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Hip-hop:dentro do movimento

Hip-hop: dentro do movimento

Alessandro Buzo

Hip-hop: dentro do movimento Alessandro Buzo Programa Petrobras Cultural Apoio

Programa Petrobras Cultural

Apoio

Hip-hop: dentro do movimento Alessandro Buzo Programa Petrobras Cultural Apoio

Copyright © 2010 Alessandro Buzo COLEÇÃO TRAMAS URBANAS (LITERATURA DA PERIFERIA BRASIL) organização HELOISA BUARQUE DE HOLLANDA consultoria ECIO SALLES produção editorial CAMILLA SAVOIA projeto gráfi co CUBICULO

HIP-HOP: DENTRO DO MOVIMENTO produtor gráfi co SIDNEI BALBINO designer assistente DANIEL FROTA revisão ELISA ROSA ITALA MADUELL JOANA FARO revisão tipográfi ca CAMILLA SAVOIA

B996h

Buzo, Alessandro, 1972- Hip-hop : dentro do movimento / Alessandro Buzo. - Rio de Janeiro :

Aeroplano, 2010. il., retrs. - (Tramas urbanas)

Anexos

ISBN 978-85-7820-055-8

1. Hip-Hop (Cultura popular). 2. Rap (Música). 3. Músicos de rap - Entrevistas. I. Programa Petrobras Cultural. II. Título. III. Série.

10-6288.

CDD: 305.2350981 CDU: 316.346.32-053.6(81)

06.12.10

09.12.10

023115

TODOS OS DIREITOS RESERVADOS AEROPLANO EDITORA E CONSULTORIA LTDA

AV. ATAULFO DE PAIVA, 658 / SALA 401 LEBLON – RIO DE JANEIRO – RJ CEP: 22.440-030 TEL: 21 2529-6974 TELEFAX: 21 2239-7399

aeroplano@aeroplanoeditora.com.br

www.aeroplanoeditora.com.br

A ideia de falar sobre cultura da periferia quase sem- pre esteve associada ao trabalho de avalizar, qualifi car ou autorizar a produção cultural dos artistas que se encontram na periferia por critérios sociais, econômi- cos e culturais. Faz parte da percepção de que a cul- tura da periferia sempre existiu, mas não tinha oportu- nidade de ter sua voz.

No entanto, nas últimas décadas, uma série de traba- lhos vem mostrar que não se trata apenas de artistas procurando inserção cultural, mas de fenômenos orgâ- nicos, profundamente conectados com experiências sociais específi cas. Não raro, boa parte dessas histórias assume contornos biográfi cos de um sujeito ou de um grupo mobilizados em torno da sua periferia, das suas condições socioeconômicas e da afi rmação cultural de suas comunidades.

Essas mesmas periferias têm gerado soluções originais, criativas, sustentáveis e autônomas, como são exem- plos a Cooperifa, o Tecnobrega, o Viva Favela e outros tantos casos que estão entre os títulos da primeira fase desta coleção.

Viabilizado por meio do patrocínio da Petrobras, a con- tinuidade do projeto Tramas Urbanas trata de procurar não apenas dar voz à periferia, mas investigar nessas experiências novas formas de responder a questões culturais, sociais e políticas emergentes. Afi nal, como diz a curadora do projeto, “mais do que a internet, a periferia é a grande novidade do século XXI”.

Petrobras - Petróleo Brasileiro S.A.

Na virada do século XX para o XXI, a nova cultura da periferia se impõe como um dos movimentos culturais de ponta no país, com feição própria, uma indisfarçá- vel dicção proativa e um claro projeto de transformação social. Esses são apenas alguns dos traços de inovação nas práticas que atualmente se desdobram no pano- rama da cultura popular brasileira, uma das vertentes mais fortes de nossa tradição cultural.

Ainda que a produção cultural das periferias comece hoje a ser reconhecida como uma das tendências cria- tivas mais importantes e, mesmo, politicamente inaugu- ral, sua história ainda está para ser contada.

É nesse sentido que a coleção Tramas Urbanas tem como objetivo maior dar a vez e a voz aos protagonistas desse novo capítulo da memória cultural brasileira.

Tramas Urbanas é uma resposta editorial, política e afe- tiva ao direito da periferia de contar sua própria história.

Heloisa Buarque de Hollanda

Dedico esse livro a todos os amantes do hip-hop, do Acre a São Paulo, por cada estado deste Brasil. Dedico ainda ao meu fi lho, Evandro Borges, que o hip-hop possa guiar os seus passos. E se é bom para o meu fi lho, só posso indicar a todos.

Agradecimentos

Queria agradecer à Heloisa Buarque de Hollanda e ao Ecio Salles por acreditarem que seria possível esse pro- jeto. É o 11º livro da minha carreira, sétimo como autor e outros quatro como organizador.

Queria agradecer a Deus pela disposição e pelas pessoas maravilhosas que coloca no meu caminho. A todos os entrevistados e a quem deu depoimento para essa obra, obrigado por confi arem no meu trabalho. Não podia dei- xar de agradecer ainda a minha esposa, Marilda, e a meu lho, Evandro Borges, por estarem comigo em tudo que eu realizo. Esse é o bonde do bem, espalhando literatura e hip-hop pelo Brasil.

Alessandro Buzo

Sumário

  • 12 Apresentação Tudo que você sempre quis saber sobre o hip-hop, mas não tinha pra quem perguntar… Préfacio

  • 17 Conversa de mano

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Cap.01

O início do movimento

  • 70 Profi ssionalismo no hip-hop

Cap.02

94

122

132

Cap.03

Cap.04

Cap.05

Mídia do hip-hop Polêmicas Pelo Brasil

  • 186 Fazendo rap mesmo com tudo contra

Cap.06

218

Cap.07

Posses do hip-hop

  • 224 Mulheres no hip-hop, aqui elas têm voz ativa

Cap.08

242

Cap.09

Grafi te

258

Cap.10

Freestyle

  • 270 Epílogo

  • 279 Considerações fi nais

  • 281 Depoimentos de pessoas dentro e fora do hip-hop Os manos e as minas

Anexos:

  • 315 Sobre o autor

Apresentação

Tudo que você sempre quis saber sobre o hip-hop, mas não tinha pra quem perguntar ...

Entrevistas com Dário (Porte Ilegal-SP), Nelson Triunfo (SP), Alexandre de Maio (SP), DJ Cia (RZO-SP), Rappin Hood (SP), Markão II (DMN-SP), Thaíde (SP), Cleber (Ao

Cubo-SP), Tio Fresh (SP Funk-SP), Toni C (SP), Crônica Mendes (SP), Douglas (Realidade Cruel-SP), Pregador Luo (SP), Dudu de Morro Agudo (RJ), Freitas (Radar Urbano- SP), B.Dog (Rapevolusom-RJ), DJ Cortecertu (Central Hip-Hop – SP), Juliana Penha (de SP, atualmente mora em Portugal), Maria Amélia (SP), Emicida (SP), Cabal (SP), Jéssica Balbino (MG), Celso Athayde (Cufa-RJ), DJ Dex (Arquivo Negro-PR), Gaspar (Z’África Brasil-SP), GOG (DF), Augusto do Hip-Hop (Acre), Gil BV (PI), DJ Raffa (DF), Ariel Feitosa (DF), Japão (Viela 17-DF), Nelson Maca (Blackitude-BA), Léo da XIII (RJ), Mandrake (Portal Rap Nacional-SP, atualmente SC), Dexter (MG), DJ Dico (SP, atualmente em Portugal), Zinho Trindade (SP), Fex Ban- dollero (SP), Grand-E (SP), Mikimba (SP), Aninha (Atitude Feminina-DF), Pathy de Jesus (SP), Re.Fem. (RJ), Nina Fideles (DF, atualmente SP), Bonga (SP), Dingos (SP), MC

Marechal (RJ), Kamau (SP) e ParteUm (SP)

...

Ufa!!!

Não podemos esquecer os depoimentos de Adunias da Luz (SP), Paula Lima (cantora), Fernando Bonassi (escri- tor e roteirista-SP), Negra Li (cantora-SP), Gerson King

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Combo (RJ), Tubarão (Du Lixo-SP), Tom (Função RHK-SP), Renato Vital (SP), Jefferson Leandro (Tonhão-MG), Zulu Tiquinho (SP), Corvo (Família Pic Favela-SP), Gordinho (Primeiro Ato-SP), Tio Pac (cineasta da Cidade Tiradentes- SP), Lucía Tennina (Argentina) e Walter Limonada (SP).

Eternamente grato às 62 pessoas que humildemente acreditaram no trabalho e participaram, doaram um pouco de seu conhecimento, seja por meio de entrevista ou mesmo em um depoimento.

Eu, Alessandro Buzo, faço parte do quinto elemento do hip-hop, o conhecimento, livros e fi lmes. Os outros qua- tro, se não sabe, são MC, DJ, break e grafi te. Há aproxi- madamente onze anos, quando comecei minha carreira de escritor, a literatura marginal, periférica, divergente caminhava lado a lado com o rap, como uma irmã. Logo depois do lançamento de meu primeiro livro O trem – baseado em fatos reais, em 2000, acabei conhecendo muitos rappers, e, com o passar dos anos, conheci quase todos os grupos, além de b.boys, grafi teiros e DJs.

Antes disso, eu era apenas fã das músicas, mesmo tendo passado a adolescência mais próximo do samba, partido alto principalmente. Também curti rock nacio- nal (Titãs, Legião e outros), até que conheci o rap, por meio dos meus amigos Cido — hoje da Banda Nação Nesta, de Limeira-SP, amigo de infância, irmão preto, que morou seis meses na minha casa — e meu irmão de sangue Álvaro Buzo: os dois ouviam Racionais MC’s e Planet Hemp. Identifi quei-me com as letras, os protes- tos, que antes só conhecia na voz do Bezerra da Silva, mas aquela música era sobre as coisas do meu dia a dia, sobre a quebrada, e eu era morador dela, nascido e criado no extremo leste de São Paulo, no Itaim Paulista. Prestei mais atenção e comecei a ler tudo o que achava sobre hip-hop, como as revistas Rap Brasil e Planeta

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Hip-Hop, e o jornal Estação Hip-Hop; em pouco tempo sabia por esses veículos tudo sobre o movimento. O res- tante conheci nas ruas, nos shows.

Lembro a primeira vez que assisti a um show dos Racio- nais MC’s no Amigão (casa de shows que se encontra fechada) na divisa de São Miguel com Itaim Paulista. Parecia mentira, os manos ali fazendo um megashow e eu junto curtindo. Alguns outros shows (no mesmo local) depois, o Brown fechou a apresentação dando um salve para vários presentes que estavam ali no palco, eu estava lá e ele disse: “Salve, Buzo.” Meu celular tocou no meio do barulho, e só ouvi um amigo dizer: “Caraio, moleque, o Brown mandou um salve pra você.” “Eu vi.” Vi ali do lado, curtindo o show na lateral do palco.

Quando entrei para a literatura produzida nas perife- rias, acabei conhecendo pelo tema “trem” o RZO e virei amigo dos manos. Posso afi rmar que o primeiro grupo que eu conheci de fato, virei amigo. Foi o RZO, no tempo da famosa “Laje da casa do Helião”. Ali conheci Helião, San- drão, DJ Cia, Negra Li, DBS e toda a família, que era nume- rosa. Vários talentos como o Tom, hoje do Função RHK, que já era bom e colava na Família RZO pra se aprimorar.

Uma escola de rap, era mais ou menos isso que eu via ali em Pirituba. Depois, no decorrer da caminhada, conheci muitos outros, principalmente a partir de 2004, quando comecei a promover na rua o evento de hip-hop Favela Toma Conta, de graça. Já levei ao Itaim Paulista gran- des nomes do rap nacional. Sinto-me capacitado para a missão importante e séria de escrever um livro sobre o movimento, encaro como um desafi o. Mas estou certo de que vai ser importante para o movimento, e para tal missão decidi chamar a rapa do rap. Este livro contém entrevistas e depoimentos de ícones da cena. Mas, no capítulo 1, vou fazer um balanço do rap no século XXI,

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como está o rap no início de 2010, na minha visão. Vamos lá, a partir de uma matéria do Mano Brown na capa de uma grande revista em circulação nas bancas.

A revista em questão é a Rolling Stone, e a matéria provo- cou grande repercussão. As poucas exposições do líder dos Racionais MC’s na mídia são sempre assim. Ele é um ícone do rap e do movimento hip-hop. E é avesso a pro- gramas de TV e à grande mídia em geral. Mas até onde o Mano Brown mantém o discurso de antes? Será que não temos um novo Mano Brown, mais aberto, nos dias de hoje? Afi nal, os anos 1980 foram uma coisa, e estamos em 2010. Quem imaginaria Brown num projeto da Nike, com um CD que ele recentemente produziu e vários rappers mandaram a rima, disponível no site da empresa?

Ser o Brown não deve ser fácil, ele é o centro das aten- ções por onde passa. Ele não esconde que não quer para si a liderança de nada, dispensa isso, mas que- rendo ou não ele é uma referência para jovens em todo o país, não dá pra fugir. Particularmente, acho suas letras pura poesia, são rimas refi nadas. O show dos Racionais também é top. No palco, o grupo é perfeito, envolve. Se o rapper mudou de visual ou não, acho que é um assunto particular dele. O caso da Nike é comer- cial, dim dim. Ele foi muito bem pago para fazer e fez. Só isso, o trabalho paga as contas no fi m do mês. Cabe a ele saber se o vínculo interessa, as críticas serão ine- vitáveis, como na ida do MV Bill à Daslu.

Hoje é muita informação circulando, e-mails, blogs, sites, Myspace, Twitter. Ficou mais fácil fazer parcerias, cada um sabe até onde isso fere ou não seu discurso, sua militância. Eu também faço as minhas parcerias. Sempre vai ter alguém criticando, falando isso ou aquilo. Mas hoje o rap está fortalecido. O Ministério da Cultura criou, por exemplo, o Prêmio Cultura Hip-Hop para dar

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suporte fi nanceiro a muitos projetos que merecem. O rap não é moda. Não existe moda que dure mais de vinte anos. O público que o rap perdeu nos últimos anos para o funk carioca, por exemplo, nas periferias de São Paulo, vai voltar em dobro com o que está por vir. O rap vai abraçar a juventude que está aberta para o que é bom. O rap está bem, obrigado. Eventos como a festa 100% Favela, o Favela Toma Conta e a Rinha dos MCs provam que existe público para todos os estilos. Pra quem curte Realidade Cruel, Consciência Humana, Ndee Naldinho e Facção Central, um rap mais sério e de raiz. Também tem público para a novíssima e talentosa “nova escola”, como Kamal, Emicida e Criolo Doido.

A internet é facilitadora, coloca o mundo ali do lado. Rappers antenados como o Dudu de Morro Agudo já estão indo para fora. Em 2009, Dudu passou um mês na França. Sem falar no quinto elemento da cultura hip-hop:

o conhecimento. Livros e fi lmes sendo lançados (este livro é um exemplo), escritores indo para outros países. O hip-hop é igual ao vinho, quanto mais velho, melhor. Podem me chamar de otimista, mas quem trabalhar

sério vai crescer. Quem viver verá refl ete o que acredito:

...

A

frase a

seguir

Destaco todos os que plantaram a semente, cercaram a muda e regaram a árvore. Só não destaco os que fi cam ape- nas à sombra do plantio alheio; mas aplaudo os que podam os galhos degradados e arrancam os parasitas do entorno.

NELSON MACA / BLACKITUDE (SALVADOR-BA)

Prefácio

Conversa de mano

Este livro foi inventado no susto. Numa certa tarde, no meio de uma conversa, Alessandro Buzo me disse: “Não existe ainda uma história do rap visto de dentro do movi- mento. E isso seria muito importante para todos. Eu me

disponho a fazer isso em três meses para você.” Os pra- zos eram curtos para fechar a segunda leva da Coleção Tramas Urbanas e Buzo sabia disso. Uma história do rap

em três meses

Será? Hesitei um pouco, mas resolvi

... arriscar. Na semana passada recebi a primeira versão dos originais prometidos e me surpreendi. Para uma professora de longa data como eu, uma história do rap obedeceria a metodologias de mapeamentos, pesquisas em diversas fontes, análise e interpretação de dados, enfi m, rituais do pesquisador ou do historiador acadê- mico. Mas o livro que Buzo me ofereceu não ia por aí. Era um papo de mano, praticamente ao vivo, uma conversa de mesa de bar, gostosa, cheia de pistas e novidades. Um mapeamento arbitrário e pessoal, um descortinar de uma cena particular, de iniciados. Como editora, pedi poucas mudanças. Alguns esclarecimentos factuais para leigos como eu. Resolvi me permitir embarcar no clima que Buzo propôs e entrar pela fresta nesse mundo des- conhecido dos bastidores do rap. Valeu, Buzo!

Heloisa Buarque de Hollanda

Cap.01 O início do movimento
Cap.01 O início do movimento

Cap.01

O início do movimento

Para falar como o hip-hop surgiu, mas principalmente o rap nacional, fomos falar com uma pessoa que vive o rap 24 horas por dia. Seu nome é Dário Nunes Silva, 37 anos, nascido em Santo André-SP, mais conhecido como Dário da Porte Ilegal.

BUZO: Como e onde surgiu a Porte Ilegal?

DÁRIO: A Porte Ilegal surgiu em uma loja na Rua 24 de Maio, começamos a trabalhar com o Grupo GOG, no Dia a Dia da Periferia, onde deu prosseguimento com a venda e distribuição de CDs, aí vieram vários grupos como RZO, Visão de Rua, Consciência Humana, Sistema Negro, Realidade Cruel entre eles, são vários.

BUZO: Quem fez a logo e deu o nome?

DÁRIO: O nome foi criado pelo letrista GOG, e a logo- marca foi ideia minha e projeto gráfico do Man do Filosofi a de Rua.

BUZO: Tem ideia de quantos CDs de rap nacional você lançou com o Selo da Porte?

DÁRIO: Não. Mas em torno de uns cinquenta. BUZO: Quais os maiores sucessos de vendas entre eles?

DÁRIO: Na mira da sociedade, que foi uma coletânea com GOG, RZO, Consciência Humana entre outros, foi a que mais vendeu, cerca de 30 mil cópias. Outros sucessos

O início do movimento

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foram Consciência Humana, Dexter, Realidade Cruel ... Lembrando que o sistema de venda de CDs hoje não se compara ao da época dos CDs citados anteriormente, hoje quem vende 5 mil se compara a quem vendeu 50 mil há dez anos. BUZO: Um clássico que você destaca que marcou época? DÁRIO: Racionais MC’s com Raio-X do Brasil, o próprio Na mira da sociedade. Num tempo mais recente, cito Rea- lidade cruel. BUZO: Qual foi a época de ouro do hip-hop no Brasil?

DÁRIO: Na minha opinião, a época de ouro não existiu, mas a melhor fase foi entre os anos de 1998 a 2002.

BUZO: Por quê?

DÁRIO: O giro fi nanceiro era grande pros grupos, pra shows, e foi quando o rap foi mais ouvido nas periferias do Brasil, era popular.

BUZO: Rap no Brasil, anos 1980?

DÁRIO: Anos 1980, na minha opinião, foi o começo, não tem muito que explicar, foi o surgimento de várias ban- das que vieram a estourar nos anos 1990, saíram ainda as primeiras coletâneas Hip-hop – Cultura de rua, com surgimento do Thaíde e DJ Hum, o álbum O som das ruas, com destaque para Sampa Crew, Ndee Naldinho, que era Ndee Rap, e outros, além do Kaskatas – Ousadia do Rap, se destacando Geração Rap.

BUZO: Anos 1990?

DÁRIO: Foi quando o Brasil soube o que era rap, quando ele fi cou conhecido no país e ganhou mais adeptos, sur- gindo o grupo Racionais MC’s, com lançamento de vários álbuns do Thaíde e DJ Hum e veio tudo depois.

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Hip-hop:dentro do movimento

BUZO: Século XXI, como está o rap hoje?

DÁRIO: O século XXI começou com milhares de grupos em todo o país, só com disco gravado tem mais de mil grupos diferentes. Se contarmos quem está fora do meu conhe- cimento ou não lançou, dá muito mais que o dobro.

BUZO: O que espera dele pro futuro?

DÁRIO: Há uma grande expectativa, pois os grupos apren- deram a ser independentes e estão fortalecendo o mer- cado novamente, hoje não existe mais gravadora.

BUZO: Uma história inesquecível nestes anos todos de rap?

DÁRIO: No auge do sucesso da Porte Ilegal, o músico Snoop Dogg, quando veio ao Brasil, pediu para usar uma camiseta da Porte Ilegal.

BUZO: Você trabalha sempre com o Dexter, o que pode nos dizer sobre ele?

DÁRIO: Uma pessoa de caráter 100% e hoje uma pessoa 100% regenerada, tem um talento nato e muito carisma com o público, estamos aguardando a saída dele ainda este ano para fortalecer o mercado do hip-hop. BUZO: Quem é o Dário da Porte Ilegal, por ele mesmo? DÁRIO: Eu me julgo uma pessoa administrativa do hip-hop, e não um artista.

Quando fazemos essa pergunta, sobre o início do movi- mento, para pessoas que viveram os tempos de São Bento (Estação São Bento do Metrô de São Paulo), todos citam Nelson Triunfo, de São Paulo. Então falamos com o Nelsão, com apoio do Gilberto Yoshinaga, que está escrevendo a biografi a dele. Vamos ver o que o pai do hip-hop nacional tem a nos dizer, uma honra suas palavras aqui no livro.

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BUZO / GILBERTO YOSHINAGA: Nos fale dos tempos da Rua 24 de Maio e da São Bento.

NELSON TRIUNFO: Tenho ótimas lembranças dessa época. Entre 1983 e 1984, muitos guardas implicavam com a gente, por isso não tínhamos um lugar defi nido para dançar, mas geralmente fi cávamos na região central. Fomos levados para a delegacia várias vezes. A polícia dizia que a gente não podia dançar na rua porque a mul- tidão parava para ver e aquilo e atrapalhava a passa- gem dos pedestres. Aí, pediam para ver nossa carteira de trabalho e nos acusavam de vadiagem. Mas sempre éramos liberados depois da canseira. Uma vez, um poli- cial me disse que, no meio da aglomeração, tinha uma molecada roubando carteiras de pedestres. E, como eu era uma voz ativa da roda de break, ele iria me acusar se alguém fosse roubado. Eu respondi: “E eu posso acu- sar você por todos os roubos que acontecem nos outros pontos da cidade?”. O policial disse que eu era abusado, mas eu não abaixava a cabeça pra esse tipo de intimi- dação, porque estávamos na rua com o único intuito de dançar, praticar a nossa arte das ruas.

Na maioria das vezes, fi cávamos ali nos arredores das ruas 24 de Maio, Barão de Itapetininga e Dom José de Barros, ali na Praça da República. Às vezes, dançávamos na Sé. Eu me lembro que, naquela época, Caju e Casta- nha também cantavam naquela região, nas ruas. Havia umas coisas curiosas, também. Por exemplo, offi ce boys que paravam para ver a roda de break e chegavam atrasados no trabalho. Alguns perderam o emprego por isso, e depois apareceram na roda e começaram a dan- çar com a gente, viraram b.boys.

A roda de break nas ruas cresceu e logo apareceu na mídia, em jornais e revistas. Ainda em 1984, essa reper- cussão levou a gente para a televisão, quando eu e outros

orte Ilegal) e Buzo Dário (Porte Ilegal) e Buzo
orte Ilegal) e Buzo
Dário (Porte Ilegal) e Buzo

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Hip-hop:dentro do movimento

b.boys participamos da abertura da novela Partido alto, misturando movimentos de break com passos de samba.

Em 1985, tive um problema de saúde, machuquei o joelho e precisei me afastar um pouco da dança. Foi quando o João Break e o Luizinho, irmão dele, levaram o break para a estação São Bento do metrô. E ali se for- mou o embrião do hip-hop brasileiro, porque o espaço começou a se popularizar e atrair muita gente que hoje é referência nacional, como os Racionais, o Thaíde, o DJ Hum, os grafi teiros Osgemeos, o Marcelinho Back Spin e muitas outras pessoas.

BUZO / GILBERTO YOSHINAGA:

daquele tempo?

O

que mais te dá saudade

NELSON TRIUNFO: Naquela época, o hip-hop era mais unido porque ninguém via o outro como concorrente, até o surgimento das crews. Era um clima de família, mesmo. Dançávamos por diversão, por amor à arte, e nos aju- dávamos bastante. Lembro que muitas vezes passa- mos o chapéu junto ao público para levantar uns troca- dos. Assim, conseguíamos pagar as nossas passagens de trem ou ônibus e comer alguma coisa. Quando saiu o fi lme Beat Street, usamos o chapéu para pagar os ingressos no cinema. Acho que vi o fi lme umas dez vezes naquela época. Foi importante porque a partir dali é que começamos a entender o que é a cultura hip-hop.

BUZO / GILBERTO YOSHINAGA: Como é estar ou ser há tantos anos do movimento hip-hop e ainda ter toda a disposição pra seguir adiante?

NELSON TRIUNFO: Fisicamente não é tão fácil pra mim, por- que estou com 55 anos de idade, quarenta anos de dança nas costas. De vez em quando eu me machuco ou sinto algumas dores. Mas minha disposição vem do amor que eu tenho pelo hip-hop, principalmente pela dança. Em

O início do movimento

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todos os momentos, desde o soul e o black power até o hip-hop de rua e os movimentos sociais, sempre fui fi el a esse meu amor pela coisa. Isso é minha vida, e me dá força para prosseguir, independentemente da idade, que nem o Romário e o Roger Milla [jogador de futebol cama- ronês], por exemplo, que sempre jogaram por prazer e só abandonaram os gramados depois dos 40 anos. Agora, tenho me dedicado mais ao meu lado músico, que pouca gente conhece porque sempre me destaquei mais como dançarino e arte-educador. Mas também sou músico e poeta, tenho centenas de composições próprias e, no momento, quero me dedicar a esse lado. Sem contar que estou mais presente para a minha família, é claro.

BUZO / GILBERTO YOSHINAGA: No seu show participam seus fi lhos. Como é trabalhar em família?

NELSON TRIUNFO: Somos uma verdadeira “família hip-hop”, e não sei se existe outra igual a nós. Minha esposa Heloísa ama o hip-hop e participa da maneira que pode, preparando nossas roupas, opinando, fi lmando os eventos e tirando fotos. O Jean, meu fi lho mais velho, joga basquete, que é um esporte relacionado ao hip-hop, e também canta, dança e faz beatbox. O Andrinho, caçula, é b.boy desde os 3 anos de idade e dança em vários estilos. Apesar da pouca idade, ele também já faz freestyle no rap.

É muito gostoso e gratifi cante ter a família toda par- ticipando dos eventos comigo. E o mais legal é que nunca forcei eles a participarem de nada, é tudo muito espontâneo. No papel de pai, eu abro o leque de conhe- cimentos para eles fazerem o que quiserem. E fi co feliz porque o envolvimento deles com o hip-hop sempre foi algo natural. Acho que a cultura de rua hip-hop está no nosso DNA (risos).

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Hip-hop:dentro do movimento

BUZO / GILBERTO YOSHINAGA: Se você acha o hip-hop bom

para os seus fi lhos, indica para o fi lho de qualquer outra pessoa, é isso? Hip-hop faz bem pra crianças e jovens?

NELSON TRIUNFO: Sim, o hip-hop é muito bom para crian- ças e jovens, desde que se tenha a responsabilidade de saber que é muito importante buscar outros conheci- mentos, estudar, se aperfeiçoar. A maior prova de que o hip-hop faz bem para os jovens são as várias pessoas que passaram pelas minhas palestras e ofi cinas de dança e venceram na vida. Cheguei a trabalhar com jovens que estavam desacreditados e, hoje, estão espalhados pelo mundo. Tem b.boys morando na Holanda, na Alemanha, na Finlândia, nos EUA. Também trabalhei com garotas que tinham abandonado a escola e, graças ao hip-hop, se motivaram a voltar a estudar e, hoje, são professoras, pedagogas, psicólogas, entre outras profi ssões.

Uma coisa gratifi cante é saber que muitos ex-alunos se tornaram educadores do hip-hop e já formaram novos educadores. Já estamos na terceira geração de multipli- cadores da educação através do hip-hop. E, se não fosse a cultura de rua, não sei o que seria da maioria dessas pessoas. Uma vez, o Joul, MC do grupo Matéria Rima, estava num avião comigo e começou a chorar. Eu pergun- tei o porquê e ele me disse que estava emocionado de ver o Rio de Janeiro lá do alto, e que adoraria poder dividir aquele momento com os amigos de infância, mas a maio- ria tinha sido presa ou já estava debaixo da terra.

BUZO / GILBERTO YOSHINAGA: Acha que o hip-hop, no geral, está num bom momento?

NELSON TRIUNFO: Sim, acredito que o hip-hop está num momento de transformação. Acho que aquela linha mais pesada do rap sofreu um certo desgaste, e poucos sobreviveram, só os mais verdadeiros. Vejo os chama- dos “undergrounds” subindo pra caramba.

O início do movimento

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Muita gente que batalhou por vários anos está vivendo um momento glorioso, inclusive no break e no grafi te. Por exemplo, os grafi teiros Osgemeos hoje são respei- tadíssimos no mundo todo. Além disso, o Brasil está no circuito das batalhas internacionais de break, e vários b.boys brasileiros têm se destacado em competições pelo mundo afora.

Dentro do Brasil, existem bons grupos de rap em todos os estados, concursos de dança, trabalhos sociais. Cada vez mais temos livros voltados para o hip-hop,

teses de universidades, documentários um reconhecimento à cultura de rua.

...

Isso tudo é

BUZO

/

GILBERTO YOSHINAGA:

movi mento?

O

que espera do futuro do

NELSON TRIUNFO: Espero que chegue a um status de res- peito, de nome, de alto nível na cultura brasileira, como tem hoje a Ivete Sangalo, por exemplo. E que a gente consiga sobreviver de forma sólida, que tenha inde- pendência fi nanceira e possa gerar empregos, mas de forma unida, sem se isolar.

Espero que o hip-hop se mantenha como um movimento social, musical, educacional, politizado e transformador também. E que as pessoas envolvidas não tenham medo de interagir com outras manifestações culturais e artís- ticas, ou com os esportes, por exemplo. Não podemos ter medo de diversifi car, mudar, evoluir, parar no tempo.

O hip-hop tem mudado com o tempo. Os quatro ele- mentos permanecem vivos, mas há outros elemen- tos se relacionando com ele, criando coisas paralelas, enriquecendo ainda mais a cultura. O “tempo bom que não volta nunca mais”, como canta o Thaíde, foi mara- vilhoso, mas hoje há outras coisas boas. Eu tinha a barba preta e hoje ela é branca, mas eu continuo sendo hip-hop desde aquela época.

Nelson Triunfo e B
Nelson Triunfo e B
Nelson Triunfo e Buzo
Nelson Triunfo e Buzo

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Hip-hop:dentro do movimento

Acho interessante preservarmos os valores, mas temos que assimilar concepções diferentes de se ver e produ- zir cultura, respeitando a diversidade. Uns trabalham mais a questão racial, outros seguem uma linha român- tica, politizada, gospel ou underground, entre outras.

Tudo isso junto é que dá ao hip-hop a beleza que ele tem. É até legal ter esse ar de “desorganização”, porque isso é que dá total liberdade de expressão e criação. Acho que, se organizarmos demais a cultura, ela se estraga.

Chico Science já dizia, né? “( posso desorganizar.”

...

)

Que eu me organizando

Alguns fatores fazem do ano de 2010 (o mesmo em que eu escrevo esta obra) importante na história, e acho que um desses fatores foi a criação do Prêmio Cultura Hip-Hop, edição Preto Ghóez. Uma signifi cativa quan- tia em dinheiro foi distribuída entre os ganhadores das categorias. O prêmio teve a ONG Ação Educativa na organização e o MinC como suporte. Um dos res- ponsáveis por toda a arte, logos e divulgação do prê- mio foi o jornalista Alexandre de Maio, que por muitos anos esteve nas bancas com publicações voltadas ao público hip-hop, como as revistas Rap Brasil, Rap News, Planeta Hip-Hop e Graffi ti. A editora Escala e depois a Minuano, com a revista Cultura Hip-Hop, tiraram os veículos de circulação por baixa nas vendas, refl exo de um movimento que tem os jovens das periferias e, logo, de menor poder aquisitivo, como público-alvo. O fi m das revistas deixou uma legião de seguidores órfãos de uma publicação que atendesse o interesse deles.

Mas sobre isso falaremos mais para a frente com Alexan- dre de Maio. Nossa primeira entrevista com ele, no início de fevereiro de 2010, foi para sabermos mais e documen- tar aqui em livro o que se podia esperar do Prêmio Cultura Hip-Hop do MinC, vamos à entrevista.

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BUZO: Fale do Prêmio Cultura Hip-Hop, qual a importân- cia dele e por quê?

ALEXANDRE DE MAIO: O Prêmio Cultura Hip-Hop - Edição Preto Ghóez é um iniciativa do Ministério da Cultura, mais precisamente da Secretaria da Identidade e da Diversidade Cultural. Ele vai ser em forma de edital e vai premiar mais de 128 projetos, totalizando mais de 1 milhão e 700 mil reais em prêmios. Um prêmio como esse é de grande importância porque vamos conseguir mapear as ações do hip-hop em todo o Brasil. Teremos a real dimensão da nossa cultura e de suas atividades em todo o país. Vai ser uma oportunidade para nos conhe- cermos melhor. E um incentivo pra quem já trabalha com as situações das mais adversas e merece reconhe- cimento do poder público. Pois o movimento hip-hop ajudou a eleger o atual governo e a sua força é notoria- mente conhecida e respeitada.

BUZO: Esse dinheiro no meio do hip-hop vai consolidar o movimento, fi nanceiramente falando?

ALEXANDRE DE MAIO: Parece uma grande quantia, mas quando ela é dividida fi ca em torno de 20 mil reais em média para cada projeto. Então acho que será um incen- tivo para quem já realiza um trabalho. Não vai mudar a vida de ninguém, mas com certeza vai ajudar, e muito, os projetos e incentivar outros a começarem novos projetos.

BUZO: Quanto desse prêmio surgiu daquele encontro de líderes do movimento com o Lula?

ALEXANDRE DE MAIO: Pelo que pude apurar, aquele encontro foi o estopim para o reconhecimento do hip-hop dentro do governo. Dali em diante, muitas organizações e pro- jetos cresceram. Depois, debates, encontros e muita militância principalmente de nomes como Preto Ghóez (que é homenageado no prêmio) foram decisivos para

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que o prêmio saísse do papel. Vejo como um conquista coletiva da cultura hip-hop. Cada cara que canta rap, cada b.boy que dá ofi cina, cada grafi te na rua, cada DJ que ensina ou se apresenta nas quebradas, cada mano que faz um blog, um site para divulgar a cena. Cada um teve papel nesse gigante que é a cultura hip-hop no Bra- sil. Somando todas essas ações, conquistamos esse prêmio e mudamos a cara das periferias no Brasil. O hip-hop unido ainda pode conquistar muito mais. Con- quistamos algumas coisas, mas estamos longe de uma sociedade mais justa.

BUZO: Como vê as perspectivas do hip-hop pro futuro?

ALEXANDRE DE MAIO: Eu trabalho com organizações em todo o país, e em cada cidade do Brasil vejo esses projetos crescendo. Vejo cada vez mais o rap brasileiro ganhando respeito na música, nosso b.boys são considerados os melhores do mundo, o grafi te nem se fala, a safra de artistas ganhou o mundo. Os DJs cada vez mais são os donos das festas. No terceiro setor o hip-hop também se mostra uma das alternativas mais efi cazes. Vejo um futuro promissor para a nossa cultura. Mas para poder enxergar isso as pessoas precisam colocar os óculos do trabalho, da força e da vontade de mudar. Quem se aco- modar e pensar que a “fi ta tá dominada” só vai ver fra- casso. Eu vejo milhares de artistas, militantes, comu- nicadores acordando todo dia cedo em todo o Brasil e trabalhando pela cultura. Como isso pode dar errado?

BUZO: Existe o tal “quinto elemento”?

ALEXANDRE DE MAIO: O quinto elemento é um forma de agregar as artes do hip-hop a um conteúdo mais pro- fundo, um algo a mais que a simples forma de se expres- sar. É no quinto elemento que o hip-hop se diferen- cia na música, nas artes plásticas, nos toca-discos, e

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na dança. Conhecimento é a chave, a história mostrou que a verdadeira revolução se faz pela educação. Não tem outro caminho. E o hip-hop traz isso – vamos nos expressar, vamos fazer arte.

A entrevista com Alexandre de Maio mostra uma expec- tativa e um otimismo parecidos com os meus. Eu também vejo assim, com muito trabalho iremos crescer e dominar a fi ta. Se não encararmos como trabalho e tentarmos nos profi ssionalizar, nada vai mudar, e todo estilo musi- cal que surgir no país vai ter mais espaço que o hip-hop, mesmo que seja uma moda como a lambada e vá embora seis meses depois, tão rápido quanto surgiu, mas antes vai passar no Faustão, no Gugu e vender um absurdo de CDs, enquanto no hip-hop está muito difícil vender 10 mil unidades de um disco. Claro que parte da culpa é da internet, os manos baixam música e cada vez mais os artistas a disponibilizam sem ter lançado ofi cialmente em disco nenhum. Mais vale hoje “bombar” na internet e depois ganhar dinheiro vendendo shows. Alguns gru- pos de rap, não mais que dez, viajam por todo o país, se apresentando em uma série de eventos. Os grupos que mais se apresentam fora do seu estado de origem são os Racionais MC’s, de São Paulo, e o GOG, de Brasília. Em minhas andanças pelo Brasil, pude ter uma certeza do tamanho que a coisa fi cou. Há muitos anos não é mais uma cena apenas paulistana, tem rap do Sul do país até o Norte, o Nordeste, tem rap em qualquer lugar do Brasil.

O MinC só criou o Prêmio Cultura Hip-Hop porque viu a mesma situação. Em uma tribo indígena no Amazonas tem rap, vai na mais distante quebrada deste país, tem hip-hop. Algumas viagens que fi z como repórter da revista Rap Brasil, cobrindo eventos para escrever a coluna “Pelo Brasil”, me trouxeram outra visão que vai muito além das centenas, ou milhares, de grupos que

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existem no estado de São Paulo onde o rap surgiu. E os jovens do Acre, de outras localidades que visitei, amam a parada, vivem por ela. Confesso que não sabia o que ia encontrar quando embarquei em 2007 para o Acre, para cobrir o Primeiro Encontro Norte de Hip-Hop, organizado pelo Augusto do Hip-Hop e sua esposa, com alguns alia- dos. O evento teria duração de dois dias, com debates e palestras no primeiro e show no segundo. Mais a pre- sença de militantes de outros estados do Nordeste, além dos locais de Rio Branco.

Já no primeiro dia vi que os participantes dos debates tinham discurso de protesto, com temas diferentes dos nossos, falavam da preservação da Amazônia e coisas assim. Mas tinham o mesmo estilo do rap militante dos anos 1980 e 1990 em São Paulo, só lutavam por outras causas. No segundo dia, a minha nova surpresa: o nível dos b.boys e depois dos grupos de rap locais era de fato muito bom, e eles tinham rimas envolventes. Saí de lá com a certeza de que o rap era forte em qualquer lugar do Bra- sil. Como uma vez em que fomos para Goiânia, eu (Buzo), Juliana Penha e Marilda Borges cobrir o lançamento do primeiro DVD de rap do estado, evento e DVD, ambos orga- nizados pelo DJ Fox, militante de mil anos na cena.

O número de grupos seguidores era impressionante, a molecada nova tudo fi rme e forte no rap, curtindo os sons, vestindo camisetas de grupos locais e de São Paulo. No segundo dia, fomos jantar com um pessoal do rap gospel em Aparecida de Goiânia, grande Goiânia. Chegando a uma igreja evangélica, esperamos acabar o culto que acontecia. Saiu um mano de social, dizendo ser o MC tal, falava que assim que os irmãos esvazias- sem a igreja eles tinham autorização do pastor para nos receber no local. Perguntei: “Não era um jantar? Uma fome da gota.” E ele respondeu: “É que avisamos a um pessoal que vocês viriam, da Rap Brasil de São Paulo, e eles querem conhecer vocês.” Olhei para o outro lado de

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uma rua de duas pistas, tinha cerca de quarenta jovens vestidos ao melhor estilo hip-hop. Vieram na direção da igreja, e a Juliana falou: “O que a gente faz, Buzo?” Res- pondi: “Vamos improvisar uma palestra, um bate-papo.” E assim aconteceu. Os caras e as minas tomaram conta da igreja, faixas de crews foram penduradas e falei (ou falamos) por cerca de uma hora.

O MC que nos recebeu trocou não sei onde a roupa social por vestimentas do hip-hop. Nem parecia a mesma pes- soa. Algumas fotos e missão cumprida! Depois nos leva- ram para uma quebradinha de periferia, muitas ruas sem pavimentação, a cidade toda é meio periférica, então sim, um maravilhoso jantar nos aguardava, preparado pelas esposas dos manos. Então, como àquela altura a fome era maior que qualquer outra coisa, comemos, e muito bem, obrigado.

São tantas histórias, como na minha ida à Bahia, levado pelo Nelson Maca, do Coletivo Blackitude – Vozes Negras da Bahia, além de palestras em faculdades. O Maca fez questão de me levar para conhecer os manos do hip-hop na cidade de Alagoinhas-BA. No local, conheci um mano defi ciente físico chamado “Mama”, que é MC, e outros rappers ou militantes. A casa era um local humilde, mas zeram questão de nos receber com um belo almoço. Isso mostra que o rap é mesmo uma grande família, e na maioria das vezes acolhedora, basta saber chegar.

Sempre disse isto: se toda periferia curtisse rap, o sis- tema ia tremer, porque a revolta ia vir junto com a infor- mação, com a denúncia e com a cobrança. Mas a maioria da população periférica prefere o forró com duplo sen- tido, o cantor ou a cantora que vai ao Faustão. Só é um grande escritor se for ao Jô Soares, só é famoso se sair na Veja, então eles dominam a informação e passam para o povo programas sem conteúdo como o Big Brother, da Globo, e A Fazenda, da Record. Um povo alienado é sem- pre mais fácil de manipular. O rico continua rico, o pobre,

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cada vez mais pobre, e sonhando apenas com o celular de última geração, muitas vezes sem crédito para fazer ligação, um carro melhor que o do vizinho, igualzinho ao que ele viu na TV. Compre, compre, consuma e seja vencedor, não ajude ninguém, na selva de pedra é assim:

“Eles matam os humildes demais”, como diria um som dos Racionais.

Mas o rap no Brasil prega outra coisa, talvez até mesmo a dita união nunca tenha sido plenamente vivida, embora ela ainda seja difundida. O rap exige uma postura, uma conduta, e são os militantes que fazem o movimento seguir adiante, mesmo nas piores crises. Se você per- guntar a opinião das pessoas de dentro do movimento, de como elas veem o rap no momento, a resposta vai ser muito diferente de um para o outro, porque alguns são mais otimistas, e outros nem tanto. Na verdade, poucos têm coragem de dizer o que pensam de forma tão direta como o DJ Cia numa entrevista exclusiva para mim, em

fevereiro de 2010, publicada no meu blog 1 sobre o rap nos dias de hoje. Ele disse: “O rap, a meu ver, está perdido, me desculpem a franqueza, ninguém tá fazendo algo que dê uma explosão mesmo, e precisamos disso, digo até mesmo do nosso lado. Existe uma fórmula e é o que corremos atrás, do jeito que está é muito cômodo, não vai mudar nada se continuar assim, precisamos colocar o rap na rua, nos carros, nas casas, nas rádios, tem que ser febre como o samba, as pessoas têm que cantar como se canta samba, o samba é da favela, não é dos boys, você não vê boy fazendo samba, a diferença é a união. Pô, é loko, sim, underground, freestyle etc., mas todos são um só nego, enfraquece ao invés de fortalecer, está cada um no seu canto, ninguém fala de ninguém, não ajuda, não comenta, não fala bem, só fala mal, se não for do seu

bolo então ...

tá errado. Pensem nisso.”

1 www.buzoentrevista.blogspot.com

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Pensamos sim, tanto que fi zemos a mesma pergunta para outros do nosso meio, não para provar que o DJ Cia estava errado, porque na verdade o que ele nos disse é, de certa forma, verdade. Falta o que mais pregamos no rap: a união. Mas o que sobra são adeptos em todos os lugares do Brasil, fazendo do hip-hop uma das expres- sões que mais dialoga com a juventude do país. E com mais de vinte anos, deixou de ser encarado como moda, é um estilo consolidado e que cresce mais e mais. As difi culdades e limitações impostas são muitas, desde o preconceito em cidades do interior do país, até persegui- ção policial nas grandes cidades. Alguns casos viraram notícia, como o da Virada Cultural de 2008, quando o palco do hip-hop era o mais afastado, o de mais difícil acesso e o único com forte esquema policial, dando geral em quem chegava para assistir aos shows. Surgiram vários protestos, principalmente na internet, e a solução foi no ano seguinte não ter mais o palco do hip-hop. Uma ou outra atração ligada ao movimento foi espalhada pela cidade, mas nenhuma delas era exclusiva para os adep- tos do hip-hop. Ver isso acontecer há tão pouco tempo, e na cidade de São Paulo, berço da cultura no país, é de fato um caso para se preocupar.

Existem outros exemplos, como o texto preconceituoso da jornalista Bárbara Gancia publicado no jornal Folha de S.Paulo. Na época, vários militantes escreveram tex- tos contra a jornalista e mandaram para o jornal, mas nada aconteceu. Nesses protestos, mais militantes do que artistas, grandes nomes da cena geralmente não tomam partido. Se isso ajuda ou atrapalha, cabe a cada um tirar suas conclusões. Eu acho que se nomes de peso se manifestam publicamente, trazem consigo o seu público; é a minha opinião sobre esse caso. Na semana em que escrevo estas palavras, aconteceu um fato muito triste para o rap nacional. Morreu a rapper Dina Di, do grupo Visão de Rua, uma das pioneiras no rap feminino,

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referência para mulheres de todo o país. Não poderia ser diferente: todos os sites e blogs de hip-hop, cada um a sua maneira, publicaram homenagens, mas na grande mídia quase nenhuma matéria, nem em jornais, nem nos principais sites, nem telejornais, porque o agravante é que em pleno século XXI ela morreu de uma infecção hospitalar 17 dias depois de dar à luz sua fi lha Aline (02/03/2010), em 19 de março de 2010. Não vi nenhum comentário na grande mídia, assim é o rap no Brasil, dis- criminado porque incomoda.

O movimento precisa se juntar para discutir ações e diminuir esses descasos, mas é pouco provável que isso venha a acontecer. Muitos se preocupam apenas por questões diretamente ligadas a sua música, sua car- reira. Por falta de tempo, de dinheiro, de interesse até de alguns. O Mano Brown, há algum tempo, convocou centenas de líderes do movimento e de grupos de ponta. A questão a ser abordada era o conteúdo das letras, porque muitas vezes os moleques seguem o que ouvem ao pé da letra e sem prestar atenção na parte em que o bandido morre, vai preso. Músicas como a dos Racionais que diz “Hoje eu sou ladrão, artigo 157, as cachorras me

amam, os playboys se derretem

... pretada. Era isso que o Brown queria passar nessa tal reunião que não trouxe nenhuma mudança concreta, mas é esse tipo de encontro que precisaria ser realizado com maior frequência, para juntos arrumarmos saída para todas as questões que envolvem o hip-hop. As prin- cipais são como fazer dinheiro, como viver da nossa arte, como diminuir o preconceito e estourar na mídia para, como disse o DJ Cia, chegar a todos os lugares como o samba. Sabotage já disse e sua mensagem é clara: “Rap é compromisso, não é viagem”.

pode ser mal inter-

Como estamos falando do início de tudo, fomos buscar uma pessoa que viveu aquele momento na São Bento, o berço do hip-hop nacional, para nos contar mais detalhes.

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No mês de maio de 2010, estivemos na quadra da Impe- rador do Ipiranga. A missão era entrevistar com exclu- sividade para este livro um dos principais nomes do rap nacional. Falo de Rappin Hood, que agora é vice-presidente da escola da samba Imperador do Ipiranga. Hood me recebeu muito bem, somos amigos desde que trabalha- mos juntos no programa Manos e minas da TV Cultura. A entrevista dele é importante, afi nal, Rappin Hood é um dos manos que estão na cena desde o início na São Bento. Falamos de muitos assuntos e agora você, leitor, confere na íntegra.

BUZO: Rappin Hood, o assunto é hip-hop. Se eu te falar só essa palavra, o que vem na sua mente?

HOOD: Na minha mente vêm breakers dando giro de cos- tas no chão, grafi teiros grafi tando, MCs rimando, DJs tocando aqueles raps pesados. Pô, hip-hop é tudo isso, vejo também a questão social, a reivindicação, a mili- tância. Vejo a molecada se divertindo num baile, manos e minas tirando uma onda, curtindo um som, isso pra mim é o hip-hop.

BUZO: Existe pra você, sei que para outros pode existir, mas pra você existe rap sem protesto?

HOOD: Não. Como diria o Sabotage, rap é compromisso, eu aprendi assim, né, mano, eu sou um nome da velha escola do rap brasileiro, mas acho que o rap também serve para divertir. Eu acho que a nova molecada saca que o rap nacional não tem que carregar isso nas cos- tas, mas também não pode perder isso de vista, né, não pode esquecer, acho que dá pra fazer as duas coisas, divertir e mandar a mensagem, eu acredito nisso.

BUZO: Você vem daquele tempo da São Bento, como era fazer o som no cesto de lixo do metrô, fazer daquilo um instrumento, como era isso?

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HOOD: Isso aí foi o começo de tudo, foi uma fase boa porque eu pude conhecer o hip-hop, entender o que é hip-hop. Comparado aos mestres do hip-hop, era muito ingênuo, a gente se reunia ali simplesmente para dançar o break, buscar informações. Naquele tempo não tinha internet, a informação era difícil, então eu tinha uma informação, o outro tinha outra e assim a gente apren- deu o hip-hop. Era muito da hora poder estar numa lata de lixo, batucando e cantando ao lado de MC Jack, JRW, Estilo Selvagem, ver Jabaquara Breakers, Back Spin, duelando ali no break, foi um tempo maravilhoso, foi uma efervescência cultural. O começo, né, foi muito bom e é algo que eu sempre procuro manter vivo em minha mente, não perder de vista, saber de onde eu vim, de onde o hip-hop veio e me manter fi rme naquele pro- pósito. Hoje são novos tempos, mas acredito que aquele começo maravilhoso é a base de tudo.

BUZO: Você veio com aquela primeira safra, pessoas estavam descobrindo o hip-hop. Quando deixou de ser diversão e passou a ser profi ssão?

HOOD: Na verdade, eu nunca vi o rap como fonte de renda. Quando eu comecei, era mais um hobby, um lazer que eu tinha, eu trabalhava de offi ce boy e no fi m de semana eu ia lá me reunir com o povo. Quando tinha algum trampo no centro, passava na galeria e tal, mas nunca calculei isso. Na verdade, começo da década de 1990, quando eu comecei a gravar meu primeiro CD, eu abri o selo Raízes junto com o KL Jay, aquele momento foi um momento em que eu pensei nisso. Parei de trabalhar pra viver só de hip-hop, pra lançar o Raízes Discos, pra lançar o disco do Posse Mente Zulu e dali pra frente foi só hip-hop, né, Buzo. Não é fácil, 99% transpiração, 1% de inspira- ção, viver do hip-hop, do rap, não é fácil, mas tem como se viver do rap, se você for dedicado, se você batalhar, acreditar em Deus, em você mesmo, aí pode conseguir,

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sim. Tem vários parceiros que vêm do hip-hop como eu. Hoje, no Brasil, o hip-hop é forte, tem muita coisa acon- tecendo, não vai ser assim aquela vida de gala, mas dá, tem como se viver do hip-hop, do rap.

BUZO: E o hip-hop, salva? HOOD: Salva pô, salva. BUZO: Em qual sentido?

HOOD: Salvou vários parceiros meus. O exemplo maior que eu tenho pra falar disso é o Sabotage, né, cara. Quando eu conheci ele, éramos moleques no Clube do Rap, e depois disso a gente fi cou um tempo sem se ver, depois a gente se encontrou, ele foi num show meu e falou: “Pô, tô com umas rimas, queria te mostrar e tal.” E aí teve aquele célebre capítulo em que eu e o Sandrão fomos buscar ele na Espraiada, pra começar a cantar com a gente nos shows, pra começar a fazer o projeto do que seria o primeiro disco dele.

BUZO: Existiu mesmo aquele caso de o pessoal do meio que ele trabalhava perguntar pra vocês do que ele ia viver?

HOOD: Teve isso, sim, uma conversa séria com os meni- nos com quem ele trabalhava, ele era funcionário, né, de um certo patrão, e aí quando surgiu essa ideia ele falou:

“Firmeza”, eu libero ele, mas o que vocês vão fazer por ele?, porque se ele voltar aqui pedindo emprego eu não vou dar, se ele quiser até deixo um dinheiro até ele se estabelecer. A conversa foi essa: “O que vocês vão fazer com meu menino, ele vai fi car legal?, ele vai trabalhar?, ele vai poder sustentar a família dele?”.

BUZO: Aí surgiu o RZO na fi ta?

HOOD: Nós já estávamos juntos, estávamos eu, o San- drão e o Paulinho Pedroso, que é aqui da comunidade (Vila Carioca) e deu uma carona pra gente. A partir dali

a e fi lho DJ Cia e fi lho
a e fi lho
DJ Cia e fi lho

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ele começou a ir aos shows do Posse Mente e do RZO, ia comigo, ganhava um qualquer, ia com o RZO, ganhava um qualquer. Aí o Brown deu uma força pra ele gravar o disco dele no YD, com o Gonzales, o Ganja, essa é a his- tória do neguinho, a trajetória do neguinho, depois disso todo mundo sabe o que aconteceu.

BUZO: A previsão quando ele (Sabotage) nos deixou era que fosse estourar não só no rap, mas no cinema. Como você acha que estaria o rap com ele aqui, um alicerce para estar em outro patamar?

HOOD: Com certeza, o Sabotage era uma pessoa forte que estava se destacando, levando o hip-hop pra outras

frentes, por exemplo, eu

hoje em dia já fi z dois fi lmes

... atuando, com fala, que foram Carandiru e Nina, mas tudo começou com o Sabotage em Carandiru, eu lembro como se fosse hoje, eu falei pra ele: “Eu não sou ator.” Ele disse: “Neguinho de periferia não sabe imitar um ladrão, você é ator, porra.” (risos). Ele tinha uma visão legal de expansão, de progresso, né, ele ia estar gigante, monstro, fazendo uns trabalhos legais, levando o hip-hop pra outras fontes, pra outras margens.

BUZO: Ia te perguntar de três ícones do hip-hop, um deles era o Sabotage, que você já falou, queria saber de outras

duas pessoas, primeiro

...

Nelson Triunfo?

HOOD: Pô, o Nelsão, sem palavras, pô, irmão, eu assisti ao Nelsão no Bozo, cara, eu era garoto, programa do Bozo, Nelsão e Funk e Cia. dançando, e tive a oportu- nidade de conhecê-lo nos bailes da Chic Show, Zimba- bwe, admiro a humildade dele, ele passou por todas as gerações e continua aí fi rme e forte até hoje, fazendo suas palestras, suas ofi cinas, seus shows, eu tenho uma admiração muito grande pelo Nelsão, pelo que ele representa pro nosso movimento, se fosse lá fora ele seria um James Brown.

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BUZO: Falta valorização no Brasil?

HOOD: Acho que ele merece muito mais, ele é com cer- teza o grande ícone do hip-hop nacional, o Nelsão vem da fase do James Brown, ele conhece a história do movi- mento do país, é o Papa Down do hip-hop brasileiro, gosto muito da pessoa dele, a família dele é sensacio- nal, sou fã dele.

BUZO: Última pessoa de três personalidades, Sabotage,

Nelsão e por fi m

Dexter. Como pode um cara exilado vir

... de vez em sempre inovando?

HOOD: O Dexter é muito inteligente, né, a gente é da mesma safra de rap, abrimos muito show dos Racionais,

Thaíde, Sampa Crew

Lembra, Dexter? Bons tempos

... E é um cara verdadeiro, o que ele pensa, ele fala. Amante

...

do hip-hop, espero que em breve ele possa estar em liberdade total, pra trabalhar aí pelo país inteiro, ajudar a gente aí nessa missão do hip-hop, fazer shows, pales- tras, acho que o relato dele é muito bonito, importante pra molecada saber, conhecer. Eu vejo ele hoje como um homem recuperado, regenerado e mais uma pilastra forte do hip-hop brasileiro, eu sou fã dele como músico, tenho a satisfação de ser amigo dele, né, a gente está se falando, quando pode, quando dá.

Realmente, uma das maiores emoções da minha vida foi poder, quando eu estava na TV Cultura, ter ido entre- vistá-lo dentro do complexo carcerário, viver aquele momento de emoção e de carinho entre um amigo e outro, foi realmente emocionante, fazia um tempo que a gente não se via, espero que ele possa ainda crescer muito mais, fazer mais e melhores raps pra gente curtir.

BUZO: Desta nova safra, manos que estão surgindo agora, com talento, inovação, quem você acompanha e curte?

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HOOD: Sou suspeito, tem alguns, dois que são meus parceiros, eu gosto muito deles, outro não é próximo de mim, mas tô vendo o trabalho dele, gosto muito do Lui MR, que é um menino que eu tô gravando o disco dele, sou um fã do trabalho dele, ainda tem muito pra render, pra mostrar pro rap nacional. Bom também é meu parceiro de Posse Mente, o Johnny MC, que não é mais um garoto, mas é o primeiro disco dele, o debute dele, então acho que ele também vai surpreender, é um disco legal, a gente gravou, está pra sair.

Tem os meninos lá do Sul, que ganharam o Melhor Demo no Hutúz, que é o Rafuagi, gosto muito do trabalho deles, acho que têm muito pra mostrar.

Tem o Mandamentos, grupo que só lançou uma música na coletânea Rima forte, mas que eu tenho expectativa ainda de fazer um trabalho com eles, lançar um disco deles, uma banda que admiro muito também.

Tem o Mizuri Sana, que é a banda do meu irmão (ParteUm), não porque é meu irmão, não, mas eu gosto, é diferente, gosto das produções deles, tem outro menino que tenho visto se destacando bastante, que é o Emicida, né, cara, e que gosto também do trabalho dele, ele vem crescendo, participando de programas de ponta no país, essa nova geração do Freestyle, então eu acho que vem uma nova geração do rap brasileiro, que tem muita coisa pra acon- tecer, no Brasil inteiro tem uma molecada escrevendo e fazendo, no Rio de Janeiro, por exemplo, conheci o Papo Reto, um moleque que eu gostei de ver o trabalho dele, gosto muito da rima dele, tem uma molecada chegando pra fortalecer, por exemplo o Rapadura, acho fenome- nal também, e tem alguns antigos, que não são tão novos assim e têm trabalhos maravilhosos, como por exemplo o Criolo Doido, sou fã do trabalho dele, acho que ele ainda vai render muito pro rap nacional, acho que nós estamos bem servidos, está chegando uma safra boa.

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BUZO: Hood, existem grandes nomes do rap nacional, da sua época, que parecem que não acompanharam a evolução dos tempos, hoje é tudo muito rápido, Nextel,

internet

alguns grupos de ponta, não precisamos citar

... nomes, mas concorda que isso acontece e eles estão

fora da cena hoje em dia?

HOOD: Com certeza isso acontece às vezes, até às vezes por saudosismo, mas o novo sempre vem, hoje nós esta- mos em tempos novos, uma fase nova, diferente, a gente tem que se adaptar, a nossa geração precisa procurar acompanhar, tem pessoas que são saudosistas, mas o tempo não vai voltar, gente, temos que seguir fi rmes, procurar acompanhar e estar junto, dando um alicerce, mostrando o que é o hip-hop, aonde a gente quer chegar, almeja chegar, sou a favor da renovação. Os novos não podem esquecer das raízes, de onde viemos, mas é legal e saudável vir o novo também.

BUZO: As festas de rap estão voltando de certa forma, o Clube do Rap voltou, esses dias você estava na Hole com vários outros rimadores. Acha que essas festas demora- ram a voltar, que são importantes?

HOOD: Muito importantes, se eu pudesse eu pediria encarecidamente pra que todas as equipes de baile, Chic Show, Black Mad, Zimbabwe, Kaskatas, Circuit Power, Rot Gang, Black News voltassem, rapa!!!! Voltem que precisamos de vocês, era muito bom aquele tempo, era muito show, muito baile, eu sinto falta, sim.

BUZO: Você foi um dos pioneiros do rap a misturar outros estilos musicais, Zélia Duncan, Leci Brandão, Caetano Veloso. Isso aconteceu naturalmente, por acaso, como foi?

HOOD: Na verdade, era algo que eu tinha em mente, eu sempre quis fazer um rap com RG brasileiro, um rap com características brasileiras, da cultura brasileira. No meu primeiro solo eu caí pra cima dessa mistura.

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Hip-hop:dentro do movimento

BUZO: Você conhecia todos ou conheceu fazendo o convite?

HOOD: Foi bem ao natural mesmo, encontrei com um que me disse: “A gente podia fazer uma música junto.” E eu:

“Você está falando sério?”.

BUZO: De repente ele tinha interesse, mas nunca tinha sido convidado.

HOOD: Foi uma troca muito honesta e tudo começou com a Leci Brandão. Parece que depois que eles viram a Leci, fortaleceu mais ainda esse elo, com o samba, com outros ritmos, com a música popular brasileira, e é algo que eu sempre quis fazer, juntou a fome com a vontade

de comer, encontrei o Caetano, ele me convidou pra par- ticipar do show dele nos 450 anos de São Paulo, aí ele chegou pra mim no ensaio: “Meu, gosto pra caramba de

‘Tudo no meu nome’, ‘Sou negão’, ‘Suburbano’

queria

... que você cantasse essas músicas no show, mas que- ria um numero especial, eu e você, uma coisa diferente e tal.” Aí eu falei: “Tem uma música sua que eu gosto demais que é ‘Odara’. Não dá pra gente fazer um negócio com ela? Você canta e eu venho rimando, improvisando e tal.” Foi tudo muito natural, depois que a gente fez esse show ele falou: “Mano, vamos gravar isso?.” “No meu disco ou no seu? “Ele falou: “Tanto faz.” E aí já veio essa parceria com o Caetano, nesse mesmo dia estava o Gil- berto Gil e me disse: “A gente precisa fazer alguma coisa junto qualquer hora.” “Pode crê, estou gravando meu CD.” Ele falou: “Eu participo.” Foi tudo muito natural, o Fundo de Quintal, por exemplo, eu fui fazer uma matéria pra MTV, primeira vez que eles iam fazer a MTV. A emis- sora queria alguém jovem pra conduzir essa entrevista, apresentando o Fundo de Quintal pro público da emis- sora, e aí acabou virando um samba a matéria, e depois virou mais uma música, nunca planejei, se tivesse pla- nejado, talvez não tivesse conseguido executar.

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BUZO: Existe uma frase que é assim: “Não sabendo que era impossível, foi lá e fez.”

HOOD: É mais ou menos isso, eu só posso agradecer a esses ícones da música brasileira pela oportunidade de estar ao lado deles e de provar também que o rap é música, que ainda hoje tem gente que acha que rap não é música, é legal estar com eles e ajudar a consolidar o rap nacional.

BUZO: Imperador do Ipiranga: como é essa nova emprei- tada, você que pega ela no grupo de acesso, pro carnaval 2011 levar ela pro especial e se fi rmar?

HOOD: É fazer um trabalho de que a comunidade possa se orgulhar, sou um fi lho da comunidade, tanto eu quanto o Buiú (presidente), amigo de infância, estamos nessa dupla agora, cuidando da casa, pra mim é uma res- ponsabilidade, mas também é muito prazeroso, desde garoto desfi lo aqui, sou Corinthians, mas sou Impera- dor. Pra mim é satisfação e desafi o, peguei a escola num momento delicado, desceu do grupo especial pro de acesso, está com contas pra acertar, então nossa busca é endireitar a casa e voltar para o nosso lugar, voltar pro especial, quero atuar forte também no lado social da escola, eu acho que posso colaborar muito nisso e pôr o carnaval na rua, convocar as comunidades do Ipi- ranga, de Heliópolis, São João Clímaco, Vila Arapuá, Vila Carioca, região toda aqui, colocar a maior autoestima possível na avenida, essa é a nossa luta, quero convocar todos os parceiros e parceiras, manos e minas, guerrei- ros e guerreiras do hip-hop.

BUZO: Pra fi nalizar, este livro sai antes do carnaval 2011:

podemos esperar uma ala com personalidades da periferia?

HOOD: Claro, Buzo, pode contar, e quero você junto nesse projeto, tudo nosso!!!

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Hip-hop:dentro do movimento

Depois de falarmos com o Rappin Hood, seguimos com personalidades que estão há muitos anos envolvidas nesse movimento contagiante chamado hip-hop, e um dos grupos que são referência vem da Zona Leste de São Paulo e atende pelo nome de DMN. Falamos com Markão II, que é um dos rappers, ou MCs, mais politizados do país.

Abrimos a entrevista falando do um dos maiores clássi- cos do rap nacional, a música H.Aço do DMN. Vamos lá.

BUZO: H.Aço. Como é ter um dos maiores clássicos do rap nacional?

MARKÃO II: Desde a primeira vez que o LF me mostrou e rimou a letra, entendi a proposta e percebi o potencial. E com a base do Edi Rock, o casamento foi perfeito.

Realizamos um sonho e alcançamos um objetivo. Sonho porque todos nós, que fazemos um som, esperamos lan- çar algo que atinja o maior número de pessoas possível. Na época, eu tinha como exemplo Thaíde e DJ Hum, com Corpo fechado. A música já tinha “mil anos” e todos conti- nuavam cantando. E, quando percebemos que consegui- mos eternizar H.Aço no gosto, no coração, na história de vida das pessoas, foi sensacional. Ficamos (DMN) sem- pre comentando: “Caramba, mais de dez anos depois e em todo lugar que tocamos a rapa canta H.Aço com orgu- lho, sentimento”. É incrível, recompensador.

Participamos de vários episódios que fi rmam o nome DMN na história do hip-hop no Brasil, mas essa música para nós (ainda mais depois de ter sido premiada como “Música do Século” pelo prêmio Hutúz) é a coroa, o des- fecho com chave de ouro, a sinalização de que o cami- nho que seguimos é o correto.

Essa música também nos proporcionou alcançar o obje- tivo de divulgar aos quatro cantos do Brasil os proble- mas ainda sofridos pela juventude preta e pobre das

O início do movimento

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periferias. O sucesso desse som a todo instante con- tinuará fazendo jovens (homens e mulheres) refl eti- rem sobre o que nos prejudica por conta do racismo, machismo, violência policial etc.

BUZO:

O

que você destaca no hip-hop

anos 1980?

nacional nos

MARKÃO II: Black Junior, Pepeu, Ndee Rap (Naldinho), Thaí de e DJ Hum, MC Jack e DJ Ninja, Código 13, Os Metralhas, Dee Mau, Sampa Crew, DJ Raffa e os Magrelos e os produ- tores Cuca e Dinamic Duo.

BUZO: Anos 1990?

MARKÃO II: Vixe!!! Tem vários, mas vou citar alguns: GOG, Ndee Naldinho, Baseado nas Ruas, Câmbio Negro, Sampa Crew, Geração Rap, Rap Sensation, Consciên- cia Humana, Posse Mente Zulu, Sistema Negro, Visão de Rua, Doctors MCs, Facção Central, SNJ, Potencial 3, Filosofi a de Rua, RPW, De Menos Crime, Face Negra, MT Bronks, Sharylaine, F.N.R. (meu antigo grupo), GangMas- ter 90, Pavilhão 9, M.R.N., Detentos do Rap, Frank Frank, Ice Rock, Comando DMC, Duck Jam e a Nação Hip-Hop.

BUZO: Como vê o rap na última década, depois da virada do milênio?

MARKÃO II: Perdido. Muitos esforços foram despendidos, mas sem planejamento veio o fracasso, o zero como resultado. Continuamos sendo campeões de mobiliza- ção, de admiração, mas sem poder de organização. Isso fez muita gente perder as forças e abandonar projetos que poderiam ser promissores, revolucionários.

Acabou a época de fazer na raça, sem calcular as ações e objetivos. Estamos no momento do estudo, da estra- tégia, do aprender a negociar. Somente por amor não iremos alcançar mais do que já alcançamos.

Buzo: O que espera do futuro do movimento hip-hop?

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Hip-hop:dentro do movimento

MARKÃO II: Acredito que o movimento vai continuar forte como sempre. Muita gente fazendo trabalhos sociais, discutindo sobre racismo, machismo, sexismo, distribui- ção de renda, violência policial e melhorias para a perife- ria. Espero que outras organizações nasçam e cresçam fortes, espalhadas pelo Brasil e, principalmente, com o olhar voltado para as crianças e os jovens. Não tenho problema com o lado ideológico do movimento e daque- les que fazem política através da ótica do hip-hop.

Agora, artisticamente, temos muito a aprender. Espero que nós, que fazemos rap, possamos ter uma postura diferente da caricatura de pessoas politicamente corre- tas, sérias e que fazem tudo pelo movimento. Devemos, acima de tudo, ser verdadeiros com nós mesmos. Há tempos deixei de acreditar num hip-hop em que todos pensam e agem da mesma maneira, em que todos têm o mesmo objetivo e em que ter compromisso e repre- sentar a periferia é primordial. Reconheço as diferen- ças e sei que nem todos que estão no hip-hop têm per- l para ser porta-voz, estar na política, ou têm vocação para estudar as contradições que dela brotam a todo momento. Assim como eu, por mais que tente, nunca serei um bom improvisador como o Emicida. Enfi m, cada um tem que encontrar e desenvolver seu próprio caminho, e não reproduzir modelos já consagrados.

Mas, independente desta mudança que levará tempo, alguns nomes como em qualquer outro gênero musical irão se destacar neste processo. O bom seria se isso acontecesse em bloco, mas, como não irá acontecer tão cedo, fi caremos vigilantes e apoiando todos aqueles que superarão as adversidades e continuarão a repre- sentar nossa Cultura de Rua.

O início do movimento

55

A entrevista com Markão II do DMN é uma aula de rap nacional, os nomes citados por ele são pessoas que fi ze- ram parte do alicerce do movimento.

Para seguir falando do surgimento do hip-hop no Brasil, uma pessoa não poderia fi car de fora, citado por muitos que foram entrevistados nesta obra, ele é um dos pionei- ros. Seu nome? Thaíde.

No início de junho de 2010, Thaíde nos recebeu num hotel no Centro de São Paulo e o assunto era: hip-hop.

Vamos conferir o que ele nos disse agora mesmo. Com vocês, Thaíde, afinal, “Vamos que vamos, que o som não pode parar.”

BUZO: Se eu te falasse uma única palavra e ela fosse:

hip-hop?

THAÍDE: Vida. Acima de tudo, vida. Vi muita gente melho- rar na vida, então o hip-hop nos inspira a própria vida.

BUZO: Você participou daquele início na São Bento, onde vocês se reuniam para ouvir um som, fazer um som, tro- car informação. Como você chegou até ali?

THAÍDE: É o seguinte, quem achou a São Bento foi o Luizi- nho. Tem o Luizinho e o João Break, então eles chamaram dizendo que tinha um espaço legal para dançar um break e tal, foi quando surgiu a história da São Bento, a notí- cia da São Bento começou a circular nas ruas, aí a gente foi conhecer a São Bento e eu fi quei, não fui o primeiro a chegar na São Bento, pessoas chegaram antes da minha pessoa lá, mas eu cheguei bem no início, é como se você tivesse chegado lá na semana passada e eu cheguei uma semana depois. Era um bagulho muito louco.

BUZO: Você era b.boy ou isso é lenda?

THAÍDE: Eu fui um dos maiores b.boys aqui de São Paulo, com certeza o “Moinho de Vento” mais alto da São Bento.

56

Hip-hop:dentro do movimento

BUZO: E quando foi que o Thaíde b.boy virou o Thaíde MC, como foi a passagem?

THAÍDE: Foi uma coisa natural, porque a música e a dança, uma não pode viver sem a outra, então eu dan- çava muitas vezes instrumentais, já admirava o pessoal que rimava em cima do instrumental, tive muita infl uên- cia da música brasileira, principalmente do samba, aí comecei a escrever as letras falando sobre brinca- deira, diversão, aí passei a escrever sobre coisas mais importantes. Eu tive uma pessoa que me ensinou mui- tas coisas que é o Marcos Teleforo, que infelizmente já faleceu, ele escreveu as principais músicas do início do Thaíde e DJ Hum, composições dele, ele escrevia,

eu lapidava e colocava minha parte

...

Corpo fechado, A

noite, Algo vai mudar, Homens da letrista do hip-hop brasileiro.

Ele foi um grande

BUZO: Aí você começou a rimar, mas como, onde e por que surgiu a dupla Thaíde e DJ Hum?

THAÍDE: Ele tocava na Archote, uma casa noturna lá de Moema que agora é o McDonald’s, se não me engano. Ele tocava lá e eu não gostava muito de dançar em salão, mas o pessoal me convenceu e eu fui, ele tocava as músicas que eu gostava de ouvir, a gente fez uma ami- zade naquela época, passaram dois anos, o lugar onde ele tocava fechou e a gente se reencontrou numa festa que aconteceu no Espaço Mambembe, organizado pelo

Nasi do Grupo Ira e também Escova

e me convidaram

... pra fazer um som, inclusive a rapaziada do Fabrica Far- gos, que era uma banda que fazia um som interessante na época, eles que foram até a São Bento e tal e fi zeram contato. Nisso o Nasi começou a colar algumas vezes na São Bento, uma ou duas vezes, mas ele foi. E desse jeito a gente começou, então. Fui fazer um som com meu antigo parceiro de rima que era o Anderson, que

O início do movimento

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morava lá no Guarapiranga, nesse dia o DJ Hum apare- ceu e fazia uns dois anos que a gente não se via, ele era o DJ Humberto na época e nessa noite foi a primeira vez que fi z um som meu no palco e tal, e a rapaziada gostou bastante, fi quei surpreso, existe essa gravação inclu- sive, o Nasi tem essa gravação. E aí teve outra coisa, a empolgação do momento me levou a conversar com o DJ Humberto, perguntei se ele não queria formar uma dupla para trabalhar profi ssionalmente o rap, onde vem a famosa frase que ele me disse: “Mas eu não sei fazer scratch.” E eu respondi: “Mas eu também não sei rimar, a gente vai aprender junto.”

BUZO: Que ano era isso?

THAÍDE: 1987.

BUZO: Em que ano veio o primeiro álbum do Thaíde e DJ Hum? THAÍDE: Um ano depois, 1988. BUZO: E quantos álbuns foram juntos? THAÍDE: Foram nove álbuns, não vou saber dizer com pre- cisão, foram oito ou nove álbuns. BUZO: Eu viajo pelo Brasil inteiro e sempre que vou falar com um cara que curte rap há muito tempo ele cita Racionais MC’s e Thaíde e DJ Hum. Como você se sente, como vê esse reconhecimento? Pode ser no Acre, Goiás,

enfi m

como você recebe isso? Esse carinho, as pes-

... soas te reconhecerem como um pioneiro.

THAÍDE: Eu fi co agradecido, eu tenho muita gratidão a essas pessoas, porque tudo o que eu tenho hoje eu devo às pessoas que ouviram meu trabalho e confi aram no que eu estava dizendo, tá entendendo? Não tem como eu ser uma pessoa sem a palavra “obrigado”, não existe Thaí de ou Altair Gonçalves. Porque essas pessoas que me

Thaíde e DJ Hum – Marcelinho Back Spin

Thaíde e DJ Hum – Marcelinho Back Spin

Thaíde e DJ Hum – Marcelinho Back Spin

Thaíde e DJ Hum – Marcelinho Back Spin

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Hip-hop:dentro do movimento

fi zeram chegar até aqui, conquistar tudo o que eu con- quistei, foi porque essas pessoas me deram condições pra eu criar minha família. Então o público para o artista é tudo, porque ele acaba não sendo apenas um fã, depois que você conhece ele vira amigo, apoio espiritual.

BUZO: Thaíde, o tempo passou, vários álbuns depois, vários shows depois, a dupla Thaíde e DJ Hum chegou ao fi nal. Qual a sua relação hoje com o DJ Hum?

THAÍDE: Olha, hoje a gente se fala muito por telefone, a gente se vê pouco e a gente fala mais sobre negócios, não existe uma conversa tipo vamos fazer um churrasco ou vamos passear, relembrar os tempos, não existe isso, pode ser por vários outros motivos, mas principal-

mente pela falta de tempo, quando a gente se fala é só

sobre trabalho ...

Infelizmente, é claro.

BUZO: E aí, com o fi m da dupla, você veio com o traba- lho solo e o disco Thaíde apenas, como foi esse trabalho solo? Outros solos virão?

THAÍDE: Eu pretendo ainda fazer muita coisa com a música, eu não posso parar só porque hoje eu estou tra- balhando na televisão, agradeço a oportunidade de tra- balhar na TV, quero trabalhar muito ainda na TV.

BUZO: Mas antes de tudo você é músico?

THAÍDE: Eu não posso esquecer isso, não posso simples- mente deixar de lado a música, o hip-hop, então este ano eu quero fazer muita coisa relacionada à música.

BUZO: Talvez um DVD?

THAÍDE: Sim, um DVD, ou dois, ou três, porque a gente tem bastante história e projeto pra isso, mas independente de qualquer outra coisa, a minha maior preocupação é procurar um jeito de buscar forças, pra que pessoas

O início do movimento

61

possam se juntar à gente, pra fortalecermos de novo o cenário do rap aqui de São Paulo. Isso é a minha meta, eu quero fazer músicas, shows, ganhar dinheiro, mas eu quero melhorar esse mercado para todos, porque se existir só eu e mais um ou dois, a gente realmente não vai sair do lugar, precisamos de muita gente trabalhando.

BUZO: Você não acha que a gente está superando essa época em que ganhar dinheiro no rap é se vender? Você acha que essa fase já fi cou pra trás ou ainda tem pes- soas que pensam coisas pequenas desse tipo?

THAÍDE: Acho que cada pessoa é a dona da sua verdade. Eu respeito muito a opinião das outras pessoas, só que essa época já foi, está mais que comprovado que você pode fazer um trabalho digno, um trabalho sério e ven- der o seu trabalho. Alessandro Buzo, você, um cara que vem lá da leste, do fundão da leste, eu fui várias vezes no seu evento, certo? Imagina se você não vivesse do seu trabalho, você tem esposa, você tem família, você é uma pessoa importante, então você não pode apenas fazer as coisas e querer que as pessoas recebam seu trabalho de graça, você tem uma vida e pra você con- tinuar seu trabalho precisa de condições, estrutura, o seu trabalho vai te dar isso, porque as pessoas estão pagando pelas suas ideias, por aquilo que elas acredi- tam, então não é crime, e nunca vai ser, ganhar dinheiro com isso. O errado, na minha opinião, é você passar tan- tas coisas boas pras pessoas e no fi m das contas você mesmo não conseguir os seus objetivos, isso eu acho chato, acho um erro.

BUZO: Aí seria uma derrota?

THAÍDE: Eu acho que seria uma derrota, porque você falou para todo mundo se dar bem na vida e, no fi nal das con- tas, você mesmo não se deu valor, não andou pra frente,

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Hip-hop:dentro do movimento

temos que ganhar dinheiro sim, porque quanto mais dinheiro a gente tiver, mais estrutura a gente vai ter e o mercado vai ser nosso, porque sem grana a gente não faz nada e ninguém faz nada.

BUZO: Quando você lançou o disco Thaíde apenas, devem ter chegado aos seus ouvidos algumas críticas dos mais radicais, não só artistas, mas parte do público. Eles acharam seu som muito dançante, muito isso, muito aquilo. Era muito balada. Eu particularmente acho que na última faixa, a 17, que não lembro o nome agora ....

THAÍDE: Deus tá contigo.

BUZO: Isso

Ali você diz tudo. Ali você mostra tudo o que

... passou até chegar esse álbum. Como você encara essas críticas? Você supera sem traumas ou fi ca chateado?

THAÍDE: Eu já fi quei muito chateado, já fui moleque já, já fui criança, então eu me chateava muito com isso, hoje não, sou um cara maduro, sei o que eu quero da vida, e as pessoas têm que ter a noção de que eu sou uma pes- soa que veio pra começar alguma coisa. Então fui o pri- meiro em muitas outras coisas, estilos musicais, estilo de letras, shows bem produzidos, equipe bem estrutu- rada, então graças a Deus eu fui o primeiro em muitas coisas, minha missão é essa, mostrar quais caminhos a gente pode tomar. Então se hoje eu tenho a possibili- dade de fazer um disco dançante, é porque minha missão é essa, mostrar pros rappers, MCs que podemos fazer isso sem perder nossas raízes, quantas vezes me critica- ram por eu fazer música com refrão cantado e hoje todo

mundo faz música com refrão cantado

Eu fui o primeiro

... a colocar uma mulher pra fazer refrão da música na noite e depois todos colocaram também, eu já fazia shows com b.boys no palco há muito tempo e hoje todo mundo faz isso. Então, se essa é minha missão, não tem problema

O início do movimento

63

nenhum, só não posso fi car parado, hoje eu estou na TV, se amanhã aparecer a oportunidade de fazer um outro trabalho diferente eu vou, porque eu não tenho limites.

BUZO: Eu conheço o Thaíde que já foi no Favela Toma Conta só pelo transporte, que já foi na Fundação Casa de graça, é isso mesmo, Thaíde, pegar onde tem que pegar e quando dá, fazer o lado social, no Guacuri, no Itaim Paulista?

THAÍDE: Eu sempre dei muita importância à minha pró- pria história, e a minha história é igual à de milhares de pessoas no país inteiro, entendeu? Se eu tenho pos- sibilidade de trabalhar, de viajar pra Santa Catarina, Porto Alegre, Bahia, Rio de Janeiro, não importa onde, ganhando um cachê digno do meu trabalho, onde a gente tem um contrato, com infraestrutura pra garantir o meu dia a dia, por que eu vou recusar fazer um show de graça numa comunidade, ou pelo transporte apenas, ou coisa parecida? É uma retribuição, de uma certa forma. Você está entendendo, tem pessoas que não podem pagar meu cachê, que não é barato, graças a Deus, só que eu vou naquela comunidade que sei que não tem realmente condições e o trabalho é sério.

BUZO: Thaíde, falando em ser pioneiro, dentro do hip-hop ninguém teve tantas participações na TV quanto você, em programas diferentes, vamos falar deles por ordem

de tempo ... YO! MTV Raps?

O que você lembra, qual sua recordação do

THAÍDE: Aquele programa da MTV eu gostei de fazer por- que foi meu primeiro contato direto com a câmera e aquilo me ensinou a me posicionar diante dela, aquilo me ensinou alguns truques de câmera. Tem toda uma equipe, então na MTV aprendi a lidar com isso.

BUZO: Foi seu primeiro trabalho na TV?

64

Hip-hop:dentro do movimento

THAÍDE: Com certeza, e depois veio TV e cinema. BUZO: A dobradinha do Antônia, cinema e TV.

THAÍDE: Isso, aí depois disso tive a possibilidade de tra- balhar no programa Manos e minas.

BUZO: Mas vamos por partes, vamos falar do Antônia. Como é estar num canal de maior audiência do país, com uma série que durou dois anos, como é isso nas ruas, como as pessoas te viam, você já era um cara público, mas fi cou mais em evidência pra quem não era do rap?

THAÍDE: As pessoas começaram a me chamar de Dia-

mante (nome do personagem), entendeu

...

Algumas

coisas muito engraçadas

eu estava no mercado e a

... menina disse pra mãe: “Olha mãe, aquele homem lá da Antônia”, e ela disse: “Aquele sem vergonha, safado, que só quer enrolar as meninas.” Isso mostrou o quanto eu estava mais popular, então eu não posso ter medo disso. E também, como posso dizer, não posso recusar esse tipo de trabalho, porque eu penso o seguinte: exis- tem várias pessoas, homens e mulheres do país inteiro que vão me ver na TV e vão acreditar mais, se virem a gente na TV, no teatro, então nós somos exemplo, preci- samos dar um bom exemplo.

BUZO: Uma temporada apresentando o Manos e minas, no qual você era o apresentador, âncora, uma hora no ar ... Como foi pra você fazer esse programa?

THAÍDE: Vou te falar uma coisa, achava ele muito a minha cara. Quando apareceu a oportunidade de apresentar ele, pra mim foi uma maravilha, porque era divertido, equipe maravilhosa, sinto muita falta de trabalhar no programa Manos e minas, muita falta de verdade, sem falar que eu estava ali apresentando um programa que visava divulgar pessoas que fazem o mesmo trabalho

O início do movimento

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que eu faço, entende, então eu estava de uma certa maneira contribuindo. Quando eu saio nas ruas, as pessoas falam pra mim do Manos e minas. As pessoas assistem, isso me dá uma noção de público, de emis- sora, então graças a Deus eu tenho esse privilégio de poder trabalhar em tantas emissoras grandes do país, poder passar isso pras pessoas, não perdendo as raí- zes, poder sair nas ruas, continuar sendo a mesma pes- soa, acho que quando eu perder a minha liberdade de sair nas ruas, não vai valer mais a pena.

BUZO: Acho que muito de não perder as raízes e poder andar nas ruas é porque você é espontâneo, o cara te aborda, você é receptivo e aí já era ...

THAÍDE: Hoje posso te confessar que está mais difícil andar nas ruas, mas eu não posso perder essa liberdade.

BUZO: A liga, você estreou agora em 2010 esse programa da Band, no qual você é um dos apresentadores, com enorme sucesso, a gente tem acompanhado, e é um pro- grama totalmente diferente, porque não é de hip-hop, agora você está nesse programa que entra como jorna- lístico. Como é isso? Eu penso que você, sendo do nosso meio, fazendo um trabalho fora, abre novas portas. É de novo o Thaíde sendo pioneiro?

THAÍDE: Tomara que sim, quando me chamaram pra fazer A liga, o que mais me chamou a atenção foi isso, não ter nenhum vínculo com o hip-hop, eu sempre quis fazer um trabalho diferente, que não fosse no hip-hop, porque eu fi cava pensando: será que eu só sei fazer coisas ligadas ao hip-hop? Será que a minha capacidade se limita a isso? Quando veio A liga foi como se tivessem escutado minha reclamação e me dado essa oportunidade, eu não sou repórter, estou sendo repórter, tá entendendo ... Estou conhecendo mais as coisas, a vida, as pessoas.

66

Hip-hop:dentro do movimento

Estou me tornando a cada dia mais profi ssional, isso eu vou levar pros palcos, pras minhas letras, e estou conhecendo o país mais do que eu já conhecia.

BUZO: A liga é um programa nacional. Como estão sendo os temas abordados? Eu vi, na cadeia, que você se sentiu um pouco incomodado de estar se sentindo preso, por- que você ama a sua liberdade, mas como está encarando esses temas, depois abordou o lixo, o programa de hoje (era terça, dia de exibição do programa na Band) aborda “da favela à fama”, como está isso?

THAÍDE: Então, eles sempre arrumam matérias que têm a ver comigo, sabe como que é, eu acabo me dando bem, os diretores chegam pra mim e dizem: “Tal dia vai ter gravação e o tema é tal.” Você está entendendo? Vai vir um que o tema é casamento e optei por fazer o indígena. Eu comecei a poder escolher, mas até agora eles esco- lhiam e me dei muito bem, graças a Deus. É como se fosse a sequência do meu trabalho, sempre fi z música desde a época de ouro do rap, como as pessoas falam, hoje faço um trabalho na TV, que a gente atacou tanto, que mostra a realidade de pessoas que são invisíveis na sociedade, então graças a Deus continuo nessa batalha.

BUZO: Pra encerrar, eu falo o tema e você diz o que tem

pro futuro

...

música?

THAÍDE: Novidades, obviamente. Tem o projeto com Os Donos da Cidade, e como você disse, talvez um DVD.

BUZO: TV, o que espera de A liga, mais sucesso?

THAÍDE: A gente espera que continue bem de audiência e tenha uma segunda temporada. Eu quero futuramente voltar a apresentar um programa musical na TV.

BUZO: Cinema, além do Antônia você fez algumas pon- tas, quais foram e as perspectivas pro futuro? Tem tra- balhos em vista?

O início do movimento

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THAÍDE: Tem um fi lme que estreia no fi nal do ano, ou em 2011, que se chama Dois coelhos, eu faço um bandido, um carinha ali que está precisando de dinheiro. Fiz uma ponta no fi lme Caixa dois, além do Antônia.

BUZO: Quem é você no dia a dia, não o artista, mas em família, entre amigos?

THAÍDE: Eu sou um guerreiro 24 horas por dia. Então, com a minha família, minha mulher, meus amigos, eu sou um guerreiro sem armadura, mas na rua não tem jeito, tem que ser guerreiro com armadura, 24 por 48, tá me entendendo?

BUZO: Vou perguntar de duas pessoas, você me diz o que

pensa delas. Primeiro

...

Nelson Triunfo?

THAÍDE: O Nelson Triunfo é o meu grande ídolo, foi a pri- meira pessoa que dentro da cultura hip-hop, famosa, me mostrou respeito pelo ser humano, encontrei com ele, me lembro muito bem como se fosse hoje, estava indo pro Clube da Cidade e eu não sabia ir, encontrei ele no metrô Santa Cecília e eu era fã dele, ele me disse: “Pô, gostei do seu estilo”, queria me colocar nos esquemas. Ele também estava indo pro Clube da Cidade e fomos juntos, chegando lá ele liberou minha entrada, aí fomos e ele passou direto, e o segurança me barrou, deu geral em mim e nele não, eu falei: “Quero um dia ser que nem ele”. Ele nem me conhecia e me tratou com muito res- peito, então a partir daquele dia eu tive a certeza de que o caminho era respeitar as pessoas, em todos os sentidos.

BUZO: King Nino Brown?

THAÍDE: Aí você tá fácil, Nino Brown é um irmão, par-

ceiro

Conheci ele em São Bernardo quando eu morava

... lá no Riacho Grande, é uma pessoa que sempre me infor-

mou sobre as coisas, me deu ideias, uma pessoa muito

  • 68 Hip-hop:dentro do movimento

importante, uma pessoa que eu respeito muito, acho que o Bambaataa não tinha pessoa melhor no Brasil pra ser presidente da Zulu Nation Brasil do que King Nino Brown.

BUZO: Thaíde, ainda em 2010 as pessoas vão ler esta sua entrevista neste livro. O que você tem a dizer nesta obra, pra molecada que te curte, pros mais velhinhos também?

THAÍDE: A gente sempre tem que bater na tecla da educa- ção, da informação, leiam tudo o que vocês puderem ler, respeitem seus pais, os amigos, as boas amizades, por- que dessa forma vocês vão chegar aonde quiserem, com uma caminhada de respeito, de vitória. Tem que estu- dar, respeitar o pai e a mãe, porque eles pensam que fazer rap é fácil, mas rap de qualidade tem que estudar, aprender, é isso.

Todo meu respeito à pessoa do Thaíde, pra mim um dos grandes e imortais pioneiros do hip-hop nacional, destaco da entrevista seu comentário quanto a ganhar dinheiro com o nosso trabalho, porque a gente precisa defi nitiva- mente parar de pensar que as pessoas que se dão bem no hip-hop se venderam, se ninguém tivesse dado certo, já teria acabado, como diz sabiamente o Thaíde: “Acho que cada pessoa é a dona da sua verdade, eu respeito muito a opinião das outras pessoas, só que essa época já foi, está mais que comprovado que você pode fazer um trabalho digno, um trabalho sério e vender o seu trabalho.”

Eu assino embaixo e acrescento que precisamos ter cada

vez mais

...

profi ssionalismo.

E é justamente sobre esse tema que vamos falar no pró- ximo capítulo.

Os Donos da Cidade

Buzo, Thaíde e Os Donos da Cidade
Buzo, Thaíde e Os Donos da Cidade
Os Donos da Cidade Buzo, Thaíde e Os Donos da Cidade
Cap.02 Profi ssionalismo no hip-hop
Cap.02 Profi ssionalismo no hip-hop
Cap.02 Profi ssionalismo no hip-hop

Cap.02

Profi ssionalismo no hip-hop

Muitas vezes percebo em alguns grupos uma falta de planejamento, falta profi ssionalismo, mas existem exceções. Uma dessas exceções é o grupo Ao Cubo, que desde quando surgiu, em 2004, mostrou um diferencial, isso fi cou bem claro pra mim.

Não podia deixar de falar com eles e saber o que pensam disso. Nosso porta-voz no grupo foi o Cleber, confi r- mando as informações que eu já sabia.

Uma curiosidade: o primeiro show do grupo foi na minha quebrada, Itaim Paulista. No evento Balada Gospel, organizado e apresentado pelo pastor Anderson.

Abrimos a entrevista falando dessa primeira vez ...

BUZO: O primeiro show do Ao Cubo foi no Itaim Paulista. Vocês imaginavam naquele dia o sucesso que o grupo ia alcançar?

CLEBER / AO CUBO: Lembro como se fosse hoje. Dia 29 de maio de 2004, no fi nal da tarde, chegamos ansiosos pra subir ao palco daquela escola em frente à favela do Tijuco Preto. Nossa música há pouco tempo, coisa de três meses, havia começado a tocar nas rádios e nem imaginávamos como seria o retorno do público ao can- tarmos a música “Naquela sala”. Ali, naquele dia, senti- mos algo sobrenatural, e tínhamos a certeza de que algo diferenciado aconteceria dali em diante. Tudo foi muito

Profi ssionalismo no hip-hop

73

rápido. Nós tínhamos feito alguns planejamentos, mas não imaginávamos que aconteceria tudo tão rápido da forma que ocorreu.

BUZO: Às vezes temos medo de mudanças. Vocês eram de um grupo, saíram e formaram o Ao Cubo. Como foi isso?

CLEBER / AO CUBO: A princípio, todas as mudanças provo- cam medo e um pouco de insegurança, mas vimos que na posição em que nos encontrávamos não iríamos che- gar muito longe. Resolvemos reformular nossas ideias como: foco, postura, músicas e profi ssionalismo. Está- vamos cheios de ideias e vontade. Quando conseguimos expor isso, foi muito louco ver a arte fi nal do produto e o povo aderindo a nossas ideias.

BUZO: Gospel e secular, como é isso pra vocês?

CLEBER / AO CUBO: Rótulos que alguém colocou. Não gosta- mos de rótulos, eles separam as pessoas.

Temos um estilo musical que é o rap. Cada integrante do grupo tem uma vida particular e juntos servimos ao mesmo Deus. O rap nacional é uma música em que os compositores colocam suas experiências de vida, e, como somos nós mesmos que escrevemos nossas can- ções, não teria como ser diferente. Fica pro público e pro Criador rotularem quem somos.

BUZO: O Ao Cubo, desde que surgiu, vem com uma postura empresa. Isso ajuda a chegar ao sucesso?

CLEBER / AO CUBO: Tenho certeza disso. Temos diversos exemplos lá fora e aqui no país de músicos bem-sucedi- dos. Todos eles muito bem assessorados. Seria impos- sível chegarmos ao sucesso sem profi ssionalismo. Li um livro uma vez que dizia assim: “O sucesso só chega quando duas coisas se encontram: a preparação e a oportunidade.” No hip-hop nacional ninguém ainda

74

Hip-hop:dentro do movimento

chegou ao sucesso, pois em alguns casos se acha pre- paração, mas ainda não houve oportunidade e assim vice-versa.

BUZO: Hip-hop salva?

CLEBER / AO CUBO: Não acredito que o hip-hop salva, mas acredito que ele seja uma grande estratégia que Deus usou pra me salvar um dia.

BUZO: O que falta para o rap nacional dominar a cena, rádios, carros, casas?

CLEBER / AO CUBO: No rap nacional temos muitos escritores e rimadores bons, mas falta se aprofundar na música, estudar, investir, fazer planejamentos, ter uma boa postura, se vestir bem, guardar dinheiro, ter juízo, res- peitar o próximo, e se espelhar sempre nos melhores. Em uma empresa, quando o novo empresário começa a ganhar dinheiro no ramo em que está, ele precisa se aprofundar, se não ele trava. Precisa se aliar a bons pro- fi ssionais pra fazer sua empresa deslanchar.

BUZO: Pra fi nalizar, a pergunta que não quer calar espera do futuro do movimento?

...

O que

CLEBER / AO CUBO: É um movimento que mostrou que tem futuro. Lá nos Estados Unidos, é a música número um nas paradas, o grafi te é a arte plástica que mais aparece, e a dança de rua conquistou um ótimo espaço nos palcos e casas de espetáculos. Precisamos nos conscientizar e unir forças, eleger nossos representantes, fazer parce- rias e ser mais profi ssionais. Assim chegaremos a luga- res que nem mesmo nós imaginamos um dia chegar.

Que o Ao Cubo e outros grupos que tentam se profi ssio- nalizar, como, por exemplo, A Família, possam servir de exemplo a todos.

Profi ssionalismo no hip-hop

75

Uma outra cena comum hoje em dia é ver artistas de grupos tradicionais lançarem carreira solo paralela aos grupos, no DMN por exemplo, o Elly lançou um CD solo e o Markão deve seguir o mesmo caminho. Não sei até onde isso pode ser normal e não atrapalhar o andamento do próprio grupo. O Gaspar tem um trampo solo, Ilícito, paralelo ao Z’África Brasil, o Funk Buia, do mesmo grupo, também faz participações extra grupo.

Acho que isso, sendo conversado abertamente entre os integrantes do grupo e sem vaidades, pode funcionar perfeitamente.

Um dos que andam preparando um CD solo é o Tio Fresh do grupo SP Funk. Fomos falar com ele para saber mais ...

BUZO: Você vem de muito tempo com o SP Funk, alguns da sua geração não acompanharam a evolução dos tempos, da internet, e estão fi cando para trás. Como você vê isso?

TIO FRESH: É uma pena, porque temos que acompanhar

a evolução de tudo, na real o coração é que manda, né,

meu

Se alguns manos desistiram é porque não era do

... coração a vontade de ser hip-hop. BUZO: SP Funk e Tio Fresh solo, como andam seus corres? TIO FRESH: SP Funk ano que vem (2011) tem coisa nova, eu terminei meu CD solo com participação de: Rappin Hood, Kamau, Kljay, DJ Hum, SP Funk, Sombra, Emicida, Max B.O., SamPrazer, Xis, Dani Voguel. BUZO: Uma história curiosa vivida nesses anos de carreira?

TIO FRESH: Uma vez dei autógrafo pro mano no buzão, o mano fi cou decepcionado por eu ser o Tio Fresh e estar andando de ônibus, ele falava alto, tá ligado: “Como pode? Você tinha que estar de carrão importado, mano, te vi na Globo!” Falei: “Mano, tamo no Brasil!!”.

BUZO: Hip-hop salva?

76

Hip-hop:dentro do movimento

TIO FRESH: Hip-hop direciona! BUZO: O que espera do futuro do movimento?

TIO FRESH: O melhor. Os manos têm que se profissiona- lizar, saber conversar com empresas, o hip-hop não é só dança e música, é geração de empregos também, é entretenimento!

A história do Tio Fresh no buzão me fez lembrar quando estive em Goiânia. Quem me levou foi o DJ Fox, ele é a maior referência de hip-hop no estado de Goiás, apesar de ter articulação, de estar na época lançando o primeiro DVD coletânea de rap goiano, e de ter, por exemplo, con- seguido passagem aérea para três pessoas da equipe da revista Rap Brasil, que foi cobrir o lançamento (Buzo, Marilda Borges e Juliana Penha), ele se encontrava numa situação fi nanceira delicada. Separado da esposa, ele sofria por ter que trabalhar num trailer de yakisoba na madrugada, atendendo várias pessoas embriagadas.

Nada contra o trampo dele, trabalhando dignamente, mas quando fui visitá-lo no trailer, achei que o mano que tinha tanta história dentro da cena hip-hop local e nacio- nal merecia uma ocupação mais cultural, talvez, ou pelo menos um trampo melhor, com um salário maior.

Fox me contou uma história assim: seu fi lho estava na escola pública onde estudava (nada contra ser pública, meu fi lho estuda em uma), mas um outro garoto na tal escola ouvia um som do DJ Fox, seu fi lho disse: “Meu pai que canta essa música.” O outro olhou pra ele e disse: “Tá maluco? Quem canta esse som é o DJ Fox.” Na cabeça daquele garoto, o fi lho do DJ Fox não poderia estar ali, estudando naquela escola. Como disse o Tio Fresh: “Tamo no Brasil.”

Profi ssionalismo no hip-hop

77

Outras histórias como essa poderiam ser contadas. Afi - nal, quantos manos e minas que são referência no rap nacional não estão fi nanceiramente debilitados, tendo que trabalhar na ocupação que surgir, simplesmente pela sobrevivência?

Não tem como viver de rap para a grande maioria, poucos grupos podem se dar ao luxo de viver só de rap no país.

Muitos grupos praticamente acabaram, não têm som novo, não fazem show nenhum, só não anunciam o fi m. Preferem acreditar que vai mudar, melhorar, aparecer um show com cachê pra dar um alivio na dura realidade, por isso continuam “na ativa”, se é que pode se dizer que eles ainda estão na ativa.

Não digo isso dos milhares de grupos que existem no país, que nunca lançaram CD, não são conhecidos. Estou afi rmando que grupos que já foram destaque na cena se encontram, infelizmente, nessa situação.

No Brasil é complicado viver de cultura.

Mas não podemos deixar de trabalhar para mudar essa realidade. Exemplos temos alguns, de pessoas do nosso meio que transformam isso e realizam coisas. Um deles é o Toni C, que fez documentário, livros ...

Falando nele, vamos viajar até Carapicuíba e bater um papo com nosso amigo Toni C. Confi ra então ...

BUZO: Você dirigiu o documentário Tudo nosso!. Como foi pro- duzir três horas de hip-hop em diversos estados do país?

TONI C: Três horas é o resultado fi nal, só de material bruto são quase trezentas horas. Percebia que estávamos fazendo história, mas somos péssimos para registrar, documentar o que fazemos, eu me angustiava com essa carência. Por isso arrumei uma câmera e passei a regis- trar minha caminhada. Fui testemunha ocular da histó- ria, e agora todos poderão ser também.

78

Hip-hop:dentro do movimento

BUZO: O que mais te surpreendeu durante a produção (uma história)?

TONI C: Muitas coisas, Buzo. Sabia que muitos fatos eram inéditos, não tem replay nem dublê, se não registrasse, já era. A inauguração da biblioteca Suburbano Convicto dentro de uma escola de samba no Itaim Paulista é um exemplo disso. Mas sem dúvida uma das coisas que mais me emociona é ver o Loto, grafi teiro de Pernambuco que também é DJ e MC. Esta pessoa incrível dá uma lição de vida e tanto, por fazer tudo isso mesmo depois de ter perdido a visão. Quando conheci Loto, falei: o hip-hop precisa conhecê-lo.

BUZO: Como é ter um portal de hip-hop dentro do site do PC do B?

TONI C: Pior seria se fosse no site do PSDB (risos). Mas o Hip-Hop a Lápis é um site mantido pelo Ponto de Cultura, hospedado no Portal Vermelho, maior site de política do Brasil. Temos total autonomia na seção de hip-hop.

BUZO: Você produziu dois livros com o conteúdo do “Ver- melho”. Fale sobre eles?

TONI C: Em 2002, criamos a seção semanal Hip-Hop a Lápis no Portal Vermelho. São artigos de pessoas do hip-hop em todos os cantos do país. Com um ano, pensamos fazer algo especial, e nos demos conta de que se juntássemos todos aqueles textos, teríamos produzido um livro. Como não encontramos editoras interessadas nessa publica- ção, foi só após a fundação da Nação Hip-Hop Brasil que editamos nosso livro. Hoje produzimos um segundo livro através de nosso próprio Ponto de Cultura.

BUZO: Quantos autores nas duas edições do livro? TONI C: Só neste segundo livro ( Literatura do Opri- mido), somos sessenta autores. Sabe o que signifi ca? São mais escritores que os da Academia Brasileira de

Profi ssionalismo no hip-hop

79

Letras. Queremos deselitizar a literatura. Nesta etapa, quantidade é fundamental. BUZO: Então a periferia e o hip-hop estão escrevendo? TONI C: Para o azar deles. BUZO: Você faz parte da Nação Hip-Hop Brasil. Fale sobre ela. TONI C: A Nação Hip-Hop Brasil é a necessidade que o movimento tem de se organizar. Ao perceber que perife- ria é periferia em qualquer lugar, que os problemas tam- bém são os mesmo em todo canto, artistas do hip-hop se deram conta de que poderia haver solução parecida, foi aí que foi fundada há cinco anos a entidade, uma rede de articulação do movimento.

BUZO: A Nação conta com o Aliado G, que já se aventurou na política. Como você vê essa ligação entre hip-hop e política?

TONI C: Aliado G é presidente da Nação Hip-Hop Brasil, e deixou muitas vezes de lado o próprio grupo, Face da Morte, para se dedicar à construção da Nação. A atua- ção política do mano não é uma aventura, faz parte de uma construção estratégica que na eleição passada por exemplo lançou mais de trinta candidaturas do movimento. Aliado G é pioneiro ao se lançar candidato a deputado estadual, e na eleição seguinte pleitear a prefeito de sua cidade, Hortolândia. Hoje o hip-hop tem alguns vereadores e suplentes de deputados em alguns cantos do país, além de leis como a da Semana da Cultura Hip-Hop, fruto desta construção. Como eu vejo essa ligação do hip-hop invadindo a política? Ah, mano! É o espaço de decisão que interfere na realidade de nosso povo? Então precisamos ocupar mesmo. Pra

fazer ser de fato BUZO: Hip-hop salva?

...

tudo nosso!

80

Hip-hop:dentro do movimento

TONI C: Hip-Hop é um instrumento, utilizado ao gosto do portador. Da mesma forma que um martelo sozinho não constrói uma casa, hip-hop, dependendo como é utili- zado, pode salvar vidas, mas não faz milagres.

BUZO: Como você vê o momento atual do hip-hop?

TONI C: Enquanto escrevo temos um hip-hop cravejado de balas. É um movimento arrasado pelo boicote, pela ganância, pela perseguição, pela desleixo muitas vezes de nós mesmos. Tem quem pense que é dono do hip-hop, como se ele tivesse plantado uma semente de hip-hop no seu quintal, que virou uma grande árvore. Hip-hop não dá em pé de árvore, mas é parecido com uma árvore por pre- cisar de condições e cuidados, erva daninha é mato.

BUZO: O que espera do futuro do movimento?

TONI C: Não espero. No lugar, dou minha contribuição para que o hip-hop se reerga. Da maneira que está no atual momento, está bom pra quem?

De todos entrevistados que responderam essa mesma pergunta, acho que o Toni C deu a melhor resposta do que espera do futuro do movimento: “Não espero. No lugar, dou minha contribuição.”

Esse é o espírito transformador, esse é o caminho, é isso e assim que devemos pensar.

Alguns grupos se preocupam em fazer um trabalho social, um desses grupos é A Família. Fomos falar com um de seus integrantes, o Crônica Mendes, e saber como é conciliar as duas coisas: o lado artístico e o social. Você confere agora essa entrevista exclusiva pro livro.

BUZO: Qual a importância da música Castelo de madeira para consolidar o trabalho do grupo A Família?

Profi ssionalismo no hip-hop

81

CRÔNICA

MENDES

/

A

FAMÍLIA:

Castelo

de

madeira

repre-

sentou e representa uma importância na vida de muita gente, pois valorizou não só a periferia em si, mas tam- bém as pessoas que fazem dela um lugar melhor para viver. Mesmo estando isolada e, de certa forma, abando- nada, essa gente nossa faz do seu barraco um castelo. A música devolveu a autoestima dos jovens das periferias, as mulheres vinham de uma fase em que eram chamadas de cachorras, os parceiros eram chamados de vagabun- dos, marginais, tudo pior possível. Com a música Cas- telo de madeira, os mesmos foram chamados de prince- sas e príncipes do gueto. A música nos possibilitou nos comunicar com pessoas de vários estados brasileiros e nos levou a conhecer de perto a realidade e o trabalho do MST. Muitos se enganam ao pensar que a realidade das periferias nacionais é isolada, pois a realidade no campo é da mesma forma. O governo os esqueceu também. Os jovens do MST se identifi caram muito com a música, assim como as famílias também, por isso resolvemos homenageá-los no clipe. Castelo de madeira devolveu o rap nacional à sua boa fase, foi a música mais tocada durante os dois anos pós-lançamento, é considerada um hino, um clássico da música rap nacional. Foi ela que anunciou o nascimento do A Família pra vida.

BUZO: Vocês são bem próximos de causas e movimentos sociais. Comente isso e quais são esses movimentos.

CRÔNICA MENDES / A FAMÍLIA: Desde o início do A Família, nós trabalhávamos juntamente com o GOG e com a Nina Fideles para que pudéssemos fortalecer nosso conhe- cimento e desenvolver uma consciência politizada. Tra- balhar o social, mas sem esquecer a música, valorizar a periferia, não por luxo de estar ali, mas sim porque a periferia tem seu lado bom e enquanto existir periferia façamos dela um lugar melhor de se viver dia após dia, e

82

Hip-hop:dentro do movimento

não um campo de guerra como o sistema quer. Acredito que o rap nacional é uma causa social em si, pois vem da rebeldia, do grito de “não estamos mortos”. Toda música tem sua raiz, sua identidade. O rap nacional, como música que é, vem da periferia, sua causa maior deve ser a periferia, mas isso não faz do rap música ímpar. O rap é pra todos e não tem dono, mas precisa ter sempre conteúdo. Trabalho musicalmente envol- vendo o social, pois acredito na transformação que a música e as ações coletivas podem fazer nas pessoas e, a partir daí, as pessoas podem transformar a reali- dade à sua volta, buscando sempre um diálogo e o tra- balho coletivo. Tudo parte de uma organicidade, para a qual a música rap pode contribuir muito, pois os jovens das periferias escutam nossas músicas, buscam se espelhar em nós, direta ou indiretamente, e nós, músi- cos, que fazemos a música que eles escutam, podemos e devemos inserir conteúdo para que desperte nesta juventude o espírito de luta por uma causa que não seja ímpar. O rap transformou toda uma juventude, deu valo- res a ela, e isso precisa continuar, o próximo passo, o próximo degrau tem que vir, e que venha com fi rmeza, conhecimento, informação e causa. Com nosso traba- lho musical e social, tivemos uma grande aproximação com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), onde pudemos, de certa forma, desenvolver um trabalho contra a marginalização de ambos os movi- mentos. Como isso? Nós levamos militantes do MST até as escolas nas periferias, para que os jovens pudessem conhecer verdadeiramente o que é o MST, sua luta, sua causa, sua história, dizimando assim a visão errônea que eles tinham por infl uência da televisão. Da mesma forma, nós íamos aos acampamentos e assentamen- tos do MST, mostrar pra eles o que é o hip-hop e quais suas ações. Aprendemos muito, e com o aprendizado

Profi ssionalismo no hip-hop

83

fomos desenvolver nossos próprios projetos sociais voltados para a juventude dentro e fora das escolas, e suas famílias. Um projeto de conhecimento sobre o hip- hop e o estudo. Desenvolvemos projetos de atuação na área pública de saúde, na questão da prevenção das DSTs e do HIV/Aids, organizamos mutirões de limpeza e consciên cia ambiental nas favelas do interior de São

Paulo

A Família, nosso trabalho, sempre esteve ligado

... ao social e assim prossegue.

BUZO: Você, Crônica Mendes, está bastante envolvido com a poesia e a literatura. Como se deu isso e qual é a importância da literatura dentro do hip-hop?

CRÔNICA MENDES / A FAMÍLIA: Meu envolvimento com a poe- sia e a literatura se deu no mesmo momento em que passei a compor músicas. Antes de compor meu pri- meiro rap, eu já fazia poesia, sempre gostei de ler, embora leia pouco e escreva bem mais. O envolvimento foi praticamente simultâneo. Rap, poesia e literatura. Na minha formação musical esses três se completam de tal forma, que são essenciais para se fazer uma boa música. A poesia está nos versos do dia a dia do rap e a literatura enriquece o vocabulário, traz conhecimento, boa nova, amplia o horizonte, acaba que se tornam um só em cada música. Pra mim é impossível separá-los. E digo mais: como uma boa literatura, a música se torna mais coletiva, mais viva, e pode atingir pessoas que antes asseguravam odiar o rap, fazendo assim uma nova visão da nossa música. A partir deste ponto, surge a música livre, para pais e fi lhos, derrubando o mito de que a música rap nacional é coisa de bandido, ignorante, e outros adjetivos injustos. O rap, a literatura e a poesia são um só corpo. Se faltar um, faltará muito mais.

BUZO: Conhecimento é o quinto elemento da cultura hip-hop?

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Hip-hop:dentro do movimento

CRÔNICA MENDES / A FAMÍLIA: Não diria que o quinto, mais sim um elemento fundamental para se desenvolver uma boa música, um belo grafi te, uns scratches impe- cáveis e um movimento deslumbrante. Conhecimento é a base para seguirmos em frente com conteúdo e equilíbrio. Sem conhecimento somos vazios, e vazio não para em pé. Sendo assim, seríamos fáceis de ser- mos abatidos, enganados, manipulados, mortos e, por fi m, esquecidos. Conhecimento é uma questão pes- soal, conhecer a si mesmo é um grande exercício para se libertar da escravidão mental.

BUZO: Um história curiosa ou engraçada vivida dentro do hip-hop?

CRÔNICA MENDES / A FAMÍLIA: Ainda no tempo em que atuá-

vamos no palco junto com o GOG, isso bem antes do A Família nascer ofi cialmente. A formação atual era eu, Demis, DJ Silvinho, Gato Preto e Luciano. Nós estávamos fazendo um show incrível em São Paulo, não me recordo o nome da comunidade, mas era na Zona Leste. No show nós ousávamos bastante com performances ensaiadas, fogos de artifício, bombas ninja (bomba de fumaça), era um show de rap psicodélico. E nessa apresentação na Leste, lembro que o Luciano era o cara responsável pelas bombas ninja junto comigo, nesse dia não sei o que deu nele, estávamos cantando a música Fogo no pavio, era o último refrão e na sequência o GOG faria um discurso daqueles infl amáveis, mas não foi o que aconteceu. O Luciano resolveu que ao invés de jogar uma bomba e eu a outra, ele ia jogar duas e eu uma, tornando-se três (risos). Nós jogávamos a bomba bem na hora que o GOG reaparecia no palco chamando o povo junto no refrão. Quando ele reapareceu, o Luciano jogou as duas bom- bas, eu joguei a terceira. Acabou que o GOG sumiu no meio daquela fumaceira, engasgou com tanta fumaça, não conseguiu fazer o discurso, ninguém conseguia

Profi ssionalismo no hip-hop

85

ver mais nada no palco, e o show acabou naquele ins- tante, faltando mais três músicas. E o engraçado é que o público foi ao delírio acreditando, até agora, que era parte do show mesmo o sumiço do GOG entre a fumaça.

BUZO: O que espera do futuro do movimento hip-hop?

CRÔNICA MENDES / A FAMÍLIA: Não espero nada, mas estou

tentando mudar a realidade de hoje do hip-hop, que é erradicar de uma vez por todas essa ideia de que o rap não é música, que o grafi te não é arte, que o DJ não é músico e que o break é uma coisa qualquer. Se não transformarmos o presente do hip-hop, se não buscar- mos a tão desejada organização e não nos tratarmos como profi ssionais, difi cilmente teremos um futuro bom. Minha preocupação é com o presente, com os rumos que “novas caras” estão tomando. A mudança, quando mal interpretada, pode acontecer de maneira desrespeitosa e nem merece o nome de mudança, e sim regresso. Se não tiver um presente consistente, desen- volvido musicalmente, e postura, não dá pra imaginar futuro. Claro que, se for para elucubrar, quero sim ver o hip-hop no topo, forte e cada vez mais verdadeiro.

Eu particularmente gosto demais de grupos que mistu- ram cultura e social, eu mesmo faço muito isso. Então, destaco além de A Família, grupos como o Z’África Brasil, que faz um trampo da hora no Jardim Leme, em Taboão da Serra, aliados com a posse A Firma e o time de várzea Ponte Preta do Jardim Leme. Da hora, verdadeiro.

Cito também o Função RHK, que faz o evento Cultura na Quadra em Itapevi, e outros. Não podemos perder de vista isso, porque é o que faz do hip-hop um movimento, e não uma coisa que com o tempo vai acabar. O rap não é moda, é compromisso, logo ...

86

Hip-hop:dentro do movimento

Um dos maiores representantes do chamado “gangsta rap”, o grupo Realidade Cruel, da cidade de Sumaré-SP, mostra muita organização e, por isso mesmo, lança mui- tos trabalhos e faz bastantes shows, além de manter um público fi el. Fomos até Sumaré para gravar meu quadro “Buzão – Circular Periférico” pro programa Manos e minas da TV Cultura e entrevistamos o Douglas, vocal e líder do Realidade Cruel. A seguir, parte dessa entre- vista, e você pode acessar o quadro no Youtube. 2

BUZO: Estamos em Sumaré, interior de São Paulo. Como essa cidade entrou no cenário do rap nacional?

DOUGLAS / REALIDADE CRUEL: Sumaré hoje tem nomes que a

representam no cenário nacional, não só regional, como nós do Realidade Cruel, tem A Família, Face da Morte, Condenação Brutal, Inquérito.

Essa questão de Sumaré ser, de uma certa maneira, um lugar que proporcionou grandes nomes, acho que é isso, uma escola, a raiz, a infl uência também que vem de Campinas, os bailes, os grupos de lá como Sistema Negro, Visão de Rua e assim por diante.

BUZO: O nosso amigo, o poeta do rap GOG, morou aqui por um tempo. Como foi isso?

DOUGLAS / REALIDADE CRUEL:

Pra nós do cenário rap foi

importante, porque o GOG, como todos sabem, ele é o

professor, acrescentou muito no aprendizado, trouxe uma infl uência muito positiva pra todos os grupos, inclusive pra nós do Realidade, enquanto informação sobre grupos de rap, informação musical, como pessoa também, né, porque ...

BUZO: No dia a dia?

DOUGLAS

/

REALIDADE

CRUEL:

É

imensurável

a

qualidade

como pessoa também, é um grande parceiro.

2 http://www.youtube.com/watch?v=anBfOOQMN5o

Profi ssionalismo no hip-hop

87

BUZO: As letras do “gangsta rap” nacional não podem ser confundidas como apologia ao crime?

DOUGLAS / REALIDADE CRUEL: O que nós fazemos é narrar o

cotidiano da sociedade. BUZO: Se o cotidiano é violento, vai refl etir nas letras?

DOUGLAS / REALIDADE CRUEL:

Vai refl etir nas músicas, a

gente começou a falar de problemas, começou a falar de contexto, começou a retratar nas músicas todo esse tipo de denúncia social, isso com os Racionais MC’s no

início dos anos 1990 e depois vieram os demais, Rea- lidade Cruel, Facção Central, Consciência Humana,

GOG

Criou-se na sociedade um sinal de alerta: “Esses

... caras aí, o que eles estão falando aí é perigoso, eles

estão alertando gente demais.”

Por ter essa postura séria, a gente procura através da música, de uma certa forma, fazer um papel de resgate social mesmo.

O que podemos destacar dessa entrevista, pra mim, com certeza, sem medo de errar, é esse medo da sociedade, da mídia, da elite, que impede o rap de ter uma total abertura na mídia. Para quem está no poder é interes- sante continuar tudo igual, um povo instruído é difícil de ser manipulado.

O rap instrui, e isso sempre incomodou. Quando o Dou- glas diz “Esses caras aí, o que eles estão falando aí é perigoso, eles estão alertando gente demais”, é a mais pura verdade, por estar alertando gente demais, nunca deram espaço pra gente na TV, nos jornais, nas revistas. O rap incomoda porque pra quem está no poder é mais interessante ver o Latino, por exemplo, cantando “Hoje é festa lá no meu apê, pode aparecer, vai rolar bunda- lelê, tem birita até o amanhecer.” Ou seja, alienação em massa. Ponto pro sistema.

88

Hip-hop:dentro do movimento

Encerrando este capítulo, no qual pretendíamos tratar de profi ssionalismo dentro do nosso movimento, uma entrevista com o Pregador Luo, exemplo de mano que corre pelo certo, mas olhando de cima pra baixo e não o contrário. Vamos ver por quê.

BUZO: Como você, Luo, vê os shows do gospel e do secular? Frequenta os dois ou não faz secular? Quais as diferenças?

PREGADOR LUO: Salve, Buzo, respeito e amor a você e sua família em primeiro lugar! Sim, frequento os dois meios, afi nal, tô no mundo e o mundo é isso mesmo, uma mis- tura de culturas que temos que conhecer e valorizar, ou não. Porém, meu mundo é muito mais que apenas esses dois universos. Procuro viver ao menos uma pequena porcentagem do cosmos, que é infi nitamente maior que o mundo secular e o da Igreja. A diferença entre esses dois universos é enorme. Musicalmente falando, a música secular e a evangélica têm suas diferenças em discurso ideológico, e isso cada um percebe de uma maneira. Tanto num estilo quanto no outro, a música só vai falar ao meu coração de maneira mais profunda se eu sentir nela a alma de quem a compôs. Mesmo se ela tocar como um mantra nas rádios e eu não sentir algo em meu coração, tal música para mim não signifi cará nada além de notas musicais e palavras vazias.

BUZO: Hip-hop salva?

PREGADOR LUO: Não, quem salva é Jesus! O hip-hop educa, pelo menos tem essa obrigação. O hip-hop serve pra muita coisa hoje. É a música que vai dominar o mercado por muito tempo, assim como já vem fazendo. Pode ser usado pra vender produtos em campanhas publicitárias, fazer apologia, eleger presidentes e derrubá-los e mais uma porrada de coisas. Ele pode servir pra muita coisa sem ter a obrigação de ser o que as pessoas esperam

Profi ssionalismo no hip-hop

89

dele. Isso vai de cada pessoa, da forma como cada um usa sua vida e seu talento pra fazer grafi te, dançar break, ser DJ ou MC. Pra mim, o hip-hop já agrega outros elementos como skate, MMA, literatura, moda e busi- ness. E a cada dia vai somar algo mais pra nossa cultura. Ele não salva, mas pode voltar a apontar o caminho da salvação, pois força pra isso ele tem. Quem quiser ser verdadeiramente salvo para sempre e não só por algu- mas décadas, tem que ler 1 João, capítulo 3 inteiro, e crer de todo seu ser nisso!

BUZO: Apocalipse 16: o que representa na sua vida?

PREGADOR LUO: Apocalipse 16 representa a minha vida! É a minha marca neste mundo.

BUZO: Vocês lançaram um CD numa grande casa de shows de São Paulo, divulgaram nos cadernos culturais dos maiores jornais de São Paulo. Quando vi fi quei orgu- lhoso, porque nesses espaços nunca sai nada de rap (no máximo, Marcelo D2). Esse é o caminho? Atacar por cima?

PREGADOR LUO: Sim, analisar tudo de cima, planejar tudo macro, assim como uma majestosa águia faz lá nas alturas. Sacar qual é o momento certo, mas é difícil para alguns. Quando lancei meu DVD no Via Funchal em 2006, fi z um investimento altíssimo que está me dando retorno. O rap no Brasil não acredita em si mesmo, as pessoas estão desacreditadas, não confi am mais nem em si mesmas. Ficam com medo de investir. Oras, se tu mesmo não crê que pode, quem vai crer em você então? Mas tem que ser sensato, pois o sucesso tão almejado não vem pra todos, não é só perseverar, temos que pen- sar: “Será que consigo entrar no ringue e derrotar aquele cara, ou será que ele vai me quebrar de pau porque trei- nou mais do que eu e se preparou melhor?”. Se você não quiser quebrar a cara, tem que se autoavaliar sempre e

  • 90 Hip-hop:dentro do movimento

pedir que outros te avaliem sem medo de escutar a ver- dade. Marcelo D2 tem seu mérito e aprendi admirá-lo por isso. Enquanto muitos encolhiam a mão e não cum- primentavam certas pessoas, ele fez ao contrário, e por suas atitudes está colhendo o que tem. Uns dez anos atrás, ele me deu uma das primeiras grandes oportuni- dades da minha vida, que foi abrir seu show no Palace. Até hoje ele me trata com respeito e igualdade. Tire toda a maconha e todo o palavrão da música de D2 e a escute com calma e você terá um bom exemplo de sucesso no hip-hop BR. Ninguém é o que é por acaso!

BUZO: O que espera do futuro do movimento hip-hop?

PREGADOR LUO: Vou trabalhar pra que o presente seja o melhor possível e pra que o futuro seja promissor. Já fi z muita coisa e pretendo fazer mais. O mundo muda o tempo todo, pois tá em movimento. Se colocarmos mais as nossas ideias em movimento, tirá-las do campo men- tal e trouxermos à tona nossos melhores pensamentos em forma de realidade, vamos fazer o hip-hop BR encos- tar no do EUA, em números, em prestígio e aceitação. Só precisamos de homens e mulheres que tenham valores a repassar e corações cheios de boa vontade. Isso o Bra- sil tem, só precisa acreditar. Precisamos entender que o hip-hop não tem vontade própria, está aí pra nos ser- vir. O que faz o hip-hop acontecer são pessoas em movi- mento. Por isso, não parem, acreditem! Movam-se!

(Reali

alidade Cruel) Buzo e Douglas (Realidade Cruel)

alidade Cruel)

Buzo e Douglas (Realidade Cruel)

Anderson Buzo, Ao Cubo e Pastor Anderson Buzo, Ao Cubo e Pastor Anderson
Anderson Buzo, Ao Cubo e Pastor Anderson Buzo, Ao Cubo e Pastor Anderson
Anderson
Buzo, Ao Cubo e Pastor Anderson
Buzo, Ao Cubo e Pastor Anderson
Cap.03 Mídia do hip-hop Cap.03 Mídia do hip-hop
Cap.03 Mídia do hip-hop Cap.03 Mídia do hip-hop
Cap.03 Mídia do hip-hop
Cap.03
Mídia do hip-hop
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Mídia do
Mídia do
Mídia do
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Como falamos da mídia do hip-hop, não podíamos dei- xar de dar voz aos maiores veículos, sites que fazem um trabalho de não deixar que assuntos passem batidos, que mostram o que muitas vezes a grande mídia não se interessa em mostrar.

Os sites contatados foram:

www.enraizados.com.br

www.radarurbano.com.br

www.rapevolusom.cotm

www.centralhiphop.com.br

Um quinto grande site do meio foi contatado, mas até o fechamento da obra não havia retornado as respostas sobre o tema “A mídia do hip-hop”.

Dudu de Morro Agudo, de Nova Iguaçu, falou pelo Enraiza- dos, site do Movimento Enraizados, do qual é presidente.

Já pelo Radar Urbano falou o Freitas, de São Paulo, que era do Real Hip-hop. Depois de se batizar e passar a ser cristão, lançou esse novo veículo.

O

B.Dog, do Rio de Janeiro, respondeu pelo seu site

Rapevolusom.

Por último, o Central Hip-hop, conhecido pelo tradicional nome de Bocada Forte, foi representado pelo DJ Corte- certu, militante do hip-hop e repórter.

Mídia do hip-hop

97

Vamos ver a diferença de pensamento entre eles. Porque para todos foram feitas as mesmas perguntas. Confi ra o que pensam as pessoas que fazem a nossa mídia.

Claro que existem outros veículos, sites e blogs, mas os citados com certeza representam os demais.

BUZO: Como você vê nos dias atuais a mídia especializada do hip-hop?

DUDU DE MORRO AGUDO (WWW.ENRAIZADOS.COM.BR): Existe uma

grande variedade de sites que representam a mídia especializada do hip-hop brasileiro, alguns com milha- res de acessos, respeito e reconhecimento em todo o Brasil. As rádios comunitárias também têm sua impor- tância, mas as notícias comunitárias e regionais não ganham força para circular outras regiões, então eles acabam repetindo as notícias que são publicadas nos grandes veículos, que nem sempre são específi cos do hip-hop. Mas creio que alguns veículos de comunicação de massa que transitem em todo o território nacional são totalmente necessários e precisam estar de volta, como a revista Rap Brasil. Necessitamos de progra- mas de hip-hop em grandes rádios FM não somente no estado de São Paulo, Brasília ou Porto Alegre, precisa- mos estar organizados e unidos para termos articula- ção sufi ciente para conseguirmos programas em gran- des rádios na maioria dos estados brasileiros. Estamos chegando aos poucos na TV, com espaços em canais como TV Brasil, TV Cultura e Canal Futura, conquistas que chegam aos poucos e com muito trabalho. O mais importante é que todos esses veículos de comunicação precisam ser construídos por pessoas que têm compro- metimento com o hip-hop nacional, e mais ainda, preci- sam estar em sintonia uns com os outros.

FREITAS (WWW.RADARURBANO.COM.BR): Hoje em dia vejo um

grande avanço devido à internet. Praticamente, a mídia do hip-hop é a web. Revistas, não tenho notícia de

98

Hip-hop:dentro do movimento

nenhuma publicação no Brasil. E temos alguns progra- mas de TV, mas nenhum com 100% de foco no hip-hop, temos programas que são voltados para a cultura peri- férica, cultura black. Mas acho tudo válido. Sonho ter um programa de TV originalmente hip-hop. Depois de 11 anos à frente de veículos de hip-hop na web, esta- mos criando uma rede de grandes sites de cultura urbana e hip-hop, para com isso juntarmos diversos públicos e para que esses internautas tenham todos os tipos e estilos de informações da rua.

B.DOG (WWW.RAPEVOLUSOM.COM):

Falar dos meus pares é

como estar falando sobre o próprio Rapevolusom.com. Estamos nos organizando e esta organização nos per- mite buscar algo bem maior do que já conseguimos em um passado recente. Claro que existem as diferenças de estilos, coberturas, formas de trabalhar e mostrar os fatos, mas em geral vejo todos trabalhando com um grande profi ssionalismo. Nem sempre agradamos a todos, mas é assim mesmo. Para alcançarmos espaços ainda maiores, precisamos ser unidos. Não digo que temos que andar juntos para cima e para baixo, mas saber respeitar o espaço, os créditos, as fotos, as fon- tes um do outro.

DJ CORTECERTU / CENTRAL HIP-HOP / BOCADA FORTE: Os sites e

blogs especializados em hip-hop cumprem um papel importante na cena. É através desses veículos que a maioria das pessoas baixa novas músicas, conhece a história do movimento, os lançamentos e atividades dos artistas, shows, palestras, eventos de dança, mostras literárias, saraus, debates etc. Os meios de comunica- ção do hip-hop ainda carecem de autonomia fi nanceira e profi ssionalismo. Isso se deve ao fato de a mídia do hip-hop atuar como vitrine para divulgação e meio jor- nalístico, algo um tanto confuso, pois não há separação

Mídia do hip-hop

99

entre as duas áreas citadas. Falta uma melhor elabora- ção de conteúdo nos meios de comunicação, esse é um dos nossos principais defeitos. Releases e textos ela- borados pelos artistas e suas assessorias são copiados e espalhados pela web sem uma intervenção dos edi- tores de sites e blogs. O que era para ser um ponto de partida para uma reportagem acaba se transformando em conteúdo dos blogs e sites. Sem dúvida alguma, os créditos sempre são respeitados, mas não há soma de conhecimento. Um vídeo ou um trabalho em áudio que chega na caixa de entrada dos responsáveis pelos meios de comunicação alternativos são matéria-prima para desenvolvimento de conteúdo, mas acabam sendo o produto fi nal. Temos que melhorar esse ponto, além de escrever melhor. Um texto bem escrito é sinal de pro- fi ssionalismo e de preocupação com o público leitor.

BUZO: Como é o trabalho do seu veículo? Qual é a impor- tância da existência dele?

DUDU

DE

MORRO

AGUDO

(WWW.ENRAIZADOS.COM.BR):

O

Portal

Enraizados foi criado para ser um ponto de encontro vir- tual entre os praticantes do hip-hop brasileiro. Com o tempo e as necessidades, fomos alterando o formato até chegar ao de hoje. Mantemos as atividades fundamentais e os objetivos, que são os de dar visibilidade aos artistas e pensadores da cultura hip-hop que não têm tanta pro- jeção nos veículos de comunicação convencionais, esta é uma característica do Portal Enraizados, onde famosos e anônimos têm as mesmas oportunidades.

FREITAS (WWW.RADARURBANO.COM.BR): O Radar Urbano está

há dois anos no ar, após eu sair da sociedade do Real Hip-hop, decidi criar um site mais abrangente. Vi que o hip-hop estava indo além, sentia do público a neces- sidade de mais informações sobre outras culturas, sobre a moda, sobre tecnologia. Daí veio o nome num

100

Hip-hop:dentro do movimento

brainstorm imediato. Registrei, e estamos aí

Hoje o

... R.U., além de reunir conteúdo após fazer pesquisas diá- rias em centenas de sites pelo mundo, cria conteúdo, o que vejo ser um diferencial em relação a vários sites, sem desmerecer ninguém, cada um tem um perfi l. Mas achamos que além de traduzir textos gringos, além de buscarmos fontes nacionais, também temos de ter con- teúdos próprios: entrevistas, coberturas, seções espe- ciais. Um exemplo de inovação é nossa seção de Blogs Convidados, onde temos blogueiros que falam de vários assuntos, sneakers, rap internacional, moda, maquia- gem e cabelos, cinema, games, tecnologia ...

B.DOG

(WWW.RAPEVOLUSOM.COM):

O

Rapevolusom.com

foi

criado no intuito de estar informando/entretendo o público e auxiliando os grupos a se comunicarem com a galera que curte rap e outros elementos dentro do Efó. Considero o Rapevolusom.com um dos portais de notí- cias mais relevantes na década de 2000. Conseguimos utilizar uma ferramenta gratuita na internet, o blog, de uma forma dinâmica e passar informações quase que 24 horas por dia. Hoje somos um portal, mas mantive- mos o jeito de postagens em tempo real e na medida em que fi camos sabendo de novidades pelos Twitters de artistas, gravadoras e sites internacionais, procuramos estar atualizando o nosso portal.

DJ CORTECERTU / CENTRAL HIP-HOP / BOCADA FORTE: O Central

Hip-Hop/Bocada Forte é um veículo que tem 11 anos de experiência. Trabalhamos com uma rede de colabora- dores que produzem textos, imagens, pautas e articu- lações com as diversas áreas da cultura hip-hop. A exis- tência do site representa a pluralidade de opiniões e a diversidade artística e ideológica do hip-hop.

BUZO: Seu site vende anúncios, se paga ou ainda sobre- vive no vermelho?

Mídia do hip-hop

101

DUDU

DE

MORRO

AGUDO

(WWW.ENRAIZADOS.COM.BR):

Nos

dez

anos em que o Portal Enraizados está no ar, sempre colocamos o banner dos parceiros, mas nunca cobra- mos nada por isso, porque mesmo se cobrássemos, a galera não tinha como pagar. Como eu trabalhava em um supermercado, tirava uma parte do meu salário para pagar a hospedagem. A única proposta que a gente teve foi um intermediário da Eletropaulo que queria se apro- ximar da periferia e queria colocar um banner nos sites de hip-hop. Ofereceram 3 mil reais, mas depois sumi- ram. Hoje o portal mantém o fundamento e serve tam- bém como vitrine para os projetos que o Movimento Enraizados executa. Mas dinheiro nunca rolou.

FREITAS

(WWW.RADARURBANO.COM.BR):

Hoje

em

dia

temos

nosso mídia kit e plano de negócios pronto, essa expe- riência de 11 anos nos fez aprender um pouco. Atual- mente, não temos anunciantes pagos de verdade, até por isso veio a ideia de criação desta rede. Pois, infe- lizmente, tem sites que nivelam o nosso mercado por baixo, ou seja, pra ter o status de ter um banner de tal marca, aceita quatro camisetas e 100 reais por mês. Enquanto mantivermos essa mentalidade no meio, seremos sempre motivo de piada. Temos que ter nosso mídia kit, enviar para as agências de publicidade, fazer contatos com grandes marcas de forma digna, parar com o vocabulário “tá ligado, manooo” ...

B.DOG (WWW.RAPEVOLUSOM.COM): De 2002 a 2009, o Rape-

volusom.com sempre foi mantido com custos próprios. Agora, em 2010, adotamos a política de aluguel de espa- ços publicitários. Estamos buscando empresas inte- ressadas em anunciar e não nos importamos de qual segmento elas sejam. O mundo hip-hop não é diferente dos outros estilos, então é um mercado que compra desde vestuário até produto alimentício.

102

Hip-hop:dentro do movimento

DJ CORTECERTU / CENTRAL HIP-HOP / BOCADA FORTE: O site traba-

lha com parcerias e contratos publicitários. Ainda não gera lucro, fato ligado ao confuso cenário econômico do hip-hop/rap. Lutamos para que essa situação mude. Por enquanto, o site se paga, não fi camos no vermelho.

BUZO: Por que a grande mídia, salvo raras exceções, não mostra o hip-hop?

DUDU DE MORRO AGUDO (WWW.ENRAIZADOS.COM.BR): Eles mos-

tram aquilo que convém a eles. Mas se você reparar bem, já mostraram alguns nomes do rap. Agora precisamos refl etir o que queremos que apareça na grande mídia, quais são as nossas prioridades? Porque o hip-hop, na minha opinião, não se resume apenas a música ou a qualquer outro tipo de arte. Se queremos que apareça a música, então os rappers precisam focar e trabalhar muito nisso que, na minha opinião, não vale a pena, não vale a pena tratar o hip-hop como produto, o hip-hop é essência. Se deseja que o rap seja hit de verão, então faça um hit de verão sem conteúdo, que aparecerá na grande mídia como um fenômeno avassalador, mas desaparecerá assim que chegar o outono; ou, se prefe- rir, faça algo verdadeiro, que talvez a grande mídia dê atenção, mas também se não der hoje, foda-se.

FREITAS (WWW.RADARURBANO.COM.BR):

Será que o hip-hop

está preparado para ir pras grandes mídias, salvo raras

exceções? Pelo que tenho visto e vimos de perto em 2009, o hip-hop não está preparado para ir pras gran- des mídias, não está preparado pois quase nenhum grupo tem sua assessoria de imprensa, tem suas fotos de divulgação, ninguém quase tem um release pronto. Vídeo de apresentação se for b.boy, apresentação mix

se for DJ, portfólio fotográfi co se for grafi teiro

Ou

... seja, temos que estar preparados, é isso que falo, temos

Mídia do hip-hop

103

que nos profi ssionalizar, para daí sim cobrar presença nas mídias. Temos que sair desse espaço de comodismo e parar de culpar os grandes pela nossa incompetência.

B.DOG (WWW.RAPEVOLUSOM.COM):

Na verdade, a mídia não

mostra o nosso gênero musical (rap). Outros elemen- tos da nossa cultura sempre estão presentes na grande mídia. As obras de artes do Osgemeos, os torneios de DJ e as Batalhas de b.boys sempre recebem um destaque

na grande mídia.

DJ CORTECERTU / CENTRAL HIP-HOP / BOCADA FORTE:

Existem

fatores que proporcionam essa situação, questões ideo lógicas: parte do rap/hip-hop luta contra o capita- lismo e suas formas de opressão. A grande mídia é parte do sistema capitalista, aí está a razão para a omissão

(em relação ao lado político do hip-hop) das instituições que representam a grande mídia. Falta de profi ssiona- lismo: muitos artistas ainda fazem trabalhos medianos e, apesar de desejarem apar ecer nos grande meios, não conseguem desenvolver uma articulação com a TV e com a imprensa escrita. Quando artistas mostram com- petência para trabalhar sua imagem na grande mídia, são atacados por parte do movimento. Isso gerou a atual situação da nossa cultura/arte/movimento.

É necessário o equilíbrio de forças para conquistar espaço. Precisamos de uma economia interna e solidá- ria, algo difícil de concretizar. Por enquanto, veremos alguns artistas lucrando por trabalharem de maneira organizada nos moldes do capitalismo. Isso é ruim? Se for, qual a alternativa? Poucos querem discutir isso de maneira séria. Produtores envolvidos no hip-hop e na grande mídia não querem largar o osso, uma atitude que sufoca a cena, não mostra a diversidade e não gera uma economia que proporcione uma indústria forte baseada nos princípios do hip-hop.

104

Hip-hop:dentro do movimento

BUZO: Acha válido os grandes nomes do rap irem à TV, por exemplo? Por quê?

DUDU DE MORRO AGUDO (WWW.ENRAIZADOS.COM.BR): Acho válido,

não só os grandes nomes do rap irem à TV, mas defendo a ideia de que qualquer pessoa que tenha vontade e esteja preparada para ir à TV, vá e enalteça o nome do hip-hop.

FREITAS

(WWW.RADARURBANO.COM.BR):

Como

disse

antes,

temos que estar preparados: ir por ir, para falar besteira, para envergonhar, é melhor não ir. Temos, sim, que ir mostrar trabalhos dignos, feitos com qualidade, levar a essência do hip-hop, o trabalho social, politizado e tam- bém, é claro, o hip-hop festa. Tudo é hip-hop. Gangsta, Festa, Politizado, o chamado rap Underground, Gospel, tudo é rap!!! GOG, por exemplo, abriu um debate no Twit- ter sobre sua ida à Globo. Disse a ele exatamente isso. Se a Globo quer a presença dele, é por dois motivos: ele tem algo a falar e ele dá ibope. De que forma isso pode se con- verter a seu e a nosso favor? Usar esse ibope para falar verdades das periferias, para divulgar seu trabalho, CD, DVD, mostrar a realidade do hip-hop nacional. E uma via de mão dupla e temos que ir se quisermos crescer.

B.DOG (WWW.RAPEVOLUSOM.COM): Esta é uma pergunta que

eu sempre gosto de responder. Acho não só válido, mas totalmente necessário para a sobrevivência e o cresci- mento do nosso estilo de som. Sou um cara que costuma seguir um bom exemplo não me importando de qual cul- tura ou país ele venha. Se você quer sobreviver dentro do mundo da música, é necessário vender. Veja o exem- plo do sertanejo, do forró e de outros gêneros musicais. Os caras se reinventaram com o estilo “universitário”. E o rap, quando vai crescer e sair da escola?

O mantra que foi repetido durante anos, “não canto rap na televisão”, infelizmente tomou uma proporção tão grande que agora grupos ou rappers que chegam à TV são considerados vendidos.

Mídia do hip-hop

105

Bom, se você é rapper/grupo e não quer vender o seu som, pode procurar outra coisa para fazer.

DJ CORTECERTU / CENTRAL HIP-HOP / BOCADA FORTE: Sim, acho

válido. Os grandes nomes do rap precisam fazer essa conexão, pois têm algo pra mostrar e dizer, possuem experiência e visão. Mas é necessário que busquem mos- trar a diversidade no rap e levar os outros elementos.

Não é uma questão romântica, é simples de entender: se apenas um estilo de rap aparecer na TV, se os outros ele- mentos não forem valorizados pelos MCs e DJs que forem pra grande mídia, esses fatos impedirão o crescimento da cena, o dinheiro não vai circular, não teremos selos e agências autossustentáveis. A 105 FM é um grande exemplo de como se tratar o rap de maneira errada e gerar lucro para alguns sem criar uma indústria maior. Hoje vivemos num cenário onde todos querem/precisam de espaço, isso é resultado dos erros do passado, mas os mais novos apenas dizem que não cometerão esses

erros

sem saber que estão no mesmo caminho. Preci-

... samos de profi ssionais que lidem de maneira séria com o rap, aí não nos preocuparemos se alguém for ou não pra TV, pois teremos a diversidade imposta pelo hip-hop mesmo que tentem manipular, pois sempre tentarão.

Depois que, nos anos de 2008 e 2009, todas as revistas impressas de hip-hop (Rap Brasil, Rap BR, Cultura Hip-hop, Planeta Hip-Hop, Rap News, Graffi ti ) saíram de circula- ção, a importância dos sites especializados cresceu.

Mas por que editoras como a Escala e a Minuano tiraram esses veículos de circulação? Fomos falar de novo com Alexandre de Maio, que anteriormente já havia nos falado sobre o Prêmio Cultura Hip-Hop, e agora vem esclarecer essa questão, já que ele foi editor da maioria das revistas que por anos deram voz à cena do rap nacional.

o e Buzo

o e Buzo

o e Buzo
Dudu do Morro Agudo e Buzo Dudu do Mo

Dudu do Morro Agudo e Buzo

Dudu do Mo

Dudu do Morro Agudo e Buzo Dudu do Mo

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Hip-hop:dentro do movimento

Em março de 2010, quando perguntado sobre o porquê das revistas terem saído de circulação, ele nos disse:

BUZO: Por que “todas” as revistas de hip-hop deixaram de circular?

ALEXANDRE DE MAIO: Como eu fazia cada uma com uma equipe diferente, mas todas através do mesmo estúdio, uma dependia da outra. E quando as editoras muda- ram suas políticas de vendas, exigindo mais vendas, e uma parte em comercial, os projetos fi caram inviáveis. A única que tinha um comercial um pouco mais forte era Rap Brasil, que ainda durou um tempo a mais, mas mesmo assim se mostrou inviável no modelo comercial em que trabalhávamos e também não resistiu às pres- sões do mercado.

BUZO: Quais as chances de voltarmos a ter nas bancas uma revista de rap e qual seria a outra opção?

ALEXANDRE DE MAIO: Acho que a opção hoje em dia são os sites, colocar uma revista na banca é bem difícil. Colo- quei ao longo de dez anos mais de 180 números, distri- buídos em diversos títulos, foram mais de 2 milhões de exemplares nas ruas. Mas o que as pessoas talvez não saibam é que para se colocar um único numero de uma revista na rua são precisos mais de 40 mil reais de inves- timentos. Uma quantia difícil de conseguir movimentar em uma revista alternativa hoje em dia, principalmente com o fi m da indústria do CD. Talvez uma alternativa seja através de projetos, mas também é muito difícil, pois imprensa livre, como eram as minhas revistas, não com- bina muito com os propósitos da maioria dos editais.

BUZO: Existe um exército do rap nas quebradas. Por que então a revista tinha problemas com vendas? Seis ou sete reais é caro pro nosso público?

Mídia do hip-hop

109

ALEXANDRE DE MAIO: Eu acho que o problema não foi só venda, porque as “grandes” revistas não se viabili- zam apenas através das vendas, mas sim de um mer- cado forte e organizado com marcas estruturadas que apoiam. O hip-hop no Brasil tem um caráter social muito forte e profi ssional. Já na área comercial está engati- nhando, ainda está aprendendo a comercializar os pro- dutos gerados pelo hip-hop.

BUZO: Como você vê a importância dos sites de hip-hop, e quem mais divulga rap no Brasil?

ALEXANDRE DE MAIO: Com certeza hoje a internet é o meio em que mais o hip-hop tem espaço. Na mídia impressa as portas são mínimas, como a revista Raça ou o jornal Agora. Na televisão são poucos programas especializa- dos no Brasil, e só na TV pública. No rádio, as comunitá- rias perderam a força, programas são poucos e a única radio que toca rap brasileiro é a 105 FM.

Então a internet, um meio de divulgação que não exige um investimento alto, se tornou a forma mais viável de se divulgar nossa cultura.

Hoje na net todos têm importância. Junte os sites, os blogs, o Twitter, o Orkut, o Facebook, temos uma grande rede de comunicação hoje.

BUZO: Por que você acha que o rap tem pouco espaço na grande mídia?

ALEXANDRE DE MAIO: Vejo por exemplo que o caso do rap é diferente do caso do grafi te. O rap brasileiro ainda é muito carregado de protesto, de denúncia, não se encaixa na música “feliz” que está na mídia. É um produto ainda “indigesto” pra indústria da música. Mas também entendo que o objetivo do rap não é ir para a grande mídia, talvez seja até o contrário, ele é

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Hip-hop:dentro do movimento

direcionado pra “pequena” mídia, mas que é aquela mídia que atinge aquele cara que quer fazer a mudança. Acho que quando o rap estiver diariamente na grande mídia vamos ter saudades de quando ele era marginal. E a grande mídia não é sinônimo imediato de progresso, rappers como o Xis ou grupos como o Racionais estão aí para mostrar isso de ângulos diferentes.

Não sou contra quem chega na grande mídia, mas acho que isso tem que ser um acidente de percurso de quem faz música boa, e não um objetivo, porque quando você domestica o rap e faz dele uma música para agradar a massa, você mata sua principal característica e seu diferencial, que são a irreverência e o protesto.

BUZO: Isso um dia vai mudar?

ALEXANDRE DE MAIO: Se analisarmos outros movimentos musicais que começaram com um forte teor de pro- testo, como o rock e o punk, a tendência do rap é ser absorvido pela sociedade e se encaixar nos padrões da grande mídia junto com o processo natural de aperfei- çoamento da técnica, da comercialização e da música. Também os avanços sociais do nosso país, pouco a pouco, podem esvaziar o discurso de protesto. Por outro lado, os problemas da violência, da educação, não só no Brasil como no mundo, só aumentam, o que faz com que eu pense que o hip-hop tem um papel fundamental na política mundial nos próximos anos.

A força do hip-hop é muito grande, e eu vejo como um dos poucos movimentos globais que podem pressio- nar a política mundial por melhorias do planeta. Assim como no Brasil, em todo o mundo o exército do hip-hop só cresce, e seus artistas têm forte infl uência na socie- dade, todos juntos, pode ser utópico, mas tem a força para mudar o curso da história.

Mídia do hip-hop

111

O DJ americano Afrika Bambaataa, a cantora Beyoncé, Mano Brown, os grafi teiros Osgemeos, os b.boys do TSunami, Nelson Triunfo, Thaíde, MV Bill, entre outros artistas, hoje infl uenciam o mundo.

Depois de falar com o Alexandre de Maio, fomos até Portugal. Lá, mora há três anos uma mina que somou por anos com a Rap Brasil. Seu nome é Juliana Penha, e mesmo longe, sempre está presente quando convocada. Ano passado (2009), foi colunista do jornal Boletim do Kaos, de São Paulo.

Juliana Penha viu e viveu muita coisa dentro do hip-hop nacional e hoje soma junto com outros brasileiros em Portugal, para abrir espaços pro nosso rap lá na Europa. Vamos saber como ela está e o que tem feito.

BUZO: Por muito tempo você fez parte da revista Rap Bra- sil. Quais as maiores difi culdades que você via para ter uma revista nas bancas?

JULIANA PENHA: Acho que a maior difi culdade era o mono- pólio das distribuidoras. Para chegar a um grande número de leitores, a revista dependia de uma grande distribuidora, e isso, de certa forma, limitava um pouco o nosso trabalho. Recebíamos cartas de todos os can- tos do Brasil, e é muito importante, a revista chegava em quase todo o Brasil. Hoje penso que o hip-hop bra- sileiro tem uma rede que se comunica muito bem e, tal- vez, quando outra revista surgir, possa seguir um cami- nho diferente da Rap Brasil, com mais liberdade.

BUZO: Hoje você vive em Portugal. Fale como é o hip-hop daí, e se tem protesto como aqui.

JULIANA PENHA: Vivo em Lisboa há três anos. É um pouco complicado falar da cultura hip-hop aqui porque não tenho uma participação ativa como tinha no Brasil.

112

Hip-hop:dentro do movimento

Existem pessoas que acreditam que o hip-hop é uma cultura de protesto e outros que o veem apenas como entretenimento. Aqui existe uma diversidade cultu- ral que o hip-hop deveria repensar e trabalhar junto. São tantas comunidades de outros países num espaço tão pequeno, e se houvesse a integração de todas as comunidades africanas, brasileiras, asiáticas e euro- peias que vivem aqui, o hip-hop em Portugal teria uma riqueza inestimável. Com relação a existir protesto aqui, existem iniciativas, mas não faz sentido comparar com o Brasil, porque temos outra dimensão, tanto ter- ritorial, como histórica e cultural. Em Portugal existem coisas acontecendo, mas muito lentamente.

BUZO: O que tem feito no hip-hop daí? Algum projeto em andamento?

JULIANA PENHA: Tenho uma vida de imigrante, ou seja, tenho que lutar diariamente para pagar minhas des- pesas aqui, incluindo os meus estudos. Viver em outro país sozinha é uma experiência e tanto. No tempo que me sobra procuro escrever projetos para quando voltar ao Brasil. O DJ Dico e o DJ Loko, que também são de São Paulo e vivem aqui, estrearam um programa numa rádio FM, o Gueto em festa, um programa dedicado ao hip-hop dos países que falam língua portuguesa, e estou me organizando pra somar nesse time. Espero que seja mais uma ponte para o hip-hop.

BUZO: O que mais te dá saudade do hip-hop nacional?

JULIANA PENHA: Tenho muita saudade das amizades, das ideias que trocava, dos eventos de que participava. O hip-hop brasileiro tem uma energia única, conheci pes- soas maravilhosas de várias partes do país, que fazem parte da minha história de vida. Estou há muito tempo fora e não sei como será quando eu voltar, mas também não

Mídia do hip-hop

113

tenho medo das mudanças, elas são necessárias. Quando voltar continuarei a dar minha contribuição para conti- nuar a fazer parte de uma cultura que transforma vidas.

BUZO: Acha que nossos rappers devem estar na grande mídia?

JULIANA PENHA: Eu penso que é uma decisão pessoal. Os rappers é que devem decidir o que fazer com suas carreiras. Acredito no livre arbítrio. A grande mídia já está sendo utilizada por alguns rappers e por outros integrantes da cultura hip-hop há algum tempo e houve resultados positivos. Só acho que qualquer representante da cultura hip-hop deve pensar se a sua presença em determinados programas ou conte- údos da grande mídia contribui de alguma forma para a evolução da cultura. E se não vai contribuir, para que perder tempo? Né não?

Agradecemos a atenção da irmã que chegou pra somar nesta obra, provando que distância não é barreira quando queremos fazer acontecer.

Mas o assunto mídia do hip-hop vai seguir falando com as mulheres, afi nal de contas, é uma mulher que comanda o programa que mais tem hip-hop na TV do país, seja ela aberta ou canal pago. Seu nome é Maria Amélia, e ela é editora-chefe do programa Manos e minas da TV Cultura, que estreou em 7 de maio de 2008 com o Rappin Hood de apresentador. Depois, em 2009, com a saída do Rappin Hood, o programa passou a ser apresentado pelo Thaíde, que fi cou o ano todo, mas deixou o mesmo no início de 2010 para encarar um novo desafi o: ser um dos apresen- tadores do programa A liga, da Band. A responsabilidade de estar à frente do Manos e minas fi cou pro Max B.O., que veio da Rede TV!, onde fazia o quadro “MC Repórter” do programa Brothers.

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Hip-hop:dentro do movimento

Desde o começo no time, e desde 2009 no comando, Maria Amélia mostrou experiência para a missão, afi nal, não é marinheira de primeira viagem. Antes da entrevista exclusiva com ela, vamos ver seu currículo:

Editora-chefe do Manos e minas Assessora da presidência da Fundação Bienal de São Paulo

Editora-chefe do Caderno de TV do Jornal da Tarde Diretora da revista Raça Brasil Diretora do programa Vitrine , da TV Cultura Editora-chefe do programa Metrópolis , da TV Cultura Integrante da equipe de criação do programa Metrópolis Editora-assistente de cultura da revista Veja Estagiária, repórter e crítica de música no Jornal da Tarde/Estadão

Em 2000 foi agraciada com a Comenda da Ordem de Zumbi dos Palmares, do Ministério da Justiça/Governo Federal. Esta é Maria Amélia do Manos e minas, vamos então falar com ela.

BUZO: Como é ser diretora do Manos e minas da TV Cultura?

MARIA AMÉLIA: Sou editora-chefe do Manos e minas, o que, traduzindo, quer dizer que sou a pessoa responsável pelo conteúdo do programa. Dou a palavra fi nal sobre as reportagens que serão exibidas, aprovo os musicais, dirijo o apresentador, escrevo o roteiro fi nal. Da minha experiência profi ssional talvez seja o projeto mais desa- fi ador. Dar voz à cultura de periferia tem sido um aprendi- zado diário. Os parâmetros são outros porque a relação do nosso público com o programa também é diferente. Não há outro Manos na TV aberta brasileira. Então, nossos espectadores têm um carinho especial por ele, é uma voz que eles não querem que se cale. “Vigiam” nossos pas- sos, cobram, sugerem, são também “donos do pedaço”. E a gente tem de descobrir uma maneira de fazer um bom programa de televisão ao mesmo tempo em que funcio- namos como uma ilha para o povo da periferia.

Mídia do hip-hop

115

BUZO: O Manos e minas é o programa que mais passa hip-hop na TV do país, seja ela aberta ou canal pago. Como você encara isso, e como tem sido trabalhar com hip-hop no Brasil?

MARIA AMÉLIA: A sensação é muito boa, especialmente quando vemos – ainda que esporadicamente – outras emissoras chamando artistas de rap que já passaram pelo nosso palco. Estamos abrindo um caminho, não resta a menor dúvida. Trabalhar com hip-hop nesse universo que descrevi na resposta anterior é estimu- lante e difícil ao mesmo tempo. Manos e minas é um programa de televisão numa TV educativa, voltado para um público juvenil. Há parâmetros dentro da programa- ção, e isso também norteia o nosso quadro de atrações musicais, por exemplo. Não podemos no fi m de tarde do sábado, quando o programa é exibido, levar um tipo de música incompatível com o horário e o público a que se destina. Muita gente contesta isso, mas entre não exibir algumas atrações e manter o programa no ar, escolho a segunda opção. É importante que Manos e minas conti- nue na grade de programação da emissora.

BUZO: O que sente, você pessoa e não diretora, sobre o hip-hop no Brasil?

MARIA AMÉLIA: Talvez seja a cultura que, neste momento, mais representa a juventude brasileira – pelo menos a de menor poder aquisitivo. Ninguém mais precisa de uma gravadora, de um teatro ou de uma galeria para mostrar sua música, sua dança ou o seu desenho. Se tudo isso é negado à população mais pobre, ela simplesmente trans- forma a cidade no seu espaço. Os grafi tes estão pelas paredes, as músicas, no Youtube, com pouco investi- mento dá para fazer uma mixtape e se dança em todo e qualquer lugar. Ou seja, ninguém segura o hip-hop.

116

Hip-hop:dentro do movimento

BUZO: Você chegou a trabalhar com os três apresenta- dores que já passaram pelo programa: Rappin Hood, Thaíde e Max B.O. (atual). Quais as diferenças de estilos e como foi (e é) trabalhar com eles?

MARIA AMÉLIA: São três atitudes completamente diferen- tes e isso ajudou o programa a marcar época. Rappin Hood fazia o estilo mais grave e intransigente. Thaíde é uma fi gura histórica do movimento e trazia consigo essa bagagem. Alegre, bem-humorado, emotivo e de ótimo convívio profi ssional, fez do seu período um dos melho- res para todos os que estavam encarregados de produ- zir, editar e colocar Manos e minas no ar. Vivemos agora a fase de Max B.O. É o mais novo dos apresentadores e tem uma empatia muito grande com a garotada. Mestre nas rimas, transforma os textos na hora e acrescenta uma boa dose de improviso ao programa. Surpreende tanto a plateia quanto a própria equipe. Considero os três funda- mentais para o crescimento do Manos e minas.

BUZO: O Manos e minas completou dois anos no ar em maio de 2010. Força total para a terceira temporada?

MARIA AMÉLIA: Total! Entramos no terceiro ano com a garra do começo. Como coincidiu de termos um novo apresentador a cada temporada, é como se estreás- semos um novo programa a cada ano. Só que com uma equipe mais experiente, mais dona do assunto, cada vez mais apaixonada.

Falando em Manos e minas, o Emicida, MC da nova gera- ção, a partir de 2010 surgiu com o quadro “A rua é nóiz” no programa. Perguntamos a ele sobre essa nova cami- nhada. “Sempre quis saber como funcionava a TV por dentro. Estou lá agora. Até quando eles acharem que sou um acréscimo bacana pro programa, tenho um quadro chamado “A rua é nóiz”, e tenho feito entrevistas com

Mídia do hip-hop

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diversos artistas aí, Sandra de Sá, Ed Motta, Oswaldinho da Cuíca, só monstrão, e eu tô curtindo o espaço e o que tenho feito, é um desafi o, mesmo sendo duas vezes por mês, exige uma responsa monstro, mostrar o melhor da nossa cultura pra essa molecada”, diz ele.

Mas antes do Emicida fazer parte do time do Manos e minas da TV Cultura, ele já havia furado o bloqueio da mídia, foi fi nalista do Prêmio MTV, saiu na primeira página do caderno Ilustrada da Folha de S.Paulo, foi ao programa Altas Horas do Serginho Groisman na TV Globo, entre outras proezas. Vamos saber como foi:

BUZO: Como você furou o bloqueio da mídia e chegou à capa da Ilustrada da Folha, no Altas Horas e outros?

EMICIDA: Não sei te dizer ao certo. Sempre acreditei nesse bloqueio também, nesta barreira que nos deixa de fora sempre, mas comigo a coisa aconteceu de uma forma muito natural num esforço conjunto de minha parte com minha assessoria de imprensa na época e a boa intenção e vontade da Adriana, da Folha, que foi até lá em casa conversar. Com o Altas Horas foi a mesma coisa, me man- daram um e-mail, mas eu não tinha a data, fomos conver- sando, e foi um puta acerto, porque acabamos indo no dia da Sandra de Sá, que é sempre bom ver e ouvir!

Acredito que há um bloqueio por parte de grandes veí- culos, mas alguns jornalistas me parecem bem inten- cionados com relação ao rap, e temos que sincronizar nossas energias para o crescimento da coisa e a exposi- ção dela com suas reais intenções, essência etc. Quem perde por acompanhar veículos que discriminam um certo gênero são seus leitores e espectadores, porque as cenas vivem e seguem intensamente, independente da imprensa e do espaço que lhes é dado, espaço deve ser conquistado, sempre dissemos isso! Vamos conti- nuar com essa fi losofi a, o rap é o maior exemplo de vida

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fora dos tabloides, vivemos e somamos com quem acre- ditamos ser correto em suas intenções, pois é muito fácil ser mal interpretado.

Mas não podíamos deixar de falar com o Rappin Hood sobre mídia e hip-hop, afi nal foi ele que levou o rap pra TV Cultura, com o Manos e minas. Quisemos saber como foi o processo desde antes, quando ele entrou com um quadro no programa Metrópolis, na mesma TV Cultura.

BUZO: Você foi um dos pioneiros a adentrar um canal de TV, com mensagem voltada pra periferia, pro hip-hop. Como você chegou no Metrópolis da TV Cultura, qual foi a ponte pra você apresentar o quadro “Mano a mano”?

HOOD: Foi um documentário que se chamou No olho da rua, participavam João Carlos Martins, a Maria Amélia, Gilberto Dimenstein. Eu fui um dos repórteres desse documentário que foi produzido pela TV Cultura, depois disso houve a proposta de transformá-lo num programa, inclusive eu fui contratado para isso na TV Cultura, só que depois houve um problema, com quem ia dirigir o programa, o projeto naufragou. Como eu já estava con- tratado, me mandaram pro programa Metrópolis e aí eu comecei a fazer esse quadro que se chamava “Mano a mano”, e que depois de dois anos resultou no projeto do Manos e minas, que está no ar até hoje.

BUZO: Você fez o Manos e minas da estreia, o primeiro ano inteiro e depois se desligou. Qual o sentimento quando você vê no ar, bate uma saudade?

HOOD: Eu não assisto, cara, não tenho saudade nenhuma, pra falar a verdade pra você. Eu sei que realizei um bom trabalho, mas não tenho saudade porque não tinha equipe, sentimos saudade de pessoas que gostam da gente. Eu achei legal o que a gente fez, o trabalho que foi feito, só que pra mim eu me sinto traído, porque a gente fi cou um

Mídia do hip-hop

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ano fazendo reuniões, meu segundo ano no Metrópolis fi quei todo fazendo reuniões pra chegar nesse projeto, quer dizer que eu sou um dos fundadores desse projeto, mas chegou um determinado momento que minha opi- nião não importava mais, eu preferi me retirar. Eu sinto vontade de fazer outro programa, outro projeto em outro lugar, mas saudade do Manos e minas eu não tenho.

BUZO: Eu comecei com você desde o primeiro Manos e minas e estou lá até hoje, e nas ruas me perguntam de você. Como vê o carinho desse público e quais as pers- pectivas pra TV?

HOOD: Pode acontecer, mas no momento tô concentrado no meu trabalho, CD, DVD, faz cinco anos que estou sem lançar. Tenho essa nova missão onde a gente está aqui, que é a Imperador do Ipiranga, estou na vice-presidência, tem assim contatos, conversas rolando, especulações, sondagens, de um novo projeto pro Rappin Hood na TV.

BUZO: Você está na disposição?

HOOD: Eu faria, se for algo que eu sinta que vou ter auto- nomia pra fazer, eu faço, eu gostaria. Rappin Hood ainda pode ancorar outro programa na TV, com certeza.

BUZO: Você está em outros veículos, como a 105 FM e a revista Raça. Como foi isso?

HOOD: São dez anos de 105 FM e quase dois anos na Raça. É algo que eu gosto, eu amo o veículo, foram sete anos de rádio Heliópolis, agora são dez anos de 105 FM, e é muito legal fazer rádio, me amarro, gosto de escu- tar e fazer também.

E a Raça é legal por poder passar informação, o disco que saiu, o show que vai rolar. Um pouco de eu estar nesses veículos é que sempre procuramos todas as for- mas de divulgar o hip-hop, levar ele longe, pra frente.

Rappin Hood
Rappin Hood
Rappin Hood
Rappin Hood
Cap.04 Polêmicas
Cap.04 Polêmicas
Cap.04
Polêmicas
Cap.04 Polêmicas
Cap.04 Polêmicas

O rap vira e mexe arruma uma polêmica, e uma que já vem de uns anos pra cá é a do rapper Cabal, que faz um rap mais pop e recebe sempre muitas críticas. Fomos falar com ele porque aqui não pode fi car ninguém de fora, esta obra tem o propósito de dar voz ao movimento e não cabe excluir, todos devem dar suas versões dos fatos, e nessa bombástica entrevista Cabal falou, e como falou. Confi ra agora.

BUZO: Você é branco, nasceu na classe média, viveu nos Estados Unidos. Quando entrou pro cenário rap nacional sofreu algum tipo de discriminação?

CABAL: Sempre rolou discriminação, mas eu nunca sofri!

A discriminação existe em todos os lugares, mas penso

que sofrer é opcional, sofre quem quer

Eu escolhi fazer

... o meu trabalho sem me fazer de vítima, saca? Agradeço a quem gosta, a quem não gosta, mas respeita, e foda-se quem discrimina.

BUZO: Por que esse tipo do perseguição, se o hip-hop prega união?

CABAL: Boa pergunta, eu também queria saber (risos). Na

verdade, nossa cultura é muito hipócrita. Prega a união,

mas critica os “boys”, os “gays”, os “emos”

... os rappers e as pessoas que vivem o hip-hop não

Enquanto

Polêmicas

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entenderem que, independente do “rótulo”, tudo é rap, nós vamos fi car nessa merda, nesse “balde de caran- guejo”, onde um puxa o outro pra baixo. Tem espaço pra todo mundo, ninguém precisa gostar de tudo, só precisa respeitar. Precisamos aprender a conviver uns com os outros. Convivemos com pessoas com gostos e ideias diferentes diariamente, em nossas famílias, em nos- sos trabalhos, por que não podemos conviver assim em nossa cultura? Precisamos nos unir pro rap crescer, um rapper que se destaca faz o rap se destacar, de novo, independente do estilo. Veja os outros gêneros musi- cais, todos têm subgêneros, é saudável ter a “raiz”, o “alternativo” e, por que não o “pop”, o segmento de entretenimento. Até porque o rap nasceu como uma alternativa de diversão, pras pessoas esquecerem os problemas, deixarem a violência, mesmo que seja por alguns momentos. “Peace, love, unity and having fun”, os mandamentos da Zulu Nation, lembram disso? Outra coisa, quem tem dinheiro? Os “boys”. Como vamos tomar esse dinheiro, xingando eles? Não, vendendo músicas pra eles, invadindo a mídia e aumentando nosso público, nosso mercado consumidor. O problema é que quando se fala em vender músicas, as pessoas confundem com “se vender”. Muitos falam “não me vendo”, mas quem quer comprar? No Brasil, foi criado um estereótipo de que rapper tem que ser humilde, mas confundem humildade com pobreza. Precisamos fazer dinheiro de verdade com o rap, assim como os rappers norte-americanos fi zeram e fazem. Não vamos fi car milionários como eles, mas eu quero ver os rapper brasileiros com casa própria, com carro do ano, tirando 5, 10 mil reais por mês, por que não? Protestar é importante, mas não adianta fi car só reclamando e esperar o governo fazer alguma coisa, o rap tá protestando faz tempo e o que mudou? As favelas continuam aí, a molecada continua fumando crack, os

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Hip-hop:dentro do movimento

problemas continuam

Se os rappers fi zerem dinheiro

... com o rap, eles podem mudar suas realidades e a reali-

dade das pessoas próximas, em suas comunidades.

BUZO: Você, com toda certeza, é a pessoa que mais con- tribui para levantar um rap mais pop, mais comercial. Quais as principais diferenças do rap hoje, 2010, com o de quando você começou?

CABAL: Agradeço seu reconhecimento! Hoje, todo mundo é “rapper”, “cantor”, “produtor”, e a maioria sem carisma, sem personalidade, sem qualidade, tá ligado ... Hoje, o rap brasileiro tem mais “artistas” do que fãs (risos), todo mundo é “artista”, só que não tem espaço pra todo mundo. Isso gera uma competição onde pou- cos, os melhores, se destacam e vivem do rap. Quase todos que não conseguem fi cam frustrados e, ao invés de se espelharem nos exemplos de sucesso, viram “faladores”. Falam que não se vendem, mas quem quer comprar? Falam mal de quem se dá bem, adoram tretas no rap e querem que os rappers se fodam, claro, eles já tão fodidos! É tipo balde de caranguejo, nenhum sobe, um puxa o outro pra baixo ...

Hoje, o rap brasileiro é mais dividido ainda do que quando eu comecei! Tem a “cena underground”, que se organizou e faz eventos, mas é a “cena alternativa”, e a essência do “alternativo” é o oposto do “mainstream”, Globo, Multishow, Jovem Pan etc. Então, precisamos organizar “nossa cena” pra ocupar esses espaços que tocam “nosso estilo” de rap, porém, gringo!

E isso não quer dizer que o “pop” é melhor que o “under”, tem espaço pros dois, cada um no seu espaço. Um na rua, no club Hole e o outro no Faustão, no club Pink Ele- phant. O foda é que a molecada não aceita diferenças, não respeita o gosto, nem o trabalho dos outros, não entende que pra um ser bom, o outro não tem que ser

Polêmicas

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ruim, que só porque você não gosta, não quer dizer que é ruim, tá ligado? Rapper “under” é verdadeiro e rapper “pop” é falso (risos). Se eu falo o que eu vivo, a minha verdade, eu não sou “verdadeiro”? Alguém é “dono da verdade”? Fora essa molecada de Orkut que ouve Lil Wayne, 50 Cent, Jay-Z etc. e não fortalece “nossa cena”! Pior, enfraquece, fala mal, que é “copia dos gringos” (risos), e o rap “under” daqui não é “cópia” do de lá? Ou o rap “under” foi criado aqui?

Falta respeito, tá ligado, não precisamos ser “amigos”, mas não podemos ser “inimigos”! Eu tô fazendo a minha parte, vi que errei com minhas tretas, procurei os envol- vidos, desenrolei e, pelo menos da minha parte, não tenho mais treta com ninguém, respeito todos, inclu- sive o Marechal, respeito ele e ele sabe disso, mas eu acredito que são vários caminhos e um só respeito, caminhos diferentes, cada um no seu, tá ligado ...

Você não curte meu som, fi rmeza, mas respeita minha correria! Senhorita, Cquarta, Grammy etc. Isso é tra- balho, amigo, sou pai de família, não tô de brincadeira, independente de você gostar ou não, respeita quem tá tentando fazer uma parada que vai ajudar muita gente! Isso não é só pra mim, se o rap “crescer”, vai abrir por- tas e gerar empregos pra várias pessoas que acredi- tam “nesse” rap, que, infelizmente, perdeu o “timing” e fi cou pra trás no Brasil. A cena do rap “pop”, “comer- cial” nacional, hoje, é mais forte, mas a gente tá, literal- mente, correndo atrás ...

Salve Souldarua, WX, SevenLox, Thaíde, Bomba, Jack- som, Thig e os manos que se destacam na cena, os verda- deiros artistas, vamos profi ssionalizar esse rap nacional!

E você que tá lendo isso, para pra pensar se você real- mente tem o dom, se você realmente é dedicado e disci- plinado pra fazer a diferença no rap, irmão, não se ilude,

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se você não é artista, você pode trabalhar com (e ajudar) o rap de outras maneiras (técnico de som, jornalista, organizador de eventos etc.) e você deve ser fã! Reco- nheça quem são os artistas que se destacam na “nossa cena” e fortaleça eles, seja fã mesmo, veja os fãs das bandas de rock, não seja preconceituoso, cubra shows na sua cidade, ligue nas rádios e peça as músicas, com- pre produtos originais etc. Porque só assim, o rap “pop” vai fi car forte no Brasil!

BUZO: Você fez parcerias com sertanejos e grupos da mídia. Por que essas escolhas?

CABAL: O Pregador Luo fez som com o KLB, o Helião fez parceria com o Felipe Dylon, o MV Bill fez parceria com o Di do NX Zero, entre outros, mas enfi m, respondendo

sua pergunta

Fiz essas parcerias, primeiro, porque eu

... quis! Segundo, porque eu não separo música por gêne- ros musicais, separo música por qualidade, música boa e música ruim. Ninguém pode falar que Chitãozinho & Xororó, por exemplo, são ruins. Podem não gostar, mas negar que é bom, dentro do que eles fazem, é uma visão