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25/03/13

[Crônicas da Ciméria · Conan] Espadas da Irmandade Vermelha - Grupos do Google

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[Crônicas da Ciméria · Conan] Espadas da Irmandade Vermelha

Fernando Neeser de Aragão Postado no grupo: Crônicas da Ciméria · Conan

15/04/2012 10:22

(por Robert E. Howard)

1) Os Homens Pintados

Num momento, a clareira estava vazia; no seguinte, um homem se erguia tensamente na beira do matagal. Nenhum som avisou os esquilos vermelhos da sua chegada; mas os pássaros que esvoaçavam ao redor, na luz do sol, se assustaram repentinamente diante da aparição e se ergueram num bando ruidoso. O homem franziu a testa e olhou rapidamente para trás, em direção ao caminho pelo qual viera, temendo que o vôo dos pássaros pudesse ter denunciado sua presença. Então, ele se moveu pela clareira, pisando cautelosamente. De estrutura alta e musculosa, ele se movia com a facilidade flexível de uma pantera.

Estava nu, exceto por uma tanga ao redor dos quadris, e seus membros tinham linhas cruzadas de arranhões de sarças, além de estarem empastados com lama seca. Havia uma bandagem incrustada de marrom, amarrada ao redor de seu densamente musculoso braço esquerdo. Sob uma emaranhada cabeleira negra, seu rosto era contraído e magro, e seus olhos queimavam como os de um animal ferido. Ele mancava levemente, enquanto abria seu caminho ao longo da trilha indistinta que cruzava o espaço aberto.

No meio da clareira, o homem parou subitamente e girou, quando um grito prolongado trinou desde a floresta atrás. Soava mais como o uivo de um lobo. Mas ele sabia que não era um lobo.

A fúria queimou em seus olhos injetados de sangue, quando ele se virou novamente e correu ao longo da trilha, a qual, ao deixar a clareira, corria ao longo da orla de um denso matagal que se erguia numa sólida moita de plantas verdes, entre as árvores e arbustos. Seu olhar percebeu e se fixou num grande tronco caído de árvore, profundamente cravado na terra de grama. Ficava paralelo à margem do matagal. Ele parou novamente, e olhou para trás em direção à clareira. Para o olho inexperiente, não havia sinais que mostrassem sua passagem, mas para sua visão treinada na selva, os traços de que ele havia passado eram totalmente evidentes. E ele sabia que seus perseguidores poderiam ver suas pistas sem esforço. Ele rosnou silenciosamente, a fúria vermelha lhe crescendo nos olhos – a ira berserk de uma fera caçada, a qual está prestes a ficar encurralada –, e puxou o machado de guerra e a faca de caça do cinto que lhe segurava a tanga.

Então, ele caminhou rapidamente pela trilha com falta deliberada de cuidado, esmagando aqui e ali uma folha de grama com o pé. Entretanto, quando alcançou a extremidade posterior do grande tronco caído, pulou sobre ele, girou e correu levemente ao longo deste. A casca havia sido há muito apagada pelos elementos da natureza. Agora, ele não deixou nenhum sinal para alertar aqueles atrás de si, de que havia dobrado em sua trilha. Ao alcançar o ponto mais denso do matagal, ele sumiu como uma sombra, mal deixando o vibrar de uma folha lhe indicar a passagem.

Os minutos se arrastaram. Os esquilos vermelhos voltaram a cavaquear nos galhos

estiraram e ficaram subitamente mudos. A clareira foi novamente invadida. Tão silenciosamente quanto o primeiro homem havia aparecido, outros três homens emergiram do lado leste da clareira. Eram homens de pele escura, usando apenas tangas de pele curtida de gamo, enfeitadas por contas, e mocassinas, e estavam horrendamente pintados.

logo, se

Haviam examinado cautelosamente a clareira, antes de caminharem até o campo aberto. Logo, eles deslizaram para fora das moitas sem hesitação, em cerrada fila única, pisando suavemente e se inclinando para olhar a trilha. Mesmo para estes sabujos humanos, seguir a trilha de um homem branco não era tarefa fácil. Ao se moverem lentamente pela clareira, um dos homens se

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enrijeceu, grunhiu e apontou, com uma lança de ponta de sílex, para uma folha pisada de capim na qual a trilha adentrava a floresta. Todos pararam instantaneamente, seus negros olhos de contas procurando pelas paredes da floresta. Mas sua caça estava bem escondida. Não detectaram nada que indicasse que ele estava agachado a poucos metros deles. Em seguida, continuaram caminhando, agora mais rapidamente, seguindo as marcas tênues, as quais pareciam denunciar que sua presa estava ficando descuidada, devido à fraqueza ou ao desespero.

Assim que passaram pelo ponto onde o matagal se aglomerava mais perto da antiga trilha, o

homem branco pulou para dentro da vereda e enfiou sua faca entre os ombros do último homem.

O ataque foi tão rápido e inesperado, que o índio não teve chance de se salvar. A lâmina estava

em seu coração, antes dele perceber que corria perigo. Os outros dois giraram rapidamente, com

a agilidade urgente e aguda dos selvagens; mas, enquanto sua faca afundava, o branco deu um

tremendo golpe com o machado de guerra em sua mão direita. O segundo índio recebeu o golpe enquanto estava se virando, e teve o crânio partido.

O índio restante correu selvagemente para o ataque. Ele tentou apunhalar o peito do homem

branco, enquanto o matador puxava seu machado do crânio do morto. Com habilidade espantosa,

o branco lançou o cadáver flácido contra o selvagem, e em seguida o atacou tão furioso e

desesperado quanto a investida de um tigre ferido. O índio, cambaleando sob o impacto do cadáver, não tentou deter o machado que caía. Com o instinto de matar submergindo até mesmo

o de viver, ele dirigiu sua lança ferozmente ao peito largo de seu inimigo. Mas o branco tinha a vantagem de uma mente mais rápida e uma arma em cada mão. Seu machado golpeou a lança para um lado, e a faca na musculosa mão direita rasgou para cima, dentro da barriga pintada.

Um uivo assustador explodiu dos lábios do índio, quando este desabou estripado – um grito, não de medo ou de dor, mas de frustrada fúria bestial; o guincho de morte de uma pantera. Foi respondido por um breve coro de gritos, a alguma distância a leste da clareira. O branco se sobressaltou convulsivamente e girou, agachando-se como uma coisa selvagem encurralada, os lábios rosnando. O sangue lhe escorria pelo antebraço, vindo de dentro da bandagem.

Com uma praga incoerente, ele girou e fugiu para oeste. Ele agora não escolhia seu caminho cuidadosamente, mas corria com toda a velocidade de suas longas pernas. Atrás dele, a floresta ficou quieta por um instante; logo, um uivo demoníaco irrompeu do ponto que ele tinha acabado de deixar. Seus perseguidores haviam achado os corpos de suas vítimas. Ele não tinha fôlego para praguejar, e o sangue de seu ferimento recém-aberto deixava um rastro que até uma criança conseguiria seguir. Ele havia esperado que os três índios aos quais matara fossem os únicos do grupo de guerra que ainda o perseguia. Mas ele deveria saber que estes lobos humanos nunca abandonam uma trilha de sangue.

A floresta estava novamente em silêncio, e isso significava que estavam correndo atrás dele, seu

caminho traído pelo rastro de sangue que ele não conseguia deter.

Um vento, vindo do oeste, soprou contra seu rosto, carregado de umidade salgada. Ele sentiu uma vaga surpresa. Se estava tão perto do mar, então a longa perseguição tinha sido ainda mais longa do que ele havia percebido. Mas estava perto do fim. Mesmo sua vitalidade lupina estava declinando diante do terrível esforço. Ele respirou ofegante, e sentiu uma dor aguda no lado. Suas pernas tremiam de cansaço, e a que coxeava doía como se houvesse um corte de faca nos tendões, a cada vez que ele punha o pé no chão. Ele havia seguido ferozmente os instintos da selva que o gerara, forçando cada nervo e tendão, exaurindo cada astúcia e artifício para sobreviver. Agora, no seu limite, ele obedecia outro instinto, procurando um lugar para ficar encurralado e vender sua vida a um preço sangrento.

Ele não abandonou a trilha, em busca das profundezas emaranhadas em ambos os lados. Agora ele sabia que era inútil se esquivar de seus perseguidores. Continuou correndo pela trilha, enquanto o sangue latejava cada vez mais alto em seus ouvidos, e cada inspiração era uma arfada torturante por entre os lábios secos. Atrás dele, se ergueu um latido louco, sinal de que eles estavam próximos aos seus calcanhares e na expectativa de logo alcançarem-no. Eles agora viriam tão rápidos quanto lobos famintos, uivando a cada pulo.

Abruptamente, ele saiu da espessura das árvores e viu, à sua frente, o terreno se elevando e a

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antiga trilha serpenteando para cima de saliências rochosas entre matacões irregulares. Uma

vertiginosa névoa vermelha flutuou diante dele, enquanto examinava atentamente a colina até a qual chegara: um penhasco rugoso que se erguia verticalmente da floresta ao redor de seus pés.

E a trilha indistinta serpenteava para o alto, até uma larga saliência próxima ao topo.

Aquela saliência seria um lugar tão bom quanto qualquer outro para morrer. Ele subiu a trilha claudicando, subindo com mãos e pés nos locais mais íngremes com a faca entre os dentes. Ele ainda não havia alcançado a saliência, quando uns 40 selvagens pintados saíram correndo de entre as árvores.

Seus gritos se ergueram até um crescendo diabólico, enquanto eles corriam em direção ao pé do penhasco, atirando flechas à medida que se aproximavam. As setas choviam ao redor do homem

que galgava obstinadamente, e uma delas lhe acertou a barriga da perna. Sem parar de subir, ele

a arrancou e lançou para um lado, sem dar importância às flechas menos certeiras que se

estilhavam nas rochas ao redor. Severamente, ele se arrastou por sobre a beirada da saliência e girou ao redor, puxando sua machadinha e pondo a faca na mão. Ele ficou deitado, olhando para seus perseguidores por sobre a beirada – apenas sua cabeleira desgrenhada e olhos brilhantes visíveis. Seu peito volumoso ofegava, enquanto ele bebia o ar em enormes arfadas estremecidas, enquanto cerrava os dentes contra uma náusea desconfortável.

Os guerreiros avançaram, pulando agilmente sobre as rochas ao pé da colina, alguns substituindo os arcos por machados de guerra. O primeiro a alcançar o penhasco foi um chefe musculoso, com uma pena de águia em seu cabelo trançado. Ele parou brevemente, com um dos pés na trilha inclinada, a flecha entalhada e meio puxada para trás, a cabeça lançada para trás e os lábios abertos para gritarem. Mas a seta nunca foi atirada. Ele se congelou com a imobilidade de uma estátua, e a sede de sangue em seus olhos negros deu lugar a um olhar feroz de sobressaltado reconhecimento. Recuou com um grito, escancarando os braços para impedir o avanço de seus bravos uivantes. O homem que se agachava na saliência acima entendia a língua deles, mas estava em local muito alto para entender o significado das frases desconexas, faladas bruscamente aos guerreiros pelo chefe com pena de águia.

Mas todos pararam de ganir e ficaram olhando, mudos, para cima – não para o homem na saliência, mas para a própria saliência. Logo, sem maior hesitação, eles afrouxaram seus arcos e os enfiaram em caixas de pele curtida de gamo, ao lado de suas aljavas; viraram as costas e correram pelo espaço aberto, para desaparecerem na floresta sem olharem para trás.

O homem branco os olhou, assombrado, reconhecendo o caráter decisivo, expresso na partida.

Sabia que eles não voltariam. Estavam se dirigindo para sua aldeia, a mais de 1600 km a leste.

Mas era inexplicável. O que havia neste refúgio, para fazer com que um grupo de guerreiros vermelhos abandonasse uma perseguição, à qual eles seguiram por tanto tempo, com toda a fúria de lobos famintos? Havia uma dívida sangrenta entre eles. Ele havia sido prisioneiro deles, e escapara; e, nessa fuga, um famoso chefe-de-guerra havia morrido. Foi por isso que aqueles guerreiros o haviam seguido tão implacavelmente, sobre rios largos, montanhas e através de longas léguas de floresta escura – os territórios de caça de tribos hostis. E agora, os sobreviventes daquela longa perseguição davam as costas quando o inimigo deles estava capturado e encurralado. Ele sacudiu a cabeça, deixando o enigma para lá.

Ele se ergueu cautelosamente, atordoado pelo longo esforço, mal capaz de perceber que havia acabado. Seus membros estavam rígidos e seus ferimentos doíam. Ele cuspiu secamente e praguejou, esfregando seus olhos ardentes e injetados de sangue, com as costas de seu grosso pulso. Ele piscou e examinou os arredores. Abaixo dele, a selva verde ondulava e se encapelava até uma longa distância, numa massa sólida, e, acima de sua orla ocidental, se erguia uma névoa azul cor-de-aço, a qual ele sabia que pairava sobre o oceano. O vento lhe agitava a cabeleira negra, e o salgado cheiro penetrante da atmosfera o reviveu. Ele expandiu seu peito enorme, e o inspirou.

Logo, ele deu a volta, duro e dolorido, rosnando diante da pontada em sua panturrilha que sangrava, e examinou a saliência onde se encontrava. Atrás dela, se erguia um penhasco perpendicular e rochoso, até o topo daquele escarpado, uns nove metros acima dele. Uma estreita escada de mão, com buracos para as mãos, havia sido escavada na rocha. E, a poucos

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passos de distância, havia uma fenda na parede, larga e alta o suficiente para deixar entrar um homem.

Ele claudicou até a fenda, olhou para dentro dela e grunhiu explosivamente. O sol, pairando no alto da floresta ocidental, se inclinava até a rachadura, revelando uma caverna em forma de túnel além desta e iluminando fracamente o arco no qual este túnel terminava. Naquele arco, estava embutida uma pesada porta com tranca de ferro!

Seus olhos se estreitaram incrédulos. Esta região era uma selva uivante. Por 1600 km, esta costa era nua e inabitada, exceto pelas esquálidas aldeias, de tribos de comedores de peixe, as quais eram ainda mais baixas na escala de vida do que suas irmãs, que moravam na floresta. Ele nunca havia questionado sua noção de que era, provavelmente, o primeiro homem de sua cor a pôr o pé nesta área. Mas ali estava aquela porta misteriosa, evidência muda de civilização européia.

Sendo inexplicável, era objeto de suspeita, e suspeitosamente ele se aproximou, com machado e faca prontos. Então, quando seus olhos injetados ficaram mais acostumados à suave escuridão que se escondia a cada lado da estreita seta de luz solar, ele percebeu algo mais – arcas compactas e com trancas de ferro se enfileiravam ao longo das paredes. Um brilho de compreensão lhe chegou aos olhos. Ele se curvou sobre uma delas, mas a tampa resistiu aos seus esforços. Erguendo sua machadinha para despedaçar a antiga tranca, ele mudou abruptamente de idéia e manquejou em direção à porta arcada. Seu porte agora estava mais confiante, suas armas lhe pendendo dos lados. Ele empurrou a porta entalhada com adornos, e ela girou para dentro sem resistência.

Então, suas maneiras mudaram novamente. Com a rapidez de um relâmpago, ele recuou com uma praga sobressaltada, faca e machado faiscando em posições de defesa. Postava-se ali como uma estátua ameaçadora, esticando o pescoço sólido para olhar ferozmente através da porta. Era mais escuro na larga câmara natural, dentro da qual ele estava olhando, mas uma vaga incandescência irradiava de uma pilha brilhante, no centro da grande mesa de ébano, ao redor da qual se sentavam aquelas formas silenciosas, cuja aparição lhe havia sobressaltado.

Eles não se moviam; nem sequer viravam as cabeças.

- Estão todos bêbados? – ele indagou rudemente.

Não houve resposta. Ele não era fácil de ser embaraçado, mas agora estava desconcertado.

- Vocês poderiam me oferecer um copo desse vinho que estão bebendo. – ele rosnou – Por Satã,

vocês mostram pouca cortesia para um homem que é um de sua própria irmandade. Vocês vão

?

Sua voz silenciou, e em silêncio ele ficou e encarou, por um tempo, aquelas figuras fantásticas que se sentavam, tão silenciosas e imóveis, ao redor da grande mesa de ébano.

- Não estão bêbados. – ele murmurou em seguida – Não estão sequer bebendo. Que brincadeira do diabo é esta?

Ele atravessou a entrada e, instantaneamente, estava lutando por sua vida contra os dedos assassinos e invisíveis, que tão subitamente lhe agarraram a garganta.

2) Homens do Mar

E na praia, a não muitas milhas de distância da caverna onde as figuras silenciosas estavam sentadas, outras sombras, mais densas, estavam se aglomerando sobre as vidas complicadas dos homens

Françoise d’Chastillon mexia ociosamente numa concha marinha, com um dedão graciosamente calçado em chinelo, comparando suas delicadas beiradas rosas com a primeira bruma rosa da aurora que se erguia sobre as praias nebulosas. Agora já não era aurora, mas o sol não estava muito alto, e a névoa cinza-pérola, soprada pelo vento sobre as águas, ainda não havia sido dissipada.

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Françoise ergueu sua cabeça esplendidamente formada, e encarou um cenário que era alheio e repulsivo para ela, mas sombriamente familiar em cada detalhe. As areias castanho-amareladas corriam de seus pés para encontrarem as ondas, que lambiam suavemente a praia e se estendiam para oeste, até se perderem na névoa azul do horizonte. Ela se encontrava na curva sul da baía, e ao sul dela a terra se inclinava para o alto, até a baixa aresta que formava um chifre daquela baía. Daquela aresta, ela sabia, dava para se olhar para o sul, de um lado a outro das águas simples – até distâncias infinitas, tão absolutas quanto a visão para oeste e norte.

Virando-se em direção à terra, ela examinou distraidamente a fortaleza que era sua casa há um ano. Contra o azul-celeste, pairava a bandeira dourada e escarlate de sua família. Ela reconheceu as figuras de homens labutando nos jardins e campos que se amontoavam próximos ao forte, o qual, ela sabia, parecia recuar da trincheira sombria da floresta que margeava a faixa aberta no leste, e se estendia para o norte e sul tão longe quanto ela conseguia ver. Além dela, a leste, avultava uma grande cadeia de montanhas que separava a costa do continente que ficava além dela. Françoise temia aquela floresta flanqueada por montanhas, e seu medo era partilhado por todos naquele pequeno assentamento. A morte se escondia naquelas profundezas sussurrantes – morte rápida e terrível, morte lenta e hedionda, oculta, pintada e incansável.

Ela suspirou e se moveu apaticamente em direção à beira da água. Os dias que se arrastavam tinham todos uma só cor, e o mundo das cidades, cortes e alegrias parecia estar distante, não apenas milhares de milhas, mas longas eras. Mais uma vez, ela procurava em vão pelo motivo que havia feito com que um conde da França fugisse, com seus dependentes, para esta costa selvagem, trocando o castelo de seus ancestrais por uma choupana de troncos de árvores.

Seus olhos se suavizaram com o leve bater de pequenos pés descalços pelas areias. Uma menina, completamente nua, veio correndo sobre a baixa aresta arenosa, seu corpo esguio pingando água e seu cabelo loiro molhado e empastado em sua pequena cabeça. Seus olhos ansiosos estavam arregalados de agitação.

- Oh, milady! – ela gritou – Milady!

Ofegante de sua corrida, ela fez gestos incoerentes. Françoise sorriu e abraçou a criança. Em sua vida solitária, Françoise concedia a ternura de uma natureza sinceramente afetuosa à lamentável criança abandonada, a quem havia pegado no porto francês do qual a longa viagem havia começado.

- O que está tentando me dizer, Tina? Tome fôlego, criança.

- Um navio! – gritou a menina, apontando para o sul – Eu estava nadando numa piscina que o mar havia escavado na areia, do outro lado da aresta, e eu o vi! Um navio, vindo do sul!

Ela puxou a mão de Françoise, seu corpo esguio todo trêmulo. E Françoise sentiu o próprio coração bater mais forte, diante do pensamento de um visitante desconhecido. Elas não viram uma vela de navio, desde que chegaram a este litoral estéril.

Tina correu à frente dela sobre as areias amarelas. Subiram a baixa aresta ondulante, e Tina equilibrou-se ali – uma esguia figura branca destacada contra o céu que clareava, seu cabelo molhado lhe soprando ao redor do rosto fino, e um braço delicado estirado:

- Veja, milady!

Françoise já tinha visto – uma vela branca, inchada pelo vento refrescante que batia ao longo da costa, a poucas milhas do cabo. Seu coração deu um pulo. Um pequeno evento pode parecer grande em vidas isoladas e sem cor; mas Françoise sentiu uma má premonição. Ela sentiu que este navio a vela não estava ali por mero acaso. O porto mais próximo era o Panamá, milhares de milhas ao sul. O que trouxe este forasteiro à solitária Baía d’Chastillon?

Tina se agarrou à sua senhora, a apreensão lhe atormentando o rosto delgado.

- Quem pode ser, senhora? – ela gaguejou, o vento lhe colorindo as bochechas pálidas – Será

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que é o homem a quem o conde teme?

Françoise desceu o olhar para ela, e sua testa se ensombreceu:

- Por que diz isso, criança? Como sabe que meu tio teme alguém?

- Deve temer – Tina respondeu singelamente –, ou ele jamais teria vindo se esconder neste lugar desolado. Veja, milady, como se aproxima rapidamente!

- Precisamos sair e informar meu tio. – murmurou Françoise – Vista-se, Tina. Depressa!

A menina desceu apressadamente a baixa inclinação, até a piscina onde se banhava quando avistou a embarcação, e agarrou rapidamente os chinelos, meias e vestido que deixara sobre a areia. Saltou de volta para a elevação, pulando grotescamente enquanto se vestia em meia fuga.

Françoise, observando ansiosamente a vela que se aproximava, tomou-lhe a mão e elas se apressaram em direção ao forte.

Poucos momentos depois, elas haviam adentrado o portão da paliçada de troncos de árvore, a qual cercava a construção; o clangor estridente de uma corneta surpreendeu tanto os trabalhadores nos jardins, quanto os homens que acabavam de abrir as portas dos abrigos dos botes, para empurrarem os barcos de pescas, de seus rolos até a beira da água.

Cada homem do lado de fora do forte interrompeu o que quer que estivesse fazendo e correu para a paliçada; e todas as cabeças estavam viradas sobre o ombro, para olharem, temerosas, em direção à linha escura de floresta a leste. Ninguém olhava para o mar.

Eles se amontoavam através do portão, gritando perguntas para as sentinelas que patrulhavam as brilhantes saliências, construídas sob as pontas dos troncos verticais.

- O que é? Por que estamos sendo chamados para dentro? Os índios estão chegando?

Como resposta, um taciturno homem armado apontou para o sul. De sua posição elevada, o navio agora estava visível. Homens galgaram a saliência, encarando o mar.

Numa pequena torre de vigia, no teto do forte, o Conde Henri d’Chastillon observava o navio que se aproximava, enquanto este rodeava a ponta do chifre meridional. O conde era um homem magro, no final da meia-idade. Era moreno, de expressão sombria. Seus calções e casaco eram de seda negra; a única cor ao redor de suas roupas eram as jóias, que brilhavam no cabo de sua espada, e o manto cor-de-vinho, lançado negligentemente sobre o ombro. Ele torceu nervosamente o fino bigode preto e voltou os olhos sombrios para seu mordomo – um homem de feições coriáceas, vestido em aço e seda.

- O que acha, Gallot?

- Já vi aquele navio antes. – respondeu o mordomo – Não, eu acho

veja!

Um coro de gritos abaixo deles respondeu sua exclamação; o navio havia se afastado do cabo e estava adentrando em diagonal a baía. E todos viram a bandeira que subitamente apareceu no mastro – uma bandeira negra, com caveira branca e ossos cruzados brilhando ao sol.

- Um maldito pirata! – exclamou Gallot – Sim, eu conheço aquela embarcação! É o Falcão de Guerra, de Harston. O que ele está fazendo nesta costa desolada?

- Ele não tem boas intenções conosco. – resmungou o conde. Os pesados portões haviam sido

fechados, e o capitão dos homens armados, brilhando em aço, estava dirigindo seus homens para seus postos; alguns para a saliência, outros para as seteiras mais baixas. Ele estava concentrando sua força principal ao longo da muralha oeste, no meio da qual se encontrava o portão.

Cem homens partilhavam o exílio do Conde Henri, tanto soldados quanto criados. Havia 40

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soldados – mercenários veteranos, vestidos em armaduras e habilidosos no uso da espada e do arcabuz. Os outros, empregados domésticos e trabalhadores, vestiam camisas de couro endurecido e quase todos usavam arcos de caça, machados de lenhadores e lanças de caça. Musculosos e valentes, eles tomavam seus lugares franzindo as testas para a embarcação que se aproximava, quando esta se dirigiu à costa, com seu acabamento em latão cintilando ao sol. Eles conseguiam ver o aço brilhar ao longo do parapeito, e ouvir os gritos dos marinheiros.

O conde havia deixado a torre e, tendo vestido elmo e couraça, ele próprio se dirigiu à paliçada. As mulheres dos criados se erguiam silenciosamente nas portas de suas cabanas, construídas dentro do forte, e silenciaram a gritaria de suas crianças. Françoise e Tina observavam impacientes, desde uma janela mais alta no forte, e Françoise sentia o pequeno corpo tenso da criança tremer todo, dentro da curva de seu braço protetor.

- Eles vão ancorar perto do abrigo dos botes. – murmurou Françoise – Sim! Lá vem a âncora

deles, a mais de noventa metros no mar alto. Não trema assim, criança! Eles não podem tomar o

forte. Talvez só queiram água fresca e carne.

- Estão vindo à praia em longos botes! – exclamou a menina – Oh, milady, estou com medo! Veja como o sol brilha em suas lanças e sabres! Eles vão nos comer?

Apesar de sua apreensão, Françoise explodiu de rir:

- Claro que não! Quem colocou essa idéia na sua cabeça?

- Jacques Piriou me disse que os ingleses comem mulheres.

- Ele estava caçoando de você. Os ingleses são cruéis, mas não piores do que os franceses, que se autodenominam bucaneiros. Piriou era um deles.

- Ele era cruel. – murmurou a criança – Estou feliz que os índios tenham cortado fora a cabeça dele.

- Cale a boca, menina! – Françoise estremeceu – Veja, eles alcançaram a costa. Estão se alinhando na praia, e um deles vem em direção ao forte. Aquele deve ser Harston.

- Ô do forte! – veio uma chamada, numa voz tão borrascosa quanto o vento – Venho sob uma bandeira de trégua!

A cabeça protegida do conde apareceu sobre as pontas da paliçada e examinou o pirata sombriamente. Harston havia parado bem ao alcance dos ouvidos. Era um homem grande, com a cabeça descoberta e seu cabelo soprado pelo vento.

- Fale! – comandou Henri – Tenho poucas palavras para homens da sua espécie!

Harston riu com os lábios, e não com os olhos.

- Nunca pensei em encontrá-lo nesta costa desolada, d’Chastillon. – ele disse – Por Satã, fiquei sobressaltado agora há pouco, quando vi seu falcão escarlate ondulando sobre uma fortaleza, onde achei que só veria praia nua. Você já o encontrou, é claro.

- Encontrei o quê? – retrucou impacientemente o conde.

- Não tente ser hipócrita comigo. – A natureza violenta do pirata se mostrou por um momento – Eu sei por que veio aqui; vim pela mesma razão. Onde está seu navio?

- Não é da sua conta, companheiro. – zombou o conde.

- Você não tem nenhum. – afirmou o pirata com convicção – Vejo pedaços de mastros de um

galeão nessa paliçada. Seu navio naufragou. Do contrário, você já teria navegado para longe daqui, com sua pilhagem, há muito tempo.

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- Do que está falando, maldito? – gritou o conde – Acaso sou um pirata para queimar e saquear? Mesmo assim, o que eu iria saquear nesta costa desolada?

- Aquilo que você veio encontrar. – respondeu calmamente o pirata – A mesma coisa que eu

procuro. Estou disposto a negociar deixarei em paz.

apenas me dê a pilhagem, e eu seguirei meu caminho e lhe

- Você deve estar louco. – rosnou Henri – Vim para cá a fim de encontrar solidão e isolamento, dos quais desfrutei até você sair rastejando do mar, seu cão de cabelos amarelos. Vá embora! Não pedi nenhuma negociação, e estou cansado desta tagarelice.

- Quando eu partir, deixarei essa cabana reduzida a cinzas! – rugiu o pirata, num arrebatamento

de fúria – Pela última vez

aqui, e 100 homens prontos para lhes cortarem as gargantas.

vai me dar o saque em troca de suas vidas? Tenho você encurralado

Como resposta, o conde fez um gesto rápido com a mão, sob as pontas da paliçada. Instantaneamente, um arcabuz ribombou através de uma seteira, e uma mecha de cabelo loiro se soltou da cabeça de Harston. O pirata gritou vingativamente e correu em direção à praia, com balas atingindo a areia sob ele. Seus homens rugiram e avançaram como uma onda, as lâminas brilhando ao sol.

- Maldito seja, cão! – rugiu o conde, derrubando o ofendido atirador com um punho vestido em ferro – Por que errou? Rápido, homens; lá vêm eles!

Mas Harston havia alcançado seus homens e lhes impedido a corrida desvairada. Os piratas haviam se espalhado numa longa linha que cobria parte das extremidades da muralha oeste, e avançavam cautelosamente, atirando à medida que andavam. As pesadas balas adentravam a paliçada, e os defensores revidavam metodicamente os disparos. As mulheres haviam agrupado as crianças dentro de suas cabanas, e agora aguardavam estoicamente qualquer destino que os deuses lhes reservavam.

Os piratas mantinham sua formação bem espalhada, se arrastando e tirando vantagem de cada depressão natural e pedaço de vegetação – o que não existia muito, pois o chão havia sido limpado em todos os lados do forte, para defendê-lo contra a ameaça de incursões indígenas.

Alguns corpos jaziam prostrados na terra arenosa. Mas os piratas eram rápidos como gatos, sempre mudando de posição, e apresentando um alvo constantemente móvel, difícil de atingir com os toscos arcabuzes. Seus disparos constantes eram uma ameaça contínua para os homens na paliçada. Mesmo assim, era evidente que, enquanto a batalha continuasse sendo uma troca de tiros, a vantagem continuaria sendo a dos protegidos franceses.

Mas lá embaixo, no abrigo de botes na praia, havia homens trabalhando com machados. O conde praguejou inflamado, quando viu a destruição que estavam fazendo entre os botes, construídos trabalhosamente com pranchas serradas de sólidos troncos de árvores.

- Estão fazendo um mantelete, malditos sejam! – ele rugiu – Um ataque corpo-a-corpo agora,

antes que eles terminem

enquanto estão dispersos

- Não seríamos páreos para eles em luta corpo-a-corpo. – respondeu Gallot – Devemos continuar atrás de nossos muros.

- Tudo bem – rosnou Henri –, se pudermos mantê-los do lado de fora!

Em seguida, a intenção dos piratas se tornou evidente, quando avançou um grupo de uns 30, empurrando diante deles um grande escudo, feito com as pranchas dos botes e vigas do abrigo de botes. Haviam colocado o mantelete sobre as rodas de um carro de boi que eles acharam – grandes discos sólidos de carvalho –, e, enquanto o rolavam pesadamente diante de si, os defensores só tiveram vislumbres de seus pés em movimento.

- Atirem! – gritou Henri, pálido – Detenham-nos, antes que alcancem o portão!

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Balas se espatifavam nas pesadas pranchas, e flechas emplumavam a grossa madeira, sem causar danos. O restante dos piratas se aproximava, e suas balas estavam começando a acertar as seteiras. Um soldado caiu da saliência, com o crânio despedaçado.

- Atirem nos pés deles! – gritou Henri, e em seguida: – Quarenta homens no portão, com piques e machados! O restante, defenda a muralha!

Balas atravessavam a areia sob a pequena fortificação móvel, e algumas delas encontravam seu alvo. Mas, com um grito gutural, o mantelete foi empurrado até o muro, e um pau-de-carga com ponta de ferro, enfiado através de uma abertura no centro do escudo, começou a trovejar sobre o portão, dirigido por braços musculosos. O enorme portão vergou e tremeu, enquanto, da paliçada, flechas e balas choviam numa firme saraivada, e algumas acertavam o alvo. Mas os ferozes homens do mar estavam incendiados pela sede de luta. Com gritos intensos, eles balançaram o aríete e, de todos os lados, os outros vieram, enfrentando corajosamente os tiros enfraquecidos que vinham dos muros.

O conde desembainhou sua espada e correu até o portão, praguejando como um louco, e um grupo de desesperados homens armados, agarrando suas lanças, se aglomerou atrás dele. A qualquer momento, o portão se despedaçaria, e eles deveriam vedar a brecha com seus corpos vivos.

Então, uma nova nota entrou no clamor da barulhenta batalha. Era uma corneta, trombeteando de forma estridente desde o navio. Nas vaus reais, uma figura abanava os braços e gesticulava selvagemente.

O som alcançou os ouvidos de Harston, mesmo enquanto ele emprestava sua força ao aríete móvel. Firmando as pernas, para deter o aríete em seu movimento para trás, seus grandes músculos se sobressaindo enquanto resistia ao avanço dos outros homens, ele virou a cabeça e aguçou os ouvidos. O suor lhe pingava do rosto.

- Esperem! – ele rugiu – Esperem, malditos! Ouçam!

No silêncio que se seguiu àquele bramido de touro, o clangor da trombeta foi claramente ouvido, e uma voz gritou algo que era ininteligível para as pessoas dentro da paliçada.

Mas Harston entendeu, pois sua voz se ergueu novamente, numa ordem profana. O aríete foi largado, e o mantelete começou a recuar do portão.

- Veja! – gritou Tina, em sua janela – Estão correndo até a praia! Abandonaram o escudo! Estão pulando para dentro dos botes e remando até o navio! Oh, milady, será que vencemos?

- Acho que não! – Françoise estava encarando o mar – Olhe!

Ela pôs as cortinas para os lados e se inclinou na janela. Sua clara voz jovem se ergueu acima da algazarra, virando as cabeças dos homens na direção que ela apontou. Eles gritaram espantados, quando viram outro navio fazendo majestosa curva ao redor da ponta sul. Enquanto olhavam, ele mostrava pessoas da França.

Os piratas se aglomeraram nos lados de seu navio, e logo içaram âncora. Antes que o forasteiro houvesse avançado meio caminho pela baía, o Falcão de Guerra desapareceu, fazendo a curva na ponta do chifre norte.

3) A Vinda do Homem Negro

- Para fora, rápido! – disse bruscamente o conde, arrancando as trancas do portão – Destruam esse mantelete, antes que aqueles forasteiros possam desembarcar.

- Mas aquele navio é francês! – advertiu Gallot.

- Faça como ordenei! – rugiu Henri – Nem todos os meus inimigos são estrangeiros! Para fora,

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cães, e destruam aquele mantelete!

Trinta homens com machados desceram correndo até a praia. Eles sentiam a possibilidade de perigo no navio que se aproximava, e havia pânico em sua pressa. O estilhar de pranchas, sob seus machados, chegou aos ouvidos das pessoas no forte, e logo os homens estavam correndo de volta às areias, quando o navio francês ancorou no local onde o Falcão de Guerra havia desembarcado.

- Por que o conde fecha o portão? – Tina quis saber – Será que ele receia que o homem a quem teme possa estar naquele navio?

- O que você quer dizer, Tina? – Françoise indagou desconfortavelmente. O conde nunca tinha dado um motivo para seu auto-exílio. Ele não era o tipo de homem que corre de um inimigo, apesar de ter muitos. Mas esta convicção de Tina era inquietante, quase misteriosa.

A criança parecia não ter lhe ouvido a pergunta.

- Os homens com machados estão de volta à paliçada. – ela disse – O portão está sendo fechado novamente. Os homens mantêm suas posições na muralha. Se aquele navio estava perseguindo Harston, por que não vai atrás dele? Veja, um homem está vindo à praia. Vejo um homem remando, envolto num manto negro.

O bote chegou à terra, e este homem veio caminhando pesadamente pelas areias, seguido por

outros três. Era alto, magro e forte, vestido em seda negra e aço polido.

- Parem! – rugiu o conde – Conversarei com seu líder, somente!

O forasteiro alto removeu o morion e se curvou majestosamente. Seus companheiros pararam,

puxando seus mantos largos ao redor de si; e, atrás deles, os marujos curvaram-se sobre seus remos e olhavam fixamente para a paliçada.

Quando ele chegou a um fácil alcance dos ouvidos de quem estivesse no portão:

- Ora, decerto – ele disse – não deveria haver suspeitas entre cavalheiros. – Ele falava Francês sem sotaque.

O conde o fitava, desconfiado. O estranho era moreno, com um magro rosto de rapina e um fino

bigode preto. Um cacho de renda estava amarrado em seu pescoço, e havia renda em seus pulsos.

- Eu lhe conheço. – disse Henri, pausadamente – Você é Guillaume Villiers.

Mais uma vez, o forasteiro se curvou:

- E ninguém falharia em reconhecer o falcão vermelho dos d’Chastillons.

- Parece que esta costa se tornou o ponto de encontro de todos os patifes do Mar Espanhol (*). – rosnou Henri – O que você quer?

- Por favor, senhor! – protestou Villiers – Isto é uma saudação rude para alguém que acabou de

lhe prestar um serviço. Não era aquele cão inglês, Harston, que trovejava em seu portão? E ele

não fugiu para o mar, quando me viu dar a volta no cabo?

- É verdade. – o conde admitiu, de má vontade – Embora haja pouco o que escolher entre piratas.

Villiers riu sem ressentimentos, e girou rapidamente o bigode.

- Você está sendo rude, milorde. Não sou pirata. Tenho minha autorização, do governador de

Tortuga, para enfrentar os espanhóis. Harston é um bandido dos mares, que não tem autorização de rei algum. Desejo apenas permissão para ancorar em sua baía, deixar que meus homens procurem por carne e água em sua floresta, e, talvez, eu mesmo beber um copo de vinho à sua

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mesa.

- Muito bem. – rosnou Henri – Mas entenda uma coisa, Villiers: nenhum homem de sua tripulação entra nesta paliçada. Se um deles se aproximar menos de 30 metros, encontrará imediatamente uma bala nas entranhas. E lhe ordeno que não cause danos aos meus jardins, ou ao gado nos currais. Três bois lhes serão dados como carne fresca, e mais nada.

- Eu asseguro a boa conduta de meus homens. – Villiers garantiu a ele – Eles podem vir à praia?

Henri, de má vontade, deu seu consentimento, e Villiers se curvou, de forma um pouco sardônica, e se retirou com um passo tão cadenciado e majestoso quanto se ele andasse pelo chão polido do Palácio de Versalhes, onde, de fato – a menos que os rumores fossem mentiras –, ele havia sido uma figura familiar.

- Não deixe homem algum abandonar a paliçada. – Henri ordenou a Gallot – O fato dele ter

expulsado Harston de nosso portão não é garantia de que ele não cortaria nossos pescoços. Muitos patifes sanguinários carregam a autorização do rei.

Gallot balançou positivamente a cabeça. Os bucaneiros supostamente só saqueavam os espanhóis; mas Villiers tinha uma reputação sinistra.

Assim, ninguém saiu da paliçada enquanto os bucaneiros vinham à terra firme – homens queimados de sol, com faixas amarradas nas cabeças e argolas douradas nas orelhas. Acamparam na praia – mais de 100 homens –, e Villiers postou sentinelas em ambas as extremidades. Os três bois propostos por Henri, que gritava da muralha, foram mandados para fora e mortos. Fogueiras foram acesas, e um entrelaçado barril de vinho foi trazido à praia e aberto.

Outros barris pequenos foram enchidos com a água de uma fonte, a qual se erguia a uma curta distância ao sul do forte, e homens começaram a se espalhar em direção à floresta. Vendo isto, Henri gritou para Villiers:

- Não deixe seus homens entrarem na floresta. Pegue outro boi nos currais, se você não tiver carne suficiente. Se colocarem os pés na floresta, vocês podem se deparar com os índios.

“Rechaçamos um ataque, logo após desembarcamos, e desde então, seis de meus homens foram assassinados na floresta, numa ocasião ou noutra. Neste momento, há paz entre nós, mas ela pende por um fio”.

Villiers olhou rápida e sobressaltadamente para a floresta de olhar sombrio; logo, fez uma reverência e disse:

- Agradeço-lhe pelo aviso, milorde! – Logo, ele gritou para que seus homens voltassem, numa voz áspera, que contrastava estranhamente com seu tom de voz cortês ao se dirigir ao conde.

Se os olhos de Villiers pudessem penetrar a barreira da floresta, ele estremeceria diante da aparição de uma figura sinistra que se escondia lá e observava os forasteiros com rancorosos olhos negros – um guerreiro índio sem pintura, vestido apenas com uma tanga e com uma pena de falcão pendurada sobre sua orelha esquerda.

Quando a noite se aproximou, um fino deslizamento cinza se arrastou para o alto, vindo da linha do mar, e escureceu o céu. O sol se pôs num lamaçal escarlate, tingindo as pontas das ondas negras com vermelho-sangue. A neblina se arrastou para fora do mar e se enrolou aos pés da floresta, se enroscando ao redor da paliçada em pequenos feixes fumegantes. As fogueiras na praia brilhavam num vermelho fosco através da bruma, e as canções dos bucaneiros pareciam amortecidas e distantes. Haviam trazido velhas lonas do navio, e feito com elas abrigos ao longo da costa, onde a carne ainda estava assando, e o vinho era distribuído moderadamente.

O grande portão estava trancado. Soldados percorriam impassivelmente as saliências da paliçada, lança no ombro e gotas de orvalho brilhando em seus gorros de aço. Eles olhavam inquietos para as fogueiras na praia e encaravam mais fixamente a floresta – uma vaga linha

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escura na névoa. O pátio estava vazio. Velas lampejavam fracamente através das rachaduras das cabanas, e a luz fluía das janelas da casa feudal. Estava em silêncio, exceto pelos passos das sentinelas, o gotejar da água dos telhados e as canções distantes dos bucaneiros.

Um fraco eco destas canções adentrava o grande salão, onde Henri sentava-se para beber vinho com seu convidado não-solicitado.

- Seus homens se divertem, senhor. – grunhiu o conde.

- Eles estão contentes em sentir outra vez a areia sob os seus pés. – respondeu Villiers – Foi uma

viagem cansativa

vinho para a garota não-receptiva, que se sentava à direita do anfitrião, e bebeu cerimoniosamente.

sim, e uma longa e dura perseguição. – Ele ergueu gentilmente o copo de

Criados impassíveis se alinhavam ao longo das paredes, soldados com lanças e elmos, e servos em gastos casacos de cetim. A casa de Henri, nesta terra selvagem, era um vago reflexo da corte que possuíra na França.

A casa feudal, como ele insistia em chamar, era uma maravilha para uma costa selvagem. Cem homens haviam trabalhado noite e dia, durante meses, construindo-a. Os troncos que compunham as paredes internas eram cobertos por pesadas tapeçarias de seda, trabalhadas a ouro. Vigas do navio, tingidas e polidas, formavam o suporte para o teto elevado. O chão era coberto por ricos tapetes. A larga escadaria que subia do salão era igualmente atapetada, e sua sólida balaustrada havia sido outrora um parapeito do galeão.

Uma fogueira, na grande lareira de pedra, dissipava a umidade da noite. Velas no grande candelabro de prata, no centro da larga mesa de mogno, iluminavam o salão, lançando longas sombras sobre a escadaria. O Conde Henri se sentava na cabeceira daquela mesa, presidindo um grupo composto por sua sobrinha, seu convidado pirata, Gallot e o capitão da guarda.

- Você seguia Harston? – perguntou Henri – Você o enxotou para este lugar tão distante?

- Eu seguia Harston. – riu Villiers – Eu o seguia ao redor de Cabo Horn. Mas ele não estava fugindo de mim. Ele veio em busca de algo; algo que eu também desejo.

- O que poderia atrair um pirata, nesta terra desolada? – murmurou Henri.

- O que poderia atrair um conde da França? – retrucou Villiers.

- A corrupção de uma corte real pode enojar a um homem de honra.

- Os d’Chastillons de honra agüentaram a corrupção dela por muitas gerações. – disse Villiers,

sem cerimônia – Milorde, satisfaça minha curiosidade

galeão com mobílias de seu castelo e navegou pelo horizonte, sem o conhecimento dos homens? E por que se instalou aqui, quando sua espada e nome poderiam abrir para você um lugar em qualquer terra civilizada?

por que vendeu suas terras, encheu seu

Henri mexeu distraidamente em sua corrente dourada no pescoço.

- Por que deixei a França – ele disse –, é assunto meu. Mas foi o azar que me deixou encalhado

aqui. Eu havia trazido toda a minha gente para a terra firme, e muitas das mobílias que você mencionou, para construir uma habitação temporária. Mas meu navio, ancorado lá fora na baía, foi lançado contra os rochedos da ponta norte, e destroçado por uma súbita tempestade vinda do oeste. Aquilo nos deixou sem meios de escaparmos deste lugar.

- Então, você retornaria para a França, se pudesse?

- Não para a França. Para a China, talvez

ou para a Índia

- Você não acha este lugar tedioso, milady? – perguntou Villiers, pela primeira vez se dirigindo diretamente para Françoise.

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A ânsia em ver um novo rosto e ouvir uma nova voz havia trazido a jovem para o salão de

banquetes, naquela noite. Mas agora, ela desejaria ter permanecido no quarto, com Tina. Não havia equivoco sobre o significado do olhar que Villiers lançou sobre ela. Sua fala era decorosa; sua expressão, respeitosa, mas era apenas uma máscara, através da qual se vislumbrava o espírito violento e sinistro do homem.

- Há pouca diversão aqui. – ela respondeu em voz baixa.

- Se você tivesse um navio – Villiers se dirigiu ao anfitrião –, abandonaria esta instalação?

- Talvez. – admitiu o conde.

- Tenho um navio. – disse Villiers – Se pudéssemos chegar a um acordo

- Acordo? – Henri olhou, desconfiado, para seu convidado.

- Uma partilha por igual. – disse Villiers, pondo a mão sobre a mesa, com os dedos bem abertos.

O gesto lembrava repulsivamente uma grande aranha. Mas os dedos palpitavam, tensos, e os

olhos do bucaneiro ardiam com uma nova luz.

- Partilhar o quê? – Henri o fitou, perplexo – O ouro que eu trouxe comigo afundou em meu navio; e, ao contrário das pranchas quebradas, ele não foi lançado à margem.

- Não é isso! – Villiers gesticulou impacientemente – Vamos ser francos, milorde. Consegue fingir que foi o azar que lhe fez desembarcar neste determinado ponto, com milhares de milhas de costa para serem escolhidas?

- Não tenho necessidade de fingir. – respondeu Henri friamente – O capitão de meu navio era

Jacques Piriou, outrora um bucaneiro. Ele havia navegado nesta costa e me persuadido a desembarcar aqui, me dizendo ter um motivo que ele mais tarde revelaria. Mas ele nunca revelou este motivo, porque no dia em que desembarcamos, ele desapareceu dentro da floresta, e seu corpo sem cabeça foi encontrado mais tarde por um grupo de caçadores. Obviamente, os índios o mataram.

Villiers olhou fixamente para o conde por um intervalo de tempo.

- Bom – ele finalmente disse –, eu acredito em você, milorde. E lhe farei uma proposta. Admito que, quando ancorei lá fora na baía, eu tinha outros planos em mente. Supondo que você já

tivesse adquirido o tesouro, eu pretendia tomar estrategicamente este forte e cortar todas as suas

gargantas. Mas as circunstâncias me fizeram mudar de idéia

Françoise, cujo rosto mudou de cor e ergueu a cabeça, indignada.

– ele dirigiu um olhar para

- Tenho um navio para lhe tirar do exílio. – disse o bucaneiro – Mas primeiro, você deve me ajudar

a conseguir o tesouro.

- Que tesouro, em nome de Saint Denis? – exigiu o conde furiosamente – Você agora está falando igual àquele cão do Harston.

- Já ouviu falar em Giovanni da Verrazano?

- O italiano que navegou como um corsário para a França, e capturou a caravela carregada com os tesouros de Montezuma, os quais Cortez estava mandando para a Espanha?

- Sim. Isso foi em 1523. Os espanhóis afirmaram tê-lo enforcado em 1527, mas eles mentiram. Aquele foi o ano em que ele navegou pelo horizonte e desapareceu do conhecimento dos homens. Mas não era dos espanhóis que ele fugia.

“Ouça! Naquela caravela que ele capturou em 1523, havia o maior tesouro encontrado no mundo:

as jóias de Montezuma! Histórias de ouro asteca percorreram o mundo, mas Cortez guardou cuidadosamente o segredo das jóias, pois ele temia que a visão delas pudesse enlouquecer seus

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próprios homens a ponto destes se revoltarem contra ele. Elas foram a bordo de um navio, escondidas num saco de pó de ouro, e caíram nas mãos de Verrazano, quando ele tomou a caravela.

“Como Cortez, da Verrazano manteve sua propriedade em segredo, exceto para seus oficiais. Ele não as dividiu com seus homens. Ele as escondeu em sua cabine, e o brilho delas lhe adentrou o sangue e o enlouqueceu, como elas fazem com todos os homens que a viram. O segredo vazou, de alguma forma: talvez seus imediatos tenham falado. Mas da Verrazano ficou obcecado pelo medo de que outros piratas o atacassem e lhe pilhassem o tesouro. Procurando algum lugar seguro para as bugigangas que acabaram significando mais do que sua própria vida, ele navegou para oeste, contornou o Cabo Horn e desapareceu, há quase 100 anos.

“Mas a história insiste que um homem de sua tripulação retornou para o Mar Espanhol, apenas para ser capturado por espanhóis. Antes de ser enforcado, ele contou sua história e desenhou um mapa com seu próprio sangue, num pergaminho, o qual ele contrabandeara de alguma forma, longe do alcance de seus captores. Esta foi a história que ele contou: da Verrazano navegou para o norte, até – além de Darien e da costa do México – alcançar uma costa onde nenhum cristão havia colocado o pé antes.

“Ele ancorou numa baía solitária e desembarcou, levando seu tesouro e onze de seus homens de maior confiança. Seguindo-lhe as ordens, o navio partiu para o norte, para retornar dentro de uma semana e buscar seu capitão e seus homens – pois temia que, de outra forma, homens nos quais não confiava iriam espioná-lo e conhecer o esconderijo de seu tesouro. Nesse meio tempo, ele pretendia esconder o tesouro nos arredores da baía. O navio retornou no tempo marcado, mas não havia sinal de da Verrazano e seus homens, exceto pela tosca residência que eles haviam construído na praia.

“Esta havia sido demolida, e havia rastros de pés nus ao redor dela, mas nenhum sinal de luta. Nem havia lá qualquer sinal do tesouro, nem algum indício que mostrasse onde ele estava escondido. Os bucaneiros mergulharam na floresta para procurarem por seu capitão, mas foram atacados pelos selvagens e mandados de volta ao navio. Desesperadamente, içaram âncora e fugiram navegando, mas naufragaram na costa de Darien, e somente aquele homem sobreviveu.

“Essa é a história do Tesouro de da Verrazano, ao qual os homens têm procurado em vão por quase um século. Já vi o mapa que aquele marujo desenhou, antes que o enforcassem. Harston e Piriou estavam comigo. Estávamos olhando para ele numa choupana, em Havana, onde nos escondíamos, disfarçados. Alguém derrubou a vela, e alguém uivou no escuro; e, quando acendemos a luz novamente, o velho sovina que possuía o mapa estava morto, com um punhal no coração. O mapa havia desaparecido, e os vigias desciam ruidosamente a rua com suas lanças, para investigarem o grito. Nós nos dispersamos, e cada um seguiu seu caminho.

“Durante os anos posteriores, Harston e eu ficamos de olho um no outro, um achando que o outro tinha o mapa. Bom, não sei no que resultou, mas recentemente me veio a notícia de que Harston havia navegado para o Pacífico, e então eu o segui. Você viu o fim daquela perseguição.

“Tive apenas um vislumbre daquele mapa, quando ele estava na mesa do velho sovina, e não sei dizer nada sobre ele. Mas os atos de Harston mostram que ele sabe ser esta a baía onde da Verrazano ancorou. Acredito que esconderam o tesouro em algum lugar nessa floresta e, ao retornarem, foram atacados e mortos pelos selvagens. Os índios não conseguiram o tesouro. Nem Cabrillo nem Drake, nem qualquer homem que já tenha tocado nesta costa, chegaram a ver qualquer ouro ou jóias nas mãos dos índios.

“Esta é minha proposta: vamos unir nossas forças. Harston fugiu porque temia ser pego entre nós dois. Se nos aliarmos, podemos rir dele. Podemos trabalhar fora do forte, deixando homens

suficientes aqui para defendê-lo se ele atacar. Acredito que o tesouro esteja escondido por perto. Vamos encontrá-lo e navegar para algum porto da Germânia ou Itália, onde eu possa encobrir meu passado com ouro. Estou cansado desta vida. Quero voltar para a Europa e viver como um

nobre, com riquezas, escravos e um castelo

e uma esposa de sangue nobre”.

- Como? – indagou o conde, com os olhos semicerrados de surpresa.

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- Dê-me sua sobrinha como esposa. – demandou o bucaneiro, sem cerimônias. Françoise

protestou abruptamente e ficou de pé. Henri também se levantou, pálido. Villiers não se moveu. Seus dedos sobre a mesa se curvaram como garras, e seus olhos ardiam discretamente de paixão

e com uma profunda ameaça.

- Como ousa?! – exclamou Henri.

- Você esquece que já caiu de sua alta condição, Conde Henri. – rosnou Villiers – Não estamos

em Versalhes, milorde. Nesta costa desolada, a nobreza é medida pelo poder dos homens e das armas. E lá estou. Estranhos caminham pelo Castelo d’Chastillon, e a fortuna d’Chastillon está no fundo do mar. Você morrerá aqui, exilado, a menos que eu lhe conceda o uso de meu navio.

“Você não terá motivo para se arrepender da união de nossas famílias. Com um novo nome e uma nova fortuna, você descobrirá que Guillaume Villiers pode tomar o lugar dele entre a nobreza do mundo, e ser um genro do qual nem mesmo um d’Chastillon precisa ter vergonha”.

- Você é louco! – exclamou violentamente o conde – Você

o que há?

Era o tropel de pés, calçados em chinelos delicados, deslizando suavemente. Tina chegou apressadamente ao salão, fez uma mesura tímida e caminhou de lado ao redor da mesa, até enfiar suas mãos pequenas entre os dedos de Françoise. Ofegava levemente, seus chinelos estavam úmidos e o cabelo loiro emplastrado umidamente na cabeça.

- Tina! Onde você esteve? Pensei que estivesse em seu quarto!

- Eu estava – respondeu a criança, ofegante –, mas perdi meu colar de coral, que você me deu

– Ela o levantou; uma bugiganga sem importância, mas valorizada mais do que todas as suas

outras posses, porque havia sido o primeiro presente de Françoise para ela – Eu tive medo de

você não me deixar ir, caso soubesse

paliçada, e voltamos. Encontrei meu colar próximo à poça onde tomei banho esta manhã. Por favor, me castigue se eu errei.

a esposa de um soldado me ajudou, do lado de fora da

- Tina! – suspirou Françoise, abraçando a criança – Não vou lhe castigar. Mas você não deveria ter saído da paliçada. Deixe-me levá-la para seu quarto e trocar estas roupas molhadas

- Sim, milady – murmurou Tina –, mas primeiro deixe-me contar para você sobre o homem negro

- O quê? – Foi um grito que explodiu dos lábios de Henri. Seu copo de vinho caiu ruidosamente ao chão, enquanto ele segurava a mesa com ambas as mãos. Se um raio o tivesse atingido, seu porte não teria sido mais horrivelmente alterado. Seu rosto estava pálido, e seus olhos, esbugalhados.

- O que disse? – ele ofegou – O que você disse, menina?

- Um homem negro, milorde. – ela gaguejou, enquanto todos o encaravam, pasmados – Quando

desci à poça para pegar meu colar, eu o vi. Eu estava com medo, e me escondi atrás de uma

baixa saliência de areia. Ele veio do mar, num bote. Ele puxou o bote até as areias sob o cabo sul,

e caminhou em direção à floresta, parecendo um gigante na bruma; um homem negro, grande e alto

Henri cambaleou como se tivesse levado um golpe mortal. Apertou a própria garganta, quebrando

a corrente dourada em sua violência. Com a careta de um louco, ele cambaleou ao redor da mesa e, com um grito agudo, arrancou a criança dos braços de Françoise.

- Está mentindo! – ele arfou – Está mentindo para me atormentar! Diga que está mentindo, senão eu lhe arranco a pele das costas!

- Tio! – gritou Françoise, tentando libertar Tina dele – Está louco? O que há com você?

Com um rosnado, ele puxou-lhe a mão do braço e a fez girar, cambaleante, para os braços de Gallot, que a recebeu com um olhar de soslaio, ao qual não disfarçou.

25/03/13

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- Piedade, milorde! – soluçou Tina – Eu não menti!

- Eu digo que você mentiu! – rugiu Henri – Jacques!

Um impassível criado agarrou a menina trêmula e arrancou-lhe as roupas das costas, com um puxão brutal. Girando, ele puxou-lhe os braços delgados acima de seus ombros, deixando-a com os pés pendurados.

- Tio! – guinchou Françoise, se contorcendo em vão no aperto de Gallot – Você está louco! Você

não pode

oh, você não pode

!

O grito engasgou na garganta dela, quando Henri pegou um chicote para cavalos, com o cabo cravejado de jóias, e o desceu sobre o frágil corpo da criança, com uma crueldade que deixou um vergão vermelho em suas costas nuas.

Françoise ficou nauseada com a agonia no grito estridente de Tina. O mundo havia subitamente enlouquecido. Como num pesadelo, ela viu os rostos impassíveis dos criados, que não refletiam piedade nem simpatia. O rosto zombeteiro de Villiers era parte do pesadelo. Nada naquela névoa escarlate era real, exceto os ombros nus de Tina, cruzados por vergões vermelhos; nenhum som era real, exceto os gritos agudos de Henri, enquanto ele chicoteava com os olhos arregalados de um louco, gritando:

- Você mente! Admita sua culpa, ou eu lhe esfolarei! Ele não pode ter me seguido aqui

- Piedade, piedade, milorde! – gritava a criança, se contorcendo em vão nas costas musculosas do servente – Eu o vi! Não estou mentindo! Por favor! Por favor!

- Seu idiota! Seu imbecil! – gritou Françoise, quase de lado – Não vê que ela está dizendo a verdade? Oh, seu animal! Animal! Animal!

Súbito, certo fragmento de sanidade retornou ao cérebro de Henri. Deixando o chicote cair, ele cambaleou para trás e se esbarrou contra a mesa, agarrando cegamente a beirada da mesma. Ele tremeu como se estivesse febril. Seu cabelo estava emplastrado por toda a testa, em fios molhados, e o suor pingava de sua fisionomia, que estava igual a uma máscara entalhada de Medo. Tina, solta por Jacques, deslizou até o chão, numa pilha choramingante. Françoise se

desvencilhou de Gallot, correu soluçando até ela e caiu de joelhos, colhendo a lastimosa criança abandonada nos braços. Ela lançou um olhar terrível ao tio, para derramar sobre ele os vasos

cheios de sua ira

mas ele não a estava olhando. Atordoada pela incredulidade, ela o ouviu dizer:

- Aceito sua oferta, Villiers. Em nome de Deus, vamos encontrar seu tesouro e partirmos desta costa amaldiçoada!

Diante disto, o fogo de sua fúria decaiu em cinzas aflitas. Em silêncio assombrado, ela ergueu a criança soluçante nos braços e a carregou, subindo a escadaria. Um olhar para trás mostrou Henri se agachando, mais do que se sentando, diante da mesa e engolindo vinho sofregamente, de uma taça à qual agarrava com ambas as mãos trêmulas, enquanto Villiers se erguia sobre ele como um sombrio pássaro de rapina – perplexo com o rumo dos acontecimentos, mas pronto para tirar vantagem da chocante mudança que ocorrera no conde. Estava conversando numa voz baixa e resoluta, e Henri balançava a cabeça em mudo acordo, como se mal prestasse atenção ao que estava sendo dito. Gallot estava atrás das sombras, o queixo entre o indicador e o polegar; e os criados ao longo das paredes olhavam furtivamente uns para os outros, perplexos com o colapso de seu senhor.

Lá em cima, em seu quarto, Françoise deitou a menina semi-desmaiada sobre a cama e se sentou para lavar e aplicar suaves ungüentos nos vergões e cortes da pele suave da criança. Tina se entregou, em completa submissão, às mãos de sua senhora, gemendo fracamente. Françoise sentia como se o mundo tivesse caído ao redor de seus ouvidos. Estava nauseada e perplexa, extremamente agitada, os nervos palpitando por causa do brutal sobressalto ao qual testemunhara. O medo e o ódio por seu tio lhe cresceram na alma. Ele nunca o amara; ele era rude e sem afeição, ganancioso e cobiçoso. Mas ela o considerava justo e destemido. Uma

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reviravolta de sentimentos a sacudiu, diante da lembrança daqueles olhos arregalados e rosto pálido. Foi algum medo terrível que havia despertado aquele frenesi; e, por causa deste medo, Henri havia sido brutal com a única criatura a quem ela amava; por causa daquele medo, ele a estava vendendo, sua sobrinha, para um infame fora-da-lei. O que havia por trás desta loucura?

A criança murmurou, num semi-delírio:

- Eu não menti mesmo, milady! Eu o vi

gelou quando eu o vi. Por que o conde me chicoteou por tê-lo visto?

um homem negro, envolto numa capa negra! Meu sangue

- Silêncio, Tina. – disse Françoise suavemente – Fique quieta, criança.

A porta se abriu atrás dela, e ela girou rapidamente, puxando uma adaga cravejada de jóias. Henri apareceu na porta, e a pele dela se arrepiou ao vê-lo. Ele parecia anos mais velho; seu rosto estava sombrio e contraído, e seus olhos a fizeram tremer. Ela nunca estivera próxima a ele; agora, se sentia como se um abismo os separasse. Não era o tio dela que estava ali, mas um estranho que vinha ameaçá-la.

Ela ergueu a adaga.

- Se você tocá-la novamente – ela sussurrou, com os lábios secos –, juro que afundarei esta lâmina em seu peito.

Ele não prestou atenção à ameaça dela.

- Coloquei uma forte guarda ao redor da casa feudal. – ele disse – Villiers trará seus homens para dentro da paliçada amanhã. Ele não zarpará até encontrar o tesouro. Quando ele achá-lo, navegaremos.

- E você me venderá para ele? – ela sussurrou – Em nome de Deus

Ele cravou nela um olhar sombrio, do qual todas as considerações – exceto seu próprio interesse pessoal – haviam sido dispersadas. Ela se encolheu diante disso, vendo a desvairada crueldade que possuiu aquele homem, em seu medo misterioso.

- Você vai fazer o que eu mandar. – ele logo disse, com não mais sentimento humano em sua voz

do que o bater do sílex no aço. E, virando-se, ele deixou o quarto. Cega por um súbito ataque de horror, Françoise caiu desmaiada, ao lado da cama onde Tina estava deitada.

4) Soa um Tambor Negro

Françoise nunca soube por quanto tempo jazeu oprimida e sem sentidos. Sua primeira percepção foi a dos braços de Tina ao seu redor, e do soluço da criança em seu ouvido. Mecanicamente, ela se endireitou e pôs a menina entre seus braços. Ela se sentou lá, com os olhos secos e mirando despercebidamente a vela que tremulava. Não havia ruído no castelo. As canções dos bucaneiros na praia haviam cessado. Cegamente, ela reavaliou seu problema.

Obviamente, a história do misterioso homem negro havia enlouquecido Henri, e era para escapar deste homem que ele pretendia abandonar o estabelecimento e fugir com Villiers. Aquilo era evidente. Igualmente óbvio era o fato de que ele estava disposto a sacrificá-la, em troca daquela oportunidade para escapar. Na escuridão que a cercava, ela não via brilho de luz. Os serventes eram insensíveis ou friamente brutos; suas mulheres, estúpidas e apáticas. Eles não ousariam, nem se importariam, em ajudá-la. Ela estava completamente desamparada.

Tina ergueu-lhe o rosto manchado de lágrimas, como se estivesse ouvindo o apelo de alguma voz interna. O entendimento que a criança tinha dos pensamentos mais íntimos de Françoise era quase sobrenatural, assim como seu reconhecimento do inexorável rumo do Destino e da única alternativa deixada para elas.

- Temos que ir, milady! – ela sussurrou – Villiers não lhe terá. Vamos para bem longe, floresta

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adentro. Devemos ir até onde não pudermos mais, e então cairmos e morrermos juntas.

A trágica força, que é o último refúgio do fraco, adentrou a alma de Françoise. Era a única

escapatória das sombras, que estavam se fechando sobre ela desde aquele dia em que fugiram da França.

- Nós iremos, criança.

Ela se levantou e estava procurando por um manto, quando uma exclamação de Tina a surpreendeu. A menina estava de pé, um dedo pressionado aos lábios, os olhos arregalados e brilhando de súbito terror.

- O que é, Tina? – Françoise sussurrou, tomada por um terror sem nome.

- Alguém lá fora, no salão. – sussurrou Tina, agarrando-lhe convulsivamente o braço – Ele parou diante de nossa porta, e logo seguiu, descendo o salão.

- Seus ouvidos são mais agudos que os meus. – murmurou Françoise – Mas não há nada de estranho nisso. Era talvez o conde, ou Gallot.

Ela se moveu para abrir a porta, mas Tina lançou os braços ao redor de seu pescoço, e Françoise pôde lhe sentir o pulsar desvairado do coração.

- Não abra a porta, milady! Estou com medo! Alguma coisa maligna está próxima!

Impressionada, Françoise estendeu uma das mãos em direção ao disco metálico, que disfarçava um pequeno orifício de observação na porta.

- Ele está voltando. – a garota estremeceu – Eu o ouço.

Françoise ouviu algo também – um ruído surdo e furtivo de passos, o qual, ela percebeu com um arrepio de medo, não era o caminhar de ninguém a quem conhecesse. Nem era o passo de Villiers, ou de qualquer homem calçado. Mas quem poderia ser? Ninguém dormia no andar superior, a não ser ela, Tina, o conde e Gallot.

Com um movimento rápido, ela apagou a vela, de modo que esta não brilhasse através do buraco na porta, e empurrou o disco metálico para o lado. Olhando através dele, ela sentiu, mais do que viu, um vulto indistinto, passando por sua porta, mas não conseguiu perceber nada de sua forma, exceto que ela era humana. Mas um terror cego e irracional lhe congelou a língua no céu da boca.

A figura passou pelo topo da escada, onde ficou momentaneamente delineada contra a fraca

incandescência que vinha de baixo

o fundo vermelho – logo desapareceu escadaria abaixo. Ele se agachou na escuridão, esperando

que algum tumulto anunciasse que os soldados de guarda haviam avistado o intruso. Mas o forte continuou em silêncio; em algum lugar, um vento gemeu estridente. Era tudo.

uma imagem vaga e monstruosa, negra e destacada contra

As mãos de Françoise estavam molhadas de suor, quando ela tateou para reacender a vela. Ela não conseguia determinar o que havia naquela figura negra, destacada contra a incandescência vermelha da lareira lá embaixo, que lhe despertara tal horror em sua alma. Mas sabia que tinha visto algo sinistro e horrível além da compreensão, e que aquela visão lhe havia roubado toda a resolução recém-adquirida. Ela estava desmoralizada.

A vela brilhava, delineando o rosto branco de Tina.

- Era o homem negro! – sussurrou Tina – Eu sei! Meu sangue gelou, como na hora em que eu o vi na praia. Devemos ir e informar o conde?

Françoise sacudiu a cabeça. Ele não queria que se repetisse o que ocorrera quando Tina havia mencionado pela primeira vez o invasor negro. De qualquer forma, ela não ousava se aventurar dentro daquele saguão escurecido. Ela sabia que homens patrulhavam a paliçada, e estavam de guarda no lado de fora da casa feudal. Como o forasteiro havia adentrado o forte, ela não

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conseguia imaginar. Isso cheirava a coisa diabólica. Mas ela começou a ter uma forte intuição de que a criatura não estava mais dentro da fortaleza; que ele havia partido tão misteriosamente quanto havia chegado.

- Não devemos adentrar a floresta! – Tina estremeceu – Ele estará escondido nela

Françoise não perguntou à menina como ela sabia que o homem negro estaria na floresta; era o esconderijo razoável para qualquer coisa má – homem ou demônio. E ela sabia que Tina estava certa. Elas não ousariam deixar o forte agora. Sua determinação, que não havia vacilado diante da perspectiva da morte certa, se desfez diante do pensamento de atravessar algumas florestas sombrias, com aquela negra criatura cambaleante à solta entre elas. Sem saber o que fazer, ela se sentou e cobriu o rosto com as mãos.

Finalmente, Tina dormiu, choramingando ocasionalmente em seu sono. Lágrimas brilhavam em seus cílios longos. Ela movia o corpo dolorido de forma inquieta. Ao se aproximar a aurora, Françoise percebeu que a atmosfera havia ficado sufocante. Ela ouviu um baixo ribombar de trovão, fora da direção do mar. Apagando a vela, que havia queimado até seu suporte, foi até uma janela, da qual podia ver tanto o oceano quanto uma faixa da floresta.

A bruma havia desaparecido, mas uma massa escura saía do mar e se erguia do horizonte. Um

relâmpago saía dela, palpitando, e o trovão baixo rosnava. Logo, um ribombar veio da floresta escura, em resposta. Sobressaltada, ela se virou e olhou para a floresta. Um pulsar rítmico lhe alcançava os ouvidos – uma monótona reverberação, que não era o bater de um tambor indígena.

- O tambor! – Tina soluçou, abrindo e fechando espasmodicamente os dedos em seu sono – O

homem negro

batendo num tambor negro

na floresta negra! Oh, salvem-nos!

Françoise estremeceu. Ao longo do horizonte leste, corria uma fina linha branca que anunciava o amanhecer. Mas aquela nuvem negra, na orla ocidental, se expandia rapidamente. Ela observava surpreendida, pois as tempestades eram praticamente desconhecidas naquela costa àquela época do ano, e ela nunca tinha visto uma nuvem como aquela.

Vinha fluindo para cima, sobre a orla do mundo, em grandes massas agitadas de negrume raiado de fogo. Rolava e se encapelava com o vento em seu bojo. Seu trovejar fez com que o ar vibrasse. E outro som se misturava terrivelmente com o trovão – a voz do vento, que corria antes de sua chegada. O horizonte escuro era rasgado e abalado nos clarões relampejantes; no mar distante, ela viu as ondas de topo branco correrem diante do vento. Ouviu seu rugido monótono, aumentando de volume à medida que avançava em direção ao litoral. Mas até agora nenhum vento se movia na terra. O ar estava quente e parado. Em algum lugar abaixo dela, um postigo bateu estrondosamente, e a voz de uma mulher se ergueu, estridente de susto. Mas a casa feudal continuava calma.

Ela ainda ouvia aquele tambor misterioso soar, e sua pele se arrepiou. A floresta era uma trincheira negra, à qual sua visão não conseguia penetrar, mas ela imaginou uma medonha figura negra, se acocorando sob galhos negros e batendo incessantemente num tambor preso entre seus joelhos. Mas por quê?

Ela se livrou de sua convicção vampiresca, e olhou em direção ao mar, enquanto o resplendor de um relâmpago dividia o céu. Perfilados contra o clarão, ela viu os mastros do navio de Villiers, as tendas na praia, as elevações arenosas do cabo sul e os penhascos rochosos do cabo norte. Cada vez mais alto, se erguia o rugido do vento, e agora a casa feudal estava acordada. Pés subiam a escadaria apressadamente, e a voz de Villiers gritava, aguçada pelo medo.

Portas batiam, e Henri o respondeu, gritando para ser ouvido.

- Por que não me avisou que haveria uma tempestade, vinda do oeste? – uivou o bucaneiro – Se as âncoras não a segurarem, ela será arrastada até as rochas!

- Nunca veio tempestade do oeste, nesta época do ano! – guinchou Henri, saindo

apressadamente de seu quarto, com sua roupa de dormir, o rosto pálido e o cabelo se arrepiando

– Isto é obra de

– Suas palavras foram afogadas, enquanto ele subia rapidamente a escada de

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mão que levava à torre de vigia, seguido pelo bucaneiro que praguejava.

Françoise se curvava em sua janela, atemorizada e ensurdecida. O vento abafava todos os outros sons – todos, exceto aquele zumbido enlouquecedor, que agora se elevava como um canto de triunfo. Rugiu em direção à costa, arrastando diante de si uma espumante e longa crista de uma légua – e então, todo o inferno foi solto naquela costa. A chuva varreu as praias em violentas torrentes. O vento batia como uma trovoada, fazendo as vigas do forte estremecerem. A rebentação das ondas rugiu sobre as areias, afogando os carvões das fogueiras dos marinheiros. No clarão do relâmpago, Françoise viu, através da cortina da chuva cortante, as tendas dos bucaneiros rasgadas em tiras e arrastadas pela água; viu os próprios homens cambaleando em direção ao forte, quase derrubados às areias pela fúria da torrente e do vendaval.

E, delineado contra o clarão azul, ela viu o navio de Villiers, arrancado de seu ancoradouro e

lançado impetuosamente contra os penhascos denteados que se salientavam para recebê-lo.

5) Um Homem da Selva

A tempestade havia esgotado sua fúria, e o sol brilhava num céu azul e sem chuva. Num pequeno curso d’água, que serpenteava entre árvores e moitas até desaguar no mar, um inglês se curvava para lavar as mãos e rosto. Ele fazia suas abluções à maneira de sua raça, grunhindo e chapinhando como um búfalo. Em meio a estas pancadas, ele subitamente ergueu a cabeça, seu cabelo claro pingando e a água escorrendo em fios sobre os ombros musculosos. Num só movimento, ele estava de pé e olhando para dentro, de espada na mão.

Um homem tão grande quanto ele caminhava em sua direção sobre a areia, com um sabre de abordagem na mão e um propósito inconfundível em sua aproximação.

O pirata ficou pálido, enquanto o reconhecimento lhe ardia nos olhos.

- Por Satã! – ele exclamou, incrédulo – Você!

Pragas escorreram de seus lábios, enquanto erguia o sabre. Os pássaros se ergueram das árvores em saraivadas flamejantes, assustados pelo estrondo do aço. Faíscas azuis voavam das lâminas cortantes, e a areia rangia sob as triturantes solas dos sapatos. Então, o clangor terminou sob o rangido de um corte, e um homem caiu de joelhos com um arquejo sufocado. O cabo da espada lhe caiu da mão, e ele desabou sobre a areia avermelhada. Com um esforço moribundo, ele remexeu o cinto e puxou algo do mesmo, tentando levá-lo à boca, e em seguida se enrijeceu convulsivamente e amoleceu.

O vencedor se curvou e violentamente separou os dedos enrijecidos do objeto, ao qual eles

amassaram em seu aperto desesperado.

Villiers e d’Chastillon estavam na praia, olhando para as vergas, os mastros despedaçados e pranchas quebradas que seus homens estavam recolhendo. A tempestade batera tão selvagemente o navio de Villiers contra os baixos rochedos, que muito do que foi salvo era madeira estilhaçada. A pouca distância atrás deles, se encontrava Françoise, com um braço ao redor de Tina. A garota estava pálida e apática, indiferente a qualquer Destino reservado para ela. Escutava a conversa sem interesse. Estava esmagada pela percepção de que ela não era mais que um peão no jogo, não importava qual fosse.

Villiers praguejou rancorosamente, mas Henri parecia atordoado.

- Esta não é a época do ano para tempestades. – ele murmurou – Não foi o acaso que trouxe

essa tempestade das profundezas, para estilhaçar o navio no qual eu pretendia fugir. Fugir? Não,

somos todos ratos numa ratoeira.

- Não sei do que você está falando. – rosnou Villiers – Sou incapaz de lhe entender, desde que

aquela vadia loira lhe perturbou, na noite passada, com a história desvairada de homens negros saindo do mar. Mas sei que não vou passar minha vida nesta costa amaldiçoada. Dez de meus homens afundaram com o navio, mas eu tenho mais 100. Você tem quase a mesma quantidade.

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Há ferramentas em seu forte, e muitas árvores naquela floresta. Construiremos algum tipo de embarcação, a qual nos carregará até que possamos tomar um navio dos espanhóis.

- Levará meses. – murmurou Henri.

- Bom, há alguma forma melhor de empregarmos nosso tempo? Estamos aqui

com nossos próprios esforços. Espero que aquela tempestade tenha esmagado Harston em pedaços! Enquanto construirmos nossa embarcação, caçaremos o tesouro de da Verrazano.

e só sairemos

- Nunca completaremos seu navio. – disse Henri sombriamente.

- Você teme os índios? Temos homens suficientes para resistir a eles.

- Não falo de homens vermelhos. Falo de um homem negro.

Villiers se voltou para ele, zangado:

- Você fala sério? Quem é este maldito homem negro?

- Maldito mesmo. – disse Henri, olhando fixamente para o mar – Por causa do medo dele, fugi da

França, esperando afogar meu rastro no oceano ocidental. Mas ele me farejou, apesar de tudo.

- Se tal homem veio à praia, deve estar escondido na floresta. – rosnou Villiers – Vamos esquadrinhar a selva e descobri-lo.

Henri riu rudemente:

- Tateie na escuridão, em busca de uma cobra, com sua mão nua!

Villiers lhe dirigiu um olhar vago, obviamente duvidando da sua sanidade.

- Quem é este homem? Você não está sendo claro.

- Um demônio, vindo daquela costa do inferno, a Costa dos Escravos

- Vela à vista! – berrou a sentinela no cabo norte.

Villiers girou, e sua voz cortou o vento:

- Você conhece?

- Sim! – a resposta veio fracamente – É o Falcão de Guerra!

- Harston! – esbravejou Villiers – O diabo leve seu dono! Como ele conseguiu navegar naquele

vendaval? – Sua voz se ergueu a um grito que se alastrou pela praia – De volta ao forte, seus cães!

Diante do Falcão de Guerra, de aparência um pouco batida e abrindo caminho ao redor do cabo, a praia estava desprovida de vida humana, e a paliçada encrespada de cabeças com elmos e faixas. Villiers arreganhou os dentes, quando uma lancha se dirigiu à praia, e Harston caminhou sozinho em direção ao forte.

- Ô do forte! – o berro bovino do inglês tinha um claro alcance, na manhã calma – Quero

conferenciar! Na última vez em que me aproximei sob uma bandeira de trégua, fui recebido com disparos! Quero uma promessa de que isso não acontecerá novamente.

- Tudo bem, eu lhe dou minha palavra! – gritou sardonicamente Villiers.

- Dane-se a sua promessa, seu cão francês! Quero a palavra de d’Chastillon.

Havia ainda certo grau de dignidade no conde. E havia uma borda de autoridade em sua voz,

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quando ele respondeu:

- Avance, mas mantenha seus homens lá atrás. Não vamos disparar contra você.

- É o bastante para mim. – disse Harston instantaneamente – Não importa as ofensas de um d’Chastillon; uma vez que sua palavra é dada, você pode confiar nele.

Ele caminhou para a frente e parou sob o portão, rindo do semblante obscurecido de ódio que Villiers lhe estocava.

- Bem, Guillaume – ele zombou –, você está com um navio mais curto do que na última vez que eu lhe vi! Mas vocês, franceses, nunca foram marinheiros.

- Como salvou seu navio, seu cão-de-sarjeta de Bristol? – rosnou o bucaneiro.

- Há uma enseada, algumas milhas ao norte, protegida por um braço de terra bem alto, que

quebrou a força do temporal. – respondeu Harston – Eu estava atrás dele. Minhas âncoras se arrastaram, mas me mantiveram longe do litoral.

Villiers franziu a testa para Henri, que não disse nada. O conde não sabia daquela enseada. Havia feito pouca exploração de seu território; o medo dos índios o mantinha – e a seus homens – próximo ao forte.

- Venho para negociar. – disse Harston calmamente.

- Não temos nada para negociar com você, exceto golpes de espada. – rosnou Villiers.

- Eu penso de outra forma. – sorriu Harston, com seus lábios finos – Você revelou seus planos,

quando assassinou Richardson, meu primeiro-imediato, e o roubou. Até esta manhã, eu achava que d’Chastillon tivesse o tesouro de da Verrazano. Mas se um de vocês o tivesse, não teria se dado ao trabalho de me seguir e matar meu imediato para pegar o mapa.

- O mapa! – exclamou Villiers, enrijecendo.

- Ora, não finja! – Harston riu, mas a fúria lhe ardia azul nos olhos – Eu sei que você o tem. Índios não usam botas!

- Mas

– começou Henri, perplexo, mas ficou em silêncio quando Villiers o cutucou.

- O que você tem para negociar? – Villiers exigiu de Harston.

- Deixe-me entrar no forte. – sugeriu o pirata – Nós podemos conversar aí.

- Seus homens vão ficar onde estão. – avisou Villiers.

- Sim. Mas não pense que vai me capturar e manter como refém! – Ele riu sombriamente – Quero

a palavra de d’Chastillon, de que terei permissão para deixar o forte com vida e ileso dentro de uma hora, independente de chegarmos a um acordo ou não.

- Você tem minha garantia. – respondeu o conde.

- Tudo bem, então. Abra o portão.

O portão se abriu e fechou, os líderes sumiram de vista e os homens comuns de ambos os grupos reassumiram a silenciosa análise que faziam uns dos outros.

Na escada larga acima do salão, Françoise e Tina se agachavam, ignoradas pelos homens abaixo. Henri, Gallot, Villiers e Harston estavam sentados ao redor da grande mesa. Exceto por eles, o salão estava vazio.

Harston tragava vinho e colocava a taça vazia sobre a mesa. A sinceridade, sugerida por seu

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rosto franco, era desmentida pelas luzes de crueldade e traição em seus olhos grandes. Mas ele falava com franqueza suficiente.

- Todos nós queremos o tesouro, que da Verrazano escondeu em algum lugar próximo a esta

baía. – ele disse – Cada um tem algo que os outros precisam. D’Chastillon tem trabalhadores, suprimentos e uma paliçada para nos proteger dos selvagens. Você, Villiers, tem meu mapa. Eu tenho um navio.

- Se você tinha o mapa todos estes anos – disse Villiers –, por que não foi logo atrás da pilhagem?

- Eu não o tinha. Foi Piriou quem esfaqueou o velho sovina no escuro e roubou o mapa. Mas ele

não tinha navio nem tripulação, e demorou mais de um ano para consegui-los. Quando foi atrás da pilhagem, os índios o impediram de desembarcar, e seus homens se amotinaram, fazendo-o navegar de volta ao Mar Espanhol. Um deles roubou-lhe o mapa, e mais tarde o vendeu para mim.

- É por isso que Piriou reconheceu a baía. – murmurou Henri.

- Aquele cão lhe trouxe para cá? Eu deveria ter imaginado. Onde está ele?

- Morto pelos índios, evidentemente enquanto procurava pelo tesouro.

- Ótimo! – aprovou Harston, com sinceridade – Bem, eu não sei como você descobriu que meu

imediato estava carregando o mapa. Eu confiava nele, e os homens confiavam mais nele do que em mim, de modo que eu o deixei guardá-lo. Mas, nesta manhã, ele se aventurou em terra firme e ficou separado do resto, e o encontramos morto com um golpe de espada, perto da praia, e o mapa sumiu. Os homens me acusaram de tê-lo matado, mas encontramos as pegadas deixadas pelo homem que o havia matado, e provei aos idiotas que meus pés não as fariam. Não havia uma bota naquela tripulação que fizesse aquele tipo de pegada. Índios não usam botas. Desse modo, só pode ter sido um francês.

“Você tem o mapa, mas não adquiriu o tesouro. Se você o tivesse, não me deixaria entrar no forte. Eu tenho você encurralado aqui. Você não pode sair para procurar o tesouro, e não tem nenhum navio para carregá-lo, de qualquer forma.

“Eis a minha proposta: Villiers, me dê o mapa. E você, conde, me dê carne fresca e outros suprimentos. Meus homens estão quase com escorbuto, após a longa viagem. Em troca, levarei três homens seus, Lady Françoise e a menina dela, e lhes desembarcarei em algum porto do Atlântico, de onde vocês possam embarcar para a França. E, para fechar o negócio, darei a cada um de vocês uma parte da divisão do tesouro”.

O bucaneiro puxou meditativamente o bigode. Ele sabia que Harston não manteria nenhum pacto, se o fizesse. Villiers nem sequer considerou a possibilidade de concordar com a proposta. Mas recusar rudemente seria forçar a questão para um entrechocar de armas, e Villiers não estava disposto a isso. Ele queria o Falcão de Guerra tão avidamente quanto desejava as jóias de Montezuma.

- O que nos impediria de lhe manter prisioneiro, e obrigar seus homens a nos dar seu navio em troca de você? – ele perguntou.

Harston riu dele:

- Pensa que sou idiota? Meus homens têm ordens de levantar âncora e partirem daqui, diante da

primeira insinuação de traição. Eles não lhe dariam o navio, se você me esfolasse vivo na praia. Além disso, tenho a palavra de Henri.

- Minha palavra não é vento. – disse Henri, sombriamente – Chega de ameaças, Villiers.

O bucaneiro não respondeu; seu pensamento estava totalmente mergulhado no problema de tomar posse do navio de Harston, e em continuar a negociação sem trair o fato de que ele não tinha o mapa. Ele se perguntava quem, em nome de Satã, tinha o maldito mapa.

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- Deixe-me levar meus homens comigo em seu navio. – ele disse – Não posso abandonar meus fiéis seguidores

Harston riu com desdém:

- Por que não pede meu sabre, para cortar minha garganta com ele? Desistir de seus fiéis

Você abandonaria seu irmão ao diabo, se isso significasse dinheiro em seu bolso. Não! Você não levará homens suficientes a bordo, para ter chance de se amotinar e tomar meu navio.

bah!

- Dê-nos um dia para pensarmos a respeito. – insistiu Villiers, lutando para ganhar tempo.

O punho pesado de Harston bateu com força sobre a mesa, fazendo o vinho dançar nos copos.

- Não, por Satã! Dê a minha resposta agora!

Villiers ficou de pé, com sua fúria negra lhe submergindo a astúcia:

- Seu cão inglês! Vou lhe dar sua resposta

em suas tripas!

Lançou o manto para um lado e agarrou o cabo da espada. Harston se levantou com um rugido, sua cadeira se espatifando para trás, no chão. Henri se ergueu de um pulo, os braços estirados entre os dois, enquanto eles se encaravam reciprocamente através da mesa.

- Senhores, chega! Villiers, ele tem minha palavra

- O demônio imundo mastigue sua palavra! – rosnou Villiers.

- Afaste-se de nós, milorde. – rosnou o pirata, sua voz engrossada pela ânsia de matar – Eu lhe desobrigo de sua promessa, até eu ter matado este cão!

- Bem falado, Harston!

Era uma voz grossa e poderosa atrás deles, vibrante em sombrio divertimento. Todos giraram e olharam, boquiabertos. No alto da escada, Françoise se ergueu, com uma exclamação involuntária.

Um homem saía, a passos largos, das cortinas que cobriam a porta de um quarto, e avançava em direção à mesa, sem pressa nem hesitação. Instantaneamente, ele dominou o grupo, e todos sentiram a situação subitamente carregada por uma atmosfera nova e dinâmica.

O forasteiro era tão alto quanto ambos os piratas, e mais poderosamente constituído que qualquer um; mas, apesar de todo o seu tamanho, ele se movia com a flexibilidade de uma pantera em suas botas altas e deslumbrantes. Suas coxas estavam envolvidas em calças justas de seda branca; seu casaco, de aba larga e cor azul-celeste, aberto para mostrar uma camisa branca de seda sob ele, e a faixa escarlate que lhe envolvia a cintura. Havia um largo chapéu com abas e emplumado sobre a cabeça do forasteiro, e um pesado sabre lhe pendia do quadril.

- Vulmea! – exclamou Harston, e os outros prenderam a respiração.

- Quem mais? – O gigante caminhava até a mesa, rindo sarcasticamente diante do assombro deles.

- O que

o que faz aqui? – gaguejou Gallot.

- Escalei a paliçada no lado leste, enquanto vocês, tolos, estavam discutindo no portão. – Vulmea respondeu. Seu sotaque irlandês era leve, mas não a ponto de ser confundido – Todos os homens no forte estavam esticando o pescoço para oeste. Adentrei a casa, enquanto estavam deixando Harston entrar no portão. Fiquei naquele quarto lá desde então, ouvindo às escondidas.

- Pensei que você tivesse se afogado. – disse Villiers lentamente – Três anos atrás, o casco

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despedaçado de seu navio foi avistado próximo à costa de Amichel, e você nunca mais foi visto no Mar Espanhol.

- Mas estou vivo, como você está vendo. – replicou Vulmea.

No alto da escadaria, Tina arregalava os olhos através das balaustradas, apertando Françoise em sua agitação.

- Vulmea! É Black Vulmea, milady! Veja! Veja!

Françoise estava olhando. Era como encontrar um personagem lendário em carne e osso. Quem, de todos os povos do mar, não ouvira as histórias e baladas, que celebravam os atos selvagens de Black Vulmea, outrora um flagelo do Caribe? O homem não podia ser ignorado. Irresistivelmente, ele adentrava o cenário de forma majestosa, para formar outro elemento dominante na complicada trama.

Henri estava se recuperando do choque, de encontrar um forasteiro em seu salão.

- O que você quer? – ele indagou – Você veio do mar?

- Vim da floresta. – respondeu o irlandês – E concluí que há alguma discórdia sobre um mapa!

- Não é da sua conta. – rosnou Harston.

- É isto? – Sorrindo maliciosamente, Vulmea puxou do bolso um objeto amarrotado; um pedaço quadrado de pergaminho, marcado com linhas escarlates.

Harston estremeceu violentamente, empalidecendo.

- Meu mapa! – ele exclamou – Onde você o conseguiu?

- De Richardson, depois que eu o matei! – foi a sombria resposta.

- Seu cão! – rugiu Harston, se voltando para Villiers – Você nunca teve o mapa! Você mentiu

- Eu nunca disse que o tinha. – rosnou o francês – Você se iludiu. Não seja idiota. Vulmea está sozinho. Se ele tivesse uma tripulação, já teria cortado nossas gargantas. Tomaremos o mapa dele

- Vocês nunca o terão. – Vulmea riu ferozmente.

Os dois homens pularam em direção a ele, praguejando. Andando de marcha a ré, ele amassou o pergaminho e o lançou dentro dos carvões incandescentes da lareira. Com um bramido, Harston arremeteu atrás dele, para se deparar com um golpe na orelha, que o deixou estendido e semi- consciente no chão. Villiers sacou a espada, mas antes que pudesse estocá-la, o sabre de Vulmea arrancou-a de sua mão.

Villiers cambaleou contra a mesa, com o inferno nos olhos. Harston se ergueu cambaleante, o sangue lhe pingando da orelha.

Vulmea se inclinou sobre a mesa, sua lâmina estendida e tocando naquele momento o peito do Conde Henri.

- Não chame por seus soldados. – disse suavemente o irlandês – E nenhum ruído de você

também, cara de cão! – Era Gallot, que não demonstrou intenção de desobedecer – O mapa virou cinzas, e seria inútil derramar sangue. Sentem-se, todos vocês.

Harston hesitou, depois encolheu os ombros e afundou, mal-humorado, numa cadeira. Os outros o seguiram adequadamente. Vulmea continuou de pé sobre a mesa, enquanto seus inimigos o observavam com os olhos amargos de ódio.

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- Vocês estavam negociando. – ele disse – Isso é tudo o que venho fazer.

- E o que você tem para negociar? – zombou Villiers.

- As jóias de Montezuma!

- O quê? – Todos os quatro homens se ergueram, inclinando-se em sua direção.

- Sentem-se! – ele rugiu, batendo fortemente sua larga lâmina na mesa. Eles recuaram, tensos e pálidos de agitação. Ele sorriu duramente.

-

Sim, eu as encontrei antes de conseguir o mapa. É por isso que eu o queimei. Não preciso dele.

E

agora, ninguém irá encontrá-lo, a menos que eu mostre onde ele está.

Eles o olhavam fixamente, com homicídio nos olhos, e Villiers disse:

- Está mentindo. Você já nos contou uma mentira. Você disse que veio da floresta, mas todos os homens sabem que esta região é uma selva habitada apenas por selvagens.

- E vivi durante três anos com aqueles mesmos selvagens. – replicou Vulmea – Quando um

temporal fez meu navio naufragar perto da foz do Rio Grande, nadei até a margem e fugi terra adentro para o norte, para escapar dos espanhóis. Eu me juntei a uma tribo nômade de índios, que se dirigiam para oeste, a fim de escaparem de uma tribo mais forte; e, sem nada para oferecer, vivi com eles e partilhei suas andanças até um mês atrás.

“Durante este tempo, nossas perambulações nos trouxeram para tão longe a oeste, que acreditei poder alcançar a Costa do Pacífico, e então parti sozinho. Mas a 1600 km a leste, encontrei uma tribo hostil de homens vermelhos, os quais teriam me queimado vivo, se eu não tivesse matado o chefe de guerra deles, e mais uns três ou quatro e fugido numa noite.

“Eles me perseguiram por mil milhas até esta costa, onde eu finalmente me livrei deles. E, por Satã, o lugar onde me refugiei era exatamente o local do tesouro de da Verrazano! Encontrei tudo: arcas com vestimentas e armas – onde eu me vesti e armei –, pilhas de ouro e prata, e, no meio de tudo isso, as jóias de Montezuma, brilhando como a luz de estrelas congeladas! E da Verrazano, e seus onze bucaneiros, sentados ao redor de uma mesa de ébano, como eles o fizeram por quase 100 anos!”.

- O quê?

- Sim! Morreram em meio ao tesouro deles! Seus corpos estavam enrugados, mas não

decompostos. Estavam sentados lá, com seus copos de vinho em suas mãos rígidas, exatamente como ficaram por quase um século!

-

Não é coisa do acaso! – murmurou Harston, inquieto, mas Villiers rosnou: – De que serve isso? E

o

tesouro que queremos. Prossiga, Vulmea.

Vulmea se sentou e encheu um copo de vinho, antes de recomeçar:

- Eu me deitei e descansei uns poucos dias, fiz armadilhas para pegar coelhos e deixei meus

ferimentos se curarem. Vi fumaça no céu ocidental, mas pensei que fosse alguma aldeia indígena na praia. Eu estava perto, mas a pilhagem estava escondida num lugar que os peles-vermelhas evitam. Se algum deles me espionou, eles não se mostraram.

“Noite passada, parti para a praia, pretendendo encontrá-la algumas milhas ao norte do ponto onde vi a fumaça. Eu estava perto do litoral, quando a tempestade caiu. Eu me abriguei sob uma grande rocha e, quando ela passou, subi uma árvore para procurar por índios. Então, vi sua nau ancorada, Harston, e seus homens vindo ao litoral. Eu estava me dirigindo ao seu acampamento na praia, quando encontrei Richardson. Eu o matei por causa de uma velha rixa. Eu nunca saberia que ele tinha um mapa, se não tivesse tentado comê-lo antes de morrer.

“Eu o reconheci, é claro, e estava ponderando sobre o uso que eu poderia fazer dele, quando o

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restante dos seus cães chegou e encontrou o corpo. Eu estava deitado num matagal próximo, enquanto você estava discutindo com seus homens sobre o assunto. Achei que o momento não era adequado para eu me mostrar”.

Ele riu diante da raiva revelada no rosto de Harston.

- Bom, enquanto eu me escondia lá, ouvindo sua conversa, percebi o rumo da situação e soube,

pelas coisas que você deixou escapar, que d’Chastillon e Villiers estavam poucas milhas ao sul da praia. Assim, quando ouvi você dizer que Villiers devia ter sido o matador e tomado o mapa, e que você pretendia negociar com ele, buscando uma oportunidade para matá-lo e consegui-lo de volta

- Cão! – rosnou Villiers.

Harston estava pálido, mas riu sem alegria:

- Acha que eu jogaria limpo com um cão feito você? Prossiga, Vulmea.

O irlandês abriu um sorriso largo. Era óbvio que ele estava deliberadamente atiçando as chamas de ódio entre os dois homens.

- Depois disso, nada de mais; logo, saí diretamente de dentro da floresta, enquanto você

contornava a costa, e avistei o forte antes de você. E eis a história. Eu tenho o tesouro, Harston tem um navio e Henri tem suprimentos. Por Satã, Villiers, não sei onde você se encaixa, mas para evitar discórdia, incluirei você. Minha proposta é muito simples.

“Dividiremos o tesouro em quatro partes. Harston e eu zarparemos, com nossas partes, a bordo do Falcão de Guerra. Você e d’Chastillon continuam lordes da selva, ou constroem um navio com troncos de árvores, se desejarem”.

Henri recuou e Villiers praguejou, enquanto Harston sorria silenciosamente.

- Você é tolo o bastante para ir a bordo do Falcão de Guerra, com Harston? – rosnou Villiers – Ele cortará seu pescoço, antes que você se afaste muito da terra!

- Isto é como o problema da ovelha, do lobo e do repolho. – riu Vulmea – Como convencê-los a atravessar o rio, sem que devorem uns aos outros?

- E isso apela para seu senso celta de humor. – queixou-se Villiers.

- Não vou ficar aqui! – gritou Henri – Com ou sem tesouro, eu devo partir!

Vulmea o mirou, com os olhos semicerrados de especulação.

- Bem, então – disse ele – Harston zarpa com Villiers, você e os membros da casa que você

escolher, deixando-me no comando do forte e do restante de seus homens, e de todos os de Villiers. Construirei um navio que me levará às águas espanholas.

Villiers parecia levemente nauseado:

- Tenho a opção de permanecer aqui, exilado, ou abandonar minha tripulação e partir sozinho no Falcão de Guerra, para ter minha garganta cortada?

A risada borrascosa retumbou pelo salão, e ele bateu alegremente nas costas de Villiers, ignorando a morte negra no olhar feroz do bucaneiro.

- É isto, Guillaume! – ele disse – Fique aqui, enquanto eu e Dick partimos, ou zarpe com Dick, deixando seus homens comigo.

- Prefiro levar Villiers. – disse Harston, com franqueza – Você voltaria meus próprios homens contra mim, Vulmea, e cortaria minha garganta, antes que eu desse a volta em Cabo Horn.

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O suor pingava do rosto de Villiers.

- Nem eu, nem o conde, nem sua sobrinha, alcançaremos a França vivos, se embarcarmos com

este demônio. – ele disse – Vocês estão sob meu poder agora. Meus homens cercam este salão. O que me impede de liquidá-los?

- Nada. – admitiu Vulmea alegremente – Exceto que, se você o fizer, os homens de Harston irão zarpar e que, comigo morto, você nunca encontrará o tesouro; e q