum. Genésio não tem nada a ver com o que se conven- cionou classificar de adolescente no Sul do país, embora para os padrões locais possa ser considerado normal. Fi- sicamente, ele parece ter menos idade. É magro, enxuto, nunca jogou bola e conhece brinquedo apenas de nome. De namoro, amor e sexo, por enquanto o que guarda são duas cicatrizes mal curadas na barriga, resultado de um coice que lhe atingiu o apêndice e a bexiga. Psicologicamente, Genésio é um adulto. Seu olhar é
duro e seu riso tão raro quanto raras são as palavras que ele gasta com usura, só para responder. São respostas se- cas e seguras. E é inútil tentar pegar contradições, mes- mo quando se tem que repetir a gravação por defeito do gravador ou quando se testam as perguntas em momentos distintos. Por aquisição precoce do sentimento machista que valoriza a coragem física, Genésio mentiu uma vez, ao dizer que não tem medo de represálias.
— Mas nem do Darly, que já matou ou mandou matar tanta gente?
— Não.
No dia seguinte, ao levá-lo para comprar uma calça
e uma camisa que substituiriam o short e a camiseta sur-
rados, achamos estranho que ele não quisesse descer do carro para experimentar a roupa. Não dizia por quê, mas se negava a sair para escolher o que certamente queria. De dentro da loja, um homem insistia com o olhar em descobrir quem estava na caminhonete. Depois, já longe dali, o experimentado motorista in- formou que a loja era de um parente de Darly. Só então o garoto admitiu a razão da recusa. Sem usar a palavra medo, ele concordou que não tinha descido por causa dos parentes do seu inimigo. Trabalho maior teríamos para descobrir por que aque- la alma aparentemente sem ego, onde a vaidade parecia nunca ter entrado, resolvera oxigenar os cabelos. Não era
para ficar bonito nem para imitar algum surfista da televi- são — irritou-se com a hipótese. Por que então? Era um ardil do ingênuo e apavorado Genésio. Ele achava que assim ficaria irreconhecível. Na semana seguinte, além da água oxigenada, a cabeça tinha sido quase raspada. Mas aí não foi preciso perguntar por quê. Dos sete anos até a morte de Chico Mendes, Genésio viveu na Fazenda Paraná, de Darly Alves da Silva, que está preso com o filho Darci. Acordava às seis horas, ia pastorear o gado, dar sal, roçar e colocar veneno nos carrapichos. Sua mãe eram as quatro mulheres de Darly se odiando (Elpídia, Francisca, Margarete e Natalina), e seus companheiros de todo dia, Darlyzinho, de dezoito anos, Oloci, de 22, Darci, o Aparecido, de 21, e os mi- neirinhos (Amadeus, Francisco e Jardeir, ou Antônio) — todos com fama de pistoleiros.
— Quem visitava a fazenda?
— Visitava o João Branco, o Benedito Rosa, o Gaston
Mota, o delegado Enock, o Jonas Daguabi e o Aragão.
— O João Branco ia lá muitas vezes?
— Eu sabia da morte do Raimundo Ferreira, que pediu a
mão da filha dele em casamento, aí ele não deu. Raimun- do Ferreira também brigou com Oloci, aí mataram ele.
— Quem matou?
— O Oloci, o Aparecido e um primo do Oloci, o Rildo.
— Como é que você sabe que eles mataram?
— Porque eu ia passando de cavalo, correndo, eu nem
tava vendo eles, mas eles pensaram que eu tava vendo, eles me chamaram. Eu fui lá, vi o homem com a orelha cortada, o nariz e um beiço. — E o que eles fizeram?
— Eles chegaram em casa e empurraram uma faca na
minha barriga pra mim não contar pra ninguém. Eu falei que não ia contar não.
— Quem era o mais violento?
— Era o Darci e os três mineirinhos. Uma vez eu achei
uma caveira lá, aí bicaram revólver em cima de mim, me-
teram faca na minha barriga pra eu não contar. Eles falou que se eu contasse eles ia me matar.
— Era caveira de gente?
diram água, falaram obrigado e saíram. Aí os mineirinhos pegaram a bicicleta, passaram por eles, foram na fazenda
e falaram com os meninos que ia dois bolivianos estra-
nhos, queriam ver o que eles ia levando. Aí os meninos
foram esperar lá na frente, meteram os revólver neles, reviraram as coisas deles e pegaram maconha.
— De que cor era essa maconha?
— Branca.
— Como é que estava embrulhada?
— Dentro de um saco plástico.
— Quem eram os meninos?
— O Oloci e o Darci.
— Eles é que mataram?
— Foram os dois mineirinhos. Só escutei dois tiros.
— O que eles falavam do Chico Mendes?
— Quando eles começaram a briga deles, o véio Darly
falou que ia matar Chico Mendes, porque o Chico Men-
des ficava falando dele por trás. Disse que ele não ia ter nem mais um ano de vida. Antes de matar, ele falou que
ia pedir a mão de Chico Mendes a cumpadre só pra ma-
|
— Ia. |
— Foi. Tava queimada. |
tar. |
|
|
— Você ouviu alguma conversa sobre o Chico Mendes? |
— E a história dos bolivianos? |
— |
Como é que é? |
|
— Ouvi do João Branco com o véio Darly. O véio Dar- |
— Os bolivianos passaram na casa dos mineirinhos, pe- |
— |
Ele ia chamar o Chico Mendes lá pra ser cumpadre, e |
ly perguntou que que João Branco achava dele matar o Chico Mendes. Aí o João Branco falou que se for igual
às outras mortes que o senhor faz e num dá nada, pode matar que se der rolo e eu puder ajudar, eu ajudo.
— Isso foi quando?
— Foi no mês de novembro.
— Como é que você ouviu essa conversa?
— Eu ouvi eles falando. Tem a área assim, tem uma casi- nha assim, eu ficava de trás da casinha escutando.
— E esse João Branco foi lá muitas vezes?
— Foi umas cinco vez antes da morte de Chico Mendes.
— Ele ficava lá?
— Num tempo ele foi e ficou uma semana.
— Dormindo lá?
— Dormindo, bebendo uísque.
— Ele levava uísque ou tinha uísque lá?
— Ele levava.
— Você já conhecia ele?
— Eu conheci ele em Brasiléia. Eu fui lá mais o véio
Darly com o carro, e aí o véio Darly conversando com ele falou que era amigo dele, que chamava João Branco.
— Como é que eles te tratavam lá?
— Eles me bateram muitas vez pra eu não contar os se- gredos deles.
— Que segredos você sabia deles?
aí ia matar ele.
Zuenir reencontra Genésio aos 30 anos, em 2004, em algum lugar da floresta acreana
Caderno da Floresta
Chico Mendes
Caderno da Floresta
Chico Mendes
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Elson Martins
8
— No dia que Chico Mendes morreu, o que eles fize-
ram?
— Mataram uma vaca. Ele falou que o dia que matas-
sem o Chico Mendes, eles matavam uma vaca. E matou
mesmo.
— Você tem medo de ficar aqui?
— Não, num tenho medo não. Mas é que eles judeiam
de mim.
— Quem?
— O Zé Elias já veio aqui duas vez, me bateu dizendo
que era brincadeira, mas batendo com força. O Toninho
e o Iran, na delegacia, também fazem me bater, me pren-
der.
— O delegado não faz nada?
— Faz nada.
— Você já falou com ele?
— Falei não. Eu queria é falar com o juiz.
— O juiz vem aqui te ver?
— Nunca veio me ver não.
— Como é que você foi parar na fazenda do Darly?
— Minha mãe deu eu pra ele. Ele adulou ela, pediu, aí
ela deu.
— Você está feliz?
— Tô não.
— O que precisa pra você ficar feliz?
— Se eu for pra Rio Branco, eu fico. É só eu sair daqui.
— Você quer fazer o que lá?
— Eu queria estudar.
Genésio Ferreira da Silva é um cidadão precoce que o
destino tentou pela convivência e pelo exemplo transfor-
mar em pistoleiro. Só o mistério da índole, na falta de
outra palavra, pode ter impedido esse menino de seguir a
carreira de seus irmãos de criação e do pai adotivo. Mas
nem isso nem a condição de testemunha-chave do pro-
cesso Chico Mendes evitaram o desamparo e a solidão de
uma criança que resolveu escolher o atravancado cami-
nho da legalidade numa terra onde ela ainda não pegou.
Genésio resiste — resta saber até quando.
Quase um mês depois dessa entrevista, no dia exato em
que fazia quatro meses do enterro de Chico Mendes, Ge-
Olavo Rufino
Genésio, aos 14 anos, foi firme na acusação contra Darly Alves
nésio foi entregue à guarda do comandante da PM de Rio Branco, coronel Roberto Ferreira da Silva, um estudan- te de Letras e admirador de Gandhi por quem a cidade tem o maior respeito. Ali, Genésio ingressou na Guarda Mirim e vai estudar. No oficio em que autorizou a trans-
ferência, o juiz de Xapuri, Adair Longuini, escreveu: “A medida se faz necessária em razão de encontrar-se o me-
], além do
que figura dentre as testemunhas do caso Chico Mendes, tendo declarado em seu próprio depoimento que temia uma ação maléfica contra a sua pessoa”. Inexplicavelmente, de todas as entidades e instituições nacionais ou estrangeiras, religiosas ou laicas, interessa- das no caso Chico Mendes, a única a se sensibilizar pelo drama de Genésio Ferreira da Silva foi a Polícia Militar de Rio Branco.
nor em ambiente não muito recomendado [
Darci e Darly no julgamento em Xapuri:
19 anos de prisão
Caderno da Floresta
Chico Mendes
cada livro exposto na estante, a qual também aco- modava uma pequena televisão arredondada que me fez lembrar a infância. Entrei no corredor, observei o primeiro quarto - o do casal, onde havia um guarda-roupa com puxado- res bem grandes e quadrados. Mais uma recordação da infância me veio à mente. Ocupando o restante do quarto, uma cama de casal com um colchão de espuma coberto por lençol branco com alguns fu- rinhos. No quarto ao lado, duas camas de solteiro. Mais adiante, a cozinha. Nesta, uma senhora narra-
va o ocorrido histórico, apontando para os objetos:
uma mesa em plastifórmica vermelha com um jogo de dominó em cima e três cadeiras ao redor. A pia,
a esponja, a lata de óleo, um armário com pratos,
copos e colheres. A porta da cozinha. Fora, ficava o banheiro. Quando olhei, a senhora já mostrava a marca de tiro na porta, apontando a direção de onde veio. Narrava cada passo dado pelo dono da casa, cambaleando do banheiro à cozinha com uma toalha pendurada no ombro. Ele sangrava. Vacilei meu olhar para aquela cena. Queria pedir a
ela para parar de falar, pois a respiração me engas- gava, mas permaneci calada e retornei os olhos para
a porta. Neste momento a senhora apontava a man-
cha. Olhei bem. Apontou outra na parede ao lado. Custei firmar meus olhos embaçados. Eram manchas de sangue. Eram do dono da casa. Num misto de perturbação e indignação, questionei-me: mas como elas permanecem aí? Depois de 20 anos ninguém as limpou? Antes que continuasse minhas indagações, a senhora afirmou: “foram lavadas diversas vezes, mas elas sempre voltam. Estas manchas não saem. Pode lavar e esfregar que elas apagam na hora, mas depois retornam”. Esta informação ultrapassou o limite de meus olhos embaçados, fazendo-os verte- rem aquele sentido que me fazia engasgada desde a entrada na casa daquele homem baleado. Fiquei olhando pra mancha, imaginando nem sei o quê. Preferi desligar a razão. Tal fato estava definitivamente fora de questionamentos. Olhei pra fora, para o quarto novamente, voltei à sala, olhei para o nada. Calcei os sapatos, agradeci, desci. A mancha veio comigo. Despedi-me, vim embora. Mas a mancha me acompanhou. Já tomei banho, já chorei, já esfreguei, mas a mancha sempre volta. Agora já acostumei, faz parte da vida, pois entendi que a mancha é como seu dono: pode limpar, lavar, tentar apagar e esfregar, mas novamente aparece.
Mancha na alma
Natália Jung
O assoalho de madeira bem encerado bri- lhava. Fiquei envergonhada de entrar com os sapatos sujos de barro, os deixando na
escadinha de madeira. Uma mocinha sorridente foi logo dizendo: “aqui está tudo como era quando ele estava vivo”. Olhei a sala toda, li título por título de
As manchas
atingiram desde
a cozinha até
a entrada do
quarto de Chico
Caderno da Floresta
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Chico Mendes
Chico Mendes
Quando o fim é o começo
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N o velório de Chico Mendes, no dia 25 de dezembro de 1988, o então deputado fe- deral Luis Inácio Lula da Silva, hoje Pre-
sidente da República, fez um discurso de forte teor político diante do corpo do seringueiro e ambien- talista. O discurso foi gravado pela equipe da TV Aldeia (TVE local) e reproduzido agora, 20 anos depois, num DVD montado pelo Comitê Chico Mendes, contendo enorme acervo do líder assassi- nado por defender a Amazônia. O Chico termina numa entrevista que ele deu ao jornal do Brasil dizendo o seguinte: “Eu quero ficar
vivo para ajudar a salvar a Amazônia, eu não quero morrer, porque esse negócio de ato público depois da morte, esse negócio de grandes enterros acaba no dia seguinte”. Esse era o pensamento do velho Chico, há tempo, pois ele participou junto comigo do ato de solidariedade ao companheiro Wilson Pi- nheiro, morto em Brasiléia dento do sindicato em 21 de julho de 1980, e falou isso ( Chico conseguiu juntar a bandeira do direito ao trabalho, do direito à vida dos trabalhadores desse Estado e dessa região com uma luta pela defesa do meio ambiente. Por quê? Porque preservar o meio
Caderno da Floresta
Chico Mendes
ambiente para os trabalhadores que moram na re- gião amazônica, preservar as árvores, preservar as castanheiras, preservar as seringueiras é, na verda- de, preservar o direito do feijão e do arroz de cada criança dessa região. Porque o gado traz riqueza pro dono do gado, mas não traz sequer carne para os companheiros que trabalham aqui. E o que o com- panheiro Chico queria? Ele queria pura e simples- mente que deixassem a mata, que era instrumento de sobrevivência de milhares e milhares de traba- lhadores, em paz; que fossem plantar gado noutro lugar, criar gado noutro lugar, mas deixassem aqui a
mata, as seringueiras, as castanheiras, pros trabalha- dores sobreviverem. Na Globo (TV) o doutor Romeu Thuma, a quem
o Chico enviou várias cartas, dizia o quê? A cul-
pa é da polícia federal, é da polícia militar
Mas
nós precisamos dizer que a culpa não é apenas da
polícia, a culpa é de todos eles juntos: é da polícia federal, é da polícia militar, da justiça brasileira, da Presidência da República, porque, quando eles in- ventam que vêm aqui desarmar o povo, quem que eles desarmam? Eles pegam a espingardinha de caçar preá do trabalhador e deixam os fazendeiros com metralhadores calibre 12. O companheiro Chico não ganhou as eleições (Chico foi candidato a deputado estadual em 1982 e
a prefeito de Xapuri em 1985) e alguns imaginavam
que a partir daí fosse desanimar. Qual não foi a sur- presa dele: ao invés de desanimar, a luta do compa- nheiro Chico ganhou outra dimensão; ele começou a ser reconhecido por organismos internacionais, pelo Banco Mundial, pelo BID, pelo movimento ecoló- gico do mundo inteiro; começou a ser reconhecido,
a ganhar prêmio, a viajar e a contar no mundo o que
acontecia aqui; e começou inclusive a dar palpite, opinião sobre empréstimos que empresas estran-
geiras ou bancos estatais iam fazer aqui, e por isso aumentou o ódio dos grandes proprietários contra
o companheiro Chico. Aumentou o ódio a ponto de
culminar com a morte dele no dia 22. O quê que essas pessoas imaginam? Será que es- sas pessoas são tão burras que imaginam que matan- do Chico Mendes, mataram a luta do Chico Men- des? Será que eles não percebem (aplausos), será que esses ricos não tem exemplo na história, será que eles não percebem que esse mesmos grupos de ricos mandaram matar Jesus Cristo há dois mil anos atrás? E o povo não esqueceu as idéias de Jesus
Cristo. Será que esses mesmos não estão lembrados que foram eles que mandaram matar Tiradentes, es- quartejar e colocar sua carne pendurada nos postes, para que o povo nunca mais se lembrasse quem era Tirandentes? 30 anos depois o Brasil conquistou sua independência. Eu queria dizer pra vocês uma coisa bem sim-
ples, pra cada um de vocês guardar na cabeça. Vocês conheciam bem o caboclo Chico, vocês sabiam bem
o que Chico queria, vocês sabiam o que Chico di-
zia, vocês sabiam o que o Chico pensava. Pois bem,
o que o companheiro Chico, que deve estar no céu
nesse instante, espera de cada um? Ele espera que aumente a coragem e a disposição de luta de cada companheiro. Ele dizia sempre: no dia em que eu morrer meus companheiros vão se dobrar, cada um
vai valer por 10 e a luta vai continuar. E é isso que tem que acontecer (aplausos). Porque se agora hou- ver por parte dos trabalhadores e de todos nós, medo
e preocupação, o quê que vai acontecer? Eles vão
ficar rindo da vida e vão matar mais. O quê que nós deveremos esperar? Em primeiro lugar, nós acha-
mos que o povo brasileiro quer justiça, e que a polí- cia prenda esses assassinos do companheiro Chico. Se é verdade que esses dois sujeitos (Darli e Alvarino Alves) tinham 30 mil hectares aqui, se é verdade que eles eram bandidos em Minas e no Pa- raná e já vieram fugidos; se é verdade que aqui eles ficaram contratando grileiros e já mataram mais de um trabaçlhador, e se é verdade que essa proprie-
dade deles pode até ser grilada
acontecer como atitude nobre do governo? O gover- no deveria desapropriar essa terra e dar para os tra- balhadores rurais cultivarem, ao invés de deixá-las ficar nas mãos de bandidos e grileiros; porque, se o governo fizesse isso e cada fazendeiro que manda matar alguém perdesse sua terra, na verdade essas pessoas iriam ter medo de continuar matando traba- lhador rural ( Nós precisamos dizer em alto e bom som: o go- verno precisa começar a investigar cada crime co- locando policiais sérios pra fazer isso, porque nós sabemos que tem muitos policiais que são capachos de fazendeiros (aplausos) na cidade. É preciso que haja seriedade e vocês sabem, companheiros, pra terminar, que cada um de nós, tanto nós de São Pau- lo, como companheiros do Acre, de Rondônia, que chegaram aqui agora, sabemos que temos um com- promisso sério: é não deixar a coisa agora esfriar,
O quê que deveria
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Acervo Comitê Chico Mendes
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é não deixar, sabe, o que eles querem, que o povo
esqueça o companheiro Chico Mendes. Agora é que
nós temos que mostrar pra eles que nós vamos fazer
a luta do companheiro Chico Mendes ser conhecida
nesse país. Agora que vamos arrumar solidariedade, não apenas pra dar sobrevivência para a companhei- ra do Chico e de seus filhos, mas arrumar solidarie- dade pra dar ajuda concreta à luta dos trabalhadores que defendem a Amazônia, a luta dos trabalhadores que defendem o seringal, a luta dos trabalhadores que defendem a manutenção das castanheiras e a luta dos trabalhadores que brigam por reforma agrá- ria.
A classe dominante tá ficando com medo, por- que ela sabe que a classe trabalhadora tá ama- durecendo; ela sabe que a classe trabalhadora tá tomando consciência, ela sabe que aqui hoje tá PV, PT, daqui a pouco chegam companheiros do PMDB, daqui a pouco chegam do PDT, sei lá, o
Ela sabe que tá crescendo a
solidariedade e começa a ficar com medo. Eu acho que é um compromisso dos partidos políticos progressistas, do movimento sindical, da CUT, da CGT, que a gente precisa transformar cada palavra do Chico numa profissão de fé por esse país aí afora. Daqui a pouco eles vão per- ceber que o que Chico falava aqui e era ouvido apenas pelos companheiros do sindicato dele vai
movimento sindical
ser discutido lá no agreste de Pernambuco, lá na
Nós devere-
mos eleger o Chico, hoje, o símbolo da descrença desse governo, deveremos eleger o companheiro Chico hoje como o mártir da classe trabalhadora camponesa desse país, porque o que ele fez foi dedicar 44 anos da sua vida à luta pela liberdade dos trabalhadores. A morte do Chico não foi o fim, ela foi o início da libertação da classe trabalhadora brasileira.
Bahia, na favela de São Paulo (
).
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Secom
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Acervo do PT
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de sua floresta em pé e experimenta mudanças es-
truturais que não excluem as organizações comuni- tárias extrativistas.
A fábrica de camisinha construída no município
de Xapuri é um projeto do governo da floresta que anima os velhos e novos seringueiros, porque in- troduziu no seringal tecnologia que agrega valor ao
látex. Mais de 500 famílias já estão envolvidas com a produção dos preservativos, e outras experiências parecidas estão a caminho como política pública.
O governo empreendeu, a partir de 1999, ação
fulminante contra a violência policial e o crime or- ganizado. Depois passou a retirar o estado da men- dicância histórica que vivia em relação ao governo federal. Lideranças políticas como Jorge Viana, Ma- rina Silva, Tião Viana e Nilson Mourão, entre ou- tros, chamaram atenção do governo federal para o Estado. E agora o governador Binho Marques (his- toriador, ex-assessor e companheiro de Chico Men-
des na área de educação) assumiu o compromisso de priorizar a questão social. Tem um pouco de sorte nisso: desde 1980, o Pre- sidente Lula cultiva intimidades com as organiza-
Chico Mendes
ções populares e com a classe política do Estado. Chegou a ser condenado pelo regime militar, de- pois que fez discursos contundentes nos velórios de Wilson Pinheiro (1980) e de Chico Mendes (1988). Trechos do segundo discurso estão publicados nesta edição, na página 51. Antes de morrer, Chico pôde celebrar a Aliança dos Povos da Floresta que pôs fim a uma divergência histórica entre índios e seringueiros, instigada desde meados do século XIX pelos seringalistas. Por conta disso, hoje se vê coisa nova acontecendo no retorno dos índios às antigas aldeias; e discussões animado- ras entre as novas gerações de seringueiros, embora elas não estejam, ainda, inteiramente familiarizadas com a aplicação de novos conceitos. Acima de tudo, a figura de Chico Mendes cres- ce como símbolo no meio de idéias, tendências e novidades acerca do desenvolvimento sustentável. Cresce como homem simples que deu à vida para não abandonar os companheiros e o ambiente que sempre amou. E por ter percebido, como um visio- nário, a universalidade da luta que liderou com co- ragem comovente.
Caderno da Floresta
Recados da floresta
Lula visita fábrica de beneficiamento de castanha em Xapuri (1993)
O “hectare” que o Incra utiliza para medir lo- tes de terra ou latifúndios florestais é inser- vível para os seringueiros do Acre. Estes
calculam o tamanho e o valor da floresta pelo nú- mero colocações de seringa, ou pela quantidade de igarapés, animais ou espécies vegetais existentes. Nos anos setenta, os acordos propostos por alguns fazendeiros que queriam livrar-se dos posseiros acomodando famílias numa área retalhada em lotes de até 50 hectares, foram recusados. As colocações de seringa são mais vastas e ricas, e não possuem cercas. Chico Mendes argumentava, em 1984, que a reforma agrária deveria respeitar os contextos so- ciais e culturais específicos da Amazônia. Durante a criação do Conselho Nacional dos Seringueiros, em Brasília (1985), ele desenvolveu com seus compa- nheiros a proposta de Reserva Extrativista, unidade de conservação ambiental que não separa o homem da natureza. Considerada reforma agrária da Ama- zônia, a Resex conceituada no Acre se espalhou pelo país beneficiando pescadores, coletores de babaçu e outras categorias. Em julho de 1988 Chico Mendes declarou: “Meu sonho é ver toda essa floresta preservada, conserva- da, porque ela é a garantia do futuro dos povos da floresta. E não é só isso: nós estamos conscientes de que a Amazônia não pode ser um santuário intocá- vel, basta que o governo leve a sério a proposta dos seringueiros e dos índios; eu acredito que em pou- cos anos a Amazônia poderá se transformar numa região economicamente viável, não só para nós, mas para o país e para toda a humanidade”. Esse sonho é considerado um legado que o líder seringueiro deixou para a Amazônia. No Acre, o Par- tido dos Trabalhadores (PT) que se mantém 12 anos no governo procura torná-lo realidade, com resulta- dos visíveis. As reservas extrativistas, por exemplo, somadas a outras unidades de conservação (áreas indígenas, APAs, parques florestais e assentamentos agro-extrativistas), deixaram seringueiros e índios em paz em suas tradicionais moradas. Com mais de 50% do território (16,3 milhões de hectares) prote- gido por legislação ambiental, o Acre mantém 90%
Opiniões
Mac Margolis, da revista Newsweek: “O verdadeiro legado de Chico Mendes é a lei e a ordem, um meio rural pacífico e uma classe política em ascensão. A sustentabilidade ainda é uma pedra no caminho”.
Regina Vasquez: “O modelo acreano lembra a
“cuisine du terroir” (expressão francesa que designa
a culinária que privilegia ingredientes locais).
Utiliza-se recursos disponíveis na região – matéria- prima, mão-de-obra e cérebro –, acrescenta-se inovação tecnológica e criatividade, resgata-se a
cultura e a história. O objetivo é buscar excelência sem perder autenticidade. Chega-se assim a uma síntese do ambientalismo moderno, que leva em conta os fatores ecológicos, sociais e econômicos na busca da melhor qualidade de vida para todos, com perspectiva duradoura. A receita acreana de desenvolvimento pode ser um modelo para toda
a Amazônia e uma inspiração para o Brasil. Por
isso faz sentido o que o acreano costuma dizer: o Acre não é onde o Brasil acaba, e sim onde o Brasil começa”.
Mary Allegretti: “É surpreendente ver como o nome Chico Mendes tem o poder de gerar reações
radicais 20 anos depois que ele foi assassinado.
É mais comum do que se pensa, no Acre, ver
pessoas reagirem com raiva à menção do nome dele. Na maior parte dos casos, porém, é evidente porque isso acontece.Geralmente são pessoas que tiveram de abrir mão de extensas áreas griladas para ver no lugar uma reserva extrativista; ou aqueles que, vindo de fora, acham que podem desrespeitar a lei e seguir impunes. Essas reações, por estarem associadas às idéias propostas por Chico Mendes, reforçam o empenho em concretizar seu legado. Afinal, é isso que fazíamos antes dele ser assassinado, e continuamos a fazer até hoje. A associação entre proteção do meio ambiente, justiça social e valorização da floresta, idéias que estão no centro do seu pensamento, são, ainda hoje, inovadoras, revolucionárias, radicais. Pode-se não concordar com elas mas não se pode ignorar o poder que elas têm de mudar a realidade”.
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FLORESTA:
a diferença entre ter valor e dar lucro
Mary Allegretti
Difícil dizer qual tarefa tem sido mais árdua: se provar que a floresta tem valor ou se fazer esse va- lor se transformar em retorno financeiro para quem a explora. Nos últimos vinte anos conseguimos dar conta, em parte, da primeira; mas isso assegurou muito pouco da segunda. A Amazônia tem hoje mais de 21 milhões de hectares protegidos para uso sustentável de comu- nidades tradicionais: 64 Reservas Extrativistas e 16 Reservas de Desenvolvimento Sustentável, em 4.4.% da região. A criação destas unidades de con- servação, em si, valoriza um estoque de recursos naturais estratégicos porque elimina conflitos pelo acesso aos recursos, pré-requisito para sua utiliza- ção. Mas essa é apenas a primeira etapa de uma enorme e complexa agenda que visa transformar esse capital de recursos naturais em renda monetária permanente, hoje e no futuro.
Seringueiros e cientistas
Chico Mendes não foi o único nem o primeiro a falar que “a floresta vale mais em pé do que derru- bada”, mas com certeza essa afirmação passou a ser associada a ele depois do seu assassinato. Ele cons- truiu esse argumento com base na dependência di- reta dos seringueiros em relação à borracha, à casta-
Fábrica de preservativos em Xapuri. Valor agregado ao látex.
nha e a outros produtos da floresta que lhes assegura renda há gerações. Mas também como um cenário de futuro, como explicou em julho de 1988:
“Meu sonho é ver toda essa floresta preserva- da, conservada, porque ela é a garantia do futuro dos povos da floresta. E não é só isso…nós esta- mos conscientes de que a Amazônia não pode ser um santuário intocável… basta que o governo leve a sério a proposta dos seringueiros e dos índios, que eu acredito que em poucos anos a Amazônia poderá se transformar numa região economicamente viável não só para nós, mas para o país e para toda a hu- manidade, para todo o planeta… Que eu considero a Amazônia uma região rica, ela tem uma enorme variedade de produtos extrativistas. Ela pode ser preservada e economicamente importante prá todos nós”. Argumentos como estes começaram a ser defen- didos por cientistas logo depois. Em 1989 Peters, Gentry e Mendelsohn publicaram resultados de pes- quisa em uma área ribeirinha próxima a Iquitos, no Peru, demonstrando que a renda líquida total gera- da pela exploração sustentada de produtos flores-
tais não madeireiros era duas a três vezes maior do que a gerada pela conversão da floresta. O estudo apontou que o problema não estava no valor real dos recursos das florestas tropicais mas na falta de reconhecimento deste fato pelas políticas públicas. “Enquanto as madeiras tropicais são vendidas nos mercados internacionais, geram recursos em moeda estrangeira, são bens de exportação controlados pelo governo e apoiados por investimentos federais, os recursos não madeireiros são coletados e vendidos em mercados locais por um número incalculável de coletores florestais, intermediários e pequenos co- merciantes. Estas redes comerciais descentralizadas são extremamente difíceis de controlar e podem ser facilmente ignoradas nas contas nacionais”, afirma- ram os autores. Quando este artigo foi publicado, Chico já ha- via sido assassinado. Mas as falas de um e os dados destes e outros cientistas, nos anos seguintes, deram início a uma nova etapa na história, onde a questão deixou de ser provar o valor da floresta mas pressio- nar por investimentos para torná-la lucrativa.
A floresta viável e seus limites
Hoje a floresta dá lucro para extrativistas, agri- cultores familiares, pequenos e grandes empresários sempre que os seguintes fatores estão presentes: in- vestimentos públicos ou privados em infra-estrutura social e produtiva, tecnologia, parceria para a ges- tão de empreendimentos e mercados especializa- dos. Alguns exemplos: processamento de óleos para indústria de cosméticos na RDS do Rio Iratapuru no Amapá, na Reserva Extrativista do Médio Ju- ruá no Amazonas e no Projeto Reca em Rondônia; produção de preservativos e outros artefatos de bor- racha nativa no Acre; comercialização de pescado no Amazonas e no Pará e de camarão no Pará e no Amapá; exportação de polpa de frutas tropicais, es- pecialmente açaí, nas Reservas Extrativistas do Pará e Amapá.
Chico Mendes
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Chico Mendes
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e corre Mas
dragão
o índio,
floresta
continua
prá onde tribo devorar tamanduá
a preguiça,
habita
quem
essa mata,
vai se
dos mudar???
pé seringueiro,
tartaruga:
ligeiro,
corre-corre
Kamaiura
No lugar que havia mata, hoje
há perseguição
grileiro mata posseiro
só prá lhe roubar
seu chão
castanheiro, seringueiro já viraram até peão
Era uma vez
afora
na Amazônia a mais
os que já morreram
bonita floresta
como ave-de-arribação
mata verde, céu
Zé de Nata tá de prova, naquele
azul, a mais
imensa floresta
lugar
no fundo d’água
tem cova
gente enterrada no chão:
Iaras, caboclo
as
lendas e mágoas
os rios puxando as águas
e
Pois mataram índio
que
matou grileiro
Papagaios, periquitos,
disse um castanheiro para um
que
matou posseiro
cuidavam de suas cores
seringueiro que um estrangeiro
peixes singrando
os
roubou seu lugar
rios, curumins cheios de amores
os
sorria o jurupari, uirapuru,
seu porvir
era: fauna, flora, frutos e flores
Foi então que um
violeiro chegando
ficou tão penalizado
na região
que escreveu essa canção
Toda mata tem caipora para a
e talvez, desesperado com tanta devastação
mata vigiar
veio caipora
de fora para a mata definhar
pegou a primeira estrada,
sem rumo, sem direção
trouxe dragão-de-ferro, prá comer muita
e
com os olhos cheios de dentro do seu coração
água,
sumiu levando essa mágoa
madeira
trouxe em estilo
e
gigante, prá acabar
com a capoeira
Fizeram logo o projeto sem prá o dragão cortar madeira
Aqui termina essa história
ninguém testemunhar
para gente
de valor
prá gente que tem memória,
e toda
mata derrubar:
a floresta meu
muita crença, muito amor
se
prá defender o que ainda resta, sem rodeio, sem aresta
amigo, tivesse
pé prá andar
eu garanto, meu
era uma vez uma floresta
amigo, com o perigo
na Linha do Equador
não tinha
ficado lá
O que se corta
em segundos gasta tempo prá vingar
o fruto que dá no cacho
e
prá gente se alimentar?
depois tem o passarinho, tem o
ninho, tem o ar
igarapé, rio abaixo, tem riacho e esse rio que é
um mar
Mas o retorno financeiro destas atividades não tem escala para se contrapor ao agronegócio nem para neutralizar a exploração clandestina de madei- ra. O que se alcançou até hoje resulta mais do es- forço de cada comunidade e seus parceiros do que de uma política de desenvolvimento. Não existe infra-estrutura de produção adequada aos produtos
da floresta: crédito, assistência técnica, escoamento, armazenamento, pesquisa e capacitação.
A questão é que não podemos esperar mais 20
anos para que o valor de hoje se transforme na economia de amanhã. Além disso, a razão para va- lorizar a floresta deixou de ser exclusiva dos que
"
moram lá porque hoje todos dependem dos serviços ambientais providos por ela. Essa realidade requer uma equação radicalmente nova que, no meu enten- der, deve combinar o pagamento pelos serviços am- bientais associado ao preço dos produtos florestais, à tecnologia e inovação e a um modelo de industria- lização apropriado cujos impactos serão regionais e criarão novos ordenamentos do espaço florestal, rural e urbano. Se conseguimos o impensável – reservar imen- sos territórios de alto valor – porque não seríamos capazes de inventar uma forma adequada de explo- rá-los?
O legado de Chico Mendes não é só de conquistas. É também de impasses. A reserva extrativista é uma
espécie de contrato entre os moradores e gestores da área e o Estado. Cabe aos primeiros proteger os territórios
e usar os recursos de forma sustentável; cabe ao segundo, viabilizar recursos e políticas de educação, saúde, de- senvolvimento econômico; cabe também ao governo fiscalizar, evitar invasões e assegurar a parceria na gestão destes territórios. O poder público se concentrou mais em criar novas unidades do que em implementá-las. A criação de novas reservas é sempre importante porque elimina os conflitos a que estas pessoas estão su- jeitas em diferentes partes da Amazônia. Mas não é suficiente. Sem projetos e recursos voltados para o desen- volvimento sustentável, como vem ocorrendo em toda a Amazônia, as pessoas voltam-se à exploração do que está mais próximo e mais viável, a pecuária e a agricultura. O preço dos produtos florestais, como borracha e castanha, ficou muito abaixo do rentável e os projetos de agregação de valor são pontuais e sem escala.
A política de bolsa família tem aplacado as demandas urgentes por benefícios sociais em várias comunida-
des. Mas todos são unânimes em afirmar que não querem viver de esmola do governo quando o que fazem – a proteção da Amazônia – tem um valor infinitamente maior e mais nobre.
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Antropóloga Mary Allegretti projetou Chico Mendes fora do país.
Caderno da Floresta
Chico Mendes
Caderno da Floresta
Chico Mendes
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artes
artes
O legado de Chico Mendes não se manifestou apenas através de movimentos sociais, ambientais e políticos, mas também através da arte. Muitos artistas recordam o nome de Chico em suas músicas, peças de teatro e coreografias.
A Mulher Vaca - Hélio Melo
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Amazônia - peça musical que reúne atores britânicos e brasileiros, com roteiro dos ingleses Paul Heritage e Colin Teevan, cenografia do gaúcho Gringo Cardia e coreografias do brasileiro Jean Abreu, estreou em dezembro de 2008 em Londres – Inglaterra.
Chico Mendes: o arauto
da natureza – Samba-enredo da Escola Lins Imperial. Desfile apresentado na Sapucaí nos Carnavais de 1991 e 2007. “Quanta maldade é ver
|
O |
homem destruir |
|
|
Chico Mendes e o Encantado - com texto |
O |
que hoje encanta |
|
A |
Sapucaí |
de Ana Vitória Vieira Monteiro foi a primeira montagem da Cia. de Thaetro. Formada por artistas-educadores que se juntaram com o objetivo de trabalhar com peças de aprendizagem ambiental inspiradas em Bertold Brecht. A proposta era integrar amadores e profissionais em atos artísticos, jogos de aprendizagem ambiental
coletiva.
de Chico Mendes e Curupira no dia de seu assassinato em meio aos Empates de derrubada nos anos 80.
Amazônia
Que verde encantador Fauna tão linda Um verdadeiro festival de cor” (Letra: João Banana, Serjão, Jorge Paulo, Tuca)
Sepultura – grupo
brasileiro de hard rock/metal:
música Ambush do álbum Roots (Warner, 2001) capa cd
O texto retrata o encontro poético
Maná – grupo mexicano de pop rock: música Cuando los Angeles Lloran do álbum Cuando los Angeles Lloran (Warner, 1995) “Cuando los ángeles lloran lluvia cae sobre la aldea lluvia sobre el campanario Un ángel murió Un ángel cayó un ángel murió un ángel se fue”
Chico Mendes
Caderno da Floresta
Los Porongas –
Grupo acreano de pop rock - música Zumbi e Chico(lhé) do álbum Los Porongas (
2007)
Paul McCartney –
músico e ex-Beatles – música How Many People do álbum Flowers in the Dirt
(1989)
Tião Natureza – músico e compositor
acreano – música Chico Rei Seringueiro “Ecoou pela mata afora Cai a flor
E a seringueira chora
Em Xapuri
Chora o mundo inteiro Morre o Chico
O Chico Rei seringueiro
Mas essa mata que mata Esse povo infeliz Um dia quis fazer o Chico Rei Seringueiro feliz”
Keilah Diniz – cantora e compositora – música Doce Herói do álbum Amazônia a Deus “Chorou, chorou Nas matas de Xapuri Fogo queimou Ardeu em meu coração”
Sérgio Souto – músico e compositor acreano – música Fruto e Flor “Olhos de criança, brilho de cristal
Sandino e Elenira, fruto e flor, casal
A morte é vencida pela vida assim
De pai pra filho e por diante
É a natureza em seu ciclo vital
não tem mais fim.
Contra a violência, um ponto final
A mentira aqui não faz morada e jaz
Atrás das grades. muito longe dos seringais”
Caderno da Floresta
Chico Mendes
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Secom
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Prêmio Chico Mendes de Cultura. Comitê Chico Mendes e Centro dos Trabalhadores da Amazônia. Brasília, edição do Senado Federal, 2005.
Chico Mendes: um povo da floresta. Edílson Martins. Rio de Janeiro, editora Garamond, 1998.
O Sonho de Chico Mendes. Filme de Ricardo Paranaguá.
Produção: Pau-Brasil Comunicação, 1995 (25 min).
Saiba
mais
sobre
Chico
Mendes
50 Grandes ambientalistas: de Buda a Chico Mendes. Joy A. Palmer (Organizador). Tradução Paulo Cezar Castanheira. São Paul, editora Contexto, 2006.
Tempo de queimada, tempo de morte: o assassino de Chico Mendes e a luta em prol da floresta amazônica. Andrew Revkin. Tradução de Wilma Freitas Ronald de Carvalho. Rio de Janeiro, editora Francisco Alves, 1990.
Chico Mendes: crime e castigo: quinze anos depois,
o autor volta ao Acre para concluir a mais premiada
reportagem sobre o herói dos povos da floresta. Zuenir Ventura. São Paulo, editora Companhia das Letras, 2003.
Caminhando na Floresta. Gomercindo Rodrigues, editora Floresta, Rio Branco, 2003.
O Testamento do Homem da Floresta. Chico Mendes por
ele mesmo. Cândido GrzybowskI. Rio de Janeiro, editado pela Fase, 1989.
Deixem Chico Mendes em paz. Revista Veja, nº. 50, dezembro de 1990.
Terra e Liberdade: A Luta dos Posseiros na Amazônia Legal. José de Souza Martins. Rio de Janeiro, Boletim da ABRA nº. 1, sobre Reforma Agrária, 1979.
Chico Mendes por ele mesmo. Chico Mendes, Martin Claret Editores, 1992.
A Saga de Chico Mendes. J. Moro, editora Página Aberta,
1993.
Amazônia em Perigo. O Assassínio de Chico Mendes. Portugal, Círculo de Leitores, 1991.
O Mundo em Chamas. A devastação da Amazônia e a tragédia de Chico Mendes. A. Shoumatoff, editora Best Seller. Brasília, MEC, 1990.
O Empate contra Chico Mendes. Márcio Souza, editora Marco Zero, 1990.
Geografando nos Varadouros do Mundo. Carlos Walter Porto Gonçalves. Edição IBAMA, 2003.
Caderno da Floresta
Chico Mendes
•Biblioteca da Floresta Ministra Marina Silva
Via Parque da Maternidade, s/nº - Centro. CEP. 69.900-000 – Rio Branco – AC Tel.: (68) 3223-9939 | Fax: (68) 3223-5659 e-mail: biblioteca.floresta@ac.gov.br http://www.bibliotecadafloresta.ac.gov.br
•Instituto Chico Mendes
Av. Ceará, 638, Shopping Rafaella, Sala 9 – Centro CEP: 69.912-340 - Rio Branco – AC Tel./Fax: +55 (68) 3224 2365 e-mail: contato@chicomendes.org.br http://www.chicomendes.org.br
•Seringal Cachoeira
Local onde residem alguns familiares de Chico Mendes e onde há a Pousada Ecológica Cachoeira Km 180 da BR 317 em Xapuri-AC Contato via CAT - Tel.: (68) 3222 7661 / 08006473998
•Conselho Nacional do Seringueiro - CNS
cnsacre@bol.com.br Tel.: (68) 3223 2622
•Comitê Chico Mendes
Av. Epaminondas Jácome, 1994 - Cadeia Velha, Rio Branco - Acre - Brasil CEP: 69.908-420 Fone: (68) 223-2727 Fax: (68) 223-3260 comitê@chicomendes.org www.chicomendes.org
•Casa do Chico Mendes
Rua Batista de Moraes, nº 10 – Xapuri – AC Aberta para visitação em horário comercial
Caderno da Floresta
Chico Mendes
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O sonho que cresce no chão da floresta
|
Não freqüentas mais, |
Os inimigos da vida, |
A |
tua própria morte |
Avançamos pelas sendas |
Vêm no meu canto o rumor dos remos |
||||
|
de |
corpo comovido, |
tremendo de medo da aurora, |
nos alcança a fundura |
que ajudaste a abrir |
dos pescadores de pirarucu; |
||||
|
os |
espaços do mundo. |
ceifaram ferozes |
mais azul do peito |
e para que não nos percamos, |
o |
papagaio banda-de-asa |
|||
|
A |
medida do tempo não te alcança. |
o |
teu caminho escrito |
com um brado companheiro, |
cuidadosos dos atalhos, |
dos meninos da várzea, |
|||
|
Já |
ganhaste a dimensão do sonho, |
por indeléveis letras. |
que nos chama, nos clama, |
deixaste acesas as estrelas |
barrigudinhos, magrelos, |
||||
|
és |
luzeiro da esperança. |
Só porque tiveste |
é |
chama que nos chama |
da perseverança |
]mas que já estão na escola |
|||
|
Vinte anos são só um lindo sinal que a memória nos serve |
o |
dom de sonhar, como convém e é bom, com os pés fincados |
para amassar o barro, preparar a pizarra aparelhar os esteios |
cravadas nos troncos das seringueiras, nas sacopemas das sumaumeiras, nas palmas das inajazeiras, |
( às vezes dormem com fome, viva o chibé de erva-cidreira). |
||||
|
para dizer que te amamos, |
na verde verdade |
de |
massaranduba, |
nas folhas das imbaubas que guardam o sol |
Trago o canto do sindicato numeroso |
||||
|
irmão dos mananciais. |
do chão de cada dia. |
itauba, pau d´arco |
no segredo das suas nervuras |
dos pássaros de asas queimadas |
|||||
|
e, |
pacientes, construir |
e |
até nas favas morenas |
pelas brasas dos desumanos; |
|||||
Chegado foste ao mundo,
de coração já acreano
-a fronte estrelada, o peito caudaloso -,
Doidos por te dar sumiço cuidavam que podiam amordaçar a fé no reinado da justiça
as esplêndidas cidades.
A mão da tua sagrada ira
escreve os algarismos sinistros
da acapurana menina tua companheira de empate.
É preciso dizer que às vezes
Thiago de Mello nasceu na cidade de Barreirinha- AM em 30 de março de 1926. Poeta, conhecido
internacionalmente por sua luta em prol dos direitos humanos, pela ecologia
e pela paz mundial, foi
perseguido pela ditadura
militar, tendo se exilado no Chile, onde encontrou em Pablo Neruda um amigo
e companheiro por toda
a vida. Seus trabalhos foram publicados em
diversos países da América
e Europa, destacando-
se o poema Estatuto do Homem e o livro Poesia Comprometida com a Minha e a Tua Vida.
suor contente das quebradeiras de coco, das fazedoras de farinha dágua, das amassadoras de açaí.
o
|
para que te cumprisses |
e |
converter em moeda |
dos hectares de esmeraldas |
nos morde uma sombra de desânimo |
E termino este aceno de mão agradecida com o abraço das crianças amazônicas que ainda vão nascer, abençoadas pelo majestoso arco-iris de amor que se ergue, úmido de seiva, das terras-firmes do alto Xapuri, com as cores de todas as raças humanas, |
||||
|
na construção do triunfo |
o |
esplendor da primavera. |
devorados pela hedionda lâmina e |
nos estremece a fúria |
|||||
|
do que no homem é grandeza, |
Nem pressentir podiam que és da estirpe dos seres destinados a durar no caminho dos homens. Agora inabalável, prescindes do corpo para prosseguir plantando |
de |
gaz, fogo e ingratidão. |
dos terçados da opulência que não dorme e é cheia de olhos. |
|||||
|
é |
orvalho indignado e lúcida bondade. |
E |
logo nos atravessas |
||||||
|
a |
espessura das cinzas |
||||||||
|
Atendias (atendes) altivos chamados: |
e |
os nossos passos seguem |
É quando os pássaros da floresta nos acodem confiantes ( as corujas prolongam as suas despedidas das estrelas) cantando as sílabas alegres do teu nome de menino. |
||||||
|
a floresta e os seus povos e, deixa que eu te diga, |
os |
sinais que deixaste |
|||||||
|
nas veredas injustas. |
|||||||||
|
o |
povo geral do mundo, |
||||||||
|
precisavam (precisam) |
e |
repartindo sementes. |
Por isso te canto, irmão. |
Barreirinha, Amazonas, primavera de 2008 |
|||||
|
constantes da esperança com que semeavas (semeias) |
Tu nos fazes capazes (o ferrão da fera dói) |
||||||||
|
Perduras e és conosco. Nos levas, te levamos. |
|||||||||
|
o |
poder da descoberta |
de |
cuidar do chão e do céu |
||||||
|
de |
que o amor é possível. |
Eis que a vida do homem |
deste reino da claridão verde |
||||||
|
é |
o que ele faz e fala, |
nosso berço e morada, que nela e dela vivemos. |
|||||||
|
escreve e canta. Vives: |
|||||||||
|
dás fundamento ao por vir. |
|||||||||
Caderno da Floresta
Chico Mendes
Caderno da Floresta
Chico Mendes
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Rafael Johann
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"No início pensei que estivesse lutando para salvar as seringueiras; depois pensei que estivesse lutando para salvar a floresta amazônica; agora percebo que estou lutando pela humanidade"
Chico Mendes, 1986
Caderno da Floresta
Chico Mendes
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