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Apostila de Sociologia

Apostila de Sociologia Prof. Heitor H. Sayeg

Prof. Heitor H. Sayeg

Introdução

O que é Sociologia?

O comportamento humano é muito complexo e diversificado. Cada indivíduo

recebe influências de seu meio, forma-se de determinada maneira e age no contexto social de acordo com sua formação. O indivíduo aprende com o meio, mas também pode transformá-lo em sua ação social. Existem comportamentos estritamente individuais como andar, comer, respirar, dormir que se originam na pessoa enquanto organismo biológico. São comportamentos estudados pelas Ciências Físicas e Biológicas. Por outro lado, receber salário, fazer greve, participar de reuniões, assistir aulas, casar-se, educar os filhos são comportamentos sociais, pois se desenvolvem no contexto da sociedade. Ao longo da História, a espécie humana tem organizado sua vida de forma grupal. As Ciências Sociais (da qual a Sociologia é parte integrante) pesquisam e estudam o comportamento social humano e suas várias formas de manifestação. Pode-se afirmar que a Sociologia caracteriza-se pelo estudo das relações sociais e as formas de associação, considerando as interações que ocorrem na vida em sociedade. Compreende, portanto, o estudo dos grupos e dos fatos sociais, da divisão da sociedade em classes e camadas, da mobilidade social, do processo de cooperação, competição e conflito na sociedade, etc. Porque grupos como a família, a tribo ou a nação sobrevivem através dos tempos, até mesmo durante as guerras e revoluções? Porque um soldado se sente no dever de lutar e enfrentar a morte, quando poderia esconder-se ou fugir? O que leva as pessoas a casar? Porque ocorrem divórcios? Porque algumas regiões apresentam índices maiores de divórcio do que outras? Como se dão as relações entre pais, mães e filhos atualmente? Quais são as causas de conflitos entre negros e brancos em alguns países? Porque existem mais brancos que negros em altos cargos executivos e com maiores salários? Porque alguns grupos sociais possuem maior riqueza material do que outros? Estas são algumas das questões que os sociólogos procuram responder. Note que todas elas estão ligadas ao aspecto social da vida dos indivíduos, e não à sua individualidade.

Contexto Histórico do Surgimento da Sociologia

A sociologia, no contexto do conhecimento científico, surge como um corpo de

idéias que se preocupavam com o que a sociedade moderna (capitalista) destruiu e

gerou no seu processo de constituição e consolidação; a sociologia é fruto direto da II Revolução Industrial, ocorrida no século XIX, e nesse sentido é chamada de “ciência da crise” crise que essa revolução gerou em toda a sociedade européia. Como “ciência da sociedade”, a sociologia não surgiu de repente nem é fruto das idéias de um único autor: ela é resultado de toda uma forma de conhecer a natureza e a sociedade que se desenvolveu a partir do século XV, quando ocorrem mudanças significativas como os renascimentos urbano e comercial, que acabam por desagregar a sociedade feudal e lançam as bases do modo de produção capitalista.

O surgimento de uma nova ciência que busca compreender a organização social

torna-se imprescindível a partir das transformações geradas pela II Revolução Industrial européia. Com o maciço processo de industrialização das grandes cidades, uma nova sociedade emerge: urbanização, consolidação das sociedades democráticas e do Estado burguês, enfim, toda uma nova forma de se viver. Também observamos mazelas sociais

bem características e com uma abrangência nunca antes verificada, como o aumento do abismo social entre pobres e ricos, gerando prostituição, alcoolismo e suicídios entre a

parcela mais miserável, fruto do forte processo de êxodo rural verificado neste período.

Alem destes fatores, novas classes sociais opostas em sua posição dentro do processo

produtivo a burguesia industrial e o proletariado.

É claro que este processo é longo e precedido por uma conjuntura favorável.

Podemos afirmar que a formação deste modelo de sociedade inicia-se com o Iluminismo, movimento cultural-filosófico que tem suas origens no fim do século

XVIII e representa o ideal burguês em oposição à estrutura do Antigo Regime

absolutista ao defender a valorização da razão humana através do antropocentrismo e do

cientificismo, chega às vias práticas com a Revolução Francesa que instaura um

Estado laico e burguês apoiado nos ideais iluministas e culmina na maior expressão

burguesa ao consolidar-se enquanto classe hegemônica: a II Revolução Industrial.

O desenvolvimento do sistema capitalista na Europa irá fornecer os elementos

que servirão de base para a consolidação da sociologia enquanto ciência social. O Positivismo, teoria filosófica de Auguste Comte (1798 - 1857), pode ser apontada como a primeira escola sociológica; ao defender o espírito de Liberdade, Igualdade, Fraternidade, propõe uma reforma da sociedade a partir de uma reforma intelectual do homem. Segundo Comte, ao modificar-se a forma de pensar dos homens haveria, conseqüentemente, uma mudança nas instituições sociais; a reforma prática das

instituições, a partir da analise de seus processos e suas estruturas, seria função da sociologia.

Tema 01: Cultura 1.1 O Conceito de Cultura

“Cultura é aquele todo complexo que inclui conhecimento, crença, arte, moral, direito, costume e outras capacidades e hábitos adquiridos pelo homem como membro da sociedade” Edward Tylor (1871)

Ao trabalharmos com o conceito sociológico de cultura, é necessário definirmos exatamente no que consiste esta idéia. Erroneamente, associamos cultura ao acúmulo de saber e conhecimentos, pressupondo a existência de pessoas com “mais cultura”, ou cultas, que outras. Na realidade, o conceito de cultura refere-se à totalidade dos aspectos sociais de um determinado grupo, como a linguagem, os padrões estéticos, a culinária, suas bases econômicas e crenças religiosas. Desta maneira, todos os indivíduos de um determinado grupo são criados e socializados em um ambiente que impõe padrões, normas e códigos sociais visando a homogeneização dos comportamentos e crenças com o objetivo de gerar coesão social dentro deste grupo. Desde que nasce, o indivíduo é influenciado pelo meio social em que vive; não existem, portanto, pessoas com mais ou menos cultura que outras tampouco culturas superiores ou inferiores. A partir destas considerações, uma pergunta deve ser colocada: quando as sociedades humanas começaram a produzir cultura? Em seus primórdios, a espécie humana guiava-se basicamente de forma instintiva, buscando satisfazer exclusivamente suas necessidades biológicas. Contudo, com o passar dos anos, aprendeu a utilizar roupas, ferramentas e inovações que permitiram que sobressaísse em relação aos demais animais, a despeito de sua inferioridade física. Segundo o sociólogo Roque Laraia, o ser humano possuía um “equipamento físico muito pobre. Incapaz de correr como um antílope; sem a força de um tigre; sem a acuidade visual de um lince ou as dimensões de um elefante; mas, ao contrário de todos eles, dotado de um instrumental extraorgânico de adaptação, que ampliou a força de seus braços, a sua velocidade, a sua acuidade visual e auditiva etc. Assim, o homem percebe que suas chances de sobrevivência

aumentam consideravelmente ao agrupar-se com outros semelhantes, pois, inserido em um ambiente hostil, ao viver em grupo é possível que objetivos comuns sejam atingidos com maior facilidade. A cultura surge a partir da intervenção humana na natureza. Portanto, podemos associar a transmissão e conservação da maior parte dos preceitos sociais à cultura: o estabelecimento e respeito às regras e convenções sociais, atribuição de papéis sociais, hierarquização social, crenças religiosas, rituais de passagem ou reconhecimento social.Tomemos como exemplo a alimentação. Todos os povos, das mais diversas culturas, precisam alimentar-se. Porém, utilizam talheres, palitinhos ou comem com as mãos? Existem obrigações ou proibições em relação aos alimentos? Existe preocupação com “quilinhos supérfluos”? As respostas a estas perguntas serão diversas entre si de acordo com a cultura que se busca compreender. Além dos limites fisiológicos, elementos como resistência à dor, controle da respiração, ímpeto em realizar determinadas atividades são variáveis em relação à forma como a pressão social de uma determinada cultura se impõe ao indivíduo. É difícil imaginar um homem-bomba muçulmano realizando um ataque suicida caso estivesse inserido em outro contexto sócio-cultural. Para compreendermos e identificarmos determinadas culturas, alguns aspectos devem ser apontados: 1) é transmitida a partir da herança cultural de uma determinada sociedade, permitindo a continuidade da sociedade apesar da transitoriedade humana, 2) compreende a totalidade das criações humanas, incluindo seus aspectos materiais e imateriais (simbólicos, particulares a cada grupo) e 3) por ser a totalidade das criações humanas, também é uma característica exclusivamente humana. A partir da perspectiva sociológica, a manutenção da sociedade decorre não de elementos geneticamente programados (como no caso dos animais), mas das relações entre os homens e entre os homens e a natureza. Essas relações estão registradas nas normas, regras, imagens, mitos, ritos e discursos, elementos que podemos chamar de representações simbólicas. Todos esses elementos são socialmente construídos e relacionados à própria existência da sociedade. Assim, poderíamos dizer que a cultura possui simultaneamente os campos simbólico e material das atividades humanas: toda ação humana e, conseqüentemente, toda a vida social têm um conteúdo simbólico (mitos, ritos, representações) e um conteúdo material (objetos, gestos). Podemos perceber, portanto, que o conceito de cultura não diferencia realidade social e universo simbólico e, por isso, compreende as explicações míticas ou religiosas que os homens dão à sua realidade como elementos que interferem e explicam a

produção dessa realidade, e não como distorções ou idéias falsas a seu respeito. Por exemplo, em uma determinada sociedade, a obediência a certas regras religiosas de estímulo ao trabalho e à poupança poderá ajudar a compreender a organização de sua economia; a forma como estes determinados grupos religiosos entendem o porquê da existência humana pode ajudar a compreender a relação de maior ou menor dedicação que os membros dessa sociedade estabelecem com o ato de trabalhar.

membros dessa sociedade estabelecem com o ato de trabalhar. Afinal, o que é cultura? Apenas quem

Afinal, o que é cultura? Apenas quem recebe educação possui cultura?

1.2 A Estrutura Cultural

Toda cultura, ainda que única em seus conteúdos e significados específicos, possui uma estrutura comum que permite sua identificação e compreensão; dentre estes elementos estruturais, podemos destacar a existência de crenças, constituídas pelo compartilhamento de conhecimentos e idéias sobre o mundo, a vida e o sobrenatural por todos os membros desta comunidade, presença de valores aceitos pelos indivíduos, homogeneizando o que é tido como “bom” ou “mal”, “certo” ou “errado”, “justo” ou “injusto”, norteando a criação de juízos de valor em relação aos comportamentos individuais, ou seja, sua adequação ou não aos valores daquela determinada sociedade, normas (conjunto de regras específicas delimitando o que pode e o que não pode ser

feito dentro de um determinado grupo social) e sanções (conjunto de punições e

recompensas estabelecidas socialmente de acordo com a obediência ou não das normas

pré-estabelecidas), símbolos constituídos por elementos que carregam um significado

particular e pertinente ao grupo, possuindo um forte significado além de seu aspecto

material (mana) e o idioma, considerado elemento-chave da cultura pois permite uma

grande subjetividade de sons e símbolos utilizados pelos grupos humanos. A

compreensão destes sons e símbolos varia de acordo com a cultura observada.

Elementos constitutivos da estrutura cultural
Elementos
constitutivos da
estrutura cultural

Crenças

Elementos constitutivos da estrutura cultural Crenças Valores Normas Sanções Símbolos Idioma 1.3
Elementos constitutivos da estrutura cultural Crenças Valores Normas Sanções Símbolos Idioma 1.3
Elementos constitutivos da estrutura cultural Crenças Valores Normas Sanções Símbolos Idioma 1.3
Elementos constitutivos da estrutura cultural Crenças Valores Normas Sanções Símbolos Idioma 1.3

Valores

Normas

Valores Normas Sanções Símbolos

Sanções

Valores Normas Sanções Símbolos

Símbolos

Idioma

1.3 Etnocentrismo e Relatividade Cultural

Ao tratarmos dos estudos culturais, não podemos deixar de considerar os

contatos, por muitas vezes conflituosos, entre as mais diversas culturas. A maneira

como enxergamos o “outro”, inserido em um contexto cultural diverso daquele

compartilhado pelo observador, também pode ser entendido como um reflexo de sua

própria cultura e contexto histórico. Por diversas vezes, os relatos e descrições de

culturas “exóticas” estão impregnados de visões preconceituosas e de juízos de valor,

prejulgando as culturas não-européias como inferiores.

A visão cultural etnocêntrica caracteriza-se pela valorização de uma determinada

etnia, incluindo sua cultura, em detrimento de outra. Ao posicionar a própria cultura

como “superior” ou “melhor”, observamos uma ferramenta que busca justificar a

dominação de outros povos, afinal como “superiores” o controle, e até mesmo o

extermínio em alguns casos, é visto como um dever ou direito, justificado inclusive através de concepções religiosas. Existe uma tendência natural em todos as sociedades em considerar a própria cultura como melhor. Desta maneira, o que os demais grupos sociais fazem, acreditam ou compreendem são vistos como repugnantes, errados e impuros. Ao delimitar o “outro” como errado ou até mesmo culpado por todas as mazelas enfrentadas por uma organização social, a visão etnocêntrica pode até mesmo servir como uma ferramenta para o exercício de controle social por um determinado grupo, como por exemplo o mecanismo adotado pelo regime nazista; ao glorificar e enaltecer as virtudes da raça ariana, menosprezando todas as outras (em especial os judeus), forma-se um centro de coesão em torno de um líder em um momento de crise sócio-econômica, resgatando o orgulho e a auto-estima dos alemães culpando o “outro” pela situação miserável em que se encontram. A visão etnocêntrica européia torna-se evidente desde a época das grandes navegações, em um processo que culminou com a quase total destruição da cultura nativa e a imposição dos padrões culturais europeus. Porém, a partir do século XIX, o etnocentrismo toma caráter científico a partir do chamado evolucionismo cultural, teoria antropológica que pressupunha a existência de uma determinada hierarquização das sociedades, partindo das sociedades mais “primitivas” (africanas e asiáticas) até as mais “evoluídas” (européia industrializada); segundo esta teoria, os europeus teriam a “obrigação” de “civilizar” as sociedades tidas como atrasadas e primitivas, servido como uma forma de justificar o domínio europeu nestas regiões. Em oposição a esta visão etnocêntrica, a partir da década de 1930 surge uma nova corrente de pensamento antropológico denominada Relativismo Cultural. Esta corrente prega a concepção de que é impossível hierarquizar as diferentes culturas em melhores e piores, pois estas devem ser compreendidas simplesmente como diferentes. Cada grupo social responde de uma maneira diferente ao ambiente em que estão inseridos, assim como ao seu contexto histórico. Cada sociedade se desenvolve em seu próprio ritmo e de acordo com suas necessidades específicas. A única maneira de compreendermos uma cultura, ou organização da vida social, seria conviver nesta cultura, compartilhando das tradições, ritos e relações dentro de seu próprio contexto pois apenas assim fazem sentido. Um olhar ocidental sobre as relações existentes entre homens e mulheres em uma sociedade muçulmana esta imbuída de prejulgamentos e juízos de valor, pois tendemos a ter um olhar depreciativo

sobre aquilo que não faz parte de nossos padrões. Este tipo de visão foi defendido pelo antropólogo Bronislaw Malinowski e denomina-se observação participante. Um olhar pautado no relativismo cultural pode (e deve!) ser aplicado dentro de uma mesma cultura, buscando aceitar as diferenças em relação a posicionamentos políticos, etnias, crenças religiosas, opções sexuais existentes entre os membros de uma mesma sociedade. É importante ressaltar que o etnocentrismo e o relativismo cultural são metodologias antagônicas em relação ao modo de se compreender e de estruturar as relações entre as diversas formas de representações culturais.

1.4 Cultura de Massa

O desenvolvimento da sociedade humana culminou, a partir do século XX, na criação daquilo que os estudiosos contemporâneos denominam de “aldeia global”. Este processo resulta em uma homogeneização cultural em nível global, com a imposição de determinados valores e ideais para a maior parte do mundo; estes valores e ideais expressam os interesses, ou dominação, de setores tidos como dominantes na sociedade sobre as classes dominadas. Antes de definirmos e analisarmos a cultura de massa, é preciso esclarecer no que consiste o conceito de massa social. Sociologicamente, massa pode ser definida como um grupo heterogêneo de indivíduos que é tratado de forma homogênea pelas instituições sociais, sejam elas o Estado, a religião ou a mídia; assim, podemos afirmar que sempre existiram massas sociais, como por exemplo o tratamento dispensado à plebe romana através da política de pão e circo empregada pelo Estado. A cultura de massa, especificamente, refere-se à homogeneização cultural promovida pelos meios de comunicação impulsionada pela expansão industrial que se inicia a partir da segunda metade do século XIX. Este processo traz grandes transformações na relação existente entre consumidor e produto, gerando uma constante necessidade de ampliação do mercado consumidor dos mais diversos segmentos; o panorama modifica-se, portanto: as unidades produzem visando o consumo das “massas”, constituídas no contexto capitalista como um conjunto indistinto de consumidores dos mais diversos bens. O surgimento da cultura de massas é uma conseqüência direta das transformações econômicas e sociais oriundas da Revolução Industrial.

O surgimento e a consolidação deste modelo de cultura massificada só foi

possível devido à implantação de uma economia de mercado em escala global, permitindo assim uma maior circulação de produtos além da necessária separação entre força de trabalho e mercadoria. Esta economia baseada no consumo de bens gera a chamada sociedade de consumo, massificado, ampliando e generalizando o consumo de determinadas mercadorias em todas as partes do mundo, a despeito das diferenças culturais existentes em cada sociedade. Porém, resta ainda uma questão a ser discutida: de que maneira estes produtos conseguem atingir regiões tão distantes e culturas tão variadas? Concomitantemente ao processo de industrialização e à necessidade de ampliação do mercado consumidor, a sociedade moderna também gera a chamada indústria cultural, que é constituída dos veículos midiáticos (TVs, rádios, jornais, revistas, etc.) que possuem como finalidade principal atingir o maior numero possível de indivíduos que se tornam consumidores

potenciais. A industria cultural gera produtos típicos da cultura de massa; a cultura inserida este contexto perde sua característica original, de reflexão crítica e transmissão de conhecimento, e passa a ser encarada como um produto que deve ser consumido como qualquer outro.

A forte presença da industria cultural em todo tipo de mídia na sociedade

contemporânea reflete uma situação de conformismo social de grande parte da população, levando à manutenção da estrutura social. Segundo o sociólogo Teixeira Coelho, “com seus produtos a indústria cultural pratica o reforço das normas sociais, repetidas até a exaustão sem discussão. Em conseqüência, uma outra função: a de promover o conformismo social. E a esses aspectos centrais do funcionamento da industria cultural viriam somar-se outros, conseqüências ou subprodutos dos primeiros:

a industria cultural fabrica produtos cuja finalidade é a de serem trocados por moeda; promove a deturpação e a degradação do gosto popular; simplifica ao máximo seus produtos, de modo a obter uma atitude sempre passiva do consumidor; assume uma

atitude paternalista, dirigindo o consumidor ao invés de colocar-se à sua disposição.Ao tratarmos da massificação e homogeneização cultural, o controle social exercido por este processo não pode ser deixado de lado. Como estamos inseridos em uma cultura onde o consumo é cada vez mais o norteador das atitudes, anseios e desejos dos indivíduos, trabalhamos cada vez mais visando a aquisição de produtos que nos distinguem e identificam socialmente. Desta maneira, somos induzidos a consumirmos

cada vez mais produtos que nos definem perante os outros, muitas vezes com produtos supérfluos ou necessidades criadas visando o consumo das mais diversas mercadorias.

criadas visando o consumo das mais diversas mercadorias. Os consumidores escolhem as mercadorias ou são escolhidos

Os consumidores escolhem as mercadorias ou são escolhidos por elas?

Tema 02: Desigualdades 2.1 Conceito de Desigualdade

Ao analisarmos historicamente a estrutura e organização das sociedades, percebemos que todas elas apresentam algum nível de hierarquização entre seus membros, que, por sua vez, determinam desigualdades entre seus membros no que diz respeito ao acesso à recursos materiais ou imateriais presentes na sociedade, como riqueza, prestígio, poder ou conhecimento. Desta maneira, os estudos históricos nos permite afirmar que uma sociedade absolutamente igualitária não é possível, uma vez que qualquer sociedade é composta por indivíduos distintos em questões de habilidade, força ou beleza, elementos que acabam gerando um determinado sistema de privilégios e dominação sobre os demais membros do grupo. A preocupação em compreender, explicar ou explicar os princípios da legitimidade desta hierarquização social aparece já nos primórdios do pensamento social. Platão, ao defender a divisão da sociedade de acordo com a “alma” inerente a cada individuo busca legitimar a hierarquização dos indivíduos na sociedade grega. O filósofo iluminista Jean-Jacques Rousseau, ao tratar das desigualdades inerentes aos homens, identifica dois tipos de distinções: a partir de aspectos tidos como naturais idade, sexo, força física, aptidões diversas e aquelas compreendidas como sociais riqueza, prestígio, poder. É importante ressaltar que estas construções sociais (poder, prestígio, ser jovem ou velho, homem ou mulher) não possuem o mesmo significado em

todas as sociedades nem mesmo em todos os grupos que as compõem; são, portanto, construções relativas. A forma como encaramos a questão das desigualdades sociais atualmente é, basicamente, produto da visão forjada ao longo do século XVIII pela filosofia iluminista. Ao opor-se ao Antigo Regime, era preciso desqualificar a forma como a sociedade estava organizada, ou seja, a hierarquização dos indivíduos (incluindo sua função na sociedade, privilégios e deveres) embasada na origem dos indivíduos; este sistema impossibilita a mudança de estrato social pelos indivíduos e legitima-se pela tradição perpetuada através das gerações. O novo projeto iluminista parte de um principio igualitário, não entre os estratos sociais mas nos princípios de igualdade de oportunidades e jurídica. Este conceito permitia a igualdade de direitos e deveres sociais entre todos os indivíduos, a despeito de sua origem, acabando com os privilégios de nascimento; é claro que não pretendia-se abolir as desigualdades sociais e muito menos a hierarquização social, apenas modificar os princípios que delimitam a posição ocupada pelos indivíduos. Como todos os indivíduos, independentemente de sua posição social, estavam subjugados ao mesmo conjunto de leis e punições, o sucesso ou fracasso seria responsabilidade exclusiva do indivíduo. Por tratar-se de um projeto encabeçado pela crescente burguesia européia, a hierarquização social embasada pela origem (que favorecia a nobreza) seria substituída por uma hierarquização cujo critério de diferenciação seria a riqueza. Se todos os indivíduos são livres e naturalmente capazes de realizarem tarefas que permitem seu enriquecimento, se todos possuem capacidade de produzir e trabalhar, a quantidade de riquezas acumuladas durante a vida seria um ótimo critério para hierarquizar estes indivíduos: na verdade, isto refletiria, segundo o iluminismo, o esforço despendido na sua atividade profissional, sendo que a maior quantidade de riquezas seria uma “recompensa” por uma vida dedicada à atividade profissional; concomitantemente, este processo é acompanhado por uma crescente liberdade de escolha, por parte dos indivíduos, em relação à atividade profissional a ser exercida.

2.2 Estratificação Social

A hierarquização social de indivíduos dentro de uma determinada sociedade estrutura-se a partir de camadas hierarquicamente superpostas, às quais denominamos estratos sociais. Estes estratos pressupõem que seus ocupantes possuem acesso desigual

aos recursos materiais e imateriais presentes nesta sociedade, sendo que cada estrato significa um conjunto de pessoas que detêm “status”, ou seja, acesso a bens culturais e materiais, privilégios e poder, relativamente homogêneos. As relações entre os diferentes estratos sociais obedecem um sistema baseado em polaridades:

governantes/governados, dominantes/dominados, dirigentes/dirigidos. Ao mesmo tempo em que todas as organizações sociais possuem um determinado tipo de estratificação social, estes critérios que definem o estrato ao qual cada individuo pertence estão sujeitos a determinadas especificidades históricas e culturais de cada sociedade, podendo partir de elementos religiosos, econômicos ou simplesmente obedecendo tradições deste povo. Podemos identificar como principais fatores que embasam a estratificação social o conflito, a divisão do trabalho, a especialização e a etnia. Com o desenvolvimento industrial oriundo da segunda metade do século XIX e o conseqüente surgimento da grande empresa, este modelo de hierarquização entre os indivíduos é aplicado dentro das próprias unidades produtivas, delegando funções e obrigações diversas a cada setor da empresa, visando a organização racional da produtividade e almejando maiores lucros. Podemos identificar sociedades com maior permeabilidade entre os estratos (denominados sistemas abertos) ou com uma grande dificuldade ou impossibilidade de mudança (denominados sistemas fechados). Os fatores que dificultam ou impedem a mobilidade dos indivíduos entre os estratos são denominados “barreiras sociais”: estes elementos são compartilhados, explícita ou implicitamente, por todos os membros da sociedade e podem ter origem em aspectos culturais ou econômicos; alguns exemplos de barreiras sociais são a endogamia, etnia, exclusivismo racial, religioso ou nacional. Talvez o exemplo mais conhecido de barreira social foi o regime do apartheid, implantado de forma institucionalizada na África do Sul por cerca de 40 anos onde os negros sofreram uma grande exclusão social que abrangia locais a serem freqüentados, casamentos e atividades exercidas.

Representações de estratificação social nos sistemas capitalista e de castas indiana Estratificação Social em Karl
Representações de estratificação social nos sistemas capitalista e de castas indiana Estratificação Social em Karl

Representações de estratificação social nos sistemas capitalista e de castas indiana

Estratificação Social em Karl Marx

Para explicar a origem e a forma como a estratificação social ocorre, em especial na sociedade capitalista, o alemão Karl Marx parte de um princípio básico: toda e qualquer desigualdade entre os homens dentro de uma sociedade, qualquer que seja o seu modelo, esta fundamentada em aspectos econômicos. Segundo este critério, a desigualdade, e a conseqüente estratificação social, ocorre a partir das relações de produção existentes dentro da sociedade. Cada sociedade apresenta uma estrutura produtiva singular, porem todas acabam gerando o controle de um grupo por outro, gerando a polarização recorrente entre dominantes e dominados, seja qual for a forma como esses elementos se apresentem na sociedade.

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Esta forma de compreender as desigualdades sociais é denominada materialismo histórico, onde dominantes e dominados possuem interesses antagônicos devido à posição oposta que possuem dentro dos sistemas produtivos; este choque de interesses, chamado por Marx de luta de classes, é uma característica intrínseca da existência de classes sociais cujas representações estão atreladas ao modelo produtivo de riquezas em cada uma das sociedades. A forma como cada classe social está organizada, assim como as relações existentes entre elas, é produto direto da maneira como cada sociedade se organiza materialmente, assim como todas as demais relações simbólicas e ideológicas da sociedade. Nesta forma de análise, a consolidação da sociedade burguesa a partir da segunda metade do século XIX constitui-se como uma nova forma do mesmo sistema de dominação: as desigualdades não desapareceram, tampouco foram atenuadas, enquanto a democracia política serviria como uma “máscara” que oculta a nova estrutura de dominação.

Estratificação Social em Max Weber

Outro importante autor a se preocupar com a questão das origens do acondicionamento dos indivíduos em estratos sociais foi Max Weber. Ao contrário de Marx, Weber afirma que a estratificação dos indivíduos em uma dada sociedade não pode ser associada a apenas um aspecto da realidade social, mas a uma conjunção de fatores.

Weber identifica três diferentes aspectos que permitem identificar as desigualdades existentes entre os indivíduos de uma sociedade: a econômica, a social e a política. A partir destes elementos, é possível classificar as formas de estratificação social em classe (riqueza e renda), status (prestígio social) e poder (influencia sobre as ações de outros). Segundo o autor, a diferenciação a partir de classe social pode ser apreendida como “a oportunidade típica de 1) abastecimento de bens, 2) posição de vida externa, 3) destino pessoal, que resulta, dentro de determinada ordem econômica, de extensão e natureza do poder de disposição (ou falta deste) sobre bens ou qualificação de serviço e da natureza de sua aplicabilidade para a obtenção de rendas ou outras receitas.” Em outras palavras, para Weber classe social se caracteriza a partir do interesse econômico

e da aquisição de bens, ao contrário de Marx que posiciona classe social a partir da sua posição em relação à estrutura produtiva. No que diz respeito aos grupos de status, a análise torna-se um pouco mais complicada, pois não podem ser avaliados de forma objetiva, como bens ou riqueza, mas, ao contrário, constituem-se unicamente a partir de representações subjetivas em relação a um determinado grupo. A isto denomina-se “Honra Social”. Este prestígio fundamenta-se em um consenso social, sendo que o máximo de prestígio alcançado sempre será apenas aquele que a sociedade lhe reconhecer. Este prestígio está ligado a vários fatores, como a profissão, costumes, grau de instrução e, principalmente, lugares freqüentados (como o bairro em que mora ou o clube do qual é sócio); estes fatores geram comportamentos ligados ao status do individuo na sociedade: como comprar, como ler, como morar, etc. O terceiro tipo de estratificação está ligado ao poder político. Segundo Weber, o conceito de partido político define-se como um grupo cujos membros aderem de forma voluntária com o objetivo de, ao assumir o poder político, assegurar vantagens materiais aos dirigentes; desta maneira, podemos identificar esta forma de estratificação com a distribuição de poder institucionalizado (legitimado pelo Estado) entre os partidos políticos e até mesmo entre os diferentes grupos existentes no interior de cada um destes.

2.3 Formas de Estratificação Estamentos

Uma das principais formas de estratificação fechada, ou seja, com pouca ou nenhuma permeabilidade entre os estratos, é a sociedade estamental. Uma sociedade em estamentos ou estados sociais apresenta uma rígida divisão entre os estratos, cuja definição ocorre pela origem do indivíduo, cuja mobilidade social é quase nula. Como principal exemplo de sociedade estamental, podemos citar a sociedade feudal, que vigorou do século V ao XV. Nesta forma de organização social a tradição estabelecida através das gerações contava como um dos elementos fundamentais na definição do conjunto de relações estabelecidas entre os diferentes estamentos:

nobreza, clero e servos. Os direitos e deveres referentes a cada um destes estratos não são definidos pelos indivíduos em si, mas impostos de acordo com os costumes; o

senhor feudal, por possuir a terra da qual os servos dependiam, e sua família sempre detinham todos os direitos e privilégios, ou seja, compunham a classe dominante. Sem nenhuma dúvida, a organização social baseada em estamentos também produz uma situação de privilégios para alguns indivíduos. No caso da sociedade estamental, os privilégios estavam diretamente ligados à honra e à linhagem que cada indivíduo possuía. Aqueles que dominavam (nobreza e clero) eram os que melhor se situavam no código de honrarias que vigorava naquela sociedade. Havia, dessa forma, uma organização social em que os serviços, os cargos e a posse de terras estavam ligados à estruturação do feudalismo; as atividades guerreiras, sacerdotais e de administração pública, bem como a posse das terras estavam reservadas aos estamentos dominantes. Esta relação de privilégios só era possível pois os estamentos não privilegiados reconheciam, na hereditariedade, a honra do outro: em outras palavras, os dominantes incorporavam, pelo conjunto de valores culturais, a idéia de que determinados indivíduos estavam, pela tradição, acima dos demais. O feudalismo como organização econômica e política que vigorou na Europa Ocidental assentava-se nas relações entre a nobreza, o clero e o servo: os dois primeiros sobrepunham-se hierarquicamente na distribuição do poder, ou seja, constituíam os estamentos política e economicamente dominantes. A reciprocidade entre o servo e o nobre fundava-se na relação estabelecida entre servir e proteger. Tanto que não ter um senhor que lhe desse proteção fazia com que o indivíduo fosse considerado desprotegido pela lei. Este sistema é conhecido como vassalagem, que consistia em obrigar o servo a contrair obrigações que iam além da submissão a um determinado dono se terras. Era um juramento de fidelidade que repousava também na força das armas. Existia uma hierarquia de vassalagem que se sobrepunha a todos os estamentos e os interligava, do estrato mais inferior até o topo da pirâmide social todos se encontravam coesos por uma trama de obrigações, reciprocidade e fidelidade. Como o feudalismo estava organizado economicamente sobre uma unidade produtiva agrária voltada para a subsistência, os contatos comerciais entre os diferentes feudos eram praticamente insignificantes e havia um monopólio do saber e, portanto, do modo de pensar do homem medieval exercido pela Igreja Católica. O poder vincula-se à posse de terras, ou seja, os estamentos dominantes tinham na posse das terras a fonte de seus poderes econômicos e políticos. Assim, a tradição, fundamentada na hereditariedade, permitia a perpetuação do sistema de dominação.

Classes Sociais

O conceito de classes sociais deve ser entendido como uma categoria histórica, conforme entendida por Marx. A própria história, inclusive, seria fruto da “luta de classes” históricas, com interesses e objetivos antagônicos. Segundo este conceito, são as próprias contradições existentes entre as classes que constituem e mantém uma organização social estruturada. A chamada teoria das classes não se limita a descrever a divisão da sociedade em camadas, mas procura explicar como e por que elas ocorrem historicamente. A complexidade da organização social burguesa define relações que aparecem para os indivíduos de forma nebulosa. Só são visíveis e palpáveis as desigualdades gritantes. As relações que produzem essas desigualdades, contudo, permanecem obscuras isto é, os fundamentos de sua existência e as formas como elas se reproduzem. Aparentemente, as desigualdades são concebidas como naturais, ou seja, como algo sem relação com a produção da vida social. Mas, se examinarmos mais atentamente essa questão, iremos perceber que as diferenças sociais, incluindo as relações de dominação e subordinação, são produzidas socialmente. A forma como o indivíduo se insere no conjunto de relações existentes no plano econômico e sócio- político é que pode explicar a divisão da sociedade em classes sociais. No processo de produção capitalista a apropriação e a expropriação são elementos básicos que vão delinear o traçado de uma estrutura social desigual. O expropriado (operário) é aquele que produz, que cria as mercadorias em um processo de produção social. Mas o capitalista apropria-se do resultado dessa produção através do afastamento existente entre o trabalhador e a unidade produtiva, denominada meio de produção, obtendo lucro através da sua venda. Esta expropriação não é, todavia, apenas econômica, mas também intelectual. O operário é expropriado dia-a-dia da possibilidade de desenvolver sua capacidade de criar, pensar e agir no trabalho, pois todo o processo é controlado por máquinas através da linha de montagem; na sociedade burguesa, o processo de reprodução social leva progressivamente à intensificação de interesses opostos, antagônicos, como parte do próprio movimento interno da estrutura social capitalista. As duas classes existentes no modo de produção capitalista, como definido por Marx, são a burguesia (personificação do capital) e o proletariado (personificação do

trabalho assalariado), constituindo-se como os dois elementos básicos da organização capitalista e entrelaçados em uma relação de mútua dependência. Desde os primórdios da sociedade capitalista, a burguesia e o operariado se definem como classes antagônicas tanto no plano econômico quanto no político: econômico no nível da apropriação e expropriação dos bens produzidos e político no nível da dominação que a classe burguesa exerce sobre os demais setores da sociedade. As classes sociais se constituíram de maneira oposta, a partir do estabelecimento da grande industria oriunda das Revoluções Industriais européias e de todas as transformações sócio-políticas e econômicas decorrentes desta, como a formação de uma sociedade predominantemente urbana, o que altera todos os padrões sociais estabelecidos, e a implantação quase homogênea do trabalho livre assalariado. Estas transformações permitem que exista a possibilidade ainda que pouco provável - de mudanças na posição hierárquica do individuo na sociedade; esta constitui-se como a principal característica da organização social no sistema de classes sociais, afinal a sua posição não é determinada a partir de sua origem, mas do produto do seu esforço e trabalho individual: a riqueza. Se o fator de estratificação social provêm única e exclusivamente da ação individual, este sistema é legitimado a partir da idéia de que o individuo é o único responsável pelo seu sucesso ou fracasso, entendido no capitalismo como sinônimos de riqueza e pobreza, e não a sociedade “injusta e desigual” como o Iluminismo caracterizava o Antigo Regime. Este sistema de estratificação é próprio da sociedade capitalista, e não convém tentar buscá-las em outro tipo de sociedade. Na sociedade feudal a organização era estamental, e não de classes; isso porque a definição das classes sociais ocorre com base em uma determinada forma de produzir, o que implica o estabelecimento de um conjunto de relações específicas, só condizentes com a sociedade capitalista, como a mobilidade social ascendente ou descendente. A propriedade privada, vigente na sociedade capitalista exige, por sua vez, outra forma de trabalho: livre e assalariado, assim como uma divisão do trabalho cada vez mais sofisticada e a expansão constante dos mercados consumidores. Todos estes fatores possuem como principal objetivo o aumento na circulação de mercadorias dentro da sociedade, intensificando, desta maneira, o processo de acumulação de capitais pela classe dominante. Ao longo do processo de construção e consolidação das classes sociais enquanto padrão de diferenciação entre os indivíduos, observamos que elas se caracterizam em relação umas com as outras, ou seja, não é em si mesmas que elas se definem como tais,

mas no reconhecimento de seu oposto. A classe burguesa e a classe operária estão ligadas por uma relação de antagonismo, de contradição, que se baseia no processo de apropriação (relativo ao campo econômico) e dominação (presente no campo político).

Tema 03: Ideologia

O termo ideologia surge no contexto das Revoluções Burguesas européias entre os séculos XVIII e XIX e está intimamente ligado à estruturação da nova sociedade que surge a partir destes processos. Inicialmente, a ideologia buscava substituir a teologia enquanto “ciência das idéias”, visto que o mundo tornava-se cada vez mais racional e técnico enquanto a religiosidade perdia espaço na sociedade que se industrializava. Ideologia refere-se, portanto, ao campo das idéias, das crenças, dos valores e das práticas compartilhadas por uma determinada sociedade, podendo ser identificado como um conjunto lógico, sistemático e coerente de representações, normas

e regras que buscam passar aos indivíduos de um determinado grupo o que devem

pensar e como devem pensar, o que devem valorizar e como devem valorizar, o que devem sentir e como devem sentir, o que devem fazer e como devem fazer. Nesta concepção, a função social aplicada à ideologia é o de normatizar e regular as ações individuais em torno de idéias comuns ao grupo. Podemos identificar três características principais no conjunto de ideologias: 1) conjunto de crenças de um grupo social, onde estão incluídos valores, idéias e projetos do grupo social; 2) crenças ilusórias, baseadas

em critérios impossíveis de serem comprovados e que contrastam com o conhecimento científico; e 3) um processo geral de criação de significados e idéias deste grupo social.

É importante ressaltar que a ideologia não origina-se em si mesma, mas a partir de

elementos extra-ideacionais, tais como a luta de classes, luta pelo poder ou economia. Também é possível apresentarmos uma visão crítica a respeito do próprio conceito de ideologia, assim como qual seria verdadeiramente sua função social; neste sentido, não podemos descartar as contribuições de Karl Marx e Friedrich Engels em seu livro A Ideologia Alemã (1845). Segundo estes autores, as idéias dominantes de uma época são as idéias da classe então dominante. Podemos deduzir a partir desse pressuposto que, para manter sua dominação, interessa a essa classe fazer que seus próprios valores sejam aceitos como certos por todas as demais classes sociais; o discurso ideológico se caracteriza exatamente por pretender anular a diferença entre o

pensar, o dizer e o fazer, criando uma lógica que consiga unificar pensamento, linguagem e realidade, obtendo a identificação de todos os sujeitos sociais com uma imagem particular universalizada: a imagem da classe dominante. Desta maneira, segundo a tradição marxista a ideologia teria como principal objetivo a manutenção do status quo da estrutura social e o foco das atenções não deveria ser o que uma pessoa diz, mas o motivo pelo qual ela diz. Surge daí um corpo de representações e normas através do qual as classes sociais se

representarão a si mesmas e à vida coletiva. É exatamente esse o campo da ideologia, no qual estes sujeitos explicam as formas de suas relações sociais, econômicas e políticas, explicam as formas “corretas” e “verdadeiras” de conhecimento e ação social e justificam, através de ideias gerais (o Homem, a Pátria, o Progresso, a Família, a Ciência, o Estado), as formas reais da desigualdade, dos conflitos, da exploração e da dominação como sendo, ao mesmo tempo, “naturais” (isto é, universais e inevitáveis) e “justas” (do ponto de vista das classes dominantes). Marx e Engels apresentam os três elementos básicos que caracterizam o conceito de ideologia e também sua compreensão crítica da sociedade capitalista:

1 Separação resultante da divisão da vida humana em duas instâncias específicas: a infra-estrutura, que é a esfera da produção material e a superestrutura, esfera da produção das idéias. De maneira simplificada, podemos dizer que a infra-estrutura é composta da economia (a produção de bens necessários à sobrevivência dos homens) e a superestrutura se constitui da moral, do direito, da política e das artes.

2 Determinação relação decorrente da separação entre infra-estrutura e superestrutura. Partindo dessa separação, observa-se o domínio estabelecido pela infra-estrutura sobre a superestrutura. Serão as relações de produção que irão determinar a organização social as formas de comportamento e de convívio entre os homens; isto significa que as idéias têm sua origem na vida material e são por elas determinadas. Mas o que é essa vida material? São as relações de

sua origem na vida material – e são por elas determinadas. Mas o que é essa

produção que os homens estabelecem entre si, as quais dependem, por sua vez, das relações desses homens com os meios de produção (terras, máquinas, matérias-primas, força de trabalho, fábricas). Será, portanto, a esfera econômica que irá organizar as ideias sobre essa sociedade.

3 Inversão neste contexto, a ideologia teria o papel de alienar os indivíduos em relação às relações de produção e ao problema das desigualdades, ou seja, estas aparecem de maneira inversa aos homens, caracterizando uma distorção da realidade para justificar a dominação das classes dominantes em relação às demais. Desta maneira, a religião, a moral e qualquer outra ideologia perdem imediatamente toda a aparência de autonomia. Não têm história, não têm desenvolvimento; são antes os homens que, desenvolvendo suas relações materiais transformam o seu pensamento e os produtos de seu pensamento. Não é a consciência que determina a vida, mas sim a vida que determina a consciência.

Ideologia

Cazuza/ Frejat

Meu partido

É

um coração partido

E

as ilusões estão todas perdidas

Os meus sonhos foram todos vendidos Tão barato que eu nem acredito Eu nem acredito Que aquele garoto que ia mudar o mundo (Mudar o mundo) Frequenta agora as festas do "Grand Monde"

Meus heróis morreram de overdose Meus inimigos estão no poder

Ideologia

Eu quero uma pra viver

Ideologia

Eu quero uma pra viver

O meu prazer

Agora é risco de vida Meu sex and drugs não tem nenhum rock 'n' roll Eu vou pagar a conta do analista Pra nunca mais ter que saber quem eu sou Pois aquele garoto que ia mudar o mundo Agora assiste a tudo em cima do muro

Meus heróis morreram de overdose Meus inimigos estão no poder

Ideologia

Eu quero uma pra viver

a tudo em cima do muro Meus heróis morreram de overdose Meus inimigos estão no poder

Ideologia Eu quero uma pra viver

Tema 04: A Questão do Estado 4.1 Definição de Estado

A concepção de Estado pressupõe a existência de uma estrutura de poder

existente em uma determinada sociedade, cuja existência e autoridade sejam aceitas e reconhecidas pelos cidadãos, independente da forma como se apresenta e/ou do grupo que exerce seu controle (o controle de um determinado grupo ou individuo desta estrutura de poder denomina-se governo). A formação daquilo que chamamos de Estado Moderno tem suas origens na formação das grandes monarquias nacionais européias, a partir dos processos de centralização da autoridade política e legal na figura do príncipe. Este processo de centralização política e jurídica fornece as bases para o exercício desta autoridade em um determinado território, onde este Estado teria o monopólio da violência (com a formação de um exército profissional), da cobrança de impostos e da cunhagem de moedas.

O Iluminismo passa a criticar o Estado Moderno e sua representação de poder

absolutista, defendendo uma maior inferência da sociedade civil sobre o poder político. Surge desta maneira a proposta de governos representativos, onde os governantes seriam escolhidos pelo povo para gerir recursos e defender seus interesses; é o inicio da ideia de um poder político a serviço dos interesses e necessidades da sociedade civil. Delimitar quais as funções e abrangência do aparelho do Estado passa por três elementos básicos: primeiro, o Estado é caracterizado como um conjunto de instituições, definidas como suas agentes, das quais as mais importantes são a violência e a coerção; segundo, existe um espaço geográfico delimitado de ação destas instituições e da própria autoridade do Estado; terceiro, possui o monopólio da criação de regras dentro do seu território, criando uma cultura política comum entre seus membros. Vale ressaltar que esta concepção é mais uma aspiração que uma verdade histórica, visto que a maioria dos modelos de Estado encontrou uma grande dificuldade em controlar a sociedade civil e até mesmo em exercer o monopólio da violência.

É claro que estas definições não podem ser tomadas como verdades absolutas e únicas, sendo que os conceitos sociológicos estão sempre sujeitos a alterações e, principalmente, interpretações diversas. Segundo o alemão Max Weber, o Estado não pode ser apreendido pelos seus fins, já que ele trata de absolutamente todos os aspectos sociais e individuais, mas a partir de seus meios; assim, o Estado seria caracterizado a partir da aspiração ao monopólio do uso da violência legítima. Já Karl Marx, em sua análise histórica a partir da perspectiva da luta de classes, enxerga na pura e simples existência do Estado uma manifestação material e simbólica da dominação dos grupos oprimidos pelas classes dominantes, devendo, portanto, ser extinto no momento em que a sociedade atingisse o modo de produção comunista pois perderia sua função de exercer o domínio de um grupo sobre o restante da sociedade.

4.2 Estrutura do Estado

Toda organização estatal, independente da forma como esta se apresenta, possui como elemento primordial a existência de um grupo, ou “elite política”, que exerce o poder. Existem diversas maneiras de exercício do poder por esta elite, assim como é pautada a relação entre Estado e sociedade civil. Podemos destacar como principais formas de governo a monarquia, que parte da existência de um soberano que possui o poder a partir da tradição existente na sociedade e pode ser absoluta (poder concentrado na figura do monarca) ou constitucional (poder limitado por uma constituição e um parlamento independente); a oligarquia, caracterizada pelo controle do Estado nas mãos de um único grupo ou setor da sociedade; a democracia, onde o governo é exercido por representantes da sociedade civil eleitos através do voto e a representação da população no governo ocorre através da existência de partidos políticos (cabe ressaltar que a democracia pode ser pluripartidária ou bipartidária, parlamentarista ou presidencialista); e a ditadura, onde todo o poder é exercido por uma pessoa ou grupo, onde não existe liberdade de associação partidária ou de expressão. Independentemente da forma como o Estado está organizado, existe em comum entre eles o fato de que todos exercem poder sobre a sociedade que representam. Este poder possui três elementos principais: a força, caracterizada pela coerção física sobre os indivíduos para garantir a manutenção da ordem e o cumprimento das leis (exercido pelo monopólio da violência legitimada); a autoridade, direito estabelecido para tomar decisões e orientar as ações dos indivíduos visando a coesão social (essa legitimidade

provem de tradições e/ou do direito, e tende à unanimidade entre os indivíduos); e a influência que pode ser caracterizada como a habilidade para orientar as ações dos outros sem possuir força ou autoridade para tal.

4.3 Formas de Organização do Estado O Estado Liberal

A sociedade burguesa foi implantada instituindo, de maneira revolucionária, o

mercado livre e fazendo da sociedade civil um sinônimo deste. Para que o

desenvolvimento dessa sociedade fosse possível, era preciso que a separação entre o que é público e o que é privado ganhasse contornos mais nítidos.

O Estado Liberal apresenta-se como desdobramento lógico dessa separação. Esta

forma de organização estatal pode ser, simultaneamente, representante do público e do que é privado. A revolução da burguesia transformou radicalmente a sociedade feudal na Europa, exigindo uma nova forma de Estado, com uma estrutura de poder político capaz de manter e ampliar suas conquistas; entre estas conquistas estava a extinção dos controles impostos pelo mercantilismo, que impediam o pleno desenvolvimento comercial dos países e da burguesia. A burguesia do século XVIII reivindicava uma ampla liberdade nas relações econômicas, o que significava restringir, mas não tirar o poder político do Estado. As razões da burguesia para implantar o liberalismo econômico foram estampadas na teoria da mão invisível. Esta teoria surgiu na obra do inglês Adam Smith intitulada A Riqueza das Nações (1776), na qual ele afirma existir uma lógica interna, uma razão própria, na produção das mercadorias. Haveria um ordenamento perfeito, quase natural, no funcionamento das atividades econômicas. Existiria uma lógica interna por trás da aparência confusa e desconexa da sociedade capitalista. A intervenção de qualquer elemento externo (como o Estado) seria, portanto, dispensável. Em linhas gerais, só seria produzida uma mercadoria caso existisse uma necessidade para o seu consumo, ou seja, o consumidor é a peça-chave para a ocorrência dessa relação. O mercado de compra e venda de mercadorias regula a atividade produtiva; portanto não cabe ao Estado interferir na produção de produtos qualidade, quantidade,

preços, etc como ocorria no Estado absolutista. O lema era laissez-faire, laissez- passer (deixai fazer, deixai passar). Um mercado livre garantiria igualdade a todos, sendo seus atores compradores e vendedores ao mesmo tempo, ou seja, todos comprariam e venderiam alguma mercadoria: a burguesia como classe social detentora dos meios de produção, de um lado, e os proletários de sua força de trabalho, de outro. Os direitos inalienáveis do homem foram propagados e defendidos pela burguesia na época da sua revolução, e sustentava a idéia de que todos são possuidores naturais do direito à liberdade, à igualdade, à vida e à propriedade. Todas as leis na sociedade moderna deveriam se nortear por esses valores Seria possível ao Estado liberal ser muito eficaz na manutenção da segurança, desde que estivesse atento às leis. Nesse sentido, o Estado protege a vida dos indivíduos e os bens públicos, ou seja, tudo aquilo que pertence à sociedade. Mas também zela pela propriedade privada, na medida em que as leis e o sistema jurídico garantem ao individuo a possibilidade de conquistá-la e mantê-la. Se a vida social podia ser ordenada racionalmente, não haveria necessidade de novas revoluções. A revolução burguesa seria a última agora a razão controlava todas as paixões. Até o lucro, que na época feudal fora condenado pela Igreja Católica como fruto de uma prática vil e egoísta, agora se enquadrava na lógica da produção, sob a bênção da Igreja. O lucro foi justificado pela competência dos produtores e vendedores de mercadorias. O mais apto a produzir o melhor produto, com um custo mais baixo, ofereceria este produto por um preço mais barato e, portanto, venderia mais do que o concorrente, alcançando o lucro. Todos deveriam ser livres para produzir e vender seus produtos. Quem produzisse e vendesse mais poderia lucrar e enriquecer rapidamente, ao mesmo tempo em que o fracasso profissional e a miséria também seriam frutos exclusivos da falta de capacidade ou empenho profissional. A concorrência, a competição existente na sociedade burguesa, só podia ser benéfica. A economia capitalista foi chamada de economia da livre concorrência.

O Estado do Bem-Estar Social

Já nas últimas décadas do século XIX, o capitalismo da livre concorrência sofria alguns impactos produzidos no interior do próprio sistema de produção. A livre

competição, sem normas e freios, entre as empresas capitalistas provocou o desaparecimento das mais fracas. Seja pelo aniquilamento do concorrente mais frágil, seja por forçar a junção das pequenas empresas, a disputa acelerou a acumulação desigual de capital. Ao capitalismo interessa o lucro, não importando onde e como alcançá-lo. A burguesia almeja o lucro para aumentar seu capital e obter ainda mais lucro.

As empresas que dominaram os mercados, nacionais ou internacionais, dotaram

o sistema capitalista de uma nova característica: o monopolismo. A fusão de inúmeras empresas dos mais diferentes setores da produção com grandes bancos permitiu que as corporações assim formadas tomassem conta dos mercados. Ao exportar para todo o mundo os produtos industrializados, dominando as fontes de matérias-primas e emprestando capital aos países em fase inicial de industrialização, o capitalismo financeiro passava a dominar globalmente as atividades econômicas.

Com o capitalismo monopolista, a mercadoria começava a transitar pelo mundo inteiro. Assim, uma fábrica instalada na Ásia, que comprava matéria-prima da América Latina vendia seus produtos na Austrália. A produção realizada em grande escala, diminuindo o custo por unidade, passou a encarar as pessoas de diferentes grupos sociais como possíveis consumidores. Mas esse tipo de produção decorreu de uma alta tecnologia que implantou novas máquinas na divisão do trabalho, potencializando a força produtiva, mas causando, por outro lado, um aumento considerável do desemprego por exigir mão-de-obra cada vez mais qualificada.

O sistema de produção capitalista sempre foi um gerador de crises de

superprodução de mercadorias. Na fase monopolista, essas crises atingem enorme magnitude, provocando falências e desempregando milhares de trabalhadores. O Estado do Bem-Estar Social passa a ser um agente de crucial importância nos setores de saúde, na implantação da rede de saúde, moradia e transporte. Os investimentos públicos serão decisivos para a saúde pública, com a construção de hospitais e postos de saúde, além da implantação de um sistema de saneamento básico, bem como para a construção de moradias populares, vias públicas e meios de transportes. Para a parcela qualificada da força de trabalho chegava, afinal, algumas das melhorias previstas no direito de cidadania. Contrariando as leis do liberalismo, o Estado do Bem-Estar Social deveria interferir na economia para garantir o pleno emprego, Ele assim o faria por meio de uma política financeira (juros baixos) para incentivar a empresa privada. Mas isto não seria

suficiente para acabar totalmente com o desemprego. O Estado deveria fornecer uma ajuda social aos desempregados, surgindo, desta maneira, direitos aos trabalhadores, como seguro-desemprego e a obrigatoriedade do aviso prévio. O Estado passa a ser, portanto, um agente promotor da redistribuição de renda. Esta concepção a respeito do Estado do Bem-Estar Social foi formulada pelo economista John Maynard Keynes, que buscava atenuar os efeitos negativos dos ciclos econômicos, constituídos por fases de expansão e retração; a partir deste momento, consolida-se a conquista de direitos sociais pela população e torna-se imprescindível que o Estado não se ausente da economia, fornecendo também auxilio aos desempregados, regulamentando direitos trabalhistas e regulando a atuação das empresas privadas.

trabalhistas e regulando a atuação das empresas privadas. O Estado Socialista A concepção marxista de história

O Estado Socialista

A concepção marxista de história a partir da luta de classes pressupõe a

necessidade da superação deste modelo. Esta dicotomia teria atingido seu ápice com a oposição entre burguesia (monopolizadora do poder) e proletariado (classe oprimida)

no sistema capitalista, servindo como base para o surgimento do “socialismo científico” de Marx, cujo principal objetivo seria demonstrar o caminho a ser percorrido até a consolidação de uma sociedade sem classes sociais.

O Estado socialista apresenta algumas características muito distintas das

democracias ocidentais, como por exemplo o controle sobre os meios de produção incluindo a produção em si, uma economia planificada (visando a satisfação das necessidades da população e não o lucro) e o poder extremamente centralizado a partir de um monopartidarismo, representado pelo Partido Comunista. No modo de produção socialista, o Estado seria a expressão da “Ditadura do Proletariado”, que deveria substituir a “Ditadura da Burguesia” e teria caráter transitório, fornecendo as condições necessárias para a implantação do sistema comunista, sem propriedade privada, sem partidos e sem o próprio Estado. Podemos afirmar que o Estado em sua forma socialista

visa a satisfação, através do aparelho estatal, de todas as necessidades materiais e culturais do individuo, como alimentação, arte, emprego, educação e saúde.

O advento do sistema coletivista assinala um dos momentos decisivos da historia

contemporânea. A Revolução de Outubro de 1917, que leva os sovietes ao poder na Rússia, marca o nascimento da primeira experiência de um Estado orientado pelos pressupostos de Karl Marx.

A Revolução de 1917, por ser socialista, propunha a substituição da propriedade

privada pela propriedade coletiva dos trabalhadores; da guerra pela paz; da coerção física do Estado czarista sobre o proletariado pela liberdade e igualdade de todos; da sociedade competitiva pela sociedade fraternal e solidária. Obviamente, estes princípios não foram implantados de forma integral devido à situação caótica que a União Soviética encontrava-se no momento de sua formação: atraso econômico após séculos de czarismo e crise generalizada após a Primeira Guerra Mundial e a Guerra Civil. Após a morte do principal líder bolchevique, Lênin, em 1924, o poder foi centralizando-se cada vez mais nas mãos daquele conhecido como “guia genial dos povos”, Joseph Stalin. Esta centralização acabou resultando em um Estado altamente policial-burocrático e totalitário, muito distante do que havia sido proposto por Karl Marx e Friedrich Engels; ao implantar o projeto do “socialismo em um só país”, a perseguição à qualquer tipo de oposição “contrarrevolucionária” e a formação de um regime altamente militarizado formaram o chamado “socialismo real”.

Características básicas das organizações estatais

Organização

Estado

Estado

Estado do Bem- Estar Social

Estado

Estatal

Moderno

Liberal

Socialista

Economia

Controle

Estado

Estado interfere, mas não controla

Planificação

absoluto

do

“liberado”

imposta

pelo

Estado

(livre

 

Estado

(mercantilismo)

iniciativa)

Regime

Absolutismo

Democracia

Democracia

Monopartidaris

Político

Representativa

Representativa

mo

Divisão dos

Concentrados

Tripartição

Tripartição

Concentrados no Partido

Poderes

no monarca

(executivo,

(executivo,

legislativo,

legislativo,

 
   

judiciário)

judiciário)

 

Cidadania

Direitos

Civis

Direitos

Direitos

Sociais

Direitos

Sociais

(locomoção,

Políticos

(alimentação,

(alimentação, moradia, educação, saúde, etc.)

proteção)

(associação,

moradia,

representação)

educação,

saúde,

etc.)

Tema 05: Trabalho 5.1 Conceito de Trabalho

Pensar a questão do trabalho sob perspectivas históricas e sociológicas é pensar como esta atividade humana desenvolveu-se nas diferentes formas de organização social dos grupos humanos. Podemos caracterizar, de forma abrangente, que trabalho seria toda a atividade que transforma e modifica a natureza visando a satisfação das necessidades dos seres humanos. É possível afirmar, portanto, que o trabalho existe para satisfazer as necessidades humanas, desde as mais simples, como alimento e abrigo, até as mais complexas, como as de lazer e crença; enfim, necessidades físicas e espirituais. Quando se analisam as diversas formas de sociedade vamos encontrar não só os mais variados modos de organização do trabalho como também maneiras muito diferentes na forma como os indivíduos encaram esta atividade.

Podemos afirmar que, a partir de uma premissa sociológica, apenas o ser humano realiza trabalho, e não todos os animais: a ação dos demais animais é biológica, instintiva, enquanto que a ação humana é conscientemente articulada para um fim especifico e pré-determinado. Para exemplificar a diferença entre as atividades

realizadas pelo ser humano e pelos demais animais, Karl Marx afirma que “(

aranha executa operações que se assemelham às tarefas de um tecelão, a construção de colméias das abelhas poderia até envergonhar, por sua perfeição, o melhor dos engenheiros. Mas existe um fato que faz o pior dos engenheiros ficar à frente da abelha, pois o primeiro, antes de executar sua construção, já tem um projeto em sua mente. Ao terminar o processo de trabalho, nasce um resultado que, mesmo antes de ser iniciado, já existia na cabeça do homem, isto é, já tem um projeto em sua mente. Ao terminar o processo de trabalho, nasce um resultado que, antes mesmo de ser iniciado, já existia na cabeça do homem, isto é, já possuía uma existência ideal.” (Marx, 1985).

) uma

Todo trabalho humano resulta da combinação de dois tipos de atividade: manual e intelectual. O que varia é a proporção com que esses dois aspectos entram no processo de produção. O trabalho de um operário é mais manual que intelectual; em alguns casos, quase exclusivamente manual. Ainda assim, exige um mínimo de esforço mental. Já o trabalho de um engenheiro é mais intelectual do que manual; ainda assim, sua atividade tem um aspecto manual, ainda que este esteja relegado a um segundo plano de importância visando a realização desta atividade. Desta forma, podemos afirmar que não existe trabalho manual ou trabalho intelectual, mas atividades que possuem predominantemente, e não exclusivamente, uma característica ou outra. Existe também uma outra maneira de se classificar os tipos de trabalho, conforme o grau de capacitação do individuo que realiza determinada função. Desta maneira, temos:

Trabalho qualificado não pode ser realizado sem um certo grau de aprendizagem e conhecimento técnico.

Trabalho não-qualificado pode ser realizado praticamente sem nenhum tipo de aprendizagem anterior. A divisão dos trabalhos de acordo com o grau de capacitação exigido para a sua realização é de extrema importância para a compreensão da organização social, visto que a partir desta divisão podemos extrair dados para analise a respeito do grau de educação, renda familiar e concentração de renda presentes em um determinado grupo ou setor da sociedade. Quanto maior o nível de trabalho qualificado, maior deve ser a oferta de mão-de-obra capacitada para a realização destas tarefas, o que influencia em políticas publicas especificas e uma transformação no nível de renda e padrão de consumo de uma determinada área.

5.2 Diferentes Visões sobre o Trabalho Trabalho e necessidades nas sociedades primitivas

Sociedades tidas como “primitivas” (ou tribais) não tem as mesmas razões para trabalhar que nós, capitalistas se é que entre elas se encontre algo parecido com aquilo que denominamos trabalho, ou até mesmo com a nossa concepção de vida. “Trabalham” para viver, para realizar festas, para presentear. Mas nunca mais que o estritamente necessário: o ato de trabalhar não é um valor em si, não é algo que tem preço, que se

oferece num mercado; não possui um momento especifico, ou local exato para ser realizado, ou seja, está inserido nas demais atividades sociais e é voltado para a satisfação do grupo. Como nas sociedades tribais tradicionais inexiste o conceito de propriedade privada, todo o excedente que é produzido por este processo é voltado para o todo da sociedade, não representando o intuito de acúmulo ou enriquecimento.

Trabalho e ócio no mundo greco-romano

O trabalho braçal na Grécia Antiga possuía, de forma geral, uma conotação extremamente pejorativa: só é homem por inteiro quem vive no ócio. Segundo Platão, uma cidade bem-feita seria aquela na qual os cidadãos fossem alimentados pelo trabalho rural de seus escravos e deixassem os ofícios para as camadas inferiores: a vida honrosa, de um homem de qualidade, deve ser ociosa. As únicas atividades dignas de serem exercidas pelos cidadãos seriam a política e a filosofia, pois estão voltadas ao todo da sociedade e são atividades intelectuais por sua própria essência. Para Aristóteles, escravos camponeses e negociantes não poderiam ter uma vida “feliz”, quer dizer, ao mesmo tempo próspera e cheia de nobreza: estas estariam reservadas apenas aqueles que têm os meios de organizar a própria existência e fixar para si mesmos um objetivo ideal. Apenas esses homens ociosos correspondem moralmente ao ideal humano e merecem ser cidadãos por inteiro. Segundo Aristóteles, “a perfeição do cidadão não qualifica o homem livre, mas só aquele que é isento das tarefas necessárias das quais se incubem servos, artesãos e operários não especializados; estes últimos não serão cidadãos, se a constituição conceder os cargos públicos à virtude e ao mérito, pois não se pode praticar a virtude levando-se uma vida de operário ou de trabalhador braçal.”. Aristóteles não quer dizer que um pobre não tenha meios ou oportunidades de praticar certas virtudes, mas sim que a pobreza é um defeito, uma espécie de vício e aqueles cidadãos livres deste vício estariam aptos ao exercício de cargos públicos e poderiam ser contemplados pela honra e sabedoria.

O trabalho na sociedade capitalista

Ao se analisar a questão do trabalho na sociedade capitalista, é importante deixar claro que não existe uma única sociedade capitalista, mas muitas, que se constituíram nas mais diversas regiões do planeta. Entretanto, o que elas tem em comum é a forma

como a produção material se desenvolve. Desse modo, o que as define como sociedades capitalistas é a propriedade privada, o trabalho assalariado, o sistema de troca com dinheiro e uma determinada divisão social do trabalho. Pode-se afirmar que o trabalho se transforma em força de trabalho quando se torna uma mercadoria que pode ser comprada e vendida. E, para que ele se transforme em mercadoria, é necessário que o trabalhador seja desvinculado dos meios de produção, ficando apenas com sua força de trabalho para vender. O trabalho assalariado existe desde a Antiguidade, mas não de maneira tão extensiva e dominante como no capitalismo. Vários foram os fatores que levaram a estas transformações. Os mais significativos foram o cercamento das terras e a expropriação dos camponeses, que permitiram tanto a liberação de terras para a produção de lã quanto a expulsão de milhares de pessoas sem trabalho nem terra para as cidades ambos fatores indispensáveis ao desenvolvimento da industria têxtil. Ou seja, se poderia dispor agora de muita matéria-prima e ao mesmo de um exército de pessoas sem posse alguma senão sua força de trabalho para vender, constituindo assim o principio da mão-de-obra capitalista. Se ocorreram mudanças na própria forma de produzir as mercadorias, alterando a divisão social do trabalho e toda a estrutura da produção, a forma de encarar o trabalho também foi modificada. A Reforma Protestante desenvolveu toda uma análise que alteraria o pensamento cristão sobre o trabalho, contrariando a visão do catolicismo, onde o lucro possuía um caráter negativo. Nessa nova visão, o trabalho aparece como o fundamento de toda a vida, constituindo uma virtude e um dos caminhos para a salvação. A profissão de cada um passa a ser vista, agora, como vocação, e a preguiça como uma coisa perniciosa e má, que se contrapõe à ordem natural do mundo; é neste contexto que ocorre a valorização do negócio (negação do ócio), pois uma vida plena só pode ser alcançada através do trabalho e de uma vida regrada e sem excessos. O trabalho passa a ser encarado como uma virtude, e, ao se trabalhar arduamente, pode-se chegar a ter êxito na vida material, o que é expressão das bênçãos divinas sobre os homens. Mas a riqueza gerada pelo trabalho, e depositada nas mãos de alguns homens, não deve ser utilizada para ostentação ou mesmo para os gastos sem necessidade. O cristão protestante deve levar uma vida ascética, de costumes simples, e

o que se pode poupar deve ser reinvestido no trabalho, dessa forma gerando mais

oportunidades para outros trabalharem. Nessa concepção, a riqueza em si não é condenável, mas sim aquilo a que ela pode levar, isto é, o não-trabalho, o desfrute ostentatório, a preguiça que ela pode causar. Nesse sentido, um dos pecados maiores passa a ser o tempo perdido em coisas improdutivas. O cristão tem o dever de trabalhar, pois quem não tem vontade de trabalhar inicia um processo que acabará em pecado e, portanto, na ausência de graça divina.

A mecanização da produção também teve papel fundamental nesse processo por revolucionar a maneira que as mercadorias são produzidas, não apenas por incorporar as habilidades dos trabalhadores, mas também porque os subordina à máquina. Eles devem apenas ligar a máquina, manuseá-la e regulá-la. A fonte de energia está fora deles. Há, então, uma separação muito clara entre a força motriz mecânica e a do homem. Este, agora, serve à máquina, ela o domina, dita o ritmo de trabalho. O trabalhador não necessita ter um conhecimento específico sobre algum ofício. Ele não precisa ter uma qualificação determinada. Sendo um operador de máquinas eficiente, será um bom e produtivo trabalhador. Como conseqüência destas transformações, as unidades produtivas concentram-

se cada vez mais nas mãos de uma pequena parcela de proprietários, o que leva a maior parte da população à submissão ao mercado de trabalho. A divisão do trabalho leva à fragmentação da atividade exercida e, por conseqüência, do conhecimento do trabalhador, que está atrelado a uma única atividade produtiva.

Tema 06 Émile Durkheim (1858-1917)

A teoria positivista, fundada pelo francês Auguste Comte, procura explicar as relações sociais a partir da aplicação da metodologia das ciências naturais à sociedade, criando assim as Ciências Sociais; segundo o também francês Émile Durkheim, os problemas sociais envolvendo trabalhadores e patrões (característica básica do capitalismo) devem ser resolvidos dentro da lei e da ordem, ou seja, o progresso só é possível pelo respeito às normas impostas pela sociedade (“Ordem e Progresso”).

6.1 Fatos Sociais

Para Durkheim, a sociedade constitui-se a partir de um conjunto de normas de ação, pensamentos e sentimentos que não existem apenas nas consciências dos indivíduos, mas são construídas exteriormente, isto é, fora das consciências individuais; desta maneira, o homem se defronta com regras de conduta que não foram criadas diretamente por ele, mas que existem e são aceitas na vida em sociedade, devendo ser obedecidas por todos. Sem elas, a sociedade não existiria, e é por isso que devem ser respeitadas. A partir deste conceito, Durkheim chama de Fato Social estas regras e normas coletivas que orientam a vida em sociedade. Estes fatos sociais possuem quatro características básicas: são gerais (devem ocorrer em todos os tipos de organização social), exteriores (é exterior ao indivíduo, ou seja, não são determinados por ele), coercitivos (são impostos pela sociedade ao indivíduo, e sua desobediência passível de punição) e anteriores (são mais antigos que todo e qualquer indivíduo). É justamente a educação o melhor exemplo de fato social: o individuo não nasce sabendo previamente as normas de conduta necessárias para a vida em sociedade; esta possui o dever de educar seus membros, fazendo com que aprendam as regras necessárias à organização da vida social. As gerações adultas transmitem aos mais novos aquilo que aprenderam ao longo de sua vida em sociedade. É desta maneira que ocorre a perpetuação do grupo social, juntamente com suas regras (fatos sociais) apesar da morte dos indivíduos. O que aprendemos na escola? Idéias, sentimentos e hábitos que não possuímos no momento em que nascemos, porém essenciais para a vida em sociedade: a linguagem, por exemplo, é aprendida, em grande parte, na escola. Ninguém nasce sabendo a língua do seu País. É necessário um aprendizado, que irá possibilitar uma comunicação satisfatória com seus semelhantes; sem o aprendizado da linguagem, a criança não poderia participar da vida em sociedade. Desta maneira, Durkheim afirma que é a sociedade, como uma coletividade, que organiza e controla as ações individuais. O indivíduo aprende a seguir normas e regras de ação que lhe são exteriores e coercitivas: as instituições sociais socializam o indivíduo, fazendo com que eles assimilem as regras e normas necessárias à vida comum. O fato social só pode ser definido, portanto, como algo socialmente feito, construído nas relações sociais.

6.2

Consciência Coletiva

É inegável o fato de que cada sociedade possui sua própria maneira de pensar e

agir. De entender a vida; assim, cada um de nós possui uma consciência individual que faz parte da nossa personalidade. Entretanto, esta não é a única forma de consciência:

existe também aquela formada pelas idéias comuns que estão presentes em todas as consciências individuais de uma sociedade. Essas idéias comuns formam a base para uma consciência de sociedade: uma primeira consciência que determina a nossa conduta e que não é individual, mas social e geral, denominada Consciência Coletiva. Podemos definir a consciência coletiva como um ótimo exemplo de fato social, pois não vêm de uma única pessoa, mas está difusa na sociedade: é, portanto, exterior ao indivíduo, representando o que a “sociedade pensa”. Por isso, a consciência coletiva age de forma coercitiva ao indivíduo, isto é, exerce uma autoridade sobre o modo de como o indivíduo deve agir no seu meio social. Observamos, desta maneira, que não é a consciência individual que determina as ações de uma pessoa; ao contrario, é a consciência coletiva que irá impor as regras sociais de uma determinada sociedade; isto ocorre porque o indivíduo, ao nascer, já encontra uma sociedade pronta e constituída com suas leis.

“(

)

não sou obrigado a falar o mesmo idioma que meus companheiros de pátria, nem empregar as

moedas legais; mas é impossível agir de outra maneira. Minha tentativa fracassaria lamentavelmente se

procurasse escapar desta sociedade. Se sou industrial, nada me impede de trabalhar usando processos técnicos do século passado; mas, se o fizer, terei a ruína como resultado inevitável. Mesmo quando posso

realmente libertar-me destas regras e violá-las com sucesso, vejo-me obrigado a lutar contra elas (

)”

(Émile Durkheim: As Regras do método Sociológico)

6.3 Tipos de Solidariedade

Segundo a teoria positivista, a base da sociedade capitalismo são as inter- relações existentes entre os indivíduos constituintes da sociedade; esta é uma diferença básica entre o positivismo e o materialismo histórico de Marx, que enxergava nas relações econômicas a base do convívio social. Podemos diferenciar, segundo Durkheim, dois tipos de solidariedade distintos, que serão expostas a seguir. 6.3.1 Solidariedade Mecânica.

É a união de pessoas decorrente de semelhanças quanto à religião, tradição ou

sentimentos; este tipo de união sufoca a individualidade, pois se a opinião de um membro diferir da opinião do restante do grupo ocorrerá um conflito interno e, como a

sociedade tende a seguir as opiniões gerais, a opinião individual acaba sendo excluída

em favor da predominância do consenso do grupo social, visando, desta maneira, a

coesão social do grupo. Por suprimir a participação individual, não pode ser

caracterizada como um tipo de solidariedade essencialmente capitalista.

6.3.2 Solidariedade Orgânica.

É a união dos indivíduos a partir da dependência que as pessoas possuem em

relação aos outros que fazem parte da sociedade em que vivem para realizar algum tipo

de trabalho social; este tipo de solidariedade é uma característica basicamente

capitalista, pois o que une as pessoas neste contexto não é uma crença em comum, mas

a interdependência das funções sociais, que é uma conseqüência da divisão do trabalho

social. Segundo Durkheim, este tipo de relação ressalta a individualidade, pois permite a

uma pessoa trabalhar sem a interferência de outros membros da comunidade.

Traços essenciais / Tipo de solidariedade

Mecânica

 

Orgânica

Princípio

de

Similitude (semelhança)

Diferenciação

Funcionamento

(especialidade)

Caracterização

da

Primitiva

 

Moderna

sociedade

 

Impregnação

na

Solidariedade coextensível

Cada qual é livre para crer, querer e agir segundo suas próprias preferências; menor intensidade, mas maior permissividade no corpo social.

consciência coletiva

a

toda

a

existência;

exprimisse

com

muita

força devido

ao

rigor

crescente

dos

castigos

infligidos

àqueles

que

violam as proibições.

 

Tema 07

Karl Marx (1818 - 1883)

Karl Marx propõe-se a explicar a sociedade capitalista através da análise das

relações de trabalho entre patrões e empregados, ou seja, exploradores e explorados.

Suas percepções acerca da vida social fundamentam-se na análise de fatos concretos, o

que permitiu ao autor estabelecer leis de mudança social, reconhecendo a historicidade

dos fenômenos sociais.

7.1 Materialismo Histórico (Determinismo Econômico)

As relações sociais são as relações de produção que correspondem a um grau de desenvolvimento de suas forças produtivas materiais. O conjunto dessas relações constitui a estrutura econômica da sociedade, a base concreta sobre a qual se eleva uma superestrutura jurídica e política, e à qual correspondem formas de consciência social (ver infra-estrutura e superestrutura). Toda sociedade define-se, primeiramente, pelas estruturas que permitem aos homens viverem materialmente. O moinho da época feudal implicou necessariamente a

presença do suserano, ao passo que a máquina a vapor acompanhou o desenvolvimento do capitalismo industrial; o inverso não seria possível. Tais estruturas formam, portanto, um “sistema”, o modo de produção, que se divide em forças produtivas e relações de produção. As forças produtivas compreendem o conjunto dos recursos materiais

(energia, matérias-primas, máquinas

disponíveis em uma determinada sociedade. As relações de produção definem-se como as relações de propriedade e de controle das forças produtivas; é a partir destas relações que ocorre a existência de classes sociais com interesses antagônicos. A sucessão dos diferentes modos de produção traduz-se pelo desenvolvimento das forças produtivas, cada vez mais socializadas, e pela miséria crescente de muitos. Tamanha ampliação da riqueza coletiva, contudo, é incompatível com a pauperização da maior parte da sociedade, o que apresenta reflexos nas instituições sociais. Segundo Engels, a origem da família esta relacionada à necessidade da criação de um instrumento que permitisse a transmissão dos bens materiais, necessidade esta ligada ao processo de generalização da propriedade privada nas comunidades humanas. Na lógica capitalista de trabalho, todos os indivíduos precisam consumir e serem consumidos simultaneamente, o que nos leva ao determinismo econômico: todos os aspectos da vida do indivíduo (aspirações sociais, estilo de vida e consumo, etc), são determinados pela economia, incluindo suas ações e sua consciência social. Marx desenvolve, também, uma ampla crítica sobre as noções de liberdade e igualdade do pensamento liberal. Um dos pilares de sua teoria é a afirmação de esta liberdade, no capitalismo, é apenas a liberdade de compra e venda, o que justifica as relações capitalistas baseadas especialmente na necessidade de uma circulação cada vez maior de mercadorias e capitais, propiciando o maior enriquecimento de uma pequena parcela da sociedade: a burguesia. Neste contexto, Marx afirma que o capitalismo

e

)

)

humanos

(mão-de-obra,

qualificação

expressa e defende os interesses de uma determinada classe social e não da sociedade como um todo. Desta maneira, a sociologia marxista encontra dentro da organização econômica capitalista os fundamentos das desigualdades sociais. Estas desigualdades manifestam- se na forma de apropriação econômica e dominação política, ou seja, é uma organização onde uma classe produz e a outra se apropria do produto deste trabalho; segundo Marx, a classe dominante é a proprietária dos meios de produção (burgueses) enquanto que a classe dominada é impedida de ser proprietária destes, podendo apenas vender sua mão-de-obra (proletários). Desta maneira, é a dominação que garante a manutenção e a reprodução dessas condições desiguais.

7.2 Superestrutura/Infra-estrutura

A sociologia marxista gira em torno de dois conceitos: a infra-estrutura, composta pelos meios materiais de produção (meios de produção e força-de-trabalho), e a superestrutura, que compreende as esferas política, jurídica e religiosa, ou seja, as instituições responsáveis pela produção ideológica (formação das idéias e conceitos) da sociedade. Segundo a sociologia marxista, a superestrutura é determinada pela infra- estrutura, ou seja, a maneira na qual a economia de uma sociedade é organizada irá influenciar nas ideologias presentes na sociedade. Tudo o que não pertence à esfera da produção de mercadorias (infra-estrutura) pertence ao que Marx chama de superestrutura (instituições jurídicas e políticas, representações mentais, etc); segundo o autor, as relações jurídicas não podem ser entendidas em si mesmas: encontram suas raízes nas condições de existência material de uma sociedade. Deste modo, a análise da religião como “ópio do povo” segue esta mesma linha, ou seja, as instituições políticas são instrumentos a serviço da reprodução da estrutura de classes, seja ela qual for.

“O resultado geral a que cheguei e que, uma vez obtido, serviu-me de fio condutor aos meus estudos pode ser formulado em poucas palavras: na produção social da própria vida, os homens contraem relações determinadas, necessárias e independentes de sua vontade, relações de produção estas que correspondem a uma etapa determinada de desenvolvimento de suas forças produtivas materiais. A totalidade destas relações de produção forma a estrutura econômica da sociedade, a base real sobre a qual se levanta uma superestrutura jurídica e política, e á qual correspondem formas sociais determinadas de consciência. O modo de produção da vida material condiciona o processo em geral da vida social, político e espiritual. Não é a consciência dos homens que determina o seu ser, mas, ao contrário, é o seu ser social que determina sua consciência. Em certa etapa do seu desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade entram em contradição com as relações de produção existentes.

Sobrevém então uma época de revolução social. Com a transformação da base econômica, toda a enorme superestrutura se transforma.” (Karl Marx: “Para a crítica da economia política.”)

7.3 A Mercadoria

Marx apresenta a sociedade capitalista como um grande depósito de mercadorias; neste sistema, as relações sociais são baseadas nas trocas comerciais. O sistema de trocas é essencial para a vida em sociedade, pois é impossível um só homem produzir todos os bens de consumo de que necessita, dado que a exigência humana, para a plena satisfação da vida, é grande e variada. Para resolver este problema, as pessoas trocam entre si os produtos que necessitam para viver. O grande problema deste processo é determinar o valor de cada produto. Na troca simples de mercadorias, o que determina este valor é o tempo de trabalho socialmente gasto para sua produção. É neste contexto que aparece o dinheiro, que possui a função de equivalente geral das mercadorias, ou seja, o dinheiro é uma mercadoria aceita por todos os membros da sociedade. Este processo pode ser representado pela equação MERCADORIA -> DINHEIRO -> MERCADORIA. A função do dinheiro, portanto, nada mais é do que facilitar a troca de mercadorias entre os indivíduos; outra característica das mercadorias é que possuem dois tipos distintos de valores: Valor de Troca (capacidade de ser trocada, valor monetário) e Valor de Uso (utilidade, importância dentro de uma sociedade). O processo de transição do mercantilismo (acúmulo de metais) para o capitalismo (acúmulo de capitais) é representado pela mudança do setor em que a acumulação de bens ocorre. Enquanto que no mercantilismo a acumulação ocorre através do comércio (troca de mercadorias), no capitalismo a acumulação, e o conseqüente enriquecimento de uma parcela da sociedade, é baseada na indústria (produção de mercadorias); é esta mudança que proporciona, segundo Marx, o surgimento do proletariado e a maior exploração dos proprietários dos meios de produção em relação aos trabalhadores

7.4 Classes Sociais

Segundo Marx, na sociedade capitalista as relações sociais de produção definem dois grandes grupos dentro da sociedade: de um lado, os capitalistas, que são aquelas pessoas que possuem os meios de produção, necessários para transformar a natureza em mercadorias; do outro, os trabalhadores, também chamados de proletários, aqueles que

nada possuem, além de seu corpo e sua disposição para trabalhar. A produção na sociedade capitalista só se realiza porque capitalistas e proletários entram em relação: o capitalista paga ao trabalhador um salário para que trabalhe para ele e, no final da produção fica com o lucro; este tipo de relação leva à exploração do proletário pelo capitalista, pois o valor recebido é menor do que o valor produzido por este trabalhador. Assim, surgem conflitos dentro da sociedade entre estas duas classes conflito que não pode ser resolvido dentro da lógica capitalista. Assim, o conceito de classe em Marx estabelece um grupo de indivíduos que ocupam uma mesma posição nas relações de produção em determinada sociedade. A classe a que pertencemos é que condiciona, de maneira decisiva, nossa atuação social. No exemplo de uma greve, patrão e empregado podem possuir relações amistosas, porem, quando uma greve ocorre, observamos um conflito entre duas classes; patrão e empregado ficam em lados opostos, pois pertencem a classes diferentes e possuem interesses divergentes. Nesse sentido, é especialmente a situação de classe que condiciona a existência do indivíduo e sua relação com o resto da sociedade: podemos compartilhar idéias e comportamentos com indivíduos de outras classes, mas no momento do conflito as diferenças irão aparecer de acordo com a classe em que pertencemos.

7.5 A Formação do Capital

Se no mercantilismo (primeira fase do modo de produção capitalista) a principal forma de acumulação de capital é a realização das trocas de mercadorias (Comércio), o capitalismo industrial baseia-se na produção de mercadorias (Indústria). Neste processo, a finalidade é incentivar a circulação de mercadorias agregando valor ao produto, aumentando o capital utilizado como investimento; o lucro do empresário, entretanto, não provém das trocas comerciais já que todas as mercadorias possuem valor agregado; desta maneira, o aumento da quantidade de capital não nasce

no

momento da troca, e sim no momento em que ocorre a Produção das Mercadorias.

O

burguês (proprietário do meio de produção) só pode aumentar o valor de uma

mercadoria acrescentando a esta mercadoria maior quantidade de trabalho: por exemplo, para aumentar o valor do produto couro, acrescenta trabalho e transforma este produto em um par de sapatos, aumentando o valor do produto. É esta lógica que impulsiona o processo de desenvolvimento das indústrias a partir da segunda metade do século XIX na Europa.

Mercantilismo

M

M D M´ Mercadoria Diferente

D

M D M´ Mercadoria Diferente

Mercadoria Diferente

Mercadoria

Dinheiro

Capitalismo Industrial

 

D

M

Dinheiro

Dinheiro Mercadoria Mais-Dinheiro

Mercadoria

Dinheiro Mercadoria Mais-Dinheiro

Mais-Dinheiro

7.6 Mais-Valia

Para a sociologia marxista, é no momento em que o burguês compra a força-de- trabalho de seu empregado que nasce o processo de exploração capitalista: o empregador, ao pagar os salários, nunca paga a estes o que realmente produziram. Desta maneira, o burguês enriquece pois o trabalhador produz muito mais do que recebe; esta diferença é apropriada pelo burguês, constituindo-se o lucro que caracteriza o que Marx chama de Mais-Valia. É esta mais-valia que caracteriza o capital, pois parte dela é reempregada no processo de acumulação capitalista na forma de novas máquinas para aumentar a produção de mercadorias ou na contratação de novos funcionários.

Tema 08 Max Weber (1864-1920) Na obra A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo,

Tema 08 Max Weber (1864-1920)

Na obra A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, a intenção de Weber não é tanto analisar o nascimento e desenvolvimento do capitalismo enquanto sistema econômico. Trata-se mais de compreender o encadeamento de forças e de idéias que permitiu a emergência desse motor: o “espírito do capitalismo”. Este retira sua legitimidade da ética protestante e empresta sentido à história dos homens. O capitalismo moderno não apenas modifica as relações econômicas e sociais, mas ainda inventa uma nova ética que derrubará as práticas tradicionais e permitirá o surgimento de forças produtivas sem equivalentes na história da humanidade.

8.1 O “Espírito” do Capitalismo

Uma ordem social internaliza-se no corpo social com seu sistema de coações e

constrangimentos que permitem sua reprodução. O que parece “sensato” a uma época

não o é mais na época seguinte. O significado das palavras incorpora-se em novas

práticas, sendo que essas modificam os significados originais dos termos; o processo

que aqui nos interessa está ligado ao fortalecimento do capitalismo acompanhado das

mudanças provenientes das Reformas Protestantes.

Tratava-se de favorecer uma nova ética, no sentido de regras morais coercitivas e

absolutas que devem apoderar-se de todos os aspectos e de todos os momentos da vida

cotidiana. Esse novo éthos questionou o sistema de valores tradicionais (representados

pela moral católica dominante durante a Idade Média). Pareceram “insensatos” e um

abandono do dever os comportamentos que faziam das recompensas materiais obtidas

pelo trabalho uma finalidade em si mesma. Desse momento em diante, era preciso viver

para trabalhar e não mais trabalhar para viver:

“Na verdade, essa idéia particular, hoje para nós tão familiar, mas na verdade muito pouco evidente, de que o dever se cumpre no exercício de um ofício, de uma profissão, é característica da ética social da civilização capitalista, em certo sentido, ela é o seu próprio fundamento”

(Weber, 1902). Essa idéia permitiu um desvio das energias que passaram a ser investidas em

atividades outrora pouco valorizadas, como o comércio e o enriquecimento através

deste. Uma nova coerência instalou-se e, partindo de minorias ativas, atingiu pouco a

pouco todas as camadas da sociedade.

8.2 Ética protestante e o moderno espírito capitalista.

Para começar a construção do que vai entender por espírito do capitalismo, no início

do capítulo II de A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, Weber cita a

autobiografia de Benjamin Franklin, pois considera que ela representa o espírito do

capitalismo com a vantagem de ser livre de qualquer relação direta com a religião.

Neste documento, Weber nota que não é pregado apenas um meio de fazer a própria

vida, mas uma ética peculiar, que não é um mero bom senso comercial e sim um ethos,

ou seja, uma ética que regula toda a vida social. A infração de suas regras não é tratada

como uma tolice, mas como um esquecimento do dever.

Tal ética vai sendo construída pelo ganhar mais e mais dinheiro combinado com

o afastamento estrito de todo prazer espontâneo de viver. Assim, a aquisição econômica

não está mais subordinada ao homem como um meio para a satisfação de suas

necessidades materiais. Há, a partir de então, uma inversão desta “relação natural” e isso

consiste no princípio guia do capitalismo. O ganho de dinheiro na moderna ordem

econômica é expressão da virtude e da eficiência em certo caminho. “Virtude” e

“eficiência” são chaves na ética construída por Benjamin Franklin, e daí surge à idéia do

dever do indivíduo em relação a sua carreira base fundamental da ética social da

cultura capitalista.

Weber coloca que um dos elementos fundamentais do espírito do capitalismo

moderno, e não só dele (capitalista) mas de toda a cultura moderna, é a conduta racional

baseada na idéia de vocação, nascida do espírito do ascetismo cristão. O autor coloca

que o puritano quis trabalhar no âmbito da vocação e fomos todos forçados a segui-lo.

O ascetismo introduziu-se na vida cotidiana formando a moderna ordem econômica. Tal

ordem está atualmente ligada às condições técnica e econômica da produção pelas

máquinas, que determina fortemente a vida de todos os indivíduos nascidos sob este

regime.

Desenvolvimento do ascetismo protestante

sob este regime. Desenvolvimento do ascetismo protestante Valorização do Trabalho Diminuição do consumo supérfulo

Valorização do Trabalho

Diminuição do consumo supérfulo ou ostentatório (o “uso irracional das posses” é condenado)

Alta dos Lucros

irracional das posses” é condenado) Alta dos Lucros Crescimento do Investimento Aumento da Poupança

Crescimento do Investimento

Aumento da Poupança

dos Lucros Crescimento do Investimento Aumento da Poupança Intensificação do processo de acumulação do capital e,

Intensificação do processo de acumulação do capital e, portanto, desenvolvimento do capitalismo

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Para Pensar

Para Pensar 46

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