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Universidade de Brasília Instituto de Humanas Departamento de Economia Programa Especial de Treinamento ASPECTOS

Universidade de Brasília

Instituto de Humanas Departamento de Economia Programa Especial de Treinamento

ASPECTOS ECONÔMICOS DA AGRICULTURA IRRIGADA

por Guilherme Mafra

Brasília, março de 2003. Orientação: Professor Charles Curt Mueller.

1) Introdução

A região Nordeste do Brasil foi a primeira área a desenvolver uma atividade

econômica importante no território brasileiro, durante o período do Ciclo do Açúcar. No

período colonial a atividade açucareira se expandiu na região permitindo que ela convivesse

com um período de grande riqueza, entretanto, essa era concentrada nas mão dos senhores

de engenho. De forma complementar à economia do açúcar, surgiu a atividade pecuária,

que se desenvolvia de forma extensiva, voltada para o atendimento de suas necessidades. A

economia criatória foi responsável pela ocupação de extensas áreas no interior nordestino,

englobando ao complexo econômico que se desenvolvia na Zona da Mata nordestina, áreas

pertencentes ao Agreste e Semi-Árido.

A

decadência

da

economia

açucareira

iria

provocar

reflexos

não

no

litoral

nordestino,

onde

a

atividade

de

produção

do

açúcar

efetivamente

se

desenvolvia.

O

processo teria reflexos também no interior, onde se desenvolvia a economia pecuária. A

redução na produção do açúcar iria provocar uma drástica redução da riqueza em todo o

Nordeste. A diminuição da demanda pela carne, couro e animais de tiro, produzidos no

interior nordestino e vendidos para os engenhos, fez com que a economia criatória também

entrasse em processo de decadência.

O interior nordestino passaria a conviver com uma sistema baseado na produção de

subsistência,

pecuária

extensiva

e

policultura

com

baixa

produtividade

econômica.

O

resultado

final

desse

processo

seria

uma

grande

involução

econômica

na

região.

Os

recursos

antes

empregados

na

economia

açucareira

de

alta

produtividade

iam

sendo

transferidos para a criação de animais e para a agricultura de subsistência, provocando a

redução da renda da região. A ocupação do interior nordestino era ampliada com o declínio

da atividade econômica na Zona da Mata Nordestino.

Os contingentes populacionais que passaram a ocupar o Semi-Árido e também o

Agreste nordestinos, estariam condenados à convivência com o grave problema da falta de

recursos hídricos e das secas. Historicamente, a disponibilidade de recursos hídricos no

interior nordestino tem se mostrado bastante reduzida. A ocorrência eventual do fenômeno

climático das secas, associado aquela limitação tornam a sobrevivência na região bastante

difícil. Apesar da seca não poder ser considerada a responsável por todos os problemas da

região Nordeste, ela impõe sérias limitações às populações que vivem nas áreas onde o

fenômeno é comum.

A

falta

necessidades

de

de

água

consumo

no

interior

nordestino

além

de

dificultar

o

atendimento

das

básicos

da

população,

prejudica

a

agricultura

de

sequeiro

tradicional e a pecuária que representam a base da economia da região. As mesmas

atividades econômicas voltadas para a subsistência que se difundiram com a decadência da

economia açucareira no hinterland nordestino permaneceram por séculos como a principal

atividade

econômica

desenvolvida

pela

enorme

maioria

de

sua

população,

e

assim

permanece até os dias atuais. As limitações do setor primário no nordestino também afetam

o desempenho dos setores secundário e terciário na região.

O problema é que a agricultura de sequeiro e a criação de animais é bastante

suscetível à ocorrência das secas e da dificuldade de abastecimento regular, principalmente

no Semi-Árido, mas também no Agreste com menor intensidade. O fenômeno climático faz

com que as duas atividades tenham produção e produtividade bastante irregulares, fazendo

com que a população da região seja obrigada a conviver com a fome, a miséria, e toda

espécie

de

privações,

impedindo

que

essa

tenha

a

condições

mínimas

para

uma

sobrevivência digna. A seca é um fenômeno repetitivo, triste e dramático para o Semi-

Árido nordestino.

Os desastres humano provocados pela ocorrência das secas não são incomuns no

Semi-Árido. O fenômeno climático provoca a destruição das plantações de subsistência e a

mortandade

generalizada

nos

rebanhos

animais

da

região.

O

resultado

disso

é

que

o

sertanejo

fica

extremamente

fragilizado,

tornando-se

impossível

sobreviver

de

maneira

minimamente digna daquilo que muitas vezes é a única oportunidade de trabalho que ele

têm no sertão nordestino. É comum que a população do interior nordestino tenha que viver

em

condições

sub-humanas.

Um

relato

triste

da

situação

do

povo

nordestino,

talvez

estigmatizada, mas talvez verídica, pode ser vista no filme Macunaíma (1969), do cineasta

Joaquim Pedro de Andrade e inspirada na obra de Mário de Andrade, quando o “herói

brasileiro” se depara no sertão nordestino, com um indivíduo cuja única alternativa para a

sua fome é alimentar-se de sua própria carne.

As dificuldades econômicas da região são responsáveis pela degradação da vida

humana no Semi-Árido. A população sofre de diversas privações, o que faz com que o

Nordeste conviva com os piores indicadores sócio-econômicos dentre as grandes regiões

brasileiras. A pobreza e o sofrimento humano ainda têm entretanto que conviver com a

riqueza de alguns poucos. A causa disso é a elevada concentração fundiária, e cobrança de

obrigações do pequeno agricultor por parte do grande proprietário rural, que conduzem a

concentração

de

renda.

Os

beneficiados

por

essa

situação

formam

as

elites

agrária,

econômicas e também políticas no sertão nordestino. No passado e ainda hoje, essas elites

atuaram no sentido de que seus privilégios e seu poder sobre a massa pobre da população

não fosse diminuída.

A seca, assim como a estrutura produtiva do Semi-Árido trazem sérios prejuízos

para a economia da região, impedindo o seu desenvolvimento, o aumento do produto e da

renda, a geração de empregos e a melhoria das condições de vida da população que vive

nessa região. A melhor solução para o problema das secas no Nordeste é criar alternativas

para aumentar a oferta de água para a população e apara as atividades econômicas que

dependam desse recurso natural para o seu bom desempenho.

A irrigação já foi a base de sustentação de importantes e ricas civilizações antigas,

baseadas na atividade da agricultura irrigada. Atualmente, existem vários exemplos no

mundo de que essa forma de modernização agrícola é capaz de gerar riqueza e melhorar a

situação da população que ocupa áreas áridas e semi-áridas, tanto em países desenvolvidos

ou em desenvolvimento. A implementação em larga escala da agricultura irrigada poderia

proporcionar efeitos bastante positivos sobre toda a economia do Semi-Árido nordestino. A

agricultura irrigada poderia representar um vetor de desenvolvimento econômico para essa

região, alterando a realidade de sua economia e da população que vive nela.

A agricultura irrigada já vem sendo implementada na região Nordeste desde os anos

70,

como

econômicos

uma

política

nordestinos.

governamental

Alguns

pólos

na

de

tentativa

de

reverter

os

problemas

sócio-

desenvolvimento

importantes

surgiram

no

Semi-Árido em função da implementação de perímetros de irrigação. O mais importante

deles é o dipolo Juazeiro - Petrolina, às margens do Rio São Francisco na divisa dos estados

de Pernambuco e Bahia. Entretanto, ainda é necessário um grande esforço para que a

agricultura irrigada possa ampliar-se no Nordeste com o surgimento de novos pólos de

irrigação e com a consolidação dos já existentes. O poder público não deve se abster do

papel de promover a expansão da agricultura irrigada.

O objetivo desse trabalho é descrever um pouco da realidade nordestina e dos

aspectos econômicos da agricultura irrigada, tentando apontar de que maneira os efeitos

positivos

da

irrigação

poderiam

mudar

a

realidade

da

economia

do

Semi-Árido e da

população que aí habita. A agricultura irrigada pode transformar essa sub-região nordestina

através do aumento de seu produto, renda e

emprego. O desenvolvimento dessa atividade

pode contribuir de forma importante para o desenvolvimento do Nordeste do Brasil.

A próxima

seção

desse

trabalho

tenta

mostrar

um

pouco

da

irrigação

no

seu

contexto histórico. A irrigação permitiu o surgimento de importantes civilizações antigas, e

ainda hoje é utilizada como uma importante forma de modernização agrícola, permitindo o

aproveitamento

de

áreas

com

restrições

de

recursos

hídricos

para

a

agricultura.

A

observação

dessas

evidências

nos

sugerem

que

ela

pode

ser

utilizada

para

alterar

a

realidade do Semi-Árido, contribuindo para o seu desenvolvimento econômico.

A seção seguinte discorre sobre a organização do espaço regional no Nordeste. Essa

análise

é

englobados

importante

para entendermos melhor a realidade dos diferentes sub-sistemas

nessa

macro-região

brasileira.

O

Semi-Árido

é

um

sistema

particular,

que

apresenta problemas comuns às outras sub-regiões, mas a sua característica mais marcante,

a ocorrência do fenômeno das secas afeta de maneira bem mais perversa seus domínios. O

Nordeste é dentre as regiões brasileira aquela que convive com os piores indicadores sócio-

econômicos, que são resultado da sobrevivência em condições degradantes de grande parte

de sua população.

Em seguida, esse trabalho vai tratar um pouco de dois dos maiores problemas que

dificultam

o

desenvolvimento

da

agropecuária

e

em

conseqüência

disso

das

outras

atividades

econômica

do

Semi-Árido

nordestino.

O

fenômeno

climático

das

secas

representa

uma

fator

importante

na

determinação

dos

problemas

sócio-econômicos

nordestinos, entretanto não se deve aceitar como verdadeira a explicação simplista de que

as

secas

seriam

a

única

causa

dos

problemas

que

recaem

sobre

o

Semi-Árido.

A

identificação dos problemas dessa sub-região devem levar em conta ainda o problema da

concentração fundiária e da renda da terra, que são amplamente difundidos no seu espaço.

A seção seguinte traz considerações a respeito dos diferentes modelos de irrigação

passíveis de serem adotados. A escolha pelo modelo de irrigação deve ser feita entre

modelos de irrigação públicos e privados, e ainda de modelos de irrigação de grande ou de

pequeno porte. Cada um desse modelos de irrigação possui particularidades específicas. Os

projetos de irrigação públicos, grandes ou pequenos, normalmente precedem os projetos

privados. Os projetos públicos funcionam como atrativo para a iniciativa privada, após a

sua

instalação

inicial,

ao

comprovarem

a

viabilidade

dos

projetos

de

irrigação

em

determinado

local.

Esse

fator

reforça

a

importância

da

participação

de

órgãos

governamentais como indutores da expansão da agricultura irrigada.

A próxima seção descreve aspectos econômicos da agricultura irrigada, tentando

mostrar os seus benefícios, e a importância do desenvolvimento dessa atividade para a

região Nordeste. Esse benefícios entretanto poderiam ser percebidos também por outras

regiões brasileiras. A agricultura irrigada representa uma saída para reverter os quadros de

subdesenvolvimento e de pobreza intensos em vastas regiões do interior nordestino, que

possuem recursos hídricos passíveis de serem aproveitados por projetos de irrigação.

A

penúltima

seção

mostra

aspectos

econômicos

importantes

a

respeito

da

hortifruticultura

irrigada

no

Semi-Árido

Nordestino.

A

hortifruticultura

pode

ser

considerada uma atividade chave para o processo de desenvolvimento da região, devendo

ser a atividade básica dos projetos de irrigação. Finalmente a última seção desse trabalho

traz considerações finais importantes a respeito da agricultura irrigada no Semi-Árido.

2) A Irrigação no seu Contexto Histórico

A irrigação é uma das mais antigas ciências aplicadas praticadas pelo homem. Ao

longo

da

história

representou

um

e

em

diversos

locais,

ela

cumpriu

poderosa

ferramenta

indutora

de

importantes

papéis.

desenvolvimento

de

A

irrigação

importantes

civilizações. O controle sobre os recursos hídricos e a condução da água para as áreas de

produção

de

sociedades.

alimentos

representou

o

pilar

da

sustentação

econômica

para

algumas

O desenvolvimento da agricultura e a domesticação de animais foram as duas

principais forças que permitiram que a Humanidade passasse de seu estágio de existência

nômade e primitiva para o de civilização moderna. O destino de qualquer projeto agrícola

para as sociedades primitivas estaria fundamentalmente ligado à disponibilidade de água.

Muitas

sociedades

que

foram

se

desenvolvendo

tiveram

na

irrigação

um

instrumento

fundamental para viabilizar os seus projetos agrícolas.

A aplicação artificial de água, proveniente de fontes de recursos hídricos diversas,

objetivando suprir, total ou parcialmente, a umidade de que carecem as plantas para o seu

desenvolvimento constitui domínio da prática de irrigação e da agricultura irrigada. O

desenvolvimento da prática da irrigação, feito sob controle do capital, remonta às mais

antigas civilizações, e continua sendo utilizado, estudado e aperfeiçoado ainda hoje, por

várias nações do mundo, notadamente pelas economias desenvolvidas, pertencentes ou não

ao mundo capitalista. (CARVALHO, 1988)

As primeiras experiências de irrigação datam de 300 a.C. na Índia e no Egito, 2000

a.C. na China e nos vales do Tigre e Eufrates na Mesopotâmia e do ano 100 d.C. em Roma,

onde

remanescem

até

hoje

alguns

famosos

aquedutos.

Os

exploradores

espanhóis

da

América encontraram sistemas de irrigação tanto no México quanto no Peru. Os imigrantes

do

sudoeste

americano

aprenderam

a

arte

da

irrigação

dos

índios

hohokam,

que

a

praticaram por séculos antes da chegada dos colonizadores. (NOGUE IRA, 1996) A região

oeste

dos

Estados

Unidos,

compreendendo

estados

como

a

Califórnia,

Utah,

Arizona,

Nevada e Novo México e ainda o estado judeu de Israel representam as mais bem sucedidas

experiências de irrigação moderna atualmente.

“A irrigação propriamente dita praticada pelos colonizadores americanos data do começo do século XIX, principalmente com o êxodo dos mórmons do vale do

Mississipi em direção ao que é hoje conhecido como estado de Utah e com a colonização da costa oeste pelos europeus. Nos dois casos os colonizadores tiveram

de enfrentar as condições de um meio ambiente completamente diferente do de suas

origens, sendo decisiva a assimilação da prática da irrigação feita pelos índios e mexicanos. A partir daí, as sociedades hidráulicas formadas na Califórnia, Arizona e em outros estados, já por volta de 1940, gabavam-se de poder administrar a água melhor que em qualquer outra região do mundo.” (NOGUEIRA, 1996)

A irrigação nas mais diversas regiões estaria ligada a atuação do homem que

começou a manipular e mesmo mudar a natureza para satisfazer seus próprios interesses,

mesmo que não tivessem consciência de suas atitudes. O surgimento dessa ciência está

relacionada às necessidades que foram surgindo quando o homem que havia se fixado à

terra necessitou de uma disponibilidade de recursos hídricos maior do que aquela que ele

poderia obter prontamente da natureza. “ O que permeia a compreensão de qualquer tipo de

irrigação é o fato das pessoas entenderem que quando lidam com a natureza estão mexendo

com elas mesmas.” (NOGUEIRA, 1996)

O homem

conhecia

e

se

instalava

ainda

que

transitoriamente

em

regiões

deficientes de água, mas uma vez que adotava uma vida sedentária, baseada em colher,

caçar

e

pescar,

o

planejamento

do

controle

da

água

não

teria

importância.

Com

o

desenvolvimento da agricultura e aumento da demanda por alimentos é que o homem

começou a especular sobre as possibilidades agrícolas de áreas secas, mas onde ele poderia

ter acesso a outras fontes de água além das chuvas, que pudessem ser utilizadas para

sustentar a atividade agrícola. A irrigação foi a descoberta que permitiu o aproveitamento

daquelas áreas, antes impróprias para a agricultura, por causa da sua baixa pluviosidade.

Embora,

historicamente,

a

irrigação

seja

mais

freqüentemente

adotada

por

civilizações que se desenvolveram em regiões de climas áridos ou semi-áridos, onde a

agricultura só poderia se desenvolver mediante a oferta artificial de água, modernamente,

ela passou a ser empregada em áreas semi-úmidas de países situados em áreas temperadas

ou tropicais. Apesar de a irrigação representar uma experiência mais antiga para países

como China, Egito, Iraque, Índia e Paquistão, não foram nesses que se alcançaram os

maiores avanços tecnológicos no campo da agricultura irrigada. (CARVALHO, 1988) A

expansão do progresso técnico nesse campo da ciência se deu em países, onde embora

existiam áreas com carência de recursos hídricos, prevaleciam os climas úmidos e sub-

úmidos, em zonas temperadas ou não, como os Estados Unidos e antiga União Soviética.

(CARVALHO, 1988)

O aproveitamento da irrigação para a agricultura nas sociedades antigas, se deu de

duas formas: a agricultura hídrica e a agricultura irrigada. A agricultura hídrica era feita em

pequena escala, e todas as suas etapas estariam sob controle do próprio produtor rural . A

agricultura hidráulica representaria a agricultura irrigada feita em larga escala e dirigida

pelo

Estado.

Essa

Segunda

forma

abriria

a

possibilidade

do

aparecimento

e

desenvolvimento de uma relação despótica entre governo e sociedade. (NOGUEIRA, 1996)

A agricultura hidráulica permitiu o surgimento de organizações que foram definidas

como “civilizações hidráulicas”. Essas civilizações tinham um caráter predominantemente

agroadministrativo

e

agroburocrático,

compreendendo

um

fenômeno

bastante

antigo

e

similar em várias partes do mundo. A base dessas sociedades e ponto comum entre elas

seria a base técnico / meio ambiente, ou mais especificamente o controle da água necessário

para os programas de irrigação. (WITTFOGEL, 1957; citado por NOGUEIRA, 1996)

O estado tomou para si a função de construir grandes empreendimentos hidráulicos

em lugares como Egito, Mesopotâmia, Índia e China. Esses empreendimentos induziram o

surgimento de uma burocracia administrativa centralizada necessária para a sua operação,

formada por administradores agrícolas especialistas. Esses indivíduos que tinham controle

sobre o meio de produção fundamenta – a água normalmente tornavam – se a classe

dominante dentro de suas sociedades. (WITTFOGEL, 1957; citado por NOGUEIRA, 1996)

“Wittfogel identificou também “civilizações hidráulicas” na América pré colonização espanhola no leste africano e em certas áreas do Pacífico, especialmente Havaí. Para o autor, em qualquer lugar onde tenha sido encontrada, seu produto sempre foi o uso de poder para a repressão e a frustração de qualquer perspectiva de mudança.” (NOGUEIRA, 1996)

Uma classificação interessante para definir o modo de controle da água e o tipo de

irrigação praticados foi apresentada por Donald Worster, no seu livro Rivers of Empire:

Water, Aridity, and the Growth of the American West

e apresentada por Olinto José

Oliveira Nogueira, no artigo Notas sobre a Irrigação no contexto Histórico .Cada uma

dessa classificações seria caracterizada por técnicas, modelos de relações sociais e arranjos

de poder particulares. Os modos de controle da água propostos segundo essa classificação

seriam o modo de subsistência local; o modo agrário-estatal; e o modo capitalista-estatal.

O modo de subsistência local seria o tipo mais simples de sociedade irrigada. O

controle da água baseia-se em uma estrutura temporária e necessita de uma pequena

intensidade de trabalho. A interferência necessária junto à fonte de recurso hídrico seria

mínima. A tecnologia e a economia dessas sociedade seriam resultado da ação dos próprios

usuários da água, o que caracterizaria esse sistema econômico como endógeno, e não

exógeno. A necessidade de capital para esse modo de irrigação é mínima, e também não é

preciso que se façam investimentos em treinamento específico na formação de capital

humano para trabalhar nos seus projetos.

As necessidades do modo de subsistência local são bastante limitadas. A água é

desviada diretamente para o cultivo ou para o consumo pessoal da própria comunidade.

Esse modo de irrigação provoca o desenvolvimento de sociedades agrícolas primitivas. A

produção dentro delas é primordialmente voltada para a subsistência, sendo que apenas um

parcela bem diminuta ou mesmo nada da produção dessa comunidade será destinada a

outros mercados.

Os indivíduos das comunidades onde se desenvolve esse tipo de irrigação são

normalmente auto - suficientes e auto – administrados. A organização de poder é livre e

inconsolidada, não existindo comando centralizado nem estratificação dentro de classes

sociais ou econômicas. A ausência de acumulação de riqueza privada e ausência de divisão

de trabalho inviabilizam o surgimento do próprio estado. A administração da água não

necessita de regulamentação, sendo que todos podem dispor dela livremente. O poder nessa

sociedade é difuso , e as elites normalmente não existem.

O modo de irrigação agrário-estatal teria se desenvolvido em sociedades onde a

irrigação se desenvolveu mais intensamente e amplamente do que no simples modo de

subsistência

local.

Esse

sistema

exigia

um

esforço

concentrado

para

a

construção

de

grandes canais de irrigação, e sua característica fundamental era a existência de uma

autoridade central que interferia de maneira incisiva na construção e condução dos sistemas

de irrigação. “Esse processo se deu nos 4000 anos a.C. em algumas das grandes paisagens

desérticas do mundo na China, na Índia, no Chamado Crescente Fértil – os amplos e férteis,

mas

extremamente

secos

vales

(Egito).”(NOGUEIRA,1996)

dos

rios

Tigre

e

Eufrates

(Mesopotâmia)

e

do

Nilo

Nesse tipo de sociedade irrigada, existiriam novas inter-relações econômicas que

fariam com que recursos fluíssem das pequenas vilas e cidades isoladas para as capitais do

Estado. Esse deveria assegurar a oferta adequada de água para os produtores agrícolas e

recolhia tributas na forma de dinheiro ou colheita. As unidades produtivas garantiam, com a

agricultura irrigada, a produção de um excedente econômico. A tributação permitia que

parte

desse

excedente

fosse

convertido

para

o

representante

do

poder

central,

que

empregava esses recursos em outras atividades que extrapolavam aquelas necessárias para

garantir o suprimento de água demandado pelos agricultores, tais como a construção de

castelos, templos, estradas, e gastos com fins militares. A agricultura irrigada representava

nessas sociedades o sustentáculo que permitiu o surgimento de civilizações complexas.

“As três características fundamentais das economias hidráulicas são: a divisão específica do trabalho; a intensificação do cultivo; e a necessidade de cooperação. O que é verdade para a indústria moderna também seria para a agricultura hidráulica: a produção propriamente dita dependeria de uma variedade de operações preparatórias e de proteção. Em todas as civilizações onde o homem esteve envolvido em “grandes empreendimentos de água” é encontrada clara divisão entre os trabalhos de preparação para propósitos de irrigação (aqueles que alimentariam o sistema) e o cultivo propriamente dito. Os trabalhos de preparação muitas vezes eram suplementados e intercalados com trabalhos de proteção com o propósito de controle de enchentes, por exemplo. A chave do dispositivo organizacional era a cooperação, que, por sua vez envolvia um planejamento integrado.” (NOGUEIRA,

1996)

A

irrigação

no

modo

agrário-estatal

provoca

o

surgimento

de

uma

burocracia

agrária poderosa. Em alguns casos, ela também levava ao surgimento de um poder político

supremo. “Um grande aparato burocrático, um soberano extravagante e um programa de

conquistas

podem

ser

(NOGUEIRA, 1996)

considerados

O modo

capitalista

estatal

de

o

arquétipo

dos

remotos

irrigação

compreenderia

as

estados

agrários.”

manifestações

mais

modernas desse tipo de melhoria agrícola. O seu surgimento se deu dentro do Estado

capitalista moderno. Dentro desse sistema, existiriam dois centros de poder: um público,

formado por planejadores burocráticos e representantes eleitos pelo povo; e um centro de

poder

privado

que

englobava

os

próprios

agricultores.

Os

dois

grupos

trabalhariam

conjuntamente,

buscando

o

controle

sobre

os

recursos

hídricos,

para

assegurar

a

disponibilidade de água aos produtores rurais. Não haveria uma relação de dominação forte

entre eles, mas também não haveria uma autonomia perfeita.

Esse

novo

tipo

de

“sociedade

hidráulica”

surgiu

no

século

passado

e

está

estreitamente

ligado

a

variáveis

como

o

pensamento

da

economia

de

mercado,

o

extraordinário desenvolvimento tecnológico e a participação de planejadores estatais. Os

exemplo de maior sucesso dessa organização estariam no oeste norte – americano e em

Israel no Oriente Médio. A participação estatal nos projetos de irrigação seria fundamental

e representaria uma evidência de que o surgimento dessas sociedades hidráulicas modernas

não poderia advir simplesmente das influências de mercado.

Os liberais da economia de mercado estariam estariam completamente equivocados

ao

acharem

que

no

mercado

aflorariam

mecanismos

capazes

de

solucionar

todos

os

problemas de interesses conflitantes entre os indivíduos. A mão invisível do interesse

individual racional não seria capaz de atuar para solucionar ou impedir a disputa pela água

pacificamente.

O

capitalismo

não

asseguraria

o

progresso

garantindo

autonomia

e

desenvolvimento a todos que utilizariam os recursos hídricos, e também não evitaria a

concentração de poder fazendo com que a negociação substituísse a autoridade repressora,

assegurando

a

democracia

NOGUEIRA 1996)

até

mesmo

no

deserto.

(WORSTER,

1985;

citado

por

O centro do poder privado dos agricultores diferiria das classes camponesas por

cada vez mais acumular riquezas e ir se tornando progressivamente mais organizado. O

papel do centro de poder público seria primordialmente o de fornecer capital para as

necessidades de engenharia dos grandes projetos e também fornecer conhecimento técnico

para os agricultores, o que seria similar ao papel do Estado nas sociedades irrigadas antigas.

Essas ações do Estado funcionariam como um instrumento de controle estatal sobre os

agentes privados.

“ A característica fundamental desse último modo de irrigação é seu comportamento

junto à natureza e as atitudes subjacentes nas quais ele é baseado. A água no estado capitalista não tem um valor intrínseco, nenhuma integridade que precise ser respeitada. A água não é valorizada como desígnio divino para a sobrevivência, para

a reprodução da vida, como já foi nas comunidades de subsistência local, nem é a

aliada que se tem na natureza para a busca de um império político como foi o Estado agrário. Ela passa a ser uma mercadoria. É comprada, vendida e usada para fazer outras mercadorias, que podem ser compradas vendidas e carregadas para o mercado. Fica reduzida, em outras palavras, a puro e abstrato instrumento comercial.” (WORSTER, 1985; citado por NOGUEIRA, 1996)

O capitalismo impôs uma ordem técnica – econômica no intuito de assegurar

a

dominação

do

meio

ambiente

pelos

produtores,

criando

uma

agricultura

baseada

fundamentalmente na irrigação, na mecanização e no uso intensivo de fertilizantes. Esse

tipo de agricultura vêm ganhando um caráter caráter cada vez mais moderno e científico. A

busca de tecnologia e inovações que possam ser utilizadas nas áreas irrigada torna –se cada

vez mais relevante para o agricultor que quer controlar a água para obter o seu sustento, em

regiões onde a natureza se mostra às vezes bastante perversa com as populações que

habitam essas regiões.

3) A Organização Regional do Nordeste Brasileiro

A região Nordeste do Brasil é formada por nove estados: Maranhão, Piauí, Ceará,

Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia. Esses nove estados

compreendem uma área de 1.554.257,004 km², o que representa 18,25 % do território

nacional e forma a 3ª maior região brasileira.(IBGE) A região possui ainda uma população

de 46.995.094 habitantes, ou seja 28,42 % da população brasileira, o que dá à região a 2ª

colocação em tamanho populacional dentre as regiões brasileiras.(IBGE) A Tabela 01

apresenta alguns dados sócio-econômicos agrupados por regiões brasileiras. As análises

econômicas

e

sociais

feitas

dessa

região,

também podem incluir como pertencente ao

Nordeste, uma faixa da região norte do estado de Minas Gerais. Essa região tem vegetação

e clima que se assemelham, aos da região semi-árida nordestina, e também compartilha

com essa, boa parte dos problemas econômicos e sociais que são comuns no Nordeste

brasileiro.

Uma forma tradicional de se subdividir a região nordeste seria em Zona da Mata,

Agreste e Sertão. Podemos acrescentar à essa subdivisão o Meio Norte, os Chapadões do

Oeste e ainda algumas “ilhas úmidas” no Sertão em regiões com elevadas altitudes. Na

organização do espaço nordestino, é fundamental a participação do meio físico, entretanto a

atividade

humana

afetou

de

maneira

significativa

humana.

Os

efeitos

dessa

segunda

variável na determinação do espaço nordestino são resultado tanto do processo colonial,

como de fatos mais recentes como as políticas de desenvolvimento regional.

Tabela 01 Dados Sócio-econômicos das Regiões Brasileiras

Indicador / Região

Norte

Nordeste

Centro-

Sudeste

Sul

Brasil

Oeste

Área (km²)

3.853.327,23

1.554.257,00

1.606.371,51

924.511,29

576.409,57

8.514.876,59

População (1)

12.342.627

46.995.094

11.296.224

70.190.565

24.546.983

165.371.493

Taxa de Urbanização (%) (2)

62,4

65,2

84,4

89,3

77,2

78,4

Esperança de Vida (3)

68,2

65,5

69,1

69,4

70,8

68,4

Mortalidade Infantil (3)

32,7

52,8

26,1

25,7

22,8

34,8

Rendimento Médio Mensal (4)

244,3

144,9

291,3

273,4

334,4

313,3

Taxa de Analfabetismo (5)

11,6

26,6

10,8

7,8

7,8

13,3

Índice de Ginni (6)

0,547

0,587

0,573

0,537

0,543

0,567

IDH (7)

0,727

0,608

0,848

0,857

0,860

0,750

Fonte: IBGE, PNUD. (1) Projeção da População Total. (2) Dados de 1996. (3) Estimativas para 1999, extraídas do documento IBGE/DPE/DEPIS. (4) R$ de 1999. (5) Maiores de 15 anos por mil em 1999 (6) Dados de 1999. (7) Dados de 1996 para regiões. Dado de 1999 para Brasil.

Uma

outra

classificação

valiosa

para

de

descrever

a

caracterização

do

espaço

regional

nordestino

foi

proposta

por

Charles

Curt

Mueller,

no

artigo

Organização

e

Ordenamento

do

Espaço

Regional

do

Nordeste,

publicado

na

revista

Planejamento

e

Políticas

Públicas

do

IPEA

em

1996.

Essa

classificação

identifica

quatro

subsistemas

regionais, dotados de alguma autonomia, e formados com base na evolução da economia e

sociedade regionais: (a) o sistema sub-regional agroexportador tradicional, associado ao

complexo sucro-alcooleiro na Zona da Mata Nordestina; (b) o Semi – Árido, marcado pela

seca,

pela

existência

de

excedentes

demográficos,

e

pela

economia

baseada

em

uma

agricultura de sequeiro voltada para subsistência com problemas de sustentabilidade, mas

com área de irrigação; (c) os pólos e complexos industriais, instalados nos grandes centros

urbanos; e (d) as zonas de expansão recente de fronteira agrícola. (MUELLER, 1996) A

discussão apresentada a seguir aqui nesse trabalho dará uma maior ênfase ao segundo

17

subsistema, o do Semi-Árido, pois esse é o mais relevante para o assunto mais restrito da

agricultura irrigada, que este se propõe a discutir.

“Merece ênfase a reduzida articulação que os quatro sistemas sub-regionais do Nordeste apresentam. Os processos que influíram na organização de seus espaços emanaram principalmente de desenvolvimentos externos à região e não de sua dinâmica interna.” (MUELLER, 1996)

3.1) O Sistema Agroexportador Tradicional

O sistema sub-regional agroexportador tradicional foi formado a partir da Economia

Açucareira,

desenvolvida

no

nordeste

durante

o

período

colonial

brasileiro.

A

não

descoberta de metais preciosos na colônia portuguesa de imediato, fez com que para

Portugal fosse necessário encontrar uma outra atividade econômica viável, que permitisse a

ocupação dessas novas áreas, e assegurasse aos portugueses o domínio sobre elas, e

afastasse a cobiça das outras potências européias, que ficaram excluídas das primeiras

etapas de expansão colonial e da divisão da América, protagonizadas por Portugal e

Espanha. O Nordeste brasileiro passaria a conviver então com uma próspera indústria

açucareira baseada na mão-de-obra escrava e no grande latifúndio, que prosperou por quase

um século, e significou um grande êxito da iniciativa portuguesa.

A indústria açucareira nordestina passaria a conviver com menor prosperidade a

partir do século XVII. A Invasão Holandesa no Nordeste e posteriormente a expulsão dos

holandeses e o surgimento da empresa açucareira nas Antilhas seriam decisivas para o

processo de decadência do complexo açucareiro nordestino.

Uma outra atividade do sistema agroexportador importante a se desenvolver na

Zona

da Mata

foi

o

plantio de cacau no sul

da Bahia. Essa atividade já foi bastante

dinâmica e levou a prosperidade e riqueza à região onde se desenvolveu. Entretanto,

atualmente ela enfrenta problemas, e encontra-se em fase de decadência. O maior problema

da produção de cacau é o ataque da praga da “vassoura de bruxa” que sofrem as suas

plantações.

“A cacauicultura, ao longo do tempo tem perdido seu lugar de destaque na economia do Estado da Bahia e, com isso, provocado sérios problemas, especialmente para a região sudeste do estado. A fruticultura está sendo apontada como importante alternativa para gerar renda e emprego e promover a recuperação da referida economia.” (KHAN et alii, 2000)

O

sistema

agroexportador

regional

desenvolveu-se

no

ecossistema

que

era

anteriormente ocupado pela Mata Atlântica, que ocupava uma extensa faixa entre o litoral e

o Agreste nordestinos. Essa região possui um clima quente e úmido, com predomínio de

solos

férteis

e

recursos

hídricos

abundantes.

As

condições

sociais

desse

sistema

são

bastante

precárias.

A

população

dessa

área

convive

com

problemas

como

elevada

mortalidade

infantil,

fome,

desnutrição,

baixa

esperança

de

vida,

altas

taxas

de

analfabetismo, ausência de sistemas de saneamento básico e acesso à água tratada.

“Os centros urbanos - nenhum muito expressivo¹ – não estão estruturados para oferecer esses serviços às suas populações, e suas atividades geram muito pouco emprego. A urbanização vem se intensificando em razão do processo de transferência de domicílio dos trabalhadores da cana-de-açúcar. Desalojados das zonas rurais, eles ampliam o descompasso entre o número de habitantes das cidades e a capacidade destas de gerar empregos e fornecer serviços básicos.” (MUELLER,

1996)

A base

econômica

dessa

sub-região

é

o

complexo

sucro-alcooleiro,

que

é

determinante na sua conformação regional. Esse complexo possui um peso significativo na

economia da região, sendo responsável por boa parte de seu produto e sua renda e também

pela geração de empregos. “Entretanto, a situação atual do complexo está levando a Zona

da

Mata

nordestina

a

um estado

crítico,

combinando

a

vulnerabilidade

econômica

a

crescente miséria e a forte pressão sobre o meio ambiente” (MUELLER, 1996)

“A

expansão

açucareira

criou

condições

para

o

desenvolvimento

de

atividades

ancilares

na

Zona

da

Mata

e

em

áreas

adjacentes. Surgindo também, núcleos

urbanos

centrais – inicialmente Recife e Salvador e, posteriormente, outras das

atuais capitais nordestinas. Esses núcleos acabaram reduzindo seus laços com o

nordeste.”

sistema

(MUELLER, 1996)

agrário-exportador

e

hoje

polarizam

a

indústria

moderna

do

3.2) O Sistema sub-regional do Semi-Árido

O sistema sub-regional do Semi-Árido compreende extensas áreas do Agreste e

Sertão nordestinos. O início da ocupação dessa região também remonta ao período colonial,

tendo surgido como um sistema complementar à empresa açucareira. A economia dessa

região era baseada na pecuária extensiva, que fornecia carne, animais de tiro e couro para

atende

às

necessidades

das

regiões

produtoras

do

açúcar.

O

conjunto

de

economia

açucareira e economia ficou conhecido como o Complexo Econômico Nordestino na Era

Colonial. (FURTADO, 2001)

A

decadência da economia açucareira também teve impactos importantes para a

economia

e

para

a

organização

do

Semi-Árido.

Com

o

fim

do

apogeu

da

Empresa

Açucareira, recursos ociosos desse sistema migraram para a economia pecuária do interior

nordestino. Essa migração de recursos, representava a transição de um sistema com elevada

produtividade econômica como o açucareiro para um sistema com baixa produtividade,

como a economia pecuária, onde os recursos passaram a se voltar principalmente para a

economia

de

subsistência.

O

resultado

final

desse

processo

foi

uma

representativa

involução econômica da economia nordestina, e também da economia brasileira, que tinha

aquela como seu sistema econômico mais relevante.

Com o passar do tempo a economia do Semi-Árido foi se consolidando como um

sistema

de

baixa

produtividade,

e

baseado

numa

pecuária

menos

extensiva

e

numa

agricultura, apoiada na produção de alimentos e algodão arbóreo, que chegou a apresentar

certo progresso. (MUELLER, 1996) Os problemas relacionados à seca e à inexistência de

uma política governamental eficaz para contorná-las provocou a perda de sustentabilidade

da agricultura nessa sub-região, trazendo problemas para a sua economia. Um conjunto de

fatores estruturais (principalmente as relações sociais de produção), além dos de ordem

natural limitam o desenvolvimento do Semi-Árido. (GRAZIANO DA SILVA et alii, 1989)

A predominância

do

clima

semi-árido

limitantes

ao

desenvolvimento

de

uma

necessidades alimentares da população.

e

a

carência

de

agricultura

estável

recursos

hídricos

e

produtiva,

que

são

fatores

atenda

as

O algodão arbóreo já foi uma das bases na economia do Semi-Árido nordestino. “O

algodoeiro, alguns anos atrás ocupava posição de destaque por ser a principal cultura

geradora de renda, portanto responsável pela maior parte da receita monetária percebida

pelo agricultor para fazer face às despesas familiares e outros compromissos financeiros.”

(CAMPOS,1991;

citado

por

KHAN

et

alii,

2000)

A

decadência

da

cotonicultura

foi

resultado de fatores fitossanitários, como a praga do bicudo, fatores climáticos, problemas

de mercado e tecnologia rudimentar.; (KHAN et alii, 2000)

O sistema sub-regional do Semi-Árido inclui áreas de transição entre a Zona da

Mata e o Sertão e ainda grande parte da região central do nordeste. O Semi-Árido ocupa

segmentos de todos estados nordestino, à exceção do Maranhão, e inclui ainda terras do

norte

do

estado

de

Minas

Gerais.

A

região

não é uniforme, coexistindo dentro dela

diferentes meios físicos. É possível notar a presença de alguma áreas com maior umidade,

associadas a elevadas altitudes. Em alguma áreas, existem atividades que vêm prosperando,

principalmente as associadas à irrigação.

A

característica

marcante

do

ambiente

no

Semi-Árido

são

os

baixos

índices

pluviométricos e a vulnerabilidade da região às secas. No Agreste, essa característica é um

pouco menos marcante do que no Sertão, mas ainda assim ambas as regiões enfrentam

restrições devido à sua pequena disponibilidade de recursos hídricos. O relevo é composto

por superfícies de aplainamento, chapadas, planaltos e patamares e os solos são pouco

profundos e de baixa fertilidade.

“ De uma forma geral, o Semi-Árido é extremamente vulnerável às secas, que

impõe fortes restrições, não somente por sua incidência, mas também por sua imprevisibilidade. A experiência histórica mostra que é de 20 % a probabilidade de ocorrência em um dado ano, mas a seca não ocorre numa seqüência temporal definida. As secas tanto podem vir intercaladas com anos normais, quanto podem ocorrer em sucessão. Além disso vão de moderadas a extremas, e há grande

variação

espaço da sub-região.” (NOBRE, 1994; citado por

MUELLER, 1996)

do

fenômeno

no

As característ icas climáticas do Semi-Árido são responsáveis pela fragilidade da

economia

dessa

sub-região.

A

falta

de

chuvas

e

pouca

disponibilidade

ou

ainda

as

limitações ao acesso a outras fontes de água prejudicam a agropecuária de sequeiro que

representa a principal atividade econômica regional. A base da economia nordestina e uma

combinação

de

criação

semi-extensiva,

com

destaque

para

cabras

e

carneiros,

uma

policultura de subsistência, e ainda o cultivo de algodão, que vem em decadência há alguns

anos. A agricultura de subsistência é feita com base na exploração intensiva dos recursos

naturais. “As atividades do secundário e do terciário são reduzidas e, por dependerem dos

altos e baixos da agricultura, são também bastante vulneráveis.” (MUELLER, 1996)

“ É nítida, a perda de sustentabilidade da agricultura do Semi-Árido. Dadas a sua densidade demográfica e estrutura fundiária, mais a retração na absorção de trabalhadores permanentes e de parceiros (associada ao encolhimento das lavouras comerciais), é de se esperar pelo menos a médio prazo, um incremento da área

dedicada à lavoura de subsistência. Assim, cresce a pressão sobre o meio ambiente

no Sertão. ” (MUELLER, 1996)

“Assim, vem ocorrendo retração na produção de alimentos pela agricultura de sequeiro no Sertão. Há exceções mas, cada vez mais, a população do Semi-Árido vem se valendo do Centro Sul para o suprimento de produtos alimentícios. Isso ocorre até nos anos normais – nos secos, a situação é bem mais precária.” (MUELLER, 1996)

A

agricultura

irrigada

vem conseguindo trazer certo dinamismo ao entorno dos

projetos de irrigação, mas os efeitos dela ainda são restritos. A irrigação permite contornar

o problema das secas, e diminui as incertezas em relação à agricultura, permitindo maior

estabilidade

da

renda

do

agricultor

e

da

região

produtora.

A

irrigação

aumenta

a

disponibilidade de terras agricultáveis e permite o cultivo de uma série de variedades

vegetais, inclusive com elevada produtividade física e também econômica.

3.3) O Sistema sub-regional dos Pólos e Complexos Industriais

O surgimento dos pólos industriais na região nordeste estão ligadas à estratégia de

desenvolvimento adotada para o Nordeste a partir dos anos 60. Essas estratégias buscavam

diminuir as disparidades regionais entre essa região e aquelas mais desenvolvidas no Brasil.

O componente básico dessa estratégia foi uma política de incentivo ao investimento para

criar uma base industrial moderna.

O resultado da política industrial no Nordeste foi um crescimento assistemático da

indústria, sem que houvesse uma integração, ou mesmo uma articulação entre essas e com

os demais setores da economia nordestina. A indústria surgiu concentrada espacialmente, e

sob a forma de indústrias modernas em rápida expansão. A indústria moderna nordestina

estava voltada principalmente para abastecer o mercado do Centro - Sul, o que faz com que

sua expansão seja resultado de

estímulos extra-regionais. A implantação dessas novas

fábricas se deu nos núcleos urbanos do litoral. (MUELLER, 1996)

O sistema dos pólos e complexos industriais está concentrado nas grandes cidades

da região – Salvador, Recife e Fortaleza. O seu surgimento é recente em relação aos dois

primeiros subsistemas. A indústria tradicional do Nordeste é mais antiga, tendo surgido

antes dos complexos industriais modernos, e sue localização no espaço regional apresenta-

se mais dispersa. “Sua expansão esteve associada, em parte, a surtos agroexportadores do

passado, à renda gerada pela expansão de outros setores d a economia nordestina e à

aglomeração da população em núcleos urbanos médios e grandes.” (MUELLER, 1996) A

indústria tradicional nordestina inclui o ramo têxtil, de confecções, o ramo de bebidas,

couros,

peles

e

produtos

alimentares

e

a

agroindústria

tradicional,

e

está

voltada

principalmente para atender a demanda interna do mercado nordestino. (MUELLER, 1996)

O segmento da indústria moderna nordestina se beneficiou de incentivos da política

de desenvolvimento regional dos anos 60 e 70, provenientes do II Plano Nacional de

Desenvolvimento (PND). A indústria nordestina surgiu concomitantemente ao processo de

industrialização do Brasil. A região ganhou uma indústria moderna voltada para atender as

demandas

nacionais,

e

que

incluía

os

setores

de

química,

petroquímica,

mecânica,

metalúrgica, material elétrico e de comunicação e minerais não-metálicos. (MUELLER,

1996)

O

Nordeste

ganhava

assim

uma

indústria

moderna,

capital

intensiva

e

com

tecnologia

avançada,

entretanto,

essa

apresentaria

poucos

efeitos

multiplicadores

para

frente e para trás dentro da economia nordestina.

3.4) O Sistema sub-regional de Fronteiras Agrícolas

 

O

sistema sub-regional de fronteiras agrícolas da região Nordeste compreende áreas

que

vêm

sendo

ocupadas

recentemente

por

frentes

agropecuárias.

Esse

subsistema

compreende áreas dos estados do Maranhão, Piauí, e também da Bahia. Essa região

representa uma das últimas e mais importantes fronteiras agrícolas do Brasil. Algumas

dessa áreas apresentam grande dinamismo, principalmente aquelas ligadas à produção de

soja.

Dentro,

dessa

região

encontram-se

importantes

pólos

agropecuários

como

os

municípios de Barreiras – BA, Balsas – MA e Imperatriz – MA.

A

ocupação

dessa

região

se

por

frentes

agropecuárias

camponesas,

especulativas

e

empresariais.

(MUELLER,

1996)

Essa

região

tem

atraído

um

grande

volume

de

migrantes

nos

últimos

anos,

notadamente

de

agricultores

do

Centro

-

Sul

brasileiro, que migram em busca de terras abundantes, compradas a um baixo preço, e que

tem

alguma

viabilidade

agropecuária.

“Embora

se

componha

de

áreas

de

atração

migratória,

o

sistema

sub-regional

de

fronteiras

agropecuárias

ainda

têm

reduzida

densidade demográfica.” (MUELLER, 1996)

“De todas as sub-regiões do Nordeste, a de fronteiras agropecuárias é a que menos

se

articula às demais. O seu sistema de transporte é precário, especialmente ao que

diz

respeito a ligações com o resto do Nordeste; a atual infra-estrutura da sub-região

faz suas principais atividades voltarem-se principalmente a mercados extra- regionais. Na verdade, essas fronteiras de recursos têm estado à margem dos planos de desenvolvimento da região. A expansão de sua agropecuária resultou

essencialmente do transbordamento de fenômenos e atividades de outras regiões.” (MUELLER, 1996)

4) Fontes de Atraso da Agricultura no Semi-Árido Nordestino

O

subdesenvolvimento

e

o

atraso

no

Semi-Árido

nordestino

são

comumente

associados ao problema da seca. É comum a idéia de que a seca é responsável por todas as

mazelas que afligem a população da sub-região. As autoridades públicas normalmente

utilizam a justificativa da seca, para se eximir da responsabilidade que efetivamente tem

sobre os problemas do Nordeste. A seca representa realmente um grande problema para a

região, prejudicando a sua economia, e levando a sua população a uma situação degradante.

A ocorrência do fenômeno climático entretanto não pode ser apontada como a única

explicação da realidade do Semi-Árido.

A natureza dos problemas do sertão nordestino encontra explicações em vários

outros fatores que ultrapassa a explicação simplista de que eles seriam todos resultado da

falta de água. Uma evidência clara desse fato é que mesmo em anos quando não ocorrem

secas, a situação do sertanejo não chega a ser satisfatória. Vários outros fatores devem ser

levados

em

conta

como

a

ineficácia

das

polí ticas

públicas,

a

corrupção

e

o

mal

aproveitamento de recursos públicos. “ Os problemas básicos da agricultura decorrem da

extremamente

concentrada

estrutura

agrária

e

da

perversa,

no

sentido

de

inadequada,

estrutura de financiamento e comercialização da produção.” (CARVALHO, 1988)

A

análise da estrutura fundiária e da distribuição da renda da terra no Nordeste

fornecem

contribuição

importante

para

entendermos

os

problemas

do

Semi-Árido.

A

organização perversa da estrutura produtiva na região dificulta o desenvolvimento agrícola

e pastoril, além de impedir que os benefícios dessas atividades sejam melhor repartidos. A

agropecuária de sequeiro é a base da economia do sertão, e as dificuldades dessa atividade

são prejudiciais a todos os outros setores da economia nessa sub-região.

4.1) A Problemática Fundiária no Nordeste Brasileiro

O

surgimento da grande propriedade no Brasil remonta ao período colonial. Ela é

resultado

do

sistema

de

colonização

desenvolvido

no

país,

baseado

no

latifúndio,

na

monocultura

de

exportação

e

no

trabalho

escravo.

Ao

longo

de

séculos,

as

grandes

propriedades

sobreviveram

no

Brasil,

e

apesar

de

diversas

transformações

no

setor

agropecuário brasileiro, o latifúndio aparece de forma comum no campo, e ocupa a maior

parte do território brasileiro. A concentração fundiária, além de provocar conflitos sociais

no

campo

devido

a

disputa

pela

terra,

dificulta

o

desenvolvimento

do

setor

agrícola

brasileiro, impedindo aumentos de produção e contribuindo para a concentração de renda.

O Nordeste concentrava a atividade econômica no início do Período Colonial. O

sistema de exploração implantado na região deu origem ao regime de sesmarias que ali

prosperou e fez com que as propriedades adquirissem uma dimensão bem maior do que no

restante da colônia. As concessões de terras eram feitas a poucas pessoas, que promoviam a

instalação de engenhos de açúcar na região litorânea. O latifúndio da economia pecuária

que se desenvolvia no interior também tinha uma grande dimensão. A introdução da cultura

do algodão, numa fase mais recente, também incentivou a concentração fundiária, e o

surgimento de novos latifúndios. (GRAZIANO DA SILVA et alii, 1989)

A extinção do regime de sesmarias e a adoção do sistema de posses não evitou a

concentração

fundiária

no

Nordeste,

e

ainda

deu

origem

a

inúmeros

conflitos

de

apropriação e demarcação de terras. Mesmo após o declínio da agricultura e da economia

em geral, a concentração fundiária erguida durante o domínio do açúcar, do gado e do

algodão,

não

se

observou

mudança

significativa

na

distribuição

de

terras

nordestina,

prevalecendo a concentração fundiária. (GRAZIANO DA SILVA et alii, 1989)

“Desde a colonização as grandes fazendas tenderam a se localizar no sertão, deixando as margens dos rios perenes à população pobre que praticava uma agricultura de subsistência aproveitando as vazantes. A principal razão para essa divisão peculiar da terra, contrária à que geralmente se verificou no resto do país, era além de evitar doenças típicas de áreas palustres (febre amarela, malária, etc.), permitir que o gado (produto principal das grandes propriedades) se autotransportasse. As posses ribeirinhas eram formadas por pequenas tiras de terra delimitadas no comprimento pela altura que as águas atingiam nas enchentes.” (GRAZIANO DA SILVA et alii, 1989)

Ao redor da grande propriedade iam surgindo pequenas unidades de exploração

voltadas

para

a

subsistência,

desenvolvida

por

pequenos

agricultores

que

arrendavam

diminutas

extensões

de

terra

dos

grandes

proprietários.

Esses

pequenos

produtores

praticavam uma agricultura de subsistência e de baixíssima produtividade, e que não lhes

proporcionava boas condições de vida. “Na primeira crise, porém, vendiam-se suas terras

ou

transformavam-se

em

rendeiros

e

agregados

das

(GRAZIANO DA SILVA et alii, 1989)

grandes

propriedades açucareiras.”

“A origem do minifúndio liga-se mais diretamente àquelas explorações de subsistência que medravam nos interstícios do latifúndio nordestino – fosse em seu interior, fosse em terras não ocupadas – do que a um sistema institucional que favorecesse a pequena propriedade. A estrutura agrária do Nordeste atravessou, assim, todo o século XIX, carregando as marcas inconfundíveis da herança colonial latifundiária.” (GRAZIANO DA SILVA et alii, 1989)

No século XX, assistiu-se a desagregação dos grandes Complexos Rurais no Brasil

com a modernização da agricultura brasileira. (GRAZIANO DA SILVA et alii, 1989) O

termo

Complexo

Rural

refere-se

às

unidades

econômicas

autônomas

e

quase

auto-

suficientes

representadas

pela

grande fazenda escravista no Brasil. A dinâmica dessas

grandes unidades produtivas era o mercado externo. (PAIM, 1957; citado por GRAZIANO

DA SILVA et alii, 1989)

O processo de modernização da agricultura no Brasil limitou-se entretanto a um

processo de modernização conservadora, que preservou e em alguns casos até piorou a

estrutura

fundiária

desigual.

(GRAZIANO

DA

SILVA

et

alii,

1989)

A

modernização

conservadora é uma forma particular de desenvolvimento da agricultura, que se limita a

introdução de insumos químicos e mecânicos sem alterar a estrutura da propriedade e das

relações sociais. (GUIMARÂES, 1979; citado por GRAZIANO DA SILVA et alii, 1989) A

modernização conservadora representaria a introdução do progresso técnico sem qualquer

alteração

dos

aspectos

sociais

do

desenvolvimento.

“A

modernização

conservadora

apresenta a particularidade de constituir um processo violento de introdução do progresso

técnico

no

campo,

porque

engreda

relações

de

produção

(como

a

parceria),

sempre

desfavoráveis aos pequeno produtores rurais.” (CARVALHO, 1988)

A análise da estrutura fundiária pode ser feita de uma maneira alternativa, através da

observação de dados que levam em conta não mais a propriedade da terra, e sim a posse da

terra. “Pela própria conceituação da unidade de coleta, já se deduz que sua estrutura

distributiva

é

mais

elástica

que

a

dos

imóveis

rurais,

na

medida

que

a

criação

e

o

desaparecimento de estabelecimento estão muito mais sujeitos a fatores conjunturais (

)”

(GRAZIANO DA SILVA et alii, 1989)

O período de 1980 a 1985 foi marcado por um crescimento expressivo do número

absoluto de estabelecimento com menos de 10 ha, notadamente na Região Nordeste,

havendo um aumento de 487822 unidades desse tipo de estabelecimento no Brasil, sendo a

referida região responsável por 68% desse incremento. (GRAZIANO DA SILVA et alii,

1989)

Nos

cinco

anos

anteriores

havia

ocorrido

uma

redução

de

3841

unidades

de

estabelecimentos com menos de 10ha no país inteiro, entretanto o Nordeste isoladamente

apresentou

um

aumento

de

12913

unidades.

(GRAZIANO

DA

SILVA

et

alii,

1989)

Associado então ao problema da concentração fundiária, haveria ainda esse problema de

grandes flutuações do número de pequenos estabelecimentos e da mão-de-obra ocupada

dentro deles.

A mudança relatada acima teria três explicações, segundo GRAZIANO DA SILVA

et alii: (a) o clima geral de expansão econômica entre 1975 – 80 que favoreceu a construção

civil

e

consequentemente

a

migração

rural-urbana,

o

que

incentivou

a

mudança

de

pequenos produtores para as cidade e o desaparecimento de algumas pequenas unidade

produtivas, e a reversão dessa tendência no qüinqüênio seguinte, com a crise econômica e

da construção civil; (b) o auge do período de grandes obras dentro do “milagre econômico”

brasileiro (Itaipú, Tucuruí,

) entre 1975-80, atraindo trabalhadores não-qualificados dos

pequenos estabelecimentos rurais e o fim das grandes obras no período em seguida; (c) o

fim de um intenso período de secas na região Nordeste (1979 – 1983), o que representou

estímulo para a reativação de pequenos estabelecimento e da agricultura em geral na região.

A

evolução

do

número

de

pequenos

estabelecimentos

e

consequentemente

do

pessoal ocupado em suas atividades refletem a insustentabilidade da agricultura de sequeiro

no Nordeste. A atividade convive com baixíssima produtividade, e miséria dos pequenos

agricultores. A seca é um flagelo que freqüentemente destrói as plantações. A colheita

normalmente

obtida

dentro

da

pequena

propriedade

sequer

consegue

atender

às

necessidades mínimas do pequeno agricultor e de sua família.

“Na agricultura de sequeiro do Semi-Árido, mesmo em anos normais os pequenos agricultores não têm condições de sobreviver apenas da exploração de suas terras. Para tal dependem de trabalho extra e muitos consomem investimentos feitos

anteriormente. Sem aumento da área cultivada, mesmo com a introdução da tecnologia a maioria não teria como gerar, em seu próprio estabelecimento renda

suficiente para a manutenção da família. Além disso, em anos de seca, a situação se torna desesperadora, o que provoca o abandono da terra e a migração – temporária

ou

permanente.” (GASQUES, 1994; citado por MUELLER, 1996)

O

problema da estrutura fundiária nordestina não se limita ao fato da existência dos

grandes latifúndios. Existe ainda o fato de que a grande maioria das pequenas propriedades

mostra-se inviável economicamente. O pequeno produtor depende de outras fontes de

recurso para sobreviver. No Nordeste, os latifúndios são grandes demais e os inúmeros

minifúndios são muitas vezes pequenos demais.

“Em suma, a justiça social e a sustentabilidade ambiental apontam a necessidade de ampla, mas inteligente, redistribuição da terra no Nordeste, especialmente no Semi- Árido. Para esta sub-região é fundamental uma redistribuição a partir dos grandes imóveis, e a aglomeração da terra dos minifúndios – na sua grande maioria insustentáveis, mesmo sem secas. A engenharia necessária seria complexa, mas sem esta não haveria sustentabilidade, fato atestado por inúmeras tentativas apressada de redistribuição no passado.” (MUELLER, 1996)

4.2) A questão da Renda da Terra

A renda fundiária no Nordeste assume importância para a questão agrária, em

virtude da exacerbada concentração da propriedade da terra e, em conseqüência, do capital

e do poder político nas mãos das classes mais conservadoras da região, inclusive detentoras

de poder político. (CARVALHO, 1988) A concentração da renda da terra faz com que no

Nordeste seja interessante para o grande proprietário rural manter em ociosidade vastas

faixas

de

solo

cultivável,

e

ainda

ampliar

o

número

de

trabalhadores

em

condições

desfavoráveis de acesso a terra, ao crédito e ao mercado de trabalho, para que eles

permaneçam subjugados pelas elites agrárias. A distribuição da renda fundiária afeta, ainda

a formação e os gastos desse tipo de renda nas atividade agrícolas e pastoris.

A análise da distribuição da renda da terra sugere que ainda existiriam no Semi-

Árido formas de apropriação da renda da terra que lembrariam às vigentes quando da

existência de relações de produção pré-capitalistas no Brasil. (CARVALHO, 1988) Isso

não significa que na agricultura nordestina continuem a existir “restos feudais”, ou ainda de

que o modo de produção predominante não seja o capitalista. (CARVALHO, 1988) “Ao

contrário, a presença das formas de renda pré-capitalistas só reforçam a característica de

que estamos diante , realmente de uma formação social capitalista.” (CARVALHO, 1988)

A ocorrência de formas de produção que possibilitam a cobrança pelos proprietários

rurais de uma renda pré-capitalista constitui a reinvenção de um mecanismo que permite

contribuir para a valorização significativa do capital aplicado na agricultura ou em seu

nome, tanto na esfera produtiva como na circulação. (CARVALHO, 1988) A transferência

da renda da terra para o proprietário rural representa uma forma de expropriação do

trabalhador rural. A utilização de instrumentos pré-capitalistas de apropriação da renda da

terra recria formas de produção que excluem o trabalho assalariado, como meio de reduzir

o custo de reprodução da força de trabalho e aumentar o lucro para atender os interesses do

capital. (CARDOSO DE MELLO,1982 ; citado por CARVALHO, 1988) A reinvenção de

formas de produção ditas pré-capitalistas está relacionada ao conservadorismo que permeia

os interesses da sociedade oligárquica nordestina.

A renda da terra é uma taxa paga ao proprietário rural por quem explora a sua terra

diretamente (o parceiro, por exemplo) ou indiretamente (capitalista, arrendatário) por meio

de

trabalhadores

assalariados.

O

pagamento

da

renda

da

terra

ao

proprietário

rural

representa a remuneração do fator terra pelo seu uso. Esse direito é resultado do monopólio

sobre

a

propriedade

rural,

que

permite

que

apenas

o

seu

proprietário

disponha

dela

livremente, e possa exigir uma parte da receita obtida por aqueles que vão efetivamente

usar a terra.

“Esse monopólio da terra na agricultura assume dois aspectos distintos. De um lado,

o monopólio de uma determinada terra enquanto objeto de atividade econômica, ou

seja, o fato do capitalista estar cultivando um determinado pedaço de solo com certas características de fertilidade, localização e de benfeitorias já incorporadas ao solo, como por exemplo valas de irrigação e drenagem, destoca, etc. Do outro lado,

o monopólio da propriedade privada da terra em si mesmo, ou seja, o fato de

algumas poucas pessoas se arrogarem o direito de uma parcela do globo terrestre e poderem dispor da mesma como bem entenderem. É esse duplo aspecto que assume

o monopólio da terra na agricultura que permite distinguir dois tipos de renda da terra, a diferencial e a absoluta.” (GRAZIANO DA SILVA, 1981; citado por CARVALHO, 1988)

O importante a se notar é que toda a terra paga uma renda, quer seja ela pouco ou

muito fértil, bem ou mal localizada, desde que alguém exerça sobre ela o monopólio da

propriedade privada. (CARVALHO, 1988) A natureza da renda da terra está ligada ao fato

dessa ser um fator de produção não – homogêneo, em matéria de fertilidade, com extensão

limitada e não – reprodutível. No regime capitalista, a terra é apropriada pela classe dos

proprietários dos meios de produção, dando a eles o poder de monopólio. A renda da terra

faz parte da mais-valia, representando parte do excedente não pago ao trabalhador agrícola,

e apropriada pelo capitalista e/ou proprietário rural.

Um dos problemas centrais da agricultura no Nordeste está ligado a impossibilidade

de desenvolvimento econômico e social em que se encontram numerosas famílias rurais

vinculadas às unidades dependentes, sob a forma de moradores ou arrendatários, dentro do

domínio da média e da grande propriedade. (FIGUEROA, 1977; citado por CARVALHO,

1988) Para cultivar a terra, as famílias camponesas têm que destinar parte da sua renda em

espécie ao proprietário rural. A expropriação da renda da terra perpetua a situação de

dependência do trabalhador agrícola. Esse termina sofrendo privações sendo levado a viver

em situação muitas vezes degradante.

A renda paga (em dinheiro ou em espécie) pelas famílias camponesas do Semi-

Árido

nordestino

podem

compreender

a

metade,

terceira,

quarta

ou

quinta

parte

da

produção.

Nenhum

controle

escrito

rege

a

relação

entre

o

pequeno

agricultor

e

o

proprietário da terra, nem sequer existe qualquer regulação ou controle por parte das

entidade públicas. (FIGUEROA, 1977; citado por CARVALHO, 1988) O trabalhador pode

ainda desempenhar papel nas atividades produtivas pertencentes ao proprietário, sendo

remunerado a parte por esse trabalho. Alguns estudos já chegaram a sugerir , que a renda

em espécie que o agricultor paga anualmente pela terra que ocupa, eqüivale de 100 a 300 %

do valor comercial da terra que ocupa. (FIGUEROA, 1977; citado por CARVALHO,

1988). Isso representaria uma violenta forma de exploração dos produtores rurais sem terra.

A concentrada estrutura de posse e uso da terra constitui um obstáculo a expansão

da exploração agrícola no interior das grandes propriedades, e impede ainda o aumento da

absorção do emprego da força de trabalho rural no Semi-Árido. A capacidade dos grandes

proprietários de ditar o valor da renda da terra, permitindo a ele a elevação do valor do

arrendamento

provoca

o

agravamento

dos

problemas

enfrentados

pelos

agricultores.

A

elevação do preço do arrendamento reduz ainda mais o já diminuto excedente do produtor

rural permitindo a ele apenas a reprodução da força de trabalho em condições infra-

humanas; e além disso aumenta a concentração desses produtores no interior dos já frágeis,

tanto

técnica

como

economicamente,

pequenos

estabelecimentos

localizados

no

Semi-

Árido. (CARVALHO, 1988) O aumento do número de produtores dentro dos frágeis

estabelecimentos rurais aumenta a pressão sobre os recursos do solo e da água.

A retirada da renda da terra provoca a redução adicional do diminuto excedente

gerado pelo pequeno produtor rural, levando à agudização de sua pobreza crônica. Os

parceiros, rendeiros, moradores e pequenos proprietários rurais do Semi-Árido tem boa

parte do seu excedente expropriado pelos grandes proprietários rurais. “Se a renda fundiária

fosse distribuída com certa eqüidade, seguramente os efeitos da seca seriam minorados ou

evitados para aqueles que os padecem de modo mais imediato.” (MARTINS, 1982; citado

por CARVALHO, 1988) A verdade é que o sertanejo pobre paga um alto preço para

trabalhar, percebendo uma ínfima renda.

5) Características dos diferentes Modelos de Irrigação

A análise dos diferentes modelos de irrigação passíveis de serem adotados nos

mostra a existência de duas distinções principais a serem feitas quanto aos projetos de

irrigação do ponto de vista econômico e social. Os modelos adotados podem diferir entre

irrigação pública ou irrigação privada e ainda entre irrigação de grande porte e irrigação de

pequeno porte. Cada um desses projetos apresentam características específicas assim como

vantagens e limitações.

A observação da Lei n.º 6662 nos dá uma idéia de definição plausível, ou pelo

menos esperada de projetos de irrigação público e privado.

“ Projetos Públicos são aqueles cuja a infra-estrutura de irrigação é projetada,

implantada

Público. Projetos Privados de irrigação são aqueles cuja infra-estrutura de irrigação é projetada, implantada e operada por particulares, com ou sem incentivos do Poder Público” ( Lei n.º 6662, de 25 de julho de 1979, também conhecida como Lei da Irrigação, artigo 8º, parágrafos 1º e 2º; citada por GRAZIANO DA SILVA et alii,

e operada, direta ou indiretamente sob a responsabilidade do Poder

1989)

O

modelo de irrigação privado é aquele desenvolvido por agentes econômicos

privados.

Dentro

desse

modelo

de

irrigação

incluem-se

diferentes

situações

de

empreendimentos classificados como projetos privados de irrigação. A classificação inclui

tanto grandes projetos de irrigação empresarial como a irrigação privada de pequeno porte

feita por agricultores de pequeno porte individualmente. O aspecto comum dos projetos de

irrigação privados é a sua operação por particulares.

O modelo de irrigação privado empresarial normalmente explora lavouras de alto

valor de mercado. Os seu produtos são voltados para um mercado dinâmico, que desperta o

interesse do empresário em abastecê-lo. É de se esperar que esses projetos tenham razoável

produtividade

e

eficiência,

maximização de lucros.

uma

vez

que

o

empresário

opere

segundo

a

ótica

da

A classificação dos grandes projetos privado de irrigação tem certas limitações.

Normalmente esses projetos também conta com uma certa participação do poder público, e

não se encontra totalmente sob responsabilidade da iniciativa particular. A participação do

poder

público

costuma

ser

maior

do

que

a

simples

construção

de

infra-estrutura de

eletricidade e estradas, conforme definido pela Companhia de Desenvolvimento do Vale do

São Francisco (CODEVASF). (GRAZIANO DA SILVA et alii, 1989)

“O que se quer destacar é que, em última instância, a dificuldade maior reside na

distinção entre público e privado; ou seja, nem sempre é possível delimitar as instâncias e

atribuições de cada um, embora seja sempre fácil perceber quem se apropria dos resultados

de ambas as iniciativas.” (GRAZIANO DA SILVA et alii, 1989)

O importante a ser notado é que não existem empreendimentos particulares que

funcionam

de

maneira

totalmente

independente

dos

grandes

investimentos

ou

projetos

públicos. (GRAZIANO DA SILVA et alii, 1989) Tanto os empresários rurais como os

pequenos produtores particulares são atraídos pela atuação estatal. Os agentes privados são

atraídos para os pólos de irrigação pela oferta de infra-estrutura e serviços públicos dessas

regiões. Além das obras públicas mais direcionadas à irrigação, a disponibilidade de bens

públicos urbanos( saúde, educação e moradia), também representa um atrativo que favorece

o

deslocamento de recursos humanos para as áreas de irrigação. (GRAZIANO DA SILVA

et

alii, 1989)

Um outro fator importante para a atração de investidores privados nos projetos de

irrigação é a disponibilidade de crédito subsidiado aos produtores. Novamente aqui, cabe

esse papel ao poder público. Os projetos de irrigação privados surgidos no Nordeste do

Brasil, invariavelmente contaram com o acesso a recursos financiados a taxas de juro mais

favoráveis, através de empréstimos de bancos e agências de desenvolvimento estatais.

O

poder

público

também

tem

papel

relevante

no

que

se

refere

à

pesquisa

agronômica e à pesquisa relacionada aos sistemas de irrigação. As unidades da Empresa

Brasileira de Agropecuária (EMBRAPA) fornecem tecnologia e inovações em ambos os

campos

de

estudo

para

os

produtores

particulares.

O

treinamento

de

mão-de-obra

especializada por escolas de formação e treinamento de técnicos e agricultores é um outro

fator de atração para empreendimentos privados.

Os projetos de irrigação privados também são influenciados pela atuação estatal, em

virtude do “efeito - demonstração” dos projetos de irrigação públicos. (GRAZIANO DA

SILVA

et

alii,

1989).

Os

projetos

públicos

pioneiros

em

uma

determinada

região

representam um poderoso atrativo para a iniciativa privada, uma vez que eles podem

demonstra a viabilidade econômica da agricultura irrigada em determinada área.

Em

síntese,

a

ação

estatal

representa

o

fator

preponderante

para

atração

de

empreendimentos privados. (GRAZIANO DA SILVA et alii, 1989) O papel do poder

público é importante para a criação de atrativos, através do fornecimento de infra-estrutura

(construção

de

canais,

barragens,

estradas,

redes

de

transmissão

de

energia,

hospitais,

escolas, etc

);

financiamento de recursos a taxas de juros subsidias e com maiores prazos

de carência e amortização; investimentos em pesquisa científica e treinamento de mão-de-

obra qualificada; e ainda na por gerar o “efeito – demonstração”.

No

Nordeste

até

irrigação

pública

federal,

o

fim

dos

anos

ou

seja

aquela

70,

implementou-se

desenvolvida

em

essencialmente

apenas

a

projetos

implantados

pelo

Governo Federal, mediante a atuação da CODEVASF e do DNOCS. (DE SOUZA, 1990) A

ausência da irrigação privada pode ser explicada pela visão da necessidade de uma maior

participação do Estado nos diferentes setores da economia, comum naquele período, mas

ainda assim, os investimentos públicos iniciais serviram para alavancar a irrigação privada

no Nordeste. (DE SOUZA, 1990)

A década de 80 marca o início de um novo período na história da expansão da

agricultura irrigada no Nordeste brasileiro. (DE SOUZA, 1990) O surgimento de uma

política nacional direcionada a busca de um melhor aproveitamento dos recursos naturais,

provocando o aprofundamento do processo de modernização agrícola, que vinha em curso

desde os anos 60; e ainda a mudança no direcionamento da política prevalecente no

Nordeste na década anterior, que privilegiava apenas o modelo de irrigação pública fizeram

com que passassem-se a criar estímulos para a irrigação privada. (DE SOUZA, 1990)

Dentro dessa nova filosofia de ação, tiveram seqüência a criação de três programas voltados

ao apoio à iniciativa privada: o Programa Nacional para Aproveitamento Racional de

Várzeas

Irrigáveis

(PROVÀRZEAS),

em

1981;

o

Programa

de

Financiamento

para

Aquisição de Equipamentos de Irrigação (PROFIR), em 1982; e o Programa Nacional de

Irrigação (PRONI), em 1986, do qual faz parte o Programa de Irrigação do Nordeste, que