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REFLEXÕES ACERCA DA INSERÇÃO EM CAMPO E MILITANTE NAS

CONFERÊNCIAS DE POLÍTICAS PARA MULHERES E LGBT 1

Anahi Guedes de Mello 2 - UFSC

RESUMO

Vários autores sugerem a necessidade de pensar a questão da subjetividade do pesquisador como um elemento significativo e constitutivo de toda pesquisa etnográfica, merecendo esse tema um lugar específico na teoria antropológica. Este trabalho tem como objetivo refletir sobre os limites e as possibilidades de pesquisar aquilo em que se está profissional, emocional e existencialmente implicado, sobretudo quando a pesquisadora está inserida em um contexto que envolve a sua participação em redes e organizações sociais. Baseando-se na experiência da pesquisadora com os estudos feministas e em sua inserção em campo e militante nas conferências municipais, estaduais e nacionais de políticas para as mulheres e a população LGBT durante o ano de 2011, esse estudo propõe uma reflexão sobre as relações do pesquisar com o militar e seus desdobramentos teóricos e metodológicos. Os reflexos desses deslocamentos têm relação com o triplo lugar da pesquisadora em situações de trabalho de campo e de participação militante: ser mulher com deficiência, ativista dos movimentos da deficiência e LGBT e acadêmica envolvida em diversas investigações relacionadas ao tema da deficiência, em especial àquelas que se propõe a articular deficiência com a categoria de gênero.

Palavras-chave: Trabalho de Campo; Militâncias; Sujeitos Políticos.

Introdução

Vários trabalhos como os de DaMatta (1978), Grossi (1992), Velho (2002),

Cardoso de Oliveira (2006), dentre outros, sugerem a necessidade de pensar a questão

da subjetividade do/a pesquisador/a como um elemento significativo e constitutivo de

toda pesquisa etnográfica, merecendo esse tema um lugar específico na teoria

antropológica. Em outras palavras, “pensar a relação entre o antropólogo e seus

informantes em campo como central na construção de etnografias, conceitos e teorias na

Antropologia” (GROSSI, 1992, p. 07). Os artigos das coletâneas organizadas por Grossi

(1992) e por Bonetti & Fleischer (2007a) são exemplos de trabalhos que seguem esta

1 Trabalho apresentado na 28ª Reunião Brasileira de Antropologia, realizada entre os dias 02 e 05 de julho de 2012, em São Paulo, SP, Brasil. 2 Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal de Santa Catarina (PPGAS/UFSC), pesquisadora vinculada ao Núcleo de Identidades de Gênero (NIGS) e Subjetividades e ao Núcleo de Estudos sobre Deficiência (NED), ambos na mesma universidade. Atualmente desenvolve sua dissertação de mestrado sobre o tema das violências contra mulheres com deficiência.

proposta instigante e inovadora. Igualmente importantes são os trabalhos que refletem sobre as fronteiras entre academia e militância nas Ciências Sociais, em especial na Antropologia (e em particular, na Antropologia Feminista 3 ), como os de Pontes (1993), D’Andrade (1995), Goldenberg (2004), Vale de Almeida (2004), e os das coletâneas organizadas por Cardoso (1986) e por Bonetti & Fleischer (2007b), dentre outros.

Estas reflexões têm como ponto de partida a minha experiência individual com o campo dos estudos feministas e a inserção em campo e militante nas conferências municipais, estaduais e nacionais de políticas para as mulheres e a população LGBT durante o ano de 2011. O que me motivou a elaborá-las foram as situações etnográficas 4 (OLIVEIRA, 2004) deflagradas no trabalho de campo nas conferências estaduais, governamental e nacional de políticas para as mulheres ou mesmo durante o processo de construção do objeto, de modo que, comparativamente à minha participação militante nas conferências LGBT, implicaram no enfrentamento de questões éticas referentes ao estranhamento e distanciamento crítico que precisa ser feito. Nesse sentido, esse estudo propõe uma reflexão sobre as relações do pesquisar com o militar e seus desdobramentos teóricos e metodológicos, já que se trata de uma mulher com deficiência 5 com grande inserção e posição de liderança nos movimentos sociais pelos direitos das pessoas com deficiência (e LGBT) pesquisando o mesmo segmento, ou seja, mulheres com deficiência. O objetivo é refletir sobre “os limites e as possibilidades de pesquisar aquilo em que se está profissional, emocional e existencialmente implicado” (SILVA, 2007, p. 99), sobretudo, quando a pesquisadora está inserida em um contexto que envolve a sua participação em redes e organizações sociais nacionais e internacionais relacionadas aos direitos das pessoas com deficiência e LGBT 6 , em que as relações de poder entre pesquisadora e pesquisadas/os e as possibilidades de agência estão imbricadas em uma variedade de “posições de sujeito” (BUTLER, 1998; MOUFFE, 1999), articuladas e fundadas principalmente na intersecção entre as

3 Para os propósitos deste trabalho, ver, especialmente, o artigo de Bonetti (2007), “Antropologia feminista: o que é esta antropologia adjetivada?”, onde a autora discute e reflete sobre a origem e o caráter marcantemente engajado da Antropologia Feminista brasileira.

4 Segundo Oliveira (2004, p. 16), “o campo precisa ser entendido enquanto uma verdadeira “situação

onde os atores interagem com finalidades múltiplas e complexas, partilhando (ainda que

com visões e intenções distintas) de um mesmo tempo histórico”. 5 Tenho surdez congênita, neurossensorial bilateral total. Surda oralizada, desde janeiro de 2003 sou usuária de implante coclear, uma prótese computadorizada cirurgicamente implantada na cabeça, cumprindo as funções da cóclea danificada na captação e envio de informações sonoras para o córtex cerebral auditivo. 6 Esse multi-engajamento configura-se naquilo que Alonso (2009) chama de “ativismo transnacional”.

etnográfica” [

],

categorias de gênero, orientação sexual e deficiência, influenciando na produção dos discursos etnográficos. Para Mouffe (1999), as diversas posições de sujeito constituem identidades múltiplas, contraditórias e não fixas, em permanente transformação, marcadas por uma multiplicidade de discursos “entre os quais não tem a haver necessariamente relação, mas um movimento constante de super-determinação e deslocamento” (ibidem, p. 32), no contexto de uma variedade de experiências sociais.

Para desenvolver estas reflexões, alinho-me com a proposta de Donna Haraway (1995) de que somente o posicionamento crítico é capaz de produzir objetividade na pesquisa. Para essa autora, racionalidade e objetividade são temas sensíveis ao poder, porquanto “o feminismo tem a ver com uma visão crítica, consequente com um posicionamento crítico num espaço social não homogêneo e marcado pelo gênero. A tradução é sempre interpretativa, crítica e parcial” (ibidem, p. 31-32).

O presente trabalho, de forma a permitir uma melhor estruturação e diálogo entre teoria e dados de campo, está dividido em três partes: na primeira, procuro brevemente situar de que lugar vem minha trajetória acadêmica e militante nos estudos de gênero e feminismo; na segunda, apresento alguns dados empíricos, relativos à minha participação nas conferências de políticas para as mulheres e a população LGBT; e na terceira constam as considerações finais.

1. Contextualizando os trânsitos entre militâncias e academia

Ingressei no curso de graduação em Ciências Sociais da UFSC em 2006 quando já era militante, vinda de uma área das Ciências Exatas da mesma universidade, Química, que eu viria a abandoná-la em parte justamente por causa da militância. Transitei/transito por várias militâncias em distintos momentos da minha trajetória pessoal: da “militância surda” em 1992 à “militância da deficiência” em geral, a partir de 1998 como estudante de Química, e desta para o ativismo LGBT já como acadêmica de Ciências Sociais. O resultado de todos esses trânsitos é que procuro, atualmente, dialogar e aproximar esses dois movimentos, da deficiência e LGBT, com as demandas e pautas feministas, tendo como referencial teórico introdutório o texto da antropóloga

Debora Diniz (2003), intitulado “Modelo Social da Deficiência 7 : a crítica feminista”. Meu interesse na perspectiva feminista da deficiência deve-se ao fato dos estudos sobre deficiência pautarem-se nas mesmas bases teórico-epistemológicas dos estudos de gênero e feminismo, posto que:

considerava-se imoral a desigualdade e lutava-se contra a opressão. A

analogia entre a opressão do corpo deficiente e o sexismo era um dos pilares que sustentavam a tese dos deficientes como minoria social. Assim como as mulheres eram oprimidas por causa do sexo, os deficientes eram oprimidos por causa do corpo com lesões – essa era uma aproximação argumentativa que facilitava a tarefa de dessencializar a desigualdade. (DINIZ, 2007, p. 58-

] [

59)

Por isso, a exemplo da dicotomia sexo(natureza)/gênero(cultura) presente nos estudos de gênero, o modelo social da deficiência fez o mesmo, ao separar lesão de deficiência, resultando na dicotomia lesão(natureza)/deficiência(cultura): “lesão, para o modelo social da deficiência, é o equivalente, nos estudos de gênero, a sexo. E assim como o papel de gênero que cabe a cada sexo é resultado da socialização, a significação da lesão como deficiência é um processo estritamente social” (DINIZ, 2003, p. 02). Essa constatação implica, portanto, na relevância da reflexão da deficiência como uma categoria analítica fundamental para os estudos feministas e de gênero.

Ao questionar as razões da exclusão da dimensão da deficiência por parte do feminismo, López González (2007) aponta ao menos três temas em que a questão da deficiência, em particular das mulheres com deficiência, põe-se em confronto com a epistemologia feminista, explicando a ausência de estudos sobre as mulheres com deficiência nas análises teóricas, ações e pautas feministas: a imagem social da deficiência em contraste com o modelo de mulher na perspectiva feminista, o desacordo em torno de questões sobre a liberdade reprodutiva e prevenção, e a atenção na comunidade. Prossegue a autora afirmando que apesar dessas divergências, em muitos sentidos os estudos caminham "em orientações confluentes por parte das duas correntes de análise teórica e ativismo político implicadas: feminismo e movimento da deficiência" (idem, ibidem, p. 142). Para essa autora, é justamente o fato de existirem

7 Há dois “modelos clássicos” da deficiência, o modelo médico e o modelo social, posto que Pfeiffer (2002) distingue 10 modelos ou paradigmas da deficiência. Em linhas gerais, no modelo médico o foco se centraliza na deficiência da pessoa, objetivando-se a cura ou medicalização do corpo deficiente. No modelo social, a deficiência é vista como o resultado da interação entre um corpo com impedimentos de natureza física, intelectual, mental ou sensorial e um ambiente incapaz de acolher as demandas arquitetônicas, informacionais, programáticas, comunicacionais e atitudinais que garantiriam condições igualitárias de inserção e participação social às pessoas com deficiência.

pessoas que participam como acadêmicas e ativistas em ambas as correntes e movimentos e, portanto, veem-se implicadas pessoalmente ora como mulheres ora como pessoas com deficiência nesses debates, o que impulsiona o desenvolvimento de novos enfoques de investigação e novas interpretações sobre a complexa e multifacetada realidade das mulheres com deficiência. Como mulher com deficiência, eu me vi teórica, emocional e existencialmente implicada nos debates envolvendo os dois campos, os estudos feministas e os estudos sobre deficiência, a ponto de optar, no âmbito da UFSC, pelo vínculo a dois espaços acadêmicos privilegiados, o Núcleo de Identidades de Gênero e Subjetividades (NIGS), do Departamento de Antropologia e pioneiro em pesquisas sobre gênero e violências (GROSSI; MINELLA; LOSSO, 2006), e o Núcleo de Estudos sobre Deficiência (NED), este último vinculado ao Departamento de Psicologia. Como inexiste uma maciça presença da dimensão da deficiência nos estudos feministas e de gênero, nada mais "natural" do que eu seguir a escola de orientação feminista dos estudos sobre deficiência, a partir do uso de ferramentas analítico-metodológicas da Antropologia.

2. “Posso tirar foto com você?”: da inserção em campo nas conferências de políticas para mulheres à participação militante nas conferências LGBT

Minha participação nas conferências 8 de políticas para as mulheres e a população LGBT esteve entrelaçada a dois papeis sociais distintos: o de pesquisadora e o de delegada/ativista. Como delegada, participei da III Conferência Municipal da Mulher de Florianópolis, da I Conferência Municipal de Políticas Públicas e Direitos Humanos de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros de

8 As conferências são um espaço legítimo de interlocução entre o Estado brasileiro e a sociedade civil, a partir da participação direta da sociedade nos processos decisórios, através de instrumentos jurídicos e políticos que permitem a intervenção direta em todas as questões que dizem respeito aos interesses da população brasileira. Acontecem a cada dois anos e são convocadas pelos conselhos nacionais de cada área, para que decidam e definam a política pública do segmento. Suas decisões têm caráter político- deliberativo e para que as propostas aprovadas em plenária tenham de fato validade, precisam ser respeitadas pelos conselhos e transformadas, do ponto de vista jurídico, em resoluções para que possam ser cumpridas pelo governo durante os processos de elaboração das políticas públicas de forma geral e de definição orçamentária. Porém nem sempre a realização dessas conferências se deu dessa forma, elas começaram a ganhar destaque somente a partir do governo Lula, em número de convocações e na natureza dos processos de participação, haja vista que nos governos anteriores as poucas conferências realizadas eram organizadas apenas pela sociedade civil, com o governo atuando como mero espectador, contrariamente ao governo Lula e o atual governo Dilma, em que há também a participação governamental (MORONI, 2005).

Florianópolis, da II Conferência Estadual de Políticas Públicas e Direitos Humanos da População LGBT de Santa Catarina, em Florianópolis/SC, e da II Conferência Nacional de Políticas Públicas e Direitos Humanos de LGBT, em Brasília/DF. Nessas conferências atuei como delegada representando não uma organização não governamental (ONG), mas um núcleo de pesquisa, o próprio NIGS 9 . Como pesquisadora, integrei a equipe do NIGS no projeto de pesquisa “Um Estudo

Interdisciplinar sobre o II Plano Nacional de Políticas para as Mulheres (II-PNPM) e a

III Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres (III-CNPM)”, coordenado pela

Profª Drª Miriam Pillar Grossi, observando as seguintes conferências: III Conferência Estadual de Políticas para as Mulheres de Santa Catarina, em Florianópolis/SC, III Conferência Estadual de Políticas para as Mulheres da Bahia, em Salvador/BA, II Conferência Governamental de Políticas para as Mulheres, em Brasília/DF, e III Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres, novamente em Brasília/DF. O objetivo desse estudo foi analisar o desenho institucional do II-PNPM, suas estratégias

de gestão e implementação, bem como identificar o processo político da III-CNPM,

com ênfase nos avanços e desafios da implementação do II-PNPM.

A primeira tensão advinda dessa mistura de papeis veio de um e-mail de minha orientadora, Profª Miriam Grossi, convocando-me para integrar a equipe do NIGS que observaria a III Conferência Estadual de Política para Mulheres de Santa Catarina, em Florianópolis, haja vista que eu era delegada suplente dessa conferência e poderia assumir a posição de titular a qualquer momento. Miriam deu liberdade para eu escolher entre atuar como pesquisadora ou como delegada, mas ponderou que caso fosse eleita para a etapa nacional da conferência, não poderia participar da equipe de observadoras/es do NIGS, justamente pelas implicações éticas desse duplo papel. Assim, pediu que eu atuasse na equipe como pesquisadora. Resolvi que decidiria sobre

isso assim que chegasse no hotel, onde se realizaria a conferência. Bolei uma estratégia

no mínimo inusitada para ir à conferência preparada ora como pesquisadora, ora como delegada:

“Após tomar brevemente meu café da manhã, resolvi descer mais uma vez. Falei com uma pessoa da organização sobre a minha condição de pesquisadora do NIGS e delegada suplente pelo município de Florianópolis,

9 Embora na III Conferência Municipal da Mulher de Florianópolis eu tenha representado o Instituto de Estudos de Gênero (IEG/UFSC), o NIGS é um dos vários núcleos de pesquisa sobre gênero da UFSC vinculados ao IEG.

avisando que estaria à disposição delas em caso de falta da titular. Ficou combinado que eu esperaria por essa definição até as 14h do dia, horário- limite para que as delegadas titulares eleitas em seus respectivos municípios se inscrevessem para concorrer à etapa nacional. Precisei esclarecer essa questão para evitar qualquer problema no decorrer da conferência sobre o meu “duplo lugar” na conferência, isto é, de pesquisadora e ativista/delegada suplente. Inclusive, seriedades ou brincadeiras à parte, já vinha à conferência preparada para qualquer surpresa ou “emergência” nesse sentido: como os/as demais colegas, eu estava portando a mesma camiseta roxa com a logomarca “NIGS 20 anos” em cor verde, que identificava nossa condição de pesquisadoras/es naquele espaço, ao mesmo tempo em que por baixo dela portava outra camiseta, pessoal, estilo regata, mais fina e de cor lilás, que identificaria meu papel ativista e só seria “acionada” caso eu precisasse tirar a primeira a qualquer momento.” (Diário de Campo, 21/10/2011).

No fim, diante das oportunidades acadêmicas para observar também os movimentos de mulheres com deficiência de diferentes partes do Brasil, segmento este alvo de minha pesquisa de mestrado, acabei abdicando de meu papel de delegada para atuar como pesquisadora. Mesmo assim, particularmente nos espaços da conferência estadual de Santa Catarina, meu estado, e da conferência nacional, em vários momentos fui reconhecida mais como militante do que como pesquisadora por algumas das delegadas ali presentes, a partir da frase mais recorrente “Posso tirar uma foto com você?”. Outras expressões frequentes dirigidas a mim eram: “Você é famosa!”, “Você vai se candidatar delegada para a nacional?”. Fiquei mais surpresa com os pedidos de fotos, supondo já saberem quem eu era, apesar de nunca tê-las visto na vida. Depois soube que elas sabiam muito de mim, eu era conhecida em suas terras devido à minha participação, em 2005, em um documentário sobre o delicado tema da violência sexual infanto-juvenil intrafamiliar. Ou seja, para além de pesquisadora e ativista, tratava-se de uma mulher com deficiência que no passado denunciou situações de violências vividas durante a sua trajetória de vida 10 . A outra explicação para o imediato reconhecimento da condição militante deve-se à presença, nessas conferências, de delegadas que são parte integrante da minha base ativista, tanto as do movimento de mulheres com deficiência

10 Logo após minha entrada nas Ciências Sociais, meu momento para este tema tem sido o de me posicionar desde um outro lugar, a de alguém que hoje é capaz de perceber com muito mais complexidade o fenômeno da violência de gênero. Por outro lado, sei também que por mais que eu faça um esforço para separar esses papeis, na verdade, eles se entrelaçam, ganhando em cada momento um peso distinto, sem precisar recorrer a detalhes do processo, dizer apenas a essência do que tem que ser considerado na análise do fenômeno, exatamente para que prevalecessem minhas escolhas teórico- metodológicas.

quanto as do movimento LGBT 11 . Especialmente entre as delegadas integrantes do movimento de mulheres com deficiência, vivenciei alguns momentos de “saia justa”, porque uma delas pediu a minha participação direta, claramente como ativista, na manifestação das “Mulheres Defis Vadias” 12 , em alusão à Marcha Mundial das Vadias, protestando contra todas as formas de violência sexista, assim como o meu apoio aos protestos referentes à falta de acessibilidade física nos quartos dos hotéis para mulheres com deficiência física e de acessibilidade à comunicação e à informação para mulheres com deficiência sensorial no próprio espaço da conferência nacional de mulheres:

“Nesse momento uma representante da Secretaria Nacional de Promoção dos

Direitos da Pessoa com Deficiência me chamou para avisar da reunião com uma representante da Secretaria de Políticas para Mulheres com as mulheres com deficiência durante o almoço, no próprio local onde estavam servindo. Retirei-me do auditório, rumo à reunião. Cheguei lá e a reunião já estava acontecendo. Dirigi-me a uma colega de meu ativismo, perguntando-lhe qual era a pauta do momento. Ela me mostrou quem era a representante da SPM

que estava nesse momento conosco. [

as reclamações de todas as delegadas com deficiência ali presentes, relacionadas aos problemas de acessibilidade, envolvendo desde o transporte, o direito de ir e vir (rotas acessíveis) do hotel até o Centro de

Convenções e vice-versa, passando pela falta de hotéis com quartos e banheiros acessíveis para cadeirantes, até os problemas relativos à acessibilidade comunicacional para as mulheres surdas e as mulheres cegas ou com baixa visão. Praticamente todas falaram de suas queixas individuais e demandas por acessibilidade relacionadas à sua condição de deficiência. Até eu fui convidada a me apresentar como surda e dar minha queixa sobre a

falta de legenda. Na reunião a maioria das presentes eram mulheres com deficiência física, ora usuárias de cadeira de rodas ora usuárias de muletas.

Contabilizei a presença de aproximadamente 15 mulheres com deficiência na reunião.” (Diário de Campo, 13/12/2011).

[

O assunto girava em torno de colher

]

]

Considero importante destacar aqui a pauta da acessibilidade na III Conferência Nacional de Políticas para Mulheres (III-CNPM), não somente pela minha própria condição de mulher surda, mas também de pesquisadora, até porque como pesquisadora é necessário eu ter as condições mínimas de acessibilidade comunicacional para observar as conferências, em igualdade de condições com as/os demais colegas. Esse aspecto foi uma das principais diferenças que notei entre meu desempenho em observar, como pesquisadora, a III-CNPM e em atuar como delegada/militante na II Conferência

11 Vale mencionar que atualmente sou uma das conselheiras titulares do Conselho Nacional de Combate à Discriminação e Promoção dos Direitos LGBT (CNCD-LGBT), representando a Articulação Brasileira de Lésbicas (ABL) até março de 2013.

12 Devido ao ínfimo número de delegadas com deficiência presentes naquele momento, a manifestação acabou não se concretizando.

Nacional de Políticas Públicas e Direitos Humanos de LGBT (II-CNPLGBT) 13 , posto que no segundo caso havia à minha disposição todo um apoio humano e logístico para acompanhar todas as mesas e debates da II-CNPLGBT, inclusive a disponibilidade de legenda em tempo real 14 . Muito provavelmente também o fato de eu ser conselheira do Conselho Nacional LGBT explica em parte essa diferença de tratamento em relação aos recursos de acessibilidade disponíveis nas duas conferências nacionais 15 .

A outra questão que gostaria de destacar se refere à receptividade da plenária para aprovar a incorporação da palavra capacitismo, um neologismo para se referir ao preconceito contra as pessoas com deficiência (PEREIRA, 2008), nas resoluções de ambas as conferências nacionais. Na III-CNPM, em uma espécie de “observação participante ativa”, observei e acompanhei o tempo todo lá na frente do auditório uma colega de ativismo, aguardando seu momento de se manifestar em relação à proposta nº 71 do bloco 3, referente à autonomia cultural das mulheres, que transcrevo na íntegra:

“Promover a formação inicial e continuada de gestores/as, servidores/as públicos e profissionais da educação dos diversos níveis de ensino para uma educação inclusiva, não-sexista, não-racista, não-lesbofóbica e não-transfóbica (LDB 9.394/96 e Eixo 9 do II PNPM), garantindo recursos do Plano Pluri Anual 2012-2015”. Dada a palavra, ela fez o pedido para que se incluísse depois da palavra não-racista a expressão não- capacitista, que vem de capacitismo. Algumas lésbicas foram lá na frente, em apoio à sua intervenção. Estava tudo um alvoroço, eu não estava conseguindo identificar os resultados de cada proposta, qual era a proposta da vez no momento, o que exatamente estavam votando nessa ou naquela hora. Muitas situações se passavam ao mesmo tempo, talvez contribuindo para o “deixar passar” de pautas. No fim, ficou claro para mim que a pauta do capacitismo não vingou. Aliás, após a intervenção da colega, uma representante da área da deficiência do governo federal manifestou discordância com

13 Vale lembrar que a abertura da II-CNPLGBT ocorreu no dia do encerramento da III-CNPM, portanto ambas aconteceram praticamente em uma mesma semana de dezembro de 2011, em Brasília/DF.

14 Acompanhei todos os debates e votações da plenária no auditório principal por meio da transcrição eletrônica da fala em tempo real, projetada em uma televisão de cerca de 40 polegadas. Para essa finalidade, é usada a estenotipia, uma técnica de digitação bastante superior à datilografia e taquigrafia. O profissional estenotipista transcreve audiências, debates, palestras, etc., para o formato de texto escrito/digitalizado com a mesma velocidade em que é falado, e simultaneamente. Para esse procedimento é usado o estenótipo, um teclado especial com 24 teclas, podendo todas essas teclas serem batidas ao mesmo tempo, oferecendo uma infinidade de combinações, ao contrário de um computador ou de uma máquina de escrever nos quais se tecla letra por letra.

15 O pedido por acessibilidade comunicacional na II-CNPLGBT tinha sido reforçado também por mim durante minha participação em uma das reuniões do CNCD-LGBT no ano de 2011.

esse termo, justificando que a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência já comportava a questão da discriminação contra as pessoas com deficiência e por isso não precisávamos propor nem alterar nada para o documento da III-CNPM. Como fui chamada ao debate em privado, expliquei que apoiava a proposta da colega, afirmando que se trata apenas de uma tentativa de visibilizar com esse termo a existência da opressão contra as pessoas com deficiência. Ainda, disse-lhe que compreendia por que toda palavra nova e “fora de moda” primeiro costuma trazer resistências, inclusive às pessoas de um mesmo movimento ou segmento. Notei uma “cara feia” e fiquei na minha por compreender que se tratava de uma jurista sem uma “consciência feminista” para entender o impacto do termo, que é o de denunciar a existência de uma forma de opressão contra as pessoas com deficiência, opressão essa regida pela corponormatividade da sociedade brasileira em geral. Este fato denota que minha condição de pesquisadora esteve acoplada, ainda que implicitamente, a uma intenção militante, com o intuito de visibilizar, por meio da pesquisa etnográfica, um grupo silenciado (CARVALHO, 2002) que, “coincidentemente”, a própria pesquisadora faz parte. Ou, nos termos de Goldenberg (2004 apud BÖSCHEMEIER, 2011, p. 04), “uma intenção de revelar exemplaridades militantes” no campo antropológico. De outro lado, na II-CNPLGBT, já sem o peso do compromisso ético de meu papel de pesquisadora, atuando “livremente” na condição de delegada, consegui que aprovassem a inclusão da palavra capacitismo nas diretrizes de pelo menos quatro Eixos (Eixo do Enfrentamento ao Racismo, Sexismo e Homo/Lesbo/Transfobia, Eixo da Saúde, Eixo do Orçamento e Eixo do Esporte), tendo ainda a oportunidade de defender a proposta na plenária final com minha última palavra, haja vista que pediram uma “questão de esclarecimento”, no sentido de entenderem o significado da palavra capacitismo.

Uma característica de minha militância é a habilidade para utilizar dois estilos de liderança, que eu aqui chamaria de poder de perícia (uso do conhecimento) e poder referente (ser referência para o outro, independentemente da vontade). Acredito que é justamente o uso conjunto desses dois tipos de poder, posicionados por todos os meus diferentes sujeitos políticos (ser mulher, surda e lésbica), o que explica as situações de “saia justa” vivenciadas durante o trabalho de campo, provocando deslocamentos etnográficos. Por outro lado, o reconhecimento de minha própria condição de militante potencializa minha capacidade de perceber os reflexos desses deslocamentos. As delegadas das conferências de políticas para mulheres, ao me reconhecerem mais

propriamente como ativista a ponto de me interpelarem para as fotos, de uma forma ou outra, estão querendo negociar ou reafirmar uma identidade coletiva comigo e por isso se solidarizam com as diferentes posições de sujeito que eu corporifico. Há, portanto, um capital simbólico envolvido nesse reconhecimento social. Alonso (2009), por exemplo, afirma que dentro do contexto dos movimentos sociais, a identidade coletiva é negociada, “ela é um processo, sujeita continuamente à redefinição, conforme as negociações entre os agentes. Ela envolve uma operação racional, mas a decisão do engajamento não se limita a um cálculo custo/benefício, é também produto de um “reconhecimento emocional” [grifo meu]” (ibidem, p. 66).

3.

Considerações Finais

 

Ao

se

referir

à

suposta

dicotomia

entre

escolhermos

ser

militantes

ou

antropólogos/as, Vale de Almeida (2004) afirma que:

A militância é uma forma de engajamento entre outras. A objetividade é um requisito da prática científica, enquanto que a militância é uma escolha. E o engajamento é uma inevitabilidade que tanto pode ser mantida congelada ou ser ativada de forma consciente com base na cidadania do antropólogo (as suas escolhas éticas ou políticas), não na base de um moralismo difuso imposto à ciência ou à profissão. Mas, uma vez activado, requer

se a militância em torno de um certo assunto

ou causa for a sua escolha, eles terão que estar preparados para estabelecerem a ficção necessária de separarem as suas identidades sociais consoante onde, quando e com quem se engajam e qual o papel que o conhecimento antropológico jogará nesse engajamento. Eles terão que fazer de conta que as suas identidades são separadas, quando de facto são agentes híbridos. (VALE DE ALMEIDA, 2004, p. 55-56)

responsabilidade acrescida [

]:

Para esse autor, academia e militância não se excluem mutuamente. A/o antropólogo/a é um agente social híbrido. Transpondo essa reflexão para minha experiência pessoal, percebo que em meu caso a militância não foi primariamente uma escolha, mas uma necessidade imposta pela minha própria condição de alteridade – ser surda. A existência de barreiras arquitetônicas, comunicacionais, informacionais e programáticas em vários espaços da vida cotidiana constituem formas de opressão contra as pessoas com deficiência que, sem as devidas adaptações, ficam total ou parcialmente impedidas de usufruir e participar dos mais variados tipos de eventos. Também pude perceber que a minha militância não só propicia o acesso fácil às

informações como também reforça a vida acadêmica, antecipando em muito os termos

conceituais e pressupostos teórico-metodológicos. Um problema ético que

costumeiramente venho confrontando é o fato de, em função de meu referencial

militante e condição de mulher com deficiência, ser sondada por pesquisadores/as e

jornalistas, através de e-mails e mensagens em redes sociais, para dar-lhes entrevistas ou

mesmo ser sujeito de suas pesquisas. Minha postura tem sido de recusa justamente por

se tratar, direta ou indiretamente, de um tema que atualmente pesquiso no mestrado,

sobre violências contra as mulheres com deficiência.

Uma forma de obter o necessário distanciamento para a construção do objeto de

pesquisa é pensar em categorias para o estranhamento. Por exemplo, na relação entre

pesquisadora e pesquisadas/os é o conceito de “fronteira simbólica” (VELHO, 1998)

que tem me permitido confrontar intelectual e emocionalmente diferentes significados

em torno da experiência da deficiência e sua articulação com outras categorias de

análise, comparando-os com as minhas próprias experiências subjetivas. Em outras

palavras, graças à “emergência da [minha] subjetividade” (GROSSI, 1992, p. 14). Nesse

sentido, há multissubjetividade na pesquisa e mesmo nos discursos referentes a um

mesmo grupo social, influenciando na produção dos meus discursos etnográficos.

4. Referências Bibliográficas

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militâncias e pesquisas “cruzadas” nos campos de gênero e raça. In.: 35º Encontro

Anual da ANPOCS, Anais

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